Monthly Archives: maio 2010

O que é a humanidade?

Claude Lévi-Strauss

POR OCASIÃO do desaparecimento de Alfred-Louis Kroeber, último sobrevivente da grande tradição dos etnólogos americanos, Claude Lévi-Strauss diz, nesta entrevista à L’Express, em 20 de outubro de 1960, o que representa essa perda para a etnologia mundial e responde às perguntas feitas por Madeleine Chapsal sobre o trabalho dos etnólogos.

L’Express – Quem foi Alfred-Louis Kroeber, que o senhor considera como o seu mestre e que acaba de falecer?

Claude Lévi-Strauss – Ele é o último dos etnólogos da América do Norte a ter conhecido índios. Peles-vermelhas não selvagens – evidentemente não há mais selvagens -, mas que o haviam sido na juventude. Kroeber nasceu em 1876, seu primeiro trabalho de campo sobre os Arapaho data de 1900. Ora, a penetração do Oeste pelos brancos americanos só começou por volta de 1850 e se completou por volta de 1880. Portanto, os velhos de 70 ou 80 anos que Kroeber pôde conhecer tinham levado, durante a maior parte de sua vida, a existência de índios selvagens… Com Kroeber, é realmente a América anterior a Cristóvão Colombo que morre completamente.

L’Express – Onde viviam exatamente esses índios de Kroeber?

CL-S – Na Califórnia. Seu extermínio data provavelmente de 1880, já que eles eram cerca de 150 mil em 1850 e restaram apenas 20 mil depois de 1880. Kroeber me disse também, há poucas semanas na Áustria – estivemos juntos no colóquio de Burgwartenstein -, que fazia apenas dois ou três anos que ele retornara pela última vez entre os Yurok, alguns dos quais subsistem em pequenos grupos de umas dez pessoas, às vezes com uma só família, ou mesmo uma única pessoa, que fala ainda a língua de origem e que se lembra dos mitos e das lendas. São pessoas que viviam da coleta e da caça, e que representam provavelmente o que há de mais arcaico na América.

L’Express- Kroeber era o único a se interessar por eles?

CL-S – Não, houve outros etnólogos – embora Kroeber fosse o único a ter ligações muito fortes e pessoais com eles – e também psicanalistas. Estes se apaixonaram pelos índios da Califórnia, aliás recentemente e em parte por influência de Kroeber. Ele mesmo fez uma psicanálise didática durante três anos, por volta de 1920, eu acho, ao mesmo tempo que continuava o seu ofício.

L’Express- Ele conheceu Sigmund Freud?

CL-S – Creio que não, mas se correspondeu com ele e fez duas resenhas do livro de Freud sobre as sociedades primitivas, Totem e tabu. A primeira, em 1920, demolindo-o completamente; a segunda, em 1939, bem mais matizada, tentando demonstrar em que medida um etnólogo, de um certo ponto de vista, podia aceitar algumas teses de Totem e tabu.

L’Express – Em que os índios da Califórnia, por exemplo, podem interessar aos psicanalistas?

CL-S – Penso primeiramente no que os psicanalistas chamariam o seu "caráter anal". De fato, eles eram colecionadores apaixonados, homens que acumulavam tesouros, os quais consistiam geralmente em grandes lâminas de obsidiana. Essas chapas, algumas com mais de um metro de comprimento ou mesmo um metro e meio, não podiam servir para nada, mas eles as consideravam objetos extremamente preciosos: eram exibidas em cerimônias por ocasião de jogos, que eu quase chamaria jogos de pôquer, pois se tratava de esmagar o adversário com a apresentação das lâminas mais importantes ou mais belas… Mas isso supunha toda uma estratégia, um "blefe". Quem exibisse de imediato a melhor lâmina que possuía corria o risco de ser exterminado… Assim, convinha conduzir o adversário a tentar sempre obter a vantagem, conservando em seu próprio poder as melhores lâminas ou "cartas".

L’Express – Além do fato de Kroeber ter sido o último vínculo com a América selvagem, o que fazia dele, a seu ver, uma personalidade excepcional?

CL-S – Era um homem de uma vivacidade extraordinária, que em toda a sua vida foi não só etnógrafo de campo – ele estudou diretamente um número considerável de populações americanas -, mas também arqueólogo (fez escavações no Peru que permitiram propor algumas classificações, hoje clássicas, para as antigas culturas peruanas), historiador (sobre as populações desaparecidas no norte da América do Sul, como os Chicha), e uma parte de sua obra é de caráter filosófico (ele estudou até mesmo as variações da moda feminina no século passado!). Fez linguística, investigações sociológicas, dedicou todo um livro às relações entre os meios geográficos da América do Norte e sociedades que ali se desenvolveram…

Enfim, era um homem de uma curiosidade e de uma intensidade de espírito totalmente excepcionais.

L’Express- Mas, antes de tudo, um etnólogo.

CL-S – Sim. Ele me disse várias vezes, aliás, o quanto estava surpreso de ver que os jovens etnólogos americanos de hoje escolhiam a etnologia por razões arbitrárias, como teriam podido escolher a sociologia ou a psicologia, como uma ciência social entre outras; ao passo que, para Kroeber e os homens da sua geração, a etnologia não era uma ciência no mesmo plano que as outras, para ele a antropologia era uma religião.

L’Express – Mas não seria uma religião perigosa? Ao ensinar a quem a pratica que todas as morais, todas as instituições, todas as formas de sociedade são sistemas que poderiam não existir e, em todo caso, que são renováveis ao infinito, não há o risco de o etnólogo sentir-se derrotado, tomado de vertigem?

CL-S – Penso, ao contrário, que isso lhe permite chegar à sabedoria…

L’Express- Como assim?

CL-S – Bem, precisamente pelo sentimento de que nada do que ele vive é profundamente essencial. O que parece mais importante só o é realmente na medida em que nos situamos numa certa escala do tempo. Se o etnólogo aceitar, por uma ginástica que lhe é habitual, fazer uma conversão e se colocar, nem que seja por um instante, na escala dos séculos ou dos milênios – em vez de situar-se na escala das décadas -, as coisas que parecem fundamentais se mostrarão para ele sob uma luz bem diferente…

L’Express – Quem pensa que o senhor estuda os costumes dos homens, talvez no fundo se engane pouco. O que lhe interessa essencialmente não é o espírito humano? Seus reflexos? Sua constituição?

CL-S – Sim. Mas a nossa contribuição ao conhecimento do espírito humano consiste em abordá-lo de uma outra maneira, por uma outra ponta ou um outro caminho, diferentes dos do psicólogo ou do historiador, por exemplo. Digamos que buscamos apreendê-lo naquilo que Sartre chama as "totalidades" ou as "totalizações"…

L’Express – Qual é o seu instrumento, seu, em particular?

CL-S – O distanciamento. Não apenas porque as sociedades que consideramos são muito distantes geograficamente, mas também porque o são pelo gênero de vida; e o deslocamento que elas exigem de nós para estudá-las nos condena a perceber apenas algumas propriedades que são essenciais a elas e ao espírito humano.

Nossa ciência, a antropologia, está condicionada pela distância, por esse afastamento que só deixa filtrar o essencial.

L’Express- O distanciamento, mas também a proximidade. Não há momentos em que o etnólogo se acha diante de um homem e esse homem, nada mais, é seu objeto de estudo? Em que ele espera tudo de um próximo contato com ele?

CL-S – Sim, mas convém distinguir bem as atitudes. Na América do Sul, por exemplo, as pessoas não sabiam muito bem o que era um etnólogo, e quando quem vivia entre elas lhes parecia um bom sujeito, quando estavam seguras de obter dele um certo número de vantagens materiais – sob a forma de presentes, alimentos, facas ou pérolas -, então a coisa ia bem…

Entre os grupos que Kroeber estudava, a situação era diferente. Como a etnologia começou por volta de 1840, eles souberam muito depressa, no conjunto do continente, o que era um etnólogo. Houve resistências que foi preciso vencer pelo tempo, pela espera, ou, ao contrário, uma cooperação muito viva: aquelas pessoas tinham consciência de que seu gênero de vida, aquilo que elas prezavam, estava condenado irremediavelmente e que a única chance de conservar essa lembrança para a posteridade era trabalhar com os etnólogos… Elas cooperavam com pleno conhecimento de causa para que tudo fosse transcrito, escrito, e para que alguns objetos, como altares portáteis particularmente preciosos que representavam para uma tribo sua arca sagrada, fossem levados aos museus, pois sabiam que lá era o lugar onde eles seriam preservados. E, quando o último velho estava para morrer, ele levava seu tesouro ao museu, não havia outra solução.

L’Express- O senhor acredita que nos dirigimos a uma unificação das sociedades?

CL-S – Essa foi também uma questão que discutimos na Áustria com Kroeber.1 Ele parecia pensar assim, enquanto os outros membros do colóquio, não. Nós lhe opúnhamos que, na medida em que as sociedades tendessem à homogeneidade, provavelmente outros pontos de ruptura, outros pontos de clivagem apareceriam em lugares que de modo nenhum suspeitamos.

L’Express – Onde? Não tem a menor ideia? Seria entre a Bretanha e a França…

CL-S – Talvez não. Mas quem sabe, por exemplo, no plano das gerações. Os problemas de delinquência juvenil sempre existiram em todas as épocas, mas hoje, talvez, na medida em que no plano de uma dada geração as diferenças tendem a se abolir no espaço, eles se manifestam de um modo bem mais marcado entre uma geração e a seguinte…

Acaba de ser feita na Inglaterra uma pesquisa muito curiosa sobre o folclore das crianças das escolas. Constatou-se que em toda a Inglaterra os tipos de jogos e os modos de falar das crianças – de cuja existência os adultos nem sequer suspeitam – eram notavelmente homogêneos… E não se sabe de modo algum como se deu a propagação.

L’Express- Então, mesmo se as sociedades primitivas desaparecerem da superfície da Terra, os etnólogos terão sempre trabalho?

CL-S – Sim, porque afinal a etnologia sempre se deu por tarefa explorar os limites daquilo que se considera num momento dado, numa época dada, como sendo os da humanidade. Sobre esse ponto há uma curiosa nota de J.-J. Rousseau – que se encontra no final do "Discurso sobre a desigualdade". Ele começa por se queixar de que só se façam estudos da natureza e não do homem, e faz um apelo a pessoas ou grupos muito ricos para que aceitem subvencionar viagens que tenham por finalidade ir estudar o homem (em suma, ele anuncia as grandes fundações dedicadas hoje à pesquisa antropológica!), e depois dá como exemplo isto: viajantes lhe contaram histórias muito curiosas a propósito de sociedades de estranhos seres vivos na África que se chamam "gorilas" e que, por ignorância, são declarados macacos, quando é perfeitamente claro que se trata de preconceitos e que, em realidade, esses seres são homens! E, se não fôssemos tão ignorantes sobre a diversidade dos seres humanos, veríamos que um gorila é um homem do mesmo modo que um outro!

Sobre esse ponto, admito que Rousseau se enganava; mas ele se enganava adotando uma atitude que é típica da atitude etnológica: colocar-se sempre mais além do que se considera ser o possível, para o homem, trazendo para o interior da humanidade fenômenos fronteiriços, fenômenos à margem. Trabalhamos para uma ciência que deve se manter sempre à margem do desconhecido. Nessa medida, haverá sempre uma etnologia.

L’Express- Os etnólogos consideram estudar sua própria sociedade?

CL-S – Quanto maior é uma sociedade, mais ela se torna estranha a si mesma, mais ela se coloca problemas. É o caso dos americanos: eles tomaram consciência do fato de que, sendo uma vasta sociedade de duzentos milhões de habitantes – e não como nós, de 40 ou 50 milhões -, não se compreendem a si mesmos, o que até o presente não é uma atitude europeia. E, se a antropologia se desenvolveu tanto nos últimos anos, não foi para estudar os povos primitivos, foi para estudar a sociedade americana.

A originalidade do pensamento de Kroeber foi nunca ter querido isolar a antropologia. Tinha numa das mãos as ciências naturais, na outra as humanidades. Por exemplo, problemas como o da linguagem das abelhas, das sociedades animais, eram para ele problemas tão essenciais à história do mundo quanto os da civilização mediterrânea da Antiguidade.

Hoje todos tendem a se encerrar muito estreitamente na sua especialidade. Kroeber foi, na nossa época, um daqueles homens universais como havia no século XIX, por exemplo, e como quase não há mais…

L’Express- Mas não é cada vez mais difícil, hoje, dominar o conjunto da cultura? Não haveria muito do que se informar? Talvez seja isso que leve as pessoas a se recolherem prudentemente no setor que conhecem melhor…

CL-S – Certamente ocupar-se de tudo pode levar a uma certa ingenuidade… Mas, de todo modo, estamos sempre expostos a dizer muitas bobagens, tão logo nos interessamos por coisas que não conhecemos diretamente. Então é preciso escolher.

L’Express- Será que a personalidade de quem exerce a sua profissão não conta bem mais do que numa outra disciplina?

CL-S – Conta enormemente. O próprio Kroeber disse várias vezes que os sociólogos são homens sempre dispostos a jogar, digamos, o jogo de sua própria sociedade – estejam eles a favor ou contra, isso não importa; eles querem situar-se no interior dela, para discuti-la ou melhorá-la. Ao passo que o antropólogo – segundo Kroeber – é, ao contrário, um homem que não se sente à vontade no interior de sua própria sociedade e que tenta se situar em relação a outras, como primeiro sistema de referência.

L’Express- De fato, perguntei-me às vezes se o antropólogo não ia em busca de outras sociedades porque não conseguia estabelecer comunicações satisfatórias com a sua própria. Lá, ele se acha numa situação muito diferente, não se trata mais de igualdade e, de todo modo, ele é o outro, o estrangeiro…

CL-S – Sim, mas não é com os homens em geral que o antropólogo se comunica mal – caso contrário ele não seria antropólogo, fugiria de todos e se faria arqueólogo -, é com o seu grupo social. Por outro lado, todo o esforço do etnólogo, no trabalho de campo, é passar despercebido, fazer-se esquecer; é não ser alguém, é ser como um móvel… Não ser mais que um fantasma, se posso dizer, ao qual não se presta a menor atenção…

L’Express – E ele consegue?

CL-S – Às vezes.

L’Express – Entre todas as sociedades primitivas que existiram, não houve algumas que foram, mais que a nossa, sociedades felizes? Que permitiam a seus membros se desenvolver harmoniosamente em todos os planos possíveis ao ser humano?

CL-S – Oh! não, sinceramente acho que não! Penso que em todas as sociedades há pessoas felizes e outras infelizes – e nas sociedades primitivas há pessoas muito infelizes.

Para quem as vê de fora, essas sociedades podem dar a impressão de equilíbrio, pois não querem mudar. Essa é a diferença com a nossa. Compreenda, a questão não é saber se elas mudam ou se não mudam; na verdade elas mudam, porque de certo modo todas as sociedades mudam. A única diferença entre elas e nós é que temos consciência dessa mudança, nós a queremos, queremos utilizá-la – em nosso favor ou em nosso prejuízo -, queremos subjugar a história, como uma força que estaria à disposição da nossa sociedade; as sociedades primitivas, ao contrário, rechaçam, rejeitam, a história, fazem tudo o que podem para que não haja mudanças – e aliás não conseguem. Há guerras, epidemias, fomes… Tudo isso implica readaptações.

L’Express – E há também os etnólogos! O senhor deixa inalterada uma sociedade na qual penetrou?

CL-S – Olhe, nesse ponto tenho a consciência mais ou menos tranquila!… Os danos que podemos causar, comparados àqueles causados pela civilização, são negligenciáveis!

L’Express- É sempre uma tolice falar da desigualdade das sociedades, mas ainda assim a nossa, nem que seja porque destrói as outras, não seria superior?

CL-S – Ela é certamente muito superior, do ponto de vista do seu poder material, do seu volume, da sua densidade e do seu efetivo demográfico; ela é certamente muito superior pelo domínio que exerce sobre as forças naturais, não há dúvida nenhuma quanto a isso. A única questão que se pode colocar é: há sociedades absolutamente superiores e outras absolutamente inferiores, não somente em certos aspectos, mas em todos os aspectos?

L’Express – Há?

CL-S – Não, creio que não. Penso que toda sociedade encontrou o essencial do que era necessário ao ser humano, caso contrário ela não existiria.

L’Express- Quais são as sociedades que o apaixonam mais, pessoalmente, como etnólogo?

CL-S – O que há de mais sedutor em matéria de conhecimento, para um etnólogo, são as sociedades melanésias; não digo que são as mais simpáticas ou as mais agradáveis, mas são as mais extraordinárias. Primeiro por sua multiplicidade num território dado, é uma parte do mundo em que uma quantidade prodigiosa de experiências foi realizada, experiências extraordinariamente diferentes umas das outras; são sociedades em que a organização social coloca todo tipo de problemas, dos quais a Arte é provavelmente o mais surpreendente… Além disso, é provavelmente a única região do mundo em que existem ainda lugares desconhecidos.

L’Express- O senhor foi até lá?

CL-S – Não.

L’Express – Espera retornar um dia, pessoalmente, ao trabalho de campo?

CL-S – Não, creio que não. Sabe, se todos os etnólogos estão de acordo em dizer que não se pode ter essa profissão sem ter feito trabalho de campo, sem ter uma sólida experiência desse trabalho, a partir daí penso que os caminhos podem divergir. Há os que se sentem felizes quando estão entre os indígenas, e outros, é o meu caso, que têm o gosto de trabalhos mais teóricos, que, tendo adquirido a experiência do trabalho de campo, preferem colocar-se problemas teóricos… Enfim, creio que não gosto do trabalho de campo.

L’Express- No entanto, mudar de sociedade é algo que deve produzir um sentimento de deslocamento prodigioso, quase absoluto. O senhor não gostou disso?

CL-S – Gostei, mas para chegar a isso somos obrigados a enfrentar o que mais detestamos no seio de nossa civilização: os problemas da partida, dos meios de transporte, das formalidades administrativas, a luta contra a inércia burocrática, a má vontade das pessoas; enfim, tudo o que desgasta… Em etnologia é como em todas as ciências, há pessoas que amam o laboratório, outras que preferem o giz e o quadro-negro. É o meu caso.

L’Express – Está preparando um livro neste momento?

CL-S – Sim, um volumoso livro de mitologia, mas lentamente. Trata-se de uma série de experiências mitológicas, se ouso dizer… A partir de exemplos muito variados, tento mostrar que os mesmos métodos de explicação ou de interpretação podem funcionar.

L’Express- Quem são hoje os maiores etnólogos?

CL-S – Na América, há o fim de uma geração. O fundador da etnologia americana foi Boas, e ele morreu em 1942; restaram os seus grandes discípulos: Lowie, Radin e Kroeber, e os três acabam de morrer nos últimos três anos. E o mais brilhante da geração imediatamente seguinte, Kluckholn, morreu neste verão aos 57 anos de idade.

L’Express- E, em outros lugares, quem citaria?

CL-S – A escola inglesa é excelente: há Evans-Pritchard, Forter, Firth. Há alguns excelentes na Holanda, na Austrália…

L’Express – E na Rússia?

CL-S – Os russos estão atrasados por causa da guerra. Ficaram separados durante muito tempo da produção etnográfica do resto do mundo. A mesma coisa na Alemanha. A Alemanha foi um dos primeiros países do mundo em etnologia até o hitlerismo, depois houve uma ruptura… Eles precisam se recuperar.

L’Express- Quem foi o primeiro etnólogo?

CL-S – Não posso responder a essa pergunta. Ou então lhe direi que foi Heródoto, e houve outros antes dele… O que tanto fez penar nas salas de aula nossos pais e nossos avós, o latim e o grego, pois bem, isso era etnologia! O esforço que exigiam não é tão diferente do que fazemos quando estudamos índios do Brasil ou australianos. Sim, o latim e o grego tentavam ensinar a julgar sua própria cultura na perspectiva ampliada que o conhecimento de culturas diferentes produz, e no fundo é isso o que se chama de humanismo…

L’Express- E as humanidades?

CL-S – Creio que o papel desempenhado pelos estudos clássicos no passado não é essencialmente diferente do que poderia ter hoje a etnologia; a etnologia é simplesmente o humanismo de um outro mundo, de um mundo que se dilatou, que trouxe de volta para o interior da humanidade coisas que até então estavam fora.

Aliás, nos Estados Unidos, onde os clássicos têm um papel muito pequeno no ensino secundário, os americanos construíram um humanismo à parte, no qual a etnologia e o estudo das civilizações exóticas ocupam uma porção relativamente maior que o estudo das civilizações da Antiguidade. Na França, a dosagem é inversa: a etnologia só comparece como um arremate… Mas não há descontinuidade.

Acredito profundamente que as humanidades são a humanidade; e a humanidade são os selvagens, do mesmo modo que os sábios da Índia e da Grécia.

Nota

1 A resenha desse colóquio foi publicada em inglês pela Wenner-Gren Foundation, cuja sede fica nos Estados Unidos. Seu presidente, de origem húngara, o etnólogo Paul Fejos, foi um dos mestres do cinema de vanguarda antes da guerra. Ele realizou, entre outros, o filme Solitude, bem conhecido dos aficionados das cinematecas. Sob os auspícios da Wenner-Gren Foundation, um colóquio dedicado à etnologia realiza-se todo ano, desde 1953, no castelo de Burgwartenstein, nos arredores de Viena, Áustria.

Fonte: IEA USP – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issues&pid=0103-4014&lng=pt&nrm=iso

Estudo diz que Ardi, de 4,4 milhões de anos, não é ancestral do homem

REINALDO JOSÉ LOPES

Querem destronar Ardi. A fêmea primata de 4,4 milhões de anos virou ícone da espécie Ardipithecus ramidus, um dos mais antigos ancestrais do homem. Mas não passaria de uma reles macaca, acusa um novo estudo.

Desenho simula a aparência de Ardi, fóssil achado na Etiópia e considerado o principal destaque científico do ano pela "Science"

Desenho simula a aparência de Ardi, fóssil achado na Etiópia

Ironicamente, o "rebaixamento" da espécie de Ardi está sendo proposto nas páginas da prestigiosa revista especializada "Science", a mesma que alçou a suposta fêmea de hominídeo (ancestral humano) à categoria de descoberta do ano em 2009.

O esqueleto quase completo da criatura, bem como hipóteses detalhadas sobre sua locomoção e até sua vida sexual, foram descritos em 11 artigos científicos no dia 2 de outubro do ano passado.

Ardi e seus companheiros de espécie estariam entre os primeiros primatas a comprovadamente caminhar com duas pernas, tal como o homem. É o que argumentava a equipe liderada por Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley (Costa Oeste dos EUA).

Besteira, declarou à Folha Esteban Sarmiento, primatologista da Fundação Evolução Humana, em Nova Jersey. "O Ardipithecus é um quadrúpede palmígrado [ou seja, apoiava-se nas plantas das quatro patas], e não um bípede. Aliás, é muito difícil dizer se o fóssil [Ardi] era um macho ou uma fêmea."

Mais importante ainda: o animal seria, na verdade, um grande macaco africano primitivo, talvez anterior à separação entre as linhagens de humanos e chimpanzés.

INTERPRETAÇÃO

Até certo ponto, problemas de interpretação são naturais quando se trata de um fóssil como esse. Embora fragmentos de outros indivíduos da espécie já tenham sido achados, Ardi é, de longe, a mais importante fonte para entender o A. ramidus, por causa de seu esqueleto relativamente completo.

Ocorre, porém, que os milhões de anos de preservação distorceram vários dos ossos do bicho, em especial os da pelve (quadril), importantes justamente no debate "dois pés versus quatro patas".

Além disso, a idade remota, próxima do momento estimado para a separação evolutiva entre as linhagens do homem e do chimpanzé, também é fonte de confusão. Isso porque, em tese, quanto mais perto dessa divergência, mais difícil fica dizer quem é pré-humano e quem é apenas macaco.

Sarmiento aponta que White e companhia teriam errado feio na interpretação dos detalhes mais significativos do esqueleto. Em resumo, ele diz que traços dos dentes, da pelve e dos membros da espécie lembram mais os dos grandes macacos mais antigos, com uns 10 milhões de anos.

O problema é que esses bichos mais primitivos só foram encontrados até agora na Europa e na Ásia. Há uma lacuna no registro deixado pelos fósseis na África, tanto que até agora ninguém reconheceu oficialmente a descoberta de um protochimpanzé ou protogorila.

Sarmiento aposta que a "mania" de achar apenas hominídeos na África, com idade de 7 milhões de anos para cima, pode ser explicada por um viés dos cientistas: ninguém quer afirmar que achou "apenas" um ancestral dos chimpanzés ou dos gorilas, critica ele.

CONTRA OU A FAVOR

Paleoantropólogos ouvidos pela Folha disseram que a crítica tem fundamento.

"Embora o Dr. White e seus colegas tenham descoberto um fóssil fabuloso de grande macaco, tentaram forçar a mão e transformá-lo num hominídeo, coisa para a qual não há base nenhuma", diz o americano Lee Berger, da Universidade do Witwatersrand (África do Sul).

"Creio que esse é só o primeiro de uma avalanche de artigos. Apesar da força considerável de personalidade do Dr. White, nem ele é capaz de forçar a área a aceitar oA. ramidus como hominídeo."

John Hawks, da Universidade de Wisconsin em Madison, também diz esperar mais publicações criticando a descrição de Ardi.

"Sarmiento argumentou corretamente em vários pontos. Por exemplo, várias comparações recentes do genoma do homem e de primatas mostraram que o ancestral comum de chimpanzés e humanos viveu em torno de 4 milhões de anos atrás", diz.

"Ardi e outros supostos hominídeos, portanto, seriam velhos demais para serem ancestrais do homem. Muitos paleontólogos preferem ignorar os dados genéticos, mas não acho que seja tão simples assim."

Em resposta na própria "Science", White e colegas se defendem. Afirmam ter feito a lição de casa exigida por Sarmiento, ao "comparar detalhadamente" a espécie de Ardi com os grandes macacos mais antigos.

Também lembram que, apesar da descrição recente de Ardi, outros exemplares da espécie tinham sido revelados ao público desde os anos 1990. "Nesses 15 anos, o status do Ardipithecus como hominídeo foi amplamente aceito" pela comunidade científica, afirmam eles.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Planejamento para o novo desenvolvimento

Marcio Pochmann

Celso Furtado, mestre de todos os que militam pelo desenvolvimento do Brasil, constatou desalentado, no início dos anos 1990, que a construção do país havia sido interrompida. Para lidar com a incapacidade de honrar as dívidas, o país foi obrigado a seguir um receituário lesivo ao interesse nacional, a saber, promover uma abertura da economia sem etapas de transição que evitassem a derrocada ou o desequilíbrio financeiro e patrimonial das empresas em vários setores. O resultado foi desastroso, pois a evolução da renda per capita estagnou, mal cobriu os aumentos populacionais, após décadas de crescimento recorde da renda nacional em termos internacionais.

Esse quadro teve profundos impactos sobre o mercado de trabalho. O chamado bônus demográfico se transformou em ônus, pois a população em idade ativa (PIA) aumentava sem cessar, sem ter por outro lado o correspondente aumento no número de postos de trabalho. O combate à inflação, sem dúvida necessário, agravou o quadro por ter se baseado em alternativas que mesclaram juros e taxas de câmbio elevados, que colocaram em xeque a competitividade de produtos brasileiros no exterior. Tudo conspirou contra a formalização da mão de obra e o respeito aos direitos previdenciários. O crescimento da violência e a deterioração das condições de vida foram outros efeitos perversos desse processo.

O cenário que foi configurado não se tornou dantesco graças à ação dos dispositivos previstos pela Constituição de 1988, como os que equipararam os direitos de homens aos das mulheres e de trabalhadores urbanos aos rurais. Ao estabelecer o piso de benefícios em um salário mínimo foi possível promover a transferência direta de renda para um enorme contingente de beneficiárioss em todo o país. Esses recursos representaram um verdadeiro esteio para essas famílias, que passaram a valorizar a presença de idosos e, não raro, depender dos seus rendimentos. O resultado desse movimento estabeleceu sólidos alicerces para criar um pacto social que, dotado de bons instrumentos sociais de apoio, como o SUS, políticas assistenciais descentralizadas e estatutos legais para segmentos vulneráveis da população, possibilitou que o Brasil seguisse o virtuoso exemplo da Europa Ocidental após a Segunda Guerra Mundial. O paradigma da universalidade, preservado à custa de muita luta, acabou por tornar o país um caso exemplar para países em desenvolvimento.

Pouco depois da virada do milênio, as terríveis condições que se traduziram numa década perdida, seguida de uma década vazia para a construção do Brasil, foram dissipadas. De início, o crescimento foi sustentado, sobretudo, pela elevação dos preços dos produtos primários brasileiros no exterior. O movimento permitiu consolidar um nível robusto de reservas em divisas estrangeiras e, mais importante, repactuar a dívida.

Assim, foi possível retomar o crescimento e elevar o número de empregos, revertendo uma posição de estagnação vigente nos anos 1990. O abandono de uma posição puramente reflexa em relação aos caprichos dos mercados internacionais e a adoção de uma posição mais proativa por parte do Estado também está permitindo reorganizar a economia. Esse movimento, aliado a uma capacidade de fiscalização reforçada, está aumentando muito o número de contratos de trabalho que respeitam os direitos sociais. O vigor da estratégia, cujo eixo está centrado nas ações sociais e de aumento do poder-de-compra do salário mínimo, foi posto à prova com a crise deflagrada em 2008. Embora o Brasil ainda sinta os seus impactos, os efeitos não foram dramáticos para o desemprego e não aumentaram as desigualdades.

No entanto, a fatura não está ganha. A inserção do Brasil no mercado externo é baseada em produtos primários, e a sobrevalorização da taxa de câmbio está gerando resultados preocupantes. Além disso, a geração de empregos, embora cresça de forma notável, ainda é instável e insuficiente para lidar com o aumento da PIA. No Brasil ainda existe um excesso de oferta de trabalhadores, com e sem qualificação, em relação à demanda. O número de pobres se reduz, mas a forte desigualdade ainda mantém muito elevado o patamar de pobreza relativa, medido como uma proporção da média dos rendimentos do país. Os desafios requerem uma intervenção consciente dos brasileiros para que os resultados possam atingir a máxima vantagem social.

Cumpre sublinhar que o país ainda é marcado por níveis de escolaridade reduzidos e essa qualidade tende a ser precária, traçando um cenário pouco adaptado às exigências de uma moderna sociedade de serviços; é preciso organizar a rota para o futuro. Como existem gargalos de infraestrutura, é possível aproveitar esse perfil de qualificação para erigir uma infraestrutura econômica e social sólida e disseminada ao longo do país para que ela que possa eliminar esses gargalos. Partindo daí é possível gerar ocupações produtivas para uma população com baixos níveis de instrução até que os níveis educacionais atinjam os patamares requeridos por uma economia moderna.

Em suma, esse processo pode permitir a reorganização planejada da sociedade para um perfil mais voltado à elaboração de bens e serviços mais sofisticados, que respeitem normas cidadãs e ambientais e que deem origem a produtos com níveis elevados de valor agregado como os observados em sociedades mais desenvolvidas. Esse tipo de configuração produtiva estimularia a conquista dos mercados internos e externos pela excelência e não por ter baixo preço. Nessas condições, os brasileiros teriam acesso a rendimentos mais elevados e maiores níveis de proteção social para indivíduos e famílias em situação de vulnerabilidade, garantindo de forma sólida o acesso do Brasil ao rol dos países desenvolvidos.

Fonte: Revista Fórum – http://www.revistaforum.com.br/

"O capitalismo de desastre é uma resposta à crise"

Instituto Humanitas Unisinos

O capitalismo de desastre não é um novo tipo de capitalismo, um novo sistema, " mas é um sistema aperfeiçoado”, explica Vânia Cury, professora de História da UFF, comentando um livro recente de Naomi Klein. Em entrevista a IHU On-Line, Vânia analisa o livro “A doutrina do choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre” e reflete sobre situações de conflito que permeiam a atualidade. “Essa exploração das situações de crise afetam as coletividades humanas, nos paralisa diante do medo, e nos torna impotentes diante da realidade”.

Criado pela jornalista e ativista canadense, Naomi Klein, o conceito de capitalismo de desastre revê questões relacionadas à obtenção de lucro em meio à calamidade. Segundo a professora do Instituto de Economia da Universidade do Rio de Janeiro, Vânia Cury, “essa exploração das situações de crise afetam as coletividades humanas, nos paralisa diante do medo, e nos torna impotentes diante da realidade”. Em conversa, por telefone, com a IHU On-Line, Vânia analisa o recente livro de Naomi Klein “A doutrina do choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre” e reflete sobre situações de conflito que permeiam a atualidade.

Segundo a professora, as pessoas já estão prontas para mudar em relação à situação do capitalismo atual e têm muita vontade de fazer isso. “A grande contribuição do livro de Naomi Klein, a meu ver, é exatamente essa. Embora ela faça um relato que pode nos parecer extremamente pessimista, dadas as condições que ela analisa o desenvolvimento do capitalismo, mostra também que há diversas formas de reação se esboçando no mundo. Elas são muito fragmentadas, estão desconectadas e espalhadas, mas há sim algumas iniciativas que vão sendo feitas no sentido de reunir essas forças e dar a elas uma consistência mais forte e mais integrada”, diz.

Vânia Maria Cury possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense, mestrado e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente, é professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para começar, a senhora pode nos explicar qual a ideia do termo “Capitalismo de desastre”?

Vânia Cury – O termo foi cunhado pela jornalista Naomi Klein, que desenvolve uma análise muito profunda e bem detalhada no livro “A doutrina do choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre”, publicado recentemente. Ela mostra que, na fase atual em que o capitalismo se encontra, o que acontece é uma exploração das situações de crise, de calamidade pública e de desastre, que ameaçam e afetam coletividades humanas para que o capital tire proveito do medo, que toma conta das pessoas e grupos sociais, para obter lucros cada vez maiores.

Um dos exemplos que Naomi usa é o tsunami, que arrasou uma parte significativa das praias do sudeste asiático. O que se viu foi que a recuperação daquelas regiões afetadas pela onda foi totalmente determinada pelos interesses lucrativos dos grandes grupos econômicos que ali se instalaram imediatamente após a catástrofe. Eles vêm para reconstruir e reorganizar tudo o que foi destruído. Neste caso, foi um desastre natural, mas Naomi trata também de desastres provocados pelo homem, como guerras, conflitos e rebeliões. Outro exemplo que ela usa e trata detalhadamente é o furacão Katrina, nos Estados Unidos, que também provocou uma desorganização muito grave na cidade de Nova Orleans, afetando sobretudo os bairros de população negra e pobre. Lá, também, da mesma forma que em outras oportunidades analisadas em seu livro, a recuperação é pautada pelos interesses lucrativos daqueles que irão explorar novas condições originadas pelo desastre.

O Katrina fez com que grande parte dos terrenos que foram afetados acabasse resultando na expulsão da população que lá morava originalmente. Essas áreas foram reformuladas com a sua conveniente transformação em bairros de classe média, que foram programados e reconstruídos segundo os interesses do capital imobiliário local e que trouxeram lucros espetaculares.

IHU On-Line – Isso aconteceu também em países como o Haiti, que viveu intervenções de diversos países em função dos terremotos de janeiro deste ano?

Vânia Cury – Naomi Klein não aborda o caso do Haiti em seu livro, mas aborda em seu site, onde mantém atualizadas todas as suas opiniões, pesquisas, entrevistas e trabalhos. Naomi é uma ativista política e uma intelectual incansável. E faz este paralelo com o terremoto no Haiti. Ela considera não o desastre em si como uma manifestação do desejo do grande capital nas suas mais variadas formas, mas mostra que a recuperação, mais uma vez no caso do Haiti, terá, na sua dianteira, interesses econômicos solidamente organizados que irão determinar a maneira pela qual essa recuperação vai se dar, trazendo para eles lucros fabulosos. Isso tudo sempre em detrimento dos reais interesses da população que vivia no local afetado pelo desastre.

A mesma coisa Naomi faz com relação às grandes áreas litorâneas do sudeste asiático. Estas tinham uma ocupação circular de pequenas comunidades de pescadores artesanais, com famílias muito pobres e que subsistiam de pequenas atividades e foram subitamente deslocadas do seu habitat natural. Esse habitat foi transformado em reservas para a construção de grandes resorts, clubes e parques temáticos, que trarão lucros fabulosos para os investidores da área de turismo e imobiliário. Essas populações perdem completamente seu meio de vida tradicional e são jogadas novamente nas periferias das grandes cidades. São, mais uma vez, expropriadas das suas condições de vida bastante antigas.

IHU On-Line – O Brasil vive ou já viveu dentro dessa ideia de capitalismo de desastre?

Vânia Cury – Seguindo a linha de análise de Naomi Klein, sim. Ela analisa todo o período de ditaduras militares na América Latina como uma das estratégias mais clássicas e passíveis de serem estudadas da doutrina do choque, do capitalismo de desastre. Neste caso, não é o desastre natural, mas o desastre causado política e militarmente, mas pode ser uma guerra, tal qual aconteceu no Iraque. Ela passa boa parte do livro mostrando como a guerra também facilita o controle, pelo grande capital, de áreas que até então ele não controlava. No caso das ditaduras latino-americanas, aconteceu a mesma coisa. Aquela situação de choque, de medo coletivo e social imposto pela força militar, repressão, prisão, tortura e exílio, enfraquece a resistência da população e facilita, portanto, que o capital assuma o controle de uma série de atividades e situações que até então não controlava, muitas vezes, por força da resistência popular.

IHU On-Line – Naomi vê bastante a questão dos Estados Unidos. Podemos dizer que o ápice desta ideia de “Capitalismo de desastre” vem do governo Bush?

Vânia Cury – Não há dúvida nenhuma de que o governo Bush é o ápice de uma situação que, no entanto, ele não criou. Ele apenas se aproveita, recrudesce, leva a extremos essa condição de doutrina do choque, tanto internamente, quando ele, em nome das leis de segurança nacional da preservação dos direitos dos EUA, que foram agredidos pelo 11 de setembro, usa esse ataque terrorista para desencadear uma reação violenta e de repressão aos direitos sociais, de organização e liberdade, que a população americana sempre valorizou muito em sua história. Essa era a imagem que eles vendiam para o mundo, de um país democrático e radicalmente livre, onde ditaduras não floresceram, regimes de exceção nunca tiveram lugar.

No entanto, a partir de 11 de setembro de 2001, todas essas virtudes do regime democrático norte-americano foram colocadas em xeque pelo advento de uma nova doutrina de segurança nacional, que colocava a proteção ao Estado acima de todas as formas de proteção e liberdade do indivíduo. Isso é algo novo na história dos EUA. Se pegarmos os dois séculos que o país tem de história da construção de uma cultura democrática, o paradigma do que é um Estado de direito no ocidente, essas situações de exceção criadas por Bush realmente tiveram um impacto extraordinário na história recente do país.

IHU On-Line – No caso de Santa Catarina, depois das chuvas e do próprio ciclone Catarina, bilhões de reais saíram dos cofres públicos e se somaram com as doações de solidariedade popular foram investidos na reconstrução da infraestrutura da cidade. Este é um exemplo de “Capitalismo de desastre”?

Vânia Cury – Sim, e esta é mais uma manifestação da doutrina do choque. Diante do choque, da calamidade e do desnorteamento que abala todos os seres humanos, essas empresas e os interesses capitalistas rapidamente assumem o controle e passam a tirar todas as vantagens daquela situação. Se pararmos para pensar, lembraremos, na nossa história, várias situações em que esse fenômeno está acontecendo, tanto no Brasil como fora dele. "Diante

IHU On-Line – Como a questão da sociedade do medo vai ao encontro da ideia de capitalismo de desastre?

Vânia Cury – Naomi Klein considera que essas questões andam juntas, porque ao incutir o medo nas pessoas, e esse medo é muito maior quando assume uma proporção coletiva, ele pode ser muito vantajoso para os interesses particulares, seja de uma empresa ou indivíduo. Sabemos que os ditadores, que atuaram amedrontando as pessoas, tiraram grandes proveitos dessa situação. O medo é uma forma de paralisação, e a paralisia nos deixa impotentes diante da realidade. Não conseguimos reagir, e quando isso acontece abrimos o campo para que aquele que consegue reagir ocupe todos os espaços. Essas duas questões não andam separadas, por isso Naomi diz que há todo um trabalho ideológico permanente sendo colocado para as pessoas. Ela usa o exemplo das gripes e o medo que as pessoas ficam de contrair uma doença. Voltamos a uma época de epidemias assustadoras, que matam em massa. Naomi afirma que isso tudo vai deixando as pessoas extremamente vulneráveis e, ao se tornarem assim, abrem o flanco para que os altos interesses capitalistas envolvidos assumam o controle da situação.

IHU On-Line – Depois da crise financeira, muito se falou em crise do capitalismo. O capitalismo de desastre é um novo capitalismo, em sua opinião?

Vânia Cury – Na verdade o capitalismo de desastre faz parte da crise. Não acredito que exista um novo capitalismo, o capitalismo é o mesmo. Ele vai amadurecendo, avançando sobre áreas que antes não controlava. Este não é um novo sistema, é um sistema aperfeiçoado. O capitalismo de desastre é uma resposta à crise. Ele começou a viver, nos anos 1990, o excesso de neoliberalismo e de desregulamentação, que acabou gerando uma crise de proporções extraordinárias. Quando se chega a uma situação de impasse, a saída é não reformar o capitalismo, não fazê-lo retroceder aos limites antigos, fazer com que ele seja controlado pelo Estado, regido pelos interesses sociais. Isso não aconteceu, o que houve diante da crise que se colocou pelo excesso de desregulamentação do capital foi reforçar essa desregulamentação, usando a doutrina do choque. Este é um instrumento para a exacerbação e aprofundamento da lógica perversa do desenvolvimento capitalista, tal qual vínhamos vivendo desde os anos 1980.

IHU On-Line – Em relação à ideia de crise do capitalismo, podemos dizer que as crises sociais facilitam a adoção de medidas econômicas impopulares? A senhora pode nos dar exemplos disso?

Vânia Cury – Com certeza. A crise pensada nesse sentido, não uma crise social, mas uma crise de desastre, como coloca Naomi Klein, seja um desastre natural, manifestações brutas da natureza que o homem não consegue controlar, ou provocado, como rebeliões, golpes de Estado e guerras, como vimos no Afeganistão e no Oriente Médio. Nestas situações, temos a repetição do padrão, diante da instabilidade causada pelo evento, seja natural ou provocado, o capitalismo redobra seu esforço para ampliar o controle que exerce sobre aquela sociedade. O remédio que é dado pelo sistema dominante aos sintomas da crise é sempre mais do mesmo. Ao invés de tentar dar outra solução, criar uma contrapartida ao modelo que está sendo implementado, o que se faz é aumentar o grau de vulnerabilidade da sociedade para impor medidas mais duras daquele mesmo remédio que já se tomava anteriormente.

IHU On-Line – Então, hoje as catástrofes naturais são “desculpas” para impor um reordenamento a partir da violência do Estado?

Vânia Cury – Desculpas não, são oportunidades primorosas enxergadas por esses grupos capitalistas dominantes altamente relacionados dentro dos Estados modernos. Naomi mostra isso com clareza nos Estados Unidos. Lá se tem o complexo industrial militar, a indústria petrolífera e de guerra, que hoje são forças fantásticas dentro do Estado americano, que conduzem e controlam grande parte da política dos EUA. Eles se relacionam com o mundo, baseados, fundamentalmente, na expansão dos interesses desses grandes grupos econômicos.

IHU On-Line – A senhora acha que as pessoas estão prontas para lutar por mudanças em relação à situação do capitalismo atual?

Vânia Cury – Acho que as pessoas têm muita vontade de fazer isso. A grande contribuição do livro de Naomi Klein, a meu ver, é exatamente essa. Embora ela faça um relato que pode nos parecer extremamente pessimista, dadas as condições que ela analisa o desenvolvimento do capitalismo, mas mostra também que há diversas formas de reação se esboçando no mundo. Elas são variadas, infelizmente não temos hoje, na visão dela, um elemento que seja capaz de reunir todos esses esforços. Eles são muito fragmentados, estão desconectados e espalhados pelo mundo, mas há sim algumas iniciativas que vão sendo feitas no sentido de reunir essas forças e dar a elas uma consistência mais forte e mais integrada.

Um dos veículos de instrumento para isso tem sido o Fórum Social Mundial, um espaço de debate, discussão, para onde são levadas essas demandas sociais. Há outros movimentos, como a Via Campesina, por exemplo, e o próprio Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil que têm muita importância lá fora, só não têm aqui, pois são criminalizados pela imprensa. Existem movimentos jovens, como o Creative Commons, no Brasil, e grupos se criando a partir da Internet. Naomi acha que, talvez, vá demorar um tempo, mas já podemos ver que há formas de resistências sendo montadas, há grupos interessados em reagir contra essa situação, mas, para saber onde isso dará, teremos que esperar. A Internet é uma das formas mais importantes de resistência e organização desses movimentos, tanto no plano local quanto no mundial, que pretendem interferir nos rumos da humanidade.

IHU On-Line – A partir dessa análise do livro de Naomi Klein, que cultura é gerada?

Vânia Cury – Acho que é uma forma de enfrentamento, e talvez uma das mais interessantes. Este é um dos calcanhares de Aquiles do Estado atual de organização da economia, pois, até agora, apesar de todas as tentativas que estão sendo feitas, não se mostrou viável uma forma de controle dessas redes sociais que vão se formando na Internet. Talvez esse seja um caminho interessante mesmo, não sei como isso irá evoluir, mas não tenho dúvida de que ele é um ponto de atrito e conflito para ordem dominante.

IHU On-Line – A senhora concorda com a ideia de que "se o clima fosse um banco, ele seria salvo"?

Vânia Cury – Acho que é bem provável, pois não há nenhum setor que tenha recebido mais apoio e cuidados no mundo hoje do que o setor financeiro. Nunca falta dinheiro, nunca há entraves de tipo jurídico, todos sempre estão dispostos a acudir as finanças, coisas que não vemos acontecer com relação ao ambiente, ao clima e aos recursos naturais, dos quais a nossa vida depende diariamente. Quando acontece algo com o sistema financeiro, todos ajudam. É como se pensassem: “Se isso falhar, estaremos mortos”. E se esse sistema falhar é pouco provável que toda a humanidade esteja morta. Esse é o poder que o setor financeiro tem de tornar os seus interesses os mais importantes do mundo. Eles exercem esse poder de várias maneiras, inclusive pelas chantagens. Através de ataques especulativos, eles podem jogar um país na miséria. Inclusive já fizeram isso, no passado, com a Argentina, Rússia, México, Ásia e tentaram fazer com o Brasil. Eles prometem, cumprem, tiram todos os recursos de uma vez, fazem jogatina na bolsa, ameaçam com ataques especulativos, e colocam os governos em uma situação de muita fragilidade. Não se pode correr o risco de levar o país à bancarrota. Toda vez que se provoca esse risco, se coloca uma situação de miséria social e desagregação política muito graves.

IHU On-Line – A senhora acredita que um novo modelo econômico mais sustentável terminaria com essa ideia de “Capitalismo de desastre”?

Vânia Cury – Acredito que sim. Se esse modelo fosse implantado com mais responsabilidade, com maior controle da sociedade sobre a origem e destino do dinheiro, acho que estaríamos muito mais livres dessas situações tão incômodas que vêm se repetindo. Nas últimas décadas, isso vem se tornando repetitivo, toda hora há uma calamidade, uma catástrofe e isso é muito grave. É uma sequência que começa a despertar nossa reflexão. Naomi Klein e outros pensadores começam a desvendar as questões que surgem.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Os segredos do sono

Desde que nascemos, passamos dormindo um terço de nossa vida. Mesmo após décadas de pesquisa, ainda não sabemos direito por que é assim.

D.T. Max

Foto de Maggie Steber

Os segredos do sono

Miles Juste, de 7 meses, vive em Miami, na Flórida.

Nascida em St. Louis, Cheryl Dinges, de 29 anos, é sargento do Exército americano. O trabalho dela é treinar os recrutas para a luta corporal. Especialista em uma modalidade brasileira de jiu-jítsu, Cheryl comenta que é uma das raras mulheres do Exército habilitadas para ensinar o nível 2 de combate. Nesse estágio, há um intenso treinamento para capacitar a pessoa a enfrentar dois atacantes ao mesmo tempo.

Cheryl talvez tenha de encarar uma luta ainda mais dura no futuro. Ela vem de uma família que é portadora do gene associado à insônia familiar fatal (IFF). O principal sintoma da IFF é a incapacidade de dormir. Primeiro a pessoa não consegue mais cochilar durante o dia, depois deixa de dormir a noite toda. Essa síndrome em geral se manifesta logo após os 50 anos de idade, dura cerca de um ano e, como o nome indica, sempre resulta na morte do paciente. Cheryl recusou-se a fazer o exame para saber se tinha o gene. "Fiquei com medo de que, se soubesse que tinha isso, deixaria de me esforçar tanto na vida."

A IFF é uma doença horrível e, para piorar, ainda sabemos pouco a respeito dela. Os pesquisadores já descobriram que, nas pessoas com IFF, proteínas malformadas conhecidas como príons atacam o tálamo, uma estrutura do cérebro cuja disfunção interfere no sono. Além disso, porém, os especialistas não sabem por que isso ocorre nem como interromper o processo e tampouco como aliviar seus sintomas brutais. Antes de a IFF ser investigada, a maioria dos pesquisadores nem sequer tinha ideia de que o tálamo estava relacionado de algum modo com o sono. A IFF é muito rara: em todo o mundo, são conhecidas apenas 40 famílias afetadas pela doença. No entanto, em um aspecto ela tem algo em comum com as modalidades menos graves de insônia: todas elas continuam sendo um mistério.

Se não sabemos por que não conseguimos dormir, isso se deve em parte ao fato de que, na verdade, não sabemos por que, antes de tudo, precisamos dormir. Temos consciência de que o sono faz falta quando não dormimos o bastante. E também observamos que, por maior que seja a nossa resistência, afinal somos vencidos pelo sono. Estamos convindos de que, depois de descansar por períodos de sete a nove horas, a maioria de nós está pronta para despertar, e que de 15 a 17 horas depois voltamos a ficar sonolentos. Há meio século, sabemos ainda que o sono se divide em períodos de sono profundo e de sono REM (rapid eye movement, ou "movimento rápido dos olhos") – neste último, o cérebro permanece tão ativo como quando estamos despertos, mas nossos músculos voluntários permanecem imóveis. Também sabemos que todos os mamíferos e aves dormem. No caso dos golfinhos, eles mantêm metade do cérebro desperto, de modo a permanecer conscientes do ambiente submarino. Peixes, répteis e insetos também experimentam, todos eles, algum tipo de repouso.

Todo esse tempo de inatividade tem um custo. Enquanto permanece imóvel por um longo período, um animal fica vulnerável ao ataque de predadores. O que poderia compensar tal risco? "Se o sono não tem nenhuma função vital", comentou certa vez Allan Rechtschaffen, renomado pesquisador do sono, "trata-se pois do maior erro já cometido pela evolução."

De acordo com a teoria mais aceita, o sono é uma necessidade do cérebro. Quem não se sente com a cabeça desanuviada depois de uma boa noite de sono? A dificuldade é confirmar essa suposição com dados empíricos. De que modo o sono ajuda o cérebro? Em pesquisas recentes, feitas na Universidade de Harvard por Robert Stickgold, foram aplicados testes de aptidão em estudantes, os quais em seguida podiam tirar uma soneca antes de refazer esses testes. Constatou-se que os estudantes que chegavam à fase do sono REM apresentavam desempenho melhor em testes de reconhecimento de padrões, como os de gramática, enquanto aqueles que haviam dormido profundamente se saíam melhor nos testes de memorização. Outros pesquisadores descobriram que o cérebro adormecido parece empenhado em transferir para a memória de longo prazo aquilo que aprendeu durante o dia.

Tais estudos indicam que a consolidação da memória pode ser uma das funções do sono. Giulio Tononi, especialista da Universidade de Wisconsin, publicou interessante variante dessa hipótese, anos atrás. Seu estudo mostrava que

o cérebro adormecido parece eliminar sinapses ou conexões redundantes ou desnecessárias. Assim, o sono talvez tenha como propósito nos ajudar a lembrar o que é importante e, para isso, nos faz esquecer o que é irrelevante.

É provável que o sono também tenha finalidades fisiológicas. Nesse sentido, é significativo que os pacientes com IFF não sobrevivam por muito tempo. Em que medida a insônia contribui para as condições do óbito? Alguns cientistas constataram que a privação do sono impede a cicatrização de feridas em ratos, e outros sugeriram que o sono ajuda a reforçar o sistema imunológico. Tais estudos, porém, não são conclusivos.

Na tentativa mais famosa de entender por que dormimos, empreendida na década de 1980 na Universidade de Chicago, Rechtschaffen obrigou ratos a permanecer despertos, colocando-os em um disco sobre um tanque com água. Se os ratos caíssem no sono, o disco girava e os lançava na água; assim que caíam, eles despertavam. Cerca de duas semanas depois, todos os ratos haviam morrido. Mas, quando Rechtschaffen realizou a autópsia nos animais, não encontrou nada errado em seus corpos. Não havia nenhum dano em seus órgãos; eles pareciam ter morrido de exaustão – por falta de sono. Em 2002, o mesmo experimento foi repetido, com instrumentos mais avançados, e de novo não foi possível determinar uma "causa inequívoca da morte" dos ratos.

Na Universidade Stanford, visitei o aposentado William Dement, que foi chefe do departamento de estudos do sono, um dos descobridores do sono REM. Pedi a ele que dissesse o que havia concluído, após 50 anos de estudo, sobre

o que nos leva a dormir. "Até onde sei", respondeu, "o único e indiscutível motivo pelo qual precisamos dormir é porque ficamos sonolentos."

Infelizmente, nem sempre o oposto é verdadeiro: nem sempre ficamos sonolentos quando precisamos dormir. No mundo desenvolvido, a insônia alcança níveis epidêmicos. De 50 milhões a 75 milhões de americanos – ou seja, cerca de um quinto da população – queixam-se de dificuldades para dormir (no Brasil, uma pesquisa feita em 2009 pela Associação Brasileira do Sono apontou que mais de 40% dos brasileiros sofrem algum tipo de distúrbio de sono). Em 2008, foram prescritas 56 milhões de receitas de pílulas para dormir, um aumento de 54% em relação aos quatro anos anteriores. No entanto, é extraordinário o quão pouco está sendo feito para entendermos as causas da insônia. A maioria dos estudantes de medicina não recebe mais que quatro horas de treinamento para lidar com disfunções do sono; alguns deles nem isso.

Os custos sociais e econômicos do tratamento insuficiente da insônia são imensos. O Instituto de Medicina americano, um órgão nacional independente de assessoria científica, estima que quase 20% de todos os acidentes graves de trânsito estão associados à falta de sono dos motoristas. No que se refere à produtividade no trabalho, as perdas são ainda maiores. Além disso, é preciso levar em conta os custos indiretos – os relacionamentos prejudicados, a exaustão que impede os desempregados de buscar trabalho, o desinteresse diante dos prazeres da vida.

Se um problema médico associado a uma função orgânica menos íntima e menos misteriosa estivesse causando danos tão generalizados, as autoridades já teriam declarado guerra a ele. No entanto, o governo americano destina apenas cerca de 230 milhões de dólares a pesquisas relacionadas com o sono. A luta contra a insônia depende em grande parte das empresas farmacêuticas e das clínicas do sono particulares.

Em um início de tarde no ano passado, fiz uma visita ao Centro de Medicina do Sono na Universidade Stanford. Fundada em 1970, a clínica foi a primeira no país a se dedicar ao problema da insônia, e até hoje é uma das instituições mais importantes nessa área. A cada ano, o centro recebe mais de 10 mil pacientes, e realiza mais de 3 mil estudos em que o sono é monitorado a noite toda. Os 18 quartos da clínica pareciam confortáveis, com camas macias.

O principal instrumento de diagnóstico em tais casos é o polissonograma, cujo elemento mais importante é o equipamento de eletroencefalografia (EEG), que capta a corrente elétrica emitida pelo cérebro do paciente adormecido. Quando dormimos, o cérebro reduz seu nível de atividade, e seus sinais elétricos deixam de formar ondas curtas e pontiagudas e passam a emitir ondas mais longas e arredondadas, de modo semelhante às ondas do mar, que se atenuam

à medida que nos afastamos da praia. No cérebro, tais ondulações suaves são periodicamente interrompidas pelo retorno da súbita atividade mental do sono REM. Por motivos desconhecidos, esses trechos de maior agitação no sono são os períodos em que mais sonhamos.

Enquanto o EEG registra essa travessia conturbada, os técnicos medem a temperatura corporal, a atividade muscular, os movimentos dos olhos, os ritmos cardíacos e a respiração. Em seguida, buscam sinais de sono anormal ou de despertar frequente. Quando uma pessoa sofre de narcolepsia, por exemplo, ela vai do estado de vigília ao do sono REM sem passar por nenhuma etapa intermediária. Na insônia familiar fatal, o paciente nem mesmo consegue ir além das etapas iniciais do sono, e a temperatura de seu corpo sobe e desce rapidamente.

A IFF e a narcolepsia só podem ser diagnosticadas graças ao EEG e a outros dispositivos de monitoração. No entanto, Clete Kushida, diretor do Centro de Medicina do Sono, contou-me que consegue identificar os problemas de sono na maioria das pessoas logo na primeira entrevista: há aquelas que mal conseguem manter os olhos abertos, e outras que, embora se queixem de exaustão, não apresentam sinal de sonolência. As primeiras quase sempre sofrem de apneia durante o sono. Já as últimas são afligidas com aquilo que Kushida chama de "insônia verdadeira".

Naqueles que sofrem de apneia do sono obstrutiva, o relaxamento muscular que acompanha o sono permite o fechamento do tecido mole da garganta e do esôfago, impedindo a passagem do ar. Quando nota que não está recebendo oxigênio, a pessoa então acorda, respira, o cérebro se reabastece e o sono volta. Uma noite de sono para quem sofre de apneia é, na verdade, uma centena de microcochilos. A maioria dos que procuram as clínicas do sono tem apneia.

A apneia é um problema grave, associado a um aumento de risco de ataques cardíacos e acidentes vasculares. Mas apenas indiretamente ela é uma moléstia do sono. Os verdadeiros insones – aqueles diagnosticados com o que os especialistas chamam de "insônia psicofisiológica" – são pessoas que, sem motivo aparente, não conseguem dormir ou não conseguem permanecer adormecidas. Elas acordam e não se sentem repousadas. Ficam deitadas tentando adormecer e seu cérebro continua desperto.

Embora a apneia possa ser tratada com um dispositivo mecânico que força o ar pela garganta da pessoa adormecida de modo a manter abertas as vias aéreas, no caso da insônia clássica não há solução tão simples. Um dos tratamentos que podem ajudar, e está sendo mais estudado, é a acupuntura – há muito essa técnica vem sendo usada com tal finalidade na medicina asiática.

O tratamento da insônia psicofisiológica inclui uma abordagem dupla. Primeiro são prescritas pílulas para dormir, que em sua maioria atua reforçando a atividade do ácido gama-aminobutírico (Gaba), um neurotransmissor que controla a ansiedade geral e o nível de alerta do corpo. Embora sejam hoje mais seguros que no passado, os remédios para dormir podem conduzir à dependência psicológica. E muitos pacientes se queixam de que o sono provocado por tais medicamentos parece diferente do normal, causando uma sensação de ressaca quando despertam.

O segundo passo no tratamento da insônia verdadeira costuma ser a terapia comportamental cognitiva (TCC). Nela, um psicólogo especializado ensina a pessoa a ver seus distúrbios de sono como algo administrável e até controlável – essa é a parte "cognitiva" da terapia – e também a praticar uma espécie de "higiene do sono". A boa higiene do sono é quase toda constituída de conselhos de eficácia comprovada: dormir em aposento escuro, ir para a cama apenas quando estiver sonolento, não se exercitar antes da hora de dormir. Os estudos revelaram que a TCC é mais eficaz que as pílulas para dormir em tratamentos a longo prazo da insônia, mas muitos pacientes não estão convencidos disso.

Na opinião de John Winkelman, do hospital Brigham and Women’s, a TCC dá mais resultados com alguns tipos de insone do que com outros. Entre a raríssima IFF e a apneia tão comum existem quase 90 tipos reconhecidos de distúrbio do sono. Há pessoas que sofrem de insônia porque têm a síndrome das pernas inquietas (SPI), um intenso desconforto nos membros inferiores que as impede de dormir, ou o distúrbio do movimento periódico dos membros (DMPM), que produz espasmos durante o sono. Quem sofre de narcolepsia muitas vezes tem dificuldade tanto para dormir quanto para ficar acordado. Além disso, há aqueles que não conseguem dormir por causa da depressão e também há quem esteja deprimido porque não consegue dormir. Algumas mulheres têm um sono insatisfatório durante seus períodos menstruais (elas têm probabilidade duas vezes maior de sofrer de insônia que os homens) e muitas experimentam o mesmo quando entram na menopausa. Os mais velhos costumam ter um sono menos reparador que os jovens. Outras pessoas não dormem por problemas no trabalho ou por medo do desemprego – um terço dos americanos afirma que perdeu o sono em razão da recente crise econômica. De todas essas pessoas, os pacientes com insônia por causas físicas internas – excesso ou escassez de vários neurotransmissores – são aqueles menos capazes de reagir ao tratamento.

Na maioria desses casos, porém, a TCC é oferecida como uma cura potencial. Talvez isso se deva ao fato de que o problema da insônia há muito vem sendo considerado sobretudo por psicólogos. Na opinião deles, a insônia é provocada por algo, em geral ansiedade ou depressão, tratável pelos instrumentos de que dispõem. Por extensão, a terapia comportamental cognitiva leva a pessoa a examinar o que ela está fazendo de errado, e não o que está errado em seu organismo. Para Winkelman, os dois aspectos do sono – o físico e o mental – deveriam ser analisados em conjunto. "O sono é complexo", diz ele. "Por que não considerar a possibilidade de que há também alguma disfunção física?"

Se não conseguimos dormir, talvez seja por termos nos esquecido como dormir. Nos tempos pré-modernos, as pessoas tinham um regime de sono diferente, recolhendo-se ao leito logo após escurecer e despertando com os primeiros raios de sol. Nos meses de inverno, com mais tempo para descansar, nossos antepassados talvez tenham fragmentado os períodos de sono. Em muitos países em desenvolvimento, com frequência, ainda se dorme dessa maneira. As pessoas costumam dormir todas juntas e se levantam às vezes durante a noite. Algumas dormem ao ar livre, onde os efeitos da luz do sol influem mais em nosso ritmo circadiano. Em 2002, Carol Worthman e Melissa Melby, da Univesidade Emory, publicaram um estudo sobre o modo como as pessoas dormem em culturas diferentes. Elas constataram que, entre povos coletores, como os !Kung e os Efe, "os limites entre o sono e a vigília são tênues". Não há horário definido para dormir, e ninguém diz ao outro que é hora de ir para a cama. Quem está dormindo desperta assim que uma conversa, ou uma música, irrompe em seu repouso. Aí pode participar do que está acontecendo e, em seguida, voltar a dormir.

Nos países desenvolvidos, contudo, ninguém mais dorme dessa maneira, pelo menos não de propósito. Vamos para a cama quando se aproxima um determinado horário, adormecemos sozinhos ou com nossos parceiros em colchões macios e entre lençóis e cobertas. E dormimos em média cerca de uma hora e meia a menos por noite do que se fazia há um século. Parte de nossa epidemia de insônia ou falta de sono provavelmente se deve apenas

à recusa em prestar atenção a nossa biologia. Os ritmos naturais de sono dos adolescentes seriam mais compatíveis com um despertar no fim da manhã – mas eles acordam cedo, pois as aulas começam às 7 horas. Quem trabalha em turnos noturnos e dorme de manhã está indo no sentido contrário aos ritmos imemoriais de seu organismo, adaptados à necessidade de permanecer desperto, para caçar ou coletar alimentos, no período em que o céu está mais iluminado.

Há um risco em nos opormos a esses ritmos biológicos. Em fevereiro de 2009, um avião de passageiros que fazia a rota entre Newark e Buffalo caiu, matando todas as 49 pessoas a bordo e outra no solo. O copiloto, e talvez também o piloto, havia dormido apenas por períodos esporádicos nas 24 horas que antecederam o acidente, levando a Comissão Nacional de Segurança nos Transportes americana a concluir que o desempenho de ambos "provavelmente estava prejudicado em função da fadiga". Esse é o tipo de notícia que enfurece Charles Czeisler, da Universidade Harvard. Ele observa que, quando um indivíduo passa 24 horas sem dormir ou quando dorme apenas cinco horas por noite durante uma semana, isso é o equivalente a ele ter no sangue um teor de 0,1% de álcool.

A partir de 2004, Czeisler publicou em revistas médicas uma série de relatórios baseados em um estudo realizado por seu grupo com 2,7 mil estudantes no primeiro ano de residência médica. Esses jovens trabalhavam em turnos de até 30 horas duas vezes por semana. A pesquisa de Czeisler revelou o extraordinário risco para a saúde pública ocasionado por tal privação de sono. "Sabemos que um em cada cinco residentes do primeiro ano admitiu ter cometido erros causados pela fadiga que resultaram em danos aos pacientes", contou-me Czeisler na primavera de 2009. "E um em cada 20 reconhece ter cometido um erro associado à fadiga que resultou na morte do paciente." Quando divulgou essa informação, Czeisler esperava que os hospitais se mostrassem gratos. Em vez disso, muitos reagiram de forma defensiva. Hoje ele perdeu a esperança de que algo seja feito até que os empresários americanos se deem conta da gravidade do problema da insônia e da sonolência.

E o que dizer da sesta? O horário da sesta tradicional, logo após o almoço, corresponde a uma queda natural em nosso ritmo circadiano, e estudos já comprovaram que as pessoas que cochilam à tarde são em geral mais produtivas e talvez até mesmo corram risco menor de enfermidades cardíacas. Foram os espanhóis que tornaram famosa essa prática. Infelizmente, contudo, eles já não moram tão próximos do trabalho que possam voltar para casa e fazer

a siesta. Em vez disso, alguns aproveitam a pausa no trabalho para estender o almoço com amigos e colegas. Como passam duas horas fora, os trabalhadores espanhóis apenas dão conta de terminar o trabalho às 7 ou 8 da noite. Todavia, mesmo aí, nem sempre voltam para casa, preferindo sair para tomar um drinque ou jantar. Os programas de TV no horário nobre terminam apenas à meia-noite.

Nos últimos tempos, os espanhóis estão começando a levar a sério o problema da privação do sono. Hoje, quando ocorre um acidente de trânsito grave, os policiais indagam quanto tempo os envolvidos dormiram na noite anterior;

e há pouco o governo reduziu os horários de trabalho de modo que os trabalhadores tenham a possibilidade de voltar mais cedo para casa.

Os motivos da luta das autoridades espanholas contra a sonolência não foram as taxas de acidentes no país – historicamente entre as mais altas na Europa Ocidental -, mas a baixa produtividade dos trabalhadores. Os espanhóis passam mais tempo no trabalho e têm uma produtividade menor que a de seus vizinhos europeus. "Uma coisa é bater o ponto, outra é pensar no que se tem de fazer", alertou Ignacio Buqueras y Bach, empresário de 68 anos que vem liderando esforços para que os espanhóis durmam mais cedo, em artigo publicado há pouco em um jornal de Madri. "De vez em quando precisamos fechar os olhos", disse-me Buqueras. "Não somos máquinas."

Em 2006, uma comissão criada por Buqueras para mudar essa situação passou a ser respaldada pelo governo espanhol. Dois anos depois, tive a oportunidade de participar de uma das reuniões da comissão no anexo da Câmara dos Deputados espanhola. Um variado grupo de importantes personalidades da Espanha falou de acidentes provocados por trabalhadores exaustos, de espanholas sobrecarregadas por dupla jornada de trabalho, e de crianças pequenas privadas das dez ou 12 horas de sono que deveriam desfrutar. Os membros da comissão foram incentivados a entrar em contato com as redes de televisão para ver se estariam dispostas a antecipar o horário de seus principais programas.

Buqueras empenhava-se em manter o ritmo da reunião. No entanto, as luzes no local eram atenuadas, e a temperatura, cálida. Na plateia, as cabeças de alguns dos assistentes ameaçavam tombar, sendo logo endireitadas num esforço de resistência. Em seguida, seus olhos ficavam cerrados, a programação do evento caía de seus colos enquanto começavam ali mesmo a saldar o imenso débito de sono em seu país.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

Alunos de ensino médio de SP estudam menos tempo e têm mais matérias que os de Nova York

Rafael Targino

Um levantamento feito por um pesquisador da Secretaria de Educação de Nova York mostrou que os alunos de ensino médio do estado de São Paulo estudam menos horas por semana e mais matérias ao mesmo tempo do que os alunos do mesmo nível da cidade americana. De acordo com a pesquisa, divulgada nesta quarta-feira (19), os professores paulistas também lecionam por mais horas, têm mais estudantes por sala e maior probabilidade de dar aula em mais de uma escola. Ou seja, acabam responsáveis por muito mais alunos do que os docentes nova-iorquinos.

O estudo, feito pelo pesquisador Jesse Margolis, compara o estado de São Paulo com a cidade de Nova York por causa da dinâmica do ensino nos dois locais. O município americano é responsável pela gestão escolar, enquanto que o estado fica com a parte de regulação. No Brasil, os dois quesitos ficam a cargo tanto do estado quanto da cidade.

O número médio de alunos por sala de aula no estado de SP (34,7) é aproximadamente 33% maior do que o total da cidade americana (26,1). Outro dado apontado por Margolis é que mais alunos de ensino médio têm aulas à noite em São Paulo do que na comparação com os de Nova York. Pela pesquisa, 43,6% das pessoas que cursam esse nível em escolas públicas do estado o fazem à noite; nos EUA, o total é de 5,5%.

Além disso, o número de professores que se ausenta da sala de aula –e exige uma substituição temporária– é duas vezes e meia maior em São Paulo do que em Nova York. A pesquisa também mostra que os professores de tempo integral no estado brasileiro passam pelo menos mais 11 horas em sala que seus colegas americanos.

“É muito difícil conseguir o dado exato, mas não me surpreenderia que um professor de ensino médio tivesse duas vezes mais alunos [em São Paulo]. [Mas] Isso seria um dado aproximado”, afirmou Margolis. O pesquisador disse que o que acontece em Nova York não é "necessariamente" melhor do que em SP.

Para ele, um dos problemas é que o professor não consegue acompanhar adequadamente o aluno. “Uma maneira possível, que não necessariamente posso recomendar, seria que o aluno não estudasse tantas matérias ao mesmo tempo. Não é que tem que diminuir o numero de matérias que estuda um aluno de ensino médio. Mas, em Nova York, o que fazemos é que um aluno estuda biologia em um ano, química no segundo, física no terceiro, e tem um só professor de ciências, ao invés de três.”

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

Arqueólogos encontram pirâmide com tumba que pode ser a mais antiga da Mesoamérica

UOL Ciência e Saúde

A tumba pode ser a mais antiga do seu tipo em toda a Mesoamérica, a região que se estende do sul do México até a Costa Rica

A tumba pode ser a mais antiga do seu tipo em toda a Mesoamérica, a região que se estende do sul do México até a Costa Rica.

Arqueólogos encontraram no sul do México uma pirâmide contendo a tumba de uma alta autoridade pré-colombiana que pode ser a mais antiga do seu tipo em toda a Mesoamérica, a região que se estende do sul do México até a Costa Rica.

A pirâmide contém quatro esqueletos, indicando um enterro múltiplo realizado há 2,7 mil anos. De acordo com os cientistas, seria o antecedente mais remoto do uso de pirâmides como recintos funerários em toda a região.

Dois dos esqueletos, segundo os cientistas, estariam rodeados de pedras de jade e âmbar, além de objetos valiosos para a época, feitos de cerâmica.

Isto indicaria que um deles poderia ser o de um importante líder ou clérigo de Chiapa de Corzo, um proeminente assentamento da época.

Junto à câmara principal, os arqueólogos encontraram outro sepulcro contendo um esqueleto, "provavelmente de uma mulher" que faleceu por volta dos 50 anos de idade.

A descoberta foi feita na zona arqueológica Chiapa de Corzo, no Estado mexicano de Chiapas, por arqueólogos do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), da Universidade Nacional Autônoma (UNAM) do México e da Universidade Brigham Young, dos EUA.

Segundo os pesquisadores, a descoberta sugere que o uso de pirâmides como recintos funerários pode ser mais antigo do que se pensava anteriormente e poderia ser anterior à cultura maia.

A tumba estudada está localizada dentro de uma pirâmide que pode ter tido até sete metros de altura quando foi construída, com escadas de barro levando a um templo no topo de sua estrutura.

Sacrifício humano?

A câmara funerária, medindo quatro metros de comprimento por três de largura, foi encontrada após 24 horas de escavações.

A câmara principal guardava ossos de três pessoas: um homem de meia-idade, um bebê de cerca de um ano e um jovem do sexo masculino.

O homem de meia-idade estava com vários adornos, tinha a boca coberta com uma concha e os dentes incrustados com pedras de jade. Ele também tinha braceletes, colares e o que os arqueólogos acreditam ser uma máscara funerária com olhos feitos com uma pedra vulcânica verde.

Os investigadores acreditam que, a julgar pela qualidade das joias com as quais o homem foi sepultado, ele deve ter sido uma pessoa importante.

Eles dizem que os outros dois corpos – do bebê e do jovem – podem ter sido colocados depois na tumba para acompanhar o homem morto e foram possivelmente sacrificados.

Os pesquisadores dizem que a posição dos ossos sugere que o bebê foi colocado cuidadosamente na tumba, enquanto o jovem foi possivelmente jogado na câmara funerária.

No anexo à câmara principal, os arqueólogos encontraram outra sala pequena contendo o esqueleto de uma mulher, também com muitos adornos de âmbar e pingentes representando pássaros e um macaco.

O número e a variedade das oferendas sugerem que as pessoas que viviam nesta região naquela época realizavam trocas com lugares tão distantes quanto a costa do Golfo do México e o Vale Motagua, na Guatemala, região rica em jade.

Os pesquisadores dizem ainda que a descoberta sugere que havia seres humanos vivendo na região de Chiapas, no sul do México, desde 1200 A.C.

Fonte: UOL Ciência e Saúde – http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/

"O momento neoliberal do capitalismo terminou"

IHU On-Line

Em entrevista para a IHU On-Line, Luiz Gonzaga Belluzzo analisa as consequências da crise na zona do Euro e projeta os rumos que o capitalismo poderá tomar a partir dessa crise. Para o enconomista, o tipo de capitalismo dominante nos últimos 30 anos está com os dias contados. "O tipo de capitalismo que vai surgir dependerá muito da luta social, da formação do imaginário popular, que, na verdade, não depende muito dos iluminados, mas da capacidade de informação e compreensão do que realmente aconteceu", defende Belluzzo.

Ao refletir sobre as consequências da crise na zona do Euro, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo defende que “o tipo de capitalismo que vai surgir dependerá muito da luta social, da formação do imaginário popular, que, na verdade, não depende muito dos iluminados, mas da capacidade de informação e compreensão do que realmente aconteceu”. E completa: “isso vai se formar na luta política”.

Na entrevista que concedeu, por telefone, para a IHU On-Line, ele antevê que “esse capitalismo dos últimos 30 anos, sobretudo desde a desfiguração do estado do bem-estar na Europa e do avanço do projeto neoliberal, é um modelo que terminou”. Na visão de Belluzzo, “o que está em risco nesse momento – e a crise europeia mostra isso com muita clareza – é a infraestrutura do mercado, constituída pelo crédito e pela questão da riqueza monetária e financeira. Essa infraestrutura está colocando em risco o funcionamento do mercado, da oferta de trabalho, da demanda de bens etc. E a manutenção dessa relação de domínio pode jogar a sociedade numa crise muito prolongada”. No entanto, enfatiza: “teremos ainda muito chão para percorrer até chegar a uma reconfiguração das relações entre as finanças, mercados, empresas e governos”.

Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Economia Industrial pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal, e doutor em Economia pela Universidade de Campinas – Unicamp. Atualmente, é professor do Instituto de Economia da Unicamp e editor da revista Carta Capital.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que capitalismo se configura a partir da crise do Euro e das demais crises financeiras internacionais que assistimos desde 2008?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Isso é algo que não dá para determinar, mas podemos fazer conjecturas. O que está claro é que o tipo de capitalismo que vai surgir dependerá muito da luta social, da formação do imaginário popular, que, na verdade, não depende muito dos iluminados, mas da capacidade de informação e compreensão do que realmente aconteceu. Isso vai se formar na luta política. Vejamos a reação dos gregos e a reação dos sindicatos na Espanha. Teremos que repensar o papel do povo e como ele se reorganiza para elaborar coletivamente essa proposta. O que posso antever é que esse capitalismo dos últimos 30 anos, sobretudo desde a desfiguração do estado do bem-estar na Europa e do avanço do projeto neoliberal, é um modelo que terminou. Talvez as forças que o sustentam vão tentar mantê-lo ainda na UTI, mas ele não vai conseguir sobreviver, pois não tem viabilidade, não há compatibilidade com as promessas de vida boa e decente para todos os cidadãos, portanto, de manutenção e garantia dos direitos de cidadania, que foram conquistados a ferro e fogo nos anos 20, 30 e 40, depois de duas guerras mundiais. Isso não foi dado de graça, mas instituído e universalizado para os países desenvolvidos nos anos 50 e 60. Esse estilo de sociedade, de vida e de convivência foi progressivamente sendo deformado pelo avanço do projeto neoliberal.

Esse momento da vida do capitalismo terminou. O que vai ficar no lugar é muito difícil de projetar, mas, certamente, teremos mudanças importantes. Mesmo os governos mais conservadores veem, no predomínio do capital financeiro, um dos fatores dos desequilíbrios. Isso está claro. Provavelmente, a finança, como uma instância coletiva da vida econômica (porque é a gestão de massas de recursos que pertencem a muitos, envolve a gestão do crédito, que, na verdade, é uma incumbência privada de um bem público), passará a ser fortemente regulada pelo Estado, se é que não vai ocorrer uma crescente estatização dessas relações para que o próprio mercado possa sobreviver.

O que está em risco nesse momento – e a crise europeia mostra isso com muita clareza – é a infraestrutura do mercado, constituída pelo crédito e pela questão da riqueza monetária e financeira. Essa infraestrutura está colocando em risco o funcionamento do mercado, da oferta de trabalho, da demanda de bens etc. E a manutenção dessa relação de domínio pode jogar a sociedade numa crise muito prolongada.

IHU On-Line – Quais as consequências sociais da redução do estado de bem-estar social? Qual sua análise de uma possível revolta social?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão central, assim como a emergência das massas, no final do século XIX e começo do século XX, foi uma questão colocada para o capitalismo e que só se resolveu depois de 30, 40 anos de crises e conflitos. A grande panaceia, que foi recomendada pelos liberais – e em seguida por muitos outros -, da flexibilização dos mercados de trabalho, na verdade, não conseguiu abolir todas as conquistas do estado de bem-estar, senão estaríamos hoje numa situação de conflito aberto. No entanto, o nível de proteção caiu muito.

O desemprego nos países que executaram essas políticas, desde países do leste europeu, recém saídos do socialismo real, até os países que conseguiram construir estruturas de produção muito avançadas, desenvolvem o desmonte ou a desfiguração social, o que levou a um aumento brutal das taxas de desemprego. Estamos diante de um novo acordo social que não vai ser feito sem vítimas. Mas isso não será dado pelos poderosos de graça. É só observar o que aconteceu no mercado de trabalho americano. Ficou claro que os empregos criados foram de baixa qualidade e baixa remuneração, o que explica a queda do rendimento médio naquele país. A queda foi impressionante para a maioria da população, e foi substituída pela fúria do endividamento, o que tornou a economia “imanejável” num determinado momento.

Não sei como isso será encaminhado, porque noto, no governo americano e mesmo nos governos europeus, uma certa hesitação e um comprometimento muito grande das lideranças com a dominância dos mercados financeiros. Isso será muito solapado pelo inconformismo popular em função dessas relações. Mas teremos ainda muito chão para percorrer até chegar a uma reconfiguração das relações entre as finanças, mercados, empresas e governos.

IHU On-Line – Pensando em reformar o antigo modelo econômico e social que rege nossas sociedades, o que faria parte de um híbrido modelo novo? É possível, nesse novo modelo, contemplar a questão ecológica?

Luiz Gonzaga Belluzzo – A questão ecológica é central hoje, bem como o estilo de desenvolvimento. Não podemos nos tornar antinômicos ao desenvolvimento econômico, à melhoria na vida das pessoas, por conta das conquistas que já foram realizadas no âmbito tecnológico e produtivo. O problema é que é preciso tornar cada vez mais disponíveis para a maioria da população, e em condições de sobrevivência humana adequada, esses benefícios que foram criados pelo progresso tecnológico. Então, é preciso relembrar o que muitos autores já disseram; e vou relembrar especialmente Keynes, nas Perspectivas econômicas para os nossos netos, que antecipou corretamente que teríamos uma abundância tanto na produção de alimentos como na produção de outros bens materiais.

Mas essa abundância precisaria ser muito bem conduzida para que os homens aumentassem o seu tempo livre, com a cultura, entretenimento, esporte, para que pudessem viver uma vida mais completa. Isso é o que está inscrito nas consignas da Revolução Francesa e do Iluminismo: que os homens tenham uma vida mais completa, no sentido de mais humana, e, como ser histórico, desenvolvam as potencialidades e inventem outras além daquelas que já possuem. Essa que deve ser a regra. Isso não pode ser deixado à espontaneidade dos mercados, assim como o homem também sabe que não pode deixar certos processos entregues à fúria da natureza. E, ao mesmo tempo em que não se deve provocar e machucar a natureza, também não podemos permitir que ela lance seus processos cegos em cima da vida humana. Isso é muito parecido com o que aconteceu com o mercado financeiro.

O que se disse, falou e escreveu sobre a racionalidade, sobre os mercados perfeitos, entregou o mundo a uma insensibilidade econômica, financeira e social que não pode mais ser tolerada. Isso só pode ser feito com uma disciplina em cima da movimentação e da negociação dos instrumentos que representam a riqueza abstrata. Mas as pessoas não estão interessadas nisso. Elas estão interessadas, no fundo, em viver decentemente, com uma diversidade de atividades, de estilos de vida e de instituições que possam satisfazer o desenvolvimento da chamada natureza humana. Aliás, o homem não tem natureza, ele é um ser histórico que desenvolve suas potencialidades a partir daquilo que consegue construir.

IHU On-Line – A crise abre que caminhos para os países emergentes? É possível, a partir desta perspectiva, vislumbrar uma mudança nos rumos da condução do capitalismo?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um fenômeno que estamos observando agora. Objetivamente, sem fazer nenhuma consideração de ordem política ou subjetiva, o Brasil, a China, a Rússia e a Índia já têm uma presença muito maior no comércio, na estrutura da produção mundial e politicamente estão ganhando espaço. Em minha opinião, estão sabendo conduzir isso com muita sabedoria, como mostra a recente intervenção do Brasil no caso do Irã. E isso contra toda a evidência de que os Estados Unidos não estão dispostos a aceitar qualquer acordo, porque interessa manter o demônio vivo; é preciso ter algum demônio para que o poder absoluto se afirme.

E o Brasil deu um passo importante, com muita cautela e habilidade para se intrometer entre esse impulso ao poder absoluto e o desejo de sobrevivência dos mais frágeis. Não se trata de justificar a atitude do Irã, mas vamos combinar que os Estados Unidos não querem, não desejam esse acordo, porque ele retira muitas das razões que movem a política americana. Do ponto de vista econômico e político, os países emergentes têm um papel muito importante de mediação e têm condições de fazer isso, não só na órbita das negociações econômicas, na reforma financeira internacional, na reforma monetária, mas também no que diz respeito à negociação política.

IHU On-Line – O modelo chinês indica novos caminhos para a economia e o capitalismo? O Brasil deve seguir esse modelo?

Luiz Gonzaga Belluzzo - O modelo chinês tem também a sua determinação histórica. Ele surge no momento em que a economia mundial estava se movendo, sobretudo por conta da expansão da grande empresa americana, em direção à chamada globalização. O modelo chinês é fruto de uma percepção da reconfiguração geoeconômica que estava acontecendo no mundo, e a China foi uma das maiores beneficiárias disso. O modelo chinês combinou o máximo de controle com o máximo de concorrência e construiu, na China e na Ásia, um bloco manufatureiro muito importante. Acontece que a crise vai exigir que a China também altere as suas formas de crescimento. Ela dependia muito do consumidor americano, que hoje está comprometido com o alto grau de endividamento. E não é só isso. Não é possível reproduzir o modelo americano, esse que prevaleceu nos últimos anos, com endividamento alto e queda dos rendimentos reais. Isso tinha como contrapartida o crescimento industrial da China, a produção com baixo custo, com grande eficiência e a graduação tecnológica muito rápida. A China foi importante para o Brasil porque, enquanto demandante de commodities, nos proporcionou um período de acumulação de reservas e de ganhos fiscais importantes. O Brasil conseguiu se equilibrar por conta da disponibilidade de recursos naturais. Mas acho que a China terá que reconfigurar seu estilo de desenvolvimento e se apoiar menos nas exportações e mais na demanda interna. Mas isso vai depender muito da capacidade e da disposição dos americanos em abrirem mão do controle exclusivo da moeda reserva. Isso tem uma importância crucial, porque diz respeito a como as relações de débito e crédito são denominadas; como o faturamento das exportações e importações é denominado; como as moedas nacionais se relacionam com a moeda reserva. Tudo isso está em questão, e não sei em quanto tempo vai se resolver. Talvez demore muito e, por isso, viveremos um tempo de confiança, descontinuidades e conflitos. No entanto, penso que é impossível não se levar em conta que essa constelação de países, especialmente a China, tem um papel crucial a desempenhar no cenário internacional.

IHU On-Line – Qual a importância da democracia nesse cenário mundial em que os eleitores e os governos nacionais podem muito pouco?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Antes eu falava da luta social, e agora retomo o assunto. A democracia hoje tem tido um significado bastante limitado, quase que restrito ao momento das eleições. A participação popular nas decisões cruciais tem sido muito limitada, por conta do predomínio desta instância de controle e domínio financeiro. Vamos ver como os regimes e as sociedades, sobretudo a sociedade americana, responde a esse desafio. No caso dos Estados Unidos, estamos observando um crescimento impressionante dos movimentos conservadores. Isso tende a crescer na Europa também por conta das dificuldades de emprego e dos conflitos com os imigrantes. Sempre, nesses momentos, a democracia verdadeira fica em questão e, ao mesmo tempo em que temos o surgimento de movimentos sociais progressistas mais consistentes, temos o crescimento das forças conservadoras de direita antidemocráticas. O que está em questão é a chamada radicalização da democracia.

IHU On-Line – Como a questão do desemprego se enquadra neste cenário de crise do Euro?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão central, que não será resolvida por uma retomada do desenvolvimento convencional, tanto que as taxas de desemprego continuam muito altas, apesar, por exemplo, da economia americana estar se recuperando ligeiramente. As atividades tradicionais do mercado não vão gerar muito emprego. É preciso que os governos se empenhem nas políticas de emprego, em criar formas novas, relacionadas com a cultura, com o entretenimento, com o esporte. É preciso inventar o emprego. E, por isso mesmo, o governo deve aumentar o controle sobre a decisão de investir. É preciso socializar isso, senão teremos problemas de desajustes sociais sérios.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

O direito executado

Gianni Carta

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Na Europa, o homicídio legal foi abolido e discute-se a moratória global. EUA, China, Irã, Arábia Saudita e Paquistão respondem por 90% das execuções

Joaquín josé martínez, quatro dos seus 38 anos no corredor da morte em uma prisão na Flórida, abre um sorriso e comenta: “Hoje vejo alguns aspectos engraçados no dia em que fui preso, teve algo de hollywoodiano”.

Ao volante de seu carro esporte, no dia 28 de janeiro de 1996, Martínez rumava para a casa de sua ex-mulher para visitar as duas filhas. Ao parar em um farol vermelho, viu emergir de um automóvel de polícia à sua esquerda um oficial apontando-lhe um rifle. Como nos filmes, o policial grita: “Mãos ao alto!” Pela direita, outro policial ameaça atirar. “Desligue o motor do veículo!”, ordena. “Eu não sabia como reagir”, reconhece Martínez no 4º Congresso Mundial Contra a Pena de Morte, realizado em Genebra entre 24 e 26 de fevereiro.

Organizado pela associação francesa Ensemble Contre la Peine de Mort (ECPM), cofinanciada pela Confederação Suíça em parceria com a Coalizão Mundial Contra a Pena de Morte, atraiu jornalistas e militantes eloquentes como Bianca Jagger. Magistrados e autoridades políticas também compareceram, inclusive o premier espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero. Coube a este, atual presidente da União Europeia, anunciar a criação de uma comissão internacional para obter a moratória global sobre execuções até 2015. A proposta provocou comentários carregados de ceticismo, ainda que a iniciativa, claro, tenha sido bem recebida.

Martínez volta a descrever o dia de sua prisão: “Se eu desligasse o motor do carro, como ordenara um dos policiais, o da esquerda me mataria ao deixar de ver minha mão, e vice-versa”. Àquela altura, dezenas de policiais apontavam, de suas viaturas, suas armas para Martínez, cidadão espanhol detentor de um green card. Sobre a sua cabeça, um ziguezague ruidoso de helicópteros, com câmeras de tevê a capturar as imagens do suposto assassino do filho do xerife da cidadezinha de Brandon, traficante de drogas, e de sua companheira, uma profissional do strip-tease. O filho do xerife levou oito tiros e sua namorada, 33 facadas na nuca.

“Eu tinha 24 anos e vivia o chamado american dream”, conta Martínez, morador de Nova York desde menino, quando emigrou da Espanha com os pais. Em Miami conseguira comprar o carro esporte, administrava a sua própria empresa, firmara o namoro. “No momento em que eu era detido me perguntava qual era o motivo para eu ter virado alvo de tantos policiais.”

A acusação, soube mais tarde, era de duplo homicídio. As provas: o filho do xerife trabalhara em uma empresa onde Martínez também fora funcionário e suas duas armas (Martínez tinha porte) eram do calibre da usada para matar o traficante de drogas. Martínez nem sequer conhecera o filho do xerife.

Mas o que complicou de vez a vida do espanhol foi o testemunho de Sloane, sua ex-mulher. Sloane garantiu ao xerife que seu ex-marido era o assassino procurado, versão fundamental para sustentar a condenação à pena de morte no primeiro julgamento, além de ter servido para detonar a operação de captura. Um fato teria deixado Sloane muito “irritada”, recorda Martínez. “Logo após o nosso divórcio, ela telefonou para meu celular e eu atendi na Disney World, onde estava com minha namorada.”

Três telefonemas de Sloane ao ex-marido foram registrados com o objetivo de obter a sua confissão. As conversas, todas inaudíveis, foram enviadas ao FBI. O serviço secreto também não conseguiu flagrar o reconhecimento de culpa de Martínez.

O próprio xerife forjou uma transcrição, apresentada ao júri em 2007, na qual Martínez supostamente confessava para a ex-mulher os dois assassinatos. Para turvar ainda mais o cenário, alguns prisioneiros testemunharam que Martínez lhes teria confiado a responsabilidade do homicídio duplo.

Martínez saiu do tribunal, diante das duas filhas aos prantos, para o corredor da morte. Seu objetivo era questionar a “regularidade do processo”, uma noção crucial na legislação americana. Recorrer a um novo processo nos EUA é “muito difícil”, explica o senador francês Robert Badinter, conferencista no congresso em Genebra e ministro da Justiça de François Mitterrand, responsável pelo fim da pena de morte na França, em 1981. “Na verdade, todo o sistema judiciário americano revela-se uma verdadeira máquina de produzir condenados à morte”, anota Badinter em Contre la Peine de Mort (Fayard, 2006, 313 págs., 6,50 euros).

Antes de ser examinados pelo sistema judiciário, “suspeitos” negros, hispânicos e de outras minorias têm, nos EUA, mais chances de terminar atrás das grades ou condenados à pena capital. Em casos de pena de morte nos EUA, jurados podem ter preconceito racial. Ou o júri pode não representar a composição étnica da comunidade onde o acusado está sendo julgado. Esse, por sinal, foi o caso de Mumia Abu-Jamal, o ex-jornalista e militante negro acusado de ter matado o policial Daniel Faulkner. Abu-Jamal foi julgado por dez jurados brancos e apenas dois negros, em plena Filadélfia, onde 40% da população é negra. O militante foi condenado à morte em 1982 e tornou-se uma figura emblemática do movimento contra a pena de morte, sempre negando ter matado o policial.

O jornalista Dave Lindorff, autor de um livro sobre Abu-Jamal, enfatiza outro detalhe relevante: jurados potencialmente contrários à pena de morte não podem compor o júri. A legislação americana somente aceita aqueles “qualificados a julgar”. Mas o advogado do diabo não poderia argumentar que alguns desses “qualificados” teriam uma prévia inclinação para mandar alguém para a cadeira elétrica? E se tiverem preconceitos raciais, essa chance de pôr fim na vida de alguém não aumentaria?

Outra falha do sistema penal americano tem raízes nas classes sociais dos suspeitos. Quanto mais dinheiro o acusado tiver, maiores as chances de obter uma defesa sólida. Mas, como lembra Badinter, a maioria dos condenados à pena capital é formada por excluídos da sociedade, cuja defesa é de responsabilidade de um advogado remunerado pelo Estado. Segundo Badinter, em 1999, um advogado do Alabama recebia 2 mil dólares em honorários para defender uma pessoa “passível da pena de morte”. No Mississippi, o quadro era pior: 12 dólares por hora. Na maioria dos casos, diz o jurista, esses advogados mal conhecem o dossiê de seus clientes.

Como diz Martínez, “a pena capital é para quem não tem capital”. Seus pais, contudo, levantaram 1 milhão de dólares na Espanha para a sua defesa. Seu advogado provou a falsidade das fitas inaudíveis, onde Martínez confessava ter matado o traficante de drogas e sua companheira. A transcrição apresentada pelo xerife, ficou evidente, havia sido forjada.

Para a libertação de Martínez, em 7 de junho de 2001, foi mais importante o fato de sua ex-mulher ter feito um depoimento a seu favor. E os presos terem enviado cartas para a Suprema Corte, admitindo que teriam sido cooptados pelo oferecido de penas mais curtas se incriminassem Martínez. Ao mesmo tempo, a pressão colocada sobre o governo da Flórida foi maciça: o governo espanhol, a União Europeia, o Parlamento italiano e até o papa João Paulo II saíram em sua defesa.

Desde 1973, 131 mulheres e homens escaparam dos corredores americanos por terem sido inocentados. Mas quantos exe cutados eram inocentes? Quantos morreram nos 35 estados onde a pena de morte vigora? E quantos culpados continuarão livres? “O sistema judiciário tem o direito de matar e assim cometer o crime que supostamente tem de proibir ou punir?”, pergunta Arnaud Gaillard, coordenador do congresso.

Atualmente, um terço dos Estados do planeta aplica a pena de morte. Além dos EUA, há mais 57 Estados ditos retencionistas, aqueles contrários à abolição do homicídio legal. Segundo a ECPM, em 2008, cerca de 90% das execuções recenseadas haviam ocorrido em cinco países: EUA, China, Irã, Paquistão e Arábia Saudita.

O único país transparente em relação ao número de execuções são os Estados Unidos, com 37 mortos. Dados checados pela Anistia Internacional e pela Dui Hua Foundation colocam o número de executados na China entre 1,7 mil e 6 mil. A China é, portanto, campeã em número de execuções.

Baseado em Pequim, o advogado Jiang Tianyong comenta: “A pena de morte é o maior instrumento de repressão política, mas o governo também o utiliza como instrumento social”. Segundo algumas ONGs, a pena capital teria ocorrido por meio de injeções aplicadas em ônibus nas províncias chinesas, e órgãos dos mortos teriam sido extraídos e comercializados.

Após as duvidosas eleições no Irã, em junho de 2009, dois manifestantes foram enforcados no fim de janeiro. Outros nove aguardam as suas sentenças. A iraniana Shirin Ebadi, premiada com o Nobel, lembrou que, após a Revolução Islâmica, os líderes modificaram as sentenças de morte “para também serem aplicadas aos menores”. Assim, o Irã é campeão no número de mortes de menores, superando, em segundo lugar, a Arábia Saudita.

Nas terras de Ahmadinejad, mais de 50 crimes e delitos são passíveis da pena de morte. Uma simples reincidência no consumo de álcool pode conduzir ao homicídio legal. O apedrejamento público de mulheres adúlteras é comum, e um saco é colocado na cabeça das mulheres enterradas até o busto. As pedras são de tamanho médio, para a morte não ser muito rápida nem demasiadamente lenta. Várias dessas adúlteras são forçadas pelos maridos a se prostituir.

Abolicionistas da pena de morte oferecem argumentos sólidos para uma moratória global, com base na resolução adotada em 18 de dezembro de 2007 pela Assembleia-Geral das Nações Unidas. À parte o direito fundamental à vida, dois outros temas foram debatidos em Genebra. Primeiramente, não há evidência científica de que a pena de morte tenha poder dissuasivo sobre futuros atos criminosos. Pelo contrário, a pena de morte nutre uma “sociedade militarista”, nas palavras do jornalista Lindorff.

Segundo ponto: o custo da pena de morte é muito superior ao da prisão perpétua. John van de Kamp, ex-procurador federal na corte da Califórnia, explica que no seu estado o Tesouro público gasta anualmente 137 milhões de dólares em custos de procedimentos para 670 homens e mulheres aguardarem nos corredores da morte – um recorde no país. Quando o homicídio legal é substituído pela prisão perpétua, o custo anual desaba para cerca de 11 milhões de dólares. O motivo? Os procedimentos criminais para levar adiante o castigo supremo são muito mais complexos. E podem durar até 25 anos.

Com um déficit público de 20 bilhões de dólares, o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, tem freado o número de execuções, a despeito do seu histórico nas telas de cinema. Van de Kamp entende que é difícil colocar a questão econômica antes da moral no caso da abolição da pena de morte. Mas ele justifica: “Uso todos os argumentos possíveis. E o econômico parece surtir grande efeito entre aqueles favoráveis à pena capital nos EUA”.

O ex-procurador fornece outro dado interessante. Segundo pesquisas, 65% dos americanos são favoráveis à pena capital. Mas nem sempre: eles seriam contra mediante a garantia de o detido por homicídio cumprir prisão perpétua sem direito à liberdade condicional. Um repórter comenta: “Isso diria alguém a favor da pena de morte, caso não matassem alguém da sua família”. Van de Kamp rebate: “O olho por olho resulta em cegueira”.

Bill Pelke, membro do comitê Murder Victims Families for Human Rights (Famílias de Vítimas de Assassinato pelos Direitos Humanos), antes a favor da pena capital para Paula Cooper, uma menina de 15 anos responsável pela morte de sua avó, passou a pregar compaixão aos condenados. “A morte de um assassino perpetua a violência, e não é a cura para o sofrimento. A cura é saber perdoar.”

Em uma entrevista exclusiva, pergunto a Martínez se ele sente raiva de sua ex-mulher, por tê-lo colocado no corredor da morte. “Não, falo com ela todas as noites, é a mãe de minhas duas filhas.” E do sistema judicial americano, não tem raiva? “Sinto-me traído.” É muito fácil você se sentir americano, continua ele, mostrando o seu green card. “Eis aí a bandeira americana, o hino. E o meu american dream, que estava se tornando realidade. De repente, tudo desaba.” Por que, pergunto para encerrar a conversa, ele vive hoje novamente na Espanha? “Sinto-me mais seguro aqui.” A Europa, como sabe Martínez, é a única região do mundo onde a pena de morte foi abolida.

Fonte: Carta na Escola – http://www.cartanaescola.com.br/

Áreas cerebrais disputam decisão de gastar ou poupar

Sistema pode explicar fé religiosa do esforço em vida para recompensa pós-morte.Experimento mapeou os cérebros de voluntários em um teste no qual deveriam escolher entre consumir ou economizar seus recursos

RICARDO MIOTO

Um estudo de mapeamento cerebral pode ajudar a entender a diferença entre o cérebro de uma pessoa esbanjadora, que gasta dinheiro como se cada dia fosse o último, e o de um pão-duro crônico, que apenas poupa, sem aproveitar o que juntou. Os mecanismos que interagem quando uma pessoa decide entre consumir ou armazenar o recurso, dizem os cientistas, são os mesmos que embasam a fé religiosa de alguém que se esforça em vida para ter o paraíso após a morte.

O que os neurocientistas da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, fizeram foi observar a atividade cerebral de voluntários enquanto tomavam decisões financeiras. Elas envolviam escolher entre receber menos dinheiro imediatamente ou uma quantia maior dentro de alguns meses. Enquanto isso, eram estimulados a pensar em eventos do futuro, como longas viagens de férias ou cursos caros que desejariam fazer.

Os pesquisadores puderam, assim, mapear as áreas do cérebro que trabalham para decidir entre receber uma recompensa agora ou esperar por algo melhor amanhã. Duas são importantes. Grosso modo, uma é mais imediatista, e a outra faz o papel de chata, trazendo a lembrança de que não se pode pensar apenas no presente.

O córtex cingulado anterior é quem responde à recompensa, uma área muito ligada à tomada de decisões. Se ela faz peso para que escolhas impulsivas sejam feitas, o hipocampo, outra parte do cérebro, entra na briga contra isso. Ele é o responsável por criar imagens do futuro na mente humana -é a parte do cérebro que faz com que as pessoas contratem planos de previdência, digamos.

O hipocampo envia, então, esses sinais relacionados à recompensa futura para o córtex cingulado anterior, influenciando a tomada de decisão.

"Imaginar com força o futuro acaba reduzindo a quantidade de escolhas impulsivas que fazemos", diz Jan Peters, um dos neurocientistas que assinam o trabalho na revista "Neuron".

Os pesquisadores ainda estão apenas descobrindo quais partes cerebrais atuam avaliando o custo-benefício de esperar o tempo passar e não sabem bem como diferenças individuais entre cérebros podem justificar perfis mais esbanjadores ou econômicos. Mas é possível que um hipocampo mais ativo, por exemplo, faça com que certas pessoas criem mais imagens ligadas ao futuro nas suas mentes, dizem os cientistas.

Apesar de o estudo envolver escolhas relacionadas a dinheiro, acredita-se que os mesmos circuitos do cérebro estejam envolvidos em outras decisões. Um dos exemplos pode envolver a religião. Quando um fiel se flagela expiando seus pecados para escapar do inferno, está tomando uma decisão pensando em vantagens futuras.

A ideia de "renúncia agora, paraíso depois" faz parte das cinco maiores religiões do mundo, lembra o economista Eduardo Giannetti, autor de "O Valor do Amanhã". "Foi esse raciocínio que levou à condenação, no séc. 4º, do suicídio como "atalho" para o paraíso, prática corrente nos primeiros séculos do cristianismo", diz.

Humanos têm maior habilidade em trocar o presente pelo futuro do que os animais, que se assemelham mais a crianças pequenas. Elas vivem o momento, sem pensar em guardar papinha para depois. Animais, porém, também sabem adiar recompensas. Roedores, por exemplo, sabem enterrar comida e são poupadores natos.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

A crise da grande política

Ivan Valente

ESSA CRISE, que coloca em questão a própria política, não é nova. A novidade é sua transformação em espetáculo midiático; sua visibilidade e as razões de sua evolução, o que demanda uma visão mais analítica sobre oproblema. Assim, cabe perguntar: qual é a crise do Parlamento? O que se entende por crise? Qual o fundo dessa crise que, longe de ser uma palavra que revela a gravidade do problema, se tornou rotineira, somente à espera de mais um fato para confirmar a tese da desimportância da atividade política ou de sua associação com valores amorais e privados?

A primeira constatação é que se trata de um fenômeno atual a desimportância da política como esfera decisória dos destinos públicos, confundida apenas com o ato de votar de tempos em tempos. Essa "desimportância" se amplia cada vez mais com o enorme peso econômico das corporações, que tornam sem valor os controles da cidadania sobre a vida pública. No plano do governo, as decisões do Banco Central de fixar os juros têm muito mais importância que a maior parte das decisões do Parlamento. E o Banco Central, diferentemente dos demais poderes da República, não é dirigido por alguém eleito pelo voto popular. Como disse o sociólogo Francisco de Oliveira, trata-se de uma ampla tendência de "colonização da política pela economia".

A segunda constatação é que o avanço da mundialização e a aceleração dos processos de acumulação capitalista tornaram a simbiose entre Estado e corporações privadas muito mais rápida que as formas de regulação da política. No âmbito do Parlamento e da produção das leis, tal simbiose resultou num governo de quase exceção, em que o Executivo governa baseado em medidas provisórias que pautam os deputados sempre em caráter emergencial.

A terceira constatação é que a própria política está mais e mais reduzida ao espetáculo. Em sociedades de massa, com mecanismos de controle e participação popular praticamente inexistentes, prepondera o peso dos meios de comunicação na definição daquilo que é ou não é importante do ponto de vista do debate público. Hoje, a mídia tem o poder de pautar as ações do Congresso Nacional. Assim, o modo como a política chega ao cidadão comum é mediado por uma apreensão que já coloca a interpretação do fato na frente do próprio fato. Ou seja, a política, para aparecer, já está naturalmente enquadrada no esquema da pequena política, ou como escândalo facilmente apreensível por meio do enfoque da corrupção. Trata-se de uma preponderância, para utilizar uma terminologia gramsciana, da pequena política sobre a grande política.

Basta analisar o exemplo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Dívida Pública, que, depois de muito insistirmos, foi finalmente instalada no Congresso Nacional. Nas últimas décadas, a dívida pública brasileira aumentou quase dez vezes e se tornou o verdadeiro garrote que aprisiona e atravanca o país na ciranda financeira internacional, com todas as consequências derivadas de falta de recursos, sacrifício e pobreza da maior parte dos brasileiros. Apenas em 2008, 282 bilhões de reais foram consumidos em pagamentos de juros e amortizações da dívida, drenando 47% do orçamento da República para os serviços da dívida. Somente esse montante de recursos seria suficiente para mostrar o grau de importância desse debate para o país. No entanto, a vitória dos setores conservadores no momento recente faz uma blindagem sobre esse assunto, tornando-o proibitivo, fora dos grandes meios de comunicação e pouco tratado no Congresso Nacional.

Esses três fatores – colonização da política pela economia, o caráter emergencial do Executivo sobre o Parlamento e a preponderância da pequena política sobre a grande política – revelam, portanto, a tendência de subordinação da política pela economia. Tamanha é a desimportância da política que mesmo as grandes questões parecem ser decididas por fora dessa esfera. Qualquer leitor mais atento percebe que a política desapareceu dos cadernos dos grandes jornais destinados a tratar desse tema. A política hoje revela-se ou nos cadernos de economia, onde estão retratadas as grandes transações, que definem a vida de milhões mas que emergem pouco à esfera pública, ou nos cadernos de cotidiano, que tratam da verdadeira crise social em que o país está mergulhado, com ausência de recursos para as áreas sociais, colapso e privatização do sistema de saúde, sucateamento da educação pública, explosão da violência nos perímetros pobres das grandes cidades.

Quando a pequena política é funcional

Tratar a crise do Poder Legislativo no âmbito da ausência da ética e de uma suposta moral tem suas funcionalidades. Não se trata aqui de corroborar a afirmação autoritária e elitista de que o povo brasileiro não tem memória, mas, de fato, tratar os problemas do Congresso Nacional como consequências exclusivas da falta de ética política atende aos interesses daqueles que desejam que tudo fique como está.

De uma operação Satiagraha a outra, passando por mensalões, atos ultrassecretos e pela espetacularização dos desvios de recursos públicos, a mensagem enviada à população brasileira, em uníssono, é: nossas instituições representativas estão desmoralizadas e deslegitimadas. A overdose de denúncias de corrupção – que pode até não ter crescido, mas apenas ganhado novos holofotes – cria no imaginário popular a sensação de que tal prática tornou-se tão cotidiana e constante a ponto de contaminar toda a política. Ou seja, a corrupção é algo natural ao Estado e aos políticos brasileiros que, portanto, não são dignos ou capazes de participar do jogo democrático e decidir os rumos da nação. Melhor deixar essa tarefa para o Judiciário, a imprensa e a própria iniciativa privada.

Nesse cenário, fica improvável a concepção de um Congresso para definir leis que regulamentem de fato o mercado, quebrem o monopólio dos grandes meios de comunicação, punam a corrupção dos setores privados e a sonegação fiscal, ou estabeleçam mecanismos de controle sobre os lucros gigantescos dos bancos privados.

É claro que não pretendo, aqui, minimizar a gravidade dos casos de corrupção que têm vindo à tona no cenário nacional. Há décadas a democracia brasileira carece de honestidade e de uma maior moralização de seus agentes públicos. Lutar contra a corrupção é uma das tarefas urgentes da nossa geração, sob o risco de, se não enfrentada, assistirmos, passivos, à banalização completa do papel do Estado. Nesse sentido, é preciso reconhecer a corrupção como algo histórico, próprio da continuidade dos mecanismos de poder no Brasil – poder esse que sempre foi tratado como propriedade de uma minoria conservadora, tendo como centro a manutenção de seus privilégios. Essa estrutura patrimonialista jamais foi realmente abalada.

Devemos, porém, advertir para o fato de que é sempre a gestão pública que está no alvo das denúncias, muitas das vezes por questões graves que, como dissemos, carecem de maior investigação e punição dos responsáveis. Os escândalos que envolvem a ação do Estado a favor do mercado e mesmo a corrupção do mundo privado não merecem a mesma publicidade. O que poderíamos chamar de verdadeiros grandes escândalos, como o refinanciamento a perder de vista de grandes dívidas com a União, Estados e municípios; as isenções fiscais generosas; a anistia a sonegadores; o socorro a grande empresas que se aventuraram no mercado especulativo; o pagamento da maior taxa de juros do planeta; e, novamente, o gasto exorbitante da União com a dívida pública, não recebem atenção da mídia.

Nada é à toa. Nesse jogo de interesses, que buscam tirar do debate público as questões da grande política, cada movimento é dado com precisão. Na atual sociedade do espetáculo, os setores capitalistas da mídia brasileira estão entre os mais influentes na definição da pauta política a ser tratada no debate público – fora e dentro do Congresso. Como um cachorro que corre atrás do próprio rabo, o Parlamento brasileiro se encontra hoje num círculo vicioso iniciado pelas denúncias de corrupção que brotam de seus corredores e gabinetes e alimentado cotidianamente pela repercussão na imprensa dessas próprias denúncias.

Basta acompanhar os infindáveis debates no Senado federal sobre o que pensa a opinião pública sobre a crise que atravessa a Casa. Em vez de colocar em prática medidas que responsabilizem os culpados e alterem o modus operandi do Senado, os representantes de nossos Estados passam horas discutindo o que a imprensa disse de um ou outro. Ponto para o Partido da Mídia, que assim atinge sua busca incessante pela despolitização da política nacional e pelo aprofundamento do que define como crise do Legislativo.

Quando não gira seus holofotes para os casos de corrupção, a imprensa segue a cartilha neoliberal e prega a ineficiência e desqualificação do Estado, especialmente no que diz respeito ao seu papel de promotor de direitos e de regulador do mercado. Assim, a mídia ataca os gastos com o funcionalismo público, defende as privatizações e o enxugamento da máquina pública, exalta a atual política econômica, prega a redução dos impostos e silencia sobre a CPI da Dívida Pública. Nesse contexto, de um Estado fragilizado, como defender que o Poder Legislativo seja, de fato, um poder com condições de definir as regras e leis para o funcionamento do país? Está aberto aí o caminho para o fortalecimento do deus mercado – onde parece não haver corrupção, má gestão e escândalos das mais diversas ordens – e para a captura do público pelo privado.

Crise de representação

A superposição da economia à política, dos interesses individuais às causas coletivas, das vontades do mercado ao interesse público, elementos tão próprios desta época neoliberal, leva a um distanciamento maior da população do fazer político e a uma crise de representatividade dos parlamentos. Isso, em geral, ocorre hoje em todo o mundo. Essas representações já não são capazes de ser portadoras de identidades, de projetos nacionais. Ganham maior relevância a fragmentação e, especialmente, a profissionalização da política. Não mais o engajamento em demandas coletivas e de perspectiva universais, mas as lutas corporativas, atomizadas, tendo como horizonte a pressão sobre o Legislativo por questões particulares e imediatas, deixando de lado questões de cunho estratégico.

No Brasil, a ausência de mecanismos de participação direta combinados com os da democracia indireta e a forma como se constituíram historicamente nossas instituições – com o povo apartado da participação política, numa herança colonial que se perpetuou na República – facilitaram o abismo entre o nosso Legislativo e a população. Há pouca expectativa e, obviamente, pouca confiança em instituições que sempre foram, com raras exceções na história, distantes e mesmo inacessíveis à maioria do povo brasileiro.

A promessa de maior participação em nossas instituições, da ascendência das massas populares aos postos de comando e do fazer político, se deu especialmente na década de 1980. Surgiu logo após o fim da ditadura militar, com as energias antes represadas e reprimidas de uma jovem classe trabalhadora aflorando e sendo a vanguarda de toda uma luta social que tinha na bandeira da democracia um dos seus eixos centrais. Muitos opõem a isso o fato de que as mudanças não se completaram no tempo e na forma como os setores progressistas almejavam. Teria vingado aí uma saída negociada, que adiou as eleições diretas e impôs um governo novamente eleito de forma indireta.

A organização dos de baixo, porém, a participação de milhões de pessoas em alguma forma de democracia associativa efetiva, de sindicatos, associações de bairro, mutirões de moradia, enfim, formas que garantiam não só a participação, mas especialmente o aprendizado, começaram a ser construídas. Ali, as decisões em geral, apesar das lideranças obviamente existentes, eram tomadas de forma mais ampla e com algum mecanismo de consulta popular.

Não é à toa que o processo da Constituinte, apesar dos ataques e das manipulações de sempre da grande mídia e do grande capital, logrou obter uma participação mais significativa da população. O debate sobre questões estratégicas chegou a parcelas mais amplas das massas, mesmo que, como agora, não houvesse meios práticos e ágeis para conduzir esse debate até o palco das decisões. De fato, o resultado efetivo não contrariou os interesses estratégicos dos setores dominantes, mas foram inscritas na Carta Magna algumas conquistas que hoje seriam inimagináveis, tal o retrocesso político que vivemos.

Essa participação política efetiva foi bombardeada, combatida sem tréguas pelos setores dominantes. Afinal, poucas coisas causam tanta ojeriza a quem detém poder do que a organização popular. As entidades e formas de participação foram sistematicamente desacreditadas, e os mecanismos de participação, novamente bloqueados, não mais exatamente pela força, mas pela hegemonia neoliberal. Procedeu-se ao esvaziamento das lutas sociais, que obviamente não deixaram de existir, mas ganharam características mais atomizadas. Cresceu a hegemonia do capital. Nesse período de ascendência do neoliberalismo, vivemos mudanças qualitativamente fundamentais nas bases produtivas da sociedade, implicando diretamente um enfraquecimento das formas de organização e representação tradicionais da classe trabalhadora.

O que vimos a partir daí foi avassalador e se reflete em grande parte na crise de representação parlamentar que vivemos hoje. Foi um movimento capaz de tragar de forma irreversível setores que antes combatiam o modelo liberal de democracia, levando-os à aceitação das regras do jogo, como as únicas passíveis de ser elaboradas. Era o único caminho possível de se construir a democracia. Deu-se, assim, um processo de cooptação pela ideologia dominante de lideranças políticas e culturais das classes subalternas, buscando excluí-las de todo o efetivo protagonismo no processo de transformação social, como aponta Carlos Nelson Coutinho.

E quando, pela rendição de grande parte da esquerda, a luta de classes é forçada a passar ao largo do Parlamento e perde-se de vista o embate de ideais, o papel pedagógico do conflito e da disputa ideológica, o interesse público e a causa dos de baixo ficam fora do jogo. "No parlamento, anatemiza-se a luta ideológica e recusa-se o confronto político, como bem recomendam os ‘teóricos’ da chamada pós-modernidade", afirma Caio Navarro de Toledo (2001).

O governo Lula é a maior expressão desse processo. Não é à toa que, para manter a governabilidade a qualquer custo, ele lança mão do uso de mecanismos de corrupção, de alianças fisiológicas, de acordos espúrios. Une-se a setores retrógados da política brasileira, nega sua história e a origem de sua formação. Inscreve-se no campo do pragmatismo, nas escolhas sem princípios, no rol das escolhas possíveis. Não ousa transformar nada, apenas reforçar os mecanismos que sempre apartaram o povo organizado nas decisões políticas. Seu governo é a maior expressão de como se tornou pequena a política.

Quando a opção estratégica da esquerda hegemonizada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) passou a ser a conquista do governo e não do Estado – pela via eleitoral, com seu rebaixamento programático e desmobilização da força social de mudança -, a escolha foi pelo jogo da conciliação de classes e dos acordos possíveis. O interesse das camadas populares ficou fora de questão porque só havia espaço para desfechos previamente definidos. Foi aberta então a porta para a corrupção generalizada. Derrubou-se um muro de contenção e, o pior, passou a vigorar a ideia que interessa aos de cima: a da despolitização da política; aquela que diz que todos os partidos são iguais. Um verdadeiro retrocesso. Para o grande capital, não poderia haver cenário melhor: quanto maior a distância do povo em relação à política, à participação e ao Parlamento, melhor para a perpetuação de seus interesses estratégicos.

Por uma efetiva reforma política

Apesar de extremamente preocupante, esse cenário não pode ser confundido com uma espécie de congelamento histórico. Ou seja, não cabe a compreensão de que as classes dominantes já liquidaram a fatura e não há possibilidade de mudanças. Num país com desigualdades sociais como as do Brasil, a instabilidade política está inscrita no horizonte, mesmo que hoje setores que antes lutavam acabem por cumprir um papel estratégico para a manutenção da ordem. E para se combater o distanciamento do povo da política, é preciso desenvolver formas mais avançadas de participação, organização e controle popular sobre o Parlamento.

Sabemos a quem serve o Estado e a institucionalidade que organizam as relações que dominam a vida política em nosso país. Essa institucionalidade está longe de ser neutra. Apesar de apresentar-se como se estivesse acima de todos, ela encerra um conteúdo voltado para servir à dominação e aos interesses dos grandes proprietários, do capital, e, mais especificamente, à predominância do capital financeiro na atualidade. Isto é, tem-se um conteúdo de classe concreto.

Nessa análise, não se podem perder de vista os setores majoritários na composição do Parlamento: as oligarquias regionais, os representantes do capital financeiro, do agronegócio, da grande mídia e seus vínculos que se refletem nas decisões tomadas. Tampouco esquecer-se de como se elegem os parlamentares, via o financiamento privado de grande monta, que coloca uma argola no pescoço de cada político e determina de antemão os interesses que serão defendidos.

Por último, é preciso considerar a relação de sedução entre os Poderes Executivo e Legislativo. Hoje temos um Executivo superfortalecido, que legisla por meio de Medidas Provisórias e tem capacidade de cooptação de parlamentares por meio das verbas, liberação de emendas e cargos na máquina pública, tornando corriqueira a romaria de parlamentares pelos ministérios, configurando a política em um balcão de negócios. Combinam-se a isso o enfraquecimento dos partidos políticos e a preponderância do pragmatismo nas decisões políticas, com a perda de referências ideológicas mais definidas. A adesão ao governo, por exemplo, se faz mais por sobrevivência do que por afinidades – daí decorrem relações fisiológicas e clientelistas, em que vão grassar todo tipo de troca e relações espúrias.

Por tudo isso, ganha relevância uma reforma política efetiva, que combata a forma elitista como a política é feita no país e garanta a participação popular e mecanismos eficazes de transparência e controle público. As recentes mudanças nas regras eleitorais, erroneamente chamadas de reformas, mas que na verdade não passaram de ajustes superficiais, não combateram questões centrais como o fim do financiamento privado e mesmo um teto para limitar os gastos exorbitantes das campanhas eleitorais. Assim, as disputas se tornarão cada vez mais desiguais.

Para haver condições de disputas eleitorais mais igualitárias, é necessário aprovar o financiamento público exclusivo de campanhas, com fiscalização rígida e punição severa ao financiamento privado, e transparência dos gastos por meio da sua disponibilização diária na internet. Outro mecanismo que poderia combater as distorções personalistas e ao menos desenvolver a possibilidade de uma maior aproximação com disputas eleitorais em bases de programas, propostas e ideias é a adoção de listas partidárias com mecanismos que assegurem os direitos do filiado de cada legenda. Da mesma forma, incluímos a possibilidade de revogabilidade do mandato e a fidelidade partidária, preservando a possibilidade de discordância por motivação ideológica. Por fim, defendemos os mecanismos de transparência (como o fim do voto secreto no Congresso), de participação (como a preferência na tramitação por projetos de iniciativa popular) e o uso de instrumentos de ampla consulta ao povo (como referendos e plebiscitos).

A grande questão a ser recuperada e com a qual os movimentos de transformação se debateram nas últimas décadas é, sem negá-las, avançar nas conquistas democráticas para a perspectiva de incorporação das grandes massas na vida política. Ou seja, um aprofundamento político da democracia com a socialização crescente da política. É evidente que essa demanda estratégica ficou mais distante em razão da correlação de forças desfavorável aos de baixo constatada no último período. Mas isso não retira sua necessidade histórica. A crise de representação das instituições está aí para provar e recoloca com mais força a atualidade da luta por formas de participação direta e controle e fiscalização públicas sobre o Estado.

Para os que não perderam as perspectivas transformadoras, valem os exemplos das lutas que estão sendo travadas na América Latina. Sem ilusões, com seus avanços e recuos e uma quantidade imensa de contradições, tão próprias do momento que vivemos, elas apontam num sentido estratégico: o do protagonismo popular e de novos arranjos institucionais que deem vazão a esse protagonismo. Não por acaso, as primeiras medidas de governos transformadores na Venezuela, na Bolívia e no Equador foram usar o instrumento da Assembleia Nacional Constituinte e adequar suas constituições à participação popular. Ao contrário do que a grande mídia tanto esbraveja, está na democracia e na experiência da participação popular a grande pedra de toque das mudanças vividas por esses países, rumo à construção de uma nova ordem social.

Fonte: IEA USP – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issues&pid=0103-4014&lng=pt&nrm=iso

Como deve ser um novo Plano Nacional de Educação?

Otaviano Helene

PNE

A história como guia

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, sancionada em 20 de dezembro de 1996, exigia que o poder executivo encaminhasse ao Congresso Nacional, em um prazo de um ano, um projeto de Plano Nacional de Educação (PNE). Esse prazo se esgotou sem que o governo federal tivesse cumprido com sua obrigação legal.

Tendo em vista a exigência da LDB e a história de lutas da sociedade brasileira em defesa da educação pública, muitas entidades da sociedade civil, organizadas por meio do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública e de dois Congressos Nacionais de Educação, elaboraram um PNE e prepararam-se para participar ativamente das discussões que ocorreriam em âmbito nacional. Esse PNE da sociedade brasileira foi apresentado à Câmara dos Deputados no início de 1998. O projeto do executivo foi apresentado um dia depois.[1] Assim, o Congresso Nacional passou a ter em mãos dois projetos de PNE.

Os dois projetos foram debatidos pelo Congresso que acabou por aprovar uma versão que continha vários itens extraídos da proposta apresentada pelas entidades da sociedade brasileira, em especial a previsão de recursos financeiros, coisa que inexistia na versão do poder executivo. Embora os cálculos apresentados pelo PNE da sociedade brasileira estimassem em 10% do PIB os recursos necessários para viabilizar uma real recuperação da educação pública nacional e, em conseqüência, a possibilidade de que seriam cumpridas as metas estabelecidas, o Congresso nacional aprovou um valor menor, 7% do PIB[2]. Apesar desse rebaixamento, a definição dos recursos necessários, tendo como base de cálculo o PIB nacional, ou seja, uma medida da efetiva capacidade de investimento de cada nação, foi considerada uma vitória, ainda que parcial. Além disso, o valor aprovado continua sendo cerca de duas vezes superior aos valores historicamente investidos em educação pública no país.

Os 10% do PIB destinados à educação eram uma espécie de sonho para os educadores e todos aqueles interessados na promoção do desenvolvimento social, cultural e econômico do país: em uma década teríamos mudado completamente o caótico, injusto e ineficiente sistema educacional brasileiro. O valor aprovado pelo Congresso Nacional, se não era um sonho, pelo menos nos livraria da crônica falta de recursos e deixava ainda alguma margem para perspectivas otimistas.

Entretanto e infelizmente, mesmo esse percentual reduzido foi vetado pelo então presidente Fernando Henrique. Assim, o PNE começou mal: havia metas a serem cumpridas, mas não havia a previsão de recursos para tal. De um plano, transformou-se em uma ilusão: como satisfazer as metas sem os necessários recursos?

Assim que o PNE foi promulgado, iniciou-se uma campanha pela derrubada do veto aos recursos financeiros. Essa campanha fortaleceu‑se quando o programa apresentado pelo presidente Lula, em sua primeira campanha presidencial vitoriosa, previa o estudo da derrubada daquele veto. Embora a redação fosse essa – um estudoda derrubada do veto -, muitos otimistas a liam como um compromisso explícito com a derrubada do veto. Mas isso era ilusão: não houve iniciativas sérias nem do poder executivo, nem do parlamento, para derrubar o veto, que foi mantido.

Assim, inexistindo qualquer outra previsão de recursos para viabilizar o desenvolvimento educacional, qualquer ilusão desaparecera: se o sonho dos 10% do PIB destinados à educação desapareceu quando o Congresso Nacional reduziu o valor para 7%, o veto do governo FHC nos trouxe de volta o pesadelo de sempre.

Metas não atingidas

O PNE aprovado e ainda em vigor contém várias metas que deveriam ser atingidas em 10 anos, a se completarem no início do próximo ano. Entre elas estava o crescimento significativo da educação infantil (crianças de até 6 anos de idade), redução das taxas de repetência no ensino básico (fundamental e médio), a efetiva universalização do ensino fundamental (ou seja, a totalidade das crianças concluindo esse nível de ensino), a garantia de que a totalidade dos jovens pelo menos iniciasse o ensino médio e, quanto ao ensino superior, de que pelo menos 40% dos estudantes estivessem matriculados em instituições públicas. Havia metas também relativas ao combate do analfabetismo (que deveria ser erradicado até 2011), à formação de professores, à infra-estrutura material das escolas, entre muitas outras. É claro que para essas metas serem atingidas seriam necessários recursos; com o veto e sem nenhuma outra previsão de recursos, as metas, evidentemente, não seriam atingidas.

De fato, não foram. Ou, até pior: muitos indicadores do desempenho educacional na década de vigência do PNE simplesmente pioraram[3]. As taxas de conclusão dos ensinos fundamental e médio, que vinham crescendo, ainda que aos trancos e barrancos, a uma razão de cerca de 5% ao ano desde o início do século passado, estagnaram por volta do ano 2000, iniciando aí uma trajetória descendente.[4] Assim, não só as metas do PNE não foram cumpridas como nos distanciamos ainda mais de muitas delas. A década de 2000 marcou um dos dois piores períodos de retração ou estagnação da educação brasileira dos últimos 100 anos.[5]

Por que isso?

Por que isso aconteceu? Primeira razão: pela simples falta de recursos. Não havendo recursos é absolutamente impossível atacar o problema educacional. Pode-se aumentar o número de matrículas sem que sejam fornecidas às escolas e aos educadores as necessárias condições de atendimento (laboratórios, bibliotecas, aulas de reforço, cargas de trabalho toleráveis, salários adequados etc), que parece ter sido o que ocorreu ao longo da década de 1990, período no qual houve aumento dos indicadores quantitativos da educação. Mas esse aumento das matrículas, sem o necessário aparelhamento do sistema para atender adequadamente a quantidades maiores de estudantes, leva a uma piora dos indicadores qualitativos, o que também ocorreu ao longo da década de 1990, ilustrando o óbvio: apenas registrar matrículas não educa.

E mesmo essas práticas de apenas registrar matrículas têm um limite: o ponto em que não ir à escola é melhor do que ir. Quando esse limite é atingido, os indicadores quantitativos estagnam-se. E parece que isso realmente ocorreu por volta do ano 2000, quando as taxas de conclusão dos ensinos fundamental e médio começaram a se reduzir.

Segunda razão: não houve, realmente, um compromisso nacional com a educação escolar. Nem o executivo federal, nem o Congresso tentaram derrubar o veto aos recursos. Os outros entes governamentais (estados e municípios) não levaram a sério o PNE e nada fizeram para que fosse cumprido.

Se havia metas, o Congresso e o governo federal deveriam regulamentá‑las por legislações ou normas complementares. Não o fizeram. Se havia metas finais, deveríamos cuidar das metas parciais que, se não cumpridas, comprometeriam o cumprimento das metas finais. Nada se fez. Se havia metas nacionais a serem cumpridas, elas deveriam ser cumpridas em cada estado e município, os principais responsáveis pelo fornecimento da educação básica. Mas não foram. Governadores, prefeitos e secretários de educação simplesmente desconsideraram suas responsabilidades para com as metas e ignoraram a existência do PNE. Nenhum estado, nenhum município cumpriu nenhuma das metas que estavam sob sua responsabilidade.

Sem definir recursos e as obrigações financeiras e educacionais dos vários entes federativos, sem definir como as pessoas farão para garantir os direitos à educação que o PNE criou e a quem recorrer caso eles não sejam satisfeitos, sem regulamentar como as várias metas serão cumpridas e como, e quem, fiscalizará esse cumprimento e, ainda, prever punições pelo não cumprimento, o PNE é alguma coisa entre a ilusão e a enganação.

O que fazer?

A vigência do atual PNE se encerra em poucos meses e o Congresso Nacional deverá elaborar um novo. A pergunta adequada neste momento é: como deve ser e o que deve conter o próximo PNE para que não seja, como o atual, uma mera fantasia?

As respostas para essas questões podem ser encontradas nas origens da falência do atual PNE. Em primeiro lugar, deverá haver previsões de recursos suficientes para cumprir as metas estabelecidas. É ilusão (ou enganação) fazer uma lista de tarefas a serem cumpridas sem indicar claramente de onde virão os meios necessários para cumpri-las. Sabe-se, com ótima precisão, qual o investimento econômico necessário para se manter uma criança ou jovem em uma escola com nível de qualidade aceitável. Sabe-se quais os recursos necessários para uma escola ter condições de atender adequadamente seus estudantes e quanto é necessário para remunerar de forma adequada os profissionais da educação. Assim, o PNE deve tanto definir o percentual do PIB a ser destinado à educação pública, algo em torno de 10%, como qual será a participação de cada ente federativo (união, estados e municípios) na composição dos recursos.

Um novo PNE deve, também, estabelecer quais são as responsabilidades da União, dos estados e dos municípios, pois é inútil definir metas sem estabelecer quem deve cumpri‑las. Além disso, devemos atribuir responsabilidades e definir as conseqüências e punições para aqueles órgãos ou entes que não cumprirem sua parte. Talvez, neste aspecto, devamos também responsabilizar, além dos poderes executivos e legislativos, os órgãos do judiciário e de defesa da ordem jurídica, que passaram os últimos 10 anos observando uma lei nacional não ser cumprida sem nada fazerem.Deve-se, ainda, definir quais são as tarefas e obrigações dos órgãos de assessoria e apoio do ministério e das secretarias estaduais e municipais de educação, aí incluídos os Conselhos, nacional e estaduais, de Educação.

O Congresso, as Câmaras municipais e as Assembléias estaduais também deverão estabelecer regras complementares que viabilizem o cumprimento das metas a serem atingidas.

Conclusão

Não há um único país que tenha superado o atraso e as barreiras do subdesenvolvimento sem ter escolarizado sua população. Caso aconteça com um novo PNE o mesmo que ocorreu com o atual, o desenvolvimento (ou não) da educação brasileira continuará ruim: a educação será apenas um reflexo e subproduto do restante da realidade nacional e não um instrumento de promoção do desenvolvimento e um fator a se refletir positivamente na nossa dura realidade.

Tentar vincular o desempenho educacional futuro do país a eventuais recursos do pré-sal, usar frases de efeito, atribuir vagamente responsabilidades à "sociedade civil e empresários"[6], ou preencher papel com belas palavras será totalmente inútil e servirá para iludir por mais uma década a população brasileira. Serve, também, é claro, para manter nossa posição de atraso cultural, econômico e social.

Notas:

[1] Ambos os projetos estão disponíveis no endereçohttp://www.adusp.org.br/arquivo/PNE/. O plano aprovado pelo Congresso está emhttp://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm.

[2] Nesses percentuais do PIB estão incluídos investimentos municipais, estaduais e federais.

[3] O artigo "Análise dos indicadores de conclusão escolar nas últimas 5 décadas", publicado na Revista Adusp, n. 46, janeiro de 2010, pág. 47, apresenta a evolução recente de alguns indicadores educacionais brasileiros. A revista pode ser acessada pelo sítio da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, http://www.adusp.org.br/revista/46/index.htm.

[4] Por volta do ano 2000, início da vigência do PNE, cerca de 75% das crianças completavam o ensino fundamental e 55% dos jovens completavam o ensino médio. Nos últimos anos esses percentuais reduzidos para a cerca de 70% e 50%, respectivamente.

[5] O outro período de longa estagnação ou retração dos indicadores educacionais ocorreu após a falência do projeto da ditadura militar, iniciando-se em meados da década de 1970 e durando até o final da década de 1980.

[6] As expressões "sociedade civil e os empresários", "sociedade civil organizada e os empresários" ou "empresários e a sociedade civil" associadas à palavra "educação" aparecem cerca de 100 mil vezes na Internet!

Otaviano Helene é professor no Instituto de Física da USP, foi presidente da Associação dos Docentes da USP (Adusp) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Lighia B. Horodynski-Matsushigue é professora aposentada do Instituto de Física da USP e vice-presidente da regional São Paulo do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN)

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

Análise mostra presença do negro na publicidade

Júlio Bernardes

Pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP aponta o crescimento da presença do negro na publicidade nos últimos anos, mas sem que houvesse grandes avanços na direção de uma representação mais positiva.  O estudo do pesquisador  Carlos Augusto de Miranda e Martins mostra que os negros ainda são associados a estereótipos negativos surgidos no século XIX, quando as teses do racismo científico foram introduzidas no Brasil.

Negros aparecem poucas vezes em posições valorizadas na pubublicidade

Além de identificar a participação dos negros na publicidade, a pesquisa investigou a origem histórica das formas de representação. Foram analisados anúncios publicados na revista “Veja” entre 1985 e 2005. “Houve uma mudança quantitativa e qualitativa no período”, aponta Martins, formado em História. “A presença do negro na publicidade aumentou de 3% em 1985, para 13% em 2005”.

Em termos qualitativos, houve mudanças nas representações mais comuns encontradas nos anúncios. “Perderam força estereótipos como o da mulata, ligado ao Carnaval, e o do negro primitivo, associado a uma visão idealizada da África”, conta o pesquisador. “Outras representações, como a do negro artista, atleta ou carente social, cresceram no período.”

Enquanto aconteceu um aumento de anúncios neutros, houve poucos avanços no que diz respeito a peças publicitárias que valorizem o negro. “Poucas vezes, eles aparecem em posições valorizadas ou de destaque como executivos, donos de negócios, professores ou jornalistas”, aponta Martins. “Ao mesmo tempo são comuns representações do negro como trabalhador braçal, tais como doméstica, operário, carregador, além dos estereótipos já mencionados.”

Imagem

A origem da representação atual dos negros, não apenas na publicidade mas em toda a mídia, remonta ao século XIX. “Até 1850 não se falava em raça, e o negro poucas vezes era tema da literatura ou de trabalhos científicos”, diz o pesquisador. “A situação se modifica com a introdução do racismo científico no Brasil, que leva a formação de uma imagem depreciativa, que chegou até a produção cultural e aos meios de comunicação.”

Martins cita como exemplo o anúncio de uma empresa de eletricidade, onde aparecem vários funcionários. “Aqueles que aparecem de terno e gravata são todos brancos, enquanto o negro é um operário de macacão e capacete”, relata. “Fica a impressão de que os cargos executivos na empresa estão reservados exclusivamente para os brancos.”

Segundo o pesquisador, apesar de todas as ações do movimento negro, dos intelectuais e do governo, ainda é tímido o crescimento da participação do negro na publicidade brasileira. “Ao mesmo tempo, embora diminua a presença de alguns estereótipos, há uma tendência de neutralização da imagem, sem que haja crescimento do número de anúncios em que o negro é valorizado”, afirma.

A persistência de imagens do século XIX também é ressaltada por Martins. “O estereótipo do atleta vem da valorização da força física do negro, em prejuízo da inteligência”, observa. “A imagem do carente social está diretamente ligada a questão da pobreza, a ideia de que o negro não conseguiria sobreviver sem ajuda do branco, um dos argumentos utilizados para justificar a escravidão.” A pesquisa, descrita na dissertação de Mestrado ”Racismo anunciado: o negro e a publicidade no Brasil (1985-2005)”,  teve orientação da professora Solange Martins Couceiro, da ECA.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

Filhos de suicidas são mais propensos ao suicídio

Roni Caryn Rabin

Crianças cujos pais cometem suicídio têm duas vezes mais chances de se matarem, em comparação àquelas cujos pais ainda estão vivos, de acordo com um novo estudo baseado em dados da Suécia.

No entanto, muitos aspectos dependem da idade que a criança tinha quando ocorreu o suicídio do pai ou da mãe. Adolescentes e crianças mais novas são os mais vulneráveis: o risco é três vezes maior se o suicídio do pai ou da mãe ocorre quando o filho tem menos de 18 anos, segundo o estudo, publicado na edição de maio do “The Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry”. Se a morte ocorre quando o filho tem mais de 18 anos, isso não aumenta o risco do jovem de cometer suicídio.

Os pesquisadores enfatizaram que o suicídio continua sendo um evento raro. “Quando observamos a proporção em que essas crianças tentaram suicídio ou conseguiram se matar, ainda é menos de 3%”, afirmou a principal autora do estudo, Holly C. Wilcox, professora assistente de psiquiatria do Johns Hopkins Children’s Center. Nos Estados Unidos, de 7 a 12 mil crianças e adolescentes com menos de 18 anos perdem um dos pais para o suicídio todos os anos.

O estudo se baseou em vários registros nacionais da Suécia, de 1969 até 2004. Os 4,3 milhões de crianças na base de dados foram classificadas nos seguintes grupos: 3,8 milhões tinham pais ainda vivos; quase meio milhão tinha perdido um dos pais por outros motivos; e 44.397 eram filhos de vítimas de suicídio.

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

A ciência no Brasil Colônia

Neldson Marcolin

Corte portuguesa contratou há 214 anos naturalistas para conhecer melhor as riquezas naturais do país

© MUSEU PAULISTA/USP

Interior de São Paulo no século XIX retratado no quadro Pirapora do Curuçá (hoje Tietê), 1826, de Zilda Pereira

A contratação de cientistas pelo Estado para realizar estudos sobre a natureza e aprimorar tecnologias está longe de ser uma iniciativa recente no Brasil. No final do século XVIII a Corte portuguesa determinou expressamente aos governadores das capitanias brasileiras a admissão de naturalistas com o objetivo de fazer mapas do território, realizar prospecção mineral e desenvolver e disseminar técnicas agrícolas mais eficientes. Tudo para tentar gerar mais divisas e ajudar a equilibrar as periclitantes contas do reino de Portugal.

A ordem para buscar os homens de ciência capazes de pesquisar a natureza brasileira partiu de dom Rodrigo de Sousa Coutinho ao assumir a Secretaria de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinhos, em 1796, e formular uma nova política para a administração do Império colonial português. Para ele, era urgente conhecer a utilidade econômica das espécies nativas e investigar o verdadeiro potencial mineral das terras de além-mar. Aos governadores de cada capitania cabia acompanhar os trabalhos e relatar à Corte os progressos em curso.

Foram contratados naturalistas em Minas Gerais, em Pernambuco, na Bahia e no Ceará. Em São Paulo, o governador Antônio Manuel de Melo Castro e Mendonça admitiu João Manso Pereira, um químico autodidata, versado em idiomas como grego, hebraico e francês e professor de gramática, envolvido em ampla gama de atividades. “Manso é um caso notável de autodidatismo que, sem nunca ter saído do Brasil, procurava estar atualizado com as novidades científicas que circulavam no exterior”, diz o historiador Alex Gonçalves Varela, pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) e autor do livro Atividades científicas na “Bela e Bárbara” capitania de São Paulo (1796-1823) (Editora Annablume, 2009). O químico era inventor e publicou diversas memórias científicas, da reforma de alambiques e transporte de aguardente à construção de nitreiras para produzir salitre. Mas fracassou no projeto de instalação de uma fábrica de ferro. “Foi quando seu didatismo mostrou ter limites.”

Em 1803 foi nomeado para seu lugar Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Silva pelo governador Antônio José de Franca e Horta. Irmão de José Bonifácio – que viria a ter papel relevante na história da Independência –, Martim era diferente de João Manso. Tinha uma formação acadêmica sólida, andou pela Europa e estudou na Universidade de Coimbra. Tradutor de obras científicas, fez numerosas viagens pelo território paulista e foi um difusor das ciências mineralógicas na época. “Ele seguia o conjunto de práticas científicas do período, ou seja, descrição, identificação e classificação dos minerais em seu local de ocorrência”, conta Varela. Anos mais tarde, Martim e Bonifácio realizaram juntos uma conhecida exploração pelo interior paulista (ver Pesquisa FAPESP edição 96).

João Manso, Martim e Bonifácio tinham em comum o conhecimento enciclopédico e uma forte ligação com a política do período. Martim chegou a ministro da Fazenda e participou do que ficou conhecido como “gabinete dos Andradas”, convidado pelo irmão, em 1822. De acordo com Varela, o trabalho científico dos três naturalistas foi de extrema relevância para ajudar o governo luso a conhecer de forma detalhada a capitania paulista e seus recursos naturais.

“A ciência e a técnica brasileira não é algo tão recente como se afirmava até meados dos anos 1980 e não passou a ser praticada aqui apenas depois que surgiram os institutos biomédicos no final do século XIX e começo do século XX”, afirma o historiador. “Há numerosos exemplos de homens ilustrados investigando a natureza, trabalhando com uma ciência utilitarista e produzindo conhecimento no período do Brasil Colônia.” Por fim, uma curiosidade: os termos naturalista e filósofo natural ainda são usados pelos historiadores para se referir aos homens de ciência da época porque a palavra cientista não existia até 1833. Naquele ano, ela foi utilizada pela primeira vez pelo polímata William Whewell, que criou o neologismo para se referir às pessoas presentes em uma reunião da Associação Britânica para o Avanço da Ciência.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Filhos de suicidas são mais propensos ao suicídio

Roni Caryn Rabin

Crianças cujos pais cometem suicídio têm duas vezes mais chances de se matarem, em comparação àquelas cujos pais ainda estão vivos, de acordo com um novo estudo baseado em dados da Suécia.

No entanto, muitos aspectos dependem da idade que a criança tinha quando ocorreu o suicídio do pai ou da mãe. Adolescentes e crianças mais novas são os mais vulneráveis: o risco é três vezes maior se o suicídio do pai ou da mãe ocorre quando o filho tem menos de 18 anos, segundo o estudo, publicado na edição de maio do “The Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry”. Se a morte ocorre quando o filho tem mais de 18 anos, isso não aumenta o risco do jovem de cometer suicídio.

Os pesquisadores enfatizaram que o suicídio continua sendo um evento raro. “Quando observamos a proporção em que essas crianças tentaram suicídio ou conseguiram se matar, ainda é menos de 3%”, afirmou a principal autora do estudo, Holly C. Wilcox, professora assistente de psiquiatria do Johns Hopkins Children’s Center. Nos Estados Unidos, de 7 a 12 mil crianças e adolescentes com menos de 18 anos perdem um dos pais para o suicídio todos os anos.

O estudo se baseou em vários registros nacionais da Suécia, de 1969 até 2004. Os 4,3 milhões de crianças na base de dados foram classificadas nos seguintes grupos: 3,8 milhões tinham pais ainda vivos; quase meio milhão tinha perdido um dos pais por outros motivos; e 44.397 eram filhos de vítimas de suicídio.

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Algodão transgênico provoca uma infestação inesperada de percevejos na China

Stéphane Foucart

A lagarta Helicoverpa armigera, que ataca a planta do algodão, anda no dedo de um pesquisador

A lagarta Helicoverpa armigera, que ataca a planta do algodão, anda no dedo de um pesquisador

A constatação é no mínimo paradoxal: o cultivo de um transgênico inseticida pode aumentar consideravelmente as populações de certas pragas. Em seis províncias da China setentrional, agrônomos chineses documentam, pela primeira vez em grande escala, esse tipo de reação de um agro-ecossistema que substitui uma cultura convencional por uma cultura transgênica.

Ainda que paradoxais à primeira vista, esses resultados, publicados na sexta-feira (14) na revista “Science”, não são totalmente surpreendentes. O algodão Bt – modificado para produzir a toxina Bt (Bacillus thuringiensis) – é na verdade tão eficaz contra seu principal parasita local, uma lagarta (Helicoverpa armigera), que ele reduz consideravelmente suas populações e permite se libere que um nicho ecológico. “Ora, quando se libera um nicho ecológico, espera-se que ele seja reocupado”, explica Denis Bourguet, pesquisador (INRA) do Centro de Biologia e Gestão de Populações (CBGP). “A natureza tem horror ao vazio”.

Mas em seis províncias chinesas monitoradas por Kongming Wu (Instituto para Proteção das Plantas, Pequim) e seus colegas, os índices de infestação por mirídeos – insetos heterópteros da família dos percevejos – cresceram à medida que o transgênico ganhava terreno. As observações, feitas ao longo da última década, mostram uma relação unívoca entre as superfícies cultivadas com algodão Bt e os índices de infestação pelos mirídeos. O próprio algodão Bt é vítima disso, mas também e sobretudo as outras culturas praticadas no entorno (uva, maçã, pera, pêssego, etc.). As mudanças de práticas agrícolas nos cerca de 3 milhões de hectares de algodão (agora 95% transgênico) têm, portanto, um impacto sobre os 26 milhões de hectares de outras plantações.

“Na China, os mirídeos eram historicamente considerados como uma praga menor para a maioria das culturas, aparecendo somente em níveis de populações relativamente pequenos, e os agricultores só precisavam controlá-los esporadicamente”, escrevem os pesquisadores. Entretanto, explica Kongmin Wu, principal autor desse trabalho, “esses resultados indicam que será preciso estabelecer uma estratégia de combate contra as pragas secundárias como os mirídeos”.

“Fontes de mirídeos”

A ocupação de um nicho ecológico vago é somente um dos aspectos da recente proliferação dos mirídeos no Norte da China. O cultivo de algodão convencional requeria a utilização de pesticidas químicos ativos não somente contra a lagarta, mas também contra toda uma gama de insetos, entre os quais os mirídeos. “Antes, os campos de algodão convencional agiam como ‘sumidouros’ para os mirídeos, no sentido que estes eram destruídos ali pelos tratamentos; entretanto, a toxina Bt não os afeta”, explica Bourguet. “Portanto, com a forte redução do uso de inseticidas, os campos de algodão Bt se tornaram ‘fontes’ de mirídeos”.

Esses estudos, realizados durante dez anos e na escala de um território vasto como a França, são muito raros. Importantes trabalhos, iniciados no fim dos anos 1990 nos Estados Unidos, tiveram como objetivo avaliar os efeitos de culturas Bt sobre a borboleta-monarca (Danaus plexippus), não afetada por essa toxina.

Publicada em outubro de 2001, a síntese dessas pesquisas havia concluído que não havia riscos sérios. Mas, como mostram os pesquisadores chineses, os riscos impostos pelo Bt podem se revelar relacionados à proliferação inesperada de espécies não afetadas, em vez de sua destruição…

Esses riscos colocam em xeque a utilidade do algodão Bt? Os trabalhos apresentados não avaliam a vantagem – ou o inconveniente – econômica da expansão de transgênicos nessa vasta região. Como e a que preço as cerca de 10 milhões de pequenas fazendas da zona administram o crescimento populacional de mirídeos? O lucro sobre o cultivo do algodão foi “apagado” definitivamente pelos prejuízos ocasionados aos outros cultivos? Essas perguntas permanecem sem resposta.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Governos e trabalhadores europeus pagam custo de orgia do setor financeiro

Marco Aurélio Weissheimer

O governo espanhol anunciou a redução de 5% dos salários dos funcionários públicos, o congelamento de salários e o corte de investimentos públicos para enfrentar a crise econômica que afeta o país. Na Grécia, sindicatos convocam quinta greve geral contra corte de pensões anunciado pelo governo. Para analista do Financial Times, origem da crise da dívida dos governos é a prodigalidade de amplos segmentos do setor privado, e do setor financeiro, em particular. “Os mercados financeiros financiaram a orgia e, agora, em pânico, estão se recusando a financiar a faxina resultante”, diz Martin Wolf.

O primeiro ministro José Luis Rodríguez Zapatero, anunciou, dia 12 de maio, no Parlamento espanhol, a redução em 5% dos salários dos funcionários públicos em 2010, o congelamento de salários e um corte de 600 milhões de euros em investimentos públicos em 2010. Também fazem parte do pacote de medidas para reduzir os gastos públicos o congelamento das pensões (de aposentadoria) e a suspensão, a partir de 2011, do chamado “cheque bebê”, que, desde 2007, concedia 2.500 euros para cada criança nascida na Espanha. Zapatero pediu ao povo espanhol “um grande esforço de austeridade” para enfrentar a crise econômica que afeta o país. As centrais sindicais espanholas protestaram contra as medidas e anunciaram grandes mobilizações de rua contra elas.

Zapatero foi pressionado pela União Européia e pelos Estados Unidos a tomar essas medidas para defender a “estabilidade do euro”. No dia 12 de maio, o presidente dos EUA, Barack Obama, ligou para Zapatero para “conversar” sobre as medidas. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, a conversa tratou “da situação da Espanha e da importância, no contexto europeu, dos esforços para fortalecer a economia européia e devolver a confiança aos mercados.” Gibb revelou ainda que Obama conversou também com a chanceler alemã, Ângela Merkel e com o presidente francês Nicolas Sarkozy para tratar do impacto da crise na União Européia. Os EUA, disse o porta-voz, estão preocupados com a situação das finanças públicas da Espanha, dado o peso do país na zona do Euro.

Com esse conjunto de medidas, o governo espanhol pretende economizar cerca de 15 bilhões de euros até 2011. Em 2009, o déficit público da Espanha chegou a 11,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, após três anos seguidos de superávit (no período pré-crise). Agora, o governo espanhol assumiu o compromisso de reduzir esse índice para 3%, atendendo a uma exigência da União Européia. Em janeiro, Zapatero já havia anunciado um plano que previa a redução de 10% na contratação de funcionários públicos, aumento de impostos e a redução do orçamento para 2010. Com o agravamento da crise na Grécia e em outros países da Europa, as medidas foram consideradas insuficientes pelas autoridades da UE. O aprofundamento do arrocho fiscal deve ter um alto custo político para Zapatero.

Greve geral na Grécia

Sindicatos e centrais e sindicais já anteciparam qual deve ser a reação diante do plano de arrocho salarial e fiscal. O secretário geral da central sindical União Geral dos Trabalhadores (UGT), Cándido Méndez, disse que as medidas afetarão duramente milhares de famílias e anunciou a convocação de grandes mobilizações de protesto nas próximas semanas. Na mesma linha, Ignácio Férnandez Toxo, secretário geral da central sindical Comissiones Obreras (CCOO), classificou o plano do governo Zapatero como “injusto e anti-econômico” e antecipou protestos massivos nas ruas da Espanha. Já a Comissão Européia e o Banco Santander fizeram praticamente o mesmo comentário a respeito das medidas anunciadas pelo governo espanhol: “vão na boa direção”.

Se os sindicatos de trabalhadores espanhóis começam a cogitar a possibilidade de organizar uma greve geral, na Grécia, uma nova paralisação nacional foi convocada, em protesto contra medidas similares adotados pelo governo. Será a quinta greve geral desde o início do ano. A União dos Empregados Civis (Adedy), central sindical dos trabalhadores do setor público, e a Confederação dos Trabalhadores (GSEE), central sindical do setor privado, convocaram a greve geral como resposta às medidas governamentais de cortes nas pensões. “A nossa reação é imediata, respondemos com uma greve geral de 24 horas”, anunciou o presidente da Adedy, Spiros Papaspíros. A nova greve geral foi convocada para o dia 20 de maio.

Origem da crise está no setor privado

Os pacotes de arrocho anunciados por Grécia e Espanha repetem uma história bem conhecida: a maioria da população é chamada a pagar por erros cometidos por setores privados. Quem confirma isso é Martin Wolf, editor e principal analista econômico do Financial Times. No artigo “Governos aumentam riscos” (Valor Econômico, 12/05/2010), Wolf destaca as conclusões de Paul De Grauwe, da Universidade Leuven, em um texto escrito para o Centre for European Policy Studies: “a origem da crise da dívida dos governos é a prodigalidade de amplos segmentos do setor privado, e do setor financeiro, em particular. Os mercados financeiros financiaram a orgia e, agora, em pânico, estão se recusando a financiar a faxina resultante”.

Agora os governos se empenham em lidar com as seqüelas, escreve Martin Wolf. “Ao insistir em afirmar que não haverá calotes, porém, estão protegendo o setor financeiro da sua estupidez. Em vez disso, espera-se que os povos dos países endividados paguem. Será que esse trato comprovará ser aceitável, na ausência de um retorno ao crescimento nos países afetados? Dificilmente”, conclui o analista. Para ele, a orgia do setor financeiro também traz como conseqüência a necessidade de uma profunda reforma na zona do euro. Mas é impossível pensar em um retorno às moedas nacionais, adverte, pois isso provocaria a implosão do sistema financeiro. O fato é que a Europa ingressou numa zona de forte turbulência e, para variar, quem está pagando a conta é o setor público e os trabalhadores.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

‘Desafio da esquerda é se contrapor à norte-americanização das eleições brasileiras’

GABRIEL BRITO

Com a disputa das eleições gerais se aproximando e tomando conta das discussões nacionais, o Correio da Cidadania entrevistou o sociólogo Ricardo Antunes, professor da Unicamp, que fez uma profunda análise do quadro que se projeta para o pleito de outubro. Para ele, a tarefa fundamental da desmantelada esquerda brasileira é a de evitar uma ‘norte-americanização’ de nossas eleições, diante da evidente polarização Serra/Dilma que se desenha.

No entanto, considera um grande obstáculo para tal objetivo a não formação de uma frente única de esquerda, tal qual se viu em 2006, que terminou com uma surpreendente votação em favor de Heloisa Helena. Defensor de uma candidatura unificada em torno de Plínio Arruda Sampaio, o autor de diversos livros sobre o mundo do trabalho considera um imenso retrocesso a pulverização da esquerda anti-capitalista em três candidaturas.

Tal situação, explica, evidencia a necessidade de um novo movimento de base, unificando e trazendo organicidade aos incontáveis movimentos sociais e de classe que não se enquadraram na conciliação lulista. Organizar trabalhadores e movimentos sociais de norte a sul do país numa única corrente é a tarefa que cabe aos partidos de esquerda no atual momento.

Antunes descarta completamente a hipótese de Marina Silva oferecer novos ventos ao debate político, visto que sua crítica ambientalista já se deixou enjaular nos limites dos interesses do capital.

A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

Correio da Cidadania: Como analisa o cenário político que se desenha para as eleições gerais deste ano, mais especificamente no pleito presidencial? Como deverá ser travado o debate político?

Ricardo Antunes: Inicialmente, o quadro que se desenha é uma espécie de aproximação entre as eleições brasileiras e norte-americanas. Há uma norte-americanização de nossas eleições. A polarização entre Dilma e Serra se assemelha ao dualismo político-partidário existente nos EUA. Feito esse movimento, teríamos um processo que, de um lado, tem Dilma e seus aliados da esquerda à direita; de outro, Serra e seus aliados do centro à direita.

Nosso primeiro desafio é ter uma candidatura que faça o real contraponto à norte-americanização do processo eleitoral brasileiro. E essa alternativa só pode ser de esquerda, sem nenhuma ilusão, mas com coragem de tocar nos pontos fundamentais das mazelas da sociedade brasileira.

Correio da Cidadania: Sendo assim, que papel deveria caber às candidaturas de esquerda nesse pleito? O que seus candidatos e partidos, especialmente num espaço tão exíguo de tempo, deveriam tratar de transmitir à população?

Ricardo Antunes: É evidente que o processo eleitoral não pode ser entendido como o elemento decisivo, sendo os demais irrelevantes. Eu diria que o momento eleitoral será cada vez mais positivo e forte para as mudanças sociais de esquerda quanto mais estiver impulsionado e respaldado pelo movimento popular, de base, fundado nas forças sociais do trabalho, nas massas do campo e da cidade. É preciso reorientar o movimento, fortalecer uma organização popular, de modo que esta impulsionasse num futuro próximo um movimento político que pudesse ter mais conseqüência nas disputas eleitorais.

No momento, essa força popular não existe sob esses três partidos. A força popular hoje está com o MST. Mas se conseguirmos, ou conseguíssemos, fazer um contraponto, mostrando que não há possibilidade alguma de resolver as questões causadoras do flagelo e miséria do Brasil sob essa ordem, já seria um grande avanço.

E é possível relacionar questões imediatas, próprias da vida cotidiana, com questões mais gerais. Por exemplo: lutar, fortemente, pela redução da jornada de trabalho, sem redução de salário. É uma questão muito importante, pois, a partir dela, se incluiria no mercado uma enorme parcela da população que se encontra desempregada. Aproxima a classe trabalhadora desempregada da empregada, mostrando que uma bandeira pode ser um grande ponto de unidade e aglutinação entre esses dois pólos da classe trabalhadora. E permitira perguntar: ‘Quem controla o tempo da minha vida? Quem deve controlar?’. E também questiona que tipo de sociedade somos, o que produzimos e para quê.

Ou seja, uma só bandeira, da redução de jornada, que aparentemente não toca nos pilares do metabolismo social do capital, pode ser decisiva no futuro. Não por acaso Marx, no volume 3 de ‘O Capital’, disse que a luta pela redução da jornada era decisiva para a luta emancipatória. Porque ele pensava o aqui e agora articulado com um projeto social de horizonte socialista.

A questão agrária é outro caso semelhante. A quem interessa o agronegócio, a agroindústria, o etanol, que escraviza ou semi-escraviza uma infinitude de trabalhadores que, no corte da cana, vivenciam as condições mais exploratórias e degradantes de trabalho? A quem interessa uma produção de commodities para exportação, eliminando a agricultura familiar, voltada à subsistência e alimentação das classes trabalhadoras? Elimina-se a agricultura familiar e introduzem-se os plantios de commodities ou mares de cana para etanol, prejudicando o solo, retirando alimentos da população trabalhadora.

Vive-se uma regressão neocolonial, pois estamos retornando a um passado de país agrícola. Neste momento, seria mais decisivo ainda colocar essa questão, pois podemos ser o país do agrobusiness essencialmente, isto é, uma dupla submissão.

Tais exemplos – de luta pela desconcentração de terra, contra o agronegócio, e pela redução da jornada – mostram que uma campanha alternativa contra a ordem pode partir de pontos imediatos.

Correio da Cidadania: Quanto às candidaturas mais à esquerda, estão bem representadas nesta eleição? Quais partidos têm representado, ou poderão representar, esse debate, a seu ver?

Ricardo Antunes: Penso que, no nosso campo, a pessoa mais preparada, de modo contundente e didático, para iniciar tal explicação de contraponto aos candidatos da ordem é o Plínio Arruda Sampaio (candidato à presidência pelo PSOL). Não tenho a menor dúvida, com o maior respeito ao Zé Maria e ao Ivan Pinheiro. E acho que eles também reconhecem. O Plínio tem 40 anos de militância nas lutas populares, com a diferença de que, quanto mais maduro foi ficando, mais consistente se tornou seu projeto de esquerda. É uma coisa muito impressionante e positiva para quem o conhece. Pude conhecê-lo em meados de 60, quando dei aula na FGV, e passados 35 anos ele só ganhou em consciência, força, respeito junto ao movimento popular.

É inegável que o Zé Maria (candidato à presidência pelo PSTU), é um militante sindical da melhor qualidade que o Brasil criou desde as greves do ABC. O Ivan Pinheiro também sempre foi um homem de esquerda e militante dos bancários, com história no PCB. Respeito muito os dois. Mas qual nome, por exemplo, é reconhecido pelo MST como o mais qualificado para pensar a questão agrária brasileira? É o Plínio. Qual a expressão política da esquerda brasileira que vem estudando, digamos assim, a inserção destrutiva do capitalismo brasileiro nessa ordem global? É o Plínio.

É evidente que uma frente de esquerda teria de sentar junta sem um candidato previamente definido. E tenho convicção de que, se ocorresse tal debate, haveria uma tendência natural de se confluir para uma candidatura do Plínio. Precisa-se de espaços políticos importantes para uma composição de esquerda onde o fundamental não seria o ‘meu cargo’, mas sim o programa que defenderemos. E acho também, com todas as diferenças, que temos três agrupamentos claramente anticapitalistas. Os únicos no cenário político-partidário brasileiro que podem fazer uma campanha profunda, tocando nas questões fundamentais, da vida cotidiana das massas, e com coragem de dizer o que precisa ser dito, ao contrário das demais candidaturas, que não dizem o que é preciso, mas sim o que seus homens de marketing as orientam a falar para ganhar uma eleição.

E o Plínio não participaria de uma eleição para ganhar e se desfigurar, pelo contrário. Acho difícil, mas torço para que se faça a frente. Plínio só teria admitido sua candidatura se pudesse manter sua coerência dos últimos 40 anos. E isso pode lhe render um reconhecimento popular e também eleitoral que nos tiraria da condição de gueto.

Nós temos de saber que uma eleição desse tipo é um espaço para a esquerda debater algumas questões seminais, decisivas, e que, normalmente, no curso dos anos, está completamente vedado, na televisão, o debate que minimamente fale das questões essenciais. A mídia não tem a menor abertura em seus grandes veículos (como a TV, que fala para mais de 100 milhões de pessoas) para as questões cruciais. É diferente quando temos uma campanha gratuita eleitoral.

Entendo também ser muito importante não cair numa campanha louca para conseguir votos para os parlamentares, quando sabemos que a campanha está consubstanciada na figura de uma candidatura popular à presidência. Essa sim pode alavancar avanços em outras dimensões, onde o fundamental, para mim, é subir um degrau no patamar da organização e conscientização da massa trabalhadora no Brasil.

Correio da Cidadania: O que imagina possa ter mais contribuído para a não formação de uma frente de esquerda, tal qual se viu em 2006, de modo a fortalecer uma única candidatura de cunho verdadeiramente alternativo? Essas várias candidaturas que se travarão à esquerda não pulverizarão de tal forma o debate, de modo a torná-lo inócuo, de tão ‘nanico’?

Ricardo Antunes: Nós do campo da esquerda, até o presente momento, não conseguimos uma composição em direção a uma alternativa socialista que aglutinasse PSOL, PSTU e PCB – e parece difícil. Por razões justas, cada um dos três tem motivos para aparecer com cara e voz própria. Todos eles têm essa legitimidade. Mas, no meu entender, trata-se de uma derrota para o projeto de esquerda mais geral. Com os três movimentos juntos, teríamos condições de dizer um pouco mais sobre os pontos fundamentais da forma destrutiva do capitalismo brasileiro, oferecer denúncias e também alternativas à ordem capitalista, na medida em que esses três partidos têm uma forte confluência em pontos expressivos.

Por exemplo, mesmo com diferenças que podem correr internamente, principalmente no PSOL, com suas respectivas candidaturas, os três grupamentos têm uma clara confluência ao reconhecer que, dentro do capitalismo, não há nenhuma alternativa duradoura. Seria uma campanha com o dever de formular questões concretas e cotidianas, mostrando que o horizonte societal capaz de realizar plenamente as lutas cotidianas partiria de um movimento social e político de grande envergadura, que pudesse iniciar um combate mais ousado à forma de dominação burguesa no Brasil. Esses três partidos teriam condição de elaborar uma plataforma mínima de unidade.

Claro que existem diferenças entre eles. O PCB tem uma longa história, que começou em 1922; o PSTU nasceu de uma distensão do PT nos anos 90; o PSOL, mais novo, também tem suas tensões e polêmicas internas acentuadas. Todos têm suas identidades, mas há pontos de confluência, e se fomos capazes de uma ação unitária em 2006, o que de lá pra cá piorou que impeça a repetição dessa ação? O PSOL, em certo sentido, ainda que o momento seja mais difícil, avançou claramente com uma candidatura de esquerda, o que não havia em 2006, como todos nós sabemos.

Correio da Cidadania: Está em curso um grave retrocesso, portanto, diante da quase certeza de que tal frente de esquerda não será formada?

Ricardo Antunes: Sim. Como hoje temos três candidaturas pequenas, a mídia sequer as leva em consideração. Imagine o seguinte: uma frente envolvendo os três partidos e mais uma parcela importante dos movimentos sociais, como a Conlutas, a Intersindical, o MST, sindicatos importantes, movimentos populares que existem às centenas e milhares, como os atingidos por barragens, sem teto e várias expressões localizadas que se sensibilizariam com uma proposta crítica como a nossa (que nunca venderia o milagre da felicidade geral a partir das eleições, quando a população sabe que não é o processo eleitoral que muda as estruturas do país). Seria algo muito mais complexo, e os últimos oito anos foram exemplares.

Lula foi eleito em 2002 com 53 milhões de votos, numa eleição popular e com forte apoio de massa, e nenhum pilar da tragédia brasileira foi sequer levemente tocado. O governo Lula não tocou em nenhum dos elementos que estruturam a tragédia brasileira! A única coisa que fez de diferente do Fernando Henrique foi ampliar quantitativamente a política assistencialista. O Bolsa Escola atingia 2 milhões de famílias e o Bolsa Família atinge 12 milhões de famílias, chegando a 50, 60 milhões de brasileiros.

Essa ampliação quantitativa fez a diferença, pois essa é a população mais empobrecida, não a mais organizada. Para essa parcela, o Lula é mais generoso, e não estão errados de pensar assim. Com o Lula, existe uma diferença de 100 reais por mês que permite comer melhor ao longo dos dias, o que é verdade.

Só que essa população, acrescida a outros 40, 50 milhões que são a classe trabalhadora organizada, pode vir a impulsionar outro tipo de política, de base, fundada em posturas mais profundas e radicais, tocando as raízes de nossas mazelas, as engrenagens causadoras da tragédia social brasileira.

Correio da Cidadania: E Marina Silva? Conseguirá preencher um suposto papel de ‘terceira via’ em uma eleição tão polarizada, arejando, ainda que minimamente, o debate?

Ricardo Antunes: A alternativa da Marina Silva não tem nem de longe a possibilidade de fazer isso. Embora seja uma mulher batalhadora que rompeu os grilhões que amarram parte importante das lideranças populares, nos últimos anos, especialmente no Ministério do Meio Ambiente no governo Lula, ela deixou claro que fez as concessões que precisava fazer. A mais grave, a meu entender, foi logo no começo, ao liberar os transgênicos. Se fosse coerente com seu passado, diria a Lula que não podia mais ficar ali. Mas, lamentavelmente, ela já estava numa rota que saía de uma análise ambientalista com inclinação à esquerda para entrar em uma análise ambientalista de inclinação centrista.

A escolha do presidente da Natura para seu vice, expressão típica do capitalismo em sua versão mais forte no Brasil, mostra que a crítica ambiental da Marina está dentro da ordem, é a crítica capitalista da questão ambiental. Dela, não podemos esperar nenhum contraponto à polarização Serra-Dilma. Tanto é assim que sua proposta ambientalista é tímida, e vive flertando com o PSDB para, eventualmente, tirar proveito de uma parceria, sem nunca ter de fato rompido com o governo Lula.

Ouvi uma entrevista dela na CBN. Quando faz críticas, faz ao PT e ao PSDB. Quando faz elogios, faz ao PT e ao PSDB. É como se dissesse que pode vir a depender de um dos dois mais adiante.

O desafio, portanto, é saber como fazer um contraponto, o que é muito difícil nesse processo eleitoral polarizado entre duas candidaturas da ordem, com uma terceira também da ordem.

Correio da Cidadania: Com este destino plebiscitário que parece estar realmente reservado a essa eleição, o que se pode esperar das disputas entre Serra e Dilma? Acredita que teremos apenas um turno, especialmente após a divulgação de diversas pesquisas, entre elas o Datafolha, dando conta da ascensão de Dilma?

Ricardo Antunes: Por ora, qualquer coisa é prematura. Primeiro, porque ainda não sabemos da capacidade da Dilma em herdar os votos do Lula e deste em transmiti-los plenamente a Dilma. Agora, ambos oscilam entre 35 e 40 por cento.

Mas quando começarem os debates públicos, televisivos, veremos o quadro eleitoral mudar, e pode mudar pra qualquer direção. A Dilma pode subir mais ou o Serra pode recuperar parte do que perdeu.

E por que pode mudar? A Dilma, por exemplo, não tem experiência nenhuma em campanha eleitoral, nunca foi candidata a nada. E quando estiver no debate, não poderá pedir para o Lula sentar do lado dela e ficar com ele a tiracolo. Aí o debate começa. O Serra, por sua vez, se tem seu nome amplamente conhecido, é um candidato limitado. A população sabe que ele é do PSDB; sabe que o PSDB é um partido de elite; sabe que as elites brasileiros são nocivas, egoístas, num certo sentido até professam uma concepção anti-popular em seus traços mais elementares.

Mas é evidente que o cenário eleitoral está em seus princípios. Quem será o vice do Serra? Se for alguém do DEM, mais corretamente Demo, é claro que sua candidatura será jogada mais pra baixo. Se conseguir o Aécio Neves na chapa, o que não acredito, terá um colégio eleitoral importante pra decidir, o de Minas Gerais, seja pró-Dilma ou pró-Serra. Claro que, olhando hoje, o cenário é mais favorável a Dilma, que vem num ciclo de ascensão, enquanto Serra se encontra num ciclo de descenso.

Quando começar a campanha, se os partidos de esquerda tiverem competência para mostrar que Dilma e Serra são duas faces da mesma moeda, com diferenças de pequeníssima monta, podem mudar um pouco o quadro. E a própria Marina saberá tirar suas lascas dessa disputa. Ela ainda está com uma campanha pequena e já tem12%; com a televisão, vai tentar explorar esses espaços.

Em suma, a campanha eleitoral por enquanto está em seus prolegomenos. A coisa vai esquentar mesmo a partir do debate público televisivo, quando o eleitorado poderá perceber as diferenças. E isso nos leva ao pensamento de como seria importante se conseguíssemos chegar a uma chapa com os três grupos de esquerda, ampliando o máximo possível nossa base de massa popular, de modo a nos dar uma densidade maior nesse processo eleitoral.

Correio da Cidadania: Apesar dessa mencionada desarticulação das massas, da falta de ligação entre a esquerda e as massas, enfim, todo um quadro de apatia, projetos de iniciativa popular como o Ficha Limpa mostram que a população está muito insatisfeita com a política e, de alguma forma, expressa tal sentimento – enquanto mais uma vez engavetamos uma autêntica reforma política no país. O que pensa dessa iniciativa?

Ricardo Antunes: O projeto Ficha Limpa é legítimo, porque o nível de corrupção do Estado e do parlamento brasileiros, da "classe política", é tamanho que a população manifesta seu repúdio.

Mas o projeto é policlassista, atinge indivíduos de várias classes sociais. Além de políticas desse tipo, que no plano genérico são positivas, precisamos de políticas de forte perfil classista.

Temos no cenário de hoje duas concepções políticas: uma é a tradicional, dos grandes partidos de sempre, com a política do ‘é dando que se recebe’. Podemos imaginar quantas estatais e ministérios entraram na roda para que o PT angariasse o apoio do PMDB; o que o PT deu ao PMDB para ter seu vice, a razão desconhece. É o ‘é dando que se recebe’. O PSDB é a mesma coisa. Para que tire o PP (do Maluf!) do PT, é na mesma base. Essa é a política tradicional.

E existe um outro pólo, oposto, uma concepção legítima, compreensível, que é a anti-política, com aquele pensamento de que política é podre, não adianta, é o espaço da traição e da manobra. É mais ou menos como o senso comum popular vê o parlamento brasileiro, como espaço da corrupção mais deslavada, onde as ‘personas’ traficam seus interesses à vontade.

Nosso desafio é reconstituir, ou mesmo criar, uma política radical, que não seja nem a primeira, longe dela, nem uma anti-política, que acaba travada numa questão fundamental: a de discutir os caminhos políticos alternativos e radicais contra a ordem. E isso, no meu entender, passa pela organização popular; depois, pelas conseqüências político-eleitorais, que só existem quando há base social impulsionando.

Correio da Cidadania: Acredita, nesse sentido, ser possível uma radicalização do sentimento de que nossa democracia precisa de mudanças drásticas ou estamos anestesiados com a idéia de Brasil emergente, elogiado exatamente pelas mesmas instituições responsáveis pela última crise do capital?

Ricardo Antunes: O governo Lula, claramente, conseguiu no seu segundo mandato desenhar o seguinte esquema: primeiro, ele é o homem da conciliação nacional, o Getúlio Vargas redivivo. Aquele era o estancieiro dos pampas; esse é o político de origem metalúrgica.

Porém, o Lula tem uma política de conciliação de classes na qual ele é um semi-bonaparte, não no sentido ditatorial, mas no sentido de ser o melhor gendarme que os capitais poderiam ter. Os bancos, a grande indústria de siderurgia, metalurgia, petroquímica, automobilística, ganharam muito. Como ele mesmo diz, nunca os ricos, os bancos, ganharam tanto dinheiro na história desse país, certo?

Por outro lado, em função de seu desgaste no primeiro mandato, especialmente na classe trabalhadora organizada, o Lula migrou sua base social para as camadas populares mais desorganizadas, aquelas que recebem Bolsa Família. O PT perdeu muita base, mas a recuperou em parte.

Porém, existem muitos setores populares, movimentos sociais contra as barragens, Belo Monte, transposição do São Francisco, que são importantes. Portanto, há resistência e oposição importantes no movimento popular. Talvez a campanha eleitoral pudesse ajudar em alguns pontos do programa alternativo e anticapitalista, juntando um pouco dessas inúmeras forças moleculares de oposição social, que ainda estão bastante carentes de organicidade entre elas.

Isso seria muito importante: juntar alguns pontos, de modo a iniciar um processo de reposição de uma organicidade entre as lutas sociais, sindicais, políticas e populares pelas bases, que estão moleculares hoje, mas que sabem que o governo Lula foi uma tragédia. Diferente de FHC, mas uma tragédia.

Em qualquer debate nas militâncias, na direção do MST, por exemplo, a polarização é alta, tanto que não definiu apoio nenhum. Algum dirigente pode apoiar, mas de forma contida, pois há um grande descontentamento. Nos movimentos sociais, sindicatos que não se institucionalizaram, nem se apelegaram, que não vivem o neoestatismo e essa nova forma de servidão, há descontentamento.

Mas é evidente que um presidente que governa para os ricos e fala para os pobres faz sucesso. Essa é a alquimia do Lula. E mais: quando fala aos pobres, seu linguajar é um; quando se dirige às classes dominantes, põe a gravatinha, vai com o discurso escrito e sofistica a fala.

É um governo que pratica a polissemia discursiva. Para cada público uma fala, de modo que se mantenha a conciliação nacional entre todos. É a força do governo Lula, mas é também sua tragédia para a esquerda e movimentos populares.

Nas próximas décadas, quando se fizerem balanços do governo Lula, perceberemos a monumental oportunidade perdida de se começar a destruir a tragédia brasileira. Oito anos se foram e nenhum ponto estrutural da tragédia nacional foi levemente tocado. Em certo sentido, alguns pontos se deterioraram. Basta lembrar que os "heróis" do agrobusiness saíram fortalecidos. Os bancos também. E a grande indústria pesada também.

Correio da Cidadania: Em vista do cenário eleitoral que se anuncia, com a provável vitória de Dilma ou Serra, qual seria, de todo modo, menos desastroso para o país, especialmente para a classe trabalhadora?

Ricardo Antunes: Eu não trabalho com essa hipótese agora. Eu diria que Serra e Dilma são ambos nefastos. Serra é mais privatista. Dilma é mais controladora dos movimentos sociais e populares. Serra voltará com algumas políticas mais elitistas e privatistas e nos incentivará à reorganização do campo popular contra as políticas de tipo neoliberal travestidas de social-liberalismo. A Dilma terá um governo como o de Lula, sem a revisão de nenhuma privatização. Aqui e ali haverá um sinal intervencionista, coisa que o Serra também tem.

É difícil saber quem é mais generoso com o capital financeiro. O próprio presidente do Banco Central, ex-presidente mundial do Bank Boston, é cogitado pra continuar! Claro, pois, para os capitais globais, ele é o cara. O Lula é a figura, mas o cara é o Meirelles, pra brincar com aquela frase do Obama.

Nesse momento, temos de trabalhar com outra alternativa: como impedir que a eleição deste ano seja uma norte-americanização do processo eleitoral brasileiro. Só pela esquerda pode ser jogado um pouco de areia nesse processo. Depois, em função do que colhermos nos primeiros momentos eleitorais, veremos que avaliação devemos fazer.

O meu sentimento é de que, neste processo eleitoral, onde a norte-americanização pode sair vitoriosa, não vejo mudanças substanciais nem de longe.

Portanto, temos agora de trabalhar com a hipótese de jogar areia nessa engrenagem. É uma corrida de rolimã, e, em vez de graxa, temos de pôr areia nesses carrinhos. Se fizermos isso, já será um bom começo.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Álvaro Crósta

Danilo Albergaria

Na década de 70, o geólogo recém-formado Álvaro Crósta procurava um objeto de estudo para seu mestrado quando deparou-se com a hipótese de que o Domo do Araguainha, na divisa entre Mato Grosso e Goiás, teria sido originado por um dos mais violentos e destrutivos eventos naturais a que o planeta Terra está sujeito: o impacto de um asteroide. Fascinado pela natureza desses fenômenos, Crósta partiu para verificar (e comprovar) a hipótese, e assim tornou-se um dos maiores especialistas do assunto no país, sendo o principal responsável pela comprovação científica de quatro das seis crateras de impacto descobertas até hoje no Brasil. Nesta entrevista, o pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas fala de seu trabalho e sobre o que sabemos desses eventos, que podem fazer os mais violentos desastres naturais vividos pela humanidade parecerem coisa pequena.

ComCiência – Por que estudar crateras de impacto meteorítico?

Crósta - A motivação principal, do meu ponto de vista, é justamente pela raridade do fenômeno. A formação de crateras de impacto na superfície da Terra é um assunto muito pouco abordado e o ramo da ciência que analisa esse tipo de fenômeno somente se desenvolveu a partir dos anos 1970, com o desenvolvimento da exploração espacial e da planetologia. É um fenômeno importante na constituição de todos os planetas e é fascinante em si mesmo, pois é único, completamente diferente de outros fenômenos geológicos. Um impacto meteorítico produz uma concentração extraordinária de energia num local muito restrito da superfície terrestre e acontece num espaço de tempo muito pequeno, enquanto todos os outros processos geológicos ocorrem, normalmente, num espaço de tempo muito longo.

ComCiência - Você poderia descrever os efeitos imediatos de um impacto de porte significativo?

Crósta – Um impacto meteorítico que deixe uma cratera com alguns poucos quilômetros de diâmetro certamente terá efeitos desastrosos para a área relativamente próxima. Primeiro, a propagação de ondas sísmicas pelo solo em uma área cujo raio pode ter várias dezenas de quilômetros. Nas áreas próximas ao ponto de impacto, esse terremoto tem uma magnitude que certamente extrapola a escala Richter. Simultaneamente, o deslocamento de ondas de choque que se propagam pelo ar a uma velocidade enorme irá destruir tudo o que está na superfície. Junto com a onda de choque há uma onda de calor que atingirá centenas ou até milhares de graus Celsius. Por último, uma enorme quantidade de detritos será arremessada para fora da cratera e cairá na forma de chuva de rochas incandescentes, que atingem uma área ainda maior do que os efeitos anteriores. A energia liberada pelo impacto, mesmo de pequeno a médio porte, é similar à explosão de muitas bombas nucleares ao mesmo tempo. Por exemplo, o impacto que originou o Cerro do Jarau (no Rio Grande do Sul), cuja cratera tem aproximadamente 13 km de diâmetro, liberou uma energia equivalente a 600 mil bombas atômicas similares à que destruiu a cidade japonesa de Hiroshima.

ComCiência - Quando surge a ideia de que a Terra poderia sofrer uma colisão com um asteroide?

Crósta - A noção de impacto cósmico surge com Galileu, no século XVII. Com o telescópio (por ele mesmo aperfeiçoado), Galileu pôde distinguir a quantidade enorme de crateras na Lua. Embora algumas delas já fossem visíveis a olho nu, Galileu pôde observá-las em detalhe e identificar, inclusive, as menores delas. Ele foi o primeiro a fazer uma associação entre as muitas crateras presentes na Lua e a possibilidade de haver impactos de asteroides na Terra. No entanto, essa possibilidade parecia ser refutável pela aparente ausência de crateras de impacto na Terra. Hoje, sabemos que os registros de impacto tendem a desaparecer da superfície terrestre por meio de sedimentação, erosão e tectônica de placas. Mesmo assim, permanecia uma questão: se a Lua tem crateras de impacto de 500 km de diâmetro, por que não haveria crateras aqui também?

ComCiência - A Terra é bem maior…

Crósta - A Terra tem muito mais massa para atrair gravitacionalmente os asteroides. Então, mesmo na aparente ausência de crateras de impacto, a hipótese de que a Terra já teria sido atingida por asteroides era uma ideia bastante razoável. No entanto, a primeira referência a uma cratera de impacto na Terra surge apenas no começo do século XX com Daniel Barringer, um engenheiro de minas norte-americano que propôs a hipótese de colisão meteorítica para a formação de uma no Arizona, que é muito recente em termos geológicos, e bastante óbvia. Havia fragmentos meteoríticos, riquíssimos em níquel, dentro e em volta da cratera. A ideia desse engenheiro era encontrar o meteoro, que ele pensava estar ali enterrado, para minerar o níquel e enriquecer, mas acabou falido e desacreditado pela comunidade geológica da época. Já a pesquisa científica e sistemática de crateras de impacto acontece apenas após a década de 1960. Quando o Domo do Araguainha foi observado pela primeira vez, por satélite, e a hipótese de que sua formação por um impacto meteorítico foi levantada por um grupo da Nasa em 1973, eram conhecidas no mundo inteiro pouco mais de trinta crateras de impacto. Hoje, são quase 180.

ComCiência - Que métodos são utilizados para se comprovar que uma formação geológica seja, na verdade, uma cratera de impacto?

Crósta - Usamos métodos geológicos convencionais: técnicas de geologia de campo, comparação de rochas, análise petrográfica, estrutural e micro-estrutural, coleta de rochas para análise em laboratório, métodos geoquímicos, entre outros. Cortamos lâminas muito finas dessa rocha para examiná-las em microscópio e analisamos as propriedades dos minerais. O que buscamos nessas análises são feições de deformações causadas unicamente pelo impacto. A quantidade muito grande de energia que é liberada em um impacto meteorítico deixa marcas permanentes nas rochas e nos minerais. Então, pode-se passar muitos milhões de anos (no caso do impacto do Domo de Araguainha, mais de 240 milhões de anos), que ainda será possível encontrar essas marcas e deformações nas rochas.

ComCiência - Como é feita a datação de um impacto meteorítico?

Crósta - Existe uma série de elementos químicos que têm um decaimento radioativo. A partir de uma amostra de rocha, podemos medir a quantidade de um determinado isótopo, e a partir de constantes de decaimento radioativo, estima-se há quanto tempo ocorre esse decaimento e assim pode-se estabelecer a idade daquela rocha. Há uma pré-condição: é necessário haver um evento de aquecimento que comece o processo do zero o processo de decaimento. O aquecimento, nesse caso, se dá pela liberação da energia do impacto, pela fusão da rocha etc. O ideal é datar o material que foi fundido, derretido pelo calor e pela pressão do impacto. Então é como se o relógio fosse zerado a parti do momento do impacto.

ComCiência - Você mencionou um engenheiro de minas que, antes da pesquisa científica sistemática, explorou uma cratera guiado por interesses econômicos. Existe algum benefício econômico em se estudar crateras de impacto?

Crósta - Há, sim, aspectos econômicos importantes. Por exemplo, um dos maiores depósitos de níquel do mundo, Sudbury, no Canadá, que hoje pertence à  empresa brasileira Vale, é associado a uma cratera de impacto. A origem desse níquel é meteorítica. Outro exemplo pode ser encontrado em algumas crateras que têm depósitos de petróleo ou gás associados. Na verdade, o petróleo ou o gás não têm relação direta com a cratera. Indiretamente, o impacto ajuda a criar condições para o armazenamento, formando a chamada “armadilha” que retém o petróleo – o que é fundamental, pois a tendência do petróleo é escapar das camadas nas quais ele se forma. Existem várias crateras em várias bacias sedimentares que produzem petróleo ou gás. O maior campo de gás de mundo fica na cratera de Chicxulub, no México, que tem 170 km de diâmetro e é associada ao evento de extinção em massa ocorrido no limite Cretáceo-Paleogeno que provocou a extinção dos dinossauros. No Brasil, a Petrobras encontrou uma estrutura submersa, próxima à cidade de Praia Grande no litoral paulista, que provavelmente é uma cratera de impacto, e que pode vir a ser um campo de exploração de petróleo ou gás.

ComCiência - Afinal, foi ou não foi um impacto meteorítico o responsável pela extinção dos dinossauros?

Crósta – Depois de uma década e meia de debates na comunidade científica, atualmente há um consenso de que foi, sim, um impacto meteorítico o responsável por esse evento de extinção em massa. Recentemente, foi publicado um artigo na revista Nature que encerra de vez a polêmica em torno daquela grande extinção em massa. Esse artigo, que tem 41 autores, discute todas as evidências contrárias e a favor da teoria da extinção dos dinossauros por meio do impacto meteorítico que originou a cratera de Chicxulub; e chega à conclusão de que ela é irrefutável.

ComCiência - Ou seja, não foi vulcanismo o culpado, hipótese também levantada.

Crósta - Esse artigo analisa isso e demonstra que a teoria do vulcanismo não é viável. Com relação à teoria do impacto o artigo consegue responder a todas as críticas que foram feitas ao longo dos anos e, ao mesmo tempo, reforçar todas as evidências que demonstram que, realmente, a cratera de Chicxulub é o “cano fumegante” do evento responsável pela extinção dos dinossauros.

ComCiência - Mas como se chegou a essa explicação científica?

Crósta - Nos anos 1980, foi descoberta e passou a ser estudada uma camada geológica – presente em vários continentes, sempre no mesmo estrato, de mesma idade geológica – que continha uma anomalia geoquímica: a concentração muito alta de um metal que é muito raro na Terra, o irídio. Essa descoberta foi feita pelo físico Luiz Alvarez, junto com seu filho, o geólogo Walter Alvarez. Eles publicaram (com outros colaboradores) um artigo na revista Science propondo que essa camada seria o resultado da deposição de poeira que tinha ficado em suspensão na atmosfera ao redor do planeta em decorrência do impacto de um grande asteroide contra a superfície da Terra. Eles também dataram o material associado a essa camada, e ele correspondia exatamente à idade de uma das maiores extinções de vida, que foi há aproximadamente 65 milhões de anos – quando, junto com outras formas de vida, os chamados dinossauros foram extintos.

ComCiência - Mas ainda não haviam encontrado uma cratera correspondente ao impacto?

Crósta - Não. Depois da explicação proposta pelos Alvarez, começou-se a procurar pela cratera que correspondesse às dimensões do asteroide que poderia ter sido responsável por aquela camada anômala de irídio. Então, a cratera de Chicxulub foi finalmente encontrada no começo da década de 1990, no golfo do México. Mas este não foi o único grande impacto ao longo da história da Terra.

ComCiência - Nos últimos 500 milhões de anos, ocorreram cinco extinções em massa da vida na Terra. Além da grande extinção de 65 milhões de anos atrás, há alguma outra que esteja minimamente relacionada a um evento violento de impacto meteorítico?

Crósta - Há suspeitas de que uma dessas extinções em massa (de 250 milhões de anos atrás) esteja relacionada a um impacto meteorítico de grandes proporções, mas ainda não há nada de concreto, nenhuma evidência nem indício forte o suficiente para dar credibilidade à hipótese.

ComCiência - A Nasa tem programas de acompanhamento dos asteroides em órbitas próximas à da Terra, como o Near Earth Object Program e o Asteroid Watch. Mas não há esforços sérios por parte da comunidade internacional para elaborar um plano que preveja como desviar ou destruir um asteroide que esteja a caminho da Terra num futuro próximo.

Crósta - Não acho que se justifiquem os gastos para se elaborar um plano de ação desse tipo. É muito, muito pequena a possibilidade de um grande asteroide, como o que originou a cratera de Chicxulub, colidir com a Terra durante a existência da nossa espécie. Esse risco está na casa de vários zeros depois da vírgula. Ou seja, é bastante negligenciável. Há assuntos muito mais importantes, mais urgentes e mais graves para as sociedades humanas do que a possibilidade de sermos extintos pelo choque de um grande asteroide com a Terra.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

Metáforas do discurso único, metonímias das culturas do trabalho

Roseli Figaro

Enquanto o mundo for mundo
Enquanto o sal for compra-e-venda
Enquanto a vida vier com injeção de éter
Enquanto o poeta tiver
Vetiver cabeça tronco e membro
Os milagres farão chuvas de astros nos sonhos
O amor há de ser tudo e a carícia dos pratos
Além de alimentar despertará prazer…

(O carro da miséria, XII, Mário de Andrade)

É PRECISO ter ousadia para desfazer as armadilhas que os asseclas do fim da história e da globalização, via o discurso único, disseminaram por todos os continentes. Trabalho, cultura e bem-comum (Leitura crítica internacional) é uma obra que atua nessa direção. Seu autor, Luiz Roberto Alves, mostra como os sinuosos discursos da autoridade de instituições como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), assessora do G-8, foram construídos para simular a unanimidade e a supremacia do mercado em contraposição ao Estado de Bem-Estar Social e às experiências dos trabalhadores na luta por direitos e dignidade. Tais simulacros discursivos açambarcaram governos e lideranças, jogando-os aos pés do Midas sistema financeiro, responsável pela atual crise internacional.

Nas palavras do autor,1no processo estudado, entre 1990 e 2005, ocorreu um roubo de linguagens da sociedade ocidental, que vitimou – e vitima – exatamente os valores que poderiam reencaminhar as governanças saídas da guerra fria, isto é, os valores culturais do trabalho decente, dos bens sociais tornados bens comunitários e da diversidade sócio-política no tratamento da economia, das finanças e das políticas sociais.

Como salienta Alves, a linguagem é a arena onde se travam as batalhas sobre as estratégias persuasivas que transformam interesses privados em acordos econômicos e políticos a serem seguidos como manuais de boas condutas em nível internacional. O autor entra nessa seara para esmiuçar as camadas de sentidos que estão subsumidas por uma lógica que se tornou mito: o mais forte é o que sobrevive à concorrência do mercado. Este último, tido como entidade onipresente e onisciente, fator de seleção natural.

Buscar nos textos as lógicas comunicativas reveladoras dos lugares sociais dos quais falam seus enunciadores faz parte de uma tradição intelectual com a qual comunga Luiz Roberto Alves. Este, ao aplicar os referenciais da sociossemiótica aos objetos discursivos da OCDE, reunidos na série "Economic Outlook", mostra-nos como os fundamentalismos econômicos foram arquitetados como castelos de cartas, vazios da experiência coletiva construída no processo político de diversidade de vozes necessárias à civilização humanista.

Ao propor-se o empreendimento de desvendar os sentidos dos discursos da orientação neoliberal, buscou em Roland Barthes os aportes teóricos para demonstrar como o sentido de uma palavra ou de um discurso pode ser esvaziado, tornando-se mito ou mítico. Assim, nos municia de esclarecimentos e nos dá armas certeiras sobre como lutar nessa arena. O signo é uma materialidade das relações sociais e, como tal, diz respeito a condições concretas de enunciação. Um discurso torna-se mítico quando, esvaziado de seu sentido primeiro, simula um outro cujo objetivo é obscurecer ou obliterar as diferentes vozes e pontos de vista que circulam na sociedade.

O autor mostra como o discurso mítico da OCDE dissimula e obscurece as conquistas do Estado de Bem-Estar Social e os direitos dos trabalhadores conquistados por suas entidades representativas em lutas históricas. Sobretudo, ele demonstra como as orientações contidas nos documentos do "Economic Outlook" pretendem debelar as resistências e as vozes que enunciam discursos que se contrapõem à lógica da onisciência do mercado.

O apuro metodológico da análise, realizada por Alves, sustenta-se na abordagem criativa que ele faz das contribuições de Greimas e Jakobson a partir da característica básica da linguagem verbal de se constituir como rede de relações, na melhor tradição da semiologia saussuriana. Se entre os eixos do paradigma e do sintagma de estruturação da linguagem a rede de relações se dá na lógica da semelhança, cuja seleção permite os fundamentos de uma morfologia; e da contiguidade, cuja combinatória possibilita as relações de sentido e a noção de processo, para o autor esses eixos estão dissociados no discurso hegemônico contemporâneo. Tal dissociação se dá à medida que o paradigma se instituiu a partir de fundamentos cuja semelhança é simulada, não permitindo o progresso no sentido do bem-comum; e o sintagma está carente de elos para estabelecer nexos de sentido na sociedade globalizada, pois sua lógica tem os fundamentos falseados, o sentido encontra-se estilhaçado mais do que fragmentado.

O autor lê os discursos da OCDE como paradigma, no qual as metáforas tornam-se falseadas, haja vista o valor metafórico que vocábulos tais como reestruturação, reengenharia, reciclagem adquirem ao estarem no lugar de outros sentidos, simulando uma mudança que realmente não houve. Objetivamente, o sistema econômico hegemônico aprofundou as formas de exploração do mundo do trabalho e não as esvaeceu.

Se as metáforas, que mobíliam o espaço globalizado das transações neoliberais, constituem-se em mito; as metonímias da contiguidade sintagmática, dos discursos das centrais sindicais (CUT, brasileira; CGIL, italiana; e DGB, alemã) e dos discursos do Fórum Social Mundial, embora herdeiros de lutas vigorosas, mostram-se ainda desconectadas, pois os fundamentos dos valores que compuseram seu paradigma precisam ser reconstruídos, visto que as experiências metonímicas carecem tomar volume para enraizarem-se como eixo estruturante.

É do re-encantamento que se precisa, destaca Alves. Re-encantamento das experiências que, embora dispersas no eixo do sintagma, têm potencial para reconectarem as esperanças em torno da palavra de ordem trabalho decente. Expressão de sentido forte, pois cunhada em fóruns coletivos cujas práticas desenvolvem-se em torno da economia solidária, dos orçamentos participativos e dos conselhos comunitários de representação direta. Como conceito-chave, ela sintetiza experiências que têm em comum a presença das vozes dos interessados na enunciação discursiva que dá o status de cidadão àquele que se coloca na arena política.

Se há ou se houve uma avalancha de metáforas que tomaram o interesse privado pelo interesse público, aposta-se nas experiências concretas do movimento social dos trabalhadores, para o re-encantamento do trabalho e daqueles que trabalham. Experiências vivenciadas por gerações, consubstanciadas nas culturas do trabalho e atualizadas na dinâmica que se dá pela relação do passado com o presente.

A possibilidade de vida futura sustentável para os homens e para o planeta está em desconstruir os sentidos do trabalho como mito-monstro e como tripalium, com o qual se torturavam os escravos, para reavê-lo no sentido de atividade humana, aquela que torna o homem um ser genérico, ser de si e para si, cidadão, cuja relação transcende o dualismo ensimesmado para constituir temas e figuras capazes de dialogar com a coletividade na perspectiva da construção do bem-comum.

É desses sentidos que nos fala Luiz Roberto Alves em seu livro. Nas palavras de Adilson Citelli na apresentação "O trabalho em tempo de cólera", o autor realiza "um fino exercício analítico e intelectivo", expondo uma trajetória intelectual voltada à gestão mediadora de expressões comunicativas capazes de ressignificar e atualizar experiências solidárias.

Nota

1 Texto de divulgação do livro, Blog Alpharrabio: <http://blog.alpharrabio.com.br/2009/05/09/trabalho-cultura-e-bem-comum>

Fonte: IEA USP – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issues&pid=0103-4014&lng=pt&nrm=iso

Crise: um problema conjuntural ou da lógica da acumulação mundial?

Rubens R. Sawaya

Neste texto, explora-se a ideia de que a crise financeira atual é a manifestação do esgotamento do processo de acumulação mundial de capital fundado em um determinado padrão (mundialização) no pós-guerra. Os primeiros sinais desse esgotamento apareceram nos anos 1970. As soluções liberalizantes impostas pelo próprio capital a partir de então para buscar manter sua rentabilidade, se, de um lado, permitiram certa reestruturação produtiva mundial, de outro, abriram um amplo espaço para a valorização fictícia do capital que ora irrompe em crise.

EXISTE UM RISCO de focar o olhar no fato e não perceber o todo em que está inserido. Claro, buscar entender o todo complexo tem enormes riscos ao trabalhar com um conjunto de relações, o que dificulta sua amarração e coerência. Talvez valha a pena o risco à medida que se procura entender a própria complexidade para ir além das fáceis análises que apenas relacionam a crise atual a um colapso irracional concentrado em um único mercado (o de hipotecas norte-americano) e não no sistema como um todo, ou a um problema de pânico e erro de regulação que foi capaz de colocar o mundo abaixo, como se uma borboleta batendo as asas pudesse causar um furacão em alguma parte do mundo.1 Há uma tendência em focar o problema para achar culpados imediatos e nunca olhar os elementos estruturais e históricos que tornaram aquilo possível. Nada melhor do que imaginar que o problema nasceu de algo muito simples, assim rapidamente se pode resolvê-lo.

A hipótese aqui desenvolvida é a de que a crise atual é o resultado de como a economia mundial se estruturou nos últimos 50 anos, o que não envolve apenas o problema da liberalização financeira decorrente do desmantelamento do acordo de Bretton Woods nos anos 1970, mas a própria estruturação das bases para a mundialização do capital no pós-guerra pelo acordo.2 A crise atual é em grande parte fruto da liberalização financeira pós-anos 1970,3 mas supor esse como único fator relevante seria aceitar que o "lado financeiro" da economia não tem relação com o lado real, produtivo, que o excesso de liquidez mundial é simplesmente um acidente de percurso e não tem a ver com contradições do próprio processo de acumulação de capital. O mesmo seria pensar a crise dos anos 1930 como algo isolado e que não estivesse no meio de duas grandes guerras e que, ao mesmo tempo, demarcou um ponto de inflexão pelo fim da hegemonia inglesa.

Os fenômenos se revelam inseridos num conjunto complexo de relações que compõem a realidade e não devem ser isolados. Isolá-los não apenas dificulta a percepção da complexidade, como impede que sejam compreendidos, e também que se entenda a mudança crucial que parece estar ocorrendo na própria realidade estudada. Claro, é muito mais fácil fazer como costuma o mainstream ao transformar o problema em algo pontual e reivindicar que nada muda na natureza dada e equilibrada do mundo.

Este texto tem como objetivo investigar o que está ocorrendo com a economia mundial. Não parece um simples desarranjo de um ambiente em que tudo estava definido e a história não tinha mais lugar. Parece que há uma importante transformação que deve ser estudada. Não se tem aqui a presunção de prever para onde irá o mundo nem o fim do capitalismo. O objetivo é apenas levantar as questões. O processo de transformação é grande, mas dizer qualquer coisa além seria exercício de futurologia, o que, apesar de alguns acadêmicos acharem que esse é seu papel, não é o que aqui se pretende.

A crise mundial atual não é apenas financeira. Manifesta-se como tal, como ocorre historicamente com qualquer crise, mas é o resultado do processo de acumulação ampliada do capital em escala global. É um processo que sucede os movimentos de acumulação, concentração e centralização que Marx já descrevia em economias locais e que agora tomam maior vulto global.

É, portanto, o resultado de o capital ter alcançado limites em seu processo de acumulação, limites se materializam de uma nova forma em escala mundial. Não que crises anteriores não se refletissem em escala mundial, mas sua causa estava ligada à superacumulação ainda dentro dos Estados-nação. Desta vez, embora apareça como localizada nos Estados Unidos, a partir da mundialização do capital produtivo e financeiro do pós-guerra, bem como das políticas de liberalização dos anos 1980 e 1990, a crise parece tomar novas características.

A crise de um paradigma

É interessante pensar que a crise atual mundial não era esperada pelos economistas em geral. Para alguns deles, de fato não era, especialmente para os partidários da corrente teórica que foi moda fácil (embora matematicamente hermética ao grande público, o que lhe proporcionava um tom "cientificista") ao longo dos anos 1980-1990 e que fez parte da revanche neoclássica realizada a partir de Milton Friedman.4 Esse autor havia permanecido muitos anos à margem (sua obra é dos anos 1950) da discussão econômica então dominada pela hegemonia keynesiana no pós-guerra. Como disse Stiglitz (2002), naquela época, todos os economistas se diziam partidários dessa corrente, embora em sua maioria fossem adeptos da chamada "síntese neoclássica" instrumentalizada por Hicks em seu modelo de equilíbrio geral macroeconômico IS-LM.

Auxiliado pelo crescimento da inflação nos anos 1970 e 1980 e por uma busca ferrenha em criticar a ação do Estado na economia – prática que já vinha de Hayek (1990) –, Friedman realizou uma crítica feroz ao modelo dito keynesiano. Retoma os aspectos microeconômicos utilitaristas fundados no ideal de racionalidade humana pré-keynesiano para acusar a intervenção nos mercados de simples mecanismos irresponsáveis de aceleração da inflação, sem ação real sobre a produção e o emprego. Construiu assim o argumento teórico (teorias da "renda permanente" e das "expectativas adaptativas", precursora das "expectativas racionais") para que os interessados na ideologia liberal, depois de mais de 50 anos de predomínio keynesiano, respirassem agradecidos pelo retorno à crença de que os mercados se autorregulavam por sua própria inteligência hayeckiana.

A ideia de expectativas racionais considera que os agentes agem racionalmente e conhecem perfeitamente o funcionamento do sistema, daí anteciparem os impactos de ações externas ao modelo. Transforma a incerteza radical original de Keynes (1982) em certeza completa e as contradições do capitalismo apontadas por Marx que o levam à crise em pragas de um comunista barbudo. Nessa lógica, em sua concepção mais radical, nem o curto prazo – quando a existência do equilíbrio não pode ser empiricamente demonstrada5 – deveria ser controlado diante da certeza de que, no longo prazo, o equilíbrio perfeito e natural seria encontrado pela "inteligência" dos agentes racionais. Transforma assim o longo prazo que antes, se nada fosse feito para impedir a catástrofe que poderia matar a todos, em um tempo hipotético, um horizonte de equilíbrio perfeito. Por essa lógica, deve-se deixar o funcionamento da economia às forças inteligentes do mercado – que na verdade são forças do capital – que, se desrespeitadas, nos atolariam em uma inflação brutal.

Esse era o ambiente teórico-ideológico para o retorno à lógica neoclássica pré-Keynes – e por ele criticada – como fundamento para a ação política neoliberal que retomou forças no início dos anos 1980 e invadiu os cursos de economia por meio de seus "modernos" manuais. Constituiu a justificativa teórica para a total desregulamentação dos mercados e o afastamento do Estado ineficiente (cf. Grossman, 1981, p.8). A partir de então, a crença neoclássica – que fez coro antes dos anos 1930, uma teoria econômica na qual não havia a hipótese de crise – passa a dominar o pensamento econômico. Claro que esses economistas nunca poderiam imaginar que, após 15 anos de uma espécie de "luz teórica" trazida pelo retorno "científico" à lógica liberal, algo de errado pudesse ocorrer com a "racionalidade natural dos mercados", que algo diferente da crença no equilíbrio perfeito pudesse aparecer depois de conseguirem livrar o mercado das amarras ditas inflacionárias impostas pelo desrespeito dos Estados às suas leis naturais por suas políticas populistas.

A surpresa com a crise tomou de assalto esses economistas inebriados pela beleza plástica de seus modelos matemáticos de "equilíbrio", ainda fundados na física newtoniana e em um processo de "naturalização" do funcionamento da economia, recuperado pela ideia de "expectativas racionais" de Robert Lucas, refundada no agente racional representativo que, na verdade, apenas colocou roupa nova no velho "homem econômico racional" utilitarista inteligente e maximizador de sua satisfação, elementos que regiam os mercados de forma perfeita. Por esses pressupostos, os mercados de trabalho e de produtos encontrariam por suas próprias forças a taxa de "desemprego natural", o nível de "produto natural" em perfeita harmonia com o "PIB potencial", eliminando "desequilíbrios entre oferta e demanda", sem pressões inflacionárias como desejava Friedman. Como bem apontou Amin (2003, p.31), "Ao terem eliminado Marx e Keynes do pensamento, os teóricos da economia pura substituíram a análise do mundo real pela teoria de um capitalismo imaginário".

Esse pensamento realizou anos de lavagem cerebral que, agora, com a crise perecem. Como afirmou Belluzzo (2009, p.B4): "entre as vítimas do terremoto financeiro que sacode o planeta, procura-se o homo economicus, o indivíduo racional maximizador, personagem central das teorias ditas científicas [...]". A crise atual faz um enorme favor à ciência econômica ao retirá-la da fácil ideia de que não existe complexidade no mundo real, que tudo tem um modo preciso e equilibrado de ser em processos de ajustes automáticos. Demonstra que o mundo real é cheio de contradições e que a metafísica dos modelos há muito se afastou da realidade, especialmente por suas hipóteses irrealistas.

As contradições naturais da realidade capitalista – que Marx tão bem soube levantar e que Keynes tentou de todas as maneiras resolver – foram afastadas nos últimos 20 anos. São contradições que foram amplamente estudadas e debatidas, que apontavam a tendência do capitalismo à crise. A crise atual demonstra a complexidade do capitalismo e que as análises sobre a realidade não devem seguir um padrão ideológico presente na ideia de equilíbrio natural dos mercados. Na verdade o mercado é o grande capital. Deixá-lo livre é dar liberdade ao capital.

Na lógica de pensamento hegemônico não existe a hipótese de crise. Para esse, as crises são reduzidas a desvios temporários, simplesmente causados por fatores exógenos que não têm relação direta com o "real" funcionamento equilibrado dos mercados. Podem ser o resultado de bolhas especulativas que não se sabe de onde vêm, ou de outros fatores como um choque dos preços do petróleo, guerras, secas etc. Os manuais de macroeconomia modernos abordam superficialmente o problema como "patologias",6 algo como uma doença causada por um vírus. As teorias das "bolhas" dão corpo a essa ideia, subtendendo que poderiam ser evitadas com bons remédios, quando na verdade, afirmar que as bolhas são as causas das crises seria o mesmo que dizer que a febre é a doença.

Algo muito próximo se poderia dizer com relação à desregulamentação que, a rigor, parece ser resultado da própria pressão do capital por liberdade, sintoma de que não estava encontrando rentabilidade no processo de acumulação real e, como é lógico microeconomicamente, imagina encontrar essa rentabilidade livrando-se das regras opressivas do Estado. De qualquer forma, é difícil separar a responsabilidade da desregulamentação sobre a crise da queda na rentabilidade do capital produtivo internacionalizado, elemento que o teria levado a fazer pressão sobre a desregulamentação. Esses são processos simultâneos que se autoalimentam.

Ao que parece, a crise atual é o resultado de um processo amplo, estrutural do capitalismo, que deve ser analisado com mais vagar. Vários autores vêm fazendo essas análises ao longo dos últimos 10 anos, apontando as fragilidades expostas pela mundialização produtiva e financeira (cf. Moffitt, 1984; Michalet, 1984, 2002, 2007; Chesnais, 1995, 1996; Belluzzo, 1995; Aglietta & Barrebi, 2007), percebendo os problemas estruturais que se ampliavam. Apenas não foram lidos porque o mainstream conseguiu fechar-se em si mesmo alimentado pela "exuberância" dos mercados. Não havia ouvidos para os "críticos negativos" do sistema.

Dessa forma, analisar as causas nas entranhas do funcionamento do capitalismo responsáveis pela crise atual é desafio de todos que quiserem repensar seriamente a ciência econômica. O capitalismo, como a história que não encontrou seu fim, apenas está em constante transformação. Para ser compreendido, não pode pressupor ou abarcar modelos simples e vestidos em belas roupas econométricas, a-históricas, como se quis nos últimos anos. É preciso analisá-lo em sua complexidade.

Crise como resultado do processo de acumulação de capital mundial

A crise atual é o resultado de como ocorre o processo de acumulação de capital. Mas essa é uma afirmação genérica apesar de verdadeira, uma vez que a acumulação de capital é um processo que se modifica estruturalmente no tempo. É fundamental entender suas formas históricas e as novas formas que toma. Conhecer seu movimento, como se modifica, o que nele se repete e quais elementos são novos resultados de outras combinações de velhas relações.

Pode-se, assim, verificar que há elementos que têm permanecido como característica central. Um deles é o fato de o capital ter a necessidade de acumular-se de forma crescente e constante. Sempre cria valor excedente pelo trabalho produtivo que deve ser continuamente recolocado na acumulação como reinvestimento, de modo a garantir a valorização e evitar a crise. Essa característica permite chamá-lo de capitalismo. Foi demonstrada em detalhes por Marx e aceita por Keynes.7 As grandes empresas, agentes do capital, sempre atuaram assim e por isso continuamente expandem sua atividade para simplesmente existirem como capital, se não o fizerem perecem.

O problema central é que no processo de expansão contínua, ou simplesmente "acumulação ampliada" que envolve a concentração (cada capital individual cresce sobre si mesmo) e a centralização de capital (ocupa o espaço de outros),8 o capital precisa buscar, de maneira quase esquizofrênica (não pode parar), espaços para dar continuidade à acumulação. Se não encontra, não recoloca o dinheiro carregado de valor excedente obtido novamente no processo de valorização, o que impede que o valor criado se realize no fluxo macroeconômico dinâmico, resultando em problemas como superprodução (mercadorias que não se vendem) e superacumulação (excesso de capital em funcionamento).

A questão da superprodução foi central em Keynes (1982), que apontou a crise como em parte o resultado de o capital não realizar o investimento necessário para manter o fluxo de acumulação dinâmico contínuo. Acreditava que, se os empresários mantivessem os investimentos crescentes, a crise não ocorreria. Percebia claramente que esse não é um processo automático e, além disso, ocorre por ondas cíclicas que podem desvincular a relação produção-consumo, criando incertezas e crises, rompimentos no fluxo. Acreditava que esses movimentos cíclicos poderiam e deveriam ser controlados (Keynes, 1978) para garantir o processo de acumulação contínuo.

Marx, tomando as crises conjunturais de realização ligadas à ideia de superprodução, também considerava a decisão de transformar dinheiro em capital, o investimento, elemento-chave da acumulação de capital. Trata-se de uma contradição importante, uma vez que está fundada no fato de o valor excedente, lucro, ser extraído do trabalho, o que leva o processo irremediavelmente às crises de realização, dada a queda da participação do trabalho na riqueza criada. De qualquer forma, para Marx, essa é mais uma contradição conjuntural do que estrutural.

O problema maior que ultrapassa a realização é resultado da necessidade precípua de contínua ampliação da acumulação de capital, a imposição a cada capital individual de recolocar a crescente massa de valor excedente criado no processo de valorização, de modo a ampliar-se incondicionalmente. Não se trata mais somente de realização do valor criado, mas da aplicação do valor obtido em nova valorização. O resultado desse processo leva o capital à concentração e à centralização.9 A realização permanece com parte da questão, mas o problema está em que o capital é obrigado a valorizar-se independentemente do próprio mercado. Deve reinvestir o dinheiro produtivamente para preservá-lo e ampliá-lo, um processo que não pode cessar. Essa contradição resulta em superacumulação de capital, algo que difere da superprodução. Superprodução e superacumulação são dois movimentos que não estão desvinculados, mas, se confundidos, impedem a compreensão de que o problema não é simplesmente a falta de mercado para realização do valor criado.

O prenúncio da crise ocorre quando o capital não encontra possibilidade de dar continuidade à valorização na esfera real produtiva, como resultado dessas contradições. Por isso cria mecanismos de valorização fictícia, construindo as bases para as crises financeiras como a que se observa hoje. Ao que tudo indica, a crise financeira é o resultado de o capital ter encontrado esses limites, limites à sua acumulação real, agora em escala mundial.

Acumulação em escala mundial – internacionalização do capital

A crise atual parece ser o resultado das contradições criadas pela lógica do processo de acumulação mundial constituído no pós-guerra (cf. Belluzzo, 1995). Resulta do esgotamento de um cenário virtuoso de crescimento econômico que começou a ruir no final dos anos 1970. O prenúncio de sua ruína foi a enorme pressão do capital pela adoção das políticas neoliberais que acabaram por arraigar as contradições do próprio processo de acumulação mundial. Quando o capital clama por liberdade nos anos 1980, já está em busca de sua reestruturação produtiva e financeira para não sucumbir. A China entrou como um fator que atrasou o processo, ao mesmo tempo que o corrói (cf. Aglietta & Barrebi, 2007).

A estrutura política e econômica constituída no pós-guerra possibilitou a retomada virtuosa do processo de acumulação em novos termos. O crescimento mundial resultou, de um lado, do processo de internacionalização produtiva e financeira do capital entre os próprios países do centro e em direção aos países periféricos, criando novos espaços para recolocar o valor excedente em busca de valorização. A institucionalização da moeda internacional confiável centrada no dólar em Bretton Woods foi a condição para esse movimento do capital. De outro lado, o ciclo de crescimento foi também resultado da criação do Estado de Bem-Estar Social nos países do centro como forma de dar garantia à realização do valor.

O crescimento do pós-guerra foi resultado de uma conjunção virtuosa que acelerou o processo de acumulação até com certo ganho de bem-estar social, especialmente no centro do sistema. Foram constituídos mecanismos que, após a crise dos anos 1930 e duas guerras mundiais, marcam uma nova relação internacional. As formas que haviam predominado antes da crise dos anos 1930, baseadas na expansão imperialista do capital descrita por Lenin (1987) e Rosa de Luxemburg (1983) ainda com resquícios coloniais que haviam desembocado nas grandes guerras mundiais, claramente não eram mais inteiramente possíveis.10 Aquele momento ainda define uma fase da acumulação mundial em que o capital buscava no exterior a realização do valor excedente produzido no centro. No pós-guerra, o processo de acumulação de capital foi estruturado de forma diversa que lhe permitiu uma nova onda de expansão, talvez ainda impregnada de elementos do imperialismo, mas que agora iria industrializar a periferia. Criam-se as bases para a mundialização cujo objetivo não é simplesmente a rea-lização – ainda o é, mas agora como resultado da superacumulação no centro. O capital busca espaços para investir diretamente, instalar estruturas produtivas, recolocar o valor excedente. Conforme Michalet (2007, p.10):

Dentro de uma perspectiva marxista, a dinâmica da mundialização constitui uma das formas de expansão do modo de produção capitalista. Ela obedece à lei: colocar o capital em processo de valorização sobre todas as formas e em um espaço que transborda os Estados-nação.

Assim, os acordos e as novas formas de organização do pós-guerra recolocam o processo de acumulação ampliada em novas bases que permitiram ao capital retomar sua trajetória de acumulação. A institucionalização do Estado de Bem-Estar Social passou a garantir que parte do valor excedente criado pelo próprio trabalho seja, até certo ponto, "desviado" da acumulação ampliada do capital, diminuindo o impacto da contradição antes exposta, convertendo-o em renda aos trabalhadores, de modo a garantir a realização (venda da mercadoria). Da mesma forma, forças sociais organizadas como sindicatos etc. serviam para garantir certa participação dos salários na renda.

A forma que tomou o capitalismo no pós-guerra foi responsável pela constituição da mundialização de capital sobre dois pilares centrais: internacionalização produtiva e financeira com o estabelecimento do dólar como moeda internacional. Esses dois pilares, que provocaram o crescimento do pós-guerra, ao mesmo tempo criaram as contradições que levaram à crise atual. Foi a partir do dólar como moeda hegemônica que se constituiu, de um lado, o sistema financeiro internacional (cf. Eichengreen, 2000; Moffitt, 1984), e, de outro, as bases para uma nova onda de expansão do capital produtivo no mundo.

Economistas que estudaram a história da constituição do sistema financeiro mundial no pós-guerra em conjunto com o processo de internacionalização do capital perceberam há muito a exacerbação das contradições que lá nasciam.11 Não seriam capazes de compreender essa complexidade se tomassem por base modelos de crescimento abstratos do capitalismo neoclássicos que partem de teorias das vantagens comparativas pensando países isolados cada qual com sua indústria própria, exportando apenas os excedentes não consumidos no mercado interno. Os processos que tomaram lugar no pós-guerra constituíram um capitalismo composto por grandes corporações que resultaram dos processos de concentração e centralização de capital no centro, que agora se mundializaram e passam a dominar o comércio mundial de mercadorias entre suas filiais,12 deslocando-se livremente pelo mundo, apoiadas e em conjunto como um sistema financeiro internacional baseado em um mercado de dólares fora do país emissor. São relações novas que estão diretamente relacionadas à crise atual.

Parece claro que, como resultado desse processo, o capital mudou sua forma de atuar no mundo, embora não tenha modificado sua lógica central de funcionamento ao se internacionalizar abrindo filiais no mundo. Ganhou mais liberdade conseguindo desvencilhar-se das amarras incômodas impostas por seus Estados nacionais. Ganha força até para cooptá-los aos seus propósitos de liberdade. Sua existência continua dependendo da ampliação constante do valor no processo de acumulação com velhas e novas contradições. O que se modifica é a forma como se dá o processo e como essas contradições se manifestam na economia mundializada. Em essência, claramente é capitalismo. O capital continua com sua necessidade precípua de acumulação para existir como tal.

O ciclo de expansão internacional do capital produtivo constituído no pós-guerra ocorre em um primeiro momento entre os próprios países de centro, com a reconstrução europeia a partir de investimentos dos Estados Unidos. Uma vez ocupado esse espaço, dirige-se à periferia nos anos 1950-1960. Tanto o primeiro é resultado do excesso de capital norte-americano acumulado durante as guerras que precisava continuar em valorização, como o segundo, após a reconstrução, é resultado do excesso de capital tanto norte-americano como europeu e japonês que parte em busca de novos espaços para uma segunda onda de investimentos diretos. Esses processos foram o resultado da concentração de capital nos centros do capitalismo, da superacumulação. A internacionalização produtiva e a financeira ocorrem em conjunto (cf. Chesnais, 1995). O dólar transformou-se em moeda hegemônica internacional. O resultado foi a industrialização da periferia relevante, a América Latina, pela abertura de filiais multinacionais.13 O capital "transborda" em amplos investimentos diretos, mecanismo que garante sua acumulação ampliada.

O mercado internacional de moedas amplia-se acompanhando o que ocorre com a economia real. Ao mesmo tempo, financia esse movimento. Os primeiros sinais das contradições aparecerão nos anos 1970, quando o dinheiro mundial no chamado mercado de "eurodólares" (Chesnais, 2004, p.38) que flui por diversos países acaba por diminuir seu vínculo tradicional às políticas monetárias dos Estados Unidos, apesar de continuar sendo moeda norte-americana, emitida pelos Estados Unidos. Vale lembrar que essa moeda que adquire o status de mundial foi responsável pelo financiamento da expansão do capital produtivo, tanto na fase de reconstrução europeia como na fase de industrialização da periferia.

Os primeiros sinais de contradições desse processo de acumulação ampliada do capital aparecem em meados dos anos 1970 com o endividamento (cf. Moffitt, 1984) da periferia do sistema, como se fosse um problema da periferia e não da forma como ocorreu o processo de acumulação de capital no pós-guerra. Uma vez reconstruída a Europa e industrializada a periferia, o capital dinheiro, excedente criado no processo de reprodução ampliada do capital, agora mundializada, torna-se dinheiro ocioso no mundo em busca de novos ativos para dar continuidade à sua valorização. Interessantemente, exatamente nesse momento, uma elevação brutal dos preços do petróleo inunda ainda mais os mercados financeiros com dinheiro sem função em busca de valorização. O excesso de capital dinheiro havia inundado a periferia do sistema.

Não é mera coincidência que diversos autores marcam em 1971 (cf. Aglietta & Barrebi, 2007; Michalet, 2007, p.81) o aparecimento dos primeiros sinais de mudança no ambiente mundial financeiro que desembocará na crise financeira atual, quando foi oficialmente abandonado o padrão ouro pelo banco central norte-americano. O dólar não tinha havia tempos relação com o ouro, mas essa decisão marca a liberalização do mercado mundial de dólares e a constituição do mercado de eurodólares, dinheiro que flutua pelo mundo em busca de valorização fluindo entre países, desestabilizando suas taxas de câmbio (cf. Eichengreen, 2000).

A centralização mundial de capital e a China

A partir dos anos 1970, a economia mundial passou a amargar anos de baixo crescimento com inflação. Foi o momento para que as teses liberais tomassem fôlego e dominassem o debate político. Para essa linha, a crise nada tinha a ver com as contradições do próprio processo de acumulação de capital do pós-guerra, mas apenas era algo relativo a erros cometidos pelos governos interventores na lógica natural dos mercados. Iniciam-se as pressões para desmantelar a estrutura institucional que havia promovido a mundialização produtiva do capital, a internacionalização. Havia se esgotado a capacidade de esse aparato dar continuidade ao processo de acumulação. Não interessava mais ao grande capital multinacional que já havia ocupado os espaços relevantes no mundo. Vale lembrar que a China passará a ser alternativa de fato apenas nos anos 1980.

O capital agora mundializado, sem novos lugares para ocupar, buscava os espaços de outros capitais promovendo um amplo processo de reestruturação produtiva em escala global. Esse já era um processo que ocorria em escala local para reconstituir as bases de acumulação pela eliminação dos capitais supérfluos, mecanismo que acaba por fortalecer e dar novo fôlego para a acumulação ampliada para os capitais que conseguem sobreviver. Marx denominou esse processo de eliminação de capitais supérfluos pelo próprio capital como centralização de capital.14

O capital agora não estava mais confinado em um Estado nacional, e as ações para permitir tal processo de ajuste da estrutura produtiva deveriam envolver a escala mundial. O capital precisava de liberdade para se reestruturar em processos de fusões, aquisições, relocalização de plantas produtivas, maneiras concretas para suprimir o capital excedente e proporcionar nova onda de acumulação. Era necessário ao mesmo tempo dar liberdade ao capital financeiro para financiar esses processos, mas também para, na desaceleração, buscar novas formas de valorização, quaisquer se fossem. A necessidade de reestruturação produtiva demonstra claramente que naquele momento o mundo apresentava sinais de sobreacumulação – existência de capitais supérfluos que precisavam ser suprimidos. A única forma de sobrevivência das empresas era a reestruturação produtiva. De outro lado, a única forma de valorização do dinheiro vadio era a busca de novos ativos que não produtivos.

A crise se manifesta no fato de que os lucros obtidos da exploração não encontram saídas suficientes em investimentos rentáveis para desenvolver a capacidade de produção. A administração da crise consiste em encontrar outras saídas para esse excedente de capitais livres a fim de evitar sua desvalorização maciça veloz. (Amin, 2003, p.31)

Agora, em escala global, inicia-se a pressão para a criação de um ambiente que viesse a favorecer a centralização mundial do capital. Para tal, o capital precisava de liberdade total de movimento. Como concentrar sua produção de um tipo de peça em apenas um país sem a liberdade de comércio? Como financiar essa reestruturação sem que o capital financeiro fluísse livremente? Era preciso tirar os Estados nacionais do caminho, principalmente os periféricos, desmontar o aparato institucional que dificultava esse movimento internacional. De forma contraditória, a fórmula estava em utilizar o Estado, especialmente os Estados dos centros hegemônicos, para exercer pressão pela liberalização (cf. Chesnais, 1995, p.2-3). As bases materiais para a propaganda liberal mundial estavam postas. As teorias econômicas para respaldá-las foram recuperadas nas prateleiras.

A desregulamentação completa das economias (cf. Chesnais, 1995; Aglietta & Barrebi, 2007; Michalet, 2007, p.81; Belluzzo, 1999) sob o controle dos Estados dos centros hegemônicos, preconizada e defendida politicamente no "Consenso de Washington", colocou os Estados nacionais em razão da reestruturação do capital. Tomou vulto internacional ao longo dos anos 1980-1990. Em seu bojo, vieram as pressões para a supressão das políticas de Estado de Bem-Estar Social, uma maneira adicional de as empresas diminuírem seus custos para elevar suas taxas de lucro. Além disso, no processo de desmantelamento dos Estados nacionais, o mundo mergulhou em uma onda de privatizações que acabaram também por fornecer espaços adicionais para a acumulação privada em novos setores, garantindo novo espaço para os capitais ociosos.

É importante destacar que o processo de centralização de capital libera ainda mais capital financeiro ocioso, dado que a reestruturação produtiva diminui as bases reais de acumulação existentes. Além disso, as empresas produtivas que subsistem elevaram suas taxas de lucro pela supressão de outros capitais menores, pelas políticas de reengenharia e otimização produtiva. Eleva-se o volume de capital financeiro ocioso no sistema em busca da valorização que não encontra no âmbito da produção real. Eleva-se, portanto, o excesso de capital financeiro em busca de valorização, que vagará pelo mundo em busca de ativos rentáveis.

As políticas anti-inflacionárias baseadas em taxas de juros elevadas dos anos 1970-1980 com emissão de dívida pública contribuíram para dar lucratividade a esses capitais financeiros supérfluos que no processo de reestruturação se avoluma. A manifestação da crise com inflação em um mecanismo apelidado de estagflação marcava uma situação que só era possível por conta do grau de oligopolização em escala mundial que dominou a economia pós-internacionalização produtiva. Não tinha nenhuma relação com a tradicional inflação de demanda. De qualquer forma gerou, por meio de políticas contracionistas dos bancos centrais, ativos financeiros públicos com rentabilidade suficiente para permitir certa valorização do capital dinheiro ocioso.

A desregulamentação do mercado financeiro que acompanha o processo libera, em parte, o capital ocioso para financiar a reestruturação produtiva,15 mas, em maior parte, cria mecanismos de rentabilidade fictícia fora do âmbito da produção. Grande parte do lucro das empresas produtivas pode ser realizada no mercado financeiro e não pela produção em si. Além disso, essa rentabilidade passa a conduzir a própria estratégia administrativa das empresas. A sua rentabilidade financeira é que conta para seus acionistas. Esse mecanismo acelera em muito a onda especulativa que se cria gerando lucros fictícios para as próprias empresas, problemas que só se radicalizam e que serão os catalisadores para a crise financeira.

O surgimento do espaço China em meio a esse processo, uma variável inesperada, traz novos elementos a esse cenário. Apresenta-se tardiamente no processo de mundialização como um importante espaço de expansão para o capital produtivo. Segundo Aglietta & Barrebi (2007), um espaço que, ao mesmo tempo que contribui para retardar a crise, potencializou as contradições. Não foi um espaço criado como resultado da liberalização defendida no Consenso de Washington, como aplicado na Rússia que resultou em seu quase total colapso. A China, dispondo de forte aparato regulatório Estatal sem nenhum liberalismo ideológico, construiu uma estratégia de inserção na economia mundial inovadora. Atraiu o capital multinacional que buscava espaço de valorização do mundo para dentro de sua fronteira sob seu estrito controle16 (sempre como joint-venture com garantia de transferência de tecnologia), dando-lhe garantia de rentabilidade pelo controle político sobre os mercados e mão de obra barata. Recebeu investimentos maciços ao longo dos anos 1990. Criou uma estrutura industrial que inundou a Europa e os Estados Unidos de produtos manufaturados extremamente baratos, produzidos em parte por grupos multinacionais desses países e de seus vizinhos asiáticos.

A China proporcionou novo espaço de acumulação para o capital mundial, ao mesmo tempo que criou enormes contradições. Conforme apontam Aglietta & Barrebi (2007), acelerou e impôs modificações estruturais nos mercados de trabalho mundiais. Para competir, Europa e Estados Unidos tiveram que, sob pressão de seu capital (ameaça de deslocalização-desindustrialização), cortar salários, desregulamentar o mercado de trabalho e eliminar benefícios.17

Se, de um lado, essa pressão por baixos salários contribuiu para elevar os lucros das empresas do Ocidente e as tornou mais competitivas, de outro, aumentou o risco de subconsumo lado a lado ao excesso de produção pela inundação de produtos chineses no mundo, criando e ampliando as contradições que já ameaçavam o capitalismo. O subconsumo apenas não se manifestou de imediato em razão da elevação do endividamento das famílias, possível apenas em parte pelo excesso de capital financeiro ávido para funcionar como capital de empréstimo. O resultado da preservação de certo nível de consumo impediu o sistema de notar as contradições que cresciam, não deixando aparecer a superprodução (cf. ibidem).

A queda nas taxas de juros nos anos 1990 reforçou esse processo e foi resultado não apenas do excesso de liquidez de capital financeiro no mundo, mas especialmente da política dos bancos centrais diante da baixa da inflação, invertendo a situação vivida nos anos 1980. O crescimento das exportações chinesas de manufaturados criou uma pressão baixista sobre os preços dos produtos industrializados no mundo. Nem a elevação brutal dos preços das commodities e outras matérias-primas que passou a ocorrer conseguiu exercer pressões inflacionárias. A pressão chinesa sobre os preços globais foi forte o suficiente para quebrar o poder dos oligopólios norte-americanos e europeus, de um lado, enfraquecidos no centro, e de outro, cooptados a produzir na própria China. Portanto, como não havia pressões inflacionárias, os bancos centrais focados apenas em "metas de inflação" não viam nenhuma razão para elevar as taxas de juros (ibidem). Assim, pelo endividamento das pessoas e das empresas, estava aberta a porta para criação de um mercado que possibilitasse a realização do excesso de produção que havia no mundo, pelo menos por um tempo.

Adicionalmente, a entrada da economia chinesa nos mercados cria ainda outra situação insustentável pelos enormes superávits comerciais que essa passa a ter com a economia norte-americana (cf. Rodrik, 2009). Para além desse problema em si, excessos de reservas chinesas em dólar inundam o mercado financeiro europeu e dos Estados Unidos de dinheiro ocioso em busca de valorização, dinheiro que vem a se somar com os já elevados montantes que havia em circulação no mundo em decorrência das próprias contradições antes apontadas.

Se, em parte, a sobreacumulação de capital dos anos 1970-1980 havia, até certo ponto, encontrado alguma solução – que se mostra temporária e parcial – nos processos de reengenharia e centralização mundial de capital que tomam corpo principalmente nos anos 1990, na desestruturação produtiva dos Estados nacionais pelas privatizações, na desregulamentação do mercado financeiro, bem como no advento da China como um novo espaço de acumulação, novas contradições muito mais radicais se estabelecem na economia mundial nos anos 2000.

Não havia como imaginar que esse processo de contradições crescentes pudesse se perpetuar. Como apontou Samir Amin (2003, p.24):

O período, que ainda não terminou, não é portanto o da instauração de uma nova ordem mundial, como alguns se contentam em dizer com excessiva frequência, se não de um caos que estamos longe de superar. As políticas aplicadas nessas condições não respondem a uma estratégia positiva de expansão do capital: só procuram administrar a crise. E não conseguirão porque o projeto espontâneo produzido pela dominação imediata do capital, ante a ausência de marcos impostos por forças da sociedade mediante reações coerentes e eficazes, continua sendo uma utopia, a utopia de que o chamado mercado, quer dizer, os interesses imediatos, em curto prazo, das forças dominantes do capital, podem levar adiante a gestão do mundo.

A crise

Procurou-se demonstrar que pensar a crise atual simplesmente como elemento externo à lógica do processo de acumulação mundial de capital, como um problema de pânico que às vezes pode atacar os mercados, como uma questão de bolhas – interessantemente irracionais –, não permite que se alcance o centro da questão, que não está na aparência. A bolha ou o pânico são formas de manifestação da crise, manifestação de um processo que se esgotou e que está desde pelo menos 1970 se (des)construindo diante da impossibilidade de o capital continuar seu processo de acumulação ampliada em escala mundial da maneira como se estruturou no pós-guerra.

A ideia de que a desregulamentação do sistema financeiro foi uma das causas da crise que se materializou em pânico é verdadeira, mas, como procurou-se mostrar, é necessário verificar que elementos concretos da realidade levaram a essa enorme pressão pela desregulamentação dos mercados que acompanhou a escalada do dólar como moeda internacional praticamente afastando-o dos controles nacionais tradicionais. Mesmo esse fenômeno, em parte causa da crise atual, foi um fenômeno histórico que cumpriu determinado papel ao interesse do capital por motivos determinados, e que, diga-se de passagem, de fato abriu espaço para a reestruturação produtiva do capital que lhe permitiu talvez não entrar em crise antes.

A crise é o resultado da constituição de uma economia mundial dominada pela grande empresa e pelos grandes agentes financeiros que se mundializaram.

O predomínio e a capacidade de controle da grande empresa sobre os mercados encontram ambiente favorável no desenvolvimento da nova finança… Ao mesmo tempo, o caráter globalizado dos mercados permite às empresas o acesso aos mecanismos de hedge e de proteção contra flutuações das taxas de câmbio e variações nas condições de crédito nos diversos países. (Belluzzo, 1995, p.18)

Nada disso é causado por pânico, mas acaba por causá-lo quando os agentes percebem que estão valorizando sua riqueza sobre algo completamente fictício, títulos que se desvincularam de suas bases reais.

A crise, portanto, não é exclusivamente um fenômeno financeiro decorrente da falta de regulação ou de pânico entre os agentes. Há o problema da falta de regulação e há pânico, mas esses são já manifestações da crise, resultado de contradições que se constituem no seio do próprio processo de acumulação que atua em escala mundial, muito mais agora do que nos anos 1930.

O movimento livre dos capitais ao longo dos anos 1990, que caracterizaram um amplo processo de centralização de capitais, era o prenúncio da crise, uma manifestação da superacumulação de capital mundial. O movimento de industrialização acelerada na China, que teve lugar, em conjunto com o fenômeno da reestruturação global do capital, ao mesmo tempo que retardou a crise, funcionou como um catalisador para sua amplitude e gravidade. Uma vez realizada a reestruturação de cada capital individual, uma vez completo o processo de industrialização chinesa pela transposição de capitais transnacionais para dentro de suas fronteiras, ambos os fatores responsáveis pelo crescimento da economia mundial nos últimos anos, as contradições se radicalizaram. A crise é resultado do próprio processo de acumulação, é gestada dentro dele. Apenas manifesta-se como crise financeira.

Esgotado o espaço e o ritmo dos novos investimentos, o capital excedente vadio aparece em busca de valorização que já não pode mais se dar produtivamente. Busca outras formas de valorizar-se comprando ativos já existentes, ativos que representam riqueza existente – títulos financeiros. Esse processo valoriza esses ativos, independentemente da base real que lhes deu origem. As inovações financeiras contribuem para afastar ainda mais esses ativos de suas bases reais, aparentemente reduzindo-lhes o risco e tornando-o imperceptível para os mercados, exacerbando a característica fictícia dessa riqueza.

As contradições que resultaram do próprio processo de acumulação impulsionam o capital como dinheiro que não retorna à sua forma capital-produtivo para a criação de novos ativos, seus representantes, como se o próprio dinheiro em sua forma de ativos financeiros, direitos sociais sobre a riqueza, fossem eles mesmos riqueza real, mas que, como derivados, já estavam muito distante de suas bases reais originais, e por isso foram valorizados sem nenhuma ligação concreta com elas. Esse é um mecanismo típico do capitalismo. A diferença hoje está talvez na criatividade dos mercados financeiros e no fato de, no decorrer da história, cada vez mais desprender-se da escala nacional, bem como do controle dos Estados nacionais.

Parece claro que existia, como em outros momentos, excesso de liquidez no sistema financeiro mundial em busca de aplicações rentáveis. Tanto isso é claro que os bancos teoricamente norte-americanos emitiam dívidas contra hipotecas e conseguiam revendê-las facilmente a outros bancos espalhados pelo mundo, especialmente na Europa. A contaminação de todo o sistema financeiro dos países centrais com esses títulos derivados de hipotecas e outros, derivados de derivados, deixa claro que havia excesso de dinheiro no mundo em busca de aplicações rentáveis que não podiam ser realizadas pelo capital produtivo. Em parte por conta do excesso de acumulação como capital produtivo; em parte porque a rentabilidade do capital fictício prometida era inviável para qualquer capital produtivo, a não ser que esse, em vez de colocar-se de fato na produção, alimentasse o circuito do capital fictício, como de fato ocorreu e ficou claro pelo volume de empresas produtivas que estavam penduradas em ativos especulativos. Estava manifesta a crise.

A crise capitalista, em sua aparência, é um dos fenômenos mais irracionais que existe. Não é por menos que os neoclássicos liberais têm enormes dificuldades em enxergá-la. Meios de produção deixam de ser utilizados, pessoas aptas e desejando trabalhar ficam ociosas, uma enorme quantidade de necessidades ficam insatisfeitas e, mesmo assim, ninguém se move, ninguém produz nada. Para a lógica neoclássica microeconômica isso não faz nenhum sentido. Para eles, o pleno emprego natural é dado pela capacidade que cada indivíduo possui de produzir bens para satisfazer suas necessidades, não havendo razão lógica para não fazê-lo em um mundo no qual a liberdade lhe está garantida e as necessidades o movem. O que não conseguem perceber é que essa liberdade só de fato seria possível se não houvesse monopólio sobre os recursos produtivos. Recursos ociosos, de um lado, e necessidades sociais não satisfeitas, de outro, só são possíveis no capitalismo. Isso ocorre porque o objetivo da produção muito pouco ou nada tem a ver com a satisfação de necessidades humanas. Seu foco é obter ao final dinheiro acrescido de valor. Se isso não ocorre, não haverá produção e a crise se estabelece. No capitalismo, o objetivo é ganhar dinheiro e mais dinheiro18 num processo sem limites (cf. Marx, 1980, Livro I, cap.II e III; 2004).

Notas

1 Em referência à teoria do caos de Gleick (1990).

2 Essa ideia é compartilhada por Korten (1996).

3 Einchengreen (2000) detalha toda a história do sistema financeiro internacional desde Bretton Woods.

4 Ver interessante debate de Friedman realizado em 1970, publicado em Friedman (2008).

5 Ver Lucas & Sargent (1979) e a análise sobre a ideia desses atores em Ferreira (2003).

6 Nome do capítulo do conhecido e adotado manual de macroeconomia de Olivier Blanchard (2007).

7 Oliveira Lima (1997) e Fernado Cardim de Carvalho (1989) recuperam a relação de Keynes com Marx.

8 A análise desse movimento preconizado por Marx é feita em Sawaya (2006, cap.1).

9 O argumento é de Marx (1980), mas foi analisado em Sawaya (2006).

10 Entretanto, não desapareceram.

11 Palloix (1971), Michalet (1984, 2002, 2007) e Chesnais (1995) são importantes referências para entender esses processos de internacionalização do capital.

12 Estima-se que 40% do mercado mundial ocorram entre filiais e matriz de uma mesma empresa (Michalet, 2007, p.7).

13 Esse processo ainda não se caracteriza como deslocalização, um fenômeno dos anos 1990.

14 Esse processo é analisado em Sawaya (2006).

15 O debate sobre a liberalização financeira para eliminar a "repressão financeira" encontra-se em Fry (1988).

16 A estratégia chinesa foi analisada em Sawaya (2008).

17 Segundo Krugmann (2008), nos últimos anos os salários perderam importante participação no PIB dos Estados Unidos.

18 É bom destacar que o conceito de dinheiro não é apenas moeda, papel moeda, mas meio de pagamento que envolve todos os direitos sobre a riqueza social, ou seja, envolve os meios de pagamento que estão sob a forma de títulos financeiros.

Fonte: IEA USP – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issues&pid=0103-4014&lng=pt&nrm=iso

Pressiona que eu escuto

RENATO LESSA

O processo que exclui das eleições os chamados ‘fichas sujas’ foi deflagrado por iniciativa exterior ao Parlamento e aos partidos; acolhido por alguns congressistas, tomou forma de projeto de lei.

Não é que os Parlamentos em geral possuam limitada disposição para autorreforma. Na verdade, costumam introduzir alterações regimentais internas, com impacto sobre a distribuição de poder entre as suas partes. De acordo com a direção da mudança adotada, líderes podem ser fortalecidos, em detrimento das bancadas, ou vice-versa; procedimentos de autodepuração podem ser aperfeiçoados, ou transformados em mecanismos de autoproteção. Enfim, são muitas as possibilidades, e parlamentares – aqui e alhures – além de legislar, alteram as condições sob as quais legislam.

Menos frequente é a autorreforma voltada para restringir as "liberdades" dos parlamentares. Com o termo aspeado quero designar processos de mudança que incidem sobre parlamentares e seus mandatos. Não é que não haja, no interior do Congresso brasileiro, vozes favoráveis a reformas e à introdução de algum controle público sobre o que fazem os parlamentares, sobre como obtêm mandatos, os compreendem e os exercem. O fato é que, por minoritárias, dificilmente reúnem condições políticas para deflagrar processos de mudança na matéria.

O tema é sensível e explosivo. É de recordar, por exemplo, a "doutrina" da propriedade pessoal do mandato, diante de propostas de limitação, advindas do Judiciário, da troca de partidos. Pela "doutrina", o mandato cola-se à persona de seu detentor, por toda a duração de sua investidura, independentemente da mobilidade de seus vínculos partidários.

De um modo geral, tem sido o Judiciário o responsável por introduzir reformas que operam como regulações externas à atividade dos parlamentares. O próprio Tribunal Superior Eleitoral, há algo como um ano, considerou a matéria da vida pregressa de candidatos. O tema incide sobre o modo pelo qual a pretensão a ter uma biografia política insere-se na biografia, digamos, geral do sujeito em questão. Deve a vida pregressa ser considerada para avaliar se alguém pode desempenhar funções eletivas?

Voto vencido na ocasião, o ministro Ayres de Brito sustentou que não fazia sentido não aplicar aos que postulam ocupar cargo eletivo as mesmas restrições que se apresentam a pretendentes a outras funções públicas. Perguntava: haverá função pública mais relevante do que a do exercício de um mandato eletivo?

Entendeu o plenário do TSE, na altura, que decidir em tal direção implicava usurpação legislativa e fazer uma nova lei a respeito de inelegibilidades, e não a interpretar e aplicar o quadro jurídico existente, tal como gostaria o bom Montesquieu. Em tempos de judicialização da política, esse foi um notável momento, ainda que seletivo, de autocontenção.

Vida que segue, a alternativa à questão passou a depender do que fariam os parlamentares, detentores não exclusivos da função de legislar. De modo ainda mais remoto cabe registrar a defesa da rejeição, in limine, de qualquer intervenção no "mercado político", com a consequente atribuição ao "eleitor" do papel de manejar a cimitarra reparadora.

O capítulo mais recente da história, contudo, foi ordenado por enredo distinto: nem decisão autônoma de autorreforma, por parte do Parlamento, nem a espera fideísta pela manifestação da sabedoria do "eleitor". O processo, em andamento distinto, foi deflagrado por uma iniciativa exterior ao Parlamento e aos partidos – por meio de proposta popular de legislação que exclui das eleições os chamados "fichas sujas". A iniciativa acolhida por alguns parlamentares tomou a forma de projeto de lei.

A adesão dos demais parlamentares pode sempre ser debitada na conta do cinismo e do oportunismo. Temo não ser esta a melhor leitura a fazer do episódio. Independentemente da incidência temporal de seus efeitos – se para já, ou para daqui a dois anos -, a iniciativa que associou uma ação autônoma de um conjunto de cidadãos e entidades a parlamentares é uma boa notícia para os hábitos representativos locais. Se lido em chave apropriada, duas ordens de reflexão distintas podem ser desenvolvidas.

Em primeiro lugar, a iniciativa é um experimento que indica algum aprendizado, por parte de cidadãos e parlamentares, a respeito do que pode significar o vínculo da representação. A percepção madura da liderança do movimento a respeito das alterações feitas pela Câmara ao projeto original foi significativa. Embora algumas alterações produzam efeitos atenuantes, compreendeu-se a necessidade da mudança, por razões táticas e pelo entendimento de que é legítimo que o Legislativo exerça um papel de filtragem.

Por fim, trata-se de compreender que a qualidade da representação está associada à qualidade da demanda social por representação. Quer isto dizer que é necessário que os corpos legislativos sejam interpelados "de fora". Sua qualificação não decorre de processos internos e autárquicos, imaginados por engenheiros legislativos, mas da tensão entre um exterior – o demos, e sua capacidade de exercer pressão eficaz – e um interior, do qual deve se exigir capacidade de escuta e criatividade institucional. No caso em questão, pressão e escuta, igualmente adequados, acabaram por dar sentido à ideia de representação. É torcer para que a moda pegue.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Nasce um novo movimento climático na Bolívia

Naomi Klein

Bolívia

Cochabamba, Bolívia. Eram 11 da manhã e Evo Morales tinha transformado o estádio de futebol numa gigantesca sala de aula, e tinha disposto organizadamente uma variedade de objetos de utilidade cotidiana: pratos de papelão, copos de plástico, capas de chuva descartáveis, xícaras feitas a mão, pratos de madeira e ponchos coloridos. Todos esses objetos desempenharam um papel para demonstrar um ponto central: para lutar contra a mudança climática necessitamos recuperar os valores dos indígenas.

No entanto, os países ricos têm pouco interesse em aprender essas lições e, ao contrário, promovem um plano que, no melhor dos casos, aumentaria a temperatura global em média dois graus centígrados. Isso implicaria o derretimento das geleiras dos Andes e do Himalaia, disse Morales a milhares de pessoas reunidas no estádio, participantes da Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra.O que não era preciso dizer é que não importa o quão sustentável decida viver o povo boliviano, porque ele não tem poder para salvar suas geleiras.

A cúpula climática na Bolívia teve seus momentos de alegria, leveza e absurdos. No fundo, porém, sente-se a emoção que esse encontro provocou: a raiva diante da impotência.

Não há com que se surpreender. A Bolívia está em meio a uma dramática transformação política, que nacionalizou indústrias chave e elevou como nunca as vozes indígenas. No que concerne à sua crise existencial mais urgente, porém – o fato de que suas geleiras estão derretendo numa velocidade alarmante, que ameaça o fornecimento de água em duas de suas principais cidades -, os bolivianos não podem mudar seu destino por si mesmos.

Isso porque as ações que provocam o derretimento das geleiras não ocorrem na Bolívia, mas nas rodovias e zonas industriais dos países fortemente industrializados. Em Copenhague, os dirigentes das nações em perigo, como Bolívia e Tuvalu, argumentaram apaixonadamente em favor de um padrão na redução da emissão de gases que poderiam evitar uma catástrofe. Disseram-lhes amavelmente que a vontade política no Norte simplesmente não existia. E mais: os Estados Unidos deixou claro que não necessitava de que países pequenos como a Bolívia, fizessem parte de uma solução climática; negociaria um acordo a portas fechadas com outros emissores pesados de gases e o resto do mundo seria informado dos resultados e convidado a assinar, o que é precisamente o que se passou em Copenhague. Quando a Bolívia e o Equador se recusaram a aprová-lo, automaticamente o governo estadunidense cortou suja ajuda em 3 milhões e 2,5 milhões de dólares, respectivamente. Não é um processo gratuito, explicou Jonathan Pershing, negociador para assuntos climáticos estadunidense. (Aqui está a resposta para quem quer que se pergunte por que os ativistas do Sul rechaçam a idéia do apoio climático e, em troca, exigem o pagamento de dívidas climáticas). A mensagem de Pershing era de arrepiar: se és pobre, não tens direito a priorizar tua própria sobrevivência.

Quando Morales convidou os movimentos sociais e os defensores da mãe terra, cientistas, acadêmicos, advogados e governos a virem a Cochabamba para um novo tipo de cúpula climática, ocorreu uma revolta contra essa sensação de impotência; foi uma tentativa de construir uma base de poder em torno do direito de sobrevivência.

O governo boliviano tomou a frente nas discussões, propondo quatro grandes idéias: que se deveria outorgar direitos à natureza que a protejam da aniquilação dos ecossistemas (uma declaração universal dos direitos da mãe terra); que aqueles que violem esses e outros acordos ambientais internacionais deveriam responder legalmente (um tribunal de justiça climática seria instituído); que os países pobres deveriam receber vários tipos de compensação por uma crise que enfrentam mas que pouco contribuíram para instalação (dívida climática); e que deveria haver um mecanismo para que as pessoas ao redor do mundo expressassem seus pontos de vista sobre esses temas (um referendum mundial dos povos sobre a mudança climática).

A etapa seguinte consistiu em convidar a sociedade civil global a seguir discutindo os detalhes. Instalaram-se 17 grupos de trabalho e depois de semanas de discussão online reuniram-se em Cochabamba, com o objetivo de apresentar suas recomendações finais ao término da cúpula. O processo é fascinante mas longe de ser perfeito (por exemplo, como assinalou Jim Shultz, do Democracy Center, parece que o grupo de trabalho sobre o referendum investiu mais tempo discutindo se acrescentaria uma pergunta a respeito da abolição do capitalismo do que discutindo como se faz para levar a cabo uma consulta global). No entanto, o compromisso entusiasta da Bolívia com a democracia participativa poderia ser tomado como a contribuição mais importante da cúpula.

Isso porque, depois da débâcle de Copenhague, um tema de discussão tremendamente perigoso se tornou virótico: o verdadeiro culpado do fracasso era a própria democracia. O processo da Organização das Nações Unidas (ONU), que dá o mesmo peso a votos de 192 países, simplesmente era difícil demais de manejar. Era melhor encontrar soluções em grupos pequenos. Até vozes ambientais de confiança, como James Lovelock, caíram na armadilha. Tenho a sensação de que a mudança climática pode ser um tema tão severo como a guerra, disse Lovelock ao The Guardian, recentemente. Quiçá seja necessário pôr a democracia em pausa durante um tempo. Mas na realidade são esses pequenos grupos, como o clube privado que forçou o Acordo de Copenhague, os que propiciaram a perda de terreno e a debilidade dos acordos existentes, que por si sós são inadequados. Em troca, a política de mudança climática levada a Copenhague pela Bolívia foi escrita pelos movimentos sociais por meio de um processo participativo e o resultado final foi, até o momento, a visão mais transformadora e radical.

Com a cúpula de Cochabamba, a Bolívia tenta globalizar o que conseguiu em escala nacional e convidar o mundo a participar da redação de uma agenda climática conjunta, antes do próximo encontro sobre mudança climática da ONU, em Cancún. Nas palavras do embaixador da Bolívia nas Nações Unidas, Pablo Solón, a única coisa que pode salvar a humanidade de uma tragédia é o exercício da democracia global.

Se isso é correto, o processo boliviano poderia não só salvar ao nosso planeta, que está com temperaturas em alta, mas também as nossas democracias em vias de fracasso. Não é um mal acordo, absolutamente.

Tradução para Carta Maior: Katarina Peixoto

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

Bilionários do mundo ficaram 50% mais ricos em 2009

Andre Damon

O ano de 2009 será lembrado por milhões de pessoas comuns como o ano em que perderam o seu emprego, sua casa, ou a perspectiva de uma educação. Para os ricos, no entanto, foi uma mina de ouro.

Bilionários mundiais viram sua riqueza crescer 50%no ano passado, e suas fileiras incharem para 1.011, dêem comparação a 793, segundo a última lista de bilionários da Forbes.

O patrimônio líquido combinado dessas 1.011 pessoas aumentou para US$3,6 trilhões, 1,2 trilhões de dólares a mais do que no ano anterior. Em média, cada bilionário teve sua riqueza aumentada em US$ 500 milhões.

Quatrocentos e três bilionários residem nos Estados Unidos. Eles constituem apenas 0,00014%da população total do país, mas controlam 8%da riqueza nacional. Cada um destes indivíduos tem 300 milhões de vezes mais riqueza do que a média dos habitantes dos EUA.

A lista inclui 21 gestores de fundos hedge (de alto risco), que, como um grupo, mais do que compensaram qualquer prejuízo que sofreram em 2008. Alguns deles, incluindo James Simons, John Arnold, e George Soros, arrecadaram lucros tanto durante o colapso quanto na recuperação do mercado.

No topo da lista dos administradores de fundos hedge mais ricos ficou John Paulson, com US$32 bilhões. Paulson fez bilhões em 2008, apostando que o mercado imobiliário iria entrar em colapso, e mais bilhões através da recuperação da bolsa em 2009.

Apenas um dos 21 gestores de fundos hedge na lista da Forbes no ano passado foi eliminado. Este foi Raj Rajaratnam do Galleon Group, preso no ano passado sob a acusação de insider trading (uso de informação privilegiada por funcionário de uma empresa para lucrar no mercado de capitais).

Os administradores de fundos hedge James Simons, John Arnold, e David Tepper tiveram retornos médios de 62%, 52% e 31%, respectivamente, entre 2008 e 2010. David Tepper fez 2,3 bilhões dólares no ano passado, enquanto a riqueza de John Paulson cresceu por volta de US$6 bilhões.

O número de bilionários dos EUA cresceu para 403, contra 359 no ano passado. A região Ásia-Pacífico teve 234 bilionários listados, contra 130 no ano passado. A Europa tem 248 bilionários, apesar de ter o dobro da população dos Estados Unidos.

As 1.011 pessoas desta lista comandam uma quantidade fenomenal de riqueza pessoal. Suas posses são maiores do que o produto interno bruto de qualquer país, exceto China, Japão e Estados Unidos. A riqueza dos 403 bilionários dos EUA poderia mais do que cobrir o déficit federal dos EUA de 2008, com dinheiro sobrando para os estados.

Embora o número de bilionários na lista esteja um pouco abaixo do número mais alto alcançado em 2007, 1.125, ele representa uma recuperação fenomenal. Nesse ritmo, o número de multimilionários, mais uma vez, atingirá níveis recordes no próximo ano.

Carlos Slim Helú, o magnata das telecomunicações mexicano, subiu para a primeira posição na lista com US$53,5 bilhões, superando os americanos Bill Gates ($53 bilhões) e Warren Buffett ($47 bilhões). A riqueza dos três homens subiu drasticamente. Ao longo dos últimos anos, Slim Helú fez cerca de 27 milhões dólares por dia em comparação com o rendimento médio diário de $16,50 dos trabalhadores mexicanos.

Os ricos da Índia e da China estiveram entre os que mais ganharam. "Pela primeira vez, a China continental tem o maior número de bilionários fora dos EUA", Forbes disse na sua declaração. Os cidadãos dos EUA ainda dominam os rankings,mas o troféu já começa a escorregar."

Os gestores de fundos hedge e investidores na lista se beneficiaram diretamente dos resgates a bancos, que transferiu grandes somas de recursos públicos para as contas das maiores empresas financeiras. Mas os bilionários em todas as outras indústrias também foram beneficiários indiretos do programa do governo de transferência de riqueza.

O Wall Street Journal, comentando os números, escreveu: "Como os ricos mundiais ficam mais ricos? Os mercados de ações… Em suma, o que o mercado de ações tirou, o mercado de ações devolveu – pelo menos para os bilionários".

Mas a recuperação do mercado de ações em si não é por acaso; foi o resultado direto das políticas desenvolvidas por ambos os partidos políticos dos EUA. A ajuda foi financiada por uma política de austeridade fiscal e pelo elevado desemprego. O rápido aumento na riqueza dos multimilionários é o resultado do empobrecimento de dezenas de milhões; Ele é a outra face do desemprego em massa, pobreza, cortes nos serviços públicos, e execuções hipotecárias.

Além da ajuda direta do governo aos bancos e super-ricos, o principal motor da recuperação dos lucros das empresas e, assim, do mercado de ações, foi o crescimento da produtividade e a redução do tamanho das empresas.

Em 2009, a taxa de desemprego aumentou de 7,7% para 10%, três milhões de empregos foram perdidos, e os salários caíram drasticamente. Milhões de famílias perderam suas casas e ficaram desalojadas. Mas a produtividade, a quantidade de produtos que é produzida a partir de cada hora de trabalho, teve um aumento de 7%.

O dinheiro liberado através da destruição dos programas sociais, do aumento de produção dos funcionários, e das reestruturações de empresas encontrou seu caminho para os bolsos das pessoas na lista da Forbes.

Fonte: World Socialist Web Site – www.wsws.org

Em busca do Eldorado africano

No século XIX, os relatos sobre Timbuktu, cidade repleta de riquezas às portas do deserto do Saara, fascinaram os europeus. A procura pela vila perdida abriu caminho para a conquista do interior do continente

Françoise Labalette

A cidade retratada no caderno de viagem de Caillié.

No início do século XIX, o interior da África ainda era um universo desconhecido para os europeus. Instalados havia séculos no litoral, eles não tinham se aventurado por aquelas terras, e as informações que tinham daquela parte do continente se resumiam aos relatos dos gregos antigos e dos viajantes árabes que exploraram a região a partir da Idade Média.

Entre esses relatos destacava-se a Descrição da África, obra de um viajante muçulmano chamado Hasan al-Wazzan (1488-1548). Nascido na Espanha e radicado no Marrocos, ele ficou conhecido como Leão, o Africano. Em seu texto, Hasan descreve a visita que fez a Timbuktu, principal entreposto das caravanas comerciais que cruzavam o deserto do Saara no século XVI. O relato, que fala de uma cidade maravilhosa, próspera, misteriosa e atraente, fascinou os europeus.

A única pista para esse eldorado africano era o curso do rio Níger, mas o seu traçado ainda era um enigma para os europeus nas primeiras décadas do século XIX. Não é à toa que a busca pelas fontes do Níger mobilizava exploradores desde 1795, quando a sociedade científica inglesa African Association financiou uma expedição liderada pelo médico escocês Mungo Park.

O francês René Caillié, que encontrou em 1828 a cidade lendária

Partindo da Gâmbia, em julho de 1796, Park chegou ao Níger na altura da cidade de Ségou, no atual Mali, constatou que o rio corria para o leste. Em uma segunda expedição, organizada em 1805, ele percebeu que o curso do rio, depois de se dirigir ao norte, fazia uma curva e rumava para o golfo da Guiné. Mungo Park e seus companheiros, porém, morreram naquele mesmo ano nas corredeiras de Boussa, na atual Nigéria. O mistério da foz do Níger só seria desvendado em 1830, quando os irmãos Richard e John Lander finalmente chegaram ao delta do rio.

Enquanto isso, os franceses preparavam sua própria expedição pela região. No dia 3 de dezembro de 1824, a Sociedade de Geografia do país lançou o “Estímulo a uma viagem a Timbuktu e ao interior da África”, oferecendo um prêmio ao primeiro viajante que chegasse à cidade do deserto. A convocação atraiu a atenção de um jovem chamado René Caillié, então com 25 anos. Fascinado pelas aventuras de Robinson Crusoé, Caillié já havia viajado duas vezes para a África e vivido por oito meses entre os mouros braknas no norte do Senegal, onde aprendera árabe e entrara em contato com os costumes muçulmanos.

Munido dessa bagagem cultural, René Caillié aceitou o desafio de partir em busca de Timbuktu. Começou sua viagem pelo norte da atual República da Guiné, onde desembarcou em março de 1827. Em 19 de abril, iniciou a marcha rumo ao interior acompanhando o curso do rio Nunez a partir da vila de Kakondy, próxima à cidade de Boké. Levava trezentos francos em ouro e prata, remédios, pólvora, papel, fumo, vidrilhos, âmbar, coral, lenços de seda, tesouras, facas, espelhos, cravo-da-índia, três peças de tecido de algodão azul e um guarda-chuva para se proteger do sol. E ia acompanhado de um pequeno grupo de africanos da etnia dos mandingos.

Não levava consigo nenhum instrumento de astronomia nem relógio, apenas duas bússolas. Apresentava-se como muçulmano para não arriscar ser expulso ou mesmo assassinado como europeu infiel. Vestia o coussabe, uma blusa sem mangas de pano azul, e sandálias. Adotou o nome de Abdala, “escravo de deus”, e se fazia passar por pobre para não despertar a cobiça dos locais.

Embrenhou-se na floresta tropical de Fouta-Djalon, ainda na atual Guiné. Em terras mandingas, conheceu a fome, contraiu febres, e machucou seriamente os pés. Ao chegar a Tiemé, no extremo norte da atual Costa do Marfim, foi obrigado a parar, pois adoeceu de escorbuto. Durante cinco meses, de agosto de 1827 a janeiro de 1828, uma “boa negra velha”, segundo suas palavras, tratou dele, o que lhe possibilitou seguir viagem. Em março, chegou a Djenné, grande cidade localizada no atual Mali, com um florescente comércio. A partir de então, continuou seu périplo pelo rio Níger.

Finalmente, no dia 20 de abril de 1828, entrou em Timbuktu. Ao avistar a cidade, ficou simultaneamente feliz e decepcionado. Estava contente por ter atingido seu objetivo, mas terrivelmente frustrado por se ver diante de um local muito menos fastuoso, populoso e próspero do que aquele descrito pelos viajantes medievais. De lá saiu em 4 de maio de 1828, ansioso em anunciar na França que chegara à misteriosa cidade. Seu retorno pelo Saara foi uma provação terrível. Caillié se uniu a uma caravana formada por 600 dromedários e caminhou por 1.200 quilômetros ao longo do deserto.

No dia 9 de maio, chegou ao lugar onde morrera o major inglês Gordon Laing, primeiro europeu a entrar em Timbuktu, em 1826. A “longa marcha” de René Caillié terminou em Tanger em agosto de 1828. No dia 27 de setembro, finalmente embarcou para a França. “O vencedor de Timbuktu”, o primeiro homem a abrir caminho pelo Saara, desembarcou em Toulon em 8 de outubro de 1828 e foi internado em quarentena no lazareto de Saint-Mandrier. Lá escreveu duas cartas a membros da Sociedade de Geografia, uma a Edmé François Jomard e outra a Georges Cuvier.

O explorador teve de dar provas de suas descobertas e responder às perguntas dos membros da Sociedade. Convencidos, estes decidiram, no dia 27 de novembro, que ele merecia o prêmio pelo descobrimento mais importante do ano em geografia. No dia 5 de dezembro de 1830, diante de toda a Paris erudita, o ministro da Marinha da França entregou a René Caillié o prêmio de cerca de 9 mil francos e a Legião de Honra.

Apesar da glória, o resto da vida do explorador não foi fácil. A deposição de Carlos X e a ascensão de Luís Felipe ao trono da França, em 1830, mudaram a situação política do país, e Caillié precisou lutar para obter a prometida pensão anual de 7 mil francos. Atormentado pela doença e pelo desânimo, deixou Paris e voltou para sua terra natal, onde foi prefeito de um pequeno município. O desejo de retornar à África, no entanto, o dominava. Ele tentou conseguir patrocínio para uma nova expedição, mas não teve sucesso. Debilitado, morreu no dia 17 de maio de 1838, após cinco dias de febre e agonia.

René Caillié entrou para a história por duas proezas: foi o primeiro europeu a chegar a Timbuktu e voltar vivo para casa, e o primeiro a atravessar o deserto do Saara. Para o antropólogo francês Marcel Griaule, ele foi um exemplo de explorador pacífico. No entanto, contra sua vontade, os detalhes oferecidos por Caillié contribuíram para a conquista militar do oeste da África.

Ao se instalarem na Argélia, em 1830, os franceses começaram a organizar expedições pelo Saara a partir do extremo sul da nova colônia. A partir de 1854, essa expansão passou a ser acompanhada por operações armadas lideradas pelo general Louis Faidherbe, incumbido de estabelecer o domínio francês na região do Níger. Os territórios conquistados foram agrupados, em 1904, em uma grande colônia batizada de África Ocidental Francesa, que incluía os atuais Senegal, Mauritânia, Mali, Guiné, Costa do Marfim, Burkina Fasso, Benin e Níger.

Em 1893, a bandeira francesa tremulava em Timbuktu, mas a cidade já não era nem sombra do que fora no passado. Reduzida a mera guarnição, caiu no esquecimento, assim como o nome de René Caillié. Ele que suportou tanto sofrimento para provar a magia de Timbuktu foi, paradoxalmente, o primeiro a desfazer sua mitologia.

O CADERNO DE VIAGEM DE RENÉ CAILLIÉ

O manuscrito original do seu diário, parcialmente conservado, é a prova tangível da aventura vivida por René Caillié. Essas páginas amareladas, encardidas, manchadas de suor, às vezes rasgadas ou amassadas, com linhas espremidas escritas a lápis e repassadas a tinta, apresentam um roteiro, mais que um relato metódico. Além das notas de Caillié, o caderno reúne desenhos feitos in loco pelo autor, que incluem alguns raros esboços de localização, particularmente de Djenné e do lago Débo, e uma cena etnográfica única representando uma mulher e o filho em Timbuktu.

A versão definitiva do manuscrito foi redigida no ano de 1829, em colaboração com Jomard. Seu título é Diário de uma viagem a Timbuktu e a Djenné, na África Central, precedido de observações colhidas entre os mouros braknas, os nalus e outros povos, durante os anos de 1824, 1825, 1826, 1827, 1828, com uma carta itinerária e observações geográficas do sr. Jomard, membro do Instituto.

Publicada em 1830, a obra começa com uma introdução de 20 páginas e a primeira parte do relato (capítulos I a IV) trata da estada de Caillié entre os mouros braknas. A segunda parte, que tem como ponto de partida 19 de abril de 1827, traz a descrição da expedição desde a costa oeste até Tânger. O mapa publicado junto com as notas foi desenhado e comentado por Jomard.

Ao longo das páginas, é possível identificar uma preocupação antropológica do autor, evidenciada pelas observações minuciosas dos povos encontrados: fulas, mandingos, bambaras, tuaregues e mouros. Caillié manifestava respeito tanto pelo Islã quanto pelo animismo, e pesquisou de maneira metódica os costumes, crenças e práticas dessas populações.

Em seu diário, o explorador francês trata do comércio e da economia locais, mostra quais eram os circuitos de circulação das moedas europeias e dos cauris (conchas que serviam de moeda de troca na região), e analisa a organização sociopolítica dos povos da região, além de fazer um grande levantamento da flora africana.

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

O geógrafo literário

Um dos pioneiros da climatologia no Brasil analisa o espaço e as estruturas sociais por meio das obras de Guimarães Rosa e Shakespeare

Carlos Fioravanti

© EDUARDO CESAR

Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro

Meses atrás, o geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro festejou a chegada da obra completa do poeta norte-americano Wallace Stevens, que recebera dos Estados Unidos. Os livros foram arrumados ao lado dos de Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Shakespeare, James Joyce e Euclides da Cunha que reinam na estante de sua sala de trabalho, misturados com objetos que trouxe do Nepal, da Índia e de Minas Gerais, ao lado da boneca Betty Boop. Aos 86 anos, o geógrafo que ajudou a criar as bases da climatologia no Brasil lê e escreve sobre literatura todos os dias. Tão logo se aposentou da Universidade de São Paulo (USP), em 1987, Monteiro passou a limpo 40 anos de trabalhos pioneiros em climatologia, realizados no Rio de Janeiro, Santa Catarina, Brasília e São Paulo. Seus estudos levaram a novas abordagens para a análise do clima urbano, detalhadas em 1974 no livro Clima urbano, e ganharam uma síntese em Clima e excep cionalismo, de 1991. Só então se entregou a outras duas paixões, a literatura e a filosofia, e escreveu mais um livro,O mapa e a trama, em que analisa a obra de escritores como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Graça Aranha do ponto de vista da geografia e das estruturas sociais. Antes de começar a conversa em seu apartamento, em Campinas, Monteiro põe na mesa livros que escreveu, desenhos que fez (alguns reproduzidos nas páginas seguintes) e fotos de Teresina (PI), de onde partiu aos 18 anos e sobre a qual já escreveu cinco volumes, usando a história da família como pretexto para tratar das transformações da cidade, da sociedade e do mundo. O geógrafo raramente concede entrevistas, mas decidiu conversar sobre geografia, literatura e, claro, seu passado como pesquisador.

Como era a Teresina de 1945, quando o senhor saiu de lá?

Teresina na época tinha uns 40 mil habitantes. Foi a primeira cidade do Brasil construída para ser capital; o pessoal pensa que foi Belo Horizonte, mas Belo Horizonte tem um século, que completou em 1997. Teresina foi a primeira a ser construída como um tabuleiro de xadrez, a segunda foi Aracaju. Saí de lá com 18 anos e fui para o Rio de Janeiro. Nos dois primeiros anos não pude estudar. Precisava trabalhar.

O que o senhor fazia?

Passei dois anos fazendo de tudo: cobrança, batendo perna pelo Rio de Janeiro, e depois em um trabalho de extranumerário no Ministério de Educação e Saúde, no morro da Viúva. Em 1947 comecei o curso na Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil. Entrei por história e acabei me desviando para geografia – era mais dinâmico, tinha trabalho de campo, e minha meta sempre foi pesquisar. Quando eu estava no primeiro ano do curso o professor Francis Ruellan, que era consultor do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], convidou os alunos para se juntar à equipe do Conselho Nacional de Geografia e participar de um dos levantamentos da nova capital do Brasil no Planalto Central. Foi meu batismo de campo. Era para passar o mês de julho, mas ficamos julho e agosto. Quando voltei, tinha perdido o emprego porque tinha levado mais de 30 dias. Os  colegas  do  conselho ficaram com pena e perguntaram a Fábio [de Macedo Soa res] Guimarães, diretor do conselho, se eu não poderia ser incluído entre os geó grafos auxiliares. Ele me contratou e tive a oportunidade maravilhosa de fazer o curso da faculdade, vendo a teoria ao mesmo tempo que fazia pesquisa no IBGE. Tinha aula de manhã, às vezes à tarde, e trabalhava até a noite.

Como era a geografia dessa época?

A geografia tinha uma visão muito otimista porque estávamos vivendo uma nova fase. Antes de 1935 já havia geógrafos sem formação acadêmica, eram autodidatas que trabalhavam nos institutos históricos e geográficos, formados em engenharia, direito, medicina, como Raja Gabaglia, que era professor do Colégio Pedro II, e Delgado de Carvalho. Somos da geração que pegou a Faculdade de Filosofia no curso de geografia e história, que só foram separadas em 1957. Nossa geração se achava revolucionária. Fizemos a geografia moderna, típica, que não só descrevia, mas explicava as coisas.

De linha francesa?

De linha francesa e tutelada pela França. Os primeiros professores de geo grafia, história, sociologia da Faculdade de Filosofia vieram todos da França. Em 1956 o Brasil sediou o Congresso Internacional de Geografia, que mostrou a nova geração de geógrafos brasileiros, do IBGE, da universidade e da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB). Nossos geógrafos foram os guias de cinco excursões, uma para cada região do país, e organizavam para os geógrafos de mais categoria serem recebidos nas casas de grandes famílias do Rio, como as de Marcos Carneiro de Mendonça e de Anna Amélia Carneiro de Mendonça. Terminei o curso em 1950. Em 1951, no Dia de Finados, fui para a França, com uma bolsa de estudos, e passei lá dois anos. Por causa do Ruellan, fui mais para o lado da natureza. Também por um lado de timidez, porque eu, para sair e ver o relevo, tinha que observar ou fazer poucas perguntas: Que profundidade se encontra água nesse poço? Quais são os meses de chuva? Na geo grafia humana você vai perguntar sobre a produção, as pessoas pensam que é o governo cobrando imposto e eu sempre ficava meio constrangido.

Por que escolheu climatologia?

Era a área mais carente. Em geomorfologia havia o Aziz Ab’Saber, [João José] Bigarella no Paraná, Gilberto Osório [de Oliveira Andrade] em Pernambuco, muita gente boa. Eu tinha tido um curso ruim de meteorologia, tanto aqui quanto na França. Achava que aquilo não era a climatologia de que a geografia precisava, principalmente para relacionar com o lado humanístico da geografia. Eu queria fazer uma coisa em que a atmosfera fosse vista dentro daquela perspectiva, relacionada com o homem. Mas era preciso mudar o paradigma dado pela meteorologia, o “estado médio dos elementos da atmosfera sobre um determinado lugar”. O clima ainda era uma coisa muito estática; se dizia que pela média você chegava à conclusão. Se você aplicasse a classificação de Köppen [Köppen-Geiger], ia concluir que Belém do Pará tinha o mesmo clima de Santos, o que é um absurdo, porque Belém nunca teve uma onda de frio e Santos, no inverno, está sujeita a dias de passagem frontal que baixa a temperatura e ninguém tem coragem de ir à praia, algo difícil de acontecer em Belém…

Como foi sua volta?

Voltei da França e o IBGE estava meio atrapalhado, não se fazia muito trabalho de campo. Contei a uma amiga, Maria Conceição Vicente de Carvalho, filha do poeta e primeira doutora em geografia no Brasil. Ela encontrou o professor João Dias da Silveira, que estava organizando um departamento de geografia numa faculdade catarinense de filosofia. Mas aí veio Jânio Quadros e disse que não queria mais ninguém de São Paulo à disposição dos outros estados. Silveira teve de voltar, mas me recomendou. Não precisei sair do IBGE para ir à universidade porque Santa Catarina era um dos raros estados que tinham serviço de geografia e cartografia. Principiei por onde os outros terminam – era chefe do departamento e membro do conselho técnico. Nunca mais na minha vida quis ser chefe de departamento, tenho horror à administração. Trabalhava à tarde e à noite lá e de manhã no departamento estadual de geografia e cartografia.

“Eu queria fazer uma climatologia em que a atmosfera fosse vista dentro de uma perspectiva relacionada com a atividade humana ”

Quantos anos ficou lá?

De 1955 a 1959. Em 1960 fui para Rio Claro. Carvalho Pinto [governador de São Paulo] estava criando os Institutos Isolados de Ensino Superior, espalhados por São Paulo, que depois se juntaram na Unesp [Universidade Estadual Paulista] atual. Em Santa Catarina comecei a mudar meu paradigma do clima. Foi lá que publiquei os primeiros artigos criticando essa história de “o clima é um estado médio” e que “o clima devia ser uma visão dinâmica”. Isso não nasceu da minha cabeça, mas da crítica de um grande geógrafo francês, Maximilian Sorre. Ele era da geografia humana e dizia que o estudo do clima baseado em média de um lugar não acertava bem para a atividade humana. De 1955 a 1960 publiquei vários artigos, baseados em meteorologistas brasileiros, Adalberto Serra e Leandro Ratisbonna – esses caras eram politécnicos, formados em engenharia, e começaram a meteorologia no Brasil. Em 1963 saiu o estudo Geografia regional do Brasil, do IBGE. No capítulo que escrevi, sobre o clima da Região Sul, peguei o que tinha aprendido com Adalberto Serra e fiz uma coisa mais acessível, porque ele era muito confuso. Mostrei que todo o tempo no Brasil vem do Sul para o Norte, a frente polar, procurando dar um aspecto mais didático a conceitos como o de onda de frio. Em 1942 Serra e Ratisbonna haviam publicado um trabalho clássico, “Ondas de frio na bacia amazônica”, dizendo que quando havia friagem no Acre e na Amazônia ocidental era o degelo das cordilheiras dos Andes, o que é uma estupidez, porque uma coisa que descesse não era para resfriar, era para aquecer. Em Rio Claro fiz minha primeira pesquisa de vulto, que me agradou muito, porque foi um trabalho feito com os alunos. Precisávamos demonstrar esse paradigma, o clima como dinâmica. Depois essa pesquisa se transformou no livro A dinâmica climática e as chuvas no estado de São Paulo. Nesse trabalho tomei todos os cuidados de corrigir as coisas. Por exemplo, o meteorologista considera que um lugar tem dados bons para tirar médias quando tem 30 anos de observações, coisa que aqui no Brasil é difícil de achar. Você acha uma estação que tem 30 anos, mas outras com 10 ou 3, e o pessoal faz o absurdo de comparar postos com médias tão diferentes. Nesse trabalho selecionamos estações com o mesmo período de observações. Se esse período de três anos coincidiu com um período de seca ou um período chuvoso, e sempre acontece esse zigue-zague, você perde a confiabilidade. Outra preocupação foi ver o tipo de tempo e o ritmo de sucessão, escolher alguns anos típicos: um ano muito chuvoso, um ano seco e um ano que fosse entre um e outro, que chamei de ano padrão. Ratisbonna dizia que não podia fazer um estudo só com 17 anos, mas 17 anos era o máximo que consegui de observações com o mesmo período. Tirei a média para ver se dentro desses 17 anos houve ano de muita ou de pouca chuva, peguei os extremos e comparei – um ano muito chuvoso, um ano muito frio. Um francês, Pierre [George], adotou esse mesmo conceito, mas substituiu a média pela totalidade de tipos de tempo, como se você tivesse uma gaveta, descobrisse os tipos de tempo e botasse cada um separado numa gaveta. Eu achava que não era preciso levantar todos os tipos de tempo, o importante era ver como os tipos de tempo se encadeavam uns nos outros, a cadeia de tipos de tempo é que determina a coisa. Por exemplo, se vem um aquecimento frontal, você não vê aqueles dias em que sopra um vento noroeste, está um calor insuportável e de repente chega a frente, desaba aquele temporal, aí a frente passa e a temperatura baixa. Esse encadear é que é importante para ver, e não dizer que existe o tempo pré-frontal ou o tipo frontal. Fazíamos com dado horário, usávamos metros de papel, mas à medida que construíamos o gráfico já percebíamos o jogo das relações; essa foi a novidade. Essa pesquisa terminei em 1964 e só foi publicada em 1973, 10 anos depois, quando eu já estava na USP e o Aziz Ab’Saber arranjou um restinho de verba daqui e dali e publicou.

E a timidez, como a venceu?

Na universidade fui para o lado físico para não bisbilhotar a vida alheia como na geografia humana! Do outro lado da AGB o pessoal apresentava trabalhos, que eram julgados se mereciam ou não ser publicados; nunca tive coragem de apresentar um trabalho na AGB. Mas como eu tinha artigos e capítulos publicados, fui eleito sócio efetivo na assembleia de Londrina, em 1961. Meu batismo se deu com Manoel Correia, pernambucano, que naquele ano foi eleito presidente da AGB. Ele se empenhou para organizar a assembleia na gestão dele e escolheu Penedo, em Alagoas. Ele queria estudar o problema no baixo São Francisco, que naquela época era caracterizado pela cultura de arroz. Aquela paisagem contrastava com uma miséria muito grande por causa de relações de produção entre os donos da terra e os operários. Manoel Correia convenceu Caio Prado Jr. a ir a uma região que tinha um problema que interessava muito à esquerda. O estudo sobre a cidade de Penedo foi feito pela Lísia Bernardes; o do problema do arroz era coordenado por mim; o de Itabaiana, uma cidade de Sergipe, famosa do ponto de vista de geomorfologia porque tem um domo, uma estrutura enorme, além do problema humano, por Milton Santos. Trabalhamos quatro dias andando de canoa, de lancha, de estrada, desde Propriá até a foz do São Francisco, uma loucura. No final, reuni as unidades morfológicas, o tipo de vegetação, o tipo de ocupação e o tipo de problema num quadro que desenhei em papel kraft com pincel mágico. Lísia dizia que eu estava numa enrascada, porque era todo mundo comunista, e eu teria de expor as conclusões na frente dos fazendeiros e dizer que eles exploravam os coitados.

Como é que o senhor fez?

Eu disse: “A natureza oferece as condições, mas as relações de produção…”. Porque era uma relação de verdadeira escravidão, o coitado trabalhava no arroz para o dono da terra, que lhe pagava um preço miserável, e às vezes, escondido, de noite, ele botava uma saca e saía para vender a um outro, para obter um preço melhor. Um fazendeiro numa hora protestou: “Mas não é bem assim…”.

E depois de Rio Claro?

Houve um interregno em que saí de Rio Claro e voltei para o IBGE. Passei 1965, 1966 e 1967 entre o IBGE e a Universidade de Brasília. Não queria substituir os professores que tinham sido expulsos pela ditadura, só fui porque estavam criando o curso de geografia. Eu continuava não gostando do IBGE. Tem uma coisa que foi bem importante, porque antigamente a divisão regional do Brasil era feita pelos geógrafos, Fábio Guimarães fez uma de 1941, porque o IBGE foi criação do Getúlio Vargas; o Brasil era um dos raros países que tinham a geografia como elemento de suporte das políticas públicas. A divisão regional era feita pelo IBGE e o IBGE era ligado à Presidência da República; depois é que virou fundação. A geografia é importante até 1968, quando os geógrafos do IBGE fazem uma série de mapas, de geologia etc. e escrevem “subsídios à regionalização”. É a passagem do declínio do geógrafo, que perde prestígio, e a ascensão do economista, porque aqueles subsídios à regionalização eram um monte de mapas feitos para análise dos economistas; o economista é que se tornou importante e que fez a divisão em microrregiões homogêneas e as teorias de setoridade, centro-periferia, aquela coisa toda, e 1968 é justamente o ano de minha entrada na USP e do Ato Institucional nº 5.

O senhor chegou a São Paulo num ano terrível…

No primeiro dia de aula, entrei na sala, os alunos levantaram e fizeram um comício por causa do Ato Institucional e da política que estava fervendo. Os estudantes viviam reclamando da ditadura. Eles entraram, fizeram o comício, fiquei escutando e depois fui embora. Não foi hostilidade a mim, era um protesto geral.

Como era trabalhar na USP?

Em matéria de recursos era uma pobreza, o prédio era uma porcaria, não tinha nada. O ônibus de excursão já estava nas últimas, não era muito fácil a gente sair… A maior dificuldade do mundo era você fazer uma projeção, porque quando tudo funcionava não havia fio para ligar na tomada. Hoje em dia os professores fazem trabalho de campo, vão a Campos do Jordão quantas vezes quiserem, têm anos para fazer dou torado no exterior, depois têm pós-doutorado, bolsa-sanduíche… Nunca tive nada disso. Na USP tem duas coisas que gosto de ressaltar. A primeira é a liberdade de criar. Há 20 anos eu fazia coisas que hoje não fazem.

© CARLOS AUGUSTO DE FIGUEIREDO MONTEIRO

“A geografia não é para estar se fragmentando e se especializando mais e mais… É importante preparar os outros para ter liberdade quando criticar”

Por exemplo?

Uma prova com um caderno com 27 questões e dizer para o aluno que se ele não quisesse desenvolver nenhuma das 27 questões que ele propusesse uma para fazer. Ou o aluno me fazer a prova em desenho ou em verso e tirar 10. A outra coisa foram as minhas viagens para o exterior. Em 1976 houve um Congresso Internacional da Geografia em Moscou e eu fiz um sacrifício, peguei minhas economias, escrevi, preparei trabalhos e me mandei para lá. Nunca nenhum governo brasileiro pagou passagem para mim para canto nenhum, viajei durante 12 anos às minhas custas.

Por que o senhor mesmo pagava suas viagens?

Pedir dinheiro para viajar é um direito do pesquisador, mas neste país de exceções, em que as crianças estão morrendo de fome e cheirando cola, me considero um privilegiado e pago a minha curiosidade, não vou tirar do contribuinte. Nesse ano, em Moscou, entrei para a comissão de problemas ambientais, o presidente era o Innokenty Gerasimov, um cientista de prestígio naquela academia. Foram 12 anos em que eu viajei na comissão. Em 1976 foi em Moscou, 1977 em Praga, 1978 na Nigéria, em Lagos, em 1979 na Rússia de novo. Depois, em 1980, no Japão, 1981, no México, 1982 em São Paulo, organizado por mim. Em vez de ficar preso numa cidade vendo paper, organizei uma excursão de quatro dias; o primeiro dia a gente foi em direção a Piracicaba, almoçou na beira do rio, que já estava poluído. Depois a gente continuou em direção a São Carlos, onde dormimos; o dia seguinte apresentamos os papers – a gente viajava um dia e trabalhava no outro. Você vem da Rússia, da Índia e tem de ficar trancado numa sala vendo papel que você pode ler depois? É uma pena, não é? Depois de São Carlos fomos para a zona cafeeira da Mantiqueira, descemos o Vale do Paraíba para ver a industrialização do litoral e entramos no Rio de Janeiro pela Rio-Santos, para evitar a avenida Brasil e aquela esculhambação. Chegamos lá e deixamos o pessoal no Hotel Glória. O Gerasimov adorou, disse que tinha sido uma reunião circulante.

Quando o senhor mergulhou na literatura?

Me aposentei aos 60 anos, a briga entre geografia física e geografia humana estava no auge; o pessoal queria arrancar as coisas da física e aumentar as coisas da humana, era aquela confusão, e eu detesto confusão e briga. Saiu no Diário Oficial do dia 22 de março, na véspera do meu aniversário. A primeira coisa que quis fazer depois de me aposentar foi um balanço do que eu tinha feito em climatologia e ver qual a tendência nova, em toda essa coisa dos moventes, termodinâmica etc. Estudei muito e escrevi Clima e excepcionalismo. Depois peguei todos os livros de climatologia e de meio ambiente e dei para a Universidade Federal de Santa Catarina [UFSC], os de geomorfologia mandei para o laboratório de geomorfologia da USP, os didáticos e os mapas para a sala de Aroldo de Azevedo de auxílio ao professor de ensino médio. Como não queria parar, pensei em pesquisar algo que fosse factível para mim. “Vou fazer uma geografia mais maneira, que não precise de verba.” Sempre gostei de literatura, já tinha visto nas viagens, na Inglaterra, que havia uma linha de pesquisa de geografia e literatura, mais um livro do [filósofo Karl] Popper, fui me abastecendo. Por que não fazer o mesmo sobre o Brasil? É uma coisa que posso fazer sem precisar de verba, tenho os livros, vou analisar. Aí fiz O mapa e a trama, uma coletânea publicada pela UFSC que começa e termina com Guimarães Rosa, mas tem Graciliano Ramos, com Vidas secas, Graça Aranha, com Canaã, um livro maravilhoso que pouca gente conhece. Tento ver o conteúdo geográfico dentro dessas obras, porque todas se passam num lugar e têm uma trama. Um capítulo que deu trabalho, mas acho que ficou bom, foi sobre Machado de Assis, em Memórias póstumas de Brás Cubas, junto com Marques Rebelo, primeiro pelo contraste entre os dois, porque Machado foi um mulato que deu certo, tanto que no atestado de óbito está com cor branca. O outro, Marques Rebelo, coitado, foi perseguido, não conseguiu terminar o curso de engenharia porque o professor de mecânica celeste tomou implicância com ele. Publicaram os livros dele com o maior sacrifício, em Lisboa. Sofreu horrores, mas era um geógrafo nato.

O senhor não vê só o espaço…

Não, porque tem também a parte social. Guimarães Rosa diz que ele não se preocupa nem com a sociologia nem com a história, mas você vê nos trabalhos dele que ele faz a relação completa da estrutura social: tem o fazendeiro cercado de jagunços, o administrador, o meeiro, vai descendo até o enxadeiro mais pobrezinho.

Em um de seus trabalhos, o senhor escreveu que a geografia humana tinha esquecido o espaço.

É. Porque a gente trabalhava com o espaço euclidiano, da natureza; agora o pessoal da economia vai para o espaço relativo, de geometrias relacionais. Não suporto esse negócio de dividir geografia física e geografia humana. Ciência exata a geografia não é, queira ou não, porque tem o rabo preso com a filosofia. Esse é o problema. Por que é que não se estuda sociologia nem geologia na escola primária, mas se estuda geografia? Porque você está apresentando o mundo às crianças e aos adolescentes. Ensina acidentes geográficos, divisão política, clima, relevo, essas coisas básicas. A geografia não é para estar se fragmentando, se especializando mais… A filosofia, para mim, está num plano superior, não é a história da filosofia, é filosofia pensar, criticar. A geografia está embaixo, num plano mais modesto, mas conjunto, unitário. Uma colega de Brasília escreveu que a natureza já se encontra conhecida e suficientemente sob controle, agora a geografia deve passar para o social. Ora, São Paulo não resolve nem o escoamento das águas pluviais no verão, a cidade vive inundada! Havia o determinismo ambiental, mas daí passamos para o determinismo econômico, em 1948, com Bretton Woods. Claro que a economia é importante. Instalar uma fábrica é um ato econômico, mas desde que a fábrica se transforme em uma entidade física, que vai expelir gases, ganha uma materialidade e se encaixa no meio natural. Não pode separar e eliminar as consequências. A geografia humana considera só o coletivo, só o social; nisso, a economia assume uma importância além do necessário. As pessoas exageram muito em fazer do coletivo o principal; tudo que é humano é visto pelo coletivo. As partes se completam, não se pode ignorar o coletivo, mas também não se pode ignorar a parte interior do homem. Temos o direito de desenvolver uma percepção crítica, é importante preparar os outros para ter liberdade quando criticar e não seguir o rebanho fazendo tudo o que os outros fazem.

Como o senhor vê os debates sobre mudanças climáticas?

Há um exagero, porque as pessoas têm deficiência da noção de escala. Uma coisa é uma tendência, outra é a realidade, porque a atmosfera é destrambelhada, um ano é frio, outro é quente. A tendência geral pode, sim, aumentar, mas temos de considerar mais sobre o Sol, nossa fonte de energia e ainda um desconhecido, porque aquelas manchas variam, ora aumentam, ora diminuem. Quando vêm as manchas solares com mais ou menos energia, aquece ou resfria o Pacífico equatorial e vêm daí o aquecimento e o resfriamento no Pacífico, que dá o El Niño e La Niña. Outra coisa é a presença do homem na Terra, que é recentíssima, e mesmo assim encontramos registros históricos [de alterações climáticas marcantes]. E tem mais terras no hemisfério Norte do que no Sul, economicamente os dois hemisférios também são diferentes. Se a temperatura aumentar, países como Rússia e Canadá, de invernos rigorosíssimos, onde plantar tomate é a maior dificuldade, vão lucrar com o aumento de temperatura. Quem vai se danar é o hemisfério Sul, os pobres miseráveis da beira do Saara. Mas as pessoas não consideram o todo, as escalas temporal e espacial, e vem daí o catastrofismo. Tem também o lado benéfico, o catastrofismo deixa as pessoas com medo e as incentiva a mudarem de atitude.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Drama nômade

Um dilema consome os 80 milhões de nômades da Índia: reter as tradições seculares enquanto o mundo moderno os despoja de sua identidade.

John Lancaster

Foto de Steve McCurry

Drama nômade

Ter um teto é novidade para Punkti, filha de um pastor do Rajastão. Os homens da família ainda vivem sob as estrelas, perto de seus animais.

Em seu passado ilustre, os Gadulia Lohar forjavam armaduras para reis hindus. Hoje, esses ferreiros montam acampamento na periferia de vilarejos indianos e fabricam utensílios simples com sucata. Em um dia quente de fevereiro, chego a um de seus acampamentos no estado do Rajastão, no noroeste da Índia, levando sabonetes para ajudar em minha apresentação. Mas, quando me aproximo, homens, mulheres e crianças me cercam, agarram e rasgam minha bolsa, espalhando os sabonetes na terra.

Depois de uma confusão de braços e pernas e um turbilhão de imprecações, tudo termina com uma das crianças mais velhas chorando.

Esse comportamento desesperado sugere que há algo mais na história desses nômades que vagueiam pelo subcontinente há milhares de anos. Os Gadulia Lohar estão entre os grupos mais conhecidos (seu nome deriva do hindi gaadi, carroça, e lohar, ferreiro). Outros são pastores, como os Rabari, famosos em toda a Índia por seus turbantes enormes e por saberem tudo sobre camelos. Alguns vivem da caça ou da coleta de plantas. Outros prestam serviços: comerciantes de sal, videntes, curandeiros, terapeutas ayurvédicos. E há os malabaristas, acrobatas, fabricantes de rebolo, contadores de história, encantadores de serpente, curadores de animais, tatuadores, tecedores de cesto. Ao todo, os antropólogos identificaram cerca de 500 grupos nômades na Índia, totalizando, talvez, 80 milhões de pessoas: aproximadamente 7% de mais de 1 bilhão que compõem a população indiana.

Esses andarilhos já viveram integrados na sociedade. Misturavam-se com os aldeões que moravam ao longo de suas rotas anuais. Mas o século 19 marcou o início uma mudança de atitude. As autoridades britânicas os desmereciam, chamando-os de vadios e criminosos, e com isso semearam preconceitos que sobreviveram ao domínio colonial. A Índia da corrida para a modernidade, com seus call centers e sua juventude obcecada por grifes, não tem uso para latoeiros ou treinadores de urso, e os pastores travam uma guerra perdida contra a industrialização e o crescimento urbano. Fragmentados por casta, língua e religião, os nômades são desconsiderados pelos políticos e, em contraste com outros grupos desprivilegiados, pouco se beneficiam das medidas de bem-estar social.

A mera definição do termo "nômade" é problemática na Índia. Muitos grupos que antes se enquadravam inequivocamente nessa categoria se amontoaram em favelas, em um processo que os antropólogos chamam de sedentarização. Acontece que a Índia continua a ser uma sociedade rigidamente estratificada, na qual muitas vezes berço é sinônimo de destino. Por isso, viajando ou não, os nômades são até hoje unidos por uma história de pobreza e exclusão: talvez a maior crise de direitos humanos já vista.

Para os poucos que defendem a causa dos nômades, boa parte da solução está em dar-lhes um teto ou pelo menos um endereço – o que lhes facilitaria receber benefícios do poder público e matricular os filhos na escola. Mas tais esforços encontram feroz resistência dos políticos e dos moradores dos vilarejos, que veem os nômades como forasteiros sebentos. Aos poucos, toma corpo uma questão maior: os nômades precisam deixar de ser quem eles são para sobreviver?

Depois do fuzuê por causa dos sabonetes, minhas chegadas matinais são mais fáceis. No dia seguinte, o acampamento está quieto, exceto por esporádicos acessos de tosse. A fumaça sobe de uma tosca forja de barro, mulheres revezam-se em foles de pele de cabra enquanto homens e meninos batem aparas de metal em pequenas bigornas, moldando colheres, machados e outros utensílios domésticos simples.

Meu intérprete e eu contamos 23 pessoas em quatro famílias Lohar, todas aparentadas. Levam seus pertences em cinco carroças abertas, feitas de acácia e teca e decoradas com entalhes de botões de lótus, tachas de latão e suásticas hindus pintadas. Todos se desconcertam com minha presença, e alguns são hostis. "Tudo o que dizemos, tudo o que fazemos, você escreve!", reclama uma mulher. Mas alguns são mais acolhedores. Lallu e Kailashi, um casal de quarentões – os Lohar só podem fazer suposições sobre sua idade -, têm quatro filhos. Lallu, miúdo e rijo, usa um dhoti de algodão encardido, brincos de ouro em forma de vagem e um amuleto pendurado em um cordão no pescoço. Kailashi é magra, de olhos fundos, com símbolos Om tatuados no meio do peito, e cobre a cabeleira emaranhada com um xale roxo. Os dois têm os dentes estragados e interrompem com frequência a labuta para acender nas brasas da forja uns cigarros baratos enrolados a mão, os bidis. Kailashi está constrangida com o tumulto do sabonete. "Sou pobre, mas tenho vergonha na cara", diz ela. "Coisa que esse pessoal perdeu."

Sua filha mais velha, Kanya, vai buscar um catre de corda trançada e me convida a sentar. Ela tem uns 20 anos, é vivaz e graciosa, de maçãs do rosto largas e sobrancelhas esculpidas. E possui um gênio forte. "Pare de agir como pilantra", ralha ela com um primo que insiste em pedinchar minhas coisas. Kanya voltara havia pouco tempo para sua família, fugindo do marido violento.

Pergunto a Lallu de onde ele é, supondo que me dirá o nome do lugar em que nasceu ou talvez da cidade onde sua família acampa no verão, quando é quente demais para viajar. Em vez disso, ele diz o nome de um lugar que nunca viu. "Chittaurgarh", responde Lallu. E ergue o punho fechado, numa espécie de continência.

Chittaurgarh é um grande forte de arenito em um platô no sul do Rajastão. Construído no século 7, foi capital de Mewar, um poderoso reino de guerreiros hindus de casta superior conhecidos como rajputs. Os Lohar também são rajputs, segundo sua tradição oral. Eram os fabricantes de armas do reino. Mas, em 1568, Chittaurgahr foi tomada pelo imperador mongol Akbar, o Grande, e os Lohar fugiram.

Envergonhados, juraram viver sempre em trânsito e com simplicidade, nunca pernoitar em um vilarejo, acender lâmpadas depois de escurecer e até usar corda para puxar água de poço – votos conhecidos coletivamente como o Juramento. Também prometeram renunciar a camas confortáveis e até hoje viajam com seus catres virados de cabeça para baixo, em simbólica observância à antiga promessa.

Mas tinham de ganhar o sustento, e acharam um uso mais prosaico para sua habilidade com os metais. Seus utensílios de cozinha e suas ferramentas agrícolas são valorizados pela durabilidade; e, antes do advento das importações chinesas baratas, compradores nunca faltaram.

A Índia no passado fervilhava com esses especialistas itinerantes. Muitos foram descritos em detalhes pela primeira vez por um funcionário do governo britânico, Denzil Ibbetson, em relatório de 1883 baseado num censo da região do Punjab. Entre eles estavam os Qalandari ("sua ocupação declarada é a doma de ursos, macacos e outros animais circenses"), os Nat ("acrobacias e prestidigitação de categoria inferior"), os Gagra (coleta, criação e aplicação de sanguessugas") e os Kanjar ("tratamento de furúnculos"). "Não são de trato agradável", concluiu Ibbetson, "e podemos dispensar maiores contatos com eles."

As observações de Ibbetson refletem os preconceitos da época, bem como a ideia disseminada na Grã-Bretanha de que os nômades – sobretudo os povos de pele escura falantes do romani conhecidos como gypsies (ciganos) – eram velhacos incorrigíveis. Essas descrições contaminaram o subcontinente. Em 1871, as autoridades coloniais aprovaram a famigerada Lei de Tribos Criminosas, uma ordenação que, para todos os efeitos, identificava dezenas de grupos nômades como delinquentes natos. As famílias itinerantes eram obrigadas a registrar-se na polícia, e homens, mulheres e crianças eram confinados à força em campos de trabalho, alguns dirigidos pelo Exército da Salvação, como relata o livro Dishonoured by History ("Desonrados pela História", em livre tradução), da socióloga indiana Meena Radhakrishna.

Após a independência em 1947, essa lei foi substituída por uma medida comparável, ainda que menos draconiana, a Lei dos Infratores Recidivistas. O estigma da criminalidade perdura. "Nunca imaginei que os descendentes dessas comunidades sofreriam os mesmos preconceitos", diz Meena. "Não são eles que não querem fazer parte da sociedade; ela é que não lhes permite."

as mulheres estão fazendo o jantar. Num pilão, Kailashi mói pimentão picante para um cozido de legumes enquanto, em uma fogueira aberta, Kanya prepara chapatis, o indefectível pão achatado indiano. A noite cai, e elas precisam trabalhar depressa por causa da proibição às lâmpadas. Os Lohar chegaram ao vilarejo poucos dias antes e não sabem quanto tempo irão permanecer. Vai depender de encontrarem trabalho. Como diz um deles, apontando com o queixo para um búfalo: "Não há muita diferença entre a minha vida e a de um búfalo. Ele vagueia em busca de comida; nós também".

É uma comparação indiscutível. Os Lohar nunca frequentaram escola. Fazem suas necessidades no mato e dormem sob as estrelas, exceto na estação da monção, quando cobrem suas carroças com lonas e as cercam com paredes de adobe para que não inundem. Quando apareci pela primeira vez, Kanya supôs, apesar da minha pele branca, que eu era de Jaipur, a capital do estado, a 65 quilômetros – o limite da geografia que ela conhece. "Ah!" é sua exclamação compreensiva quando explico sobre o avião. "Você veio numa cheel gaadi." Uma carroça de águia.

Como outros grupos nômades, os Gadulia Lohar já foram alvo de programas de reabilitação. Em 1955, Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro da recém-nascida Índia independente, declarou em um célebre discurso em Chittaurgarh que a honra dos ferreiros fora restaurada com o estabelecimento da soberania indiana e os exortou a cessar suas andanças. Milhares que tinham viajado até o forte de carro de boi e de trem viram Nehru desvirar um catre que estava de cabeça para baixo, após o que foram convidados a entrar no forte passando por uma ponte atapetada de pétalas de rosa. Um colégio interno para meninos Lohar foi fundado nas proximidades, e veio acompanhado de planos de moradia e emprego.

Essas iniciativas não deram resultados importantes para o grupo nômade. Uma povoação onde os ferreiros deveriam aprender sobre agricultura foi abandonada depois que duas meninas adoeceram e morreram – isso foi interpretado como um alerta aos que violassem a tradição Lohar. Outros assentamentos definharam por corrupção e mau planejamento.

Mas a causa dos nômades foi mantida viva por grupos de direitos humanos, e em 2005 o Parlamento indiano criou uma comissão temporária para tratar dos problemas desses grupos. O presidente da comissão, Balkrishna Renke, não poderia ter melhores qualificações para o cargo: nascido em um grupo mendicante, passou a primeira infância vagueando entre povoados do oeste da Índia, cantando em troca de alguma comida, até que uma associação beneficente o acolheu e lhe deu instrução.

Para Renke, o objetivo é claro. "Se eles quiserem ter direito a cidadania, educação e participação no progresso moderno, têm de fixar-se", explica. Renke não tem ilusões quanto à escala da dificuldade. O precário mas crescente sistema de bem-estar social da Índia há tempos procura reduzir as desigualdades de casta. Como os nômades estão dispersos por muitas castas, aproveitam pouco dos programas de ação afirmativa – e nada da influência política – que beneficiam outros grupos perseguidos, como os intocáveis. "Não existe organização. Não há conscientização", lamenta Renke. "Eles não são ouvidos."

Depois de uma semana em companhia dos Lohar, começo a entender parte da razão: não é fácil conviver com eles. Embora eu deixasse claro desde o início que não lhes daria dinheiro, tento ganhar sua simpatia distribuindo pequenos presentes – em geral sacos de lentilha e farinha – e convidando-os para tomar chai (chá com especiarias) vendido por um mascate ali perto. Mas, para alguns, nunca é o bastante. Kartar, o irmão mais velho de Lallu, está sempre me pedindo kalakand, um tipo de pudim de leite, e emburra se não o atendo. A mulher dele, Poony, também é insistente. "Me dê dinheiro para o chai!", me diz ela no lugar do cordial bom-dia matinal, e sempre que nossos olhares se cruzam dá puxões na túnica esfarrapada ou leva dois dedos aos lábios para dizer que quer fumar um bidi. Aprendo depressa a evitar seu olhar.

Até Lallu, que Kailashi dissera ser "muito tímido para mendigar", não se furta a me dar uma tungada de vez em quando."Ontem não comi porque minha galinha morreu", me diz ele numa tarde. "Fiquei triste demais."

Um cão matara a galinha. Murmuro os pêsames. "Uma galinha nova custa 300 rúpias", rebate ele. Balanço a cabeça de forma compreensiva. "Você pode pagar 100 rúpias."

Suspiro.

Ainda assim, não posso deixar de admirar os Lohar. São artesãos hábeis e laboriosos e sentem um palpável orgulho pelo que fazem. Numa tarde, uma anciã do vilarejo vem comprar uma colher. "Posso cobrar algumas rúpias a mais, mas meu produto é de primeira", promete Kartar. Acocorado à sombra de uma árvore, ele esquenta um pedaço de ferro até deixá-lo incandescente, segura-o sobre uma bigorna enquanto Pooni, de pés bem separados, achata o material com um martelo de forja. Quando o metal está fino e maleável, Kartar pega um martelo menor e com destreza molda uma colher de cabo longo, batendo a superfície do metal até lhe dar um acabamento polido e decorado com covinhas.

Ele lixa as bordas e entrega a colher para a cliente com um floreio e uma mesura: "Aqui está, mãe", diz. Valor: 30 rúpias, ou pouco mais de 1 real.

Os Lohar prezam seu trabalho porque se orgulham de sua identidade. Todos, exceto os mais novos, conhecem a história de Chittaurgarh, e quando uma criança chora é silenciada com a ordem: "Não chore, você é um Lohar". O filho de Kartar, Arjun, é a expressão viva do orgulho Lohar. Tem uns 10 anos, traços largos e expressivos e físico de campeão mirim de luta livre. Arjun não disfarça seu prazer em ser bom com um martelo; bate sem parar enquanto seu pai grita para encorajar: "Mais forte! Mais depressa!"

Por vários dias pergunto aos Lohar quando pensam em partir, e toda vez me respondem: amanhã. E eis que finalmente o amanhã chega. Apareço logo cedo no acampamento e os encontro carregando as carroças. As ferramentas são guardadas em compartimentos; os bois, arreados à custa de trabalho duro; e as cobertas, dobradas e empilhadas na carroça com catres, panelas enegrecidas de fuligem e membros da família jovens ou doentes demais para caminhar. Até que, por algum sinal mudo, a caravana maltrapilha começa a avançar com suas rodas de aro de ferro estrondeando no calçamento. Os veículos que se aproximam, a maioria de motocicletas e calhambeques a diesel fabricados na região, chamados jugards, dão passagem aos Lohar quando descem a estrada estreita, passando por plantações de mostarda e trigais ondulantes no inverno.

É difícil não se fascinar com a cena. Afinal, ali está uma tribo perdida em movimento. Se abstrairmos os carros Honda estrepitosos fabricados na Índia e as torres de micro-ondas laranja e branco, os Lohar são praticamente indistinguíveis dos altivos artesãos rajputs que fugiram de Chittaurgarh há quase meio milênio. O que esses andarilhos medievais perderão se deixarem de vaguear e forem absorvidos pela sociedade indiana mais ampla? No que diz respeito a sua cultura e suas tradições, provavelmente tudo.

Parece um preço alto. Os Lohar, por toda parte onde os encontrei, apegam-se a sua identidade nômade. E, no entanto, a maioria deixa claro que vive em carroças apenas por falta de opção.

"Eu seria a pessoa mais feliz do mundo se ganhasse terra e uma casa", me diz Lallu certa noite. Kanya também suspira pelos confortos de uma casa que ela jamais conhecerá. É fácil adivinhar o que ela deseja. Até nesse rincão rural do Rajastão há indícios da rápida transformação econômica na Índia: nos telefones celulares em posse de muitos dos fregueses dos Lohar (mas que nenhum Lohar tem), nas antenas parabólicas que brotam nas casas maiores. Parece natural que eles queiram participar dessa nova prosperidade. Além disso, foram alertados sobre o que lhes falta. Como outros grupos nômades do Rajastão setentrional, os Lohar foram incentivados por defensores da reforma agrária a pedir terras e moradia às autoridades locais. Isso, além de lhes dar um abrigo, atenderia à exigência burocrática de um endereço fixo, sem o qual é dificílimo receber benefícios do poder público, como óleo de cozinha subsidiado e assistência médica gratuita.

Mas até agora seus esforços têm sido em vão. Em uma das muitas cidades onde os Lohar registraram sua petição, as autoridades dizem que não têm terras para dar a ninguém no momento. E que, mesmo se tivessem, duvidam que os Lohar aceitassem. "Eles não querem se fixar", comenta uma autoridade com indisfarçado desdém. "Querem é viver na estrada."

A mesma resposta é dada em Thana Ghazi, cerca de 95 quilômetros a nordeste de Jaipur, onde as autoridades, com relutância, concederam lotes a uma dúzia de famílias Lohar em uma travessa da rua mais movimentada da cidade. Os ferreiros moram em casas de tijolo de um cômodo, com suas carroças e forjas do lado de fora. Mas, depois de cinco anos, a cidade ainda não lhes forneceu eletricidade e recusou sua solicitação de uma latrina comunitária.

O pradhan, chefe do distrito, confirma que resiste a fornecer os serviços ao grupo assentado porque, para começar, na opinião dele, não deveriam sequer ter permitido aos Lohar que se estabelecessem ali. O terreno fica perto demais de uma pensão de moças e de uma escola de ensino médio, explica o chefe, e eles estariam melhor em outro lote fora da cidade.

Poucos dias depois de minhas perguntas, trabalhadores aparecem no local para começar a instalação elétrica das casas. Alguns moradores da cidade não tentam esconder sua hostilidade. Numa tarde, quando saio do povoado com um assistente de uma instituição de caridade, três adolescentes de calça esporte e suéter caçoam de nós do telhado do colégio vizinho. "O que vocês vão fazer para eles?", grita um. "São nômades, e sempre serão."

É o começo de março, e está quase na hora de Lallu, Kailashi e seu clã verem a colheita da primavera. Trigais douram ao sol que a cada dia está mais quente. No acampamento no novo povoado, os Lohar acham refúgio à sombra de suas carroças e se refrescam em um poço próximo.

A primavera costuma ser tempo de esperança no Rajastão rural, mas, para Kanya, esse período chega acompanhado de medo. Seus pais decidiram que depois do festival hindu de Akha Teej, em abril, ela terá de voltar a viver com o marido e a família dele. "O rapaz é muito malvado", diz ela. Conta que ele e a mãe a forçavam a trabalhar o dia todo nos foles, e que ele a espancava se ela resistisse. Mas Kanya sabe que o divórcio é impensável para uma mulher em sua posição. "Não posso fazer nada", diz ela. "Se ficar aqui, vou sofrer. Se for para lá, vou sofrer. É o destino."

O desamparo de Kanya é agravado por ser mulher, mas aflige em certo grau todos os Lohar, cuja posição inferior na sociedade os deixa vulneráveis às pressões e aos preconceitos da Índia rural. Numa tarde, chego ao acampamento e descubro que os Lohar foram visitados no dia anterior por seguidores do Rashtriya Swayamsevak Sangh, ou RSS, o principal grupo nacionalista hindu. Os extremistas ficaram sabendo de minha presença, pensaram que eu era um missionário cristão e ameaçaram me espancar. Os Lohar, aterrorizados, imploram que eu me vá.

Consigo deixar claro que meu objetivo é o jornalismo, não a evangelização. Trabalhadores filiados ao RSS pedem desculpas e me acompanham em um encontro com os Lohar, que àquela altura já haviam se mudado de novo, agora para um pasto na periferia de outro vilarejo. O RSS exorta os Lohar a cooperar, mas minhas relações com os ferreiros não voltam a ser as mesmas.

Desconfiados desde o início, depois da encrenca eles não veem razão para continuar a me tolerar. "Você nos dá um punhado de farinha, mas escreve um montão", diz Kartar me olhando feio. "Agora vá. Estamos fartos de você."

Numa tarde, saio de Jaipur e vou procurá-los em uma última tentativa de reconciliação. Infelizmente, Lallu e Kailashi não estão para me dar apoio. Pegaram um ônibus para a capital do Rajastão, onde Kailashi espera encontrar tratamento para sua tosse e febre crônicas. Os outros mal falam comigo, e alguns dão as costas quando me aproximo. Entendo o recado e vou para o carro. "Não volte", grita Kartar.

Antes de partir, me viro e olho os Lohar pela última vez. Sua freguesia sumiu, e as forjas se apagaram. Amanhã, ou talvez depois de amanhã, levantarão acampamento e partirão como tantas vezes já fizeram. Mas nesse momento parecem desanimados e exaustos. Como viajantes que chegaram ao fim da linha.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

A teoria da escolha

A escolha pelo estudo nasce de dentro para fora, é um movimento de liberdade pessoal

Gabriel Perissé

Aprender é fazer escolhas norteadoras. Escolhas vitais. Entre as muitas que faremos, estão as escolhas de teorias que nos ajudem a compreender a realidade e a agir no dia a dia.

Teorias há para todos os gostos. Uma teoria, vivida com a máxima coerência possível, traz muitos e concretos resultados. Sejamos práticos: façamos ou adotemos teorias.
Machado de Assis escreveu "Teoria do Medalhão", conto delicioso, um diálogo entre pai e filho. O pai dá ao filho, que está completando 21 anos de idade, uma série de conselhos para que se torne ilustre membro da sociedade. Um dos maiores riscos nesta aventura para a qual o pai convida seu rebento é o de ter ideias próprias. Ter ideias próprias é perigoso. Seria desastroso para o rapaz e sua carreira. A fim de evitar que tal desgraça aconteça, algumas providências ele deve tomar. Uma das mais importantes: evitar a solidão, "oficina de ideias". Sozinho, começará a pensar, e isso é péssimo.

Outra providência: repetir frases feitas e lugares-comuns, poupando trabalho intelectual a si mesmo e aos interlocutores. Outra ainda é colecionar "sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas", fazendo as necessárias citações. Citações bem decoradas dão prestígio e exigem pouco esforço.

Há centenas de teorias para sermos felizes, ou eficazes, ou santos, ou ricos… Estamos o tempo todo recebendo ofertas teóricas, às vezes com generosos descontos, brindes e amostras grátis. Em casa ou na rua, lendo um livro ou consultando a internet, na escola e fora dela, somos convidados a adotar teorias, seguir esta ou aquela doutrina (mesmo que sejam doutrinas para emagrecer cinco quilos em uma semana!), aderir a este ou àquele sistema de conceitos… ou de preconceitos.

Uma famosa teoria é aquela que manda odiar as teorias. Muitos, no campo da educação, adotam o discurso antiteórico, alegando que o importante é a prática, o fazer, o chegar em sala de aula para, apenas, "dar aula", "passar a matéria", deixando de lado questões "ideológicas", "políticas", "filosóficas". No entanto, quem é visceralmente contra as teorias (como já nos explicou Aristóteles, ao refutar aqueles que odiavam a filosofia) já está desenhando uma teoria, já demonstra possuir uma filosofia sobre a inconveniência intrínseca das teorias!

A teoria que incentiva a escolha
Uma vez que, escolhamos ou não uma teoria, estaremos sempre filiados a alguma teoria, o bom-senso ensina que precisamos aprender a escolher.

O psiquiatra norte-americano William Glasser (1925-) propõe em seu livro Teoria da escolha (Editora Mercuryo, 2001) uma ideia otimista. A de que podemos fazer escolhas satisfatórias, por piores que sejam as circunstâncias, por mais desanimadora que seja a nossa situação profissional, afetiva, econômica etc.

No cotidiano escolar, a teoria da escolha pode ser motivadora para professores e alunos. No seu livro The quality school: managing students without coercion (1990), Glasser aplica os princípios de sua teoria à relação professor-aluno.

Uma de suas considerações é que a motivação para estudar não nasce de fora para dentro. A ameaça ou a sedução com promessas de uma recompensa são instrumentos ineficazes a médio e longo prazo. De muito pouco servirão as broncas ou as pressões. A escolha pelo estudo nasce de dentro para fora, é um movimento de liberdade pessoal.

O baixo aproveitamento escolar, a repetência, o desinteresse, a indisciplina, os baixos índices de qualidade, os relatos que todos temos com relação ao fracasso de boa parte do alunado brasileiro podem ser analisados à luz da Teoria da escolha, segundo a qual nenhum ser humano é totalmente desmotivado; ninguém, no fundo, deseja o seu próprio fracasso.

Os estudantes, como todo ser humano, estão motivados a satisfazer suas necessidades fundamentais. Todo estudante tem a necessidade fundamental de aprender. Todo mundo gosta de aprender.

A escolha pelo prazer de aprender
Punições ou recompensas são insuficientes para motivar os estudantes. Porque, na verdade, todos já estamos inclinados a aprender, do primeiro ao último momento de vida. Este é um ponto fundamental da Teoria da escolha. Faz parte do nosso desejo íntimo de uma existência de qualidade que não sejamos prisioneiros do tédio. Se as aulas produzem tédio, se os trabalhos acadêmicos são insossos e enfadonhos, é natural que os alunos busquem fora da escola um aprendizado mais interessante e significativo.

Recentemente, vi de perto uma criança de 8 anos recebendo como uma de suas lições de casa a entusiasmante tarefa de escrever em seu caderno, um a um, do número 550 ao número 650. E ela começou, estoicamente, a contragosto: 550, 551, 552, 553, 554, 555, 556, 557, 558, 559, 560, 561, 562…

A uma certa altura, para não ser vítima do tédio que estava a ponto de devorá-la, a criança levantou a cabeça e disse ao seu pai, com um sorriso: "Pai, será que já não tem um site com esses números? Depois a gente passa o link para a professora!"

* Gabriel Perissé (www.perisse.com.br) é doutor em Filosofia da Educação (USP) e professor do Programa de Mestrado/Doutorado da Universidade Nove de Julho (SP)

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

Império Universal

Igreja neopentecostal cresce mundialmente, exporta sua hierarquia chefiada por brasileiros e enfrenta acirrada concorrência religiosa. Expansão se apoia em mix de racionalismo empresarial com arcaísmo mágico

Lucília Monteiro – 2004/"Visão"

O bispo Edir Macedo durante culto na cidade do Porto, em Portugal

RICARDO MARIANO

Neste ano, o pentecostalismo completa um século no Brasil, que, não por acaso, é o maior país pentecostal do mundo, com mais de 30 milhões de adeptos. Em meados dos anos 50, formou-se o movimento "O Brasil para Cristo", cujo próprio nome delimitava o escopo nacional de suas pretensões missionárias. Mediante intenso uso do rádio e de fartas promessas de cura divina, seus líderes conseguiram retirar sua religião do anonimato, reduzir sua introversão sectária e acelerar sua expansão. A partir da década de 80, o vertiginoso crescimento da corrente neopentecostal, encabeçada pela Igreja Universal do Reino de Deus, radicalizou a ocupação pentecostal da esfera pública, por meio de vultosos investimentos em rádio e tele-evangelismo e do ingresso na política partidária.

Foi no contexto da redemocratização do país e da arrancada da globalização que as igrejas evangélicas intensificaram a internacionalização de seu proselitismo, invertendo, assim, o sentido Norte-Sul do fluxo missionário e a velha condição do Brasil de campo de missões europeu e norte-americano. Investindo-se de autoridade moral e religiosa e de ardor salvacionista, arrogaram-se o direito de evangelizar os países ricos do hemisfério Norte e o restante do planeta.

Fazendo jus a suas ambições globalizantes, a Universal iniciou as primeiras missões no exterior em meados dos anos 80, começando por Estados Unidos (1986), Uruguai (1989), Portugal (1989) e Argentina (1990). Na época, Edir Macedo [líder da igreja] tinha a convicção de que Nova York, onde morava, era "o centro de todas as nações do mundo como Roma era no tempo de Jesus" e que de lá poderia formar um centro de evangelismo mundial, a partir do qual enviaria os imigrantes convertidos como missionários a seus países de origem para auxiliar na implantação da igreja. O projeto fracassou.

Foi somente a partir da década de 90, com o envio de levas de pastores e bispos brasileiros apoiados, a seguir, por estrangeiros elevados ao pastorado, que a denominação cresceu. Conseguiu fincar pé em toda a América Latina, na América do Norte, em boa parte da Europa e da África, em alguns países da Ásia e, por último, em certos lugares do Oriente Médio e da Oceania.

Racionalismo e magia

Comandada sempre por dirigentes brasileiros, sua expansão, no país e no exterior, apoia-se numa gestão eclesiástica centralizada e arrojada, num mix de racionalismo empresarial com arcaísmo mágico. Baseia-se também no controle de uma voraz máquina de arrecadação legitimada pela Teologia da Prosperidade, no evangelismo eletrônico, numa combatividade induzida por doutrinas da guerra espiritual e na oferta sistemática de mensagens e serviços mágico-religiosos adaptados ao contexto local e às demandas materiais e de atribuição de sentido de seus distintos públicos-alvo.

Nos templos, tece redes de sociabilidade, oferece apoio emocional, terapêutico e assistencial a fiéis e virtuais adeptos. E, diuturnamente, lhes promete prosperidade, libertação do sofrimento e solução divina para seus males afetivos, psíquicos, familiares, financeiros e de saúde, acalentando esperanças de ascensão social.

De modo obsessivo, aciona, a todo instante, discursos persecutórios e agonísticos referentes a discriminações e perseguições supostamente efetuadas por forças espirituais e agentes terrenos demoníacos contra a igreja e seus líderes, para desancar a concorrência e mobilizar os fiéis. Assim, tenta desqualificar as acusações externas, reforçar sua união, engajá-los na "obra" e enredá-los numa identidade religiosa sectária em prol dos interesses institucionais da denominação.

Resultado: em 2000, a Universal já estava em cerca de 80 países. Hoje, informa estar em 172. No conjunto, seu êxito no exterior é extraordinário. Sua atuação, porém, é rarefeita em muitos deles, sobretudo em países da Ásia, do Oriente Médio e da África com baixa presença cristã e com ampla maioria budista, hindu, judaica e muçulmana.

Nessas regiões, enfrenta árduas barreiras, como elevadas distâncias culturais e linguísticas, resistências fundamentalistas, restrições jurídicas e políticas à liberdade religiosa, ao pluralismo religioso, ao proselitismo e ao uso da mídia eletrônica.

O portal Arca Universal (www.arcauniversal.com) acusa o golpe, por exemplo, ao alertar que a igreja se instalou na Tanzânia "em meio a muita perseguição", que "não é fácil" evangelizar os russos com seus "hábitos comunistas", que vigora "grave intolerância religiosa" na Índia.

Fé e oferta

Na contramão da opção de muitas igrejas pelo evangelismo "subterrâneo" nos países mais fechados à prédica cristã, a Universal mantém-se inflexível no propósito de exportar sua pesada estrutura eclesiástica para onde quer que vá, o que se mostra contraproducente em muitos lugares. Por isso, na Ásia, obtém sua melhor performance no Japão, onde praticamente se limita a arrebanhar parte dos decasséguis brasileiros e latinos.

Na Europa, tem de lidar com a vigorosa secularização e com uma população majoritariamente refratária a assumir compromissos religiosos em moldes tradicionais. São desafios quase insuperáveis para uma igreja com fortes pendores sectários e cuja mensagem central enfatiza a polêmica fusão entre fé e oferta financeira e reatualiza crenças mágicas e rituais exorcistas cristãos.

Nesse contexto, suas estratégias e técnicas adaptativas, embora criativas e pragmáticas, tendem a se mostrar pouco eficazes. Daí sua forçosa opção pelo recrutamento de imigrantes brasileiros, latinos, lusófonos e africanos e demais grupos discriminados ou em situação de vulnerabilidade social.

A exceção mais notável a seu desempenho relativamente modesto na Europa é Portugal, onde dispõe de amplo número de templos e adeptos, rede de rádio, obras sociais e muitos pastores de origem local. Nesse país, a língua, a proximidade cultural e o robusto catolicismo popular facilitam seu proselitismo diante de imigrantes latinos e africanos e a portugueses do interior.

No continente africano, ao contrário, cresce muito. Seu desempenho se destaca nos países lusófonos, nos quais dispõe do suporte midiático da Rede Record, na Costa do Marfim e, em especial, na África do Sul, onde reúne centenas de milhares de fiéis em enormes templos lotados e cultos animados por danças nativas.

Expande-se na cola do avanço pentecostal no centro-sul do continente e, principalmente, à custa de igrejas cristãs e de religiões africanas tradicionais, cujas crenças em feitiçaria, bruxaria, espíritos malignos, sortilégios e amuletos são compartilhadas e, ao mesmo tempo, estrategicamente demonizadas pela Universal.

Na América do Norte, cresce moderadamente nos EUA, onde prioriza a atuação em cidades e Estados com maior presença de imigrantes brasileiros e hispânicos. No México, esmagadoramente católico e sob a onipresença da Virgem de Guadalupe, após permanecer uma década sob severas restrições jurídicas e ter dezenas de pastores expulsos, conseguiu legalizar sua situação e, nos últimos anos, deslanchar seu crescimento.

América do Sul e América Central, regiões onde o pentecostalismo mais cresce no mundo, constituem terrenos dos mais férteis para a Universal. No campo religioso, explora habilmente elementos simbólicos da difusa religiosidade popular, também mágica e taumatúrgica, e a relativa fragilidade institucional do catolicismo, historicamente pouco praticado e munido de poucos padres.

Nos planos jurídico e político, se beneficia de ampla liberdade religiosa e da consolidação do pluralismo religioso. Na esfera social, tira vantagem do desespero e dos anseios das massas pobres e excluídas pelo capitalismo flexível, vítimas preferenciais da violência que assola a região, da precarização do trabalho e das péssimas condições de vida nas periferias urbanas.

Futuro

Embora a marcha global da Igreja Universal esteja só no começo, certas tendências podem ser entrevistas. No exterior, está predisposta a enfrentar pleitos por autonomia e cismas de corte nacionalista. No médio prazo, nada permite supor que conseguirá alterar sua modesta performance na Ásia (a não ser uma improvável democratização da China) e na Europa. Da mesma forma, nos EUA deve manter-se restrita à disputa com igrejas pentecostais latino-americanas e com o catolicismo por hispânicos.

No continente africano, terá de pescar cada vez mais no aquário cristão e enfrentar aguerridas e eficientes igrejas pentecostais nativas. Haja vista que a proporção da população vinculada a religiões tradicionais, além de relativamente pequena, vem diminuindo. A isso se soma o fato de que nem cristianismo nem islamismo conseguem crescer significativamente à custa um do outro na África subsaariana, segundo recente pesquisa do Pew Research Center.

No Brasil e em outros países da América Latina, a pluralização do campo religioso, a explosão pentecostal e a crescente concorrência religiosa têm estimulado um paulatino processo de revigoramento comunitário e institucional do catolicismo. Tal reação tenderá a reduzir o espaço social e religioso de ação dos pentecostais nas próximas décadas e, por consequência, o tamanho e a velocidade de seu crescimento. Fenômeno que pode resultar também de uma diminuição prolongada da pobreza na região.

A expansão pentecostal e a emulação bem-sucedida do modelo de gestão e das técnicas e estratégias proselitistas da Universal -vide, entre outras, a Igreja Mundial do Poder de Deus- vêm recrudescendo a competição em seu nicho de mercado. Ambos tendem a saturá-lo e a impor limitações recíprocas aos concorrentes pelo recrutamento de novos adeptos.

Na hipótese de ocorrer uma rápida redução do número de novas adesões, a Universal se verá pressionada a efetuar mudanças em seu "modus operandi". Terá de equilibrar seu atual evangelismo de massas, focado na oferta de soluções mágicas pontuais e imediatistas, com a adoção de um modelo de associação religiosa mais comunitário, baseado em compromissos de longo prazo e na promessa enfática de salvação extramundana. Estes recursos são cruciais para reter duradouramente os fiéis, reduzir a clientela flutuante e torná-la uma igreja cristã mais convencional. Algo que, no alto de sua triunfante expansão global, ela não pretende ser.

RICARDO MARIANO é sociólogo, professor da Pontifícia Universidade Católica (RS) e autor de "Neopentecostais" (ed. Loyola).

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br