Daily Archives: 11/05/2010

Grito da Terra, clamor dos povos

Frei Betto

Os gregos antigos já haviam percebido: Gaia, a Terra, é um organismo vivo. E dela somos frutos, gerados em 13,7 bilhões de anos de evolução. Porém, nos últimos 200 anos, não soubemos cuidar dela e a transformamos em mercadoria, da qual se procura obter o máximo de lucro.

Hoje, a Terra perdeu 30% de sua capacidade de autorregeneração. Somente através de intervenção humana ela poderá ser recuperada. Nada indica, contudo, que os governantes das nações mais ricas estejam conscientes disso. Tanto que sabotaram a Conferência Ecológica de Copenhague, em dezembro de 2009.

A Terra, que deve possuir alguma forma de inteligência, decidiu expressar seu grito de dor através do vulcão da Islândia, exalando a fumaça tóxica que impediu o tráfego aéreo na Europa Ocidental, causando prejuízo de US$ 1,7 bilhão.

Em reação ao fracasso de Copenhague, Evo Morales, presidente da Bolívia, convocou, para os dias 19 a 23 de abril, a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Esperavam-se duas mil pessoas. Chegaram 30 mil, provenientes de 129 países! O sistema hoteleiro da cidade entrou em colapso, muitos tiveram de se abrigar em quartéis.

A Bolívia é um caso singular no cenário mundial. Com 9 milhões de habitantes, é o único país plurinacional, pluricultural e pluriespiritual governado por indígenas. Aymaras e quéchuas têm com a natureza uma relação de alteridade e complementaridade. Olham-na como Pachamama, a Mãe Terra, e o Pai Cosmo.

Líderes indígenas e de movimentos sociais, especialistas em meio ambiente e dirigentes políticos, ao expressar o clamor dos povos, concluíram que a vida no Planeta não tem salvação se perseverar essa mentalidade produtivista-consumista que degrada a natureza. Inútil falar em mudança do clima se não houver mudança de sistema. O capitalismo é ontologicamente incompatível com o equilíbrio ecológico.

Todas as conferências no evento enfatizaram a importância do aprender com os povos indígenas, originários, o sumak kawsay, expressão quéchua que significa “vida em plenitude”. É preciso criar “outros mundos possíveis” onde se possa viver, não motivado pelo mito do progresso infindável, e sim com plena felicidade, em comunhão consigo, com os semelhantes, com a natureza e com Deus.

Hoje, todas as formas de vida no Planeta estão ameaçadas, inclusive a humana (2/3 da população mundial sobrevivem abaixo da linha da pobreza) e a própria Terra. Evitar a antecipação do Apocalipse exige questionar os mitos da modernidade – como mercado, desenvolvimento, Estado uninacional – todos baseados na razão instrumental.

A conferência de Cochabamba decidiu pela criação de um Tribunal Internacional de Justiça Climática, capaz de penalizar governos e empresas vilões, responsáveis pela catástrofe ambiental. Cresce em todo o mundo o número de migrantes por razões climáticas. É preciso, pois, conhecer e combater as causas estruturais do aquecimento global.

Urge desmercantilizar a vida, a água, as florestas, e respeitar os direitos da Mãe Terra, libertando-a da insaciável cobiça do deus Mercado e das razões de Estado (como é o caso da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu).

Os povos originários sempre foram encarados por nós, cara-pálidas, como inimigos do progresso. Ora, é a nossa concepção de desenvolvimento que se opõe a eles, e ignora a sabedoria de quem faz do necessário o suficiente e jamais impede a reprodução das espécies vivas. Temos muito a aprender com aqueles que possuem outros paradigmas, outras formas de conhecimento, respeitam a diversidade de cosmovisões, sabem integrar o humano e a natureza, e praticam a ética da solidariedade.

Cochabamba é, agora, a Capital Ecológica Mundial. Sugeri ao presidente Evo Morales reeditar a conferência, a exemplo do Fórum Social Mundial, porém mantendo-a sempre na Bolívia, onde se desenrola um processo social e político genuíno, singular, em condições de sinalizar alternativas à atual crise da civilização hegemônica. O próximo evento ficou marcado para 2011.

Pena que o governo brasileiro não tenha dado a devida importância ao evento, nem enviado qualquer representante. A exceção foi o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), que representou a Câmara dos Deputados.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Barros, de O amor fecunda o Universo – ecologia e espiritualidade (Agir), entre outros livros. http://www.freibetto.org

Fonte: Caros Amigos – http://carosamigos.terra.com.br/

“Viajantes viam um Brasil degenerado”

O pesquisador Jean Marcel Carvalho França conta como o Brasil foi representado nos relatos de estrangeiros que, ao longo de quatro séculos, moldaram a imagem do país

Jean Marcel Carvalho França

O pesquisador e escritor Jean Marcel C. França, organizador da série O olhar dos viajantes.

Os interessados no tema “viajantes históricos” – os estrangeiros que andaram pelo Brasil dos séculos XVI ao XIX – frequentemente têm dificuldades de encontrar bibliografia referente a essa literatura de viagem de forma acessível, organizada e sucinta. Há excelentes edições em livros – infelizmente boa parte ou está esgotada ou é cara demais para o grande público.

Por isso, História Viva convidou o pesquisador e escritor Jean Marcel Carvalho França, professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), para organizar a mais nova série da Duetto Editorial, O Olhar dos Viajantes, que reuniu 20 dos melhores estudiosos dos estrangeiros que visitaram, fizeram relatos e produziram obras de arte sobre o Brasil desde o descobrimento.

O lançamento da primeira revista, dedicada à natureza, será no dia 29 de março. Traz as histórias dessas expedições e um pouco dos relatos, impressões, desenhos, aquarelas e outras obras de arte que resultaram das incursões de exploradores, cientistas, naturalistas e aventureiros pelo Brasil.

A segunda revista, que chega às bancas no dia 30 de abril, focaliza o povo brasileiro visto pelos viajantes estrangeiros no mesmo período, do descobrimento até a “era” de Darwin. Eles jamais esconderam o desprezo por um povo miscigenado e estranhamente tropicalizado.

Esse universo de referências sedimentou tanto a imagem do Brasil no exterior como a autoimagem dos brasileiros. Abaixo, entrevista com Jean Marcel antecipa alguns dos temas tratados na série e revela um pouco do material com que foi forjado o estereótipo da natureza extrema – diabólica ou paradisíaca – e da gente “estranha” que habitava os trópicos.

Planta típica de Minas Gerais reproduzida no livro Voyage, do naturalista alemão Alexander von Humboldt.

História Viva – Por que a literatura de viagem se tornou tão importante na formação da imagem do Brasil e dos brasileiros no exterior, entre os séculos XVI e XIX?

Jean Marcel Carvalho França – A maneira como nos comportamos em relação às coisas e às pessoas é, em larga medida, condicionada pelo conhecimento prévio que temos dessas mesmas coisas e pessoas. Ora, durante quatro séculos, um pouco mais, um pouco menos, uma parte enorme de tudo aquilo que os europeus conheceram sobre aqueles “novos mundos” – que, a partir do ocaso do século XV, tinham sido descobertos e incorporados ao mundo europeu pela expansão marítima – veio da literatura de viagens. Dito em outras palavras, uma parcela muitíssimo expressiva do que os europeus pensaram e escreveram sobre o além-mar – sobre a América, mas também sobre a África, a Índia, a China, o Japão, as terras do Pacífico Sul, a Austrália etc. – durante os quatro séculos que se seguiram à viagem de Colombo se baseou em relatos de viagem, em testemunhos de aventureiros e exploradores que, muitas vezes à custa da própria vida, viram com os próprios olhos – ou disseram que viram – aquelas terras que tanto atiçavam a imaginação dos seus contemporâneos. Em relação ao Brasil, isso é especialmente verdadeiro, na medida em que, durante pelo menos os três primeiros séculos de sua existência, diminutas foram as informações sobre o país produzidas pelos colonos e, posteriormente, pelos brasileiros a circular pelo mundo.

HV – Em que medida essa imagem do Brasil ainda vigora no mundo? Há europeus, por exemplo, que ainda imaginam o país tal como descrito por exploradores dos séculos XVI e XVII ou por naturalistas e cientistas dos séculos seguintes?

Jean Marcel – Por certo que sim. Essas imagens do Brasil e dos brasileiros que durante tantos séculos circularam pela Europa tiveram vida longa na cultura ocidental e, ainda hoje, povoam o repertório intelectual do Velho e, também, do Novo Mundo. Muitos dos estrangeiros que contemporaneamente desembarcam nos portos e aeroportos nacionais trazem consigo algumas dessas imagens, imagens de um país rico e exuberante, mas habitado por uma gente pouco elogiável do ponto de vista moral.

COLEÇÃO MARTIUSIANA, BAYERISCHE STAATSBIBLIOTHEK, MUNIQUE

A Amazônia na visão de Benjamin Mary, primeiro embaixador da Bélgica no Brasil. O desenho é do século XIX

HV – Os brasileiros assumiram em alguma medida essa identidade criada pelos viajantes estrangeiros?

Jean Marcel – A dualidade mencionada acima – país rico e exuberante / habitantes deteriorados moralmente – teve um papel extremamente importante no pensamento da elite política e intelectual brasileira do século XIX, elite, vale lembrar, responsável por lançar as bases daquilo que passou a se intitular cultura brasileira.

HV – Seria possível separar essas influências por épocas? Por exemplo, no período do descobrimento, os relatos aproximavam o país tanto do paraíso quanto do inferno – os dois lados da natureza selvagem – e também carregavam alta carga de fantasias medievais, com figuras míticas e monstros. Mais tarde, sob a influência de Darwin, esses relatos mudaram.

Jean Marcel – Em relação ao Brasil, os relatos variaram muito pouco até 1808, quando D. João VI abriu os portos da colônia às ditas “nações amigas”. Os relatos posteriores a esse acontecimento são mais detalhados e mais extensos que os anteriores, pois derivam da experiência de viagem de indivíduos que permaneceram meses, anos, por vezes décadas no Brasil. Pode-se dizer que, a essa altura, os visitantes europeus promovem um verdadeiro redescobrimento do Brasil.

HV – Quem eram os viajantes? Em cada período, quais foram os mais importantes para a definição da imagem do Brasil e dos brasileiros?

Jean Marcel – A composição desse grupo que denominamos “viajantes” é muitíssimo variada. Há capitães de navio, sábios, naturalistas, marinheiros, comerciantes, aventureiros, prisioneiros, religiosos, em suma, um sem-número de tipos, provenientes dos mais distintos países – da Europa e, a partir do século XIX, do mundo. Desse variado grupo, os que mais influência tiveram na construção da imagem do país no mundo foram aqueles cujos livros, por razões as mais variadas, circularam mais intensamente pelas mãos do público europeu, livros como os escritos por Américo Vespúcio, Jean de Léry, Hans Staden, William Dampier, James Cook, Arthur Phillip, John Mawe, Richard Burton, Charles Darwin e outros.

HV – Como o povo do Brasil foi tratado na literatura de viagem? No caso, tanto índios e negros como colonos europeus.

Jean Marcel – O colono é a grande “mácula” que o visitante europeu detectou nesse Brasil exuberante e pródigo que descreveu nas suas narrativas de viagem. Notável é que tal percepção remonte aos primeiros relatos sobre o país e seja consensual entre os visitantes. Aos olhos desses homens, os colonos eram preguiçosos, ignorantes, carolas, ciumentos, desonestos e, sobretudo, excessivamente vaidosos e libidinosos. Isso quanto aos brancos, ou melhor, quanto àqueles que se passavam por brancos, pois havia ainda um toque a mais de barbárie no cotidiano da colônia e, posteriormente, do Império: o enorme contingente de negros escravos, vindos da “incivilizada África”, que perambulavam pelas ruas das cidades brasileiras.

HV – Por que a moral do brasileiro, a dos europeus aqui radicados e a de seus descendentes foi continuamente considerada inferior à dos habitantes do Velho Mundo?

Jean Marcel – Há um visitante francês do século XVIII, M. de La Flotte, que culpa a distância da Europa: os colonos, segundo ele, à medida que se afastavam da civilização europeia se tornavam mais e mais corrompidos do ponto de vista moral. Outros visitantes, muitos deles aliás, atribuem a corrupção moral à luxúria em que supostamente viviam os colonos e à consequente mistura de sangue. Outros culparam o clima quente, a herança lusitana, a frouxidão das leis, enfim, há opiniões para muitos gostos. Um ponto, no entanto, é consensual: a civilização ocidental, ao menos do ponto de vista moral, estava mal representada no mundo que o português estava criando nos trópicos.

PARA SABER MAIS

Série O olhar dos viajantes

Volume 1: O Brasil ao natural – Estrangeiros veem o inferno e o paraíso na exuberância das paisagens tropicais. 84 págs, R$ 13,90

Volume 2: O Brasil e sua gente – O papel das narrativas de viagem na construção da nossa imagem e identidade. 84 págs, R$ 13,90

Jean Marcel Carvalho França é professor do Departamento de História da Unesp e autor, entre outros livros, de Literatura e sociedade no Rio de Janeiro oitocentista (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999) e Outras visões do Rio de Janeiro colonial (José Olympio, 2000).

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

A política de desarmamento do governo Obama

José Luís Fiori

Depois de 15 meses de discursos e indecisões, o presidente Barack Obama conseguiu transformar em factos o que deseja ser a marca da sua política externa, voltada para o desarmamento e o controle nuclear. No início do mês de Abril, Obama redefiniu a estratégia nuclear dos Estados Unidos, prometendo não utilizar mais armas atómicas contra países que não as possuam e que assinem e cumpram com o Tratado de Não-Proliferação. Logo em seguida, no dia 8 de Abril, em Praga, Obama assinou um acordo com o presidente russo, Dmitri Medvedev, com o objectivo de reduzir o arsenal nuclear das duas maiores potências atómicas do mundo. E, quatro dias depois, liderou a reunião da Cúpula de Segurança Nuclear, em Washington, para discutir com 47 chefes de Estado e de governo a sua própria proposta de controle da proliferação nuclear ao redor do mundo. Tudo foi feito de olho na reunião quinquenal de reexame do tratado, no próximo mês, em Nova York, com a participação dos 189 países signatários.

Até agora, a retórica e a encenação foram perfeitas, mas os limites e contradições desta nova proposta de desarmamento do presidente Obama são muito visíveis. Em primeiro lugar, o que ele chamou de «nova estratégia nuclear norte-americana» não passa de uma decisão e de um compromisso verbal que pode ser revertido e abandonado a qualquer momento, dependendo das circunstâncias e de uma decisão arbitrária dos próprios EUA. Em segundo lugar, o acordo entre os presidentes Obama e Medvedev envolve uma redução insignificante e quase só simbólica dos seus arsenais atómicos, permitindo ao mesmo tempo a substituição e modernização das ogivas nucleares dos vectores já existentes. Além disto, o novo acordo de desarmamento não incluiu nenhuma discussão a respeito do aumento exponencial dos gastos militares norte-americanos nos últimos anos, nem do aperfeiçoamento dos novos vectores X-51 da Boeing, com capacidade nuclear, que entrarão em acção em 30 meses, capazes de alcançar qualquer país do mundo em menos de uma hora.

Tampouco se falou dos novos submarinos russos Iassen, que têm capacidade de transportar 24 mísseis, cada um com seis bombas atómicas. Em terceiro lugar, em nenhum momento e em nenhuma destas reuniões se mencionou o armamento atómico da OTAN, localizado secretamente na Alemanha, na Itália, na Bélgica, na Holanda e na Turquia. Muito menos se incluíram na discussão os arsenais atómicos de Israel e Paquistão, hoje sob o controle de governos com forte presença de forças fundamentalistas e belicistas, e que agem sob a batuta dos próprios norte-americanos.

Por fim, é lógico que não aparecem, em nenhum momento, nesta agenda “pacifista” de Barack Obama, o aprofundamento recente da guerra no Afeganistão e os preparativos dos EUA e de Israel para um ataque arrasador contra o Irão – país que não possui armamento atómico e que assinou o Tratado de Não-Proliferação, ao contrário de Israel.

POTÊNCIA GLOBAL

Estas contradições não são novas nem surpreendentes: fazem parte da política externa dos EUA desde o fim da Guerra Fria. O importante, neste caso, é que os demais países envolvidos entendam e assimilem a lição, e que saibam posicionar-se em função dos seus próprios interesses. Os EUA são uma “potência global”, e os “interesses nacionais” de uma potência global envolvem posições a defender em todo o mundo, o que diminuiu muito a sua capacidade de sustentar princípios e valores universais.

Por isto, depois do fracasso do fundamentalismo quase religioso do governo Bush, o presidente Obama vem surpreendendo alguns analistas com o realismo pragmático e relativista da sua política externa. Mas o seu objectivo central continua o mesmo – ou seja, a primazia mundial dos EUA.

Além disto, ao contrário das aparências, em plena crise económica, Obama decidiu mudar o foco e dedicar-se à consolidação do poder militar norte-americano em todo o mundo, sem grandes preocupações com direitos humanos ou com a difusão da democracia, demonstrando plena consciência de que este poder militar é indispensável à reconstrução da economia e da própria liderança mundial do dólar.

CONGELAMENTO

Deste ponto de vista, o que o presidente Obama está a propor, de facto, é uma espécie de congelamento da actual hierarquia do poder militar mundial, com a manutenção do direito e da obrigação norte-americana de aumentar continuamente os seus próprios arsenais.

Os reveses económicos e militares dos EUA na primeira década do século XXI atingiram o projecto de poder global do país, mas ele não foi abandonado. Hoje, está em curso um realinhamento interno de forças dentro do establishment norte-americano – como ocorreu na década de 1970 – e desta luta interna poderá surgir uma nova estratégia internacional, como aconteceu nos anos 1980, com o governo Reagan. Mas estes processos de realinhamento costumam ser lentos, e os seus resultados dependerão da própria luta interna e dos desdobramentos dos conflitos externos em que os EUA estão envolvidos.

De qualquer maneira, o que é importante compreender é que, seja qual for o resultado desta disputa interna, os EUA não abdicarão voluntariamente do poder global que já conquistaram e não renunciarão à sua expansão futura. A política externa das potências globais tem uma lógica própria e, por isso mesmo, com ou sem política de desarmamento, os EUA deverão seguir aumentando a sua capacidade militar de forma contínua, e numa velocidade que deverá crescer nos próximos anos, à medida que se aproxime a hora da ultrapassagem da economia norte-americana pela chinesa.

Fonte: Informação Alternativa – http://infoalternativa.org

TELEVISÃO E FORMAÇÃO

Theodor Adorno

Kadelbach – Ultimamente a televisão ocupou um espaço crescente nas discussões relacionadas à formação de adultos. Durante muitos anos as Escolas Superiores de Educação Popular (Volkshochschulen) que ofereciam formação para adultos consideraram-se prejudicadas pela televisão, alegando que o público teria se afastado pela entrada em cena deste novo meio de comunicação de massas.

No curso dos últimos dois anos tentou-se sair dessa situação conflitiva, procurando-se tematizar a televisão sobretudo em sua relação com a formação de adultos. O presidente das Escolas Superiores de Educação Popular da Alemanha, Hellmut Becker, tomou posição em relação ao tema no artigo "Televisão e formação" na revista Merkur. Paralelamente, muitos grupos de trabalho no âmbito da própria televisão e grupos de intercâmbio com esta no âmbito das Escolas Superiores de Educação Popular revelaram que este veículo já não é visto a partir de urna perspectiva de confronto, mas que se procura estreitar as relações e a convivência com ele.

Naturalmente a isto relaciona-se todo um conjunto de questões e inter-relações pedagógicas, metodológicas e até mesmo epistemológicas. Assim, fomos motivados a debater a fundo a questão da televisão e da formação. Urna tal ordem de problemas não pode ser abordada e explicada exclusiva— mente pela perspectiva prática. Por isto pedimos a colaboração do professor Theodor Adorno, filósofo e sociólogo de Frankfurt, para participar nesta discussão com o professor Becker. Os conhecimentos do professor Adorno em relação à televisão provêm de um estudo analítico meticuloso deste veículo nos Estados Unidos, onde procurou investigar os programas de televisão e seu público. Pensa que estes dois enfoques, o Ponto de vista prático e o prisma do observador analítico, poderão proporcionar a este debate boas perspectivas de discussão e de orientação.

Senhor Adorno, o senhor conhece os esforços de aproximação realizadas pelas Escolas Superiores de Educação Popular em relação à televisão. Qual é a sua opinião a respeito?

Adorno – Começo destacando que o conceito de formação possui um duplo significado em face da televisão, e espero não ser considerado pedante ao me deter na distinção desses dois significados.

Por um lado é possível referir-se à televisão enquanto ela se coloca diretamente a serviço da formação cultural, ou seja, enquanto por seu intermédio se objetivam fins pedagógicos: na televisão educativa, nas escolas de formação televisivas e em atividades formativas semelhantes. Por outro lado, porém, existe urna espécie de função formativa ou deformativa operada pela televisão como tal em relação à consciência das pessoas, conforme somos levados a supor a partir da enorme quantidade de espectadores e da enorme quantidade de tempo gasto vendo e ouvindo televisão. Contudo, é importante ressaltar que as pesquisas ainda não encontraram uma resposta específca à pergunta tão popular nos Estados Unidos: "What television does to people? (Que efeitos a televisão provoca nas pessoas?)". Talvez possamos retornar ao tema posteriormente.

Se houve alguma espécie de controvérsia entre as posições de meu amigo Becker e as minhas, certamente devem-se a que em seus trabalhos ele se interessou pelo significado pedagógico especifico da televisão, enquanto, como sociólogo da educação, preocupei-me mais com os efeitos de transmissões sem objetivo educacional explícito, principalmente encenações televisivas. É necessário esclarecer bem esta questão, para eliminar falsas querelas. Porém disto, gostaria de acrescentar que não sou contra a televisão em si, tal como repetidamente querem fazer crer. Caso contrário, certamente eu próprio não teria participado de programas televisivos. Entretanto, suspeito muito do uso que se faz em grande escala da televisão, na medida em que creio que em grande parte das formas em que se apresenta, ela seguramente contribui para divulgar ideologias e dirigir de maneira equivocada a consciência dos espectadores. Eu seria a última pessoa a duvidar do enorme potencial da televisão justamente no referente à educação, no sentido da divulgação de informações de esclarecimento. A meu ver, o ponto de partida para uma discussão como esta estaria em situar-se de modo eqüidistante, tanto, por um lado, do pensamento daqueles que consideram apropriado não deixar entrar em suas casas algo assim, quanto, por outro, daqueles que dizem: "sou uma pessoa moderna, e por isto mesmo, superficial", e que nesta medida cultivam a televisão por considerá-la moderna. Pois, para começar, o que é moderno na televisão certamente é a técnica de transmissão, mas se o conteúdo da transmissão é ou não é moderno, se corresponde ou não a uma consciência evoluída, esta é justamente a questão que demanda uma elaboração crítica.

Becker –Creio que nesta base poderemos concordar com relativa facilidade, na medida em que meu interesse é evitar que, a partir da resistência que a televisão encontra entre os intelectuais e pedagogos na Alemanha, ela possa desenvolver com mais facilidade ainda suas danosas conseqüências especificas. Todos conhecem o ditado segundo o qual o dinheiro se vinga preferencialmente em quem o despreza. Analogamente me parece ser o perigo de muitos intelectuais e professores alemães que dizem: "nós não temos televisão para evitar a interferência em nosso ambiente íntimo", quando a resistência leva o filho do intelectual ou do professor a assistir à tevê na casa do operário nas proximidades e submeter-se sem qualquer preparo àquele veículo. Penso que o importante é nos conscientizarmos tanto da função educacional a que o senhor se referiu, da função educativa de esclarecimento da televisão, quanto do perigo da sedução que ela representa, e que a partir desta dupla consciência se gerem instituições apropriadas a ensinar televisão, ou seja, introduzir ao uso deste veículo de comunicação de massa, seja na educação de adultos, seja na escola.

Kadelbach –Esta é uma referência ao público espectador, senhor Becker?

Becker –Creio que isto vale também para os que fazem tevê. Quando se afirma que a televisão deve servir ao entretenimento, à informação e à educação, então pressupomos que entretenimento, informação e educação colaboram na formação do desenvolvimento humano, isto é, do espectador e do ouvinte. Por isto não pode ser indiferente à opinião pública o que acontece efetivamente na tevê em termos de entretenimento, informação e educação. A pergunta que se coloca para a opinião pública é: como podemos conseguir que o efeito de esclarecimento da televisão se amplie e os perigos que ela representa se reduzam a um mínimo inevitável.

Kadelbach – Talvez o senhor possa detalhar melhor sua concepção do "efeito de esclarecimento" da televisão, O senhor se refere à parte informativa deste veículo ou entende a questão num sentido mais amplo?

Becker ––Eu diria que a televisão pode significar esclarecimento num sentido bastante direto. Ao mesmo tempo é preciso ter muita clareza em relação a que nestes planos naturalmente diminui a capacidade de organizar os acontecimentos, motivo pelo qual na mesma situação em que são maiores os efeitos de esclarecimento da televisão, também se manifesta mais fortemente seu poder de sedução. É isto que torna o problema tão importante e tão difícil.

Kadelbach —– Se entendi corretamente, a sua proposta é conseguir com que o maior número de pessoas aprendam a entender esta função de esclarecimento da tevê e aprendam a relacionar a mesma à sua própria existência ou personalidade ou vida. Isto é correto?

Becker ––Sim, e principalmente as pessoas que "fazem" tevê precisam refletir profundamente acerca de sua atividade.

Adorno ––Creio que o conceito de informação é mais apropriado à televisão do que o conceito de formação, cujo uso implica certos cuidados, e que provavelmente não é tão apropriado em relação ao que acontece na tevê.

Além disso, penso que a informação ultrapassa o mero piano da transmissão de fatos. Por exemplo: quando se viu efetivamente o que ocorreu no Parlamento junto ao episódio referido a respeito no semanário Der Spiegel e se manteve o poder de reflexão a respeito, certamente se obteve uma exposição sobre o assunto que possibilita um melhor juízo a seu respeito do que quaisquer longos discursos acerca de procedimentos a serem usados na efetivação legislativa de projetos de lei.

De resto, estou totalmente de acordo com seu ponto de vista, senhor Becker, pelo qual é necessário ensinar os espectadores a verem televisão. O quanto eu concordo com o senhor pode ser verificado a partir do titulo ––um pouco irônico, é bem verdade ––do estudo que fiz nos Estados Unidos sobre a televisão: "How to look at television?’, que significa "Como ver tevê?". Mas, abstraindo da ironia do título sem injuriar nossos espectadores, percebe-se a existência da questão de fundo: como ver tevê sem ser iludido, ou seja, sem se subordinar à televisão como ideologia. Em outros termos: o ensino que o senhor sugeriu na discussão acerca desses veículos de comunicação de massa não deveria consistir apenas em aprender a escolher o que é certo, e na apreensão do mesmo por meio de categorias, mas, desde o início, este ensino deveria desenvolver as aptidões críticas; ele deveria conduzir as pessoas, por exemplo, à capacidade de desmascarar ideologias; deveria protegê-las ante identificações falsas e problemáticas, protegendo-as sobretudo em face da propaganda geral de um mundo que a mera forma de veículos de comunicação de massa desta ordem já implica como dado.

Kadelbach —- Posso interrompê-lo por um momento, senhor Adorno? O senhor referiu-se a que a televisão ela mesma poderia ser uma ideologia, para em seguida utilizar mais uma vez o mesmo termo ideologia exatamente no contexto do perigo em subordinar-se a uma ideologia. No sentido de proporcionar clareza conceitual, talvez fosse apropriado o senhor explicar o que entende por "televisão como ideologia?"

Adorno –– Em primeiro lugar, compreendo "televisão como ideologia" simplesmente como o que pode ser verificado, sobretudo nas representações televisivas norte-americanas, cuja influência entre nós é grande, ou seja, a tentativa de incutir nas pessoas uma falsa consciência e um ocultamento da realidade, além de, como se costuma dizer tão bem, procurar-se impor às pessoas um conjunto de valores como se fossem dogmaticamente positivos, enquanto a formação a que nos referimos consistiria justamente em pensar problematicamente conceitos como estes que são assumidos meramente em sua positividade, possibilitando adquirir um juízo independente e autônomo a seu respeito. Além disto, contudo, existe ainda um caráter ideológico-formal da televisão, ou seja, desenvolve-se uma espécie de vicio televisivo em que por fim a televisão, como também outros veículos de comunicação de massa, converte-se pela sua simples existência no único conteúdo da consciência, desviando as pessoas por meio da fartura de sua oferta daquilo que deveria se constituir propriamente como seu objeto e sua prioridade. Esta espécie de instrução para ver tevê que constitui a sua sugestão, senhor Becker, deveria imunizar tanto quanto possível as pessoas em relação a esse caráter ideológico desse veículo de comunicação, antes de se referir a qualquer outra ideologia em especial.

Becker -–– Posso sugerir uma versão bem direta da questão? Penso que no funda existe o perigo de os jovens procurarem imaginar o amor, por exemplo, tal como ele é apresentado na tevê, isto é, assumam para relações humanas muito diretas representações estereotipadas antes que eles mesmos as tenham vivido. E que em seu próprio desenvolvimento procedam fixados em representações estereotipadas.

Kadelbach —- Apresentação prévia de susbtitutivos.

Becker –– Justamente, e a questão relativa a como enfrentar esta situação coloca-se muito mais em relação a novelas de televisão do que em relação a programas acerca de assuntos políticos.

Adorno –– Muito bem!

Becker –– Precisamente porque a política, ao menos tal como se apresenta na tevê entre nós, é apresentada com forte acentuação nos debates, apresentando pontos de vista divergentes entre si, enquanto no relativo às posições fundamentais na vida cotidiana expressas nessas novelas, são veiculadas coisas que se transferem com muito mais força ao inconsciente, a partir do que, obviamente, tornam-se muito mais perigosas.

Adorno –– Em minha opinião, no fundo, em sua configuração usual, essas novelas são politicamente muito mais prejudiciais do que jamais foi qualquer programa político.

Becker –– Certo. Se hoje eu fosse fazer um filme sobre o Terceiro Reich, não mostraria as tropas da SA em marcha, mas procuraria apresentar trechos de filmes de amor rodados naquele período, e provavelmente nestes termos nos acercaríamos do clima do Terceiro Reich de um modo muito mais sutil. Mas a pergunta que se apresenta em programações deste tipo é: a televisão pode ser melhor do que a sociedade em que ela se encontra? Ela poderia, por assim dizer, atuar sobre a sociedade, ou então, para usar uma terminologia usual, funcionar como ‘instituição moral", ou trata-se meramente de um espelho da sociedade?

Adorno –– Em relação a esta questão, é possível afirmar de um modo geral que uma instituição tão prestigiada pela sociedade como a televisão evidentemente está comprometida em sua própria antologia com a sociedade. Mas penso que neste assunto é preciso evitar uma reflexão mecânica. Na medida em que uma série de pessoas com posições críticas, autônomas e freqüentemente até oposicionistas, colaboram na produção dos programas, torna-se possível romper em certo sentido as barreiras do existente simplesmente apoiando-se nas relações pessoais especificas e sobretudo na competência técnica de pessoas que têm o que dizer e fazer quanto a este assunto. Enquanto existirem pessoas tecnicamente competentes em televisão que percebem que certas encenações, como as peças de Beckett, por exemplo, são particularmente apropriadas a este veículo de comunicação de massa, pessoas além disto dotadas de energia suficiente para programar o Último elo de Beckett pelo rádio e pela tevê, em vez de veicular uma família comum dessas que tem nome diferente conforme a região, então eu diria que uma tal programação vai além da tevê nos termos vigentes, podendo contribuir para transformar a consciência das pessoas. Paradoxalmente, a relativa fixação das burocracias no interior de determinadas instituições da indústria cultural permite a essas instituições se comportar de maneira menos conformista do que se estivessem sob um controle aparentemente democrático.

Becker –– Gostaria de relatar um exemplo extremamente interessante que a UNESCO promove, por enquanto apenas nas regiões mais atrasadas dos países civilizados. Como se sabe, a cinqüenta ou sessenta quilômetros de Paris existem aldeias em que não há sequer água corrente, quanto mais saneamento ou coisa semelhante, onde as pessoas vivem num estado de consciência inimaginável a sessenta quilômetros de Paris. Nesses locais a UNESCO instalou experimentalmente aparelhos comunitários de televisão. A população da aldeia se reuniu em torno à tevê, e certas personalidades foram convidadas a discutir determinados programas com a população. Verificou-se que a partir disto poderia ser implantada uma espécie de urbanização abrangente, que talvez não representa uma formação cultural no sentido clássico, mas que para essas pessoas desempenhou uma função formativa decisiva para a participação na vida atual.

Não quero chegar ao ponto de afirmar que considero inevitável que, por exemplo, nos países em desenvolvimento, as pessoas assistam à tevê antes de serem alfabetizadas. Porém, na prática, a situação é esta, e nesta medida a televisão converte-se em um meio com que esta sociedade em que vivemos se adapta a si mesma. Evidentemente, senhor Adorno, desenvolvem-se neste plano todos os problemas relacionados ao processo de adaptação em geral. Por um lado, acontece por esta adaptação algo de essencial ao funcionamento de nosso mundo moderno. Por outro, acontece algo de muito perigoso, a que o senhor repetidamente atentou.

Adorno –– Para não haver mal-entendidos, destaco que considero as coisas relatadas pelo senhor como sendo totalmente inofensivas. Se em regiões tão atrasadas em meio a países de resto altamente desenvolvidos, a televisão possa induzir os trogloditas a abandonarem suas cavernas, eu me alegraria acerca dessa situação tanto quanto o senhor. Nos termos de minha crítica à televisão, não me opus a que ela torne as cavernas dos trogloditas mais desagradáveis, pois uma casa higiênica me apraz mais do que uma caverna simpática. Localizo o perigo em questões bem diversas. Exatamente em que, por toda a parte onde a televisão aparentemente se aproxima das condições da vida moderna, porém ocultando os problemas mediante rearranjos e mudanças de acento, gera-se efetivamente uma falsa consciência. Nem considero tão prejudicial assim o aprendizado do amor a partir da televisão, pois com freqüência podemos ver moças muito bonitas na tevê e, afinal, por que os adolescentes não deveriam se apaixonar por moças tão bonitas? Não considero isto perigoso. Mesmo que por essa via aprendam certos costumes eróticos, isso não seria desvantajoso. Valéry disse certa feita que no fundo o amor é aprendido nos livros, e o que vale para os livros também deveria bastar à televisão.

Kadelbach –– (E bons costumes sempre são úteis.)

Adorno –– E bons costumes sempre são úteis.

Kadelbach –– A pergunta que se coloca é se de fato aprendem bons costumes.

Adorno –– Provavelmente até um certo ponto sim, ainda que seja de uma maneira muito superficial e meramente exterior, mas que, tal como os autênticos processos de formação, avançam muito mais de fora para dentro do que inversamente, como o pretende a ideologia. Contudo, quero destacar também o que considero ser o perigo específico. Trata-se de algo relativo ao conteúdo, que nada mais tem a ver com o veículo técnico de comunicação de massa. Trata-se dessas situações inacreditavelmente falsas, em que aparentemente certos problemas são tratados, discutidos e apresentados, para que a situação pareça ser atual e as pessoas sejam confrontadas com questões substantivas. Tais problemas são ocultos sobretudo na medida em que parece haver soluções para todos esses problemas, como se a amável vovó ou o bondoso tio apenas precisassem irromper pela porta mais próxima para novamente consertar um casamento esfacelado. Eis aqui o terrível mundo dos modelos ideais de uma "vida saudável", dando aos homens uma imagem falsa do que seja a vida de verdade, e que além disto dando a impressão de que as contradições presentes desde os primórdios de nossa sociedade poderiam ser superadas e solucionadas no plano das relações inter-humanas, na medida em que tudo dependeria das pessoas. Penso que mesmo onde há apenas vestígios de uma tal tendência de harmonização do mundo é preciso se contrapor com muito vigor à mesma, e justamente os intelectuais, via de regra tão malvistos como desagregadores, prestam um grande serviço à humanidade quando denunciam embustes dessa ordem.

Becker –– Portanto, o senhor concordaria comigo que a frase de um teólogo protestante —– "a televisão precisa mostrar uma vida familiar positiva" -— significa exatamente o que não queremos na tevê, ou seja, a representação da ilusão no lugar da apresentação da realidade dos problemas reais.

Adorno –– Considero esta frase do teólogo tão horrenda que, se precisasse caracterizá-la, me faltariam os termos diplomáticos exigidos pelo código vigente das telecomunicações.

Kadelbach —- Senhores, trata-se, contudo, de questões usuais de comportamentos e de costumes. Vejo um perigo suplementar na existência em amplos círculos da opinião pública cultivada de uma expectativa em relação a que a televisão ofereça não só máximas de comportamento como estas, mas também desenvolva valores e padrões normativos que serviriam de referencial para todas as críticas, avaliações e enquadramentos. Ou, para ser ainda mais contundente, algo também conhecido do senhor Becker a partir das discussões nas Escolas de Formação Popular: atribuir à televisão a tarefa de tornar o mundo melhor, mais belo, nobre e verdadeiro com o auxílio das oportunidades inacreditáveis que, ao que se afirma, se baseariam nesse veículo de comunicação de massa.

Becker ––– Eu diria que a chance principal desse veículo está em, quando corretamente utilizado, possibilitar o encontro com a realidade e não com a ilusão, e seu perigo maior está em possibilitar o encontro com a ilusão no lugar da realidade. Neste sentido, todos os programadores de televisão têm uma responsabilidade decisiva em não pedagogizar a televisão em razão de sua função formativa.

Adorno —– Gostaria de acrescentar uma referência á estética. Não há dúvida que o importante é contrapor-se. na televisão, à ideologização da vida, e eu seria o último a amainar esta exigência que o senhor expressou. Ao contrário, eu até mesmo a radicalizaria. Mas em relação a esta questão, deveríamos nos precaver do equivoco segundo o qual o que designamos como consciência da realidade precisa ser apresentado necessariamente com os meios de um realismo artístico. Justamente porque o mundo desta televisão é uma espécie de pseudorealismo, porque até mesmo o último detalhe da televisão é perfeito, e o público reclamaria se em qualquer instrumento técnico algo não fosse exatamente perfeito, provavelmente por isto no veículo televisivo a possibilidade de despertar a consciência da realidade vincula-se em grande parte à desistência em reproduzir mais uma vez a realidade superficial cotidiana visível em que vivemos. O embuste a que há pouco nos referimos consiste precisamente em que esta harmonização da vida e esta deformação da vida são imperceptíveis para as pessoas, porque acontecem nos bastidores. Uso o termo ‘bastidores’ num sentido amplo. Eles são tão perfeitos, tão realistas, que o contrabando ideológico se realiza sem ser percebido, de modo que as pessoas absorvem a harmonização oferecida sem ao menos se dar conta do que lhes acontece. Talvez até mesmo acreditem estar se comportando de um modo realista. E justamente aqui é necessário resistir.

Becker –– Isto afeta até o mundo da propaganda. Nós temos um tipo de propaganda que em seu primeiro plano é totalmente realista, e eu me convenci inteiramente quando recentemente li que a UNESCO sugeriu a uma empresa telefônica, que solicitou a ela um pequeno filme de propaganda, apresentar uma senhora bem vestida com um carneiro nos braços, dizendo "este carneiro é um telefone", para deste modo fazer propaganda do telefone. Precisamente o contrário daquilo que o senhor quis dizer com o seu realismo.

Kadelbach ––Assim avançamos de modo decisivo, alcançando a possibilidade de distanciamento em relação a este veículo de comunicação de massa, e basta o simples tamanho da tela para tornar impossível apresentar de maneira realista uma cópia da vida.

Adorno —- Só que não se toma proveito suficiente deste fato.

Becker -––Muito pouco!

Kadelbach –– Creio que foi Cocteau quem lembrou que rastros na neve e uma folha que cai podem contar uma história. É preciso justamente atentar mais para esta utilização de símbolos com distanciamento, cujo aprendizado, aliás, também seria importante para os produtores e para os espectadores.

Becker —- Poderíamos investigar muito mais a fundo tudo isso se dispuséssemos de um controle mais intensivo da transmissão por meio de pesquisas especificas. É digno de nota que na Alemanha, por exemplo, se façam pesquisas para descobrir se as pessoas gostaram do programa, o que pessoal-mente considero relativamente desinteressante. Por outro lado, consideraria muito interessante se existissem pesquisas que acompanhassem durante anos toda uma série de programas, que investigassem sociologicamente os efeitos dessas programações sobre determinados grupos de pessoas. Creio que uma tal "pesquisa de controle" de longo prazo poderia servir para se aprender com mais precisão o que a televisão afinal promove ou o que ela provoca.

Adorno –– Em relação a este problema, a investigação sociológica empírica se encontra numa situação bem difícil. Pois até hoje, utilizando seus procedimentos mais sofisticados, ela conseguiu descobrir relativamente pouco acerca deste assunto. Provavelmente isto se deve a que justamente os processos profundos aos quais também o senhor Becker se referiu há pouco ocorrem de um modo tal que são dificilmente apreensíveis como efeitos de programas individuais ou senados, mesmo usando os métodos mais aprimorados. É difícil assegurar-se daquilo que como processo inconsciente constitui propriamente o contra-senso.

Becker –– Senhor Adorno, penso que o senhor mesmo, juntamente com Pollock e Horkheimer, revelou em suas discussões de grupo que existem métodos que, além de qualquer investigação quantitativa, são apropriados para expor à pesquisa sociológica determinadas camadas do inconsciente das pessoas.

Adorno –– Sim, eu concordo. Entretanto penso que nesta questão não avançamos muito mediante os procedimentos usuais de questionários e nem com as mais sofisticadas pesquisas de opinião, mas que aqui o método mais plausível efetivamente é a content analysis (análise de conteúdo), ou seja, a análise dos próprios fenômenos, em que seria possível inferir mais ou menos o significado das conseqüências dos fenômenos para as pessoas, mesmo que este efeito não possa ser registrado. Nesta medida gostaria de chamar a atenção para que não se veja isoladamente a televisão, que constitui somente um momento no sistema conjunto da cultura de massa dirigista contemporânea orientada numa perspectiva industrial, a que as pessoas são permanentemente submetidas em qualquer revista, em qualquer banca de jornal, em incontáveis situações da vida, de modo que a modelagem conjunta da consciência e do inconsciente só pode ocorrer por intermédio da totalidade desses veículos de comunicação de massa. Sugiro efetivamente começar detendo-se na configuração do material e na sua integração, para exercer a crítica a partir deste ponto, sem confiar em que, com os métodos positivistas usuais seja possível registrar essas coisas, sem confiar em que isto atue sobre as pessoas efetivamente hic et nunc (aqui e agora) diretamente como se poderia supor a partir da análise deste material. Contudo, esses talvez sejam detalhes acerca das técnicas de investigação que podem ser deixados de lado aqui. Mas um ponto é fundamental: o fato de não podermos demonstrar com precisão como essas coisas funcionam naturalmente não significa uma contraprova desse efeito, mas apenas que ele funciona de modo imperceptível, muito mais sutil e refinado, sendo por isto provavelmente muito mais danoso.

Becker —- Além disto creio mesmo assim ser necessário atribuir um plano muito maior a esta pesquisa, apesar de todas as dificuldades. Seria preciso esclarecer também o que, no efeito relatado da televisão, falta em especial entre nós, por exemplo, revistas que introduzam mais objetivamente à programação, possibilitando ao espectador uma opção de escolha muito mais consistente e, principalmente, uma programação fundamentada com muito mais força nos possíveis efeitos que provoca e assim por diante. Tudo isto pressupõe uma pesquisa orientada justamente para estes problemas, tomando-se apenas o cuidado de evitar respostas padronizadas. Mas a pesquisa é necessária de um modo totalmente diferente, porque numa instituição de formação — o que aliás se aplica ao conjunto de toda a formação de adultos que não é centrada em exames — os resultados são controlados somente por meio de uma investigação científica. Na ausência de controle, toda a instituição poderia se perder, por assim dizer, em suas próprias ilusões. Portanto, insisto na necessidade desse tipo de pesquisa, tanto para os resultados do trabalho das Escolas de Formação Popular, quanto para os efeitos da televisão.

Kadelbach –– Talvez haja um campo em que isto possa ser praticado em breve. Existem preparativos para a introdução de uma televisão educativa, e uma série de classes, incluindo seus professores, foi interrogada detalhadamente a esse respeito. No início de nossa discussão, o senhor Becker afirmava que muitos professores temiam que a esfera íntima da educação pudesse ser perturbada pela invasão da sala de aula pela televisão. Talvez justamente aqui se localize uma base para desenvolver critérios e métodos que poderiam depois se tornar exemplares para casos semelhantes e subseqüentes.

Becker –– Também penso assim. Creio que, obviamente, a televisão educativa precisa se subordinar a condições especiais. Os resultados de pesquisa que se tem em mente ao se examinar a televisão educativa neste sentido mais detidamente, não possibilitam uma transferência automática para outros âmbitos. Isto pode ser concluído já a partir do fato de que a televisão educativa se inclui em moldes inteiramente diferentes em uma instituição fechada. Pessoalmente considero a tevê educativa como um meio de formação que deveria ser introduzido na escola, precisamente porque oferece a possibilidade de incluir na escola de modo estimulante um ensino particularmente qualificado.

Nos Estados Unidos acompanhei algumas dessas experiências de televisão educativa e, ao contrário do que imaginava anteriormente, ou seja, que seria muito difícil transmitir a intensidade de uma boa aula através da televisão, o que ocorre é que a aula, naturalmente muito melhor preparada e muito mais cuidadosamente executada para ser televisiva, tem um grande poder de atração, provocando assim o risco de que os alunos poderiam a seguir se entediar com as aulas normais. Por outro lado, é preciso deixar bem claro que a suposição de economizar professores na escola tradicional por meio da televisão é incorreta. Um ensino através da televisão evidentemente só funciona de modo correto quando um professor presente à transmissão discute e explica o que foi apresentado. Além disso, penso que numa época de perda de qualidade, a televisão representa a oportunidade de uma multiplicação da qualidade pela ampliação constante da formação cultural. De um certo modo é difícil deixar de lado esta possibilidade, porque ainda não formamos um contingente suficiente de pessoas qualificadas para corresponder às demandas numericamente crescentes sobre o sistema formativo educacional. Evidentemente, a televisão educativa tem a vantagem do controle imediato. Nos Estados Unidos isto é feito ao se reunir os professores que acompanham essas aulas num âmbito maior em intervalos regulares com o "professor televisivo". Nessa ocasião ocorre uma crítica bastante forte ao programa especifico, que evidentemente precisa provocar efeitos positivos sobre a programação subseqüente. Penso que isto serve também para uma conclusão importante sobre a televisão em geral: que tanto a crítica como a repetição representam uma oportunidade muito grande da televisão. Até agora, com um programa nós imaginávamos que a repetição seria algo problemático. Agora constatamos que, por exemplo, um ótimo curso de formação de professores de Física dotado de experimentos excelentes pode tranqüilamente ser repetido após um ano. Ele não se tornou pior por causa disto e encontra muitos novos interessados. Contudo, isso pressupõe toda uma nova organização de programação em face da existente até então, apontando, inclusive, para além da televisão educativa, a pergunta relativa a se vale a pena ter determinados programas de formação na televisão.

Adorno –– Gostaria de ainda acrescentar algo à questão da televisão educativa. A questão levantada aqui é muito complexa. De um lado, o chamado imediatismo do ensino, aquilo que se denomina de "situação de transferência" entre o professor e os alunos. Por outro, a possibilidade de um ensino técnica e qualitativamente muito aperfeiçoado mediante uma televisão centralizada. Questões como essa, em que os prós e contras dificilmente podem ser avaliados pela mera reflexão, constituem o caso ideal daquilo que pode ser decidido mediante a investigação empírica. Seria bastante fácil imaginar uma situação experimental em que a mesma matéria, Física, por exemplo, é transmitida a um grupo de crianças por meio de bons professores na sala de aula, e a seguir oferecida pela televisão educativa. Seria preciso investigar em qual desses cursos as crianças aprenderam mais, entrevistando na seqüência as crianças e comparando-se os resultados. Coisas assim podem ser medidas com métodos investigativos precisos. Em outras palavras: o lado informativo da televisão, que nos parece ser o mais produtivo, é simultaneamente aquele que se expõe mais facilmente às modernas metodologias de pesquisa, possibilitando efetivamente decidir entre o que apresenta de bom e de ruim. Com base nos resultados seria possível inclusive introduzir aperfeiçoamentos específicos ou soluções intermediárias, combinações e toda uma gama de opções desse tipo. Porém interrompi o senhor Becker justamente quando queria referir-se a um problema muito relevante e igualmente difícil, ou seja, as programações orientadas para grupos específicos e a televisão formativa.

Becker –– Eu pretendia abordar a questão do sentido de produzir determinados programas formativos, ou seja, a concepção do "terceiro programa" nos termos da televisão. Considero muito perigoso concentrar a concepção de formação cultural em um programa, liberando, por assim dizer, os outros programas da responsabilidade pela função formativa da televisão. Isto deve ser evitado. Embora na programação televisiva vigente sejam levados em conta os problemas específicos que se apresentam, por exemplo, na formação de adultos, sempre quando acontece uma manifestação dessa ordem num programa especifico, os efeitos poderiam muito bem influenciar a programação televisiva como um todo. Acho que foi Klaus von Bismarck quem introduziu a expressão programa para minorias qualificadas". Em minha opinião elas não constituem uma minoria qualificada única, mas sim minorias qualificadas conforme a estrutura do programa.

Kadelbach —– Aqui é necessário perguntar: quem qualifica as minorias que se consideram qualificadas?

Becker –– Ao que tudo indica, elas se qualificam a si mesmas, por exemplo, na medida em que se dispõem a aprender russo pela tevê, ou então assistir a uma exposição de Hellmut Becker e Theodor Adorno.

Adorno –– O problema que o senhor abordou é efetivamente central, e a partir dele é possível aprender algo das contradições em nossa sociedade. Aliás, isto vale não só para a tevê, mas também para o rádio, por exemplo para programas musicais, para tudo o que se relaciona a essa "terceira programação" das rádios. Trata-se de uma questão que conheço bem sobretudo no que se refere à música moderna. Neste caso, o que expus em contextos de sociologia da música, que nada tem a ver com esta nossa discussão, por meio dessa especialização de programas ocorre um reforçarnento da "neutralização da cultura". Ou seja, justamente o que é novo, o que é avançado, o que é espiritual passa a ser desvalorizado e marcado como questão para "especialistas" — termo que permite evitar a horrorosa expressão "gostos refinados". Mas do outro lado encontra-se a pressão plebiscitária de incontáveis ouvintes e espectadores, cuja única preocupação está em não serem subestimados, pressão tão forte que acaba eliminando as coisas mais importantes da programação. A antinomia social consiste precisamente na enorme distância entre a qualidade intelectual, de um lado, e as demandas dos consumidores, por sua vez já manipuladas, por outro. Se eu fosse diretor de programação, começaria a ter noites de insônia. Como felizmente sou apenas um pensador teórico diria que é necessário tentar ambas as coisas: por um lado, é preciso dar abrigo na televisão às coisas que não correspondem aos interesses do grande público, como os programas qualificados para minorias. Estes, contudo, não devem ser hermeticamente fechados, mas, mediante uma política de programação inteligente e conseqüente, precisam ser levados ao contato das outras pessoas, no que provavelmente o meio do choque, o meio da ruptura será mais produtivo do que o gradualismo, embora também nesta questão haja a "formação da tradição". Lembro nesta oportunidade o que aconteceu no plano da música: Hübner desenvolveu em Hamburgo, já há muito tempo, um determinado programa com música de qualidade exponencial, a "nova obra". Com um planejamento conseqüente de longo prazo, gradualmente se formou um grande público para os concertos, inclusive freqüentando o auditório da Rádio de Hamburgo. Penso que seria possível desenvolver algo semelhante no âmbito da televisão, inclusive porque no plano visual as resistências são menores que no plano musical. Seria preciso estabelecer um planejamento comum adequado entre os setores que se encarregam da programação para as minorias qualificadas e os responsáveis pela programação para o grande público, discutindo os problemas, inclusive sociológicos, que se apresentam neste plano. Quem sabe com programações orientadas por esta via poderíamos até abrir uma brecha na barreira do conformismo.

Becker -–– E justamente nesta questão seria decisivo ocupar-se do problema relativo ao que acontece com as pessoas depois de assistirem aos programas. O que acabei de relatar no caso das aldeias perto de Paris repetir-se-ia agora num plano totalmente diverso, não necessariamente nos termos da recepção comunitária, mas talvez sob a forma do encontro de grupos que levam em frente as coisas que apreenderam com a televisão, na medida em que uma das experiências fundamentais da formação de adultos consiste em que a integração só ocorre a partir de uma tomada de posição própria. Na medida em que não se apresente um espaço organizatório próprio para esse posicionamento individual, há o risco de que as coisas também não sejam absorvidas nem mesmo entre as minorias qualificadas.

Kadelbach –– Por tal perspectiva fica claro que pessoas e grupos das Escolas de Formação Popular se coloquem à disposição dos produtores da programação televisiva para que as matérias veiculadas na tevê sejam aprofundadas, meditando a seu respeito, interiorizando-as e interagindo com as mesmas, para não permanecerem meras declamações vazias, possibilitando ao menos, em seus termos iniciais, o que se chama de formação cultural.

Adorno –– Para terminar, sem parecer imodesto e por mais parcial que isto seja, gostaria de apresentar algumas conclusões desta conversa.

O veículo técnico da televisão é novo. Mas os atuais conteúdos, procedimentos e tudo o que se relaciona aos mesmos ainda são mais ou menos tradicionais.

Pelo prisma do veículo de comunicação de massa a tarefa que se coloca seria encontrar conteúdos e produzir programas apropriados em seu conteúdo para este veículo, e não impostos ao mesmo a partir de seu exterior. Esta talvez seja a grande contribuição de nosso debate: tudo o que elaboramos positivamente — o significado do elemento informativo e documentário, a importância da montagem e do distanciamento frente ao realismo, a importância de uma interação entre pesquisa e produção, o rompimento de toda a esfera íntima da escola e por fim a interação entre programas especiais e programação geral —, que são inovações que parecem estar em conformidade com a configuração social e tecnológica específica deste veículo de comunicação de massa, e que todos parecem se opor a tentativas de copiar ou divulgar em sua forma ou em seu conteúdo quaisquer bens culturais tradicionais por meio da televisão. Nestes termos apresentaria uma espécie de cânone ou linha de orientação para o que deveria ser o rumo da televisão, para que ela represente um avanço e não um retrocesso do conceito de formação cultural.

Becker — Isto precisa se refletir também na organização, nos grupos de controle e de programação da televisão, cujos produtores precisam tematizar as questões a que o senhor se referiu. Na medida em que isto ocorrer, será possível uma televisão no sentido delineado pelo senhor.

Tradução: Wolfgang Leo Maar

Fonte: Educação On-Line – http://www.educacaoonline.pro.br/

Água será escassa para 290 milhões de habitantes do Mediterrâneo

J. M. Martí Font

Pescador no mar 
Mediterrâneo na costa do Líbano

Pescador no mar Mediterrâneo na costa do Líbano

O conflito palestino-israelense bloqueia o acordo sobre os recursos hídricos

A água -um bem cada vez mais escasso em torno do qual gira de forma crescente a geopolítica- pôs novamente em evidência na terça-feira (12) o obstáculo que representa o conflito palestino-israelense para qualquer tentativa de articular políticas comuns entre os países às margens do Mediterrâneo. Os 43 membros da União pelo Mediterrâneo (UpM) – os países da União Europeia e os das margens sul e leste do Mediterrâneo -, reunidos em Barcelona na 4ª Conferência Ministerial Euromediterrânea, não conseguiram aprovar o documento sobre a gestão da água.

Tudo devido a uma simples questão semântica, a que separa o termo "territórios ocupados" de "territórios sob ocupação". Israel insistia na segunda formulação e os países árabes, na primeira. Para desespero dos especialistas que haviam trabalhado no projeto, minuciosamente elaborado, longamente preparado e praticamente consensual, não houve acordo. Como explicou o secretário de Estado do Meio Rural e da Água da Espanha, Josep Puxeu, os 43 países chegaram a um acordo sobre 99% da declaração e da estratégia.

A importância do documento era dupla. De um lado, devido ao alcance do tema: a água, cada vez mais escassa, especialmente na bacia mediterrânea. Por outro, porque se tratava da primeira grande estratégia da UpM, cuja sede em Barcelona foi inaugurada há poucas semanas.

Os recursos hídricos da bacia do Mediterrâneo são escassos, sofrem variações imprevisíveis e são, em grande parte, muito mal administrados. Condições que a mudança climática só faz acentuar. O último relatório da ONU indica que antes de 15 anos 290 milhões de pessoas que vivem nos países ribeirinhos terão seu acesso a água limitado, o que provocará conflitos sociais e territoriais de consequências imprevisíveis.

Outro grande desafio que o documento contemplava é o da depuração das águas. Atualmente, 47 milhões de pessoas de países mediterrâneos não têm acesso à água depurada, e embora a metade dos habitantes do "mar interior" vivam em cidades uma em cada três urbes da bacia não dispõe de usinas de depuração.

O crescimento demográfico, a atividade turística nas costas e os usos agrícolas vão fazer disparar a demanda em 30% nas próximas décadas, enquanto as reservas hídricas poderão se reduzir em uma porcentagem idêntica por causa da mudança climática.

O documento estratégico que deveria ser aprovado na terça-feira incluía promover uma economia de 25% do total da água que se consumiu em 2005, tendo como meta 2025, assim como uma série de desafios em torno da preservação dos recursos, a melhora da gestão ou a salvaguarda da saúde pública.

A ministra do Meio Ambiente e Meio Rural da Espanha, Elena Spinosa, que presidiu à inauguração da conferência, salientou que o Mediterrâneo é uma bacia hidrológica desequilibrada, com fenômenos extremos de seca e inundações cíclicas, e alertou os países que formam a UpM sobre a necessidade de dotar-se de uma "estratégia comum sobre um recurso escasso", para disporem de água em médio e longo prazo.

A realidade, porém, é que enquanto os países do norte – concretamente os da UE, que devem se ater aos critérios comunitários – há tempo administram seus recursos hídricos em sua globalidade, aplicando critérios econômicos sobre os custos de recuperação e o impacto do uso dos recursos, os países do sul e do leste ainda não têm planos de intervenção.

Apesar do fracasso político de terça-feira, os especialistas quiseram ver o copo meio cheio e não meio vazio, nas palavras de Josep Puxeu. O secretário-geral da UpM, Ahmad Masadeh, apesar de lamentar o ocorrido, lembrou que neste momento já estão em curso até meia centena de projetos sobre a água, e pediu à ONU, à Liga Árabe e ao Conselho de Ministros Africanos que se envolvam no tema. "É necessária uma nova cultura da água que permita criar mecanismos capazes de gerar prosperidade", disse.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

"Defendo a criação do Estado soberano dos palestinos"

Maiesse Gramacho e Regina Bandeira

Cláudio Reis/UnB Agência

Filho de judeus russos e romenos que emigraram para o Brasil nos anos 1920, Isaac Roitman, de 70 anos, tem certeza de que a maior parte dos israelenses e palestinos sonham com a paz na região. “Creio que a convivência pacífica seja possível”, diz o professor aposentado do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília. E completa: “Não vejo nada de errado em Jerusalém ser uma cidade em que judeus e árabes possam conviver respeitando as tradições mútuas”.

No entanto, de acordo com o professor, para que a paz seja alcançada, é preciso que ambas as partes dialoguem. “Essa esperança de paz por meio do diálogo pode parecer ingênua, mas é o melhor caminho para o entendimento entre povos civilizados”, avalia.

Em entrevista à Secretaria de Comunicação da UnB, Roitman diz, ainda, que as universidades podem contribuir para o fim dos conflitos entre árabes e judeus. “Sendo a universidade um dos mais importantes segmentos da educação, ela tem um papel decisivo na formação de um novo ser humano que possa ser chamado, legitimamente, de Homo sapiens”.

UnB AGÊNCIA – Quantos anos o senhor tem e desde quando está no Brasil?
ROITMAN -
Tenho 70 anos, e sou brasileiro. Nasci em Santos, São Paulo. Meus pais são europeus, originários da Rússia e da Romênia. Eles chegaram no Brasil na década de 20 do século passado.

UnB AGÊNCIA – É judeu praticante?
ROITMAN - Não sou religioso, mas respeito os ensinamentos éticos e comportamentais da tradição judaica.

UnB AGÊNCIA – O senhor tem família em Israel? Como mantém contato com eles?
ROITMAN - Tenho parentes e amigos em Israel, e mantenho contatos regulares por telefone e internet. Mas nessa fase não intensifico o contato. Eles moram longe da fronteira, por isso não fico no estresse da guerra.

UnB AGÊNCIA – Alguém da família já foi atingido ou por um ataque terrorista ou morreu em combate?
ROITMAN - Não, nenhum parente ou amigo foi atingido de forma direta durante os conflitos bélicos na região.

UnB AGÊNCIA – Como é ver a guerra pelo noticiário? Já virou rotina ou sempre causa revolta, tensão?
ROITMAN - É sempre triste saber de notícias da guerra pela mídia. Não só a que ocorre de maneira recorrente no Oriente Médio como em outras regiões do planeta. Saber que inocentes são mortos faz com que nos envergonhamos de sermos seres humanos.

UnB AGÊNCIA – O povo israelense está mais bélico, mais intolerante ou, pelo contrário, mais cansado de tanta dor, morte e impasses?
ROITMAN -
A história do estado de Israel sempre foi marcada pelo cenário bélico. Trabalhei em Israel por 6 meses (1969) e conheci cidadãos israelenses judeus e árabes. Já naquela época a maioria deles almejava a paz. Presumo que, atualmente, o povo israelense e palestino na sua grande maioria sonha com a paz naquela região.

UnB AGÊNCIA – Qual é a sua visão dessa guerra? É uma questão religiosa, territorial?
ROITMAN - O conflito no Oriente Médio tem natureza complexa envolvendo diferentes dimensões: de soberania, econômica, ideológica, religiosa, geopolítica, de manutenção da indústria bélica.

UnB AGÊNCIA – O senhor defende a causa judaica?
ROITMAN - O direito do israelense de ter um estado já existe. O estado de Israel é uma realidade. Seus cidadãos têm o direito a uma vida digna e segura. Da mesma forma, os palestinos têm direito a um estado soberano onde seus habitantes tenham também uma vida digna e segura. Creio que a convivência pacífica é possível e nada vejo de errado em Jerusalém. Uma cidade onde judeus, cristãos e árabes possam conviver respeitando as tradições mutuas.

UnB AGÊNCIA – O senhor partilha da vontade de fazer de Jerusalém a capital dos judeus?
ROITMAN - A partilha de Jerusalém devia ser colocada na mesa de negociação e discutida entre as três religiões (cristã, judaica e árabe) que consideram aquela terra santa. Acho que seria mais correto se elas pudessem coexistir.

UnB AGÊNCIA – O senhor é a favor da criação do Estado Palestino?
ROITMAN - Sim, claro. Defendo a criação do estado soberano dos palestinos. E que eles tenham uma vida digna e segura. Os palestinos vivem em uma situação precária, seria importante e fundamental também que eles recebessem investimentos, orientação.

UnB AGÊNCIA – Muitos judeus defendem a paz naquela região e acreditam na convivência pacífica dos povos – que, ao fim e ao cabo, têm a mesma origem semita. Como o senhor vê esses movimentos?
ROITMAN -
A comunidade internacional pode ser um elemento importante, mas não decisivo, na conquista da paz no Oriente Médio. Movimentos que existem na área de conflito como o movimento Paz Agora liderado pelo escritor israelense Amós Óz e movimentos de natureza semelhante que existem em vários países, podem ser instrumentos importantes para obter e garantir a paz entre árabes e judeus.

UnB AGÊNCIA – O acordo de paz ainda é possível?
ROITMAN - Para que seja conquistada a paz naquela região a vontade de israelenses e palestinos é um requisito essencial. Essa vontade deve ser baseada em um dialogo e um entendimento que possa trazer benefícios para todos, sem radicalismo e intolerância. Essa esperança de paz através do dialogo, pode parecer ingênua. Mas é o melhor caminho para o entendimento entre povos civilizados.

UnB AGÊNCIA – Mesmo havendo essa recusa em dialogar com o Hamas?
ROITMAN - Acredito na paz, mas apenas se houver vontade entre as partes. Não vai adiantar a pressão européia se os dois países não se entenderem. O problema crônico está na falta de interlocutores legítimos. Em Israel, essa questão já está resolvida, no entanto, na Palestina, há dois interlocutores – um em Gaza e outro na Cisjordânia. Isso terá de ser resolvido.

UnB AGÊNCIA – O presidente eleito Barack Obama pode vir a fazer diferença nessa aproximação?
ROITMAN -
Estamos esperando que o Obama salve o mundo. Pessoalmente,  acho que a humanidade está em perigo. O planeta está se esgotando. Se fôssemos dar uma vida digna a todos os 6 bilhões de habitantes da Terra teríamos de ter seis outros planetas. Isso é muito sério. O EUA, que conduziram a liderança do mundo nas últimas décadas, não conduziram no caminho de horizonte azul. O próprio povo americano quer que ele tire o país do buraco. Aqui no Brasil temos fome, violência, barbárie. Precisamos refletir como espécie.

UnB AGÊNCIA – Aqui no Brasil, as relações entre judeus e árabes reproduzem o conflito entre essas nações? Ou é diferente?
ROITMAN -
Não, de jeito algum. O convívio entre judeus e árabes no Brasil é cordial, o que já faz parte da tradição brasileira que sempre recebeu de braços abertos os imigrantes de todas as regiões do planeta. Tenho inúmeros amigos de origem árabe e todos nós almejamos uma paz permanente no Oriente Médio. Tenho amigos árabes. Meu primeiro chefe (Amadeu Cury, reitor da UnB entre  1971 e 1976) era libanês.

UnB AGÊNCIA – Por que falar de guerra na Universidade? Ela nos afeta? O que temos a ver com isso?
ROITMAN - A universidade tem um compromisso importante que é a de observar e discutir tudo o que ocorre fora dela, mesmo que seja um evento lamentável como a guerra. Sendo a universidade um dos mais importantes segmentos da educação, ela tem um papel decisivo na formação de um novo ser humano que possa ser chamado legitimamente de Homo Sapiens para termos uma humanidade com harmonia e paz onde a guerra seja um evento do passado.

Fonte: Universidade de Brasília – http://www.unb.br/

Pobreza absoluta no Vietnã cai para um terço em 14 anos

Enquanto a miséria extrema (menos de 1 dólar por dia) despencou de 53% para 12,3% nos primeiros 20 anos de dao moi (renovação, em vietnamita), a pobreza absoluta (menos de 2 dólares por dia) caiu de 58% para 22% entre 1993 e 2007. O Vietnã apresenta, portanto, proporção de pobreza máxima semelhante ao Brasil (com 20%). Os dados são do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Breno Altman

Hoa Binh é uma província montanhosa no nordeste do Vietnã. A capital, de mesmo nome, fica a 63 quilômetros de Hanói. Ali foi travada uma das batalhas mais importantes da guerra de independência contra os franceses. As tropas do general Vo Nguyen Giap expulsaram os colonizadores em fevereiro de 1952.

Mas os feitos militares não contam toda a história local. A província é uma das mais pobres do Vietnã. A renda per capita não ultrapassa os 300 dólares anuais. As terras de Hoa Binh são pouco férteis e irregulares. Os moradores, na maioria de etnia muong, sobrevivem com dificuldades.

A camponesa Dinh Thi Sy, 51 anos, vive na comuna de Xom Mo, composta por duas aldeias pequenas e habitada por 700 agricultores. Viúva, abriga em casa o filho e sua esposa, além de dois netos. Quando começou o período de renovação, a família recebeu mil metros quadrados descontínuos para plantar arroz. A duras penas, produzem para subsistência.

Para complementar renda, desenvolvem uma modesta lavoura de bambu em terra pública cedida pela comuna. Vendem o miolo da planta como alimento e da casca extraem varetas para as indústrias que fabricam palitos de dente. Mesmo assim, o dinheiro não é suficiente. O filho de Sy trabalha em uma pedreira. A nora dela está cumprindo um contrato de três anos em Taipé, capital de Taiwan.

O filho de Sy está empregado em uma pedreira. A nora está cumprindo um contrato de trabalho em Taiwan, de três anos. Aliás, como outros centenas de milhares, que são escolhidos pelo governo entre os mais pobres, contratados para suprir demanda por mão de obra em outros países.

Mas a camponesa acha que a vida está melhor. “Depois da guerra, passamos fome”, lembra Sy. “Durante anos trabalhamos em uma cooperativa sem receber nem para a comida. Agora tenho casa e televisão. E posso pagar pelos estudos de meus netos, para que eles possam ter melhores chances de progredir”.

As peripécias dessa sorridente muong fazem parte da trajetória de muitos vietnamitas nas últimas décadas. As dificuldades são imensas. Mas o prolongado ciclo de crescimento econômico, depois das reformas realizadas no final dos anos 1980, criou um clima de prosperidade.

Números

Os números ajudam a entender essa situação. Enquanto a miséria extrema (menos de 1 dólar por dia) despencou de 53% para 12,3% nos primeiros 20 anos de dao moi (renovação, em vietnamita), a pobreza absoluta (menos de 2 dólares por dia) caiu de 58% para 22% entre 1993 e 2007. O Vietnã apresenta, portanto, proporção de pobreza máxima semelhante ao Brasil (com 20%). Os dados são do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Mais de 90% da população adulta é alfabetizada. O índice de mortalidade infantil situa-se em 22,26 natimortos por mil. Novamente dados muito parecidos com os brasileiros. Mas a expectativa de vida ao nascer, de 74 anos, é quase 3% superior. São indicadores, enfim, de um país que já se encontra entre as nações com grau médio de desenvolvimento. Com a diferença que nenhum outro sócio desse clube teve trinta anos de guerra nos últimos sessenta.

Apesar da abertura à economia de mercado, o nível de concentração da renda – medido pelo índice Gini, que registra a distribuição da renda familiar – o situa na 78ª posição no ranking da desigualdade. Está melhor que Brasil (10º lugar), Rússia (53º) e China (54º), os três grandes do quarteto BRIC. E apenas um posto pior que a Índia.

O programa mais importante para esses resultados talvez tenha sido a reforma agrária, que aumentou a produtividade e a renda no campo. Também conta a tradição da maioria das famílias, inclusive nas cidades, de plantar parte do que come. O ritmo de industrialização foi igualmente decisivo: gerou empregos e salários para milhões de camponeses sem perspectiva na atividade rural.

O processo de urbanização atualmente atinge a taxa de 3% ao ano sobre o total da população. Vinte e oito por cento dos vietnamitas já vivem nas cidades. Alguns fatos curiosos decoram essa transição. O Vietnã é o 11º país em número de telefones fixos, o 13º em celulares e o 18º em acesso à internet. Não é pouca coisa.

Saúde e educação

Mas as reformas também trouxeram malefícios sociais. Os serviços de educação e saúde, antes públicos e gratuitos, passaram a cobrar parcialmente dos usuários, além de portas terem sido abertas à iniciativa privada.

“O orçamento do Estado não suporta manter integralmente a gratuidade desses direitos e os programas de desenvolvimento”, explica Dinh Duang Thi, assessor teórico da direção do Partido Comunista. “Adotamos um sistema misto, que protege os mais pobres e cobra dos mais ricos.”

O mecanismo é de anuidade progressiva. Quem estuda em escolas estatais não paga nada até o fim do ensino primário. Mas é obrigado a arcar com 10% das despesas escolares depois disso, até completar o ensino secundário. A mensalidade sobe na universidade. O governo oferece créditos educacionais que os alunos deverão honrar depois de ingressados no mercado de trabalho.

A estrutura de saúde segue modelo semelhante. As redes básicas de atendimento médico-hospitalar são gratuitas, mas tratamentos mais sofisticados requerem que o paciente coloque a mão no bolso.

Nem sempre isso é possível. O marido da camponesa Sy, por exemplo, que morreu de câncer no fígado, teve de vender os animais de criação para pagar a conta de médicos e remédios.

Universidades e hospitais privados foram autorizados a funcionar. O governo alega que essa medida desafoga o Estado, pois empresas que operam no Vietnã estariam obrigadas a garantir para os empregados, nessas instituições particulares, tanto educação quanto cuidados médicos. Outra coisa, no entanto, é assegurar que essas companhias cumpram regras e acordos.

Subsídios

O governo tem aumentado consistentemente o orçamento para educação e saúde em relação ao produto interno, declarando o compromisso em sustentar a universalização paulatina dos serviços estatais. Resultados importantes têm sido alcançados. Por exemplo: 93% dos jovens com 15 anos ou mais estão na escola, contra uma média mundial de 84%. Mas, por ora, os esforços estão focados no campesinato.

O Estado subsidia cerca de 90% os planos de aposentadoria e saúde dos agricultores, que correspondem a 72% da população nacional. A diferença é paga pelos próprios camponeses. Geralmente com sacrifício, que muitas vezes é insuficiente para mantê-los em dia com o sistema de seguridade social.

Outro problema social grave são os mutilados de guerra e descendentes. Quase cinco milhões de vietnamitas, nessas condições, estão parcial ou totalmente impedidos de trabalhar. Centros humanitários disseminam-se por todo o território, apoiados por campanhas permanentes de solidariedade. Trabalham nesses locais as famílias vitimadas pela guerra, que produzem artesanato e roupas cujas vendas complementam a pensão paga pelo Estado.

Próximas batalhas

As dificuldades de transpor certos obstáculos no combate à miséria têm levado os vietnamitas a estudar projetos para transferência de renda, como o Bolsa Família brasileiro. Alguns de seus especialistas acham que seria um caminho possível para atender as minorias étnicas, que vivem em zonas inóspitas ao desenvolvimento econômico e respondem por um terço da pobreza absoluta.

No final de abril, uma missão de estudos da Academia de Ciências Sociais do Vietnã visitou a cidade de Formosa, em Goiás, para conhecer uma experiência concreta de implantação do programa. Levaram para casa novas ideias, que talvez orientem as próximas batalhas sociais.

Aliás, batalhas que têm sido vitoriosas. Em 1990, a ONU fixou a meta de reduzir a miséria pela metade até 2015. A decisão foi ratificada, em 2000, pela Declaração do Milênio. O Vietnã terminou sua lição de casa em 2006.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br