Monthly Archives: julho 2010

A neurobiologia da maconha

Sendo o cérebro tão vasto e complexo e a ação dos canabinóides tão diversa, não é de estranhar que a maconha produza efeitos variáveis no tempo, entre indivíduos e em diferentes contextos comportamentais

Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro

Embora muitos efeitos mentais daCannabis sejam conhecidos, seus mecanismos de ação no cérebro ainda guardam segredos. Evidências recentes, no entanto, mostram que os canabinóides produzem uma desorganização do ritmo cerebral, principalmente no hipocampo, área relacionada à formação de memória.

Registrando a atividade de dezenas de neurônios por meio de finíssimos fios metálicos conectados a amplificadores, neurofisiologistas húngaros e americanos da Universidade Rutgers em Newark, Estados Unidos, investigaram o efeito de canabinóides naturais e sintéticos na atividade neural e no comportamento de ratos enquanto estes realizavam uma tarefa de alternância espacial.

Os animais tinham de buscar recompensa em lugares que mudam com o tempo conforme uma ordem fixa. Isto exigia que eles se lembrassem da última escolha que fizeram, algo que depende da integridade do hipocampo. Os pesquisadores verificaram que os canabinóides produzem redução na potência dos ritmos hipocampais em diversas faixas de freqüência, efeito que puderam reverter utilizando um antagonista do receptor CB1, isto é, uma droga que bloqueia a ação dos canabinóides neste receptor.

A redução do ritmo hipocampal denominado teta, caracterizado por oscilações neurais numa faixa estreita de freqüências entre 4 e 12 Hz, correlacionou-se diretamente com os déficits de memória de trabalho. Quando os pesquisadores compararam a atividade de neurônios individuais antes e depois da administração dos canabinóides, verificaram que o tratamento teve apenas um leve impacto na freqüência com a qual potenciais de ação ocorrem em neurônios excitatórios e inibitórios. Entretanto, uma análise de coordenação temporal (sincronização) da atividade de grupos neuronais deixou claro que a sincronia da ocorrência de potenciais de ação de neurônios individuais é fortemente diminuída pelos canabinóides, literalmente desorganizando o processamento de informações no hipocampo.

Sendo o cérebro tão vasto e complexo, a ação dos canabinóides tão diversa e a interação com seus receptores canabinóides tão diferenciada, variando conforme a região cerebral enfocada e a dose utilizada, não é de estranhar que a maconha, que contém 70 canabinóides com propriedades distintas, produza efeitos muito variáveis no tempo, entre indivíduos e em diferentes contextos comportamentais.

As diversas funções reguladas por endocanabinóides derivam do funcionamento articulado de redes complementares de neurônios excitatórios e inibitórios, promovendo ação e contra-ação em níveis escalonados tanto molecular quanto sistêmico. Em contraste com essa precisa regulação temporal e localizada da ativação de receptores CB1, o consumo de maconha provoca diminuição generalizada da sincronia das populações de neurônios que integram os sistemas cerebrais com alta densidade de receptores canabinóides, como o hipocampo e o estriado.

Dado o alto grau de conexão destas regiões com o resto do cérebro, pode se dizer que a maconha produz uma reestruturação global dos padrões de atividade neuronal. A ação antiepilética, os déficits de memória de curto prazo, a alteração perceptiva que converte até os estímulos mais corriqueiros em novidade, a perda de atenção, a sensação alterada da passagem do tempo, a preguiça, o aumento da criatividade e da atitude contemplativa, todos esses efeitos mentais tipicamente causados pela maconha talvez derivem diretamente da flexibilização da coordenação entre grupos neuronais.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

Diversidade brasileira

Censo 2010 vai revelar quantos povos e línguas indígenas existem no país

Carlos Haag

O Censo 2010, por esses vários aspectos, vai trazer uma nova visão do índio. Eles são a cara do país, diz Marta

Por uma ironia estatística temos hoje estimativas mais confiáveis sobre quantos indígenas habitavam o Brasil em 1500 (segundo cálculos da Fundação Nacional do Índio, Funai, eles somavam 5 milhões) do que os que vivem aqui atualmente. Em 2000, um estudo da Funai afirmou que eles não passariam de 450 mil, ou 0,2% da população brasileira. No entanto, dados do Censo Demográfico daquele ano, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), afirmavam que eles seriam 734 mil, ou 0,4% da população nacional. Já a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, chegou a um número diverso: 520 mil pessoas que teriam sido atendidas nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Qual, afinal, desses números é o retrato real da dinâmica demográfica da população indígena brasileira? Não se sabe. “Variam os critérios censitários e datas; há povos sobre os quais simplesmente não há informações; sabe-se pouco sobre os índios que vivem nas cidades. Ainda desconhecemos a imensa sociodiversidade nativa contemporânea dos povos indígenas, não sabendo sequer quantos povos ou línguas nativas existem”, avisa a antropóloga e demógrafa Marta Maria Azevedo, pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp. “É nítida a falta de sistemas de informações populacionais mais detalhadas para orientar e avaliar as políticas públicas para os índios.”

Preocupada em resolver essa questão, em 2001, Marta arregimentou associações indígenas e de antropólogos para sensibilizar o IBGE a melhorar a metodologia de captação de informações para o Censo Demográfico de 2010, que vai ser iniciado em agosto e encerrado em dezembro, conseguindo, após muita discussão, a inclusão de duas novas perguntas específicas para quem se declarar indígena quando perguntado pelo recenseador qual a cor da pele ou raça (as opções são branco, preto, amarelo, pardo e indígena). Ao se autodeclarar indígena, o entrevistado poderá responder a que etnia ou povo pertence e qual é a língua ou idioma indígena que habitualmente fala em casa. Além disso, as perguntas sairão do chamado questionário da amostra (direcionado a um grupo pequeno de pessoas e, por amostragem estatística, estendido a uma população maior) e passarão a integrar o questionário do universo, que é respondido por todos os brasileiros. “Dessa forma todos os índios existentes serão recenseados, o que não aconteceu nos Censos anteriores. Como eles são minorias, tendem a desaparecer nas estatísticas quando suas respostas ficam restritas a uma amostragem”, explica o antropólogo Artur Nobre Mendes, coordenador-geral de gestão estratégica da Funai. “Esperamos, assim, conseguir agora um retrato mais fiel e detalhado da realidade indígena brasileira nas categorias: etnias, distribuição geográfica, padrões de migração, faixa de renda, escolaridade, questões de saúde etc.”, diz a estatística Nilza de Oliveira Martins, pesquisadora da Diretoria de Pesquisas do IBGE. A maneira como era feita a captação de dados nos Censos passados não identificava cada povo indígena, pois apenas usava como critério o “índio genérico”, deixando de identificar os cerca de 260 povos que habitam o território brasileiro. “O que se obtinha era um ‘tipo indígena’, enquanto, como se sabe, no Brasil temos uma notável sociodiversidade indígena. Isso será corrigido no novo Censo.”

No Censo de 1872, o primeiro levantamento censitário do país, a preocupação maior era verificar o tamanho da população escrava brasileira e foram utilizadas, além das classificações “livres” e “escravos”, as de cor/etnia branco, preto, pardo e caboclo, sendo que esta última incluía os indígenas e seus descendentes. Com a criação do IBGE, em 1936, que realizou seu primeiro Censo em 1940, as classificações de cor/etnia se restringiram a branco, preto e amarelo, com a ressalva de que haveria um espaço em branco a ser preenchido pelo recensea dor caso não se pudesse determinar a cor do recenseado. Como houve um excesso de variações, o IBGE agrupou as várias respostas na categoria de “pardos”, critério que reunia os indígenas. Em 1991 foi incorporada e investigada nacionalmente, pela primeira vez, a categoria indígena no quesito “raça ou cor” do Censo e, com isso, foi possível se separar essa categoria das pessoas que se classificavam como “pardas” nos Censos até 1980. O Censo de 2000 manteve as mesmas especificações e metodologia baseada na declaração espontânea do indivíduo, ou seja, a formulação do quesito em que a pessoa tem que se autoclassificar segundo a consideração que tem de si mesma. No caso dos indígenas, o conceito foi aplicado tanto àqueles que viviam em terras indígenas como aos que viviam em áreas urbanas.

“Apesar da inclusão de um quesito sobre a população indígena no Censo de 1991, a cobertura censitária era insatisfatória no que se referia a essa população e só foram levantados os indígenas residentes nos postos da Funai, nas missões indígenas e em algumas cidades. Além disso, a inclusão de uma única questão (raça/cor) no questionário da amostra, em que o próprio entrevistado indicava sua cor ou etnia, não permitia avançar na confirmação do recenseado como indígena”, explica o demógrafo Pery Teixeira, professor da Universidade Federal do Amazonas.

No Censo de 2000 não havia mais as limitações de cobertura, mas o problema da autoidentificação prevaleceu, contribuindo para que se verificasse um aumento da população indígena de cerca de 150% entre os dois Censos (de 294 mil a 734 mil), algo que, afirmam os especialistas, é absolutamente improvável no contexto demográfico brasileiro. “Mas na verdade o que aumentou foi o número de pessoas que, quando perguntadas sobre a sua cor de pele, passaram a se classificar como índios. São pessoas que antes diriam aos recenseadores que eram pardos e passaram a se sentir seguras em dizer que eram índios. Há um exemplo notável. No estado de São Paulo você tem 2 mil indígenas vivendo nas reservas e mais 2 mil Pankararu que moram na capital. Ou seja, 4 mil pessoas. Aí o IBGE contou, em 2000, 62 mil índios no estado. Quem eram esses outros 58 mil? São pessoas que sabem ou acham que têm um antepassado índio, mas não têm ideia se são descendentes de Xavante ou Guarani. É o que chamamos de ‘índios descendentes’”, conta Marta. Como explicar esse fenômeno?

“Havia, e ainda há, no Brasil um ambiente mais favorável para as pessoas se autodeclararem indígenas. A década de 1990 foi muito boa para os índios com a Constituição de 1988, que assegurou os direitos de diversidade dos índios, e com a Conferência Rio-92, em que eles foram ligados à preservação do meio ambiente, o que fez com que os indígenas aparecessem de forma positiva na mídia. Houve também a pesquisa sobre o DNA do brasileiro, feita pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1997, que revelava que 45 milhões de brasileiros tinham ascendência indígena”, diz Marta. “Fatos como esses reforçaram a identidade étnica e fizeram surgir um orgulho de ser descendente de índio, na contramão do preconceito que antes os obrigava a esconder suas origens. Assim, se no passado eles eram vistos como um povo fadado a desaparecer, o Censo de 2010 deverá mostrar que eles somam 1 milhão de pessoas, sendo que 500 mil serão índios com etnia e língua definidas.” A presença do “índio descendente”, porém, afetou a confiabilidade das informações do Censo 2000. “Ele levantou mais dúvidas do que certezas e o novo Censo vai nos ajudar a explicar essas questões. Apesar disso, é importante entender que todo Censo autodeclarado é um autorretrato da rea lidade e não pode ser entendido como instrumento de conhecimento étnico preciso”, observa Artur Mendes. “Mas ao discriminar etnia e língua vai nos dar uma pista do indígena real. Se a pessoa não souber falar a que grupo pertence e que língua fala saberemos estar diante de um ‘índio genérico’.”

Com a nova estrutura, o Censo também vai ajudar a Funai a avaliar sua atuação indigenista. “Se observarmos que determinada etnia está mais em cidades do que em terras demarcadas, teremos que revisar nossos programas. Afinal, se apesar das demarcações de terras os índios continuam migrando para as cidades, algo nos escapou.”

“Acima de tudo, os dados do Censo vão ajudar o Estado e as organizações indígenas a melhorar o controle social sobre as políticas públicas dos índios. As várias instâncias governamentais terão uma base melhor para pensar e avaliar políticas”, pondera Marta. “Os formuladores de políticas sempre levam em conta os dados oficiais, que no caso dos indígenas são historicamente precários. Agora, enfim, os índios ganharão, com os números mais precisos, visibilidade oficial e, assim, terão mais força para argumentar com os agentes do Estado sobre suas demandas”, fala Gersem Baniwa, coordenador-geral de educação indígena da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do Ministério da Educação. Para Gersem, no entanto, o dado mais importante será a identificação da presença dos índios em áreas urbanas, onde não têm cobertura especial dos governos federal e estadual e, no geral, vivem em situação de penúria, sem atendimento de saúde. “Creio que os resultados do Censo vão provocar uma reavaliação de nossos pressupostos de atuação e gerar uma nova discussão sobre a ação dos agentes, hoje focados apenas nas terras indígenas, mas que, no futuro, poderão voltar-se para os centros urbanos”, concorda Artur Mendes.

Indios em conferência sobre povos indígenas

Outro aspecto importante dos resultados do Censo 2010 está no campo da linguística, já que, pela primeira vez, se fará um levantamento das línguas indígenas faladas no país, cujo número está estimado entre 150 e 180 línguas diferentes. “O Brasil é um país multilíngue e a sociedade não se dá conta. É preciso resgatar essa diversidade ímpar brasileira”, afirma Nilza. Uma riqueza imensa apesar das perdas sofridas: estima-se que 75% das línguas indígenas desapareceram nos últimos 500 anos. “O fato que determina o futuro de uma língua é a sua transmissão para a geração subsequente. Das 150 línguas indígenas, pelo menos 21% delas estão seriamente ameaçadas de desaparecer em curto prazo em função do baixo número de falantes e da baixa taxa de transmissão para as novas gerações”, avisa o linguista Denny Moore, do Museu Paraense Emílio Goeldi. “Além de ser um critério de identificação da população indígena no Censo, a pergunta sobre que línguas são faladas em casa vai revelar a grande diversidade cultural do país e identificar se uma determinada língua tende à extinção ou se ela ainda se encontra com vigor: se apenas os velhos estiverem utilizando uma língua, essa tende a desaparecer”, fala Nilza. “O Brasil costuma ser considerado aos olhos estrangeiros e pelos próprios brasileiros como um país dotado de uma invejável homogeneidade linguística, o que contribuiria para consolidar a unidade política da nação. Criou-se no nosso imaginário o ideal formativo das três raças (português, negro e índio) que só se expressam numa língua comum: o português”, afirma o linguista Gilvan Muller de Oliveira, professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Com o novo Censo, porém, as línguas indígenas terão sua chance de resgate.

"Será possível desenvolver projetos específicos para revitalizar línguas em escolas e comunidades indígenas. E, no caso das ameaçadas, será possível registrar sua gramática e gravar falantes, deixando acessível esse conhecimento para estudos ou para que gerações futuras possam, um dia, voltar a falar uma língua desaparecida”, lembra Artur Mendes. “Uma língua carrega todo o universo das pessoas. Toda a cultura brasileira está no vocabulário e é muito doloroso perder, com uma língua desaparecida, a identidade de um grupo, sua religião mitos etc. Esse é o problema da atuação missionária: quando acabam com a religião do índio, tiram sua língua e põem a perder esse patrimônio.” “Enfim, o Censo 2010, por esses vários aspectos, vai trazer uma nova visão do índio. Eles são a cara do país”, avalia Marta. “Conhecer melhor, qualitativamente e quantitativamente, os indígenas vai ajudar a diminuir o preconceito da sociedade contra eles”, observar Gersem. “Os números vão mostrar para a sociedade que há mesmo um grande número de povos e línguas indígenas neste país e que isso não é invenção de antropólogos. Não se trata de discurso ou de diversidade inventada, mas da realidade mais profunda do Brasil.”

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Mudanças no Código Florestal baseiam-se em ‘desconhecimento entristecedor’

AZIZ AB’SABER

Em face do gigantismo do território e da situação real em que se encontram os seus macrobiomas – Amazônia Brasileira, Brasil Tropical Atlântico, Cerrados do Brasil Central, Planalto das Araucárias e Pradarias Mistas do Brasil Subtropical – e de seus numerosos mini-biomas, faixas de transição e relictos de ecossistemas, qualquer tentativa de mudança no "Código Florestal" tem de ser conduzida por pessoas competentes e bioeticamente sensíveis.

Pressionar por uma liberação ampla dos processos de desmatamento significa desconhecer a progressividade de cenários bióticos, a diferentes espaços de tempo futuro. Favorecendo de modo simplório e ignorante os desejos patrimoniais de classes sociais que só pensam em seus interesses pessoais, no contexto de um país dotado de grandes desigualdades sociais.

Cidadãos de classe social privilegiada, que nada entendem de previsão de impactos. Não têm qualquer ética com a natureza.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6516

Quem tem medo da Attac?

A crise recente do capitalismo financeiro internacional recolocou o debate sobre a importância de políticas públicas e da presença do Estado na economia, por meio da política fiscal. E, pouco a pouco, foram sendo abertos espaços para o debate das idéias de Tobin e da ATTAC.

Paulo Kliass

Vamos aqui refrescar um pouco a memória de alguns e trazer informação nova para outros. Antes que me acusem de estar sugerindo a retomada de alguma estratégia ultra-esquerdista em razão do título, vou logo esclarecendo o sentido da sigla. Trata-se de um importante movimento nascido na França, mas que logo começou a ganhar escala internacional, muito na onda do altermundismo e das articulações em torno das diversas etapas do Fórum Social Mundial. ATTAC é a sigla da “Associação para a Taxação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos”, criada em 1998.

Um dos pilares do surgimento da entidade foi a proposta de uma ampla mobilização internacional em torno da criação de um tributo (imposto ou taxa, a depender da tradução) que incidisse sobre as transações financeiras em escala planetária, com o objetivo de constituir um fundo internacional voltado para a erradicação da miséria e a redução das desigualdades. Sonho utópico sem a menor base na realidade? Devaneio desses ongueiros europeus que não conhecem a realidade do Terceiro Mundo? Nem vou entrar aqui nessa polêmica que vale por si só outro artigo, mas o fato é que a origem dessa proposta está onde poucos poderiam imaginar: no coração mesmo do establishment do capitalismo financeiro e internacional.

James Tobin (1918-2002) foi um importante economista norte-americano, renomado professor universitário e que ocupou posições de destaque no governo daquele país. Dentre outras funções, pode-se mencionar o cargo de membro do Comitê de Assessoria Econômica do Presidente Kennedy, na década de 60. Apesar de se reivindicar como pertencente às correntes influenciadas pelos trabalhos de John Keynes, Tobin teve seu nome indicado e aprovado para o Prêmio Nobel de Economia em 1981. Em mais uma dessas contradições da História, isso ocorre bem num período marcado pela rigidez da ortodoxia econômica e o endurecimento político-diplomático da chamada era Reagan/Thatcher. A duplinha dinâmica formada pelo Presidente norte-americano, do Partido Republicano, Ronald Reagan e a Primeira Ministra britânica, do Partido Conservador, Margaret Thatcher, conhecida como a Dama de Ferro. Tristes tempos aqueles…

Mas a grande contribuição que esse economista deixou como legado histórico foi a sua proposição de criação de – pasmem! – um imposto incidente sobre as transações financeiras internacionais, em especial as operações de natureza cambial. Pois é, exatamente isso. E essa idéia ficou conhecida, desde a década de 70, pela paternidade de um de seus autores: taxa Tobin. Não é difícil imaginarmos a enorme resistência que uma proposta de tal natureza encontrou, a partir de então, a cada tentativa de debate a respeito de sua possível implementação. Foram quase 3 décadas de supremacia hegemônica do pensamento e dos postulados do neoliberalismo pelo mundo afora. Tudo aquilo que pudesse sugerir algum mecanismo de intervenção pública ou de regulamentação do todo-poderoso-deus-mercado era imediatamente carimbado como “irresponsável”, catalogado na categoria das medidas “populistas” e descartado a priori da agenda.

Mas, felizmente, houve muitos focos de resistência à violência dessa maneira de analisar o mundo e o fenômeno econômico. O movimento progressista não se deixou abater tão facilmente. E uma das contribuições foi justamente o ATTAC ter recuperado, quase 20 anos mais tarde, as idéias de Tobin e lançado o debate em escala mundial. O argumento é de que a política fiscal (neste caso, a criação de um imposto) pode e deve sim ser utilizada para corrigir distorções sociais e econômicas. Neste caso, a grande novidade – e ao mesmo tempo, o grande desafio – era a proposta de implementação de um tributo de natureza internacional. E esse foi, aliás, um dos principais argumentos esgrimados pelos adversários da idéia. Simples assim: ora, como não há um Estado mundial, não pode haver um imposto internacional… No entanto, isso não significa que a tarefa seja assim tão simples. Há que se criar instituições responsáveis pela arrecadação do tributo, com elevado grau de convergência no plano dos organismos multilaterais. Há que se criar mecanismos institucionais de controle e avaliação da aplicação dos recursos. Porém, creio que o essencial seja ter a efetiva vontade política para transformar o sonho em realidade.

Como não poderia deixar de ser, a crise recente do capitalismo financeiro internacional recolocou o debate sobre a importância de políticas públicas e da presença do Estado na economia, por meio da política fiscal. E, pouco a pouco, foram sendo abertos espaços para o debate das idéias de Tobin e da ATTAC. Os encontros internacionais de economia, as universidades e os próprios organismos multilaterais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, passaram se interessar pela proposta. Pelo menos, o tema perdeu um pouco daquele preconceito do passado e está presente na pauta das principais instituições que lidam com o assunto.

Há diversas iniciativas ocorrendo simultaneamente na esfera diplomática. De acordo com artigo de Marcio Pochmann, presidente do IPEA (1) , o Brasil participa de uma delas, ao lado de outros países, como França, Japão, Alemanha, Chile e Inglaterra. A própria ONU criou um grupo de trabalho para tratar do assunto, uma vez que é possível incluir a proposta no âmbito da Assembléia Geral da ONU de setembro próximo, quando será realizada uma avaliação dos primeiros dez anos dos Objetivos do Milênio. Há diferentes propostas: taxar apenas as operações de natureza cambial, taxar o conjunto das operações financeiras na esfera internacional, criação de um fundo apenas para erradicação da miséria, utilização dos recursos para redução das desigualdades entre os países e assim por diante. Porém, o que parece inquestionável é que o volume de recursos com os quais se lida nesse debate é mais do que suficiente para iniciar os trabalhos que a maioria da população e dos países do mundo tanto necessitam. Apenas a título de ilustração, uma irrisória alíquota de 0,005% incidente sobre as operações cambiais em todo o mundo proporcionaria recursos anuais da ordem de US$ 30 bilhões.

No mês de junho passado, em outro evento solenemente esquecido pela pauta dos grandes órgãos de comunicação de nossa terra, o IPEA realizou um importante seminário a respeito da questão. Além do debate com especialistas, o momento foi marcado pelo lançamento de uma valiosa publicação: “Globalização para Todos – Taxação Solidária sobre os Fluxos Financeiros Internacionais” (2). O livro é uma co-edição do IPEA com a Fundação Alexandre Gusmão, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores. No prefácio, o Presidente Lula afirma que “em vários países há esforços consideráveis para combater a fome e a pobreza extrema. Mas, no mundo de hoje, essa não é uma tarefa que os povos possam concluir isoladamente. Existe fome de inclusão social, de oportunidades econômicas e de participação democrática. Essa é a base para um mundo civilizado, cuja construção deve ser responsabilidade de todos.”

Ocorre que não bastam apenas seminários fechados e articulações na esfera diplomática. É necessário trazer a discussão para as luzes da cena política, buscando o apoio da população e das forças políticas organizadas para esse tipo de medida. E nenhum momento se revela mais adequado para isso do que os debates de programas dos candidatos e candidatas às eleições de outubro. Tanto se fala no crescimento da importância adquirida pelo Brasil nas esferas de negociação internacional. Ora, esse tipo de proposta, uma vez trazida ao debate aberto e amplo na sociedade, só reforçaria a legitimidade de nossos negociadores e propiciaria a adesão de outros países que certamente seriam beneficiados por essa taxação inovadora. Afinal, a idéia é justamente essa: a de que os países mais ricos, que mais negociam nas transações internacionais, dêem a sua efetiva contribuição para a construção de um mundo menos desigual.

O processo de avanço político rumo a uma sociedade mais justa não se dará de forma contínua e tranqüila. Se o projeto de disputa pelo poder pretende transformar estruturas e eliminar privilégios, isso significa que deverão ocorrer mudanças. E os setores afetados tenderão a se mobilizar contra, é óbvio. Assim como houve tanta resistência à taxa Tobin na esfera internacional, aqui dentro de nosso País, desde 1988 que a sociedade não consegue discutir de forma adequada o tributo previsto no inc. VII, do art. 153 da Constituição Federal, o tão temido Imposto sobre Grandes Fortunas. Os governos e boa parte dos políticos mais à esquerda se atemorizam frente ao poder das elites e não se dispõem a cumprir o que deles se espera. As propostas estão no Congresso Nacional há muitos anos, aguardando a entrada em pauta para votação. Parece que falta a coragem política de anunciar em alto e bom tom: esse assunto é prioritário e o governo vai usar a sua maioria no legislativo para aprová-lo.

E para os que gostam de uma parábola futebolística e ainda estão, como eu, remoendo as dores da estratégia retranqueira imposta por Dunga à seleção canarinho, vale trazer aqui a lembrança da máxima do esporte bem jogado, bonito e carregado de emoções: o ataque é a melhor defesa!

Fonte:  Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Vitória alada

Acreditava-se que as aves modernas surgiram após a extinção dos dinossauros, mas os dois foram contemporâneos

Gareth Dyke

É DEZEMBRO EM MOSCOU, e a temperatura cai para 15o Celsius negativos. Os aquecedores do bar não funcionam bem. Estou sentado com um casaco pesado e luvas, bebendo vodca, enquanto reflito sobre os fósseis de aves. É 2001, e Evgeny N. Kurochkin, da Academia Russa de Ciências, e eu passamos horas no museu de paleontologia como parte de nosso trabalho de levantamento de todos os fósseis de aves já coletados por expedições conjuntas mongol-soviéticas. Entre os restos está uma asa desenterrada no deserto de Gobi em 1987. Se comparada a esqueletos de dinossauros espetacularmente preservados em coleções do museu, essa minúscula asa com os ossos delicados misturados e esmagados não demonstra nenhum glamour. Porém, oferece um forte indício de que uma opinião generalizada sobre a evolução das aves está equivocada.

Hoje, mais de 10 mil espécies de aves povoam a Terra. Algumas estão adaptadas a viver distantes, em mar aberto, outras sobrevivem em desertos áridos ou habitam as montanhas cobertas de neve. Aliás, de todas as classes de vertebrados terrestres, a que inclui as aves é, de longe, a mais variada. Os biólogos evolucionistas já há muito tempo supunham que os ancestrais das aves de hoje devem o seu sucesso ao impacto de um asteroide que extinguiu os dinossauros e muitos outros vertebrados terrestres há cerca de 65 milhões de anos. Seu raciocínio era simples: apesar de as aves terem evoluído antes dessa catástrofe, as variedades anatomicamente modernas surgiram em registros fósseis somente após esse acontecimento. O aparecimento de patos, cucos, beija-flores e outras formas modernas, que juntas compõem a linhagem das neornithes (“aves novas”), parecia ser um caso clássico de explosão evolutiva em resposta à abertura de novos nichos ecológicos provocados por um evento de extinção. Nesse caso, os nichos foram ocupados por dinossauros, répteis voadores conhecidos como pterossauros e aves primitivas.

Durante a última década, no entanto, evidências crescentes a partir de registros fósseis – inclusive aquela asa esmagada – e de análises do DNA de aves vivas revelaram que as aves neornithes provavelmente se diversificaram antes de 65 milhões de anos atrás. As descobertas acabaram com a visão tradicional da evolução das aves e suscitaram novas questões importantes sobre como esses animais ascenderam até as alturas evolutivas.

AS AVES PRIMITIVAS

AS AVES SÃO UM DOS TRÊS GRUPOS de vertebrados que evoluíram a ponto de bater as asas, de forma ativa, para o voo. Os outros dois são os malfadados pterossauros e os morcegos, estes apareceram muito mais tarde e compartilham o céu com as aves até hoje. Os paleontólogos discutiram a origem das primeiras aves durante muitos anos. Uma parte argumentava que elas evoluíram a partir de pequenos dinossauros carnívoros pertencentes ao grupo dos terópodes, a outra defendia que evoluíram de répteis primitivos. Porém, descobertas de duas décadas passadas sobre dinossauros semelhantes a pássaros, inclusive muitos com penugem, convenceram a maioria dos cientistas de que os pássaros evoluíram dos dinossauros terópodes.

No entanto, preencher a lacuna entre os ancestrais aviários e as aves modernas provou- se ser muito mais capcioso. Vamos tomar o Archaeopteryx, a criatura de 145 milhões de anos da Alemanha, a mais antiga ave conhecida. O Archaeopteryx preserva a mais antiga evidência definitiva de asas com penas assimétricas capazes de gerar a sustentação necessária para o voo – a característica que defi ne o grupo. Entretanto, ele se assemelha mais aos dinossauros de porte pequeno, como o Velociraptor, o Deinonychus, o Anchiornis e o Troodon, que com as aves modernas. Como esses dinossauros, as aves primitivas, como o Archaeopteryx e o Jeholornis, descoberto mais recentemente na China, e o Rahonavis de Madagascar exibiam longas caudas ósseas, e algumas tinham dentes afi ados, dentre outras características primitivas. As neornithes, em contraste, não exibem essas características e apresentam um conjunto de traços avançados. Esses recursos incluem os ossos do dedo do pé totalmente fundidos e asas sem dedos, que reduzem o peso do esqueleto, permitindo voos mais eficientes; e pulsos e asas altamente flexíveis, que melhoram a maneabilidade no ar. Porém, foi impossível determinar como e quando as neornithes adquiriram essas características, por causa da ausência de fósseis que documentem essa transição.

Isso não quer dizer que o registro fóssil não tivesse nenhum remanescente aviário intermediário, em termos de idade, entre as aves primitivas e as neornithes pós-extinção. Claramente já no início do Cretáceo, há mais de 100 milhões de anos, as aves que representavam uma ampla gama de adaptações de voo e especializações ecológicas acabaram por evoluir. Algumas voaram com asas amplas e largas, enquanto outras tiveram asas longas e fi nas. Algumas viviam em florestas se alimentando de insetos e frutas, outras construíram seus lares às margens de lagos ou de água e subsistiram comendo peixes. Essa incrível diversidade persistiu até os últimos estágios do Cretáceo, há 65 milhões de anos. Na verdade, juntamente com os meus colegas holandeses do Museu de História Natural de Maastricht, descrevi restos de aves com dentes, encontrados logo abaixo do horizonte geológico que marca o evento de extinção do final do Cretáceo. Mas todas as aves do Cretáceo que estão completas o suficiente para ser classificadas pertenciam a linhagens mais antigas que as neornithes, e essas linhagens não sobreviveram à catástrofe. É por isso que, até recentemente, as evidências disponíveis sugeriam que a explicação mais simples para o aparecimento das aves modernas era que elas se originaram e se espalharam após o evento da extinção.

Na década de 90, enquanto os paleontólogos ainda buscavam as neornithes ancestrais do Cretáceo sem qualquer resultado positivo, outro método de reconstrução da história evolutiva dos organismos, à parte do registro fóssil, foi ganhando força. Os biólogos moleculares faziam o sequenciamento de DNA dos organismos vivos e comparavam essas sequências para estimar quando os dois grupos se separaram. Eles conseguem fazer essas estimativas porque determinadas partes do genoma sofrem mutação a uma taxa mais ou menos constante, formando o assim chamado “tique-taque” do relógio molecular.

Há muito tempo, os biólogos moleculares questionavam a visão clássica da evolução das aves modernas baseada em fósseis. Então lidaram com o problema usando sua técnica de relógio, para estimar a divergência de datas das principais linhagens de aves modernas. Dentre as separações mais significativas está a que ocorreu entre os enormes, e praticamente não voadores, Paleognathae (avestruzes, emas e parentes) e os Galloanserae (que inclui galinhas e outros membros do grupo Galiformes, bem como patos e outros membros do grupo dos Anseriformes). Os estudos de DNA concluíram que essas duas linhagens, a mais primitiva dentre as neornithes existentes, se separaram há muito tempo, no Cretáceo. E os pesquisadores obtiveram datas semelhantes dessa antiga separação para outras linhagens.

Os resultados inferiram que, contrariamente ao senso comum paleontológico, as neornithes conviveram com os dinossauros. É engraçado pensar em um tordo empoleirado nas costas de um Velociraptor, ou em um pato nadando ao lado de um Spinosaurus. Porém, a evidência molecular para a contemporaneidade das aves modernas com os dinossauros foi tão convincente que até mesmo os paleontólogos que geralmente viam com ceticismo as descobertas do DNA conflitantes com os registros fósseis começaram a aceitá-la. Ainda assim, aqueles dentre nós que estudam esqueletos antigos queriam a confirmação fóssil urgente dessa nova visão sobre a evolução das aves.

Finalmente, depois do novo milênio, a sorte dos paleontólogos começou a mudar para melhor, a partir da minúscula asa mongol sobre a qual Evgeny e eu nos concentramos em Moscou. Voltando ao tempo em que Evgeny viu o fóssil pela primeira vez em 1987, ele me disse que pensou que talvez fosse um membro das Presbyornithidae, grupo extinto de aves, aparentado dos patos e gansos modernos. Mas 70 milhões de anos atrás, era um pássaro do Cretáceo, e todos sabiam, ou supunham saber, que não havia evidências defi nitivas de Presbyornithidae no Cretáceo. No entanto, nossas comparações no museu, naquele gelado inverno em 2001, demonstraram conclusivamente que a asa com o seu carpo-metacarpo reto (osso formado pela fusão dos ossos da mão) e detalhes de canais, sulcos e cicatrizes musculares, de fato, pertencia a uma Presbyornithidae que, além disso, era o mais antigo representante inequívoco de qualquer grupo de neornithes. Nosso achado se ajustou perfeitamente às previsões dos biólogos moleculares. Em um documento de 2002, que descreveu o animal formalmente, demos-lhe o nome Teviornis.

Pouco tempo depois, o Teviornis ganhou a companhia de uma segunda neornithe primitiva, o Vegavis, da ilha de Vega, na Antártida. O Vegavis foi encontrado na década de 90, e descansou em relativo anonimato durante anos, antes de sua verdadeira importância vir à tona. Em 2005, Julia A. Clarke, que no momento está na University of Texas em Austin, e seus colegas publicaram um artigo mostrando que o Vegavis foi outro pássaro do Cretáceo que exibe várias características encontradas nos patos modernos, especialmente em relação ao ombro largo, à pélvis, aos ossos das asas e às pernas curtas. Com 66 a 68 milhões de anos, o Vegavis é um pouco mais jovem que o Teviornis, mas ainda pertence claramente ao período anterior à extinção em massa. Além de ser um fóssil mais completo, preservando a maior parte do esqueleto.

Para a maioria dos paleontólogos, o Vegavis venceu a batalha contra as neornithes do Cretáceo. Com esse esclarecimento, os estudiosos começaram a reexaminar as coleções de fósseis dessa época, buscando exemplos adicionais dessas aves modernas primitivas. Uma pesquisadora, Sylvia Hope, da California Academy of Sciences, em São Francisco, vinha defendendo fazia anos que havia identifi cado espécies de aves modernas a partir de fósseis encontrados em Nova Jersey e Wyoming, datados entre 80 milhões e 100 milhões de anos atrás. Mas essas descobertas – na maior parte apenas ossos isolados – foram consideradas por alguns pesquisadores como precárias demais para uma identifi cação conclusiva. As revelações sobre o Vegavis e o Teviornis sugerem que ela estava certa o tempo todo. As comparações dos ossos de Hope com restos mais completos devem se provar esclarecedoras sobre o assunto.

PONTO DE ESCAPE

A DESCOBERTA DA RAIZ DAS AVES MODERNAS no Cretáceo alinhou perfeitamente os registros fósseis com as datas divergentes baseadas no DNA. No entanto, ela levantou uma nova questão incômoda, ou seja, por que os pássaros modernos conseguiram sobreviver ao impacto de asteroides e às mudanças ecológicas consequentes, quando seus primos voadores aviários mais primitivos e seus companheiros, os pterossauros, não sobreviveram? Em minha opinião, isto constitui o único mistério relevante remanescente sobre a evolução das aves. A resposta ainda está muito longe de ser elucidada, e, neste momento, venho dedicando grande parte da minha pesquisa à tentativa de descobri-la.

Com apenas uma dupla de neornithes confi rmada no Cretáceo, não há muito em termos de pistas fósseis para seguir adiante. No entanto, novas suposições estão sendo feitas em estudos de aves vivas. Usando inúmeras informações de medições de aves vivas, os meus colegas do Reino Unido e eu demonstramos, por exemplo, que as proporções de osso de asa de pássaros primitivos modernos, inclusive o Teviornis e o Vegavis, não são diferentes dos extintos enantiornites. Comparando as proporções do osso da asa fóssil com as das aves de hoje podemos inferir alguns aspectos sobre o formato da asa e, em consequência, obtermos informações sobre as capacidades aerodinâmicas das aves dos fósseis. Mas só podemos concluir que as formas das asas dos dois grupos de aves fósseis não diferem entre si, em outras palavras, não achamos que as primitivas neornithes fossem melhores quanto ao voo do que os enantiornithes (embora os dois grupos provavelmente tivessem desempenho melhor no ar que os animais semelhantes aos terópodes, como o Archaeopteryx).

Se a capacidade de voo não propiciou às neornithes uma vantagem sobre os seus homólogos do Cretáceo, o que poderia propiciar? Vários paleontólogos, inclusive eu, propuseram que diferenças nos hábitos alimentares podem ter oferecido uma vantagem competitiva. Em apoio a essa teoria, mostrei em uma série de artigos publicados ao longo dos últimos anos que as aves modernas, preservadas no rescaldo da extinção em massa, em rochas de 60 milhões de anos ou mais jovens que isso, provavelmente habitavam sobretudo ambientes úmidos: litoral, lagos, as margens dos rios e o alto-mar, por exemplo. Muitas aves que vivem nesses ambientes hoje, dentre eles os patos, são tipicamente onívoras, capazes de subsistir com uma ampla gama de alimentos. E as aves semelhantes aos patos são atualmente a única linhagem confirmada de aves modernas encontradas no Cretáceo. Em contraste, os grupos de aves do Cretáceo que não sobreviveram ao desastre foram coletados de rochas formadas em vários tipos diferentes de ambientes, inclusive costas, zonas do interior, desertos e florestas. Essa diversidade ecológica pode indicar que as aves arcaicas evoluíram com especializações alimentares em cada um desses nichos. Talvez, então, o segredo do sucesso dos pássaros modernos primitivos foi simplesmente o fato de ser menos especializados que os outros grupos.

Essa flexibilidade pôde permitir às neornithes se adaptar mais facilmente às novas condições que se seguiram ao impacto do asteroide. É uma ideia atraente, mas trata-se apenas do princípio. Somente com a descoberta de mais fósseis, seja no solo ou em gavetas de museu, poderemos determinar como os pássaros modernos iludiram a extinção e criaram asas.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

A epistemologia genética de Jean Piaget

Luciana Maria Caetano

Jean Piaget nasceu na Suíça, na cidade de Neuchâtel, em 1896. Considerado uma criança precoce, desde cedo demonstrou interesse pela observação da natureza e pela organização sistematizada dos dados coletados, tanto que aos onze anos publicou um pequeno artigo científico a respeito de suas observações de um pássaro albino.

Durante sua adolescência, trabalhou como assistente do diretor do Museu de História Natural de Neuchâtel, onde se interessou e estudou malacologia, chegando a publicar vários artigos sobre o tema, os quais tiveram notório reconhecimento pela comunidade científica.

Ainda na adolescência, influenciado pelo padrinho, que era professor de filosofia, iniciou os estudos, especialmente interessado pelas questões epistemológicas, que o acompanhariam por todo o seu trabalho como pesquisador. Entretanto, precisou escolher entre a biologia e a filosofia aos 18 anos, para definir a sua profissão. Optou pela formação universitária em biologia e aos 20 anos doutorou-se em malacologia. Piaget, desde a adolescência, desejou criar uma teoria biológica do conhecimento, e, perseguindo esse ideal, acabou buscando na psicologia da inteligência o meio termo para os seus interesses biológicos e epistemológicos. A psicologia é a ciência que investiga o comportamento humano e, portanto, investiga como o ser humano aprende e se apropria do conhecimento. Especialmente, admite o método experimental de pesquisa, fato que chamou a atenção de Piaget.

Piaget recebeu um convite para trabalhar no laboratório de Binet (já falecido), tendo como chefe Simon, que também não permanecia no laboratório. Através do trabalho de padronização dos resultados de testes de inteligência, Piaget encontrou um espaço de trabalho privilegiado, no qual pôde analisar não os resultados dos testes, mas a regularidade das respostas das crianças e a análise verbal do raciocínio delas. O encontro com a criança levou Piaget a retornar à Suíça (1921) trazendo consigo esses dados interessantes que dão início à construção da Teoria da Epistemologia Genética. Piaget elaborou um método próprio de pesquisa, o método clínico, e iniciou sistematicamente as investigações sobre o desenvolvimento infantil e a construção da inteligência.

O autor produziu uma vasta obra, com mais de 50 livros e 300 artigos. O seu trabalho teve rápida repercussão mundial, o que aconteceu quando Piaget ainda era jovem e publicava os seus primeiros livros, que representavam, na verdade, um esboço da Teoria Epistemológica Genética. Ele recebeu mais de 30 doutoramentos honoris causa, foi diretor do Instituto Jean Jacques Rousseau, na década de 1920, sub-diretor geral da Unesco na década de 1940, encarregado do Departamento de Educação da Suíça, professor universitário. Depois de mais de 60 anos dedicados à pesquisa, Piaget faleceu em Genebra em 1980. Os seus estudos foram replicados em um número significativo de países e a sua teoria ainda é utilizada como fundamentação teórica de pesquisas contemporâneas em psicologia em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil. Mas quais as principais ideias da Teoria Epistemológica Genética de Jean Piaget?

Epistemologia Genética

Inicialmente, é importante explicar o nome da teoria de Jean Piaget. As questões epistemológicas interessaram a Piaget desde sua juventude. A epistemologia é utilizada comumente para designar o que chamamos a teoria do conhecimento. O objetivo da pesquisa de Piaget foi definir, a partir da perspectiva da biologia, como o sujeito passaria de um conhecimento menor anterior para um nível de maior conhecimento. O problema que buscou solucionar durante toda a sua vida de pesquisador e que fez dele um teórico e autor conhecido e respeitado mundialmente, foi o da construção do conhecimento pelo sujeito, o que o fez, partindo da biologia, estudar filosofia, epistemologia, lógica, matemática, física, psicologia, entre outras ciências.

A formação inicial de Piaget na biologia influenciou todo o desenvolvimento da sua teoria, primeiramente, na perspectiva dos instrumentos científicos utilizados por ele como comprovadores empíricos, sempre baseados em métodos científicos rigorosos, isto é, possíveis de serem replicados. A outra influência da biologia na teoria piagetiana diz respeito à concepção de inteligência enquanto algo ligado à ação e à adaptação ao meio. A principal obra do autor que expõe esse assunto é o livro intitulado Biologia e conhecimento.

Tal modelo teórico explica o desenvolvimento da inteligência, tendo como conteúdo básico a ação do sujeito que interage com os objetos, construindo, a partir dessas ações, formas e/ou estruturas de inteligência que lhe permitem, cada vez mais, adaptar-se ao mundo em que vive. Os trabalhos do autor, na psicologia, conduziram-no à ideia da utilização do modelo lógico-matemático como meio de análise e instrumento de descrição do funcionamento e do desenvolvimento da inteligência.

Essa é uma das questões principais que fazem da sua teoria uma das referências para a compreensão do homem moderno. Não houve nenhum cientista depois de Piaget que elaborasse como ele um modelo formalizado, utilizando a linguagem lógico-matemática (o agrupamento e o grupo INRC) para explicar o desenvolvimento e a organização das estruturas cognitivas do ser humano. Trata-se de um modelo universal, refutável, hipotético-dedutivo, para explicar o funcionamento das estruturas mentais orgânicas (não passíveis de serem observadas), responsáveis pela inteligência e pela construção do conhecimento pelo ser humano.

Assim, compreende-se o motivo de Piaget ter pesquisado o desenvolvimento humano a partir do estudo e observação de bebês, crianças e adolescentes; por conceber esse estudo como o mais apropriado para as suas investigações a respeito da gênese do conhecimento e para demonstrar empiricamente e explicar o seu modelo teórico de construção da inteligência. Essa é, portanto, a explicação do título da sua teoria: Epistemologia Genética.

Para o autor, o conhecimento não pode ser simplesmente imposto pelo meio ao sujeito, como um reflexo das propriedades do ambiente (empirismo), tampouco estaria inteiramente pré-formado no sujeito, apenas aguardando a maturação (apriorismo). A outra novidade da sua teoria é a abordagem empirista que explica que a construção do conhecimento pelo ser humano é fruto das interações do sujeito com o seu meio. Nas palavras da professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Zélia Ramozzi Chiarotino, responsável por introduzir, do ponto de vista da Teoria do Conhecimento e da Epistemologia, as ideias de Jean Piaget no Brasil: “Resumindo: de um lado, temos o organismo com suas possibilidades; de outro, o meio que o solicita”.

Segundo a Teoria Epistemológica Genética, conforme surgem solicitações do meio, as estruturas da inteligência vão se construindo e, a partir de novas solicitações, o sujeito tem a possibilidade de reorganizá-las, vivenciando constantes mecanismos de assimilação de novos objetos a esquemas já existentes e mecanismos de ampliação do conhecimento denominados acomodação. O resultado das sucessivas assimilações e acomodações é chamado por Piaget de equilibração (conceito central da sua teoria construtivista do conhecimento). Assim, quando as estruturas que o sujeito já construiu não lhe permitem assimilar um novo objeto de conhecimento, isto é, determinado objeto é resistente, provoca uma perturbação no sujeito, o desequilíbrio é desencadeado.

Para o autor, o recém-nascido traz consigo condições de vir a se tornar inteligente e, conforme age sobre o mundo, constrói estruturas que lhe permite cada vez mais se adaptar às novas situações, de maneira a construir estágios sucessivos de desenvolvimento. Uma das principais tarefas da Teoria da Epistemologia Genética foi exatamente estabelecer o caminho da inteligência, desde o nascimento até a possibilidade do raciocínio abstrato do adulto.

Os estágios do desenvolvimento da inteligência apresentados pela teoria psicogenética são assim denominados: o sensório-motor (da inteligência prática), o operatório concreto (que se constitui inicialmente de uma inteligência intuitiva e depois operatória, baseada na reciprocidade do pensamento) e o estágio formal (quando se pode agir e pensar sob hipóteses e abstrações). Esses estágios talvez sejam o aspecto mais conhecido da sua teoria. Infelizmente, também são fonte de algumas críticas mal fundamentadas ao seu trabalho, como, por exemplo, o fato de que Piaget teria investigado apenas os seus filhos, no caso do estágio sensório-motor, ou que “as crianças de Piaget” eram “meio atrasadas”, uma vez que algumas pesquisas encontram respostas relativas a determinado estágio em crianças com menos idade do que aquelas apontadas por sua teoria.

As provas piagetianas de diagnóstico do nível operatório – instrumentos de pesquisa elaborados pelo autor como método para investigar o nível de desenvolvimento cognitivo da criança – foram replicadas em muitos países e em diferentes estudos, e os resultados dessas investigações são exatamente similares àqueles apontados por Piaget, especialmente no que diz respeito ao caráter sucessivo (e não cronológico) e integrativo dos estágios, porque cada um deles é necessário para a formação do seguinte.

Infelizmente, os estudos de Piaget são tão complexos e influenciaram tanto os conhecimentos na área da psicologia, especialmente a psicologia de desenvolvimento humano e a psicologia da criança, que qualquer tentativa de resumir ou explanar a sua teoria acaba muito aquém da genialidade da proposta do autor. Talvez seja interessante e de grande importância, então, citar o título de três obras do autor: Seis estudos de psicologia (1964), Psicologia da criança (1970) e Epistemologia genética (1970). Tais livros foram uma resposta de Piaget a solicitações que lhe foram feitas para que escrevesse um resumo de sua teoria, a fim de que ela pudesse se tornar mais acessível a um número maior de pessoas. Essa é mais uma prova da notoriedade de sua teoria e do reconhecimento de suas ideias pela comunidade científica e uma grande dica para o leitor que quiser aprender um pouco mais sobre a Teoria Epistemológica Genética.

Piaget e a educação

O objetivo, aqui, é também apresentar ao leitor um Piaget bem mais desconhecido, mas cujas contribuições não podem ser de maneira alguma negligenciadas, num texto que se propõe a apontar a sua teoria como de importância significativa para a compreensão do mundo moderno. Que essas últimas linhas descrevam um pouco do Piaget educador.

Desde a adolescência, Piaget guardava uma preocupação com os valores éticos e acreditava que somente pela educação se poderia regenerar a sociedade. Esse seu empenho humanista pode ser observado nas suas atividades de ensino e em sua atuação em órgãos como a Unesco. Para compreender a evolução do pensamento da criança com relação a valores universais, como respeito e justiça, e suas relações com as regras e a autoridade, Piaget também elaborou estudos de notável importância.

Embora Piaget tenha uma produção menos expressiva nessa área, uma vez que a vasta obra do autor tenha se direcionado para os estudos epistemológicos e cognitivos, também no campo da moralidade, Piaget foi “um poderoso pensador”, pois embora tenha produzido apenas uma obra, O juízo moral na criança (1932), tal livro prestou-se como fundamentação teórica para a maior parte das pesquisas posteriores, como, por exemplo, as pesquisas de Lawrence Kohlberg nos Estados Unidos. Segundo Yves de La Taille, professor da Universidade de São Paulo e prefaciador da edição brasileira do livro, essa obra isolada do autor a respeito da moralidade traz três características ilustrativas do “poder” dos conceitos de Piaget: “a originalidade das pesquisas, a abrangência das análises e a articulação da moralidade com os demais aspectos do universo psicológico”.

Para Piaget, a criança, ao se relacionar com outras crianças e com os adultos, constrói o conhecimento das regras que organizam a convivência com o outro e consigo mesma. O autor explica que a educação moral é fruto das relações que os adultos estabelecem com as crianças, uma vez que os pequenos nascem sem qualquer conhecimento sobre o certo e o errado. Todo ser humano, até os seus 2 ou 3 anos, desconhece as regras morais e, por isso, o autor chamou essa fase do desenvolvimento infantil, em relação ao desenvolvimento moral, de anomia. Entretanto, ele explica que o processo da gênese da moral se inicia com o sentimento de obrigação que a criança desenvolve em relação aos mais velhos, especialmente aos seus pais e professores, pois as crianças pequenas nutrem pelos mais velhos, pais e professores, uma mistura de sentimentos: afeto e temor, a que o autor chama de respeito e que para ele é o sentimento de ingresso da criança no mundo da moralidade.

Portanto, a partir do sentimento de respeito (amor e temor) que a criança pequena sente pelo adulto, ela inicia um processo de imitação das regras recebidas dos outros e utilização individual desses exemplos recebidos, sendo que a fase da anomia é substituída pela moral, que o autor denominou heterônoma, porque dependente das regras e dos modelos dos mais velhos que convivem com a criança. Esse momento se constitui na gênese da moral na criança e pode ser também denominado de moral da obediência. O respeito que a criança sente em relação ao adulto é exatamente o sentimento de obrigação que a leva a obedecer às regras propostas pelos mais velhos, devido à relação assimétrica que estabelece com eles, por isso, esse respeito é chamado unilateral.

É preciso lembrar que o conteúdo básico da teoria psicogenética de Piaget é a ação do sujeito que interage com os objetos, construindo, a partir dessas ações, formas e/ou estruturas de inteligência que lhe permitem, cada vez mais, adaptar-se ao mundo em que vive; o objeto do conhecimento, no que diz respeito à educação e ao desenvolvimento moral, são as regras ou limites. Mas, por se tratar de um conhecimento social, ou seja, aprendido a partir dos exemplos e da orientação recebida dos mais velhos, pressupõe, então, o trabalho educativo.

A questão é que esse trabalho nem sempre é bem realizado pelos adultos. Por um lado, porque a maioria dos adultos nada conhece a respeito do desenvolvimento moral infantil e, por outro lado, porque a maioria dos adultos também é considerada heterônoma, ou seja, embora adultos, ainda dependentes de estereótipos ou outros tipos de motivações externas para agir de forma adequada. O sujeito obediente não é livre para pensar por si mesmo. Não é autônomo.

Dessa forma, a grande novidade que a teoria piagetiana apresenta para os estudos de educação moral diz respeito à moral autônoma. Para o autor, os adultos, reconhecendo o seu papel na formação de personalidades autônomas, deveriam preocupar-se em estabelecer com as crianças relações de respeito mútuo, ou seja, um tipo de relação social que denominou cooperação, que, em substituição às relações de coação, poderia conduzir à superação da heteronomia (moral da obediência).

O Piaget desconhecido pela maioria das pessoas é, portanto, esse homem que se interessou pela educação a partir de sua preocupação com os valores éticos, o que o conduziu a pensar em uma educação da pessoa na sua totalidade, considerando a educação da inteligência e da moral como objetivos indissolúveis e que teriam por função a formação para a autonomia e para a cidadania. O autor pensava que através das relações de cooperação, poder-se-ia educar os povos para viverem em harmonia, compreendendo-se mutuamente e resolvendo seus conflitos através da negação do absolutismo. Em suas palavras:

A ideia que defendemos é bem mais concreta: trata-se apenas de criar em cada pessoa um método de compreensão e de reciprocidade. Que cada um, sem abandonar seu ponto de vista, e sem procurar suprimir suas crenças e seus sentimentos, que fazem dele um homem de carne e osso, vinculado a uma porção bem delimitada e bem viva do universo, aprenda a se situar no conjunto dos outros homens. (Piaget, 1934, em “É possível uma educação para a paz?”)¹

Essas são as palavras do próprio autor, escolhidas para finalizar este texto. Porque a ideia é que, se a expectativa de que este texto cumpra o seu papel de apresentar a importância da Teoria Epistemológica Genética para a compreensão do homem moderno não for atingida, ao menos, que as palavras de Piaget provoquem a perplexidade. Que o convite do autor para a defesa de uma educação que priorize compreensão e reciprocidade, fatores alcançáveis levando-se em consideração a condição necessária mas não suficiente do raciocínio desperto, portanto, do desenvolvimento da inteligência, faça o leitor querer conhecer mais sobre a Teoria da Epistemologia Genética de Jean Piaget.

Luciana Maria Caetano é doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP, autora de O conceito de obediência na relação pais e filhos e professora do curso de pedagogia da Universidade São Francisco.

1 – Parrat, S. e Tryphon, A. (1998). Piaget sobre a pedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

CHOMSKY E AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA

Noam Chomsky

O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?“Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

Fonte: Instituto João Gourlart – http://www.institutojoaogoulart.org.br/

O cerco sobre Dien Bien Phu

Não demorou para que aquele povo-formiga, para surpresa dos franceses, colocasse todos os canhões (fornecidos pelos chineses) ao redor dos morros que cercavam Dien Bien Phu.

Voltaire Schilling

Enquanto uma chuva ininterrupta de obuses infernizava os legionários, milhares de vietnamitas, estimados em 40-50 mil homens, obedientes à tática do “ataque constante, avanço constante”, cavavam um labirinto de trincheiras que a cada dia mais se aproximavam dos sitiados. Havia “um vulcão sob a neve”, concluíram os franceses. Metaforicamente foi como se o exército colonial tivesse voluntariamente colocado o pescoço numa forca que o estrangulava aos poucos.

Cada uma das fortificações (batizadas com os nomes das amantes do coronel Castries: Dominique, Elaine, Claudine e Huguette) que formavam o cinturão defensivo de Dien Bien Phu, foi tomada no momento em que os guerrilheiros contavam com absoluta superioridade numérica e o maior poder de fogo. Os sitiados sentiram-se perdidos quando viram que os dois aeroportos da fortaleza começaram a ser destruídos pela artilharia do Vietminh, o que os impedia de receberem reforços e munições. Cinco meses depois viu-se o resultado: 7 mil franceses estavam mortos e 11 mil deles, totalmente estropiados, sujeitaram-se ao vietnamitas (*).

(*)Um pouco antes da capitulação o general Navarre, em nome da luta anticomunista, tentara desesperadamente envolver os Estados Unidos na batalha. O governo do general Eisenhower que já financiava 78% da guerra dos franceses, todavia, depois de consultar o primeiro-ministro britânico W. Churchill, foi dissuadido de mandar lançar bombas atômicas táticas contra as tropas de Giap que cercavam Dien Bien Phu. O recuo dos americanos devia-se a eles temeram uma nova guerra da Coréia.

O sabor da vitória

A rendição dos franceses

Deve ter sido um momento especial para Giap, um ex-professor de história que se formara no Liceu Thanh, em Hanói, em 1937, para quem a causa da libertação nacional vietnamita empurrara para o meio da selva para ser general de guerrilhas. Quang Thai, a mulher dele, presa pela Segunda Seção da Sûreté, encarregada de reprimir os revolucionários, fora espancada e morta por seus torturadores em 1943 (consta que fora amarrada pelos polegares).

Agora ele via os assassinos dela jogarem suas armas e bandeiras no chão antes de partirem de volta para casa derrotados. Dien Bien Phu, pelo seu simbolismo, foi uma das maiores vitórias militares do anticolonialismo do mundo contemporâneo: a reprodução exata da bíblica vitória de Davi sobre Golias. Dez anos depois foi a vez dos americanos começarem também a aprender a lição da raposa das selvas.

Nguyen Giap, a raposa da selva

Em 7 de maio de 1954 o exército colonial francês sofreu uma derrota histórica no Vietnã. Depois de cercado por mais de cinco meses no vale de Dien Bien Phu, pelas forças dos guerrilheiros do Vietminh, (precursores dos vietcongs que depois iriam enfrentaram os norte-americanos), o alto comando militar francês decidiu render-se ao general vietnamita Vo Nguyen Giap, que iria se tornar um dos nomes mais famosos das guerras anticolonialistas e um dos maiores capitães de guerra da história do século XX.

A rendição dos colonialistas

V.N.Giap (nascido em 1912)

"Foi o nascimento de um grande orgulho para o mundo em desenvolvimento. Uma pequena nação da Ásia derrotou convincentemente um poder colonial. Isto mudou a história".

Anil Malhotra – Agente do Banco Mundial na Índia, sobre a batalha de Dien Bien Phu, maio de 1954.

Era uma longa fila de soldados que se rendiam. Magros, enfraquecidos, debilitados pelas febres da floresta, exaustos pelas noites indormidas, com o uniforme em frangalhos, pareciam sombras do que restava do orgulho colonial francês. No dia 7 de maio de 1954, o coronel Christian de Castries, comandante da guarnição-fortaleza de Dien Bien Phu, depois de cercado pelos vietnamitas por 169 dias, depôs suas armas.

O mais doloroso para a honra nacional dos franceses é que desta vez a derrota não se dava para as poderosas e treinadas Divisões Panzer dos generais Rommel e de Guderian, como tinha acontecido em 1940. A capitulação, desta feita, deu-se frente a gente nanica que combatia com sandálias de borracha e comia arroz com as mãos. O comandante deles, o general Vo Nguyen Giap, então com 43 anos de idade, era ainda menor do que seus comandados, pouco ultrapassando o metro e meio .

Ocupando Dien Bien Phu

A bandeira do Vietminh tremula em Dien Bien Phu

A ironia foi que a determinação em travar aquela batalha decisiva no meio da selva partira do próprio comandante supremo da Indochina, o general Henri Navarre. Pressionado por Paris para dar logo um fim naquela guerra que se arrastava já há mais de sete anos, ele planejou um ousado lance de xadrez: um xeque-mate contra a guerrilha comunista. Lançou sua principal peça do tabuleiro, 17 mil homens, a maioria deles da Legião Estrangeira, tropa de elite, bem atrás das linhas inimigas.

O local escolhido foi o vale de Dien Bien Phu, uma espécie de esquina geográfica situada no Noroeste da Indochina, a 500 quilômetros de Hanói, na qual se entrecruzavam as fronteiras do Vietnã, do Laos e da China comunista, área por onde passava o apoio logístico às guerrilhas do Vietminh (Liga Revolucionária do Vietnã, controlada pelos comunista de Ho Chi Minh).

Pôs então em execução um enorme deslocamento de tropas que envolveu o apoio de saltos de pára-quedistas com o rápido entrincheiramento e fortificação do terreno. Navarre supôs que os vietnamitas, ao verem os franceses na sua retaguarda, aceitando a provocação, iram expor-se. Saíram das tocas e viriam de peito aberto atacar o inimigo.

Ai a superioridade bélica dos europeus iria se manifestar. Mas qual o que. Paciente como se fora uma raposa das selvas, o general Giap montou uma demorada operação de cerco contra os franceses. Milhares de civis – estima-se em 250 mil homens e mulheres – foram mobilizados para, por dentro das picadas da floresta fechada, a pé ou com bicicletas, trazerem em cestas ou à mão todo o equipamento de artilharia necessário a formar um laço de aço ao redor da fortaleza.

Fonte: História por Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/

Victor Hugo

Victor Hugo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Fonte: Astormentas – http://www.astormentas.com/

Trabalho escravo cresce no mesmo ritmo do etanol

Jorge Américo

Em 2009, mais de 1900 trabalhadores do setor canavieiro foram libertados de condições análogas à escravidão pelo Ministério Público do Trabalho (MTE), nas regiões sudeste e centro-oeste, além do estado de Pernambuco. Estudos desenvolvidos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) apontam que em 2007 e 2008, dos 11.230 trabalhadores libertados de situações degradantes, 5.593 eram empregados nas lavouras de cana-de-açúcar.

Muitas das empresas autuadas pela utilização de trabalho escravo recebem financiamento de bancos estatais. Elas submetem os trabalhadores a jornadas exaustivas, desrespeitam a legislação trabalhista e instalam os funcionários em alojamentos precários, sem água potável e banheiro disponíveis.

Presença internacional

O ano de 2008 marca o momento em que o etanol passou a ser consumido nos mesmos níveis que a gasolina no Brasil. O índice é resultado de um programa apresentado na década de 1970, como uma medida alternativa para os altos preços do petróleo. Criado pelo governo brasileiro, por meio de um decreto, o programa recebeu o nome de Próalcool. Junto ao biodiesel, o etanol tem grande aceitação por emitir menos compostos químicos na atmosfera do que os derivados de petróleo.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6509

A estrutura da Terra e a teoria da deriva continental

Leonardo Moledo e Esteban Magnani

Era inevitável que em algum momento após a revolução científica do século XVII, que imaginava o mundo como um imenso mecanismo, olhasse ao redor e se perguntasse pela origem da Terra, que havia deixado – em apenas cem anos – de ser um objeto único e central, quase teológico, para receber o status de um planeta como os demais, um pedaço de matéria flutuando no espaço, digno de converter-se em um apreciável objeto de estudo.

Os homens da revolução científica se esforçaram para compreender a superfície terrestre, perguntaram-se sobre a natureza dos fósseis e a origem das montanhas e também investigaram os fenômenos e processos naturais que afetam a Terra, como os terremotos, os vulcões ou a erosão e refletiram sobre eles. Mas o aparato bíblico continuava impondo uma estrutura rígida da qual era difícil safar-se e dentro desse aparato aparecia o Dilúvio, considerado o principal acontecimento geológico. A persistência, ainda hoje, da palavra “antidiluviano” mostra a força da tradição.

No entanto, mesmo o Dilúvio tinha suas dificuldades: Thomas Burnett (1635-1715), que publicou A história sagrada da Terra (1681-9) e se guiava pela Bíblia, fazia a sensata observação de que não havia maneira de o Dilúvio Universal haver coberto toda a Terra. A superfície do nosso planeta é de, aproximadamente, 432 milhões de quilômetros quadrados. Se chovesse toda a água contida na atmosfera (ao redor de um bilhão e trezentos milhões de litros, ou 13 mil quilômetros cúbicos) só alcançaria uma camada de menos de três centímetros de espessura, que não apenas não cobriria os altos montes, como nem sequer os baixos pastos deste mundo. E, além do mais, aonde teria ido parar a água depois?

Como era impossível para um religioso renunciar ao Dilúvio, Burnett chegou à conclusão de que a água teria vindo de baixo. Imaginou que, no momento da Criação, a Terra era uma esfera perfeita e paradisíaca, coberta por uma crosta de matéria sólida, lisa e sem trincas, com os oceanos fluindo por debaixo dela. A inundação teria ocorrido quando a crosta se partiu, e os fragmentos afundaram na água. Os pedaços irregulares da carapaça original constituíram o relevo da Terra que observamos hoje. A ideia era ao mesmo tempo uma genialidade e um disparate, mas atraiu a atenção até do próprio Newton, muito propenso a divagações esotéricas.

Menos literal e muito mais sensato, Nicolás Steno (1638-1686), depois de analisar as rochas sedimentarias (material que se compacta com o passar do tempo) viu que estão dispostas de forma horizontal. Assim determinou depósitos de distintas épocas, diferenciando inclusive quais eram anteriores e quais eram posteriores ao Dilúvio. Também reconheceu a origem orgânica dos fósseis, que muitos renascentistas viam como produto de forças misteriosas que operavam dentro das rochas e que consideravam meros objetos minerais. Sem renegar a Bíblia deliberadamente, Steno admitiu que os fósseis encontrados nas rochas eram testemunhas de algum episódio remoto que não aparecia nas escrituras.

Quem descartou inteiramente o Dilúvio foi o francês Benoit de Maillet (1656-1738), contemporâneo de Burnett, que também acreditava, como havia sugerido Descartes, que a Terra era um pedaço desprendido do Sol e que se havia resfriado lentamente. Maillet foi muito audaz para sua época e calculou que a Terra tinha uns dois bilhões de anos de antiguidade e que o mar vinha retrocedendo desde então, como pareciam demonstrar as conchas marinhas encontradas nas montanhas.

Foi o onipresente e ubíquo Robert Hooke (1635-1703), quem pôs um pouco de ordem científica no interesse pela Terra. Contemporâneo de Newton, em sua obraDiscurso sobre os terremotos arriscou uma explicação sobre a origem orgânica dos fósseis e viventes, depois de usar o microscópio para comparar a estrutura de bosques fósseis e viventes: basicamente eram o mesmo, mas separados por muito tempo de diferença. E mais ainda: aqueles fósseis que apareciam nas montanhas indicavam que a superfície terrestre havia sofrido mudanças profundas…

O Dilúvio se transforma numa teoria científica

Hooke não desafiou a ideia tenaz do Dilúvio. Mas isso foi feito pelo seu importante contemporâneo, o filósofo e cientista Gottfried Leibniz (1646-1716), que imaginou um bom substituto que tiraria todo o mundo dos apuros. Depois da Criação, sugeriu, todo o planeta esteve coberto por um imenso oceano que se havia retirado, pouco a pouco, para deixar atrás a terra firme: esse oceano primitivo possuía os minerais dissolvidos que, ao se depositarem, secaram, formaram as rochas, as montanhas e tudo o mais. Foi o substituto mais popular do Dilúvio Universal, pelo menos entre os geólogos que necesitavam justificar, por exemplo, os restos de fósseis submarinos que se encontravam nas montanhas. Quase todas as explicações dadas sobre a origem da Terra durante o século XVIII seguiam essa linha.

O mais importante teórico da tese do oceano em retirada – também chamada neptunismo (de Netuno, o deus romano do mar) –, e que lhe deu o status de verdadeira teoria científica, ao abordá-la com todo rigor, foi Abraham Gottlob Werner (1749-1817), professor da Escola de Mineração de Freiburg, na Alemanha, para onde afluíam estudantes de toda a Europa ansiosos para escutá-lo. Werner observou que algumas rochas haviam sido formadas no mar e, generalizando apressadamente, atribuiu essa origem a todas as rochas. Então, pensou Werner, quando o grande oceano primitivo se retirou, as rochas mais antigas ficaram expostas ao ar e sobre elas se acumularam rochas novas, produto da erosão, que se instalaram em camadas sucessivas, formando as montanhas e todos os acidentes geológicos. Era uma teoría muito séria e que explicava vários enigmas como haver fósseis de animais marinos nas montanhas, ou que o mar Báltico se tornasse cada vez menos profundo.

No entanto, a teoria tinha pontos muito fracos: para começar, não deixava claro de onde havia saído o oceano original, nem aonde ia parar a água restante, à medida que o oceano retrocedia. E segundo – e fatal – não explicava, ou explicava mal, a existência dos vulcões. Werner não se comovia muito por esses argumentos: pensava que os vulcões eram fenômenos modernos e isolados e acreditava que as erupções se deviam à combustão subterrânea de hulha, uma forma de carvão de pedra.

Contudo, seus próprios discípulos, seguindo os conselhos de seu mestre, saíram a ver o mundo, e, pouco a pouco, demonstraram que havia vulcões muito antigos, que muitas das montanhas atuais eram vulcões extintos e, como se isso fosse pouco, comprovaram que a lava que saía deles não parecia ser muito diferente das rochas que, segundo Werner, se originavam apenas no mar.

Apesar de tudo, a teoria resistia, apoiando-se em sua capacidade de organizar os dados sobre os minerais, identificando cada formação com um período particular na formação da crosta terrestre. Mas as dificuldades que se acumulavam fizeram com que nas primeiras décadas do século XIX, a teoria do oceano que se retirava foi abandonada por completo, enquanto a atenção se dirigia para outro extremo: o fogo.

Os plutonistas imaginam uma Terra que vem do fogo

Neptuno foi destronado por Plutão, o deus do mundo subterrâneo e rei dos infernos. Os plutonistas aceitavam a ideia, muito em voga, proposta por Descartes e utilizada por Buffon, de que a Terra era resultado de uma imensa massa de fogo que se resfriava paulatinamente. O centro da Terra continuava sendo para eles uma imensa fonte de calor e dali vinha o impulso geológico: a terra firme não era outra coisa senão rocha fundida que havia surgido a partir do mundo subterrâneo e depois se havia resfriado e endurecido. Para os plutonistas os vulcões constituíam a grande força que mantinha as coisas em marcha.

O grande teórico do plutonismo foi James Hutton (1726- 1797), um escocês do Iluminismo. Hutton, muito crente, pensava que a teoria do oceano em retirada implicava que a erosão terminaria arrastrando toda a terra firme para o fundo do mar e não podia aceitar que o Criador fosse converter a superficie terrestre em um lugar inabitável. Calculava que teria que haver mecanismos de regeneração e de elevação da crosta que compensassem o ciclo de erosão. E, assim, imaginou um eterno balanço entre nascimento e erosão, um ciclo no qual permanentemente surgiam novas rochas a partir do mundo subterrâneo, transformando o planeta numa máquina em perpétuo movimento, criada pela perfeição divina. O resultado era “um sistema sempre renovável, sem sinais de começo e final”. Em pouco tempo se demonstrou que certas rochas que segundo Werner só podiam ter se originado no mar, eram de origen vulcânica. O químico e geólogo James Hall (1761-1832), amigo de Hutton, em um ataque de empirismo esquentou granito em altos fornos e comprovou que se solidificava a partir de um estado líquido. A rocha provinha de um estado líquido… como a lava. Toda rocha tinha sido produzida desta maneira? Para que essas hipóteses funcionassem, era necessário mudar as escalas de tempo.

As escalas de tempo mudam

No século XVII o arcebispo James Ussher (1581–1656), depois de uma conscienciosa análise das escrituras, à maneira de Burnett, determinou que a Terra havia sido criada em 22 de outubro de 4004 a.C. às 6 da tarde. Ussher chegou a essa conclusão estudando muito seriamente as gerações que são mencionadas na Bíblia que, todavia, não se podia questionar.

A teoria do oceano em retirada, ainda que um pouco forçadamente, podia compatibilizar-se mais ou menos com o relato bíblico; já o modelo de Hutton, não. Quando em 1785 propôs sua hipótese diante da Royal Society de Edimburgo, houve um escândalo: foi acusado de ateu, de negar a evidência da Criação presente nas rochas e de ignorar a história do Dilúvio – ou inundação – catastrófico. A força da tradição é grande, mas o terreno bíblico era muito estreito para as novas ideias e evidências que não resistiram à idade do Iluminismo e à mirada newtoniana sobre o mundo.

O primeiro que arriscou uma estimativa científica da idade da Terra foi o naturalista francês Georges-Louis Leclerc Buffon (1707-1788), que calculou o tempo que demoraria para se resfriar uma esfera do tamanho do nosso planeta até alcançar a temperatura atual. O resultado foi 74.832 anos. A cifra produziu uma comoção: era difícil acreditar que a Terra fosse tão velha.

Em 1830, Charles Lyell (1795-1875), publicou sua Geologia; que deixava de lado qualquer interpretação religiosa do mundo para começar a encará-lo com um olhar puramente mecanisista. Lyell construía a geologia a partir do princípio da uniformidade; ou seja, a ideia de que os processos de sedimentação, erosão e mudança geológica eram extremadamente lentos e que assim haviam sido sempre. Pensava que ao longo da história de nosso planeta os mecanismos de mudança haviam sido muito gradativos, e, sobretudo, os mesmos que no presente: os rios cavam seus leitos através dos séculos, as montanhas se elevam com paciência exasperante, por ação do fogo a crosta eleva-se sem que o notemos e uma cordilheira pode demorar milhões de anos para formar-se.

Milhões de anos… parecia muito a dizer. Mas John Phillips (1800-1874), um dos seguidores de Lyell, baseando-se no estudo dos estratos rochosos sugeriu que a Terra tinha 96 milhões de anos. Em 1863 William Thomson (1824-1607), mais conhecido como Lord Kelvin, retomando a ideia de Buffon da Terra resfriando-se, obteve 98 milhões… tempos bem-vindos pelos darwinistas já que eram os que requeria a Teoria da Evolução. A cifra que quase todo o século XIX aceitou para a história da Terra foi algo em torno de cem milhões de anos.

Parecia muitíssimo e, no entanto, era muito pouco. Até princípios do século XX, quando entraram em ação os muito mais precisos métodos de datação radiativa, o inglês Arthur Holmes (1890-1965) fez uma estimativa de 1,6 bilhões de anos. Já era monstruoso, mas continuava sendo pouco. O mesmo Holmes mais tarde elevou o número para 4,5 bilhões de anos, uma cifra que se aceita hoje em dia…

Uma ideia visionária

Ainda que ao longo do século XIX os sistemas de classificação das rochas houvessem se estabilizado e a história da Terra começasse a se consolidar com firmeza, faltava uma teoria geral que englobasse todos os fenômenos.

Em 1912 o meteorologista e geólogo Alfred Wegener (1880-1930), propôs a ideia de que os continentes em algum momento estiveram comprimidos em um só protocontinente que chamou de Pangeia (“todas as terras”) e que ao longo do tempo se havia partido, formando os continentes atuais, que se haviam “movido” até o lugar que ocupam agora e que, em princípio, continuavam movendo-se. Wegener partia do fato desconcertante de que as costas da África e da América do Sul parecem encaixar-se como as peças separadas de um quebra-cabeças e pensava que os continentes, formados por rochas mais leves, flutuavam sobre a camada mais profunda e pesada do leito oceânico, sobre o qual se deslocavam. Calculava que Pangeia havia permanecido intacta até ao redor de 300 milhões de anos, quando começou a romper-se e separar-se.

A biologia trazia informação de apoio: fósseis de animais mais ou menos parecidos e do mesmo período podiam ser encontrados tanto na América do Sul como na África e se observava que depois, essas linhas haviam divergido, dando testemunho de algum tipo de separação. Além disso, a hipótese da deriva também fornecia uma explicação interessante para a formação das montanhas: se os continentes se moviam até encontrar um limite que lhes oferecesse resistência, sua superficie dobrar-se-ia, formando as cordilheiras, da mesma maneira que se dobra uma toalha que se desliza sobre uma superfície e encontra um obstáculo. Wegener sugeriu também que a Índia havia se deslocado em direção ao interior do continente asiático formando, assim, o Himalaia.

Mas não. A ideia tem uma falha fundamental

A hipótese da deriva continental teve pouco êxito e em geral não foi muito bem recebida pela comunidade geológica. A verdade é que tinha uma grande falha: Wegener era incapaz de propor um mecanismo que explicasse os motivos desta deriva e a forma pela qual os continentes podiam vencer o enorme atrito que implicava arrastar-se sobre o leito marítimo, ainda que tenha ensaiado algumas posibilidades: a rotação terrestre geraria uma força centrífuga em direção ao Equador; Pangeia havia-se originado perto do Polo Sul e essa força centrífuga havia producido uma quebra no protocontinente. No entanto, o cálculo das forças geradas pela rotação terrestre mostrou que eram muito leves para provocar semelhantes deslocamentos.

E assim, a coisa não andava.

Aparece uma possibilidade: as placas tectónicas

No entanto, em 1929, mais ou menos na época em que Wegener deixava de ser levado em conta e um ano antes de sua norte, Arthur Holmes (1890-1965) trabalhou uma hipótese diferente: abaixo da crosta, existia um mar de rocha fundida (o manto) e dentro do manto, as zonas mais profundas e quentes subiam em forma de correntes de lava, elevando-se desde as profundezas até resfriar-se e voltar a cair, formando verdadeiros jatos de rocha ardentes que sobem e depois, baixam. O processo de resfriamento e aquecimento repetido em muitas ocasiões tem como resultado uma corrente suficientemente forte para mover os continentes.

Holmes sugeriu que essa convecção térmica funcionava como uma correia transportadora e que a pressão ascendente podia romper um continente em direções opostas.

Fazia sentido, mas os geólogos acreditavam firmemente em um interior da Terra estático, e a proposta de Holmes rompia drasticamente com essa convicção, sem suficiente evidência concreta.

Porém, depois da Segunda Guerra Mundial, intensificou-se o estudo do leito oceânico e do magnetismo remanescente que o campo magnético da Terra deixava nas rochas. Por um lado, pôde-se observar que os padrões magnéticos impressos nas rochas, sugeriam que a convecção efetivamente podia estar funcionando. Semelhantes descobertas (e outras) levaram Harry Hess (1906-1969) e Robert Dietz (1914-1995) a publicar a hipótese baseada nas correntes de convecção do manto, conhecida como sea floor spreading, algo como “dispersão do leito marítimo”. Era basicamente o mesmo que havia proposto Holmes mais ou menos 30 anos antes, mas agora havia muito mais evidência para apoiar a ideia.

Em 1967 Dan McKenzie (n. 1942) utilizou pela primeira vez o termo "placas" em um artigo publicado na revista Nature para descrever esses blocos maciços que “flutuavam” sobre o manto. Esse foi o acontecimento que faltava à teoria, que pouco a pouco passou a ser aceita no mundo científico.

O funcionamento desse modelo está fortemente estabelecido na atualidade, foi comprovado e é relativamente simples. A crosta está dividida ao redor de uma dúzia de placas, que podem ter tanto continentes visíveis na superfície como leitos marítimos e que se tocam uns aos outros. As placas flutuam sobre o “manto”, uma rocha fundida que quando sai pelos vulcões se chama magma ou lava. Dentro do manto se produzem correntes de rocha que arrastam as placas da crosta até que se choquem e começam a sobrepor-se, como explicava Wegener. A que fica por baixo se esquenta, funde-se e mistura-se com o manto. Enquanto isso, no fundo dos oceanos surgem novos pedaços de manto resfriado, ou seja, de rocha. E por que surgem rochas novas? Quando uma placa se desloca distancia-se de outra produzindo uma fisura. Por ali aflora o manto em forma de magma e vai se formando nova crosta.

Assim se explicam os oceanos e as montanhas. O Oceano Atlântico se formou durante os últimos milhões de anos porque as placas da América e África se separam uns dois centímetros por ano. E Wegener tinha razão: o Himalaia, a cadeia montanhosa mais alta do mundo, é consequência do choque da placa indo-australiana que empurra a placa euro-asiática. O mesmo ocorre com a Cordilheira dos Andes, que é consequência do choque entre as placas sul-americana e a chamada placa de Nazca.

Era o começo da tectônica de placas que, como toda boa teoria, permitiu explicar e prever muitos fenômenos que viriam e que, por sua vez, permitiram lapidá-la e melhorá-la.

Leonardo Moledo é editor do jornal Página/12 e de seu suplemento “Futuro”, é também profesor da Universidade de Buenos Aires e da Universidade de Quilmes, na Argentina. Esteban Magnani é jornalista e docente da Universidade de Buenos Aires.

*Este artigo foi extraído e resumido de Dez teorias que comoveram o mundo, (Editora Unicamp, 2009), desses mesmos autores.

Tradução: Simone Pallone

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br/

Belo Monte: como desmontar uma bela farsa

Mauricio Santos Matos

Matéria publicada no site do Governo do Estado do Pará dá a exata noção da falta de escrúpulos daqueles que tentam vender a idéia de que a construção do AHE Belo Monte vai trazer enormes benefícios para a população paraense.

Belo Monte

O texto conta uma farsa: Belo Monte vai gerar energia para o povo pobre e excluído da Amazônia. Apesar de não ser original, o método é eficiente e bem bolado, pois a mentira contida no corpo do texto não está escrita. O leitor não lê a mentira. Ele apenas a imagina.

É um artifício muito engenhoso, pois permite aos defensores do governo negar qualquer acusação, uma vez que nada está escrito. Ou seja, elabora-se um texto que induz o leitor a acreditar em algo que não leu, mas imaginou, em razão da associação de palavras e temas envolvidos. A má intenção dos responsáveis pela publicação do artigo fica explícita quando se percebe a manobra.

E o propósito é justamente permitir ao leitor desatento a construção mental de uma afirmação que não está visível aos olhos, pois não está digitada. E a dificuldade é transferida ao leitor crítico, que precisa provar que uma idéia foi formulada, sem que esta esteja escrita. Complicado? A princípio pode parecer, mas não é tão difícil perceber a tentativa de enganar a população que acessa um instrumento de comunicação oficial do governo de uma unidade federativa.

Vejamos o título: "Luz Para Todos garante energia ao Xingu antes de Belo Monte". Em nenhum momento está escrito que a construção do AHE Belo Monte irá gerar energia para o programa Luz Para Todos. Mas é justamente essa a mensagem que se quer passar: que existe uma relação direta entra a construção da hidrelétrica de Belo Monte com a eletrificação das propriedades rurais da região da Volta Grande do Xingu.

Entretanto, isso não pode ser escrito, pois é uma enorme mentira. Então, não se escreve. Mas se faz uma composição de palavras que permite ao leitor desatento interligá-las e formular a idéia que se pretende manipular: Luz Para Todos + Xingu + Belo Monte = Belo Monte vai gerar energia para a minha casa. Bastante inteligente, mas muito pouco ético.

A matéria é constituída por oito parágrafos. Intencionalmente, o primeiro e os dois últimos fazem referência a Belo Monte, além do título. Pretende-se que o leitor desatento inicie e termine a leitura achando se tratar de um artigo sobre a geração de energia por Belo Monte. Todavia, os cinco outros parágrafos referem-se à extensão dos programas de eletrificação rural do governo federal, cuja energia será transmitida a partir de linhões de alta tensão indo de Tucuruí, no rio Tocantins, até a Ilha do Marajó. Nada a ver, portanto, com o rio Xingu, Belo Monte ou a região de Altamira.

Mas o texto tem a intenção de forjar mais esta calúnia. O primeiro parágrafo é esclarecedor. Fala em um investimento de R$ 550 milhões para "assegurar energia para 20 mil residências da região". E novamente a associação de palavras gera uma equação matemática pouco confiável: investimento + Luz Para Todos + Xingu + Belo Monte = energia para vinte mil famílias.

O paradoxo de Tucuruí não será evitado, como afirma o governo estadual. Ele vai se repetir, pois o objetivo de Belo Monte não é gerar energia para as comunidades locais. E isto está explícito nas conclusões do EIA/RIMA. Os moradores dos municípios vizinhos a Belo Monte farão o mesmo que seus pares de Tucuruí: vão olhar para cima e ver o linhão passar, enquanto suas casas ficam sem luz.

A "esperteza" do governo é prometer energia elétrica, sem dizer de onde virá, nem quando estará disponível, fazendo crer, com o jogo de palavras, que ela virá logo, em razão da construção de Belo Monte. Lendo o escorregadio artigo, tem-se a impressão de que será construído um linhão para levar energia de Tucuruí para Altamira e entorno. Mas não há nada afirmando isso. E quando seria? Após a conclusão da primeira e segunda etapas do Linhão do Marajó? Apenas a título de informação: o anúncio do início da obra ocorreu em 19/03/2009; o lançamento da primeira etapa, em 25/09/2009; e o início do levantamento topográfico para a definição do local de instalação das torres, somente em 06/05/2010. Isso apenas da primeira etapa do Linhão do Marajó, com previsão de ser concluído em 18 meses.

Supondo que o linhão para o Xingu seja construído somente após o do Marajó, no ritmo atual, a energia chegaria em Altamira em meados de 2016. Isso se os prazos forem cumpridos. Interessante, é que na página do Luz Para Todos, na internet, fala-se que durante a execução do programa (2003-2008) foram localizadas "novas famílias sem energia elétrica em casa", fato que ocasionou a sua prorrogação, "para ser concluído no ano de 2010". Isso nos deixa com algumas dúvidas: ou essa estória tem número demais ou tem informação de menos.

O leitor mais atento pode fazer uma séria crítica ao parágrafo acima, pois o Linhão do Marajó não está incluído no Programa Luz Para Todos, mas sim no Programa de Aceleração do Crescimento – PAC. E essa é mais uma confusão proposital observada na matéria veiculada na página do governo estadual. Como as obras do PAC ainda estão em execução, sendo que algumas nem saíram do papel, é mais interessante canalizar as informações sobre a ampliação do fornecimento de energia para um programa que será encerrado dentro do período de gestão do atual governo de Ana Júlia. Tenta-se dar a impressão de que todas as obras de eletrificação rural estão relacionadas ao Luz Para Todos e, portanto, serão concluídas ainda no atual mandato. E isso é especialmente oportuno para um chefe do Executivo que busca a reeleição no final deste ano.

Depois de viajar pelo Marajó, os dois últimos parágrafos retornam às informações sobre Belo Monte. Um olhar minucioso aos números apresentados enterra, em definitivo, a farsa de dizer que a hidrelétrica no Xingu será responsável por fornecer luz para as residências da população local. Se considerarmos os 11 mil MW supostamente gerados nos meses de cheia do rio, a reserva de 20%, que ficará no Pará, segundo afirmação do governo, seria suficiente para atender a demanda de 1.200 MW necessários para o funcionamento das duas indústrias de alumina que se instalariam no estado e ainda sobraria. Se considerarmos os 4 mil MW de média mensal, a conta é outra: 20% de 4.000 são 800 MW. Ou seja, vai faltar energia, não sobrar. Traduzindo: a hidrelétrica de Belo Monte não vai gerar energia para as residências dos municípios do Xingu, mas sim para as grandes indústrias do estado e de outras regiões do país. Isto é o que dizem os números do próprio governo.

Por fim, vamos fazer um exercício de paciência, e com extrema boa vontade, acreditar que o título do texto governista fale a verdade e será garantida energia aos municípios vizinhos de Belo Monte, antes mesmo da construção da hidrelétrica. Ora, mas o discurso daqueles que são favoráveis ao projeto da barragem no Xingu não é, justamente, de que Belo Monte é essencial para levar energia e desenvolvimento para Altamira e região? O próprio governo estadual acaba de desmenti-los, pois está prometendo levar energia para os municípios do Xingu, sem a necessidade de construir o Belo Monstro.

Mauricio Santos Matos é licenciado em Artes, servidor público do estado do Pará, membro do Comitê Metropolitano Xingu Vivo Para Sempre

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.org.br/

Como os EUA financiaram mais de 150 jornalistas contra Chávez

Esther Banales e Eva Golinger

Documentos recentemente desclassificados do Departamento de Estado dos Estados Unidos através da Lei de Acesso à Informação (FOIA, por suas siglas em inglês) evidenciam mais de US$ 4 milhões em financiamento a meios e jornalistas venezuelanos durante os últimos anos.

O financiamento tem sido canalizado diretamente do Departamento de Estado através de três entidades públicas estadunidenses: a Fundação Panamericana para o Desenvolvimento (PADF, por suas siglas em inglês), Freedom House e pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid).

Em uma tosca tentativa de esconder suas ações, o Departamento de Estado censurou a maioria dos nomes das organizações e dos jornalistas recebendo esses fundos multimilionários. No entanto, um documento datado de julho de 2008 deixou sem censura os nomes das principais organizações venezuelanas recebendo os fundos: Espaço Público e Instituto de Imprensa e Sociedade (IPYS).

Espaço Público e IPYS são as entidades que figuram como as encarregadas de coordenar a distribuição dos fundos e os projetos do Departamento de Estado com os meios de comunicação privados e jornalistas venezuelanos.

Os documentos evidenciam que a PADF, o FUPAD, em espanhol, implementou programas na Venezuela dedicados à "promoção da liberdade dos meios e das instituições democráticas", além de cursos de formação para jornalistas e o desenvolvimento de novos meios na Internet devido ao que considera as "constantes ameaças contra a liberdade de expressão" e "o clima de intimidação e censura contra os jornalistas e meios".

Financiamento a páginas web anti-Chávez

Um dos programas da Fupad, pelo qual recebeu US$ 699.996 do Departamento de Estado, em 2007, foi dedicado ao "desenvolvimento dos meios independentes na Venezuela" e para o jornalismo "via tecnologias inovadoras". Os documentos evidenciam que mais de 150 jornalistas foram capacitados e treinados pelas agências estadunidenses e 25 páginas web foram financiadas na Venezuela com dinheiro estrangeiro. Espaço Público e IPYS foram os principais executores desse projeto em âmbito nacional, que também incluiu a outorga de "prêmios" de 25 mil dólares a vários jornalistas.

Durante os últimos dois anos, aconteceu uma verdadeira proliferação de páginas web, blogs e membros do Twitter e do Facebook na Venezuela que utilizam esses meios para promover mensagens contra o governo venezuelano e o presidente Chávez e que tentam distorcer e manipular a realidade sobre o que acontece no país.

Outros programas manejados pelo Departamento de Estado selecionaram jovens venezuelanos para receber treinamento e capacitação no uso dessas tecnologias e para criar o que chamam uma "rede de ciberdissidentes" na Venezuela.

Por exemplo, em abril deste ano, o Instituto George W. Bush, juntamente com a organização estadunidense Freedom House, convocou um encontro de "ativistas pela liberdade e pelos direitos humanos" e "especialistas em Internet" para analisar o "movimento global de ciberdissidentes". Ao encontro, que foi realizado em Dallas, Texas, foi convidado Rodrigo Diamanti, da organização Futuro Presente da Venezuela.

No ano passado, durante os dias 15 e 16 de outubro, a Cidade do México foi a sede da 2ª Cúpula da Aliança de Movimentos Juvenis ("AYM", por suas siglas em inglês). Patrocinado pelo Departamento de Estado, o evento contou com a participação da Secretária De Estado Hillary Clinton e vários "delegados" convidados pela diplomacia estadunidense, incluindo aos venezuelanos Yon Goicochea (da organização venezuelana Primero Justicia); o dirigente da organização Venezuela de Primera, Rafael Delgado; e a ex-dirigente estudantil Geraldine Álvarez, agora membro da Fundação Futuro Presente, organização criada por Yon Goicochea com financiamento do Instituto Cato, dos EUA.

Junto a representantes das agências de Washington, como Freedom House, o Instituto Republicano Internacional, o Banco Mundial e o Departamento de Estado, os jovens convidados receberam cursos de "capacitação e formação" dos funcionários estadunidenses e dos criadores de tecnologias como Twitter, Facebook, MySpace, Flicker e Youtube.

Financiamento a universidades

Os documentos desclassificados também revelam um financiamento de US$ 716.346 via organização estadunidense Freedom House, em 2008, para um projeto de 18 meses dedicado a "fortalecer os meios independentes na Venezuela". Esse financiamento através da Freedom House também resultou na criação de "um centro de recursos para jornalistas" em uma universidade venezuelana não especificada no relatório. Segundo o documento oficial, "O centro desenvolverá uma rádio comunitária, uma página web e cursos de formação", todos financiados pelas agências de Washington.

Outros US$ 706.998 canalizados pela Fupad foram destinados para "promover a liberdade de expressão na Venezuela", através de um projeto de dois anos orientado ao jornalismo investigativo e "às novas tecnologias", como Twitter, Internet, Facebook e Youtube, entre outras. "Especificamente, a Fupad e seu sócio local capacitarão e apoiarão [a jornalistas, meios e ONGs] no uso das novas tecnologias midiáticas em várias regiões da Venezuela".

"A Fupad conduzirá cursos de formação sobre os conceitos do jornalismo investigativo e os métodos para fortalecer a qualidade da informação independente disponível na Venezuela. Esses cursos serão desenvolvidos e incorporados no currículo universitário".

Outro documento evidencia que três universidades venezuelanas, a Universidade Central da Venezuela, a Universidade Metropolitana e a Universidade Santa Maria, incorporaram cursos sobre jornalismo de pós-graduação e em nível universitário em seus planos de estudos, financiados pela Fupad e pelo Departamento de Estado. Essas três universidades têm sido os focos principais dos movimentos estudantis antichavistas durante os últimos três anos.

Sendo o principal canal dos fundos do Departamento de Estado aos meios privados e jornais na Venezuela, a Fupad também recebeu US$ 545.804 para um programa intitulado "Venezuela: As vozes do futuro". Esse projeto, que durou um ano, foi dedicado a "desenvolver uma nova geração de jornalistas independentes através do uso das novas tecnologias". Também a Fupad financiou vários blogs, jornais, rádios e televisões em regiões por todo o país para assegurar a publicação dos artigos e transmissões dos "participantes" do programa.

A Usaid e a Fupad

Mais fundos foram distribuídos através do escritório da Usaid em Caracas, que maneja um orçamento anual entre US$ 5 milhões e US$ 7 milhões. Esses milhões fazem parte dos 40 a US$ 50 milhões que anualmente as agências estadunidenses, europeias e canadenses estão dando aos setores antichavistas na Venezuela.

A Fundação Panamericana para o Desenvolvimento está ativa na Venezuela desde 2005, sendo uma das principais contratistas da Usaid no país sulamericano. A Fupad é uma entidade criada pelo Departamento de Estado em 1962, e é "filiada" à organização de Estados Americanos (OEA). A Fupad implementou programas financiados pela Usaid, pelo Departamento de Estado e outros financiadores internacionais para "promover a democracia" e "fortalecer a sociedade civil" na América Latina e Caribe.

Atualmente, a Fupad maneja programas através da Usaid com fundos acima de US$ 100 milhões na Colômbia, como parte do Plano Colômbia, financiando "iniciativas" na zona indígena em El Alto; e leva dez anos trabalhando em Cuba, de forma "clandestina", para fomentar uma "sociedade civil independente" para "acelerar uma transição à democracia".

Na Venezuela, a Fupad tem trabalhado para "fortalecer os grupos locais da sociedade civil". Segundo um dos documentos desclassificados, a Fupad "tem sido um dos poucos grupos internacionais que tem podido outorgar financiamento significativo e assistência técnica a ONGs venezuelanas".

Os "sócios" venezuelanos

Espaço Público é uma associação civil venezuelana dirigida pelo jornalista venezuelano Carlos Correa. Apesar de sua página web (www.espaciopublic.org) destacar que a organização é "independente e autônoma de organizações internacionais ou de governos", os documentos do Departamento de Estado evidenciam que recebe um financiamento multimilionário do governo dos Estados Unidos. E tal como esses documentos revelam, as agências estadunidenses, como a Fupad, não somente financiam grupos como o Espaço Público, mas os consideram como seus "sócios" e desde Washington lhes enviam materiais, linhas de ação e diretrizes que são aplicadas na Venezuela, e exercem um controle sobre suas operações para assegurar que cumprem com a agenda dos Estados Unidos.

O Instituto de Imprensa e Sociedade (IPYS) é nada mais do que um porta-voz de Washington, criado e financiado pelo National Endowment for Democracy (NED) e por outras entidades conectadas com o Departamento de Estado. Seu diretor na Venezuela é o jornalista Ewald Sharfenberg, conhecido opositor do governo de Hugo Chávez. IPYS é membro da agrupação Intercâmbio Internacional de Livre Expressão (IFEX), financiado pelo Departamento de Estado e é parte da Rede de Repórteres Sem Fronteiras (RSF), organização francesa financiada pela NED, pelo Instituto Republicano Internacional (IRI) e pelo Comitê para a Assistência para uma Cuba Livre.

Fonte: Cebrapaz – http://cebrapaz.org.br/

Cientista holandês confronta Newton e diz que a gravidade não existe

Dennis Overbye

É difícil imaginar um aspecto mais fundamental e ubíquo da vida na Terra do que a gravidade, desde o momento em que você dá o primeiro passo e cai de traseiro sobre a fralda até o lento desenvolvimento da flacidez da carne.

O físico holandês Erik Verlinde, professor da Universidade de Amsterdam, diz em um estudo recente que a ciência tem olhado para a gravidade da maneira errada. Para mim, a gravidade não existe, diz Verlinde

O físico holandês Erik Verlinde, professor da Universidade de Amsterdam, diz em um estudo recente que a ciência tem olhado para a gravidade da maneira errada. "Para mim, a gravidade não existe", diz Verlinde

Mas e se tudo fosse apenas uma ilusão, uma espécie de enfeite cósmico, ou um efeito colateral de algo mais que se passa nos níveis mais profundos da realidade?

Assim diz Erik Verlinde, 48 anos, um respeitado teórico das cordas e professor de física da Universidade de Amsterdã, cuja alegação de que a gravidade é na verdade uma ilusão tem causado agitação entre os físicos, ou pelo menos entre aqueles que professam entendê-la. Revertendo a lógica de 300 anos de ciência, ele argumentou em um recente trabalho, intitulado “Sobre a Origem da Gravidade e as Leis de Newton”, que a gravidade é uma consequência das veneráveis leis da termodinâmica, que descrevem o comportamento do calor e os gases.

“Para mim a gravidade não existe”, disse Verlinde, que esteve recentemente nos Estados Unidos para se explicar. Não que ele não possa cair, mas Verlinde está entre um grupo de físicos que dizem que a ciência esteve olhando para a gravidade de forma errada e que há algo mais básico, a partir da qual a gravidade “surge”, assim como os mercados de ações surgem do comportamento coletivo dos investidores individuais e a elasticidade surge da mecânica dos átomos.

Olhar para a gravidade desse ângulo, eles dizem, poderia jogar alguma luz às questões cósmicas problemáticas do momento, como a energia escura, uma espécie da antigravidade que parece estar acelerando a expansão do universo, ou a matéria escura, que supostamente é necessária para manter unidas as galáxias.

O argumento de Verlinde se assemelha a algo possível de ser chamado de teoria “dia de cabelo ruim” da gravidade.

É mais ou menos assim: seu cabelo encrespa no calor e umidade, porque há mais formas de seu cabelo ficar curvado do que reto, e a natureza gosta de opções. Logo, é necessária uma força para deixar o cabelo reto e eliminar as opções da natureza. Esqueça o espaço curvo ou a atração a uma distância, descrita bem o suficiente pelas equações de Isaac Newton para nos permitir navegar pelos anéis de Saturno. A força que chamamos de gravidade é simplesmente um subproduto da tendência da natureza de maximizar a desordem.

Alguns dos melhores físicos do mundo dizem não entender o trabalho de Verlinde e muitos são assumidamente céticos. Mas alguns desses mesmos físicos dizem que ele forneceu um novo ponto de vista para algumas das questões mais profundas da ciência, o por que da existência do espaço, tempo e gravidade –apesar dele ainda não tê-las respondido.

“Algumas pessoas disseram que não pode estar certo, outras que está certo e já sabíamos –que é certo e profundo, certo e trivial”, disse Andrew Strominger, um teórico de cordas de Harvard.

“O que é preciso dizer”, ele prossegue, “é que inspirou muitas discussões interessantes. É simplesmente uma coleção muito interessante de ideias que toca em coisas que em grande parte não entendemos a respeito de nosso universo. É por isso que gosto”.

Verlinde não é um candidato óbvio para ir muito longe em algo assim. Ele e seu irmão Herman, um professor de Princeton, são gêmeos célebres conhecidos mais pelo domínio da matemática da teoria das cordas do que por voos filosóficos.

Nascidos em Woudenberg, Holanda, em 1962, os irmãos foram inspirados por dois programas de televisão dos anos 70 sobre física de partículas e buracos negros. “Eu fui completamente fisgado”, lembrou Verlinde. Ele e seu irmão obtiveram Ph.D.s na Universidade de Utrecht juntos em 1988 e então foram para Princeton, Erik para o Instituto de Estudos Avançados e Herman para a universidade. Após cruzarem frequentemente o oceano, eles foram efetivados em Princeton. E se casaram e se divorciaram de irmãs. Erik deixou Princeton e foi para Amsterdã para ficar próximo de seus filhos.

Ele começou a se destacar na pós-graduação, quando inventou a Álgebra Verlinde e a fórmula Verlinde, que são importantes na teoria das cordas, a chamada teoria de tudo, que diz que o mundo é feito de minúsculas cordas vibrantes.

Você pode se perguntar por que um teórico de cordas está interessado nas equações de Newton. Afinal, Newton foi derrubado há um século por Einstein, que explicou a gravidade como dobras no espaço-tempo, e que alguns teóricos acham que poderá ser derrubado pelos teóricos das cordas.

Nos últimos 30 anos a gravidade está sendo “despida”, nas palavras de Verlinde, do status de força fundamental.

Esse despojamento teve início nos anos 70 com a descoberta de Jacob Bekenstein, da Universidade Hebraica de Jerusalém, e de Stephen Hawking, da Universidade de Cambridge, entre outros, de uma ligação misteriosa entre os buracos negros e a termodinâmica, culminando na descoberta por Hawking em 1974 de que quando os efeitos quânticos são levados em consideração, os buracos negros brilhariam e no final explodiriam.

Em um cálculo provocante em 1995, Ted Jacobson, um teórico da Universidade de Maryland, mostrou que dadas algumas dessas ideias holográficas, as equações da relatividade geral de Einstein são apenas outra forma de declarar as leis da termodinâmica.

Essas explosões de buracos negros (pelo menos na teoria –nenhuma ainda foi observada) expuseram uma nova estranheza na natureza. Os buracos negros, na verdade, são hologramas –como imagens 3D que você vê nos cartões de banco. Toda a informação sobre o que foi perdido dentro deles está codificada em suas superfícies. Os físicos se perguntam desde então sobre como esse “princípio holográfico” –de que talvez sejamos apenas sombras em um muro distante– se aplica ao universo e de onde ele vem.

Em um exemplo notável de um universo holográfico, Juan Maldacena, do Instituto para Estudos Avançados, construiu um modelo matemático de um universo “lata de sopa”, onde o que acontece dentro da lata, incluindo a gravidade, está codificado no rótulo no lado de fora da lata, onde não há gravidade, assim como uma dimensão espacial a menos. Se as dimensões não importam e a gravidade não importa, quão reais podem ser?

Lee Smolin, um teórico de gravidade quântica do Instituto Perimeter para Física Teórica, chamou o trabalho de Jacobson de “um dos trabalhos mais importantes dos últimos 20 anos”.

Mas ele recebeu pouca atenção inicialmente, disse Thanu Padmanabhan, do Centro Interuniversitário para Astronomia e Astrofísica em Pune, Índia, que tratou do tema da “gravidade emergente” em vários trabalhos nos últimos anos. Padmanabhan disse que a ligação com a termodinâmica se aprofundou mais do que apenas as equações de Einstein e outras teorias da gravidade. “A gravidade”, ele disse recentemente em uma palestra no Instituto Perimeter, “é o limite termodinâmico da mecânica estatística” dos átomos do espaço-tempo.

Verlinde disse que leu o trabalho de Jacobson muitas vezes ao longo dos anos, mas que ninguém parece ter entendido a mensagem. As pessoas ainda falam da gravidade como uma força fundamental. “Nós claramente temos que levar estas analogias a sério, mas aparentemente ninguém leva”, ele se queixou.

Seu trabalho, publicado em janeiro, lembra o de Jacobson de muitas formas, mas Verlinde se irrita quando as pessoas dizem que ele não acrescentou nada de novo à análise de Jacobson. O que é novo, ele disse, é a ideia de que diferenças na entropia podem ser o mecanismo por trás da gravidade, de que a gravidade é, como ele coloca, uma “força entrópica”.

Ele teve essa inspiração por cortesia de um ladrão.

Quando estava prestes a voltar para casa de férias no sul da França em meados do ano passado, um ladrão entrou em seu quarto e roubou seu laptop, chaves, passaporte, tudo. “Eu tive que permanecer mais uma semana”, ele disse, “e tive essa ideia”.

Na praia, seu irmão recebeu uma série de e-mails primeiro dizendo que teria que prolongar sua estadia, depois dizendo que ele teve uma nova ideia e, finalmente, no terceiro dia, dizendo que ele sabia como derivar as leis de Newton a partir dos primeiros princípios, a ponto de Herman lembrar de ter pensado: “O que está acontecendo? O que ele anda bebendo?”

Pense no universo como uma caixa de letras do jogo Scrabble (palavras cruzadas). Há apenas uma forma de arranjar as letras para soletrar Gettysburg, em comparação a um número astronômico de formas para soletrarem baboseiras. Sacuda a caixa e ele tenderá à coisas sem sentido, a desordem aumentará e a informação será perdida à medida que as letras se misturam na direção de suas configurações mais prováveis. Seria isso a gravidade?

Como uma metáfora de como isso funcionaria, Verlinde usou o exemplo de um polímero –um filamento de DNA, digamos, um macarrão noodle ou um cabelo– enrolando.

“Eu levei dois meses para entender os polímeros”, ele disse.

O trabalho resultante, como reconhece Verlinde, é um pouco vago.

“Esta não é a base de uma teoria”, explicou Verlinde. “Eu não finjo que isto é uma teoria. As pessoas devem ler as palavras que estou dizendo e não os detalhes das equações.”

Padmanabhan disse que vê pouca diferença entre os trabalhos de Verlinde e de Jacobson e que o novo elemento de força entrópica carece de rigor matemático. “Eu duvido que essas ideias resistam ao teste do tempo”, ele escreveu em uma mensagem por e-mail da Índia. Jacobson disse que não conseguiu entendê-la.

John Schwarz, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, um dos pais da teoria das cordas, disse que o trabalho é “muito provocador”.

Smolin o chamou de “muito interessante e também muito incompleto”.

Em um workshop no Texas neste ano, foi pedido a Raphael Bousso, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que liderasse uma discussão a respeito do trabalho. “O resultado final foi que ninguém entendeu, incluindo pessoas que inicialmente achavam que ele fazia sentido”, ele disse por e-mail.

“De qualquer forma, o trabalho de Erik chamou atenção para uma pergunta genuinamente profunda e importante, o que é bom”, prosseguiu Bousso, “eu apenas não acho que nos aproximamos de uma resposta após o trabalho de Erik. Há muitos trabalhos sobre o assunto, mas diferente de Erik, eles nem mesmo entendem o problema”.

Os irmãos Verlinde agora estão tentando reapresentar essas ideias em termos mais técnicos da teoria das cordas, e Erik tem viajado um bocado, indo em maio ao instituto Perimeter e à Universidade Stony Brook, em Long Island, para falar sobre o fim da gravidade. Michael Douglas, um professor de Stony Brook, descreveu o trabalho de Verlinde como “um conjunto de ideias que encontra apoio na comunidade, acrescentando que “todos estão aguardando para ver se é possível tornar isso mais preciso”.

Até lá, o júri dos pares de Verlinde não chegará a uma decisão.

Em um almoço em Nova York, Verlinde avaliou suas experiências dos últimos seis meses. Ele disse que ele simplesmente se rendeu à sua intuição. “Quando me veio essa ideia, eu fiquei realmente empolgado e eufórico”, disse Verlinde. “Não é com frequência que alguém tem a chance de dizer algo novo sobre as leis de Newton. No momento eu não vejo que estou errado. Isso basta para seguir em frente.”

Ele disse que amigos o encorajaram a ir fundo e ele não lamenta. “Se ficar provado que estou errado, de qualquer forma algo será aprendido. Ignorar isso seria errado.”

No dia seguinte, Verlinde deu uma palestra mais técnica para um punhado de físicos na cidade. Ele lembrou que alguém tinha lhe dito que a história da gravidade parecia a das novas roupas do imperador.

“Nós sabemos há algum tempo que a gravidade não existe”, disse Verlinde. “É hora de gritar isso.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://noticias.uol.com.br/

Quando a máquina de exportar chinesa se acalmará?

Brice Pedroletti

A máquina de exportar chinesa voltou a funcionar a pleno vapor? As exportações deram um salto de quase 44% em junho, em relação ao mesmo mês no ano anterior. Em maio, o crescimento havia sido de 49%. Os excedentes comerciais (a diferença entre as importações e as exportações) também estão em alta: a China registrou em junho um excedente de US$ 20 bilhões (R$ 35,6 bilhões), o mais alto em nove meses. Em março, a China teve um déficit. Entretanto, no primeiro semestre os excedentes comerciais deverão ser menores do que no mesmo período em 2009.

Cédulas tradicionais de yuan com face de Mao Tsé-tung, em Xangai, China.

Cédulas tradicionais de yuan com face de Mao Tsé-tung, em Xangai, China.

Esse salto impressionante é paradoxal: ele acontece enquanto a economia chinesa, em superaquecimento após as medidas de estímulo em 2009, está esfriando. O PIB chinês aumentou 10,3% no segundo trimestre de 2010 (em relação ao mesmo período de 2009, uma vez que a China não fornece estatísticas de progressão trimestralmente), contra 11,9% para os primeiros meses do ano. Acima de tudo, a crise de confiança das economias europeias e a depreciação do euro em relação à moeda chinesa (o euro perdeu 10% entre julho de 2009 e julho de 2010) não tiveram um grande impacto sobre as compras europeias junto à indústria chinesa (o aumento das exportações em junho foi o mesmo para a Europa e os Estados Unidos). Pelo menos por enquanto: “As previsões para o comércio internacional não são nada otimistas”, declarou na terça-feira o porta-voz do ministério do Comércio chinês, Yao Jian, que prevê uma queda no crescimento das exportações, especialmente para a União Europeia, principal parceiro comercial da China, no segundo semestre. Ressaltando ao mesmo tempo que “no conjunto, não haverá uma forte queda em razão da demanda para os produtos de primeira necessidade que exigem uma forte mão de obra”.

Valorização do yuan

A retomada da demanda externa expõe Pequim a novas críticas americanas: ao aceitar flexibilizar a margem de flutuação do yuan em relação ao dólar logo antes do último G20, em Toronto, no fim de junho, a China despertou a raiva dos americanos. Mas desde então o dólar só perdeu 0,7% em relação à divisa chinesa. Os Estados Unidos, que adiaram para depois da cúpula de Toronto o famoso relatório semestral do Tesouro americano no Congresso, evitaram portanto designar a China como um país “manipulador de divisas”. Mas os debates, em Washington, foram retomados com novo vigor sobre a necessidade de se obter uma valorização mais consistente do yuan.

Preocupado em evitar um entusiasmo excessivo de seu comércio exterior, Pequim anunciou nas últimas semanas a eliminação de toda uma série de subsídios fiscais às exportações a partir de 15 de julho, para determinados aços e metais não ferrosos, bem como no setor químico. É a primeira vez que a China elimina os subsídios instaurados no momento da crise financeira global para prevenir os efeitos de uma queda brusca de encomendas por parte dos países ocidentais. “A economia mundial está se restabelecendo, mas a um ritmo lento. Há muitas incertezas. Nós devemos favorecer a demanda interna, ao mesmo tempo em que estabilizamos a demanda externa”, declarou no domingo o primeiro-ministro Wen Jiabao, durante uma recente visita à província de Shaanxi, lembrando a necessidade que a China tem de um “crescimento saudável e relativamente rápido a fim de garantir o emprego e reestruturar nosso modo de desenvolvimento”.

A ideia é evitar qualquer movimento brusco que possa desequilibrar a economia chinesa: os oficiais chineses muitas vezes fazem referência às tensões sobre os salários nas fábricas exportadoras para assinalar quão estreita é a margem de manobra do principal país exportador do mundo. Menos explícito, o risco de uma crise bancária também leva os chineses a serem prudentes: as autoridades reguladoras financeiras da China procuram conter aquilo que a agência Fitch acusou ser “a securitização informal” de dívidas pelos bancos chineses. O uso em massa do crédito bancário para financiar o plano de estímulo chinês levou a um endividamento exponencial nas províncias. Obrigados a reduzir seus empréstimos pendentes, os bancos estão “reembalando” as dívidas como produtos de investimento. Práticas correntes que pareciam estar desacreditadas desde a crise dos subprimes nos Estados Unidos.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Demanda mundial de carvão é cada vez maior

Frank Dohmen, Alexander Jung e Wieland Wagner

Usinas de energia a base de carvão são grandes geradoras de CO2, gás que contribui para o efeito estufa, mas não há alternativa para o combustível no futuro próximo. As companhias de energia esperam que a captura de carbono e as tecnologias de armazenamento sejam a resposta, mas muitos moradores locais não querem que o CO2 seja armazenado em seus quintais.

Operários trabalham em usina a carvão em Hebei, na China. Combustível traz preocupação ambiental

Operários trabalham em usina a carvão em Hebei, na China. Combustível traz preocupação ambiental

Quando Rolf Martin Schmitz, gerente da gigante energética alemã RWE, viajou para a ilha de Sylt no Mar do Norte no verão passado, viu imediatamente as placas. Ao longo das estradas do estado de Schleswig-Holstein no norte da Alemanha, foi recebido com imagens de crânios. Os moradores colocaram placas para protestar contra os armazéns subterrâneos de dióxido de carbono que poderão ser construídos na região.

Os cidadãos temem o perigo de vazamento do gás, que pode ser prejudicial em altas concentrações, e outros riscos à saúde. Schmitz, por outro lado, está preocupado com o futuro de sua companhia.

Schmitz é chefe de operações da RWE na Alemanha, a segunda maior produtora de eletricidade do país, cuja principal fonte de energia é o carvão. Queimar o material gera quantidades imensas de CO2, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. As companhias de energia estão trabalhando a toda velocidade para desenvolver tecnologias de captura e armazenamento de carbono, que envolvem capturar o CO2 e armazená-lo sob o solo. Schmitz acredita que a tecnologia oferece uma forma de resolver os problemas de emissão causados pelas usinas de energia elétrica que usam o carvão.

Resistência ferrenha

Para Schmitz, é incompreensível que os locais de armazenamento de gás que foram planejados estejam enfrentando tanta resistência, principalmente porque já existiam estruturas de armazenamento de gás natural sob o solo no norte da Alemanha há décadas, que nunca foram vistas como um perigo. “De repente isso virou uma obra do demônio”, disse ele surpreso.

Na última quarta-feira, Schmitz se sentiu um pouco aliviado. Foi quando o ministro da Economia alemão Rainer Brüderle, membro do partido FDP que é a favor das empresas, e o ministro do Meio Ambiente Norbert Röttgen, que pertence ao conservador CDU, lançaram, num raro momento de harmonia, uma lei para regulamentar a construção de depósitod de CO2. De acordo com a nova legislação, os armazéns poderão testar a nova tecnologia, pelo menos em algumas instalações-piloto. Röttgen avaliou a medida como “uma contribuição importante para a proteção ao clima”, enquanto Brüderle jurou que a tecnologia “não poderia ser mais segura”.

As companhias de energia também veem o sinal verde de Berlim para a tecnologia como um sinal de que a eletricidade gerada por carvão tem um futuro na Alemanha novamente. Quase metade de toda eletricidade gerada na Alemanha vem do carvão, e a porcentagem é ainda maior em outros países. Na China, por exemplo, é de mais de 80%, e a demanda lá só deve crescer.

Demanda crescente

O carvão está passando por uma retomada fenomenal em toda parte. A demanda cresceu consideravelmente, transformando o carvão na segunda maior fonte de energia em todo o mundo, depois do petróleo. Bilhões de pessoas dependem do carvão para o fornecimento de energia.

Especialistas da Agência Internacional de Energia (IEA) em Paris estimam que a demanda pelo carvão aumentará nas próximas duas década muito mais do que por qualquer outra fonte de energia, exceto a eólica e solar, e passará dos níveis atuais de cerca de 6,7 bilhões de toneladas por ano para quase 10 bilhões de toneladas em 2030. A China e a Índia são as principais responsáveis pelo aumento da demanda de carvão, e os dois países já respondem por mais da metade da demanda global. De acordo com o IEA, eles terão mais do que duplicado seu consumo de carvão até 2030. Na China, quase toda semana uma nova usina elétrica a base de carvão é colocada para funcionar.

O carvão move máquinas, ilumina apartamentos e casas, aquece fornos e movimenta trens de alta velocidade. A matéria-prima que tornou a industrialização possível no século 19 continua sendo um elemento essencial da vida moderna no século 21.

Políticos de todo o mundo, especialmente da Alemanha, podem se entusiasmar o quanto quiserem com os possíveis benefícios das fontes renováveis de energia, mas quando o governo da Alemanha divulgar sua nova estratégia energética nos próximos meses, ele também incluirá o carvão como parte da mistura energética. A verdade suja é que o futuro do fornecimento de energia do mundo é negro. Dadas as alternativas, o que mais pode ser?

Abundante e barato

Muitas pessoas acham a energia nuclear muito perigosa. A produção de petróleo bruto está ficando cada vez mais difícil e cara. O gás natural gera uma dependência de fornecedores temperamentais. E as energias solar, eólica e hidrelétrica não estão suficientemente desenvolvidas ainda para cobrir uma grande fatia do fornecimento de energia. Então resta o carvão, consagrado pelo uso.

Nenhum outro combustível fóssil está disponível em tamanha quantidade; as atuais reservas de carvão durarão por gerações. Nenhum combustível fóssil é tão barato. Custa apenas cerca de 5 centavos de euro (cerca de US$ 0,06 ou R$ 0,11) para gerar um quilowatt-hora de eletricidade a partir do carvão, comparado com cerca de 40 centavos (R$ 0,90) a partir da energia solar. E nenhum combustível fóssil tem uma distribuição tão ampla. Todos os continentes têm reservas adequadas e, diferentemente do petróleo, a maior parte dessas reservas são encontradas em regiões relativamente estáveis em termos geopolíticos, como a América do Norte, Europa e Austrália.

Mas nenhuma outra matéria-prima é tão devastadora para o meio ambiente quando usada. O carvão é o pior vilão do clima na história da humanidade.

O carvão tem um alto custo ambiental. Quase um quilo de dióxido de carbono é emitido para gerar um quilowatt-hora de eletricidade a partir do carvão negro, e as emissões do linhito são ainda mais altas. Em comparação, uma indústria de energia de gás moderna emite cerca de 350 gramas de CO2 por quilowatt-hora gerado, enquanto a energia nuclear é responsável por cerca de apenas 30 gramas.

Em outras palavras, não é a geologia que define os limites do crescimento. Em vez disso, as preocupações ambientais levantam dúvidas quanto à viabilidade futura do combustível. “O carvão é o problema ambiental do século 21”, diz Ottmar Edenhofer, economista-chefe do Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático. A menos, é claro, que possamos encontrar uma forma de usar essa fonte energética sem destruir o ambiente. Será que o carvão limpo é algo concebível?

Intervenções brutais na natureza

A ideia do carvão limpo parece absurda para qualquer um que já tenha espiado a cratera da mina aberta de linhito de Garzweiler. A mina, que é localizada perto da cidade de Colônia no Estado alemão de North Rhine-Westphalia, tem cinco quilômetros de diâmetro e mais de 200 metros de profundidade. Ela foi escavada pelas maiores escavadeiras do mundo, e a cada dia elas retiram mais um pedaço dessa paisagem lunar. Há poucos lugares na Terra em que o homem interveio de forma tão brutal na natureza.

A máquina mais velha em uso na mina, a escavadeira 258, é dos anos 50, um monstro arcaico que pesa quase 7 mil toneladas. As vigas de aço ainda são soldadas, e alguns dos controles ainda são feitos de bakelite, mas a máquina gigante é agora controlada por uma tecnologia de ponta. Usando um monitor, o piloto pode observar a lâmina circular que escava o carvão para fora da fenda na beira do poço, num movimento descendente constante. “Veja, tem um cano de água”, diz ele, apontando para um ponto vermelho piscando que se aproxima da escavadeira. Ele move o controle e a lâmina, que tem um diâmetro de cerca de 18 metros, desviando-a por um fio do cano de concreto.

Disponível em abundância

A cada segundo, a escavadeira 258 retira mais de uma tonelada de linhito do chão. O linhito, também conhecido como carvão marrom, é um material úmido e sedimentar, criado a milhões de anos a partir dos restos de plantas nos quais a energia resultante da fotossíntese foi armazenada. Hoje os seres humanos utilizam esta antiga energia solar. Embora o valor energético do linhito seja apenas moderado, porque mais da metade do material é composto por água, está disponível em abundância na área de mineração de carvão entre as cidades alemãs de Aachen e Colônia, no oeste do país.

Esteiras de vários quilômetros de extensão transportam o carvão para vagões de trem ou diretamente para uma das usinas de energia nas vizinhanças. Lá, ele é secado e moído até atingir a consistência de café em pó, e depois colocado numa câmara de combustão e aquecido a mais de 1.100 graus Celsius.

A alta temperatura faz com que a água evapore, e a fumaça resultante flui a alta pressão contra as lâminas de uma turbina, colocando-a em movimento com exatas 3 mil revoluções por minuto. Um gerador transforma a força rotacional em energia elétrica, e finalmente a eletricidade é enviada para a rede.

A RWE controla todo o processo, desde as grandes escavadeiras em Garzweiler até as linhas de alta-tensão. E o executivo Rolf Martin Schmitz da RWE supervisiona tudo isso.

“Uma fonte de energia com futuro”

Schmitz cresceu com o linhito. Original de Mönchengladbach, uma cidade na região industrial de Ruhr na Alemanha, ele estudou engenharia em Aachen e começou uma carreira ilustre, com passagens pela Steag, Veba, Thüga e E.on antes de começar a trabalhar para a RWE.

“O carvão é uma fonte de energia que tem futuro”, disse Schmitz certa vez, e ele ainda acha isso hoje. “Nós precisamos de cada vez mais eletricidade no mundo”, diz ele.

A RWE supre quase um terço da demanda total de eletricidade da Alemanha. A maior parte de sua eletricidade vem de 100 milhões de toneladas de linhito que são extraídas e queimadas por ano. A companhia sediada em Essen está até mesmo investindo na expansão de algumas de suas instalações de produção. Em outras palavras, também no futuro, o linhito continuará a garantir o lugar da RWE como a maior produtora de eletricidade da Alemanha.

Isso também faz com que a gigante da energia seja a maior poluidora do ar da Europa. Nenhuma outra companhia emite tanto CO2 quanto ela. E em nenhum outro lugar o gás é lançado na atmosfera de uma forma tão concentrada quanto nos arredores da mina de Garzweiler.

Três usinas de eletricidade – Niederaussem, Neurath e Frimmersdorf – estão localizadas a um raio de apenas 3.300 metros. O vapor de água das torres de resfriamento costuma escurecer o céu, e um filme de poeira de cor ocre cobre a paisagem. E além disso, há o dióxido de carbono. Juntas, as três usinas emitem cerca de 65 milhões de toneladas de CO2 por ano, o mesmo que cerca de 25 milhões de carros. Muitos moradores da área estão cansados da poeira, dos céus escurecidos e das emissões de gases.

Eles estão lutando contra a exploração exagerada no solo e a poluição do ar. Depois de 50 anos de mineração do linhito, eles dizem, já basta. A região que eles chamam de lar está sendo literalmente queimada. Um movimento de oposição está começando a se formar, e não só na região de Ruhr.

Apagão energético iminente

Em muitos lugares, as companhias de energia querem modernizar as antigas usinas de linhito ou construir novas usinas de energia de carvão negro. Os oponentes desses planos protestam em todos os lugares, e foram surpreendentemente bem sucedidos. As usinas já abandonaram ou postergaram uma dúzia de projetos, às vezes por causa de questões ligadas à lucratividade, mas com frequência por causa das objeções dos moradores locais.

O setor já alerta para um potencial apagão no fornecimento de energia se mais projetos forem desativados. A Agência de Energia alemã estima que em 2020 o país terá um déficit de cerca de 13 mil megawatts na capacidade de geração de energia, que corresponde a cerca de 10 grandes usinas de energia a base de carvão. “As coisas estão ficando apertadas”, diz Schmitz, que alerta que está ficando cada vez mais difícil garantir o suprimento elétrico do país.

Os críticos do carvão respondem que esta suposta falha no fornecimento de energia é uma invenção do setor energético. O movimento contra o carvão é liderado pela chamada Aliança Climática, um grupo de cerca de 100 organizações, incluindo a BUND (o braço alemão da Amigos da Terra) até a grande organização beneficente cristã Brot für die Welt. A Aliança Climática tem dois membros que não fazem nada além de fornecer assistência às iniciativas de cidadãos locais que estão tentando impedir os projetos de energia. Toda vez que há uma audiência sobre a construção de uma usina de energia em algum lugar na Alemanha, um membro da Aliança Climática está presente, como numa audiência recente na cidade de Brunsbüttel no norte, na foz do rio Elba.

Preocupações com a saúde

Há planos para construir o maior complexo de usinas de energia a partir de carvão negro em Brunbüttel, a pouca distância da antiga usina nuclear. Südweststrom (SWS), uma aliança de mais de 50 usinas municipais, planeja construir as duas primeiras unidades. Bettina Morlok, presidente da SWS, chegou à audiência com uma grande comitiva.

A audiência foi realizada para abordar o tema das possíveis concentrações de poluentes no ar. Morlok trouxe consigo um especialista em medicina ambiental de Giessen na Alemanha central para testemunhar. O professor garantiu ao público que tudo ficará bem, e que nada de fato mudará para os moradores locais. Muitos membros da audiência balançaram a cabeça em descrença.

“Parece que vai sair chantili das chaminés da usina”, disse um cidadão ironicamente. Um fazendeiro de maçãs expressou suas preocupações de que a poeira fina chova sobre suas frutas no futuro. Uma mãe explicou que sua filha sofreu com infecções respiratórias. “O que vai acontecer com ela quando tivermos as usinas de carvão?”

Os moradores locais estão irritados. Alguns já tiveram experiências em protestos contra o setor energético, como os dirigidos contra as usinas nucleares em Brunsbüttel e na vizinha Brokdorf há três décadas. Na época, as audiências foram acompanhadas por policiais com cães, diz Karsten Hinrichsen, meteorologista aposentado de Brokdorf. O movimento de resistência, diz ele, era mais radical, mais apaixonado e mais esquerdista. “Hoje nós temos uma abordagem mais prática e burguesa”, diz o ativista veterano. Talvez seja assim porque hoje o movimento anti-carvão passe por todas as classes sociais, de médicos a fazendeiros, ministros de igreja a cientistas.

Mais cooperativo

Mas seus adversários também se comportam de um jeito diferente hoje em dia. Eles são mais espertos, mais abertos e mais cooperativos. “Levamos isso muito a sério”, diz a presidente da SWS Morlok. Afinal, a aliança da SWS com as instalações municipais também incluem Tübingen, uma cidade com um prefeito do Partido Verde.

Morlok ouve com atenção quando um morador local, que sofre de asma, fala sobre seus temores. “Posso entender muito bem as preocupações das pessoas”, insiste Morlok. Naturalmente isso não a impedirá de construir a usina no mesmo minuto em que as autoridades concederem as autorizações necessárias.

Brunsbüttel é visto como um lugar ideal para a usina de energia a base de carvão. Graças ao rio Elba, as usinas não precisarão ter sua própria torre de resfriamento, porque o fluxo simplesmente carrega a água quente para o mar. E mesmo os maiores navios de carvão do exterior podem descarregar ali o que corresponderia a quatro ou cinco milhões de toneladas por ano.

Diferentemente do linhito, o carvão negro doméstico representa apenas um papel secundário para as usinas alemãs hoje. Elas estão comprando cada vez mais material fora do país, principalmente na Rússia, mas também da Colômbia, que já é a quarta maior exportadora de carvão, e da Austrália.

As companhias de mineração como a BHP Billiton, Rio Tinto, Xstrata e a Peabody Energy estão competindo por licenças para extrair carvão nas melhores áreas de produção. Elas estão espalhadas em torno do mundo inteiro, por exemplo, no Vale Hunter na Austrália, na bacia do Rio Powder no Estado norte-americano do Wyoming, e na costa leste de Kalimantan, um das duas principais ilhas da Indonésia. Em lugares como estes, o carvão está facilmente acessível, a mineração é barata e os custos de mão de obra costumam ser baixos.

Entretanto, apenas uma em cada sete toneladas de carvão vai para o comércio global. Os maiores países produtores de carvão precisam eles próprios da maior parte do combustível. Na China, principalmente, a indústria do carvão está em alta.

A dura realidade da mineração do carvão

Na província de Shanxi no norte da China, um trem de carvão após o outro atravessa a paisagem sedimentar, a caminho do porto de Qinhuangdao na costa leste do país. Uma fileira aparentemente interminável de caminhões, com as caçambas cobertas de forma inadequada com lona, trafegam pela estrada ao longo da linha de trem. Os motoristas se arriscam com seus caminhões super carregados, o que é comprovado por um ou outro caminhão tombado próximo das curvas da estrada.

A região de Shanxi é uma das jazidas de carvão mais importante do país. Durante o dia ela lembra um bar cheio de fumaça. Cerca de 1.500 minas funcionam lá, com milhares de mineiros que trabalham em turnos, exceto quando um incêndio interrompe a produção.

Em dezembro, 12 mineiros foram mortos numa mina próxima à cidade de Jeixiu. As autoridades a fecharam desde então. Liang, 57, um dos sobreviventes, especula que grandes quantidades de poeira de carvão no subsolo detonaram a explosão.

Liang trabalha na mina, a cerca de 800 metros de profundidade, desde os 22 anos. Os túneis são tão baixos, diz ele, que os trabalhadores só conseguem se movimentar agachados ou engatinhando. Eles retiram o carvão das fendas com martelos e pás, e às vezes até mesmo com as próprias mãos. Eles ganham o equivalente a US$ 169 por mês por esse trabalho que arruína com a coluna.

Bilhões em danos

Quando completou 55 anos, numa idade em que os mineradores já não são mais considerados ágeis e flexíveis, seu patrão o colocou numa tarefa diferente. Depois disso, o trabalho de Liang consistia em arrastar vigas de aço e de madeira, que são usadas para reforçar os túneis subterrâneos. “Este trabalho”, diz ele com um suspiro, “é até mais difícil.”

Os acidentes são comuns nas minas chinesas. Cerca de 3.215 trabalhadores morreram em acidentes só em 2008. Raramente as tentativas de resgate são tão bem sucedidas quanto uma operação espetacular no começo de abril, quando as equipes de resgate conseguiram retirar 115 mineiros com vida da mina de Wangjialing depois de terem ficado presos ali por oito dias. Mas não é apenas na China que a mineração do carvão é um trabalho sujo e perigoso, como descreveu o Greenpeace num relatório de 2008 intitulado “O Verdadeiro Custo do Carvão”.

No Estado norte-americano de Kentucky, por exemplo, as companhias mineradoras explodem o topo inteiro de montanhas para chegar com mais facilidade ao carvão. Na África do Sul, a água ácida dos poços de minas abandonadas está contaminando rios. E no Camboja, as mineradoras estão desalojando famílias para expandir a mina de Cerrejón, a maior mina aberta de carvão negro. A mina de Cerrejón é uma fonte importante de carvão para os fornecedores de energia da Alemanha, e a SWS também está pensando em importar de lá o carvão duro para Brunsbüttel.

De acordo com os cálculos do Greenpeace, o negócio de carvão provoca cerca de 360 bilhões de euros em danos a cada ano. Os ambientalistas alertam que se a humanidade continuar nesse caminho, as emissões de CO2 a partir do carvão irão aumentar mais 60% até 2030. Dadas as consequências, será que o mundo pode continuar se dando ao luxo de depender da energia do carvão?

O futuro do carvão

Parte da resposta pode ser encontrada emSpremberg no sul de Brandenburgo. No ano passado, a produtora de energia Vattenfall operou uma pequena usina piloto em sua estação de energia Schwarze Pumpe em Spremberg que separa o CO2 do carvão e depois o captura. “A tecnologia está funcionando”, diz Tuomo Hatakka, chefe da Vattenfall Europe. Em alguns dias, a companhia sueca pretende construir uma usina de energia de demonstração e testá-la para ver como ela funciona em grande escala. “Há um futuro para o carvão”, diz Hatakka. “Carvão sem emissões de CO2.”

Outra parte da resposta está na cidade de Ketzin no noroeste de Brandemburgo. Lá, cientistas do Geo Research Center de Potsdam estão comprimindo o CO2 em camadas porosas no subsolo. Até agora, eles injetaram 36 mil toneladas a uma profundidade de 650 metros. Os resultados até agora são promissores, diz o coordenador Hilke Würdemann. “As condições são exatamente as que esperávamos.”

O setor energético está depositando suas esperanças numa combinação dos projetos de Spremberg e Ketzin. A esperança é que a tecnologia CCS possa até mesmo se transformar numa fonte significativa das exportações, à medida que abre novas áreas de negócios para companhias alemãs como a Linde, Siemens e BASF. Os Estados Unidos e a China querem experimentar as primeiras usinas de energia a base de carvão de nova geração nos próximos anos.

Está claro que o custo disso será enorme. Adaptar as usinas, transportar o CO2 através de canos e comprimi-lo no subsolo – tudo isso aumenta muito os custos, o que afetará o preço da energia proporcionalmente. Os especialistas estimam que levará pelo menos dez anos para que a nova tecnologia seja usada em larga escala em todo o mundo.

Muito em jogo

Muita coisa está em jogo para as instalações alemãs. Suas usinas são velhas e precisam de reformas urgentes. As companhias precisam tomar decisões que serão válidas por pelo menos 40 anos, a duração de uma geração de usinas de energia. O problema é que ninguém sabe se o uso da tecnologia CCS vale a pena. Tudo depende do que acontecer com os preços dos direitos de emissões de CO2 de 2013 em diante, quando as usinas deverão adquirir certificados em leilões.

Se os preços continuarem baixos, será mais barato comprar direitos de emissões do que investir na CCS. Especialistas acreditam que o marco ficará em 50 euros por tonelada de CO2, em comparação com o preço atual de cerca de 15 euros por tonelada. Mas se os preços dos certificados aumentarem consideravelmente, como observam alguns especialistas, o uso da tecnologia valerá a pena – o que seria desastroso se das companhias elétricas não tomarem nenhuma atitude hoje.

Também há outros problemas a serem resolvidos. Quando a CCS é usada, as usinas de energia perdem cerca de 10% de sua eficiência, porque a captura do dióxido de carbono consome uma imensa quantidade de energia. Em outras palavras, mais carvão precisa ser queimado para produzir a mesma quantidade de eletricidade, o que essencialmente significa que a matéria-prima está sendo desperdiçada.

Mas não importa o quão sofisticada a tecnologia, o maior obstáculo continua quase impossível de ser superado: a falta de aceitação dos cidadãos que moram perto dos locais planejados para armazenar o CO2. Representantes das comunidades locais no leste de Brandemburgo expressaram suas reservas quando visitaram a usina piloto de Ketzin na última quarta-feira. Não se pode permitir que o lugar se transforme numa nova Asse, alertaram, referindo-se ao controverso repositório permanente de lixo nuclear no Estado da Baixa Saxônia.

Uma aposta enorme

Mas nem todos têm essas preocupações. Até o movimento ambientalista está dividido em relação à questão da CCS. O Greenpeace e a BUND rejeitam firmemente o processo. O Greenpeace argumenta que a tecnologia constitui “uma aposta enorme”, enquanto a BUND a descreve como nada além de uma forma de as companhias mascararem suas emissões. A União pela Conservação da Natureza e da Biodiversidade da Alemanha (NABU) e a organização conservacionista WWF, por outro lado, acreditam que vale a pena pelo menos tentar. Seu argumento pragmático é de que seria tolice descartar essa opção desde já. Mas será que o mundo tem uma escolha?

Não importa o que aconteça, Lord Nicholas Stern não vê alternativa à tecnologia de carvão limpo no futuro próximo. O economista, que causou polêmica há quatro anos com seu relatório sobre os custos da mudança climática, previu um cenário sobre a mistura de diferentes fontes de energia no futuro. De acordo com ele, o carvão tem um papel fundamental na mistura ainda por muitos anos – porque não há outra escolha.

Mesmo que as previsões mais otimistas se tornem realidade e o mundo possa satisfazer metade de sua demanda de energia a partir de fontes renováveis, enormes quantidades de combustíveis fósseis ainda serão necessárias, explica Stern. Ele acredita que o setor, se pretender atingir as metas climáticas mundiais, precisa fazer tudo o que for possível para reduzir as emissões de CO2 – e que o uso da tecnologia CCS será uma parte inevitável da equação. “Precisamos de milhares de usinas”, disse Stern recentemente numa conferência em Berlim.

Em outras palavras, a era do carvão está longe do fim. Até que a água, o vento e o sol possam fornecer energia suficiente, o carvão “limpo” poderia pelo menos desempenhar um papel na transição para as tecnologias renováveis. É claro, Stern não tem ilusões em relação ao tempo que levará para que um futuro de baixo carbono possa chegar. “Será uma transição longa”, diz ele.

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Os partidos não têm dado conta da tarefa

Para Ivan Valente, apesar da dura realidade das condições de vida da maioria do povo brasileiro, não há um processo de indignação organizada em marcha

Nilton Viana

É necessário aprofundar o conhecimento da nossa realidade e a relação da esquerda com as mais profundas reivindicações do povo brasileiro por mudança social. Esta é uma das constatações do deputado federal Ivan Valente (Psol-SP). No entanto, segundo ele, é preciso entender que estamos numa realidade mutante, com a rapidez trazida pela globalização e a velocidade das comunicações.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Valente defende que a falta de um forte movimento social e a desmobilização da força social de mudança, que ocorreu neste período – aliadas à fragmentação e à ainda pouca expressão de outras candidaturas de esquerda – realçam o quadro de dificuldades de uma alternativa verdadeiramente de esquerda que acumule rapidamente na direção da transformação social. Para ele, os partidos políticos não têm dado conta dessa tarefa, ou por opção ou por falta de condições objetivas e também erros de avaliação. E afirma: a unidade das forças populares é uma questão vital no processo de luta de classes.

Brasil de Fato – Como parlamentar, você tem acompanhado as proposta de alteração do Código Florestal brasileiro. Quais os interesses em jogo nesse debate?

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6502

A Taxa do Mundo é Nossa, com brasileiros não há quem possa

Paulo Kliass

Pois é, mesmo que a seleção dirigida por Dunga não consiga trazer a estrelinha do hexa lá da África do Sul, o fato é que o Brasil continua a ostentar a posição de campeão mundial….da taxa de juros!

A reunião do Conselho de Política Monetária (COPOM), no dia 09 de junho passado, elevou ainda mais a taxa SELIC do Banco Central, de 9,5% para 10,25% ao ano. Com tal decisão, o governo se obriga pagar a mais um valor próximo a R$ 12 bilhões em um ano, correspondente a esse acréscimo de 0,75% na taxa básica de juros da nossa economia. A título de comparação, o total da receita aplicada pelo Programa Bolsa Família, ao longo de 2009, foi de um valor aproximado a esse.

A dívida pública federal superou a marca dos R$1,6 trilhão, valor até muito difícil de imaginar. Com a nova remuneração oferecida ao sistema financeiro para a rolagem dessa dívida, as despesas da União, com juros ao longo dos próximos 12 meses, serão da ordem de R$ 160 bilhões.

Há muitos anos que o Brasil vem mantendo tal “pole position”. Em alguns meses isolados, ao longo de mais de uma década, ocorreu de ter sido subitamente ultrapassado por outros países, como a Turquia. Mas nada que comprometesse sua liderança definitiva.

Existem vários fatores que podem ser utilizados para explicar mais essa jabuticaba tupiniquim. A questão é bastante complexa para ser esgotada em um espaço reduzido como esse. Mas vamos buscar entender alguns aspectos.

O processo crescente de financeirização da economia faz com que as atividades agrícolas, industriais e de serviços se subordinem à lógica e à dinâmica do setor financeiro. A busca da rentabilidade e do retorno dos investimentos passa a ter a referência da remuneração “mínima” (na verdade, muito alta) oferecida pelo governo para rolagem de seus títulos. Não é à toa que os departamentos financeiros nas empresas ganham importância desproporcional. Muitas delas passam a ter melhores resultados no jogo das finanças do que no seu próprio ramo de atividades. Assim como na época da inflação crônica e elevada, a sociedade brasileira passa a conviver com taxas de juros também muito altas.

A adoção de um modelo de política econômica baseada no rígido regime de metas de inflação, combinado com a política de liberdade cambial, só reforça a tendência à taxa de juros elevada. As autoridades monetárias fazem uma previsão da meta de inflação futura (com base em uma nada transparente pesquisa realizada com os próprios operadores do mercado financeiro) e definem o patamar básico da taxa de juros. O objetivo seria evitar que o nível da atividade econômica pudesse provocar um excesso de demanda superior à oferta, com os tais riscos de retorno da tão temida inflação.

Além disso, o regime de câmbio flutuante e a liberdade total de entrada e saída de capital externo acabam por agravar o quadro da tendência à alta na taxa de juros. Como o financiamento da dívida pública depende bastante dos recursos externos, as nossas autoridades econômicas terminam por elevar o nível de juros para manter atrativa a alternativa para os grandes operadores do mercado financeiro internacional de aplicar seus recursos em títulos no mercado brasileiro. Para completar a tragédia, o ingresso de tais recursos externos especulativos e de curtíssimo prazo provoca uma valorização artificial da nossa taxa de câmbio, prejudicando as exportações brasileiras e causando uma perigosa deterioração nas contas externas, que já apresenta resultados deficitários preocupantes.

As taxas de juros nas principais economias do mundo estão em níveis próximos de zero ou mesmo negativas. É o caso dos EUA, dos países europeus e do Japão, cujas autoridades monetárias baixaram ainda mais as taxas de seus Bancos Centrais para estimular a saída da recessão. E mesmo os países que não foram tão afetados pela crise, como China e Índia, apresentam taxas bem abaixo da brasileira.

Uma das alternativas para escapar dessa verdadeira armadilha montada para manter as taxas juros em níveis tão altos seria o estabelecimento de maior controle na chamada conta de capital. Com isso, o governo estabeleceria critérios e condições para entrada de recursos externos. A primeira medida seria dar tratamento diferenciado para o investimento direto e produtivo, face ao recurso puramente especulativo da esfera financeira. Uma outra medida seria estabelecer regras distintas, de acordo com o tempo definido para a permanência do recurso em nosso País. Assim, o dinheiro especulativo de curto prazo seria submetido a impostos, para reduzir o grau de dependência da ciranda financeira que só prejudica nossa economia. Já os investimentos que pretendem ingressar para a atividade real, comprometendo-se com projetos de médio e longo prazos, não seriam onerados por tal tributação.

Paulo Kliass é doutor em economia pela Universidade de Paris 10 e integrante da carreira  Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.

Fonte: Sintestrn – http://www.sintestrn.org.br/

Crise no centro. Consequências do novo sistema de Wall Street

Peter Gowan

A LONGA CRISE do crédito que teve início no mundo atlântico em agosto de 2007 é estranha por seus escopo e intensidade extraordinários. O discurso mainstream, ao referir-se a uma crise do subprime, implica que a crise do crédito foi causada por, em vez de ter disparado, uma bolha na economia real. Isso é, na melhor das hipóteses, uma ingenuidade: afinal, o estouro de uma bolha igualmente grande no mercado imobiliário espanhol não levou a tamanha explosão em seu sistema bancário nacional (Crawford & Tett, 2008).

A noção de que uma queda no preço das casas possa suspender metade de todos os empréstimos na economia americana em uma questão de meses – e não apenas hipotecas, mas financiamentos de carros, cartões de crédito, papéis comerciais, propriedades comerciais e dívidas corporativas – não faz sentido. Em termos quantitativos, isso significou um encolhimento de cerca de US$ 24 trilhões no crédito, quase o dobro do Produto Interno Bruto (PIB) americano.1Os credores de outrora logo começaram a correr não apenas de títulos subprime, mas também da dívida supostamente mais segura de todas, a categoria "supersênior", cujo preço no fim de 2007 era um décimo do que havia sido apenas um ano antes (Patterson, 2008).

Para entender a crise do crédito, é preciso que transcendamos o senso comum de que mudanças na chamada economia real provocam resultados numa suposta superestrutura financeira. Promover essa "ruptura epistemológica" não é fácil. Uma razão pela qual tão poucos economistas viram que uma crise estava chegando, ou não conseguiram perceber a sua escala mesmo depois que ela chegou, foi a de que seus modelos presumiam tanto que sistemas financeiros "funcionam", no sentido de ajudar eficientemente as operações da economia real, quanto que tendências financeiras são, em si, pouco significativas.2 Daí a presunção de que a enorme bolha nos preços de petróleo entre o outono de 2007 e o verão de 2008 foi causada por fatores de oferta e demanda, e não por operadores financeiros que, vacilantes por causa do início da crise, fizeram subir o preço de US$ 70 por barril para US$ 140 em menos de um ano, antes de deixar a bolha estourar em junho último; um ciclo que teve efeitos enormemente negativos na "economia real". Explicações semelhantes foram oferecidas para o aumento no preço das commodities no mesmo período; mas esse aumento foi causado, em grande parte, por investidores institucionais, fundos de pensão e fundos do mercado monetário evitando emprestar aos bancos de Wall Street, que injetaram centenas de bilhões de dólares em índices de commodities, enquanto os fundos hedge, apertados contra a parede, ajudaram a inflar bolhas nos mercados de café e cacau (Blas, 2008; Flood, 2008).3

Romper com a noção ortodoxa de que foram atores da "economia real" que causaram a crise carrega consigo um preço político: significa que os mutuários não podem mais ser culpados pela crise do crédito, nem os chineses pela bolha no mercado de commodities, nem produtores árabes inflexíveis pelo repentino aumento no preço do petróleo. Mas essa ruptura pode permitir que entendamos aspectos da crise que seriam de outra forma inexplicáveis; sendo um dos mais importantes o crescimento extraordinário do próprio subprime. Tomaremos como ponto de partida, portanto, a necessidade de analisar a transformação estrutural do sistema financeiro americano nos últimos 25 anos. Defenderei que um Novo Sistema de Wall Street surgiu nos Estados Unidos nesse período, produzindo novos atores, novas práticas e novas dinâmicas. A estrutura financeira resultante, aliada a seus agentes, foi a força motriz por trás da crise atual. No percurso, ela provou ser um sucesso espetacular para os grupos mais ricos nos Estados Unidos: o setor financeiro era, de longe, o componente mais lucrativo das economias americana e britânica e seu mais importante produto de "exportação". Em 2006, nada menos que 40% dos lucros corporativos americanos foram para o setor financeiro (Summers, 2008).4 Mas a nova estrutura necessariamente produziu a dinâmica que levou à explosão.

Esta análise não é oferecida como uma explicação monocausal da crise. Uma condição fundamental, que criou o solo no qual o Novo Sistema de Wall Street podia brotar e florescer, foi o projeto do sistema de dólar fiduciário, a privatização do risco cambial e a retirada dos controles de câmbio – todos chamados pelo eufemismo de "globalização financeira". Além disso, o sistema não poderia ter brotado e florescido se não oferecesse respostas – não importa quão doentias em última instância – para diversos problemas entranhados no capitalismo americano como um todo. Há, portanto, um cerne racional, dialético na distinção superficial entre a superestrutura financeira e a economia americana "real". A seguir, esboçarei em primeiro lugar os principais elementos do Novo Sistema de Wall Street e mostrarei brevemente como sua crise assumiu formas tão espetaculares. Em seguida, defenderei que, para entender as raízes mais profundas desse mal-estar generalizado, precisamos realmente investigar as características socioeconômicas e sociopolíticas gerais do capitalismo americano na forma pela qual ele se desenvolveu nos últimos 25 anos. Levantarei a possibilidade de sistemas alternativos, incluindo um modelo bancário e de crédito de utilidade pública. Finalmente, discutirei as dinâmicas internacionais desencadeadas pela presente crise e suas implicações para o que chamei em outros artigos de Regime de Dólar-Wall Street.5

O Novo Sistema de Wall Street

A estrutura e a dinâmica do sistema bancário de Wall Street mudaram drasticamente no quarto de século após meados dos anos 1980. As principais características do novo sistema incluem: (i) a ascensão do modelo credor-negociante; (ii) a arbitragem especulativa e o estouro da bolha no preço dos ativos; (iii) o empenho em maximizar a alavancagem e a expansão do balanço patrimonial; (iv) a ascensão do sistema bancário paralelo, com seu braço londrino, e as "inovações financeiras" associadas; (v) a proeminência dos mercados monetários e sua transformação em financiadores de negócios especulativos em bolhas de ativos; (iv) o novo papel central de derivativos de crédito. Essas mudanças reforçaram-se mutuamente, formando um todo integrado e complexo, que depois se desintegrou ao longo de 2008. Examinaremos cada uma delas brevemente.

Modelos de negócios

Durante a maior parte do período pós-guerra, os bancos de investimento de Wall Street envolviam-se muito pouco eles mesmos no comércio de títulos, diferentemente do que faziam em nome de seus clientes; enquanto os bancos comerciais depositários desprezavam esse tipo de atividade. Mas, a partir de meados da década de 1980, os investimentos diretos (proprietary trading) em títulos financeiros e outros foram se transformando numa atividade cada vez mais central para os bancos de investimento e até mesmo para muitos bancos comerciais. Essa mudança estava relacionada, de início, à nova volatilidade dos mercados de câmbio após o desmantelamento de Bretton Woods; e, depois, às oportunidades criadas pela liberalização financeira doméstica, sobretudo ao descarte dos controles de capital e à abertura de outros sistemas financeiros nacionais a operadores americanos. Essas mudanças proporcionaram oportunidades para uma grande expansão das negociações em Wall Street, que se tornariam uma fonte crucial de lucros para os bancos de investimento.6 A guinada na direção do investimento direto especulativo em títulos financeiros foi liderada pelo Salomon Brothers, cujo Arbitrage Group foi estabelecido em 1977 e adquiriu lucratividade extraordinária sob o comando de John Meriwether durante os anos 1980.7

Além de começar a investir eles mesmos em títulos financeiros, os bancos de Wall Street envolveram-se cada vez mais no empréstimo de fundos a outras instituições, para que elas os usassem em negociações: fundos hedges, os chamados grupos de private equity (que investem em empresas), ou veículos de investimento especial (SIV) econduits, criados pelos próprios bancos de investimento.8 Esses empréstimos, conhecidos no jargão como corretagem prime, também eram uma atividade extremamente lucrativa para os bancos de Wall Street: para muitos, sua principal fonte de renda (Mackintosh, 2008). Essa guinada para o modelo credor-negociante não significou que os bancos de investimento suspenderam suas atividades de corretagem, administração de fundos etc. Mas essas atividades adquiririam nova importância à medida que forneciam aos bancos grandes quantidades de informações em tempo real sobre os mercados, algo de grande valia para suas próprias atividades de negociação.9

Atividades de negociação, aqui, não significam investimentos de longo prazo, no estilo de Warren Buffet, neste ou naquele título, mas comprar e vender ativos reais e financeiros para explorar – até mesmo gerando – diferenças de preço e variações de preço. Esse tipo de "arbitragem especulativa" tornou-se uma das atividades centrais não apenas dos bancos de investimento, mas também de bancos comerciais (Saber, 1999). O mesmo ocorreu com o esforço para gerar bolhas nos preços de ativos. Repetidamente, Wall Street podia entrar num mercado em particular, gerar uma bolha de preços, auferir grandes lucros provenientes de especulação e então se retirar, estourando a bolha. Esse tipo de atividade era muito fácil nas chamadas economias emergentes com mercados pequenos de ações ou de títulos de dívidas. Os bancos de Wall Street ganharam muita experiência em inflar essas bolhas nos mercados de ações poloneses, checos ou russos nos anos 1990 e depois estourá-las, gerando muitos lucros. A bolha ponto.com nos Estados Unidos mostrou então como a mesma operação poderia ser realizada no centro sem prejuízo significativo para os bancos de Wall Street (diferentemente de alguns operadores europeus, notadamente as companhias de seguros, ansiosas por lucrar com a bolha, mas atingidas por seu estouro).

Tanto os reguladores de Washington quanto Wall Street aparentemente acreditavam que, juntos, conseguiriam administrar os estouros (Greenspan, 2008). Isso significava que não havia necessidade de evitar que essas bolhas ocorressem: ao contrário, é óbvio e patente que tanto os reguladores quanto os operadores ativamente geraram-nas, sem dúvida acreditando que uma das formas de administrar estouros era inflar outra bolha dinâmica em outro setor: depois da ponto.com, a bolha imobiliária; depois, uma bolha nos preços de energia ou em mercados emergentes etc. Isso parece implicar uma autoridade financeira formidavelmente centralizada operando no coração desses mercados. De fato: o Novo Sistema de Wall Street era dominado por apenas cinco bancos de investimento, reunindo mais de US$ 4 trilhões em ativos e capazes de requisitar ou literalmente mover outros trilhões de dólares das instituições por trás deles, tais como os bancos comerciais, os fundos monetários, os fundos de pensão, e assim por diante. O sistema estava muito distante do mercado descentralizado, com milhares de atores, todos obedientes aos preços que lhe são impostos, retratado pela economia neoclássica. De fato, os sistemas de crença operantes no que pode ser chamado de Greenspan-Rubin-Paulson milieu pareciam ser pós-minskianos. Eles entendiam a teoria de Minsky sobre bolhas e estouros, mas acreditavam que pudessem usá-la estrategicamente para inflar bolhas, estourá-las e administrar o resultado inflando mais algumas.

Maximizando a alavancagem

O processo de arbitragem e estouro de bolhas requer mais dos operadores financeiros do que simplesmente juntar o máximo de informação possível sobre as condições em todos os mercados; também exige a capacidade de mobilizar fundos gigantescos para injetar em qualquer jogo de arbitragem em particular, para mudar a dinâmica do mercado em favor do especulador. Os bancos de investimento usaram seu grau de alavancagem como a meta a ser atingida sempre, em vez de como um limite máximo de risco, a ser reduzido quando possível, mantendo superávit de capital. Um relatório recente do Federal Reserve (FED) de Nova York demonstra como essa abordagem provou ser poderosamente pró-cíclica em uma bolha do mercado de ativos, levando os bancos a ampliar seus empréstimos conforme subiam os preços dos ativos (Adrian & Song Shin, 2008).10 Em sua ilustração, os autores do relatório, Tobias Adrian e Hyun Song Shin, presumem que o banco ativamente gerencia seu balanço para manter um grau constante de alavancagem a 10. Supondo que o balanço inicial seja assim: o banco tem 100 em títulos, e financiou isso com um patrimônio de 10, mais dívidas valendo 90.

O grau de alavancagem do banco de títulos em relação ao patrimônio é, portanto, = 10.

Suponha que o preço dos títulos aumente então 1%, para 101. As proporções serão então: títulos 101, patrimônio 11, dívida 90. Então, sua alavancagem está agora em 101/11 = 9,2. Se o banco ainda tem como meta uma alavancagem de 10, precisa contrair mais dívidas ("d"), para comprar d títulos do lado do passivo, para que a proporção de ativo/patrimônio seja: = 10, ou seja d = – 9.

O banco contrai então uma dívida adicional de 9, e com esse dinheiro compra títulos no valor de 9. Depois da compra, a alavancagem está de volta a 10. Assim, um aumento de 1 no preço do título leva a uma posição adicional de 9: a curva de demanda está ascendente.

O mecanismo funciona ao contrário também. Suponha que o preço dos títulos sofra um choque, de forma que o valor dos títulos caia para 109 agora. Do lado do passivo, o ônus do ajuste recai sobre o patrimônio, já que o valor da dívida permanece aproximadamente constante.

Mas com títulos a 109, patrimônio a 10 e dívida a 99, a alavancagem está agora muito alta: = 10.9

O banco pode ajustar sua alavancagem vendendo títulos no valor de 9, e amortizando 9 de sua dívida. Assim, uma queda no preço dos títulos leva a uma venda de títulos: a curva da oferta está descendente.

Um mecanismo importante por meio do qual os bancos de investimento podiam reagir a aumentos nos preços de ativos era tomar empréstimos no mercado de "acordo de recompra" – ou "repo". Tipicamente, o banco de investimentos quer comprar um título, mas precisa tomar fundos emprestados para fazê-lo. Na data de liquidação, o banco recebe o título, e então usa-o como garantia para o empréstimo necessário para pagar por ele. Ao mesmo tempo, ele promete ao credor que vai recomprar o título numa determinada data futura. Dessa forma, o banco pagará o empréstimo e receberá o título. Mas tipicamente os fundos para recomprar o título do credor são adquiridos mediante a venda do título para outra pessoa. Assim, no dia da liquidação, o credor original do banco de investimento é pago e entrega o título, que é imediatamente repassado ao novo comprador em troca de dinheiro. Esse tipo de operação de financiamento repo pressupõe uma alta nos preços dos ativos. Foi responsável por um aumento de 43% na alavancagem entre bancos de Wall Street, segundo o mesmo relatório do FED de Nova York. Os repos também foram a maior forma de dívida nos balanços dos bancos de investimento em 2007-2008 (Adrian & Song Shin, 2008).

Surge a questão de por que os bancos de Wall Street (seguidos de outros) estenderam seus empréstimos ao limite da alavancagem de forma tão sistemática. Uma explicação é a de que eles o faziam de acordo com os desejos de seus acionistas (uma vez que haviam se transformado em companhias de sociedade limitada). O capitalismo do "valor para o acionista" supostamente exige que a proporção de ativos em relação ao capital seja maximizada. O superávit de capital reduz o retorno do patrimônio acionário e puxa para baixo os rendimentos por ação.11 Mas também há outra possível explicação para tomar empréstimos até o limite da alavancagem: a briga pela participação no mercado e pelo maior poder de precificação em atividades de negociação. Se você é um arbitrador especulativo ou um inflador de bolhas de ativos, a escala operacional financeira é essencial para mover mercados, por meio da alteração dos preços na direção para a qual você quer que eles sigam. Ao avaliar qual dessas pressões – o poder dos acionistas ou o poder de estabelecer preços – deu impulso ao processo, é preciso observar quão prontos estavam os executivos do Tesouro, do FED e de Wall Street para pisotear os interesses dos acionistas durante a crise do crédito, mas quão resolutamente tentaram proteger os níveis de alavancagem dos maiores bancos de investimento durante a bolha. De tudo o que se sabe, a guinada do Citigroup na direção da expansão de seu balanço e de sua alavancagem até o máximo possível para atividades de investimento derivou não da pressão de seus acionistas, mas da chegada de Robert Rubin (2008), após seu período como secretário do Tesouro americano.

O sistema bancário paralelo

O ímpeto por escala e por alavancagem cada vez mais alta leva a outra característica básica do Novo Sistema de Wall Street: o esforço para criar e expandir um setor bancário paralelo. Suas características mais óbvias eram os novos bancos inteiramente desregulamentados, sobretudo os fundos hedge. Eles não têm nenhum papel funcional específico – eles têm sido simplesmente bancos de negócios livres de qualquer controle regulatório ou transparência em sua arbitragem especulativa. Grupos de private equity também são, em essência, bancos de negócios paralelos, especializados na compra e venda de companhias. Os Veículos de Investimento Especial (SIV) e conduits são, de forma semelhante, parte desse sistema. Nas palavras do diretor de regulação do Banco Central da Espanha, esses SIV e conduits "eram como bancos, mas sem capital ou supervisão". Ainda assim, como uma matéria do Financial Times observou: "Nas últimas duas décadas, a maioria dos reguladores encorajou os bancos a tirar seus ativos do balanço e colocá-los em SIV e conduits" (Crawford & Tett, 2008).

O sistema bancário paralelo não competia com o sistema regulado: era um produto dele. Os bancos comerciais e de investimento regulados funcionavam como os corretores preferenciais (prime brokers) dos operadores dos bancos paralelos, auferindo assim grandes lucros com suas atividades. Essa característica cada vez mais importante da atividade bancária oficial era, na realidade, uma forma de expandir maciçamente seus balanços e sua alavancagem. Para conseguir financiamento dos bancos de Wall Street, os fundos de hedge tinham que lhes dar garantias; mas por meio de uma prática conhecida como re-hipotecagem, uma proporção desses ativos dados como garantia podia ser usada pelo prime broker como sua própria garantia para levantar seus próprios fundos. O resultado era o autofinanciamento de atividades de prime brokerage altamente lucrativas pelos bancos de Wall Street, em grande escala, sem nenhum comprometimento extra de seu próprio capital: uma forma engenhosa de aumentar muito seus graus de alavancagem (Mackintosh, 2008). O debate ao redor da questão se a desregulação ou a reregulação no setor financeiro tem ocorrido desde os anos 1980 parece ignorar que havia uma combinação de um sistema regulado e um sistema desregulado paralelo, trabalhando juntos de forma dinâmica.

O sistema bancário paralelo refere-se não apenas a agentes institucionais, como os fundos de hedge, mas também a práticas e produtos que permitiram que os bancos de investimento expandissem sua alavancagem. Desde o fim dos anos 1990, uma parte cada vez mais importante desse lado do sistema bancário paralelo tem sido um mercado de derivativos de crédito do "mercado de balcão", notadamente Obrigações de Dívida Colateralizada (CDO) e Credit Default Swaps (CDS). O atrativo mais óbvio deles repousa na arbitragem regulatória que ofereciam, permitindo que os bancos expandissem sua alavancagem (Bannier & Hänsel, 2008). Tradicionalmente, os bancos tinham que segurar suas operações de crédito, e esse seguro implicava o fornecimento de garantias. A beleza dos CDS estava no fato de que, por serem produtos paralelos do "mercado de balcão", eles não exigiam o compromisso de parcelas de capital como garantia e, assim, permitiam mais alavancagem. A expansão dos CDS ganhou escala depois que especialistas em derivativos do JP Morgan Chase convenceram a AIG de começar a vendê-los a eles para garantir CDO em 1998 (Morgenson, 2008).

Os CDO também eram uma solução inteligente para problemas de alavancagem. Ao adquirir grandes quantidades de empréstimos securitizados e, dessa forma, expandir muito seus balanços, os bancos deveriam ter expandido sua base patrimonial. Mas os CDO famosamente agregavam dezenas ou centenas desse tipo de empréstimos, de qualidade muito variada, permitindo que os bancos aumentassem sua alavancagem. Os CDO eram tipicamente emitidos pelas agências de classificação de risco, mediante o pagamento de uma taxa, e em seguida classificados com uma avaliação Triplo A pela mesma agência, mediante o pagamento de uma segunda taxa. Essas avaliações permitiam que os comprometimentos de patrimônio do banco fossem minimizados. Esses empréstimos securitizados – especialmente do mercado imobiliário, mas também de dívidas de cartões de crédito e financiamentos de carros – ofereciam aos investidores taxas muito mais altas de retorno do que eles podiam obter nos mercados monetários. O aspecto principal desses chamados "títulos estruturados" não era o fato de que eram empréstimos securitizados: esse tipo de empréstimo poderia, em princípio, ser perfeitamente seguro; afinal, uma obrigação nada mais é, na verdade, do que um empréstimo securitizado. Mas as obrigações têm uma fonte claramente identificável: um operador econômico cuja solvabilidade e capacidade de fluxo de caixa podem ser avaliadas; elas também têm preços claros em mercados secundários de obrigações. Os produtos que eram agregados nos CDO, contudo, vinham de centenas de milhares de fontes, cuja solvabilidade e capacidade de fluxo de caixa não eram conhecidas; eles eram vendidos no "mercado de balcão", sem nenhum mercado secundário para determinar preços, muito menos um mercado organizado para minimizar o risco da contraparte. Em resumo, eles eram, na melhor das hipóteses, extremamente arriscados porque quase totalmente obscuros para aqueles que os compravam. Na pior das hipóteses, eles provaram ser um conto-do-vigário, tanto que, em poucos meses no final de 2007, as parcelas de dívida supostamente superseguras e supersênior desses CDO estavam sendo rebaixadas ao status de lixo (junk).

Restrições à alavancagem também estavam sendo removidas por meio de políticas públicas. Hank Paulson teve sucesso notável nessa área em 2004, quando, como presidente do Goldman Sachs, liderou a campanha em Wall Street para conseguir que a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) concordasse em relaxar a chamada "regra do capital líquido", que restringia a alavancagem para grandes bancos de investimento. A partir daí, as empresas eram efetivamente permitidas a decidir sobre sua própria alavancagem tendo como base seus modelos de risco. O resultado foi um aumento rápido nos graus de alavancagem dos grandes bancos (Labaton, 2008).12 Um aspecto importante disso é que permitia que eles transferissem sua base de capital para novas atividades, como as obrigações de dívida colateralizadas, que subsequentemente se tornaram um elemento tão importante de seus negócios.

O papel de Londres

Todas essas mudanças são agrupadas sob o título eufemístico de "inovação financeira" – mudanças em arranjos institucionais, produtos, estruturas de supervisão, permitindo que os bancos de Wall Street escapassem de restrições regulatórias e expandissem suas atividades e lucros. Dezenas de mudanças desse tipo poderiam ser documentadas. Mas uma das mais fundamentais foi a construção de um novo e grande sistema bancário paralelo em Londres, ao lado do setor regulado "oficial". No início dos anos 1990, os bancos de investimento americanos tinham eliminado suas contrapartes londrinas e dominado os mercados de ativos do centro financeiro de Londres, que adquiriu um papel cada vez mais "wimbledonizado" no Novo Sistema de Wall Street.13 Gordon Brown institucionalizou o novo relacionamento em 1997 criando a Financial Services Authority [Autoridade de Serviços Financeiros], que alegava operar de acordo com "princípios" em vez de regras: um dos princípios mais importantes era o de que os bancos de Wall Street podiam se autorregular. Londres assim se tornou para Nova York algo como o que Guantánamo se tornaria para Washington: o lugar onde você pode fazer no estrangeiro o que não pode fazer em casa; nesse caso, um local para arbitragem regulatória.

O termo "Wall Street" deveria, portanto, ser entendido como incluindo Londres, como um satélite para esses operadores americanos.14 Juntas, Londres e Nova York dominam a emissão de novas ações e obrigações. Elas são o centro do mercado cambial. De forma mais significativa, elas dominaram a venda de derivativos do mercado de balcão, que representam a vasta maioria das vendas de derivativos.15 Em 2007, o Reino Unido tinha uma participação de 42,5% nos derivativos mundiais baseados em taxas de juros e moedas, e os Estados Unidos, 24%. Em termos de negociações de derivativos de crédito, os Estados Unidos foram responsáveis por 40% delas em 2006, enquanto Londres negociou 37% (menos do que os 51% em 2002).

Financiando a especulação

A enorme expansão das atividades dos bancos de Wall Street e de seu sistema paralelo exigia fundos cada vez maiores. Esses fundos, classicamente, eram providos pela reciclagem de poupanças de varejo paradas em contas de depósito e, de forma ainda mais importante, pela criação pelos bancos de grandes ofertas de crédito. Mas, na América pós-década de 1980, essas poupanças eram minúsculas – uma questão para a qual retornaremos –, e o dinheiro de crédito dos bancos comerciais, apesar de significativo, era desesperadamente insuficiente. Nessas circunstâncias, os bancos de negócios voltaram-se aos mercados monetários por atacado. No cerne desses mercados estavam os mercados interbancários, com taxas de juros iguais à taxa do FED, ou apenas alguns pontos-base acima. Historicamente, esses mercados eram usados para assegurar que os bancos fossem capazes de fechar facilmente suas operações diárias, em vez de como uma fonte de financiamentos novos e de larga escala, muito menos de financiamentos especulativos. Também havia o mercado de papéis comerciais, tipicamente usados pelas grandes corporações para financiamentos de curto prazo, mais uma vez, especialmente para facilitar suas operações.

No Novo Sistema de Wall Street, porém, esses mercados monetários se transformaram. Eles permaneceram sendo centros de oferta de empréstimos de curto prazo, mas passaram cada vez mais a financiar negociações especulativas. Do lado da oferta, os fundos disponíveis para empréstimos a Wall Street expandiam-se rapidamente, em especial por meio da expansão dos fundos de pensão durante os anos 1980 e 1990. De forma tipicamente americana, uma pequena mudança na legislação tributária por meio da emenda 401K em 1980 abriu as portas para esse desenvolvimento. Essa emenda concedeu isenção de impostos a empregados e empregadores se eles colocassem dinheiro em planos de pensão; o resultado foi um fluxo maciço de renda dos trabalhadores nesses planos, totalizando quase US$ 400 bilhões até o final dos anos 1980. No final dos anos 1990, essa quantia subira para quase US$ 2 trilhões (Lowenstein, 2004, p.24-5).16

Ao mesmo tempo que se tornaram fontes importantes para os passivos dos fundos de investimento por meio de empréstimos de curto prazo para eles, os fundos mútuos, fundos de pensão etc. também se tornaram alvos importantes para os esforços de Wall Street para vender títulos lastreados em ativos, em particular obrigações de dívida colateralizada. Assim, o Novo Sistema de Wall Street tentou atrair os gestores de fundos para atividades de inflação de bolhas tanto do lado do financiamento (passivo) quanto do lado dos ativos, permitindo a expansão cada vez maior de seus balanços.

As causas da crise

Pode ser, em princípio, que o conjunto de inovações mutuamente reforçadas que chamamos de Novo Sistema de Wall Street tenha sido uma reação ao surgimento de uma bolha no mercado imobiliário dos Estados Unidos a partir de 2001. Se esse fosse o caso, teríamos tido uma crise minskiana clássica relacionada ao mercado imobiliário. Mas, na verdade, todas as inovações-chave já haviam sido feitas antes do início da bolha. De fato, há diversos indícios de que os bancos de Wall Street planejaram uma bolha no preço dos imóveis de forma bastante deliberada e gastaram bilhões de dólares em campanhas publicitárias para persuadir os americanos a aumentar sua dívida relacionada à hipoteca. O Citigroup lançou uma campanha de um bilhão de dólares com o tema "Viva ricamente" nos anos 1990, com o objetivo de fazer que proprietários de imóveis fizessem uma segunda hipoteca para gastar com o que quisessem. Outros bancos de Wall Street agiram de forma semelhante, com muito sucesso: a dívida proveniente de segundas hipotecas subiu para mais de US$ 1 trilhão.

A bolha que gerou a crise do crédito de 2007 repousava, porém, não apenas – e nem mesmo especialmente – no mercado imobiliário, mas no próprio sistema financeiro. A crise foi desencadeada não apenas pelo tamanho da bolha de dívidas, mas por suas formas. Numa crise normal gerada por excesso de oferta de empréstimos, quando os bancos acabam com empréstimos não-honrados (como ocorreu no Japão na década de 1990), tanto a localização quanto o tamanho do problema podem ser identificados sem muita dificuldade. Mas, em 2007, a bolha de dívidas dentro do sistema financeiro estava concentrada em derivativos do mercado de balcão, na forma de CDO individuais que não tinham preço de mercado ou mecanismo de precificação – além da opinião das agências de classificação de risco – e que eram distribuídos às dezenas de milhares às instituições no topo do sistema financeiro, assim como seus órgãos-satélite, tais como os SIV. Uma vez que esse conjunto de arranjos de acúmulo de dívidas demonstrou ser lixo (junk), nos dois casos Paribas em agosto de 2007, os financiadores de crédito, como os fundos monetários e de pensão, perceberam que não tinham como saber quanto do resto da montanha de CDO também não tinha nenhum valor. Então eles fugiram. Sua recusa em continuar fornecendo ao punhado de bancos de investimento obscuros de Wall Street e seus filhotes os fundos necessários para manter o mercado de CDO a salvo foi o que produziu a crise do crédito.

Os bancos de investimento haviam inicialmente espalhado por aí que o efeito da sua securitização de dívidas havia sido a vasta disseminação do risco por diversas de entidades. Mas isso parece ser uma falsidade: as próprias instituições no topo de Wall Street estavam segurando as chamadas parcelas supersênior de dívidas, em dezenas de milhares de CDO (Tett, 2008). Elas haviam tomado bilhões emprestados nos mercados monetários para comprar esses instrumentos, ganhando juros sobre eles às vezes 10 pontos-base acima dos seus custos de empréstimo. Para continuar tendo tamanho lucro, elas tiveram que recorrer repetidamente aos mercados monetários para arrolar suas dívidas. Mas agora os mercados monetários estavam fechando suas portas.17Quando investidores dos mercados monetários fugiram da reciclagem de empréstimos de curto prazo no verão de 2007, a pirâmide inteira centrada nos CDO começou a desmoronar. Quando os bancos de Wall Street tentaram passar para a frente seus CDO, descobriram que não havia mercado para eles. As companhias de seguro que haviam segurado os CDO com CDS encontraram seu mercado em colapso também.

Muito permanece obscuro sobre os mecanismos precisos por meio dos quais a crise do crédito ganhou tamanho escopo e profundidade em 2007 e 2008, especialmente porque os principais operadores de Wall Street tentaram eles mesmos esconder a natureza de seus apuros e suas táticas de sobrevivência. Mas é possível traçar diversas fases pelas quais a crise passou. Primeiro, a tentativa pelo FED e pelo Tesouro de defender o modelo de bancos de investimento como o topo do sistema, agindo como seu emprestador de último recurso. Segundo, com a queda do Lehman Brothers, o colapso dessa tentativa e o desaparecimento do modelo do banco de investimento, produziu-se um ímpeto para consolidar um modelo de banco universal no qual as negociações dos bancos de investimento ocorreriam dentro do banco universal depositário, e seriam protegidas por ele. Nessa fase, o FED essencialmente colocou-se no lugar das instituições credoras do sistema de crédito, fornecendo empréstimos e financiamento de "mercado monetário" e de "mercado de papéis comerciais" aos bancos. Entre abril e outubro de 2008, essa enorme operação de financiamento do Banco Central envolveu US$ 5 trilhões em créditos pelo FED, o ECB e o Bank of England – equivalente a 14% do PIB mundial. Enquanto esse financiamento estatal puder continuar ocorrendo sem criar problemas sérios de solvência soberana, a fase mais difícil e perigosa da reação à crise pode começar seriamente. Envolverá a desalavancagem dos maiores bancos, agora no contexto de loops defeedback negativo de recessões cada vez mais profundas. Como e quando isso acontecerá nos dará uma noção dos contornos da crise do crédito.

Teorias prevalecentes

Grande parte do debate mainstream sobre as causas da crise tomou a forma de uma teoria de "acidentes", explicando a catástrofe como o resultado de ações contingenciais por, digamos, o Federal Reserve de Greenspan, os bancos, os reguladores ou as agências de classificação de risco. Já contestamos isso, propondo que uma estrutura relativamente coerente que chamamos de Novo Sistema de Wall Street deve ser entendida como tendo gerado a crise. Mas, além do argumento anterior, devemos observar outro aspecto crucial dos últimos 20 anos: a extraordinária harmonia entre operadores de Wall Street e reguladores de Washington. Típicas da história americana são fases de grande tensão, não apenas entre Wall Street e o Congresso, mas também entre Wall Street e o Executivo. Isso ocorreu, por exemplo, em grande parte dos anos 1970 e início dos anos 1980. Mas uma convergência ocorreu claramente no último quarto de século, sinalizando um projeto bastante bem integrado.18

Uma explicação alternativa, muito favorecida em círculos social-democratas, defende que tanto Wall Street quanto Washington foram tomados por uma ideologia "neoliberal" ou "de livre-mercado" falsa, que os desviou do caminho. Uma variação engenhosa disso proposta pela direita sugere que a ideologia problemática era a dolaissez-faire – ou seja, a ausência de regulação – enquanto o que é necessário é o "pensamento de livre-mercado", que implica alguma regulação. A consequência de ambas as versões é geralmente uma discussão sem rumo sobre "quanta" e "que tipo" de regulação colocaria as coisas no rumo certo.19 O problema dessa explicação é que, apesar de o Novo Sistema de Wall Street ter sido legitimado por pontos de vista favoráveis ao livre-mercado, ao laissez-faire ou neoliberais, eles não pareciam ser ideologias operantes entre seus praticantes, seja em Wall Street, seja em Washington. O estudo detalhado de Philip Augar sobre os bancos de investimento de Wall Street, The Greed Merchants (os mercadores da ganância), citado antes, defende que eles operaram em grande parte como um cartel consciente – o oposto de um mercado livre.

É evidente que nem Greenspan nem os chefes dos bancos acreditavam na versão séria dessa doutrina: a economia financeira neoclássica. Greenspan não argumentou que os mercados financeiros são eficientes ou transparentes; ele admitiu integralmente que eles podem tender a criar bolhas e estouros. Ele e seus colegas tinham muita consciência do risco de uma crise financeira séria, na qual o Estado americano teria de injetar enormes quantidades de dinheiro dos contribuintes para tentar salvar o sistema. Eles também entendiam que todos os diversos modelos de risco usados pelos bancos de Wall Street eram falhos, e estavam destinados a sê-lo, já que pressupunham um contexto geral de estabilidade do mercado financeiro, no qual um banco, em um setor do mercado, poderia enfrentar uma ameaça repentina; suas soluções giravam, em essência, ao redor da diversificação do risco por vários mercados. Os modelos, portanto, pressupunham que não ocorreria a ameaça sistêmica da qual Greenspan e outros tinham plena consciência: nomeadamente, uma mudança repentina negativa em todos os mercados (Greenspan, 2008; Beattie & Politi, 2008).

As duas principais alegações de Greenspan eram bastante diferentes. A primeira era que, entre o estouro de uma bolha e outro, a melhor forma de o mercado financeiro fazer grandes quantidades de dinheiro é retirar as restrições ao que os atores privados podem fazer; um setor altamente regulado vai lucrar muito menos. Essa alegação é certamente verdadeira. Sua segunda alegação era a de que, quando bolhas estouram e explosões acontecem, os bancos, com forte auxílio das autoridades estatais, conseguem lidar com as consequências. Como observou William White, do BIS, isso também era um artigo de fé para Bernanke (apud Cassidy, 2008).

Opções sistêmicas

O verdadeiro debate sobre a organização de sistemas financeiros nas economias capitalistas não diz respeito a métodos e modos de regulação. É um debate entre opções sistêmicas, em dois níveis:

Um sistema bancário de utilidade pública, voltado para a acumulação de capital no setor produtivo versusum sistema bancário e de crédito capitalista, subordinando todas as outras atividades econômicas a seus próprios esforços para ter lucro.

Um sistema financeiro e monetário internacional sob controle cooperativo nacional-multilateral versus um sistema de caráter imperial, dominado pelos bancos e Estados atlânticos trabalhando em conjunto.

Podemos analisar cada uma dessas opções brevemente.

Um modelo de utilidade pública?

Todos os sistemas econômicos modernos, capitalistas ou não, precisam de instituições de crédito para facilitar trocas e transações; eles precisam de bancos para produzir dinheiro de crédito e sistemas de compensação para facilitar o pagamento de dívidas. Esses são serviços públicos vitais, como um sistema de saúde. Eles também são inerentemente instáveis: a essência de um banco, afinal, é que não mantém fundos suficientes para cobrir saques simultâneos de todos os depositários em nenhum dado momento. Assegurar a segurança do sistema exige que a concorrência entre bancos seja suprimida. Além disso, questões relacionadas a políticas sobre para onde o crédito deveria ser canalizado têm muita relação com o momento econômico, social e político. Assim, a propriedade pública do sistema bancário e de crédito é racional e, de fato, necessária, ao lado do controle democrático.

Um modelo de utilidade pública nessa linha pode, em princípio, operar dentro do capitalismo. Até hoje, a maior parte do sistema bancário alemão permanece nas mãos do Estado, por meio de bancos de poupança e Landesbanken. O sistema financeiro chinês é fortemente centrado em um punhado de bancos enormes, públicos, e o governo chinês direciona de fato as estratégias de crédito desses bancos. É possível vislumbrar um modelo de utilidade pública assim operando com bancos privatizados. Pode-se dizer que o sistema bancário japonês do pós-guerra tinha esse caráter, com todos os seus bancos estritamente subordinados ao controle do Banco do Japão via um "sistema de limitação de empréstimos (window-guidance)". O cartel de bancos comerciais britânicos do pós-guerra também poderia ser visto como tendo operado nesse sistema, apesar de ter auferido lucros excessivos de seus clientes.

Um sistema de crédito capitalista privado, centrado nos bancos, operaria, porém, sob a lógica do capital monetário – na fórmula de Marx, M-M’: adiante dinheiro a outros para fazer mais dinheiro. Uma vez que esse princípio é aceito como o alfa e o ômega do sistema bancário, a lógica funcional aponta para a apoteose de Greenspan. Esse foi o modelo adotado nos Estados Unidos e no Reino Unido desde os anos 1980: tornar o capital monetário rei. Isso implica a total subordinação das funções públicas do sistema de crédito à autoexpansão do capital monetário. De fato, todo o espectro da atividade capitalista é puxado pela correnteza do capital monetário, no sentido de que o último absorve uma fatia cada vez maior dos lucros gerados em todos os outros setores. Esse é o modelo que se tornou dominante no que chamamos de Novo Sistema de Wall Street. Gerou uma riqueza extraordinária dentro do sistema financeiro e transformou de fato o processo de formação de classes nas economias anglo-saxãs. Esse modelo está agora passando por uma profunda crise.

O segundo debate centra-se na subscrição dos sistemas financeiros. Sejam eles públicos ou privados, sistemas bancários e de crédito são inerentemente instáveis em qualquer sistema no qual o produto é validado depois da produção, no mercado.20 Em tais circunstâncias, esses sistemas precisam ser subscritos e controlados por autoridades públicas com capacidade de arrecadar impostos e imprimir dinheiro. À medida que são órgãos minimamente públicos – não totalmente capturados pelos interesses privados do capital monetário –, essas autoridades vão tentar evitar crises por meio da tentativa de alinhar aproximadamente o comportamento do sistema financeiro a objetivos (micro e macro) econômicos amplos. Hoje, apenas Estados têm a capacidade de desempenhar esse papel. Acordos como o Basileia I e Basileia II não a têm; nem a Comissão da União Europeia ou o Banco Central Europeu.

De forma intrigante, os projetos atlânticos agrupados sob o nome de "globalização econômica" – o sistema de dólar fiduciário, o fim dos controles de capital, a livre entrada e saída de grandes operadores atlânticos em outros sistemas financeiros – asseguraram que a maioria dos Estados fosse privada da capacidade de subscrever e controlar seus próprios sistemas financeiros: daí as explosões financeiras sem fim no Sul nos últimos 30 anos. Os interesses empresariais atlânticos se beneficiaram dessas crises, não apenas porque suas perdas eram integralmente cobertas pelo seguro do FMI – pagas depois pelos pobres nos países atingidos –, mas também porque foram usadas como ocasiões para abrir os mercados de produtos e trabalho desses países para a penetração atlântica. Mas agora as explosões atingiram a própria metrópole. Obviamente, as economias atlânticas vão querer manter esse sistema funcionando: as práticas cobertas pela "globalização financeira" são seu setor de exportação mais lucrativo. Mas não está tão claro que o resto do mundo vai comprar uma fórmula para mais do mesmo. A alternativa seria algum retorno ao controle público, assim como à subscrição pública. Isso só poderia ser realizado por Estados-nação individuais retomando o controle efetivo, via novos sistemas cooperativos multilaterais comparáveis àqueles que existiam antes de 1971, implantados em escala regional, se não inteiramente internacional.

Aqui, contudo, iremos nos concentrar na questão de por que o modelo financeiro centrado no Novo Sistema de Wall Street conseguiu adquirir tamanha hegemonia no capitalismo americano nas últimas décadas. Isso nos leva, finalmente, para fora da esfera financeira e para dentro do campo mais amplo das relações socioeconômicas e sociopolíticas nos Estados Unidos desde os anos 1970. Dentro desse contexto mais amplo, podemos começar a entender como a ascensão do Novo Sistema de Wall Street até atingir o domínio dentro dos Estados Unidos poderia ter sido vista como uma ideia estratégica para lidar com os problemas da economia americana.

Domínio financeiro como estratégia nacional

Dos anos 1970 até o início dos anos 1980, o Estado americano lutou uma batalha vigorosa para ressuscitar a economia industrial, em parte por meio de uma guinada mercantilista na política externa comercial, mas sobretudo por meio de um confronto nacional com a força de trabalho para reduzir sua fatia da renda nacional. Essa era a visão de líderes como Paul Volcker; presumia-se que essas medidas levariam a indústria americana de volta ao domínio mundial. Ainda assim, o esperado revival industrial de base ampla não aconteceu. Em meados dos anos 1980, a América corporativa não financeira começou a ser influenciada pelas táticas de engenharia financeira de curto prazo, voltadas para o objetivo de aumentar o "valor para o acionista" imediato. O que se seguiu foi onda após onda de fusões e aquisições e buyouts por operadores financeiros, encorajados por bancos de investimento de Wall Street que lucravam consideravelmente com essas operações. O argumento legitimador de que isso estava "aumentando a eficiência industrial" parece pouco crível. Um argumento mais convincente seria o de que essas tendências eram impulsionadas pela nova centralidade do setor financeiro dentro da estrutura do capitalismo americano.21

Uma explicação completa dessa evolução não está, creio, disponível ainda. Mas a tendência produziu algumas características estruturais do capitalismo americano que estão presentes desde então. Por um lado, um setor militar-industrial protegido permanece intacto, financiado por orçamentos federais e estaduais. Alguns setores de alta tecnologia, especialmente tecnologias de comunicação e informação (TIC), também foram fortemente apoiados por subsídios estatais nos anos 1980 e 1990 e envolveram novos investimentos industriais reais, não tendo ainda desempenhado um papel transformador na economia geral: o principal impacto das TIC foi no setor financeiro e no varejo. Mas a parte principal da economia americana, da qual o crescimento depende, foi marcada por uma estagnação ou queda na renda da massa da população e nenhum motor de crescimento a partir de novos investimentos, públicos ou privados. Com a exceção parcial do investimento em TIC no final dos anos 1990, o crescimento do PIB nos Estados Unidos não foi impulsionado por novos investimentos. Como é amplamente reconhecido, ele passou a depender do estímulo da demanda do consumidor; ainda assim, o consumo doméstico foi ele próprio inibido pelas rendas estagnadas da população.

Essa quadratura do círculo foi famosamente resolvida de duas formas. Na primeira e mais importante delas, o problema de estimular a demanda do consumidor foi resolvido pela contínua oferta de crédito pelo sistema financeiro. Na segunda, commodities baratas podiam ser compradas indefinidamente de outros países – especialmente da China – já que o domínio do dólar permitia aos Estados Unidos acumular enormes déficits em conta corrente, já que os outros países permitiam que suas exportações aos Estados Unidos fossem pagas em dólar. A oferta de crédito do sistema financeiro à massa de consumidores por meio dos mecanismos habituais de cartão de crédito, financiamento de carro e outros empréstimos e hipotecas foi, contudo, suplementada pelo mecanismo particular das bolhas nos preços dos ativos, que gerou os chamados efeitos de riqueza numa camada relativamente ampla. A bolha no mercado de ações dos anos 1990 elevou o valor dos papéis das pensões privadas da massa de americanos, dando-lhes assim a sensação de que estavam ficando mais ricos e podiam gastar (e se endividar) mais. A bolha imobiliária teve um efeito duplo: não apenas fez que consumidores americanos se sentissem confiantes de que o valor de suas casas estava subindo, permitindo-lhes gastar mais, como também foi reforçada por uma intensa campanha dos bancos, como vimos, exortando-os a fazer segundas hipotecas e a usar o dinheiro novo em despesas de consumo.

Assim, o Novo Sistema de Wall Street alimentou diretamente o boom americano liderado pelos consumidores de 1995-2008, que garantiu que os Estados Unidos continuassem sendo o maior condutor da economia mundial. Isso foi apoiado por uma campanha global segundo a qual o boom americano não era resultado de um crescimento alimentado por dívidas, auxiliado por tendências destrutivas no sistema financeiro, mas das instituições de livre-mercado americanas. Aqui, então, estava a base nas relações sociais mais amplas do capitalismo americano para a ascensão até a dominância do Novo Sistema de Wall Street: ele desempenhava o papel principal na garantia do crescimento alimentado por dívidas. Esse modelo anglo-saxão era baseado na acumulação de dívidas pelo consumidor: era crescimento hoje pago com o crescimento esperado de amanhã. Não era baseado no fortalecimento dos meios de geração de valor nas economias envolvidas. Em resumo, era um blefe, sustentado por algumas práticas criativas de contabilidade nacional que exageravam a extensão do boom americano e dos ganhos de produtividade na economia dos Estados Unidos.22

O papel da China e de outras economias exportadoras asiáticas nesse modelo de crescimento estendia-se além da exportação de seus grandes excedentes de bens de consumo aos Estados Unidos. Esses excedentes de exportação eram reciclados de volta ao sistema financeiro americano por meio da compra de ativos financeiros dos Estados Unidos, barateando assim os custos da dívida ao expandir maciçamente a "liquidez" dentro do sistema financeiro. Os resultados dessas tendências podem ser resumidos nos números a seguir. A dívida agregada americana como porcentagem do PIB subiu de 163% em 1980 para 346% em 2007. Os dois setores responsáveis por esse aumento foram o da dívida das famílias e o da dívida interna do setor financeiro. A dívida das famílias subiu de 50% do PIB em 1980 para 100% do PIB em 2007. Mas o salto realmente dramático no endividamento ocorreu dentro do próprio sistema financeiro: de 21% do PIB em 1980 para 83% em 2000 e 116% em 2007 (Wolf, 2008).

Implicações

Os efeitos ideológicos da crise serão significativos, apesar de que, é claro, muito menos significativos do que o imaginado por aqueles que acreditam que os regimes financeiros são produto de paradigmas intelectuais e não de relações de poder. Ainda assim, a cantilena do Tesouro Americano e do FMI chegou ao fim. Modelos de sistema financeiro no estilo americano são agora percebidos como perigosos. Não menos arriscada é a estrutura do sistema financeiro e bancário da União Europeia, que a crise demonstrou ser um castelo de cartas, mesmo que ele ainda esteja de pé no momento em que escrevo este artigo. A ideia que guia a União Europeia é a de que sistemas bancários são protegidos por boas normas em vez de por Estados com autoridade e poderes de tributação. Isso demonstrou ser uma piada perigosa. O projeto da União Econômica e Monetária da União Europeia encorajou os bancos a crescer demais para que seus Estados nacionais os salvem, ao mesmo tempo que não oferece nenhuma alternativa no nível da União Europeia ou mesmo da Eurozona. De forma absurda, as normas do Mercado Único e da concorrência no setor financeiro insistem na livre-concorrência entre bancos a qualquer custo, e proíbem qualquer assistência estatal a eles; enquanto, se os critérios de estabilidade fossem respeitados, qualquer crise de crédito totalmente desenvolvida necessariamente se transformaria em uma depressão como a ocorrida nos anos 1930. Obviamente, essas normas são ridículas, mas ao mesmo tempo são os principais esteios da economia política da União Europeia.23

Essa crise das estruturas americanas e europeias sem dúvida terá dois efeitos intelectuais. Primeiramente, aumentar a credibilidade do modelo chinês de um sistema financeiro estatal centrado em bancos. Essa é a alternativa séria aos modelos de crédito do mundo atlântico. A manutenção de controles de capital e uma moeda não conversível – que a China possui – são essenciais para a segurança desse sistema. Em segundo lugar, conforme a crise se desenrola, é provável que uma discussão mais ampla sobre o modelo de utilidade pública retorne à vida política, reabrindo um debate que parecia ter sido silenciado desde 1991.

Alguns preveem mudanças de curto prazo muito mais arrebatadoras, como a substituição do dólar como a moeda global ou o colapso das instituições líderes ocidentais na economia mundial. Uma desvalorização completa do dólar pelo governo Obama poderia, talvez, levar a uma corrida para liquidá-lo globalmente, junto com uma retirada para blocos de comércio imperiais regionais ou estreitos.24 Mas não menos improvável seria um fortalecimento temporário do dólar na próxima década: uma longa estagnação nos Estados Unidos pode muito bem ser acompanhada de taxas de juros muito baixas e um dólar baixo. Isso poderia produzir um novo carry-trade com dólares, no qual todos tomam emprestado em dólares para convertê-los em ativos de maior valor. Isso produziria uma tendência forte de desacoplamento (decoupling) de outras taxas de câmbio do dólar, mas não necessariamente prejudicaria o elemento central da dominância do dólar: a disposição de outros Estados de receber pagamentos por seus bens e créditos em dólares.

Também é provável que vejamos a intensificação das duas tendências estruturais básicas nas relações de longo prazo de crédito e dívida na economia mundial. Em primeiro lugar, as relações de credor entre o mundo atlântico e seu Sul tradicional na América Latina, na África e em outros locais, historicamente policiados pelo FMI. Essa relação se enfraqueceu na última década, mas deve ser reforçada durante a presente crise. Em segundo lugar, as relações complicadas de devedor entre os Estados Unidos e as economias do Novo Centro de Crescimento do Leste Asiático, que também devem se aprofundar e se tornar mais próximas, particularmente entre a China e os Estados Unidos. Essa é uma relação de poder na qual a China (e outros credores) pode exercer influência política real sobre Washington. Já vimos isso acontecendo tanto no timing quanto na forma da renacionalização da Fannie Mae e da Freddie Mac.25 Vamos voltar a vê-lo quando o Tesouro dos Estados Unidos procurar compradores para suas grandes novas parcelas de dívida em 2009.

As economias do Leste Asiático, sobretudo a China, provavelmente serão cada vez mais críticas em relação às tendências macroeconômicas globais, enquanto a antiga centralidade dos Estados Unidos enfraquecerá durante sua longa estagnação. O poder financeiro fortalecido da China e de outros Estados do Leste Asiático poderia se chocar com as velhas relações imperiais de crédito e dívida entre o mundo atlântico e o Sul, ao oferecer ao último fontes alternativas de apoio financeiro. Essa ameaça já está instigando exortações no mundo atlântico para que Washington amenize as condições predatórias que tradicionalmente impôs na África, na América Latina e em outros locais (Rothkopf, 2008).

Se isso, porém, significa que o Leste Asiático vai começar a construir novos arranjos institucionais de mercado para a economia mundial, desafiando aqueles do mundo anglo-americano, não se sabe, por dois motivos: primeiro, as divisões internas no Leste Asiático; e, segundo, a questão das prioridades estratégicas atuais da China. Assim, o Leste Asiático tem um óbvio interesse coletivo racional em construir seus próprios mercados de commodities e de petróleo centralizados e levá-los à liderança mundial, acabando com o domínio de Londres e Chicago. Novas estruturas de mercado surgiram, mas estão divididas: uma em Hong Kong, uma no Japão e uma em Cingapura. Quanto à China, está hoje sobretudo concentrada em manter o crescimento doméstico e completar o salto de acumulação dinâmica de capital da costa para o interior. Atualmente, não está demonstrando o menor interesse em desafiar os americanos pela liderança na influência sobre as instituições da economia mundial. Assim, os Estados Unidos têm algum espaço para respirar. Mas tamanha é a força social e econômica de Wall Street, e tamanha a fraqueza das forças sociais que poderiam pressionar por um revival industrial nos Estados Unidos, que parece mais provável que a classe capitalista americana vá desperdiçar sua chance. Se isso ocorrer, gozará de mais uma rodada de crescimento do PIB alimentado pela dívida e financiado pela China e outros, enquanto os Estados Unidos se tornarão cada vez menos centrais para a economia mundial, cada vez menos capazes de determinar suas regras e cada vez mais enredados na subordinação de suas dívidas de longo prazo à matriz de crédito do Leste Asiático.

Notas

1 A dívida total dos setores privados financeiros e não financeiros nos Estados Unidos em 2008 foi calculada em US$ 48 trilhões (Magnus, 2008).

2 Para uma pesquisa útil sobre por que a maioria dos economistas foram completamente incapazes de perceber a crise, ver Giles (2008).

3 O fato de que esses operadores financeiros foram capazes de inflar e estourar essas bolhas deriva, é claro, do fato de que os mercados de petróleo e commodities estão organizados em Londres, Nova York e Chicago, com normas pensadas para combinar com os interesses do capital americano e britânico. Como Jeff Sprecher (2008), executivo do Intercontinental Exchange (ICE) – o mercado sediado em Londres cujas normas permitiram inflar a bolha do petróleo –, explicou ao Financial Times, os organizadores do mercado não conseguiam entender por que membros do Congresso quereriam abrir mão do controle deste setor por meio do fechamento do ICE.

4 A porcentagem de 40% na verdade é menor do que a fatia dos lucros que vão para o sistema financeiro, já que parte deles é ocultada ao ser transformada em enormes bônus aos funcionários para reduzir os lucros aparentes; uma razão para o sistema de bônus é que é frequentemente ignorado.

5 Para uma análise anterior dessas questões, ver Gowan (1999).

6 A maior parte da renda dos bancos de investimento de Wall Street eram comissões (cartelizadas) para negociar títulos em nome de clientes até 1975, quando uma mudança na lei limitou essas comissões. No início dos anos 1980, essa renda proveniente de comissões ainda era maior do que os lucros advindos de negócios feitos em causa própria. Mas, a partir de meados dos anos 1980, esses bancos mergulharam seriamente nos investimentos diretos. No fim dos anos 1990, a renda proveniente dessas negociações era um terço maior do que a renda advinda de comissões para negociar em nome de outros. E, em alguns dos maiores bancos, metade de seus lucros veio dessas negociações (ver Gapper, 2008).

7 Sobre o Salomon Brothers e a subsequente carreira da equipe de John Meriwether nos anos 1990, quando eles construíram o Long-Term Capital Management com o patrocínio da Merrill Lynch, ver (Lowenstein, 2001).

8 Depois do escândalo da Enron, SIV e conduits foram inicialmente proibidos de se envolver em negociações em causa própria, mas essa restrição foi logo levantada.

9 Philip Augar (2006) fornece uma vívida narrativa sobre quão importante foi essa centralização de informações para dar aos bancos de investimento uma decisiva vantagem competitiva em relação aos bancos menores, de investimento ou não, seus concorrentes.

10 O termo alavancagem refere-se à relação entre o "patrimônio" ou "capital" de um banco e seus ativos — a soma que ele emprestou. É geralmente expressa como uma proporção, de forma que, se dissermos, por exemplo, que a alavancagem do Lehman no momento de seu colapso era de 25, isso significa que, para cada dólar de capital, o banco tinha 25 dólares de ativos. Mas isso também significa que, para cada dólar de capital, o Lehman tinha 24 dólares de dinheiro que tomou emprestado – ou seja, passivo.

11 Os bônus de altos executivos dos bancos eram frequentemente ligados ao aumento dos rendimentos por ação (ver Kay, 2008).

12 Em uma manobra típica, isso foi vendido como uma guinada da SEC na direção de maior regulação dos bancos de investimento. Do ponto de vista formal, isso estava correto: a SEC adquiriu jurisdição regulatória sobre eles, mas simultaneamente removeu restrições básicas relacionadas à base de capital. Além disso, de 2004 em diante, a SEC tinha sete funcionários para supervisionar os cinco grandes bancos de investimento, que tinham ativos combinados de mais de US$ 4 trilhões em 2007.

13 O torneio anual de tênis em Wimbledon é amplamente considerado, pelo menos no Reino Unido, como o mais importante do mundo, mas há décadas nenhum britânico chega às finais.

14 Existem alguns bancos comerciais britânicos muito grandes, mas eles deveriam ser diferenciados da City londrina porque, enquanto alguns participaram ativamente do Novo Sistema de Wall Street, outros como o Hongkong and Shanghai Banking Corporation (HSBC), segundo alguns critérios o maior banco do mundo, e o Standard Chartered Bank têm se concentrado fortemente em atividades no Leste Asiático.

15 A Chicago Mercantile Exchange, contudo, domina as vendas de derivativos negociados em bolsa.

16 Essa expansão do financiamento bancário a negociações especulativas por meio da transformação de mercados "de atacado" cruzava, é claro, com o fim dos controles de capital, permitindo o crescimento da tomada de empréstimos internacionais por atacado pelos bancos e a ascensão de operações de "carry trade", como aquela baseada no iene: bancos tomando dinheiro emprestado em iene, a 0,5% ou menos, e investindo os fundos para a coroa islandesa, a 18%. O financiamento de bancos comerciais britânicos, em sua grande maioria doméstico no início dos anos 1990, tornara-se em grande parte baseado em empréstimos estrangeiros de atacado, chegando a cerca de 650 bilhões de libras em 2007.

17 Para uma narrativa útil (e apologética) de mainstream sobre os riscos envolvidos em CDO e derivativos de mercado de balcão como CDS, ver a publicação do FMI escrita por Schinasi (2006).

18 Houve tensões entre Wall Street e o regulador do Estado de Nova York Eliot Spitzer depois que a bolha ponto.com estourou, mas isso simplesmente destacou quão forte era o consenso nos níveis superiores.

19 Referências a esses tipos de debates podem ser encontradas em Baker et al. (2005).

20 Apesar de isso não significar que eles sejam todos igualmente instáveis.

21 Isso não quer dizer que a produção industrial americana desapareceu: ela permaneceu grande, especialmente no setor relacionado ao orçamento de defesa, assim como nos setores automobilístico, aeroespacial, de TIC e farmacêutico.

22 Uma série de mudanças em regras nacionais de contabilidade a partir de 1995 exagerou tanto os números de crescimento quanto os de produtividade. Notável aqui foi o uso dos chamados "indicadores hedônicos".

23 Adicionalmente, os Estados ocidentais da União Europeia (EU) impuseram uma precondição não oficializada, mas real, para a expansão para o Leste de que os novos membros deveriam entregar a maior parte de seus bancos comerciais a suas contrapartes ocidentais; um lance imperialista digno de nota. Esses bancos comerciais agora vão querer deixar os membros orientais da UE a seco no que diz respeito ao crédito, enquanto tentam usar todos os truques para desalavancar-se e sobreviver. Irão as autoridades políticas da UE intervir no mercado para evitar isso? Em caso positivo, como?

24 Uma tendência nessa direção fica evidente na decisão dos Estados Unidos de dar tratamento especial ao México, ao Brasil, a Cingapura e à Coreia do Sul em termos de apoio em financiamento em dólares.

25 O Financial Times relatou que o secretário do Tesouro americano Paulson confrontou o fato de que "o Banco da China diminuíra sua exposição a títulos da dívida de organismos públicos (agency debt) durante o verão" e assim: "encontrou-se diante de um fait accompli. O governo federal tinha que restabelecer a confiança dos investidores estrangeiros em títulos da dívida de organismos públicos se quisesse evitar o caos nos mercados financeiros e uma pressão sobre o dólar. Isso cheira às antigas crises da dívida nos países da América Latina, onde a pressão final para o resgate veio de investidores estrangeiros" (Gapper, 2008).

Fonte: Estudo Avançados – http://www.scielo.br

Estiagem de competência

Desabrigados das enchentes de municípios alagoanos reclamam da burocracia das prefeituras e da Defesa Civil na distribuição de alimentos. A Secretaria de Assistência Social de Branquinha admite que só quem tem cadastro vai receber cesta básica.

IVAN MARSIGLIA

Cheia do Rio Canhoto, em São José da Laje (AL): ‘Uma tristeza para as populações, mas para as administrações, nem tanto’

Ao final da derrota do Brasil para a Holanda nas quartas de final da Copa do Mundo o presidente Lula mandou avisar que estava triste, mas “ficou pior quando viu a situação em Alagoas e Pernambuco, atingidos pelas chuvas”. De fato, nas últimas semanas, mesmo com a bola rolando na África do Sul, o País acompanhou chocado a tragédia das enchentes que mataram pelo menos 51 pessoas e deixaram cidades inteiras arrasadas no Nordeste. Calamidade que, no entanto, sugere a urbanista Fátima Ribeiro de Gusmão Furtado, coordenadora do Laboratório de Estudos Periurbanos (Lepur), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), incomoda politicamente menos do que parece prefeitos e governadores das áreas afetadas.

É no contexto de calamidade pública que “as autoridades locais dizem precisar de apoio e ganham visibilidade para a sua demanda”, alerta a professora, que fez doutorado na Universidade de Londres em 1996. Uma demanda expressa em verbas federais sem licitação. Entretanto, para essa paraibana de 53 anos, criada no Recife, “o problema é mais de gestão que de obra”. No caso, o planejamento necessário do homem para enfrentar as chuvas que São Pedro manda todos os anos – e cada vez mais fortes.

Na entrevista a seguir, Fátima Furtado diz que o flagelo das águas que atinge hoje a região historicamente conhecida pelas secas poderia ter sido evitado, com obras básicas de saneamento, um controle mais rigoroso das encostas e uma administração responsável das bacias hidrográficas.

O que a tragédia das enchentes em Pernambuco e Alagoas revela sobre o desenvolvimento urbano dessas regiões?

Muita coisa. E a mim, pessoalmente, não surpreende que tenha ocorrido. Foi inusitado apenas pela violência da enxurrada. Mas o fenômeno das enchentes, conhecido nas cidades que são cortadas por rios, passa a ser trágico por conta da má qualidade da gestão das áreas ribeirinhas e de outros serviços infraestruturais das cidades.

A que tipo de problema a sra. se refere?

A questão principal é o uso do solo nas margens dos rios e nas encostas. A Zona da Mata, tanto de Alagoas como de Pernambuco, é uma área de muitas chuvas, de precipitações fortes que às vezes se concentram em um espaço de tempo menor, causando inundações. Mas seus efeitos são maximizados por problemas evidentes de gestão das cidades: se você não controla a construção de moradias nessas áreas, se não cuida da conservação da cobertura vegetal ou permite o acúmulo de lixo, por exemplo.

Falou-se muito nas barragens que transbordaram, intensificando a força das águas. Foi um fator determinante?

Ainda se procura saber qual foi o papel dessas barragens na tragédia. Mas não vejo grande relação. Recife é uma cidade que fica na foz de um rio e sofreu com inundações seriíssimas durante anos, até a construção de barragens que diminuíram a vulnerabilidade da cidade. O que chama a atenção agora é a quantidade de barragens e de pontes destruídas. Claro que isso fala da violência e do volume das águas, mas também leva a questionar a qualidade dessas obras de engenharia. Mais de cem pontes arrastadas? Começo a desconfiar… É preciso avaliar como foram projetadas essas obras, se elas previam esse tipo de situação ou se o problema foi de má conservação.

A sra. tem um trabalho dedicado aos resíduos urbanos. A questão do lixo teve influência na extensão dos estragos?

Sim. Houve claramente, nessas áreas ribeirinhas, um problema de má gestão de resíduos municipais. O lixo, quando não bem coletado, é jogado nas encostas, escadarias e canaletas – até porque a coleta em áreas muito inclinadas tende a ser bastante precária. E esse lixo é prejudicial de duas maneiras: mata a cobertura vegetal que segura o solo e, principalmente quando molhado, coloca muito peso na encosta. Por isso, tende a provocar deslizamentos que de outra forma não ocorreriam.

Quais são as grandes obras estruturais de que o Nordeste necessita para fomentar seu desenvolvimento urbano?

Eu não diria que são grandes obras, mas obras básicas de saneamento: esgotamento sanitário, coleta de lixo, abastecimento e drenagem de águas pluviais. Desses quatro serviços fundamentais, o abastecimento d’água é o que temos em melhor situação hoje. Em termos de prioridade, colocaria primeiro o esgotamento sanitário e a drenagem, seguidas de perto pela coleta de lixo.

Há quem critique uma certa cultura clientelista nessas cidades, que tendem a aguardar a ‘verba federal’ em vez de tomar iniciativas para o desenvolvimento urbano. Certamente. A Constituição determina quais são as competências de cada ente federativo. A questão da drenagem e da limpeza urbana são de responsabilidade municipal. Já o abastecimento d’água varia – aqui no Nordeste tende a ser feito pelo governo estadual. Já as grandes obras estruturais e a política habitacional, por exemplo, ficariam a cargo do governo federal. É preciso uma postura mais proativa de todas essas instâncias e não ficar passivamente aguardando que chovam verbas federais. O Ministério das Cidades tem políticas públicas e, no caso de situações extremas como a que atingiu o Nordeste agora, também foi feito um plano federal de prevenção de inundações. Mas o problema é mais de gestão do que de obra.

Por quê?

Primeiro, não adianta fazer as obras se elas não forem bem conservadas. Precisamos criar a cultura da conservação nas cidades e nos Estados. Manter obras não traz vantagem nenhuma, pouquíssima visibilidade. Então os governos constroem e deixam acabar. Uma gestão melhor viria evitar o custo da eterna reconstrução de obras. E ter uma política habitacional vinculada à gestão do solo: qualquer financiamento deveria estar condicionado ao plano diretor das cidades. Não basta dizer que falta fiscalização para retirar a população que vive em áreas de risco. É preciso dar alternativas razoáveis para que elas os desocupem. E outra questão que precisa ser levantada neste momento é a dos comitês de bacia: os rios são vasos comunicantes e precisam ser gerenciados em conjunto. Temos uma boa legislação a respeito, mas há bacias no Nordeste sem nenhum comitê para controlá-las. Repito: a gestão das cidades e das bacias hidrográficas tem peso maior no que está ocorrendo hoje do que a falta de obras de infraestrutura ou uma suposta mudança climática inesperada.

Quando uma catástrofe como essa acontece, a pressão política sobre as administrações aumenta?

Na verdade, não. Essa situação é uma tragédia e uma tristeza para as populações, mas para as administrações, nem tanto. Primeiro, porque é fácil dizer que “a culpa é de São Pedro, que mandou chuva demais”. Segundo, as autoridades locais dizem que precisam urgentemente de apoio e ganham visibilidade para sua demanda. E, quando a verba federal chega, sem licitação, em caráter de urgência – declara-se logo que é calamidade pública – isso pode ter grandes vantagens políticas. A situação só vai se reverter quando as populações locais tiverem instrumentos e consciência política para responsabilizar as autoridades.

Nem em ano eleitoral isso melhora?

Eventos com essa gravidade têm uma repercussão grande nas comunidades e, em ano eleitoral, é claro que as sensibilidades ao clamor popular são maiores. O que me preocupa mais é o momento fora do período eleitoral, em que os administradores não são instados a tomar as medidas de prevenção que poderiam evitar esse tipo de catástrofe. A inação política em tempo de calmaria é a mais danosa.

As imagens do presidente Lula sobrevoando a região e sendo recebido como o homem providencial a socorrer o povo nordestino correram o País. Como evitar a utilização política desses flagelos?

O que existe hoje em termos de representação política no País não estimula a criação de canais para que a população possa se manifestar ou fiscalizar os recursos em um momento de urgência como esse. Tampouco existe uma cultura do cidadão nordestino cotidianamente se envolver com a gestão da cidade onde vive. A necessidade de gestão de seus próprios problemas é tão grande que ele termina por não participar. Se você pega o plano de prevenção de inundações do governo federal vai ver que, do recurso orçado originalmente, o que foi efetivamente usado é irrisório. O orçamento fala de uma disponibilização de recursos, mas uma parte ínfima é executada – às vezes menos de 10%. Além disso, a distribuição desses recursos é concentrada em certos Estados segundo parâmetros políticos – deixando de lado justamente aqueles que qualquer estudioso do assunto aponta como mais problemáticos.

Se o regime de chuvas está efetivamente mudando no Nordeste, já existem fóruns de discussão para o problema urbano nesse novo contexto?

A questão do clima, que estamos discutindo tanto dentro do Lepur como em outros fóruns acadêmicos e do governo, ainda se dá muito no nível das intenções e de propostas de mudança para a legislação. Em termos de ações efetivas, é muito pouco. Há variáveis demais envolvidas no debate, que mudam da Zona da Mata para o agreste, de uma cidade grande para uma pequena. Então, precisam ser tratadas no varejo, daí a dificuldade. A gente sente, até o cidadão comum percebe, que esse regime de chuvas está mudando. Mas o que isso significa em termos práticos na gestão das cidades? Para começar, as escalas são muito diferentes: quando os climatologistas falam no médio prazo estão pensando em 300 anos. Para a gestão de cidades, médio prazo é a metade de um mandato, dois anos. Há uma discrepância também entre as informações climáticas regionais, referindo-se por exemplo à América do Sul, e sua tradução, digamos, no clima do Recife ou de Maceió. Esse esforço de compreensão das consequências locais dos fenômenos globais ainda está engatinhando, embora seja premente: vamos ter que acelerá-lo porque a natureza vai obrigar.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Médicos versus planos de saúde

Drauzio Varella

Médicos que vivem da clínica particular são aves raríssimas. Mais de 97% prestam serviços aos planos de saúde e recebem de R$ 8 a R$ 32 por consulta. Em média, R$ 20.

Os responsáveis pelos planos de saúde alegam que os avanços tecnológicos encarecem a assistência médica de tal forma que fica impossível aumentar a remuneração sem repassar os custos para os usuários já sobrecarregados. Os sindicatos e os conselhos de medicina desconfiam seriamente de tal justificativa, uma vez que as empresas não lhes permitem acesso às planilhas de custos.

Tempos atrás, a Fipe realizou um levantamento do custo de um consultório-padrão, alugado por R$ 750 num prédio cujo condomínio custasse apenas R$ 150 e que pagasse os seguintes salários: R$ 650 à atendente, R$ 600 a uma auxiliar de enfermagem, R$ 275 à faxineira e R$ 224 ao contador. Somados os encargos sociais (correspondentes a 65% dos salários), os benefícios, as contas de luz, água, gás e telefone, impostos e taxas da prefeitura, gastos com a conservação do imóvel, material de consumo, custos operacionais e aqueles necessários para a realização da atividade profissional, esse consultório-padrão exigiria R$ 5.179,62 por mês para sua manutenção.

Voltemos às consultas, razão de existirem os consultórios médicos. Em princípio, cada consulta pode gerar de zero a um ou mais retornos para trazer os resultados dos exames pedidos. Os técnicos calculam que 50% a 60% das consultas médicas geram retornos pelos quais os convênios e planos de saúde não desembolsam um centavo sequer.

Façamos a conta: a R$ 20 em média por consulta, para cobrir os R$ 5.179,62 é preciso atender 258 pessoas por mês. Como cerca de metade delas retorna com os resultados, serão necessários: 258 + 129 = 387 atendimentos mensais unicamente para cobrir as despesas obrigatórias. Como o número médio de dias úteis é de 21,5 por mês, entre consultas e retornos deverão ser atendidas 18 pessoas por dia!

Se ele pretender ganhar R$ 5.000 por mês (dos quais serão descontados R$ 1.402 de impostos) para compensar os seis anos de curso universitário em tempo integral pago pela maioria que não tem acesso às universidades públicas, os quatro anos de residência e a necessidade de atualização permanente, precisará atender 36 clientes todos os dias, de segunda a sexta-feira. Ou seja, a média de 4,5 por hora, num dia de oito horas ininterruptas.

Por isso, os usuários dos planos de saúde se queixam: "Os médicos não examinam mais a gente"; "O médico nem olhou a minha cara, ficou de cabeça baixa preenchendo o pedido de exames enquanto eu falava”; "Minha consulta durou cinco minutos".

É possível exercer a profissão com competência nessa velocidade? Com a experiência de quem atende doentes há quase 40 anos, posso garantir-lhes que não é. O bom exercício da medicina exige, além do exame físico cuidadoso, observação acurada, atenção à história da moléstia, à descrição dos sintomas, aos fatores de melhora e piora, uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade do paciente. Levando em conta, ainda, que os seres humanos costumam ser pouco objetivos ao relatar seus males, cabe ao profissional orientá-los a fazê-lo com mais precisão para não omitir detalhes fundamentais. A probabilidade de cometer erros graves aumenta perigosamente quando avaliamos quadros clínicos complexos entre dez e 15 minutos.

O que os empresários dos planos de saúde parecem não enxergar é que, embora consigam mão-de-obra barata – graças à proliferação de faculdades de medicina que privilegiou números em detrimento da qualidade -, acabam perdendo dinheiro ao pagar honorários tão insignificantes: médicos que não dispõem de tempo a "perder" com as queixas e o exame físico dos pacientes, pedem exames desnecessários. Tossiu? Raios X de tórax. O resultado veio normal? Tomografia computadorizada. É mais rápido do que considerar as características do quadro, dar explicações detalhadas e observar a evolução. E tem boa chance de deixar o doente com a impressão de que está sendo cuidado.

A economia no preço da consulta resulta em contas astronômicas pagas aos hospitais, onde vão parar os pacientes por falta de diagnóstico precoce, aos laboratórios e serviços de radiologia, cujas redes se expandem a olhos vistos pelas cidades brasileiras. Por essa razão, os concursos para residência de especialidades que realizam procedimentos e exames subsidiários estão cada vez mais concorridos, enquanto os de clínica e cirurgia são desprestigiados.

Aos médicos, que atendem a troco de tão pouco, só resta a alternativa de explicar à população que é tarefa impossível trabalhar nessas condições e pedir descredenciamento em massa dos planos que oferecem remuneração vil. É mais respeitoso com a medicina procurar outros meios de ganhar a vida do que universalizar o cinismo injustificável do "eles fingem que pagam, a gente finge que atende".

O usuário, ao contratar um plano de saúde, deve sempre perguntar quanto receberão por consulta os profissionais cujos nomes constam da lista de conveniados. Longe de mim desmerecer qualquer tipo de trabalho, mas eu teria medo de ser atendido por um médico que vai receber bem menos do que um encanador cobra para desentupir o banheiro da minha casa. Sinceramente.

Fonte: Drauzio Varella – http://www.drauziovarella.com.br/

Novas interpretações históricas sobre a descoberta do oxigênio

Hélder Eterno da Silveira

A historiografia da ciência e seus representantes, nos últimos tempos e, especialmente, após as influências de Thomas Khun, por meio de sua obra A estrutura das revoluções científicas (1962), têm demonstrado interesse em rever os objetos de investigação históricos. Tal necessidade emerge da urgência de se produzir uma história que aquilate fatos e passagens menos conhecidos e divulgados pela historiografia tradicional, a qual, por sua vez, valoriza fortemente a participação de personagens isoladas na produção científica. Essa situação corrobora com a perspectiva propagandista da história da ciência, cujo foco está em determinados cientistas e passagens, colaborando no estabelecimento de concepções e emblemas que não necessariamente condizem com a complexidade do fato real.

No bojo dessa discussão, cabe lembrar que os novos objetos que dizem respeito à moderna historiografia fazem referência às diferentes ramificações de onde surgiu a ciência, ao papel dos diversos personagens que contribuíram para o desenvolvimento científico, bem como aos fatos menos valorizados pela própria ciência, como, por exemplo, a alquimia, a magia, as religiões etc. Nessa vertente, é premente lançarmos novos olhares para as produções históricas e verificarmos como elas têm avançado no tocante aos novos objetos e às contribuições sociais, políticas, econômicas, no campo científico e seu desenrolar.

Um trabalho dessa envergadura nos lança para as produções em história da ciência – a historiografia científica –, presente nos veículos de circulação desse saber. Dentre esses, o periódico Química Nova, da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), é um importante instrumento de divulgação dos trabalhos em história da ciência desde 1978 até os dias atuais. Esse periódico é, reconhecidamente, um dos que possuem maior alcance junto à comunidade de químicos e historiadores da química, como também junto aos professores e pesquisadores. Por isso, um olhar atento às historiografias presentes nesse periódico auxilia-nos a compreender a dinâmica das produções científicas referentes à história da ciência, e as mutações e tendências ocorridas ao longo dessas produções.

Dentre as diferentes temáticas históricas relevantes na química está a tensão vivida entre a comunidade de químicos do século XVII e XVIII referente ao estudo dos ares e da combustão dos materiais. Diversas produções históricas sinalizam que a responsabilidade da descoberta do gás oxigênio, por exemplo, é do químico Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794). Todavia, novas leituras e estudos documentais apontam para as complexas relações vividas no século XVIII, indicando que é incorreto atribuirmos a esse químico francês a descoberta do oxigênio, e, igualmente, o nascimento da química. Esse fato foi objeto de nossa investigação, que tem por objetivo analisar os trabalhos de história da química, presentes na Química Nova, e verificar como os autores dos artigos têm se posicionado frente a essa questão e, ainda, sob qual influência teórica e metodológica.

Para a realização da pesquisa, analisamos todos os números da Química Nova, desde 1978 (início das publicações) até 2004, de acordo com a proposta metodológica de Silveira (2008). Pretendemos, ainda, continuar a investigação nos anos seguintes. Todavia, acreditamos que os resultados destacados neste artigo são suficientes para garantir o alcance dos objetivos propostos.

Na realização da pesquisa, fizemos um mapeamento dos artigos sobre história da química, presentes nas sessões “história da química” e “assuntos gerais”, e reunimos os trabalhos em um banco de dados. Ao todo, observamos 114 trabalhos sobre história da química no período de 1978 a 2004. Como nosso foco era a descoberta do oxigênio e a relação de Lavoisier com a comunidade científica da época, voltamo-nos para as produções que discutiam essas questões, e aquelas que, de alguma forma, contemplavam essa problemática.

Ao lermos os trabalhos, destacamos os trechos que tinham relações comuns nos diversos artigos e traçamos paralelos entre as produções, visando entender a perspectiva dos autores, suas marcas na produção e, ainda, o que diziam a respeito da descoberta do oxigênio e do estudo dos ares e da combustão.

O que dizem os artigos sobre a descoberta do oxigênio e a combustão?

Dos 114 trabalhos que encontramos, nove fazem referência a Lavoisier e/ou seu empreendimento no estudo dos ares. Os diferentes artigos reconhecem o trabalho de Lavoisier e sua fundamental importância para a consolidação da química do século XVIII. Desses trabalhos, o mais enfático em destacar o papel do químico francês é a obra de Chagas e Airoldi (1981).

Antoine Laurent Lavoisier (nascido em 26/8/1743) foi um dos mais brilhantes homens de seu tempo, não apenas como químico, mas também como agricultor, economista, educador e homem público. Considerado o fundador da química moderna, Lavoisier, juntamente com o grande físico-matemático Pierre Simon de Laplace (1749-1827) foram os primeiros, que se tem notícia, a determinarem o calor envolvido numa reação química. Ambos, por sugestão da Academia de Ciências de Paris, iniciaram uma série de estudos em calorimetria. Construíram um calorímetro de gelo e nele fizeram determinações de calores específicos de várias substâncias, do calor de combustão do carvão, dando gás carbônico, do hidrogênio, dando água, e de muitas outras substâncias. Depois, Lavoisier, sem a colaboração de Laplace, mas com a de Seguin, determinou o calor desprendido por animais (cobaias), bem como o consumo de oxigênio e a quantidade de gás carbônico formado, iniciando assim os estudos do metabolismo animal. Condenado sem provas, Lavoisier foi guilhotinado em 8 de maio de 1794, vítima do terror (Chagas; Airoldi, 1981, p. 95).

Os autores apontam que o “nascimento da química moderna” se dá ligado a Lavoisier, cujos trabalhos eram voltados para as questões utilitaristas da urbanização de Paris e com foco, igualmente, nos aspectos teóricos e práticos da combustão. A esse respeito, afirmam:

Lavoisier esteve sempre interessado pela combustão e fenômenos semelhantes, tanto nos seus aspectos teóricos como nos seus aspectos práticos. Sua obra na química é toda no sentido a esclarecer estes fenômenos e profissionalmente Lavoisier era, entre outras coisas, administrador do Arsenal de Paris, encarregado de suprir a França de pólvora (dizem que o fez com sucesso, permitindo inclusive a França a ajudar seus aliados: os colonos norte-americanos na luta pela independência) (Chagas; Airoldi, 1981, p. 95).

Desses autores, Chagas (1986), após cinco anos da publicação acima, discute no artigo “Alguns aspectos de química no século XVII” alguns limites da obra lavoseiriana, considerando que o “nascimento da química moderna” se deu não apenas pelo envolvimento desse químico, como, também, de outros cientistas da época que, igualmente, estavam interessados em investigar a combustão dos materiais e os ares. Essa mudança de posição deveu-se, provavelmente, aos novos referenciais adotados pelo autor ao longo do tempo que separa as publicações. Desse modo, percebemos que a produção da história da ciência recebe influências de aspectos teóricos e metodológicos que modificam a perspectiva do historiador, o qual, por sua vez, deixa marcas de suas escolhas e ideologias nas referidas produções.

Avançando na análise dos artigos e no que se refere ao estudo dos ares e dacombustão, (embora os autores reconheçam a importância e dedicação de Lavoisier nesse campo de produção, bem como as interpretações que esse químico tinha dos resultados), é comum o reconhecimento da participação de outros sujeitos ou grupos de estudiosos na descoberta do oxigênio. Num trecho do artigo intitulado “A revolução química de Lavoisier: uma verdadeira revolução?”, de Filgueiras (1994), o autor discute:

É importante ressaltar, porém, a dívida de Lavoisier para com o importante e pioneiro trabalho da escola inglesa no campo da química dos gases. De fato, a revolução de Lavoisier deve muitíssimo a essa escola, e a seus predecessores no continente, no que diz respeito aos estudos dos gases, do calor e das afinidades químicas. Os trabalhos de Hales, Black, Cavendish e Priestley vieram mostrar que os gases são tão materiais como os líquidos e sólidos, diferindo dos chamados incorpóreos, como calor, luz, gravidade ou éter. A famosa experiência de Priestley, hoje corriqueira para qualquer iniciante em química, de fazer encontrar ao longo de um tubo de vidro dois gases, o cloreto de hidrogênio e a amônia, e verificar a formação de um sólido branco, o cloreto de amônio, marcou época (Filgueiras, 1994, p. 222).

Inferimos, com o autor, que a participação de nomes menos conhecidos ou divulgados na química, no tocante à descoberta do oxigênio, contribui para percebermos a ciência como uma construção coletiva, de “muitas mãos”, ao contrário de concepções individualistas da produção científica. Observamos que, em grande parte dos textos, é apresentada uma discussão a respeito da prioridade do descobrimento do oxigênio. Tais trabalhos questionam a validade de atribuirmos a Lavoisier o mérito isolado de ser o descobridor desse gás, uma vez que muitos experimentos foram realizados por diferentes pessoas na mesma época ou anteriormente a Lavoisier, que, por sua vez, teve contato com os resultados dessas investigações. Isso nos leva a propor, em conjunto com os trabalhos analisados, que Lavoisier, na composição de seus estudos, incorporou aspectos referentes aos experimentos de seus contemporâneos Joseph Priestley (1733-1804) e Karl-Wilhelm Scheele (1742-1786). No artigo “As possíveis origens da química moderna”, de Alfonso-Goldfarb e Ferraz (1992), as autoras relatam:

Nessa época, por não encontrar coerência entre as várias peças que tem em mãos para formular uma teoria, Lavoisier “comete” o que consideramos o seu “primeiro malabarismo”. Em outubro de 1774, conhece Priestley quando da visita deste a Paris que, numa conversa informal, comunica-lhe a descoberta do que ele chamava de “ar puro”, obtido pelo aquecimento da “cal de mercúrio”. Lavoisier deve ter reprocessado a informação de Priestley para o seu próprio código, a saber: se nem sempre é o “ar fixo” a sair das substâncias, então este não deve ser o único a com elas se combinar (Alfonso-Goldfarb; Ferraz, 1992, p. 66).

Nesse fragmento do texto, verificamos que as autoras utilizam o termo “malabarismo” para designar a reinterpretação das informações transmitidas por Priestley a Lavoisier durante uma conversa informal. Isso nos mostra novas interpretações históricas sobre esse fato concernente à participação de Lavoisier no estudo do gás oxigênio. Essa interpretação pode indicar-nos certa apropriação da obra de Priestley por Lavoisier, que assume, isoladamente, autoria da descoberta do oxigênio.

Fauque (1995), no artigo “O papel iniciador de Lavoisier”, auxilia-nos no desenrolar dessa discussão, acrescentando o fato do sueco Scheele ter, igualmente, sua parcela de contribuição na investigação do gás oxigênio:

Imediatamente se instalou a polêmica. Quem era o inventor desse novo gás, Priestley ou Lavoisier? Ora, o sueco Scheele (1742-1786) também havia descoberto o oxigênio bem antes e havia assinalado o fato a Lavoisier. Em 15 de outubro de 1774 escrevera-lhe que, por aquecimento, o carbonato de prata liberava um ar que ele chamava de ar do fogo e do qual descrevia precisamente as propriedades; ele fornecia a Lavoisier os pormenores do seu experimento, mas, acrescentava, seu material sendo muito rudimentar, esperava um experimento em maior escala de parte do cientista francês para confirmar suas observações. Este jamais respondeu ao sábio sueco (Fauque, 1995, p. 569).

O trecho aponta para a complexa situação e disputa sobre os estudos do oxigênio e as relações entre os estudiosos desse gás. Parece que Lavoisier, em contato com diferentes resultados, aprofunda suas investigações a partir dos dados de seus colegas. Nessa vertente, Scheele, outro personagem pouco reconhecido na química, apresenta suas contribuições na descoberta do gás. Todavia, nos estudos históricos, a figura lavoseiriana é sempre reverenciada como a personagem principal da química do século XVIII, sem, contudo, fazer menção aos conflitos vividos em torno da produção científica.

Ainda a esse respeito, Tosi (1994), no trabalho “A reedição dos ‘essays de Jean Rey’ em 1777: a reação de Lavoisier”, discute os estudos realizados pelo médico Jean Rey, que publicou suas obras a respeito do oxigênio em 1630, mais de um centenário antes do nascimento de Lavoisier, o que levou este último cientista a enfrentar algumas críticas quando afirmou desconhecer a obra de Jean Rey:

Mais tarde, nas suas Memórias, escritas em 1772, afirma não ter conhecido nessa época a obra de Jean Rey e, mais adiante acrescenta: “Nem Descartes, nem Pascal, tinham ainda aparecido, não se conhecia nem o vácuo de Boyle, nem o de Torricelli, nem a causa da ascensão dos líquidos nos tubos vazios, a física experimental não existia, a escuridão mais profunda reinava na química. Entretanto, Jean Rey, em uma obra publicada em 1630 sobre a pesquisa da causa pela qual o chumbo e o estanho aumentam de peso quando são oxidados, desenvolveu ideias tão profundas, tão análogas a tudo o que a experiência confirmara depois, tão conformes à doutrina da saturação e das afinidades, que eu não pude evitar suspeitar, durante muito tempo, que os ensaios de Jean Rey haviam sido feitos em uma etapa muito posterior à que figura no frontispício da obra (Tosi, 1994, p. 255).

A partir daí, constatamos que a obra lavoseiriana, apesar de sua reconhecida importância para a química e seu fundamento metodológico para a organicidade do conhecimento químico do século XVIII, não se colocou na posição de destacada importância sobre a obra de outros estudiosos. Isso pode ser verificado tanto nos artigos, quanto em sua mais célebre obra: O tratado elementar de química, de 1789. O fato da descoberta do oxigênio ser atribuída a Lavoisier deve muito mais aos seguidores desse químico em atribuir-lhe essa importância do que a si próprio. Isso pode ser constatado no trecho abaixo de Tosi (1989):

Lavoisier, nos seus registros, faz várias vezes constar a atenção particular que dava aos trabalhos de Priestley e usa frequentemente a expressão “ar desflogisticado de M. Priestley” para o oxigênio. Mas é na memória apresentada em 5 de setembro de 1777 que ele dirá; “De agora em diante designarei o ar desflogisticado ou ar eminentemente respirável, no estado de combinação ou fixidez, pelo nome de princípio acidificante ou, se preferem o mesmo significado com o nome grego, pelo de príncipe oxygene” (Tosi, 1989, p. 40).

A grande questão que se coloca em todos os textos sobre a problemática da descoberta do oxigênio não é macular a imagem de Lavoisier, e sim, possibilitar novos olhares para a dimensão histórica dessa passagem na ciência. O mérito de Lavoisier não pode ser negado, pois mesmo os diferentes estudiosos, como Priestley, Scheele e Jean Rey, tendo investigado o ar desflogisticado, o significado desse estudo nas reações de combustão deve-se a Lavoisier. Nesse ponto, os trabalhos concordam e afirmam que a atribuição de sentidos ao oxigênio, bem como seu nome, tem forte vertente lavoseiriana, e, mesmo este químico não podendo ser destacado como o “pai da química moderna”, possui sua relevante parcela de contribuição.

A história da ciência atua como um dos muitos instrumentos que um povo ou uma nação pode mobilizar em tempo de crise, para alimentar uma campanha de propaganda ideológica. Muitos historiadores, consciente ou inconscientemente, cumprindo o papel de propagandistas, mais do que transformar um fato do passado em fato histórico, acabam por se empenhar na criação de grandes ideias científicas, como a ideia de revolução, modernidade, desenvolvimento, bem como consagrar personalidades científicas pela utilização de termos como gênios, sábios notáveis, homens insubstituíveis, visando muitas vezes a procura de precursores das disciplinas científicas.

O fato acima pôde ser notado na análise dos artigos, que se contrapõem à ideia da produção isolada da ciência e, ainda, livre de conflitos e tensões. O estudo da descoberta do gás oxigênio e as novas produções históricas apontam para o fato de que não somente Lavoisier foi o responsável pelas investigações em torno dessa temática. Todavia, outros químicos europeus tiveram o mesmo interesse de estudo e avançaram distintamente ao trabalho lavoseiriano. Por tal motivo, é necessário repensarmos os fatos históricos e apresentarmos as versões que considerem o maior número possível de análise e documentos para enriquecer a interpretação histórica. Assim, poderemos desconstruir ideias pré-concebidas de gênios, verdades, descobertas e insights na ciência.

Hélder Eterno da Silveira é professor do Programa de Pós-graduação do Instituto de Química da Universidade Federal de Uberlândia (MG). Email: helder@iqufu.ufu.br.

Referências bibliográficas

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Alfonso- Goldfarb, A. M. and Ferraz, M. H. M. “As possíveis origens da química moderna”, Revista Química Nova, v. 16, n. 01, 1983, p. 66.

Chagas, A. P. and Airoldi, C. “Lavoisier, Hess e os primórdios da termoquímica”. Revista Química Nova, v. 04, n. 03, 1981, p. 95-96.

Chagas, A. P. “Alguns aspectos da química no século XVII”. Revista Química Nova, v. 09, n. 04, 1986, p. 268-271.

Chassot, A. Alfabetização científica – questões e desafios para a educação, Ijuí (RS): Ed. Unijuí, 2000.

Fauque, D. “O papel iniciador de Lavoisier”. Revista Química Nova, v. 18, n. 06, 1995, p. 567-573.

Filgueiras, C.A.L. “A revolução química de Lavoisier: uma verdadeira revolução?”. Revista Química Nova, v. 18, n. 02, 1995, p. 219-224.

Filho, M.C. “A evolução da química: de Boyle a Lavoisier”, Revista Química Nova, v. 07, n. 02, 1984, p. 93-95.

Kragh, H. Introdução à historiografia da ciência. Trad. de Carlos Grifo Babo. Porto: Editora Porto, 2001.

Kuhn, T. S. A estrutura das revoluções científicas. 8a. ed. São Paulo: Perspectiva Editora, 2003.

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Matthews, M.R., “História, filosofia e ensino de ciências: a tendência atual da reaproximação”. Caderno Catarinense de Ensino de Física, v.12, n. 3, 1995, p. 164-214.

Oki, M. C. M. “Paradigmas, crises e revoluções: a história da química na perspectiva kuhniana”. Revista Química Nova na escola, n. 20, 2004, p. 32-37.

Silveira, H. E. A história da ciência em periódicos brasileiros de química: contribuições para formação docente. 2008. Tese de doutorado. Unicamp. 256 p.

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“A reedição dos ‘Essays de Jean Rey’ em 1777: a reação de Lavoisier”, Revista Química Nova, v. 17, n. 03, 1994. p. 253-257.

As substâncias gasosas, ou comumente denominadas ares, eram objeto de estudo dos geólogos e químicos pneumáticos do século XVII, e foi motivo de boa parcela das investigações em química, que tinha como representantes cientistas ingleses, franceses, alemães e escoceses. O termo ares é utilizado no texto clássico de Robert Boyle (1627-1691), intitulado O químico cético, de 1661.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

Grande capital controla como nunca as eleições e os candidatos mais cotados

PAULO PASSARINHO

A eleição presidencial mais controlada pelo grande capital, desde o restabelecimento das eleições diretas no país, se aproxima de seu calendário oficial. Por uma das inúmeras deformações do processo eleitoral, o que assistimos até o momento atende pelo eufemístico nome de pré-campanha.

Formalmente, somente após as convenções dos partidos – que devem se realizar até o dia 30 de junho – e da data de 6 de julho as campanhas podem se assumir como tais. O que assistimos, portanto, até o momento foram eventos pré-eleitorais, independentemente da máquina do governo federal ou do aparato do PSDB estarem a pleno vapor, com os seus respectivos candidatos, Dilma e Serra.

As eleições se encontram sob o controle do grande capital, pois o outrora contestador PT se encontra mais domesticado do que cachorrinho de circo. O candidato da oposição, José Serra, pertence ao confiável PSDB, partido responsável pela consolidação do modelo liberal-periférico ou neocolonial, como queiram, em curso no país desde o atribulado e instável governo de Collor.

Delfim Neto, o ex-czar econômico da ditadura militar, e conselheiro informal do atual presidente, já afirmou por mais de uma vez que "Lula salvou o capitalismo no Brasil". Exagero. O que Lula, o PT e os seus aliados históricos fizeram foi salvar justamente o modelo econômico baseado na dita abertura econômica e que se traduz no continuado processo de abertura financeira, comercial, produtiva e tecnológica do país.

Outra aberrante característica do momento é que a mídia dominante já realizou uma espécie de prévia eleitoral. Além dos dois candidatos já mencionados, a oligarquia que controla os principais meios de comunicação do país incluiu dentre os seus eleitos a eco-capitalista Marina Silva. Talvez pelo seu esforço de também se mostrar mais do que bem comportada frente aos donos do dinheiro, da terra e da mídia.

Marina, na busca dessa bem comportada imagem, se coloca capaz de – caso eleita – juntar o melhor do PT e do PSDB em seu governo, e vir a ser também "uma grande solução para o agronegócio". Parece que vai longe o tempo em que os verdes se colocavam a favor da agroecologia.

Para quem lê qualquer dos jornais de maior circulação, ou assiste a noticiários de TV, percebe-se com clareza a existência imposta desses três citados candidatos. É dentro desse contexto que devemos compreender o esforço realizado nos últimos dias por intelectuais considerados de esquerda e que procuram justificar o apoio a Dilma como a melhor opção para o país. Mais do que isso, procuram apontar o imenso equívoco que representa não apoiar o PT e seus aliados nesse momento. Até mesmo a célebre divisão entre a social-democracia alemã e os comunistas daquele país, no início dos anos trinta, e que acabou por facilitar a ascensão de Hitler ao poder, é lembrada para justificar a posição favorável ao apoio à candidata do Planalto.

Procurando respaldar essa visão, de forma mais consistente, encontramos análises que destacam que o atual governo promoveu a reinserção internacional do Brasil na economia global, com uma ativa política de integração regional e alianças estratégicas com os países do hemisfério sul. Como exemplo, cita-se o fato de a China ter se tornado o nosso principal parceiro comercial, com a América do Sul em segundo lugar e os Estados Unidos sendo deslocado para um modesto terceiro plano.

Esse tipo de abordagem desconsidera que o capital procura a sua valorização de acordo com condições objetivas de rentabilidade, o que não deve ser confundido com qualquer tipo de viés ideológico ou político. A China hoje, além de promover uma formidável expansão de sua infra-estrutura econômica, o que demanda a importação, por exemplo, do nosso minério de ferro, abriga um diversificado setor de bens de consumo duráveis e não-duráveis, que se deslocou dos Estados Unidos para aquele país. Há, inclusive, analistas que consideram que as mais de setenta mil filiais de empresas norte-americanas operando em território chinês consolidam uma integração produtiva sino-americana que conforma uma solidez estratégica entre esses dois países, que em muito extrapola a propalada relação do Estado chinês com a dívida pública do Tesouro americano.

Mas, especialmente, é uma análise que procura desconsiderar a nossa real inserção na economia global. Nossa presença comercial no mundo se baseia no modelo agro-mineral-exportador, tão criticado historicamente pela esquerda e por todos os setores que já alimentaram a esperança do estabelecimento no Brasil de um autêntico projeto nacional de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, com nossa estrutura produtiva cada vez mais desnacionalizada, importamos máquinas, equipamentos, peças e componentes industriais ao sabor das definições estratégicas das matrizes das corporações estrangeiras, aqui presentes através de suas filiais.

E para financiarmos tudo isso, para sustentarmos essas importações e as elevadas remessas de lucros e dividendos para os controladores externos de nossa economia, a devastação promovida pelo agronegócio, por mineradoras e siderúrgicas de produtos semi-elaborados ganha a sua funcionalidade, através de nossas exportações.

Levando-se em conta a importante agenda da integração latino-americana, um mínimo de cuidado analítico também se faz necessário. Não podemos confundir aspectos da política diplomática do governo Lula – efetivamente importante para vários governos reformista-revolucionários de nossa América – com o conjunto da nossa política externa.

Na América Latina, o furor e impetuosidade de multinacionais brasileiras já colocaram em rota de choque o governo Lula com governos efetivamente comprometidos com a transformação de seus países. Foi o caso, por exemplo, do conflito entre o governo do Equador e a Construtora Odebrecht, por ocasião do rompimento de uma represa construída pela empresa naquele país, onde o governo brasileiro e suas lideranças no Congresso – com o apoio do DEM – assumiram a firme defesa dos interesses da empreiteira brasileira.

Outro exemplo importante é dado pela política de financiamentos do BNDES para grandes projetos, de interesse das construtoras brasileiras. Além de internamente o BNDES ser hoje o principal agente financeiro da predação ambiental em nosso país, na América Latina o papel do Banco segue os mesmos passos.

Somente na Amazônia peruana, a previsão é que se construam seis usinas hidroelétricas, de total interesse das empreiteiras brasileiras, na procura de alternativas de negócios que escapem dos controles que nossa legislação ambiental procura estabelecer. Além disso, são projetos que obedecem às estratégias de infra-estrutura elaboradas pelo Banco Mundial para a região, dentro da concepção de se criarem melhores condições para a exportação de produtos primários para as economias centrais.

E essa política do BNDES na América Latina não pode também ser desvinculada dos obstáculos que o governo brasileiro coloca para a consolidação do Banco do Sul. Proposta como instituição de fomento relevante na região e instância para uma maior e necessária integração financeira entre os nossos países, fora da área de intervenção do FMI, Banco Mundial, BID – instituições que encarnam sobremaneira os interesses norte-americanos –, é sabida a oposição brasileira a esses propósitos.

E isso tudo sem também deixar de mencionar a presença das tropas brasileiras no Haiti, ou o recém acordo militar Brasil-Estados Unidos, rompido desde o governo Geisel, e agora restabelecido – sem um mínimo de transparência – pelo atual governo.

São muitos os exemplos, portanto, que colocam em xeque a ingênua, ou oportunista, abordagem que simplifica a análise mais substantiva da política externa brasileira. Por fim, não poderia também deixar de mencionar o argumento que destaca que acima de tudo o governo Lula priorizou o social.

Prioridades de governo se refletem, necessariamente, nos seus respectivos orçamentos. E é impossível acreditar que um governo que prioriza o pagamento de juros e amortizações, como é o caso atual, tenha tido condições de colocar as políticas sociais em um plano relevante.

O que tivemos, de fato, foi o aprofundamento da outrora também criticada focalização de políticas sociais nos setores mais vulneráveis do nosso povo. Política importante, para o atendimento aos mais carentes, mais miseráveis. Mas absolutamente insuficiente para o que precisamos: políticas universais e de alta qualidade para o conjunto do nosso povo.

Ao contrário, continuamos a assistir – em termos de educação, atendimento de saúde, transportes públicos, segurança ou habitação popular – a uma perigosa degradação.

Paulo Passarinho é economista e membro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

A morada de São Longuinho – Guararema

No Vale do Paraíba, a cerca de uma hora da capital paulista, Guararema possui um dos mais importantes orquidários nacionais, a exótica e intacta vegetação da Mata Atlântica e o belo Rio Paraíba do Sul, ali impecavelmente limpo. Todos vigiados de perto pela única imagem de São Longuinho existente no País

Fabíola Mussara

Nas proximidades das grandes metrópoles, encontramos às vezes pequenas cidades que são verdadeiros oásis de paz e de vida natural preservada. É o caso da pequenina Guararema, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. Aninhada aos pés da Serra da Bocaina, ela é cheia de encantos e recantos exuberantes, a começar pelo rio que banha a cidade: o Paraíba do Sul.

Por motivos de espaço no provedor, leia esta matéria na íntegra no site CONTROVÉRSIA. Clique no link abaixo. Obrigado.

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=6493

De carona no vapor

Interação de água com rochas facilitou o acúmulo de cobre e a formação de ametistas

Carlos Fioravanti

Ametista e cobre nativo (no detalhe): talvez em jazidas

Nas profundezas do aquífero Guarani, o reservatório subterrâneo que abastece as cidades do sudeste e sul do Brasil, a temperatura da água não deve passar de 60 graus Celsius (oC). Mas essa água já esteve bem mais quente, a ponto de alterar a composição das rochas que recobrem o aquífero e, à medida que subia para a superfície, formar esferas de cobre e depósitos de ametista.

Uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) concluiu que a água do aquífero Guarani deve ter chegado a 130oC há cerca de 135 milhões de anos, quando dinossauros carnívoros corriam atrás de dinossauros herbívoros nas provavelmente descampadas planícies do sul e sudeste do Brasil. As análises de rochas indicaram que a água deve ter fervido e permanecido na forma de vapor ao longo de 1 milhão ou 2 milhões de anos, enquanto uma porção de magma líquido saía da pluma Tristão da Cunha, que esquentou toda a região sul e sudeste da América do Sul, e se acomodava em meio à camada de basaltos já cristalizados.

O vapor de água deve ter atravessado os basaltos, liberado átomos de cobre dos minerais e os conduzido até cavidades esféricas e fraturas em que o cobre se acumulou. Do mesmo modo, o vapor de água, ao liberar, transportar e acumular minerais enquanto se afastava do centro da Terra, pode ter favorecido a formação de depósitos de ametista, variedade de quartzo de cor violeta por causa de impurezas como manganês ou ferro, no sul do país.

Com essa hipótese, conceitos mais antigos sobre a formação desses minerais vão por água abaixo. “Os depósitos de cobre e de ametista dessa região, a Província Vulcânica Paraná, devem ter- -se formado no máximo a 150oC, como resultado da interação da água e vapor com os basaltos e não a 1.200oC, em consequência do esfriamento da lava basáltica, como se pensava”, afirma o geólogo Léo Afraneo Hartmann, professor da UFRGS e coordenador da equipe que há cinco anos examina as variações na composição das rochas que recobrem o aquífero. Essa camada conhecida geologicamente como Grupo Serra Geral chega à superfície no sul de Minas Gerais, depois se espalha em profundidades que atingem 1.800 metros nos estados de São Paulo e Paraná e sobe para 800 metros abaixo da superfície, no Rio Grande do Sul. “Todos os testes estão confirmando essa nova hipótese.”

Durante dois anos, ao longo do doutorado orientado por Hartmann, Víter Magalhães Pinto coletou amostras de cobre de até três metros de profundidade em 85 locais do distrito de Vista Alegre, na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Seu propósito era entender por que o cobre, ali, em vez de jazidas como em outras regiões do Brasil, forma esferas de baixo grau de impurezas cujas dimensões variam de meio punho adulto fechado a até 200 quilogramas, pesando de 500 gramas a 200 quilogramas. Os lavradores as encontram ao revolverem a terra e, mesmo que não formem um volume suficiente para serem exploradas comercialmente, podem ser derretidas e moldadas com relativa facilidade na forma de panelas. Os nativos da região sul utilizavam esse cobre para fazer pontas de lanças e flechas.

Na UFRGS e na Austrália, onde fez parte do doutorado, Víter analisou a sucessão de minerais acumulados nessas cavidades e frestas. “O cobre foi a última fase de deposição de minerais nas cavidades das rochas”, concluiu Víter, contratado em janeiro como professor da Universidade Federal de Roraima. Portanto, ele pensou, o cobre deveria ser mais recente que os outros minerais e teria sido retirado dos minerais piroxênio e magnetita, que compõem os basaltos, pelo vapor de água.

Detalhados em um artigo em fase de publicação na revista International Geology Review, esses achados convergiram com a pesquisa de doutorado de Lauren Duarte, também orientada por Hartmann. Lauren examinou as ametistas do município gaúcho de Ametista do Sul e de Artigas, no Uruguai, dentro de geodos alongados com até quatro metros de altura. Ela e Hartmann concluíram que essas pedras preciosas deviam ter se formado como resultado da ação do vapor de água sobre a camada de basalto, como descrito em um artigo publicado em 2009 na revista Journal of Volcanology and Geothermal Research.

“Dois físicos teóricos, os professores Marcos Vanconcelos e Joacir Medeiros, aqui da UFRGS, nos ajudaram muito com as modelagens matemáticas da temperatura e da pressão da água que explicavam o que víamos em campo”, relatou Lauren, contratada no ano passado como professora da UFRGS. Desde 2008 ela integra a equipe de um laboratório que desenvolve tecnologias que levem ao melhor aproveitamento econômico de resíduos minerais e de gemas como ágata e ametista.

Água de ouro – “Na Serra Geral ainda hoje a água quente, embora não tão quente como antes, continua atravessando as rochas que recobrem o aquífero”, diz Hartmann. As águas chegam mornas na estância termal de Iraí, norte do Rio Grande do Sul, e em algumas cidades paulistas traz sílica dissolvida. Durante duas décadas, Hartmann, com sua equipe, examinou como a água, combinada com enxofre e cloro a temperaturas superiores a 150oC, facilitou a formação de depósitos de ouro na Amazônia, no Uruguai e nos Andes.

Apoiado por financiamentos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), Hartmann continua indo a campo com sua equipe. Ele planeja em agosto ir para Quaraí, oeste do Rio do Grande do Sul, com pesquisadores, estudantes de pós-graduação e membros da Sociedade Brasileira de Geologia e do Serviço Geológico do Brasil. A seu ver, pode haver tanta ametista no pampa quanto na serra gaúcha, em Ametista do Sul.

“O distrito gemológico Los Catalanes, no Uruguai, do outro lado da fronteira, tem megajazidas de ametista e do lado de cá ainda não encontraram jazidas, mas deve ter”, diz ele, com base em dois artigos em fase de publicação – um na Geological Magazine e outro no International Geology Review. Hartmann acredita também que o cobre pode ter formado jazidas e não apenas depósitos pequenos e esparsos, ao longo da Serra Geral. “Na China já encontraram e estão explorando jazidas de cobre de origem semelhante”, diz. “Os indícios que vimos até agora no sul do Brasil são sinais de que pode haver jazida, mas só procurando sistematicamente para saber.”

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Pedágios de SP aumentam custos de alimentos e materiais de construção

Para transportadores de cargas, tarifas de pedágios de São Paulo tornaram-se inviáveis. Estado chegou a 227 praças de pagamento este ano

Suzana Vier

Pedágios de SP aumentam custos de alimentos e materiais de construção

Com 58,5 quilômetros de extensão, o pedágio da Rodovia dos Imigrantes, que liga a capital paulista aos municípios da Baixada Santista, custa R$ 17,80 para carros de passeio (Foto: André Vicente/Folha Imagem)

São Paulo – Há indícios de que os pedágios existem desde a Idade Média e de que, no Brasil, Dom Pedro II já se beneficiava desse recurso para financiar a construção de estradas. Séculos depois, o Brasil soma 239 pontos de cobrança de pedágio. Cerca de 50,6% deles –  um total de 121 pontos – só no estado de São Paulo, segundo dados da Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp)

No entanto, se forem considerados os locais em que a cobrança se faz nos dois sentidos de direção, o número sobe para 227.  Em 1997, o estado tinha 40 praças de pedágio estaduais, sob administração pública.

Mais sobre pedágios:

» Pedágio de SP é mais caro que de rodovias dos Estados Unidos

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» São Paulo tem cidades ilhadas por pedágios

» Pedágios são política pública corajosa, defende deputado do PSDB

Nos últimos 13 anos, os pedágios em São Paulo cresceram mais de 400% e os paulistas chegaram a 2010 com todas as praças de cobrança, novas e antigas, concedidas à iniciativa privada, em contratos que vão de 20 a 30 anos de concessão.

O custo do pedagiamento é sentido principalmente por quem passa pelas estradas paulistas diariamente, como os transportadores de carga. Francisco Pelucio, do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de São Paulo e região (Setcesp) avalia que o pedagiamento no estado é "caríssimo". "Em São Paulo, o pedágio tem impacto de 10% a 25% do custo do transporte. Isso é muito, é o pedágio mais caro do mundo", afirma.

Ranking de pedágios no Brasil

São Paulo tem 121 pedágios ou 227 pontos de cobrança da tarifa e representa 50,6% dos pedágios no país.

O Rio Grande do Sul fica em segundo lugar com 35 praças de pedágio, seguido por  Paraná (29), Rio (23), Minas (15), Santa Catarina (7), Mato Grosso (4), Espírito Santo (2). Mato Grosso do Sul, Bahia e Ceará tem uma praça de pedágio cada um.

Onze dos 26 estados brasileiros possuem estradas pedagiadas.

Os dados são da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR)

Pelucio explica que um pedágio viável deveria representar até 3% do custo do transporte. "O problema não é o pedágio, mas o valor que se cobra", condena.

Segundo ele, o impacto da cobrança recai, no final do processo produtivo, sobre o consumidor final. "O frete mais o pedágio encarecem o produto e o custo é embutido no preço de venda. Quem realmente paga é o consumidor", detalha.

O dirigente sindical ressalta que São Paulo sempre teve as melhores estradas e melhoraram muito depois da instituição dos pedágios, mas "isso não justifica esses valores tão altos".

João Batista Domenici, vice-presidente Executivo do Sindicato Nacional das Empresas de Transporte e Movimentação de Cargas Pesadas e Excepcionais (Sindipesa), alerta que o custo de transporte elevado reduz a competitividade da indústria brasileira. "As empresas podem deixar de fazer negócios", avisa.

Já Neuto Gonçalves, coordenador técnico da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC & Logística), não condena o pedágio, desde que "a tarifa seja módica, ou seja, desde que o benefício seja superior ao custo", ressalta. O benefício do pedágio significa a redução do custo operacional do caminhão com uma estrada bem cuidada.

Entretanto, numa avaliação custo/benefício da tarifa, o custo vem ganhando peso excessivo nas vias paulistas. Estudo da NTC aponta que o gasto com pedágio chega a 20% das operações na rodovia dos Bandeirantes, a 17,4% no complexo Anchieta/Imigrantes – ambas estaduais –, 15,2% na Dutra e 4,8% na Régis Bittencourt – estas últimas estradas federais que cortam São Paulo.

Impactos

Pedágios deixam frete mais caro

O professor de economia da Universidade Federal Fluminense (RJ), Carlos Enrique Guanziroli, alerta que o custo de produtos de baixo valor agregado, como alimentos, materiais básicos de construção e artigos de borracha sofrem mais com o impacto dos custos de pedágio.

Como exemplo, ele cita o transporte de areia. Se um caminhão com o produto custar por volta de R$ 300 e o pedágio ficar em R$ 10 ou R$ 12, o custo do transporte torna-se muito alto e impacta demasiadamente o valor do produto. Já o transporte de produtos químicos ou metal-mecânicos de alto valor não é muito afetado, porque o frete é pouco importante em relação à mercadoria.

Um estudo realizado pelo pesquisador para a Agência Nacional de Transporte Terrestres (ANTT), sobre o impacto de novos pedágios na Rodovia Presidente Dutra demonstrou que em um dos locais em que havia pretensão de implantação de pedágio, 60% dos carros desistiriam do percurso e os motoristas buscariam outras alternativas sem custos ou mais baratas.

Nessa localidade, a pesquisa indicava que abrir um pedágio poderia significar até conflitos com a população. Por afetar perto de 200 mil trabalhadores por dia, oficinas, shoppings e hotéis, havia receio de a população "quebrar o pedágio".

"Quando você coloca pedágio, as pessoas procuram outro shopping, outro restaurante onde não haja essa cobrança. Algumas empresas poderiam entrar em falência", detectou o docente no estudo.

Outro impacto que Guanziroli cita é sobre os carros de passeio. "Abrir mais pedágios perto das cidades, arrecada mais, entretanto os passageiros são mais prejudicados."

No caso de passageiros que viajam de ônibus, um levantamento da liderança do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo assinala que a incidência da tarifa de pedágio é maior sobre as famílias de menor renda. Em algumas linhas do transporte intermunicipal o pedágio embutido na passagem chega a 14% do preço total.

Uma pessoa que viaja de Arujá a São Paulo, num trajeto de 40,9 quilômetros, paga R$ 7,65, sendo R$ 0,70 a parcela relativa ao pedágio. No final de um ano, esse passageiro terá um gasto de R$ 420,00 com pedágio, embutido na passagem de ônibus, detalha o estudo.

Fonte: Rede Brasil Atual – http://www.redebrasilatual.com.br/

Na trilha do educando

Cada vez mais, redes sociais se configuram como espaço em que os jovens se dispõem a ter com os professores a interlocução que está difícil de se consumar apenas em sala de aula

Sérgio Rizzo

Até poucos anos atrás, a relação cotidiana entre professores e alunos durante os períodos letivos costumava ter prazo para acabar: quando tocava o sinal que encerrava a última aula. Daí até o dia seguinte, desapareciam momentaneamente da vida alheia. Nas férias, cada um seguia para o seu lado – e, exceto nos casos em que eram moradores do mesmo bairro e poderiam se encontrar casualmente na rua, uns só receberiam notícias dos outros quando retornassem ao convívio na escola. Situação parecida regia o convívio diário entre os próprios professores, que também se despediam dos colegas na última reunião do semestre e, salvo as exceções em que havia amizade consolidada ou parentesco, só os reencontrariam na primeira reunião do semestre seguinte.

Um dia, alunos e professores deixavam a escola. A partir de então, transformavam-se em lembranças, que ficavam cada vez mais vagas com o tempo. Anos depois, alguns retornavam para matar saudades e contavam um pouco do que tinham feito da vida. Hora de festa, mas só por dez ou 15 minutos, pois a próxima turma aguardava o início da aula. Em seguida, os agora visitantes desapareciam novamente, voltando a se esconder por trás dos pontos de interrogação que, em muitos casos, já os acompanhavam quando estavam ali, mesmo tão perto, mas no fundo tão longe. Onde vivem? Como se divertem? No que acreditam e o que mais desejam? Como são as suas famílias? Em quem planejam votar nas próximas eleições? O que pensam da escola e dos professores?

Nenhuma das situações descritas acima parece caber em escolas – de ensino fundamental, médio ou superior – do século 21. Menos por conta do que ocorre dentro delas, e muito mais em virtude das transformações provocadas por um braço imenso da "revolução digital", que tem na internet seu maior ícone: as redes sociais. Não se trata, evidentemente, de uma invenção recente, embora o nome soe para muitos como algo contemporâneo. Elas existem desde que um primeiro agrupamento de seres humanos decidiu manter contato regular, por motivos pessoais ou profissionais, para troca de informações, experiências, causos ou piadas. Praças, clubes, igrejas, bares e restaurantes sediavam os encontros dessas redes – cujos membros dispunham, a distância, dos correios (e, depois, do telefone) para mantê-las ativas.

Novas interações

Com a popularização da internet e dos novos recursos de telefonia móvel, essas redes sociais encontraram um facilitador até então inédito. Sua disseminação entre as novas gerações, familiarizadas desde a infância com o uso de computadores e de telefones celulares, estabeleceu um cenário radicalmente distinto para a interação social. Mesmo a distância, é possível se manter conectado a alguém. Em diversas circunstâncias, a própria distância tende a aumentar o grau de conexão. No âmbito da escola, essas transformações derrubaram simbolicamente paredes e muros. Não é mais preciso que todos estejam juntos na sala de aula ou no espaço escolar para que haja interação.

Mais do que isso: novas categorias de trocas foram instauradas por essas redes. Já faz algum tempo que, para buscar respostas às perguntas do segundo parágrafo desta reportagem, e para inúmeras outras, inclusive algumas que você nem mesmo havia formulado, basta ligar um aparelho com acesso à internet e saber como navegar por ela. "Seria interessante que os educadores ficassem atentos a alguns dados", alerta a pesquisadora Sonia Bertocchi, gestora da comunidade virtual Minha Terra. "Redes sociais, como o Orkut e o Facebook, já são mais utilizadas do que e-mail. Até 2009, o Orkut foi a rede social dominante no Brasil, alcançando 21 milhões de visitantes únicos em setembro de 2008. Naquele mês, cada um deles passou em média 496 minutos no site e fez 28 visitas."

Esse cenário, no entanto, se altera com velocidade impressionante. Em abril deste ano, um estudo da StatCounter – que monitora o uso da internet – colocou o Orkut em quinto lugar entre usuários brasileiros, com apenas 1,67% do total do tráfego. Na primeira posição, veio o Twitter, com 55,84%, seguido pelo Facebook, com 20,14%, e pelo You Tube, com 16,27%. O ranking inclui ainda sites menos conhecidos, como o StumbleUpon, com 3,19%, o Delicious, com 0,69%, e o Digg, com 0,34%. As demais redes sociais respondiam por 2,79% do tráfego brasileiro. Nesse mesmo estudo, os números globais traziam o Facebook na liderança, com 55,13%, seguido por StumbleUpon, com 21,83%, e pelo Twitter, com 7,15%.

Sonia considera também que educadores deveriam levar em consideração "a demografia das redes sociais no que se refere ao uso pelos jovens". Pesquisa apresentada nos EUA em abril deste ano pelo site Flowtown (1) aponta para a predominância do público adolescente em algumas redes, como o My Space, em que a faixa de 0 a 17 anos representa o maior contingente. No Facebook, quase um terço dos usuários tem até 24 anos. Pouco menos de metade dos que frequentam o Reddit e o StumbleUpon

não completaram 35 anos. Em quase todas as redes pesquisadas, o público com menos de 45 anos é

amplamente majoritário.

"Os professores não podem, ou não deveriam, ignorar esses dados nem essas ferramentas", observa Sonia. "Seria interessante que olhassem para as redes sociais como ambientes virtuais que oferecem muitas formas de interação com diversas pessoas, que estimulam o contato com a diversidade sociocultural, criam condições para se fazer uma rede de amigos e para se manter informado pelo assunto de seu interesse." Um passo seguinte, recomenda, "seria os professores se apropriarem dos recursos oferecidos pelas redes sociais, visualizar o que trazem de possibilidades para a aprendizagem de seus alunos, e incorporá-los ao currículo de maneira inovadora".

A pesquisadora Michele Schmitz, do Terraforum, acredita que nos últimos anos houve "avanços quanto à utilização de redes sociais por professores e gestores educacionais", mas que se trata de algo "ainda muito ínfimo". "Vejo que muitos educadores ainda não utilizam em larga escala as redes sociais e outras possibilidades da web 2.0 devido a vários fatores, mas o principal é a falta de recursos de infraestrutura tecnológica, pois ainda não temos computadores e internet de banda larga com qualidade em grande parte das escolas públicas do país", afirma. "Vejo na falta de acesso adequado um grande limitador para os professores conhecerem e utilizarem as possibilidades das redes sociais para o processo de ensino e aprendizagem."

Michele prefere não encarar os professores de acordo com juízos que os consideram "resistentes a inovações tecnológicas". "O professor é um profissional que precisa reconhecer as possibilidades e o valor agregado ao processo de ensino e aprendizagem que as redes sociais, comunidades virtuais, blogs e microblogs propiciam", pondera. "Não basta ser ‘novo’, ele precisa vislumbrar o que esse ‘novo’ traz de benefício para sua prática pedagógica." Sua experiência aponta para "uma gama de professores e gestores educacionais utilizando cada vez mais as redes sociais". Esses já teriam percebido "os benefícios em relação a estar mais atualizado e, principalmente, trocando experiências com outros educadores".

Novos usos

Ver "profissionais do conhecimento interagindo em redes sociais" corresponde, de acordo com Michele, a uma experiência "fascinante". "Em um projeto que desenvolvemos recentemente, utilizando redes sociais, ouvi de uma diretora de escola de ensino fundamental que atua há mais de 10 anos na educação pública a expressão ‘é como se eu tivesse nascido novamente’", lembra. "Na ocasião, a diretora teve oportunidade de vislumbrar os benefícios da interação em rede. Não é mais um abrir janelas para ver o mundo e, sim, abrir janelas para interagir com o mundo. Isso nos faz concluir o quanto avançaremos em educação com o uso adequado das possibilidades das redes sociais."

Portfólio digital

O entusiasmo de Gladys Gonçalves ilustra essa tomada de consciência. Professora na rede municipal de São Paulo e diretora na rede estadual, ela pensa que a internet promoveu uma "revolução". "Podemos dizer que há o mundo antes dela e o mundo depois dela", avalia. "Ela revolucionou os costumes e, principalmente, as relações sociais." O contraste entre "próximo" e "distante", na sua opinião, deixou de existir. "O que acontece lá se integrou com o que acontece cá. Hoje, o aluno é mais ligado ao que ocorre no mundo e criou um universo próprio no seu mundo virtual. No dia a dia das minhas aulas aprendo muito com eles. Parece que estão mais conectados do que eu, embora seja uma ‘viciada’."

Como a internet representaria "o mundo das possibilidades", Gladys acredita que "nós professores temos de correr atrás", mas lamenta que esse comportamento ainda seja o de uma minoria. "Muitos colegas desconhecem essa realidade, muitos ainda nem usam o e-mail, ou usam pouco. A internet é a porta do infinito, do ilimitado, uma ferramenta a mais, o amanhã, mas poucos a descobriram." Natural que, entusiasmada dessa forma com os recursos à disposição, tenha desenvolvido com seus alunos projetos ligados a redes sociais. Em 2009, quando assumiu o cargo de professora-orientadora de Informática Educativa na Emef Guimarães Rosa, criou um blog da escola (2).

Nele, procurou organizar posts sobre as atividades da escola, com destaque para os trabalhos dos alunos em sua disciplina. O resultado, na sua definição, é "uma espécie de portfólio digital" – objeto de reportagens do portal da Secretaria Municipal de Educação e do Diário Oficial do Município, além de ter sido visitado pelo secretário municipal, que o citou em seu blog. Gladys mantém perfis no Twitter, que visita diariamente, e no Orkut, onde diz ter "muitos amigos pessoais e de trabalho, assim como alunos e familiares", e que usa também para organizar "fotos de momentos da minha vida".

"Sou seguidora de diversos blogs e procuro acompanhar tudo sobre educação e informática educativa", acrescenta. Paradoxo curioso, mas revelador de como o assunto é tratado em diversas redes de ensino: na escola em que Gladys implantou o blog, o acesso ao Orkut – a rede social "mais conhecida e usada pelos alunos", de acordo com sua avaliação – é bloqueado. "Os alunos adoram o Orkut e o valorizam demais, como se fosse a coisa mais importante da internet, e por aí eles se relacionam bastante", afirma. "Na escola, o único momento de contato dos alunos com a internet é na sala de informática, uma vez por semana. E ainda trabalhamos com equipamentos antigos."

A geração de professores integrada desde a adolescência às redes sociais tem em Monique Buzatto, hoje com 22 anos, uma representante bem característica. "A primeira rede social que comecei a usar foi o Orkut, em 2004", lembra. "Estava no ensino médio, tinha 16 ou 17 anos, e uma amiga mandou um convite (ainda tinha isso!) para que eu fizesse meu perfil. Só usávamos para trocar aquelas mensagens super-relevantes que adolescentes trocam, sabe? (risos) Quando entrei na faculdade, em 2006, comecei a participar dos fóruns de discussão de algumas comunidades, principalmente as sobre literatura."

Monique começou a ter alunos como amigos no Orkut em 2007, quando dava aulas de inglês para adolescentes em uma escola de idiomas. "O objetivo era que eles me mandassem as lições de casa por ‘scrap’, já que nunca as faziam no livro e eu via que eles estavam sempre online", explica. "A escola em que eu trabalhava tinha o lab, onde os alunos podiam acessar a internet antes da aula. Eles ficavam sempre no Orkut, então tive a ideia de aproveitar algo de que eles gostavam e usar aquilo a meu favor." Curiosamente, o comportamento dos colegas professores que se tornavam amigos na rede era (e continua sendo) muito diferente.

"Os colegas professores me adicionavam, mas nunca realmente trocávamos mensagens", afirma. "Tenho bem mais contato com alunos do que com colegas de trabalho nas redes sociais. Acredito que as comunidades virtuais ajudam, sim, a entender melhor os alunos. Dá para saber os assuntos que eles comentam e seus interesses, como as bandas preferidas, os programas de TV, os livros que leem, se gostam ou não do Crepúsculo, do Justin Bieber, essas coisas." Monique recorda, em defesa da presença nas redes sociais, que "na faculdade os professores reforçavam a importância de contextualizar qualquer coisa que fôssemos ensinar e também a valorizar o conhecimento de mundo dos alunos, partindo disso para chegar onde gostaríamos".

Do cotidiano à sala de aula

Em outras palavras, "preparar uma aula que fosse ‘a cara’ do aluno". No primeiro semestre deste ano, Monique teve apenas alunos adultos, com pelo menos 30 anos, que usam o Orkut, o Facebook e o Twitter. Como o principal objetivo é "que os alunos falem inglês a maior parte do tempo", ela se comunica com eles em inglês mesmo fora da aula, graças às redes sociais. "Comentamos as fotos um do outro no Facebook, fazemos piadinhas no Twitter", exemplifica. "Às vezes eu posto algum link de um vídeo em inglês para eles se divertirem. Mas, principalmente, eu vejo os assuntos de que eles falam e tento levar isso para a sala de aula, usando como ponto de partida para chegar na matéria que preciso ensinar."

A professora Claudia Cristina Vieira Valério, que leciona nas redes estadual e municipal de São Paulo desde 1992, considera também que "a sala de aula está se completando com o espaço virtual". "Hoje os alunos se relacionam com seus professores de maneira muito mais próxima através das redes", afirma. "É através delas que eles conhecem o modo de vida de seu professor e até recebem orientações de atividades a serem realizadas e entregues. Postam seus trabalhos, expõem suas opiniões." Na Emef Franklin Augusto de Moura Campos, onde trabalha desde 2009 como orientadora de Informática Educativa, também coordenou a criação de um blog (3).

Seu objetivo era "a troca de experiências entre professores, alunos e outras escolas, visto que a minha unidade ainda não tinha esse meio de comunicação". Participaram do processo alunos-monitores que formam a "Equipe Super@ção" e ajudam na alimentação do espaço virtual com matérias e imagens. "O que hoje me surpreende é o envolvimento da escola com o blog", comemora Claudia. "Ele avançou de tal maneira que quase não damos conta de sua alimentação pela quantidade de materiais que chegam às nossas mãos. Temos de usar outros canais para apresentação de nossas atividades, como o Ning e o Educarede."

Além da aplicação profissional, Claudia utiliza redes sociais "para ter contato com familiares distantes, amigos, colegas de trabalho, alunos e até mesmo com superiores, a fim de receber informações e orientações diversas". Diversão também integra o pacote. "Faço uso das redes de maneira prazerosa e profissional visando conhecer pessoas e suas atividades, e dividir conhecimento." Na sua avaliação, os educadores já não enxergam as redes sociais com mistério ou preconceito. "Muitos já dividem com seus alunos divertimento, conhecimentos e informações", diz. "Há, de verdade, uma integração entre educação e mundo virtual."

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

Projetos da FZEA alertam para cuidados com alimentos

Rafaela Carvalho

Treinamentos in loco e músicas didáticas. É por meio dessas atividades que a Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga, procura conscientizar estudantes e funcionários de lanchonetes e restaurantes sobre os cuidados na manipulação de alimentos.

Extensão dos conhecimentos sobre segurança dos alimentos através da música e Treinamento “in loco” sobre higiene e conservação de alimentos para ambulantes e lanchonentes existem desde agosto de 2009 e são coordenados pelo professor Marco Antonio Trindade. Juntos, formam um projeto só, chamadoAlimento Seguro.

Projetos alertam, por exemplo, para a utilização correta de utensílios de cozinha

A atividade teve início graças ao Programa Aprender com Cultura e Extensão em que três bolsistas ficaram responsáveis pelos dois projetos, que têm como principal objetivo alertar estudantes, funcionários de lanchonetes, ambulantes que vendem comida e quaisquer outros interessados sobre a forma correta de se manipular os alimentos, seja na hora de cozinhá-los ou consumi-los.

Trindade conta que a realização dos projetos dependeu de uma junção de fatores: Leonardo Alves Pinto e Victor Scaranelo, alunos da FZEA, começaram a desenvolver um projeto envolvendo música e conscientização sobre os perigos da manipulação de alimentos sem os devidos cuidados, por meio de paródias. O professor conta que já tinha conhecimento de um projeto semelhante, realizado na Universidade da Califórnia, nos EUA. Assim, tendo as bolsas do programa de extensão em mãos, a ideia pôde ser posta em prática.

“Esse projeto foi desenvolvido aos poucos, ao longo de vários meses”, conta Alves Pinto, responsável por explicar os assuntos retratados nas paródias e por desenvolver o site Alimento Seguro. “No intervalo de uma música para outra é explicado o que citamos nelas, uma vez que a maioria do público é formada por alunos do ensino fundamental, que não têm uma bagagem muito grande de Microbiologia.” O outro bolsista, Victor Scaranelo, conta que a paixão por música o levou a participar do projeto: “Eu iria cantar e informar, passando a informação de maneira engraçada. Além disso, ia ajudar a sociedade de alguma forma”, conta.

Ouça aqui a paródia com a música “Emoções”

A segunda parte do trabalho coube a Elisa Silva Maluf de Paula. A bolsista conta que poder dar um treinamento sobre boas práticas de fabricação lhe deu mais experiência para sua carreira como engenheira de alimentos. “Conscientizar manipuladores de alimentos, podendo utilizar as teorias que aprendi na faculdade com certeza me ajudou bastante.” O treinamento consistia na criação e apresentação de uma apostila com dados importantes sobre os cuidados a serem tomados com os alimentos. “Desenvolvemos a apostila, eu e a Elisa, utilizando materiais da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Quando os cursos são ministrados, os funcionários acompanham o conteúdo por meio da apostila, que fica como doação para os estabelecimentos”, conta Trindade. Os conteúdos tratados vão desde conceitos de Microbiologia até cuidados com a higiene pessoal.

Elisa também conta que houve dificuldades em seu trabalho. “Os donos dos estabelecimentos ficavam um pouco desconfiados quando eu oferecia o curso, achavam que eu poderia querer fechar o estabelecimento se não estivessem de acordo com o que eu falasse.” A bolsista relata que muitos desses chefes de estabelecimento também não queriam que seus funcionários “perdessem” duas horas de trabalho para realizar o treinamento. Porém, apesar das complicações, o treinamento foi realizado em oito lanchonetes.

No momento Trindade diz que não procura expandir os projetos. “Com o final do período da bolsa, a ideia é manter o site com os conteúdos no ar. Mas, infelizmente, não temos verba para mandar os alunos para fazerem apresentações em outros lugares”, lamenta. “Se no ano que vem houver novas músicas e ideias, podemos pensar em no crescimento do projeto.”

É possível ver os trabalhos realizados pelos bolsistas no site Alimento Seguro, criado para o projeto. Pode-se também, na mesma página, fazer download da apostila e ouvir as paródias criadas.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

O homem de Neandertal pensava como nós?

O arqueólogo João Zilhão defende a tese de que nossos parentes, de reputação intelectual duvidosa, compartilhavam as mesmas aptidões cognitivas

João Zilhão

Há duas décadas, o arqueólogo português João Zilhão, da University of Bristol, na Inglaterra, estuda nosso primo mais próximo, o homem de Neandertal, que ocupou a Eurásia por mais de 200 mil anos antes de desaparecer misteriosamente há cerca de 28 mil anos. Especialistas da área debatem há tempos eventuais semelhanças entre a cognição do homem de Neandertal e a nossa. Em posição central nessa controvérsia estão alguns sítios neandertais contendo restos culturais indicativos do uso de símbolos – inclusive jóias – que são um elemento determinante do comportamento humano moderno. Zilhão e outros argumentam que o homem de Neandertal inventou sozinho essas tradições simbólicas, antes de os seres humanos ditos modernos, do ponto de vista anatômico, terem chegado à Europa, há cerca de 40 mil anos. Os críticos, por outro lado, acreditam que esses objetos tiveram sua origem entre os modernos.

No entanto, em artigo publicado em janeiro na Proceedings of the National Academy of Sciences, nos Estados Unidos, Zilhão e seus colegas relataram descobertas que poderiam encerrar a polêmica: conchas marinhas manchadas de pigmentos, de dois sítios na Espanha datados de quase 50 mil anos atrás – 10 mil anos antes de os homens ditos modernos do ponto de vista anatômico terem se dirigido à Europa. Recentemente, Zilhão discutiu as implicações das novas descobertas de sua equipe com a editora Kate Wong, da Scientific American. Segue uma versão editada dessa conversa.

SCIENTIFIC AMERICAN: Paleoantropólogos debatem o comportamento dos homens de Neandertal há décadas. Por que todo esse alvoroço agora?

JOÃO ZILHÃO: O debate dos últimos 25 anos decorre da teoria pela qual os homens com anatomia moderna se originaram, como uma nova espécie, na África e depois se espalharam a partir dali, substituindo os homens primitivos como os de Neandertal. Aliado a essa noção, havia o princípio de que as espécies são defi nidas tanto por sua anatomia quanto pelo comportamento. Dessa forma, os homens de Neandertal, por não terem uma anatomia moderna, não poderiam, por defi nição, ser moderno em seu comportamento.

Porém, havia problemas com esse modelo. Em 1979, arqueólogos que trabalhavam no sítio em St. Césaire, na França, encontraram um esqueleto neandertal em uma camada que continha resquícios culturais produzidos segundo a assim chamada tradição chatelperroniana. Na época, os especialistas acreditavam que os artefatos chatelperronianos – ornamentos corporais e ferramentas sofi sticadas de osso, entre outros elementos – teriam sido produzidos por homens modernos. Mas, em vez disso, estabeleceu-se que as descobertas de St. Césaire tinham conexão com o homem de Neandertal.

Então, em 1995, pesquisadores determinaram que os restos humanos encontrados nos níveis chatelperronianos em outro sítio francês, a gruta de Renne, em Arcy-sur-Cure, também pertenciam ao homem de Neandertal.

Para reconciliar essas descobertas com a ideia de que apenas o homem moderno foi capaz de práticas tão avançadas, alguns pesquisadores propuseram que artefatos de depósitos do homem moderno em camadas superiores mais recentes, de algum modo, se misturaram com os depósitos do homem de Neandertal. Outros argumentaram que ele simplesmente copiou o homem moderno, seu contemporâneo, ou obteve os objetos deste por meio de escambo ou do comércio, mas não os entendia realmente e nunca os integrou em sua cultura da mesma forma que o homem moderno. Essa controvérsia jamais foi totalmente resolvida de maneira satisfatória para todos os implicados; e é aí que entram nossas novas descobertas da Espanha.

SA: O que exatamente vocês encontraram e de que maneira?

JZ: O material se origina de dois sítios. Um deles é uma caverna no sudeste da Espanha, chamada Cueva de los Aviones, escavada em 1985 por Ricardo Montes-Bernárdez, da Fundação de Estados Murcianos Marquês de Corvera. Em seus relatórios, Montes- Bernárdez mencionou ter encontrado três conhas de mariscos perfuradas nos depósitos, mas ninguém prestou atenção na época. Alguns anos mais tarde, após ter lido sobre as conchas em seus artigos, fui ao museu que abrigava os materiais coletados por ele e pedi para vê-los. Imediatamente eles me impressionaram e pareceram de grande importância, já que essas conchas, quando descobertas em depósitos arqueológicos, são basicamente consideradas pingentes. No entanto, não sabíamos a idade do material, então a primeira coisa a ser feita foi selecionar amostras para datação por radiocarbono. As datas encontradas foram de 48 mil a 50 mil anos atrás.

Como as conchas da coleção jamais tinham sido lavadas, verifi quei se existiam outros espécimes dignos de nota. Descobriu-se que uma das conchas era de uma ostra mediterrânea, cuja limpeza revelou uma mancha que pensei que poderia ser resíduo de pigmento. A análise da substância identifi cou uma mistura do pigmento vermelho, denominado lepidocrocita, e pedaços bem triturados de hematita vermelha- escura e preta e de pirita, que acrescentaria mais brilho. Eu e meus colegas também encontramos um osso de cavalo afi lado naturalmente que tinha pigmento avermelhado na ponta. E achamos pedaços de pigmento amarelo e vermelho, inclusive um grande depósito de um mineral chamado natrojarosita, cujas quantidades e pureza indicavam ter sido armazenado em uma bolsa que acabou por se deteriorar, restando apenas o mineral.

O PINGENTE DE CONCHA DE VIEIRA foi pintado com pigmento laranja, talvez para que o exterior da concha (metade à direita) se equiparasse ao interior, naturalmente colorido (metade à esquerda). O pigmento encontrado na ponta de um osso naturalmente afi lado da pata de cavalo (acima da concha) sugere que o homem de Neandertal usou o osso para misturar ou aplicar a pintura.

SA: O que foi desenterrado no segundo sítio?

JZ: Por volta da mesma época em que inspecionei a coleção Aviones, também analisava as descobertas de setembro de 2008, da estação de campo em um grande abrigo na rocha que fi cava mais para o interior, a uns 60 km de Aviones, chamado Cueva Antón, onde eu vinha escavando depósitos neandertais desde 2006. Um dos objetos foi uma concha perfurada de vieira que um de meus alunos coletara no segundo dia de escavações. Originalmente, pensei se tratar de uma concha fóssil, que não estivesse relacionada com as atividades humanas. Porém, quando comecei a limpá-la, descobri que era bastante conservada e colorida. Uma inspeção mais detalhada mostrou que a parte exterior, mais esbranquiçada, parecia ter sido pintada com um pigmento laranja, que era uma mistura de hematita e de outro mineral, chamado goetita.

SA:O que vocês acreditam que o homem de Neandertal fazia com esses objetos?

JZ: O fato interessante em relação à natrojarosita é que ela tem apenas um uso conhecido, o cosmético. Assim, inferimos que foi esse o seu uso também em Aviones. O osso de cavalo com a ponta avermelhada pode ter sido usado para misturar ou aplicar pigmento ou para perfurar couro cru colorido com esse pigmento. A concha de ostra mediterrânea não perfurada que continha vestígios de uma mistura brilhante vermelha deve ter sido um recipiente para pintura. A explicação mais simples para a natrojarosita e o pigmento vermelho brilhante e o contexto no qual eles foram encontrados é algum tipo de pintura corporal, especifi camente pintura facial. Mas não temos certeza se o homem de Neandertal os aplicava diariamente, após terem acordado, ou se era algo que faziam por motivos rituais, em ocasiões especiais – nas celebrações ou talvez por luto. Além disso, uma das conchas de marisco perfuradas de Aviones tinha porções de ocre vermelho aderidos do lado interno, perto do orifício. Neste caso, a explicação mais plausível é que a concha fora pintada, já que não é possível usar uma concha com orifícios como um recipiente. Portanto, além de pintar seu corpo, o homem de Neandertal dos dois sítios coloria conchas perfuradas, provavelmente usadas como pingentes.

SA: Suas análises não fornecem evidência de que os orifícios nas conchas de mariscos e vieiras desses sítios foram feitos por homens, e vocês tampouco foram capazes de encontrar vestígios do uso nas bordas dos orifícios propriamente ditos, então como sabe que foram usadas para fins decorativos?

JZ: Essas espécies são encontradas em águas profundas, então na época que foram levadas à praia não continham mais nenhum molusco, indicando não terem sido coletadas para servir de alimento; além disso, tinham pigmentos associados a elas. Qual é a alternativa? Se abrir qualquer livro de ornamentos etnográfi cos de conchas da África ou Oceania, verá exemplos de conchas dessas espécies ou de espécies relacionadas, com perfurações naturais, usadas como ornamentos.

SA: Quais as implicações dessas descobertas para o entendimento da origem da modernidade comportamental em humanos?

JZ: A coisa mais importante que essas descobertas deixam claro é que o homem de Neandertal tinha comportamento moderno. Do ponto de vista anatômico, ele não era igual ao homem moderno primitivo, mas do ponto de vista cognitivo era tão avançado quanto ou até mais. Há várias conclusões possíveis a tirar desta observação: ou a cognição e o comportamento modernos emergiram independentemente em duas linhagens diferentes, ou eles existiam em um ancestral comum do homem de Neandertal e do homem com anatomia moderna. Ou, então, os grupos que denominamos homem de Neandertal e homem moderno não são espécies diferentes e, portanto, não deveríamos nos surpreender que, apesar das diferenças anatômicas, não existam diferenças cognitivas – a conclusão que favoreço.

Sob o meu ponto de vista, o surgimento do comportamento humano moderno é o acúmulo vagaroso, talvez intermitente, de conhecimento que, conforme as densidades populacionais aumentam, dá origem a sistemas de identifi cação social que aparecem no registro arqueológico na forma de ornamentos pessoais, pintura corporal etc. Devemos esperar que esses exemplos remotos de modernidade comportamental sejam raros. O início de um processo exponencial deve ser semelhante a isso.

SA: Então, o comportamento moderno – conforme representado pela decoração do corpo, peças de arte e assim por diante – é o produto da necessidade de se comunicar ou de se identificar com os membros de uma população crescente?

JZ: Sim, em um mundo em que os encontros com estranhos ocorresse em uma frequência que tornasse necessário criar maneiras de distinguir um amigo de um inimigo, alguém a quem seus parentes devessem favores ou alguém que os devesse a você.

SA: Mas acredita que algo teve de mudar no hardware, no cérebro, em algum momento na linhagem humana antes do aparecimento do comportamento

moderno?

JZ: Sim, acredito que isso aconteceu de 1,5 milhão a 2 milhões de anos atrás – ou cerca de 500 mil a 1 milhão de anos atrás, no máximo –, quando o tamanho médio do cérebro atingiu a dimensão atual. Se pudéssemos clonar um ser humano que viveu há 500 mil anos, colocá-lo num útero substituto e, então, após o nascimento, nutri-lo como um ser humano atual, ele conseguiria pilotar um avião? Talvez alguns de meus colegas possam dizer que não, mas a minha resposta seria afi rmativa.

SA: Se o homem de Neandertal da Espanha fabricava ornamentos 10 mil anos antes de o primo moderno ter chegado à Europa, você acredita que, em vez de os neandertais copiarem o homem moderno, pode ter ocorrido o inverso?

JZ: Antes de entrar na Europa, o homem moderno não perfurava nem entalhava os dentes de mamíferos como os encontrados em Châtelperronian, tampouco perfurava conchas bivalves como as encontradas na Espanha. Mas, assim que chegou à Europa, isso passou a acontecer. De onde o homem moderno obteve esses ornamentos? Se estivéssemos falando dos povos da Idade do Cobre, concluiríamos que os imigrantes os obtiveram dos habitantes locais. Por que deveríamos ter uma lógica diferente para os objetos neandertais?

JOÃO ZILHÃO há muito argumenta que os neandertais inventaram as práticas simbólicas independentemente do homem de anatomia moderna. Aqui ele peneira os sedimentos em sítio localizado na mesma região dos sítios que permitiram as descobertas neandertais.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

Rastros abstratos

Abstrações ajudam a entender a língua, como no caso do aluno que escreve "fácil" ao lembrar-se de "facilidade"

Sírio Possenti

Para compreender uma língua é preciso abstrair um pouco. Há teorias que admitem graus maiores e outras que admitem graus menores de abstração. Ela tem uma finalidade essencial: reunir, propondo que sejam um só, fenômenos materialmente – fonológica, morfológica ou sintaticamente – distintos.

Um exemplo claro é o prefixo de negação in-: diante de formas como "ilegal", "irregular" e "incômodo", é mais interessante propor que as três palavras contêm o mesmo prefixo in-, que "perde" a consoante nasal (ou a nasalidade) diante de certas consoantes (r, l) do que propor que há dois prefixos diferentes (pior seria dizer que há três, tratando a forma gráfica ir como um terceiro prefixo). Esta decisão é "abstrata" porque afirma que a forma concreta i é, de fato, in, mesmo quando não se materializa. Um pouco paradoxalmente, a forma abstrata é tomada como concreta, em outro nível, um nível mental, o que equivale a dizer que tanto i quanto in são sempre in na mente do falante, e que in é, portanto, uma realidade, embora nem sempre material.

Outros casos, em que gestos de abstração deste tipo ajudam a explicar, são fonéticos (relativos à pronúncia de sons) e até mesmo ortográficos. Por exemplo, quase sempre pronunciamos [mau] tanto o adjetivo que se escreve "mau" quanto o advérbio e o substantivo que se escrevem "mal". É fácil recuperar o l do substantivo "mal" que desaparece na pronúncia, comparando "mal" com "maledicência", palavra em que o l é pronunciado (deixo de lado a questão obviamente complicada da igualdade da forma do substantivo e do advérbio). No caso, abstrair significa aceitar que um [u] material é um /l/ mental.

A grafia deixa certas relações mais claras do que a pronúncia. Por exemplo, escrevemos "feliz", mas dizemos [felis], isto é, a consoante final é surda. Mas a grafia é interessante, porque permite ver uma relação clara entre "feliz" e "felizes" (não me perguntem o que dizer do "c" de "felicidade", que é um /s/ e não um /z/). Explicitar o que ocorre em casos assim pode ajudar a aprender grafias corretas. Crianças em processo de alfabetização podem ter dúvidas sobre a grafia de "fuzil", "anel" etc., e suas dúvidas podem desaparecer, ou diminuir, se relacionarem estas palavras com derivadas como "fuzilar" e "anelado". (Em uma situação até perversa, quando um professor faz um ditado e pronuncia "fácil" como usualmente, com u no final, sugiro que, em seguida, dite a palavra "facilidade", em que o l aparece; o aluno que tiver escrito "fáciu" poderá perceber que deveria ter escrito "fácil" e corrigir o erro por sua conta).

Relações

A abstração pode ser mais produtiva, explicitando outros tipos de relações entre formas concretas. Por exemplo, entre aposto e adjetiva explicativa. Sem compromisso metafísico com a "verdadeira natureza" das línguas, pode-se com proveito mostrar que "A estrada, cheia de curvas…" e "A estrada, que é cheia de curvas,…" são duas construções com o mesmo sentido. É como se fossem duas realizações da mesma qualificação da estrada (assim como [u] e [l] podem ser duas pronúncias de /l/).

Seguindo mais ou menos o mesmo procedimento, pode-se deixar mais clara a natureza da adjetiva restritiva, que equivale a um adjetivo, como em "As estradas que são retas… / As estradas retas… são menos perigosas em dias de chuva". Parece ser um bom princípio de análise relacionar mais ou menos explicitamente as diversas maneiras de uma língua materializar o mesmo sentido (ou sentidos muito próximos).

O que mais interessa nesses últimos exemplos é a questão do sentido, não apenas a análise sintática. O que eles mostram, na verdade, é que a estrutura "material" da língua pode ser analisada "em si", mas que os ganhos são evidentes se for relacionada explicitamente ao sentido. Provavelmente, a melhor maneira de estabelecer esta relação é mostrar que há formas diferentes de dizer a "mesma coisa". Nesta direção, pode-se ir mais longe, relacionando, por exemplo, casos como "aquecimento global" a "o globo [a terra] aqueceu / a temperatura do globo [da terra] aumentou…", "a independência das mulheres / as mulheres são [se tornaram] independentes…" etc.

Além de permitir análises que resolvem problemas, ou deixam alguns deles mais claros (como os da grafia do l em final de sílaba), as soluções mais abstratas obrigam a explicitar critérios gramaticais, ou seja, fazem os gramáticos dizer a seus leitores por que estão propondo determinada solução em vez de outra.

Oblíquos

Exemplifico com um caso tratado obscuramente nas gramáticas, que é o do pronome oblíquo. Para algumas gramáticas, os pronomes eu, tu, ele/a, nós vós, eles/as (esquecem você e ainda incluem vós…) são retos, os pronomes me, te, se, lhe, nos, vos, lhes são oblíquos átonos e mim, ti, si são oblíquos tônicos (sempre seguem preposições). Mas outras gramáticas incluem entre os pronomes oblíquos as mesmas formas dos pronomes retos que seguem preposições (ele/a, nós, vós eles/as).

Incluem, mas não explicam claramente a classificação de certos pronomes como retos e também como oblíquos. Um estudante de gramática é convidado a decorar uma lista ou, no máximo, a aceitar que em "para mim" há um pronome oblíquo e em "para ele", também, embora não haja construções em que "mim" seja sujeito, enquanto que há construções em que "ele" é sujeito. Ou seja, apesar das diferenças de comportamento sintático entre "mim" e "ele".

Critérios

As gramáticas que incluem ele/a, nós, vós, elas/as entre os pronomes oblíquos tônicos, e não apenas os pronomes que têm formas diferentes dos pronomes retos, adotam, sem avisar, uma espécie de teoria de casos, que as leva a considerar oblíquos todos os pronomes que não são sujeito, mesmo quando eles têm a mesma forma dos pronomes sujeitos. Os gramáticos que adotam esta posição (e eles estão em maioria, acompanhados pelos sites…) não informam qual é a sua teoria, não explicitam seu procedimento de análise.

Acho que uma das razões pela qual não explicitam seus critérios é que, se os explicitassem, teriam de dizer, por coerência, que também são oblíquos os substantivos que não são sujeitos (objetos diretos ou indiretos). Ou seja: se em "dar um livro para ele", "ele" é um pronome de caso oblíquo, então "Antônio" também é oblíquo em "dar um livro para Antônio", pois ambos seguem "para" e são objetos indiretos.

O que abstração tem a ver com isso? Tudo: para propor esta análise, é preciso postular que há casos abstratos, isto é, casos sem marca material de caso.

Sírio Possenti é professor associado do departamento de linguística da Unicamp e autor de Os Humores da Língua (Mercado de Letras)

Fonte: Revista Língua Portuguesa – http://linguaportuguesa.uol.com.br