Daily Archives: 20/12/2009

Ensino em liquidação

Para filósofo que instigou Sartre, a mercantilização impede a escolarização nacional: ‘Eis nossa catástrofe’.

Mônica Manir

Num domingo de Ferroviária x Santos no Estádio Fonte Luminosa, Jean-Paul Sartre chegou de kombi a Araraquara, interior de São Paulo, para incendiar mentes de um time de intelectuais que incluía d. Ruth Cardoso, FHC e Antonio Candido. Acompanhado, a contragosto, por Simone de Beauvoir e Jorge Amado, fora responder in loco à pergunta feita por um jovem professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da cidade. Fausto Castilho, então com 31 anos, havia usado um amigo como correio elegante para questionar Sartre, na passagem dele pelo Recife, sobre os fundamentos de esforço de aproximação entre o existencialismo e o marxismo. Resumindo, queria saber o seguinte, no bilhete escrito em francês: é possível superar a filosofia sem realizá-la?
"Ele disse aos jornais que iria a Araraquara fazer uma conferência sobre a pergunta mais difícil que havia ouvido no Brasil", conta o inquisidor, lembrando o 4 de setembro de 1960, quando a igreja do município, aterrorizada com a chegada de um pensador de esquerda, gritou pregações pelo rádio contra o francês. "A conferência acabou com a minha carreira na USP", brinca Fausto, que ainda percorreria longa trajetória acadêmica pela Unesp e pela Unicamp até se tornar professor emérito da última.
Entusiasta do pensamento educacional dos anos 20, ele participou decisivamente da criação do campus radial da Universidade de Campinas, transformando-se em crítico de faculdades estanques, utilitárias, mercantilistas. Para ele, universidades verdadeiras são pouquíssimas. Eleições para reitor, mera rotina administrativa. A USP Leste, uma excrescência. Quer uma mexida estrutural no eixo educacional brasileiro, que ele explica nesta entrevista e em detalhes no livro O Conceito de Universidade no Projeto da Unicamp. A quem possa interessar, a Ferroviária ganhou de 4 a 0 de Pelé no dia da conferência. Mas, a quem deseja saber se Sartre, afinal, respondeu àquele dilema a 300 km da capital, ele contemporiza: "Aí é que está, minha filha. Isso são outros quinhentos. Eu nunca quis revelar a resposta".
Esta foi a primeira vez na história da USP que as eleições para reitor se realizaram fora da Cidade Universitária. A transferência, em razão dos protestos dos alunos, funcionários e moradores de favelas, é uma vergonha para a universidade, como afirmaram alguns professores?

Não acho que seja uma vergonha. Mostra descontrole da situação. A reitoria não consegue estabelecer normas de funcionamento para a universidade. É o que se verifica.
As críticas mais contundentes nos protestos foram quanto ao segundo turno, que é decidido por um colégio restrito de professores. Isso faz dessas eleições um processo antidemocrático?

Há um ponto que legitima todo esse processo: a escolha do governador, que entra no último momento, na lista tríplice, mas que afinal de contas foi eleito por maioria pela totalidade do eleitorado paulista. Exigir uma democracia interna é impossível aqui porque a carreira universitária prevalece sobre qualquer outro aspecto. O mestre depende do doutor, o doutor do livre-docente, e assim por diante. É o fundamento da produção científica. Essa carreira depende mais da titulação por trabalho acadêmico do que por tempo de serviço, por exemplo. A democracia que os sindicatos e mesmo uma parte dos alunos pedem não existe em universidade nenhuma no mundo.
Avaliando mais detidamente as propostas dos que se candidataram a reitor…

Eu não vejo muita diferença entre elas.
Pois então, foi praticamente consensual que a USP do século 21 tivesse espírito mais formativo, com estímulo à atitude empreendedora em relação à própria educação.

Muito bem, eu acho que isso é correto desde que você passe a considerar, como indicaram os educadores dos anos 20, toda a escala da escolarização a partir da criança de 4 anos até a pós-graduação. Tem de reconsiderar a totalidade do eixo educacional. Enquanto isso não for feito, não haverá mudança nenhuma na educação brasileira. Todas essas medidas sugeridas hoje são paliativas. A própria substituição de reitores é meramente uma rotina de gestão administrativa. Trocar aqui, eleger ali, isso não leva a nada. É preciso que o Estado retome o controle nos termos que os educadores dos anos 20 propunham.
Por que remontar aos anos 20?

Porque eles detêm a chave interpretativa da universidade brasileira. A interpretação marxista, que peguei na minha juventude, tendia a estudar a USP a partir da Revolução de 32, como se fosse uma reação dos paulistas à derrota na revolução. Não tem nada disso. Mostro no meu livro que a concepção da ideia de USP é de 1925. Mais ainda: que a consolidação ocorreu em 1926.
O que foi essa chave interpretativa?

Os educadores dessa época, entre eles Fernando de Azevedo, tinham uma proposta de escolarização que desapareceu porque em 1965 a ditadura resolveu mercantilizar o aparelho de educação. Aí começa a catástrofe brasileira. A mercantilização não permite a escolarização nacional. Para esses educadores dos anos 20, a instância da democratização não é a universidade, mas o lycée francês, o gymnasium alemão; é isso que estava a caminho de ser instalado no Brasil, isto é, o liceu público para a toda a população jovem e não para um segmento, como faz a mercantilização. Você não pode firmar o processo de universalização formadora da educação formativa na universidade. Assim você a transforma numa instituição de ensino apenas. E ela não pode ser uma instituição de ensino.
O que ela precisa ser?

Precisa ser uma instituição de estudo, porque o ensino é consequente à pesquisa, ele não vem antes do estudo. Ao contrário. Só quem estuda é capaz de ensinar, ao passo que no Brasil, por interesse comercial, você enfatiza o ensino. O ensinismo inverte a equação, deixando a situação cada vez pior, cada vez pior… O cara que vai ser professor não precisa estudar, não precisa produzir. Ele simplesmente se apoia num manual qualquer. É o gráfico que se estabeleceu em cima da hora-aula. É isso que chamam de curso.
Como funcionaria o liceu no Brasil?

Como funciona na França e na Alemanha, o que nos anos 20 se chamava de universidade ampla. Ele acompanharia toda a população porque não faz diferença de classe. Na França e na Alemanha, tanto o filho do operário quanto o filho do magnata vão para o liceu. Quem é o proprietário desse liceu? É o Estado. Não existe o particular nesse jogo. Eis o foco dos educadores dos anos 20, que ainda não eram mercantilistas. Lembro que participei da campanha em defesa da escola pública já no final dos anos 50 sob a liderança de Júlio de Mesquita Filho. Perguntei a ele como explicava sua posição antagônica em relação à do seu amigo Carlos Lacerda, autor da proposta privatista de Lei de Diretrizes e Bases. Ele me respondeu o seguinte: educar é tarefa do Estado.
O que constaria do currículo do liceu?

Na França, há dois currículos: um chamado tradicional e outro chamado profissional. Dos 4.339 liceus, 2.449 são tradicionais e 1.890 profissionais. Por paradoxal que seja, a população prefere o tradicional, que tem grego, história, arte, literatura. É por isso que nesses países há um eleitorado diferenciado. Ele tem muita capacidade de decisão. Os operários também preferem o currículo tradicional. A inteligência não escolhe classe de renda.
Quanto ao que aconteceu na Uniban…

Isso é fait divers, não tem importância.
Mas faço uma pergunta, professor: quando a Uniban revogou a expulsão da aluna, o reitor disse que a medida havia deixado de ser disciplinar para se transformar numa ação educativa. A expressão "educativa" teria a capacidade de redimir arbitrariedades?

Olha, começo não reconhecendo pelo mero proprietário de uma firma comercial a apropriação do título de reitor. Não há esse direito na legislação brasileira de um dono de escola se intitular reitor. Onde é que já se viu uma coisa dessas? Ele faz isso e outros donos de cursos também. Tudo é culpa dos políticos. Os políticos que toleram tudo isso são os culpados por essa mercantilização geral do aparelho educacional.
O que o senhor acha das exigências da Nova Lei de Estágios, que demandam mudanças importantes nos cursos de graduação, licenciatura e bacharelado que preveem esse dado nos currículos?

O governo federal é responsável atualmente pela maior parcela do financiamento do mercantilismo, por meio das bolsas de estudo. Essas bolsas são um expediente para financiar os mercantilistas. Elas é que dão dinheiro para sustentar essas universidades particulares, que não são universidades. Aliás, as universidades federais também não são universidades.
São arranjos das oligarquias locais em cada um dos Estados brasileiros.
A Universidade Federal de São Paulo, inclusive?

Isso é uma invenção surgida a partir de uma faculdade de medicina. Imagine você se pode uma escola de medicina ser uma universidade! Só mesmo por interesse eleitoreiro. Essa transformação do núcleo inicial, que é de pura medicina, em universidade, eu ainda estou aguardando, estou observando para ver se é possível.
E a USP Leste?

Ela é uma excrescência.
Por quê?

Para que isolar do centro maior? O centro maior da USP é no Butantã. Deveriam ter reforçado o centro. Se você tem um, é para que a função central seja exercida, e não para que fique simplesmente numa declaração. Você nunca vai poder fazer interdisciplinaridade, nunca! A universidade tem de estar em um único campus porque ela depende da enciclopédia do ponto de vista interdisciplinar. Eis é o ponto chave. A vocação da universidade é ser uma comunidade de trabalho interdisciplinar na pesquisa e no conhecimento. No Brasil, a tendência é multiplicar os campi. Acham que isso é grandeza.
Qual era a vocação primeira da USP?

Sempre foi o estudo, a pesquisa. A USP é a primeira universidade brasileira concebida segundo o modelo proposto por Humboldt ao criar a Universidade de Berlim, que durante o século 19 se difundiu pelo mundo inteiro, nos EUA, no Japão… O problema é que o plano uspiano não pôde ser realizado. A posição política da história da USP e do Brasil de integrar à Universidade de São Paulo escolas preexistentes, como a Faculdade de Direito e a de Medicina, acabou com o plano.
Por quê?

Porque o plano da USP foi pensado, pela primeira vez no Brasil, como uma estrutura universitária focada num centro, que é a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Essa concepção vai depois servir de referência à Universidade de Brasília e à Universidade de Campinas. A comissão nomeada pelo governador não conseguiu mostrar qual seria a articulação entre o centro e as universidades dependentes. Essa foi a primeira grande falha teórica.
Qual foi a segunda?

A demora na construção da Cidade Universitária. O plano previa que ela fosse erguida nos anos 30, o que só aconteceu no final dos anos 50. Isso destruiu a USP porque, em vez de passarem a tarefa ao urbanismo – a disciplina que deveria prenunciar a Cidade Universitária dentro do campus – entregaram o projeto a engenheiros e arquitetos ligados à edificação de obras. Virou isso: reconstrução de obras, com departamentos que chegam a um quilômetro de distância entre si. Como essa turma pode ter ideia do que seja uma universidade? São estranhos a isso.
A Unb seguiu o modelo centrado à risca?

Ela optou por dotar todos os institutos num mesmo prédio. Ora, não pode. É preciso ter área para se expandir. Tem que ser como na Unicamp. Do contrário não pode crescer.
A Unicamp, então, conseguiu levar adiante o sistema radial?

Na Unicamp, fizemos tudo para o que o contato com as disciplinas básicas fosse feito a pé. Você não precisa motorizar. Ali, o campus não se confunde com a cidade universitária. O campus é a enciclopédia espacialmente estruturada, enquanto a cidade universitária abrange, por exemplo, os organismos administrativos e financeiros. Agora, se a Unicamp terá sucesso nessa empreitada, não sei dizer. Vai depender da força do sistema brasileiro de ensino superior, que é antiuniversidade. O sistema brasileiro de ensino superior foi implantado por D. João VI para desfazer as realizações do Marquês de Pombal. É um processo que persiste desde o século 19 e se infiltra em todas as universidades: são os advogados, os engenheiros, os médicos, profissionais de mercado que nada têm nada a ver com a universidade. Eles querem um papel que tenha o nome da universidade sem nunca terem frequentado a própria. Foram apenas à faculdade deles. A universidade verdadeira se distingue pelo homem de ciência, alguém que seja capaz de ensinar.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Em guerra pela liberdade

Estudo aponta fragilidade da alforria concedida a escravos que lutaram na Revolução Farroupilha.

Raquel Oliveira

Em guerra pela liberdade

Cena da Guerra dos Farrapos pintada por José Wasth Rodrigues. Atraídos pela promessa de alforria, os escravos chegaram a compor cerca de um terço do exército farrapo.

Atraídos pela promessa de receberem alforria, escravos africanos e crioulos engrossaram as fileiras do exército rebelde durante a Guerra dos Farrapos, movimento republicano contrário ao governo imperial que ocorreu entre 1835 e 1845 no Sul do país. Mas a liberdade concedida a alguns deles não foi duradoura, segundo estudo realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A pesquisa, apresentada no Seminário Internacional o Século 19 e as Novas Fronteiras da Escravidão e da Liberdade, realizado na semana passada no Rio de Janeiro, aponta a fragilidade da alforria dada a alguns escravos que se alistaram para lutar na Guerra dos Farrapos. Mas esse ainda é um ponto controverso entre os historiadores.
Segundo a historiadora Daniela Carvalho, autora do estudo, conseguir a tão sonhada liberdade não tornava esses homens necessariamente livres para sempre: negros e crioulos forros podiam retornar ao domínio de seu senhor. “Há indícios de que muitos destes soldados não obtiveram a prometida liberdade, tendo sido remetidos a instituições do Império na corte e, possivelmente, re-escravizados”, conta.
Além da estabilidade da liberdade concedida aos escravos durante a Guerra dos Farrapos, a pesquisadora analisou as expectativas e escolhas desses homens na época. “A trajetória deles parece ser mais um dos caminhos possíveis para entendermos a dinâmica e os projetos em busca de liberdade no Brasil escravista”, diz Carvalho.
Quatro breves biografias
Para a pesquisa, a historiadora investigou a vida de quatro cativos no período entre 1830 e 1850 – cinco anos antes e cinco anos depois da Revolução Farroupilha. O recuo foi necessário para acompanhar o processo de recrutamento desses homens. O número de biografias analisadas pode aumentar à medida que o estudo avance. Segundo estimativas do exército imperial, os escravos chegavam a compor cerca de um terço do exército farrapo.
Apesar de a pesquisa estar ainda em fase inicial, Carvalho já observou que as expectativas dos escravos estavam relacionadas ao discurso político dos rebeldes sulistas, que lutavam em prol de ideais como liberalismo, autonomia e estabelecimento de uma federação na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Por isso, a historiadora quer saber como a elite lidou, ao fim do conflito, com esses escravos que tinham experimentado certa liberdade, tiveram contato com ideias revolucionárias e estavam conscientes da importância da sua participação nos esforços de guerra.
Carvalho pretende ainda analisar outras questões surgidas durante o levantamento de dados, como a forma com que os escravos se aproveitaram do contexto da guerra a fim de alcançar a alforria.
O Seminário Internacional o Século 19 e as Novas Fronteiras da Escravidão e da Liberdade foi realizado entre os dias 10 e 14 de agosto na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e na Universidade Severino Sombra.

Fonte: Instituto Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br

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Suíça, um país sem amigos

Agathe Duparc
Em Genebra (Suíça)

"Os anos 2000 terminaram num tipo de pânico: nós tomamos consciência de que não podíamos mais prolongar o status quo porque ele nos deixa sem aliados e sem meios de ação, mas não sabemos que outra direção tomar". No fim de julho, Joëlle Kuntz, historiadora e editorialista do jornal "Le Temps", relatou assim a constatação de uma Suíça que se sentia isolada, que havia perdido o bonde da União Europeia (UE) e se encontrava desprovida de amigos.

O referendo contra a construção de minaretes, realizado no domingo, 29 de novembro, não deve consertar as coisas. Há alguns dias, o pequeno país de 7,7 milhões de habitantes foi catapultado às manchetes da mídia internacional, relançando o debate sobre o radicalismo islâmico na Europa. As direitas populistas aplaudiram, mas as críticas vieram de todos os lados. Algumas visavam a própria essência da Suíça, a democracia direta. O eurodeputado verde Daniel Cohn-Bendit simplesmente convidou os suíços a votarem novamente, enquanto o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, os exortou a "voltar atrás o mais rápido possível em relação a esse erro".

Fabrici Coffrini/AFP

Mais uma vez, a Suíça sente que está sozinha contra todos. Hoje, é por causa de seu sistema político. Há alguns meses, era por causa de seu sistema fiscal. Depois de ter se recusado, durante décadas, a colaborar com os países estrangeiros quanto à evasão fiscal (sob pretexto de que esta não é uma infração penal de acordo com o Direito suíço), o governo aceitou em março submeter-se aos pedidos de troca de informações. Em uma semana, boa parte do sigilo bancário caiu, sob pressão dos países do G20, este novo clube internacional do qual a Suíça não faz parte, apesar do dinamismo de sua economia. Alguns meses antes, o escândalo fiscal desencadeado por práticas consideradas fraudulentas por parte do principal banco do país, UBS, já havia criado as condições para o que foi visto como um ataque formal contra a praça financeira suíça.
Em matéria de política externa, a Suíça está igualmente paralisada no caso do clã Kadhafi, que, desde o verão de 2008, tenta lavar a honra da família, ridicularizada depois que o filho do coronel, Hannibal, foi interrogado em Genebra e acusado de ter cometido lesões corporais graves contra suas empregadas domésticas. Na terça-feira, 1º de dezembro, os dois suíços presos em represália há mais de um ano em Trípoli foram condenados a 16 meses de prisão por violação das regras dos vistos. De nada adiantaram as desculpas apresentadas em Trípoli neste verão pelo presidente da Confederação Helvética, Hans-Rudolf Merz. O país se sentiu isolado, uma vez que o dirigente líbio, Mouammar Kadhafi, que pediu repetidas vezes "o desmantelamento" da Suíça, reintegra-se pouco a pouco à comunidade internacional.
Por fim, num caso totalmente diferente, Berna teria com certeza passado melhor sem a prisão de Roman Polanski, em 26 de setembro, em Zurique. Quando o cineasta franco-polonês foi convidado para um festival de cinema, um funcionário helvético avisou às autoridades norte-americanas sobre a chegada do cineasta ao território suíço, desencadeando o procedimento de prisão. Um gesto isolado, que reforçou a caricatura de uma Suíça invejosa e delatora.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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O garimpeiro de mitos

Lévi-Strauss mostrou que o índio e o parisiense têm mais em comum do que se imaginava.

Edward Rothstein

O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que transformou a compreensão ocidental do outrora chamado "homem primitivo" e se destacou no cenário intelectual francês dos anos 60 e 70, faleceu aos 100 anos.

Segundo seu filho Laurent, Lévi-Strauss morreu de parada cardíaca, em sua casa, em Paris. A morte foi anunciada na terça-feira, mesmo dia em que ele foi enterrado na cidade de Lignerolles, na região da Côte-d"Or, sudeste de Paris, onde tinha uma casa de campo.
"Ele manifestou o desejo de ter um funeral sóbrio e discreto, com a família, em sua casa de campo", disse o filho. "Era muito apegado a esse lugar. Gostava de caminhar pela floresta, e o cemitério onde foi enterrado fica à margem da floresta."
Pensador vigoroso, Lévi-Strauss foi um avatar do estruturalismo, escola de pensamento segundo a qual "estruturas" universais fundamentam toda a atividade humana, dando forma a culturas e criações aparentemente díspares. Seu trabalho influenciou profundamente até seus críticos, que eram muitos. Não há nenhum sucessor comparável a ele na França. Seus textos, num estilo ao mesmo tempo afetado e poético, cheio de justaposições ousadas, argumentos intrincados e metáforas elaboradas, têm muito pouca semelhança com o que foi publicado anteriormente no campo da antropologia.
"As pessoas percebem nele um dos grandes heróis intelectuais do século 20", disse Philippe Descola, que preside o departamento de antropologia do Collège de France, em entrevista concedida em novembro aThe New York Times, quando do centenário de nascimento de Lévi-Strauss. O antropólogo era tão reverenciado que pelo menos 25 países celebraram seu centésimo aniversário.
Descendente de uma eminente família judaica francesa de artistas, ele era o intelectual francês por excelência, tão à vontade na esfera pública quanto na academia. Lecionou em universidades em Paris, Nova York e São Paulo e trabalhou para as Nações Unidas e o governo francês.
Seu legado é impressionante. Mitológicas, sua obra em quatro volumes sobre a estrutura da mitologia nativa das Américas, tenta nada menos que interpretar o mundo da cultura e dos costumes, formulado a partir da análise de centenas de mitos de tradições e tribos pouco conhecidas. Os volumes: O Cru e o Cozido; Do Mel às Cinzas; Origem dos Modos à Mesa; e O Homem Nu, publicados de 1964 a 1971, desafiam o leitor com o entrelaçamento complexo de temas e detalhes.
Em sua análise do mito e cultura, Claude Lévi-Strauss podia contrastar imagens de macacos e jaguares; analisar as diferenças de significado da carne cozida e assada (ele sugeriu que os canibais tendem a cozer seus amigos e assar seus inimigos); e estabelecer conexões entre contos mitológicos fantásticos e rebuscadas leis sobre casamento e parentesco.
Muitos dos seus livros incluem diagramas que parecem mapas de geometria interestelar, fórmulas que lembram técnicas matemáticas e fotografias em branco e preto de rostos escarificados e rituais exóticos que ele fez durante seu trabalho de campo.
Suas interpretações dos mitos norte e sul-americanos foram fundamentais para a mudança do pensamento ocidental a respeito das chamadas sociedades primitivas. Ele começou a contestar a tese comumente aceita sobre essas sociedades logo depois de iniciar sua pesquisa antropológica nos anos 30 – uma experiência que se tornou a base de um aclamado livro editado em 1955, Tristes Trópicos, uma espécie de meditação antropológica baseada em suas viagens no Brasil e em outros lugares.
A tese então aceita era de que as sociedades primitivas eram intelectualmente pouco imaginativas e irracionais por natureza, baseando seu enfoque de vida e religião na satisfação das necessidades urgentes de alimento, vestuário e abrigo.
Claude Lévi-Strauss resgatou seus temas dessa perspectiva limitada. Começando com as tribos caduveo e bororó, na região do Mato Grosso, no Brasil, onde realizou seus primeiros e principais trabalhos de campo, ele descobriu entre elas uma busca obstinada não só para satisfazer as necessidades materiais, mas também para compreender as origens, uma lógica sofisticada que regia até os mais bizarros mitos, e um sentido implícito de ordem e de propósito, mesmo entre tribos que guerreavam de maneira impiedosa.
Seu trabalho elevou o status da "mente selvagem", frase que se tornou o título de um dos seus mais vigorosos estudos, O Pensamento Selvagem, de 1962.
"A sede de conhecimento objetivo", escreveu, "é um dos aspectos mais negligenciados do pensamento das pessoas que chamamos "primitivas"."
O mundo das tribos primitivas estava desaparecendo rapidamente, escreveu ele. Entre 1900 e 1950, mais de 90 tribos e 15 línguas haviam desaparecido somente no Brasil. Esse era outro tema recorrente. Lévi-Strauss se preocupava com o crescimento de uma "civilização massificada", uma "monocultura" moderna. Às vezes manifestava um desgosto exasperado com o Ocidente e "sua imundície, jogada na cara da humanidade".
Ao elevar a mente selvagem e denegrir a modernidade ocidental ele estava escrevendo dentro da tradição do romantismo francês, inspirado pelo filósofo do século 18 Jean-Jacques Rousseau, venerado pelo antropólogo. Era uma visão que ajudou Lévi-Strauss a desenvolver uma reputação pública na era do romantismo contracultural das décadas de 60 e 70.
Mas esse romantismo simplificado era também uma distorção de suas ideias. Para Claude Lévi-Strauss, o selvagem não era intrinsecamente nobre ou, de algum modo, "mais próximo da natureza". Ele foi taxativo, por exemplo, ao descrever os caduveos, que retratou como uma tribo tão em rebelião contra a natureza – portanto condenada – que chegava até a proibir a procriação, preferindo "reproduzir-se" sequestrando crianças de tribos inimigas.
As descrições que fez das tribos indígenas americanas têm pouca relação com os clichês bucólicos e sentimentais que se tornaram lugar-comum. Claude Lévi-Strauss também fez uma clara distinção entre o primitivo e o moderno, concentrando-se no desenvolvimento da escrita e na consciência histórica. Em sua opinião, foi uma consciência da história que permitiu o desenvolvimento da ciência e a evolução e expansão do Ocidente. Mas ele se preocupava com o destino do Ocidente. Segundo escreveu no The New York Review of Books, o Ocidente estava "se permitindo esquecer ou destruir a própria herança".
Com o enfraquecimento do poder do mito no Ocidente moderno, ele sugeriu também que a música tinha assumido a função do mito. A música, afirmou, tinha a capacidade de sugerir, com uma força narrativa primordial, as forças e ideias conflitantes que estão na base da sociedade.
Mas Lévi-Strauss rejeitou a ideia de Rousseau de que os problemas da humanidade resultaram das distorções da natureza causadas pela sociedade. Em sua concepção, não existe alternativa para tais distorções. Para ele, cada sociedade tem que se moldar a partir da matéria-prima da natureza, tendo a lei e a razão como instrumentos essenciais.
Esse uso da razão, argumentava, cria elementos universais que podiam ser encontrados em todas as culturas e em todas as épocas. Lévi-Strauss ficou conhecido como um estruturalista por causa da sua convicção de que uma unidade estrutural está na base de toda criação de mitos da humanidade, e mostrou como esses temas universais agiam nas sociedades, até mesmo na maneira como uma aldeia é projetada.
Para Claude Lévi-Strauss, por exemplo, a mitologia de cada cultura era criada em torno de opostos: quente e frio, cru e cozido, animal e humano. E era por meio desses conceitos "binários" opostos, dizia ele, que a humanidade adquiria uma compreensão do mundo.
Isso era bem diferente do que a maioria dos antropólogos procurava. Tradicionalmente, a antropologia tinha por finalidade revelar as diferenças entre culturas, mais do que descobrir estruturas universais. Estava preocupada não com ideias abstratas, mas com as particularidades de rituais e tradições, coletando-os e catalogando-os.
O enfoque "estrutural" de Claude Lévi-Strauss, buscando os elementos universais da mente humana, rompia com essa noção da antropologia. Ele não procurava determinar os diversos objetivos a serem atendidos pelas práticas e rituais de uma sociedade. Nunca teve interesse pelo tipo de trabalho de campo de antropólogos de uma geração mais nova, como Clifford Geertz, que observava e analisava atentamente uma sociedade como se vista do seu interior. (Ele iniciou seu livro Tristes Trópicos com a seguinte afirmação: "Odeio viajantes e exploradores".)
Como escreveu em O Cru e o Cozido, ele conduziu "a pesquisa etnográfica na direção da psicologia, da lógica e da filosofia".
Em palestras de rádio para a Canadian Broadcasting Corporation em 1997 (publicadas com o título Mito e Significado, Lévi-Strauss demonstrou como deve ser feito um exame estrutural do mito. Citou um relato segundo o qual no Peru, no século 17, quando ficava excessivamente frio, um padre convocava todos aqueles que tinham nascido com os pés primeiro, ou tinham lábio leporino, ou eram gêmeos. Eles eram acusados de ser responsáveis pelas condições climáticas e o padre ordenava que se arrependessem e corrigissem suas aberrações. Mas por que esses grupos? Por que os de lábio leporino e os gêmeos?
Lévi-Strauss citou uma série de mitos norte-americanos que associavam gêmeos a forças naturais opostas: ameaça e promessa, perigo e expectativa. Um determinado mito, por exemplo, incluía uma lebre mágica, cujo nariz foi dividido numa briga, o que resultou, literalmente, num lábio leporino, sugerindo um possível início da formação de um gêmeo. Com suas injunções, o padre peruano parecia ter consciência das associações entre a desordem cósmica e os poderes latentes dos gêmeos.
As ideias de Lévi-Strauss sacudiram seu campo de estudo. Mas seus críticos eram muitos. E eles o atacaram por ignorar a história e a geografia, usando mitos de um determinado lugar e época para ajudar a esclarecer mitos de outro, sem demonstrar nenhuma conexão ou influência direta.
Num reputado estudo crítico de seu trabalho, em 1970, o antropólogo da Universidade de Cambridge Edmund Leach escreveu a respeito de Lévi-Strauss: "Mesmo agora, apesar do seu enorme prestígio, os críticos entre seus colegas de profissão superam em número, e muito, seus discípulos".
O próprio Edmund Leach tinha dúvidas se Lévi-Strauss, durante seu trabalho de campo no Brasil, teria conseguido conversar "com alguns dos seus informantes nativos em sua linguagem nativa", ou permaneceu ali o tempo necessário para confirmar suas primeiras impressões. Alguns argumentos teóricos do antropólogo, incluindo sua explicação dos canibais e dos seus gostos, foram contestados pela pesquisa empírica.
Claude Lévi-Strauss admitiu que sua força estava em suas interpretações do que tinha descoberto e achava que seus críticos não davam o crédito necessário ao impacto cumulativo dessas especulações. "Por que não admitir?", disse ele a um entrevistador, Didier Eribon, em entrevista publicada sob o título De Perto e de Longe (1988), "Descobri muito rapidamente que era um homem mais voltado para o estudo abstrato do que para o trabalho de campo."

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Ratos de laboratório

Três livros dissecam as fraudes em experimentos científicos e como universidades e centros de pesquisas tentam acobertá-las.

Isaac Newton já foi acusado de errar cálculos em seus trabalhos sobre luz e óptica.

CLIVE COOKSON

O biólogo sul-core- ano Woo-suk Hwang, especialista em células-tronco, fez manchetes em 2005 por ser a primeira pessoa a clonar embriões humanos. No ano seguinte seu nome voltou a frequentar os jornais, dessa vez porque se descobriu que seus resultados eram falsos.
A fraude em pesquisas é um dos segredos culposos do mundo científico. Acadêmicos e administradores costumam ignorar os erros de conduta cometidos em pesquisas, a não ser que um caso de desonestidade seja tão gritante que se torne obrigatório tomar uma atitude a respeito. Eles gostam de afirmar que a fraude é uma nódoa rara a macular o rosto aberto e confiável da ciência.
Entretanto, os poucos acadêmicos seniores que estudam os erros de conduta de cientistas dizem que os responsáveis pelas políticas do setor subestimam gravemente a prevalência desse mal.
Michael Farthing, vice-reitor da Universidade de Sussex [Reino Unido], estima que as universidades britânicas orientadas às pesquisas apresentam, em média, um caso sério de fraude por ano, totalizando anualmente cerca de 40 fraudes importantes apenas nesse país.
Nicholas Steneck, da Universidade de Michigan e cronista americano destacado dos erros de conduta científicos, acredita que entre 0,1% e 1% de todos os pesquisadores -ou seja, milhares de pessoas em todo o mundo- cometem "práticas seriamente erradas". Só uma minúscula parcela dos casos chega ao conhecimento da mídia; a maioria nunca chega a ser detectada ou relatada, e as instituições costumam tratar sem alarde os poucos casos dos quais tomam conhecimento. Três livros muito diferentes agora procuram trazer os erros de conduta científica para o centro das atenções.
Woo-suk Hwang ainda é o fraudador científico mais famoso. Mas o mais prejudicial, em termos do número de descobertas que falsificou e dos colegas respeitados que induziu ao engano, foi Jan Hendrik Schön. Ele foi visto como jovem nome promissor da física até que seu engodo espantoso foi descoberto, em 2002. Schön prometeu revolucionar a eletrônica. Especializou-se em "persuadir" materiais orgânicos -plásticos- a demonstrar propriedades antes desconhecidas, incluindo a supercondutividade e a emissão de luz laser.
Cientistas de uma dúzia dos maiores laboratórios de física desperdiçaram anos de esforços e milhões de dólares tentando reproduzir e explicar as descobertas feitas por Schön, ao longo de quatro anos, na mundialmente famosa Bell Labs, em Nova Jersey [EUA], e que foram publicadas nos periódicos de primeira linha "Science" e "Nature".
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Agora, a jornalista Eugenie Samuel Reich, especializada em investigações de fraudes, montou a história de Schön em "Plastic Fantastic" [ed. Palgrave Macmillan, 200 págs., 15,99, R$ 44], um trabalho maravilhoso de redação forense.
Schön tinha 31 anos quando a Bell Labs o demitiu, em 2002, após um relatório externo ter detalhado sua fraude. Fugiu para a Europa, e Reich o rastreou e falou com ele ao telefone, mas Schön se negou a explicar suas ações ou motivações.
Por isso, o livro é baseado na investigação das publicações de Schön e em entrevistas com 125 colegas e cientistas que interagiram com ele. Olhando em retrospectiva, é espantoso que todos tivessem confiado por tanto tempo no jovem e simpático alemão. As pessoas se culparam quando não conseguiram reproduzir os experimentos dele e aceitaram desculpas educadas que apresentava para não lhes mostrar seus materiais e equipamentos.
Mas não há nada de novo nas acusações de erro de conduta. Historiadores já acusaram Isaac Newton [1642-1727], fundador da física moderna, de errar cálculos em seus trabalhos sobre luz e óptica.
O espectro das fraudes e dos erros de conduta pode abranger desde a falsificação em grande escala de experimentos, como nos casos de Hwang e Schön, até a modificação mais ligeira de algo que o pesquisador vê como leituras falhas em um instrumento.
Um dos projetos mais famosos na história da ciência foram os experimentos de Gregor Mendel, no século 19, com a reprodução de ervilhas. Mas seu trabalho vive há anos à sombra de acusações de que seus resultados teriam sido estatisticamente "bons demais para serem verdadeiros" -ou seja, de que deve ter adulterado dados para os adequar a sua teoria emergente do que hoje chamamos de genes dominantes e recessivos. O biólogo e estatístico britânico R.A. Fisher sugeriu que os dados deveriam ter sido falsificados -embora, provavelmente, por um assistente, não pelo próprio grande monge.
A probabilidade de que dados reais se encaixassem nas proporções esperadas por Mendel entre características dominantes e recessivas teria sido de sete em 100 mil, calculou Fisher. Cientistas e historiadores discutem há anos a validade ou não da conclusão de Fisher. Em "Ending the Mendel-Fisher Controversy" [Encerrando a Controvérsia Mendel-Fisher, Universidade de Pittsburgh, 330 págs., US$ 27,95, R$ 48], cinco especialistas, encabeçados por Allan Franklin (Universidade de Colorado), fazem a defesa de Mendel.
Absolvem Mendel e seus assistentes da acusação de fraude proposital -embora ele possa ter deixado de levar em conta observações que teriam tornado suas descobertas menos nítidas e contundentes.
Ficção
Já Allegra Goodman teve pleno acesso a Cliff Bannaker quando escreveu sobre sua alegada fraude no Instituto Philpott, em Cambridge, Massachusetts -porque Bannaker é fruto da imaginação dela. "Intuition" [Intuição, Atlantic Books, 344 págs., 12,99, R$ 36], o terceiro romance da autora, é um brilhante relato fictício do que pode levar um cientista a manipular dados.
Bannaker não é um fraudador, como Schön ou Hwang; é mais um selecionador de dados ou alguém que usa dados imprecisos, como Mendel. O que o move, além do desejo de honra e glória científicas, é uma forte convicção intuitiva de que sua cepa de vírus respiratório sincicial é capaz de converter células cancerosas em células normais.
Ele persiste em seus experimentos, apesar de receber ordens da direção do laboratório para suspender o trabalho. Com o tempo, começa a registrar regressões espetaculares de tumores em animais. A intuição e o ciúme motivam a ação de sua acusadora principal, Robin Decker.
Este é um romance, é bom recordar, de modo que Decker está longe de ser uma parte imparcial -é uma colega pesquisadora pós-doutoranda cujo trabalho não está indo a lugar nenhum, e é também a namorada a quem Bannaker não anda prestando a devida atenção. Goodman cria uma obra-prima de ambiguidade, mas o que apresenta muito bem é o fato nu e cru acerca da ciência que muitos de nós preferimos esquecer: que cada "prova" e cada "verdade" nos são trazidas por humanos, que estão muito longe de serem infalíveis.
Fraudadores amigáveis
As motivações variam, mas uma característica de muitos fraudadores científicos é sua certeza de que estão com a razão. Mas o caso de Schön parece ter sido diferente. Não era um grande pensador independente, motivado por sua crença em suas próprias ideias brilhantes.
Como Reich demonstra, ele pegou as melhores ideias aventadas por outros pesquisadores em seu campo e, então, aparentemente, as colocou em prática. Se alguém tecia especulações sobre como criar um supercondutor orgânico ou um laser de plástico, Schön colocava a ideia em prática.
"Assim, não surpreende que os cientistas tenham ficado tão maravilhados com os artigos dele", escreve a jornalista. "Schön convertera as melhores ideias deles em dados falsificados que não podiam deixar de ser atraentes. Isso ajuda a explicar a razão pela qual as afirmações dele foram tão bem recebidas e também por que elas tiveram algo em comum com resultados posteriormente obtidos de fato por outros cientistas."
Os três livros sugerem que os fraudadores científicos bem-sucedidos tendem a ser pessoas simpáticas e amigáveis, como os fraudadores financeiros que procuram arrancar dinheiro de suas vítimas. Evitam fazer inimigos que possam procurar evidências de erros de conduta e então os expor.
Schön continuou por tanto tempo por ser alguém que se mostrava ansioso por agradar as pessoas; Bannaker teria podido evitar o sofrimento a que foi exposto se tivesse tratado melhor sua namorada. Os cientistas gostam de falar da natureza "autocorretora" das pesquisas científicas -o fato de que experimentos falhos serão corrigidos por trabalhos futuros. Mas Reich argumenta que a autocorreção quase falhou no caso de Schön.
Ele acabou sendo exposto não pelas dezenas de pessoas que tentaram reproduzir seu trabalho e levá-lo adiante, mas por dois físicos que observaram que Schön usara dados idênticos em artigos sobre dois experimentos diferentes, publicados respectivamente pela "Nature" e pela "Science".
Para Farthing, mais preocupante ainda que os casos sérios de fraude é "a corrente subjacente de modificações ligeiras de resultados, algo que ocorre com muito mais frequência e que vem perturbando a literatura científica". As novas tecnologias ampliam as possibilidades de modificações, por exemplo com a manipulação digital sutil de imagens.
Universidades e instituições de pesquisa vêm há 20 anos intensificando a contragosto seus esforços para fazer frente ao problema. Mas os mecanismos para detectar, relatar, investigar e resolver erros de conduta em pesquisas científicas ainda são insuficientes.
Deveria ser possível para cientistas procurar mais ativamente por sinais de desonestidade entre seus colegas -por exemplo, quando examinam artigos no processo de revisão por pares, que antecede a publicação-, mas sem destruir a confiança entre pesquisadores, da qual depende a condução eficiente da ciência.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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TERRAMÉRICA – Povoados solares se acendem em Puna

Marcela Valente

Buenos Aires, 7 de dezembro (Terramérica).- Os habitantes de Puna, no norte argentino, estão longe de tudo, menos do Sol. Vivem em aldeias pequenas e dispersas – sobre um solo árido e milhares de metros acima do nível do mar –, que estão no caminho de se converterem em “povoados solares”. No norte da província argentina de Jujuy, no noroeste, os moradores comprovam que a energia solar, uma fonte limpa e inesgotável, pode substituir a lenha, cada vez mais escassa, por meio de uma série de projetos desenvolvidos pela Fundação EcoAndina. A Puna Argentina, com altitudes entre 2.700 e 4.600 metros, é parte do extenso altiplano andino compartilhado por Argentina, Bolívia, Chile e Peru.

A Fundação EcoAndina busca melhorar as condições de vida das populações locais, aproveitando a riqueza insustentável do Sol, do vento e da água, mas mantendo a identidade cultural e histórica dessas comunidades, muito vulneráveis e com exíguos recursos materiais. Desde que começou seu trabalho, há duas décadas, foram instalados na área cerca de 400 equipamentos de energia solar em 30 povoados. Fogões familiares e comunitários, fornos de padaria, aquecedores, coletores de água e irrigação por gotejamento são as técnicas e os dispositivos desenvolvidos a partir de diferentes aplicações desta energia.
Além de cozinhar em fornos tão efetivos como os a gás, as famílias podem ter acesso a calefação e água quente para suas casas. Nas escolas há coletores solares para aquecer as salas e paineis fotovoltaicos que produzem eletricidade. Os projetos são feitos com financiamento de diversas fontes. Um destes programas permitiu desenvolver tecnologia para verificar a redução de emissões de dióxido de carbono com o uso de fogões solares. A certificação permitirá obter créditos de carbono vendidos no mercado e que geram fundos para adquirir novos equipamentos.
Os fogões, que podem ser usados dentro ou fora das casas, conforme o modelo, são fabricados na região com baixo custo. Os mais usados são os “parabólicos”, que utilizam um painel na forma de parabólica em alumínio polido para concentrar os raios solares. Estas técnicas permitem substituir energias tradicionais que, ao expelirem gases contaminantes como o dióxido de carbono, contribuem para o aquecimento da Terra. Nessa região de solos áridos e semiáridos, com vegetação frágil e escassa, abandonar o consumo de lenha contribui para combater a desertificação. A altitude e o clima seco do ambiente determinam que a vegetação cresça lentamente, e as pessoas precisam ir cada vez mais longe em busca de madeira.
Estudos da Fundação indicam que com um fogão solar o consumo de lenha em duas casas diminui entre 50% e 70%. Silvia Rojo, presidente da EcoAndina, explicou ao Terramérica que tradicionalmente a população de Puna cobria sua demanda térmica com lenha de três tipos de plantas: tola, queñoa e yareta. Mas sua extração provocou grave desertificação, perda de diversidade de espécies e danos às bacias hídricas. A alternativa à lenha é o gás propano, vendido em botijões de dez quilos e a preços muito altos nesta região distante de cidades e estradas. “O gás engarrafado custa quase 13 vezes mais por metro cúbico do que o metano fornecido pela rede pública nas cidades”, disse Rojo.
“Nosso trabalho se concentra em oferecer fontes de energia térmica alternativas à lenha e ao gás engarrafado para cerca de 30 povoados”, ressaltou Rojo. Hoje, as aplicações solares “gozam de grande aceitação e demanda, por isso divulgamos o conceito de povoados solares”, acrescentou. Para alcançar esta categoria, as comunidades são treinadas com apoio do Fundo para o Meio Ambiente Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O primeiro “povoado solar” é Lagunillas del Farallón. “É um reconhecimento que qualifica  a comunidade e a enche de orgulho, porque é reconhecida como usuária de tecnologias limpas”, destacou Rojo.
O circuito se completa com outras localidades, que nos próximos anos vão cobrindo as necessidades: Ciénaga de Paicote, Cabreríre, Paicote, Cusi Cusi, San Juan e Oros, La Ciénaga, San Francisco, Casa Colorada e Misa Rumi. O primeiro local onde a EcoAndina trabalhou foi Misa Rumi. Ali fica uma casa completamente equipada com energia solar e eólica, que funciona desde 1997 como sede para trabalhos de campo e local de pesquisa.
La Puna é propícia. Essa meseta elevada, parte da Cordilheira dos Andes, é muito seca e seu clima registra uma grande amplitude térmica, explicou ao Terramérica o alemão Christoph Müller, que trabalha para a EcoAndina na área técnica. Em uma mesma jornada de inverno a temperatura pode passar de 20 graus durante o dia para 25 abaixo de zero à noite. De dia, o céu está completamente claro durante quase todo o ano. Essas características fazem desta região uma das de maior radiação do mundo, junto com o Altiplano da Bolívia e as mesetas do Tibete e do Afeganistão, e, portanto, muito apta para explorar a energia solar.
No momento, as iniciativas limitam-se a levar energia e calor para casas, centros comunitários e escolas, mas suas ambições podem ser maiores. Segundo Rojo, a EcoAndina impulsiona a ideia de uma geradora solar para fornecer eletricidade para toda Jujuy, sem emitir poluentes e quase sem custos de geração. Se isso se concretizar, será a primeira da América Latina, embora Brasil e Chile também estejam na corrida. “Não será possível atender todos os povoados do norte da província por estarem dispersos, mas estes já possuem sistemas fotovoltaicos comunitários para gerações pontuais pelo povoado”, destacou Rojo.
* A autora é correspondente da IPS.
Crédito da imagem: Gentileza EcoAndina
Legenda: Silvia Rojo junto a um fogão solar parabólico.
LINKS
Volta ao mundo em avião sem combustível
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=3263
A energia solar ainda pode nos surpreender
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=233
Viagem à Lua com energia solar
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=2102
Fundação EcoAndina, em espanhol, alemão e inglês
http://www.ecoandina.org/
Fundo para o Meio Ambiente Mundial, em espanhol
http://www.gefweb.org/Spanish/spanish.html
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em espanhol, francês e inglês
http://www.undp.org/spanish/

Fonte: Envolverde – http://www.envolverde.ig.com.br/

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A morte lenta de Víctor Jara, vítima da ditadura chilena

Manuel Délano

Torturado e assassinado pelos golpistas chilenos, o cantor e compositor foi sepultado de forma quase clandestina num modesto nicho. "El País" reconstrói sua morte com as recordações das testemunhas.

Cansados e com as mãos entrelaçadas na nuca, os 600 acadêmicos, estudantes e funcionários da Universidade Técnica do Estado (UTE) tomados como prisioneiros pelos golpistas militares iam entrando no Estádio Chile, um pequeno estádio esportivo coberto próximo do palácio La Moneda. Um oficial com óculos escuros, rosto pintado, metralhadora em mãos, granadas penduradas no peito, pistola e um facão curvo no cinturão, observava, de cima de um caixote, os prisioneiros que haviam permanecido na universidade para defender o governo do presidente socialista Salvador Allende. Era o dia 12 de setembro de 1973, dia seguinte ao golpe militar, no início da ditadura de 17 anos encabeçada pelo general Augusto Pinochet.

Fundación Victor Jara

Vítima de Pinochet Logo após o golpe militar de setembro de 1973, Jara foi preso, torturado e executado. Seu corpo foi abandonado em uma favela de Santiago. Muitos relembraram Jara com emoção esta semana, quando sua viúva e filhas e a fundação que leva seu nome organizaram o funeral que ele não pode ter em 1973, a despedida popular que merecia, para sepultar os restos do cantor e compositor, exumados em junho por ordem do juiz e devolvidos à família depois de uma nova autópsia, que confirmou as marcas de bala e a tortura

Com uma voz poderosa, o oficial repentinamente gritou ao ver um prisioneiro de cabelos cacheados:
"Tragam-me aqui este filho da puta!" – gritou para um soldado, recorda-se o advogado Boris Navia, que caminhava na fila de prisioneiros.
"Esse idiota! Esse mesmo!" – gritou para o soldado, que empurrou com violência o prisioneiro. "Não o tratem como uma senhorita, caralho!", alfinetou insatisfeito o oficial. Ao ouvir a ordem, o soldado deu uma coronhada no prisioneiro, que caiu aos pés do oficial.
"Então você é Víctor Jara, o cantor marxista, comunista filho da puta, cantor de merda!", gritou o oficial. Lembra-se Navia. Ele é uma das testemunhas do juiz Juan Fuentes, que investiga o assassinato do cantor e compositor num dos crimes mais emblemáticos da ditadura, porque Jara foi, com seu violão e com seus versos, o trovador da revolução socialista do governo de Allende no Chile. Por seu impacto e pela impunidade em que se encontram os culpados, o crime de Jara é, no Chile, o equivalente ao assassinato de Federico García Lorca na Espanha.
"Ele o golpeava, e o golpeava. Repetidas vezes. No corpo, na cabeça, chutando-o com fúria. Quase que um olho estoura. Nunca esquecerei o ruído daquela bota nas costelas. Víctor sorria. Ele sempre sorria, tinha um rosto sorridente, e isso deixava o oficial mais irritado. De repente, o oficial sacou a pistola. Pensei que ia matá-lo. Continuou batendo nele com o cano da arma. Abriu-lhe a cabeça, e o rosto de Víctor ficou coberto de sangue que corria da testa", contou o advogado Navia à reportagem.
Os prisioneiros ficaram pasmos ao ver a cena. Quando o oficial, conhecido como El Príncipe e até hoje não identificado com plena certeza, cansou-se de bater, ordenou aos soldados que pusessem Jara num corredor e que o matassem se ele se movesse. Foi assim que o autor de canções como "El Cigarrito" e "Te Recuerdo Amanda", que Serrat, Sabina, Silvio Rodríguez e Víctor Manuel incorporaram em seus repertórios, entrou no campo de prisioneiros improvisado pelos militares, onde viveu suas últimas horas.
Muitos relembraram Jara com emoção esta semana, quando sua viúva e filhas e a fundação que leva seu nome organizaram o funeral que ele não pode ter em 1973, a despedida popular que merecia, para sepultar os restos do compositor, exumados em junho por ordem do juiz e devolvidos à família depois de uma nova autópsia, que confirmou as marcas de bala e a tortura.
A violência contra Jara foi um dos símbolos da ditadura de Pinochet (1973-1990), que interrompeu com brutalidade o governo de Allende e os sonhos socialistas, deixando um rastro de sangue de mais de 3.200 mortos e desaparecidos, cerca de 30 mil torturados e dezenas de milhares de exilados. El Chicho, como era conhecido Allende, um médico socialista e maçom, havia chegado à presidência em 1970, em sua quarta tentativa, com 36% dos votos, liderando a Unidade Popular, a coalizão que reunia várias vertentes da esquerda chilena.
Com um programa que oferecia reforma agrária, meio litro de leite diário para as crianças, e a nacionalização do cobre, principal riqueza do Chile que estava nas mãos de empresas norte-americanas, a vitória de Allende nas urnas, a primeira de um marxista no Ocidente em plena Guerra Fria, surpreendeu os Estados Unidos e insuflou esperanças em muitos países, inclusive nos opositores de Franco na Espanha. O presidente Richard Nixon, irritado, ordenou na Casa Branca a intensificação das ações desestabilizadoras.
Mas o Chile vivia um momento de efervescência. As mobilizações sociais estavam em ascensão, e com Allende em La Moneda, o governo ganhou apoio nas urnas em vez de perdê-lo. O cerco norte-americano ficou mais estreito com o embargo às exportações de cobre, em resposta a uma nacionalização em que o Chile decidiu não indenizar as empresas expropriadas por terem obtido lucros excessivos, enquanto a oposição de centro e direita se reuniu numa coalizão contra Allenda, e a esquerda mais radical começou a deixar o governo, acusando-o de reformista. A luta política se exacerbou.
O governo socialista reuniu uma ampla adesão de artistas e intelectuais. Nos três anos de Allende, o Chile viveu uma descoberta cultural como nunca antes, e Víctor Jara foi um de seus protagonistas. Filho de camponeses, conheceu a exploração e a miséria na sua infância e juventude. Aprendeu música por intuição de sua mãe. Quando ela morreu, viajou para Santiago para estudar teatro. Como diretor teatral recebeu prêmios da crítica e da imprensa por suas montagens e fez turnês por dois continentes.
Enquanto estudava dramaturgia, começou a tocar e a compor com o grupo Cuncumén. Depois trabalhou com as estrelas do folclore chileno: Quilapayún, Inti Illimani, Ángel e Isabel Parra, Patricio Manns, Rolando Alarcón. Violeta Parra, a autora da conhecida "Gracias a La Vida", foi uma das pessoas que descobriu cedo o talento de Jara como compositor e intérprete.

Militante comunista, Jara defendeu a Unidade Popular com seu violão, fez canções de protesto, mas suas maiores obras, aquelas mais simples e imperecíveis, são as que brotam da terra e da pobreza dos bairros da periferia de Santiago, as fontes de seu saber. Víctor acreditava que "a melhor escola para o canto é a vida", recorda sua viúva, Joan Turner, em "Um Canto Trunco, As Memórias de Jara". Nomeado embaixador cultural por Allende, preferia as reuniões populares com os amigos aos coquetéis dos diplomatas.
Durante a greve de outubro de 1972, com a qual a oposição quis colocar o governo de joelhos, junto com dezenas de milhares de pessoas, Jara saiu para fazer trabalhos voluntários para impedir que a economia parasse. No turbilhão, escreveu o "Manifiesto", seu testamento musical: "Yo no canto por cantar / ni por tener buena voz, / canto porque la guitarra / tiene sentido y razón" ["Eu não canto por cantar / nem por ter uma boa voz / canto porque o violão / tem sentido e razão"].
Com a inflação descontrolada, a falta de abastecimento e o mercado negro, o transporte paralisado e com o maior partido opositor, a Democracia Cristã, fechando as portas para o diálogo para encontrar uma saída, quase não restavam opções a Allende, e muitos acreditavam que um golpe militar estava iminente. Allende resolveu que convocaria um plebiscito em 11 de setembro para decidir se continuaria ou não no poder. Os militares ficaram sabendo e adiantaram o golpe militar para aquele dia.
O cenário que Allende havia escolhido para pronunciar o discurso que poderia ter mudado a história foi a sede da UTE. Mas ele nunca aconteceu. A par do levante militar, Allende correu para La Moneda com seus colaboradores mais próximos, para defender a democracia. Dispostos a tudo, os militares bombardearam o palácio e Allende, que só sairia dali sem vida, pediu aos funcionários que permanecessem em seus postos, mas que não se deixassem provocar, e antecipou em seu lúcido discurso final que outras gerações superariam aquele momento.
Em assembléias realizadas nas faculdades, a comunidade da UTE resolveu permanecer na sede universitária, como pediu Allende. Entre eles, Víctor Jara, que trabalhava com extensão na universidade e deveria cantar no ato de Allende. Falou duas vezes por telefone com Joan e acreditava que voltaria para casa no dia seguinte. Naquela noite, animou os estudantes em seu último recital, enquanto as balas dos militares soavam por toda Santiago.
No dia seguinte, os militares instalaram um canhão em frente à universidade e dispararam contra a reitoria enquanto uma centena de soldados esvaziavam suas armas. Não houve resistência: estavam desarmados. Os militares arrombaram portas e trincos e tomaram as 600 pessoas que permaneceram ali como prisioneiros.
O inferno estava a alguns quilômetros dali, no Estádio Chile, rebatizado no período democrático como Estádio Víctor Jara. Ali o compositor ficou deitado no chão. Um estudante peruano, confundido com um cubano, teve a orelha cortada com uma faca. A um professor de ciências sociais que carregava provas recém-corrigidas de seus alunos perguntaram quais eram as duas melhores notas e o obrigaram a comer as folhas das provas. Os prisioneiros foram ameaçados com "as serras de Hitler", metralhadoras de grande calibre cujas balas cortam os corpos. Um operário gritou: "Viva Allende!", e foi jogado das arquibancadas, sangrando até morrer. No recinto cabiam duas mil pessoas, apertadas, mas os militares amontoaram mais de cinco mil prisioneiros ali.
El Príncipe recebeu visitas de oficiais e quis exibir Jara. Um oficial da Força Aérea que tinha um cigarro na mão perguntou a Jara se ele fumava. Com um gesto de cabeça, ele negou. "Agora vai fumar", advertiu, e jogou o cigarro. "Pegue-o!", gritou. Jara se estendeu, temeroso, para recolhê-lo. "Vamos ver se agora você vai tocar violão, comunista de merda!", gritou o oficial enquanto pisoteava as mãos de Jara, relata Navia.
"Quando chegaram mais prisioneiros e os soldados foram recebê-los, Víctor ficou sem custódia. Vários de nós o arrastamos até onde estávamos e começamos a limpar suas feridas. Estava há quase dois dias sem comida nem água", disse Navia. Um detento conseguiu que um soldado lhe desse um tesouro: um ovo cru que eles deram a Jara. Com um fósforo, o compositor perfurou o ovo em ambos os extremos e o sorveu. "Ele nos disse que foi assim que aprendeu a comer os ovos em sua terra", lembra-se.
Jara recuperou as energias. "Meu coração bate como um sino", disse. E falou de Joan e de suas filhas. Dois detentos conseguiram se libertar graças a contatos. Vários escreveram mensagens breves para que avisassem a seus parentes que estavam vivos. Víctor pediu lápis e papel. Navia lhe passou um pequeno caderno de notas, conservado hoje pela Fundação Jara, como peça de museu. Ele escreveu com dificuldade seus últimos versos: "Canto que mal que sales / Cuando tengo que cantar espanto / Espanto como el que vivo / Espanto como el que muero" ["Canto que mal que sai / Quando tenho que cantar espanto / Espanto como o que vivo / Espanto como o que morro"].
De repente, dois soldados o pegaram e arrastam, mas Jara conseguiu lançar a caderneta. Navia ficou com ela. Começou uma surra mais brutal que as anteriores, a coronhadas. Outros prisioneiros ainda o veriam com vida horas depois. Um soldado, José Paredes, confessou 36 anos depois que eles jogaram roleta russa com Jara antes de matá-lo nos subterrâneos. Ele é o único processado vivo pelo caso. O outro, o chefe do local, o coronel Mario Manrínquez, faleceu. A primeira autópsia, em 1973, revelou 44 disparos. A nova, de 2009, confirma que Jara morreu por múltiplos impactos. Mas Paredes retificou sua confissão.
Ao anoitecer de sábado, 15 de setembro, os prisioneiros foram transferidos do Estádio Chile para o maior estádio do país, o Estádio Nacional. "Ao passar pela saída, vimos um espetáculo dantesco. Havia entre 30 a 40 cadáveres empilhados, e dois deles estavam mais próximos. Todos estavam baleados e tinham um aspecto fantasmagórico, cobertos de pó branco, porque perto deles havia alguns sacos de cal para fazer reparos, que cobria seus rostos e secava o sangue. Reconheci Víctor em primeiro lugar, e depois o advogado e diretor de prisões Littré Quiroga", relata Navia.
Jara estava sem a jaqueta que outro prisioneiro havia lhe dado quando estava com frio. Naquela noite, os soldados jogaram seis dos cadáveres, entre eles o de Jara, perto do Cemitério metropolitano, no acesso sul de Santiago. Uma vizinha reconheceu o compositor e avisou para que o recolhessem. Quando o corpo chegou ao necrotério, um funcionário que era comunista também reconheceu Jara e avisou sua esposa Joan para que o enterrasse antes que ele fosse sepultado numa vala comum.
O corpo do compositor estava junto ao de centenas de vítimas numa mesa do necrotério, ao final de uma fila de jovens. Só três pessoas acompanharam Joan no funeral semi-clandestino realizado no Cemitério Geral de Santiago, onde foi enterrado num humilde nicho. Jara estava em seu ápice criativo, pouco antes de completar 41 anos, e os que cortaram sua vida não imaginavam que o tornariam ainda mais conhecido, assim como a si mesmos.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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Chico de Oliveira: ‘não há nada importante em disputa para 2010, apenas o poder’

GABRIEL BRITO

Com a proximidade de mais um final de ano marcado por turbulências e escândalos que seguem a desmoralizar a política diante dos cidadãos, o país se prepara para adentrar mais um ano eleitoral. Com vistas a tratar dos cenários que devem se apresentar em 2010, o Correio da Cidadania conversou com o sociólogo Francisco de Oliveira, professor aposentado da USP.

Em seu entendimento, não veremos nada mais que um jogo de cartas já marcadas, no qual a programática estará descansando em um costado, dando lugar a meras disputas pelo poder, entre correntes que pouco ou nada se diferenciam. É inclusive esse cenário monolítico que conduz o debate para o lado rasteiro de baixarias e escândalos sempre frescos para o público.

Em meio a ideários que se repetem entre correntes outrora antagônicas, Chico de Oliveira ressalva apenas alguns avanços na assistência social (via que não lhe agrada de todo) e numa nova diplomacia nacional. No entanto, alerta que a oposição de direita ainda não se conscientizou de que, deixando desavenças e vaidades internas de lado, pode triunfar.

No que se refere ao que realmente se poderia sentir como novas ondas no mar, o sociólogo pernambucano desestima o fator Marina, sem fôlego para ir longe a seu ver. Por fim, critica duramente a possibilidade de não ser formada uma frente de esquerda similar à de 2006, classificando de "oportunismo e miopia política" uma aliança do PSOL com Marina.

Correio da Cidadania: Como analisa o quadro político brasileiro com 2009 chegando ao final e na perspectiva de um ano eleitoral pela frente?

Chico de Oliveira: Vejo de forma bastante simples na verdade. O quadro já está desenhado, não vai mudar, salvo se o ‘vampiro medroso’ de fato não concorrer, o que não é de se esperar. É uma disputa eleitoral PT-SPDB. Mas só eleitoral, não haverá nada em jogo.

Coisas decisivas, o ponto de vista da economia e da sociedade, não estão nem um pouco em jogo. É por isso que a política tem ficado nessas firulas, ataques, artigo de César Benjamin… Porque realmente não tem nada importante em disputa, apenas o poder, este sempre importante.

CC: O que a oposição de direita deve vir a fazer para tentar virar um jogo que se apresenta desfavorável a eles? Acredita que os escândalos e baixarias serão a estratégia explorada?

CO: É essa a alternativa, pois ela não tem programa alternativo. O paradoxo é que o governo do PT realizou e radicalizou o programa tucano. Salvo algumas perfumarias na área social e na política diplomática externa, muito mais arejada, não tem muita diferença.

Dessa forma, os tucanos não podem atacar a própria criatura, restando a baixaria. Mas está muito difícil, porque o senador Azeredo teve sua denúncia aceita pelo STF e agora Arrudão jogou a pá de cal. Mas o embate vai se desenrolar por esse caminho mesmo, já que no mais eles estão todos de acordo.

CC: Como se encaminha o governo Lula para as disputas de 2010? Acredita que suas bases de sustentação se manterão firmes?

CO: Não, isso ainda não está garantido. Não existe na experiência da história política brasileira nenhuma transferência de votos desse porte. É verdade que a redemocratização ainda é curta, apenas 20 anos, mas, numa experiência anterior, Juscelino, no auge de sua popularidade, não conseguiu eleger seu sucessor.

Não há nada garantido, Dilma não pode ter a certeza da transferência de votos de Lula, ainda que se use a máquina do Estado o quanto puder. Principalmente se os tucanos acordarem e se conscientizarem de que, marchando desunidos como quinta coluna do Aécio, serão derrotados; marchando unidos, têm uma chance alta de derrotar o Lula.

CC: Alta?

CO: Alta, pois os colégios eleitorais de São Paulo e Minas Gerais engolem o resto do Brasil.

CC: No fundo, podemos considerar que dá na mesma PT ou PSDB no governo, ou poderia haver uma diferença, mesmo que sutil?

CO: É difícil responder a essa pergunta, porque para os pobres evidentemente faz diferença o Bolsa Família, embora eu não goste do programa. Mas não posso negar que quem tem fome precisa comer. E também tem uma política externa através da diplomacia que é importante para outros países da região, como Venezuela, Bolívia, Equador, que têm tentado vias democráticas muito particulares. Para eles, o Brasil é uma garantia, seria importante manter e até ampliá-las.

Há alguma diferença; no entanto, no marco mais geral, ela é menor.

CC: Como enxerga a possibilidade da candidatura Marina? Servirá para arejar ou para distrair, sem incomodar o viciado jogo institucional?

CO: Eu acho que ela não vai ter essa votação toda. Quando chegar a reta final e os ânimos estiverem exacerbados, a candidatura da Marina vai murchar, porque os eleitores sabem que ela não é a alternativa. Não tem força para se colocar como tal. Esse discurso verde não pega muito. Ela é muito simpática e ecologista, mas isso não faz um presidente.

Tenho a impressão de que, quando chegar a reta final, ela perderá espaço.

CC: Algum partido de esquerda pode ser alternativa no debate?

CO: No debate sim, mas como alternativa real não há nenhum partido de esquerda. Nem PSOL, nem PCB, nem PSTU… Minha própria posição é de que esses três partidos de esquerda deveriam formar uma frente e reproduzi-la, a fim fazer uma crítica e reapresentar o programa do socialismo à cidadania brasileira.

Trata-se de reapresentar para fazer uma crítica rigorosa, aproveitando o momento eleitoral para isso, mas sem nenhuma chance real de chegar ao governo. Aliás, é bom que Deus nos proteja, porque, se chega a governar um país como esse sem bases políticas reais, não demora um mês no poder.

CC: E a polêmica interna ao PSOL acerca de se lançar candidatura própria ou se aliar a Marina, como enxerga?

CO: Creio ser oportunismo do ponto de vista de quem não quer ter candidatura própria. Em primeiro, porque pensam que a Marina terá um alto desempenho, a exemplo da Heloisa Helena em 2006. Não vai. A impressão que tenho é de que a Marina vai murchar e a Heloisa não vai trocar uma cadeira certa no Senado pela incerteza. Vejo isso, portanto, como oportunismo e falta de visão estratégica.

Em segundo lugar, porque apresentar uma candidatura própria não tira os votos que eleitores do PSOL vão direcionar para eleger deputados com os quais eles já contam. Acho isso uma aventura irresponsável e miopia política.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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As questões da mudança climática na África

Le Monde
Tegegnework Gettu

Desde 2008, os países da África intensificam seus esforços com a intenção de formar uma coalizão para as negociações em curso sobre a mudança climática. Agora, em Copenhague, eles se esforçam para enfatizar seu ponto de vista, suas preocupações e suas expectativas.

Conferência do Clima COP15

Reprodução

A África é muito vulnerável. As alterações climáticas comprometem as condições de vida das populações em um continente que já é vítima da pobreza, da degradação dos ecossistemas e dos problemas civis e sociais. Mais de 40% dos africanos vivem em pobreza extrema, e, entre eles, 70% vivem nas zonas rurais, sobrevivendo essencialmente da agricultura. As mudanças climáticas atingem os agricultores, desde o Sahel até as terras altas do Lesoto. Elas poderiam provocar o aparecimento de novas epidemias propagadas pelos mosquitos em países como o Quênia e Uganda. A frequência das tempestades e das inundações poderá causar a destruição da infraestrutura de base e de moradias em Madagascar, Moçambique e em diversas outras regiões costeiras.
Qualquer projeto de acordo global sobre as questões climáticas deve comportar disposições que favoreçam o desenvolvimento dos países africanos e outras regiões em desenvolvimento. Também é incontestável que o desenvolvimento econômico e humano do continente africano não pode mais ser baseado no modelo dos países já desenvolvidos, grandes emissores de gases causadores do efeito estufa.
Um acordo como este também deve permitir que se avalie a maneira como o próprio continente pode contribuir para a solução de seus problemas. A África não é a causa da mudança climática porque ela só produz 3,8% do total das emissões de gases do efeito estufa no mundo, e isso somente há muito pouco tempo. Ou seja, sua capacidade de participar da luta contra as mudanças climáticas geralmente é ignorada ou subestimada. Sua cobertura florestal, por exemplo, retém 20% do total do gás carbônico absorvido pelas árvores do mundo. Quanto aos solos férteis do continente, eles contêm uma parte igualmente elevada do CO2 mundial produzido pela agricultura.
Portanto, a África tem um lugar essencial na realização dos objetivos de Copenhague. Os acordos que substituirão os protocolos de Kyoto, em 2012, deverão incluir a transferência de novos capitais aos países em desenvolvimento, o que constituiria uma grande fonte de desenvolvimento. Consequentemente, a gestão das mudanças climáticas oferece aos países africanos uma chance única de ganhar em todos os terrenos: atenuação dos efeitos do aquecimento, adaptação e desenvolvimento com um acesso mais amplo à energia, uma segurança alimentar mais sólida e uma melhor prevenção das crises e conflitos.
Levando em conta o fato de que mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa provêm dos comportamentos e dos investimentos realizados em nível local, o papel das comunidades territoriais é determinante. Suas estratégias deverão se articular com as dos governos nacionais. Nessa perspectiva, o estabelecimento de um fundo destinado a reforçar as capacidades dos países em desenvolvimento para que eles mesmos elaborem e apliquem as medidas de atenuação e de adaptação constitui uma das principais prioridades em Copenhague.
Além do mais, será necessário iniciar políticas energéticas compatíveis com a luta contra o efeito estufa. Na África, assim como em outros lugares, será preciso estabelecer um quadro institucional e político plenamente favorável à eficácia energética e às energias "descarbonadas".

Também será preciso prever todo um leque de recursos – bolsas, empréstimos, medidas fiscais e instrumentos de mercado – que contribuirão para o bom funcionamento desse novo modelo de desenvolvimento. Uma ajuda extra de emergência também deverá ser prevista para completar o novo fundo para a adaptação da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCC, sigla em inglês), que auxilia os países mais vulneráveis.
Os instrumentos de mercado são indispensáveis e devem acompanhar políticas energéticas e agrícolas, tanto nacionais quanto regionais, orientadas para um desenvolvimento menos emissivo de carbono. Corretamente reorganizados, o Mecanismo para o Desenvolvimento Limpo e os outros mecanismos de direitos de emissão de carbono poderão se revelar particularmente úteis no financiamento das políticas e medidas de promoção das energias renováveis e da eficácia energética na África. O biocarbono, ou seja, o CO2 retido e armazenado nas árvores, nas plantas, nos solos e nos oceanos do planeta, oferece perspectivas de investimento igualmente interessantes para contribuir para a redução das emissões causadas pelo desmatamento e pela degradação das florestas.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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