Daily Archives: 22/12/2009

Metodologia pode ajudar a prevenir cheias em rios urbanos

Antonio Carlos Quinto

URBSSD permite elaborar estratégias preventivas em bacias urbanas.

Enchentes e deslizamentos, que acontecem principalmente em épocas de chuvas, podem ser minimizados se os administradores públicos tiverem em mãos ferramentas que os auxiliem a prever cenários futuros e a tomarem decisões mais precisas. Utilizando um Sistema de Informação Geográfica (SIG) o engenheiro Sidnei Ono desenvolveu uma metodologia que permite ações preventivas em regiões de risco. OSistema de Suporte a Decisão para Gestão de Água Urbana – URBSSD é um software que permite elaborar estratégias preventivas em bacias urbanas. “A metodologia pode ser um importante suporte à tomada de decisões em tudo que se refere à água urbana superficial”, define Ono.

O estudo do engenheiro está inserido numa outra iniciativa da Poli, o Projeto Cabuçu de Baixo, que foi coordenado pelo professor Mario Thadeu Leme de Barros, do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Poli, orientador de Ono em seu mestrado.

A bacia hidrográfica do Rio Cabuçu está localizada na Zona Norte de São Paulo. O rio Cabuçu é afluente do Tietê pela sua margem direita, tendo suas nascentes junto à Serra da Cantareira. A área de drenagem é da ordem de 42 quilômetros quadrados.

A bacia hidrográfica do Rio Cabuçu de Baixo é um exemplo típico do que tem ocorrido em muitas cidades brasileiras. É uma bacia em acelerado processo de urbanização, mas que ainda dispõe de condições de controle, se adequadamente administrada pelos seus gestores. E foi lá que, a partir de 2002, Ono iniciou seus estudos para a elaboração do URBSSD. “Trata-se de uma metodologia que pode ser aplicada em outras regiões. Para tanto, basta que o software seja devidamente ajustado com os dados do local a ser monitorado”, esclarece o engenheiro.

Retrato
Para iniciar o desenvolvimento do projeto, o engenheiro e uma equipe multidisciplinar, envolvendo outros engenheiros, hidrometristas, geólogos e arquitetos, realizaram uma espécie de “retrato” do local, mapeando uma série de características da região, como as áreas ocupadas, topografia, medições de eventos de chuva, medições do rio, etc.

Os dados foram então inseridos no software que permitiu gerar simulações de inundação. Os resultados das simulações hidrológicas e hidrodinâmicas podem ser visualizados e exportados para serem usados em outros softwares SIG. “A medida pode proporcionar ao decisor uma solução rápida para variadas tormentas em bacias urbanas. Além de se constituir num instrumento de gestão, o projeto tem o potencial de minimizar os efeitos deletérios induzidos pelo crescimento humano”, destaca Ono. Ele enfatiza que o projeto é uma metodologia, mas uma ferramenta eficiente para o controle de cheias urbanas.

Outra vantagem do URBSSD é o desenvolvimento de um sistema que integra modelos, podendo gerar cenários para a avaliação e suporte a decisões. “Normalmente os profissionais utilizam um software de cada vez, com o uso de um modelo hidrológico que estuda vazões, um outro modelo para o cálculo de ondas de cheias, outro software para o processamento de imagens e assim por diante”, descreve Ono.

Como recomendação para os modelos de cheias urbanas, o URBSSD deve ser adaptado para as diferentes bacias urbanas, mesmo sendo atualmente um software customizado. O projeto também tem o potencial de ser utilizado como uma ferramenta de análise de qualidade da água e de sedimentos para outras bacias urbanas, mas principalmente uma ferramenta importante na previsão de inundações se for aliado a um sistema de previsão de chuvas.

Prêmio
Em novembro último, o estudo de Ono foi premiado como vencedor do “Prêmio Jovem Pesquisador”, durante o XVIII Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, da Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), com o apoio da UNESCO e CT-Hidro. A pesquisa de Ono concorreu com outros 438 artigos. A premiação é concedida para pesquisadores que têm abaixo de 35 anos.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/agen/

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4912   

Ambientalista, quando ainda não se falava nisso

O etnólogo lamentava as agressões feitas ao ‘espetáculo do mundo’.

Beatriz Perrone-Moisés

Em entrevista à televisão francesa, em 1988, Lévi-Strauss dizia que "jamais teria ousado escrever Tristes Trópicos" – um livro em que "escrevi tudo que me passava pela cabeça, sem me preocupar em saber se era verdadeiro ou falso … se tivesse imaginado um dia seguir carreira acadêmica". Estava convencido, após duas recusas pelo Collège de France, de que seu destino não seria a academia. Corria o ano de 1955. Dali a três anos seria publicada a coletânea Antropologia Estrutural, estava dada a largada para uma nova antropologia. Claude Lévi-Strauss surgiu então no papel de celebridade intelectual que temos visto merecer manchetes, matérias e especiais no mundo todo nestes dois últimos anos. Em 1960, Lévi-Strauss seria finalmente eleito para o Collège de France e, em 1973, para a Academia Francesa. Nos anos 80, a França já sabia que ele era um "tesouro nacional vivo".

Por pouco perdemos um livro magnífico, que mescla considerações teóricas, fruição sensorial do mundo e mundos indígenas, num estilo a um tempo seco e melodioso, elegante e sensível, irônico e romântico, compenetrado e compadecido, sempre preciso. Todos lembram o fato – curioso quando se considera a declaração do autor – de Tristes Trópicos ter parecido verdadeiro demais ao júri do Goncourt para que fosse possível lhe dar o prêmio máximo no ano de sua publicação. O embaraço dos jurados do Prêmio Goncourt é um exemplo, certamente anedótico, dos muitos desafios colocados por sua obra, geradora de debates acadêmicos variados ao longo dos anos.
Não há como falar brevemente da obra do maior antropólogo. Basta lembrar que livros como O Pensamento Selvagem (1962) e os sete volumes das Mitológicas, dedicados à mitologia ameríndia (1964-1991) são tão difíceis de classificar quanto o relato do viajante. O próprio Lévi-Strauss desafia classificações, dada a sua influência em áreas tão diversas do pensamento. Apresentava-se costumeiramente como etnólogo e por sinal sugeria que a etnologia talvez seja tanto ciência quanto arte.
Entre o rigor científico e o talento literário, à reflexão de Lévi-Strauss devemos demonstrações pioneiras e brilhantes (em Raça e História, por exemplo) da falta de fundamento – científico ou moral – em supor hierarquias entre os seres humanos. Não se pode determinar a superioridade de uma cultura sobre outras, nem tampouco há como justificar a suposição de que existam diferenças de qualidade ou de grau entre realizações particulares da capacidade humana, compartilhada e universal, de pensar. Lévi-Strauss não apenas afirmou – o que já não seria pouco – que todos os humanos pensam igualmente (bem), dignificando os povos chamados primitivos e seu pensamento. Dedicou-se laboriosamente a demonstrá-lo, com dados etnográficos colecionados por uma extraordinária erudição e relacionados com notável talento de escritor. E dispôs-se a pensar não sobre os índios, mas com eles.
Lévi-Strauss definiu certa vez a antropologia como estudo das diferenças, e de vários modos mostrou que o próprio do humano é justamente o fato de, munidos do mesmo espírito, dos mesmos modos de pensar, pensarmos coisas tão diferentes. Lamentava constantemente a perda da diversidade humana, provocada pela destruição deliberada das colonizações ou, nas últimas décadas, pela aceleração da chamada globalização. Lamentava também o desaparecimento de espécies animais e vegetais e a devastação da natureza, ele que desde cedo, dizia, apreciava o "espetáculo do mundo". Apontado por alguns como um pioneiro das causas ecológicas e dos direitos dos animais, em 2005, Lévi-Strauss repetia em pronunciamento um alerta que já aparecera em vários de seus livros, sob outras formas: "Os direitos da humanidade cessam no momento em que seu exercício põe em risco a existência de outras espécies". Tem sido notado que, no humanismo de Lévi-Strauss, o humano não é o centro. Das muitas lições contidas em sua obra, guardemos hoje as de respeito, para com tudo e todos com quem compartilhamos o mundo, que são lições de humildade.
Morreu o homem que finalmente teve uma carreira acadêmica das mais brilhantes. Ficam conosco o antropólogo que abriu o caminho do efetivo diálogo entre pensamentos radicalmente diferentes, levando a antropologia à sua realização; o americanista que revelou a riqueza dos mundos ameríndios e não perdeu nenhuma oportunidade de chamar a atenção para o massacre perpetrado neste continente; o pensador que, com os mitos ameríndios, pensando com os índios, há muito chamou a atenção para a necessidade de respeito e humildade diante de tudo quanto há no mundo, humano ou outro.
"Os homens não diferem, nem mesmo existem, senão por suas obras só elas provam que no curso do tempo, entre os homens, algo realmente ocorreu", escreveu Lévi-Strauss no último parágrafo de seu último livro, Olhar, Escutar Ler (1994). A vasta obra em que ele, pensando diferenças, distinguiu-se e existe, ainda está longe de ter esgotadas suas possibilidades de leitura. Com o passar dos anos, teremos cada vez mais a medida do que realmente ali ocorreu.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4911   

Por que somos cegos?

Embora muitos acreditem que nossos olhos funcionam como câmeras que registram as cenas que vemos, estudos mostram que nossa capacidade de apreender informações visuais é bastante limitada.

Vilayanur S. Ramachandran
Diane Rogers-Ramachandran

Imagine que você faz parte de uma plateia que assiste a pessoas driblando e passando entre si uma bola de basquete. Sua tarefa é contar durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Você descobre que precisa se concentrar, porque a bola se movimenta muito rapidamente. Então, alguém com fantasia de gorila atravessa o lugar, caminha entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai embora . Surpreendentemente, de acordo com
um estudo realizado pelos pesquisadores Daniel J. Simons, da Universidade de Illinois, e Christopher F. Chabris, da Universidade Harvard, 50% dos voluntários que participaram desse estudo não notaram o gorila. Muitos acreditam que nossos olhos funcionam como câmeras que produzem um registro impecável do mundo ao redor, mas essa pesquisa demonstra que são poucas as informações que realmente apreendemos em um relance.
O resultado desse experimento é o ponto culminante de uma série de estudos sobre atenção e visão iniciados há mais de três décadas por alguns pesquisadores como Ulric Neisser, da Universidade Cornell, Ronald A. Rensink, da Universidade da Colúmbia Britânica, Anne Treisman, da Universidade de Princeton, Harold Pashler, da Universidade da Califórnia, e Donald M. MacKay, da Universidade de Keele, na Inglaterra.
Os estudiosos se referem ao “efeito gorila” como uma “cegueira por desatenção” ou “cegueira para mudanças”. Nosso cérebro tenta, constantemente, construir narrativas significativas daquilo que vemos. As coisas que não se encaixam muito bem no roteiro ou têm pouca relevância são eliminadas da consciência. Se as informações suprimidas são, apesar de tudo, processadas inconscientemente, ainda não sabemos. Outro exemplo é o jogo infantil dos erros, de “identificar as diferenças”. Duas imagens são similares o bastante para que o cérebro pressuponha que podem ser idênticas; são necessários minutos de atenção para localizar as disparidades.

UM MACACO NO MEIO DO CAMINHO: estudiosos se referem ao “efeito gorila” como uma “cegueira por desatenção ou por mudanças”

O valor de uma narrativa cerebral se torna evidente quando consideramos estímulos sensoriais que podem ser confusos. Ao inspecionarmos uma sala ao nosso redor, as imagens que vemos pulam rapidamente à medida que várias partes da cena excitam diferentes partes da retina. Ainda assim, o mundo parece estável. Há algum tempo, pesquisadores acreditavam que a experiência de ter uma visão intacta era criada pelo cérebro e que ele era responsável por enviar para os centros visuais uma cópia dos sinais de comando do movimento ocular originários dos lobos frontais. Acreditava-se também que as áreas visuais recebiam antecipadamente “informações privilegiadas” de que a imagem saltitante sobre a retina era causada pelo movimento dos olhos e não pelo mundo em movimento.
Mas um efeito que qualquer um pode realizar em casa mostra não ser tal movimento o único motivo. O diretor de ópera Jonathan Miller e um de nós observamos, separadamente, o mesmo efeito no início dos anos 90. Você pode tentar: vire uma televisão de ponta-cabeça ou use um prisma para alterar opticamente a imagem. Alternadamente, desligue o som do aparelho e fique ao lado, olhando para a tela com sua visão periférica. Sintonize qualquer canal e observe o que acontece. Você verá súbitas mudanças enervantes e perceberá “solavancos visuais”. A seguir, fixe o olhar na tela do aparelho na posição normal, olhando-o de frente, com volume normal. Agora, os cortes e os movimentos da câmera fluem homogeneamente e sem descontinuidades de uma imagem à outra – na verdade, você nem sequer percebe esse movimento. Mesmo quando a cena muda, você não vê uma cabeça se transformando, ou uma fusão de uma na outra caso sua atenção se alterne entre dois interlocutores numa cena. Você apenas sente o ponto de vista mudar.
O que esse experimento mostra? A resposta é que quando a televisão está posicionada corretamente e você ouve o som, o cérebro é capaz de construir uma narrativa sensata. Os cortes, os movimentos e outras alterações são simplesmente ignorados por serem considerados irrelevantes, por mais marcantes que possam ser naquele contexto. Em contraste, quando a cena está de ponta-cabeça ou é notada com a visão periférica e o som está desligado, o cérebro tem dificuldade em criar um sentido expressivo com os elementos que os centros visuais percebem. E aí começamos a notar as grandes mudanças na imagem física. Esse efeito não é verdadeiro apenas para as cenas visuais, mas também para as outras experiências de vida; a coerência da consciência é uma ficção cômoda, gerada internamente.

Tentamos construir narrativas com aquilo que vemos; o que não se encaixa é eliminado.

A cena não precisa sequer ser complexa para que ocorra essa cegueira para mudanças. Em 1992, realizamos com o neurobiólogo britânico Colin Blakemore um experimento com pessoas que assistiam a um seminário que ministramos no Instituto Salk de Estudos Biológicos, na Califórnia. Inicialmente, mostramos por dois segundos um slide que continha três formas coloridas: um quadrado vermelho, um triângulo amarelo e um círculo azul (ver ilustração). Logo após nós as substituímos pelas mesmas três formas posicionadas de maneira diferente. O público observou que todas pareciam levemente distorcidas ou brilhantes. A grande surpresa veio quando trocamos uma das três figuras (o círculo) por outra: um quadrado. A maioria simplesmente não percebeu a troca, exceto alguns que estavam concentrando sua atenção naquele objeto em particular. Mesmo com figuras geométricas, constatamos a sobrecarga sensorial e a cegueira para mudanças.
Finalmente, imagine que você esteja olhando fixamente para um pequeno “X” vermelho ligeiramente deslocado à esquerda. Por um breve momento, mostramos a você uma cruz. Tudo o que você precisa nos dizer é qual é mais comprida – a linha vertical ou horizontal da cruz. As pessoas cumprem essa tarefa sem esforço. Agora, introduzimos sorrateiramente uma palavra direto sobre a cruz durante o segundo em que você está analisando o tamanho das linhas: Arien Mack, da Universidade New School, e Irvin Rock, da Universidade Rutgers, descobriram que as pessoas não identificavam a palavra.
Talvez você esteja lendo este artigo em um restaurante lotado. Notou algum gorila passando por você? Dada a demonstração de Simons, como você pode ter tanta certeza de que não passou nenhum? Supomos que isso depende de quanto você gostou do que leu.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4910

Usurpadores de trono

Biólogos americanos descobrem que cupins fazem guerra, matam reis e rainhas e tomam seu lugar depois.

RICARDO BONALUME NETO

Eles entram em combate e conquistam território e recursos. Matam seus reis e rainhas e tomam seus lugares. Impedem soldados e trabalhadores de fazer sexo mas, depois do regicídio, tomam o lugar dos monarcas e passam a se reproduzir. Tais comportamentos, muito humanos, são típicos de uma espécie primitiva de cupim que está ajudando a responder a um dos mistérios da biologia que já intrigava Charles Darwin (1809-1882), o pai da teoria que explica a evolução dos seres vivos através da seleção natural.
Ao reproduzir em laboratório as "batalhas" naturais entre diferentes colônias de cupins e analisar o resultado, a equipe de Barbara L. Thorne, do Departamento de Entomologia da Universidade de Maryland, conseguiu mostrar como fatores ecológicos podem ter facilitado a origem da "eussocialidade" nos insetos sociais, a curiosa situação em que quase toda a colônia de cupins, formigas ou abelhas não faz sexo.
"Mais de 150 anos depois de Charles Darwin ter publicado "A Origem das Espécies", uma das questões que ele reconheceu como uma constante dor-de-cabeça permanece sem solução: o que levou à evolução de colônias de insetos altamente sociais, ou "eussociais’", disse Thorne à Folha.
Uma primeira "aspirina" nessa dor-de-cabeça foi receitada em 1964 pelo britânico William Hamilton (1936-2000). Ele notou que um indivíduo pode ganhar um benefício indireto ao ajudar parentes. Suas hipóteses ajudavam a explicar a presença desse comportamento em insetos himenópteros, como formigas, abelhas e vespas.
Esses bichos têm um sistema genético original. São seres "haplodiploides". Quando um ovo e um espermatozoide se juntam, sempre nasce uma fêmea. Quando um ovo não fertilizado se desenvolve sozinho, surge um macho. A fêmea tem, portanto o dobro de material genético que o macho. Ela é diploide, ele é haploide.
Como argumentou Hamilton, as fêmeas estão geneticamente mais próximas das suas irmãs do que de seus descendentes, e isso explicaria porque esse sistema genético era comum nesse tipo de inseto.
Mas, como lembram Thorne e mais quatro colegas em artigo publicado na revista científica "PNAS", a "eussocialidade" também surgiu em seres diploides -o sistema genético mais "normal", no qual se tem uma cópia de cromossomo herdada do pai e outra da mãe. As hipóteses de Hamilton não explicariam esses casos, que incluem espécies de besouro, camarão e até um mamífero, o rato-toupeira-pelado da África.
Thorne e colegas estudaram os cupins da espécie Zootermopsis nevadensis. A espécie compartilha características sociais, de desenvolvimento e de habitat com cupins ancestrais. "Ela é uma "espécie-modelo" que provê uma janela para o passado pela qual nós podemos inferir as condições, 140 milhões de anos atrás, que levaram à evolução eussocial", afirma a pesquisadora.
A Z. nevadensis tem um comportamento original. Suas colônias vivem e se alimentam em troncos de árvores e nunca saem deles em busca de comida. Apenas as formas aladas e férteis saem do tronco quando vão em busca de parceiros para criar novas colônias -sãos os "príncipes" e "princesas" que se tornarão jovens reis e rainhas. "Centenas de pares de reis e rainhas começam colônias simultaneamente debaixo da casca da mesma árvore ou tronco em decomposição e nunca saem de novo", escreveram os autores na "PNAS".
Isso cria condições ideais para conflito. Com as colônias em crescimento, os recursos escasseiam e elas tendem a se encontrar. O resultado é guerra, nas quais reis e rainhas morrem com frequência. Curiosamente, os sobreviventes formam uma nova colônia conjunta, sob comando de novos monarcas derivados dos "plebeus" não reprodutores.
"Esse comportamento de junção é intrigante, porque colônias vizinhas são tipicamente não aparentadas", dizem os pesquisadores.
Segundo Thorne, os resultados apoiam uma teoria que ela propôs em 2003, a da "herança acelerada". "Os filhos dos cupins ficam para ajudar no ninho dos pais porque a chance de herdarem o "trono reprodutivo" é mais alta do que a chance de se dispersarem com sucesso, encontrarem um parceiro, sobreviverem para produzir descendentes férteis, se eles partissem para tentar estabelecer uma colônia própria."
Pista
O achado-chave dos pesquisadores foi justamente a circunstância ecológica de as colônias habitarem o mesmo tronco. "A carnificina cria oportunidades para os descendentes se diferenciarem em formas reprodutivas", diz Thorne. Isso vem de não existirem mais no ambiente os hormônios sexuais produzidos pelos monarcas, que levavam à supressão do desenvolvimento de órgãos sexuais da "plebe".
A maioria das mais de 3.000 espécies atuais de cupins sai em busca de comida fora dos ninhos. Há menos oportunidade de conflito, e o rei e a rainha ficam em "castelos" protegidos. Mas a Zootermopsis nevadensis dá uma ótima pista de como pode ter se dado a evolução da eussocialidade no passado distante dos animais.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4909 

Alô, dinamarqueses: “Nem vocês podem controlar essa Conferência”

Os dinamarqueses investiram enorme quantidade de dinheiro para converter Copenhague em capital da conferência que salvaria o planeta. Seria ótimo, se a conferência estivesse realmente interessada em salvar o mundo. Mas, dado que não está… então os dinamarqueses puseram-se freneticamente a tentar meter-nos num novo design. Considerem-se os protestos do fim-de-semana. No fim, havia cerca de 1.100 presos. A marcha foi festiva e pacífica, mas difícil. A mensagem foi “O clima não negocia” – e os negociadores ocidentais tinham parado de negociar. O artigo é de Naomi Klein.

Naomi Klein

Sábado à noite, depois de uma semana sobrevivendo pelos bares e lanchonetes em torno do centro de conferência, alguns de nós fomos convidados para uma deliciosa refeição de comidinha caseira, numa verdadeira casa dinamarquesa. Depois de horas de olhar com admiração os móveis e talheres e pratos e panelas, alguns formularam a pergunta de todos: “Por que os dinamarqueses são tão bons em design?”
“Porque somos obcecados pelo controle”, respondeu nossa anfitriã, sem titubear. “É consequência de sermos país pequeno, praticamente sem poder para nada. Então, temos de controlar o que podemos.”
No que tenha a ver com produzir móveis espantosamente leves e cadeiras e banquetas espantosamente confortáveis, essa modalidade de deslizamento à dinamarquesa é evidentemente coisa muito boa. Mas no que se trate de organizar conferência para um mundo em transformação, a mania de controle à dinamarquesa é comprovadamente problema grave.
Os dinamarqueses investiram enorme quantidade de dinheiro para converter sua capital (hoje chamada “Hopenhagen” [ing. hope, “esperança”]) em capital da conferência que salvaria o planeta. Seria ótimo, se a conferência estivesse realmente interessada em salvar o mundo. Mas, dado que não está… então os dinamarqueses puseram-se freneticamente a tentar meter-nos num novo design.
Considerem-se os protestos do fim-de-semana. No fim, havia cerca de 1.100 presos. Bobagem. Na marcha do sábado, cerca de 100 mil pessoas chegaram a uma encruzilhada nas negociações sobre clima, quando todos os sinais apontavam ou para a ruptura ou para um acordo perigosamente fraco. A marcha foi festiva e pacífica, mas difícil. A mensagem foi “O clima não negocia” – e os negociadores ocidentais tinham parado de negociar.
Quando um pequeno grupo começou a jogar pedras e bombas de estalo (não, não foram “tiros de pistola”, como o Huffington Post noticiou ofegante), os manifestantes rapidamente os cercaram e neutralizaram, instruindo-os para que se separassem da marcha – o que o grupo fez imediatamente. Eu estava naquela parte da manifestação, e nem precisei interromper a frase que dizia, e tudo seguiu normalmente. Chamar àquilo de “tumultos de rua”, como noticiou, absurdamente, o British Telegraph, não faz justiça aos verdadeiros tumultuadores de rua dos quais a Europa está cheia.
Não importa. Os policiais dinamarqueses usaram algumas bombas de gás como pretexto para prender quase mil pessoas num dia, e mais cem no dia seguinte. Centenas desses presos foram encurralados, cercados juntos, forçados a permanecer durante horas sentados no asfalto congelado, vários deles com mãos atadas (e alguns também com pés atados). Segundo Tadzio Müller, organizador da manifestação, aqueles não foram os que jogaram pedras e “o tratamento foi humilhante” (alguns dos detidos urinaram-se, impedidos de mover-se e procurar banheiros).
As prisões, parte do modelo que durou toda a semana, foi como um aviso: Não se admitirão desvios da mensagem oficial de “Hopenhagen”.
Dentro das salas oficiais de conferência, os delegados aparentemente reuniram-se em torno de telas planas de TV de alta definição e assistiram à Polícia imprensar manifestantes contra paredes e interromper a marcha. Alguns devem ter-se sentido em casa. Afinal, é parecido com o que o governo dinamarquês e outros poderes ocidentais fizeram durante toda a semana: tentar quebrar o bloco dos G77 de países em desenvolvimento, usando a via clássica do dividir para conquistar, e empurrando para as cordas os Estados mais vulneráveis, com ofertas especiais.
Sem nada ter aprendido do “texto dinamarquês que vazou”, houve essa noite uma reunião de 40 Estados convidados, para apresentarem algum acordo; os demais ministros de 192 Estados representados não faziam ideia do que decidiram – e não se falou da democracia prometida pela ONU.
O teste real das soluções “de controle” à dinamarquesa acontecerá na 4ª-feira, na ação do “Reclaim Power” [para saber mais, veja /]. Pela manhã os manifestantes marcharão até o Bella Center, para exigir soluções efetivas para a crise climática, não a enroladíssima matemática do comércio de carbono que se discute pelos salões. Os delegados ‘de dentro’ que pensam como os manifestantes de rua – e são milhares – estão sendo convidados a reunir-se aos manifestantes.
Se tudo der certo, haverá em algum ponto próximo do Bella Center uma “assembleia do povo”, oportunidade para divulgar algumas das muitas soluções de senso comum que foram barradas à entrada das reuniões ‘de dentro’, entre as quais soluções para o problema das areias poluídas de Alberta e cobrança de “reparações” climáticas.
Os organizadores do “Reclaim Power” já declararam formalmente que militam a favor da desobediência civil não-violenta. Mesmo que atacados pela Polícia, não responderão com violência. Mesmo assim, o espectro do dissenso não noticiado que se viu na conferência oficial nos primeiros dias, parece já ter enlouquecido nossos anfitriões dinamarqueses.
Façamos votos para que não embarquem em seus problemas de controle e inventem de manter os grupos em chiqueiros estanques: os manifestantes impedidos de se aproximar do Bella Center, e os delegados presos lá dentro. A “assembleia do povo” organizada pelo “Reclaim Power” – muito mais do que qualquer coisa que já tenha acontecido até agora – tem potencial para enviar ao mundo mensagem clara e muito necessária: só se aceitarão acordos ditados ao mesmo tempo pela ciência e pela lei.
Portanto, que nossos anfitriões dinamarqueses lembrem-se bem: claro, Copenhagen é a cidade de vocês, e todos os adoram por seus moinhos e suas biciletas. Mas o planeta é de todos. Parem com esse negócio de nos excluir do design geral.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4908 

Uma noite no ESGOTO

Medo da chuva e de saques não deixa ninguém dormir bem no Jardim Romano, bairro na zona leste inundado há nove dias.

MÁRCIO PINHO

Cai a noite no Jardim Romano. A forte chuva recepciona os moradores que chegam do trabalho e veem, frustrados, a água e o esgoto -que há nove dias inundam o bairro na região da zona leste conhecida por Pantanal- subir mais um pouco em suas casas. À frente, uma nova madrugada de preocupação, medo e sono ruim.
Um garoto de 16 anos, numa jangada improvisada, transporta quem não quer andar no escuro pela rua, uma das que estão em pior situação. Quem se aventura enfrenta a água fétida na cintura; cobras passeiam no local. O serviço custa R$ 2,00 por pessoa.
A jangada de Leandro Ferreira é feita da madeira de sua cama, destruída na enchente. Como no "Auto da Barca do Inferno", o jovem leva seus passageiros a um destino indesejado. O barco tem até nome: Titanic.
Medo da água ele diz não ter. Mas, de tanto enfrentá-la, acabou doente e nem tratamento pôde ter. Foi barrado na AMA Jardim Romano porque não tinha RG. Perdeu-o na enchente.
A Folha passou a madrugada na região inundada, com roupas de proteção. Na noite de quarta-feira e na madrugada de quinta, a impossibilidade de descansar com tranquilidade era a realidade do bairro.
As luzes do conjunto habitacional da Caixa, à esquerda, refletem na água da rua Capachós enquanto Dalva Dias, 49, moradora de uma das dezenas de casas inundadas do lado direito, chega em casa. Acaba surpreendida pela água suja acima do tornozelo.
"A água tinha saído. Tanto que limpamos tudo", diz. Na casa, moram ainda o marido, Izildo, 50, e o filho, Rodrigo, 21. "Achamos que algo estava sendo feito e que a enchente tivesse acabando", lamenta.
A família está refugiada no andar de cima da casa. O quarto de dormir abriga hoje também uma cozinha, com fogão e mesa. A planta preferida de Dalva teve de deixar a sala; foi levada para o banheiro para, com seu peso, dificultar a entrada do esgoto pelo vaso sanitário.
Nessa noite, Dalva avisa que ficará em vigília. Por medo. Ela não dorme bem desde o início da enchente, preocupada com a presença de sapos e cobras.
Durante o dia, sua dificuldade é falar com os irmãos. São cinco morando no bairro, todos iniciados por "D": Dario, Diomar, David… Dagmar vive bem em frente à casa da irmã. Embora próximas, também estão "distantes": a rua está alagada. A saída tem sido conversar de longe. Ou pela janela.
Saques
Na madrugada, duplas de guardas-civis se revezam num veículo da Guarda Civil Metropolitana estacionado sob uma tenda. A Polícia Militar também faz rondas no bairro no período. São as únicas autoridades ali.
Mesmo assim e apesar da inundação, rápidos encontros ocorrem no meio da noite. São traficantes de drogas em ação, dizem os moradores.
É justamente a possibilidade de crimes que faz muitos permanecerem em suas casas, mesmo tomadas por água e esgoto, conforme a reportagem constatou.
Luciana dos Santos, 32, seis filhos, mora numa região do bairro bem próxima ao rio Tietê, onde a água nas ruas alcança a cintura das pessoas. A moradora conta que furtaram seus pacotes de arroz, feijão, açúcar e latas de óleo. Os produtos havia sido recebidos por meio de uma doação de igreja.
"Acho triste isso. Uma falta de consideração", diz. "As pessoas tinham que se ajudar, não fazer isso." A solução é também fazer vigília durante a madrugada.
Dilúvio
Sai a noite. No alvorecer na rua Capachós, uma pintura sobre o grande dilúvio bíblico boia na água suja enquanto os moradores deixam suas casas. É hora de ir para o trabalho.
Leandro, estudante, atualmente barqueiro, já se prepara para mais um dia de travessias. De tanto ver repórteres no bairro nos últimos dias, diz querer tornar-se jornalista. Quer mostrar as dificuldades da população que, como a do Jardim Romano, vive em áreas de risco.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4907 

A várzea pertence ao rio’

Em momentos críticos, como temporais, Tietê e Pinheiros irão sempre buscar o que lhes foi tirado.

Ivan Marsiglia

A enchente de 1929, na Ponte de Pinheiros, perto da Rua Butantã: usada pela Light para demarcar seu território de poder

Pé d’água, mesmo, não foi. Mas uma chuva compacta e homogênea, a mais volumosa em dois anos, caindo sobre quase toda a cidade durante 24 horas. E a terça-feira da maior metrópole brasileira amanheceu parada e submersa. Foram registrados 105 pontos de alagamento, entre eles as marginais dos Rios Pinheiros e Tietê. E seis pessoas morreram em deslizamentos de terra – no caso mais grave, em Santana de Parnaíba, quatro irmãos de uma mesma família, três deles, crianças.

A tragédia deixou "constrangida e indignada, mas não surpresa" a geógrafa paulistana Odette Carvalho de Lima Seabra. Autora de Os Meandros dos Rios nos Meandros do Poder: O Processo de Valorização dos Rios e das Várzeas do Tietê e do Pinheiros, apresentado como tese de doutorado na USP em 1987, a professora considera corretas as medidas tomadas nos últimos anos para mitigar as enchentes. Mas o sistema já está próximo de seu limite.
Colega do célebre geógrafo baiano Milton Santos, morto em 2001, Odette diz que as políticas públicas destinadas às várzeas dos Rios Pinheiros e Tietê tiveram um protagonista privado: a São Paulo Tramway, Light and Power Company – empresa de capital canadense que energizou o processo de urbanização brasileiro nas décadas de 30, 40 e 50. Afirma que as várzeas onde o governo do Estado assenta obras de ampliação das marginais são parte integrante dos rios – que as requisitam de volta, nas enchentes. E aponta que a solução definitiva passa por mudanças profundas no modo de vida na cidade.


‘Os automóveis foram uma opção imposta goela abaixo’

As cenas de inundação na terça-feira surpreenderam a senhora?
Fiquei, como todo o mundo, constrangida e indignada. É insuportável saber que somos obrigados a viver essas tragédias ano após ano. Mas não posso dizer que as imagens me surpreenderam. As medidas que vêm sendo tomadas desde 1999 são corretas. Mas ocorre que a capacidade do Tietê está no limite. A interligação de bacias necessária ao abastecimento de São Paulo faz com que, por exemplo, 33 metros cúbicos por segundo da bacia hidrográfica do Rio Piracicaba caiam aqui.
O solo impermeável da cidade é uma das causas das enchentes?
Também. As chuvas, a cada ano, são mais torrenciais. Há dados mostrando isso. Temos um volume aumentado de água na rede, impermeabilização crescente do solo e ocupação desordenada do rebordo externo da bacia. Eu me refiro à zona leste de São Paulo, à vertente sul da Cantareira, essa porção de colinas, onde têm ocorrido desastres. O solo, lá, é de rigolito, fixo apenas pela vegetação. Com o desmatamento, ainda que seja uma simples abertura entre as casas, tudo fica sujeito a deslizamentos. Além disso, por gravidade, os detritos chegam à calha do rio. Por isso o Tietê tem um trabalho de desassoreamento que não pode parar.
É difícil imaginar Paris sem o Sena, Londres sem o Tâmisa, Viena sem o Danúbio. Que falta faz um rio a uma grande cidade?
O rio é uma referência de lugar e de espaço, integra a identidade de um povo. Quando ele está perdido, como no nosso caso, é uma ausência importante. Vi um documentário que mostrava como os brasileiros voltaram as costas para os rios. Há quem cruze o Tietê quatro vezes ao dia sem se dar conta.
Seu doutorado mostra como as estratégias de ocupação das margens do Tietê e do Pinheiros foram definidas a partir dos interesses da Light. Como isso se deu?
Esse é o rescaldo negativo do imperialismo das grandes empresas nos países subdesenvolvidos. A Light, da qual hoje pouco se fala, provocou uma grande mobilização no Brasil das décadas de 30, 40 e 50. A companhia era uma espécie de polvo, atuando em diferentes esferas. Foi tão importante na história de São Paulo que passou a integrar o imaginário. Aparecia na música, na poesia, na retórica popular. Havia até uma expressão: "E eu com a Light?"

Como ela atuava?

No final do século 19, a Light tinha o monopólio da geração e difusão de hidreletricidade no mundo. E entrou no Brasil da mesma forma que na Guatemala, no México e mesmo em Barcelona, na Espanha. Um grupo econômico se mobilizava para levantar fundos, sob a bandeira da rainha da Inglaterra, e obtinha exclusividade no mercado. Em São Paulo, primeiro atuou no transporte urbano. Em 1899, ganhou uma concessão interessante, para a construção de bondes elétricos, embora não houvesse eletricidade na cidade! Em 1901, já tinha construído uma hidrelétrica, em Santana de Parnaíba: mandava energia para movimentar os bondes, iluminar vitrines, ruas, etc. A Light tinha uma racionalidade que a administração pública e a sociedade local não acompanhavam. E um ideário muito forte de progresso. Sempre digo aos meus alunos: isso foi importante, a energia elétrica é uma revolução, muda a vida cotidiana e a noção de tempo na cidade. Só que aqui a Light montou um Estado dentro do Estado.
E inverteu o curso do Rio Pinheiros.
Isso foi em novembro de 1928. A inversão era para canalizar a água para uma represa que já funcionava no sopé da serra, em Cubatão. Pelos decretos, para compensar seus investimentos, a Light ganhava o direito de desapropriar imóveis de toda a várzea do Rio Pinheiros, "para fins de utilidade pública". O que sempre foi prerrogativa do governo central. Essa área seria delimitada por uma tal "linha da máxima enchente", que encontrei em mapas confeccionados no Canadá, ainda feitos de pano. Tomaram como referência a famosa enchente de 1929, a maior que houve em São Paulo. E tudo passou a ser da Light, de onde a água chegou até o leito do rio. Entendi nisso a demarcação de um território. E nós, que estudamos geografia, sabemos o que o território é: uma jurisdição de poder. Daí para a frente, um fiscal de terras passou a proibir as pessoas de usarem a várzea, fosse para jogar bola ou levar cabras para beber água.
E como a companhia conseguiu o direito de revender essas terras de "utilidade pública" depois?
Eles fizeram acordos com os expropriados, sempre estipulando critérios e preços. Houve movimentos de resistência de moradores, que foram ao presidente Getúlio Vargas, até que ele se manifestasse contra. Mas a essa altura tudo estava sob litígio e começou o movimento dos advogados, ganhando cobres às custas dos expropriados.
A proximidade das pistas do leito dos rios nas marginais é muito criticada por urbanistas. Por que elas foram parar lá?
Nos anos 60, com o Plano de Metas, foi preciso abrir espaço para circularem os automóveis. Tem início outro padrão e modo de vida. O Estado planejou as marginais e pressionou a Light: "Agora, vamos intervir, porque é preciso modernizar a estrutura de transporte do País". Veja que, até então, em São Paulo andava-se de carroça, bonde ou barco – cerca de 500 deles transitavam no Tietê. Com a entrada da indústria automobilística, o transporte por rio desaparece e o ferroviário entra em declínio. Os bondes saíram de circulação não porque as pessoas não mais os quisessem, mas porque outra opção de transporte foi imposta goela abaixo.
É por isso que senhora diz que "os enigmas do funcionamento da Bacia do Alto Tietê traduzem o modus operandi da modernização geral da sociedade"?
Se a gente tem noção da história, fica ingênuo discutir quem fez as marginais e foi responsável por esses equívocos. Mas, com o partido rodoviário sendo adotado como modalidade de transporte nacional, a sequência só poderia ter sido essa. No caso da Light, é preciso levar em conta também que éramos uma República nova, sem conhecimento de estruturas jurídicas, com uma sociedade pouco aparelhada para negociar com o trust. Não que, por princípio, as pessoas fossem boas ou más. É um processo.
Os moradores mais antigos da cidade têm a memória de um Tietê onde se nadava, praticava remo. Como se transformou em uma "cloaca a céu aberto", como a senhora diz?
Em minha tese, entrevistei um ex-barqueiro, de 96 anos, que passou a vida recolhendo areia do fundo do Tietê para vender. Ele me contou que, em 1935, já não podia mais beber a água do rio, e a levava de casa. Perguntei por quê. "Desde que a Nitroquímica se estabeleceu em São Miguel os peixes começaram a morrer e a gente não podia mais beber a água." Ainda na década de 20, quando a Light obteve o monopólio do Rio Pinheiros, as autoridades decidiram deslocar os barqueiros para o Tietê. Houve processos na Justiça e, num deles, um barqueiro questiona: "Já não dá para tirar areia entre a Ponte Pequena e a foz do Rio Pinheiros, porque o fundo do rio é lodo e esgoto". A contaminação é um processo que vem com a urbanização. Seus efeitos deveriam ter sido domesticados ao longo do tempo, mas ela foi avassaladora e não pudemos raciocinar sobre os problemas que a industrialização trazia.
Dezenas de projetos de ampliação do leito e embelezamento das margens foram realizados em São Paulo, sem que os rios fossem de fato recuperados – como ocorreu com o Tâmisa, em Londres. Por quê?
Primeiro, a gente continua poluindo o Tietê. A poluição industrial foi controlada, mas a doméstica, não. Há um problema de infraestrutura difícil de enfrentar. É muito caro fazer interligação de esgotos. Às vezes, os espíritos românticos maquiam as margens, produzem discursos… Mas a solução ainda está distante.
Não será porque obras sanitárias têm pouca visibilidade política?
Também. E porque a necessidade cresce em ritmo geométrico. Um grande problema hoje, por exemplo, é a capacidade de escoamento. Já temos 43 piscinões que, juntos, comportam o volume de um Tietê. Mas eles não bastam. É igualmente simplório atribuir o problema à sujeira dos bueiros. Lidamos com o fardo pesado dessa longa história de urbanização.
A recente ampliação das pistas nas marginais é uma boa ideia? O especialista em drenagem urbana da Poli-USP Mario Thadeu Leme de Barros disse que será preciso "renaturalizar as bacias" e, em 20 ou 30 anos, acabar com as marginais.
Não fiz coro às críticas sobre a ampliação das marginais porque enfrento engarrafamentos todo dia e sei que alguma coisa tinha que ser feita. No plano de macrodrenagem existe uma proposta séria de recuperação das várzeas, mas que exige investimentos extraordinários. No Canadá isso foi feito: restituíram a várzea ao rio, pois ela é parte dele, pertence a ele. Por isso, nas enchentes, o rio a requisita de volta. Lá construíram jardins que, quando têm de encher de água, enchem. A solução definitiva é pensar em um novo desenho urbano.
A senhora acredita que algum dia possa haver um pacto político, social, ambiental e econômico para recuperar de fato esses rios?
Se um dia alguém levantar essa bandeira e conseguir o mínimo que seja, estará fazendo muito. Devolvendo as várzeas ao rio teríamos uma outra cidade – e isso só acontece com uma mudança no modo de vida. Para começar, exigiria menos automóveis, que regem hoje as formas de ocupação de espaço e regulação do tempo na cidade.

Ambientalistas dizem que "o carro é o novo cigarro", um símbolo anacrônico de status, a ser banido.

Seria bom mesmo. Mas como agir numa sociedade desse tamanho, com milhões de pessoas circulando para cima e para baixo? Uma pesquisa que fizemos em Parelheiros, no extremo sul da cidade, mostrou que existe gente nascida lá, que já é adulta e nunca saiu da região. Não conhece nem o centro. Chamo isso de confinamento dos pobres. Com tantas carências, como arcar com o custo social de liberar as várzeas?

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4906 

A origem dos dinossauros está na América do Sul

Malen Ruiz de Elvira
Em Madri (Espanha)

Um dinossauro primitivo, recém descoberto no Novo México, não é um fóssil qualquer. Ele pertence à linhagem dos terópodos, uma das três linhagens existentes de dinossauros e a mesma à qual pertence o Tiranossauro rex. Sua antiguidade (214 milhões de anos) e características indicam que os primeiros dinossauros se originaram e evoluíram rapidamente no que hoje é a América do Sul, que então fazia parte do supercontinente Pangeia, para logo se dispersarem ao redor do mundo.

Comparado ao registro fóssil dos períodos Jurássico e Cretáceo, o registro dos primeiros dinossauros, no Triásico Superior, é bastante pobre. Sabe-se que por volta desta época esses animais haviam se dividido em três grupos principais, mas os fósseis deste período são raros e incompletos. Sterling Nesbitt, do Museu Americano de História Natural, e seus colegas descrevem agora vários esqueletos quase completos de um dinossauro terópodo do Triásico Tardio, que eles chamaram de Tawa hallae, em homenagem à palavra hopi para o deus sol (Tawa) e à paleontóloga aficionada Ruth Hall.
Os fósseis de vários indivíduos foram recuperados na jazida de Ghost Ranch, no norte do Novo México, mas o espécime-tipo (holótipo) é um esqueleto quase completo de um jovem dinossauro que media cerca de 70 centímetros de altura (nos quadris) e cerca de dois metros de comprimento. Era do tamanho de um cachorro grande, mas com uma cauda muito comprida.
O Tawa é um terópodo, linhagem de dinossauros que incluem o Tiranossauro rex e o velociraptor. Em sua maioria, os terópodos comiam carne, andavam sobre duas patas e tinham penas. Ainda que quase todos tenham se extinguido há 65 milhões de anos, algumas das linhagens que sobreviveram se transformaram nas aves modernas.
Uma das contribuições mais importantes de Tawa à ciência é que ele esclarece a situação do herrerassauro, um dinossauro encontrado na Argentina nos anos 60 e que alguns classificavam fora da linhagem dos terópodos, afirma a Universidade do Texas. O herrerassauro foi encontrado numa faixa rochosa junto aos espécimes mais antigos encontrados até agora das duas outras linhagens, os sauropodomorfos e os ornistiquios.
Nas palavras de Nesbitt, primeiro que assina o artigo publicado pela Science, "as características de Tawa situam o herrerassauro na linhagem dos terópodos, o que significa que as três linhagens estavam presentes no que hoje é a América do Sul logo depois da aparição dos dinossauros. Sem Tawa, poderíamos pensar que foi o assim que aconteceu, mas ele reforça esta hipótese."
Durante o Triásico (entre 251 e 199 milhões de anos atrás), enquanto a Pangeia se separava nos protocontinentes norte e sul, os dinossauros eram raros. Estes dinossauros primitivos não dominavam a fauna terrestre na época, e representam apenas cerca de 6% dos fósseis de animais de quatro patas daquela época. Entretanto, os parentes crocodilianos eram mais comuns.
Foi durante este período que os dinossauros se diversificaram em três grupos diferentes: terópodos, sauropodomorfos e ornistiquios. Até agora não foi encontrado nenhum fóssil que corresponda a um dinossauro anterior à separação dos três grupos, lembra Nesbitt. Também trabalharam na análise alguns dos paleontólogos mais conhecidos dos Estados Unidos, como Mark Norell, também do Museu Americano de História Natural, em Nova York, e outros de prestigiosas instituições como o Museu Field de História Natural de Chicago.
Os fósseis foram encontrados por acaso em 2004 e começaram a ser escavados em 2006. Os trabalhos foram registrados num filme em três dimensões com o título original "Dinosaurs Alive!", que está em exibição no Museu Field.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Leia este texto no site (clique abaixo), vote nele e concorra a livros e revistas.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=4905