Daily Archives: 07/12/2009

Submersa em modo stand-by

Árvore da Amazônia adaptada à várzea economiza energia para sobreviver a alagamentos constantes de até cinco meses ininterruptos.

Marcos Pivetta

Flor de sucuuba: se alagada, árvore consome mais lentamente os carboidratos.

Por que algumas plantas conseguem viver quase metade do ano em meio à escuridão líquida, totalmente submersas pelas cheias dos rios da Amazônia, enquanto outros exemplares da mesma espécie não resistem sequer duas semanas embaixo d’água? Depois de comparar sementes e mudas de uma perfumada árvore da Região Norte, a sucuuba (Himatanthus sucuuba), obtidas em zonas inundadas de várzea e em áreas secas de terra firme nos arredores de Manaus, uma equipe nacional de botânicos e ecólogos encontrou uma série de pistas que ajudam a entender esse enigma evolutivo. Embora apresentem aparência externa idêntica à
de suas irmãs encontradas nas porções não alagáveis da floresta, as plantas da várzea desenvolveram uma forma particular de armazenar e gastar energia que lhes garante a sobrevivência nesse ambiente duplamente hostil à maioria dos vegetais, sem luz e com escassa quantidade de oxigênio. Provavelmente como resultado de um longo processo adaptativo que permitiu sua proliferação à beira dos rios, as sucuubas instaladas nas margens alaga diças armazenam cerca de 30% mais carboi dratos em suas raízes e con somem os açúcares que lhes servem de combustível de maneira mais econômica do que as plantas oriundas da área seca.

Apesar de serem constituídas das mesmas reservas químicas, as sementes de sucuuba da várzea e as de terra firme apresentam concentrações díspares desses compostos – e essas desigualdades também ajudam a explicar por que apenas as primeiras não perecem no meio liquido. As sementes originárias das áreas alagadas são mais duras (têm uma quantidade maior de polissacarídios que formam sua parede celular) e se mostram quase impermeáveis. “Se, do ponto de vista da morfologia, as árvores que vivem nesses dois ambientes distintos são iguais e pertencem à mesma espécie, podemos dizer que, fisiologicamente, elas já se comportam como se fossem duas espécies diferentes”, diz a botânica Cristiane Ferreira, da Universidade de Brasília (UnB), primeira autora de um artigo científico publicado sobre a planta, informalmente chamada de jasmim da Amazônia por ter flores e aromas semelhantes aos do jasmim, na edição de novembro da revista Annals of Botany. “Flagramos a sucuuba no meio do processo de especiação”, afirma a ecóloga Maria Teresa Fernandez Piedade, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), de Manaus, outra autora do estudo. “E é provável que o mesmo esteja ocorrendo com outras espécies da região que também estão adaptadas a diferentes ambientes.” Análises genéticas preliminares ainda indicam que o DNA das duas variedades tende ao distanciamento.
A sucuuba – uma árvore que chega a durar 70 anos, atinge na idade adulta 25 metros de altura, a cujo látex se atribuem propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e vermicidas – está longe de ser a única planta que se desenvolve tanto em áreas secas como inundadas da Amazônia. Os especialistas estimam que cerca de 30% das espécies de várzea também ocorrem em terra firme. Mas a planta é um caso extremo de adaptação, ideal para um estudo que tenta entender os mecanismos que possibilitam a sobrevivência de vegetais em zonas alagadas. “Garimpamos uma espécie bem emblemática dessa questão”, comenta Maria Teresa. Seu hábitat por excelência é o mais extremo em termos do contato com o meio líquido, a várzea baixa, colada às margens dos rios, justamente o primeiro ponto a sentir os efeitos das cheias e o último a se livrar delas. Nessa região, as águas inevitavelmente avançam sobre as bordas dos rios, mesmo em anos pouco chuvosos, diferentemente do que se passa na várzea alta, onde nem sempre há alagamentos e, quando há, sua extensão e duração são menores.

Aresistência ao meio aquático da sucuuba é impressionante. Até atingir os 10 anos de idade, quando provavelmente terá adquirido altura suficiente (uns seis metros) para manter a parte superior do tronco e a copa fora do alcance das cheias, a planta terá passado quase metade de sua vida totalmente submersa pelas águas. Como outras plantas que vivem em áreas alagadiças, onde a luz penetra no máximo três metros água adentro, os exemplares adultos da sucuuba exibem em seu caule as marcas deixadas pela última enchente.
Quando se encontram mergulhadas nas trevas aquáticas, cobertas durante cinco meses seguidos por uma coluna de até seis metros de água, as sucuubas da várzea entram numa fase que lembra vagamente a hibernação dos bichos no ambiente gelado: gastam mais lentamente suas reservas de energia e não investem em crescimento vertical. Economizam ao máximo seus açúcares para que possam usá-los no momento mais adequado, na época de estiagem, quando a prioridade será ganhar altura suficiente para escapar da próxima inundação sazonal ou minimizar seus efeitos. Afinal, no período em que as águas retornam aos leitos dos rios, elas contam com apenas três meses para germinar e espichar seu caule o mais que puderem antes de serem engolidas novamente pelas águas. A estratégia de sobrevivência é surpreendente, visto que, num ambiente sem luz, as plantas não fazem fotossíntese (ou a fazem marginalmente) e tendem a queimar todo o seu estoque de carboidratos para se manter vivas. É isso o que ocorre com a sucuuba de terra firme se inserida numa zona inundada – ela germina muito rapidamente e morre “de fome” –, mas não com a da várzea.
Um experimento feito pelos cientistas brasileiros com mudas (plântulas no jargão dos botânicos) de sucuuba com um mês de vida e 10 centímentros de altura ilustra as diferentes habilidades adaptativas de cada população da árvore. Os exemplares da planta provenientes da várzea conseguiram sobreviver quando foram cultivados e mantidos por mais de um mês em recipientes alagados por água e privados de luz externa, um ambiente artificial que tenta simular as condições naturais da várzea baixa. Eles também vingaram se plantados em vasos que não sofreram inundação. Já as amostras da espécie vindas da terra firme não venceram as barreiras do excesso de água e da escuridão. Morreram no ambiente tomado pelo líquido.

Segundo o botânico Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo (USP), que coordenou os estudos sobre carboidratos, as duas populações de sucuuba mostram como plantas de uma mesma espécie adaptadas a ambientes distintos podem usar seus estoques de energia em momentos e para funções completamente diferentes. É verdade que os exemplares de várzea acumulam mais açúcares na raiz do que os de terra firme, porém não é isso que faz o metabolismo de cada ocorrência da espécie funcionar de maneira distinta. “Não é a quantidade total de carboidratos que diferencia as duas populações de sucuuba, mas sim a forma como esses compostos estão estruturados na planta e como ela faz uso de cada tipo de reserva energética”, comenta Buckeridge. As sementes das sucuubas oriundas da várzea, por exemplo, contam com cinco vezes menos açúcares solúveis – consideradas reservas de uso rápido – do que as de terra firme. Evolutivamente, essa distribuição de carboidrato faz todo sentido. Afinal, quando submersa, uma árvore de zona alagada deve usar sua energia de forma controlada para garantir a sobrevivência por mais tempo.

Na aparência externa, as plantas de várzea e as de terra firme ainda são absolutamente iguais. Mas, a exemplo do que ocorre com os gêmeos, que nascem biologicamente idênticos, mas têm comportamentos distintos, as duas populações da árvore adotam, digamos, estilos de vida particulares em função do ambiente em que vivem. É possível que os exemplares das duas zonas de floresta também estejam se distanciando do ponto de vista anatômico (alterações na estrutura interna de suas raízes já foram verificadas). No entanto, essa questão só poderá ser esclarecida no futuro. Por ora, apesar de exibir um metabolismo distinto, as sucuubas de várzea e de terra firme ainda produzem sementes no mesmo período, entre junho e julho, após a época das cheias, e sua dispersão se dá pelo vento ou por flutuação no caso do meio aquático. Além de ser importante para entender os mecanismos que viabilizam a adapatação de uma árvore a áreas inundadas da Amazônia, o es tudo das duas populações de sucuuba
também é relevante por um motivo bem prático. A planta desperta grande interesse comercial por suas propriedades medicinais e também por sua madeira leve, boa para revestimentos de pisos. “Se alguém um dia for plantar sucuuba numa várzea, precisa ter certeza de que os exemplares ali introduzidos são adaptados a áreas alagadas”, adverte Cristiane. Caso contrário, o manejo da espécie à beira dos rios não será viável.

Artigo científico

FERREIRA, C.S. et al. The role of carbohydrates in seed germination and seedling establishment of Himatanthus sucuuba, an Amazonian tree with populations adapted to flooded and non-flooded conditions. Annals of Botany. v. 104 (6), p.1.111-19. nov. 2009.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Manual do senhor de escravos

Historiador revela as técnicas de gerência da senzala.

Tamis Parron

Se já é difícil comandar esse sistema chamado escritório, em que o trabalho é recompensado com dinheiro, imagine administrar uma roça onde a única certeza do “funcionário” é levar umas chicotadas nas costas. Pois era exatamente essa a missão de um fazendeiro nos tempos do Brasil escravagista – desafio para deixar qualquer diretor de recursos humanos de hoje com os cabelos em pé.

Para resolver o problema, uma série de senhores de engenho e missionários se dedicavam a escrever manuais sobre como lidar com escravos. Algumas dessas “dicas” estão no recém-lançado livro Feitores do Corpo, Missionários da Mente (Companhia das Letras), do historiador Rafael de Bivar Marquese. É uma bela chance de entender a lógica hedionda de um sistema que se baseava em trabalhadores tratados como animais, mas que precisavam ser administrados e estimulados como eram – seres humanos. As questões “banais” do dia-a-dia de um escravocrata incluíam desenvolver as melhores técnicas para evitar fugas, açoitar mulheres sem despertar a ira dos homens ou descobrir que raios fazer com crianças que ainda não tinham idade para trabalhar.

Feitores revela os dilemas que cada grupo enfrentava na hora de aplicar suas idéias. Religiosos insistiam na educação cristã dos cativos. A metrópole colonizadora se preocupava com o abastecimento de novas “peças”. Senhores se esmeravam em explorar ao máximo seus subordinados. Desnecessário dizer: a única coisa que não entrava em pauta era acabar de uma vez por todas com a escravidão.

Para saber mais

Na livraria

Feitores do Corpo, Missionários da Mente – Rafael de Bivar Marquese, Companhia da Letras, 2004

Reprodução

Problema: Manter a oferta de escravos quando abolicionistas pressionavam pelo fim do tráfico

Solução: Em 1803, o inglês Dr. Collins bolou um “bônus” para negras que engravidassem: pelo primeiro filho, a mãe seria dispensada dos trabalhos no campo. O segundo valia uma folga quinzenal. O terceiro, folga semanal. Pelo quarto, dois dias de descanso. Pelo quinto, três e pelo sexto filho, finalmente, ela se tornaria uma pessoa livre. A prole, é claro, ficava na senzala

Controle de fugas

Problema: Evitar fugas de escravos

Solução: Castigar fujões era um bom remédio, mas não o único nem o que trazia melhores resultados. Mais eficiente era permitir que os cativos criassem porcos ou galinhas e cultivassem roças ao lado da senzala. O senso de propriedade despertava a fidelidade: quem se arriscaria a trocar o certo pelo duvidoso e perder os bens fugindo para o matagal bravio?

Alimentação

Problema: Controlar os custos com a alimentação

Solução: Ser mesquinho não era bom negócio – cativos famintos roubavam para comer. Melhor para os senhores era reservar semanalmente 1 quilo de farinha e 900 gramas de carne salgada por escravo. A distribuição não deveria ser feita aos domingos, o dia de visitas, quando escravos ofereciam aos convidados o que tinham para comer. O ideal era distribuir a ração nas segundas-feiras

Castigo

Problema: Punir mulheres sem revoltar os homens

Solução: Nunca açoitá-las em público. O melhor era bater nelas dentro de casa, longe da ira masculina. Os “machos”, porém, sofriam castigo exemplar: convocava-se a escravaria, o infrator era colocado numa carroça e chicoteado à exaustão. Em seguida, os senhores passavam pimenta, sal e limão nas feridas para aumentar a dor e evitar pústulas ou inflamações

Descanso de domingo

Problema: Manter os escravos ocupados nos domingos, os dias reservados ao Senhor

Solução: Um escravista verdadeiramente devoto a Deus não podia obrigar seu plantel à labuta nos domingos. Mas isso não significava lazer à vontade. Da alvorada até as 10h, os negros deviam lavar roupas e limpar a senzala. Depois, freqüentar a missa, para se tornarem cristãos e caridosos. Só após o jantar estavam liberados para festas e brincadeiras – com a cachaça correndo por conta da casa-grande

Crianças escravas

Problema: O que fazer com as crianças?

Solução: Até os 5 anos, as crianças deviam ser nutridas com arroz, caldo de carne e mingau. Dos 5 aos 10 anos, os infantes recebiam leves tarefas de trabalho. O objetivo: fortalecer os músculos e moralizar o espírito. “Somente” aos 10 anos é que eram expostos a serviços mais pesados, que davam retorno ao bolso dos senhores.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

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A história do cerrado

Cientistas investigam origem e evolução do bioma e apontam a importância dos incêndios naturais para a formação desse tipo de savana. A descoberta ajuda a entender por que esse ecossistema é tão rico em biodiversidade.

Raquel Oliveira

A história do cerrado

Vista aérea da vegetação do cerrado. A rica biodiversidade desse bioma pode ter se originado de incêndios naturais ocorridos dez milhões de anos atrás (fotos: Marcelo Simon/ Embrapa).

O fogo teve papel importante na formação da flora do cerrado brasileiro. Essa é a conclusão de um estudo publicado esta semana na PNAS por uma equipe internacional de pesquisadores, que conta com a participação de brasileiros da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A pesquisa indica que os incêndios naturais são um dos motivos que fizeram do cerrado a savana tropical com maior biodiversidade do mundo.

A origem do cerrado coincidiu com a maior vulnerabilidade da região a incêndios naturais

A hipótese levantada pelos autores do trabalho é que a origem desse bioma coincidiu com o avanço de gramíneas sobre a região, causado por mudanças climáticas ocorridas dez milhões de anos atrás e responsáveis também pela expansão da savana em outros lugares do mundo. Por serem muito inflamáveis, as gramíneas deixaram o local do futuro cerrado vulnerável a incêndios.

Devido às novas condições climáticas, as plantas mais adaptadas a ambientes secos e mais resistentes ao fogo tiveram mais chances de sobreviver na região. Aparentemente, esse ajuste não foi difícil, já que o surgimento do cerrado foi relativamente rápido se comparado ao de outros biomas. Segundo o estudo, a diversificação da maior parte da flora do cerrado iniciou-se há aproximadamente quatro milhões de anos.

A formação do cerrado também teve contribuições dos biomas situados em seu entorno – a floresta amazônica, a caatinga, os pampas e a mata atlântica –, que compartilham com ele diversos gêneros. Mas o processo de migração da flora típica dessas vegetações ainda não está totalmente esclarecido.

Endemismo na região
Segundo um dos autores do artigo, o biólogo Marcelo Simon, da Embrapa, o estudo constatou que o cerrado tem poucos gêneros de plantas endêmicos. Entretanto, há espécies que se originaram exclusivamente no bioma. Só no gênero Mimosa, um dos quatro estudados pelo grupo, por exemplo, ao menos onze novas linhagens tiveram origem no cerrado.

Cerrado

Acima, espécies do gênero ‘Mimosa’, nativo das Américas Central e do Sul. O DNA de algumas linhagens desse grupo foi usado na análise filogenética que permitiu aos pesquisadores traçar a história evolutiva do cerrado.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram o DNA de quatro grupos de plantas: Mimosa, Microlicieae, Lupinus e Andira. Foi usado o método da filogenia genética, que permite traçar retroativamente prováveis relações de parentesco. O objetivo do grupo era investigar a evolução das adaptações das plantas do cerrado ao fogo e obter uma visão histórica da reunião das espécies no bioma.

Por meio de análises genéticas, foi possível investigar a evolução das adaptações das plantas do cerrado ao fogo

Mas os resultados devem ser vistos com certa reserva. Segundo Simon, a amostragem de DNA usada pelo grupo representa apenas 3 a 4% da flora do cerrado. Ele admite que o número ainda é baixo. “Esse é um esforço inicial”, ressalta em entrevista à CH On-line. “Mas há evidências baseadas em estudos feitos com outras plantas, como as do gêneroManihot (mandioca), que dão suporte às nossas conclusões”, defende. E completa: “Acreditamos que nossos resultados também podem ser representativos de histórias evolutivas de outras espécies.”

As características adaptadas ao fogo presentes nas plantas dos grupos estudados – como casca espessa e raízes profundas e grossas – levaram os cientistas a concluir que os incêndios naturais ocorridos no cerrado são talvez os ingredientes decisivos que culminaram com a riqueza de espécies do bioma. Essa conclusão se junta a outras evidências científicas que apontam a importância de fenômenos específicos em uma dada região para a formação de biomas com grande biodiversidade.

Fonte: Instituto Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br

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Espaço, a Fronteira Final?

Vamos parar de nos enganar sobre os motivos para voltar à Lua

LAWRENCE M. KRAUSS

Este ano marcou o 40o aniversário de dois eventos relevantes da exploração do espaço. Um deles, odesembarque da Apollo 11 na Lua, em 20 de julho de 1969, foi um marco da conquista tecnológica. O outro, a primeira exibição completa no notável filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma odisseia no espaço, a deslumbrante interpretação das concepções de Arthur C. Clarke sobre o homem viajando pelo espaço sem volta.
Boa parte do material sobre esses eventos notou a enorme diferença entre a realidade – o homem não pisa na Lua desde dezembro de 1972 – e as ideias de Clarke. Artigos também questionaram até que ponto nosso país está de fato compromissado em gastar US$ 200 bilhões ou mais para voltar à Lua daqui a dez anos e depois disso, talvez, gastar ainda mais dinheiro para enviar homens a Marte.
Aos 15 anos, fiquei encantado coma chegada à Lua. Mapeei todas as missões Apollo, construí modelos em escala e sonhei em ser o primeiro astronauta canadense. Viagens humanas sempre prometeram impulsionar a ciência. Desde então, porém, mudou minha visão sobre o papel dos seres humanos na exploração do espaço. Eu ainda agarraria uma chance de ir para o espaço.
Mas hoje admito, como testemunhei no Congresso quase uma década atrás (coincidentemente, ao lado de Buzz Aldrin, da Apollo 11), que faria isso por diversão e não pelo avanço da ciência. O conhecimento científico mais interessante sobre o Universo deverá ser obtido por meio de naves espaciais não tripuladas, de robôs e muito menos dinheiro do que o necessário para tirar o homem da órbita terrestre.

Voos tripulados se mostraram extremamente caros e muito mais perigosos do que o programa Apollo nos levou a crer. Além disso, as dificuldades adicionais são muito mais mundanas do que sugerem a TV e os fi lmes de fi cção científi ca. Não estamos parados por falta de força propulsora, embora os custos de combustível sejam um motivo para que os voos não tripulados sejam tão mais baratos; missões com seres humanos requerem uma parafernália para mantê-los vivos. O maior obstáculo para visitar Marte é a radiação cósmica. Durante os 18 meses ou mais necessários para essa missão, provavelmente os astronautas se exporiam a uma dose letal de radiação.
Nosso destino supremo talvez esteja nas estrelas, mas as limitações impostas pela física e por nossa biologia indicam que esse futuro deve se reservar às nossas crias mecânicas – os robôs – ou talvez aos computadores capazes de replicar vida orgânica em longas distâncias.
No curto prazo, podemos ainda ansiar por aventura e desejar, apesar dos custos enormes, colonizar a Lua e talvez Marte. Não me oponho a enviar homens ao espaço pela razão financeira. Mas deveríamos separar o financiamento da ciência do diversionismo causado por um programa espacial caríssimo. Também não deveríamos gastar fortunas em programas ineficientes como a Estação Espacial Internacional, de US$ 100 bilhões, que supostamente deveria fornecer informação científica mais abrangente do que como vivem os seres humanos a 320 km da Terra
por períodos prolongados.
O programa Apollo nos ensinou que vamos encarar dificuldades tecnológicas ainda maiores se a nação se concentrar em resolvêlos a um alto custo. Enfrentamos agora muitos desafios, das mudanças climáticas à independência energética, com os quais teremos de lidar mesmo premidos por nossa fome de viajar pelo espaço.
Não acredito que se trate de um jogo de soma zero. Talvez haja dinheiro para tudo isso: enviar homens ao espaço, praticar a melhor ciência fundamental possível e também enfrentar os problemas prementes aqui na Terra. Mas só o faremos se formos honestos em relação aos custos, e possíveis benefícios, da ciência para a humanidade. E não podemos fi ngir que uma base na Lua ou em Marte seja a panaceia para qualquer de nossos problemas cá embaixo.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

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Herbert Spencer – O ideólogo da luta pela vida

Teórico inglês buscou no evolucionismo os mecanismos e objetivos da sociedade, e defendeu o ensino da ciência para formar adultos competitivos.

Foto: HULTON ARCHIVE/Getty Images

Tendo vivido num tempo de grandes avanços científicos, o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi o principal representante do evolucionismo nas ciências humanas. Ele intuiu a existência de regras evolucionistas na natureza antes de seu compatriota, o naturalista Charles Darwin (1809-1882), formular a revolucionária teoria da evolução das espécies. É ele o autor da expressão "sobrevivência do mais apto", muitas vezes atribuída a Darwin.
O filósofo aplicou à sociologia idéias que retirou das ciências naturais, criando um sistema de pensamento muito influente a seu tempo. Suas conclusões o levaram a defender a primazia do indivíduo perante a sociedade e o Estado, e a natureza como fonte da verdade, incluindo a verdade moral. No campo pedagógico, Spencer fez campanha pelo ensino da ciência, combateu a interferência do Estado na educação e afirmou que o principal objetivo da escola era a construção do caráter (leia quadro na página 58). "Ele dizia que os conhecimentos úteis, que serviriam para formar os homens de negócios e produzir o bemestar pessoal, eram desprezados em favor do ensino das humanidades, que davam mais prestígio", diz a professora Maria Angélica Lucas, da Universidade Estadual de Maringá.

Para Spencer, havia uma lei fundamental da matéria, que ele chamou de lei da persistência da força. Segundo ela, a tendência natural de todas as coisas é, desde a primeira interação com forças externas, sair da homogeneidade rumo à heterogeneidade e à variedade. À medida que as forças vindas de fora continuam a agir sobre o que antes era homogêneo, maior se torna o grau de variedade.

Biografia

Herbert Spencer nasceu em Derby, Inglaterra, em 1820, e desde a adolescência mostrou ter uma personalidade anticonformista. Aos 13 anos, tentou fugir da educação oferecida por um tio que era pastor protestante, mas teve que voltar à escola, onde se manteve até os 16. Depois disso, deu continuidade sozinho a sua formação, com leituras que se concentraram acima de tudo em ciências. Queria ser inventor e acabou, pelo conhecimento que adquiriu sozinho, trabalhando como engenheiro ferroviário. Paralelamente, começou a publicar artigos em que já defendia idéias liberais, argumentando que a ação dos governos não deveria ir além de garantir os direitos naturais dos cidadãos. Em 1848, tornou-se subeditor da revista The Economist, onde trabalhou até 1853, quando recebeu uma herança do tio e passou a se dedicar apenas a escrever livros – atividade que manteve até a morte, em 1903. Spencer relacionou-se com os principais intelectuais ingleses de seu tempo e manteve um romance com a escritora George Eliot (pseudônimo de Marian Evans). Sua obra teve enorme repercussão dentro e fora da Grã-Bretanha. Alguns dos principais livros de Spencer são: Filosofia Sintética (que publicou em série, com pagamento de assinatura antecipada por seus admiradores), O Homem contra o Estado, Educação Intelectual, Moral e Física e Autobiografia.

Conhecer, só pela razão

Baseado nessa observação, Spencer deduziu um princípio para todo desenvolvimento, que é a lei da multiplicação dos efeitos, causada por uma força absoluta que não pode ser conhecida pelo entendimento humano. Tratase, para Spencer, de uma lei da natureza, uma vez que ele se recusava a levar em conta, para efeito científico, a possibilidade de forças sobrenaturais. O filósofo, herdeiro da linhagem empirista britânica e também influenciado pelo positivismo, era agnóstico e combatia a influência religiosa no ensino e na ciência. O próprio termo agnosticismo, para se referir a uma postura filosófica que só admite os conhecimentos adquiridos pela razão, foi criado por um amigo e defensor de Spencer e Darwin, o naturalista Thomas Huxley (1825-1895).

Período vitoriano marca fim de uma era

A rainha Vitória: governante de uma época famosa pelo puritanismo. Foto: Time Life Pictures /Getty Images

A rainha Vitória: governante de uma época famosa pelo puritanismo. 

Herbert Spencer foi, com John Stuart Mill (1806-1873), um dos dois mais importantes pensadores ingleses da era vitoriana, e o que melhor encarnou as características tradicionalmente relacionadas ao período. O reinado da rainha Vitória (1819-1901), que subiu ao trono em 1837 e governou até a morte, gerou o adjetivo "vitoriano", ao qual se associam puritanismo, austeridade, otimismo e autoridade. Politicamente, o vitorianismo costuma ser lembrado como um tempo de hegemonia do liberalismo. Na realidade, o período foi bem mais complexo, principalmente depois da década de 1880. A partir dessa época, vieram à tona os contrastes sociais, as revoltas operárias, o questionamento das religiões e do imperialismo e as idéias socialistas, antes mantidas mais ou menos na obscuridade – e que inauguraram uma nova era. O período vitoriano assistiu a um acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, com a expansão das ferrovias e do telégrafo. Mas nada se comparou ao impacto da teoria evolucionista de Charles Darwin, que pôs em xeque tanto as explicações religiosas para a criação da vida quanto a idéia de que o ser humano ocuparia posição central no Universo. Um dos méritos do pensamento de Herbert Spencer foi propor novas posturas filosóficas com base nesse conhecimento.

De acordo com Spencer, o processo de desenvolvimento segue a mesma lei em todos os campos, da formação do universo à transformação das espécies. Seu entendimento inicial da evolução biológica se baseava na concepção errônea de que as sucessivas gerações de uma mesma espécie herdam das anteriores as características adquiridas do ambiente. Essa era a teoria do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), derrubada por Darwin. Ele mostrou que o mecanismo da evolução é a seleção natural, pela qual sobrevivem as variedades animais e vegetais mais adaptáveis às condições ambientais. Tão logo conheceu as conclusões de Darwin, Spencer reformulou sua teoria.
Perfeição industrial
Aplicado à sociedade, o princípio evolucionista universal do filósofo o levou a perceber um processo de individuação permanente, que levaria à crescente divisão do trabalho nos agrupamentos humanos. Desse modo, hordas primitivas e indiferenciadas evoluem para se tornar civilizações cada vez mais complexas, nas quais especialização e cooperação avançam lado a lado. A história dos povos, segundo Spencer, contrapõe sociedades guerreiras, mantidas coesas à força, e sociedades industriais, fundamentadas na competição, mas também na cooperação espontânea.

Ensino dependia da iniciativa privada

Escola britânica do fim do século 19: novidades da ciência influenciam uma nova mentalidade. Foto: Hulton Archive/Getty Images

Escola britânica do fim do século 19: novidades da ciência influenciam uma nova mentalidade. 

Ao contrário do que acontecia na Europa continental, na Grã-Bretanha do início do século 19 o ensino era um assunto privado. A primeira ingerência pública na educação foi uma resolução aprovada pelo Parlamento em 1802, pedindo aos empregadores que providenciassem instrução para seus funcionários – como não havia obrigação atrelada, o efeito foi nulo. Quando não era paga, a educação britânica dependia da filantropia. Só na década de 1830 o governo passou a reservar uma parte do orçamento para o ensino. Na virada para o século 20, no entanto, quase toda a formação elementar (equivalente ao Ensino Fundamental) já era provida pelo Estado. Herbert Spencer defendeu a escola privada até o fim da vida, porque considerava que a interferência do Estado, sendo igual para todos, poderia sustentar estudantes que não estariam, por natureza, aptos a competir em sociedade. "De acordo com a filosofia spenceriana, seria fatal se o regime da família, em que a solidariedade faz com que o mais apto ajude o menos apto, regulasse a sociedade, onde o que conta é a luta pela vida", diz a professora Maria Angélica. Seguindo outra tradição britânica, Spencer acreditava que a função principal da educação era formar o caráter. Sua defesa do ensino prioritário da ciência tinha o objetivo de fornecer aos jovens um conhecimento sobre o funcionamento da natureza que lhes desse meios de se ajustar às exigências do mundo.

Um prolongamento da dicotomia entre sociedades guerreiras e industriais, para Spencer, seria o contraste entre o despotismo, associado a estágios primitivos, e o individualismo, associado ao avanço civilizador. A sociedade industrial corresponderia, assim, a um aperfeiçoamento natural do sistema econômico e das instituições.
O pensamento de Spencer corresponde a um desejo, muito vivo em sua época, de explicações globais que organizassem os fatos de modo a simplificá-los. No período, foram produzidas numerosas teorias que hoje chamamos de deterministas, por almejarem, no campo das ciências humanas, a exatidão matemática. A noção de que tudo se encaminha para resultados previsíveis e inevitáveis, uma vez que deixadas ao sabor de seu suposto curso natural, levou Spencer e muitos de seus contemporâneos (e também alguns pensadores de outros tempos, anteriores e posteriores) a supor que esses resultados eram também moralmente desejáveis. Nasce daí a idéia, ainda hoje vigorosa, de que a interferência do Estado na vida cotidiana impede os desenvolvimentos considerados normais. "Spencer acreditava que a lei da oferta e da procura devia estender-se da esfera econômica para a esfera educacional", diz a professora Maria Angélica.

Para pensar

Nos dias de hoje, é difícil encontrar seguidores fiéis do evolucionismo de Herbert Spencer, mas muito se fala de uma tendência de pensamento bem semelhante, que é chamada, um pouco caricaturalmente, de darwinismo social. A educação voltada sobretudo para formar jovens competitivos costuma estar relacionada a essa concepção de mundo. Você já pensou até que ponto sua atuação profissional se vincula à idéia de formar jovens para a competição?

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

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Os três quilinhos e a visita da cegonha

Em sua coluna de dezembro, Jerry Borges discute a eterna preocupação das mulheres com a perda de peso e mostra como um mínimo de gordura é essencial para sua saúde hormonal e reprodutiva.

Jerry Carvalho Borges

Os três quilinhos e a visita da cegonha

Escultura do artista plástico colombiano Fernando Botero na praça de Santo Domingo, em Cartagena, Colômbia (foto: Edgar Jiménez).

É muito raro encontrarmos uma mulher que esteja inteiramente satisfeita com o seu corpo. Mesmo se perguntarmos para Juliana Paes, receberemos provavelmente a mesma resposta: preciso perder uns três quilinhos! Contudo, indícios obtidos nos últimos anos mostram que, apesar dessa insatisfação, alguma "gordurinha" é essencial para várias funções fisiológicas femininas.

Atualmente o tecido adiposo – que constitui o que chamamos popularmente de gordura – é visto como um depósito de energia e como algo associado com a proteção dos órgãos internos, mas não só. Pesquisas indicam que esse tecido é, na verdade, o maior órgão endócrino de nosso organismo e que a enorme variedade de hormônios produzidos por ele está relacionada com o metabolismo de glicose e dos esteroides, com o sistema imune e mesmo com a reprodução.

Pesquisas indicam que o tecido adiposo é o maior órgão endócrino de nosso organismo

O tecido adiposo está distribuído por quase todo o organismo e se situa principalmente em uma região localizada abaixo da derme conhecida como hipoderme. A quantidade e a disposição desse tecido dependem do balanço entre o acúmulo de gordura (lipogênese) e a sua quebra (lipólise) e utilização metabólica.

Os adipócitos – as principais células do tecido adiposo – podem se multiplicar, inclusive na idade adulta. É por isso que lipoaspirações caríssimas (e perigosas!) não resolvem o problema do excesso de peso ou de gordura localizada em pessoas que não mudam seus hábitos alimentares!

Entre os "novos" papéis recém-descobertos do tecido adiposo, sua atuação na reprodução tem despertado o interesse de diversos grupos de pesquisa. Isso se deve à descoberta recente das adipocinas – uma série de moléculas produzidas por alguns tipos celulares presentes no tecido adiposo. Entre elas estão moléculas envolvidas na sinalização celular (como as citocinas e quimiocinas), hormônios, fatores de crescimento e do complemento, além de proteínas associadas com a homeostase e formação de vasos e com a regulação da pressão sanguínea e do metabolismo de lipídios e de glicose.

Obesidade e problemas reprodutivos

Mais do que a simples quantidade de tecido adiposo, o que importa na verdade é a sua distribuição no organismo. Excesso de gordura na região superior do corpo está associado com disfunções ovulatórias e problemas endócrinos. Por outro lado, aumentos na gordura abdominal e na região inferior do corpo podem causar um acúmulo de tecido adiposo visceral e intra-abdominal e afetar o metabolismo normal do indivíduo.

Pesquisas recentes indicam que há um aumento do tecido adiposo em pacientes portadores de síndrome dos ovários policísticos, a mais comum e a mais estudada das doenças endócrinas de mulheres em idade reprodutiva. Esse excesso está presente em 50% das pacientes com a síndrome e é um dos sinais utilizados para a sua detecção.

Mulheres obesas têm maiores chances de apresentar problemas reprodutivos

Além disso, mulheres obesas têm maiores chances do que as não obesas de apresentar problemas reprodutivos, como ausência de ovulação, redução da fertilidade, infertilidade e abortos espontâneos. Esses quadros podem estar relacionados com alterações em diversos hormônios como a insulina e hormônio luteinizante.

A produção de pelos pubianos em meninas antes dos oito anos, conhecida como adrenarca prematura, está relacionada com a produção de andrógenos adrenais e é um quadro associado com a obesidade, desenvolvimento acelerado e baixo peso durante o nascimento. Garotas com adrenarca prematura têm uma maior chance de desenvolverem síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Tecido adiposo

Tecido adiposo amarelo visto ao microscópio (foto: Departmento de Histologia, Jagiellonian University Medical College).

Baixo peso e problemas reprodutivos

Não é apenas o excesso de gordura corporal que pode causar problemas. Sua escassez também pode comprometer funções orgânicas como a reprodução. E aqui não estamos falando de anorexia, mas sim de mulheres de saúde aparentemente normal, mas com o peso muito reduzido.

Os efeitos das adipocinas começam a se fazer sentir muito cedo durante o desenvolvimento feminino. A puberdade é caracterizada frequentemente pelas transformações hormonais, comportamentais e pela maturação sexual. Contudo, essa fase também é marcada no sexo feminino por um aumento na deposição de gordura. Esse acúmulo (e principalmente sua distribuição em certos locais do organismo) é essencial para que sejam vencidas algumas das etapas da puberdade.

Os mecanismos associados com a deposição de gordura e puberdade são complexos e ainda não estão totalmente compreendidos. Contudo, há evidências de que uma adipocina conhecida como leptina – que surpreendentemente está associada com a lipólise e não com a lipogênese – está relacionada com a maturação sexual.

A leptina é um polipeptídeo produzido por adipócitos do estômago, da placenta e das glândulas mamárias. Uma mutação no gene (ob/ob) que provoca a obesidade mórbida em ratos levou à descoberta desse gene e, posteriormente, à clonagem de seu produto. Essa proteína foi batizada de leptina, palavra proveniente de leptos, termo que significa ‘magro’ em grego.

Os níveis de leptina elevam-se em mulheres antes e durante a puberdade. Esse aumento está associado inicialmente com a presença no tecido adiposo de uma enzima conhecida como aromatase. Essa enzima está associada com a conversão de testosterona em estrógenos e estes, por sua vez, induzem a produção de leptina.

Leptina e puberdade

Mulheres que possuem mutações na leptina ou em seu receptor apresentam um atraso no início da puberdade, além de deficiências nas gonadotrofinas, hormônios que controlam a produção de esteroides.

Daniele Hypólito

A ginasta brasileira Daniele Hypólito em ação. Mulheres com massa corporal reduzida devido à prática de ginástica olímpica e outros esportes podem apresentar níveis baixos de leptina e atrasos na puberdade (foto: Wilson Dias / Agência Brasil).

Há algum tempo, está estabelecido pela ciência que mulheres necessitam de uma proporção mínima de gordura em seus corpos para que possam apresentar ciclos menstruais normais. Mulheres com uma massa corporal muito reduzida devido à prática de atividades físicas desgastantes como a ginástica olímpica, balé, basquete ou corridas de fundo frequentemente apresentam níveis baixos de leptina em sua circulação e atrasos em sua puberdade. Um quadro similar também é observado em pacientes com anorexia nervosa.

Uma das funções das secreções produzidas pelo tecido adiposo é sinalizar para o sistema nervoso central que existem estoques energéticos adequados para a reprodução. Portanto, um nível de gordura corporal deve estar presente para que se iniciem os ciclos ovulatórios normais. Mulheres que possuem uma massa corporal reduzida apresentam um decréscimo na produção de gonadotrofinas e em sua reprodução. A leptina parece ser o mediador desse processo e age por meio de neurônios situados no núcleo periventricular anteroventral.

Pacientes com lipodistrofia – uma ausência completa de gordura subcutânea – apresentam, entre outras deficiências, níveis baixos de leptina. Quando essas pacientes são tratadas com esse hormônio, elas em pouco tempo recuperam seus ciclos menstruais, mesmo antes de apresentarem um acúmulo de gordura corporal.

Pacientes com redução severa no consumo de calorias apresentam distúrbios na ovulação.

Talvez algumas leitoras possam estar até pensando que, se perderem peso, estariam resolvendo dois problemas ao mesmo tempo, pois ficariam o corpo com que sonham e evitariam os percalços da menstruação e da terrível TPM. Contudo, pacientes com uma redução severa no consumo de calorias apresentam distúrbios na secreção de gonadotrofinas e na ovulação. Além disso, essas mulheres acabam sofrendo com todos os outros problemas relacionados com a carência desses hormônios, alguns dos quais ocorrem durante a menopausa.
Portanto, é melhor que as mulheres continuem a se preocupar com o excesso de peso, mas que também preservem suas curvinhas. Nós, homens, agradecemos…

Fonte: Instituto Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br

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A transformação do mundo pela escrita

Maíra Valle
Alessandra Pancetti

É difícil imaginar o mundo que conhecemos sem a escrita. A maior parte dos avanços científicos e tecnológicos, ao longo da história, está direta ou indiretamente associada ao armazenamento e transmissão de informações. Mas a escrita não esteve sempre presente: considerando a história do Homo sapiens, que tem por volta de duzentos e cinquenta mil anos de existência, ela é uma invenção bastante recente. Com toda a certeza, a linguagem oral precedeu muito o início da expressão dos homens através de símbolos gráficos. A razão do hiato entre a fala e a escrita deve se relacionar ao alto grau de abstração exigido por essa forma de expressão.

Inicialmente, os elementos gráficos utilizados eram apenas desenhos que representavam diretamente aquilo que se queria expressar, como mostram as pinturas rupestres. Assim, uma cabeça de um boi, por exemplo, representava esse animal. Três cabeças de boi representavam três bois, e assim por diante. Entretanto, por mais simplório que isso possa parecer hoje, para se criar e reconhecer os pictogramas, como são chamados esses símbolos figurativos, foi necessária uma grande dose de abstração do homem primitivo. Afinal, esses desenhos são uma representação bastante diversa da realidade, colorida e em três dimensões. E apesar da alta exigência cognitiva, é possível que a escrita tenha se iniciado diversas vezes, em diferentes locais, em épocas próximas, como ocorreu com quase todas as grandes invenções humanas.

Atualmente, acredita-se que a escrita foi criada através de um processo de evolução lento, que levou milhares de anos e foi gerado a partir da ideia de registro de propriedade ou objetos. Segundo Marcelo Rede, professor da Universidade de São Paulo (USP) especializado em história da Mesopotâmia, a teoria da criação única da escrita, cuja difusão posterior teria derivado em todos os outros tipos, não é plausível. Para ele, não há apenas uma razão para o aparecimento da escrita, e sim inúmeros fatores, dentro de um contexto histórico específico, que levaram as sociedades pré-históricas a desenvolverem esse modo de expressão.

“De fato, sobretudo como mostraram as pesquisas da arqueóloga Denise Schmandt-Besserat, desde o período neolítico, em plena pré-história, portanto, desde nove ou oito mil anos a.C., várias populações do Oriente utilizavam sistemas de registros para efetuarem o armazenamento de informações ou se comunicarem”, explica o professor da USP. Inicialmente, isso se deu através de pequenos objetos moldados a partir da pedra ou da argila, cujo uso ajudava no controle de produção e circulação de bens. Os chamados token representavam diretamente o artefato em questão, como uma pequena escultura da cabeça de um boi ou uma planta. Entretanto, às vezes eles tinham uma representação mais abstrata como, por exemplo, uma pedra redonda representando um boi. Numa fase posterior, os tokens passaram a ser envoltos por esferas de argila, as bullae. Segundo Rede, esse foi um avanço no sistema de informações. “Isso sugere um acréscimo importante na complexidade do sistema de registro, pois as bullae permitem reunir em seu interior vários tokens, formando uma espécie de unidade de conta, um arquivo de informações”, explica o historiador. Às vezes, os tokens eram impressos na argila, determinando o que esta continha, denotando uma complexidade ainda maior entre a representação e o próprio objeto representado. Com o passar do tempo, as bullae esféricas também desapareceram e surgiram tabletes achatados e, ao invés dos tokens, passaram a ser utilizadas apenas as impressões destes nos tabletes de argila. Os símbolos iconográficos impressos nesses tabletes de argila constituíram os sinais proto-cuneiformes, pois já se assemelhavam à forma triangular, de cunha, da escrita cuneiforme.

A escrita cuneiforme representa o mais antigo sistema de escrita de que se tem registro. Ela apareceu na região da Mesopotâmia – atual Iraque – e, para alguns estudiosos, estaria associada a uma língua única, o sumério, tendo sido criada para expressar os elementos linguísticos de maneira literária, narrativa. Por essa razão, muito estudiosos insistem em uma criação pontual ou única da escrita. “É uma visão que repercute muito e exagera a ideia de que o surgimento da escrita foi um verdadeiro divisor de águas, marcando o fim da pré-história e o início da história propriamente dita”, afirma Rede. Dentro dessa perspectiva, o historiador explica que, apesar de a maioria dos estudiosos acreditar que os hieróglifos egípcios sejam resultado de um processo local, alguns ainda acreditam que houve uma importação da ideia do registro da Mesopotâmia.

Embora não haja consenso quanto à forma como a escrita se originou, o mesmo não se dá para a invenção do alfabeto, que surgiu depois. “No caso do sistema alfabético, o processo de difusão funcionou largamente: originado, ao que tudo indica, na região do Levante (entre a costa de Gaza e a Turquia), as várias formas de alfabeto foram se derivando umas das outras e espalharam-se por todo o Mediterrâneo antigo, da Fenícia a Roma, passando pela Grécia. Assim sendo, as razões que levaram ao aparecimento da escrita variam conforme os contextos históricos e não há uma resposta única”, completa o professor da USP. Quando o alfabeto foi inventado, as formas escritas passaram a representar não mais coisas, mas os sons da língua falada. Segundo ele, o registro de uma língua não pode se esgotar na representação pictográfica, pelo simples fato de que nem todas as coisas podem ser representadas em símbolos pictóricos. Como Rede explica, em relação à escrita suméria: “Como dizer, a partir de uma imagem semelhante, o verbo “du” (“falar”) ou “gu” (“gritar”)? E como distinguir “gritar” (verbo) de “grito” (substantivo)? Ou “boca” de “palavra” (“inim”)? Do mesmo modo, como inserir as flexões de pessoa: eu falo, tu falas etc? Ou, ainda, como indicar tempo: eu falava, eu falo, eu falarei? Para tudo isso, um sistema puramente pictográfico se presta mal; é necessário introduzir sinais de abstração de vários tipos”.

Segundo Margarida Salomão, linguista e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), na história da escrita ocidental, existiu um momento em que os sinais ideogramáticos, os hieróglifos egípcios, se convencionalizaram e, a partir disso, existiu uma simplificação. Os ideogramas simplificados passaram a ser interpretados foneticamente na escrita fenícia e, depois, na grega, que é basicamente a que perdura até os dias de hoje. “A escrita é baseada na significação. O primeiro período da escrita ocidental foi ideogramático, escrevia-se uma representação da significação. E depois, para obter-se mais capacidade expressiva, para evoluir-se tecnologicamente, é que de fato passou-se a fazer análise fônica, e hoje, tem-se a escrita fonética, que é a mais prática de todas”, explica Salomão. Para a linguista, a invenção da escrita conferiu uma dimensão de poder aos povos que a possuíam, pela perspectiva de avanço tecnológico advinda dela. “A partir do momento que se tem a escrita, passa-se a ter uma memória social. E, na verdade, os avanços tecnológicos obtidos foram pautados ou tiveram como patamar a sistematização e organização dos conhecimentos, que passaram a ser, inclusive, coletivamente partilhados. E quanto maior a disseminação dessa memória social, mais rápida e mais violenta se tornou a evolução tecnológica e científica”, completa.

Historicamente, junto com a escrita e logo no seu início, formou-se um grupo de especialistas da escritura, os chamados escribas. A cultura escribal foi uma das características das sociedades do antigo Oriente Médio. Para Marcelo Rede, da USP, foi a classe dos escribas que conferiu grande longevidade à escrita cuneiforme, que perdurou por mais de três milênios. Mas, enquanto parte deles se dedicava ao registro das coisas cotidianas, como contabilidade e correspondência, outros se especializavam em textos de áreas específicas do saber, como textos literários, textos em medicina, matemática e astronomia. “Não é, portanto, apenas uma questão de ler e escrever, mas de domínio de um campo de saber”, completa Rede. Tal saber não era totalmente difundido pela população, mas privilégio de poucos. Ainda assim, para além dos textos específicos redigidos pelos escribas, a sociedade mesopotâmica parece ter tido um grande número de pessoas capazes de registrar a vida cotidiana, que está muito bem documentada nos escritos cuneiformes. “A tal ponto que os textos cuneiformes formam o maior conjunto unitário de registros escritos antes da invenção da impressão por Gutemberg”, explica o professor da USP.

Entretanto, o aparecimento e a evolução da escrita não foi, e não é, uma característica de todas as sociedades humanas. Mesmo com o aparecimento e a evolução de diversos tipos de escrita, ainda hoje temos muito mais línguas faladas (cerca de 7000), do que línguas escritas, que são algumas centenas. Com certeza, questões históricas se encontram na base da discrepância entre o número de línguas escritas e faladas, em especial a estrutura da sociedade em que a língua escrita é usada. O linguista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), José Pereira da Silva, explica que apesar de as razões para o surgimento da escrita não estarem totalmente esclarecidas, um dos fatores em comum na maioria das sociedades foi a existência da agricultura, da permuta ou do comércio, o que exigia um alto grau de complexidade de governança, em que havia uma necessidade prática do registro. “Esses primeiros documentos eram, quase sempre, registros de bens e indicação dos seus proprietários e herdeiros. A contabilidade foi, de início, a atividade mais documentada por escrito”, completa. Por isso, os povos cujas sociedades eram menos complexas, como os índios americanos, que antes da chegada dos europeus eram coletores e caçadores, não desenvolveram a escrita – afinal, não havia uma grande necessidade da mesma. E isso se repete para os povos coletores e caçadores ainda existentes no mundo.

Se, por um lado, fatores históricos parecem predominantes para a invenção da escrita em uma sociedade, por outro lado, o grande número de línguas faladas com relação às escritas demonstra o grau de dificuldade da construção de um sistema de representação da fala. Na verdade, nossa expressão plena em um idioma exige habilidades distintas. A linguista Margarida Salomão, da UFJF, explica que o fato de sabermos ler em uma determinada língua, não significa que saibamos nos comunicar por ela escrevendo ou falando, ou que possamos compreendê-la através da audição. Ou seja, a escrita, a leitura, a fala e a audição são habilidades cognitivas distintas, muito embora relacionadas. Para termos competência em cada uma delas, é necessária a prática das diferentes habilidades.

Além da exigência de diferentes habilidades cognitivas, e talvez por isso mesmo, as línguas faladas e escritas também evoluem por caminhos diversos: é fato que em nenhuma língua há total concordância entre sons e letras. Para Margarida Salomão, enquanto a fala, que é a experiência cognitiva primária, evolui no tempo morfológica e fonicamente, a escrita fica presa à sua história, depende da ortografia vigente, que normalmente é conservadora. Sendo assim, a escrita sempre “fica para trás”, numa versão mais antiga da língua, o que gera a discrepância entre fala e escrita. “A escrita é datada historicamente. Como a língua prossegue mudando, do ponto de vista fônico, do ponto de vista morfológico, então a escrita é sempre uma versão mais velha da língua que se fala, e daí tem-se esse desacordo”, completa.

Em relação à língua escrita, podemos dizer que, historicamente, as línguas escritas nem sempre “evoluíram” de uma forma pictórica para uma forma abstrata, como em uma série de etapas pré-determinadas que foram alcançadas paulatinamente. Em especial, podemos dizer que a história da escrita no Ocidente, da qual viemos falando até então, não reflete necessariamente a história de todas as línguas escritas. “A evolução do pictórico para os símbolos concretos dos hieróglifos, por exemplo, para os abstratos que representam os sons, não é tão generalizada como nos parece. Pois, no Oriente, a escrita ideográfica ainda permanece”, diz José Pereira, da UERJ. E, certamente, em países como Japão, China, as Coreias do Norte e do Sul, entre outros, a escrita ideográfica ainda é utilizada.

Segundo explicação da linguista e professora da USP, Leiko Morales, a primeira aparição da escrita ideográfica ou logográfica chinesa é datada de meados do século VII, e tal maneira de registrar foi, depois, “importada” pelo Japão, onde apareceu na literatura japonesa do século VIII. Para Morales, as principais causas que levaram ao aparecimento da escrita no Japão foram a necessidade de desenvolvimento e de ser reconhecido como uma nação pela China, o grande centro cultural asiático da época. “No começo, era apenas um emprego fonético dos logogramas, respeitando-se o som chinês; mas à medida que os japoneses iam dominando e compreendendo o significado dos logogramas, começaram a atribuir leituras para os símbolos e, a partir daí, começa toda a complexidade”, explica a pesquisadora. “A partir do século IX a X, já surgem os hiragana e katakana, que são fonogramas, conhecidos como silabários, pois cada letra representa um som”, continua.

Nesse caso, a escrita ideográfica não foi nunca substituída, mas outros símbolos foram sendo acrescidos, conforme a necessidade. “Os pictóricos fazem alusão direta aos desenhos, depois estes passam a constituir partes de outros ideogramas ou logogramas mais complexos, mas não desaparecem em definitivo. Eles foram preservados e são utilizados até hoje”, completa. Dessa forma, no Japão, existiram desde o princípio múltiplas leituras dos mesmos ideogramas, por conta das traduções dos logogramas chineses. Na própria China, entretanto, as leituras dos logogramas podem ser diferentes, dependendo da época ou da região. Como ressalta Morales, “mesmo os sons chineses são vários, uma vez que houve incorporação de leitura de regiões e épocas diferentes, o que fez aumentar a multiplicidades de leitura sobre o mesmo ideograma”.

Certamente, a evolução da língua escrita é um tema de grande interesse. Nós, hoje, vivemos em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia e pela escrita, onde os relacionamentos, tanto pessoais quanto profissionais, vão muitas vezes se limitar ao contato via internet e onde as pessoas se “falam” apenas escrevendo. Além disso, os recursos da web oferecem uma grande oportunidade de disseminação e difusão da informação escrita. Nas palavras da professora Margarida Salomão, existe o “potencial para a universalização do conhecimento”. Entretanto, falar e escrever não são a mesma coisa. Enquanto vivemos em sociedade, todos aprendemos a falar, ainda bem jovens, tendo como instrutores as pessoas próximas junto às quais crescemos. Por outro lado, a escrita tem que ser ensinada, normalmente em escolas, por pessoas que também foram treinadas para tal. Existe uma “formalidade” na aquisição da escrita, uma intencionalidade, uma vez que não aprendemos a escrever simplesmente convivendo com quem escreve. Essa intencionalidade também existiu na criação das línguas escritas e em sua evolução, para acompanhar o ritmo das sociedades e as várias modificações que a própria língua falada foi sofrendo.

Não há dúvida de que a invenção dessa forma de expressão delineou a história do mundo desde a sua criação e propagação até alcançar a nossa condição atual, de “aldeia global”, na qual pessoas de culturas diversas e regiões muito distantes geograficamente entre si, podem se comunicar através do mesmo tipo de escrita numa mesma língua, que por sua vez também foi ainda mais disseminada. Dos desenhos pictóricos à era da informação, a história da escrita é um capítulo fundamental na história da humanidade. Tudo que conhecemos hoje, que transforma e valoriza nosso mundo, os livros, os filmes, a internet, a ciência, entre tantas outras coisas, só existe devido ao sucesso dessa ferramenta. “Eu considero que a invenção da escrita tenha sido a mais importante de todas as evoluções tecnológicas da humanidade, porque sem ela, é muito difícil imaginar que as outras tivessem acontecido”, conclui Salomão.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

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O “jeitinho” destroçado

Carlos Alberto Dória

O antigo “homem cordial” aproxima-se da extinção, numa sociedade que passou a ter horror ao diálogo.

Cena 1: o “eu” comercial

Numa feira em Paris (praça Monge), pedi uma dúzia de figos. Lá você não pode se servir da fruta, como aqui. É o feirante que as coloca no saquinho. E vi que ele colocou dois figos avariados. Reclamei. E ouvi a seguinte resposta:

- Por que o senhor acha que EU deveria ficar com todos os figos estragados para mim?

Fiquei sem reação. Havia algum tipo de justiça embutida na sua frase. Não a justiça que imagino, nem a que desejo, mas posso supor uma longa história de transações, talvez vindas do tempo da Revolução Francesa, até se chegar a essa formulação de que o inservível também deve ser repartido com critério de igualdade.

Cena 2: aos vencedores, as bananas – o “nós” comercial

Fiquei imaginando como, no Brasil, é a negociação de uma dúzia de bananas. Você sempre pode escolher uma 13ª, se uma das aderidas ao cacho não estiver perfeita. O feirante poderá, gentilmente, lhe oferecer ainda uma 14ª. Ele não “arca com o prejuízo”. Sabe que aquela operação comercial é uma em uma longa série. Você voltará, comprará por anos seguidos, diluindo aquela “banana a mais” em infinitas transações. Ele aposta que aquela relação pessoal transcenderá a operação comercial momentânea. É o ciclo longo das trocas comerciais que permite incluir ações cujo objetivo não é o lucro imediato.

Pois bem. Faz pouco tempo que a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou uma lei, já em vigor, que proíbe a venda de bananas por dúzia nas feiras. Assim como é proibido fumar em bares e restaurantes, e tantas outras coisas que, pouco a pouco, vão sendo proibidas aqui e ali. São leis miúdas, que enquadram os cidadãos em novas normas que, vistas em conjunto, parecem indicar o surgimento do “Estado de irrelevância máxima”, depois do Estado de “tolerância zero”. Mas, por quê?

O cordial

Filosofar sobre a história é hábito que vem de longe e, entre nós, gerou o mito do homem cordial. Pouco desse mito se deve a Sergio Buarque de Holanda e seu modernista “Raízes do Brasil”. De verdade ele esteve entranhado em nós mesmos por séculos, como chave conveniente de compreensão das relações sociais entre brasileiros.

Esse mito nos conta que as relações familiares, de amizade e intimidade, precedem as relações públicas. Por isso a lei que contrarie essas afinidades parece sempre uma violência, preferindo-se sempre o “jeitinho” para acomodar as situações onde interesses contraditórios se apresentam. Recentemente os legisladores renunciaram a esse mito, trabalhando com afinco pela sua destruição. A questão é: em seu lugar instalarão um ideal melhor de relação entre brasileiros?

O “jeitinho” não nos diz da igualdade, mas dos ajustes frente às desigualdades notáveis. É um mecanismo transacional cujo resultado é satisfatório para ambas as partes. Ninguém se sente lesado publicamente, embora, no íntimo, possa não estar plenamente satisfeito. O “jeitinho” desfaz impasses, funciona como um fluido social numa sociedade marcada por contrastes.

A mitologia sobre a nação brasileira construiu-se entre os anos 1870 e 1930. De todas as idéias discutidas no período, acabaram prevalecendo aquelas que falavam de um povo cordial, de uma nação católica, da miscigenação superadora dos preconceitos raciais e assim por diante. Mas, nas últimas décadas, esse mito vem sendo paulatinamente destruído.

Religião, raça e foie gras

Tomemos a religião. Antes, além do catolicismo, que entrou em crise mundial, falava-se no sincretismo religioso: o candomblé era genuinamente “nacional”. Uma religião popular que convivia bem com o catolicismo ortodoxo das elites. Mas, “para sair da crise”, os católicos lançaram produtos de apelo mais populares, como o movimento de “renovação carismática”.

O relaxamento do rito ortodoxo romano, a laicização do culto, visava também enfrentar a propagação das igrejas protestantes e pentecostais. Hoje a população crente se divide em uma infinidade de confissões religiosas que mais se assemelham a times de futebol. Nessa feição, tornou-se uma espécie de “escuderia’’ e escorregou da esfera privada da vida para a esfera pública. A sua ostentação tornou-se motivo de orgulho.

Comprei recentemente um pacotinho de biscoitos que estampava: “Deus é fiel!”. Provavelmente seus produtores não esperam ganhar o mercado dos ateus ou católicos. Deus fiel é o nome de um nicho de mercado, seja de biscoitos ou de fé.

Recentemente, um intelectual, defensor de primeira hora da candidatura de Marina Silva à Presidência, não se sentiu à vontade para vir a público e -declarando-se adepto do “darwinismo generalizado” (sic) e não vendo necessidade da candidata ser categórica sobre assuntos como “educação científica separada da religiosa nas escolas confessionais”- afirmar que, “antes de tudo, não se deve esquecer que são questões sobre as quais há sérias controvérsias ético-científicas que racham a sociedade brasileira”? Via ele nos adversários uma certa intransigência “porque ela assume sua condição de evangélica”1.

O presidente Geisel era luterano. Talvez por isso mesmo aprovou o divórcio. Mas pouco se alardeava sobre sua opção religiosa. Era um assunto privado, como a sua viuvez. Por que, hoje, alguém se sente estimulado a de definir publicamente em termos religiosos, mesmo quando visa presidir todos os brasileiros? Por que se erigiram “sérias controvérsias” onde estava certo que religião é religião, ciência é ciência?

Tomemos outro exemplo. As relações raciais no Brasil. Pretos e brancos são “iguais” perante a lei, embora saibamos que as relações históricas entre ambos sempre foram de dominação. O que resultou na cor da pobreza: ricos são invariavelmente brancos, pretos são em sua esmagadora maioria pobres. E os pobres são a maioria da população.

Foi José Sarney (!) que recentemente registrou que o IBGE havia constatado que os negros, “pardos” e índios são, pela primeira vez na história, a maioria da população brasileira, restringindo-se os que se autodeclaram brancos a 48,4%2. Para ele, o sonho racista do século 19, que antevia o branqueamento, cede ao peso forte da miscigenação triunfante.

Talvez por isso mesmo, entre as camadas populares, o preconceito de cor não grassou como nos países de anglo-saxões. Todos os pobres sabem que tem um mesmo destino miserável, independente da cor da pele. E brancos pobres e negros se casam, produzindo mulatos. Brancos ricos evitam os negros como parceiros matrimoniais. Mas o que pode fazê-los mudar, senão uma nova cultura e educação?

O Estado tomou as suas precauções contra o racismo que porventura pudesse se manifestar na esfera pública. A Lei Afonso Arinos, por exemplo. Mas agora surge um projeto denominado Estatuto da Igualdade Racial, que, além de reafirmar a legislação existente contra a discriminação racial na esfera pública, cria um fundo público para financiar “ações inclusivas” voltadas para os negros. Uma generalização da questão das cotas nas universidades. Uma legislação que, ao recriar a polarização negro/branco, que a mitologia sobre a nação suprimiu, divide os pobres em beneficiados e não-beneficiados por essas políticas públicas.

Vejamos outro exemplo. Há gente no mundo que acha o canino um dente criminoso. Querem que o Estado regule seu uso. Nada de comer foie gras, pois a sua produção faz o animal sofrer. Daí é um passo para se exigir dos frigoríficos (antigos matadouros…) que adotem “métodos humanitários de abate” (sic).

O multiculturalismo, a militância ambientalista, a crise das religiões –fenômenos mundiais, enfim-, tudo tem contribuído para dividir os brasileiros segundo novos recortes e novas normas de relacionamento entre os diferentes. A vida privada, as relações interpessoais vão se estreitando, e o Estado se insinua como árbitro de sujeitos que, antes, se acreditava, sempre encontrariam termos de convivência satisfatórios.

O caso do Estatuto da Igualdade Racial é bem interessante. Num país onde, por imposições democráticas, “raça” se tornou um status eletivo, autodeclaratório, como se pode conceber que, por uma autodeclaração, alguém possa acessar fundos públicos de forma legítima?

É uma subversão legal sem precedentes, a violação da igualdade republicana da lei. Ao tratar “pobres negros” de modo diferente de “pobres brancos” cinde-se irremediavelmente a maioria da população. E nem mesmo se pode alegar “justiça social”, pois os recursos dos impostos ordinários que financiariam essa política não penalizam a riqueza de modo preciso e dirigido.

Todos sabemos do papel crucial que Gilberto Freyre desempenhou ao reverter o valor ideológico da raça na formação social brasileira. O que antes parecia negativo, se tornou claramente positivo. Outros intelectuais, como Manoel Bomfim, mostraram como o critério de escolha racial só era admissível no plano doméstico, isto é, das escolhas matrimoniais –coisa com a qual Darwin, o campeão da igualdade racial, jamais discordaria: só no plano subjetivo os aspectos secundários da raça poderiam ser levados em conta3.

Isso nos diferenciava fortemente dos países anglo-saxões, onde as diferenças raciais foram objeto de legislação discriminatória. Para nós, brasileiros, nunca fez sentido esse tratamento, até essa proposta de Estatuto da Igualdade Racial.

O “outro” fraco e desprotegido

É impressionante como o Estado se projeta como defensor do “outro” na legislação que proíbe fumar em locais públicos. A legislação paulista, mais rígida do que a federal –que aposta mais na “separação” do que no “banimento”- é, em muitos círculos sociais, comemorada como a voz e o direito dos fracos e oprimidos pelo fumo. Como se o acomodamento de interesses contraditórios fosse absolutamente impossível.

É por esta senda –a debilidade do “outro”– que avançam as novas normas que, pouco a pouco, vão destroçando o jeitinho brasileiro. Antevê-se, assim, uma sociedade que tem horror ao diálogo, às relações de camaradagem, à transação entre sujeitos privados. Desenha-se uma cidadania apoiada no “não pode” e na divisão regrada: racial, religiosa, de hábitos de consumo e assim por diante. É difícil imaginar que, por essa via, chegaremos a um Brasil melhor.

Cena 3: o direito ao desgosto

Percorro uma festa popular em Mazagão, Amapá. Infinitas barracas improvisadas oferecem uma variedade enorme de músicas. Tão alto, que um som sufoca o outro, tecendo uma ininteligibilidade geral. Estilos populares de gosto mais que duvidoso. Comento com minha anfitriã:

- Essa situação é horrível! Não se consegue um único lugar de paz para os ouvidos.

E ela responde, indignada:

- Vocês (sic) precisam aprender a respeitar o gosto dos outros!

Ok, pensei com meus botões. Mas quando é que vão aprender a respeitar o desgosto dos outros?

Mais do que para o mundo chato, caminhamos a passos largos para um mundo repressivo, onde a cordialidade e o jeitinho serão meras curiosidades históricas. Inicia-se a época da arqueologia do brasileiro, extinto ao se transformar em cidadão globalizado.

Fonte: Trópico – http://p.php.uol.com.br/tropico

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