Daily Archives: 12/12/2009

Zumbi, um herói cercado de mistério

O arqueólogo Pedro Paulo Funari, que dirigiu a escavação do quilombo de Palmares, e a historiadora Aline Vieira de Carvalho, que estuda a trajetória da comunidade rebelde, contam o que os pesquisadores sabem sobre a vida real do personagem principal do Dia da Consciência Negra.

Bruno Fiuza

Em janeiro de 2003, a data da morte de Zumbi dos Palmares, 20 de novembro, se transformou em Dia Nacional da Consciência Negra. Símbolo da resistência ao escravismo no Brasil, Zumbi se tornou um herói nacional, mas o que sabemos de fato sobre sua vida? Infelizmente, muito pouco, afirmam os autores do livroPalmares, ontem e hoje (Zahar, 2005), Pedro Paulo Funari e Aline Vieira de Carvalho. Funari, além de coautor da obra, foi diretor do Projeto Arqueológico Palmares. História Viva conversou com eles para saber o que a pesquisa histórica revela sobre o maior quilombo brasileiro e seu último líder.
História Viva – O que os historiadores sabem, concretamente, sobre a biografia de Zumbi?
Pedro Paulo Funari – Muito pouco. Os que escreveram sobre Zumbi o fizeram de segunda mão e sempre de um ponto de vista contrário aos lutadores pela liberdade. Além disso, foram criadas muitas lendas, como aquela que atribui ao líder palmarino uma formação aprimorada, como seminarista, por meio da qual ele teria até mesmo aprendido latim e as técnicas de guerra dos romanos antigos.
Aline Vieira de Carvalho – Sabemos pouco sobre Zumbi e sobre outras pessoas que teriam vivido em Palmares. Os documentos de época que falam do quilombo não se preocuparam em registrar a biografia de seus moradores.

HV – A partir da análise dos documentos escritos disponíveis é possível saber como era a organização política, econômica e social de Palmares?
Funari – A documentação descreve uma comunidade rebelde, em luta por uma vida sem a interferência dos senhores de escravos.
Aline – Sim. Há referências à organização política, econômica e social do assentamento. A preocupação principal, no entanto, é apresentar Palmares como um enclave rebelde e, por isso, indesejável. Logo, os documentos focalizam questões estratégicas de defesa e ataque ao quilombo.
HV – Quais foram as novas informações que as pesquisas arqueológicas revelaram sobrePalmares?
Funari – Durante as escavações, descobrimos artefatos de características indígenas. Isso mostra o caráter variado, mesclado, do assentamento rebelde, que congregava africanos, indígenas, brancos e mestiços, todos em luta pela liberdade.
Aline – As pesquisas arqueológicas sobre o quilombo trouxeram informações que puderam ser confrontadas com os dados dos documentos escritos. O cruzamento de fontes permite a construção de um quadro mais complexo sobre o que teria sido Palmares. Passa-se a investigar a presença de indígenas no assentamento, a distribuição dos espaços, possíveis relações entre os quilombolas e os colonos, entre outros aspectos.

HV – Em artigo publicado em 1996, o professor Pedro Paulo Funari afirmava que até aquele momento a polêmica sobre a escravidão na academia brasileira era pautada por discussões pouco científicas. Isso mudou nos últimos dez anos?
Funari – Sim, houve grandes avanços. Uma síntese como a que Flávio dos Santos Gomes apresentou em seu livroPalmares (Contexto, 2005) não seria possível sem o aprofundamento dos nossos conhecimentos. Isso se deve tanto à historiografia quanto à valorização dos grupos sociais excluídos.
Aline – A academia, em especial as ciências humanas, têm se dedicado a entender diversos aspectos da escravidão no Brasil e as relações entre essa escravidão e outras regiões, como a África, a América Central e a América do Norte. Acredito que esse recorte só se tornou possível pela constituição de um ambiente democrático tanto nas universidades quanto fora delas. Nesse sentido, as pesquisas científicas ganharam muito nos últimos dez anos.

HV – A imagem de Zumbi que conhecemos hoje corresponde às evidências históricas sobre esse personagem ou trata-se de uma construção historiográfica posterior?
Funari – Sabemos muito pouco sobre o líder do quilombo. Não há como desconsiderar a interpretação das épocas posteriores: Zumbi será sempre uma construção, como qualquer outro grande personagem histórico.
Aline – Nós temos muitas imagens do Zumbi dos Palmares. Até as primeiras décadas do século XX, ele era percebido como um exemplo de “fraqueza negra” diante da “superioridade branca” do bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu o quilombo. Ao longo do século XX, essas imagens foram alteradas. Hoje, temos o líder palmarino como exemplo da resistência negra. Podemos dizer que todos esses “Zumbis” correspondem a contextos históricos bastante específicos e foram criados por grupos sociais com interesses bem delimitados.
HV – As pesquisas mais recentes sobre Palmares confirmam ou desmentem essa imagem?
Funari – Diria que desmentem a imagem de um líder centralizador, pois hoje pensamos Zumbi não apenas como um grande chefe militar. Essa era a imagem do século XVII, que o associava ao general romano Júlio César. Hoje, ele aparece como um homem do povo, mal comparando, e muito mal, um Lula da época.
Aline – As pesquisas mais recentes sobre Palmares não estão centralizadas na figura de Zumbi. Almeja-se esclarecer outras relações de poder, como as relações de gênero e as regras que pautavam as negociações entre autoridades coloniais e quilombolas. Ou seja, o objetivo não é apenas reconstituir biografias.

HV – Recentemente alguns historiadores propuseram novas e polêmicas interpretações sobre a figura de Zumbi. Luiz Mott fala de uma possível homossexualidade do líder palmarino, e Ronaldo Vainfas sugere que ele poderia ter sido um senhor de escravos. O que acham dessas interpretações?
Funari – Não havia homossexualidade nessa época. Manter relações sexuais com homens e mulheres não indicava opção sexual. Na África, entre o Congo e Angola, a relação sexual de homens com homens era comum e nada tinha de homossexual. Por isso mesmo, Zumbi, como outros, podia ter relações sexuais com homens e mulheres. A escravidão também era usada na África, não apenas no Novo Mundo. Era uma instituição universal. No contexto mais democrático em que vivemos, debater esses aspectos de Palmares mostra que podemos buscar no quilombo não apenas heróis, mas pessoas de carne e osso.
Aline – É interessante refletir por que essas interpretações propostas por Mott e por Vainfas geram polêmica. Elas são controversas por não se ajustarem às imagens idealizadas que temos de Zumbi como um herói “negro” e “masculino”, e do quilombo como um espaço de liberdade. No século XVII, no entanto, a homossexualidade não existe como conceito e a escravidão não é condenada. Esses conceitos não pertencem ao contexto do quilombo de Palmares. Por isso, é possível que Zumbi tenha mantido relações com homens e mulheres e que houvesse escravidão dentro do quilombo. O fato de essas interpretações serem polêmicas revela mais sobre os preconceitos da sociedade atual e da forma como nos representamos hoje do que sobre o quilombo.

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

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Deu a louca nos neurônios

Doenças com sintomas pouco usuais colocam o paciente em situações bem esquisitas e engraçadas- pelo menos para quem vê de fora.

Leandro Steiw

Você já sentiu vontade de dizer palavrões no meio da sala de aula ou no escritório? Provavelmente, você segurou o impulso e ficou calado, para não acabar sendo expulso ou despedido do emprego. Sorte sua. Porque pessoas diagnosticadas com síndrome de Tourette – um distúrbio neurológico que se manifesta por tiques vocais e motores involuntários – não têm o mesmo autocontrole. Na hora que a vontade de falar palavrões aparece, não há quase nada que elas possam fazer para impedir.

Nas enciclopédias de medicina, a síndrome de Tourette é apenas uma das doenças neurológicas que apresentam sintomas esquisitos. Um rapaz com a síndrome de Klüver-Bucy, por exemplo, pode ter ímpetos de fazer sexo com postes ou calçadas. Uma garota com coréia de Sydenham, que provoca espasmos nos braços e nas pernas, pode dar a impressão de estar dançando freneticamente em situações nada apropriadas para coreografias. Quem tem narcolepsia dorme sentado, de uma hora para outra, durante uma reunião importante ou enquanto conversa com um amigo. E quem tem frangofilia pode destruir em pouco tempo móveis, roupas, travesseiros, colchões e qualquer objeto que estiver por perto.

Além dos sintomas, os doentes se vêem obrigados a lutar contra o estigma social de que são vítimas. Já pensou no embaraço dessa gente, na maioria das vezes estudantes e profissionais tão competentes quanto colegas saudáveis? É bem possível que você, ao ser pego de surpresa por alguém com algum desses sintomas, tivesse vontade de rir – uma reação bem compreensível. Mas não dá para ser preconceituoso e achar que está lidando com malucos. Nas próximas páginas, você vai conhecer um pouco mais sobre algumas das patologias que apresentam sintomas para lá de esquisitos e fazem pessoas comuns se sentirem estranhas e inadequadas no seu dia-a-dia.

Metralhadora de palavões

Em 1825, a marquesa de Dampierre, uma nobre de 26 anos, impressionava a todos pela inteligência e pela ousadia. Ela costumava rechear seus discursos sobre as artes na França com palavras tão elegantes quanto “merda” e “porco imundo”. “Mudava bruscamente seu comportamento. Latia e dizia obscenidades. Parecia possuída pelo diabo”, escreveu o neurologista francês Gilles de la Tourette em 1883, quando descreveu – e batizou – a síndrome.

A marquesa foi o primeiro caso de síndrome de Tourette descrito pela medicina. Naquela época considerava-se que a coprolalia (o impulso de dizer palavrões) era seu sintoma mais comum. Hoje, já se sabe que ela é rara. “Para um diagnóstico positivo, é preciso que um tique motor acompanhe um tique fônico”, afirma a psiquiatra Roseli Gedanke Shavitt, da Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

A síndrome pode ter vários sintomas. Alguns simples – como piscar os olhos, repuxar a cabeça, encolher os ombros e fazer caretas – e outros complexos – pular, tocar coisas e pessoas, cheirar, retorcer-se e pronunciar palavras fora do contexto. Tudo num impulso incontrolável. O distúrbio costuma começar antes dos 10 anos, ocorre mais nos meninos que nas meninas e tende a ficar menos intenso com o tempo. Ainda sem cura, é tratado com medicamentos – nos casos mais graves – e técnicas de psicoterapia e modificação de comportamentos.

Síndrome de bailarino

Em grego, coréia significa dança. Pela tradução, já dá para ter idéia de uma das características da coréia de Sydenham: movimentos involuntários nos braços e nas pernas que lembram coreografias. Um dos principais sintomas da febre reumática, esse distúrbio se desenvolve quando as lesões da doença atingem o sistema nervoso. “Ele dura de algumas semanas até dois anos”, diz o psiquiatra Marcelo Zappitelli, da Escola Paulista de Medicina, que descreveu casos de pacientes com Sydenham em sua tese de mestrado.

Em geral, as vítimas são meninas em idade escolar, como Leilani, uma americana de 7 anos, incapaz de controlar os movimentos do próprio corpo. A menina parecia dançar desajeitadamente em momentos impróprios e escrevia as lições da escola com garranchos incompreensíveis quando a mãe percebeu o problema e ela foi diagnosticada com a coréia. As reações do paciente podem ser tão embaraçosas que a família de Leilani resolveu criar um site para instruir pessoas passando pela mesma situação.

Outros sintomas da coréia são voz baixa, fraqueza muscular e ansiedade ou comportamentos obsessivos-compulsivos. A boa notícia é que o distúrbio se tornou mais raro na era dos antibióticos, que atacam infecções causadas por bactérias, justamente a origem do problema. Em países em desenvolvimento, por exemplo, a incidência da febre reumática é de um caso em mil, sendo que a coréia só aparece em cerca de 30% desses pacientes.

O amor é cego. Os impulsos sexuais também

A história é contada pela jornalista inglesa Rita Carter, em O Livro de Ouro da Mente – O Funcionamento e os Mistérios do Cérebro Humano. Um homem foi preso ao ser flagrado fazendo sexo com a calçada. Antes que fosse internado como pervertido, diagnosticou-se que ele sofria da síndrome de Klüver-Bucy, um distúrbio neurológico com origem na amígdala – não a que inflama quando você tem dor de garganta, mas uma estrutura no cérebro do tamanho de uma noz, que identifica situações de medo e agressividade.

A síndrome provoca comportamentos anti-sociais. A pessoa perde a habilidade de reconhecer objetos, a capacidade de perceber o perigo e a seleção sexual. Assim, não vê problema algum em aliviar seus impulsos carnais junto a um poste na avenida mais movimentada da cidade. Também tende a colocar na boca tudo o que estiver pela frente, desde alimentos até cabelos.

A doença foi descrita pelo alemão Heinrich Klüver e pelo americano Paul Clancy Bucy, em 1939. Os dois médicos estudaram o comportamento de macacos Rhesus sem o tal pedaço do cérebro. No homem, a síndrome pode aparecer depois de traumatismo craniencefálico, encefalite, tumores localizados ou outras lesões adquiridas. O dano à amígdala em geral é irreversível e os sintomas são controlados com medicamentos e técnicas de controle comportamental, explica o neurologista Charles André, professor da UFRJ.

Hora da sesta

De uma hora para outra, em plena reunião com o chefe, o cara pega no sono. Certamente ele seria demitido se ninguém soubesse que tem narcolepsia, um distúrbio que provoca sonolência excessiva em homens e mulheres e surge quase sempre na adolescência. Os cochilos acontecem sem aviso e não é preciso estar sentado ou deitado. Mesmo em pé, o portador de narcolepsia adormece por períodos de 10 a 20 minutos. Nesse caso, ele fica com a musculatura mole e cai. Para quem vê, parece um desmaio.

A narcolepsia costuma atacar em situações bem parecidas com aquelas em que pessoas saudáveis sentem sono: depois do almoço ou durante atividades entediantes. Outro sintoma do distúrbio são as alucinações hipnagógicas, sonhos muito reais que podem ser confundidos com esquizofrenia.

O tratamento para a narcolepsia usa remédios estimulantes, para manter o doente acordado, ou hipnóticos, para melhorar o sono à noite. Os antidepressivos evitam a cataplexia, aquela moleza nos músculos que termina em queda. Segundo o médico José Roberto Santiago Barreto, do Laboratório de Sono do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, o distúrbio afeta 0,78% da população. Uma taxa baixa, comparada a outras doenças do sono, como a insônia (45%) e a sonolência (15% a 30%). As causas da narcolepsia ainda são desconhecidas, mas o diagnóstico é possível com um exame chamado Teste de Múltiplas Latências do Sono.

Instinto de destruição

Tire tudo de perto. Uma pessoa com impulso de frangofilia é capaz de pôr toda a casa abaixo. Ela dirige sua raiva contra roupas, toalhas, travesseiros, colchões, móveis e objetos de decoração. A quebradeira tem diversas explicações psiquiátricas. Algumas vezes é uma expressão de hostilidade ativa e incontida ao mundo material (no caso de pacientes com transtorno afetivo bipolar, agitação catatônica, estados demenciais senis e pré-senis e oligofrenia – escassez de desenvolvimento mental).

Em outros casos – personalidades desajustadas, imaturas, explosivas e paranóides – a explicação aparece no que os médicos chamam de deslocamento afetivo. O indivíduo fica nutrindo sentimentos de humilhação e vingança e, instantes depois, tem explosões incontroláveis. Como não pode, ou não quer, atingir diretamente a pessoa que o humilhou, por covardia moral ou desvantagem física, ele descarrega a agressividade nos objetos que estiverem à sua volta ou rasgando as roupas que estão no próprio corpo.

A frangofilia não é uma doença, mas um impulso patológico, assim como a piromania (produzir incêndios), dromomania ou poriomania (fuga e correria súbitas e precipitadas), toxicofilia (uso abusivo de drogas), dipsomania (uso abusivo de bebidas, alcoólicas ou não) e cleptomania (furtos). Todos eles se caracterizam por um estalo súbito, explosivo, instantâneo, fulminante. E capaz de deixar qualquer um morrendo de vergonha quando o impulso passa.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

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Guerra dos cem anos

Henrique Rattner

Rattner, Henrique. Israel e a Paz no Oriente Médio - Uma Luz no Fim do Tunel? São Paulo: Editora Nobel, 2008.A História da humanidade no último milénio pode ser lida como uma sucessão interminável de guerras, invasões, destruições e massacres, particularmente no continente europeu. O início do século XI, foi marcado pelas primeiras cruzadas que se estenderam até o século XIV, tendo como objetivo assegurar o domínio cristão sobre os lugares sagrados da Palestina, controlados então pelos muçulmanos. No caminho à Terra Santa, os cruzados massacraram judeus, cristãos e muçulmanos, com extrema brutalidade, movidos pela cobiça de riquezas arrancadas das vítimas, mais do que pelo conflito para conquistar a Terra Santa.

Nos séculos XI a XIII, as populações viveram sob a constante ameaça de invasões das hordas mongóis, lideradas por Genghis Khan e, posteriormente, seu neto Kublai Lhan, cujos guerreiros chegaram até o mar Báltico. No século XII, surgiram as tribos guerreiras seljúcidas, vindos do Turcmenistão, para conquistar um vasto território que se estendeu da Ásia Menor e a Mesopotâmia até Bizâncio. Aos turcos seljúcidas seguiram os Otomanos que continuaram a expansão por meio de um poderoso exército de cavaleiros bem armados que conquistou os Bálcãs, os países do Mediterrâneo até o norte da África e chegaram por duas vezes até às portas de Viena (1527 e 1683), último baluarte da civilização ocidental. Embora derrotados pelas tropas do império dos Habsburgos, ajudados pelos polonêses, os turcos mantiveram sob sua dominação os países dos Bálcãs, até o século XIX.

Do lado ocidental, entre 1340 e 1450, França e Inglaterra travaram inúmeras batalhas, devido às tentativas dos reis inglêses de dominar extensas províncias francêsas, como a Bretanha, Gascogne e Normandia.

Durante o século XVII, a guerra dos Trinta Anos entre os reis católicos e protestantes devastou a Europa Central e o conflito terminou somente com o Tratado de Westphalia, assinado na cidade de Muenster, do qual originou se a Europa moderna dos estados nacionais.

Nos séculos XIX e XX, na luta pela hegemonia continental, França e Alemanha enfrentaram se em três guerras sangrentas. A primeira, de 1870-1871, terminou com a derrota das tropas francesas e a anexação de Alsace e Lorraine pela Alemanha. No fim da primeira guerra mundial (1014-1018) que ceifou a vida de milhões de soldados dos dois lados, o mesmo território voltou à soberania francesa. A hecatombe da segunda guerra mundial (1939-1945), com dezenas de milhões de vítimas entre soldados e civis restituiu o território disputado à França mas, dos escombros da guerra mais devastadora germinou a idéia da associação entre os dois países, sob a liderança de Konrad Adenauer e Guy Mollet, da qual se originou a Comunidade de Carvão e Aço, o Mercado Comum Europeu e, finalmente, a União Européa.

Louvando se nesses antecedentes históricos, seria possível extrapolar para o atual conflito entre Israel e os palestinos que, também, já dura mais de cem anos?

No dia 18 de janeiro de 2009, a mídia anunciou a declaração por Israel de uma trégua temporária em Gaza, com um cessar-fogo condicionado à reciprocidade do Hamas que prontamente rejeitou a proposta. Embora declarada unilateralmente por Israel, os EUA e o Egito que negociaram o cessar-fogo, confirmaram uma reunião que deve demonstrar o apoio da comunidade internacional à iniciativa. Nesta reunião, prevista para os próximos dias em Sharm el Sheikh no Egito, participarão lideres de Estados como a França, Alemanha, Inglaterra, Turquia, Itália, a República Tcheca que exerce atualmente a presidência da Comunidade Européia, o secretário das Nações Unidas Ban Ki Mon e o presidente da ANP – Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. O comunicado não menciona a presença de representantes do Hamas que não é reconhecido pela comunidade internacional. Concomitantemente, anunciou se um acordo assinado entre os EUA e Israel contra o rearmamento do Hamas. Esse acordo assinado em Washington D.C., pela secretária norte americana Condoleezza Rice e a chanceler israelense Tzipi Livni estabelece a cooperação entre os dois países, caso Israel aceite o cessar fogo na Faixa de Gaza.

O desarmamento do Hamas constitui a principal exigência de Israel para sustar a ofensiva que durou três semanas e custou a vida de mais de 1200 palestinos, entre civis e combatentes do Hamas. O acordo estabelece também o bloqueio dos túneis na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito que foram usados para o contrabando de armas e, também, de combustíveis e alimentos. O texto coloca o patrulhamento da fronteira com o Egito como condição indispensável, para cuja concretização pede a colaboração da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico do Norte. A assinatura da trégua entre as duas partes em conflito seria seguida de negociações para por fim ao bloqueio de Gaza e o envio de monitores internacionais para a fronteira.

O lider do Hamas, Khaled Meshal, exilado na Síria, teria oferecido uma trégua, renovável por um ano e condicionada à retirada das tropas israelenses de Gaza e o levantamento do bloqueio do território. O Egito e os observadores internacionais usarão equipamentos modernos, fornecidos pelos EUA, para detectar infiltrações de armas.

Seria este o primeiro passo em direção à paz e, assim, ao fim do conflito que já dura, cem anos?

No começo do século XX, os “pioneiros” – fundadores das primeiras colônias e fazendas coletivistas, criaram grupos armados de defesa (Hashomer) para proteger-se contra os ataques de árabes. O movimento irredentista árabe, hostil à expansão das colônias judaicas em terras compradas dos “effendis”, proprietários ausentes que viviam nas cidades de Beirut e Damasco. Em 1929, ocorreram vários ataques a assentamentos judaicos e nas cidades de Hebron e Jerusalém.

Em 1935-36, novos ataques noturnos contra as fazendas coletivistas (Kibutzim) contra os quais a polícia britânica se mostrou incapaz de agir e reprimi-las. Uma comissão inglesa chefiada por Lord Peel, publicou um“Livro Branco” em que recomendava ao parlamento a proibição da imigração judaica para aplacar a ira dos palestinos. Estes foram incitados para a luta pelo “Mufti” – autoridade religiosa máxima – de Jerusalém, que durante a segunda guerra mundial procurou asilo na Alemanha nazista.

Pouco tempo depois, no fim da segunda guerra mundial, a Grã Bretanha resolveu devolver o mandato de proteção sobre a Palestina às Nações Unidas, que em Assembléia Geral em novembro de 1947, decidiram pela partilha em dois estados. Esta decisão foi rejeitada pelos países árabes, enquanto os judeus proclamaram, em 15 de maio de 1948, a sua independência e a criação do estado de Israel. A segunda metade do século XX foi uma sequência interminável de conflitos – 1948, 1956, 1967, 1973, 1982, 2006 e o atual, de 2008. Nos intervalos, houve inúmeros atentados a bomba, assaltos e as “Intifadas” que causaram vítimas dos dois lados e levaram à evicção de mais palestinos de suas terras, tornando-os eternos párias, precariamente abrigados em campos de refugiados, nos países vizinhos. Apesar de inúmeras tentativas diplomáticas para resolvera questão do Estado palestino, essas fracassaram pela intransigência dos lideres dos dois lados, apesar do reconhecimento de Israel por Yasser Arafat, lider da OLP – Organização para a Libertação da Palestina – e o abandono oficialmente do objetivo de “jogar os judeus ao mar”.

A operação militar israelense de dezembro último configura a quarta vez que Israel invade a Faixa de Gaza. A primeira, em 1948, na guerra de independência; a segunda, em 1956, quando junto com a França e a Inglaterra invadiram Gaza para recapturar o Canal de Suez, nacionalizado por Nasser. Em 1967, durante a guerra de seis dias, ocorreu outra invasão que levou à ocupação do território por 38 anos, até a retirada unilateral comandada por Ariel Sharon, em 2005. O confronto atual foi detonado pelos bombardeios diários de colônias israelenses situadas na fronteira, por foguetes Quassam de pequeno alcance cuja eliminação seria um dos objetivos principais da ação militar. Ficou patente que o governo de Israel cedeu às pressões crescentes da opinião pública, às vésperas de eleições gerais para o parlamento, marcadas para fevereiro próximo e cujos resultados terão grande impacto na futura política israelense. Deve-se ter em mente que, ao longo dos últimos anos, sobretudo durante o governo exercido pelo “Likud”, cresceram as pressões para ocupar mais terras dos árabes, abandonadas ou conquistadas durante os conflitos, e alimentadas pelo sonho de Israel nas fronteiras bíblicas, defendido pelos extremistas da direita e pelos ortodoxos religiosos.

As sucessivas insurreições (“Intifadas”) nos anos oitenta e a mais violenta, de 2001-2003, desfizeram a ilusão de poder manter os palestinos submissos à dominação de Israel e apontaram para a necessidade de se chegar a um acordo de paz final, com a criação de um Estado palestino, a negociação da retirada dos assentamentos implantados na Cisjordânia, a partilha, considerada por muitos israelenses como sacrilégio, de Jerusalém e o estabelecimento de fronteiras seguras garantidas internacionalmente.

Apesar da disposição e do apoio dos países árabes a uma solução negociada, comprometendo se a reconhecer Israel e a estabelecer relações diplomáticas com o Estado judeu em troca do retorno às fronteiras pré 1967 e a criação de um Estado palestino, as resistências internas dos dois lados são muito grandes. A recusa de Hamas de reconhecer Israel e de lutar pela libertação de toda a Palestina, tem impedido um avanço na direção de um tratado de paz, garantido pelas Nações Unidas, os países árabes e as potências ocidentais.

Em 2002, a Liga Árabe reunida em Beirut, formalizou uma proposta de normalização das relações diplomáticas e comerciais em troca da retirada de Israel dos territórios ocupados em 1967, que foi rejeitada pelo então governo de Israel, sob a chefia de Ariel Sharon.

A recusa de Israel fortaleceu o Hamas em detrimento da facção mais moderada, o Fatah, que acabou expulsa da Faixa de Gaza pelo grupo mais radical e intransigente, o Hamas.

Tanto na guerra no Libano contra o Hezbollah – o “partido de deus”, em 2006, quanto no conflito atual em Gaza, os combatentes têm desenvolvido uma tática militar contra a qual os bombardeios da força aérea e da artilharia pesada têm se mostrado pouco eficiente. Por outro lado, um combate de guerrilhas, defendendo cada casa e edifício, entrincheirando se em túneis subterrâneos, teria um elevado custo em vidas de soldados, inaceitável pela população de Israel.

Continuando a mandar foguetes Quassam contra assentamentos israelenses, respondidos por pesados bombardeios da força aérea, tem criado uma situação em que ambos os lados são ansiosos por uma trégua, mesmo temporária, na expectativa de estabelecer negociações que possam levar à criação do Estado Palestino e a celebração da paz.

O Hamas, a exemplo do mundo árabe, estava dividido quanto ao “como” terminar conflito. Tal como Israel, o Hamas procurou obter o máximo de ganhos políticos com o desfecho da guerra. Mas, enquanto os combatentes dentro da Faixa mandaram sinais urgentes para terminar rapidamente o banho de sangue, seus líderes no exílio insistiram na continuação da luta , até a consecução de suas exigências. A pressão externa de países que apoiaram a mediação do Egito para conseguir a aceitação dos termos da trégua que deixaria o Hamas no controle do território, embora sem condições de continuar a guerra, prevaleceram sobre os grupos mais intransigentes. Tanto o Egito quanto a Turquia esforçaram se para convencer Khaled Menshal, o lider do Hamas asilado na Síria, a diminuir suas reivindicações, tendo em vista a situação catastrófica em Gaza. Os esforços diplomáticos visam uma trégua de vários dias, seguida por amplas conversações para resolver as questões sobre o controle das fronteiras e um cessar fogo de longa duração. Essa mudança para uma posição mais moderada do Hamas é devida à percepção de que sua tática de ganhar mais apoio internacional, incluindo do Egito, não produziu os efeitos esperados. O conflito revelou também a divisão entre os países da região, ficando por um lado a Arábia Saudita, o Egito e a ANP, que acusaram o Hamas de agir no interesse do Irã, Síria e do Hezbollah. Essa tensão entre os árabes explica a chamada da intermediação da Turquia que mantém relações com Israel e o Hamas. Tal como o Hezbollah que cantou vitória no confronto com Israel em 2006, no sul do Libano, também o Hamas poderia declarar se vitorioso, embora as opções estratégicas continuam com as forças de defesa de Israel.

Indubitavelmente, o presidente Barack Obama que tomou posse em 20 de janeiro de 2009, a ONU e os países árabes devem exercer todo seu poder de influência para conseguir uma solução pacífica desse conflito que se arrasta há mais de cem anos.

Fonte: Revista Espaço Acadêmico – http://www.espacoacademico.com.br

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Prazer de receber presentes

As modulações bioquímicas influenciam a dinâmica cerebral e o estado de espírito; satisfação está relacionada à liberação dos “hormônios da expectativa”.

Florence Noble

No fim do ano, as vitrines decoradas das lojas nos lembram que o Natal está chegando. E quanto mais próxima a data, maior o frenesi de consumo. Muitos são tomados pelo receio de não conseguir concluir as compras a tempo e de não serem capazes de escolher os presentes adequados para cada pessoa. Por que esse estado de espírito numa época em que deveriam coexistir o prazer de dar e o de receber? Essa angústia se deve ao fato de as festas enunciarem, de forma explícita ou não, a existência de vínculos – ou a ausência deles. A escolha de uma lembrança e a hora em que é oferecida estão inseridas em uma complexa demonstração social – com múltiplas formas de troca – que oferece pistas sobre aspectos psíquicos, relações familiares e laços sociais.
No momento em que recebemos uma lembrança que corresponde às nossas expectativas sentimos uma onda de prazer, uma ação que reside em conjuntos de neurônios específicos. Surgidos ao longo da evolução, eles cumprem uma função crucial: a manutenção da vida. Os sistemas cerebrais que mais influenciam o comportamento são os que nos levam a satisfazer as necessidades vitais (comer, beber, reproduzir-se e proteger-se). E o prazer é o meio empregado pelo processo evolutivo para que essas funções sejam asseguradas. Para favorecê-las foi desenvolvido o sistema neuronal da recompensa.
Ao longo dos séculos, o cérebro dos humanos e de outros mamíferos tornou-se diferente, principalmente em razão do desenvolvimento do córtex, o que propiciou um aumento na complexidade das conexões neurais. As estruturas mais antigas – onde estão as células neurais do sistema de recompensa no animal – permaneceram inseridas no cérebro ancestral, denominado reptiliano. Na década de 50, os fisiologistas ingleses James Olds e Peter Milner fizeram uma experiência sobre o circuito da recompensa: foram implantados eletrodos em determinada região do cérebro de ratos, o núcleo accumbens, ligados a uma alavanca que o roedor podia acionar. Durante a experiência, observou-se que o animal se apoiava sem cessar sobre a alavanca, estimulando essa região de seu cérebro, esquecendo-se até mesmo de comer e beber. Depois, os mesmos estudos foram feitos com seres humanos que haviam passado por cirurgia, e os resultados foram similares. Ou seja, o cérebro de fato anseia por gratificação.

Neurocientistas consideram também importante um componente da sensação de prazer que experimentamos ao ganhar um presente: a tensão que precede a recompensa. O neurologista Ray Dolan e outros pesquisadores do Instituto de Neurologia da Universidade de Londres mostraram que o prazer associado ao alimento, por exemplo, só é acompanhado por uma liberação de dopamina (hormônio do prazer por excelência) se o consumo já era esperado, o que corresponde à noção de desejo. A dopamina é liberada sob a influência de dois tipos µ e δ de substâncias chamadas neuropeptídeos, secretadas pelo cérebro: os peptídeos opioides endógenos (encefalinas) fixam-se sobre receptores engendrando prazer e euforia e resistência à dor, e, em caso de excesso, sedação imitando a ação da morfina.
Nos dois últimos anos, a importância do sistema opioide interno na dependência psíquica às drogas foi demonstrada em ratos desprovidos dos receptores de tipo µ. As encefalinas intervêm no comportamento ligado à dependência e são provavelmente secretadas enquanto aguardamos uma recompensa. Utilizando a técnica conhecida como microdiálise, pesquisadores mediram a concentração sináptica desses peptídeos no núcleo accumbens de ratos previamente condicionados à morfina.
O dispositivo experimental era constituído por duas áreas diferenciadas pela cor das paredes e pelo revestimento do chão. A primeira etapa foi de aprendizagem ou condicionamento. A cada dois dias, os animais tomavam uma injeção de morfina e eram colocados em uma das divisões; no dia seguinte recebiam um placebo antes de trocar de área: assim aprendiam a relacionar um meio específico com os efeitos positivos da morfina. Após o período de condicionamento, os ratos eram recolocados (sem injeção da droga) em uma das divisões e depois na outra. Quando os animais retornavam ao meio associado à morfina, os pesquisadores constatavam um aumento das encefalinas: o roedor antecipava a recompensa. Ao ser colocado no compartimento associado ao placebo, notava-se uma diminuição das encefalinas.
Com base nessas pesquisas seria possível falar em neurobiologia do prazer ligado aos presentes? Sem dúvida. As modulações bioquímicas observadas durante certas situações, no período de festas, por exemplo, certamente influenciam a química cerebral – e o estado de espírito. Extrapolando esses dados, podemos dizer que o prazer experimentado quando ganhamos um presente está ligado à ativação do sistema hedônico, proporcionada por neuromediadores de prazer (dopamina e encefalinas). Se, por infelicidade, o presente não chegar, é possível que a atividade hedônica diminua, ocasionando uma baixa momentânea de encefalinas. Essa reação desencadeia uma sensação de frustração – como a decepção da criança que não ganha um presente ou recebe algo diferente do esperado.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

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Observações sobre o desastre econômico

Ricardo Musse

Os desdobramentos da crise financeira são ilustração exemplar da explicação feita por Marx do capitalismo.

1. A partir dos anos 1970, os EUA introduziram paulatinamente uma série de alterações no funcionamento do sistema econômico internacional que, na prática, subverteu o modelo anterior firmado no pós-guerra. As políticas anticíclicas que permitiram a expansão conhecida como os “30 anos dourados” foram desmontadas uma a uma.

Os excedentes monetários, até então sob o controle parcial dos Estados, passaram a ser geridos pelo mercado, com a concomitante redução da participação dos salários na renda nacional e dos benefícios conquistados como direitos sociais. O controle de capitais pelos Estados nacionais, outra peça-chave do arcabouço anterior, cedeu lugar à livre circulação inclusive de capitais de curto prazo, propiciando os movimentos especulativos que moldam atualmente o mercado de dinheiro.

Ao longo desse processo, os Estados passaram por alterações substanciais não só com a restrição de sua participação direta como agente econômico, mas sobretudo com a redução significativa de suas atividades de planejamento e regulação.

2. Com o fim da situação de exceção, da assim chamada “regulação keynesiana”, o capitalismo retornou ao seu leito habitual. O ímpeto e a dinâmica econômica voltaram a ser ditados pelo mercado, e as crises a se suceder com precisão matemática.

Para um leitor de Karl Marx os delineamentos e desdobramentos da atual crise bancária e financeira afiguram-se como uma ilustração exemplar e quase didática de sua explicação do capitalismo. A teoria do valor e o fetichismo da mercadoria expostos em "O Capital" ressaltam que, apesar de sua origem como uma mercadoria específica, como equivalente geral, o dinheiro tende a adquirir autonomia no decorrer do processo em que salta da condição de mero mediador das trocas alçando-se à posição de centro impulsionador da circulação mercantil.

No descolamento entre essas funções, em si contraditórias, encontra-se o germe das crises econômicas, precipitadas, em geral, pela correção abrupta de ativos inflados devido à lógica imanente que os descola de seu solo e substrato real.

A teoria marxista prediz ainda que um desarranjo financeiro tende a afetar a ordem econômica em suas múltiplas dimensões. A desarticulação da função “meio de pagamento” (o sistema de crédito), que o dinheiro adquire com o desenvolvimento dos mecanismos de compensação bancária, altera suas outras funções como “meio de circulação” ou como “medida de valor”. Eis por que uma crise bancária não deixa de ressoar no âmbito da produção e tende a se tornar sistêmica com a perda da medida de valor das mercadorias e das empresas, fenômeno patente na volatilidade dos mercados e das bolsas.

A crítica de Marx ao capitalismo readquire atualidade precisamente quando a prática política inspirada no marxismo passa por seu momento de maior descrédito. O paradoxo é ainda maior quando se recorda que o marxismo viveu seu apogeu político e intelectual no Ocidente no período em que a regulação estatal desmentia a linha geral de "O Capital".

3. No capitalismo, Estado e mercado são faces de uma mesma moeda. A política econômica predominante nas últimas décadas –inspirada no receituário proposto, entre outros, por Friedrich Hayek e Milton Friedman, e rotulada de “neoliberal”– visava desprender a lógica econômica da política, liberar o mercado das “amarras” do Estado. Esse objetivo, no entanto, uma demanda da classe capitalista assustada com o declínio das taxas de lucro, só pôde ser alcançado por meio da ação política, da conquista do Estado.

A magnitude dessa intervenção estatal sobre a esfera institucional do capitalismo, aceleradas nos governos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, só é comparável às modificações na esfera econômica introduzidas na década de 1930.

O desmanche da chamada economia mista (estatal e de mercado), a privatização de domínios até então públicos (da infra-estrutura à previdência, passando pela saúde e pela educação), a desregulamentação dos mercados de trabalho, de mercadorias e de dinheiro foram obtidos por meio de uma série deliberada e coordenada de ações extra-econômicas. Semelhante mudança no padrão de acumulação exigiu uma política agressiva de enfraquecimento dos sindicatos e do poder social da classe trabalhadora.

A manutenção desse modelo de capitalismo pressupõe a continuidade dessa modalidade de ação política, assentada numa militância ativa e sobretudo numa hegemonia intelectual que está sendo seriamente abalada pelos desdobramentos da atual crise financeira.

4. Não é casual que o epicentro da crise esteja localizado nos Estados Unidos e na Inglaterra. Trata-se dos dois países que foram mais longe na desregulamentação do capitalismo. Apesar da vitória incontestável do poder norte-americano sobre o socialismo estatal do Leste europeu, a “nova ordem mundial” aderiu ao modelo preconizado com parcimônia.

Na área econômica unificada pela adoção do euro como moeda comum, apesar da insistência tanto dos conservadores como da social-democracia, o Estado do bem-estar social foi pouco modificado, ficando as políticas de desregulamentação concentradas na esfera financeira.

A reinserção da China no mercado mundial e seu espantoso crescimento econômico nas duas últimas décadas –a manifestação mais peremptória do “capitalismo globalizado”– transformaram a sociedade chinesa no máximo numa economia mista, com uma combinação peculiar de livre mercado e intervenção estatal comandada e controlada pela camada dirigente do Partido Comunista.

Na América Latina, sua implantação tardia (com a exceção do Chile), nos anos 1990, por meio das terapias de choque do “consenso de Washington” redundou em fracasso. O malogro foi tão grande que impulsionou o acesso ao poder de políticos e partidos situados à esquerda do espectro político. Se não conseguiram reverter as reformas implementadas, tampouco levaram adiante com o mesmo ímpeto o receituário neoliberal.

5. O colapso desse modelo põe em xeque a hegemonia dos EUA no sistema interestatal. Nesse cenário, amplifica-se a contradição latente, que perpassa a história norte-americana ao longo do século XX, entre a república e o império.

A crise debilita o arranjo que permitiu a combinação de uma sociedade afluente, com um nível de consumo exacerbado e uma relativa democratização da vida pública, no plano interno, e o intervencionismo militar, econômico e político, no qual não estiveram ausentes até mesmo momentos de ocupação e domínio neocolonial, no plano externo.

A mobilização e o entusiasmo despertados pela eleição de Barack Obama fortalecem a expectativa de que o esforço de reconstituição do poder norte-americano priorize a reforma econômica e social, deixando de lado a tentativa, prevalecente durante o governo George W. Bush, de resolver os impasses internos intensificando a intervenção externa.

6. Os detentores do capital, no mundo todo, vivem um momento de perplexidade. A hegemonia norte-americana tem uma de suas fontes no reconhecimento de sua ação, extremamente eficaz nos últimos 70 anos, em defesa, para além das fronteiras nacionais, dos interesses da classe capitalista.

Uma legitimidade conquistada com o uso, sem escrúpulos, de todos os meios possíveis seja no campo econômico, político, cultural ou militar. Nesse sentido, seu engajamento e sua liderança na guerra contra o comunismo internacional pode ser visto como apenas um momento de sua condição de “garantia em última instância do capital”.

Só isso explica porque, apesar da insolvência que perpassa o sistema bancário norte-americano e do tamanho descomunal de seus dois déficits –o de transações correntes e o público–, o dólar se valoriza ante as demais moedas, ao exercer a função de reserva de valor e instaurar-se como o último porto seguro para capitais de todas as nacionalidades.

O provável declínio dos EUA apresenta-se assim como uma espécie de efeito colateral inesperado de sua irretorquível vitória sobre o socialismo estatal do Leste europeu.

7. O anunciado giro na direção do fortalecimento do Estado, resgatando modalidades explícitas de capitalismo estatal; o retorno de políticas anticíclicas, de inspiração neokeynesianas; a retomada de práticas regulatórias, não só no âmbito financeiro, demandas assumidas hoje pela classe capitalista e até mesmo por políticos conservadores, surgem como uma exigência técnica, como uma operação de restabelecimento da racionalidade econômica.

Esse olhar retrospectivo para o arsenal profilático desenvolvido a partir da crise de 1929 recusa-se a ver, no entanto, que tais procedimentos originaram-se no âmbito e mediados por um intenso confronto político no qual a classe trabalhadora exerceu o papel de protagonista (mesmo quando derrotada).

No contexto atual, a representação política dos trabalhadores, desacreditando da viabilidade do socialismo, defende, entretanto, apenas modalidades de capitalismo reformado e versões mitigadas de capitalismo de Estado. Diante desse encurtamento do horizonte político, resta a questão crucial: o que irá galvanizar as massas de atuais e futuros deserdados do mundo?

Fonte: Trópico – http://p.php.uol.com.br/tropico

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A internet e a cultura escrita

Danilo Albergaria

Das pequenas tábuas de argila, passando pelo surgimento do papel, ao suporte virtualizado, onde, hoje, nos expressamos, o sistema de símbolos gráficos a que damos o nome de escrita conheceu revoluções que alteraram profundamente a maneira como produzimos e trocamos informações, sentimentos e ideias. Geralmente atrelada aos recursos e condições materiais dos diferentes contextos históricos em que se desenvolveu, a escrita tornou-se protagonista de convulsões sociais, culturais e religiosas numa Europa que ainda não havia compreendido completamente os significados da revolução nas técnicas de impressão iniciada por Gutenberg.

Vira e mexe, a essa democratização sem precedentes da escrita no século XV, comparam-se as mudanças que presenciamos atualmente com a explosão da internet. Estamos no calor do momento. A Wikipedia surgiu anteontem, os blogs ontem e o Twitter, agora há pouco. Apenas os historiadores do futuro terão condições de avaliar, com alguma precisão, o que realmente está nascendo, o que, afinal, está mudando e o que desaparecerá com as constantes revoluções tecnológicas da era digital. Mas, apesar das dificuldades, pensar e indagar o presente nunca deixou de ser fundamental, principalmente se se quiser avaliá-lo criticamente e, mais importante, estabelecer formas de interação positiva com as novidades que se apresentam. Como a cultura escrita está reagindo às diferentes inovações? Como a educação, em parte responsável pelo letramento dos indivíduos, pode enfrentar problemas ou se beneficiar das dádivas digitais?

“É um fenômeno extremamente interessante, as novas variantes linguísticas que vêm sendo criadas na web, por força dos novos gêneros que nela vêm surgindo”, afirma Magda Soares, professora e pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Estadual de Minas Gerais (UFMG). Soares esclarece que fenômenos de comunicação como blogs e Twitter geram novos gêneros de escrita, mas a chamada norma culta ainda tem lugar no ciberespaço, pois “muitas revistas científicas já circulam apenas na web, a maioria dos jornais tem sua versão web, artigos acadêmicos são publicados na web”. Nessas publicações, espera-se a norma culta, “e os leitores desses gêneros de texto são os que controlam a qualidade deles”, completa. Os novos gêneros surgidos na internet, como o e-mail e as salas de bate papo, têm padrões de adequação linguística diferentes da norma culta. O que não quer dizer, segundo Soares, que haverá mutações radicais na linguagem escrita: “As pessoas, em geral, sabem, em parte intuitivamente, em outra parte por efeito da escolarização, que é preciso adequar a variante linguística ao gênero”, explica.

E quanto à informação que a escrita carrega? Estaria a informação no ciberespaço perdendo qualidade na medida em que aumentam a velocidade e a quantidade em que circula? Para Raquel Recuero, pesquisadora do Centro de Ciências Humanas e da Educação da Universidade Católica de Pelotas, não necessariamente: “Os ruídos de comunicação sempre existiram”, afirma. “Quanto mais informação, mais ruídos vão existir. São consequências diretas da crescente quantidade de informação. Já havia ruído nos jornais e na literatura, antes da internet surgir”, continua. Recuero reconhece que “a quantidade e a velocidade de circulação faz com que as informações sejam, às vezes, publicadas com menos zelo”, mas chama a atenção para o fato de que há “uma grande interatividade na rede, há possibilidade de todos exercerem sua capacidade crítica, e a abundância de espaços de debate faz com que haja um depuramento da informação”.

“Nova sabedoria”

Eis um problema espinhoso: de que tipo de crítica, então, estamos falando? Umberto Eco aventa uma “nova sabedoria”, a qual define como “uma ainda desconhecida arte de seleção e eliminação de informação”. Ou seja, uma nova crítica para o novo turbilhão informacional de textos, hipertextos e hiperlinks. A ampla abertura da internet não mais permite a seleção de informações comum no noticiário televisivo ou nos jornais tradicionais. A ênfase se dá no leitor, ou melhor, no “internauta”. É ele quem seleciona. Ou, nas palavras de Recuero, “não é mais a informação que vai até você, é você quem vai até a informação”. Alguém, no entanto, poderia fazer a objeção de que essa liberdade de escolha pode fazer com que enxerguemos cada vez mais apenas aquilo que queremos enxergar; que tomaremos contato apenas com a informação que satisfaz a nossa representação de mundo. Desse ponto de vista, em vez de uma praça pública onde se embatem diferentes pontos de vista e visões de mundo – e, portanto, onde pode-se chegar a algum tipo de consenso, ainda que precário –, a internet poderia jogar a favor do isolamento e do sectarismo. Rebatendo esse tipo de argumentação, Recuero reconhece que o ciberespaço não está livre do “estreitamento do ponto de vista das pessoas”, mas lembra que “isso também acontece ‘offline’ fora da internet”.

Nesse contexto, a educação pode ter papel fundamental para a seleção de informação sem que isso signifique isolamento. “O único caminho é educar as pessoas para que selecionem, elas, o conteúdo que trarão a suas telas”, ressalta Soares. Para ela, “os estudiosos da educação ainda estão na fase inicial de identificar benefícios e malefícios do ciberespaço, bons usos e maus usos dele, com a desvantagem de que os jovens vão caminhando muito mais rápido do que eles na familiaridade com essa nova tecnologia.” E completa: “Talvez, quando os jovens de hoje se tornarem estudiosos da educação, no futuro, estarão em condições adequadas para sistematizar e difundir a ‘nova sabedoria’ aventada por Eco”. Não se deve estranhar um certo tom de incógnita e projeção às gerações futuras na análise de um instrumento recém-criado como a internet, cujo enorme potencial transformador ainda não conhecemos com precisão – e o mesmo se pode dizer da realidade que vai resultar disso tudo.

Anglofonia

Um dos aspectos históricos mais relevantes do fenômeno de globalização em que a internet cumpre papel fundamental e que se reflete diretamente na linguagem, especialmente na escrita, é a anglicização, ou seja, a “invasão” da língua inglesa nas línguas locais, a apropriação de palavras do inglês para exprimir ideias e sensações numa comunicação feita predominantemente em língua local. Fruto da expansão imperialista dos Estados Unidos ao longo do século XX, o inglês já era “língua franca” no Ocidente antes da internet tornar-se acessível ao público. O colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, aliados ao rápido crescimento da teia de computadores a partir de meados dos anos 1990, acentuaram a tendência de tornar o inglês uma língua global.

O inglês é tacitamente aceito como língua universal da internet. A maior parte dos conteúdos acessíveis na web é comunicado na língua inglesa. Logo, compreendê-la é fundamental para, por exemplo, saber como indivíduos estrangeiros – não necessariamente aqueles cuja língua materna seja o inglês – estão repercutindo determinado assunto e partilhar do espaço público internacional de debate que a internet proporciona. O processo não é mecânico, tem muito a ver com a condição histórica das relações entre a potência e os países periféricos; porém, pode-se dizer que quanto maior a familiaridade de indivíduos utilizando corrente e fluentemente o inglês, mais acentuado será o processo de incorporação de palavras e expressões anglófonas em sua língua materna.

A forte influência do inglês e a crescente incorporação de suas palavras na língua portuguesa está longe de ser algo deplorável, como pensam os mais conservadores. “É preciso lembrar que a influência de uma língua sobre outra sempre ocorreu, ao longo da história”, alerta Soares. “Limitando-nos ao nosso país”, continua, “a língua portuguesa que aqui chegou sofreu a influência das línguas indígenas, depois das línguas africanas, e também das línguas de imigrantes italianos, alemães. Tal como hoje sofremos a influência do inglês, sofremos, antes, grande influência do francês, quando a França era o país com que mantínhamos fortes relações sociais, econômicas, culturais e educacionais”.

Mas e quanto aos exageros? “Claro que é preciso estar atento para os exageros”, ressalta Soares, “e é aqui que a educação tem papel importante: desenvolver atitudes ao mesmo tempo receptivas em relação aos empréstimos estrangeiros, quando estes enriquecem a língua, e atitudes críticas, quando estes não se justificam e, ao contrário, empobrecem a língua”, conclui. No entanto, questões assim são bastante subjetivas e estão intimamente ligadas à estética. Por isso, expressões que, hoje, podem perfeitamente ser escritas em português sem perda alguma de sentido, mas que começam a ser anglicizadas, talvez um dia entrem para o rol de expressões belas e justificáveis.

Revolução?

Por fim, é controverso o status revolucionário da internet com relação à cultura escrita. Raquel Recuero pensa ser difícil comparar as mudanças da era digital com a invenção da imprensa no século XV: “São coisas diferentes”, afirma. Apesar das semelhanças quando o assunto é descentralização e publicização – e o mundo on-line significaria um aprofundamento nesse sentido –, a internet difere da revolução de Gutenberg na estrutura em que a informação circula e é produzida: “Parte-se da difusão criada pelo desenvolvimento da imprensa e joga-se tudo isso em rede, acessível em locais diferentes”, afirma Recuero, chamando a atenção para o fato de que a internet encoraja a produção coletiva, superando limitações geográficas.

Por sua vez, Magda Soares vê um caráter verdadeiramente revolucionário da internet apenas com relação às comunicações. Para ela, as mudanças que a era digital gerou com relação à cultura escrita “não superam as duas grandes revoluções no mundo da escrita: a revolução do códex, que criou as páginas e os livros tais como os conhecemos hoje, e assim, nos libertou dos incômodos rolos e criou uma outra e mais rica interação com os textos; e a revolução da imprensa, que democratizou o acesso aos textos, até então privilégio de poucos”.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

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EnterComputadores descartados pela Europa envenenam crianças na África Post Title Here

Clemens Höges

Os cidadãos do Ocidente jogam fora milhões de computadores velhos todos os anos. Centenas de milhares deles acabam na África, onde as crianças procuram ganhar a vida vendendo peças velhas das máquinas. Mas os elementos tóxicos presentes no lixo as estão envenenando lentamente.

Segundo a Bíblia, Deus lançou uma chuva de fogo e enxofre para destruir as cidades de Sodoma e Gomorra. E as autoridades governamentais de Accra, em Gana, também passaram a chamar de "Sodoma e Gomorra" uma parte da cidade afetada por produtos tóxicos de um tipo que os moradores das cidades bíblicas jamais poderiam imaginar. Ninguém vai a esse local, a menos que isso seja absolutamente necessário.
Uma fumaça ácida e negra passa sobre os barracos da favela. As águas do rio também são pretas e viscosas como óleo usado. Elas carregam gabinetes de computador vazios para o oceano. Nas margens do rio veem-se fogueiras alimentadas por isopor e pedaços de plástico. As chamas consomem o material plástico de cabos, conectores e placas-mãe, deixando intactos apenas o metal.
Hoje há um vento que faz com que a fumaça dessas fogueiras infernais passem lentamente por sobre a terra. Respirar muito profundamente é doloroso para os pulmões, e as pessoas que alimentam as fogueiras às vezes dão a impressão de serem apenas silhuetas vagas e enevoadas.
Uma figura pequena e curvada caminha entre as fogueiras. Com uma mão, o garoto arrasta um alto-falante velho pela terra e as cinzas, puxando-o por um fio. Com a outra mão ele segura firmemente uma bolsa.
O alto-falante e a bolsa são as únicas posses do garoto, além da camiseta e as calças que ele usa. Ele tem um nome incomum: Bismarck. O garoto tem 14 anos, mas é pequeno para a idade. Bismarck vasculha a terra em busca de qualquer coisa que os garotos mais velhos possam ter deixado para trás após queimarem uma pilha de computadores. Podem ser pedaços de cabo de cobre, o motor de um disco rígido, ou peças velhas de alumínio. Os ímãs do seu alto-falante também capturam parafusos ou conectores de aço.
Bismarck joga tudo o que encontra dentro da bolsa. Quando a bolsa estiver cheia até a metade, ele poderá vender o metal e comprar um pouco de arroz, e talvez também um tomate, ou até mesmo uma coxa de galinha grelhada em uma fogueira acesa dentro do aro de um carro velho. Mas o garoto diz que hoje ainda não encontrou o suficiente. Ele desaparece novamente na fumaça.
O refugo da era da internet
Esta área próxima a Sodoma e Gomorra é o destino final dos computadores velhos e outros produtos eletrônicos descartados de todo o mundo. Há muitos lugares como este, não só em Gana, mas também em países como Nigéria, Vietnã, Índia, China e Filipinas. Bismarck é apenas um de talvez uma centena de crianças daqui, e de milhares do mundo inteiro.
Essas crianças vivem em meio ao refugo da era da internet, e muitas delas podem morrer por causa disso. Elas desmancham computadores, quebrando telas com pedras, e a seguir jogam as peças eletrônicas internas em fogueiras. Computadores contêm grandes quantidades de metais pesados e, à medida que o plástico é queimado, as crianças inalam também fumaça carcerígena . Os computadores dos ricos estão envenenando os filhos dos pobres.
A Organização das Nações Unidas (ONU) calcula que até 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico são jogadas anualmente no lixo em todo o mundo. O custo para se reciclar apropriadamente um velho monitor CRT na Alemanha é de 3,50 euros (US$ 5,30 ou R$ 9,20). Mas o envio do mesmo monitor para Gana em um contêiner de navio custa apenas 1,50 euro (R$ 3,80).

Um tratado internacional, a Convenção de Basileia, entrou em vigor em 1989. O tratado baseia-se em um conceito justo, proibindo os países desenvolvidos de enviarem computadores que foram para o lixo aos países subdesenvolvidos. Até o momento 172 países assinaram a convenção, mas três deles ainda não a ratificaram: Haiti, Afeganistão e Estados Unidos. Segundo estimativas da Agência de Proteção Ambiental norte-americana, cerca de 40 milhões de computadores são descartados todos os anos somente nos Estados Unidos.
Diretrizes da União Europeia com acrônimos como WEEE (sigla em inglês de Lixo de Equipamentos Elétricos e Eletrônicos) e RoHS (Restrição a Substâncias Perigosas) seguiram-se à Convenção de Basileia, e países individuais transformaram-na em lei. As leis relativas à administração de lixo na Alemanha estão entre as mais estritas do mundo, e neste país o envio de computadores descartados a Gana pode dar cadeia. Em tese.

Um negócio milionário

Recentemente o governo alemão mobilizou-se para verificar como é a situação na prática. Especialistas da Agência Federal do Meio Ambiente alemã ainda estão redigindo um relatório que será divulgado nas próximas semanas, mas as conclusões já são conhecidas – há sérias brechas no sistema de reciclagem do país. Segundo o estudo, firmas de exportação da Alemanha enviam 100 mil toneladas de aparelhos elétricos descartados a cada ano para os países subdesenvolvidos, o que é bem mais do que os especialistas temiam.
"Este é um negócio milionário. Não se trata de algo que possa ser classificado como crime pequeno", afirma Knut Sander, do instituto ambiental Ökopol, com sede em Hamburgo. Ele foi o autor do estudo, que exigiu meses de pesquisas. Por causa das suas investigações ele recebeu avisos de que deveria tomar cuidado com a sua segurança.
Ele não teve que ir longe do seu escritório para observar a atividade dessa indústria de exportação. "O Porto de Hamburgo é importante", explica Sander. "Aquilo que não sai por Hamburgo é embarcado em Antuérpia ou Roterdã."
Sander descobriu negociantes pequenos que enviam contêineres esporádicos ou alguns carros velhos cheios de computadores. Às vezes há centenas desses carros no terminal de O’Swaldkai, em Hamburgo, de onde os navios saem para a África. Há também grandes empresas enviando cargas de lixo tóxico – as chamadas companhias de remarketing, que coletam centenas de milhares de eletrodomésticos velhos todos os anos. Essas companhias têm autorização para revender computadores que estejam funcionando, mas são obrigadas a reciclar as máquinas defeituosas. E algumas delas sabem muito bem quanto dinheiro podem economizar enviando esses computadores inúteis para Gana.
A tarefa de deter essa exportação de lixo deveria ficar a cargo de uns poucos funcionários da alfândega e da guarda portuária. Mas quando os agentes ocasionalmente abrem um contêiner, eles estão provavelmente pedindo para ter dores de cabeça nos tribunais. As leis não definem o que seja um computador descartado, e é legal exportar computadores usados. Só não se pode exportar as máquinas descartadas. Um computador que está quebrado, mas que talvez ainda pudesse ser consertado, pode ser considerado lixo? E quanto a um computador de 20 anos de idade, que não consegue mais rodar um único programa? Quando há dúvidas, os juízes dão ganho de causa aos exportadores.

Entrando no inferno

Bismarck só sabe que todos os computadores exalam mau-cheiro, tenham eles dez ou 20 anos de idade, e não importando se sejam fabricados pela Dell, a Apple, a IBM ou a Siemens. Quando eles queimam, a fumaça faz com que a sua cabeça e garganta doam. As cinzas pegajosas grudam em cada poro e ruga, e provocam coceiras. Manchas aparecem na pele de Bismarck, mas ele sabe que não pode coçá-las porque a poeira tóxica entraria nas feridas abertas.
Desde o início Bismarck sabia que estava entrando no inferno. Mas quando tinha dez anos de idade, ele imaginava que o inferno pudesse, de alguma forma, constituir-se em uma aventura. De toda maneira, ele não tinha escolha, assim como as outras crianças daqui de Sodoma. A maioria delas vem das regiões mais pobres de Gana, no norte do país, para a capital, Accra.
Bismarck consegue ainda se lembrar da sua vila, que fica perto de Techiman, mais ou menos no meio do país. Lá não há eletricidade, e as paredes dos casebres são feitas de terra.
O pai dele desapareceu quando Bismarck era pequeno, de forma que ele jamais pôde perguntar por que o homem lhe deu um nome tão estranho, que ninguém na vila havia ouvido antes. A mãe de Bismarck criou-o sozinha, até ter sido atropelada por um carro. Ela perdeu as duas pernas no acidente, e morreu pouco depois.
Uma tia adotou Bismarck, mas havia pouca comida para todos. Finalmente um garoto mais velho da vila lhe falou sobre Accra, e sobre um lugar entre o mercado Agbogbloshie e a favela Sodoma, onde até mesmo um menino de dez anos de idade seria capaz de ganhar dinheiro suficiente para comprar comida. O adolescente de 16 anos também lhe falou sobre os computadores e a fumaça, e que ele teria que ser forte.
Pouco tempo depois, os dois garotos foram embora da vila, viajando de ônibus e depois de trem. O mais velho tinha dinheiro para as passagens porque já havia trabalhado em Sodoma.

Um euro por dia

Bismarck aprendeu as regras rapidamente. Existe uma hierarquia, e todo garoto pode tentar galgar essa estrutura. Os homens jovens, de cerca de 25 anos de idade, controlam as grandes balanças de ferro velho que ficam com frequências nos locais onde se podem ver marcas de pneus na cinza que cobre a terra. Quando a sacola de Bismarck fica cheia até a metade após um dia perambulando em torno das fogueiras, ele pode vender o material recolhido para esses homens por cerca de dois cedis ganenses, o equivalente a cerca de um euro ou US$ 1,50 (R$ 2,60).
Aqueles que são um pouco mais novos, com cerca de 18 anos de idade, possuem carrinhos de mão feitos com tábuas e eixos de carros velhos. Eles seguem para a cidade no início da manhã para coletarem computadores dos importadores de refugo e trazem o material de volta para a favela. Eles quebram os computadores e retiram os cabos, e depois jogam o que restou nas fogueiras ou vendem esse resíduos para garotos um pouco mais novos.
São principalmente esses garotos que carregam os montes de cabos plástico para serem queimados nas fogueiras. Um deles é Kwami Ama, que tem 16 anos e é um dos dois amigos de Bismarck aqui. Kwami tem um corpo forte e uma face redonda e de expressão honesta. Somente os olhos dele, altamente avermelhados devido à fumaça quando a noite cai, lhe dão uma aparência meio selvagem. As cicatrizes espalhadas pelas mãos foram provocadas pelas bordas afiadas de computadores quebrados e geladeiras velhas. Kwami arranca a camada de isolamento das geladeiras e as usa para acender as fogueiras,antes de jogar as peças de computadores no fogo. O isopor queima emitindo chamas violetas e verdes, com um calor suficiente para derreter até mesmo cabos dotados de produtos químicos retardadores de fogo no seu isolamento plástico.
Ao contrário de Bismarck, Kwami não consegue mais falar sobre a sua vida. "Fico triste com frequência", diz ele, embora esteja se saindo bem pelos padrões de Sodoma. Alimentar as fogueiras é a tarefa mais tóxica de todas, mas ele ganha dinheiro suficiente para alugar um local para dormir em um barraco de madeira em Sodoma. O barraco tem cerca de dois metros de largura por três de comprimento. Três garotos dormem dentro dele, dividindo o assoalho de madeira. Não há janelas no barraco, mas a porta tem um cadeado, o que lhes permite dormir em segurança – o que é um luxo em Sodoma.

Pobres contra pobres

Ao contrário do seu amigo, Bismarck tem medo da noite. Ele enrola-se no escuro como um cão e dorme encostado em uma parede de madeira em Sodoma, ou sobre as cinzas, ao lado de uma geladeira quebrada na área aberta onde ficam os eletrodomésticos quebrados. Às vezes ele dorme sobre as balanças. Ele muda o local de dormir com frequência. Bismarck tem apenas dois amigos aqui. No inferno, os pobres lutam contra os pobres.
Alguns dias depois, Bismarck teve um golpe de sorte ao encontrar uma grande quantidade de cobre, e o homem da balança pagou a ele sete cedis. Bismarck só gastou dois cedis, mas na manhã seguinte os outros cinco haviam desaparecido. Alguém usou uma lâmina para abrir o bolso de Bismarck quando ele dormia. Ele simplesmente ganha muito pouco. Bismarck consegue pagar pela comida ou por um local para dormir, mas não pelas duas coisas.
Bismarck também não pode passar a noite com os seus outros amigos. Danjuma tem 11 anos de idade e acredita que já está trabalhando aqui há vários anos. Os seus pais ainda são vivos, mas quatro outros irmãos dividem um barraco com ele em Sodoma, e não há espaço lá para Bismarck.
A mãe de Danjuma detesta ver o filho trabalhando nas fogueiras e desejaria que ele estivesse na escola. Mas a família precisa de dinheiro. Danjuma é o filho mais velho, e não se sabe quanto tempo mais ele será capaz de trabalhar efetivamente. Ele padece de dores frequentes no peito e nas costas.
Danjuma e Bismarck pertencem ao grupo mais jovem, de crianças entre 8 e 14 anos. Nem eles nem as meninas têm permissão para alimentar o fogo. Os garotos novos trabalham com ímãs, e as meninas trazem água em sacos plásticos, e às vezes comida, para os garotos mais velhos. "A gente tem que beber muita água", explica Kwami. O sol é escaldante, fazendo com que a temperatura à sombra seja de 30ºC. Mas não existe sombra em Agbogbloshie. Perto dali o plástico está queimando a uma temperatura de mais de 300ºC.

Encolhendo o cérebro

Kwami diz que se esqueceu de muita coisa, mas que ainda se lembra muito claramente de um certo dia do ano passado. Um grupo de indivíduos brancos veio até à área de ferro velho, o que é raro. Eles eram do Greenpeace. Um homem usava luvas e carregava pequenos tubos de ensaio. Ele coletou amostras da lama de um dos lagos formados pelo rio, e depois cinza e solo de vários locais diferentes na área.
O químico analisou as amostras quando voltou para casa, na Inglaterra, e os valores que obteve não foram bons. Ele descobriu concentrações elevadas de chumbo, cádmio e arsênico, bem como de dioxinas, furanos e bifenis policlorados.
O chumbo, para tomar como exemplo apenas um dos produtos químicos perigosos, provoca dores de cabeça e estomacais após uma breve exposição. No longo prazo, ele danifica o sistema nervoso, os rins, o sangue e especialmente o cérebro. Quando uma criança ingere chumbo através da água ou por inalação, o seu cérebro encolhe ligeiramente e a sua inteligência diminui. Cientistas da Alemanha ficam preocupados quando descobrem concentrações acima de um limite de 0,5 miligramas de pó de chumbo por metro cúbico de ar. O tubo de raios catódicos de um único monitor de computador contém cerca de 1,5 quilograma de chumbo. Muitas das outras substâncias encontradas pelos químicos no local também provocam câncer, entre outras doenças.

Contra-atacando

Mike Anane, um ativista ambiental e coordenador local da organização internacional de direitos humanos FIAN, trouxe os membros do Greenpeace para cá. Anane nasceu aqui há 46 anos, bem ao lado de onde hoje em dia se situa Agbogbloshie. Naquela época, as margens dos rio eram repletas de prados verdes e de flamingos, e os pescadores tiravam o seu sustento do rio. Agora não existe vida nessas águas.
Oito anos atrás, Anane começou a perceber a chegada de uma quantidade cada vez maior de caminhões em Agbogbloshie, com as carrocerias repletas de computadores. Ele observou a situação de perto e passou a contra-atacar aquilo que viu. Anane coleta adesivos de procedência de vários computadores descartados para descobrir de quem são os venenos queimados aqui. Ele possui adesivos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, de autoridades britânicas e de companhias como o Banco Barclays e a British Telecom. "Algumas crianças daqui não chegarão aos 25 anos de idade", acredita Anane.
Ele sabe, porém, que as companhias e organizações cujos selos chegam aqui juntamente com os equipamentos descartados não são os agentes que de fato trazem esse lixo para o seu país. As pessoas diretamente envolvidas são comerciantes como Michael Ninicyi, diretor da Kofi Enterprise.
A Kofi Enterprise é uma pequena loja repleta de computadores. Os melhores produtos são velhas máquinas Pentium vendidas por US$ 90 (R$ 156), incluindo um leitor de DVD. Impressoras e copiadoras são exibidas sob uma cobertura amarela na frente da loja – todas as máquinas são provenientes da Alemanha, segundo Ninicyi. Um exemplar do jornal "Berliner Morgenpost", usado para proteção contra arranhões, encontra-se dobrado entre dois computadores. Algumas das máquinas ainda trazem os adesivos de companhias cujas sedes ficam, por exemplo, na pequena cidade alemã de Kleve, no Estado de Brandenburgo ou no de Rhineland. Todos esses produtos funcionam e são legais.

"Este negócio é bom para Gana"

Ninicyi usa calças com vincos, um colar de ouro e sapatos caros. Este é um homem que alcançou o sucesso. O seu inglês é excelente, ele fala bem e é capaz de se defender com sucesso – embora não sinta necessidade de fazer tal coisa. Na verdade, o que ele sente é o contrário.
Ninicyi compra os seus produtos exclusivamente de navios de contêineres provenientes de Hamburgo. "Os alemães simplesmente tomam mais cuidado com os seus equipamentos do que qualquer outro povo", explica. Ele não quer dizer exatamente quem são os vendedores. Ninicyi compra os produtos sem examiná-los, algo que é comum nesta atividade. Como parte dos seus cálculos de custos, os vendedores alemães fazem com que em cada contêiner haja alguns equipamentos que funcionem, bem como alguns que ainda podem ser consertados. O restante, cerca de 30%, é lixo, que Ninicyi repassa imediatamente aos garotos que vêm de Agbogbloshie com os seus carrinhos da mão. Contêineres vindos do Reino Unido trazem uma proporção muito maior de lixo.
"Este negócio é bom para Gana e para os outros países", assegura Ninicyi. Ele diz que sente pelas crianças, mas afirma que paga impostos, e os seus fregueses também e que o povo de Gana tem acesso a computadores de preço acessível.
Ninicyi conhece até uma teoria maior que faria com ele fosse visto como algo semelhante a um funcionário de ajuda de desenvolvimento. A teoria da "lacuna digital", originalmente desenvolvida na Universidade de Minnesota, afirma simplesmente que, como os pobres não têm acesso aos meios modernos de comunicação, e como é o conhecimento que cria prosperidade, as pessoas mais pobres continuarão ficando para trás e a lacuna se expandirá ainda mais. O fornecimento de computadores ajuda a reduzir essa lacuna.
Essa teoria tem alguns pontos fracos. Por exemplo, ela foi desenvolvida em 1970, três anos antes de um jovem estudante chamado Bill Gates sequer começar a estudar na Universidade Harvard. Há também uma segunda teoria da era da computação, a Lei de Moore, cujo nome é uma alusão a um dos cofundadores da Intel, que afirma que a capacidade de processamento dos computadores dobra a cada dois anos. Os criadores de softwares seguem a tendência, fazendo com que os computadores mais novos de hoje já estejam ultrapassados amanhã e prontos para serem mandados para Sodoma um dia depois.

"Por que vocês não interrompem o fluxo de lixo?"

"Esse processo está cada vez mais rápido, e nós estamos sendo esmagados", queixa-se John Pwamang, diretor do Centro de Gerenciamento e Controle de Produtos Químicos da Agência de Proteção Ambiental de Gana. A agência está localizada em um prédio de concreto em péssimas condições. A caminho do escritório de Pwamang, os visitantes precisam subir primeiro uma escada que no passado deve ter sido verde, e a seguir passar por um banheiro com defeito e uma sala de conferência de cortinas marrons esfarrapadas. Na sala há três depósitos de lixo – um marrom, para papel, um cinza, para plástico, e um outro marrom para tudo mais. Entretanto, o país não conta com um sistema de reciclagem de lixo em funcionamento. Ao que parece a agência de Pwamang ainda tem alguns problemas pela frente.
Os olhos de Pwamang são pouco visíveis por trás das grossas lentes bifocais. Ele fala suavemente, o que o ajuda a parecer mais tranquilo do que realmente é. "Vocês europeus não mudam", reclama ele. "O que deveríamos fazer com os produtos tóxicos que vocês nos mandam? Não temos como reciclá-los. Vocês possuem as instalações para isso. Computadores que funcionam não são nenhum problema, mas muitas das máquinas velhas demais não duram nem um ano aqui. Por que vocês não interrompem o fluxo de lixo?".
Pwamang não tem como provar que o chumbo e as dioxinas estão matando as crianças. Quase ninguém com mais de 25 anos trabalha nas fogueiras às margens do rio de águas pretas. E não existe estudo algum sobre o problema. O Greenpeace identificou e quantificou as toxinas, mas a organização não examinou os efeitos diretos delas. "As crianças estão doentes", afirma Pwamang. "Temos aqui metais pesados e venenos. Um estudo seria bom, mas mesmo sem nenhum estudo eu sei que a situação é desastrosa."

Sonhando em escapar

Mas, apesar de tudo, as crianças de Sodoma às vezes parecem se divertir. Os garotos mais velhos jogam futebol à noite em um espaço aberto entre as fogueiras, com dois vergalhões servindo de gol e monitores de computador vazios marcando as bordas do campo. Os jogadores correm e mergulham entre a fumaça das fogueiras. Eles não estão jogando apenas para se divertir, mas também por causa de seus futuros, já que muitos ganenses deixaram o país para jogar nas ligas profissionais no Ocidente. É um sonho meio louco, mas para muitos dos jovens daqui, um sonho é a única coisa que lhes permite escapar.
O amigo de Bismarck, Danjuma, tem o mesmo sonho, é claro. Ele adoraria treinar futebol, apesar das dores no peito. Mas ele não tem dinheiro para comprar uma bola. Mas talvez seja melhor assim já que, se corresse, ele teria que respirar profundamente a fumaça.

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

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