Daily Archives: 02/03/2010

China reivindica seu papel de superpotência

País exige ser ouvido na resolução dos assuntos mundiais

A China cruzou o Rubicão e a sorte de um novo mundo bipolar parece lançada. Depois de duas décadas de poderoso crescimento econômico na sombra e de política externa de baixo perfil, Pequim considera-se madura para somar-se a Washington no papel de superpotência e reclama ser escutada em escala global.

"Somos um quinto da humanidade. Digo isso humildemente, mas creio que a China merece ser escutada sobre como o mundo deve ser dirigido. De uma maneira ou de outra." Assim o ministro das Relações Exteriores chinês, Yang Jiechi, encerrou a intervenção com que inaugurou a 46ª Conferência de Segurança de Munique (Alemanha) e traçou as linhas chaves de uma política externa cada vez mais segura de si mesma – às vezes conflituosa -, ampla e capaz de alterar equilíbrios.

Em um discurso muito diplomático e em grande parte prudente, algumas frases permitiram vislumbrar o sentimento e as intenções de Pequim sobre os equilíbrios mundiais. "Muitos países olham para a China como uma força de paz, estabilidade e prosperidade. A China se esforçará para melhorar os mecanismos de cooperação internacional, permitindo que tanto os países desenvolvidos como aqueles em desenvolvimento extraiam benefícios das decisões", afirmou o chanceler diante da notável platéia de Munique, uma espécie de fórum de Davos em termos de segurança, que este ano reúne cerca de 50 ministros da Defesa e das Relações Exteriores. Outras soaram enigmáticas: "Não se trata de que uma ou duas nações decidam o futuro do mundo", considerou o ministro, diante de uma plateia repleta de altos representantes do Ocidente.

Ele protestava contra a situação do passado ou lançava uma promessa de futuro? Seja como for, os analistas reunidos em Munique concordam majoritariamente que a emergência desenfreada de Pequim à superfície política internacional desenha a perspectiva de um mundo cada vez mais dependente da vontade e da relação entre China e EUA. A esse respeito, Jiechi manteve firme o pulso com o Washington em todos os assuntos que agitam a relação bilateral.

Não cedeu um milímetro diante da pressão para aprovar as sanções ao Irã, defendeu um posterior diálogo com a Coreia do Norte, reivindicou a legitimidade da dura reação chinesa diante da venda de armamento americano para Taiwan e do veto a qualquer acordo vinculante e significativo em termos de mudança climática. Jiechi chegou a definir como "indignosa" a venda de armas, no valor de mais de US$ 6 bilhões (cerca de R$ 11,3 bilhões), que qualificou de "violação do código de conduta estipulado entre as duas nações", referindo-se a um acordo da era Reagan.

Taiwan é só o último de uma série de vigorosos atritos, desde a presença da Google na China até a disputa sobre a taxa de câmbio do yuan e os incidentes em águas do mar do Sul da China perto da ilha de Hainan. Em todas, Pequim manteve um tom mais duro do que no passado.

A reflexão sobre as causas da evolução da atitude chinesa no cenário internacional monopolizou na sexta-feira a atenção nas salas do Hotel Bayerischer Hof, sede da conferência. A leitura majoritária aponta duas diretrizes complementares: em primeiro lugar, a sensação de força de Pequim por ter saído ilesa da crise econômica diante das dificuldades do Ocidente e dos EUA, cuja margem de manobra será muito reduzida nos próximos anos devido ao déficit disparado. Em segundo lugar, a tentação de um regime sempre desejoso de aumentar seu controle da sociedade, de cavalgar a onda nacionalista para convencer os concidadãos sobre a força do sistema.

O próprio Jiechi esclareceu parcialmente a incógnita. "A China se sente mais forte", admitiu em um intercâmbio de opiniões posterior ao discurso. "Temos muito que aprender com outros países, mas estamos orgulhosos do que conseguimos. Retiramos 300 milhões de cidadãos da pobreza, uma população equivalente à dos EUA. Mesmo assim, temos um longo percurso a fazer", argumentou o ministro.

O PIB americano continua sendo o triplo do chinês, e seu poderio militar ainda não está em discussão, sobretudo no plano qualitativo. Mas a China já alcançou o umbral crítico – de recursos e psicológico – para ser um ator determinante, com capacidade de condução e bloqueio.

Assim, a reiteração da vontade de diálogo com o Irã representa uma péssima notícia para Washington, que tenta promover uma nova rodada de sanções no Conselho de Segurança da ONU. "Acreditamos que o Irã não fechou totalmente a porta para um acordo em matéria nuclear e é importante continuar nas negociações", afirmou o representante de Pequim, que conta com poder de veto na ONU.

Algumas omissões também pareceram significativas: Jiechi ofereceu pleno apoio ao esforço de reconstrução do governo afegão. Hamid Karzai, presente na sala, recebeu o apoio. Não houve qualquer menção à operação internacional em curso no país asiático.

Pequim pressiona, talvez com mais rapidez do que se esperava, para que termine o entardecer sobre um mundo com um só oráculo, como o configurado desde a queda da União Soviética. Se ainda não é assim, logo haverá outra voz que quer ser e será imprescindível.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El Pais

Cabras marcados pelo estigma

Tese defendida no IEL mostra como setores da mídia tratam o Nordeste de forma pejorativa

ISABEL GARDENAL

Daniel do Nascimento e Silva: segundo o autor da tese, Nordeste é retratado como território do passado, da violência, da fome e da morte (Foto: Antonio Scarpinetti) Não foi somente o fato de ser um nordestino de Fortaleza e ter orgulho de sua terra que motivou o linguista Daniel do Nascimento e Silva a refutar em sua tese de doutorado a imagem do Nordeste retratada pejorativamente por segmentos da mídia impressa no Brasil. Sua pesquisa, apresentada no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, teve como uma das principais conclusões a de que o Nordeste é apresentado na mídia como um território do passado, violento e da fome, no limiar entre a vida e a morte. E foi justamente este limiar que mais chamou a atenção de Silva, justamente porque, segundo o linguista, os nordestinos, estando nesta zona limítrofe, apresentam-se como possibilidade de crítica aos princípios desiguais da modernidade, pautada numa ideia de vida que triunfa sobre a morte.

A tese, orientada pelo professor do IEL Kanavillil Rajagopalan, alinhava o tema tomando como amostras dois jornais de São Paulo e um do Rio de Janeiro, além de uma revista de circulação nacional. Por vezes, o autor se amparou em outras mídias, como o Portal Centro de Mídia Independente, para obter dados subsidiários. Silva fez uma pesquisa documental. Trabalhou ainda com um corpus paralelo: o corpus literário, que se justifica, conforme o autor, para tentar compreender as condições históricas da inteligibilidade do Nordeste, uma memória que deve ser recuperada. Empregou ainda algumas renomadas obras literárias de autores que mostram o surgimento da figura do nordestino. São elas, dentre outras,  Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e A Fome, de Rodolfo Teófilo, as quais ajudaram a dar sustentação a um capítulo especial sobre a história do Nordeste.

O linguista também recorreu a autores internacionais como Judith Butler, filósofa pós-estruturalista e crítica feminista da Universidade da Califórnia, em Berkeley, para quem a linguagem fere e pode machucar tanto quanto a agressão física, seja por meio de ofensa, de chistes ou da desvalorização. Para a filósofa, nenhum termo pode ferir sem uma dissimulada historicidade da força. “Se o termo fere, é porque no fundo carrega consigo uma história que foi sutilmente apagada para poder machucar. É o caso das palavras que evocam o racismo, baseadas na história da escravidão”.
Violência
Um dos termos que mais se sobressaiu na tese de Silva foi a “violência”, dele resultando as intenções de setores da mídia de tratar os nordestinos como cidadãos de segunda classe, como pessoas inferiores, preguiçosas e mortas de fome, que vêm para o Sudeste a fim de sobreviver ou para se dar bem na vida.

Retirantes: crítica social de João Cândido Portinari assume outro valor quando transposta para as páginas de jornais (Fotos: Reprodução) O linguista explica que a violência linguística funciona de modo semelhante ao da linguagem. Como seres constituídos por uma língua articulada, ao não fazer uso da linguagem, deixaríamos de ser humanos, questão fundamental encontrada na Linguística. Mas o que não se sabe é que esta constituição não se dá de uma maneira tranquila. Para Judith Butler, engastada em Jacques Lacan, o nome é uma forma de interpelação: ele é dado às pessoas quando nascem e é uma marca que se carrega para o resto da vida, seja positiva ou negativamente. “Por mais que se escolha um apelido, o nome continuará existindo”, conta. Judith Butler vai mais fundo e radicaliza Lacan sustentando que o nome não é apenas a primeira forma de interpelação, senão também a primeira forma de violência linguística que se aprende.

Outro objetivo da tese foi elucidar como a descrição sobre o Nordeste e o nordestino relacionava-se com a construção da modernidade e dos modernos no Brasil, já que a região, desde a sua invenção discursiva, no fim da década de 1910, comparece nos meios de comunicação como o território do passado. “A descrição está relacionada com a própria constituição de uma hegemonia, que é linguisticamente visível”, avalia o pesquisador. Um outro objetivo consistiu ainda em tentar perceber a subjetividade nordestina e como esta, em última instância, pode ser vista como uma forma de crítica a este modelo moderno e liberal do sujeito que a mídia apregoou.

Ao tentar entender por que o Nordeste comparece na mídia como território do passado, da violência, da fome e da morte, o linguista percebeu algo curioso. Os mesmos termos que compareciam na arte como forma de crítica, são usados na mídia para ferir. Na pintura de João Cândido Portinari, por exemplo, boa parte da sua obra era dedicada às causas sociais e muitos dos seus quadros tinham como inspiração o Nordeste. Num dos mais expressivos, Retirantes, os nordestinos são mostrados como verdadeiros mortos-vivos ou fantasmas fugindo da seca. No entanto, na mídia, essa imagem assume outro valor. Numa das publicações estudadas, do ano de 1969, a reportagem tematiza “milhões de nordestinos praticamente mortos”. Já na década de 80, famílias nordestinas são retratadas nos termos de uma morte que está sempre à espreita.

A forma como a pintura e a literatura tratam desta indistinção entre vida e morte – a sobrevida – é muito diferente da mídia. Na literatura, observa o pesquisador, existe um tratamento especial da palavra. Graciliano Ramos, que fala da morte em Vidas Secas, no fundo faz uma crítica social. “Ali o nordestino que sofre e está à beira da morte é tomado como exemplo para questionar a própria subjetividade humana. Na realidade, todas as pessoas se deparam com situações assim, como a própria incerteza da continuidade da vida. Temos algumas garantias, mas não todas”, expõe o linguista.

Ainda em Vidas Secas, o narrador fica se perguntando se o personagem Fabiano algum dia se tornará homem ou se será sempre o mesmo, “um cabra governado pelos outros”. Na adaptação para o cinema, a personagem sinhá Vitória, sua mulher, questiona o marido se um dia eles terão uma cama de gente. Em todo o percurso, o marido pouco fala. “A intenção no texto é que o humano seja menos expressivo que um animal. Até a cachorra Baleia consegue ser mais comunicativa que ele”, alude. Por outro lado, “na mídia há uma recontextualização dessas imagens com a finalidade de ferir.”

Cena de Vidas Secas, filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos baseado em obra homônima de Graciliano Ramos, que foi objeto de análise na tese (Fotos: Reprodução) Esse modo conflitante de ver o nordestino surpreendeu mesmo o linguista, visto que a mídia, a literatura e a pintura estavam tratando do mesmo assunto. Aparentemente, Gilmara Cerqueira, uma personagem nordestina entrevistada em 2006 por um dos veículos avaliados, em texto que apontava o perfil do eleitor do próximo presidente, que veio a ser Lula, era descrita de uma forma muito semelhante ao relato de Macabéa, de Clarice Lispector, em A Hora da Estrela, uma nordestina que migra para o Rio de Janeiro. “Macabéa não sabia se o céu era para cima ou para baixo”, contextualiza. Comparativamente a ela, no texto, Gilmara não sabia o que era o mensalão. “Pegando-se as situações literalmente, elas podiam ser até muito parecidas, porém os propósitos eram muito diferentes na mídia, pela forma dissimulada de uso de uma historicidade para ferir.”
Contextualização
Silva estudou o filósofo Jacques Derrida. O teórico afirma que, quando uma palavra é tirada de um lugar e levada para outro, a sua estrutura rompe com o contexto original. A isso ele chama “iterabilidade”, que é uma condição de possibilidade da própria linguagem, submetendo a palavra à lógica da repetição e da alteridade. “Você recontextualiza, mas rompe com o original. Assim, a mídia usa os termos da inteligibilidade do Nordeste e rompe com seus propósitos originais, com a finalidade de excluir”, explica.

Vítima desse comportamento, o pesquisador ouviu muito as pessoas dizerem na cidade de São Paulo que os nordestinos deveriam agradecer por virem trabalhar nas portarias de prédios e por não estarem no Nordeste morrendo de fome. Quando queriam se identificar com o linguista diziam então que ele não parecia nordestino. “Dizer que todo nordestino é igual é um dos princípios da discriminação e é simplista demais”, realça.

Indagado se ele foge ao estereótipo difundido pela mídia, Silva diz que em parte não. Veio de uma classe social baixa de Fortaleza, o pai ficou desempregado por muito tempo e foi criado pela família paterna. A avó trabalhava como autônoma e o avô como carpinteiro. “Se eu tivesse dez anos neste contexto das políticas sociais, eu me enquadraria naquela classe social que teria hoje direito a uma bolsa-família”, conta. “Sou um exemplo vivo de que as pessoas podem alcançar seus objetivos, não apenas sonhar. Além de ter estudado em escola pública na infância, também ingressei em Universidade pública.” Teve algumas oportunidades, e com o apoio que recebeu as empregou positivamente.
Preconceito
Em uma das suas análises, Silva notou mudança de enfoque entre a revista e os jornais escolhidos. Um dos jornais de São Paulo era muito explícito em questões de preconceito. Outro, mais sutil, não deixou de dar mostras disso. Ao abordar a distribuição dos eleitores para os candidatos Alckmin e Lula, nas últimas eleições, o jornal designou o grupo de eleitores de Alckmin de “espectro”. Já os eleitores de Lula foram chamados de “mancha”. Estas metáforas foram amplamente empregadas no texto. O “espectro” era utilizado como sinônimo de luz e, “mancha”, como algo indesejado.

Cena de Vidas Secas, filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos baseado em obra homônima de Graciliano Ramos, que foi objeto de análise na tese (Fotos: Reprodução) Todos os veículos de comunicação avaliados, diz o linguista, reforçaram o perfil do nordestino como pobre, morto de fome, atrasado, inculto e ingênuo. “Temos que pensar que modernidade não prescinde da ideia de futuro. Ela carrega em si o princípio do progresso.” Uma das manchetes da revista referiu-se ao Nordeste como a terra do passado que luta contra o futuro. “Isso é algo forte demais”, contesta o autor da tese.

Ele defende que a questão nordestina deveria ganhar um novo enfoque, isso porque o sujeito nordestino, por sua sobrevida (nem vida nem morte), pode ser visto como forma de crítica às identidades e subjetividades da mídia hegemônica, “que são vivas, abraçadas pelo futuro, pelo progresso e pelo prazer”. Outra forma de dizer o sujeito, em seu modo de ver, seria pensá-lo sobre uma base não-vitalista. “Eu tentaria mostrar que as pessoas hoje em dia, por exemplo, sobrevivem diante do medo da violência, e essa sobrevivência indica que vida e futuro não são uma garantia, mas uma conquista.”

Em último caso, salienta ele, poderia ser feita uma descrição mais realista de como os nordestinos vivem atualmente. “Lá não se morre de fome desde a década de 80. E ainda hoje a ideia da fome está impressa nos jornais, muito viva e arraigada”, relata. Também opina que o preconceito contra a imagem do presidente Lula se constroi pela imagem negativa que se tem do Nordeste. É muito marcante para a mídia que, ao menosprezar a região, também se menospreze o seu representante.

Para Silva, o nordestino é um povo guerreiro, muito hospitaleiro, bem-humorado e trabalhador. “O Nordeste não parou no tempo, como muitos julgam”, destaca. E desafia: “cada um vê do modo que aprendeu a ver, mas procurem olhar o Nordeste de outra forma”.

Silva trabalhou em Berkeley por um ano, no Departamento de Antropologia, com auxílio de bolsa Capes. Lá fez um estágio-sanduíche e estudou mais especificamente com pesquisadores que trabalham com a temática da violência, o que ampliou sua perspectiva, tanto que as ferramentas de análise como elaborações teóricas e o refinamento da pragmática foram desenvolvidos no período em que esteve lá. A partir de alguns trabalhos no campo da Pragmática, como as obras do filósofo inglês John Austin, Silva demonstrou que nos seus escritos filosóficos a linguagem não é, contrariamente à tradição pregada, uma forma de descrever o mundo e sim uma forma de agir no mundo.

Jornal da UNICAMP

O voo do cuitelinho

A música de Pena Branca, recentemente falecido, faz parte da combinação de popular e erudito tão própria da cultura caipira

José de Souza Martins*

Quando José Ramiro Sobrinho, falecido há pouco dias, e seu irmão mais moço, Ranulfo Ramiro da Silva, escolheram o nome artístico de Pena Branca e Xavantinho quase cometeram um erro que poderia condená-los ao limbo que obscureceu o talento de tantas outras duplas de música sertaneja. Mais tarde, escolhas acertadas de repertório e a espontânea naturalidade de sua cantoria deram-lhes a notoriedade que faria do nome artístico da dupla um símbolo poderoso do retorno do caipira à musicalidade popular. Pena Branca e Xavantinho acabaram encontrando seu lugar no movimento crítico e criativo de renascimento do que se chamou impropriamente de música de raiz, supondo-a música que recua aos tempos de Cabral.
Esse movimento tem tido protagonistas admiráveis, nem todos trabalhadores da roça como eles, e se situa na tendência mais ampla e antiga de reencontro de referências culturais identitárias de paulista e de brasileiro, um movimento, na origem, muito mais associado à República do que à Independência. Portanto, um movimento da nossa modernidade e nela a recusa das desidentificações amplamente disseminadas pela globalização que já nos alcançava no final do século 19. Nossa inocente adesão à globalização, como renúncia de identidade, acabou tendo consequências na própria música sertaneja. A estranha adoção de trajes e chapéus de vaqueiros texanos, até por bons cantores, já indicia um hibridismo cultural e quanto estamos perdidos de nós mesmos.
Chamou-se de música caipira o que era, de fato, a música sertaneja, criada pelo paulista de Tietê Cornélio Pires, de família antiga de São Paulo. Em 1929, ele lançaria os primeiros discos desse gênero, com a Moda do Bonde Camarão. Essa moda de viola, vista de hoje, definia a matriz culturalmente referencial do que será por muito tempo a nossa música sertaneja. Nela, diferentes modalidades de ironia crítica contra os absurdos da cidade moderna e, portanto, em nome dos valores da sociedade que na roça tinha seu modo de ser e sua mentalidade característica. Já nos fins do século 19 o pintor ituano Almeida Júnior abandonava a temática europeia para fazer do caipira e da luminosidade da roça o tema de seus quadros, como em Amolação Interrompida, Caipiras Negaceando e Caipira Picando Fumo. Nem lhe faltou a significativa referência à viola e à moda de viola em O Violeiro, de 1899.
O que se expressou na pintura expressou-se, também, na literatura, com Monteiro Lobato, Otoniel Mota e Valdomiro Silveira, autores que, em diferentes graus, reconheceram no dialeto caipira uma língua de identidade, instrumento de um modo culturalmente singular de ser, que era o do caipira. É compreensível que no misto de regionalismo e nacionalismo desse movimento cultural se revalorizasse o falante de uma língua dialetal que era remanescente da resistência cultural à imposição da língua portuguesa ao povo brasileiro, no século 18, quando o rei de Portugal proibiu que aqui se falasse o nheengatu, nossa língua popular. Os silenciados por essa proibição, que tinham enorme dificuldade para pronunciar as palavras da língua portuguesa, que era língua de repartição pública, sobretudo pelas muitas consoantes desacompanhadas de vogais, passaram a falar português com sotaque nheengatu. Portanto, cuié no lugar de colher, muié no lugar de mulher, bataia no lugar de batalha, mortaia no lugar de mortalha. Esses autores incorporaram de vários modos essa linguagem e Valdomiro Silveira, mais do que ninguém, o fez, como em O Mundo Caboclo e, sobretudo, em Lereias, uma coletânea de contos escritos em dialeto caipira.
Cornélio Pires, escritor, levou anos amadurecendo a criação da música sertaneja de inspiração caipira. Protestante, como Otoniel Mota, em 1910 promoveu no Mackenzie, escola presbiteriana de São Paulo, uma conferência sobre o caipira e a apresentação de grupos de catira, dança ritual masculina, o cateretê, originalmente uma dança indígena. Foi o interesse protestante por essas tradições que abriu o caminho para a secularização da música caipira sob a forma de música sertaneja, dado que aquela era, originalmente, música sobretudo de conteúdo religioso. Além do cateretê, a dança de Santa Cruz e a dança de São Gonçalo, e as folias do Divino e dos Santos Reis, todas elas práticas devocionais do catolicismo popular herdado dos tempos coloniais.
As adaptações jesuíticas da cultura indígena às premissas e aos princípios da religião católica criaram as bases da cultura caipira que entre nós floresceu e se institucionalizou no século 18, com a gestação do dialeto caipira. Indígena e católica, a cultura caipira é marcada por uma duplicidade de orientação (como também aconteceria com o negro) em que a pessoa, de diferentes modos, tenta dizer duas coisas opostas ao mesmo tempo. O que é próprio de culturas de povos reprimidos, que falam a língua de quem os domina e nela embutem a própria fala subalterna para dizer outra e diversa coisa, o que normalmente ocorre no desencontro entre língua falada e língua gestual.
Essa característica do caipira já não era mais percebida quando surgiu Romaria, de Renato Teixeira, em 1978. Não só a beleza da composição, mas a primorosa arquitetura da poesia traz para o primeiro plano, justamente, essa duplicidade tão própria da cultura caipira, em que o autor diz uma coisa dizendo outra e dizendo as duas ao mesmo tempo. Renato Teixeira nessa obra expõe quanto o popular e o erudito constituem uma combinação tão própria das origens da cultura caipira. É no retorno a essa erudição de origem e aos seus arquétipos, pode-se dizer, que se insere a obra de Pena Branca e Xavantinho. Mas também a riqueza do movimento que tem inspiradores e protagonistas no violeiro Renato Andrade, na cantora Inezita Barroso e no contador de causos Rolando Boldrin. E continuadores e artesãos de uma nova geração que, além do próprio Renato Teixeira, incluem Ivan Vilela, Tavinho Moura, Almir Sater, Fernando Deghi, Pereira da Viola e outros mais.

*Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entre outros livros, autor de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

O Estado de S. Paulo

O capitalismo vive o seu Ensaio sobre a Cegueira

Saul Leblon

Numa das cenas do filme Ensaio sobre a Cegueira, adaptação de Fernando Meirelles para o romance de Saramago, o personagem pergunta à esposa cuja visão subsiste na solidão de um mundo que perdeu a capacidade de enxergar e se auto-gerir: «Há sinais de governo?»

A resposta é dada pelo angustiante passeio da câmara nas ruas de uma metrópole onde nada funciona. O que as lentes mostram são bandos esfarrapados e famintos vagando sem destino. Modalidades previsíveis da barbárie preenchem um hiato em que o Estado se desmoronou e os valores da convivência humana se eclipsaram. A auto-regulação dos mercados não funcionou.

Quem assistir ao filme nesses dias de convulsão financeira dificilmente resistirá à analogia. A crise iniciada nos EUA, que aos poucos contamina o resto do planeta, é o Ensaio sobre a Cegueira de quem vive sob a supremacia dos mercados desregulados no alvorecer do século XXI. Da esquerda à direita, dos trabalhadores aos banqueiros, passando por governantes, economistas e líderes políticos, quase ninguém consegue enxergar a real extensão de um colapso que se arrasta desde Agosto de 2007. Num crescendo, ele se derrama de um sector a outro, salta de país a país como uma fatalidade intangível e ingovernável cuja visita cabe apenas aguardar. Mais inquietante, sobretudo, é a invisibilidade de alternativas que possam conduzir a sociedade a uma nova visão da economia e do seu desenvolvimento, escapando à propagação inexorável de solavancos que eclodem em intervalos cada vez menores, com virulência cada vez maior (1987-1988-2001-2003-2007-2008).

No cinema e no romance não há forças de redenção para a anomia descrita por Saramago. Algo semelhante parece ocorrer nesses dias marcados por um certo conformismo bovino na fila do matadouro. Reside aí, talvez, a verdadeira dimensão sistémica da crise. Não se trata apenas de um atributo de abrangência económica, mas sim da virtual incapacidade política dos seus protagonistas para accionar uma mudança de rumo, comportando-se cada qual como parte indissociável da engrenagem em pane. São tempos trágicos nesse sentido. Como na alegoria do escritor português, o que se “enxerga” por entre um noticiário errático são figuras trôpegas de uma tragédia grega. Cada passo hesitante que os governantes dão para impedir que ela se espalhe e se cumpra é mais um passo que pavimenta o caminho para que ela avance. A cegueira é a jaula ideológica construída ao longo de décadas de recuos e concessões aos mercados e a seus dogmas.

Múltiplos de 100 mil milhões de dólares ocupam as manchetes há semanas anunciando a solução definitiva para o impasse. No dia seguinte uma nova quebra sinaliza a dinâmica de um colapso subterrâneo. O que se esfumou foi o indispensável consenso que sustenta a fixação dos valores de troca no coração do sistema. Os mercados financeiros não sabem, ou escondem, quanto valem os activos podres inscritos no seu metabolismo. A segurança que sustenta e ordena a arquitectura do valor de troca no capitalismo patina perigosamente. Milhões e biliões equivalem-se e nada detém o esfarelamento em marcha. No filme de Fernando Meirelles um grupo de cegos envereda pelo mesmo labirinto quando assume o poder num campo de concentração. Em princípio mimetizam a ordem anterior exigindo dinheiro em troca da comida escassa. Depois, pragmáticos, adoptam o valor de uso: «Enviem as mulheres».

O que se assiste hoje é um movimento de fuga para a segurança cuja última trincheira, antes de a vida imitar a arte, são os títulos do Tesouro norte-americano. Não importa que os treasures ofereçam rendimento quase negativo nessa hora. O que a riqueza fiduciária mira é um abrigo de poder. Busca-se o derradeiro oásis capaz de legitimar, militarmente se preciso for, a suposta equivalência entre a riqueza fictícia e fatias da riqueza real disponíveis na sociedade – ouro, máquinas, terras, petróleo, alimentos, armas…

A inexistência de forças para impor uma outra regulação empresta coerência à intuição dos detentores da riqueza. Ao contrário da parábola de Saramago, o capitalismo real não se auto-destrói. Assim como não existe auto-regulação, não há auto-revolução do capital. Lenin deduziu que política é economia concentrada. Mas se ela não atingir a densidade necessária à esquerda, a resposta virá da direita, como de facto ocorre neste momento. Na crise de 29, quando a Bolsa derreteu e o desemprego atingiu um em cada quatro norte-americanos (em 1933 a taxa de desemprego foi de 24,9%), a relação de forças existente no mundo era bem diferente da actual. Doze anos antes do crack, uma revolução operária instalou o primeiro governo comunista da história numa das maiores nações do planeta. A Alemanha, drasticamente atingida pela confluência entre a crise internacional e as reparações da Primeira Guerra, também viu eclodir um poderoso movimento socialista que quase tomou o poder no país. O seu fracasso levou à ascensão expansionista do nazismo.

O economista Paul Krugmann lembra ainda que os desempregados e veteranos da Primeira Guerra Mundial ergueram um bairro de lata na principal avenida de Washington durante a crise. Famílias famintas, desempregados rurais e urbanos entraram em conflito com o Exército norte-americano nas ruas de cidades em vários pontos do país. O PIB recuou 27% entre 1929 e 1933. Nove mil bancos quebraram. A taxa de desemprego só retornaria a um dígito com o esforço de mobilização provocado pela Segunda Guerra, em 1941. Foi um tempo de miséria e simultâneo avanço social, com expansão do sindicalismo e das ideias socialistas em todo o mundo. Foi essa relação de forças que impôs à crise de 29 um New Deal feito de uma dura regulação estatal dos mercados financeiros, associada a frentes de trabalho, bónus de alimentos, refinanciamento de moradias e investimento público maciço em infra-estruturas, habitação e agricultura. É a ausência dessa mesma correlação que dá ao actual secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, a liberdade de um bombeiro vesgo, cuja mangueira só enxerga a cobertura do edifício e ignora as chamas que devoram os andares debaixo.

A história destes dias é a história de uma agonia repetidas vezes anunciadas nos últimos anos. Mas a agonia ainda não é a morte para um neoliberalismo comatoso e cego. Vale relembrar a lição de Gramsci: «A crise consiste precisamente no facto de que o velho está morrendo e o novo não consegue nascer. Nesse interregno uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece».

InfoAlternativa

Desastre atinge a face pobre da Ilha da Madeira

Francesc Relea

É a face mais pobre da Madeira. A que os turistas não veem e a que menos aparece na televisão. É a face dos bairros das zonas altas de Funchal, capital desta ilha portuguesa, que sofreram os maiores danos depois das chuvas torrenciais da semana passada. Um percurso pela periferia da cidade conduzido por um especialista permite comprovar a dimensão do desastre, que pode ter consequências mais graves se voltarem as chuvas.

Veja localização da ilha portuguesa

"Funchal tem duas faces. Esta se parece mais com as favelas do Rio de Janeiro", explica graficamente Raimundo Quintal, conselheiro do Meio Ambiente da prefeitura de Funchal durante oito anos e pesquisador do Centro de Estudos Geográficos de Lisboa. Aqui ocorreu a maior parte das 48 mortes contabilizadas até agora, e estes bairros registram o número mais elevado de famílias desalojadas. Muitas das residências que continuam de pé estão em situação precária, sob a ameaça de novos deslizamentos de terra.

"Eu avisei, eu avisei", diz Quintal aos funcionários que retiram escombros em uma fábrica de pão construída ao pé de uma antiga pedreira que não tinha licença no bairro de Fundoa. "Foi inaugurada com toda a pompa pelo presidente regional (Alberto João Jardim), em uma terra repleta de fissuras e com uma estrutura geológica muito frágil." A fábrica se salvou por enquanto, mas o estacionamento exterior está destruído.

A serra rodeia esses bairros da face norte de Funchal. De Monte, veem-se as ladeiras peladas, resultado de "séculos de desflorestamento, que também contribuiu para o desastre", aponta o geógrafo. No pico de Areeiro, de 1.800 metros, nasce o riacho de Santa Luzia, que em 8 km desce até a cidade e que no sábado transbordou em vários pontos. Há diversas marcas de deslizamentos de terra, com árvores e casas que parecem equilibrados para continuar de pé.

Os moradores fazem perguntas a Raimundo Quintal, muito popular nesses bairros de sua época de conselheiro. "Estamos seguros, doutor?", pergunta Jorge, dono de um pequeno bar ameaçado por três grandes castanheiros inclinadas. "Se caírem, levarão minha casa." Chega a toda pressa outro morador para expressar sua revolta contra o presidente autonômico da Madeira, que acaba de declarar que não quer que seja declarado estado de calamidade porque seria uma péssima mensagem para os turistas, "e a Madeira vive deles". "E os madeirenses, o que fazemos?", grita um grupo de moradores de Monte.

Jardim pertence ao conservador Partido Social Democrata (PSD), na oposição em Portugal, e governa esta região há mais de 30 anos. Seus adversários, que têm sérias dificuldades para se fazer ouvir, o acusam de autoritário e de atuar como um caudilho. Diante das opiniões de que a falta de planejamento urbano agravou os efeitos das tempestades, o presidente respondeu irritado. Depois de qualificar essas vozes de "canalhas", afirmou: "Se não tivéssemos canalizado os riachos, como fizemos, Funchal hoje não existiria".

"Canalizar não significa cobrir", responde o geógrafo Quintal. "Porque quando ocorre uma enchente a água tem de sair por algum lado, e as consequências são mais devastadoras." E acrescenta: "Jardim fala sobre o centro de Funchal, onde a canalização dos riachos foi importante. Mas não menciona a outra face da cidade, na qual ele nunca pisa e na qual se transita a pé. A que tem difícil acesso, terrenos de grande inclinação, moradias de má qualidade que foram construídas em cima ou junto de cursos d’água." Muitas dessas casas foram construídas sem licença e sem levar em conta os riscos de sua localização.

Anos depois, a prefeitura legalizou todas as moradias e emcerrou o assunto. Mas o risco continua. A meteorologia anuncia novas chuvas e a terra está muito mole. "É preciso levantar diques de contenção urgentemente", diz Quintal. E depois? "Buscar alternativas para estas áreas de risco. Temos uma grande oportunidade de recuperar o centro da cidade, onde a maioria das residências está desabitada. Seria preciso chegar a um acordo entre governo e os setores privados, que permitisse realojar as numerosas famílias que vivem nos bairros mais ameaçados."

Reuters
Manequim é visto em rua cheia de lama em Funchal, na Ilha da Madeira

El Pais

Proteínas da gengiva podem ser úteis para tratar periodontite

Antonio Carlos Quintoacquinto@usp.br

Estudos realizados em modelos animais na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP mostram que um sistema de proteínas existente no sangue, chamado sistema renina-angiotensina (SRA), que, entre outras ações, auxilia no controle da pressão arterial, pode ser a chave para novos tratamentos da doença periodontal. “Em testes realizados com ratos, constatamos que o SRA também está presente no tecido gengival dos animais”, conta o professor Carlos Ferreira dos Santos, da disciplina de Farmacologia da FOB. Estudos do grupo liderado por ele, ainda não publicados, evidenciaram que drogas usadas para controlar a pressão arterial podem atenuar a periodontite, que foi induzida experimentalmente em ratos. “Mas os experimentos em humanos ainda estão distantes”, avisa o pesquisador.

Testes comprovaram que o SRA também está presente na gengiva dos animais

Segundo Santos, para que os testes sejam feitos em humanos, ainda há um longo caminho e muitas pesquisas devem ser realizadas. Ele acredita que num prazo mínimo de cinco ou seis anos poderá se pensar em sistemas de liberação, no tecido gengival, de medicamentos específicos que afetam o SRA com o intuito de atenuar a progressão da doença periodontal, mas sem os efeitos colaterais de quando esses medicamentos são administrados por via oral (portanto sistemicamente) para baixar a pressão arterial. “É possível se imaginar o desenvolvimento de sistemas de liberação lenta dos medicamentos que afetam o SRA apenas nos tecidos bucais, como já existe para o flúor”, descreve.

O SRA tem como principal resultado final a produção de um peptídeo vasoativo a partir da ação conjunta de proteínas produzidas e/ou localizadas em diferentes órgãos como rins, fígado e pulmões. “Este conjunto de proteínas, produzidas ou localizadas nesses órgãos, no sangue levam à formação da angiotensina II, um peptídio que contrai vasos sangüíneos, auxiliando no controle da pressão arterial, entre outras funções”, explica Santos.

Cooperação
Os estudos do pesquisador sobre o SRA tiveram início em 1995 nos programas de mestrado e doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, sob orientação e co-orientação dos professores Maria Cristina de Oliveira Salgado e Eduardo Brandt Oliveira, respectivamente. Porém, somente a partir de 2004 o cientista estabeleceu os primeiros indícios, na FOB, de que o conjunto de proteínas do SRA poderia se localizar no tecido gengival de animais.

Atualmente, Santos coordena um grupo de pesquisadores que estudam o tema. Nos EUA mantém uma parceria com cientistas de Milwaukee, do Medical College of Wisconsin, onde no ano passado realizou estágio de pós-doutorado sob a supervisão do Dr. Andrew Seth Greene.

Um artigo científico, derivado de uma tese orientada por Santos, da doutoranda Ana Eliza Akashi, que trata justamente das descobertas do SRA no tecido gengival dos animais, acaba de receber a distinção de “descoberta científica”, pela revista norte-americana Journal of Periodontology. Também fazem parte do grupo de estudos os alunos de doutorado Marta da Cunha Lima, Bella Luna Colombini Ishikiriama e Caio Márcio Figueiredo, e o especialista em laboratório Thiago José Dionísio. Além deles, outro cientista norte-americano, o Dr. Daniel Thomas Brozoski, permanecerá no laboratório de Farmacologia por dois anos, sob a supervisão de Santos. “Esta equipe irá atuar nos próximos passos na confirmação de evidências para possíveis testes em humanos. Haverá mais pesquisas com animais, seguidos de estudos epidemiológicos e clínicos. Há um longo caminho”, ressalta o pesquisador.

Periodontite
A doença periodontal resulta de um processo inflamatório que acomete os tecidos em torno dos dentes (gengiva, ossos e ligamentos de suporte). Se não tratada, pode levar à perda dos dentes.

O tratamento, segundo Santos consiste na eliminação das bactérias pela retirada do tártaro (cálculo) e da placa bacteriana (biofilme). “É uma terapia principalmente mecânica, mas que pode ter o auxílio de antiinflamatórios e antibióticos adequados”, explica.

USP

Estudo mostra que faraó Tutancâmon provavelmente morreu de malária

John Noble Wilford

Recentes descobertas revelaram que o rei Tutancâmon, o jovem faraó do Egito, era frágil, deficiente físico e sofria de “desordens múltiplas” quando morreu aos 19 anos de idade, em cerca 1234 a.C.. Agora os cientistas também identificaram as prováveis causas de sua morte: um grave ataque de malária, aliado a uma doença óssea degenerativa.

Os pesquisadores afirmam que “esta é a mais antiga prova genética da ocorrência de malária encontrada em múmias de idade precisamente determinada”. Várias outras múmias no estudo revelaram no seu DNA evidências da presença do parasita que causa a malária, o Plasmodium falciparum, o que talvez não seja de se surpreender se tratando de um local como o vale do Nilo.

Ben Curtis/Reuters
Arqueólogos observam a múmia de Tutancâmon, o jovem faraó que morreu de malária

A aplicação de avançadas técnicas radiológicas e genéticas às múmias egípcias significa um novo passo da investigação histórica cada vez mais profunda por meio da ciência.

O estudo, divulgado nesta última terça-feira (16), não revelou nenhum sinal de morte causada por violência, conforme suspeitavam alguns historiadores e escritores populares familiarizados com as intrigas palacianas do Egito antigo. Exames anteriores da múmia de Tutancâmon revelaram uma fratura de perna recente, provocada possivelmente por uma queda. Isto pode ter contribuído para um estado em que havia risco de morte em um sistema imunológico já debilitado pela malária e outras desordens, afirmam os pesquisadores.

Além disso, a identificação genética das 11 múmias envolvidas no estudo revelou conexões familiares no decorrer de mais de cinco gerações da linhagem de Tutancâmon. Anteriormente, as identidades só estavam confirmadas para três das múmias. Agora, os cientistas dizem que os exames identificaram as múmias do pai, da mãe, da avó e, provavelmente, de outros parentes de Tutancâmon.

A investigação, que durou dois anos – e foi concluída em outubro do ano passado –, é descrita na edição mais recente do periódico “Journal of the American Medical Association”. A pesquisa foi dirigida por Zahi Hawass, um egiptólogo que chefia o conselho supremo de Antiguidades no Cairo, e incluiu cientistas da área médica e antropólogos do Egito, da Alemanha e da Itália. Carsten M. Pusch, do instituto de Genética Humana da Universidade de Tuebingen, na Alemanha, foi o autor do relatório.

Em um artigo editorial também publicado no periódico, Howard Markel, do centro de História da Medicina da Universidade de Michigan, que não participou do estudo, elogiou o rigor da nova pesquisa “baseada no acesso irrestrito às múmias atuais”.

Recordando a profusão de alegações post-mortem que cercaram o jovem faraó, Markel sugeriu que agora “talvez seja recomendável que a legião de admiradores de Tutancâmon reavalie diversas das teorias existentes”.

Embora não tenha sido um dos grandes líderes do Egito antigo, o faraó Tutancâmon é sem dúvida o mais conhecido. Ele foi o filho e o sucessor de Akhenaton, o controverso faraó reformista que governou de cerca de 1351 a.C. a 1334 a.C. Um dos outros feitos da pesquisa foi a primeira identificação positiva da múmia de Akhenaton, algo que era um mistério histórico independente.

A descoberta pelo arqueólogo britânico Howard Carter, em 1922, da opulenta tumba de Tutancâmon no vale dos Reis foi uma sensação. O aspecto e a morte prematura do jovem rei no nono ano do seu reinado inspiraram uma especulação fantasiosa, e os artefatos de ouro e as joias da sua tumba ainda impressionam multidões nas exibições em museus.

A impressão geral resultante da nova pesquisa é a de que o poder e a riqueza da família real não pouparam os seus membros das doenças e das deficiências físicas. Várias múmias apresentam lábio leporino, pés tortos, pés chatos e degeneração óssea. Quatro das 11 múmias, incluindo a de Tutancâmon, apresentam traços genéticos de malária tropical, a forma mais grave da infecção.

Os pesquisadores dizem que várias outras patologias foram diagnosticadas na múmia de Tutancâmon, incluindo uma desordem óssea conhecida como Doença de Köhler II, que por si só não teria provocado a morte do faraó. Mas ele sofria também de necrose óssea avascular, um doença na qual a redução do fornecimento de sangue aos ósseos provoca o grave enfraquecimento ou a destruição de tecidos. A descoberta levou a equipe de cientistas a concluir que isto e a malária foram provavelmente as causas mais prováveis da morte do rei.

Os efeitos dessa doença óssea, especialmente a “estrutura indubitavelmente alterada” do pé esquerdo, provavelmente explicam a presença de bengalas na tumba de Tutancâmon, dizem os pesquisadores.

A especulação também se concentrou no fato de que Tutancâmon não deixou herdeiros, e desenhos estilizados e esculturas dele e de seus parentes os retratam com uma aparência meio feminina ou andrógena. Isso sugere a presença de certas síndromes hereditárias, incluindo a ginecomastia, que se constitui no desenvolvimento excessivo das mamas nos homens, sendo geralmente o resultado de um desequilíbrio hormonal.

As mamas de Akhenaton e de Tutancâmon não foram preservadas. Mas o pênis de Tutancâmon, que não estava mais ligado ao corpo, “é bem desenvolvido”, segundo relatam os pesquisadores.

“A maioria dos diagnósticos de doenças se constitui em hipóteses às quais se chegou pela observação e a interpretação de artefatos, e não pela avaliação dos restos mumificados dos indivíduos da família real, independente destes artefatos”, concluíram os cientistas.

Markel, o historiador da medicina, comentou que o uso de técnicas radiológicas e genéticas no estudo da história humana gerou questões de natureza ética que precisam ser enfrentadas.

Ao escrever para o periódico, ele questionou: “Quais serão as regras para a exumação de corpos com o objetivo de solucionar mistérios patológicos persistentes? As grandes figuras históricas teriam direito às mesmas regras de privacidade das quais os os cidadãos comuns desfrutam após a morte? E, de forma mais pragmática, o que se obteve de fato a partir desses estudos? Eles modificarão o pensamento atual sobre doenças ameaçadoras e a sua prevenção, como por exemplo a gripe? Eles modificarão o entendimento do passado, tal como a poderosa elucidação, a partir do estudo de Jefferson, da intimidade durante a era da escravidão e o estudo focado em Tutancâmon sobre a conduta da família real no Egito?”.

Tradução: Danilo da Fonseca

The New York Times