Daily Archives: 22/03/2010

"Um terço das pequenas empresas adota licença-maternidade maior"

Henrique Gomes Batista

"Sebrae diz que 1,7 milhão de mulheres já podem ter 6 meses de benefício
Uma pesquisa inédita do Sebrae revela que 33% das micro e pequenas empresas do país já adotaram ou adotarão a licençamaternidade de seis meses, dois a mais que o exigido pela lei. Entretanto, se fossem oferecidos aos pequenos empregadores os mesmos benefícios fiscais que o governo concede às grandes empresas que ampliam o benefício, o percentual de adesão à licença de 180 dias seria de 74%.
Apenas as empresas que declaram o Imposto de Renda pelo sistema do lucro real podem abater o valor gasto com os dois meses extras de licençamaternidade. As empresas que optam pelo lucro presumido e pelo Simples não ganha nenhuma compensação se elevar o benefício de quatro para seis meses.
Pelas contas de Raissa Rossiter, gerente da Unidade de Gestão Estratégia do Sebrae, isso significa que atualmente 1,7 milhão de mulheres que trabalham em micro e pequenas empresas, de um universo total de 5,1 milhões de trabalhadoras nestas firmas, estão aptas a receber o benefício estendido.
- Isso demonstra a preocupação do micro e pequeno empresário com a situação da mulher – disse a responsável pela sondagem, que será publicada hoje, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.
Eunice Léa de Moraes, gerente de Projetos da Subsecretaria de Articulação Institucional da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, acredita que os dados são positivos e demonstram uma preocupação melhor com o tema.
- O assunto é tão importante que a frente parlamentar da mulher elegeu a votação na Câmara dos Deputados proposta de emenda constitucional que universaliza a licença de seis meses como pauta primordial para terça-feira, como forma de marcar o dia da mulher neste ano – afirmou.
Eunice lembra que o órgão estuda formas de aperfeiçoar o sistema, incluindo a ideia defendida por alguns estudiosos de se estabelecer um prazo do benefício para o casal – que definiria quem tiraria a licença – para aumentar a participação do pai na criação dos filhos.
Já o Ministério do Trabalho informou que não há estudos para ampliar o benefício fiscal da ampliação da licença às micro e pequenas."

Fonte: Globo – http://g1.globo.com

Células-tronco

Parece uma condição criada em filmes de ficção, mas a transformação de células adultas em células-tronco já pode ser uma realidade. O processo é lento, mas os resultados são otimistas e eficientes

Alison Abbott

Sob condições adequadas, qualquer célula adulta pode ser “persuadida” a se transformar numa célula com as mesmas características de uma célula-tronco, afirmou uma equipe de pesquisadores que trabalham nos Estados Unidos.

A equipe, liderada por Rudolf Jaenisch, do Instituto Whitehead de Pesquisas Biomédicas, de Cambridge, em Massachussetts, foi também capaz de acelerar esse processo, diminuindo pela metade o tempo exigido para que as células se transformassem em células do tipo célula-tronco.

Esses resultados trazem boas notícias para aqueles que batalham para solucionar a complexa biologia dessas células, conhecidas como células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) – as quais podem se transformar em qualquer outro tipo de célula. Até o momento, a conversão experimental ou “reprogramação” de células adultas em células-tronco iPS tem-se mostrado lenta e ineficiente, levando alguns pesquisadores a conjeturarem se apenas um subconjunto de elite de células adultas seria capaz dessa transformação.

Os cientistas esperam, no futuro, compreender bem o funcionamento das células iPS para que elas possam substituir as células-tronco embrionárias, que são objeto de grande controvérsia ética quanto à sua utilização na medicina regenerativa. Jaenisch e seus colegas desenvolveram um sistema sofisticado para estudar a reprogramação. Ele envolve a utilização de células imunológicas de camundongos, geneticamente idênticas, que contêm cópias adicionais de quatro genes necessários para a reprogramação. Os genes incluem variações que permitem que eles sejam ativados pela adição de uma droga.

Pluripotência

No primeiro de uma série de experimentos, os pesquisadores cultivaram células imunológicas individuais, ativram os seus genes de reprogramação e deixaram que as células continuassem a crescer e a se dividir. A equipe monitorou a rapidez com que as células se dividiam e em que estágio elas começaram a produzir um sinal químico indicativo de que elas haviam se tornado células iPS. De tempos em tempos, os autores da pesquisa checavam, também, algumas das células para se certificarem de que elas eram realmente pluripotentes, observando, por exemplo, se eram capazes de formar teratomas, um tipo de tumor constituído de muitos tipos diferentes de células.

Algumas das populações de células começaram a produzir os sinais químicos depois de apenas duas semanas. Outras, levaram mais tempo, até 18 semanas, mas apenas 8% das populações foram incapazes de gerar células iPS nesse período.

“Basicamente, todas as células têm potencial para se tornarem pluripotentes”, afirmou Jaenisch.

"Sob condições adequadas, qualquer célula adulta pode ser ‘persuadida’ a se transformar em uma célula-tronco"

Os autores não obtiveram muitas pistas a respeito da razão pela qual algumas células demoraram mais que outras para gerar as células iPS. Mas salientaram que, para as células imunológicas que usaram, o índice de divisão celular não foi relevante porque todas as células se dividiram aproximadamente na mesma taxa.

“É algo que parece acontecer estocasticamente com as células sob essas condições – isto é, de uma forma contínua, mas probabilística.

Um fator que os cientistas acreditam desempenhar papel importante para acelerar o caminho para a pluripotência das células são genes como os NANOG. Quando a equipe aumentou a expressão desse gene, a taxa de divisão das células imunológicas não mudou significativamente, mas as células precisaram de menos divisões – e, consequentemente, de menos tempo – para se tornarem pluripotentes.

Conexão com o câncer

Em outros experimentos, os pesquisadores também foram capazes de diminuir o tempo necessário para gerar células iPS, mudando a expressão dos genes relacionados ao câncer, como,por exemplo, o gene p53, que descobriuse recentemente que afeta a eficácia com que as células adultas podem ser reprogramadas.

Ativar trajetos moleculares envolvidos com o câncer aumentou a proporção com que as células se dividiam e, paralelamente, houve um aumento na taxa de reprogramação: quase todas as populações de células geraram células iPS dentro de 8 semanas.

Tanto as células com modificação do gene do câncer quanto as sem modificação do gene do câncer produziram células iPS, após o mesmo número de divisões celulares. Jaenisch suspeita que a reprogramação envolve uma série de eventos epigenéticos – por meio dos quais o DNA é modificado por sinais químicos para controlar a taxa de expressão de genes específicos – e que esses eventos ocorrem principalmente quando as células estão se dividindo. Portanto, faz sentido que ao se dividirem mais rapidamente, como acontece com as células cancerosas, as células também se tornem pluripotentes mais rapidamente, acrescentou Jaenisch.

A inteligente metodologia da equipe quebrou as barreiras técnicas que têm impedido avanços nesse campo, disse Juan Carlos Izpis, do Instituto Salk de Estudos Biológicos, em La Jolla, na Califórnia. “Mostrar que todas as células, ou pelo menos essas células imunológicas, podem ser reprogramadas resolve um problema em que temos nos empenhado há muito tempo”, afirmou Izpis.

Traduções da revista Nature com exclusividade para o veículo revista no Brasil

Fonte: Revista Psique, Ciência e Vida – http://psiquecienciaevida.uol.com.br

Laser completa meio século como fonte de tecnologias

Mónica Salomone

Centro de Pesquisa Observatório de 
Paris mostra a instalação de um laser de neodímio

Centro de Pesquisa Observatório de Paris mostra a instalação de um laser de neodímio. Todo ano são pedidas milhares de patentes ligadas a essa luz.

Dois aniversários científicos são comemorados este ano: o do projeto SETI, de busca de vida extraterrestre, e o do laser. Em ambos os casos há 50 velas, mas aí acabam as coincidências. O SETI ainda não tem resultados para mostrar. Em troca, o primeiro laser, nascido em 1960 nos Laboratórios de Pesquisa Hughes, na Califórnia (EUA), pela mão de Theodore Maiman, passou em pouco tempo de uma curiosidade sem aplicações a uma fonte de desenvolvimentos tecnológicos aparentemente inesgotável.

Nas últimas décadas foram pedidas mais de 55 mil patentes relacionadas a ele somente nos EUA, e "o mais surpreendente é que ainda se continuam buscando numerosas aplicações", afirmou Thomas Bauer, diretor do Centro de Pesquisa Fotônica da Universidade Stanford, na reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS na sigla em inglês), em San Diego.

A lista de aplicações é enorme. Com o laser se atingem altíssimas temperaturas, comparáveis às do núcleo solar; e também baixíssimas, dez vezes mais frias que a do nitrogênio líquido – o que permitiu criar um novo estado da matéria, o condensado de Bose-Einstein, no qual os átomos estão congelados. Há lasers de pulsos tão breves que permitem fotografar o movimento dos elétrons nos átomos.

Em biologia, química, física e medicina, o laser foi revolucionário. "Por exemplo, para entender a epidemia de Aids", explicou Bauer: "Em meados dos anos 1980 foram aperfeiçoadas as técnicas para discriminar tipos de células com base no laser; sem elas não teríamos descoberto quais células o vírus infectava".

"É claro que sabia que poderia servir para as telecomunicações e algumas outras coisas, mas jamais poderia ter imaginado o que veio depois", explica Charles Townes, coautor do artigo de 1958 que depositou as bases para a construção do laser, em entrevista distribuída pela Laserfest (www.laserfest.org). Desde que Townes ganhou o Nobel em 1964, mais de uma dúzia desses prêmios foi relacionada ao laser (sigla em inglês de "amplificação de luz por emissão estimulada de radiação"), cuja característica é ser uma luz coerente, com todos os seus fótons na mesma frequência, fase, polarização e direção. Por exemplo, concentra grande quantidade de energia em muito pouco espaço. Também percorre enormes distâncias sem que seu feixe se disperse; um laser de rubi enviado à Lua em 1969 – que refletiu para a Terra em um espelho colocado por Neil Armstrong – cobria uma superfície de apenas 9 km no solo lunar.

O laser de Maiman, o primeiro, se baseava na emissão estimulada de átomos de rubi sintético, e foi tão fácil de construir que em poucas semanas foi replicado em outros laboratórios. A anedota salienta que a visão de futuro é um dom muito raro: antes que a revista "Nature" o publicasse, em 1960, o artigo descrevendo o primeiro laser foi rejeitado "por uma importante revista de física", conta Bauer. "Em princípio, o êxito de Maiman passou despercebido para o público, e nem sequer obteve muito reconhecimento entre a comunidade científica." Em 1971, já existiam as primeiras impressoras a laser, e três anos depois os leitores de códigos de barras.

Na AAAS se olha principalmente para o futuro, em que o laser será uma autêntica salvação, segundo Edward Moses. Ele é o responsável pelo maior laser em funcionamento, o NIF (National Ignition Facility), recém-inaugurado no Laboratório Nacional Lawrence Livermore. Com o NIF, que produz pulsos de quase 2 milhões de joules de energia, espera-se construir "uma pequena estrela", disse Moses. Trata-se de reproduzir a reação de fusão nuclear que gera energia no núcleo das estrelas, para assim dispor de "uma fonte de energia inesgotável, sem problemas de geopolítica, limpa e que não emite dióxido de carbono". O mesmo se procura com o reator de fusão experimental ITER, em construção em Cadarache (França). Segundo Moses, "não são projetos concorrentes", mas ele estima que antes de uma década se terá conseguido que o NIF gere mais energia que a eletricidade que é preciso investir no sistema, enquanto a data desse objetivo para o ITER, ele diz, é "entre 2025 e 2030".

Outros especialistas indicam mais aplicações futuras do laser: análise do genoma humano completo em poucas horas e aparelhos de imagem com resolução capaz de detectar tumores incipientes.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Repórteres no pelourinho

Leandro Fortes

A direção da Folha de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à redação (mas não aos diretores), o sociólogo Demétrio Magnoli, a chamar de “delinquentes” dois repórteres do jornal, autores de matéria sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês, não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24 anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquencia jornalística montado por Magnoli.

Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres insultados (Laura Capiglione e Lucas Ferraz), como, imagino, deve prever o seu completíssimo manual de redação, ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente os saraus do Instituto Milleniun, não entende absolutamente nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião. A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica, nem muito menos é resultado de “jornalismo engajado” (contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é que houve falha nos filtros internos da redação e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria cujas conseqüências aí estão: o senador Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da Colônia e do Império do Brasil.

A reação interna à repercussão de uma matéria elaborada por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada por Demétrio Magnoli, é emblemática (e covarde), mas não diz respeito somente à Folha de S.Paulo. O artigo “Jornalismo delinquente”, publicado na edição de hoje (9 de março de 2010), na página de opinião do jornal, nada tem a ver com políticas de pluralidade de opiniões, mas com intimidação pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres e editores, e não só da Folha, para os tempos de guerra que se aproximam. A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos, a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado pela fala de Demóstenes Torres na tribuna do Senado Federal, resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive, agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade, para usar um termo caro à equipe econômica tucana dos tempos de FHC.

Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da Folha de S.Paulo de “panfleto disfarçado de reportagem”, afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria, sem autorização da direção do jornal, precedida de uma avaliação editorial e política bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não há racismo no Brasil, insultar dois repórteres e o principal colunista da Folha, em espaço próprio dentro de uma edição do jornal, deixa a todos – jornalistas e leitores – perplexos com os rumos finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio editorial em nome de uma vingança ideológica, ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial e de classe.

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

Brasil à francesa

Os anos brasileiros, entre as décadas de 1930 e 1940, marcaram a vida e a obra do historiador francês Fernand Braudel

Joselia Aguiar

O jovem Braudel em foto tirada quando de sua estada no Brasil

“Para quem se via acuado entre a historiografia convencional, a vulgata marxista e o sociologismo, Braudel foi uma autêntica libertação. Ali estava finalmente um historiador que nem tinha o ranço de uma nem o reducionismo da outra nem o doutrinarismo do terceiro; e que, munido dos instrumentos da erudição mais recente, era capaz, como os grandes historiadores do século XIX, de dar corpo, alma e vida a largas fatias do passado”, escreveu o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello. O elogio  dá  uma noção do encantamento que gerações experimentaram há cinco décadas com a leitura de O Mediterrâneo, obra monumental de Fernand Braudel (1902-1985) e do peso da influência do historiador francês. O que poucos sabem é que o seu pensamento, incluindo-se a criação dessa sua obra máxima, foi gestado durante sua estada no Brasil durante os anos 1930 e 1940. Essa temporada tropical de Braudel é o tema do estudo do historiador Luis Corrêa Lima, paulista, radicado no Rio de Janeiro, da PUC-RJ, autor de Fernand Braudel e o Brasil – Vivência e brasilianismo (1935-1945), recém-lançado pela Edusp, resultado de sua tese de doutorado pela Universidade de Brasília (UnB), em que analisa justamente o impacto que o país teve sobre o intelectual francês e vice-versa.

“Para ele, foi uma mudança de perspectiva. A partir do contato com a sociedade brasileira e sua história, Braudel conseguiu imaginar a Europa do Antigo Regime”, explica o pesquisador. “Além disso, ele foi muito importante para o Brasil e para a USP, pois ajudou a formar toda a segunda geração de professores da universidade.” País adotivo e o jovem se uniram para criar O Mediterrâneo e as raízes de uma nova forma de fazer história. “Se os novos leitores não perceberem com nitidez a novidade que a obra representou em sua época, isso talvez se deva, de certo modo, ao fato de o próprio Braudel ter influenciado sucessivas gerações que aderiram à Escola dos Annales, da qual fez parte. Uma escola que renovou a historiografia, aproximando-a das ciências sociais, e fez surgir novos temas e horizontes. Tratava-se, naquele tempo, de um tipo de narrativa histórica incomum.”

Ao iniciar o doutorado, o período escolhido por Corrêa Lima foi justamente dos anos brasileiros de Braudel, decisivos para toda sua obra. Foi nessa época, por exemplo, que elaborou parte do mesmo O Mediterrâneo. A tese de Corrêa Lima investiga desde a chegada das missões francesas que contribuíram, nos anos 1930, para a fundação da USP até o período imediatamente posterior à volta para a França, em que esteve por cinco anos numa prisão nazista. “A França era considerada a líder da latinidade e a sua cultura, o caminho seguro da modernidade e do progresso verdadeiro. Oferecia simultaneamente tecnologia e humanismo, laicidade e religião. Por isso acreditava-se que a França poderia nos salvar da ‘barbárie’ de uma civilização meramente industrial. Os conflitos ideológicos naquela época eram bastante fortes, e a presença francesa correspondia ao projeto da elite paulista de educar a juventude nos ideais democráticos, longe do fascismo”, explica Corrêa Lima.

Entre as dificuldades da empreitada, houve a própria vastidão da obra de Braudel a ser lida: como exemplo, considere-se que seus dois livros principais somam cinco volumes e mais de 3 mil páginas. A segunda, conforme Corrêa Lima, foi quanto à questão específica que queria pesquisar: Braudel e o Brasil. “Será que haveria material suficiente para se escrever uma tese? Ou o assunto se esgotaria em um capítulo ou pouco mais?”, perguntava-se. Tal dúvida lhe provocou angústia por muito tempo. A terceira dificuldade foi o acesso aos arquivos de Braudel na França. “Foi uma longa espera até que as portas se abrissem”, conta. Entre as felicidades, houve a de encontrar documentos inéditos, conservados pela viúva do historiador, então com 87 anos, em seu apartamento em Paris. Como resultado, a obra de Corrêa Lima se concentra particularmente em anos que são pouco abordados nas duas maiores biografias do autor, escritas por Pierre Daix, na França, e Giuliana Gemelli, na Itália.
Discreto, pesquisador incansável, com fama de excelente professor, Fernand Braudel iniciou sua trajetória como historiador no final dos anos 1920. Nas duas décadas seguintes viveria fora da França. De início, parte para a Argélia, onde o mar lhe provoca a primeira grande inspiração. O acaso o traz ao Brasil: o suicídio de um professor titular que já havia sido nomeado para o cargo. Traz tanto material de pesquisa que, ao se instalar em São Paulo, precisa alugar um outro quarto de hotel.
Dizia Braudel que “se tornou inteligente” quando conheceu o Brasil. Para entender tal afirmação é preciso, antes, conhecer aquilo que caracteriza sua obra: trata-se, como destaca Corrêa Lima, da busca da longa duração, ou seja, das permanências e das realidades duradouras nos processos históricos, tanto nas relações do ser humano com o meio quanto nas formas de vida coletiva e nas civilizações. No Brasil ele encontrou um país novo, de dimensões continentais e natureza tropical, uma sociedade em formação contrastando com o Velho Continente, que, no entanto, o fazia imaginar o passado distante da Europa. “Foi no Brasil que ele ‘vestiu a camisa’ da renovação historiográfica preconizada pelos Annales, com um conjunto de intuições que configuraram o seu Mediterrâneo e fizeram dele um grande historiador, ao mesmo tempo original e herdeiro de Lucien Febvre”, argumenta Corrêa Lima.

Coroas – Quando aqui esteve, entre 1935 e 1937, Braudel elaborava sua tese de doutorado sobre o Mediterrâneo no tempo de Filipe II. A obra o ocupou por aproximadamente 20 anos. Como exigência da universidade francesa, era preciso também preparar uma tese secundária, na qual o material pesquisado na pesquisa principal poderia ser reutilizado. Escolheu, então, estudar o Brasil do século XVI, que chegou a fazer parte do reino de Filipe II quando da união das coroas ibéricas.

Na historiografia de Braudel, como explica Corrêa Lima, certas realidades coletivas ou inanimadas atuam de modo coerente como se fossem um sujeito: tornam-se “personagens”. Isso se dá, por exemplo, com o mar Mediterrâneo, que se transforma em personagem em sua história da Europa, e também com a imensidão do Brasil, seus fatores geográficos, imprescindíveis para compreen-der sua história. “Braudel escolheu uma perspectiva bem definida para focalizar o Brasil: uma Europa americana, ou seja, uma civilização europeia na América. E, de modo especial, a única Europa tropical e subtropical em todo o mundo com certa envergadura”, afirma o historiador brasileiro.

Tal perspectiva fez Braudel lançar outro olhar sobre o passado brasileiro e, desse modo, captar as interações do país com o oceano. Braudel, porém, cedeu em parte a um etnocentrismo inaceitável, diz Corrêa Lima. “De qualquer maneira, ele teve a humildade e a grandeza de reconhecer que a história brasileira, como toda a história, é vida e não se deixa aprisionar em uma fórmula”, acrescenta.

© Roger Viollet/AFP

Fernand Braudel em 1980: no Brasil conviveu com intelectuais, formou historiadores e até hoje fomenta pesquisas e ideias

Depois da Segunda Guerra Mundial, ao finalizar sua tese, Fernand Braudel foi autorizado a substituir a tese secundária por dois artigos já publicados sobre os espanhóis na África do Norte. E foi assim que o ensaio sobre o Brasil do século XVI permaneceu inacabado. Pouco a pouco, seus interesses de pesquisa se voltaram para o conjunto da América Latina, e mais tarde para a história mundial da vida material e do capitalismo. Desse modo, ele nunca mais retomou o ensaio. Braudel pensava que, para terminá-lo, precisaria consultar os arquivos de Portugal, que na época não estavam organizados.

Em seu período brasileiro, Braudel conviveu com intelectuais, formou historiadores e até hoje fomenta novas leituras e pesquisas. Com três grandes amigos manteve a correspondência: João Cruz Costa e Eurípedes Simões de Paula, professores da USP, e o jornalista Júlio de Mesquita Filho. Como discípulas, destacam-se Alice Canabrava, Cecília Westphalen e Maria Luíza Marcílio. Durante o regime militar, empenhou–se em libertar da prisão seus amigos e conhecidos. Braudel usou seu prestígio internacional como intelectual francês e escreveu cartas aos presidentes militares brasileiros. Assim, como conta Corrêa Lima, ele conseguiu tirar da cadeia Caio Prado Jr., Milton Santos, João Cruz Costa e Yedda Linhares. Aos alunos, futuros professores, recomendava simplicidade, que resulta de clareza.

De volta à França, Braudel foi um dos responsáveis pela divulgação da obra de Gilberto Freyre. Contribuiu com pesquisadores como a historiadora greco-baiana Katia de Queiros Mattoso, que assumiria pela primeira vez a cátedra de história do Brasil da Sorbonne, e o etnofotógrafo Pierre Verger, que dedicou ao historiador a sua tese Fluxo e refluxo e teve nele seu grande incentivador na volta à academia –Verger havia abandonado o Liceu ainda na juventude. Com seus pares franceses, Braudel formou uma geração de grandes historiadores: Jacques Le Goff, Le Roy Ladurie, Marc Ferro e Georges Dubys. Até os anos 1950, foi responsável por cursos e conferências sobre a América Latina. Quando a USP completou 50 anos, em 1984, teve o convite para vir para participar das comemorações. Como seus principais amigos brasileiros já haviam falecido, disse que seria um desgosto muito grande vir ao Brasil e não poder reencontrá-los.

Nos últimos anos, têm-se multiplicado estudos sobre intelectuais franceses que viveram no Brasil no mesmo período. Estudam-se não somente sua influência no Brasil, como também a influência do Brasil em suas obras. Autores como Lévi-Strauss, Roger Bastide e Pierre Verger têm sido objeto de pesquisa acadêmica, de reedições e, muitas vezes, de primeiras edições. “Quanto a Braudel, creio que a tendência é a de crescimento de estudos críticos sobre o autor, na medida em que os campos da história da historiografia e da teoria da história estão se consolidando no Brasil, campos esses que não eram nada fortes nos anos 1990, quando fiz minha graduação. Vale dizer: há uma retomada mais reflexiva, um pouco diferente da antiga fonte de inspiração para novos ‘métodos’ e ‘abordagens’”, explica Henrique Estrada Rodrigues, professor da Universidade Federal de Ouro Preto, autor de artigo recente sobre o diálogo entre Braudel e Lévi-Strauss.

Autor de uma tese de doutorado sobre Sérgio Buarque de Holanda, Estrada Rodrigues diz que a visão que se tem, hoje, da influência francesa no Brasil tem mudado. “Cada vez mais existem outras importantes referências intelectuais, como a alemã ou a inglesa, que relativizam um pouco a importância francesa, sem, claro, desmerecê-la. Isso se deve também a uma especialização cada vez mais acentuada dos programas de pós- -graduação, que começam a desencavar coisas muito específicas. Por exemplo: a associação entre Sérgio Buarque e a nova história francesa, muito difundida nos anos 1990, começa a conviver com estudos que apontam outras fontes de inspiração bastante diferentes ou mesmo antípodas, como a sociologia alemã, as leituras italianas do historiador ou  as referências vindas da história literária”, exemplifica.

Diversidade – Corrêa Lima diz que, ante a abrangência da obra de Braudel – o mundo mediterrânico, a cultura material, os primeiros séculos do capitalismo, a França –, há muito ainda a ser estudado. E hoje, em que se interessa por outros temas como história da Igreja e diversidade sexual, a contribuição de Braudel continua bastante valiosa. “Ele ensina a identificar permanências e mudanças na vida coletiva e nas civilizações e a buscar um ‘concubinato’ entre diversos saberes. A perspectiva histórica é muito útil para enfrentar posturas intransigentes e para enxergar o novo que se avizinha”, afirma.

Em uma resenha sobre o livro de Corrêa Lima, publicada na revista Carta Capital, o historiador Elias Thomé Saliba, professor da USP, elogiou as histórias saborosas reunidas, a pesquisa meticulosa e a felicidade em documentar como o “distanciamento” experimentado aqui no Brasil se tornou um rito de passagem para a formação de Braudel. “Distanciamento” que resultaria do contato com outra realidade, diferente da sua. Absorvido pela pesquisa, localizada em outra época, Corrêa Lima afirma que também experimentou algo parecido. Certo dia, após passar várias horas conversando com a viúva de Braudel, teve um estranhamento ao sair à rua, num dia normal de primavera, com jovens, crianças e idosos circulando pelas calçadas. “Nada havia de especial. Entretanto  tive a sensação de estar vindo de outro planeta, de um mundo que não tinha nada a ver com o que os meus olhos viam. Nunca havia tido esta sensação antes. O que me aconteceu foi estar tão absorvido em um passado distante no tempo e no espaço que o presente me causou um enorme estranhamento. Era como se eu retornasse de um arrebatamento”, recorda. “É claro que tudo isso é recriação do historiador a partir dos vestígios de que dispõe. Mas pode acreditar: a história tem uma força e um poder envolvente de nos transportar para mundos distantes, ainda que apenas através da imaginação.”

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

De tigres e mijões

Xixi no carnaval do Rio não é caso de guerra: não dá para ficar só com o lado brilhante do show

Lilia Moritz Schwarcz

Desde que o Rio é Rio de Janeiro, ou melhor desde 1763, quando desbancou Salvador e tornou-se capital – e o grande centro administrativo colonial e depois imperial -, duas faces pretensamente distintas convivem, se suportam. De um lado, a Cidade Maravilhosa, cuja natureza deixou estupefatos tantos e mais tantos estrangeiros. Aí está o paraíso edenizado, descrito por suas colinas e baías, com seus golfinhos pulando nas águas e o sol a dourar tudo e todos. Do outro lado, reside o espetáculo da população mestiçada, dada a hábitos estranhos, como diziam e reclamavam os viajantes. Os relatos mencionam a existência de "africanos por toda parte", com seus dorsos nus, danças lascivas, vozerio alto e festas barulhentas, descontroladas. Tal qual Janus, o deus grego de duas faces, o Rio de Janeiro mais lembrava uma cidade dividida: uma face representava a civilização e a corte, que pretendia se assemelhar aos Bourbons, Habsburgos e também Braganças; a outra reproduzia o mundo escravo, com costumes e práticas considerados "odiosos". E esse tipo de dicotomia tomou as descrições e a imaginação dos cientistas, naturalistas, ou meros curiosos, que foram se acumulando com o passar dos anos. Na mesma medida em que tentavam compreender essa exótica corte tropical dos portugueses, estranhavam as ambiguidades de todos os tipos que por aqui grassavam.

O viajante inglês Luccock dizia que todo cuidado era pouco quando se caminhava pelas ruas. O andarilho desavisado, que pretendia apenas tomar "uma fresca", podia facilmente levar um balde de excrementos na cabeça. Abriam-se janelas e gelosias e, do alto do segundo pavimento das casas, um líquido escuro era arremessado, sendo antecipado apenas por um breve aviso: "Lá vai carga!" Dispositivos foram criados com o objetivo de impedir tal prática, assim como se tentou disciplinar o cheiro pestilento das ruas, recorrendo-se aos tigres. Tigres, ou tigrados, eram escravos cuja atividade resumia-se a recolher detritos que se acumulavam nas ruas e nas calçadas. O apelido era, por sua vez, resultado da naturalização da vexatória profissão: de tanto lidarem com as fezes ficavam como que camuflados; tigrados. Nada de esgotos, banheiros públicos ou privados; a prática implicava, simplesmente, deixar as amostras ao ar livre.

Não é de hoje, portanto, o problema que assola nossos governantes cariocas. Já em finais do século 18 e inícios do 19 as ruas do Rio eram caracterizadas como fétidas e insalubres, assim como suas vias, consideradas intransitáveis. O conde de Joinville, do alto de sua nobreza, rogava todas as pragas contra os cachorros, que "legavam suas necessidades para a posteridade, sujando cantos e espaços privilegiados". Limpeza, ou melhor, a falta dela, transformava-se em tema constante quando se tratava de descrever a Cidade Maravilhosa.

Na época da chegada de d. João, a grande preocupação era, novamente, limpeza. A família real estava para aportar, em 1808, e seria preciso "dar boa impressão", eufemismo necessário para evitar a referência desagradável ao estado pútrido da cidade. O Senado publicou, na ocasião, decreto que pedia não só para que se ornassem casas e janelas, mas que as ruas por onde o cortejo real passasse tivessem "a conveniente limpeza e inspeção": "Ordena o mesmo senhor que se mande fazer os reparos que forem precisos na calçada dela, e dê às providências para que se ache limpa, areada e livre de todo o pejamento".

Outro tema presente na pauta local, porém mencionado de maneira discreta (para cometermos mais um eufemismo), era o conhecido "espetáculo das raças" que desfilavam pelas ruas do Rio. Em Reisen in Brasilien, um viajante alemão mencionava como lhe parecia difícil lidar com "a atividade intensa e febril, que aturdia o visitante, desacostumado a ver gente de todas as raças, múltiplas cores e costumes variadíssimos". Mais uma vez, Luccok sentenciava: "A cidade do Rio é a mais suja associação humana vivendo sob a curva dos céus".

Claro que não é de bom-tom confiar cegamente nas avaliações, muitas vezes preconceituosas, dos viajantes. Mas o importante é que as ruas do Rio sempre representaram espetáculo à parte: barulhentas, cheias de gente e de detritos, com suas calçadas de terra e cobertas por imundícies de toda sorte. Na bela visão de Oliveira Lima, por elas circulavam tipos dos mais estranhos: "Andadores de almas e pedintes de irmandades com suas opas verdes, escarlates e azuis, estendendo aos transeuntes e abrindo debaixo das janelas os largos sacos vermelhos; ou os cumpridores de promessas devotas, tirando por humildade cristã e não por necessidade esmolas para um missa em ação de graças". Mas circulava, ainda, muito "detrito acumulado", resultado do depósito de centenas de anos sem o devido serviço de coleta.

O fato é que os problemas se acumulavam, e a olhos vistos. Dizia o protestante Bosche que o badalar incessante dos sinos das igrejas e mosteiros, o frequente estampido dos foguetes, eram o suficiente para perturbar "o pensamento de qualquer homem razoável e para levar o recém-chegado ao desespero". A poluição era, assim, não só olfativa ou visual, como também sonora.

E, se no cotidiano pacato, a situação escapava ao controle, o que dizer dos dias de festa? O viajante Kidder definiu de maneira límpida o alcance dos rituais no Brasil: "Feriados, no entender de muitos naturais do país, são aqueles dias aos quais todos os outros estão subordinados". Datas de exceção eram, pois, aquelas em que não se celebrava nenhum feriado. O habitual era o transeunte se deparar com alguma festa animada, quando as ruas ficavam ainda mais sonoras e sujas. Por sinal, as procissões sempre estiveram na ordem do dia. No Rio de Janeiro colonial eram sete: a de São Sebastião, a 28 de janeiro; a de Santo Antônio, na Quarta-Feira de Cinzas; a do Triunfo, na sexta-feira que antecede o Domingo de Ramos; a do Senhor dos Passos, na segunda-feira da quaresma; a do Enterro, na Sexta-Feira Santa; a do Corpo de Deus; e a da Visitação, a 2 de julho. Nessas ocasiões, até mesmo a corte e seus figurões, portando orgulhosamente seus uniformes bordados, saíam em desfile, com o infalível cortejo de soldados de barretina pendurada no antebraço, estandartes religiosos, cantores da Real Capela e demais pessoas gradas. Os préstitos seguiam por entre cânticos e mais foguetes, enquanto a multidão compactada aplaudia a procissão e o comércio lucrava alto com a venda de doces e bolos. Já os "restos humanos", dizia o padre Perereca, grande "microfone ambulante" à época da família real, permaneciam como marcas indeléveis dos eventos.

Afinal, ninguém é de ferro: não havia dia sem festa e não havia festa que não valesse um bom dia. Mas não eram só as procissões que brotavam nas ruas. Foguetórios, leilões, batuques, fandangos, cavalhadas, a queima do Judas no Sábado Santo, a festa do Imperador do Espírito Santo, os aniversários da realeza, as demais datas religiosas… Qualquer motivo era bom para tirar a cidade da, aparente, calma semanal. Enfim, dia sim e dia não, as festas contornavam o cotidiano e mostravam um outro lado da cidade. Outro lado e o mesmo. Se uma superfície do espelho refletia a civilizada corte, a outra representava o dia a dia, tomado por "gentes estranhas", muito barulho e mais sujeira.

Visto sob esse ângulo, o panorama mais se assemelhava a uma batalha entre barbárie e civilização, sujeira versos pureza, barulho oposto a calma, negros contra brancos. Mas mais do que duas versões, dispostas de maneira cartesiana, temos aqui dois termos da mesma equação. Não havia corte sem escravos a trabalhar, luxo sem imundície e detritos. Tudo tão distante, mas tão (irritantemente) semelhante. O outro lado do espelho sempre foi, afinal, parte do mesmo espelho.

Não parece, pois, coincidência, sinal dos céus ou fatalidade da natureza o que temos lido nesses últimos dias do reino de Momo. Nessa semana, o ambiente foi tomado por pronunciamentos que evocam velhos discursos eugenistas do século 19, com seu tom de missão civilizacional e interventora. Eduardo Paes, por exemplo, fez uma verdadeira campanha contra os "mijões" e seus atos obscenos, assim como coibiu os "atos de barbárie" com muita cadeia, repressão e cobertura jornalística. Nada contra as regras ou os projetos de higiene. Ao contrário, tais práticas erradicaram muitas epidemias, que matavam mais que nosso fraco coração. Estranho, porém, é o tom de guerra que contaminou nossos governantes, como se estivessem diante de um exército armado de invasores mijões.

Não há, porém, como jogar a culpa na exceção, ou lançar a conta exclusivamente no bolso dos "bárbaros invasores". Invasores somos nós mesmos e, mais uma vez, a dialética mostra como não há como ficar exclusivamente com a face brilhante do espetáculo. Aspectos menos nobres, e por isso com frequência ocultos, quando não silenciados, insistem (secularmente) em se apresentar. Os bastidores – a sujeira, o barulho, o descontrole – fazem parte integral do mesmo show, que chamamos carnaval. Engraçado como só de vez em quando é que acionamos a frase da rainha da França que, inclusive morreu por conta dela: "De perto ninguém é mesmo normal". Sempre que possível, e quando bem convém, usamos esse "complexo de Maria Antonieta", de efeito calmante, uma vez que cria novas e seguras fronteiras simbólicas: lá estão eles; aqui permanecemos nós.

Frágil castelo de cartas, pronto para ser destruído. Como canta Caetano Veloso: Narciso acha (e continua a achar) feio o que não é espelho!

*Professora titular do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e As Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (Companhia das Letras, 2008)

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

‘Os brasileiros saem para buscar a mobilidade social inatingível no país’

Boliviana se prepara para apresentação de grupo folclórico em 
evento na capital paulista: censos mascaram número real de imigrantes 
(Foto: Antonio Scarpinetti) JU – De uma certa maneira, repete o que ocorreu no final do século XIX e começo do XX.
Rosana Baeninger – Exatamente. Isso é interessante, já que não podemos atribuir o fenômeno apenas à globalização. Não se trata de uma questão isolada. A cidade de São Paulo tem um histórico que condiciona essas migrações. Fizemos uma pesquisa em Corumbá justamente para checar se a migração para a metrópole de São Paulo substituía uma migração de fronteira.

JU – E qual foi a conclusão?
Rosana Baeninger – Isto não ocorre. Constatamos que a migração de fronteira continua tendo a mesma força de antes. São contingentes populacionais totalmente diferenciados: alguns saem da Bolívia para Corumbá e outros rumam para São Paulo. Em Corumbá, por exemplo, eles são feirantes e a migração feminina é muito forte – na Bolívia, era a profissão delas. Já em São Paulo a ocupação é eminentemente masculina – no caso, as confecções. Trata-se de um componente curioso, uma vez que, na nossa cultura, o ramo é associado às mulheres.

O Brasil vai se inserir nessas rotas da migração internacional pela dimensão de São Paulo no contexto internacional. Por se tornar uma metrópole financeira, ela participa intensamente dessa reestruturação produtiva e a migração internacional é um dos elementos que vai cada vez mais consolidar essa região metropolitana como um polo econômico dinâmico e de referência.

JU ­ Estudiosos apontam que cada vez mais a industrialização perde força em São Paulo, na mesma medida em que o setor de serviços se torna mais forte. O fato de voltar a ser rota de migração internacional não joga por terra essa tese?
Rosana Baeninger – O que pode ter havido é uma desconcentração dessa indústria em termos espaciais. O professor Wilson Cano, do Instituto de Economia, sempre diz que a parte financeira do país é gerenciada por São Paulo.

JU – O fenômeno independe, então, do tipo de atividade.
Rosana Baeninger – Exatamente. E esse fenômeno da imigração internacional está relacionado justamente aos grandes centros financeiros mundiais e, por isso, se expressa na região metropolitana da capital. O interior de São Paulo, por exemplo, não registra esse movimento internacional de estrangeiros. No caso do interior, de um lado, constatamos mais a chegada significativa de coreanos e chineses, que se estabelecem no comércio. É bom lembrar que nos dois casos, já na década de 1940, eles vinham para se estabelecer em colônias agrícolas. De outro lado, os casos são bastante circunscritos a algumas especificidades, em particular pela localização de indústrias transnacionais.

Os coreanos e chineses, por exemplo, têm uma participação importante no mercado de jóias em Limeira. É, mais do que tudo, a questão do capital internacional que vem entrando no estado mais rico da Federação.

JU – Quando se deu a vinda desse novo contingente para o interior?
Rosana Baeninger – Essa nova onda de coreanos e chineses para o interior de São Paulo começou praticamente agora, no final desta década em curso. Trata-se de um fenômeno muito recente, do século XXI. Na capital, ela vem acompanhando par e passo o próprio desenvolvimento da metrópole, como centro da riqueza do país.

JU – Em estudo recente do Nepo, o Rio de Janeiro aparece como centro receptor de africanos. Qual a explicação para esse fenômeno?
Rosana Baeninger – De um lado, temos uma migração cujo vínculo com a dinâmica econômica do cenário internacional é muito forte. De outro, nesse cenário internacional, há a questão dos refugiados e, nela, a formação histórica do Rio de Janeiro tem um peso muito forte, sobretudo no caso dos africanos.

São Paulo também registra o fenômeno, mas comporta também uma migração latino-americana. Como exemplo, podemos citar colombianos e cubanos refugiados. Nesse novo cenário das rotas das migrações, não entra apenas aquela estritamente vinculada aos processos de reestruturação produtiva.

JU – Outros fatores também pesam.
Rosana Baeninger – Nas relações internacionais, a migração dos refugiados entra como uma dessas modalidades migratórias. Como o Brasil é o país da América Latina que tem a mais avançada legislação sobre refugiados, São Paulo e o Rio de Janeiro são os dois polos desse tipo de migração. No caso do Rio, a migração é mais de africanos – sobretudo, solteiros e individuais – enquanto, em São Paulo, é mais familiar no que diz respeito a contingentes de refugiados.
JU – E os outros países da América Latina?
Rosana Baeninger – A Argentina é também um polo de migração de bolivianos – e de paraguaios, em menor escala –, mas também se trata de um processo histórico, até porque a questão da fronteira lá e mais forte do que no Brasil. Buenos Aires tem uma migração muito forte de bolivianos na região metropolitana.

Na verdade, o que São Paulo demonstra é o fato de integrar essa rede internacional das metrópoles. Uma das características dessas cidades é justamente a entrada desses novos imigrantes internacionais que, antes, não faziam parte dos fluxos históricos. Particularmente, uma migração de asiáticos e de latino-americanos, muitos dos quais vêm trabalhar para coreanos e chineses.

A novidade, portanto, é que não se trata mais de uma migração Brasil-Paraguai, por exemplo, num contexto de país em desenvolvimento que estava apenas transferindo seu estoque de população para outra nação. Como disse anteriormente, essa onda ocorre muito mais pelo fato de o Brasil se inserir numa rota de capital e de mão-de-obra internacional. E o curioso é que ele entra tanto na imigração como na emigração.

JU – De que forma?
Rosana Baeninger – Nossa emigração não é apenas para os Estados Unidos e Japão, como vai atingir quase todos os países da Europa, respondendo a essa dinâmica de mobilidade do capital.

Rosana Baeninger (Foto: Antoninho Perri)JU – Ou seja, a reestruturação também empurrou muita gente para fora. Em que medida essa fuga de cérebros é prejudicial?
Rosana Baeninger – Esse é o nosso problema. A maior parte desse contingente que sai tem no mínimo o segundo grau completo e muitos concluíram o curso superior.

JU – A que pode ser atribuído esse fenômeno?
Rosana Baeninger – Para além do circuito internacional do capital, parte das nossas interpretações, mais do que imaginar que é a crise econômica que faz essas emigrações, é movida por uma questão que respondia antes as migrações internas.

JU – Por quê?
Rosana Baeninger – Antes, nossas migrações eram elementos de mobilidade social. Hoje, elas não são mais. Temos trabalhado com o aporte teórico de que parte dos brasileiros que saem é para buscar, pelo menos em seu imaginário, a mobilidade social inatingível no Brasil. Antes, o diploma de terceiro grau era garantia de emprego; hoje, não é mais passaporte para o mercado de trabalho. Assim, eles retornam depois de adquirido algum bem que não poderia ser conquistado no Brasil. Isso talvez não seria possível com a migração interna.

JU – Eles partem então com a expectativa de retorno?
Rosana Baeninger – Isto está mudando também. Essa expectativa era muito mais forte na década de 1990. O que ocorre agora é que, como já não é mais a primeira ou segunda onda migratória – já temos mais de uma década desse fluxo –, foram formadas redes sociais nos destinos. Mesmo que ele não tenha emprego, muda a expectativa temporal. Eles esperam mais um pouco antes de ir embora.
Com toda essa crise, temos cerca de 250 mil brasileiros no Japão. Desse total, retornaram quatro mil – sendo que, no mesmo período, partiram seis mil. As redes migratórias, na origem e no destino, continuam a alimentar o fluxo. Com isso, diminui muito a perspectiva do retorno.

Na perspectiva teórica mais conservadora das interpretações do fenômeno, a emigração é excelente, pois sua resposta positiva é o envio de remessas e esse movimento diminui a pobreza, gera divisa e investimento no país. Contudo, estamos perdendo recursos humanos qualificados do país. Ocorre que, com essa mudança na expectativa temporal, eles acabam ficando mais tempo do que imaginavam em razão dessas redes. Um exemplo é o Japão. Não havia antes redes sociais – todo mundo ia contratado; acabado o tempo previsto, o trabalhador voltava. Isso mudou muito, assim como a política migratória – o visto no Japão hoje vale por dez anos. Mesmo desempregado, o brasileiro pode continuar lá.

JU – O que muda nessa relação?
Rosana Baeninger – O brasileiro pode inclusive trabalhar para um conterrâneo… Ademais, ocorre que, à medida que aumenta a expectativa temporal, o investimento do migrante é no lugar de destino e não mais de origem. Diminui também a remessa. Isso acontece, por exemplo, também na Colômbia. O país criou vários programas destinados às segunda, terceira e quarta gerações – como política implícita –, com o objetivo de fomentar o envio de remessas. Eles têm direito ao voto e à aposentadoria, sendo que muitos sequer pisaram na Colômbia.

O discurso da emigração, numa perspectiva conservadora – e particularmente das agências internacionais – dá conta que a emigração não é uma coisa ruim, nem para o país de origem nem para o destino. Por essa lógica, o destino está ganhando uma mão-de-obra qualificada e a origem está ganhando divisas. Mas é óbvio que se trata de uma equação desequilibrada, em particular pelo fato de esses migrantes internacionais não terem seus direitos humanos reconhecidos no país de destino.

JU – Em que medida?
Rosana Baeninger – Porque nós perdemos recursos humanos – e o país investiu muito neles. E, se formos contabilizar custo-benefício, à medida que esse migrante não retorna mais, estamos perdendo nosso capital humano. Não há, portanto, uma resposta migratória no que diz respeito a uma teoria de ajuste econômico para a migração.

JU – E trata-se, invariavelmente, de um tipo de ocupação que não é exatamente muito nobre…
Rosana Baeninger – Exatamente. Toda teoria vai dizer que os migrantes estarão no mercado secundário de trabalho. Parte deles, por exemplo, é clandestina, sem documentação. E, mesmo que eles se tornem legalizados, não sobem de patamar no mercado de trabalho.

JU – E, mesmo assim, eles preferem ficar no destino?
Rosana Baeninger – Aqueles que conseguem permanecer, sim. Há uma questão migratória fundamental, que é de fundo demográfico. Os países europeus, por exemplo, têm baixa natalidade e isso faz com que várias populações estejam abaixo do nível de reposição. Eles só crescem quando têm imigração. O que eles fazem? Abrem a “torneirinha” quando precisam, para, depois, fechá-la.

JU – Quantos brasileiros vivem hoje no exterior?
Rosana Baeninger – O consulado brasileiro estima em 4,5 milhões. Quando começamos a estudar essa temática, em 1995, esse contingente era composto de um milhão de pessoas. Calculamos que existam de 4,5 milhões a 5 milhões de brasileiros lá fora.

Açougue anuncia cortes brasileiros na cidade japonesa de Oizumi, 
em foto que está no livro Para onde vão os brasileiros?, de Lili 
Kawamura: redes migratórias, na origem e no destino, alimentam o fluxo 
(Foto: Arquivo)JU – Quais são as perspectivas quanto a esse movimento?
Rosana Baeninger – Esse fenômeno não vai terminar. Existe uma mobilidade do capital cada vez maior, além da ampliação das redes sociais na origem e no destino. É necessário que sejam implantadas políticas para que a gente não perca essa mão-de-obra jovem.
Na verdade, cada fluxo, mesmo saindo da mesma origem, possui redes sociais e etapas completamente diferenciadas. Por exemplo: nós temos estudos que revelam que vários nordestinos cortam cana na época da safra em São Paulo e, em seguida, partem para a Europa. Temos inclusive visto bolivianos trabalhando na cana em Presidente Prudente.

JU – Quantos imigrantes temos hoje no Brasil?
Rosana Baeninger – Pelo censo, aproximadamente um milhão. Desse total, ainda temos sobreviventes da Segunda Guerra. Porém, é sempre difícil estimar porque parte dos imigrantes não responde ao censo por estarem indocumentados no país. As pastorais, por exemplo, indicam volumes às vezes mais altos. A cidade de São Paulo comportaria, no mínimo, 500 mil imigrantes que não figuram no censo. A Pastoral do Imigrante coloca 200 mil bolivianos na capital, enquanto o censo vai captar 18 mil…

JU – Um dos estudos do Nepo aponta uma disparidade considerável entre diferentes grupos de imigrantes no que diz respeito aos indicadores socioeconômicos e de escolaridade. Por que isso ocorre?
Rosana Baeninger – Pois é. Esse é o desafio do que a gente chama de governabilidade das migrações. Por quê? Os brasileiros que estão indo para as áreas de fronteira, por exemplo, são agrícolas. E há uma trajetória histórica embutida no fenômeno. Entretanto, como a nossa rota no Cone Sul é nova, ela tende a atrair o trabalhador do conhecimento.

JU – E qual é o seu perfil?
Rosana Baeninger – O gerente de empresa, por exemplo. O Brasil, a propósito, capta muito mais argentinos como gerentes de empresas. E os chilenos, por sua vez, são tanto gerentes como acadêmicos. Os fluxos, portanto, são desiguais. Isso corrobora a tese de que, na imigração, estamos vinculados à questão da metrópole e do capital internacional.
Na emigração, porém, nós temos questões relacionadas a fenômenos típicos de países em desenvolvimento, que têm a ver com a problemática agrária. Esses brasileiros vão trabalhar no rural da Argentina, do Paraguai e do Uruguai, dentre outros países. Além da questão das fronteiras, outro componente fortíssimo são as políticas agrárias que não conseguimos resolver no âmbito interno, sobretudo nos Estados do sul do país.

JU – O Brasil exporta profissionais que ocupam cargos de chefia?
Rosana Baeninger – Na verdade, constatamos o que é chamado de circulação de cérebros. Mas trata-se de um fenômeno temporário. Os trabalhadores são convocados por empresas e permanecem no destino cerca de dois anos. Por eles fazerem parte agora do capital internacional, mudam por um tempo e voltam. Eles integram a rota da circulação dessa mão-de-obra qualificada, e não de perda de mão-de-obra. É o que os teóricos chamam de migração de carreira.

A mobilidade do capital gera uma nata, ao mesmo tempo em que ela precisa de uma força de trabalho que vai gerir os excedentes populacionais para baratear a mão-de-obra nesses países. No âmbito da América Latina, o Brasil vai receber da Argentina e do Chile muito mais esses migrantes qualificados. Já da Bolívia, ele pode ter uma migração de baixa qualificação mas ela é vinculada absolutamente a uma indústria da flexibilização da produção e também voltada para a mobilidade do capital contemporâneo. E na emigração para os países do Mercosul, como disse, são as questões rurais, ainda não resolvidas.

JU – Sob uma perspectiva histórica, a produção agrícola do final do século XIX e XX atraiu imigrantes. Existe, em última instância, uma repetição desse modelo?
Rosana Baeninger – Não. Se não tivesse havido esses processos históricos, São Paulo não seria o que é hoje e não acomodaria essas ondas imigratórias. Sempre trabalhamos com os processos sociais anteriores; são eles que hoje condicionam as migrações.

JU – Dá para afirmar que se trata de um novo ciclo?
Rosana Baeninger – Sem dúvida. Vejo inclusive reflexo disso nas possibilidades que se abrem, por exemplo, na academia, sobretudo em cursos de pós-graduação em âmbito regional, além dos intercâmbios de alunos. O que diferencia o início das rotas de migrações, no final da década de 1990, para a de agora, é essa questão de quem entra é diferente de quem sai. Não são fluxos da mesma composição demográfica. E as políticas sociais têm que ser pensadas, primeiramente, a partir disso.

A despeito dos problemas inerentes à questão, o governo brasileiro tem avançado muito, dando apoio institucional, sobretudo de consulados, aos brasileiros que estão lá fora. Mesmo porque o Brasil é o segundo colocado em volume de remessas, ficando atrás apenas do México.

JU – Quanto, em valores, é enviado?
Rosana Baeninger – Os brasileiros enviam cerca de 6 bilhões de dólares/ano. Como a emigração do México é maior, o impacto na economia é mais significativo, mesmo porque eles enviam 16 bilhões de dólares. Porém, é preciso tomar cuidado para não ver a remessa como algo apenas positivo.

JU – O Brasil vem assumindo importante em esfera global. No âmbito regional, esse impacto é ainda maior. Qual o peso desse protagonismo no sentido de atrair estrangeiros?
Rosana Baeninger – O cenário nacional é condicionante para que a cidade de São Paulo se insira cada vez mais internacionalmente. Cidades como Tóquio, Londres, Nova Iorque, com os maiores impactos do capital financeiro, se tornam metrópoles de intenso vaivém de pessoas – entra e sai muita gente. Isso já vem acontecendo em São Paulo nas migrações internas.

Antes, na década de 1970, os nordestinos vinham e praticamente não saíam – entraram, por exemplo, 3,5 milhões e apenas 200 mil saíram; na década de 1990, entraram 2, 5 milhões e saíram 900 mil; agora, na primeira década do século, já entraram 800 mil e saíram 1 milhão.

O que ocorre? Como o fluxo da metrópole é voltado para o meio financeiro, há uma rotatividade de mão-de-obra cada vez maior. E a mesma coisa acontece com a migração interna e tende a acontecer com a migração internacional. Fatias cada vez maiores de imigrantes poderão chegar em São Paulo, mas com refluxos significativos.

JU – Isto então já vem ocorrendo?
Rosana Baeninger – Sim, já acontece com os bolivianos, por exemplo. Na rede migratória, nem todos ficam. Eles vêm para uma das etapas de constituição de fabricação e voltam. São Paulo desponta como metrópole nesse novo cenário internacional.

JU – Isso quer dizer que a cidade já tinha essa vocação, mas na esteira da reestruturação produtiva, achou um novo lugar.
Rosana Baeninger – Sim, com novas configurações no âmbito dessa nova ordem mundial, com muita força na imigração internacional, que é um elemento fundamental nessa perspectiva. Isso é absolutamente novo, até mesmo no contexto regional. Campinas, por exemplo, conhecida por ser polo tecnológico, atrai contingentes de estrangeiros regularizados – franceses, coreanos, americanos, chineses. Isso tem mudado de certa maneira o perfil urbano de alguns espaços da cidade.

Portanto, na mão-de-obra qualificada, essa nova configuração não está presente apenas em São Paulo. Ela pode estar em qualquer cidade do Brasil, em razão da distribuição das atividades econômicas no âmbito internacional. Isso traz uma circulação de trabalhadores do conhecimento. Em Campinas, por exemplo, você não tem apenas o coreano estabelecido no comércio mas também aquele que atua na indústria de tecnologia.

JU- E como os estudos acerca dessas migrações irão prosseguir no Nepo?
Rosana Baeninger – Para podermos continuar o estudo de situações tão diversificadas e importantes para São Paulo, tivemos um projeto temático da Fapesp, aprovado recentemente, intitulado “Observatório das Migrações em São Paulo – fases e faces do fenômeno migratório”, que busca acompanhar as especificidades das migrações no Estado de São Paulo desde a virada do século XIX para o XX, ao longo do século XX e chegando nos dias atuais.

Rosana Baeninger (Foto: Antoninho Perri)Rosana Baeninger possui, pela Unicamp, graduação em Ciências Sociais, mestrado em Sociologia e doutorado em Ciências Sociais. É professora assistente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. É assessora da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e pesquisadora desde 1984 do Núcleo de Estudos de População (Nepo), que foi coordenado por ela de agosto de 2006 a junho de 2009. É coordenadora adjunta da Capes na área de Planejamento Urbano/Demografia (2008-2010) e membro representante da Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo no Conselho Estadual da Condição Feminina desde outubro de 2007. Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas de 2000 a 2006. Foi secretária geral da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP) – gestão 2005-2006. É bolsista de produtividade do CNPq, na área temática “Migração (interna e internacional), Urbanização e Redistribuição da População”.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/