Daily Archives: 28/12/2009

Enigmas da Engenharia

Como as pirâmides foram erguidas? E Stonehenge? As hipóteses mais recentes tentam desvendar os segredos dos ousados "engenheiros e arquitetos" de antigas construções e templos

Fabíola Musarra

Shutterstock

Megalomania As pirâmides de Miquerino, Quéops e Quéfren, em Gizé, perto do Cairo (Egito). Elas foram construídas em torno de 2500 a.C. e o resultado, dado o tempo, foi considerado quase um milagre.

Sinônimo de modernidade, luxo e elegância, Dubai e suas longas avenidas, edifícios contemporâneos e arquipélagos artificiais fascinam pela arquitetura futurista. Hoje, é possível construir complexas edificações em pleno deserto – a capital dos Emirados Árabes Unidos abriga inclusive a Torre de Dubai, o futuro prédio mais alto do mundo, previsto para ter quase 808 metros de altura e 162 andares, cujo projeto deve ser concluído ainda neste ano. Como nos audaciosos projetos de Dubai, atualmente avançados recursos e técnicas de engenharia permitem que blocos de pedras pesando toneladas possam ser suspensos e sobrepostos sobre outros, produzindo-se assim obras de quase mil metros de altura em poucos meses. Mas há cinco mil anos, sem conhecer as polias ou a utilização de ferramentas de metal e tendo à disposição só instrumentos de madeira e cordas, parece um empreendimento semelhante seria praticamente impossível.

A pirâmide de Quéops, na planície de Gizé, próximo do Cairo, no Egito, é diariamente admirada por milhares de turistas. Assim como também o são Stonehenge (Inglaterra), os templos gregos, as pirâmides maias e outros monumentos. Construções antiquíssimas que deixam os arqueólogos diante de um duplo mistério: o que envolve as funções desses monumentos e, outro, ainda mais intrigante, que diz respeito ao modo como eles foram construídos.
“Para os povos primitivos, construir esses monumentos foi, de algum modo, refazer com as mãos aquilo que a natureza tinha feito e, em seguida, adaptá-los às exigências de representação das religiões e mitos. Não foi por acaso que a maçonaria, anos mais tarde, foi fundada pela poderosa cooperativa de pedreiros”, explica Alberto Arecchi, arquiteto e estudioso da história da construção. Este raciocínio é também a chave para compreender a mais recente teoria sobre a realização das pirâmides egípcias.

Antigo fascínio

embora tenham sido construídas em tempos remotíssimos, as pirâmides até hoje exercem enorme fascínio no homem. os motivos são muitos, desde o fato de elas terem resistido a tantos anos até a sua construção perfeita, sendo que entre os blocos de pedra não se consegue introduzir sequer uma folha de papel, tamanha a perfeição de sua sobreposição. Com mão de obra escrava, as pirâmides eram construídas com blocos de pedras que chegavam a pesar até duas toneladas. muitas vezes, sua execução demorava mais de dez anos. Ainda em vida, o faraó começava a planejar e executar a construção de sua pirâmide, cuja função era abrigar e proteger o seu corpo mumificado e os seus pertences. Quanto maior fosse a pirâmide, maior o poder e glória do faraó. mas, depois que ela estivesse pronta, os seus construtores eram sacrificados, para que não revelassem o segredo que seu interior continha e, principalmente, as armadilhas que ali existiam para evitar o acesso de saqueadores ao túmulo e aos objetos lá guardados.

Segundo o arquiteto francês Jean-Pierre Houdin, a pirâmide de Quéops foi construída graças a uma rampa interna, que permitia que os operários trabalhassem em segurança e a uma temperatura suportável. A Grande Galeria (um túnel sem enfeites, mas com ranhuras singulares na parede) foi necessária para a construção da Câmara do Rei, no centro da pirâmide, servindo como base para a elevação de blocos de granito de 60 toneladas. Teoria apaixonante, apoiada numa complexa simulação no computador e em algumas anomalias nas medições da força da gravidade encontradas na pirâmide nos anos 80 que fizeram acreditar que ela continha os restos de uma rampa espiral.

A evolução das pirâmides

Em Dahshur, mais acima do Nilo a partir de Saqqara, fica a pirâmide do faraó Sneferu, da quarta dinastia. Sua forma inclinada se deve a uma mudança de curso dos trabalhos, pois os projetistas escolheram uma fundação fraca e a pirâmide começou a se inclinar quando já estava praticamente pronta. Para concluí-la e torná-la mais estável, os construtores reduziram o ângulo da parte superior e hoje ela é conhecida como a Pirâmide Inclinada (2565 a.C.). Insatisfeito com o resultado, Sneferu ordenou a construção de outra pirâmide em Dahshur. Os projetistas escolheram uma fundação melhor e fizeram essa pirâmide com a mesma altura da anterior, mas com uma base mais larga e um ângulo mais raso. A Pirâmide Vermelha foi concluída em 2560 a.C. • NOVEMBRO 2009 A Pirâmide Vermelha foi concluída em 2560 a.C.

Mas se esse foi o método empregado na construção das pirâmides, de onde vieram os blocos de pedra? Segundo o egiptólogo francês Joseph Davidovitis, um engenheiro especializado no estudo dos minerais do solo, o material usado para a fabricação dos blocos poderia ser uma espécie de “concreto”, obtido pelos os egípcios a partir de uma mistura de argamassa calcária, conchas e sódio (carbonato de sódio, que era também utilizado no processo de mumificação). Eles eram moldados dentro de uma “caixa” de madeira e teriam sido feitos no próprio local da construção da pirâmide. Em seguida, os grandes blocos eram içados por um complicado sistema de guinchos.

Essa hipótese inicialmente perturbou os egiptólogos, que a consideraram anti-histórica (a invenção “oficial” do concreto é atribuída aos romanos). Mas aqui entra em jogo a religião. No antigo Egito se venerava duas divindades opostas: Khnum e Amon. Segundo Arecchi, o primeiro era o deus da “pedra aglomerada” (que lembra o deus dos hebreus, capaz de criar o homem do barro), enquanto o segundo era o deus da “pedra esculpida”. Khnum era reverenciado por Quéops, que apoiava sua casta sacerdotal: a mesma casta que, cerca de 1.300 anos depois, praticamente foi substituída pelos sacerdotes do deus Amon, em consideração ao faraó Tutankhamon. “E, de fato, para ele não foi construída uma pirâmide, mas uma tumba esculpida em pedra no coração do Vale dos Reis, bastante diferente daquela erguida em torno de 2700 a.C. pelo arquiteto egípcio Imhotep, considerado o ‘inventor’ das pirâmides”, observa Arecchi.

Quem são eles?
As maiores pirâmides egípcias são as dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, em Gizé. Confira quem foram eles:

Fotos: Shutterstock

QUÉOPS: Reinou por volta de 2551 a.C. a 2528 a.C. e foi considerado um faraó cruel e impiedoso. É o responsável pela construção da maior pirâmide de Gizé.

Fotos: Shutterstock

QUÉFREN: Construiu a segunda maior pirâmide de Gizé, a Pirâmide de Quéfren, a Esfínge de Gizé e um templo, que é o único exemplo de templo remanescente do período.

Fotos: Shutterstock

MIQUERINOS: Reinou pouco tempo, por esse motivo não pôde concluir sua pirâmide. A Pirâmide de Miquerinos é a menor em tamanho e a terceira entre as mais famosas pirâmides do mundo antigo. Com a sua morte, a pirâmide foi terminada às pressas, e foi usado material de qualidade inferior.

De acordo com Davidovitis e com Arecchi, essa oposição de cultos também gerou um equívoco relacionado à origem da alquimia. “No Egito dos últimos faraós e na Alexandria quase só se falava grego. O que os egípcios chamavam ‘a matéria do corpo de deus’, significando pedra, foi traduzida pela expressão krysòs, cujo significado é ouro. Então, quando os conhecimentos sobre a construção do ‘corpo de deus’ começaram a ser transmitidos, os alquimistas acreditavam estar fazendo ouro, mas na realidade estavam produzindo o concreto”, comenta Arecchi.

Uma teoria que pode ser comprovada pela grande quantidade de vasos encontrados nas tumbas egípcias do primeiro período. “Os vasos foram confeccionados em materiais como cascalho, pedregulhos extraídos do leito de rios e microgrãos: pedras duríssimas, difíceis de serem trabalhadas até hoje. É muito mais provável que esses materiais tenham sido adicionados, implementando o aglomerado, para o qual foram utilizados vários tipos de silicatos hidratados de cobre, como o crisocola (similar à turquesa), minerais conhecidos e extraídos a partir do Sinai.”

Se a arquitetura egípcia se inspirava na natureza, resta o fato de não existir nenhuma grande forma piramidal natural. Na realidade, o tipo mais antigo e difuso de construção em pedra é um outro, o chamado sistema trilitico (mais conhecido como dólmen): três blocos, duas janelas verticais no solo (colunas) unidos por uma laje horizontal colocada acima delas (a arquitrave). Uma edificação aparentemente rudimentar: no entanto, provavelmente, era a parte visível de uma sepultura coletiva, originalmente cercada e coberta por um pequeno monte de terra.

“O conceito de casa pouco tem a ver com o dólmen trilitico, exceto pela inspiração de seu formato”, diz Arecchi. Segundo ele, algumas antigas habitações de apenas um piso térreo inspiram-se nos primitivos amontoados de pedras em círculo com um buraco. Em algumas cidades italianas, os exemplos são muitos: das construções em formato cônico da Sardenha (existem numerosos vestígios da Idade do Bronze na ilha, sendo os mais conhecidos asnuraghi – habitações circulares, por vezes cônicas, de pedra) às existentes na região de Puglia, como as de Alberobello, uma cidadezinha conhecida por um tipo de moradia muito peculiar: os trulli, espécie de casa de paredes arredondadas e teto cônico, feito de pedras encaixadas.

Essas construções conhecidas como “falsa cúpula” foram realizadas com a sucessiva sobreposição de círculos de pedra sempre muito pequenos. A construção nurághicatende a convergir em direção ao centro, enquanto a cúpula “empurra” todos os demais elementos para fora dela e por esta estrutura é sustentada. “Os conhecimentos para concretizar estes dois tipos de edificações eram muito diferentes, embora visualmente sejam bem parecidas”, conta Arecchi.

O caminho das pedras

A extração dos blocos Com o auxílio de cunhas de madeira e percursor (golpes) em pedra, as ranhuras eram feitas e, ampliando essas fraturas, obtinham-se os blocos.

Por água… Por vezes, os monólitos eram transportados ao longo dos rios, presos no interior de jangadas.

Ou por terra Em outras ocasiões, os blocos de pedra eram transportados em trilhas feitas de cilindros de madeira. Os rolos moviam-se arrastando os blocos de pedra.

A força da alavanca Os monólitos ficavam enfileirados numa fossa escavada no terreno. Para erguê-los, eram empregados troncos. Os blocos de pedra eram amarrados nas toras, que funcionavam como alavancas.

O sistema trilitico dos arquitetos do neolítico é também a base do usado na construção da arquitrave: duas pilastras e, em vez da pedra horizontal, um arco composto de “concreto”, blocos de pedra talhada, inclinadas, e com o topo fechado (teto). Uma evolução possível para o uso da madeira. “A madeira é muito mais resistente do que a pedra, pelo menos na construção de um teto: de fato, os minerais são poucos flexíveis e têm baixíssima resistência às flexões”, prossegue o especialista.

“As primeiras construções de madeira, projetadas pelos povos que viviam em regiões úmidas e ricas em madeira, tais como as da Mesopotâmia, ainda tinham telhados planos, conceitualmente não diferente dos empregados nos dolmens”, diz Arecchi, observando que na evoluída Grécia já se tinha conhecimento de que para construir um templo de pedra era necessário inclinar os blocos de um modo que eles se sustentassem, ao menos em parte, por si só. Assim foram construídos as arquitraves e os frontões dos templos clássicos. “Os gregos entenderam a importância de posicionar colunas juntas para distribuir melhor o peso da construção no solo.”

A construção de um complexo megalítico demorava de 7 mil a 30 mil dias de trabalho

A aplicação mais surpreendente do sistema trilitico é Stonehenge (em inglês, pedra suspensa), em Wiltshire, na Inglaterra: um conjunto de blocos de pedras alternados com buracos no chão, realizado em fases sucessivas a partir de cerca de 3100 a.C. Seria deste período o aterro e o círculo de pedra que se encontram no interior deste complexo de megalíticos. “Stonehenge é interessante pela disposição das pedras, bem como pela técnica de construção, que possivelmente precedeu a utilização de aterros”, afirma Arecchi. “É provável que se trate de um relógio meteorológico-astronômico e que os marinheiros soubessem que os ventos estavam favoráveis para a navegação ou também que uma nova estação estava começando quando uma certa estrela aparecesse em uma determinada ‘porta’ de Stonehenge”, especula o especialista.

É preciso dizer que as pedras de Stonehenge como conhecemos hoje têm pouca relevância para a sua posição inicial: nos primeiros anos do século 9, muitas “portas” (grupos individuais de triliticos) foram restauradas. Na época, os pesados blocos foram suspensos com tornos mecânicos (funcionavam como uma espécie de guincho), que acabaram separando-os da sua localização original. Vale lembrar que a antiga construção já havia sido alterada durante a invasão do Exército Romano em 61 a.C. Apesar disso, de uma coisa ninguém duvida: o estaleiro de Stonehenge, de onde cada um dos blocos de quatro toneladas era transportado por centenas de quilômetros antes de ser erguido (ver pág. 48), foi o mais extraordinário de sua época.

No decorrer dos séculos, os enigmas tecnológicos da construção de Stonehenge e das pirâmides de Gizé deram origem a uma série infinita de lendas e crenças mágicas. “A arquitetura e magia seguem de mãos dadas desde o início, estando ligadas à transmissão de conhecimentos”, explica Arecchi. O “saber construir” sempre teve em si um componente mágico: se a realização do concreto foi provavelmente a origem da alquimia, as técnicas que permitiam erguer obras colossais, do Templo de Salomão às catedrais góticas, deveriam ter, para o seu tempo, algo de milagroso. A partir da Idade Média, foram as cooperativas de pedreiros que transmitiram o seu conhecimento (o “poder de construir” e todos os detalhes relacionados a ele). Mais tarde, essas corporações deram origem à maçonaria.

Os ingleses free masons (pedreiros “liberais”, autônomos) não eram mais do que os membros das cooperativas de construtores, que ensinavam aos seus membros os segredos de como erguer colunas de dezenas de metros, por exemplo. Conhecimento que muito pouco tem a ver com o esoterismo. Conforme explicam os especialistas do Centro de Estudos sobre as Novas Religiões de Turim (Cesnur, na sigla em italiano), o conceito dos mistérios maçônicos, que tanto fascina os ocultistas, pode derivar de um erro banal de tradução. De fato, na Idade Média, as organizações de pedreiros ingleses era indicada pelo termo misteres, provavelmente derivado do italianomestiere (ofício). Nas transcrições do século 6, a palavra passa a ser mystery(mistério), despertando o interesse de um número crescente de “aprendizes” mais interessados no ocultismo que no modo de construir uma arquitrave.

Martelo e Picão
As rochas calcárias eram extraídas com martelos de granito ou de pedra de silício.

 

 

 

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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Gestão local

Responsável pela administração e pelo orçamento de sua rede de escolas, o município de Helsinque se depara com um novo desafio: os imigrantes.

Beatriz Rey

Crianças na escola Itäkeskus, em Helsinque: percentual de famílias multiculturais deve chegar a 25% até 2020.

Quando trabalhava como diretora de uma escola, Eeva Penttilä, hoje diretora de relações internacionais do Departamento de Educação de Helsinque, decidiu ligar para a administração municipal para solicitar areia. Queria criar um parquinho em sua escola. Eeva não entendeu quando ouviu um "não" pelo telefone. A justificativa era simples: se dermos areia para você, teremos de dar para as outras escolas também. "Ser diretor naquela época, na década de 70, significava apenas ler os documentos e traduzi-los para a linguagem do professor. Tudo já estava decidido", lembra. Seu trabalho atual é ajudar as escolas que fazem solicitações parecidas – a diferença é que ela pode dizer "sim".

O sistema municipal de administração finlandês tem funções executivas parecidas com as do Ministério da Educação no Brasil. A começar pelo orçamento. A maior parte dos municípios  é responsável por 58% do orçamento de educação. Helsinque é uma exceção: como a densidade populacional é alta, os impostos que recolhe são suficientes para arcar com todo o custo de seu sistema educacional. "O que fazemos com o nosso dinheiro é problema nosso", diz Eeva. Para a diretora de relações internacionais, a lei prevê autonomia do município e da escola – o que, na prática, se resume a uma questão: usar o bom senso. Por exemplo, não há definição nacional ou municipal sobre o número de alunos por sala. Há salas com 30 alunos e salas com apenas cinco. "Nosso departamento não decide isso. Sabemos depois que a escola decidiu", relata.

O mesmo acontece com o currículo. Há um mínimo nacional a ser seguido, mas a organização da grade curricular é responsabilidade da escola. Mais um exemplo: supõe-se que seja obrigatório ensinar 14 assuntos na 1ª e na 2ª séries do ensino fundamental na disciplina "língua materna". Se a escola decide introduzir apenas quatro lições no primeiro ano, precisa ensinar as outras 10 no segundo ano. Ela pode fazer isso sem comunicar o governo municipal ou federal. "Desde que você alcance o mínimo, não há problema. O currículo é realizado pelos professores, em cada escola específica", afirma Eeva. Ela relembra um caso que vivenciou numa região carente de Helsinque, onde havia muitos alunos com dificuldades de aprendizagem na língua materna. "Demos a eles mais aulas do que seria necessário numa determinada disciplina. A escola sabe o tipo de aluno que tem matriculado", diz.

Nesse contexto, não é estranho pensar que quem contrata os professores é a própria escola.  Em cada uma delas, há um grupo diretor formado por cinco pais, um representante de professores, um representante dos funcionários da escola, um representante dos alunos com mais de 13 anos, o diretor e um secretário. São eles que selecionam os docentes, elaboram o plano político-pedagógico da escola e aplicam punições a alunos desobedientes, o que quase nunca ocorre.

Katariina Wuoristo é uma das mães que integra um dos grupos diretores de uma escola finlandesa. Foi eleita diretora do grupo por quatro anos, e continua no cargo, mesmo depois de suas duas filhas terem saído do colégio. "É muito fácil trabalhar com o diretor. Praticamente não temos discussões", conta. Um dos desentendimentos aconteceu recentemente, por conta de um feriado de primavera. Os alunos queriam cinco dias, mas a escola só queria liberar dois. Na escola em que atua, o processo de contratação dos professores acontece por meio de seleção de currículo e sessões de entrevistas com todos os candidatos. "É papel do pai participar da escola. Aproximadamente 70% deles participam das reuniões de pais", opina.

Suporte e acompanhamento
Há algum tempo, o governo alemão procurou Eeva Penttilä para propor um projeto nas escolas finlandesas que incentivasse o ensino do idioma germânico. A maioria das escolas em Helsinque recusou – apenas três aceitaram. "Seguimos os movimentos das escolas, mas não podemos interferir em suas decisões. Eles tinham boas razões e devemos respeitá-los", diz. Uma das funções do Departamento de Educação é exatamente essa: acompanhar. "Precisamos garantir que todas as escolas estão boas como deveriam", afirma Eeva. Uma das políticas para atingir esse objetivo é o incentivo financeiro oferecido às instituições localizadas em regiões mais carentes. O critério é estabelecido a partir de um índice de vulnerabilidade social calculado pelo município. "Não fazemos a política de ver que a escola está ruim e fechá-la. Se você fizer isso, as crianças precisam escolher outro lugar para estudar. E vão para lá, e o desempenho vai cair em outra escola. Nos concentramos naquela escola em específico", pontua. Essa ajuda financeira pode funcionar de outra maneira. As escolas fazem autoavaliações periódicas. Se for detectado um problema como a falta de alunos, o grupo diretor pode estabelecer metas para resolver o problema. Caso sejam alcançadas, recebem um bônus. "Nesse processo de avaliação da escola não há ninguém de fora, a não ser que eles peçam", coloca.

Outro incentivo do governo municipal é a formação continuada dos professores. Quando os docentes saem das salas de aula para estudar e se atualizar, o Departamento de Educação oferece à escola dinheiro extra para que um substituto seja contratado. O intuito é capacitar os docentes sem onerar a escola. A capacitação de professores se torna cada vez mais importante na cidade, já que o número de imigrantes aumenta a cada ano e o montante de professores capacitados para esse grupo não é tão grande. A previsão é de que até 2020 o percentual de famílias total ou parcialmente multiculturais aumente para 25% (hoje é de 10%). "Temos refugiados que vêm de zonas de guerra, como o Iraque, e nunca foram à escola, não têm sequer o conceito de escola", conta Eeva. Quando chegam à Finlândia, têm um ano de aula preparatória na língua finlandesa. Depois, passam a frequentar a escola, onde aprendem, além do finlandês, a sua língua de origem, religião e cultura materna. Ensinam-se 14 línguas diferentes hoje em Helsinque, uma experiência que tem se comprovado cada vez mais difícil na prática. Não se encontra professor capacitado para ensinar determinadas religiões, por exemplo. "Uma vez, tínhamos de ensinar árabe para um ou dois alunos numa escola. Pensamos que um professor do Marrocos poderia ensinar, mas, quando ele chegou à escola, percebeu que os alunos eram da Arábia Saudita. As línguas têm variações. Não sabíamos disso", conta Eeva.

O que aprende quem ensina
Há muitas diferenças entre a formação docente finlandesa e a brasileira, a começar pela exigência de um diploma de mestrado para o exercício da profissão. A média de anos de estudos dos futuros professores no país é de 5,5 anos. Depois de estudar para obter o diploma de bacharelado (que equivale a 180 pontos estudantis, ou 4.860 horas de crédito), o aluno se empenha em obter o diploma do chamado "master" (equivalente a 120 pontos estudantis, ou 3.240 horas de crédito). Há três tipos de diploma na Faculdade de Ciências Sociais, que realiza a formação de professores: docente de sala de aula, de educação infantil e da educação especial. O docente de sala de aula equivaleria ao professor do primeiro ciclo do ensino fundamental brasileiro. Já o professor da educação especial é treinado para dar aulas a alunos com necessidades especiais de aprendizagem.

Há, ainda, o professor de disciplina (o equivalente às nossas licenciaturas), que ensina alunos de 7ª a 9ª série do ensino fundamental finlandês e do ensino médio. Como no Brasil, esses alunos cursam a faculdade na área que escolheram (física, por exemplo) e complementam seus estudos na Faculdade de Ciências Sociais. Entre as disciplinas que cursam estão os estudos pedagógicos, didáticos e psicológicos, assim como os estudos das bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação.
Há um componente interessante nos currículos dos cursos de quem pretende ser professor. Juhani Hytönen, do Departamento de Ciências Aplicadas em Educação da Universidade de Helsinque, de based-research teaching (em português, prática docente com base em pesquisa). "Não educamos robôs. É preciso aprender a analisar seus próprios comportamentos e objetivos, assim como desenvolver sua própria maneira de ensinar e inovar", conta. A ideia é criar, a partir de um método científico de pesquisa, subsídios para que o professor seja mais "profissional" em sala de aula. "Eles aprendem a identificar e resolver problemas. Isso os capacita, por exemplo, a planejar e definir o próprio currículo, que não é definido nacionalmente", diz Juhani. Há centros de pesquisa ligados à universidade, com focos diversos: ensino, estudos sociais da educação, matemática e educação científica, primeira infância e escola elementar, entre outros. "Tinha oito alunos de mestrado envolvidos em uma pesquisa sobre a organização e a efetividade da pré-escola em Helsinque, que foi pedida pela própria prefeitura. É melhor estar envolvido em projetos grandes do que ir para a escola sozinho", diz.

Mas, para que toda essa estrutura funcione, é preciso ter bons alunos dentro da universidade. Para o professor Juhani, o diferencial da formação de professores finlandesa começa antes: no vestibular ao qual se submetem os interessados na profissão. "Há um exame, mas realizamos uma entrevista individual, um grupo de discussão e, no caso da educação infantil, uma situação em que o candidato vai até uma escola e discute uma situação real", diz. Dos 1.258 candidatos ao curso de "professor de sala de aula" em 2008, apenas 123 foram admitidos. "Poucas vezes erramos na seleção dos candidatos. É fácil escolher em um grupo que já é selecionado", conclui.

O que aprende quem ensina

Há muitas diferenças entre a formação docente finlandesa e a brasileira, a começar pela exigência de um diploma de mestrado para o exercício da profissão. A média de anos de estudos dos futuros professores no país é de 5,5 anos. Depois de estudar para obter o diploma de bacharelado (que equivale a 180 pontos estudantis, ou 4.860 horas de crédito), o aluno se empenha em obter o diploma do chamado "master" (equivalente a 120 pontos estudantis, ou 3.240 horas de crédito). Há três tipos de diploma na Faculdade de Ciências Sociais, que realiza a formação de professores: docente de sala de aula, de educação infantil e da educação especial. O docente de sala de aula equivaleria ao professor do primeiro ciclo do ensino fundamental brasileiro. Já o professor da educação especial é treinado para dar aulas a alunos com necessidades especiais de aprendizagem.

Há, ainda, o professor de disciplina (o equivalente às nossas licenciaturas), que ensina alunos de 7ª a 9ª série do ensino fundamental finlandês e do ensino médio. Como no Brasil, esses alunos cursam a faculdade na área que escolheram (física, por exemplo) e complementam seus estudos na Faculdade de Ciências Sociais. Entre as disciplinas que cursam estão os estudos pedagógicos, didáticos e psicológicos, assim como os estudos das bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação.
Há um componente interessante nos currículos dos cursos de quem pretende ser professor. Juhani Hytönen, do Departamento de Ciências Aplicadas em Educação da Universidade de Helsinque, de based-research teaching (em português, prática docente com base em pesquisa). "Não educamos robôs. É preciso aprender a analisar seus próprios comportamentos e objetivos, assim como desenvolver sua própria maneira de ensinar e inovar", conta. A ideia é criar, a partir de um método científico de pesquisa, subsídios para que o professor seja mais "profissional" em sala de aula. "Eles aprendem a identificar e resolver problemas. Isso os capacita, por exemplo, a planejar e definir o próprio currículo, que não é definido nacionalmente", diz Juhani. Há centros de pesquisa ligados à universidade, com focos diversos: ensino, estudos sociais da educação, matemática e educação científica, primeira infância e escola elementar, entre outros. "Tinha oito alunos de mestrado envolvidos em uma pesquisa sobre a organização e a efetividade da pré-escola em Helsinque, que foi pedida pela própria prefeitura. É melhor estar envolvido em projetos grandes do que ir para a escola sozinho", diz.

Mas, para que toda essa estrutura funcione, é preciso ter bons alunos dentro da universidade. Para o professor Juhani, o diferencial da formação de professores finlandesa começa antes: no vestibular ao qual se submetem os interessados na profissão. "Há um exame, mas realizamos uma entrevista individual, um grupo de discussão e, no caso da educação infantil, uma situação em que o candidato vai até uma escola e discute uma situação real", diz. Dos 1.258 candidatos ao curso de "professor de sala de aula" em 2008, apenas 123 foram admitidos. "Poucas vezes erramos na seleção dos candidatos. É fácil escolher em um grupo que já é selecionado", conclui.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

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Premonição do racismo

Em ‘Raça e História’, ele se antecipou afirmando [br]não haver correlação científica entre raça e intelecto.

Lilia Schwarcz

Conselheiro Ayres, famoso personagem de Machado de Assis, certa vez afirmou que "as coisas só são previsíveis quando já aconteceram". No entanto, quando se trata da obra de Claude Lévi-Strauss, tudo indica que nosso conselheiro andava enganado.
O etnólogo é hoje conhecido em função da influência que seu modelo estruturalista alcançou em domínios como o parentesco, a mitologia e as classificações simbólicas. Mas a importância desse pensador não se restringe aos estudos acadêmicos. Ele escreveu textos dirigidos a um público mais amplo, e entre eles destaca-se uma pequena obra de 1952 – Raça e História – que prova como tamanho não é documento. A história desse manifesto merece atenção, entre outros motivos, pelo tom premonitório que apresenta. Lévi-Strauss foi signatário de declaração em repúdio ao racismo e a partir desse documento a Unesco encampou ampla pesquisa sobre o tema. Com o final da guerra e a abertura dos campos era preciso produzir uma resposta direta diante do cenário que então se desenhava.
Não era a primeira vez que antropólogos eram chamados a se manifestar diante de problemas públicos. Franz Boas, renomado etnólogo culturalista, já havia liderado manifesto contra o racismo. A diferença é que, se Boas se limitara ao contexto norte-americano, Lévi-Strauss tinha diante de si panorama mais amplo: a descolonização do pós-guerra.
Mas no panfleto Lévi-Strauss não apenas lidaria com problemas de época; pelas bordas delineia toda uma agenda de trabalho a ser seguida por ele e por gerações de discípulos. O primeiro ponto de ataque consistia em rejeitar a dimensão biológica do conceito de raça, mostrando como não existe correlação entre tipos raciais e características intelectuais. O discurso é claro: "Quando procuramos caracterizar as raças biológicas mediante propriedades psicológicas, afastamo-nos das verdades científicas". Tratava-se de mostrar como as diferenças entre grupos humanos eram resultado de fatores culturais e históricos e nada tinham a ver com a natureza.
De reboque o etnólogo atacava o suposto de que a humanidade evolui em um só sentido: "Não existem povos crianças, todos são adultos, mesmo aqueles que não tiveram diário de infância". Não há sociedades isoladas, muito menos adormecidas. "A diversidade seria menos função do isolamento dos grupos que das relações entre eles." Era preciso enfrentar o tema da diversidade sem abandonar a bandeira da universalidade dos direitos, herdeira do modelo de Rousseau. Mas era preciso também "diferenciar sem hierarquizar"; entender que as sociedades são várias, mas nem por isso expostas a regime único de evolução. "Um machado de pedra não é inferior ao de ferro", provocaria ele. "O problema é que a pedra não é ferro."
Nada há de ingênuo nesse texto que confessava nossa incapacidade de entender outra sociedade, já que não existe suspensão absoluta de julgamentos. O fato é que o jovem Lévi-Strauss convertia-se num pensador humanista das ciências humanas. O tom otimista do ensaio destacava-se em meio a um momento de pessimismo generalizado, assim como evidenciava a urgência de novas pesquisas.
Em Raça e História encontram-se condensadas não só lições de humanidade como uma pauta de trabalhos. Aí está, e em pequenas doses, o modelo de antropologia que Strauss desenvolveria por mais de 50 anos; aquela que inaugura um verdadeiro diálogo com o pensamento primitivo e entre filosofias simétricas. Aí estava delineada, também, uma "ciência do observado", onde objeto e sujeito da representação estão em questão e embaralhados.
Desenha-se assim um inventário involuntário de grandes temas de nosso autor. Entendemos como culturas não são essências, mas antes, relações. Percebemos em que medida a humanidade anda sempre às voltas com a luta entre unificação e diversificação de culturas, ou como não existe apenas uma história, a nossa, mas antes modelos de historicidade. Lévi-Strauss ensina, sobretudo, quanto vale desconfiar de verdades assentadas. "Bárbaro é aquele que crê na barbárie", e nesse território somos todos uns visionários. Hora de voltar ao início do texto. Nem sempre nosso conselheiro tinha razão. Neste caso, as coisas pareciam previsíveis e mal começavam a acontecer.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Estudo revela vulnerabilidade de sistemas de conservação da biodiversidade no país

Levantamento aponta que governo federal precisa implantar programa para incrementar pesquisas na área.

JEVERSON BARBIERI

Uma radiografia sobre a formação dos pesquisadores e os estudos em conservação da biodiversidade no Brasil, rea lizada pela analista ambiental Márcia Gonçalves Rodrigues, do Instituto Chico Mendes (ICMBio), apontou a necessidade de o governo federal, em parceria com seus ministérios, estabelecer um programa definitivo capaz de favorecer as pesquisas e as intervenções na área. A tese de doutorado, orientada pela professora Léa Velho, do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, chegou a essa conclusão a partir de dois recortes. O primeiro analisou a formação dos pesquisadores nos cursos de pós-graduação, enquanto o segundo lançou um olhar sobre a institucionalização das pesquisas após a criação do ICMBio. “O Brasil deveria ter um hoje um programa em âmbito nacional nos mesmos moldes do Biota-Fapesp”, afirmou Márcia, referindo-se ao Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo.

A pesquisadora analisou 25 programas de pós-graduação em ecologia reconhecidos pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ela explicou que, a partir de uma pesquisa realizada na base de dados do CNPq, foi possível observar que a área de ecologia foi a que apresentou o maior número de grupos envolvendo conservação da biodiversidade. “Organizei a pesquisa, estruturando-a a partir de uma ciência que surgiu com o objetivo de evitar a perda da biodiversidade, que é a biologia da conservação”, disse.

Ela constatou que, do total de cursos, os mais antigos são o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e o da Unicamp. Desses quatro, Márcia escolheu o programa da Unicamp para realizar um estudo de caso, tanto pela facilidade quanto pelo fato de a Universidade ter toda a base de teses em formato digital. Ademais, o programa de pós-graduação em Ecologia do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp tem nota seis na avaliação da Capes e foi o único recomendado para nota máxima, que é sete.

Um levantamento feito até o mês de junho de 2008 mostrou que 424 teses foram defendidas no programa, sendo 275 no mestrado e 159 no doutorado. A partir desses dados, a pesquisadora procurou saber por onde andava esse pessoal. Foram encontrados 311 pesquisadores e ficou constatado que 65% deles (202) são professores pesquisadores. Para Márcia, esse dado, por si só, já imputa ao programa da Unicamp uma grande responsabilidade. No entanto, afirma a autora da tese, essa responsabilidade aumenta ainda mais quando se observa que, desses 202 professores, 159 trabalham em instituições públicas de ensino superior.

Um dado que chamou bastante a atenção da pesquisadora foi o de que apenas 14 trabalhos (1,5% do total) se dedicaram à pesquisa de espécies de fauna e flora ameaçadas de extinção. “O Brasil é detentor do maior número de espécies no mundo, mas o volume de pesquisas ainda é muito restrito”, observou.

Institucionalização
Originário da divisão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), o Instituto Chico Mendes herdou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc), responsável pela criação, implantação e gestão de todas as unidades de conservação federais, e também a responsabilidade pela pesquisa para a conservação da biodiversidade. Márcia disse que traçar o perfil da pesquisa existente hoje no país é fundamental para que o levantamento consiga de maneira efetiva dar subsídios para a conservação. Por isso, cita como exemplo a questão das espécies ameaçadas de extinção. “Para cada espécie ameaçada de extinção é preciso desenvolver um plano de ação específico, que deve envolver tanto o poder público quanto a comunidade científica e a sociedade em geral”, argumentou.

Atualmente, o ICMBio conta com 11 centros responsáveis pela pesquisa para a conservação espalhados pelo território nacional. “Ainda que essa pesquisa tenha um componente científico muito forte – que no caso das espécies ameaçadas acabam por determinar onde vivem, qual a área necessária para sobrevivência e qual o sistema social de relacionamento –, é fundamental ressaltar que essas investigações precisam ter um componente de intervenção muito significativo”. E o grande gargalo para esse tipo de atividade está no reduzido número de analistas, se for levado em conta a extensão territorial brasileira.

Apenas como exemplo, Márcia disse que o maior parque do Brasil, o Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, na floresta amazônica (Estado do Amapá), conta com apenas quatro analistas para cuidar de uma área que abrange quase 4 milhões de hectares. Além do Snuc, o Instituto interage também com o Sistema Nacional de Áreas Protegidas (Snap), que inclui terras quilombolas e indígenas, juntamente com as áreas de preservação permanente e as reservas legais. A pesquisadora reforça que além da variedade de biomas e espécies, o Brasil tem uma diversidade cultural enorme, sendo preciso atender todos os interesses. “Trata-se de um grande desafio”.

A criação da Mata Santa Genebra, no município de Campinas, considerada um das maiores áreas florestadas do mundo dentro de um perímetro urbano, é outro exemplo das dificuldades encontradas pelo ICMBio na gestão do processo. Doada ao município em julho de 1981, no mesmo período em que foi criada a Fundação José Pedro de Oliveira, cujo objetivo era administrar a Mata, foi tombada em 1985 pelo governo federal como unidade de conservação federal. Atualmente, existem 270 dessas unidades no país todo e a maioria delas não está efetivamente implantada. Conforme a categoria da unidade, explica Márcia, é preciso desapropriar terras e criar conselhos gestores.

A Santa Genebra tem um conselho, constituído pela própria Fundação, no entanto, o ICMBio até hoje não fez a implantação dessa unidade e, portanto, ela tem sobrevivido, do ponto de vista da gestão, por uma iniciativa do próprio município, porque o que foi doado foi a sombra da Mata. O maior perigo era se um dia a sombra deixasse de existir, pois as terras voltariam para a família doadora – por isso, o Governo Federal decretou a área como uma unidade de conservação. Esta era uma preocupação muito grande porque a Mata está praticamente cercada de área urbana e corre riscos. “Além de todo o processo de degradação que uma área florestal isolada corre, há também uma diminuição da fauna, que tem a função, muito importante, de fazer a mata se renovar constantemente”, alertou a analista. Mesmo com a difícil missão de implantar essas unidades de conservação, Márcia acredita que isso pode se tornar factível se o Brasil construir um pacto social.

País sede da II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, conhecida como Rio 92, o Brasil já possui uma política nacional de biodiversidade e é referência no mundo porque é considerado detentor de megabiodiversidade, tanto pela sua extensão territorial quanto pela diversidade de biomas que apresenta. Por esses motivos, a pesquisadora crê que o Brasil, frente aos países em desenvolvimento e ao cenário mundial, tem uma responsabilidade maior. “O país precisa assumir esse papel de liderança, e foi por esta perspectiva que procurei enfocar meu trabalho”, disse.

Cerrado
Uma questão sempre muito discutida nessa área é com relação ao cerrado. Márcia garante que o bioma está num processo de degradação extremamente acelerado em função, principalmente, da agropecuária, do milho e da soja. Coincidentemente, o cerrado ocorre em áreas de platôs onde a mecanização é mais facilitada. A conservação enfrenta a todo momento conflitos com a sociedade, seja no setor agropecuário, seja no setor fundiário. Agora, com o zoneamento do setor sucroalcooleiro, essa conservação pode vir a ficar até mais ameaçada, uma vez que a restrição de áreas de plantio ficou, por enquanto, apenas com a cultura da cana-de-açúcar. A ideia inicial não é só fazer o zoneamento da cultura de cana, mas também de outras para estabelecer o que pode ou não ser plantado e quais as áreas passíveis para essa finalidade, de maneira que se consiga firmar as bases socioambientais para o desenvolvimento sustentável do campo. “A reserva legal da Amazônia é 80% e a reserva legal nos outros biomas é de apenas 20%. Essa diferença em si já é difícil de administrar e, ademais, vale lembrar que a Reserva Legal não é respeitada. O Estado de São Paulo, por exemplo, não possui nem 2% de reserva le gal averbada”, comentou a analista.

No entanto, de acordo com Márcia, é preciso observar que São Paulo está na vanguarda das políticas ambiental e de biodiversidade. O Biota-Fapesp nasceu com essa missão e tornou-se referência. “Precisaríamos ter um Biota-Fapesp nacional, o que seria um grande estímulo à realização de pesquisas com foco em conservação”, afirmou. E a questão dos recursos financeiros necessários para os investimentos nessa área reflete o status atual. O ICMBio é uma autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), que possui um dos menores orçamentos do governo federal.

Com relação à participação da sociedade nesse processo, a pesquisadora não hesitou em dizer que cada um deve ter consciência de que pode ajudar. Márcia argumenta que a sociedade precisa estar consciente de que todos têm um papel a cumprir, seja na reciclagem do lixo – que, além de reduzir o volume do material descartado e aumentar a vida útil dos aterros sanitários, colabora com as cooperativas e acaba por ofertar novos empregos –, seja no caso dos grandes empreendedores com responsabilidade socioambiental. As avaliações estão se aprofundando e, dessa maneira, é possível verificar se o compromisso é realmente efetivo. “Não existe nada mais público e coletivo no planeta do que o meio ambiente”, declarou.

Além da ampliação da consciência das pessoas, para Márcia a mídia tem um papel extremamente importante, principalmente a televisão, uma vez que é visível o aumento do número de programas que abordam a questão ambiental. “É necessário, portanto, trabalhar tanto o lado educacional quanto a construção de um pacto social para a conservação da biodiversidade do país”, concluiu.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Faxina contra o baixo-astral

Neurocientista defende que atividades simples, como limpar o chão, combatem a depressão.

ERNANE GUIMARÃES NETO

Entre as os contestadores da cultura dos antidepressivos está Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia da faculdade Randolph-Macon, na Virgínia (EUA). Para ela, a resistência à depressão é algo a ser desenvolvido no trabalho cotidiano. Na entrevista abaixo, Lambert diz que existe um ciclo de "recompensas" associadas a atividades manuais.
Assim, a sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto do paciente, é acompanhada de substâncias que o deixam mais persistente. Ou menos depressivo, como defende em "Lifting Depression" (Suspendendo a Depressão, Basic Books, 288 págs., US$ 26, R$ 45).

FOLHA – Sua pesquisa pode ser encontrada em artigos sobre como "fazer a faxina faz bem para a mente". Esse é mesmo um dos melhores exercícios contra a depressão?
KELLY LAMBERT
– Depende de quanto você valoriza a limpeza.

FOLHA – Estamos acostumados à explicação de que exercícios produzem endorfinas que nos fazem sentir bem. Há muito mais que isso?
LAMBERT
– Sim. Hoje temos uma prevalência da ideia de que a depressão é devida ao desequilíbrio químico relacionado à serotonina. É claro que a serotonina tem algum papel, mas questiono em meu livro se drogas têm alguma influência direta nas pessoas.
As drogas elevam o nível de serotonina no cérebro imediatamente, mas a maioria das pessoas não percebe melhora antes de um ou dois meses. Assim, examinei a atividade física como um ciclo de "recompensa adquirida pelo esforço".

FOLHA – Mas como podemos acompanhar o "circuito" desse sistema de recompensa no cérebro?
LAMBERT
– Não sou clínica, sou uma neurocientista de ratos de laboratório. Resolvi abordar o problema como um mistério. "Vamos olhar os sintomas envolvidos na depressão": há falta de recompensa, falta de concentração, movimentos lentos, problemas para dormir, alimentação desregulada. Um grande fator aqui foi relacionado a "prazer de recompensa".
Quanto mais eu pesquisava o assunto, mais parecia haver um circuito envolvendo prazer, movimento e solução de problemas, que chamei de "circuito da recompensa adquirida pelo esforço". Outra influência foi uma palestra de Martin Seligman, pai da psicologia positiva nos EUA, autor de livros sobre otimismo.
Ele falou sobre um estudo com pessoas nascidas até 1940 e criadas nos EUA. Eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Não faria sentido dizer que houve alguma mutação biológica que afetou nosso sistema de serotonina ou que nossos cérebros tenham mudado. O que mudou drasticamente no século 20 foi nosso estilo de vida. Estamos muito menos ativos, ficamos sentados ao computador para trabalhar -não trabalhamos como nossos ancestrais, nem mesmo como aqueles de 60 anos atrás.
Seligman observou outras culturas: populações agrárias chinesas centenas de vezes menos propensas à depressão. Nos EUA, temos o grupo religioso amish, que não usa eletricidade e produz sua própria comida. Eles têm menos depressão. Homens têm menos depressão -a taxa dobra entre as mulheres- porque são mais ativos, fazem mais atividades físicas, inclusive para desestressar.

FOLHA – Pode explicar como foi feita sua pesquisa de laboratório?
LAMBERT
– Fiz uma experiência com ratos para medir valores dessas recompensas adquiridas pelo esforço. Apelidamos alguns deles de "ratos pensionistas" -pois tinham "froot loops" [cereais adocicados] à vontade- e outros de "trabalhadores", pois tinham de trabalhar para consegui-los, cavando o cereal de uma pequena caixa. Depois de seis semanas, fizemos um teste de persistência.
Demos a eles um problema insolúvel, mas muito simples: pusemos um brinquedo de plástico com uma rodelinha de cereal dentro. O cereal não seria acessível, não cairia lá de dentro. Medimos por quanto tempo eles tentavam pegá-lo.
Os ratos trabalhadores ficaram o dobro do tempo tentando. Eram mais confiantes. Em seus cérebros, percebemos a presença do neuropeptídeo Y. Vimos mais dele em áreas do cérebro envolvidas com estresse e ansiedade no grupo trabalhador. Estava ajudando em algo -talvez confiança, talvez resistência. Isso tem muito a ver com depressão, afinal se trata de desistir das coisas.

FOLHA – Seu estudo definiu depressão como "falta de persistência"…
LAMBERT
– Sim, mas estamos lidando com ratos, afinal de contas. A falta de vontade de continuar tentando é um elemento da depressão.

FOLHA – E sua descoberta principal foi que não se trata de quão intenso é o esforço, mas sim de cumprir uma tarefa com sucesso?
LAMBERT
– Trata-se de aonde leva o esforço, e não o que se faz. Por isso "recompensas adquiridas pelo esforço". Para os ratos podem ser as rosquinhas, para os humanos o artesanato, a jardinagem. Atividades que usam as mãos são as mais relevantes, mas atividades físicas em si podem ser importantes também, por aumentarem as endorfinas e diminuírem os hormônios de estresse.

FOLHA – Vencer num jogo eletrônico, por exemplo, ajuda?
LAMBERT
– Pode ser melhor que nada. É mais importante interagir de forma "real" com o mundo. Mas o uso das mãos dá uma sensação de controle; se você tem prazer em atingir o que quer que o jogo dê como prêmio, pode ajudar.

FOLHA – Seu livro oferece "libertação" do jugo dos antidepressivos?
LAMBERT
– Se você já toma remédios, não é uma boa ideia simplesmente parar, pois sua neuroquímica foi alterada. Infelizmente, muitos médicos nem fazem exames para saber se o paciente está mesmo precisando de drogas. O paciente diz: "Estou com os sintomas do comercial". Isso basta.

FOLHA – Quando a sra. fala no trabalho de nossos antepassados funcionar para prevenir a depressão, quer dizer que essa é uma doença típica da sociedade atual?
LAMBERT
– Não falávamos tanto sobre depressão no início do século 20, o que pode sugerir tratar-se também de uma questão de diagnóstico. Ficar triste é algo que sempre existiu. Mas nosso modo de vida mudou.
É verdade que a depressão pode ser algo bom em certos casos, como quando precisamos ficar quietinhos, porque estamos doentes, por exemplo. Provavelmente há um fator evolutivo nisso tudo, afinal não é bom ficar parado quando precisamos coletar recursos.

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Não me chamem de bandido

Aílton Antunes da Silva era o centro das atenções naquele dia de agosto. A audiência, de cerca de 200 pessoas, ouvia o seu testemunho. A história daquele que chegou a controlar, diziam os jornais da década de 1990, 70% do tráfico de drogas em Minas Gerais, prendia a atenção dos presentes. Esses, condenados à prisão por tráfico, homicídios, assaltos, ouviam as palavras de Aílton de dentro da prisão que prometia a eles reintegração social.

O ponto alto do relato, entretanto, se deu quando outro personagem, Valdeci Antônio de Oliveira, entrou em cena. “Eu tenho um presente para você”, disse. Aílton calou-se e esperou. “É a sua liberdade”. Depois de quase 20 anos entre presídios e fugas, Aílton ganhava, em 2005, o direito de ir e vir.

O presente de Aílton havia sido encomendado alguns anos antes, em 1998. Nesse ano, Eduardo Oliveira, ou Gordo, pseudônimos utilizados por Aílton, foi preso pela última vez. Passou 6 dias na solitária da Penitenciária José Maria Alkimin, em Ribeirão das Neves (MG), e em seguida foi transferido para a Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem (MG). Lá, foram mais 30 dias de solitária. 21 deles sem banho. Quis morrer, mas nem isso conseguiria, já que não havia nada dentro da sua cela a não ser a escuridão. Depois do período de isolamento, recebeu a visita de Valdeci, o qual havia conhecido quando estava preso na Cadeia Pública de Itaúna (MG), ainda em seus primeiros passos na vida criminosa.

O visitante sugeriu a Aílton que escrevesse uma carta para o juiz da comarca de Itaúna, sua cidade natal, solicitando a transferência para a APAC (Associação de Proteção ao Condenado) . Aílton acatou a sugestão e o juiz acatou o pedido. A liberdade estava encomendada nesse dia. A APAC é um presídio diferenciado, que acolhe condenados pelos mais diversos crimes – tráfico, assalto, homicídio – e trabalha para que tais condenados voltem às ruas sem oferecer mais perigo para a sociedade. Para o trabalho de reeducação, o presídio conta com voluntários – treinados em um curso de cerca de 40 horas – e alguns poucos funcionários remunerados na administração. Não há policiais. O resultado é um índice de reincidência que não ultrapassa 8% na APAC de Itaúna, enquanto a média nacional chega a 85%.

Quando chegou à APAC, Aílton estava com pneumonia e com o corpo fraco, atrofiado, segundo sua própria descrição. Foi, para ele, como chegar em casa. O chuveiro era quente, havia espaço para caminhar, os funcionários o tratavam bem. Mas ainda assim foi difícil se adaptar. Ao ouvir qualquer barulho de chave, ele já corria para a cama e lá ficava, tremendo, em pânico. Na penitenciária, os presos não podiam estar tristes nem felizes. Sorrisos poderiam ser interpretados como zombaria. Os carcereiros puniam. Caras fechadas poderiam revelar olhares desafiadores. Eram punidos também. A solução era, diante de qualquer barulho, deitar e fingir estar dormindo. Não foi fácil se libertar desse hábito.

Em suas idas e vindas em várias cadeias e penitenciárias, Aílton já havia padecido dos mais diferentes males. Da cadeia pública de Itaúna, lembra-se de acordar à noite se coçando, abrir os olhos e ver vários presos chorando de dor, de desespero. Era a sarna, doença comum graças à falta de higiene na cadeia onde banho, só uma vez por semana. Nessa época, a cadeia não tinha nem colchão para os presos. Foi nessa situação que Valdeci conheceu Aílton. Comovido, ele fundou, junto a outros jovens atuantes na Igreja Católica, a Pastoral Carcerária. Visitava a cadeia, lutava por melhorias no espaço físico e até lavava pessoalmente as roupas dos presidiários. Anos depois, foi esse mesmo grupo que lutou pela construção da segunda unidade da APAC no mundo, inspirados na experiência da cidade de São José dos Campos (SP).

Da Delegacia de Furtos e Roubos, em Belo Horizonte (MG), Aílton lembra-se do pau-de-arara. Pelado, mãos e pés amarrados, ficou pendurado mais de uma vez na posição de um frango assado por um ferro que se apoiava em um buraco na parede de um lado e um cavalete do outro. No chão, abaixo dele, um pneu. No caso de queda, ninguém queria que o preso quebrasse uma costela. Ao redor de Aílton, seis policiais. Um segurava a mangueira, outro um fio de choque, um terceiro segurava uma máquina de choque próxima aos pés e um quarto cuidava da chamada “cocota”, que consistia em uma borracha amarrada a um pedaço de madeira – era usada para bater no interrogado. Os outros dois se encarregavam de fazer as perguntas necessárias. Queriam que ele confessasse, mas em certos casos não era possível, pois ele não era culpado e não saberia, portanto, contar os detalhes necessários para a confissão.

Da Penitenciária José Maria Alkmin, em Ribeirão das Neves (MG), lembra-se do início da carreira de traficante. Até então, vendia pouca droga. “É uma escola do crime”, define Aílton se utilizando de um clichê que suas lembranças parecem confirmar. É preciso ser violento para ganhar o respeito dos outros presidiários e sobreviver. Nas conversas, descobre-se como cada um foi preso e aprende-se a evitar os mesmos erros. Nas novas amizades, aumenta-se o ciclo de parceiros para os atos ilícitos.

Fugiu de todas essas cadeias. Às vezes por meio de suborno. Em outras ocasiões cerrava a grade e saia da prisão embaixo de tiros. Da APAC, onde ficou por 7 anos até ganhar a liberdade durante o seu testemunho na Jornada de Libertação com Cristo, evento anual da APAC, nunca tentou fugir. Para quem visita a instituição, isso pode ser difícil de entender. O enorme muro de concreto na frente do prédio até lembra uma prisão, mas as frágeis cercas de arame farpado aos fundos mais parece a delimitação de um pequeno sítio. Mesmo o enorme muro tem sua diferença em relação a outras prisões atrás do pequeno portão azul por onde se entra no prédio. É que o dono da chave que o tranca e destranca não é policial. Também não é um funcionário da administração e nem tão pouco um voluntário. É um recuperando – porque na APAC não existem presidiários, existem recuperandos.

Tudo parece favorável a uma fuga. Mas Aílton nem mesmo tentou. “Não podemos trair quem quer nos ajudar”, resume ele ao tentar explicar o porquê. Na APAC, a mãe de Aílton voltou a visitá-lo. Aos poucos, ele reconstruía seus laços afetivos. Isso lhe dava força, diminuía a sensação de isolamento, o sentimento de que era bandido mesmo e de que não havia outro caminho. Logo nos primeiros dias de APAC, já percebeu uma diferença fundamental. Não havia corrupção. Se não é possível comprar ninguém, se o dinheiro ou a fama não fazem diferença, então todos são iguais. Não é possível ter privilégios.

Dez anos antes de ganhar sua liberdade, no dia 18 de maio de 1995, o jornal Diário da Tarde trazia no caderno Polícia a foto de Aílton escondendo o rosto. Ele e sua quadrilha haviam sido presos com 250 quilos de maconha prensada e vários armamentos. “Para o delegado (Humberto Braz Pereira) essa quadrilha é uma das mais atuantes em Minas e abastecia 70% do mercado (de drogas)”, dizia a reportagem. O currículo de Aílton apresentado pelo jornal não deixava dúvidas sobre o perigo que ele representava: “Aílton, que também é conhecido com Eduardo Oliveira, é foragido do Centro de Reeducação de Neves, onde cumpria pena de 17 anos por tráfico de drogas. Ao ser preso, foi autuado em flagrante por tráfico, falsidade ideológica e falsa identidade”.

Quatorze anos se passaram e Aílton não apagou esse histórico, mas já pode se apresentar sem esconder o rosto e responde “sapateiro” quando é perguntado sobre a sua profissão. Ele produz sandálias manualmente, com a ajuda da família e de dois recuperandos da APAC, aos quais ensina o ofício. A fábrica é dentro da prisão e o que produz é vendido em uma de suas lojas, em Itaúna(MG) e em Pará de Minas (MG), ou distribuído por lojas em Belo Horizonte (MG). Ao contar a sua história, quase não sorri, possui o ar preocupado de quem sabe que tem que lutar muito para sobreviver. Olha para o chão enquanto relembra seus longos 45 anos de vida. Não manifesta emoções ao relatar as torturas, mas chora ao se lembrar da humilhação sofrida quando alguém o chamava de bandido.

Mora hoje com a esposa Cláudia, que conheceu quando estava no regime semi-aberto da APAC, Rúbia, a filha de dois anos do casal, os dois filhos que teve com a ex-namorada Valquíria, Romeu e Roger, e a filha do primeiro casamento de Cláudia, Débora, hoje com 10 anos. Ele não é alto, também não parece merecedor do apelido Gordo. A pele morena, os cabelos e os olhos pretos. É, fisicamente, um tipo comum.

A história, porém, é incomum. É por isso que entre os planos futuros de Aílton está escrever um livro autobiográfico. Nos primeiros tempos na APAC, ele tentou escrever essa biografia. Não conseguiu. Não tinha final. Agora será mais fácil. Ele já considera o seu final feliz. Happy end, no melhor estilo hollywoodiano

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

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Hominídeo "Ardi" foi a descoberta mais importante de 2009, diz revista

France Presse

"Ardi", o esqueleto de hominídeo fêmea mais antigo já encontrado até hoje, com 4,4 milhões de anos, foi a descoberta científica mais importante de 2009, segundo definição dada pela revista "Science" na quinta-feira (17).

O fóssil lidera a lista dos dez maiores avanços científicos do ano, que também inclui a descoberta de água na Lua e o uso de folhas de átomos de carbono ultrafinas em aparelhos eletrônicos experimentais.

Descoberta de esqueleto humano do _Ardipithecus ramidus_ na Etiópia lança luz sobre origens do homem

Descoberta de esqueleto humano do Ardipithecus ramidus na Etiópia lança luz sobre origens do homem

"Ardi", um Ardipithecus ramidus, foi objeto de 15 anos de estudo minucioso por antropólogos. O esqueleto, encontrado na Etiópia, deu início a uma nova etapa na pesquisa da evolução do homem, segundo os cientistas.

Sendo 1,2 milhão de anos mais velho que "Lucy", até então o fóssil de hominídeo mais antigo já encontrado, Ardi está ajudando a derrubar mitos populares sobre a relação direta entre o ser humano e os símios modernos.

A análise do crânio, dos dentes, da pélvis, das mãos, dos pés e de outros ossos de "Ardi" mostraram que os símios africanos evoluíram consideravelmente desde o momento em que compartilharam um ancestral comum com os humanos.

"[Ardi] muda a maneira de pensarmos sobre a evolução humana mais antiga", indicou Bruce Alberts, editor da "Science".

Crânio e mandíbula do _Ardipithecus ramidus_, descrito como o mais antigo esqueleto de ancestral humano

Crânio e mandíbula do Ardipithecus ramidus, descrito como o mais antigo esqueleto de ancestral humano.

Rol científico

Entre as outras descobertas destacadas pela revista estão os pulsares, vistos pela primeira vez pelo telescópio Fermi, da Nasa. Um deles foi localizado a 4.600 anos-luz da Terra.

As observações ajudaram a explicar como funciona um pulsar –o centro de uma estrela de nêutrons, caracterizado pela emissão, a intervalos regulares e curtos, de radiação muito intensa–, e como ele contribui para a radiação eletromagnética no Universo.

A astrofísica foi fonte de outras dois dos dez maiores avanços científicos do ano segundo a "Science" –que inclui a descoberta de água gelada na Lua pela Nasa.

Em outubro, a agência espacial americana enviou duas sondas para que se chocassem contra a superfície lunar, em uma experiência dramática em busca de água. Uma delas caiu na cratera Cabeus, perto do polo sul lunar, a 9.000 quilômetros por hora; a outra teve o mesmo destino quatro minutos depois, esta equipada com câmeras e sensores para registrar o impacto e o que resultaria dele.

A Nasa foi especialmente elogiada pela revista científica pelos reparos realizados por astronautas no telescópio espacial Hubble, que desde seu lançamento, em 1990, registra imagens sem precedentes do Universo.

Entre os "temas quentes" a serem acompanhados em 2010, a "Science" menciona o metabolismo das células cancerosas, o sequenciamento do exoma –genes que representam 1% do patrimônio genético, mas que controlam as funções vitais do organismo– e o futuro dos voos tripulados ao espaço.

Fonte: UOL Ciência e Saúde – http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/

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O chamado da montanha sagrada

A península do monte Athos está virtualmente isolada da Grécia, mas ainda atrai homens em busca da fé.

Robert Draper
Foto: Travis Dove

O chamado da montanha sagrada

A antiga comunidade monástica do monte Athos, no norte da Grécia, ainda atrai homens com fome espiritual. Apanhando caquis no lusco-fusco, um monge cristão ortodoxo leva uma vida muito parecida com a de seus confrades de mil anos atrás.

A península sagrada do monte Athos avança 50 quilômetros para dentro do mar Egeu, feito um apêndice lutando para se destacar do corpo secular no nordeste da Grécia. Nos últimos mil anos, uma comunidade de monges da Igreja Ortodoxa do Oriente habita a região procurando se afastar de tudo que não seja Deus.
Seu enclave, marcado por ondas violentas, densas florestas de castanheiros e o espectro rajado de neve do monte Athos, de 2 033 metros, é a própria essência do isolamento. Vivendo em algum dos 20 monastérios, em um dos 12 claustros autônomos dentro deles, os quais abrangem, no total, centenas de celas, os monges se isolam até mesmo uns dos outros. Ostentando pesadas barbas e trajes negros gastos, sinalizando sua morte para o mundo, parecem saídos de um afresco bizantino. Eles constituem uma fraternidade ritualística imperecível, de radical simplicidade, em constante devoção a Deus – não obstante suas imperfeições. Sim, pois existe a consciência, como explica um monge ancião, de que, "mesmo no monte Athos, somos seres humanos a caminhar a cada dia no fio da navalha".
São todos homens. De acordo com os costumes, mulheres estão proibidas de visitar o lugar desde seus primórdios, uma postura nascida antes da fraqueza que do despeito. Como diz um monge, "se as mulheres pudessem vir, dois terços de nós partiriam com elas para se casar".
O monge corta os laços com sua mãe para estabelecer outros com a Virgem Maria, figura sagrada que, reza a lenda, teve seu barco desgarrado pelos ventos ao navegar para Chipre, indo parar no monte Athos. Ali abençoou seus habitantes pagãos, que se converteram ao cristianismo. Cada monge cria uma ligação com o abade de seu monastério ou com o companheiro mais velho de cela, que se torna seu pai espiritual e o ajuda a estabelecer "um relacionamento pessoal com Cristo", como frisa um deles.
O afastamento ou a morte de uma dessas eminências podem ser penosos para os mais novos. Por outro lado, a decisão de um jovem de retornar ao mundo exterior também pode ser traumática. "No ano passado, um deles se foi, sem pedir minha opinião", diz um monge idoso, num tom que denuncia o ressentimento paterno. "Sendo assim, melhor mesmo que se tenha ido."
Os monges cristãos (a palavra monge deriva do grego monos, ou "singular"), inicialmente, formavam refúgios coletivos, ou monastérios, no deserto egípcio, durante o quarto século.
A prática disseminou-se pelo Oriente Médio e pela Europa, sendo que, lá pelo nono século, os eremitas chegaram ao Athos. A partir daí, à medida que a civilização se tornava mais complexa, multiplicavam-se os motivos para se manter distância da sociedade e optar pela vida monástica. De fato, depois que duas guerras mundiais e o evento do comunismo (o qual impedia a emigração da Rússia e do Leste Europeu) reduziram a população dos monastérios para 1 145 pessoas em 1971, as últimas décadas assistiram a um renascimento. Um fluxo constante de jovens – muitos graduados em universidades e em bom número advindos do ex-bloco soviético – fez inflar os quadros do monte Athos para cerca de 2 mil monges e noviços. Ao mesmo tempo, a entrada da Grécia na União Europeia, em 1981, habilitou a península a receber fundos de preservação.
"Há 2 mil histórias aqui, cada qual descrevendo um percurso espiritual", diz o padre Maximos, cujo próprio caminho se iniciou em Long Island quando ele, adolescente, era devoto de músicos da vanguarda pop, como Lou Reed e Leonard Cohen, antes de se tornar professor de teologia em Harvard para, em seguida, optar por "viver mais próximo de Deus".
Muitas dessas jornadas começam de forma atribulada. Um garoto ateniense foge de casa. Daí, quando seu irmão aporta no monte Athos para buscá-lo, o rapazote adverte: "Vou fugir de novo". O filho de um merceeiro de Pittsburgh, nos Estados Unidos, surpreende os pais com sua decisão, a qual, dois anos depois, ele reconhece que pode ser temporária, argumentando: "Quem há de saber quais são os planos de Deus?"
Se o aspirante não está pronto, o pai espiritual o estimula a voltar para casa. Do contrário, ele passará pela tonsura à luz de velas: o abade raspa uma cruz em seu cocuruto e outorga-lhe o nome de um santo. Assim nasce um monge.

As histórias dificilmente acabam com a chegada ao monte Athos. Um obstinado hippie da Austrália passou de Peter a padre Ierotheos, tornando-se cantor – barítono – no monastério Iviron. O padre Anastasios aprendeu a pintar ali, e agora exibe seus trabalhos em lugares tão distantes quanto Helsinque, na Finlândia, e Granada, na Espanha. E o padre Epiphanios, que resolveu restaurar os antigos vinhedos de Mylopotamos, hoje exporta um excelente vinho para quatro países, além de ter publicado um livro com as receitas dos monges em três idiomas.
Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, a irmandade consiste em homens que, ao fim e ao cabo, não deixam de ser quem são, seres de carne e osso debaixo de seus hábitos. Uns, independentes por natureza, optam por recolher-se em celas no campo. Outros se revelam mesquinhos e, diz um monge, nota-se que "a vida monacal pode ser consumida por ninharias".
No entanto, os melhores entre eles não apenas irradiam boa vontade como também procuram aplicá-la naquilo que é mais necessária. O padre Makarios, do monastério de Marouda, perto de Karyes, é desse naipe, sempre disposto a ceder a estranhos seu casaco sobressalente, os cômodos disponíveis de seus aposentos e o dinheiro que traz no bolso. "Quem tem fé verdadeira", sustenta esse monge de 58 anos, dono de vívidos olhos verdes, "tem também liberdade. Tem amor."
Os monastérios são tudo, menos blocos monolíticos. O Vatopediou, à beira-mar, está repleto de tesouros bizantinos e ambições – entre seus monges há um regente musical que trabalha em período integral. Por outro lado, o monastério Konstamonitou, agrário, abraça um estilo de vida rústico, sem eletricidade ou donativos da União Europeia. Já o Simonos Petras, suspenso acima de uma infinita paisagem marinha, parece agarrado à escada que leva aos céus.
Alguns monges se atêm à aridez de choças mambembes ao longo das encostas íngremes do monastério Karoulia. Outros ainda optam pelo fanatismo. É o caso dos residentes do Esfigmenou, monastério milenar durante muito tempo atormentado por piratas, incêndios e repressores otomanos, e que agora se vê vitimado pelo próprio radicalismo. Ao renunciar à política dos Patriarcas Ecumênicos de diálogo com outras denominações cristãs, aferrando-se ao lema “Ortodoxia ou morte”, a irmandade do Esfigmenou foi banida pelo corpo dirigente do monte Athos, conhecido como a Sagrada Comunidade. Eles agora subsistem em desafiadora ilegalidade de doações de simpatizantes espalhados pelos quatro cantos do mundo externo. "Prosseguiremos em nossa luta", declara seu abade renegado. "Depositamos nossas esperanças em Cristo e na Virgem Santa – e em ninguém mais."
Algo como 2 mil trabalhadores não religiosos dividem o território da península com o mesmo número de monges. O monte Athos faz parte da Grécia desde 1924. A sede do governo local é Karyes, a encardida capital onde são depositados os carregamentos vindos de longe e os recém-chegados peregrinos ortodoxos. (Os visitantes precisam solicitar uma autorização especial. A Sagrada Comunidade admite levas de cerca de 100 homens por até quatro dias.)
Encruzilhada em que se fundem o perene e o transitório, Karyes exorbita em contradições: um monge manquitola pela rua com uma bengala de galho retorcido em uma mão e, na outra, uma valise da Nike. Lojas oferecem velas, terços e garrafas de ouzo, a aguardente grega. A polícia tem de lidar com ocasionais bebedeiras em público ou roubos em lojas. Além disso, Karyes sedia a Sagrada Comunidade, o mais antigo Parlamento em atividade no mundo. Seus membros se debruçam sobre assuntos importantes, como as relações com a União Europeia, ou mínimos, como definir quem vai alugar uma loja.
O lugar tem sobrevivido dobrando-se quando é preciso, embora sempre com relutância. Santo Anastácio, fundador do monastério Megistis Lavras, em 963, enfureceu os eremitas ao introduzir uma arquitetura ousada em uma região rústica por excelência. Estradas e ônibus, depois eletricidade e telefones celulares, têm sido fonte de apreensão. A última transgressão foi a internet. Alguns monastérios fizeram pela rede encomendas de peças de reposição, se comunicaram com advogados, navegaram em sites de pesquisa acadêmica. "A maioria dos monges nem sequer sabia sobre os ataques às torres de Nova York, em setembro de 2001", adverte um monge.
Os religiosos mais novos têm educação universitária, laptops e pouca experiência em criar galinhas. E persistem as preocupações de que os donativos da União Europeia só terão continuidade se atrelados a exigências – tais como a permissão de visita de mulheres à península. Do jeito que a coisa vai, o monte Athos não poderá evitar o confronto com as questões terrenas.
Todavia, a irmandade avança à maneira usual: milímetro a milímetro, glorificando o mundo oculto – "digerindo a morte", nas palavras de um de seus mais proeminentes luminares, o padre Vasileios, "antes que ela nos digira".

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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Sistema permitirá visualização de cenários futuros do clima

Antonio Carlos Quinto

Um conjunto de técnicas e ferramentas para auxiliar na análise e visualização de dados metereológicos e de modelos de cenários futuros de mudanças climáticas vem sendo desenvolvido no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação de São Carlos (ICMC), da USP. O projeto AgroDataMine: Desenvolvimento de Métodos e Técnicas de Mineração de Dados para apoiar Pesquisas em Mudanças Climáticas com Ênfase em Agrometeorologia acaba de ser aprovado numa chamada pública do Instituto Microsoft Research e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) de pesquisas em TI.

Projeto será focado no setor agrícola, que é o mais afetado pelas mudanças climáticas

Projeto será focado no setor agrícola, que é o mais afetado pelas mudanças climáticas.

De acordo com a professora Agma Juci Machado Traina, do Departamento de Ciência da Computação do ICMC, o projeto teve origem na pesquisa de doutorado de Luciana Alvim Santos Romani, que é pesquisadora da Embrapa Informática Agropecuária, e conta com a parceria do Centro de Pesquisas Metereológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Agma é orientadora de Luciana e conta que o desafio do projeto é gerenciar um grande volume de dados meteorológicos e climáticos de até 100 anos. “As informações são da ordem de terabytes e o sistema deverá processar dados de imagens de satélites, estações metereológicas e radares, entre outros”, descreve a professora.

Fractais
Agma explica que o cruzamento dos dados no sistema são realizados por algoritmos que trabalham com regras de associação e com a teoria dos fractais. “A teoria dos fractais é um modelo matemático robusto que será usado no projeto. Afinal, o volume de dados é grande. Para se ter uma idéia, cada execução de um modelo de cenários futuros de mudanças climáticas, por exemplo, gera informações da ordem de dois a três terabytes. Isso é impensável de se processar num computador comum, um PC doméstico”, explica Agma, lembrando que um conjunto de servidores atua como base do AgroDataMine.

O projeto será focado no setor agrícola, já que a atividade é das mais afetadas pelas mudanças climáticas. Segundo Agma, a ocorrência de eventos extremos, como chuvas fortes, enchentes, secas e outros fenômenos leva a grandes perdas na agricultura bem como na população que é afetada. “A capacidade de analisar o cenário que propicia tais ocorrências e a correlação de índices e medidas climáticas permite a tomada de decisões estratégicas para se prevenir em relação aos eventos extremos”, avalia a professora. Além disso, a análise de cenários futuros permitirá que agricultores, cooperativas e governo possam decidir com melhor embasamento as melhores culturas ou adaptações a serem feitas nos plantios.

Na prática
O AgroDataMine já está sendo aplicado na prática. Os primeiros resultados, no entanto, serão conhecidos em um prazo de dois anos, que é a duração prevista do projeto. Para os primeiros testes, os pesquisadores analisaram cinco regiões produtoras de cana-de-açúcar localizadas na área central do estado de São Paulo, nas cidades de Araraquara, Jaboticabal, Jaú, Pitangueiras e Sertãozinho.

Os dados obtidos são referentes às temperaturas, mínimas e máximas, e imagens do satélite NOAA de um período de sete anos, entre 2001 e 2008. Os primeiros resultados indicam, por exemplo, que existe uma correlação entre a precipitação e o índice de vegetação obtido por meio das imagens de satélite, com uma defasagem de 2 meses. Isso significa que após 2 meses da ocorrência de muita chuva ou secas é que se observa um reflexo desse fenômeno na planta. Com isso, é possível utilizar as técnicas que estão sendo desenvolvidas pela equipe do projeto para encontrar correlações entre as diversas variáveis e definir modelos de previsão. “Esses novos métodos podem auxiliar os agrometeorologistas e fornecer informações aos agricultores ajudando-os na tomada de decisão”, revela a professora.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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