Daily Archives: 18/03/2010

Profissão: docente

Reitor da Universidade de Lisboa defende um novo olhar para o ofício de professor, assentado em quatro eixos: formação, cultura profissional, avaliação e intervenção pública

Paulo de Camargo

No difícil e urgente tema da formação de professores, poucos autores são tão citados como o português António Nóvoa. Reitor da Universidade de Lisboa, Nóvoa ressente-se de ter reduzido o tempo para escrever e pesquisar. Mesmo assim, vem propondo novas perspectivas para a compreensão do problema, que tem dimensões planetárias.

Agora, por exemplo, dedica-se ao que chama de "construir lógicas de comparação" entre os sistemas educativos em diferentes países do mundo, inclusive aqueles que não adotaram as métricas de avaliação mais difundidas, como o Pisa
(sigla em inglês que designa o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).

Ao mesmo tempo, Nóvoa vem produzindo artigos e ensaios que originaram o livro Os professores – Imagens do futuro e do presente, recém-lançado em Portugal, e que espera publicar em breve também no Brasil. E já sonha com o próximo. "Nos tempos que correm, de tanto ruído e agitação, gostaria muito de escrever um livro sobre a pedagogia do silêncio", conta na entrevista concedida, via e-mail, ao repórter Paulo de Camargo.

No Brasil, vivemos um momento de grande discussão sobre a formação do professor, o que inclui a formação inicial, nas universidades, até a valorização dos profissionais mais experientes. Hoje, esta é uma questão mundial?
É uma questão de âmbito mundial. Num texto recente, apresentei cinco teses sobre a formação de professores, que respondem à sua pergunta. É impossível desenvolvê-las, mas posso enunciá-las. A formação de professores deve:
a) assumir uma forte componente prática, centrada na aprendizagem dos alunos e no estudo de casos concretos;
b) passar para "dentro" da profissão, isto é, basear-se na aquisição de uma cultura profissional, concedendo aos professores mais experientes um papel central na formação dos mais jovens;
c) dedicar uma atenção especial às dimensões pessoais, trabalhando a capacidade de relação e de comunicação que define o tato pedagógico;
d) valorizar o trabalho em equipe e o exercício coletivo da profissão;
e) estar marcada por um princípio de responsabilidade social, favorecendo a comunicação pública e a participação dos professores no espaço público da educação.

Onde está o coração do problema da formação dos professores? É a reestruturação dos cursos de pedagogia? Ou são as políticas de apoio ao professor nos primeiros anos de atuação, ou ainda as estratégias de formação em serviço?
Todos esses aspectos devem ser considerados. Chegou o tempo de fazermos uma verdadeira revolução na formação de professores. O que existe é frágil. A interligação entre as questões do ensino, da investigação e das práticas escolares e a participação efetiva dos profissionais na formação dos futuros professores são fundamentais para que se crie um novo modelo de formação de professores. Não nascemos professores. Tornamo-nos professores por meio de um processo de formação e de aprendizagem na profissão. É neste sentido que falo de passar a formação de professores para "dentro" da profissão. Quem forma os médicos são outros médicos. O mesmo devia acontecer na profissão docente.

Pelo que conhece do Brasil, quais são as principais distorções no sistema atual de formação de professores?
Ouço muitas críticas. Pelo meu lado, tenho procurado chamar a atenção para dois momentos fundamentais que têm sido ignorados ao longo das últimas décadas, não só no Brasil, mas em muitos países, o que revela bem a confusão que hoje existe nas políticas e nos programas de formação de professores. O primeiro momento corresponde à entrada num curso que habilita para a docência. O atual processo, burocrático e administrativo, não faz qualquer sentido. É urgente introduzir um recrutamento mais individualizado, que permita perceber as inclinações e as disposições de cada um para se tornar professor. E é preciso criar as condições para que os melhores alunos do ensino médio escolham a profissão docente. Ser professor não pode ser uma segunda escolha. O outro momento é a transição de aluno (como se dizia no passado, de aluno-mestre, isto é, de aluno que aprende para ser mestre) para professor principiante.
Os primeiros anos de exercício docente são absolutamente fundamentais. E ninguém cuida destes anos, nos quais se define grande parte do percurso profissional de cada um. É urgente criar formas de acolhimento, de enquadramento e de supervisão dos professores durante os primeiros anos da sua atividade profissional.

Uma política de piso salarial, como a que está sendo implementada no Brasil, por si só é garantia de aprimoramento no sistema? Ou é uma condição necessária, mas não suficiente?
É uma condição necessária, mas não suficiente. A sociedade pede aos professores que resolvam todos os problemas das crianças e dos jovens, e acredita que é na escola que se define um futuro melhor. A sociedade pede quase tudo aos professores e dá-lhes quase nada. É um contrassenso, para não dizer uma hipocrisia. A profissão de professor necessita de ser revalorizada do ponto de vista salarial, mas também no que diz respeito ao seu estatuto social e profissional.

No Brasil, frequentemente é apontado o corporativismo da classe profissional dos professores, que recusa, por exemplo, políticas de remuneração por mérito ou desempenho, bem como práticas de avaliação de sua atuação profissional. Como o senhor vê esses temas?
Tenho chamado a atenção para uma nova profissionalidade docente, que passa por quatro aspectos: formação, cultura profissional, avaliação e intervenção pública. Em todos eles, advogo um maior poder dos professores sobre a sua própria profissão, invertendo tendências das últimas décadas. Já falei da formação. Falarei agora da avaliação. É uma dimensão central de qualquer profissão. A crise da educação só será superada através de uma exigente prestação de contas. A confiança e a credibilidade são essenciais para o trabalho dos professores. E conquistam-se em grande parte por meio da avaliação e da comunicação pública com a sociedade. Mas os dispositivos de avaliação devem servir para reforçar a autonomia dos professores e não para um maior controle do Estado ou para impor critérios economicistas na regulação da profissão.

Certa vez,  o senhor apontou a contradição das políticas de iniciação profissional dos professores brasileiros, ou seja, os mais inexperientes acabam nas periferias, nas escolas ditas ‘difíceis’. Como, a seu ver, deveriam ser os primeiros anos de trabalho do professor?
Os jovens professores deveriam ser protegidos nos primeiros anos de exercício. Como os médicos. Ninguém começa sozinho a fazer operações complexas para, à medida que se torna um médico mais experiente e competente, se dedicar apenas a curar constipações. Devia ser assim também com os professores. As situações escolares mais difíceis deviam estar a cargo dos melhores professores. Infelizmente, é para estas situações que os jovens professores são muitas vezes lançados sem qualquer apoio. É um erro de graves consequências.

O senhor acredita nos modelos de tutoria (ou coaching) dos professores mais novos por profissionais da educação mais experientes?
Sim. É muito importante a socialização profissional que é feita pelos mais experientes junto dos mais jovens. A transição de uma cultura de isolamento para uma cultura colaborativa é um aspecto decisivo para os professores. Trabalho em equipe. Colaboração. Partilha. Sem isso, é impossível enfrentar os problemas educativos atuais. Nem todos os professores são iguais. É preciso que haja referências dentro da profissão – aqueles professores que reconhecemos como profissionais de grande competência e dedicação e que devem ter um papel no enquadramento dos mais jovens.

Há uma corrida no mundo pelos indicadores de qualidade – basicamente, o desempenho dos jovens no campo da leitura e dos números, em projetos de avaliação como o Pisa. O foco exclusivo nesses índices não acaba por induzir a uma visão limitada do que seja o papel da educação?
Hoje em dia, esse tipo de estudos de avaliação cumpre uma função essencial nas políticas educativas no plano internacional. São indicadores que traduzem uma visão empobrecida da educação, mas que não podem ser ignorados. É preciso fazer a sua leitura crítica, a sua interpretação e construir modelos alternativos de comparação. Uma parte do meu trabalho nos últimos anos tem sido, justamente, a tentativa de construir lógicas de comparação entre países que não estejam prisioneiros dessas "hierarquias" e que nos permitam um olhar crítico sobre os sistemas educativos.

Com o advento das novas tecnologias e com a crise dos modelos educacionais, muitos pesquisadores começaram a prever o surgimento de uma nova escola. O senhor está entre aqueles que acreditam em mudanças profundas no modelo tradicional da escola? Ou estamos a aprimorar uma concepção bancária de educação, como diria Paulo Freire?
De fato, não tem havido a produção de um novo modelo de escola. As tecnologias são muito importantes e têm contribuído para algumas mudanças no ensino e na aprendizagem. Mas elas, por si só, não alterarão o nosso modelo de escola. Se perdermos o sentido humano da educação, perdemos tudo. Só um ser humano consegue educar outro ser humano. Por isso tenho insistido na importância das dimensões pessoais no exercício da profissão docente. Precisamos de professores interessantes e interessados. Precisamos de inspiradores, e não de repetidores. Pessoas que tenham vida, coisas para dizer, exemplos para dar. Educar é contar uma história, e inscrever cada criança, cada jovem, nessa história. É fazer uma viagem pela cultura, pelo conhecimento, pela criação. Uma viagem, para recorrer a Proust, na qual mais importante do que encontrar novas terras é alcançar novos olhares. É nesse sentido que apreendo, hoje, o contributo tão significativo de Paulo Freire para pensar a educação numa perspectiva crítica e progressista.

Para finalizarmos, o senhor poderia sintetizar qual deve ser a função do professor na educação contemporânea? A que requisitos deve atender, como deve ser sua formação?
Sabemos todos que é impossível definir o "bom professor", a não ser através dessas listas intermináveis de "competências", cuja simples enumeração se torna insuportável. Mas é possível, talvez, esboçar alguns apontamentos simples, sobre o trabalho docente nas sociedades contemporâneas.

O conhecimento. Aligeiro as palavras do filósofo francês Alain: Dizem-me que, para instruir, é necessário conhecer aqueles que se instruem. Talvez. Mas bem mais importante é, sem dúvida, conhecer bem aquilo que se ensina. Alain tinha razão. O trabalho do professor consiste na construção de práticas docentes que conduzam os alunos à aprendizagem.

A cultura profissional. Ser professor é compreender os sentidos da instituição escolar, integrar-se numa profissão, aprender com os colegas mais experientes. É na escola e no diálogo com os outros professores que se aprende a profissão.

O tato pedagógico. Quantos livros se gastaram para tentar apreender esse conceito tão difícil de definir? Nele cabe essa capacidade de relação e de comunicação sem a qual não se cumpre o ato de educar. E também essa serenidade de quem é capaz de se dar ao respeito, conquistando os alunos para o trabalho escolar. No ensino, as dimensões profissionais cruzam-se sempre, inevitavelmente, com as dimensões pessoais.

O trabalho em equipe. Os novos modos de profissionalidade docente implicam um reforço das dimensões coletivas e colaborativas, do trabalho em equipe, da intervenção conjunta nos projetos educativos de escola.

O compromisso social. Podemos chamar-lhe diferentes nomes, mas todos convergem no sentido dos princípios, dos valores, da inclusão social, da diversidade cultural. Educar é conseguir que a criança ultrapasse as fronteiras que, tantas vezes, lhe foram traçadas como destino pelo nascimento, pela família ou pela sociedade. Hoje, a rea­lidade da escola obriga-nos a ir além da escola. Comunicar com o público, intervir na sociedade, faz parte do ethos profissional docente.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

A chave do passado

Como um bloco de pedra encontrado por acaso, em Rosetta, ofereceu a peça que faltava para desvendar os hieróglifos e mais de 3 mil anos de história egípcia

Eduardo Szklarz

No meio do caminho tinha uma pedra: um bloco de quase 760 quilos na rota dos soldados franceses que ocupavam o Egito em julho de 1799, numa expedição liderada pelo temido general Napoleão Bonaparte. O tablete cinzento de 114 x 72 cm apareceu quando eles cavavam trincheiras a leste de Alexandria, perto da cidade de El-Rashid, chamada de Rosetta pelos ocidentais. A pedra estava caída no chão, como uma lápide semi-enterrada. Uma versão menos aceita entre os historiadores dá conta de que ela estava incrustada num muro que os militares demoliam. Seja como for, a Pedra de Rosetta chamou atenção de imediato porque tinha gravadas três escritas diferentes. Coordenador das obras, o capitão Pierre-François Bouchard sabia que uma das grafias era o grego. Embora não identificasse bem quais eram as outras – o hieróglifo e o demótico -, ele suspeitou da importância do artefato e o enviou para o Cairo, onde cientistas franceses estavam reunidos. Os sábios confirmaram o palpite: pela primeira vez, um texto em grego aparecia junto com hieróglifos. Assim, a pedra poderia ser a chave para entender a escrita sagrada dos faraós.
Esses sinais tinham marcado a paisagem urbana do Egito por mais de 3 mil anos, até desaparecerem no século 4. Diversos pesquisadores já haviam tentado decifrá-los, sem sucesso. Inúmeras perguntas sobre a civilização egípcia permaneciam sem resposta. Quais eram os faraós que ergueram aqueles templos gigantescos? Para que construíam suas tumbas? Por que preservavam os mortos?
A seguir você verá como um pedaço de basalto encontrado por acaso nas areias do deserto ajudou a elucidar esses mistérios.
Em 1798, o general francês Napoleão Bonaparte era a sensação de seu país. Derrotara o exército austríaco na Itália e tinha tudo para segurar as rédeas da Revolução Francesa. Aos 28 anos, sua fama era comparável à de um pop star moderno.
O povo aplaudiu quando ele anunciou uma milionária expedição ao Egito para bloquear as rotas inglesas de comércio com o Oriente e conquistar uma preciosa colônia para a França. A missão tinha valor estratégico duvidoso, mas foi patrocionada pelo Diretório, o governo imposto pela alta burguesia. Afinal, era uma forma de manter o general longe da política parisiense enquanto eram definidos os rumos da revolução.
"A expedição foi motivada pela competição colonial europeia, mas também por uma fantasia pessoal de Napoleão. Ele sonhava em ser o novo Alexandre, o Grande", diz Nina Burleigh, autora de Miragem – Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito. Para imitar os passos do conquistador macedônio, o general destacou quase 50 mil soldados e marinheiros.
Na cola dos militares, marchava uma unidade especial formada por cerca de 150 sábios, os savants. Eram cientistas, matemáticos, botânicos, astrônomos, químicos, engenheiros, poetas e até um musicólogo. Napoleão imitava outra faceta do ídolo: Alexandre viajara com uma trupe de filósofos ao conquistar a Pérsia, no século 4 a.C. Para o general, a campanha tinha caráter civilizatório. Levaria as luzes de Paris aos "bárbaros" mamelucos que dominavam o Egito. Antigos guerreiros da Ásia Central convertidos ao Islã, os mamelucos tinham sido escravos dos árabes por séculos e acabaram fundando seu próprio império.
Para os savants, era uma viagem de sonho. Poucos ocidentais haviam se aventurado no Oriente Médio desde que o sultão Saladino derrotara os cruzados, no século 12. Na visão da Europa, o Egito era um mundo desconhecido, de gente extravagante e clima inóspito. "Pouco se sabia sobre a civilização das pirâmides. Aquela era a chance de se debruçar sobre os monumentos do Egito", afirma Nina.
A descoberta
As tropas francesas aportaram em Alexandria e em três semanas acabaram com 700 anos de domínio mameluco na região. Na Batalha das Pirâmides, em julho de 1798, a estratégia e as armas dos franceses foram decisivas para superar o maior número de soldados das forças locais. Mas a Inglaterra não se acomodou. Apenas três semanas depois, o almirante Horatio Nelson afundou quase toda a frota francesa na Batalha do Nilo. Sem o apoio marítimo, o exército de Napoleão perdeu a iniciativa. Foi alvo da crescente revolta da população nativa e, para piorar, um surto de peste bubônica arrasou suas fileiras.
Apesar das dificuldades, o general criou no Cairo o Instituto do Egito, onde os sábios colecionavam as relíquias e divulgavam suas pesquisas. O instituto ocupava o palácio de Hassan Al Kachef, um burocrata mameluco. O quarto de imersão do seu harém virou a sede das assembleias onde se discutiam das espécies de insetos do deserto à produção de cerveja com uma planta nativa.
E veio a surpresa. Numa dessas reuniões, o conselho de savants soube da Pedra de Rosetta. "Quando a viram, os sábios logo perceberam sua importância", diz Nina. Cópias das inscrições foram enviadas de imediato a Paris e intelectuais começaram a trabalhar na decifração.
Não satisfeito em bancar o Indiana Jones, Napoleão marchou com suas forças para a Síria e a Palestina, dominadas pelo Império Turco-Otomano. A manobra, porém, custou caro: os turcos repeliram a ofensiva e o general voltou ao Egito com um exército em frangalhos. Prevendo o fracasso da expedição, e preocupado com a instabilidade política na França, ele retornou a Paris em agosto de 1799 com um grupo de savants. Quem ficou no Egito vivia na corda bamba, já que a ocupação francesa lutava em três frentes: a revolta árabe, os ataques ingleses e o crescente avanço dos turcos sobre o Cairo, com o apoio da Inglaterra. Enfraquecido pela peste, o exército francês capitulou em 1801, encerrando três anos de expedição.
Com a vitória na guerra, os ingleses se apoderaram de várias relíquias que os savants haviam pilhado. Entre elas a Pedra de Rosetta, que foi parar no Museu Britânico.
Duelo de titãs
Era o início de outro combate entre a França e a Inglaterra, agora para decifrar as inscrições enigmáticas no artefato. O duelo reuniu duas mentes brilhantes, obcecadas por entender os hieróglifos: o cientista inglês Thomas Young e o jovem linguista francês Jean-François Champollion.Era uma briga desigual. Young era um catedrático nobre e famoso, que tinha o apoio da coroa e trabalhava diretamente sobre a pedra. Já Champollion era um garoto-prodígio humilde, cujos estudos eram bancados a duras penas pelo irmão mais velho, e que precisou descolar cópias dos textos da relíquia sem ter certeza se eram bem feitas. A partir do grego, os dois gênios souberam que a Rosetta continha um decreto emitido por um conselho de sacerdotes egípcios em 196 a.C. (veja na pág. 34). "Assumindo que os textos das outras duas escritas eram idênticos, então a pedra poderia ser usada para decifrar os hieróglifos", diz o cientista Simon Singh em artigo para a BBC.
Só que havia um problema. "O grego revelava o que os hieróglifos significavam, mas ninguém havia falado a antiga língua egípcia por vários séculos. Assim, era impossível determinar o som das palavras egípcias", afirma Singh. "A menos que os pesquisadores soubessem pronunciá-las, eles não poderiam deduzir a fonética dos hieróglifos." E tampouco entender a escrita de forma a traduzir qualquer inscrição. O demótico presente na pedra, uma forma cursiva e simplificada de escrita egípcia, já conhecida no Ocidente, dava elementos para a comparação, mas não a engrenagem que faltava.
Pesquisadores já haviam tentado quebrar o código, mas derraparam numa hipótese falsa: a de que os hieróglifos eram desenhos impronunciáveis. Achavam que se tratava de uma grafia simbólica, não fonética, e que, portanto não podia ser lida como este texto.
Young sabia dos avanços de Champollion, e vice-versa. Nessa corrida, eles usaram outros documentos além do bloco de basalto, como as inscrições do templo de Abu Simbel e do zodíaco do Templo de Dendera. Os dois gênios, porém, seguiram técnicas distintas. Young usou um método matemático: se havia 30 estruturas iguais no texto grego, ele checava se essas 30 estruturas se repetiam nos hieróglifos – e assim foi formando um alfabeto rudimentar, por aproximação. Até publicou seus primeiros achados, mas não foi muito longe. "Parece que ele não conseguiu superar a ideia reinante de que os hieróglifos eram só desenho. Não estava preparado para quebrar esse paradigma", diz Singh.
Já Champollion conhecia diversas línguas, e isso fez toda a diferença. Ele percebeu que havia uma escrita por trás daqueles desenhos. Começou associando nomes gregos como "Ptolomeu" aos hieróglifos correspondentes. E, com a ajuda do irmão, foi a Paris para estudar e tentar provar sua teoria. Logo viu que seria difícil. Até seu professor defendia a tese dos desenhos mudos. Champollion recusava a ideia, mas como seria possível descobrir o som daqueles símbolos estranhos?
A solução do jovem foi aplicar o copta, o idioma dos primeiros cristãos do Egito que ainda era falado em algumas igrejas de Paris. Ele percebeu que a sonoridade do copta se relacionava com a da antiga língua. Se pudesse coincidir os sons do copta com os dos hieróglifos, poderia "fazer falar" os faraós. Assim matou a charada. "Enquanto o idioma grego ajudou a entender o hieróglifo, o copta ajudou a sonorizá-lo", diz o historiador Júlio Gralha, especialista em Egito antigo, professor da UERJ. Ao ver um círculo com um ponto no meio, por exemplo, Champollion conseguia associá-lo ao deus egípcio Sol. Mas não sabia o nome que ele tinha, pois faltava sonorizá-lo. Foi aí que o copta entrou na jogada: ao unir seus sons com as imagens dos hieróglifos, Champollion conseguiu ler "Ramsés" e outras palavras (veja na pág. 33). "Os pesquisadores da época sabiam que havia um faraó chamado Ramsés, mas não sabiam como escrever seu nome. E Champollion triunfou. Young não teve essa perspicácia", afirma o egiptólogo.
As investigações do francês incomodaram a Igreja. Temia-se que a compreensão dos hieróglifos ameaçasse a noção do Dilúvio Universal, que teria ocorrido em cerca de 2300 a.C. Se a escrita demonstrasse que os egípcios existiam antes do episódio e não foram afetados por ele, os bispos teriam um abacaxi para descascar.
Mas Champollion deu de ombros. Desde criança queria calcular a idade do mundo, e achava que os hieróglifos lhe dariam a resposta. Mais de duas décadas após a descoberta da Pedra de Rosetta, no outono de 1822, ele finalmente conseguiu decifrar a língua sagrada. Em 1828, realizou outro sonho: foi ao Egito. Só não teve tempo de somar a idade do mundo. Morreu em 1832, aos 41 anos, em Paris, vítima de um acidente vascular cerebral.
A fantasia de Napoleão despertou o Egito de um sono milenar. Sem a pedra, os hieróglifos provavelmente só seriam decifrados muito mais tarde. Se fossem. E, sem eles, seria quase impossível compreender a civilização do Vale do Nilo. "A partir da leitura dos hieróglifos começamos a entender por que os egípcios faziam tumbas e sua crença na vida eterna, por exemplo", diz Júlio Gralha. "Identificamos os faraós que haviam erguido diferentes templos, entre muitas outras descobertas." Sem o domínio da escrita sagrada, não saberíamos da existência de faraós hereges, como Akenaton, que destronou as divindades da nação e elegeu Aton como o deus supremo no século 14 a.C. A atitude custou-lhe a vida e as marcas de seu reinado. Mas há registros da restauração dos templos que ele havia destruído, assim como foram reveladas mentiras contadas pelos faraós, como uma vitória inexistente de Ramsés II.
A pedra serviu ainda para entender a dinastia ptolomaica, que governava o país quando ela foi gravada (leia à esq.). Estimulou a egiptologia e – para desgosto da Igreja – os cultos maçônicos na Europa, já que a civilização era admirada e sua simbologia, amplamente usada pela irmandade.
Hoje, a Pedra de Rosetta é uma das atrações mais visitadas do Museu Britânico. Está lá desde 1802 e só saiu de Londres por algumas semanas para ser exposta no Museu do Louvre, em 1972, no aniversário de 150 anos da decifração dos hieróglifos. Há anos o Egito tenta negociar a devolução.
E Champollion, quem diria, nunca pôde ver esse pedaço de rocha que tanto admirava. Uma das muitas ironias da história.
A saga dos hieróglifos
Como se perdeu a escrita do Egito antigo
Para alguns pesquisadores, os hieróglifos foram a primeira forma de escrita da humanidade. Outros (a maioria, é fato) dizem que a arte de registrar palavras foi inventada antes pelos sumérios, por volta de 3800 a.C., ou até mesmo pela Civilização do Vale do Indo, na Índia antiga. Certo é que os hieróglifos foram os únicos sinais que conservaram sua forma durante os mais de 3 mil anos de civilização egípcia. Eles eram usados por escribas e sacerdotes em documentos políticos, biografias e monumentos. Mas sua principal força eram as práticas mágicas e religiosas. Tanto que hieróglifo, em grego, significa "escrita sagrada".
"A escrita hieroglífica é heterogênea: alguns sinais funcionavam como pictogramas (desenhos figurativos); outros eram símbolos fonéticos. Às vezes um falcão representava um som, outras era simplesmente um falcão", diz Susan Wise Bauer, professora de literatura da Universidade de Virgínia, EUA. "Depois os egípcios inventaram os determinantes, ou seja, sinais que indicavam se o pictograma era um símbolo fonético ou só um desenho." Com o tempo, outras escritas mais simples foram surgindo para uso cotidiano: o hierático (usado nos negócios e na administração, em geral sobre papiro) e o demótico (que reproduzia a linguagem popular). "E de repente, no fim do século 4 a.C., a antiga escrita egípcia desapareceu. Não levou mais que uma geração", afirma o pesquisador inglês Simon Singh. "Os últimos exemplos foram encontrados na ilha de Philae, no rio Nilo: uma inscrição hieroglífica gravada num templo em 394 a.C. e um pedaço de grafite demótico datado de 450 a.C." Segundo ele, os hieróglifos foram extintos por causa da ascensão do cristianismo. "Seu uso foi proibido para erradicar qualquer ligação com o passado pagão do Egito", diz. "Assim, os escritos antigos foram substituídos pelo copta, um idioma formado de letras do alfabeto grego e do demótico. A língua egípcia continuou a ser falada e evoluiu para a linguagem copta."
No século 11, porém, houve nova reviravolta. A língua e a escrita coptas caíram para escanteio com a expansão árabe no Oriente Médio. Assim, o conhecimento necessário para entender a história dos faraós foi perdido definitivamente… até que Champollion desvendasse a Pedra de Rosetta.
Fonte: Júlio Gralha e Simon Singh
Quebrando os códigos
No século 19, os intelectuais pensavam que os hieróglifos eram uma representação muda de ideias. O francês Jean-François Champollion conseguiu provar que eles eram uma língua falada
1. Através do grego gravado na Pedra de Rosetta, ele reconheceu o que estava escrito nos hieróglifos. Assim, associou palavras como "Ptolomeus" aos signos correspondentes. Sabia, então, qual deles representava a letra S. Mas não imaginava como pronunciá-los.
2. Champollion se concentrou no cartucho ao lado (encontrado em Abu Simbel) e identificou dois S. Aí recorreu ao copta, idioma antigo cuja sonoridade é próxima à do hieróglifo, e obteve alguns sons dos signos, já que o hieróglifo não tem todas as vogais, tal como outras línguas semíticas.
3. Em seguida, ele deduziu, a partir do formato do signo, que o primeiro hieróglifo era o Sol, e então presumiu que seu som correspondia ao da palavra copta para Sol: "Ra". Assim, obteve a sequência (Ra-?-s-s).
4. Logo concluiu que se tratava do cartucho correspondente ao faraó Ramsés, que em copta significa "filho do Sol" (Ra = sol + Mes = nascido de). E assim ele quebrou o código da escrita egípcia.
A última dinastia
Os ptolomeus e a decadência da civilização egípcia
A importância da Pedra de Rosetta vai além da decifração dos hieróglifos. Ela registra um momento fundamental da história egípcia: a dinastia ptolomaica. Sabe a Cleópatra dos filmes e da literatura? Ela foi a sétima do reinado ptolomaico (305 a 30 a.C.). "Existiram sete Cleópatras e 15 Ptolomeus", diz o historiador Júlio Gralha. "O texto da Rosetta é a transcrição de um decreto editado pelo conselho de sacerdotes, reunido em 196 a.C. em Mênfis, capital do norte do Egito. O decreto foi feito durante o reinado de Ptolomeu V Epiphanes (210-180 a.C.)."
Naquela época, a glória dos primeiros faraós era coisa do passado. O país fora conquistado em 332 a.C. pelo macedônio Alexandre, o Grande, que se autoproclamou soberano. Com a morte dele, a administração do Egito coube a um de seus generais, Ptolomeu, que instituiu uma nova linha de sucessão. "Como a dinastia dos ptolomeus era de cultura grega (helenizada), ela precisaria adotar fortemente a cultura faraônica se quisesse reinar", afirma o historiador. É que as práticas mágico-religiosas egípcias continuavam muito fortes entre o povo. E, se os ptolomeus não se identificassem com esses rituais nem assumissem a monarquia faraônica – estranha aos gregos -, não conseguiria se manter no poder. Os primeiros ptolomeus não adotaram completamente a cultura local, o que explica a resistência que sofreram. Para a população, eles ainda eram estrangeiros. Segundo Gralha, foi somente no governo de Ptolomeu V que a dinastia adotou plenamente a religião egípcia.
A prova disso é a Pedra de Rosetta. O decreto que ela contém marca o momento em que os sacerdotes exaltam as virtudes de Ptolomeu V e se dirigem a ele com títulos antigos – tal como os faraós. Com esse carimbo de aprovação, o monarca enfim ganhou legitimidade para governar. O documento feito de basalto cita algumas de suas benfeitorias, como doar trigo para os templos, perdoar dívidas e reduzir impostos para candidatos ao sacerdócio. A Pedra de Rosetta foi gravada em três idiomas para que sacerdotes, funcionários do governo e a aristocracia pudessem entender o que dizia. O hieróglifo era a língua religiosa, o demótico reproduzia a linguagem popular e o grego era o idioma dos ptolomeus. Mas o artefato não foi o único do gênero. Pesquisadores acreditam que outras pedras idênticas foram espalhadas pelo Egito, como uma campanha de marketing. Uma delas foi achada no fim do século 19.
Mas por que espalhar aqueles blocos se a maioria da população não sabia ler? O efeito era semelhante ao das estátuas: o líder se fazia presente sem estar lá. Ao que tudo indica, as pedras também foram um recado aos rebeldes que dominaram o sul da nação por 20 anos. "A revolta foi derrotada e, a partir daí, a dinastia percebeu que era hora de adotar as práticas faraônicas", diz Gralha. "O país foi então pacificado." A dinastia só durou 300 anos, em boa parte por causa das disputas após a morte de Ptolomeu V, em 180 a.C. Vários Ptolomeus e Cleópatras se engalfinharam na corrida pelo trono. Um deles foi Ptolomeu VIII, que matou o filho e entregou à mulher, Cleópatra II.
"Ptolomeu XV e Cleópatra VII (esposa de Julio César e Marco Antônio) foram o último casal governante do Egito. Com a morte dela, o país deixou de existir como potência internacional, mas seu legado perdurou durante séculos", afirma o egiptólogo.
Saiba mais
LIVROS
Miragem – Os Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito, Nina Burleigh, Landscape, 2008
Um relato sobre a expedição francesa na terra dos faraós.
Historia del Mundo Antíguo, Susan Wise Bauer, Paidós, 2007
Excelente análise sobre a evolução da escrita.
DVD
Egito – Redescobrindo um Mundo Perdido, BBC, 2005
Um dos episódios do volume 2 narra a descoberta da pedra.

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

O código de construção socialista do Chile

Naomi Klein

Desde que a desregulamentação causou um colapso econômico mundial em setembro de 2008 e todos tornaram-se keynesianos de novo, não tem sido fácil ser um fã fanático do falecido economista Milton Friedman. Tão amplamente desacreditado é o seu modelo de fundamentalismo de livre mercado que seus seguidores passaram ao desespero crescente em clamar vitórias ideológicas, apesar de pouco prováveis.

Desabrigados no Haiti. Foto: Julien Tack/AFP

Desabrigados no Haiti. Foto: Julien Tack/AFP

Há um caso particularmente desagradável nisso. Apenas dois dias após o Chile ser atingido por um terremoto devastador, o colunista do Wall Street Journal, Bret Stephens informou aos seus leitores que o espírito de Milton Friedman “foi com certeza protetor pairando sobre o Chile”, porque, “em grande parte graças a ele, o país passou por uma tragédia que em outro lugar poderia ter sido um apocalipse… Não foi por acaso que os chilenos estavam morando em casas de tijolo – e os haitianos em casas de palha – quando o lobo chegou para tentar derrubá-las.”

Segundo Stephens, as políticas radicais de livre mercado prescritas para o ditador chileno Augusto Pinochet por Milton Friedman e seus infames “Chicago Boys” são as razões do Chile ser uma nação próspera com “alguns dos códigos de construção mais rígidos do mundo”.

Há um problema bem grande com essa teoria: as modernas leis de construção sísmicas do Chile, elaboradas para resistir aos terremotos, foram aprovadas em 1972. Aquele ano é enormemente importante, pois foi o ano anterior a Pinochet tomar o poder num golpe sangrento apoiado pelos Estados Unidos. Isso significa que se há uma pessoa que merece receber o crédito pela lei, não é Friedman ou Pinochet, mas Salvador Allende, o presidente socialista democraticamente eleito do Chile. (Na verdade, muitos chilenos merecem o crédito, uma vez que as leis foram uma resposta ao histórico de terremotos, e a primeira delas foi aprovada em 1930).

Parece significativo, porém, que a lei foi promulgada mesmo no meio de um debilitante embargo econômico (“fazer a economia gritar”, o famoso resmungo de Richard Nixon após Allende vencer as eleições de 1970). A lei foi atualizada depois nos anos 90, bem após Pinochet e os Chicago Boys saírem finalmente do poder e a democracia foi restaurada.

Foto: AP Photo

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Não é estranho: como Paul Krugman aponta, Friedman foi ambivalente sobre o código de construção, vendo-os ainda como uma outra infração à liberdade capitalista. Quanto ao argumento de que as políticas friedmanistas são as responsáveis pelos chilenos viverem em “casas de tijolos” ao invés de “palha”, está claro que Stephens não sabe nada sobre o pré-golpe no Chile. O Chile de 1960 tinha o melhor sistema de saúde e educação do continente, assim como um vibrante setor industrial e uma rápida expansão da classe média. Os chilenos acreditavam no Estado, e por isso elegeram Allende para avançar o projeto ainda mais.

Após o golpe e a morte de Allende, Pinochet e seus Chicago Boys fizeram o seu melhor para desmantelar a esfera pública do Chile, leiloando as empresas estatais e reduzindo os regulamentos financeiros e sindicais. Uma enorme riqueza foi criada nesse período, porém, por um custo terrível: no início dos anos 80, as medidas de Pinochet prescritas por Friedman causaram uma rápida desindustrialização, o aumento em dez vezes do desemprego e uma explosão de favelas, nitidamente instáveis. Eles também deixaram uma crise de corrupção e da dívida tão grave que, em 1982, Pinochet foi forçado a demitir o seu conselheiro chefe, um Chicago Boy, e nacionalizar várias instituições financeiras muito desregulamentadas. (Soa familiar?)

Felizmente, os Chicagos Boys não conseguiram desfazer tudo que Allende realizou. A empresa nacional de cobre, Codelco, permaneceu nas mãos do Estado, bombeando riqueza para os cofres públicos e previnindo os Chicagos Boys de degenerarem a economia do Chile completamente. Eles também nunca conseguiram jogar fora o resistente código de construção de Allende, um descuido ideológico pelo qual todos nós devemos estar gratos.

Obrigada ao CEPR por rastrear as origens do código de construção do Chile.

Tradução: Passa Palavra

Publicado originalmente em: http://www.huffingtonpost.com/naomi-klein/chiles-socialist-rebar_b_484143.html

Tradução e fonte: Passa Palavra

Chile e Haiti depois dos terremotos: tão diferentes mas tão iguais…

José Antonio Gutiérrez D.

I.

Mais uma vez o Chile é atingido por um terremoto de proporções apocalípticas, como foram os terremotos de 1938, de 1960 e de 1985. Com a precisão de um relógio suíço, o centro-sul do país é abalado a cada 25 anos por um movimento sísmico que deixa o país em estado de comoção. O terremoto que presenciamos em 27 de fevereiro foi um dos mais fortes registrados em toda a história: 8,8 graus na escala Richter e 9 na escala Mercalli.

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A angústia de não saber nada sobre nossos entes queridos, de não poder se comunicar com eles, é acompanhada da destruição, da ausência de comunicação e da morte ou desaparição de muitas pessoas. A impotência é uma sombra que paira sobre o coração. O número de mortos já passa de 700; há aqueles que afirmam a possibilidade de uma cifra final de uns 2.000 até que se tome conta do quadro final da devastação; não se tem notícias ainda de muitas províncias afetadas nas regiões de Maule e Bío-Bio. Quando se abordava a cifra de 300 mortos, veio a tona a notícia que o tsunami de Constituición havia ceifado a vida de 350 pessoas, o que duplicou o número de mortos. Há notícias de outras localidades que também foram atingidas por tsunamis mas ainda se desconhece a magnitude dos danos provocados.

As seqüelas que este terremoto deixará para o povo chileno são terríveis. Estima-se que há, neste momento, 2 milhões de pessoas que perderam suas residências e estão literalmente nas ruas. Estamos falando de mais de 10% da população, o que dá a idéia da titânica tarefa de reconstrução que há daqui em diante.

II.

Muito se tem falado sobre as diferenças entre Chile e Haiti, porque o terremoto no país hermano caribenho deixou uma cifra de mortos (300.000) e um dano, tanto em termos absolutos como relativos, muito maior. Se tem abordado as razões geológicas e sismológicas, como a maior profundidade do epicentro e a área em que sucedeu, e elas, desde então, tem desempenhado um papel muito claro. Mas, sobretudo há que buscar nas razões políticas, econômicas e sociais a explicação do porque um terremoto de maior magnitude no Chile deixa um impacto muito menor.

Foto: Natacha Pisarenko/AP Photo

Foto: Natacha Pisarenko/AP Photo

Certamente, o Chile é um país dificilmente comparável com o Haiti: tem uma infra-estrutura muito superior, uma economia muito menos dependente e menos atrofiada que a haitiana (enquanto o Haiti é um caso extremo dentro do contexto latino-americano, o Chile goza de meio século de experiências nacional-desenvolvimentistas que deixaram sua marca até os dias de hoje) e uma capacidade de resposta institucional ante as catástrofes naturais muito maior. A miséria chilena não alcança níveis tão sórdidos como no Haiti, onde a população dos subúrbios da capital era obrigada a recorrer a biscoitos de barro para enganar sua fome. Obviamente nada disso se deve a uma inexistente “superioridade” chilena, que o chauvinismo crioulo aporta em comparações tão falaciosas como odiosas (“o chileno é mais trabalhador, é mais hábil, é mais isto, mais aquilo”), mas se deve principalmente às diferentes histórias relativas de ambas repúblicas – histórias que são divergentes ainda desde tempos coloniais, uma vez que o Chile não se transformou de fato em um quintal de plantação, em um país maquila [1], nem sofreu uma intervenção direta ou saque pelos EUA. O Chile, ademais, é um país com uma longa história de movimentos sísmicos, o que o deixaria “em vantagem” perante o Haiti.

III.

Ainda assim, se fala pouco a respeito das semelhanças. A mais óbvia é o fato de que os principais atingidos são os pobres. Ainda quando o terremoto atinge a todos por igual, uns estão mais preparados que outros para receber o sismo e para lidar com as dificuldades que se sucedem. O Chile não foi uma exceção a essa regra e os setores mais atingidos são os bairros populares, casas de adobe [2]; além disso, estamos cientes, por testemunhos confiáveis, que a ajuda apareceu tarde e de forma insuficiente nos bairros populares, que não têm tido prioridade, mesmo sendo estes os setores onde se deveria concentrar a ajuda devido a sua precariedade.

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Segundo, grande parte da devastação se deve a infra-estrutura inadequada. Depois de uma farta experiência sísmica e de que metade do país tenha ido abaixo em 1985, houve certa consciência de criar infra-estrutura que suportasse os abalos de uma zona de atividade tectônica, como é o Chile. No entanto, em meados dos anos ‘90, a Concertación, que seguiu aprofundando o nefasto modelo neoliberal herdado da ditadura, deu início à privatização e subcontratação de empresas para obras públicas – muitas delas transnacionais que jamais responderão por pontes, estradas e rodovias destruídas, as quais imobilizaram o país e deixaram milhares de pessoas desamparadas enquanto estavam de viagem. Deve-se destacar que muitas das obras realizadas pelo MOP [3] há várias décadas atrás seguiram de pé, enquanto custosas estradas construídas há poucos anos, nas quais se tem pagado pedágios excessivos, se rasgaram como se fossem de papel. Posso dar um testemunho pessoal sobre o motivo da fragilidade destas obras viárias: no início de 2003 trabalhei no by pass de Rancagua [4], no setor Doñihue. Quando o geólogo recomendava cavar 1 metro e 80 centímetros, 2 metros em certas regiões do terreno instável, para reduzir custos, se ordenava a retro escavadora (uma que chamava a fivela) para não retirar mais de 30 centímetros. Sabíamos que esses caminhos não durariam mais de 10 anos. Agora o terremoto será uma desculpa muito oportuna para explicar sua destruição, mas o fato que a infra-estrutura pública ficou de pé enquanto a infra-estrutura privada entrou em colapso, ficando em ruínas, é incontestável.

O mesmo pode ser dito sobre as moradias: desde finais dos anos ‘90, com os escândalos das casas COPEVA [5], que em poucos meses começavam a demonstrar rachaduras e goteiras obrigando seus donos a fazer forros com plástico para passar o inverno (muitas das quais foram simplesmente demolidas pouco tempo depois), está claro que a política de moradia (anti)social no país – e da moradia em geral – é somente um negócio para os capitalistas imobiliários. Um negócio, por outro lado, facilitado mediante toda forma de corrupções e negligências dos próprios governos concertacionistas, alguns de cujos personagens participaram diretamente deste negócio tão lucrativo. Recordemos que o escândalo da COPEVA tem o nome de um ex-ministro democrata-cristão, Pérez Yoma. Hoje vemos muitas construções modernas, muitos conjuntos habitacionais de pessoas que com grandes sacrifícios alcançaram o “sonho da casa própria”, irem pelo ralo, com danos estruturais graves que as deixam inabitáveis. O caso mais dramático foi o do edifício de 15 andares que em Concepción desmoronou com cerca de uma centena de pessoas em seu interior. Um edifício novo, ainda com habitações à venda. É verdade que um terremoto tão poderoso sempre ocasionará danos e nunca poderá ser feito o suficiente para evitar vítimas; mas resulta injustificável que sejam precisamente as obras mais modernas as que tenham sofrido mais danos.

Da mesma forma que no Haiti, é provável que nenhum capitalista jamais deva responder por esses atos criminais. Por isso é necessário que o povo se mobilize e exija justiça, pois a política privatizante de obras públicas, imobiliárias e viárias é uma política abertamente criminosa, como o demonstra este terremoto. Aqui há responsáveis e se o povo não exige uma resposta por parte deles, jamais a terá.

IV.

Outra semelhança com o Haiti é a resposta repressiva e a militarização da resposta humanitária. Ainda que ambos os casos sejam obviamente diferentes (no Haiti a militarização humanitária tem aprofundado a ocupação do país e entregue um importante enclave geoestratégico aos EUA, algo que tem pleno sentido desde seu plano de militarização da região do Caribe e de recomposição hegemônica na América Latina), em ambos os casos se julgou com histeria os “saqueadores” para justificar uma presença de força que proteja os interesses de classe da elite.

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Em Concepción, por um dia e meio, muita gente não presenciou nenhum tipo de ajuda. Isto é principalmente certo nos bairros populares, onde até a presente data pouco ou nada tem aparecido. Ante o desespero, o povo simplesmente aplica o impulso mais básico do ser humano que é o da sua conservação. O povo entrou em supermercados, postos de gasolina, farmácias, para se prover dos elementos e artigos mais básicos para alimentar as suas famílias. Ou devíamos esperar que o povo ficasse de braços cruzados, suportando a fadiga, fome e sede, enquanto os supermercados estavam repletos de bens? Isto era puro povo, pessoas comuns, mães, pais, jovens que pegaram caixas de leite, de arroz, do que puderam recuperar.

“Saque”, gritaram as autoridades para demonizar a justa reclamação do direito de viver, a comer, a matar a sede, a cuidar de seus filhos. Distorceram a história ao ponto de que, segundo eles, os “saqueadores” não tinham nenhuma necessidade, porque estavam roubando exclusivamente artigos de luxo, eletrônicos ou CDs, DVDs, quando a verdade é outra. Bastou, por último, que se tocasse em um par de bancos e aí a histeria já foi absoluta. “Lumpem”, passaram a gritar, para desumanizar o povo faminto e necessitado, pois com essa palavra elástica desde sempre se justifica o assassinato policial. Na época de Pinochet os chamavam de “humanóides” – o termo muda, a lógica política repressiva se mantém.

O mesmo “lumpem” de Nova Orleans, de Porto Príncipe, agora aparecia nas ruas de Concepción, e desde o primeiro momento o presidente eleito Sebastián Piñera, junto a seus comparsas no governo local, como a doutora Van Rysselberghe em Concepción, se escandalizavam ante o pouco que respeitavam a propriedade privada das grandes cadeias de supermercados. E enquanto a ajuda tardava em chegar, não houve nenhum problema para mobilizar uns quantos milhares de milicos para fazer efetiva a lei marcial em Concepción. Enquanto não chegava água para as bocas sedentas, não custou nada mobilizar os tanques com jatos de água para reprimir o “lumpem” que “saqueava” os “honestos” negociantes como Líder (Wall Mart) e Santa Isabel. O governo decretou Estado de Sítio e Toque de Recolher, fazendo eco com a direita política e com os grandes empresários e negociantes que, enquanto enchiam a boca para falar em “solidariedade” não foram capazes de colocar pacotes de arroz de seus supermercados à disposição do povo. Este recurso não se utilizava desde 1987 – para os que têm memória fraca, desde a época da ditadura. Isso demonstra que certos hábitos autoritários não desapareceram depois de duas décadas de “democracia vigiada”.

Às pessoas agora é o momento de fazer fila, passar fome e sede, e acalmar o choro de seus filhos. A ordem se restaurou novamente graças à bota militar. A grande propriedade privada volta a ser intocável.

É nestes momentos de crise quando o sistema mostra realmente sua cara. E em Concepción, da mesma forma que em Porto Príncipe, o demonstrou com toda sua crueldade: a propriedade dos capitalistas é mais importante que a vida e o bem-estar de centenas de milhares de pessoas necessitadas. Não é casual que o capitalismo receba freqüentemente o sobrenome de “selvagem”.

V.

Mas, Haiti e Chile também se assemelham ante a necessidade que aflora esse instinto essencial de apoio mútuo que permite ao povo sobreviver, avançar e constituir-se em um ator protagonista de sua história. Corresponde aos setores populares desenvolver essas tendências para a organização do povo, a solidariedade, para que se desenvolvam e vão mais além da mera sobrevivência. Para que se possa constituir em uma sociedade diferente, uma sociedade solidária, uma sociedade libertária, que se despoje do pesado fardo do individualismo imposto pelo modelo neoliberal feroz aplicado pela ditadura e aprofundado pela “democracia vigiada”.

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Entre as muitas mensagens solidárias de amigos e companheiros nestes momentos tão angustiantes, quero destacar as muitas mensagens solidárias que tenho recebido de companheiros haitianos. Em meio a dor que eles mesmos carregam, guardam um momento para solidarizar-se com a dor do povo chileno. Nós fizemos nossa a sua dor, e eles hoje fazem sua a nossa dor.

Um companheiro de Grandans me escrevia neste sábado: “Estimado José Antonio, lhe agradeço os esforços de solidariedade com o povo haitinano. Hoje me sinto muito tocado com o violento terremoto no Chile. Desejo que sua família saia sã de tal sismo e que seu país se recupere rápido. O pouco que temos está disposto para ser dividido com vocês se for necessário. Até breve, Máxime Roumer”.

Mensagens como esta me recordam que a solidariedade é a ternura dos povos.

1 de Março de 2010.

Notas:

[1] Referência às maquiladoras, amplas zonas em que fábricas se instalam com a ausência da cobrança de impostos e impõem um acelerado ritmo de trabalho aos seus operários (ampla jornada de trabalho, baixos salários e ausência de direitos trabalhistas). [Nota do tradutor]

[2] Adobe é uma espécie de tijolo mais rudimentar, feito artesanalmente a base de areia crua, água e palha.

[3] Ministério de Obras Públicas.

[4] O by pass de Rancagua é uma estrada que passa por fora da cidade de Rancagua.

[5] Empresa imobiliária que enganou milhares de pessoas com casas de péssima qualidade que em pouco tempo eram inabitáveis. A empresa era de propriedade da família do ministro do interior do governo de Frei, Edmundo Pérez Yoma.

Tradução: Daniel Augusto de Almeida Alves

Publicado originalmente em: http://anarkismo.net/article/15959

Tradução e fonte: Passa Palavra

Crise faz aumentar rejeição de imigrantes pela população espanhola

Tomás Bárbulo

Espanhóis fazem fila em 
um centro do governo em busca de emprego; crise tem feito aumentar a 
rejeição de imigrantes por parte da população espanhola

Espanhóis fazem fila em um centro do governo em busca de emprego; crise tem feito aumentar a rejeição de imigrantes por parte da população espanhola

Conclusões estão no  relatório "Racismo e Xenofobia 2009" do Ministério do Trabalho e Imigração

A crise econômica endureceu a opinião que os espanhóis têm da imigração. Na medida em que se registram os números econômicos, fica mais difícil reconhecer a sociedade tolerante e generosa com os estrangeiros de apenas três anos atrás. Essa é a crua conclusão que se chega depois de examinar as 394 páginas do relatório "Racismo e Xenofobia 2009", editado pelo Ministério do Trabalho e da Imigração. O documento se baseia em uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas Sociológicas (CIS na sigla em espanhol) entre setembro e outubro de 2008, apenas seis meses depois do início da recessão.

É cada vez maior o número de espanhóis que pensam que o número de imigrantes é excessivo, que as leis são tolerantes demais com eles ou que os estrangeiros tiram o trabalho dos espanhóis. Para culminar, o estudo adverte que é previsível que, na medida em que continue aumentando o número de desempregados, essas opiniões ganhem mais adeptos. Ou seja, é razoável pensar que a esta altura, mais de um ano depois da realização da pesquisa em que se baseia o relatório, a rejeição contra os imigrantes será maior do que mostram os dados que acabam de ser publicados. Eis alguns deles:

Há imigrantes demais. Em 1996, somente 28% dos espanhóis diziam que havia estrangeiros "demais". O número cresceu para 60% em 2005. Em 2008, três anos depois, a soma dos que avaliam seu número como "excessivo" e como "elevado" havia disparado para 77%.

Leis tolerantes demais. Essa é a opinião de 42% dos espanhóis (18% a mais que há quatro anos). Somando-se a eles os 32% que as consideram "muito tolerantes", cabe concluir que nada menos que três em cada quatro pesquisados querem uma política de imigração mais rígida.

Freio ao asilo político. Em apenas um ano, mais que duplicou (de 11% para 26%) o número de espanhóis que concordam em receber um número limitado de solicitantes de asilo, mesmo que se tenha comprovado que realmente são perseguidos em seus países.

Expulsão de desempregados e criminosos. Para 68% dos espanhóis, é muito ou bastante aceitável que sejam expulsos "os imigrantes legalmente instalados que cometam qualquer crime". E quatro em cada dez pesquisados se dizem "muito de acordo" ou "principalmente de acordo" com a seguinte afirmação: "Se alguém que vem trabalhar no país ficar desempregado durante muito tempo deve ser expulso".

Cresce a oposição a dar direitos sociais e civis. Cai o número de pessoas partidárias de conceder direitos sociais e de cidadania aos imigrantes, mesmo que estes estejam "instalados na Espanha de maneira estável". Só 55% lhes dariam o direito de voto nas eleições gerais, 69% o fariam nas municipais e também 69% defendem seu direito à obtenção da nacionalidade.

Os espanhóis primeiro. Para 42% dos pesquisados os espanhóis deveriam ter preferência no acesso aos tratamentos de saúde, e um número ainda maior, 55%, é partidário de que tenham vantagem na escolha de colégio para seus filhos.

Trabalho para os espanhóis. Nada menos que 21% consideram "muito aceitável" e outros 39% "bastante aceitável" que os espanhóis tenham preferência no acesso ao mercado de trabalho. O total de partidários dessa discriminação chega, portanto, a 60%. Somente 9% a consideram "nada aceitável" e 23% creem que é "pouco aceitável".

Ajudas demais. Os imigrantes são o grupo populacional que recebe mais proteção do Estado. É a opinião de 58% dos espanhóis (4 pontos a mais que em 2007). E um em cada dois pesquisados afirma que, mesmo que tenham a mesma renda que os espanhóis, recebem mais ajudas de saúde e educacionais.

Os estrangeiros deterioram os serviços. Aumenta a associação entre a imigração e a deterioração dos serviços públicos (saúde e educação), mas também aumenta a opinião de que os estrangeiros deterioram as condições de trabalho, fazem crescer o desemprego e, "ao aceitar salários mais baixos, causam a redução dos salários" dos espanhóis. Pelo contrário, também cresce (em 2 pontos percentuais) o número dos que pensam que os imigrantes "desempenham os trabalhos que os espanhóis não querem fazer".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

De corpo ausente

Um cadáver enterrado e um torso anônimo sem cabeça, mãos ou pés encerram a busca pelos restos mortais de Rosa Luxemburg.

DORRIT HARAZIM

Há noventa anos é assim. Acontece todo segundo domingo de janeiro. Neste dia, dezenas, centenas, milhares ou dezenas de milhares de peregrinos da história se põem em marcha rumo a um ponto do Cemitério Central Friedrichsfeld, na Zona Leste de Berlim. O número de romeiros varia de acordo com o regime em vigor. Eles vão depositar cravos, sempre cravos e só vermelhos, junto a um imenso monolito de granito negro onde se lê a inscrição: Die Toten Mahnen Uns (os mortos nos advertem).
O cemitério conhecido como Memorial dos Socialistas foi fundado em fins do século xix e abriga, entre outros, os dois mortos mais célebres da luta de classes na Alemanha: Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, assassinados na mesma noite de 15 de janeiro de 1919 por milicianos de direita. Ambos tornaram-se mártires. A estatura de Rosa como ícone político, porém, ultrapassou com folga a do seu camarada de revolução. Nove décadas após sua morte, Rosa Luxemburg continua sendo citada em pesquisas de opinião na Alemanha como uma das mulheres mais respeitadas da história. A devoção de gerações de jovens a essa figura que Lênin chamou de águia se aparenta ao culto a Che Guevara.
Durante os anos de regime nazista, a romaria esteve proibida e os tributos clandestinos se limitavam a um ou outro cravo depositado na neve. Já no regime comunista instalado na parte oriental da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, o memorial foi transformado em palanque ideológico, com a participação compulsória das massas. Assim, durante o período soviético da antiga República Democrática da Alemanha (rda), a homenagem anual reunia uma maré humana. Eram dezenas de milhares os peregrinos oficiais. 
Hoje, a marcha ao cemitério continua sendo um retrato de época. Na procissão do dia 10 de janeiro passado havia comunistas e militantes do partido Die Linke, atual denominação da esquerda alemã; nostálgicos do maoísmo, turcos com cartazes de Stálin, separatistas bascos e grupos de ativistas curdos; havia até americanos em defesa da libertação de Mumia Abu-Jamal – nascido Wesley Cook, o ativista dos Panteras Negras condenado à morte e preso há quase trinta anos nos Estados Unidos. Uma das frases mais célebres da militante histórica, que ela escreveu na aurora do governo bolchevique, podia ser vista por toda parte: "A liberdade é, sempre e fundamentalmente, a liberdade de quem discorda de nós".
Mas houve uma novidade na manifestação de 2010. Ninguém mais acredita na possibilidade de algum dia ser possível garantir que Rosa Luxemburg, a cultuada teórica da revolução marxista, esteve, de fato, enterrada naquele cemitério. A dúvida durou noventa anos.
A ativista judia nascida na Polônia havia eletrizado o movimento operário alemão nos estertores da Primeira Guerra Mundial. Ao lado de Liebknecht, fundara o movimento Spartakusbund, de oposição à guerra, e criara o partido comunista em meio ao caos do império que acabara de ruir. Embora cética em relação à convocação de uma revolta contra a República de Weimar, pregada por Liebknecht, cerrou fileira e passou a constar como inimiga número 1 do governo. A insurreição de 1919 foi aniquilada em menos de uma semana. Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht foram capturados, torturados num hotel de Berlim e assassinados com tiros na cabeça dentro de um carro. O corpo de Liebknecht foi despachado como indigente para o necrotério. O da autora de A Acumulação do Capital foi jogado nas águas turvas do canal Landwehr, que atravessa o centro de Berlim.
É então que começa o mistério. Rosa Luxemburg era de baixa estatura e, devido a um problema de bacia, tinha uma perna mais curta. Algumas semanas após o assassinato de 15 de janeiro, um cadáver foi encontrado no canal e enterrado como sendo o da líder revolucionária. Só que no atestado de óbito consta uma observação intrigante, por rara: o corpo içado das águas tinha duas pernas do mesmo comprimento. A insólita referência seria uma mensagem cifrada de que aquele não era o corpo da mártir.
Dois meses depois, na madrugada de 1º de junho de 1919, policiais berlinenses retiraram outro corpo em decomposição de uma manilha do mesmo canal. Era um torso sem cabeça, mãos ou pés. Encaminhado ao departamento de anatomia do hospital universitário Charité, ele foi preservado em formol e cera e ficou exposto em vidro durante décadas para estudo dos alunos. Estaria ali até hoje não fosse o frisson provocado dois anos atrás pelo patologista Michael Tsokos, empossado pouco antes como novo diretor do departamento. A autópsia por ele ordenada revelou que a estrutura das pernas, a bacia e as dimensões do torso anônimo combinavam com o físico de Rosa Luxemburg.
Seguiram-se sete meses de frenética investigação científica. Amostras de uma costela, fígado, medula óssea e tíbia foram submetidas a exame de isótopos. Constataram-se variações na concentração de estrôncio e chumbo compatíveis com as condições ambientais existentes na cidade polonesa de Zamosc, onde Rosa nascera em 1871. Os índices de enxofre e nitrogênio no tecido ósseo não estavam em dissonância com os mais de três anos de prisão da militante durante a Primeira Guerra.
Mas nada poderia ser considerado conclusivo sem uma análise de material genético. A busca por uma parente distante na Polônia e uma mecha do cabelo de Rosa, supostamente guardada nos Estados Unidos por descendentes de um de seus amigos, revelaram-se pistas falsas. A prova verdadeira foi encontrada no deserto de Negev, em Israel, na figura de uma professora de engenharia da Universidade Ben Gurion. Irene Borde, de 79 anos, neta do irmão da líder socialista, enviou uma mecha de seu cabelo para análise na Alemanha.
Na última semana de dezembro de 2009, Michael Tsokos aposentou sua cruzada. "Há indícios de que o torso poderia ser o de Rosa Luxemburg, mas eles não são suficientes como prova conclusiva", assegurou o Ministério Público de Berlim, acrescentando que o torso anônimo seria finalmente encaminhado para enterro em local não divulgado.
Para os devotos de Rosa – a – Vermelha, a luta continua. A busca pelos restos.

Fonte: Revista Piauí – http://www.revistapiaui.com.br

Crianças rechonchudas

Drauzio Varella

Trata-se de epidemia mundial. Estima-se que, em 2050, a expectativa de vida nos EUA será até cinco anos menor

Excesso de peso causa problemas ortopédicos, reumatológicos e 
psicológicos ©Getty Images

Excesso de peso causa problemas ortopédicos, reumatológicos e psicológicos ©Getty Images

Enquanto 6 milhões de pessoas morrem de fome todos os anos, o mundo mergulha na obesidade. A Organização Mundial da Saúde calcula que existam 800 milhões de desnutridos, ante 1,3 bilhão com excesso de peso.
Nos últimos 15 anos, as taxas de obesidade dispararam no mundo inteiro. Mesmo em países da Ásia e da África que convivem com o flagelo da fome, parte significante da população engordou mais do que devia.

Os mexicanos constituem exemplo característico: em 1990, menos de 10% estavam acima do peso saudável; em 2006, cerca de 66% dos homens e 71% das mulheres apresentavam sobrepeso ou obesidade. Diabetes do tipo 2, enfermidade rara naquela época, hoje aflige 13% dos adultos.

No Egito, mais de 60% dos habitantes estão com excesso de peso. Na China, esse número saltou de 13% para cerca de 30% em pouco mais de uma década. No Brasil da Copa de 1970, havia menos de 20% de pessoas nessa condição. Hoje, beiramos 50%.

As crianças não foram poupadas pela epidemia. Pacotes de biscoitos e salgadinhos, refrigerantes à vontade e as horas sedentárias na frente da tevê e dos computadores tornaram-nas bem mais rechonchudas do que nas gerações anteriores.
Em editorial na revista The New England Journal of Medicine, David Ludwig, professor da Harvard Medical School, descreve as quatro fases da epidemia de obesidade pediátrica.

A fase 1 começou nos anos 1970 na América do Norte e se disseminou pelos quatro cantos. O peso médio das crianças aumentou paralelamente ao dos adultos tanto na cidade como no campo, em todas as regiões e grupos étnicos. Uma em cada três crianças americanas apresenta sobrepeso ou obesidade, proporção que chega a um para dois nas negras e nas latino-americanas.

Nessa fase, o impacto sobre a saúde pública é pequeno, porque crianças obesas permanecem relativamente saudáveis por muitos anos.

A fase 2, na qual acabamos de entrar, é caracterizada pela emergência de problemas mais graves. A incidência de diabetes do tipo 2, enfermidade que acometia apenas adultos, aumentou dez vezes entre os adolescentes americanos. Esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado), ausente da literatura pediátrica antes de 1980, hoje ocorre em uma de cada três crianças obesas.

Excesso de peso é causa de problemas ortopédicos, reumatológicos e psicológicos: crianças obesas tendem a desenvolver ansiedade, distúrbios alimentares, depressão e a isolar-se socialmente.

Daqui a alguns anos, entraremos na fase 3, na qual surgirão as doenças cardiovasculares e metabólicas que colocarão a vida em perigo.

Estudos canadenses sugerem que adolescentes obesos, com diabetes do tipo 2, correrão mais risco de sofrer amputação de membros, transplante de rim e morte prematura. Parte significante dos que apresentam esteatose hepática evoluirá para cirrose.
David Ludwig estima que, em 2050, a obesidade pediátrica terá encurtado em dois a cinco anos a expectativa de vida nos Estados Unidos – efeito igual ao de todos os casos de câncer combinados.

Na ausência de intervenções eficazes, entraremos na fase 4, caracterizada pelo aumento da velocidade de disseminação da epidemia.

Acumular excesso de gordura nas fases iniciais da vida pode provocar alterações metabólicas irreversíveis no equilíbrio hormonal, nas células adiposas e nos circuitos que controlam a fome e a saciedade. Adultos obesos têm maior probabilidade de ter filhos gordos, por causa de influências não genéticas, fenômeno conhecido como programação perinatal. É o caso das mulheres que apresentam hiperglicemia na gravidez: seus filhos costumam chegar aos 6 ou 7 anos com excesso de peso.
O autor termina com uma série de indagações. Por que as crianças devem ser bombardeadas com comerciais de junk food? Por que são submetidas às tentações das lanchonetes escolares? Por que não lhes é oferecida a oportunidade diária de exercitar o corpo na escola?

Fonte: Carta Capital – http://www.cartacapital.com.br/