Monthly Archives: março 2010

Na América Latina e Caribe há 7 milhões de jovens desempregados

OIT

A OIT faz um apelo para a geração de mais e melhores empregos  depois de uma crise que deixou mais de 600.000 desempregados entre 15 e 24 anos

Na América Latina e no Caribe os jovens foram as principais vítimas de uma crise de emprego que deixou um rastro de desemprego e informalidade, disse hoje a OIT ao mostrar a necessidade de que sejam tomadas medidas que ajudem a recuperação econômica e produzam novas oportunidades para as pessoas entre 15 e 24 anos.
"O desemprego urbano da região afeta 7 milhões de pessoas jovens", disse o diretor regional da OIT para a América Latina e o Caribe, Jean Maninat, ao participar de um fórum da União Europeia – América Latina e Caribe sobre Coesão Social que ocorre em Lima, e é dedicado ao desafio de discutir o trabalho decente para a juventude.
Maninat acrescentou que " tudo parece indicar que os jovens jovens foram mais afetados pela crise que acabamos de viver durante o ano passado." Segundo estimativas da OIT, como resultado da crise, cerca de 600.000 jovens somaram-se às filas de desemprego.
A OIT apresentou um documento de atualização sobre o relatório "Trabalho Decente e Juventude" (ver link abaixo) para a reunião a ser realizada na capital peruana, com a participação de Ministros do Trabalho e vice-ministros de ambos os continentes, e representantes de organizações internacionais e organizações sociais.
O documento disse que a região tem 104 milhões de jovens, e que:
34% dos jovens somente estudam 
33% dos jovens só trabalham
13% dos jovens estudam ou trabalham
20% dos jovens não estudam nem trabalham
Além disso, o documento afirma que, segundo os dados disponíveis, entre aqueles que   trabalham apenas 10% têm um contrato estável, 35,1% têm seguro de saúde, e 32,5% estão matriculados em um sistema de pensões.
"Estes números são reveladores e preocupantes", disse Maninat durante o Fórum e advertiu que as evidências do elevado desemprego e informalidade deixam claro que "o trabalho decente para a juventude é uma questão em aberto que já existia desde antes da crise."
"Estamos enfrentando um desafio político",  acrescentou o representante da OIT, que considera particularmente preocupante a proporção de 20% dos jovens que não estudam nem trabalham. "Quando há desespero e frustração entre estes jovens isso não só compromete o futuro, mas se torna mais difícil a estabilidade de nossas sociedades e até mesmo a representatividade e a governabilidade democráticas”.
A OIT disse que o desemprego durante a crise poderia ter sido maior, mas a taxa foi contida, em parte, porque não houve um aumento na taxa de participação laboral, devido à decepção experimentada por muitos trabalhadores diante da impossibilidade de  encontrar emprego. "As principais vítimas do desalento foram os jovens", disse Maninat.
O estudo da OIT disse que os dados recolhidos até agora indicam que na maior parte  da região diminuiu a taxa de participação dos jovens no mercado de trabalho, enquanto que a dos que tem mais de 25 anos geralmente se manteve estável.
"Após a crise, a situação é urgente. Agora, temos de investir na criação de emprego a mesma vontade política e engenho que foi usado para salvar o sistema financeiro ", disse o Diretor Regional da OIT.
Ele lembrou que a OIT tem disponibilizado para países um Pacto Global para o Emprego, aprovado por representantes de governos, empregadores e trabalhadores, que contém um conjunto de medidas para permitir a recuperação econômica capaz de  produzir mais e melhores empregos.
"Quase todas as medidas preconizadas no Pacto Global tem uma influência significativa sobre a situação dos jovens", concluiu Maninat.
O Fórum da UE – ALC sobre coesão social, que termina em Lima na quarta-feira, pretende promover o intercâmbio de experiências e gerar uma série de recomendações relacionadas com a promoção do trabalho decente para a juventude.

Fonte: Organização Internacional do Trabalho – http://www.oitbrasil.org.br

Os latinos nos EUA se dizem traídos por Obama

Corine Lesnes

Barack Obama, presidente dos EUA

Barack Obama, presidente dos EUA

Eles fizeram parte da coalizão que garantiu em novembro de 2008 a eleição do candidato democrata. Chegou a hora de os latinos se juntarem à legião dos “decepcionados com Obama”. Para tentar acalmar a revolta que ruge entre os imigrantes, o presidente americano recebeu, na quinta-feira (11), os diretores das associações, dos sindicatos e das igrejas. Ele também conversou com os parlamentares que tentam encontrar um consenso sobre a imigração no Congresso. “Minha determinação em conseguir a adoção de uma reforma global não mudou”, garantiu.

Desde a vitória de 2008, a comunidade hispânica viu com crescente desespero a questão da regularização dos clandestinos desaparecer das prioridades da Casa Branca, em benefício da reforma do sistema de saúde, da regulação financeira e da lei sobre a mudança climática. Para mandar lembranças aos representantes, as associações estão organizando uma manifestação nacional, para o dia 21 de março em Washington. Antes da marcha, seus diretores haviam pedido uma audiência à Casa Branca. Eles ficaram surpresos ao serem atendidos por quase uma hora pelo presidente em pessoa.

Até hoje, as grandes associações evitaram atacar diretamente o presidente, limitando-se a colocar no YouTube vídeos com trechos de discursos de campanha. Mas, fundamentalmente, a decepção está viva. “Nossa comunidade se sente traída”, explicou ao “Washington Post” Brent Wilkes, da Liga dos Cidadãos Latino-Americanos. “Nunca poderíamos pensar que Barack Obama teria um balanço como esse”. Emma Lozano, diretora do Centro Sin Fronteras, uma associação de Chicago, foi ainda mais direta: “Sem legalização, sem reeleição”.

Logo que foi eleito, o presidente recrutou Cecilia Muñoz, uma das diretoras do Conselho de La Raza, a principal associação de latinos. Mas a administração Obama efetuou um número recorde de expulsões (quase 400 mil). E os imigrantes se decepcionaram com o tom do debate sobre o seguro de saúde: sob a pressão republicana, os democratas proibiram qualquer possibilidade para um clandestino de obter um seguro, ainda que pago por ele mesmo. As associações lamentam que Obama continue a acreditar que a regularização só pode avançar se os americanos tiverem certeza de que a ordem reina na fronteira, como ele havia dito em 2006 ao aprovar a construção de um “muro” na fronteira mexicana.

No momento em que o desemprego se aproxima dos 10%, os políticos não estão particularmente dispostos a abordar uma questão para a qual George W. Bush não conseguiu progressos, quando o índice de desemprego era de somente 5%. Para as associações, pelo contrário, é hora de reformar: a crise desacelerou a imigração. A lei tem poucas chances de ser aprovada antes das eleições locais de novembro de 2010, mas Obama tem o dever de mostrar que está cuidando disso. Na quinta-feira, ele recebeu os dois senadores que trabalham há um ano sobre o assunto, o democrata Charles Schumer e o republicano Lindsey Graham.

O presidente não quer repetir o erro cometido com a reforma do sistema de saúde. Ele prefere que os acordos sejam feitos previamente, para evitar que os republicanos criem obstáculos no momento de votar. Mas até o momento, o espírito de consenso deu origem a uma proposta muito controversa: a introdução de uma carta de identidade nacional.

Após um período de discrição, os hispânicos pretendem lembrar que eles detêm a chave de cerca de quarenta votos para as eleições de novembro. Em 2008, Obama ganhou a eleição presidencial com grande vantagem entre os imigrantes naturalizados (75% contra 25% para o republicano John Mc Cain). Vários Estados pesaram em seu favor (Colorado, Nevada, Flórida), graças ao fluxo de novos inscritos (400 mil novos eleitores na Flórida, sendo 57% democratas). O recenseamento de 2010 – que serve de base para a redistribuição dos distritos – deverá ressaltar seu peso demográfico. Segundo um relatório do grupo America’s Voice Education Fund, ele deverá conseguir atribuir cadeiras extras ao Congresso pela Geórgia, Flórida e Texas.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

EUA e Rússia concordam em diminuir número de armas nucleares

Peter Baker e Ellen Barry

A secretária de 
Estado norte-americana, Hillary Clinton, e o ministro das Relações 
Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, em Moscou

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, em Moscou

Os Estados Unidos e a Rússia quebraram o impasse nas negociações para controle de armas e esperam assinar um tratado no próximo mês, visando reduzir seus arsenais nucleares para os níveis mais baixos em meio século, disseram autoridades de ambos os países na quarta-feira.

Após meses de impasse e adiamento, os dois lados concordaram em reduzir o limite para ogivas estratégicas posicionadas em mais de um quarto e os lançadores pela metade, disseram as autoridades. O tratado imporá um novo regime de inspeção para substituir o que deixou de vigorar em dezembro, mas não restringirá os planos americanos de um escudo de defesa antimísseis baseado na Europa.

Os presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev planejam conversar na sexta-feira para finalizar o acordo, mas as autoridades disseram que eles estão otimistas de que o acordo está praticamente fechado. Os dois lados deram início aos preparativos para uma cerimônia de assinatura em Praga, em 8 de abril, para marcar o aniversário do primeiro encontro entre os dois presidentes, assim como o discurso de Obama na capital tcheca, no qual expôs sua visão para futuramente livrar o mundo das armas nucleares.

O novo tratado talvez represente a realização mais concreta em política externa para Obama desde que assumiu o cargo, há 14 meses, e o resultado mais significativo de seu esforço de “reiniciar” o relacionamento problemático com a Rússia. O governo quer usá-lo como forma de ganhar embalo para a cúpula nuclear internacional em Washington, poucos dias após a cerimônia de assinatura, e para uma rodada mais ambiciosa de redução de armas mais à frente em seu mandato.

“Isso dá um impulso” aos esforços do governo de melhorar os laços com a Rússia, disse Steven Pifer, um alto funcionário do Departamento de Estado sob o presidente George W. Bush, que é especializado em Rússia e questões de controle de armas. “Ainda há muito que fazer e ainda há questões difíceis. Mas as coisas parecem estar transcorrendo bem nos últimos seis meses e isto é positivo para o relacionamento.”

De modo mais amplo, a Casa Branca espera que o tratado se some à vitória do presidente na luta pela reforma da saúde, demonstrando progresso tanto nas frentes doméstica quanto internacional após meses de frustração com as metas não atingidas.

O novo pacto de 10 anos substituiria o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START, na sigla em inglês) de 1991, que expirou em dezembro, e amplia ainda mais os cortes negociados por Bush em 2002, no Tratado de Moscou. Sob o novo pacto, segundo as pessoas informadas a respeito em Washington e Moscou, em sete anos cada lado reduziria suas ogivas estratégicas posicionadas das 2.200 atualmente permitidas para 1.550. Cada lado reduziria o número total de lançadores dos 1.600 atualmente permitidos para 800. O número de mísseis com armas nucleares e bombardeiros pesados teria um limite de 700 cada.

Nem a Casa Branca e nem o Kremlin anunciaram formalmente o acordo na quarta-feira, que dependia de um telefonema final entre os presidentes. Um funcionário do Kremlin, que falou sob a condição de anonimato, disse que há um acordo em relação ao texto do pacto, apesar de sua redação ainda não ter sido concluída. Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca, disse: “Nós estamos muito perto”.

Os defensores do controle de armas aplaudiram o progresso. Daryl G. Kimball, diretor executivo da Associação para o Controle de Armas, o chamou de “a primeiro tratado real de redução de armas nucleares pós-Guerra Fria”. Richard Burt, um ex-negociador chefe do START e que agora chefia o grupo pró-desarmamento chamado Global Zero, disse que os dois presidentes “deram um grande passo para atingirem sua meta de zerar (as armas) globalmente”.

O avanço acabou com quase um ano de negociações tumultuadas, que se arrastaram bem mais do que o previsto. Os dois lados brigaram pela obrigação de verificação, compartilhamento de telemetria e limitação aos programas de defesas antimísseis. Obama reestruturou os planos de Bush para um escudo antimísseis na Europa, mas Moscou também fez objeções à nova versão e queria restrições. Obama se recusou. Os dois presidentes resolveram os desentendimentos durante um telefonema em 13 de março.

O tratado será enviado para ratificação pelos Legislativos de ambos os países, e a política de ratificação no Senado poderá ser difícil, ocorrendo em um momento polarizado e com as eleições de meio de mandato no horizonte. Os senadores republicanos já expressaram preocupação de que Obama esteja oferecendo concessões inaceitáveis. A ratificação no Senado exige 67 votos, o que significa que Obama precisaria do apoio dos republicanos.

Os senadores Mitch McConnell, do Kentucky, e Jon Kyl, do Arizona, os líderes republicanos, escreveram para Obama na semana passada alertando que esta ratificação é “altamente improvável” se o tratado contiver qualquer ligação vinculante entre as armas de ataque e a defesa antimísseis, o recordando de sua posição de que “o escudo antimísseis não está na mesa de negociação”.

Os funcionários do governo que descreveram a minuta do tratado disseram que seu preâmbulo reconhece a relação entre armas de ataque e a defesa antimísseis, mas que a linguagem não é vinculante. O tratado estabelece um novo regime de inspeções, mas a equipe de monitoramento americana baseada na fábrica de produção de mísseis em Votkinsk, até a expiração do START, não seria autorizada a retornar de modo permanente.

Analistas russos disseram que Moscou ficou contente com a redução do regime de inspeção exigido pelo START, que considerava altamente intrusivo, mas decepcionado por não ter obtido as restrições à defesa antimísseis. Os militares pressionavam o Kremlin a não aceitar reduções de armas sem limitações ao escudo antimísseis americano, apesar de tanto Bush quanto Obama terem dito que ele é voltado ao Irã, não à Rússia. No final, o Kremlin passou por cima dos militares porque queria uma realização na política externa. “Os militares não têm mais a influência que tinham nos tempos soviéticos”, disse Anton V. Khlopkov, diretor do Centro para Estudos de Energia e Segurança, em Moscou. “Naquela época, os militares, quando não estavam no comando do governo, eles estavam entre aqueles que lideravam as negociações de controle de armas pelo lado soviético. Agora eles têm um papel bem menor.”

Vladimir Z. Dvorkin, um general reformado e consultor de controle de armas, disse que Moscou manterá a capacidade de abandonar o novo tratado caso as defesas antimísseis americanas se tornem uma ameaça. “Se, por exemplo, os Estados Unidos posicionarem unilateralmente quantidades consideráveis de defesas antimísseis, então a Rússia teria o direito de se retirar do acordo, porque o espírito do preâmbulo teria sido violado”, ele disse.

Obama se encontrou na quarta-feira na Casa Branca com os senadores John Kerry, de Massachusetts, e Richard G. Lugar, de Indiana, os líderes democrata e republicano no Comitê de Relações Exteriores do Senado, para informá-los sobre as negociações. Kerry disse que não convocaria audiências entre a Páscoa e o Memorial Day a respeito do controle de armas e prometeu agir até o final do ano. “Eu asseguro ao presidente de que apoiamos fortemente seus esforços e que se as negociações finais e tudo mais prosseguir tranquilamente, nós trabalharemos para assegurar que o Senado possa votar o tratado neste ano”, disse Kerry.

*Reportagem de Peter Baker, em Washington (EUA), e Ellen Barry, em Moscou (Rússia). Clifford J. Levy, em Moscou, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Gato borralheiro

De como Chiquinho calculou mal sua entrada no bar e seu refúgio na vida

Mônica Manir

De churrasqueira não se espera queda, mas ascensão. Ascensão de fumaça e de cheiro de picanha no sal. Francisco ficou no meio do caminho. Levitava dentro da chaminé, entoando um mantra penoso: "Ai, socorro, me ajuda". Os pés tingidos de carvão balangavam sofregamente, e era só o que o público em frente do Bar da Pura conseguia ver do gatuno. A gozação era geral. O ladrão tinha entalado.

Cleia foi quem deu o flagrante no Cinderelo. Acabara de chegar do hospital com a filha de 9 anos, que uma hora antes tinha machucado levemente os dedos num ventilador. Diante do seu bar na Rua Campo Comprido, no bairro do Imirim, quatro viaturas cegavam os moradores com seus giroflexes. Cleia pensou no marido. Teria tido um ataque? Benê dormia o sono profundo dos consumidores eventuais de um relaxante. Como o "Ai, pelo amor de Deus" persistisse, resolveu abrir o bar tendo um policial como escudo. Um olhar de canto identificou as solas rachadas, a poucos centímetros da grelha. "Algo em mim dizia que era o infeliz que vi rodeando o bar antes de sair com minha filha."

E era. Francisco sondara o local sem muito disfarce, tanto que, antes de rumar para o pronto-socorro, Cleia chegou a chamar uma viatura, que não deu pista dele. O moço, de 19 anos, teria galgado o muro pegado ao bar, uma parede de concreto encimada de pregos e cacos de vidro, se embrenhado no milharal e no bananal que cobrem o terreno e, uma vez na penumbra, subido no telhado do estabelecimento. Ali tirou a cobertura da churrasqueira, desvencilhou-se dos chinelos e da camiseta e afundou no túnel. A compleição esguia não fez de Francisco um quiabo. "Ele entrou, mas se ferrou", relatou Neuma, a vizinha que chamou os policiais. "Ficou engasgado."

Os bombeiros olharam daqui, olharam de lá, e um deles até pensou em puxá-lo pelos braços, tanto que quebrou a ponta da churrasqueira, o que só aumentou o prejuízo de Cleia e Benê. Por baixo, outros companheiros marretavam a torre de alvenaria de 3 metros de altura com um vão quadrado de 23 cm por 23 cm, enquanto a notícia do larápio desastrado se espalhava como pólvora pelas tevês e pelo YouTube. Depois de uma hora Francisco pariu-se de corpo inteiro para os holofotes. Apresentava escoriações nas pernas e nos braços e uma feição abobalhada. Foi levado para o Hospital do Mandaqui, onde lhe radiografaram o tradicional, e dali seguiram com ele para o 13º DP.

QUATRO VEZES FEBEM

Na manhã seguinte, Fernanda soube por uma vizinha da trapalhada de Chiquinho, como ele é fichado na família. Já estava habituada com os enroscos do irmão, preso por furto quatro vezes na Febem e mais três em CDPs depois que ganhou a maioridade. Alguns da comunidade de Lauzane Paulista, bairro de inspiração suíça próximo do Imirim, o têm em conta negativa. Chegaram a amarrá-lo certa vez numa árvore, para cada um dar sua contribuição ao linchamento. Foi salvo pela polícia.

"Ele nunca pegou numa arma, só furta eletrônico para comprar droga", ressalva Fernanda. Até os 13 anos, era moleque de empinar pipa e fazer carreto para as senhoras que subiam as ladeiras com as sacolas de feira marcando os antebraços. Mas não configurava um menino tradicional. Já tinha passagem pelas Clínicas com um histórico de hiperatividade e déficit de atenção. Mal frequentou a escola, porque não conseguia se concentrar, e virava e mexia tinha siricoticos. Saía pela rua agitado, "como um passarinho que tem que voar".

A partir dos 13, virou "13" para os conhecidos, um louco de pedra. O crack deteriorou o que sobrava nele de interatividade sadia. Passou a sumir de casa e a surrupiar furadeira, DVD, aparelho de som, o que lhe parecesse moeda de troca. A mãe, que se dividia na criação autônoma dos outros oito filhos, não sabia mais como insistir no tratamento da hiperatividade se a ela se juntara a droga. Fosse viva, saberia que até os agentes de saúde fogem dos noias…

Morreu há quatro meses de ataque do miocárdio. O filho mais velho já tinha assumido responsabilidades de pai de família, mas os mais antigos da Rua Saint Gall também davam seus pitacos na tentativa de tirá-lo desse caminho. Seu Ademir, dono do Bar e Empório Saint Gall, alimentava Francisco com paçoca Gibi, Coca-Cola e conselhos que mal entravam por um ouvido e saíam pelos dois. "Ele faz que aceita, mas o olhar dele não se fixa em nada nem em ninguém."

Nem na parede democrática do bar, tomada de pôsteres de todos os times paulistas campeões, Francisco botava curiosidade específica. "Se você desse uma camisa do Palmeiras, ele usava, se fosse do Corinthians também, até do Fluminense ele gosta", indigna-se Zé, frequentador do botequim, que ficou três anos na cadeia, mas por causa da cocaína. Regenerado, ajeita o boné para tentar explicar como Francisco se safaria do Bar da Pura caso seu quadril driblasse a chaminé e ele ainda dobrasse ao meio seu 1,80 metro para passar pela boca da churrasqueira. "Assim que alguém abrisse a porta, ele saía correndo."

ANCAS NA JANELA

Em maio do ano passado, Osnar dos Santos Cesário também calculou que suas ancas não entalariam na janela de outro bar, este em Jundiaí, interior de São Paulo. Acabou consigo mesmo metade para fora, metade para dentro, quando tentava sair do local sem o objeto do desejo. Aos gravadores, disse que havia sido assaltado, ficara sem dinheiro e invadiu o bar para filar a grana do busão. Às câmeras, saiu-se com "Mais uma, de novo" – donde se presume que, ou já se embaraçara em outras estreitezas da vida, ou era reincidente no crime. Ao levantarem a ficha do homem de 40 anos, ela veio limpa. A polícia, então, o liberou, para enquadrá-lo de novo em novembro, quando foi autuado em flagrante por furto na cidade de Várzea Paulista. Na cadeia de Jundiaí, seu nome não consta mais entre os 420 detentos.

Em novembro mesmo, um romeno tentou passar por um postigo que o levaria da rua ao supermercado do seu António, em Almancil, na província portuguesa de Algarve. Não atentou para a própria circunferência abdominal, que o impediu de evoluir na empreitada. Como disseram os nativos, acabou com o rabo para fora, posição em que permaneceu por nove horas até a chegada do proprietário. Quando os bombeiros chegaram, ele estava com as calças arriadas até os joelhos e apenas de peúgas, sem os sapatos. Permaneceu dessa forma, atravessado, em trajes mínimos e sem tocar o chão com o bico dos pés, por mais um par de horas.

Moradores disseram que, se o invasor tivesse estudado mais um bocadinho, não teria protagonizado aquele espetáculo. O proprietário nem sequer apresentou queixa. O ladrão, sim. Três meses depois, alegou que alguém lhe despiu as pantalonas antes da chegada das autoridades. Culpa seu António pelo constrangimento. O dono do supermercado tira sarro. Considera a situação "hilariante" e garantiu estar com a consciência absolutamente tranquila. A queixa foi remetida ao Ministério Público.

Assim como o proprietário do bar de Jundiaí, que teve de pagar por uma janela e seis vidros quebrados, Cleia e Benê assumem sozinhos o ônus da invasão. A churrasqueira, com as entranhas à vista, ela emprestava àqueles que desejavam assar o kit linguiça/contra-filé/picanha/pão de alho. O lucro vinha da cervejinha, que terá de ser tomada a seco pelos fregueses em volta da mesa de bilhar.

A família de Francisco arca com a exposição de um sofrimento que, até então, ficava moderadamente circunscrito à moradia de quatro cômodos escada abaixo, dividida entre 14 membros – ou 15, nas vindas esporádicas de Chiquinho. As crianças viraram "sobrinhos do churrasquinho" ou "gnomos de Papai Noel". Estão todos enclausurados, com a vergonha a inundar a casa.

Francisco foi do 13º para o 72º DP e, de lá, para o Centro de Detenção Provisória de Osasco I. Permanece na tranca e, por isso, os irmãos ainda não podem visitá-lo. Como das vezes anteriores, terá advogado nomeado pelo Estado. É acusado de furto qualificado sob o inciso de "abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza". Escalada, sim. Destreza, pouca. Abuso de confiança, difícil. Com a vida encalacrada no vício, Francisco não inspira nenhuma. Não à toa, quando os policiais lhe perguntaram o que fazia dentro da chaminé, ele se limitou a dizer: "Nada, senhor". Absolutamente nada.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Mundo árabe se afasta cada vez mais de estereótipos muitas vezes equivocados

Parag Khanna

Mahmoud Ahmadinejad, presidente do
 Irã

Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã

Um encontro da Liga Árabe tende a evocar os piores estereótipos do Oriente Médio: um protocolo disfuncional, exortações vazias denunciando o mal ocidental e um azedume sem sentido.

Mas a cúpula desta semana em Trípoli pode marcar um momento de virada. A Liga Árabe está cada vez mais séria e confiante, cogitando propostas que os EUA deveriam apoiar em vez de rejeitar.

Percepções ocidentais persistentes e equivocadas em relação aos árabes dão sustentação aos falsos parâmetros que usamos para analisar a região. Nós, norte-americanos, continuamos muito influenciados pelo trauma do 11 de setembro e pelo Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe preparado pelo Programa de Desenvolvimento da ONU e amplamente divulgado, que reforçou as imagens da corrupção e subdesenvolvimento árabe.

Mudanças
Mas o mundo árabe também é rico e cheio de recursos, abençoado com petróleo e estrategicamente localizado na intersecção da Europa, África e Ásia. Ele não será “deixado para trás” pela globalização.

Ao contrário, a tendência mais significativa e negligenciada da última década foi uma positiva globalização dentro do mundo árabe devido ao investimento transnacional e à mídia via satélite, como a Al Jazeera e a Al Arabiya.

Diferentemente dos booms anteriores do petróleo, os árabes guardaram seu dinheiro mais do que nunca nos anos que se seguiram ao 11 de setembro, incentivando a criação de empregos desde o Marrocos até a Síria e o fenômeno econômico de Dubai.

Nunca tantos jovens árabes participaram de intercâmbios estudantis, conferências de ativismo e blogs de internet. O mundo árabe é capaz de se modernizar e mostrou sinais promissores de que está fazendo isso.

Política
Também falhamos em compreender a realidade estratégica árabe. Se os árabes deveriam supostamente se alinhar com os Estados Unidos e Israel para conter as ambições hegemônicas do presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã, então por que a Síria foi sede de um “conselho de guerra” do Irã e Hezbollah em Damasco no mês passado? E por que Qatar está explorando gás junto como Irã?

O fato é que a maioria dos árabes prefere um modo de vida que inclua o Irã – assim como muitos colaboram tacitamente com Israel nos assuntos de interesse mútuo.

Em vez de se considerarem encurralados entre Israel e o Irã, o objetivo árabe mais comum parece ser limitar à excessiva influência norte-americana na região.

Os norte-americanos acreditam amplamente que o mundo árabe ficou satisfeito com a eleição do presidente Obama há mais de um ano. Isso de fato aconteceu, mas não porque os árabes queiram uma liderança norte-americana forte na região; eles preferem administrar suas próprias questões com o mínimo de interferência norte-americana. Desde dialogar com o Hamas até negociar com o Irã, os Estados árabes estão resolvendo os problemas com suas próprias mãos. E isso é bom.

Diálogo
Nos dias anteriores à reunião da Liga Árabe este fim de semana, a organização sinalizou para a liderança palestina que apoia o diálogo direto com Israel, e está avançando para criar uma força pacificadora árabe que estabilize Gaza e reintegre o Hamas ao governo palestino.

Lidar com as divisões internas dos palestinos dessa forma realiza o objetivo dos EUA de subjugar o Hamas de uma forma bem melhor do que qualquer esforço norte-americano até agora.

A noção de que o governo Obama precisa “reabrir o diálogo e liderar” o processo de paz é rejeitada mesmo por aliados de longa data dos EUA como o ex-embaixador saudita em Washington Prince Turki al-Faisal, que disse recentemente: “Nós não queremos que Obama faça nenhum novo plano norte-americano. Apenas que nos ajude a implementar os já existentes.”

O mesmo se aplica ao lidar com o Irã. Em todos os encontros anuais do Diálogo de Manama do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, pequenos países do golfo falam sobre a criação de uma Conferência de Segurança do Golfo na qual tanto o Irã quanto Israel seriam incluídos – um passo que poderia melhorar muito a confiança regional conferindo mais transparência às atividades destes países. Mas em nome de preservar uma “frente unida” contra o Irã, os EUA sempre rejeitam a ideia.

Um Parlamento Árabe e um Conselho de Segurança Árabe também estão na agenda da reunião em Trípoli, assim como ideias de financiar mais escolas seculares. Se os EUA querem ver menos teocratas e mais tecnocratas no mundo árabe, deveriam acolher a liderança da Líbia e do Líbano, do Marrocos e de Qatar.

A região só atingirá um equilíbrio natural se os EUA aceitarem um mundo árabe que seja capaz de governar de acordo com sua própria vontade. Um equilíbrio que os EUA não precisem sustentar com sangue e dinheiro.

(Parag Khanna é pesquisador sênior da Fundação Nova América e autor de “O Segundo Mundo: Como as Potências Emergentes Redefinem a Competição Global no Século 21.”)

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: Herald Tribune – http://www.iht.com/pages/index.php

Depois da Grécia, agora é a vez de Portugal enfrentar as desconfianças na zona do euro

Peter Wise

Bandeiras de Portugal penduradas em 
prédio comercial de Lisboa, a capital do país

Bandeiras de Portugal penduradas em prédio comercial de Lisboa, a capital do país

O Parlamento de Portugal votará hoje um plano de austeridade de quatro anos, depois que a confiança internacional nas finanças públicas da nação foi abalada por um rebaixamento da nota de sua dívida soberana.

A medida da agência de classificação de risco Fitch Ratings poderá aumentar a pressão por um acordo da zona do euro sobre ajuda financeira para a Grécia, entre temores de que a crise da dívida possa se espalhar para outros países do sul da Europa.

Fernando Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças de Portugal, pediu ontem a partidos de oposição que enviassem um “sinal inequívoco” de que o plano de um governo minoritário de cortar um crescente déficit orçamentário tinha apoio entre partidos.

Seu apelo veio enquanto a Fitch rebaixava seu rating para a dívida de longo prazo de Portugal de AA para AA-, demonstrando preocupação com o possível impacto da crise mundial sobre o crescimento econômico e a dívida pública.

O rebaixamento colocou Portugal no mesmo nível que a Irlanda, a Itália e Chipre em termos de rating de sua dívida soberana – dois pontos acima da Grécia, que tem um rating Fitch de BBB+.

A Fitch disse que sua decisão refletia o “significativo mau desempenho orçamentário” em 2009, quando o déficit orçamentário do país disparou para uma alta recorde de 9,3% do PIB – contra 2,7% no ano anterior.

Douglas Renwick, um diretor-sócio da Fitch, disse que isso era um “choque fiscal considerável” que tinha se somado a fragilidades econômicas e estruturais, reduzindo a capacidade creditícia de Portugal.

Ele disse que o programa de estabilidade e crescimento que Lisboa apresentará em breve à Comissão Europeia era “bastante convincente”.

Mas disse ainda que era baseado em números estimados de crescimento para 2012 e 2013 que poderiam levar a “decepção” e “mau desempenho”.

Analistas internacionais também questionaram os programas de redução de déficit na Grécia e na Espanha, por serem baseados no que eles veem como previsões de crescimento excessivamente otimistas.

Entretanto, Teixeira dos Santos disse que não via necessidade para medidas adicionais de austeridade em resposta ao rebaixamento do rating.

A votação de hoje foi descrita pelos líderes da oposição como equivalente a um voto de confiança a um governo minoritário. A expectativa é de que o plano seja aprovado com a abstenção de partidos à direita dos socialistas governistas.

O programa pretende reduzir o déficit para 2,8% do PIB em 2013, um corte de cerca de 9 bilhões de euros, de 14 bilhões de euros para cerca de 5 bilhões de euros (R$ 12 bilhões). Medidas incluem um congelamento de salários do setor público, cortes nos gastos do setor militar e aumento de impostos.

Com esse plano, estima-se que a economia, que contraiu 2,7% no ano passado, se recuperará gradualmente até alcançar um crescimento de 1,7% em 2013. O desemprego, que atualmente está em 10,5%, está previsto para permanecer acima de 9%.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Financial Times – http://noticias.uol.com.br/

Cerâmica competitiva

Parceria entre indústrias e centro de pesquisa resulta em produtos com menos perdas e mais qualidade

Dinorah Ereno

© Eduardo Cesar

Canecas depois de secas, antes de irem para a etapa de queima no forno

Na cidade de Pedreira, localizada a 130 quilômetros de São Paulo, as principais ruas de comércio ostentam em suas vitrines uma grande variedade de objetos de decoração feitos de cerâmica, como miniaturas, pratos, copos e pinguins coloridos em vários formatos e tamanhos também conhecidos como produtos de louça. “Praticamente toda a cidade vive em função da cerâmica”, diz o professor Elson Longo, coordenador do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da FAPESP, que desenvolve há quatro anos um projeto de parceria com 29 empresas do município para que elas possam produzir peças de melhor qualidade, baseadas no conhecimento acadêmico, com o mínimo de perdas no processo produtivo. “Começamos fazendo um controle da qualidade da matéria-prima”, diz a pesquisadora Shirley Cosin, convidada pelo CMDMC para coordenar o projeto na cidade de Pedreira e que durante 28 anos trabalhou na indústria cerâmica.

No início desse processo, por exemplo, as empresas recebiam a argila com excesso de ferro magnético. “Quando a argila tem ferro em sua composição as peças ficam com pintas pretas e com um defeito no centro da peça chamado de coração negro, que só aparece após o processo de queima”, explica Longo, do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara. Para avaliar se a argila tem realmente resíduos de ferro são necessários alguns ensaios feitos no Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ligado ao CMDMC. “Por amostragem, se alguns lotes de argila não estiverem adequados aos parâmetros previamente estabelecidos no ato da compra, eles são devolvidos ao fornecedor”, diz Shirley.

Outro problema recorrente encontrado era o tamanho da granulometria do quartzo e do feldspato, matérias-primas que, junto com a argila e o caulim, compõem a massa básica usada para fabricação das peças cerâmicas. Os fornecedores nunca respeitavam o tamanho dos grãos estipulado pelas indústrias. “Em vez de grânulos menores, chamados tecnicamente de malha 200, eles recebiam os de malha 80”, relata Shirley. Isso causava sérios problemas, porque grãos maiores causam defeitos nas peças cerâmicas. “Desde que foi instituído um controle do material recebido pelas empresas, houve uma grande melhora”, diz Shirley. “Antes a argila que vinha era completamente cinza e hoje já chega branca, mais apropriada para a produção de cerâmica artística.”

Toda a argila utilizada em Pedreira é comprada de um único fornecedor, da cidade de São Simão, também no interior paulista, de onde ela é extraída de áreas de várzea. “Esbarramos em um grande problema, que é a falta de qualidade do produto, composto por 30% de umidade, 20% de turfa e de 10% a 15% de areia”, diz Longo. Ou seja, apenas 40% da matéria-prima comprada por um preço que varia de R$ 500,00 a R$ 600,00 a tonelada é efetivamente aproveitada. Como para o produto atingir outro patamar de qualidade é preciso adotar técnicas apropriadas de extração e beneficiamento – o que leva tempo –, a alternativa encontrada pelos pesquisadores foi sugerir às empresas que passassem a comprar uma argila importada da Inglaterra, com preço idêntico ao da nacional, que já está sendo usada por outras empresas no Brasil. “A vantagem da matéria-prima importada é a qualidade, que resulta em redução de etapas no processo produtivo”, diz Shirley. “Não é preciso moer nem lavar a argila, basta pesar e jogar no moinho.”

Queima econômica – Como a argila é pura, há também um ganho no processo de queima. “A queima, que era feita entre 1.280 e 1.320 graus Celsius, dependendo da quantidade do quartzo que vinha na argila, agora é feita com uma temperatura constante de 1.200 graus”, diz Shirley. O ganho de 80 graus na temperatura representa uma significativa economia nos custos do processo. A diminuição da temperatura também significa peças com menos retrações e, consequentemente, defeitos.

No início, as indústrias ficaram reticentes com a ideia de importar a argila, mas aos poucos foram aderindo. “Depois de testes piloto realizados com pelo menos 16 empresas foi feita uma grande encomenda”, diz Shirley. O diretor e proprietário da empresa Porcelanas Lu, Valdemir Pansani, relata que com o apoio do projeto conseguiu reduzir as perdas de 40% para 10%. “Esse projeto veio na hora certa, porque eu estava enfrentando muitas dificuldades e a empresa corria sério risco de fechar”, diz Pansani. A partir do momento em que foi feita uma triagem do material, as perdas já foram reduzidas. “O trabalho de acompanhamento e controle da massa e do esmalte melhorou muito a qualidade do produto e, com isso, consegui ser mais competitivo.”

© Eduardo Cesar

Porcelanas recebem filetes de tinta à base de ouro

Trabalho ininterrupto – A empresa, fundada em 1986, tem 80 funcionários que se revezam em várias funções durante 24 horas por dia. Um dos carros-chefe da Porcelanas Lu são os pinguins, produzidos em 70 modelos diferentes, que vão desde o tradicional até os mestres- -cucas, músicos e famílias. A empresa fabrica ainda miniaturas, canecas com logotipos de empresas, jogos de xícaras, vasos e pratos decorativos. O objetivo do empresário, que também tem duas lojas que vendem os produtos que fabrica na cidade, é reduzir as perdas para cerca de 5%.

Após o processo de queima, as peças são decoradas com decalques ou estampadas pela técnica da serigrafia. Esses processos também são acompanhados de perto pelos pesquisadores. “Um dos pigmentos utilizados para imprimir desenhos nas peças estava provocando uma série de defeitos”, relata Shirley. Isso porque o pigmento era comprado como se tivesse partículas microscópicas, mas na realidade elas eram de tamanhos maiores. “Passamos a fazer um controle sobre o tamanho das partículas e resolvemos o problema”, diz. Recentemente, uma das fábricas começou a apresentar problemas de descolamento em 80% dos cabos das canecas após o processo de colagem, que é feito manualmente. “Isso ocorria porque a mistura não tinha homogeneidade”, relata. Ou seja, o processo de fazer a cola na viscosidade correta não era seguido à risca.

A ideia de trabalhar em colaboração com o centro cerâmico partiu do prefeito Hamilton Bernardes Junior, que resolveu propor a parceria ao conhecer os bons resultados de um projeto semelhante desenvolvido com as cerâmicas de Porto Ferreira. Além dos 29 participantes do projeto, outras centenas de pequenas e microempresas do setor cerâmico também se beneficiam do conhecimento repassado. Na avaliação dos envolvidos no projeto, essa parceria não tem data para terminar, porque o conhecimento técnico transferido para as empresas tem que ser constantemente reavaliado. “Mesmo com os avanços técnicos obtidos após quatro anos do acordo firmado com a prefeitura da cidade, ainda há muita coisa a ser feita”, diz Longo. Para este ano, a Câmara Municipal aprovou uma verba de R$ 70 mil para o projeto. Uma das ideias em gestação é a criação de uma cooperativa para produção de massa cerâmica composta de argila e os demais componentes, o que resultaria em ganhos no processo industrial. “Com a criação de uma central de produção, o empresário não teria mais que se preo-cupar com a qualidade da matéria-prima”, diz Longo.

O projeto
Centro Muldisciplinar para  o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos – nº 98/14324-0

Modalidade
Centro de Pesquisa, Inovação  e Difusão (Cepid)

Coordenador
Elson Longo –  Unesp 

Investimento
R$ 1 milhão por ano (FAPESP)

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

O Dia-D, a maior invasão da história

Voltaire Schilling

O dia 6 de junho de 1944 é uma das datas mais importantes da Segunda Guerra Mundial. Naquela ocasião, uma vanguarda de 175 mil soldados anglo-saxãos (americanos, ingleses e canadenses) desembarcaram corajosamente nas praias da Normandia para libertar a França da ocupação nazistas.

Devido ao volume impressionante de navios de guerra, embarcações de transporte de tropas e aviões dos mais variados tipos e modelos, seguramente o Dia-D, o começo da Segunda Frente, deve ser considerado como a maior invasão aero-naval que a história até então conheceu.

Entrando em ação

Lanchão de desembarque perto da praia (6/06/1944)

"OK, nós vamos."
- General D. Eisenhower, na véspera do Dia-D (5 de junho de 1944).

A palavra final foi dada pelo oficial meteorologista James Stagg. Apesar do mau tempo predominante naqueles começos de junho de 1944, carregado de nuvens e chuvas intermitentes, haveria uma pausa no dia 6, assegurou ele ao general Eisenhower. Sofrendo os dissabores dos enjôos do mar, as tropas já estavam nos porões das 3.000 embarcações que balouçavam aos sabor das ondas nas costas da Inglaterra.

A invasão do continente europeu, a maior da história, batizada como Operação Overlord, tinha sido minuciosamente preparada pelo alto comando aliado. Era parte de um poderoso torno de aço composto pelos exércitos anglo-americanos e soviéticos (que deslocavam-se do leste), que se fechava sobre a Europa ocupada pelos nazistas. O supremo comandante aliado, o general Eisenhower, e o comandante das operações, marechal Montgomery, dispunham de 2 milhões de soldados prontos para tudo tendo à disposição o que havia de melhor no material de guerra .

O objetivo do assalto, segundo o general Eisenhower, “era a ambição de que forças terrestres e aerotransportadas ocupassem a costa entre Le Havre até a península de Cotentin (ambos na Normandia francesa), e, a partir do sucesso em formar cabeças-de-praia com portos adequados, dirigir-se ao longo das linha do rio Loire e do Sena diretamente para o coração da França para destruir o poder alemão e libertar a França.”

Naquela madrugada do dia 6, a vanguarda composta por 175 mil soldados, organizados em dois grandes exércitos (o US 1st Army sob comando do general Omar Bradley, e o GB 2st Army liderado pelo general Miles Demsey), levados por navios transportes, atravessaram o Canal Inglês ( Canal da Mancha) para desembarcarem de surpresa no litoral francês.

A muralha do Atlântico

O general Rommel supervisionando as defesas

Desde 1942, Hitler, com 65% das suas divisões de combate lutando no oriente contra os soviéticos, decidira proteger o fronte ocidental erguendo uma série de casamatas no litoral do Atlântico: a Muralha do Atlântico. Cobriria a costa da Noruega até o norte da Espanha. Pronta, a Atlantic Wall lembraria um colar de cimento e ferro com bunkers construídos a cada 300 metros, aparelhados com canhões navais de 152mm. capazes de expulsar ou manter a distância qualquer barco mais ousado.

Ainda 58 divisões participavam da guarda, sendo que 10 delas eram divisões Panzer. Caso o inimigo ultrapassasse a primeira linha fortificada, era o plano do general Erwin Rommel, os tanques seriam deslocados rapidamente para vedar a brecha e fazê-los retroceder de volta à praia. Para o OKW, o alto comando alemão, a dúvida era saber por onde exatamente os aliados fariam o seu desembarque. Hitler acertou no alvo. Ao contrário do que sustentava o marechal von Rundstedt, de que os invasores viriam pelo estreito de Calais, que era o caminho mais curto, percebeu que os aliados precisariam de um grande porto, e este ficava em Cherburgo na Normandia.

Do Dia-D ao Fim da Guerra 1944-45

No dia seis de junho de 1944, chamado o Dia-D, o dia decisivo, os aliados ocidentais desembarcaram nas costas da França, dando início ao fim da II Guerra Mundial, começada cinco anos antes pela invasão nazista à Polônia. Simultaneamente ao desembarque do lado ocidental, no Leste da Europa, a URSS lançou uma poderosa ofensiva contra os nazistas, levando tudo de roldão. Onze meses depois a Alemanha nazista rendia-se para os vencedores. O Japão, aliado dos nazistas, a seguiu quatro meses depois. Em agosto de 1945, todas as ações militares haviam sido suspensas, terminara a maior e pior guerra que a humanidade jamais travara.

O Dia-D e Suas Conseqüências

O maior desembarque de todos os tempos

No seis de junho de 1944, o Dia-D, deu-se a maior operação militar aeronaval da história. Naquela data, 155 mil homem dos exércitos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá, lançaram-se nas praias da Normandia, região da França atlântica, dando início à libertação européia do domínio nazista.

Transportados por uma frota de 14.200 barcos, protegida por 600 navios e milhares de aviões, asseguraram uma sólida cabeça-de-praia no litoral francês e dali partiram para expulsar os nazistas de Paris e, em seguida, marchar em direção à fronteira da Alemanha. Era o primórdio do colapso final do III Reich, o império que, segundo a propaganda nazista, deveria durar mil anos.

O Clamor pela "Segunda Frente"

Desde 1942, os soviéticos, que estavam sofrendo horrores para deter e fazer os nazistas recuarem da URSS, vinham clamando para que seus aliados ocidentais, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, abrissem um fronte no ocidente para aliviar a fortíssima pressão que o exército alemão exercia sobre o território russo. Desde que ocorrera a invasão do solo soviético em 22 de julho de 1941, a Wehrmacht havia conquistado imensas fatias do território russo, fazendo com que a sua linha ofensiva saísse da região de Leningrado, no Norte do país, se estendesse em direção a linha Moscou-Smolesk, chegando até o Cáucaso, a cadeia de montanhas bem ao sul da URSS.

Dia-D: a invasão

Na madrugada do dia 6, mais de 800 aviões conduzindo a bordo três divisões aerotransportadas anglo-americanas, lançaram tropas pára-quedistas atrás das defesas alemãs, exatamente para desbaratar a estratégia de Rommel, fazendo a maior confusão possível. Ao amanhecer, exatamente às 6.30 h. deu-se a vez dos lanchões de desembarque. Milhares deles apareceram na frente das cinco praias previamente acertadas (seus codinomes eram Omaha,Utah, para os americanos; Juno, Gold, Sword para os anglo-canadenses).

Os sentinelas alemães ficaram atônitos ao se depararem em meio a névoa matinal que se dissipava com um horizonte tomado por embarcações. Em seguida, um calor dos infernos abateu-se sobre eles. Do mar, 500 navios de guerra abriram as baterias contra as linhas de defesa. Do alto, despencavam toneladas de bombas dos 10 mil aviões que participavam da operação. Um dilúvio de explosões praticamente paralisou-lhes a resistência.

Nos dias seguintes, o trabalho da força aérea aliada, da USAF e da RAF, foi seccionar a Normandia do restante da França por meio de bombardeios seletivos que destruíram todas as pontes sobre o rio Loire e o rio Sena. Isoladas, as guarnições alemãs que resistiam à invasão ficaram impedidas de receber reforços das Divisões Panzer que estavam aquarteladas em outros lugares.

Grande coragem

Chegando à praia (6/06/1944)

Mesmo assim, com poderosa cobertura aérea e naval, avançar pelas praias naquele dia do desembarque estava longe de ser um sossego. Nas falésias da Normandia, emboscadas, as metralhas alemãs sobreviventes varriam tudo o que se mexesse. Que bravura tiveram que mostrar os soldados aliados. Quando abria-se a frente do Higgins boat, o lanchão de desembarque, eles eram recebidos à rajadas e a balaços precisos disparados das casamatas, enquanto explosões de morteiros levantavam água e espuma ao redor deles. Se bem que a maioria dos soldados estivesse na faixa dos 22-23 anos e serviam no exército já há dois ou três anos, milhares deles nunca haviam disparado um tiro sequer a valer.

E assim, tensos, foram jogando-se na areia abrindo caminho com muita coragem para por um fim naquele açougue em que a Europa se transformara. Setenta dias depois, no dia 25 de agosto de 1944, em meio à multidão doida de felicidade, eles entravam em Paris.

Bibliografia

Ambrose, Stephan – The Longest Day: June 6, 1944. New York, Simon and Schuster, 1959.

Parkinson, Roger – Encyclopedia of modern war, Londres, Paladin Books, 1977.

Ryan, Cornelius – The Longest Day: June 6, 1944. New York, Simon and Schuster, 1959.

Fonte: Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

Mau Sinal

Paulo Passarinho

Nunca antes neste país tantos se manifestaram em defesa dos interesses da população e do Brasil.
A responsabilidade por tal mudança na postura de inúmeros políticos foi a aprovação, pela Câmara de Deputados, da chamada emenda Ibsen Pinheiro.
A distribuição dos royalties do petróleo, de uma forma distinta da praticada até aqui, nas áreas já licitadas, e a mudança na forma acordada entre vários atores políticos para a distribuição dos royalties da área do pré-sal abriu a temporada dos neonacionalistas de tribuna, com suas pregações.
Na verdade, essa extrema ênfase em torno da discussão sobre os possíveis futuros rendimentos do pré-sal – sob a forma dos royalties, que contemplariam a União, estados e municípios – apenas evidencia a miopia e o oportunismo da esmagadora maioria dos dirigentes políticos.
A maior vantagem – potencial – que a descoberta do pré-sal nos lega é a possibilidade não somente de uma perspectiva segura de nos tornarmos auto-suficientes em petróleo, mas o impulso virtuoso que poderemos provocar em vários segmentos da economia brasileira e o avanço qualitativo nas políticas de natureza social.
Mas, tudo isso dependerá da real autonomia que o Estado brasileiro – particularmente através da União – passará a ter, a partir da posse, de fato, do petróleo que vier a ser retirado das profundezas da camada do pré-sal.
E esta é uma questão que se encontra aberta.
Se predominar uma visão de rápida utilização desse petróleo, sob a forma de recursos líquidos a serem investidos em toda e qualquer carência identificada como prioridade – e como existem carências! -, o caminho a ser adotado será a de uma rápida exportação dessa riqueza. Um processo desse tipo provocaria uma brutal e inevitável valorização da moeda nacional – dado o volume da entrada de divisas no país -, e o comprometimento inevitável de qualquer perspectiva de desenvolvimento industrial de empresas brasileiras, visando gerar tecnologia, empregos de qualidade, renda e riqueza, dentro de nossas fronteiras.
Perderíamos, também, a oportunidade de avançar na pesquisa e desenvolvimento de novas formas de geração de energia, compatíveis com as preocupações mais do que justas com os impactos que o meio-ambiente sofre com o atual padrão tecnológico de produção, incluindo as formas tradicionais de geração de energia, que hoje consideramos como economicamente viáveis.
Portanto, existe de fato uma imensa possibilidade de mudança profunda e extremamente vantajosa para os rumos do desenvolvimento do país. Contudo, uma das condições para que todas essas possibilidades se realizem está relacionada ao efetivo controle que teremos sobre essa riqueza. E controle, no caso, significa propriedade do óleo a ser produzido.
A atual lei do petróleo, promulgada no governo de FHC, concede a propriedade do petróleo – que constitucionalmente é da União – às empresas ou consórcios formados para arrematar blocos de exploração, colocados à venda dos interessados, através de leilões patrocinados pela ANP – Agência Nacional de Petróleo.
Sob os auspícios dessa nova lei, quase 30% da própria área do pré-sal já foram licitados. O prejuízo somente não é maior, porque a própria Petrobrás foi a empresa mais beneficiada nesse processo, arrematando a maior parte dos blocos leiloados – através de participações exclusivas ou em consórcio com outras empresas.
A área do pré-sal ainda precisa ser mais bem definida, bem como ter a suas reservas estimadas com mais precisão. O que existe hoje são estimativas que carecem de melhor conhecimento detalhado. Considera-se – excluindo-se as complexidades relacionadas à produção e exploração dessas reservas, que se encontram em alta profundidade e após uma extensa camada de sal submarino – que essas áreas assegurariam a garantia de retorno seguro para quem se dispuser a explorá-las.
Foi em decorrência dessa situação que o governo Lula enviou um conjunto de quatro diferentes projetos de lei ao Congresso Nacional, visando definir um novo marco regulatório para a área do pré-sal, diferente do que existe hoje, para a área do chamado pós-sal.
Porém, como é uma característica do estilo do governo Lula, o modelo de partilha apresentado guarda uma enorme preocupação em manter aberta a possibilidade de empresas privadas e estrangeiras terem acesso à possibilidade de exploração desse filão. É verdade que a Petrobrás sai fortalecida, de acordo com essas propostas enviadas pelo Executivo federal ao Congresso, seja pelo objetivo de capitalização da empresa, seja pelo papel a ela destinado, que passa a desempenhar a função de operadora única e exclusiva dos campos a serem licitados na área do pré-sal.
Porém, os leilões estão mantidos e as atuais regras para a exploração de petróleo em áreas que não sejam do pré-sal ficam inalteradas. Mais grave: uma emenda incluída no projeto aprovado na Câmara – de autoria do próprio relator do projeto que propõe o regime de partilha, Deputado Henrique Alves, do partido de Sergio Cabral Filho e aliado do presidente Lula – determina que os consórcios do pré-sal sejam ressarcidos, em óleo bruto, pelas despesas que terão com o pagamento de royalties.
O pagamento dos royalties, que é uma espécie de imposto, cobrado para compensar regiões produtoras dos impactos que a produção de petróleo provoca, passa, assim, a ser considerado uma despesa operacional – da mesma forma que os custos de extração, que também serão pagos aos consórcios produtores em óleo.
A AEPET – Associação dos Engenheiros da Petrobrás – vem denunciando essa medida e apontando que, a se manter esse esquema de partilha, a participação real da União, na divisão do petróleo que vier a ser retirado do pré-sal, vai ficar em uma proporção equivalente a apenas 29,4% do total extraído.
A simulação da AEPET trabalha com o preço do barril a US$ 70, com um custo total de produção estimado em US$ 30, por barril, e a parcela de participação da União, no óleo lucro, de 70%. Com essas variáveis, a Petrobrás – como operadora única dos campos – ficaria com 21,2% do óleo extraído e a empresa(s) líder do consórcio com 49,4% da produção!
Vejam, portanto, como é falaciosa a postura dos governantes que – em torno da “batalha dos royalties” – se arvoram em defensores do interesse público. Promovem um debate estéril, histérico e precipitado pela divisão do montante de recursos financeiros, equivalentes a 15% da produção, relativos ao pagamento dos royalties, enquanto que, pela fórmula engendrada na Câmara, empresas líderes dos consórcios poderão ficar de posse de quase 50% do petróleo do pré-sal.
Trata-se de um mau sinal de que como vão as coisas sendo discutidas, no meio do oba-oba que a descoberta do pré-sal provocou.
E mostra, também, que o suposto desvio nacionalista da proposta do governo – segundo a ótica oportunista daqueles que defendem a privatização do petróleo brasileiro, garantido de forma absoluta pela lei de FHC, a do regime de concessões – precisa ser também melhor avaliado.
Afinal, nacionalismo não combina com leilões, nem com a entrega do óleo bruto a empresas privadas e estrangeiras, nem tampouco com a manutenção da própria lei das concessões para a área do pós-sal.

Fonte: Desemprego Zero

Dia Nacional do Choro

No mês de Abril é comemorado o Dia Nacional do Choro em homenagem à data de nascimento de Pixinguinha, uma das figuras mais importantes da música popular brasileira, e em especial do choro.

O decreto de lei que criou o Dia Nacional do Choro, proposto pelo senador Artur da Távola, foi aprovado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em setembro de 2000. A data escolhida não poderia ser mais apropriada: 23 de abril, aniversário de Pixinguinha.

"Eu sentia que o choro vinha mostrando uma resistência enorme. Era importante haver um dia nacional para fixar o gênero pelo país", declarou Artur da Távola, quando se comemorou o dia do choro pela primeira vez.

E será em homenagem a este grande ser humano que realizaremos Domingo (04/Abr) no Centro Cultural do Jabaquara, a edição de número 42 do projeto Choro na Manhã.

Domingo, 04 de Abril às 11:00h – Entrada Gratuita

Centro Cultural do Jabaquara

Rua Arsênio Tavolieri n.º 45 – Vila Oriental – Jabaquara

(próximo ao Metrô Jabaquara)

Tel.: (11) 5011-2421

Em 2009, PIB varia -0,2% e fica em R$ 3.143 bilhões

IBGE

Em relação ao terceiro trimestre de 2009, o PIB (Produto Interno Bruto)1 a preços de mercado do quarto trimestre do ano passado cresceu 2,0%, levando-se em consideração a série com ajuste sazonal2. A indústria registrou o maior aumento (4,0%), seguida pelos serviços (0,6%) e pela agropecuária (0,0%).

Na comparação com o quarto trimestre de 2008, o PIB cresceu 4,3%, sendo que o valor adicionado a preços básicos3 aumentou 3,9%, e os impostos sobre produtos, 6,2%. Dentre as atividades econômicas, destacaram-se os serviços (4,6%) e a indústria (4,0%), enquanto a agropecuária teve queda (-4,6%).

No acumulado no ano de 2009, em relação ao mesmo período de 2008, o PIB variou -0,2%, resultado da taxa de -0,1% para o valor adicionado e da redução de 0,8% nos impostos. Nessa comparação, a agropecuária (-5,2%) e a indústria (-5,5%) tiveram quedas, enquanto os serviços (2,6%) cresceram. Assim, segundo as informações das Contas Nacionais Trimestrais4, em 2009, o PIB em valores correntes alcançou R$ 3.143 bilhões. Como em 2009, a população brasileira cresceu 0,99%, o PIB per capita5 ficou em R$ 16.414, sofrendo uma queda de 1,2%, em volume, em relação a 2008.

Principais resultados do PIB a preços de mercado do 4º trimestre de 2008 ao 4º trimestre de 2009

Em relação ao 3º tri de 2009, indústria é atividade que cresce mais

O PIB cresceu 2,0% na comparação do quarto trimestre contra o terceiro trimestre de 2009, sendo que as variações por atividade econômica foram: indústria, 4,0%; serviços, 0,6%; e agropecuária, 0,0%.

Entre os componentes da demanda interna, a formação bruta de capital fixo (FBCF, ou investimento) teve a maior alta (6,6%), seguida pela despesa de consumo das famílias (1,9%) – indicador que cresce desde o primeiro trimestre de 2009 (0,2%) – e pela despesa de consumo da administração pública (0,6%).

Pelo lado do setor externo, tanto as exportações (3,6%) como as importações de bens e serviços (11,4%) registraram crescimento.

Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, FBCF tem primeiro aumento do ano

Na comparação do quarto trimestre de 2009 com o quarto trimestre de 2008 (variação do PIB = 4,3%), a taxa negativa da agropecuária (-4,6%) pode ser, em grande parte, explicada pelo desempenho de alguns produtos que possuem safra relevante no período6, caso do trigo e da laranja, que tiveram quedas de produção no ano, de 16,0% e 0,3%, respectivamente. As estimativas para a pecuária e a produção da silvicultura e da exploração florestal apontam também um fraco desempenho no quarto trimestre de 2009.

Na atividade industrial (4,0%), o destaque foi o crescimento de 5,6% da indústria extrativa mineral, explicado principalmente pelo aumento de 5,7% na produção de petróleo e gás. Em seguida veio a indústria de transformação (4,7%). A construção civil cresceu 2,5%, beneficiada pelo aumento das operações de crédito direcionadas à habitação; enquanto eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana aumentou 1,4%.

Entre os serviços (4,6%), os maiores destaques foram para intermediação financeira e seguros (8,5%); comércio (8,1%); e transporte, armazenagem e correio (5,4%), os dois últimos influenciados pelo desempenho da indústria. As demais variações foram as seguintes: outros serviços, 3,5%; administração, saúde e educação pública, 3,2%; serviços de informação, 2,1%; e serviços imobiliários e aluguel, 1,5%.

Dentre os componentes da demanda interna, o maior destaque foi o crescimento de 7,7% da despesa de consumo das famílias – o 25º seguido nessa base de comparação -, influenciado pela continuidade do aumento da massa salarial real e do crédito para as pessoas físicas e pelo fato de a base de comparação ser o quarto trimestre de 2008. A despesa de consumo da administração pública cresceu 4,9%, e a formação bruta de capital fixo, após três trimestres de queda, aumentou 3,6%.

Pelo lado do setor externo, as exportações caíram 4,5%, enquanto as importações aumentaram 2,5%, ambas com desempenho superiores aos três primeiros trimestres do ano de 2009.

No ano, PIB varia -0,2% e PIB per capita -1,2%

Em 2009, o PIB brasileiro variou -0,2% em relação a 2008. Nos anos recentes, após o 3,2% de crescimento em 2005, a taxa acumulada em 12 meses acelerou até atingir o pico de 6,6% no terceiro trimestre de 2008. Em seguida, houve desaceleração, chegando a -1,0% no terceiro trimestre de 2009 e fechando o ano em -0,2%, conforme o gráfico abaixo.

A queda da agropecuária em 2009 (-5,2%) se deveu à redução na produção de culturas importantes, como o trigo (-16,0%), o milho (-13,5%), o café (-12,8%) e a soja (-4,8%).

Na indústria (-5,5%), todas as atividades apresentaram queda, sendo que a maior foi na indústria de transformação (-7,0%), seguida pela construção civil (-6,3%), e pela eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana (-2,4%). A extrativa mineral registrou variação de -0,2%, com crescimento de 5,7% na produção de petróleo e gás e queda de 22,3% na extração de minérios ferrosos.

No setor de serviços (2,6%), os resultados foram positivos para intermediação financeira e seguros (6,5%), outros serviços (5,1%), serviços de informação (4,9%), administração, saúde e educação pública (3,2%) e serviços imobiliários e aluguel (1,4%). Por outro lado, os serviços ligados à indústria de transformação tiveram queda: comércio atacadista e o varejista (-1,2%) e transporte, armazenagem e correio (-2,3%).

Na análise da demanda, a despesa de consumo das famílias cresceu 4,1% em 2009, sexto ano consecutivo de aumento. A despesa do consumo da administração pública também aumentou (3,7%), por outro lado, a formação bruta de capital fixo caiu 9,9%.

No âmbito do setor externo, as exportações tiveram redução de 10,3%, e as importações, de 11,4%. Desde 2005 o desempenho em volume das exportações não era superior ao das importações.

Com a variação de -0,2% no PIB e o crescimento de 0,99%7 da população residente, em 2009 houve queda de 1,2% no PIB per capita, que ficou em R$ 16.414.

Em 2009, PIB chega a R$ 3.143 bilhões

A taxa de investimento8 no ano de 2009 foi de 16,7% do PIB, a menor desde 2006 (16,4%), já a taxa de poupança9 alcançou 14,6% do PIB, a menor desde 2001 (13,5%).

Indústria perde participação no valor adicionado da economia

Por conta, principalmente, da queda de 5,5%, a indústria perdeu participação no valor adicionado a preços básicos, de 27,3% em 2008 para 25,4% em 2009. A agropecuária ganhou 0,2 ponto percentual (de 5,9% para 6,1%), mas o maior aumento foi o dos serviços: 1,8 ponto percentual (de 66,7% em 2008 para 68,5% em 2009).

Pela ótica da demanda, o setor externo perdeu peso, com queda de participação tanto das exportações com das importações, enquanto a demanda interna ganhou peso, com destaque para a despesa de consumo das famílias, conforme a tabela abaixo.

_______________________

1 Bens e serviços produzidos no país descontadas as despesas com os insumos usados no processo de produção durante o ano.

2 As séries da agropecuária, indústria, serviços, valor adicionado, PIB, despesa de consumo da administração pública, despesa de consumo das famílias, formação bruta de capital fixo, exportações e importações de bens e serviços são ajustadas sazonalmente de maneira direta, ou seja, individualmente.

3 Contribuição ao PIB pelas diversas atividades econômicas, obtida pela diferença entre o valor de produção e o consumo intermediário absorvido por essas atividades.

4 Todos os indicadores e valores apurados pelas Contas Trimestrais estão sujeitos a revisão.

5 Divisão do valor corrente do PIB pela população residente no meio do ano de referência.

6 Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA-IBGE).

7 Segundo estimativa da Coordenação de População e Indicadores Sociais (COPIS) do IBGE.

8 Formação bruta de capital fixo/ PIB

9 Poupança Bruta/ PIB

Fonte: IBGE – http://www.ibge.gov.br/

Novas colônias israelenses causam a pior crise entre Netanyahu e Obama

Juan Miguel Muñoz

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden,
 durante encontro com o primeiro-ministro de <BR> Israel, Benjamin
 Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país

Israel pede desculpas ao vice-presidente Biden pelo plano de moradias em Jerusalém Oriental

Benjamim Netanyahu quebrou o vidro com o cotovelo e teve de entregar ao vice-presidente dos EUA, Joseph Biden, o certificado, sem moldura, que afirma que foram plantadas árvores no monte Herzl em Jerusalém em homenagem a sua mãe, grande admiradora de Israel.

Horas depois, era anunciada a construção de 1.600 moradias na metade palestina da Cidade Santa, para serem habitadas por ultraortodoxos judeus, um desplante calculado por não se sabe que funcionário, em uma conjuntura na qual Washington insiste que palestinos e israelenses retomem as negociações. O vice-presidente condenou a decisão de Israel e devolveu o golpe. O primeiro-ministro israelense e sua mulher, Sara, aguardaram com a mesa posta durante 90 minutos a chegada do político americano para o jantar de terça-feira. A visita oficial de Biden se transformou em fiasco.

A lua-de-mel na relação entre EUA e Israel que desfrutaram quando Ehud Olmert e George Bush governavam seus países terminou. Ninguém pensa que o inquebrantável matrimônio entre os dois Estados possa terminar em divórcio. Mas ninguém duvida tampouco de que as relações passam por um de seus piores momentos, talvez o pior desde que o ex-secretário de Estado James Baker torceu o braço do primeiro-ministro Isaac Shamir – os EUA congelaram as garantias dos créditos que concede a Israel – para que Shamir participasse da conferência de Madri em 1991. E na atual situação a última coisa de que Washington precisa – empenhada em apagar seus fogos no Iraque e no Afeganistão – é que se reavivem as chamas do conflito árabe-israelense.

Deputados do Likud, o partido do primeiro-ministro, afirmaram publicamente que se sentem insultados porque Obama não se dignou a visitar Israel, e estimam que ele é inclinado demais às teses palestinas. A bronca diplomática e protocolar em que se envolveu Biden, amigo pessoal de Netanyahu há três décadas, em nada ajuda a reverter essa impressão. "O vice-presidente veio aqui para tentar restaurar a química entre a Casa Branca e Jerusalém, para aliviar as suspeitas e criar uma relação, talvez um novo começo. E o que aconteceu? Em 15 minutos também o perdemos", escreveu ontem Ben Caspit, analista do jornal "Maariv".

O isolamento de Israel é crescente. A condenação de Biden à iniciativa colonizadora se somou às da ONU e da UE, que qualificou de "ilegal" toda construção israelense em Jerusalém Oriental. Talvez por isso ontem tudo foram desculpas. "Peço desculpas pelo transtorno que este assunto pôde causar", admitiu o ministro do Interior, Eli Yishai, responsável pelo planejamento urbano.

Se alguém não se surpreendeu com as iniciativas colonizadoras israelenses na Cisjordânia ocupada foi o presidente palestino, Mahmud Abbas, que acabou beneficiado pelo incidente. As palavras de Biden na presença de Abbas ontem em Ramallah apontavam um dedo acusador para seu grande aliado. "Cabe a ambas as partes construir uma atmosfera que ajude nas negociações e não a complicá-las… A decisão do governo israelense de promover as novas moradias em Jerusalém Oriental solapa a confiança, essa confiança de que necessitamos agora para iniciar negociações proveitosas", declarou o vice-presidente. Abas intimou Netanyahu a suspender o projeto urbanístico. "Peço a Israel que dê uma oportunidade aos esforços do governo Obama para que tenha êxito." Ele faz isso com convicção nula.

Fontes da OLP afirmam a este jornal que nenhum dirigente abriga esperanças sobre as futuras negociações. É que a tarefa do enviado de Barack Obama ao Oriente Médio, George Mitchell, é ciclópica. Porque se há algo que abunda é o receio e a animosidade entre as duas partes. Diante desse panorama emaranhado, ainda se ignora quando começarão as conversações, em princípio indiretas, entre funcionários de nível médio palestinos e israelenses. O que se sabe é que partirão do zero depois de 20 anos de diálogo frustrado.

A controversa decisão do governo israelense sobre a construção das 1.600 moradias também teve outra consequência indesejada pelo Executivo israelense. Ela achatou, pelo menos no que se refere à divulgação na mídia, o assunto primordial que com toda a certeza Biden e Netanyahu abordaram: o programa nuclear iraniano.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Massacre que marcou a luta contra o Apartheid faz 50 anos

Repressão a uma manifetação contra lei racista matou 69 pessoas. Massacre de Shaperville alertou o mundo para as crueldades do regime.

Marta Reis

Hoje com 69 anos, o aposentado Nehemiah Tsoane era apenas um jovem estudante quando, há 50 anos, o distrito onde morava, ao sul de Joanesburgo, foi marcado por uma das maiores tragédias da história da África do Sul. Tsoane estava entre os 20 mil negros que na manhã do dia 21 de março de 1960 deixaram suas casas em direção à delegacia local de Sharpeville para protestar contra a discriminatória Lei do Passe, que obrigava todos os não-brancos a portarem uma caderneta (passe), onde constava sua cor, etnia, profissão, situação na receita federal e que restringia o acesso aos bairros brancos da cidade.

Foto: AFP

Os feridos reunidos em Sharpeville, perto de Vereeniging, onde pelo menos 180 negros africanos, a maioria deles mulheres e crianças, ficaram feridos e 69 foram mortos pela polícia sul-africana (Foto: AFP)

Mais de 20 mil pessoas se aglomeraram na delegacia de Sharpeville. Era para ser uma manifestação pacífica, mas um grupo de policiais, sem saber como controlar a multidão, abriu fogo contra os manifestantes, matando 69 e ferindo mais de 180, incluindo mulheres e crianças.

  • Aspas

    Não podíamos caminhar sequer cem metros sem esse maldito passe. Se um policial visse, era cadeia na certa"

O episódio ficou conhecido como o Massacre de Sharpeville. Hoje a data é feriado político, quando se comemora o Dia Nacional dos Direitos Humanos.

Lei do Passe

Na época, o país vivia sob o sistema do Apartheid, e a Lei do Passe concedia a polícia o direito de prender quem fosse flagrado na rua sem a caderneta de identificação.

 Foto: AFP
Foto: AFP

Após o massacre, onda de protestos tomou conta do país (Foto: AFP)

“Não podíamos caminhar sequer cem metros sem esse maldito passe. Se um policial visse, era cadeia na certa. Para entrar num bairro branco depois das dez da noite, era necessário pedir uma autorização especial ao governo”, lembra Tsoane.

A resposta dos negros veio num boicote organizado por partidos de esquerda, que estimulou a população a deixar o passe em casa e caminhar até um posto policial para se entregar voluntariamente.
Fora da África do Sul, o massacre teve grande repercussão na imprensa internacional, e o Apartheid foi condenado pela maioria dos países como um sistema violento e racista. Em memória à tragédia, a ONU – Organização das Nações Unidas – instituiu 21 de março como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

  • Aspas

    Deixei o local por algumas horas e quando voltei presenciei aquela cena horrorosa. Era sangue por toda parte e muitas ambulâncias"

Tsoane nunca mais esqueceu aquele dia de terror. “Eu escapei porque fui ao centro da cidade comprar algo para comer. Deixei o local por algumas horas e quando voltei presenciei aquela cena horrorosa. Era sangue por toda parte e muitas ambulâncias”, lamenta o aposentado.
O massacre de Sharpeville ocorreu 12 anos após a criação da política oficial de segregação racial – o Apartheid – pelos brancos africâneres, em 1948, e soou como um alerta à comunidade internacional para as crueldades a que eram submetidos os negros sul-africanos.

Estado violento
De acordo com o professor de política da Universidade de Joanesburgo, Piet Croucamp, após o incidente, o Apartheid deixou de ser encarado apenas como um sistema político opressor, mas como um Estado violento.

  • Aspas

    O massacre precedeu uma série de manifestações pelo país e deflagrou uma guerra entre população civil e Estado"

“O massacre marcou uma mudança de posicionamento principalmente dentro do país, pois precedeu uma série de outras rebeliões importantes nas periferias. Podemos dizer que ele deflagrou uma guerra entre população civil e Estado”, analisa Croucamp.

Mesmo assim, Tsoane ressalta que pouco mudou, na prática, para os negros nos anos seguintes ao massacre. “A diferença foi que podíamos procurar emprego sem precisar carregar o passe. Também não houve certo relaxamento dos policiais, mas a caderneta continuou a existir".

Oficialmente, ela só foi extinta em 1986, e apenas no início dos anos 90 foi definitivamente substituída pela carteira de identidade usada atualmente. De lá pra cá, a África do Sul mudou muito.

O país – que em junho vai sediar a Copa do Mundo de futebol – assistiu a chegada de Nelson Mandela ao poder em 1994, acompanhou a formulação de uma nova Constituição Nacional que abraça todas as raças e etnias, e mantém eleições presidenciais de cinco em cinco anos. É hoje um dos maiores exemplos de Estado livre e democrático dentro do continente africano.
“Somos um país completamente diferente. Ainda moro em Sharpeville, mas por opção própria. Se tivesse dinheiro, poderia comprar uma casa no centro da cidade ou em qualquer outro lugar que desejasse. Quem decide para onde vou sou eu”, comemora Tsoane.

Fonte: G1

Região central de São Paulo possui maior taxa de suicídios

Felipe Maeda Camargo

A partir de dados da Prefeitura de São Paulo e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do período de 1995 a 2006, o pesquisador Daniel Hideki Bando verificou que o agrupamento de 18 distritos da região central, centro-sul e centro-oeste da cidade apresenta a maior taxa de suicídios (6,3 para 100 mil habitantes).

Dezoito distritos da região central de São Paulo apresentam alta taxa de suicídio

O estudo de Bando, fruto de sua dissertação de mestrado para o Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, também constatou que a elevada taxa está associada ao fato de os suicidas serem de distritos de maior renda, a maioria solteiros, migrantes e católicos, quando comparados a outras regiões da cidade. O agrupamento engloba bairros como Alto de Pinheiros, Barra Funda, Bela Vista, Bom Retiro, Brás, Cambuci, Consolação, Itaim Bibi, Jardim Paulista, Liberdade, Moema, Morumbi, Pinheiros, Perdizes, República, Santa Cecília, Sé e Vila Mariana.

Já em 14 distritos da região sul (Campo Grande, Campo Limpo, Capão Redondo, Cidade Ademar, Cidade Dutra, Grajaú, Jardim Ângela, Jardim São Luís, Santo Amaro, Socorro, Pedreira, Raposo Tavares, Vila Andrade e Vila Sônia) o quadro é o oposto. Esse agrupamento tem a menor taxa de suicídio (3,3 para 100 mil habitantes), o qual coincide com o fato de ser a região com maior número de casais e de evangélicos da cidade.

Segundo Bando, esses dados estão próximos aos chamados fatores de risco levantados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), condições sociodemográficas em que há mais casos de suicídio. O quadro da OMS de 2002 aponta as condições de ser solteiro e migrante, e fazer parte de estrato econômico extremo, como fatores de risco para o suicídio.

Isso pode demonstrar uma possível relação com a elevada taxa de suicídio no agrupamento da região central de São Paulo, onde certas características preenchem os requisitos desses fatores de risco: região de elevada renda (fazer parte de estrato econômico extremo), com bastantes solteiros e migrantes.

No entanto, não se pode afirmar que há uma relação direta entre o número de suicídios e esses aspectos, visto que a pesquisa de Bando não analisou as características das pessoas que se suicidaram, ou seja, foram analisados dois bancos de dados diferentes. “É difícil concluir algo, ainda tem muita coisa para se estudar. Mas (o estudo) já é uma evidência”, diz o pesquisador.

Divisão por regiões
Apesar de aproveitar dados da Prefeitura e do IBGE, Bando destaca que seu trabalho os desenvolveu com mais profundidade, pois “as taxas de suicídio nunca foram mapeadas na cidade e não há estudos recentes sobre os fatores de risco.”

O pesquisador, sob a orientação da professora da FFLCH Ligia Vizeu Barrozo, utilizou um programa de geoprocessamento para identificar o agrupamento de risco ao suicídio por determinadas regiões. Cada agrupamento podia ter no máximo 50% da população da cidade.

Ao analisar uma possível relação das taxas com os fatores de risco para suicídio, Bando se baseou também num estudo feito pelo sociólogo Émile Durkheim. “As variáveis (fatores de risco ao suicídio) foram parecidas com as que Durkhein estudou na França no final do século XIX.”, afirma Lígia sobre as semelhanças dos dois trabalhos.

Pelo estudo de Durkheim, Bando aproveitou a teoria do sociólogo sobre integração social para explicar os fatores de risco encontrados: “Uma das idéias dela (da teoria) diz que ‘o suicídio varia na razão inversa do grau de integração dos grupos sociais que a pessoa faz parte’”, explica Daniel, que diz que certos fatores de risco encontrados se encaixam nessa teoria. O pesquisador exemplifica com a situação da pessoa solteira, que tem maiores chances de não estar integrada a um grupo social, mais destacadamente uma família, o que pode propiciar o suicídio.

Contudo, a identificação dos católicos diverge com o levantamento da OMS que aponta o protestantismo como fator de risco ao suicídio. “A explicação se adapta à peculiaridade de São Paulo. No nosso caso, se observa que os evangélicos estão mais unidos entre eles”, ressalva Bando. Sua orientadora completa que esse aspecto dos evangélicos funciona como uma “ajuda social” contra o suicídio. “Já os católicos são mais dispersos, o que os põe, de acordo com a tese de Durkheim, numa categoria de risco”, diz Ligia.

O estudo de Bando e Ligia será publicado em forma de livro, com o lançamento previsto para o primeiro semestre de 2010 pela editora Humanitas/Fapesp.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

China atrai pesquisadores de tecnologia dos Estados Unidos para o país

Keith Bradsher

Funcionário caminha ao 
lado de paineis solares em complexo situado na cidade de Xian, na China.
 O país detêm dois terços da produção mundial desse equipamento

Funcionário caminha ao lado de paineis solares em complexo situado na cidade de Xian, na China. O país detêm dois terços da produção mundial desse equipamento

Durante anos, muitas das mentes mais brilhantes da China deixaram o país com destino aos Estados Unidos, onde a indústria de alta tecnologia é mais avançada. Mas Mark R. Pinto está indo na direção contrária.

Pinto é o primeiro diretor de tecnologia de uma grande companhia tecnológica norte-americana a ir para a China. A companhia, Applied Materials, é uma das empresas mais conceituadas do Vale do Silício. Ela forneceu os esquipamentos usados para aperfeiçoar os primeiros chipes de computador. Hoje, é a maior fornecedora de equipamentos usados para fazer semicondutores, painéis solares e monitores de tela plana.

Além de transferir Pinto e sua família para Beijing em janeiro, a Applied Materials, cuja sede fica em Santa Clara, Califórnia, acaba de construir seu maior e mais novo laboratório de pesquisas aqui. Na semana passada, a companhia fez até sua reunião anual de acionistas em Xian.

E ela não está sozinha. As empresas – e seus engenheiros – estão cada vez mais atraídos pela China à medida que o país desenvolve uma economia de alta tecnologia que compete diretamente com os Estados Unidos.

Algumas companhias norte-americanas estão até mesmo fazendo acordos com companhias chinesas para licenciar tecnologias da China.

O mercado chinês está crescendo para quase tudo, desde a eletricidade à moda, e as companhias estão chegando à conclusão de que seus pesquisadores precisam ficar mais perto das fábricas e dos consumidores. A Applied Materials montou seu mais recente laboratório de pesquisa sobre energia solar aqui depois de estimar que em breve a China produzirá dois terços dos painéis solares do mundo.

“É claro que não estamos desistindo dos EUA”, diz Pinto. “A China precisa de mais eletricidade, é simples assim.”

A China se tornou a maior fabricante de automóveis do mundo, e a General Motors tem um centro de pesquisa grande e em expansão em Xangai para trabalhar com suas fábricas de montagem chinesas.

O país é também o maior mercado para os computadores desktop e têm o maior número de usuários de internet, tanto que a Intel inaugurou um laboratório de pesquisa em semicondutores em Beijing junto com um centro de pesquisas para fazer com que seus servidores de internet funcionem melhor.

Atraídas não somente pelos mercados da China, as companhias ocidentais também estão de olho na grande reserva de mão-de-obra barata de engenheiros altamente capacitados – e nos subsídios que muitas cidades e regiões chinesas oferecem, especialmente para as companhias de energia limpa.

Agora, diz Pinto, pesquisadores dos Estados Unidos e Europa terão que se preparar para mudar para a China se quiserem fazer trabalhos de ponta em energia solar uma vez que o complexo da Applied Materials aqui é o único que pode abrigar uma linha de montagem inteira de painéis solares.

“Se você quer mesmo ter um impacto nesse campo, este é simplesmente um tremendo laboratório”, diz ele.

Xian – uma cidade a cerca de 965 quilômetros a sudeste de Beijing – tem 47 universidades e outras instituições de ensino superior, produzindo uma grande quantidade de engenheiros com diplomas de mestrado que podem ser contratados por US$ 730 por mês.

Do outro lado da cidade de Xian em relação à Applied Materials, fica o Instituto de Pesquisa Thermal Power, o laboratório chinês que é líder mundial em reduzir as emissões do carvão. A companhia acaba de licenciar seu último projeto para a Future Fuels nos Estados Unidos.

A companhia americana planeja pagar cerca de US$ 100 milhões para comprar um labirinto de equipamentos de 40 metros de comprimento que transforma carvão em gás antes de queimá-lo. Este método reduz a poluição tóxica e torna mais fácil capturar e sequestrar gases como dióxido de carbono debaixo da terra.

A Future Fuels enviará o equipamento para a Pensilvânia e fará com que engenheiros chineses ensinem os funcionários norte-americanos como montá-lo e operá-lo.

Pequenas companhias de energia limpa também estão indo para a China. A NatCore Technology de Red Bank, Nova Jersey, descobriu recentemente uma forma de fazer painéis solares bem mais finos, reduzindo a energia e os materiais tóxicos necessários para manufaturá-los. Incapaz de encontrar parceiros para comercializar a tecnologia nos Estados Unidos, a NatCore fez um acordo com um consórcio de companhias chinesas para terminar de desenvolver sua invenção e começar sua produção em massa em Changsa, na China.

“Esses outros países – China, Taiwan, Brasil – estavam todos em cima de nós”, diz Chuck Provini, diretor-executivo da companhia.

O presidente Barack Obama falou várias vezes em criar empregos no setor de energia limpa nos Estados Unidos. Mas a China mostrou a vontade política de fazer isso, diz Pinto, 49, que é também vice-presidente-executivo para sistemas solares e monitores de tela plana da Applied Materials.

A prefeitura da cidade de Xian vendeu os direitos de ocupação de um terreno para a Applied Materials por 75 anos com um grande desconto e está reembolsando quase um quarto dos gastos operacionais do complexo de laboratórios da companhia durante cinco anos, diz Gang Zou, gerente geral do local.

Cada um dos dois laboratórios, primeiros do tipo no mundo inteiro, são maiores do que dois campos de futebol americano. A Applied Materials continua a desenvolver os componentes eletrônicos de suas complexas máquinas em laboratórios dos Estados Unidos e Europa. Mas montar as máquinas e descobrir processos para fazê-las funcionar juntas serão trabalho de Xian. Os dois laboratórios, um em cima do outro, começarão a funcionar uma vez que estiverem totalmente equipados ainda este ano.

A Applied Materials construiu uma fábrica para 360 empregados aqui em Xian depois de anunciar um programa de 18 meses no ano passado para reduzir seus funcionários em 10 a 12%, incluindo demissões nos Estados Unidos e Europa. Pinto disse que a companhia estava reajustando sua força com a transferência da produção para a Ásia, e que o complexo em Xian tem uma nova abordagem para pesquisar o modelo de uma linha de produção e não estava substituindo nenhum outro laboratório.

Pinto é uma figura conhecida no Vale do Silício.

Enquanto ainda era aluno de doutorado em Stanford no começo dos anos 80, criou a primeira simulação computadorizada bidimensional sobre como os semicondutores funcionam, que é amplamente usada. Isso permitiu que os engenheiros testassem cada um num computador antes de construir protótipos, encurtando o processo de desenvolvimento dos semicondutores.

Mais tarde, ele se tornou um dos pesquisadores mais reconhecidos do Bell Labs.

Com a economia da China ganhando força, Pinto e sua mulher, que na época moravam em Santa Clara, começaram a insistir que seus filhos estudassem chinês uma vez por semana já em 2005.

Agora com 10 e 11 anos, os meninos estão melhorando seu chinês e tentando dominar a arte de comer com pauzinhos.

A Applied Materials têm desafios maiores, incluindo lutar contra o roubo de tecnologia, um problema crônico na China.

A companhia tomou algumas medidas, incluindo fechar as portas de seus computadores aqui para evitar o uso de pen drives para salvar arquivos. Os funcionários não podem tirar os computadores do prédio sem uma permissão especial, e um elaborado sistema de senhas de computador e chaves eletrônicas para as portas limita o acesso a alguns segredos tecnológicos.

Mas nada disso muda a sensação de que mudanças profundas estão à caminho.

Quando Xei Lina, engenheira de 26 anos da Applied Mateirals aqui, foi questionada recentemente se a China terá um grande papel na energia limpa no futuro, ficou surpresa com a pergunta.

“A maioria dos estudantes graduados na China estão buscando essa área”, diz ela. “É claro, a China vai liderar tudo.”

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Na Índia, guerra das terras entre camponeses e industriais

Julien Bouissou

Homens pintados comemoram a tradição 
conhecida como o festival das cores, na Índia

Homens pintados comemoram a tradição conhecida como o festival das cores, na Índia

As terras agrícolas indianas estão se transformando em campos de batalha: nos Estados de Orissa, de Maharashtra e de Karnataka, milhares de camponeses lutam contra a aquisição de seus terrenos por grandes grupos industriais. Assim, as companhias siderúrgicas Mittal e Posco esperam há cinco anos a autorização para construir usinas em Orissa, leste do país, e ameaçaram, em janeiro, desistir de seus projetos.

Em Maharashtra, a empresa indiana de eletricidade nuclear NPCIL ainda não conseguiu, apesar de meses de negociação, adquirir mil hectares de terrenos para ali construir reatores nucleares Areva. Segundo um relatório publicado pelo governo indiano em 2009, quase 70% dos projetos de infraestrutura estão atrasados em razão de problemas de aquisição de terras.

Esses atrasos podem chegar a até dez anos, e custariam mais de US$ 100 bilhões (R$ 177 bilhões) em investimentos, segundo um estudo publicado em outubro de 2009 pela Associação de Câmaras de Comércio e Indústria Indianas. Nessa luta travada entre industriais e camponeses, e em um país onde dois terços da população tiram seu sustento da agricultura, o governo federal encontra dificuldades para adotar uma posição clara e firme.

A lei em vigor data da época da colonização britânica. Redigida em 1894, ela autoriza os Estados regionais a adquirirem terras em nome do “interesse geral”. Os poderes públicos se aproveitaram desse conceito vago para comprar terrenos à força em nome dos grandes grupos industriais, sem pagar indenizações adequadas a seus proprietários.

Desde o conflito de Singur, em Bengala Ocidental, em setembro de 2008, onde violentas manifestações obrigaram a Tata Motors a transferir a construção de sua fábrica de montagem do carro Nano para o oeste do país, os Estados se mantêm alertas, procurando evitar novos confrontos. Sendo assim, o governo de Bengala Ocidental decidiu não intervir mais na aquisição de terrenos por industriais. Os Estados regionais agora preferem formar progressivamente “bancos de terras” – muitas vezes não-agrícolas – para tentar manter as indústrias.

Uma nova lei está em gestação. Mas há três anos que ela junta poeira nos arquivos do Parlamento indiano, por falta de um apoio unânime dos partidos da coalizão no poder. O novo texto prevê uma diminuição do papel do Estado: uma empresa deverá ter comprado pelo menos 70% das terras necessárias para seu projeto para que o poder público exproprie a minoria rebelde. “Reunir as terras de inúmeros proprietários não é uma tarefa que o setor privado pode conduzir com eficácia”, lamenta Rumjhum Chatterjee, da consultoria Feedback Ventures, que acredita que a aquisição de terras deve ser da alçada do domínio público.

Mas o Estado federal quer a todo preço evitar os conflitos políticos. A batalha de Singur havia se transformado em um confronto entre o partido do governo regional, o CPI-M, e o partido da oposição, o Trinamool Congress. Presa entre os dois, a Tata Motors foi incapaz de negociar com os camponeses. “Ora, uma empresa precisa negociar, ou até fazer com que os proprietários de terras se interessem por seu projeto, antes que o conflito seja reavivado politicamente”, acredita Runa Sarkar, professor do Instituto Indiano de Administração de Calcutá.

Alguns temem que a dissociação do Estado esteja sendo feita em detrimento dos camponeses. “Todos sabem que as grandes indústrias utilizam capangas para intimidar os camponeses e forçá-los a assinarem os atos de venda. Os camponeses são vulneráveis, muitas vezes analfabetos. O governo deve protegê-los, proibindo a venda de suas terras”, pede Rajagopal, líder do movimento dos sem-terra Ekta Parishad. Os partidários de Rajagopal se inspiram no ideal de Mahatma Gandhi: o de uma nação onde os vilarejos seriam autossuficientes e subsistiriam graças a pequenas indústrias artesanais.

Em sua reforma da política de aquisição de terras, o Estado prevê uma melhor indenização dos proprietários, mas também de todos aqueles cuja renda depende da presença de moradores, como os comerciantes.

As populações expropriadas deverão ser treinadas para os novos empregos criados, e ter prioridade para obtê-los. O montante das compensações será estabelecido em função das transações passadas. “Mas para fugir dos impostos, somente uma pequena parte do montante das transações é declarada, e os preços mostrados pelo mercado são bem abaixo de seu valor real”, diz M. R. Madhavan, diretor de pesquisa do grupo PRS Legislative Research, em Nova Déli.

Os agricultores poderão exigir uma participação no capital do novo projeto industrial. Pranab Bardhan, professor de economia da Universidade de Berkeley, na Califórnia, chega a defender a criação de um fundo nacional constituído de participações em todos os projetos industriais que utilizam terras agrícolas, fundo que pagaria mensalmente indenizações aos camponeses expropriados.

Mas para que as terras possam ser objeto de transações, ainda falta um cadastro. “Em muitas regiões os títulos de propriedade não existem, ou então existem somente no papel”, ressalta M. R. Madhavan. O Estado de Karnataka lançou um amplo programa de informatização dos títulos de propriedade para diminuir o número de litígios e cartografar os terrenos.

Outros Estados seguiram seu exemplo, às vezes com a ajuda de imagens por satélites. Esses cadastros deverão facilitar a aquisição de terras, uma vez votada a lei. O ministro da Indústria Pesada prometeu que ela seria apresentada ao Parlamento nos próximos meses.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

A esquecida perseguição às mulheres durante a Segunda Guerra Mundial

Jan Friedmann 

A Gestapo de Hitler prendeu milhares de mulheres que admitiram ter tido casos com trabalhadores forçados estrangeiros na Alemanha, apesar de muitas confissões serem falsas e feitas sob pressão. Muitos homens foram executados e as mulheres, enviadas para campos de concentração pelo crime de "degradação racial". Algumas continuaram sofrendo as consequências muito depois do fim da guerra.

Annette Hauschild/Der Spiegel

Sobrevivente do campo de concentração de Ravensbrück, Maria K.e outros sobreviventes dizem que a humilhação de moradores de suas cidades continuaram por vários anos após a queda do regime nazista na Alemanha

Em 19 de setembro de 1941, Maria K. assinou o registro de seu interrogatório. Em sua declaração por escrito ao detetive de polícia, a menina de 14 anos confessou que havia "compartilhado a cama do polonês Florian Sp. e que também teve relações sexuais com ele".
O incidente supostamente ocorreu em uma tarde de sábado em julho. Ela havia cuidado das vacas durante o dia, e à noite ela e sua amiga Hedwig, de 18 anos, convidaram os dois poloneses para lhes fazer companhia.
Segundo sua declaração assinada, elas os beijaram e depois os quatro foram para o quarto. Hedwig com Josef G. e Maria com Florian. No quarto, o polonês tirou suas calcinhas. Eles fizeram sexo três vezes naquela noite e duas vezes nos dias seguintes, uma delas depois do almoço, atrás de um arbusto em um campo próximo. Esse é o relato feito em sua confissão assinada.
Maria K., que hoje tem 82 anos, cobre o rosto com as mãos quando fala sobre a "confissão" que mudou sua vida para sempre e que levou à morte os dois rapazes. Ela se envergonha, embora o detetive da Gestapo tenha forjado a declaração e a espancado para assiná-la. Essa é sua história hoje, e outros documentos sustentam sua veracidade.
Gisela Schwarze, uma historiadora da cidade de Münster, no oeste da Alemanha, passou anos investigando casos como esse, vasculhando os arquivos dos tribunais especiais em cidades como Dortmund, Bielefeld e Kiel. Ela descobriu a história de Maria K. em um arquivo local. Ela se desenrolou em Asbeck, uma aldeia com uma população no tempo da guerra de 850 pessoas, na região ocidental de Münsterland.
"Degradação racial"
Em consequência de sua pesquisa, Schwarze descobriu um grupo de vítimas do regime nazista que havia sido negligenciado até hoje. Ele consiste em mulheres e meninas que membros do governo acusaram de ter tido relações sexuais com trabalhadores forçados estrangeiros. Alguns dos relacionamentos românticos realmente existiram, enquanto outros foram inventados, mas a punição foi quase sempre extrema. As mulheres foram enviadas para campos de concentração aos milhares, enquanto os homens geralmente foram executados.

"Cidadãos alemães que se envolvem em relações sexuais com trabalhadores civis, homens ou mulheres, de nacionalidade polonesa, cometem outros atos imorais ou se envolvem em casos amorosos serão presos imediatamente", ordenou Heinrich Himmler, o chefe das SS, em 1940.

O crime que os advogados nazistas haviam inventado chamava-se "degradação racial". No início ele só era aplicado a relações entre judeus e não-judeus, mas a invenção racista seria ampliada mais tarde para incluir os eslavos.

Os prisioneiros de guerra civis deportados eram obrigados a trabalhar em fábricas e nos campos, onde tinham contato com os habitantes locais, muitos deles mulheres. Os homens estavam lutando no front. Mas em toda parte havia informantes preparados para denunciar -vizinhos, colegas de trabalho e professores-, contribuindo para uma atmosfera infernal de ódio racial e preconceito.

Maria K., a terceira mais jovem de 11 irmãos, ficou órfã quando criança. Um irmão mais velho cuidou dos outros, mas ele acabou sendo recrutado para o exército alemão, e sua mulher de 27 anos tinha de cuidar dos próprios filhos. Para ajudá-la, o senhorio mandou Florian Sp., um trabalhador forçado polonês, em quem as crianças logo passaram a confiar.

"Medidas de guerra necessárias"

O relacionamento confortável entre o trabalhador polonês e a família era visto com suspeita na aldeia. Maria foi presa e, durante seu interrogatório, o oficial da Gestapo a atingiu no rosto e lhe disse para confessar que havia tido sexo com o polonês. A garota impotente e ingênua assinou a confissão, que apenas marcou o início de suas piores privações. Em outubro de 1941, a Gestapo em Münster apresentou um pedido para "iniciar as medidas de guerra necessárias" contra Maria, que agora fora classificada como uma "garota alemã desonrada".

Ela foi colocada em vários reformatórios e finalmente levada para um lugar que as SS tinham montado para abrigar jovens criminosas: o Campo de Proteção da Juventude Uckermark, uma filial do campo de concentração de Ravensbrück.

Ela recebeu um número de prisioneira, 290, e a partir daí não teve mais nome. Sofreu espancamentos, chicotadas, fome e atos de humilhação. Foi libertada no outono de 1944 e levada para uma escola preparatória para babás de crianças perto de Berlim. No final de 1945 ela conseguiu voltar a Asbeck, viajando pela Alemanha ocupada. Os dois trabalhadores poloneses já tinham sido enforcados em Asbeck em 28 de agosto de 1942. A causa da morte registrada em seus atestados de óbito foi "desconhecida".

As pessoas que praticaram a maioria dessas execuções continuaram sem punição depois da guerra e, em 1963, o ministério público de Münster encerrou a investigação dos casos. Mas as humilhações continuaram para Maria K.. Durante serviços na igreja, os aldeões a insultavam como "a prostituta do polonês" e "a amante do polonês". Muitas mulheres que sobreviveram à perseguição nazista foram tratadas da mesma maneira.

Algumas semanas atrás, Maria K. e a historiadora Schwarze viajaram juntas para o campo de Uckermark, onde hoje se ergue um memorial -uma pedra enrolada com tiras de ferro. Maria K. espalhou um punhado de terra no local, que ela havia apanhado na floresta onde os dois jovens poloneses foram mortos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Analistas aumentam para 5,16% projeção da inflação oficial em 2010

Kelly Oliveira

A projeção de analistas consultados pelo Banco Central (BC) para a inflação oficial continua em alta. Segundo o boletim Focus, divulgado hoje (29), a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) neste ano apresentou a décima elevação seguida, para 5,16%. No boletim anterior, a previsão era de 5,10%. Para 2011, a projeção permaneceu em 4,70%.
As expectativas para o IPCA estão acima do centro da meta de inflação para este e o próximo ano, de 4,5%. Essa meta tem ainda margem de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, ou seja, o limite inferior é de 2,5% e o superior, de 6,5%.
Cabe ao BC perseguir a meta de inflação e para isso usa como principal instrumento a taxa básica de juros, a Selic. Quando o Banco Central considera que a economia está aquecida e a expectativa é de alta da inflação, a Selic é elevada. Na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deste mês foi decidido manter a Selic em 8,75% ao ano. Mas, na ata divulgada na semana passada, o comitê indicou que deve elevar os juros básicos na reunião marcada para o próximo mês.
A expectativa para a Selic ao final de 2010 permaneceu em 11,25% ao ano e para o fim de 2011 foi ajustada de 11,10% para 11% ao ano.
O boletim Focus também traz projeção para o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI). A estimativa para esse índice, neste ano, subiu de 6,74% para 6,82%. Em 2011, os analistas esperam uma taxa de 4,55%, contra os 4,50% previstos anteriormente.
Para o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), a perspectiva para este ano é de 6,54%, contra os 6,50% previstos anteriormente. No próximo ano, os analistas projetam 4,52%, a mesma estimativa anterior.
A expectativa para o Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe) passou de 5,49% para 5,41%, em 2010, e permanece em 4,5%, em 2011.
A estimativa para os preços administrados passou de 3,67% para 3,70%, em 2010, e permaneceu em 4,50%, em 2011. Os preços administrados são aqueles cobrados por serviços monitorados, como combustíveis, energia elétrica, telefonia, medicamentos, água, educação, saneamento, transporte urbano coletivo, entre outros

Edição: Juliana Andrade

Fonte: Agência Brasil – http://www.agenciabrasil.gov.br/

O colecionador

Morto no último dia 28, o bibliófilo José Mindlin fazia parte de uma generosa estirpe de pessoas que preservam e partilham o saber

PETER BURKE

José Mindlin (1914-2010) foi o mais recente e, esperemos, não o último integrante de um grupo de colecionadores de livros, possuidores de interesses acadêmicos, que se mostram generosos para com outros estudiosos.
Várias grandes bibliotecas públicas foram, em sua origem, bibliotecas particulares. A Biblioteca Britânica, por exemplo, começou como Biblioteca Real, a coleção particular do rei Jorge 3º, enquanto a Biblioteca Nacional da França foi, até a Revolução Francesa, a Biblioteca Real francesa.
A Biblioteca Morgan, em Nova York, foi anteriormente a coleção particular do banqueiro John Pierpont Morgan (1837-1913), transformada em instituição pública pelo filho dele, em 1924.
Contudo, esses exemplos ilustram como livros, assim como obras de arte, com frequência são colecionados com finalidades exibicionistas -em outras palavras, mais para impressionar outras pessoas que para uso ou desfrute próprios de seus donos.
O rei francês Luís 14, por exemplo, não se interessava especialmente pela leitura, mas seus assessores políticos sugeriram que montar a biblioteca real seria uma maneira de fomentar sua reputação fora do país, de associar seu nome e o da França ao conhecimento e à civilização.
Jorge 3º, da Inglaterra, tampouco foi um intelectual, embora se interessasse por livros sobre agricultura. Sua biblioteca também foi montada mais para ser mostrada que para seu próprio uso.
Contrastando com isso, porém, algumas grandes bibliotecas particulares foram formadas porque um indivíduo determinado não apenas tinha paixão por livros, especialmente livros sobre determinados assuntos, como era dotado dos meios econômicos para acumular uma bela coleção. A seguir, eu gostaria de comparar a biblioteca de Mindlin com quatro coleções que já foram particulares, embora todas tenham se tornado públicas ou sido incorporadas a bibliotecas abertas ao público.
Livros não lidos
Duas dessas coleções foram formadas na Europa e duas no Novo Mundo. Pertenceram no passado a lorde Acton, Aby Warburg, John Carter Brown e Manoel de Oliveira Lima.
Lorde Acton (1834-1902), que lecionou história na Universidade de Cambridge, foi um inglês incomumente cosmopolita (de ascendência parcialmente alemã) cuja riqueza herdada lhe permitiu comprar tantos livros quanto quis, sobretudo livros de história. Um estudioso que o visitou em Cambridge ficou impressionado com os livros que enchiam a sala em que Acton o recebeu, observando que muitos deles tinham pedaços de papel marcando uma página em especial, fato que sugeria que os livros teriam sido usados.
Mas ele também havia recordado que os pedaços de papel normalmente estavam nas primeiras páginas de cada livro, como se Acton não tivesse tido tempo de lê-los até o final. Já usei em vários momentos livros da coleção de Acton, que hoje faz parte da Biblioteca Universitária de Cambridge e, por várias vezes, tive que cortar as folhas de um livro cujo dono evidentemente nunca o lera.
Como todos os grandes colecionadores, Acton possuía mais livros do que poderia ter lido na vida. Afinal, se lermos um livro por dia durante 40 anos, o total chegará a 14.600 livros, sendo que uma grande coleção particular pode conter até 40 mil ou 50 mil volumes.
Mesmo assim, a biblioteca de Acton foi formada para pesquisas, mais que para exibição, fato condizente com o interesse de seu dono pela história da Europa, especialmente a partir do final da Idade Média.
O filho do banqueiro
Aby Warburg (1866-1929) foi o filho mais velho de um banqueiro alemão. A expectativa era que seguisse o caminho de seu pai, trabalhando na empresa familiar, mas ele queria ser acadêmico.
Então, entregou o banco a seu irmão, sob uma condição -que ele pagasse por todos os livros que Aby quisesse, pelo resto de sua vida.
O irmão não deve ter imaginado quantos livros Aby iria querer ou precisar -tudo o que pudesse encontrar sobre a história da tradição clássica e, de modo mais geral, que fizesse parte da "ciência da cultura" ("Kulturwissenschaft").
Warburg tinha prazer em receber outros estudiosos em sua biblioteca, que se tornou semipública em 1914 e então foi convertida em um instituto, transferido de Hamburgo para Londres após a chegada de Hitler ao poder, em 1933, para evitar o confisco (já que a família Warburg era judia). Hoje a biblioteca faz parte da Universidade de Londres. Warburg se interessava profundamente pela organização dos livros nas estantes.
A biblioteca era -e, felizmente, ainda é- uma biblioteca de acesso aberto, com isso permitindo que funcione o que Warburg chamava de "a lei do bom vizinho". (Segundo essa lei, o livro de que um leitor realmente precisa não é aquele do qual ele já tem conhecimento e que identificou no catálogo, mas o livro ao lado, em um sistema de classificação cuidadosa e precisa por temas.)
Coleções na América
Duas importantes bibliotecas particulares no Novo Mundo, além da de José Mindlin, focalizam a América -a do Norte e a do Sul. A ambição de John Carter Brown (1797-1874), um homem rico que passou sua vida colecionando, era reunir todos os livros, manuscritos e mapas que pudesse encontrar que dissessem respeito à história das Américas.
Seu filho John Nicholas Brown continuou a colecionar, mas, em seu testamento, deixou a biblioteca à Universidade Brown (que assumiu seu nome em agradecimento às beneficências recebidas da família Brown). Hoje, com cerca de 45 mil volumes, ela faz parte de um instituto independente de pesquisas no interior da universidade e abriga exposições, palestras e conferências.
Outra grande biblioteca particular que foi posteriormente incorporada a uma universidade foi montada pelo diplomata e estudioso brasileiro Manoel de Oliveira Lima (1867-1928), que, entre outras coisas, foi mentor de Gilberto Freyre na juventude deste.
Como seu proprietário, a biblioteca se concentrava sobre a história do Brasil, de Portugal e do império português na Ásia e na África. Em 1916 Oliveira Lima doou a biblioteca, que hoje contém 50 mil livros, à Universidade Católica da América, em Washington. Ele se nomeou o primeiro bibliotecário dela.
Tradição grandiosa
Resumindo: a biblioteca de 40 mil volumes de José Mindlin, que agora será doada à USP, faz parte de uma tradição grandiosa. "Nunca me considerei o dono desta biblioteca", observou Mindlin certa vez, apenas seu guardião para a posteridade.
Esperemos que Mindlin não seja o derradeiro dos grandes colecionadores cujas bibliotecas refletem seu entusiasmo pessoal pelo conhecimento, mas que têm a generosidade de compartilhar com outros aquilo que adquiriram.

PETER BURKE é historiador inglês, autor de "A Tradução Cultural" (ed. Unesp) e "O Historiador como Colunista" (ed. Civilização Brasileira). Escreve regularmente no Mais!.

Tradução de °Clara Allain.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Vozes que não se deixam morrer

Nos antigos porões da repressão argentina, hoje espaços de memória, desaparecidos insistem em voltar

Francisco Foot Hardman

Quando pensamos na história de Francisco Madariaga Quintela, bebê sequestrado por militares argentinos durante a ditadura naquele país, o 101º identificado entre os prováveis 500 ainda por serem, graças ao trabalho das Avós da Praça de Maio; Francisco, que acabou de conhecer seu pai 32 anos depois de ter nascido (a mãe foi morta logo após o parto, como em geral ocorria com as prisioneiras grávidas no centro clandestino de detenção e extermínio do Campo de Mayo, controlado pelo Exército), persiste a dúvida: o que é mais fácil de esquecer, um rosto ou um nome?

Julio Cortázar, num esboço de conto alegórico que publicou na Revista del Occidente, em 1981, narra o projeto de "um grupo de argentinos" de fundar uma cidade numa planície propícia, sem se dar conta de que ali era um cemitério do qual não restava "nenhum rastro visível". Somente os chefes o sabiam, mas se calaram porque "o lugar facilita seus projetos", já que é "uma planície alisada pela morte e pelo silêncio". Mas, aos poucos, "os mais sensíveis" começam a perceber coisas estranhas, que estão a rigor assentados "sobre a morte" e os mortos "sabem voltar à sua maneira"; e aquela cidade projetada aos poucos desperta "do pior dos pesadelos, na fria e viscosa presença de repulsas invisíveis, de uma maldição que não se expressa com palavras, mas que faz tinir com seu indizível horror tudo o que esses homens ergueram sobre uma necrópole". Indagado por que não desenvolvera o conto, o escritor, falecido em 1984, disse que não o fizera porque "já estava escrito no livro da história".

O Parque da Memória – Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado, fundado em 2007 às margens do Rio da Prata, numa das pontas da baía em plena Costanera Norte, em Buenos Aires, parece representar, como antimuseu, ao revés, esse argumento da narrativa de Cortázar. Está assentado numa verdadeira "planície alisada pela morte e pelo silêncio". A cidade ainda resiste a incorporá-lo a sua geografia cultural e histórica. E ali, numa tarde chuvosa, céu gris, muita ventania, encrespadas as águas do Prata, visitei sozinho aquele lugar, recebido na porta por um cão enorme, mas amistoso, e nos trailers ao fundo por um guarda sonolento e pela artista plástica Lucila Anigstein, filha de perseguidos da ditadura, como muitos dos que trabalham, voluntariamente ou como funcionários, nesses vários espaços da memória do terror argentino.

Como sempre, faltam recursos e o apoio oficial é precário. Mas o voluntarismo dos comitês "de consenso" que dirigem efetivamente esses centros supera, em muito, as dificuldades materiais. Afora 6 esculturas já instaladas (de um total de 18 previstas, vencedoras de concurso internacional que contou com 665 projetos de 44 países), sobressaem, na escalada suave de uma colina, as quatro enormes esteiras de granito do principal monumento, como feridas na relva, "forradas" atrás de lascas de pedras e gravadas nas suas frontes de centenas de metros, com os nomes de quase 10 mil mortos e detidos-desaparecidos. São registros que remontam da ditadura de Onganía, em 1969, até o fim da ditadura Galtieri, em 1983. Ao lado de cada inscrição, em ordem alfabética de sobrenomes e listados por ano de massacre, há apenas a idade da vítima. É um passeio doloroso, mas necessário. Quando chegamos aos anos 1976, 77 e 78, parece que paramos no tempo porque a lista se mostra infinda. Bastaria conferir essas marcas para dar completa razão ao jovem juiz Daniel Rafecas, que acaba de responsabilizar penalmente o general Videla por 30 homicídios, 552 sequestros e 264 casos de tortura. Numa entrevista ao jornal La Nación, feita em Paris, onde estava participando de seminário sobre genocídio, o juiz Rafecas afirmou ter plena convicção de que o presidente da primeira junta militar instalou, de fato, a "solução final" como estratégia de combate não só aos movimentos guerrilheiros, mas a qualquer outra dissidência política da sociedade civil, pouco importando se desarmada ou se capaz de se opor ao regime de exceção. E quando meu olhar passou a se fixar não mais nos nomes (sem rosto), mas nos numerais que indicam as idades, não há como negar a avaliação de Rafecas: a casa dos 20 se repete a exaurir nervos, toda uma geração de jovens comuns, sonhadores, ingênuos, utópicos, agressivos, criativos, eróticos, libertários, estúpidos, enfáticos, desapareceu.

Se chamássemos por seus nomes, apenas o sibilo do vento forte do Atlântico Sul responderia. E as pedras, como em Treblinka, seriam suas mais íntegras e praticamente únicas testemunhas. Já que as águas em grande parte os tragaram, nos "traslados para cima", isto é, voos da morte saídos com regularidade diabólica durante mais de dois anos todas as quartas-feiras da Esma (Escola Superior de Mecânica da Marinha). Como disse a esposa de um empresário ligado aos negócios clandestinos dos militares, por volta de 1995, depois do tremendo impacto que a confissão do capitão de corveta Adolfo Francisco Scilingo, primeira de um perpetrador, veio à luz no impressionante livro do jornalista Horacio Verbitsky, El vuelo (O voo): "Porque há um problema na sociedade. Parecia que os desaparecidos são eles, não são nós. São nossos, somos nós".

Nos desvãos entre memória e esquecimento reescreve-se a história contemporânea da Argentina, que numa dimensão extrema, reproduz processos tão conhecidos na América Latina, em países como o Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, para não falar de massacres na Guatemala, El Salvador, México. E para não falar dos crimes contra os direitos humanos continuados em Cuba, para os quais nem a epopeia da Sierra Maestra nem o deplorável bloqueio norte-americano poderão oferecer licença ideológica ou poética que justifique tanta indiferença e omissão.

Entre os projetos escultóricos do Parque da Memória ainda por construir está o do artista brasileiro Nuno Ramos, Olimpo, grande estrutura de vidro e granito inspirada na arquitetura labiríntica e claustrofóbica de vários centros clandestinos de detenção e extermínio, entre eles a velha estação terminal de bondes, depois de trólebus e ônibus, no pacato bairro operário e de classe média baixa Floresta, em Buenos Aires, tema do filme Garagem Olimpo, do cineasta ítalo-chileno Marco Bechis, em 1999. Pretendendo inverter os usos costumeiros dos materiais (o vidro para paredes, soalho, teto, e o granito para portas e janelas), a obra pensada por Nuno sugere uma suspensão do tempo, numa analogia inversa à dos algozes do Exército que dominaram aquele cenário entre o final de 1978 e início de 79 ("Olimpo" é a denominação tenebrosamente irônica que deram ao local, na autorreferência elogiosa à sua condição de deuses da vida e da morte). Na visita que fiz, impressionou-me a disposição de todos que lá trabalham – jovens antropólogos, arqueólogos, teatrólogos, bibliotecários, arte-educadores, sobreviventes voluntários – para integrar o espaço da memória à vida das comunidades do bairro, com uma programação de eventos culturais e educativos intensa e viva. A própria geografia do bairro assim o faculta, ao contrário de outros centros relativamente mais isolados. No cronograma, anualmente, organiza-se uma passeata de cerca de um quilômetro entre Olimpo e a antiga oficina mecânica Automotores Orletti, no mesmo bairro, maior centro de detenção da famigerada Operação Condor, para onde foram levados cerca de 300 sequestrados do Cone Sul, dos quais apenas cerca de 40 sobreviveram.

Denúncias e recuperações desses vários centros do terror de Estado como novos espaços públicos da memória não foram fácies. Entre os instrumentos, as associações de direitos humanos que se mobilizaram em torno valeram-se do escrache, que são atos públicos bem humorados em que se revelam identidades de torturadores ou o destino clandestino de lugares como esses durante a ditadura. Os escraches, em geral levados adiante pelos grupos de filhos dos desaparecidos, foram bastante eficazes ao produzirem incômodo aos que pretendem tudo esconder e indignação de moradores vizinhos. Ao mesmo tempo que simpatia difusa pelas boas causas da memória.

Do alto de sua arrogância, o almirante Massera, comandante da Marinha e membro ativo da primeira junta durante os anos de terror da Esma, condenado à prisão perpétua, disse em audiência num de seus vários processos criminais, em 1985: "Me sinto responsável, porém não culpável. Meus juízes dispõem da crônica, mas eu disponho da história e é dela que se escutará o veredicto final".

No silêncio de hoje dos porões e sótãos do Cassino dos Oficiais, a maior casa de horrores da Esma, por onde passaram milhares de sequestrados, ali torturados, despojados de seus bens – as mães grávidas de seus bebês – e selecionados, olimpicamente, com o L de liberdade (poucos) ou o M dos voos da morte (a esmagadora maioria), durante vários anos, de modo metódico e implacável pelo alto comando das Forças Armadas, as vozes dos desaparecidos teimam em não se deixar esquecer. E pelo menos uma centena de fotos ainda trazem seus rostos, desfigurados por seus carrascos. A história, sim, já escreveu os contornos dessa planície alisada pela morte. E as vozes voltam, o vento na cara, os restos de memória que o rio e o mar não souberam destruir. E voltam nomes e voltam rostos. É sempre possível fazer de cada crônica uma outra história. Do que você se lembra primeiro?…

* Professor de Teoria e História Literária da Unicamp. Autor, entre outros títulos, de Euclides da Cunha – Poesia Reunida (Unesp, 2009)

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Avanço do carro elétrico faz do lítio a futura vedete

CLIFFORD KRAUSS

Durante muitos anos, poucos metais provocaram maiores bocejos nos executivos da mineração que o lítio, um elemento leve há muito tempo associado principalmente a medicamentos que estabilizam o humor.
De repente, os bocejos estão sendo substituídos por sorrisos. Conforme se espalha a consciência de que o lítio é um ingrediente crucial para carros híbridos e elétricos, começa uma caçada global por novas reservas do metal.
A Toyota Tsusho, fornecedora de materiais para a grande montadora japonesa, anunciou uma joint venture em janeiro com a mineradora australiana Orocobre para desenvolver um projeto de lítio de US$ 100 milhões na Argentina. O negócio só saiu dias depois que a Magna International, fabricante canadense de peças para automóveis que está ajudando a desenvolver uma versão elétrica do Ford Focus, anunciou investimentos de US$ 10 milhões em uma pequena firma de lítio canadense que também tem projetos na Argentina.
Esses foram os últimos de uma série de acordos e projetos anunciados no último ano, refletindo uma nova urgência entre as empresas para garantir o futuro suprimento do metal.
"Existe uma grande mudança a caminho", disse James D. Calaway, presidente da Orocobre. "Estamos potencialmente na vanguarda de um aumento muito significativo na demanda por lítio para o emergente setor de transporte elétrico."
Calaway acrescentou, porém, que é difícil prever o momento exato de um aumento na oferta e demanda de lítio, sobretudo porque os carros elétricos ainda não decolaram de maneira significativa.
Cerca de 60 mineradoras iniciaram estudos de factibilidade na Argentina, na Sérvia e em Nevada (EUA), que poderão levar a mais de US$ 1 bilhão em novos projetos de lítio nos próximos anos, enquanto dezenas de projetos menores estão sendo propostos em China, Finlândia, México e Canadá.
As empresas competem por financiamento para construção, e o futuro da maioria dos projetos dependerá da aprovação popular aos carros elétricos. Essa é uma questão em aberto, pois as baterias ainda são caras, as estações de recarga precisam ser desenvolvidas, e o gosto dos consumidores por carros que dependem de paradas regulares em tomadas elétricas ainda não foi testado.
"A coisa está se movendo tão depressa", disse Edward R. Anderson, presidente do TRU Group, consultoria especializada na indústria de lítio. "Há muitas pessoas investindo nisso, e muitas vão perder dinheiro."
Enquanto isso, os quatro maiores produtores atuais, que fazem mineração ou coleta de lítio em Chile, Argentina e Austrália, dizem que pretendem expandir antigos projetos conforme a demanda exigir.
Na Bolívia, que tem quase a metade das reservas mundiais, o governo de esquerda está construindo uma usina piloto e fazendo perfurações prospectivas. O fato de a Bolívia ser um país remoto e instável, muitas vezes hostil aos investimentos estrangeiros, ajudou a reforçar o interesse pela produção de lítio nos vizinhos Argentina e Chile, na Austrália e nos EUA. Várias empresas canadenses e americanas fazem alegações sobre as perspectivas de produção no Estado americano de Nevada, mas poucos analistas preveem uma produção em grande escala ali.
Enquanto a maioria dos especialistas duvida que quantidades significativas de lítio possam ser produzidas nos EUA, eles afirmam que suprimentos adequados estarão disponíveis em outras fontes além da Bolívia durante muitos anos e salientam que o maior produtor, o Chile, é um aliado americano confiável.
A maior parte do mercado de lítio atende a diversas aplicações industriais. Cerca de um quarto de todo o lítio produzido é usado para armazenamento de energia, em objetos como telefones celulares, computadores portáteis e câmeras digitais.
Essa proporção deverá aumentar acentuadamente se os carros movidos a bateria decolarem. As baterias de íons de lítio são o tipo preferido para veículos elétricos e híbridos porque contêm mais energia com menos peso que outros materiais e porque perdem sua carga mais lentamente. Elas armazenam cerca de três vezes mais energia por peso que uma bateria de níquel-hidreto metálico.
O lítio é encontrado em quantidades de traço em muitos lugares, mas é produzido comercialmente sobretudo por dois métodos. Um é através da mineração e processamento, que é relativamente caro e produz o metal principalmente para a fabricação de vidro, cerâmica e tubos de televisão.
O método mais econômico e importante é através da evaporação de salmoura que contém lítio, principalmente nas planícies salgadas em áreas da América do Sul e do oeste da China.
Os reservatórios de lítio se formaram durante milhões de anos em bacias em planaltos, depois que os rios e as fontes quentes lavaram as rochas e dissolveram seus minerais. Os produtores perfuram poços nas planícies salgadas e bombeiam a salmoura para lagos de evaporação. Com a remoção da água, o conteúdo de lítio na salmoura aumenta até um nível em que pode ser recolhido e enviado para processamento em uma usina química.
Pelos padrões dos booms tradicionais de ouro e cobre, o aumento de interesse pelo lítio ainda é discreto entre as grandes mineradoras. Mas várias grandes fabricantes de carros prometem comercializar veículos elétricos em todo o mundo nos próximos anos, e a procura deverá aumentar.
"Acreditamos que a demanda está destinada a aumentar drasticamente", disse um recente relatório da consultoria de investimentos Byron Capital Markets.

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Para entender o Oriente Médio… tente algumas leituras

Robert Fisk

A maior dificuldade para escrever com consciência histórica é que a história não terminou. Seja como for, se quiser entender a Al-Qaeda, por exemplo, tente o parágrafo seguinte:
“O homem do deserto não merece crédito por sua fé (…). Ele alcançou essa intensa condensação de si mesmo em Deus porque fechou os olhos ao mundo e a todas as complexas possibilidades latentes nele, que só o contato com a riqueza e as tentações pode trazer à tona. Alcançou uma fé confiável e poderosa, mas em campo tão estreito! Sua experiência estéril roubou-lhe qualquer compaixão e perverteu sua generosidade humana para com a imagem da perda na qual se escondeu (…). Vem daí um gozo na dor, uma crueldade que vale mais para ele que quaisquer bens. (…) Encontrou luxúria na abnegação, na renúncia, na autocontenção. Fez a nudez da mente tão sensual quanto a nudez do corpo. É possível que tenha salvo a própria alma, e sem risco, mas num duro egoísmo.”
É de T.E. Lawrence, em Seven Pillars of Wisdom: a Triumph (1926) [Os Sete Pilares da Sabedoria: Um Triunfo, Rio de Janeiro: Record, trad. C. Machado] – e que perfeição! Sempre lembro dessa passagem quando assisto aos videoteipes de Bin Laden. O campo estreito. A abnegação. A crueldade. Não concordo necessariamente com Lawrence, mas em trechos como esse, percebo-me refletindo cada vez mais profunda e intensamente sobre suas palavras.
Digo isso porque, várias vezes por ano, leitores do Independent pedem-me que sugira “uma lista de leituras” de livros em inglês sobre o Oriente Médio. Não é fácil. A maior dificuldade para escrever com consciência histórica sobre o Oriente Médio é que a história não terminou. A guerra continua. Os dois “lados” – de fato há muitos, muitos lados – produzem narrativas conflitivas. E não aceito a ideia de que se possa oferecer uma lista equilibrada de livros. Há a versão de Israel. Há a versão dos árabes. Há a versão alucinada dos norte-americanos etc. O Oriente Médio é questão de injustiça. Quem contará melhor a história?
No que tenha a ver com a disputa árabes-israelenses, os dois incomparavelmente melhores livros são The Arab Awakening: the history of the Arab National Movement (Londres, 1938) de George Antonius, e The Gun and the Olive Branch (1977), de meu colega e amigo David Hirst. Antonius escreveu em 1938; Hitler já estava no poder há cinco anos – mas dez anos antes de os palestinos serem ativamente assaltados. – E escreveu que:
“O tratamento imposto aos judeus na Alemanha e em outros países europeus é uma desgraça para os autores e para a civilização moderna. A posteridade não perdoará nenhum país que não assuma a sua parcela de sacrifícios para aliviar o sofrimento e o desespero dos judeus. Impor toda a carga à Palestina árabe é miserável movimento de fuga ao cumprimento do dever moral que cabe a todo o mundo civilizado, além de ser moralmente vergonhoso. Nenhum código moral pode justificar a perseguição de um povo, como meio para aliviar a perseguição de outro. A cura para a expulsão dos judeus da Alemanha jamais será a expulsão dos árabes, de sua própria terra (…).”
Foi o primeiro sinal verdadeiramente eloquente do que estava para acontecer, e Hirst completou a narrativa das muito acuradas predições de Antonius, o primeiro autor, parece-me, a enfrentar o romance-lixo Exodus, com o qual Leon Uris agraciou o Estado judeu – para deleite de Ben Gurion, embora devesse ter pensado melhor –, ao desconstruir o “terrorismo”, sem romantizar os refugiados palestinos e seus movimentos de resistência.
Nesse mesmo contexto, deve-se lembrar o trabalho dos “novos historiadores” de Israel, que criaram uma narrativa complementar. Benny Morris foi o mais proeminente pesquisador israelense a provar que foi intenção de Israel expulsar os palestinos e arrancá-los de suas casas às dezenas de milhares em 1948. O fato de que, depois, Morris não tenha feito outra coisa além de reclamar que a limpeza étnica não tenha sido suficientemente eficaz e ampla não diminui a importância de seu trabalho anterior, seminal.
Dizem que F. R. Leavis, certa vez, iniciou um parágrafo com “Como qualquer leitor-que-preste de poesia sabe…”. Então, acho que podemos dizer que “qualquer leitor-que-preste” de livros sobre o Oriente Médio deve ler Edward Said. Um de seus melhores livros, aliás, é sobre música. Mas Orientalism [Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2003] sempre será necessário em qualquer lista. Said fez filosoficamente e historicamente, pela narrativa do Oriente Médio, o que Antonius fez politicamente. Não estou subestimando o trabalho político de Said – embora vários críticos tenham anotado que Said talvez não tenha levado n a devida consideração a vasta literatura “orientalista” que brotou na Itália, na Alemanha e na Rússia. Mas não o estou condenando como o condenaram Al Dershowitz e sua gangue.
A União Soviética, claro, sempre teve problemas com o Profeta, porque Maomé foi comerciante e burguês. Jesus Cristo, pelo menos, nasceu em família de trabalhador, embora não se saiba se José, carpinteiro, possa ser dito Stakhanovita recomendável. Mas devo dizer que o fato de Maria e José terem tido de viajar até Jerusalém para pagar impostos é absolutamente otomano, de tão burocrático. E que nenhum hotel aceitasse hospedar uma mulher grávida, sim, tem sabor de Oriente Médio. Mas, não, não! Não vá eu, agora, virar “orientalista”!
E há também esse brilhante pensador e jornalista libanês, o saudoso Samir Kassir – muito saudoso, porque foi assassinado há quase cinco anos, e a última coisa que vi dele foi o sangue ao lado do carro explodido – cuja monumental história de Beirute, em inglês, estará nas livrarias esse ano (admito: estou escrevendo o prefácio).
Tudo que você algum dia quis saber sobre Beirute – e muito, receio, que você preferiria jamais saber – está no livro de Kassir. Ele lembra como, há cem anos, um jovem capo di capo cristão – um Costa Paoli – tinha o hábito de beijar o rosto dos cristãos libaneses recém assassinados, antes de que fossem sepultados. Era homem elegante – “uma rosa na lapela e lenço perfumado no bolso do paletó”, segundo o professor Edward Atiyah –, e um gângster; vingava-se dos muçulmanos. Naqueles dias, havia milícias e grupos armados de apoio às comunidades cristãs e muçulmanas, e às vezes, havia briga de rua.
Exatamente como o meu colega David McKittrick descobriu que, na Belfast do século 19, as primeiras lutas de rua ocorreram nos mesmos locais onde aconteceram as batalhas dos anos 70s, assim também já se sabe que, na Beirute do século 19, os conflitos entre as milícias armadas aconteceram nos mesmos locais onde eclodiria a Guerra do Líbano de 1975.
Kassir é o primeiro autor cujo único personagem humano é uma cidade, em cuja bela e terrível história vêem os homenzinhos girando em rodas de tortura. Eu não sabia que o subúrbio onde reina o Hizbollah, Ouzai, recebeu esse nome para homenagear o velho divino Imã Ouzai; ou que o Partido Social Nacionalista Sírio – uma tediosa sociedade pan-árabe – inspirou-se, para criar sua bandeira vermelha, branca e preta (com penas cruzadas), nos nazistas; ou que o palavrão (em árabe) sharmut ou sharmuta – “puta” – e que hoje se usa a torto e a direito, surgiu da tão mais gentil e suave “charmante”, francesa. Lawrence e demais autores, por favor, anotem.

Tradução: Caia Fittipaldi

Fonte: ICARABE – http://www.icarabe.org/

Ildo Sauer: Governo Federal é o responsável pela deterioração do sistema energético brasileiro

Valéria Nader e Gabriel Brito

Em meio aos descaminhos nos setores econômicos mais proeminentes da nação saltando à vista, regados a obscuras negociações e consolidações monopólicas, o engenheiro e ex-diretor de Petróleo e Gás da Petrobras na gestão de Lula até 2007, Ildo Sauer, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Cidadania sobre o setor elétrico. Sauer não poupa nenhum ente governamental nos recentes e seqüentes apagões que temos vivenciado.

Ildo atribui ao atual governo sérias responsabilidades pelo que considera uma má gestão do setor, com graves conseqüências para as empresas estatais, a cada dia mais descapitalizadas, na medida em que são utilizadas indevidamente por um modelo que beneficia grandes consumidores e as distribuidoras privadas. A eventual retomada da Eletrobrás seria apenas outro capítulo de uma estatal entrando como sócia minoritária em um negócio regido por atores privados.

Sauer aponta a ex-ministra de Minas de Energia do governo Lula Dilma Roussef como a maestra de grande parte do que seria uma ‘concertação’ de interesses do setor (obreiros e especuladores) em total desfavor dos consumidores, que pagam tarifas dentre as mais altas no mundo. Por conta de tal ‘conluio’, o professor desacredita também o Plano Nacional de Banda Larga, dizendo que o governo já tinha tais diretrizes, dentre outras, desde antes da eleição, tornando duvidosos os motivos que agora o estimulariam a investir na empreitada. Com as linhas de fibra ótica dos dutos e gasodutos da Petrobras e as da Eletronet, ele explica que já se poderia ter uma ótima base para universalização da banda larga desde 2003.

Segundo o Sauer, o setor elétrico se encaminha para mais uma configuração de monopólio em setor chave da economia e para políticas tão nefastas que não poderiam ser levadas adiante sem a cumplicidade do governo.

Correio da Cidadania: Desde começo de 2008 os paulistanos estão diante da intensificação das panes elétricas, com mini-apagões que se repetem a cada ventania mais forte ou a cada nova tempestade. O Rio de Janeiro, outra grande metrópole, também vem apresentando situações semelhantes. Qual a responsabilidade das distribuidoras de energia nessas situações?

Ildo Sauer: Há uma cadeia de responsabilidade, que é seqüencial, na indústria da energia elétrica. Temos um sistema elétrico brasileiro muito positivo, desde que administrado adequadamente, graças a enormes vantagens comparativas do aproveitamento da diversidade dos recursos hidrológicos, de horários e tipos de consumo, em várias regiões e segmentos. Exige uma coordenação estruturada que vem desde o planejamento da expansão e vai até todas as demais etapas, passando pelas capacidades de geração e transmissão e também distribuição da energia elétrica aos consumidores finais.

Dessa forma, há uma responsabilidade integrada entre o governo federal em sua atuação na área, o Ministério das Minas e Energia (MME) a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o Operador Nacional de Sistema (ONS), o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico e a Câmara de Comercialização de Energia, para citar só os órgãos envolvidos. Todos têm papéis e funções resultantes do modelo criado pelo governo FHC e ajustado em pequena monta, mas mantido em sua alma e espírito, pelo governo Lula e sua ministra de Minas e Energia de então, em 2003/04.

CC:O apagão nacional do final do ano passado associa-se de alguma maneira a esta situação de mini-apagões, no que se refere, por exemplo, à falta de investimentos ou deficiência operacional nas linhas de transmissão e distribuição?

IS: Nesse sentido, o que vem acontecendo – tanto nesses mini-apagões, assim como no caso dos apagões de novembro passado no Brasil todo por conta de falhas de transmissão, e também no Nordeste, em fevereiro, causando enormes transtornos – provavelmente tem grande parte de seus problemas ligados à falta de investimento adequado em verificação e manutenção do Estado no sistema de transmissão.

Sabe-se que, além de São Paulo e Rio, em outras regiões do país, muitas vezes a energia chega pela transmissão, mas sem uma estrutura adequada de distribuição, muitas vezes em estado de manutenção e operacionalidade inadequado e incapaz, portanto, de manter a continuidade dos serviços de energia elétrica para os consumidores finais. E isso está nitidamente ligado à falta de investimentos para fazer valer a qualidade dos serviços contratados.

Portanto, há uma seqüência de responsabilidades. É evidente que a distribuidora elétrica contratada em regime de monopólio pelo governo federal através da ANEEL para prestar tal serviço é a primeira responsável. Mas sabendo-se que o regime de regulação e controle dos serviços é responsabilidade da ANEEL. E no cumprimento das leis, regulamentos e políticas públicas, a seqüência de responsabilidades fica integrada. É da distribuidora, da ANEEL e, acima de tudo, do próprio governo federal.

CC: O governo Lula tinha entre seus objetivos iniciais uma reorientação do modelo do setor elétrico relativamente ao modelo privatista de FHC. Vários estudiosos entrevistados por este Correio avaliam que esse objetivo foi alcançado de modo muitíssimo limitado, na medida em que continuam a prevalecer grandes consumidores e sua lógica de lucro, a descapitalização das estatais e a influência de interesses de poderosos setores eletro-intensivos sobre o governo. O senhor concorda com esta avaliação, na medida em que disse que Lula manteve o espírito do modelo FHC?

IS: O modelo de regulamentação que define as responsabilidades desse serviço foi estabelecido principalmente nos anos 1990, 1995, até 2002, sob a filosofia da privatização e regulação por incentivo, isto é, haveria a definição de uma tarifa teto e, a cada dois, três anos, deveria ser feita uma verificação sobre ganhos de produtividade, o que seria suficiente para induzir a distribuidora a prestar um excelente serviço.

Criou-se, inclusive por normas da ANEEL, a chamada empresa de referência, que é uma empresa de papel, modelo pelo qual a ANEEL se preocupa unicamente em verificar qual seria o custo atual equivalente em prestar o serviço numa determinada região, ao invés de visitar e controlar o mundo real, olhando transformadores, postos, redes, consumidores, o estado físico do sistema. Isso é a chamada regulação por comparação por empresa de referência. Veja o quanto é drástico acreditar apenas em uma teoria e implementá-la. E a grande responsabilidade do governo lula, sob comando da então ministra, foi acreditar que essa teoria era suficiente.

Todos nós sabíamos e alertávamos, em 2003/04, que parte da responsabilidade pelo racionamento de 2001/02, pelos contínuos apagões que se verificavam desde 1997, 1998, 1999 e pela qualidade do serviço de distribuição daquele período estava vinculada a essa estrutura de regulamentação e controle do serviço público de energia – com enorme ausência da participação pública e do controle social, popular, sobre tais serviços.

O modelo foi mantido no atual governo. As distribuidoras se preocupam exclusivamente se o poder público, que tem a responsabilidade de fiscalizá-las e controlá-las, concede mecanismos de regulação que lhes permitam cobrar essas tarifas que são as mais caras do mundo… Nos EUA, só o Havaí, de parcos recursos energéticos, tem tarifas mais caras ao consumidor. Todos os outros estados americanos têm tarifas mais baixas, embora tenham condições estruturais de suprimento muito superiores às nossas. Na Europa inteira, a nossa tarifa também seria das campeãs. Portanto, é assustador. A tarifa aumentou estrondosamente e o serviço se deteriora. Onde está o buraco? Na ausência do poder público na condução do comportamento das empresas privatizadas – e às vezes até estatais, por falta de recursos – para garantir a continuidade e qualidade dos serviços elétricos.

Sabe-se que distribuidoras elétricas brasileiras com sede no exterior, como a Telefônica, são as que mais remetem lucros e sustentam as matrizes desde a crise de 2008. É óbvio que será assim enquanto o pessoal ficar apenas olhando papel em seus gabinetes em Brasília, sem fazer planos de investimento, expansão, de cada distribuidora, para saber qual o número de consumidores, os investimentos físicos necessários, acompanhando toda essa atualidade e o sistema de manutenção. É todo esse buraco regulatório, pelo qual o governo é responsável, pois não mudou suficientemente o modelo, sabendo na ocasião, desde 2003/04, que precisava mudar.

Portanto, são solidários na culpa. Deve ser responsabilizada não só a distribuidora local, como também o conjunto de órgãos, o Conselho Nacional de Política Energética, o MME, a ANEEL e o governo, por falta de iniciativas de, por meio de leis, criarem mecanismos de controle e regulação capazes de garantir que o serviço pudesse ser prestado e fiscalizado adequadamente, e com qualidade. Eles criaram a empresa de referência de papel, pela qual fixam as tarifas, mas não olham os planos concretos de investimentos. E, evidentemente, para uma empresa que se apresenta de frente para os consultores com uma estrutura de custo com referência no papel, quanto mais aumentar a tarifa melhor; e quanto menos impelida a investir na expansão do serviço à população, maior será seu lucro. É o processo que temos visto.

Esse processo é também o responsável, nos últimos anos, pela remuneração abaixo dos custos de capital das estatais de geração e transmissão de energia elétrica do Brasil – em 2008, essa remuneração foi da ordem de 6% ao ano, quando este custo estava superior. Enquanto isto, a maior parte das distribuidoras, e algumas geradoras privadas, tem tido lucros médios acima de 30% ao ano, com algumas obtendo lucros 100% acima de seu capital próprio, o que configura claramente uma distorção. As tarifas são generosas, a fiscalização é ausente… É a única explicação.

Para sintetizar, a deterioração do sistema energético brasileiro resulta de um problema estrutural, de organização e gestão desse sistema, cuja responsabilidade maior é do governo federal, que tinha a obrigação, depois dos apagões dos 90 e do racionamento, de tomar as medidas, reavaliar o que existia e intervir drasticamente. Isso não foi feito e agora colhemos os frutos desastrosos dessa ausência de ação concreta.

CC: Teríamos então ficado diante de um paradoxo: o governo que pretendia reorientar o modelo privatista de FHC acabou por descapitalizar ainda mais as estatais, além de elevar as tarifas a valores astronômicos.

IS: Sim, e é preciso dar os nomes aos bois, pois havia propostas durante a campanha eleitoral de 2001. Elas foram jogadas no lixo, para que, no âmbito do MME, pudesse ser feito um acordão entre os chamados agentes do setor elétrico, que, além de permitirem essa lacuna regulatória no serviço de distribuição, permitiram também que se ampliasse o mercado livre de energia, pelo qual grandes consumidores – acima de 3MW e acima de 69.000 volts de suprimento, cerca de 600 consumidores – e um conjunto de comercializadoras, algumas pertencentes a distribuidoras elétricas, comprassem a maior parte de sua energia elétrica por preços equivalentes a 20% do custo estrutural de geração. Assim, promoveu-se uma transferência econômica que sangrou as estatais de geração e transmissão ao longo desse período, num valor que, de 2003 pra cá, excede os 10 bilhões de dólares.

Isso faz parte do fenômeno anterior que citei. As estatais têm tido uma remuneração muito baixa sobre o seu capital investido, e os outros se beneficiam dessa grande transferência econômica. Tudo isso em favor de alguns grandes consumidores, cerca de 600, que correspondem a cerca de 25% do consumo elétrico brasileiro, além de muitos intermediários comercializadores, alguns pertencentes às próprias distribuidoras.

Portanto, essa sangria deteriorou as condições das estatais, pois não sobra capital. De outro lado, o mercado cativo, aquele que não faz parte do mercado especulativo, ou seja, nós, o mercado regulado, temos tarifas exponencialmente crescentes, serviços deteriorados e ausência sistemática de investimentos em grande parte das distribuidoras para garantir a qualidade do serviço, pois os órgãos do governo não criaram as políticas necessárias.

Não se preocuparam também, como já disse, em olhar como o mundo real opera. Preferiram ficar com mecanismos de controle e regulação teóricos, que são resultado da grande reforma neoliberal, que, além das privatizações, promoveu essa forma de olhar o mundo. Insuficiente e inadequada.

Esse é o panorama geral. Nesse mesmo quadro se coloca a descoberta feita pelo TCU, o Tribunal de Contas da União, algo de que há muito suspeitava, de que os próprios contratos de concessão continham gravíssimas falhas no mecanismo de reajuste tarifário, fazendo com que a população, desde o fim da década de 90, venha sistematicamente pagando aumentos de tarifa superiores aos preconizados, porque a fórmula usada no contrato está contra a lei. O que significa uma transferência de mais de 1 bilhão de reais por ano pagos pela população.

E o governo, sabedor disso desde 2006, 07, 08, nada tem feito para restaurar a situação.

É necessária a atuação de movimentos de defesa do consumidor na tentativa de se instaurar uma CPI das tarifas, forçando a ANEEL a entrar em cena. No entanto, ela nada tem feito, provando claramente ser o mesmo órgão que foi criado no governo anterior, com o objetivo de proteger os interesses dos investidores, dos capitalistas, do capital financeiro internacional, em detrimento da qualidade do serviço e do bem estar da população.

CC: Desde o apagão de 1999, muito já se falou a respeito da possibilidade de novos apagões por insuficiência de geração de energia, problema que parece ter sido minimizado, dentre outros motivos, por causa das chuvas. O que pensa sobre isso? Diante de todo o quadro traçado pelo senhor, mesmo com as chuvas deste ano, podemos ter novos problemas de geração a curto e médio prazo?

IS: São duas coisas distintas. Chuvas têm de ser vistas de duas formas. De um lado, são importantes para a geração, pois os reservatórios ficam armazenados com as chuvas. Mas não podem causar a ausência de energia, pois o cálculo do projeto das usinas e do sistema é integrado de tal forma que elas operam adequadamente, complementadas pelas usinas térmicas, que devem ser planejadas e construídas de forma a garantir confiabilidade superior a 95%. A ausência de capacidade de geração não deveria ser problema nem em período seco, embora, quanto mais umidade, menor o risco.

Não vejo problema nesse momento na capacidade de produção de energia, pois tem havido investimentos em novos projetos tanto de geração como de transmissão. O que é muito preocupante é que, apesar de terem sido gastos, em investimentos hoje em curso, quase 25 bilhões de reais em geração e 25 bilhões em transmissão, os investimentos anteriores e mais antigos foram relegados por falta de manutenção adequada na transmissão e geração, o que ajuda a explicar aqueles apagões de transmissão no Nordeste em fevereiro e em Itaberá em novembro do ano passado.

A outra questão que as distribuidoras alegam não tem fundamento algum, de que chuvas e ventos ocasionam perda na capacidade de distribuição. Essa desculpa não serve, pois chuvas e ventos são condições naturais presentes. E a engenharia, já há quase um século, desenvolveu um sistema que é adequadamente planejado. Construído, operado e mantido, mantém a confiabilidade com vento e com chuva. Essa é uma desculpa que não pode ser aceita, pois as tarifas que pagamos na distribuição – que embute os custos da geração, transmissão, impostos de serviço e mais o custo da distribuição, ou seja, a última rede, que traz energia de fora da cidade e a entrega em casa – são de tal monta que permitem investimentos adequados, manutenção e operação, resistindo a qualquer temporal que ocorra a cada 40, 50 anos.

Podas de árvore são culpa da concessionária da prefeitura. Não é desculpa nem nunca foi. Vento ou chuva só causam prejuízo se o sistema não está adequadamente mantido e não é feita a expansão, levando a uma operação acima de sua capacidade. Aí, qualquer situação extraordinária pode prejudicar. Mas, em condições normais, com chuvas e ventos e com tempestades raras, o sistema elétrico, em suas três pontas, tem de ser operado adequadamente. As tarifas que pagamos cobrem regiamente a operação. E os lucros que eles têm mandado para fora e distribuído para seus acionistas provam que dinheiro não falta.

Faltam investimentos em expansão, melhoria dos equipamentos, automação, modernização etc. Não o fazem por conta do conluio que os envolve. Não há políticas, legislação e ação do governo federal, via ministério, com novas leis e regulamentos. E a ANEEL, que tem de implementá-los, funciona muito mais como protetora dos interesses de empresas, que são poucas e poderosas e preferem atuar no sentido de se "entenderem" com tais órgãos, ao invés de cumprirem sua obrigação.

Assim, a situação que vivemos hoje é de responsabilidade compartilhada, em primeiro nível pelo governo federal, que deveria ter colocado em prática as mudanças propostas a partir de 2001 e não o fez, colhendo os frutos agora. Claro que não vou isentar as distribuidoras, mas elas agem dentro dos limites que são tolerados pelo governo federal e seus órgãos de controle.

CC: O senhor citou que os investimentos anteriores e mais antigos foram relegados por falta de manutenção adequada na transmissão e geração. O que pensa, portanto, sobre a construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau no Rio Madeira e Belo Monte no Xingu, altamente criticadas pelos ambientalistas? São projetos realmente necessários?

IS: Aí temos outro problema. Do ponto de vista natural, a configuração hidrológica, geológica e física do Madeira e do Xingu é extremamente interessante e favorável.

Mas o problema lá é novamente a questão de organização do setor e gestão da política energética brasileira. Questões previstas no modelo feito em 2001/02, e publicado em 2002, no livro ‘Reconstrução do setor elétrico brasileiro’, que consolidou grande parte das contribuições que foram base para o governo no que seria a reforma do setor elétrico, inclusive tendo na contracapa o endosso do economista Celso Furtado e do advogado Plínio Arruda Sampaio.

E lá estava escrito que era preciso planejar a expansão do setor elétrico e fazer um inventário de todas as bacias hidrográficas brasileiras não inventariadas. Sabe-se que até hoje cerca de um terço do potencial hidrelétrico brasileiro foi aproveitado e dois terços, com cerca de 260 mil MW, ainda não foram aproveitados. Aproveitamos uns 80 mil MW e há mais 160, 170 mil disponíveis.

Mas, para aproveitar o potencial adequadamente, é necessário fazer três coisas:

- o estudo hidrológico e o inventário da bacia;

- estudo ambiental, de flora, fauna, ecossistema, bioma;

- relatório de passivo social.

Se de 2003 pra cá o governo tivesse cumprido tal missão, teríamos à disposição um grande conjunto de escolhas para aproveitamento hidrelétrico. Lembrando que, desses dois terços, nem tudo pode ser aproveitado, porque a geologia e a hidrologia podem não ser adequadas, por questões ambientais muito sérias, que não indicariam seu aproveitamento. Ou ainda por questões sociais que não podem ser superadas através de uma negociação política de modo a compensar adequadamente a população atingida, dando a ela melhores condições de vida em regiões fora das impactadas.

Havia uma série de possibilidades concretas, só que o governo nada fez, ficou dormindo esses anos todos para acordar em berço esplêndido e, finalmente, resolver usar o aproveitamento hidrelétrico planejado ainda no governo anterior pela Odebrecht, que ganhou fortunas em Santo Antonio e Jirau. Fez às pressas um leilão, sem estudos ambientais e negociações sociais num patamar digno de um governo que se diz democrático-popular, especialmente por ter surgido com apoio dessas populações todas, que no passado foram barbaramente atingidas pelos aproveitamentos hidrelétricos sem a devida consideração.

Pois bem, repetimos mais ou menos a receita do governo anterior no Rio Madeira, com intervenção branca dos órgãos de licenciamento ambiental e uma condução em relação às populações semelhante à que se fazia no passado.

CC: E com relação à usina de Belo Monte, no Rio Xingu, hoje tão em pauta, parece que o descaso é também muito grande, a se considerarem os alertas de vários ambientalistas e estudiosos.

IS: Sim, mais assustadora ainda tem sido a condução do processo no projeto do Rio Xingu, que é debatido há duas décadas. Do ponto de vista natural, há atrativos, mas desde que se superem, mediante negociação política e estudos ambientais, a própria questão ambiental e, acima de tudo, a social.

Portanto, o autoritarismo desse governo novamente se revela ao tentar, açodadamente e às pressas, um projeto que, se tivesse sido adequadamente estudado, poderia estar resolvido há muito tempo, a favor ou contra.

Além disso, se tivesse cumprido a obrigação de inventariar os 160 mil MW, teria em carteira, na prateleira, outro conjunto de aproveitamento, do que poderiam resultar projetos a serem colocados à frente. E os projetos hidráulicos poderiam ser acompanhados de um plano de expansão da capacidade de geração eólica e adequada complementação de usinas térmicas, a serem usadas em períodos de hidrologia crítica ao longo dos anos. Teríamos uma carteira de alternativas capazes de expandir certas energias.

É certo que seria preciso discutir a finalidade dessa energia, mas haveria ampla possibilidade de atender a qualquer demanda com menores custos, tratando de maneira aceitável, do ponto de vista político e ético, a questão ambiental e social, sempre presentes. No Xingu, as dificuldades poderiam ser superadas, era essa a expectativa, mas ocorreu mais um grande fracasso. O governo resolveu não fazer nada durante anos e, de repente, intervém de maneira arrogante, autoritária, unilateral, desprezando todas as populações e estudos ambientais.

Se se critica Itaipu por estar a 1.000 km do centro de carga em São Paulo, o que dizer de Santo Antonio e Jirau, que estão a 2.500 km e vão ter enormes custos de transmissão? Não acho que Itaipu seja problema, mas, se o governo disse isso quando justificava o apagão de novembro, o que dizer de Santo Antonio e Jirau, que ficam a 700 km de La Paz, 2.500 Km de São Paulo e 1.500 Km de Brasília?

No caminho, havia muitos outros projetos que poderiam ser viabilizados ao longo do tempo e não foram. Também poderia se investir no aproveitamento maior da biomassa, da energia eólica, programas de uso racional de energia, que permitem reduzir os custos atendendo às necessidades sociais e econômicas. Estava tudo na lista do que deveria ser feito na reforma do setor, mas não foi. Tudo foi varrido para debaixo do tapete em nome da grande concertação e dos grandes interesses, das grandes empreiteiras e investidores privados, todos financiados com dinheiro público e pelo BNDES.

Só no Brasil acontece isso: os grandes projetos de geração, transmissão e distribuição são geralmente financiados com dinheiro do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), portanto do FGTS e dos trabalhadores, onde os capitalistas são apenas gestores do capital público para privatizar os lucros e muitas vezes deteriorar a qualidade do serviço.

CC: Uma outra consideração importante diz respeito à demanda de energia no Brasil, para que e para quem ela está direcionada. A que tipo de modelo econômico e social se destina prioritariamente esta energia, em seu entendimento?

IS: É necessário realmente fazer várias indagações nesse sentido. Produzimos essa energia para proporcionar melhorias concretas na condição de vida daqueles que ainda estão em condições de subconsumo, que estão abaixo da linha da pobreza, remediados, que realmente precisam de condições materiais de existência compatíveis com a estrutura social, econômica e cultural de hoje? Ou se trata apenas de gerar energia para dar mais lucro a quem investe na geração e transmissão, e acima de tudo aqueles que, desde 2003, têm comprado energia abaixo de seu custo estrutural, deixando o prejuízo com as geradoras, em geral estatais? O que ocorre de fato é que estes que investem em geração e transmissão acabam por embolsar os lucros de aproveitamento dessa energia na produção de bens e serviços eletro-intensivos, que muitas vezes são exportados e deixam aqui poucos benefícios para a população e os trabalhadores. Mas essa é outra discussão.

Entendemos que energia é essencial para o modo de vida criado após a revolução industrial, mas não podemos deixar de apontar uma enorme assimetria entre quem paga o custo e sofre os impactos e quem se beneficia do programa energético e, acima de tudo, dos enormes lucros auferidos no uso de energia elétrica, geralmente os segmentos econômicos monopólicos, hegemônicos. Estes, por sua vez, estão associados diretamente ao projeto concreto colocado em marcha na transição FHC-Lula, que privilegia as grandes empreiteiras, os grandes oligopólios, os grandes consumidores, contra os interesses concretos de grande parte dos trabalhadores e, de modo particular, das populações diretamente impactadas por tais projetos.

CC: No caso das hidrelétricas no Rio Madeira e no Rio Xingu, o senhor fez referência à grande distância dos centros de carga de São Paulo, maior até do que a distância de Itaipu. Haveria hoje estrutura de distribuição e transmissão adequada para suportar esses empreendimentos no norte do país?

IS: Quanto a Belo Monte, esse não é um problema grave, pois a usina se encontraria a pouco mais de cem quilômetros de Tucuruí, na ligação norte-sul, que vem desde Belém, passa por Brasília e leva energia ao Nordeste. É bem diferente de Santo Antonio e Jirau. Mas, apesar da condição geográfica, geológica e hidrológica, e, vamos dizer assim, fotográfica, Belo Monte naturalmente tem atributos que mereceriam consideração, dada sua favorabilidade.

O desastre de Belo Monte é um desastre político de um governo que não fez sua lição de casa, e tinha tempo de fazer um adequado detalhamento da questão ambiental, tomando uma decisão pública consensual e informada. E agiu pior ainda no tratamento desrespeitoso imposto às populações da região, mobilizada há décadas. Vale lembrar que o projeto foi concebido inicialmente apenas como um projeto de energia barata, para aproveitar o alumínio, bauxita e fazer exportações, na década de 70, 80 e 90. Agora mudaram o caráter do empreendimento, dizendo ser o objetivo a ‘energia para os brasileiros’. Mas é preciso ver para quem ficam os lucros, para quem ficam os excedentes econômicos, para quem ficam os prejuízos e impactos negativos. É o balanço que está na mesa, que lamentavelmente precisa ser feito.

A respeito da distância, Santo Antonio e Jirau são mais desfavoráveis, o que, no entanto, não exclui Belo Monte dos dois grandes pecados: os problemas ambiental e social, que não foram resolvidos, conduzidos e nem encaminhados de maneira aceitável por um governo que se diz democrático-popular.

CC: Pensando nas fontes alternativas de energia, que já foram aqui lembradas, elas poderiam vir a tornar desnecessários dois grandes empreendimentos como os anteriormente citados, com todas as suas conseqüências negativas?

IS: O potencial hidrelétrico brasileiro é realmente muito grande. Mas eles fazem esses grandes projetos porque agem no interesse das empreiteiras. A mesma quantidade de energia que vão fornecer pode realmente ser obtida de outras formas, com usinas menores, hidráulicas, com apoio de usinas térmicas com capacidade de reserva para momentos de hidrologia menos favorável.

Temos também enorme potencial eólico e os leilões de energia eólica provaram que seu custo é competitivo com a energia nuclear, térmica, que dependem do fornecimento do carvão e gás natural. E para quem produz bagaço de cana e outras formas, como resíduos de vegetais do processo agro-industrial, há possibilidade de fazer geração. Até energia solar fotovoltaica, em algumas circunstâncias, no teto das casas dos consumidores, por exemplo, é economicamente competitiva. Além disso, quando pode haver algum subsídio para criar escala e diminuir custos solidários a médio prazo, isso não é feito.

Há uma grande diversidade de fontes, de modo que, no Brasil, o problema não é falta de fontes naturais de energia, de recursos. Falta organização, gestão e, acima de tudo, uma política pública para a área, que concilie os interesses das grandes frações da população excluída.

Mais uma vez, nesse governo, todo o espaço econômico, com seus enormes excedentes econômicos em disputa, tem sido manipulado e orientado na direção de favorecer os grandes grupos, empreiteiras, construtores de equipamentos, investidores de energia que usam o BNDES e fundos de pensão para maximizar seus lucros. E também investidores internacionais, que aparecem no ambiente ganhando enormes somas. Por isso, as tarifas do Brasil estão entre as mais caras do mundo e vemos a deterioração da qualidade do serviço.

CC: De acordo com algumas especulações, o governo estaria com o propósito de colocar uma mínima rédea no mercado, uma vez que declarou a intenção de abaixar as altíssimas tarifas elétricas. Você concorda com essa compreensão? Acredita no governo determinado a reaver aos consumidores os prejuízos tarifários da última década, retomando parte do papel da Eletrobrás?

IS: Não é verdade isso. A Eletrobrás, por exemplo, não planeja nada nesse sentido. Quem planeja é a ETE (Engenharia de Telecomunicações e Eletricidade), mas seus planejamentos nunca são cumpridos porque são meramente indicativos, para orientar os negócios de compra de energia nos leilões. Não servem para orientar políticas públicas em conteúdos tecnológicos, científicos e estudos como os que citei há pouco.

É uma ilusão achar que autorizar a Eletrobrás a tirar o acento do nome dela e dotá-la de capital vai mudar a lógica com que ela vem sendo conduzida. Ela foi simplesmente sucateada no governo FHC e tal trajetória foi aprofundada no governo Lula. Oito anos depois de tomar posse vão capitalizá-la para quê? Para fazer investimentos no Peru, nos EUA, como estão querendo? Com quem? Quem são os parceiros? Quais os custos? Quem assume os riscos? Para onde vão os benefícios e qual a lógica disso tudo?

Não vejo a Eletrobrás assumir o comando de nada, ela está entrando sempre como parceira minoritária nos projetos. O comando e os lucros vão para os atores privados; custos e riscos são alocados majoritariamente por estatais e públicas, servindo de garantidoras de muitas aventuras.

Vejo mais uma vez a intervenção na Eletrobrás, sete anos depois, como parte da mesma trajetória. Segundo nosso colega Aziz Ab’Saber, a esse governo de seu ex-amigo Lula não interessa nem a história de como as coisas foram construídas nos setores elétrico, de petróleo, gás e telecomunicação, nem aproveitar a chance de mudar a história de vida da população brasileira. O que interessa é o que tem na mão para usar na tarefa de promover a conciliação do jogo de interesses do dia-a-dia da base do governo: empresas, bancos e negócios. É uma lição que aprendi recentemente com o professor Aziz, do alto de seus 86 anos, num debate no qual não consegui discordar.

De fato, o único interesse concreto que motiva a ação do governo é saber o que tem na mão para usar na partilha dos interesses e na consolidação das barganhas que estão no dia-a-dia na mesa de seus sócios.

CC: Sendo assim, a população não vai ver as tarifas rebaixadas tão cedo, não?

IS: A geração elétrica corresponde hoje a algo em torno de 110 reais MW/hora e a tarifa está quase em 450 reais, 4,5 vezes mais.

E os contratos estão aí. A Eletrobrás não vai fazer nada. Pelo contrário, vai prejudicar as contas do Tesouro Nacional e aumentar os lucros das empresas. Em 2003, havia a proposta de a Petrobras e a Eletrobrás, com ajuda do BNDES, tomarem o controle da Eletropaulo em São Paulo. A proposta estava em negociação com os professores Pinguelli e Lessa, que disseram que ela teria sido sabotada pela ministra das Minas e Energia da ocasião. A ministra considerou a proposta como um péssimo sinal ao mercado, considerando que a Eletropaulo deveria continuar privada.

Não mudou nada de lá pra cá. Acredito que intervenção estatal é importante desde que seja planejada e tenha ação eficaz orientada ao interesse público. Se não é assim, ela pode ser mais deletéria do que se não existir. Ou pode ser apenas uma cavalariça de apoio às barganhas, para a intensificação dos lucros.

CC: Pensando um pouco na questão das telecomunicações, sabe-se que a Petrobras, na qual o senhor foi diretor de Gás e Energia, era detentora de uma rede fibras óticas. Há algum propósito, a seu ver, na tentativa de expandir a rede de banda larga no país através da empresa Eletronet (antiga empresa estatal, atualmente em estado falimentar, detentora de uma rede de cabos de fibra ótica)?

IS: Esse é um outro assunto. Somente estive envolvido nele em 2003, quando era diretor de Gás e Energia da Petrobras, pois tinha também responsabilidade pelas telecomunicações da Petrobras, que na época era a 4ª empresa de telecomunicação do Brasil em função dos milhares de quilômetros de fibra ótica que detinha em seus dutos e gasodutos de operação, com excedentes de fibras capazes de viabilizar uma linha troncal de alta velocidade de banda larga para inclusão digital no Brasil inteiro. Naquela ocasião, 2003, o presidente da Eletrobrás, Pinguelli Rosa, aceitou discutir a possibilidade de usar a rede da Eletronet. Infelizmente, tinham decretado a falência da Eletronet dias antes.

As fibras óticas implantadas pelo sistema Eletrobrás, em todo o território nacional, e as grandes linhas de transmissão se complementavam muito bem com as linhas dos gasodutos e, eventualmente, outras em vias térreas e rodoviárias, que também vinham sendo implementadas, conformando uma grande rede pública de informação.

A iniciativa foi levada ao ministro Gushiken, que a negociou com o então ministro das Comunicações, Miro Teixeira. Houve negociação com o ministro da Defesa, que queria usar a rede para comunicação de segurança das Forças Armadas. Havia interesse do Banco do Brasil e da Caixa em usar essa rede de comunicação em suas gestões e administrações. E, acima de tudo, permitir uma rede organizada de tal tipo levaria a que se incorresse em menores custos, a mais segurança e a uma base capaz de alavancar a universalização do acesso à banda larga.

O projeto foi formulado e ainda hoje segue disponível pela Petrobras, desde 2003. Foi bloqueado pelo MME e talvez pela Casa Civil. Mas foi a ministra da ocasião que o levou a este fim. De 2004 para cá, não prosperou. Havia um contencioso a resolver com os credores, a Alcatel Indústrias, que tinha financiado os equipamentos, e a Furukawa, que financiara as fibras óticas da Eletronet. E tinha outro contencioso com especuladores privados que já metiam o bedelho. O governo não resolveu o problema, sendo que havia na época uma negociação em andamento que permitiria amortizar todas as dívidas.

E quando tais investimentos foram feitos por essas empresas, estávamos na época da alta dos custos dos equipamentos, em pleno boom das fibras óticas no mercado americano. Depois, caíram muito. Assim, elas estavam dispostas, já naquela ocasião, a negociar as dívidas por valores equivalentes a 20% do investimento inicial, totalizando uns 40, 50 milhões de reais para arrematar tudo. Mas algo aconteceu no governo e o projeto não prosperou, ficou parado. De repente, em 2010, é ressuscitado como salvação nacional, como se a prioridade da inclusão digital em 2003 não fosse tão grande quanto agora, pra não dizer maior.

Então, a pergunta é: por que o projeto ficou parado? Quem o travou, quais foram os empecilhos? Só a ministra das Minas e Energia e a Casa Civil? Ou foi o lobby dos grandes grupos que hoje se manifestam e, já naquela ocasião, queriam paralisá-lo, para, quem sabe depois, convertê-lo em mais uma cavalariça de assalto aos cofres públicos? Esse imobilismo criou um prejuízo enorme a todos os órgãos do governo, que passaram esses anos pagando elevadas tarifas para transmissão de seus dados, inclusive com ausência de segurança para as Forças Armadas, que, com a Embratel, dependiam de uma empresa americana.

Acima de tudo, não houve progresso no programa de inclusão digital que era planejado pelo Sergio Amadeu na Casa Civil e outros grupos. Até porque a última mídia, aquele trecho final da rede que chega ao consumidor final, poderia ser feita conciliando a condição da rede de fibra ótica de acordo com cada tipo de moradia. E levando junto gás natural, água, esgoto e energia, o que fazia parte do plano de massificação do gás, que a Petrobras também elaborou, levou ao governo, mas que foi também sabotado pela ministra de Minas e Energia da ocasião.

Portanto, esse projeto vem de longe. As perguntas que ficam no ar são: por que foi abandonado? Que vontades se impuserem para que o interesse público não prevalecesse na ocasião? E o que motiva agora os mesmos atores a tentar ressuscitá-lo no meio desse clima sombrio de especulação e negociata que, aparentemente, vem sendo revelado pela imprensa?

CC: Dessa forma, você não veria no episódio um propósito verdadeiro de retomar de alguma maneira a Telebrás e, conseqüentemente, a própria atuação do Estado no setor?

IS: Não chega a ser nem isso exatamente, pois o projeto deveria ter sido encaminhado mesmo. O que questiono, como disse, é o motivo que leva o governo a levar adiante somente agora um projeto, quando teve uma oportunidade de ouro nas mãos em 2003/04. Que interesses o impediram de fazê-lo antes? Que interesses o motivam a fazê-lo agora? Essas perguntas estão no ar e deveriam ser respondidas.

Que a inclusão digital, não só com a rede da Eletronet, mas também com a rede da Petrobras, poderia caminhar, poderia. Tudo que faltou foi apenas coordenação do governo para reconhecer e viabilizar esse enorme benefício.

Por que o governo não quis fazer a inclusão digital antes? Por que não teve competência, não se interessou? Qual o motivador básico das ações do governo? Nesse episódio, parece-me que há aquele mesmo denominador comum, onde os beneficiados representam a conciliação de interesses entre grandes empresas, articuladores, especuladores, que se valem do espaço público para privatizar os lucros, inclusive mantendo como estrutura de apoio as estatais.

Tão grave quanto privatizar tudo, como no governo anterior, é manter estruturas e custos nas mãos das estatais, fazendo-as assumir riscos, privatizando benefícios e lucros e subordinando-as ao interesse privilegiado de alguns grupos. Qualitativamente é até mais perverso fazer da segunda forma, pois ficamos com a impressão de que o interesse público está sendo preservado. Porém, basta ver os lucros do setor elétrico e o que aconteceu com a política de inclusão digital, abandonada por sete anos devido a barganhas não resolvidas. E basta ver o que acontece na discussão do modelo para o setor de petróleo e gás e o caminho que tem tomado, muito mais grave do que tudo que falamos até agora.

CC: Há poucas semanas, foi divulgada pela imprensa a notícia sobre os novos propósitos do governo de montar uma ‘superelétrica’, a ser comandada pela Camargo Corrêa, com recursos do BNDES e também dos sempre presentes Fundos de Pensão Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa). Qual a sua opinião sobre esse propósito?

IS: Esse é um exemplo concreto do que aconteceu no Brasil e foi consolidado com a ajuda do BNDES, dos fundos de pensão e com orientação do governo.

Se olharmos a verdadeira partilha do espaço produtivo brasileiro, na base de produção, caminhamos na seguinte direção:

- esse grupo econômico (Camargo Corrêa) está progressivamente tomando conta de toda a distribuição elétrica brasileira, que era majoritariamente pública e foi privatizada a partir de FHC, consolidando-se agora ao criar um grande monopólio privado na distribuição elétrica;

- na petroquímica, consolida-se a hegemonia do grupo Odebrecht, tendo a Petrobras como muleta de apoio, via Braskem, que também entra no petróleo;

- no setor do petróleo, o grande favorecido é o apadrinhado direto do governo chamado Eike Baptista, que em menos de três anos já amealhou 10% das reservas brasileiras de petróleo, o correspondente ao trabalho de cinco décadas da Petrobras, e que foram expropriadas com apoio e conivência do governo federal;

- já o sistema de telecomunicações, das tarifas mais altas do mundo, está nas mãos do grupo Andrade Gutierrez, inteiramente consolidado com apoio dos fundos de pensão e do BNDES.

Portanto, essa é a partilha do espaço econômico brasileiro, que acreditávamos ser democrático e popular.

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Hora do recreio: as lições do intervalo

Um olhar atento sobre o recreio leva a reflexões sobre as relações que se desenvolvem na escola

Catarina Iavelberg (gestao@atleitor.com.br)

Foto: Marina Piedade

"A convivência entre crianças e jovens durante o tempo livre configura um bom termômetro do clima escolar."

Foto: Marina Piedade

O intervalo entre as aulas representa um aspecto especial na rotina escolar. Muitas vezes, trata-se do único momento em que os alunos podem fazer opções: com quem conversar, de quem se aproximar, onde e como brincar. É o espaço-tempo que os convida a explorar diferentes percursos e aprender algo mais sobre relações grupais. Não é à toa que, para boa parte dos estudantes, o recreio é a hora mais esperada. Quem não se lembra das brincadeiras no pátio? Também são inesquecíveis os intervalos perdidos dentro da sala de aula, como castigo. Enfim, muitas experiências significativas se constroem ou se intensificam nesse período de 20, 30 minutos.
A convivência entre as crianças e os jovens durante esse tempo livre é um bom termômetro do clima escolar: um cenário de alunos explorando diferentes espaços e atividades revela-se muito distinto daquele com estudantes isolados ou que agem com violência. Há instituições que, para evitar o caos, desenvolvem estratégias de controle: aumento da fiscalização dos inspetores, atividades monitoradas e restrição dos locais de circulação. Embora essas práticas ajudem a conter distúrbios, elas não educam os alunos para lidar com as tensões cotidianas.
Se entendermos a escola como um lugar de socialização, devemos ensinar as crianças e os jovens a lidar com os desentendimentos sem jamais negar a existência deles. Afinal, o conflito é inerente às relações humanas. Evidentemente essa é uma escolha que precisa estar explicitada no projeto político pedagógico da instituição. É possível refletir sobre o tema em assembleias, conselhos de classe e no próprio grêmio estudantil e, com isso, ajudar os alunos a compreender a natureza dos problemas coletivos e a propor soluções para enfrentá-los.
Há casos de escolas que incentivam alguns alunos a se tornarem mediadores de conflitos para atuar no intervalo. Nesses casos, quem assume essa função tem clareza de que não é inspetor ou vigilante e deve ser capaz de avaliar se tem condições de resolver determinado problema ou se deve recorrer a um adulto.
Um olhar atento sobre as relações que se apresentam no recreio ajuda o orientador educacional a entender os problemas que emergem do grupo. Muitas vezes, é só no pátio que se percebe a atuação de um líder ou o isolamento de um aluno. A investigação das áreas ocupadas e das vazias também traz informações importantes. Por exemplo: quais investimentos e intervenções são necessários para vitalizar o espaço físico da escola?
Cabe aos gestores definir e implantar estratégias formativas para que professores, inspetores e funcionários atuem de forma educativa nos recreios. Afinal, um tempo tão rico para o ensino e a aprendizagem merece muita atenção.

Catarina Iavelberg

É assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação.

Fonte: Nova Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

Mitos da nutrição

"Evite gordura", "não coma carboidratos", apregoam autores de certas dietas, com base nos males que o excesso dessas substâncias faz ao corpo. Mas é a moderação, e não o radicalismo, que deve prevalecer: tudo o que é consumido na quantidade certa só benefi cia a saúde

MAÍRA LIE CHAO

Fotos: Shutterstock

Na era dos fast-foods e das "bombas" calóricas, ganha força a ideia de se manter uma dieta "saudável" – ou melhor, a falsa dieta saudável. "Não coma carboidratos. Não ingira nenhum tipo de gordura. Nada de sal na comida." Essas regras são a face mais evidente de dietas que demonstram o medo de uma série de doenças causadas pelo consumo exagerado desses componentes. Por medo, muitas pessoas acabam banindo alguns nutrientes da alimentação – e se prejudicam por isso.

Já dizia o ditado que tudo em excesso faz mal. Mas isso não significa que parar de consumir determinado alimento faça algum bem. "As dietas restritivas são, em sua maioria, deficientes em uma série de macronutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas) e micronutrientes (vitaminas e minerais)", alerta Bruna Elias Rebello, nutricionista do departamento de Nutrição Clínica da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Segundo ela, quando há falta de algum nutriente, nosso corpo trabalha para suprir a carência. "Se falta cálcio, famoso por ser importante para os ossos, mas igualmente importante para diversos processos celulares, o corpo se mobiliza para retirar esse micronutriente dos ossos", exemplifica.

Nossa dieta deve ser colorida e diversificada, recomenda o nutricionista Daniel Henrique Bandoni, do departamento de Nutrição da FSP-USP. Segundo ele, as refeições diárias devem conter porcentagens de macronutrientes adequadas à nossa necessidade energética: cerca de 55% a 60% do total de calorias diárias da dieta deve ser composto por carboidratos, de 20% a 30%, por gorduras e de 10% a 15%, por proteínas. Portanto, o recomendável é consumir de tudo um pouco, em porções moderadas, em vez de banir alguns nutrientes tachados de prejudiciais à saúde. Veremos agora alguns "mitos" da nutrição.

Fotos: Shutterstock

Gorduras
Com o objetivo de emagrecer e manterem-se magras, muitas pessoas deixam de consumir gordura. Trata-se de um erro grave, pois ela é um componente essencial da nossa alimentação. "Gordura é importante para o transporte de vitaminas no organismo, por exemplo", diz a nutricionista Bruna. Gorduras, proteínas e carboidratos compõem o grupo de macronutrientes, as três fontes de energia diária que temos. "Há um grande mito de que a gordura é muito ruim", observa Bandoni. "Na verdade, a gente tem de consumir gordura entre 20% e 30% do total de calorias da nossa dieta. A gordura é proveniente de uma dieta saudável, mas, acima da porcentagem mencionada, se torna insegura." Bandoni incentiva o consumo das gorduras oriundas de peixe, de óleo vegetal, de azeite de oliva e até mesmo de óleo de soja. Segundo ele, esses alimentos são fontes das gorduras que aumentam o nível de colesterol bom. Ele lembra, no entanto, que tipos específicos de gordura, como a trans e a saturada, prejudicam a saúde, pois são associados ao aumento do colesterol ruim. As gorduras trans podem ser encontradas em produtos industrializados, como margarinas e congelados, como meio de dar firmeza e ressaltar o sabor. Já as saturadas são encontradas em carnes gordas. O nutricionista não proíbe a ingestão dessas carnes, mas recomenda que as pessoas variem, comendo mais peixe e frango.

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Carboidratos
Outro macronutriente frequentemente confundido com um vilão dos alimentos, o carboidrato é essencial para uma alimentação saudável, além de ser a base da nossa alimentação. Bandoni recomenda que de 50% a 60% das calorias ingeridas em nossa dieta sejam compostas por carboidratos. "Os carboidratos presentes em cereais, pães, massas, raízes, tubérculos, frutas, verduras, açúcares e doces têm a função de fornecer energia ao corpo humano; quando digeridos, são quebrados em glicose, que é o combustível da célula", explica Bruna.

Os açúcares são uma forma mais simples de carboidratos – duas moléculas formam a sacarose, açúcar de cozinha. Bandoni é cauteloso quanto à ingestão desse alimento: "Recomendamos o consumo de açúcar de, no máximo, até 10% do total de energia da nossa alimentação."

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Sal
O sal é associado a derrames, pressão alta, ataques cardía cos e doenças nos rins – mas parte dessa crença se baseia em pesquisas médicas de muito tempo atrás, dizem os britânicos Stanley Feldman, professor de anestesia da Universidade de Londres, e Vincent Marks, ex-professor de bioquímica da Universidade de Surrey. Em seu livro Global warming and other bollocks ("Aquecimento global e outras bobagens", John Blake Publishing), que busca desmistificar abordagens extremadas de certos temas científicos, eles observam que, antes de surgirem os primeiros remédios contra pressão alta, os pacientes eram forçados a seguir uma dieta com pouquíssimo sal.

O sal é, na verdade, um alimento essencial para o organismo. Por exemplo, é impossível transpirar sem sal. O resultado de não liberar suor após um exercício puxado é o superaquecimento do corpo, que pode levar à morte. Bandoni ressalta que o sódio, que representa 40% do sal de cozinha e é considerado o "vilão do sal", responde pelo mecanismo celular ligado aos processos de contração muscular de condução dos impulsos nervosos. Mas o nutricionista alerta que, mesmo com os benefícios desse composto, deve haver moderação: "No Brasil, estima-se que consumimos o dobro do que é recomendável (em torno de seis gramas). Podemos reduzir o sal que pomos no arroz, no feijão, porque isso não altera o gosto. Pessoas que trabalham com redução de sal na fórmula do pão – retiram 30% dele – dizem que ninguém nota a diferença."

Vitaminas

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A crença de que as vitaminas ajudam a prevenir doen ças cardíacas não passa de um mito – pelo menos é o que concluiu um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (Jama) em 2008.

A pesquisa usou 14.641 médicos homens, divididos em quatro grupos com cerca de 3.600 pessoas. O grupo 1 tomou uma dose de vitamina E dia sim, dia não, e outra de vitamina C diariamente. Nos mesmos prazos, o grupo 2 ingeriu vitamina E e um placebo da vitamina C; o grupo 3, vitamina C e um placebo da E; e o grupo 4, apenas placebos. Para evitar distorções no estudo, nenhum dos participantes sabia o que cada grupo ingerira. Depois de oito anos analisando os resultados, os pesquisadores não encontraram diferença entre os grupos em relação à incidência de males como derrames, ataques e falências cardíacas. Segundo o autor principal do estudo, Howard D. Sesso, professor assistente do Brigham and Women’s Hospital, nos Estados Unidos, ainda não se comprovou nada sobre os suplementos multivitamínicos.

"Muitas pessoas acreditam que só a alimentação não é suficiente para suprir suas necessidades e acabam tomando suplementos vitamínicos", diz Bruna. Para Feldman e Marks, não há evidências de pessoas que, adotando uma dieta balanceada, tenham desenvolvido deficiência de vitaminas. Bandoni acrescenta: "Em certos casos, pode haver uma ingestão excessiva de vitaminas. Boa parte delas Fotos vai ser eliminada pela urina. Então, é jogar dinheiro fora." Feldman e Marks asseguram que esse excesso é causado pela ingestão descontrolada de suplementos vitamínicos. "A alimentação natural dificilmente leva a esse quadro", garante Bruna. Os suplementos são indicados apenas para pessoas que apresentem alguma patologia ou que, por algum motivo específi- co, tenham carência de vitaminas

As consequências da hipervitaminose (excesso de vitaminas no corpo) dependem do tipo de vitamina, diz Bruna, mas, em geral, todas sobrecarregam os rins. Bandoni cita a vitamina C, cujo excesso é eliminado pela urina, e a A, que, em demasia, pode mudar a pigmentação da pele e causar lesões no fígado.

Aditivos e conservantes
Os dizeres "sem aditivos ou conservantes" convencem muitas pessoas a comprar certos produtos. Mas, segundo Feldman e Marks, poucas comidas são ingeridas sem passar por processos que alterem sua natureza química – o ato de cozer já é um exemplo de mudança no alimento. Eles afirmam que muitos alimentos que consideramos "puros" contêm substâncias que, em grande quantidade, fazem mal ao organismo. A amêndoa, por exemplo, tem cianeto; a banana, potássio. Mas dificilmente uma pessoa ingere uma quantidade perigosa de certos compostos apenas por fonte alimentar. Bandoni afirma também que ainda não há muitos estudos que comprovem os benefícios ou malefícios dos aditivos alimentares. Devido a essa falta de pesquisa sobre o tema, ele recomenda que as pessoas consumam produtos com aditivos moderadamente.

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Junk food
O termo junk food – "comida-lixo", em tradução literal – é contestado por Feldman e Marks. A expressão é um paradoxo, segundo eles, porque ou é comida, que pode ser ingerida, ou é lixo, que não deve nem passar pela boca. Eles acreditam também que ingerir gordura, ou comer num restaurante fast-food, não representa problema – desde que se tenha uma dieta bem balanceada, é claro.

O que importa mesmo é a dieta como um todo. Se você almoçar num fast-food e nos dias seguintes compensar se alimentando com comida caseira, já dará um grande passo para obter uma dieta balanceada. A esse respeito, uma nova área de pesquisa da disciplina de telemedicina da Faculdade de Medicina da USP, chamada Academia Nutricional, estuda métodos de reeducação dos hábitos alimentares por meio do acompanhamento de um nutricionista na elaboração de pratos balanceados (ver PLANETA 440, págs. 66-70). Seguindo os preceitos da Academia, os pacientes gradualmente substituiriam maus hábitos alimentares por bons, provando novos sabores dos alimentos naturais e planejando, com a ajuda do nutricionista, uma dieta saborosa e equilibrada ao longo da semana. Que bem pode conter ingredientes rotineiros nos restaurantes populares do País, como assinala Bandoni: "O hábito tradicional do brasileiro, que é o arroz com feijão, com acompanhamento de um legume e de uma porção moderada de carne, é extremamente saudável."

Fotos: Shutterstock

Perfil da saúde do brasileiro
A pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, a Vigitel 2008, entrevistou 54 mil pessoas residentes nas capitais brasileiras e no Distrito Federal. A conclusão foi que o brasileiro está mais atento à saúde, praticando mais exercícios físicos, consumindo mais hortaliças e frutas e menos carnes gordurosas. No entanto, ainda persiste o número de pessoas com excesso de peso, obesos e que consomem bebida alcoólica de modo abusivo.

Em 2008, 19% dos entrevistados disseram ter consumido álcool em demasia nos últimos 30 dias. Em 2007, esse índice era de 17%. Segundo a Vigitel, o consumo é mais frequente em pessoas entre 18 e 44 anos.
Em 2008, 19% dos entrevistados disseram ter consumido álcool em demasia nos últimos 30 dias. Em 2007, esse índice era de 17%. Segundo a Vigitel, o consumo é mais frequente em pessoas entre 18 e 44 anos.
Uma boa notícia: em 2008, 15,7% dos brasileiros declararam consumir a quantidade de hortaliças e frutas recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de cinco porções em cinco ou mais dias da semana. Essa porcentagem é três vezes maior do que a registrada em 2006.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

Requinte sobre a matéria-prima

Indústria paulista de revestimentos conquista qualidade com inovações nos processos e esmaltes especiais

Dinorah Ereno

© Eduardo Cesar

Forno para ensaios do laboratório do Centro Cerâmico do Brasil

O Brasil tornou-se o segundo maior fabricante mundial de revestimentos cerâmicos, segmento que engloba pisos e azulejos, ao atingir a produção de 713 milhões de metros quadrados em 2008, à frente de tradicionais fabricantes como Itália e Espanha e atrás apenas da China. Desse total, 485 milhões de metros quadrados foram produzidos no estado de São Paulo, sendo que 400 milhões de metros quadrados, correspondentes a 56% da produção nacional, saíram dos fornos de empresas do Polo Cerâmico de Santa Gertrudes, que abrange, além da cidade de Santa Gertrudes, os municípios de Cordeirópolis, Araras, Iracemápolis, Ipeúna e se estende por Rio Claro, Limeira e Piracicaba. “A grande vantagem da região, representada por 47 empresas do setor cerâmico, está na excelente qualidade da matéria-prima, uma argila de cor vermelha que é plástica, portanto fácil de ser moldada, e refratária ao mesmo tempo”, diz o engenheiro José Octavio Armani Paschoal, especialista em cerâmicas especiais e presidente do Centro Cerâmico do Brasil (CCB), instituição certificadora de qualidade criada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimento (Anfacer).

O fato de a região ter uma argila de primeira linha é uma vantagem indiscutível, mas para que ela chegasse a ocupar um lugar de destaque no cenário nacional foi preciso um trabalho sistemático de pesquisa e desenvolvimento realizado por pesquisadores paulistas com apoio da FAPESP na modalidade Consórcios Setoriais para Inovação Tecnológica (Consitec). O projeto envolveu desde a escolha de matérias-primas mais adequadas até a criação de novas tintas e esmaltes especiais de alta dureza e resistência ao desgaste.

Quando o projeto teve início, no final de 2001, o produto cerâmico para revestimento da região apresentava baixa qualidade técnica. “Atualmente, pelo menos 98% de cada lote produzido se enquadra na classe A, o que significa que as peças não apresentam defeito nenhum”, diz Paschoal, pesquisador recentemente aposentado do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Em 1997, no máximo 50% do que era produzido pelas cerâmicas paulistas podia ser classificado como classe A. O restante era classificado como classe B – peças com pequenos defeitos na superfície – ou C, com defeitos mais graves. Na época, o Brasil produzia 200 milhões de metros quadrados de revestimentos cerâmicos por ano. Santa Catarina respondia por 70% do total produzido e São Paulo por 30%. “Como a cerâmica tinha um bom preço, mesmo com as perdas as empresas conseguiam se manter.” Uma situação bem diversa da enfrentada hoje, com todas as indústrias fabricando produtos com padrão internacional. “Como a margem de lucro hoje é pequena, com grande concorrência no setor, a empresa corre risco de fechar se mais do que 2% das peças apresentarem defeitos”, diz Paschoal.

A produção de porcelanato – produtos cerâmicos especiais que englobam desde pastilhas até peças de grandes dimensões com alto valor agregado usada em pisos e placas para fachadas de edifícios – pelas indústrias paulistas foi uma das conquistas contabilizadas ao final do projeto em agosto de 2009. “Quando o projeto teve início, apenas três empresas paulistas fabricavam pastilhas de porcelana, que são peças de pequenas dimensões para decoração e revestimento”, diz a pesquisadora Ana Paula Margarido Menegazzo, superintendente do CCB e coordenadora de duas linhas de pesquisa no projeto. “Quando foi finalizado, 13 empresas já fabricavam o porcelanato.” O produto divide-se em duas categorias: porcelanato técnico, de altíssima qualidade, que concorre com as pedras naturais e não tem esmalte na superfície, e o esmaltado.

Das sete linhas de pesquisa conduzidas durante o Consitec, três tiveram como foco o porcelanato e contemplaram o desenvolvimento de matérias-primas para fabricação dessas peças, o estudo da tecnologia de processo de fabricação e a formulação de esmaltes especiais. As outras linhas de pesquisa envolveram desde inovações na área de ensaios para avaliação de produtos, como o desenvolvimento de uma metodologia para verificação da espessura da peça que diminuiu as diferenças de resultados entre os laboratórios, pesquisas na área de tecnologia de assentamento de revestimento cerâmico, até um estudo do escoamento das tintas dos materiais usados na decoração dos revestimentos cerâmicos, área da mecânica chamada de reologia. “Esse estudo é necessário porque, como as técnicas de aplicação de decoração estão em constante evolução, é preciso fazer uma adaptação dos insumos utilizados nessa tarefa”, diz Eduardo Quinteiro, gerente de projetos do CCB e coordenador de quatro linhas de pesquisa no projeto Consitec.

No caso dos esmaltes decorativos para formar os desenhos de um piso ou azulejo, por exemplo, eles têm que ser depositados no ponto exato e não podem se espalhar. “As empresas paulistas de cerâmica trabalham com uma técnica decorativa que utiliza poucas ca–madas de tinta para formar os desenhos com a melhor resolução possível”, diz Quinteiro. Durante o projeto foi feito ainda um mapeamento das diferenças de tonalidade observadas pelo olho humano, que serviu como referência para a elaboração de uma metodologia para melhorar o uso das tintas cerâmicas utilizadas pelas indústrias do setor.

© Eduardo Cesar

Processo de produção cerâmica automatizado: etapa de esmaltação de peças

Certificação cerâmica – Alguns ensaios foram feitos nos laboratórios do Centro Cerâmico do Brasil e outros no Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), nos laboratórios da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e no Ipen, parceiros no projeto. Embora tenha sido criado em 1993 como organismo certificador, só com o apoio do projeto Consitec e outros da Finep e do CNPq, o CCB pôde exercer plenamente essa função, quando de um único laboratório transformou-se em um centro de inovação tecnológica em cerâmica. “Fizemos trabalhos de levantamento de qualidade e de ajuste das empresas para que elas conseguissem atender às normas e pudessem receber a certificação”, diz Paschoal, que assumiu a presidência do CCB em 1997 em função da sua experiência no Ipen. “Nessa época, a influência de Santa Catarina era muito grande.”

Prova disso é que, mesmo com uma argila totalmente diferente da encontrada em Santa Catarina, fácil de moldar mas sem resistência mecânica, as cerâmicas da região de Santa Gertrudes durante algum tempo utilizaram um processo similar, baseado no italiano. “Em Santa Catarina, é preciso adicionar na produção materiais estruturantes como feldspato e quartzo, exigindo  processo de moagem úmido e posterior retirada de água por secagem ”, explica Paschoal. A argila vermelha que aflora próximo à superfície na região de Santa Gertrudes já apresenta a resistência mecânica do produto final. “Isso muda completamente as características do processo, que é feito por moagem a seco”, diz Paschoal. Em vez de várias etapas, basta uma única. Isso significa um custo industrial em torno de 50% mais baixo do que o das cerâmicas do Sul do país.

Além da tecnologia da fabricação, como parte do projeto Consitec, foi feito um levantamento dos produtos fabricados em todo o território nacional. “Com base nessas informações elaboramos, junto com o setor, uma norma técnica específica para o porcelanato, a NBR 15.463, publicada em 2007”, diz Ana Paula. A norma contém requisitos técnicos obrigatórios e exigidos em todo o mundo como resistência mecânica, resistência ao desgaste, a produtos químicos e baixa absorção de água. “Essa norma, pioneira no mundo, já foi apresentada ao Comitê Internacional ISO 189, que trabalha com normas mundiais para revestimento cerâmico.”

O projeto
Consórcio setorial da indústria  de cerâmica para revestimento  do estado de São Paulo: inovação tecnológica e competitividade -  nº 01/10783-5

Modalidade
Programa Consórcios Setoriais para Inovação Tecnológica (Consitec)

Coordenador
José Octavio Armani Paschoal – Ipen/CCB

Investimento
R$ 586.715,13 (FAPESP)

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Pequena solução nuclear

Elas não emitem CO2, são baratas e, para os especialistas, seguras. Uma miniusina nuclear subterrânea poderia gerar eletricidade para uma cidade pequena.

Carl Zimmer
Foto de Ilustração de Splashlight

Pequena solução nuclear

8 000 é a quantidade aproximada de residências cujo consumo de eletricidade poderia ser atendido por um minirreator de 10 MW.

A energia nuclear vem ganhando novos adeptos nos últimos tempos, sobretudo como alternativa aos sujos combustíveis fósseis. Usinas nucleares, porém, tendem a ser enormes, atendem às necessidades de apenas uma cidade média e, para piorar, exigem investimentos de bilhões de dólares. Por isso, agora, surgem protótipos de reatores menores.
"Pequenos reatores talvez sejam uma solução para os obstáculos de natureza financeira", diz Richard Lester, chefe do departamento de ciência e engenharia nucleares do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). A construção de reatores gigantescos, ressalta, não é a única maneira de obter economia de escala; é possível alcançar o mesmo objetivo com a produção em massa de miniusinas mais baratas. Se for projetada de maneira modular, uma única unidade poderia gerar energia para um vilarejo remoto, ao passo que uma dúzia delas conectadas geraria tanta energia quanto uma usina tradicional. No mundo desenvolvido, os minirreatores não representariam uma carga excessiva para as redes de transmissão já sobrecarregadas. E a possibilidade de instalar apenas uma unidade, e gradualmente acrescentar outros módulos, seria atraente para companhias de eletricidade em outros países.
Nenhum dos novos reatores pequenos está em funcionamento. Alguns, como o projetado pela empresa NuScale Power, são reatores de água leve que se assemelham aos usados na propulsão de navios de guerra. Outros são mais inovadores. A Toshiba e o Instituto de Pesquisa do Setor de Geração Elétrica do Japão estão desenvolvendo uma "bateria nuclear" refrigerada a sódio líquido. Instalado no subsolo, esse reator poderia gerar 10 MW por 30 anos sem ser reabastecido.
Além do custo mais baixo, alguns reatores pequenos podem ser mais seguros, diz Vladimir Kuznetsov, da Agência Internacional de Energia Atômica. O projeto da NuScale não requer bombas de resfriamento do reator, ao passo que as bombas da Toshiba são eletromagnéticas, sem peças móveis. Em ambos os casos há uma redução da probabilidade de falhas desastrosas.
Por outro lado, pesquisadores chineses estão desenvolvendo um reator pequeno, no qual a própria fissão nuclear é capaz de se interromper. Em uma demonstração, eles desligaram o sistema de resfriamento, e a reação simplesmente se extinguiu por si mesma. Hoje, 56 reatores desse tipo estão sendo construídos, sendo 19 na China. Com o forte aumento da demanda por energia, essa atividade não vai alterar o percentual de energia nuclear na matriz global de energia. Mas os pequenos reatores poderiam ajudar, diz Lester. "A ideia é expandir as fontes de energia com baixas emissões de carbono. E a energia nuclear tem potencial." Se houver permissão, claro. Nos Estados Unidos, as autoridades afirmam que alguns modelos podem ser aprovados num prazo de cinco anos. Os mais inovadores, porém, talvez tenham de esperar mais.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

Luta por legitimação

Quase sete anos depois da edição da lei que torna obrigatórios os conteúdos de história e cultura africanas e afro-brasileiras, os negros continuam lutando pelo reconhecimento de suas contribuições culturais e por aceitação no espaço escolar

Rachel Cardoso


Detalhe da obra O cortejo, de Nelson Leirner

O Supremo Tribunal Federal será palco, no primeiro semestre deste ano, de debates sobre as cotas raciais em universidades – divisor de opiniões sobre a chaga do racismo no país. O fato de o tema ter chegado a tal instância é um indício de sua efervescência na sociedade. É a primeira vez na história nacional que o assunto marca presença na mais alta corte federal. Mas chega com atraso de pelo menos duas décadas em relação a países de passado igualmente escravista, como os Estados Unidos, onde uma agenda pós-racial, em que a educação tem papel de destaque na promoção da igualdade social, desaguou na eleição do primeiro presidente negro do país, o democrata Barack Obama. Por aqui, o martelo da Corte pode funcionar como um divisor de águas para as políticas públicas na medida em que poderá significar a admissão do racismo e constituir-se no primeiro passo para o reconhecimento dos prejuízos que ele produz, além de afirmar a constitucionalidade ou não das medidas de ações afirmativas.
É nesse cenário que aparece hoje a questão da inserção social do negro, quadro que ganha contornos próprios no ambiente escolar, espaço ora de ratificação de preconceitos, ora de inflexão de costumes e visões. Trata-se de uma situação complexa, cujas raízes estão diretamente relacionadas a uma cultura da ignorância. De modo geral, faltam conhecimento, referência e memória à população em geral, dentro e fora da sala de aula. "Percebemos muitas atrocidades no contato diário com os professores que nos visitam", diz a coordenadora do Núcleo de Educação do Museu AfroBrasil, Renata Felinto. "Muitos educadores tratam as leis que incluem a história afro-brasileira no currículo escolar como modismo. Em função disso, quase nada mudou."

Ainda está presente no imaginário coletivo a imagem do homem negro como indolente, mas ao mesmo tempo mais forte do que os outros, o que teria sido a causa de sua escolha para a escravidão. Confundido com a malandragem no passado, está associado à criminalidade nos dias de hoje, avalia a educadora. "No cotidiano, o senso comum é que o negro é sempre um suspeito em potencial. As mulheres, por sua vez, são vistas como úteis para prestar serviços domésticos como babás, empregadas e cozinheiras, feias, porque fora do padrão de beleza branco", lembra Renata.

Não há percepção coletiva de que o histórico de falta de oportunidades leva ao reforço do estigma. O que explica em parte a ideologia do branqueamento. Vide o caso do escritor Machado de Assis, que, mulato, perdeu, para alguns, contato com seu universo de origem. "Quanto mais erudito menos negro", explica Renata. "Símbolos como a capoeira, a feijoada, o carnaval, o samba e até as mulatas são destacados como diferenciais da cultura brasileira no exterior, mas internamente ninguém assume a própria origem e o que se exalta é sempre a ascendência europeia."

Até quando o assunto é samba há polêmica. É consensual a importância do negro e de seu universo festivo e religioso na formação daquela que viria a ser considerada a música símbolo do país. Nessa linha, o samba é visto como um movimento de continuidade e afirmação dos valores culturais negros, uma cultura não oficial e alternativa, que seria uma forma de resistência cultural ao modo de produção dominante da sociedade do início do século 20. Mas há quem lembre a expropriação cultural do negro, exemplificada na estratégia da sociedade branca dominante, que enfraqueceu o caráter étnico das associações carnavalescas dos negros e do próprio samba como gênero musical, impedindo que se tornassem elementos de construção de uma consciência negra. Como aponta o historiador Marcos Napolitano em A síncope das ideias (Perseu Abramo, 2007), o samba foi objeto de disputa simbólica assim que se constituiu como fenômeno da indústria cultural, ainda nos anos 30 do século passado. De um lado, o governo Vargas buscando apropriar-se dos símbolos populares e associá-los ao trabalho; de outro, os sambistas que transitavam nas margens do sistema e cantavam a vida boêmia.

Há ainda aqueles que rejeitam as teses que localizam o samba como patrimônio cultural negro, expropriado pelos brancos e transformado em artigo de consumo. O certo é que sempre que se ressalta a importância política do samba e da música popular em geral, os ícones são muito mais brancos do que negros. Dos anos 60, por exemplo, guarda-se muito mais a memória dos festivais televisivos, com as presenças de Chico Buarque, Caetano Veloso e Edu Lobo, do que dos shows do Rosa de Ouro, em que Hermínio Bello de Carvalho reunia Clementina de Jesus, Elton Medeiros e Paulinho da Viola.

O imaginário nacional reproduzido nas salas de aula acaba sendo pautado pelos mesmos lapsos, tanto de alunos quanto de adultos. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde a segregação sempre foi mais demarcada, inclusive nos espaços físicos das cidades, no Brasil o preconceito é mais velado e sinuoso. Suas mazelas, porém, começam cedo. Desde a primeira infância, a criança é exposta quase que unilateralmente à literatura infantil de referência europeia. Nos contos de fadas mais populares não existem princesas ou heróis negros.

Para derrubar mitos como esses, o Museu AfroBrasil, utiliza obras como O baile, da artista plástica Rosana Paulino, que vai além das questões raciais. Não se trata de ser pior ou melhor, mas de mostrar como tratar as diferenças em pé de igualdade, pluralizando o acesso às histórias de outras origens. "As meninas sempre associam a silhueta à cinderela dançando com o príncipe encantado", diz Renata. "O nosso trabalho é mostrar que existem alternativas àquelas tradicionais histórias e mudar o padrão de beleza que frustra quem não é magra e loura."

Expressão linguística
Não é preciso procurar muito para perceber que entre crianças e jovens é costume lançar mão de expressões verbais que perpetuam o racismo em situações corriqueiras de desentendimento dentro do ambiente escolar. Hostilizados, os alunos negros tendem a se retrair e a abandonar os estudos por conta de atitudes que demandam intervenção firme dos professores e gestores educacionais. Em vez da sensibilidade para lidar com o fato, no entanto, habitualmente o que impera é o silêncio. Os resultados acabam aparecendo nas estatísticas que comparam a presença de brancos e negros e a defasagem idade-série, por exemplo.

Nossa Senhora com menino, escultura de Maurino Araújo: imaginário coletivo ainda vê as mulheres como babás, empregadas e cozinheiras

Fazer vista grossa parece ser a saída mais fácil quando não há argumentos para esclarecer os valores das diferenças étnico-raciais para a formação da sociedade contemporânea, como a contribuição dos africanos escravizados para a agricultura, a metalurgia e a ourivesaria, entre outras. Uma sabedoria que os colonos portugueses não tinham. "Mesmo o diversificado vocabulário da língua portuguesa guarda uma série de palavras de origem Banto", diz Renata, em referência às línguas africanas. É o caso de lengalenga (conversa enfadonha, ladainha). Por essas e outras peculiaridades, a arte-educadora condena a alteração da Lei 10.639, que por meio de um aditivo coloca no mesmo balaio as histórias africanas, afro-brasileiras e indígenas. 

Trata-se da Lei 11.645, sancionada em 2008, que institui a obrigatoriedade da  inclusão de conteúdos relativos a essas culturas no currículo escolar.  "A incorporação dessas leis é tênue e sem maiores reflexões é impossível modificar a realidade", atesta o coordenador do Programa de Educação do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), Antonio Malachias. "Embora a visão seja mais positiva, é preciso avançar na formação inicial e continuada não somente de professores, mas de gestores para promover uma mudança de fato na base, que é a escola pública."

Essa, visivelmente, é uma preocupação ainda muito restrita às organizações ligadas ao Movimento Negro. É do Ceert, por exemplo, o Prêmio Educar para Igualdade Racial, que desde sua primeira edição, em 2002, ocupa papel de destaque entre as ações educativas existentes em todo o país, como impulsoras de uma educação livre de racismo, preconceito e discriminações (leia texto na pág. 36). Acumula mais de mil experiências de todo o território nacional, que se constituem em fonte de informação de boas práticas escolares. Nesta 4ª edição, além da categoria professor, serão premiadas experiências de escolas.

No mesmo caminho, a ONG Ação Educativa desenvolve pesquisas para definir metodologias que promovam a igualdade racial nas escolas levando em conta experiências de diversas partes do mundo. O trabalho é feito em parceria com a comunidade escolar -  professores, gestores e funcionários, além de pais, alunos e comunidade.
Também entre as ações afirmativas está o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e Ensino da Cultura e História Afro-Brasileira e Africana, do governo federal. A proposta é reduzir desigualdades na educação, tornar a escola mais acolhedora e valorizar cultura e história do povo negro na formação da sociedade brasileira.

Combate à ideologia do fracasso
Embora o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira seja obrigatório, não há, de forma efetiva, cursos de formação e preparação de docentes para que trabalhem esses conteúdos a partir do currículo, em especial nas disciplinas de história, língua portuguesa e artes. "A maioria se diz despreparada para abordar a temática étnico-racial porque nunca teve isso na vida", diz Malachias. 

Reconhecer o histórico de racismo e preconceito e estabelecer uma relação afetuosa e democrática de orientação não é tão simples. "Embora não se possa apontar elementos que identifiquem professores racistas, é possível identificar práticas racistas. Entre elas, o silêncio diante de determinadas atitudes e o isolamento do negro por conta de uma preferência do inconsciente permeado por uma hegemonia branca", avalia o coordenador do Ceert.

Estudos, como a dissertação de mestrado de Fabiana Oliveira ("Relações raciais nas creches"), defendida na Federal de São Carlos, mostram que há racismo mesmo no ensino infantil. Não é tão ostensivo, mas cria marcas: meninas brancas são princesas, lindas; negras são relegadas ao silêncio, quando não são objeto de preconceito explícito. Como a primeira infância é vital na formação da personalidade e no aprendizado futuro, essas "sutilezas" passam a ser determinantes. O próprio aprendizado da leitura e da escrita pode ficar comprometido em função desse afeto desbalanceado.

Malachias destaca que a ideologia do fracasso ainda é muito forte, uma vez que a escola pública não foi moldada para lidar com as minorias. "Mas tem muita coisa acontecendo nas comunidades, educadores que têm conseguido transformar toda a produção da periferia em termos de cultura."

Exemplo disso é Allan da Rosa, docente da Faculdade de Educação da USP, historiador, poeta, dramaturgo e organizador das Edições Toró – Literatura Periférica. É autor de Imaginário, corpo e caneta: matriz afro-brasileira em educação de jovens e adultos. Em entrevista ao Observatório da Educação, explica seu olhar sobre o tema:
"O imaginário é o corpo e está no corpo. É o nosso corpo que alimenta o imaginário e o imaginário que alimenta o nosso corpo. Quando nosso imaginário está na lama, seja da mídia graúda ou da escola, que continua rebatendo toneladas de preconceito em cima da gente, esse nosso imaginário vai sendo soterrado por uma areia podre. Então, temos essas resistências que não vivem só retraídas, mas que trazem anunciação também. A matriz afro-brasileira tem no seu imaginário formas muito valorosas de pensar relações de gênero, relações ecológicas, econômicas, relações com a arte, com o tempo. Não se trata de idealizar e achar que a matriz afro-brasileira apresenta um mundo perfeito. Mas como ela ficou à margem e dentro, gingando entre o oficial e o marginal, apresenta ainda alternativas que devem ser entendidas. E esse entendimento não vai brotar do prisma oficial de sempre, que só oferece estereótipos."

E segue : "Antes de cair na armadilha de achar que é um ganho estar representado na novela ou no outdoor,  é preciso entender do que se está falando. Aí vamos procurar os fundamentos e ver como esses fundamentos surgem ou são omitidos, estes que não foram desenvolvidos na escola, porque meu povo não teve acesso à escola, mas que foram se dando nas comunidades, lidando com um conhecimento profundo e prático, que não deixa de ser teórico, vindo de uma intelectualidade que está ativa no seu próprio chão.  Então, quais são as matrizes da cultura negra brasileira, como isso pode alimentar processos de educação de jovens e adultos, de educação infantil ou a arquitetura de uma mídia melhor? Para responder, fui estudar o imaginário, porque ele não é algo etéreo, que fica numa nuvem dentro da cabeça. O imaginário está em cada poro do corpo, em cada gesto, que se relaciona com o movimento, com a criatividade, com as nossas mitologias e com rituais."

Um movimento que ganha corpo nas comunidades e ajuda a trabalhar culturas que não nasceram na escola, mas que ao mesmo tempo dialogam com a educação, corrobora as teses de Allan. "O hip-hop foi muito importante para o jovem da periferia se autodenominar negro e ter orgulho disso", diz o escritor Alessandro Buzo. "O desconhecimento das raízes e das histórias dos antepassados pode levar a pessoa a ter vergonha da sua origem. A cultura é a melhor forma de combater a violência e o racismo."

Não à toa, o Ministério da Cultura, por meio das Secretarias da Identidade e da Diversidade Cultural (SID/MinC) e de Cidadania Cultural (SCC/MinC), lançou em janeiro último o primeiro edital do Prêmio Cultura Hip-Hop. A premiação será de R$ 1,7 milhão e contemplará iniciativas individuais e de grupos nas categorias Reconhecimento, Socioeducativa (Escola de Rua), Geração de Renda, Difusão/Conhecimento (5° Elemento) e Difusão – Menções Honrosas.

Para Ivan Lima, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará e do Núcleo Brasileiro Latino Americano e Caribenho de Estudos em Relações Raciais, Gênero e Movimentos Sociais (N’BLAC), a história do negro na educação brasileira ainda carece de maior amplitude. "Continuamos a estudá-lo a partir das características culturais mais visíveis como comida, vestimenta e música", diz. "Falta-nos uma perspectiva histórica de construção civilizatória, ou seja, o negro produtor de conhecimentos que também marcaram a civilização ocidental, que, no entanto, nega esse processo. E, mais do que isso, determina e impõe que a civilização é um atributo exclusivamente do universo grego-romano, e todo o resto da humanidade tem de se curvar a isto."

As dificuldades, destaca Lima, não se resumem à formação do professor. A produção de materiais didáticos que ampliem o conhecimento da cultura negra, de seus valores civilizatórios, de seus diferentes reinos, entre outros temas, é outro gargalo para que a lei de fato saia do papel. Não basta incluir apenas um retrato de um personagem negro nesse contexto. "O fato de aparecer uma família bem-sucedida numa novela de horário nobre não é um grande avanço. Avalio como uma resposta de uma emissora, que assim justifica sua pseudopreocupação com os debates gerados pelas desigualdades raciais. Mas continua a ser uma exceção à regra. Significativo seria se aparecessem várias famílias negras estruturadas, mas há pouco espaço para o debate público, assim como para as ações afirmativas e o estatuto da igualdade, entre outros", reflete Lima.

O mundo do trabalho
Não é diferente na vida real. "O mesmo quadro se reflete no mercado de trabalho", diz José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, cuja mantenedora é a Afrobras. Inaugurada em novembro de 2003, tem como foco a cultura, a história e os valores da cultura negra. Na matriz curricular de seus cursos, há o compromisso com a implantação da lei que institui como obrigatório o ensino de história da África e afro-brasileira em todos os níveis. Isso ajuda a conscientizar os  alunos para que assumam seu lugar na sociedade. "Quantos negros você vê em cargos de juiz, promotor ou mesmo professor? A obrigatoriedade de uma lei é importante para provocar reflexão no agir e no pensar, mas é como colocar cimento sobre a boca de um vulcão em erupção", diz Vicente.

No artigo Ética enviesada da sociedade branca desvia o enfrentamento do problema negro, o falecido geógrafo Milton Santos explicita as causas desse cenário. "Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos -  paradoxalmente contra as vítimas. Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito", escreveu.

Em busca de caminhos
Como tratar de um câncer sem admitir que ele existe? O sociólogo Valter Silvério, coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Carlos (UfScar), recorda o episódio ocorrido em 2005 quando jovens franceses indignados com a discriminação, a pobreza e o desemprego queimaram milhares de carros nos subúrbios de Paris. "Não há democracia moderna com uma população plural que não tenha adotado uma política de igualação, embora a política de cotas por si só não seja suficiente."

Silvério crê, no entanto, que é preciso um trabalho de base para promover um contato mais realista das novas gerações com a diversidade, conceito que ainda reúne, sob o mesmo guarda-chuva, negros, índios, necessidades especiais, orientações sexuais e religiosas. "A didática pressupõe uma organização espacial diferente para cada um desses grupos. Por hora, as inclusões são pontuais e não mudam a filosofia do cotidiano escolar."

Como possibilidade de alterar esse cotidiano é interessante apontar que o movimento negro tem exercitado diferentes práticas educativas e proposto pedagogias que trazem elementos para a reversão de aspectos naturalizados no ensino. A pedagogia interétnica, desenvolvida no final da década de 70, em Salvador (BA), por exemplo, tem como objetivo fundamental o estudo e a pesquisa do etnocentrismo, do preconceito racial e do racismo transmitidos pelo processo de socialização ou educacional – família, comunicação, escola, sociedade global e meios de comunicação -, além de indicar medidas educativas para combater os referidos fenômenos, utilizando a história, a psicologia e a sociologia  como elementos estratégicos.

Nos anos 80, a pedagogia multirracial foi desenvolvida por Maria José Lopes da Silva e educadoras do Rio de Janeiro. Sua proposta é identificar os valores culturais africanos presentes tanto na religião como nas artes, na organização social, na historia e na visão de mundo dos brasileiros, a partir da percepção de que as culturas negras estão profundamente internalizadas no "inconsciente coletivo" do homem brasileiro, independentemente de raça, cor, ou classe social. Quem nunca se pegou batucando ao ouvir uma música ritmada que atire a primeira pedra.

Na escola, Disparidades

O Brasil tem mais de 53 milhões de estudantes na Educação Básica. O atendimento às populações branca e negra, no entanto, é bastante desigual. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2007 revelam que na educação infantil apenas 13,8% das crianças negras estavam matriculadas em creches. O número sobe para 17,6% na  população branca. Na pré-escola, são 65,3% das crianças brancas matriculadas, frente a 60,6% da população infantil negra.
Quando o assunto é a distorção idade-série, as diferenças se acentuam, como mostram os dados do Educacenso de 2007. No caso de crianças brancas, o índice é de 33,1% na 1ª série do ensino fundamental e de 54,7% na 8ª, subindo, no caso das negras, para 52,3% e 78,7%, respectivamente. Entre os jovens brancos de 16 anos, 70% haviam concluído o ensino fundamental obrigatório. Na população negra dessa faixa etária, apenas 30% o fizeram. Entre as crianças brancas de 8 e 9 anos na escola, a taxa de analfabetismo era de 8%. Para as negras, o dobro.
No ensino médio, o quadro não é diferente: 62% dos jovens brancos de 15 a 17 anos frequentavam a escola em 2006; na população negra, o índice caía pela metade. Se o recorte etário for para 19 anos, os brancos apresentam uma taxa de conclusão do ensino médio de 55%, contra apenas 33% dos negros.
As desigualdades persistem no ensino superior. A Fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que 12,6% da população branca acima de 25 anos concluiu o curso superior. Entre os negros, a taxa é de 3,9%. Em 2007, os dados coletados pelo Censo da Educação Superior indicavam a frequência de 19,9% de jovens brancos entre 18 e 24 anos nas universidades. Já para os negros o percentual era de 7%.
Com base na Pnad, 49,4% da população brasileira se autodeclarou da cor ou raça branca e apenas 7,4% preta. Outros 42,3% se autodenominaram pardos e 0,8% de outra cor ou raça. A população negra é formada pelos que se reconhecem pretos e pardos.

Diversidade e Desigualdades

» 47,1% dos jovens são brancos e 52,9% não brancos (sendo 85,1% pardos, 13,5% pretos, 0,8% amarelos e 0,6% indígenas)
» Analfabetismo entre os jovens negros é quase três vezes maior do que entre os brancos
» Frequência líquida ao ensino médio é 55,9% maior entre
os brancos
» Frequência líquida ao ensino superior é cerca de 3 vezes maior entre os brancos
» As taxas de homicídio entre os jovens pretos e pardos é de 148,8 e 140,9 por 100 mil hab. respectivamente, ao passo que entre os brancos é de 69,2
» Os jovens pobres são majoritariamente não brancos (70,8%), enquanto os jovens brancos são 54,1% dos
não pobres.

Vítimas do assédio

Obra de Antonio Ferrigno retrata a escravidão: ainda hoje, negros estão entre os mais atingidos pelas práticas de bullying

Negros, pobres e homossexuais estão entre as principais vítimas de agressões físicas, acusações injustas e humilhações nas escolas públicas, segundo a pesquisa sobre Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Segundo a pesquisa, o grau de conhecimento de práticas de bullying chega a 19% contra alunos negros, 18,2% contra pobres, 17,4% contra homossexuais. Em seguida, 10,9% estiveram nessa situação por serem mulheres e 10,4% por morarem na periferia ou em favelas. O estudo também mostrou que os professores, funcionários, idosos, pessoas com algum tipo de deficiência física ou mental, idosos, índios e ciganos também foram vítimas de agressão nas escolas pesquisadas.

De acordo com o coordenador do trabalho, o professor José Afonso Mazzon, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), a pesquisa revelou que 30% das diferenças observadas na Prova Brasil entre as escolas pesquisadas foram explicadas por níveis de preconceito e discriminação. "Nas escolas em que se observou o maior conhecimento de práticas de bullying envolvendo professores e funcionários, as avaliações na Prova Brasil foram as menores, assim como naquelas em que os alunos apresentaram maior nível de preconceito", afirmou.

A pesquisa ouviu cerca de 10,5% dos 18.599 alunos, pais, diretores, professores e funcionários de 501 escolas públicas do país, entre outubro e novembro do ano passado. Ainda de acordo com os dados, 5,3% dos entrevistados presenciaram os professores sofrendo agressões e 4,9% viram os funcionários das escolas sendo agredidos.

Para saber mais

Afirmando diferenças, de Anete Abramowicz e Valter Silvério
(Editora Papirus, 2005)
A nova abolição, de Petrônio Domingues (Selo Negro, 2008)
Caminhos convergentes: Estado e sociedade na superação das desigualdades raciais no Brasil, de Marilene de Paula e Rosana Heringer (org., Fundação Heirich Boll Stiftung, Action Aid, 2009)
Direitos humanos e diversidade, de Jorge Arruda (Editora Diáspora, 2009)
Educação planetária, pluralidade cultural e diversidade religiosa, de Jorge Arruda (Editora Diáspora)
História e cultura africana e afro-brasileira, de Nei Lopes (Barsa Planeta, 2008)
História da educação do negro e outras histórias, de Jeruse Romão (Secad/MEC, 2005) Série Pensamento Negro em Educação (vols. 1 ao 9). Núcleo de Estudos Negros de Florianópolis. (site: www.nen.org.br)
Laços atlânticos: imigração africana em São Paulo, de Flávio Thales Ribeiro Francisco (Editorial Diáspora, 2008)
Literatura da Língua Portuguesa Marcos e Marcas (Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique, de Maria Aparecida Santilli e Suely Villibor Flory (orgs., Arte e Ciência Editora, 2007)
Políticas públicas e ações afirmativas, Dagoberto José Fonseca
(Selo Negro, 2009)
Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil, de Kabengele Munanga (Editora Global, 2004)
Relações Raciais e Desigualdade no Brasil, de Gevanilda Santos (Selo Negro, 2009)

Sites
Afrobras- http://www.afrobras.org.br/
Ceert – http://www.ceert.org.br/
Cultura Hip-Hop – http://culturahiphop.uol.com.br/

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

Desnutrição infantil no Nordeste tem queda acelerada

Júlio Bernardes

Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP revela que o índice de desnutrição infantil no Nordeste brasileiro caiu de 33,9% em 1986 para 5,9% em 2006. Os principais fatores associados à redução apontados pelo estudo são o aumento do poder aquisitivo familiar e a ampliação da escolaridade média das mães.  Segundo a nutricionista Ana Lucia Lovadino de Lima, uma das autoras do trabalho, a queda se acentuou depois de 1996 e poderá atingir índices ainda menores nos próximos anos se forem mantidas as políticas de transferência de renda e o acesso a serviços básicos como saúde, educação e saneamento básico for ampliado.

Em 20 anos, índice de desnutrição infantil no Nordeste caiu de 33,9% para 5,9%

O estudo se baseou nas Pesquisas Nacionais de Demografia e Saúde (PNDS) realizadas no Brasil nos anos de  1986, 1996 e 2006. “A partir das informações sobre crianças menores de cinco anos e de suas mães, a variação nos índices foi avaliada com base em cinco determinantes essenciais na questão da desnutrição infantil”, conta Ana Lucia. Os fatores analisados como determinantes foram a assistência à saúde, a presença de esgoto e água canalizada no domicílio, a escolaridade da mãe, o poder aquisitivo familiar e os antecedentes reprodutivos da criança.

Entre 1986 e 1996, o nível de desnutrição caiu de 33,9% para 22,2%, devido principalmente a melhoria da escolaridade materna e do acesso ao saneamento básico (rede de água e esgoto). “A assistência à saúde e os antecedentes reprodutivos tiveram menor influência”, diz a nutricionista, “e o poder aquisitivo familiar foi o fator menos importante nessa redução devido a realidade econômica observada no período.”

Aceleração
A queda da desnutrição se acelerou entre 1996 e 2006, e o índice chegou a 5,9%, sendo que as melhorias observadas no poder aquisitivo familiar e na escolaridade materna foram os fatores que mais contribuíram. “Nesse período foram implantadas políticas de estabilidade econômica, de transferência de renda e de acesso à educação que contribuíram de forma muito importante para a redução da prevalência da desnutrição infantil na região Nordeste”, afirma Ana Lúcia.

De acordo com a nutricionista, se a queda da desnutrição infantil no Nordeste brasileiro mantiver o mesmo ritmo acelerado, dentro de aproximadamente dez anos o índice chegará ao nível considerado aceitável para uma população saudável, que é de 2,3%. “Para que essa tendência se mantenha, é necessária a continuidade das políticas públicas de aumento da renda da população mais pobre, além de maiores investimentos em saúde, educação e em saneamento”, conclui.

O estudo, realizado em parceria com Ana Carolina Feldenheimer da Silva, Silvia Cristina Konno, Wolney Lisboa Conde e Maria Helena D’Aquino Benicio, foi publicado na edição de fevereiro da Revista de Saúde Pública, editada pela FSP. A pesquisa teve a coordenação do professor Carlos Augusto Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) e do Departamento de Nutrição da FSP.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

Fumo de terceira mão também contém agentes cancerígenos, diz estudo

Resíduos de cigarro não se assentam inertes em superfícies: podem reagir com o ácido nitroso, emitido por aparelhos a gás e veículos, e criar compostos cancerígenos

Katherine Harmon


Cortesia da Wikimedia Commons/Opa

Fumar ao ar livre não afasta riscos

Qualquer pessoa que entrar na casa de um fumante pode observar que traços do uso de tabaco não desaparecem quando um cigarro ou charuto é apagado. Mas o que acontece com esse fumo de “terceira mão” quando o ar se limpa? – ele ainda pode ser nocivo?
Uma equipe de pesquisadores do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley descobriu que os resíduos de um cigarro não se assentam inertes em superfícies: eles podem reagir com um gás comum (o ácido nitroso, emitido por aparelhos a gás e veículos, entre outros) para criarem compostos cancerígenos conhecidos como nitrosaminas específicas do tabaco (TSNAs, na sigla em inglês). O grupo relatou as descobertas em um estudo publicado online em oito de fevereiro no Proceedings of the National Academy of Sciences.
Esses “TSNAs estão entre os carcinógenos mais potentes e de ação mais ampla presentes no tabaco não queimado e na fumaça do tabaco”, afirmou Hugo Destaillats, um químico do Departamento de Ambientes Internos do laboratório e co-autor do artigo.
O próprio fumo de segunda mão contém TSNAs, mas a presença de ácido nitroso em um ambiente pode aumentar o número dessas substâncias nas horas que se seguem ao ato de fumar. “Enquanto a fumaça de um cigarro contém pelo menos 100 nanogramas de TSNAs, nossos resultados indicam que várias centenas de nanogramas por metro quadrado de nitrosaminas podem ser formadas em superfícies caseiras na presença de ácido nitroso”, informou Mohamad Sleiman, autor líder do estudo e também do Berkeley Lab. E, posto que a nicotina pode ficar em superfícies por semanas e meses – mesmo em superfícies sólidas, como paredes e painéis de veículos – as descobertas mostram que essa forma de exposição pode ser ainda mais persistente do que o fumo de primeira e segunda mãos.
“Nossas descobertas indicam que o fumo de terceira mão representa um risco à saúde que não é reconhecido”, observou Sleiman. E o dano em potencial não vem apenas de inalar essas moléculas, mas também do contato direto com a pele e da ingestão acidental, notaram os autores, colocando em questão alguns pretensos benefícios de fumar fora de casa. “Fumar fora de casa é melhor do que fumar dentro de casa, mas os resíduos de nicotina se prenderão à pele e às roupas do fumante”, advertiu Lara Grundel, pesquisadora do laboratório e co-autora do estudo. “Esses resíduos seguem um fumante até dentro de casa e se espalham para todos os lados.”
O fumo de terceira mão é um conceito relativamente novo, mas, assim como outro vilão mais conhecido (o fumo de segunda mão), a população mais vulnerável é a de crianças. “A absorção da nicotina através da pele de uma criança é mais propensa a ocorrer quando o fumante retorna, e se houver ácido nitroso no ar, o que normalmente é o caso, então os TSNAs se formarão”, observou Gundel. Crianças pequenas têm maior tendência a consumir mais poeira – e, portanto, quaisquer TSNAs presentes – do que adultos, relatam eles.
Para erradicar o fumo de terceira mão, os autores recomendam que locais públicos sejam totalmente livres de cigarro e que os indivíduos evitem fumar em casa e em seus carros. Além disso, os pesquisadores sugerem que se troque a mobília, carpete e até o gesso da parede para reduzir a exposição aos TSNAs em espaços fechados, que receberam várias baforadas no decorrer dos anos.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/