Daily Archives: 23/05/2010

TEMPOS DE CRISE DOURADOS?

Robert Kurz

"Receamos pelo nosso dinheiro!": as manchetes da imprensa sensacionalista falam ao povo, mais uma vez, a partir da sua alma da mercadoria. Ontem era o choque da queda do imobiliário e da crise financeira global subsequente, agora é o choque da falência do Estado grego, ao pé da porta, que aumenta a incerteza geral. Com cada novo caso vai-se revelando o encadeamento do crédito malparado, o qual vai tão longe que, mesmo a grande distância, há vítimas. Não é por acaso que o agudizar das contradições se concentra no dinheiro, como meio e fim em si mesmo da “riqueza abstracta" capitalista (Marx). Isso levanta novamente a questão há muito tempo reprimida da substância e da ancoragem institucional do próprio dinheiro. Até à Primeira Guerra Mundial não havia qualquer problema, por causa da vinculação de todas as moedas centrais ao ouro. Nas economias de guerra e na crise económica mundial teve que ser cortado esse vínculo. Da necessidade fez-se virtude; Keynes chamou ao ouro "relíquia bárbara".

Após a Segunda Guerra Mundial, o sistema monetário de Bretton Woods foi inicialmente ancorado ao dólar, como dinheiro mundial, pois este era a única moeda ainda convertível em ouro. Desde que esta última ligação também foi revogada, em 1973, o sistema monetário mundial entrou em livre flutuação das moedas, com incerteza crescente nos câmbios. O keynesianismo desfez-se numa inflação antes conhecida apenas como resultado das economias de guerra. A doutrina monetarista do neoliberalismo ainda prometeu uma estrita limitação da oferta monetária, mas mesmo esse compromisso puramente formal foi liquidado desde a virada do século, sob o impacto do estouro das bolhas financeiras e, de facto, substituído por uma “política de taxa de juros zero” dos bancos centrais. Agora, a inundação de dinheiro, com que foram alimentadas as conjunturas de deficit, desagua numa crise aos solavancos dos mercados financeiros e das finanças públicas. Entre os economistas há cada vez mais vozes namoriscando com uma “remonetarização” do ouro para, numa espécie de golpe libertador, restabelecer a estabilidade monetária.

Mas não se pode fazer o relógio andar para trás. Como já Marx mostrou no segundo volume de O Capital, a produção de ouro como base do sistema monetário constitui um encargo improdutivo, que hoje representaria cerca de 5 por cento do produto interno bruto; aproximadamente da mesma ordem de grandeza que o complexo militar-industrial, igualmente improdutivo do ponto de vista capitalista. Mas o problema é mais profundo. O desacoplamento do dinheiro da sua substância de valor corresponde ao desacoplamento das mercadorias da sua substância de trabalho. O sistema de preços já é apenas formal e paira, por assim dizer, no ar. Esta é apenas outra maneira de dizer que as forças produtivas não mais podem ser representadas na forma do valor, como Marx previra. Depois de um longo período de incubação, desde 1973, esta situação repercute-se agora à superfície, como crise do meio que é o dinheiro. Não por acaso a crise passou rapidamente dos mercados financeiros para os garantes estatais da moeda. Os elos mais fracos da cadeia quebram primeiro, como sempre, mas o problema é comum. Como, presentemente, um socialismo para além da lógica da valorização e do seu meio próprio parece inconcebível para a consciência pública, as medidas de emergência desencadearão apenas novas contradições, que se farão sentir cada vez mais rapidamente. O regresso da "relíquia bárbara" não conseguiria dourar os tempos de crise, mas apenas trazer o carácter fetichista do modo de produção dominante à sua derradeira reconhecibilidade.

Fonte: O Beco – http://o-beco.planetaclix.pt

Amazônia – Ano 1000

Enquanto o Velho Mundo vivia nas trevas da Baixa Idade Média, civilizações experimentavam no Brasil um florescimento cultural. Contemporâneos dos incas e dos maias, eram autores de uma arte sofisticada. Só agora a arqueologia começa a decifrar quem foram esses antigos habitantes da terra brasilis.

Eduardo Neves

Amazônia - Ano 1000

Urna funerária da cultura Guarita (entre os séculos 9 e 16), civilização que viveu nas proximidades da atual cidade de Manaus.

Enquanto o Velho Mundo vivia nas trevas da Baixa Idade Média, civilizações experimentavam no Brasil um florescimento cultural.Contemporâneos dos incas e dos maias, eram autores de uma arte sofisticada. Só agora a arqueologia começa a decifrar quem foram esses antigos habitantes da terra brasilis.

Se pudéssemos voltar no tempo e visitar a Amazônia de mil anos atrás, veríamos um mundo diferente. Não haveria a grande área desmatada e ocupada por pastagens e cultivos do sul e do sudeste da região, no atual Pará. Em trechos hoje cobertos por selvas densas, se destacariam sinais claros de ocupação humana: grandes aldeias ou mesmo cidades, cercadas de áreas de roças e de matas secundárias, ligadas umas às outras por largos e longos caminhos. Em alguns locais, centros cerimoniais desenhados por alinhamentos de pedra estariam dispostos em circulos. Em pontos distantes como a ilha de Marajó é do Acre, por exemplo, aterros artificiais eram espaços de moradia e rituais. E, no que é a Amazônia boliviana, poderíamos contemplar um labirinto de diques, barragens e canais distribuído por milhares de quilômetros quadrados.

Ao contrário da imagem corrente de que a Amazônia sempre foi indômita e escassamente ocupada, a maior floresta tropical do planeta estava, no ano 1000, repleta de sociedades indígenas. Algumas eram hierarquizadas, lideradas por chefes supremos, capazes de comandar um exército de guerreiros. Outras estavam resumidas a grupos pequenos e nômades de caçadores e coletores que usavam zarabatanas para matar macacos e outros animais. Acima de tudo, tais sociedades eram compostas de povos que falavam línguas variadas – mais diferentes entre si do que são hoje, por exemplo, o português e o russo.

Em alguns aspectos, a Amazônia do ano 1000 não era diferente da Europa naquele mesmo período. O francês Jacques Le Goff, um dos mais importantes historiadores da Idade Média, mostrou como seria possível identificar na Europa áreas de bosque entremeadas a pequenas cidades, algumas delas fortificadas, conectadas por redes de caminhos em que ocorria o comércio. Mas uma diferença entre a Amazônia e o Velho Mundo era que, devido à escassez de rochas, a matéria-prima para a construção na floresta sempre foi a terra. É por isso que sítios arqueológicos com aterros ou valas são tão comuns na região. Muitos deles se encontram ainda cobertos pelas matas que cresceram de novo após o início da colonização europeia, quando houve queda brusca na população nativa por causa da propagação de doenças, da guerra e da escravidão.

Uma jornada ao longo do rio Amazonas pode ser reveladora de como a população amazônica – talvez mais de 5 milhões de pessoas – desapareceu de forma abrupta: desde Macapá, perto da foz, até Tabatinga, na fronteira com a Colômbia e o Peru, no alto Solimões, despontam incontáveis sítios arqueológicos, alguns deles ocupados até o início do período colonial. Por outro lado, o número de terras indígenas nessas mesmas áreas é pequeno, com exceção da região do alto Solimões. A explicação é simples: a calha do Amazonas e do Solimões estava repleta de índios até o século 16, mas eles foram os primeiros a perecer com a colonização. Atualmente, as maiores terras indígenas no Brasil ficam longe da calha do Amazonas, em locais como o alto rio Negro, Roraima, Acre, Rondônia ou o alto Xingu.

Enquanto a europa vivia a Baixa Idade Média e lutava para reconquistar a península Ibérica dos árabes, os povos da Amazônia vivenciavam, nessa mesma época, profundo florescimento cultural. Alguns séculos antes de a Renascença surgir na Itália, cerâmicas com padrões gráficos sofisticados eram produzidas em Marajó e nas regiões de Manaus e Santarém – esta última, talvez, a cidade mais antiga do Brasil. A civilização marajoara protagonizou quase mil anos de história, tendo desaparecido antes da chegada dos europeus. Seu apogeu, no entanto, parece ter ocorrido ao redor do ano 1000. Esculturas de pedra eram esculpidas na foz do rio Trombetas, próximo da atual Oriximiná, onde havia também centros de produção de muiraquitãs, pequenas esculturas lapidadas em pedra polida em forma de animais ou seres humanos. No alto Xingu, grandes aldeias circulares eram cons-truídas com urbanismo igualmente sofisticado e inovador, assim como outras aldeias floresciam no Acre, marcadas com estruturas geométricas agora conhecidas como geoglifos.

A pesquisa em sítios arqueológicos é o caminho óbvio ao estudo dessas diferentes histórias de ocupação. No entanto, resistem no presente amazônico outras evidências, às vezes tão antigas quanto os próprios sítios, que também podem nos revelar dados sobre o passado. Um exemplo: as matas de castanhais abundantes. Quem já andou em um castanhal sabe que essa é uma jornada quase mística: as árvores são imensas e ultrapassam a altura média da copa da floresta, pilhas da casca da fruta da castanha (os ouriços) espalham-se pelo chão e animais como as cutias podem ser vistos correndo de um lado para outro. Uma castanheira demora décadas para crescer e começar a frutificar. Muitos castanhais têm centenas de anos de idade.

Sabemos hoje que a dispersão dessas árvores ocorreu a partir de um centro original no leste do Pará. E também sabemos que existem na natureza apenas dois animais que conseguem quebrar a casca do ouriço e dispersar sua castanha: a cutia e o Homo sapiens. Assim, é certo que a dispersão dos castanhais se deu por meio da atividade humana. Ao mesmo tempo, a baixíssima variabilidade genética entre castanheiras localizadas em pontos distintos da Amazônia, como se os espécimes tivessem sido clonados, sugere que o processo de dispersão foi recente e começou 2 mil anos atrás – em sincronia com o processo de florescimento cultural, indicado nos sítios. Ou seja, castanhais são não apenas produto da natureza mas também resultado concreto da presença humana ancestral na Amazônia.

Entre outros sinais visíveis de atividades antigas, talvez os mais conhecidos sejam as chamadas "terras pretas de índio", os melhores marcadores arqueológicos do surgimento de modos de vida sedentários no passado amazônico. Trata-se de solos muito férteis, de coloração escura, sobre e sob o qual normalmente se dispõem milhares de fragmentos cerâmicos. Podem ser espessos e chegar a mais de 2 metros de profundidade.

Devido a sua fertilidade, as áreas de terra preta são procuradas por agricultores contemporâneos, que reconhecem suas propriedades e sabem que existem ali melhores condições de cultivo.

Durante muito tempo, esses solos foram considerados "naturais" por cientistas. Apenas nos últimos 20 anos, graças às pesquisas pioneiras de Dirse Kern, do Museu Paraense Emilio Goeldi, demonstrou-se que os componentes químicos resultam de antigas atividades humanas. O fosfato, por exemplo, é oriundo dos ossos de animais ali depositados e dos fragmentos de carvão queimados à baixa temperatura. As terras pretas têm outra propriedade: são solos estáveis, capazes de manter por décadas ou séculos condições de alta fertilidade. Essa condição é uma anomalia em contextos equatoriais, onde, devido à ação das chuvas e da evaporação, os solos não conseguem preservar por muito tempo seus nutrientes.

É comum que solos tropicais sejam ácidos e pouco férteis. As terras pretas, por outro lado, têm pH quase neutro, são férteis e mantêm suas condições de fertilidade. Como explicar tal estabilidade? Não há ainda resposta satisfatória, mas a cada dia fica mais claro que a concentração de fragmentos de cerâmica sustenta uma estrutura física – uma espécie de "esqueleto" que contribui para que o solo se mantenha estável.

Arqueólogos aceitam sem grande problema a ideia de que a Amazônia foi densamente ocupada no passado e que as populações antigas da região deixaram sinais de seus modos de vida nos sítios arqueológicos e nas paisagens contemporâneas. No entanto, uma das questões mais importantes da arqueologia na Amazônia é tentar descobrir o tamanho da população que ocupou a região antes da chegada dos colonizadores portugueses e espanhóis, no século 16. Essa área de pesquisa é chamada de paleodemografia.

"são manchas escuras no meio da terra clara", escuto. Estou em São Paulo e, pelo telefone, analiso a descrição que meu aluno faz do sítio na cidade de Iranduba, perto de Manaus. "As manchas estão alinhadas e dispostas no solo como buracos de postes", continua ele. O jovem arqueó-logo Eduardo Kazuo Tamanaha, que coordena as escavações, imagina ver vestígios de uma casa. Desconfio: essas casas não poderiam ter a estrutura alinhada na forma como ele me descreve… Todavia, a descoberta é em si uma notícia maravilhosa. Esse é justamente um dos objetivos da etapa de escavação: identificar e escavar vestígios de supostas moradias no sítio arqueológico Laguinho, algo que nos ajudaria a ter uma ideia da população local mil anos atrás.

O sítio Laguinho sempre me impressionou. Nós já havíamos escavado ali em outras oportunidades, ao lado de outro orientando, Márcio Castro. É um sítio de 25 hectares sobre um barranco com mais de 30 metros de altura que despenca sobre dois lagos da várzea na margem esquerda do rio Solimões, no Amazonas. O lugar é lindo, e o melhor período para as escavações é o seco mês de julho. A descoberta de Tamanaha foi inspiradora. Em julho de 2009, fui a campo acompanhar os trabalhos. Reuniam-se ali mais de 30 estudantes do Brasil e do exterior, distri-buídos em diferentes partes do sítio. Laguinho é tão grande e complexo que certamente voltaremos muitas vezes para lá. Seu perímetro está atualmente recoberto por uma plantação de mamão, além de pomares e áreas de mata. O lugar é como um mirante, de onde se veem o Solimões e seus baixios alagados. As várzeas de um rio de águas brancas como esse são ricas em peixes, pássaros e répteis.

Os habitantes de Laguinho se aproveitavam dessa fartura de recursos, agora visível nos ossos de animais achados nas escavações.

Estar no alto do sítio Laguinho sempre me inspira a visualizar o passado. A imaginação voa longe. Na época de sua ocupação, os lagos que o cercam estavam todo o tempo cheios de canoas, com pessoas partindo ou chegando de suas roças ou de visita a outras aldeias na região. Nos caminhos que levavam da beira dos lagos ao alto do morro onde fica o sítio, homens e mulheres subiam e desciam carregando peixes, cestos com frutas – o açaí já era extraído – e animais caçados. Na parte alta, crianças corriam de um lado para outro, sujando seus pés na terra preta do chão.

Vestígios indicam que o sítio foi ocupado por pelo menos três povos, em intervalos distintos, do ano 400 ao 1300. A parte mais densa, a extremidade sul, fica em uma península: ali ainda há muitos fragmentos de cerâmica, visíveis até na superfície. E vários aterros artificiais, que chegam a quase 3 metros de altura, os quais serviam de base para a construção de malocas onde viviam famílias. Em 2006 e 2007, nós já havíamos estudado essas partes do sítio e, em 2009, decidimos escavar a área ao norte do istmo, onde a concentração de cerâmica é menor. O objetivo era entender o tamanho das casas para ter uma ideia do tamanho da população dessa pequena cidade. Foi quando Tamanaha encontrou a paliçada defensiva que me fez lembrar as cidades fortificadas da Europa.

Com a descoberta do alinhamento de manchas de buracos de postes no sítio Laguinho, parecia que, finalmente, identificaríamos sinais de casas ocupadas na periferia da cidade. Isso demonstraria certa estratificação social entre os ocupantes do sítio. Nas semanas subsequentes, continuamos a escavação e verificamos que o alinhamento era maior do que pensávamos: ao fim dos trabalhos, ele tinha mais de 40 metros de comprimento e atravessava um istmo que conecta a área central do sítio, que está numa península, à terra firme. Ou seja, o alinhamento não era de uma casa, mas sim de uma paliçada defensiva, uma cerca de madeira que fechava e protegia a área central da antiga aldeia. Como sempre ocorre na arqueologia, procurávamos uma coisa e encontramos outra, diferente.

Os dados obtidos no sítio Laguinho, por sua vez, devem ser combinados com os obtidos nos mais de 100 sítios já identificados pelo Projeto Amazônia Central, coordenado por mim, para que possamos esboçar um quadro paleodemográfico mais elaborado da região. Eles indicam, conforme a escavação de vestígios de paliçadas similares de outros sítios, que a época do ano 1000 foi marcada por conflitos nessa área.

da amazônia central ao oceano Atlântico, perto do qual se localizam importantes centros cerimoniais – caso do Rego Grande, no Amapá -, erigidos centenas de anos antes da catedral de Notre-Dame, em Paris, o rio Amazonas se transforma em uma via fluvial altamente ocupada.

Ao longo da desembocadura do rio Tapajós, ao redor do ano 1000, no mesmo local em que hoje está Santarém, havia talvez outra cidade, parcialmente destruída pelo próprio crescimento de sua equivalente moderna. Se pensarmos sob esse aspecto, Santarém é a cidade mais antiga do Brasil e talvez a única cujas origens remontam a nossa história pré-colonial. Nesse sentido, ela se junta à companhia ilustre de Cusco, no Peru, antiga capital do Império Inca, ou da Cidade do México, erguida sobre a Tenochtitlán dos astecas. As semelhanças com essas duas cidades, no entanto, dizem respeito a suas histórias: Cusco e Tenochtitlán eram capitais de impérios ou Estados centralizados que abrigavam a nobreza, os sacerdotes e uma burocracia organizada.

Esse não foi o caso de Santarém. Até o momento, não se identificaram ali, ou em qualquer outro lugar da Amazônia, estruturas que indicassem algum grau de centralização política ou desigualdade social compatíveis com Estados ou impérios. Mesmo assim, a arqueologia de Santarém mostra um registro bem diferente que a hipótese de limitações ecológicas nos levaria a supor: as populações que ali viviam, conhecidas como tapajônicas, permaneceram séculos

no mesmo local. Eram, portanto, sedentárias.

Embora em estilo diferente, os tapajônicos produziram cerâmicas tão sofisticadas quanto as marajoaras. Nessa mesma região, na margem oposta do rio Amazonas, próximo às cidades de Óbidos e Oriximiná, perto da foz do rio Trombetas, há sítios onde se encontraram cerâmicas parecidas, embora não idênticas, às tapajônicas. Esses sítios são, também, ricos em outros achados: raríssimas estatuetas de pedra polida, de até 50 centímetros de altura, com representações de seres humanos e animais, sugerindo algum tipo de transe xamânico. Restam poucas estatuetas desse tipo conhecidas. Algumas estão em museus brasileiros, como o Emilio Goeldi, em Belém, o Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. A maior coleção, ou talvez a mais bela, está longe do Brasil, embora muito bem guardada – no Museu das Culturas do Mundo de Gotemburgo, na Suécia. Foram coletadas e enviadas para lá na década de 1920 pelo etnólogo alemão Curt Nimuendajú.

As estatuetas da região de Oriximiná, além de sua beleza, têm outro atributo intrigante: a forte semelhança com as estruturas megalíticas encontradas na região de San Augustín, nos Andes colombianos. San Augustín fica a milhares de quilômetros de Oriximiná, embora se encontre tecnicamente próximo às cabeceiras do rio Caquetá, um afluente do rio Solimões. As estátuas de San Augustín são grandes, podem ter 2 metros de altura. Como explicar tais semelhanças, uma vez que nada parecido foi encontrado ao longo dos rios Caquetá, Solimões e Amazonas?

Até o momento, o tema não foi estudado com cuidado. As semelhanças indicam uma possibilidade interessante: o fato de que, nos últimos séculos anteriores à colonização europeia, ocorria intensa circulação de ideias, pessoas e bens atravessando fronteiras culturais, políticas e étnicas pela América do Sul. As semelhanças na iconografia de objetos produzidos em locais tão distantes poderiam ser entendidas com base nessa hipótese. Fora da Amazônia, no sul do Brasil,

é sabido que aventureiros portugueses, como Aleixo Garcia, ainda no século 16, acompanharam índios guaranis em ataques a guarnições incaicas no distante território da atual Bolívia.

É também na região de Santarém que se encontraram o que talvez sejam as cerâmicas mais antigas das Américas, nos sítios de Taperinha e da Caverna da Pedra Pintada, com datas que podem chegar a 6000 a.C., mais antigas que as encontradas na foz do Amazonas. Tradicionalmente, arqueólogos correlacionam o início da produção cerâmica com o advento da agricultura. Na América do Sul, tal correlação não é tão simples: na Amazônia e em outras partes, parece claro que o início da domesticação de plantas antecedeu o início da produção de cerâmica. Em Caral, o centro cerimonial mais antigo das Américas, no litoral do Peru, construído cerca de 5,5 mil anos atrás, dispõe-se uma série de estruturas monumentais de pedra – evidências de agricultura no vale do rio Supe, próximo do qual está o sítio -, mas não há cerâmica associada.

Até hoje é difícil plantar na Amazônia. Quando se pensa na agricultura pré-colombiana, é comum que se esqueça de um aspecto tecnológico fundamental: não havia instrumentos de metal para a derrubada de áreas de cultivo. Todo o trabalho de derrubada, limpeza, preparação e cultivo era feito com objetos de pedra lascada ou polida, madeira, mãos e fogo.

Estudos comparativos realizados por antropólogos mostram que o investimento de tempo na derrubada de árvores com machados de pedra é muito superior ao feito com machados de metal. Assim, faz sentido pensar que os assentamentos indígenas da Amazônia pré-colonial eram estáveis e sedentários. Os dados do Projeto Amazônia Central corroboram essa hipótese. Datações por carbono 14 realizadas em escavações de diferentes sítios mostram que alguns foram ocupados por séculos, aparentemente de maneira contínua. Nada, portanto, mais distante da imagem de que tais sítios teriam sido ocupados por populações nômades com grande mobilidade.

Os povos antigos da Amazônia tinham consciência da alta fertilidade dos solos de terra preta. Todavia, em muitos sítios arqueológicos tais solos estão associados apenas a áreas de habitação, não de cultivo. Isso quer dizer que, em vários contextos, as terras pretas não eram utilizadas na agricultura, pelo menos não na intensiva. Se esses solos eram férteis, mas não aparentemente usados na agricultura, como

explicar sua formação e posterior uso?

Talvez a melhor hipótese seja a de que as terras pretas se constituíram como consequência de um processo de mudança que teve a ver com o estabelecimento da vida sedentária na bacia Amazônica. Tal processo ocorreu, ao longo da calha do Amazonas, há cerca de 2 mil anos, que é a idade dos sítios com terras pretas mais antigas nessa área. No entanto, há locais da Amazônia onde elas são ainda mais velhas, como a bacia do alto Madeira, em Rondônia. Nessa região, o pesquisador Eurico Miller escavou depósitos de terras pretas, datados em 4,5 mil anos, associados a camadas arqueológicas com abundantes vestígios de lâminas de machado de pedra polida. A presença das lâminas indica aumento na derrubada de árvores e abertura de clareiras, isto é, ações de manejo mais intensas da floresta.

A associação desse tipo de artefato com a formação de terras pretas mostra que nessa época ocorreu ali um processo de sedentarização que depois se espalhou por outras áreas da Amazônia. É possível que não seja coincidência que a bacia do alto Madeira tenha sido também a área de domesticação de plantas economicamente importantes, como a mandioca e a pupunha, bem como o centro de origem e dispersão dos grupos falantes de línguas da família tupi-guarani, dentre os quais os tupinambás e os guaranis que ocupavam o litoral atlântico e o sul do país na época do início da colonização europeia.

Se as terras pretas não foram intensamente cultivadas, temos então um paradoxo interessante, que diz respeito às visões construídas pela ciência e pelo senso comum ao longo dos anos acerca da Floresta Amazônica e de seus povos. Tais visões são baseadas em perspectivas de escassez: na Amazônia ancestral, a ausência do Estado, da agricultura e da centralização política foi interpretada por muitos arqueólogos como indicador de uma história incompleta – como se as sociedades indígenas da Amazônia fossem intelectualmente incapazes se comparadas a outras sul-americanas, como aquelas que, por exemplo, ocuparam os Andes centrais. No entanto, o rico legado artístico que essas sociedades nos deixaram, visíveis nos artefatos que produziram, mostra que essa perspectiva está errada.

Uma herança ainda mais rica pode ser apreciada no estudo de suas práticas de vida milenares, estáveis e bem adaptadas às condições ecológicas complexas da Amazônia. Nossa sociedade, apesar dos avanços tecnológicos admiráveis que tem alcançado, não descobriu ainda uma fórmula que reproduza, com o mesmo sucesso, certas formas sofisticadas de conhecimento, hoje enterradas nos sítios arqueológicos da região.

As terras pretas ocultam um tesouro de informações sobre os modos de vida ancestrais, além de outros sinais mais sutis do processo de ocupação dos sítios. Para entender esses sinais, serão necessários ainda muitos anos de pesquisas na Amazônia. Rios inteiros, como o Juruá, mal foram estudados. À medida que as pesquisas avancem, novas surpresas sobre o passado surgirão. Porém, apesar do ritmo lento com que trabalham em campo, escavando sepultamentos ao longo de dias sob o sol escaldante dos trópicos, arqueólogos na Amazônia apostam agora uma corrida contra o tempo: a velocidade frenética de ocupação da região coloca pressão sobre o patrimônio arqueológico. A ocupação desenfreada da Amazônia pode destruir não só o seu futuro mas também o seu passado.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

Cientistas tentam mapear os caminhos da criatividade no cérebro humano

Patricia Cohen

Muitas áreas diferentes do cérebro estão envolvidas no ato de conceber de uma solução criativa

Muitas áreas diferentes do cérebro estão envolvidas no ato de conceber de uma solução criativa

Pegue um cronômetro e ajuste para um minuto. Agora liste quantos usos criativos para um tijolo você puder imaginar. Vá.

A pergunta faz parte de um teste clássico para criatividade, uma qualidade que os cientistas estão tentando pela primeira vez rastrear no cérebro.

Eles esperam determinar precisamente que substâncias bioquímicas, impulsos elétricos e regiões foram utilizados quando, digamos, Picasso pintou “Guernica” ou Louise Nevelson criou suas esculturas de madeira. Usando tecnologia de imagem por ressonância magnética, pesquisadores estão monitorando o que se passa dentro do cérebro de uma pessoa quando ele ou ela realiza um trabalho criativo.

Mas as imagens dos sinais acendendo nos lóbulos frontais levaram os cientistas a reexaminarem a própria forma como a criatividade é medida em um laboratório.

“Criatividade é quase como pornografia –você sabe quando a vê”, disse Rex Jung, da Rede de Pesquisa da Mente da Universidade do Novo México, em Albuquerque. Jung disse que sua equipe estava realizando a primeira pesquisa sistemática da neurologia geral do processo criativo, incluindo seu relacionamento com a personalidade e com a inteligência.

Como muitos pesquisadores ao longo dos últimos 30 anos, Jung empregava uma definição comum de criatividade: a habilidade de combinar novidade e utilidade em um contexto social em particular.

Mas à medida que o estudo da criatividade expandiu para incluir a neurologia do cérebro, alguns cientistas passaram a questionar se esta definição padrão e os testes para ela ainda faziam sentido. John Kounios, um psicólogo da Universidade Drexel, argumenta que o padrão “perdeu sua validade”.

“Criatividade é um conceito complexo; não é uma coisa só”, ele disse, acrescentando que os pesquisadores do cérebro precisavam decompor um processo muito complicado em seus componentes. Kounios, que estuda a base neural da intuição, define criatividade como a habilidade de reestruturar o entendimento de uma situação de uma forma não óbvia.

Todo mundo concorda que não existe uma medida única de criatividade. Apesar dos testes de QI, que são controversos, ainda serem considerados um teste confiável de pelo menos certo tipo de inteligência, não há um equivalente para criatividade –nenhum quociente de criatividade, ou QC.

O laboratório de Jung utilizada uma combinação de medidas para servir como substituta para a criatividade. Um é o Questionário de Realização em Criatividade, que pede às pessoas que relatem sua própria aptidão em 10 campos, incluindo artes visuais, música, redação criativa, arquitetura, humor e descoberta científica.

Outro é um teste para “pensamento divergente”, uma medida clássica desenvolvida pelo psicólogo pioneiro J.P. Guilford. Aqui é pedido a uma pessoa que apresente funções “novas e úteis” para um objeto familiar, como um tijolo, um lápis ou uma folha de papel.

A equipe de Jung também apresenta situações estranhas aos sujeitos. Imagine quais seriam as implicações das pessoas poderem mudar instantaneamente de sexo, ou das nuvens terem cordas?

Em outra avaliação, é pedido ao sujeito que desenhe o sabor do chocolate ou escreva uma legenda para um cartum humorístico, como no concurso semanal da revista “The New Yorker”. “O humor é uma parte importante da criatividade”, disse Jung.

As respostas são usadas para gerar o que Jung chama de “Índice Composto de Criatividade”.

Os testes de Jung são baseados naqueles criados por Robert J. Sternberg, um dos proeminentes pesquisadores de inteligência do país e o homem parcialmente responsável pela definição padrão. Sternberg utiliza testes semelhantes na Universidade Tufts, onde ele investiga como as pessoas desenvolvem e dominam habilidades. Ele explicou que sua equipe pediu a sujeitos que pensassem no que teria acontecido se, digamos, Rosa Parks tivesse cedido seu assento para uma mulher branca quando aquele motorista de ônibus de Birmingham lhe disse para ir se sentar no fundo, ou se Hitler tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Ele também poderia apresentar uma manchete imaginária, tipo “O Fim da MTV”.

Quanto a Jung, sua pesquisa produziu alguns resultados surpreendentes. Um estudo envolvendo 65 pessoas sugere que a criatividade prefere adotar um caminho mais lento e cheio de voltas do que a inteligência.

“O cérebro parece ser uma superestrada eficiente para levar você do Ponto A ao Ponto B” quando se trata de inteligência, explicou Jung. “Mas nas regiões do cérebro relacionadas à criatividade, parece haver muitas estradas secundárias com desvios interessantes, além de pequenos atalhos sinuosos.”

Apesar de inteligência e habilidade geralmente estarem associados à ativação rápida e eficiente de neurônios, os sujeitos que apresentaram mais criatividade nos testes tinham matéria branca mais fina e axônios de conexão que têm o efeito de desacelerar o tráfego nervoso no cérebro. Esta desaceleração no córtex frontal esquerdo, uma região onde as habilidades emocionais e cognitivas estão integradas, sugeriu Jung, “pode permitir a associação de ideias mais díspares, mais novidade e mais criatividade”.

Kounios disse que Jung está realizando um trabalho original e interessante, mas disse que tentar encontrar uma correlação entre criatividade e uma área única do cérebro é uma “abordagem à moda antiga”.

“A criatividade é uma coleção de processos diferentes que trabalham em diferentes áreas do cérebro”, disse Kounios, de forma que o ato criativo deve ser desmontado em pedaços minúsculos. Ele também rejeita a utilidade como parte da definição, argumentando que pode haver fracassos brilhantes e criativos –o que ele chama de erros por pouco.

No ano passado, ele e Mark Beeman, um psicólogo da Universidade do Noroeste, publicaram um artigo sobre o que ele chama de “momento Ahá!”, a intuição repentina que resolve um problema, reinterpreta uma situação ou explica uma piada. Em seu teste, eles usaram simples quebra-cabeças de palavras que poderiam ser resolvidos tanto com uma intuição criativa instantânea quanto por uma análise rápida.

Cerca da metade dos sujeitos chegava a uma solução pensando metodicamente nas possibilidades, enquanto na outra metade a resposta surgia em suas mentes.

Muitas áreas diferentes do cérebro estão envolvidas no conceber de uma solução, independente de qual processo seja usado, mas durante o momento Ahá!, há uma explosão de atividade de alta frequência no lóbulo temporal direito, disse Kounios. Além disso, ele disse, ele e Beeman não puderam prever com antecedência que processos o sujeito usaria. Eles observaram os cérebros dos solucionadores sistemáticos do problema se prepararem ao prestarem atenção atenta à tela antes das palavras aparecerem. Seus córtices visuais estavam em alto alerta.

Os cérebros daqueles que tiveram um lampejo de intuição criativa, por sua vez, se preparam automaticamente desativando a atividade no córtex visual por um instante –o equivalente a fechar seus olhos para afastar distrações, para que você possa se concentrar melhor. Neste caso, Kounios disse que o cérebro estava “eliminando a entrada de outros dados sensoriais e ampliando a razão entre sinal e ruído”, para obter a resposta do subconsciente.

Segundo Kenneth Heilman, um neurologista da Universidade da Flórida e autor de “Creativity and the Brain” (2005), a criatividade não apenas envolve chegar a algo novo, mas também desativar a resposta habitual do cérebro, ou o abandono das soluções convencionais.

O comportamento de risco ou viciante também deve ser medido, já que ambas as características têm um papel na criatividade, ele disse.

Pode haver, por exemplo, uma redução da norepinefrina, o neurotransmissor que dispara o alarme lute ou fuja. Este é o motivo para as conexões criativas frequentemente ocorrerem quando as pessoas estão mais pacíficas –relaxadas sob uma árvore, como Isaac Newton, ou em um estado de sonho, como Coleridge quando criou “Kubla Khan”.

John Gabrieli, um professor de neurociência cognitiva no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, alerta que há sempre uma distância entre o que acontece no laboratório e no mundo real: “Parece que ser criativo é algo para o qual ainda não temos um teste”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Análise da situação da produção de etanol e biodiesel no Brasil

Gerd Kohlhepp

Um dos objetivos da política energética é a redução das emissões de CO2. Os biocombustíveis são uma das alternativas para o setor de transportes. O Brasil é o líder na produção de etanol extraído da cana-de-açúcar. Os preconceitos existentes nos Estados Unidos e na Europa com relação à importação do etanol brasileiro não têm fundamento, pois esse produto apresenta o melhor balanço ecológico e não diminui a produção de gêneros alimentícios. Na produção de biodiesel à base de soja, os preconceitos são, em parte, justificados. Quanto ao etanol, os países industrializados não deveriam usar critérios exagerados à sustentabilidade da produção como pretexto para proteger seus próprios produtores contra a importação de produtos brasileiros com preço mais competidor.

Introdução

DESDE OS PRIMÓRDIOS da época colonial no Brasil, a economia brasileira foi caracterizada por ciclos econômicos de determinados produtos, como: pau-brasil, plantações de cana-de-açúcar, mineração de ouro, o boom do café (após a independência até a sua queda nos anos 1970) e a extração da borracha natural, somente no tempo da virada do século XIX para o XX.

Nos últimos 30 anos e no âmbito da modernização conservadora, a agricultura e o espaço rural passaram por mudanças estruturais básicas e economicamente bem-sucedidas embora problemáticas nos setores social e ecológico (Kohlhepp, 2003b). Os seguintes componentes reforçaram a discrepância entre fazendas com monoculturas e cash crops para exportação e minifúndios – cada vez mais marginalizados, orientados para a subsistência e o mercado interno que se dedicam principalmente ao plantio de alimentos básicos: aumento considerável das áreas cultivadas, mecanização das fazendas, sementes geneticamente modificadas e high yielding varieties, intensificação do uso de agroquímicos, enorme aumento da produtividade e modernização do processo de comercialização. As tensões sociais no espaço rural aumentaram drasticamente nos últimos anos, fazendo aumentar a violência dos atores nos conflitos rurais.

A intensa orientação para a exportação de produtos agrários como a soja, o açúcar e a laranja – como tradicionalmente o café – fez que o Brasil fosse um dos principais países exportadores de produtos agrícolas dentro da economia mundial globalizada. Desde 2006, o Brasil também assumiu a liderança nas exportações de carne e aves. Empresários com grandes capitais e concentração de propriedades estão envolvidos na rede doagrobusiness internacional e são as novas figuras-chave dos novos modelos do desenvolvimento agrário. O plantio da soja, especialmente, vive um "cortejo triunfal" até os dias de hoje.

Desde, porém, um passado recente, a problemática dos biocombustíveis ocupa o centro das atenções nacionais e internacionais em razão do aumento excessivo do preço do petróleo e da discussão mundial sobre a diminuição das emissões de CO2 e consequente diminuição do efeito estufa pelo uso de energias renováveis. Biocombustíveis são produtos à base de plantas e das quais se produz o etanol por meio do álcool da cana-de-açúcar – na Europa é produzido da beterraba – ou do amido (milho, trigo, raízes e de tubérculos). O biodiesel pode ser produzido de plantas oleosas (colza, girassol, soja, mamona e palmeira-de-dendê).

No Brasil, a produção do carvão vegetal da madeira de eucaliptos ocupa uma área de três milhões de hectares e pertence ao grupo dos biocombustíveis que é usado na indústria siderúrgica. Esse tema como o da produção de biogás não são tratados no presente trabalho.

Para a produção de bioetanol, o Brasil conta com a cana-de-açúcar – cujas plantações passam por grande expansão no momento -, além das grandes plantações de soja e dos sítios com mamona para a produção do biodiesel. As áreas relevantes de plantio e de colheita da soja e da cana-de-açúcar para a produção de etanol e biodiesel foram muito expandidas nas últimas três décadas, especialmente nos últimos anos. Pelo aumento adicional da produtividade, as colheitas alcançaram valores recordes (figuras 1 e 2).

O Brasil mostra experiência de décadas na produção do biocombustível etanol extraído da cana-de-açúcar. Depois da primeira crise do preço do petróleo em 1973/1974, foi iniciado no Brasil, em 1975, o Programa Pró-Álcool para diminuir a dependência das importações do petróleo (anos 1970: >80% da demanda; até 47% do valor da importação total do Brasil). Desde o ano de 2006, o Brasil é autossuficiente no abastecimento  de petróleo, o que significa que a nova euforia para a ampliação da produção de biocombustíveis é atribuída à discussão internacional sobre a mudança do clima e às tentativas do aumento da produção de energias renováveis com consequente diminuição de emissão de CO2, visando naturalmente à enorme subida do preço da energia fóssil – o petróleo. O Brasil apresenta condições naturais extremamente favoráveis para a produção de biocombustíveis, potencial que certamente será útil para firmar seu lugar como futuro líder do etanol no mercado internacional.

O potencial do biocombustível no Brasil fortifica a sua posição como potência regional com influência global e garante a sua pretensão de líder político na América Latina. Os mais recentes desenvolvimentos no setor de biocombustíveis mostram que o Brasil passa por um processo abrangente de transformação, conduzindo não somente a enormes consequências econômicas, mas também na política interna levando a mudanças sociais, socioculturais e ecológicas. Seguem análises sobre essas questões que tangem às políticas energética, agrária, social e de meio ambiente, com base no exemplo da produção do etanol e biodiesel.

A matriz energética do Brasil apresentou, em 2006, a seguinte situação (MME, 2007): ao contrário da média global (2005:12,7%), na produção da energia primária, as energias renováveis abrangem 47,5%. Da cana-de-açúcar são produzidos 16,6%; a energia hidráulica fornece 14,2%; e a lenha, 13,5%. Das energias fósseis, há a participação de 42,1% de petróleo; 8,3% de gás; e 1,1% de urânio.

Os escassos conhecimentos na Europa sobre a diferenciação das regiões naturais, econômicas e socioespaciais do Brasil, como também desconhecimento dos produtos primários na produção de biocombustíveis, como os da cana-de-açúcar e da soja, levaram alguns políticos da área energética, algumas organizações não governamentais e grande parte da imprensa daquele continente a preconceitos não diferenciados, presentes também nas discussões na Alemanha.

O lobby do petróleo, de empresas de gêneros alimentícios, parte da indústria automobilística, como também produtores de biocombustíveis europeus criticam a produção de etanol no Brasil para impedir as possíveis importações do produto pela Europa, sendo esse também o objetivo de organizações não governamentais (Kobra, 2008b).

O Programa Pró-Álcool para a produção de etanol (1975-1989)

O Programa Pró-Álcool iniciado em 1975 foi concebido para garantir o fornecimento de energia, bem como para apoiar a indústria açucareira pela diversificação da produção, depois da queda do preço do açúcar em 1974. Comknow-how brasileiro, foram construídas destilarias, as quais transformaram o excesso da produção de cana-de-açúcar em etanol anidro, usado como aditivo (24%) na gasolina, sem a necessidade de nenhuma modificação nos motores dos veículos.

Durante a ditadura militar, a construção de novas destilarias foi incentivada com créditos estatais muito baratos – quase US$ 2 bilhões (Moreira & Goldemberg, 1999), beneficiando os grandes produtores. Por intermédio da Petrobras, não somente foram instituídos postos para venda de etanol, como também o estabelecimento do preço do produto que era vendido a preço bem mais reduzido do que a gasolina. De 1975/1976 até 1984/1985, a produção de etanol aumentou em 20 vezes (Kohlhepp, 1983) alcançando 12 bilhões de litros.

Quando, em 1979, a segunda crise do preço do petróleo agravou a situação, o Programa Pró-Álcool foi expandido (Borges et al., 1984), fazendo que, no início dos anos 1980, a produção dos motores de veículos fosse adaptada ao uso do etanol. No ano de 1984, 94,4% dos carros novos brasileiros já eram vendidos com incentivos e créditos baratos e movidos a etanol, substituindo assim a gasolina.1 Desde 1975, registrou-se enorme expansão de áreas cultivadas com cana-de-açúcar e consequente aumento de produção. Isso sobretudo nas regiões principais de plantações em São Paulo – especialmente nos arredores de Ribeirão Preto e Piracicaba com forte expansão até 1987 (Figura 3). Em alguns municípios a área plantada com cana-de-açúcar ocupava mais de 60% da área cultivada.

Não somente se observaram crescentes monoculturas e o avanço das poderosas fazendas na acirrada concorrência pelo uso do solo, como também a ocupação das melhores terras de plantio, otimizando a produtividade. As usinas e destilarias aumentaram consideravelmente suas propriedades, enquanto o fornecimento dos pequenos e médios produtores diminuiu. Depois dos cinco anos de arrendamento aos usineiros, as terras eram vendidas pelos proprietários com grande prejuízo, pois os solos estavam gastos pelo plantio da cana-de-açúcar em monoculturas e somente poderiam ser regenerados com grandes investimentos.

Nessa época, a compra e o arrendamento de terras das destilarias estavam ligados à opressão e marginalização dos pequenos produtores de gêneros alimentícios básicos. Vínculos empregatícios seguros nas grandes fazendas foram substituídos por mão de obra barata, os boias-frias. No final dos anos 1980, a colheita em São Paulo já era mecanizada em 50% em alguns estabelecimentos, aumentando assim o risco de desemprego e instabilidade social dos trabalhadores na época da safra.

O aumento de áreas de plantio para alimentos básicos era menor do que o crescimento da população. O plantio de tubérculos já era retrógado na segunda metade dos anos 1970 (Kohlhepp, 1983, Figura 1) em razão da mudança da alimentação da população, já adaptada aos costumes alimentares urbanos. Feijão e arroz tinham que ser importados pela primeira vez, aumentando o preço dos gêneros alimentícios. Mesmo nos tradicionais centros da plantação de cana-de-açúcar na Zona da Mata no Nordeste brasileiro, as áreas de plantio foram fortemente ampliadas durante o Programa Pró-Álcool.

São Paulo tornou-se igualmente a região de plantio de maior significado em razão do Programa Pró-Álcool. Na segunda metade dos anos 1970 e nos anos 1980 e graças às boas condições de infraestrutura, surgiu em São Paulo uma densa rede de destilarias, na maioria junto às fábricas de açúcar já existentes, especialmente no nordeste e no sudoeste do Estado. Foram instaladas inúmeras destilarias autônomas ao longo dos eixos das rodovias no oeste de São Paulo, sem ligação às fábricas de açúcar. A fabricação das instalações para destilarias concentrou-se em empresas importantes da indústria metalúrgica de São Paulo, entre outros, em Piracicaba e arredores de Ribeirão Preto.

No auge do Programa Pró-Álcool, deu-se início à produção de etanol, extraído da mandioca, base da alimentação da população pobre do interior do país. Dos carboidratos da mandioca em forma de amido, pode ser extraído o etanol através da destilação dos substratos de glicose. Mesmo considerando que a mandioca é mais robusta que a cana-de-açúcar e está disponível todo o ano, a produtividade de etanol dessa planta sempre foi bem mais reduzida do que a do etanol produzido da cana-de-açúcar. Assim sendo, surgiu somente uma empresa modelo produzindo à base de mandioca.

Na segunda metade dos anos 1980, as subvenções para a produção do etanol tiveram que ser drasticamente reduzidas em razão da situação econômica do país e da inflação naquela época. Quando, em 1986, os preços do petróleo caíram (a US$ 13-14/barril), o Programa Pró-Álcool, que havia se tornado rentável pelo alto preço do petróleo, acima de US$ 40/barril, não era mais economicamente atrativo. O aumento do preço do açúcar e a liberalização da exportação do produto em 1988 levaram à redução da produção do etanol. Depois de 1989, com o crescente aumento do preço desse combustível, aumentaram as vendas de veículos movidos a gasolina, levando, nos anos 1990, ao final da produção de motores movidos somente a etanol.

No final do Programa Pró-Álcool, entretanto, foi mantida a mistura de etanol à gasolina de 20%-25%, a fim de reduzir as emissões de CO2, especialmente nos centros urbanos. Os investimentos estatais para o programa de produção do etanol para motores de veículos nos setores agrário e industrial foi de US$ 12,3 bilhões no espaço de tempo de 1975 a 1989 (Moreira & Goldemberg, 1999).

A euforia do etanol: entre a viabilidade econômica e questões de sustentabilidade social e ecológica

Com base na discussão mundial sobre a substituição das energias fósseis por energias renováveis, no início desta década e em razão da queda do preço do açúcar no mercado mundial, o Brasil considerou a necessidade da retomada do Programa Pró-Álcool (etanol). No ano de 2002, foi apresentado o primeiro veículo com motor flex-fuel, modelo desenvolvido por empresas alemãs e produzido em série no Brasil a partir de março de 2003. Motoresflex-fuel são movidos a gasolina, a etanol ou com uma mistura dos dois. Em março de 2004, 16% dos veículos novos vendidos no Brasil já eram equipados com esse tipo de motor. Em fevereiro de 2006 já havia 76,6% (Xavier, 2007), em novembro de 2007, 86,1% (Olivério, 2008, ver Figura 6) e hoje mais de 92%. Desde então, é possível fazer a escolha do tipo de combustível de acordo com o preço.

No que se refere ao fornecimento de petróleo, o Brasil é autossuficiente desde 2006, exceto no fornecimento de óleo leve. A Petrobras anunciou recentemente enormes reservas (extremamente profundas) de petróleo e gás – na região de off-shore (pré-sal) – entre o litoral do Espírito Santo e de São Paulo. Ao mesmo tempo, a procura mundial de energias alternativas, isto é, de biocombustíveis, aumentou rapidamente em razão do preço recorde do petróleo, vendido a mais de US$ 140/barril (junho de 2008). Assim, o foco do interesse no Brasil, além de fatores de meio ambiente, concentra-se na estratégia da substituição da gasolina para o mercado interno, como outrora, e na chance excepcional de fornecimentos de etanol não somente para o mercado nacional, mas sobretudo e em grande escala para o mercado internacional.

O Brasil é o maior produtor (34%) e exportador de açúcar no mundo – e também o mais barato, com uma colheita de 580 milhões de toneladas de cana-de-açúcar (ibidem, ver Figura 1) em 8,7 milhões de hectares (= 11,3% de toda a área cultivada no Brasil). De 1993 até 2001, a produção de açúcar foi mais que triplicada. Segundo cálculos do BNDES, e dependendo do sucesso da exportação do etanol, espera-se para 2013 uma colheita de 700 milhões de toneladas e, para 2017, 1 bilhão (ibidem). Os conflitos de interesse com a produção de gêneros alimentícios podem ser evitados pelo aumento de produtividade e não pela duplicação da área cultivada.

Hoje, 55% da colheita da cana-de-açúcar, em área de 4,4 milhões de ha (= 5,7% da área cultivada no Brasil), é aproveitada para a produção do etanol, tendo aumentado muito desde 2001. Espera-se, neste ano, uma produção maior que de 21,5 bilhões de litros. O Brasil é o segundo maior produtor e consumidor de etanol (com 35%), logo atrás dos Estados Unidos com 37% (Xavier, 2007). Além do rápido aumento das áreas colhidas (1955: 1,0; 1977: 2,1 milhões de ha, ver Figura 1), a produtividade por hectare aumentou em 33% desde 1977, para 75 t/ha, e a produção de etanol por tonelada de cana-de-açúcar aumentou em 58% (Bertrand et al., 2008). Os números da produção em São Paulo (2008: 84 t/ha) estão bem acima da média no Brasil.

Como mostra a Figura 4, o plantio da cana-de-açúcar concentra-se fortemente no Estado de São Paulo (62%). As plantações tradicionais no litoral do Nordeste abrangem somente 12% da área de plantio,2 e a produção do etanol, 8,9% (MME, 2006). Com 62% e crescente tendência, São Paulo também ocupa o primeiro lugar na produção de etanol no Brasil.

No ano de 2006, três milhões de veículos leves brasileiros eram abastecidos com 100% de etanol hidratado. Até 30 de julho de 2008, já foram vendidos 6,0 milhões de automóveis (= 20% da frota de veículos do Brasil) com motores flex-fuel (Automotivebusiness, Boletim 1º.8.2008), isto é, eram abastecidos a gasolina (com 25% de etanol anidro: E25) ou com a mistura de gasolina e etanol (Figura 6). As taxas de impostos para carros movidos a biocombustíveis foram então reduzidas pelo governo.

Tendo em vista a situação climática e as condições gerais de produção, a produtividade do etanol da cana-de-açúcar por ha no Brasil (6.800 litros) é quase o dobro da do etanol de milho nos Estados Unidos (3.800 litros) (Olivério, 2008). Tendo as matérias-primas uma participação de 60% dos custos, a produção do etanol no Brasil está sem concorrentes, embora não mais haja subvenções como nos tempos do Pró-Álcool. Os baixos custos de produção, que correspondem a aproximadamente 40% dos custos de produção por litro nos Estados Unidos, naturalmente são favorecidos pelos salários baixos que, no entanto, são mais altos no Estado de São Paulo do que os de outros setores da lavoura (ver a seguir).

Se o aproveitamento da grande quantidade dos restos do bagaço da cana-de-açúcar – o que já é aproveitado na produção de energia – for possível na extração do etanol, as vantagens econômicas na produção do etanol serão ainda maiores. Como o etanol tem um valor energético menor do que o da gasolina, o preço do etanol somente será economicamente interessante se não custar mais que 70% do preço da gasolina e se os grandes centros de consumo estiverem localizados nas proximidades do local de produção, como em São Paulo (Xavier, 2007).

Atualmente existem 359 destilarias de etanol em São Paulo, a maioria desde o Programa Pró-Álcool. Hoje, a distribuição de destilarias é como segue: 43% em São Paulo; 9% em Minas Gerais; 8%, respectivamente, em Pernambuco, em Alagoas e no Paraná (Olivério, 2008), havendo tendências de descentralização para o Mato Grosso do Sul, para o Triângulo Mineiro e para Goiás (Geomapas, 2008). Com investimentos de US$ 10 bilhões e créditos baratos do BNDES, mais 113 destilarias estavam planejadas até o ano de 2010/2011, mas somente a metade deverá ser realizada.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento também oferece créditos de US$ 269 milhões para três destilarias-modelo (produtividade e sustentabilidade) em Goiás e Minas Gerais. No plano geral, calcula-se a produção de etanol até o ano de 2018 em mais de 41 bilhões de litros (NZZ, 14, 15.6.2008). Dos postos de gasolina, 92% dispõem de bombas de etanol para automóveis (Kersaint, 2007). Em abril de 2008, o maior produtor de etanol no Brasil (Cosan) assumiu a rede de postos de gasolina da Esso.

Num todo, o etanol representou mais da metade de todos os combustíveis para automóveis usados no Brasil em 2008.

Para a Petrobras, isso significa grande perda, mas a empresa quer investir no setor dos biocombustíveis juntamente com as empresas japonesas Toyota e Mitsui em Goiás para, posteriormente, exportar etanol para o Japão. A construção da Ferrovia Norte-Sul ajudará a escoar a produção sucroalcooleira. A montadora Toyota pretende construir "uma fábrica de alto volume de carros compactos" em Sorocaba e "a empresa mostra interesse em explorar melhor o mercado dos combustíveis alternativos" (Eubrasil, 5.8.2008). Ao mesmo tempo, a BP está investindo na produção de etanol no sul de Goiás (Folha de S.Paulo, 25.4.2008). Isso mostra o grande interesse das empresas de petróleo na participação da produção de biocombustíveis, apresentando um boom internacional de investimentos nesse setor, sobretudo porque fundos e bancos de investimentos "descobriram" a produção de biocombustíveis no Brasil.

A crise financeira que, no Brasil, aparentemente não provocou um impacto tão grande como na Europa e nos Estados Unidos reduziu, no entanto, as atividades de investimentos estrangeiros. Além disso, o preço do petróleo caiu drasticamente nos primeiros meses de 2009, diminuindo assim a rentabilidade do etanol, rentabilidade essa que somente se inicía quando o barril de petróleo custar mais que 40 dólares. Hoje, o preço sobe novamente, atingindo 50% do máximo do ano 2008.

No Brasil, a mistura de etanol na gasolina é estipulada em 25%. Na União Europeia, a mistura (hoje de 2%) deverá ser de 5,75% de etanol (extraído da beterraba) a partir de 2012 e de 10% a partir de 2020.

Depois da discussão sobre a mistura de etanol à gasolina na Alemanha (5% em 2008, previsão de 10% em 2009) e da dita incompatibilidade do combustível em motores antigos, discussão da qual participaram os mais diversos lobistas, o governo cancelou, em abril de 2008, a medida precipitada do biocombustível, isto é, juntar imediatamente até 10% de etanol à gasolina. Os produtores de veículos, o Conselho de Desenvolvimento Sustentável do governo e muitas ONG não acreditam na sustentabilidade da produção do biocombustível e na certificação do produto nos países em desenvolvimento, embora no Brasil sejam construídos motores adequados ao etanol pelas filiais das indústrias automobilísticas europeias e asiáticas. Como na Europa, a produção brasileira de etanol de cana-de-açúcar frequentemente é confundida com a produção de biodiesel à base da soja, há um certo descrédito quanto ao balanço ecológico na produção dos biocombustíveis neste continente (ver a seguir).

No Brasil, essa posição é considerada como ação "eco-colonial" contra os países em desenvolvimento. O governo Bush planejava substituir em 20% o consumo total de gasolina pelo etanol nos Estados Unidos até 2017. Isso significaria a demanda de 135 bilhões de litros de etanol (Kenfield, 2007), cuja maior parte somente poderia ser coberta por importação do produto e não por produção própria à base de milho, certamente um grande negócio para o Brasil. Para a produção de 1 litro de etanol de milho, nos Estados Unidos, são necessárias quase nove vezes mais energia do que na produção de etanol de cana-de-açúcar no Brasil (balanço ecológico da beterraba e do trigo na Europa: 4,5:1 [Macedo, 2007]). A produtividade por área é quase dobrada. O preço do etanol nos Estados Unidos, subvencionado com 14 cents por litro, custa 45 cents/litro, enquanto no Brasil o preço do litro de etanol não subvencionado custa 28 cents.

A exportação brasileira de etanol perde a vantagem na competição em razão das altas taxas de importação dos Estados Unidos (US$ 0,54 por galão = 3,8 litros). Apesar disso, o Brasil exporta 70% da demanda mundial do etanol que corresponde a apenas 19% de sua produção, como em 2006. Cinquenta e oito por cento do total exportado é destinado aos Estados Unidos. Na questão do biocombustível, os dois países têm interesses políticos e econômicos em comum. A visita do presidente Bush ao Brasil, em março de 2007, não somente fortificou a posição política regional do Brasil na América do Sul, mas também mostrou o interesse de cooperação tecnológica pela carta de intenção de São Paulo (Nolte & Stolte, 2007). Mediante a cooperação dos dois países no desenvolvimento de tecnologias e incentivos à produção de biocombustívies, a influência do presidente Chávez nesta região poderia ser abafada – além disso, diminuiria a dependência do petróleo pelos Estados Unidos. Para o Brasil, a redução das taxas de importação e a crescente e rápida demanda, não satisfeita pela própria produção, poderiam significar a abertura de grande mercado para biocombustíveis nos Estados Unidos.

O Japão, que também não possui áreas suficientes para o plantio de matéria-prima para a produção de biocombustíveis, intenciona misturar pelo menos 10% de etanol à gasolina e ficará dependente de importação em grande escala.

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Aparte: Preconceitos na Europa e realidade no plantio da cana-de-açúcar e da produção de etanol no Brasil

A entrada de etanol no mercado europeu continua difícil e o Brasil espera – até hoje sem resultados – maiores concessões nesse setor. Entretanto, a discussão sobre o assunto na Alemanha e em outros países europeus é conduzida de forma não objetiva com base em informações errôneas, imputações e atividades de imprensa de grupos lobistas.

1. A repetida afirmação nas mídias sobre a destruição das florestas tropicais na Amazônia por causa da expansão do plantio da cana-de-açúcar é falsa.

Isso vale para o avanço em forma direta, tendo em vista que as áreas atuais de plantio e as áreas potenciais de expansão encontram-se muito distantes das florestas tropicais da Amazônia (Figura 5), com exceção das remotas possibilidades de plantio no futuro, em solos degradados no Maranhão. As destilarias de etanol que, em razão do processo de produção, têm que estar localizadas junto às áreas de plantio da cana-de-açúcar também dependem economicamente da proximidade dos mercados.

Certo é que o plantio da soja e a consequente produção de biodiesel à base de soja ameaçam seriamente a floresta tropical.

A ameaça indireta à floresta tropical pelo plantio da cana-de-açúcar também não tem fundamento. A afirmação de que a expansão do plantio da cana-de-açúcar nos campos cerrados desloca a pecuária local para o Norte e com isso para as florestas tropicais não é correta nem lógica sob ponto de vista econômico. Infelizmente, desde os anos 1970, há pecuária em pastos nas derrubadas na Amazônia (Kohlhepp, 1981, 1987), em razão da política de subvenções. Nos campos cerrados, cuja vegetação natural já está reduzida a 20% em razão da agricultura (Macedo, 2005), o número de gado por área poderá ser aumentado facilmente com o melhoramento dos pastos: em vez de criar uma cabeça de gado em 2 ha, seria possível criar uma cabeça por 0,7 ha (média em São Paulo). Isso mostra que, com uso reduzido de área, a pecuária pode ser conduzida muito mais eficientemente do que nas pastagens na floresta tropical – que também é climaticamente desfavorável. Além disso, ainda há abrangentes áreas nos campos cerrados (área total: 180 milhões de ha = 21,7% do território brasileiro) apresentando qualidades diversas de solos.

Segundo dados do IBGE, a área dos estabelecimentos agropecuários abrange 355 milhões de ha, isto é, 42% da área nacional.

Deve ser alertado expressamente de que com isso não é possível estabelecer critérios quanto à qualidade de solo, condições climáticas (áreas áridas da caatinga no sertão no Nordeste do Brasil), tampouco afirmações sociais específicas. Será essencial estabelecer em que região haverá expansão do plantio da cana-de-açúcar, quais restrições de plantio e imposições de zoneamento em nível municipal serão adotadas (ver a seguir) e se áreas de proteção ao meio ambiente, parques e reservas continuarão a ter realmente proteção definitiva.

Mais problemático ainda é a expansão do plantio da cana-de-açúcar – como o já existente da soja – atingindo exatamente as áreas fronteiriças da planície do Pantanal. Por meio de agroquímicos, lixo industrial e esgoto dos povoamentos, vindos de regiões mais altas, são levados pelos rios para o Pantanal e ameaçam em grande escala as características ecológicas e a biodiversidade (Kohlhepp, 1995).

2. A crítica geral feita ao Brasil de usar áreas de plantio para a produção de etanol ao invés de cultivar alimentostambém não é correta – crítica essa certamente aplicável a alguns países da Ásia do Sul e Sudeste em razão dasituação de concorrência nestes países quanto à expansão irresponsável de áreas para a produção de biocombustíveis.

O tema foi generalizado pelo relator da ONU, Jean Ziegler, em abril de 2008, e a crítica ao Brasil é incorreta em seu balanço total, ao contrário do que na época do Programa Pró-Álcool, entre 1975 e final dos anos 1980 (Kohlhepp, 1983). Deve ser mencionado o deslocamento de pequenos colonos para áreas menos favorecidas na época do Programa Pró-Álcool, com liquidação de inúmeras pequenas propriedades e consequente redução da produção de alimentos. Hoje é bem diferente. O Brasil apresenta vantagens também nesse caso em razão das grandes áreas ainda disponíveis para a agricultura.

A posição marcante de empresas multinacionais de gêneros alimentícios, que outrora não assumiam atitudes quanto à fome nos países em desenvolvimento, deve ser analisada mediante a política agrária dos países industrializados, cujas subvenções agrárias e produtos de exportação dificultam a agricultura nos países do Terceiro Mundo. A produção do etanol do milho, como nos Estados Unidos, e de cereais, como em parte na Europa, faz aumentar demasiadamente o preço desses alimentos. Isso levou à "crise da tortilla" no México (Suhr, 2008), pois o preço do milho aumentou exorbitantemente no México por causa das estratégias na produção de biocombustíveis nos Estados Unidos.

A drástica subida dos preços dos alimentos básicos, também no Brasil, deve ser atribuída especialmente ao aumento do preço do petróleo, dos combustíveis, adubos, pesticidas e custos de transporte (Schmidhuber, 2008), como também pela especulação nos mercados de capitais e não pela diminuição de áreas de plantio, muito menos por causa da diminuição da produção ou por aumento de consumo de gêneros alimentícios. O problema central concentra-se na falta do poder aquisitivo das classes sociais baixas.

O grande aumento das plantações da cana-de-açúcar em São Paulo de 1,8 milhão de hectares (em 1990) para 4,6 milhões (em 2008) é atribuído, em grande parte, ao forte recuo das áreas de pasto de mais de 2,5 milhões de hectares nesse espaço de tempo (Tabela 1)3. A atual redução de áreas de plantio de gêneros alimentícios em São Paulo foi enormemente compensada pela alta produtividade. Apesar da diminuição de mais ou menos 50% da área de plantio do feijão, entre 1990 e 2008, a quantidade da produção subiu em 16%. Com a diminuição da área de plantio do milho em 14%, a produção aumentou em 78%, em razão da duplicação da produtividade (Tabela 2).4

Entre 1990 e 2006/2007 e em âmbito nacional, as áreas de plantação de arroz (-4%), feijão (-25%), mandioca (-2%) e batata (-7%) diminuíram, e a produção dos gêneros alimentícios básicos como o feijão e o arroz aumentou consideravelmente em razão do aumento da produtividade – de 42 e 78% (Tabela 3). Nesse mesmo espaço de tempo, a área de plantio do milho aumentou em 17%, a produção aumentou em 143%, havendo duplicação da produtividade.5

A conclusão é de que o aumento do plantio da cana-de-açúcar não causou escassez de gêneros alimentícios – muito pelo contrário -, houve grande aumento da produção dos gêneros alimentícios mais importantes com base no melhoramento da produtividade.

3. Como terceira e principal crítica é a não credibilidade à sustentabilidade da produção de biocombustíveis no Brasil.

Hoje, o assunto deve ser visto diferenciadamente. Assim é constatado que, nas últimas duas a três décadas, isto é, desde a época do Programa Pró-Álcool, a situação trabalhista salarial dos colhedores e cortadores foi melhorada consideravelmente, bem como a proteção ao meio ambiente no plantio da cana-de-açúcar e na produção de etanol nas principais áreas de São Paulo. Macedo (2005) alerta para o fato de que são usados menos adubos, pesticidas e inseticidas do que nas plantações de café, algodão e laranjas – também em comparação com outros países com plantio de cana-de-açúcar. Hoje, mais de 75% da área de cana no Brasil não necessita de nenhuma forma de irrigação. Já nas culturas de cana, são usados mais herbicidas do que nas culturas antes mencionadas.

Em estudo das universidades de Utrecht e da Unicamp sobre a sustentabilidade da produção de etanol no Brasil (Smeets et al., 2006), é salientado que a produção de etanol em São Paulo corresponde aos critérios de sustentabilidade da Holanda. A Holanda já inicou a venda de etanol brasileiro, e a mistura (hE15 biosuper) contém 15% de etanol, misturado à gasolina. De acordo com estudos recentes, podem ser adicionados até 22% de etanol à gasolina6 em carros europeus sem motor flex.

A situação relativamente favorável de São Paulo não se aplica a todas as áreas de plantio da cana-de-açúcar, especialmente às do Nordeste do Brasil. As consequências ecológicas das grandes monoculturas da cana-de-açúcar (ver a seguir) continuam a causar problemas. É valido mencionar que, outrora, os lobistas agrários europeus, que agora exigem veemente a sustentabilidade na produção de biocombustíveis, não questionavam a problemática ecológica do plantio nas importações de pellets de soja, usados como ração, ou na importação de concentrado de laranjas. Mesmo na luta de concorrência no mercado açucareiro mundial (beterraba contra cana-de-açúcar), esse argumento até agora não teve relevância para os produtores e consumidores europeus.

4. A crítica aos itens principais feita pelas organizações não governamentais ao Acordo Energético Alemanha-Brasil (Kobra, 2008b), em maio de 2008, é "artificial".

Para a análise atual da situação, a junção de preconceitos ideológicos à política energética é extremamente antiprodutiva (problemática da energia nuclear), bem como a generalização de argumentos não relevantes para o Brasil e somente parcialmente válidos para a produção de etanol e para as regiões principais de produção (como a destruição da floresta tropical, gasto excessivo de água, escassez de alimentos, trabalho escravo etc.).

Está claro que a sustentabilidade do plantio e da produção de etanol tem que ser certificada quando das exportações para a Europa e para os Estados Unidos – ver as atividades objetivas da Holanda. Assim, o Acordo entre o Brasil e a Alemanha focaliza os principais objetivos, isto é, importações de biocombustíveis do Brasil serão possíveis desde que assegurada a sustentabilidade dos produtos. Esse procedimento será mais fácil no caso do etanol do que do biodiesel. É importante ressaltar que o Acordo exigirá maiores esforços do Brasil quanto ao cumprimento dos critérios ecológicos e sociais na luta global de concorrência.

* * *

Com ações internacionais acentuadas, o presidente do Brasil está trabalhando no sentido de expandir as parcerias de política energética no âmbito das relações Sul-Sul, sobretudo na África, mas também nos países da América Central, para fortalecer o perfil internacional com estratégias próprias de energia (Mildner & Zilla, 2007).

O governo brasileiro está muito interessado em estabelecer o etanol como commodity no mercado mundial. Em 2007, o Brasil associou-se ao Fórum Internacional de Biocombustíveis – uma iniciativa que conta com a participação dos Estados Unidos, da China, da Índia, da África do Sul e da União Europeia. Nesse fórum, são discutidas as normas internacionais dos biocombustíveis, procuradas soluções para os problemas de infraestrutura e de logística e garantias de fornecimento, bem como o estabelecimento de um programa comum de ação para o uso de biocombustíveis em outros países (Silva, 2007).

Além do norte (Barretos e Orlândia) e do oeste de São Paulo (Assis, Presidente Prudente), Minas Gerais (Triângulo Mineiro), sudoeste de Goiás e sul de Tocantins, a expansão atual do plantio da cana-de-açúcar atingirá o norte do Paraná, Mato Grosso do Sul e o sul de Mato Grosso, onde estão sendo construídas novas destilarias e muitas outras já se encontram em planejamento (Bertrand et al., 2008; Geomapas, 2008). Para 2011, está planejada a conclusão de uma pipeline de etanol de 1.150 km de comprimento de Goiás até o porto de São Sebastião em São Paulo. Isso diminuirá o preço de transporte do etanol em 30%, comparado com o custo do transporte por caminhão. Outros pipelines já estão projetados.

Na Região Amazônica, existem poucos plantios de cana-de-açúcar – mas somente em áreas periféricas e degradadas de antigas áreas da floresta tropical. O ex-governador do Acre, membro do partido do presidente Lula e a quem se atribuiu consciência com o meio ambiente, iniciou a produção do "álcool verde", construindo uma destilaria (Kobra, 2007; Fatheuer, 2007). Não há na região nenhuma outra produção de etanol de relevância. Nas áreas tradicionais de plantio, há possibilidades de expansão e consequente aumento de produtividade, como também alternativas espaciais nos campos cerrados (ver o Aparte), de modo que a expansão de plantio da cana-de-açúcar não significaria aumento de atividades destruidoras na Amazônia.

Há um prognóstico geral de que, segundo planejamento existente, as áreas de plantio da cana-de-açúcar aumentarão até o ano de 2012 em 3,6 milhões de ha. Essa seria uma área adicional de plantio com tamanho aproximado da Suíça e teria aspecto negativo do ponto de vista de meio ambiente quando se tratar de monoculturas em regiões ecologicamente sensíveis.

As consequências ecológicas de plantio excessivo da cana-de-açúcar são chamadas de "deserto verde" pelos grupos ambientalistas e os fenômenos são conhecidos desde os anos 1990. A enorme expansão de monoculturas sufoca toda e qualquer biodiversidade. O uso de agrodefensivos pulverizados por aviões apresenta ainda um grande problema de saúde, assim como a queimada controlada de parte das áreas. Em 80% das áreas de plantio, ainda é adotado esse procedimento, provocando, muito frequentemente, doenças nas vias respiratórias e enormes emissões de CO2, além de espalhar o "carvãozinho", limpeza do qual é gasto enorme volume de água.

Em São Paulo, esse tipo de queimada será permitida até o ano de 2021 com colheita mecanizada e até 2031 em outras regiões (Noronha & Ortíz, 2006). A mecanização de colheitas, adotada voluntariamente, está aumentando rapidamente, e as queimadas certamente deixarão de ser feitas entre os anos 2014 e 2017. O uso da vinhaça (restos líquidos na destilação da cana-de-açúcar) na ferti-irrigação (Macedo, 2007) deverá reduzir o uso de adubos artificiais, mas polui fortemente os lençóis d’água. No entanto, esses restos da destilação não mais são conduzidos diretamente aos ribeirões com tanta frequência.

Parece que, até então, não se fez uso de sementes geneticamente modificadas nas plantações de cana-de-açúcar. Mas sabe-se que nos laboratórios já é realizada pesquisa sobre as sementes transgênicas.

Em razão da situação social, as condições de trabalho em muitas plantações de cana-de-açúcar são problemáticas. Os cortadores, com contrato temporário, vindos do Nordeste e de Minas Gerais, têm que cortar em média 10-12 t/dia em São Paulo (2007: 6-15 t/dia em Ribeirão Preto), enquanto nos anos 1980 eram exigidos 5-8 t/dia (Kenfield, 2007). Para 12 horas de trabalho/dia em uma semana de seis dias, são pagos em São Paulo até 320 euros/mês, e o salário real por tonelada de cana-de-açúcar diminuiu.7 Segundo Macedo (2005), o salário médio pago para atividades nas plantações da cana-de-açúcar no Brasil é de R$ 495; no Nordeste R$ 316; mas em São Paulo, R$ 810 (1 euro = R$ 2,54).

Em Pernambuco, em 1993, 25% dos colhedores tinham entre 7 e 17 anos de idade8 – crianças e jovens que ajudavam os pais a garantir determinada quantidade de colheita. O número atual de crianças que trabalham em colheitas felizmente diminuiu consideravelmente. Inúmeros casos de doença em adultos, por exaustão de trabalho, lamentavelmente, ainda são registrados todos os anos.

Ainda hoje, 70% da colheita da cana-de-açúcar, no Brasil, é feita manualmente. Com isso, 982 mil pessoas encontravam um trabalho temporário em 2008. A constante ameaça dos grandes produtores de mecanizar a colheita impede o aumento justo dos salários. Especialmente em São Paulo, há grande tendência para uma rápida mecanização – atualmente em 55%. No entanto, a mecanização total causaria uma catástrofe social. Em Ribeirão Preto, a "capital do agrobusiness", no centro das plantações da cana-de-açúcar, vivem hoje milhares de pessoas em favelas.

Nas enormes monoculturas, há um mínimo de trabalhadores por hectare (0,1 trabalhador/ha, média anual – comparado a 1,5 trabalhadores/ha nos sítios de pequenos produtores), provocando, algumas vezes, o fim da vida econômica nas pequenas cidades onde a infraestrutura não mais pode ser sustentada. No exemplo de Pradópolis (15 mil habitantes), mostra-se que existem tentativas positivas de "como conciliar cana, desenvolvimento social e ecologia" (Veja, 23.7.2008, p.29). Pela prosperidade econômica obtida com a produção de açúcar e de etanol, foi possível realizar, nesse pequeno município, uma boa infraestrutura e uma gestão pública responsável, reduzir a taxa de analfabetismo e de mortalidade infantil, e requalificar a maioria dos antigos boias-frias com cursos profissionalizantes. Assim, o choque do desemprego causado pelo aumento da mecanização na colheita da cana-de-açúcar foi bem mais ameno. A redução das queimadas nas áreas de plantio da cana-de-açúcar foi uma grande contribuição ao meio ambiente. Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), inúmeros projetos sociais são hoje realizados em São Paulo com o objetivo de melhorar as condições de vida dos trabalhadores, aumentando assim a responsabilidade dos produtores (Embaixada do Brasil, 2007).9

Infelizmente, as condições em outras regiões do país são muitas vezes piores do que em São Paulo. A imprensa alerta constantemente para as condições escravizantes de trabalho, quase sempre fora de São Paulo, que são averiguadas pelas autoridades, mas em poucos casos levam à punição.

Inúmeros protestos de ONG e ações dos Movimento dos Sem Terra (MST) são realizados em São Paulo, com consequentes acampamentos nas rodovias e ocupações de terras. O líder do MST, José Rainha Jr., disse que a ocupação de 12 fazendas é uma ação de alertar o governo sobre a falta de uma reforma agrária e os problemas sociais ligados à expansão da cana-de-açúcar (O Estado de S. Paulo, 20.2.2007). O suicídio em público de um ambientalista em Campo Grande mostra a luta desesperadora contra a temida ocupação dos arredores do Pantanal pelos interesses do etanol do agrobusiness, no Mato Grosso do Sul.

O foro brasileiro de ONG e de movimentos sociais insiste na melhora considerável da situação e no cumprimento de muitas promessas estatais. É assim questionada a realização de reformas como a prescrição de zoneamento do plantio da cana-de-açúcar para a proteção de biomas ameaçados, reformas essas anunciadas pela ministra do Meio Ambiente, consciente dos problemas, mas infelizmente sem força política e que renunciou ao cargo em abril de 2008. No entanto, há exemplos positivos: em São Paulo, uma comissão deverá impedir o avanço do plantio da cana-de-açúcar em áreas ecologicamente protegidas. Nos municípios de Rio Verde, em Goiás, e em Dourados, em Mato Grosso do Sul, já foi estipulada área máxima de plantio (em %) da cana-de-açúcar em regiões determinadas para a agricultura.10

Em Piracicaba e Ribeirão Preto, do etanol, nos últimos anos, concentram-se atividades de nível internacional, pouco percebidas na Europa. Especialmente Piracicaba desenvolveu-se como um cluster de conhecimento e tecnologia no setor do etanol, enquanto, em Ribeirão Preto, estão as maiores fazendas de cana-de-açúcar e usinas que apresentam a melhor qualidade de solos. Em Piracicaba, localizam-se a universidade (Esalq/USP), contando com diversos grupos de pesquisa nos mais diversos setores, e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), contando com parceiros internacionais de renome. Também em Piracicaba, que se desenvolveu muito nas últimas duas décadas (Santos, 2007), está sediada a matriz do maior produtor de etanol no Brasil, a Cosan, além de muitas empresas produtoras de insumos agrários, empresas de consultoria, cooperativas, peritos em assuntos agrários, lobistas dos diversos setores e muitas indústrias do setor de máquinas agrícolas e de instalações para destilarias, como a Dedini.

Produção de biodiesel: o boom da soja contra o plantio da mamona por pequenos produtores?

O plantio da soja no Brasil não somente está ligado à expansão intrarregional das áreas cultivadas, mas sobretudo a um grande deslocamento de áreas centrais de plantio. Das áreas de plantio de pequenos colonos – descendentes de imigrantes europeus sediados nas florestas subtropicais do Rio Grande do Sul (Pfeifer & Kohlhepp, 1966; Lücker, 1986) -, a fronteira do plantio da soja deslocou-se, no final dos anos 1960, para o norte do Paraná – onde a soja era plantada em substituição ao café que havia sido erradicado por causa das geadas (Kohlhepp, 1975). A frente da soja foi assim deslocada para o norte nos campos cerrados semiúmidos do Planalto Central (Coy & Lücker, 1993) (Figura 4).

Esse deslocamento do plantio da soja foi realizado pelos fazendeiros do sul do Brasil que conseguiram comprar terras a preço baixo, outrora exploradas pela pecuária extensiva, transformando-as em agricultura moderna e fazendas muito produtivas. Essa mudança da estrutura agrícola e colonização dos campos cerrados somente pôde ser realizada com apoio de programas estatais de incentivo (Proterra, Polocentro, Prodecer) e é um dos fenômenos destacados do desenvolvimento agrário no Brasil. Sobretudo em Mato Grosso – o novo "Eldorado", com cidades pioneiras (Coy, 1992) economicamente bem-sucedidas e com boa infraestrutura (Veja, 23.7.2008), como a cidade de Sorriso – onde, no início dos anos 1980, foi desenvolvido o complexo agroindustrial da soja (plantio da soja, moinho da soja, usina de óleo de soja, produção de pellets, comércio de produtos agroquímicos, consultoria agrária, bancos de crédito, infraestrutura de transporte, capacidade de armazenamento), conseguindo sobreviver no centro-oeste apesar das diversas crises do preço do produto (Kohlhepp & Blumenschein, 2000).

Por meio da mobilidade espacial e da ascensão dos colonizadores do sul do Brasil, surgiu uma nova elite – não pecuarista – em Mato Grosso que não somente criou um novo paradigma técnico-econômico do complexo da soja (Blumenschein, 2001) no setor agrário, mas também provocou conflitos socioculturais na população mato-grossense tradicional, levando finalmente à mudança da liderança política do Estado. Blairro Maggi, migrante do sul do país, é hoje governador de Mato Grosso e chamado "o rei da soja" do Brasil. Maggi construiu novas rodovias na região e aumentou a área de plantio, abrindo novos caminhos para o comércio em razão da crescente produção regional da soja. Paralelamente à "frente da soja", com base em sementes geneticamente modificadas, avançou para a região sul das florestas tropicais da Amazônia, sendo assim responsabilizado pela destruição das matas (Fearnside, 2001; Coy, 2003; USDA, 2004; GI, 2006; Kohlhepp, 2002, 2007).

No âmbito do abrangente programa de desenvolvimento "Avança Brasil", o governo federal apoiou a reorientação para o Norte dos caminhos de transporte e portos de transbordo para a exportação da soja para a Europa, dando forte impulso à produção regional da soja na parte central do país (38% da produção brasileira). Vinte e sete por cento da área total de plantio da soja encontram-se na região de planejamento "Amazônia Legal", dos quais 90% em Mato Grosso.11 Um quarto da área da soja de Mato Grosso estende-se em áreas desmatadas, outrora florestas tropicais (GI, 2006). Os fazendeiros da soja no Pará, no Tocantins e no Maranhão já usufruem das possibilidades espaciais para a expansão do plantio da soja. Foram criados portos fluviais de boa qualidade visando à exportação da soja para ultramar, em Itacoatiara, no Rio Amazonas, que recebe mercadorias de Porto Velho através do Rio Madeira e Santarém. A concessão à empresa Cargill para a continuação da obra do porto em Santarém – final da discutida estrada BR-163 Cuiabá-Santarém – não teve aprovação quanto à Eia/Rima e é tida como ilegal pelos tribunais brasileiros.

Sob pressão dos grupos não governamentais de meio ambiente, as federações de empresários das indústrias de óleos vegetais e dos exportadores decidiram não mais comprar soja de novas plantações na Amazônia. Essa moratória, no momento, difícil de ser examinada, tem validade de dois anos e já foi prorrogada. Durante esse período, as diretrizes da lei florestal devem ser observadas e novas estratégias deverão ser decididas.

As multinacionais de agrobusiness, como a Cargill, ADM e Bunge, agem com fornecimento cada vez maior de sementes geneticamente modificadas, como o "Roundup-Ready" tolerável aos herbicidas, defensivo do produtor de sementes Monsanto afinado com agroquímicos, como também com componentes de produção, capacidade de armazenamento, expansão da infraestrutura e estratégias de marketing. Elas são responsáveis por 60% do financiamento da produção da soja no Brasil (GI, 2006).

No âmbito da "Campanha para um Brasil livre de genética modificada", uma série de ONG conseguiu, em 1998, evitar por ordem judicial a liberação da soja transgênica, com o apoio do antigo Partido dos Trabalhadores (PT). O governo Lula, desde 2003 no poder, decretou, no seu primeiro ano de gestão, uma "medida provisória", muito discutida, liberando o plantio da soja geneticamente modificada como regulamentação excepcional – sob protesto da então ministra do Meio Ambiente e de diversos grupos ambientalistas. Essa decisão, tomada sem que tivesse sido feita análise de risco e sob pressão do lobby agrário nacional e internacional, mostra que o governo PT assumiu totalmente o modelo econômico bem-sucedido do agrobusiness. Isso contribuiu para que a soja transgênica, estimada em 8% da produção nacional em 2002/2003 (Kohlhepp, 2003b), aumentasse consideravelmente até os dias de hoje.

Os maiores lucros são, sobretudo, dos produtores de sementes e oriundos de taxas de licenças que foram, em 2004, e somente no Rio Grande do Sul, maiores que o orçamento do Estado para todo o setor agrário. Sementes transgênicas e herbicidas são mais caros que os produtos convencionais. Mesmo a produtividade de soja sendo menor (Rehaag, 2007), a agricultura contratual é mais segura, e a proteção das plantas, mais fácil. Segundo Duarte (2005), em 2004 o governo federal aumentou em 50 vezes o valor limite tolerado de resíduos de herbicidas (Glyphosat) na soja, cujo valor anterior tinha sido estipulado em 1985. Com isso, o Brasil perdeu sua posição especial que o diferenciava dos países plantadores de soja transgênica, como os Estados Unidos, a Argentina e o Paraguai. No Brasil, a produção da soja duplicou em 15 anos para 60 milhões de toneladas (Figura 2), é hoje o segundo maior produtor de soja, depois dos Estados Unidos – sendo, no entanto, o maior exportador do produto.

Depois da crise do BSE, o mercado de produção de ração na União Europeia viu-se obrigado a produzir ração à base de vegetal, rica em proteína, em substituição à ração animal. Com isso, haverá ainda maior demanda do produto, especialmente em forma de pellets. Não esquecendo que a China importa do Brasil 40% da sua demanda de produtos de soja.

O plantio da soja destina-se quase que totalmente à produção de ração e de óleo vegetal, mas, no âmbito da discussão sobre biocombustíveis, a produção de biodiesel extraído de óleos vegetais está no foco dos interesses – paralelamente à produção de etanol da cana-de-açúcar. Isso porque 90% da produção atual de biodiesel (2007: 962 milhões de litros) são produzidos da soja. Além disso, há soja à disposição em todas as regiões do país – juntamente com o óleo de dendê e o de babaçu no Norte e no Nordeste (Pará, Maranhão, Bahia), como também a mamona na Bahia, o algodão e o girassol no Sudeste e no Centro-Oeste.

Em 2004, o governo brasileiro iniciou o Programa Nacional de Produção do Biodiesel (PNPB). O biodiesel pode substituir, em parte ou totalmente, o diesel mineral para veículos leves, caminhões, tratores e geradores (mistura 2%-5%). A mistura de biodiesel no Brasil é legalmente estabelecida desde 2008. Primeiramente, a mistura obrigatória era de 2% e, pouco a pouco, será elevada a 5% em 2010, o que corresponderia a uma produção de 2,4 bilhões de litros. Segundo informação do Ministério da Agricultura, o biodiesel puro, à base de soja, é capaz de concorrer com o preço de 60 US$/ barril de petróleo. A mamona – com 705 litros/ha – e a palmeira de dendê com 5.000 litros/ha – têm um rendimento muito maior do que a soja, com rendimento de 400 litros/ha (Embaixada do Brasil, 2007).

O PNPB valoriza especialmente a participação de pequenos produtores de mamona no Nordeste e de óleo de dendê no Norte. Isso significa inclusão social, consideração da realidade ecológica, mas também exige a garantia de qualidade e a capacidade à competição. Os produtores de biodiesel que dispõem de quotas previamente definidas e regionalmente diferenciadas de matéria-prima dos pequenos colonos recebem o "Selo Combustível Social" e descontos tributários. Para os pequenos agricultores do Nordeste, isso poderia significar um grande apoio em razão da garantia de mercado receptor. Essa agricultura contratual, no entanto, pode levar a maior dependência e a preços baixos, quando a autonomia do produtor é falsa (Kobra, 2008a). Além disso, o risco das condições climáticas e da safra fica por conta dos pequenos produtores.

Não se sabe se a esperada expansão do plantio da mamona e as condições técnicas de produção poderão ser alcançadas com fornecimento contínuo e em médio prazo das quantidades necessárias de matéria-prima. Peritos brasileiros, como da Esalq/USP, em Piracicaba, ainda não estão convencidos do sucesso dessa produção. Segundo análises da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), não é possível o uso exclusivo do óleo de rícino em motores movidos a diesel em razão de sua alta densidade e viscosidade, como também não é apropriado para a produção de biodiesel (AHK Câmara Brasil-Alemanha, WB 28, 28.7.2008). Isso significaria que o apoio aos pequenos produtores, pelo qual o governo faria jus à sua responsabilidade político-social, seria somente parcialmente realizável.

Vale mencionar a instalação de uma cooperativa de biocombustível no Rio Grande do Sul, organizada, em 2005, pelo Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e pelo MST, abrangendo 25 mil famílias em 62 municípios no noroeste do Estado. Nessa região, usam-se a mamona e o girassol como matérias-primas, e o plantio é feito pela rotação de culturas e sem o emprego de pesticidas (Noronha & Ortíz, 2006). O projeto-modelo "Brasil Ecodiesel" – com plantio de mamona – é feito no Piauí com apoio financeiro da Alemanha. Não é garantido se a produção de biodiesel à base dessa matéria-prima pode ser realmente uma opção econômica satisfatória (Giersdorf & Nitsch, 2006).12 Sem abrangente apoio estatal, os objetivos de produção dificilmente poderão ser alcançados em razão da pressão do agrobusiness, de obstáculos burocráticos e de eventuais problemas tecnológicos.

Quanto à produção de biodiesel da soja, que depende dos preços do mercado mundial para a exportação de seus produtos, há áreas suficientes de plantio,13 bem como quantidade de produção à disposição (Figura 2). Em razão das sementes novas, as condições apropriadas para o plantio nas regiões de ecossistemas tropicais úmidos foram espacialmente bem expandidas. Por esse motivo, a crescente devastação de florestas na Amazônia está ligada à produção de biodiesel por causa da expansão das área de plantio da soja (Fearnside, 2001; GI, 2006; Kohlhepp, 2007). O país dispõe de áreas dos estabelecimentos agropecuários de 257 milhões de hectares, sem contar as áreas de floresta dentro de propriedades, e dispõe de pecuária extensiva na região dos campos cerrados no Brasil Central, cujos pastos poderiam ser melhorados e aumentado o número de gado por hectare. O governo frequentemente chama isso de "reserva" para o agrobusiness, tanto para o plantio da soja como para o plantio da cana-de-açúcar. A produção da soja já se concentra nitidamente na região dos campos cerrados.

No que se refere à sustentabilidade na produção de biodiesel, há certas reservas do ponto de vista ecológico e social quanto ao uso da soja como matéria-prima: plantio de monoculturas por latifundiários, concentração de propriedades e opressão maciça contra pequenos produtores e inúmeros conflitos de terra, uso exagerado de agroquímicos e consequente contaminação da água, alta mecanização e pouca demanda de mão de obra (2 trabalhadores/100 ha), bem como competição pelo uso do solo com os produtores de gêneros alimentícios básicos.

Esses problemas são alertados por cientistas e pelo MST. Por meio de ações duvidosas de protesto, por ocupação de fazendas e de prédios de instituições estatais como outras ações de grande efeito público, o grupo protesta contra a política agrária do governo – orientada cada vez mais para o agrobusiness – e contra a falta de quaisquer princípios sistemáticos para a realização da tão desejada reforma agrária.

Do ponto de vista positivo do meio ambiente, o uso do biodiesel apresenta diminuição de monóxido de carbono em 48% e 67% de hidrogênio carburado. No entanto, os presentes dados são relativados durante todo o processo da produção do biodiesel, fazendo que o balanço ecológico desse produto não seja positivo.

Conclusões e perspectivas

Depois das decisões do Protocolo de Kyoto em 1997 e dos recentes relatórios do "Intergovernmental Panel of Climate Change" em 2007, reforçaram-se, em todo o mundo, as discussões sobre o crescente efeito estufa e a grande necessidade de rápida redução de CO2. Governos de muitos países não somente estipularam valores-limite para a diminuição de emissões de gases das energias fósseis, mas também conduziram a substituição por energias renováveis a um tema principal. Não somente os países industrializados querem e devem diminuir a sua dependência do petróleo, mas especialmente os países emergentes e em desenvolvimento tentam aproveitar as suas condições naturais na produção própria de energias renováveis à base de matérias-primas vegetais.

Nas energias renováveis e em seu uso no transporte, os biocombustíveis assumem papel especial, pois estão ligados diretamente aos objetivos modernos do desenvolvimento sustentável. Recentemente, essa sustentabilidade quanto à redução de CO2 vem sendo questionada também em relação ao etanol à base de cana-de-açúcar, ao qual era atribuído melhor ecobalanço. Um estudo da OCDE (2008), no entanto, ressalta que os gases estufa pelo uso de etanol da cana-de-açúcar são excepcionalmente reduzidos de 70% a 90%, comparado com o uso da gasolina. Observa-se que a redução desses gases no uso do etanol é bastante menor quando produzido do milho (20%-50%), da beterraba (30%-50%) e do trigo (30%-60%).

A posição do etanol certamente será reforçada, quando, em 2010, a União Europeia implementar a taxa de impostos calculada a partir da emissão de CO2 de veículos.

O exemplo no Brasil mostra que a produção de biodiesel à base de soja não cumpre as normas de sustentabilidade. As abrangentes ações das empresas agrícolas que querem introduzir cada vez mais produtos agrícolas geneticamente modificados no Brasil, juntamente com produtores de sementes e de agrodefensivos, intensificam os problemas fundamentais da estrutura agrária (Kohlhepp, 1994). O atual governo brasileiro, também eleito por causa de reformas sociais anunciadas, atribui a economia bem-sucedida e o aumento do lucro esperado da exportação de biocombustíveis à rede transnacional de agrobusiness, que se deixa levar pela euforia de visões futuras otimistas e proclama o Brasil como a potência mundial das energias renováveis do século XXI, como também é frequentemente mencionado pelo presidente Lula (Silva, 2007).

Nos atuais processos de desenvolvimento na produção de biocombustíveis no Brasil, faltam componentes sociais e ecológicos, com exceção da produção de etanol em São Paulo. Mas, sob pressão da expansão de monoculturas, com grande concentração de terras e crescente aumento dos preços da terra, parece que a fragilidade dos pequenos produtores (Neuburger, 2000) não é considerada, tampouco a garantia de alimentos e a fragilidade dos ecossistemas com contaminações excessivas do meio ambiente. É comprovado que a homogeneização da paisagem agrária leva ao esvaziamento do espaço rural e fortifica a migração dos excluídos ao circuito da pobreza urbana.

Os cenários de exportação do etanol ainda se encontram ligados a aspectos político-econômicos imponderáveis, sobretudo porque a União Europeia (UE) não está firme no seu propósito de aumentar a parte do etanol da gasolina a 10% até 2020. Ainda não é possível obter uma avaliação fundamentada da produção de biodiesel, sendo essa recente e atendendo somente ao mercado nacional. Para o Brasil, o aumento do lucro pela exportação de biocombustíveis, isto é, do etanol, é muito importante. Não há ainda confirmação concreta dos global playersquanto à proteção aos produtores nos Estados Unidos e na UE, pelas altas taxas de importação. Em julho de 2008, na rodada Doha da Organização Mundial de Comércio, o etanol não constava da lista de produtos ambientais privilegiados na taxação, sob protesto do Brasil que reivindica o livre acesso do produto a todos os mercados. Além disso e, de acordo com afirmação do então candidato a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, "não vale a pena substituir nossa dependência do petróleo pela dependência do etanol do Brasil" (Veja, 2.7.2008). Por sua vez, o Japão mostra interesse em importar etanol do Brasil, o que já é feito pela Holanda e Suécia.

No âmbito da cooperação Sul-Sul, o Brasil ocupa posição de destaque pela transferência de know-how brasileiro na produção de etanol a países dependentes da importação do petróleo. Por meio disso a importância da política externa do Brasil poderia ser ainda mais acentuada.

Nos setores do meio ambiente e da política agrária, o governo brasileiro tem que ser bem-sucedido no impedimento do avanço das monoculturas na Região Amazônica e no Pantanal, mediante sistema de zoneamento agroecológico, discutido há anos. Considerando os altos lucros na exportação, poderia ser instituído programa de incentivo na agricultura de pequenos produtores, além do existente, pois a participação na produção de matérias-primas vegetais e de biocombustíveis é possível nas pequenas destilarias, quando apoiadas por cooperativas bem organizadas.

O controle de quotas na produção de biodiesel deve ser garantido para evitar o domínio total pelos lobistas da soja nesse setor, e é necessária melhor integração dos produtores de mamona no processo geral. Condições de trabalho, salário condizente e critérios de meio ambiente – o que é do conhecimento dos produtores – devem ser rigorosamente controlados também no plantio da cana-de-açúcar. A rápida concessão de selo social e de meio ambiente pode colocar a sustentabilidade em risco.

O aumento positivo, quantitativo e econômico da produção e da produtividade como o aumento de exportação deve se basear em melhoria de qualidade das condições sociais e ecológicas. Na situação rural de hoje, dominada por conflitos que, em algumas regiões, provocam ações quase que incontroláveis, a euforia sobre biocombustíveis e o modelo atual de exportação do agrobusiness não estão conforme com o urgente desenvolvimento sustentável da região rural, anunciado pelo governo. A política heterogênea de coalizões partidárias continua provocando bloqueios de reformas em razão do longo tempo de negociações (Boeckh, 2003).

O futuro está na produção de biocombustíveis da segunda geração, a partir da próxima década, quando o etanol será produzido de bagaço, celulose e outras matérias orgânicas, e a produtividade poderá ser aumentada de 40%-50%. Essa produção de segunda geração estará em harmonia com o meio ambiente e iniciará "uma civilização moderna de biomassa" (Sachs, 2005). Assim, a pressão pelo uso da terra e os conflitos de interesse ligados com a produção de biocombustíveis certamente serão diminuídos, dando chance a uma reforma agrária bem concebida, assegurando tanto o trabalho de pequenos agricultores como a alta biodiversidade.

Melhoramentos para o cumprimento dos critérios sociais e de meio ambiente podem ser uma grande chance para o Brasil, como na venda de etanol no mercado mundial. Na Europa e nos Estados Unidos, esses critérios não podem ser usados para proteger seus próprios produtores da concorrência barata internacional. Isso poderá funcionar quando os países industrializados se afastarem da política de protecionismo e de incentivos para a bioenergia – como reivindicação do economista da FAO (Schmidhuber, 2008) e da OCDE (2008). No âmbito da discussão da proteção ao clima, deve persistir a constatação de que, no trânsito, somente o etanol à base da cana-de-açúcar poderá realmente contribuir para a redução substancial das emissões de CO2, até o amadurecimento técnico e o uso em massa, no futuro, dos motores elétricos e movidos a hidrogênio.

Na Feira Internacional de Automóveis em Frankfurt em 2009, entretanto, os carros híbridos, movidos a eletromotores e gasolina, e protótipos de carros com eletromotores chamaram muito mais atenção do que carros com motores flex-fuel. Obviamente os biocombustíveis da primeira geração, como etanol da cana-de-acúcar, são vistos na Europa e na Ásia como uma tecnologia de transição cuja época já terminou antes mesmo de ter sido usada nos automóveis nesses continentes.

Fonte: Scielo – www.scielo.br

Perigos da poluição para o cérebro

Agentes tóxicos comuns no ar – como carbono preto, material particulado e ozônio –podem provocar sérios efeitos na cognição de crianças e adultos

Mente e Cérebro

Em uma época em que tanto se discute o derretimento das calotas polares e a destruição das florestas e da camada de ozônio, é quase redundante dizer quanto as substâncias emitidas por automóveis e usinas a carvão são prejudiciais ao sistema respiratório. O que pode surpreender é o grau de danos que esses poluentes podem provocar no cérebro – sendo a exposição a eles, em certos casos, tão prejudicial quanto ao chumbo. Estudos recentes mostram que agentes tóxicos comuns no ar como o carbono preto, o material particulado e o ozônio podem ter efeito negativo sobre capacidades como aquisição de vocabulário, tempo de reação e até mesmo sobre a inteligência, de forma geral.

O mais recente desses estudos, realizado em Nova York, no qual grávidas usaram monitores pessoais de ar durante toda a gestação, descobriu que crianças de 5 anos expostas a níveis altos de poluentes urbanos – conhecidos como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) – quando ainda estavam no útero apresentavam quociente intelectual (QI) 4 pontos inferior ao das que foram expostas a quantidades menores das substâncias. De modo alarmante, “a queda foi semelhante à observada em exposições a baixos níveis de chumbo”, comenta a epidemiologista Frederica Perera, diretora do Columbia Center for Children Environmental Health e autora principal do estudo. A alteração dos índices de QI foi suficiente para causar queda no desempenho escolar e nas notas em testes simples.

“E esses níveis de poluição que medimos no estudo nem foram expressivamente altos, se comparados àqueles de outras áreas urbanas”, observou a pesquisadora. A maior parte dos poluentes HPAs vem de emissões de motores de veículos automotivos, especialmente de carros e caminhões movidos a gasolina e a diesel, além da queima de carvão. A fumaça do cigarro é outra fonte importante de poluentes; por isso pesquisadores não consideraram no estudo crianças que convivem com fumantes.

Um dado importante é que o cérebros infantil em desenvolvimento não é o único atingido pela poluição. Pesquisa de 2008 em adultos de 20 a 50 anos, conduzida em conjunto pelas escolas de saúde pública da Universidade Harvard e da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, identificou redução de atenção, memória de curto prazo e tempo de reação, diminuição esta relacionada ao ozônio e equivalente a um declínio intelectual em meninos e meninas de 3 anos e meio a 5 anos.

O que os especialistas se perguntam agora é: o que pode ser feito em relação a esses poluentes prejudiciais ao cérebro? “A resposta não é mistério: precisamos de melhores políticas para o congestionamento de tráfego, de tecnologias para energias alternativas e de eficiência energética”, afirma Frederica. Felizmente, também há maneiras mais imediatas de reduzir a exposição aos elementos químicos tóxicos, como limitar as atividades físicas ao ar livre nos dias mais poluídos. Os alertas sobre os riscos da qualidade do ar se tornaram parte rotineira das previsões de tempo matutinas. “Se não puder evitar o exercício ao livre, vale a pena diminuir o ritmo, por exemplo, substituindo a corrida por uma caminhada”, sugere a administradora da U. S. Environmental Protection Agency, Lisa Jackson. A alternativa é evitar caminhar, correr ou andar de bicicleta em vias de grande movimento de ônibus, caminhões e carros. Até os controles de emissões e as políticas ambientais surtirem um efeito significativo sobre os níveis de poluentes relacionados a tráfego, a melhor saída é expor o mínimo possível nosso cérebro e o de nossos filhos.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

As luzes do mercado se apagam: as falsas promessas do neoliberalismo ao término de um século em crise

As luzes do mercado se apagam: as falsas promessas do neoliberalismo ao término de um século em crise

Robert Kurz

Com o fracasso do socialismo de Estado na Europa, o neoliberalismo apresenta-se como panacéia universal, mas não tem conseguido resolver muitos problemas práticos e é problemático em seus "milagres", feitos à base de salário barato, trocas assimétricas, créditos artificiais e destruição ecológica. Na teoria é incapaz de perceber as contradições estruturais do capitalismo. Como a economia já está internacionalizada, vem sendo gestada uma crise geral. Os Estados Unidos não podem tornar-se novamente a locomotiva da economia mundial, pois sua dívida privada duplicou nos últimos 10 anos, atingindo a cifra média de $70.000 por família, enquanto as exportações do país só são mantidas com a queda do dólar no mercado internacional. Japão e Alemanha cresceram à base de créditos artificiais, sem aumento proporcional na produção. Os países sul-americanos não têm conseguido desenvolver a capacidade de concorrência internacional dos tigres asiáticos, mas estes não lhes podem servir de modelo: o Brasil é diferente da Coréia, pois não se encontra na vizinhança de um país desenvolvido como o Japão, a sua população é maior e o seu mercado interno potencial é mais extenso. As teorias da dependência insistiram na concepção de trocas assimétricas e não consideraram suficientemente as contradições e limites do capitalismo, por isso muitos dos seus intelectuais passaram facilmente a defender teses e práticas neoliberais. Há hoje uma barreira para pensar um modelo alternativo ao neoliberalismo vigente, embora sua falha obrigue a isso.

Nenhuma dúvida: a falência econômica do socialismo de Estado estimulou enormemente todas as ilusões do Ocidente sobre si mesmo. A consciência crédula na economia de mercado, pouco menos ideológica que a sua contrapartida falsificada na prática, encara-se como vencedora da história. Parece já ter sido quase esquecido que o neoliberalismo dos anos 80 foi, ele próprio, uma reação às crises econômica e social do Ocidente, que já ameaçam há mais de uma década. A emergencial bandagem em torno da própria testa, que até agora pouco ajudou, é estilizada subitamente como se fosse um brilhante louro da vitória, por ter-se afundado na poeira um outro combatente da história da modernização. Agora, no entanto, o Ocidente e um mundo economicamente ocidentalizado estão sozinhos consigo, e seria adequado recolocar sob o microscópio as receitas do neoliberalismo, bem como a realidade a que se referem.

Que há tempos estamos diante de uma crescente crise econômica mundial, não é negado sequer por muitos neoliberais. Eles fundamentam tal crise, no entanto, não nas contradições do próprio sistema de mercado, mas primeiramente em erros de ordem institucional, econômica e ideológica, que teriam sido cometidos por socialistas, keynesianos etc. A visão de mundo aí subjacente é de uma nobre simploriedade iluminista. O discurso neoliberal pressupõe que todas as economias nacionais poderão prosperar por toda a eternidade dentro do sistema da economia de mercado, bastando seguirem o modelo correto de ordem e desenvolvimento (muitas vezes designado inclusive como natural) de uma economia maximamente privatizada e não-regulamentada, na qual o Estado se restrinja a manter a estabilidade do valor da moeda (política financeira monetarista) e a garantir law and order. Tanto o Ocidente em crise, que teria ficado doente por excesso de intervencionismo estatal, despesas sociais e deficit spending, quanto também as sociedades do Oriente e do Sul, ainda não suficientemente formadas em termos de economia de mercado, precisariam tão somente fazerem as suas tarefas domésticas, em termos de uma política da ordem no sentido dos Chicago-Brothers de Milton Friedman, para que paz e prosperidade passassem a imperar no One World do dinheiro global.

O platonismo modelar dessa ideologia choca-se, no entanto, cada vez mais com as condições sociais e históricas concretas, nas quais devem ser implementadas – de novo ou até pela primeira vez – a concorrência, a privatização e a desregulamentação. Só aparentemente chegam a ter voz essas condições quando, desde há algum tempo, o modelar platonismo da economia de mercado é flanqueado por uma doutrina político-cultural institucionalizada, entre outros fatores devido à teoria de Mancur Olson (1). A teoria olsoniana, inicialmente desenvolvida em função dos problemas da própria economia de mercado ocidental, afirma, em seu cerne, que a consolidação política e cultural de grupos de interesse, os quais bloqueiam inovações e acessos ao mercado, acaba inibindo o crescimento econômico das sociedades. Para os que acreditam na economia de mercado, isso quer dizer que a liberdade precisa ser treinada, que precisa ser desenvolvida uma cultura da concorrência e da responsabilidade pessoal adequada ao mercado. Portanto, essa doutrina à base de modelos, ahistórica e cega diante dos condicionamentos estruturais, é estendida apenas à disposição cultural dos sujeitos e às suas formas de articulação política.

Também para as relações entre as diferentes economias nacionais entre si, o neoliberalismo tem novamente a oferecer a concepção de um modelo teórico e, naturalmente, é claro, uma concepção de livre-comércio. Assim como precisa-se desregulamentar para dentro, também precisa-se para fora. Exige-se a abertura dos mercados (ainda que nem sequer os governos de inspiração neoliberal tenham se atido a isso), e a orientação para a exportação mediante vantagens comparativas recíprocas, o que pretende arrancar até mesmo o antigo Terceiro Mundo do desastre em termos de desenvolvimento. Seremos levados, portanto, para épocas maravilhosas se tudo se comportar assim. Infelizmente, no entanto, os inovadores neoliberais pecam contra o primeiro mandamento de sua própria doutrina, pois mostram-se extraordinariamente sem sucesso. Após menos de uma década, já deixou de brilhar de novo a estrela dos reaganomics e do thatcherismo. Em termos de economia, restou um monte de ruínas. Também no Leste e no Sul as reformas econômicas transcorrem de forma mais que decepcionante. A grosso modo, a pobreza foi drasticamente multiplicada, não reduzida. Não bastando isso, também a crise do Ocidente continua avançando. O que parece estar à porta é menos a recuperação no Oriente do que, antes, a queda no Ocidente. O rei – o sistema de mercado – está nu. Ao invés, porém, de se reconhecer abertamente esse lamentável fato, fica-se cosendo, obsessivamente, em torno de uma mitologia de sucessos, enquanto a economia mundial de mercado, que ficou sem concorrência alguma, vai gerando uma catástrofe após a outra.

Contradições inerentes à sociedade de mercado

A crise que amadurece não é mais qualquer daquelas crises cíclicas, como são conhecidas desde o processo de ascensão e preponderância dos modernos sistemas de mercado, mas uma crise estrutural que vai mais fundo, na qual as contradições intrínsecas à economia de mercado surgem à tona. Esse dilema estrutural, insolúvel em termos de mercado, pode ser descrito em dois níveis. Por um lado, mostra-se uma contradição interna entre racionalização empresarial e poder aquisitivo da sociedade, contradição que é constitutiva para mercados de colocação de produtos. O princípio da concorrência substitui sucessiva mão-de-obra por agregados materiais de origem científica: uma intensificação de capital, a crescer secularmente (isto é, capital cada vez maior em termos de equipamentos para cada lugar de trabalho ou cada mão-de-obra), confronta-se e defronta-se com uma decrescente intensidade de trabalho.

Por outro lado, no entanto, o princípio do salário do trabalho torna não só a capacidade de vida do ser humano, como também a capacidade das empresas em colocarem produtos, dependentes do fato de uma massa suficiente de força de trabalho poder ser vendida e utilizada de modo rentável no nível mais alto de cada padrão.

Esta contradição interna do sistema, há muito já conhecida, foi, no passado, sempre compensada pelo fato de o modo de produção da economia de mercado expandir-se mais rapidamente do que a racionalização empresarial. Em última instância, a contradição interna aflorava brevemente nas crises cíclicas. Desde os anos 80, contudo, essa constelação modificou-se radicalmente. A revolução microeletrônica, com as suas recentes técnicas de robotização e comunicação, possibilitou enorme quantidade de novas concepções de racionalização, tendo sido o miolo da ocupação de mão-de-obra, nos países desenvolvidos, derretido como neve ao sol. Tal processo está longe de ter acabado; sob a rubrica de produção sem adiposidades (concentração do investimento de custos no cerne lucrativo), ele entra atualmente em uma nova fase. Essa concepção comandada pelo computador procura diminuir, com a intensificação crescente do capital, o dispêndio empresarial absoluto de capital, por um lado, mediante diminuição drástica da profundidade no acabamento (repasse de parcela dos processos empresariais a fornecedores e prestadores de serviços, aos quais é repassada também a pressão dos custos e, por outro, emagrecimento das estruturas organizacionais remanescentes, até mesmo na administração, mediante uma liberação de força de trabalho. O núcleo remanescente de empregados precisa, então, aparecer sob alta densidade de trabalho, como seleção olímpica.

No início dos anos 90, os 24 países da OECD contavam com cerca de 30 milhões de desempregados. O desemprego estrutural de base (já independente de ciclos) andou se equilibrando, na Grã-Bretanha e na França, em torno de 3 milhões cada; na Alemanha, em cerca de 2 milhões. Na indústria alemã ocidental, estão previstas mais de 3 milhões de demissões até 1995; no setor de construção de máquinas, por exemplo, o decréscimo de pessoal está avaliado em 200 mil, na industria elétrica em 150 mil, na área da química e da mineração em cerca de 100 mil cada, e, no setor-chave da industria automobilística, em 300 mil postos. Ao mesmo tempo, está-se diante de uma onda de racionalização burocrática. Mesmo os setores até agora menos intensivos em termos de capital passam a ser enxugados através de reestrurações; a política de empréstimos abrange bancos e seguradoras tanto quanto empresas estatais altamente deficitárias, como o transporte ferroviário e os correios. Essa massa monstruosa de força de trabalho posta fora de ação já não pode mais ser – de um modo diferente das etapas anteriores de racionalização – reintegrada economicamente no mercado, pois a ampliação do modo de produção ultrapassou o seu limite de saturação. A incorporação dos setores tradicionais da produção agrícola, manufatura, gêneros alimentícios, pequeno comércio etc., na política de racionalização empresarial, foi concluída nos dois primeiros decênios após a Segunda Guerra Mundial e não mais dispõe de potenciais de reserva (Lutz, 1984). Novos ramos da produção, porém, já passam a integrar-se na intensificação do capital e da racionalização.

Além disso, a contradição inerente à economia de mercado mostra-se na relação de, por um lado, processos de mercado entre pessoas privadas e, por outro, ampliações da infra-estrutura global da sociedade. Mediada pela concorrência, a cientificização da produção levou, por trás das costas da racionalidade empresarial, ao não intencionado efeito colateral de que o contexto das condições infra-estruturais da produção empresarial se expandiu mais rapidamente do que a própria produção. Somente nos anos 40 do século passado é que circulou na Alemanha, entre Nürnberg e Fürth, o primeiro trem; somente na metade do século foi inventada a telecomunicação; apenas por volta da virada do século foi construída a maior parte da canalização nos novos aglomerados urbanos. Uma evolução semelhante ocorreu nas instituições educacionais e científicas, nos setores da saúde, da assistência social, da segurança social etc.

Enquanto a produção empresarial está condicionada ao êxito dos processos de mercado entre pessoas privadas segundo a lei da oferta e da procura, os agregados infra-estruturais, porém, não podem ser levados avante segundo essa lei, ou então só com grande dificuldade, já que, por sua essência, eles são imediatamente de natureza social global e, a rigor, não constituem produção de mercadorias de produtores privados. E praticamente impossível querer organizar de modo cíclico, de acordo com o parâmetro da demanda de valores monetários, a canalização de água e esgoto, o sistema ferroviário, a rede de comunicação, o sistema de saúde ou as escolas e universidades. Por outro lado, a capacidade concorrencial de um país depende cada vez mais da eficiência funcional e do nível desses agregados. Se o contexto das condições infra-estruturais começa a superar a finalidade empresarial a rigor pressuposta, tanto materialmente quanto também no valor, surge um problema que não é mais solucionável em termos de economia de mercado. Nessa contradição é que também andou se arrebentando a demasiado ingênua ideologia anglo-saxônica da privatização dos setores públicos, cuja concretização nos Estados Unidos e Grã-Bretanha, durante a década de 80, conseguiu arruinar grandemente a infra-estrutura e enfraquecer de modo decisivo a posição desses países no mercado mundial.

As duas e interligadas contradições intrínsecas à economia de mercado expressam-se na cada vez maior intensificação de capital nas economias nacionais. A seus fatores pertencem não só os agregados materiais das empresas (parques de máquinas etc.), mas também os investimentos em infra-estrutura material e em capital humano. Este último fator abrange, por exemplo, não só os custos para educação, hospitais, aparelhos sociais etc., mas também os custos de manutenção de cada vez mais gente, que, por uma parcela cada vez maior parte de suas vidas, fica excluída da meta de valorizar-se o capital produtivo. Já que todos esses fatores não se devem à filantropia, mas ao padrão da concorrência mundial, eles também não podem ser impunemente reduzidos (ou mantidos em estado de subdesenvolvimento). Isso quer dizer que os custos prévios em capital financeiro para uma produção rentável crescem incessantemente, tanto na empresa individual quanto na totalidade social: cada vez mais empresas, bem como regiões e países inteiros, não mais saberão como respirar: há de ser gerado um desemprego em massa cada vez maior. A espiral da crise da autocontradição estrutural põe-se a girar.

Os Estados e o sistema financeiro comercial procuram empurrar com a barriga, a crise estrutural da economia de mercado, ao criarem um capital financeiro fictício, que não tem mais base em processos de geração de valor no capital produtivo. Isso é feito através dos mecanismos de crédito e através da especulação. O Estado suga dinheiro de poupanças através de empréstimos voluntários e compulsórios, que em parte não honra mais, ou deixa evaporar (zerando a dívida mediante perdas na moeda) ou financia-se diretamente através da impressora de notas de dinheiro. Os bancos financeiros jogam liquidez na sociedade, à medida que abrem as comportas da criação de dinheiro no sistema bancário (queda da taxa de juros para empréstimos, desregulamentação dos mecanismos de controle, como, por exemplo, reservas cambiais mínimas etc.). Daí as empresas, bem como as pessoas físicas, já não investem de modo rentável os lucros disponíveis na especulação em ações ou imóveis: assim que esta se encontra outra vez aquecida, conduz a monstruosas valorizações fictícias e transforma-se em incontrolável máquina de gerar dinheiro. Todos esses mecanismos, na década de 80, foram forçados pelo mundo inteiro em escalas diferentes, tendo encenado um boom aparente e improdutivo. A outra face do desemprego estrutural em massa, ou seja, o encolhimento dos mercados de colocação de produtos, fica escamoteado através de um poder de compra improdutivo, criado artificialmente. Sobre isso é que repousava não só o boom do luxo dos anos 80, e com ele toda a conecta e leviana ideologia yuppie, mas também o crescimento generalizado do consumo governamental, a aparente capacidade de investimento de muitos empresários e uma grande parte dos rendimentos. Segundo estimativas, somente na Alemanha Federal devem existir, além do desemprego subvencionado, mais de 5 milhões de empregos irregulares (mantidos indiretamente e, a rigor, já não mais rentáveis), que dependem de subvenções da produção (por exemplo, da Comunidade Européia) ou não mais correspondem ao último padrão de racionalização.

A crise da reacumulação, jogada mais adiante e, a rigor, ameaçando desde o final da década de 70, mostra-se já nos sistemas financeiros nacionais e internacionais (2). O improdutivo processo de criação de dinheiro leva a desvalorização da moeda em parte até à hiperinflação periódica. A explosão da bolha da especulação, que em sua fase tardia ainda se alimenta apenas de crédito, conduz a ondas de bancarrotas e a enormes amortizações. Não só nos dois crashes na bolsa, de 1987 e de 1989, os bancos de títulos tiveram de inventar desesperadamente liquidez, gastando toda a sua pólvora. As crises da dívida, interna e externa, dos Estados estão amadurecendo. Desde meados dos anos 80, ouvem-se os seus estalos nos sistemas bancários nacionais e internacionais na Escandinávia, no sul da Europa e na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Japão, na América-Latina e no Oriente Próximo. Torna-se necessária uma ação emergencial e de sustentação após a outra. A crise financeira do pseudo-crescimento à base de endividamento rebate, desde 1991, diretamente na conjuntura mundial e, com isso, na ocupação mundial de mão-de-obra. O movimento cíclico repercute negativamente, e muitas vezes reforçado por ressonância: limitação estruturai do sistema de mercado, retração periódica e crise financeira da endividada liquidez aparente conjuminam-se na direção de uma crise global. Uma maré mundial de retrações de encomendas, estornos, drásticas perdas de lucros e paralisações de atividades ameaça agudizar-se no sentido de uma depressão generalizada, em que a olho nenhum hão de ser poupadas as lágrimas.

História do mercado mundial e intermediação no mercado mundial

O problema fundamental da crise é, por certo, moderado através da intermediação no mercado mundial. Justamente nesse nível é que o neoliberal platonismo de modelos passa mais vergonha. Todas as sociedades hodiernas, sem exceção, são compatíveis com o mercado mundial, e isso significa que cada vez menos a sua graça e a sua desgraça são determinadas somente por mecanismos internos de regulamentação de ordem política. A crescente influência do mercado mundial sobre a produção social interna pode ser, a grosso modo, exposta em três fases:

     

1ª fase: da época dos descobrimentos e da primeira colonização até a metade do século XIX, destacaram-se inicialmente, tendo a Inglaterra como ponta de lança, algumas poucas economias nacionais do Ocidente. Nelas, o modo de produção para o mercado não havia, nem de longe, conseguido impor-se plenamente, de maneira que as crises ainda não podiam repercutir no modo de reprodução da sociedade toda, que continuava grandemente determinado pelo caráter agrário e de subsistência. Proporcionalmente estreita era a rede mundial de mercados, ainda muito marcada pelo caráter colonial.

2ª fase: da era dos pais da pátria até o final da Segunda Guerra Mundial, ou até o final dos anos 60, surgiu uma série de novas economias nacionais. Aos poucos, inclusive, o mundo foi significativamente descolonizado, e o modo de produção da economia de mercado expandiu-se para a totalidade da produção interna das sociedades. As crises atingiram, por isso, massas populacionais muito maiores que antes, como o demonstrou sobretudo a depressão mundial de 1929-33. Adensa-se a interligação mundial dos mercados. O mercado internacional continuou sendo, porém, um espaço funcional secundário, enquanto o peso principal das relações econômicas concentrava-se nos mercados nacionais internos.

3ª fase: da pax americana do pós-guerra até o final do século XX, o modo de produção para o mercado passou a romper o âmbito das economias nacionais, para gerar toda uma rede internacional dos mercados. Esse processo ainda está em andamento e transcorre diante dos nossos olhos. Os mercados internos a olhos vistos perdem o seu caráter relativamente fechado, o mercado mundial ou grandes mercados regionais de caráter mundial tornam-se o espaço funcional imediato de um número cada vez maior de sujeitos econômicos. Mesmo as maiores economias internas estão cada vez mais sujeitas a tal modificação: até na economia dos Estados Unidos, tradicionalmente orientada para dentro de si própria, duplicou, só entre 1965 e 1980, a participação do comércio exterior no produto interno bruto. Com isso, porém, a crise também ameaça transformar-se em crise global e geral, em que já não poderá mais ser superada a limitação estrutural da contradição intrínseca à economia de mercado.

     

Do ponto de vista do mercado, portanto, não se trata apenas de um princípio estrutural ou de ordenamento, mas simultaneamente de um processo de globalização. A escala crescente na formação da rede mundial da economia de mercado foi tornada possível desde o surgimento das linhas regulares dos grandes vapores e a criação das ligações telegráficas, através do progresso na técnica de transportes e comunicação. Na primeira fase, expandiu-se apenas o comércio mundial. Na segunda, acresceu-se a exportação extensiva de capital, isto é, setores inteiros de produção foram instalados em outros países como capital, forçando a expansão do modo de produção para o mercado. Na terceira fase, a exportação intensiva de capital, ou seja, a divisão internacional de processos de produção, arrebentou definitivamente a cápsula das economias internas. A isso corresponde, desde os anos 70, a formação de mercados financeiros internacionalizados (mercados monetários europeus), que acabaram ficando fora do controle dos sistemas nacionais.

Na história do mercado internacional, trata-se, portanto, de etapas de desenvolvimento na geração do capital mundial imediato. Isso significa, porém, que se vai superando a coexistência, até agora vigente, de diversas fases de evolução não-sincrônicas e, com isso, a existência simultânea de diferentes níveis de produtividade e rentabilidade. Constitui-se um padrão internacional, que passa a ser concretizado nos mercados financeiros globalizados através de terms of trade (relação de preços de importação e exportação) e das taxas de juros. Isso significa o fim para os retardatários históricos, porque eles já não podem mais financiar a maior parte dos custos de capital no padrão exigido pela intensificação de capital nos planos empresarial e infra-estrutural. Por isso, eles são os primeiros a serem jogados na crise pela contradição estrutural inerente ao modo de produção para o mercado. Os êxitos temporários da industrialização recuperativa, que somente foram possíveis em espaços econômicos internos relativamente compartimentados, acabam, no Contexto da globalização, sendo tornados em grande parte novamente retroativos, sendo os antigos países em desenvolvimento os primeiros a perderem o acesso ao sistema de crédito internacional.

A teoria tem se recusado até agora a refletir adequadamente essa correlação. Já que o discurso neoliberal não reconhece um entrave crítico no sistema de mercado, nem leva suficientemente em conta as mediações concretas no processo de mercado mundial (e suas conseqüências negativas), ele naturalmente não pode também levar a sério a questão do perdedor. O problema do perdedor aparece como sendo apenas relativo, isto é, no sentido de Schumpeter (1912, 1950, 1951), como destruição produtiva de setores que se tornaram sem rentabilidade e que podem ser, em todo caso, substituídos por novos procedimentos, produções e empresas, de maneira que, diz-se, a economia como um todo acaba sendo inclusive até estimulada em sua prosperidade.

Se, no entanto, o capital mundial, assim que ele se constituiu, choca-se com a barreira estrutural da contradição interna da economia de mercado (e isso através das mesmas forças produtivas que o criaram), surge então uma nova reciprocidade entre ganhadores e perdedores. O estatuto de perdedor assume agora um caráter absoluto. Já que na escala global os efeitos da racionalização empresarial vão além da ampliação do modo de produção para o mercado, um estatuto de ganhador somente é ainda possível pelo fato de, em algum outro lugar, alguém ser absolutamente aniquilado. A relação entre ganhadores e perdedores, portanto, não intermedia mais a reestratificação de capital em procedimentos mais produtivos e setores mais modernos, mas torna efetiva a barreira estrutural de crise de todo o capital global mediante a absoluta eliminação de capital, o que conduz à falência de países e continentes inteiros. Trata-se de um efeito-dominó, que começa nos retardatários históricos mais fracos em termos de capital e termina nas economias ocidentais mais fortes em termos de capital, de maneira que a crise acaba sendo, por fim, sincronizada mundialmente apenas após uma fase mais longa de incubação e evolução.

Teoria do desenvolvimento e teoria da crise

A fraqueza do neoliberalismo parece acabar sendo também a dos seus adversários da esquerda keynesiana e da socialista. Em última instância, isso não reside no fato de teoria do desenvolvimento e teoria da crise das esquerdas terem cristalizado em grande parte discursos separados (3). Enquanto as teorias da crise referem-se sobretudo aos conjuntos funcionais abstratos do capital em geral, continuando a posição axiológica fundamental da intermediação no mercado mundial a ser, apesar das análises empíricas de detalhes, um black box teórico, não se deve, portanto, referir mais a uma limitação histórica absoluta da contradição intrínseca à economia de mercado (4). Enquanto ela nem sequer deve ser mais apontada, as teorias do desenvolvimento buscam um modelo correto para a modernização e a industrialização das economias nacionais. Essas teorias, sobretudo os diferentes ramos das teorias da dependência nos anos 60 e 70, foram elas próprias formuladas no horizonte da problemática da recuperação do atraso histórico e, nessa medida, dentro do horizonte da ascensão histórica do modo de produção da economia de mercado. Elas limitam-se geralmente a deduzir o subdesenvolvimento a partir de, em última instância, determinadas relações de dependência de natureza política e neocolonial (preços injustos, monopolismo, pressões militares, instalação de regimes dóceis etc.). Mesmo análises puramente econômicas têm sido, sobretudo, assim, fundamentadas menos no plano teórico sistemático do que, muito mais, no plano teórico subjetivo e da dominação (em termos de política nacional ou sociologia de classe).

Essa politização comporta-se – numa ironia involuntária – como um espelho do platonismo de modelos conforme a ordem política do discurso neoliberal hodierno, talvez não tendo sido, por isso, tão difícil para muito teórico a passagem para a outra margem ideológica. Desde as bancarrotas do socialismo de Estado e da antiga estratégia de uma política de substituição de importações flanqueada pela economia estatal (sobretudo a Escola da CEPAL na América Latina), até mesmo antigos teóricos do desenvolvimento, que eram críticos do capitalismo, acabaram se abrindo para o neoliberalismo: na verdade, menos com relação ao papel do Estado, e mais no sentido de uma maciça integração no mercado mundial e de um voltar-se para a exportação, tomando por modelo, através de analogismos históricos, a história do desenvolvimento europeu do século XIX, num conformismo com a economia de mercado, sem se voltarem de modo adequado, enquanto sistema de referência, para o processo de globalização, ora já irreversivelmente desenvolvido (5).

Isso fizeram, pelo contrário – ao menos em parte e da boca para fora -, algumas das teorias críticas da dependência, com o conceito central de sistema mundial (6). Mesmo assim, também esses prolegômenos ficaram na tematização de uma troca desigual, assimétrica entre centros e periferia para derivar daí uma transferência de valores, supostamente irregular ou ilegítima, do Terceiro Mundo para as metrópoles. Também essas primeiras tentativas de uma teoria de um sistema mundial (não por acaso antes historicamente orientadas), por conseguinte, ainda são formuladas a partir de uma perspectiva de um desenvolvimento a ser recuperado, sem conseguirem integrar a questão de um limite crítico do sistema como um todo: elas permanecem fixadas univocamente na contradição entre desenvolvimento e subdesenvolvimento (Norte e Sul), dentro do horizonte de uma socialização pelo mercado, de maneira que as contradições intrínsecas ao sistema de mercado em sua base produtiva aparecem somente na forma superficial de um modelo global de circulação. A questão dos recentes países em desenvolvimento, um penhor do discurso neoliberal, só vem sendo assumida com dificuldade, através do superficial conceito de países semiperiféricos (com o qual seus adversários também se banquetearam a valer), pelas teorias críticas de um sistema mundial até agora existentes.

Em tudo isso, em primeira linha, não se trata por certo de fraquezas teóricas subjetivas, mas sobretudo de, como que debaixo dos olhos do observador científico, ter-se alterado o sistema global de referência. O denominador-comum entre neoliberais e teóricos da dependência, de referirem-se igualmente à segunda fase da concluinte redeficação mundial em termos de economia de mercado, enquanto a terceira fase do capital mundial imediato somente veio plenamente à luz na década de 80, determinando hoje o processo, preparando-se, entrementes, para provocar uma nova qualidade de crise, no processo sistemático de globalização. Torna-se necessário, portanto, um novo modo de abordagem, que pense simultaneamente, num metanível, a teoria do desenvolvimento e a teoria da crise. Aí, o conceito de sistema mundial precisa ser repensado de modo mais profundo, não mais apenas enquanto modelo de circulação na economia de mercado – como era adequado à fase das economias nacionais ligadas principalmente por comércio e exportação simples de capital -, mas enquanto modelo de crise do capital produtivo transnacional, em que as contradições imanentes a esse modo de produção e sua temporária suspensão através da criação não-produtiva de dinheiro reaparecem agora em nível mais global.

As perfídias do salário barato e da orientação para a exportação

No séquito dos pioneiros do pensamento neoliberal, de um modo quase unânime, é então recomendado, para as até agora economias de crise e bancarrota, uma urgente abertura para o mercado mundial: elas deveriam procurar nichos globais para si, a fim de, mediante especialização seletiva, encaminharem um desenvolvimento induzido pela exportação e, daí, um milagre econômico. Explícita ou implicitamente, está por trás disso o conceito de salário barato, com o qual devem ser estimuladas as ofensivas de exportação dos países em desenvolvimento ou em crise, cuja fraqueza de capital procura-se fazer de conta que não existe. Ora, o salário barato, ou melhor, o salário de fome, não é naturalmente nada de novo. Já a industrialização européia deu sua partida com o motor da acumulação, uma concepção que hoje é envergonhadamente favorizada, ou ao menos embelezada, até por ex-esquerdistas teóricos do desenvolvimentismo. Mas essa história não se deixa repetir, já que a intensidade do capital de produção rentável e a racionalização empresarial têm se desenvolvido continuamente desde então, ampliadas e intensificadas até o padrão mundial contemporâneo. O salário barato torna-se necessariamente um modelo em extinção. Nisso, em última instância, é que andaram fracassando também as tentativas até hoje feitas de recuperar o desenvolvimento perdido no século XX, o socialismo de Estado e os regimes de modernização no Sul, que só conseguem suster-se por algum tempo mediante salários baixos e jornadas longas de trabalho. Subjacente a isso estavam doutrinas do isolamento com relação ao mercado internacional, substituição de importações e políticas de desenvolvimento autocêntricas. Mas por que deve, afinal, o mesmo fato do salário barato, ligado agora à doutrina de orientação para a exportação, levar a melhores resultados se a concorrência global, ao mesmo tempo, leva adiante a racionalização de intensificar o capital?

A prova disso forneceram supostamente o Japão e os tigres asiáticos, que vêm sendo elogiados até não mais poder como novos modelos de sucesso. Na boca dos neoliberais, esse elogio soa bastante estranho, pois tanto o Japão como também os outros newcomers do leste asiático trabalharam desde o começo com fortes elementos de dirigismo estatal, com planejamento, subvenções etc., e continuam assim procedendo até hoje. Inclusive a própria story do sucesso precisa ser posta em duvida. Por razões históricas, o mito do Japão não cabe como comparação, pois a industrialização japonesa começou quase ao mesmo tempo que a alemã, em pleno século XIX, o que ainda possibilitou buscar uma recuperação. Depois da Revolução de 1867, já na seguinte Era Meiji passou a ocorrer uma rápida modernização e industrialização. Sem base industrial, o Japão não teria podido vencer a guerra contra a Rússia em 1905 nem atacar os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Portanto, o Japão dificilmente pode servir como mensuração para um desenvolvimento recuperativo exitoso sob as condições bem diversas do final do século XX.

Apesar desse ponto de partida historicamente muito melhor, até mesmo o Japão precisa ainda hoje produzir com elementos de salário vil. Nessa medida, o êxito japonês repousa sobre pés de barro. Segundo um estudo da Câmara Alemã de Indústria e Comércio (DHIT), de janeiro de 1993, a produtividade técnica no Japão está em parte até hoje, na média dos setores e das empresas, significativamente abaixo da alemã. As vantagens japonesas em termos de custo repousam, por um lado, nas jornadas de trabalho extremamente longas; por outro lado, o grau de automação altamente intensivo em termos de capital na fase final da montagem dentro das grandes empresas japonesas leva a não perceber, contudo, que estas sugam os seus fornecedores até a última gota, uma tendência que, entrementes, pode ser observada também na Europa, onde ela está longe, porém, de alcançar as circunstâncias japonesas. O sistema Shitauke de empresas fornecedoras dependentes, que é característico para a indústria de exportação japonesa, não só funciona à base do paternalismo, como também é muito mais profundamente escalonado que na Alemanha ou nos Estados Unidos: nos níveis de ordenação em forma de pirâmide, milhões de trabalhadores, mal pagos e quase sem direitos, produzem partes de automóveis e de aparelhos eletrônicos sob condições não raramente pré-diluvianas. Assim, também a dependência exportadora da economia japonesa é expressa de modo insuficiente pela quota de exportação nominal. Como a geração de valor no produto final é medida segundo critérios do mercado mundial, capta-se de maneira incompleta o processo japonês interno de formação de valor, que contém grandes massas de trabalho subprodutivo, especialmente nos subsistemas de fornecedores voltados para a exportação. Trabalham, portanto, muito mais pessoas para a exportação do que a quota de exportação permite supor. Essa correlação pode ser também medida pelo fato de o nível interno de preços e o nível externo divergirem entre si: os produtos japoneses são bem mais baratos no mercado internacional do que no próprio mercado interno.

Ao mesmo tempo, isso significa que o Japão concorre, ao menos em parte, com elementos que fazem lembrar, de modo suspeito, as condições existentes nas atuais economias em bancarrota, embora repouse numa organização especialmente refinada na combinação com elementos de high-tech. Enquanto a depravação social no Ocidente decorre do desemprego estrutural, no Japão ela ainda é um componente estrutural arcaico da própria organização do trabalho. A concepção japonesa primeva de produção enxuta funciona, por trás da fachada da alta automatização, principalmente por meio do dumping social na fase de pré-acabamento. Os imitadores ocidentais parecem não notar que seguem aí um modelo em extinção, que sob essa forma não é mais socialmente concretizável na Europa. A reação ocidental somente pode ser, a longo prazo, uma concentração de capital e uma racionalização à base de intensificação de capital nas indústrias fornecedoras, o que não somente há de continuar elevando o desemprego estrutural na Europa e na América do Norte, como também ameaça aniquilar a vantagem japonesa nos custos a partir de sua combinação de high-tech à base de intensa ciência mais capital na fase final de montagem. Exatamente nessa perspectiva é que o Japão se debate hoje com os limites do seu modelo.

A conseqüência não foi nem é a superação da estrutura do salário barato, o que significaria renunciar à vantagem nos custos, mas a sua transferência para um território estrangeiro vizinho. Ao menos em parte, o ponto de partida para a industrialização na Coréia do Sul proveio desse problema de exportação dos japoneses, que ainda hoje são os principais fornecedores de bens de investimento e componentes para a aquele país, ocupando parte da indústria nos tigres asiáticos através do achatamento salarial. A Coréia do Sul, portanto, precisa depender, bem mais que o Japão, da vantagem nos custos decorrente do salário barato.

Através da pressão da concorrência no mercado mundial, inclusive para a Coréia do Sul, coloca-se, porém, cada vez mais o caráter precário dessa vantagem nos custos, uma vez que movimentos sindicais e reivindicações sociais passam também a exercer pressão desde dentro. O resultado, no entanto, não é um desenvolvimento direto na direção do estado social fordístico, como na Europa. É verdade que o nível salarial avançou com a maior taxa de crescimento de toda a Ásia: só entre 1986 e 1989, a remuneração média por hora de trabalho cresceu em 28%. Justamente por isso, no entanto, a indústria sul-coreana precisa, por um lado, introduzir ela mesma processos de automatização com capital intensivo, mas, por outro, desviar-se para países vizinhos de salário baixo, como Vietnã, Tailândia e República Popular da China. A ocupação industrial em massa na Coréia do Sul, portanto, não foi de maneira alguma exitosa: o país ainda se dicotomiza em segmentos empregados pela indústria exportadora e em populações pobres. Apesar de alguns empreendimentos, também a infra-estrutura continua insuficiente (assim, por exemplo, apenas 28% das residências estão ligadas à canalização).

Todo esse discurso em torno de uma já exitosa luta pela recuperação do atraso histórico em forma dos assim chamados NIEs ou NICs (New Industrialized Economies/Countries), cujo modelo querem que seja a Coréia do Sul, tem de ser considerada apressada e superficial. Apesar das altas taxas de crescimento, o produto social bruto sul-coreano per capita, no início da década de 90, não está mais elevado que o de Portugal, mas encontra-se abaixo inclusive do da Grécia (dois países periféricos tradicionalmente de estrutura fraca e ainda fortemente marcados pelo setor agrário): alcança apenas cerca da metade do PIB iraquiano, espanhol ou israelita, raspa um quarto do norte-americano ou alemão e somente um quinto do japonês (sendo este último certamente manipulado através da estrutura de preços) (Banco Mundial, 1992). Já que grande parte do PIB decorre de uma industrialização exportadora feita à base de salário baixo, ele não pode sequer valer como indicador para o poder interno de compra em massa, que, apesar das elevações salariais, ainda se encontra muito baixo. Assim, uma reorientação para uma demanda interna fortalecida" somente seria possível com grandes dificuldades na Coréia do Sul, estando a economia sul-coreana ainda em fase de desenvolvimento induzido pela exportação e, por exemplo, as grandes elevações de salário nos últimos anos não trazerem aquele impulso na demanda interna que possa compensar perdas na exportação" (Pohl, 1991). Essas observações não são, de maneira alguma, maldosas, unfair, pois, sob o ditado da globalização, a escala de mensuração não pode mais ser um pretérito estágio de desenvolvimento da Europa, mas tão somente o contemporâneo, do capital mundial, que está se constituindo de um modo imediato.

Tudo isso vale em ainda maior proporção para os grandes Estados do ASEAN (Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas) e para a República Popular da China. Nas famosas zonas de economia especial da província costeira no sul chinês, Guandong (Chenzhen, entre outras), não parece haver maciça capacidade aquisitiva, quando as forças de trabalho de lá são descritas por neoliberais ocidentais com esperançoso júbilo: "Trabalham nove horas por dia, seis dias por semana e têm duas semanas de férias por ano. Passam a noite em dormitórios, oito em cada quarto, dois beliches na parede esquerda e outros dois na direita, com um baú para os objetos pessoais, e o rolo individual de papel higiênico ao lado do travesseiro. Eles fazem caixas e pulseiras de relógio para um fabricante de relógios de Hong-Kong, por um fração dos custos na colônia da Coroa" (Afheldt, 1993).

O século pacífico não acontece

O reduzido poder de compra interno dos NIEs, que, ao mesmo tempo, representa a principal base do êxito em sua exportação, exclui a longo prazo uma capacidade maior de importação. À primeira vista, essa constatação pode ser contradita pelo fato de a Coréia do Sul e a maioria dos países do sudoeste asiático recaírem sempre em balanços comerciais deficitários. Tais deficits, no entanto, resultam primeiro exclusivamente do intercâmbio com o Japão; segundo, comportam quase tão-somente a importação de bens estratégicos de investimento e de componentes para a respectiva indústria de exportação, porém pouco do largo espectro de bens de consumo duráveis (automóveis, aparelhos domésticos e de diversão), bens de consumo imediato etc. Os valores exportados, portanto, em grande parte são constituídos por máquinas importadas e produtos semi-acabados (extremada é essa relação, por exemplo, na Indonésia, onde, em 1990, três quartos dos valores exportados resultavam de valores importados). Assim, também a Ásia oriental não há de se transformar no esperado novo mercado de colocação de bens de consumo em massa para o Ocidente, a América Latina ou a Europa oriental. Pelo contrário, a orientação estruturalmente unilateral no sentido da exportação conduz a uma concorrência repressiva nos mercados internacionais. Portanto, a maré de exportações do oriente asiático para a Europa ocidental quase arruinou a indústria de mineração e a construção de navios, a indústria têxtil e a de calçados. Também os produtores europeus orientais foram arrasados pela concorrência em muitos setores, até mesmo na indústria-chave da construção de máquinas. Em última instância, não resulta disso a bancarrota do socialismo de Estado. A República Democrática Alemã, na década de 80, perdeu para os concorrentes asiáticos a sua tradicionalmente elevada participação em máquinas ferramenteiras, um fator essencial para o colapso do seu comércio exterior. Tanto mais difícil se torna descobrir onde os reformistas da Europa oriental vão buscar o seu otimismo em termos de economia de mercado: a quem querem eles, afinal, arrasar através da concorrência, e com que meios?

O crescimento unilateral da exportação dos newcomers asiáticos orientais, no entanto, repousa sobre pernas minguadas demais. A força somente é ostentada na aparência que, todavia, se deixa, afinal, desmascarar como fraqueza. Uma força saudável no sentido capitalista só pode ser alcançada, a longo prazo, mediante crescimento, no qual forças internas e externas se equilibram. Capacidade exportativa deve poder aparecer como capacidade importativa, portanto, devendo repousar numa relação comparativa recíproca. O baixo salário no contexto de uma estrutura exportativa unilateral não é vantagem comparativa alguma, mas um abuso com relação à respectiva teoria. A longo prazo, tal vantagem a curto prazo acaba conduzindo à eclosão de crises estruturais. Isso não é percebido pela maioria dos analistas, que, com arrogância positivista, apenas levam em conta em seus cálculos taxas de crescimento nominais das economias nacionais, sem se preocuparem muito com a conexão estrutural no sistema internacional. Encarada deste ângulo, a muito citada prognose de um século de paz aparece apenas como uma super bolha de sabão, pois a base do milagre asiático oriental revela-se, pelas razões citadas, insustentável em três níveis.

Primeiro, ela é estruturalmente dependente da vantagem nos custos decorrente do salário baixo, o que não consegue, no entanto, ser socialmente mantido nem consegue concorrer, mesmo a médio prazo, com a cientificização intensificadora de capital. O rápido movimento em dominó, do Japão para a Coréia do Sul e para os outros tigres asiáticos, daí para os grandes Estados do ASEAN e para o continente chinês, aponta já para a crise e o término desse modelo. Uma sistematização fordística, de estruturas sociais diferenciadas de reprodução, capaz de perdurar a longo prazo, não se consegue, porém, concretizar desse modo (7). Abandonar a estrutura do salário baixo, porém, seria fazer arrebentar a bolha de sabão.

Segundo, a orientação exportadora dependente de salário baixo move-se dentro de um círculo deficitário intra-asiático: todos os newcomers acumulam déficits com relação ao Japão, tanto nos balanços comerciais quanto nos balanços de capital, que não decorrem, no entanto, de importações para consumo em massa, mas da importação de bens de capital. Isso significa que, ao mesmo tempo, os setores centrais da indústria japonesa, na área automobilística, eletrônica e ótica, não podem desviar-se em larga escala para os mercados asiáticos, erigindo neles um império mercantil auto-sustentável. O boom do leste asiático, em última instância, não é senão o precário prolongamento da unilateral (e, por isso, altamente vulnerável) ânsia exportatória japonesa.

Terceiro, o aparente milagre da Ásia oriental como um todo (isto é, com a inclusão do Japão) mostra ser – para o bem e para o mal – dependente de fluxos unilaterais de exportação para os Estados Unidos e a Europa ocidental. Já que essa relação não repousa em uma parceria equitativa, ela não pode ser mantida através de capacidade aquisitiva norte-americana e européia regular, mas tão-somente através de um metacircuito deficitário global (sobretudo pelo Pacífico), cuja potência direta e indireta provém dos excessos de endividamento e das bolhas de especulação. O orçamento mundial da Sony, por exemplo, provém só em 28% do mercado pátrio japonês, enquanto 29% dele é oriundo dos Estados Unidos, 28% da Europa e 15% de outras exportações. A quebra estrutural, já às vésperas do pretenso século pacífico, pode ser lida sobretudo na estrutura do comércio externo dos Estados Unidos. Em 1987, a exportação dos Estados Unidos para a Europa e para a Ásia oriental era mais ou menos a mesma, cada uma com quase 30%; a isso correspondiam bastante as importações da Europa (até com um leve superávit para os Estados Unidos), enquanto as importações norte-americanas da Ásia oriental ascendiam a mais de 40% (e, entrementes, a quase a metade). A distribuição das exportações dos Estados Unidos para a Europa e para a Ásia oriental tem se mantido constante desde 1975, tendo inclusive caído levemente com relação ao oriente asiático, enquanto a participação das importações norte-americanas da Ásia oriental explodiu ascensionalmente, entre 1975 e 1987, de 29% para mais de 40% (8). Mais de dois terços do déficit comercial norte-americano, acumulado em dimensões jamais antes vistas, provém somente do comércio com o Japão e com os quatro pequenos tigres asiáticos. A contradição interna do sistema de mercado, portanto, não é desmentida pelo notável êxito da Ásia oriental, mas apenas repassado adiante através de diversas e complicadas intermediações. No fim, porém, essa contradição intrínseca deve reaparecer no metanível das mediações globais, soprando a vela vital dos êxitos aparentes.

Nenhum plano para grandes territórios e maiorias

A crise do modelo neoliberal desregulado pela orientação para as exportações não é mais nenhuma prognose teórica, mas já se mostra agora na prática para a maior parte do mundo. As falsas esperanças voltavam-se desde o início para os sucessos aparentes de alguns casos excepcionais, em países pequenos, com população relativamente reduzida, enquanto as grandes regiões globais dos antigos Segundo e Terceiro Mundos não eram nem são, evidentemente, reprodutíveis por meio da orientação para a exportação. Isso também é fácil de explicar. Somente países pequenos ou com população relativamente pouco expressiva podem especializar-se em nichos de exportação para o mercado mundial. Para os colossos populacionais, tal opção equivaleria, porém, à tentativa de enfiar um dinossauro na toca de um camundongo.

Na América Latina, estreito como uma toalha de mão, o Chile, que com seus 13 milhões de habitantes mal chega à população da Baviera, é considerado o grande modelo de sucesso; seguido da Argentina, aparentemente em recuperação, com seus 32 milhões de habitantes, enquanto o colosso brasileiro, que preenche a maior parte do continente e conta com uma população de 150 milhões, não consegue, ao que parece, sustentar-se sobre as próprias pernas em termos de economia de mercado. Isso não deriva somente da falta de vontade política de fazer reformas, mas também do fato de as reformas neoliberais nem sequer conseguirem alcançar estruturalmente os grandes territórios. O Brasil tem, sim, êxitos em termos de exportação, mas os problemas estruturais do país não conseguem ser resolvidos assim. A má correlação entre uma população reproduzida através da relação com o mercado mundial e aqueles que são excluídos dele fere mais à vista no caso de uma população de 150 milhões do que no de 10 a 30 milhões.

Muito semelhante é a situação na Europa do Leste. Enquanto as esperanças e os êxitos parciais, badalados a não mais poder, se limitam somente à Hungria (10 milhões de habitantes), à Tchecoslováquia, entrementes dividida em duas (15,6 milhões de habitantes, dos quais 10,3 milhões na República Tcheca), e à Polônia (38 milhões de habitantes), a grande massa territorial e populacional eurasiática (Bálcãs, Rumênia, Bulgária, Rússia e inclusive a sua parte asiática), com centenas de milhões de pessoas, mergulha no caos e na guerra civil: também aí os experimentos neoliberais acabam num vazio.

Mesmo na Ásia pode-se constatar idêntico problema. Segundo um relatório amargamente irônico do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), sediado em Manila, a Ásia ainda continua sendo – apesar de ter, em parte, elevadas taxas de crescimento -, com 700 milhões de pessoas abaixo do limite da pobreza, o maior asilo de mendigos do planeta, e continuará sendo assim até a virada do século. Também aí os mais importantes dos recentes modelos de êxito têm um formato liliputeano. Dos quatro famosos tigres asiáticos, Hong-Kong e Cingapura são cidades-estados, que, com 5,9 milhões de habitantes (Hong-Kong) e 2,7 milhões (Cingapura), não alcançam sequer a dimensão populacional da Baixa-Saxônia ou de Hessen; Taiwan é uma ilha com 20 milhões de habitantes; a Coréia do Sul, uma península com 42 milhões. Já o maior dos países do ASEAN distancia-se disso sem a menor esperança, apesar das elevadas taxas de crescimento: na Indonésia (180 milhões de habitantes), o produto interno bruto jaz, no início dos anos 90, muito abaixo do de Marrocos e da Namíbia. Fora de qualquer capacidade de desenvolvimento, em termos de economia de mercado, parece encontrar-se Bangladesh (107 milhões de habitantes). Na índia (850 milhões de habitantes), as tentativas de reforma neoliberais ameaçam fracassar. Os prolegômenos a uma abertura de mercados acabaram arruinando boa parte da classe média por meio de importações baratas, levando, por exemplo, a indústria têxtil à ruína econômica. O enorme reino começa a perder sangue em guerras civis e doutrinas fundamentalistas, que são alimentadas pela miséria crescente, ainda que não sejam determinadas exclusivamente por fatores econômicos.

Mesmo o maior colosso da Ásia, a República Popular da China, com 1,2 bilhões de habitantes, apesar das altas taxas de crescimento e dos recentes êxitos em termos de exportação, não pode ser computada entre os modelos asiáticos de sucesso, embora os ideólogos neoliberais tratem de embolsar enganosamente isso, por causa das reformas de Deng no sentido da economia de mercado. Em 1990, o PIB per capita, ainda estava um terço abaixo do da Indonésia (que é quase igual ao da índia). Apesar dos elogiados êxitos na exportação, o volume absoluto de exportação da comparativamente ínfima Ilha de Taiwan (Formosa) ainda continua sendo maior que o da República Popular da China inteira. Mais de 60% da população chinesa com poder aquisitivo está sendo empregada de modo subprodutivo em atividades agrárias; uma elevação da produtividade agrária, de maneira a poupar trabalho através da maior utilização de capital tecnológico, acabaria levando (sem considerar aí os custos de capital) a uma explosão do índice de desemprego, já que o setor industrial não tem capacidade equivalente de absorver mão-de-obra.

E mesmo dentro da própria indústria, as reformas realmente profundas em termos de economia de mercado limitam-se, por necessidade, ao sul da China, e lá sobretudo às zonas de economia especial, como Chenzhen. O ceticismo de Erwin Wickert (1982), o antigo embaixador alemão em Pekín, precisa ser, portanto, compartilhado: "Sim, de fato, o setor livre se expande, mas não se deixam privatizar as grandes indústrias, com dezenas de milhares de trabalhadores, que continuam, como antes, produzindo com alto déficit mercadorias freqüentemente não comercializáveis… Elas são mantidas somente mediante subvenções, e para isso são jogados fora 40% do orçamento geral da República Popular da China. Elas não podem ser fechadas, pois a manutenção dos desempregados seria igualmente dispendiosa". Se chegar a tanto, orientada para a exportação em termos de economia de mercado, a reforma pode integrar talvez 50 a 100 milhões de pessoas no sul da China, enquanto mais de um bilhão de chineses nem sequer são atingíveis por esse projeto. O imenso espaço econômico da República Popular da China encontra-se, assim, antes numa transição para a desestabilização do que para o milagre econômico. Conhecedores da história chinesa consideram possível até mesmo secessões e uma sangrenta guerra civil, em cujo vórtice poderão ser arrastados, então, também Hong-Kong (que, como se sabe, há de perder ainda na década de 90 o seu estatuto de colônia da coroa britânica, vindo a ser incorporada à República Popular da China) e Taiwan.

Atrás dos bastidores dos modelos de esperança

De uma perspectiva realista e tomados em sua grandeza real absoluta, os modelos de sucesso e esperança discutidos pelo neoiiberalismo, na melhor das hipóteses, podem ser caracterizados, portanto, como pequenas existências em nichos, e mesmo estes somente são possíveis no contexto da estrutura global de déficit monetário, ou seja, de geração improdutiva de dinheiro, que já começa a oscilar de um modo alarmante. É uma produção silenciosa de ideologia catapultar tais modelos mecanicamente para os grandes territórios e as grandes massas populacionais na Ásia do leste e do sul, América Latina e Eurásia (para não falar na África). E mesmo tais pequenas exceções à regra – exceções inclusive de dimensões simplesmente anãs – já se deixam hoje demonstrar, não só teórica, mas também empiricamente, como casos altamente problemáticos. A um exame mais acurado, algumas das proeminentes stories de milagres revelam-se questionáveis, não só por sua inserção na estrutura mundial, mas também por seu problemático processo.

Assim, com os primeiros êxitos no processo de reformas econômicas do Presidente Menem na Argentina, o dia foi louvado antes de chegar a noite pelos ideólogos neoliberais. Na Argentina (de um modo semelhante ao México e à Venezuela), não foi renovada mais que a fachada. O brutal curso de austerity, desde que Menem assumiu o poder, arruinou grandes parcelas da classe média, fazendo explodir para valer a miséria em massa. A decadência a longo prazo pode ser esclarecida por uma comparação numérica, que revela a posição relativa da Argentina: se, em 1950, o país estava no oitavo lugar em termos de PIB per capita, em 1990 ele caiu para o lugar nº 84 (Sanches, 1991). Na década perdida dos anos 80, a Argentina foi grandemente desindustrializada. De 1980 a 1985, a produção industrial caiu 4,4% em média a cada ano; no final dos anos 80, ela caiu 4,9% em 1988, e 8,5% em 1989 (Banco Mundial, 1992b).

Os modestos êxitos em termos de crescimento no início da década de 90, estatisticamente nem sequer seguros, e a redução forçada da inflação para 2% ao mês foram obtidos não só mediante processos de empobrecimento que irão repercutir a longo prazo: eles podem inclusive revelar-se rapidamente como fogo de palha, pois o saneamento orçamentai através do leilão de empresas estatais não deve durar muito tempo, enquanto o dinheiro emergencial assim realocado revoa sobretudo para o consumo de artigos importados ou para a especulação, ao invés de ir para novos investimentos. Quando se afirma que essa situacão é o início de uma luta pela recuperação, isso equivale a dizer de um boxeador arrasado, cujos ossos foram todos partidos e que abre um olho inchado ao acordar do knock-out, que ele, para consolo geral, já começou a treinar para a próxima olimpíada. O caráter incerto do processo de reestruturação neoliberal pode ser também observado no México, que consegue incorporar, nas promessas da economia de mercado, menos ainda dos seus mais de 86 milhões de habitantes. Alguns observadores independentes já começam a preocupar-se com o avanço do experimento neoliberal: "O presidente Salinas de Gortari, do México, e o chefe de Estado, Carlos Menem, da Argentina, os brilhantes representantes dessa estratégia, gozam realmente de reputação internacional. No plano interno, adensam-se, no entanto, as contradições" (Kornat, 1992).

Mesmo no Chile, que pretensamente já se encontra além do debate latino-americano, quando encarados de perto, os êxitos parecem muito estranhos. De fato, o Chile pode consignar um enorme crescimento no comércio exterior, no qual, porém, entrementes, o superávit em exportação, depois de um ápice em 1988, já andou caindo novamente. A abertura neoliberal foi, no entanto, conseguida não só com o maior sacrifício social, como também se encontra muito longe de possibilitar o acesso a um modelo dos tigres asiáticos, de industrialização induzida através da exportação. O Chile não exporta automóveis nem televisores, mas sempre ainda principalmente matérias-primas e produtos industriais próximos à matéria-prima, com um grau relativamente restrito de elaboração. A monstruosa dependência do cobre (o Chile é o maior produtor mundial de cobre) caiu efetivamente, mas, apesar disso, dependendo da cotação no mercado internacional, as exportações de cobre abrangem cerca de 50% do volume global do que é exportado. A isso soma-se a participação crescente de outros produtos da mineração. Logo depois vêm os derivados da pesca, como peixes frescos, conservas e farinha de peixe, bem como madeira, produtos madeireiros e celulose. O que subiu de modo considerável é a participação das exportações de legumes (Statistisckes Bundesamt, 1991). Apesar da crescente diversificação dos artigos exportados, portanto, não se pode falar, a rigor, de uma industrialização induzida pela exportação: pelo contrário, nessa perspectiva, o Chile tem sido, tanto quanto seus vizinhos, antes parcialmente desindustrializado pelo curso neoliberal.

Feitas com ajuda de capital estrangeiro, a industrialização e a orientação para a exportação da pesca e da elaboração de madeira – dois pilares do milagre chileno – têm, no plano interno, catastróficas conseqüências sociais e ecológicas. Muitos pescadores nativos precisam desistir devido à destrutiva capitalização das riquezas naturais: "Os resultados foram, porém, cada vez mais restritos, uma decorrência da pesca predatória na Corrente de Humboldt, rica em peixe, diante da costa do Chile. A mais recente moda em termos de exportação: farinha de peixe, que arrebanhou, no ano passado, a quantia de 457 milhões de dólares. Mas as redes da frota de pesqueiros não fazem nenhuma diferença ao buscarem os peixes pequenos. A indústria da farinha de peixe ameaça, por isso, toda a reserva de peixes. O que importa é apenas exportar cada vez mais maciçamente. Nos primeiros seis meses de 1989, só a pesca cresceu em 29%. (…) Mas os recordes de exportação deixam arrasados setores na ecologia do Chile: a exportação de legumes baseia-se em imensas monoculturas. No lugar dos até agora 500.000 hectares de mata virgem, vão surgindo desertos de pinhos replantados. O deserto de Atacama, no norte do Chile, deve tornar-se inclusive um depósito de lixo. Com prospectos glamourizados, o Estado andino chega mesmo a oferecer-se como lixeira industrial e urbana" (Germund, 1989). Um efeito secundário do milagre exportativo consiste no fato de certos produtos (sobretudo frutos do mar), que antes eram acessíveis ou disponíveis para todos, serem mantidos longe dos chilenos pobres ou terem se tornado artigos de luxo impossíveis de pagar.

Muito pior que com os modelares discípulos latino-americanos das reformas econômicas neoliberais, anda a coisa com os da Europa do centro-leste. Já as primeiras tentativas de reforma em 1989/90 levaram a devastadoras quebras da produção e processos de empobrecimento. Os esperançosos adeptos foram, em poucos meses, lançados de volta diretamente ao status da América Latina. Em 1991, o percurso pelo vale das lágrimas prosseguiu. Em relação a 1990, o produto interno bruto na Hungria caiu mais uma vez em 10%, e na Tchecoslováquia até em 21,2%, depois de já ter decrescido em 24,2% no ano de 1990. Na Polônia, o PIB caiu em 9% e a produção industrial em 11,9%, depois de já ter tido um retrocesso de 24,2% em 1990 (Weltalmanach, 1993). Essas são quedas jamais antes vistas, e, para superá-las, não seriam necessários somente anos, porém decênios. Em nenhum dos três países a inflação e a dívida externa estão sob controle, embora a política de austeridade jogue a população na miséria. Esta parece ser, afinal, a lógica do neoliberalismo: quanto mais saudável a economia, tanto mais doente e pobre a população humana.

Se é apresentado como um grande êxito que, segundo dados do Departamento Central de Planejamentos da Polônia (CUT), a produção industrial cresceu novamente em 3,5% no ano de 1992, então é preciso derivar daí, como na América Latina, a fórmula: um quilômetro para trás, dois passos em frente! Quão lamentáveis e estruturalmente débeis são as ultimas recuperações pode ser decifrado no preâmbulo do milagre polonês: "A ascenção deve-se principalmente a uma evolução positiva nos setores de madeira/papel, minérios e meios de subsistência (o Chile envia saudações!. R.K.)… O governo conta com um crescimento do PIB em 1993 de 2%. Preocupação acarreta, pelo contrário, o setor da construção, com investimentos ainda em queda. No ano de 1992, afinal, foram aprontadas 122.900 moradias na Polônia, o que corresponde ao nível de 1957(!). (…) Devido aos empréstimos continuarem sendo ainda muito caros e devido à falta de recursos próprios, os investidores não estão em condições de assumir necessários investimentos de modernização. Além disso, as importações do estrangeiros continuariam a criar dificuldades à indústria nacional. (…) No final do ano, estavam registradas na Polônia 2,5 milhões (13,6%) pessoas como desempregadas (1991: 2,16 milhões), estando previsto, para dezembro de 1993, que se alcançará a marca de 3 milhões de pessoas (o que corresponderá a 16%)" (Handelsblatt, 1993). Mesmo com crescimento contínuo, que é extrapolado mecanicamente, deixando no escuro todas as armadilhas estruturais e intermediadas pelo mercado mundial, os condutores da esperança na Europa do centro-leste poderiam, talvez, alcançar até meados do século XXI o padrão da economia planejada estalinista. Mas que grande êxito é esse!?

Apesar de sua posição, até agora naturalmente muito melhor, a forma de transcorrer o processo econômico também não se coloca de um modo univocamente positivo nos tigres asiáticos. Já que as pequenas cidades-Estados – Hong-Kong e Cingapura – tendem a cair de qualquer maneira fora da concorrência, interessa aí sobretudo a Coréia do Sul. Ao contrário do que diz a lenda fabricada, a ascensão não ocorreu, de jeito algum, de modo contínuo, mas sim com pesadas quebras e rupturas, que apontam de maneira significativa para a fraqueza estrutural. O desenvolvimento foi conseguido com os mais brutais sacrifícios sociais e sangrentas medidas de repressão: "Especialmente foram mulheres e moças mal pagas, que, durante a fase heróica dos anos 60 e 70, produziam a fortuna exportativa em empresas-anãs da indústria têxtil. (…) Órgãos de segurança do Estado reprimiam toda e qualquer resistência contra essas formas de exploração…" (Pohl, 1991). Depois de ter sido, dessa maneira, forçada uma ofensiva exportadora à base da indústria leve, os custos de capital, para os investimentos no âmbito de novas indústrias pesadas, de máquinas e de produção de automóveis, ameaçavam levar ao desastre: "A altíssima carência de capital para tanto exigia demais dos orçamentos públicos, razão pela qual se tornou necessário assumir enormes créditos no exterior, que levaram, por fim, a uma imensa dívida externa. Com isso, elevou-se a inflação, o que, junto com fenômenos generalizados de recessão econômica mundial no final do decênio (crise do petróleo, elevação internacional dos juros), conduziu a uma crise econômica e política interna, em cujo transcurso chegou a ocorrer, em 1979, o assassinato do general Park. Em 1980, registrou-se pela primeira vez na história do pós-guerra um crescimento econômico negativo de 4,7%" (Statistisches Bundesamt, 1992).

Mostrou-se, portanto, dramaticamente a dependência com relação à conjuntura ocidental, bem como o problema de custos de capital dificilmente controláveis, ameaçando lançar a Coréia do Sul na situação das economias perdedoras e em bancarrota. É verdade que o país conseguiu ainda uma vez tirar a cabeça da forca: "Nos anos de 1986 a 1989, ocorreu – apoiado por um desenvolvimento favorável do câmbio – um boom exportativo e econômico. A balança de pagamentos da Coréia assinalou pela primeira vez superávits, através dos quais tornou-se possível uma rápida diminuição da dívida externa" (Statistisches Bundesamt, 1992). Mas com isso não foram, de maneira alguma, eliminados os problemas estruturais da dependência. Pode ser tudo, menos ocasional, que a aparente salvação e o desenvolvimento do modelo exportador coincida justamente com a economia-vudu dos reaganomics nos Estados Unidos. Só as explosões interna do déficit e a externa da dívida é que possibilitaram a exportação em mão única através do Pacífico. O término da era republicana e a saída pouco honrosa do Presidente Bush mostram que essa máquina miraculosa está hiperaquecida e já começa a bater biela. Isso também a Coréia do Sul passa naturalmente a sentir. O descenço conjuntural no Ocidente fez com que as exportações já passassem a cair. Os problemas de custos de capital sobem de novo verticalmente, bem como a inflação e a dívida externa. Os investimentos externos diretos na Coréia do Sul, porém, estão regredindo desde o final dos anos 80, bem como a entrada de capital estrangeiro (de 1,28 bilhões de dólares em 1988, para 1,09 bilhões em 1989 e apenas 663 milhões em 1993).

Agora ameaçam também inclusive os custos de uma reunificação com a falida Coréia do Norte, que, num primeiro momento, são avaliados como não inferiores a 500 bilhões de dólares. Em vista da experiência alemã, só esse problema poderá significar o golpe de morte para o modelo Coréia do Sul se os mercados de exportação entrarem ao mesmo tempo em retração. A reorientação para os mercados do leste europeu, tão eufórica num primeiro momento, pois deveria livrar a exportação sul-coreana de sua dependência unilateral, mostrou ser ilusória, tanto quanto as correspondentes esperanças na Europa ocidental. Os Estados membros da antiga União Soviética, incapazes de pagar, já estão com vários bilhões de dólares no vermelho junto à Coréia do Sul. Em 1992, á situação conjuntural continuou piorando, apesar de, nominalmente, as taxas de crescimento só terem decrescido bem pouco: "De fato, muitas empresas ainda brilham com vendas crescentes, no entanto as margens de lucro caem ameaçadoramente em alguns setores. Mesmo os lucros dos exitosos produtores coreanos de automóveis mal conseguiram amealhar um terço no último ano. Em ramos econômicos de trabalho intensivo, bancarrotas estão na ordem do dia. De 845 fábricas de calçados, 124 cessaram suas atividades no ano passado" (Wirtschaftswoche, 1992). Também o modelo exportador sul-coreano pode sempre ainda cair no abismo, como o governador do banco central alertava cheio de premonições.

O término da conjuntura deficitária no Japão e na Alemanha

Os restos de normalidade em termos de economia de mercado, que, para a maioria global, já se transformaram em pesadelo social e ecológico, estão como um todo pendurados no fio de linha do crescimento aparente, à base de déficit, nos países capitalistas centrais. A ruptura do dique de uma crise geral creditícia e financeira, que já tem ameaçado diversas vezes, pôde ser evitada até agora, embora com dificuldades. A repercussão na conjuntura mundial ainda não conduziu à depressão generalizada, mas a uma estagnação que se arrasta de modo renitente. Um ator principal após o outro revela sinais de estafa.

O Japão não se choca tão-somente com a barreira de sua espoliação de estruturas de fornecedores: com a queda dos preços imobiliários e do mercado de ações, vem-lhe sendo arrancado também o segundo pé de barro. Os fenomenais êxitos japoneses nas últimas décadas não se explicam apenas a partir de sua organização do trabalho, mas também a partir da maior orgia especulativa na história dos mercados financeiros até hoje. Só no ano de 1987, o Japão, através da elevação especulativa dos preços das ações e dos imóveis, passou a calcular-se mais rico em cerca de 3 trilhões de dólares ($3.000.000.000.000!). Os valores imobiliários ficticiamente inchados têm servido como garantias emprestáveis, com que o curso das ações é aquecido. A bolsa transformou-se, assim, num self-service financeiro da indústria e numa fonte aparentemente inesgotável de refinanciamentos. Em outras palavras: investimentos imensos, que conduziram o sucesso exportativo japonês para além de qualquer medida, puderam ser concretizadas praticamente por uma tarifa zero, assim como o controle maciço de firmas estrangeiras e até mesmo certas orgias de compras no mercado internacional de arte. Uma parte considerável da mui decantada capacidade inovativa japonesa e alegria em investir repousa apenas em vento quente.

Essa maravilhosa peça de pilantragem financeira (em que, não por acaso, a máfia japonesa teve abundante participação) não podia, naturalmente, continuar sem punição. A queda abrupta do mercado imobiliário e do curso das ações em mais da metade (o índice Nikkei caíu até o início de 1993 de 38.000 para cerca de 16.500 pontos) já deveria ter levado a uma pesada crise financeira, que só o gerenciamento financeiro conseguiu empurrar adiante com a barriga através de escabrosas manipulações. Em meados de 1992, foi fundada uma sociedade nacional de captação de recursos, para créditos periclitantes de não-bancos, que, a rigor, há muito já estavam insolventes (principalmente firmas no setor de imóveis, construção civil e serviços). Mesmo assim, rola a onda de falências: "A estatística de concordatas de 1992, publicada pelos destacados escritórios de informações Teikoku Data Bank e Tokyo Shoko Research, revela um crescimento dos casos de concordatas em cerca de 14.200 (um aumento de 32%). (…) De um modo especialmente intenso cresceu o número das grandes concordatas, com um volume de dívidas de, pelo câmbio, mais de 13 bilhões de marcos alemães (950 casos, um aumento de 33%). (…) Ambos os escritórios de informação esperam, para a primeira metade deste ano, (…) uma seqüência nessa involução. Só em dezembro de 1992, entraram 1454 empresas em concordata. (…) Marcante foi, aí, especialmente o aumento das empresas que caíram em dificuldades na área da produção industrial" (Handelsblatt, 1993). Programas conjunturais do governo, em rápida sucessão, no valor de várias centenas de bilhões de marcos alemães, não serviram praticamente para nada mais que apoiar a especulação despencante. Pela primeira vez, desde o final da guerra, desenha-se uma recessão pesada e profunda na economia japonesa. A Nippon passou a depender de um modo estonteante de processos financeiros especulativos, e tratou de procurar o impossível: ou seja, superar os processos financeiros especulativos de conseguir dinheiro através da garantia governamental da megabancarrotação. Esta seria, seguramente, a quadratura do círculo.

Igualmente ruim, ainda que por outras razões, encontra-se, entrementes, a situação do matador em termos de economia mundial, a Alemanha. Nela, é menos a especulação, e mais o desastre econômico da reunificação alemã, que arrastou para a beira do desastre a estrutura deficitária teuta e de toda a Europa ocidental. A transferência líquida anual improdutiva, de cerca de 200 bilhões de marcos alemães, para a Alemanha oriental, incorporada, mas não mais rentavelmente reprodutível, obrigou o Bundesbank (Banco Federal) alemão a uma política de juros elevados dentro da crise conjuntural européia, fazendo oscilar fortemente o sistema monetário europeu (EWS). As moedas dos países vizinhos, ficaram sob pressão, a Itália e a Grã-Bretanha já tiveram de sair da coligação cambial. Como o marco alemão é a principal moeda européia, os países vizinhos, mediante ousadas manobras da máquina de fazer dinheiro (queda dos juros), têm ficado impedidos de salvar as conjunturas internas em queda. A leve baixa de juros do Bundesbank, no início de fevereiro de 1993, não foi mais que um gesto teatral, incapaz de eliminar do planeta o problema estrutural. Depois de a reunificação alemã – no início através da abertura da Alemanha oriental e da alteração da moeda – ter desencadeado um fogo de palha conjuntural em toda a Europa, ela se transforma agora, pelo contrário, em uma sobrecarga para toda a Europa. Especialmente a Itália e a Espanha, com imensas dívidas públicas e dívidas externas, encontram-se sob pressão: muitas firmas já não conseguem mais pagar empréstimos de volta, nos bancos se acumulam créditos podres. A mesma situação se exacerba na Grã-Bretanha, que não consegue mais sair de sua recessão estrutural, que já vem de anos. Como, porém, a maior parte das exportações alemãs vai para o espaço da Comunidade Européia e da EFTA, a falência da estrutura deficitária européia, indiretamente autoprovocada pelo casório da reunificação, reflui, desde o inverno de 1992/93, com força total sobre a conjuntura alemã.

Os Estados Unidos: nenhuma nova locomotiva da conjuntura

Nessa situação emergencial, a doente e doentia potência dos Estados Unidos precisa ser, contra a melhor consciência, novamente conclamada como salvadora da conjuntura mundial. Também lá, no entanto, a especulação com ações e imóveis levou, de um modo semelhante ao Japão, a um endividamento estrutural da maioria dos grandes setores empresariais. Acresce-se a isso o déficit orçamentário do Estado, que há muito já se encontra fora de controle e que, não em última instância, foi causado pelos gastos de ser a potência mundial e pelo papel de gendarme do universo assumido pelos Estados Unidos. Sobretudo, no entanto, atuam como entraves conjunturais a baixa quota de poupança, bem como o elevado endividamento dos orçamentos domésticos norte-americanos, cujo volume transcende a renda global disponível. A dívida dos orçamentos domésticos corresponde atualmente a 4 trilhões (4.000.000.000.000) de dólares, o dobro de 10 anos atrás. Cada orçamento doméstico está com uma dívida média de 70.000 dólares. Que lastro de chumbo isso significa, para a conjuntura, pode ser mensurado pelo fato de os orçamentos domésticos corresponderem a 70% do produto social bruto dos Estados Unidos!

Nos mercados internacionais, os Estados Unidos são, porém, quase incapazes de concorrer, devido à falta de qualidade e à produtividade decrescente. Assim, as exportações somente conseguem ser elevadas através de quedas no curso do dólar, o que barateia as mercadorias norte-americanas no exterior: um método, no entanto, pouco sério e extremamente incerto, com o qual uma potência mundial também não consegue se sustentar na superfície por longo tempo. Debilidade exportativa e, apesar disso, crescente inserção na economia mundial, endividamento estrutural global e falta de formação interna de capital, já degradaram há muito os Estados Unidos a uma potência mundial dependente do exterior, que continua condicionada à entrada de artigos estrangeiros e de capital monetário de fora. No breve período neoliberal dos anos 80, os déficits comerciais e de balanço de capital acumularam-se até alturas estonteantes.

Não se consegue, portanto, discernir como, justamente os Estados Unidos, podem vir a ser a nova locomotiva da conjuntura mundial endividada e deficitária. Apesar de toda uma série de quedas nas taxas de juros, a administração Bush não conseguiu mais salvar-se, pois a reprodução, profundamente endividada em todos os setores, já não consegue mais ser redimida decisivamente através de novas injeções de dinheiro. Um reiterado deficit spending e o fomento de mecanismos de gerar dinheiro através do sistema bancário resolvem tão pouco quanto elevar as doses no estágio final do alcoolismo. Já que a reprodução endividada não mais torna rentáveis investimentos produtivos adicionais, engatar a geração de dinheiro através do banco monetário norte-americano (fed) fez somente com que fluísse fresh money na especulação com ações (nesse sentido, de um modo bem parecido com o Japão). O índice Dow-Jones de New York subiu assim, paradoxalmente, a novos recordes, justamente no contexto de uma crise conjuntural.

Também o novo presidente, Bill Clinton, não pode ser o santo milagreiro, como ele apressadamente foi festejado. Um desendividamento real e uma desmontagem decidida dos déficits somente levariam, enquanto choque deflacionário, tanto mais rápido à catástrofe da depressão. A reconstrução da capacidade de concorrência, especialmente da esgotada infra-estrutura, precisa ser calculada não para anos, e sim para décadas. Também Bill Clinton nao consegue superar, com um condão mágico, a ruinosa política de desregulamentação da era republicana. Por causa das condições estruturais, a curva conjuntural nos Estados Unidos há de, na melhor das hipóteses, ficar achatada, não sendo mais possível um reaquecimento cíclico duradouro e sustentável. Muito menos se pode esperar que os Estados Unidos venham a arrastar para um novo ascenso a conjuntura deficitária global. À medida em que, com dificuldades, a conjuntura interna norte-americana consegue ir se arrastando, os Estados Unidos hão de envolvê-la dessa vez com fortes medidas protecionistas. O governo Clinton, que não está mais tão fortemente atormentado por ideologias neoliberais, já sinalizou de antemão uma radical mudança de curso nesse sentido.

Atingidos por isso hão de ser sobretudo o Japão e seus parceiros menores no leste asiático. Os empresários japoneses, que não só conseguiram as suas pouco sérias vantagens concorrenciais através de dumping sócio-industrial e de manipulações financeiras, procuram agora também o compadrio para exportarem a sua inevitável recessão. Os excedentes comerciais japoneses estão a explodir desde 1991, justamente em meio à crise, porque a indústria japonesa procura atualmente inserir os seus grandes investimentos da década passada, financiados manipulativamente, para um novo dumping de preços nos mercados internacionais, a fim de repassarem para o exterior a crise doméstica. O recorde no excedente da balança de pagamentos, em 1991, de 103 bilhões de dólares, foi elevado para 182,6 de dólares em 1992: o prognóstico prevê, para 1993, cerca de 140 bilhões de dólares (se chegar a tanto). Esse curso de kamikase não pode ser mantido nem com relação à Europa nem aos Estados Unidos. Certamente, no contexto da globalização progressiva, existe todo um leque de dependências mútuas, mas a radicalização da contradição intrínseca à economia global de mercado só pode acabar degenerando em sacanagens recíprocas, sem respeitar nada nem ninguém. Os grandes perdedores podem vir a ser o Japão e os newcomers do leste asiático, uma vez que eles, por causa de sua debilidade importativa, não seriam capazes de ameaçar com um protecionismo inverso nem possuem, como ultima, ratio, um potencial de intimidação militar digno de menção. No entanto, a retirada do capital de crédito japonês poderia desencadear uma depressão financeira generalizada nos Estados Unidos.

É difícil predizer se o final da conjuntura deficitária global embocaria abruptamente, com grandes catástrofes financeiras, numa depressão mundial, ou se iria percorrer, mais uma vez, uma fase mais longa de estagnação e manipulação. A contradição lógica inerente ao sistema de mercado não se deixa, no entanto, eliminar. Dever-se-ia supor que, nessa situação, seria adequada uma nova crítica à socialização em termos de economia de mercado, que, nessa fase do desenvolvimento mundial e da redeficação internacional, já nada mais teria a ver com os pré-diluvianos sistemas de planejamento estatal do falido socialismo de modernização, nem mais poderia seguir a isso nenhum modelo de justa troca de equivalentes. Pensar em termos além da economia de mercado, isso nos foi, no entanto, há pouco rigorosamente proibido por filósofos franceses, reformistas poloneses e realistas alemães. No atual clima espiritual, não seria bom para a reputação ferir essa nova crendice ideológica. Assim sendo, não parece restar nada senão exigir um otimismo impiedoso em torno da economia de mercado, de preferência se de origem norte-americana, pois é, de longe, o mais barato. Don ‘t worry, be happy.

Notas

1 Mancur Olson. Die Logik des kollektiven handelns. Kollektive Güter unddie Theorie der Gruppen, Tübingen, 1968 (inglês 1965); Mancur Olson. Aufstieg und Niedergang von Nationen. Ökonomisches Wachstum, Stagflation und soziale -Starrheit; Tübingen, 1985 (inglês 1982). Para essa discussão: Klaus Schubert (org.). Leistungen und Grenzen politisch-õkonomischer Theorie. Eine kritische Bestandsaufhahme zu Mancur Olson, Darmstadt, 1992.

2 Que o embalo dos anos 80 não era um crescimento auto-sustentado da industria e do setor de serviços, tornou-se visível como desvinculação dos mercados financeiros com relação aos mercados de mercadorias. A expansão do crédito foi muito além da expansão da produção real de mercadorias, o que aponta para o crescente endividamento dos produtores e consumidores.

3 Essa separação volta até Karl Marx, cuja obra principal se ocupa com a lógica do capital em geral. Nesse nível de abstração, não tem maior relevância a questão dos estágios de desenvolvimento e processos de globalização, ou serve apenas de ilustração.

4 Isso envolve tanto contribuições mais antigas quanto mais recentes do marxismo ocidental. Confronte-se, por exemplo, Paul Mattick. Marx und Keynes. Die Grenzen des "gemischten Wirtschaftssystems", Frankfurt a.Main, 1971; ou Joachim Hirsch e Roland Roth. Das neue Gesicht des Kapitalismus. Vom Fordismus zum Pos-Fordismus, Hamburg, 1986.

5 A transição encontra-se em Dieter Senghaas. Von Europa lernen. Entwicklungsgeschichtliche Betrachtungen, Frankfurt a.Main, 1982. Além disso, compare-se Ulrich Menzel e Dieter Senghaas. Europas Entwicklung und dieDritte Welt. Fine Bestandaufnahme; Frankfurt a. Main, 1986. Entrementes mais uma vez Ulrich Menzel. Das Ende der Dritten Welt und das Scheitern dergroÂen Theorie, Frankfurt a.Main, 1992.

6 O conceito de sistema mundial (Weltsystem) assume um posto central sobretudo nos livros e ensaios de Immanuel Wallerstein. A discussão, levada a efeito no âmbito da língua inglesa, somente foi recebido explicitamente na Alemanha no início da décade de 80. Conf. quanto a isso Immanuel Wallerstein. " Aufstieg und künftiger Niedergang des kapitalistischen Weltsystems. Zur Grundlegung vergleichender Analyse" in Dieter Senghaas (org.). Kapitatistische Weltökonamie. Kontroversen über ihren Ursprung und ihre Entwicklungsdynamik, Frankfurt a.Main, 1979. Além disso, André Gunder Frank. Abhangige Akkumulation und Unterentwicklung, Frankfurt a. Main, 1980 (ingl. 1978). Dados bibliográficos mais completos sobre todo o debate encontram-se em Ulrich Menzel. Geschichte der Entwicklungstheorie. Einführung und systematische Bibliographic, Hamburg, 1993.

7 Conf. quanto a isso Elmar Altvater. Der Preis des Wohlstands oder Umweltplünderung und neue Welt(un)ordnung, Münster, 1992.

8 Dados segundo Ulrich Menzel," Von der industriellen zur finanziellen Supermacht", in Ulrich Menzel (org.) Im Schatten des Siegers: JAPAN, v. 3, Economia e Política, Frankfurt a. Main, 1989. Menzel encara, no entanto, essas disparidades evidentes não como sintoma da crise, mas como " marcha triunfal japonesa".

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Robert Kurz, filósofo alemão, é coeditor da revista " Krisis" e publicista autônomo. Recentemente foi lançado no Brasil a tradução do seu livro " O Colapso da Modernização" (Editora Paz e Terra).

Palestra feita pelo autor em 15 de abril de 1993, na Escola de Engenharia de São Carlos da USP. O evento foi organizado pela Área de Política Científica e Tecnológica do IEA e pelo Instituto Goethe.

Tradução de Flávio R. Kothe. O original em alemão – "Die Lichter Des Marktes Verloschen" – encontra-se à disposição do leitor no IEA para eventual consulta.

Fonte: Scielo – www.scielo.br