Daily Archives: 23/03/2010

Quase 40% da população mundial não tem acesso a saneamento básico

Relatório elaborado pela OMS e Unicef aponta, por outro lado, avanços no âmbito da água potável

Só metade da população dos países em desenvolvimento tem um banheiro, latrina ou um poço séptico

Efe

Passados dez anos desde os compromissos que a ONU aprovou para melhorar a vida dos mais pobres do planeta, 884 milhões de pessoas seguem sem acesso à água potável e 2,6 bilhões não dispõem de saneamento básico nos locais em que vivem.

Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) diz que, apesar desses números, os avanços no âmbito da água são certamente encorajadores, com 87% da população mundial bebendo e utilizando água apta para o consumo. Por outro lado, a situação é decepcionante quando se trata do saneamento básico: 39% da população mundial não tem acesso a ele.

A diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS, María Neira, explicou à Agência Efe que a diferença no progresso alcançado nas duas áreas se deve, entre outros fatores, a "razões culturais e à falta de investimento" e "de colaboração entre os diferentes setores públicos envolvidos". "É preciso uma mudança cultural para que o saneamento seja considerado uma necessidade tão clara e tão óbvia como o é o acesso à água potável", acrescentou.

Segundo o estudo, os avanços foram diferentes de acordo com as regiões: um terço das pessoas que não têm acesso à água limpa vive na África Subsaariana, onde 40% da população sofre com essa situação. Já quase metade das pessoas que ganharam acesso à água desde o começo dos anos 90 está na Índia e na China.

Em relação ao saneamento, só metade da população dos países em desenvolvimento tem um banheiro, uma latrina ou um poço séptico de uso doméstico. Os maiores progressos nesse campo nos últimos anos foram registrados no norte da África e em regiões do leste e do sudeste da Ásia.

"Vale a pena chamar a atenção sobre algo que é tão óbvio que quase dá vergonha dizer isso em 2010. Sem água potável e saneamento básico, não há nenhuma base de saúde pública que possa se desenvolver. Se não acabarmos com essa situação, nunca vamos arrancar esses povoados da pobreza", disse Neira.

Desenvolvimento do Milênio

Segundo os resultados do relatório, o mundo alcançará o objetivo do Desenvolvimento do Milênio de cortar pela metade o número de pessoas sem acesso à água potável em 2015, mas fracassará em fazer o mesmo em relação aos serviços de saneamento.

A "boa notícia" é que a prática de defecar ao ar livre – considerada a mais perigosa do ponto de vista higiênico – está em declínio no mundo inteiro em termos percentuais, embora tenha aumentado em números absolutos. Se em 1990 era uma prática de 25% da população mundial, hoje essa taxa se situa em 17%.

Por outro lado, embora a população mundial esteja dividida quase em partes iguais entre rural e urbana, a grande maioria dos que não têm água potável nem saneamento está no campo.

O relatório mostra que as disparidades entre o campo e a cidade são particularmente visíveis em três regiões: América Latina e Caribe, sul da Ásia e Oceania.

As diferenças de gênero também ficam evidentes na questão do acesso à água limpa. Em dois terços das famílias que não têm água encanada em casa são as mulheres que vão buscar esse recurso em outros lugares.

"Muitas das mortes por diarreias que ocorrem a cada ano, além de outras doenças ligadas à falta de higiene, afetam mais as mulheres e as crianças porque são elas que dedicam horas a carregar água", explicou a diretora de Saúde Pública da OMS. Isso significa, acrescentou a especialista, que os menores não vão à escola e, inclusive, se expõem a violações e agressões quando têm que buscar água em áreas remotas.

Além disso, o relatório revela que a água não-potável e as práticas insalubres influenciam na morte de 1,5 milhão de crianças menores de 5 anos todos os anos.

Fonte: EFE – http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/efe/

A última fronteira da África

O vale do tio Omo ainda é uma regiao governada por rituais e vinganças. Mas as mudanças estão chegando rio acima.

Neil Shea
Foto de Randy Olson

A última fronteira da África

No crepúsculo, um anciião da tribo Kara, o corpo enfeitado de minérios esfarelados, espia para além do rio Omo. Seu povo antes ocupava ambas as margens, mas uma tribo inimiga pouco a pouco os desalojou de parte de seu território.

Dunga Nakuwa cobre o rosto com as mãos e lembra-se da voz de sua mãe. Embora ela tenha morrido há quase dois anos, para a tribo de Dunga, os mortos nunca estão muito longe. Há vilarejos em que são enterrados logo debaixo dos barracos dos vivos, separados dos fogões a lenha e das peles de animais que servem de cama por menos de 1 metro de terra ressequida. E eles também continuam presentes no espírito dos vivos. É por isso que Dunga continua a ouvir a mãe dizendo: Você não vai se vingar do assassino de seu irmão?
Quando ainda vivia, ela às vezes lhe fazia a mesma pergunta, trazendo de novo à baila a vendeta sempre que Dunga tentava se esquivar de sua obrigação. Ele tornara-se o filho mais velho depois que o irmão, Kornan, foi morto pelo membro de uma tribo inimiga. Fora uma morte de emboscada, uma execução coreografada.
O pai de Dunga também foi morto por um guerreiro da mesma tribo, e o dever da reparação caiu primeiro nas mãos de seu irmão mais velho. Mas, com a morte de Kornan, o duplo encargo agora cabia a Dunga. Os homens de seu povo, os karas, são conhecidos pela pontaria. Eles haviam resistido às invasões de uma tribo maior e bem armada, a Nyangatom. Em ambas as culturas, aquele que mata um inimigo é adornado com cicatrizes especiais, escavadas na carne do ombro ou da barriga. Diante do assassinato de um parente, todos esperam que um homem cobre o devido tributo de sangue.
Por isso, na fala da mãe, Dunga ouve ainda outra questão: Quando você vai se tornar adulto?
Dunga é baixo e esguio, e não completou 30 anos. Suas mãos são macias, pois passou anos lendo livros, em vez de viver na mata. Estamos sentados no restaurante de um vilarejo a dias de caminhada de sua região natal. Ao saber que também tenho irmãos, ele me pergunta: "E, você, o que teria feito?" No Ocidente, a vingança fica a cargo dos tribunais. Mas, nesse canto remoto da Etiópia, é breve a história das instituições judiciais. Restam as demandas dos mortos.
Dunga nasceu em dus, um vilarejo com choças de pau a pique numa ribanceira acima do rio Omo. Desde sua nascente, no planalto central, o largo e profundo rio corre rumo à fronteira sudoeste da Etiópia com o Quênia e ali deságua no lago Turkana. Em seu curso de 800 quilômetros serpenteia através de gargantas de rocha vulcânica e canais em terrenos lamacentos.
Perto da divisa com o Quênia, o Omo escava sinuosas curvas fechadas à medida que se aplaina o terreno e faixas de floresta aparecem ao longo de suas margens. Criaturas fluviais, como crocodilos e hipopótamos, tornam-se mais abundantes. A paisagem é cada vez mais povoada por tribos – Kara, Mursi, Hamar, Suri, Nyangatom, Kwegu e Dassanech, entre outras -, uma população em torno de 200 mil pessoas. Pastores conduzem seus animais pela mata e lavradores avançam com suas rústicas canoas. Conforme a estação, as margens do rio ficam douradas com o restolho das colheitas passadas ou recobertas com o verde úmido de novas safras.
Dus está a três horas de caminhonete da estrada mais próxima, e na estação úmida fica isolada em um mar de lama. Como muitos povoados ao longo do Omo, é um agrupamento de choças com cercados de cabras e depósitos de cereais.
Os rebanhos de bois e cabras são a riqueza mais significativa de uma família, mas é a lavoura, irrigada com a água do Omo, que alimenta a população. Assim que as cheias sazonais encharcam e fertilizam as várzeas, os lavradores karas perfuram a lama escura com varetas e ali depositam sementes de sorgo ou milho. Se as cheias são insuficientes, as safras se reduzem.
A previsibilidade do rio possibilita aos 2 mil karas uma existência mais sedentária que tribos vizinhas, obrigadas a uma busca constante de novas pastagens para os rebanhos. O próprio nome do vilarejo, Dus, significa algo como "já vi outros lugares, mas fico por aqui, onde a vida é boa".

Por muitas gerações, as tribos do rio Omo foram protegidas do mundo externo por montanhas, pela savana e pela singular condição da Etiópia como o único país africano jamais colonizado pelos europeus. No fim da década de 1960 e na de 70, os antropólogos começaram a dar conta do significado disso – os moradores próximos ao rio haviam escapado à influência prejudicial da colonização e aos conflitos que dilaceraram outras sociedades. Ali as tribos permaneceram intactas, migrando, guerreando e convivendo em paz de acordo com costumes já extintos em quase todas as outras regiões.
Indícios dessa África ancestral ainda se notam nos discos labiais usados como símbolos de beleza pelas mulheres mursis ou nas temporadas de duelos realizados pelos suris, que vestem armaduras de pele de cabra e se enfrentam com bastões compridos. Há também o ritual no qual as mulheres hamars pedem para ser açoitadas até sangrar ou o rito de iniciação no qual os meninos correm por cima do lombo do gado a fim de provar que estão prontos para a vida adulta.
Hoje o vale do Omo é um destino de turistas ricos para assistir a esses rituais – caminhonetes repletas de rostos brancos em busca de uma África arraigada na imaginação ocidental, cheia de bichos, rostos pintados e danças exóticas. Todos afirmam que querem conhecer a região antes que se torne igual a outras partes, como se um McDonald’s estivesse prestes a cair do céu.
Há um pouco de verdade nisso: a região do Omo, ainda uma das paisagens culturais mais preservadas do continente africano, passa por mudanças. Quase não restam animais de grande porte, abatidos com armas que chegam das guerras nas fronteiras de Sudão ou Somália. Organizações humanitárias distribuem alimentos, constroem escolas e planejam projetos de irrigação, tudo para tornar mais estável a vida, mas que implica inevitáveis mudanças no modo tradicional. O governo etíope, que sempre ignorou a região, agora se empenha em modernizar as tribos, e funcionários falam como se houvesse cronograma que detalhasse quando e como os costumes serão substituídos.
A ideia é de que as vendetas, como a que dilacera Dunga Nakuwa, sejam relegadas ao passado.
Foi o gado que delatou o segredo de Dunga. Quando o jovem nativo sumiu, abandonando no mato o rebanho da família, os animais tomaram o caminho de casa. No vilarejo, o irmão de Dunga, Kornan, ficou surpreso ao ver os animais de volta tão cedo – e sem Dunga.
Isso aconteceu no fim da década de 1980. Leões, leopardos e hienas rondavam pela savana. Elefantes e búfalos deixavam um rastro de destruição. A região também era patrulhada pelas tribos inimigas: armados de fuzis, os nyangatons, responsáveis pela morte do pai de Dunga (e, mais tarde, de seu irmão), vinham estendendo o território sob seu controle. Desde o assassinato do pai, Kornan tornara-se o arrimo da família, mas mesmo assim não se preocupou com a segurança do irmão. Tinha uma ideia do destino tomado por Dunga, e estava furioso.
Os irmãos haviam sido criados à maneira de todos os karas – caçando animais com arco e flecha. Eles vigiavam os campos de sorgo, e afastavam as aves aproveitadoras com pelotas arremessadas com estilingue. Aprenderam a evitar os crocodilos durante a estação das chuvas, quando as águas do Omo sobem. E sabiam qual era a base da responsabilidade masculina: o cuidado com os rebanhos.
Às margens do Omo, o gado e as cabras representam riqueza e prestígio. Sem eles, um indivíduo é considerado pobre e, na maioria das tribos, não pode se casar, pois nada de valor tem a oferecer como dote para a família da noiva.
Em épocas de fome, os animais podem ser vendidos para ser consumidos ou fornecer leite. Abandonar o rebanho à própria sorte é o mesmo que jogar no rio toda a poupança da família.
Kornan então pegou uma vara flexível, foi ao local onde funciona a escola primária e ali encontrou Dunga. Os irmãos davam-se bem, mas como fora capaz de fazer aquilo? Abandonar o rebanho para ir à escola? Kornan bateu em Dunga com a vara até o outro chorar. No dia seguinte, Dunga conduziu o gado até o rio. No entanto, poucos dias depois, fugiu de novo para a escola. E voltou a ser castigado por Kornan.

"Eu adorava Kornan", conta Dunga. "Era como um pai. Mas eu estava decidido a estudar." Kornan acabou percebendo que as punições não mudariam a opinião do irmão. Então fizeram um trato. O menino poderia ir à escola, mas só enquanto recebesse boas notas. Caso seu desempenho piorasse, voltaria ao rebanho. E Dunga foi tão bem nos estudos que mudou para um internato em que cada ano nos bancos escolares o levava mais longe a um novo mundo. Ele passou a retornar para casa cada vez menos.
Enquanto isso, Kornan tornava-se líder. Ele tinha esposa, vários filhos e a reputação de ser um caçador sem igual. Mulheres de outros homens da tribo o presenteavam com munição e pediam: Traga algo para mim. Mas continuava pendente a tarefa de vingar a morte de seu pai. Os parentes, os amigos e os mais velhos insistiam para que resolvesse logo a questão.
Em uma região desabitada a 515 quilômetros de onde vivem os karas, está sendo construída uma barragem. Chamada Gilgel Gibe III, será uma das maiores do mundo, e dará origem a uma represa imensa, cuja água será usada para gerar até 1 870 megawatts de eletricidade. A conclusão está prevista para 2013.
A usina hidrelétrica Gibe III irá proporcionar recursos financeiros para a Etiópia e gerar grande parte da eletricidade em um país em que apenas um terço da população tem acesso à rede elétrica. Mas também reduzirá o fluxo do rio Omo e restringirá o regime de cheias e vazantes que, rio abaixo, é essencial às lavouras de tribos. Os nativos pouco podem contra um projeto que conta com o beneplácito oficial e está em pleno andamento. Muitos não deram conta de quanto sua vida pode ser transformada pela barragem; e muitos deles apoiam o governo, mesmo sem entender as consequências.
No vilarejo de Dunga, na época da lua nova, perto de onde o rio Omo deságua no lago Turkana, o homem que conversa com crocodilos caminha na escuridão para realizar uma cerimônia para proteger seu povo. Ele carrega um feixe de galhos com folhas e o mergulha na água, depois sacode os galhos em direção da nascente e para a foz do rio enquanto pronuncia palavras com uma autoridade que não lhe foi conferida pelos homens. "Crocodilos! Prestem atenção! Este lugar é meu, do meu pai e do pai do meu pai. Fiquem longe. Deixem que meu povo e seus rebanhos desçam aqui para beber, e deixem as crianças nadar neste trecho. Se vocês se aproximarem, não vão escapar das minhas balas!" Em seguida, deposita os galhos no lodo, entra na água escura e banha o corpo.
Esse homem mantém um relacionamento especial com os antigos répteis, tal como no passado seu próprio pai. Em seus sonhos, os crocodilos dirigem-se a ele. "E o que dizem?", pergunto. "Não é da sua conta", responde. Os crocodilos sabem ouvir, pois, até onde vai a memória coletiva, nenhum atacou um ser humano perto do vilarejo. Os velhos balançam a cabeça, atestando que é verdade. "E quanto àquela mulher grávida que foi morta no ano passado?"
"Bem, ela não me ouviu." O homem faz um gesto na direção de um trecho mais abaixo no rio. "Ela foi morta ali. Aquele lugar não está sob a minha proteção." Os velhos assentem com a cabeça: a advertência é clara. A mulher havia entrado em território alheio.
Pergunto sobre Gibe III. De repente muda a atmosfera, como sempre ocorre quando menciono a barragem. Um grupo aproxima-se. Alguns haviam ouvido falar daquilo. O homem pergunta: "E o que é, exatamente, uma barragem?"
Os karas já chegaram a controlar as terras em ambas as margens do Omo, mas pouco a pouco os nyangatons foram avançando e empurrando os karas, que hoje se limitam a ocupar a margem leste. Uma tribo seminômade, os nyangatons foram um dos primeiros grupos a ter acesso a fuzis automáticos, trazidos do Sudão. Nas décadas de 1980 e 90, eles ampliaram seu território, ameaçando os vizinhos que ainda usavam lanças. A população nyangatom cresceu.

Mas os karas não cederam suas terras facilmente. Na época em que Dunga terminava a escola secundária, a maioria das tribos já contava com armas, exacerbando a tensão. Os karas ocultavam-se nas árvores às margens, alvejando os nyangatons que se aproximavam da água.
Já os nyangatons cruzavam o rio em grupos que disparavam rajadas de balas. Foi a essa altura que Kornan, com o primo, saiu para caçar no mato. Os animais de grande porte haviam sido dizimados, mas em alguns locais ainda se encontravam gazelas, antílopes e até elefantes. Era questão de ficar de tocaia e ver o que aparecia.
Os dois caçadores, porém, toparam com um grupo de nyangatons, e houve tiroteio. Kornan atingiu um deles no estômago antes de recuar, e o homem não sobreviveu. Como não havia atirado para matar, não servia para compensar a morte de seu pai. Ao mesmo tempo Kornan tinha plena consciência do que havia iniciado. Agora também ele passaria a ser caçado.
A despeito dessas escaramuças, os karas costumavam comprar munição dos nyangatons.
E Kornan havia dado dinheiro a um homem kwegu, de uma pequena tribo, para que comprasse balas. O kwegu nunca entregou a munição, e Kornan ficou furioso. Tempos depois, um intermediário convidou Kornan para tomar um café em sua choça, na margem nyangatom do rio, a fim de resolver a questão. Kornan não hesitou: pegou sua AK-47 e atravessou as águas.
Kornan não imaginava que o encontro fora arranjado pelo irmão mais novo do guerreiro que ele havia matado. Quando se encontrou com o kwegu sob uma cobertura de galhos, o café fervilhava em uma vasilha de barro. Então um grupo de nyangatons se aproximou. Kornan ficou desconfiado, mas nada aconteceu. Ele acabou se descontraindo e deixou de lado o fuzil.
A conversa era cheia de rodeios. O kwegu dizia que pretendia fazer uma vasilha de uma grande cabaça. Depois disse que precisava se aliviar e se afastou. Esse era um sinal. Kornan, porém, estava concentrado na cabaça e não percebeu nada. Tampouco viu quando um dos nyangatons se aproximou. Ele disparou pelas costas e correu enquanto Kornan se esvaía em sangue.
Não demorou para que corresse a notícia do assassinato. Furiosos, alguns karas atravessaram o rio e atacaram os nyangatons. Os amigos de Kornan carregaram seu corpo à outra margem. E naquela mesma noite saíram em busca de Dunga, que estava no vilarejo de Dimeka. Entre os karas, não é costume transmitir de chofre as más notícias. Apenas na manhã seguinte, eles contaram que Kornan havia sido morto.
A partir de então, Dunga tornou-se o responsável por tudo – as terras e os rebanhos da família, o bem-estar de sua mãe e também o da mulher e dos filhos de Kornan. Também se tornou responsável por vingar mais essa morte. E isso tirou-lhe o sono. Sempre que voltava para casa, a vendeta estava a sua espera. Não que fosse difícil matar um nyangatom: afinal, a região é imensa. Bastava ficar de tocaia no rio, e esperar que levassem o gado a beber água. Ou postar-se à noite em numa das trilhas solitárias, e depois abandonar o corpo às hienas. Por que, Deus, coube a mim esse fardo?, remoía Dunga.
Pensou em abandonar a escola, mas desistiu. Estava na faculdade e, após anos de estudos em grande parte baseada no pensamento ocidental e influenciada pelo cristianismo, Dunga havia mudado. Estava se familiarizando com as noções ocidentais de lei e de justiça. Embora tivesse sido criado em uma cultura que aceitava o assassinato, agora vivia em um ambiente no qual tais mortes eram imorais. Não pensava em vingança. Dunga sabia que sempre seria um kara, mas não mais se sentia submetido à autoridade da tribo.

O indivíduo a quem chamam de rei está próximo à entrada, no interior de uma imensa choça. Seu cabelo, untado de manteiga e brilhando com minerais esfarelados, é irretocável. "Se tem algum problema com gado, pessoas, terra, eu resolvo", afirma o rei. Seu rosto transparece uma confiança rara e absoluta. "Para tudo em meus domínios", repete, "eu tenho a solução."
De sua choça no alto dos montes Buska, Wangala Bankimaro governa os 30 mil membros da tribo Hamar. São pastores que criam rebanhos em uma área a leste do rio Omo. Também cultivam sorgo e milho. Os hamars são vizinhos e aliados dos karas. Em um ambiente hostil, eles conseguiram prosperar e se tornaram uma das tribos mais populosas da região. Por tudo isso, os hamars são gratos às chuvas, que alimentam o gado e as lavouras. E, por trazer a chuva, eles são gratos a Wangala Bankimaro.
As mulheres me contam que Wangala é respeitado até pelas autoridades etíopes. Já os homens, com fuzis nos ombros, dizem que as maldições de Wangala são mais temíveis que as balas. Uma bala pode não acertar o alvo, mas uma maldição é morte certa.
Quando o visito em seu barraco, Wangala acaba de voltar de uma cerimônia para invocar a chuva. Com braceletes de cobre nos pulsos, ele veste camiseta, calção branco e sandália com sola de pneu velho. Pergunto ao rei por que ele não agiu antes, a fim de evitar a seca. "Eles não se deram ao trabalho de me procurar", diz. "E não fizeram os sacrifícios para trazer a chuva."
Pouco a pouco, à medida que o governo etíope amplia sua influência e impõe o código jurídico às tribos, as autoridades federais se empenham em obter o apoio de Wangala. Uma das iniciativas tem como objetivo abolir o que essas autoridades denominam de "práticas tradicionais nocivas". Entre elas estão justo aquelas que mais atraem os olhares dos turistas: o ritual de fustigação das mulheres, as lutas com bastões e a cerimônia de passar sobre o dorso do gado.
A relação desses costumes também inclui a circuncisão feminina (que, embora não seja adotada pelos hamars, é comum em toda a Etiópia) e uma prática conhecida como destruição de mingi. Mingi é uma espécie de azar extremo. No sul da Etiópia, muitas tribos acreditam que é mau agouro uma criança nascer deformada, seus dentes superiores eclodirem antes dos inferiores ou nascer fora do casamento. Elas devem ser sacrificadas antes que o mingi se espalhe.
Os karas discutem a prática. Wangala, porém, já tomou sua decisão. Pouco tempo antes, ele posicionou-se em favor da abolição. "Agora não vai mais ter nenhuma morte de mingi entre os hamars", conta o rei para mim. "Eu resolvi assim." Ele declara isso sem o menor traço de arrogância. A tradição, a mágica e o medo eliminados de uma penada. "Eu sou a solução."
Num fim de tarde em março passado, cerca de 200 nyangatons estão reunidos para celebrar a paz com os karas. A pintura de argila forma listras brancas nos corpos, tornando-os fantasmagóricos e esqueléticos. Nacos de carne assam em espetos. Mais além, os homens empilham seus fuzis em um gesto de boa vontade, e também por um motivo simples. Dada a história, o melhor é deixar as armas fora de alcance.
Um velho circula a passos lentos, agitando as mãos e anunciando: "Povo nyangatom! Vocês precisam querer a paz!" Depois ele se volta para o outro lado da multidão. "Vocês, povo kara! Não deixem ninguém destruir a paz!", grita o ancião. "Que seja assim!", entoa a multidão.
Logo começaria a dança, e a clareira iria tremer com o ritmo de pés golpeando a terra exaurida. Nessa celebração conheço um jovem chamado Ekal, que pouco antes havia sido eleito chefe dos nyangatons. Ele tem menos de 30 anos e, como Dunga, fizera curso superior. Veste camisa polo larga, calça também larga e boné de beisebol. Enquanto seu povo dança, todos quase nus, Ekal os filma com um telefone celular. Ele diz que os tempos de guerra ficaram para trás e que o governo consolida sua presença na região. Aqueles que se manifestam contra podem ser presos, prossegue Ekal, e conta o caso de um nyangatom que se vangloriou de que iria matar alguns karas. Ekal chamou a polícia, e o fulano acabou na cadeia.
Quando volto a ver Dunga, alguns dias após a celebração, ele me diz que suas dúvidas enfim se dissiparam. Não tem o menor interesse em levar adiante a vingança. "Para mim, é como se uma cobra tivesse picado meu irmão. Como se meu pai tivesse sido atropelado por um carro.
A vingança não faz parte da minha vida."

Os velhos apoiam sua decisão. Eles sentem os ventos de mudança que sopram na região. Ouvem notícias da barragem que está sendo erguida rio acima e das iniciativas do governo para coibir costumes tradicionais. Eles têm consciência da armadilha que a tradição colocou no caminho de Dunga, a mesma que provocou a morte de Kornan. Os velhos sabem que Dunga era mais que um homem preso em uma vendeta. Fique tranquilo, eles lhe disseram.
Esta era a resposta que Dunga sempre havia esperado: o mundo de seu passado reconhecendo a força de seu mundo vindouro. Além de cortejar líderes antigos, como Wangala Bankimaro, o governo criou um programa para promover a lei e a ordem na região nomeando jovens para posições de poder no plano local. Quando se formar, Dunga será o primeiro advogado saído de sua tribo, e deve ser enviado de volta ao vale do Omo como juiz ou procurador público. Ele tem consciência de que é uma espécie de missionário, e irá se empenhar na modernização do povo kara, a fim de prepará-lo para ser parte da nação etíope. "É preciso aceitar a mudança", diz. "A minha vingança vai ser acabar com essas mortes."
Meses depois, volto a Dus e constato que a paz continua. A seca castiga a região e, um dia, avisto vários nyangatons cruzando o rio para pedir ajuda aos amigos karas. Sem hesitar, eles fornecem sacas de cereais aos antigos inimigos.
Mas nem tudo está perdoado. No vilarejo de Kornan, a jovem viúva, Bacha, ainda não se recompôs. Ela cumpre o luto tradicional: tirou os adornos, deixou o cabelo crescer, vestiu apenas um couro grosseiro. Viveu assim por dois anos, até que os velhos e os amigos a arrastaram para fora de casa. No fim, cortou o cabelo e voltou a usar os braceletes e colares, mas isso não significa que tenha se conformado. Um pretendente foi rejeitado. Ela ainda guarda as coisas de Kornan – as roupas, as contas. E também o AK-47.
Um dia, pergunto-lhe sobre o fuzil. O rosto de Bacha é impressionante, sem nenhuma ruga. Um prego de cabeça larga projeta-se através de seu lábio inferior. "Vou guardá-lo para que meus filhos o vejam", diz ela por fim. Bacha não parece impressionada com Dunga. Teoricamente, ele é o chefe da família, mas cabe a ela cuidar das tarefas, o que faz com a ajuda dos dois filhos, ambos com menos de 10 anos. "Meus filhos vão saber que o pai foi morto por um nyangatom", diz.
Antes de deixar a Etiópia, falo por telefone com Dunga, que está em Jinka, um vilarejo fronteiriço onde frequentou o internato. Está mostrando a escola ao sobrinho, o filho mais novo de Bacha. A ideia é de que o menino estude. Menciono o comentário de Bacha. "Às vezes, quando falamos, ela diz ‘tudo bem’. Mas sei que não é de coração. Fico com a impressão de que só a vingança vai torná-la feliz", diz. Se não convencer Bacha, ele tentará influenciar os filhos dela.
Antes de nos despedirmos, Dunga conta que ficou estabelecido que o filho mais velho de Bacha vai continuar em casa, como o pai, cuidando dos rebanhos e das lavouras. Ele viverá com Bacha e crescerá entre os velhos amigos do pai.
E viverá por um tempo à sombra de Kornan. Penso no rosto de Bacha, na imobilidade de seu olhar. Quando o filho crescer o suficiente, ela contará a ele o que aconteceu com o pai. E aí, talvez, também lhe entregará o fuzil de Kornan.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

As subversivas e sedutoras amazonas

A mitologia colocou em cena esse povo estranho, formado por mulheres-soldados aguerridas, que recusavam a autoridade masculina e encarnavam o avesso do que pregava a sociedade antiga

Catherine Salles


Museu Britânico Londres

Relevo de mármore do século IV a.C. retrata guerreiras atacando um combatente heleno

As amazonas pertencem ao domínio da transgressão. Essas guerreiras mitológicas simplesmente desprezavam os valores femininos vigentes na Antiguidade. Por isso, os gregos as viam como um desafio a qualquer “lei natural” ou social. Mais ainda, como um mal encarnado e ambíguo, que causava repulsa e, ao mesmo tempo, seduzia os homens. De fato, elas tinham em si uma centelha revolucionária, capaz de virar pelo avesso todas as certezas da sociedade grega.
No mundo real, a mulher era sempre um ser menor, e sua função essencial era parir os futuros cidadãos da Grécia. O homem e a mulher eram complementares, mas sua natureza, de acordo com a vontade dos deuses, era essencialmente diferente, daí serem considerados unicamente viris o trabalho no campo, a caça, o treino desportivo e a guerra. Por extensão, as gregas também eram alijadas do poder político.
As virtudes femininas eram a obediência e o pudor. Um texto de Aristóteles evoca bem o modo como os gregos justificavam pela ordem natural as relações entre sexos e define por antítese o que seria impossível para a mulher: “A natureza criou um sexo forte e um sexo frágil. O primeiro, em razão da sua virilidade, está mais apto a afastar os adversários, o segundo está mais apto a realizar-se sob a guarda masculina, devido a uma tendência natural para o medo. O primeiro traz para o domicílio os bens do exterior, o segundo vela sobre o que está em casa”.
O texto prossegue da seguinte forma: “Na divisão do trabalho, o primeiro, menos afeito ao descanso, encontra prazer no movimento. O segundo está mais apto a levar uma vida sedentária e não tem forças suficientes para a vida ao ar livre. Enfim, se os dois sexos participam na geração das crianças, o bem destas últimas irá exigir de cada um dos pais um papel particular: a mulher terá a função de alimentá-las, o homem, a de educá-las”.
A amazona é aquela que recusa essa distribuição de competências, pois pura e simplesmente eliminou os homens de sua estrutura política e social. Na Ilíada, essas guerreiras são chamadas por Homero de antianeira (anti-homem). O prefixo grego anti, nesse caso, pode ter o sentido de “contra” o homem, mas também de “igual” a ele.

Museu Arqueológico Nacional, Nápoles

A deusa Ártemis (Diana para os romanos) era venerada pelas amazonas, pois, como elas, habitava os espaços selvagens, recusava a sociedade dos homens e se dedicava à caça

Representadas sempre como guerreiras e caçadoras, desde pequenas montavam cavalos (com as pernas abertas) e aprendiam a manejar o arco, o dardo, a espada e o machado de combate. Para atirar melhor, elas cauterizavam (ou cortavam) o seio direito, o que, para Hipócrates, “desloca toda a força e desenvolvimento para o ombro e braço”.
O nome das fabulosas criaturas vem dessa prática: a-mazos significa “sem seio”. Por alguma razão, porém, a iconografia disponível costuma mostrá-las com os dois seios intactos. Além do significado prático, a mutilação do seio tem um aspecto simbólico: elas permaneciam mulheres pelo lado esquerdo e tornavam-se homens pelo direito.
As guerreiras veneravam Ártemis, que, como elas, habitava os espaços selvagens, recusava a sociedade dos homens e dedicava seus dias à caça. Os relatos antigos sobre esses lendários seres informam que sua sociedade era dividida geralmente em duas tribos, cada qual com sua rainha. Enquanto uma estava ocupada com a guerra, a outra permanecia sedentária, para proteger seu povo. Sua hipotética “cidade” chamava-se Themiscrya, situada além do mar Negro, às margens do rio Termodonte.
As amazonas podiam fazer longínquas incursões. São atribuídas a elas invasões na Ásia Menor e na Grécia. Em uma delas, Myrina, à frente de 20 mil guerreiras a cavalo e 3 mil a pé, declarou guerra aos habitantes de Atlântida, tomou conta da cidade, massacrou os homens prendeu mulheres e crianças. Elas eram temidas por andarem armadas e em bandos, mas também porque, não aceitando a presença de homens em seu meio, acasalavam como os animais, desprezando as regras do casamento entre humanos. Uma vez por ano, se entregavam aos povos vizinhos e obrigavam os homens a ter relações com elas. Tudo acontecia aleatoriamente, na escuridão, de modo que não pudessem reconhecer seus parceiros. Eram elas que violentavam e “usavam” os homens.
Quando nasciam as crianças, conservavam as meninas e matavam os meninos. Recusavam-se a amamentar as filhas, com medo de deformar os seios, e criavam-nas com leite de égua.
Não conheciam a navegação nem a cultura dos cereais – daí vem a outra etimologia proposta para seu nome, a-maza também quer dizer “sem cevada”. Alimentavam-se de carne crua.

Aventuras pela História e pela literatura


Reprodução

Encontro entre o exército de Alexandre, o Grande, e o grupo de guerreiras liderado por Talestris. Segundo textos ela teria passado 13 noites com o conquistador macedônio

Para os gregos, as amazonas não pertenciam apenas ao domínio da lenda. Muitos escritores procuraram emprestar fundamentos históricos às aventuras das guerreiras anti-homens.
Heródoto consagrou-lhes inúmeros capítulos da obra Investigações. Segundo ele, quando os gregos conduzidos por Hércules voltaram para tomar o cinturão de Hipólita, trouxeram amazonas como prisioneiras. Elas reagiram em dado momento, mataram-nos e jogaram os corpos no mar.
Ignorando tudo o que dizia respeito a navios e navegação, as mulheres deixaram então que a embarcação seguisse à deriva até encalhar no território dos citas, que viram no episódio uma ameaça de invasão. Partiram para o ataque, até perceber que os “inimigos” eram mulheres. Decidiram, então, “domesticá-las”, para gerar filhos corajosos. As amazonas aceitaram se unir aos jovens citas, mas logo tomaram as rédeas da coabitação: eles foram obrigados a deixar seu país e suas famílias para acompanhá-las até suas terras.
As amazonas foram reencontradas em textos históricos posteriores. Por três vezes, entre 331 e 324 a.C., os exércitos de Alexandre, o Grande, encontraram as guerreiras. Sua rainha, Talestris, foi ao encontro do rei macedônio e passou 13 noites com ele.
Em 63 a.C., o general romano Pompeu, perseguindo o rei Mitridates, chegou ao pé das montanhas do Cáucaso, onde enfrentou os albaneses. Após o combate, encontrou sobre o campo de batalha escudos leves e sandálias femininas. De acordo com algumas fontes, entre os prisioneiros de guerra encontravam-se inúmeras mulheres que, por falta de termo melhor, os romanos chamaram de amazonas.
Nestes dois últimos exemplos, há uma grande distância entre as mulheres-soldados e as lendárias amazonas. Mas, penetrando em terras distantes, onde mal conheciam os povos e costumes, os ocidentais enfrentaram exércitos locais em que as mulheres combatiam como os homens – por falta de outra referência, gregos e romanos viram nelas a encarnação das guerreiras mitológicas.
Na literatura, as amazonas foram protagonistas de algumas histórias imortais. Em uma delas, Teseu, tendo acompanhado Héracles (ou Hércules) em sua expedição até o reino das guerreiras, foi seduzido pela beleza de uma delas, Antíope. Sob o pretexto de lhe mostrar seu navio, ele a levou a bordo e zarpou imediatamente rumo a Atenas.
Furiosas com o rapto, as amazonas atacaram a cidade tempos depois. Teseu conseguiu convencer seus compatriotas a enfrentar o temível exército feminino, e começou uma batalha aos pés da colina de Pnyx. No começo, elas levaram vantagem e perseguiram os adversários fora dos muros de Atenas. Depois os homens adquiriram vantagem e venceram a guerra. Antíope morreu atravessada por um dardo durante o conflito. Ela tivera tempo de dar a Teseu um filho, Hipólito, que herdou da mãe o gosto pela caça e era muito casto. – C. S.

Catherine Salles é doutora em letras clássicas.

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

Mulheres são mais escolarizadas, mas ainda ganham menos

Mulheres no mercado de trabalho são mais escolarizadas que os homens, trabalham menos que o sexo oposto, mas também ganham menos e têm mais dificuldade de ter a carteira assinada. Estes e outros dados fazem parte do estudo Mulher no Mercado de Trabalho: Perguntas e Respostas, divulgado hoje (8) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. As informações analisadas fazem parte da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) 2009, realizada nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Segundo o estudo, em 2009, enquanto 61,2% das trabalhadoras tinham o ensino médio completo, para os homens este percentual era de 53,2%. A parcela de mulheres ocupadas com nível superior completo era de 19,6%, também superior ao dos homens (14,2%). Por outro lado, nos grupos de menor escolaridade, a participação dos homens era superior à das mulheres. Em 2009, aproximadamente 35,5% das mulheres estavam contratadas com carteira de trabalho assinada, porcentagem inferior à dos homens (43,9%).

Houve em 2009 redução de cerca de 36 minutos na diferença entre a média de horas trabalhadas por homens e mulheres, devido à diminuição na média de horas trabalhadas pelos homens. Ainda assim, em 2009 as mulheres trabalhavam em média 38,9 horas por semana, 4,6 horas a menos que os homens. A diferença na média de horas trabalhadas entre as mulheres com ensino médio completo em relação aos homens diminuiu para 3,6 horas. Em 2003 era de 4,4 horas.

As mulheres com um até três anos de estudo mantiveram a maior diferença (7,2 horas) na média de horas trabalhadas, quando comparadas aos homens. Em 2003 a diferença era de 7,3 horas.

O número de horas trabalhadas pelas mulheres que possuíam curso superior completo só ultrapassava o das que tinham até três anos de estudos. Já as mulheres com 11 anos ou mais de estudo foram as únicas a aumentar a média de horas trabalhadas semanalmente, em todo o mercado de trabalho: de 38,8 horas em 2003 para 39,1 horas em 2009.

Ainda segundo o IBGE, a média de rendimentos das mulheres continua inferior à dos homens, mas melhorou nos últimos seis anos. Em 2009, enquanto o homem ganhava em média R$ 1.518,31, a mulher ganhava R$ 1.097,93, 72,3% do rendimento recebido pelos homens. Em 2003, esse percentual era de 70,8%.

Outro ponto ressaltado pelo estudo é que a maior diferença salarial entre homens e mulheres foi registrada no grupo com nível superior e no setor de comércio. Nesta área, a diferença de rendimento para a escolaridade de 11 anos ou mais de estudo é de R$ 616,80 a mais para os homens. Quando a comparação é feita para o nível superior, ela é de R$ 1.653,70 para eles. Já nas atividades relacionadas à construção, as mulheres com 11 anos ou mais de estudo têm rendimento ligeiramente superior ao dos homens com a mesma escolaridade: elas recebem, em média, R$ 2.007,80, contra R$ 1.917,20 dos homens.

Fonte: Agência Brasil – http://www.agenciabrasil.gov.br/

Israel anuncia 1.600 novas unidades habitacionais em Jerusalém e gera polêmica

Ethan Bronner

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden,
 cumprimenta o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante 
visita oficial do representante americano ao país, na última terça-feira
 (09/03)

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, cumprimenta o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país, na última terça-feira (09/03)

Horas após o vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph R. Biden Jr., ter prometido apoio absoluto americano à segurança de Israel aqui na terça-feira, o Ministério do Interior de Israel anunciou 1.600 novas unidades habitacionais para judeus em Jerusalém Oriental, levando Biden a condenar a medida como “precisamente o tipo de passo que mina a confiança de que precisamos no momento”.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ficou claramente embaraçado com a medida de seu ministro do Interior, Eli Yishai, líder do Partido Shas de direita, que transformou o assentamento de judeus em Jerusalém Oriental em uma de suas causas centrais.

Uma declaração emitida em nome do Ministério do Interior, mas distribuída pelo gabinete do primeiro-ministro, disse que o plano habitacional levou três anos para ser preparado e que seu anúncio não estava relacionado à visita de Biden. Ela acrescentou que Netanyahu tinha acabado de ser informado a respeito.

Netanyahu apoia o assentamento de judeus em Jerusalém Oriental, mas deseja a continuidade das negociações com os palestinos e manter relações fortes com Washington. Mas quando ele formou sua coalizão há um ano, ele uniu forças com vários partidos de direita, mas tem tido dificuldade em mantê-los na linha.

Biden foi a Jerusalém em grande parte para assegurar aos israelenses o compromisso de Washington com a segurança de Israel e com a retomada das negociações de paz com os palestinos.

Ele iniciou o dia com uma nota de apoio, afirmando “compromisso absoluto e total com a segurança de Israel” por parte do governo Obama.

Mas no final do dia, o tom de Biden tinha uma qualidade bem diferente. Ele emitiu uma declaração condenando “o conteúdo e momento do anúncio” das moradias, e acrescentou: “Uma ação unilateral adotada por qualquer parte não pode prejulgar o resultado das negociações nas questões do status permanente”.

Ele disse que o anúncio “vai contra as discussões construtivas que tive aqui em Israel”.

Na segunda-feira, George J. Mitchell, o emissário do governo para o Oriente Médio, anunciou que Israel e os palestinos concordaram com quatro meses de negociações de paz indiretas, a primeira dessas negociações em mais de um ano.

Nabil Abu Rudeineh, um porta-voz do governo palestino, chamou o novo anúncio das unidades habitacionais de “uma decisão perigosa, que minará as negociações e sentenciará os esforços americanos ao fracasso completo”.

Abu Rudeineh acrescentou que “agora está claro que o governo israelense não está interessado em negociar, nem está interessado na paz”.

“O governo americano deve responder a esta provocação com medidas de fato, já que não é mais possível apenas dar a outra face”, ele prosseguiu, “e uma forte pressão americana é necessária para compelir Israel a abandonar seu comportamento destruidor da paz”.

No ano passado, o governo Obama tentou fazer com que Israel suspendesse a construção de assentamentos para reiniciar as negociações de paz, esperando que os países árabes prometeriam em troca medidas para construção da confiança. Essas medidas não ocorreram e os israelenses rejeitaram o suspensão dos assentamentos.

Após muita negociação, os israelenses anunciaram em novembro um congelamento parcial de 10 meses na construção de novos assentamentos na Cisjordânia. Mas eles isentaram especificamente Jerusalém da moratória, porque Israel anexou Jerusalém Oriental e a considera parte de sua capital, uma posição rejeitada pelo restante do mundo.

O anúncio das novas unidades habitacionais na terça-feira é para um bairro ultraortodoxo, Ramat Shlomo. A declaração do Ministério do Interior disse que o passo de terça-feira fazia parte de um longo processo que prosseguiria por algum tempo, antes das unidades serem construídas de fato.

O anunciou ocorreu após um dia em que Biden, que permanecerá na região até sexta-feira, realizou uma demonstração altamente pública e orquestrada do apoio americano a Israel.

“O progresso ocorre no Oriente Médio quando todos sabem que há nenhum espaço entre os Estados Unidos e Israel”, ele disse, ao lado de Netanyahu na residência do primeiro-ministro. “Não há nenhum espaço entre os Estados Unidos e Israel quando se trata da segurança de Israel.”

Biden também disse que, como Israel, o governo Obama está determinado a impedir que o Irã obtenha armas nucleares e apoie grupos que ameacem Israel. Os Estados Unidos estão tentando construir um consenso para sanções internacionais contra o Irã devido ao seu programa nuclear. Israel tem ameaçado o uso de força militar, mas está seguindo a abordagem americana por ora. Parte do propósito desta viagem é cimentar essa cooperação.

O vice-presidente americano expressou satisfação com o acordo para novas negociações com os palestinos. Elas estão sendo chamadas de “negociações de proximidade”, porque espera-se que Mitchell se desloque entre o governo israelense em Jerusalém e a Autoridade Palestina em Ramallah, na Cisjordânia, para atrair os dois lados para negociações diretas.

Em seus comentários públicos com Biden, Netanyahu se concentrou na necessidade de “persistência e determinação para assegurar que chegaremos a essas negociações diretas que nos permitirão resolver este conflito”.

O anúncio sobre a expansão das unidades habitacionais não foi a primeira vez que Netanyahu foi pego de surpresa por um de seus ministros mais nacionalistas ou conservadores, até mesmo seus assessores.

No início deste ano, por exemplo, Daniel Ayalon, o vice do ministro das Relações Exteriores nacionalista, Avigdor Lieberman, aumentou as tensões com a Turquia quando humilhou seu embaixador em Israel diante das câmeras de televisão.

Biden deverá passar a quarta-feira na Cisjordânia reunido com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e com o primeiro-ministro Salam Fayyad, e depois fará um discurso em Tel Aviv na quinta-feira, antes de seguir para a Jordânia.

Após suas reuniões na manhã de terça-feira com o presidente israelense, Shimon Peres, e com Netanyahu, Biden, acompanhado de sua esposa, Jill, visitou o túmulo de Yitzhak Rabin, o primeiro-ministro israelense que foi assassinado em 1995 por um extremista judeu que se opunha à reconciliação com os palestinos.

Biden então visitou o Yad Vashem, o museu e centro do Holocausto. Após assinar o livro de visitas, ele disse: “A frase ‘nunca mais de novo’ é usada com tanta frequência que quase perdeu seu significado. Mas basta andar pelo Yad Vashem para entender quão incrível foi a jornada para os judeus do mundo e por que Israel é uma parte central de sua existência”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Sistemas de informação geográfica

A maneira como o Google vai dominar as geotecnologias mostra como esta área evoluiu

Eduardo Freitas

Quem nunca entrou no Google Earth ou Google Maps e foi direto fazer uma busca pelo próprio endereço, ou bisbilhotar o quintal do vizinho? Em contrapartida, quem ainda se dá ao trabalho de abrir uma pesada lista telefônica, pesquisar um endereço (geralmente em letras minúsculas), gravar o número e quadrante da página e verificar sua posição no mapa?
Esses dois lados de uma mesma moeda mostram como a geotecnologia evoluiu nos últimos anos, passando do uso restrito de alguns milhares de especialistas para o acesso diário
por milhões de pessoas. Só o Google Earth tem, hoje, mais de 500 milhões de usuários do globo virtual para visualização e análise geográfica, o que demonstra a popularidade desse tipo de ferramenta.
Mas nem sempre o uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) foi popular. O primeiro exemplo de análise espacial corresponde à experiência do epidemiologista inglês John Snow (1813-1858). Para identificar o foco responsável pelo surto de cólera que afetou Londres em 1854, Snow cartografou as residências dos doentes e as sobrepôs aos poços de captação de água da cidade. Outro exemplo é o mapa de Charles Minard, de 1861, que representa a campanha de Napoleão na Rússia e exibe um conjunto de elementos gráficos associado ao modo como as tropas se deslocavam. Esses dois modelos são importantes marcos na história dos SIG, pois refletem a existência de uma base cartográfica de qualidade que permita operações de sobreposição de dados.
Existe um campo muito maior de estudo que vai além do SIG. A expressão “ciência da informação geográfica” (CIG) foi introduzida em 1992. Essa definição consta em um artigo do pesquisador Michael Goodchild, que posteriormente trabalhou com o ex-vice-presidente americano, Al Gore, no projeto Terra Digital. O estudo deu origem ao filme Uma verdade inconveniente, que expôs de forma incontestável os efeitos do aquecimento global com base em análises geoespaciais.
Entre a comunidade científica que estuda a CIG existe um consenso de que o grande salto evolutivo da própria ciência e dos sistemas de informação geográfica foi o Google Earth, em junho de 2005, que revolucionou a forma com que as pessoas se relacionam com mapas e imagens de satélites. Depois que a Google colocou geoinformação no cotidiano, o mundo nunca mais foi o mesmo.
Em 2004, a empresa Keyhole desenvolvia um globo virtual chamado Earth Viewer, que poderia ser acessado por qualquer internauta com banda larga, mas sua base de imagens de satélites e mapas ainda era pequena para o ambicioso projeto de cartografar todo o mundo. Foi quando o Google entrou em cena, comprou a empresa e lançou o Google Earth para o grande público, alcançando o esperado ganho de escala.
Mas, mesmo depois da massificação da tecnologia ainda existe muita confusão sobre o Google Earth. Afinal, as imagens são em tempo real? Quando o Google atualiza os mapas? É possível usar tudo de graça? As versões corporativas têm mapas mais recentes?
O principal mito sobre as imagens online deve muito a séries televisivas como 24 horas e a filmes como Inimigo de Estado, que mostram agências governamentais. As imagens do Google Maps e Earth são obtidas por satélites em órbita da Terra e por aviões equipados com câmaras digitais, geralmente de propriedade particular. Após a aquisição dessas fotos, o Google faz parcerias comerciais com as empresas e então oferece as imagens aos usuários.
Quanto à atualização dos dados, o Google nunca oferece uma previsão de quais áreas terão melhores informações. Só é possível saber que uma cidade ou área rural tem dados novos após a publicação das imagens de satélites ou fotos aéreas. Já os dados vetoriais, como ruas e limites de bairros, são obtidos por meio de parcerias com empresas que produzem mapas, mediante levantamentos em campo, por exemplo.
Outro mito das ferramentas de mapas online é que tudo está lá de graça. A versão free realmente está disponível para qualquer usuário. Mas, caso um aplicativo precise de login e senha para ser acessado é necessário uma licença profissional.
Com milhões de usuários em todo o mundo, o Google aproveita sua experiência com o mapeamento colaborativo e com o acesso simultâneo a dados para oferecer ferramentas corporativas do Google Earth e Maps. As opções para empresas têm alguns diferenciais, como a possibilidade de imprimir imagens de melhor qualidade ou suporte técnico; porém a base de dados com mapas e imagens de satélites é a mesma da versão free.
Os Serviços Baseados em Localização (LBS, na sigla em inglês) são a nova fronteira das ferramentas geoespaciais. A própria Google já lançou um navegador e o sistema operacional Android, para instalação em dispositivos móveis, mirando o uso de geotecnologia em tempo real. Definitivamente, a geoinformação saiu do gueto dos profissionais e agora está na palma da mão.

Eduardo Freitas é técnico em edificações, engenheiro cartógrafo, mestrando em CIG, editor do portal MundoGEO e autor do blog GeoDrops.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/