Daily Archives: 22/06/2010

Cinema japonês uniu imigrantes no pós-guerra

Paulo Roberto Andrade

Após a Segunda Guerra Mundial, a exibição de filmes japoneses desempenhou um papel-chave para a caracterização do bairro paulistano da Liberdade como “bairro japonês”, e para a reagregação dos imigrantes japoneses e seus descendentes, após a dispersão vivida durante a guerra. O antropólogo Alexandre Kishimoto analisou o cinema japonês a partir da memória de antigos frequentadores das salas de cinema da Liberdade, que funcionaram entre as décadas de 1950 e 1980. A pesquisa foi o tema de seu mestrado, defendido em março de 2010, que analisou também a relação de cinéfilos, cineastas e críticos de cinema não-nikkeis (não descendentes de japoneses) com a grande diversidade de filmes japoneses exibidos em São Paulo.

No Brasil, as pesquisas de cinema normalmente se concentram no estudo da produção cinematográfica ou na análise de filmes. Há pouca tradição de estudos que levam em conta os espectadores. “Minha pesquisa analisa os significados locais atribuídos pelos espectadores paulistanos aos filmes japoneses, às salas de cinema e à experiência de frequentá-las. Um dos objetivos era verificar se havia um olhar específico dos espectadores de São Paulo para o cinema japonês, diferente do olhar de espectadores de outros locais”, explica Kishimoto.

Cine Niterói, inaugurado em 1953, tinha capacidade para 1.500 espectadores

O antropólogo entrevistou 15 antigos frequentadores desses cinemas (todos com mais de 60 anos), sendo a maior parte deles pertencentes aos públicosnikkei (descendente de japoneses) e não-nikkei. Todos os entrevistados têm hoje mais de 60 anos, e as experiências narradas e interpretadas referem-se basicamente ao período do pós-guerra, isto é, aos anos 1950 e 1960. Os entrevistados falaram de suas lembranças sobre os filmes japoneses marcantes e de outras práticas relacionadas, como a paquera nas filas ou os shows que ocorriam nesses cinemas. Além dos depoimentos dos espectadores, outra fonte de pesquisa foram os artigos publicados na época por críticos paulistanos de cinema, que foram comparados com os comentários de alguns historiadores internacionais de cinema japonês.

No caso do público japonês e nikkei, Kishimoto associou as experiências vividas nas salas de cinema com a história de vida dos entrevistados e com as trajetórias de suas famílias. “Apesar de serem entrevistas individuais, eu procurava saber quais eram os grupos com os quais a pessoa se relacionava e com quem frequentava os cinemas da Liberdade”, explica o pesquisador.

Derrotistas e vitoristasDurante a guerra, os imigrantes japoneses e seus filhos foram tratados pelo estado brasileiro como súditos do Eixo. Todos os meios de comunicação foram proibidos: os jornais nipo-brasileiros, os livros e filmes japoneses e os aparelhos de rádio que recebiam transmissões do Japão. Na época da guerra era também proibido aos imigrantes e seus descendentes falar o idioma japonês em público ou ainda reunirem-se, mesmo em casamentos e festividades.

Ao final da guerra, como a única fonte de informação eram jornais brasileiros, houve uma divisão dos japoneses e nikkeis entre os “derrotistas”, que acreditaram na notícia da derrota do Japão, e os “vitoristas”, que se recusavam a acreditar, interpretando a notícia como propaganda dos aliados. Essa divisão entre os japoneses e nikkeis perdurou de 1945 até 1953, mesmo ano em que foi inaugurada a primeira sala de cinema na Liberdade.

Neste contexto, a retomada do fluxo de filmes japoneses ao estado de São Paulo constituiu uma fonte segura e confiável de informações sobre o Japão, pois se tratavam de filmes escritos, dirigidos e protagonizados por japoneses, muitos destes abordando assuntos relacionados à guerra e trazendo informações sobre o que teria se passado realmente no Japão. Dessa forma, junto com outros fatores, o cinema japonês atuou para a reconciliação entre esses dois grupos. “Alguns espectadores me disseram que eram sessões catárticas, isto é, em que se chorava coletivamente e que provocavam reflexões sobre a situação do Japão na guerra”, explica Kishimoto.

As exibições de filmes japoneses atraiam diferentes públicos aos cinemas

Diferentes espectadores

No ocidente, o cinema japonês passa a se tornar conhecido quando o filme Rashōmon, do diretor Akira Kurosawa, ganhou alguns prêmios em festivais internacionais. A partir daí as grandes metrópoles ocidentais passam a receber os filmes japoneses premiados, geralmente os filmes de época ou de samurai.

A grande diversidade de filmes oferecida pelos cinemas da Liberdade fez com que os diferentes grupos de apreciadores não-nikkeis, que tinham diferentes preferências estéticas, ideológicas, etárias, apreciassem diferentes tipos de filmes japoneses. “Enquanto alguns grupos de frequentadores daquelas salas identificavam-se com o engajamento de esquerda de alguns filmes, outros apreciavam o intimismo dos dramas contemporâneos, e ainda outros apreciavam o questionamento dos valores tradicionais, presente nos filmes da chamada nouvelle vague japonesa”, exemplifica o pesquisador.

Além do papel desempenhado na formação de seus espectadores, o estudo de Kishimoto chama a atenção para a importância das sessões de cinema japonês para a retomada do bairro da Liberdade no pós-guerra, bem como para a formação do circuito de cineclubes e cinemas de arte da cidade de São Paulo.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

Pais tomam atitudes equivocadas na educação dos filhos

Pesquisa mostra que pais de filhos adolescentes não conciliam discurso de boa educação com suas intervenções

Agência USP

  Pesquisa feita com 860 pais evidencia a diferença entre as concepções educativas e as intervenções concretas deles sobre seus filhos adolescentes. "Apesar de os pais valorizarem o diálogo, 69,7% deles afirmaram que concordam em punir fisicamente o seu filho caso ele faça algo muito errado", revela Luciana Maria Caetano, professora do curso de pedagogia da Universidade São Francisco e responsável pela pesquisa.

O trabalho de Luciana faz parte de sua tese de doutorado defendida no Instituto de Psicologia (IP) da USP e mostra, por meio das respostas dos pais a questionários, as contradições na forma que eles educam seus filhos: "No discurso, eles (os pais) se preocupam em ensinar o respeito mútuo, a importância do diálogo, a arcar com as conseqüências. Entretanto, nas atitudes concretas aparecem as dificuldades."

No caso de bater nos filhos, Luciana lembra que os pais,  com essa atitude, estão ferindo a integridade física e psicológica dos jovens. Ela comenta que esse tipo de punição ensina aos adolescentes uma justiça retributiva.  "Por esse conceito de justiça, os pais passam um modelo de resolução de conflitos fundamentado na violência ou troca, ou seja, os filhos pagam por aquilo que fazem. Bateu no irmão? Então será punido da mesma forma. Essa atitude se vê, por exemplo, no trânsito, quando um motorista é fechado por outro e tenta compensar tentando passá-lo depois."

Segundo Luciana, o modelo ideal de justiça é a distributiva, que considera as condições de cada filho, com suas necessidades, suas características e suas dificuldades.

Autonomia

Além de justiça, a pesquisa analisou o que os pais pensam da obediência, respeito e autonomia na relação com os filhos. Sobre autonomia, o questionário mediu o grau de importância que os pais dão a essa concepção na educação e a participação deles na construção da autonomia moral dos filhos na adolescência.

Mais uma vez, os pais deram respostas contraditórias. Por um lado, eles consideram importante que o filho seja autônomo e apoiam questões como dar oportunidade de escolhas aos filhos, incentivar que estes tenham suas opiniões e que arquem com as consequências de seus atos. Em contrapartida, ao julgarem o ideal de como devem ser as relações de respeito com os seus filhos, 84% concordam que um pai nunca deve confiar no filho e 57,9% concordam que os pais devem dar palpite em tudo o que o filho faz.

Outro aspecto enfatizado por Luciana é a utilização da barganha pelos pais para que seus filhos os obedeçam. O recurso serve como uma espécie de troca entre pai e filho. "Podemos citar como exemplo o caso de um filho que não quer fazer lição e os pais fazem uma troca, cortando o acesso dele à internet. O problema é que o jovem não aprenderá porquê ele deve fazer a lição e se adequará as oportunidades da barganha. Adolescentes que só fazem coisas por trocas futuramente não compreenderão as razões e princípios das regras."

Luciana ainda ressalta a importância de se construir uma reciprocidade moral nas relações familiares, o que implica em relações de respeito mútuo, cooperação e confiança. "Para isso, os pais precisam ser fonte de boas regras e exemplo para os filhos. Obedecer à autoridade por medo ou por culpa não favorece a construção da autonomia. O autônomo é aquele que age bem com liberdade de escolhas", conclui.

Amostra

A pesquisa abordou pais (20,6%) e mães (79,4%) de adolescentes com idades entre 12 e 20 anos. Havia participantes de cada uma das cinco regiões do País (42,8% do Sudeste, 20,2% do Nordeste, 16,5% do Centro-Oeste, 11% do Norte, e 9,3% do Sul).

A amostra com os pais foi realizada no ambiente escolar (54,8% na escola pública e 45% na privada), de diferentes condições econômicas.

Na pesquisa, os participantes tinham de responder a um questionário em que atribuíram notas de 1 a 7, as quais variavam de opções com as quais eles discordaram totalmente e aquelas com as quais eles concordaram totalmente.

Fonte: Revista Psique – http://psiquecienciaevida.uol.com.br

Nova lei anti-imigração reflete polarização da sociedade americana na fronteira com o México

Guillermo Altares

Com uma placa na qual se lê "As armas salvam vidas", uma jovem tenta animar seu amigo a aderir aos Tea Party do Arizona, o movimento populista ultraconservador que está ganhando força nos EUA à direita do Partido Republicano. Seu quiosque é encimado por um cartaz no qual se lê: "Para inglês, aperte 1. Para deportação, aperte 2". Pouco depois de terminar a marcha que reuniu no sábado milhares de hispânicos no centro de Phoenix contra a nova lei de imigração do Arizona, cerca de 2 mil partidários da legislação, qualificada de racista por grupos de direitos civis e que provocou um debate nacional, se reuniram em um estádio de Tempe, uma das urbes que formam a capital de seu estado no sudoeste dos EUA, fronteiriço com o México.

UOL Arte

Além da anedota e dos slogans em muitos casos delirantes que enfeitavam as barracas – desde "Karl Marx não foi um pai fundador" a "Que parte da palavra ilegal você não entendeu?", "Ilegal não é uma raça, é um crime", "Uma sociedade armada é uma sociedade civilizada" e "Obama [com uma foice e um martelo] dá medo" -, o encontro ultra reflete a extrema polarização da sociedade em torno da Lei SB1070 do Arizona, que começará a ser aplicada a partir de 29 de julho e que permite que a polícia pare qualquer pessoa e peça seus documentos baseando-se em que pareça um imigrante sem papéis. A contestação a essa lei provocou uma mobilização hispânica inédita nos EUA.

Uma pesquisa nacional divulgada na semana passada pelas redes de televisão NBC, MSNBC e TeleMundo revelou que 61% dos eleitores apoiavam a nova lei. A mesma pesquisa indicou que 40% dos eleitores registrados apoiariam um candidato republicano favorável à nova legislação, dado muito importante para um ano eleitoral (haverá legislativas em novembro). E no Arizona a situação está especialmente polarizada, senão seria impossível que um delegado como Joe Arpaio fosse reeleito desde 1992.

Não estamos falando de um sujeito que passeia com uma estrela pela rua principal de um povoado empoeirado do oeste: Arpaio, um ex-agente da Agência Antidrogas dos EUA (DEA) de origem italiana, 67 anos, é uma das maiores autoridades policiais do condado de Maricopa, que inclui a aglomeração urbana de Phoenix e que conta com 4 milhões de habitantes, 31% deles de origem hispânica. E esse xerife – aplaudido no comício de sábado à noite em Tempe e vaiado na manifestação hispânica que ocorreu algumas horas antes – construiu sua reputação com base na extrema dureza, sobretudo com os sem-papéis.

Uma de suas grandes façanhas é a Prisão de Tendas de Campanha de Phoenix, que exibe com orgulho em seu site na web e na qual se amontoam mais de 2 mil detidos, vestidos com roupas de presidiário listradas e roupa de baixo cor-de-rosa. Em 1995, um jornal local, o "East Valley Tribune", ganhou o Prêmio Pulitzer por uma série de reportagens sobre o assédio de Arpaio aos imigrantes.

E a maioria de seus eleitores não participa de comícios ultra como o de domingo, no qual – parece muito demagógico mas foi assim – os únicos hispânicos presentes trabalhavam como garçons nos restaurantes de fast-food do estádio de beisebol no qual se realizou. O encontro começou com o canto do hino americano e um tremendo aplauso quando acabou com o famoso "terra de homens livres, lar de valentes". Aplausos semelhantes foram escutados quando um orador elogiou a Fox News (o estádio quase veio abaixo), quando se levantaram os veteranos de guerra ou cada vez que se citava a Lei SB1070.

As maiores vaias foram para Barack Obama e o presidente do México, Felipe Calderón. "Está me escutando México? Pode me escutar daqui? Pois deve ver claramente que esta terra é nossa terra, não é sua terra. Pagamos por ela, trabalhamos por ela", exclamou da tribuna Larry Wachs, um jornalista de Atlanta. Pam Stephenson, responsável pelos Tea Party do Arizona, declarou: "Juntos tornaremos nossas fronteiras mais seguras e conseguiremos de volta nossa nação".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Políticos ocidentais: Covardes demais para ajudar a salvar vidas

Robert Fisk

Verdade é que os muitos, gente comum, ativistas, deem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos.

Israel perdeu? A guerra de Gaza de 2008-09 (1.300 mortos) e a guerra do Líbano de 2006 (1.006 mortos) e todas as outras guerras e, agora, a matança da madrugada da 2a.-feira significam que o mundo afinal decidiu rejeitar o mando de Israel? Não esperem tanto. Mas, sim, algo aconteceu.

Basta ler a desfibrada declaração da Casa Branca – que o governo Obama estaria “trabalhando para entender as circunstâncias que cercam a tragédia”. Condenação? Nem uma palavra. E pronto. Nove mortos. Mais uma estatística, na matança no Oriente Médio.

De fato, não, não é só mais uma estatística.

Em 1948, nossos políticos – norte-americanos e britânicos – atacaram Berlim. Uma população esfaimada (nossos inimigos, havia apenas três anos) estavam cercados por exército brutal, os russos, que haviam cercado a cidade. O levante do cerco de Berlim foi um dos momentos altos da Guerra Fria. Nossos soldados e aviadores arriscaram e deram a vida por aqueles alemães mortos de fome.

Parece incrível, não é? Naqueles dias, nossos políticos decidiam; muitas vezes decidiram salvar vidas. Os senhores Attlee e Truman sabiam que Berlim importava, tanto em termos morais e humanos quanto em termos políticos.

Hoje? Gente comum – europeus, norte-americanos, sobreviventes do Holocausto – sim, sim, santo Deus! Sobreviventes dos nazistas! –, os que decidiram viajar até Gaza, porque seus políticos e governantes os abandonaram, falharam, fracassaram.

Onde estavam os políticos e governantes na madrugada da 2ª-feira? OK, ok, apareceram o ridículo Ban Ki-moon, a declaração patética da Casa Branca e o caríssimo Sr. Blair, com cara de “profunda lástima e choque ante a tragédia de tantas mortes”. Mas… E Cameron? E Clegg?

Em 1948, claro, teriam ignorado os palestinos, não resta dúvida. Há aí, afinal, uma terrível ironia: o levante do cerco de Berlim coincidiu exatamente com a destruição da Palestina árabe.

Mas é fato irrecusável de que os muitos, gente comum, ativistas, deem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos. Nossos políticos são desfibrados, sem espinha dorsal, covardes demais, para decidir as decisões que salvam vidas. Por quê? Como chegamos a isso? Por que, ontem, não se ouviu palavra saída da boca de Cameron e Clegg (dentre outros, claro)?

Claro, também, sim, que se fossem outros europeus (ora essa! Os turcos são europeus, não são?) os metralhados naqueles barcos, por outro exército árabe (ora essa! O exército de Israel é exército árabe!), então, sim, haveria ondas e ondas de indignação e ultraje.

E o que tudo isso diz sobre Israel? A Turquia não é aliada muito próxima de Israel? E, de Israel, os turcos recebem o que receberam? Hoje, o único aliado que restava a Israel, no mundo muçulmano, fala de “massacre” – e Israel parece não dar qualquer importância ao que diga a Turquia.

Israel tampouco deu qualquer importância quando Londres e Cabnerra expulsaram os diplomatas israelenses, depois de Israel forjar passaportes britânicos e australianos, para, com eles, perpetrar o assassinato do comandante Mahmoud al-Mabhouh do Hamás. Tampouco deu qualquer importância aos EUA e ao mundo, quando anunciaram a construção de novas moradias exclusivas para judeus em terra ocupada em Jerusalém Leste, durante visita de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, aliado-supremo, a Israel. Se Israel não deu qualquer importância a esses aliados, por que daria alguma importância a alguém, hoje?

Como chegamos a esse ponto? Talvez porque já nos tenhamos habituado a ver israelenses matando árabes; talvez os próprios israelenses tenham-se viciado em matar árabes, até cansarem. Agora, matam turcos. E europeus.

Alguma coisa mudou no Oriente Médio, nas últimas 24 horas – e os israelenses, se se considera a resposta política extraordinariamente estúpida, pós-matança, não dão qualquer sinal de ter percebido a mudança. O que mudou é que o mundo, afinal, cansou-se das matanças israelenses. Só os políticos não têm o que dizer, hoje. Só os políticos estão calados.

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

Davis, Mike. Apologia dos bárbaros: ensaios contra o império

Waldir José Rampinelli

O livro Apologia dos bárbaros, do historiador estadunidense Mike Davis, professor da Universidade da Califórnia, reúne escritos publicados entre 2001 e 2007 que analisam, sob diferentes perspectivas, a política interna e externa dos Estados Unidos, especialmente após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Davis divide o trabalho em cinco partes, tendo por critério temas afins. No entanto, a linha de continuidade que perpassa a estrutura do livro é uma crítica perspicaz e fundamentada à Casa Branca, ao Congresso, ao Poder Judiciário, ao Pentágono, aos partidos políticos e às organizações sindicais que estão a serviço do grande capital e não dos interesses da população dos Estados Unidos.

Davis não acredita na afirmação de que "os estadunidenses colheram o que semearam" com os atentados às Torres Gêmeas, já que as principais vítimas daquela tragédia foram as secretárias, os contadores, os entregadores de lojas de conveniências, os lavadores de janelas, os corretores da bolsa e os bombeiros, pessoas que "não conceberam ou implementaram nossas políticas secretas, antidemocráticas e criminosas no mundo muçulmano" (p.24). Responsáveis diretos pelos atentados, entre tantos, seriam, por exemplo, Madeleine Albright, secretária de Estado de Bill Clinton, que, ao responder a uma pergunta em rede nacional de TV sobre as 500 mil crianças mortas no Iraque como resultado das sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos, asquerosamente afirmou: "Acredito que o custo compensou". E o maior responsável de todos – George W. Bush – foi escolhido presidente por uma maioria na Suprema Corte e não pelos eleitores, tendo adotado poderes de guerra contra todos, em toda parte e para sempre, sem precedentes na história nacional dos Estados Unidos e, quiçá, mundial.

O autor de Apologia dos bárbaros não vê grandes diferenças entre o Partido Republicano e o Democrata, já que ambos estão ligados aos donos do poder econômico. Os socialistas estadunidenses, diz Davis, há anos vêm de monstrando que os democratas não passam de um partido capitalista com verniz social-democrata. No entanto, as elites formadas por sindicalistas e por militantes dos direitos civis encontram sempre um pretexto para o velho vício, qual seja, a opção pelo mal menor. A história mostra, por exemplo, que a maioria democrata no Senado 1) vendeu a Bill of Rights (a Constituição dos Estados Unidos aprovada em 1787); 2) endossou cortes marciais e campos de concentração; 3) acatou a não assinatura do Protocolo de Kyoto e do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos; 4) apoiou a militarização da fronteira mexicana e deu carta branca ao presidente George W. Bush para intervir na guerra suja da Colômbia; 5) aprovou, por meio do Comitê de Inteligência do Senado, a opção do uso de armas nucleares de ‘pequeno alcance’ contra o dito Eixo do Mal. Por fim, o democrata Joe Lieberman, ex-candidato à vice-presidência de Al Gore, defendeu com mais ênfase que os próprios republicanos o direito de invadir o Iraque, e Carl McCall promoveu sua campanha para governador de Nova York exibindo fotos em que aparecia disparando um fuzil M-16 em um campo de treinamento ‘antiterrorismo’ israelense.

Uma política externa intervencionista compromete a própria democracia interna dos Estados Unidos. John Hobson, em seu Estúdio del imperialismo, criticava, no início do século XX, a voracidade da classe dominante inglesa em suas colônias espalhadas pelo mundo, ao tempo em que mostrava que essa mesma elite, no afã de acumular sem limite, destruía a democracia interna londrina. O ‘Ato Patriota’, aprovado em 26 de outubro de 2001, 45 dias após os ataques do 11 de setembro, nada mais é que um conjunto de leis destinadas a aumentar a regulação, o controle e a fiscalização das atividades cotidianas dos cidadãos estadunidenses, exacerbando o poder de policiamento do governo. James Petras o denominou de "fascismo amistoso". Noam Chomsky vai mais longe, chegando a dizer que "não devemos nos esquecer que os próprios Estados Unidos são um Estado líder do terrorismo".

Mike Davis, ao analisar a destruição de New Orleans pelo furacão Katrina, mostra que todos os aspectos da catástrofe foram moldados por desigualdades de classe e raça. Pesquisadores de várias universidades do sul dos Estados Unidos vinham chamando a atenção das autoridades para a possibilidade do rompimento dos diques por falta de manutenção. No entanto, nada se fez para sanar o problema, já que a cidade era povoada por 75% de afro-americanos e tinha altos índices de pobres, criminosos e desempregados. Foi a negligência federal, e não a fúria da natureza, a maior responsável pelo assassinato de New Orleans.

Utilizando-se do desastre natural, políticos inescrupulosos, especuladores imobiliários gananciosos e brancos racistas apostaram em uma higienização da metrópole do jazz. Um deles, Finis Shellnut, afirmou que "o furacão obrigou os pobres e os criminosos a saírem da cidade, e esperamos que eles não voltem. A festa dessa gente está quase no fim e agora eles terão de encontrar outro lugar para morar" (p.237). Outro, Joseph Canizaro, com laços pessoais que o ligam ao círculo interno da Casa Branca, disse que "essas pessoas pobres não têm condições de voltar para nossa cidade, assim como não tiveram condições de deixá-la. Então, não traremos todas de volta" (p.236).

O governo Bush também aproveitou o pretexto do Katrina para atacar os sindicatos independentes, sobretudo aqueles que defendiam os direitos dos trabalhadores e pressionavam pela contratação de moradores para recuperar New Orleans. Com isso, favoreceu as grandes corporações, como o Wal-Mart, que, combinando a tecnologia just in time com as características mais selvagens do capitalismo, tornou-se a empresa-símbolo da exploração. "Conhecida por pagar salários miseráveis e fraudar as horas extras de seu 1 milhão de empregados nos Estados Unidos", comenta Davis,

o Wal-Mart age de forma ainda mais sinistra no estrangeiro, pressionando incessantemente seus milhares de fornecedores em Bangladesh, na China e na América Central para que reduzam os custos do trabalho e suprimam direitos trabalhistas. O Wal-Mart é, sem dúvida, o maior empregador indireto de mão de obra semiescrava ou infantil do planeta. A ‘walmartização’ tornou-se, portanto, sinônimo de ‘corrida ao fundo do poço’, completa abolição dos direitos do trabalhador e da cidadania. (p.158)

O historiador Mike Davis critica os livros didáticos das escolas estadunidenses por sua ocultação da história. A "Operação Bagration", de junho de 1944, por exemplo, que leva esse nome em homenagem a um herói russo de 1812, foi um ataque soviético decisivo contra a retaguarda da poderosa Wehrmacht de Hitler. Para Davis, foi a batalha decisiva pela libertação da Europa do nazifascismo. No entanto, não se encontra uma palavra sobre essa operação nos livros básicos de história nos Estados Unidos. E isso tudo, apesar de essa ofensiva de verão soviética – chamada pelo historiador Jon Erickson de "o grande terremoto militar" – ter sido muito mais grandiosa que o desembarque na Normandia, tanto em escala de forças envolvidas quanto em custo direto infligido aos alemães. "Na luta contra o nazismo, cerca de quarenta Ivans morreram para cada soldado Ryan". "De fato", diz Davis que

a maioria dos norte-americanos é espantosamente ignorante a respeito dos ônus dos combates e das baixas da Segunda Guerra Mundial. E mesmo a minoria que compreende algo da grandiosidade do sacrifício soviético tende a julgá-lo nos termos dos estereótipos crus do Exército Vermelho: uma horda bárbara conduzida por um sentimento cruel de vingança, um frenesi por estupros e um nacionalismo russo primitivo. (p.282)

O Pentágono, diz Davis, deveria estudar a história das colônias conquistadas e perdidas, dos impérios erguidos e derrubados, evitando, assim, a atual carnificina iraquiana. Bastava ler as cartas de Gertrude Bell e os diários de Winston Churchill, os homens que transformaram três prósperas e etnicamente distintas províncias do Império Otomano em um infeliz território britânico. Churchill, então secretário de Estado de Guerra e da Aeronáutica (1920), utilizou a estratégia dos bombardeios com armas químicas, como as bombas de gás mostarda, para economizar dinheiro e soldados na dominação do Iraque. Graças ao gás venenoso e aos tanques, os britânicos recuperaram o controle da região, em setembro de 1920, sem deixar de lado as expedições punitivas pelos territórios rebeldes, queimando vilarejos, executando suspeitos, confiscando mantimentos e aplicando multas. Mais tarde, a força aérea britânica bombardeou regiões do Iraque, como o baixo Eufrates, já não para reprimir tumultos e sim para pressionar os vilarejos a pagar seus impostos. Em fins de 1921, Churchill observou com satisfação que seus aeroplanos haviam passado a ser temidos e continuou a defender o uso do gás venenoso no Iraque e em toda a região. Questionado por um coronel, subordinado seu, sobre os horrores causados pelos efeitos dos bombardeios, Churchill o repreendeu severamente dizendo que "não entendo essa aversão ao uso de gás. Sou totalmente a favor do uso de gás venenoso contra tribos incivilizadas" (p.114). Certamente, foi esse o mestre maior de Saddam Hussein. Apesar de tais métodos genocidas, a Grã-Bretanha saiu derrotada da região.

Algumas ausências sentidas no trabalho foram as de Noam Chomsky, James Petras, Michael Klare e Immanuel Wallerstein, que trabalham igualmente as relações dos Estados Unidos no mundo.

Apologia dos bárbaros mostra como a revolução revoluciona a contrarrevolução. Por isso, o livro é importante para entender a política interna e externa dos Estados Unidos. Enfim, um livro que ajuda a entender os meandros do império.

Fonte: Revista Brasileira de História – http://www.scielo.br/

O mistério do coronel Fawcett

Luiz Zanin

O que aconteceu ao coronel Fawcett? Essa pergunta vem sendo feita desde 1925, quando o oficial britânico Percy Harrison Fawcett desapareceu na selva brasileira, em companhia do filho, Jack Fawcett, e de um amigo deste, Raleigh Rimmel. A pequena equipe, comandada pelo coronel, embrenhou-se na selva em busca de uma mítica “cidade perdida”, que jamais chegou a ser encontrada. Desde então, as expedições de resgate de Fawcett, e depois de busca de seus restos mortais, se sucederam. A primeira foi organizada em 1928 pelo comandante George M. Dyott. Não deu em nada.

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O caso Fawcett repercutiu também no campo literário e deu origem a uma bibliografia de tamanho nada desprezível. Entre as obras disponíveis no Brasil encontram-se A Verdadeira História de Indiana Jones, de Hermes Leal (Geração Editorial, 1996), e Z – a Cidade Perdida, de David Grann (Cia. das Letras, 2009), que será adaptada para o cinema, com Brad Pitt no papel do expedicionário inglês. A elas se junta agora uma pérola dessa estante consagrada a Fawcett – Esqueleto na Lagoa Verde, relato de Antonio Callado sobre sua viagem de 1952 ao Xingu, local onde o inglês teria desaparecido.

Reeditado agora pela Companhia das Letras em sua coleção Jornalismo Literário, o livro foi publicado pela primeira vez em 1953. Mantém interesse até hoje por alguns motivos, alguns óbvios, outros nem tanto. Em primeiro lugar, porque, apesar de as pesquisas sobre Fawcett terem continuado ao longo das quase seis décadas decorridas depois da publicação original, Esqueleto na Lagoa Verde ainda é capaz de expor ao leitor contemporâneo um panorama bastante completo do caso. Isso graças ao estilo objetivo e sintético de Callado, então jornalista do matutino carioca Correio da Manhã. Profissional dedicado, Callado fez direitinho a sua lição de casa para escrever o relato. Esteve in loco, como manda o figurino, e lá conversou com as pessoas envolvidas no caso. Nem por isso deixou de pesquisar e ler tudo o que havia disponível, antes e depois da viagem, com o objetivo de emprestar consistência à narrativa.

Além disso, entre a vasta produção dedicada a Fawcett, Esqueleto na Lagoa Verde destaca-se pela qualidade literária. Callado, já na época autor de ficção (havia escrito a peça O Fígado de Prometeu, em 1951), apurava seu estilo na reportagem, nessa coabitação às vezes tão problemática entre o jornalismo e a literatura (Hemingway dizia que o jornalismo era uma excelente profissão para um jovem escritor, desde que fosse abandonado a tempo).

Como resultado dessa sua experiência no Xingu, Callado tira uma excelente reportagem, na verdade uma das melhores já escritas sobre esse tipo de assunto. Revela-se jornalista de mão cheia. Mas constrói o relato do ponto de vista do escritor. Assim, como assinala o crítico Davi Arrigucci Jr. em um dos posfácios ao livro (o outro é do jornalista Maurício Stycer), Esqueleto na Lagoa Verde é, também, “uma espécie de desconstrução da reportagem tradicional”. De fato, em seu relato, Callado parece menos um detetive investigando em busca da verdade e mais um pesquisador cético, que avança em suas descobertas, mas a cada passo duvida de si mesmo, dos relatos e dos fatos que lhe são oferecidos pelas testemunhas.

Ambiente. Por fim, O Esqueleto da Lagoa Verde mostra o futuro grande romancista Antonio Callado em contato com o ambiente que lhe forneceria material para aquele que, para muitos, é sua maior obra (ou pelo menos a mais conhecida), o romance Quarup, publicado em 1967. No livro, uma reflexão sobre o Brasil da ditadura e da luta armada, reencontra-se a magia do Xingu e também personagens reais que Callado conhecera em sua expedição em busca dos restos de Fawcett. É o caso de Anta, exemplo, para ele, da maneira “estranha” como os índios exprimem suas ideias aos ouvidos “civilizados”. No romance, Anta seduz uma das personagens femininas, Sônia, que com ele foge, para pasmo dos companheiros brancos. Em mais de um aspecto, portanto, a viagem de Callado ao Xingu lhe forneceu elementos não apenas para a estrutura do romance, mas para sua visão de mundo. Lembre-se que, em Quarup, o centro mítico do Brasil, numa passagem de alto simbolismo, é o gigantesco formigueiro situado exatamente no meio do Xingu.

Enfim, a história de Fawcett tinha tudo para interessar ao ficcionista iniciante e jornalista experiente que era Antonio Callado naquele início dos anos 1950. Nascido em Devon em 1867, Fawcett era um aventureiro conhecido pelo destemor e pela resistência física. Operou no Ceilão, como agente do serviço secreto britânico, e foi lá que aprendeu as técnicas de sobrevivência na selva que lhe valeriam em suas andanças brasileiras. Foi amigo de Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes e era um típico expedicionário do Império Britânico, aquele sobre o qual o sol nunca se punha. Fawcett esteve no Brasil pela primeira vez em 1906, numa viagem da Royal Geographical Society organizada com a finalidade de mapear a Amazônia. Depois desta, realizou mais sete expedições pelo Brasil, até desaparecer, em 1925. O que o movia era a obsessão em encontrar a tal cidade perdida, que ele chamava de Z, e segundo os relatos, poderia se encontrar tanto em Mato Grosso como na Bahia.

Nas décadas seguintes ao desaparecimento foram formadas várias expedições de resgate, sem qualquer sucesso. A verdade sobre o fim de Fawcett, Jack e Rimmel perdia-se no cipoal de versões contadas pelos índios. Fawcett tornara-se lenda, objeto de relatos míticos que se complementavam ou se contradiziam entre si. Havia quem sustentasse, muito anos depois de sumir sem deixar traço, que Fawcett estaria ainda vivo, morando com os indígenas depois de ter se desiludido com a civilização ocidental da qual provinha. Outras, que teria sido assassinado por índios depois de algum desentendimento. Em versões diferentes, teria sido devorado por canibais.

Em 1952, Assis Chateaubriand, capo dos Diários Associados, resolveu promover a sua própria expedição. Na verdade, Chatô já acompanhava o caso Fawcett com interesse desde a desaparição do aventureiro. Em 1943, uma missionária relatou ter encontrado um índio de pele clara e olhos azuis que seria filho de Jack Fawcett com uma índia. Chatô destacou seu repórter Edmar Morel, que foi ao Xingu e lá encontrou o índio Dulipé, apresentado aos leitores do Diário da Noite como “o deus branco do Xingu”. Dulipé foi levado à civilização, onde se comprovou não passar de um pobre índio albino. Morreu anos depois em Cuiabá, consumido pelo álcool.

O motivo da expedição de 1952 foi a notícia de que o sertanista Orlando Villas Boas tinha obtido dos índios calapalos a confissão de que haviam de fato assassinado Fawcett e seus companheiros em 1925. Admitiam o crime, depois de se certificarem que “os brancos não estavam mais brabos” com o sumiço de Fawcett. Indicaram também o local onde o corpo fora enterrado e lá uma ossada foi encontrada em cova rasa. Brian, o outro filho de Fawcett, veio da Inglaterra para acompanhar o desenvolver dos fatos. Chatô farejou uma grande história e destacou um time de repórteres da revista O Cruzeiro para a cobertura. Callado, que trabalhava no jornal Correio da Manhã, foi convidado para a missão. Levar um repórter do concorrente a tiracolo em uma cobertura sensacional – eis aí um fato inédito na história da imprensa brasileira, talvez mundial, e que só poderia passar pela cabeça heterodoxa de Chatô.

A história terminou em fiasco. Submetidos a exames antropométricos, os ossos não puderam ser identificados como sendo de Fawcett. A arcada dentária não corresponde e a altura não bate com os registros físicos que se tinham do expedicionário. Mesmo assim, Villas Boas manteve, até o fim da vida, a convicção de que aqueles ossos pertenciam ao aventureiro inglês. O sertanista conservou o esqueleto em sua casa, debaixo da cama, por 18 anos, até que, pressionado por sua mulher, enviou-o ao Instituto Médico Legal da USP, onde espera por um teste de DNA que os remanescentes da família Fawcett se recusam a realizar. Permanece o mistério. E, portanto, continua o estímulo para boas histórias em torno do caso. Tudo é mito.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

As narrativas da globalização

Novas geografias sociais estão abrindo espaços inéditos de contestação pelos quais navegam as flotilhas da liberdade

Laura Greenhalgh

Muitas análises contornam o fenômeno da globalização. Especialistas enveredam pelo mundo tecnológico, outros preferem a expansão do capitalismo, outros, a aceleração dos fluxos financeiros, outros optam por focalizar as desigualdades. A americana Saskia Sassen, professora de sociologia da Columbia University e da London School of Economics, está em todas essas frentes e ainda consegue ter uma abordagem original. Investiga a globalização a partir das novas geografias ? social, urbana, humana. Nesta terça-feira às 17h30, Saskia fará uma única palestra na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, em São Paulo, absolutamente dentro do seu campo de estudos. Será um momento raro para a comunidade acadêmica e para o público interessado em ouvi-la falar, uma vez mais, sobre as tensões e contradições das global cities, termo que inaugurou há muitos anos, e ainda sobre os dilemas da sociedade civil, tão desnorteada, mas tão cheia de possibilidades.

Saskia conversou sobre esses temas com o caderno Aliás, por e-mail, na semana passada. Foi um feito. Estava em Londres, de repente viajou para a China, regressou aos Estados Unidos via Chicago e logo viria para o Brasil. Entre um embarque e outro, a professora expôs sua visão sobre vários desafios contemporâneos, ao mesmo tempo que opinou sobre a crise deflagrada com o ataque a uma flotilha humanitária que se dirigia para Gaza, até ser interceptada por forças militares israelenses. Acha que os ativistas atingiram seu objetivo ? chamar a atenção mundial para uma causa. O que não significa que a situação vá mudar. Casada com o historiador americano Richard Sennett, também professor da London School e autor do já clássico O Declínio do Homem Público (Companhia das Letras, 1988), Saskia Sassen lançou (fora do Brasil) inúmeros títulos, como Metropolis e Formações Digitais, e ainda Sociologia da Globalização, agora traduzido para o português e publicado pela editora gaúcha Artmed. A seguir, trechos de uma conversa feita em várias partes.

Espaços de contestação

"Tenho me dedicado ao tema da sociedade civil, suas dinâmicas e formas de expressão, considerando ser esse um dos capítulos mais fascinantes dos estudos sobre globalização. Eu me interesso particularmente pelas novas geografias sociais que configuram nosso tempo, dentro das quais nos deparamos com inéditos espaços de contestação. A Flotilha da Liberdade é algo assim. Mesmo semeando tensões, logrou chamar a atenção mundial para uma determinada causa, o repúdio ao bloqueio de Israel a Gaza, reanimando o debate internacional. Como espaço de contestação que é, esse movimento consegue ser efetivo, utilizando relativamente parcos recursos. É um pouco como age o Greenpeace em suas operações. Mas resolve? Não. Porque do debate para a implementação de mudanças vai um tempo longo. Implementar significa lidar com processos bem mais complexos.

Ações difusas e confusas

"Organizações da sociedade civil, nem todas, mas muitas, querem atuar no plano global, sem utilizar sua capacidade para tanto. Porque não sabem lidar com um mundo também feito de globalizações laterais, umas conectadas às outras. Portanto, existe um potencial não realizado nessas organizações, e em seus projetos, justamente quando tantas frentes de batalha se abrem por aí. Essa sensação de estar conectado e, ao mesmo tempo, se sentir perdido no mundo de hoje é um dos dilemas da globalização. E não afeta apenas essas organizações. Tomemos como exemplo o mundo financeiro: temos tantos especialistas preparados e cientes das transformações globais e ainda assim uma leve quebradeira bancária os pegou de surpresa, recentemente. Lacuna curiosa, não? Nós nos sentimos perdidos, a bordo de altíssimos níveis de conhecimento. Tanto se pergunta sobre como lidar com o mal-estar da globalização. Ele é parte do processo. Diz respeito a um mundo em que o cidadão se torna cada vez mais espectador passivo e, muitas vezes, uma vítima ou mero consumidor de artigos prontos ? desde a comida até as opções bancárias. Em meus textos mais políticos, digo que nos tornamos consumidores de cidadania e de democracia, em vez de criadores de cidadania e de democracia, como já fomos antes.

Não é só Gaza…

"Um segundo tema, parte do meu novo projeto de pesquisa, diz respeito ao número cada vez maior das "lógicas da expulsão" operando na fase atual e emergente do capitalismo avançado. Essa fase é marcada pelo aumento no número de pessoas que foram "expulsas" de alguma forma, de algum lugar, de alguma situação, em número que supera de longe as recém-incorporadas classes médias de países como Índia e China. Emprego o termo "expulsão" para me referir a uma gama de situações: o número cada vez maior de pobres no mundo; os desabrigados que lotam campos de refugiados formais e informais; as minorias populacionais armazenadas em prisões; trabalhadores cujos corpos são destruídos ou inutilizados em idade muito precoce; populações excedentes, porém capazes, confinadas em guetos e favelas; e por aí vai. São muitas as "lógicas da expulsão", incluindo a transferência de áreas que antes faziam parte do chamado "território nacional soberano", para a finalidade básica de venda no mercado global. Desde 2006, cerca de 30 milhões de hectares de terra foram comprados e licenciados por governos e investidores para o cultivo de alimentos direcionados aos países ricos e para garantir o controle de recursos naturais, tais como fontes de água, jazidas de minérios, etc. Enquanto isso, a cota mundial de desabrigados aumentou em 17 milhões, atingindo um total de 27 milhões.

Os jovens e o futuro

"Eis uma boa questão. De acordo com a explicação de meu marido, Richard Sennett, antigas narrativas de vida e trabalho já não funcionam para um número cada vez maior de pessoas. Eis o espaço subjetivo no qual residem os jovens de hoje. Antigas narrativas já não lhes cabem. Estou certa de que, para muitos, é algo animador. Até porque muitos não desejam aquela estabilidade de vida que seus pais perseguiram. Mas, para a imensa maioria dos jovens nascidos em famílias pobres e vulneráveis, essa falta de narrativas pertinentes constitui uma zona de perigo.

Miopia dos governantes

"Nossos líderes estão "presos" no espaço nacional. Só pensam e agem nos limites do espaço nacional, enquanto lei, jurisdição, autoridade e base de operações. E disso não escapam nem os Estados Unidos, cujo poder é projetado globalmente. De repente, lá se vai mais um pelotão de fuzileiros para o front, mas, no fundo, no fundo, isso tem a ver em como reagir a insatisfações internas com o presidente. Insisto em dizer que os nossos governantes não sabem como lidar com cross-border processes, ou seja, processos da globalização que cruzam fronteiras e assim se configuram. Nossos governantes querem que o capital cruze fronteiras. Que setores de mão de obra também o façam. Mas não querem os terroristas, os traficantes, os imigrantes pobres, porém não sabem lidar com fluxos indesejados, precisam aprender. Não há outro jeito. Até mesmo os governos mais poderosos terão que começar a trabalhar com governos sem tanto poder. E não só para caçar terrorista. Governos nacionais, é verdade, tornaram-se bem mais internacionais desde os anos 80, ao longo do desenvolvimento de uma economia global corporativa e do mercado de capitais. É pena que não estejam aprendendo a ser mais internacionalistas também em relação ao meio ambiente, à fome global, à injustiça global… Em meu livro Território, Autoridade, Direitos, sem tradução para o português, afirmo que essa nova capacidade para o internacionalismo poderia ser empregada em projetos bem mais interessantes, desde que haja renovação nas classes governantes.

Cosmopolitismo dispensável

"Existem múltiplas globalizações. A econômica, a corporativa, a financeira, a tecnológica. Nota-se nisso tudo certa tendência de desumanização da nossa vida e da nossa subjetividade. Mas outras globalizações também estão em curso, como a da sociedade civil, da defesa dos direitos humanos, das lutas pela preservação do meio ambiente, e essas nos humanizam de maneira profunda. Temos aí os sinais da emergência de um humanismo desnacionalizado, para o qual não é necessário sequer tornar-se um indivíduo cosmopolita. Basta ser humano e acreditar em certas causas. Digo que nem é preciso ser cosmopolita no sentido de que é possível estar envolvido, de forma local, com a denúncia ao torturador da prisão mais próxima ou com a fábrica que polui a água de seu bairro, e ao mesmo tempo totalmente consciente de que ao redor do mundo há outros como você.

Cidades globais

"São espaços complexos, carregados de contradições. Temos pelo menos 70 delas no planeta, cidades em que o poder corporativo se consolidou de forma espantosa, criando geografias da centralidade que hoje conectam lugares e pessoas, cruzando a histórica divisão entre Norte e Sul. Explico: as elites corporativas de São Paulo estão completamente integradas à geografia global do poder que inclui Nova York, Londres, Dubai. E há Pequim, Xangai, cidades que estão mudando a geografia do poder. Ao mesmo tempo, outras minorias, os vulneráveis, os desabrigados, os discriminados, enfim, os deslocados vão justamente encontrar espaço para seus projetos de vida, resistência e exigências aonde? Nas global cities. Devemos estudá-las. Precisamos entender como aqueles que são expulsos do interior, ou de suas pequenas cidades, encontram exatamente na cidade global o único lugar que ainda lhes resta para viver. Ainda que dormindo nas ruas.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br