Monthly Archives: junho 2010

Violência de Israel faz parte do dia-a-dia do povo palestino

Todas as sextas-feiras, cidades palestinas da Cisjordânia realizam manifestações em frente ao muro construído por Israel

Dafne Melo

Para os muçulmanos, a sexta-feira é um dia sagrado, assim como o domingo para os cristãos e o sábado para os judeus. Ao meio-dia, pelos alto-falantes colocados na torre de cada mesquita, começa a ecoar uma oração. É o chamado para que a comunidade vá até a mesquita, não só para rezar, mas também para onde será feito o khutbah, uma espécie de sermão onde são discutidas inclusive questões sociais e políticas ligadas à comunidade.

Desde o início da construção do muro pelo Estado de Israel (ver box), o ritual religioso é seguido por uma manifestação política em diversas cidades da Cisjordânia por onde passa o muro. Esse é o caso de Ni’lin, próxima à cidade de Ramallah, bem como de diversas outras na Cisjordânia. Hoje há manifestações, tradicionalmente, em todas as cidades por onde passa o muro e também em cidades onde há ocupação sionista, como Hebron.

No dia 4 de junho, além das bandeiras palestinas, bandeiras turcas decoraram a marcha, em apoio ao governo da Turquia e aos ocupantes da flotilha atacada por Israel no dia 31 de maio, quando nove ativistas foram assassinados e dezenas de pessoas ficaram feridas, em mais uma ação militar do Estado de Israel.

Ritual

Pouco tempo depois do chamado, dezenas de pessoas começam a se concentrar, não na mesquita, mas em um terreno a mais ou menos 1,5 quilômetro do muro. Ainda na cidade, no caminho até o terreno, Fuad Khauadja, da União de Comitês Agrícolas, que acompanha a reportagem do Brasil de Fato, para em uma venda onde um jovem com cerca de 16 anos se levanta da cadeira para cumprimentá-lo com dificuldade. Com a muleta nas mãos, trocam algumas palavras. “Ele levou um tiro em uma das manifestações de sexta-feira, na região do abdômen e na perna, e por isso tem dificuldade para andar”, conta.

Já no terreno, grupos de pessoas vão se sentando abaixo das oliveiras, para se proteger do sol, aguardando o chamado para rezar. Depois, se dispõem em três fileiras grandes em frente ao líder religioso e por pouco mais de dez minutos oram e, em seguida, caminham em marcha até um terreno inclinado, cheio de pedras, oliveiras e restos de bombas de gás lacrimogêneo usadas em outras sextas-feiras.

Adultos com crianças seguem até certa parte da caminhada. Na medida em que o grupo se aproxima do muro, soldados israelenses começam a atirar as bombas de gás lacrimogêneo com morteiros por detrás do muro. Uma parte do grupo se retira e alguns, na maioria os mais jovens, com fundas nas mãos, começam a atirar pedras para o outro lado do muro. Hoje, o vento forte está a favor dos palestinos. O gás se dispersa rápido e leva o gás em direção aos soldados.

Força desigual

Um dos símbolos do judaísmo é a estrela de David, personagem bíblico que derrotou Golias com uma funda e uma pedra. Agora, quem empunha a pedra contra o gigante são os palestinos. “A passeata é pacífica, mas para eles não existe ‘pacífico’. É sempre assim, quando chegamos perto do muro já começam a atirar gás. A maioria recua, alguns jovens ficam para atirar pedras”, explica Taicir Karaja, brasileiro filho de palestinos que vive há dez anos na cidade vizinha de Saffa.

Algumas vezes, os soldados saem detrás do muro, fortemente armados, e disparam contra os manifestantes. Fuad Khauadja conta que, desde o início da construção do muro, 80 pessoas de Ni’lin foram presas e cinco pessoas foram assassinadas. Um deles, um menino de 10 anos, Ahmed, que brincava com outras crianças após a manifestação. Segundo testemunhas, um soldado israelense foi até o lugar e disparou contra o menino com uma metralhadora à queima-roupa, na cabeça. Nada foi feito, nenhuma punição foi realizada. “Israel é um Estado que não obedece a nenhuma lei, faz o que quer, nunca é punido, não importa o que faça”, diz, com revolta, Taicir.

Khauadja afirma que as manifestações já deixaram um saldo de 150 feridos, sendo que 25 deles têm seqüelas, tal como o jovem que encontramos no caminho da manifestação. “Eles procuram atirar em regiões do corpo onde há ossos, para deixar seqüelas”, denuncia Khauadja.

O Crescente Vermelho Palestino, ligado à Cruz Vermelha, mantém ambulância e profissionais equipados com macas e máscaras para proteger do gás ao lado da manifestação. Hoje, felizmente, nenhum ferido.

O muro do apartheid israelense

A construção do muro iniciou-se em 2002, ainda sob o governo de Ariel Sharon. O objetivo foi separar a Cisjordânia do restante do território. A construção, entretanto, não respeita as fronteiras da Cisjordânia, conhecida como Linha Verde, definida no armistício de 1967. A obra também descumpre o Acordo de Oslo, de 1993. Apenas cerca de 20% do muro coincide com a Linha Verde; os 80% restantes situam-se em território de Daffa – ou Cisjordânia. A obra é vista como um símbolo do apartheid a que Israel submete os palestinos, além de mostrar o total descumprimento e descaso do Estado sionista em relação às resoluções internacionais. Embora diversas organizações internacionais tenham condenado o muro, Israel não sofreu nenhuma punição. (Leia mais na edição 380 do Brasil de Fato).

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Robert FisK: O jornalismo e as palavras do poder

Não existe mais batalha entre o poder e a mídia. Através da linguagem, nós nos tornamos eles. O uso da linguagem do poder — de suas palavras e frases — é comum entre nós. Quantas vezes ouvi de repórteres ocidentais sobre ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão? Eles estão se referindo, naturalmente, a vários grupos árabes que supostamente ajudam o talibã. Ouvimos a mesma história no Iraque. Sauditas, jordanianos, palestinos, combatentes chechenos, naturalmente. Mas nunca ouvi uma estação de TV ocidental se referir ao fato de que existem pelo menos 150 mil ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão. E que a maioria deles, veste uniformes dos EUA e da Otan! A análise é de Robert Fisk.

Robert Fisk

O correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio, Robert Fisk, fez o seguinte discurso no quinto fórum anual da emissora árabe Al Jazeera, em 23 de maio (traduzido e publicado em português pelo Site Vi O Mundo):

Poder e mídia não são apenas relações amigáveis entre jornalistas e líderes políticos, entre editores e presidentes. Não são apenas sobre as relações parasitárias e de osmose entre repórteres supostamente honrados e o eixo do poder que existe entre a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono, a Downing Street e os ministérios das Relações Exteriores e da Defesa [britânicos]. No contexto Ocidental, a relação entre poder e mídia diz respeito a palavras — é sobre o uso de palavras. É sobre semântica. É sobre o emprego de frases e suas origens. E é sobre o mau uso da História e sobre nossa ignorância da História. Mais e mais, hoje em dia, nós jornalistas nos tornamos prisioneiros da linguagem do poder.

Isso acontece porque não nos preocupamos com a linguística? É porque os laptops ‘corrigem’ nossa ortografia, ‘limpam’ nossa gramática de forma a que nossas sentenças frequentemente se tornem idênticas às de nossos líderes? É por isso que os editoriais de jornais hoje em dia soam como se fossem discursos políticos?

Deixem-me demonstrar o que quero dizer.

Por duas décadas as lideranças dos Estados Unidos e do Reino Unido — e dos israelenses e palestinos — tem usado as palavras “processo de paz” para definir o acordo sem futuro, inadequado e desonroso que permite aos Estados Unidos e a Israel fazerem o que bem entenderem com os pedaços de terra que deveriam ser dados a um povo sob ocupação.

Eu primeiro me perguntei sobre esta expressão e sobre a origem dela na época de Oslo [Nota do Viomundo: A capital da Noruega foi sede das negociações que resultaram num tratado entre israelenses e palestinos celebrado na Casa Branca com as presenças do presidente Bill Clinton, do líder palestino Yasser Arafat e do primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, tratado que na prática fracassou] — embora a gente se esqueça facilmente que as rendições secretas de Oslo tenham sido, em si, uma conspiração sem qualquer base legal. Pobre e velha Oslo, sempre pensei! O que Oslo fez para merecer isso? Foi o acordo da Casa Branca que selou o tratado dúbio e absurdo — pelo qual os refugiados, as fronteiras, as colônias israelenses e mesmo o plano de metas foram adiados até que não pudessem mais ser negociados.

E como nos esquecemos facilmente do gramado da Casa Branca — embora, sim, lembremos das imagens — no qual Clinton citou o Corão e Arafat escolheu dizer: “Obrigado, obrigado, obrigado sr. presidente”. E como chamamos esse embuste depois? Sim, foi um ‘momento histórico’! Foi? Foi mesmo?

Vocês se lembram como Arafat se referia a ele? “A paz dos bravos”. Mas não me lembro que algum de nós tenha apontado que a frase “paz dos bravos” foi usada originalmente pelo general De Gaulle no fim da guerra [de independência] da Argélia. Os franceses perderam a guerra na Argélia. Nós não nos demos conta desta ironia extraordinária.

Vemos isso de novo, hoje. Nós, jornalistas ocidentais — usados outra vez mais pelos nossos líderes — temos noticiado como os felizes generais do Afeganistão tem dito que a guerra lá só pode ser vencida como parte de uma campanha “pelos corações e mentes” [dos afegãos]. Ninguém fez aos generais a pergunta óbvia: esta mesma frase não foi usada em relação aos civis vietnamitas na guerra do Vietnã? E nós não — nós, o Ocidente – não perdemos a guerra do Vietnã?

Ainda assim nós, jornalistas ocidentais, estamos usando — no Afeganistão — a frase “corações e mentes” em nossas reportagens, como se fosse uma frase nova no dicionário e não um símbolo de derrota usado pela segunda vez em quatro décadas, em alguns casos usada pelos mesmos soldados que venderam esta bobagem — quando eram mais novos — no Vietnã.

Olhem agora para as palavras que nós recentemente ‘adotamos’ vindas dos militares dos Estados Unidos.

Quando nós ocidentais descobrimos que “nossos” inimigos — a Al-Qaeda, por exemplo, ou o talibã — explodiram mais bombas e patrocinaram mais ataques do que o esperado, chamamos isso de “um pico de violência”. Ah, sim, um ‘pico’.

Um ‘pico’ de violência, senhoras e senhores, foi uma frase primeiro usada, de acordo com meus arquivos, por um general na Zona Verde de Bagdá em 2004 [inicialmente quartel-general da ocupação dos Estados Unidos no Iraque]. No entanto, nós usamos a frase agora, discutimos a partir dela, replicamos como se fosse nossa. Estamos usando, literalmente, uma expressão criada para nós pelo Pentágono. Um “pico”, naturalmente, significa algo que sobe rapidamente e que em seguida cai rapidamente. Um ‘pico’, assim sendo, evita o uso do terrível “aumento da violência” — já que um aumento, senhoras e senhores, pode não ser seguido por uma redução posteriormente.

De novo, quando os generais dos Estados Unidos se referem a um repentino aumento de suas forças para um ataque contra Fallujah ou o centro de Bagdá ou Kandahar — um movimento em massa de soldados trazidos para países muçulmanos aos milhares — eles chamam isso de ’surge’. E um ’surge’, como um tsunami ou qualquer outro fenômeno natural, pode ter efeitos devastadores. O que esses ’surges’ são, na verdade — para usar as palavras verdadeiras do jornalismo sério — são reforços. E reforços são mandados para as guerras quando os exércitos estão perdendo essas guerras. Mas nossos meninos e meninas nos jornais e nas emissoras de TV estão falando em ’surges’ sem atribuir isso ao Pentágono! O Pentágono ganha de novo.

Enquanto isso, o ‘processo de paz’ desabou. Assim nossos líderes — nós gostamos de chamá-los de ‘jogadores-chave’ — estão tentando de novo. Assim o processo tem de ser colocado ‘nos trilhos’. Era um trem, como vocês notaram. Os vagões tinham saído dos trilhos. E assim o trem tem de ser posto de novo ‘nos trilhos’. Foi o governo Clinton o primeiro a usar a frase, depois os israelenses, depois a BBC. Mas havia um problema quando o ‘processo de paz’ foi colocado de novo ‘nos trilhos’ — e ainda assim não andou. E então produzimos o ‘mapa do caminho’ — tocado por um quarteto liderado pelo nosso amigo de Deus, Tony Blair, ao qual — em uma obscenidade da História — agora nos referimos como ‘enviado da paz’.

Mas o ‘mapa do caminho’ não está funcionando. E agora, notem, o velho ‘processo de paz’ está de volta aos jornais e às telas de TV. Dois dias atrás, na CNN, um destes velhos chatos que os meninos e meninas da TV chamam de ‘experts’ — falarei deles em um momento — nos disse de novo que o ‘processo de paz’ está sendo colocado ‘nos trilhos’ por causa do início de ‘conversas indiretas’ entre israelenses e palestinos.

Senhoras e senhores, não são apenas clichês — isso é jornalismo absurdo. Não existe mais batalha entre o poder e a mídia. Através da linguagem, nós nos tornamos eles. Talvez o problema advenha de que a gente não pensa mais por conta própria por não ler livros. Os árabes ainda lêem livros — não estou falando aqui sobre a taxa de analfabetismo em países árabes — mas não estou certo de que no Ocidente a gente ainda leia livros. Eu geralmente mando mensagens por telefone e descubro que tenho de passar dez minutos repetindo à secretária algumas centenas de palavras. Elas não sabem soletrar.

Eu estava no avião um dia destes, voando de Paris a Beirute — um vôo de cerca de 3 horas e 45 minutos — e a mulher sentada ao lado estava lendo um livro em francês sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Ela mudava de página depois de alguns segundos. Acabou o livro antes do pouso em Beirute! E de repente me dei conta de que ela não estava lendo o livro, estava surfando nas páginas! Tinha perdido a habilidade do que costumo chamar de ‘leitura profunda’. Meramente usamos as primeiras palavras que aparecem…

Deixe-me mostrar outro pedaço da covardia midiática que faz os meus dentes de 63 anos de idade rangerem depois de 34 anos comendo humus e tahina no Oriente Médio.

Somos informados, em tantas análises, que precisamos lidar no Oriente Médio com ‘narrativas que competem’. Que meigo. Não há justiça, nem injustiça, apenas algumas pessoas que nos contam histórias diferentes. ‘Narrativas que competem’ agora aparece regularmente na imprensa britânica. A frase é uma espécie — ou subespécie — da falsa linguagem da antropologia. Nega a possibilidade de que um grupo de pessoas — no Oriente Médio, por exemplo — seja ocupado, enquanto outro grupo de pessoas promove a ocupação. Novamente, não há justiça, injustiça, não-opressão ou opressão, apenas amigáveis ‘narrativas que competem’, um jogo de futebol, se quiserem, um campo neutro já que os dois lados estão — não estão? — ‘em competição’. E os dois lados merecem tempo igual em todas as reportagens.

E assim uma ‘ocupação’ pode se tornar uma ‘disputa’. E assim um ‘muro’ pode se tornar uma ‘cerca’ ou uma ‘barreira de segurança’. E assim a colonização israelense de terra árabe contrária a todas as leis internacionais se torna ‘acampamentos’ ou ‘postos’ ou ‘vizinhanças judaicas’.

Vocês não vão se surpreender ao descobrir que foi Colin Powell, em seu estrelato sem poder no posto de secretário de Estado de George W. Bush, que disse a diplomatas americanos no Oriente Médio que eles deveriam se referir à terra ocupada dos palestinos como ‘terra disputada’ — o que foi bom o suficiente para a maior parte da mídia americana.

Fiquem de olho na ‘narrativa que compete’, senhoras e senhores. Não há ‘narrativas que competem’, naturalmente, entre os militares dos Estados Unidos e o talibã. Quando houver, no entanto, vocês saberão que o Ocidente perdeu. Mas vou dar um exemplo pessoal para demonstrar como as ‘narrativas que competem’ evaporam.

No ano passado, fiz uma palestra em Toronto para marcar os 95 anos do genocídio armênio de 1915, o assassinato em massa deliberado de um milhão e meio de cristãos armênios por milícias e pelo exército otomano da Turquia. Antes da minha palestra, fui entrevistado na tv canadense, a CTV, que também é dona do jornal Toronto Globe and Mail. Desde o início, notei que minha entrevistadora tinha um problema. O Canadá tem uma grande comunidade armênia. Mas Toronto também tem uma grande comunidade turca. E os turcos, como o Globe and Mail sempre diz, ‘negam calorosamente’ que tenha havido genocídio. E assim a entrevistadora chamou o genocídio de “massacres mortais”.

Naturalmente que notei este problema específico de cara. Ela não podia chamar os massacres de ‘genocídio’ porque a comunidade turca se sentiria ultrajada. Mas, igualmente, ela sentiu que ‘massacre’ sozinho — especialmente com as fotos cruéis que serviam de cenário no estúdio, de armênios mortos — não seria suficiente para definir um milhão e meio de seres humanos assassinados. Daí os ‘massacres mortais’. Que estranho!!! Se existem massacres ‘mortais’, existem massacres que não são ‘mortais’, nos quais as vítimas saem com vida? Foi tautologia ridícula.

No fim, contei este pequeno caso de covardia jornalística na palestra, para minha audiência armênia, na qual também havia executivos da CTV. Uma hora depois de minha palestra, o armênio que promoveu o encontro recebeu uma mensagem de texto de um repórter da CTV. “Cagar na CTV não tinha nada a ver”, o repórter reclamou. Duvido, pessoalmente, que a palavra ‘cagar’ seja usada na CTV. Mas ‘genocídio’ também não é. Foi assim que as ‘narrativas que competem’ explodiram.

Sim, o uso da linguagem do poder — de suas palavras e frases — é comum entre nós. Quantas vezes ouvi de repórteres ocidentais sobre ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão? Eles estão se referindo, naturalmente, a vários grupos árabes que supostamente ajudam o talibã. Ouvimos a mesma história no Iraque. Sauditas, jordanianos, palestinos, combatentes chechenos, naturalmente. Os generais os chamavam de ‘combatentes estrangeiros’. E assim, imediatamente, fizemos o mesmo. Chamá-los de ‘combatentes estrangeiros’ significava que são uma força de invasão. Mas nunca — nunca — ouvi uma estação de TV ocidental se referir ao fato de que existem pelo menos 150 mil ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão. E que a maioria deles, senhoras e senhores, veste uniformes dos Estados Unidos e da Otan!

Da mesma forma, a frase perniciosa ‘Af-Pak’ — racista e politicamente desonesta como é — é usada por repórteres quando foi originalmente uma criação do Departamento de Estado, no dia em que Richard Holbrooke foi indicado mediador dos Estados Unidos no Afeganistão e no Paquistão. Mas a frase evita o uso da palavra ‘Índia’, cuja influência no Afeganistão e cuja presença no Afeganistão é parte vital da história. Além disso, ‘Af-Pak’ — ao apagar a Índia — eficazmente apaga toda a crise de Kashmir do conflito no sudeste da Ásia. E assim o Paquistão ficou sem qualquer papel na política dos Estados Unidos para Kashmir — afinal, Holbrooke foi nomeado para o ‘Af-Pak’, especificamente proibido de discutir Kashmir. E assim a frase ‘Af-Pak’, que nega totalmente a tragédia do Kashmir — muitas ‘narrativas que competem’, quem sabe? — significa que quando nós jornalistas usamos a mesma frase, ‘Af-Pak’ — que com certeza foi criada para nós — estamos fazendo o trabalho do Departamento de Estado americano.

Agora olhemos para a História. Nossos leitores amam História. Mais que tudo, eles amam a Segunda Guerra Mundial. Em 2003, George W. Bush pensou que era Churchill e George W. Bush. Na verdade, Bush gastou a guerra do Vietnã protegendo os céus do Texas dos vietcongs [Nota do Viomundo: Durante a guerra do Vietnã, Bush filho evitou sua convocação servindo à Força Aérea americana em uma base do Texas].

Mas agora, em 2003, Bush estava enfrentando os ‘apaziguadores’ que não queriam guerra com o Saddam que era, naturalmente, o “Hitler do [rio] Tigre”. Os ‘apaziguadores’ eram os britânicos que não queriam enfrentar a Alemanha nazista em 1938. Blair, naturalmente, também experimentou a casaca de Churchill. Ele não era ‘apaziguador’. Os Estados Unidos eram os aliados mais antigos do Reino Unido — Blair proclamou — e Bush e Blair lembraram aos jornalistas que os Estados Unidos estavam ombro a ombro com o Reino Unido quando este precisou de ajuda, em 1940.

Mas nada disso era verdade.

O mais antigo aliado do Reino Unido não foram os Estados Unidos. Foi Portugal, um estado fascista que ficou neutro durante a Segunda Guerra. Somente meu jornal, o Independent, notou isso.

Nem os Estados Unidos lutaram ao lado do Reino Unido na hora que os britânicos precisaram, em 1940, quando Hitler ameaçou invasão e a força aérea alemã bombardeou Londres. Não, em 1940 os Estados Unidos aproveitavam um período lucrativo de neutralidade — e não se juntaram à guerra do Reino Unido a não ser depois que o Japão atacou a base de Pearl Harbor em dezembro de 1941. Doeu!

Em 1956, li outro dia, Eden chamou Nasser de ‘Mussolini do Nilo’. Um erro. Nasser era amado pelos árabes, não odiado como Mussolini era pela maioria dos africanos, especialmente os líbios árabes. O paralelo com Mussolini não foi questionado pela mídia britânica. E todos sabemos o que aconteceu em Suez em 1956.

[Nota do Viomundo: Anthony Eden foi ministro britânico das Relações Exteriores mas, como notou o leitor Bico, era primeiro-ministro britânico durante a crise de Suez; Gamal Abdel Nasser, líder nacionalista do Egito; em 1956 Nasser nacionalizou o canal de Suez, ao que se seguiu um ataque militar de Reino Unido, França e Israel, que só fracassou politicamente por pressão de Estados Unidos e União Soviética]

Sim, quando se trata de História, nós jornalistas simplesmente deixamos que presidentes e primeiros-ministros nos dêem um balão.

Hoje, no momento em que estrangeiros tentam levar comida e combustível pelo mar a palestinos famintos em Gaza, nós jornalistas deveríamos relembrar nossos telespectadores e leitores de um dia faz-tempo quando os Estados Unidos e o Reino Unido sairam em socorro de um povo cercado, levando comida e combustível — foi assim que alguns de nossos próprios militares morreram — para uma população faminta.

Aquela população tinha sido cercada por uma cerca construída por um exército brutal que queria torná-los submissos pela fome. O exército era o russo. A cidade era Berlim. O muro viria mais tarde. O povo ajudado tinha sido nosso inimigo há apenas três anos. Ainda assim fizemos uma ponte-aérea para salvá-los. Agora olhem para Gaza. Que jornalista ocidental — e amamos paralelos históricos — já mencionou Berlim de 1948 no contexto de Gaza?

Olhem para exemplos mais recentes. Saddam tinha ‘armas de destruição em massa’ — dá para encaixar ‘WMD’ numa manchete — mas naturalmente, ele não tinha e a imprensa americana passou por momentos embaraçosos de auto-condenação. Como pudemos ser enganados, o New York Times se perguntou? O jornal concluiu que não tinha desafiado suficientemente o governo Bush.

E agora o mesmo jornal está suavemente — muito suavemente — batendo os bumbos de guerra no Irã. O Irã está trabalhando com ‘WMD’. E depois da guerra, se houver guerra, haverá de novo a auto-condenação, se não houver projetos de armas nucleares no Irã.

Ainda assim o lado mais perigoso de nosso uso da semântica de guerra, nosso uso das palavras do poder — embora não seja uma guerra, já que nós nos rendemos — é que isso nos isola de nossos telespectadores e leitores. Eles não são estúpidos. Eles entendem as palavras e, em muitos casos — temo — melhor que nós. Eles sabem que estamos afogando nosso vocabulário na linguagem dos generais e presidentes, das assim-chamadas elites, na arrogância dos experts do Brookings Institute, ou daqueles da Rand Corporation ou o que eu chamo de ‘tink thanks’. Então nós nos tornanos parte desta linguagem. Aqui estão, por exemplo, algumas palavras perigosas:

- power players

- ativismo

- atores não-estatais

- jogadores-chave

- jogadores geoestratégicos

- narrativas

- jogadores externos

- processo de paz

- soluções significativas

- Af-Pak

- agentes de mudanças (quem quer que sejam estas criaturas sinistras)

Não sou um convidado regular da Al Jazeera. Isso me dá liberdade para falar. Alguns anos atrás, quando Wadah Khanfar (agora diretor-geral da Al Jazeera) era o homem da emissora em Bagdá, os militares dos Estados Unidos começaram uma campanha de boatos contra o escritório de Wadah, alegando — mentirosamente — que a Al Jazeera fazia o jogo da Al Qaeda porque estava recebendo vídeos de ataques contra forças dos Estados Unidos. Fui a Fallujah para checar isso. Wadah estava 100% correto. A Al Qaeda estava entregando os vídeos de suas emboscadas sem qualquer aviso, colocando nas caixas de correio. Os americanos estavam mentindo. O Wadah, naturalmente, está pensando o que virá em seguida…

Bem, devo dizer a vocês, senhoras e senhores, que todas as ‘palavras perigosas’ que acabei de ler para vocês — de jogadores-chave a narrativas a processo de paz a Af-Pak — estão no programa de nove páginas da Al Jazeera para este forum. Não estou condenando a Al Jazeera por isso, senhoras e senhores. Porque este vocabulário não é adotado como resultado de aliança política. É uma infecção da qual todos sofremos. Eu mesmo usei ‘processo de paz’ algumas vezes, embora entre aspas, o que não dá para fazer na TV, mas sim, é um contágio.

E quando usamos estas palavras nós nos tornamos aliados do poder e das elites que mandam no mundo sem medo de serem desafiadas pela mídia. A Al Jazeera fez mais que qualquer rede de televisão que conheço para desafiar a autoridade, tanto no Oriente Médio quanto no Ocidente. (Não estou usando ‘desafio’ como ‘problema’, mas como ‘enfrento muitos desafios’, dito pelo general McCrystal).

Como escapamos desta doença? Fiquem de olho nos corretores de ortografia de seus laptops, nos sonhos dos subeditores com palavras de uma sílaba, parem de usar a Wikipedia. E leiam livros, com páginas de papel, que significam leitura profunda. Livros de História, especialmente.

A Al Jazeera está fazendo uma boa cobertura da frota — o comboio de barcos — que vai a Gaza. Não acredito que sejam um bando de anti-israelenses. Penso que este comboio internacional está a caminho porque as pessoas a bordo dos navios — de todo o mundo — estão tentando fazer o que líderes supostamente humanitários deixaram de fazer. Estão levando comida e combustível e equipamento hospitalar para aqueles que sofrem. Em qualquer outro contexto, os Obamas e os Sarkozys e os Camerons estariam competindo para mandar fuzileiros navais, marinheiros reais ou forças francesas com ajuda humanitária — como Clinton fez na Somália. O divino Blair não acreditava em ‘intervenção’ humanitária em Kosovo e Serra Leoa?

Em circunstâncias normais, o Blair colocaria o pé sobre a fronteira. Mas não. Não ousamos ofender Israel. E assim pessoas comuns estão tentando fazer o que os líderes não fizeram. Os líderes fracassaram. E a mídia? Estamos mostrando imagens de documentários da ponte aérea que salvou Berlim? Ou das tentativas de Clinton de resgatar pessoas que morriam de fome na Somália ou da ‘intervenção’humanitária de Blair nos Balcãs, simplesmente para relembrar nossos leitores e telespectadores — e aqueles pessoas naqueles barcos — que isso é hipocrisia em escala maciça?

O diabo que estamos! Nós preferimos ‘narrativas que competem’. Poucos políticos querem que a viagem até Gaza seja completada — seja o seu fim bem sucedido, uma farsa ou trágico. Nós acreditamos no ‘processo de paz’, no ‘mapa do caminho’. Mantenham a ‘cerca’ em torno dos palestinos. Deixem os ‘jogadores-chave’ encontrar uma solução. Senhoras e senhores, não sou seu ‘key-speaker’ nesta manhã. Sou seu convidado e agradeço pela paciência que tiveram em me ouvir.

PS: Esta tradução é continuamente aperfeiçoada a partir dos comentários dos internautas, a quem agradecemos pela ajuda.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

A arquitetura árabe no apogeu do Islã

Lygia Rocco

Lygia Rocco é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e no Curso Superior de Tecnologia em Construção Civil pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – FATEC/UNESP. É bacharel em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes do Planalto da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – IAP/UNESP. Mestre em Língua, Literatura e Cultura Árabe pela Universidade de São Paulo. Atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de arquitetura e urbanismo do Oriente Médio e região do Mediterrâneo, e sobre arte árabe e islâmica. Artista plástica tem elaborado seus trabalhos em pintura, gravura e cerâmica, história da arte, patrimônio artístico e cultural, arquitetura e urbanismo, expografia e curadoria. É coordenadora do grupo de Exposições e Imagens e do grupo de Arquitetura, Urbanismo e Ambiente do ICArabe. Atualmente faz doutorado em Língua, Literatura e Cultura Judaicas na Universidade de São Paulo e especialização em “Arte, sustentabilidade e meio ambiente” na UMAPAZ/UNESP.

Copyright © 2010 Icarabe.org

Uma aula sobre a história da arquitetura árabe e islâmica numa entrevista com Lygia Rocco. A arquiteta e artista plástica ela  explica as características da arquitetura islâmica e aponta sua influência inclusive no Brasil

Quando podemos considerar o apogeu do império islâmico?

A substituição de Cartago, com a construção de Túnis em seu lugar, a criação de portos, a ocupação das regiões costeiras do Mediterrâneo e, principalmente, a conquista da Espanha (entre 711 e 715), marcam o início do apogeu do império islâmico no século VIII, e que em menos de setenta anos a partir da sua criação dominava uma região maior que toda a extensão do império romano e persa juntos, os principais impérios anteriores ao surgimento do Islã. Com os omíadas o império chegou ao auge de sua expansão territorial. Durante a dinastia abássida o império islâmico atingiu o apogeu cultural. Mas cabe lembrar que durante este período, existiram duas dinastias principais que contribuíram para o enriquecimento cultural, os omíadas, na Andaluzia, e os Abássidas, no Iraque. A partir do século VIII o império islâmico começa a entrar em decadência.

Como a arquitetura islâmica se aprimorou e disseminou?

A arquitetura do Islã foi formada a partir das tradições regionais das diferentes populações islamizadas e de sua obediência e entendimento do Alcorão, que irá regular a sociedade em decorrência da sua maneira de ver o mundo e de se relacionar com o espaço e com as expressões artísticas. Este fato é válido tanto para os países da Arábia, como para os do norte da África ou da Ásia Oriental, mas as suas manifestações visuais irão variar de acordo com as tradições locais.

Quais eram as características da arquitetura islâmica nesse período?

Com exceção das cidades principescas, a maior parte das cidades árabes seguia um padrão orgânico de distribuição das atividades e de crescimento. Uma série de edifícios faz parte desta cidade e são, na maioria, comuns a todas, como as residências, as mesquitas, os banhos públicos, os caravançarás e os mercados. Com relação aos elementos arquitetônicos e técnicas construtivas, podemos citar as abóbadas monumentais e as cúpulas de pedra e tijolos, além dos Os iwans que são salões com abóbadas abertas para apenas um lado através de uma grande arcada. O estuque é uma tradição que se desenvolveu no mundo islâmico, tanto no Irã como na Síria e na Jordânia. A arquitetura islâmica usou a técnica do mosaico nos complexos desenhos geométricos. Outra característica deste período é o uso de numerosas colunas esguias, os arcos em ferradura e cúpulas, decoradas por mosaicos e arabescos. A ornamentação que recobre todas as superfícies contribui para esconder a estrutura do edifício sem nunca criar um ponto central que chame a atenção. O pátio central também está muito presente.

Mosaico no<br />
 palácio de Alhambra, em Granada, Espanha. (Ana Maria<br />
Barbour)

A arquitetura árabe está bastante ligada à religião. De que forma essa ligação ocorre?

Embora o Islã não prescreva conceitos arquitetônicos formais, ele estabelece o modo de vida diário do crente fornecendo uma série de elementos que em consequência geram a necessidade de padrões físicos para o dia-a-dia de seus seguidores. O primeiro princípio é o da Unidade (Tawhīd) – Allāh é Absoluto, Único. Consequentemente, todas as coisas dão forma a um único sistema harmonioso e interdependente. Dos cinco pilares dos Islã, dois são relevantes para a arquitetura: a oração e a peregrinação.

Outra característica relacionada com as representações visuais é a relutância a qualquer tentativa de capturar e conter as qualidades divinas em qualquer estrutura material ou imagem. A atitude contra a idolatria permeia as escolhas artísticas religiosas, pois nada pode representar Deus. A consequência disso será o desenvolvimento dos padrões abstratos. Para o Islã, o ícone sagrado passível de representação seria a recitação dos versos do Alcorão e sua representação visual, o próprio livro do Alcorão. Desta forma, a caligrafia foi elevada ao status de arte sagrada, e representou um papel essencial, não apenas nas artes do livro, mas também na decoração arquitetônica e no ornamento de objetos de uso diário.

Mesquita de Córdoba, Espanha. (Ana Maria Barbour)Quais eram os significados dos arcos e dos octógonos nessa arquitetura?

O octagrama é um símbolo de plenitude e reconstrução. A estrela de oito pontas no islamismo faz referência aos quatro profetas principais, Abraão, Moisés, Jesus e Muhammad, e aos quatro anjos maiores que sustentam o trono de Deus, Miguel, Rafael, Gabriel e Uriel. Representa o entroncamento entre o quadrado e a curvatura da esfera. A figura fundamental na arte islâmica é o círculo, pois, de acordo com o pensamento islâmico, os polígonos podem ser construídos a partir do círculo e estão contidos dentro dele.  Assim, o círculo pode ser pensado como subjacente a cada padrão geométrico.  Uma vez que não tem começo nem fim, é um símbolo de eternidade, unidade e integridade.  Também uma expressão de justiça, pois representa a igualdade em todas as direções. O círculo é o polígono da base, do qual emana a estrela, a forma em que a arte islâmica se baseia.

Há também algum reflexo do poder político do Islã nessa arquitetura, algo que não se notava em outros períodos de menos força do império?

O poder político se reflete na arquitetura islâmica na construção de palácios, alcaçova (castelos fortificados) e das fortificações. A expressão de poder é um dos muitos aspectos e um atributo automático da arquitetura monumental. Os elementos constantes da arquitetura islâmica de caráter militar e defensivo são muros, torres, portas e castelos fortificados. No início seu uso era quase exclusivamente das zonas de fronteira e só apareciam no centro do império raramente, mas no final do século IX e principio do século X, a medida que a autoridade central se debilitava e que o poder político era assumido por numerosas dinastias locais, que com frequência lutavam umas contra as outras, a arquitetura militar se estendeu a quase todos os centros urbanos e se converteu em um elemento constante das cidades islâmicas. Várias cidades foram concebidas como expressões visíveis de poder material ou simbólico, uma delas foi a cidade de Wâsit (Iraque, 702/703).

Além dos árabes, o império islâmico abrangeu diferentes povos. Que influências esses povos tiveram na formação e transformação da arquitetura árabe naquele período?

Na formação do primeiro período da arquitetura e da arte islâmica, todos os povos com os quais os seguidores do Islã entraram em contato tiveram importância na construção dos novos elementos na arquitetura e na arte. É importante salientar, ao contrário do que é sempre afirmado, que nem todos os árabes eram nômades e que mesmo estes desempenharam um importante papel no desenvolvimento social, cultural e artístico da antiguidade pré-islâmica, pois foram eles os responsáveis pela transmissão de conhecimentos existentes na época. No primeiro período da expansão islâmica, houve uma intensa fusão de culturas. Esta situação fez com que toda esta região sob a expansão muçulmana se comportasse de maneira similar a da Antiguidade, ou seja, como uma ponte onde trafegaram correntes de pensamento e cultura entre os extremos, o Ocidente e o Oriente Médio. Na primeira fase do império islâmico, vários povos e dinastias participaram da construção da linguagem arquitetônica do islamismo, como: os almorávidas e os almoadas, no Magrebe e na Espanha, e a dinastia nasárida, que permaneceu na Espanha até o final do século XIV. A arte desta época foi caracterizada por uma tendência a austeridade. No Egito e Síria, encontramos as dinastias tulunidas, fatimidas (909-1171), os seldjúcidas (a partir de 1070), os aiubidas e, a partir de 1250, os mamelucos passaram a controlar o Egito que durante este período aumentou o número de obras construídas, sendo conhecida como a época de ouro do Egito. Depois da primeira fase do império islâmico, existiram três grandes impérios: o império Otomano, o império mugal, e o império iraniano safávida e depois a dinastia qajar (ou ghajar). Foram inúmeros os povos e dinastias que fizeram parte da construção da linguagem arquitetônica e artística.

Essas influências foram mantidas, as mesmas características perduram até os dias atuais?

Muitas destas características foram mantidas até os dias de hoje. E na cenografia dos filmes ocidentais também aparecem muitos dos elementos da arquitetura e arte árabe.

A arquitetura árabe ligada a outras religiões também marcou suas características?

Há vários exemplos da influência da arquitetura árabe ligada a outros grupos religiosos. Um deles são os judeus da Espanha e um dos exemplos de edifício é a sinagoga de Toledo. Há ainda a arte mudéjar, que se desenvolveu entre os séculos XII e XVI, e foi um fenômeno exclusivamente hispânico, realizado pelos mudéjares e mouriscos. Basicamente, é um estilo para cristãos, mas que incorpora influências, elementos ou materiais em estilo hispano-muçulmano. Outro exemplo da arquitetura árabe com relação a outras religiões é o caso da Basílica de San Giovanni e a Igreja de San Miniato al Monte, em Florença.

Você poderia dar alguns exemplos de construções que contêm essas características no Brasil?

A Península Ibérica ficou por oito séculos sob domínio do Islã e isso impactou a arquitetura da região. A imigração portuguesa para o Brasil se encarregou de trazer essas influências para nosso país, presentes nos balcões rótulas de Olinda, nos muxarabis de Diamantina – balcões fechados por treliças de madeira – a construção em taipa de pilão da Casa do Padre Inácio em Cotia (São Paulo), os azulejos da Igreja da Pampulha, o uso do tijolo para revestir pavimentos ou como elemento decorativo, entre muitos outros. Mas foram as sinagogas que foram construídas a partir de 1850 pelas comunidades judaicas que utilizaram com maior frequência os elementos decorativos mouriscos na arquitetura religiosa no Brasil.

Fonte: ICARABE – http://www.icarabe.org/

Sucesso recente de canções como "Shimbalaiê", de Maria Gadú, mostra a vitalidade da MPB em criar palavras que não existem

Guilherme Bryan

Odara, drão, platinela, baticum, batumaré, ilariê, ho ba la la, periba, blésq, plunct, aserejé, avohai, mironga. Algumas das inúmeras palavras criadas na música popular brasileira não possuem qualquer significado aparente e são repetidas exaustivamente pelos ouvintes, repercutem na mídia e nas redes sociais da internet.

"Shimbalaiê", tema da novela das 8 cantado por Maria Gadú: idioleto musical

Os casos mais recentes são "Tchubirundu", do cantor de reggae Armandinho, e "Shimbalaiê", título da canção de Maria Gadú, incluída na trilha musical da novela Viver a Vida, da rede Globo. Não se trata de onomatopeias (palavras que tentam imitar os sons) ou formas reduzidas de palavras e expressões já existentes. É antes uma espécie de idioleto musical, uma ocorrência individualizada de linguagem, um neologismo sem significado necessário. Algo próximo do que Moraes Moreira, Luiz Galvão e Pepeu Gomes definiram, numa canção dos Novos Baianos, como sendo a "linguagem do alunte", título também de disco de 1974:

"Palavra nova que dispensa explicação

Pra lá, muito pra lá de alucinação

Ter quer dizer nada".

- Quando componho, os fonemas, os sons e as sílabas vêm natural e intuitivamente. Assim, crio palavras novas. É claro que existe um trabalho mental e lógico para encaixar as palavras e os conteúdos que queremos expressar. Mas as novas expressões também podem traduzir melhor um sentimento – explica Mallu Magalhães.

Criação particular

No primeiro e homônimo CD gravado por ela em 2008, há palavras como "tchubaruba", que ela garante ser uma expressão sonora que carrega sensação de alegria, tranquilidade e outros sentimentos bons.

A cantora e compositora cita como referência na criação de palavras o sambista Moreira da Silva, que, em meio à descrição de uma partida de baralho, em Jogando com o Capeta, parceria com Ribeiro Cunha, solta um "vargo" e uma "solinge".

Outras fontes de inspiração seriam as canções compostas e/ou interpretadas por Bezerra da Silva, como A Gíria É a Cultura do Povo, em que o intérprete e compositor apresenta, entre outras expressões saídas das ruas, "vagabau" e "gbo".

O pesquisador musical Rodrigo Faour acredita que articulações vocabulares como essas – de significantes não raro vazios de significados – sejam parte de uma tradição criativa comum ao ramo musical.

- Muitas combinações de notas musicais sugerem sons de palavras e isso acaba sendo um estímulo para alguns compositores, mesmo antes de criarem letras para suas canções. Aí certos improvisos podem virar partes da letra propriamente dita. Não há muito que teorizar em cima disso. É pura criatividade mesmo – aposta Faour.

Articulações da fala

Luiz Tatit, compositor do grupo Rumo e professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, acha que o fenômeno indica a força do papel da fala na composição musical brasileira.

- Qualquer canção, na medida em que tem letra e melodia, é muito vinculada à nossa fala cotidiana. Muitas vezes, na conversa, criamos expressões inexistentes, até para fazer uma graça ou brincar com alguém. Só que nós falamos e não repetimos mais, porque vira uma criação muito particular daquele momento ou circunstância – analisa Tatit.

Numa canção, no entanto, o processo é mais perene, diz Tatit.

- Na canção, uma mera criação de circunstância é gravada, repetida sempre do mesmo jeito e, então, eterniza-se como meio de expressão no seio da cultura. Muitas vezes, essa criação não tem nem uso, só faz sentido na canção e, por isso, não pode ser incorporada ao dicionário – afirma ele.

Tradição mundial

Para Tatit, os cantores e compositores Arnaldo Antunes e Lenine são "um prato cheio" de invenções de palavras e da mescla de uma palavra com outra, formando uma terceira. Lenine é autor de, entre outras, "platinela", em Jackson do Pandeiro; e da brincadeira "lô" de "Eu tô lá e lô", da canção Lá e Lô. Já Arnaldo Antunes demonstra a influência concretista em invenções que nada mais são do que junções de sílabas, caso de "guapu" e "ruvu", de Um Pé de Quê?, parceria com Kassin.

O crítico e pesquisador musical Tárik de Souza recorda outras expressões como "sacudin", de Jorge Benjor, e concorda com o fato de ser esse um fenômeno mundial, relembrando "uah-bap-lu-bap-hah-béin-bum", do norte-americano Little Richard, que deu título a um disco do brasileiro Raul Seixas; "sha-ba-da-ba-dás", espalhados no mundo todo pelo doo-wop e pelo rhythm & blues. Porém, para ele a explicação para a invenção de tantas palavras pode ser ainda mais trivial:

- Há a necessidade da invenção, que é inerente à arte. Vide Guimarães Rosa, que criou quase uma "novilíngua" – diz Tárik.

Um dos maiores mestres na arte de brincar com palavras é Tom Zé, que se autodenomina "carpintor", misto de carpinteiro e pintor. Ele trouxe para a música brasileira, entre outras, "desenrock-se" e "unimultiplicidade", que deram título às respectivas canções; "desinvernou" e "dia-diou", de A Moreninha; "quitiquirá" e "pande que chó", da música Yamanduzório, parceria com Gilberto Assis; "zabumbá", "corisca", "ciençá", todas de Xiquexique, composta com José Miguel Wisnik.

Mallu Magalhães e o sucesso da canção "Tchubaruba": expressão carregada de "alegria e bons sentimentos"

Em 2006, Wisnik realizou o disco Danç-Êh-Sá, que tem o subtítulo "Pós-Canção/Dança dos Herdeiros do Sacrifício/7 Caymianas para o Fim da Canção". No encarte, o disco é definido como um CD cantado sem palavras.

- Desde as primeiras canções, eu faço essas brincadeiras, que se devem à minha educação, antes da escola, no berçário, com os preceptores babás que viviam brincando com a língua, como se fossem provençais, com "É um dia, é um dado, é um dedo / Chapéu de dedo é didal". Então fui bilíngue na infância e aprendi com o povo do interior da Bahia a ter liberdade com a língua. Também sempre tive a prática de conjugar substantivos e substantivar verbos, que é possível traduzir sem precisar eu dar explicação. Estou aqui brincando de dar explicação por se tratar do próprio assunto – reflete Tom Zé.

Impublicável

Os motivos para a criação de novas palavras na música podem ser inúmeros, inclusive políticos. A censura, que vigorou no Brasil de 1964 a 1988, levou muitos compositores a encontrarem subterfúgios para tratar na canção de temas não permitidos. Foi o que aconteceu com "A Tonga da Mironga do Kabuletê", composta por Vinicius de Moraes e Toquinho em 1970, brincadeira que, por não ser compreensível, deixou muita gente apreensiva.

De acordo com o Aurélio, "tonga" pode ser uma palavra angolana para "terra a ser lavrada" ou "lavoura". No candomblé e na macumba, "mironga" é "feitiço, sortilégio" e bruxedo"; e cabuleté", "indivíduo reles, desprezível e vagabundo". Porém, o próprio Toquinho conta como nasceu a canção:

- A baiana Gesse, mulher de Vinicius na época, um dia chegou dizendo que ouvira no mercado uma expressão em Nagô: "Na songa da mironga do kabuletê". É um xingamento que, traduzido, fica impublicável. É uma expressão com uma sonoridade musical e a situação política do país ensejava que mandássemos muita gente para tonga da mironga do kabuletê. Trocamos "songa" por "tonga" por uma questão de ajuste sonoro em relação à melodia – explica o compositor.

Com relação à razão para tantas palavras surgirem na música brasileira, Toquinho explica:

- A língua portuguesa é vasta em sinônimos e neologismos. A poesia aceita as formas mais variadas de expressões populares. Afinal, a música é arte essencialmente popular e a poesia que a completa reflete essa condição – avalia.

Neologismos

Já quanto ao surgimento dessa prática na música brasileira, é difícil localizar, mas Tárik de Souza arrisca o início do século 20, quando, no selo Zon-O-Phone, da casa Edison, o cantor Bahiano, famoso por "Pelo Telefone", considerado por muitos o primeiro samba gravado no país, já registrara temas como "Bolimbolacho", utilizando corruptelas e expressões não dicionarizadas.

Como "proesia", muitas palavras e expressões que surgem nas canções podem ter o sentido facilmente compreendido pelo ouvinte. São genuínos neologismos. Esse é o caso de "parabolicamará", que deu título à canção e ao disco de Gilberto Gil, autor também de "incabível", o que não cabe, da canção Metáfora. É também o caso de "avohai", que Zé Ramalho escolheu para dar título a uma canção que homenageia o avô, que o criou e, portanto, foi seu avô-pai.

Outras Palavras, composta por Caetano Veloso em 1981, é provavelmente a canção brasileira com mais palavras inventadas. Ali estão "deslinda-se", "parafins", "gatins", "alphaluz", sexonhei", "ouraxê", "palávoras", "driz", "okê", "projeitinho", "imanso", "ciumortevida", "vivavid", "lambetelho", "frúturo", "orgasmaravilha-me", "homenina", "nel", "paraís" e "felicidadania". Já "odara", título de outra canção do compositor, vem da palavra Iorubá, "dara", que significa "belo".

Mais invenções

Arnaldo Antunes criou "swingnifica" "signifinca" e "signifixa" em O Que Swingnifica Isso?. Outras criações dele, no grupo Tribalistas, são "carnavália", "corasamborim" e "carnalismo". Integrante do mesmo grupo, junto com Marisa Monte, Carlinhos Brown também é um inventor de palavras. Do vocabulário que criou, fazem parte "periba", de

Meia-Lua Inteira"; "frases ventias", que dá título a uma canção; "auauê zu êzon", de Pegadas na Areia; "saloba", de Cavalo da Simpatia; e "proesia", junção de prosa e poesia, de "Garoa 8.0".

O pesquisador Rodrigo Faour acrescenta à lista de novas palavras da MPB certos neologismos como "patu", de Erasmo Carlos, "fullgás", de Marina Lima e Antonio Cícero, "requenguela", de Martinho da Vila; e "Bigorrilho", sucesso de Jorge Veiga.

Já outras palavras podem ser simplesmente apelidos ou modos carinhosos de se referir a uma pessoa, mas que, por não serem explicadas na canção, ganham novos significados por parte dos ouvintes.

Basta lembrar o sucesso de "Drão", forma reduzida de Sandrão, apelido da então esposa de Gilberto Gil, Sandra Gadelha; e de "Dindi", apelido da cantora Sílvia Teles, intérprete da canção de Tom Jobim e Aloísio de Oliveira, com quem se casaria.

Fonte: Revista Língua Portuguesa – http://linguaportuguesa.uol.com.br

Para a ONU, o Congo vive "uma das piores crises humanitárias do mundo"

Le Monde

A população da República Democrática do Congo enfrenta “uma das piores crises humanitárias do mundo”, denunciou na sexta-feira (11) a ONU (Organização das Nações Unidas), cujas agências encaram um “verdadeiro desafio” em razão da violência e de uma falta severa de recursos. “O país vem enfrentando uma das piores crises humanitárias do mundo”, enquanto “os abusos de grupos armados, entre os quais o Exército de Resistência do Senhor (LRA), não param de aumentar”, explicou à Agência France Press, a porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), Elisabeth Byrs.

População do Congo sofre com combates, estupros e mutilações

População do Congo sofre com combates, estupros e mutilações

“Trabalhar na República Democrática do Congo tornou-se um verdadeiro desafio para os humanitários, tanto por razões de segurança como por falta de financiamentos”, disse Byrs. Somente 30% dos US$ 827 milhões pedidos pela ONU para suas operações no país são financiados atualmente. “Se a ajuda financeira não chegar, seremos obrigados a reduzir nossa assistência a uma população que precisa muito dela”, insiste.

Combates, estupros e mutilações

Ao mesmo tempo, as operações da ONU “são realmente perturbadas pelos combates, pelos tumultos, pelo banditismo, que não afetam somente os civis, os trabalhadores humanitários também são atacados com frequência”. Segundo o Ocha, a falta de segurança é particularmente problemática nas regiões da Província-Oriental, nos dois Kivus, bem como na província de Equateur. Na Província-Oriental (norte do país), desde setembro de 2008, o LRA “aterroriza a população, ataca, queima os vilarejos, sequestra os civis e especialmente as crianças”, ressaltou Byrs durante uma coletiva de imprensa.

A ONU observou que, desde dezembro de 2007, o LRA matou 1.796 civis, sequestrou 2.377 pessoas, entre as quais 807 crianças. “Um certo número de pessoas foram mutiladas, o que já é bem horrível, e cortaram-lhes as orelhas ou os lábios”, explicou a porta-voz, que se preocupa com um aumento da violência.

Entre dezembro de 2009 e março de 2010, o LRA matou 407 civis e sequestrou 302 pessoas, incluindo 125 crianças. Nos Kivus e na província de Maniema (leste), também são muitas as violações dos direitos humanos, especialmente as violências sexuais. Em 2009, “houve 8 mil casos de estupros registrados, sendo que a maioria foi perpetrada por homens armados”, segundo o Ocha, que calcula que, em média, “160 mulheres são estupradas a cada semana”.

Na província de Equateur (nordeste do país), os problemas são idênticos, onde é difícil o acesso às populações nos arredores de Bozene e Dongo. Em 2009, a ONU distribuiu 2,8 milhões de rações alimentares na República Democrática do Congo onde, desde 2005, vem agindo principalmente no extremo nordeste o Exército de Resistência do Senhor (LRA), uma das guerrilhas mais brutais do mundo.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Metade do orçamento vai para a Dívida Pública

A mensagem presidencial mostra que, em junho de 2008, o estoque da dívida pública federal era de R$ 1,343 trilhões. O PLOA 2009 destina R$ 525,5 bilhões para rolagem dessa dívida e R$ 233,2 bilhões para o pagamento de amortizações e juros. Mesmo pagando-se bilhões todos os anos, o estoque da dívida só aumenta.

CFEMEA

Podemos dizer que quase a metade do Orçamento Público está comprometido com os credores financeiros, se considerarmos as amortizações, os encargos e juros com a dívida, conforme mostra a tabela a seguir:

Tabela – Valores Dívida Pública no PLOA 2009 (R$1,00)

Amortização

106.131.188.457,00

Juros e encargos

127.081.954.195,00

Sub-total

233.213.142.652,00

Rolagem (contábil)

525.546.563.343,00

Ítem Dívida Pública

758.759.705.995,00

Total

1.664.747.856.320,00

% dos recursos do PLOA destinados à dívida pública, excluídos investimentos

das Estatais (*)

47,87%

(*) Considerando o valor dos investimentos das estatais, esse percentual é de 45,58%

Em 2003, a dívida era de R$ 965,8 bilhões, e em 2007 já havia fechado na casa do trilhão (R$1,333 trilhões). Onde vamos parar no final de 2008?

Somente as altas das taxas de juros em 2008 – que já somam 2,5% – geram um aumento na dívida, no período de um ano, da ordem de R$ 19 bilhões, ou seja, mais que o triplo de todos os recursos que o governo planeja gastar em Reforma Agrária no ano que vem. Por esses e outros fatores é que a sociedade exige uma auditoria da dívida pública, como determina a Constituição.

Superávit primário

O principal instrumento da política econômica do governo para manter sua credibilidade internacional é a realização de superávit primário. Todos os anos são reservados (contingenciados) bilhões de reais nos cofres públicos para pagar juros e especialmente para assegurar a capacidade de pagamento de toda a dívida. Com isso, o governo deixa de gastar em programas e políticas sociais.

As mulheres são as pessoas que mais sofrem com a opção do governo por superávits primários cada vez maiores. Alto superávit primário significa aumentar o contingenciamento nas despesas governamentais e comprometer o desenvolvimento de políticas públicas. A ausência do Estado onera e sobrecarrega muito mais as mulheres do que os homens, especialmente as mulheres negras, as mulheres que vivem na zona rural e as mulheres pobres da periferia das cidades. Como elas e suas famílias não podem pagar os preços de mercado dos “serviços” de educação, saúde, previdência e assistência social, não lhes resta outra opção senão assumir no âmbito doméstico os deveres que correspondem ao Poder Público. E, como se sabe, na esfera da família as tarefas da casa e de cuidado recaem muito mais sobre as mulheres.

Considerando todas as funções do Estado, nas previsões do PLOA 2009, o total de recursos destinados ao superávit primário – estimado em R$121,1 bilhões – só não é maior do que os recursos definidos para o pagamento da Dívida Pública e para a Previdência Social.

Embora declare que os programas sociais não serão atingidos nos cortes e ajustes a serem feitos no Orçamento para 2009, decorrentes da crise mundial, atualmente o governo já sacrifica as políticas públicas de combate às desigualdades, ao adotar uma política fiscal de altos superávits primários, privilegiando o pagamento aos rentistas e adotando contingenciamentos sucessivos ao longo do ano.

Fonte: cfemea – http://74.53.188.162/

Obama reorienta doutrina de segurança nacional dos EUA

David E. Sanger e Peter Baker

A primeira doutrina formal de segurança nacional do presidente Barack Obama descreve uma era em que os Estados Unidos terão que aprender a viver dentro de seus limites –um mundo em que duas guerras não podem ser sustentadas por muito tempo e em que potências em ascensão inevitavelmente começarão a minar alguns elementos da influência americana ao redor do globo.

Obama se reúne com militares americanos no Afeganistão

Obama se reúne com militares americanos no Afeganistão

Obama argumenta que os Estados Unidos são confiantes o bastante para conviver com essa realidade e que após quase uma década de organização de sua política de segurança nacional em torno do contraterrorismo, eles devem retornar a uma agenda mais ampla. “Os fardos de um século jovem não devem ser depositados apenas sobre os ombros americanos”, diz Obama na introdução da doutrina divulgada na quinta-feira. “De fato, nossos adversários gostariam de ver a América exaurir suas forças ao exceder seu poder.”

Mas este documento, exigido pelo Congresso, também deverá reacender a discussão sobre a forma como Obama redirecionou a política externa americana nos últimos 16 meses. Seus críticos –inclinados a retratá-lo como ávido demais em pedir desculpas pelos erros americanos e disposto demais a render o papel do país como única superpotência indispensável– provavelmente extrairão elementos do novo documento para reforçar seu argumento.

Mas para a equipe de Obama, é um documento que reconhece o mundo como ele é e coloca um fim a uma era de ilusão, na qual Washington confundiu projeção de poder com obtenção de resultados. “Nós não estamos menos poderosos”, disse a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, na quinta-feira na Instituição Brookings. “Nós estamos mudando de um exercício e aplicação em grande parte direta do poder americano”, ela disse, para um indireto, que exige paciência e parceiros e obtém resultados mais lentamente.

“Em um mundo como esse, a liderança americana não é menos necessária”, ela disse. “É mais. E o simples fato é de que não há problema global que possa ser resolvido sem nós.”

O documento de 52 páginas tenta misturar o idealismo das promessas de campanha de Obama com as realidades de seus confrontos com um mundo dividido e ameaçador. Ele descreve uma América “endurecida pela guerra” e “disciplinada por uma crise econômica devastadora”, e conclui que os Estados Unidos não podem sustentar guerras prolongadas tanto no Iraque quanto no Afeganistão e atender outros compromissos ao mesmo tempo.

Essa linha é apenas um dos muitos tapas sutis contra o ex-presidente George W. Bush. Enquanto o documento de Bush de 2002 dizia explicitamente que os Estados Unidos nunca permitiriam a ascensão de uma superpotência rival, Obama argumenta que os Estados Unidos não enfrentam nenhum concorrente militar real, mas que o poder global está cada vez mais difuso.

Tanto Clinton quanto o principal autor de relatório, Ben Rhodes, um vice-conselheiro de segurança nacional, argumentam que Obama reconheceu essa realidade quando pressionou o Grupo dos Oito –das maiores economias industrializadas e a Rússia– a ceder mais poder para o Grupo dos 20, que inclui potências emergentes, como China, Índia e Brasil. Apesar de Obama ter renovado o foco na guerra no Afeganistão e aumentado os ataques com aeronaves não tripuladas da CIA contra militantes no Paquistão, a doutrina rejeita o foco de Bush em contraterrorismo como princípio organizador da política de segurança. Esses esforços para “conter o extremismo violento” –Obama evita a palavra islâmico– “são apenas um elemento de nosso ambiente estratégico e não podem definir o engajamento da América com o mundo”.

Ele prossegue argumentando que “o risco mais grave para o povo americano e para a segurança mundial continua vindo das armas de destruição em massa, particularmente as armas nucleares”. Mas ele também cita as ameaças cibernéticas, a mudança climática e a dependência dos Estados Unidos de combustíveis fósseis como questões fundamentais de segurança nacional, questões que receberam pouca ou nenhuma atenção no documento de Bush, apesar do ex-presidente ter se concentrado mais nelas em seu segundo mandato.

“É um distanciamento dramático da doutrina de segurança nacional mais recente”, disse Susan E. Rice, a embaixadora na ONU.

As diferenças são mais claras na seção sobre o uso da força, que não faz menção a ataques preventivos contra países ou elementos que não sejam um Estado que possam representar uma ameaça, como Bush fez em 2002. Mas Obama não descarta explicitamente atacar primeiro.

“Apesar do uso da força às vezes ser necessário, nós esgotaremos outras opções antes de uma guerra sempre que pudermos, e pesaremos cuidadosamente os custos e riscos de uma ação contra os custos e riscos da inação”, ele diz. Quando for necessário, ele acrescenta, “nós buscaremos um maior apoio internacional”.

Os assessores de Bush diziam que eles não buscariam “permissão” para essas ações. Obama expressa essa ideia de modo mais brando, dizendo que “os Estados Unidos devem se reservar o direito de agir unilateralmente, se necessário, para defesa de nossa nação e nossos interesses, mas também buscaremos aderir aos padrões que regem o uso da força”.

Obama também define mais amplamente a segurança do que seu antecessor, argumentando, por exemplo, que a redução do déficit orçamentário é fundamental para manutenção do poder americano. Clinton concentrou grande parte de sua apresentação no Brookings nesse tema, argumentando que os comandantes e diplomatas americanos veem a dívida pública a longo prazo como uma das maiores ameaças à influência americana e à capacidade do país de projetar poder no exterior.

Ainda assim, apesar de sua rejeição consciente da era Bush, o documento reflete elementos de continuidade. Por exemplo, ele não desaprova o uso da lei de segredos de Estado para reter informação dos tribunais em casos de terrorismo, apesar de defender seu uso prudente e limitado. Também insiste que “nós manteremos a superioridade militar que protegeu nosso país e escorou a segurança mundial por décadas”.

Ele não torna a disseminação da democracia uma prioridade como fez Bush, mas abraça a meta de forma mais robusta do que é típico para Obama, um reflexo da disputa em seu governo sobre como lidar com um assunto tão associado a Bush. Obama se compromete a “acolher todos os movimentos democráticos pacíficos” e “apoiar o desenvolvimento das instituições dentro de democracias frágeis”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

A Criação de Israel: duas visões conflitantes

A história é contada de forma diferente por judeus e palestinos. Para aqueles, foi a concretização de um sonho milenar. Para estes, uma verdadeira desgraça

Aventuras na História

Se existe uma lição filosófica inconfundível na criação do Estado de Israel, é esta: o significado de um fato histórico depende do olho de quem o vê. Para boa parte do mundo (incluindo a maioria dos judeus ao redor do planeta, claro) a fundação de Israel foi um feito heróico, uma proeza épica, a culminância de um sonho milenar, que inflamou o coração de gerações e gerações de hebreus desde os tempos da Diáspora. Para os árabes palestinos, no entanto, foi uma catástrofe. Até hoje, eles relembram o ano de 1948 como "El-Nakba" – ou "a desgraça".

A versão israelense

Espalhados pelo mundo desde os tempos do Império Romano, os judeus mantiveram vivas sua cultura e religião e nunca deixaram de sonhar com o retorno à Terra Santa. "Durante mais de 3,7 mil anos, eles mantiveram o vínculo espiritual com sua pátria histórica", escreve o historiador Mitchell G. Bard em Mitos e Fatos – A Verdade sobre o Conflito Árabe e Israelense, obra que mostra a versão oficial deIsrael para as origens da briga.

O sonho do regresso ganhou ares de necessidade política na segunda metade do século 19. O anti-semitismo estava crescendo e perseguições multiplicavam-se pela Europa. Por volta de 1890, um grupo de intelectuais europeus de origem hebraica decidiu que seu povo só poderia sobreviver, se pudesse governar a si mesmo – ou seja, criando um país. O movimento ganhou o nome de sionismo (em homenagem a Sião, um dos antigos nomes de Jerusalém) e teve sua figura de proa no judeu austro-húngaro Theodor Herzl (1860-1904), que hoje é um herói quase mítico para os israelenses. Foi Herzl quem lançou a semente que mais tarde germinaria em Israel. No livro O Estado Judeu, de 1896, ele propôs a criação de um país soberano, governado e habitado por judeus, na antiga Terra Santa – que os judeus chamavam de Eretz Israel, ou Terra de Israel, e os árabes de Filistin ou Palestina.

Em 1897, na cidade suíça de Basiléia, os expoentes do sionismo promoveram seu primeiro congresso e criaram a Organização Mundial Sionista, que passou a patrocinar e incentivar a emigração judaica para a Palestina. A idéia de reerguer a antiga Israel das cinzas do passado espalhou-se pelas comunidades judaicas ao redor do mundo com uma labareda idealista. Muitos judeus religiosos acreditavam que a Terra Santa lhes pertencia por decreto divino – afinal de contas, segundo a Torá, Deus passara a escritura de todo o território para Abraão. Outros tinham aspirações mais práticas do que teológicas: queriam ser livres e escapar da Europa o mais rápido possível. O sionismo também foi inflamado pela força crescente dos nacionalismos regionais e a idéia de que todos os povos tinham direito à autodeterminação, que se espalhou pela Europa a partir de 1850.

No final do século 19, havia cerca de 20 mil judeus na Palestina, cujos ancestrais haviam conseguido driblar a expulsão romana e conviver com os árabes ao longo de séculos. Até 1947, o número aumentaria vertiginosamente. Mais de meio milhão de judeus desembarcaram na região, vindos principalmente da Europa – muitos deles fugindo dos nazistas.

Recém-chegados à Palestina, os judeus fundaram comunidades de agricultores de feitio socialista (os kibutz) e passaram a lutar pela criação de seu Estado. A princípio negociaram e depois compraram briga com os britânicos, que na época faziam um jogo duplo, ora comprometendo-se com os interesses sionistas, ora fazendo promessas de independência total aos árabes. A partir de 1945, militantes sionistas passaram a atacar as tropas de ocupação, realizando inclusive atentados terroristas. Outra frente de batalha foi contra os árabes da Palestina, que reagiram com violência à chegada dos imigrantes.

A violência cresceu até que, em 1947, a Inglaterra resolveu tirar o pé desse barril de pólvora. O governo britânico anunciou que encerraria sua presença militar na Terra Santa e deixaria que árabes e judeus resolvessem seu destino. Naquele mesmo ano, a Organização das Nações Unidas decidiu que a melhor maneira de decidir o impasse era dividir a antiga província otomana em dois pedaços. Em uma assembléia presidida pelo diplomata gaúcho Oswaldo Aranha, a ONU instituiu o Plano de Partilha: 55% da região ficaria com os judeus, e 45% com os árabes. Em 14 de maio de 1948, os sionistas, liderados pelo legendário Davi Ben Gurion, fundaram o Estado de Israel, com capital em Tel Aviv, na fatia concedida pela ONU.

Ao contrário do que o mundo esperava, a Partilha não terminou com a disputa – apenas a agravou. Nas décadas seguintes, Israel iria se envolver em uma série de guerras contra seus vizinhos. Para os sionistas, a culpa foi dos árabes, que não aceitaram a divisão da Palestina e tentaram destruir oestado de Israel. "Ficou claro que era impossível uma solução política para o conflito por um fato simples: os árabes não aceitavam a existência de um estado judeu na Palestina, enquanto que os sionistas jamais se contentariam com menos do que isso", escreve Bard. Já a história contada pelos árabes é bem diferente.

A versão palestina

No século 19, quando propagava a idéia da migração em massa para o Oriente Médio, o movimento sionista cunhou um slogan famoso: "a Palestina é uma terra sem povo para um povo sem terra". A idéia de que o local estava vazio, à espera de colonos judeus, deixava os árabes palestinos furiosos. "Muitos sionistas ignoravam o fato de que a Palestina era habitada por mais de meio milhão de árabes no início do século 20 – e que, para eles, aquela terra era o seu lar", diz o relatório "Origens e Desenvolvimento do Problema Palestino", produzido por especialistas e observadores da ONU na década de 80.

Para os palestinos, a imigração maciça de judeus era uma invasão colonialista. "Eles não tinham muitos problemas com os judeus naturais da Palestina, que lá estavam havia séculos e tinham vínculos culturais com seus vizinhos árabes. Mas aqueles que vinham da Europa, com aparência e costumes europeus, eram vistos como colonizadores estrangeiros", diz Paulo Vicentini, especialista em relações internacionais e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Além do mais, nem todos os judeus nascidos na Palestina eram sionistas – ao passo que todos os asquenazes (judeus vindos da Europa) estavam lá com o firme intento de criar um estado. Dividir a região em dois pedaços, pensavam os árabes, equivalia a entregar metade do país a forasteiros.

O maior medo dos palestinos era perder suas terras, já que a maior parte deles vivia da agricultura. Temiam que milhares de famílias tivessem de abandonar suas casas e vilas para dar lugar aos colonos judeus. Muitos desconfiavam que os líderes sionistas não se contentariam com metade da Palestina e planejassem, em segredo, conquistar toda a Terra Santa. "Os sionistas sabiam que o território concedido a Israel pela ONU não era grande o bastante para acolher todos os judeus", diz Vicentini. Mesmo havendo sionistas dispostos a ficar só nos 55% acertados pela ONU e a acender o narguilé da paz, a evolução dos eventos acabou descambando para uma ladeira trágica, e o pior dos medos árabes virou realidade.

Para os palestinos, a partilha da ONU tinha um feitio absurdo. Primeiro, achavam a divisão desproporcional: mais da metade da região foi dada ao grupo minoritário, que ainda por cima era formado principalmente por imigrantes (os sionistas respondem que a vantagem territorial era ilusória: boa parte das terras de Israel era desértica). Outro ultraje aos olhos árabes: os territórios dos palestinos estavam picotados, com três fatias separadas umas das outras. A população era de 800 mil árabes, com 10 mil judeus espalhados em vilas dispersas – já na porção que ficou para Israel, havia entre 397 mil e 497 mil árabes, contra 500 mil a 538 mil judeus. "Era óbvio que os sionistas deveriam aceitar uma eventual maioria de árabes em Israel ou expulsá-los do país. Não havia outra escolha", escreve o historiador Michael Palumbo em The Palestinian Catastrophe ("A Catástrofe Palestina").

Logo após a criação de Israel, os vizinhos árabes resolveram entrar na briga e cometeram o que muitos historiadores até hoje consideram um erro estratégico: mandaram a diplomacia às favas e fizeram soar as trombetas da batalha. "Todos os caminhos que tentamos para a paz fracassaram. Não nos resta nada além da guerra. Terei a honra e o prazer de salvar a Palestina", anunciou Abdullah, rei da Jordânia, em 26 de abril de 1948. Um mês depois, exércitos de cinco países árabes (Líbano, Iraque, Jordânia, Síria e Egito) vestiram seus turbantes, empunharam suas metralhadoras e marcharam contra o inimigo recém-nascido. Começava, oficialmente, a primeira guerra entre árabes e judeus.

Mas o ataque iniciado pelo rei da Jordânia e seus aliados de nada serviu para ajudar os primos palestinos. Ao contrário: apenas selou sua ruína.

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

Árabes X Israelenses: sangue do mesmo sangue

Os povos engalfinham-se no conflito mais feroz de nosso tempo. A ironia é que os dois povos têm origem em comum e conviveram em paz durante milhares de anos

José Francisco Botelho

Por volta de 1850 a.C., um velho mercador da cidade de Ur, na Mesopotâmia (atual Iraque), recebeu um chamado de Deus. O Senhor ordenou-lhe que juntasse todos os seus pertences, abandonasse seu país natal e partisse em busca de um novo lar, rumo ao oeste: a terra de Canaã. Lá o mercador devia estabelecer sua descendência e dedicar-se ao culto de seu benfeitor, Jeová, o Deus único – uma novidade naqueles tempos politeístas. E lá se foi Abraão, com seu séqüito de parentes, escravos e concubinas.

Ao longo da jornada, o favorito divino teve dois filhos. O mais velho, nascido de sua serva Agar, foi batizado de Ismael. O segundo, filho de Sara, esposa legítima do patriarca, recebeu o nome de Isaac. O país prometido aos descendentes de Abraão era uma terra de desertos e oliveiras, banhada pelas águas do rio Jordão. Ficou conhecida ao longo dos séculos como a Terra Santa – paisagem dos grandes dramas da Bíblia, adorada pelas três maiores religiões do planeta e, hoje, palco do conflito mais importante de nosso tempo. Segundo a lenda, os tataranetos de Abraão deram origem a dois povos de aparência, língua e cultura muito parecidas, mas que agora se entrincheiram em lados opostos no front da política internacional: árabes e judeus.

Quatro mil anos após a época do mais famoso profeta da Bíblia, os historiadores ainda não sabem se ele realmente existiu. Essa história vem inteiramente de relatos religiosos. A Torá, livro sagrado judaico que corresponde ao Velho Testamento cristão, aponta Isaac como o antepassado dos judeus. O Alcorão, por sua vez, remonta a genealogia dos árabes até Ismael, o primogênito de Abraão. Todos esses personagens talvez não passem de mitos. Mas o estreito parentesco entre árabes e judeus é consenso científico. Em 2000, cientistas europeus, israelenses e africanos coletaram os cromossomos de 1,3 mil homens de ambas as etnias, em mais de 30 países ao redor do mundo. A conclusão dos estudos é que os DNAs árabe e judeu são idênticos. As duas nações descendem de uma mesma tribo, que viveu em algum lugar do Oriente Médio por volta de 4000 a.C. – muito antes de Abraão. Israelenses, palestinos, sírios, egípcios e libaneses não são apenas primos. São irmãos genéticos.

Explosões de ódio e violência entre povos irmãos não é novidade alguma na história. Pelo contrário – é quase um padrão. Ingleses, franceses, alemães e italianos, todos descendentes dos antigos germânicos, passaram séculos massacrando uns aos outros e atravessaram duas guerras homéricas antes de alcançarem uma paz duradoura. Durante muito tempo, árabes e judeus desfrutaram de uma convivência criativa, que deu origem a pérolas de arte, tolerância e filosofia.

A briga começou para valer no início do século 20, tendo como pomo da discórdia a mesma terra celebrada nos tomos da Bíblia e nos versos do Alcorão – a antiga Canaã, que hoje corresponde a Israel, os territórios palestinos e partes do Líbano. A luta pela supremacia na Terra Santa estourou com a criação do Estado de Israel, em 1948, e foi uma das peças mais importantes nas disputas estratégicas entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria. Hoje, mais de dez anos após a queda do Muro de Berlim, a briga ainda não acabou – ao contrário, ela define grande parte do quebra-cabeça geopolítico de nosso tempo.

Ao longo dos últimos 60 anos, árabes e israelenses atacaram-se com fúria, retaliaram com impiedade, apostaram alto, perderam muito e mancharam de sangue a Terra Santa. Ambos têm sua parcela de razão e erro. E estão distantes da paz.

Do rei Davi ao sultão Omar

Por volta do ano 2000 a.C., a Terra Santa era habitada por diversas tribos aparentadas, que lutavam entre si pela posse de fontes de água e pasto para animais: amoritas, canaanitas, jebulitas, hebreus. Os últimos levaram a melhor: em 1030 a.C., unificaram a região, criando os poderosos reinos de Judá e Israel. Sob a égide do mitológico rei Davi, Jerusalém virou a capital dos judeus e tornou-se uma das maiores cidades da época. No século 1º a.C., a região – conhecida como Judéia – caiu sob o domínio de Roma.

Cerca de 130 anos após o nascimento de Cristo, uma insurreição de nacionalistas hebreus tentou quebrar o jugo romano (leia mais na página 58). A reação do Império foi radical: os judeus foram deportados em massa e proibidos de colocar os pés na Terra Santa. No evento conhecido como Diáspora, milhares de judeus espalharam-se pelo mundo. Eles se estabeleceram na Europa, em outras regiões do Oriente Médio e até na China.

Após a queda do Império Romano, a antiga Judéia foi conquistada pelo Islã. Saídos dos desertos da Península Arábica (pedaço da Ásia cercado pelo Mar Vermelho e pelo Golfo Pérsico), os árabes espalharam-se pelo Oriente Médio na Antiguidade, como guerreiros e comerciantes. Mas foi só no século 6o a.C., com a fundação da religião islâmica pelo profeta Muhammad (ou Maomé, como é chamado no Ocidente), que os árabes transformaram-se em uma potência militar e política. Exércitos muçulmanos unificaram o Oriente Médio a partir do século 7o a.C., criando um império gigantesco que se estendia das fronteiras da Índia até a Espanha.

O califa árabe Omar, sucessor de Maomé, ocupou Jerusalém em 680 a.C., sem derramamento de sangue, e permitiu que famílias judias voltassem a habitar a cidade. Os árabes deram o nome de Jund Filistin à região que fica entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo – o que hoje equivale mais ou menos a Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Durante a Idade Média, os judeus da Terra Santa viveram sob governo muçulmano. O convívio foi marcado por alguns surtos de perseguição e longos períodos de convivência pacífica.

A partir do século 13, o poder do Império Árabe decaiu. Pouco a pouco, os árabes e judeus do Oriente Médio foram subjugados por outro povo muçulmano: os turcos. No século 15, a região foi unificada sob o Império Turco Otomano, com capital em Istambul (atual Turquia), que dominou a antiga Terra Santa até o final da Primeira Guerra Mundial.

O enfermo do Oriente

Os atuais conflitos no Oriente Médio são em grande parte conseqüência de um terremoto político e social que abalou o mundo no início do século 20: a queda do Império Turco Otomano. Na época, esse estado imenso dominava uma bela fatia do Oriente Médio, o norte da África e o leste da Europa – incluindo as regiões que hoje formam a Síria, o Iraque, Israel e os territórios palestinos. Mas, na metade do século 19, o gigante turco já andava mal de saúde – tanto que os diplomatas europeus se referiam a ele como “o Homem Enfermo do Oriente”. Empobrecido, o Estado otomano entrou em colapso e, pouco a pouco, foi perdendo território para as potências européias. A partilha culminou em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial. Os turcos aliaram-se ao lado perdedor – o Eixo formado pela Alemanha e pelo Império Austro-Húngaro – e perderam a maior parte de suas posses. Assim, o Líbano e a Síria viraram “protetorados” franceses. Já a Palestina, que havia sido província dos otomanos durante 600 anos, ficou sob administração inglesa.

O problema é que a região era habitada por dois povos cansados do jugo estrangeiro. Árabes e judeus queriam chutar os colonizadores e formar seus próprios estados. Foram à luta – primeiro, contra os britânicos, e depois, uns contra os outros. Foi durante o período de dominação inglesa que o conflito entre os dois povos tomou forma, até explodir com a controversa criação do Estado de Israel, em 1948.

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

A revolução dos Aiatolás

Há 25 anos, os iranianos tomados por um sentimento nacionalista e fortemente religioso, derrubaram o governo pró-Ocidente e levaram ao poder um grupo fundamentalista que alteraria o destino do Oriente Médio

Isabelle Somma

Foi tudo muito rápido. Em janeiro, o último xá do Irã, um playboy com fama de dar as melhores festas do mundo, para qual eram convidados chefes de Estado, astros de Hollywood e pilotos de Fórmula 1, fugiu para o exterior. Em fevereiro, o líder da oposição, um religioso radical voltou do exílio, foi recebido em triunfo e assumiu o poder. Em abril, o país transformou-se, após um plebiscito, em uma república islâmica, adotando como base as leis fundamentadas no Alcorão. Depois disso, a história da região, uma das mais sensíveis em termos geopolíticos do planeta, jamais seria a mesma. A Revolução Islâmica ocorrida em 1979 no Irã levou ao poder um grupo de religiosos fundamentalistas com discursos e práticas antiamericanas e antiocidentais, que influenciou toda a região, acirrou antigas disputas com os vizinhos e gerou algumas das imagens que marcaram os anos 80 e 90. Hoje, 25 anos depois, quando o caldeirão aquecido pelas maiores reservas de petróleo do mundo volta a ferver, alimentado por uma intrincada sucessão política e pela ocupação de dois de seus vizinhos – Iraque e Afeganistão –, os olhos (e a memória) do mundo se voltam para lá.

Mas, até 1979 e durante o século 20, o Irã não havia sido um problema para o Ocidente. Pelo contrário, os governos iranianos haviam, em diferentes graus, cooperado e se aproximado de americanos, alemães, britânicos e russos. No início do século, quando se viviam os últimos anos da dinastia Qajar (1779-1925), os britânicos exploravam a maior parte do petróleo iraniano e o exército czarista (depois soviético), deslocava-se com freqüência (e liberdade) pelo território do país (ainda chamado Pérsia). Enfraquecido, o xá Ahmed, soberano desse rincão pobre e dependente, não resistiu a um golpe de Estado em 1921 e o líder rebelde Reza Kahn foi proclamado xá da Pérsia pelo Majlis (Parlamento).

O novo governante tinha dois objetivos. Um deles era modernizar o país, tomando o Ocidente como modelo. Chegou a proibir que homens usassem turbantes e as mulheres, o véu. Mas também promoveu importantes reformas nos sistemas educacional e judiciário, além de construir hospitais e ferrovias. O mais importante, contudo, era livrar-se da dependência estrangeira. Primeiro, Reza Khan mudou o nome do país de Pérsia, palavra de origem grega, para Irã, como os próprios habitantes o designavam. Depois, tirou das mãos dos estrangeiros tudo o que pôde, como os serviços de telégrafos e a emissão de dinheiro. O que não podia tocar com tecnologia própria, como a aviação comercial, negociou contratos mais vantajosos.

Ao mesmo tempo que tentava se afastar de soviéticos e ingleses, o xá se aproximou dos nazistas alemães, com quem tinha em comum o discurso nacionalista e anti-semita e de quem passou a importar tecnologia. Com a Segunda Guerra Mundial, o Irã foi invadido pelos soviéticos e britânicos e dividido em dois. Reza Khan foi afastado do poder e partiu para o exílio na África do Sul, onde morreu três anos depois. Em seu lugar, com o apoio dos aliados, assumiu seu filho Mohammed Reza (chamado de Reza Pahlevi), de apenas 20 anos.

Na década de 50, a ascensão do primeiro-ministro nacionalista, Muhammad Mossadeq, levou a uma crise sem precedentes, desencadeada, em 1953, quando ele decidiu estatizar as reservas de petróleo que estavam nas mãos dos ingleses. Mossadeq rompeu relações com a Grã-Bretanha, depois de descobrir que eles preparavam um golpe de Estado. O Parlamento apoiou o primeiro-ministro, concedendo-lhe poderes ilimitados. O xá, aliado dos britânicos, tentou demiti-lo, mas perdeu a queda-de-braço e foi obrigado a fugir do país.

Segundo o jornalista americano Stephen Kinzer, autor do recém-lançado All the Shah’s Men: An American Coup and the Roots of Middle East Terror (“Todos os Homens do Xá: um Golpe Americano e os Caminhos do Terror no Oriente Médio”, inédito no Brasil), foi nesse momento que os americanos resolveram intervir. “Um influente membro da CIA, Kermit Roosevelt, neto do presidente Franklin Roosevelt, foi enviado ao Irã com ordens para organizar um novo golpe. Ele subornou a imprensa para que trabalhasse contra Mossadeq. Rapidamente, 80% dos jornais do país estavam sob seu controle”, afirma Kinzer. “Membros do Parlamento, líderes religiosos e militares também foram aliciados e o primeiro-ministro foi preso.” O xá retornou ao país, o petróleo voltou às mãos estrangeiras e o Irã teve de pagar indenizações durante dez anos. O episódio marcou o início de um duradouro processo de influência do governo americano no Irã.

Na década de 60, o governo de Reza Pahlevi tornou-se mais ditatorial. Diante das críticas, ele iniciou uma campanha para eliminar seus opositores. Criou uma polícia política, a Savak, que tinha como método corriqueiro de interrogatório a tortura. Um dos descontentes era um proeminente acadêmicoxiita, conhecido como aiatolá Ruhollah Khomeini. Filho de um antigo preso político do tempo de Reza Khan, Khomeini foi duas vezes para a cadeia naquela época. Na primeira, depois de criticar publicamente um acordo em que os americanos se encarregariam de reformar o exército iraniano. Na segunda, acabou expulso do país e instalou-se por algum tempo no Iraque.

Enquanto o xá levava uma vida de playboy com fama internacional, o país sofria com uma grave crise econômica. A classe média, que havia sido beneficiada durante o governo de seu pai, ressentia-se de sua falta de participação política e da proximidade do governo com os Estados Unidos. O aumento da repressão na década de 70 reforçou a oposição ao governo, unindo comunistas e radicais religiosos.

O pontapé inicial da revolução foi uma manifestação pró-Khomeini realizada em janeiro de 1978 na cidade de Qum, um popular centro religioso. Tropas do xá reprimiram o protesto, matando 70 pessoas. Do exílio, Khomeini ordenou que após 40 dias fossem realizadas cerimônias em memória dos mortos, como é tradição no país. Esses eventos, que passaram a se repetir a cada quarentena, se transformaram em protestos contra o governo e o Ocidente. O xá pediu para que o Iraque, do então aliado Saddam Hussein, expulsasse Khomeini, que foi parar na França. O governo impôs a lei marcial, o que só piorou as coisas. Seguiu-se uma greve geral que paralisou a economia do Irã.

Em janeiro, Reza Pahlevi fugiu do país e duas semanas depois, Khomeini voltou a Teerã, após 14 anos de exílio. Ele indicou o líder do moderado Movimento de Libertação, Mehdi Barzagan, para formar o novo governo. Em seguida, o povo foi às urnas e decidiu, em plebiscito, o novo sistema de governo: uma República Islâmica.

Para Hamid Dabashi, especialista em islamismo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, o resultado era esperado. “Desde o início do século 19, com a influência das conquistas coloniais e manobras de britânicos, franceses e russos pelo mundo todo, os povos dominados resistiram seja com nacionalismo anticolonialista, em conjunto com socialismo ou formas variadas de teologias de libertação. Na América Latina, por exemplo, isso ocorreu sob inspiração de ideais cristãos. O mesmo vale para o Islã, que vem sistematicamente se transformando de uma religião medieval para uma idéia singular de resistência contra o colonialismo.”

O país que surgiu desse movimento contra o imperialismo, no entanto, não teve vida fácil. O seqüestro da embaixada americana (leia quadro na página 37) e a guerra contra o Iraque (1980-1988), na qual morreram 200 mil iranianos, colaboraram para manter a instabilidade. E o apoio (até mesmo financeiro) às milícias xiitas no Líbano durante a guerra civil (1975-1990) provocou o isolamento do Irã perante a comunidade internacional.

Os primeiros anos do novo governo xiita foram de turbulência interna. Partidos radicais tentaram assumir o controle do país. Mais de 7 mil militantes da oposição foram assassinados, e seitas consideradas heréticas, como a Bahai, proibidas. Durante os anos da guerra, a economia manteve-se estagnada. Após o cessar-fogo com o Iraque, em 1988, e a morte de Khomeini, no ano seguinte, o país retomou as exportações.

Em 1997, os iranianos mostraram sua insatisfação com os rumos que a revolução vinha seguindo e elegerem um aiatolá reformista, Mohammad Khatami. Mas o momento atual ainda não sugere estabilidade. Para Kinzer, a revolução pode servir de exemplo para os atuais insatisfeitos. “Ela ensina aos iranianos uma amarga, mas muito importante lição. É melhor pressionar por reformas com seja lá quais estruturas existirem que começar a engrenagem de uma revolução sem saber onde é que ela vai parar.”

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

Urbano demasiado urbano

Pedro Cláudio Cunca Bocayuva

A imagem do urbano como desmedida e espetáculo do excesso, da exceção e da catástrofe é parte dos esquemas e mapas de leitura de que dispomos para pensar a cidade na atualidade. Atordoados pela profusão de informações, signos, símbolos, publicidade e objetos necessários para uma adequada participação no modo de vida cotidiano, somos rapidamente capturados para pensar a cidade através das metáforas da segunda modernidade, ou seja, as do “mundo líquido”, as da “sociedade de risco”.

Os processos temporais do mundo antigo, com a repetição da produção e do saque sobre os valores de uso, como ocorreu até o colonialismo ibérico e o imperialismo europeu, foram atravessados pelas cadeias globais de mercadorias com seus impulsos ampliados pelas várias revoluções industriais, pela ciência e pela tecnologia, até o capitalismo tardio e a globalização.

As cidades e as regiões metropolitanas resultam desse espaço de centralização de processos e populações, com a concentração do poder pela circulação das ondas de modernização. No espaço urbano, são articulados pelas relações de produção a multiplicação sem fim dos vetores da acumulação de capital e da sua reprodução impulsionada pela forma monetária, pelo consumo e pelos estilos de vida fetichistas da sociedade do espetáculo.

Nas periferias e semi-periferias do sistema mundo, como as latino-americanas, em particular para países como a Colômbia, a Venezuela, o México e o Brasil, essa urbanização constitui fenômenos de velocidade, impacto e magnitude que nos exigem um olhar crítico sobre a modernização acelerada, autoritária e excludente. Modernização excludente que converge para os contextos de precarização e violência que alcançaram o ápice na década de noventa do século passado.

No século XXI, entramos numa disputa pelos circuitos e os lugares em que habitam as classes populares através da construção de muros, de remoções, de valorização e especulação, complementadas pelos jogos de guerra e controle dos territórios das “comunidades”. As ações estratégicas do novo regime de dominação e segurança nas cidades são alimentadas por leituras estreitas e restritas, quer pelo viés da sociologia da marginalidade, quer pela ótica da estratégia de exclusão baseada nos “choques de ordem”, na “tolerância zero” e no “controle social”. As ações estratégicas de disciplinação e de contenção das “classes perigosas”, implementadas pelo novo regime de controle do Estado policial de segurança, adotam dois pesos e duas medidas no trato da cidadania, e são legitimadas pela criminalização seletiva de populações e territórios.

Se, no curto prazo, o medo e a emergência alimentam as operações e os programas de emergência, no médio e longo prazo, já se manifestam os efeitos ampliados e as explosões de violência de classe num ritmo que vai para além dos ciclos eleitorais e dos eventos mediáticos. A superação da lógica baseada no binômio mercado e medo só pode ser superada por outro modo de ver, ler e agir, numa visão alternativa que reconheça “a centralidade do social” de que nos fala a professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ana Clara Torres, coordenadora do Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território (Lastro) ou, do reconhecimento das potencialidades da resistência e do poder de transformação sustentado pelos “homens lentos” de que nos falava o grande geógrafo brasileiro, professor Milton Santos.

No mundo urbano, entram em choque as dimensões contraditórias e desiguais do desenvolvimento. O urbano articula as tensões e contradições entre vetores verticais e horizontais de poder e de cooperação nas configurações dos modos de produção e consumo, assim como na estruturação das condições de existência que dividem os sistemas de objetos e os sistemas de ação que constituem a articulação entre os lugares.

Nas cidades, nossos modos de vida aparecem como a vasta composição de camadas de experiências, onde se multiplicam as interações entre os grupos de origem distinta, onde as formas de transmissão dos saberes, os modos de agir, os modos de falar e de pensar são constituintes do mosaico que forma a cultura popular urbana. As relações sociais são mediadas pelos diferentes subsistemas de distribuição, de representação e de trocas, cujos ritmos e impactos produzem as diferentes velocidades e as diferentes táticas dos sujeitos na luta pela apropriação e uso dos espaços da cidade, na construção de suas trajetórias e estratégias de vida.

A questão urbana remete para os mecanismos de distribuição e segregação, nascidos da divisão e da reprodução social que fazem da nova natureza social transformada das megacidades, das regiões metropolitanas, das metrópoles um espaço urbano privilegiado para definir a produção social do habitat da espécie no planeta. Mas, nesse processo de urbanização, seria nostálgico e arriscado pretender confundir a defesa do meio-ambiente e a busca de formas de desenvolvimento humano sustentável como um mero retorno ao quadro de vida idealizado de uma suposta “comunidade” anterior ao processo de revolução urbana.

As novas formas comunitárias nascidas dos territórios e populações tradicionais buscam adaptações e composições com o ambiente construído, se articulam de forma prática com processos em permanente mudança, para enfrentar e modificar os modos de usar dados pela dominância do paradigma técnico-científico. Uma novidade potencial da luta das periferias está no direito de acesso às novas tecnologias de informação e comunicação pelos mecanismos das redes sociais horizontais, através de novas abordagens e lutas pelo direito à cidade, visando adequar e mesmo transformar o uso das diferentes tecnologias. O direito ao lugar, o direito a morar, o direito à cidadania se traduziram nas lutas e na poética, “daqui do morro eu não saio não”. Direito e reconhecimento da favela, “do lugar onde eu nasci”, que marca as viradas e as lutas e a memória de construção desse patrimônio que se expõe nos novos museus das favelas, que se traduz em imagem e som nos centros e associações e pontos de cultura.

O mundo contemporâneo já é marcado pela noção da cidade como território produtivo, como espaço de circulação, distribuição e consumo, que articula e difunde os padrões de interação com o agrário e com os ambientes preservados e ou conservados, face ao poder de destruição humano. Para pensar uma cidade que saia da dinâmica reprodutiva perversa da economia política do medo, da fragmentação social e do abuso de poder em todas as esferas de ação, com toda a sequência de danos e violações socioambientais e discriminações étnicas e raciais insustentáveis no longo prazo, é preciso dar conta e repensar o lugar das questões hoje englobadas em torno do informal, do precário e do popular.

Durante o Fórum Urbano Mundial no Rio de Janeiro ( 22 a 26 de março de 2010), mais particularmente no evento paralelo dos movimentos sociais (Fórum Social Urbano), foi apresentada ao longo de alguns debates a necessidade da construção de um novo urbanismo que nasça da confluência entre as múltiplas plataformas que compõem a referência para constituir uma nova urbanidade, rearticulando as agendas da mobilidade democrática e produtiva do território com a afirmação da centralidade da periferia no contexto emergente de um novo direito à cidade.

O mundo urbano demasiadamente marcado pela desigualdade e segregação pode ser objeto de uma transformação com base na rearticulação de saberes e práticas com apoio nas ciências espaciais e nas tecnociências, desde que a voz e a iniciativa política das multidões da periferia esteja no centro das formulações para um enfoque político e tecnológico de planejamento democrático apoiado na dimensão crítica dos sujeitos coletivos populares que participam da construção da cidade como espaço de direitos, colocando a periferia como centro.

Pedro Cláudio Cunca Bocayuva é professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisador do Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território (Lastro), do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

O déficit da Engenharia começa nas escolas

Fernando Vives

Segundo Murilo Pinheiro, presidente da Federação Nacional dos Engenheiros, a alta taxa de desistência nas universidades de Ciências Exatas tem origem com a falta de informação no Ensino Médio

Se o número de engenheiros formados no Brasil não dobrar em cinco anos, faltarão profissionais para atender à demanda nessa área do País. A afirmação é do presidente da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), Murilo Pontes. Tal é a preo cupação da entidade, representante dos sindicatos de Engenharia, que a FNE iniciou um programa com as escolas brasileiras para explicar o que é o curso de formação dos engenheiros. O objetivo é conscientizar os estudantes para as atribuições desse profissional e despertar o interesse na área. Isso porque há uma grave falha de comunicação entre o Ensino Superior de Engenharia e os estudantes dos ensinos Médio e Fundamental. De acordo com o Censo da Educação Superior no Brasil, realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), cerca de 134 mil estudantes começaram os cursos dessa área no Brasil em 2008. No mesmo ano, apenas 30 mil formandos saíram das mesmas universidades. A falta de compreensão real do que seja o curso é um dos fatores desse alto índice de desistência. Nessa entrevista, concedida ao jornalista Fernando Vives, Murilo Pinheiro enumerou as causas que fazem tantos estudantes desistirem do curso e mostrou quanto o mercado carece de profissionais no setor, graças ao bom andamento da economia. Ele também ressaltou a necessidade de as escolas básicas se aproximarem mais dos cursos superiores de Engenharia, tanto com informações sobre a graduação quanto com a formação na área de exatas: “Devemos qualificar já nos ensinos Fundamental e Médio”.

Carta na Escola: O que motivou a Federação Nacional dos Engenheiros a procurar as escolas básicas para falar sobre o curso de Engenharia?

Murilo Pinheiro: O processo foi desencadeado porque temos uma estimativa de que, todo ano, entre 100 mil e 140 mil estudantes entram nas universidades de Engenharia. No entanto, apenas 30 mil a 40 mil se formam no mesmo período. Logo, entendemos ser interessante fazer um esclarecimento para aqueles que gostariam de ir para a área de exatas, incluindo Engenharia, para compreender melhor seus atributos. Pensando nisso, fizemos um vídeo explicando quais são os ramos da profissão e o que o aluno vai encontrar no curso. Isso é importante para que o jovem do Ensino Médio não escolha a profissão no susto. Para cursá-la, é fundamental ter noção do que é esta área. Também é importante apresentar àqueles que não conheciam os atributos do setor.

CE: Quantas escolas receberão esse material patrocinado pela FNE?

MP: A ideia é de que todas as escolas do Brasil recebam. Como são muitas, começamos por usar a estrutura da federação. Solicitamos a todos os nossos sindicatos que fizessem divulgação nas escolas de suas regiões. Aos poucos, a meta é compreender o País inteiro.

CE: A que se deve essa defasagem tão expressiva entre calouros e formandos?

MP: Existem alguns motivos. O primeiro é justamente a razão de estarmos indo às escolas: muitos alunos não sabem exatamente o que é engenharia. Na faculdade, se desiludem. Logo, é necessário esclarecer isso. Outro motivo é causado pela antiga e forte estagnação econômica do Brasil, que durou muito tempo. Imagine o aluno que está cursando Engenharia e não tem muito horizonte na profissão, por conta da conjuntura do País. Isso fez com que muita gente desistisse do curso para tentar uma outra faculdade, ou até mesmo arrumar um emprego sem ter formação superior. Terceiro, temos um problema de formação. Se o aluno não tiver uma formação básica bastante sólida, vai ter dificuldade em tocar a faculdade quando nela estiver.

CE: Qual é a quantidade de engenheiros que a FNE almeja formar?

MP: A ideia é dobrar o número de profissionais formados em cinco anos. Logo, se hoje formamos entre 30 mil e 40 mil engenheiros, queremos aumentar para entre 70 mil a 80 mil por ano. Trabalhamos com um prazo de cinco anos para esta meta – cinco anos é o tempo normal do curso de Engenharia.

CE: É factível dobrar a quantidade de formandos em cinco anos?

MP: Acreditamos que sim. Se você considerar que entram na faculdade cerca de 130 mil a 140 mil, dá para termos 80 mil formandos. Com isso, estaríamos atingindo por volta de 60% da quantidade de jovens que entram nos cursos.

CE: Quais as razões para essa alta demanda de novos engenheiros no mercado?

MP: O Brasil viveu mais de 20 anos de estagnação. A área da Engenharia, como outras, teve crescimento pequeno neste período, às vezes, não crescendo nada. E então agora estamos falando em uma previsão de crescimento econômico de 6%, de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, de estratégias para zerar o déficit da habitação e, além de tudo, teremos a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Tudo isso representa algo maior, que é colocar o Brasil na quinta posição no ranking das maiores potências do mundo. Logo, toda vez que pensamos em desenvolvimento e tecnologia, estamos pensando também em engenharia. Com todos esses fatores, podemos dizer que o dobro do número de formandos nas universidades é uma previsão razoável. Com isso, não podemos esquecer que é necessário aprimorar a qualidade a todo instante. Isso também aumenta muito a necessidade de qualificação de engenheiros.

CE: Há quem reclame também que o curso de Engenharia é muito puxado. Isso é, de fato, um problema?

MP: O curso é, sim, puxado. Se o aluno tiver um bom Ensino Médio, ele pode fazer uma boa faculdade. O início da graduação tem muitos cálculos, teoria e trabalho matemático. Sem a preparação adequada, ele se transforma em um curso puxadíssimo. Agora, claro que tem de ser um curso puxado. Fazer Engenharia implica dedicação forte aos estudos, faz parte do contexto de se tornar um engenheiro.

CE: Como a FNE avalia os cursos de Engenharia atuais?

MP: No geral, é bom. Obviamente, temos universidades ruins, mas a média é boa. O que acontece é que devemos qualificar já nos ensinos Fundamental e Médio, depois cuidando de boas especializações no curso superior.

CE: Alguma mudança deve ser feita no curso de Engenharia?

MP: A prioridade é a formação de mais profissionais. No entanto, temos também outra iniciativa no sindicato: estamos montando um instituto de Ensino Superior, ou seja, uma faculdade de Engenharia de inovação. Com isso, achamos que estamos dando nossa contribuição para o mercado. Não é nosso objetivo competir com outras faculdades, até porque não conseguiríamos. Mas queremos, sim, montar um exemplo de ensino que atenda à demanda para graduação, pós-graduação, pós-doutorado e especializações. Queremos ter a inovação, porque o profissional dessa área precisa se atualizar o tempo todo. A questão da informática foi fundamental para isso, e também o desenvolvimento das novas tecnologias. O engenheiro deve se atua lizar nas áreas da profissão na qual ele está atuando e se desenvolvendo.

CE: Um estudo recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) diz que o crescimento econômico do Brasil pode se beneficiar da faixa etária da população, que está entrando em seu momento ideal de produtividade, com a maioria na idade ativa do trabalho. Os problemas estruturais na área educacional podem atrapalhar?

MP: A gente tem visto isso no mercado. Temos interesse de uma forma muito clara de que a educação seja mais bem trabalhada na base. As escolas públicas estão devendo muito. É o contrassenso da educação atualmente: a melhor escola universitária é a pública. Porém, na base, as piores escolas de Ensino Fundamental são também as públicas. A maioria dos que vão para as universidades estaduais e federais é de alunos que estudaram em colégios caros. Há uma inversão a partir do vestibular. E é isso que o governo tem de atacar.

CE: Este fenômeno de crescimento da economia já aconteceu de maneira menos consistente nos anos 70, durante o chamado “milagre econômico”. Nesse perío do também houve um aumento significativo de faculdades de Engenharia e de engenheiros no mercado. O que podemos aprender dessa experiência dos anos 70?

MP: A estabilidade de agora é muito maior que o boom econômico daquela época. Estamos agora com os pés mais firmes no chão e as coisas são mais transparentes. O nosso entendimento sobre o momento atual é de que o crescimento veio para ficar. E nós, engenheiros, temos uma contribuição a dar.

CE: Muitos dos engenheiros formados no Brasil acabam migrando para países que têm demanda por esses profissionais, como Canadá e Austrália. A imigração de engenheiros brasileiros atrapalha a qualificação do setor?

MP: Ainda não. É verdade sim que temos engenheiros especialistas em todas as áreas que podemos exportar para o mundo todo, mas a discussão do momento é a formação de profissionais para preencher o espaço do mercado. A partir daí, não dar espaço para tantos engenheiros virem para cá competir com nossos profissionais. No momento, o mais comum é irmos a outros paí ses, na América do Sul, por exemplo, buscar engenheiros.

CE: Existe alguma área de engenharia que está mais carente de profissionais?

MP: A demanda é geral. Pode ter pequenas variações, mas um setor depende do outro. Se você pensar na indústria do petróleo, que vai crescer muito, por exemplo, a demanda ocorre para engenheiros elétricos, eletrônicos, civis, químicos e outros. É uma cadeia. E também é importante não dirigir o aluno para uma área específica. Se ele gosta de exatas e pensa em Engenharia, que ele escolha a que melhor lhe convier. Nosso papel é ampliar o leque de escolhas dele.

CE: Quais são as regiões do Brasil mais carentes de engenheiros?

MP: Olha, é praticamente geral a alta demanda. Nós temos de aumentar o número de profissionais, sobretudo no Sul e Sudeste, onde estão os principais polos industriais. Mas também temos regiõ e s do Norte e Nordeste com crescimento esperado muito grande, como Ceará e Maranhão. Precisamos de mais faculdades boas nessas regiões, para que se formem profissionais qualificados para trabalhar na própria região.

CE: Como o professor pode auxiliar na escolha do aluno?

MP: É importante que o professor abra as áreas e fale abertamente com seus alunos e os coloque em contato com as instituições de engenharia, para que ele possa entender um pouco do que é a prática da profissão. Se o professor ficar só no âmbito acadêmico, o estudante acaba por não enxergar  os prós e os contras. Felizmente, hoje os professores estão com a cabeça bem aberta, vendo e discutindo os caminhos que o aluno pode escolher.

Fonte: Carta na Escola – http://www.cartanaescola.com.br/

O rato e o elefante

Amir Khair

O aumento dos aposentados e pensionistas da Previdência Social foi a notícia com maior destaque nas análises sobre finanças públicas, por causar neste ano um adicional nas despesas do governo federal de R$ 1,6 bilhões. Eis o rato.

O aumento da Selic previsto pelo mercado financeiro de atingir 11,75% neste ano, e aí permanecer até o final de 2011, irá causar uma elevação nas despesas do governo federal, no mínimo, de R$ 8,0 bilhões neste ano e R$ 12,1 bilhões em 2011. Eis o filhote de elefante.

A estimativa foi feita considerando a dívida em títulos do governo federal atrelada à Selic no final de abril, no montante de R$ 536,7 bilhões. Sobre essa dívida inalterada é calculado mês a mês o adicional de juros sobre a Selic de 8,75% que vigorou até 28 de abril. Admite-se além das duas elevações de 0,75 ponto percentual (pp) cada já ocorridas, outras três elevações de 0,75 pp, 0,50 pp e 0,25 pp nas reuniões seguintes do Copom.

A estimativa será maior, pois a dívida atrelada à Selic irá crescer a cada mês acima dos R$ 536,7 bilhões e os aplicadores em títulos do governo não atrelados à Selic irão exigir ganhos em suas aplicações acompanhando as elevações da Selic. No final de abril a dívida atrelada à Selic correspondia a 36,0% da dívida em títulos do governo federal. Admitindo que isso ocorra gradualmente a partir de julho até o final do ano, e que a dívida total em títulos registrada no final de abril de R$ 1.492,9 bilhões, cresça segundo a tendência ocorrida neste primeiro quadrimestre, o aumento causado pela elevação da Selic com seus reflexos daria R$ 15,2 bilhões neste ano e R$ 42,0 bilhões em 2011. Eis o elefante.

Fonte: Mercado Ético – http://mercadoetico.terra.com.br/

Um senhor equilibrista

Mônica Manir

Nicomedes é nome de porte. "Aquele que planeja a vitória", explica Tião. Também é nome de uma concoide, a concoide de Nicomedes, curva plana constituída por dois ramos situados em lados opostos de uma reta assíntota que intimida inclusive o dicionário.

Na régua, Tião nunca planejou seu destino. Nascido há 42 anos em Assis, perdeu os pais aos 12, foi criado por uma irmã missionária de voto perpétuo, abandonou a Escola de Aprendizes-Marinheiros, virou churrasqueiro de churrascaria, pedreiro de obra, saqueiro da Zona Cerealista, candidato a atleta e chapa de caminhão. Mas não esperava ? nem de longe ? que seu destino envergaria como envergou em fevereiro de 2003, quando Sebastião Nicomedes de Oliveira caiu de uma altura de 6 metros na frente de uma loja da Rua Oriente, onde tentava emplacar o primeiro luminoso da sua recém-aberta Oliveira Arte Comunicação Visual. Sem nenhum aparato de segurança, ele ainda deu a boa sorte de bater num toldo, mas a má de receber por cima a placa, a furadeira e tudo o mais que seus colegas deixaram cair na tentativa ? diz ele ? de tentar segurá-lo. Em reta descendente, Tião raciocinou: "Não posso cair sentado, não posso cair de costas, não posso cair de lado, não posso cair de cabeça, tenho de cair de pé. Tenho de morrer em pé". Acordou na esquina da Oriente com a Dr. Ricardo Gonçalves sobre a mão esquerda dobrada em "Z", o calcanhar direito meio enviesado e a cabeça fora de prumo. Mas não tinha morrido na frente da loja?

Quase. A sem-vergonhice de seus colegas e do dono do estabelecimento o arrastou até a esquina, de onde ele mesmo pediu ajuda pelo celular. Os bombeiros, informados de que Tião havia sido atropelado por moto ou carro, o levaram para o Vermelhinho, o hospital do SUS Vereador José Storopolli, no Parque Novo Mundo. Ali hibernou por oito dias, sem um alô sequer de Simone, a mulher que chamava de noiva. Saiu com o braço esquerdo engessado até o sovaco e uma bota no calcanhar. Na mão livre, amostras de remédio e um pedido médico para cirurgia no Hospital São Paulo. O pé só estava trincado, mas o punho precisava de uma placa de platina. Tião se lembrava bem do endereço da sala na qual dormia e onde funcionava a sua Oliveira Arte Comunicação Visual, que, em pouco mais de uma semana, de sua já não tinha nada. Os funcionários levaram todo o maquinário e devolveram o prédio alugado ao dono. A alegação: Tião tinha ido desta pra pior.

Pascoalina, uma conhecida, ainda lhe emprestou R$ 60, que mal deram para a pensão. Sem mais valia, Tião caiu no mundo. A saída era seguir o estômago. Acabou se aboletando ao redor do Mercado Municipal, onde poderia viver de tomate, cenoura, melão, melancia, banana e o que mais despencasse das barracas. Porém a depressão era muita. "Para mim, eu era empresário e estava dormindo na calçada. Não queria aceitar a situação." Chegou a dobrar o corpo sobre a grade do Viaduto do Chá, mas tinha medo de morrer, mesmo achando que morto já estava. Sua bênção era a mão torta. Por causa dos antibióticos e dos anti-inflamatórios, não botou álcool na boca. Se tivesse uma convulsão, tomaria outro prejuízo.

Depois de dois meses, procurou uma irmã que mora em Caraguatatuba. Recebeu calor e comida, mas a dor no punho era insuportável e ele voltou à capital para tentar a operação. No vai não vai da saúde brasileira, refugiou-se num albergue, que para ele pouca diferença tem da rua, com a pessoa desligada a cada amanhecer. Enfim, a operação saiu. A fisioterapia ficou para o dia de são nunca. Tião entendeu que procurar os parentes seria pior. "Tem irmão alimentando os filhos e chega você, adulto, naquela situação complicada." Tocou a vida em duras temporadas alberguianas, sempre iluminadas pela escrita. Além de correr como um Forrest Gump, Tião gostava de cravar os sentimentos no papel. O primeiro atrapalhado que o viu escrevendo acabou se tornando seu anjo. No Parque Dom Pedro II, o tal andarilho mandou ver: "Letrado, escreve aí uma carta para a minha mãe". Então deu a ideia da literatura como profissão: "Ela pode mudar sua vida e pode mudar a nossa".

Em 2007, Tião escreveu o livro de poesias Cátia, Simone e Outras Marvadas, publicado pelo Coletivo Dulcinéia Catadora, que divulga material artístico produzido por moradores de rua. A Cátia é mistério, a Simone é aquela e, entre as outras marvadas, prima a bebida: "A pinga pede o corpo/ que pede o chão/ que pede o corpo/ que pede a pinga se o corpo cai". Tião também escreveu o monólogo Diálogo dum Carroceiro, interpretado pelo ator Antonio Carlos de Niggro e apresentado inclusive para o presidente Lula. Hoje o texto roda por espaços alternativos, com O Homem sem País, outro monólogo de Tião, estrelado por ele mesmo. No cartaz, a linha fina tenta explicar o título: "O que é cidade de origem para quem não tem mais para onde ir?"

Desova. "Quis dizer que o morador de rua muitas vezes não volta porque bate a vergonha de se apresentar à família como fracassado, o amigo de infância vai ver que a pessoa não virou artista", afirma. Além disso, o andarilho fica numa cidade só até ser descoberto. Então passa a ser cutucado e transferido de cá pra lá, de lá pra cá, em peruas de desova. "Hoje a principal rota de despejo no Estado é Campinas. Se ela não pode atender, os moradores são largados em São Paulo", afirma. Também por isso, pela movimentação incessante dessa população por vontade própria ou alheia, Tião questiona os números da última pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre pessoas em situação de rua em São Paulo, divulgada nessa semana. O estudo foi feito entre novembro e dezembro, durante o verão portanto, quando moradores de rua descem para o litoral fugindo especialmente do abafo dos albergues. Ele também duvida do número de pessoas levantado pelo estudo ? 13.666. "São mais de 18 mil, a pesquisa se concentrou no centro de São Paulo e não considerou os desabrigados de outros bairros, como São Miguel, Santo Amaro, Penha, onde a população de rua cresceu muito."

Nesse momento Tião não fala como poeta, ator, dramaturgo ou enxerido, mas como um dos fundadores do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), formalizado após o massacre da Sé, em agosto de 2004, no qual moradores foram golpeados enquanto dormiam, sete deles mortalmente. Durante o assassinato, aliás, Tião recebeu ligações de desespero pelo celular vindos da praça. "No caso da Isabella Nardoni a perícia provou quem foram os assassinos. No caso do massacre…" Falando em traumas, ele parece ter superado a queda do andaime, tanto que trabalha em outra esquina da Rua Oriente como oficineiro na Casa Restaura-me, mantida pela ONG católica Aliança de Misericórdia, no bairro do Brás. A casa oferece atividades gratuitas de artesanato para os moradores de rua, que fazem brinquedos, tapetes, colares, porta-vasos. Tião fica por ali oferecendo material, sugerindo o que pode vir a ser divulgado no site da instituição, apartando desentendimentos, dando um norte para quem está perdido da silva.

Wellington chegou devaneado no meio da entrevista, de mochila murcha nas costas e saliva nervosa no canto da boca. Disse que tinham roubado seu telefone e seu violino, mas que ele toca de tudo, de flauta a reco-reco. É só dar a oportunidade. Está num albergue porque a coisa ferveu em casa depois de uma briga com o padrasto. "Foi um rato de mocó que pegou suas coisas, né?", perguntou Tião. Wellington fez que sim. "Esse vai ser prego por um tempão, até aprender a viver na rua", disse Tião, na saída do menino. Prego é a presa dos ratos de mocó, muitos deles ex-cadeieiros que habitam a região.

À saída da Restaura-me, lá estava Marcelo-médico-veterinário-em-situação-de-rua-nice-to-meet-you, alternando frases em inglês e francês, com leves erros de concordância. Tião alerta para as noias dos frequentadores do lugar, porém não descarta as verdades. "As autoridades tendem a achar que um morador de rua falando é como se estivesse louco, delirando ou mentindo." Ele não conhece Marcelo, mas se lembra de um médico diplomado que foi pra rua depois do desgosto de perder o filho numa mesa de operação. Fato é que também recorda uma mulher que se dizia Ana Paula Arósio, vinda da Itália nos braços do Gianecchini. Concorda com a pesquisa da Fipe quando ela diz que muito morador teve carteira assinada. "O problema é que vários desses nem sabem mais reconhecer o próprio nome na carteira."

Rumamos para uma rua que desemboca na Sé, onde Tião participa de um projeto de criação e pesquisa em fotografia chamado Trecho 2.8. O projeto é uma parceria do Instituto Brasis com o Instituto Gens e pretende, como afirma Edson Fragoaz, um dos responsáveis, "viabilizar condições para os adultos em situação de rua terem assegurado o direito à comunicação do que sentem e pensam". Nessa quarta-feira, nove deles sairiam novamente pelo centro para clicar com as máquinas digitais oferecidas pelo projeto. Edson sugeriu um único lugar para todos. Em vão. "A República? Cruel! Com aquela cegonha de ferro?"; "O Arouche? Qual a graça de flor de floricultura?". Saíram a esmo, mas com o compromisso de voltar às 16h30.

Muitos chegaram com fotos de passarinhos em busca de migalhas, belos reflexos distorcidos, flores desabrochando, esguichos psicodélicos, fachadas recortadas, cartazes de agências de turismo. "Não parece que estou em Paris?", sorri Márcio diante de uma Torre Eiffel estourada na máquina. Marilza trouxe novas encruzilhadas, como se estivesse a procurar seu canto, ela que veio do Maranhão atrás de peixes herbívoros. Poucos, como os três desta página, flagraram moradores de rua. Marli fez isso com maestria, mas não permitiu a divulgação. Está esperando o momento certo da glória.

Tião registrou um passado que às vezes revisita em busca de inspiração. "Passo a noite de boa na rua, o lugar me ativa a memória." O bolsa-aluguel, mais a bolsa do curso de fotografia, mais a grana como oficineiro, mais o cachê esporádico de O Homem sem País lhe permitiram alugar um quarto e sala na Penha. Em lan houses, ele atualiza seu diariotiao.zip.net, "o blog que mostra a realidade das ruas de São Paulo". Mora com seus livros prediletos: Germinal, A Revolução dos Bichos, O Diário de Anne Frank e outros que ganha em lançamentos. Filhos? "Achei que tive em duas situações, mas acabei brigando e, na incerteza, ficou assim." Namorada? "Tenho." Um tenho meio sem convicção. Mostra a foto dela no celular. "É uma psicóloga, a gente se conheceu numa festa na Vila Madalena, mas ela sempre foi classe média. Tem vezes em que não consigo acompanhar."

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

A solidão é uma torrente; Não se deixe arrastar por ela

 

Eduardo Araia

A solidão crônica não traz problemas apenas para quem a sente. Segundo um estudo recente, ela se dissemina no tecido social tal como uma doença, "infectando" as pessoas mais próximas, que tendem a seguir o mesmo padrão de comportamento

Shutterstock

É inevitável: nas ocasiões em que mais se espera ver gente reunida comemorando, como o Natal, o Réveillon ou o dia do próprio aniversário, certamente há pessoas sofrendo com a solidão. Em determinados indivíduos, porém, essa sensação se prolonga por muito mais tempo, tornando-se crônica e contaminando inclusive o dia a dia. Segundo John Cacioppo, neurocientista e psicólogo da Universidade de Chicago (Estados Unidos), em qualquer momento que se escolha, por volta de 60 milhões de norte-americanos – cerca de um entre cinco – sentem-se tão isolados que esse estado os torna seriamente infelizes. E o problema não respeita fronteiras geográficas: em cidades que exemplificam a formidável expansão econômica da China, como Xangai ou Ghangzhou, grupos sociais tradicionalmente orientados pelo sentimento de comunidade estão começando a sofrer de uma severa solidão. Aparentemente, a chegada da riqueza também está fazendo muitos chineses se sentirem mais sozinhos.

Cacioppo tornou-se um nome fundamental no moderno estudo da solidão. Ele é coautor de Loneliness: The need for social connection (Solidão: A necessidade de conexão social), livro publicado pela W. W. Norton & Company em 2008, e faz parte da equipe que assina uma pesquisa sobre o tema publicada em dezembro no Journal of Personality and Social Psychology. Esse trabalho, que reuniu especialistas das universidades de Chicago, Califórnia-San Diego e Harvard, revelou que a solidão indesejada pode se comportar como uma doença, capaz até de contagiar outras pessoas. "A solidão se dissemina através do tempo", afirma o neurocientista.

"Ela viaja através das pessoas. Em vez de um germe, ela é transmitida por meio de nossos comportamentos."

O banco de dados que serviu de base para o estudo da equipe de Cacioppo é o mesmo Framingham Heart Study usado por James Fowler e Nicholas Christakis para investigar a felicidade (ver a esse respeito PLANETA 447, págs. 70-73). Os pesquisadores das três universidades envolvidas no trabalho utilizaram entrevistas feitas com mais de 5 mil pessoas ao longo de 10 anos, coletando suas histórias de amizade e de solidão.

A análise do material mostrou que indivíduos solitários tendem a se mover para as extremidades dos círculos sociais, onde possuem cada vez menos amigos. Antes de fazer essa migração, porém, eles "infectam" os amigos remanescentes com seus sentimentos de solidão. Estes, por sua vez, tendem a ficar com um número de relacionamentos próximos cada vez menor, o que os leva a se tornarem solitários e a transitarem para a periferia dos círculos sociais, transmitindo sua solidão para outros amigos. Com isso, o ciclo pode se repetir continuamente, num processo que Cacioppo compara ao de um fio solto na ponta de uma blusa de malha.

Shutterstock

"Detectamos um padrão extraordinário de contágio, que leva as pessoas à fronteira da rede social quando ficam solitárias", afirma o neurocientista. "Na periferia (da rede social) as pessoas têm menos amigos, e a solidão dessas pessoas as leva a perder os poucos laços que ainda têm."

De acordo com os dados recolhidos no estudo de Framingham, um amigo de uma pessoa solitária era 52% mais propenso a desenvolver sentimentos de rejeição social, e qualquer um de seus amigos tinha 25% mais chances de se sentir sozinho, por seu lado. Até mesmo um amigo de um amigo de um amigo corria um risco maior de conviver com a solidão.

"Quando ficam sozinhas, as pessoas tendem mais a interagir negativamente com outras que encontram", afirma Cacioppo. "Se você tem dois vizinhos que são amigos e um fica sozinho, eles começarão a tratar um ao outro de forma menos amigável. Em última instância, eles estão menos propensos a ser amigos."

Embora o estudo mostre o potencial de "contágio" da solidão, Cacioppo ressalta que ela não é uma doença, nem mesmo uma fraqueza individual. De acordo com o neurocientista, ela é definida mais adequadamente como uma reação biológica, comparável à fome, à sede ou à dor. "A sociedade tende a pensar nela como uma característica individual – existem apenas solitários", comenta Cacioppo. "Mas essa é a concepção errada do que é a solidão. Trata-se de um sinal biológico que nos motiva a corrigir algo de que precisamos para a sobrevivência genética. Precisamos de relacionamentos de qualidade. Não sobrevivemos bem sozinhos."

As limitações das redes sociais eletrônicas

Mídias sociais do gênero Facebook e Twitter podem parecer, em princípio, alternativas atraentes para os solitários, mas o neurocientista John Cacioppo não se anima muito com essa possibilidade tecnológica. "Se você está isolado devido a um problema físico ou seu cônjuge sofre do mal de Alzheimer, então o Facebook pode ser uma vantagem real", afirma ele. "Mas quando você está passando seu tempo no Facebook em vez de ficar frente a frente com amigos, isso incrementa sua solidão. Estamos falando de qualidade. As pessoas solitárias usam as redes sociais como um substituto; já as não solitárias as utilizam para dar sinergia aos relacionamentos que têm. A pessoa com 4 mil amigos no Facebook pode muito bem ser um individuo muito solitário."

Os estragos que a solidão faz na saúde atingem tanto o terreno físico quanto o mental. O estudo da equipe de Cacioppo mostrou que ela está relacionada à depressão, ao aumento da pressão sanguínea, à elevação do nível do cortisol (hormônio do estresse) e ao desequilíbrio do sistema imunológico. Ela reduz ainda mais a qualidade de vida ao estimular a ansiedade, a timidez e a sensação de que o solitário não sabe se relacionar bem. Segundo Cacioppo, pesquisas anteriores já haviam mostrado que a solidão pode deixar as pessoas mais desconfiadas em relação às outras e colocar o cérebro numa posição defensiva: "Seu cérebro lhe diz que as pessoas o estão rejeitando. A solidão pode distorcer a mensagem que você está ouvindo."

Como sair dessa enrascada? Para Cacioppo, a estratégia deve começar com uma drástica revisão sobre o que é a solidão de fato – trata-se apenas do corpo enviando um sinal de alerta, sublinha o neurocientista. "Todos os seres humanos normais se sentem sozinhos em algum ponto no tempo, assim como sentem fome, sede e dor. Mas, enquanto temos tigelas cheias de comida, torneiras para água e remédios para dor, não temos nada comparável para a solidão. Não estou lhe dizendo que você precisa de uma tigela cheia de amigos, mas, se você se sente sozinho, preste atenção e não tenha pressa para corrigir isso."

O neurocientista acredita que a sociedade deverá ter benefícios se cuidar das pessoas que foram para a periferia dos círculos sociais. Ele propõe que os vizinhos estabeleçam contato uns com os outros e acrescenta que isso seria facilitado se as cidades se tornassem locais mais adequados para caminhar. Aos seriamente solitários ele sugere ajudar os outros por meio de trabalhos voluntários, como atuar em entidades beneficentes, ou cozinhar para conhecidos. "Quando você está sozinho, sente que poderia até comer outras pessoas", comenta o neurocientista. "Mas o truque é alimentá-las."

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

Pobre príapo, triste tigre

O caso Tiger Woods e a lobotomização da libido

Francisco Bosco

Tiger Woods: a extrapolação de sua conduta para o absoluto patologiza o erro

O campeoníssimo jogador de golfe Tiger Woods teve, a partir do final do ano passado, sua vida privada – se é que essa expressão ainda faz algum sentido no mundo de hoje – vasculhada, exposta e julgada em escala planetária. Como, infelizmente, se sabe, tudo começou quando Tiger sofreu um acidente de carro próximo à sua casa, em Isleworth, na Flórida. Os paparazzi de plantão (sintagma pleonástico) logo se eriçaram. O golfista teria se recusado a comentar o caso, pedindo privacidade à imprensa –sancta simplicitas! –, mas a corja já tinha farejado a possibilidade irresistível de mais um massacre. Surgiram rumores de que Tiger e sua esposa teriam brigado na noite do acidente e que a causa seriam as supostas infidelidades dele.

Poucos dias depois, a revista US Weekly publicava entrevista com a ex-garçonete Jaimee Grubbs, de 24 anos, que afirmava ter mantido relações com o atleta durante 31 meses. Logo veio à tona uma rede de amantes, uma cafetina que dizia ser o golfista seu cliente, e pronto, mais uma vida era oferecida em espetáculo sacrificial – a quem? A essa pergunta tentarei responder adiante. Mas há outra questão nesse caso, que é a que pretendo privilegiar aqui.

Na edição de 3 de março, a revista Veja publicou uma matéria intitulada “Sexo Tem Cura?”. Nela, relatava principalmente os desdobramentos dos episódios recentes, narrados acima, da vida de Tiger Woods. O jogador internara-se numa “clínica de reabilitação de viciados em sexo”. Ficou internado por 45 dias e, ao sair, “protagonizou um patético pedido de desculpas ao mundo inteirinho”. Eis os fatos, basicamente. A matéria prossegue descrevendo o funcionamento das tais clínicas de “rehabpara sexo compulsivo”, apresenta dados estatísticos de “especialistas” (em quê?, pergunto-me eu) sobre a porcentagem dos compulsivos sexuais no mundo e, no fim, comenta outros casos de supostos compulsivos sexuais. Ao final de tão instrutiva leitura, dá vontade de puxar a cordinha e pedir: “Parem o mundo que eu quero descer”.

O álcool e o sexo

Impressiona, de saída, a associação, ou melhor, a equivalência estabelecida entre o álcool e o sexo. O álcool, até certo ponto, abranda a experiência neurótica da realidade. A experiência neurótica é aquela da contradição, das negociações entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. O álcool suspende provisoriamente as demandas sufocantes do princípio da realidade, tornando-a mais benevolente. Por amor à literatura, evocarei duas de suas passagens a respeito. Na primeira, emGuerra e Paz, o narrador nos conta que Pierre, “quando havia ingerido uma ou duas garrafas, percebia vagamente que esse nó tão complicado da existência, que habitualmente o amedrontava tanto, não era tão terrível quanto ele imaginava”. Nesse estado, Pierre escapava de seus problemas estruturais, prometendo-se resolvê-los “mais tarde”. “Mas esse ‘mais tarde’ não chegava nunca”.

Do mesmo modo, diz-nos o seguinte a espantosa e antológica abertura de O Amanuense Belmiro: “Lá pelo oitavo chope chegamos à conclusão de que todos os problemas são insolúveis. Florêncio, então, pediu um nono, a ver se este traria a solução geral”. Num caso como no outro, as contradições da realidade são suspensas pelo álcool. Pierre é capaz de esquecê-las quando bêbado, e os personagens de Cyro dos Anjos são capazes de fazer uma boutade que dribla a angústia física e metafísica. Ocorre que, como se sabe, o efeito do álcool passa, e a realidade permanece a mesma. Alguns tomarão o caminho de viver cada vez mais, e finalmente todo o tempo, nesse estado de suspensão da realidade. “Vício” é o nome que se dá a esse acontecimento, quando o princípio da realidade vai sendo progressivamente abandonado, com consequências, obviamente, desastrosas para a pessoa que se lhe entrega.

Mas se pode comparar o sexo a isso? Por que alguém pode querer curar-se do sexo? O que determina uma compulsão sexual? Em que o sexo faz mal ao sujeito (para além, é claro, de o desejo ser o veneno-remédio que vitaliza e frustra, necessariamente)? A matéria de Veja diz que só quem pode saber se sexo faz mal é o sujeito “que está prejudicando a própria vida a ponto de procurar ajuda terapêutica”. Não devemos perder de vista o contexto da matéria e seu personagem principal, Tiger Woods. Ora, trata-se de um sujeito com evidente obediência ao princípio da realidade. Com excelência, até: é um campeão, rico, esportista, em aparente ótimo estado de saúde. O que faz com que sua experiência sexual possa ser tachada de compulsiva, “autodestrutiva”, em suma, patológica?

Não gozarás

Nada. O fenômeno com que estamos tratando não é o de uma patologia, mas de uma patologização. A vida sexual de Tiger Woods passa a ser autodestrutiva no instante mesmo em que começa a ser destruída pela mídia. É aí que sua esposa descobre ou é ofuscada por suas infidelidades; é aí que ela tem de se haver com o fato de de repente se sentir humilhada em escala mundial; é aí que as relações extraconjugais de Tiger se tornam de uma inconsequência imensa; é aí que ele perde dinheiro, pois seus contratos de publicidade vão sendo todos cancelados; é aí que, submetido a um julgamento universal, culpabilizado até o fundo da alma, ele decide se internar, pedir desculpas, e acaba por assumir um erro que é completamente diferente do que cometeu. Seu erro (no sentido de uma errância, de desviar-se de um caminho reto), originalmente, não tem nada de patológico. Atire a primeira pedra aquele cujo desejo nunca conheceu contradições, aquele que ignora pulsões incontroláveis, aquele que nunca saiu dos parâmetros morais com que tenta conduzir sua vida. Seu erro, originalmente, deveria pertencer à sua esfera privada, e deveria resolver-se – ou revelar-se insolúvel – em sua vida íntima, com sua esposa. Mas a extrapolação de sua conduta para o público absoluto (noção pavorosa) patologiza o erro, o que ele termina por confirmar ao internar-se (mas quem resistiria a tal massacrante julgamento?).

Deve-se perguntar ainda: a quem se oferece tal imolação? E por quê? E por que ela é aceita? Na sociedade do espetáculo e do culto às celebridades, a admiração, que contém uma dimensão masoquista, está sempre na iminência de revirar-se dialeticamente em inveja e sadismo. Quando essa oportunidade surge, a turba se entrega ao linchamento. E as celebridades (vide, por exemplo, o caso Ronaldo) parecem aceitar essa covardia como uma contrapartida, igualmente irracional, da idolatria que lhes é dedicada. Todos entram em surpreendente acordo, em uníssono acorde hipócrita. Os linchadores colocam-se como pilares da moralidade. Os reús declaram-se arrependidos e prometem se emendar. No fundo, o que se passa é uma vingança que tem o gozo por objeto. Os idólatras das celebridades agora exigem: “Nós passamos nossas vidas assistindo ao vosso gozo, e fazendo-vos gozar com nosso olhar; abusastes, e agora tereis vós que assistir ao nosso gozo com a vossa derrota, e sereis obrigado a nos deixar gozar até o fim, isto é, o vosso fim, e permitir que esteja em nossas mãos ressuscitar-vos. Caso contrário sereis por nós abandonado”.

O preço é alto, proporcional à fama; não se exige menos do que uma espécie de lobotomização da libido (isto é, uma supressão absoluta do gozo, objeto da inveja e consequente alvo do sadismo): “Durante o tratamento, o paciente tem que remexer em traumas passados, admitir que se permite pornografia, masturbação e outros atos sexuais, todos excessivamente (‘Podemos não mudar o comportamento, mas estragamos o prazer’, garante o especialista americano Rob Weiss)”. Por sua vez, quem abre a oportunidade do massacre é sempre a mídia, a que costuma faltar qualquer reflexão sobre os limites do privado e do público, sobre o que deve ou não deve ser de interesse jornalístico. Tacitamente, vamos sendo reduzidos ao bordão do Silvio Santos: “Topa tudo por dinheiro”.

A propósito, estou longe de desqualificar a revista Veja in totum, como fazem muitos dos intelectuais de hoje. Mas devo observar a aparente contradição que há no fato de numa mesma edição constar essa matéria que subscreve a patologização do sexo ao lado de mulheres seminuas com evidente apelo sexual. De um lado, um chamado à moderação sexual (com fortes ecos de um discurso de salvaguarda da família tradicional), de outro, um apelo à excitação sexual. Não há contradição: topa tudo por dinheiro. Enquanto isso, um sujeito é patologizado, sua vida é devastada, e quem paga o pato é o sexo. Pobre Príapo, triste Tigre.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

A polêmica da usina de Belo Monte

A polêmica em torno da construção da usina de Belo Monte na Bacia do Rio Xingu, em sua parte paraense, já dura mais de 20 anos. Entre muitas idas e vindas, a hidrelétrica de Belo Monte, hoje considerada a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, vem sendo alvo de intensos debates na região, desde 2009, quando foi apresentado o novo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) intensificando-se a partir de fevereiro de 2010, quando o MMA concedeu a licença ambiental prévia para sua construção

O s movimentos sociais e as lideranças indígenas da região são contrários à obra porque consideram que os impactos socioambientais não estão suficientemente dimensionados. Em outubro de 2009, por exemplo, um painel de especialistas debruçou-se sobre o EIA e questionou os estudos e a viabilidade do empreendimento. Um mês antes, em setembro, diversas audiências públicas haviam sido realizadas sob uma saraivada de críticas, especialmente do Ministério Público Estadual, seguido pelos movimentos sociais, que apontava problemas em sua forma de realização.

A inda em outubro, a Funai liberou a obra sem saber exatamente que impactos causaria sobre os índios e lideranças indígenas kayapó enviaram carta ao Presidente Lula na qual diziam que caso a obra fosse iniciada haveria guerra. Para culminar, em fevereiro de 2010, o Ministério do Meio Ambiente concedeu a licença ambiental, também sem esclarecer questões centrais em relação aos impactos socioambientais.

O governo federal anuncia para o mês de abril próximo, o leilão da usina.

Veja abaixo um resumo dessa história que teve início em fevereiro de 1989, em Altamira, no Pará, com a realização do I Encontro dos Povos Indígenas no Xingu.

Realizado entre 20 e 25 de fevereiro de 1989, em Altamira (PA), o I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, reuniu três mil pessoas – 650 eram índios – que bradaram ao Brasil e ao mundo seu descontentamento com a política de construção de barragens no Rio Xingu. A primeira, de um complexo de cinco hidrelétricas planejadas pela Eletronorte, seria Kararaô, mais tarde rebatizada Belo Monte. De acordo com o cacique Paulinho Paiakan, líder kaiapó e organizador do evento ao lado de outras lideranças como Raoni, Ailton Krenak e Marcos Terena, a manifestação pretendia colocar um ponto final às decisões tomadas na Amazônia sem a participação dos índios. Tratava-se de um protesto claro contra a construção de hidrelétricas na região.

Encontro de Altamira reuniu 3 mil pessoas, 650 índios, entre elas, e foi considerado um marco do socioambientalismo no Brasil.

Em 2008, 19 anos depois, realizou-se em Altamira o II Encontro dos Povos Indígenas do Xingu e daí nasceu o Movimento Xingu Vivo para Sempre.

Na memória dos brasileiros, o encontro ficou marcado pelo gesto de advertência da índia kaiapó Tuíra, que tocou com a lâmina de seu facão o rosto do então diretor da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, aliás presidente da estatal durante o governo FHC. O gesto forte de Tuíra foi registrado pelas câmaras e ganhou o mundo em fotos estampadas nos principais jornais brasileiros e estrangeiros. Ocorrido pouco mais de dois meses após o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em Xapuri (AC), que teve repercussão internacional, o encontro de Altamira adquiriu notoriedade inesperada, atraindo não apenas o movimento social e ambientalista, como a mídia nacional e estrangeira.

O I Encontro dos Povos Indígenas foi o resultado de um longo processo de preparação iniciado um ano antes, em janeiro de 1988, (veja o item Histórico) depois que o pesquisador Darrel Posey, do Museu Emílio Goeldi do Pará, e os índios kaiapó Paulinho Paiakan e Kuben-I participaram de seminário na Universidade da Flórida, no qual denunciaram que o Banco Mundial (BIRD) liberara financiamentos para construir um complexo de hidrelétricas no Rio Xingu sem consultar os índios. Convidados por ambientalistas norte-americanos a repetir o depoimento em Washington lá foram eles. E, por causa disso, Paiakan e Kube-I acabaram enquadrados pelas autoridades brasileiras, de forma patética, na Lei dos Estrangeiros e, por isso, ameaçados de serem expulsos do país. O Programa Povos Indígenas no Brasil, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), uma das organizações que deu origem ao Instituto Socioambiental (ISA), convidou Paiakan a vir a São Paulo, denunciou o fato e mobilizou a opinião pública contra essa arbitrariedade.

Para avançar na discussão sobre a construção de hidrelétricas, lideranças kaiapó reuniram-se na aldeia Gorotire em meados de 1988 e decidiram pedir explicações oficiais sobre o projeto hidrelétrico no Xingu, formulando um convite às autoridades brasileiras para participar de um encontro a ser realizado em Altamira (PA). A pedido de Paiakan, o antropólogo Beto Ricardo e o cinegrafista Murilo Santos, do Cedi, participaram da reunião, assessorando os kaiapó na formalização, documentação e encaminhamento do convite às autoridades. Na seqüência, uniram-se aos kaiapó na preparação do evento. O encontro finalmente aconteceu e o Cedi, com uma equipe de 20 integrantes, reforçou sua participação naquele que seria, mais tarde, considerado um marco do socioambientalismo no Brasil. Ao longo desses anos, o Cedi, e depois o ISA, acompanharam os passos do governo e da Eletronorte na questão de Belo Monte, alertas para os impactos que provocaria sobre as populações indígenas, ribeirinhas e todo o ecossistema da região.

Listada no governo FHC como uma das muitas obras estratégicas do programa Avança Brasil, a construção do complexo de hidrelétricas no Rio Xingu faz parte da herança legada ao governo Lula, eleito em novembro de 2002. Herança que era bem conhecida. Tanto assim, que o caderno temático O Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil, parte do Programa do Governo do presidente eleito, alertava: “Dois projetos vêm sendo objeto de intensos debates: a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, e o de Gás de Urucu, no Amazonas. Além desses também preocupam as 18 barragens propostas na Bacia do Rio Araguaia e Tocantins. A matriz energética brasileira, que se apóia basicamente na hidroeletricidade, com megaobras de represamento de rios, tem afetado a Bacia Amazônica. Considerando as especificidades da Amazônia, o conhecimento fragmentado e insuficiente que se acumulou sobre as diversas formas de reação da natureza em relação ao represamento em suas bacias, não é recomendável a reprodução cega da receita de barragens que vem sendo colocada em prática pela Eletronorte”.

Decisão ficou para o governo Lula

Exemplos infelizes como a construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí (PA) e Balbina (AM), as últimas construídas na Amazônia, nas décadas de 1970 e 1980, estão aí de prova. Desalojaram comunidades, inundaram enormes extensões de terra e destruíram a fauna e flora daquelas regiões. Balbina, a 146 quilômetros de Manaus, significou a inundação da reserva indígena Waimiri-Atroari, mortandade de peixes, escassez de alimentos e fome para as populações locais. A contrapartida, que era o abastecimento de energia elétrica da população local, não foi cumprida. O desastre foi tal que, em 1989, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), depois de analisar a situação do Rio Uatumã, onde a hidrelétrica fora construída, concluiu por sua morte biológica. Em Tucuruí não foi muito diferente. Quase dez mil famílias ficaram sem suas terras, entre indígenas e ribeirinhos. Diante desse quadro, em relação à Belo Monte, é preciso questionar a forma anti-democrática como o projeto vinha sendo conduzido, a relação custo-benefício da obra, o destino da energia a ser produzida e a inexistência de uma política energética para o país que privilegie energias alternativas.

Essas questões continuam a ser repisadas pelos movimentos sociais que atuam na região, como por exemplo, o Movimento Xingu Vivo para Sempre, criado recentemente, e que reúne os que levam adiante a batalha contra a construção de Belo Monte e de outras hidrelétricas no Rio Xingu.

Empossado na presidência da Eletrobrás, em janeiro de 2003, o físico Luiz Pinguelli Rosa, declarou à imprensa que o projeto de construção de Belo Monte seria discutido e opções de desenvolvimento econômico e social para o entorno da barragem estariam na pauta, assim como a possibilidade de reduzir a potência instalada, prevista em 11 mil megawatts (MW) no projeto original.

A persistência governamental em construir Belo Monte está baseada numa sólida estratégia de argumentos dentro da lógica e vantagens comparativas da matriz energética brasileira. Os rios da margem direita do Amazonas têm declividades propícias à geração de energia, e o Xingu se destaca, também pela sua posição em relação às frentes de expansão econômica (predatória) da região central do país. O desenho de Belo Monte foi revisto e os impactos reduzidos em relação à proposta da década de 80. O lago, por exemplo, inicialmente previsto para ter 1.200 km2, foi reduzido, depois do encontro, para 400 km2. Os socioambientalistas, entretanto, estão convencidos de que além dos impactos diretos e indiretos, Belo Monte é um cavalo de tróia, porque outras barragens virão depois, modificando totalmente e para pior a vida na região.

foto original: Pedro Martinelli

Fonte: Instituto Socioambiental

Finanças debilitadas podem alterar curso das forças armadas dos EUA

VIRGÍLIO ARRAES

Desde o fim da Guerra Fria, há a possibilidade de se reduzirem em termos reais os gastos militares no país. Normalmente, o governo alega a imprescindibilidade da manutenção de um padrão de segurança sem par no globo, a fim de enfrentar de modo adequado ameaças decorrentes de grupos terroristas ou de Estados renegados.

Desta forma, não se toma normalmente medida alguma no tocante à contenção de custos nas forças armadas. Todavia, a substantiva dívida interna tem influenciado a Casa Branca a considerar a hipótese de atingir também com cortes o segmento castrense.

Quase dez anos após o ataque terrorista do 11 de setembro, Washington finalmente admite a desproporcionalidade de seu arsenal e mesmo de sua equipagem perante outros países, isto sem considerar que boa parte deles alia-se-lhe de maneira inconteste.

O orçamento militar norte-americano equivale a 2/5 dos dispêndios mundiais, soma apenas igualada caso se enfileirem os recursos dos próximos quinze países da lista; acrescidos os custos de seus aliados, a quantia perfaz aproximadamente 2/3 do total.

Se não há adversário algum à vista em termos de eficiência tecnológica no curto prazo, o Executivo inclina-se a pôr de lado onerosos projetos de inovação, com o objetivo de atender mais às demandas imediatas de seus intermináveis dois confrontos.

Em geral desacordante quando se menciona a possibilidade de redução da receita militar, o Congresso mostra-se costumeiramente casmurro às iniciativas do Executivo. No fim, a economia orçamentária, se obtida, abate-se da rubrica dos reformados ou dos reservistas.

No entanto, finanças debilitadas podem involuntariamente auxiliar o encerramento de uma das confrontações ou ao menos sua forma de operação. Em maio passado, dezoito senadores posicionaram-se a favor da retirada das tropas do Afeganistão, número modesto se lembrado o total de parlamentares da câmara alta – uma centena –, mas superior ao de 2007, treze, relativo ao retorno dos contingentes do Iraque.

Na Câmara dos Deputados, subscreveu-se em junho iniciativa similar, com proporcionalmente maior apoio, ainda que também insuficiente – noventa e dois votos de duzentos e dezoito necessários. Em ambas as propostas, solicitou-se que o presidente Obama apresentasse em três meses um cronograma de saída do território afegão, inclusive das companhias privadas de segurança a serviço do governo estadunidense.

Vários parlamentares democratas manifestam preocupação com o andamento das duas guerras, tendo em vista os efeitos eleitorais negativos na próxima campanha presidencial. Até lá, na hipótese de sua continuidade, as pelejas já não terão, aos olhos do eleitorado, a rubrica republicana.

Em decorrência do desgaste de sua imagem, os Estados Unidos poderiam encerrar um confronto, mas não interromperiam determinadas ações, como as chamadas especiais ou secretas, ampliadas durante a gestão Obama.

Com o propósito de anular certos grupos suspeitos de terrorismo, o governo alargou sua atuação em mais quinze países, ao chegar a setenta e cinco, com mais de quatro mil efetivos, sem adicionar os atuantes no Iraque e no Afeganistão.

Oficialmente, as unidades especiais treinam forças locais em contraterrorismo ou atuam conjuntamente com elas em ações de retaliação. Entrementes, sua presença pode estender-se a ações preemptivas de forma unilateral e de cunho letal.

Especula-se que Washington, sob responsabilidade de Obama, já as tenha enviado para incursões secretas na Bolívia, Equador, Colômbia, México, Paraguai, Geórgia, Paquistão, Somália e mesmo Irã. O objetivo da missão varia: do terrorismo ao tráfico de drogas.

A base legal para sua execução lança raízes no início de 2004, através de portaria do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld – por estímulo dos neoconservadores daquela pasta -, com o objetivo de refrear a movimentação da Al-Qaida.

A partir de então, reduziram-se as exigências administrativas para que unidades especiais operassem fora do teatro convencional de guerra, como países fronteiriços, por exemplo, caso uma ação, como o encalço a militantes extremistas, estivesse em curso.

Com o tempo, o arco de operação amplia-se, ao estender-se literalmente, em tese, para todo o globo. Deste modo, a gestão de Obama, à primeira vista, inclina-se para alterar a atuação das forças armadas. A expectativa é colher, com menos custos, resultados mais eficientes. O espalhafato do pós-11 de setembro cederia lugar à discrição, com a conseqüente amenização da imagem belicosa do país.

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Saramago: leia o poema "Suspiros lusitanos" de Ademar Bogo

Ademar Bogo
Da coordenação nacional do MST


Se um suspiro, leve e lusitano
Zumbir nas almas das nações imensas
É o comunista que para além das crenças
Silenciosamente da vida física se dispensa.

Vai pessoalmente viver a eternidade
E olhar de perto na tez do criador
Que pelas criaturas foi subjugado
E obrigado a justificar o horror.

Irá verificar que as guerras entre os deuses não existem
Pois são apenas conflitos da existência
Que os homens criam e põe-se a conflitar
Pedindo a Deus que tome providências.

E faça sempre o mais forte vitorioso
Abençoado pelas cruéis vitórias
Para deixar nos livros registrados
Os escritos que reflitam a superior memória.

Tudo o que disse são sobre os seus dilemas
Ficam como dizeres formulados
Se não dava nem acreditava em conselhos
É porque queria vê-los por conta experimentados.

Os próprios passos seriam os conselheiros
E os conselheiros caminhantes e aprendizes;
Se os erros deveriam ser experiênciados
Com os acertos formariam matrizes.

Era a crença de um apaixonado
Que a si mesmo o saber se concedeu
Porque acima de todas as verdades
Acreditava que não existe o absoluto ateu.

Por sobre as oliveiras e as corticeiras
Versos e letras irradiarão verdades
A qualquer tempo virarão consciências
E viverás nos povos em forma de saudades.

Assim abrimos o tempo enlutado
Para purgar a dor do prejuízo humano
Se no passado choramos escravizados
Hoje, nossos suspiros também são lusitanos*.
.

* Os lusitanos (povos Lusis) constituíram um conjunto de povos ibéricos pré-romanos de origem indo-europeia que habitaram a parte Oeste da Península Ibérica Em 29 a.C., tendo à frente o líder Viriato, resistiram a invasão, através de guerrilhas e emboscadas. Mais tarde foi criada a província romana da Lusitânia nos territórios, que atualmente é Portugal. Por esta razão, os povos que falam línguas que tem como tronco a língua indo-europeia, como português e espanhol, principalmente, somos todos descendentes do povo guerreiro, lusitano. Por isso, choramos a morte do irmão e companheiro José Saramago, falecido em 18 de junho de 2010

Fonte: MST – http://www.mst.org.br/mst/index.html

Jovem e violência

As bases que estruturam a saúde mental na fase da adolescência são frágeis. Sua má constituição gera problemas de conduta

Vanessa Cristina da Silva

Fotos: Shutterstock

Ao abordar a conduta de adolescentes que cometem infrações, nos deparamos com a realidade social produto do contexto sócio-histórico. Tendo claro essa referência aprofundamos as nuances que envolvem esses jovens propondo ser imprescindível levar em consideração suas famílias, seus vínculos formados ou negados e a influência do círculo familiar no processo de aprendizagem. A família constitui o espaço de socialização primária que orienta condutas, valores e viabiliza as primeiras aprendizagens, sendo assim, o homem é produto de suas capacidades cognitivas e de sua interação com o meio. O primeiro sistema com o qual a criança tem contato é o sistema familiar, no qual o primeiro vínculo é constituído. Não nos esqueçamos que, o primeiro passo para aprendizagem é a criação de um vínculo – aprendemos com aquele a quem confiamos o direito de ensinar.

A psicopedagoga Alicia Fernandez (1991) explica que olhar o desenvolvimento da criança no contexto familiar supõe três níveis de influência: o individual, o vincular e o dinâmico. No nível individual leva-se em conta o indivíduo e suas instâncias (organismo, corpo, inteligência e desejo), que geram uma rede particular de vínculos e significações em relação ao aprender. O nível vincular corresponde à maneira como ocorre a circulação e transmissão de informação entre os membros da família (segredos, alianças, fatos). O nível dinâmico caracteriza-se pelo grau de contato com a realidade circundante, isto é, com o sistema mais amplo que eventualmente proíbe, castiga ou estimula. Esse nível compreende a interação entre os membros da família através da percepção do estímulo, do respeito à autonomia e à privacidade, e a questões que impõem autoridade, orientações e advertências, entre outros.

Fotos: Shutterstock

É o espaço constituído pela família que inicialmente orienta condutas, valores e proporciona as primeiras aprendizagens. Portanto, de maneira geral, influencia o comportamento futuro dos jovens

Influência de fatores

É um equívoco pensar que o problema de aprendizagem é causado apenas por sua estrutura familiar. A hipótese mais coerente é a de considerar vários fatores de caráter orgânico, familiar, psíquico ou de experiências negativas como desencadeantes de problemas de aprendizagem.

Desse modo, não se pode afirmar que há um tipo de família própria à criança que apresenta problemas de aprendizagem. Em diversas configurações familiares pode surgir um terreno fértil para a formação de um sintoma de dificuldade de aprendizagem, dependendo da maneira como o conhecimento circula no seio da família ou como um segredo é acionado.

Todo esse arcabouço que retrata a criança, a família e o processo de aprendizagem tem como principal ideia amparar um estudo que culmina na adolescência, para que o tema possa ser entendido de maneira evolutiva no processo de maturação humana. As exposições feitas anteriormente devem servir de parâmetro para observar as transformações do vínculo familiar e o significado do conhecimento no processo de desenvolvimento subsequente.

Um exemplo, que alia a teoria à prática, foi visto nos pátios de uma entidade em que jovens cumprem medida socioeducativa de privação de liberdade no Estado de São Paulo. Em dia destinado à visita de familiares, uma mãe e um filho passam todo o tempo sentados, um ao lado do outro, sem se dirigir a palavra, sem trocar olhares, ou seja, sem promover a circulação de informação. A cena sugere que a relação vincular dos membros dessa família é frágil. Não há a palavra pautando sentimentos, significando sensações, formando elo. Uma pesquisa sobre o histórico do jovem apontou para o uso abusivo de drogas desde a infância, com consequências em seu organismo, na construção de vínculos e no significado do aprendizado. O jovem não expressa curiosidade por nenhum assunto escolar, suas ideias sempre remetem à morte m à m te e sua expressão corporal é agitada a todo instante. Por fim, ele pode ser visto como um sujeito que só reconhece a relação de luto constituída no sistema familiar, em que os papéis dos membros da família se confundem inevitavelmente para o jovem com a morte violenta, situação ocorrida com seu pai e irmão.

Abandono e negligência

Segundo a psicóloga com especialização em Prevenção da Violên cia contra Crianças e Adolescentes, Luciane Evangelista de Oliveira Claro, crian ças e adolescentes retiradas de suas famílias podem criar um grau de desconfiança nas suas relações com o mundo. Muitas delas viven ciaram, no convívio com suas famílias, situações de negligência, violência física, sexual, psicológi ca, maus tratos que possivelmente deixarão marcas profundas

Fotos: Shutterstock

Problemas de aprendizagem são provocados por vários motivos, entre eles fatores de caráter orgânico, familiar, psíquico ou ligados a experiências negativas

A DEFASAGEM ESCOLAR É UMA REALIDADE NA VIDA DOS JOVENS EM CONFLITO COM A LEI. A ESCOLA É ENCARADA COMO DESMOTIVADORA E SEM NADA A LHES OFERECER

Desejos inconscientes

O aprender é o canal possibilitador de autonomia, tanto da criança quanto do adulto, e é capaz de ser bloqueado por desejos inconscientes, sendo os sistemas familiares, eventualmente, terrenos propícios para a gestação de problemas de aprendizagem. Mas é preciso ter sempre em mente que a família não é a única causa do problema de aprendizagem, pois esse é a expressão de uma série de causas.

Na adolescência, a questão familiar influencia de maneira significativa o processo de crescimento. Os pais nesta fase se deparam com a rebeldia de seus filhos, são julgados por eles e devem agora evoluir para uma nova forma de relação com um filho adulto. O sistema familiar adapta sua estrutura e dinâmica aos períodos de desenvolvimento da criança e adolescente nele inserido, favorecendo em maior ou menor grau sua evolução e maturação. Esse desenvolvimento depende também de como ocorre a formação do vínculo entre os membros do grupo familiar, pois, sendo esse o primeiro vínculo formado na vida, irá certamente influenciar os vínculos que vierem posteriormente e, principalmente, interferir no aprendizado.

Há numerosos traços recorrentes no perfil de adolescentes infratores. A ausência da figura paterna é um deles. Outro é o abandono escolar, a repetência e o desinteresse pela escola.

As mudanças físicas e psíquicas sofridas pelos indivíduos na adolescência também precisam ser levadas em conta para melhor entender a situação atual vivenciada pelos adolescentes em conflito com a lei. Segundo Aberastury & Knobel (1981), as mudanças psicológicas e corporais que acontecem nesse período levam a uma nova relação com os pais e com o mundo. Isso ocorre por meio da elaboração do luto pelo corpo de criança (puberdade e suas transformações), o luto pela perda da identidade infantil (através de mudanças corporais começa a surgir uma nova identidade ligada ao corpo de adulto) e o luto pela relação com os pais de infância (caracterizada por uma relação com os pais que agora enxergam uma genitalidade e uma nova personalidade emergente em seus filhos).

Nesta fase de construção da identidade, o adolescente flutua entre o impulso à independência e o medo da perda do conhecido. É um período de ambivalência, contradições, contestações e críticas a limites que resultam em atritos dentro do meio familiar e social. Não só o adolescente sofre com tantas mudanças, mas também os pais têm dificuldade de aceitar essa nova identidade e esse novo corpo. Essa dificuldade de aceitação implica, por vezes, em uma rejeição por parte dos pais, mascarada pela concessão de uma excessiva liberdade, que é interpretada pelo adolescente como um abandono.

A ADOLESCÊNCIA É UM PERÍODO DE AMBIVALÊNCIA, CONTRADIÇÕES, CONTESTAÇÕES E CRÍTICAS A LIMITES QUE RESULTAM EM ATRITOS DENTRO DO MEIO FAMILIAR E SOCIAL

Fotos: Shutterstock

Um perfil familiar comum à vida de adolescentes envolvidos com o crime é a ausência do pai. Ela provoca saudade, dúvida, vergonha e até mesmo sentimento de inferioridade

Conflito entre ter e ser

O adolescente confronta teorias políticas e religiosas, afirma sua opinião e constrói questões éticas sobre determinado assunto. Mas é preciso lembrar que o adolescente é uma pessoa ainda em desenvolvimento, não possui valores devidamente concretizados. Quando ele comete um roubo, de certa forma, encontra um caminho para se inserir em uma sociedade capitalista – que prega o ter e não o ser – e com esse ato infrator soluciona o problema de desigualdade social imposto a si.

A adolescência sempre foi estudada isoladamente, porém, é um processo inserido em uma estrutura social que dita regras, valores e condutas. Fatídico é que experimentamos em todo o mundo a formação de uma juventude inconformada que se expressa com violência. Essa violência vem como resposta à violência institucionalizada das forças de ordem familiar e social. O adolescente que se destina à busca de ideais esbarra com a violência e o poder, e ta bém os usa. Na busca exacerbada de valores e modelos, os adolescentes encontram atualmente ídolos um tanto quanto duvidosos quanto à maneira de se fazer justiça ou protesto. Um adolescente infrator, ao ser questionado sobre quem seria seu ídolo, responde Osama Bin Laden, o que denota a carência social de bases ideológicas sérias e pacifistas. A adolescência é um período complexo, cheio de dúvidas e incertezas. É evidente a carência que sofre a atual juventude de atenção familiar e de bons exemplos que possam instigar boas ações.

É possível analisar a origem da tendência antissocial, em alguns casos percebida entre os adolescentes infratores. Segundo Winnicott (1984), o amor e o ódio são os dois sentimentos básicos que constroem as relações humanas. Contudo, a agressividade de todas as tendências humanas é oriunda de fatores externos que vem à tona, sendo sempre muito complexo identificar suas origens.

De acordo com Winnicott, para entender a tendência antissocial de uma criança é necessário conhecer as fantasias inconscientes existentes nela. Isso porque sua personalidade está sendo constituída o tempo todo através de trocas psíquicas que progridem na mesma proporção que o dar e o receber físico. Portanto, quando as forças do ódio ameaçam dominar as forças do amor é dramatizado exteriormente o mundo interior, representando ele próprio o papel destrutivo. Se existe expectativa na vida interior, a criança pode utilizar os impulsos instintivos, até mesmo os agressivos, em algo proveitoso e saudável na vida real, é a sublimação. Porém, se a destruição for drástica, nada se pode fazer para ajudar. À criança resta a negação de fantasias más ou a sua dramatização.

Winnicott e a delinquência

A hipótese que surge desses estudos é ser o adolescente infrator um indivíduo cujo mundo interior está despedaçado e que exorta esse fato por meio de comportamentos agressivos, dramatizando sua história. Winnicott (1984) vê o problema da delinquência juvenil como uma consequência decorrente da privação da vida familiar. Pois, ao perceber que a referência da sua vida se desfez, a criança sente-se angustiada e busca novas referências.

A criança tem a necessidade de ser cuidada, protegida por alguém e até mesmo de ser sancionada e ter seus limites estabelecidos. A criança antissocial, que não encontrou limites devidamente direcionados pela família e pela escola, recorre à sociedade como última instância, a fim de que essa estabeleça seus primeiros limites, para que ocorram então, os estágios de crescimento emocional. Sendo assim, pode-se enxergar ainda uma esperança na delinquência, pois essa nada mais é do que um pedido de socorro que clama o controle por pessoas protetoras e acolhedoras. É claro que a visão de Winnicott, ao culpar a família pela delinquência não se restringe somente a isso. Frisa que a criança não resiste somente quando todas as outras instâncias – como escola, comunidade e sociedade – também falham, deixando claro que a privação familiar não é um fato isolado e determinante, e sim, o início de uma reação em cadeia.

Fotos: Shutterstock

Mudanças psicológicas e corporais que ocorrem na adolescência alteram a relação dos jovens com os pais e com o mundo. Mal conduzidas, podem levar à violência

Perfil do adolescente infrator

Em 2002 IPE (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que dentre os 9.555 adolescentes cumprindo medida socioeducativa de internação e internação provisória no país, 90% são do sexo masculino, 76% possuem entre 16 e 18 anos, 97% são afro-descendentes. No total, 51% não frequentam a escola, 90% não concluíram o Ensino Fundamental; 49% não trabalhavam; 81% moravam com a família quando praticaram a infração; 12,7% viviam em famílias que não possuíam renda mensal; 66% em famílias com renda mensal de até dois salários; 85,6% eram usuários de drogas. Entre os principais delitos praticados pelos adolescentes privados de liberdade estão o roubo (29,6%); o homicídio (18,6%); o furto (14,0%); o tráfico de drogas (8,7%); o latrocínio (5,8%); o estupro/atentado violento ao pudor (3,7%); e a lesão corporal (3,3%).

Defasagem escolar está sempre presente

O Levantamento Nacional do Atendimento Socioeducativo de Adolescentes em Conflito com lei realizada pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos (SEDH) em 2008, sinaliza o aumento dos indicadores. O número total de internos no sistema socioeducativo de meio fechado no Brasil é de 16.868 adolescentes, sendo 11.734 na internação, seguidos da internação provisória 3.715 e da semiliberdade com 1.419. É fato consumado que a defasagem escolar é uma realidade na vida dos jovens em conflito com a lei.

Evidenciamos que as pesquisas revelam de maneira quantitativa a defasagem escolar, e raramente demonstram de maneira qualitativa os índices que retratam a dificuldade de aprendizagem. Esses jovens encaram a escola como uma instituição desmotivadora e sem nada a lhes oferecer. A defasagem escolar é praticamente o cartão de visita do adolescente em conflito com a lei, realidade a qual a instituição luta para mudar.

Vanessa Cristina da Silva é psicóloga, psicopedagoga e especialista no tema Adolescente em Conflito com a Lei

Referências

ABERASTURY, A., KNOBEL, M. Adolescência Normal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981.

FERNÁNDEZ, Alicia. A Inteligência Aprisionada. Tradução Iara Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

PICHON-RIVIÈRE, E. Teoria do Vínculo. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

ROCHA. E. Mapeamento Nacional da Situação das Unidades de execução da medida socioeducativa de privação de liberdade ao adolescente em conflito com a lei. Brasília: IPEA/ DCA MJ, 2002.

WINNICOTT, D.W. Privação e Delinquência. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

Fonte: Revista Psique – http://psiquecienciaevida.uol.com.br

A versão italiana das cotas

Itália institui teto máximo de alunos de pais estrangeiros por sala de aula, como forma de preservar a língua, a cultura e a cidadania locais. Será mesmo?

Bianca Fraccalvieri

O próximo ano letivo na Itália será inaugurado, em setembro, com uma novidade: um teto que fixa em 30% a presença de estudantes estrangeiros nas classes dos ensinos médio e fundamental. O anúncio foi feito no final de 2009 pela ministra da Instrução, Universidade e Pesquisa (MIUR, o equivalente ao Ministério da Educação no Brasil) do governo Berlusconi, Mariastella Gelmini. Ela defendeu o teto argumentando que, em alguns casos, a presença de estrangeiros é de 100%, e isso certamente não favorece sua integração no país. "Estamos estudando os aspectos técnicos da medida para introduzir este teto, e haverá também uma nova matéria, a Educação para a Cidadania e para a Constituição", anunciou.

Uma nota emitida pelo Ministério da Instrução no dia 8 de janeiro deste ano – e enviada a todas escolas do país – especifica que este teto poderá variar de região a região, de acordo com suas especificidades. Ou seja, o limite poderá ser superior a 30% se os alunos estrangeiros apresentarem "adequadas competências linguísticas" – como frequentemente acontece com os filhos de estrangeiros nascidos na Itália (vale lembrar que o sistema jurídico italiano é baseado no iuris sanguine e não no iuris solo, isto é, o nascimento no território não garante a nacionalidade). Em contrapartida, o teto poderá ser reduzido se, no momento da inscrição, os alunos estrangeiros demonstrarem um escasso conhecimento da língua italiana, o que comprometeria "uma participação plena nas atividades didáticas".

"Estabelecer um teto de 30% para os alunos estrangeiros por classe é um modo útil, na minha opinião, de favorecer a integração, porque graças a este limite se evita a formação de ‘classes gueto’, frequentadas unicamente por alunos estrangeiros", defendeu ainda a ministra da Educação. Por sua vez, a Rede dos Estudantes do Sistema Fundamental declarou que o teto não é a solução para o problema da integração. Além disso, dizem os representantes da instituição, a medida apresenta lacunas. Citam como exemplo a indefinição sobre como será garantido o direito à educação para os estudantes que permanecerão fora da escola em função da fixação do teto.

Estrangeiros nas escolas
À primeira vista, a medida pareceria ser consequência de uma "invasão bárbara" à escola italiana. Algo de tal ordem que ameaçasse os valores e a cultura italiana. Mas, segundo os dados do Dossiê Caritas-Migrantes, realizado em parceria pela Caritas italiana (ligada ao Vaticano) e pela Fundação Migrantes, no ano escolar 2008-2009, os estudantes filhos de pais estrangeiros chegaram a 628.937, num total de 8.943.796 alunos matriculados, ou seja, 7% do total. O documento é a principal referência quanto à imigração no país.

Apesar do número relativamente pequeno de imigrantes, a questão é sua distribuição geográfica irregular, com altos índices na parte setentrional do país. A Caritas esclarece, porém, que, entre os "estrangeiros", quase quatro de cada dez alunos (37%) nasceram na Itália. E, para esses estudantes, a língua não é nem um obstáculo nem um problema. Com seus colegas italianos, eles compartilham comportamentos, consumo e incertezas existenciais.

Mas não só: esse clima político xenófobo, todavia, começa a deixar as plenárias parlamentares para ganhar repercussão no dia a dia dos jovens. Uma pesquisa apresentada em fevereiro no Parlamento aponta que, entre os estudantes "puramente" italianos, o racismo é um fenômeno que está longe de ser erradicado. Segundo o relatório, dos dois mil jovens entrevistados, quase a metade, 45%, declara, em relação aos estrangeiros, atitudes de fechamento, que para 20% se transmutam em xenofobia, enquanto a porcentagem que manifesta abertura fica em 40%.

Precedentes
O teto, na verdade, causou muito menos polêmica do que outra moção apresentada pelo Partido Liga Norte (partido de separatista de extrema direita, radicado na região da Padânia, norte do país, liderado por Umberto Bossi, ex-ministro do gabinete de Silvio Berlusconi), e que na realidade foi o berço do limite de 30%.
O parlamentar Roberto Cota propôs criar "classes de adaptação" para os alunos estrangeiros.

Na prática, o projeto, já aprovado, prevê que esses estudantes só poderão assistir às aulas depois de superarem provas de avaliação de língua italiana. Nessas classes de adaptação, além do italiano, estão previstos "percursos monodisciplinares e interdisciplinares", para uma educação voltada "à legalidade e à cidadania".  

A oposição logo se manifestou, afirmando que a moção representa "uma regressão cultural, muito mais do que política. Falou-se de humilhação, intolerância, incivilidade e apartheid: "Uma divisão assim tão clara entre crianças que falam italiano e as que ainda não falam corretamente evoca os aspectos mais obscuros do apartheid", declarou Guglielmo Epifani, secretário da Confederação Geral Italiana do Trabalho (Cgil). Para o secretário-geral da Confederação Italiana do Sindicato dos Trabalhadores (Cisl), Raffaele Bonanni, trata-se de um texto "ridículo", e se as coisas continuarem assim, em breve haverá uma escola para meninos e outra para meninas, para os do Norte e para os do Sul, para os loiros e para os morenos. "Para os trabalhadores, a escola permanece o ponto central do funcionamento da igualdade. Somente através da escola pública, o povo pode formar-se e formar os próprios filhos." Já o ex-secretário do Partido Democrático (o antigo Partido Comunista), Walter Veltroni, evocou o passado para contestar a medida, questionando se os italianos teriam tolerado algo semelhante com os próprios filhos quando eram eles próprios os imigrantes.

Nessa ofensiva contra os estrangeiros, os partidos de centro-direita acabam confundindo identidade, costume e religião. Na cidade de Goito, na província de Mantova, no norte da Itália, pela primeira vez se subordina o acesso público a uma creche a um credo religioso.

O regulamento coloca como condição para matricular o filho na creche a aceitação de uma espécie de preâmbulo religioso: a proveniência de uma família católica ou cristã, excluindo de fato muitas famílias de imigrantes de outros religiosos. Falta estabelecer ainda se na inspiração cristã estão incluídos os casais divorciados ou os ateus e agnósticos. A junta municipal alega que, mesmo sendo uma creche pública, sempre foi gerida segundo critérios que se inspiram no cristianismo. A centro-esquerda rebateu, afirmando que se trata de uma medida inconstitucional, evocando a laicidade do Estado italiano.

Contrato social x contrato cultural
"Muitas vezes, dentro deste debate, se provoca uma divisão, agitando uma injustificada polêmica de tipo ideológico. A escola deve ser o local da integração. Os nossos institutos estão prontos a acolher todas as culturas e as crianças do mundo. Do mesmo modo, a escola italiana deve manter com orgulho as próprias tradições históricas e ensinar a cultura do nosso país. (…) A presença de estrangeiros na escola italiana, frequentemente concentrados em algumas classes, não é certamente um problema de racismo, mas um problema sobretudo didático", avalia a ministra da Educação.

Nessa declaração se desfecha o dilema central que vive hoje a Itália, que vai além de uma questão meramente política ou didática. Todas essas medidas, na verdade, refletem a atmosfera que se respira hoje no país, e faz questionar a direção para onde a Itália está caminhando, se esse rumo se dá apenas em função do partido que está no poder, ou se há algo mais socialmente arraigado. 

O professor de filosofia guineense Filomeno Lopes, da Universidade Sapienza, de Roma, estudioso do fenômeno da imigração e residente na Itália há mais de 20 anos, afirma não se tratar somente de crise de identidade: "A meu ver, o que existe na realidade é a identidade territorial que jamais conseguiu ser transformada numa identidade cultural nacional e, portanto, uma identidade de sentido de pertença, de valores e ideias comuns que chamaríamos italianidade. Bem dizia Giuseppe Garibaldi, ‘construímos a Itália, agora falta construir os italianos’".

Segundo Lopes, essa tarefa foi cumprida só em parte, através da realização de um contrato social, econômico e político, sobretudo logo após a Segunda Guerra Mundial: "Falta, a meu ver, um contrato cultural. Durante vários anos, a Itália foi convivendo com esta contradição interna em todos os níveis sociais e sobretudo políticos: por exemplo, a presença da Liga Norte no atual governo, embora ela não reconheça nenhum dos principais símbolos da nacionalidade italiana; a quase impossibilidade para o Estado italiano de ter uma política externa comum que seja nacional; mas, pior ainda, o não reconhecimento até hoje da luta de libertação do país do regime fascista por parte do atual chefe do governo, que continua a fazer distinção entre a conquista da liberdade, que ele reconhece como valor, e a libertação como processo de luta antifascista, que ele não reconhece".

Essas contradições, avalia Lopes, se agravaram agora com a presença dos imigrantes, que faz com que a falta de vontade de enfrentar a questão do contrato cultural se torne explícita. Para ele, é significativo o fato de que os únicos momentos de coesão nacional sejam as disputadas esportivas, como a Copa do Mundo de futebol e os jogos olímpicos. Ou, ainda, a hostilidade em relação aos imigrantes. "Em todos estes casos, está sempre presente o elemento da territorialidade como fator de identidade", resume.

Ao que parece, o crescimento do movimento migratório na Europa e em regiões vizinhas da África e da Ásia está obrigando os italianos a enfrentar uma questão que talvez nunca teriam enfrentado abertamente. Assim como em outros países europeus – mas talvez de forma mais acentuada – o que está em jogo são valores que o continente legou ao mundo como parâmetros de civilidade.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

A ortodoxia é estúpida

A restrição ao crescimento da economia brasileira não vem da “barreira inflacionária”, mas do front externo. Nos últimos dois trimestres a taxa de crescimento das importações tem superado a taxa de aumento das exportações em quase quatro vezes. O problema do Brasil é que a elasticidade renda das importações é muito maior do que a elasticidade renda das exportações. Nesse contexto, o crescimento acelerado só é possível, temporariamente, por intermédio do endividamento externo.

José Luis Oreiro

Os dados do PIB trimestral divulgados ontem pelo IBGE mostram que a economia brasileira não só superou totalmente os efeitos da crise do último trimestre de 2008, como ainda cresce de forma bastante acelerada. Com efeito, o PIB brasileiro apresentou crescimento de 2,7% no primeiro trimestre de 2010 contra o quarto de 2009, perfazendo assim uma expansão anualizada de 11,24% ao ano!!! Na comparação com o trimestre anterior observa-se também uma aceleração na margem, haja vista que a economia brasileira havia apresentado uma expansão de 2,3% no quarto trimestre de 2009 em comparação com o terceiro do mesmo ano.

Essa performance altamente positiva do PIB nos últimos dois trimestres deve-se à combinação de forte expansão do crédito, principalmente por parte dos bancos públicos, política monetária expansionista (taxa real de juros abaixo da neutra), e aumento dos gastos públicos (aceleração do ritmo de expansão dos gastos de consumo do governo de 0,6% no último trimestre de 2009 para 0,9% no primeiro de 2010).

Uma questão que tem preocupado os economistas e o público em geral refere-se à sustentabilidade desse crescimento a médio prazo. De fato, a maioria dos economistas acredita que a economia brasileira pode crescer de forma sustentada, ou seja, sem pressões inflacionárias, a um ritmo entre 4,5% a 5% ao ano, ou seja, um crescimento trimestral entre 1,125% e 1,25% por trimestre. Essa projeção de crescimento potencial pode ser facilmente obtida a partir de um modelo simples de crescimento econômico – o assim chamado modelo Harrod-Domar – no qual a taxa de crescimento de equilíbrio é dada pela razão entre a taxa de investimento e a relação capital/produto menos a taxa de depreciação do estoque de capital. Supondo uma taxa de investimento igual a 20% do PIB, uma relação capital/produto igual a 2,5 e uma taxa de depreciação do estoque de capital igual a 3,5% ao ano chega-se a uma taxa de crescimento de equilíbrio de 4,5% ao ano.

Isso posto, o atual ritmo de crescimento da economia brasileira é tido como insustentável, o que deverá produzir fortes pressões inflacionárias, obrigando o Banco Central a realizar um aumento forte da taxa de juros para manter a inflação dentro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional.

Uma variável fundamental na determinação da taxa de crescimento de equilíbrio é a fração do PIB dedicada à formação bruta de capital fixo. Com efeito, uma maior taxa de investimento implica numa taxa de crescimento maior, compatível com a estabilidade da inflação. Dessa forma, uma situação de desequilíbrio na qual a economia esteja crescendo mais rapidamente do que o permitido pela “taxa de equilíbrio”, mas onde a taxa de investimento esteja aumentando ao longo do tempo (devido ao assim chamado efeito acelerador), será um “desequilíbrio temporário”, que será resolvido, a médio prazo, pelo ajuste da capacidade produtiva ao ritmo de expansão da demanda agregada.

Essa é precisamente a situação em que a economia brasileira se encontra neste momento. Os dados do IBGE mostram que a formação bruta de capital fixo tem crescido a uma taxa cerca de três vezes maior do que o crescimento do PIB. De fato, a FBKF cresceu a uma taxa de 7,1% no quarto trimestre de 2009 (contra o trimestre anterior) e 7,4% no primeiro trimestre de 2010. Em termos anualizados isso significa um crescimento quase 30% da FBKF !!! Mantido esse ritmo de aumento do investimento e supondo uma expansão de 6% ao ano para a economia brasileira nos próximos 2 anos, a taxa de investimento irá atingir 27,67% do PIB em 2011 (partindo de 0,18% do PIB em 2009). Essa taxa de investimento é compatível com um crescimento de equilíbrio de 7,56% ao ano, valor bastante superior ao que é tido, nas condições atuais, como “excessivo”. Desse razoado se segue que a “barreira inflacionária” é apenas uma restrição de curto prazo ao crescimento econômico, a qual pode ser superada, em prazo aceitável politicamente, por intermédio de um aumento suficientemente forte do investimento.

A restrição ao crescimento da economia brasileira não vem da “barreira inflacionária”, mas do front externo. Nos últimos dois trimestres a taxa de crescimento das importações tem superado a taxa de aumento das exportações em quase quatro vezes. De fato, no último trimestre de 2009, as importações cresceram a uma taxa chinesa de 13,3% ao passo que as exportações cresceram a uma taxa francesa de 3,3%. No primeiro trimestre de 2010, o quadro externo se deteriorou ainda mais com as importações mantendo uma forte expansão de 13,1%, mas com uma queda do ritmo de crescimento das exportações para 1,7%. Mantido esse ritmo é possível que até o fim do ano, o Brasil passe a incorrer em déficits comerciais, o que terá um efeito explosivo sobre a dinâmica dos déficits em conta corrente. Nesse cenário, é possível que o déficit em conta corrente supere, com folga, a marca de 6% do PIB já em 2011.

Os defensores do atual regime cambial brasileiro – “o sistema de câmbio flutuante, que flutua” – irão afirmar que a situação do déficit em conta corrente não é preocupante, pois, em algum momento no futuro, o câmbio irá se ajustar, fazendo com que a situação externa da economia brasileira seja resolvida “automaticamente”. A experiência do Brasil e da América Latina mostra que isso não é verdade. Os mercados financeiros internacionais estão sujeitos a ondas de “exuberância irracional” de tal forma que déficits em conta corrente insustentáveis podem ser financiados, por longos períodos, pelos fluxos internacionais de capitais. O desfecho dessa estória, no entanto, é sempre o mesmo: parada súbita da entrada de capitais (devido a algum evento não-fundamental), o que leva a uma depreciação violenta (e, em geral, excessiva, o assim chamado “overshooting”) da taxa nominal de câmbio, o que força a adoção de políticas monetária e fiscal fortemente contracionistas, levando o país a recessão.

A verdadeira restrição ao crescimento da economia brasileira vem do front externo. O problema do Brasil é que a elasticidade renda das importações é muito maior do que a elasticidade renda das exportações. Nesse contexto, o crescimento acelerado só é possível, temporariamente, por intermédio do endividamento externo.

José Luis Oreiro é professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília.

Fonte: Valor Econômico

As Cabeceiras de um Rio que ainda não Morreu

Considerado morto dentro dos limites da cidade de São Paulo, o rio Tietê abriga a menos de 80 km do centro da capital espécies de peixes não descritas pela ciência

Alexandre P. Marceniuk e Alexandre W. S. Hilsdorf

A bacia de cabeceiras do Tietê é uma sub-região do alto rio, que forma a bacia hidrográfica do alto rio Paraná. A região de cabeceiras, porção superior próxima à nascente, ocupa uma área de 1.889 km2, entre a nascente do rio e o município de Itaquaquecetuba, incluindo os municípios de Biritiba-Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Guararema, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá, Salesópolis e Suzano. Os principais afluentes do Tietê, que formam a bacia de cabeceiras, são os rios Claro, Paraitinga, Biritiba-Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba-Mirim.

Historicamente o Tietê tem grande importância na exploração e desenvolvimento do estado de São Paulo. O rio que nasce na serra do Mar, a menos de 22 km do oceano Atlântico, flui para interior do estado e percorre 1.150 km até encontrar o Paraná na divisa com o Mato Grosso do Sul. No passado, foi uma importante via de acesso de jesuítas e bandeirantes ao interior do estado de São Paulo na exploração e colonização do interior do Brasil. Mas, agora, tem cerca de 40% de seu volume formado por esgoto industrial e residencial, com índice zero de oxigênio e reconhecido como morto dentro dos limites da cidade de São Paulo. Essa situação resulta de políticas públicas sistematicamente direcionadas a interesses privados e restritos, em prejuízo de necessidades e interesses sociais mais amplos.

A região das cabeceiras do Tietê também sofreu forte impacto com a ocupação humana, em especial pela redução de áreas de vegetação nativa, substituída por pastagens e culturas agrícolas diversas. No passado, a bacia de cabeceiras do Tietê foi ocupada por vegetação da Mata Atlântica, com mata ciliar e áreas de várzea ao longo do seu curso. A partir do século 17, a exploração da cana-de-açúcar deu início ao primeiro ciclo de desmatamento das margens do rio e seus afluentes, com os primeiros registros de alterações na qualidade das águas, consequência da exploração de ouro e ferro no estado de São Paulo. Mais recentemente, a necessidade de produção de alimentos para população da área metropolitana de São Paulo e o cultivo de eucalipto (Eucaliptus spp.) pela indústria de papel e celulose são os principais fatores de forte pressão sobre o meio ambiente da região, incluindo os recursos hídricos.

Os municípios localizados na bacia de cabeceiras do Tietê estão em áreas de mananciais, com características geográficas favoráveis à formação de reservatórios, projetados para o abastecimento público e controle de enchentes na Grande São Paulo. Cinco reservatórios de porte estão localizados na região: Ponte Nova, formado pelo barramento do rio Tietê a 35 km da nascente; Biritiba-Mirim, de Jundiaí; Paraitinga e Taiaçupeba. Em conjunto, inundam uma área de 80.52 km2. Outros dois reservatórios de menor porte são encontrados na região de Ribeirão do Carmo e Salesópolis.

Biodiversidade nas Águas

A ictiofauna de água doce da América do Sul é reconhecida como a mais diversifi cada do planeta. Estimativas recentes apontam número superior a 2.800 espécies descritas, incluídas em centenas de gêneros, de cerca de 60 famílias de peixes. Nas últimas décadas, diversas publicações descrevendo novas espécies e revisando grupos taxonômicos de peixes, produziram uma signifi cativa quantidade de informação técnica e científi ca, com avanço no conhecimento da ictiofauna brasileira. Mas, apesar da riqueza de espécies conhecida para o Brasil, a ictiofauna de cabeceiras das bacias hidrográfi cas é ainda pouco conhecida em relação à diversidade de espécies e biologia em geral.

As regiões de cabeceiras são habitadas principalmente por espécies de pequeno porte, com menos de 15 cm de comprimento e bastante dependentes da vegetação ciliar para alimentação, abrigo e reprodução. Essas espécies geralmente são caracterizadas por alto grau de endemismo e distribuição geográfica restrita. Por serem muito dependentes do material orgânico originário da vegetação encontrada nas margens dos rios, ou mata ciliar, estão fortemente ameaçadas por mudanças provocadas pela ação antrópica no ambiente natural, como eliminação de matas ciliares e o uso excessivo de fertilizantes e praguicidas nas atividades agrícolas. Pesquisadores reconhecem que o conhecimento da diversidade, evolução e biologia das espécies de peixes das cabeceiras é o maior desafio da ictiologia brasileira no início deste século.

A ictiofauna das cabeceiras do Tietê é bastante diferenciada da encontrada em outras regiões do alto rio Paraná, resultado de possível colonização por espécies de rios litorâneos, como consequência de conexão entre os rios no passado. Apesar da proximidade com a capital, e importantes centros de pesquisa do estado de São Paulo, o conhecimento da fauna de peixes da região é resultado de estudos realizados por naturalistas do século 19, como Carl Eigenmann, Marion Durbin Ellis e Rodolpho von Ihering, com base em exemplares coletados pelo ictiólogo americano John D. Hasemann para o Carnegie Museun nos Estados Unidos. Praticamente uma exceção à abordagem restrita a estrangeiros é o estudo realizado por Francisco Langeani, atualmente coordenador do laboratório de ictiologia da Unesp de São José do Rio Preto, que defendeu dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo (USP) sobre a ictiofauna do alto Tietê.

Esforços recentes de levantamento das espécies de peixes das cabeceiras do Tietê realizado pelos pesquisadores do Núcleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes (NIB) revelam novos dados em relação ao conhecimento da fauna da região. Com base em coletas nos rios da região e informação disponível na literatura científica, cinco ordens de peixes são reconhecidas; a mais diversificada é a ordem dos Characiformes (ou lambaris), com 22 espécies representando 44% do número total de espécies de peixe, seguida pela ordem dos Siluriformes (ou bagres), representada por 17 espécies ou 34% do total; a ordem dos Perciformes (os carás) reúne sete espécies, seguida pelas ordens dos Gyminotiformes (as tuviras) com 3 espécies e os Cyprinodontiformes (os guarus) com uma única. Em conjunto elas representam 22 % do número total de espécies encontradas nas cabeceiras do Tietê.

Das 50 espécies encontradas, pelos menos quatro são novas e ainda não descritas. Bastante conhecido dos habitantes das cabeceiras do rio Tietê e comum em rios, córregos e lagoas artificiais da região, o “cará-verde” é uma dessas espécies. Geralmente capturado junto à vegetação próxima da margem, tem hábitos territorialistas e cuidado com a prole, assim como a maioria dos Cichlidae. Em levantamentos anteriores de fauna, o cará-verde foi identificado como Cichlasoma facetum (Jenyns, 1842), espécie atualmente reconhecida como restrita ao sul do Brasil, Argentina e Uruguai. A nova espécie que possivelmente apresenta distribuição restrita ao alto rio Tietê na verdade pertence ao gênero Australoheros (Rican & Kullander, 2006) e pode ser diferenciada das demais espécies por meio de dados morfológicos e moleculares. Outra espécie nova, também bastante comum nos rios da região, é popularmente conhecida como “lambari-do-rabovermelho” ou “lambari-peva”. O “lambari-peva” é muito pescado pelos moradores da região e apreciado na alimentação. A espécie é bastante similar ao outro “lambari-do-rabo- vermelho” encontrado nas cabeceiras, o “lambari guaçu” ou Astyanax fasciatus (Cuvier, 1819).

Análises de DNA

As duas espécies podem ser diferenciadas pelo comprimento e número de raios da nadadeira anal, além de diferenças no padrão de coloração. Adicionalmente, dados obtidos a partir das comparações de sequência de DNA mitocondrial atestam a condição de espécie nova para o “lambari- peva”.

As outras duas espécies novas são menos comuns e desconhecidas dos habitantes da região. A primeira pertence ao gênero Characidium (Reinhardt, 1867) com representantes em toda América do Sul e diversidade ainda pouco conhecida. A espécie é encontrada exclusivamente no rio Paraitinga, em localidades com águas claras de correnteza moderada a forte, podendo ser diferenciada pela coloração típica e a presença de escamas na porção ventral do corpo, próxima à cabeça. A segunda espécie, também coletada no rio Paraitinga, é um bagrinho pertencente ao gênero Hisonotus (Eigenmann & Eigenmann, 1889), que, como a maioria dos bagres, vive próximo ao leito dos rios, em ambientes de água corrente. As espécies do gênero são comumente conhecidas como limpa-vidros por aquaristas.

O levantamento também encontrou pelo menos três espécies conhecidas da ciência, mas sem registro para a região de cabeceiras do rio Tietê na literatura científica. A primeira é Hoplias intermedius (Günther, 1864), predador de grande porte, conhecido popularmente como “trairão”. Diversos exemplares da espécie foram coletados na represa de Ponte Nova. Apesar disso, não foi possível determinar se pertence à fauna da região ou foi introduzida. A espécie era conhecida anteriormente para bacia do rio São Francisco, bacia do rio Doce e bacia do médio rio Paraná. A segunda é Apareiodon piracicabae (Eigenmann 1907), de pequeno porte, que vive próxima ao fundo e alimenta-se de matéria orgânica obtida pela raspagem do substrato rochoso ou lodoso e citada anteriormente apenas para o médio e alto rio Paraná e alto rio São Francisco. A terceira espécie é Scleromystax barbatus (Quoy & Gaimard, 1824), uma espécie bastante conhecida dos aquaristas, com registros anteriores somente para rios litorâneos da região Sudeste do Brasil.

As novas descobertas mostram a importância de conhecer e preservar a beleza ambiental e riqueza biológica relativamente preservada nas cabeceiras do Tietê, permitindo que gerações futuras conheçam nossos peixes e sua história. Muitas dessas espécies, mesmo antes de serem descritas, apresentam graus diversos de ameaça de extinção em conseqüência do processo de urbanização e industrialização, que ao longo dos anos tem alterado as condições naturais do ambiente onde os peixes vivem. O Livro brasileiro da fauna ameaçada de extinção do Brasil, publicado para servir de subsídio a políticas de conservação de espécies ameaçadas, ou em risco de extinção, inclui sete espécies de peixes da região de cabeceiras do Tietê em alguma das categorias de ameaça. Entre elas a Spintherobolus papilliferus (Eigenmann, 1911), Heptapterus multiradiatus (Ihering, 1907) e Trichomycterus paolence (Eigenmann, 1917) não foram capturadas no levantamento recente das espécies da região.

Um bom exemplo da importância de conservação da fauna e o ambiente natural é a “tabarana”, ou dourado-branco, espécie-símbolo da região de cabeceiras do rio Tietê. A tabarana é um parente do grande dourado e uma das poucas espécies de médio a grande porte encontradas nas cabeceiras do Tietê. Em livro publicado em 1929, o ictiólogo Rodolfo von Ihering relata a piracema da tabarana no rio Tamanduateí próximo à estação Ipiranga (ver Por que os peixes migram, em Scientific American Brasil n0 79, dezembro de 2008), sendo provável que muitos habitantes de São Paulo, no início do século 20, tenham pescado a tabarana no Tietê, dentro dos limites da cidade de São Paulo. A espécie, encontrada em outros rios do alto Paraná e tributários do rio São Francisco, desapareceu em vários trechos do Tietê, mas a população residente nas cabeceiras desse rio sobreviveu como remanescente das populações que o habitavam no início de século passado.

Os resultados demonstram que o rio Tietê, considerado morto e com ausência absoluta de peixes dentro dos limites da cidade de São Paulo, sustenta uma rica ictiofauna na porção das cabeceiras. A região é caracterizada por uma fauna de peixes única, representada por espécies endêmicas e outras encontradas somente em rios litorâneos do Sudeste, riqueza que pode ser ainda maior, caso espécies provisoriamente designadas com nomes disponíveis na literatura científi ca, sejam identifi cados como espécies novas em estudos futuros. É importante termos consciência de que, mesmo não sendo possível para um não especialista observar nossos peixes, a presença e diversidade deles representa a saúde e equilíbrio de nossos rios.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

Pintando o sete

Palavras usadas nos sistemas de contagem da humanidade revelam empréstimos culturais que remontam à pré-história

Mário Eduardo Viaro

Entre as classes gramaticais mais estáveis, a dos numerais é das que melhor se mantêm nas línguas, sendo forte indício para afiliações de línguas nos estudos histórico-comparativos. É verdade que nem isso é totalmente certo: o japonês tem uma lista de numerais de origem chinesa independentemente dos numerais japoneses típicos, e o mesmo vale para línguas orientais como o coreano. Nas indoeuropeias, porém, os numerais possuem um grau de conservação bastante grande.

Seu conservadorismo formal se deve ao fato de serem uma espécie de tecnologia e, em última análise, um empréstimo cultural que remonta à pré-história. Por isso, sistemas distintos podem conviver na mesma língua (como no japonês) e tratamentos diferentes são dados a ordinais e números muito grandes. Entender suas transformações fonéticas é um bom caminho para a compreensão dos métodos utilizados pela etimologia.

Mário Eduardo Viaro é professor de Língua Portuguesa na USP, autor de Por Trás das Palavras

(Globo: 2004).

A ideia do "um"

O número "um" é um dos mais instáveis nas línguas indo-europeias. A forma portuguesa flexiona-se em gênero e número e aponta para o latim unus. Sob a forma do acusativo unum, promoveram-se as mudanças fonéticas usuais: queda do -m final (apócope) e queda do -n- intervocálico (síncope), com nasalidade da vogal anterior, o que resultava em duas vogais (um u nasal e outro u, ou o, átono). Essa forma resultante gerou a grafia moderna "um".

A palavra no gênero feminino, una (na verdade na forma acusativa unam) sofreu as mesmas mudanças. Ainda hoje, na língua falada, como provam as gravações feitas pelos foneticistas, é ainda muito comum a forma resultante diretamente do latim, ou seja um u nasal seguido de a, que ainda existe no galego (grafado por meio de um dígrafo bastante inusitado: unha). Esse encontro entre o u nasal e o a causava normalmente a perda da nasalidade, como se vê na palavra "lua", que vem de lunam (embora ainda haja hoje pessoas, normalmente muito idosas da zona rural, que pronunciem o u nasal de "lua", como provam estudos dialetológicos).

No entanto, no caso do numeral, dada a sua frequência (intensificada pelo uso também como artigo indefinido), a solução foi transformar a nasalidade do u em uma consoante: "uma". Esse fenômeno se chama epêntese e há casos parecidos com o i nasal: o latim vinum se transformou em vio (com o i nasal) que, por fim, se tornou "vinho". Perceba que o ponto de articulação da consoante nasal depende da vogal anterior: no caso do u, gera-se uma bilabial (m), no caso do i, uma palatal (nh).

O que vem primeiro

O ordinal "primeiro" vem de primarium, acusativo de primarius, por sua vez, derivação sufixal de primus, que era a forma usada em latim clássico. A irregularidade de primus se justifica pelo fato de ser um superlativo do advérbio *pri. Assim, a terminação -mus é a mesma de -issimus que gerou a terminação -íssimo em português. Esse *pri, que aparece como sufixo, significa algo como "antes". Conclusão, primus seria "o que vem antes de todos", pois os ordinais tinham a característica de apresentarem-se como uma fila de seres.

A mesma metáfora se vê em inglês first e em alemão erst, em que -st também indica superlativos e fir- remonta a "antes" no inglês, por exemplo, em be-fore, e er- também, no alemão, está vinculado a essa ideia, como em eher (antes, de preferência). Em russo também vemos a mesma metáfora na palavra pervyj e em grego prôtos também.

Já o número "um" possui a mais complexa etimologia dos numerais, pois remonta a uma forma indo-europeia *Hoi(H)nos, que não é universal (mas se vê no alemão eins e no inglês one). Outra palavra para o mesmo significado foi *sem que aparece, por exemplo, no latim semel "uma vez". Em grego, a aspiração do s- inicial gerou a forma hen. Vemos a mesma forma em simplex (simples), que proveio de *sem-plek-s "com uma só dobra", em contraposição com *kom-plex (dobrado junto), donde viriam "complexo", "complicar", "complicado" etc.

"Dois" se impôs ao mundo

Os numerais subsequentes fornecem as maiores comprovações de que o que dissemos para o "um" está correto. A palavra "dois" é a forma dialetal do antigo dous que se impôs em quase todas as falas, embora não faltem pessoas que ainda pronunciem a antiga palavra, em sua versão monotongada, em Portugal ou mesmo no Brasil (há registros em Mato Grosso, no Pará e nos açorianos de Santa Catarina).

Esse dous vem do latim duos, acusativo de duo, que, por sua vez, vem do indo-europeu *duoh1, por meio do ensurdecimento das consoantes (a chamada Lei de Grimm, da qual já falamos). Dele se deriva também o inglês two e o alemão zwo, palavra que se usa ainda em dialetos e na língua oficial, para dizer-se o número dos telefones. Como o um, flexiona-se a palavra para "dois" e o português tem o feminino "duas", que é a mesma forma do acusativo latino de duae. O espanhol perdeu essa forma do feminino e somente diz dos, que corresponde à monotongação de dous. O ordinal "segundo" é uma forma do verbo sequi latino: o étimo secundus significava, originalmente, "aquele que segue" o número "um".

A inflexão do "três"

O "três", diferentemente de "dois", não flexionava (a não ser no neutro tria, que desapareceu completamente). Os demais números também não tinham flexão alguma. A forma indo-europeia era *treies. No germânico, a Lei de Grimm transforma o t numa interdental, que é preservada no inglês three e no islandês. O alemão drei, porém, mostra que as demais línguas germânicas optaram por mudar esse som, considerado instável.

O que há no "quatro"

O latim quattuor, donde provém o numeral "quatro", mostra notável conservação da consoante *kw- do indo-europeu *kwetuôr. Nas outras línguas, esse som se transformou em uma labial (como ocorreu, mais tarde, também com o romeno patru).

Assim, em gótico, a forma era fîdwor, que equivale ao four do inglês e ao vier do alemão (o v do alemão tem som de f).

Os problemas do "cinco"

O "cinco" apresenta uma série de problemas. O indo-europeu dizia *penkwe, forma que, por assimilação regressiva, se tornou quinque em latim (em vez do esperado *pinque). Já o germânico fez uma assimilação progressiva *penpe, que originou o fünf em alemão. O primeiro qu- se simplificou no latim vulgar (como se observa em italiano cinque).

Na Península Ibérica, por influência analógica do "quatro", a antiga palavra cinque modificou sua vogal final e se tornou "cinco". Tais analogias são comuns em numerais que se seguem: por exemplo, no russo (e nas demais línguas eslavas), o esperado número para "nove", a saber *nevjat’, se tornou devjat’ por causa do número

seguinte: o "dez" se diz desjat’.

As transformações de 6 a 7

O "seis" é uma transformação do latim sex. Observe que x é uma consoante dupla [ks] e o primeiro [k] tem tendência a vocalizar-se nas línguas românicas: noctem se tornou "noite", pectus se tornou "peito", factus se tornou "feito" etc. A forma indo-europeia era *suek’s, donde também o inglês six e o alemão sechs.

O "sete" vem do indo-europeu *septm, donde se vê também não só o latim septem mas também o grego heptá (com a mesma aspiração do s- como visto em *sem e vocalização das nasais silábicas), o inglês seven, o sânscrito saptá etc.

A evolução do "oito"

O "oito" tem a reconstrução atual do indo-europeu *h3ek’teh3. Essas consoantes h1, h2, h3 são as chamadas laringais saussurianas, largamente aceitas pelos indoeuropeístas. As palavras indo-europeias são construtos e nenhum pesquisador sério imagina pronunciá-las. De *h3e- nasce o o- latino de octo, por exemplo. Em alemão, a palavra é acht, pois o [k] tende a ser pronunciado como o j do espanhol (grafado ch). Em inglês, temos eight, com um arcaísmo gráfico gh que não é pronunciado hoje em dia, mas lembrava o antigo som equivalente ao do alemão. Da mesma forma que noctem deu "noite" em português, octo gerou "oito". Observe-se que noctem é o acusativo de nox e remonta ao indo-europeu *nokwts, que gerou o grego nıks, o gótico nahts (cf. inglês night, alemão Nacht) e o sânscrito náktam.

Noves fora, 10

O número "nove" provém do latim novem, que sofre a comuníssima apócope do -m. A palavra indo-europeia era *h1néun, donde também grego ennéa, gótico niun (inglês nine, alemão neun), sânscrito náva. Todos os fenômenos fonéticos são facilmente explicáveis (a transformação do *n silábico indo-europeu em *a, por exemplo, é igual à transformação do *m de *septm).

Por fim, o dez viria de *dek’mt, donde latim decem, sânscrito dasha, gótico taihun, como se pode ver no inglês ten e no alemão zehen (a transformação do *d em t no germânico segue a primeira Lei de Grimm e o t em z em alemão segue a segunda).

Fonte: Revista Língua Portuguesa – http://linguaportuguesa.uol.com.br

A invenção do Oriente Médio

Israelenses lutam contra palestinos. Xiitas se opõem a sunitas. Radicais muçulmanos organizam ataques terroristas. Para entender o maior barril de pólvora do mundo, é preciso conhecer a história do local

Eduardo Szklarz

Em 7 de outubro de 2001, menos de um mês após os ataques terroristas aos Estados Unidos, a rede de TV árabe Al Jazeera transmitiu um vídeo de Osama bin Laden. Nele, o chefe da rede Al Qaeda falava da "humilhação" que o Islã havia sofrido durante "mais de 80 anos". O líder radical referia-se ao fato de, em 1918, o Império Turco-Otomano – a última grande potência muçulmana – ter sido derrotado pelos europeus. Sua capital Constantinopla foi tomada e a maior parte das terras, conquistadas por Maomé a partir do século 7, divididas em territórios com fronteiras novas e nomes inspirados em regiões da Antiguidade cujos limites não correspondiam ao novo traçado. Dois deles, chamados de Iraque e Palestina (hoje Israel, Jordânia e Cisjordânia), ficaram sob domínio britânico. Já o terceiro, que recebeu o nome de Síria (atuais Síria e Líbano), coube aos franceses. Pior: quatro anos depois, o califado, símbolo da unidade política do Islã por 13 séculos, cedia lugar a estados-nações com leis e costumes importados do Ocidente.

Bin Laden não é o único que usa os ressentimentos do passado para justificar ações presentes. No Oriente Médio, batalhas e heróis de séculos (ou milênios) atrás continuam reverberando no discurso dos líderes atuais para mobilizar as massas. Judeus até hoje celebram a conquista de Jerusalém por Davi, há 3 mil anos, e a unificação do antigo reino de Israel. Hassan Nassralah, chefe do Hezbollah, gosta de se comparar ao líder curdo Saladino, que em 1187 liderou a vitória dos muçulmanos sobre os cruzados na Terra Santa. O dirigente iraquiano Saddam Hussein dizia-se herdeiro do rei babilônico Nabucodonosor e de Saladino – embora Saddam tenha matado milhares de curdos nos anos 80.

A simbologia do passado é tão forte no Oriente Médio que as disputas nacionais acabam assumindo caráter religioso. Foi assim com o conflito entre israelenses e palestinos, que começou no início do século 20 como uma luta por terras e acabou atraindo radicais religiosos dos dois lados. É assim no Iraque, onde milícias armadas revivem hoje o conflito instaurado pelo cisma entre sunitas e xiitas nos primórdios do Islã.

É fato que os interesses petroleiros também ajudam a explicar as tensões no Oriente Médio. Mas a região só se tornou um dos pontos mais inflamáveis do mundo graças à constante mescla entre religião e política, entre passado e presente. Portanto, para entender o que ocorre lá hoje, é preciso voltar no tempo. Pelo menos 5 mil anos atrás.

PRIMEIROS HABITANTES

O mapa do Oriente Médio que vemos hoje é apenas o mais recente capítulo de uma longa saga. Desde 3 mil a.C., essa faixa de terra na encruzilhada da Europa, Ásia e África foi dominada – em maior ou menor escala – por diversos reinos e impérios, em conquistas não-lineares. Entre eles, os egípcios (a partir de 2500 a.C.), hititas (por volta de 1500 a.C.), israelitas (século 10 a.C.), assírios (século 8 a.C.), babilônios (século 7 a.C.), persas (século 6 a.C.), macedônios (século 4 a.C.), romanos (século 1), bizantinos (século 5), sassânidas e califado islâmico (século 7), seljúcidas, cruzados e muçulmanos liderados por Saladino (século 12), império mongol (século 13), império otomano (século 16) e potências ocidentais, no início do século 20.

A maioria desses povos não existe mais. A civilização dos faraós, por exemplo, nada tinha a ver com os árabes que hoje habitam o Egito. Adorava outros deuses, falava outra língua e utilizava diferentes formas de escrita. Cananeus, israelitas, fenícios e filisteus também já viviam no Oriente Médio milhares de anos antes do advento do Islã. Eles habitavam a parte ocidental do chamado Crescente Fértil (hoje, os territórios de Israel, Líbano e Cisjordânia). Por volta do século 13 a.C., os israelitas conquistaram Canaã, ao sul do Crescente, onde viviam cananeus e jebuseus, entre outros, e formaram um reino ao norte (Israel) e outro ao sul (Judá), que 300 anos depois seriam unificados pelo rei Davi, tendo Jerusalém como capital. Enfraquecido por disputas internas, o reino de Israel foi conquistado por Nabucodonosor, rei da Babilônia, em 586 a.C. Os judeus foram exilados.

Outros povos tiveram pior sorte. "Os filisteus desapareceram durante as conquistas babilônicas; já os fenícios permaneceram na costa do Mediterrâneo até a época romana [século 1]", diz o historiador Bernard Lewis, da Universidade de Princeton, no livro "O Oriente Médio". Outro povo que sumiu foram os nabateus, rica civilização semita que fez sua capital na cidade de Petra, na atual Jordânia. Os sumérios, acádios e assírios, que habitaram a Mesopotâmia (entre os rios Tigre e Eufrates), entraram em declínio com a avalanche de impérios e batalhas.

A partir do século 3, o Oriente Médio virou palco de sangrentos embates entre as duas principais potências da época: Pérsia e Roma. Até então, o cristianismo não tinha papel importante. "No início, os seguidores de Jesus foram uma seita perseguida. Mas com a conversão do imperador Constantino, no século 4, o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma", diz o pesquisador americano Michael Hart. Foi quando a situação começou a mudar.

No século 5, o Império Romano do Ocidente sucumbiu ante as invasões bárbaras à Europa, mas o Império Romano do Oriente, mais conhecido como Bizantino, ainda se manteria por mil anos. Constantino havia feito sua capital em Bizâncio, rebatizada de Constantinopla (atual Istambul). Embora falassem grego, os bizantinos se consideravam romanos e levaram adiante as guerras contra os persas. Em 637, quando persas e bizantinos estavam exaustos de lutar, o Oriente Médio caiu na mira de uma nova potência: o Islã, fundado pelo profeta Maomé.

A REGIÃO SOB O ISLÃ

"Os exércitos de Maomé partiram da Arábia e avançaram sobre o Oriente Médio, África, Europa, Índia e China ao mesmo tempo, aliando a vanguarda da ciência ao maior poderio militar da Terra", diz Lewis. Maomé chegou com uma novidade em relação aos líderes cristãos: foi ao mesmo tempo líder político e religioso. "Ao longo da história cristã, Igreja e Estado desenvolveram hierarquias diferentes. As duas podem estar unidas ou, em tempos modernos, separadas. Mas, na sociedade concebida por Maomé, nunca foi criada uma instituição semelhante à Igreja", diz Lewis. "Não há no Islã a distinção entre a lei da mesquita e a lei do Estado. Há apenas uma única lei, a sharia, que regula todos os aspectos da vida humana." Com a morte de Maomé, em 632, a comunidade islâmica se dividiu sobre quem seria seu primeiro sucessor – o califa. A maioria apoiou a escolha de Abu Bakr, companheiro e sogro de Maomé. Outros desaprovaram essa decisão, dizendo que a única liderança legítima era a que vinha da linhagem do primo e genro do profeta, Ali. Os partidários de Bakr ficaram conhecidos comosunitas, enquanto os de Ali foram chamados de xiitas. "Sunita" vem da palavra árabe sunnah, que se refere às palavras e ao exemplo do profeta Maomé. Já "xiita" vem de shia, ou seguidor (de Ali). Esse cisma até hoje gera conflitos na região.

Certo é que os primeiros califas foram árabes e muçulmanos – isto é, faziam parte do povo árabe e seguiam a fé islâmica. (Muita gente hoje confunde "árabe" com "muçulmano", embora apenas 30% dos muçulmanos sejam árabes.) Nos séculos seguintes, o poder do califado foi exercido por dinastias diversas, como a dos omíadas (sediados em Damasco) e abássidas (com sede em Bagdá). Mas, apesar dessa diversidade, o califado se manteve como símbolo maior da unidade do Islã. Por vezes, essa unidade era ameaçada. Em 1096, por exemplo, o papa Urbano II resolveu dar um basta ao domínio muçulmano na Terra Santa e enviou a primeira de uma série de expedições – as Cruzadas – para reconquistá-la. Foi um banho de sangue. "Cabeças, mãos e pés se amontoavam nas ruas de Jerusalém", escreveu Raymond de Aguiles, cristão e testemunha da matança. Os cruzados expulsaram os judeus da cidade e transformaram as mesquitas em igrejas, baita humilhação aos muçulmanos. Mas o reino cruzado durou pouco. Os muçulmanos se reorganizaram em torno do general Saladino, que em 1187 entrou triunfante em Jerusalém, aceitou a rendição dos cristãos e permitiu a volta dos judeus. Detalhe: Saladino era curdo, não árabe. Sinal de que o poder estava mudando de mãos no Oriente Médio. Pouco depois, a região passou ao domínio dos mongóis, que com o tempo se converteram ao Islã.

A mudança maior ocorreu no século 15 com a formação de um novo império muçulmano: o dos turcosotomanos, que tomaram Constantinopla em 1453 e ampliaram seus domínios até a África e a Europa. "Os sultões otomanos se proclamaram califas, embora fossem turcos, não árabes. Tampouco eram descendentes de Maomé", diz o historiador inglês Christopher Catherwood, da Universidade de Cambridge. "Mas, com o sucesso de seu superestado, poucos muçulmanos contestariam a autoridade islâmica da nova dinastia dos califas. O orgulho muçulmano foi revigorado com a supremacia." Resultado: durante quase mil anos – entre o declínio do Império Romano e o advento da modernidade – o Islã esteve na dianteira do progresso humano. Era a principal potência econômica e comercial do planeta, vanguarda nas artes e nas ciências. Mas, de repente, a balança se inverteu. Os europeus promoveram o Renascimento e recuperaram o atraso científico. No século 16, Espanha, Portugal, Áustria e Rússia haviam ganhado sucessivas batalhas contra os exércitos de Alá. Em fins do século 17, o Islã era uma força em retirada e seus líderes se sentiam ameaçados pelos impérios ocidentais. Mais: o Ocidente renovou seus valores com a Revolução Francesa e promoveu a Revolução Industrial, enquanto o Islã, numa inversão do curso, parecia estagnado.

Em 1798, o francês Napoleão Bonaparte entrou no Egito e, pela primeira vez, submeteu os centros vitais do Islã ao domínio de uma potência ocidental. Com o Império Otomano tremendo nas bases, a situação das minorias religiosas piorou muito. Até então, judeus e cristãos (reconhecidos como "povos do livro") podiam seguir suas tradições desde que respeitassem as autoridades e pagassem impostos. Eram cidadãos de segunda classe – por exemplo, nunca podiam testemunhar num julgamento contra um muçulmano –, mas podiam contar com a proteção do califa. "Com a crise do Império Otomano, ficou difícil manter a tolerância baseada na superioridade religiosa. As minorias não-muçulmanas passaram a ser vistas como agentes das mudanças", diz Lewis. À medida que a situação piorava, crescia a influência do partido Jovens Turcos, que buscava modernizar o país. Em 1913, a facção extremista do partido derrubou o sultão Abdul Hamid II e instaurou um regime para acabar com a diversidade do império. No jargão dos extremistas, essa idéia era chamada de "panturquismo" – e significava a exclusão de todas as minorias.

Esse nacionalismo era uma novidade e tanto na história dos impérios muçulmanos. Até então, não importava se seus integrantes fossem árabes, persas, curdos: o importante era que fossem muçulmanos. Agora, os manda-chuvas declaravam que mais importante era ser turco. Um tiro que sairia pela culatra. Fronteiras pós-guerra Quando estourou a Primeira Guerra, em 1914, a maioria dos árabes manteve-se leal ao Império Otomano. "Os curdos também tomaram o seu lado e, estimulados pelos otomanos, massacraram centenas de milhares de armênios cristãos", diz Catherwood. Na Europa, franceses, ingleses e russos se aliaram contra o expansionismo alemão. Os Jovens Turcos decidiram lutar do lado da Alemanha. Ingleses começaram a treinar tribos árabes de dentro do próprio Império Otomano contra os turcos usando táticas de guerrilha. Figura famosa da época foi T.E. Lawrence, soldado e arqueólogo inglês que teria liderado a Revolta Árabe (1916-18) contra os turcos. Ele ficou tão famoso que mereceu um filme – Lawrence da Arábia. Mas a revolta e o papel de Lawrence ainda geram polêmica entre os historiadores.

"Grandes trechos do filme são fictícios", diz Catherwood. "Fica parecendo que os árabes foram traídos por britânicos e franceses. É como se os valorosos libertadores árabes fossem manipulados pelos perversos ocidentais", diz ele. "Investigações recentes deixam claro que não foi o que aconteceu. O que ocorreu foi uma invasão australiano-britânica, comandada pelo general Allenby, que de fato libertou toda a região dos turcos, junto com invasões das tropas indianas lideradas por britânicos. Não fosse isso, o exército turco teria saído vitorioso e a revolta teria sido relegada ao esquecimento." Segundo Catherwood, realmente havia árabes descontentes com o domínio turco, sobretudo quando as atrocidades contra os armênios atingiram escala genocida. Mas a proporção de árabes que se revoltaram e combateram ao lado dos britânicos foi pequena. Seja como for, tribos árabes ficaram frustradas no fim da guerra, quando os turcos jogaram a toalha. Franceses e britânicos lotearam as terras do Império Otomano e as dividiram em fronteiras novas. "Até os nomes refletem essa artificialidade. Iraque havia sido uma província medieval com fronteiras muito diferentes das atuais. Síria, Líbano e Palestina são nomes da Antiguidade clássica que não haviam sido utilizados na região durante mil anos", diz Lewis.

Os franceses criaram o Líbano atual tomando parte da Síria, enquanto os britânicos traçaram as fronteiras da Transjordânia (atual Jordânia), do Iraque e do Kuwait. Na cabeça de cada um desses países, os europeus puseram líderes de clãs árabes pró-Ocidente para endossar seus interesses pelo petróleo. “Essa criação de nações com fronteiras artificiais, unindo povos com identidades e lealdades ancestrais muito distintas, foi um processo frágil que plantou a semente de crises de legitimidade e poder”, diz o americano John Esposito, professor de Estudos Islâmicos na Universidade de Georgetown. Na Turquia, último vestígio do Império Otomano, convencido de que precisava modernizar o país, o líder turco Kamal Ataturk instituiu a República, separou a religião da política e aboliu o califado – que havia sido o símbolo da identidade muçulmana durante 13 séculos. É a esse momento que Bin Laden se refere ao falar dos 80 anos de “humilhação” do Islã. Afinal, boa parte do mundo muçulmano se via nas mãos de líderes ocidentalizados. A a colonização não durou mais que 30 anos, mas ajudou a enterrar a unidade muçulmana da época medieval.

Na Palestina, a Inglaterra se viu com uma batata quente nas mãos: conter os crescentes enfrentamentos entre árabes e judeus. Ambos reivindicavam aquelas terras para a construção de seu lar nacional. Em 1947, os ingleses abriram mão da colônia e passaram a bola para a Assembléia Geral da ONU, que votou pela divisão da Palestina em dois estados: um judeu e outro árabe (palestino). Os judeus aceitaram o plano, mas a Liga Árabe o rejeitou.

Resultado: após sua independência, em 1948, Israel foi invadido pelos países vizinhos. Tinha início a primeira das seis guerras árabesisraelenses – e com ela o problema dos refugiados palestinos. Com o cessar-fogo, em 1949, Israel ficou com parte de Jerusalém e um território um pouco maior que o planejado pela ONU. As zonas que seriam destinadas aos palestinos – Gaza e Cisjordânia – ficaram com Egito e Jordânia, dois países árabes, mas o Estado palestino não foi criado.

Islamismo x Islã

Nos anos 50 e 60, a Guerra Fria dividiu o Oriente Médio entre dois blocos de Estados antagônicos. “Os chamados conservadores, como a Arábia Saudita, os sultanatos, emirados, a Jordânia e o Marrocos, formavam um grupo de monarquias sob forte influência ocidental – especialmente dos Estados Unidos”, diz o historiador Peter Demant, da Universidade de São Paulo, em O Mundo Muçulmano. “Por outro lado, houve uma série de regimes ditos progressistas, originados de revoluções antiocidentais. Foi o caso de Egito, Líbia, Síria, Iraque e Argélia, alinhados à União Soviética, com um discurso nacionalista e socialista.” O ditador egípcio Gamal Abdel Nasser, por exemplo, promovia a união dos árabes sob a bandeira do pan-arabismo. “Mas o nacionalismo/socialismo árabe se viu desacreditado pela desastrosa derrota de Egito, Jordânia e Síria frente a Israel na guerra de 1967 [quando Israel conquistou Jerusalém oriental, Gaza, Cisjordânia e as colinas do Golã], além do fracasso econômico e da corrupção de seus governos”, diz Esposito.

A essa altura, uma enorme sensação de insatisfação se propagava entre as massas do Oriente Médio e do mundo islâmico. Ela criou condições para a emergência de um movimento radical, o popular “fundamentalismo”, embora seja mais correto dizer “islamismo”.

"O islamismo é uma ideologia totalitária que busca o poder sob a desculpa da religião", diz o analista espanhol Gustavo Arístegui em O Islamismo Contra o Islã. "É uma manipulação da religião islâmica." Os islamistas (fundamentalistas) dizem que o Islã errou ao adotar o modo de vida ocidental. Portanto, é preciso derrocar os governantes muçulmanos moderados e implantar regimes baseados na sharia. “No longo prazo, eles pretendem formar uma federação desses regimes e restabelecer o califado”, diz Arístegui. O berço desse radicalismo foi o grupo Irmandade Muçulmana, criado no Egito em 1928. O fundador, Hassan al-Banna, defendia a purificação do Islã contra qualquer elemento ocidental. Banna foi morto pelo governo do Cairo, mas sua ideologia sobrevive em grupos como Hamas e Hezbollah e na rede terrorista Al Qaeda. O palestino Abdullah Azzam, mentor de Bin Laden, era da Irmandade Muçulmana. O egípcio Said Qutb, ideólogo do grupo, influênciou muito o líder da Al Qaeda. “Esses radicais justificam o terrorismo recitando a lista de ressentimentos padecidos por culpa do Ocidente: as Cruzadas, o colonialismo, a criação de Israel, a Guerra Fria e a presença americana nas terras sagradas do Golfo”, diz Esposito. Bin Laden tem pouco (ou nada) a ver com a causa palestina. Mas falar em nome dela, como pode ser notado hoje, é garantia de apoio.

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

Um negócio escuso é o único projeto para a região

Oswaldo Sevá

6. Um grande negócio escuso é o único projeto para todos na região? A sociedade adoece quando infernizada? Todo mundo é comprável? É enganável?

No rio Xingu, – que os Caiapó chamam de “Byti-re”, todas as pessoas percebem que estão sendo tratadas como “entrave” ou “interferência” nos negócios dos grandes, e não apenas os índios Mebengokré, que chamamos Caiapó, brabos mesmo, e que costumam de público nos tratar aos gritos. Na verdade, ninguém na região reivindicou esse mega-projeto, ele chegou de pára-quedas há trinta anos e até hoje se tenta convencer as pessoas a “reivindicá-lo” como se fosse a solução para todas as carências. As pessoas na região reivindicam sim, uma estrutura escolar decente inclusive na área rural, serviços de prevenção e de tratamento de saúde adequados para uma população carente e doente numa região extensa povoada por migrantes há quatro décadas, reivindicam uma Justiça acessível e que funcione com mais rigor e rapidez, bem como o asfaltamento da rodovia Transamazônica, pelo menos no trecho Altamira a Repartimento e Marabá para poderem se ligar por asfalto com a capital paraense e com o restante do pais. Nada disso vai sendo efetivamente atendido, e ficam só infernizando o povo com o onipresente fantasma Belo Monte, forçando todos a serem a favor mesmo sem saber direito do que se trata, e claro! fazendo a caveira de quem desconfia, questiona, critica ou tem a coragem de repudiar.

Enquanto isso, as relações sociais vão sendo estigmatizadas, esgarçadas por preconceitos de classe, de etnia, de origem geográfica, de crença religiosa. Manifestantes organizados pelos maiores fazendeiros, madeireiros e comerciantes nas ruas de Altamira em 2006 protestavam contra a paralisação do projeto Belo Monte pela Justiça, e na falta de melhor argumento, portavam uma faixa onde se lia: “Dom Erwin – lobo em pele de ovelha” , uma ofensa impensável em qualquer cidade de maioria católica! Afinal, ele é o bispo da cidade e de toda a região, a Prelazia do Xingu.

Na mesma Altamira, em Maio de 2008, realizamos o nosso encontro, Xingu Vivo para sempre! preparado desde vários anos antes, costurando interesses firmes com entidades que em geral tem poucos recursos, coordenados pelo Conselho Indigenista Missionário, pelo Instituto SócioAmbiental (sede em SP) e pelos movimentos das mulheres guerreiras de Altamira. O encontro foi montado para agregar mais gente, mais grupos, representando mais lugares da beira do Xingu, desde o Mato Grosso até a sua foz em Porto de Moz, chamando gente de Tucuruí para testemunhar o seu sofrimento e suas lutas, gente de Santarém, para se prepararem contra a próxima rodada de usinas, no Tapajós, enfim centenas de pessoas pelo único motivo comum de questionar e repudiar os projetos de usinas que ninguém pediu.

Foi também convidado a expor no evento o “pai” do Belo Monte, Muniz Lopes. Não quis correr novamente o risco de ser enfrentado pela índia Tuira, e designou o gerente do projeto na Eletrobrás, engenheiro Paulo Fernando Vieira Souto Rezende. Branco rico, da Zona Sul carioca, exalando preconceito, veio disposto a empurrar seu projeto goela abaixo da platéia, com argumentos inadequados, mostrando na tela quatro usinas no Xingu para depois reafirmar que só o Belo Monte ia ser feito. Mas… ia ser feito de todo modo, e nós é que éramos todos imbecis de não enxergar os seus benefícios, nem os cuidados com que estava sendo conduzido pelos iluminados como ele. O tom foi agressivo, mereceu vaias e intimidou muitos, especialmente alguns caciques e dezenas de índios Caiapó também dispostos a brigar, além de muitas mulheres lideradas pela Tuira, todos vindos desde a região de São Félix do Xingu em trajes de guerra e com instrumentos de guerra, terçados, tacapes, flechas, bordunas, bem visíveis e à mão.

Com o cenário armado no ginásio municipal do bairro Brasília, a violência não surpreendeu quem conhecia os dois lados: alguns poucos índios cercaram a mesa dos palestrantes e atacaram o engenheiro, rasgaram sua camisa, o derrubaram no chão, cutucaram seu corpo com as bordunas. Quando ele estava caído, apesar de alguns índios o estarem protegendo, outro deles conseguiu desferir um corte cirúrgico, bem calibrado, contido mas firme no braço da vitima. Estava a três metros de distancia, pressenti mas não pude ver o detalhe; confirmando depois pelas filmagens, o objetivo não era decepar nem furar o adversário, e sim, castigá-lo, deixar uma marca para sempre. A cena de sangue interrompeu a sessão e rodou o pais e o mundo, quase sempre na versão que mais interessava à máfia do projeto; mas nada podia esconder a covardia do ato. E quem lá estava lá, viu que o gerente chamou a platéia para a briga.

Interessante também foi conferir que muitos políticos paraenses fugiram da raia e não apareceram para o seu eleitorado no Ginásio de Altamira. Gente como o ex-deputado federal Paulo Rocha, conhecido por ter embolsado uns trocados na época do “mensalão”, outros deputados que ali tem o seu curral eleitoral como José Geraldo e Ailton Faleiros, todos do PT e que foram durante anos contrários ao projeto das usinas no rio Xingu. Isso, naturalmente…até janeiro de 2003, quando os petistas chegaram ao poder em Brasília, e especialmente depois de janeiro de 2007 quando chegaram ao poder em Belém, graças à insuspeita aliança da senadora Ana Júlia Carepa com o antigo coronel paraense Jader Barbalho. As empresas ficaram assustadas com a agressão dos Caiapó contra o engenheiro, sentiram o golpe. Um mês depois, com a intermediação serviçal da FUNAI – Fundação Nacional do Índio, ensaiaram uma re-conciliação na aldeia Kikretum, próximo de São Félix do Xingu. A julgar pelo que dizem os índios em sua nota pública, não funcionou:

“Reunidos em assembléia extraordinária, nos dias 17, 18, 19 de junho, conversamos bastante sobre a barragem de Belo Monte. Finalizando a assembléia após a explanação por parte dos representantes da FUNAI de Brasília e dos engenheiros da Eletronorte, nos posicionamos mais uma vez com toda determinação contra a barragem de Belo Monte. Como em fevereiro de 1989 e em maio de 2008 em Altamira. Ngôbêjé két. Byti-re tin rã·ã rã·ã (Não à barragem! Xingu vivo para sempre!) [seguem as assinaturas de 94 caciques]

Para dobrar os renitentes, além das campanhas de opinião, com seu conteúdo de terceira linha, argumentações chatas, monótonas, experimentam também uma trama de cooptações jeitosas dos indígenas, elevados à condição de único “problema” para o prosseguimento da negociata. Vão por isso instalando placas foto – voltaicas e antenas parabólicas, prometendo grana e já adiantando uma parte, pagando contas nas lojas, é o que dizem por lá, que assim fizeram os emissários das empresas, ajudados por indigenistas experientes como os Srs. Porfírio Carvalho, da Eletronorte e Benigno Pessoa Marques, da FUNAI. Por isso talvez uma liderança urbana dos índios Xipaia, dona Elza, que mora em Altamira, e lideranças das aldeias na Terra Indígena Trincheira – Bacajá tenham mudado sua disposição anti-barragem. Também vão prometendo ajudar a delimitar a terra reivindicada por outros grupos, a Eletrobrás assim fez com os pobres Arara do Maia, na barranca direita da Volta Grande, e com os Yudjá / Juruna do km 17 da rodovia Altamira a Vitória do Xingu. E algo do tipo podem também ter feito com os Yudjá / Juruna da T.I. Paquissamba, na margem esquerda da Volta Grande do Xingu. No projeto anterior Kararao, sua aldeia iria para baixo d’água; no atual, não seriam inundados, mas sua aldeia fica em frente ao trecho do rio que estaria com pouca vazão d’ água o ano todo, e praticamente seco no “verão”, de junho a outubro. Suas constantes viagens a Altamira ficariam bem mais custosas e arriscadas, seus lençóis freáticos iriam baixar e sua terra já homologada ficaria praticamente cercada por trás, pelo Norte, por grandes canteiros de obras, estradas, canais, represas menores interligadas.

Sem esquecer de mencionar a recente mudança de posição, agora pró-negociacão com as empresas, operada pelo cacique caiapó Paulo Paiakan, que foi o principal “pop star” do Encontro de Altamira de 1989. Na mesma época em que outro cacique, Raoni havia feito um tour musical com o cantor pop inglês Sting, Paiakan havia ido junto com outro cacique, Kube-I ao exterior para angariar fundos e apoio para realizar esse primeiro grande encontro indígena. Por isso chegou a ser processado pelo governo Sarney, ameaçado de “extradição” !!! como se fosse um estrangeiro infrator. Durante aquele encontro em Altamira, em fevereiro de 1989, deu-se a cena famosa de sua prima Tuira esbravejando com o engenheiro Muniz Lopes e roçando o facão em seu rosto.

Pois bem, diante dos eventos controversos e emocionados das Audiências Públicas do IBAMA em setembro de 2009, Sua Excelência o Ministro perde as estribeiras e mata saudades dos tempos em que ajudava a reprimir subversivos: O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou nesta terça-feira que o governo vem encontrando grande dificuldade para obter licenças ambientais para iniciar o processo de venda da concessão da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, que vai gerar 11 mil megawatts. "Às vezes tenho a sensação que tem uma força demoníaca puxando para baixo o país, não querendo que o país avance. Não desejando que tenhamos a segurança energética de que tanto precisamos", disse Lobão em evento de energia no Rio de Janeiro [agencia Reuters/Brasil on line, de 29.09.2009 “Lobão diz que "forças demoníacas" prejudicam Belo Monte”, por Denise Luna]. Lobão fez carreira no Maranhão, é conhecido na crônica política por sua fidelidade aos ditadores militares e por sua propensão ao dedo-durismo. No livro de Palmério Dória, pag.67: “Já a fama de delator é reforçada por sua atitude em uma sessão da Câmara dos Deputados em que se homenageava o líder guerrilheiro Carlos Marighela (obs.:assassinado em SP pela Oban) … Inopinadamente, totalmente fora de tom, Edison Lobão ocupa a tribuna munido de uma série de documentos e passa a acusar Marighela de assaltos, seqüestros e outros crimes que nem havia praticado. Para Sarney, esse é o cara.”

Os índios Caiapó ficaram sabendo e, mesmo não sendo católicos nem sendo obrigados a acreditar na existência do diabo, entenderam a hostilidade e chamaram o ministro para o desafio. Eis o que divulgaram na internet duas semanas depois, a partir do povoado de Piaruçu, MT: “O povo Caiapó, liderado pelo Cacique Raoni Metuktire, em repúdio às declarações ofensivas do Ministro Edson Lobão, convida todas as lideranças Indígenas, Ministério Publico Federal, Entidades de Direitos Humanos, Ambientalistas, Organizações não Governamentais e Imprensa em geral, para manifestação contra a construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte, a ser realizada de 28/10 a 04/11/2009 no PIV Piaraçú, TI Capoto/Jarina, entroncamento entre o rio Xingu e a MT 322, antiga BR 80. Estará sendo aguardada a presença dos Ministros de Minas e Energia e Meio Ambiente, alem dos Governadores dos Estados do Mato Grosso e Pará. O não comparecimento dessas autoridades implicará no fechamento da Balsa da travessia do Rio Xingu na MT 322 antiga BR 80, trecho que liga os Municípios de Matupá e São José do Xingu no Estado do Mato Grosso.”

Nas regiões brasileiras assim eleitas, a implantação de obras como o Belo Monte não admite nada que preexista. A propaganda da máfia sarneysista usa o mito da terra prometida, mas os mega-projetos só vicejam em terra arrasada, com seres humanos dobrados, flexibilizados. Promessas nunca cumpridas, miragens na imensidão verde da selva ameaçada. Os jovens grafiteiros de Altamira, contemporâneos como os anti-globalização de Seattle e Genova, inverteram o logotipo da “Eletromorte” e rebatizaram a coisa de “Belo Monstro”. Em trinta anos, ele já havia morrido duas vezes, prosseguimos preparando sua terceira morte.

esp_belomonte4.jpg

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

O licenciamento obrigatório e a ausência de questionamentos

Oswaldo Sevá

5. A safadeza do licenciamento obrigatório, com data marcada para ser concedido, com base nas audiências policiadas, e na “ ausência de questionamentos”

O EIA – Estudo de Impacto Ambiental é uma exigência da legislação ambiental desde 1986, quando a Resolução 01 do Conselho Nacional de Meio Ambiente assim especificou, para todas as obras que contivessem um significativo potencial de degradação do meio. O próprio ritual de concessão de Licença Ambiental é matéria constitucional, no artigo 225 da Constituição Federal de 1988. Parece que as empresas não se conformam com isso, e brigam de todo jeito para eliminar essa exigência, ou , como ainda não conseguiram, pressionam para que a Licença seja concedida de qualquer jeito, o mais rápido possível, para qualquer projeto que elas – empresas – ou o governo imagine. A situação é tão absurda quanto se os cidadãos que pretendem dirigir veículos brigassem contra a obrigatoriedade de exame para a concessão da Carteira de Habilitação, ou se pressionassem para que a Carteira seja concedida para todo e qualquer candidato, o mais rápido possível. No caso do projeto Belo Monte, a elaboração do EIA que agora está sendo submetido ao IBAMA começou em 1998, através da assinatura de um convenio de alguns milhões de reais da Eletronorte com uma Fundação dessas que intermedia consultorias para grupos de professores dentro das universidades, no caso a Fadesp, vinculada à Universidade Federal do Pará. Segundo entendia o Ministério Publico Federal, o convenio era ilegal e foi devidamente bloqueado por uma Ação Civil Pública em 2001. [mais detalhes no capitulo de Jane Beltrão e Felício Pontes no livro Tenotã Mõ, 2005]

Os estudos continuaram sendo feitos “caseiramente” na própria Eletronorte, que em 2003, contratou pesquisadores de outra universidade, a Universidade de Brasília, do Centro de Desenvolvimento Sustentável, gente de confiança do então Ministro da Educação Cristovam Buarque, e em seguida contratou uma empresa de consultoria chamada E-labore. Ambos os grupos de intelectuais e pesquisadores externos à região fizeram boa parte do “serviço sujo”: ao mesmo tempo identificando as lideranças, mapeando grupos resistentes e questionadores do projeto, e produzindo as maquiagens da “inserção regional do empreendimento”, dando o lastro para a cooptação dos políticos municipais, através da criação do fantasmagórico “Consórcio Belo Monte”. Depois, todo o espólio passou para as mãos da Eletrobrás, embora muita gente continue acreditando que o projeto “é da Eletronorte”.

Não por acaso, essa estatal passou a ser apelidada em Altamira, de “EletroMorte”, e o seu pimpolho, de “ Belo Monstro”.

Em 2005, – ao mesmo tempo em que estávamos lançando o livro “Tenotã Mõ” já mencionado, um verdadeiro compendio sobre os principais aspectos dos projetos de usinas no rio Xingu, até então desconhecidos, omitidos e falseados, – o governo federal fazia um enorme esforço para tornar o projeto legalizado, ou seja, para contornar de algum modo o artigo 231 da Constituição Federal, que obriga os aproveitamentos hidráulicos e minerais afetando terras Indígenas a terem autorização do Congresso, além de consultar os indígenas afetados.

Em maio, a Ministra das Minas e Energia anunciava para seus empresários preferidos, do setor de equipamentos pesados, mais dois factóides: de que o projeto podia ser licitado no ano seguinte – a tal mentalidade de tirar a Carteira de habilitação de qualquer modo – e, de que o enorme investimento poderia ser seccionado, como se fosse uma minhoca, em dois pedaços iguais: “A ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef, disse ontem que o governo federal pretende licitar em 2006 as concessões da Usina Belo Monte e de hidrelétricas do Rio Madeira. "Estamos, neste momento, formatando o projeto da Usina Belo Monte para enviá-lo ao Congresso", comentou Dilma, que participou do seminário "Financiamento da Expansão do Setor Elétrico", realizado pela Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), em São Paulo. A expectativa da ministra é de que pelo menos a primeira etapa do projeto de Belo Monte, com cerca de 5.500 megawatts (metade dos 11.100 megawatts planejados), poderá ser licitada no ano que vem. [Extraído de “ Dilma: Belo Monte e usinas do Rio Madeira devem ser licitadas” Tribuna da Imprensa, RJ, 03.05.2005 ]

Esse EIA simboliza perfeitamente tudo o que se passa na industria barrageira do país, como confirma o jornalista Palmério Doria, na pag. 48 de seu livro: “…a construtora baiana Odebrecht não participou da farra de Tucuruí, mas entrou nas hidrelétricas amazônicas no Madeira, em seguida no Xingu, em belo Monte… Com as outras “maninhas” Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, que abocanham todos os consórcios, tentaram elas mesmas fazer o estudo de impacto ambiental em Belo Monte. Mas o Ministério Publico deteve a tramóia a tempo. Era só o que faltava: gente que ganha ris de dinheiro devastando, julgar até que ponto pode devastar”.

Na realidade, o MPF foi de novo vencido, e essa liminar foi também derrubada sob a argumentação de que o EIA estava sendo coordenado pela Eletrobrás e que se tratava de obra de interesse “estratégico” para o país, que “não podia” ser paralisada! Foi contratada pelas cinco empresas uma outra, a Leme Engenharia, que então juntou as partes do quebra-cabeças e mandou mais gente a campo para os últimos levantamentos. Conforme o próprio EIA relata na pág. 21: “Em especial a partir de janeiro de 2006, com a solicitação da abertura do processo de licenciamento do AHE Belo Monte junto ao IBAMA – processo DILIQ/IBQMQ no 1.156 -, a população local passou a conviver com a presença de um conjunto de técnicos envolvidos na realização de diferenciados levantamentos de campo para compor o EIA e o RIMA do referido empreendimento.

Em Maio de 2008, um grande evento de resistência aos projetos aconteceu em Altamira, um encontro dos povos ribeirinhos e dos indígenas de toda a bacia do Xingu, com a imagem de marca “Xingu Vivo para Sempre”, com a participação de milhares de pessoas incluindo delegações vindas do Mato Grosso e jornalistas e pesquisadores de todo o Brasil e do exterior.

Para replicar, foi a vez da maquiagem das “consultas à população” nas quais foi apresentado, em Agosto, um T.R. –Termo de referencia já aprovado oito meses antes: “Nesse contexto, destacam-se aqui as reuniões públicas ocorridas em 28 e 29 de agosto de 2008, respectivamente em Altamira e em Vitória do Xingu, capitaneadas pelo IBAMA, para discutir o Termo de Referência para o EIA e o RIMA, emitido em definitivo pelo órgão ambiental em dezembro de 2007. Assim, o processo de divulgação do AHE Belo Monte tem sua continuidade assegurada, resultando na reversão, acirramento ou mesmo alteração de expectativas diversas da população, de lideranças e de órgãos e representantes da sociedade civil organizada interessados nas questões sócio-políticas, econômicas e ambientais afetas ao projeto. (extraído do EIA, seção ADI)

Enfim, vencidas várias etapas consideradas como “entraves ambientais”, em 2009 começou a ser conhecido o novo EIA: uma parte importante, o documento “Avaliação de Impactos Ambientais -Versão final” extravasou em Altamira em Fevereiro, e em Maio, foi depositado no IBAMA o enorme pacote, porém incompleto, faltando o “Laudo antropológico”, um estudo típico daquela Antropologia de consultoria que estuda apenas alguns grupos de índios. Já o estudo antropológico de todos os demais, nordestinos, gaúchos, paranaenses, mestiços de todo tipo que moram em Altamira e na Volta Grande do Xingu jamais será feito pelas empresas decididas a remove-los e espoliá-los, muito menos incorporado a esse EIA.

Assim que o EIA foi depositado, o IBAMA se apressou e tentou marcar as Audiências Públicas para o mês de Julho, o que foi impedido por meio de uma liminar pedida pelo Ministério Publico Federal. A pressão da máfia agora se voltava contra a Justiça: “O ministro de Minas e Energia cobrou uma decisão da Justiça Federal do Pará sobre a liminar que suspendeu os estudos que antecedem o processo de licenciamento ambiental, fundamentais para a realização do leilão. "As hidrelétricas não podem ficar paralisadas por queixas de ONGs ou do Ministério Público, ou do que quer que seja. É preciso que haja uma decisão judicial, com rapidez", disse o ministro, depois de participar de reunião com a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, no Centro Cultural Banco do Brasil. Sem entrar em detalhes, Lobão disse que a reunião com a ministra foi para estudar o modelo de licitação que será adotado na usina de Belo Monte, considerada pelo governo, segundo ele, como "a jóia da coroa". Lobão lembrou que disputas na Justiça também marcaram os leilões das hidrelétricas de Santo Antonio e de Jirau, no Rio Madeira. "E não será diferente com Belo Monte, lamentavelmente. Se nós não pudermos construir essas hidrelétricas, teremos um sistema fragilizado. O povo necessita de segurança energética e não de apagões", afirmou. [Agência Estado, em 01 de julho de 2009 : “ Lobão cobra decisão sobre liminar de Belo Monte” , por Gerusa Marques, de Brasília].

Desde então, intensificou-se a movimentação conjunta de empresas e dirigentes de governo, uma verdadeira operação – salvamento do projeto Belo Monte que está naufragando em suas próprias mentiras e desencontros: “A Associação Brasileira de Infra-estrutura e Indústrias de Base e o Ministério de Minas e Energia vão discutir as questões relacionadas a Belo Monte (PA,11.233 MW). Segundo Paulo Godoy, presidente da Abdib, as entidades vão se focar nas condicionantes que interferem no negócio. Para ele, precisam ser esclarecidos assuntos como risco geológico, licenciamento ambiental e financiamento. "São três temas fundamentais para garantir o leilão", afirmou o executivo. Ele antecipou que em relação ao licenciamento ambiental, a Abdib defende que o processo de concessão da LP licença prévia deve ter poucas condicionantes, sendo assim, pouco distante da LI licença de instalação. O executivo quer reduzir espaços para contestações. Para Godoy, a questão ambiental tem que despertar menos emoção, trazendo mais racionalidade e tecnicidade aos debates. [Acessado em 26 de agosto de 2009 : http://www.canalenergia.com.br/zpublisher] .

O IBAMA está durante todo o ano de 2009, até o presente, em fins do mês de Outubro, sob pressão direta do Ministro de Meio Ambiente, o qual por sua vez está sob pressão direta, pública e ostensiva, por parte do Ministro de Minas e Energia e da Casa Civil, que consideram a concessão da Licença Ambiental Prévia do projeto hidrelétrico Belo Monte, uma mera obrigação formal, uma simples etapa numa corrida com destino já decidido. A sua carteira de motorista para dirigir a “Jóia da coroa”, que já sabemos será devidamente pilhada por quem já conhece o ramo.

Na realidade, tudo vem sendo apressado por uma aliança pouco conhecida entre o Palácio do Planalto, o grupo de lobistas do ex-presidente Sarney e o grande capital barrageiro internacional – do qual fazem parte a Camargo Correa, a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Agora todos forçam para aprovar a licença ambiental independentemente do conteúdo e da qualidade do Estudo de Impacto Ambiental, ou seja, tanto faz quais sejam os impactos nele assinalados e de quais sejam as medidas para minimizar ou controlar tais impactos.

Mais ainda: independentemente de qual seja a análise que esteja sendo feita pelos próprios técnicos do IBAMA, independentemente de outros estudos já realizados por especialistas não vendidos ao sistema barrageiro governamental e multinacional, sobre as numerosas conseqüências e os numerosos riscos intrinsecamente desencadeados por essa pretendida obra.

Ora, caso a obra Belo Monte se concretize, tais impactos seriam simplesmente os maiores impactos e os maiores riscos de qualquer outra obra que tenha sido licenciada após a vigência da resolução no. 1 do CONAMA- Conselho Nacional de Meio Ambiente e após a vigência do artigo 225 da Constituição Federal . Isso porque as usinas de Sobradinho, Itaipu e Tucuruí que apresentam alguns impactos mais significativos do que Belo Monte, foram feitas sem a Licença Ambiental, que ainda não era exigida quando de sua implantação. [obs: esses quatro parágrafos foram extraídos do meu texto “Prevalecerão a Ética e a Lógica? Razões para ser bloqueado juridicamente o processo de licenciamento do projeto de hidrelétrica Belo Monte, ora em curso perante o IBAMA” , pp. 129-132 do Painel de Especialistas - Análise Crítica do Estudo de Impacto Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte ,Organizado por Sônia Maria Simões Barbosa Magalhães Santos e Francisco del Moral Hernandez . Belém, 29 de setembro de 2009]

A tal liminar que impedia as Audiências foi derrubada, e em Setembro, o IBAMA as fez acontecer nas sedes de três municípios da região que seria diretamente atingida: Brasil Novo, Vitória do Xingu e Altamira, e depois na capital estadual, Belém. Assim que se encerrou esse ciclo, conturbado, cheio de golpes de mão por parte do IBAMA, já foi garantido que a Carteira de Habilitação vai ser dada de todo modo, e logo!! Conforme a agencia noticiosa do próprio governo federal: “O ministro do Meio Ambiente Carlos Minc disse, em entrevista à Agência Brasil, que a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, deverá ser concedida “provavelmente” no mês de novembro. Ele lembrou que esta semana foram concluídas as quatro audiências públicas que o governo realizou para tratar do tempo e “aparar arestas”, a última das quais em Belém (PA). “A partir do encontro de Altamira (PA), foi aberto um prazo legal de 15 dias para a apresentação de novas propostas e questionamentos. Depois do que, se fará um relatório final para a obtenção da licença provisória para a instalação da usina, que deverá sair em novembro”, afirmou. (Agencia Brasil: Licença provisória para Hidrelétrica de Belo Monte deverá sair em novembro, prevê Minc, em 17 de setembro de 2009, por Nielmar de Oliveira).

No dia seguinte, o pai da criança, engenheiro Muniz Lopes voltou a carga para garantir que, apesar dos contratempos, tudo ia bem: “Embora não tenha admitido um possível adiamento do leilão, Muniz deu a entender que a sua realização já não é tão certa em 2009, já que até o momento a licença ambiental prévia não foi concedida. As audiências públicas para a concessão da licença pelo IBAMA foram realizadas na semana passada e dentro de 15 dias, se não houver questionamentos, o documento poderá ser emitido. …O executivo disse que nas audiências públicas os impactos ambientais no projeto não foram questionados. Mas que haverá, sem dúvida, uma reestruturação social na região. (agencia Reuters News. Projeto para salvar a Celg envolve Eletrobrás, BB e BNDES.18 de setembro de 2009) .

Os estudiosos do “Painel independente de Especialistas”, que se desdobraram para analisar e criticar o volumoso EIA no exíguo prazo de Junho a Setembro protocolaram no ultimo dia de Setembro em Belém e em Altamira, um extenso dossiê contendo as criticas e questionamentos a todos os capítulos e seções do EIA. Mas, para transmitir a certeza de que tudo vai conforme o combinado, outro mentiroso importante entrou na jogada: “ O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), Roberto Messias, disse ao Valor na sexta-feira que nenhuma contribuição ou questionamento sobre o estudo de impacto ambiental da usina hidrelétrica de Belo Monte foi entregue ao instituto até o prazo final do período de consulta pública do projeto, encerrado um dia antes. Com isso, Messias acredita que já no fim deste mês, ou no início do próximo, deverá ter em sua mesa a análise da equipe técnica sobre o EIA e poderá, assim, dar sua decisão sobre a concessão ou não da licença prévia."Tem que ter razão muito forte para que não se conceda a licença de uma hidrelétrica e assim fazer com que continuemos queimando óleo para gerar energia", disse ele. …Mas a afirmação de que nenhum questionamento foi feito por escrito, entretanto, vai ao encontro do que afirma o Movimento Xingu Vivo Para Sempre em nota divulgada na semana passada. Valor Econômico on line, acessado em 05 de outubro de 2009, Licença prévia de Belo Monte pode sair ainda em outubro)

A desmoralização da área ambiental do governo é tamanha que a data de entrega da cobiçada carteira de motorista é definida por gente de outros Ministérios e até pelos editores dos jornais e agencias noticiosas: “… a expectativa do governo é realizar o leilão ainda este ano. A definição da data depende da liberação da licença prévia ambiental (LP) pelo IBAMA. Ontem, o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, disse que o documento deve ser liberado este mês”. (Três grupos disputam Belo Monte .O Estado de S. Paulo – 07/10/2009).

Uma das razões, quase sempre esquecida, para que o IBAMA decida conceder quase todas as Licenças ambientais que são requeridas, é de ordem puramente econômica: a cada licenciamento, o empreendedor deve destinar 0,5% do montante total do investimento pretendido, a titulo de Compensação Ambiental, o que é um tremendo reforço de caixa para o IBAMA, conforme se viu no caso de uma das usinas no rio Madeira, com investimento previsto da ordem de 12 bilhões de reais: “A Santo Antônio Energia, concessionária que constrói a usina Santo Antônio, no rio Madeira, comprou 2.000 equipamentos, de caminhonetes a notebooks, para doar ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Com isso, a concessionária libera R$ 7 milhões do primeiro aporte de recursos do seu plano de compensação ambiental, dos R$ 612 milhões previstos,(!!!obs.: errado pois o total é de 61, 2 milhões) que equivalem a 0,5% do investimento na obra. [extraído de Folha de São Paulo, 26.09.2009 Caderno B1]

No caso de Belo Monte, se o investimento fosse de 16 bilhões de reais como anunciou recentemente a EPE, o caixa do IBAMA ia receber um reforço de 80 milhões, quantia nada desprezível para uma autarquia que tem problemas elementares de falta de pessoal, de veículos, aeronaves e barcos, de computadores… Mas, a compensação via a criação ou a adoção pelas empresas, de Unidades de Conservação como os Parques Nacionais, as Reservas Biológicas, Estações Ecológicas, Florestas Nacionais (Flonas), também é uma boa moeda de troca. Inclusive porque está quase decidida no governo a “liberação” das Unidades de Conservação para hidrelétricas e para mineração: “O ministro Minc admitiu ainda concessões para viabilizar obras de infra-estrutura para o país:- Se uma hidrelétrica afetar a Flona, não tem conversa. Mas, se o impacto não for grande, e a área cedida para a obra for compensada, vale a pena”. [extraído de EcoDebate<http://www.ecodebate.com.br/ 14/10/2009]

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

A mentira sobre o potencial energético

Oswaldo Sevá

4. A mentira energética, o embrulho dos dados econômico-financeiros, e a “ficha suja” de quem inventou e promoveu o projeto.

O ponto mais forte do ufanismo criado em torno do projeto Belo Monte é a sua capacidade elétrica, ou, na linguagem preferida dos engenheiros, a sua potencia instalada, de 11 milhões de kilowatts , ou 11 mil Megawatts, o que a tornaria a 2a. mais possante instalada no Brasil. Como a usina de Itaipu é bi-nacional, o ufanismo se completa “ a maior inteiramente brasileira!”. Para ficar raciocinando apenas nas proporções entre as coisas, chama a atenção que o rio Paraná é bem maior, com uma bacia mais extensa, quase três vezes maior do que a do Xingu e em Itaipu foram instalados inicialmente 12.600 MW, somente 14 % a mais do que se pretende instalar em Belo Monte! Em compensação, ao chegar em Itaipu a água do Paraná está toda regularizada por dezenas de represas rio acima, e raramente a vazão é menor do que 1.500 metros cúbicos por segundo, enquanto no Xingu, Belo Monte seria a única usina, já no final do rio, sem qualquer regularização, e a vazão nas temporadas mais secas cai sempre abaixo de 1.000 metros cúbicos por segundo, e as vezes cai abaixo de 500 metros cúbicos!!! Bem, pode ser que na bacia do Xingu chova mais, aí a vazão do rio seria maior; de fato, no pico da cheia, o Paraná ultrapassa os 20 mil metros cúbicos por segundo, e o Xingu pode ultrapassar os 25 mil metros cúbicos por segundo.

Vejamos o que conta mesmo para a potencia de uma usina é a multiplicação da vazão do rio pela altura da queda a ser criada pela barragem, e aí de novo, a surpresa: a queda em Itaipu é de 120 metros, e em Belo Monte não passa dos 90 metros!

Ora, a primeira coisa que se precisa saber, num caso como esse, é se de fato o rio oferece toda essa força hidráulica e durante quanto tempo durante o ano. Os dados históricos de vazão do rio Xingu são presumidos, obtidos por comparação com o rio Tocantins, pois no Xingu as medições são muito recentes, e com base neles as empresas fazem previsões de que a dita “energia firme” nos anos futuros passará de 4.500 MW. Usando a mesma base de dados, pesquisadores da Engenharia Elétrica da Unicamp simularam o quanto essa usina teria produzido se ela já existisse nos últimos 70 anos, e concluíram que a potencia assegurada máxima nos meses secos, teria sido da ordem de 1.300 MW. [No livro Tenotã Mõ, 2005, registramos todas as fontes de informação, os detalhes técnicos e as referencias do modelo “Hydrolab”, utilizado pelos pesquisadores Marcelo Cicogna e Secundino Soares Filho, da FEEC/Unicamp].

Tem algo de muito errado no projeto da usina Belo Monte, provavelmente trata-se de uma mentira energética das grossas: parece que decidiram colocar um motor de Formula-1 num carro comum de passeio. Se concretizarem a besteira, várias maquinas enormes, de 550 MW cada uma, com turbinas que engolem mais de 600 mil litros por segundo ficarão paradas por vários meses, e pode acontecer de não haver água suficiente para virar nenhuma máquina!

Quando a história mal contada começou a ser descoberta, aí o “pai da criança”, engenheiro Muniz Lopes inventou outra, para desviar o foco: a usina Belo Monte ficaria ligada no Sistema Interligado Nacional e haveria uma compensação desse período muito seco no Xingu, por que o período do ano seria o oposto do período seco nos demais rios brasileiros. Ora, o Xingu nasce no mesmo Planalto Central que os rios Tocantins, São Francisco, e boa parte dos formadores do Paraná, e todos eles enchem de novembro em diante até março/abril e depois esvaziam. Pode sim, existir uma diferença de, no máximo um mês e pouco, por exemplo, em relação ao rio Iguaçu ou ao rio Uruguai, que nascem na Serra do Mar e passam por uma região mais próxima do Oceano. Agora “períodos opostos” entre os ciclos hidrológicos do Xingu e dos demais rios brasileiros é outra mentira, propalada pelos mentirosos de sempre !

Qual a destinação prevista da energia elétrica a ser ali produzida? Eis a pergunta óbvia que qualquer cidadão interessado faz. As respostas variam conforme a ocasião. Em 2001, quando ressuscitaram o projeto, diziam que era a fórmula salvadora contra o apagão. De lá para cá, continua sendo, “para evitar um novo apagão”. Mas dizem também que seria para garantir a futura expansão econômica brasileira, para gerar empregos na Amazônia, para desenvolver todo o pais para sempre, etc.

Entretanto, quase nunca deixam escapar que a eletricidade, que seria farta e barata, seria destinada para a ampliação aqui, no Pará, da industria mineral-metalúrgica internacional, devoradora de energia. Para aqueles brasileiros que ainda acham que na economia da Amazônia só pesam a madeira de lei, o gado, a soja, é bom registrar que já estão instaladas ali por perto do projeto Belo Monte, entre o leste do Pará e a metade Oeste do Maranhão: a maior mina de bauxita do mundo (MRN, em Oriximiná) e está sendo aberta a segunda maior (Jurutis, perto de Santarém), a maior fabrica de alumina, Alunorte, na região de Abaetetuba, no baixo Tocantins, as duas maiores fundições de alumínio, a Albrás também em Abaetetuba e a Alumar, na Ilha de São Luis, Maranhão, mais a maior concentração de grandes minas metálicas do mundo atual, nas Serras de Carajás: minérios de ferro, de cobre, de manganês, de níquel, industrias de concentração de cobre e de níquel, alem de médias siderúrgicas, que fazem ligas de ferro com outros metais, e os pequenos fornos de ferro-gusa. Quase todas essas empresas são estrangeiras ou de maioria estrangeira, quase toda essa produção é exportada, a preços bem vantajosos, para os chineses, japoneses, europeus e norte-americanos. Tudo isso consome muita eletricidade vinda pelos linhões da usina de Tucuruí.

É isso que se pretende multiplicar por três, quatro vezes, em pouco tempo, e para isso serviria a eletricidade do Belo Monte. Ao concretizar esses planos dos grandes trustes mundiais da mineração e metalurgia, também se garante a continuidade das rendas e do poderio da máfia comandada pelo ex-presidente Sarney, de seus filhos, de sua filha e seu genro e mais uma dúzia de apadrinhados, como o Ministro Lobão e o presidente Muniz Lopes da Eletrobrás.

“Honoráveis bandidos”. Foi o titulo escolhido pelo jornalista Palmério Dória para o livro que lançou em Setembro de 2009 sobre essa máfia, cuja alavanca principal é o dinheiro público, como lemos nas páginas 47 e 45 desse livro: “Quando foi criado o programa Grande Carajás, com jurisdição sobre o Pará e o Maranhão, criou-se também um mecanismo de incentivo fiscal que permitiu à Camargo Correa em vez de pagar imposto sobre esse superlucro ( da construção de Turucuí e outras grandes obras na região) , aplicar no projeto Alumar, na ilha de São Luis. O truque beneficiou a principal controladora da empresa, a (norte-americana) Alcoa, que não precisou botar dinheiro no negócio… A Alumar recebeu um contrato de energia semelhante ao da Albrás, fazendo jus a um desconto bem camarada. O valor do subsidio, de 2 bilhões de dólares permitiria comprar uma fábrica nova.” Ao entrevistar um historiador maranhense, o autor do livro registra o depoimento esclarecedor: “Todos os contratos, de 20 anos de duração, da Alumar que movimenta 430 milhões de dólares anualmente foram negociados por agentes de Sarney…Quando a Alumar anunciou a última expansão dela aqui em 2007, o anúncio da empresa foi na casa de Sarney. Fizeram uma festa lá na residência do chefe oligarca, na Praia do Calhau, pra dizer que a Alumar prestigia a família e agradece por seus honrados serviços.” [“Honoráveis Bandidos – um retrato do Brasil na era Sarney”, da Geração Editorial:São Paulo, 2009] –

O grande empecilho, no caso do projeto Belo Monte, que tinha “tudo para dar certo” não é ambiental , nem os índios, como diz a imprensa propositadamente, e sim as contas: quando começam a fazê-las, aí a mentira apareceu de novo. Por exemplo, desde 1980 lá no CNEC e no primeiro Inventário Hidrelétrico do rio Xingu afirmavam que o custo de investimento da primeira usina, a antiga Kararaô estava na faixa de 350 dólares por kilowatt instalado, enquanto na segunda usina projetada, Babaquara seria de mais de 900 dólares por kW instalado. Para comparação, sabemos que Tucuruí custou pelo menos dois mil dólares por kW instalado. Vejamos, para confrontar com este alegado “baixo custo” de Belo Monte, alguns números típicos recentes: em 2003 foi inaugurada Itapebi, uma hidrelétrica de porte médio, num rio bem menor (Jequitinhonha, no Sul da Bahia), com um canteiro de obras que fica na beira do asfalto da BR-101, a poucas horas de caminhão das fábricas de aço, de cimento, de equipamentos, de dois grandes portos marítimos (Vitória e Ilhéus). Essa usina, bancada com capitais do fundo de pensão Previ e do grupo europeu Iberdrola, tem uma única barragem convencional, uma represa com área de 60 km2; foram instalados 450 Megawatts, com um custo de investimento da ordem de 500 a 550 dólares por kW instalado.

Quando em 2008, começaram a acelerar os preparativos para licenciar Belo Monte e colocar a energia futura em leilão, diziam que o investimento total para uma usina com capacidade de 11 mil Megawatts seria de 7 bilhões de reais. Ou seja, aproximadamente 3,5 bilhões de dólares, o que daria, grosso modo, o mesmo índice de vinte anos atrás, 350 dólares por kW! Como é possível o projeto Belo Monte ter um índice de investimento mais barato do que Itapebi, ficando onde fica, longe de quase tudo, ligado por estradas péssimas e por um longo trajeto fluvial ao restante do país, e com tantas características distintas de uma obra convencional ??? É a mentira, de novo!

Ninguém sabe o custo provável e justificado de Belo Monte, essa é a realidade! Vejamos a noticia do caderno de Economia de um dos mais importantes jornais: “Mais do que questões ambientais, uma queda-de-braço entre governo e setor privado pode se tornar o principal empecilho para que a usina de Belo Monte, no Pará, saia do papel. Enquanto o Ministério de Minas e Energia estima que o custo da obra gira em torno de R$ 16 bilhões, os empresários asseguram que o empreendimento vale, no mínimo, R$ 30 bilhões. Esta discrepância foi demonstrada em reunião, ontem, entre o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, e representantes das associações brasileiras das indústrias de Base (Abdib), de Máquinas (Abimaq) e Eletroeletrônica (Abinee). Segundo um dos presentes, o novo valor da usina "chocou" os empresários. Eles alertaram que a discrepância de preços torna mais difícil a elaboração de uma equação financeira, para que finalmente a data da licitação de Belo Monte seja marcada – [ extraído de O Globo, 29/7/09, Economia, p.23].

Poucos dias depois, o presidente da Eletrobrás, o tal “pai da criança”, jogou a toalha e resolver esculhambar de vez, comentando publicamente que o índice de custo de investimento ficaria … entre 1.000 e 3.000 dólares / kW !!!!

Que os mentirosos tentem enganar os que serão prejudicados, como vimos na questão das áreas alagadas, do total de pessoas atingidas, é fato sabido, e não somente no Pará, é fenômeno mundial. Agora, que tentem enganar os financiadores da obra é muita pretensão, ou melhor, soberba! Mesmo assim, ainda podem acontecer várias coisas:

1)- os barrageiros fundamentalistas conseguirem enganar um consórcio de bancos internacionais, e obter deles o financiamento! Seria a dinheirama realmente gasta na obra? E se a obra ficasse pronta, daria lucro, pra quem? Ao que se sabe, a energia é para ser despachada bem baratinho para as fundições de alumínio, cobre e níquel, e assim a usina jamais poderá ser paga e aqueles bancos vão falir, e o capitalismo vai desmoronar.

Dá para acreditar? Claro que não, por isso, a segunda possibilidade é :

2) o atual governo Lula, aquele em que mandam mesmo os grandes capitais representados pelo ex-presidente Sarney, já ordenou que o BNDES, que trabalha basicamente com o dinheiro dos trabalhadores, o FAT, financie 70% do investimento total, com juros módicos e longos prazos de amortização. O atual presidente do BNDES, o refinado professor de Economia Luciano Coutinho já disse que obedece à estranha ordem, apesar de que os dados técnicos e econômicos detalhados do projeto Belo Monte nem tenham sido analisados com o devido rigor por seus funcionários – coisa que qualquer gerente do banco da esquina faz com nossos pedidos de financiamento.

Ou então… a terceira possibilidade, inusitada porém não absurda para empresas que sempre estão mexendo com minérios e com metais e pedras preciosas:

3) o dinheiro da venda de eletricidade não vai interessar, pode até dar prejuízo, por causa dos contratos lesivos que se fazem com as indústrias consumidoras eletro-intensivas, mas… os que estão melhor informados estão apostando que, no trecho seco da Volta Grande do Xingu, e no rastro da dinamite, das moto scrapers e escavadeiras da Camargo Correa e da Odebrecht, serão retiradas milhares de toneladas de ouro, como aliás já está ocorrendo nas lajes rochosas do leito do imenso rio Madeira, onde prosseguem os canteiros das obras das usinas Santo Antonio e Jirau.

Nesse caso, seria também mentirosa toda essa pressão desde 1980 pra fazer o Kararaô e depois o Belo Monte para garantir o suprimento de energia para o país? Vejamos, novamente, quem propaga o argumento, para depois gastarmos o cérebro com o argumento em si. É fato demais sabido por quem acompanha a vida política brasileira nos últimos trinta anos – como o jornalista Palmério Dória, autor do livro aqui mencionado – que a Eletronorte tem seus cargos diretivos preenchidos por indicação do ex-presidente Sarney que os dividia com os políticos paraenses. Algumas das carreiras mais sólidas dos eletrocratas brasileiros ali se fizeram: o diretor de Engenharia em 1989, Jose Antonio Muniz Lopes, famoso por ter tido as bochechas tocadas pelo terçado da índia Tuira em Altamira, foi posteriormente presidente da mesma empresa e recentemente, se tornou presidente da Eletrobrás. Outro indicado, também engenheiro, Silas Rondeau Cavalcanti, foi sucessivamente presidente da Eletrobrás ( quando o acordo de Lula com Sarney praticamente expeliu da presidência o professor Pinguelli Rosa, que vinha há décadas assessorando Lula nos assuntos energéticos ) e depois Ministro das Minas e Energia, quando a então ministra Dilma Roussef dali saiu para ocupar a Casa Civil.

Escreve o jornalista Palmério Dória, ao comentar as manobras de Fernando Sarney para cobrar judicialmente da estatal maranhense CEMAR a módica soma de 200 milhões de reais: “Pelo que se depreende, a mina do Sarney é o (filho) Fernando? É o Fernando, é o setor energético, a galinha dos ovos de ouro. Silas Rondeau foi indicado para o MME por quem? Sarney. Edison Lobão, o sucessor depois que Rondeau caiu pela mixaria de 100 mil reais (mensais), foi indicado por quem? Sarney. Eles mandam no Ministério que manda na Petrobrás. Estão com a parte do leão do orçamento brasileiro”.

Desde 2005, quando o chamado “mensalão” quase derrubou o 1o. governo Lula, que os cargos nas estatais elétricas vem sendo loteados entre sarneysistas, paloccistas do então ministro da Fazenda, e os indicados do deputado Roberto Jefferson, ainda hoje dirigente do PTB. Aliás, foi noticiado em 13 de julho de 2008, pelo jornal O Estado de São Paulo, pág. 10A que a Eletronorte tinha sua “conta de publicidade” milionária operada desde 2001, por uma agência em Belo Horizonte, a DNA, pertencente ao então recente bandido – estrela da vida política nacional, o publicitário mineiro Marcos Valério.

Novamente o jornalista Dória, mencionando o relatório da Polícia Federal, de 17.08.2008 enviado à Justiça Federal do Maranhão sobre a “organização criminosa chefiada por Fernando Sarney”, conclui que o relatório não deixa qualquer dúvida: … “qualquer rolha de concreto, qualquer barragem nas hidrelétricas brasileiras pagava pedágio a Fernando Sarney. Quando José Sarney fazia discurso no Senado ( obs. em Julho de 2005, como relator do decreto legislativo que autorizava o governo a prosseguir com o projeto Belo Monte) dizendo que Belo Monte, no rio Xingu, na terra dos caiapós, vai ser a redenção da Amazônia, pode ficar certo de que, muito antes que as comportas se fechem, a alegre turma do Fernando já entrou em campo, faturando.”

Ou será tudo mentira? Quatro meses depois, voltaram a mencionar os indícios de conluio; puseram o ministro Palocci no alvo, e uma das flechadas era a presença de seu irmão Ademar na diretoria de Engenharia, a mais importante da Eletronorte. Pelo menos, assim ficamos sabendo quem foram os inspiradores e os marqueteiros das campanhas de mistificação sobre as usinas de Balbina, Tucuruí, Samuel, e do verdadeiro assédio sobre a opinião pública durante anos, buscando o convencimento sobre Belo Monte, promovidas pela Eletronorte e reforçadas pelos políticos paraenses e altamirenses, ávidos pelo seu quinhão… Antes, eram barrageiros somente os da “situação”, agora, são todos, quase sem exceção!

Em 2009, parece que o castelo na areia começou a se desmanchar, pois os empresários fabricantes de equipamentos começaram a perceber que as encomendas não estavam assim tão garantidas. Num evento tipicamente de “lobistas”, organizado pela agencia de noticias empresariais Canal Energia, o presidente da poderosa Associação Brasileira de Desenvolvimento das Indústrias de Base – ABDIB acendeu o sinal amarelo: “O financiamento tem que ser equacionado em decorrência dos volumes de recursos envolvidos. "[Tem-se] estabelecer as regras de financiamento devido ao volume de recursos", observou. Agentes de mercado calculam em cerca de R$ 20 bilhões o custo da usina. A questão do risco geológico depende de uma conciliação de pontos de vista, aponta. "EPE e Aneel têm uma percepção do risco geológico que muitos agentes não têm. Nossa tarefa é firmar essas percepções", afirmou Godoy. [Acessado em 26 de agosto de 2009 : http://www.canalenergia.com.br/zpublisher]

Uma outra agencia de noticias totalmente comprometida com os interesses da grande indústria – a do jornal Valor Econômico, uma associação entre a Folha de São Paulo e o Globo – não consegue disfarçar a embrulhada em que se meteram. Coloca uma chamada factóide na matéria, forçando o cronograma contra a evidencia dos fatos, mas, dentro da matéria, tenta destrinchar o embrulho: “ Para a realização do leilão, além da licença prévia, é preciso que o Tribunal de Contas da União se manifeste. Segundo fontes da ANEEL, a parte de análise técnica que cabe à agência já foi enviada ao TCU, em julho. Mas a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) ainda não entregou ao tribunal a análise de viabilidade econômica, onde o preço teto do leilão é estabelecido. Isso porque a Agência Nacional de Águas ainda não publicou a outorga dos recursos hídricos do rio Xingu na região de Belo Monte. Sem isso não é possível afirmar a quantidade exata de energia assegurada do empreendimento – ou seja, a energia efetivamente gerada durante um ano. Há problemas, portanto, para que o leilão aconteça ainda em 2009, já que o TCU exige 60 dias para esta análise. [extraído de “Licença prévia de Belo Monte pode sair ainda em outubro”, em www.valoronline.com.br/ acessado em 05/10/2009]

O lance mais ousado, contudo, só veio à tona no meio do mês de Outubro de 2009, quando os capitalistas – que tanto gritam pela redução do Estado e dos impostos …- agora querem, alem do generoso financiamento do BNDES, que o Tesouro Nacional desembolse para garanti-los contra os riscos inerentes do negocio. Que, como se sabe e sempre foi escondido, são bem altos. O argumento hipócrita é de que os seus maiores projetos, suas miragens de um lucro cada vez maior, seriam de interesse estratégico do Estado nacional. Vejamos o noticiário da mesma agencia “lobbista”: “A reivindicação foi lançada pelos empreendedores interessados no projeto e a Casa Civil tem intermediado as negociações entre os diversos agentes envolvidos. Alguns administradores importantes da Casa Civil e do BNDES gostam dessa idéia pois, com o governo assumindo esse risco, a concorrência no leilão estaria garantida. Basicamente a proposta é que o Tesouro faça um empréstimo ao BNDES com condições estabelecidas em contrato que reflitam a assunção do risco pelo governo. O BNDES, por sua vez, replicaria estas condições à concessionária que estiver à frente de Belo Monte. Desse modo, o banco estaria com sua exposição neutralizada e os investidores isentos de assumir riscos como, por exemplo, uma decisão judicial que paralise as obras por questões de licenciamento ambiental. …Mais preocupante ainda são os riscos geológicos do projeto, já que terão der ser feitas escavações gigantescas para viabilizar o desvio do rio… Se alguns destes riscos se concretizar, o prejuízo para os investidores seria muito grande. Um dos grupos que mais ativamente usa sua influência para defender essa questão frente ao governo é a Odebrecht. E a pressão não começou agora, por causa de Belo Monte. Já para os leilões das usinas do Madeira – Santo Antônio e Jirau, quando a empresa decidiu atuar não só como construtora mas também como investidora – os executivos da empresa argumentaram com o governo de que ele deveria assumir que obras de infra-estrutura são "projetos de Estado" e que, portanto, é o governo que tem que assumir riscos que fogem ao controle dos empreendedores [Extraído de www.valoronline.com.br/ “ Tesouro poderá garantir usina de Belo Monte”, SP 16.10.2009]

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

A "Área Diretamente Afetada” pelas obras do Belo Monte

Oswaldo Sevá

3.5. Conseqüências para todos e tudo que fica em mais de 1.500 km quadrados.

Enfim, o que dizer quanto à “Área Diretamente Afetada” pelas obras do Belo Monte? Em nenhum momento antes da divulgação do EIA, foi esclarecido para os interessados que uma obra desse porte ocupa e destrói muito mais terrenos do que as terras alagadas pela represa:

# as estradas de acesso aos vários canteiros de obras( Ilha Pimental, nas duas margens do Xingu, os canais dos igarapés Maria e Gaioso, o vertedouro complementar do Igarapé Paquissamba, o prédio principal da Casa de força da usina na margem esquerda do Xingu perto de Santo Antonio do Belo Monte, o novo porto projetado para a obra, no município de Vitoria do Xingu) e também

# a passagem das linhas de alta tensão necessárias a esses canteiros durante as obras. Obs.: Conforme o EIA… Não foram considerados, também, os imóveis rurais pesquisados ao longo das faixas de domínio das linhas de transmissão previstas, já que, em princípio, não deverá haver retirada de moradores nesses imóveis.

E mais:

# as áreas das construções dos alojamentos de funcionários em todos esses locais, mais

# as áreas ditas de empréstimo de materiais para a obra: locais onde vai se retirar areia, pedra, madeira, e ainda

# as áreas ditas de “deposição de rejeitos”, ou seja, onde será depositado tudo que for removido para a construção dos prédios e para a abertura dos terrenos necessários: a terra, as pedras, a mata e os demais tipos de cobertura vegetal, mais o entulho das construções existentes a demolir.

esp_belomonte3.jpg

Conforme o EIA : A área diretamente afetada pelo empreendimento é de 152.205 ha ou 1.522 km 2 … do total de área coberta com vegetação nativa que será suprimida para a instalação das obras auxiliares e principais, estima-se que corresponde a 50.188 ha (33%) de cobertura florestal (formações ombrófilas densas e abertas) e 23.780 ha (15,6%) de formações pioneiras das áreas de pedrais que serão substancialmente alterados por efeito dessas atividades. ( pg. 113 da seção “Avaliação dos Impactos” da versão do EIA de fevereiro de 2009).

Assim, a primeira mentira – a dos 400 e poucos km quadrados alagados – encobre algumas outras mentiras: * mais de 1500 km2 de área diretamente afetada, ou seja, alagada, rasgada, destruída, remexida, entulhada,… etc., dos quais mais de 600 km2 a serem cobertos pela água das várias represas, e mais de 500 km quadrados de desmatamento!

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

O subestimado número de 19.242 pessoas a deslocar

Oswaldo Sevá

3.4. O numero total oficial, de 19.242 pessoas a deslocar, é bem menor do que o que realmente aconteceria se as obras fossem feitas.

Além desses que seriam deslocados por causa do “alagamento” em si, oficialmente reconhecidos, tem aqueles outros, centenas deles, cujas terras seriam tomadas pela construção dos canais concretados que ligariam essas seis represas entre si, e outros cujas terras seriam tomadas para a construção das barragens menores [das represas 3,4,5,e,6] e para a construção de mais dezenas de outros diques que seriam erigidos para evitar perda de água armazenada para bacias fluviais vizinhas.

Além desses, que podem estar compilados nos estudos do EIA, outros milhares de cidadãos moradores dos municípios de Altamira, Vitoria do Xingu, Senador Jose Porfírio e Anapu no Estado do Pará serão prejudicados em suas moradias, suas posses, benfeitorias e propriedades, em suas atividades econômicas estabelecidas e em seus direitos elementares de acesso aos locais costumeiros e de circulação por via terrestre e por via fluvial – sem que sejam considerados como afetados ou atingidos pelas obras do pretendido projeto Belo Monte.

Nesse grupo de cidadãos – que inexiste para os empreendedores, e portanto inexiste para o IBAMA, mas deveria por força de Ação Civil Publica, existir para a Justiça brasileira e serem igualmente consultados, informados devidamente, e caso a obra seja licenciada deveriam ser ressarcidos , indenizados e realocados, – estão:

# Os moradores da área rural dos mesmos travessões da Transamazônica, já mencionados, e que ficariam nos trechos médios e inferior dos igarapés que ficariam seccionados pelas barragens [ 3 a 6], portanto, secos a maior parte do ano, e cujos lençóis freáticos e poços também secariam;

- e, em muitos casos, os travessões da Transamazônica seriam também alagados pelas represas ou pelos canais entre elas, e aí a ligação terrestre de outros moradores que não teriam terras alagadas, com Altamira, Anapu e demais cidades, que ficaria suspensa ou sujeita a longos desvios com encarecimento de custos .

- # Os moradores de ambas as barrancas do Xingu e de todos os igarapés afluentes de ambas as margens , e de todas as ilhas, localizados rio abaixo da Ilha Pimental, passando por toda a Volta Grande e as cinco grandes cachoeiras até o canal por onde se faz a travessia da balsa da Transamazônica, localidade Belo Monte do Pontal e daí até o ponto de “devolução” das águas turbinadas, no canal de fuga da barragem principal [3] que deságua na margem esquerda do Xingu, entre Santo Antonio do Belo Monte e a cidade de Vitoria do Xingu –

- pois esses moradores ficariam no “trecho seco” do rio, com vazão reduzidíssima, com rebaixamento e ressecamento dos lençóis freáticos e dos poços de onde retiram água potável e para suas lavouras e criações, e ficando interrompido o trafego fluvial (que fazem costumeiramente por pequenas embarcações, voadeiras e batelões) em trecho atualmente bastante freqüentado entre a cidade de Altamira, a foz do rio Bacajá e a primeira grande cachoeira (Jericoá),

- pois esse intenso movimento de pessoas e mercadorias é essencial para a vida dessas milhares de pessoas (incluindo as Terras Indígenas Paquissamba, homologada, e os grupos indígenas Arara e outros no povoado Maia, em processo de delimitação) e das que moram rio Bacajá acima, a partir da sua foz no Xingu, incluindo os indígenas da TI Trincheira-Bacajá, homologada.

Esse tipo de catástrofe ecológica e social seria uma conseqüência direta da concepção do projeto Belo Monte (a idéia de encurtar o caminho da correnteza do Xingu pela Volta Grande através do sistema de canais e represas); mais uma vez os fazedores de projetos e de EIAs fazem uma manobra diversionista, para dourar a pílula. Vejamos como:

Como em qualquer outra hidrelétrica cujo arranjo geográfico implica em dar um “by-pass” num meandro do rio, a empresa operadora tem que soltar água no trecho que vai da barragem principal até a saída de água das turbinas, nesse caso, localizado mais de 100 km rio abaixo. A empresa tem que cumprir um “hidrograma mínimo obrigatório”, ou seja, a cada mês do ano, conforme o desenrolar das estações mais ou menos chuvosas, tem que soltar abaixo da barragem uma vazão media de tantos metros cúbicos de água por segundo.

O que fizeram então os mentirosos do projeto Belo Monte? Já que teriam que soltar bastante água, centenas de metros cúbicos por segundo, modificaram o projeto original e acrescentaram uma casa de força na Barragem da Ilha Pimental, para turbinar também essa água e ainda obter mais a energia gerada por 182 Megawatts aí instalados! Para iludir os ambientalistas e os jornalistas desinformados, decidiram chamar esse fluxo de água de “vazão ecológica”, ao invés de “hidrograma mínimo obrigatório” – expressão que ainda constava na versão anterior, não oficial do EIA.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/