Daily Archives: 25/03/2010

"Coffee Party" integra o cardápio político de esquerda dos EUA

Yolanda Monge

Apesar da fundadora do Coffee Party 
afirmar que o movimento não é alinhado com nenhum dos dois partidos 
tradicionais americanos, suas mensagens coincidem com as do Partido 
Democrata, do presidente Obama

Apesar da fundadora do Coffee Party afirmar que o movimento não é alinhado com nenhum dos dois partidos tradicionais americanos, suas mensagens coincidem com as do Partido Democrata, do presidente Obama

Nasce nas redes sociais dos EUA uma alternativa de esquerda ao movimento de extrema-direita "Tea Party"

Não é que não goste de tomar chá, mas que está cansado do Tea Party. Cansado de uma retórica alienante na qual não se reconhece e saturado de que o movimento de ultradireita continue considerando o governo como o inimigo dos cidadãos, o Coffee Party acaba de se somar ao cardápio político (de esquerda) dos EUA.

A ideia surgiu de repente, produto de um momento de irritação. Na noite de 26 de janeiro, Annabel Park, 41 anos, deu rédeas soltas a seu aborrecimento em sua página do Facebook. Park não aguentava mais. Se escutasse outro sermão, outra incongruência da boca de qualquer membro do chamado Tea Party, entraria em ebulição. Escutou, e aconteceu o seguinte:

"Vamos começar um Coffee Party… um Batida Party, um Red Bull Party. O que for, menos chá… que tal um Capuccino Party? Isso realmente os irritaria, porque soa muito elitista… Vamos nos reunir e beber capuccino e ter um verdadeiro diálogo político com substância e empatia."

A explosão de raiva espontânea contra o que ameaça ser o novo conservadorismo americano se transformou – com a rapidez de tudo o que acontece na rede – no movimento Coffee Party. "Desperta e reage" é seu lema.

O crescimento foi – está sendo neste momento – quase exponencial. Em 1º de março, a página do Facebook de fãs do Coffee Party tinha 40 mil membros. Três dias depois o número ultrapassava 70 mil e no sábado já eram quase 90 mil seguidores. Com simpatizantes em pelo menos 30 dos 50 estados da União, o Coffee Party acaba de chamar para mobilizações e encontros em todo o país no próximo sábado.

Assim começou o Tea Party no ano passado e hoje conta com 1.200 sedes, organizou sua primeira convenção nacional e em um dia de outono encheu de adeptos as ruas de Washington. O nome Tea Party vem dos fatos históricos que no século 18 deram lugar à Guerra de Independência americana.

Como pioneira em certificar por escrito sua frustração e cólera, Annabel Park ocupa o cargo de coordenadora de fato do Coffee Party. Nascida na Coreia do Sul, Park chegou aos EUA com seus pais quando tinha 9 anos. Estudava e trabalhava na loja de "fast food" que sua família administrava em Houston (Texas), o que a fez conhecer em primeira-mão o americano normal e comum, o que compra um hambúrguer e o come apressadamente na rua ou desfruta de "tacos" sentado em um parque no breve espaço que o trabalho lhe deixa para almoçar.

"Claro que encontrei racismo então", declarou Park à mídia, que nestes dias disputou sua presença em seus programas informativos. "Mas a maioria das pessoas era amável e a maioria das pessoas é boa gente." "Não me reconheço e não reconheço os EUA na imagem que o Tea Party pinta", afirma essa diretora de documentários que mora nas proximidades de Washington.

Mas qual é a mensagem do Coffee Party? Faz parte do Partido Democrata? Está sendo levado a sério? Até agora as respostas são simples – mais ou menos. Dizem seus seguidores que o Coffee Party tem como objetivo promover uma discussão cívica que traga soluções para o discurso da política nacional, fugindo da prática de só atribuir culpas e apontar o dedo exercida pelo Tea Party, o movimento conservador que nos últimos meses sacudiu os EUA, alimentado pelo rancor e o medo de uma classe média empobrecida pela crise (o nacionalismo, a xenofobia e o fanatismo também estão em sua agenda de maneira mais ou menos óbvia).

Apesar de Park afirmar que o movimento não é alinhado com nenhum dos dois partidos tradicionais americanos, suas mensagens coincidem com as do Partido Democrata. A própria Park foi uma fervente voluntária na campanha eleitoral de Barack Obama em 2008. "Não posso aceitar que o Tea Party fale por todos os americanos", afirma, mas admite que eles têm em comum sua frustração com os políticos tradicionais e o desejo da necessidade de um maior controle fiscal.

Resta ver se o movimento que agora inicia é sério – assim como o Tea Party. Os republicanos o chamam de uma mera continuação da eterna campanha política em que Obama está submerso. Alguns membros do Tea Party acreditam que o grupo não passa de uma tentativa ridícula de satirizar seu legítimo e popular movimento.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

O mundo secreto dos concursos de beleza

Bregas? Sim. Machistas? Também. Decadentes? Nem tanto. Competições de misses movimentam mais de US$ 5 bilhões e só perdem em audiência para final de Copa do Mundo e abertura de Olimpíada. Entenda como funciona esse grande negócio

Marina Bessa e Renata Cruz

O cenário se restringia a um jogo de luzes e gelo-seco digno de um show de formatura. Na área nobre da platéia, a primeira fileira era reservada aos jurados. O público reunia homens e mulheres que pareciam se conhecer, como os moradores de uma cidade do interior que se encontram no baile da rainha da primavera. Sem glamour nem empolgação (e também sem muita beleza), as candidatas se esbarravam umas nas outras, sorrindo e contorcendo o pescoço enquanto desfilavam ao som de Alexandre Pires. Na platéia, o grupo mais animado era a caravana de Goiás – uma minitorcida de meia dúzia de pessoas que entoava gritos de apoio à representante do estado. No resto do país, quase ninguém deu bola. Mas, para aquelas pessoas que enchiam o salão do Citibank Hall, em São Paulo, era a noite mais importante do ano: 27 garotas representando as unidades da Federação disputavam a coroa de Miss Brasil 2008.

Você reluta em acreditar, mas esses concursos ainda existem. E, por mais cafonas e machistas que sejam, estão longe de ser decadentes. Ok, não há como negar que no Brasil competições de mulheres bonitas desfilando com pouca roupa perderam a graça e a relevância há pelo menos 20 anos. Mas, no resto do mundo, o cenário (as mulheres e o público) é outro. O Grand Slam da beleza está cada vez maior – 106 países se inscreveram na última edição do Miss Mundo, batendo todos os recordes de participação. Só nos EUA, esses concursos movimentam US$ 5 bilhões por ano, mais que o PIB de 50 dos países do globo. A boquinha é tão boa que, em 1996, Donald Trump, o magnata americano famoso por apresentar a versão original do programa O Aprendiz, comprou a franquia do Miss Universo, a mais importante competição do gênero, por US$ 10 milhões. Além dos direitos sobre o evento, ele também recebe cerca de 20% sobre os honorários da campeã, que durante seu reinado não costuma se levantar do trono por cifras com menos de 5 dígitos. Em 2000, o evento já havia rendido a Trump US$ 100 milhões.

Transmitido ao vivo para mais de 100 países, o Miss Universo é uma grande empresa que funciona em sistema de franquias: quem quiser participar paga US$ 80 mil e ganha o direito de mandar uma candidata ao concurso. Agora, sediar o evento é um pouco mais complicado. Os concorrentes passam por uma seleção, segundo os organizadores, muito criteriosa: além de ter boas atrações turísticas, é necessário um auditório capaz de comportar ao menos 4 mil pessoas, um teto que resista a 45 quilos de equipamentos de luz e som e um palco grande o suficiente para 80 pessoas. Considerando que 99% das nações do mundo se encaixam nessa descrição, o desempate acaba sendo simples: quem pagar mais leva. Para ser a sede de 2008, o Vietnã precisou desembolsar US$ 7 milhões.

Compensa? Parece que sim. Em 2005, a Tailândia torrou quase US$ 20 milhões para abrigar o espetáculo. Mais de 90% da grana veio dos cofres do governo, que pôde veicular durante o programa, em rede internacional, um documentário sobre o país. As cotas de patrocínio e os comerciais nos intervalos do evento geraram uma receita de US$ 200 milhões. Dez vezes mais que o investimento inicial.

Nada disso seria possível se a competição não fosse um sucesso. Em 2007, foram 600 milhões de telespectadores – ou seja, 1 em cada 10 pessoas do planeta assistiu o evento. Esse concurso kitsch com mais de 50 anos mantém-se até hoje como o 3o programa internacional mais visto no mundo, perdendo apenas para a final da Copa do Mundo e para a abertura dos Jogos Olímpicos (o Oscar é assistido por menos de 50 milhões).

O poder da beleza

Desde que o mundo é mundo, mulheres bonitas são escolhidas como símbolos de virtude, sorte, amor. Mas a idéia de ganhar dinheiro com isso surgiu no fim do século 19, quando jornais de Paris, empolgados com a popularização da fotografia, publicaram fotos de mulheres para eleger a mais bela francesa. Fez barulho, vendeu jornal, chamou anunciante. E olhe que era só foto de rosto. Imagine se fosse de corpo inteiro e quase sem roupa… Uma fábrica de roupas de banho chamada Catalina imaginou. E, em 1952, criou em Long Beach, Califórnia, um concurso de mulheres desfilando de maiô. A Universal Studios investiu na proposta e o evento ganhou o nome de Miss Universe.

Em pouco tempo, virar Miss Universo passou a ser o sonho de 9 em cada 10 terráqueas. Os concursos de beleza tinham se tornado uma ótima oportunidade para tirar garotas do anonimato. “O papel da mulher sempre foi restrito ao mundo privado. Vencer um concurso era, e ainda é, uma forma concreta de ocupar um lugar de destaque na vida pública”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da UFRJ e autora do livro O Corpo como Capital. Isso explicaria o fato de os maiores consumidores desse mercado serem regiões onde mulheres e homens não estão em pé de igualdade. Todas as nações árabes, por exemplo, transmitem os grandes concursos de beleza. Os países com mais tradição, considerando vitórias, participação e audiência, são Venezuela, Porto Rico, Índia, China e EUA. E não é estranho os EUA estarem nessa lista. “A cultura americana é baseada na aparência. Eles gostam de competições e gastam muito com o corpo”, diz Mirian.

De fato, os EUA alimentam esse negócio como nenhum outro país. Todo ano, 3 milhões de americanas disputam concursos de beleza. Lá, a tradição começa cedo – há até categorias para bebês de 0 a 12 meses – e inclui títulos como Miss Encantadora de Serpentes e Conselheira Nacional dos Laticínios.

As feministas, claro, torcem o nariz. Desde a década de 1960, os protestos contra os eventos são constantes. Segundo Adalgiza Colombo, Miss Brasil 1958, elas implicam “porque são um bucho”. A versão oficial é outra: concursos de beleza são vulgares e expõem a mulher de forma humilhante. Em 2007, ano em que o Miss Universo foi realizado no México, houve protestos na porta do teatro em que se realizava a competição: mulheres de vestidos brancos com manchas vermelhas usavam faixas em que se lia: Miss Juárez, Miss Atenco, Miss Michoacán – cidades que batem recordes nacionais de violência contra a mulher. No mesmo ano, a Miss Suécia se retirou da competição – grande parte da população sueca acreditava que o concurso denegria a imagem das mulheres.

O fato é que as candidatas não se sentem ofendidas nem humilhadas só por terem seu bumbum analisado por um corpo de jurados atentos. Em sua defesa, elas dizem que essa é apenas uma das partes de uma avaliação bem mais complexa e juram que, nos dias de hoje, ninguém é miss se for burra (veja no site da SUPER 5 vídeos que contradizem essa teoria). Os concursos tentam colaborar. A maior parte deles inclui entrevistas que, segundo os organizadores, são muito relevantes na escolha da rainha. O Miss América, o maior em audiência nos EUA, vai além. Lá, as candidatas precisam passar por uma prova de talentos. Vale tudo: desde dançar até demonstrar como arrumar uma mala para viagem. Só não vale citar o Pequeno Príncipe… Para os públicos mais exigentes, um escorregão de QI é mais grave que um tropeço no palco. Em 1982, a Miss Venezuela recém-eleita declarou que amava ouvir a música de Shakespeare. Seu pai até tentou criar uma banda chamada Shakespeare para amenizar a gafe, mas a moça acabou renegada pelo país e seria a única candidata venezuelana dos 20 anos seguintes a não chegar a uma semifinal no Miss Universo (veja abaixo como a Venezuela se transformou em uma fábrica de misses).

Direto para a fama

Se forem inteligentes mesmo, as vencedoras de um concurso como o Miss Universo terminam o seu reinado com a vida feita. Além de receber US$ 140 mil, mais uma bolsa de estudos de US$ 100 mil, um guarda-roupa sob medida, uma coleção de sapatos, um relógio de US$ 30 mil, um personal stylist, um ano de salão de beleza, um apartamento com todas as despesas pagas na 5ª avenida em Nova York e uma espécie de babá à disposição, a miss ganha um belo emprego por um ano. Durante esse tempo, tem compromissos com patrocinadores e participa de eventos determinados pela organização. Viaja, em média, a um país por mês, levando sua imagem plácida de boa moça.

Sinal de que as rainhas da beleza ainda têm muito prestígio. Uma miss que sabe fazer contatos e trabalhar a sua imagem dificilmente cai no anonimato. A maioria delas vai parar no mundo artístico. Só para falar em Hollywood: Sophia Loren (Miss Roma), Oprah Winfrey (Miss Black Tenesse), Sharon Stone (Miss Pensilvânia), Hale Berry (2o lugar no Miss USA). Onze das bond girls foram candidatas a Miss Mundo. A até então desconhecida surfista australiana Jennifer Hawkins, Miss Universo 2004, é hoje um dos principais nomes do show business de seu país, com um patrimônio estimado em US$ 10 milhões. Ex-misses mais engajadas aproveitam a popularidade e o carisma para se aventurar pela política: Oxana Fedorova, Miss Universo 2002, foi assessora de um presidenciável na Rússia. Mara Carfagna, candidata a Miss Itália em 1997, acaba de ser nomeada ministra da Família no governo Berlusconi. E Irene Sáez, Miss Universo 1981, foi prefeita de Chacao, na Venezuela, e chegou a concorrer com Hugo Chávez pela Presidência em 1998.

O Brasil também tem algumas célebres ex-misses: Vera Fischer (Miss Brasil 1969), Luise Altenhofen (Miss Rio Grande do Sul 1998), Grazielli Massafera (Miss Paraná 2004)… Mas provavelmente você não sabe o nome da Miss Brasil deste ano. E o risco de ela continuar no anonimato é grande: há 50 anos o Brasil não ganha o Miss Universo e só 30% das meninas costumam ficar entre as 15 mais bonitas. Por que, mesmo sendo o país de algumas das modelos mais famosas, bonitas e bem pagas do mundo, os concursos de beleza não pegam por aqui?

Uma das explicações é simples: na terra da Mulher Melancia, ver garotas desfilando de biquíni não tem muita graça (talvez por isso você quase tenha pulado esta reportagem). A outra é mais complexa e envolve o comando das operações: por aqui, o negócio foi mal administrado. Em 1980, Silvio Santos comprou a franquia do Miss Universo, que, até então, quebrava recordes de audiência. E, dizem, esse foi o começo do fim. “Ele criou um formato muito popular, quase vulgar. Chegava a pedir que as misses pegassem uma ficha no bolso dele. Isso é coisa que se peça a uma miss?”, diz Roberto Macedo, missólogo (sim, essa palavra existe) e ex-organizador do Miss Bahia. Em 1987, o programa já estava tão mal que o “patrão” decidiu, sem mais nem menos, fechar a lojinha. De evento glamoroso passou a ser visto como cafona e ultrapassado.

Por mais de uma década, a competição viveu no limbo: foi associada a escândalos, desonestidade e até comércio sexual. Ninguém mais estava interessado em assistir. A década de 1990 começou sem sequer ter uma Miss Brasil. Mas, aos trancos e barrancos, o concurso foi sobrevivendo. Em 2008, com uma forcinha de Nathália Guimarães, que quebrou a rotina e foi vice-campeã no Miss Universo 2007, o Miss Brasil passou a ser transmitido pela Band, com direito a patrocinador grande (Palmolive) e a prêmio de R$ 200 mil. Mas, mesmo assim, amargou o 5o lugar na audiência, com 4,2 pontos no Ibope.

Naquela noite, a Miss Goiás ficou em 3o lugar, enquanto a Rio Grande do Sul era coroada entre muito gelo-seco e poucas lágrimas. Os apresentadores, quase amadores, tentavam levantar o público seguindo a cartilha Silvio Santos. A caravana goiana voltou para casa conformada: Hollywood não passa por aqui.

Top 5
Quem são as superpotências da indústria da beleza

Venezuela

Além de ser a maior detentora de títulos mundiais, fez de seu concurso nacional, o Miss Venezuela, o evento mais caro e mais assistido do país.

EUA

Movi­mentam US$ 5 bilhões em concursos de beleza – feitos para todos os gostos e idades. É líder em títulos Miss Universo.

Porto Rico

De tão grande, a franquia porto-riquenha do Miss Universo ganhou uma versão em podcast.

Índia

Segundo lugar no Grand Slam dos concursos (calculado como um ranking de Olimpíadas). Foi , junto com a Venezuela, o país que mais levou coroas de Miss Mundo.

China

Nos últimos anos, a China ultrapassou, em colocações e títulos, países tradicionalmente ligados a concursos de beleza, como a Colômbia.

Fábrica de Misses
Com treinamento especializado, a Venezuela fez dinheiro e história

Em 55 anos de Miss Universo, a Venezuela foi finalista 22 vezes. Entrou para a história como o país recordista de títulos: 4 Misses Universo, 5 Misses Mundo e 5 Misses Beleza internacional. O segredo não são as mulheres, mas um homem: Osmel Sousa. Osmel era estilista e sempre gostou de desenhar rostos perfeitos. Fã dos concursos de beleza, escolhia sua candidata e a treinava escondido. Em 1979, um ano antes de se tornar presidente das Organizações Miss Venezuela, sugeriu que Maritza Sayalero fizesse uma plástica no nariz – foi a primeira candidata venezuelana a recorrer ao bisturi. Ganhou o Miss Universo. “O que isso queria dizer? Que teríamos que operar todas!”, conta Osmel.

Com visão estética e de negócio, converteu o evento em uma empresa lucrativa. Em um QG criado para treinar aspirantes à coroa, cada candidata é minuciosamente analisada e recebe sua meta: deve chegar à forma perfeita à custa de ginástica, dieta e cirurgias plásticas. Quantas Osmel julgar necessárias. “Beleza não nasce, faz-se”, diz, sem nenhum dilema ético. Seu padrão de beleza – medidas precisas, nariz fino, rosto angulado – reinou entre as misses na década de 1990. A fórmula já começa a dar sinais de cansaço – França, Israel e Suécia proibiram candidatas plastificadas –, mas está longe de ser abolida: cerca de 50% das concorrentes dos mais importantes concursos do mundo têm alguma intervenção cirúrgica.

Para saber mais

O Corpo como Capital

Mirian Goldenberg, editora Estação das Letras e Cores, 2007.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

A Expansão do Café no Brasil

Introdução
Originário da Etiópia, onde já era utilizado em tempos remotos, o café atravessou o Mediterrâneo e chegou à Europa durante a segunda metade do século 17. Era a época do Barroco e das monarquias absolutas, e a expansão do comércio internacional enriquecia a burguesia. Já no início do século 18, os Cafés tornaram-se centros de encontro e reunião elegante de aristocratas, burgueses e intelectuais.
Precedido pela fama de "provocar idéias", o café conquistou, desde logo, o gosto de escritores, artistas e pensadores. Lord Bacon atribuía-lhe a capacidade de "dar espírito ao que não o tem". os enciclopedistas eram adeptos fervorosos do café e dos Cafés, que Eça de Queiroz chegou a afirmar, muito depois, que foi do fundo das negras taças "que brotou o raio luminoso de 89", referindo-se às discussões entre iluministas que precederam a Revolução Francesa.

No Brasil

No Brasil, o café anda, derruba matas, desbrava as terras do Oeste.
Foi em 1727 que o oficial português Francisco de Mello Palheta, vindo da Guiana Francesa, trouxe as primeiras mudas da rubiácea para o Brasil. Recebera-as de presente das mãos de Madame dáOrvilliers, esposa do governador de Caiena. Ora, como a saída de sementes e mudas de café estava proibida na Guiana Francesa, é licito pensar que o aventureiro português recebeu de Madame não só os frutos, mas outros favores talvez mais doces. As mudas foram plantadas no Pará, onde floresceram sem dificuldade.
Mas não seria no ambiente amazônico que a nova planta iria tornar-se a principal do país, um século e meio mais tarde. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos o consumo da bebida crescia extraordinariamente, exigindo o constante aumento da produção, o café saltou para o Rio de Janeiro, onde começou a ser plantado em 1781 por João Alberto de Castello Branco. Tinha início, assim, um novo ciclo econômico na história do país. Esgotado o ciclo da mineração do ouro em Minas Gerais, outra riqueza surgia, provocando a emergência de uma aristocracia e promovendo o progresso do Império e da Primeira República.
Penetrando pelo vale do rio Paraíba, a mancha verde dos cafezais, que já dominava paisagem fluminense, chegou a São Paulo, que, a partir da década de 1880, passou a ser o principal produtor nacional da rubiácea (café). Na sua marcha foi criando cidades e fazendo fortunas. Ao terminar o século XIX, o Brasil controlava o mercado cafeeiro mundial.

Nas cidades surgem Cafés. E o culto ao "ouro verde"

"No começo do século o Café Lamas é um cenáculo de (…) irrequietos boêmios: estudantes, artistas, bancários, rapazes do esporte, do funcionalismo público e do comércio. Funciona dia e noite. Suas portas não se fecham, nem se abrem. De tal sorte que, uma vez, quando se amotina a Escola Militar em 1904, durante a Revolta da Vacina e a notícia corre que, sob o comando do general Travassos, descem os alunos pela.rua da Passagem, caminho do Catete, as portas do estabelecimento, de tanto viverem sem (…) movimento, não podem fechar, perras, imobilizadas nos seus gonzos. E assim é que se manda chamar, para fazer movê-las, um esperto carpinteiro". (Luiz Edmundo.).
Na madrugada carioca, os caminhos de todos os boêmios convergiam, ziguezagueantes e trôpegos, para o Café Lamas. Depois da meia-noite era para ali que avançavam, a passo vacilante, notívagos e intelectuais saídos de outros Cafés famosos, como o Papagaio, o Cascata, o Café Paris e muitos mais.
Nos movimentados Cafés tomava-se de tudo, inclusive café, servido por ágeis e animados garçons, que talvez não tivessem plena consciência de seu papel na complexa estrutura econômica do Brasil, mas cuja função representava o último elo, fumegante, negro e aromático, da ampla cadeia do café.

Financiando, armazenando e vendendo, as Casas Comissárias reinam sobre o café

Contemplando certo edifício em Buenos Aires, Olavo Bilac – então em viagem oficial á Argentina – exclamava em 1910: "Casa querida! Como tu lembras, aqui, no estrangeiro, todas as casas da minha vida". Referia-se à sede do Café Paulista, empresa de comercialização fundada por Octaviano Alves de Lima na capital portenha. Notável propagandista, Alves de Lima conseguira aumentar o consumo do café brasileiro pelos argentinos, divulgando o slogan "Café Paulista (Brasil) – O melhor do mundo". O café era o símbolo do Brasil no exterior.

Entre a fazenda produtora e o consumidor estrangeiro, o café passava por uma série de etapas, mudando várias vezes de mão. Depois de conduzido em lombo de burros ou em carros de boi até a estrada de ferro mais próxima, que passava com freqüência pela própria fazenda, era embarcado em vagões, que desciam para o porto de Santos ou do Rio de Janeiro. Mas não era imediatamente exportado. Fazia, antes, um estágio nos armazéns de alguma Casa Comissária e era então vendido aos exportadores. Os comissários de café – geralmente comerciantes portugueses e brasileiros, ou grandes fazendeiros que diversificavam suas atividades metendo-se no comércio e fundando bancos – financiavam plantações sob hipoteca e por conta da produção a ser vendida. Vendendo o café aos exportadores, os comissários tiveram papel decisivo, particularmente no primeiro período de expansão dessa lavoura (final do século XIX), quando a maior parte dos fazendeiros ainda não se mudara para a cidade e vivia isolada nas casas-grandes de suas fazendas. .
Os comissários cobravam dos fazendeiros comissão pela venda, despesas de armazenamento e juros pelo financiamento da plantação. Houve um momento em que foi muito estreita a relação de dependência pessoal do produtor para com o comissário, tomando-se este uma espécie de conselheiro daquele. "Daí persistir em 1890 o costume de grandes casas comerciais hospedarem, nos seus andares superiores, senhores rurais ou pessoas de suas famílias. Quando em visita ás cidades, era aí ou nas próprias residências dos seus comissários (…) que se instalava essa gente do interior". (Gilberto Freyre.) ‘.
Entre as mais importantes Casas Comissárias estavam a Prado Chaves, que era também exportadora – chegando a exportar, em 1910, 1,5 milhão de sacas de café-, a Whitalter & Brotero, a Companhia Intermediária de Café de Santos e a Companhia Paulista de Armazéns de Santos, controlada por ingleses.
Embora a presença estrangeira pudesse ser notada entre os comissários, era, porém, no comércio de exportação que mais forte se fazia sentir sua intervenção. Das dez maiores firmas exportadoras, em 1907, apenas uma era brasileira, a Prado Chaves, que ocupava o sétimo lugar. Todas as outras, como a Theodor Wille (alemã) e a Neumann & Gepp (inglesa), pertenciam a estrangeiros. As vendas externas proporcionavam enormes lucros, pois a própria cotação do café era manipulada pelos exportadores, numa época em que as trocas de informações entre os continentes mostravam-se precárias.
Apesar das crises econômicas conjunturais, o consumo mundial de café crescia constantemente. Os lucros dos exportadores, entretanto, não subiam na mesma proporção, pois, entre 1891 e 1900, a exportação de 74 491 000 sacas de café rendeu a cifra de 4691906 contos de réis, enquanto na década seguinte, isto é, entre 1901 e 1910, houve uma queda para 4 179 817 contos de réis no pagamento da exportação de uma quantidade maior de café (130 599 000 sacas). Em 1906, o providencial Convênio de Taubaté viria salvar a situação. E os exportadores poderiam, outra vez, dormir em paz.

Na alta, fortuna. Na baixa, falência. Um convênio irá equilibrar essa balança?

Mas, afinal, o que estava acontecendo com o café? perguntava-se, perplexo, o homem da rua, em fins de 1902. Não era ele o "ouro verde" de que tantos falavam? Que anúncios de crise eram aqueles? Onde estava a antiga euforia, aquela impressão de riqueza sem limites, proporcionada pelo café, e que foi a marca dos últimos decênios do século XIX?
E, com efeito, aquilo que parecia impossível na década de 1880 estava de fato acontecendo. A cotação internacional do café caía constantemente, enquanto as fazendas lançavam no mercado quantidades crescentes do "ouro verde". A safra dos anos 1901/1902 havia superado a marca de 16 milhões de sacas, para um consumo mundial ligeiramente superior a 15 milhões. E a cotação do produto no mercado externo, que havia sido de 102 francos-ouro em 1885, caíra para 33 francos-ouro em 1902. De fato, desde 1893, os preços
internacionais vinham caindo sistematicamente como conseqüência dos problemas econômicos dos Estados Unidos, nosso principal cliente, e da expansão mundial da produção de café.

Mas durante alguns anos a queda dos preços havia sido compensada pela desvalorização do mil-réis. Os cafeicultores recebiam menos em libras ou em francos, mas o montante de suas rendas em moeda nacional não se alterava substancialmente. Essa desvalorização do dinheiro era provocada pelo "encilhamento" – política de farta emissão de papel-moeda adotada na gestão de Ruy Barbosa no Ministério da Fazenda (1889-1891), durante o governo de Deodoro da Fonseca. Visando a aumentar a quantidade de dinheiro em circulação, para incentivar o estabelecimento de indústrias e possibilitar o pagamento da massa assalariada que começava a substituir os escravos, o "encilhamento" gerou um galopante processo de inflação. Essa política caracterizou-se também pelo estímulo oficial à constituição de sociedades por ações, o que gerou desenfreada especulação na Bolsa de Valores. (Daí o nome "encilhamento", que se refere ao momento em que são apertadas as selas dos cavalos antes das corridas nos hipódromos – e o ritmo das apostas se torna frenético.) No final do século XIX, depois de um período de euforia, as ações começaram a baixar – e muitos cafeicultores abriram falência.
Para restaurar as finanças, o presidente Campos Salles, logo que tomou posse, em 1898, passou a aplicar uma política deflacionária, forçando a revalorização do mil-réis. Ora, revalorizar a moeda significava – caso a tendência baixista na cotação do café não fosse modificada – reduzir fortemente a renda dos cafeicultores. E era o que estava começando a acontecer, agora que a política "saneadora" de Campos Salles apresentava seus primeiros resultados.

A opulência do passado entra em crise

Em 1902, olhando os jornais do dia, ao tomar o fumegante café da manhã, os homens de negócios não podiam esconder seu temor diante dos fatos. E preciso fazer alguma coisa! exclamava o fazendeiro, franzindo o cenho. E preciso fazer algumas coisas! repetiam, como um eco, deputados e senadores, presidentes de Estado, potentados do café. Pois era a rubiácea o sustentáculo da jovem República, assim como o fora do Império.
Expandindo-se em ondas verdes em direção do Oeste durante a segunda metade do século XIX, os cafezais haviam ocupado enormes espaços geográficos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Uma nova classe dirigente surgiu daí, muito mais poderosa e opulenta do que os antigos barões do açúcar. Mais urbana do que estes e muito ligada á vida cultural e social da Europa, essa nova classe contribuiu poderosamente para modificar a paisagem das cidades. Sua ação fez surgir um novo estilo arquitetônico, copiado de modelos europeus, e levou o fausto da casa-grande senhorial às chácaras e sobrados urbanos. No Rio de Janeiro, por exemplo, Antonio Clemente Pinto, Barão de Nova Friburgo, possuidor de vinte fazendas, fez construir o Palácio do Catete, entre 1858 e 1865, por 8000 contos de réis.
A ação urbanizadora do café permitiu também a modernização das grandes cidades e motivou a revolução nos transporte com a implantação das primeiras estradas de ferro. As ferrovias paulistas – a primeira das quais, ligando Santos a Jundiaí é de 1867 -, abrindo caminho para o oeste, acompanharam a plástica fronteira verde. E foram plantando cidades em seu avanço. Só em São Paulo, entre 1891 e 1900, foram criados 41 municípios.

A salvação vem de Taubaté

Em 1906, a crise atingiu seu ponto culminante. A safra de café desse ano ultrapassou os 20 milhões de sacas, para um consumo mundial inferior a 16 milhões, enquanto os preços continuavam a cair. Em fevereiro, reuniram-se em Taubaté os presidentes Jorge Tibiriçá (São Paulo), Nilo Peçanha (Rio de Janeiro) e Francisco Salles (Minas), procurando encontrar uma saída para o impasse. Precedida de intensas pressões dos cafeicultores sobre o presidente da República, Rodrigues Alves – que tomara posse em 1902 – para que fosse aprovado um plano de valorização do café, proposto pelo industrial paulista Alexandre Siciliano, a reunião estabeleceu princípios que iriam modificar inteiramente a orientação econômica do Governo federal. Rodrigues Alves, apesar de paulista e cafeicultor, opunha-se à valorização, pois queria dar continuidade à política deflacionária do governo anterior, de Campos Salles. No entanto, obedecendo aos reclamos do "complexo do café", os presidentes Tibiriçá, Peçanha e Salles firmaram acordo que representava literalmente a "salvação da lavoura". Conhecido como Convênio de Taubaté, esse acordo fixou os seguintes princípios: a) preço mínimo para a saca de café; b) negociação de um empréstimo externo de 15 milhões de libras esterlinas para custear as compras de café a serem feitas pelos Governos estaduais, com a finalidade de retirar do mercado uma parte do produto;
c) estabelecimento de um fundo para a estabilização do câmbio, impedindo assim que o mil-réis fosse revalorizado; esse fundo seria a Caixa de Conversão; d) imposição de uma taxa proibitiva para impedir o surgimento de novas plantações.
"Depois de alguma luta para demover os opositores do plano, o Convênio foi finalmente aprovado pelo Congresso Nacional, não sem certa resistência de Rodrigues Alves. Tal resistência, aliás, custou-lhe o mando político do país. Durante aquele ano ocorreria a sucessão presidencial e os representantes dos grandes Estados rejeitaram o candidato preferido de Rodrigues Alves, escolhendo Affonso Penna, inteiramente identificado com a valorização do café. Empossado em novembro, Penna honraria fielmente seus compromissos com cafeicultura.
Durante os três anos seguintes foi implantada a Caixa de Conversão e os Estados conseguiram dos banqueiros europeus o ansiado empréstimo de 15 milhões de libras, com o qual puderam efetuar compras maciças de café excedente. Em 1909, surgiram os primeiros efeitos da política de valorização. Os preços internacionais do café começaram a subir, enquanto a Caixa de Conversão conservava o câmbio artificialmente baixo. No entanto, o país endividara-se no exterior. Os grandes bancos europeus passaram a controlar o comércio do café. Muitas fazendas foram vendidas a estrangeiros, pois o esquema valorizador enriqueceu apenas uma parte dos produtores.
Os principais beneficiários da nova política econômica foram basicamente os banqueiros internacionais e as casas comissárias, que, comprando o café na baixa e vendendo-o na alta, auferiram lucros fabulosos. Algumas delas, aliás, tornaram-se grandes proprietárias de fazendas. A Prado Chaves, por exemplo, adquiriu, nesse período, catorze fazendas, vendidas a baixo preço por cafeicultores arruinados, com um total de 3,5 milhões de pés de café.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

Potências do comunismo

Daniel Bensaid

Em um artigo de 1843 sobre “os progressos da reforma social no continente”, o jovem Engels (que tinha acabado de fazer 20 anos) via o comunismo como “uma conclusão necessária, que se está claramente obrigado a tirar, diante das condições gerais da civilização moderna”. Um comunismo lógico em suma, produto da revolução de 1830 em que os operários “votaram às fontes vivas e ao estudo da grande revolução e se apoderaram vivamente do comunismo de Babeuf”.

Para o jovem Marx, por outro lado, esse comunismo não era ainda mais do que uma “abstração dogmática”, uma “manifestação original dos primórdios do humanismo”. O proletariado nascente havia “se atirado nos braços dos doutrinários de sua emancipação”, das “seitas socialistas” e dos espíritos confusos que “divagavam como humanistas” sobre “o milênio da fraternidade universal” como “abolição imaginaria das relações de classe”. Antes de 1848, este comunismo espectral, sem programa preciso, estava presente, então, no ar do tempo sob as formas “pouco polidas” das seitas igualitárias ou dos sonhos icarianos[1].

Entretanto, já então a superação do ateísmo abstrato implicava um novo materialismo social que não era outra coisa senão o comunismo: “da mesma forma em que o ateísmo, em relação à negação de Deus, é o desenvolvimento do humanismo teórico, também o comunismo, quanto à negação da propriedade privada, é a reivindicação da vida humana verdadeira”. Longe de todo anticlericalismo vulgar, esse comunismo era “o desenvolvimento de um humanismo prático”, para o qual não se tratava só de combater a alienação religiosa, senão a alienação e a miséria sociais reais das quais nasce a necessidade de religião.

Da experiência fundadora de 1848 até a da Comuna, o “movimento real” que busca abolir a ordem estabelecida tomou forma e força, dissipando as “loucuras sectárias” e deixando no ridículo “o tom de oráculo da infalibilidade científica”. Dito de outra forma, o comunismo, que foi primeiro um estado de espírito ou “um comunismo filosófico”, encontrava sua forma política. Em um quarto de século, levou a cabo sua transformação: de seus modos de aparição filosóficos e utópicos à forma política, por fim encontrada na emancipação.

1. As palavras de emancipação não saíram imunes das tormentas do século passado. Pode-se dizer delas, como dos animais da fábula, que não morreram todas, mas que todas foram gravemente feridas. Socialismo, revolução, anarquia inclusive, não estão muito melhor do que comunismo. O socialismo esteve implicado no assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, nas guerras coloniais e nas colaborações governamentais, até o ponto de perder todo conteúdo na medida em que ganhava em extensão. Uma metódica campanha ideológica conseguiu identificar aos olhos de muitos a revolução com a violência e o terror. Mas, de todas as palavras outrora portadoras de grandes promessas e de sonhos de porvir, a palavra comunismo foi a que mais danos sofreu devido à sua captura pela razão burocrática de Estado e ao seu submetimento a uma empresa totalitária. Fica por saber, todavia, se de todas essas palavras feridas há algumas que valem a pena reparar e pôr de novo em movimento.

2. É necessário para isso pensar no que ocorreu com o comunismo do século XX. A palavra e a coisa não podem ficar fora do tempo das provas históricas às quais foram submetidas. O uso massivo do título “comunista” para designar o Estado liberal autoritário chinês pesará muito mais durante longo tempo, aos olhos da grande maioria, do que os frágeis testes teóricos e experimentais de uma hipótese comunista. A tentação de subtraí-la de um inventário histórico crítico conduziria a reduzir a ideia comunista a “variáveis” atemporais, a fazer dela um sinônimo das ideais indeterminadas de justiça ou de emancipação, e não a forma específica de emancipação na época da dominação capitalista. A palavra perde então em precisão política o que ganha em extensão ética ou filosófica. Una das questões cruciais é saber se o despotismo burocrático é a continuação legítima da revolução de Outubro ou o fruto de uma contrarrevolução burocrática, verificada não só pelos processos, pelas purgas, pelas deportações massivas, senão também pelas comoções dos anos trinta na sociedade e no aparelho de Estado soviético.

3. Não se inventa um novo léxico por decreto. O vocabulário se forma com o tempo, através de usos e experiências. Ceder à identificação do comunismo com a ditadura totalitária estalinista seria capitular ante os vencedores provisórios, confundir a revolução e a contrarrevolução burocrática e fechar assim o capítulo das bifurcações, único aberto à esperança. E seria cometer uma irreparável injustiça com os vencidos, todas as pessoas, anônimas ou não, que viveram apaixonadamente a ideia comunista e que a mantiveram viva contra suas caricaturas e falsificações. É vergonhosa a postura dos que deixaram de ser comunistas ao deixarem de ser estalinistas e que não foram comunistas mais do que foram estalinistas![2]

4. De todas as formas de nomear “a alternativa” necessária e possível ao capitalismo imundo, a palavra comunismo é a que conserva mais sentido histórico e carga programática explosiva. É a que evoca melhor a repartição comum e a igualdade, a partilha do poder, a solidariedade contra o cálculo egoísta e a competição generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade – naturais e culturais-, a extensão aos bens de primeira necessidade de um espaço de gratuidade (desmercantilização) dos serviços, contra a rapina generalizada e a privatização do mundo.

5. É também o nome de uma medida diferente da riqueza social da adotada pela lei do valor e da valorização mercantil. A competição “livre e não falseada” repousa sobre “o roubo do tempo de trabalho do outro”. Pretende quantificar o não quantificável e reduzir à sua miserável medida comum, mediante o tempo de trabalho abstrato, a incomensurável relação da espécie humana com as condições naturais de sua reprodução. O comunismo é o nome de um critério diferente de riqueza, de um desenvolvimento ecológico qualitativamente diferente da corrida quantitativa pelo crescimento. A lógica da acumulação de capital exige não só a produção para o lucro, e não para as necessidades sociais, senão também “a produção de um novo consumo”, a ampliação constante do círculo de consumo “mediante a criação de novas necessidades e pela criação de novos valores de uso… Por isso, a exploração da natureza inteira e da terra em todos os sentidos”. Essa desmesura devastadora do capital funda a atualidade de um eco-comunismo radical.

6. A questão do comunismo é primeiro, no Manifesto Comunista, a da propriedade: “Os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: supressão da propriedade privada dos meios de produção e de troca, que não deve ser confundida com a propriedade individual dos bens de uso. Em todos os movimentos colocam a questão da propriedade, em qualquer grau de evolução que tenham conseguido chegar, como a questão fundamental”. Dos dez pontos que concluem o segundo capítulo, sete dizem respeito, com efeito, às formas de propriedade: a expropriação da propriedade latifundiária e o emprego da renda da terra em proveito do Estado; a instauração de impostos fortemente progressivos; a abolição da herança dos meios de produção e de circulação; o confisco dos bens dos emigrados rebeldes, a centralização do crédito em um banco público; a socialização dos meios de transporte e a construção de uma educação pública e gratuita para todos; a criação de manufaturas nacionais e o cultivo das terras improdutivas. Estas medidas tendem todas a estabelecer o controle da democracia política sobre a economia, a primazia do bem comum sobre o interesse egoísta, do espaço público sobre o espaço privado. Não se trata de abolir toda forma de propriedade, senão “a propriedade privada de hoje, a propriedade burguesa”, “o modo de apropriação” fundado na exploração de uns por outros.

7. Entre dois direitos, o dos proprietários de se apropriarem dos bens comuns e o dos despossuídos à existência, “é a força que decide”, dizia Marx. Toda a historia moderna da luta de classes, da guerra dos camponeses na Alemanha até as revoluções sociais do século passado, passando pelas revoluções inglesa e francesa, é a história desse conflito. Resolve-se pela emergência de uma legitimidade oposta à legalidade dos dominantes. Como “forma política enfim encontrada de emancipação”, como “abolição” do poder do Estado, como realização da república social, a Comuna ilustra o surgimento desta nova legitimidade. Sua experiência tem inspirado as formas de auto-organização e de autogestão populares surgidas nas crises revolucionárias: conselhos operários, sovietes, comitês de milícias, cordões industriais, associações de vizinhos, comunas agrárias, que tendem a desprofissionalizar a política, a modificar a divisão social do trabalho, a criar as condições de extinção do Estado enquanto corpo burocrático separado.

8. Sob o reino do capital, todo progresso aparente tem sua contrapartida de regressão e de destruição. Não consiste, afinal, “em nada mais do que uma mudança na forma de servidão”. O comunismo exige uma ideia diferente e critérios distintos dos do rendimento e da rentabilidade monetária. Para começar, uma redução drástica do tempo de trabalho obrigatório e uma mudança da noção mesma de trabalho: não poderá haver completo desenvolvimento individual no ócio ou o “tempo livre” enquanto o trabalhador permanecer alienado e mutilado no trabalho. A perspectiva comunista exige também uma mudança radical na relação entre o homem e a mulher: a experiência da relação entre os gêneros é a primeira vivência da alteridade e enquanto subsistir esta relação de opressão, todo ser diferente – por sua cultura, sua cor ou sua orientação sexual – será vítima de formas de discriminação e de dominação. O progresso autêntico reside enfim no desenvolvimento e na diferenciação de necessidades cuja combinação original faça de cada um e de cada uma um ser único, cuja singularidade contribua para o enriquecimento da espécie.

9. O Manifesto concebe o comunismo como “uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. Apresenta assim a máxima de um livre desenvolvimento individual que não deveria ser confundido nem com as ilusões de um individualismo sem individualidade submetido ao conformismo publicitário, nem com o igualitarismo grosseiro de um socialismo de quartel. O desenvolvimento das necessidades e das capacidades singulares de cada um e de cada uma contribui para o desenvolvimento universal da espécie humana. Reciprocamente, o livre desenvolvimento de cada um e de cada uma implica no livre desenvolvimento de todos, pois a emancipação não é um prazer solitário.

10. O comunismo não é uma ideia pura, nem um modelo doutrinário de sociedade. Não é o nome de um regime estatal, nem o de um novo modo de produção. É o nome de um movimento que, de forma permanente, supera/suprime a ordem estabelecida. Mas é também o objetivo que, surgido desse movimento, o orienta e permite – contra políticas sem princípios, ações sem continuidade e improvisações cotidianas – determinar o que aproxima do objetivo e o que afasta dele. Desse modo, não é um conhecimento científico do objetivo e do caminho, mas uma hipótese estratégica reguladora. Nomeia, indissociavelmente, o sonho irredutível de um mundo diferente, de justiça, de igualdade e de solidariedade; o movimento permanente que aponta para a derrocada da ordem existente na época do capitalismo; e a hipótese que orienta este movimento para uma transformação radical das relações de propriedade e de poder, longe dos acordos com um mal menor que seria o caminho mais curto para o pior.

11. A crise social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não posterga já seus próprios limites senão ao preço de uma desmesura e de uma injustiça crescentes, ameaçando por sua vez a espécie e o planeta, volta a colocar na ordem do dia “a atualidade do comunismo” radical que invocou Benjamin frente ao ascenso dos perigos do entre guerras.

Notas:

[1] Tal expressão faz referência a Icária, nome dado por Cabet – um dos representantes do chamado socialismo utópico – ao seu país utópico e, mais tarde, à sua colônia comunista na América [nota do tradutor]. (retornar ao texto)

[2] Ver Mascolo, D. (2000) A la recherche d´un communisme de pensée. Paris : Editions Fourbis, p. 113. (retornar ao texto)

Fonte: Revista Viento Sur.

Tradução: Daniel Monteiro.

Quatro capitais brasileiras estão entre as mais desiguais do mundo, diz ONU

Deborah Berlinck

Quatro capitais brasileiras estão entre as mais desiguais do mundo : Goiânia, Fortaleza, Belo Horizonte e Brasília, segundo o relatório "Situação das cidades do mundo 2010-2011", da Habitat, a agência da ONU para habitação. Depois de Buffalo City , Johannesburg e Ekurhuleni, todas na África do Sul, as brasileiras foram classificadas como cidades "extremamente desiguais". Isto é : onde o fosso entre ricos e pobres é muito grande.

Mas a Habitat poupa o Brasil ao comparar a desigualdade destas cidades com os piores casos da África.

- Embora cidades brasileiras, em geral, tenham graus de desigualdade de renda extremamente altos, estão muito melhor do que cidades altamente desiguais na África quando se trata de saneamento e água encanada. Em 2007, embora a capital Brasília tivesse um índice Gini (que mede a desigualdade) muito alto, 90% da população tinha acesso à água encanada e 88% à saneamento básico – diz o relatório.

O índice Gini – entre 0 e 1 – mede a distribuição no consumo e na renda de um país, e é usado no mundo inteiro como indicador de desigualdade: quanto mais próximo de 1, maiior a desigualdade. As quatro capitais brasileiras, segundo a ONU, têm índice acima de 0.60.

Outras cidades com alto coeficiente de desigualdade são Bogotá (Colômbia), com 0.55, Buenos Aires (Argentina), Santiago do Chile e Quito (Equador), têm entre 0.51 e 0.55. Beijing, na China, é a cidade com menor índice de desigualdade: 0.22. E até Caracas, na Venezuela, aparece na lista das cidades menos desiguais do mundo: 0.39.

Se medida só com base na distribuição de consumo, cidades como Dhaka e Chittagong (ambas em Bangladesh), estão entre as cidades mais igualitárias do mundo. Mas não há o que comemorar: a população está "igual" por baixo, isto é, na mais absoluta na pobreza. Washington D.C, nos EUA, também é citada como uma cidade altamente desigual (0.53).

Segundo a Habitat, há vários outros problemas afetando cidades do mundo. Uma delas é que a prioridade na urbanização e nas reformas estão sendo dada à população rica, e não aos pobres, segundo sondagem em 30 cidades de vários continentes.

Má nutrição nas favelas é outro problema : o relatório diz que "cada vez mais as pessoas vivendo em cidades vão dormir com mais fome a cada noite, mais do que os que estão no campo". O relatório também chama atenção para o baixo índice de escolaridade de crianças nas favelas brasileiras. O Brasil é comparado com a Guatemala, onde apenas 54% das crianças vivendo em favelas estavam em escolas primárias em 1999.

A Habitat faz um apelo para que governos direcionem mais suas políticas para jovens das cidades, que estão sendo marginalizados, o que contribui para as desigualdades. Um estudo da Habitat mostrou que no Rio de Janeiro, com uma população de jovens de 1 milhão de um total de 6.1 milhão, políticas não estão funcionando : cursos são criticados pelos jovens por serem "insuficientes ou esporádicos" e sem conexão com o mercado.

Segundo o relatório, cidades estão crescendo e se conectando em eixos que o Habitat chama de "mega-regiões" ou "corredores urbanos". A agência da ONU, por exemplo, define o eixo São Paulo- Rio de Janeiro, onde 43 milhões de pessoas vivem, como uma mega-região. E vê vantagens nisso : estas "mega-regiões" estão crescendo mais rápido econômicamente do que "mega-cidades" (definidas como tendo mais de 20 milhões de habitantes), porque há estímulo para negócios, mais desenvolvimento imobiliário e valorização das terras, por exemplo. Mas há uma desvantagem : como estes corredores ganham muita importância econômica, outras regiões no país acabam ficando prejudicadas.

- Há o perigo de criar uma nova hierarquia urbana e mais padrões de exclusão econômica e social – diz o relatório.

Rio de Janeiro, São Paulo, cidade do México e Buenos Aires são as quatro mega cidades no mundo em desenvolvimento que, sozinhas, são responsáveis por 1.5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Já na Europa, por exemplo, Bruxelas contribui com 44,4% do PIB de seu país, a Bélgica.

Fonte: O Globo

Ensaio marinho

Laboratório amplia o estudo de projetos de embarcações para exploração de petróleo

Evanildo da Silveira

Tanque físico construído na Poli-USP: simula situações ambientais como ondas e ventos

Ao longo da costa brasileira, no fundo do oceano, repousam grandes depósitos de gás e petróleo, principalmente na Região Sudeste do país onde tudo indica que foram encontradas grandes reservas na camada pré-sal. Retirá-los de lá requer estruturas flutuantes – plataformas e navios – e sistemas submarinos com tecnologia de última geração e muito caros. Para saber se vão funcionar a contento e se o dinheiro investido não será perdido, esses equipamentos antes de serem construí-dos e lançados ao mar precisam passar por testes de validação em tanques virtuais formados por computadores e em tanques de provas físicos semelhantes a piscinas, duas formas de experimento que estão reunidas desde dezembro na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Batizado de Tanque de Provas Numérico (TPN), o laboratório vir-tual da Poli existe desde 2002 por meio de uma parceria com a Petrobras. Em 2006, o TPN se tornou um dos quatro nós da Rede Temática de Computação Científica e Visualização, conhecida como Rede Galileu – os outros três estão nas universidades federais do Rio de Janeiro e de Alagoas e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Fazem parte ainda da Galileu outras 10 universidades e instituições de pesquisa.

A ampliação e modernização do TPN atende às novas demandas surgidas principalmente com o anúncio da descoberta de petróleo e gás da camada abaixo do sal existente no fundo do mar em 2007. O sistema computacional do laboratório ganhou um novo cluster, um aglomerado de computadores, com 1.792 processadores que trabalham em paralelo. Para abrigar esse novo recurso, além do tanque físico, foi erguido um edifício com uma área construída de cerca 1.600 m² e acomodações para mais de 80 pesquisadores. No total, foram investidos R$ 9,5 milhões, dos quais R$ 9 milhões vieram da Petrobras e o restante da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

O tanque físico, chamado de Calibrador Hidrodinâmico (CH-TPN-USP), tem 14 metros (m) por 14 m de lado e 4 m de profundidade e é dotado de geradores e absorvedores de ondas (flaps). No total são 148 deles, dispostos ao longo de todo o perímetro do tanque, em que é possível criar ondas multidirecionais, regulares ou aleatórias. De acordo com o professor Kazuo Nishimoto, do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Poli e coor-denador do TPN, com a capacidade dos flaps de absorverem ondas e não refleti-las, é possível também simular condições de mar infinito, como se o tanque não tivesse laterais e as ondas se propagassem sem reflexão. Os flaps, ventiladores e outros sistemas permitem representar, além de ondas, as principais condições ambientais que agem sobre navios e plataformas marinhas, como correntezas e ventos, desde uma leve brisa até furacões. Além disso, também é possível reproduzir a dinâmica das linhas de ancoragem – cabos fixados no solo marinho que mantêm a plataforma no lugar – e dos risers, dutos rígidos, de aço ou flexíveis, que levam o óleo extraí-do até a plataforma de produção.

Apesar das vantagens, esse tipo de tanque também tem alguns inconvenientes. Além de custos elevados, ele tem limitações físicas para simular situa-ções que ocorrem em ambientes com grande profundidade, não permitindo reprodução fiel da dinâmica de todo o sistema. Para melhor representar condições em ambientes com profundidades ao redor de 3 mil metros ou mais seria necessário um tanque de dimensões inviáveis fisicamente. Ou os modelos das embarcações e das plataformas ficariam tão pequenos que comprometeriam a representação física e a análise em escala real. Para superar essas limitações existem os tanques virtuais ou simuladores numéricos, que é o caso do TPN. Trata-se de um programa computacional capaz de representar matematicamente as mesmas condições geradas por um tanque de provas físico, com a vantagem de não haver as restrições dimensionais e obter os resultados com maior rapidez e precisão. Além disso, o simulador numérico calcula a dinâmica das unidades flutuan-tes, dos esforços e tensões nas linhas de amarração e nos risers.

Tarefa veloz – O cluster de computadores é capaz de realizar centenas de simulações de diversas condições ambientais em questão de minutos. Nishimoto explica que um cluster de computadores é um agregado de processadores dedicados, que resolvem uma tarefa única de forma cooperativa e integrada. Assim, as operações de cálculo são subdivididas e distribuídas por todos os processadores que compõem o grupo, tornando a resolução dos problemas mais rápida. A opção por esse sistema foi feita em 2002 quando foi criado o TPN. “Decidimos que, em vez de investir em supercomputadores especializados, o melhor seria desenvolver um cluster com desempenho semelhante e a um custo muito menor”, conta Nishimoto. Hoje a capacidade de processamento do TPN é de 55 teraflops, o que significa 55 trilhões de operações matemáticas por segundo. Só para comparar, os computadores pessoais mais velozes existentes não chegam a 0,1 teraflops. Flops significa floating point operations per second ou operações de ponto flutuante por segundo.

As simulações realizadas no TPN serão fundamentais para o sucesso da exploração das reservas petrolíferas da camada pré-sal, segundo Luiz Levy, gerente de métodos científicos do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (Cenpes) da Petrobras. “As reservas estão muito longe da costa e em grande profundidade, o que torna um desafio sua exploração”, diz. “No TPN será possível realizar uma série de cálculos e simulações.” Além das simulações convencionais da exploração de óleo e gás, a Rede Galileu também poderá representar os processos de perfuração das camadas de sal. “Perfurar essas camadas é um grande desafio, porque elas sofrem deformações e podem colapsar a coluna de perfuração”, explica Nishimoto. “Para cada poço é preciso criar um modelo numérico, que simule as condições do mar, do solo e calcule a dinâmica das embarcações envolvidas na exploração.”

Os testes realizados no TPN geram uma quantidade de dados tão grande que é quase impossível analisá-los por processos convencionais. Para resolver esse problema foi criado o TPNView, um programa de computador de visua-lização, baseado em técnicas de computação gráfica em tempo real, que possibilita uma representação precisa do ambiente em realidade virtual. Ele alia a visualização em três dimensões (3D) e ferramentas de análise de dados como estatísticas, gráficos e diagramas. Apesar da sofisticação do TPN, ele não substitui o tanque de provas físico. Um complementa o outro e é justamente esse trabalho conjunto que torna o laboratório da USP raro no mundo. “Existem muitos tanques físicos na Noruega, na Holanda e no Japão, porém não existe um laboratório que acople tanque físico com numérico com cluster do porte de 55 teraflops. Assim hoje o TPN torna-se único no mundo.”

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

O Supervulcão

No noroeste dos Estados Unidos existe um vulcão, que dificilmente é reconhecível como tal simplesmente devido ao seu tamanho descomunal. Se esse monstro despertasse, toda a humanidade seria afetada. Ficção científica? Não. Pesquisadores já registram sinais preocupantes

Ute Eberle

YELLOWSTONE os visitantes ficam fascinados com a bizarra paisagem do Parque Nacional. Micróbios amantes do calor conferem à nascente Grand Prismatic Spring suas cores irreais. A fonte geotérmica é aquecida por um gigantesco braseiro que pode explodir a qualquer momento

Um dia após o Natal, em 26 de dezembro de 2008, os aparelhos sismológicos ao redor do Parque Nacional de Yellowstone, no noroeste dos Estados Unidos, subitamente enlouquecem. Em geral, eles registram, no máximo, 3.000 minitremores por ano, mas agora são 500 em uma semana.

Somente poucas pessoas visitam o Parque Nacional nesses dias escuros de inverno, embora a maioria dos abalos seja tão sutil que os visitantes nem os percebam. É apenas um ronco, lá no fundo da Terra. Mas os instrumentos captam o grande murmúrio e enviam os dados 500 quilômetros mais para o sul, até a Universidade de Utah, onde geólogos os avaliam o mais rápido possível.

Uma parte do trabalho deles pode ser acessada publicamente pela Internet e, assim, não tarda até que os primeiros e-mails nervosos cheguem até Jake Lowenstern, o encarregado das pesquisas sismológicas no parque. A ameaça de perigo é grande? Surgem boatos de evacuação da reserva. Eles são infundados? Para onde se poderia fugir?

Três milhões de pessoas visitam anualmente o Parque Nacional mais antigo dos Estados Unidos. Elas fotografam os bisões e cervos Wapiti, que perambulam por lá, e sonham em avistar ursos pardos, lobos e linces. Mas todas vêm, principalmente, por causa dos gêiseres, os fervilhantes buracos de lama, as fontes termais escaldantes.

Mais de 10 mil pontos no parque borbulham, soltam colunas de vapor e fedem, ou lançam enormes jatos de água, que brotam da terra, até 100 m de altura. A paisagem é tão surreal e hostil, que uma pessoa imediatamente pensa no Inferno e no Juízo Final, admitiu um pioneiro do século XIX.

ELE NÃO IMAGINOU o quanto se aproximou da verdade com isso, pois em Yellowstone cochila um monstro de proporções Bíblicas.

Oito quilômetros abaixo dos pés dos visitantes situa-se uma das mais gigantescas câmaras de magma do mundo, com uma extensão de 2.500 Km2 quadrados, 8 Km de espessura e cheia de uma mistura de gases, rochas sólidas e líquidas, a mais de 800 ºC. Em resumo: Yellowstone nada mais é do que um vulcão gigantesco. Mas não um comum. Aqui, procura-se em vão por um cone e, à primeira vista, nem uma cratera parece existir. Durante muito tempo, foram apenas os depósitos de cinzas, de mais 1 m de altura, e o constante borbulhar de lagos quentes que chamaram a atenção dos geólogos. Ao longo dos anos eles mediram e analisaram as rochas, até que fotos tiradas por satélites confirmaram o que era difícil perceber do chão: vastas áreas do parque, bem como regiões além dele, ao todo 4000 Km2, formam a cratera de um vulcão.

Melhor dizendo: a cratera de um supervulcão.

Sua erupção mais violenta até hoje ocorreu há 2,1 milhões de anos. Naquela época, ele cuspiu folgados 2.500 Km3 de rochas e lava incandescente (chamada magma, enquanto ainda se encontra no interior da Terra). Isso corresponde a um cubo, com uma aresta de 13,5 Km de comprimento. Maior que o Monte Everest. Material suficiente para enterrar um país do tamanho da Alemanha 7 m abaixo do chão.

O vulcão entrou novamente em erupção há 1,3 milhão de anos, e depois há 640 mil anos. Nas duas ocasiões espalhou cerca de metade de toda essa lava e dessas cinzas pela paisagem. Desde então, 80 erupções menores encheram a rotina desse lugar de tal forma, que a maioria dos visitantes de Yellowstone nem se dá conta de estar dentro de um vulcão.

A última explosão (inofensiva, em comparação com as três supererupções) ocorreu há 70 mil anos. Entretanto, não são apenas tremores como o de dezembro de 2008 que mostram claramente que o gigante ainda está ativo. No dia 17 de agosto de 1959, a terra no parque tremeu tão violentamente, que 28 pessoas morreram, 19 delas em um fenomenal deslizamento de terra. Um deslocamento tão potente, que os corpos das vítimas nunca foram encontrados. E, em 1989, uma explosão hidrotérmica detonou blocos de rochas pelo ar, em altitudes de até 60 m.

Medições mostram que o terreno do parque se ergue e afunda, como a caixa torácica de um gigante que respira. Por ano as vezes se levanta em 9 mm passando a 14. Há pouco chegou até seis cm, o máximo desde o início das avaliações sistemáticas.

Para os geólogos, é inquestionável que o vulcão Yellowstone explodirá novamente. A questão é: quando, e com que frequência?

Vulcões são pontos onde a camada externa de nosso planeta se rompe, e seu interior, em forma de magma incandescente, brota para fora. Em escala mundial, existem mil regiões desse gênero (e, provavelmente, há muito mais nas profundezas dos oceanos).

ALGUNS VULCÕES irrompem a cada 20 min, como na ilha italiana de Stromboli. Outros ficam adormecidos durante milênios, mas subitamente devastam tudo à sua volta em uma única e descomunal explosão, como o monstro do Parque de Yellowstone. E há sempre o nascimento de novas montanhas de fogo.

Pesquisadores definem a intensidade de uma erupção em uma escala de zero a nove (na qual cada ponto equivale a uma potência de dez vezes mais que a anterior), e como é avaliada nesse sistema, depende, consequentemente, de dois fatores: da quantidade de material expelido, bem como da altura da coluna de fumaça.

ANTES QUE OCORRA UMA ERUPÇÃO, o magma derretido geralmente se acumula em uma câmara magmática, muitos quilômetros abaixo da superfície terrestre. Esse material viscoso normalmente contém gases letais, entre eles ácido sulfídrico ou dióxido de carbono, mas devido à sua consistência ele não consegue ascender imediatamente. Dessa forma, cria-se uma enorme pressão embaixo da superfície terrestre, capaz de erguer o chão dezenas de metros, até que a crosta rochosa não consiga mais resistir à sua força.

Quando a camada superior se rompe, os gases são liberados e o magma espuma e borbulha para fora como de uma garrafa de refrigerante sacudida. Muitas vezes, fragmentos de rochas são lançados ao ar com fúria descomunal, a velocidades de centenas de quilômetros por hora.

Paralelamente à lava, montanhas de fogo frequentemente liberam rios piroclásticos de gases escaldantes e partículas rochosas incandescentes, que descem pelos flancos vulcânicos com a dinâmica de um furacão. Foi o que aconteceu em 79 d.C., na erupção do Vesúvio, quando cinzas e lava incandescentes cobriram a cidade de Pompeia.

Quando as erupções derretem neve ou quando chove muito forte, podem-se formar também imensos lahares (lahar significa avalanche, em javanês), rios escaldantes de cinzas e lama, com a consistência de concreto molhado. Rios de lava, lahares, fluxos piroclásticos, gases tóxicos, tsunamis e outras consequências de erupções vulcânicas já custaram a vida de milhões de pessoas.

Muitas dessas erupções ricas em efeitos colaterais registraram uma intensidade entre três e seis, na escala eruptiva. Em 1985, o vulcão colombiano Nevado del Ruiz, por exemplo, lançou um total de 0,01 Km3 de material, uma erupção de classe três. Naquela época, os lahares mataram cerca de 25.000 pessoas.

NA ERUPÇÃO DO MONTE SANTA HELENA, nos EUA, em 1980, 1 Km3 de cinzas e lava explodiram montanha afora: cinco pontos na escala de intensidade. E, em 1883, quando o Krakatoa, ao sul da ilha de Sumatra, na Indonésia, voou pelos ares, cuspindo 20 Km3 de detritos do interior da Terra, ocorreu uma rara erupção de classe seis. Foram registradas 36 mil mortes.

Mas isso é apenas um centésimo do potencial de uma supererupção.

De acordo com a definição mais corrente, uma explosão com a magnitude de uma uma supererupção lançaria pelos ares pelo menos 1000 km3 de material de uma só vez, atingindo uma intensidade de classe oito. E isso ocorre quando, bem perto da superfície, há um acúmulo de magma viscoso enriquecido com gases em quantidade excepcional.

Mas o que uma supererupção provocaria hoje?

Se o vulcão embaixo de Yellowstone explodisse novamente com a mesma fúria de há 2,1 milhões de anos, é provável que poucas pessoas, em um raio de 100 km da cratera, sobrevivessem. Até carros seriam lerdos demais para escapar da velocidade dos rios piroclásticos, de até 400 km/h.

A uma distância de 200 km, ainda choveria cinzas, em precipitação tão espessa quanto a de uma nevasca. O céu escureceria de tal maneira que durante dias, ou até semanas, a região ficaria mergulhada em noite ou penumbra, inclusive ao meio-dia. As cinzas bloqueariam os encanamentos sanitários, os celulares não funcionariam mais, e todos os geradores ficariam selados, como colados. Muitos rios deixariam de fluir, entupidos com lama de cinzas.

E a 300 km de distância, a camada de cinzas ainda chegaria à altura dos joelhos, as casas correriam risco de desabar na próxima chuva devido ao peso da mistura de água com cinzas sobre seus telhados. O material lançado durante a erupção vulcânica cobriria os campos e as lavouras das Grandes Planícies, o celeiro dos EUA. Animais domésticos morreriam; e, desprovidos da adequada proteção respiratória, incontáveis seres humanos também.

O inverno vulcânico duraria vários anos, e arruinaria colheitas em países distantes. A consequência disso seria a fome em proporções mundiais. Direta ou indiretamente, mais de um bilhão de pessoas poderia morrer em uma supererupção, presumem pesquisadores e analistas de catástrofes.

Geólogos já encontraram vulcões com potencial eruptivo de 1000 km3 na Argentina, no Chile, no Iêmen e na Nova Zelândia, entre outros. Porém nenhum na Europa. Nem os campos inflamáveis perto de Nápoles, na Itália, têm o potencial para uma erupção de classe oito.

O maior supervulcão descoberto por pesquisadores até agora, e o único com potencial eruptivo de classe nove, fica no sudoeste do Estado do Colorado, EUA. Depósitos de cinzas evidenciam que, há cerca de 28 milhões de anos, 5.000 km3 de magma voaram pelos ares, diretamente da Caldeira La Garita, duas vezes mais que na mais violenta explosão da montanha de fogo de Yellowstone.

Muitos desses vulcões estão ativos até hoje, mas felizmente as supererupções são raras. Segundo cálculos recentes da Sociedade Geológica de Londres, o mundo só tem de contar com uma catástrofe natural desse gênero a cada 100 mil anos. Por outro lado, essa probabilidade mantém-se cinco vezes maior que o impacto de um gigantesco meteorito, que ameaçaria toda a civilização. "A longo prazo, uma supererupção é inevitável escrevem os geólogos, ela pode acontecer em 10 mil anos, ou amanhã, e, no pior caso, ameaçará toda a nossa espécie".

O ser humano não tem como impedir um cataclismo desses. Nem ao menos é certo que possamos prever uma supererupção de forma precisa. Será que o vulcão tremeria e se deformaria durante meses antes de uma explosão, como muitos geólogos acreditam? Ou tudo aconteceria tão rápido que não seria possível tomar nenhuma medida preventiva, como a evacuação de uma vasta área?

Ao menos em Yellowstone a situação parece ter se acalmado novamente, por enquanto. Depois de 813 consideráveis abalos sísmicos, no início de janeiro de 2009 o vulcão silenciou seus rugidos. Agora ele voltou a estremecer normalmente. O gigante adormeceu.

O que ninguém sabe é por quanto tempo.

OS QUATRO TIPOS DE MONTANHAS DE FOGO
Conforme a composição do magma, surgem vulcões diferentes

 

ONDE NASCEM OS VULCÕES
Montanhas de fogo surgem em todo lugar aonde o magma quente chega à superfície terrestre

Fonte: Revista GEO – http://revistageo.uol.com.br/