Monthly Archives: agosto 2010

A arte de caminhar

Desde a antiguidade movimentar o corpo ajuda as pessoas a pensar, tomar decisões e expressar indignação; na literatura artistas e apaixonados são andarilhos

Mente e Cérebro

Idoso caminhando no campo de centeio, óleo sobre tela, laurits andersen ring, s/d, coleção particular

A consciência da necessidade de praticar exercícios físicos é recente. “No começo, era o pé”, diz o antropólogo Marvin Harris. O pé, não a mão. A mão nos fez humanos – mas antes de sermos humanos somos parte do reino animal, e o nosso corpo precisa atender às necessidades que os animais enfrentam, entre elas a do deslocamento. O ser humano evoluiu, tornou-se bípede, mas continuou caminhando. E passou a usar a caminhada para outros fins que não o de chegar a um lugar específico: o de buscar determinada coisa. Praticar exercícios físicos é algo relativamente recente, mesmo porque, no passado, o sedentarismo era a exceção antes que a regra; caçadores, agricultores, trabalhadores em geral jamais pensariam nisso. Mas muito cedo o ato de caminhar adquiriu um significado psicológico, simbólico. O protesto político muitas vezes se fez, e ainda se faz, sob a forma de marchas, de caminhadas; foi o caso da Marcha dos 100 Mil (1968), um dos primeiros protestos organizados contra a ditadura no Brasil. Os filósofos gregos muitas vezes ensinavam a seus discípulos caminhando. “Levanta-te, toma teu leito e anda”, diz o Evangelho (João, 5:8), ou seja, vá em busca de seu destino, de seus objetivos. E Santo Agostinho cunhou uma expressão famosa: Solvitur ambulando, caminhar resolve (os problemas, as dúvidas). Por quê?

No livro Wanderlust: a history of walking (A ânsia de vagar: uma história da caminhada), de 2000, Rebecca Solnit diz que andar permite “conhecer o mundo através do corpo”, ou, nas palavras do poeta modernista Wallace Stevens (1879-1955): “Eu sou o mundo no qual caminho”. Trata-se, pois, de uma experiência cognitiva, muito necessária nesses tempos em que as pessoas se deslocam sobretudo utilizando carros, trens, aviões. Mas caminhar também envolve um processo de autoconhecimento, quando não de inspiração. “Os grandes pensamentos resultam da caminhada”, diz o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), uma ideia que Raymond Inmon expressa de forma mais poética: “Os anjos sussurram para aqueles que caminham”. O escritor francês Anatole France (1844-1924) faz uma comparação interessante: “ É bom colecionar coisas, diz ele, mas é melhor caminhar. Porque caminhar também é uma forma de colecionar coisas: as coisas que a gente vê, as coisas que a gente pensa”. Esse processo é facilitado pela renovação da paisagem, seja ela rural ou urbana, e pelo próprio automatismo do ato de caminhar.

Não é de admirar, portanto, que muitos escritores tenham abordado o tema da caminhada. Foi o caso do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), figura marcante do Iluminismo francês e precursor do romantismo – os românticos, sobretudo os alemães, eram grandes andarilhos. Em suas Confissões, disse Rousseau: “Só consigo meditar quando caminho. Minha mente só trabalha junto com minhas pernas”. À obra (publicada postumamente) que resume muito de sua biografia e de sua filosofia, Rousseau deu o título de Os devaneios do caminhante solitário (Lês rêveries du promeneur solitaire). Os dez capítulos são denominados promenades (caminhadas). Finalmente, temos um termo analisado tanto pelo poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) como pelo escritor alemão Walter Benjamin (1892-1940). Trata-se de flâneur, que vem do verbo flâner, vagar (em português temos o galicismo flanar). O flâneur, do qual Benjamin era um exemplo, vagava por Paris, observando o que se passava a seu redor, num claro desafio à moral burguesa então vigente, que via isso como vagabundagem. Uma vagabundagem da qual resultaram, contudo, textos admiráveis. Caminhar, como diz o escritor americano contemporâneo Gary Snyder, é a grande aventura.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

Plástico vegetal

Membranas de caroço de manga servem para tratamento de água

Dinorah Ereno

Um plástico biodegradável feito a partir do caroço da manga mostrou em testes de laboratório ter potencial para ser empregado em finas membranas utilizadas em processos para purificação de água, tratamento de efluentes, sessões de hemodiálise e na liberação controlada de fármacos. A pesquisa que deu origem ao novo material foi conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, e da Universidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. O caroço é a camada dura externa da semente da manga, composta principalmente de fibras, que recobre o embrião. Celulose, hemicelulose e lignina, componentes que formam as paredes celulares das plantas, são encontradas em grande quantidade nessa porção da fruta. “No processo que desenvolvemos, extraímos a celulose do caroço da manga e, a partir dela, produzimos o acetato para fabricação dos plásticos usados nas membranas”, diz o professor Guimes Rodrigues Filho, coordenador do projeto desenvolvido no Laboratório de Reciclagem de Polímeros do Instituto de Química da UFU.

A ideia de aproveitar essa parte desprezada da fruta surgiu quando os pesquisadores constataram que pelo menos 2 mil toneladas de caroços de manga são descartadas a cada safra pela indústria de sucos só na região do Triângulo Mineiro. Como no Brasil a produção de manga atinge cerca de 1,3 milhão de toneladas por ano – utilizadas principalmente como suco –, a quantidade desse resíduo que sobra fica, na média, em torno de 480 mil toneladas por ano. “As sementes correspondem a algo entre 30% e 45% do peso da manga, dependendo da variedade”, diz Rodrigues Filho. Essa montanha de resíduos normalmente tem como destino final a queima ou o descarte no lixo. Além do caroço da manga, os pesquisadores já produziram acetato de celulose a partir de jornais, bagaço da cana-de-açúcar e agora estão trabalhando com a palha de milho. As membranas usadas atualmente nos processos de filtragem são fabricadas, de modo geral, a partir da celulose obtida da polpa de madeira.

Peneira molecular – Em um artigo publicado em maio na revista científicaCarbohydrate Polymers os pesquisadores compararam o desempenho de membranas de acetato de celulose feitas com jornais e com caroços de manga da variedade Tommy Atkins – de coloração avermelhada, polpa doce e bastante resistente – em processos de tratamento e purificação de água chamados de osmose reversa. Nesses processos, a água é separada de seus contaminantes – como sólidos dissolvidos, sólidos suspensos, bactérias e matéria orgânica – por meio de uma membrana semipermeável. Essa membrana se comporta como uma peneira molecular, rejeitando seletivamente quase todas as moléculas dissolvidas e permitindo somente a passagem da água pura.

Como são muitas as aplicações para esse material filtrante, antes de produzir as películas é preciso saber em que tipo de aplicação elas serão usadas. “A porosidade depende do fluxo maior ou menor de líquidos que irão receber”, diz o coordenador do projeto. O controle dos poros é feito com a adição de alguns sais na mistura, como o perclorato de magnésio. Essa substância funciona como um agente indutor na formação de poros na pele da membrana, auxiliando nos processos de filtração. Na avaliação estrutural realizada com o microscópio eletrônico de varredura tanto a membrana feita a partir do caroço da manga como a de jornal apresentaram basicamente o mesmo padrão. No entanto, a subestrutura porosa é mais densa nas películas de acetato de celulose obtidas do caroço da fruta, em função da maior massa molecular do material, resultando em melhor desempenho. “Mesmo quando submetida à pressão em processos de separação, a membrana não se rompeu”, diz Guimes.

Os pesquisadores testaram, além de diversos materiais, vários processos para produzir as membranas de acetato de celulose. Um dos métodos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa está em processo de patenteamento no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A empresa Órbita, do Centro de Incubação de Atividades Empreendedoras da universidade mineira, será a responsável por parcerias com outras empresas e pela transferência de tecnologia.

Embalagens biodegradáveis – A companhia foi criada pelos pesquisadores para poder participar no desenvolvimento de um projeto aprovado em 2008 por meio de um convênio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que teve como base também a utilização do caroço de manga misturado ao bagaço de cana para produção de tubetes biodegradáveis – embalagens onde são colocadas as mudas de plantas cultivadas em viveiros.

Os pesquisadores trabalham agora na formulação final para moldagem dos tubetes. Além disso, fazem estudos de biodegradação do material na Universidade de Caxias do Sul. Os recipientes encontrados no mercado, feitos de produtos derivados do petróleo como PVC e polipropileno, levam cerca de 150 anos para se decompor na natureza. Foi a partir dos resultados obtidos nesse projeto que os pesquisadores decidiram usar os mesmos resíduos vegetais para a produção de membranas, uma linha de pesquisa que já era conduzida no laboratório da universidade mineira desde 1996. Mas em vez de usar uma base composta da mistura da celulose obtida do caroço de manga e da cana, eles trabalharam com cada resíduo separadamente e agregaram outros materiais, como jornais.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

‘Projeto de reforma agrária mais avançada apresentada até hoje continua sendo a do governo João Goulart’

Mário Augusto Jakobskind

Uma reforma republicana e democrática necessária para o Brasil

Nesta entrevista exclusiva concedida ao Página 64, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais (MST), João Pedro Stédile, faz um histórico da luta dos brasileiros em favor da reforma agrária, uma reforma democrática e republicana, anda não executada em todo a sua plenitude no Brasil e que até serviu de pretexto para a derrubada do Presidente constitucional João Goulart, em 1 de abril de 1964. Stédile, além de admitir que o projeto de reforma agrária idealizado por Celso Furtado no governo Goulart foi o mais adiantado apresentado até hoje e se tivesse sido colocado em prática transformaria o Brasil tornando um país fortalecido com o desenvolvimento do mercado interno. O coordenador do MST analisa ainda o atual momento brasileiro e explica o papel que vem sendo desempenhado pelos meios de comunicação, alguns deles fortemente vinculados ao agronegócio, na questão fundiária. Stédile demonstra otimismo em relação ao Brasil pós-Lula, por entender que o país ingressará em um novo ciclo histórico de maior consciência das massas e de maior participação, o que ajudará na mobilização da sociedade no sentido de resolver os problemas históricos do povo. (Mário Augusto Jakobskind)

Página 64 – Como anda o processo de reforma agrária no país?

João Pedro Stédile; A expressão reforma agrária gera sempre diferentes interpretações. E cada uma quem interpreta com seu grau de informação. Muita gente no povão influenciado pela televisão confunde sempre reforma agrária com conflitos de terra. Reforma agrária é um programa de política pública que determinado governo, em nome da sociedade, atua para democratizar o acesso à terra a todos os cidadãos daquela sociedade. E assim, a terra que é um bem da natureza, é democratizada, e sua propriedade distribuída da melhor maneira possível entre os membros da sociedade. Portanto, reforma agrária é sinônimo de democratização, de desconcentração, de distribuição da propriedade da terra.

Infelizmente no Brasil nunca houve um processo verdadeiro de reforma agrária. Tanto é que os últimos dados do censo revelaram que hoje (dados de 2006) a concentração da propriedade da terra no Brasil é maior do que em 1920, quando recém saíamos da escravidão.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6731

Papel Prensa, o fordismo nos crimes de lesa humanidade

A presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, decidiu mexer em um assunto explosivo. Foram cometidos "crimes de lesa humanidade" em série, segundo consta na denúncia da promotoria argentina. Uma família foi violentada, torturada e dela foi esbulhado um bem material – Papel Prensa – que hoje está servindo de instrumento de luta política pela mídia crioula e oligárquica para que a Argentina retorne a um tempo em que as cidadãs e os cidadãos eram torturados, mortos e desaparecidos. É como se a Folha e O Globo estivessem envolvidos em crimes de lesa humanidade para lograr êxito no controle do papel de imprensa com o qual editam seus diários. O artigo é de Cristóvão Feil.

Cristóvão Feil

A presidente Cristina Fernández de Kirchner é uma mulher corajosa. Ela está mexendo com o thriller mais palpitante da Argentina. Suspense total. Ou como chamaríamos a uma história que está sendo contada desde janeiro de 1976, por ocasião de um jantar servido pelos generais Jorge Rafael Videla e Roberto Eduardo Viola ao bilionário casal David Graiver e Lidia Papaleo de Graiver, então donos da empresa Papel Prensa, e prossegue até nossos dias, com a ameaça de quebra da espinha dorsal dos dois principais diários da Argentina? É como se a Folha e O Globo estivessem envolvidos em crimes de lesa humanidade para lograr êxito no controle do papel de imprensa com o qual editam seus diários.

Repito: thriller, suspense.

Ingredientes: mortes violentas jamais explicadas, milhões de dólares (a preços da década de 70), CIA, sabotagem, queda de avião, muitos bancos envolvidos, a O.P.M. Montoneros, um banqueiro que financia a esquerda, grupo Abril/Civita, organizações Bunge y Born, sequestro dos irmãos Born, compra de bancos em Nova York, sequestro em massa da família Graiver, tortura, extorsão, dois presidentes argentinos, não por acaso, gorilas, assassinatos, Martínez de Hoz (que seria o cérebro do caso Papel Prensa, e ainda vive), jornais Clarín e La Nación como monopolizadores de todo o papel destinado à imprensa argentina, etc.

A psicóloga de olhos verdes, Lidia Papaleo, está com 66 anos, hoje. É viúva do conhecido "banqueiro dos Montoneros", David Graiver, morto misteriosamente aos 35 anos de idade no acidente fatal de um avião Jet Falcon de sua propriedade, quando viajava de Nova York, onde trabalhava durante os dias úteis, para Acapulco no México, onde morava e convivia com a sua família nos finais de semana. Quando morre no suspeito acidente, até hoje inexplicado, David Graiver era dono de um império avaliado em 200 milhões de dólares, hoje, certamente mais que um bilhão, corrigidos. Entre suas posses se podiam somar vários imóveis rurais e urbanos herdados de sua família judia, e mais: dois bancos na Argentina, dois bancos em Nova York, um banco na Bélgica e um banco em Israel. Sem esquecer a própria empresa de papel e celulose Papel Prensa, praticamente um monopólio na fabricação e distribuição de matéria-prima para todos os jornais argentinos.

Dudi Graiver, como era conhecido, eram também rico em amigos. Em parte, pelo casamento com Lidia Papaleo, uma mulher forte e influente junto ao marido, e que havia sido companheira de um jornalista de esquerda chamado Jarito Walker, editor da revista política El Descamisado. A relação de Graiver com Jarito Walker lhe valeu uma aproximação com a Organização Político-Militar Montoneros, um dos braços armados do peronismo, através do adjunto do comandante Mario Firmenich, Roberto Quieto.

A propriedade parcial da Papel Prensa foi conseguida em 1973, graças à intervenção de Josef Ber Gelbard, ministro de Economia tanto dos presidentes "peronistas" Raúl Lastiri e Héctor Cámpora, quanto do próprio Perón e Isabelita, quando o líder de massas já havia morrido. O montonero (ex-PC) Gelbard foi um aliado determinante de Graiver na pressão sobre os ítalos-argentinos Civita (grupo Abril) para que estes vendessem cerca de 26% das ações da Papel Prensa. Outros 25% das ações eram do Estado e os 49% restantes estavam pulverizadas em cerca de 30 mil acionistas anônimos.

No conturbado governo de Isabelita Perón (na foto ao lado com Videla e Almirante Massera), grupos de extrema direita começam a se organizar à sombra generosa do peronismo. Eram conhecidos e temidos como a Triple A, a rigor, forças parapoliciais comandadas de dentro do governo de Isabelita pelo "bruxo" José Lopez Rega. Todos eram peronistas e mesmo assim se matavam mutuamente em plena luz do dia, ora eram os sindicalistas, os autores, ora os Monto, as vítimas, ora a milícia fascista e palaciana de Lopez Rega, com a discreta aprovação da presidenta Maria Estela Martínez de Perón. E vice-versa. Os militares assistiam de camarote blindado, prontos para intervir como porta-vozes dos interesses das oligarquias latifundiárias e de suas próprias armas corporativas.

Numa tarde quente de janeiro de 1976, o casal Graiver estava veraneando em seu bangalô em Punta del Este, litoral uruguaio. O telefone toca e no outro lado da linha estava o comandante do Exército argentino, Jorge Rafael Videla, subordinado à temerária presidente Isabelita. O general-comandante estava convidando Dudi e Lidia para jantar naquela noite de verão. Eles aceitaram e seguiram para Buenos Aires de avião alugado. No jantar, estavam os três, o casal e Videla, e juntou-se a eles o subcomandante, general Roberto Eduardo Viola Redondo. O jantar foi indigesto, os dois gorilas estavam comunicando ao influente casal que o golpe estava marcado para março daquele ano, portanto, a menos de dois meses.

E assim aconteceu o "pronunciamento militar" de 24 de março de 1976, como os jornais oligárquicos chamavam os golpes militares na América Latina, em décadas passadas.

Desde o início do governo de Isabelita e com as ameaças e assassinatos da Triple A, os Graiver já haviam se mudado para o eixo Acapulco-Nova York. Mas Dudi Graiver jamais deixou abandonado os interesses negociais e sobretudo as propriedades na Argentina. O resgate pelo sequestro dos irmãos Born (do grupo Bunge y Born), operado pelos guerrilheiros Montoneros em setembro de 1974, estava investido nos bancos de David Graiver. Foram 60 milhões de dólares que circularam pelos bancos Graiver de Buenos Aires, Nova York, Bruxelas e Tel-Aviv. Em março de 1976, mês e ano do golpe gorila de Jorge Rafael Videla contra Isabelita, os bancos de Graiver remuneraram a organização guerrilheira peronista com 193 mil dólares, só de juros, segundo o jornalista investigativo argentino, que vive na Suíça, Juan Gasparini. Hoje, essa quantia não ficaria por menos de meio milhão de dólares ao mês.

Nunca um golpe militar é puramente obra de militares, limitados e parvos que são para as coisas da política, da economia e da gestão pública como um todo. Videla, assim, leva Martínez de Hoz, membro de secular oligarquia argentina, para exercer o cargo de ministro da Economia. Atualmente se sabe que Martínez de Hoz foi um dos ideólogos do golpe e do regime autodenominado de Processo de Reorganização Nacional, ou simplesmente Processo, que durou até 1983, abortado pela derrota argentina na Guerra das Malvinas.

Martínez de Hoz está sendo atualmente processado por seus inúmeros crimes, em especial os que extorquiam grandes empresários mediante tortura para que endossassem a "venda" de suas empresas e bens para militares influentes na ditadura que controlavam com grande violência e crueldade. Foram dezenas de comerciantes, proprietários rurais, industriais e banqueiros que tiveram seus bens roubados debaixo de tortura nos inúmeros aparelhos repressivos clandestinos das três armas militares. O cérebro deste processo fordista de saque consentido e operado pelo aparelho estatal foi o ministro da Economia, José Alfredo Martinez de Hoz, apelido Joe, que está agora com 85 anos.

Pois é o método pragmático e objetivo de Martínez de Hoz (ao lado, sorrindo com o general Videla) que foi empregado à família Graiver para subtrair-lhe o controle da empresa de celulose Papel Prensa. A ditadura civil-militar precisava vencer e impor uma versão ideologizada dos atos abomináveis que cometiam. Para tanto, nada mais justo e adequado do que creditar à mídia impressa o papel que lhe cabe na escrita de um novo consenso, ainda que parido pela vaca fardada da coerção. Os diários Clarín, La Nación, La Razón (hoje extinto) já haviam sido parceiros no golpe de 24 de março, assim como os dois jornais de Jacob Timmermann, La Opinión e La Tarde, este dirigido pelo seu filho Héctor, ex-embaixador argentino nos EUA e atual ministro de Relações Exteriores do governo Cristina Kirchner. Héctor Timmermann, registre-se, está, no presente momento, assumindo uma posição correta, reclamando justiça e pela completa solução do misterioso caso.

No segundo semestre de 1976, nos meses posteriores ao golpe, Lidia Papaleo de Graiver e seus familiares sofrem pressão quase insuportável até que concordam em repassar o controle da Prensa Papel para as empresas que representavam o Clarín, La Nación e la Razón. Os ativos são calculados em 8,3 milhões de dólares, bem abaixo do preço efetivo de mercado, especialmente se fosse considerado o caráter monopolista e estratégico da empresa papeleira. Lidia cedeu não só pela pressão sofrida, mas também pela insolvência que rondava as demais empresas e negócios da família. A morte prematura e misteriosa de David em agosto de 1976 desencadeou uma iliquidez em série nos negócios dos Graiver, era ele que conduzia pessoalmente todos os investimentos cruzados e interdependentes dos ativos financeiros que possuiam. Lidia e familiares estavam acuados, economicamente abalados, politicamente pressionados, e biologicamente em risco.

O jornalista Juan Gasparini assegura que tem a mão pesada da CIA no acidente que levou a vida de Graiver. Para ele, os militares argentinos e Washington não iriam tolerar que o financiador ou gerente financeiro de um grupo político considerado terrorista, como os Montoneros, fosse dono de dois bancos no coração de Nova York e ainda por cima manejar dinheiro mal havido sem que as autoridades pudessem sequer intervir. Logo, a ação de sabotagem no avião foi uma saída honrosa tanto para a Casa Branca quanto para a Casa Rosada.

Depois disso a situação estava em plano inclinado, deslizando rápido para o completo desastre. Culminou que em março de 1977, a repressão argentina desencadeou a Operação Amigo, que consistiu no sequestro de 24 pessoas ligadas às empresas Graiver. A violência se abateu sobre Lidia Papaleo e mais 23 familiares, empregados, e executivos do grupo Graiver, sendo que dois indivíduos ligados ao falecido Dudi Graiver, de nome Rubinstein e Sajón, já estavam mortos e desaparecidos.

Nesta fase há um interregno de perguntas sem respostas, em parte, devido ao trauma sofrido pela viúva de Graiver, que não quis ou não pôde se manifestar. Osvaldo Papaleo, irmão de Lidia, sustentou por algum tempo que a Papel Prensa foi adquirida pelo Clarín e La Nación enquanto a família Graiver e os empregados estavam sequestrados e sendo torturados em algum covil policial ou militar.

O certo é que Lidia Papaleo de Graiver sofreu torturas na prisão. Um torturador perguntava sempre sobre o dinheiro dos Montoneros, chamando-a de "guacha de mierda". O sofrimento foi maior quando desenvolveu um tumor no cérebro, tendo sido operada no próprio cárcere, segundo conta o jornalista Juan Gasparini no seu livro sobre David Graiver. Lidia só foi solta em agosto de 1982, quando a ditadura já havia perdido a Guerra das Malvinas para a Inglaterra de Margaret Thatcher, e estava nos seus estertores, tanto que o ditador Leopoldo Galtieri já havia renunciado. Foi sucedido ainda por outro ditador, o último, Reynaldo Bignone, que depois passou a presidência para o presidente eleito Raúl Alfonsín, em dezembro de 1983.

Antes de ganhar a liberdade, Lidia passou por choques elétricos e pontas de cigarros acesos sobre a pele nos centros militares de tortura conhecidos como Poço Banfield e Posto Vasco, ambos na província de Buenos Aires, sob a custódia do Departamento Central de Polícia. Finalmente, foi submetida à farsa judicial de um Conselho de Guerra, onde foi humilhada e acusada de crimes contra o Estado. O jornalista Juan Gasparini garante ainda que o policial Miguel Etchecolatz, Diretor de Investigações da Polícia Bonaerense, violentou Lidia depois de uma prolongada sessão de tortura física e psicológica. De fato, é certo que muitos psicopatas desenvolvem grande excitação sexual depois de assistirem cenas de sofrimento alheio, especialmente vendo a dor feminina.

Lidia, já em liberdade, ainda sofreria um câncer mamário, mas isso não a impediu de se dedicar à sua profissão de psicóloga e casar novamente, desta vez com um estadunidense chamado Steve Tage.

Segundo depoimento de um irmão de Lidia à imprensa portenha, ela não mexeu mais no áspero tema de sua vida porque considerava que este é um assunto de Estado. Ela não acreditava que as suas agruras e sofrimentos pudessem ser resolvidos por denúncias vagas na imprensa, em livros, em instâncias partidárias, em ONG’s, ou na Justiça comum. Não, ela acredita – segundo seu irmão – que este é um problema para o Estado argentino resolver. Tudo leva a crer que uma mulher, Cristina Fernández de Kirchner, entendeu o recado de Lidia Papaleo de Graiver.

Trata-se, sim, de uma questão de Estado. Foram cometidos "crimes de lesa humanidade" em série, segundo consta na denúncia da promotoria argentina. Uma família foi violentada, torturada e dela foi esbulhado um bem material – Papel Prensa – que hoje está servindo de instrumento de luta política pela mídia crioula e oligárquica para que a Argentina retorne a um tempo em que as cidadãs e os cidadãos eram torturados, mortos e desaparecidos.

O assunto Papel Prensa é estratégico. É uma disputa pelo Estado. Não é de graça que o editorial do jornal Clarín assume um tom confessional quando disse há dois dias que "o Governo avança em Papel Prensa para controlar a palavra impressa". É como disse um articulista do jornal Página/12 ontem, essa admissão do Clarín em Direito se chamaria "confissão da parte" ou "relevo de provas", já em Psicologia pode-se chamar de "projeção". De qualquer forma, é sim um mecanismo de defesa que consiste em atribuir a terceiros ou ao mundo que o rodeia os erros ou desejos pessoais.

A rigor, um ciclo está se fechando na Argentina, e de resto, também em toda a América do Sul. A queda iminente e provável do grupo midiático Clarín (jornais, rádios, tevês) é uma parte da história que queremos ver pelo espelho retrovisor, e não é à toa que tem como protagonistas duas mulheres fortes, Lidia e Cristina.

(*) Este breve relato foi baseado na leitura do livro do jornalista argentino Juan Gasparini chamado "David Graiver – el banquero de los Montoneros" (1990), atualmente com a edição esgotada. Você pode ler esta obra na íntegra

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Estrangeiros usam ”laranjas” para registrar terras no país

Valor Econômico

O governo não tem a exata dimensão do volume de terras brasileiras em mãos de estrangeiros, mas está convencido que a elevação de 95% no registro de imóveis rurais em nome de pessoas jurídicas brasileiras entre 1998 e 2008 revela um caminho adotado por não brasileiros para comprar áreas no país.

Boa parte desses registros teria sido patrocinada por empresas estrangeiras, via criação de companhia nacionais abertas em nome de terceiros, para "legalizar" sua atuação no Brasil, aponta uma fonte graduada do governo.

O novo parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), publicado segunda-feira, obriga os estrangeiros a obter autorização prévia do governo para registrar terras em cartório e coloca limites severos à compra de glebas com até 5 mil hectares por não residentes – cada município poderá ter 25% de seu território nas mãos de estrangeiros.

Estatísticas cadastrais inéditas mantidas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) mostram que o número de imóveis sob domínio de empresas nacionais passou de 67 mil, em 1998, para 131 mil em 2008. O total da área registrada saltou de 80 milhões para 177,2 milhões de hectares nesses dez anos – um aumento de 121%.

Nos registros oficiais do governo, figuram apenas 34.371 imóveis rurais em nome de não residentes em 2010, e 4,307 milhões de glebas no país são propriedade de estrangeiros .

Desde 1971, quando a ditadura militar baixou uma lei para controlar a propriedade da terra no país, os registros oficiais têm minguado. Em 1972, ainda sem a regulamentação legal, existiam 43,4 mil imóveis em mãos estrangeiras. Em 1978, já sob o efeito da nova lei, os registros recuaram para 35 mil imóveis. Bem mais tarde, o recadastramento geral fundiário de 1992 detectou apenas 24 mil propriedades rurais nessa situação. A explicação é que a base das terras foi "zerada" para o recomeço da contagem.

Até 1998, sob efeito de um parecer anterior da AGU, os registros subiram a 27,2 mil. A expansão, considerada "residual" pelo governo, ocorreu pela necessidade de obter certidões oficiais para transações comerciais das terras. Assim, os registros foram subindo até atingir 33,2 mil em 2007. Pequenas áreas acabaram incorporadas a glebas maiores nesse período, já que a área total em mãos estrangeiras cresceu menos do que o número de imóveis. Em 2008, o registro do governo identificou 34,6 mil propriedades rurais sob titularidade de estrangeiros. Em 2010, o número de imóveis caiu a 34,4 mil.

O governo avalia que o "arrocho" na titularidade das terras nacionais provocará uma avalanche de pedidos de regularização da situação. O presidente do Incra, Rolf Hackbart, afirma que está preparado para atender à demanda. "Vistoriamos 6 milhões de hectares todo ano. Não serão muitos processos, mas estamos preparando a equipe e já reunimos nossos procuradores para colocar as novas regras em prática", diz.

O executivo afirma ter sido "correto" o novo parecer da AGU com limitações à aquisição de terras por estrangeiros. O Incra passará a ter um alto grau de controle sobre essas transações. "A medida é correta. Agora, temos regra e isso não inibirá investimentos, mas vai estancar a hemorragia dessas compras", afirma o presidente do Incra.

Hackbart argumenta que o parecer trará estabilidade jurídica, permitirá a regularização fundiária e ambiental, além de favorecer o combate à grilagem de terras, sobretudo na região Norte do país. O presidente do Incra afirma que um conjunto de medidas adotadas pelo governo ajudará na atuação da autarquia.

Além do novo parecer da AGU, Hackbart lista como essenciais ao processo os controles recomendados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e as decisões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a obrigação dos cartórios de informar essas transações ao Incra e o cancelamento de títulos de posse irregulares no Pará. "Os cartórios vão se preparar. O futuro chegou", afirma.

Fonte: MST – http://www.mst.org.br/mst/index.html

A geração perdida da América Latina: 45% dos jovens não têm trabalho, segundo um relatório da Organização Ibero-americana da Juventude

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Verónica Calderón

O rosto da América Latina é jovem: 19,5% de sua população têm entre 15 e 24 anos, índice somente superado pela África (20,3%), e é a única região do mundo cuja juventude experimenta um crescimento sustentado. Mas seu panorama não é alentador. Na Ibero-América (América Latina, Espanha e Portugal) há cerca de 150 milhões de jovens, dos quais 45% – aproximadamente 68 milhões – estão desempregados, segundo um estudo da Organização Ibero-americana da Juventude (OIJ). Cerca de 105 milhões estão na América Latina.

Jovens da América Latina sofrem com a falta de empregos e de políticas públicas, segundo relatório

Jovens da América Latina sofrem com a falta de empregos e de políticas públicas, segundo relatório

"Os jovens são invisíveis para a sociedade", afirma o chileno Eugenio Ravinet, presidente da OIJ. "Salvo raras exceções, não existem políticas sociais voltadas especificamente para eles." Uma prova de que não há políticas concretas é a falta de um critério claro para definir quem é jovem. Para a OIJ, são as pessoas entre 18 e 29 anos. Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a ONU, a faixa vai de 15 a 24 anos. Noventa por cento dos jovens do mundo vivem em países em desenvolvimento, indica um relatório da OIT. "O jovem está desprotegido pelas políticas sociais. O primeiro suspeito de um crime costuma ser o jovem. O chefe que vai contratar desconfia antes de um jovem. O índice de desemprego entre os jovens é o dobro ou em alguns casos o triplo da média nacional, e nenhum país empreendeu uma reforma trabalhista que enfrente o assunto", descreve Ravinet.

Um estudo elaborado em 2007 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e a OIJ detalha os índices de desemprego em cada país latino-americano, mas explica que as estatísticas variam de acordo com o ano em que foram coletadas (uma margem de até cinco anos) e que os números são enganosos. A região tem um dos índices mais altos de subemprego ou emprego informal entre os jovens. As economias latino-americanas, que não têm a proteção social dos países europeus, deixam seus jovens "sem a oportunidade de sair de sua situação", salienta Ravinet.

A OIT detalha que no México, Colômbia, Equador, Panamá e Peru 82,4% dos adolescentes (entre 15 e 19 anos) tinham um emprego informal, número significativamente mais alto que os 50,3% dos adultos (entre 30 e 64 anos) na mesma situação laboral. "Os jovens são o setor mais vulnerável aos trabalhos irregulares, com o salário mais baixo", comenta Ravinet. E a falta de oportunidades é diretamente proporcional à pobreza. O desemprego entre a população jovem pobre é 19% maior que nas classes média e alta.

As mulheres têm uma situação ainda mais difícil. O desemprego entre a população feminina é, em alguns casos, até 10% superior ao masculino. Além disso, a América Latina é a única região do mundo onde o índice de fecundidade entre as adolescentes continuou aumentando nos últimos 30 anos: 7,3% das gravidezes na região ocorrem em jovens entre 15 e 19 anos. Na Europa o índice é de 2,8% e em todo o mundo, 4,8%. "O machismo na região afeta particularmente as mulheres", comenta Ravinet.

Outro dado alarmante é a quantidade de jovens latino-americanos que não estudam nem trabalham: um em cada quatro, segundo o relatório da OIJ e da Cepal. "As consequências de uma juventude sem oportunidades são muito graves", afirma Ravinet. O estudo divulgado pela OIT concorda. "A incapacidade de encontrar emprego cria uma sensação de impotência e inação entre os jovens, que pode conduzir a um aumento da criminalidade, dos problemas de saúde mental, da violência, conflitos e consumo de drogas", diz o relatório.

O maior problema, afirma Ravinet, é o ceticismo diante da juventude. "Acredita-se que os jovens não se interessam pelo futuro, que são apáticos, não desejam se envolver nas decisões, e é mentira. O desejo de um jovem é muito simples: ter um emprego e que seu governo não o abandone. Há necessidade urgente de programas que fomentem a capacitação, o contato com as novas tecnologias. Para cuidar da juventude, não basta organizar uma partida de futebol ou um show de rock."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

‘Uma nova regulação do capitalismo não resolverá a crise do sistema mundial’. Entrevista com François Houtart

Os movimentos “altermundialistas”, dizFrançois Houtart, foram os que, com maior realismo, advertiram sobre o caráter dos desequilíbriosecológicos globais.

Fabián Bosoer

Os movimentos de resistência à globalização, “globalifóbicos” ou “altermundialistas”, apesar de sua heterogeneidade e seu caráter contestador, tiveram a virtude de advertir sobre a necessidade de respostas e mudanças mais radicais aos desequilíbrios gerados por um predomínio dos mercados financeiros internacionais. Apelidados de “utópicos”, acabaram sendo os mais realistas, mesmo que algumas vozes continuam sem ser devidamente atendidas.

Essa opinião é de François Houtart, sacerdote católico e intelectual marxista, fundador e diretor do Centro Tricontinental da Universidade Católica de Louvain, Bélgica. É um dos principais referenciais intelectuais do chamado “altermundialismo”. Houtart teve também a oportunidade de participar da formação de uma geração de sociólogos latino-americanos que estudaram em Louvain entre os anos 60 e 80, sentando as bases dos estudos de sociologia da religião no nosso continente.

Mais recentemente, integrou a comissão de notáveis presidida no ano passado por Joseph Stiglitz e encarregada pelo secretário-geral da ONU para elaborar recomendações sobre como enfrentar a crise econômica global. Ele esteve em Buenos Aires, convidado para falar na Conferência Internacional “Direitos Humanos e democratização: entre público e privado, entre local e global”, organizada pela Universidade Nacional de San Martín e várias ONGs internacionais.

Eis a entrevista.Passou-se mais de uma década desde o surgimento do chamado “movimento antiglobalização”. Como o senhor, um de seus inspiradores, lembra de seus momentos principais?

Podemos situar um momento das origens do que nós passamos a chamar de “altermundialismo” em 1999, quando, a partir da iniciativa de um grupo de movimentos sociais de diferentes continentes organizamos uma contra-conferência ao Fórum de Davos, na Suíça. Isso teve uma grande repercussão. Estavam ali oMovimento dos Sem Terra do Brasil, os sindicatos operários daCoreia do Sul, cooperativas agrícolas de Burkina Faso, movimentos de mulheres do Canadá e o movimento de desempregados daFrança, junto com um grupo de intelectuais e acadêmicos comoSusan George, Samir Amin e Ricardo Petrella. Podemos ir ali e brindar nossa palavra, enquanto estavam reunidos os representantes e líderes das economias mais ricas e as instituições financeiras mundiais. Fizemos um grande barulho, e, desde então, se começou a falar de “o outro Davos”.

Que resultados obtiveram? O que propuseram então foi antecipação às crises que viriam anos mais tarde?

Naquela coletiva de imprensa, dissemos que não podíamos continuar assim, que era preciso reorientar a economia mundial. E como os brasileiros estavam ali conosco, deles veio a ideia do Fórum Social Mundial, frente ao Fórum Econômico Mundial de Davos, que foi organizado dois anos depois. Desde então, já foram organizados nove Fóruns Sociais Mundiais e outros também continentais, nacionais, temáticos, e são centenas de milhares de pessoas que se mobilizaram durante esses anos. Dois fóruns foram organizados fora da América Latina, um em Mumbai, na Índia, e outro em Nairóbi, na África, mas a maioria aconteceu na América Latina, o que teve um impacto positivo, segundo acredito, também sobre a evolução política do continente. A conquista principal foi desenvolver uma consciência coletiva mundial nova e, por outro lado, ser um lugar onde se constituíram ou se reforçaram muitas redes de movimentos e de temáticas sobre a água, sobre aAmazônia, a vida campesina etc.

O senhor propôs verdadeiras alternativas ou ficou no meramente contestador?Fazer conhecer determinadas situações é fundamental. Não estamos falando de de sistemas ideológicos contrapostos ou confrontados, mas sim de uma experiência histórica que também está se esgotando, e precisamos de alternativas de futuro. Há uma lógica que está destruindo o planeta.

Um exemplo concreto?

Um exemplo é a agroenergia, que se propõe como uma solução à crise ambiental e energética, e não é. De fato, a combustão dos motores ou a produção de dióxido de carbono é menor quando se utilizar etanol ou agrodiesel, mas quando se toma todo o processo de produção, de transformação, de distribuição dessa energia, a conclusão é que, em geral, não é melhor, porque destroem-se as selvas, destrói-se a biodiversidade, contaminam-se os solos, a água. Por outro lado, é uma solução muito marginal para a energia. Por exemplo, na Europa, que decidiu utilizar 20% de energia de origem agrícola para o ano 2020, nos transportes, com toda a produção de agroenergia, neste momento, daqui até 2020, podemos esperar só responder ao aumento da demanda, não à demanda total. Nesse aspecto também não é uma solução. E, por outro lado, se se quer que a agroenergia tenha uma certa contribuição para enfrentar a crise energética, devem-se utilizar milhões de hectares de terras na Ásia, na África e na América Latina, porque não existem terras suficientes na Europa, e isso pode levar à expulsão de pelo menos 60 milhões de agricultores de suas terras. Isso já está acontecendo na África, na América Latina e em certas regiões da Ásia também.

No entanto, existe um fenômeno de profunda reconversão produtiva, revolução tecnológica e dos alimentos e vivemos um ciclo de crescimento que parece inclusive recobrar sua dinâmica depois da crise financeira de 2008. Como se compatibiliza isso com a crise do capitalismo que o senhor descreve?

Vamos à análise dessa última grande crise. Naquele momento, se reuniu no marco da Assembleia Geral da ONU uma comissão de notáveis presidida pelo prêmio Nobel Joseph Stiglitz. Eu tive a oportunidade de participar nela como representante pessoal do presidente da Assembleia Geral, que era Miguel D’Escoto, ex-chanceler nicaraguense. Ali ficaram fixadas grandes posições diante da crise e se concordou sobre a proposta de estabelecer novas regulações ao sistema econômico internacional, que havia saído do seu leito normal. Nessa orientação, coincidiam tanto os que queriam poucas regulações e transitórias, como o G-20, e uma posição mais neokeynesiana, a favor de regulações mais fortes e permanentes. Por exemplo: abolir os paraísos fiscais, o segredo bancário, instituir uma nova instituição de controle global da economia etc. Evidentemente, a maioria dessas propostas não foram aceitas pelas Nações Unidas.

O senhor acha que essas respostas, o ajuste ou a reforma do sistema, são suficientes?

Sim. Mas fora desse consenso mais amplo, surgem no entanto outras duas propostas. A primeira é a do próprio capitalismo liberado de ataduras, uma posição quase naturalista – se poderia dizer “darwinista” – que consiste em dizer que as grandes crises são saudáveis para o próprio sistema, porque permitem eliminar os elementos “fracos” ou “enfermos”, e assim retomar o processo de reacodomodação de maneira mais sadia, e a economia sairá assim fortalecida e pujante. Mas há uma terceira opção e é a de dizer: estamos em uma situação tal, não apenas de uma crise financeira ou econômica, mas sim de uma combinação de crises, alimentar, energética, climática e finalmente uma crise social profunda, entendendo que uma nova regulação do capitalismo não resolverá a crise do sistema mundial.

O que isso significa concretamente?

Significa retomar o que poderíamos chamar de “os fundamentos da vida coletiva” da humanidade na Terra, começando pela nossa relação com a natureza. Significa passar da exploração ilimitada dos recursos ao respeito como fonte de vida. Significa, evidentemente, uma nova filosofia e, de maneira muito concreta, que não é aceitável a propriedade privada irrestrita dos recursos naturais não renováveis e particularmente dos recursos energéticos e que não se pode aceitar que coisas tão essenciais para a vida como a água sejam regidas exclusivamente pela lógica do mercado. Isso questiona também as posturas do socialismo do século XX que estava dentro da mesma filosofia de um progresso sem fim e de uma natureza inesgotável. Se não fizermos isso, vamos continuar destruindo a natureza e autodestruindo as nossas sociedades humanas, levando-as a um ponto de saturação e de catástrofes sem retorno. Calculou-se que a cada ano o período de recuperação da natureza termina mais cedo. Embora seja um cálculo um pouco abstrato, vale a pena levá-lo em consideração: no ano passado, esse tempo de recuperação terminou no dia 23 de setembro. Isto é, no dia 23 de setembro de 2009, esgotamos, pela atividade humana, toda possibilidade de recuperação do planeta. E a cada ano essa data se adianta. Significa que esse tipo de modelo, subsumido pela economia e desprovido de valores éticos, deve ser repensado no curto, médio e longo prazo. Como dizemos: outro mundo é possível.

Fonte: Eco Debate – www.ecodebate.com.br

Aliança com o nada

Para professor da UFMG, neutralismo é palavra de ordem para candidatos e sinal de pobreza do debate eleitoral

Márcia Vieira

Muito pelo contrário. Na tentativa de ganhar a opinião pública os candidatos ensejam uma posição neutra, empurrando para baixo do tapete temas tabus como aborto, drogas e eutanásia

A menos de dois meses das eleições presidenciais, há uma fração interditada da agenda política. Os principais candidatos a presidente não se aprofundam em temas transversais que mexam com a sociedade. Aborto, drogas, união civil entre homossexuais, reforma agrária, eutanásia, entre outros, foram escanteados do debate. "A política é uma esfera de pensamentos da diferença, um lugar de estratégia e de conflito. A gente não vê isso hoje no Brasil. Ainda vivemos a fase da neutralidade geral", diz Marco Aurélio Prado, doutor em psicologia social pela PUC-SP, membro do Núcleo de Psicologia Política da UFMG e atual presidente da Associação Brasileira de Psicologia Política. "É um momento no mínimo curioso, se não perigoso."

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CNBB deflagra missão debate

Ideias engessadas

Dois fatores contribuiriam para tanto: a forte influência da religião na política e as alianças que sustentam os candidatos. Notório é que o primeiro passo foi dado justamente por um ramo da Igreja Católica. Nessa semana, a CNBB, Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, anunciou a convocação de um debate, com transmissão em rede nacional nas TVs católicas, para cobrar dos presidenciáveis posições claras sobre assuntos tabus, como aborto, reforma agrária e taxação de grandes fortunas. Prado acredita que o caldeirão vá esquentar. "A sociedade é pluralista, seria muito bom que a política expressasse isso."

Por que temas tabus são empurrados para baixo do tapete durante o debate eleitoral?

Há uma tentativa de formar opinião pública e, para isso, os candidatos ensejam uma posição neutra. O debate eleitoral no Brasil é pobre. Em outros países encontramos posições mais definidas. O comportamento chama a atenção porque esses são temas ligados a outro elemento contemporâneo do Brasil: a presença das religiões na esfera da política. Elas têm representantes na Câmara dos Deputados e no Senado a ponto de já fazer parte do nosso imaginário falar que existe bancada evangélica, bancada religiosa, bancada católica. Os candidatos evitam marcar posição para não perder o apoio da opinião pública. Mas não evitam visitar as igrejas ou fazer acordos com pastores e padres.

O que teria motivado a CNBB a sugerir um debate com os presidenciáveis que inclui assuntos polêmicos?

A Igreja Católica é muito capilar e muito contraditória internamente. Tem várias tendências, desde as católicas que defendem o direito de a mulher interromper a gravidez até o discurso do papa, sem dúvida conservador. Ela possui uma forma de lidar com essas temáticas que revela um pouco por que consegue tanto peso na opinião pública. Nos últimos anos, a gente avançou numa certa democratização. Mas ao mesmo tempo as religiões viraram instrumento forte de compreensão da própria política e a política virou instrumento forte da religião. Isso é uma contradição e um fenômeno importante. Acredito que temas sobre direitos vão aparecer no debate à medida que o eleitorado tiver mais cara e as pesquisas indicarem o rumo das coisas. O debate vai esquentar. O problema é como serão as respostas dos candidatos (risos).

A falta de debate em relação a esses temas empobrece o processo eleitoral?

Com certeza. Mas a eleição tem sido assim, com pouquíssimos instrumentos de conscientização política. Sendo o voto uma forma de expressão de direito de cidadão, é curioso que o processo eleitoral esteja tão despolitizado. Veja a forma de construção das alianças. A candidata do governo, por exemplo, é de um partido que fez coligações que vão fortalecer o PMDB em muitos Estados. Conforme essas alianças vão sendo feitas por interesses que não passam por um projeto político, a eleição tende a ser menos esclarecedora para a população. Aí é óbvio que os discursos não dizem nada. No debate da Band foi essa a postura dos candidatos. Apenas quem tem poucas chances, como o Plínio de Arruda Sampaio, pode falar de todos os temas. A sociedade é pluralista. Seria muito bom que a política expressasse isso.

O que constitui, de fato, um debate democrático?

O ideal do debate político é que antagonismos possam aparecer. A política é uma esfera de pensamentos da diferença. É um lugar de estratégia e de conflito. A gente não vê isso hoje no Brasil. Vozes dissonantes aparecem pouco. Repare no caso da união entre homossexuais. Quem está antagonizando são os religiosos no Congresso e uma parte da sociedade civil ligada aos movimentos sociais. E esse é um tema de muita relevância porque mostra como uma nação é capaz de olhar para transformações da sua própria sociedade. O governo tem feito de maneira discreta algumas ações pró-reconhecimento, como a autorização para declarar parceiro no Imposto de Renda, mas é meio envergonhado. Isso não se transforma em debate público, não são projetos que passaram por discussão no Congresso. A eleição vira esse neutralismo, esse grande acordo de relações partidárias. E a gente não sabe como essas rodadas de negociações aconteceram.

Que outros temas são escanteados?

O mais escamoteado é o das alianças. Se houvesse um espaço mais democrático, poderíamos discutir o que isso significa para o futuro. O mundo da política institucional não pode ter partidos fracos. É preciso ter partidos fortes com discursos políticos bem sustentados. Estamos vivendo um momento no mínimo curioso, se não perigoso.

De que maneira o senhor acredita que esses temas vão começar a ser discutidos pelos candidatos?

Não haverá muita discussão, principalmente pelos dois candidatos que estão na frente nas pesquisas. Basta pensar o que eles representam. De um lado, Dilma Rousseff espelha um acordo com partidos que não têm nenhuma posição favorável a esses temas, posição, aliás, que o PSDB também nunca teve.

A população percebe essa agenda tolhida? Por que o eleitor não reage?

Eu sou otimista. Há espaços que reagem. Neste ano todas as paradas LGBT têm como lema a questão do voto contra a homofobia. É uma reação, um recado. Quando todo mundo considerou que as paradas eram carnavais, elas mostraram articulação em torno de um tema: o projeto de lei, que não passa de jeito nenhum, sobre a criminalização de atos homofóbicos. No caso do aborto, é inadmissível que não se discuta em pleno século 21 o direito de as mulheres decidirem sobre o próprio corpo.

Em que momentos da nossa história política o debate lhe pareceu menos engessado?

Sobre essas questões específicas, nunca tivemos, em épocas de eleição, um debate acirrado. Mas, na pós-ditadura militar no Brasil as eleições foram mais politizadas. O debate Collor/Lula teve processo de conscientização política. As posições eram demarcadas, os partidos apresentaram projetos. Para o eleitor que conseguiu ler esses projetos não foi surpresa o que aconteceu no governo Collor. Naquele momento, o debate eleitoral instituiu um processo de reflexão sobre a política e sobre nossa vida como coletividade. É interessante pensar que estamos saindo de um governo do PT, um partido que tem história de politização de tantos temas, mas despolitizou a sociedade brasileira nos últimos anos.

O PT ajudou a despolitizar o debate?

Sim, mas é um fenômeno que não ocorre somente no Brasil. Em outros países, partidos de centro-esquerda ou esquerda, ao assumirem o governo, construíram certa despolitização das sociedades. Um elemento muito forte no País foi o tipo de relação que o governo estabeleceu com os movimentos sociais.

Foi uma relação de dominação?

Não. Foi uma relação de despolitização. Muitos movimentos sociais, que sempre tiveram lideranças importantes para a democratização, entraram para a máquina de governo. É verdade que o Estado precisa da experiência da sociedade civil para instituir políticas públicas, mas o problema é como isso mexe com a participação da sociedade. Há movimentos burocratizados pela lógica do Estado. Costumo brincar que, atualmente, se você formar um grupo para reivindicar algo, no dia seguinte vai ter um edital do governo propondo verbas e formas de funcionamento. A relação entre esses movimentos e o governo ficou engessada em editais. Ao mesmo tempo que há índices de melhora da situação brasileira, temos também uma sociedade menos participativa.

Outras culturas são mais abertas à discussão?

Sim. A Argentina viveu um debate importante sobre a união civil entre gays, que culminou com sua aprovação. A Espanha também. Portugal tomou decisões importantes no caso do aborto, das drogas e do reconhecimento da união entre homossexuais.

Quais seus prognósticos em relação ao Brasil?

Há a tendência de que essas temáticas avancem, mas vai depender de quem for eleito. A política é muita dinâmica. Isso é que é fascinante. Eu sou otimista, mas não é um otimismo redentor. Não imagino que a gente vá alcançar esse patamar fantástico rapidamente. Mas há práticas cotidianas que fazem toda a diferença.

O senhor já decidiu em quem votará?

Já. Não de modo confortável. É uma eleição difícil. Decidi, mas com medo de fazer parte do que vai ser o futuro dos partidos diante dessa situação de alianças tão pouco claras. Seremos cúmplices do que vier.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Sair da crise?

Adriano Benayon

No artigo publicado em junho de 2010, “O Brasil e o Colapso Mundial”, apontei que o Brasil deixou, desde a crise de 2007/2008, de ter saldos positivos nas transações correntes com o exterior e que, no 1º trimestre de 2010, o déficit dessa conta atingiu recorde: mais de US$ 12 bilhões.

Artigo: Sair da crise? por Adriano Benayon

2. Agora dispomos dos dados para todo o 1º semestre, período em que esse déficit atingiu US$ 23,8 bilhões. Só não aumentou mais, porque em maio entraram em cena as exportações ligadas à safra agrícola. Mas em junho o ritmo de crescimento do déficit acelerou-se novamente.

3. A balança comercial teve saldo positivo de 7,9 bilhões. As transferências unilaterais (remessas de trabalhadores brasileiros no exterior), também tiveram superávit de US$ 1,51 bilhões.

4. Isso significa que o déficit de “rendas e serviços” foi de nada menos que U$ 33,21 bilhões. Nesta conta predomina o peso das “rendas”, com U$ 19,4 bilhões, quantia da qual estão deduzidos os rendimentos de capitais brasileiros no exterior.

5. Portanto, o capital estrangeiro prossegue remetendo vultosos lucros ao exterior, não obstante o Brasil vir tendo medíocre crescimento econômico, valendo, ademais, notar que os rendimentos líquidos oficiais das transnacionais não incluem os serviços superfaturados e fictícios, nem o subfaturamento de exportações e o superfaturamento de importações.

6. O próprio comércio de mercadorias, i.e., a balança comercial, confirma estar o Brasil afundando no  em subdesenvolvimento. De fato, quando se trata de bens de maior conteúdo tecnológico, em vez de superávit, cresce o déficit, como se dá com os eletroeletrônicos, em que, nos seis primeiros meses de 2010, as exportações foram de US$ 3,64 bilhões e as importações, US$ 15,76 bilhões.

7. O balanço de pagamentos está sendo falsamente equilibrado com ingressos líquidos de investimentos estrangeiros, diretos – de longo e curto prazo – além de empréstimos e financiamentos. Trocando em miúdos, enquanto cresce a perda de recursos correntes para o exterior, o capital estrangeiro eleva a base sobre a qual novas perdas serão geradas.

8. Continua, portanto, elevada e ascendente a saída de recursos do Brasil, resultante de ser o mercado brasileiro controlado por empresas transnacionais, subsidiadas por múltiplas benesses proporcionadas pelas leis e regulamentos do País, sob o comando de interesses imperiais forâneos.

9. Aumenta, desse modo, a já excessiva ocupação dos mercados de bens e serviços, via investimento direto estrangeiro, e a exploração dos mercados financeiros por parte do capital estrangeiro de curto prazo.

10. Pode-se estimar uma provável crise externa do Brasil, ainda este ano, já que a depressão mundial está cada vez mais enraizada, e a derrocada financeira se apresenta iminente. A primeira implica queda nas receitas de exportação, e a segunda, saída de capitais para cobrir rombos nos EUA, Europa e Japão.

Investindo” com o nosso dinheiro

11. Predomina cada vez mais na economia brasileira o capital das empresas e bancos transnacionais. A implantação destas no Brasil foi grandemente favorecida por subsídios governamentais. Além disso, a política econômica prejudicou, pelo menos comparativamente, as firmas de capital nacional.

12. Desse modo, as transnacionais foram estendendo e aprofundando seu controle sobre os mercados, bastando-lhes aproveitar os subsídios e investir os ganhos obtidos no Brasil. Nos últimos decênios vêm, ademais, recebendo vultosos empréstimos do BNDES, o banco federal de desenvolvimento, a juros favorecidos.

13. Assim, para explorar os mercados, em condições de oligopólio, nem precisam, nem nunca precisaram, fazer ingressar no País quantidade significativa de dólares.

Moeda falsa

14. Para as aplicações especulativas, o capital estrangeiro tampouco tem qualquer dificuldade, pois os dólares são emitidos a rodo, não havendo garantia alguma de que os aqui convertidos em reais não passem de falsos ativos monetários criados em computadores de agências de bancos em paraísos fiscais.

15. Além disso, a emissão de dólares nos EUA não guarda relação com alguma coisa de real valor, pois o FED e o Tesouro dos EUA têm despejado nos bancos trilhões de dólares, na casa dos dois dígitos, com a finalidade de cobrir os rombos resultantes das jogadas dos próprios banqueiros.

16. Assim, é muito fácil para os praticantes do “carry-trade” obter os dólares para convertê-los em reais e auferir ganhos aproveitando o absurdo diferencial entre as altas taxas de juros aqui praticadas e as baixas taxas, quando não negativas, prevalecentes no exterior. Além disso, os ganhos da apreciação da taxa de câmbio do real.

Poder mundial

17. A oligarquia financeira anglo-americana concentra o poder econômico e exerce o poder político real, encoberto pela fachada dos “governos constituídos” dos países centrais, de seus associados, satélites e áreas periféricas exploradas.

18. Essa oligarquia sabe quais são as fontes do poder. A primeira delas é a criação de moeda, controlando os bancos, que o fazem por meio do crédito, e dominando os bancos centrais, que emitem moeda diretamente, sejam eles privados, como nos EUA, sejam públicos, como no Brasil.

19. A primeira fonte do poder, a oligarquia a quer monopolizada e sem limites. Por isso restringe o uso da segunda fonte: os metais estratégicos e os preciosos, boicotando, por ex., o uso do ouro como reserva de valor.

20. Mas monopoliza esses metais, cujas minas detém em todo o Mundo, e acumula estoques. Impede, ademais, que a emissão de moeda em papel e escritural seja limitada por uma proporção com o ouro ou outro ativo real.

21. Os controladores dos mercados financeiros geram oferta falsa do ouro, manipulam seu preço para baixo e tolhem sua procura, deixando as pessoas sem opção segura de onde pôr as economias, e reféns das moedas emitidas ao bel prazer da oligarquia e fadadas a brutal desvalorização.

22. A terceira fonte do poder é a energia. Não admira que a oligarquia anglo-americana controle a comercialização do petróleo, desde a época das sete irmãs – hoje apenas quatro, duas norte-americanas e duas britânicas. Não admira tampouco que o petróleo e outros combustíveis fósseis continuem sendo as principais matérias energéticas, não obstante os terríveis danos que causam à saúde e ao meio-ambiente.

23. A quarta fonte do poder são as forças armadas. Estas asseguram, por ex., o suprimento de petróleo e que este seja vendido em troca de dólares. Desse modo o poder militar se combina com o da energia e o da moeda.

24. A quinta fonte é a indústria das ilusões, abrangendo os meios de comunicação e universidades de elite, pertencentes a fundações da oligarquia ou por ela estipendiadas. A função dessa indústria é fazer aceitar os absurdos como se fossem naturais e justos, coadjuvadas pelos negócios da drogas e da anticultura, que embotam os espíritos.

Crise e depressão

25. Enquanto isso, aguarda-se nova crise no quadro do colapso econômico mundial, caracterizado, de um lado, pela depressão da economia real com desemprego altíssimo e crescente, e de outro lado, por explosões: a) empréstimos impagáveis; b) dos títulos, inclusive derivativos, com alto valor nominal e quase sem valor de mercado, em parte já empurrados para os governos; c) a dos títulos da dívida pública dos EUA, de países europeus e do Japão; d) os reflexos disso tudo nas economias periféricas, como a brasileira.

26. Tudo isso é problema nosso. É dos povos e de verdadeiras lideranças que os queiram conduzir à libertação. Os concentradores do poder não vêem problema algum nas crises que criam. Ao contrário, elas lhes servem para prosseguir concentrando mais poder e retirando de um número cada vez maior de pessoas os meios que as ajudariam a reagir.

Fonte: Jubileu Brasil – http://www.jubileubrasil.org.br/

"Código Florestal deve ser preservado”

Igor Felippe Santos

Os parlamentares da comissão especial que discute mudanças no Código Florestal devem votar, no começo do mês de junho, o relatório final do deputado federal Aldo Rebelo (PcdoB-SP). Na avaliação dos movimentos sociais do campo e das organizações ambientalistas, o relatório deve atender aos interesses dos ruralistas, pela ausência de um debate amplo sobre o tema.

“Os objetivos dos ruralistas são claros: consolidar o desmatamento que já promoveram no Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Caatinga; avançar na destruição da Amazônia e consolidar as áreas que já desmataram”, avalia Luiz Zarref, engenheiro florestal, especialista em agroecologia e militante do MST, em entrevista à Página do MST.

Essa comissão foi instalada em outubro para analisar o projeto do ex-deputado Sérgio Carvalho sobre um novo código. No processo de instalação, os ruralistas conseguiram o controle da comissão e passaram a comandar o ritmo do debate.

O Código Florestal é considerado uma barreira ao avanço do agronegócio, porque impõe limites à devastação ambiental na atividade agrícola, com a aplicação da Reserva Legal (RL) e das Áreas de Preservação Permanente (APP). A reserva legal é de 80%, na Amazônia; 35%, no Cerrado e 20% nas outras propriedades.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6724

Mudança climática deve piorar desigualdade de renda no país

Nilbberth Silva

Até 2020, as transformações que a agricultura do Brasil deve sofre com as mudanças climáticas vão contribuir para diminuir o produto interno bruto (PIB) em 0,29% e piorar a desigualdade de renda. É o que mostra uma simulação feita pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, pelo economista Gustavo de Moraes.

Nordeste e centro-oeste perdem com mudança na agricultura. Sudeste ganha

O pesquisador estudou o assunto durante seu doutorado na Esalq, orientado pelo professor Joaquim Ferreira Filho. Moraes  se baseou em previsões da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre a perda de áreas de cultivo de produtos agrícolas com grande importância econômica: soja, cana de açúcar, milho, café, arroz, feijão, mandioca e algodão. A Embrapa baseou-se em seis cenários de mudanças climáticas, propostos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU).

O economista escolheu dois cenários – um deles previa mudanças brandas até 2020 e perda pequena em terras aráveis. Outro previa aumentos mais graves de temperatura até 2070 e perdas maiores de terras aptas para produção agrícola. Com os dados, ele alimentou um modelo econômico – uma série de equações que mostra como a perdas na agricultura impactam os outros setores da economia.

“A minha pesquisa avalia apenas os impactos na economia dos efeitos das mudanças climáticas na agricultura”, diz Moraes. “Mas as mudanças também terão efeitos sobre a saúde, o clima das cidades litorâneas e eventos climáticos extremos [como furacões e enchentes]. Por isso, a conta pode aumentar.”

Segundo o estudo, as perdas econômicas acontecem de forma desigual: o PIB do Nordeste em 2020 será 4% menor do que seria caso não houvesse mudança climática. Já o Sudeste teria um aumento de 0,83%. No centro-oeste, a queda é de 2,9%, concentrada nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Para 2070, a pesquisa mostra uma queda do PIB brasileiro em 1,1%. No nordeste, a queda seria 6,13%, o aumento seria de 0,36%.

O nordeste e as regiões produtoras de soja do centro-oeste devem perder dinheiro por que estão em regiões tropicais e, portanto, mais sujeitas às mudanças climáticas. O modelo prevê, por exemplo, que o preço de produção da soja aumente 36% no Mato Grosso e 60% no Mato Grosso do Sul.

Com isso, investimentos destinados à agricultura e trabalhadores da lavoura tendem a migrar para o Distrito Federal e estados do sul e sudeste, onde os setores de indústria e serviços são mais consolidados. Com crédito e salários baixos, os bens produzidos por esses setores devem ficar mais baratos.

O modelo também prevê aumento dos custos de produção de alimentos – que acontece de forma desigual no país. Um exemplo: o cenário de 2020 prevê aumento no custo de produção do arroz em 36% no Maranhão, quarto maior produtor do país. Mas o custo não se altera no maior produtor, o Rio Grande do Sul.

O pesquisador também explica que simulações como esta são boas para prever tendências, mas não para apontar dados exatos. Além disso, é impossível prever com exatidão o comportamento dos agentes da economia – apenas apontar o mais provável.

Concentração de renda

As transformações da agricultura vão contribuir para aumentar o custo de vida dos mais pobres e diminuir o dos mais ricos. O motivo: o preço dos alimentos, que vai sofrer alta, corresponde a uma proporção maior do orçamento dos mais pobres. Já para os mais ricos, a maior parte do dinheiro é direcionada a serviços e bens industriais, cujos preços devem diminuir.

A previsão do modelo é que no nordeste em 2020 , por exemplo, o custo de vida das famílias que ganham entre 3 e 5 salários mínimos aumente 1,19%. O das famílias que ganham de 20 a 30 salários mínimos deve diminuir 0,35%. Já no sudeste, por exemplo, o aumento é de 0,08% para as famílias de menor renda e a queda, de 0,18% para famílias mais ricas.

Já o cenário de 2070 prevê para o nordeste aumento do custo de vida de 1,85% para os mais pobres e queda de 0,18% do custo dos mais ricos.

O pesquisador explica que para se antecipar às mudanças a economia do nordeste deve passar a depender menos da agricultura e mais dos serviços e indústria. “Como são cenários climáticos de longo prazo, os planejadores de políticas públicas podem prepara-se para eles”, acrescenta Moraes.

“As previsões do modelo para o Brasil repetem as transformações em escala global”, diz o economista. “Alguns países industrializados e temperados devem se beneficiar, enquanto países mais pobres de clima quente vão perder.”

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

A ciência compreendida

Uma safra de livros oferece a uma nova geração de leitores brasileiros temas científicos em linguagem atraente

Fabrício Marques

Faltam nas livrarias brasileiras seções de livros de divulgação científica. Com isso, o leitor tem dificuldade em encontrar as obras

O mercado brasileiro de livros de divulgação científica, aqueles que buscam traduzir temas da ciência para a linguagem dos leigos, ganhou um fôlego inédito no país na última década. O advento de coleções desse gênero lançadas por editoras universitárias e comerciais vem despertando o gosto de leitores para uma safra de obras que vai da astronomia e da biologia à matemática e também privilegia temas emergentes como as mudanças climáticas, as células-tronco e a neurociência. “Das modalidades de divulgação científica, a dos livros é a que permite uma abordagem mais densa e aprofundada”, diz o físico Marcelo Knobel, pró-reitor de Graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e responsável pela edição de uma nova coleção de divulgação científica da editora da universidade, chamada Meio de Cultura.

Das seis obras lançadas até agora pela Unicamp, cinco são traduções de originais estrangeiros, mas houve a preocupação de escolher autores fora do eixo anglo-saxão, que é o mais explorado pelas grandes editoras. Um dos livros é Dez teorias que comoveram o mundo, dos argentinos Leonardo Moledo, diretor do Planetário de Buenos Aires, e Esteban Magnani, professor de jornalismo científico. Narra momentos cruciais da produção do conhecimento, do heliocentrismo de Nicolau Copérnico à relatividade de Einstein, mostrando como o gênio dos grandes cientistas apoiou-se num processo de construção coletiva em que a maioria das peças do quebra-cabeça foi reunida, por tentativa e erro, graças a inúmeros pesquisadores que nem sempre entraram para a história. “A divulgação científica é a continuação das ciências por outros meios”, costuma dizer Moledo. Outra obra da coleção, A extinção dos tecnossauros, do italiano Nicola Nosengo, tem ambição semelhante, mas trata das transformações tecnológicas e de seus sucessos e fracassos, explorando a trajetória de engenhos promissores que naufragaram no teste do mercado ou que, depois de se tornarem essenciais na vida das pessoas por muito tempo, mergulharam na obsolescência e viraram peças de museu. “O essencial, nesta coleção, é que sejam livros bem escritos e agradáveis de ler”, diz Marcelo Knobel.

A editora Vieira & Lent, do Rio de Janeiro, foi fundada em 2002 tendo como prato principal a divulgação científica, embora também publique obras nas áreas de educação e ciências humanas. Seu catálogo reúne 70 títulos e o maior sucesso é O cérebro nosso de cada dia, com 30 mil exemplares vendidos – número respeitável para o padrão editorial do país –, escrito por Suzana Herculano-Houzel, neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O dono da editora, o neurocientista Roberto Lent, venceu recentemente a 30ª edição do Prêmio José Reis de Divulgação Científica, concedido pelo CNPq. Antes de criar a Vieira & Lent, ele já tinha um extenso currículo de contribuições para a popularização da ciência, escreve uma coluna na revista Ciência Hoje, que ajudou a fundar, e é autor de vários livros de divulgação científica para adultos e crianças. “As descobertas da ciência e as novas tecnologias despertam o interesse das pessoas e constituem uma fonte de temas que não esgota nunca”, diz Lent, ressaltando que sua editora, embora bem estabelecida no mercado, não é um empreendimento de grande lucratividade. “Conseguimos nos manter e lançar novos títulos. Talvez seja mais fácil para outras editoras, que trabalham com muitas obras de divulgação traduzidas. Mas para nós, que privilegiamos o autor nacional, é complicado, pois custa bem mais caro”, afirma.

Cotidiano – É certo que o desempenho do mercado brasileiro ainda está a anos-luz dos países desenvolvidos, como Estados Unidos e Reino Unido, onde grandes cientistas como o astrofísico Stephen Hawking, o zoólogo Richard Dawkins e o biólogo Stephen Jay Gould obtiveram sucesso retumbante na carreira de divulgadores, vendendo milhões de livros no mundo inteiro. O mercado brasileiro também é tímido quando comparado ao da vizinha Argentina, onde uma coleção de 32 títulos de divulgação científica chamada Ciên cia que Ladra, dedicada a explorar a ciência escondida no cotidiano, com tiragem de mais de 1 milhão de livros. O carro-chefe são quatro obras sobre matemática, de autoria do jornalista e professor Adrián Paenza, que, juntas, já venderam 500 mil exemplares. “A escola de divulgação científica anglo-saxônica nos ensinou que é possível ler livros sobre temas científicos apaixonadamente, como se fosse uma novela”, disse ao jornal Clarín o biólogo argentino Diego Golombek, professor da Universidade Nacional de Quilmes e organizador da coleção. “O fundamental é surpreender o leitor, ajudando-o a entender um fenômeno da natureza numa leitura prazerosa”, afirma. No Brasil, três títulos da coleção Ciência que Ladra foram lançados pela editora Civilização Brasileira, um dos selos do grupo Record, mas ainda não alcançaram grandes vendagens. Com a experiência de quem se formou na Argentina e radicou-se no Brasil há várias décadas, o neurocientista Iván Izquierdo, pesquisador da PUC do Rio Grande do Sul, define a diferença entre os dois países. “A Argentina tem uma tradição cultural de 200 anos e o Brasil tem a metade disso. Até a língua portuguesa demorou a se firmar como padrão nacional, pois a referência da elite era o francês. A escravidão e o fato de o país ter se tornado uma monarquia têm a ver com isso”, diz Izquierdo, que tem uma experiência de sucesso no mercado de divulgação científica. O livro A arte de esquecer – Cérebro, memória e esquecimento (Vieira & Lent), que narra numa linguagem simples as pesquisas do neurocientista sobre os mecanismos da memória, vai ganhar uma segunda edição atualizada e será lançado em espanhol por uma editora mexicana. “O título do livro instiga os leitores e foi uma boa surpresa a receptividade que teve”, afirma Izquierdo.

Se no Brasil o mercado editorial de divulgação científica só agora está saindo da infância, não é trivial o fato de despontar no país um robusto conjunto de títulos publicados que não existia até o final dos anos 1990. A compreen são de temas científicos estimula o pensamento crítico e é considerada um pré-requisito para a democratização da informação e para semear vocações em carreiras acadêmicas e tecnológicas. “É preciso despertar cada vez mais a curiosidade das crianças e dos jovens para temas científicos se quisermos seguir produzindo ciência”, diz Shoshana Signer, engenheira civil e fundadora da Oficina de Textos, editora de livros acadêmicos que desde 2004 lançou a série Inventando o Futuro, uma coleção de divulgação científica sobre temas de fronteira, como nanotecnologia, energia, radicais livres, DNA e Amazônia. “Apesar do retorno de vendas discreto, vejo como uma missão social da editora enfrentar esse problema. Sem uma percepção dos cidadãos sobre temas científicos, fica difícil enfrentar os gargalos na formação de recursos humanos e os desafios do desenvolvimento”, afirma.

A popularização dos livros de divulgação científica teve início em meados do século XIX, quando começaram a ser editados em países como França, Alemanha e Inglaterra. Muitos cientistas se lembram de algum autor desse gênero que alimentou sua curiosidade na infância e na adolescência, assim como a divulgação científica teve um papel na opção profissional de médicos, engenheiros e técnicos. Einstein, por exemplo, foi um ávido leitor dos livros de Henri Poincaré, filósofo, físico e matemático que escreveu diversos livros nesta área na virada para o século XX. O físico Cylon Gonçalves da Silva, professor emérito da Unicamp e autor do recém-lançado De Sol a Sol, energia no século XXI, da Oficina de Textos, cita a influência de Fritz Kahn (1888-1968), um médico judeu alemão autor de livros sobre astronomia e medicina, em especial sobre o corpo humano. “Eu era um adolescente no interior do Rio Grande do Sul e tinha uma avidez enorme por informação sobre ciência e tecnologia. Era a época do Sputnik e da bomba atômica. E o Fritz Kahn me marcou bastante”, diz Cylon, que, além do livro de sua autoria, coordena os lançamentos da coleção. “Hoje os temas são também fascinantes: há a engenharia genética, as mudanças climáticas, a eletrônica…”. Ao escrever De Sol a Sol, Cylon procurou traduzir os desafios da produção de energia para uma linguagem leiga. “O objetivo é mostrar para a garotada como o tema da energia é crucial e a importância de buscar fontes sustentáveis. O Brasil é um país privilegiado, pois boa parte de sua matriz energética é composta por fontes renováveis. Mas o controle da produção de energia é uma questão fundamental. Sem ele, a sobrevivência da nossa civilização está ameaçada”, afirma. O capítulo inicial do livro, que narra o pesadelo de um mundo sem energia elétrica, é apresentado na forma de uma história em quadrinhos. Mas a coleção não abre concessões ao rigor científico. “Exige-se que o leitor tenha curiosidade sobre o tema e interesse para entendê-lo”, diz Cylon, que nos anos 1980 comandou a implantação do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e, em 2000, foi um dos organizadores da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada no ano seguinte. Atualmente é coordenador adjunto da FAPESP para programas especiais.

Temas de fronteira – Os livros de divulgação se prestam, ainda, a uma missão mais específica, que é a de esclarecer a opinião pública acerca de temas científicos de fronteira – e a trajetória de uma das obras da coleção da Oficina de Textos é exemplar dessa vocação. Trata-se de O mundo nanométrico: a dimensão do novo século, escrito por Henrique Toma, professor do Instituto de Química da USP, lançado em 2004. “Havia uma efervescência da nanotecnologia no mundo inteiro e pouca gente compreendia a dimensão do tema, que reúne vários campos da ciência ao mesmo tempo”, afirma Toma. A princípio, a obra fez sucesso com outro público. “Circulou mais entre empresários e executivos de empresas interessados em investir em tecnologia. Dei muitas palestras sobre nanotecnologia em empresas e o livro ajudava esse público a entender o que eu estava falando”, afirma Toma, que participou da organização de cinco edições da Nanotech Expo, feira de produtos nanotecnológicos que ocorreu em São Paulo entre 2003 e 2008. Recentemente, ao receber uma comissão de cientistas iranianos na Universidade de São Paulo, Toma compreendeu o papel que o livro cumpriu naquele momento. “Eles me disseram que no Irã o lançamento de qualquer projeto em área de fronteira é sempre acompanhado de uma estratégia de divulgação científica para conquistar a opinião pública. Como são temas novos, a tendência natural é haver rejeição, e é comum que organizações não governamentais consigam vencer a batalha da opinião pública difundindo apenas o potencial pernicioso da ciência, que sempre existe. Foi o que aconteceu com os transgênicos e com as células-tronco, para citar dois exemplos”, afirma.

Cinco anos depois do lançamento, só agora O mundo nanométrico começou a se tornar um sucesso de vendas. Adotado em escolas, ganhou uma versão atualizada, que será lançada também em espanhol por uma editora mexicana. “Fez parte de um processo natural. Demorou um tempo para que o assunto amadurecesse e só agora ele foi compreendido por professores do ensino médio, que passaram a adotá-lo na sala de aula”, explica. A descoberta aconteceu por acaso. Um ex-aluno de Toma, que se tornou professor do Colégio Bandeirantes, de São Paulo, leu o livro e mostrou-o ao coordenador de ciências da escola. “Logo me convidaram para dar palestras para os professores e também para os alunos e o adotaram em sala de aula. Vários colégios seguiram o Bandeirantes. Só no ano passado fui convidado para dar mais de 40 palestras em escolas de ensino médio”, diz Toma, que defende a importância de os pesquisadores lançarem-se à tarefa de escrever para o público leigo. “É lamentável que, na universidade, o trabalho de divulgação científica não tenha nenhum reconhecimento. Se consigo obter 100 citações em um artigo científico, o número de pessoas que leram o livro sobre nanotecnologia é muito maior”, afirma.

Mentalismo – Uma crítica comum de editores e autores é que, apesar dos avanços recentes, faltam nas livrarias brasileiras seções específicas de livros de divulgação científica. Isso faz com que o leitor tenha dificuldade em reconhecer o gênero e encontrar as obras. “A questão é os livreiros darem destaque para os livros, o que não é fácil”, afirma a neurocientista e autora Suzana Herculano-Houzel. Segundo ela, é comum encontrar suas obras na estante de livros sobre ‘mentalismo’. “Até hoje não entendi o que essa palavra significa”, afirma. Outro livro com boa trajetória, A arte de esquecer, de Iván Izquierdo, costuma ser encontrado em prateleiras de autoajuda, conta o editor Roberto Lent. “Persiste o preconceito dos livreiros de que são obras que não vendem, e acabam sobrando como canal de veiculação as livrarias universitárias de centros ligados à ciência”, diz Lent. Para ele, colabora com o problema o fato de haver uma ideologia prevalente que separa a ciência da cultura no Brasil. “É um problema de tradição cultural. É raro ver os suplementos de cultura dos jornais falando de assuntos científicos, a não ser quando resvala na ética ou na filosofia, como no caso do aborto ou das células-tronco. É como se ciência fosse uma coisa e cultura fosse outra, o que não acontece em outros países”, diz ele. Isso, segundo o editor, faz com que obras de educação científica dificilmente sejam contempladas por editais públicos para compra de livros de bibliotecas, uma fonte importante de receita para pequenas editoras.

Mas quais são os ingredientes para fazer o sucesso de um livro de divulgação científica no Brasil? Em boa medida, a receita é a mesma de um livro qualquer. “Tem que ser bem escrito e precisa cativar o leitor. Um bom escritor é um bom escritor, independentemente do gênero”, diz Marcelo Knobel, da Unicamp. “Eu escrevo para o público leigo entender e é incrível como os leitores se sentem gratificados quando conseguem compreender algo que consideravam inacessível”, diz Suzana Herculano-Houzel. Seu livro mais vendido, Fique bem com seu cérebro (Sextante), é uma obra de divulgação científica disfarçada de autoajuda. Ao final de cada capítulo há sempre um parágrafo com dicas práticas relacionadas ao tema em questão, ensinando, por exemplo, a treinar o cérebro e manter a memória. “É gratificante receber mensagens de leitores que aplicaram as recomendações e tiveram algum benefício”, diz.

Certas circunstâncias ajudam, como a avidez dos leitores por determinados temas. O neurocientista Sidarta Ribeiro, chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal –  Edmond e Lily Safra, em Natal, atribui a isso a receptividade do livro Maconha, cérebro e saúde (Vieira & Lent), que escreveu em parceria com o neurofisiologista Renato Malcher-Lopes. “O interesse pelo assunto é gigantesco e o fracasso da guerra contra as drogas colocou o tema na ordem do dia”, diz Sidarta. Tópicos relacionados à neurociência, de maneira geral, têm boas vendagens. A astronomia também: o astrofísico Marcelo Gleiser é, hoje, o maior best-seller nacional, com livros que tratam de física e astronomia por meio de uma narrativa repleta de metáforas. O renome do autor, evidentemente, pesa bastante. Uma breve história do tempo, do astrofísico Stephen Hawking, foi um gigantesco sucesso editorial. “Como se trata de um livro de compreensão difícil e que teve uma tradução muito ruim, a única explicação para o sucesso é a história de vida do autor, um pesquisador excepcional vítima de uma doença degenerativa”, diz Roberto Lent.

Matemática – As grandes editoras comerciais começaram a investir no filão há relativamente pouco tempo. A editora Zahar tem três títulos de temas científicos entre os seus 10 livros mais vendidos atualmente: O andar do bêbado, de Leonard Mlodinow, breve história da probabilidade e da estatística; Almanaque das curiosidades matemáticas, de Ian Stewart; e Do big bang ao universo eterno, de Mário Novello. O grupo editorial Record, um dos maiores do país, descobriu os livros de divulgação científica no final dos anos 1990, quando O último teorema de Fermat, de Simon Singh, sobre um grande enigma da matemática, tornou-se um sucesso: até hoje foram 62 mil exemplares vendidos. Agora a editora dispõe de algumas dezenas de títulos em campos como a matemática, a física e a biologia, que respondem por 1% do catálogo. “Das grandes editoras, fomos a primeira a reconhecer esse mercado”, afirma Luciana Villas-Boas, diretora editorial da Record. Segundo ela, os títulos de mais sucesso são os que tratam das dimensões humanas das grandes questões científicas, caso, por exemplo, de Rivalidades produtivas, de Michael White, biógrafo de Darwin e Newton, que disseca oito disputas da história da ciência, como as que opuseram Antoine Lavoisier e Joseph Priestley, Thomas Edison e Nikola Tesla, e Isaac Newton e Gottfried Leibniz. Outro best-seller é Criação imperfeita, do físico Marcelo Gleiser, que vendeu 25 mil exemplares. “Não temos certeza de quem é esse  público, mas parece ser composto por estudantes e profissionais liberais interessados em temas científicos e em boa leitura.” Para Luciana, trata-se de um nicho que reúne todos os elementos para crescer. “Vamos apostar fortemente em bons títulos desse gênero”, afirma.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Pré-adolescentes são principais alvos de violência doméstica

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Felipe Maeda Camargo

A violência doméstica praticada contra crianças e adolescentes na região metropolitana de Fortaleza (CE) predomina na faixa etária de 10 a 14 anos. Helena Carvalho, médica legista responsável por uma pesquisa sobre o tema, aponta que os pré-adolescentes representam 39,1% dos casos estudados.

Das 343 casos estudados, a maioria (39,1%) das vítimas era pré-adolescente

Segundo Hellena, esse dado contradiz alguns estudos na área: “As pesquisas apontam que normalmente a violência doméstica acontece com a faixa etária de zero a 9 anos, na infância, em função da própria condição de defesa da criança e da maior dependência de seus cuidadores.”

O motivo da predominância da violência na faixa etária de 10 a 14 anos não foi estudado, mas Hellena acredita que as características do próprio contexto da região do Nordeste pode ter influenciado. Porém, isso é somente uma hipótese.

O estudo da médica faz parte de sua tese de doutorado defendida pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, sob orientação da professora Maria Helena Prado de Mello Jorge. Nele, Hellena analisou 343 casos de violência doméstica registrados no Instituto Médico Legal (IML) de Fortaleza, no segundo semestre de 2008. Os casos são de crianças e adolescentes vítimas de atos violentos cometidos por seus próprios pais ou responsáveis, como uso de força física, abuso sexual e negligência.

O que lhe chamou a atenção foi a declaração de alguns pais (cerca de 40%) que justificavam porquê batiam nos filhos. “Eles acreditam que bater educa os filhos. Argumentavam que também apanharam de seus pais e diziam: ‘Eu sei que isso vai dar vergonha na cara deles’ ”, comenta.

Outro ponto que Hellena destaca é a falta de profissionais da área de saúde e de educação que denunciam esse tipo de violência. Dos casos analisados, nenhum foi notificado por profissional de saúde e somente 1,7% por profissionais de educação. A médica lembra que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), esses profissionais são obrigados a fazer notificação ao Conselho Tutelar, mesmo dos casos suspeitos, com a finalidade de desencadear uma investigação.

“Acredito que esses profissionais da área de saúde não têm a formação adequada a respeito da violência doméstica como problema de saúde pública. Na educação, os professores não estão devidamente capacitados, além daqueles que acham que não devem se meter ou têm medo de retaliações”, afirma Hellena. “É um problema complexo que não dá para explicar com um único motivo.”

Na pesquisa, o principal notificante foi a mãe do filho/a, em 48,4% dos casos. Em somente 4% dos casos, a vítima foi o principal notificante.

Caracterização

Para complementar as informações sobre a vítima, sua família, o agressor e as circunstâncias em que ocorreu a violência, foi utilizado um formulário específico da pesquisa, aplicado ao responsável, acompanhante e vítima, quando as condições assim o permitiram.

Foram constatados 172 casos de violência física, 167 de violência sexual e 4 de violência múltipla, que envolve mais de um tipo de violência, sendo três casos de violência física e sexual e um caso de violência física e negligência. As vítimas de violência física se distribuíram equitativamente entre os sexos (masculino 45%; feminino 55%), enquanto nos casos de violência sexual, observou-se que o sexo feminino corresponde a 82% das vítimas. Nesta situação, o principal agressor foi o padrasto (32,3%), em seguida vem o pai (30%).

Hellena aponta um dado que vai contra o esperado: quase 50% dos casos de violência doméstica contra crianças e adolescentes ocorreram em famílias nucleares, ou seja, aquelas formadas por pai, mãe e filho(s) que convivem na mesma casa. Segundo a médica, os estudos, em geral, apontam que as famílias não nucleares estão mais sujeitas a terem vítimas de violência doméstica.

Independente da característica dos casos, segundo a médica, os estudos estão demonstrando que a violência vai contra a saúde física e mental das pessoas. “A vítima, ao chegar na fase adulta, tem mais chances de apresentar problemas de saúde como depressão, esquizofrenia e hipertensão.”

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

Em repressão ao uso de energia, China fecha 2 mil fábricas

Keith Bradsher

Há alguns meses, o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, prometeu usar “mão de ferro” para melhorar a eficiência do país em energia, e um crescente número de empresas agora está descobrindo qual é essa sensação.

O governo chinês tenta fechar fábricas, em busca de uma mudança no uso da energia

O governo chinês tenta fechar fábricas, em busca de uma mudança no uso da energia

O Ministério da Indústria e Tecnologia de Informação publicou discretamente na noite de domingo uma lista de 2.087 siderúrgicas, usinas de cimento e outras fábricas de uso intensivo de energia que seriam fechadas até 30 de setembro.

Analistas de energia o descreveram como um passo significativo para as metas de eficiência em energia do país, mas não o suficiente por si só para atingi-las.

Ao longo dos anos, as autoridades provinciais e municipais às vezes bloqueavam as tentativas de Pequim de fechar fábricas antigas em suas jurisdições. Essas autoridades buscavam em particular proteger as siderúrgicas mais antigas e outras operações de indústria pesada que frequentemente empregavam milhares de funcionários e às vezes forneciam moradia, instalações esportivas e outros benefícios para os trabalhadores desde os anos 50 e 60.

Desta vez, para impedir essa obstrução local, o ministério disse em uma declaração em seu site que as fábricas em sua lista seriam impedidas de obter empréstimos bancários, crédito para exportação, licenças de funcionamento e terras. O ministério até mesmo alertou que o fornecimento de eletricidade seria cortado se necessário.

A meta do fechamento das fábricas é “melhorar a estrutura de produção, elevar o padrão de capacidade técnica e competitividade internacional e promover uma transformação na indústria, de grande para forte”, disse o ministério.

O anúncio foi o mais recente em uma série de medidas chinesas para aumentar a eficiência em energia. A Comissão Nacional para Desenvolvimento e Reforma, que é a agência mais poderosa de planejamento econômico do governo, anunciou na última sexta-feira que tinha forçado 22 províncias a suspender sua prática de fornecer eletricidade com desconto para indústria intensivas em energia, como a produção de alumínio.

O atual plano chinês de cinco anos pede pelo uso de 20% menos energia neste ano para cada unidade de produto econômico do que em 2005. Mas o aumento da produção na indústria pesada desde o final do ano passado colocou em dúvida a capacidade da China de cumprir sua meta.

O sucesso ou fracasso da campanha de eficiência em energia da China está sendo observado de perto não apenas por economistas, que citam a campanha como um motivo para o crescimento da China ter desacelerado um pouco nos últimos meses, mas também pelos cientistas climáticos.

O consumo de energia na China aumentou tanto desde o final do ano passado a ponto de ser responsável pelo maior aumento de emissão de gases do efeito estufa por um único país. As usinas elétricas queimaram mais carvão para gerar eletricidade suficiente para atender a demanda.

À medida que a China se torna cada vez mais dependente de petróleo e carvão importado, seu establishment de segurança nacional se tornou visivelmente mais envolvido na política de energia e na segurança de energia, incluindo esforços para melhorar a eficiência em energia.

A eficiência melhorou 14,4% nos primeiros quatro anos do plano atual, apenas para deteriorar em 3,6% no primeiro trimestre deste ano, segundo as estatísticas oficiais. Wen respondeu convocando uma reunião especial do Gabinete em maio, para tratar da situação.

A eficiência em energia foi apenas 0,09% pior na primeira metade deste ano em comparação ao mesmo período em 2009, segundo estatísticas divulgadas na semana passada. Analistas de energia disseram que essas estatísticas indicam melhoria da eficiência no segundo trimestre, que quase compensa a deterioração no primeiro trimestre, apesar do governo não ter divulgado números separados para o segundo trimestre.

Zhou Xizhou, um diretor associado da IHS Cambridge Energy Research Associates, em Pequim, disse que a nova lista de fechamento de fábricas pelo ministério foi uma medida forte para melhorar a eficiência. Mas ele acrescentou que a meta da China de obter uma melhoria de 20% até o final deste ano, em comparação a 2005, “ainda é uma tarefa difícil para o restante do ano”.

O ministério disse em sua declaração que as fábricas que seriam fechadas incluiriam 762 de produção de cimento, 279 de produção de papel, 175 de produção de aço e 84 de processamento de couro.

As fábricas foram escolhidas após discussões com autoridades provinciais e municipais para identificação de operações industriais com tecnologia datada, ineficiente, disse o ministério.

O ministério não forneceu números para o percentual de capacidade que seria fechada em cada setor industrial. O ministério também não disse quantos funcionários seriam afetados.

O fechamento de fábricas é mais palatável agora do que no passado, porque a escassez de mão-de-obra em muitas cidades facilita para os trabalhadores, particularmente os mais jovens, encontrarem outros empregos.

A lista de siderúrgicas que serão fechadas parece enfatizar usinas menores, mais velhas, que produzem aço de menor qualidade. Edward Meng, o diretor chefe financeiro da China Gerui Advanced Materials, uma empresa siderúrgica na província de Henan, na região central da China, disse que o fechamento dessas usinas é consistente com as metas maiores do governo de consolidar o setor de aço e pressionar as empresas a produzirem tipos de aço mais sofisticados.

A Agência Internacional de Energia, em Paris, anunciou no mês passado que a China ultrapassou os Estados Unidos no ano passado como maior consumidora de energia do mundo.

A China ultrapassou os Estados Unidos como maior emissora de gases do efeito estufa em 2006. Esse marco foi superado primeiro por causa da alta dependência de carvão pela China, um combustível fóssil especialmente sujo em termos de emissão de gases que contribuem para a mudança climática global.

Além do objetivo de eficiência em energia no atual plano de cinco anos, um plano anunciado pelo presidente Hu Jiabao, no final do ano passado, pede para a China reduzir suas emissões de carbono por unidade de produto econômico em 40% a 45% até 2020, em comparação aos níveis de 2005. As emissões de carbono são uma medição das emissões causadas pelo homem de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, por um país.

Mesmo se a China cumprir sua meta de eficiência em energia neste ano e sua meta de carbono até 2020, seu total de emissões de carbono ainda apresenta uma tendência de subir acentuadamente na próxima década, segundo previsões da Agência Internacional de Energia. Isso se deve a fatores como o rápido crescimento da economia chinesa, crescente propriedade de carros e aumento da propriedade de eletrodomésticos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

O declínio populacional da Europa é inevitável?

Martine Laronche

A imigração compensa a baixa natalidade? Dizem que o Velho Continente está em declínio populacional. A constatação é um pouco simplista. Em 1º de janeiro de 2010, a população da União Europeia (UE) ultrapassou a barreira simbólica dos 500 milhões de habitantes; 501,1 milhões, mais precisamente. Comparado aos 499,7 milhões registrados em 2009, esse número marca um aumento de 2,7 habitantes por mil, segundo os dados comunicados, na terça-feira (27 de julho), pelo Eurostat, o serviço de informação estatística da UE.

A imigração, principal contribuidora

Esse ganho populacional, certamente pequeno, mascara uma realidade extremamente desigual nos 27 países da UE, com perdedores e ganhadores. A população aumentou em 19 Estados-membros (entre os quais Reino Unido, Espanha, Itália, França, Suécia, Dinamarca, Eslovênia, Bélgica…) e caiu em oito países, como Lituânia, Letônia, Bulgária e Alemanha.

A imigração é a principal contribuidora desse ganho de 1,4 milhão de habitantes, com um saldo positivo de 0,9 milhão de imigrantes, ou seja, 60% do aumento da população europeia. O “crescimento natural”, que corresponde à diferença entre o número de nascimentos e o número de mortes, só representa 0,5 milhão de recém-nascidos, ou seja, 40% do total.

Em 50 anos, a relação entre a contribuição dos nascimentos e a imigração se inverteu. “Em 1960, o conjunto dos 27 países que hoje constituem a UE mostrava quase 8 milhões de nascimentos e pouco mais de 4 milhões de mortes”, lembra Gilles Pison, diretor de pesquisas do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED). “As migrações se efetuavam entre países europeus e, de forma geral, o saldo migratório era quase nulo.” Agora se tem somente 5,4 milhões de crianças nascidas na mesma zona, para 4,8 milhões de mortes registradas.

Os países que mostram as mais altas taxas de fecundidade são a Irlanda (10 para 1000), Chipre (5,5), França (4,3), Reino Unido (3,7) ou ainda, em uma menor escala, a Suécia e a Finlândia. No outro extremo, há um saldo natural negativo em dez países, e as maiores quedas são observadas na Bulgária e na Letônia (-3,6), na Hungria (-3,4) e na Alemanha (-2,3). “Existe um verdadeiro contraste entre os países do Sul e do Leste, pouco fecundos, e os do Norte e do Oeste”, comenta Gilles Pison. Nos países mediterrâneos, a fecundidade caiu muito rápido (Espanha, Itália, Grécia). As jovens que estudam por muito tempo e pretendem trabalhar adiam a idade em que elas têm o primeiro filho, por não terem com quem deixá-los.

Na Alemanha, onde uma política de auxílio às famílias foi implantada recentemente, ainda é culturalmente mal visto deixar seu filho sob cuidados de outra pessoa. Por fim, na maior parte dos países do Leste, a fecundidade caiu em razão das incertezas econômicas e políticas relacionadas à queda do muro de Berlim.

Mais mortes do que nascimentos a partir de 2015

De forma geral, com uma taxa de fecundidade de 1,6 criança por mulher em média, em 2008, a população da UE só pôde se manter graças à imigração, somada ao aumento da expectativa de vida. Na escala da União, o número anual de mortes ultrapassará o dos nascimentos a partir de 2015, segundo as projeções elaboradas pelo Eurostat, em 2008. Esse saldo negativo deverá se manter bastante limitado até 2020, para se acelerar nessa data, com a morte das crianças do baby-boom.

Isso pode levar a um desequilíbrio entre ativos e inativos. “Por causa da aposentadoria da geração do baby-boom, a população que não está em idade de trabalhar aumentará de maneira significativa na próxima década”, prevê a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (“Tendências recentes de migrações internacionais”, OCDE, 2010). “Segundo as projeções sobre os níveis migratórios atuais, em vários países o índice de crescimento dessa população provavelmente será superior ao da população em idade ativa”.

A crise desacelera a chegada de imigrantes

Para responder a esse desafio demográfico e econômico, os especialistas da OCDE defendem aumentar a taxa de emprego das pessoas em idade de trabalhar e, em uma menor medida, aumentar os efetivos dos imigrantes internacionais “contanto que eles sejam trabalhadores, e não inativos”. Mas nos dois últimos anos, a crise desacelerou seriamente a chegada de imigrantes à Europa. “Temos nos focado na imigração, mas em 2010 ela caiu pela metade em relação a 2007”, observa Cristina Arhigo, porta-voz para o Emprego e Questões Sociais na Comissão Europeia. “Se não há trabalho, as pessoas vêm menos”.

Entretanto, há situações contrastantes. Em 2009, os saldos migratórios mais elevados foram registrados em Luxemburgo, na Suécia, na Eslovênia, na Itália e na Bélgica, enquanto a Irlanda registrava o saldo mais negativo (-9). Na Itália, as cotas de trabalhadores não sazonais foram reduzidas a zero, em 2009. Segundo a OCDE, a Espanha, a Irlanda, a Itália e a República Tcheca são os países onde o recuo do fluxo de imigração com vocação permanente (em oposição à temporária) foi mais acentuado (-25%, ou até mais), entre 2007 e 2008, enquanto na Dinamarca ultrapassava os 40%.

Os primeiros países atingidos pela crise registraram fortes diminuições da migração induzida pela demanda. Na Espanha, as demandas dos empregadores passaram de 200 mil, em 2007, para menos de 16 mil, em 2009. Na Irlanda, após vários anos em que o número de retornos de irlandeses expatriados ultrapassava o número de partidas de cidadãos desse país, a emigração aumentou 37%, entre abril de 2008 e abril de 2009.

Na Europa, a queda observada do fluxo de entradas diz respeito principalmente aos migrantes de trabalho vindos dentro de um regime de livre circulação ou da migração de trabalho discricionária. A migração de caráter familiar não diminuiu em 2008, com exceção da França, pelo endurecimento dos critérios.

O viveiro turco

Como fazer para conter o declínio populacional e suas consequências em termos de política social, cujas principais são o equilíbrio dos regimes de aposentadoria e as necessidades em mão de obra? “À medida que a retomada econômica avançar, recorrer aos migrantes internacionais como solução possível para os problemas gerados pelo envelhecimento da população voltará a ser uma prioridade da ação pública”, diz a OCDE. “Somente com as futuras ampliações é que a União Europeia poderá aumentar substancialmente sua população”, analisa Gilles Pison. “A Turquia, supondo que ela entre na UE, levaria a um rejuvenescimento temporário, mas ela não modificará profundamente a trajetória de declínio populacional.”

Com seus cerca de 75 milhões de habitantes, uma população jovem e a perspectiva de ter quase 90 milhões de habitantes em 2025, ela constitui um viveiro considerável, mas com uma taxa de fecundidade de 2,1 crianças por mulher, ela também está fadada a envelhecer.

Tradução: Lana Lim

Fonte : Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

A erosão da classe média americana

Thomas Schulz

Ventura é uma pequena cidade na costa do Pacífico, a cerca de uma hora de carro ao norte de Los Angeles. Casas de luxo com vista para o oceano pontilham as encostas e as praias são populares entre os surfistas. Ventura é a Califórnia da imaginação das pessoas. “É um lugar abastado”, diz o capitão William Finley. “Mas cerca de 20% da cidade corre o risco de virar sem-teto.” Finley comanda uma divisão local do Exército da Salvação.

Enquanto os americanos super-ricos se parabenizam por doarem bilhões para caridade, o restante do país está pior do que nunca. O desemprego a longo prazo está aumentando e milhões de americanos estão lutando para sobreviver. A desigualdade entre ricos e pobres está maior do que nunca e a classe média está desaparecendo.

Em meados do ano passado, Ventura lançou um programa piloto, administrado por Finley, que permite que pessoas durmam em seus carros dentro dos limites da cidade. Isso normalmente é ilegal, tanto em Ventura quanto no restante do país, onde moradores e autoridades locais temem ver vans em estado precário, cheias de trabalhadores migrantes mexicanos, estacionadas em ruas residenciais.

Mas no início do ano passado, as pessoas em Ventura perceberam que os carros estacionados em frente de suas casas à noite não eram veículos velhos, mas peruas e utilitários esportivos bem cuidados. E as pessoas que dormiam nelas não eram trabalhadores rurais ou moradores de rua comuns, mas seus antigos vizinhos.

Finley também notou uma mudança. De repente, o dobro de pessoas estava fazendo uso do programa de refeições gratuitas de sua organização de serviços sociais, e algumas até mesmo chegavam dirigindo BMWs – aparentemente relutantes em abrir mão de seus carros caros, que os recordavam de dias melhores.

O capitão os chama de “os novos pobres”. “Esta é uma categoria diferente de pessoas que estamos vendo”, ele diz. “São pessoas que nunca imaginaram que algum dia seria sem-teto.” Eram pessoas que tinham dinheiro suficiente – em alguns casos muito dinheiro– até recentemente.

“A imagem do que é uma pessoa pobre atualmente é diferente. Quando eu cresci pobre, e éramos bem pobres, nós andávamos em um carro com 10 anos de idade e com alguns amassados. Era o único carro da família e vivíamos de alimentos distribuídos por caridades”, diz Finley. “No passado, você se esforçava para sair da pobreza e então melhorava de vida.”

O modo de vida americano caminha na direção oposta

Era o modo de vida americano, um caminho trilhado por milhões. “Hoje, a imagem é a de carros último modelo, que a certa altura custaram 40 mil, 50 mil (dólares), mas essas pessoas agora não sabem mais o que fazer, e estão vivendo de comida doada por organizações de caridade. E para muitas delas, é preciso um esforço imenso para engolir o orgulho”, diz Finley.

Hoje, o modo de vida americano caminha na direção oposta: para baixo.

Por algum tempo, os Estados Unidos pareciam ter saído relativamente ilesos da pior crise econômica em décadas – com vigor e energia renovados– como fizeram após crises do passado.

O governo estava anunciando novos números de crescimento econômico já no início do último trimestre do ano passado, muito mais cedo do que o esperado. Os bancos, moribundos até recentemente, voltaram a ganhar bilhões. Empresas de todo o país estão anunciando forte crescimento e o mercado de ações quase retornou aos níveis pré-crise. Até mesmo o número de bilionários cresceu, em bons 17%, em 2009.

Há duas semanas, o fundador da Microsoft, Bill Gates, e 40 outros bilionários prometeram doar pelo menos metade de suas fortunas para filantropia, seja ainda em vida ou após a morte. Os Estados Unidos são um país tão abençoado com riqueza que pode arcar em doar bilhões, assim fácil?

Crescente ressentimento

A ação de Gates poderia também ser interpretada como uma campanha de relações públicas, em um país onde os super-ricos sentem que apesar de estarem lucrando com a crise, como seria de se esperar, o número de pessoas afetadas de forma adversa por ela cresceu enormemente. Eles também sentem que há um crescente ressentimento na sociedade americana contra aqueles no topo.

Para as pessoas nas faixas de renda mais baixas, a recuperação já parece estar falhando. Os especialistas temem que a economia americana possa permanecer fraca por ainda muitos anos. E apesar dos muitos programas assistenciais do governo, a pequena dose de esperança que proporcionam ainda precisa ser sentida pelo público em geral. Na verdade, para muitas pessoas as coisas ainda continuam piorando dramaticamente.

Segundo uma recente pesquisa de opinião, 70% dos americanos acreditam que a recessão ainda continua plenamente. E desta vez não são apenas os pobres que foram atingidos de forma especialmente dura, como geralmente são durante recessões.

Desta vez a recessão também está afetando pessoas com alta escolaridade e que ganhavam bem até recentemente. Essas pessoas, que se consideram solidamente como sendo de classe média, agora se sentem mais ameaçadas do que nunca na história do país. Quatro entre 10 americanos que se consideram como parte da classe média acreditam que não conseguirão manter seu status social.

O desemprego persiste

Em uma recente história de capa intitulada “Adeus, Classe Média”, o “New York Post” apresentou aos seus leitores “25 estatísticas que provam que a classe média está sendo sistematicamente erradicada da existência na América”. Na semana passada, a importante colunista online Arianna Huffington emitiu um alerta quase apocalíptico de que “a América corre o risco de se transformar em um país de Terceiro Mundo”.

De fato, os Estados Unidos, após as crises imobiliária, financeira, econômica e agora da dívida, que ainda não foram superadas, corre o risco de uma Era Glacial social mais severa do que qualquer coisa que o país viu desde a Grande Depressão.

Mais de um ano após o fim oficial da recessão, a taxa de desemprego geral permanece consistentemente acima de 9,5%. Mas esse é apenas o número oficial. Quando corrigido para incluir as pessoas que já desistiram de procurar emprego ou mal sobrevivem com as poucas centenas de dólares que ganham em empregos de meio expediente e estão usando suas economias, a taxa real de desemprego sobe para mais de 17%.

Em seu relatório anual atual, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos nota que a “insegurança alimentar” está aumentando, e que 50 milhões de americanos não tiveram condições de comprar comida suficiente para permanecerem com saúde em algum momento do ano passado. Um entre cada oito adultos americanos e uma entre quatro crianças atualmente sobrevive de cupons de alimento do governo. São números inacreditáveis para o país mais rico do mundo.

Ainda mais perturbador é o fato dos Estados Unidos, que sempre foram caracterizados por sua crença inabalável no Sonho Americano e em sua convicção de que qualquer um, mesmo aquele na mais baixa das condições, pode ascender ao topo, estarem começando a perder seu famoso otimismo. Segundo dados recentes, uma minoria significativa de cidadãos americanos atualmente acredita que seus filhos estarão em situação pior do que eles.

Muitos americanos estão começando a perceber que para eles, o Sonho Americano ultimamente mais parece um pesadelo. Eles enfrentam a realidade amarga de cada vez menos empregos, décadas de salários estagnados e aumentos dramáticos na desigualdade. Apenas nos últimos meses – à medida que a economia crescia, mas sem o retorno dos empregos, à medida que os lucros voltavam, mas os números de pobreza aumentavam semanalmente– o país parece ter reconhecido que está lutando com uma crise estrutural profunda, que se desenvolveu por anos. Como escreve o “Washington Post”, a crise financeira foi apenas o último passo – para pior.

Para onde foi todo o dinheiro?

O boom em ações e imóveis, o endividamento louco do país e seu consumo excessivo por muito tempo mascararam o fato de que a grande maioria dos americanos não se beneficiou quase nada com os 30 anos de crescimento econômico. Em 1978, a renda per capita média para os homens nos Estados Unidos era de US$ 45.879. O mesmo número para 2007, corrigido pela inflação, era de US$ 45.113.

Para onde foi todo o dinheiro? Todos os enormes ganhos de mercado e lucros corporativos, os lucros com o boom dos mercados financeiros e o aumento de 110% no produto interno bruto nos últimos 30 anos? Eles foram para aqueles que sempre tiveram mais do que o suficiente.

Enquanto 90% dos americanos viram ganhos apenas modestos em suas rendas desde 1973, as rendas quase triplicaram para as pessoas no topo da pirâmide. Em 1979, um terço dos lucros produzidos pelo país foi para o 1% mais rico da sociedade americana. Hoje são quase 60%. Em 1950, um presidente-executivo corporativo ganhava 30 vezes mais que um trabalhador comum. Hoje ele ganha 300 vezes mais. E hoje, 1% dos americanos é dono de 37% do total da riqueza nacional.

A desigualdade de renda nos Estados Unidos é muito maior hoje do que desde os anos 20, exceto que até agora quase ninguém se importava.

Pouca chance do sonho americano

Nos Estados Unidos, o livre mercado é rei e as pessoas de baixa renda têm apenas a si mesmas para culpar. Aqueles que ganham muito dinheiro são aplaudidos – e copiados. O único problema é que os americanos há muito ignoram o fato de que o Sonho Americano estava se tornando uma realidade para cada vez menos pessoas.

Estatisticamente, os americanos mais pobres têm uma chance de 4% de ingressarem na classe média alta – um número menor do que em quase metade dos países industrializados.

Até o momento, os políticos fracassaram em apresentar soluções para a crescente crise social. Washington ainda está aguardando por empregos que não estão aparecendo. O presidente Barack Obama e seu governo parecem estar depositando suas esperanças na noção de que os americanos no final se reerguerão por meio de iniciativa própria – preferivelmente fazendo o mesmo que sempre fizeram: consumindo. O consumo doméstico é responsável por dois terços do produto econômico americano.

Mas apesar do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, continuar injetando dinheiro no mercado, e apesar do déficit do governo já ter atingido o nível vertiginoso de US$ 1,4 trilhão, esses esforços permanecem malsucedidos.

“As luzes estão apagando por toda a América”, escreveu na semana passada o ganhador do Nobel de economia, Paul Krugman, descrevendo comunidades que nem mais conseguem arcar com a despesa de manter suas ruas.

O problema é que muitos americanos não podem mais gastar dinheiro em produtos de consumo, porque eles não têm economias. Em alguns casos, suas casas perderam metade de seu valor. Eles não mais se qualificam a empréstimos a juros baixos. Eles estão ganhando menos do que antes ou estão desempregados. Isto, por sua vez, reduz ou elimina sua capacidade de pagar impostos.

Apagando as luzes

Como resultado, muitos governos estaduais e prefeituras estão com enormes déficits orçamentários. No Havaí, por exemplo, as escolas estão fechando em algumas sextas-feiras para economizar dinheiro do Estado. Um condado na Geórgia eliminou todos os serviços públicos de ônibus. Colorado Springs, uma cidade de 380 mil habitantes, desligou um terço de seus postes de iluminação para economizar eletricidade.

Há muitas discrepâncias nos Estados Unidos após a crise financeira. De um lado, o Fed está imprimindo dinheiro constantemente e o governo gastou US$ 182 bilhões para resgatar uma só empresa, a seguradora AIG. Por outro, as luzes estão de fato apagando em algumas áreas, porque Washington, citando a necessidade de reduzir gastos, não está disposto a fornecer ajuda financeira aos governos locais. “A América está atualmente na estrada não pavimentada, sem luz, para lugar nenhum”, alerta o economista Krugman.

Chanelle Sabedra já está nessa estrada. Ela e seu marido dormiram em seu carro por três semanas. “Nós nunca imaginávamos que isso aconteceria, nunca”, diz Sabedra. Ela começa a chorar. “Eu sou uma adulta, eu posso cuidar de mim mesma de uma forma ou de outra, e meu marido também, mas meus filhos são pequenos demais para passar por essas coisas.” Sem condições de continuar pagando o aluguel, os Sabedra foram despejados de sua casa em agosto.

Amigos e parentes tinham poucos recursos para ajudá-los. Agora eles vivem em um quarto no abrigo de moradores de rua do Exército da Salvação, no centro de Ventura, que é dirigido pelo capitão Finley.

A queda repentina para moradores de rua é uma realidade difícil de entender, dada as imagens dos Estados Unidos que estamos acostumados a ver nas séries de televisão e filmes. Elas sempre descrevem lares com jardins bem cuidados e dois carros na garagem, com cestas de basquete penduradas sobre a entrada. Essa América ainda existe, mas está encolhendo. E frequentemente aqueles que estão conseguindo manter a ilusão viva têm dificuldade para fazê-lo.

Os americanos estão lutando com um aumento do custo de vida nos últimos 20 anos. No início da década, as famílias já estavam pagando o dobro pelos planos de saúde e hipotecas do que a geração anterior.

“Para lidar, milhões de famílias colocaram os dois pais na força de trabalho”, diz a professora de Harvard, Elizabeth Warren, que foi nomeada pelo presidente Obama para presidir o painel do Congresso para supervisão do programa do governo de resgate aos bancos. Segundo Warren, a família média gastou toda sua renda e gastou todas suas economias “apenas para se manter mais um pouco à tona”.

Dívida crescente

Por carecerem de economias, os americanos começaram a tomar empréstimos para cobrir todas as suas outras despesas, incluindo educação, saúde e consumo. A dívida do consumidor americano atualmente totaliza cerca de US$ 13,5 trilhões.

Muitas pessoas correm o risco de sufocar sob o peso de sua dívida. Aproximadamente 61% dos americanos não têm reservas financeiras e estão vivendo de contracheque a contracheque. Basta uma única conta hospitalar para levar à ruína financeira.

O marido de Chanelle Sabedra encontrou outro emprego, desta vez como funcionário de depósito de uma empresa que produz turbinas para aviões. Mas ele não ganha o suficiente para tirar sua família do abrigo de moradores de rua. “Eu ainda não consegui um novo emprego”, diz Sabedra. O emprego de seu marido não paga o suficiente e o casal agora ingressou nas fileiras de trabalhadores pobres, para quem até dois empregos mal remunerados são insuficientes para alimentar suas famílias. “Nós precisamos de uma segunda renda”, diz Sabedra. “Só a creche do bebê custa US$ 600 por mês por meio dia.”

Nos Estados Unidos pré-recessão, ela e seu marido tinham dois empregos cada para arcar com as despesas. Eles trabalhavam como caixas no Wal-Mart durante o dia e fritavam hambúrgueres no McDonalds ao anoitecer, além de que às vezes passavam metade da noite trabalhando como vigias noturnos ou realizando a limpeza de prédios. Todos eram empregos mal remunerados, longe de serem carreiras, mas a renda somada bastava para manter a família à tona. Nos Estados Unidos pré-recessão, a vida não era luxuosa para Chanelle Sabedra, mas dava para levar se eles estivessem dispostos a trabalhar arduamente e sacrificar o suficiente para permanecer à tona.

Que tipo de emprego ela está procurando agora? “Por qualquer coisa. Em geral estou procurando no varejo, qualquer coisa para começar, mas no momento não há nada”, diz Sabedra.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Eleições estaduais: tudo pela governabilidade

Rivais nacionais se aliam em plano estadual; e PT e PSDB abrem mão de cabeças de chapa

Renato Godoy de Toledo

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Em 1986, a alta popularidade do recém-lançado Plano Cruzado promoveu a maior vitória eleitoral que um partido já apresentou em termos de governos estaduais. À época, o PMDB levou quase todos os Estados brasileiros. O então PFL venceu apenas em Sergipe e o PDS faturou o Distrito Federal.

Hoje, o governo apresenta uma popularidade comparável à do Plano Cruzado na época do pleito de 1986, no entanto, não há indícios de que aquela transferência de votos seja reeditada. A peculiaridade deste próximo processo eleitoral é o fato de os partidos que encabeçam as candidaturas favoritas, PT e PSDB, não terão tanto peso nas disputas estaduais quanto nos anos anteriores.

Para consolidar alianças em nível nacional, o PT optou por ceder a cabeça de chapa para aliados, como PSB e PMDB. Os partidos que compuseram a extinta Frente de Esquerda – que apoiou Heloísa Helena à presidência da República em 2006 – são os que possuem o maior número de candidaturas. Justamente por não terem reeditado a aliança, Psol, PSTU e PCB lideram a lista de postulantes aos governos estaduais.

Despolitização

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6716

Uma em cada 7 brasileiras entre 18 e 39 anos já fez aborto, diz pesquisa

O Globo

Pesquisa nacional inédita do Ministério da Saúde revela que 5 milhões de brasileiras de até 39 anos, uma em cada sete, já fez pelo menos um aborto. A proporção é ainda maior quando analisada a faixa etária de 35 a 39 anos: uma em cada cinco.

O estudo, financiado pelo ministério e realizado pelo instituto Ibope, ouviu 2.002 mulheres entre 18 e 39 anos, de todas as capitais brasileiras e mais os municípios acima de 5 mil habitantes. Não foram incluídas as que vivem na zona rural e as analfabetas.

De acordo com os números apresentados, 48% das mulheres que abortaram usaram algum medicamento. Esse procedimento levou 55% delas a ficarem internadas.

A maior frequência da prática foi registrada entre as mulheres com baixo nível de escolaridade, sendo 23% delas com até o quarto ano do ensino fundamental e 12% entre aqueles que concluíram o ensino médio.

De acordo com a antropóloga da Universidade de Brasília, Debora Diniz, a maioria das mulheres é casada, religiosa e já com filhos, quase todas com baixa escolaridade.

- Elas já têm experiência da maternidade e tanta convicção de que não podem ter outro filho no momento que, mesmo correndo o risco de serem presas, interrompem a gestação, diz a principal autora do estudo.

Para o assessor especial do ministro José Gomes Temporão, Adson França, os dados mais uma vez confirmam a opinião do Ministério da Saúde de que aborto é uma questão de saúde pública.

- Por isso devemos ampliar a oferta de métodos contraceptivos no Sistema Único de Saúde (SUS), que já atende 34,5 milhões de usuárias.

Número de abortos não é estimado

A pesquisa, no entanto, não estima o número de abortos em todo o país. Contudo, explica Débora, o número é com certeza maior do que o número de mulheres que abortam pelo fato de uma mesma mulher poder ter feito mais de um aborto

- O número também sobe se as áreas rurais e a população analfabeta forem computadas.

A técnica utilizada é parecida a de pesquisas eleitorais, com anonimato garantido e margem de erro de apenas 2%. As analfabetas foram excluídas porque não poderiam preencher o questionário.

Fonte: O Globo – http://oglobo.globo.com/

Os refugos do mundo – figuras do pária

Eleni Varikas

Do século XVI ao século XVIII, o termo pária, cunhado por viajantes ocidentais, oficiais do império ou missionários para designar a degradação dos marginalizados na Índia, era corrente em círculos letrados portugueses, ingleses, franceses, alemães e holandeses. No discurso iluminista – e ao longo do século XIX -, o termo adquiriu um novo sentido, relacionado à conotação cada vez mais pejorativa de "casta". Assim, a metáfora do pária representa uma expressão idiomática de crítica à autoridade arbitrária e à exclusão social e política persistente. Graças à literatura, ao teatro e à opera, ela adentra os espaços públicos literário e plebeu europeus, dando nome às hierarquias modernas invisíveis e denunciando a construção desumanizadora do outro em um mundo que alega ter a universalidade dos direitos humanos como seu princípio fundador.

Genealogias e peregrinações do pária

"Desconhecido de todos os nativos."

Um termo exótico nos barcos dos conquistadores portugueses.

A entrada do pária na cultura e no vocabulário políticos ocidentais é marcada de paradoxos e ironias. A primeira e não a menor de todas diz respeito ao próprio termo que, embora originário da Índia, é… desconhecido nesse país. O glossário de Hobson-Jobson, fonte de autoridade para o vocabulário anglo-indiano, nos informa que, pelo menos em sua acepção ocidental, o termo era "desconhecido de todos os nativos, exceto aqueles que o aprenderam de nós" (Yule, 1903, p.678).1 Produto de um uso metonímico da palavra parayer (plural parayan2), tocador de tambor, esse termo criado pelos europeus nunca pertenceu, em realidade, ao vocabulário dos indianos. Seu emprego metafórico é entendido ainda hoje como um insulto colonialista que retoma por sua conta a visão bramânica da intocabilidade.3 O Dictionary of Indian English on-line faz uma advertência automática sobre o caráter ofensivo dessa palavra,4 que foi igualmente suprimida ou suavizada nas edições recentes de grandes dicionários britânicos.

Mas as acepções pejorativas ou infamantes continuam presentes no uso da palavra em inglês (pariah) cujo sentido corrente, "marginal", "gentalha", (cão) "sem dono" ou "vadio",5 prevaleceu amplamente sobre as significações críticas que designam a exclusão, a desigualdade e a injustiça – significações dominantes na França, na Alemanha, nos Estados Unidos e em outros países do mundo ocidental. Não que estas últimas estejam isentas de colonialismo. Ao contrário, o pária e as modalidades do seu ingresso no vocabulário ocidental fazem parte dos saberes coloniais que acompanham a conquista. As incompreensões e as confusões que o produziram são sintomáticas dos processos pelos quais os europeus, inicialmente portugueses e holandeses, depois franceses e ingleses, desenvolveram um conhecimento das populações "descobertas", de suas civilizações, de sua organização social. Remontando aos conquistadores portugueses a quem se devem também as primeiras denominações modernas do Outro africano (cf. Boisvert, 2000), a ocorrência mais antiga que encontrei, Pareas, é datada de 1516 e pertence a Duarte Barbosa, navegador e militar que serviu o rei de Portugal na Índia de 1500 a 1517: "Há um outro grupo inferior de pagãos chamados Pareas. Eles não entram em contato com ninguém, são considerados piores que o diabo e evitados por todos; basta olhar para eles para ser contaminado e excomungado".6

A primeira ocorrência inglesa registrada pelos dicionários remonta a 1613, ano em que a Companhia inglesa das Índias Orientais começa a se instalar nas costas de Coromandel. Confundida com os "sem-casta" ou intocáveis, a casta dos tocadores de tambor, um quarto da população de Madras, fornecia igualmente a maioria dos domésticos a serviço dos europeus no sudeste indiano (Yule, 1903). O fato de estarem em contato e sob a observação dos europeus mais do que qualquer outra casta nessa região deve ter contribuído para a aplicação do termo a todas as castas inferiores, incluindo os sem-casta, e para suas conotações negativas que vão se generalizar com a consolidação do império inglês e o desenvolvimento do seu saber sobre a sociedade indiana. Como o restante das informações que formaram esse saber, as que se referem ao pária faziam parte do company orientalism (Ballantine, 2001), isto é, do corpus de conhecimentos sobre as línguas, as religiões e as histórias da Ásia do sul, acumuladas pelos orientalistas da East Indian Company a partir da segunda metade do século XVIII (cf. Bayly, 1996). A transformação desta última em potência territorial permitiu o acesso dos estudiosos e, de maneira mais geral, dos europeus à cultura bramânica (Marshall, 1970, e "Introduction", p.10-2)7 que constitui a fonte não apenas dos conhecimentos sobre o hinduísmo e o sistema de castas, mas também das percepções europeias das castas inferiores e dos sem-casta. Pierre Sonnerat, cujas Voyages aux Indes orientales et à la Chine (1782) ajudaram muito a fazer conhecer o termo e a realidade que ele abrange no seio do espaço público das Luzes, é um exemplo típico. Enviado pela Academia Real das Ciências a fim de melhorar os conhecimentos sobre os países distantes, esse naturalista francês baseia explicitamente seu trabalho científico não só no conhecimento das línguas da Índia, mas também no esforço de representar sua "vida real" segundo o ponto de vista dos "brames [brâmanes]". Para tornar suas observações mais autênticas, ele colabora com estudiosos brâmanes a quem manda fazer pesquisas pelo país; as notáveis gravuras que ilustram seu relato inspiram-se nascompany paintings, miniaturas feitas por artesãos indianos sob encomenda britânica, para serem adaptadas aos gostos e às expectativas orientalistas dos públicos europeus (cf. Ly-Tio-Fane, 1976, 1985). Em A choupana indiana, Bernardin de Saint-Pierre (1818; ed. 1792, p.75) põe em cena, com um humor que nada perdeu de sua força, as condições nas quais estudiosos e acadêmicos partiam, como o seu personagem, ao encontro dos brâmanes sob os auspícios da Companhia que, "para a honra da nação e a glória das ciências", os dotava de uma carruagem tão soberba e imponente que os teriam tomado por "funcionários da companhia das Índias". Não surpreende que esse conhecimento seja marcado pela visão de mundo bramânica, à qual o herói de Bernardin de Saint-Pierre escapa graças a um encontro casual com um pária e à amizade que estabelece com ele.

Os militares e os estudiosos não foram os únicos a transmitir sobre o pária a visão bramânica das castas subalternas e dos sem-casta. Os missionários jesuítas – fonte privilegiada dos filósofos da Luzes (Duchet, 1971, reed. 1995, p.76-7) – tendiam a preferir a conversão dos brâmanes à dos intocáveis, não obstante esses formarem o grosso de sua clientela, assim como já haviam formado a clientela do Islã. O opróbrio lançado pelas altas castas sobre os portugueses que conviviam com as castas inferiores e sobretudo o desafio que representava, para o impulso evangelizador dos jesuítas, a conversão dos hindus considerados como o sumo da espiritualidade levaram muitos deles a se aproximar dos brâmanes e a adotar seus modos de vida. Desembaraçando a casta de suas dimensões religiosas, eles faziam dela uma forma extrema de distinção de classe semelhante à que existia em suas próprias sociedades e, portanto, compatível com a evangelização. O abade Dubois, mesmo tendo vivido durante várias décadas entre castas inferiores – "material" de seu estudo etnográfico -, considerava que as massas desses humildes convertidos não valiam a conversão de um único brâmane (Mohan, 2004, p.243).8 Ele estava convencido de que, sem os "limites sociais" impostos pelo sistema das castas, "obra-prima da legislação indiana", "uma sociedade de pariahs (sic) independentes se tornaria em pouco tempo pior do que as hordas antropófagas que vagueiam nos vastos desertos da África" (Dubois, 1985, p.30-1, grifo meu).

Do século XVI ao XVIII, a palavra "pária" e a realidade que ela designa – assim como reconstitui – circulam nos meios cultos portugueses, ingleses, franceses, holandeses, escandinavos, seguindo os deslocamentos de militares, funcionários imperiais, religiosos, missionários e cientistas. Fala-se de Pareas que têm "a pior das reputações" e de Piriawes "detestados [...] carrascos públicos odiados [...], os homens mais vis, fedorentos e repulsivos que já vi" (Purchas); de uma "casta chamada Pareyaes [...] desprezados de todos, a ponto de, se um outro gentio o tocar, este ser obrigado a purificar-se na água" (Van de Broecke); de "Parreas que são a raça mais ignóbil e a mais vil", que se alimentam de "camundongos e ratos", em suma, um povo "desprezível, fedorento e vil" (Baldaeus); enfim, de Barrier, "uma gente pobre que come todo tipo de carne e outras coisas que os outros julgam impuras" (Phillips).9

A casta: despotismo asiático ou europeu?

A palavra "pária", no entanto, só entra nos espaços públicos literários e políticos europeus no final do século XVIII. Seu aparecimento é precedido pela introdução no vocabulário político do termo "casta".10 Conhecido na Inglaterra desde 1555 com a grafia cast (Dumont, 1995, p.37), esse termo é aparentemente empregado na França desde o começo do século XVII11 e se encontra já em 1740 no Dictionnaire de l’Académie française. Segundo Louis Dumont (1995, p.37), esses empregos são por muito tempo caracterizados pela indistinção entre "casta" e "tribo" e por uma confusão com a divisão antiga da sociedade indiana em quatro categorias. Até a metade do século XVIII, ele é frequentemente empregado na Europa num sentido metafórico, como sinônimo de "condição", "classe" ou "ordem",12 um sentido que, longe de ser crítico ou pejorativo, remete à hierarquia social vista como um continuum, se não harmonioso, pelo menos natural. Se confiarmos na sabedoria dos dicionários, o sentido crítico de casta como grupo exclusivo, como na expressão "espírito de casta", não é empregado em inglês antes de 1807 (Dumont, 1995). Mas, em sua Defesa dos direitos dos homens, Mary Wollstonecraft (1997, p.87) faz um uso crítico dele já em 1791, quando compara o elogio dos privilégios defendidos por Edmund Burke à lógica de casta dos bramins.

Em contrapartida, é por volta da metade do século XVIII que a palavra começa a sofrer uma metamorfose semântica na França. Num contexto em que a legitimidade da dominação absoluta é posta em questão, a organização social da Índia, ou o que dela se percebe, torna-se o objeto (e o tropo) de uma reflexão política que tem mais a ver com a organização social na França e na Europa do que com a hierarquia das castas indianas. Quando Voltaire, falando das quatro castas da Índia, afirma que a desigualdade de classe procede da "desigualdade primitiva dos talentos",13 ele se serve das castas indianas para argumentar a favor de uma nova sociabilidade cuja legitimidade não é mais a dos privilégios hereditários, mas a autoridade legítima das elites instruídas. Do mesmo modo, quando o abade Raynal, vinte anos mais tarde, discute a hipótese segundo a qual a condição dos párias teria sua origem em algum crime que eles teriam cometido, ele não deixa de observar que essa punição é menos bárbara comparada à sorte que sua própria sociedade reserva aos que ela define como criminosos. Enfim, logo após a Revolução, quando Bernardin de Saint-Pierre se inspira nas viagens de Sonnerat e no quadro que oferece do sistema de castas, seu relato toma as liberdades necessárias para fazer da crítica às castas uma crítica à sua própria sociedade: seu objetivo, como ele mesmo afirma no preâmbulo de A choupana indiana, é fustigar a tirania da Igreja Católica, bem como de qualquer outra tirania que, fundada no erro e no preconceito, sustenta o ódio, a escravidão, a perseguição aos judeus e a servidão feudal.14

A instrumentalização do sistema de castas que se observa nesses empregos nada tem de extraordinária. O discurso do outro extraeuropeu é desde o início e antes de tudo um discurso sobre si que ao mesmo tempo hierarquiza, delimita e torna inteligível um nós europeu, distinguindo-o, opondo-o aos outros. A descoberta/invenção do pária faz parte de uma postura intelectual que, mesmo na filosofia radical das Luzes, toma por estabelecido o poder unilateral do logos europeu de nomear e de definir o outro, ainda quando se trata de idealizá-lo ou de defender seus direitos. A glorificação do "selvagem" não anula esse pressuposto de superioridade, pois, como observa Michele Duchet (1971, p.19)a propósito de Rousseau, "ela não tem outra função senão denunciar os males de que sofrem as sociedades fundadas na desigualdade e preparar, por uma crítica radical, sua passagem à sociedade do contrato". Como o selvagem de Rousseau ou o ameríndio de Diderot,15 o pária dos filósofos participa do impensado colonial que limita – pelo menos até o último quarto do século XVIII – o pensamento das Luzes, mesmo quando esse denuncia a barbárie da colonização e da escravidão. O caso do abade Raynal, que constitui uma das duas fontes mais importantes da metáfora do pária, é sintomático. Publicada em 1770, sua História das duas Índias,16 primeira história mundial da colonização, parte não de uma crítica da colonização, mas da busca dos princípios sobre os quais "devemos fundá-la".17 Numa passagem que lembra espantosamente Locke e sua visão do mundo "descoberto" como vasta extensão selvagem (wilderness), Raynal justificava ainda a colonização e suas virtudes civilizadoras:

Enfim, foi ao ver a meus pés essas belas regiões onde florescem as ciências e as artes, e que as trevas da barbárie por tanto tempo ocuparam, que me perguntei: quem abriu esses canais? Quem drenou essas planícies? Quem fundou essas cidades? Quem reuniu, vestiu, civilizou esses povos? E então todas as vozes dos homens esclarecidos que existem entre eles me responderam: foi o comércio, o comércio.

Se ele fustigava as atrocidades sofridas pelos colonizados e a "condição miserável dos escravos na América", sua preocupação era tornar a colonização mais justa e a situação dos escravos mais suportável (livro XI, cap.23). Dez anos mais tarde, na terceira edição da obra e com o auxílio, é verdade, de Diderot, os termos se modificam (1780): a crítica do colonialismo se radicaliza, os escravos são tratados como sujeitos de sua própria emancipação e só falta "um chefe bastante corajoso para conduzi-los à vingança e à carnificina".18

É no quadro dessa radicalização do discurso das Luzes que se inscreve o processo de metaforização que atribuirá à "casta" uma conotação pejorativa. Ele provoca uma bifurcação duradoura na evolução semântica do pária, entre uma perspectiva que poderíamos chamar "neobramânica", porque retoma a visão das castas superiores tais como elas evoluirão no século XIX, e uma outra que tematiza a crítica ao preconceito e à injustiça. A primeira, herdada da história colonial, fará da casta a essência por excelência de uma cultura oriental irremediavelmente hierárquica, imutável e sem medida comum com as civilizações ocidentais. A segunda, originada das Luzes e de sua radicalização, fará da casta o tropo de uma crítica à autoridade arbitrária e à exclusão como tais. Apesar de seus clichês orientalistas, esse tropo busca subterraneamente comparar esse tipo de hierarquia com a dos antigos regimes europeus.

Tais evoluções divergentes do uso da palavra, do seu sentido e de sua metaforização desde o final do século XIX, estão ligadas às vicissitudes e à interação de histórias imperiais e metropolitanas diferentes e conflituosas. Esboçá-las não é aderir à tradição comparatista que postula duas "culturas políticas" opostas, uma "francesa" e uma "anglo-saxã", muito menos reforçar os fantasmas autocomplacentes da exceção que prosperam há dois séculos dos dois lados da Mancha. É evitar, ao contrário, um perigo autoexplicativo, para tentar compreender em suas contingências históricas a formação não de culturas nacionais homogêneas, mas de lógicas políticas que prevaleceram na atribuição do sentido dominante do pária ao longo do século XIX, modelando seus usos majoritários e minoritários em cada língua. Originadas de conflitos sociais e de configurações geopolíticas precisas, essas lógicas esclarecem, para além dos determinismos linguísticos, a heterogeneidade dos usos no interior de um mesmo contexto nacional ou de uma mesma língua (por exemplo, no inglês britânico e americano), mas também as ambiguidades, as sobreposições e as flutuações que possibilitaram as apropriações múltiplas dessa noção.

A perda pela França, em 1763, da quase totalidade do seu império indiano em proveito da Inglaterra certamente favoreceu a associação do pária com a crítica ao império inglês na Índia. O anticolonialismo nunca é tão forte quando se trata das colônias dos outros. Essa rivalidade também esclarece, ao menos em parte, as sensibilidades e os métodos diferentes de produção dos saberes coloniais. Ligada às necessidades do império e à sua gestão econômica e política, a produção britânica dos conhecimentos sobre a Índia será mais diretamente utilitária, enquanto a produção francesa, que continuará dominando a indologia até o final do século XIX, terá um interesse mais filológico e literário (Mohan, 2004, p.228-9). Os "ingleses" usarão a etnografia para afirmar a impermeabilidade da cultura indiana a qualquer mudança e legitimar assim sua missão civilizadora numa região em que o "despotismo oriental" e os milhões de famintos parecem lhes "impor" o que Kipling chamará, no final do século XIX, o "fardo do homem branco". Para os "franceses", a Índia é antes de tudo a terra de uma civilização antiga alimentada por um imaginário rico e geralmente ambíguo das origens – civilização que uma administração benevolente, por exemplo francesa, poderia ter restituído, desembaraçando uma organização social sábia, bem pensada, das escórias que nela se depositaram com o tempo. As traduções dessa civilização são marcadas por um espírito "assimilacionista" que tende a marginalizar ou, ao contrário, a homologar tudo o que é singular ou estranho/estrangeiro, portanto difícil de comunicar ao público ocidental. Tal abordagem, característica das Luzes (Figueira, 1991, p.23-4, 29-30), não é exclusivamente francesa. Na Alemanha dos séculos XVIII e XIX, reencontramos o mesmo fascínio pela literatura e civilização indianas. Fascínio que não impede, aliás, o uso instrumental e eurocêntrico dos empréstimos e referências frequentes à religião e à filosofia indianas; os exemplos de um Goethe ou de um Nietzsche mostram que tais empréstimos são mais retóricos do que fundados num verdadeiro conhecimento da literatura ou da filosofia indianas (Wilhelm, 1961). Todos esses orientalismos compartilham uma visão redutora da sociedade e das culturas da Índia: eles têm em comum uma atenção quase exclusiva ao hinduísmo, a focalização na casta em detrimento das outras dimensões históricas da hierarquia (o parentesco, o status, a realeza), a tendência a abordar o hinduísmo apenas do ponto de vista dos brâmanes (Dirks, 1992, p.66) e, last but not least, a falta de interesse ou mesmo o desprezo pelo Islã indiano. Sua diferença reside na apreciação da sociedade indiana que, embora apreendida pelo prisma bramânico, aparece para uns na sua alteridade radical, para outros na sua relativa comparabilidade ou proximidade com as sociedades ocidentais.

Trata-se, é claro, de tipos ideais, de categorias heurísticas que não explicam a complexidade das tomadas de posição, essas não estando, além disso, ainda verdadeiramente fixadas até o final do século XVIII. Por exemplo, a tentativa de sir William Jones, juiz da Corte suprema de 1783 a 1794, de fazer uma compilação de leis indianas fundadas nas leis de Manu19 implicava uma teoria indo-europeia sobre a afinidade entre o sânscrito, o grego e o latim que supunha a possibilidade de comparações interculturais (Majeed, 1990, p.210). Mas, nos anos 1790, essas diferenças se tornam cada vez mais pronunciadas sob a influência, de um lado, da radicalização do discurso das Luzes e, de outro, da reação conservadora do poder britânico – metropolitano e colonial – à Revolução Francesa. Temendo a difusão das ideias revolucionárias na Índia, mas também as implicações geopolíticas da conquista napoleônica no Egito, a administração colonial cria para suas elites o Fort William College das línguas orientais, no qual uma cultura hindu é recriada para as necessidades do império (ibidem, p. 210-1). As inquietações sobre os perigos que comportava, para as liberdades da metrópole, a adesão a um "despotismo asiático" nas colônias – inquietações que Burke exprimiu de forma eloquente pouco antes da explosão da Revolução Francesa20 – são abandonadas em proveito de uma concepção mais absoluta e militarista do império que se desenvolverá ao longo de todo o século XIX. Ela permitirá conciliar o exercício de um poder colonial despótico, pretensamente necessário à gestão dessa população "asiática", e as liberdades inglesas na metrópole, para fazer dos ingleses um "povo livre, mas conquistador".21 A produção dos saberes britânicos sobre as leis, as práticas e os costumes da Índia será assim reduzida "às dimensões governáveis" dessa. Rompendo com as abordagens históricas precedentes – que, por mais orientalistas que fossem, guardavam na memória os conflitos anteriores à colonização e os traços de uma evolução histórica do sistema de castas (cf. Dirks, 1986) -, os saberes coloniais se apoiarão daí por diante numa sociologia empírica positivista, que faz da casta a essência de uma cultura retrógrada mas imóvel, radicalmente outra e fechada a qualquer transformação social.

Esse discurso culturalista (que marca a literatura ocidental sobre a casta até os nossos dias) acompanha e legitima a criação pela administração britânica de uma burocracia colonial no interior da qual os brâmanes adquirem posições privilegiadas, reforçando assim as percepções bramânicas e as conotações desprezíveis do pária. Como mostrou Nicholas Dirks em sua notável crítica da construção a-histórica do sistema de castas pela etnografia ocidental, a reorganização colonial da ordem social na Índia não só utilizou, como reforçou amplamente e, na prática, reinventou a "tradição" hinduísta da casta que ela afirmava respeitar. Ao situar a casta no centro de um reordenamento colonial, a administração britânica fabricou, por um conjunto de práticas administrativas, "científicas", jurídicas e policiais, uma nova hierarquia de castas que, já no começo do século XIX, tornou-se o princípio organizador do poder colonial. De fato, as classificações estatísticas sobre as bases das diferenciações de casta, a aplicação das leis, o recrutamento militar, as categorizações raciais e biométricas da população segundo as divisões de casta vão dar, ao longo do século XIX, um novo impulso e uma nova base ao poder dos brâmanes, generalizar sua visão da intocabilidade e reforçar as conotações infamantes do termo pária no seio do império. Tendo adquirido um sentido negativo como símbolo do despotismo oriental, a casta fornecerá, ao longo do século, a justificação racional da política que a (re)formulou.

Do outro lado da Mancha, a mesma conjuntura histórica age num outro sentido. No discurso filosófico das Luzes, o processo de metaforização que fará do pária uma figura da modernidade política ocidental radicaliza-se rapidamente a partir de 1780, adotando uma visão crítica da casta percebida do ponto de vista do… pária. Certamente essa visão é simplificadora em relação à complexidade do sistema de castas, muitas vezes caricaturado para as necessidades da argumentação antiabsolutista. Mas, ao mesmo tempo, o processo induz – e estabelece com força – a exigência de uma medida comum de justiça que desmente a alteridade radical e a incomensurabilidade da casta indiana. Pois ele introduz, no campo semântico do pária, um julgamento negativo sobre a casta que diz respeito também, e mesmo especialmente, ao Ocidente "civilizado". Além disso, ao adotar a perspectiva (imaginada) do intocável e não a das castas superiores brâmanes, ele revela as afinidades entre "despotismos" oriental e ocidental. Assim, enquanto, por um lado, a casta é gradualmente (re)constituída como o elemento abjeto, mas incontornável, de uma cultura imutável, incomensurável, fechada à história e à ação política (cf. Dirks, 1992, p.66), por outro, isto é, no discurso das Luzes, a casta, mesmo em sua dimensão mais detestável, convida a uma comparação da hierarquia indiana com a dos antigos regimes ocidentais e – mais tarde – das sociedades ocidentais modernas.

Montesquieu (1979, p.156), que inaugura a conotação pejorativa da palavra "casta" na França, oferece um exemplo eloquente dessa dinâmica:

Uma certa honra que preconceitos de religião estabelecem nas Índias faz que as diversas castastenham horror umas das outras. Essa honra está fundada unicamente na religião; tais distinções de família não formam distinções civis; há o indiano que se julgaria desonrado se comesse com seu rei. Esses tipos de distinções estão ligados a uma certa aversão pelos outros homens, bem diferente dos sentimentos que as diferenças de classes devem engendrar, diferenças que entre nós contêm o amor para com os inferiores. (grifos meus)

Jogando, como costuma fazer, com o "contraste eterno entre as coisas reais e a maneira singular, nova ou bizarra" (Montesquieu, 1993, p.13) de percebê-las, o autor das Cartas persas sugere ao mesmo tempo o que é próximo e o que é distante nas duas sociedades. Próximo, pois o princípio de diferenciação da casta é aqui reformulado em termos de "honra" e aproximado ao princípio monárquico do seu próprio país. Distante, por causa do "horror aos outros homens" associado a essa distinção que o filósofo apresenta como estando nos antípodas dos sentimentos que a inferioridade de classe "deveria" engendrar. Se sua observação reflete uma visão tradicionalista e idealizada da aristocracia, o "espanto" suscitado pela oposição entre eles / entre nós anuncia o elemento inédito que dará ao pária europeu toda a sua força polêmica: a abjeção ligada daí por diante à inferioridade de classe. Mas o enunciado "deveria engendrar" faz pesar uma dúvida sobre o objeto verdadeiro do espanto: é unicamente a hierarquia indiana que é aqui visada, ou essa hierarquia é também a ocasião de fixar novas percepções racializadas da diferença de classe, como as de Boulainvilliers e de Dubois que o filósofo criticou em O espírito das leis?22

O aparecimento da palavra pária nos textos das Luzes radicaliza essa conotação crítica da casta, vinculando-a a uma denúncia sistemática da autoridade arbitrária. Na Encyclopédie, as palavras Paréas, Perréas, Parias, assim como Poulias, Poulichis ou Poulchis, sublinham o caráter inumano e irracional do tratamento dessa "classe de homens" julgada "indigna de participar das vantagens da humanidade".23 "São designados por esse nome [paria] os habitantes idólatras do Industão, uma classe de homens separada de todas as outras, que é o objeto de seuhorror e de seu desprezo. Não lhes é permitido viver com os outros; eles habitam na extremidade das cidades ou no campo, onde têm poços para seu uso nos quais os outros indianos nunca se servem da água. Os Paréas não podem sequer passar, nas cidades, pelas ruas onde moram os brâmanes. São proibidos de entrar nos templos ou pagodes, ‘que eles maculariam com sua presença’. Ganham a vida semeando as terras dos outros, construindo para eles casas de terra ‘e entregando-se aos trabalhos mais vis’. Alimentam-se das vacas, dos cavalos e de outros animais ‘que morrem naturalmente’, o que é a principal fonte de aversão que se tem por eles…".24

Mais que qualquer outro escrito do século das Luzes, porém, é sem dúvida a História filosófica e política dos estabelecimentos e do comércio europeus das duas Índias que faz conhecer, antes da Revolução, a sorte dos párias. De 1770 a 1789, a obra de Raynal terá, apesar da censura, mais de quinze edições clandestinas. Postos a serviço da comunicação das ideias das Luzes, o vivo interesse suscitado pelas narrativas de viagem e o gosto pelo exótico facilitam a difusão da sorte reservada aos intocáveis indianos. A impureza que eles carregam como uma "tara de nascença", a aversão de que são o objeto, os "empregos degradantes" que ocupam na divisão social do trabalho, os rituais de "separação e de purificação", as "interdições da comensalidade" que marcam suas relações com as outras castas, tudo isso é percebido e expresso na época em termos de "banimento da humanidade".

Além dessas tribos, há uma quinta que é o refugo de todas as outras. Os que a compõem exercem os empregos mais vis da sociedade [...]. A entrada nos templos e os mercados públicos lhes são proibidos. [...] É tamanho o horror que inspiram que, se por acaso tocarem alguém que não é de sua tribo, serão privados impunemente de uma vida reputada demasiado vil para merecer a proteção das leis. Tal é, mesmo nos lugares onde uma dominação estrangeira modificou um pouco as ideias, a sorte dos infelizes, conhecidos na costa de Coromandel sob o nome de Párias.25

Histórias e lendas do pária

"Il est sur ce rivage une race flétrie

Une race étrangère au sein de sa patrie

Sans abri protecteur, sans temple hospitalier

Abominable, impie, horrible au peuple entier

Les Parias…"26

(Casimire Delavigne)

Assim, três séculos após o aparecimento da palavra, e quando a crítica à autoridade arbitrária expulsa da Europa a hierarquia e os privilégios hereditários, associados ao obscurantismo oriental, a noção de "pária" parece adquirir de repente uma pertinência e uma inteligibilidade políticas inteiramente europeias. De fato, no momento em que o conceito de humanidade faz sua entrada triunfal como horizonte da universalidade dos direitos é que a figura do pária se introduz na linguagem política da Revolução para enunciar a perplexidade ou a indignação ante a dificuldade de nele incluir integralmente certos indivíduos ou grupos. "É preciso que haja palavreado e citações para provar que um judeu é um homem e que é injusto puni-lo desde o nascimento por vícios reais e supostos que reprovamos em outros homens com os quais ele nada tem em comum a não ser a crença?" (Hourwitz, 2001, p.37), escrevia Zalkind Hourwitz às vésperas da Revolução. Se "a exclusão [...] de uma metade do gênero humano pela outra é algo impossível de explicar segundo o princípio abstrato [dos direitos do homem], [...] em que se baseia vossa constituição?", escrevia Mary Wollstonecraft a Talleyrand, cujo relatório, em 1791, excluía as mulheres da instrução pública,27 enquanto, no mesmo período, Anacharsis Cloots sublinhava com cólera, em suaPetição das domésticas, a persistência de uma "classe proscrita, uma classe abjeta de párias ocidentais". Ora, essa tensão inerente à escolha de um termo tomado da hierarquia das castas para explicar uma sociedade em que a hierarquia se torna ilegítima é precisamente o que nos interessa. Pois aí se constitui o campo semântico que dá à figura do pária sua singularidade "ocidental", sua historicidade própria e, talvez, sua perenidade.

É sob o signo dessa tensão e dos conflitos nela sublinhados que se inventam as palavras, as histórias, as imagens e os gestos que povoam o imaginário do pária. Imaginário do qual ele tirará sua força, sua polissemia e sua capacidade proteiforme de revestir as formas de subjetividade as mais diversas, de nomear as relações de opressão, de desigualdade e de exclusão as mais diferentes. Histórias que encontramos na grande e na média literatura, na imprensa especializada e na imprensa popular, histórias ouvidas e vistas no teatro e na ópera, discutidas e interpretadas à luz de experiências, de contextos históricos e de situações individuais singulares; histórias retomadas e reiteradas nas formas textuais, orais, musicais, pictóricas as mais variadas, nas quais "as palavras refalam e o sentido ressignifica" (Genette, 1972). Histórias que apelam à imaginação – faculdade que permite, como dizia Aristóteles (1995, 427 b 16-20, p.166), "realizar um objeto diante de nossos olhos como fazem os que dispõem as ideias em lugares mnemônicos e com elas constroem imagens". Elas formam uma verdadeira constelação de imagens que, ligadas por uma rede de analogias, permitem aproximações inesperadas entre fontes variadas, diferentes momentos e versões diferentes de um mesmo relato. Permitem desdobrar as correspondências ocultas "entre objetos muito distantes" – o intocável indiano e o pária ocidental, a mulher-autor, o judeu, o invertido -, condensadas na forma necessariamente concisa da metáfora.

Banimento da humanidade. A verdade numa choupana

A primeira dessas histórias, na ordem cronológica mas também do ponto de vista do seu impacto, é A choupana indiana (Bernardin de Saint-Pierre, 1818), o conto filosófico que introduziu a figura do pária em públicos amplos, especializados e comuns, europeus e americanos. Publicado em 1791, em meio aos debates apaixonados acerca da escravidão, da emancipação dos "homens de cor livres", dos judeus, das mulheres, esse conto de Bernardin de Saint-Pierre teve um sucesso imediato; publicado em seguida em Londres, Dublin e Leipzig, foi transformado, em outubro de 1792, numa ópera em um ato intitulada Le Paria e apresentada no teatro da Rue Feydeau em Paris, com música de Gaveau.28 Junto com a História das duas Índias de Raynal, é uma das fontes-chave da difusão da palavra "pária" e será uma das leituras mais populares do século XIX, antes de passar para a literatura infantil no século XX. A busca da verdade por um estudioso inglês na Índia do século XVIII é a ocasião de opor, num espírito satírico e zombeteiro, os brâmanes – e sua arrogante pretensão ao monopólio do saber – e um pária que, excluído da sociedade, possui suficiente distanciamento e desapego para ter acesso à sabedoria e à verdade. Inserida na tradição do exotismo filosófico inspirado na Índia, A choupana indiana opera uma inversão do sentido e da hierarquia dos valores ligados ao sistema de castas. Isso é bastante evidente quando a comparamos aos contos "indianos" de Voltaire e, em particular, à Histoire d’un bon bramin, na qual Bernardin de Saint-Pierre claramente se inspirou. Como na parábola de Voltaire, também aqui há o ponto de vista "objetivo" de um narrador que ridiculariza os preconceitos; como em Voltaire, que confrontava a sabedoria do seu brâmane à tolice de uma velha indiana pobre, feia e ignorante, A choupana cria a oposição entre um brâmane e um pária. Mas, enquanto o "bramin" voltairiano é sábio por ser rico ("Não lhe faltando nada, ele não tinha necessidade de enganar ninguém"), o de Bernardin de Saint-Pierre é limitado e cheio de preconceitos, à imagem de um certo clero ocidental que ele não deixa de alfinetar ocasionalmente. No seu conto, a sabedoria e a filosofia se acham do lado do pária, cuja pobreza e marginalidade são apresentadas como fontes de generosidade e conhecimento de si. A verdade, parece retorquir o autor a Voltaire, não é necessariamente o produto da instrução e menos ainda o apanágio dos ricos. Ao fazê-la sair da boca de um homem "que não tem fé nem lei", Bernardin de Saint-Pierre (1818, p.109) inflete a perspectiva voltairiana segundo a qual "quanto mais miseráveis os homens, mais eles são vis, crédulos e servis". Assim ele põe em dúvida o monopólio da sabedoria que o autor do Cândido atribui às elites letradas. "Instruído pelo infortúnio", seu herói aprende que a mais segura das consolações é "a que se encontra ao retornar a si mesmo", reinventando uma humanidade na meditação solitária da rejeição e da injustiça: "não podendo ser indiano, fiz-me homem" (ibidem, p.101).

Essa inversão é decisiva, pois daí por diante a significação do pária não está mais associada à infâmia. O alvo de Bernardin de Saint-Pierre não é apenas o opróbrio que pesa sobre o pária, mas também a associação do brâmane à sabedoria e à verdade. Uma associação que, no século das Luzes, mostrava a superioridade do brâmane aos olhos dos públicos cultos e que, ainda hoje, está no núcleo do sentido metafórico da palavra brahman nos dicionários de língua inglesa.29 Essa dimensão não escapou aos contemporâneos, como o indica o título que o tradutor inglês deu à sua primeira edição britânica: The Indian cottage or a Search After Truth.30

O sucesso imediato do livro e suas numerosas traduções ao longo de todo o século XIX (razões pelas quais o encontramos hoje em tantas bibliotecas da Europa e da América)31 são difíceis de compreender se não os situamos no quadro da verdadeira "revolta pária na moral" que foi a irrupção, na cena política, daqueles e daquelas que Burke havia qualificado, alguns meses antes, de "multidão suína". Publicada em plena polêmica em torno do novo conceito de "direitos do homem", A choupana encarnou e popularizou junto a gerações sucessivas uma inversão da hierarquia dos valores, dando ao estatuto subalterno dessa "multidão de várias cabeças" um privilégio cognitivo e até mesmo uma superioridade moral e política. Essa dimensão é constitutiva do sentido dopária, como sublinha a homenagem involuntária dos redatores do dicionário clássico Hobson-Jobson a essa "fábula aberrante embora popular", à qual eles fazem remontar o uso corrente de pária e o "halo romântico deslocado[...] que, numa certa medida, está sempre associado a essa palavra".32

Uma raça estrangeira em sua pátria

"Je foule un sol fatal à mes pas interdits

Je suis un fugitif, un profane, un maudit

Je suis um Paria!"

(Casimir Delavigne)

Com efeito, esse halo romântico que acompanhará a figura do pária em todas as suas peregrinações "atinge seu apogeu na peça de Casimir Delavigne" (Yule, 1903), Le Paria. O teatro, que Madame de Staël qualificava de "gênero republicano por excelência", é considerado um meio privilegiado para a educação do povo e a aquisição da eloquência política. Atraindo espectadores de todas as condições, ele promove a figura do pária no centro dos espaços públicos plebeus em plena formação, e isso num momento em que a euforia dos direitos do homem cede o lugar ao desencantamento dos que constatam que a inclusão dessa humanidade "universal" passa por "tíquetes de ingresso" (sic) como o batismo, para retomar a expressão célebre de Heine. Duas peças, uma francesa e uma alemã, concorrem para popularizar a palavra e estabelecer seu sentido metafórico no começo dos anos 1820.33

A tragédia de Delavigne é a segunda história marcante na genealogia do pária. Apresentada em 1º de dezembro de 1821 no teatro de l’Odéon, em Paris, ela conta a desventura de Idamore, um intocável privado como tal do direito de servir seu país, mas que, graças à sua coragem, liberta Benares da ocupação inimiga. Torna-se o chefe da casta dos guerreiros, mas não poderá escapar a seu destino: suas origens são descobertas e ele é condenado à morte por aqueles mesmos que ele havia salvo. O drama é uma denúncia da degradação dos direitos do homem à qual são condenados certos grupos, e desse modo foi percebido pelo público da época. A história se passa obviamente na Índia, mas as alusões à Europa são inúmeras e transparentes. Assim, Alvar, ex-prisioneiro e confidente de Idamore, é um cristão português excomungado que foge da "fúria" da Inquisição, cujo anátema, ele nos diz, "secou em minha testa a água pura do batismo". Antigo ou novo cristão? Não o saberemos. Mas a hipótese de uma referência à condição dos judeus não deve ser descartada, tendo em vista as repetidas alusões a "uma raça estrangeira em sua pátria" e, especialmente, a tensão dramática de um personagem minado pela necessidade de ocultar sua filiação a uma raça decretada infame e pelo gosto amargo de um êxito que implica a rejeição de seus semelhantes. Seja como for, a narração de Alvar – relato dentro do relato como vemos com frequência nas histórias de párias – esboça, em cerca de vinte versos, os traços de uma herança europeia tumultuosa e de maneira nenhuma gloriosa. Ele narra a "sede de conquista" acesa na Europa por Vasco da Gama que foi, para o fugitivo, a ocasião de escapar a seus perseguidores e de se esconder no fundo de um barco que partia para "espoliar" a Índia; depois conta sua prisão merecida ("Eu trazia a escravidão e fui posto a ferros!") e sua libertação pelo chefe militar dos nativos que não era outro senão o pária Idamore:

L’erreur t’a repoussé du milieu des chrétiens

L’homme est partout le même et tes maux sont les miens. (Delavigne, s. d., p.57)

Escrito por um dos primeiros representantes do byronismo francês (Estève, 1907, p.116), esse apelo lírico à solidariedade de todos os perseguidos incomoda então alguns críticos. Um certo Duviquet afirma que, "se é louvável inflamar-se em favor de uma classe proscrita e aviltada, é injusto sacrificar-lhe inteiramente as classes superiores".34 Como as peças anteriores de Casimir Delavigne, O Pária obtém um sucesso imediato. É classificado por Stendhal (1823, p.9) entre as peças mais populares da época. Traduzido quase imediatamente em várias línguas, ele fornece o conteúdo de um número considerável de óperas e melodramas homônimos, de poesias líricas e danças apresentadas na Europa ao longo do século. A tragédia de Delavigne também deixará sua marca nas obras românticas que lhe sucederam, a começar pelo manifesto do romantismo, Hernani35 (Evans, 1932), esse outro "proscrito" cuja história é atravessada de ponta a ponta pelo vocabulário, os tropos e as convenções literárias de O Pária.

Todos… todos iguais!

"And all must love the human form,

In heathen, turk or jew."36

(William Blake)

Se em O Pária de Casimir Delavigne a ideia do "estrangeiro em sua pátria" já é tematizada, é a peça de Michael Beer e sua recepção que associam de maneira explícita e duradoura a palavra à condição dos judeus após a emancipação. Essa segunda tragédia, que faz do pária uma verdadeira metáfora, vem da Alemanha. O interesse pela Índia, presente desde o século XVII, havia marcado as Luzes alemãs sobretudo graças aos escritos de Herder, dos irmãos Schlegel e de Humboldt. Como observou ironicamente Heine,

os portugueses, os holandeses e os ingleses trouxeram os tesouros das Índias em seus barcos. Mas nós não deixaremos que se percam os tesouros espirituais da Índia. Schlegel, Bopp, Humboldt, Frank são hoje nossos viajantes, nossos, às Índias orientais. [As universidades de] Bonn e Munique são boas Companhias! (Wilhelm, 1961, p.397)

A Índia é uma fonte de inspiração poética, como o indicam os poemas do próprio Heine (cf. Flor de lótus) e de Goethe, este último tendo contribuído consideravelmente para popularizar o tema do pária. Inspirado numa lenda citada nas Viagens de Sonnerat, Goethe escreve em 1797 O deus e a dançarina indiana, poema publicado em francês em 1821,37 transformado em ópera e mais tarde musicado por Schubert,38 e que permanecerá muito popular ao longo de todo o século XIX. Além disso, seu poema Pária aparece um ano após a publicação da tragédia de Michael Beer. Ele conta a lenda da mulher de um brâmane, decapitada pelo marido por ter sido infiel em pensamento. Seu filho tenta reanimá-la, mas na pressa cola a cabeça da mãe no corpo de uma criminosa executada, e desse erro nasce uma nova criatura graciosa que é a deusa protetora de todos os párias. Erro oportunamente autorizado por Brama a quem é consagrada a última parte do poema, Prece do pária. Retomada por Thomas Mann (1997), essa lenda dá ensejo a uma reflexão filosófica sobre o conflito entre corpo e alma no romance As cabeças trocadas, que por sua vez dará origem a peças de teatro e espetáculos de dança. O mais recente foi apresentado em abril de 2007 pelo grupo Kanopy Danse Company, em Madison (Estados Unidos).

A peça de Michael Beer, Der Paria, apresenta uma temática do pária bem mais sombria e atormentada que a de Goethe. Ela é marcada por um período de forte ressurgência antissemita na Alemanha após a partida de Napoleão. Esse havia suprimido o imposto especial aos judeus e concedido a eles a igualdade civil. A restauração dos antigos poderes interrompe o processo de emancipação: em 1819, pogroms ocorrem em várias cidades alemãs, estudantes judeus, entre os quais Heine, são expulsos da associação dos estudantes alemães, e a revogação pela Prússia de uma regulamentação de 1812 favorável aos judeus exclui esses da função pública. É nesse contexto que a peça de Beer é apresentada em 22 de dezembro de 1823, em Berlim, onde recebe uma verdadeira ovação dos espectadores e os elogios públicos de Goethe. A tragédia, em um ato, descreve em cores vivas a luta interior de uma natureza nobre contra os efeitos desmoralizadores de uma vida roída pelos preconceitos degradantes que pesam sobre sua "raça". O autor, Michael Beer, talentoso poeta e dramaturgo de 23 anos, provém de uma família judia da Aufklärung (as Luzes): sua mãe mantinha um dos salões berlinenses mais importantes, e seus irmãos eram o compositor Jakob Meyerbeer e o astrônomo Wilhelm Beer (Hertz, 1999). Desde o início, a peça é recebida como uma reflexão sobre o destino dos judeus que, apesar de sua adesão ao projeto de emancipação, veem-se confrontados a uma discriminação sistemática e continuam sendo considerados como estrangeiros em seu próprio país. "Exilado dos caminhos ordinários da vida, expulso da corrente que arrasta o mundo", Gadhi, o herói intocável de Beer, não tem outro consolo senão o amor de sua mulher, Maja, uma indiana da casta dos guerreiros que ele salvou da morte. Mas sua vida é uma "longa lamentação" em meio a um povo que nega sua humanidade. E, como todos sabem, na era do Estado-nação a humanidade depende em grande parte da cidadania, cuja prova culmina no direito de morrer pela pátria: "Eles acariciam seus cães e seus cavalos e nos repelem com nojo, como se a natureza nos tivesse dado apenas a máscara da figura humana. Colocai-me então em vosso nível e haveis de ver se vos assemelho. Dai-me uma vida e pagá-la-ei com juros…".

Descobertos pelo irmão de Maja que quer matar o pária, os dois amantes recusam separar-se e suicidam-se juntos. No momento da morte, e graças ao amor da mulher que fez "da cabana de um mendigo um paraíso na terra", Gadhi se reconcilia com a vida. Mas suas últimas palavras são: "…todos, todos… iguais".39

Apresentada em Paris em 1826, com o mesmo sucesso que em Berlim, essa peça é uma das fontes mais importantes da difusão do sentido metafórico da palavra na Alemanha e de sua duradoura associação com a situação dos judeus após a emancipação. O Pária de Beer constitui igualmente a referência de toda uma tradição teórica – a começar por Max Weber e seu conceito de "povo pária"40 – que fará da figura do pária o quadro conceitual de uma reflexão sociológica e filosófica.

Mary, ou a divindade do rosto humano

"All men are alike (tho’infinitely various)."41

(William Blake)

"See Wollstonecraft, whom no decorum checks,

Arise, the intrepid champion of her sex;

O’er humbled man assert the sovereign claim,

And slight the timid blush of virgin fame."42

(Richard Polwhele, The Unsex’d Females)

Atribuindo a seu intocável alguns dos traços do bom selvagem, o conto filosófico de Bernardin de Saint-Pierre inaugurou um topos literário que dá ao pária a aura poética com que o romantismo irá cercar o indivíduo solitário, o indivíduo esmagado pelas normas sociais que nivelam ou reprimem seus impulsos mais profundos. O "destino" do pária atrai os compositores em busca de obras dramáticas que solicitam a imaginação e a paixão, e oferece um campo privilegiado de exploração da nova estética romântica tal como a vemos enunciada já no final do século XVIII, em Germaine de Staël:

Releio sem parar algumas páginas de um livro intitulado A choupana indiana. Não conheço nada de mais profundo em moralidade sensível do que o quadro da situação do pária, desse homem de uma raça maldita, abandonado pelo universo inteiro [...] causando horror a seus semelhantes sem tê-lo merecido por falta alguma; enfim, o refugo do mundo… É assim que vive o homem sensível nesta terra; ele também pertence a uma raça proscrita, sua língua não é ouvida, seus sentimentos o isolam, seus desejos nunca são realizados, e aquilo que o cerca ou dele se afasta só se aproxima para feri-lo.43

O romantismo dá um forte impulso a essa temática de fascínio e indignação, que pode ser vista como coextensiva a ele, pois ambos se alimentam mutuamente durante o século XIX. Encarnando a subjetividade do "homem sensível", o pária fala à interioridade do espectador ou do leitor, ao mesmo tempo que abre um caminho às relações da literatura com a sociedade e a política. Com isso, ele se torna o símbolo do indivíduo sufocado, inadaptado (ou insubmisso) às normas, do destino terrível e da solidão que acompanham esse indivíduo no período pós-revolucionário dos dois lados da Mancha. Como observou William Blake no final de sua vida, "desde a Revolução Francesa os ingleses se pautam segundo normas impostas pelos outros, num estado de concordância feliz com o qual pelo menos um, eu mesmo, está em discordância" (apud Makdisi, 2003, p.313).

Blake é um dos primeiros a dar uma voz poderosa a essa solidão da dissidência, nos versos que ele envia a um amigo quando, acusado de sedição por suas convicções revolucionárias, é molestado por multidões conformistas.

O why was I born with a different Face?

Why was I not born like the rest of my Race?

When I look each one starts! When I speak I offend

Then, I’m silent & passive & lose every Friend.44

Dois anos mais tarde, em seu poema intitulado Mary, ele retoma os mesmos termos para denunciar o linchamento póstumo de Mary Wollstonecraft, após a publicação do seu romance inacabado, Maria, or the Wrongs of Women, e da biografia publicada por seu marido, William Godwin (1798). O amor extraconjugal da sua heroína Mary chocou a crítica convencional e os liberais interessados no conformismo da Alta Igreja Anglicana [os anglocatólicos]; mas foi a biografia de Wollstonecraft, publicada em 1798, um ano após sua morte, que desencadeou o escândalo. Godwin narra ali, com respeito e franqueza, a vida de sua mulher, sem omitir seu amor pelo pintor Fuselli, que era casado, sua ligação com Gilbert Imlay, e a morte de Fanny, sua filha ilegítima. O livro foi lido como uma "defesa aberta do adultério" segundo a expressão notória de Hannah More. Certamente o momento não foi bem escolhido, nesse período de caça às bruxas, de perseguição a militantes republicanos e dissidentes religiosos, de supressão das liberdades, de censura e temor de uma revolução social. De fato, começa então uma odiosa campanha de difamação pública, pela qual a imprensa antijacobina, lançando Wollstonecraft à sanha grosseira do vulgo, serve-se da "desordem" e da independência de sua vida pessoal para deslegitimar, como imorais, antinacionais e antinaturais, as ideias expressas em suas duas Defesas, dos direitos dos homens e dos direitos das mulheres. Dos dois lados do Atlântico, onde se fez conhecer como porta-voz dos radicais ingleses, Wollstonecraft virou assim o protótipo desses novos monstros, desses autores políticos mulheres que, como dignos descendentes sanguinários de Lady Macbeth, "desfaziam-se do seu sexo" (un’sexed):45 "elas nos guiam ou nos extraviam (extraviando-se elas mesmas) no labirinto da política, ou então nos transformam em selvagens com uma fúria gaulesa",46 escrevia, na Filadélfia, Thomas Mathias. Na linha direta de Burke e suas "fúrias do inferno", o panfleto satírico de Richard Polwhele (1798) contra Wollstonecraft, The Unsex’d Females, que domina essa campanha, fornece à linguagem contrarrevolucionária um lugar-comum que terá um brilhante futuro: numa versão "moderna" e secularizada, o fantasma da indistinção dos sexos, do nivelamento da sociedade e do mundo às avessas é associado a todo projeto de transformação social. "Hiena de saia", "serpente filosofante", "acendedora revolucionária", "prostituta jacobina": aquela que foi a primeira a defender os direitos dos homens, no plural, em nome da "divindade do rosto humano" (human face divine), era agora um monstro desnaturado que desafiava uma norma sexual rígida e repressiva, erigida em "lei da natureza". É esse clima de linchamento moral que Blake exprime poderosamente, sob a forma de canção infantil, empregando ora a voz do narrador, ora a do alter ego fictício da feminista estigmatizada:

Some said she was proud, some called her a whore

And some when she passed by, shut the door.47

Ele fala também da deserção daqueles e daquelas que, tendo compartilhado o sonho da "igual liberdade de cada indivíduo", afastavam-se agora escandalizados, ou dos que, por medo de associar suas ideias à promiscuidade sexual e à imoralidade, não ousavam, por conformismo, defender sua memória e guardavam um silêncio constrangido.

And Mary arose among Friends to be free

But no Friend from henceforward, thou Mary, shalt see.48

With Faces of Scorn and with Eyes of Disdain

Like foul Friends inhabiting Mary’s mild Brain

She remembers no Face like the Human Divine

All Faces have Envy, sweet Mary, but thine.49

Uma atitude que Flora Tristan (1981) ficará chocada de observar, por ocasião de seus Promenades à Londres[Passeios em Londres], nas reações de "pavor" provocadas, meio século mais tarde, pela simples menção daDefesa dos direitos das mulheres, mesmo entre mulheres "ditas progressistas". A socialista francesa, que se identifica por mais de um motivo à sua predecessora britânica, comenta amargamente a eficiência da "calúnia" que "transmite seu ódio de geração a geração, não respeita o túmulo, mesmo a glória não a detém" (ibidem, p.54-5).

"Por que não nasci um homem?", perguntava Mary no romance de Wollstonecraft. É a pergunta de uma jovem que, encerrada pelo marido num hospício, se apaixona por um outro homem e reivindica esse adultério diante do tribunal que a julga. Incapaz de se conformar às normas de feminidade e ao double bind a que está submetida, ela se torna um outcaste, um pária: "Ó, por que nasci com um rosto diferente? / Por que não nasci como essa raça invejosa?" (Blake, 1979, p.160), escreve o poeta no lugar daquela que não está mais presente para se defender.

O, why was I born with a different Face?

Why was I not born like this Envious Race? (ibidem, v.II, p.733)

Diferente dos homens aos quais parece "disputar a soberania" como mulher-autor50 política, refratária, por sua liberdade sexual e sua independência, tanto à norma de feminidade quanto à vida das mulheres de seu tempo, situando-se nos antípodas do novo consenso de respeitabilidade britânica suscitado pelo medo, após 1789, da "louca esperança de um mundo às avessas", Mary Wollstonecraft acumula, de fato, rostos diferentes. Desse ponto de vista, ela é uma perfeita candidata à condição de pária que Madame de Staël (1959, t.II, p.333) atribuirá, dois anos mais tarde, à existência desse híbrido que é a mulher publicamente reconhecida, para não dizer a mulher pública:

A opinião parece isentar os homens de todos os deveres para com uma mulher à qual um espírito superior é reconhecido; pode-se ser ingrato, pérfido, mordaz com ela, sem que a opinião se encarregue de vingá-la. Não é ela uma mulher extraordinária? Tudo está dito então. Ela é abandonada a suas próprias forças e deixam-na debater-se com o pitoresco. O interesse que uma mulher inspira, a força que um homem possui, tudo lhe falta ao mesmo tempo: ela leva uma existência singular como os párias da Índia, entre todas as classes das quais não pode participar, classes que a consideram como devendo existir por si mesma, objeto da curiosidade, talvez da inveja, e que não merece senão a piedade. (grifos meus)

Mal de pele: um papagaio, dois macaquinhos e uma pequena cativa

"Perdi um papagaio de cabeça vermelha que eu destinava a Elzéar, dois macaquinhos que eu reservava ao Sr. de Poix… Restam-me uma peruca para a rainha, um cavalo para o marechal de Castries, uma pequena cativa para o Sr. de Beauvau, uma galinha-d’angola para o duque de Laon, uma avestruz para o Sr. de Nivernois…"

(Stanislas Jean, cavaleiro de Bouflers, governador do Senegal de 1785 a 1787)

"Da parte mais negra da minha alma, através da zona sombreada me vem esse desejo de ser, de repente, branco."

(Frantz Fanon)

No reordenamento moral, religioso, político e filosófico do período pós-revolucionário na França, onde vimos que uma normatividade agressiva parece esmagar uma subjetividade recentemente reivindicada, o motivo romântico de um obstáculo que se ergue entre o desejo da alma e o objeto desse desejo toma a forma, no imaginário artístico e político do pária, de um "impedimento" que separa o indivíduo do resto da humanidade e dá ensejo, segundo Sainte-Beuve, à exploração dos "sofrimentos do coração e do amor-próprio que uma tal situação faz[ia] nascer".51 Mais do que um "escravo das circunstâncias" em geral, como costuma ser designado o herói romântico, o pária está ligado a circunstâncias de uma configuração sociopolítica particular, que constrói a diferença como um desvio e uma maldição de nascimento. Ele mobiliza a temática do exílio interior de uma humanidade "des-locada", fora de lugar, num mundo que confunde a unidade do gênero humano com sua identidade. Embora se erga contra a injustiça social, sua força como locus romanticus reside menos na análise precisa desta ou daquela relação social do que na exploração do dano que uma tal injustiça causa a um indivíduo concreto. E é por esse viés, por meio do exame em profundidade e da tematização desse dano, que a figura do pária adquire igualmente um potencial cognitivo precioso para a análise de uma relação social e de dominação, em sua materialidade cotidiana e estrutural.

Os escritos literários de Claire de Duras (1979) oferecem um exemplo apaixonante de exploração desse dano interior sob três formas diferentes, ligadas à articulação do gênero com as barreiras da "raça", da posição social (Duras, 1825) e da sexualidade (Duras, 1971).

Convém aqui determo-nos na primeira dessas novelas, Ourika, pois ela é também a primeira obra a explorar, com uma penetração e uma sutileza de uma atualidade desconcertante, esse dano moral que rói e destrói a subjetividade do pária, e, ao mesmo tempo, a tornar visível essa relação devastadora ainda indizível, sem nome, que é o racismo. Ourika conta a história de uma menina senegalesa, arrancada da escravidão e educada como aristocrata, que se dá conta, aos quinze anos de idade, que seu amor pelo neto da "benfeitora" é "monstruoso". A jovem encantadora, culta e adulada transforma-se assim brutalmente numa "negra, dependente, desprezada [...] rejeitada de um mundo no qual [ela] não era feita para ser aceita" (Duras, 1979, p.36-7).

A novela se inspira na história verdadeira de uma menina senegalesa do mesmo nome, comprada pelo governador do Senegal, o cavaleiro de Bouflers, e oferecida, no final dos anos 1780, à sua tia, a marechala de Beauvau que, como Madame de Duras, mantinha um salão literário em Paris. O marechal de Beauvau era membro da Sociedade dos Amigos dos Negros fundada em 1788, assim como o governador do Senegal que, pouco antes do seu engajamento abolicionista, classificava a "pequena cativa" entre os presentes exóticos que havia adquirido para os amigos: um papagaio, dois macacos, uma peruca e uma galinha-d’angola (apud Little, 1993, p.39). Mas parece que a marechala se afeiçoou muito à pequena Ourika, a quem teria educado com os filhos, como sugerem estas linhas que ela escreveu à morte da jovem, vítima de uma doença: "A morte da minha querida Ourika foi doce como sua vida; ela não conheceu seu perigo, e os cuidados mais ternos e afetuosos lhe foram dados até os últimos momentos por aqueles que estão ligados a mim e que a choram comigo" (ibidem, p.40).

Claire de Duras, que fazia parte desse mesmo meio da nobreza liberal e cuja fortuna, vindo da Martinica, certamente devia muito ao sistema escravagista, se detém nessa ambiguidade, em vez de simplificá-la ou de afastá-la, e faz uma reflexão sobre a complexidade e a invisibilidade do racismo como sistema. Contornando os clichês que, desde Oronoko,52 de Aphra Benh, haviam se introduzido na literatura antiescravagista e faziam donegro romântico um personagem fora do comum, ela recusa dotar Ourika de um sangue nobre ou real, de opor sua superioridade excepcional53 a seus semelhantes ignorantes e primitivos que representam tantas vezes os caracteres secundários negros da literatura do século XIX; evita fazer dela um modelo de abnegação que zela pelo bem-estar dos "benfeitores" ou, ao contrário, um ser pérfido e violento que rumina a vingança contra os "brancos". Sobretudo, poupa-lhe a afronta do estereótipo da negra de sexualidade vulgar e incontrolável, comum no imaginário literário dos contemporâneos,54 para fazer dessa primeira protagonista negra da literatura francófona um dos personagens problemáticos mais singulares e cativantes do século XIX. Ao invés das "negras românticas" cuja superioridade atípica corria o risco de confirmar indiretamente a regra da inferioridade da massa dos negros, Ourika é antes uma menina "comum" de sua casta – a aristocracia esclarecida anterior à Revolução -, com exceção da cor de sua pele da qual, diz ela, "nada [me] indicava que fosse uma desvantagem" (Duras, 1979, p.36). Ela só toma consciência de sua "diferença" no momento em que fica sabendo, pela Sra. de Beauvau, que se trata efetivamente de uma barreira absoluta que "a isolaria no meio da sociedade" e ocasionaria "a perda do prestígio que [a] cercara até então" (ibidem, p.37). É o olhar posto sobre ela que a diferencia dos outros e lhe indica a incongruência de sua simples existência nesse mundo refinado. Uma existência que exige a todo momento explicação ("Era preciso explicar como uma negra fora admitida na sociedade íntima de Madame de B"). E esse olhar inferiorizador da diferença que transtorna sua vida, o leitor o recebe com a mesma brutalidade, como uma chicotada. Ao seguir "por dentro" seu relato na primeira pessoa, ele testemunha em "tempo real", por assim dizer, a constituição da diferença como fonte de inferioridade e desprezo, acompanhando de perto a lenta descida aos infernos da jovem negra esmagada não apenas pela intolerância de uma sociedade na qual ela passa a sentir-se "deslocada", mas também pela condescendência insultante de seus "amigos" e "benfeitores".

Vários comentadores assinalaram com razão a espantosa convergência desse processo de desintegração descrito por Claire de Duras, em 1823, com a análise de Frantz Fanon (1952, p.68) em Peau noire, masques blancs [Pele negra, máscaras brancas]. Como "o negro inferiorizado" pela imagem de si que a sociedade branca lhe devolve (e lhe mostra com insistência), Ourika irá "da insegurança humilhante até a autoacusação e o desespero". Do medo obsessivo de ficar sozinha e ser "perseguida pelo desprezo", do pesadelo de se casar com um homem que, por dinheiro, talvez consentisse que seus filhos fossem negros (Duras, 1979, p.37), Ourika passa a uma violenta aversão de si:

Meu rosto me causava horror, não ousava mais me olhar num espelho; quando meus olhos pousavam em minhas mãos negras, eu acreditava ver nelas as de um macaco; exagerava minha feiura, e essa cor me parecia ser o sinal da minha reprovação; ela é que me separava de todos os seres da minha espécie, que me condenava a ser só, sempre só, jamais amada! Um homem, por dinheiro, talvez consentisse que seus filhos fossem negros! Todo o meu sangue se insurgia de indignação a esse pensamento. (ibidem, p.38, grifo meu)

Essa fenomenologia da humilhação, capaz de despertar a empatia do leitor, revela o que há por trás dessa experiência singular da racização – e que se torna tanto mais eficaz pela dupla condição de negra e de mulher, denegro no feminino: "Quem vai querer casar com uma negra?". A questão não é saber se Ourika quer se casar, mas sim: "quem consentiria que seus filhos fossem negros?".

Para além das preocupações de uma aristocracia obcecada pela pureza da linhagem, o sinistro senso comum da questão chama a atenção para o racismo codificado ao longo dos séculos e para a estrutura que subjaz ao sistema racista. Não se trata apenas da escravidão no além-mar, restabelecida por Napoleão em 1802, mas do seu corolário invisível, o racismo metropolitano instituído por uma regulamentação draconiana reforçada ao longo do tempo. Essa visa, como sublinhava uma carta ministerial citada pelo abade Grégoire alguns anos mais tarde, "não enfraquecer o estado de humilhação ligado à espécie, em qualquer grau que se encontre".55 Donde a perda imediata de função ou de título por "todo habitante que se case com uma negra ou mulata", interdição em vigor desde 1733, ampliada por Luís XVI ao uso de domésticos negros, a fim de impedir sua libertação automática na metrópole, e somada à proibição de entrada de negros na França, mais rígida e absoluta sob Napoleão.

Encerrada num deserto existencial povoado por suas angústias e fobias, Ourika tenta em vão escapar das marcas da abjeção, cobrindo os espelhos, usando luvas ou roupas que lhe escondam a pele. Ela pensa em voltar ao país de seus antepassados, "mas lá também eu teria ficado isolada: quem teria me entendido, me compreendido? Ai, eu não pertencia mais a ninguém" (Duras, 1979, p.38).

Separada da sociedade na qual foi educada pela barreira da cor e da de suas origens por sua posição de classe e educação, ela "não pertence mais a ninguém" e se sente "estranha à raça humana inteira" (ibidem, grifo meu). Desse "mal de pele"56 não pode falar a ninguém, nem mesmo a Charles, o companheiro e amigo de infância. Ao ficar sabendo que esse ama uma outra mulher, ela adoece e decide retirar-se num convento. É lá que conta sua história ao médico (e ao mesmo tempo ao leitor) que cuida dela, antes de "cair com as últimas folhas do outono" (ibidem p.64).

Esquecida até muito recentemente,57 essa notável novela de Claire de Duras conheceu um breve mas verdadeiro triunfo no momento de sua publicação. Causou furor nos círculos literários e nos salões franceses, mas também estrangeiros, como indica a correspondência do grande viajante que foi Humboldt, nos anos 1824-1826. Várias vezes editada em 1824, plagiada na França e no estrangeiro, traduzida em inglês, espanhol e russo, comoveu até as lágrimas Goethe, impressionou Walter Scott e Chateaubriand, e foi denunciada pelos escravagistas martinicanos. Inspirou poemas um tanto medíocres, alguns retratos mais interessantes e deu origem, no teatro, a várias adaptações em 1824.58 Publicada em São Petersburgo nesse mesmo ano, parece que sua leitura incitou Pushkin a falar, em seu romance O negro de Pedro, o Grande, do seu avô, Abraham Hannibal (Gnammankou, 1998), escravo africano vendido ao czar da Rússia e transformado em alta figura do exército russo. Ourikatambém deixou vestígios em La tragédie du roi Christophe, de Aimé Césaire, e em La Migration des Coeurs, de Maryse Condé (Little, 2006, p.20).

Apesar do esquecimento no qual caiu, Ourika ocupa um lugar privilegiado, um papel importante na genealogia que nos interessa; ao introduzir "na literatura da Restauração o personagem trágico do negro situado entre dois mundos, que a cor da pele rejeita da sociedade dos brancos como um pária" (Chalaye, 2005), ela anuncia – e associa ao imaginário do pária – o problema da "dupla consciência" ao qual W. E. B. Du Bois dará uma profundidade teórica e política poderosa no século XX. Longe de sugerir a ideia "de que teria sido melhor para sua felicidade deixar a jovem negra no seu lugar" (ibidem), a novela tematiza um impasse propriamente moderno que se ligará até os nossos dias a essa figura: a de uma sociedade que, embora fazendo nascer "esperanças" quanto à possibilidade de cada um(a) "encontrar seu lugar", mostra que "resta(ria) ainda muito desprezo" (Duras, 1979, p.42) para os que nascem do lado ruim do universal.

Notas

1 Entrada "Pariah, Parriar".

2 Cf. Parayan (Petit Robert), parayar, pl. parayan (Oxford), ou palayan, parayer, periyer, segundo a proveniência linguística dos europeus que o transcreveram, que significa "tocador de tambor", grupo considerado como impuro.

3 Designados como harijans (filhos de Deus), nome eufemístico que lhes deu o Mahatma Gandhi, os intocáveis são hoje oficialmente conhecidos e (auto)designados como dalits, que significa "povos esmagados ou oprimidos".

4 "Do not use this word. It is politically incorrect!", aparece na tela antes de abrir a página na entrada Pariah: n. [Tamil] Outcast. Use of this term is offensive to people belonging to Dictionary of Indian English.

5 Cf. a expressão "pariah dog" como "cão errante ou sem dono". Iraque, Cuba e Líbia são correntemente designados pelos meios de comunicação de língua inglesa de "pariah States", e Slobodan Milosevic de "international pariah". Inversamente, a palavra Pundit, que designava tradicionalmente os brâmanes, é utilizada como sinônimo de pesquisador ou de especialista.

6 Duarte Barbosa, The Book of Duarte Barbosa, An Account of the Countries Bordering on the Indian Ocean and their Inhabitants… Completed About the Year 1518, trad. Mansel Longworth Dames (Nova Delhi: Asian Educational Services, 1989, v.1, p.53-8), que é uma fonte preciosa para as primeiras décadas do império marítimo português na Ásia. Cf. também Historia del descubrimiento y conquista de la India por los Portugueses, compuesta por Hernan Lopez de Castanheda, y traducida nueuamente en Romance Castellano (Antuérpia, En casa de Martin Nucio, 1554. Trad. francesa: Fernando Lopez de Castanheda, L’Histoire des Indes de Portugal…, traduzida do português ao francês por Nicolas de Grouchy, Antuérpia, Iehan Steelsius, 1554). Cf. The American Heritage Dictionary of the English Language (4.ed., Boston: Houghton Mifflin, 2000).

7 Sobre a aproximação da administração colonial com as castas bramânicas, ver também Dirks (2001).

8 Ver também Dubois (1825, 1985).

9 Samuel Purchas, His Pilgrimage, or Relations of the World and the Religions Observed in All Ages, p.553 e 998-9; Pieter Van de Broecke, Reysen naer Oost Indien, 1620, p.82; Philip Baldaeus, Naauwkeurige Beschryvinge van Malabar en Choromandel, der zelver aangrenzende Ryken, en att machtige Eyland Ceylon, Amsterdã,1672, trad. inglesa: A True and Exact Description of the Most Celebrated East-India Coast of Malabar and Coromandel; as also of the Isle of Ceylon, printed for Henry Lintot. Cf. também François Valentijn, Oud en Nieuw Oost-Indien vervattende een naaukeurige en uitvoerige verhandelinge van Nederlands mogentheyd in die gewesten, Amsterdã, 1724-1726, 8v., reed. fac-símile 2003-2004, p.73; J. Phillips, An Account of the Religion, Manners, and Learning of the People of Malabar in the East-Indies. In Several Letters Written by Some of the Most Learned Men of that Country to the Danish Missionaries, Londres, 1717, p.127.

10 Palavra que significa, em português, espanhol e italiano, "puro", "não misturado" ou "casto", mas que remete também a linhagem ou raça no sentido antigo do termo. Segundo o Dicionário da Academia francesa de 1798, "chamam-se assim as tribos nas quais se dividem os idólatras das Índias orientais. A casta dos brâmanes. A casta dos banianes [comerciantes]".

11 1659: port. casta (século XVI), "casta hindu"; fem. de casto, "puro".

12 Cf. Johan Albert Mandelsio, Voyages célèbres et remarquables, faits de Perse aux Indes orientales par Mandelsio, trad. do alemão por Abraham de Wicquefort, 1659. Cf. também Thevenot (1684) e Dellon (1699).

13 Voltaire, Essai sur les moeurs, 1756, p.54 (grifo meu).

14 Preâmbulo a La Chaumière indienne (Bernardin de Saint-Pierre, 1818, t.V, p.216).

15 Como sublinha Yves Benot, o interesse pelos selvagens era mais um estimulante do pensamento político, capaz de abalar as ideias feitas e aceitas, do que propriamente um modelo a imitar. O projetor desloca-se em razão do combate das Luzes, não do interesse etnográfico ou antropológico (Benot, 2005, p.1-12).

16 Abade Raynal, Histoire philosophique et politique des établissements et du commerce européen des deux Indes, 1770.

17 "L’Europe a fondé partout des colonies; mais connaît-elle des principes sur lesquels on doit les fonder?" (Raynal, 1981, p.14).

18 Citado por Ann Thopmson (2003, p.88). Cf. também Benot (1981), que estabeleceu Diderot como o autor desses acréscimos.

19 Compilação que estabelece o sistema bramânico de castas, feita entre os séculos II a.C. e II d.C. (N. T.)

20 Ver também as posições de Edmund Burke no processo de Hastings, em Marshall (2000).

21 Cf. Marshall, 2003, cujo título é inspirado por Edward Said.

22 Cf. Montesquieu, Lettres persanes (1993), livro XXX, a propósito das origens distintas da nobreza e da crítica feita tanto a Boulainvilliers quanto ao abade Dubois, que "fizeram cada qual um sistema, um parecendo ser uma conjuração contra o terceiro-estado, o outro uma conjuração contra a nobreza".

23 Poulichis ou Pulchis, s. m. (Hist. mod.) Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences des arts et des métiers, 1782. v.13, p.204. Grifo meu.

24 Cf. Paréas, Perréas ou Parias (ibidem, grifo meu).

25 Abade Raynal, Histoire philosophique et politique…, op. cit., p.96.

26 "Há uma raça difamada nessa terra / Uma raça estrangeira em sua pátria / Sem proteção, sem templo hospitaleiro / Ímpia, abominável ao povo inteiro / Os Párias…"

27 Mary Wollstonecraft (1997, p.103), "To M. Talleyrand-Périgord, Late Bishop of Autun". Wollstonecraft se refere ao Rapport sur l’instruction publique fait au nom du comité de Constitution à l’Assemblée nationale em 1791, no qual Talleyrand sustenta que a infração à universalidade dos direitos que constitui a exclusão das mulheres da instrução pública é necessária para a felicidade da maioria e, em particular, das mulheres.

28 Cf. Correspondance littéraire, philosophique et critique, tomo 16, por Grimm, Diderot, novembro de 1792.

29 Cf. Concise Oxford e Chambers 20th Century Dictionary, onde "brahman" designa "a person of high social standing and cultivated intellect and taste" ["uma pessoa de alta posição social e de gosto e intelecto cultivados"] ou "a member of social and cultural elite" ["um membro da elite social e cultural"], como na célebre expressão "Boston Brahmans" que designa, desde a segunda metade do século XIX, a velha elite bostoniana de Beacon Hill (cf. Holmes, 1860, cap.1, "The Brahmin Caste of New England").

30 The Indian Cottage or a Search After Truth, by M. Saint-Pierre (London, printed for W. Lane at the Minerva, 1791).

31 Cf., por exemplo, J.-H. Bernardin de Saint-Pierre, The Indian Cottage, Dublin, printed for J.Parker, J. Jones, W. Jones, R. White, J. Rice, R. Mc Allister, 1791; J.-H. Bernardin de Saint-Pierre, Der indianische Strohhutte, Neuwied e Leipzig, Johann Ludwig Gehra, 1791.

32 Cf. Yule (1903, p.678), entrada Pariah, Parriar; grifo meu.

33 O dicionário Robert dá a data de 1821 para o sentido figurado do pária: "Pessoa banida de uma sociedade, de um grupo; excluído. Tratar alguém como um verdadeiro pária. Viver como pária, rejeitado por todos".

34 Maurice Duviquet, "Examen critique du Paria", em Delavigne (s. d., p.122).

35 Drama de Victor Hugo encenado pela primeira vez em 1830. (N. T.)

36 "E todos devem amar a forma humana, no selvagem, no turco, no judeu."

37 "La Bayadère et le Dieu de l’Inde, traduit de Goethe", in OEuvres complètes de Madame la baronne de Staël, publiées par son fils, tomo 17, Paris, Treuttel et Würtz, 1821.

38 Le Dieu et la Bayadère ou la Courtisane amoureuse, ópera em dois atos, libreto de Scribe, música de Daniel-François-Esprit Auber, lançada na Ópera de Paris em 13 de outubro de 1830.

39 Le Paria, tragédia em um ato, por Michel (sic) Beer, trad. por Xavier Marmier, Strasbourg, Impr. F. G. Levraut, rue des Juifs, 1834, p.47.

40 Junto com o abade Raynal (cf. Raphaël, 1976, 1986).

41 "Todos os homens são iguais (embora infinitamente diversos)."

42 "Vejam Wollstonecraft, que sem pudor algum / Se erige em defensora intrépida do seu sexo; / Ao homem rebaixado disputa a soberania / E desdenha o rubor da reputação virginal."

43 Germaine de Staël, De l’influence des passions sur le bonheur des individus et des nations, 1796, seção 3.

44 "Ó, por que nasci com um rosto diferente? / Por que não nasci como o resto da minha Raça? / Quando olho, todos se assustam! Quando falo, ofendo. / Então fico mudo e passivo e perco os amigos." "Blake to Thomas Butt, 16 August 1803" (in The Complete Poetry and Prose of William Blake, David V. Erdman (ed.), New York: Doubleday, 1988).

45 O termo "un’sex" remonta a William Shakespeare, Macbeth, ato I, cena 5; "Come, you spirits / That tend on mortal thoughts, unsex me here / And fill me from the crown to the toe top-full / Of direst cruelty! make thick my blood; / Stop up the access and passage to remorse!" ("Vinde, espíritos que acompanhais os pensamentos de morte; despojai-me do meu sexo e enchei-me, do alto da cabeça à ponta dos pés, da mais implacável crueldade! Engrossai meu sangue, fechai o acesso e a passagem ao remorso!").

46 Cf. Thomas Mathias, Pursuits of Literature: A Satirical Poem in Four Decalogues with notes, Filadélfia, 1800, p.204: "Our unsex’d female writers now instruct, or confuse, us and themselves, in the labyrinth of politics, or turn us wild with Gallic frenzy".

47 "Uns a chamavam de orgulhosa ou de puta, / Outros, ao vê-la passar, fechavam a porta."

48 "Para ser livre entre amigos Mary surgiu, / Mas agora nem mais um amigo, Mary, verás."

49 "No escárnio e no desdém dos falsos amigos / que habitam o espírito manso de Mary, / ela não lembra a divina face humana, / Todas têm inveja, doce Mary, exceto a tua."

50 A propósito da formação do estereótipo da mulher-autor, esse monstro do século XIX, ver Christine Plante (1989).

51 Para retomar a formulação de Sainte-Beuve (1960, v.II, p.1049).

52 Antoine de Laplace, Oronoko ou le Royal Esclave, traduzido do inglês, Amsterdã, 1745.

53 Como Bug-Jargal (1826), de Victor Hugo, Tamango (1829), de Prosper Mérimée, e Atar-Gull (1831), de Eugène Sue. Ver também Hoffmann (1973).

54 A ponto de Gaspar de Pons, que só pensa naquilo, reescrever uma Ourika l’africaine, para fazer da heroína de Claire de Duras uma "jovem de seu país", dominada, apesar da sua educação, por uma sexualidade selvagem na qual "o sangue de Otelo ferve sempre nas veias".

55 Henri Grégoire, De la noblesse de la peau ou Du préjugé des blancs contre la couleur des Africains et celle de leurs descendants noirs et sang-mêlé (1826), texto apresentado por Alain Gresh, Grenoble, Jérôme Millon, cap.1, "Petite collection Atopia", 2002 (grifo meu).

56 Segundo a expressão de Marie-Ange Somdah (1989, p.59).

57 Cf., entre outros, Ourika. An English Translation, by Claire de Duras, trad. John Fowles, Modern Language Association, 1994; Roger Little, Ourika de Madame de Duras, estudo e apresentação de Roger Little, Textes littéraires nº CV, Exeter, University of Exeter Press, nova ed. revista e aumentada, 1988.

58 Entre os quais Merle, Ourika ou l’Orpheline africaine, drame en un acte et en prose, Paris, Chez Quoy, 1824; F. de Courcy, Ourika ou la Négresse, Dr Vaud, DeVilleneuve & Dupeuty, 1824; Alexandre Piccinni, Ourika ou la Petite Négresse, Dr Vaud, Melesville & Carmouche, 1824.

Fonte: Estudo Avançados – http://www.scielo.br

Os refugos do mundo – figuras do pária

Eleni Varikas

Do século XVI ao século XVIII, o termo pária, cunhado por viajantes ocidentais, oficiais do império ou missionários para designar a degradação dos marginalizados na Índia, era corrente em círculos letrados portugueses, ingleses, franceses, alemães e holandeses. No discurso iluminista – e ao longo do século XIX -, o termo adquiriu um novo sentido, relacionado à conotação cada vez mais pejorativa de "casta". Assim, a metáfora do pária representa uma expressão idiomática de crítica à autoridade arbitrária e à exclusão social e política persistente. Graças à literatura, ao teatro e à opera, ela adentra os espaços públicos literário e plebeu europeus, dando nome às hierarquias modernas invisíveis e denunciando a construção desumanizadora do outro em um mundo que alega ter a universalidade dos direitos humanos como seu princípio fundador.

Genealogias e peregrinações do pária

"Desconhecido de todos os nativos."

Um termo exótico nos barcos dos conquistadores portugueses.

A entrada do pária na cultura e no vocabulário políticos ocidentais é marcada de paradoxos e ironias. A primeira e não a menor de todas diz respeito ao próprio termo que, embora originário da Índia, é… desconhecido nesse país. O glossário de Hobson-Jobson, fonte de autoridade para o vocabulário anglo-indiano, nos informa que, pelo menos em sua acepção ocidental, o termo era "desconhecido de todos os nativos, exceto aqueles que o aprenderam de nós" (Yule, 1903, p.678).1 Produto de um uso metonímico da palavra parayer (plural parayan2), tocador de tambor, esse termo criado pelos europeus nunca pertenceu, em realidade, ao vocabulário dos indianos. Seu emprego metafórico é entendido ainda hoje como um insulto colonialista que retoma por sua conta a visão bramânica da intocabilidade.3 O Dictionary of Indian English on-line faz uma advertência automática sobre o caráter ofensivo dessa palavra,4 que foi igualmente suprimida ou suavizada nas edições recentes de grandes dicionários britânicos.

Mas as acepções pejorativas ou infamantes continuam presentes no uso da palavra em inglês (pariah) cujo sentido corrente, "marginal", "gentalha", (cão) "sem dono" ou "vadio",5 prevaleceu amplamente sobre as significações críticas que designam a exclusão, a desigualdade e a injustiça – significações dominantes na França, na Alemanha, nos Estados Unidos e em outros países do mundo ocidental. Não que estas últimas estejam isentas de colonialismo. Ao contrário, o pária e as modalidades do seu ingresso no vocabulário ocidental fazem parte dos saberes coloniais que acompanham a conquista. As incompreensões e as confusões que o produziram são sintomáticas dos processos pelos quais os europeus, inicialmente portugueses e holandeses, depois franceses e ingleses, desenvolveram um conhecimento das populações "descobertas", de suas civilizações, de sua organização social. Remontando aos conquistadores portugueses a quem se devem também as primeiras denominações modernas do Outro africano (cf. Boisvert, 2000), a ocorrência mais antiga que encontrei, Pareas, é datada de 1516 e pertence a Duarte Barbosa, navegador e militar que serviu o rei de Portugal na Índia de 1500 a 1517: "Há um outro grupo inferior de pagãos chamados Pareas. Eles não entram em contato com ninguém, são considerados piores que o diabo e evitados por todos; basta olhar para eles para ser contaminado e excomungado".6

A primeira ocorrência inglesa registrada pelos dicionários remonta a 1613, ano em que a Companhia inglesa das Índias Orientais começa a se instalar nas costas de Coromandel. Confundida com os "sem-casta" ou intocáveis, a casta dos tocadores de tambor, um quarto da população de Madras, fornecia igualmente a maioria dos domésticos a serviço dos europeus no sudeste indiano (Yule, 1903). O fato de estarem em contato e sob a observação dos europeus mais do que qualquer outra casta nessa região deve ter contribuído para a aplicação do termo a todas as castas inferiores, incluindo os sem-casta, e para suas conotações negativas que vão se generalizar com a consolidação do império inglês e o desenvolvimento do seu saber sobre a sociedade indiana. Como o restante das informações que formaram esse saber, as que se referem ao pária faziam parte do company orientalism (Ballantine, 2001), isto é, do corpus de conhecimentos sobre as línguas, as religiões e as histórias da Ásia do sul, acumuladas pelos orientalistas da East Indian Company a partir da segunda metade do século XVIII (cf. Bayly, 1996). A transformação desta última em potência territorial permitiu o acesso dos estudiosos e, de maneira mais geral, dos europeus à cultura bramânica (Marshall, 1970, e "Introduction", p.10-2)7 que constitui a fonte não apenas dos conhecimentos sobre o hinduísmo e o sistema de castas, mas também das percepções europeias das castas inferiores e dos sem-casta. Pierre Sonnerat, cujas Voyages aux Indes orientales et à la Chine (1782) ajudaram muito a fazer conhecer o termo e a realidade que ele abrange no seio do espaço público das Luzes, é um exemplo típico. Enviado pela Academia Real das Ciências a fim de melhorar os conhecimentos sobre os países distantes, esse naturalista francês baseia explicitamente seu trabalho científico não só no conhecimento das línguas da Índia, mas também no esforço de representar sua "vida real" segundo o ponto de vista dos "brames [brâmanes]". Para tornar suas observações mais autênticas, ele colabora com estudiosos brâmanes a quem manda fazer pesquisas pelo país; as notáveis gravuras que ilustram seu relato inspiram-se nascompany paintings, miniaturas feitas por artesãos indianos sob encomenda britânica, para serem adaptadas aos gostos e às expectativas orientalistas dos públicos europeus (cf. Ly-Tio-Fane, 1976, 1985). Em A choupana indiana, Bernardin de Saint-Pierre (1818; ed. 1792, p.75) põe em cena, com um humor que nada perdeu de sua força, as condições nas quais estudiosos e acadêmicos partiam, como o seu personagem, ao encontro dos brâmanes sob os auspícios da Companhia que, "para a honra da nação e a glória das ciências", os dotava de uma carruagem tão soberba e imponente que os teriam tomado por "funcionários da companhia das Índias". Não surpreende que esse conhecimento seja marcado pela visão de mundo bramânica, à qual o herói de Bernardin de Saint-Pierre escapa graças a um encontro casual com um pária e à amizade que estabelece com ele.

Os militares e os estudiosos não foram os únicos a transmitir sobre o pária a visão bramânica das castas subalternas e dos sem-casta. Os missionários jesuítas – fonte privilegiada dos filósofos da Luzes (Duchet, 1971, reed. 1995, p.76-7) – tendiam a preferir a conversão dos brâmanes à dos intocáveis, não obstante esses formarem o grosso de sua clientela, assim como já haviam formado a clientela do Islã. O opróbrio lançado pelas altas castas sobre os portugueses que conviviam com as castas inferiores e sobretudo o desafio que representava, para o impulso evangelizador dos jesuítas, a conversão dos hindus considerados como o sumo da espiritualidade levaram muitos deles a se aproximar dos brâmanes e a adotar seus modos de vida. Desembaraçando a casta de suas dimensões religiosas, eles faziam dela uma forma extrema de distinção de classe semelhante à que existia em suas próprias sociedades e, portanto, compatível com a evangelização. O abade Dubois, mesmo tendo vivido durante várias décadas entre castas inferiores – "material" de seu estudo etnográfico -, considerava que as massas desses humildes convertidos não valiam a conversão de um único brâmane (Mohan, 2004, p.243).8 Ele estava convencido de que, sem os "limites sociais" impostos pelo sistema das castas, "obra-prima da legislação indiana", "uma sociedade de pariahs (sic) independentes se tornaria em pouco tempo pior do que as hordas antropófagas que vagueiam nos vastos desertos da África" (Dubois, 1985, p.30-1, grifo meu).

Do século XVI ao XVIII, a palavra "pária" e a realidade que ela designa – assim como reconstitui – circulam nos meios cultos portugueses, ingleses, franceses, holandeses, escandinavos, seguindo os deslocamentos de militares, funcionários imperiais, religiosos, missionários e cientistas. Fala-se de Pareas que têm "a pior das reputações" e de Piriawes "detestados [...] carrascos públicos odiados [...], os homens mais vis, fedorentos e repulsivos que já vi" (Purchas); de uma "casta chamada Pareyaes [...] desprezados de todos, a ponto de, se um outro gentio o tocar, este ser obrigado a purificar-se na água" (Van de Broecke); de "Parreas que são a raça mais ignóbil e a mais vil", que se alimentam de "camundongos e ratos", em suma, um povo "desprezível, fedorento e vil" (Baldaeus); enfim, de Barrier, "uma gente pobre que come todo tipo de carne e outras coisas que os outros julgam impuras" (Phillips).9

A casta: despotismo asiático ou europeu?

A palavra "pária", no entanto, só entra nos espaços públicos literários e políticos europeus no final do século XVIII. Seu aparecimento é precedido pela introdução no vocabulário político do termo "casta".10 Conhecido na Inglaterra desde 1555 com a grafia cast (Dumont, 1995, p.37), esse termo é aparentemente empregado na França desde o começo do século XVII11 e se encontra já em 1740 no Dictionnaire de l’Académie française. Segundo Louis Dumont (1995, p.37), esses empregos são por muito tempo caracterizados pela indistinção entre "casta" e "tribo" e por uma confusão com a divisão antiga da sociedade indiana em quatro categorias. Até a metade do século XVIII, ele é frequentemente empregado na Europa num sentido metafórico, como sinônimo de "condição", "classe" ou "ordem",12 um sentido que, longe de ser crítico ou pejorativo, remete à hierarquia social vista como um continuum, se não harmonioso, pelo menos natural. Se confiarmos na sabedoria dos dicionários, o sentido crítico de casta como grupo exclusivo, como na expressão "espírito de casta", não é empregado em inglês antes de 1807 (Dumont, 1995). Mas, em sua Defesa dos direitos dos homens, Mary Wollstonecraft (1997, p.87) faz um uso crítico dele já em 1791, quando compara o elogio dos privilégios defendidos por Edmund Burke à lógica de casta dos bramins.

Em contrapartida, é por volta da metade do século XVIII que a palavra começa a sofrer uma metamorfose semântica na França. Num contexto em que a legitimidade da dominação absoluta é posta em questão, a organização social da Índia, ou o que dela se percebe, torna-se o objeto (e o tropo) de uma reflexão política que tem mais a ver com a organização social na França e na Europa do que com a hierarquia das castas indianas. Quando Voltaire, falando das quatro castas da Índia, afirma que a desigualdade de classe procede da "desigualdade primitiva dos talentos",13 ele se serve das castas indianas para argumentar a favor de uma nova sociabilidade cuja legitimidade não é mais a dos privilégios hereditários, mas a autoridade legítima das elites instruídas. Do mesmo modo, quando o abade Raynal, vinte anos mais tarde, discute a hipótese segundo a qual a condição dos párias teria sua origem em algum crime que eles teriam cometido, ele não deixa de observar que essa punição é menos bárbara comparada à sorte que sua própria sociedade reserva aos que ela define como criminosos. Enfim, logo após a Revolução, quando Bernardin de Saint-Pierre se inspira nas viagens de Sonnerat e no quadro que oferece do sistema de castas, seu relato toma as liberdades necessárias para fazer da crítica às castas uma crítica à sua própria sociedade: seu objetivo, como ele mesmo afirma no preâmbulo de A choupana indiana, é fustigar a tirania da Igreja Católica, bem como de qualquer outra tirania que, fundada no erro e no preconceito, sustenta o ódio, a escravidão, a perseguição aos judeus e a servidão feudal.14

A instrumentalização do sistema de castas que se observa nesses empregos nada tem de extraordinária. O discurso do outro extraeuropeu é desde o início e antes de tudo um discurso sobre si que ao mesmo tempo hierarquiza, delimita e torna inteligível um nós europeu, distinguindo-o, opondo-o aos outros. A descoberta/invenção do pária faz parte de uma postura intelectual que, mesmo na filosofia radical das Luzes, toma por estabelecido o poder unilateral do logos europeu de nomear e de definir o outro, ainda quando se trata de idealizá-lo ou de defender seus direitos. A glorificação do "selvagem" não anula esse pressuposto de superioridade, pois, como observa Michele Duchet (1971, p.19)a propósito de Rousseau, "ela não tem outra função senão denunciar os males de que sofrem as sociedades fundadas na desigualdade e preparar, por uma crítica radical, sua passagem à sociedade do contrato". Como o selvagem de Rousseau ou o ameríndio de Diderot,15 o pária dos filósofos participa do impensado colonial que limita – pelo menos até o último quarto do século XVIII – o pensamento das Luzes, mesmo quando esse denuncia a barbárie da colonização e da escravidão. O caso do abade Raynal, que constitui uma das duas fontes mais importantes da metáfora do pária, é sintomático. Publicada em 1770, sua História das duas Índias,16 primeira história mundial da colonização, parte não de uma crítica da colonização, mas da busca dos princípios sobre os quais "devemos fundá-la".17 Numa passagem que lembra espantosamente Locke e sua visão do mundo "descoberto" como vasta extensão selvagem (wilderness), Raynal justificava ainda a colonização e suas virtudes civilizadoras:

Enfim, foi ao ver a meus pés essas belas regiões onde florescem as ciências e as artes, e que as trevas da barbárie por tanto tempo ocuparam, que me perguntei: quem abriu esses canais? Quem drenou essas planícies? Quem fundou essas cidades? Quem reuniu, vestiu, civilizou esses povos? E então todas as vozes dos homens esclarecidos que existem entre eles me responderam: foi o comércio, o comércio.

Se ele fustigava as atrocidades sofridas pelos colonizados e a "condição miserável dos escravos na América", sua preocupação era tornar a colonização mais justa e a situação dos escravos mais suportável (livro XI, cap.23). Dez anos mais tarde, na terceira edição da obra e com o auxílio, é verdade, de Diderot, os termos se modificam (1780): a crítica do colonialismo se radicaliza, os escravos são tratados como sujeitos de sua própria emancipação e só falta "um chefe bastante corajoso para conduzi-los à vingança e à carnificina".18

É no quadro dessa radicalização do discurso das Luzes que se inscreve o processo de metaforização que atribuirá à "casta" uma conotação pejorativa. Ele provoca uma bifurcação duradoura na evolução semântica do pária, entre uma perspectiva que poderíamos chamar "neobramânica", porque retoma a visão das castas superiores tais como elas evoluirão no século XIX, e uma outra que tematiza a crítica ao preconceito e à injustiça. A primeira, herdada da história colonial, fará da casta a essência por excelência de uma cultura oriental irremediavelmente hierárquica, imutável e sem medida comum com as civilizações ocidentais. A segunda, originada das Luzes e de sua radicalização, fará da casta o tropo de uma crítica à autoridade arbitrária e à exclusão como tais. Apesar de seus clichês orientalistas, esse tropo busca subterraneamente comparar esse tipo de hierarquia com a dos antigos regimes europeus.

Tais evoluções divergentes do uso da palavra, do seu sentido e de sua metaforização desde o final do século XIX, estão ligadas às vicissitudes e à interação de histórias imperiais e metropolitanas diferentes e conflituosas. Esboçá-las não é aderir à tradição comparatista que postula duas "culturas políticas" opostas, uma "francesa" e uma "anglo-saxã", muito menos reforçar os fantasmas autocomplacentes da exceção que prosperam há dois séculos dos dois lados da Mancha. É evitar, ao contrário, um perigo autoexplicativo, para tentar compreender em suas contingências históricas a formação não de culturas nacionais homogêneas, mas de lógicas políticas que prevaleceram na atribuição do sentido dominante do pária ao longo do século XIX, modelando seus usos majoritários e minoritários em cada língua. Originadas de conflitos sociais e de configurações geopolíticas precisas, essas lógicas esclarecem, para além dos determinismos linguísticos, a heterogeneidade dos usos no interior de um mesmo contexto nacional ou de uma mesma língua (por exemplo, no inglês britânico e americano), mas também as ambiguidades, as sobreposições e as flutuações que possibilitaram as apropriações múltiplas dessa noção.

A perda pela França, em 1763, da quase totalidade do seu império indiano em proveito da Inglaterra certamente favoreceu a associação do pária com a crítica ao império inglês na Índia. O anticolonialismo nunca é tão forte quando se trata das colônias dos outros. Essa rivalidade também esclarece, ao menos em parte, as sensibilidades e os métodos diferentes de produção dos saberes coloniais. Ligada às necessidades do império e à sua gestão econômica e política, a produção britânica dos conhecimentos sobre a Índia será mais diretamente utilitária, enquanto a produção francesa, que continuará dominando a indologia até o final do século XIX, terá um interesse mais filológico e literário (Mohan, 2004, p.228-9). Os "ingleses" usarão a etnografia para afirmar a impermeabilidade da cultura indiana a qualquer mudança e legitimar assim sua missão civilizadora numa região em que o "despotismo oriental" e os milhões de famintos parecem lhes "impor" o que Kipling chamará, no final do século XIX, o "fardo do homem branco". Para os "franceses", a Índia é antes de tudo a terra de uma civilização antiga alimentada por um imaginário rico e geralmente ambíguo das origens – civilização que uma administração benevolente, por exemplo francesa, poderia ter restituído, desembaraçando uma organização social sábia, bem pensada, das escórias que nela se depositaram com o tempo. As traduções dessa civilização são marcadas por um espírito "assimilacionista" que tende a marginalizar ou, ao contrário, a homologar tudo o que é singular ou estranho/estrangeiro, portanto difícil de comunicar ao público ocidental. Tal abordagem, característica das Luzes (Figueira, 1991, p.23-4, 29-30), não é exclusivamente francesa. Na Alemanha dos séculos XVIII e XIX, reencontramos o mesmo fascínio pela literatura e civilização indianas. Fascínio que não impede, aliás, o uso instrumental e eurocêntrico dos empréstimos e referências frequentes à religião e à filosofia indianas; os exemplos de um Goethe ou de um Nietzsche mostram que tais empréstimos são mais retóricos do que fundados num verdadeiro conhecimento da literatura ou da filosofia indianas (Wilhelm, 1961). Todos esses orientalismos compartilham uma visão redutora da sociedade e das culturas da Índia: eles têm em comum uma atenção quase exclusiva ao hinduísmo, a focalização na casta em detrimento das outras dimensões históricas da hierarquia (o parentesco, o status, a realeza), a tendência a abordar o hinduísmo apenas do ponto de vista dos brâmanes (Dirks, 1992, p.66) e, last but not least, a falta de interesse ou mesmo o desprezo pelo Islã indiano. Sua diferença reside na apreciação da sociedade indiana que, embora apreendida pelo prisma bramânico, aparece para uns na sua alteridade radical, para outros na sua relativa comparabilidade ou proximidade com as sociedades ocidentais.

Trata-se, é claro, de tipos ideais, de categorias heurísticas que não explicam a complexidade das tomadas de posição, essas não estando, além disso, ainda verdadeiramente fixadas até o final do século XVIII. Por exemplo, a tentativa de sir William Jones, juiz da Corte suprema de 1783 a 1794, de fazer uma compilação de leis indianas fundadas nas leis de Manu19 implicava uma teoria indo-europeia sobre a afinidade entre o sânscrito, o grego e o latim que supunha a possibilidade de comparações interculturais (Majeed, 1990, p.210). Mas, nos anos 1790, essas diferenças se tornam cada vez mais pronunciadas sob a influência, de um lado, da radicalização do discurso das Luzes e, de outro, da reação conservadora do poder britânico – metropolitano e colonial – à Revolução Francesa. Temendo a difusão das ideias revolucionárias na Índia, mas também as implicações geopolíticas da conquista napoleônica no Egito, a administração colonial cria para suas elites o Fort William College das línguas orientais, no qual uma cultura hindu é recriada para as necessidades do império (ibidem, p. 210-1). As inquietações sobre os perigos que comportava, para as liberdades da metrópole, a adesão a um "despotismo asiático" nas colônias – inquietações que Burke exprimiu de forma eloquente pouco antes da explosão da Revolução Francesa20 – são abandonadas em proveito de uma concepção mais absoluta e militarista do império que se desenvolverá ao longo de todo o século XIX. Ela permitirá conciliar o exercício de um poder colonial despótico, pretensamente necessário à gestão dessa população "asiática", e as liberdades inglesas na metrópole, para fazer dos ingleses um "povo livre, mas conquistador".21 A produção dos saberes britânicos sobre as leis, as práticas e os costumes da Índia será assim reduzida "às dimensões governáveis" dessa. Rompendo com as abordagens históricas precedentes – que, por mais orientalistas que fossem, guardavam na memória os conflitos anteriores à colonização e os traços de uma evolução histórica do sistema de castas (cf. Dirks, 1986) -, os saberes coloniais se apoiarão daí por diante numa sociologia empírica positivista, que faz da casta a essência de uma cultura retrógrada mas imóvel, radicalmente outra e fechada a qualquer transformação social.

Esse discurso culturalista (que marca a literatura ocidental sobre a casta até os nossos dias) acompanha e legitima a criação pela administração britânica de uma burocracia colonial no interior da qual os brâmanes adquirem posições privilegiadas, reforçando assim as percepções bramânicas e as conotações desprezíveis do pária. Como mostrou Nicholas Dirks em sua notável crítica da construção a-histórica do sistema de castas pela etnografia ocidental, a reorganização colonial da ordem social na Índia não só utilizou, como reforçou amplamente e, na prática, reinventou a "tradição" hinduísta da casta que ela afirmava respeitar. Ao situar a casta no centro de um reordenamento colonial, a administração britânica fabricou, por um conjunto de práticas administrativas, "científicas", jurídicas e policiais, uma nova hierarquia de castas que, já no começo do século XIX, tornou-se o princípio organizador do poder colonial. De fato, as classificações estatísticas sobre as bases das diferenciações de casta, a aplicação das leis, o recrutamento militar, as categorizações raciais e biométricas da população segundo as divisões de casta vão dar, ao longo do século XIX, um novo impulso e uma nova base ao poder dos brâmanes, generalizar sua visão da intocabilidade e reforçar as conotações infamantes do termo pária no seio do império. Tendo adquirido um sentido negativo como símbolo do despotismo oriental, a casta fornecerá, ao longo do século, a justificação racional da política que a (re)formulou.

Do outro lado da Mancha, a mesma conjuntura histórica age num outro sentido. No discurso filosófico das Luzes, o processo de metaforização que fará do pária uma figura da modernidade política ocidental radicaliza-se rapidamente a partir de 1780, adotando uma visão crítica da casta percebida do ponto de vista do… pária. Certamente essa visão é simplificadora em relação à complexidade do sistema de castas, muitas vezes caricaturado para as necessidades da argumentação antiabsolutista. Mas, ao mesmo tempo, o processo induz – e estabelece com força – a exigência de uma medida comum de justiça que desmente a alteridade radical e a incomensurabilidade da casta indiana. Pois ele introduz, no campo semântico do pária, um julgamento negativo sobre a casta que diz respeito também, e mesmo especialmente, ao Ocidente "civilizado". Além disso, ao adotar a perspectiva (imaginada) do intocável e não a das castas superiores brâmanes, ele revela as afinidades entre "despotismos" oriental e ocidental. Assim, enquanto, por um lado, a casta é gradualmente (re)constituída como o elemento abjeto, mas incontornável, de uma cultura imutável, incomensurável, fechada à história e à ação política (cf. Dirks, 1992, p.66), por outro, isto é, no discurso das Luzes, a casta, mesmo em sua dimensão mais detestável, convida a uma comparação da hierarquia indiana com a dos antigos regimes ocidentais e – mais tarde – das sociedades ocidentais modernas.

Montesquieu (1979, p.156), que inaugura a conotação pejorativa da palavra "casta" na França, oferece um exemplo eloquente dessa dinâmica:

Uma certa honra que preconceitos de religião estabelecem nas Índias faz que as diversas castastenham horror umas das outras. Essa honra está fundada unicamente na religião; tais distinções de família não formam distinções civis; há o indiano que se julgaria desonrado se comesse com seu rei. Esses tipos de distinções estão ligados a uma certa aversão pelos outros homens, bem diferente dos sentimentos que as diferenças de classes devem engendrar, diferenças que entre nós contêm o amor para com os inferiores. (grifos meus)

Jogando, como costuma fazer, com o "contraste eterno entre as coisas reais e a maneira singular, nova ou bizarra" (Montesquieu, 1993, p.13) de percebê-las, o autor das Cartas persas sugere ao mesmo tempo o que é próximo e o que é distante nas duas sociedades. Próximo, pois o princípio de diferenciação da casta é aqui reformulado em termos de "honra" e aproximado ao princípio monárquico do seu próprio país. Distante, por causa do "horror aos outros homens" associado a essa distinção que o filósofo apresenta como estando nos antípodas dos sentimentos que a inferioridade de classe "deveria" engendrar. Se sua observação reflete uma visão tradicionalista e idealizada da aristocracia, o "espanto" suscitado pela oposição entre eles / entre nós anuncia o elemento inédito que dará ao pária europeu toda a sua força polêmica: a abjeção ligada daí por diante à inferioridade de classe. Mas o enunciado "deveria engendrar" faz pesar uma dúvida sobre o objeto verdadeiro do espanto: é unicamente a hierarquia indiana que é aqui visada, ou essa hierarquia é também a ocasião de fixar novas percepções racializadas da diferença de classe, como as de Boulainvilliers e de Dubois que o filósofo criticou em O espírito das leis?22

O aparecimento da palavra pária nos textos das Luzes radicaliza essa conotação crítica da casta, vinculando-a a uma denúncia sistemática da autoridade arbitrária. Na Encyclopédie, as palavras Paréas, Perréas, Parias, assim como Poulias, Poulichis ou Poulchis, sublinham o caráter inumano e irracional do tratamento dessa "classe de homens" julgada "indigna de participar das vantagens da humanidade".23 "São designados por esse nome [paria] os habitantes idólatras do Industão, uma classe de homens separada de todas as outras, que é o objeto de seuhorror e de seu desprezo. Não lhes é permitido viver com os outros; eles habitam na extremidade das cidades ou no campo, onde têm poços para seu uso nos quais os outros indianos nunca se servem da água. Os Paréas não podem sequer passar, nas cidades, pelas ruas onde moram os brâmanes. São proibidos de entrar nos templos ou pagodes, ‘que eles maculariam com sua presença’. Ganham a vida semeando as terras dos outros, construindo para eles casas de terra ‘e entregando-se aos trabalhos mais vis’. Alimentam-se das vacas, dos cavalos e de outros animais ‘que morrem naturalmente’, o que é a principal fonte de aversão que se tem por eles…".24

Mais que qualquer outro escrito do século das Luzes, porém, é sem dúvida a História filosófica e política dos estabelecimentos e do comércio europeus das duas Índias que faz conhecer, antes da Revolução, a sorte dos párias. De 1770 a 1789, a obra de Raynal terá, apesar da censura, mais de quinze edições clandestinas. Postos a serviço da comunicação das ideias das Luzes, o vivo interesse suscitado pelas narrativas de viagem e o gosto pelo exótico facilitam a difusão da sorte reservada aos intocáveis indianos. A impureza que eles carregam como uma "tara de nascença", a aversão de que são o objeto, os "empregos degradantes" que ocupam na divisão social do trabalho, os rituais de "separação e de purificação", as "interdições da comensalidade" que marcam suas relações com as outras castas, tudo isso é percebido e expresso na época em termos de "banimento da humanidade".

Além dessas tribos, há uma quinta que é o refugo de todas as outras. Os que a compõem exercem os empregos mais vis da sociedade [...]. A entrada nos templos e os mercados públicos lhes são proibidos. [...] É tamanho o horror que inspiram que, se por acaso tocarem alguém que não é de sua tribo, serão privados impunemente de uma vida reputada demasiado vil para merecer a proteção das leis. Tal é, mesmo nos lugares onde uma dominação estrangeira modificou um pouco as ideias, a sorte dos infelizes, conhecidos na costa de Coromandel sob o nome de Párias.25

Histórias e lendas do pária

"Il est sur ce rivage une race flétrie

Une race étrangère au sein de sa patrie

Sans abri protecteur, sans temple hospitalier

Abominable, impie, horrible au peuple entier

Les Parias…"26

(Casimire Delavigne)

Assim, três séculos após o aparecimento da palavra, e quando a crítica à autoridade arbitrária expulsa da Europa a hierarquia e os privilégios hereditários, associados ao obscurantismo oriental, a noção de "pária" parece adquirir de repente uma pertinência e uma inteligibilidade políticas inteiramente europeias. De fato, no momento em que o conceito de humanidade faz sua entrada triunfal como horizonte da universalidade dos direitos é que a figura do pária se introduz na linguagem política da Revolução para enunciar a perplexidade ou a indignação ante a dificuldade de nele incluir integralmente certos indivíduos ou grupos. "É preciso que haja palavreado e citações para provar que um judeu é um homem e que é injusto puni-lo desde o nascimento por vícios reais e supostos que reprovamos em outros homens com os quais ele nada tem em comum a não ser a crença?" (Hourwitz, 2001, p.37), escrevia Zalkind Hourwitz às vésperas da Revolução. Se "a exclusão [...] de uma metade do gênero humano pela outra é algo impossível de explicar segundo o princípio abstrato [dos direitos do homem], [...] em que se baseia vossa constituição?", escrevia Mary Wollstonecraft a Talleyrand, cujo relatório, em 1791, excluía as mulheres da instrução pública,27 enquanto, no mesmo período, Anacharsis Cloots sublinhava com cólera, em suaPetição das domésticas, a persistência de uma "classe proscrita, uma classe abjeta de párias ocidentais". Ora, essa tensão inerente à escolha de um termo tomado da hierarquia das castas para explicar uma sociedade em que a hierarquia se torna ilegítima é precisamente o que nos interessa. Pois aí se constitui o campo semântico que dá à figura do pária sua singularidade "ocidental", sua historicidade própria e, talvez, sua perenidade.

É sob o signo dessa tensão e dos conflitos nela sublinhados que se inventam as palavras, as histórias, as imagens e os gestos que povoam o imaginário do pária. Imaginário do qual ele tirará sua força, sua polissemia e sua capacidade proteiforme de revestir as formas de subjetividade as mais diversas, de nomear as relações de opressão, de desigualdade e de exclusão as mais diferentes. Histórias que encontramos na grande e na média literatura, na imprensa especializada e na imprensa popular, histórias ouvidas e vistas no teatro e na ópera, discutidas e interpretadas à luz de experiências, de contextos históricos e de situações individuais singulares; histórias retomadas e reiteradas nas formas textuais, orais, musicais, pictóricas as mais variadas, nas quais "as palavras refalam e o sentido ressignifica" (Genette, 1972). Histórias que apelam à imaginação – faculdade que permite, como dizia Aristóteles (1995, 427 b 16-20, p.166), "realizar um objeto diante de nossos olhos como fazem os que dispõem as ideias em lugares mnemônicos e com elas constroem imagens". Elas formam uma verdadeira constelação de imagens que, ligadas por uma rede de analogias, permitem aproximações inesperadas entre fontes variadas, diferentes momentos e versões diferentes de um mesmo relato. Permitem desdobrar as correspondências ocultas "entre objetos muito distantes" – o intocável indiano e o pária ocidental, a mulher-autor, o judeu, o invertido -, condensadas na forma necessariamente concisa da metáfora.

Banimento da humanidade. A verdade numa choupana

A primeira dessas histórias, na ordem cronológica mas também do ponto de vista do seu impacto, é A choupana indiana (Bernardin de Saint-Pierre, 1818), o conto filosófico que introduziu a figura do pária em públicos amplos, especializados e comuns, europeus e americanos. Publicado em 1791, em meio aos debates apaixonados acerca da escravidão, da emancipação dos "homens de cor livres", dos judeus, das mulheres, esse conto de Bernardin de Saint-Pierre teve um sucesso imediato; publicado em seguida em Londres, Dublin e Leipzig, foi transformado, em outubro de 1792, numa ópera em um ato intitulada Le Paria e apresentada no teatro da Rue Feydeau em Paris, com música de Gaveau.28 Junto com a História das duas Índias de Raynal, é uma das fontes-chave da difusão da palavra "pária" e será uma das leituras mais populares do século XIX, antes de passar para a literatura infantil no século XX. A busca da verdade por um estudioso inglês na Índia do século XVIII é a ocasião de opor, num espírito satírico e zombeteiro, os brâmanes – e sua arrogante pretensão ao monopólio do saber – e um pária que, excluído da sociedade, possui suficiente distanciamento e desapego para ter acesso à sabedoria e à verdade. Inserida na tradição do exotismo filosófico inspirado na Índia, A choupana indiana opera uma inversão do sentido e da hierarquia dos valores ligados ao sistema de castas. Isso é bastante evidente quando a comparamos aos contos "indianos" de Voltaire e, em particular, à Histoire d’un bon bramin, na qual Bernardin de Saint-Pierre claramente se inspirou. Como na parábola de Voltaire, também aqui há o ponto de vista "objetivo" de um narrador que ridiculariza os preconceitos; como em Voltaire, que confrontava a sabedoria do seu brâmane à tolice de uma velha indiana pobre, feia e ignorante, A choupana cria a oposição entre um brâmane e um pária. Mas, enquanto o "bramin" voltairiano é sábio por ser rico ("Não lhe faltando nada, ele não tinha necessidade de enganar ninguém"), o de Bernardin de Saint-Pierre é limitado e cheio de preconceitos, à imagem de um certo clero ocidental que ele não deixa de alfinetar ocasionalmente. No seu conto, a sabedoria e a filosofia se acham do lado do pária, cuja pobreza e marginalidade são apresentadas como fontes de generosidade e conhecimento de si. A verdade, parece retorquir o autor a Voltaire, não é necessariamente o produto da instrução e menos ainda o apanágio dos ricos. Ao fazê-la sair da boca de um homem "que não tem fé nem lei", Bernardin de Saint-Pierre (1818, p.109) inflete a perspectiva voltairiana segundo a qual "quanto mais miseráveis os homens, mais eles são vis, crédulos e servis". Assim ele põe em dúvida o monopólio da sabedoria que o autor do Cândido atribui às elites letradas. "Instruído pelo infortúnio", seu herói aprende que a mais segura das consolações é "a que se encontra ao retornar a si mesmo", reinventando uma humanidade na meditação solitária da rejeição e da injustiça: "não podendo ser indiano, fiz-me homem" (ibidem, p.101).

Essa inversão é decisiva, pois daí por diante a significação do pária não está mais associada à infâmia. O alvo de Bernardin de Saint-Pierre não é apenas o opróbrio que pesa sobre o pária, mas também a associação do brâmane à sabedoria e à verdade. Uma associação que, no século das Luzes, mostrava a superioridade do brâmane aos olhos dos públicos cultos e que, ainda hoje, está no núcleo do sentido metafórico da palavra brahman nos dicionários de língua inglesa.29 Essa dimensão não escapou aos contemporâneos, como o indica o título que o tradutor inglês deu à sua primeira edição britânica: The Indian cottage or a Search After Truth.30

O sucesso imediato do livro e suas numerosas traduções ao longo de todo o século XIX (razões pelas quais o encontramos hoje em tantas bibliotecas da Europa e da América)31 são difíceis de compreender se não os situamos no quadro da verdadeira "revolta pária na moral" que foi a irrupção, na cena política, daqueles e daquelas que Burke havia qualificado, alguns meses antes, de "multidão suína". Publicada em plena polêmica em torno do novo conceito de "direitos do homem", A choupana encarnou e popularizou junto a gerações sucessivas uma inversão da hierarquia dos valores, dando ao estatuto subalterno dessa "multidão de várias cabeças" um privilégio cognitivo e até mesmo uma superioridade moral e política. Essa dimensão é constitutiva do sentido dopária, como sublinha a homenagem involuntária dos redatores do dicionário clássico Hobson-Jobson a essa "fábula aberrante embora popular", à qual eles fazem remontar o uso corrente de pária e o "halo romântico deslocado[...] que, numa certa medida, está sempre associado a essa palavra".32

Uma raça estrangeira em sua pátria

"Je foule un sol fatal à mes pas interdits

Je suis un fugitif, un profane, un maudit

Je suis um Paria!"

(Casimir Delavigne)

Com efeito, esse halo romântico que acompanhará a figura do pária em todas as suas peregrinações "atinge seu apogeu na peça de Casimir Delavigne" (Yule, 1903), Le Paria. O teatro, que Madame de Staël qualificava de "gênero republicano por excelência", é considerado um meio privilegiado para a educação do povo e a aquisição da eloquência política. Atraindo espectadores de todas as condições, ele promove a figura do pária no centro dos espaços públicos plebeus em plena formação, e isso num momento em que a euforia dos direitos do homem cede o lugar ao desencantamento dos que constatam que a inclusão dessa humanidade "universal" passa por "tíquetes de ingresso" (sic) como o batismo, para retomar a expressão célebre de Heine. Duas peças, uma francesa e uma alemã, concorrem para popularizar a palavra e estabelecer seu sentido metafórico no começo dos anos 1820.33

A tragédia de Delavigne é a segunda história marcante na genealogia do pária. Apresentada em 1º de dezembro de 1821 no teatro de l’Odéon, em Paris, ela conta a desventura de Idamore, um intocável privado como tal do direito de servir seu país, mas que, graças à sua coragem, liberta Benares da ocupação inimiga. Torna-se o chefe da casta dos guerreiros, mas não poderá escapar a seu destino: suas origens são descobertas e ele é condenado à morte por aqueles mesmos que ele havia salvo. O drama é uma denúncia da degradação dos direitos do homem à qual são condenados certos grupos, e desse modo foi percebido pelo público da época. A história se passa obviamente na Índia, mas as alusões à Europa são inúmeras e transparentes. Assim, Alvar, ex-prisioneiro e confidente de Idamore, é um cristão português excomungado que foge da "fúria" da Inquisição, cujo anátema, ele nos diz, "secou em minha testa a água pura do batismo". Antigo ou novo cristão? Não o saberemos. Mas a hipótese de uma referência à condição dos judeus não deve ser descartada, tendo em vista as repetidas alusões a "uma raça estrangeira em sua pátria" e, especialmente, a tensão dramática de um personagem minado pela necessidade de ocultar sua filiação a uma raça decretada infame e pelo gosto amargo de um êxito que implica a rejeição de seus semelhantes. Seja como for, a narração de Alvar – relato dentro do relato como vemos com frequência nas histórias de párias – esboça, em cerca de vinte versos, os traços de uma herança europeia tumultuosa e de maneira nenhuma gloriosa. Ele narra a "sede de conquista" acesa na Europa por Vasco da Gama que foi, para o fugitivo, a ocasião de escapar a seus perseguidores e de se esconder no fundo de um barco que partia para "espoliar" a Índia; depois conta sua prisão merecida ("Eu trazia a escravidão e fui posto a ferros!") e sua libertação pelo chefe militar dos nativos que não era outro senão o pária Idamore:

L’erreur t’a repoussé du milieu des chrétiens

L’homme est partout le même et tes maux sont les miens. (Delavigne, s. d., p.57)

Escrito por um dos primeiros representantes do byronismo francês (Estève, 1907, p.116), esse apelo lírico à solidariedade de todos os perseguidos incomoda então alguns críticos. Um certo Duviquet afirma que, "se é louvável inflamar-se em favor de uma classe proscrita e aviltada, é injusto sacrificar-lhe inteiramente as classes superiores".34 Como as peças anteriores de Casimir Delavigne, O Pária obtém um sucesso imediato. É classificado por Stendhal (1823, p.9) entre as peças mais populares da época. Traduzido quase imediatamente em várias línguas, ele fornece o conteúdo de um número considerável de óperas e melodramas homônimos, de poesias líricas e danças apresentadas na Europa ao longo do século. A tragédia de Delavigne também deixará sua marca nas obras românticas que lhe sucederam, a começar pelo manifesto do romantismo, Hernani35 (Evans, 1932), esse outro "proscrito" cuja história é atravessada de ponta a ponta pelo vocabulário, os tropos e as convenções literárias de O Pária.

Todos… todos iguais!

"And all must love the human form,

In heathen, turk or jew."36

(William Blake)

Se em O Pária de Casimir Delavigne a ideia do "estrangeiro em sua pátria" já é tematizada, é a peça de Michael Beer e sua recepção que associam de maneira explícita e duradoura a palavra à condição dos judeus após a emancipação. Essa segunda tragédia, que faz do pária uma verdadeira metáfora, vem da Alemanha. O interesse pela Índia, presente desde o século XVII, havia marcado as Luzes alemãs sobretudo graças aos escritos de Herder, dos irmãos Schlegel e de Humboldt. Como observou ironicamente Heine,

os portugueses, os holandeses e os ingleses trouxeram os tesouros das Índias em seus barcos. Mas nós não deixaremos que se percam os tesouros espirituais da Índia. Schlegel, Bopp, Humboldt, Frank são hoje nossos viajantes, nossos, às Índias orientais. [As universidades de] Bonn e Munique são boas Companhias! (Wilhelm, 1961, p.397)

A Índia é uma fonte de inspiração poética, como o indicam os poemas do próprio Heine (cf. Flor de lótus) e de Goethe, este último tendo contribuído consideravelmente para popularizar o tema do pária. Inspirado numa lenda citada nas Viagens de Sonnerat, Goethe escreve em 1797 O deus e a dançarina indiana, poema publicado em francês em 1821,37 transformado em ópera e mais tarde musicado por Schubert,38 e que permanecerá muito popular ao longo de todo o século XIX. Além disso, seu poema Pária aparece um ano após a publicação da tragédia de Michael Beer. Ele conta a lenda da mulher de um brâmane, decapitada pelo marido por ter sido infiel em pensamento. Seu filho tenta reanimá-la, mas na pressa cola a cabeça da mãe no corpo de uma criminosa executada, e desse erro nasce uma nova criatura graciosa que é a deusa protetora de todos os párias. Erro oportunamente autorizado por Brama a quem é consagrada a última parte do poema, Prece do pária. Retomada por Thomas Mann (1997), essa lenda dá ensejo a uma reflexão filosófica sobre o conflito entre corpo e alma no romance As cabeças trocadas, que por sua vez dará origem a peças de teatro e espetáculos de dança. O mais recente foi apresentado em abril de 2007 pelo grupo Kanopy Danse Company, em Madison (Estados Unidos).

A peça de Michael Beer, Der Paria, apresenta uma temática do pária bem mais sombria e atormentada que a de Goethe. Ela é marcada por um período de forte ressurgência antissemita na Alemanha após a partida de Napoleão. Esse havia suprimido o imposto especial aos judeus e concedido a eles a igualdade civil. A restauração dos antigos poderes interrompe o processo de emancipação: em 1819, pogroms ocorrem em várias cidades alemãs, estudantes judeus, entre os quais Heine, são expulsos da associação dos estudantes alemães, e a revogação pela Prússia de uma regulamentação de 1812 favorável aos judeus exclui esses da função pública. É nesse contexto que a peça de Beer é apresentada em 22 de dezembro de 1823, em Berlim, onde recebe uma verdadeira ovação dos espectadores e os elogios públicos de Goethe. A tragédia, em um ato, descreve em cores vivas a luta interior de uma natureza nobre contra os efeitos desmoralizadores de uma vida roída pelos preconceitos degradantes que pesam sobre sua "raça". O autor, Michael Beer, talentoso poeta e dramaturgo de 23 anos, provém de uma família judia da Aufklärung (as Luzes): sua mãe mantinha um dos salões berlinenses mais importantes, e seus irmãos eram o compositor Jakob Meyerbeer e o astrônomo Wilhelm Beer (Hertz, 1999). Desde o início, a peça é recebida como uma reflexão sobre o destino dos judeus que, apesar de sua adesão ao projeto de emancipação, veem-se confrontados a uma discriminação sistemática e continuam sendo considerados como estrangeiros em seu próprio país. "Exilado dos caminhos ordinários da vida, expulso da corrente que arrasta o mundo", Gadhi, o herói intocável de Beer, não tem outro consolo senão o amor de sua mulher, Maja, uma indiana da casta dos guerreiros que ele salvou da morte. Mas sua vida é uma "longa lamentação" em meio a um povo que nega sua humanidade. E, como todos sabem, na era do Estado-nação a humanidade depende em grande parte da cidadania, cuja prova culmina no direito de morrer pela pátria: "Eles acariciam seus cães e seus cavalos e nos repelem com nojo, como se a natureza nos tivesse dado apenas a máscara da figura humana. Colocai-me então em vosso nível e haveis de ver se vos assemelho. Dai-me uma vida e pagá-la-ei com juros…".

Descobertos pelo irmão de Maja que quer matar o pária, os dois amantes recusam separar-se e suicidam-se juntos. No momento da morte, e graças ao amor da mulher que fez "da cabana de um mendigo um paraíso na terra", Gadhi se reconcilia com a vida. Mas suas últimas palavras são: "…todos, todos… iguais".39

Apresentada em Paris em 1826, com o mesmo sucesso que em Berlim, essa peça é uma das fontes mais importantes da difusão do sentido metafórico da palavra na Alemanha e de sua duradoura associação com a situação dos judeus após a emancipação. O Pária de Beer constitui igualmente a referência de toda uma tradição teórica – a começar por Max Weber e seu conceito de "povo pária"40 – que fará da figura do pária o quadro conceitual de uma reflexão sociológica e filosófica.

Mary, ou a divindade do rosto humano

"All men are alike (tho’infinitely various)."41

(William Blake)

"See Wollstonecraft, whom no decorum checks,

Arise, the intrepid champion of her sex;

O’er humbled man assert the sovereign claim,

And slight the timid blush of virgin fame."42

(Richard Polwhele, The Unsex’d Females)

Atribuindo a seu intocável alguns dos traços do bom selvagem, o conto filosófico de Bernardin de Saint-Pierre inaugurou um topos literário que dá ao pária a aura poética com que o romantismo irá cercar o indivíduo solitário, o indivíduo esmagado pelas normas sociais que nivelam ou reprimem seus impulsos mais profundos. O "destino" do pária atrai os compositores em busca de obras dramáticas que solicitam a imaginação e a paixão, e oferece um campo privilegiado de exploração da nova estética romântica tal como a vemos enunciada já no final do século XVIII, em Germaine de Staël:

Releio sem parar algumas páginas de um livro intitulado A choupana indiana. Não conheço nada de mais profundo em moralidade sensível do que o quadro da situação do pária, desse homem de uma raça maldita, abandonado pelo universo inteiro [...] causando horror a seus semelhantes sem tê-lo merecido por falta alguma; enfim, o refugo do mundo… É assim que vive o homem sensível nesta terra; ele também pertence a uma raça proscrita, sua língua não é ouvida, seus sentimentos o isolam, seus desejos nunca são realizados, e aquilo que o cerca ou dele se afasta só se aproxima para feri-lo.43

O romantismo dá um forte impulso a essa temática de fascínio e indignação, que pode ser vista como coextensiva a ele, pois ambos se alimentam mutuamente durante o século XIX. Encarnando a subjetividade do "homem sensível", o pária fala à interioridade do espectador ou do leitor, ao mesmo tempo que abre um caminho às relações da literatura com a sociedade e a política. Com isso, ele se torna o símbolo do indivíduo sufocado, inadaptado (ou insubmisso) às normas, do destino terrível e da solidão que acompanham esse indivíduo no período pós-revolucionário dos dois lados da Mancha. Como observou William Blake no final de sua vida, "desde a Revolução Francesa os ingleses se pautam segundo normas impostas pelos outros, num estado de concordância feliz com o qual pelo menos um, eu mesmo, está em discordância" (apud Makdisi, 2003, p.313).

Blake é um dos primeiros a dar uma voz poderosa a essa solidão da dissidência, nos versos que ele envia a um amigo quando, acusado de sedição por suas convicções revolucionárias, é molestado por multidões conformistas.

O why was I born with a different Face?

Why was I not born like the rest of my Race?

When I look each one starts! When I speak I offend

Then, I’m silent & passive & lose every Friend.44

Dois anos mais tarde, em seu poema intitulado Mary, ele retoma os mesmos termos para denunciar o linchamento póstumo de Mary Wollstonecraft, após a publicação do seu romance inacabado, Maria, or the Wrongs of Women, e da biografia publicada por seu marido, William Godwin (1798). O amor extraconjugal da sua heroína Mary chocou a crítica convencional e os liberais interessados no conformismo da Alta Igreja Anglicana [os anglocatólicos]; mas foi a biografia de Wollstonecraft, publicada em 1798, um ano após sua morte, que desencadeou o escândalo. Godwin narra ali, com respeito e franqueza, a vida de sua mulher, sem omitir seu amor pelo pintor Fuselli, que era casado, sua ligação com Gilbert Imlay, e a morte de Fanny, sua filha ilegítima. O livro foi lido como uma "defesa aberta do adultério" segundo a expressão notória de Hannah More. Certamente o momento não foi bem escolhido, nesse período de caça às bruxas, de perseguição a militantes republicanos e dissidentes religiosos, de supressão das liberdades, de censura e temor de uma revolução social. De fato, começa então uma odiosa campanha de difamação pública, pela qual a imprensa antijacobina, lançando Wollstonecraft à sanha grosseira do vulgo, serve-se da "desordem" e da independência de sua vida pessoal para deslegitimar, como imorais, antinacionais e antinaturais, as ideias expressas em suas duas Defesas, dos direitos dos homens e dos direitos das mulheres. Dos dois lados do Atlântico, onde se fez conhecer como porta-voz dos radicais ingleses, Wollstonecraft virou assim o protótipo desses novos monstros, desses autores políticos mulheres que, como dignos descendentes sanguinários de Lady Macbeth, "desfaziam-se do seu sexo" (un’sexed):45 "elas nos guiam ou nos extraviam (extraviando-se elas mesmas) no labirinto da política, ou então nos transformam em selvagens com uma fúria gaulesa",46 escrevia, na Filadélfia, Thomas Mathias. Na linha direta de Burke e suas "fúrias do inferno", o panfleto satírico de Richard Polwhele (1798) contra Wollstonecraft, The Unsex’d Females, que domina essa campanha, fornece à linguagem contrarrevolucionária um lugar-comum que terá um brilhante futuro: numa versão "moderna" e secularizada, o fantasma da indistinção dos sexos, do nivelamento da sociedade e do mundo às avessas é associado a todo projeto de transformação social. "Hiena de saia", "serpente filosofante", "acendedora revolucionária", "prostituta jacobina": aquela que foi a primeira a defender os direitos dos homens, no plural, em nome da "divindade do rosto humano" (human face divine), era agora um monstro desnaturado que desafiava uma norma sexual rígida e repressiva, erigida em "lei da natureza". É esse clima de linchamento moral que Blake exprime poderosamente, sob a forma de canção infantil, empregando ora a voz do narrador, ora a do alter ego fictício da feminista estigmatizada:

Some said she was proud, some called her a whore

And some when she passed by, shut the door.47

Ele fala também da deserção daqueles e daquelas que, tendo compartilhado o sonho da "igual liberdade de cada indivíduo", afastavam-se agora escandalizados, ou dos que, por medo de associar suas ideias à promiscuidade sexual e à imoralidade, não ousavam, por conformismo, defender sua memória e guardavam um silêncio constrangido.

And Mary arose among Friends to be free

But no Friend from henceforward, thou Mary, shalt see.48

With Faces of Scorn and with Eyes of Disdain

Like foul Friends inhabiting Mary’s mild Brain

She remembers no Face like the Human Divine

All Faces have Envy, sweet Mary, but thine.49

Uma atitude que Flora Tristan (1981) ficará chocada de observar, por ocasião de seus Promenades à Londres[Passeios em Londres], nas reações de "pavor" provocadas, meio século mais tarde, pela simples menção daDefesa dos direitos das mulheres, mesmo entre mulheres "ditas progressistas". A socialista francesa, que se identifica por mais de um motivo à sua predecessora britânica, comenta amargamente a eficiência da "calúnia" que "transmite seu ódio de geração a geração, não respeita o túmulo, mesmo a glória não a detém" (ibidem, p.54-5).

"Por que não nasci um homem?", perguntava Mary no romance de Wollstonecraft. É a pergunta de uma jovem que, encerrada pelo marido num hospício, se apaixona por um outro homem e reivindica esse adultério diante do tribunal que a julga. Incapaz de se conformar às normas de feminidade e ao double bind a que está submetida, ela se torna um outcaste, um pária: "Ó, por que nasci com um rosto diferente? / Por que não nasci como essa raça invejosa?" (Blake, 1979, p.160), escreve o poeta no lugar daquela que não está mais presente para se defender.

O, why was I born with a different Face?

Why was I not born like this Envious Race? (ibidem, v.II, p.733)

Diferente dos homens aos quais parece "disputar a soberania" como mulher-autor50 política, refratária, por sua liberdade sexual e sua independência, tanto à norma de feminidade quanto à vida das mulheres de seu tempo, situando-se nos antípodas do novo consenso de respeitabilidade britânica suscitado pelo medo, após 1789, da "louca esperança de um mundo às avessas", Mary Wollstonecraft acumula, de fato, rostos diferentes. Desse ponto de vista, ela é uma perfeita candidata à condição de pária que Madame de Staël (1959, t.II, p.333) atribuirá, dois anos mais tarde, à existência desse híbrido que é a mulher publicamente reconhecida, para não dizer a mulher pública:

A opinião parece isentar os homens de todos os deveres para com uma mulher à qual um espírito superior é reconhecido; pode-se ser ingrato, pérfido, mordaz com ela, sem que a opinião se encarregue de vingá-la. Não é ela uma mulher extraordinária? Tudo está dito então. Ela é abandonada a suas próprias forças e deixam-na debater-se com o pitoresco. O interesse que uma mulher inspira, a força que um homem possui, tudo lhe falta ao mesmo tempo: ela leva uma existência singular como os párias da Índia, entre todas as classes das quais não pode participar, classes que a consideram como devendo existir por si mesma, objeto da curiosidade, talvez da inveja, e que não merece senão a piedade. (grifos meus)

Mal de pele: um papagaio, dois macaquinhos e uma pequena cativa

"Perdi um papagaio de cabeça vermelha que eu destinava a Elzéar, dois macaquinhos que eu reservava ao Sr. de Poix… Restam-me uma peruca para a rainha, um cavalo para o marechal de Castries, uma pequena cativa para o Sr. de Beauvau, uma galinha-d’angola para o duque de Laon, uma avestruz para o Sr. de Nivernois…"

(Stanislas Jean, cavaleiro de Bouflers, governador do Senegal de 1785 a 1787)

"Da parte mais negra da minha alma, através da zona sombreada me vem esse desejo de ser, de repente, branco."

(Frantz Fanon)

No reordenamento moral, religioso, político e filosófico do período pós-revolucionário na França, onde vimos que uma normatividade agressiva parece esmagar uma subjetividade recentemente reivindicada, o motivo romântico de um obstáculo que se ergue entre o desejo da alma e o objeto desse desejo toma a forma, no imaginário artístico e político do pária, de um "impedimento" que separa o indivíduo do resto da humanidade e dá ensejo, segundo Sainte-Beuve, à exploração dos "sofrimentos do coração e do amor-próprio que uma tal situação faz[ia] nascer".51 Mais do que um "escravo das circunstâncias" em geral, como costuma ser designado o herói romântico, o pária está ligado a circunstâncias de uma configuração sociopolítica particular, que constrói a diferença como um desvio e uma maldição de nascimento. Ele mobiliza a temática do exílio interior de uma humanidade "des-locada", fora de lugar, num mundo que confunde a unidade do gênero humano com sua identidade. Embora se erga contra a injustiça social, sua força como locus romanticus reside menos na análise precisa desta ou daquela relação social do que na exploração do dano que uma tal injustiça causa a um indivíduo concreto. E é por esse viés, por meio do exame em profundidade e da tematização desse dano, que a figura do pária adquire igualmente um potencial cognitivo precioso para a análise de uma relação social e de dominação, em sua materialidade cotidiana e estrutural.

Os escritos literários de Claire de Duras (1979) oferecem um exemplo apaixonante de exploração desse dano interior sob três formas diferentes, ligadas à articulação do gênero com as barreiras da "raça", da posição social (Duras, 1825) e da sexualidade (Duras, 1971).

Convém aqui determo-nos na primeira dessas novelas, Ourika, pois ela é também a primeira obra a explorar, com uma penetração e uma sutileza de uma atualidade desconcertante, esse dano moral que rói e destrói a subjetividade do pária, e, ao mesmo tempo, a tornar visível essa relação devastadora ainda indizível, sem nome, que é o racismo. Ourika conta a história de uma menina senegalesa, arrancada da escravidão e educada como aristocrata, que se dá conta, aos quinze anos de idade, que seu amor pelo neto da "benfeitora" é "monstruoso". A jovem encantadora, culta e adulada transforma-se assim brutalmente numa "negra, dependente, desprezada [...] rejeitada de um mundo no qual [ela] não era feita para ser aceita" (Duras, 1979, p.36-7).

A novela se inspira na história verdadeira de uma menina senegalesa do mesmo nome, comprada pelo governador do Senegal, o cavaleiro de Bouflers, e oferecida, no final dos anos 1780, à sua tia, a marechala de Beauvau que, como Madame de Duras, mantinha um salão literário em Paris. O marechal de Beauvau era membro da Sociedade dos Amigos dos Negros fundada em 1788, assim como o governador do Senegal que, pouco antes do seu engajamento abolicionista, classificava a "pequena cativa" entre os presentes exóticos que havia adquirido para os amigos: um papagaio, dois macacos, uma peruca e uma galinha-d’angola (apud Little, 1993, p.39). Mas parece que a marechala se afeiçoou muito à pequena Ourika, a quem teria educado com os filhos, como sugerem estas linhas que ela escreveu à morte da jovem, vítima de uma doença: "A morte da minha querida Ourika foi doce como sua vida; ela não conheceu seu perigo, e os cuidados mais ternos e afetuosos lhe foram dados até os últimos momentos por aqueles que estão ligados a mim e que a choram comigo" (ibidem, p.40).

Claire de Duras, que fazia parte desse mesmo meio da nobreza liberal e cuja fortuna, vindo da Martinica, certamente devia muito ao sistema escravagista, se detém nessa ambiguidade, em vez de simplificá-la ou de afastá-la, e faz uma reflexão sobre a complexidade e a invisibilidade do racismo como sistema. Contornando os clichês que, desde Oronoko,52 de Aphra Benh, haviam se introduzido na literatura antiescravagista e faziam donegro romântico um personagem fora do comum, ela recusa dotar Ourika de um sangue nobre ou real, de opor sua superioridade excepcional53 a seus semelhantes ignorantes e primitivos que representam tantas vezes os caracteres secundários negros da literatura do século XIX; evita fazer dela um modelo de abnegação que zela pelo bem-estar dos "benfeitores" ou, ao contrário, um ser pérfido e violento que rumina a vingança contra os "brancos". Sobretudo, poupa-lhe a afronta do estereótipo da negra de sexualidade vulgar e incontrolável, comum no imaginário literário dos contemporâneos,54 para fazer dessa primeira protagonista negra da literatura francófona um dos personagens problemáticos mais singulares e cativantes do século XIX. Ao invés das "negras românticas" cuja superioridade atípica corria o risco de confirmar indiretamente a regra da inferioridade da massa dos negros, Ourika é antes uma menina "comum" de sua casta – a aristocracia esclarecida anterior à Revolução -, com exceção da cor de sua pele da qual, diz ela, "nada [me] indicava que fosse uma desvantagem" (Duras, 1979, p.36). Ela só toma consciência de sua "diferença" no momento em que fica sabendo, pela Sra. de Beauvau, que se trata efetivamente de uma barreira absoluta que "a isolaria no meio da sociedade" e ocasionaria "a perda do prestígio que [a] cercara até então" (ibidem, p.37). É o olhar posto sobre ela que a diferencia dos outros e lhe indica a incongruência de sua simples existência nesse mundo refinado. Uma existência que exige a todo momento explicação ("Era preciso explicar como uma negra fora admitida na sociedade íntima de Madame de B"). E esse olhar inferiorizador da diferença que transtorna sua vida, o leitor o recebe com a mesma brutalidade, como uma chicotada. Ao seguir "por dentro" seu relato na primeira pessoa, ele testemunha em "tempo real", por assim dizer, a constituição da diferença como fonte de inferioridade e desprezo, acompanhando de perto a lenta descida aos infernos da jovem negra esmagada não apenas pela intolerância de uma sociedade na qual ela passa a sentir-se "deslocada", mas também pela condescendência insultante de seus "amigos" e "benfeitores".

Vários comentadores assinalaram com razão a espantosa convergência desse processo de desintegração descrito por Claire de Duras, em 1823, com a análise de Frantz Fanon (1952, p.68) em Peau noire, masques blancs [Pele negra, máscaras brancas]. Como "o negro inferiorizado" pela imagem de si que a sociedade branca lhe devolve (e lhe mostra com insistência), Ourika irá "da insegurança humilhante até a autoacusação e o desespero". Do medo obsessivo de ficar sozinha e ser "perseguida pelo desprezo", do pesadelo de se casar com um homem que, por dinheiro, talvez consentisse que seus filhos fossem negros (Duras, 1979, p.37), Ourika passa a uma violenta aversão de si:

Meu rosto me causava horror, não ousava mais me olhar num espelho; quando meus olhos pousavam em minhas mãos negras, eu acreditava ver nelas as de um macaco; exagerava minha feiura, e essa cor me parecia ser o sinal da minha reprovação; ela é que me separava de todos os seres da minha espécie, que me condenava a ser só, sempre só, jamais amada! Um homem, por dinheiro, talvez consentisse que seus filhos fossem negros! Todo o meu sangue se insurgia de indignação a esse pensamento. (ibidem, p.38, grifo meu)

Essa fenomenologia da humilhação, capaz de despertar a empatia do leitor, revela o que há por trás dessa experiência singular da racização – e que se torna tanto mais eficaz pela dupla condição de negra e de mulher, denegro no feminino: "Quem vai querer casar com uma negra?". A questão não é saber se Ourika quer se casar, mas sim: "quem consentiria que seus filhos fossem negros?".

Para além das preocupações de uma aristocracia obcecada pela pureza da linhagem, o sinistro senso comum da questão chama a atenção para o racismo codificado ao longo dos séculos e para a estrutura que subjaz ao sistema racista. Não se trata apenas da escravidão no além-mar, restabelecida por Napoleão em 1802, mas do seu corolário invisível, o racismo metropolitano instituído por uma regulamentação draconiana reforçada ao longo do tempo. Essa visa, como sublinhava uma carta ministerial citada pelo abade Grégoire alguns anos mais tarde, "não enfraquecer o estado de humilhação ligado à espécie, em qualquer grau que se encontre".55 Donde a perda imediata de função ou de título por "todo habitante que se case com uma negra ou mulata", interdição em vigor desde 1733, ampliada por Luís XVI ao uso de domésticos negros, a fim de impedir sua libertação automática na metrópole, e somada à proibição de entrada de negros na França, mais rígida e absoluta sob Napoleão.

Encerrada num deserto existencial povoado por suas angústias e fobias, Ourika tenta em vão escapar das marcas da abjeção, cobrindo os espelhos, usando luvas ou roupas que lhe escondam a pele. Ela pensa em voltar ao país de seus antepassados, "mas lá também eu teria ficado isolada: quem teria me entendido, me compreendido? Ai, eu não pertencia mais a ninguém" (Duras, 1979, p.38).

Separada da sociedade na qual foi educada pela barreira da cor e da de suas origens por sua posição de classe e educação, ela "não pertence mais a ninguém" e se sente "estranha à raça humana inteira" (ibidem, grifo meu). Desse "mal de pele"56 não pode falar a ninguém, nem mesmo a Charles, o companheiro e amigo de infância. Ao ficar sabendo que esse ama uma outra mulher, ela adoece e decide retirar-se num convento. É lá que conta sua história ao médico (e ao mesmo tempo ao leitor) que cuida dela, antes de "cair com as últimas folhas do outono" (ibidem p.64).

Esquecida até muito recentemente,57 essa notável novela de Claire de Duras conheceu um breve mas verdadeiro triunfo no momento de sua publicação. Causou furor nos círculos literários e nos salões franceses, mas também estrangeiros, como indica a correspondência do grande viajante que foi Humboldt, nos anos 1824-1826. Várias vezes editada em 1824, plagiada na França e no estrangeiro, traduzida em inglês, espanhol e russo, comoveu até as lágrimas Goethe, impressionou Walter Scott e Chateaubriand, e foi denunciada pelos escravagistas martinicanos. Inspirou poemas um tanto medíocres, alguns retratos mais interessantes e deu origem, no teatro, a várias adaptações em 1824.58 Publicada em São Petersburgo nesse mesmo ano, parece que sua leitura incitou Pushkin a falar, em seu romance O negro de Pedro, o Grande, do seu avô, Abraham Hannibal (Gnammankou, 1998), escravo africano vendido ao czar da Rússia e transformado em alta figura do exército russo. Ourikatambém deixou vestígios em La tragédie du roi Christophe, de Aimé Césaire, e em La Migration des Coeurs, de Maryse Condé (Little, 2006, p.20).

Apesar do esquecimento no qual caiu, Ourika ocupa um lugar privilegiado, um papel importante na genealogia que nos interessa; ao introduzir "na literatura da Restauração o personagem trágico do negro situado entre dois mundos, que a cor da pele rejeita da sociedade dos brancos como um pária" (Chalaye, 2005), ela anuncia – e associa ao imaginário do pária – o problema da "dupla consciência" ao qual W. E. B. Du Bois dará uma profundidade teórica e política poderosa no século XX. Longe de sugerir a ideia "de que teria sido melhor para sua felicidade deixar a jovem negra no seu lugar" (ibidem), a novela tematiza um impasse propriamente moderno que se ligará até os nossos dias a essa figura: a de uma sociedade que, embora fazendo nascer "esperanças" quanto à possibilidade de cada um(a) "encontrar seu lugar", mostra que "resta(ria) ainda muito desprezo" (Duras, 1979, p.42) para os que nascem do lado ruim do universal.

Notas

1 Entrada "Pariah, Parriar".

2 Cf. Parayan (Petit Robert), parayar, pl. parayan (Oxford), ou palayan, parayer, periyer, segundo a proveniência linguística dos europeus que o transcreveram, que significa "tocador de tambor", grupo considerado como impuro.

3 Designados como harijans (filhos de Deus), nome eufemístico que lhes deu o Mahatma Gandhi, os intocáveis são hoje oficialmente conhecidos e (auto)designados como dalits, que significa "povos esmagados ou oprimidos".

4 "Do not use this word. It is politically incorrect!", aparece na tela antes de abrir a página na entrada Pariah: n. [Tamil] Outcast. Use of this term is offensive to people belonging to Dictionary of Indian English.

5 Cf. a expressão "pariah dog" como "cão errante ou sem dono". Iraque, Cuba e Líbia são correntemente designados pelos meios de comunicação de língua inglesa de "pariah States", e Slobodan Milosevic de "international pariah". Inversamente, a palavra Pundit, que designava tradicionalmente os brâmanes, é utilizada como sinônimo de pesquisador ou de especialista.

6 Duarte Barbosa, The Book of Duarte Barbosa, An Account of the Countries Bordering on the Indian Ocean and their Inhabitants… Completed About the Year 1518, trad. Mansel Longworth Dames (Nova Delhi: Asian Educational Services, 1989, v.1, p.53-8), que é uma fonte preciosa para as primeiras décadas do império marítimo português na Ásia. Cf. também Historia del descubrimiento y conquista de la India por los Portugueses, compuesta por Hernan Lopez de Castanheda, y traducida nueuamente en Romance Castellano (Antuérpia, En casa de Martin Nucio, 1554. Trad. francesa: Fernando Lopez de Castanheda, L’Histoire des Indes de Portugal…, traduzida do português ao francês por Nicolas de Grouchy, Antuérpia, Iehan Steelsius, 1554). Cf. The American Heritage Dictionary of the English Language (4.ed., Boston: Houghton Mifflin, 2000).

7 Sobre a aproximação da administração colonial com as castas bramânicas, ver também Dirks (2001).

8 Ver também Dubois (1825, 1985).

9 Samuel Purchas, His Pilgrimage, or Relations of the World and the Religions Observed in All Ages, p.553 e 998-9; Pieter Van de Broecke, Reysen naer Oost Indien, 1620, p.82; Philip Baldaeus, Naauwkeurige Beschryvinge van Malabar en Choromandel, der zelver aangrenzende Ryken, en att machtige Eyland Ceylon, Amsterdã,1672, trad. inglesa: A True and Exact Description of the Most Celebrated East-India Coast of Malabar and Coromandel; as also of the Isle of Ceylon, printed for Henry Lintot. Cf. também François Valentijn, Oud en Nieuw Oost-Indien vervattende een naaukeurige en uitvoerige verhandelinge van Nederlands mogentheyd in die gewesten, Amsterdã, 1724-1726, 8v., reed. fac-símile 2003-2004, p.73; J. Phillips, An Account of the Religion, Manners, and Learning of the People of Malabar in the East-Indies. In Several Letters Written by Some of the Most Learned Men of that Country to the Danish Missionaries, Londres, 1717, p.127.

10 Palavra que significa, em português, espanhol e italiano, "puro", "não misturado" ou "casto", mas que remete também a linhagem ou raça no sentido antigo do termo. Segundo o Dicionário da Academia francesa de 1798, "chamam-se assim as tribos nas quais se dividem os idólatras das Índias orientais. A casta dos brâmanes. A casta dos banianes [comerciantes]".

11 1659: port. casta (século XVI), "casta hindu"; fem. de casto, "puro".

12 Cf. Johan Albert Mandelsio, Voyages célèbres et remarquables, faits de Perse aux Indes orientales par Mandelsio, trad. do alemão por Abraham de Wicquefort, 1659. Cf. também Thevenot (1684) e Dellon (1699).

13 Voltaire, Essai sur les moeurs, 1756, p.54 (grifo meu).

14 Preâmbulo a La Chaumière indienne (Bernardin de Saint-Pierre, 1818, t.V, p.216).

15 Como sublinha Yves Benot, o interesse pelos selvagens era mais um estimulante do pensamento político, capaz de abalar as ideias feitas e aceitas, do que propriamente um modelo a imitar. O projetor desloca-se em razão do combate das Luzes, não do interesse etnográfico ou antropológico (Benot, 2005, p.1-12).

16 Abade Raynal, Histoire philosophique et politique des établissements et du commerce européen des deux Indes, 1770.

17 "L’Europe a fondé partout des colonies; mais connaît-elle des principes sur lesquels on doit les fonder?" (Raynal, 1981, p.14).

18 Citado por Ann Thopmson (2003, p.88). Cf. também Benot (1981), que estabeleceu Diderot como o autor desses acréscimos.

19 Compilação que estabelece o sistema bramânico de castas, feita entre os séculos II a.C. e II d.C. (N. T.)

20 Ver também as posições de Edmund Burke no processo de Hastings, em Marshall (2000).

21 Cf. Marshall, 2003, cujo título é inspirado por Edward Said.

22 Cf. Montesquieu, Lettres persanes (1993), livro XXX, a propósito das origens distintas da nobreza e da crítica feita tanto a Boulainvilliers quanto ao abade Dubois, que "fizeram cada qual um sistema, um parecendo ser uma conjuração contra o terceiro-estado, o outro uma conjuração contra a nobreza".

23 Poulichis ou Pulchis, s. m. (Hist. mod.) Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences des arts et des métiers, 1782. v.13, p.204. Grifo meu.

24 Cf. Paréas, Perréas ou Parias (ibidem, grifo meu).

25 Abade Raynal, Histoire philosophique et politique…, op. cit., p.96.

26 "Há uma raça difamada nessa terra / Uma raça estrangeira em sua pátria / Sem proteção, sem templo hospitaleiro / Ímpia, abominável ao povo inteiro / Os Párias…"

27 Mary Wollstonecraft (1997, p.103), "To M. Talleyrand-Périgord, Late Bishop of Autun". Wollstonecraft se refere ao Rapport sur l’instruction publique fait au nom du comité de Constitution à l’Assemblée nationale em 1791, no qual Talleyrand sustenta que a infração à universalidade dos direitos que constitui a exclusão das mulheres da instrução pública é necessária para a felicidade da maioria e, em particular, das mulheres.

28 Cf. Correspondance littéraire, philosophique et critique, tomo 16, por Grimm, Diderot, novembro de 1792.

29 Cf. Concise Oxford e Chambers 20th Century Dictionary, onde "brahman" designa "a person of high social standing and cultivated intellect and taste" ["uma pessoa de alta posição social e de gosto e intelecto cultivados"] ou "a member of social and cultural elite" ["um membro da elite social e cultural"], como na célebre expressão "Boston Brahmans" que designa, desde a segunda metade do século XIX, a velha elite bostoniana de Beacon Hill (cf. Holmes, 1860, cap.1, "The Brahmin Caste of New England").

30 The Indian Cottage or a Search After Truth, by M. Saint-Pierre (London, printed for W. Lane at the Minerva, 1791).

31 Cf., por exemplo, J.-H. Bernardin de Saint-Pierre, The Indian Cottage, Dublin, printed for J.Parker, J. Jones, W. Jones, R. White, J. Rice, R. Mc Allister, 1791; J.-H. Bernardin de Saint-Pierre, Der indianische Strohhutte, Neuwied e Leipzig, Johann Ludwig Gehra, 1791.

32 Cf. Yule (1903, p.678), entrada Pariah, Parriar; grifo meu.

33 O dicionário Robert dá a data de 1821 para o sentido figurado do pária: "Pessoa banida de uma sociedade, de um grupo; excluído. Tratar alguém como um verdadeiro pária. Viver como pária, rejeitado por todos".

34 Maurice Duviquet, "Examen critique du Paria", em Delavigne (s. d., p.122).

35 Drama de Victor Hugo encenado pela primeira vez em 1830. (N. T.)

36 "E todos devem amar a forma humana, no selvagem, no turco, no judeu."

37 "La Bayadère et le Dieu de l’Inde, traduit de Goethe", in OEuvres complètes de Madame la baronne de Staël, publiées par son fils, tomo 17, Paris, Treuttel et Würtz, 1821.

38 Le Dieu et la Bayadère ou la Courtisane amoureuse, ópera em dois atos, libreto de Scribe, música de Daniel-François-Esprit Auber, lançada na Ópera de Paris em 13 de outubro de 1830.

39 Le Paria, tragédia em um ato, por Michel (sic) Beer, trad. por Xavier Marmier, Strasbourg, Impr. F. G. Levraut, rue des Juifs, 1834, p.47.

40 Junto com o abade Raynal (cf. Raphaël, 1976, 1986).

41 "Todos os homens são iguais (embora infinitamente diversos)."

42 "Vejam Wollstonecraft, que sem pudor algum / Se erige em defensora intrépida do seu sexo; / Ao homem rebaixado disputa a soberania / E desdenha o rubor da reputação virginal."

43 Germaine de Staël, De l’influence des passions sur le bonheur des individus et des nations, 1796, seção 3.

44 "Ó, por que nasci com um rosto diferente? / Por que não nasci como o resto da minha Raça? / Quando olho, todos se assustam! Quando falo, ofendo. / Então fico mudo e passivo e perco os amigos." "Blake to Thomas Butt, 16 August 1803" (in The Complete Poetry and Prose of William Blake, David V. Erdman (ed.), New York: Doubleday, 1988).

45 O termo "un’sex" remonta a William Shakespeare, Macbeth, ato I, cena 5; "Come, you spirits / That tend on mortal thoughts, unsex me here / And fill me from the crown to the toe top-full / Of direst cruelty! make thick my blood; / Stop up the access and passage to remorse!" ("Vinde, espíritos que acompanhais os pensamentos de morte; despojai-me do meu sexo e enchei-me, do alto da cabeça à ponta dos pés, da mais implacável crueldade! Engrossai meu sangue, fechai o acesso e a passagem ao remorso!").

46 Cf. Thomas Mathias, Pursuits of Literature: A Satirical Poem in Four Decalogues with notes, Filadélfia, 1800, p.204: "Our unsex’d female writers now instruct, or confuse, us and themselves, in the labyrinth of politics, or turn us wild with Gallic frenzy".

47 "Uns a chamavam de orgulhosa ou de puta, / Outros, ao vê-la passar, fechavam a porta."

48 "Para ser livre entre amigos Mary surgiu, / Mas agora nem mais um amigo, Mary, verás."

49 "No escárnio e no desdém dos falsos amigos / que habitam o espírito manso de Mary, / ela não lembra a divina face humana, / Todas têm inveja, doce Mary, exceto a tua."

50 A propósito da formação do estereótipo da mulher-autor, esse monstro do século XIX, ver Christine Plante (1989).

51 Para retomar a formulação de Sainte-Beuve (1960, v.II, p.1049).

52 Antoine de Laplace, Oronoko ou le Royal Esclave, traduzido do inglês, Amsterdã, 1745.

53 Como Bug-Jargal (1826), de Victor Hugo, Tamango (1829), de Prosper Mérimée, e Atar-Gull (1831), de Eugène Sue. Ver também Hoffmann (1973).

54 A ponto de Gaspar de Pons, que só pensa naquilo, reescrever uma Ourika l’africaine, para fazer da heroína de Claire de Duras uma "jovem de seu país", dominada, apesar da sua educação, por uma sexualidade selvagem na qual "o sangue de Otelo ferve sempre nas veias".

55 Henri Grégoire, De la noblesse de la peau ou Du préjugé des blancs contre la couleur des Africains et celle de leurs descendants noirs et sang-mêlé (1826), texto apresentado por Alain Gresh, Grenoble, Jérôme Millon, cap.1, "Petite collection Atopia", 2002 (grifo meu).

56 Segundo a expressão de Marie-Ange Somdah (1989, p.59).

57 Cf., entre outros, Ourika. An English Translation, by Claire de Duras, trad. John Fowles, Modern Language Association, 1994; Roger Little, Ourika de Madame de Duras, estudo e apresentação de Roger Little, Textes littéraires nº CV, Exeter, University of Exeter Press, nova ed. revista e aumentada, 1988.

58 Entre os quais Merle, Ourika ou l’Orpheline africaine, drame en un acte et en prose, Paris, Chez Quoy, 1824; F. de Courcy, Ourika ou la Négresse, Dr Vaud, DeVilleneuve & Dupeuty, 1824; Alexandre Piccinni, Ourika ou la Petite Négresse, Dr Vaud, Melesville & Carmouche, 1824.

Fonte: Estudo Avançados – http://www.scielo.br

Fora da tomada, dentro da mente

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Cientistas vão à natureza descobrir como a vida digital afeta o pensamento

MATT RICHTEL

Os neurocientistas Todd Braver e Art Kramer, num momento de lazer; num mundo de tarefas simultâneas, crescem os estudos sobre a atenção

ÁREA RECREATIVA NACIONAL DE GLEN CANYON, UTAH

Ciência avalia os efeitos das digressões digitais

Todd Braver surge de dentro de uma barraca. Pela primeira vez em três dias, ele não usa relógio. "Esqueci", diz ele.

É uma coisa à toa, o tipo de mudança que muita gente nota ao sair de férias, relaxar e perder a noção do tempo. Mas, para Braver e seus acompanhantes, esses momentos levam a uma pergunta: o que está acontecendo nos nossos cérebros?

Braver, professor de psicologia da Universidade Washington, em St. Louis, e outros quatro neurocientistas passaram uma semana numa remota área no sul de Utah, no fim de maio, fazendo rafting no rio San Juan, acampando e caminhando.

Foi uma viagem primitiva, mas com uma meta sofisticada: entender como o uso intensivo de equipamentos digitais e de outras tecnologias altera a nossa maneira de pensar e de agir, e como uma fuga para a natureza poderia reverter esses efeitos.

David Strayer, professor de psicologia da Universidade de Utah e organizador da viagem, diz que o estudo sobre o que acontece quando deixamos de lado nossos aparelhos e descansamos nossos cérebros -em particular como a atenção, a memória e o aprendizado são afetados- é importante para a ciência.

"A atenção é o Santo Graal", diz Strayer. "Tudo de que você tem consciência, tudo que você deixa entrar, tudo que você lembra e o que esquece depende dela."

Segundo ele, entender como a atenção funciona ajudaria no tratamento de diversos distúrbios, como o transtorno do deficit de atenção, a esquizofrenia e a depressão. E ele diz que, no dia a dia, o excesso de estímulos digitais pode "pegar as pessoas que estariam funcionando bem e colocá-las num âmbito em que não estão psicologicamente saudáveis".

As pesquisas sobre o efeito no cérebro do uso intensivo da tecnologia ainda estão em seus estágios iniciais. Para Strayer, elas são tão significativas quanto os estudos relacionados aos efeitos do consumo excessivo de carne ou álcool.

Strayer e Paul Atchley, 40, professor da Universidade do Kansas que estuda o uso compulsivo de celulares por adolescentes, argumentam que o uso intensivo da tecnologia pode inibir pensamentos profundos e causar ansiedade, e que refugiar-se na natureza pode ajudar.

Os outros participantes são céticos. São eles Braver, 41, especialista em imagens cerebrais; Steven Yantis, 54, chefe do departamento de ciências psicológicas e cerebrais da Universidade Johns Hopkins, em Maryland, que estuda como as pessoas alternam tarefas; e Art Kramer, 57, professor da Universidade de Illinois que tem estudado os benefícios neurológicos do exercício.

O estudo moderno da atenção se tornou um importante campo de pesquisas. Há os que creem que o afluxo de dados cria uma falsa sensação de urgência, que pode afetar a capacidade de concentração. Kramer discorda. "Como acadêmicos, vivemos dos computadores", diz ele.

Estudos mostram que o desempenho sofre quando as pessoas fazem múltiplas tarefas. Esses pesquisadores se perguntam se a atenção e a concentração podem ser afetadas quando as pessoas meramente anteveem a chegada de mais estímulos digitais. "A expectativa do e-mail parece estar tomando nossa memória de trabalho", diz Yantis.

Memória de trabalho é um recurso precioso no cérebro. "À medida que você tem menos memória de trabalho, você tem menos espaço para armazenar e integrar ideias, e portanto menos espaço para fazer o raciocínio que precisa", diz Kramer.

Ao longo dos dias seguintes, o grupo discute formas de mensurar a liberação de neurotransmissores na corrente sanguínea. É uma dupla conversa sobre como aplicar a neuroeconomia -mensurar como o cérebro atribui valor à informação- para entender a compulsão por mensagens de texto.

Strayer diz que os colegas estão experimentando um estágio do relaxamento que ele chama de "síndrome do terceiro dia", e até os mais céticos dizem que alguma coisa está ocorrendo em seus cérebros que reforça as discussões científicas -algo que poderia ser importante para ajudar as pessoas a enfrentar um mundo de constante ruído eletrônico.

"Se conseguirmos descobrir que as pessoas estão andando por aí fatigadas e sem realizar seu potencial cognitivo", diz Braver, será preciso pensar no "que podemos fazer para nos devolver ao nosso pleno potencial".

Mesmo sem saber como a viagem afetou seus cérebros, os cientistas estão aptos a recomendar um pouco de tempo ocioso como sendo o caminho para um pensamento mais ordenado.

Já perto do final da expedição, Kramer menciona uma descoberta pessoal: "Tenho um colega que diz que estou sendo muito mal-educado quando saco um computador durante reuniões. Eu digo: ‘Eu consigo ouvir’. [Mas] talvez eu não esteja ouvindo tão bem. Talvez eu possa trabalhar em ficar mais envolvido".

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Patriarcado da violência

A brutalidade não é constitutiva da natureza masculina, mas um dispositivo de uma sociedade que reduz as mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens

Debora Diniz

Eliza Samudio está morta. Ela foi sequestrada, torturada e assassinada. Seu corpo foi esquartejado para servir de alimento para uma matilha de cães famintos. A polícia ainda procura vestígios de sangue no sítio em que ela foi morta ou pistas do que restou do seu corpo para fechar esse enredo macabro. As investigações policiais indicam que os algozes de Eliza agiram a pedido de seu ex-namorado, o goleiro do Flamengo, Bruno. Ele nega ter encomendado o crime, mas a confissão veio de um adolescente que teria participado do sequestro de Eliza. Desde então, de herói e "patrimônio do Flamengo", nas palavras de seu ex-advogado, Bruno tornou-se um ser abjeto. Ele não é mais aclamado por uma multidão de torcedores gritando em uníssono o seu nome após uma partida de futebol. O urro agora é de "assassino".

O que motiva um homem a matar sua ex-namorada? O crime passional não é um ato de amor, mas de ódio. Em algum momento do encontro afetivo entre duas pessoas, o desejo de posse se converte em um impulso de aniquilamento: só a morte é capaz de silenciar o incômodo pela existência do outro. Não há como sair à procura de razoabilidade para esse desejo de morte entre ex-casais, pois seu sentido não está apenas nos indivíduos e em suas histórias passionais, mas em uma matriz cultural que tolera a desigualdade entre homens e mulheres. Tentar explicar o crime passional por particularidades dos conflitos é simplesmente dar sentido a algo que se recusa à razão. Não foi o aborto não realizado por Eliza, não foi o anúncio de que o filho de Eliza era de Bruno, nem foi o vídeo distribuído no YouTube o que provocou a ira de Bruno. O ódio é latente como um atributo dos homens violentos em seus encontros afetivos e sexuais.

Como em outras histórias de crimes passionais, o final trágico de Eliza estava anunciado como uma profecia autorrealizadora. Em um vídeo disponível na internet, Eliza descreve os comportamentos violentos de Bruno, anuncia seus temores, repete a frase que centenas de mulheres em relacionamentos violentos já pronunciaram: "Eu não sei do que ele é capaz". Elas temem seus companheiros, mas não conseguem escapar desse enredo perverso de sedução. A pergunta óbvia é: por que elas se mantêm nos relacionamentos se temem a violência? Por que, jovem e bonita, Eliza não foi capaz de escapar de suas investidas amorosas? Por que centenas de mulheres anônimas vítimas de violência, antes da Lei Maria da Penha, procuravam as delegacias para retirar a queixa contra seus companheiros? Que compaixão feminina é essa que toleraria viver sob a ameaça de agressão e violência? Haveria mulheres que teriam prazer nesse jogo violento?

Não se trata de compaixão nem de masoquismo das mulheres. A resposta é muito mais complexa do que qualquer estudo de sociologia de gênero ou de psicologia das práticas afetivas poderia demonstrar. Bruno e outros homens violentos são indivíduos comuns, trabalhadores, esportistas, pais de família, bons filhos e cidadãos cumpridores de seus deveres. Esporadicamente, eles agridem suas mulheres. Como Eliza, outras mulheres vítimas de violência lidam com essa complexidade de seus companheiros: homens que ora são amantes, cuidadores e provedores, ora são violentos e aterrorizantes. O difícil para todas elas é discernir que a violência não é parte necessária da complexidade humana, e muito menos dos pactos afetivos e sexuais. É possível haver relacionamentos amorosos sem passionalidade e violência. É possível viver com homens amantes, cuidadores e provedores, porém pacíficos. A violência não é constitutiva da natureza masculina, mas sim um dispositivo cultural de uma sociedade patriarcal que reduz os corpos das mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens.

A violência conjugal é muito mais comum do que se imagina. Não foi por acaso que, quando interpelado sobre um caso de violência de outro jogador de seu clube de futebol, Bruno rebateu: "Qual de vocês que é casado não discutiu, que não saiu na mão com a mulher, né cara? Não tem jeito. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher". Há pelo menos dois equívocos nessa compreensão estreita sobre a ordem social. O primeiro é que nem todos os homens agridem suas companheiras. Embora a violência de gênero seja um fenômeno universal, não é uma prática de todos os homens. O segundo, e mais importante, é que a vida privada não é um espaço sacralizado e distante das regras de civilidade e justiça. O Estado tem o direito e o dever de atuar para garantir a igualdade entre homens e mulheres, seja na casa ou na rua. A Lei Maria da Penha é a resposta mais sistemática e eficiente que o Estado brasileiro já deu para romper com essa complexidade da violência de gênero.

Infelizmente, Eliza Samudio está morta. Morreu torturada e certamente consciente de quem eram seus algozes. O sofrimento de Eliza nos provoca espanto. A surpresa pelo absurdo dessa dor tem que ser capaz de nos mover para a mudança de padrões sociais injustos. O modelo patriarcal é uma das explicações para o fenômeno da violência contra a mulher, pois a reduz a objeto de posse e prazer dos homens. Bruno não é louco, apenas corporifica essa ordem social perversa.

Outra hipótese de compreensão do fenômeno é a persistência da impunidade à violência de gênero. A impunidade facilita o surgimento das redes de proteção aos agressores e enfraquece nossa sensibilidade à dor das vítimas. A aplicação do castigo aos agressores não é suficiente para modificar os padrões culturais de opressão, mas indica que modelo de sociedade queremos para garantir a vida das mulheres.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Quino – É importante que desde pequeno aprendam bem como tudo funciona…

Clipboard09Joaquín Salvador Lavado

Os registros constam como tendo nascido em agosto), em província de Mendoza, Argentina), mais conhecido como Quino.

A obra mais famosa de Quino é a tira cômica Mafalda, publicada entre os anos 1964 e 1973. Editada em tiras nos jornais, Mafalda questionava todos os problemas políticos, de gênero, e até científicos que afligiam sua alma infantil e, ao mesmo tempo, refletia o conflito que as pessoas da época enfrentavam, sobretudo com a progressiva mudança dos costumes e a já incipiente introdução da tecnologia no cotidiano.

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Fonte: Quem tem põe, quem nao tem baixa – http://quemtempoe.blogspot.com/

Vida Sintética e Ética

Técnicas de manipulação genética estimulam novas discussões jurídicas

FÁBIO ULHOA COELHO

A experiência de criação em laboratório de “vida sintética” inevitavelmente iniciou discussões sobre desdobramentos éticos e jurídicos. A equipe de Craig Venter, partindo do arquivo eletrônico com a descrição do sequenciamento do genoma de uma bactéria, reproduziu-o com bases químicas, inserindo-o numa célula de outra bactéria, da qual extraíram previamente o DNA. O ser assim gerado se desenvolveu e se reproduziu.

Essa experiência deve se repetir com animais mais complexos, como mamíferos e, evidentemente, o ser humano. Conhecido o sequenciamento do genoma de uma pessoa qualquer – digamos, Albert Einstein –, será possível aglutinar em laboratório timinas, adeninas, guaninas e citosinas rigorosamente na mesma ordem, implantá-las numa célula reprodutiva humana sem DNA, transpô-las ao útero de uma mulher e aguardar que o ciclo natural da gestação cuide do resto.

Einstein renascerá? Não é possível ter certeza disso, pois ainda são inconclusas as discussões sobre a extensão da influência do meio sobre o desenvolvimento da personalidade. Quer dizer, se o bebê não for amado ou desamado na mesma forma que foi o pequeno Albert, na Alemanha do último quarto do século 19, é quase certo que terá perfil psicológico diferente. Além disso, será uma pessoa nascida em outro tempo e lugar, com outra história. É provável, assim, que se frustrem as expectativas depositadas no futuro desempenho intelectual do rebento.

O temor dessa variante de clonagem é injustificado. Se certa memória da história de cada um de nós se imprime, de algum modo, em nossas timinas e demais bases químicas do DNA, a pessoa gerada a partir da reprodução do mesmo esquema de sequenciamento de genoma de outra não transportará essa memória, as a eventualmente contida nas bases empregadas pelos cientistas.

Outro uso da técnica objeto do experimento é que deve preocupar as discussões éticas e jurídicas. Se com as pesquisas genômicas descobrirmos como desenhar em computador um ser humano ideal, inapto a desenvolver as doenças conhecidas de origem genética, será possível à medicina curar esses males desde o início. O casal com propensão a gerar filhos com determinada doença poderia contratar os serviços de uma clínica de fertilização que ajustaria o sequenciamento das células reprodutivas ao projeto ideal de ser humano, eliminando o risco.

Aqui reside a questão crucial, de ordem ética e jurídica. Deve a lei reconhecer aos casais que desejam ter apenas filhos saudáveis o direito de utilizar essa técnica? Sendo a saúde apenas uma de muitas características portáveis por nós, a questão se abre igualmente a uma gama imensa de possibilidades – tipo de inteligência, compleição física etc.

Essa discussão interessa apenas a quem não crê num Deus criador e ordenador. Aqueles que acreditam ter o homem, com essa conquista científica, definitivamente avançado o sinal e afrontado a vontade divina não necessitam do aclaramento da dúvida ética ou jurídica. Basta-lhes a crença para inibi-los a utilizar a técnica, ao gerarem seus filhos. A discussão deve ser contextualizada, assim, numa questão filosófica altamente complexa e, por isso mesmo, constantemente evitada: a de quanto a atual sociedade democrática enfraquece a espécie humana.

A seleção natural é, evidentemente, o processo de supremacia do mais forte, do mais apto a relacionar-se com o meio ambiente. A cultura liberta o ser humano dessa cruel imposição da seleção natural. Permite à espécie humana, após longo processo civilizatório, integrar também membros desafortunados, portadores de limitações físicas ou mentais. Mas, ao desafiar o princípio básico da seleção natural, dando chance de viver e se reproduzir a todos os homens e mulheres, e não somente aos mais aptos, a cultura acaba envolvendo a espécie humana numa estratégia arriscada.

A discussão é altamente complexa e constantemente evitada, porque pode resvalar em execráveis postulações de controle da “pureza” da espécie humana. Não é disso que se trata. A sociedade democrática deve continuar a abrigar todos os homens e mulheres, sem qualquer distinção, em vista da plena igualdade de dignidade que cada um de nós carrega. Mas, sem abrir mão desse valor fundamental, conquistado a duras penas, talvez não devamos deixar de nos preocupar com a pertinência das estratégias adotadas enquanto espécie em evolução. A técnica prometida por aquele experimento pode atender à delicadíssima questão evitando-se as limitações na origem.

O ser humano caminha para ter nas mãos o controle da evolução. Assim como deverá, um dia, de controlar a evolução da própria espécie, poderá também submeter à mesma lógica a das demais. Os dois vetores tendem a se desenvolver simultaneamente. O processo de evolução das espécies, que hoje designamos como “seleção natural”, corre o risco de se transformar em algo próximo ao que poderíamos deduzir da expressão “seleção cultural”. Isto só aumenta a já enorme responsabilidade do Homo sapiens.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

Uma ética nietzschiana

Scarlett Marton

Ousado, irreverente, rebelde, é sobretudo dessa maneira que Nietzsche é conhecido entre nós. Filosofando a golpes de martelo, este pensador, um dos mais controvertidos de nosso tempo, não hesita em seus escritos em desafiar normas. Tanto é que ele vem questionar nossa maneira habitual de proceder, nosso modo costumeiro de agir. Ao criticar de forma contundente os valores que norteiam nossa conduta, quer mostrar que, ao contrário do que supomos, o bem nem sempre contribui para o prosperar da humanidade, nem o mal para a sua degeneração.

Diagnosticar os valores estabelecidos é um dos propósitos que Nietzsche se coloca nos textos a partir de Assim Falava Zaratustra. Introduzindo a noção de valor, ele opera uma subversão crítica: põe de imediato a questão do valor dos valores e, ao fazê-lo, levanta a pergunta pela criação dos valores. Se nunca se colocou em causa o valor dos valores “bem” e “mal”, se nunca se hesitou em atribuir ao homem “bom” um valor superior ao do “mau”, é porque se consideraram os valores essenciais, imutáveis, eternos.

Mas, ao contrário do que sempre se acreditou, Nietzsche quer evidenciar que os valores “bem” e “mal” têm uma proveniência e uma história. Eles não existiram desde sempre, não são obra de uma divindade ou de um princípio superior. “Humanos, demasiado humanos”, em algum momento e em algum lugar, simplesmente foram criados; por isso mesmo, surgem, passam por transformações e podem vir a desaparecer, dando lugar a novos valores.

Na Grécia antiga dos tempos homéricos, a aristocracia guerreira concebeu espontaneamente o princípio “bom”, que atribuiu a si mesma; só depois criou a ideia de “ruim”, como “uma pálida imagem-contraste”, para designar os que não pertenciam à casta, os que não eram dignos de serem inimigos. Com o judaísmo e o cristianismo, os sacerdotes converteram a preeminência política em preeminência espiritual. Enquanto valor aristocrático, “bom” se identificava a nobre, belo, feliz; tornando-se valor religioso, passou a equivaler a pobre, miserável, impotente, sofredor, piedoso, necessitado, enfermo. A transformação por que então passaram os valores morais foi fruto do ressentimento de homens fracos, que, não podendo lutar contra os mais fortes, deles tentaram vingar-se através desse artifício.

Nesse sentido, a religião cristã, desde o seu apareci- mento, desempenhou papel de extrema relevância. Criação do apóstolo Paulo, ela veio impor o reino dos fracos e dos oprimidos. Se Nietzsche se dedica a criticá-la de forma radical, é antes de mais nada porque a vê como um sintoma da degeneração dos impulsos vitais. Produto do ódio e desejo de vingança daqueles a quem não é dado reagir e só resta res-sentir, ela seria a expressão mesma da decadência.

Perspectivismo, não relativismo

Ora, ao apontar as diferentes perspectivas a partir das quais surgem os valores, Nietzsche conta desmontar o mecanismo insidioso que impedia de questioná-los. Não vacila em levar à mesa de dissecação o ressentimento, a culpa e a má consciência, o altruísmo, o amor ao próximo e as chamadas virtudes cristãs. Com um agudo sentido de análise, empenha-se em desvendar o funcionamento secreto das paixões do homem.

É em Montaigne, Pascal, La Rochefoucauld, Vauvenargues e Chamfort que Nietzsche se inspira em suas reflexões acerca da conduta humana. É neles, ao lado do escritor Stendhal, que encontra alimento para as suas reflexões morais. Os chamados moralistas franceses, em vez de procurar pautar o comportamento do homem por alguma lei divina ou princípio superior, propõem-se estudar o ser humano tal como ele é. Sem se preocupar com a natureza humana universal ou a misericórdia de Deus que viria salvá-la, querem tomar por objeto de estudo o homem, sem recorrer à metafísica ou à teologia.

A obra que esses pensadores empreendem consiste, de modo geral, numa análise sutil dos móveis do homem. Embora quase todos cuidem do modo de agir individual, sempre o concebem como determinado ou corrompido por preconceitos da sociabilidade. No século 17, Pascal dedica-se a fazer ver que o homem sempre se ilude a respeito de si mesmo. É por desconhecer-se que se imagina grande; é para evitar o espetáculo da própria condição que recorre a dissimulações. Observa como as conveniências sociais transformam seus móveis verdadeiros e, sob a máscara da vaidade, descobre seus apetites inconfessáveis. E, com muita propriedade, escreve nos Pensamentos: “Divertida justiça que um rio limita! Verdade aquém dos Pirineus, erro além” (fragmento 294). No século 18, Chamfort amplia o âmbito da pesquisa e chega a encarar a moralidade social como englobando ou alterando a dos indivíduos; no século 19, Stendhal é o primeiro que, pela observação comparada dos costumes de diversos povos, acredita atingir fatos gerais.

Assim como esses pensadores franceses que tanto admira, Nietzsche quer fazer ver que os valores não são universais. Mas nem por isso resvala no relativismo. Insiste, ao contrário, que não basta mostrar que os valores surgiram a partir de ângulos de visão diferentes. Não basta relacioná-los com as perspectivas que os engendraram; é preciso ainda investigar que valor norteou essas perspectivas ao criarem valores.

Genealogia dos valores

Na ótica nietzschiana, a questão do valor apresenta duplo caráter: os valores supõem perspectivas que os engendram; estas, por sua vez, ao criá-los, supõem um valor que as norteia. É nisso que consiste o procedimento genealógico. A genealogia comporta assim dois movimentos inseparáveis: de um lado, relacionar os valores com perspectivas avaliadoras e, de outro, relacionar estas perspectivas avaliadoras com um valor.

É preciso, pois, encontrar um valor ou, se se quiser, um critério de avaliação que não tenha sido criado, ele mesmo, por uma perspectiva avaliadora. Em outras palavras: é preciso adotar um critério de avaliação que não possa ser avaliado. E o único critério que se impõe por si mesmo é a vida. “É preciso estender os dedos, completamente, nessa direção e fazer o ensaio de captar essa assombrosafinesse de que o valor da vida não pode ser avaliado”, afirma Nietzsche. “Por um vivente não, porque este é parte interessada, e até mesmo objeto de litígio, e não juiz; por um morto não, por uma outra razão” (Crepúsculo dos Ídolos, “O Problema de Sócrates”, parágrafo 2).

Moral, política, religião, ciência, arte, filosofia, qualquer apreciação de qualquer ordem deve ser submetida ao exame genealógico, deve passar pelo crivo da vida. Fazer qualquer apreciação passar pelo crivo da vida equivale a perguntar se contribui para favorecê-la ou obstruí-la; submeter ideias ou atitudes ao exame genealógico é o mesmo que inquirir se são signos de plenitude de vida ou da sua degeneração; avaliar uma avaliação, enfim, significa questionar se é sintoma de vida ascendente ou declinante.

“Viver”, define Nietzsche em Para Além de Bem e Mal, “é essencialmente apropriação, violação, dominação do que é estrangeiro e mais fraco, opressão, dureza, imposição da própria forma, incorporação e pelo menos, no mais clemente dos casos, exploração” (parágrafo 259). A partir daí, compreende-se que ele encare a moral cristã como negação da vida. E, se tivesse sentido falar em bem e mal, consideraria bom tudo o que contribui para a expansão e exuberância da vida e mau tudo o que provém da fraqueza.

Transvaloração dos valores

Mas ao lado da vertente corrosiva de sua obra, Nietzsche apresenta-nos outra, construtiva. Entendendo que o filósofo deve ser o “médico da civilização”, a ele atribui a tarefa de “resolver o problema do valor”, “determinar a hierarquia dos valores”. A filosofia tem de mergulhar fundo na própria época para ultrapassá-la; ela deve visar o que está por vir, tendo em mira um objetivo preciso: a criação de valores.

É por isso que Nietzsche concebe sua obra como a tentativa de retomar as rédeas do destino da humanidade. Sócrates representou um marco na visão grega do mundo, substituindo o homem trágico pelo teórico; e Cristo, um marco no pensamento ocidental, substituindo o pagão pelo novo homem. Mas, com ele, a negação deste mundo em que vivemos aqui e agora “se fez carne e gênio”. Inimigo implacável do cristianismo, Nietzsche nele encontrará um adversário que julga à sua altura. Conta inverter o sentido que ele procurou dar à existência humana; espera subvertê-lo. E, para inaugurar esta nova era, tem de realizar a transvaloração de todos os valores.

Transvalorar é, antes de mais nada, suprimir o solo a partir do qual os valores até então foram engendrados. Aqui, Nietzsche espera realizar obra análoga à dos iconoclastas: derrubar ídolos, demolir alicerces, dinamitar fundamentos. É deste ponto de vista que critica a metafísica e a religião cristã.

Traço essencial de nossa cultura, o dualismo de mundos foi invenção do pensar metafísico e fabulação do cristianismo. Com Sócrates, teve início a ruptura da unidade entre homem e mundo – e a filosofia converteu-se, antes de mais nada, em antropologia. Com o judaísmo, houve o despovoamento de um mundo que estava cheio de deuses – e a religião tornou-se, acima de tudo, um “monótono-teísmo”. Com o cristianismo, propagou-se a mentira da vida depois da morte e do chamado reino de Deus. Desvalorizando este mundo em nome de um outro, essencial, imutável e eterno, a cultura socrático-judaico-cristã é niilista desde a base.

Transvalorar é, também, inverter os valores. Aqui, Nietzsche conta realizar obra análoga à dos alquimistas: transformar em ouro o que até então foi odiado, temido e desprezado pela humanidade. É deste ângulo de visão que denuncia o idealismo e reivindica a adesão a esta vida tal como a vivemos, a aceitação deste mundo tal como o encontramos aqui e agora.

É chegada “a hora do grande desprezo”; é chegado o momento de questionar tudo o que até então o ser humano venerou e, pelo mesmo movimento, afirmar tudo o que até então ele negou. Só assim será possível revelar o que por trás dos valores instituídos se esconde e trazer à luz o que eles mesmos escondem. Se outrora o maior delito era o cometido contra Deus, agora mais sacrílego ainda é delinquir contra a Terra. Se outrora se prezava acima de tudo a vida depois da morte, agora é urgente entender que eterna é esta vida. Se outrora a alma mostrava descaso pelo corpo, agora é preciso que o corpo torne evidente o caráter fictício da alma.

Transvalorar é, ainda, criar novos valores. Aqui, Nietzsche pretende realizar obra análoga à dos legisladores: estabelecer novas tábuas de valores. É desta perspectiva que concebe a filosofia.

Eliminando as esperanças ultraterrenas, Zaratustra, “o sem-Deus”, conta reinscrever o ser humano na natureza. Suprimindo o além, Nietzsche, “o anticristo”, quer estabelecer uma nova aliança entre homem e mundo. Naturalizar os valores morais, é nisso que consiste seu empreendimento filosófico.

É bem verdade que, em momento algum, o autor de Assim Falava Zaratustra pregará um tipo de comportamento determinado ou imporá um estilo de vida específico; ele jamais pretenderá dizer o que se deve fazer. Sublinhando o caráter singular e irrecuperável de cada ação, Nietzsche insistirá em fazer ver que nosso modo de agir tem doravante de nortear-se por valores em consonância com a Terra, com a vida, com o corpo.

E, para tanto, ele se empenhará tanto na crítica corrosiva dos valores quanto na criação de novos valores. Genealogia e transvaloração aparecem assim como as duas faces da mesma moeda. Afinal, “quem quiser ser um criador no bem e no mal, esse tem de ser um aniquilador e destruidor de valores”.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

Anfíbios – Os mestres da adaptação podem desaparecer

Nada menos do que 30% da mais recente lista de espécies ameaçadas na Terra é composta por anfíbios. Sua ausência pode desequilibrar ecossistemas e levar outras espécies à extinção, além de esgotar um enorme potencial farmacêutico que o homem apenas começa a conhecer

Evanildo da Silveira

Fotos: Shutterstock

Fotos: Shutterstock

Salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra)

Fotos: Shutterstock

Ambystoma laterale, salamandra que vive nos EUA e no Canadá

Eles são campeões na capacidade de adaptação, mas mesmo assim estão em perigo. Os anfíbios apareceram na Terra antes dos dinossauros, há 360 milhões de anos, sobreviveram a eles, viveram sob climas diferentes, superaram catástrofes naturais e continuaram a se multiplicar enquanto outros ramos da vida se extinguiam. Mas, agora, parece que estão perdendo a luta pela permanência no planeta. Populações e espécies desse grupo de animais vêm escasseando, estão sob ameaça de extinção ou até mesmo desapareceram. Segundo dados da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês), divulgados em novembro do ano passado, os anfíbios são a classe de vertebrados mais ameaçada de extinção.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6709

A tristeza de folhetim

Marlyse Meyer foi uma notável pensadora da cultura brasileira

Revista da FAPESP 

Ela foi chamada carinhosamente pelo amigo Antonio Candido de “animal acadêmico”, infelizmente uma espécie rara e em extinção. A morte de Marlyse Meyer (1924-2010) é a perda de uma notável pensadora da cultura brasileira, em seus altos e baixos estudos (como ela, aliás, nomeou o grupo de pesquisa que criou na USP em 1975), sempre ativa embora estivesse aposentada do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que, no entanto, não a impediu de continuar a escrever e orientar discípulos. Deixou poucos mas ótimos livros em face da grandeza intelectual: Folhetim, uma história(Companhia das Letras, 1997), o seu maior sucesso e, segundo ela, “o livro que me deu maior prazer”; Pirineus, caiçaras: deam­bulações literárias (Unicamp, 1991); Surpresas do amor: a conversação no teatro de Marivaux, sua tese de doutorado (Edusp, 1993); Caminhos do imaginário no Brasil (Edusp, 1993); As mil faces de um herói canalha (UFRJ, 1998); e organizou Do Almanack aos Almanaques (Fundação Memorial da América Latina e Ateliê Editorial, 2001).

Entrou para a literatura, segundo dizia, “por falta de coragem”: queria fazer história ou ciências sociais, mas a primeira “tinha desenho por causa dos mapas” e a outra “estatística”. Num cursinho pré-vestibular conheceu Antonio Candido, uma amizade contínua e intensa. Conheceu o marido, o físico Jean Meyer, na Faculdade de Filosofia e acompanhou-o quando ele foi trabalhar na Europa, de início na Itália, onde ela estudou e deu aulas na Faculdade de Letras de Veneza, e depois na França, onde lecionou no Institut d’Etudes Luso-Brésiliennes. Estava para voltar ao Brasil nos anos 1960, mas o golpe militar e o AI-5 adiaram seu retorno, que só aconteceu em 1975. Viveu o 1968 na França e, ousada, pedia aos alunos que traduzissem panfletos para os operários portugueses da Renault.

Antonio Candido a queria na USP, mas ela acabou indo para a Unicamp, em busca de um emprego rápido e necessário, tornando-se professora do Instituto de Artes por causa de sua tese sobre teatro. Adorava estudar “romances de segunda linha” e novelas (que sugeria aos alunos como forma de melhor entender os folhetins), aventurou-se a pesquisar candomblé e gostava de dizer, por causa de tudo isso, que “eu era pós-moderna e não sabia”. Ganhou o Prêmio Jabuti, em 1997, por seu livro Folhetim e ficou famosa ao traduzir Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, para o francês.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Fome diminui, mas ainda atinge 35% dos brasileiros

FENATRACOOP

O índice de famílias que não se alimentam suficientemente diminuiu consideravelmente nos últimos sete anos, mas ainda atinge mais de um terço dos brasileiros. É o que revela pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No levantamento anterior, referente ao período 2002/2003, 46,7% das famílias entrevistadas relataram não ter pleno acesso à alimentação básica. De lá pra cá, segundo o IBGE, esse percentual diminuiu para 35,5%.

Os que disseram “normalmente” não comer o suficiente representam 9,2% dos brasileiros, enquanto 26,3% informaram passar fome “às vezes”. Já os que “sempre” comem o suficiente totalizam 64,5% dos entrevistados.

De acordo com a pesquisa, houve redução da fome nas cinco regiões do país. Os melhores resultados foram registrados nas regiões Sudeste e Norte, onde o índice de famintos caiu de 43,4% para 29,4% e de 63,9% para 51,5%, respectivamente.

O levantamento também mostra que o consumo das famílias brasileiras com transporte aumentou nos últimos anos e já rivaliza com os gastos com alimentos. As despesas com alimentação caíram de 20,8%, em 2003, para 19,8%, em 2009. Nesse mesmo período, aumentaram de 18,4% para 19,6% os gastos com transporte. O percentual da renda comprometido com habitação ficou inalterado, em 36%. Alimentação, transporte e moradia respondem, juntos, por 75% das despesas familiares de consumo.

Ainda de acordo com o IBGE, a família brasileira gasta, em média, R$ 2.626,31 por mês. As famílias do Nordeste têm, em média, despesa de R$ 1.700,26, metade dos R$ 3.135,80 gastos pelas famílias do Sudeste. Essa desigualdade também se dá entre as famílias que vivem na área urbana (R$ 2.853,13) e as que vivem na área rural (R$ 1.397,29).

A desigualdade também prevalece na comparação do rendimento médio mensal. A renda da família do Sudeste, mais alta do país, é praticamente o dobro da registrada pelos nordestinos, a mais baixa entre as cinco as regiões: R$ 3.348,44 contra R$ 1.764. O rendimento médio da família brasileira é de R$ 2.763,47.

Os dados fazem parte da primeira divulgação da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008/09, que visitou cerca de 60 mil domicílios urbanos e rurais, entre maio de 2008 e maio de 2009. A reportagem esta no Congresso em Foco – Edson Sardinha

Fonte: FENATRACOOP – http://www.fenatracoop.com.br/

Maioria dos brasileiros ainda não tem acesso à rede de esgoto, diz IBGE

A maior parte dos domicílios brasileiros não tinha, em 2008, acesso à rede geral de esgoto e, nesse quesito, havia uma enorme discrepância entre as regiões brasileiras. Essas conclusões foram apontadas na última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, divulgada nesta sexta-feira (20) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Guilherme Balza

Gráfico mostra o percentual de municípios por Estado que fazem tratamento do esgoto

Gráfico mostra o percentual de municípios por Estado que fazem tratamento do esgoto

Mais da metade dos municípios brasileiros sofre com enchentes, diz IBGE

Entre 2003 e 2008, mais da metade dos municípios brasileiros sofreu alagamentos ou inundações por conta da ação das chuvas. Dos 5.265 municípios do país que possuem algum tipo de controle sobre as águas das chuvas –desde sarjetas até galerias subterrâneas–, 2.696, ou 51,3%, declararam ter sofrido alagamentos ou inundações no período analisado.

Os dados da pesquisa foram coletados ao longo de 2008 e referem-se aos 12 meses anteriores à data de cada entrevista. Foram ouvidas prefeituras, companhias estaduais e municipais de saneamento básico, fundações, consórcios intermunicipais, empresas privadas da saneamento e associações comunitárias.

Segundo o levantamento, 56% dos domicílios brasileiros não possuíam, em 2008, ligação com a rede de esgoto, o que representa 32 milhões de unidades, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Embora a maioria dos brasileiros ainda não tenha acesso ao serviço, o percentual de domicílios atendidos subiu na última década, já que em 2000 66,5% das unidades não estavam ligadas à rede de esgoto –cerca de 31,8 milhões de domicílios, considerando dados do Censo 2000.

Em 2008, o percentual de domicílios sem rede de esgoto era maior na região Norte, onde 96,2% das unidades não eram atendidas. Nas regiões Nordeste e Sul, a proporção também era inferior à média brasileira, com 77,6% e 68,8% de domicílios, respectivamente, sem acesso. Apenas na região Sudeste a minoria das unidades não possuía rede de esgoto (31,2%).

Entre as unidades da federação, a população mais atendida era a do Distrito Federal (86,3% de domicílios com rede de esgoto), seguido por São Paulo (82,1%), Minas Gerais (68,9%), Rio de Janeiro (49,2%) e Paraná (46,3%). Na outra ponta do ranking, com as menores coberturas, estavam Amapá (3,5%), Pará (1,7%) e Rondônia (1,6%).

A pesquisa também revelou que apenas 28,5% dos municípios brasileiros faziam tratamento de esgoto em 2008, com destaque negativo para as regiões Norte (7,6% dos municípios) e Nordeste (7,6%). O melhor desempenho nesse quesito é do Sudeste, com 48,4% dos municípios com tratamento de esgoto, seguido pelo Centro-Oeste (25,3%) e pelo Sul (42,9%).

Com "lixões" proibidos, Brasil terá que dar outro destino para metade do lixo do país

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou no último dia 2 a lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que, entre outras medidas, determina que Estados e municípios acabem com os tradicionais "lixões". Agora, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nesta sexta-feira (20), o poder público terá que encontrar outro destino para metade de todo o lixo produzido no país.

Com relação aos Estados, o estudo mostrou que havia maior percentual de municípios com tratamento em São Paulo (78,4%), Espírito Santo (69,2%) e Rio de Janeiro (58,7%). Os piores resultados foram verificados no Maranhão (1,4%), Piauí (2,2%), Rondônia (3,8%), Pará (4,2%) e Amazonas (4,8%). O percentual do esgoto coletado no país que foi tratado subiu de 19,9%, em 1989, para 35,3%, em 2000, saltando para 68,8% em 2008.

Abastecimento de água

A desigualdade regional também esteve presente, segundo a pesquisa, na distribuição de água por rede geral. No Brasil, 78,6% (45,3 milhões) dos domicílios eram abastecidos em 2008, contra 63,9% (34,6 milhões) em 2000.

Na região Norte, contudo, apenas 45,3% das casas recebiam água via rede em 2008. Em contrapartida, 87,5% dos domicílios na região Sudeste eram atendidos, quase o dobro do percentual do Norte. No Sul, 84,2% recebiam água; no Centro-Oeste, 82%; e no Nordeste, 68,3%.

O IBGE apontou ainda que 61,6% dos municípios brasileiros distribuíam água tratada, 6,2% oferece água parcialmente tratada e 6,6% entrega água sem qualquer tratamento. Piauí (24,3%) e Maranhão (21,8%) têm os maiores percentuais de municípios que não tratam a água.

O levantamento revelou também que em 1.296 municípios brasileiros ocorriam racionamentos de água, o que representa 23,4% do total. Entre as regiões, as maiores ocorrências eram no Nordeste (40,5%) e Norte (24,9%). Nos Estados, havia mais racionamento em Pernambuco (77,3% dos municípios), Ceará (48,9%), Rio Grande do Norte (46,7%), Amazonas (43,5) e Pará (41,4%).

Fonte: UOL Notícias – http://noticias.uol.com.br/

O treino do olhar

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As histórias do escritor angolano Gonçalo M. Tavares mostram que o mundo não se oferece à visão a qualquer hora. E que é preciso descortiná-lo com pudor

Gabriel Perissé

O angolano Gonçalo M. Tavares (1970- ), referência na atual ficção em língua portuguesa, e já traduzido para muitos idiomas, produz poesia, teatro, conto e romance. Escreve textos que fazem pensar, sofrer e sorrir, o que não é provocar pouco nos leitores, quando se deseja viver uma carreira literária sem falcatruas e literatices.

E nós, leitores, o que esperamos? Esperamos de um escritor que nos conte histórias, em prosa e em verso, e para além do verso e da prosa. Histórias baseadas na vida pessoal e/ou na vida alheia. Histórias carregadas de imagens, de ideias, de intuições, de paradoxos, de humor, de sustos e alívios, de amores e ódios. Histórias várias e variadas, que nos ensinem (dentro ou fora da sala de aula!) a ser mais humanos.

As histórias de Gonçalo não poderiam ficar alheias à educação, porque esse é um tema que ultrapassa os limites do pedagógico, do acadêmico e do escolar.

O que é aprender?

Uma leitura educadora só ensina na medida em que o leitor queira aprender. A sua atenção deve redobrar-se. Não há espaço para a passividade. Para o lugar-comum. Para o comodismo mental. A literatura pede demais. Entre outras coisas, a releitura. O que nos faz "treinar os músculos da paciência", como escreve Gonçalo Tavares em O senhor Calvino (Casa da Palavra, 2007).

O senhor Calvino é alguém que se dedica a aprender por conta própria, realizando atividades não convencionais. Por exemplo, carregar um balão cheio de ar nas ruas, no trabalho, no transporte público, durante o almoço… esta sua dedicação a objeto tão vulgar como o balão ajuda-o a realizar um exercício fundamental: "treinar o olhar sobre as coisas do mundo".

Em casa, o senhor Calvino colocou em sua janela cortinas que devem ser desabotoadas. Sete botões a abrir para ver pela janela, sete botões a fechar depois de ver o mundo. O mundo não está disponível a qualquer hora. É preciso descortiná-lo com pudor. E por isso, daquela janela, "o mundo não era igual".

Criador de seus próprios métodos, o senhor Calvino decidiu colocar uma colherzinha de café ao lado da pá, impondo-se a tarefa de transportar 50 quilos de terra de um ponto a outro usando, não a pá, mas a colherzinha:

Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.

Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.

Religiões existenciais

Os personagens de Gonçalo Tavares, e ele próprio, criam para si religiões existenciais, ritos,  regras, proibições, dogmas. É assim que vão aprendendo a viver. Fazendo experiências paralelas, observando o mundo com novos interesses, testando os objetos e tomando decisões bizarras.

O senhor Juarroz é outro nessa galeria de tipos estranhos, cujos nomes são retirados do universo literário – o senhor Calvino faz lembrar Italo Calvino (1923-1985), o senhor Brecht, que veremos mais adiante, alude a Berthold Brecht (1898-1956), e o senhor Juarroz remete ao poeta argentino Roberto Juarroz (1925-1995).

As atitudes estranhas do senhor Juarroz são metáforas vivas:

Viagem longa

Como gostava de ler e ia para uma viagem longa o senhor Juarroz decidiu pôr na mala seis exemplares do mesmo livro.

(O senhor Juarroz, pela

Casa da Palavra, 2007).

Por que seis exemplares? Esta é a pergunta óbvia e um tanto irritada, pois não faz o menor sentido carregar seis exemplares do mesmo livro, por mais longa que uma viagem seja. A multiplicação absurda fere o bom-senso. A mala ficará pesada à toa. Como pode alguém, que gosta de ler, prender-se a um só título? Que espécie de fanático se dedica a um único livro?

Contudo, procurando pensar de modo inabitual, talvez o inusitado faça sentido. Se relermos várias vezes um texto tão breve quanto enigmático, acabaremos por encontrar nele uma provocação, uma inspiração inédita. Criar hipóteses e interpretações para o que, a princípio, parece mero jogo de palavras, estimula a inteligência

e a sensibilidade.

Talvez o senhor Juarroz tenha um medo patológico de perder livros, e por (in)segurança leva consigo seis exemplares da mesma obra. Ou talvez queira estar prevenido e, encontrando uma oportunidade, presenteie cinco outras pessoas com os exemplares de que dispõe. Ou talvez distribua os exemplares por seis pontos diferentes do local onde estiver, para retomar o fio da meada a qualquer momento. Ou talvez esse livro seja da autoria do próprio Juarroz, e ele leva os exemplares que restaram dos que a editora lhe entregou na ocasião do lançamento. Ou talvez… Ou talvez…

A imagem do mestre

E quem é o professor ou a professora? Numa de suas breves histórias, no livro O senhor Brecht (Casa da Palavra, 2005), o mestre erra:

O mestre

O mestre mais importante da cidade queria desenhar uma circunferência, mas errou e acabou por desenhar um quadrado.

Pediu aos alunos para

copiarem o seu desenho.

Eles copiaram, mas por erro, desenharam uma circunferência.

O próprio texto é uma circunferência. Começa com um erro e com outro erro termina. O mestre quer a perfeição (o círculo). Sua imperfeição leva-o ao inesperado (o quadrado). O mestre não titubeia e, por saber de sua importância na cidade, para não perder o prestígio, resolve pedir aos alunos a cópia servil. Os alunos devem simplesmente copiar o que o mestre fez, desconhecendo, no entanto, a intenção original. Os alunos erram, o que aliás era de se esperar! Mas por um feliz acidente… acabam acertando!

Ensinar e aprender em caminhos opostos e surpreendentes. Errar é humano, isso é certo! A didática deve contar com esse dado irrefutável. Nada de estigmatizar os erros dos alunos, e muito menos dramatizar os erros do professores. Os alunos acabaram aprendendo o que o professor não conseguiu ensinar. Não temos aí um elogio à inteligência dos estudantes? E não temos aí também um elogio (irônico) ao professor que, mesmo errando, insistiu em ensinar?

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br