Yearly Archives: 2009

No Rio de Janeiro, uma polícia de comportamento criminoso

Jean-Pierre Langellier
No Rio de Janeiro

Muitas vezes corrupta e brutal, a polícia militar do Estado do Rio de Janeiro tem uma má reputação. Dois de seus membros acabam de cometer um vergonhoso ato criminal, que está causando revolta geral. O escândalo data de 18 de outubro.

Nessa noite, em uma rua do centro do Rio, o educador social Evandro João da Silva, 42, coordenador da AfroReggae, uma ONG que busca conter a violência nas favelas, foi morto por dois indivíduos. Seus agressores roubaram sua jaqueta e um par de tênis. Atingido no abdômen, a vítima agonizou na calçada.

Rafael Andrade/Folha Imagem

Amigos e parentes no enterro da jovem Ana Cristina Costa do Nascimento, de 24 anos, atingida nas costas por uma bala perdida na zona norte do Rio de Janeiro; moradores acusam a polícia.

As câmeras de segurança, que registraram a cena, revelaram o que aconteceu na sequência, ainda mais grave. Trinta segundos após o assassinato, uma viatura de polícia que fazia uma ronda, com o capitão Denis Leonard Nogueira Bizarro e o cabo Marcos de Oliveira Salles a bordo, passou diante do ferido sem prestar socorro.
Pouco depois, os policiais capturaram os dois agressores, e em seguida os liberaram após terem "recuperado" a jaqueta e os sapatos. Eles não informaram ninguém sobre o assassinato, e continuaram com a patrulha noturna. Quando uma ambulância chegou, quase uma hora e meia depois do crime, a vítima já estava morta há muito tempo.
Gangrena
O caso é ainda mais comovente uma vez que o falecido, nascido em uma favela do norte do Rio, e respeitado por sua coragem e determinação, havia se tornado um "mediador de conflitos", especialmente entre os bandos de traficantes de drogas. À frente da AfroReggae, ele tentava converter os mais jovens a uma cultura da paz, e tinha boas relações com o estado-maior da Polícia Militar.
O caso torna a chamar atenção para a gangrena que corrói a instituição: em dez anos, mais de 1.700 policiais foram expulsos da corporação. Os dois assassinos continuam soltos.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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A Última Superação do Marxismo

György Lukács

É difícil que se passe um ano sem que Marx seja "superado" por algum solícito livre docente ou por algum filósofo da moda. A luta mortal que a sociedade burguesa deve realizar se desenvolve também no terreno ideológico. Estas superações mostram ao observador atento sempre o mesmo rosto. Mudam o teor da demonstração, os argumentos gnosiológicos ou metafísicos parecem novos, porém o caráter essencial, o ponto de partida e o ponto de chegada, são sempre os mesmos. Eles encontram sua origem na natureza pequeno-burguesa-parasitária da situação de classe dos intelectuais. Como verdadeiros pequeno-burgueses, os intelectuais não estão em condições de ver de maneira correta a realidade da luta de classes, e portanto menos ainda estão em condições de valorá-la. Eles tendem, como disse Marx, para as instituições estabelecidas, tal como para "não abolir os dois extremos, capital e trabalho assalariado, mas sim para atenuar suas contradições e levá-los a conviver em harmonia". Dado que os intelectuais são seres parasitários dentro do Estado capitalista, este último se lhes apresenta com um absoluto, ou ainda como o Absoluto. Eles contrapõem à teoria marxista uma utopia que, despojada das frases mais ou menos sedutoras, repousa sobre a glorificação do Estado existente".

O último grande representante desta série é o filósofo da moda Oswald Spengler, cuja obra A Decadência do Ocidente, embora engenhosa, mas em seu conjunto diletante, obteve recentemente este êxito que na realidade devia ter ocorrido com a profunda obra de Ernst Bloch, O Espírito da Utopia. O novo livro do senhorSpengler, Prussianismo e Socialismo, quer libertar o socialismo alemão de Marx. Escapou a Marx, parece, o grande problema da história da filosofia na época moderna, que nosso filósofo resume assim: "três povos personificaram o socialismo em sentido geral: espanhóis, ingleses e prussianos. Em Paris e em Florença se desenvolveu o oposto anárquico ao outro dos italianos e franceses.  Marx não estava por isso em condições de fazer os seguintes descobrimentos fundamentais: primeiro, que na revolução francesa não houve luta de classes; que não existe burguesia francesa, no entanto, "porém, todo verdadeiro francês era e é hoje um burguês". Todo verdadeiro alemão é um operário" na França não existem verdadeiras classes.

O segundo descobrimento é que na Inglaterra não existe o Estado; que somente a Inglaterra conhece o capitalismo no sentido verdadeiro; que em conseqüência só a Inglaterra existe uma distinção de classes. Assim, o superficial Marx, que distingui as classes segundo sua posição no processo de produção, foi aprofundado e superado; a divisão de classes deriva da distinta possessão de bens, é a contraposição entre rico e pobre. O pobre Marx, a quem escapou tudo isto, não podia portanto deixar de escapar também o fato de que o socialismo estava já realizado há muito tempo atrás, no reino da Prússia. Por este motivo, Marx não estava em condições de compreender o problema do Estado; disto segue seu elogio "diletante" da Comuna de 1871; e por isso mesmo não esteve em condições de apreciar o sistema dos conselhos (Rätesystem) que o Barão von Stein projetou anos antes. O socialismo superficial é recuperado da seguinte maneira pelo socialismo filosoficamente aprofundado. Este socialismo é uma ordem de autoridade, "dito em linguagem técnica, é o princípio burocrático". Assim, é natural que Marx não tenha visto nem sequer a socialização já existente "introduzida por Frederico Guilherme I e incessantemente desenvolvida até Bismarck". Correspondendo a esta filosofia profunda, também o conceito de imperialismo é renovado: "a verdadeira internacional é o imperialismo". Por isso, ambos os partidos, o conservador e o socialista, como representantes do socialismo aprofundado, pertencem ao mesmo grupo: os conservadores eram melhores oficiais, os socialistas melhores soldados". A reconciliação destes irmãos-inimigos é o objetivo do socialismo redescoberto filosoficamente. Vale a pena a crítica de tais escritos? Considerados como sintomas, eles são interessantes. O fato de que a única citação do senhor Spengler seja do senhor Lensch não demonstra somente sua ignorância em matéria de marxismo, mas também aonde levam necessariamente a teoria e a práxis dos socialistas de direita. E o restante deste folheto não se distingue em nada de outras "superações" do marxismo arqui-conhecidas desde tempos de Dühring e companhia, já então na primeira fila da adoração do Estado prussiano. Somente é novo que se comprove que tampouco a revolução conseguirá curar os alemães "de seu espírito servil, radicado na consciência nacional", como disse Engels.

Fonte: Marxists – http://www.marxists.org/

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O futuro da internet

Rubens Zaidan
Danilo Albergaria

Este é o tema destes dois livros do sociólogo espanhol Manuel Castells e do pesquisador britânico Richard Barbrook. O primeiro faz um estudo sobre a internet, os negócios e a sociedade, e reflete criticamente sobre as consequências das mudanças em curso. O segundo esmiúça as utopias tecnológicas da Guerra Fria, e a (pré)história da internet, para produzir um manifesto pela necessidade de imaginarmos novos futuros

Como as redes mudaram nossas vidas

Rubens Zaidan

Pouca gente prestou atenção em recente e significativa mudança no mais tradicional programa de entrevistas da televisão aberta brasileira, por conta das novas tecnologias. O programa Roda Viva, da TV Cultura, no ar desde 1986, passou a ser transmitido "ao vivo", apenas pela internet. Já pela emissora de televisão, o programa é gravado e exibido sem cortes no mesmo dia, no horário habitual – às 22h30 da segunda-feira. Essa mudança – que os analistas sociais poderiam facilmente rotular de anomalia dentro do paradigma tradicional da mídia – se soma a outras menos "invasivas" à rotina cristalizada do público, mas também importantes e já implantadas no relacionamento das TVs, jornais e emissoras de rádio, preocupadas com a "sedução" da internet. O que foi surpresa para o telespectador cativo do programa da Cultura não chegaria a espantar o sociólogo espanhol Manuel Castells que, em seu livro A galáxia da internet, de 2001, não esconde seu fascínio pelo meio como ferramenta de difusão da informação em escala planetária. Ele estuda há décadas os efeitos da informação sobre a cultura, a economia e a sociedade em geral.

Considerado pela crítica européia como o "primeiro sociólogo do cyber espaço", Castells parafraseia McLuhan – que cunhou a expressão "galáxia de Gutemberg", para se referir a um dos três períodos da evolução das comunicações – no título do livro e na definição do seu objeto de estudo: em A galáxia da internet, a rede é a mensagem. Para Castells, se a tecnologia da informação é hoje o que a eletricidade representou para a "Era Industrial", a internet poderia ser equiparada tanto a uma rede elétrica quanto ao motor elétrico, pela capacidade de distribuir a força da informação em todas as áreas da atividade humana. Ela funciona também como base tecnológica para a forma organizacional da "Era da Informação".

Exclusão social

O sociólogo lamenta que a internet colabore para agravar a situação dos excluídos, especialmente nos grandes aglomerados urbanos, desigualdade social que, para ele, tem como base a educação. Seu livro – cujo subtítulo é "Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade" – garante ao leitor uma refinada e detalhada interpretação acadêmica sobre os aspectos técnicos, econômicos e culturais sobre a rede, sem perder de vista o destino dos marginalizados do processo: 55 % da humanidade mal sobrevive com menos de dois dólares por dia, faz questão de denunciar. Para Castells, ao lado de um crescimento substancial de produtividade, valor econômico e desenvolvimento tecnológico, houve aumento da exclusão e da desigualdade social.

Desde a publicação de sua trilogia "A Era da Informação", entre 1996 e 1998, o autor se mostra atento às consequências para a economia do uso dessa ferramenta. E quando fala, em A galáxia da internet, sobre orgia financeira, soa como uma profecia para o rombo das hipotecas dos Estados Unidos, que contaminou as finanças do mundo todo, sete anos depois. No entendimento do sociólogo, as redes de computador que transformaram os mercados financeiros provocaram, além da redução de custo dos negócios, mais qualidade, eficiência e satisfação do comprador. Para o autor, a transação eletrônica aumenta o número de investidores, através de redes descentralizadas. O alerta é claro: na era da internet, caracterizada por mercados financeiros sistematicamente voláteis, movidos a informação, a capacidade de viver perigosamente torna-se parte do estilo de vida empresarial. O autor lembra que a nova economia, que tem os negócios eletrônicos à frente, é organizada em torno de redes de computadores, que pela sua própria natureza e agilidade, induzem a inovações, maior grau de insegurança e risco.

O surgimento da internet nos Estados Unidos, segundo Castells, é fruto de um mix curioso e improvável: da big science, da pesquisa militar e da cultura libertária, sempre tendo como base três princípios: estrutura de rede descentralizada, poder computacional – ambos distribuídos através dos nó s da rede – e redundância de funções na rede para diminuir o risco de desconexão.

Tom libertário

A novidade da produção de tecnologia pelos usuários, que além de fazer também a sua inovação, se soma, segundo a análise de Castells, no caso da internet, ao poder de distribuir para todo o mundo, em tempo real, novos usos e as modificações já incorporadas. Isso é suficiente para impulsionar mais rapidamente seu crescimento. O tom libertário do veículo, que Castells considera importante na luta contra governos totalitários – é para ele produto da soma de várias culturas, envolvidas no seu dia-a-dia: tecnomeritocrática, hacker, comunitária virtual e empresarial. Para o especialista, esses fatores estão na base do alicerce organizacional, sempre de acordo com os princípios de liberdade, cooperação, reciprocidade e informalidade.

Castells admite que o maior problema dos governos é saber que se pode apenas vigiar a internet, mas não controlá-la. Os exemplos que driblam as censuras vão desde blogueiros chineses e cubanos, que ploriferaram nos últimos anos, até os recentes protestos contra a violência e a suposta fraude nas eleições iranianas. O sociólogo prega que apesar do desgaste de legitimidade dos governos, o ideal seria a participação dos regimes democráticos na manutenção da liberdade de informação. Melhor ainda se, ao invés dos governos usarem a internet como meio de controle, os cidadãos pudessem controlar os políticos, acessando todas as informações de interesse público.

Individualismo e sociabilidade

Nos anos 1960-1970, era comum a discussão em torno da possibilidade da TV acabar com o diálogo familiar. Muitos estudos inconclusivos foram feitos. Na era da internet, a discussão gira em torno das comunidades virtuais e/ ou sociedades de rede para saber se ela produz isolamento social. Castells admite alguns indícios sob certas circunstâncias, mas diante dos dados de vários estudos, diz que é difícil chegar a uma conclusão definitiva. O que é certo é que a sociabilidade, com base não em laços residenciais, mas em afinidades pessoais ou de grupo, foi intensificada pelo uso da internet, mais especificamente pelo denominado individualismo em rede.

As pessoas, nota Castells, se organizam cada vez mais em redes sociais mediadas por computador. "O individualismo em rede é um padrão social, não um acúmulo de indivíduos isolados", afirma. Essas redes são montadas de acordo com valores, interesses, afinidades e projetos. Daí a explicação para o surgimento de novas formas de relacionamento familiar, com reforço de integração em torno, por exemplo, de um website da família.

Liberdade de expressão x privacidade

Nos Estados Unidos, centro da internet, existe uma decisão da Corte Suprema contra qualquer tipo de controle sobre o meio, "porque há o direito constitucional ao caos". Castells se refere à falta de controle não só política, empresarial e financeira, mas da expressão de forma geral. Na Europa, segundo ele, existem meios mais prudentes que olaissez faire americano, permitindo maior proteção à privacidade. Para Castells, não é a tecnologia e sim o uso que se faz dela que determinará o futuro da sociedade.

O importante desse livro é que ao invés de ditar normas, o autor procura oferecer o máximo de informações sobre o tema, sempre alertando para as alternativas disponíveis. E, como bom intérprete da realidade, acredita na consolidação de uma nova sociedade e na importância dessa ferramenta que alterou para sempre a difusão da informação. A ponto do autor advertir: os que não se importam com ela, podem ser surpreendidos."Se você não se importa com as redes, as redes se importarão com você".

Livro: A Galáxia da Internet
Autor: Manuel Castells – tradução Maria Luiza X. de A. Borges
Editora Zahar, 2003

A utopia desmontada

Danilo Albergaria

Há quarenta anos, em julho de 1969, astronautas estadunidenses viajaram até a Lua, pousaram suavemente o módulo Águia, caminharam pela superfície durante mais de duas horas, fincaram por lá a bandeira de sua pátria e voltaram sãos e salvos à Terra. Esse feito histórico, além de significar um grande salto para a humanidade, foi comemorado nos Estados Unidos como uma inequívoca vitória sobre a União Soviética. A corrida espacial, porém, não era a única arena onde os dois gigantes se enfrentavam. Com potenciais consequências, muito menos poéticas do que a alunissagem de seres humanos, e mais perigosas do que a obtenção pacífica de energia nuclear, ambos estavam envolvidos até a medula numa insana corrida armamentista. A produção e o acúmulo de dezenas de milhares de ogivas nucleares, de cada lado, ameaçavam a humanidade com um grande salto para a autodestruição. Diante da tensão da Guerra Fria, não haveria muitos motivos para otimismo.

Paradoxalmente, quem visitasse a Feira Mundial de Nova York de 1964 – uma gigantesca exposição do que de melhor a sociedade industrial poderia propiciar aos seres humanos num futuro próximo – sairia com a sensação de que uma era brilhante, redentora, estava a um passo de se concretizar. Naquele futuro prometido em 1964, foguetes lançariam seres humanos na exploração do espaço: cidadãos comuns em viagens de turismo cósmico. Máquinas pensantes, robôs dotados de inteligência artificial, se encarregariam do trabalho. E a energia para movimentar isso tudo seria praticamente ilimitada, a preço negligenciável, com o inevitável advento da fusão nuclear.

Causaria estranheza afirmar que o futuro ainda é o que costumava ser na década de 1960? Pois essa é a chocante constatação do pesquisador britânico Richard Barbrook, em Futuros imaginários: das máquinas pensantes à aldeia global. Para o professor de hipermídia da Universidade de Westminster, as nossas utopias tecnológicas continuam mais ou menos iguais àquelas prometidas pelos Estados Unidos no auge de sua disputa ideológica contra o lado comunista: “o modelo de futuro ofertado a mim, que vivo como um adulto em Londres no final dos anos 2000, foi o mesmo futuro prometido a mim ainda criança” (Barbrook, 2009, p.34 ).

A capa de Futuros imaginários é ilustrada pela foto de uma família, cujo pano de fundo é dominado por uma imponente estrutura de metal representando o globo terrestre. É a família Barbrook: Richard, a mãe e o irmão, fotografados pelo pai em frente à “Uniesfera” em visita à Feira Mundial de Nova York de 1964. Este foi o futuro prometido a Richard quando criança. Quarenta anos depois, o mesmo indivíduo promove uma desconstrução feroz daquelas promessas. A esperada geração de energia infinita e gratuita esconde o fato de que a fusão nuclear foi desenvolvida para pulverizar centenas de milhares numa só explosão. Os belos foguetes que nos levariam ao espaço foram projetados, primeiro, para carregar ogivas nucleares às cidades do inimigo. A benevolente inteligência artificial, apresentada como inexorável finalidade do desenvolvimento da informática, desvia a atenção da verdadeira aplicação dos computadores: melhorar a eficiência do complexo industrial-militar, planejar a guerra, racionalizar a morte. As projeções da tecnociência da Guerra Fria não poderiam ser mostradas ao público de forma nua e crua. Por isso, enquanto a Feira Mundial de 1939 ainda prometia um futuro factível, projetando a sociedade do automóvel e das grandes metrópoles, a edição de 1964 teve que descolar as projeções de sua realidade : um futuro factível na década de 1960 seria sombrio demais para ser encarado e aceito pelo público.

Barbrook argumenta que a utilidade ideológica das utopias, durante a Guerra Fria, não era apenas impedir que se tomasse consciência de como o perigoso jogo de ameaças atômicas alimentava a dominação das elites dos dois lados. Prometer o melhor e mais atraente futuro significava uma vantagem ideológica decisiva, possibilitando manter a população dócil, eliminar inimigos internos, e trazer mais aliados para o seu lado. A União Soviética, por exemplo, justificava os horrores do autoritarismo stalinista e sua industrialização baseada no sacrifício da população prometendo, para logo ali, a redenção do verdadeiro comunismo previsto por Marx e Engels. Seu rival, por sua vez, impulsionava o crescimento industrial com a utopia pós-industrial dos robôs escravos. Nenhum dos dois futuros imaginários estava fadado a se realizar: “o presente perpétuo foi justificado pelo futuro imutável” (Barbrook, 2009, p.39). Para Barbrook, o que continua como herança ideológica da Guerra Fria é a imagem do futuro computadorizado. O que está em jogo é a apropriação que se faz da internet.

Numa análise muito feliz, Barbrook não apenas desconstrói a jogada ideológica que projetava um futuro paradisíaco nos Estados Unidos dos anos 1960, como demonstra que aquelas utopias tecnológicas, que ele presenciou quando criança – da espaçonave ao robô – estavam todas amarradas por uma ideologia da globalização. A Uniesfera não era apenas uma representação metálica da Terra. Com os três círculos que simbolizavam Yuri Gagarin, John Glenn (os dois primeiros a orbitar o planeta) e, principalmente, o satélite Telstar (o primeiro a enviar sinais de TV dos EUA para a Europa) queria-se dizer: em breve o mundo estará interligado por uma enorme rede de comunicação, a humanidade será uma só, as fronteiras e as diferenças esmaecerão e viveremos numa aldeia global.

Um estudante de comunicação reconheceria facilmente nessa projeção universalista da humanidade as ideias de Marshall McLuhan. Com um estilo que Barbrook chama de “populista”, cheio de “frases de efeito malucas”, McLuhan sintetizou a ideia de mundo globalizado. Carregando uma visão de progresso linear, este acadêmico canadense – que caiu no gosto da cultura popular e virou um oráculo do futuro globalizado norte-americano nos anos 1960 – atribuía à inovação tecnológica o motor da história. Como um vidente, McLuhan previa, em programas de televisão, o advento de uma “rede elétrica global” que criaria uma nova e melhor ordem social (Barbrook, 2009, p.113). A internet acabava de ser imaginada como a redenção de um futuro melhor.

Futuros imaginários mostra como as ideias de McLuhan – que também continham um naco de pessimismo – foram utilizadas para a concepção de uma ideologia futurista: o mcluhanismo. Em busca de credibilidade, os mcluhanistas baixaram o tom para um academicismo sóbrio. E, ao apagar os alertas de McLuhan sobre o uso e apropriação das novas tecnologias, o mcluhanismo se transformou na ideologia que preconizava o futuro imaginário da sociedade da informação, liderada pelos Estados Unidos. A inteligência artificial foi relegada a segundo plano. A grande dádiva da informática passou a ser a comunicação através de computadores. Mas essa não era uma ideia exclusiva a apenas um lado da disputa.

Junto à corrida armamentista e espacial, uma outra disputa entre EUA e URSS era travada sem estardalhaço: a "corrida para inventar a Rede" (Barbrook, 2009, p. 209). A Central Intelligence Agency (CIA) havia chegado à conclusão alarmante de que os russos estavam prestes a superar os Estados Unidos no desenvolvimento de máquinas e programas, construindo uma rede de computadores que operasse a defesa aérea de Moscou em 1956 (Barbrook, 2009, p. 208). Barbrook mostra que a disputa não era apenas pela construção da grande rede, mas, principalmente, pelos fundamentos que a guiariam e as possibilidades de reorganização social que ela abriria. Sob o reformismo de Kruschev, cientistas da computação russos passaram a ver na ideia de rede uma redenção libertária que verdadeiramente fizesse jus aos ideais comunistas da revolução de 1917, sufocados por Stalin. Mas essa espécie de mcluhanismo marxista logo foi sufocada pela volta do autoritarismo ao poder. Com o fim do reformismo e a desventura do projeto libertário da rede russa, a União Soviética acabou entregando o jogo do futuro imaginário de bandeja para o outro lado.

Nos EUA, o governo exigiu que se inventasse a internet antes que os russos o fizessem. O objetivo era garantir o controle e hegemonia do país sobre a profetizada sociedade da informação. Nas entrelinhas do discurso da Uniesfera, o que não podia ser claramente dito: a aldeia global seguiria o modelo apontado pelos Estados Unidos. O projeto era financiado pelo Departamento de Defesa e tinha também uma clara função militar: manter o controle e as estruturas de poder com uma rede que sobrevivesse a um ataque devastador. No entanto, a arquitetura da internet foi toda projetada nos moldes de um comunitarismo acadêmico-científico, cuja produtividade precisa do compartilhamento, e não da propriedade comercial do conhecimento. Essa estrutura aberta, descentralizada, era financiada pela estrutura hierárquica e autoritária dos militares.

Esse aparente paradoxo é desvendado de maneira brilhante por Barbrook e constitui o grande mérito de Futuros imaginários. Para ele, como para os líderes mais sensatos das duas superpotências, a Guerra Fria nunca seria decidida pela força bruta. A “força suave” da disputa no campo cultural, simbólico, poderia ser uma arma mais devastadora do que uma bomba atômica. O embrião da internet da década de 1960 era um produto do que Barbrook chama de “esquerda da Guerra Fria”, formada por intelectuais americanos originalmente de esquerda, muitos ex-trotskistas. Com a histeria anticomunista e a radicalização do debate, o marxismo passou a ser sinônimo de stalinismo, ser de esquerda era ser antipatriótico. A “esquerda da Guerra Fria” passou a defender uma alternativa tanto ao liberalismo econômico quanto ao stalinismo, pregando um capitalismo do bem-estar social. Com o Partido Democrata no poder, essa “esquerda” começou a atuar com muita eficiência como “força suave” contra o comunismo, denunciando as falhas do sistema soviético e acolhendo o mcluhanismo de braços abertos.

Feridos pelas críticas da contracultura nos anos 1970, esses intelectuais penderam para o neoliberalismo. Se para a contracultura a internet era um embrião do “comunismo cibernético”, para os novos liberais ela seria a epítome da sociedade da informação e do livre mercado. Porém, enquanto a prometida sociedade da informação vai sendo gestada, o poder fica nas mãos de uma nova elite: a classe do conhecimento e da inovação tecnológica, cuja morada é o Vale do Silício. Como há quarenta anos, o futuro computadorizado está logo ali, mas nunca vai chegar.

Para Barbrook, enquanto se passa de herdeira do mcluhanismo da contracultura e seu comunismo cibernético, a nova elite prega uma apropriação conservadora da ideologia da globalização e do livre mercado. Nessa visão, celebram-se as contribuições da internet para o livre mercado e teme-se que a revolução tecnológica propicie uma revolução social. Enquanto a fábula do turismo espacial renasce com o bilionário dono da Virgin e a inteligência artificial continua a ser sonhada por gurus tecnológicos, a internet se espalha pelo mundo, vista como uma tecnologia redentora. Para Barbrook, no entanto, ela é apenas uma ferramenta. Que pode ser muito útil para imaginarmos um futuro que não sirva como aparato de dominação do presente.

Futuros imaginários é uma grande obra política. Talvez, por isso, carrega excessivamente na imposição de visões de mundo, visões do futuro, de cima para baixo. Sem descartar a utilidade do conceito de ideologia, talvez fosse necessário perguntar: os futuros imaginários foram sempre construídos pela elite dirigente? Propostos, talvez. Concebidos, certamente não. Um estudo da circularidade entre cultura popular e alta cultura, que leve em conta as trocas culturais entre subalternos e a elite dirigente, na concepção e construção do mundo em rede ainda está por ser feito. Felizmente, a internet pode ser utilizada para que essa circularidade passe a ser cada vez mais horizontal, com as transformações sociais que ela pode suscitar num futuro que ainda podemos ousar imaginar.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

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A linguagem da exceção

Filólogo judeu que viveu na Alemanha nazista casado com uma ariana analisa o modo como o regime contaminou a linguagem cotidiana no país.

HÉLIO SCHWARTSMAN

LTI – A Linguagem do Terceiro Reich", de Victor Klemperer (1881-1960), até pode ser tachado como mais um livro sobre o nazismo, mas deve-se reconhecer que ele ocupa um lugar único nessa categoria. A razão da singularidade está na própria trajetória de Klemperer: professor universitário especializado no iluminismo francês, filho de rabino, convertido ao luteranismo e que passou a quase totalidade dos 12 anos de nazismo na Alemanha sem precisar esconder-se nem ter sido levado a um campo de concentração.
O "privilégio" se explica pelo fato de ele ser casado com uma ariana, o que, pelas leis de Nuremberg, lhe dava a possibilidade de viver nas "Judenhäuser" -as casas de judeus-, nas quais as pessoas eram submetidas a um regime brutal de trabalho escravo e proibições, mas tinham a chance de sobreviver.
Foi só no finzinho da guerra, após o fatídico bombardeio aliado a Dresden, cidade onde habitava, que o autor decidiu aproveitar o caos que se seguiu e o previsível colapso do nazismo para desfazer-se de sua estrela amarela e viver clandestinamente como se fosse ariano. Privado de livros e de quase tudo nos piores anos, Klemperer dedicou toda sua energia intelectual a escrever seus diários, hábito que cultivava desde 1919 e manteve até 1959. Peter Gay, biógrafo de Freud, o considerou o melhor escritor de diários em língua alemã.
Foi assim que Klemperer nos legou um meticuloso registro de tudo o que ocorreu à sua volta entre a ascensão e a morte de Adolf Hitler (1889-1945). Filólogo por formação, deu ênfase à questão da linguagem, de como a ideologia nazista contaminou o idioma alemão e as pessoas -incluindo judeus- que dele se serviam.
Passada a guerra, Klemperer optou por não publicar seus diários (que só ganharam edições nos anos 90, mais de três décadas após a morte do autor), preferindo usar os apontamentos para redigir a "LTI" ("Lingua Tertii Imperii", o título original é em latim). Vale observar que a bem feita e bem anotada edição brasileira tomou o cuidado de conservar o texto alemão nas passagens em que isso era relevante.
O olhar de um judeu
De maneira bastante hábil, Klemperer foi capaz de dar um sentido histórico às suas impressões, sem perder o aspecto anedótico, o valioso testemunho de um dos poucos judeus que puderam acompanhar de dentro e até o fim a transformação da Alemanha sob o regime nazista.
Sua perspectiva única nos permite tomar conhecimento de detalhes que passariam despercebidos pelo historiador, como a norma que proibiu os judeus de manterem animais de estimação -o que resultou no sacrifício de milhares de cães, gatos, passarinhos etc.
Após a guerra, Klemperer e sua mulher, Eva, voltaram para Dresden, onde ele se tornou destacada figura do mundo cultural da Alemanha comunista. As análises da linguagem feitas por Klemperer são absolutamente pertinentes e nos remetem mais para o campo da psicologia social do que o da linguística propriamente dita.
Um exemplo curioso é o da obsessão de Hitler -e, por conseguinte, de seus asseclas- pelo ineditismo e pela eternidade: "qualquer insignificância que servisse aos propósitos do regime passava a ser um ato "histórico". Qualquer discurso que o Führer proferisse se tornava "histórico", mesmo que ele repetisse cem vezes a mesma coisa (…) Eram "históricas" a vitória de um automóvel de corrida e a inauguração de uma estrada, de cada estrada e de cada trecho de estrada".
A semelhança com o discurso de personagens contemporâneos não chega a incomodar. Embora a mania pelo "histórico" possa fazer parte da linguagem totalitária, na análise de Klemperer ela denota antes um desejo do governante de mostrar-se seguro da perenidade de suas instituições.
Para o autor, o veneno específico do nazismo vem da combinação do antissemitismo racial (por oposição ao de matriz religiosa) com o romantismo: "Pois tudo o que interessa ao nazismo já está contido, em germe, no romantismo: o destronamento da razão, a animalização do ser humano, a exaltação da ideia de poder, do predador, da besta loura…".
Por esses e muitos outros "insights" e análises, "LTI" é um recurso único e bastante valioso para todos aqueles que buscam entender como e por que um dos mais civilizados e cultos países da Europa caiu no abismo em que caiu.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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Venezuela na mídia: dois pesos, duas medidas, um lado

RODRIGO MENDES
Com cloaboração de:
VALÉRIA NADER
GABRIEL BRITO

O editorial da Folha de S. Paulo do dia 30 de outubro é dessas peças de rara preciosidade, pois sintetiza tudo que a mídia grande conseguiu produzir como senso comum a respeito dos países que têm governos progressistas na América Latina, em especial da Venezuela.

O editorial da Folha de S. Paulo do dia 30 de outubro é dessas peças com rara preciosidade, pois sintetiza tudo que a mídia grande conseguiu produzir como senso comum a respeito dos países que têm governos progressistas na América Latina, em especial da Venezuela. O texto, intitulado "Convite ao tumulto", critica o fato de o Congresso brasileiro ter aprovado a entrada da Venezuela no Mercosul sem nenhum tipo de ressalva.

O editorial apresenta uma argumentação absolutamente frágil para essa aprovação: "pressões do Executivo e lobbies empresariais interessados em manter uma política de ‘boa vizinhança’". A conclusão que se tira ao se ler o texto é que o grande problema da Venezuela é Hugo Chávez. O editorial é claro ao afirmar "será Chávez, e não uma Venezuela abstrata, quem irá dispor de poder de veto sobra as decisões do Mercosul".

Nota-se que o editorial não é, em si, contrário à entrada da Venezuela no Mercosul. Aliás, a posição do jornal sobre isso só ficará mais clara duas páginas depois (ler mais adiante) – em mais uma matéria, como é o costume da Folha, em que o assunto é sua própria opinião e não um fato em si. Ou seja, o editorial apenas problematiza a questão da Venezuela e o que pode acontecer com o país sendo membro efetivo do bloco.

O destaque na manchete da Folha do mesmo dia, duas páginas depois do editorial, era a ausência de qualquer ressalva à entrada da Venezuela. Essa frase específica demonstra onde estava, para a Folha, a ênfase do debate. Segundo a lógica expressa ali, é claro que é preciso aprovar a entrada da Venezuela no Mercosul por conta do vultoso poderio econômico que seu petróleo traz ao bloco. Ainda mais em tempos de pré-sal.

Isso é o detalhe; o ponto central que a Folha quer focar são as ressalvas. Por conta de seu regime, por conta dos supostos atentados contra a democracia (aqui, ainda um ponto polêmico), enfim, por conta de Chávez ser um governo identificado como "de esquerda" – e afinal, nada pode ser mais ultrapassado que ser de esquerda.

A última edição da revista Veja também trouxe um texto sobre o assunto, novamente, como é seu costume, com críticas raivosas e babentas a Chávez. Isso chegou a ser tema de debate na redação do Correio da Cidadania, e decidimos não tratar da Veja nesse artigo, pois a idéia é debater jornalismo. Infelizmente, a Veja não se enquadra mais na categoria jornalismo.

Vizinha ao editorial de 30 de outubro, a coluna de Eliane Catanhêde – contumaz e conhecida crítica de Chávez – faz uma branda crítica à oposição demo-tucana ao governo federal por conta de sua polarização contrária à entrada da Venezuela no Mercosul. A articulista elenca uma série de argumentos favoráveis à entrada do país governado por Hugo Chávez que, segundo ela, são muito mais fortes do que o eventual ônus político que o presidente venezuelano traria ao bloco.

Chama atenção expressão usada por Catanhêde no final do primeiro parágrafo ao dizer que "nem mesmo discurso" tinha a oposição para querer barrar a entrada da Venezuela. Bom, se queria saber de onde se cria o discurso que baseia uma posição contrária à entrada da Venezuela, Eliane Catanhêde deve ter descoberto ao abrir a Folha daquela sexta-feira e ler, depois de olhar satisfeita para sua própria coluna, o texto à esquerda (geograficamente) do dela.

Pois esse editorial provê toda a munição que qualquer um precisa para criar um discurso contra a entrada da Venezuela no Mercosul. O texto afirma ainda que o regime venezuelano tem apenas "fiapos" de democracia, o que contribuiria para a situação supostamente já instável do bloco de integração.

Brilhantemente desmontada por uma de suas mais importantes articulistas, a Folha, ao lado da maioria dos grandes veículos de comunicação, é responsável por criar uma névoa com grande capacidade de ofuscar o que acontece na Venezuela. Não por acaso, esses mesmos veículos são muito importantes não só na construção desses argumentos utilizados pela oposição, mas pela aceitação desses argumentos.

Pois a criação de um senso comum de que a Venezuela tem uma "ditadura" (ainda que o termo seja empregado com extrema cautela e parcimônia, pois, por mais problemático que seja, o governo chavista, sob muito poucos critérios, pode ser considerado uma ditadura) e representa um retrocesso na democracia latino-americana, entre uma série de outros "problemas" de ordem interna e externa, é, em grande parte, oriunda muito mais da contra-propaganda jornalística do que de qualquer experiência real que o povo brasileiro tenha sofrido por causa do regime venezuelano.

Continua certa Eliane Catanhêde ao informar que a discussão em torno ao tema não é de ordem político-ideológica, mas muitos mais de ordem comercial. Ainda mais porque essa foi a motivação do governo brasileiro ao aprovar o tema, apontada no relatório final aprovado no Congresso. Em nenhum momento a base governista responsável por bancar a posição declarou qualquer simpatia ao governo venezuelano – nenhum crime aí. Apenas apontou a importância econômica que a Venezuela trará ao Mercosul.

Chávez sempre esteve em maus lençóis quando sob o foco da mídia brasileira – e costuma estar sob o foco, pois a cada passo seu é acusado de ser antidemocrático. Mas uma breve comparação feita na redação do Correio instala uma reflexão: quando esteve Álvaro Uribe, presidente colombiano que sempre fez tudo aquilo que Chávez é acusado de ameaçar fazer, sob os holofotes da mídia? Será Uribe, principal aliado declarado dos Estados Unidos na América do Sul, parceiro militar do exército estadunidense, alvo de julgamento tão criterioso dos senadores da República em uma eventual situação parecida?

A resposta virá quando, e se, a Colômbia pedir formalmente ingresso no Mercosul. Mas Uribe já tem larga vantagem. Ainda que, economicamente, seu país tenha uma significância muito menor que a Venezuela, seu presidente nunca foi acusado pela mídia brasileira de ser golpista nem antidemocrático. Na verdade, Uribe não é um fator de instabilidade sob o ponto de vista das elites e, consequentemente, da mídia grande.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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O beabá das mudanças climáticas

Efeito estufaQue é mudança climática?

O termo mudança climática se refere às variações das condições climáticas do planeta durante períodos relativamente prolongados.

De fato, o clima da Terra nunca foi estável e, dependendo de múltiplos fatores naturais – cuja inter-relação precisa é ainda tema de investigação dos cientistas -, as temperaturas médias globais ascenderam ou descenderam com certa periodicidade durante milhões de anos.

Atualmente, quando se menciona o termo, refere-se quase exclusivamente às aceleradas variações climáticas dos últimos anos, provocadas pela atividade humana.

A Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática do Rio de Janeiro – 1992 – utilizou o termo nesse sentido: "Por mudança climática se entende uma mudança do clima atribuída direta ou indiretamente à atividade humana que altera a composição da atmosfera mundial e que se soma à variação natural do clima observada durante períodos de tempo comparáveis".

Que é esquentamento global?

Com frequência empregado como sinônimo de mudança climática, o esquentamento global é o atual incremento das temperaturas atmosféricas médias de todo o planeta. Por exemplo, durante os últimos 100 anos (entre 1906 e 2005), a temperatura média do planeta se incrementou em 0,74 graus Celsius.

O fenômeno é provocado pela intensificação do efeito estufa, por causa da acumulação de gases na atmosfera que alteram o balanço radiativo do planeta.

Mudança climática

Que é efeito estufa?

O efeito estufa é o fenômeno de blindagem térmica produzido de forma natural pela atmosfera.

Os gases do efeito estufa bloqueiam parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre para o espaço. Justamente o desequilíbrio (térmico) entre a radiação eletromagnética que nosso planeta recebe do Sol e a que regressa de novo ao cosmos é o que permite que existam condições propicias para a vida na Terra.

Se não existisse a atmosfera, o planeta experimentaria bruscas flutuações climáticas, entre 80 graus Celsius de dia e -130 graus Celsius de noite.  A temperatura média seria de -18 graus Celsius em vez dos atuais 15 graus Celsius.

Já em 1820, Jean-Baptiste-Joseph Fourier explicou como a atmosfera é mais permeável à radiação solar incidente que à infravermelha, de maneira que pode conservar calor.

Anos mais tarde, John Tyndall identificou as moléculas responsáveis por dito efeito, particularmente do CO2 e do vapor de água.

Por sua parte, Svante Arrhenius mostrou como, ao multiplicar por dois a concentração de CO2, podiam se produzir significativas mudanças na temperatura terrestre.

Quais são as causas da intensificação atual?

Entre as causas naturais da variação do efeito estufa se contam as grandes erupções vulcânicas, os ciclos de atividade solar ou mudanças na concentração atmosférica de vapor de água, entre outros.

Não obstante, todos os dados indicam que o fator determinante no presente aumento das temperaturas globais é a mudança na composição atmosférica causado pelo homem mediante a emissão de gases, subproduto de atividades industriais e agropecuárias durante os últimos 150 anos.

Desde a época pré-industrial (1750), as concentrações atmosféricas de CO2 se elevaram de 280 ppm (partes por milhão) para 380 na atualidade.

Em conjunto, essa cifra ascende a 430 ppm, se se leva em conta o equivalente em CO2 de todos os gases de efeito estufa produzidos pela humanidade.

Quais são os principais gases do efeito estufa?

- Dióxido de carbono CO2: É gerado em sua maior parte pela combustão de combustíveis fósseis (petróleo, carvão), assim como – indiretamente – pela diminuição dos bosques, principais absorvedores de CO2, destruídos para obter mais terras para a agricultura e para a extração de  madeira.

- Metano CH4: Gerado pela extração de combustíveis fósseis, pela criação de gado, pelo cultivo de arroz, pela queima de biomassa.

- Oxido nitroso N2O: Gerado nos processos industriais, assim como pelo emprego de fertilizantes industriais e pelo desflorestamento.

- Diferentes gases que contêm flúor (hidrofluorocarbonos – usados em refrigeração -, perfluorocarbonos – produção de alumínio – e na indústria eletrônica)

O CO2, produzido pela combustão de combustíveis fósseis, contribui para o esquentamento global em 56,6%.  O gerado pelo desflorestamento, em 17,3%.   O metano CH4,  em 14,3%.  O óxido nitroso N2O,  em 7,9%.

Que futuro nos espera?

Com maior ou menor intensidade, a mudança climática já afeta negativamente a toda a humanidade, e continuará afetando – dependendo do tipo de ações que se adotem – quanto ao acesso à água potável, a produção de alimentos, a saúde, a estabilidade dos ecossistemas, entre outros.

Mas, ainda que seus futuros – e mais intensos – efeitos se sentirão em todo o planeta, será a população dos países mais pobres a que suportará os maiores impactos devido a uma menor capacidade de mitigar as mudanças e de se adaptar a elas.

Se não se adotarem ações efetivas – segundo o principio de responsabilidades compartidas, mas diferenciadas -, a concentração atmosférica de CO2 poderá duplicar-se com respeito aos níveis pré-industriais em 2035, o que implica a curto prazo um incremento das temperaturas médias de uns 2 graus Celsius.

A médio e longo prazo, esse aumento poderia alcançar os 5 graus Celsius, aproximadamente a mesma diferença existente entre as temperaturas da última era glacial e a presente.

Essas alterações climáticas globais trariam como consequência uma mudança na geografia física do planeta.

Por exemplo, poderiam provocar um aumento do nível dos mares de pelo menos entre 15 e 95 centímetros para o fim do século, pelo descongelamento das massas de gelo árticas e antárticas, incluindo as da Groenlândia.

O desaparecimento dos gelos de muitos pontos glaciais de outras regiões ameaçará diretamente com a escassez de água a um sexto da população mundial, particularmente na Índia, na China e na região andina sul-americana.

Doenças atualmente consideradas tropicais poderão afetar uma maior parte da população mundial.

Só 2 graus Celsius de incremento pode levar à extinção de até 40 por cento de todas as espécies animais ou vegetais do planeta. As águas oceânicas ficarão ácidas como resultado do incremento das concentrações atmosféricas de CO2  e isso terá sérias consequências adversas sobre toda a vida marinha.

Em geral, é quase certo que se incrementem os eventos meteorológicos extremos como secas, inundações e ciclones; com consequências letais para milhões de seres humanos.

Que se pode fazer a respeito?

O único caminho para minimizar os efeitos negativos que inevitavelmente se enfrentarão é cortar o mais possível – e o quanto antes – as emissões globais de gases do efeito estufa, pois os danos ambientais não conhecem fronteiras políticas.

Para isso, é imprescindível a cooperação internacional segundo o principio de responsabilidades compartidas, mas diferenciadas.

Torna-se imprescindível a adoção de políticas enérgicas e a criação de novas tecnologias tanto na geração e no uso da energia elétrica como no setor do transporte.

A combinação das vontades políticas e dos avanços técnicos devem permitir, de inicio, deter o aumento das emissões desses gases e, a médio prazo, reduzi-las ou inclusive eliminá-las.

Nesse aspecto se destaca o desenvolvimento e o emprego de fontes renováveis de energia naqueles lugares em que seja possível e economicamente fatível.

Outras labores incluem trabalhos de reflorestamento para aumentar global e localmente a biomassa capaz de capturar CO2 e a implantação de estratégias com um menor impacto ambiental no uso das terras.

Impõe-se, ademais, a adoção de planos de adaptação às mudanças climáticas que se aproximam, e já são sofridas, de maneira que seu impacto direto ou indireto sobre a vida das pessoas seja mínimo.

Que é o protocolo de Kioto?

Até o momento, o melhor instrumento vinculante internacional que se logrou para frear o esquentamento global é o Protocolo de Kioto, alcançado em 1997 pela esmagadora maioria da comunidade internacional. Entrou em vigor em 2005.

Estabelece compromissos para reduzir em 5% as emissões com respeito aos niveis de 1990 no período 2008-2012.

Sua entrada em vigor é até o momento o maior logro alcançado na cooperação internacional para o combate à mudança climática.

Estados Unidos, o país que mais contamina o planeta, não aderiu. Tampouco aderiram Canadá, Austrália e Nova Zelândia.  Japão ainda falta ratificá-lo.

Nestes momentos, a comunidade internacional enfrenta o desafio de lograr um novo acordo que o substitua. Esse deverá ter em conta a diversidade de interesses resultantes de realidades diferentes, principalmente entre as nações mais ricas e desenvolvidas – que emitem mais gases de efeito estufa e onde habita a minoria da população mundial -, e os países menos desenvolvidos.

Quem são os principais responsáveis pelo esquentamento global?

Toda vez que as tecnologias desenvolvidas até o presente vinculam necessariamente o crescimento econômico a uma maior atividade industrial geradora de gases de efeito estufa, são os países industrializados – com apenas 20% da população mundial – os responsáveis por 60% das emissões anuais de CO2.

Globalmente, o emissor mais importante é Estados Unidos, que produz mais de 20% do total mundial.

As emissões de países com economias emergentes, mesmo tendo crescido durante os últimos anos, ainda se encontram longe de alcançar a dos países mais ricos.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Grandes grupos ocupam espaço das famílias em usinas

Durante décadas, eles protagonizaram uma história cheia de sucesso e polêmica em uma das atividades mais antigas do Brasil: a produção de açúcar e álcool. Desenvolveram o maior e mais eficiente programa de biocombustível do mundo, fizeram fortuna, ganharam os holofotes do mercado internacional e despertaram a cobiça de megainvestidores. Agora, famílias tradicionais, cujo sobrenome virou sinônimo da indústria sucroalcooleira, começam a se tornar meros coadjuvantes de uma história que volta a ser reescrita e tem como mote a concentração e os ganhos de escala.

O mais recente capítulo dessa nova fase do setor é a megatransação entre a Santelisa Vale – das famílias Biagi e Junqueira Franco – e a Louis Dreyfus Commodities (LDC) Bioenergia. Com a operação, a gigante francesa passa a ter 5,1% do setor e sobe ao segundo lugar no ranking dos maiores grupos do País. A LDC perde apenas para a Cosan (9,3%), a maior produtora de açúcar e álcool do mundo, da família Ometto, que se uniu ao Grupo Nova América, dos Resende Barbosa.
Em menos de uma década, a participação dos cinco maiores grupos do setor subiu de 12% para 21,54%. Em cinco anos, esse número pode chegar a 40%, avaliam especialistas. O avanço alcançado até agora foi resultado de 99 fusões e aquisições entre 2000 e 2009 na indústria sucroalcooleira, segundo dados da consultoria KPMG.
Nesse processo, famílias como Junqueira Franco, Biagi, Vieira, Tavares de Melo e Resende Barbosa cedem seus lugares a novos personagens. Entre eles, Dreyfus, Tereos, ETH (da Odebrecht), Bunge, Cargill e Adecoagro (do megainvestidor George Soros), além da gigante Cosan. Nos próximos meses, alguns deles vão fazer barulho em três grandes negócios em andamento no setor.
Os grupos Moema, Equipav e Brenco, responsáveis pela moagem de mais de 20 mil toneladas de cana, devem ser comprados ou incorporados. A americana Bunge é a mais cotada para levar a Moema, de Maurílio Biagi, e a ETH já assinou memorando de entendimento de fusão com a Brenco. No caso da Equipav, pelo menos nove empresas, entre elas a Bunge, são candidatas a aquisição dos ativos.
"Todo mundo está de olho na gente. Somos um dos melhores ativos do País", avalia Maurílio Biagi Filho, sócio da Moema, o quinto maior grupo do setor. O usineiro é irmão de Luiz e André Biagi, que venderam a Santelisa para a Dreyfus. Se o negócio com a Moema for fechado, o clã Biagi, cuja primeira usina foi fundada em 1931, praticamente passa a ter uma participação minoritária no setor. "Ainda temos umas usininhas por aí", comenta Maurílio.
Ele acredita que a tendência de consolidação deve continuar nos próximos anos, mas dificilmente o setor será concentrado como nos demais segmentos. Hoje a indústria de açúcar e álcool conta com mais de 400 usinas comandadas por mais de 200 grupos, diz o diretor da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Eduardo Leão

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Pensar a escola, uma aventura de 2500 anos

Tão antigo quanto a filosofia, o pensamento educacional se desdobra em várias correntes, mas suas raízes estão fincadas na Grécia antiga.

A Evolução do Pensamento Pedagógico. Ilustração: Milton Rodrigues Alves

A EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO PEDAGÓGICO.
Clique para baixar o infográfico em PDF.

Por trás do trabalho de cada professor, em qualquer sala de aula do mundo, estão séculos de reflexões sobre o ofício de educar. Mesmo os profissionais de ensino que não conhecem a obra de Aristóteles (384-322 a.C.), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) ou Émile Durkheim (1858-1917) trabalham sob a influência desses pensadores, na forma como suas idéias foram incorporadas à prática pedagógica, à organização do sistema escolar, ao conteúdo dos livros didáticos e ao currículo docente.

Antes mesmo de existirem escolas, a educação já era assunto de pensadores. Um dos primeiros foi o grego Sócrates (469-399 a.C.), para quem os jovens deveriam ser ensinados a conhecer o mundo e a si mesmos. Para seu discípulo Platão (427-347 a.C.), o conhecimento só poderia ser alcançado num plano ideal e nem todos estariam preparados para esse esforço. Aristóteles, discípulo de Platão, inverteu as prioridades e defendeu o estudo das coisas reais como um meio de adquirir sabedoria e virtude. O sistema de ensino que ele preconizou era acessível a um número maior de pessoas.
Duas vertentes
O quadro de afiliações filosóficas que você encontra anexado à capa desta edição se baseia no princípio de que as duas tendências (a idealista, de Platão, e a realista, de Aristóteles) podem ser traçadas em toda a história da filosofia no Ocidente – esse é um critério possível, mas não absoluto. Mesmo quando dominada pelo cristianismo, durante a Idade Média, a educação experimentou as vertentes idealista e realista, uma seguida da outra, de acordo com os postulados de Santo Agostinho (354-430) e de Tomás de Aquino (1224/5-1274).

No século 14, a Europa havia se voltado de novo para o saber clássico. O feudalismo cedeu lugar a Estados nacionais, e as universidades, embora fiéis à teologia, passaram a dar atenção também ao conhecimento científico. Começava o humanismo. Filósofos como o holandês Erasmo de Roterdã (1469-1536) valorizaram a capacidade do ser humano de moldar a si mesmo por meio da leitura e da liberdade de conhecer.
Praticamente ao mesmo tempo, o fundador do protestantismo, Martinho Lutero (1483-1546), criou as bases da educação pública e universal. Em nome do direito de todos de ler e interpretar a Bíblia por si mesmos, o monge alemão deixou um legado duradouros na história do ensino. A Igreja Católica reagiu com uma ofensiva dos jesuítas, cujo ensino se baseava em rígida disciplina intelectual e física.
No século 17, enquanto o absolutismo triunfava como forma de governo numa Europa que se subdividia em Estados cada vez menores, religião e razão tentavam conviver na cultura. O grande nome racionalista no campo pedagógico foi o do tcheco Comênio (1592-1670), que previu um ensino que respeitasse a capacidade e o interesse do aluno sem severidade.
O século terminou com o despontar do liberalismo, no pensamento do inglês John Locke (1632-1704), convicto de que as idéias nascem da experiência e não são inatas no ser humano. Os 100 anos seguintes ficaram marcados pela consagração dos direitos civis – liberdade, privacidade, propriedade e igualdade. Para os pensadores da época, a sociedade moderna seria aquela em que as luzes da razão se acenderiam em cada um para usufruir desse aprendizado individual.
Tanta fé na civilização e na adaptabilidade do ser humano irritou alguns filósofos, para quem a humanidade mais perdeu do que ganhou ao se afastar da natureza. Por isso, missão urgente era preservar as crianças da "influência corruptora" da sociedade. O nome-chave dessa escola é o suíço Rousseau, que reconstruiu a figura da criança como um ser em processo. Friedrich Froebel (1782-1852), herdeiro da tendência naturalista, projetou a educação dos menores de 8 anos, procurando cuidar deles sem desrespeitar sua evolução espontânea.
Com a Revolução Francesa, em 1789, a escola tornou-se a instituição que garantiria certa homogeneidade entre os cidadãos e daí, pelo mérito, a diferenciação de cada um. A educação se expandiu por toda a França. O auge da crença nesse consenso social se encontra no pensamento do sociólogo francês Durkheim, para quem a sociedade era a materialização de uma consciência coletiva.
Aceita a idéia de que a criança na escola está num processo de desenvolvimento a ser respeitado e estimulado, a garantia para que isso aconteça foi enfatizada pelos postulados da Escola Nova, que se desenvolveu no final do século 19. Um grande representante do método tradicional foi o educador alemão Johann Friedrich Herbart (1776-1841), com sua didática baseada na direção do professor e na disciplina interna do aluno.
A Escola Nova deu impulso ao desenvolvimento de práticas didático-pedagógicas ativas. Um de seus representantes é o norte-americano John Dewey (1859-1952), que pregou a democracia dentro da escola. O movimento escolanovista representou também uma adequação educacional ao crescimento urbano e industrial. Um de seus pilares foi a identificação dos métodos pedagógicos com a ciência. Inseriram-se na crença em uma "pedagogia científica" tanto Maria Montessori (1870-1952) como o belga Ovide Decroly (1871-1932). A médica e educadora italiana buscou os princípios de uma auto-educação motivada por materiais pedagógicos.
Construtivismo
Ainda que originária de outro meio, a obra do biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) de certa forma deu prosseguimento às investigações da Escola Nova sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças e dos adolescentes. Suas descobertas marcaram a pedagogia no século 20 mais do que o trabalho de qualquer outro pensador. Entre os seguidores do construtivismo, como ficou conhecida a doutrina de Piaget, está a argentina Emilia Ferreiro, muito influente no Brasil.
Paralelamente, em consonância com as idéias socialistas do alemão Karl Marx (1818-1883), vários pensadores de esquerda desenvolveram idéias especificamente pedagógicas, como o russo Anton Makarenko (1888-1939), que defendeu uma ligação maior entre produção e escola. O bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) levantou a tese da gênese social do psiquismo, estruturada por meio de um sistema de signos. E o educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997) alcançou largo reconhecimento internacional por um método centrado na necessidade de consciência social e na importância do "outro".
Em países da Europa Ocidental, o chamado Estado de bem-estar social assumiu uma função reguladora das desigualdades e assumiu mais do que nunca a missão de educar. Nesse contexto, uma importante linhagem de pensadores críticos questionou concepções arraigadas sobre o papel da escola, a organização do conhecimento e as noções de inteligência, entre outras. Fazem parte dessa geração intelectuais como os franceses Edgar Morin, Pierre Bordieu (1930-2002) e Michel Foucault (1926-1984) e o norte-americano Howard Gardner, que causou impacto no meio pedagógico no início dos anos 1980 ao defender a idéia das inteligências múltiplas.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

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Balança, mas não cai

IDEIA DE QUE OS MERCADOS SÃO MAIS EFICIENTES SE POUPADOS DE INTERVENÇÕES JÁ ERA OBJETO DE CRÍTICA MESMO DE ECONOMISTAS "ORTODOXOS" DESDE OS ANOS 80, MAS AINDA ASSIM UMA VERSÃO ATRASADA E SIMPLIFICADORA DA TEORIA ECONÔMICA DOMINOU O DEBATE ATÉ O COLAPSO FINANCEIRO DO ANO PASSADO.

Os gélidos e imperturbáveis autores dos relatórios do consórcio dos bancos centrais há quase três anos apontavam a precariedade dos modelos financeiros
A recessão, o efeito simbólico da "confissão’ de Greenspan e a fúria quase geral contra ricos e banqueiros provocaram um curto verão de anarquia mesmo entre os defensores do "capitalismo"

VINICIUS TORRES FREIRE

Faz quase um ano, Alan Greenspan confessava que "errara, sim", manchando assim o seu nome de "maestro", quiçá "condottiere" da finança mundial, socado no canto de um ringue de debates retóricos sobre a infalibilidade dos mercados, o Congresso dos EUA. Greenspan foi presidente do Fed, o banco central norte-americano, de 1987 a 2006, "a era do capital financeiro", mais ou menos o mesmo período que o Nobel de Economia Paul Krugman e adeptos classificaram de "a era das trevas da macroeconomia".
Nesse outubro de 2008, num depoimento a uma comissão da Câmara dos deputados americana, espremido por políticos agressivos, dizia que "encontrara uma falha" nas suas crenças a respeito do mercado. O velho banqueiro central falava menos de um mês depois da falência em série de grandes instituições financeiras nos EUA e na Europa, em setembro, quebras seguidas de várias estatizações e doações mais ou menos disfarçadas de dinheiro público a bancos e similares.
A recessão, o efeito simbólico da "confissão" de Greenspan e a fúria quase geral contra ricos e banqueiros provocaram um curto verão de anarquia mesmo entre os defensores do "capitalismo". Mas qual "pecado" Greenspan confessou? A quebra da finança em setembro de 2008 foi uma epifania?
O que ele obliquamente "admitia" como erro já não era objeto de críticas mesmo nas discussões acadêmicas da economia padrão, a dominante nas grandes universidades americanas, e mesmo entre gente do mercado financeiro que também se dedica a pensar a sua atividade?
"Aqueles de nós que contávamos com o autointeresse das instituições de empréstimo para proteger o capital dos acionistas (eu especialmente) estão chocados e não conseguem acreditar [no que houve; Greesnpan usou a expressão "shocked disbelief’]. A vigilância da contraparte é um pilar central dos nossos mercados financeiros", disse Greenspan aos parlamentares.
Na verdade, ele havia escrito tal coisa já em março de 2008. Diante dos políticos, avançou ao usar as palavras "falha" e "erro" ao comentar sua crença na autorregulação dos mercados. Trocando em miúdos, Greenspan sempre se opôs (de modo politicamente ativo, aliás) a que o Estado regulasse mercados demais. Acreditava que as partes de um negócio vigiariam umas as outras ao fazer boas avaliações de risco e ao exigir bons preços, garantias e seguros.
Mas, como perguntou Greenspan no seu discurso, o "que deu errado com as políticas econômicas globais que tinham funcionado tão efetivamente por quase quatro décadas?" Em resumo, Greenspan respondeu que houve um erro no uso dos modelos de avaliação de risco, que foram abastecidos com dados errados, e que a natureza humana é dada a ganância e a ciclos de euforia e medo, como atestariam as bolhas dos últimos três séculos. Não foi muito além; mas afirmou que o conceito de autorregulação ainda era essencial.
Confiança crescente
Ainda em 2002, entre o fim da bolha da internet e o começo da bolha imobiliária, Greenspan discursava assim para economistas britânicos: "Nos mercados de hoje, por exemplo, há uma crescente confiança na vigilância da contraparte privada como instrumento fundamental de controle financeiro. Governos complementam a vigilância privada quando julgam que imperfeições do mercado poderiam provocar um desempenho econômico subótimo".
"Ninguém pode negar que participantes do mercado com informação perfeita ["fully informed’] vão gerar a precificação dos recursos mais eficiente e a alocação de capital mais perfeita… e a estrutura de preços refletiria mais precisamente o equilíbrio subjacente entre oferta e demanda."
Greenspan está a dizer que os mercados definem os melhores preços (de ativos financeiros, bens etc.) e, assim, orientam o melhor emprego do capital. Que intervenções estatais excessivas (quase todas) distorcem tal alocação. Em suma, que é praticamente impossível discernir exageros no mercado, tal como bolhas (se fosse possível prevê-las, diz a teoria, o mercado se anteciparia e detonaria antecipadamente a bolha, se é que ela viria a ser inflada).
De modo oblíquo, refere-se à hipótese do mercado eficiente, fundamento da economia das finanças desde os anos 70. Tal teoria, grosso modo, diz que o preço de ativos financeiros reflete toda a informação disponível e relevante no mercado; que, na média, o mercado corretamente estipula tais preços e se autocorrige.
No entanto, pelo menos desde os anos 80, mesmo no circuito da economia padrão ("mainstream", "ortodoxa"), tais modelos são objeto de crítica. Antes de se tornar estrela pop da crítica à mundialização, Joseph Stiglitz escreveu trabalhos sobre os paradoxos e o excesso de pressupostos inconfiáveis (e portanto irrealistas) dessas hipóteses, trabalhos que lhe renderam um Nobel.
Antes disso, havia literatura vasta e variada sobre "falhas de mercado" (de Paul Samuelson a Kenneth Arrow). Os "economistas comportamentais" já estavam em voga desde os anos 90. Richard Thaler e Robert Shiller, entre muitos outros, faz tempo observavam "comportamentos de manada" ("maria vai com as outras"), entre outros traços de psicologia de massa. Outros trabalhos teóricos chamaram atenção para o aspecto irracional de escolhas individuais. Se não bastasse a massa de trabalhos críticos, houve no mínimo um grande estouro de bolha financeira que poderia ter servido como alerta, a da internet, em 2001-02.
Debates políticos
São raros, porém, os economistas "mainstream", "comportamentais" inclusive, que jogam no lixo toda a hipótese dos mercados eficientes. De resto, a finança não define suas estratégias de acordo com todas as finuras teóricas do dia.
Os debates políticos sobre regulação financeira, por sua vez, não são orientados por detalhes da pauta acadêmica e muito menos assim decididos. No entanto, uma versão dita atrasada e além do mais simplificada da teoria econômica "mainstream" dominou o "espírito do tempo" e permeou a pregação política dominante sobre economia, mercados e finanças até que um colapso financeiro a colocou em xeque.
Ainda no círculo da teoria "mainstream" (no campo da economia política), há explicações para tanto. Simon Johnson, professor do MIT, entre outros, observa por exemplo que as instituições financeiras tornaram-se grandes demais para serem reguladas -isto é, seu poder político faz com que elas "capturem" (dominem) as autoridades responsáveis por fiscalizá-las e regulá-las.
Mas a crise financeira e a desmoralização da ideia do mercado autorregulado influenciam em quanto o debate econômico? Afinal, a maioria dos economistas "mainstream" não atentou para a iminência da crise (embora, curiosamente, os gélidos e imperturbáveis autores dos relatórios do Bank for International Settlements, o consórcio dos bancos centrais, há quase três anos apontavam a precariedade dos modelos financeiros e dos riscos crescentes de estouro financeiro).
Até meados deste ano, a querela pública entre neokeynesianos (à moda americana) e "hiperliberais" vinha em tom baixo e discreto (diga-se de passagem que, no Brasil, esses neokeynesianos seriam chamados de "neoliberais"). Em julho, a revista "The Economist" publicou um resumo das polêmicas recentes. O Nobel Robert Lucas, da Universidade de Chicago, patrono dos hiperliberais, respondeu em artigo na revista às críticas de economistas como o Nobel Paul Krugman, secundado por gente como Robert Barro. Brad DeLong, escudeiro de Krugman, rebateu a seu modo "slob" [descuidado] e pesadamente sarcástico.
O debate é, sob certo aspecto, um debate político americano, a respeito do tamanho da intervenção do Estado, por meio de gastos, subsídios a bancos e regulação, com o objetivo de tirar o país do pântano da crise.
Grosso modo, de modo muito simples, os neokeynesianos acreditam que os mercados são imperfeitos e ineficientes, e que o governo vez e outra deve intervir ao menos para corrigir suas falhas e "ataques de pânico", como em grandes recessões ou depressões.
Mas a polêmica revela também divisões profundas nos templos e entre os sacerdotes da teoria econômica mundial padrão, que se imaginava muito perto de um "consenso", com diferenças marginais (como gosta de dizer e escrever Olivier Blanchard, do MIT).
Obviamente, não será em polêmicas jornalísticas que haverá um acerto de diferenças. Mas a violência e o tom amargo da querela tende a chamar a atenção de universidades, estudantes, financiadores de pesquisas e, enfim, deve influenciar a política acadêmica, que tem seu papel na definição de reorientações teóricas.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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O ki vc acha do internetês?

Ñ possu fik nm + 1 min com vc
sintu mt mô + naum podi sê
moru em jaçanãnnnn
xi eu perdê essi trem
ki sai agora as 11 hr
só amanhã di manhã

MANUEL ALVES FILHO

O compositor Adoniran Barbosa, nome artístico do valinhense João Rubinato, jamais poderia imaginar que uma das suas mais conhecidas obras, a música Trem das Onze, clássico do cancioneiro popular brasileiro composto em 1965, um dia seria traduzida para o internetês. Mas foi. A nova linguagem, própria do mundo virtual, ganha proporção à medida que novas levas de pessoas são incluídas no espaço digital. Por conta desse avanço, despontam na web comunidades linguísticas favoráveis e contrárias a essa forma de expressão grafolinguística. “Há um movimento de identificação com esse tipo de linguagem e com o modo como ele é usado no âmbito da informatização, embora também seja possível identificar resistências a ele”, analisa Marisa Ganança Teixeira da Silva, que defendeu recentemente tese de doutorado sobre o tema. O trabalho, orientado pela professora Suzy Lagazzi Rodrigues, foi apresentado no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp.

Em seu estudo, Marisa procurou compreender os modos de funcionamento do internetês, da língua portuguesa e da língua brasileira no espaço digital, bem como os gestos de interpretação daí advindos. A preocupação em diferenciar a língua portuguesa da brasileira vem da compreensão da autora, fundamentada na obra da professora Eni Orlandi, também da Unicamp, de que a língua falada e escrita atualmente no país é muito distinta da existente em Portugal, em função dos processos de significação e das mudanças que experimentou ao longo do tempo. “Fundamentei minha pesquisa na teoria da Análise do Discurso, visto que queria considerar não apenas as linguagens em si, mas principalmente seus sentidos”, explica.

No entender de Marisa, o internetês é uma linguagem específica do mundo virtual. O emprego do computador e de programas de edição de texto, afirma, contribui para a constituição de sentidos. “A especificidade do instrumento tecnológico induz à utilização de uma linguagem própria, mais informal e, portanto, mais fluida. Nesse tipo de linguagem, a brincadeira é permitida”, considera. Nesse sentido, a autora estabelece uma diferenciação entre os gestos de teclar e digitar. O primeiro, diz ela, remete ao internetês, que é favorecido pelo uso de símbolos e caracteres presentes no teclado, cuja função é criar atalhos para a transmissão da mensagem. O segundo está relacionado à linguagem formal, orientada pelas normas ortográficas e gramaticais. Neste, não há lugar para brincadeiras. “Entretanto, os dois tipos de linguagens atuam no mesmo espaço e estabelecem relações entre si”, atesta

Durante a pesquisa, Marisa investigou 42 comunidades virtuais abrigadas no site de relacionamento Orkut. Destas, sete tratavam sobre a língua portuguesa, quatro defendiam a existência da língua brasileira, uma era contrária a esta língua brasileira, 13 eram favoráveis ao internetês e outras 17 faziam oposição ao uso deste último. “Eu analisei diversos aspectos relacionados a essas comunidades. Considerei desde as suas denominações até as formulações e propostas nelas contidas. Foi interessante notar que a relação entre línguas e linguagens deixa entrever um processo de identificação com a língua nacional. No funcionamento dessas línguas e linguagens no âmbito da internet, os sentidos produzidos carregam os sentidos inscritos na memória discursiva da constituição do Brasil como nação”, reflete.

Numa das comunidades que defendem o internetês, Marisa deparou com a proposta de criação de um dicionário português/internetês. Também encontrou sugestões de tradução de poemas e músicas para a nova linguagem, como no caso da canção de Adoniran Barbosa. “Na versão que encontrei na web, é interessante perceber que essa linguagem própria do espaço virtual também traz marcas do chamado português formal, como a observância às regras de acentuação. Ao mesmo tempo, é uma linguagem que brinca com as normas ditas cultas, na medida em que cria palavras não consagradas pelos dicionários”, afirma Marisa.

Ainda nessa linha, a autora da tese observa que, ao contrário da visão tradicional, segundo a qual a tradução de um texto requer uma rigorosa prática de interpretação, no internetês são permitidas variadas traduções de um mesmo texto. “Essa diversidade nos leva a concluir que o objetivo não é sanar a completude da linguagem ou tentar entender o texto. Antes, é uma brincadeira com a língua; um gracejo com a sonoridade e com a oralidade da língua”, acrescenta Marisa. Embora não tenha abordado esse aspecto em sua tese, a especialista revela que tende a concordar com aqueles que consideram que o internetês não produzirá uma interferência significativa na língua formal, ainda que esse tipo de linguagem seja utilizado ocasionalmente por estudantes em sala de aula, associado com o português.

Marisa reforça que o internetês é propiciado principalmente por conta do uso do computador e dos recursos oferecidos pelo teclado e pelos programas de edição de texto. Sem essas ferramentas, ele perde, por assim dizer, muito da sua constituição. “Além do mais, até que ponto as pessoas vão continuar querendo usar o internetês da forma como o conhecemos hoje? Como essa linguagem oferece muitas possibilidades, é razoável imaginar que os adeptos dela vão desejar inovar, o que os levará a criar outras maneiras de comunicar o que pensam”, infere.

De acordo com a pesquisa desenvolvida por Marisa, os smileys podem ser considerados os precursores do internetês, dado que eles se prestam a uma linguagem abreviada e universal. O internetês, de acordo com a pesquisadora, foi criado para a troca de arquivos e bate-papos no meio virtual. “A utilização dos smileys tanto em conversas informais quanto em discussões de grupos me leva a compreender a relação com o surgimento dessa nova forma de linguagem. Também me leva a considerar a relação do internetês não com uma língua específica, mas com qualquer outra língua”, finaliza a autora do trabalho.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Múltiplas escolhas

Mais de dez tipos e combinações de calças, mais de 200 marcas de biscoitos, 70 de chás, 40 de pastas de dente. O aumento de produtos nos traz a dúvida: estamos consumindo o melhor?

Na próxima vez que for ao supermercado, repare quantas marcas de cereais, saladas, frios, iogurtes, sopas, macarrão, farinha e refrigerante você vê. Sem contar com os vários produtos das alas de brinquedos, roupas, calçados e eletroeletrônicos. A globalização, a industrialização, a modernização e a concorrência dos mercados nos levaram a ter mais de 200 marcas de biscoitos, 70 de chás, 100 tipos diferentes de televisão e 50 de DVDs, além das inúmeras peças para aparelhos de som e home theater.

Também recebemos ofertas de prestação de serviço, como de telefonia – para perto, para longe, fixo, móvel, pré e póspagos. Temos vários tipos de planos de saúde, aposentadoria e opções de programas educacionais e universidades. Graças à evolução do mundo digital, podemos ficar conectados a qualquer canto do mundo 24 horas por dia.

Tantas são as opções que até constituir uma família se tornou uma escolha: se casar, quando casar, ter filhos, quando ter filho, quando é mais vantajoso? Daqui a pouco, com os avanços da genética, também será possível escolher o tipo de filho. Com toda essa diversidade de opções, passamos a acreditar que vivemos na melhor época de todas. Afinal, liberdade implica escolhas. Logo, mais possibilidades de escolhas implicam mais liberdade e, assim, mais felicidade. Errado.

Ao contrário do que todo mundo pensa, essa infinidade de combinações e produtos traz mais insegurança, arrependimento, depressão e infelicidade. Essa é a tese de Barry Schwartz, professor de psicologia da Faculdade de Swarthmore (Estados Unidos), em seu livro mais recente, The paradox of choice: Why more is less (O paradoxo da escolha: por que mais é menos).

Já parou para pensar que, há alguns anos, você entrava numa loja e, em um minuto, comprava uma calça jeans? Hoje, ao deparar com uma vendedora, você é obrigado a escolher o corte, o estilo, os botões, o zíper, o bolso, a barra e o tipo de jeans, entre outras opções. E o que é pior: mesmo fazendo tantas escolhas, você chega a sua casa e percebe que a calça não tem o caimento que você desejava.

Segundo os cientistas sociais Robert E. Lane, da Universidade de Yale (EUA), e David G. Myers, da Hope College (EUA), os norte- americanos, embora tenham a tecnologia a seu favor, hoje são muito mais infelizes que as gerações passadas. Em estudo, eles perceberam que em 30 anos a quantidade e a variedade de produtos aumentaram.

Em contrapartida, no mesmo período, o número de pessoas se classificando como "felizes" diminuiu – uma queda de 5%, equivalente a 14 milhões de indivíduos. E o mais grave: muitas foram diagnosticadas como depressivas.

As conclusões da pesquisa foram que, à medida que aumenta a quantidade de opções, o índice de satisfação decai. Isso em vários campos pesquisados, como o de relacionamentos (quanto maior o número de pessoas nos eventos de "speed date", menos casais se formam), de aposentadoria (mais planos implicam menos adesões) e de saúde (maior número de medicamentos faz com que o paciente fique insatisfeito: 65% deles querem se encarregar de escolher seu tipo de tratamento, caso sejam diagnosticados com câncer).

Foram identificados alguns fatores psicológicos para explicar essa conclusão. Primeiro, o excesso de opções faz com que as pessoas queiram – e gastem mais tempo para – pesquisar as informações necessárias para fazer a melhor escolha. Numa era em que tempo é dinheiro, quem tem tempo para verificar qual é a melhor escola, o melhor plano de saúde, de aposentadoria e de telefonia?

Pesquisas mostram que um leque maior de opções aumenta as chances de arrependimento. Aqueles que tendem a ter esse tipo de sentimento começam a pensar nas alternativas que deixaram passar e que muitas delas poderiam ter sido melhores opções. Essas pessoas geralmente são mais infelizes, pessimistas e deprimidas. Preocupar-se com o arrependimento futuro é o principal motivo pelo qual as pessoas ficam obcecadas em tomar a melhor decisão.

Imagine que você comprou um par de sapatos caríssimos e descobre que não consegue ficar com eles nos pés por mais de dez minutos. O que você faz? Joga os calçados no lixo ou deixa-os guardados no fundo da sapateira? Desfazer-se deles é uma tarefa árdua, já que você teria de reconhecer que errou. Quanto mais opções se tem, mais as pessoas estão propensas a sentir a responsabilidade de não ficar em desvantagem. Esse peso também culmina nos sentimentos de arrependimento e desapontamento.

Você é uma pessoa satisfeita ou obcecada?

Leia as sentenças a seguir e responda o quanto você concorda ou não. Atribua uma nota de um a sete, sendo que um significa "discordo completamente" e sete, "concordo completamente".

1. Quando estou diante de uma decisão, tento imaginar todas as possibilidades, mesmo aquelas que não estão presentes no momento.

2. Não importa quão satisfeito eu esteja com o meu trabalho, é sempre bom procurar por oportunidades melhores.

3. Quando estou ouvindo rádio no carro e estou satisfeito com a música, sempre passo por outras estações para saber se há algo melhor tocando.

4. Quando assisto a um programa de televisão, sempre dou uma olhada na programação dos outros canais, levando em consideração as demais opções.

5. Eu trato os relacionamentos como se fossem roupas: experimento várias para encontrar as que vestem bem.

6. Sempre tenho dificuldade em comprar um presente para um amigo. Alugar filme é difícil. Estou sempre me esforçando para optar pelo melhor.

7. Quando vou às compras, tenho dificuldade em encontrar as roupas de que eu realmente goste.

8. Sou fã de listas com os tops (os melhores filmes, os melhores cantores, os melhores atletas, as melhores novelas, etc.).

9. Tenho dificuldade em escrever até mesmo uma carta a um amigo, porque é muito difícil passar todos os pensamentos para o papel nos termos certos. Sempre faço rascunhos, mesmo de assuntos muito simples.

10. Não importa o que eu faça, tenho os melhores padrões para mim.

11. Nunca me contento com o segundo melhor.

12. Sempre me imagino vivendo de uma forma diferente da minha vida atual.

Pontuação
Se sua média de pontuação é maior que quatro, a metade da escala, você tende a ser um obcecado. Se você pontuou uma média menos que quatro, tende a ser um satisfeito.

Aqueles que pontuaram muito acima da média, os hiperobcecados, comparam mais os produtos que aqueles que obtiveram poucos pontos. Eles também levam mais tempo para se decidir. Tendem a fazer escolhas melhores e mais objetivas, mas são menos satisfeitos consigo mesmos. Quando se comparam a outras pessoas, têm pouco prazer ao descobrir que fizeram melhor e uma grande insatisfação ao descobrir que escolheram mal. Tendem também se arrepender mais e sua sensação de bem-estar precisa de mais tempo para se recuperar. Como o esperado, essas pessoas são mais insatisfeitas com a vida, mais infelizes, mais pessimistas e mais deprimidas do que aquelas com menos pontuação.

O maior número de opções aumenta a sensação de oportunidades perdidas. Por exemplo, uma viagem de férias para as praias do Rio de Janeiro pode custar a oportunidade de apreciar o movimento cosmopolita de São Paulo. Se considerarmos que o preço da escolha parece reduzir as vantagens da opção selecionada perante as demais alternativas, então, o maior número de opções implica maior sensação de perda e insatisfação derivadas das nossas decisões.

Segundo a pesquisa de Daniel Kahneman, Ph.D. da Universidade de Princeton (EUA), e seu colega Amos Tversky, de Stanford (EUA), as perdas – nesse caso, de oportunidades – têm um impacto psicológico maior que a vitória (escolher a melhor opção). Temer uma perda produzida pela escolha das férias erradas não nos deixa aproveitar os dias de folga. Ficamos sempre pensando "e se eu tivesse escolhido a cidade de São Paulo em vez das praias cariocas?"

Com que frequência você sai de uma loja de mãos vazias, frustrado e irritado? Tantas opções aumentam a expectativa da qualidade das alternativas que escolhemos. Não há desculpa para nos frustrarmos diante de tantas opções, mas, quando nos deparamos com uma imperfeição na alternativa escolhida, acabamos nos culpando e nos sentindo mal. As consequências desse número ilimitado de escolhas vão do desapontamento ao sofrimento. Você conclui que não sabe fazer nada direito e esse sentimento leva à depressão.

Existem duas classificações para as pessoas que tomam decisões. Os "satisfeitos", aqueles que se contentam com o mínimo necessário para atingir seus objetivos; e os "obcecados", que sofrem da compulsão de conseguir sempre o melhor. Os primeiros encontram um produto que julgam ser bom para suprir sua necessidade e se contentam com ele. Já os obcecados precisam testar todas as mercadorias para ter certeza de que vão adquirir a melhor. E, pela lógica, esse tipo de prática – testar todos os produtos – é impossível.

Desse modo, os obcecados sempre ficam inseguros e, quando escolhem, têm a sensação de que teriam se dado melhor se tivessem escolhido outro produto. Eles demoram mais tempo para se decidir, quando comparados a uma pessoa que se contenta com a sua opção, e, mesmo que tenham o melhor resultado, não ficam totalmente satisfeitos. Eles também são mais infelizes, pessimistas e deprimidos.

Sonhamos com um mundo onde tudo é possível, de tanto que valorizamos a liberdade. Mas temos de entender que até para as escolhas é necessário impor um limite. Por exemplo, se temos apenas duas opções de calça, qualquer uma que comprarmos nos satisfará pela justificativa de falta de opção. No entanto, se temos mais de dez tipos diferentes – e geralmente não temos como experimentar todos nem avaliar qual é o melhor -, acabamos com a sensação de que fizemos a escolha errada. Assim, as opções ilimitadas não geram satisfação, mas ansiedade. Não promovem a liberdade, mas a tirania. Não podemos dizer ‘não’ à tirania das escolhas.

Em seu livro, Schwartz afirma que o limite para o número de opções de escolhas é imprescindível para se ter uma vida boa. Ele defende que podemos restringir nossas opções quando as decisões não são cruciais. Por exemplo, fazer uma regra de não visitar mais que duas lojas quando for comprar roupas; aprender a aceitar um "suficientemente bom"; contentar- se com uma escolha que preencha seus principais requisitos, em vez de procurar por algo que julgue ser melhor; ensinar a você mesmo a se concentrar nos aspectos positivos da sua seleção e controlar suas expectativas. "Não espere muito, e não ficará desapontado" é um clichê. Mas é uma sugestão sensata, se você quiser ficar satisfeito com a vida.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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Medicina utópica

Trajetória de Wilhelm Reich, que tem novo título lançado no país, se insere em tradição de cientistas de esquerda que defenderam causas grandiosas e exóticas, como o rejuvenescimento

O apelo do rejuvenescimento, no stalinismo, procurava mostrar o poder da ciência, inclusive sobre a religião

MOACYR SCLIAR

Recentemente lançado no Brasil, "A Biopatia do Câncer" [WMF Martins Fontes, trad. Maya Hantower, 486 págs., R$ 79], continuação de "A Descoberta do Orgone" [cuja primeira parte é "A Função do Orgasmo"], ambos de autoria de Wilhelm Reich (1897-1957), é um texto superado do ponto de vista científico, mesmo porque data de 1948, mas muito significativo como documento histórico.
Diz Reich que o câncer é uma putrefação dos tecidos causada pela privação do prazer. Segundo ele, um hipotético "T-bacilo" (T de "Tod", morte, em alemão) seria o responsável por esta putrefação. O "T-bacilo" proliferaria por causa da diminuição, no organismo, do orgone, a energia cósmica. O orgone não existe. Era um produto de imaginação desvairada, cuja gênese vale a pena examinar.
De uma abastada família judaica da atual Ucrânia, Reich formou-se em medicina em Viena, especializou-se em psiquiatria e, discípulo de Sigmund Freud, tornou-se psicanalista. Como Freud, via na neurose o resultado de conflitos de natureza sexual; mas a isso acrescentava um componente ideológico: a repressão também resultaria das imposições da moral burguesa.
Reich era comunista, ainda que heterodoxo: o partido terminou por expulsá-lo. Fugindo do nazismo, foi para os Estados Unidos, onde suas ideias tiveram muita repercussão. Via-se como um revolucionário, um contestador; sua bandeira de luta era exatamente o orgone, cuja existência defendeu até o fim. Mais do que isso, inventou um "acumulador de orgone", uma espécie de caixa, na qual a pessoa poderia "recarregar a bateria".
Entre os usuários do "acumulador" estavam escritores conhecidos, como Norman Mailer, J.D. Salinger e William Burroughs; mas Albert Einstein, cujo apoio Reich buscou, não se deixou convencer. Mais cética ainda mostrou-se a FDA, órgão governamental [norte-americano] de fiscalização [de alimentos e medicamentos] que, em 1954, iniciou um processo contra Reich. Numa atitude muito típica, insistiu em defender-se sozinho, sem recorrer a advogados.
Condenado, foi encarcerado em 1957 e morreu de ataque cardíaco na prisão. Obras suas, como "Análise do Caráter", "Escute, Zé-Ninguém!", "A Revolução Sexual" e "Psicologia de Massas do Fascismo", são ainda lidas e mostram-no como um pensador no mínimo original.
Ciência transcendente
O caso de Reich não é único, e situa-o num curioso grupo de pessoas: cientistas comunistas ou de esquerda que a certa altura de suas trajetórias passam a defender causas tão grandiosas quanto exóticas. Causas que têm um denominador comum: propõem-se, pela utilização da ciência e da técnica, a resolver um problema de saúde que seja transcendente.
Um exemplo é o de Alexander Aleksandrovich Bogdanov (1873-1928). Nascido Alyaksandr Malinouski, em Belarus (como muitos revolucionários, Lênin e Stálin inclusive, trocou de nome), Bogdanov foi médico, filósofo, escritor. Sua trajetória de contestador teve início já na escola médica da Universidade de Moscou; preso e exilado, em 1903 uniu-se aos bolcheviques de Lênin, de quem era ardoroso defensor. Por causa de suas posições excessivamente radicais foi, como Reich, afastado do partido bolchevique. Passou a dedicar-se a pesquisas médicas, atuando também nos campos da filosofia e da economia (foi professor universitário nessa área); fez literatura de ficção, sendo considerado um dos pioneiros na ficção científica.
Logo depois da revolução de 1917, fundou, junto com outros intelectuais, o Proletkult, movimento de cultura obreira, que, de início, recebeu o apoio do governo comunista, e depois foi denunciado como "burguês". Mais uma vez, Bogdanov foi preso, acusado de conspiração. Liberado, passou a dedicar-se, em 1924, a experimentos médicos que tinham como objetivo conseguir, por meio de transfusões de sangue, o rejuvenescimento do organismo. Muita gente se interessou pelo procedimento, incluindo a irmã de Lênin, Maria Ulianova, que se ofereceu como voluntária para os experimentos. Bogdanov criou um instituto de hematologia e de transfusões. Quando Lênin morreu [em 1924], ele foi chamado para, diz-se, tentar a ressuscitação.
Morreu ao receber uma transfusão; o sangue ou estava contaminado (teria sido de um jovem com malária) ou era incompatível com o seu tipo sanguíneo, coisa que à época não era bem entendida.
Bogdanov mencionara o uso da transfusão sanguínea na sua futurista novela "Estrela Vermelha" (1908), que tem Marte como cenário e na qual defende a emancipação feminina e o controle da sociedade pelos trabalhadores.
Vida longa
Numa linha diferente trabalhou o contemporâneo de Bogdanov Oleksandr Oleksandrovich (ou Alexander Alexandrovitch) Bogomolets (1881-1946), fisiologista ucraniano. Formado em medicina, Bogomolets fez carreira universitária nas áreas de fisiologia e patologia. Em Kiev, fundou o Instituto de Biologia Experimental e Patologia e o Instituto de Fisiologia Clínica Experimental; foi membro da Academia Ucraniana de Ciências. Começou então a estudar a questão da longevidade, fazendo pesquisas na Abkházia e na Geórgia [então membros da União Soviética], regiões famosas pela elevada expectativa de vida.
Seu trabalho (descrito no livro "O Prolongamento da Vida") era apoiado pelo próprio Josef Stálin, então dirigente da União Soviética, que providenciou o financiamento necessário. Bogomolets injetava em cavalos uma mistura de células do baço e de medula óssea extraídas de pessoas jovens e sadias falecidas acidentalmente, visando à formação de anticorpos -era o soro antirreticular citotóxico, que supostamente reforçaria as defesas imunológicas do organismo, evitando doenças e o envelhecimento. O que, diga-se de passagem, nunca foi comprovado. Mais recentemente, a tradição do rejuvenescimento e do combate ao envelhecimento teve continuidade com a médica romena Ana Aslan (1897-1988). Formada em medicina, tornou-se docente na Universidade de Tamisoara [na Romênia]. No final da década de 1940, começou a estudar os efeitos da procaína, um anestésico usado tradicionalmente pelos dentistas.
Surgiu daí um medicamento conhecido como Gerovital H3, usado por, entre outros, Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Claudia Cardinale, Kirk Douglas, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Pablo Neruda, John Kennedy, Suharto e Mao Tse-tung. Nos anos 1960, o então ditador da Romênia comunista, Nicolae Ceaucescu, divulgou ativamente no exterior esse tratamento. O tratamento de Aslan tornou-se um produto de exportação, mas não teve o endosso da ciência médica. Trabalhos dos anos 1970 sugeriam que o Gerovital H3 poderia ter um leve efeito antidepressivo, mas que não agia contra doenças da velhice, segundo a conclusão de um artigo publicado em 1977 na revista da Sociedade Americana de Geriatria, que analisou dados referentes a mais de 100 mil pacientes ao longo de 25 anos. Em 1994, a FDA considerou o remédio "droga não aprovada".
O apelo do rejuvenescimento era algo muito forte. Em um regime autoritário como era o stalinismo, tinha outras finalidades. Primeiro, mostrar o poder da ciência, inclusive sobre a religião: a vida eterna tornava-se dispensável. Segundo, e mais importante, dava uma nova base ao projeto de criação de um novo homem. O apelo dessa proposta à imaginação de líderes e de pesquisadores revelou-se irresistível. Só que, lá pelas tantas, a imaginação tomou conta do projeto. Até envelhecer e morrer.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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