Paulo Roberto Andrade
Após a Segunda Guerra Mundial, a exibição de filmes japoneses desempenhou um papel-chave para a caracterização do bairro paulistano da Liberdade como “bairro japonês”, e para a reagregação dos imigrantes japoneses e seus descendentes, após a dispersão vivida durante a guerra. O antropólogo Alexandre Kishimoto analisou o cinema japonês a partir da memória de antigos frequentadores das salas de cinema da Liberdade, que funcionaram entre as décadas de 1950 e 1980. A pesquisa foi o tema de seu mestrado, defendido em março de 2010, que analisou também a relação de cinéfilos, cineastas e críticos de cinema não-nikkeis (não descendentes de japoneses) com a grande diversidade de filmes japoneses exibidos em São Paulo.
No Brasil, as pesquisas de cinema normalmente se concentram no estudo da produção cinematográfica ou na análise de filmes. Há pouca tradição de estudos que levam em conta os espectadores. “Minha pesquisa analisa os significados locais atribuídos pelos espectadores paulistanos aos filmes japoneses, às salas de cinema e à experiência de frequentá-las. Um dos objetivos era verificar se havia um olhar específico dos espectadores de São Paulo para o cinema japonês, diferente do olhar de espectadores de outros locais”, explica Kishimoto.
Cine Niterói, inaugurado em 1953, tinha capacidade para 1.500 espectadores
O antropólogo entrevistou 15 antigos frequentadores desses cinemas (todos com mais de 60 anos), sendo a maior parte deles pertencentes aos públicosnikkei (descendente de japoneses) e não-nikkei. Todos os entrevistados têm hoje mais de 60 anos, e as experiências narradas e interpretadas referem-se basicamente ao período do pós-guerra, isto é, aos anos 1950 e 1960. Os entrevistados falaram de suas lembranças sobre os filmes japoneses marcantes e de outras práticas relacionadas, como a paquera nas filas ou os shows que ocorriam nesses cinemas. Além dos depoimentos dos espectadores, outra fonte de pesquisa foram os artigos publicados na época por críticos paulistanos de cinema, que foram comparados com os comentários de alguns historiadores internacionais de cinema japonês.
No caso do público japonês e nikkei, Kishimoto associou as experiências vividas nas salas de cinema com a história de vida dos entrevistados e com as trajetórias de suas famílias. “Apesar de serem entrevistas individuais, eu procurava saber quais eram os grupos com os quais a pessoa se relacionava e com quem frequentava os cinemas da Liberdade”, explica o pesquisador.
Derrotistas e vitoristasDurante a guerra, os imigrantes japoneses e seus filhos foram tratados pelo estado brasileiro como súditos do Eixo. Todos os meios de comunicação foram proibidos: os jornais nipo-brasileiros, os livros e filmes japoneses e os aparelhos de rádio que recebiam transmissões do Japão. Na época da guerra era também proibido aos imigrantes e seus descendentes falar o idioma japonês em público ou ainda reunirem-se, mesmo em casamentos e festividades.
Ao final da guerra, como a única fonte de informação eram jornais brasileiros, houve uma divisão dos japoneses e nikkeis entre os “derrotistas”, que acreditaram na notícia da derrota do Japão, e os “vitoristas”, que se recusavam a acreditar, interpretando a notícia como propaganda dos aliados. Essa divisão entre os japoneses e nikkeis perdurou de 1945 até 1953, mesmo ano em que foi inaugurada a primeira sala de cinema na Liberdade.
Neste contexto, a retomada do fluxo de filmes japoneses ao estado de São Paulo constituiu uma fonte segura e confiável de informações sobre o Japão, pois se tratavam de filmes escritos, dirigidos e protagonizados por japoneses, muitos destes abordando assuntos relacionados à guerra e trazendo informações sobre o que teria se passado realmente no Japão. Dessa forma, junto com outros fatores, o cinema japonês atuou para a reconciliação entre esses dois grupos. “Alguns espectadores me disseram que eram sessões catárticas, isto é, em que se chorava coletivamente e que provocavam reflexões sobre a situação do Japão na guerra”, explica Kishimoto.
As exibições de filmes japoneses atraiam diferentes públicos aos cinemas
Diferentes espectadores
No ocidente, o cinema japonês passa a se tornar conhecido quando o filme Rashōmon, do diretor Akira Kurosawa, ganhou alguns prêmios em festivais internacionais. A partir daí as grandes metrópoles ocidentais passam a receber os filmes japoneses premiados, geralmente os filmes de época ou de samurai.
A grande diversidade de filmes oferecida pelos cinemas da Liberdade fez com que os diferentes grupos de apreciadores não-nikkeis, que tinham diferentes preferências estéticas, ideológicas, etárias, apreciassem diferentes tipos de filmes japoneses. “Enquanto alguns grupos de frequentadores daquelas salas identificavam-se com o engajamento de esquerda de alguns filmes, outros apreciavam o intimismo dos dramas contemporâneos, e ainda outros apreciavam o questionamento dos valores tradicionais, presente nos filmes da chamada nouvelle vague japonesa”, exemplifica o pesquisador.
Além do papel desempenhado na formação de seus espectadores, o estudo de Kishimoto chama a atenção para a importância das sessões de cinema japonês para a retomada do bairro da Liberdade no pós-guerra, bem como para a formação do circuito de cineclubes e cinemas de arte da cidade de São Paulo.
Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/



