Daily Archives: 15/03/2010

Toscana volta-se contra imigrantes chineses

Guy Dinmore

Com a sua indústria têxtil em declínio, a cidade de Prato hostiliza as “sweatshops”

Quando a polícia, os bombeiros e inspetores italianos bateram à porta da fábrica, lançando a mais recente operação contra as sweatshops (fábricas que pagam baixos salários e submetem os trabalhadores, geralmente imigrantes, a condições precárias) que empregam chineses ilegais em Prato, a maioria dos trabalhadores atônitos que vivem em cubículos úmidos e sem janelas ainda estava de pijamas.

Reuters - 06.set.2005

Operárias chinesas em fábrica de tecidos em Panjin, na Província de Liaoning, nordeste da China. Principal produto de exportação do país, as fábricas de itens texteis se espalharam pelo mundo e começam a causar polêmica em Toscana, na Itália

Em algumas horas, quatro outras fábricas de roupas na Rua Lazzeretto foram fechadas e várias máquinas de costura confiscadas. Dois imigrantes ilegais foram detidos e as dezenas de trabalhadores restantes receberam a ordem de sair.

Após passar anos tolerando e também se beneficiando das levas de imigrantes ilegais que criaram a maior concentração de fábricas movidas por chineses na Europa, o povo desta antiga cidade da Toscana decidiu dar um basta à situação.

“Isso foi a gota d’água. A cidade não pode continuar deste jeito”, declarou Riccardo Marini, presidente da associação de donos de indústrias de Prato. “Os chineses podem respeitar as leis na França e no Reino Unido, mas aqui eles não respeitam porque um sistema formado por políticos e empresários permite que façam isso. A coisa fugiu ao controle”.

Tendo votado na esquerda durante 63 anos, Prato adotou a centro-direita e a xenófoba Liga Norte nas eleições municipais de junho do ano passado.

Roberto Cenni, o novo prefeito que é também um empresário do setor de tecidos e vestuários, denuncia as “condições escravistas” a que são submetidos os trabalhadores chineses que ganham baixos salários. Apoiada por Roberto Maroni, o ministro do Interior de linha dura que é membro da Liga Norte, no mês passado a polícia deu início a uma onda de repressão contra as fábricas ilegais. Helicópteros sobrevoaram a área para enfatizar a mensagem.

Segundo os jornais, ao ver a sua comunidade em estado de choque, o cônsul-geral da China na vizinha Florença comparou as ações da polícia àquelas das SS nazistas.

Reuters - 06.set.2005

Mulher trabalha na produção de uma fábrica de têxteis, em Huaibei, na Província de Anhui (China). Fabricantes chineses na Toscana são acusados de trabalho escravo e concorrência desleal na Itália

Orgulhoso da sua história secular no setor de têxteis, mas com a sua indústria em declínio, Prato se considera uma vítima das fronteiras abertas e da globalização descontrolada.

Marini recorda-se do primeiro grupo de 38 chineses chegando em 1989 para trabalhar em fábricas têxteis. Agora calcula-se que eles cheguem a 40 mil indivíduos, muitos deles ilegais. Um terço dos 180 moradores da cidade não é italiano, comparado a uma média nacional de 6% de moradores estrangeiros.

Enquanto a indústria têxtil de Prato perdia empregos – incapaz de competir com as roupas baratas fabricadas na China –, a comunidade chinesa em Prato usava as suas habilidades adquiridas para criar um nicho separado, produzindo a pronto moda, ou moda rápida.
Se há alguns anos muitos chineses entravam na Itália ilegalmente, agora eles simplesmente chegam ao aeroporto de Frankfurt com vistos de turista de três meses, mas não retornam ao seu país de origem. A maioria dos imigrantes de Prato é proveniente de uma única cidade chinesa – a litorânea Wenzhou, na província de Zhejiang, um enclave que tem uma história de empreendedores dispostos a atravessar o oceano.
Fora dos muros da cidade, Via Pistoiese transformou-se em uma Chinatown de Wenzhou, com restaurantes, clubes noturnos (que barram indivíduos que não sejam de etnia chinesa) e supermercados fornidos de mercadorias chinesas.

Silvia Pieraccini, uma jornalista local e autora do livro “O Cerco Chinês”, diz que a chave para o sucesso chinês é dupla. A velocidade vem primeiro. Uma fábrica na China necessita de dois meses para replicar a mais recente moda vinda de Milão e inserir produtos baratos no mercado europeu. Em Prato, este processo demora apenas duas semanas e os produtos vêm com o rótulo “Made in Italy”.
Segundo, os chineses dominaram toda a cadeia de produção. Eles importam roupas chinesas baratas, e depois as tingem e estampam. Botões, zíperes e ornamentos são fabricados na região. Os produtos acabados são vendidos para compradores de toda a Europa que frequentam as lojas de atacado.

O preço mínimo de uma camisa feminina simples de algodão é 1.70 euro (US$ 2,30, 1,50 libra esterlina, R$ 4,31). Trabalhando à plena capacidade, as cerca de 3.500 fábricas chinesas em Prato são capazes de produzir um milhão de peças por dia. Os chineses aproveitam o conhecimento criativo italiano de design, marketing e contabilidade.

Mas a mistura de recessão e repressão está conspirando contra aquelas fábricas chinesas ilegais que não pagam impostos, taxas sindicais ou serviços municipais. Mas não se sabe o que ocorrerá a seguir.

O prefeito – cuja rede de vestuários Sasch produz e vende na China – quer que os fabricantes chineses em Prato usem os próprios tecidos de alta qualidade da cidade em vez de importarem roupas e até revenderem-nas para a China.
Não se sabe se os patrões chineses legalizarão os seus negócios e, consequentemente, tornar-se-ão menos competitivos, ou se deslocarão as suas unidade produtivas para outro lugar.

Para a polícia, uma grande frustração consiste no fato de ela não poder deportar imigrantes ilegais que não possuem documentos, porque a China recusa-se a recebê-los de volta. Somente dois foram deportados no ano passado. “Nós estamos lidando com uma China sem fronteiras”, diz Marini.

Na China esta repressão praticamente não é noticiada, e a mídia estatal foi instruída a não ir a Prato. Sun Yuxi, embaixador da China em Roma, enfatiza a contribuição chinesa para a “riqueza” de Prato, insistindo que apenas uma pequena minoria dos trabalhadores é ilegal.
Desolado, e vestindo um pijama, enquanto a polícia invade a sweatshop, Lola, uma trabalhadora de 23 anos, diz que a recessão é tão grave que desde outubro eles praticamente não trabalham. Ela gostaria de voltar para casa, mas não gostaria de retornar à China de mãos vazias.

Mundo material

A população de Prato é de cerca de 180 mil habitantes, dos quais um terço é imigrante (comparado à média nacional de 6% de moradores estrangeiros).

Cerca de 35 mil a 40 mil chineses vivem em Prato, e 80% deles vêm de uma única cidade chinesa – Wenzhou, na província de Zhejiang.
23% dos alunos das escolas da cidade não são italianos.

As transferências monetárias para o exterior, em sua maioria para a China, são de cerca de 500 milhões de euros (R$ 1,3 bilhão). Em 2006, estas transferências chegaram a 50 milhões de euros (R$ 130 milhões).

O setor têxtil italiano perdeu quase 11 mil empregos desde 2000. Ele emprega atualmente 20.200 pessoas, em sua maioria italianos.
A produção têxtil caiu de quatro bilhões de euros (US$ 5,5 bilhões, 3,5 bilhões de libras esterlinas, R$ 10,3 bilhões) em 2000 para cerca de 2,7 bilhões de euros (R$ 6,9 bilhões) em 2009. A maioria das peças é exportada com o rótulo “Made in Italy”.

Cerca de 4.200 companhias chinesas estão registradas em Prato, das quais 75% são fábricas de roupas que produzem até um milhão de peças por dia.

No ano passado houve um aumento de 13% do número de companhias registradas.

Neste ritmo, costuma-se dizer que os fabricantes de roupas chineses em Prato poderiam vestir toda a população mundial em 20 anos.

Tradução: UOL

Fonte: Financial Times – http://noticias.uol.com.br/

Ninguém estará seguro

Henrique Bellinati Robert Pires

Palestina

Desde sua origem, Israel esteve mergulhado na guerra. A guerra é uma constante tão grande naquele paí­s que boa parte dos cidadãos já não acredita na possibilidade de haver paz na região, opinião também compartilhada por boa parte dos palestinos. Mas até que ponto essa guerra é inevitável? Até que ponto Israel está apenas fazendo o necessário para garantir sua segurança? Até que ponto a continuação desse conflito não é culpa da nação israelense?

Em seu esforço para manter a ocupação militar na Palestina, o exército israelense se tornou parte do problema, pois suas iniciativas se tornaram mecanismos para humilhar e atormentar os palestinos, o que serve apenas para aumentar o ódio e a desconfiança que nutrem esse longo ciclo de violência.

O preço pago pelos palestinos nos checkpoints e nos toques de recolher impostos às vilas e cidades não garante a segurança dos israelenses. Os checkpoints, criados sob o pretexto de controlar a entrada de potenciais terroristas palestinos em Israel, revelaram-se apenas uma ferramenta de abusos e humilhações constantes, terreno fértil para que soldados e policiais possam fazer jogos psicológicos. Isso inclui abrir os portões de acesso aos terminais de checagem aleatoriamente e depois fechá-los por tempo indeterminado, de forma que os palestinos que esperam do lado de fora nunca saibam em qual fila devem entrar, qual vai andar ou não.

Nos chamados portões humanitários, designados para permitir a passagem de mulheres, crianças, idosos e deficientes, a demora para fazê-los funcionar causa filas tão imensas que muitas das pessoas que têm direito a passar por ali preferem arriscar ser prensadas nas longas filas regulares.

Mas, pelo menos, isso garante a segurança de Israel, certo? Errado. Por apenas dez shekels (o equivalente a R$ 5,00), qualquer um, palestino ou estrangeiro, pode pegar um ônibus na porta do terminal e em 15 minutos passar por um terminal alternativo para veí­culos, em que, ao invés de enfrentar toda a humilhação de ter de praticamente se despir para passar pelos detectores de metal, tirar impressões digitais e tudo mais, apenas senta-se no ônibus e mostra sua permissão de passagem através do vidro.

Os checkpoints são o resultado natural de outra polí­tica de "segurança", ainda mais inconsistente: a muralha de separação. Ela começou a ser construí­da em 2002 com a alegação oficial de que seria uma resposta à segunda Intifada, cujo propósito seria separar fisicamente israelenses e palestinos e impedir a entrada de homens-bomba dentro do território israelense. Porém, essa justificativa nunca se manteve, pois em muitos locais ela não apenas foi construí­da dentro do território palestino (aproximadamente 10% da Cisjordânia está dentro da área da barreira), como também em várias áreas densamente povoadas (particularmente Jerusalém Oriental), a barreira corta ao meio comunidades palestinas.

Em Jerusalém Oriental, a barreira expulsou palestinos com direito de residência na cidade. Isso porque, pela lei israelense, se um palestino não puder provar que o centro de sua vida está em Jerusalém, depois de três anos, perde o direito de residir no local. A intenção dessa política é diminuir a população palestina na região. No entanto, permite-se que vivam na parte interna da muralha comunidades palestinas que outrora não faziam parte de Jerusalém. Ou seja, a barreira acaba abrigando pessoas que, pela lei israelense, seriam "potenciais terroristas".

A Intifada e seus atentados suicidas não acabaram após a construção da muralha, mas sim devido ao medo dos palestinos da brutal retaliação do exército israelense. Essas retaliações causaram o colapso da economia palestina e uma série tão insuportável de restrições à  vida cotidiana que levaram toda uma população ao limite do desespero e do ódio.

Efetivamente, as atuais políticas empregadas por Israel serviram apenas para aumentar o rancor entre os palestinos, dificultar ainda mais as já tão frágeis possibilidades de um acordo de paz e alimentar a insegurança do Estado de Israel.

Henrique Bellinati Robert Pires é formado em História pela Universidade de São Paulo e foi o primeiro latino-americano a participar do Programa de Acompanhantes Ecumênicos para a Palestina-Israel.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

De onde é que vem… Rajendra Pachauri?

Ele cresceu em meio à natureza do lado indiano da cordilheira do Himalaia. Agora, o economista e engenheiro luta pela preservação do planeta como presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

Rajendra Pachauri é a consciência da política climática da comunidade mundial

Revista Geo

Uma noite nas montanhas do lado indiano do Himalaia. A família Pachauri está reunida em um albergue, e ouve o cantar descontraído dos sherpas, sentados lá fora, ao redor de uma fogueira.

De repente, a cantoria fica mais baixa e apreensiva. "Fomos verificar o que se passava", conta Rajendra Pachauri. No lusco-fusco, não muito longe do fogo, um tigre, agachado no chão, espreitava a todos. O jovem Rajendra só consegue vislumbrá-lo brevemente, antes de o animal virar-se e sumir.

"Foi um momento assustador e, ao mesmo tempo, fascinante", recorda. Um instante que o despertou de modo especial para as surpresas da natureza.

No horizonte da região central do Himalaia: Pachauri cresceu diante deste cenário

A família viajava com frequência, a pé e a cavalo, quando o pai, um inspetor estatal, precisava verificar o funcionamento de alguma escola nas aldeias himalaicas. "Nós cheirávamos e escutávamos os tigres na floresta. Mas eles nunca atacaram, porque sempre viajávamos em grupo".

Pachauri cresceu no Vale Naini, no atual estado indiano de Uttarkhand, um lugar cercado por elevações de 2.500 m de altura, com íngremes flancos cobertos por densas matas, e um lago de águas cristalinas no sopé das montanhas. Quando criança, ele amava a vastidão que podia descortinar do cume do Monte Naina: "Eu via a cordilheira do Himalaia coberta de neve. Sublime!" Nas montanhas e em seu quarto, ele escreve poesias: textos românticos e descrições dos cenários naturais. Seu desejo é tornar-se poeta; experimentar "a grande libertação" que a composição lírica representa para ele até hoje.

CARREIRA
Nasceu em 20.8.1940,
no Vale Naini (Índia) 1959-1971 Estuda Construção de Máquinas e faz carreira no setor ferroviário

1971-1975 Universidade da Carolina do Norte (EUA): estudos, doutorados (Engenharia Econômica e Economia), designado professor-assistente

1971-1975 Universidade da Carolina do Norte (EUA): estudos, doutorados (Engenharia Econômica e Economia), designado professor-assistente

1982 Diretor do Instituto TERI, em Nova Deli

2002 Eleito presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, é laureado, em 2007, com o Prêmio Nobel da Paz

Pachauri funda uma filial de seu Instituto no Vale Naini, sua Terra Natal

Mas seu professor de Matemática, Arthur Flynn, lhe aponta outro caminho: Pachauri, um estudante exemplar, estimulado por mãe ambiciosa, é um talento para os cálculos. Flynn lhe passa tarefas extras. Seu aluno estuda a construção de máquinas na Escola Ferroviária, em Jamalpur, e conclui o curso como melhor da classe. Aos 27 anos, Rajendra é engenheiro-chefe da fábrica de locomotivas a diesel, em Varanasi. Mas sua sede de saber o leva mais longe: ao curso de Engenharia Econômica da Universidade da Carolina do Norte (EUA), onde faz o doutorado, sem ficar satisfeito. Ele faz mais um doutorado, desta vez em Economia. Pachauri se concentra em Política Energética, e nota o desperdício de recursos.

Ele quer criar um movimento em sua Terra Natal. Em 1975, o jovem cientista retorna, em companhia da esposa, para a Faculdade de Administração de Empresas, em Hyderabad, onde forma um grupo de pesquisas energéticas. Em 1982, ele se torna diretor do Instituto TERI (O Instituto para Energia e Recursos), de Nova Deli.

Contudo Pachauri também mandou construir um gabinete de seu instituto no Vale Naini. "Fico lá sempre que posso", confessa o workaholic (viciado em trabalho). Ele dispõe de pouco tempo para elas, mas as montanhas o chamam.

Fonte: Revista GEO – http://revistageo.uol.com.br/

Diego Velázquez e os tempos barrocos

Pintor exemplar da corte espanhola do século XVII, nascido em Sevilha no ano de 1599, Velázquez foi um dos maiores artistas de todos os tempos. Ainda que rodeado pelos fidalgos cortesãos, não deixou de inspirar-se em figuras populares para compor suas magníficas telas que se tornaram representação viva da sociedade castelhana daquele tempo. Nisso ele antecipou Goya.

Voltaire Schilling

Pintura realista

Velázquez, auto-retrato

Quando o escândalo proporcionado por urna tela de Caravaggio alastrou-se pelas cortes monárquicas e eclesiásticas da Itália, por volta de 1600, Velázquez mal completava um ano de idade, Rembrandt, o gênio holandês, nasceria seis anos após. E, um ano depois, em 1607, na França, nasceria Luiz XIII. O estilo Maneirista dá lugar ao movimento subterraneamente desencadeado pela Renascença, ou melhor seu conseqüente, o Barroco. A violência lírica de Caravaggio é a moda na Itália: o "pintor maldito", "dos pés sujos", e outros pejorativos, impõem-se frente ao público mais refinado.

A alta cultura, de preferência a clássica – fator fundamental para os artistas renascentistas – deixa de ter a importância anterior. São imagens de homens do povo quem, doravante, ao longo do Barroco, irão tomar lugar nas cortes européias. Os gostos burgueses e outros de forte inspiração popular, despertados nos séculos XV e XVI, fazem-se presentes de forma irreversível. É o gosto pela morbidez, que hoje enche páginas e mais páginas dos jornais, que faz com que Caravaggio pinte uma mulher afogada, usando-a como modelo da Virgem.

A busca por temas populares se multiplica, os personagens santos são cada vez mais modelos tirados da plebe, extraídos da gente comum. A pintura religiosa perde o ar aristocrático que tinha na Renascença. Numa Cristandade dividida entre católicos e protestantes, cada facção religiosa tratava de ampliar ainda mais o apoio das massas. Note-se neste esforço a intenção propagandista da Igreja Católica, aturdida pela Reforma Luterana.

Preparando-se para as batalhas

A divindade aparece aos ferreiros

Inácio de Loyola, um soldado que aderira aos rigores mais extremos da fé, organiza um exercito de monges. Uniformizados com a roupa negra, disciplinados como se fossem cavaleiros templários, os jesuítas põem-se a campo na luta contra a heresia difundida por Lutero desde a Alemanha. A Europa era, para ele, o primeiro campo de batalha a ser vencido. Não podendo mais recuperar as áreas perdidas, irremediavelmente protestantes, aferra-se em solidificar o que restou, isto e, a Itália e a Espanha e a França.

A dualidade da política do papado manifesta-se de forma ambígua. Permite apelos aos plebeus, mas na sua essência continua fundamentalmente aristocrática. As correntes da estética naturalista vindas do Renascimento e mesmo do Gótico, afloram aqui e ali, enquanto o passional, a emoção, pede em altos brados sua participação nas belas artes dos tempos barrocos.

Se os santos são figuras populares, porque não utilizar esses mesmos modelos em suas atividades triviais? Então surgem nas telas ferreiros em suas tarefas cotidianas surpreendidos pela presença súbita de uma divindade qualquer, um menino trazendo nas mãos uma garrafa e uma abóbora enquanto a sua mãe frita ovos, moleques tentam subir numa árvore. O realismo de Velázquez faz sua fama.

Conciliando o povo com os fidalgos

Diego Velázquez, o grande artista da corte, é o elemento unificador desta nova mentalidade conciliadora que visa aproximar gente comum dos fidalgos, todos eles filhos de Deus, intercalando aspectos plebeus para atender sua freguesia burguesa e aspectos cortesãos para seu mecenas, Felipe IV.

Ele apresentou-se no palácio real em 1622, no tempo do regime do Conde-Duque de Olivares, vindo de Sevilha, precedido pela fama de homem talentoso. Veio para substituir Rodrigo de Villandrando, até então o artista favorito do rei Felipe III, pai do novo príncipe que logo se entusiasmou com o recém-chegado.

O pintor flamengo Brueghel, anterior ao sevilhano, já chamara atenção para o aspecto patético dos aleijões, dos mendigos, dos deserdados da terra que povoavam os quadros dele. Velázquez os promoveu da rua para dentro da corte. Os anões dele são figuras humanas, respeitáveis, não simples bobos da corte.

O dualismo dos seus retratados é marcante. Os anões dele, imitando seus senhores, são retratados com a impassibilidade aristocrática, modo que se tornara corrente entre a corte de Luiz XIV, mostrando que apesar de bufões, possuem um notável censo da posição que ocupam na corte.

Dois anos apos a morte de Shakespeare, em 1618, inicia-se a tragédia do século – a Guerra dos Trinta Anos – que engolfou toda a Europa. País por país, todos mergulham no sangrento conflito. Os camponeses, com suas choupas queimadas e vilas saqueadas pela soldadesca lansquenete, padecem de fome pelas estradas, exércitos se multiplicam vindo de todos os lados.

Os suecos de Gustavo Adolfo são vistos como os novos hunos. A pilhagem da população civil que atinge as raias da perfeição pela tropa mercenária. A terra arrasada do inimigo tornou-se um principio militar: mata-se pelas armas e pela fome. Quantos padeceram ao longo da Guerra dos Trinta Anos? Questão sem resposta. Só existem estimativas, e elas indicam que a Alemanha perdeu 1/3 da sua população.

Os fundos reais e eclesiásticos desviam-se das mãos dos artistas para a dos mercenários: a arte sofre com isso. Finalmente o Tratado de Paz de Westfália, de 1648, põe um termo não conflito A estrela da coroa da França passa a brilhar no cenário europeu. O reino dos Luíses foi o que menos padeceu com as terríveis agruras daquela longa guerra.

Racine, ao término do conflito, está com 9 anos de idade. Pelos planos paternos iria tornar-se um padre. Para tanto, enviaram-no para o seminário de Port-Royal, onde terá como tutor Antoine Lemaistre. Lá, na modesta cela, devorou romances tidos como proibidos: Sófocles, Eurípides, Homero, Ovídio, são seus preferidos. Os autores franceses da época de Luís XIV pretendem ser os novos clássicos; os lídimos substitutos dos gregos e dos romanos. Não é por nada que nas peças do jovem Jean Racine, não existam personagens francesas.

Os Orestes, as Andrômacas, os Pirros, os Hermíones, se multiplicam em cena. A França pretende ser a nova Grécia, Paris a nova Atenas, e Luiz XIV um Péricles coroado. O arquiteto e escultor Bernini, o predileto do papado, ao visitar a França, é recebido com uma atenção que rivaliza com a prestada dos grandes príncipes. Dá palpites para a construção do Louvre. Incorre na antipatia dos artistas franceses, despertando-lhes ciúme.

A "máquina perfeita" construída por Luis XIV, o aparelhamento palaciano-burocrático que servia ao absolutismo, chega à sua forma mais perfeita, para desespero das classes fundiárias e para enlevamento da burguesia citadina e do povo miúdo em geral que tinham orgulho em ser governado como um rei daqueles.

A arte em geral, até então oscilante entre os padrões de gosto ora aristocrático, ora burguês, passa a para influência exclusiva do Estado. Cai na órbita da corte, diretamente subvencionada por Luis XIV.

O protocolo cortesão tornou-se uma peça política importante, seu rigor e exigência hierárquica disciplinavam a nobreza ao mesmo tempo em que a humilha. Assistir ao despertar do rei seguido do seu desjejum é cena disputada entre os freqüentadores dos requintes de Versalhes.

Dorante, um nobre espertalhão – personagem da peça O burguês fidalgo, de Molière – consegue facilmente arrancar um empréstimo de 200 luíses do crédulo senhor Jourdain, um novo-rico com aspirações aristocráticas, simplesmente dizendo que freqüentava "o quarto do rei", prometendo-lhe por igual levar-lhe a família para assistir na corte "um bailado e uma comédia".

A insubordinação aos códigos de convívio é inaceitável. A rigidez do controle social é o mais rigoroso das monarquias européias. Na corte de Luís XIV cada aristocrata possui o seu lugar conforme sua posição e seu destaque. Se infringir as regras, cai em reprovação do Rei, o que significa desgraça social. O sistema paternalístico de Luis XIV trata a nobreza como "enfants terribles" ou crianças travessas, punindo-a, exilando-a, colocando-a em ostracismo ou mimando-a.

Mundanismo e filosofia

A infanta e suas amas da corte

As tavernas da moda, "A la pomme de Pin" e "Au mouton-Blanc", estão repletas de gente. O mundo mundano e artístico se faz nelas presente, uma graça ímpar em toda Europa. Molière, ator de sucesso, é o mais novo teatrólogo; Boileau, o primeiro critico literário; La Fontaine, famosíssimo fabulista, juntamente com o autor dramático Jean Racine, brilham nos saraus da corte e nas festas mundanas. Todos se conhecem, Paris é ainda pequena. O libertino, homem pouco afeito aos padrões morais vigentes, torna-se uma figura dos salões onde se cultiva o espírito e belo dito. É um precursor dos livre-pensadores da época do Iluminismo.

O discurso do método é publicado na Holanda em 1637. Descartes, auto-exilado, havia procurado as terras protestantes para exercer melhor o pensamento. Cinco anos antes, Spinoza nascera em Amsterdã e inicia sua longa caminhada em favor do livre pensar, lutando simultaneamente contra sua origem judaica ortodoxa e o meio ambiente protestante de viés calvinista.

Na França, a Académie Royale de Peinture et Esculture, fundada dez anos após o nascimento de Luis XIV, torna-se em 1665, subsidiária do Estado. Colbert o mais célebre ministro do "Grand Siecle" a coloca entre suas subvencionárias.

O todo-poderoso Senhor Colbert, estendendo sua mão poderosa e generosa, concede uma bolsa a Jean Racine, esse em retribuição compõe A Fama das Musas e é recebido por Luis XIV. É a consagração. Tudo gira não redor do "roi soleil" que realmente não sabe avaliar o valor artístico daqueles que protege.

A Espanha da época

A rendição de Breda, ou As Lanças

Nas cortes espanholas, é Felipe IV, um medíocre, quem sucede uma longa fila de reis brilhantes, encabeçada pelo imperador Carlos V e por Felipe II. A Espanha encontra-se já em decadência. O ouro e a prata, trazidos pelos galeões espanhóis após as conquistas feitas por Cortés e Pizarro nas Américas, ale de gerar uma grande inflação dos preços, espalhou-se pela Europa em desperdícios inúteis. O Império de Carlos V, onde "o Sol nunca se punha", virara numa lenda. As tentativas de conquista da Inglaterra, ou pelo menos as tentativas de alijá-las do mercado internacional, haviam sido inúteis.

A Inglaterra e a Holanda solidificavam suas posições como soberanas dos oceanos, após uma série de batalhas navais bem sucedidas. A Revolução Puritana nas Ilhas Britânicas (1642-1649), destronara e decapitara Carlos I. A nova ordem republicana foi imposta ditatorialmente. O puritano Cromwell assumia o controle completo do país dotando-o de forte poder marítimo.

Felipe IV, então com 23 anos, jovem empoado e sem expressão política, assiste ao pintor que compõe Los borrachos. O realismo quase que fotográfico de Velázquez é a moda. O pintor, agora com 29 anos, chega à fama. O rei é o seu principal cliente, dotando-o com pensão e uma sortida biblioteca.

O apogeu do pintor

Los borrachos

Com Velázquez opera-se a fusão entre o caravaggismo com o ticianismo, as duas poderosas correntes do barroco italiano transplantado para a península Ibérica. A produção dele se multiplica. A liberdade do artista, que estando a serviço do rei escapa da censura e das exigências eclesiásticas, enseja a produção de obras-primas. O paroxismo está formado. Era preciso estar a serviço do poder para ter-se liberdade criativa. A rendição de Breda, ato de rendição da cidade holandesa frente aos fidalgos de Espanha, é um fantasma das glórias passadas da corte do Escorial.

Tal como Cervantes intuíra, a decadência da cavalaria implicava por igual na decadência espanhola e do seu poder sobre o mundo de então. O status dele como cortesão é tal que comete a ousadia de retratar-se juntamente com o rei e figuras secundárias (tela As meninas). O claro-escuro inicial dele, determinado pelo caráter populista de suas primeiras pinturas (Mulher fritando ovos, O vendedor de água de Sevilha, O triunfo de Baco ou Los borrachos, A fagulha de vulcano, Cristo atado à coluna), vai gradativamente se alterando, a influência da vida na corte é imperiosa. Os temas ditos fidalgos (Retrato da senhora com leque As meninas, A infanta Margarida, Vênus no espelho, etc.) não seguem a mesma linha.

A luz, antes tão bem utilizada para destacar as expressões da plebe, possui agora outra utilidade. Os modelos são gente que freqüenta a corte, senhoras, damas, áulicos, infantas, altos eclesiásticos, os quais devem obrigatoriamente possuir traços físicos refinados mesmo se a natureza lhes foi cruel. É o caso de Inocêncio X, tela na qual, não podendo evitar o físico grotesco do Papa, apela para seu quase esquecido claro-escuro, ressuscitando-o de forma magistral, fazendo com que o espectador esqueça a feiúra do pontífice.

Retratou magistralmente a diversidade das expressões sociais: de um lado, as manifestações expressivas das figuras da plebe flagradas rindo ou concentradas em seu esforço diário. Do outro, os personagens palacianos, gravemente cientes da sua importância. Gente que posa estática, contida nos seus sentimentos, como manda o rigor de ser fidalgo. Mas, podemos igualmente observar nessas figuras empoladas da corte, um ar de estupidez, de parasitismo e de enfado, contrastando violentamente com o dinamismo das figuras populares.

O grande pintor faleceu aos 60 anos de idade no dia 6 de agosto de 1660, oito anos antes de Rembrandt, seu contemporâneo, consagrado por todos. Um dos mais festejados artistas espanhóis de todos os tempos.

Fonte: Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

Identidade Latino-Americana

Identidade Latino – Americana: pensadores do século XIX

Camila Rodrigues

Identidade é uma palavra que traz no seu próprio sentido a marca do caráter complexo das questões que discute, uma vez que pode significar tanto a qualidade do idêntico e do comum, como o conjunto de caráter próprios e exclusivos. Daí concluirmos que esta construção simbólica que supõe tão vivamente a adesão de sentimentos constrói-se, invariavelmente, em relação a um "outro". Assim, a identificação pode surgir de fora para
dentro, ou seja, a partir do outro; ou de dentro para fora, ou seja, em relação ao outro.
No caso da América Latina as identidades construídas a partir do outro são inúmeras, a começar pelo próprio termo "América Latina" que nada mais é que uma criação de Luís Bonaparte para designar o território que pretendia conquistar, ou seja, era o olhar do dominador concebendo uma identidade totalmente alheia ao povo que constituía essas sociedades.
Nem sempre as construções identitárias latinas americanas feitas a partir de uma visão de fora têm como objetivo impor uma visão de dominação ou de inferioridade, um exemplo é a obra do pesquisador de história natural Alexandre von Humboldt que olha para o "Novo Mundo" de forma até deslumbrada.
Aqui, interessa-nos discutir as visões dos latino-americanos que, ao olhar para o "outro", para o externo, o fizeram tentando descobrir quem eram eles mesmos. Muitos são os textos que discutem essas questões. Irlemar Chiampi, no livro "O Realismo Maravilhoso" introduz a sua análise da literatura real-fantástica com uma reflexão sobre a posição central das discussões sobre identidade no pensamento latino americano. Para ela, o desejo identificador atua como uma força propulsora da cultura latino-americana, a qual estaria sempre pensando a si mesma.
Laura de Mello e Souza no primeiro artigo do seu livro "Inferno Atlântico", denominado "América Diabólica", coloca que o europeu que chegou à América e que a colonizou e que escreveu as primeiras crônicas sobre o novo Mundo, o fez a partir de uma mentalidade barroca, ou seja, concebia o mundo de forma bipolarizada e maniqueísta: Se Europa e suas
instituições eram, para ele, a representação do bem, a América passava imediatamente para a posição do mal, e daí ser identificada com os símbolos da alteridade na Europa : o demônio e as bruxas e feiticeiras.
Assim, ao construir uma imagem depreciativa da América, o Europeu exaltava a posição da Europa como local onde prevalecia o bem e a lei de Deus, numa dupla construção identitária.
É preciso não esquecer, no entanto, que os textos sobre identidade produzidos na América Latina no século XIX, trazem como herança essa construção identitária colonial cheia de juízos de valor e de considerações negativas, e com ela dialogam, mesmo que seja para negá-la.
Assim, defendemos que Simon Bolívar, Domingo Sarmiento e José Martí, os três principais articuladores dos processos de independência e de pós-independência, partem dos discursos coloniais para edificar a identidade entre os Estados latino-americanos. Bolívar deixa de ser mais um representante da elite criolla para ser visto como o mito do Libertdor justamente porque seu discurso soube utilizar o passado colonial como um fator legitimador da idéia de União latino-americana. A América latina bolivariana, à época da "Carta da Jamaica", é aquela que precisa da união: "já que tem uma só origem, uma só língua, mesmos costumes e uma só religião, devendo, por conseguinte ter um só governo que confederasse os diferentes Estados que haverão de se formar."
Então, será rompendo com as origens coloniais, sejam elas os laços políticos efetivados nas independências ou os laços culturais que estão na base da própria idéia de identidade, que será possível à América Espanhola distinguir-se da Espanha pela força adquirida em século de experiência colonial, onde o latino americano surge como um contraponto tanto do índio
como do espanhol e é, salvo particularidades, um tipo único que detém tanto a herança nativa quanto a espanhola – não sendo inteiramente nativo nem espanhol e sendo capaz, então, de caminhar som seus próprios pés, reforçando o caráter da união continental como responsável pela formação do governo livre.
Na "Carta ao general Juan José Flores", posterior ao Congresso do Panamá, lemos um Bolívar descrente, em total contraponto com o da primeira carta: aqui a idéia de união é vista como uma utopia do passado, onde ele serviu a uma revolução, o que nas suas palavras corresponde a "arar no mar".
Desta feita a identidade é construída num sentido bastante depreciador – que é o da "América ingovernável" – e o discurso do passado colonial é retomado quase que em sua forma original, no sentido de identificar os americanos pelo caráter negativo : esta América não unida não serve nem de reconquista aos europeus.
Se para Bolívar a origem colonial tem, por si mesma, o papel legitimador da idéia de União sem a qual a América é um projeto fadado ao fracasso, Sarmiento lerá esse mesmo passado de forma diferente : a mentalidade maniqueísta presente nas fundações barrocas das identidades latino-americanas influencia claramente o seu discurso, o qual é marcado
pela dualida e entre a civilização e a barbárie, representativas do Bem em oposição ao Mal, idéia tão presente no imaginário latino americano. O que Sarmiento propõe, e isso fica bastante claro em "Facundo – Civilização e Barbárie", é que os argentinos afastem a barbárie, entendida tanto como os espanhóis atrasados, quanto os nativos – e promovam a civilização . Aqui, afastamento significa, inclusive, uma negação da experiência adquirida em comunhão com esses grupos, através da construção de um presente diferenciador e de um futuro civilizado que, por si, tenha o poder de contrapor-se esmagadoramente à herança da barbárie. Na verdade a concepção de Sarmiento, trocados os papéis, é a mesma dos colonizadores: os latino-americanos civilizados só construirão uma identidade colocando-se em destaque através da depreciação dos grupos denominados de barbárie. A questão da identidade versus alteridade aparece clara no discurso de Sarmiento, se pensarmos que se a barbárie que constitui a alteridade são os nativos e a Espanha : a civilização é o modelo representado pelos norte-americanos. Assim, depois do governo da barbárie (Juan Rosas),
espera que a Argentina consiga um governo civilizado (nos modelos norte-americanos).
Na coletânea de textos "Edemas em torno de Latinoamerica", o mesmo discurso barroco e dual de civilização versus barbárie vai ser usado em favor da defesa de uma América do Sul que não deve deter os Estados Unidos, pelo contrário, deve tornar-se como ele: é a aquisição de um novo modelo, e aqui o papel do "outro" tem um caráter de reconhecimento de pontos comuns. É no que a Argentina pode identificar-se com os Estados Unidos que mora o fio do novelo do desenvolvimento.
Enquanto Sarmiento relê o passado colonial com o objetivo de transformá-lo, ainda que o faça partindo da mesma estrutura polarizada em que o discurso colonial original foi construído, e nisso difere de Bolívar que lê o passado colonial como recipiente de tormentos a serem cobrados e vingados assistimos em Martí o despontar de uma nova utilização desta experiência: o passado colonial não negado, mas conhecido e superado. José Martí defende que "conhecer o país e governá-lo conforme o conhecimento é o único modo de livrá-lo de tiranias … A história da América, dos incas para cá, deve ser ensinada minuciosamente, mesmo que não se ensine a dos arcontes da Grécia. A nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa." Com base nessa idéia seria possível ao latino -americano livrar-se da dominação a qual está subjugado e que a independência política não foi capaz de derrotar, uma vez que "a colônia continuou vivendo na república."
No discurso de Martí, onde o destaque está na apologia do interesse dos latinos no que é peculiar à América Latina, a experiência passada surge como ponto comum de princípio de formação identitária. Inicialmente tal teoria assemelha-se ao que propunha Bolívar, e realmente a idéia de "Nossa América" tem origem bolivariana, mas há que se ressaltar as diferenças contextuais : enquanto a América de Bolívar era marcada pela insegurança dos processos de independência e de consolidação das nacionalidades, a América de Martí estava fadada ao sucesso, através do afastamento do modelo norte-americano e da procura pelas raízes e especificidades de todas as esferas latino-americanas para construir a identidade, entre elas também o passado colonial.
Cada pensador constrói seu discurso de modo coeso com o seu tempo, no sentido de eleger um "outro" mais ou menos apropriado : se para Bolívar a questão versava em torno das independências e dos primeiros passos das nações independentes a alteridade era construída em relação à Espanha; já para Sarmiento o "outro" era representante da barbárie, que eram o índio e o espanhol; e para Martí, que escreve sob a sombra anexionista norte-americana, era preciso livrar-se dos EUA, o qual tinha projetos ideológicos dominadores.
Embora todos eles pensem, primeiramente, numa construção identitária nacional, também todos eles vão estender esse projeto para o supra nacional. Bolívar entende as lutas pela independência como fator primário para a constituição da União Americana livre que seria o projeto de solidariedade continental; Sarmiento e sua concepção dual enxerga primeiro
a Argentina polarizada entre civilização e barbárie e depois também estende o conceito : haveria duas Américas, a civilizada e a bárbara; e Martí reformula a idéia de pan-americanismo, primeiro a partir da clara confiança na capacidade emancipacionista de Cuba, e depois de cada uma das nações latino-americanas que formariam a "Nossa América". A extensão destes projetos está fundamentada na forte herança que o passado colonial deixou no imaginário latino americano, que funda uma base comum da experiência latina e da natureza destes discursos.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

Jogados ao deus-dará

Moradores de rua são uma modalidade extrema e dramática de desempregado, com pouca chance de ressurreição

José de Souza Martins

Os sumários dados preliminares do novo censo decenal dos moradores de rua da cidade de São Paulo, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, confirma que o problema se agrava. Se no ano de 2000 havia 8.706 moradores de rua, agora eles são 13 mil, 49,3% mais. Seu número cresceu dez vezes mais do que o número de habitantes da cidade.

A notícia vem acompanhada da crítica, necessária, mas insuficiente, ao número desproporcional de vagas nos albergues. No período, no entanto, o número de vagas nos albergues dobrou, mesmo que com redução no último ano. Mais da metade dessa população dorme na rua. Mas, nos albergues sobram vagas. Por várias razões, há moradores de rua que preferem ficar na rua. Entre outras, a de que os albergues não são lugares de moradia. Mesmo os mantidos por entidades religiosas, como as católicas, as evangélicas e as espíritas, são lugares em que as pessoas podem tomar banho, jantar, dormir e tomar o café da manhã, devendo deixá-los em seguida para buscar uma nova vaga no final da tarde.

O morador de rua é uma modalidade extrema e dramática de desempregado. O censo entre eles realizado, em 2000, mostrou que apenas 31,9% não trabalham, 54,1% são ambulantes, 24,9% vivem de esmolas e apenas 1,2% não têm renda alguma. Muitos trabalham na coleta para reciclagem dos abundantes resíduos urbanos do centro da cidade, a mais forte razão para ficarem naquela área. São trabalhadores, mal pagos até pela cidade que de seu trabalho de limpeza se beneficia. Antes de se tornarem moradores de rua, apenas 3,3% não trabalhavam, 36,6% tinham ocupações de baixa classe média (uns poucos tinham curso superior), 19,9% vinham da construção civil e apenas 4,3% vinham de ocupações agrícolas. Portanto, uma população cultural e ocupacionalmente urbana.

Numa época em que eram dramáticas as condições de desenraizamento ocupacional dos trabalhadores rurais, momento da expansão da população dos chamados boias-frias, no Sudeste, e clandestinos, no Nordeste, não foi propriamente entre eles que se recrutaram os moradores de rua. Mas eu não deixaria de levar em conta a acentuada imigração sazonal desses trabalhadores rurais precários e instáveis para grandes cidades como São Paulo e Rio como um dos fatores da crescente população de moradores de rua, um terço dos quais originários da própria cidade de São Paulo. Os migrantes temporários, morando em condições precaríssimas em favelas e cortiços, barateiam acentuadamente a mão de obra justamente nos setores cujo desemprego está na origem dos moradores de rua. Uma espécie de tsunami social, em que os vagalhões da precarização do trabalho na agricultura transferem populações temporárias para as cidades, que, ao se submeterem a salários ínfimos, acabam provocando desemprego permanente nas ocupações já mal remuneradas do mercado de trabalho urbano, nas funções menos qualificadas e mais vulneráveis. Reforça essa suposição o dado de que, dos moradores de rua de São Paulo, do ano 2000, 74,8% provinham de 2 anos ou mais de emprego estável, 26,2% de 10 anos ou mais de emprego e 8,9% de 20 anos ou mais. Expressões de uma rotação da mão de obra e consequente descarte do estável pelo precário, como é comum em diversas ocupações, especialmente na construção civil, que está na origem de um quinto dos moradores de rua.

A onda atinge seletivamente suas vítimas. Uma grande parte desses moradores, 39,5%, tinha 41 ou mais anos de idade, a idade crítica nas relações de emprego, o que se confirma pelo fato de que 83,6% deles eram do sexo masculino, justamente os mais atingidos pela idade no desemprego precoce. Um estudo de Maria Antonieta da Costa Vieira mostrou que os moradores de rua são majoritariamente homens que vivem sem família, com idade média de 44 anos, sendo grande o contingente de idosos. Nasceram em outros Estados 65% deles, mas vivem há muitos anos na cidade de São Paulo. Um número significativo é doente.

O insuficiente serviço de albergues estimula outra seletividade. É maior a proporção de homens que dormem nos albergues do que a de mulheres, que na maioria dormem na rua. É maior a proporção de brancos que a de negros. Há mais brancos morando nas ruas do que negros, se não juntarmos aos negros (nem aos brancos) os pardos. Portanto, a distribuição desigual da injustiça social se multiplica na perversidade de uma diferenciação social na qual se supõe que já não há lugar para diferenciações.

Num outro plano, a crise social se desdobra e se multiplica no abismo que separa o morador de rua da sociedade da qual se origina. A socióloga belga Marie-Ghislaine Stofells, que fez sua pós-graduação na Universidade de São Paulo, sob orientação do professor Lúcio Kowarick, aqui realizou uma das mais importantes pesquisas sobre moradores de rua, de que resultou o livro Os Mendigos na Cidade de São Paulo, publicado em 1977. No período mais repressivo do regime militar, Marie-Ghislaine decidiu morar na rua para fazer seu trabalho. Estrangeira e culta, foi presa mais de uma vez, suspeitíssima de atividades subversivas. Colheu precioso material sobre o drama dessa população. Na rua, as pessoas passam por três etapas: a da defesa, a da revolta, a da resignação. Sociologicamente, a conversão do cidadão em morador de rua impõe-lhe um processo de progressiva dessocialização, de perda de suas referências sociais e, finalmente, seu conformismo com o modo de vida anômalo da rua, a exclusão por renúncia.

Agora, seu número aumentou, sobretudo, em decorrência de outro efeito da onda: a desorganização da família e o apelo ao álcool e à droga. Pode-se dizer que a inclusão das vítimas da crise do trabalho no mundo da rua constitui uma forma de morte social, em que é pequena a possibilidade da ressurreição. Há muita hipocrisia e muito oportunismo na redução do problema do morador de rua à questão do número de vagas nos albergues noturnos. É reduzir a tragédia de uma vida ao drama de uma noite, que nem por isso é menos real e menos doloroso.

*Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Entre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto)

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Admirável trabalho novo?

Os impactos econômicos e sociais das mudanças no mundo do trabalho e a posição de especialistas e profissionais diante dessas transformações

Priscila Gorzoni

Ao longo dos últimos anos vem se observando, em diversas partes do mundo, uma modificação nas formas e estruturas de trabalho. Se por um lado percebemos a alta taxa de desemprego, a falta de estabilidade nas empresas, a tercerização e a ausência de registros profissionais, de outro ouvimos de consultores promessas de mais flexibilidade nos horários de trabalho, maior autonomia na produção, mais capacitação e interação do profissional. Devemos boa parte dessas modificações às mudanças dos paradigmas do trabalho, às inovações tecnológicas e à globalização, que rompeu com as barreiras da distância. Quais são os impactos positivos e os negativos dessas modificações?

Assim como a sociedade industrial do início do século XX se viu centrada nas relações trabalhador e indústria, vivemos hoje uma nova dinâmica social moldada não só pela era digital, na qual outras interações se criam e transformam a forma de vermos o mundo, mas pela rapidez e instabilidade derivada dela. Entretanto, essas mesmas armas que em certo aspecto facilitam, em outros tantos dificultam, exigindo ainda mais dos profissionais, que agora não se sustentam ao dominar apenas o conhecimento de sua função. Além disso, existe um outro fator de angústia: ter de lidar com a falta de vínculos, o desemprego e a efemeridade dos contratos trabalhistas.

As modificações nas relações de trabalho não afetam apenas o setor profissional, mas a dinâmica social. "O mundo vive transformações radicais, a produção do conhecimento e as conquistas tecnológicas assumem uma velocidade muito intensa. Estas modificações influenciam o mercado de trabalho exigindo um profissional que se atualize constantemente e que se aproprie da tecnologia a serviço de seu foco profissional", exemplifica o psicólogo Alexandre Rivero.

Entretanto, como afirma o sociólogo e historiador norte-americano Richard Sennett, professor de Sociologia e História na London School of Economics e autor de um livro clássico sobre o mundo do trabalho, "A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo" (Editora Record), os últimos anos não foram os melhores para os trabalhadores. Um dos fatores é o aumento do volume de atividades sem a elevação compatível de salário e benefícios. O sociólogo também vê com preocupação uma das principais mudanças na organização do trabalho, que é a perda da identidade. Sennett aponta ainda para questões como a falta de vínculo com o local de trabalho, a diminuição, ou melhor, a perda dos laços de solidariedade dentro da empresa, a degradação e humilhação na seleção de profissionais. Para completar, o alto escalão de uma empresa e os níveis gerenciais mostram-se pouco comprometidos com essas "consequências pessoais do novo capitalismo" (não por acaso o subtítulo da obra de Sennett), ou mascaram isso com ações recreativas supostamente voltadas para uma maior "qualidade de vida" dos seus "colaboradores".

"O MUNDO VIVE TRANSFORMAÇÕES RADICAIS, A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO E AS CONQUISTAS TECNOLÓGICAS ASSUMEM UMA VELOCIDADE MUITO INTENSA" ALEXANDRE RIVERO, PSICÓLOGO

A análise de Sennett vai longe e aprofunda-se na dinâmica social. Em "A corrosão do caráter", ele afirma que o capitalismo vive na atualidade um novo momento, de natureza flexível. Sennett inicia o prefácio do livro lembrando que "A expressão ‘capitalismo flexível’ descreve hoje um sistema que é mais que uma variação do mesmo tema. Enfatiza-se a flexibilidade. Atacam-se as formas rígidas da burocracia, e também os males da rotina cega. Pede-se que os trabalhadores sejam ágeis, estejam abertos a mudanças de curto prazo, assumam riscos continuamente, dependam cada vez menos de leis e procedimentos formais".

Portanto, de acordo com o autor, essa "nova ordem" capitalista afeta a tal ponto os indivíduos, que não lhes oferece condições para uma construção linear de vida baseada em suas experiências. Ao contrário do trabalhador no modelo fordista do passado que, embora imerso na burocracia, rotina e alienação, possuía uma trajetória constante e expectativas de longo prazo. Atualmente, isso já não é tão possível devido a uma dinâmica de incertezas, mudanças de emprego e de cidade e o sucessivo rompimento de laços. As relações centrais, outrora vistas e sentidas na coletividade, passam a ser individulizadas, extrapolam o mundo do trabalho e se estendem a toda forma de sociabilidade. Em um mundo fragmentado, de relações efêmeras, cortadas, instáveis, sem continuidade, tampouco margem de segurança, tudo, inclusive o trabalho, perde a referência e a compreensão.

Não são apenas as formas de trabalho que se tornaram flexíveis, mas as de poder. Em um sociedade em que nada é contínuo, é preciso reinventar a estrutura das instituições. No entanto, embora na superfície pareça que a equipe possui autonomia, ainda é o capitalista quem dá as cartas. A única novidade nesse processo é a maneira e o lugar onde, em muitas áreas e profissões, ocorre tal expediente. Troca-se a empresa pela casa e o controle face a face pelo meio eletrônico.

Essa estrutura de trabalho não só enfatiza a já comentada ausência de vínculos estáveis entre empregado e empresa, como gera uma desordem social e na identidade do trabalhador. Dentro desse sistema passa-se também a valorizar o jovem (embora, paradoxalmente, exiga-se dele experiência), pois eles seriam mais flexíveis e adaptáveis a várias circunstâncias.

Para finalizar as colocações aterradoras de Sennett, as relações impessoais de trabalho irão afetar diretamente as sociais e vice-versa. Estabelecendo relações superficiais, descartáveis, cujos laços de lealdade e compromissos são tão frouxos quanto a efemeridade do curto prazo de trabalho. "Em um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar sua legitimidade por muito tempo", ressalta o autor.

"A EXPRESSÃO ‘CAPITALISMO FLEXÍVEL’ DESCREVE HOJE UM SISTEMA QUE É MAIS QUE UMA VARIAÇÃO DO MESMO TEMA. ENFATIZA-SE A FLEXIBILIDADE. ATACAM-SE AS FORMAS RÍGIDAS DA BUROCRACIA, E TAMBÉM OS MALES DA ROTINA CEGA. PEDE-SE QUE OS TRABALHADORES SEJAM ÁGEIS, ESTEJAM ABERTOS A MUDANÇAS DE CURTO PRAZO, ASSUMAM RISCOS CONTINUAMENTE, DEPENDAM CADA VEZ MENOS DE LEIS E PROCEDIMENTOS FORMAIS" RICHARD SENNETT, SOCIÓLOGO E AUTOR DE "A CORROSÃO DO CARÁTER : CONSEQÜÊNCIAS PESSOAIS DO TRABALHO NO NOVO CAPITALISMO ".

De onde vem? segundo Deonísio da silva, autor de "De onde vem as palavras", da editora Novo século, a palavra "trabalho" nasceu do latim tripalium, tripálio, que é o nome de um instrumento de tortura composto de três estacas, ao qual era submetido o condenado, isso quando não empalado em uma delas e ali deixado para morrer. Entretanto, segundo o autor, a ideia do trabalho como sofrimento não estava presente na etimologia latina, pois o verbo trabalhar era laborare e trabalho, labor. No italiano predominou as palavras lavorare e lavoro.

TRABALHO X EMPREGO

Não devemos nos alongar em buscas sobre as relações de trabalho desde os primórdios da humanidade, mas salta aos olhos o que se observa a partir da Revolução Industrial, com o chamado "gerenciamento científico", modelo de gestão criado por Frederick Taylor, no final do século XIX. "É importante voltarmos até esta época, porque aqui no brasil, estamos já no final da primeira década do século XXI e várias empresas ainda persistem adotando o modelo de gestão taylorista", afirma Maria Aparecida Araújo.

O trabalho de Taylor baseou-se em suas observações da rotina dos operários da bethlehem steel, vendo-os carregarem seus caminhões de frete, com peças fundidas de ferro. Ele analisou como levantavam a carga, organizavam-se, com que frequência descarregavam e se dispôs a lhes ensinar como aumentar sua produtividade com o mesmo esforço. Naquela época a fábrica era um lugar caótico, comparado aos padrões que hoje conhecemos. O engenheiro fazia o projeto, o mecânico decidia como fazer a peça, solicitava o material, passava as instruções de feitura e esta ficava pronta. Não havia controle de estoques e muito menos produção programada. Tudo dependia do mecânico- chefe.

Taylor então transferiu a autoridade deste mecânico- chefe para o chefe de produção e o resultado foi um aumento espantoso na produtividade, elevando-se com isto o padrão de vida dos operários americanos, que passaram a ser os mais bem pagos no mundo naquela época. Apesar disso, o enfoque de Taylor teve um lado desastroso, pois sua mensagem para os operários era: "Deixem seus cérebros do lado de fora da empresa!". Isto gerou um antagonismo entre operários e gerentes, pois confirmava a ideia de que só eles deveriam pensar, ficando os operários encarregados somente da execução. Usavam, portanto, somente sua força física. A produtividade era então um conceito associado somente à quantidade de produção.

Para os operários, a alternativa era aceitar esta situação, pois eram remunerados e permaneciam nas empresas durante anos, fazendo as mesmas coisas. Apesar da falsa impressão de estabilidade, eles se ressentiam por não terem status nem participação nas decisões. segundo o economista cláudio pelizari, os conceitos tayloristas levaram a ganhos enormes, bem como definiram os papéis de gerentes e subordinados por muito tempo. Essa assimetria manifestava-se nas atitudes centralizadoras e autocráticas. O empregado era considerado um mero recurso que poderia ser sacrificado por motivos estratégicos, podendo ser substituído sempre que necessário, tal como as máquinas.

saía-se do foco no produto, para o foco no cliente e em suas necessidades e requisitos. Juntamente com esta mudança de paradigma, veio a nova concepção do homem dentro das empresas

Este modelo persistiu confortavelmente até o final dos anos 1960, ainda colhendo os frutos residuais da grande demanda por bens e serviços surgida depois da segunda guerra Mundial. com a primeira crise do petróleo, no início da década de 1970, houve um período de recessão, e as empresas norte-americanas começaram a ter que competir num mercado cada vez mais agressivo e mundializado, enfrentando a concorrência dos países que agora se reerguiam: Alemanha e Japão. porém, viu-se que a pátria de Henry Ford – e seu modelo fordista – acostumara-se aos modelos obsoletos de produtividade e que visava somente ao lucro financeiro imediato.

Nesta época dois cidadãos norte-americanos, Edward Demming e J. Juran, depois de fracassadas tentativas de conscientizarem seus compatriotas sobre a necessidade de mudar seus paradigmas de gestão, encontraram grande receptividade no Japão. Os japoneses não só os ouviram como adotaram seu modelo, e dentro de alguns anos tornaram-se os principais concorrentes da Ford e GM, vendendo seus carros no próprio mercado interno dos EUA.

S ó na década de 1980 as empresas americanas acordaram para o que já se transformara numa espécie de segunda revolução industrial. Segundo o discurso das empresas, a produtividade passou agora a ser vista não mais como a quantidade de produtos e sim a união de quantidade com qualidade. Saía-se do foco no produto, para o foco no cliente e em suas necessidades e requisitos. Juntamente com esta mudança de paradigma, veio a nova concepção do homem dentro das empresas. Para se fazer algo com qualidade é preciso do comprometimento das pessoas.

Elas é que fazem a qualidade. Elas é que aumentam a produtividade, elas é que fazem crescer o lucro, elas é que fidelizam os clientes. Não pode existir qualidade sem que o homem exercite sua criatividade. O cliente busca a inovação. A inovação só acontece quando as pessoas não têm medo de tentar fazer as coisas. Resumindo: agora o cérebro tem que estar dentro das empresas. Obviamente, o "gênio criativo" deve submeter-se às regras do mercado.

GLOBALIZAÇÃO E PÓS-MODERNISMO

A preocupação com as modificações e influências da globalização no mercado de trabalho e na vida social não são ressaltadas apenas por Richard Sennett. Pesquisadores como Sônia Maria Guimarães Laranjeira, professora titular do Departamento de Sociologia e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFCHUFRGS), discorrem sobre a questão a partir de enfoques variados, com o intuito de refletir – e encontrar caminhos – para uma nova relação entre o profissional e o trabalho. Em seu texto "As transformações do trabalho num mundo globalizado" (Rev. Sociologias, n º4,.2000), Sônia Laranjeira entende que a digitalização, por exemplo, representa uma mudança de paradigma, pois por intermédio dessa tecnologia estrutura-se uma nova lógica de ação sobre o mundo.

Um dos maiores sociólogos brasileiros de todos os tempos, Octávio Ianni (1926-2004) dedicou boa parte de seus estudos para examinar o "enigma da modernidade-mundo" e as "teorias da globalização", por sinal títulos de dois de seus livros publicados pela editora Civilização Brasileira. No artigo "As ciências sociais e a modernidade-mundo: uma ruptura epistemológica", publicado em 2001 na Revista de Ciências Humanas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ianni analisa o mundo como sendo atravessado por uma ruptura histórica tão avassaladora quanto um terremoto inesperado, por isso capaz de transformar os modos de vida e de trabalho radicalmente, bem como suas formas de sociabilidade e ideais. Ianni complementa: "Tudo o que parecia estável, transforma-se, recria-se ou dissolve-se. Nada permanece. E o que permanece já não é mais a mesma coisa. Alteram-se as relações do presente com o passado; e o futuro parece ainda mais incerto. O que predomina é o dado imediato do que se vê, ouve, sente, faz, produz, consome, desfruta, carece, sofre, padece".

"O MUNDO VIVE TRANSFORMAÇÕES RADICAIS, A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO E AS CONQUISTAS TECNOLÓGICAS ASSUMEM UMA VELOCIDADE MUITO INTENSA. ESTAS MODIFICAÇÕES INFLUENCIAM O MERCADO DE TRABALHO EXIGINDO UM PROFISSIONAL QUE SE ATUALIZE CONSTANTEMENTE E QUE SE APROPRIE DA TECNOLOGIA A SERVIÇO DE SEU FOCO PROFISSIONAL" ALEXANDRE RIVERO, PSICÓLOGO

As modificações ainda estão em curso, sugere o sociólogo no artigo, e resultarão em um abalo nos quadros sociais, na mentalidade e nos referenciais da coletividade e dos indivíduos de todo o planeta. No cerne dessas transformações estarão os conceitos de tempo e espaço, que gerem a noção de lugar, território, fronteira, presente, passado, próximo, remoto, arcaico, moderno, contemporâneo e não contemporâneo.

Nas palavras do geógrafo e cientista social britânico David Harvey, professor de Geografia Humana da Universidade Cidade de Nova York e autor de "Condição pós-moderna" (2002), podemos chamar esse momento pelo termo "pós-moderno", embora essas classificações sejam sempre discutíveis no âmbito da teoria e da pesquisa sociológica. A partir de um resgate histórico, Harvey considera o pós-modernismo, época em que vivemos, como uma reação a monotonia, modernismo universal, verdades absolutas, positivismo, padronização do conhecimento e da produção. Como resposta, temos um mundo que privilegia a heterogeneidade, a fragmentação e a indeterminação.

O economista marxista Ernest Mandel (1923-1995) explica: "Passamos para uma nova era a partir do início dos anos 1960, quando a produção da cultura tornou-se integrada à produção de mercadorias em geral: a frenética urgência de produzir novas ondas de bens com aparência cada vez mais nova (de roupas a aviões), em taxas de transferência cada vez mais essencial à inovação e à experimentação estéticas. As lutas antes travadas exclusivamente na arena da produção se espalharam, em consequência disso, tornando a produção cultural uma arena de implacáveis conflitos sociais. Essa mudança envolve uma transformação definida nos hábitos e atitudes de consumo, bem como num novo papel para as definições e intervenções estéticas. Por isso, a produção cultural popular pós-modernista apenas procurou satisfazer da melhor maneira possível em forma de mercadoria, outros sugerem que o capitalismo, para manter seus mercados, viu-se forçado a produzir desejos e, portanto, estimular sensibilidades individuais para criar uma nova estética que superasse e se opusesse às formas tradicionais de alta cultura".

O raciocínio é completado por Harvey: "As condições de modernização capitalista formam o contexto material a partir do qual pensadores e produtores culturais modernos e pós-modernos forjam suas sensibilidades, princípios e práticas estéticos; parece razoável concluir que a virada para o pós-modernismo não reflete nenhuma mudança fundamental na condição social. A ascensão do pós-modernismo ou representa um afastamento de modos de pensar sobre o que pode ou deve ser feito com relação a essa condição social, ou reflete uma mudança na maneira de operação do capitalismo em nossos dias. Em ambos os casos, a descrição do capitalismo feita por Marx nos oferece, se for correta, uma base muito sólida para pensar as relações gerais entre a modernização, a modernidade e os movimentos estéticos que extraem energias dessas condições".

O "NOVO TRABALHADOR"

O mercado de trabalho tem passado por muitas – e aceleradas – mudanças nos últimos quarenta anos. Essas formas de produção contribuiram para formar uma nova concepção do trabalhador desejado pelas organizações. "O trabalho cada vez mais vai exigindo as funções cognitivas superiores: atenção, concentração, discernimento, pensamento lógico, criatividade, tomada de decisão, planejamento, organização. O trabalho mecânico vai sendo substituído pela máquina. Um modelo de trabalho mais saudável aceita o desafio de conciliar produção, lucro e valorização da pessoa humana. Resgata a saúde com patrimônio fundamental para justificar a vida e o trabalho. Entende o trabalho como ação de transformação da realidade interna do trabalhador e da realidade externa. Num processo de diálogo e aprendizagem constante", ressalta Alexandre Rivero.

Para tanto, é preciso cultivar um bom clima interno, proporcionar bem-estar aos seus colaboradores, "facilitando" oportunidades de convivência com a família e mantendo-as atentas à necessidade de treinamento constante. São as chamadas "Learning Organizations". O ser humano deve sentir-se pleno para produzir plenamente. Desse modo, o mercado privilegia o profissional que usa a sua inteligência para resolver problemas, buscar soluções e desenvolver-se mesmo que a empresa não lhe forneça as condições. Esse é o discurso padrão das empresas, consultores e recrutadores. Nesse sentido, ouvir o que tem a dizer os mediadores e especialistas é entender como é feita a elaboração dos discursos acerca das qualidades do "novo trabalhador".

O trabalhador, por essa ótica, teria a autonomia para decidir a maneira que julga adequada para atingir o resultado esperado. "O que importa é que este resultado venha e que satisfaça os requisitos da empresa ou do cliente. Já encontramos muitos profissionais trabalhando em home-offices, conectados à Internet com seus notebooks e Blackberrys, sem necessariamente terem que bater ponto em um escritório", explica Cláudio Pelizari, economista, palestrante e consultor de Qualidade de Vida, Etiqueta Profissional e Marketing Pessoal.

Não se pode esquecer, é claro, de um aspecto significativo das relações trabalhistas "flexíveis" adotadas nos últimos anos: a desburocratização crescente dos registros e vínculos profissionais. Essa situação tornou-se comum em várias áreas. No cenário brasileiro, uma das justificativas seria a contenção dos custos dos impostos e encargos da legislação trabalhista agrupada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), assinada em 1º de maio de 1943 por Getúlio Vargas à época do Estado Novo. Os empregadores argumentam que manter um empregado com carteira assinada custa, para a empresa, o dobro de um nãoregistrado. Portanto, várias empresas, dependendo do tamanho e do ramo de atividade, optam por estabelecer contratos flexíveis, deixando que os padrões de remuneração estejam ligados efetivamente ao resultado apresentado pelo colaborador, agora chamado de "parceiro".

Segundo a consultora Maria Aparecida A. Araújo, autora do livro "Etiqueta empresarial – ser bem educado é…" (Qualimark), o lado "positivo" dessa nova relação é que, trabalhando em casa, por exemplo, não se fica privado da convivência com a família, o profissional pode determinar a quantidade de tempo gasto na atividade profissional e dividi-lo adequadamente entre o social e o familiar. Não se fica muito exposto à violência das grandes cidades, não se sobrecarrega o trânsito, tem se uma alimentação mais balanceada e goza-se de períodos de descanso intercalados com o trabalho.

O lado "negativo" é que se fica mais alijado da convivência com a comunidade empresarial e, portanto, dos centros de decisão. Neste sistema, deve-se também ter o dobro da disciplina no uso do tempo e vontade férrea de realizar as tarefas propostas para não perder o foco. É muito fácil também começar a permitir que o familiar e o social interfiram nas rotinas empresariais, prejudicando com isto a produtividade.

Para Rivero os trabalhadores atuais são cada vez mais convidados a empreenderem seus trabalhos, assumindo riscos e soluções pró-ativas. "Entretanto este fenômeno mundial continua sendo muito desigual em determinados países e grupos. Parece-me uma marcha sem volta. É possível que apesar das limitações, riscos, desigualdades, contradições, que estamos vivendo neste momento no mundo do trabalho, possamos encontrar um novo mundo que surja nesta transição. Uma brecha para o homem recuperar depois de perdido seu emprego, sua verdadeira profissão com compromisso pela sua vocação e responsabilidade frente à comunidade", finaliza.

Por todos os ângulos e em todos os seus sentidos e implicações (inclusive psicológicas e psicopatológicas), as rápidas transformações no universo do trabalho constituem um objeto fundamental de reflexão. Seja para os gurus da produtividade, acadêmicos, patrões ou empregados.

 

O ÓCIO PODE SER CRIATIVO

A criatividade é o maior capital de uma empresa. apesar dessa máxima pregada feito mantra pelos consultores e empregadores, a sociedade do trabalhador do conhecimento ainda é gerenciada por critérios da sociedade industrial. crítico desse modelo, o sociólogo italiano Domenico De Masi propôs um modelo social não centrado na idolatria do trabalho, mas sim na simultaneidade entre trabalho, estudo e lazer. suas ideias se fundamentam na constatação de que hoje teríamos um maior tempo livre e o ser humano executaria muito mais trabalhos intelectuais que manuais – cada vez mais realizados por máquinas e ferramentas. imagine as transições do mundo, passando da Era do caçador/coletor para a Era agrícola, depois para a Era industrial até a Era do conhecimento.

Cada momento representou um aumento na produtividade de pelo menos 50 vezes o que se conseguia na era anterior. isto significa que o tempo gasto na obtenção das coisas necessárias à manutenção da vida diminuiu muito. além do mais, é importante lembrar que a expectativa de vida da população, que no caso do Brasil era de 43 anos em 1940, aumentou muito, ultrapassando os 73 anos. Nossos avós viviam 300 mil horas e trabalhavam 120 mil, hoje nós vivemos mais de 700 mil horas e trabalhamos 70 mil horas. Enquanto eles trabalhavam quase metade da vida, nós trabalhamos um décimo e, não fomos educados para ter tanto tempo livre.

A empresa tampouco ajuda nisso. as práticas gerenciais da Era industrial fazem com que um executivo que pode realizar o seu trabalho diário em cinco ou seis horas acabe trabalhando até dez horas. No fim de semana leva trabalho para a casa, e quando está em férias liga sempre para o escritório. Quando aos 55 ou 60 anos se aposenta tem ainda 20 ou 30 anos de vida e, muitas vezes não sabe o que fazer.

A distinção entre tempo de estudo quando jovem, tempo de trabalho na maturidade e aposentadoria quando velho é um contrassenso. a velhice não se calcula em relação ao nascimento, mas em relação à morte; somente podemos ser considerados velhos nos dois últimos anos de vida. a vida fisicamente produtiva pode chegar a 80 anos, portanto é razoável que o seja também psiquicamente. É uma grande perda para a sociedade como um todo que se desperdice esse talento.

Quando De Masi fala em "ócio criativo", ressalta-se a forma como uma pessoa deve utilizar o seu tempo. Trabalho, aprendizado e lazer devem se confundir em todas as fases da vida. "a grande importância da criatividade reside no fato de que é a partir dela que surgem inovações e melhores formas de fazer muitas coisas do dia a dia. a criatividade de um país ou de uma empresa é medida pelo número de patentes registradas por ano", lembra cláudio F. Pelizari.

Segundo De Masi, o estímulo da criatividade humana pode vir por meio de atividades lúdicas, devaneios, imaginação ou até fora do local de trabalho. Uma boa ideia não tem hora para acontecer, pode acontecer no banho, num momento de introspecção, no cinema ou brincando com uma criança. Mas essa criatividade em muitas situações se circunscreve dentro dos parâmetros da produtividade e da lógica capitalista. Tem um caráter utilitarista flagrante. se a pessoa não se sente bem no escritório, seja porque não há um bom clima, os gerentes e colegas são antipáticos e mal-educados, não existe respeito e motivação, será muito difícil que surjam novas ideias. Para as teorias administrativas contemporâneas, obcecadas pela inovação, uma pessoa criativa é uma promessa de futuro e lucratividade.

PARA SABER MAIS:

MASI, Domenico de. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Editora sexante, 2000.

LEON, vicki. Meu chefe é um senhor de escravos. Rio de Janeiro: Editora globo, 2007.

SILVA, Deonísio. De onde vem as palavras. Editora Novo século, 2009 A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo (Editora Record, 1999).

ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do trabalho – Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. Boitempo Editorial, 2000.

DEJOURS, christophe . A loucura do trabalho. Editora cortez, 2003.

HARVEY, David. Condição pós- moderna. Editora loyola, 1992.

ANTUNES, Ricardo; BRAGA, Ruy. Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. boitempo Editorial, 2009.

Fonte: Revista Sociologia – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/