Monthly Archives: dezembro 2009

Ninguém é de ferro

Por séculos, algumas classes sociais viam o trabalho com aversão; hoje, estudo e lazer conjugam-se a ele a fim de satisfazer necessidades humanas.

Moacyr Scliar

O poeta pernambucano Ascenso Ferreira (1895-1965) era conhecido pelo humor e pela irreverência. Nada o comprova mais do que seu poema “Filosofia”: “Hora de comer, – comer!/ Hora de dormir, – dormir!/ Hora de vadiar, – vadiar!/ Hora de trabalhar?/ – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”. Alguém poderia dizer que esta é uma genuína expressão do caráter brasileiro, tal como o famoso “Ai, que preguiça!”, que o personagem Macunaíma de Mário de Andrade repete a todo instante. Mas o que o brasileiro comum está longe de ser é preguiçoso. Gente que acorda às 4 da manhã para ir ao trabalho, dá duro em troca de um salário ínfimo, envelhece e adoece trabalhando, jamais poderia ser acusada de preguiçosa. De outra parte, a aversão ou o desprezo ao trabalho é algo frequente e antigo em determinadas classes sociais. A palavra “negócio” vem do latim nec otium (não ócio). E era um termo pejorativo. O ócio era um direito de gente influente, superior; negócio era para a ralé, para os ambiciosos.
O trabalho físico e manual era particularmente desprezado. Isso se tornava evidente no exercício da medicina. Durante muito tempo os médicos consideraram que diagnosticar e tratar era uma ação que deveria ser feita com a cabeça, não com as mãos. Médicos não faziam incisões em abscessos, por exemplo. Quem cuidava disso era o barbeiro. Na era moderna, por causa dos ferimentos de guerra, a cirurgia passou a ser respeitada, mas até há pouco tempo, na Inglaterra, o título “doctor” se aplicava ao clínico; o cirurgião era “mister”.
No Brasil colônia trabalho era coisa para escravo e havia um costume muito curioso entre certos homens: deixavam crescer a unha do dedo mínimo, que atingia enormes dimensões. Tratava-se de uma mensagem: “Esta unha prova que eu não trabalho com as mãos”. Igualmente desprezado era o imigrante, o colono, que labutava no campo ganhando muito pouco. Gente inteligente, gente fina, ganhava dinheiro sem trabalhar.

Mas, por incrível que pareça, a crítica ao trabalho também podia vir da esquerda. O escritor cubano Paul Lafargue (1842-1911) trata desse tema. Filho de um francês com uma judia e neto de uma mulata, Lafargue estudou medicina na França, tornando-se um resoluto militante socialista (não por acaso casou-se com Laura, filha caçula de Karl Marx). Lafargue escreveu O direito à preguiça (1880), um pequeno livro, quase um panfleto, no qual contesta a visão liberal, conservadora ou mesmo esquerdista, do trabalho. É preciso lembrar que nessa época a jornada podia facilmente chegar a 16 horas. Diz Lafargue: “Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Tem como consequência as misérias individuais e sociais que, há séculos, torturam a nossa triste humanidade. Esta loucura é a paixão doentia pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole.(…) Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda degeneração intelectual, de toda deformação orgânica”.
A pregação de Lafargue teria continuidade com a obra O elogio ao ócio (1932) do contestador filósofo inglês Bertrand Russel. “A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha 15 horas e algumas crianças cumpriam. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida, e as crianças, afastadas do crime.”
Mais recentemente, o italiano Domenico de Masi lançou o conceito do ócio criativo: trabalho, estudo e lazer conjugam-se para satisfazer melhor as necessidades humanas. Pensando bem, Ascenso Ferreira não estava tão errado…

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

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Histórias das canções

Livro do jornalista britânico Steve Turner revela as histórias por trás de todas as canções dos Beatles

Em 1967, o pequeno Julian Lennon voltou do jardim da infância e mostrou ao pai, John, um desenho que fizera. No centro da figura, segundo Julian, estava representada sua colega "Lucy, no céu, com diamantes". A explicação do filho impressionou John, que se inspirou na frase para compor a célebre "Lucy in the sky with diamonds". A história dessa canção é conhecida entre beatlemaníacos, porém, o que o jornalista musical e poeta inglês Steve Turner realiza em seu livro The Beatles – A história por trás de todas as canções é dar um passo além das explicações imediatas.

Steve Turner: esse livro " pode ser o mais próximo que chegaremos de entender como os Beatles fizeram a mágica de suas canções"

Para contar as histórias das composições das 208 músicas do quarteto de Liverpool, Steve recorreu a depoimentos dos integrantes da banda e a demais fontes ligadas direta ou indiretamente às canções. No caso de "Lucy in the sky with diamonds", o jornalista conversou com a própria Lucy, hoje professora de crianças especiais, e com Spike Millingan, apresentador de The Goon Show, programa de rádio cujo humor nonsense influenciou Lennon na criação da letra.

Embora tenha se debruçado sobre inúmeras entrevistas e documentos ao longo de mais de quatro décadas, Turner acredita que o livro definitivo sobre o tema ainda está para ser escrito. Segundo aponta no prefácio, isso só será possível quando "os diários, cartas e cadernos de John e George sejam tornados públicos e [quando] Paul e Ringo compartilharem tudo de que se lembram sobre as canções". Porém, enquanto tais registros preciosos não vêm à tona, o jornalista acredita que seu trabalho "pode ser o mais próximo que chegaremos de entender como os Beatles fizeram a mágica de suas canções".

The Beatles – A história por trás das canções    
Steve Turner
Trad.: Alyne Azuma
Cosac Naify
384 págs. – R$ 49

 

 

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

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Anísio Teixeira – O inventor da escola pública no Brasil

O educador propôs e executou medidas para democratizar o ensino brasileiro e defendeu a experiência do aluno como base do aprendizado.

Foto: Divulgação / Instituto Anísio Teixeira

Considerado o principal idealizador das grandes mudanças que marcaram a educação brasileira no século 20, Anísio Teixeira (1900-1971) foi pioneiro na implantação de escolas públicas de todos os níveis, que refletiam seu objetivo de oferecer educação gratuita para todos. Como teórico da educação, Anísio não se preocupava em defender apenas suas idéias. Muitas delas eram inspiradas na filosofia de John Dewey (1852-1952), de quem foi aluno ao fazer um curso de pós-graduação nos Estados Unidos.
Dewey considerava a educação uma constante reconstrução da experiência. Foi esse pragmatismo, observa a professora Maria Cristina Leal, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que impulsionou Anísio a se projetar para além do papel de gestor das reformas educacionais e atuar também como filósofo da educação. A marca do pensador Anísio era uma atitude de inquietação permanente diante dos fatos, considerando a verdade não como algo definitivo, mas que se busca continuamente.
Para o pragmatismo, o mundo em transformação requer um novo tipo de homem consciente e bem preparado para resolver seus próprios problemas acompanhando a tríplice revolução da vida atual: intelectual, pelo incremento das ciências; industrial, pela tecnologia; e social, pela democracia. Essa concepção exige, segundo Anísio, "uma educação em mudança permanente, em permanente reconstrução".

Didática da ação

As novas responsabilidades da escola eram, portanto, educar em vez de instruir; formar homens livres em vez de homens dóceis; preparar para um futuro incerto em vez de transmitir um passado claro; e ensinar a viver com mais inteligência, mais tolerância e mais felicidade. Para isso, seria preciso reformar a escola, começando por dar a ela uma nova visão da psicologia infantil.
O próprio ato de aprender, dizia Anísio, durante muito tempo significou simples memorização; depois seu sentido passou a incluir a compreensão e a expressão do que fora ensinado; por último, envolveu algo mais: ganhar um modo de agir. Só aprendemos quando assimilamos uma coisa de tal jeito que, chegado o momento oportuno, sabemos agir de acordo com o aprendido.
Para o pensador, não se aprendem apenas idéias ou fatos mas também atitudes, ideais e senso crítico – desde que a escola disponha de condições para exercitá-los. Assim, uma
criança só pode praticar a bondade em uma escola onde haja condições reais para desenvolver o sentimento. A nova psicologia da aprendizagem obriga a escola a se transformar num local onde se vive e não em um centro preparatório para a vida. Como não aprendemos tudo o que praticamos, e sim aquilo que nos dá satisfação, o interesse do aluno deve orientar o que ele vai aprender. Portanto, é preciso que ele escolha suas atividades.
Por tudo isso, na escola progressiva as matérias escolares – Matemática, Ciências, Artes etc. – são trabalhadas dentro de uma atividade escolhida e projetada pelos alunos, fornecendo a eles formas de desenvolver sua personalidade no meio em que vivem. Nesse tipo de escola, estudo é o esforço para resolver um problema ou executar um projeto, e ensinar é guiar o aluno em uma atividade. 
Quanto à disciplina, Anísio afirmava que o homem educado é aquele que sabe ir e vir com segurança, pensar com clareza, querer com firmeza e agir com tenacidade. Numa escola democrática, mestres e alunos devem trabalhar em liberdade, desenvolvendo a confiança mútua, e o professor deve incentivar o aluno a pensar e julgar por si mesmo. "Estamos passando de uma civilização baseada em uma autoridade externa para uma baseada na autoridade interna de cada um de nós", diz ele em seu livro Pequena Introdução à Filosofia da

Educação.

Como preparar o professor para essa tarefa hercúlea da escola de hoje, ocupada por tantos alunos que não se contentam em aprender apenas as técnicas e conhecimentos mais simples mas também as últimas conquistas da ciência e da cultura? O que fazer quando eles exigem informações até mesmo sobre tendências indefinidas e problemas sem solução? Para responder a tantas questões, os educadores do mundo todo precisarão de novos elementos de cultura, de estudos e de recursos, propôs o pensador, que na prática instalou novos cursos para professores. Só assim, dizia, os mestres tentarão renovar a humanidade para "a grande aventura de democracia que ainda não foi tentada".

Para pensar

As escolas comunitárias americanas inspiraram a concepção de ensino de tempo integral de Anísio Teixeira. Lá, no entanto, a jornada dificilmente tem mais do que seis horas diárias. O conceito entre nós ampliou-se consideravelmente: escola de pelo menos oito horas e, no caso dos Cieps, uma instituição que deveria dar conta de todas as necessidades das crianças, até mesmo de cuidados maternos e moradia. Numa realidade na qual os recursos são limitados, o problema é de prioridades e decisões difíceis: manter uma escola com esse modelo para uma minoria ou manter um modelo menos ambicioso para a maioria? Afinal, Anísio também propunha uma escola para todos.

Educação como meta política

Fernando de Azevedo, reformador do ensino público, com normalistas da Escola Caetano de Campos: Manifesto da Escola Nova. Foto: Caderno de Pesquisas/FCC

Fernando de Azevedo, reformador do ensino público, com normalistas da Escola Caetano de Campos: Manifesto da Escola Nova. 

Nos anos 1920, com a crescente industrialização e a urbanização em todo o mundo, a necessidade de preparar o país para o desenvolvimento levou um grupo de intelectuais brasileiros a se interessar pela educação – vista como elemento central para remodelar o país. Os novos teóricos viam num sistema estatal de ensino livre e aberto o único meio efetivo de combate às desigualdades sociais. Esse movimento chamado de Escola Nova ganhou força nos anos 1930, principalmente após a divulgação, em 1932, do Manifesto da Escola Nova. O documento pregava a universalização da escola pública, laica e gratuita. Entre os nomes de vanguarda que o assinaram estavam, além de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo (1894-1974), que aplicou a sociologia à educação e reformou o ensino em São Paulo nos anos 1930, o professor Lourenço Filho (1897-1970) e a poetisa Cecília Meireles (1901-1964). A atuação desses pioneiros se estendeu por décadas, muitas vezes criticada pelos defensores da escola particular e religiosa. Mas eles ampliaram sua atuação e influenciaram uma nova geração de educadores como Darcy Ribeiro (1922-1997) e Florestan Fernandes (1920-1995). Anísio foi mentor de duas universidades: a do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, desmembrada pela ditadura de Getúlio Vargas, e a de Brasília, da qual era reitor quando do golpe militar de 1964.

A escola pública e integral como solução

A Escola Parque de Salvador, em 1950: projeto piloto de ensino integral. Foto: CPDOC/FGV

A Escola Parque de Salvador, em 1950: projeto. 

Para ser eficiente, dizia Anísio, a escola pública para todos deve ser de tempo integral para professores e alunos, como a Escola Parque por ele fundada em 1950 em Salvador, que mais tarde inspiraria os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) do Rio de Janeiro e as demais propostas de escolas de tempo integral que se sucederam. Cuidando desde a higiene e saúde da criança até sua preparação para a cidadania, essa escola é apontada como solução para a educação primária no livro Educação Não É Privilégio. Além de integral, pública, laica e obrigatória, ela deveria ser também municipalizada, para atender aos interesses de cada comunidade. O ensino público deveria ser articulado numa rede até a universidade. Anísio propôs ainda a criação de fundos financeiros para a educação, mas, mesmo com o atual Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), os recursos são insuficientes para sustentar esse modelo de escola.

Biografia

Anísio Spínola Teixeira nasceu em 12 de julho de 1900 em Caetité (BA). Filho de fazendeiro, estudou em colégios de jesuítas na Bahia e cursou direito no Rio de Janeiro. Diplomou-se em 1922 e em 1924 já era inspetor-geral do Ensino na Bahia. Viajando pela Europa em 1925, observou os sistemas de ensino da Espanha, Bélgica, Itália e França e com o mesmo objetivo fez duas viagens aos Estados Unidos entre1927 e 1929. De volta ao Brasil, foi nomeado diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, onde criou entre 1931 e 1935 uma rede municipal de ensino que ia da escola primária à universidade. Perseguido pela ditadura Vargas, demitiu-se do cargo em 1936 e regressou à Bahia – onde assumiu a pasta da Educação em 1947. Sua atuação à frente do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos a partir de 1952, valorizando a pesquisa educacional no país, chegou a ser considerada tão significativa quanto a Semana da Arte Moderna ou a fundação da Universidade de São Paulo. Com a instauração do governo militar em 1964, deixou o instituto – que hoje leva seu nome – e foi lecionar em universidades americanas, de onde voltou em 1965 para continuar atuando como membro do Conselho Federal de Educação. Morreu no Rio de Janeiro em março de 1971.

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

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Nas trilhas da ‘boa vizinhança’

Tese revela papel de antropólogos no âmbito de pesquisas sociais na área da saúde.

ISABEL GARDENAL

Os cientistas sociais Donald Pierson (1900-1995) e Kalervo Oberg (1901-1973) inscreveram, em meados do século XX, um novo capítulo na história da Antropologia no Brasil, até então pouco estudado, e que teve forte impacto nas pesquisas sociais em saúde. A atuação de ambos coincidiu com o engajamento de antropólogos norte-americanos em programas de assistência técnica na América Latina. Uma pesquisa de doutorado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp permitiu recuperar o assunto e revelou que esses cientistas, junto a antropólogos brasileiros e mexicanos, arregimentados por agências governamentais ou de caráter cooperativo, acabaram se associando a sanitaristas, administradores e educadores em torno de uma agenda comum de ações médico-sanitárias e projetos para desenvolver comunidades mais remotas e atrasadas.

A investigação integra o conteúdo da tese “Histórias de uma antropologia de boa vizinhança: um estudo sobre o papel dos antropólogos nos programas interamericanos de assistência técnica e saúde no Brasil e no México”, de Regina Érika Domingos de Figueiredo. O trabalho foi orientado pela professora Marisa Corrêa e teve financiamento da Fundação de Amparo ao Ensino e à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Smithsonian Institution.

Érika era aluna da Unicamp desde a graduação e nunca escondeu sua predileção pela Antropologia. Fez mestrado na área, investigando Charles Wagley, antropólogo norte-americano que esteve em terras brasileiras na década de 30, e prosseguiu estudos para obter nova titulação. Sem planejar, sua tese de doutorado, defendida recentemente, constituiu um marco no IFCH, por ser a primeira do recém-criado Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.

Comentando o mestrado, ela informou que ter estudado Charles Wagley e o seu trabalho no Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp) a inspirou a conhecer a atuação de outros antropólogos no campo da saúde pública por volta da mesma época. O Sesp era um serviço cooperativo criado pelo Instituto de Assuntos Interamericanos, em 1942, dentro do espírito da “boa vizinhança”, como parte dos esforços de guerra, e que atuou como uma agência bilateral até 1960, quando foi transformado em fundação.

A política da “boa vizinhança” foi apresentada pelo governo dos EUA, presidido por Roosevelt, na Conferência Panamericana de Montevidéu. Refere-se a um período (1933 a 1945) em que os EUA buscaram estreitar relações políticas e econômicas com as nações latino-americanas. Sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, patrocinou investimentos e venda de tecnologia, em troca do apoio aos aliados. Esta política, no entanto, era mais ampla e promoveu o estreitamento de relações culturais.

Dentro deste espírito de investir nas relações culturais e de cooperação entre vizinhos foi estabelecido, em 1943, o Instituto de Antropologia Social como parte da Smithsonian Institution. O Instituto tornou-se responsável pelo envio de cientistas sociais norte-americanos para atuar em ensino e pesquisa em instituições da América Latina.

Mudanças

A pesquisadora avaliou cartas pessoais, documentos e a literatura, refazendo o percurso dos pesquisadores que trabalhavam para a Smithsonian e assim pôde estimar a parcela de contribuição da antropologia para a política da “boa vizinhança” e dos programas de cooperação.

A tarefa de Érika não foi das mais fáceis. Trabalhou com pesquisa documental e pôs-se a pesquisar arquivos de referência dos National Anthropological Archives (NAA – Washington), dos National Archives and Records Administration (Nara – Washington), do Arquivo Histórico da Secretaria de Salud (AHSS – Cidade do México), do Departamento de Arquivo e Documentação da Fiocruz ( Rio de Janeiro) e do Arquivo Edgar Leuenroth (AEL- Unicamp).

A pós-graduanda estudou a origem do Instituto de Antropologia da Smithsonian a fim de chegar às atuações do americano Pierson e do canadense Oberg. Pierson teve um papel central na institucionalização das ciências sociais no Brasil, criou o Departamento de Pós-Graduação da Escola Livre de Sociologia Política de São Paulo (ELSP) e ali lecionou Sociologia e Antropologia Social entre 1939 e 1957, formando uma safra de cientistas sociais brasileiros.

A atuação de Oberg é menos conhecida. Ele também foi professor da Escola Livre e trabalhou com comunidades na região do Vale do Rio Doce, nos estados de Espírito Santo e Minas Gerais. Pesquisou sociedades indígenas do Mato Grosso e teve um papel significativo no campo da Antropologia Aplicada, que então emergia. Pela experiência de atuação em programas do governo americano, o Brasil foi solicitado a dar sua contribuição à política de cooperação interamericana vigente em saúde.

Chamou a atenção da doutoranda que, a partir de 1949, com a gestação do programa do Ponto IV – de cooperação técnica norte-americana durante a gestão Truman –, ocorreu uma reorientação da política externa e as relações culturais e técnicas cederam lugar às políticas de desenvolvimento do Terceiro Mundo. Com isso, a Smithsonian precisou adequar o seu programa para investir em ciências sociais nas áreas de saúde, agricultura, desenvolvimento rural e de comunidade. Foi neste momento que os antropólogos da instituição, encorajados a fornecer subsídios aos programas de bem-estar e desenvolvimento, acabaram se engajando no campo da saúde pública.

Tais programas de mudança social tinham em vista a modernização nas pequenas e remotas comunidades rurais do país. Estenderam-se também à saúde dos sistemas médico-sanitários tradicionais, favorecendo a introdução da medicina científica. Com o pós-guerra, ocorreram as políticas de interiorização dos serviços de saúde, até então desassistidos pelo poder público. A intenção era educar a população para aderir a tecnologias mais modernas. Apesar de a população continuar adotando a medicina popular, passou a recorrer aos fármacos, ao atendimento médico nos postos de saúde e às campanhas para ter filhos nos hospitais, entre outras ações.

Estudos de comunidade
Pierson organizou um projeto de estudos de comunidade, ou estudos de caso, no Vale do São Francisco. Conseguiu convencer o governo que estes estudos podiam oferecer base empírica para intervenções em políticas de saúde e educação sanitária. Já Oberg fez estudos de comunidade para o Sesp, e a receptividade a estes trabalhos trouxe incrementos à seção de pesquisa social, mais focada na investigação socioantropológica para uso das políticas de saúde.

Os estudos de comunidade corresponderam a um modelo de investigação empírica inspirado no método etnográfico, que buscava conhecer a realidade sociocultural de pequenas localidades rurais ou semiurbanizadas, por meio de uma abordagem microssociológica.

Algumas conclusões ficaram evidentes para Érika: que a antropologia no pós-guerra não se restringiu ao campo acadêmico-universitário, mas sua contribuição diz respeito a uma agenda de intervenção, aos programas de assistência técnica e de saúde pública; que além do seu papel no desenvolvimento da pesquisa social, os estudos de comunidades tiveram importância prática e política; que, se por um lado, a colaboração entre cientistas sociais dos Estados Unidos e jovens pesquisadores latino-americanos contribuiu para o desenvolvimento das ciências sociais em países como o Brasil, por outro a rede de cooperação formada por antropólogos, sanitaristas e administradores foi decisiva para a produção de experiências pioneiras em Antropologia Aplicada.

México

Assim como o Brasil, a escolha do México como estudo de caso foi motivada pela presença de pesquisadores da Smithsonian naquele país e também pelo papel que o país desempenhou no programa interamericano de saúde. De outra via, o caso mexicano oferecia um contraponto ao brasileiro uma vez que se tratou de uma tradição antropológica que se desenvolveu em forte associação com o Estado. É bem conhecida, segundo a pós-graduanda, a atuação dos antropólogos mexicanos no campo das políticas públicas, com destaque para a política indigenista e para as campanhas de educação e saúde entre populações indígenas e camponesas. “Entre nós, os anos 50 assistiram às primeiras iniciativas destacadas de arregimentação pela administração pública de antropólogos e cientistas sociais”, alude-se Érika.

AEL guarda arquivo pessoal de Pierson

Pierson doou seus documentos pessoais em vida para o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp. Eles agora integram o projeto História da Antropologia no Brasil, coordenado pela professora do IFCH Marisa Corrêa, que resultou num livro que leva o mesmo nome e que contém um relato de Pierson sobre suas atividades. A documentação data de 1939 e passou a integrar o Fundo Donald Pierson, que constitui fonte de pesquisa para a recuperação histórica da disciplina de Antropologia no país.

Pierson nasceu em Indianápolis, EUA, em 1900. Foi Ph.D pela Universidade de Chicago. Entre 1943 e 1957 coordenou o curso de graduação da instituição e constituiu a coleção de Ciências Sociais na biblioteca a partir de doações do American Library Association, do American Council of Learned Societies. Editou a revista Sociologia e organizou a série Biblioteca de Ciências Sociais. Morreu em 1995, aos 95 anos.

Atualmente, a Smithsonian compreende um complexo de museus (19), zoológico (1) e centros de pesquisa (9), sediado em Washington, nas áreas de História, Ciências Naturais, Arqueologia e Antropologia. O seu Museu de História Natural é um dos mais renomados do mundo. A instituição foi fundada em 1846, com recursos deixados pelo milionário inglês James Smithson, para que os EUA criassem uma organização de difusão do conhecimento.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Carvão vegetal é alternativa contra aquecimento global

Ana Carolina Athanásio

O estado de Minas Gerais tem, atualmente, a maior concentração de siderúrgicas do mundo que utilizam o carvão vegetal como fonte de carbono. Pesquisa desenvolvida na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP mostra que essa fonte de energia é uma alternativa que não intensifica tanto o aquecimento global e, com o aumento do uso de eucaliptos como biomassa, ajuda a diminuir o processo de desmatamento das florestas brasileiras.

Utilização do eucalipto como fonte de carbono ajuda a diminuir o desmatamento

Utilização do eucalipto como fonte de carbono ajuda a diminuir o desmatamento.

O economista Thiago Fonseca Morello, integrante do Núcleo de Economia Socioambiental (NESA) da USP, estudou o uso e alguns problemas do eucalipto como fonte de energia para siderúrgicas em seu mestrado – Carvão vegetal e siderurgia: de elo perdido a solução para um mundo pós-Kioto – orientado pelo professor Ricardo Abramovay e com o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). O pesquisador busca entender de que maneira o carvão vegetal e o uso do eucalipto como fonte de carbono trouxeram soluções para siderúrgicas que passaram a utilizar essa fonte de energia.

Morello observa que um dos fatores que permite ao Brasil ser o único país do mundo a utilizar o carvão vegetal em siderúrgicas é a baixa quantidade de jazidas de carvão mineral no País. “Esse fato pode ser uma explicação para a insistência no uso de carvão vegetal. É necessário que as empresas importem o carvão mineral em grande escala, para baratear o preço, e isso tem uma série de implicações logísticas e ambientais. Por outro lado, somos um País rico em florestas e estas acabaram sendo utilizadas como fonte alternativa e mais barata de carbono”, explica.

Um dos maiores problemas na utilização do carvão vegetal é o desmatamento florestal. Muitas siderúrgicas só passaram a investir no cultivo e manutenção das plantações de eucalipto quando perceberam a exaustão das florestas das quais costumavam retirar seu carvão. Morello salienta que essa opção das empresas por cultivar sua fonte de carbono trouxe fatores positivos, como a diminuição do desmatamento da floresta, e aspectos negativos, como o aumento das grandes plantações e da concentração de terras.

O uso do eucalipto como fonte de energia no Brasil tem benefícios não apenas no âmbito ecológico, mas também em relação ao marketing. “Com a opção de plantar eucalipto, as empresas têm vantagens em vários sentidos: em relação à qualidade, pois usam mudas geneticamente adaptadas a cada região, conseguindo assim o melhor rendimento possível. Há benefícios ambientais, pois evita a destruição da floresta a qual desempenha diversas funções ecológicas e também culturais para a comunidade local. Além disso, as indústrias estão, cada vez mais, se esforçando para se desconectar das florestas e do desmatamento, pois assim criam uma imagem mais favorável nacional e internacionalmente”, ressalta o pesquisador.

O economista mostra também os problemas para as siderúrgicas provenientes do uso de carvão vegetal. O primeiro deles decorre da inversão do relativo de preço na década de 1980, quando o carvão mineral passou a ser mais barato do que o vegetal. Há também os malefícios oriundos da produção de eucalipto, a qual favorece a concentração de terras, além de gerar problemas em relação a instabilidade ecológica, isso por conta da monoespecificidade das plantações.

Tendo em vista os fatores negativos, o que levaria as siderúrgicas mineiras a manter o uso de carvão de eucalipto como fonte de carbono? “Quanto a isso, um fato atual relevante é o de que as duas maiores siderúrgicas mineiras a carvão vegetal foram compradas pela maior corporação siderúrgica do mundo – a anglo-indiana Mittal Steel – a qual tem o interesse em ter sua imagem associada ao fato de existirem membros de seu grupo que produzem aço com base no carvão vegetal, dado que todos os demais membros dependem pesadamente do carvão mineral”, explica o economista.

Fomento Florestal
Entre os modelos atuais de cultivo que têm atraído investimentos de siderúrgicas está o fomento florestal. É uma alternativa ao cultivo de plantação de eucalipto realizado em escala menor àquela dos grandes maciços mantidos pelas siderúrgicas mineiras. Esse modelo permite a pulverização das áreas de cultivo e resolve, em alguma medida, o problema da concentração de terras e da instabilidade ecológica por conta da monocultura.“Isso é interessante, pois tem englobado também proprietários de baixa renda e é uma possibilidade de ajudar na transferência tecnológica entre as populações que tem menos possibilidades de geração de renda”, diz Morello.

Apesar da siderurgia de carvão vegetal não chegar a 30% da produção de ferro-gusa e a 20% da produção de aço, o interesse das empresas por fontes alternativas de carbono tende a crescer enquanto houver cobranças internacional relacionadas ao aquecimento global. “O fomento florestal é interessante e pode ser estudado como uma possível trajetória para produzir ferro e aço de maneira a não intensificar o aquecimento global, mas não acredito que exista potencial para haver uma conversão em massa da siderurgia no mundo e no Brasil para o carvão de eucalipto. Entretanto, enquanto a temática ambiental e ecológica se mantiver relevante internacionalmente, o uso de carvão de eucalipto continuará existindo no Brasil, mesmo como algo minoritário”, conclui.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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São loucos estes romanos!

Caroline Fourest

A mundialização tem qualquer coisa de vertiginosa. Para selecionar as coisas em meio a essa imensidão, é grande a tentação de se agarrar àquilo que se parece conosco em vez de àquilo que nos une: a identidade e não as ideias. O medo da uniformização favorece paradoxalmente a redução identitária, quer seja comunitária, cultural, religiosa, regional ou nacional. Em face a essas tensões conflitantes, existem duas tentações: a de deixar "tecer" o laço social e a de costurar a sociedade como um colete.

Uma certa ingenuidade multiculturalista queria acreditar que tudo era para o melhor no melhor dos mundos. O aumento das demandas particulares em nome do religioso não representaria nenhum problema. Em alguns países, a invocação da cultura ou da religião permite até mesmo obter favores ilícitos. Uma mulher coberta inteiramente com o véu tem o direito de fazer suas compras mascarada, enquanto uma mulher usando capuz seria impedida.
No Canadá, um paciente judeu foi atendido com prioridade no pronto socorro para que ele pudesse voltar para casa antes do shabbat, enquanto que um fã de "Stargate", jamais obteria um favor parecido para não perder sua série favorita. Na Grã-Bretanha, os sikhs têm o direito de dirigir moto sem capacete, por usarem turbante, enquanto os motoqueiros com bandanas são multados. Nos Estados Unidos, os americanos de origem indígena podem consumir substâncias alucinógenas tradicionais, enquanto inúmeros consumidores de cannabis são impedidos por causa das leis antidrogas… Esses direitos especiais não parecem muita coisa. Mas, colocados lado a lado, eles desmontam a igualdade e a universalidade.
Cansados de debates infindáveis sobre como "acomodar" ou proibir essas demandas insólitas, os povos perdem a paciência. Fica fácil então explicar que todos os males vêm de uma só religião, o Islã, e não do fundamentalismo. Que bastaria impedir a imigração para salvar a identidade nacional… uma vez que os convertidos de olhos azuis usam o niqab e que as mulheres argelinas imigraram para a França para não usarem o véu.
O que importam essas sutilezas. As mais altas autoridades sugerem o retorno à identidade nacional para responder à regressão comunitária. O Islã será a religião dos "acolhidos" e teria que se tornar discreta para não chocar aqueles que a "acolhem". Tudo soa falso na narrativa que nos propomos. O Islã se torna uma religião exógena simplesmente por causa da anterioridade judaico-cristã. E a França se vê redefinida por suas raízes religiosas mais do que por suas leis laicas, como se Clovis tivesse predominado sobre a Revolução Francesa. Não era este, já, o propósito arriscado do presidente em Saint-Jean-de-Latran?
Nós cremos igualmente reconhecer um slogan da moda: "Em Roma, faça como os romanos". Pior ainda se o fundamentalismo é um fenômeno político e não cultural. Se ele seduz alguns gauleses e repugna alguns muçulmanos, tão "romanos" quanto os outros. Sutilezas de intelectuais, pode-se dizer…
Como não confortar a demagogia com argumentos assim? Marine Le Pen nos explica que a solução não reside somente na identidade nacional, mas a identidade francesa desejada. Como se o fundamentalismo católico e o nacionalismo fossem a resposta para o comunitarismo muçulmano… Como se pudéssemos resolver a crise do multiculturalismo voltando ao monoculturalismo!
Felizmente, existe uma alternativa para essas duas tentações. Aceitar reconhecer que o desafio é político e não cultural. Não responder pela identidade, mas pelo ideal: o humanismo laico e universalista.
Reencontrar o caminho de um modelo francês que combata as desigualdades e reforce a cidadania. Continuar a fazer da laicidade o coração desse novo pacto cidadão. Em uma palavra: não apelar para fazer como com os "romanos", mas resistir a todos aqueles que queiram nos levar seja para a idade da pedra, seja para o Império Romano.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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De que serve esta onda que quebra

O Rio, que sintetizou a glória do Brasil dos anos 50, agora condensa a tristeza da primeira década do milênio.

Christian Carvalho Cruz

Ah, por que estou tão sozinho? Ah, por que tudo é tão triste? Me deixa encontrar minha paz, você que é bonita demais… A cada ausência tua eu vou chorar… Descrente deste mundo… Depois de uma semana de cão, que teve helicóptero policial abatido a tiros, cadáver dentro de carrinho de supermercado, homens da lei roubando os bandidos que mataram para roubar tênis e jaqueta, e saldo de 42 mortos, daria para resumir nos versos de Tom e Vinícius o sentimento do Brasil em relação a sua mais bela e castigada cidade. Sem bairrismo, por favor, que não é hora para isso. O Rio de Janeiro é para amadores – os que o amam.


Diz que "não há segregação" na cidade, mas reconhece que "o garoto de classe média não mais joga pelada com o da favela e passa a ver o pobre como um estrangeiro". Defende um liberou geral para as drogas como meio de acabar com a guerra do tráfico, porque "se o cidadão quiser se destruir é uma opção pessoal e intransferível". Afirma preferir a classe média em passeata contra o "crescimento medíocre do emprego" a ela vestida de branco pedindo paz. Revolta-se com um governo, o federal, que gasta R$ 180 bilhões na dívida pública e aplica migalhas para tornar cidadão aquele carioca que hoje é só um perdido no meio do fogo cruzado. E faz entender que não vão conseguir destruir o Rio, pois não se dá cabo assim de algo tão sofisticado: a alma do carioca. Lessa é Rio e não abre – até o apagar da velha chama.
Um século atrás o cronista João Rio escreveu que o problema do Rio é que "as partes não se unem, vivem tão segregadas". Isso ainda vale?
Não há segregação no Rio. O melhor exemplo é a festa de ano-novo, que reúne 3 milhões de participantes nas praias. É 30% da população da região metropolitana do Rio de Janeiro, gente de todas as idades, gêneros, religiões (ateus incluídos), classes sociais (inclusive os desclassificados), que lá permanece das 9 da noite do dia 31 de dezembro até por volta das 3 da madrugada seguinte. É o maior espetáculo de integração social metropolitana do Brasil e, talvez, do planeta.

O Rio ainda tem papel importante na formação da autoestima do brasileiro, como teve no passado, quando o prefeito Pereira Passos (1902-1906) transformou a cidade no que chamou de "Paris dos Trópicos"?

A modernização do Rio foi um projeto de Rodrigues Alves, um paulista com a dimensão do Brasil. A neta do francês Vítor Hugo cunhou a expressão "Cidade Maravilhosa". Na década de 50, Copacabana se autodenominou "Princesinha do Mar". Depois o Rio foi deixando de ser objeto de desejo, sem que nenhuma outra cidade brasileira herdasse o título.
O que significou ter sido a capital do País e depois perder esse status?
Pertence ao óbvio ululante provinciano fazer do Rio um muro de lamentações. O carioca sempre debochou de sua cidade. Na década de 50, cantava: "Rio de Janeiro, cidade que me seduz; de dia falta água, de noite falta luz". Aliás, é a ironia um atributo de um povo naturalmente sofisticado. O Rio sintetiza a glória do Brasil dos anos 50 e a tristeza do Brasil nesta década inicial do milênio, que sucedeu à década perdida, a de 80, e à triste e vacilante estagnação brasileira da década de 90.
O saudosismo atrapalha o Rio? Ou seja, viver sonhando com um passado glorioso que o presente parece fazer de tudo para enterrar impede uma caminhada rumo a um futuro libertador, redentor?
Não há saudosismo prejudicando o Rio. O que existe é a autoestima nacional em declínio. O que existe é uma juventude migrando para o exterior. O que existe são meninas engravidando em busca do Bolsa-Família. A ideologia neoliberal e a exaltação da globalização colocaram em pauta para a juventude temas transnacionais e cancelaram a ideia do Brasil como um país do futuro e com futuro. Não se exalta mais a potencialidade da civilização brasileira e, sem resolver a questão social, não se convoca a juventude para discutir o futuro da civilização brasileira.
Em seu livro "O Rio de Todos os Brasis – Uma Reflexão em Busca de Auto-Estima", de 2000, o sr. fala da "desterritorialização" do Rio: a diáspora das elites para a Barra da Tijuca buscando "escapar do lado perdedor" e se estabelecer no lado pós-moderno, globalizado. A Barra faz mal para o Rio?
A Barra – como todos os Alphavilles ou o Plano Piloto de Brasília – instala a vida em condomínio fechado e tem no centro comercial (shoppings) o espaço de uma inquietante segregação social no futuro. Quero registrar um contramovimento: na Barra, a juventude de classe média frequenta os bailes funk e os forrós da favela de Rio das Pedras e reapareceu o botequim "pé-sujo" nos mercados de perecíveis da Barra.
O sr. também escreve que episódios como os arrastões de 1992 fizeram renascer o mito das classes sociais "perigosas" e "escorregou-se para satanizar a favela, especialmente a juventude pobre". Esse mito continua existindo?
Não há mito de classes perigosas. Há o garoto de classe média que não mais joga pelada com o garoto da favela e passa a ver no pobre um "estrangeiro".
O problema do Rio é só de desigualdade? Ou a cultura do "levar vantagem em tudo", disseminada por todos os cantos do País e por todas as classes sociais, piora as coisas?
A cultura do "levar vantagem em tudo", conhecida como "Lei de Gerson", foi criada para o Brasil como um todo. Parece ser um desdobramento humorístico do "Mateus, primeiro os teus", que o capitalismo exalta como competição pelo mercado que extravasa todas as leis, principalmente as fiscais. Não é o Rio o campeão da evasão e da elisão fiscal. Certamente outra região metropolitana lidera.

No mês passado, a revista "Forbes" elegeu o Rio a cidade mais feliz do mundo. O sr. concorda? Segundo o cantor Lobão, um prêmio desses só atrapalha, porque "aplaca nossa indignação, estupra nosso luto, mina a vontade de sermos melhores".

Não aceito a Forbes nem o Lobão. Posso afirmar que é muito boa a convivência dos cariocas nas calçadas e nas praças. Porém, a "felicidade" não pode ser desfrutada pelas populações metropolitanas brasileiras com os congestionamentos de trânsito e a dilatação do tempo de deslocamento residência-trabalho-residência. Ousaria afirmar que essa é uma das dimensões da infelicidade dos paulistanos, dos cariocas e das demais populações metropolitanas e urbanas brasileiras.
O mesmo Lobão diz que torce por um concurso em que o Rio seja "campeão de gentileza, honestidade, lanterninha de violência e malandragem". O sr. poderia comentar?
Sem comentários.
O sr. sente medo no Rio?
Quase nunca. Já tive medo. Porém fui roubado mais vezes na Itália do que no Rio, onde vivo. Fui assaltado em Madri por um ladrão armado com uma terrível navalha sevilhana. Uma vez tive muito medo dentro do Centro Pompidou, em Paris, assediado por um grupo de pitboys. Tenho medo de bala perdida, mas tenho mais medo de atravessar uma avenida com motoristas desesperados e deseducados. No Brasil, só em Porto Alegre fui assaltado por ladrões armados.
O helicóptero abatido ter caído num campinho de futebol resume a tragédia carioca-brasileira?
A queda do helicóptero mostra o estágio primário do conflito interno ao tráfico. É fácil derrubar um helicóptero, basta uma bala no rotor. A paralisação de São Paulo pelo PCC mostra as vantagens civilizadas de um crime organizado com hegemonia preestabelecida. A televisão disponibiliza imagens excessivas. Uma guerra de traficantes é realmente assustadora e pode, inclusive, derrubar helicópteros.
O que o senhor sentiu quando abriu o jornal de quarta-feira e viu a fotografia de um cadáver dentro de um carrinho de supermercado?
Os jornais do Rio têm sempre sua primeira página embebida em sangue. Alguns radialistas se especializaram no tema. Gostaria que prevalecesse a política editorial dos jornais europeus, que remetem para a quarta página a violência, além de não darem sequência. Estava em Milão quando operários italianos desempregados puseram fogo em um edifício onde trabalhavam filipinos clandestinos. Esse fato não foi manchete em nenhum jornal italiano.

O presidente Lula disse que "a cada dia a sensação é de causa perdida" e liberou R$ 100 milhões para a política de segurança da cidade. O senhor acha que é causa perdida? Dinheiro resolve?

Não acho que seja uma causa perdida. O crime organizado em São Paulo já se estabilizou, haja vista o imenso sucesso do PCC em paralisar por mais de um dia a Grande São Paulo, com 20 milhões de habitantes. Como o tráfico não está estabilizado no Rio existem conflitos inspirados nas guerras do jogo do bicho. Lula, em lugar de liberar R$ 100 milhões para a segurança, deveria investir nos metrôs de superfície do Rio e no metrô de São Paulo. Aliás, seria melhor do que propor o ridículo e caro "brinquedo" do trem-bala.
O filme "Tropa de Elite" responsabiliza a classe média pelos problemas do Rio. Há uma cena em que uma passeata "sou da paz" é posta em cheque. O senhor vê sentido no fato de as pessoas saírem de branco pela rua pedindo paz?
Preferia a classe média andando pelas ruas para protestar contra os juros hiperelevados e o crescimento medíocre do emprego e da renda. Aliás, o mercado interno dos ilícitos – drogas, motéis, bordéis, estacionamentos irregulares, produtos piratas, entre outros – tem seu sustentáculo na classe média que tem emprego e renda.
Legalizar a venda de entorpecentes ajudaria ou pioraria a situação?
Sou inteiramente favorável à legalização das drogas. Afinal, a Lei Seca fez de Chicago o berço simbólico da organização mafiosa solidamente implantada nos Estados Unidos. Se o cidadão quiser se destruir com drogas ou bebida alcoólica, ou ainda pôr em risco seu patrimônio e renda mensal num bingo, é uma opção pessoal e intransferível. Gostaria de conhecer uma Souza Cruz da maconha e uma enorme organização que emitisse certificado de qualidade para as drogas. Proibiria a publicidade e daria subsídio fiscal para ONGS, igrejas, etc. que condenassem essas opções individuais e instauraria a pena máxima para o traficante que desse suprimento aos jovens. Seria muito importante gerar emprego estável para o "soldado do tráfico", geralmente menor de idade e propenso a considerar a vida muito curta.

Descrevendo sua rotina, um morador da zona atualmente conflagrada contou que desistiu de tapar os buracos de bala na fachada da sua casa porque não adianta, sempre fazem buracos novos. Como o senhor analisa essa adaptação do carioca à barbárie cotidiana?

Há muito tempo, eu disse que as favelas do Rio, do Brasil e – até onde eu conheço – da América Latina tendem a ser micronações. Os episódios de violência intrafavelas são típicos de uma luta pelo micropoder local. Quem sofre é a população do lugar, que pede a presença do Estado em sua totalidade, inclusive delegacia de polícia, para se integrar à cidade. O Brasil, que gasta este ano R$ 180 bilhões em dívida pública, aplica migalhas em generalizar a cidadania real.

Para alguns especialistas em segurança, o governo estadual pelo menos está tomando a iniciativa de combater a violência. E isso é bom, porque tira a população da posição de eterna refém.

Creio que o enfrentamento armado da violência desencadeia uma dialética caricatural do armamento ofensivo, que supera o equipamento defensivo e inspira o desenvolvimento tecnológico para uma superação do ofensivo. O tráfico recruta ex-militares treinados pelas forças especiais, abre conta nos paraísos fiscais, faz "lavagem" do dinheiro e acordos multilaterais com traficantes de outros países. Desencadear uma campanha militar em algumas favelas faz o tráfico transferir seus "soldados" e equipamentos para outras favelas, eleva o preço das drogas, e o tráfico "inova" na logística para suprir os viciados. Alguns garotos de classe média, sem emprego e com o sonho da riqueza, optam por migrar para o exterior, e uns poucos por se converterem em traficantes de drogas com reduto no asfalto. Com violência, somente se "enxuga o gelo" da violência.

O secretário Beltrame declarou que os fatos dos últimos dias não são problema do Rio e sim de um ponto localizado da cidade. O que o sr. acha?

Concordo com o secretário. Ele omitiu que é um ponto móvel. É sempre uma matéria visível o primeiro helicóptero abatido, porque já foi banalizada a execução de policiais militares e civis. É notícia nova e ajuda a mídia a "cronificar" a imagem do Rio violento, neutralizando a escolha de sede de Olimpíada.
A Olimpíada será capaz de transformar décadas de omissão e descaso no Rio de Janeiro?
Um país que construiu Brasília para 500 mil habitantes – e que hoje tem 3 milhões – pode muito bem preparar o Rio para os Jogos Olímpicos. Gosto da ideia de, por um caminho torto, recolocar o Rio como objeto de desejo e de orgulho do povo brasileiro. Tenho segurança de que o povo carioca será todo voluntário para receber os visitantes e que farão da Olimpíada um espetáculo de convivência inesquecível – esta é, ainda, a alma carioca, que comemorou a seleção final da cidade para sediar a Olimpíada com uma festa improvisada de 50 mil pessoas. O Brasil necessita de um cardápio de atrações turísticas, e a contribuição paulistana e de todo o Brasil será bem-vinda. Da mesma forma que o Rio será o "prato principal", podemos oferecer Gramado, no Rio Grande do Sul, o encontro das águas no Amazonas, a surpresa arquitetônica de Brasília, as Cataratas do Iguaçu. O macroproblema é que também poderemos oferecer o triste espetáculo dos maiores congestionamentos automobilísticos do planeta. A grande oportunidade que a Olimpíada pode criar é colocar em primeiro lugar a questão viária e metroviária de nossas principais cidades, a começar pelo Rio.
O Rio de Janeiro continua lindo?
É óbvio que sim. Todos cantam a beleza natural do Rio. Eu prefiro cantar a beleza do povão carioca, que "apesar de você", continua acreditando que "amanhã será outro dia". Mostra quem é quando faz a maior festa de multidão do País (o carnaval) e, apesar do péssimo sistema de transporte coletivo e da anemia do sistema de segurança, a mídia não consegue registrar nenhuma violência. Em resumo, o povo do Rio não tem medo de praça cheia; tem, sim, horror a praça vazia. O carioca sempre marca encontro na rua; outros brasileiros convidam para a casa. Viva a convivência pacífica da diversidade comportamental!

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Irrigação alternativa

Grupo da USP obtém produtividade maior da cana-de-açúcar ao irrigar a lavoura com esgoto doméstico tratado.

Yuri Vasconcelos

Estação de Tratamento de Esgoto em Piracicaba: água para a agricultura.

Uma tecnologia que usa efluentes domésticos para irrigação agrícola pode ajudar a economizar água e contribuir para a agricultura deixar de ser a atividade econômica que mais consome esse líquido. A produção de um quilo de arroz, por exemplo, necessita de 2 mil a 5 mil litros de água. Um grupo de pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, no interior paulista, tem feito avanços consideráveis nessa área e, em um dos experimentos, com cana-de-açúcar, conseguiu elevar em até 50% a produtividade ao irrigar a lavoura com esgoto doméstico tratado. Os resultados do estudo, que faz parte de um projeto temático apoiado pela Fapesp e coordenado pelo professor Adolpho José Melfi, da Esalq e do Núcleo de Pesquisa em Geoquímica e Geofísica da Litosfera (Nupegel) ligado à pró-reitoria da USP, foram publicados na edição de agosto na revistaScientia Agricola.
O uso de águas residuárias – outro nome para efluente ou esgoto doméstico – para irrigação de lavouras, segundo o pesquisador, é seguro e oferece vários benefícios. “Um risco que existe são os organismos patogênicos presentes no esgoto. Mas, antes de ir para a plantação, o efluente tratado pode passar por um processo de desinfecção, por exemplo, com cloro ou por radiação ultravioleta, que praticamente elimina os patógenos presentes no efluente”, ressalta. “Também é feito um monitoramento detalhado e constante da qualidade do efluente, do solo, do lençol freático e, evidentemente, da cultura agrícola para evitar qualquer tipo de contaminação.” De acordo com Melfi, o alto teor de sódio presente nos efluentes pode alterar a estrutura do solo, pela migração das argilas e consequente redução da aeração e da condutividade hidráulica do solo. Esse problema, segundo Melfi, pode ser solucionado com a adição de gesso agrícola ao solo. Ele é colocado na terra em forma de pó, anulando o efeito do sódio”, afirma. Quanto aos lençóis freáticos, a maior preocupação é com a contaminação por nitrogênio, um macronutriente presente no efluente que, se for absorvido em excesso pela planta, pode se infiltrar no solo e na forma de nitrato poluir as reservas subterrâneas de água.
A principal vantagem desse novo sistema é ambiental, porque, além de reduzir o consumo de água, a irrigação com águas residuárias provoca uma melhora na qualidade dos cursos d’água porque eles deixam de receber os esgotos tratados das cidades. Embora tratados previamente, os efluentes contêm uma carga de nutrientes (principalmente nitrogênio, fósforo e potássio) que contribui para a proliferação de algas e alteração da qualidade das águas, num processo chamado de eutrofização. No entanto, a presença desses nutrientes nos efluentes é uma grande vantagem do ponto de vista agrícola, porque são essenciais para o crescimento das plantas. Assim, os agricultores podem usar menos fertilizantes em suas plantações, o que é um benefício de ordem econômica. “Esse é um aspecto importante, porque os fertilizantes têm um impacto grande nos custos da produção agrícola”, destaca a professora Célia Re gina Montes, do Cena e do Nupegel, que também integra o grupo de pesquisa. Em uma das plantações experimentais, de capim para feno, a economia no uso de fertilizante nitrogenado mineral chegou a 80% num ano com pouca chuva, quando a irrigação com efluentes foi mais intensa.

Lagoas e reatores - Esgotos tratados por diferentes sistemas, segundo a pesquisadora, podem ser utilizados para irrigação, mas neste projeto temático estão sendo utilizados apenas os de origem doméstica. “Os efluentes industriais possuem características diferentes e compostos indesejáveis, como metais pesados. As regiões agrícolas, em geral, são menos industrializadas e, portanto, os esgostos tratados são predominantemente domésticos”, ressalta. Nas pesquisas conduzidas na USP foram utilizados esgotos tratados por dois processos biológicos: lagoas de estabilização e reatores anaeróbios, conhecidos pela sigla Uasb, de Upflow Anaerobic Sludge Blanket, seguido de processo de lodos ativados. No primeiro caso, o motor do tratamento é a energia solar. Esse sistema é composto por um conjunto de lagoas contendo bactérias aeróbias e anaeróbias que degradam a matéria orgânica dos esgotos. Os esgotos permanecem por um determinado período de tempo nas lagoas e quando saem sua carga orgânica foi substancialmente reduzida, de forma que podem ser lançados nos cursos d’água. As lagoas de estabilização são um dos sistemas mais usados em cidades de pequeno e médio porte do interior paulista e são operadas pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) em 319 municípios do estado. Nos reatores anaeróbios, o processo também é biológico, mas depende de energia elétrica para funcionar. O tratamento é feito por bactérias anaeróbias e o efluente passa posteriormente por uma lagoa de aeração antes de voltar para o rio. Nos dois casos, a desinfecção por cloro ou radiação ultravioleta é feita no final do tratamento.
Em tese, qualquer lavoura pode ser irrigada com efluentes domésticos, embora o ideal seja priorizar alimentos que não são consumidos in natura, mas processados industrialmente. Dessa forma, as altas temperaturas empregadas no processamento reduziriam o risco de contaminação por organismos patogênicos. No temático da FAPESP, do qual também fazem parte pesquisadores da Escola Politécnica, Faculdade de Saúde Pública e Instituto de Geociên­cias da USP, Embrapa Instrumentação Agropecuária, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária em São Carlos, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, e Universidade do Sul Toulon-Var, na França, foram feitos experimentos com plantações de milho, girassol, café, capim para feno e cana-de-açúcar, no campo experimental de Lins, no interior paulista, totalizando uma área de seis hectares. No campo de Piracicaba os experimentos são com as culturas de laranja e cana-de-açúcar em área total de dois hectares. Em todas elas houve ganhos de produtividade, em parte por conta do processo de irrigação – algumas culturas não são normalmente irrigadas, como a cana- -de-açúcar – e, também, pelo aporte de nutrientes existentes no efluente. Os efeitos da irrigação com águas residuá rias na produtividade da lavoura de cana-de-açúcar, reportados no artigo da revista Scientia Agricola, foram estudados durante 16 meses numa lavoura na cidade de Lins. Ao final do estudo, os pesquisadores constataram um aumento de produtividade de cerca de 50%.

O emprego de esgoto tratado na irrigação não é novidade, já sendo utilizado há muito tempo. As chamadas sewage farms, ou fazendas de água de esgoto, da Austrália, Alemanha e França já operam há mais de um século. Em outros países, como Israel, Estados Unidos, Arábia Saudita, Chile e México, a introdução do sistema é mais recente, mas já há produtos agrícolas comercializados que tiveram esse tipo de irrigação – as laranjas de algumas plantações da Flórida, nos Estados Unidos, são um deles. No Brasil o assunto começou a ser estudado com mais profundidade há cerca de 10 anos, exatamente pelo grupo da Esalq. Ainda não existe uma legislação federal específica sobre o tema. Em 2005 uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) definiu as diretrizes gerais do uso de esgoto tratado em cinco diferentes modalidades: irrigação agrícola e florestal, uso urbano, uso industrial, recuperação de áreas degradadas e aquicultura. Agora, para cada uma das práticas, é necessária uma resolução específica que, entre outros aspectos, regulamente a qualidade do efluente. “Um grupo ligado à Câmara Técnica de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Recursos Hídricos já está trabalhando em uma minuta da resolução para a regulamentação do uso agrícola e florestal”, afirma Célia Montes. “Não tenho dúvidas de que, tomando todos os cuidados, já poderíamos estar adotando esse sistema de forma muito mais intensa no país há algum tempo.”
Para os pesquisadores do projeto, o mais indicado é fazer a irrigação com água de reúso sempre pelo método de gotejamento, porque dessa forma evita-se a dispersão de aerossóis contendo partículas do efluente. Em certas culturas, como o capim para feno, em que é necessário irrigar por aspersão, recomenda-se suspender a irrigação em períodos de vento forte. “É uma precaução extra”, diz Adolpho Melfi. Ele destaca também que o ideal é que as estações de tratamento de esgoto estejam localizadas em pontos elevados e próximos à cultura, facilitando o envio dos efluentes tratados para um reservatório junto às plantações. “Também podem ser usados caminhões-pipa no transporte”, afirma Melfi.
Outra preocupação dos pesquisadores é com a aceitação por parte dos produtores e consumidores de alimentos que foram irrigados com esgoto tratado. No ano passado foi feito um estudo com agricultores de Lins sobre a percepção que eles têm desse novo método. A maciça maioria respondeu que não teria problemas em adotar o sistema, desde que ele tivesse sido validado por uma instituição de pesquisa, como a USP, por exemplo. A única ressalva apontada pelos entrevistados foi quanto ao possível custo de implantação e operação do sistema. Esse estudo fez parte de uma das 10 dissertações de mestrado de alunos que participam do projeto desde o início das pesquisas em 2000 e que foi englobado pelo projeto temático, iniciado em 2005 e com previsão de encerramento no próximo ano. Outras sete teses de doutorado e oito trabalhos de pós-doutorado também foram produzidos neste projeto, e mais 14 trabalhos de iniciação científica. “Além de demonstrarmos a viabilidade do sistema, o projeto temático da Fapesp tinha também como objetivo a formação de recursos humanos nesta área”, destaca Melfi.

Artigos científicos

1. Leal, R.M.P.; Firme, L.P.; Montes, C.R.; Melfi, A.J.; Piedade, S.M.S.; Soil exchan geable cations, sugarcane production and nutrient uptake after wastewater irrigation. Scientia Agricola. v. 66, n. 2, p. 242-49. 2009.
2. FONSECA, A.F.; MELFI, A.J.; MONTEIRO, F.A.; MONTES, C.R., ALMEIDA, V.V.; HERPIN,U.; Treated sewage effluent as a source of water and nitrogen for Tifton 85 bermudagrass. Agricultural Water Management. v. 87, p. 328-36, 2007.

O projeto
Uso de efluentes de esgotos tratados por processos biológicos (lagoas de estabilização e reatores Uasb/lodos ativados) em solos agrícolas
Modalidade
Projeto Temático
Coordenador
Adolpho José Melfi – USP
Investimento
R$ 1.055.509,45 e US$ 227.031,64 (FAPESP)

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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A velha nova face do campo

Denise Ribeiro

A concentração de terras continua alta. E a agricultura familiar mostra força.

Avanço da soja, produtores rurais semianalfabetos, 1 milhão de menores de 14 anos trabalhando, agricultura familiar responsável pela segurança alimentar do País, diminuição da área destinada à agropecuária. Esses são alguns dos principais dados apurados e finalmente compilados do Censo Agrope cuário 2006, raio X da estrutura produtiva do agronegócio brasileiro que atualiza os dados de 1995, ano da última medição.

O décimo Censo traça um perfil detalhado de 5,2 milhões de propriedades rurais do Brasil e revela que a concentração de terras permanece praticamente inalterada ao longo dos anos.

O índice de Gini, que mede a concentração fundiária, registrou uma piora. Passou de 0,856 para 0,872. As propriedades com mais de mil hectares ocupam 43% da área total, ante os 2,7% de área ocupada pelas menores (abaixo de 10 hectares), que representam 47% das propriedades. Mas houve uma queda na concentração de terras em 2.360 cidades brasileiras.

O movimento de concentração, segundo o IBGE, foi puxado pelas grandes culturas de exportação (soja e milho, especialmente), pela profissionalização do agronegócio e pelo avanço da fronteira agropecuária em direção à Amazônia e ao Pantanal – impulsionada pela criação de bovinos e pela soja. Com crescimento de 88% na produção, a soja foi a cultura que mais se expandiu na última década, muito em razão do uso de sementes transgênicas, adotada por 46,4% dos estabelecimentos.

A área destinada à agropecuária diminuiu em 23,7 milhões de hectares (-6,69%) em relação a 1995. O IBGE acredita que a criação de novas Unidades de Conservação Ambiental (crescimento de 19,09% de área) e a demarcação de terras indígenas (crescimento de 128,2%), totalizando mais de 60 milhões de hectares, podem explicar a redução.
Nas propriedades, houve diminuição das áreas de florestas (-11%) e de pastagens naturais (-26,6%), e aumento nas áreas de pastagens plantadas de 1,7 milhão de hectares (1,8%). Como era de esperar, o crescimento coincide com o avanço das fronteiras agropecuárias. O maior ocorreu no Centro-Oeste (63,9%), o que pode explicar os índices recordes de desmatamento medidos na região.

Gerente do Censo Agropecuário desde 1991, o engenheiro agrônomo Antonio Carlos Simões Florido participou de cinco levantamentos semelhantes. Prefere, por isso, se distanciar de conclusões simplistas. “Não dá para olhar um dado e emitir um juízo de valor. O resultado será ruim ou bom, dependendo do viés que se dê a ele.”

Dá como exemplo um dos dados mais polêmicos apurados pelo IBGE: o de que há 1 milhão de crianças de até 14 anos trabalhando no campo. “A maior parte delas pertence a famílias de produtores que trabalham e vivem em suas unidades de produção. Os filhos ajudam a capinar, cuidar de galinha, mesmo que frequentem a escola”, argumenta. “Não quero dizer que não há crianças sendo exploradas, mas a maioria ajuda os pais, da mesma forma que pedimos aos nossos filhos para lavar a louça e varrer o chão”, compara.

Os maiores porcentuais de produtores analfabetos ou com poucos anos de escolaridade estão concentrados nas regiões Norte (38%) e Nordeste (58%). No Centro-Oeste (13%) e no Sudeste (11%) aparecem os níveis mais elevados de campesinos com grau técnico agrícola ou ensino médio completo.

O reflexo mais imediato do semianalfabetismo é a aplicação incorreta de agrotóxicos. Segundo o estudo, nos estabelecimentos em que houve aplicação de agrotóxicos, 77,6% dos responsáveis (1,06 milhão) declararam ter ensino fundamental incompleto (1° grau) ou nível de instrução menor. Como as orientações de uso de agrotóxicos que acompanham esses produtos são de difícil entendimento, o baixo nível de escolaridade, incluindo os 15,7% que não sabem ler e escrever (216 mil), está entre os fatores socioeconômicos que potencializam o risco de intoxicação.

Pela primeira vez foi feito um mapeamento minucioso da agricultura familiar, um microcosmo de  4,4 milhões de propriedades espalhadas por 80,25 milhões de hectares (45% deles destinados à pastagem) e com área média de 18,37 hectares. Apesar de representarem 84,4% das propriedades brasileiras, correspondem apenas a 24,3% da área ocupada. As propriedades não familiares, com área média de 309,18 hectares, que representam 15,6% do total dos estabelecimentos, ficam com 75,7% da área ocupada.
Apesar de cultivar uma área menor com lavouras e pastagens (17,7 milhões e 36,4 milhões de hectares, respectivamente), a agricultura familiar é voltada basicamente à produção de alimentos da cesta básica. Em 2006, respondeu pela produção de 87% da mandioca produzida no País, 70% do feijão, 46% do milho e 38% do café.

Também na pecuária as propriedades menores e familiares são fortes. Na produção de leite, respondiam, em 2006, por 58% do total. Tinham ainda 59% do plantel de suínos e 50% do de aves.

Outros dados atualizados do levantamento:

1. Em 2006, a criação de bovinos era a atividade mais comum dos cerca de 5,2 milhões de estabelecimentos agropecuários existentes no País: praticada em 30% deles. Em seguida vem o cultivo de lavouras temporárias, como feijão e mandioca (18%), o de cereais (12%) e a criação de aves (9%).

2. As propriedades rurais ocupavam 36,75% do território nacional.

3. O nível de emprego nas propriedades rurais está diminuindo. Entre o Censo de 1995-1996 e o de 2006, a queda foi de 7,2%.

4. Em 2006, quase 12 milhões de pessoas trabalharam de modo temporário (por até 180 dias). Perto de 4 milhões tinham parentesco com o produtor. Do universo dos temporários, 5 milhões trabalharam na pecuária (ou criação de outros animais) e 4 milhões na lavoura.

5. A cana-de-açúcar é a cultura com maior valor da produção (14%), seguida pela soja (14%), criação de bovinos (10%), cultivo de cereais (9%) e cultivo de outros produtos da lavoura temporária (8%).

6. Os estabelecimentos especializados foram responsáveis por 81% do valor da produção agropecuária. O IBGE considerou como especializado o estabelecimento cuja atividade principal representasse 66% (ou mais) de seu valor total de produção, a soma do valor da produção animal e vegetal e do valor agregado da agroindústria rural.

7. O setor empregou dois de cada dez trabalhadores brasileiros. As pequenas unidades concentravam 84,36% dos trabalhadores rurais.

8. Dos 80,25 milhões de hectares da agricultura familiar, 45% eram destinados a pastagens, 28% a florestas e 22% a lavouras.

Fonte: Carta na Escola – http://www.cartanaescola.com.br/

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Por que os professores adoecem?

Levantamento revela as condições de trabalho e seus reflexos na saúde dos docentes

ISABEL GARDENAL

Uma pesquisa de fôlego sobre as condições de trabalho e suas repercussões na saúde dos professores da educação básica, que começou com um levantamento de teses e livros de toda a produção do país nos últimos dez anos, culminou com um livro sobre o assunto. O projeto – encabeçado pela Fundacentro, instituição vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego que promove pesquisas científicas e tecnológicas sobre a saúde dos trabalhadores, e que teve apoio financeiro da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC) – contou com a coordenação das professoras Aparecida Neri de Souza e Márcia de Paula Leite, do Departamento de Ciências Sociais na Educação (Decise) da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp. Reúne em mais de 100 páginas o estado da arte a partir de temas como o trabalho docente em números, o mal-estar docente, o estresse emocional, os distúrbios vocais e a síndrome de Burnout. As primeiras conclusões foram categóricas: é preciso conhecer mais as causas que levam os professores a adoecerem, não somente combater as consequências.

O projeto que coube à equipe da Universidade, composta por 13 colaboradores (entre eles professoras da Unesp de Araraquara, pesquisadoras da USP, doutores e pós-graduandos da FE), além das coordenadoras, consistiu em uma análise das tendências, nas pesquisas acadêmicas, sobre o trabalho e a saúde de professores no período entre 1998 e 2007. Para fundamentar o trabalho, as coordenadoras analisaram 64 resenhas (50 dissertações, 10 teses de doutorado e 4 livros) elaboradas pelos pesquisadores; o levantamento foi feito com base no Banco de Dissertações e Teses organizado pela Capes, no Sistema de Bibliotecas da Unicamp, com base acervus, e nas bases de dados das bibliotecas das universidades brasileiras que foram consultadas em meio eletrônico. Foi empregado também o sítio do Scientific Electronic Library On Line (Scielo), organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para concluir o levantamento, foram gastos dois meses, exigindo dedicação de seus participantes, conhecimento teórico e metodológico sobre educação e trabalho. Mas o trabalho ficou robusto e permitiu dar visibilidade à produção das universidades brasileiras em torno da temática. Fruto dos estudos, eles agora estão organizados em dois volumes – o primeiro com o estado da arte e o segundo com as resenhas.

Um ponto que sobressaiu facilmente à análise foi que, embora a escola sendo reconhecida grosso modo como uma instituição em que as condições de trabalho são ruins, o professor foi considerado, paradoxalmente, um profissional com alta qualificação profissional no mercado. Ainda que soe uma contradição, ficou claro que o professor não realiza suas tarefas mecanicamente e busca um sentido para o trabalho que faz. Neste particular, a pesquisa revelou que o trabalho do professor, organizado em ciclos longos e flexíveis, favorece o seu controle, ainda que relativo, sobre o processo de ensino, expressão de criatividade e inovação.

O material coletado contextualizou o trabalho docente no presente, ao relacioná-lo às exigências crescentes da sociedade e ao levar em conta a realidade social marcada pelas desigualdades sociais, pela violência e pela falta de perspectiva de futuro dos jovens (grupo social mais atingido pelo desemprego). Conforme a pesquisa, esses aspectos têm criado uma crise de identidade nos professores, que vão perdendo a referência sobre o que devem fazer no ofício de ensinar.

A importância da escola no processo de mobilidade social, relata Neri, tem sido colocada em dúvida, ao mesmo tempo em que o mundo do trabalho vem valorizando-a como uma possibilidade de acesso ao restrito mercado de trabalho. Sem garantir, no entanto, a inserção dos jovens escolarizados. Tudo isso lança uma pergunta que parece cada vez mais difícil de ser respondida: qual o papel social da escola atualmente?

A dificuldade de responder a essa questão tem levado a outra contradição no universo escolar: entre o cotidiano dos professores e a teorização do papel da escola. A defasagem entre o trabalho a ser realizado e a realidade é cada vez maior, segundo as pesquisadoras. Os autores a caracterizam como “a face oculta de nossa modernidade” e concluem que, quanto maior for essa defasagem, maior será o investimento afetivo e cognitivo exigido do professor, demandando maior esforço e sofrimento psíquico dele.

Um panorama a ser considerado, e que permeou o levantamento, foi a necessidade ainda do estabelecimento de um vínculo afetivo e emocional para o exercício da atividade docente. Entretanto, o trabalho sugeriu que este vínculo está sendo bloqueado pelo jogo de interdições que caracterizam a atuação dos profissionais da educação. “Isso define o aparecimento de sofrimento psíquico, que ocorre quando o investimento, afetivo, emocional e cognitivo, não tem retorno, como nas relações entre professor e aluno”, exemplifica Neri. “Mas isso não fornece base e argumentos fortes para responsabilizar a qualificação da força de trabalho dos profissionais da educação pelas mazelas e pela baixa qualidade do ensino no Brasil”, esclarece.

Achados
Durante o levantamento, a equipe da Unicamp cruzou dados sobre o número de professores e sua escolarização com o nível de ensino. Atualizando esses dados com os do Censo de 2007, temos que dos 1.882.961 professores brasileiros que davam aulas no ensino básico, 75% estavam concentrados no ensino fundamental, sendo que 36% davam aulas para as quatro séries iniciais e 39% nas quatro séries finais. Ainda na educação infantil e no ensino fundamental, professores com escolaridade equivalente ao ensino médio eram quase a metade, embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 indicasse que todos deveriam ter nível superior.

Os dados apontaram que possuíam, em 2007, formação profissional em nível superior: 65% dos professores da educação fundamental (quatro séries iniciais) e 42% das creches. Dentre os professores do ensino fundamental (quatro séries finais) e ensino médio (antigo segundo grau), que historicamente são formados em cursos de licenciatura de nível superior, 15% ainda não possuíam esta escolaridade.

A escolarização dos professores brasileiros, menciona Márcia, mesmo tendo passado por um período de investimento em políticas de formação profissional, ainda conta com um contingente expressivo que não tem ensino superior. Estes dados foram obtidos do Censo Escolar da Educação Básica, de 1997, por não estarem disponíveis para consulta, à época, o último censo. Cabe aqui uma ressalva de Márcia: os dados mudaram do Censo do Professor, realizado em 1997, para o Censo da Educação Básica de 2007. “Em 1997, apenas 50% dos professores brasileiros tinham escolaridade de nível superior. Hoje são 70%”, informa.

Ao avaliarem a diversidade regional do território brasileiro, as pesquisadoras perceberam pouca participação da esfera federal na oferta do ensino básico. Esse achado continua válido com a atualização dos dados para 2007: a escola pública continua em 2007 majoritariamente municipal, em relação ao país todo, com 44% dos professores brasileiros trabalhando nestas escolas. No Nordeste eram 59%, no Sudeste 35%, no Sul 37%, no Norte 53% e no Centro-Oeste 42%.

Abordando a distribuição dos docentes por sexo, o Censo da Educação Básica, de 2007, revelou que o espaço da educação básica era particularmente feminino. Dentre 1.882.961 docentes, 1.542.925 eram do sexo feminino contra 340.036 do sexo masculino. Em termos percentuais, isso representava um universo de 82% de mulheres e apenas 18% de homens. Uma tendência que persiste na sociedade é que o perfil predominantemente feminino se modifica quando os professores percorrem os diferentes níveis de ensino. Essa participação feminina concentra-se principalmente nos níveis inferiores, no ensino infantil e fundamental I, onde elas constituíam mais de 90%, no ensino fundamental II (quinta à oitava série), onde elas eram 74% e no ensino médio, no qual perfaziam 64%. “Esta concentração, se considerarmos as relações de gênero, tem efeitos evidentes sobre a saúde dessas professoras, se levarmos em conta não somente os baixos níveis salariais que predominam, mas também as condições em que as mulheres desenvolvem o trabalho, assim como a maior incidência de sofrimento mental, estresse emocional e Burnout entre elas”, pontua Neri.

Se a gestão escolar é democrática, com mais participação social, tem impactos positivos sobre as relações de trabalho nas escolas, apontam as pesquisas. Segundo as coordenadoras da pesquisa, a forma democrática é oportunidade alvissareira para melhorias das condições de trabalho, com ações de combate à violência e defesa do patrimônio público contra atitudes de vandalismo, além de melhoria da qualidade do ensino. Em escolas geridas democraticamente, verificou-se inclusive uma maior participação da comunidade e envolvimento dos familiares nos problemas comuns da escola.

Os dados do Censo dos Profissionais do Magistério, de 2003, sugeriram que os professores que exercem sua função na educação infantil e no ensino fundamental de primeira a quarta série recebiam os salários mais baixos, em média R$ 676,00 mensais. Aqueles que atuavam no ensino fundamental de quinta a oitava série recebiam em média R$ 854,56 e os do ensino médio atingiam maiores remunerações: R$ 1.059,80.

No levantamento, tomando como exemplo algumas ocupações de diversos níveis de especialização, depreendeu-se que, mesmo aquelas que requeriam baixa escolaridade ou formação profissional de nível básico, alcançaram níveis mais elevados de remuneração, especialmente os de educação infantil. Entre os docentes do ensino médio, os salários são, em sua grande maioria, inferiores aos recebidos por profissionais com escolaridade equivalente ao nível técnico (veja na página ao lado).

Mal-estar docente
Uma primeira radiografia demonstrou que a discussão sobre trabalho e saúde do professor no país avançou significativamente na última década. Não obstante, prosseguem algumas deficiências sinalizando para o longo caminho a ser percorrido – a sua exposição a temperaturas inadequadas, ruídos, superlotação das salas, cansaço extremo pelas longas jornadas de trabalho, dupla jornada das mulheres, falta de tempo para si e para se atualizarem, angústia pelas exigências sociais em termos de atividades, complexidade das tarefas aliada à falta de recursos, problemas sociofamiliares dos alunos, ritmo de trabalho, multiplicidade de tarefas simultaneamente às posturas desconfortáveis, pouca frequência de pausas, falta de valorização, burocratização das atividades, falta de diálogo com a administração das escolas e expansão dos contratos de trabalho temporários e eventuais.

Conforme Neri, em geral os professores enfrentam estes problemas respondendo com atrasos, faltas, queda da qualidade e desinteresse pelo trabalho, e adoecimento. Um fato intrigante, expõe ela, é que a legislação trabalhista ainda não reconhece como doença ocupacional o estresse laboral e os distúrbios da voz. Somam-se a isso algumas estratégias de resistência que são adotadas pelos professores: um processo de desinvestimento subjetivo e individualismo; a recusa à troca de série, método de ensino e resistência a inovações tecnológicas; atribuição de culpa aos alunos por seu fracasso escolar; desvio de função; licença sem vencimento; uso da família como bode expiatório; recusa para se assumir como professor da escola pública; e evasão ou abandono da profissão.

A partir do estado da arte, foram realizadas entrevistas com professores para conhecer as atividades e condições de trabalho, procurando entender como elas podem afetar a sua saúde, pelos pesquisadores da Fundacentro em colaboração com as confederações sindicais de professores do setor público e do setor privado. Nestas entrevistas, o professor de uma escola estadual de SP relatou: “eu trabalho só no Estado. Já trabalhei em escola particular e no Estado e no município e no Estado. Agora estou com dois cargos no Estado, não com carga horária integral em cada um porque não aguento. Mas tem professores que dão até 64 aulas semanais.” Outros dois professores mencionaram os dilemas em escolas privadas de SP: “tenho 50 alunos na sala de aula. Para mim, é normal ter 50 alunos na rede estadual, mas não na particular” e “é uma jornada estafante demais. São 20 turmas por semana em escola pública”.

Através de apurada revisão da literatura, foi possível estabelecer um consenso que o mal-estar docente é um fenômeno social do mundo ocidental que possui como agentes desencadeadores a desvalorização concomitante às constantes exigências profissionais, a violência e a indisciplina, entre outros fatores, que acabam por promover uma crise de identidade em que o professor passa a se questionar sobre a sua escolha profissional e o próprio sentido da profissão. “Praticamente a totalidade dos trabalhos analisados faz referência ao mal-estar docente, discutindo como ele se manifesta em diferentes contextos do ensino básico, em escolas públicas e em escolas privadas”, conta Márcia.

Riscos
Esse mal-estar passa a se manifestar em sentimentos negativos intensos como angústia, alienação, ansiedade e desmotivação, além de exaustão emocional, frieza perante as dificuldades dos outros, insensibilidade e postura desumanizada. A profissão docente é hoje considerada como uma das mais estressantes, uma profissão de risco, conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT). E, não raro, os professores partem para a fuga de olhar o processo sem se reconhecer nele. Nas mulheres, os principais efeitos do mal-estar são amenorreia, cefaleia, melancolia climatérica, frigidez, anorexia, bulimia, neurose de ansiedade e psicose depressiva .

A opção de ouvir professores de escolas públicas e privadas se mostrou acertada, de acordo com as coordenadoras do estado da arte, para desmistificar a ideia de que somente na escola pública há difíceis condições de trabalho. Serviu ainda para apontar que os múltiplos empregos são assumidos por professores para conseguir um ganho razoável no fim do mês. Mas o mais importante foi evidenciar como as condições nas quais os professores realizam seu trabalho produzem seu adoecimento físico e mental e que eles enfrentam estes problemas de forma individualizada. As autoras reiteram que as pesquisas mostram a necessidade de o poder público construir políticas públicas que enfrentem as suas origens em oposição às políticas que pretendem atingir somente os efeitos, tais como a premiação dos assíduos.

Muitos outros pontos foram analisados pela pesquisa, entre os quais distúrbios vocais, que atingem significativamente os professores que fazem uso da voz como instrumento de trabalho, e a síndrome de Burnout. Esta síndrome vai avançando com o tempo, corroendo devagar o ânimo do trabalhador, que vai se apagando. É uma desistência de quem ainda está lá, encalacrado em uma situação de trabalho que não pode suportar, mas que, concomitantemente, também não pode desistir. O trabalhador arma inconscientemente uma retirada psicológica, um modo de abandonar o trabalho, apesar de continuar no posto. Está presente na sala de aula, mas passa a considerar cada aula, cada aluno, cada semestre como números que vão se somando em uma folha em branco. Os estudos sobre a síndrome em professores a associam a respostas individuais aos estressores interpessoais ocorridos em situações de trabalho. Uma diferença significativa entre o Burnout e o estresse é que este último afeta somente a pessoa envolvida, enquanto o Burnout afeta todos os envolvidos na situação de trabalho e nas relações pessoais, prejudicando não apenas o professor, mas também os alunos e comprometendo todo o processo de ensino-aprendizagem. A alta frequência do Burnout entre os professores brasileiros consiste numa evidência das difíceis condições de trabalho a que eles estão submetidos e, em consequência, as precárias condições de ensino e aprendizagem que ainda estão presentes na maior parte das escolas do ensino básico do país.

Projeto foi estruturado em três ações

A Fundacentro é uma fundação de natureza jurídica de Direito Público que tem por finalidade principal a realização de estudos e pesquisas na área da saúde e segurança do trabalho e a difusão desses conhecimentos. Neste contexto, o projeto “Condições de trabalho e suas repercussões na saúde dos professores na educação básica no Brasil” teve dois objetivos principais. O primeiro foi conhecer as condições de trabalho desses professores em diferentes situações de trabalho, como zona rural e urbana; escolas municipais e estaduais; ensino infantil e/ou fundamental e/ou médio, grandes ou pequenas cidades, em todas as regiões do Brasil.
Entendeu-se aqui por condições de trabalho o conjunto dessas condições, materiais ou não, em que o trabalho de um grupo de trabalhadores é exercido e compreende desde as condições contratuais de trabalho e os níveis de remuneração até as características dos locais, as especificidades das tarefas e atividades exercidas. O segundo objetivo foi relacionar as diferentes condições de trabalho com a saúde dos professores.

O projeto foi estruturado em três ações: a produção de um relatório, denominado Estado da Arte, sobre os estudos recentes acerca das condições de trabalho (já concluída); a análise coletiva do trabalho ou no que consiste o trabalho dos professores e no que ele difere conforme as situações em que é praticado (esta etapa foi realizada nas cidades de São Paulo, Salvador e Vitória da Conquista (BA), Teresina, Água Branca, Picos e Luís Correa (PI), Campo Grande, Belém e Porto Alegre; e a publicação e distribuição de livros com os resultados finais do projeto.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Agricultores de SP desmatam o cerrado apesar de multas altas

Nilbberth Silva

Proprietários rurais do cerrado paulista escolhem usar a área de preservação obrigatória das suas terras em atividades como agricultura e pastagem correndo o risco de pagar multa – mesmo que o valor da multa seja muito superior ao lucro obtido com a exploração das terras. A constatação é do administrador e biólogo Alexandre Igari, que desenvolve no Instituto de Biociências (IB) da USP uma pesquisa de doutorado sobre o tema.

Pesquisa propõe linhas de crédito específicas para agricultores que obedecem a lei

Estudo propõe linha de crédito específica para agricultor que obedece a lei.

O pesquisador explica que o Código Florestal Brasileiro obriga os donos de terras a preservar algumas áreas frágeis de suas propriedades rurais, como margens de rios. Obriga também que 20% do território restante seja usado apenas em atividades que obedeçam a um plano aprovado pelo governo, como ecoturismo e extrativismo sustentável. Caso sejam pegos utilizando a área, chamada de Reserva Legal, os donos pagam uma multa de cerca de R$5.000 por hectare. A pesquisa propõe que o governo desenvolva linhas de crédito específicas para agricultores que obedecem à lei.

Igari estudou os 349 municípios paulistas que possuem mais de 10% do seu território na área original do cerrado. Ele calculou o quanto os proprietários lucrariam em média se alugassem a terra da reserva legal ou a usassem para as principais atividades econômicas das zonas rurais das regiões – por exemplo, agropecuária ou plantação de eucaliptos.

Era de se esperar que só desobedecessem a lei os municípios onde os lucros obtidos com a exploração e com o aluguel das terras fossem mais altos que o valor da multa. Contudo, apenas seis municípios, que cultivavam frutas, apresentavam lucratividade anual maior do que o valor da multa. E somente em 100 municípios o valor esperado do aluguel era maior do que o valor da multa. Em apenas cinco municípios foi observado o percentual mínimo de Reserva Legal.

Falta fiscalização
“Os agricultores preferem desmatar o cerrado porque a chance de ser pego na fiscalização é muito baixa e não há benefícios financeiros para quem obedece a lei”, explica Igari. Na verdade, os bancos são proibidos de negarem o Crédito Rural, com juros subsidiados pelo governo, a agricultores que desobedeçam ao Código Florestal. A única condição é que eles tenham condições de pagar os empréstimos e as multas decorrentes da infração.

“Com isso, o governo acaba financiando atividades que desrespeitam as leis ambientais”, resume o biólogo. Ele está aperfeiçoando em sua tese uma solução em que tanto os produtores rurais quanto o meio ambiente se beneficiariam. A sugestão é que mudem as regras de crédito rural, de maneira que somente produtores que respeitassem a lei recebessem o benefício. Outra idéia é que o governo utilize linhas de crédito internacionais, como as do Banco Mundial, para aumentar os subsídios para produtores que se enquadram no código florestal.

“O esquema seria atrativo para fontes estrangeiras de financiamento ambiental porque mesmo as taxas de juros subsidiadas no Brasil são muito competitivas, comparadas com as dos países desenvolvidos”, explica Igari em artigo sobre a pesquisa publicado em junho de 2009 na revista Environmental Management . “Proprietários de terras se beneficiariam de uma maior disponibilidade de recursos subsidiados para fazer novos investimentos. Isso poderia aumentar a produtividade e lucratividade, mesmo de acordo com as leis ambientais.”

O cerrado é considerado por pesquisadores de ecologia um hotspot – área com pelo menos 1500 espécies que vivem apenas na região e que tenha perdido mais de 70% da vegetação original. Em São Paulo, somente 8,5% da área original do cerrado permanece preservada, sendo que 93,5% se encontram em propriedades particulares.

A tese de doutorado de Igari, orientada pela professora Vânia Regina Pivello, deve ser defendida em 2011.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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Hadzas

Eles não cultivam alimentos, não criam animais e desconhecem calendário e leis escritas. São caçadores-coletores que ainda vivem quase exatamente como há 10 mil anos. O que eles sabem que nós esquecemos?

Michael Finkel
Foto: Martin Schoeller

Hadzas

Todos carregam alguma coisa do local da caça para o acampamento. Kapala leva a cabeça de um antílope para a próxima refeição. Seu grupo, composto por parentes e amigos, irá se banquetear até acabar a carne.

"Estou com fome", diz Onwas, ao pé da fogueira, em meio à fumaça. Os homens ao lado concordam com murmúrios. É noite no coração da mata no leste da África.
Um canto, uma entoação ritmada, chega até nós vindo do acampamento das mulheres. Onwas fala de uma árvore que avistou em suas andanças. Os homens em volta da fogueira se aproximam. Está num lugar difícil, explica Onwas, no alto de um morro íngreme que se destaca na planície. E a árvore, diz ele abrindo os braços como se fossem galhos, está cheia de babuínos. Mais murmúrios. Fagulhas sobem para a imensidão estrelada do céu. Decidem. Todos se levantam e pegam seu arco de caça.
Onwas é velho, talvez tenha mais de 60 anos – ano não é a unidade de tempo que ele usa -, mas é esguio e forte como um típico hadza. Deve ter cerca de 1,5 metro de altura. Traz nos braços e no tronco os hieróglifos de toda uma vida na mata: cicatrizes de caçadas, cicatrizes de picadas de cobra, cicatrizes de flechas, facas, escorpiões e espinhos. Cicatrizes de quando caiu de um baobá. Cicatrizes de um ataque de leopardo. Metade de seus dentes ainda está na boca. Ele usa sandália feita de pneu velho e calção marrom esfarrapado. Leva à cintura uma faca de caça embainhada em um estojo de couro de dik-dik. Tira a camisa, como a maioria dos outros, porque deseja se camuflar na noite.
Onwas olha para mim e fala em hadzane. Para meus ouvidos, soa estranhamente bipolar: cadenciada e suave por umas frases, em seguida dissonante e percussiva com estalos de língua e crepitações glotais. É uma língua sem nenhum parentesco próximo de qualquer outra hoje viva – isolada, na terminologia dos linguistas.
Cheguei à terra dos hadzas no norte da Tanzânia com uma intérprete chamada Mariamu. Ela é sobrinha de Onwas. Frequentou a escola por 11 anos e é uma das pouquíssimas pessoas que falam inglês e hadzane. Ela interpreta as palavras de Onwas: eu gostaria de ir junto?
O simples fato de eu ter chegado aqui já é uma proeza. Não são apenas os anos que os hadzas não contam. Eles também ignoram as horas, os dias, as semanas e os meses. Assim, marcar um encontro pode ser complicadíssimo. Mas eu havia pedido ao dono de um acampamento turístico que tentasse dar um jeito para que eu passasse um tempo com um grupo hadza remoto. Durante uma de suas excursões, esse homem deparou com Onwas e perguntou-lhe, em suaíli, se eu poderia fazer uma visita. Ele disse que eu seria o primeiro forasteiro a viver em seu acampamento. Prometeu mandar seu filho a uma determinada árvore na orla da mata para me esperar no dia marcado, dali a três semanas.
Dito e feito: três semanas depois, quando a intérprete e eu chegamos à mata, lá estava o filho de Onwas, Ngaola, a nossa espera.
De início, estava evidente que todos no acampamento – cerca de duas dúzias de hadzas – se sentiam constrangidos com minha presença. Encaravam-me, davam risadas nervosas. Eu trouxe um álbum de fotos, e mostrá-lo ajudou a atenuar o mal-estar. Onwas interessou-se por uma foto de meu gato. No terceiro dia de minha estada, ele pergunta se eu quero me juntar à caçada.
Sim, quero, é claro. Fico de camisa, pois minha pele não se confunde com a noite, e sigo Onwas, outros dez caçadores e dois garotos. Saímos do acampamento em fila indiana. Andar pelo território dos hadzas na escuridão é dureza; arbustos e acácias espinhentos dominam o terreno, e mesmo de dia não dá para evitar arranhões, estocadas e furos.
À noite os espinhos são invisíveis, e orientar-se parece impossível. Não há trilhas e as referência são raras. Deslocar-se pela mata no escuro, sem lanterna, requer o tipo de familiriadade que se tem, por exemplo, com o próprio quarto.
Para Onwas, a orientação não é problema. Ele vive na mata desde que nasceu. Sabe acender uma fogueira girando um graveto entre as mãos. Sabe conversar com um passarinho nativo conhecido como indicador: troca assobios com a ave, e ela o leva a colmeias com mel. Ele sabe tudo o que há para saber sobre a mata, e quase nada sobre o que há além dela.

Mil hadzas vivem em suas terras tradicionais, uma vasta planície que engloba um lago raso e salobro, o Eyasi, abrigada pelas escarpas do grande vale Rift. Alguns mudaram-se para perto de vilarejos e foram trabalhar para lavradores ou como guias de turistas. Mas outros, inclusive os do acampamento de Onwas, continuam a ser caçadores-coletores. Não têm plantações nem animais de criação ou abrigo permanente. Vivem logo ao sul da mesma parte do vale na qual foram encontradas algumas das mais antigas evidências fósseis dos primeiros seres humanos. Exames genéticos indicam que eles podem representar uma das raízes primárias da árvore genealógica humana – originada talvez há mais de 100 mil anos.
O que os hadzas parecem oferecer é um vislumbre de como poderia ter sido a vida antes do surgimento da agricultura, 10 mil anos atrás. Os antropólogos têm o cuidado de não qualificar os caçadores-coletores de nossa era como "fósseis vivos", diz Frank Marlowe, professor de antropologia que passou 15 anos estudando os hadzas. O tempo não parou para eles. Mas esse povo manteve seu modo de subsistir extraindo alimento da mata, apesar de há tanto tempo viver em contato com agricultores nas proximidades.
Por mais de 99% do tempo desde os primórdios do gênero Homo, há 2 milhões de anos, todos viveram como caçadores-coletores. Mas, quando plantas e animais foram domesticados, essa inovação desencadeou uma total reorganização do planeta. A produção de alimentos cresceu com o aumento populacional, o que permitiu às sociedades agrícolas desalojar ou destruir esses grupos. Surgiram povoados, depois cidades e países. Com isso, o estilo de vida dos caçadores-coletores quase se extinguiu. Hoje apenas um punhado de povos esparsos – alguns na Amazônia, dois no Ártico, alguns em Papua-Nova Guiné e um número ínfimo de grupos africanos – mantém uma existência baseada na caça e na coleta. Mas o súbito advento da agricultura teve seu preço. Introduziu epidemias, estratificação social, fomes e guerras.
Os hadzas não entram em guerras. Nunca viveram em grupos com densidade para serem ameaçados por um surto infeccioso. Não têm em sua história nenhum caso de fome coletiva; existem, inclusive, evidências de que pessoas de grupos agrícolas foram viver com eles durante uma época de fracasso na colheita. A dieta permanece, mesmo hoje, mais estável e variada que a da maioria dos seres humanos do planeta. Eles desfrutam de tempo para o ócio. Antropólogos estimaram que os hadzas “trabalham” – procuram comida ativamente – de quatro a seis horas por dia. E, em todos esses milênios, não têm deixado muito mais que pegadas na terra.
Os hadzas tradicionais vivem quase sem posses. As coisas que possuem – um pote para cozinhar, um machado – podem ser embrulhadas num cobertor e carregadas no ombro. As mulheres colhem bagas silvestres e frutos de baobá e escavam tubérculos comestíveis. Os homens caçam e coletam mel. Emboscar babuínos à noite é um ato feito em grupo e apenas algumas vezes no ano; a caça é uma ação individual. Eles comem quase tudo o que puderem abater: ave, gnu, zebra, búfalo, javali e hirace. São loucos por carne de babuíno; Onwas gracejou dizendo que um homem hadza não arranja mulher antes de ter matado pelo menos cinco babuínos. A principal exceção são as cobras. Os hadzas detestam cobra. O veneno com que os homens besuntam a ponta de suas flechas, feito de seiva fervida da flor Adenium obesum, é potente o bastante para derrubar uma girafa.
Um acampamento hadza é formado de parentes consanguíneos, parentes afins e amigos que se associam sem compromisso. Cada acampamento tem seus membros nucleares, mas a maioria vem e vai quando bem entende. Os hadzas não reconhecem nenhum líder. É tradição chamar o acampamento pelo nome de um dos homens mais velhos (“o acampamento de Onwas”, por exemplo), mas tal honra não confere poder especial. Autonomia individual é sua marca registrada. Nenhum adulto tem autoridade sobre outro. Não existem uns mais ricos; ninguém tem riqueza alguma. Há poucas obrigações sociais: nada de aniversários, comemorações anuais.
Cada um dorme quando quer. O amanhecer e a tardinha são as principais horas de caça. No resto, os homens ficam pelo acampamento, endireitando setas, entalhando arcos, fazendo cordas de arco com ligamentos de girafa ou impala, fixando pregos em ponta de flechas. Eles trocam mel pelos pregos e por plásticos coloridos e contas que as mulheres transformam em colares.
Não existem cerimônias de casamento – um casal que dorme ao pé da mesma fogueira por algum tempo pode se considerar casado. A maioria dos hadzas que conheci é monógama serial: trocam de parceiros a cada poucos anos. Onwas é uma exceção: ele e sua mulher, Mille, estão juntos por toda a vida adulta, têm sete filhos vivos e vários netos. Há um bando de crianças no acampamento, e a avó residente, uma senhora miúda e alegre chamada Nsalu, incumbe-se dos serviços de "creche", cuidando da criançada enquanto os adultos estão no mato.

Os papéis masculino e feminino são distintos, mas, para as mulheres, não há nada da subserviência forçada. Um número significativo de mulheres hadzas que se casam fora do grupo logo retorna, pois elas não aceitam cabresto. Entre os hadzas, é a mulher quem toma iniciativa na separação. No acampamento de Onwas, alguns dos membros mais arrojados são mulheres.
Onwas sabe sobre os 20 grupos de hadzas em sua área que permutam seus membros como numa dança de quadrilha. A maioria dos conflitos é resolvida de maneira simples: as partes em desavença separam-se em acampamentos diferentes. Quando alguém traz caça, divide com todos, e em geral o tamanho do grupo não ultrapassa 30 pessoas. Minha visita é feita na estação seca, que dura seis meses, de maio a outubro. É quando dormem ao relento, embrulhados num cobertor fino ao pé do fogo. Os grupos que se juntam para dormir são variados: famílias, homens solteiros, moças (com uma mulher mais velha de guardiã), casais. Na estação chuvosa, constroem pequenos abrigos abobadados feitos de ramos entrelaçados e folhas compridas de capim – um ninho de ave de cabeça para baixo.
Ninguém dorme sozinho. Onwas mandou seu filho Ngaola ficar comigo, e Ngaola recrutou seu amigo Maduru para se juntar a nós. Dormimos ao redor da fogueira. Mas, quando os mosquitos ficam ferozes, vou dormir na minha barraca.
Ngaola é calado e introspectivo, e é mau caçador. Tem uns 30 anos e ainda não se casou – culpa da regra dos cinco babuínos, suponho. Ele exaspera-se porque seu irmão, Giga, é o mais hábil arqueiro do acampamento. Maduru é bom nas andanças pelo mato para encontrar mel, mas não se ajusta bem entre os hadzas.
Maduru é um dos que assume a responsabilidade por mim na noite em que saímos para caçar babuíno. Atravessando a mata, ele vai quebrando ramos de acácia que têm espinhos do tamanho de um palito de dentes. Onwas guia-nos até o morro onde viu uma árvore cheia de babuínos.
Ali paramos. Eles fazem sinais de mão, conversam com estalidos. Não entendo bem o que se passa – minha intérprete ficou no acampamento. Caça é para homens. Mas Maduru dá um tapinha em meu ombro e faz sinal para que eu o siga. Os outros caçadores começam a distribuir-se ao redor da base do morro, e eu colo nos calcanhares de Maduru quando ele mergulha no matagal e começa a subir. O aclive parece vertical e as moitas são densas como Bombril. Espinhos rasgam minhas mãos, meu rosto. Um fio de sangue goteja em meu olho. Escalamos. Sigo Maduru bem de perto.
Por fim, entendo. Estamos subindo na direção dos babuínos. Tentando sobressaltá-los para que saiam correndo. De onde estão, no alto do morro, os babuínos não têm alternativa senão descer. Os hadzas circundaram o morro; portanto, os babuínos correrão na direção dos caçadores.
Você já viu um babuíno de perto? Seus dentes são feitos para rasgar carne. Um macho adulto pode pesar mais de 35 quilos. E cá estamos, escalando, tentando provocá-los. Os hadzas vão armados de arco e flecha. Eu tenho um canivete.
Subimos mais. Maduru e eu emergimos do mato em cima de umas rochas. Vejo a Lua em forma de foice, sinto uma brisa. Estamos perto do topo – que é apenas uma pilha de rochas grandes, talvez 6 metros acima de nós. A árvore dos babuínos está lá no alto, quase visível.
E, então, ouço. Um som estridente, alucinado. Os babuínos percebem que há algo errado. O som denota pânico. Não é difícil interpretar: vão embora! Não se aproximem! Mas Maduru sobe mais, chega a uma rocha achatada. Eu o sigo. Os babuínos estão cercados, e parecem sentir isso.
Abruptamente, um novo som. Estalo de ramos se quebrando acima de nós. Os babuínos descem aos berros. Maduru petrifica-se; com um joelho no chão, empunha o arco, retesa a corda. Está pronto. Eu, atrás, fico na torcida para que nenhum babuíno venha em nossa direção.
A gritaria recrudesce. Acima de nós, a silhueta recortada contra o fundo estrelado, aparece um babuíno. Movimentos atabalhoados. Maduru levanta-se, faz pontaria, segue o babuíno da esquerda para a direita, flecha em posição, arco retesado ao máximo. Cada músculo de meu corpo está tenso. Tenho a mão travada no canivete.

A principal razão de os hadzas conseguirem manter seu modo de vida é que suas terras nunca foram um lugar convidativo. O solo é salobro, a água doce é escassa e os insetos podem ser intoleráveis. Por isso os hadzas foram deixados em paz. Mas pressões populacionais cada vez mais intensas trouxeram uma avalanche de gente. O trato tão delicado que esse povo tem com a terra de certo modo os prejudicou: a região é vista por forasteiros como vazia e inculta, um lugar implorando por desenvolvimento. Os hadzas, que não são um povo combativo, quase sempre se mudam em vez de lutar. Só que agora não têm mais para onde recuar.
Existem na mata dos hadzas pastores de bois e cabras, plantadores de cebola e de milho, caçadores esportivos e caçadores ilegais. As cacimbas estão poluídas por excremento bovino. A vegetação é pisoteada pelos rebanhos. A terra é desmatada para plantio, e a escassa água é usada para irrigação. Os animais de caça migraram para os parques nacionais – para onde os hadzas não podem segui-los. Bosques de frutas silvestres e árvores que atraem abelhas foram destruídos. No século passado, os hadzas perderam a posse exclusiva de até 90% de sua terra natal.
Nenhum dos outros grupos étnicos que vivem na área é caçador-coletor. Vivem em choças de barro, muitas delas em meio a cercados para animais de criação. Vários menosprezam os hadzas, e os olham com um misto de piedade e repulsa: os intocáveis da Tanzânia. Uma vez vi membros da tribo Datoga impedir mulheres hadzas de se aproximarem de uma cacimba comunal enquanto suas vacas não terminassem de beber.
Estradas de terra hoje cortam a orla da mata dos hadzas. Uma estrada pavimentada fica a quatro dias de caminhada. A maioria dos hadzas, inclusive Onwas, aprendeu a falar um suaíli básico para se comunicar com outros grupos. Alguns dos mais jovens me perguntaram se eu podia lhes dar uma arma de fogo. O próprio Onwas sente que mudanças profundas estão chegando. Isso não parece inquietá-lo. Como me disse várias vezes, ele não se preocupa com o futuro. Não se preocupa com coisa alguma. Aliás, nenhum hadza que conheci parece propenso a se preocupar. É uma mentalidade que me assombra, pois os hadzas, no meu entender, têm razões de sobra para preocupação. Comerei amanhã? Alguma coisa me comerá amanhã? Apesar disso, eles vivem no presente.
Mas há outras pessoas que se preocupam, sim, com o futuro dos hadzas. Autoridades do governo tanzaniano para começar. A Tanzânia é um país que olha para o futuro, anseia por entrar no turbilhão da economia global. Silvícolas caçadores de babuíno não são uma imagem que muitos líderes da nação queiram projetar. Um ministro qualificou os hadzas de atrasados. O presidente da Tanzânia, Jakaya Kikwete, afirmou que os hadzas "precisam ser transformados". O governo quer vê-los na escola, morando em casas e trabalhando em uma ocupação decente.
Até um hadza que se tornou um porta-voz oficioso do grupo, Richard Baalow, concorda com os objetivos do governo. Baalow, que adotou um prenome não hadza, foi um dos primeiros a frequentar uma escola. Nos anos 1960 sua família vivia em um alojamento construído pelo governo – uma tentativa de fixar os hadzas, logo malograda. Baalow, de 53 anos, fala muito bem inglês. Quer que os hadzas se tornem politicamente ativos, lutem pela proteção legal de suas terras e procurem emprego como guias de caça ou guardas-florestais. Ele incentiva as crianças hadzas a ir à escola primária da região.
As crianças em idade escolar dizem que não têm interesse em se sentar numa sala de aula. Se forem à escola, explicaram, nunca dominarão as habilidades necessárias à sobrevivência. Serão párias em seu povo. E, se tentarem a sorte no mundo moderno, o que poderá acontecer? As mulheres talvez possam se tornar empregadas domésticas; os homens, trabalhadores braçais. É muito melhor, dizem eles, ser livre e alimentado na mata que pobre e esfomeado na cidade.
Mais hadzas se mudaram para a área hadza tradicional de Mangola, onde, em troca de dinheiro, demonstram sua perícia de caçadores aos turistas. Os hadzas provaram que sua cultura desperta interesse significativo em forasteiros e é uma potencial fonte de renda. Por outro lado, entre os hadzas de Mangola também houve um surto de alcoolismo, outro de tuberculose e um preocupante aumento na violência doméstica.
Embora os jovens tenham pouco interesse pelo mundo exterior, o mundo está vindo até eles. Depois de 2 milhões de anos, a era de caça e coleta terminou. Os hadzas podem aferrar-se a sua língua; mostrar habilidades a turistas. Mas é questão de tempo para que não haja mais hadzas com arco e flechas emboscando babuínos.
No alto do morro para onde Onwas nos conduziu, agacho-me atrás de Maduru enquanto o babuíno se move pela rocha. O babuíno para. Gira a cabeça. Ele está tão perto que, se eu e ele estendêssemos o braço, faríamos contato. Fito seus olhos. Isso dura talvez um segundo. Maduru não dispara a flecha. O animal está demasiado próximo e poderia atacar se fosse ferido – normalmente o que mata é o veneno, não a flecha. Um instante depois, o babuíno volta ao mato.

Faz-se silêncio por duas batidas do coração. Ouço ganidos frenéticos e barulho de queda. Vêm do outro lado da rocha, e não sei se são de gente ou de babuíno. São de ambos. Avançamos aos arrancos pelo mato e chegamos a uma clareira.
E lá está ele: o babuíno. Caído de costas, boca aberta, membros esparramados. Morto por Giga. Onwas ajoelha-se, puxa a seta do ombro do babuíno e a devolve a Giga. Os homens circundam o animal, examinando a caça. Não há cerimônia. Não há nenhuma crença em vida após a morte. Não existem curandeiros nem xamãs.
O mais importante ritual é a dança epeme, nas noites sem lua. Homens e mulheres dividem-se em grupos distintos. As mulheres cantam enquanto os homens, um por vez, põem um cocar de plumas, amarram sinos nos tornozelos e saem desfilando e batendo o pé direito no ritmo do canto. Eles supõem que, nessas noites, ancestrais saem da mata e se juntam ao canto e à dança.
Giga pega o babuíno por uma pata traseira e arrasta o animal pelo mato. O bicho é deposto ao pé da fogueira de Onwas enquanto Giga se senta com os outros homens. É costume o caçador que abateu a presa não se exibir. Na caça há muito de sorte, e mesmo os melhores passam por períodos de insucesso. Por isso é que os hadzas partilham a carne com toda a comunidade.
A mulher de Onwas, Mille, é a primeira a acordar. Veste suas únicas roupas, uma camiseta sem mangas e um tecido florido enrolado no corpo como toga. Vê o babuíno e, com discreta demonstração de contentamento, vai alimentar o fogo. É hora de fazer comida. O resto do grupo está de pé – faminto. Ngaola esfola o babuíno e estica a pele. Em poucos dias ela secará e dará uma boa esteira. Dois homens trincham o animal, e pedaços são distribuídos. Onwas, o ancião, recebe a iguaria: a cabeça.
A culinária é carne no fogo. Hora da refeição não é ocasião para boas maneiras. Assim que a carne fica pronta, qualquer um pode arrebatar um pedaço. E não é modo de dizer. Carne pronta, facas são desembainhadas e o frenesi começa: agarra, fatia, puxa. A ideia é prender um naco nos dentes e usar a faca para cortá-lo. Esmagam ossos e sugam a medula. Passam gordura no rosto como hidratante. O estalar de lábios e o rilhar de dentes fazem uma barulheira quase cômica.
Onwas, com a cabeça, está livre da refrega. Sentado de pernas cruzadas diante da sua fogueira, ele come as bochechas, os olhos, a carne do pescoço, a pele da testa. Rói toda a carne, deixando apenas a caixa craniana, que atira ao fogo. Depois me chama, e aos caçadores, para fumar.
Com o crânio do babuíno ainda no fogo, Onwas põe-se de pé, bate palmas e começa a falar. É uma história de caçada de girafa. Sei disso apesar de Mariamu, minha intérprete, não estar a meu lado. Os hadzas representam suas histórias. Não há televisão nem jogos de tabuleiro. Mas há entretenimento. As mulheres cantam. E os homens contam histórias ao pé da fogueira.
Onwas espicha o pescoço e anda de quatro quando simula a girafa. Pula, agacha-se e faz que atira com um arco quando ilustra o papel dele próprio. Flechas zunem. Feras rugem. Crianças correm para perto da fogueira para ouvir: é a escola delas. A história termina com uma girafa morta – e, no finale, uma pergunta e uma resposta.
"Sou um homem?", indaga Onwas, estendendo as mãos. "Sim!", grita o grupo. "Você é um homem." "Sou um homem?", Onwas pergunta mais alto. "Sim!", o grupo responde, também mais alto. "Você é um homem!"
Onwas pega o crânio no fogo. Abre-o com um golpe, deixando à mostra o cérebro, que ficara cozinhando dentro dos ossos. Parece macarrão. Onwas oferece-nos o crânio, e os homens, eu inclusive, avançamos, metemos os dedos lá dentro, pegamos um punhado de miolos e o sugamos.
Certas coisas eu invejo nos hadzas – principalmente a liberdade. Livres de posses. Livres dos rigores da religião. Livres de horários, emprego, chefe. Livres para arrotar e soltar gases sem se desculpar, para agarrar a comida, fumar e correr sem camisa em meio a espinheiros.
Mas eu jamais poderia viver como os hadzas. A vida deles inteira, de meu ponto de vista, é arriscada. Assistência médica, só muito distante. Uma queda de árvore, uma picada de mamba-negra, e o sujeito está morto. As mulheres dão à luz agachadas no mato. Um quinto dos bebês morre antes de completar 1 ano, e quase metade das crianças não sobrevive até os 15 anos. Eles têm de suportar calor, sede e enxames de mosca tsé-tsé e mosquitos transmissores de malária.
Os dias em que passei com os hadzas alteraram minha percepção do mundo. Incutiram-me uma coisa que chamo de “efeito hadza”: fiquei mais calmo, mais sintonizado com o momento, mais autossuficiente, um pouquinho mais corajoso e menos apressado. Não ligo se parecer pieguice: meu tempo com os hadzas me fez mais feliz. Fez-me desejar que houvesse algum modo de prolongar o reinado dos caçadores-coletores, mesmo sabendo que é tarde demais.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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Para além da escrita

ÁLVARO KASSAB

Uma caixa de 32 cm de altura por 18 cm de largura abriga mais que os seis volumes resultantes da teseFotobiografia – Por uma Metodologia da Estética em Antropologia, de autoria da jornalista e pesquisadora Fabiana Bruno. Seu conteúdo, composto de seis quilos de matéria bruta, guarda tesouros imagéticos amealhados por cinco idosos ao longo de suas vidas. Para além do impressionante relicário de afinidades eletivas reunido em um não menos impressionante esforço de manufatura, a pesquisa ganha contornos inéditos no campo da antropologia da imagem ao apostar em uma metodologia que subverte a velha ordem: prioriza o visual – embora a escrita ganhe considerável espaço, tanto ancorada na fundamentação teórica como na transcrição de depoimentos dos cinco personagens. “Trata-se de um trabalho muito novo. Fabiana soube dar confiança às imagens”, atesta o professor e antropólogo Etienne Samain, orientador da tese, recém-defendida no Instituto de Artes (IA) e que contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Em parecer emitido recentemente, a agência de fomento sugere a publicação da tese, ressaltando a originalidade da pesquisa.

Fabiana vem se dedicando ao tema há oito anos, quando iniciou o mestrado, sempre com os mesmos informantes, à época todos octogenários e de alguma maneira vinculados à fotografia, fosse profissional ou afetivamente. Depois de abertos os baús de lembranças de Olga Rebellato Bruno, Manoel Rodrigues Seixas, Moacir Malachias, Celeste Pires da Costa Ferrari e Maria Teresa de Arruda, estas últimas já falecidas, a pesquisa não teve mais volta. Na dissertação, a jornalista dedicou-se ao trabalho de campo, experiência que pavimentaria posteriormente o recorte mais analítico da tese de mestrado.

No campo antropológico, emergiram reflexões acerca da velhice, da memória e da família. Na esfera da imagem – e seus aportes verbais –, as investigações resultaram no que Fabiana chama de “pequenos filmes de vida” que podem ser “montados, desmontados e remontados”. Das milhares de imagens revolvidas, Fabiana buscou a síntese trabalhando com conjuntos de 20, 10 e 3 fotografias, em escolha que passou pelo crivo dos informantes. Ali, naquelas pranchas, o roteiro foi escrito pela vida de seus protagonistas e reproduzido nas páginas da tese.

Os guardados
Para chegar à metodologia e à confecção de cinco fotobiografias, relembra Fabiana, o percurso foi longo e todo construído no trabalho de campo. A pesquisadora revela que a motivação inicial de sua proposta, entre outras, era tentar dimensionar o que significava, do ponto de vista afetivo, as fotos mantidas pelos idosos em seus baús, partindo do pressuposto de que, em razão da idade avançada, eram muitos os guardados. “Queria saber como essas pessoas interagiam com suas memórias no momento de escolherem as fotografias, já que eu tinha intenção de trabalhar com conjuntos de imagens. Obviamente, estaríamos falando de histórias de vida”, afirma a pesquisadora, ressaltando que optou, para poder seguir uma trilha original, por não predeterminar uma temática ou uma cronologia de vida.

Essa busca pelo novo a partir das fotografias, reforça a pesquisadora, priorizava o estudo visual, sem o descarte da fala – todas as entrevistas, por exemplo, foram gravadas, transcritas e utilizadas no transcorrer do trabalho de campo. Um ponto, entretanto, sempre a incomodou: o fato de a maioria dos trabalhos que se debruçam sobre histórias de vida, invariavelmente, usarem num primeiro momento a fotografia como algo que desperta a lembrança, para, depois de concluída essa tarefa, excluí-la do conjunto da investigação. A partir da constatação, surgiram as indagações. “Queríamos descobrir como dialogar e lidar com a fotografia numa pesquisa acadêmica, dando a ela o devido valor”.

A opinião de Fabiana é corroborada pelo professor Etienne, que coordena, no Departamento de Cinema do IA, o Grupo de Reflexão Imagem e Pensamento (Grip). Para o orientador da pesquisa, teria sido mais cômodo render-se ao modus operandi corriqueiro, por meio do qual, a partir de um leque de fotografias, procede-se o recolhe de memórias. Segundo o docente, trata-se do típico registro de história de vida. “A gente vai transcrevendo e depois deixa as fotos de lado. Elas acabam voltando para a gaveta”, critica o professor, para quem o trabalho de sua orientanda é totalmente novo por seguir na contramão dessa tendência.

“Ela tomou a sério as imagens para fazer não apenas uma história de vida verbal, mas também uma fotobiografia visual”, afirma Etienne, ressaltando que, embora não houvesse um método preconcebido, ele e Fabiana ficaram muito atentos aos passos que tanto os entrevistados como o próprio trabalho proporcionavam. “Se a gente perguntar hoje qual o método adotado, podemos oferecer uma cortina de elementos que nos parecem realmente novos. Outros poderão até ser eliminados. Mas a novidade é ter cinco álbuns, nos quais você diz tudo da vida das fontes – e o que elas escolheram”.

Dar valor ao que se vê não é caminho dos mais fáceis, reconhece Etienne. Na opinião do docente, as pessoas não são alfabetizadas para ver – e entender – o mundo por meio da imagem. O antropólogo ressalta que não se trata de desprezar a escrita, mas argumenta que o verbal também é uma dupla imagem. “Vamos imaginar uma folha de papel branca sobre a qual escrevo ou faço um retrato. Esse retrato, ou esse texto escrito, só vem à tona se contar com o suporte dessa página branca. Se isto é uma figura, o texto escrito é uma dupla figura, já que ele não pode emergir sem o suporte, essa tela de fundo – outra imagem. Ignoramos isso e reduzimos a escrita apenas à transcrição codificada de um alfabeto. É preciso repensá-la. Não descartamos a escrita, mas sempre damos o devido relevo, em cada etapa, às imagens”.

Embora esse tipo de reflexão seja recorrente no Grip, no qual ele conta atualmente com 9 orientandos, Etienne afirma que a pesquisa de Fabiana é um exemplo emblemático de como a imagem “pode ser portadora de pensamento” e de como as pessoas podem se sensibilizar com elas. “Entre elas, ou ao se associarem, essas imagens têm vida própria, independentemente de nós”, afirma o docente, que no momento organiza um livro, de cerca de 350 páginas, cujo título é O que (como) pensam as imagens?

O orientador da pesquisa enfileira as razões para inserir a investigação de Fabiana na categoria de seminal. Segundo ele, trata-se, antes de mais nada, de um trabalho generoso. Ademais, lembra o docente, a metodologia cresceu no transcorrer do trabalho. “Não partimos de uma teoria e muito menos tivemos a pretensão de fazer semiologia, semiótica etc. Tivemos, sim, a audácia de apostar no escuro, sem saber aonde o trabalho iria desembocar. Fomos redescobrindo a teoria a partir da prática, daquilo que se fazia”.

Etienne revela que, apesar de já ter orientado cerca de 35 trabalhos, este foi o primeiro que o envolveu desde o começo, além de ter sido o que despertou um número relevante de questões as quais nunca teria pensado, chegando ao ponto de rever seus conceitos acerca da antropologia, em razão de sua diversidade. “A pesquisa suscitou, em razão de seus aportes comuns, uma espécie de dubiedade que carecia de aprofundamento”, admite, elencando alguns desses pontos, entre os quais as questões da forma, do tempo e da memória da imagem. O esforço foi compensador. “Estamos notadamente fornecendo uma bibliografia enorme para quem vai se arriscar”.

Um desses conceitos aos quais Etienne se refere lhe é particularmente caro, e com frequência norteia suas incursões no campo da reflexão antropológica. Trata-se da definição feita pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, belga como o docente do IA, acerca da diferenciação do pensamento do chamado homem selvagem e do nosso, escrito antes da tetralogia Mitológicas. Na obra, Lévi-Strauss opõe o modo como ambos fazem ciência. Enquanto, segundo ele, o selvagem é sensível, concreto e ligado à natureza, o outro é mais racional e abstrato. Há, entretanto, um liame na intersecção dos dois pensamentos e ao qual Etienne se apega e reverencia a sua maneira: a arte.

O trabalho de Fabiana, na opinião de seu orientador, é um bom exemplo dessa interação. “É, ao mesmo tempo, ponto de partida e, talvez, o final de minha longa caminhada pessoal. O homem não é apenas um cego, um louco. Se quisermos reencontrar o ser humano, temos que pensar que a fusão das duas vertentes da realidade humana terá que ser muito melhor inserida no discurso antropológico. Os antropólogos que ainda não entenderam isto estão condenados ao formol”, opina o docente, para complementar. “Só faremos uma boa antropologia quando nela introduzirmos a arte”.

Essa dimensão artística, no caso da tese de Fabiana Bruno, dá-se em vários níveis e suportes, transcendendo a parte teórica, também densa – de Bateson a Godard. Uma revisão crítica ocupa os primeiros capítulos do trabalho. A própria confecção artesanal das fotobiografias é um exemplo da fusão entre os campos poético e estético, espécie de antídoto ao “analfabetismo visual”. Sobreposições e transparências permeiam todo o trabalho, criando um diálogo inusitado entre a imagem e a narrativa. A opção não foi aleatória. “Há sempre um recorte inicial e, em algumas fotografias, há uma transparência. Minha ideia é associá-la às camadas das memórias das pessoas, já que essas fotos foram escolhidas diversas vezes. Trata-se, em última instância, de uma metáfora”, revela Fabiana. As transcrições das narrativas, por sua vez, inovam na forma – de espiral à labiríntica – e não ignoram o som, o silêncio e as pausas.

Esse trabalho de “desconstrução” de álbuns de família tem o condão de permitir, observa Fabiana, uma nova leitura de suportes quase centenários, embora até se chegar a ela a autora da pesquisa enfrentasse dilemas inerentes a sua concepção. “Poderíamos ter feito tudo em formato multimídia. Isso resolveria todos os problemas, menos um, que era justamente relacionar imagem e escrita. A intenção era trabalhar com a dimensão do papel. Isso fazia parte do conceito”

Desnecessário dizer que a empreitada foi bem-sucedida. Os “filmes de vida” de cinco pessoas nascidas há quase um século podem ser vistos, “com autonomia”, segundo Fabiana, por qualquer interessado, inclusive por aqueles nascidos neste século. Resta saber como os álbuns de família serão configurados daqui para a frente, diante da avalanche multimídia. Isto para não falar da própria família. Bons temas para novas descobertas foram colocados na berlinda. Fabiana e Etienne estão atentos.

A síntese, por Fabiana Bruno

“A tese se configurou como um estudo verbo-visual, a partir das imagens (numa primeira instância, a fotográfica) e da memória representada pelas narrativas de histórias de vida de pessoas idosas. A conjugação do que chamamos verbo-visual se deu pela intersecção das operações de escolha, montagem e remontagem de fotografias guardadas por cinco pessoas idosas ao longo de suas vidas e dos relatos orais elaborados espontaneamente durante o percurso da pesquisa (entenda-se: três momentos de trabalho de campo e entrevistas, separados por um intervalo de tempo, que originaram a escolha e a montagem de conjuntos de 20, 10 e 3 fotografias). Desta maneira, a metodologia se deu essencialmente pela dinâmica do próprio trabalho de campo.

O propósito metodológico buscou desenvolver um modelo de pesquisa para utilização efetiva e de maneira sistematizada da imagem na composição de histórias de vida de pessoas idosas. Valorizando também as palavras/a verbalidade dos informantes, a tese priorizou as imagens e a montagem dessas imagens (reunião de fotografias distintas numa composição alusiva a um filme de vida), oferecidas pelas pessoas durante a pesquisa, como modo de conhecimento da própria história de vida e da configuração da memória. Este modo de conhecimento foi se dando a partir do estudo de como um conjunto de fotografias ordenadas por idosos poderia, quando associadas, serem capazes de dialogar, produzir pensamento e serem também ‘formas que pensam’ (Godard). Desta forma, considerando as histórias de vida pertencentes à Antropologia nos arriscamos a pensar este modelo, no campo antropológico, incorporando a dimensão visual-estética”.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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O que esperar de 2010?

Paulo Passarinho

Paulo Passarinho

Pensar o que nos espera em relação ao próximo ano que se avizinha, nos obriga a refletir sobre o que ocorreu em 2009.

Ao final do ano passado, vivíamos o impacto dos sintomas mais agudos da crise financeira global, que já havia se manifestado desde o segundo semestre de 2007.

Naquele ano, a ação coordenada dos bancos centrais dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão deteve os efeitos mais fortes de uma crise que já era prevista por muitos. Contudo, um ano depois, em setembro do ano passado, as fortíssimas injeções de crédito na economia e de ajuda financeira a empresas não foram suficientes para evitar medidas que se fizeram necessárias, como a estatização de grandes bancos na terra de Tio Sam e na Inglaterra, berços esplêndidos do pensamento econômico liberal. Além disso, o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou, surpreendeu ao chamado mercado com seu pedido de concordata e arrastou consigo inúmeras empresas da economia real e outras instituições financeiras.

Foi a partir desse quadro, que as perspectivas apontadas para 2009 sinalizavam para uma forte reversão do ritmo do crescimento econômico do mundo, em comparação com os anos mais recentes, caracterizados pela expansão do comércio mundial, estimulada e impulsionada particularmente pela economia chinesa.

De fato, ao longo de 2009 observamos uma forte retração do comércio internacional, especialmente pelo fato de as economias mais desenvolvidas do mundo – Estados Unidos, Europa e Japão – terem sofrido fortes recessões, com impactos relevantes sobre a renda e o emprego de suas populações.

No plano internacional, a situação não se deteriorou de forma mais grave, em função do comportamento das economias da China e da Índia, que irão manter, agora em 2009, forte crescimento, acima de 8% e de 6%, respectivamente.

Esses países dispõem de fortes controles estatais sobre os seus sistemas bancários e sobre os fluxos financeiros externos. Desse modo, souberam melhor se defender da reversão econômica que ganhou corpo a partir da crise, no segundo semestre de 2008. A Índia, além disso, por exemplo, soube reduzir rapidamente a sua taxa interna de juros e assegurar crédito a custo reduzido às suas empresas, na fase mais grave da turbulência global.

Aqui no Brasil, ao contrário, o Banco Central apenas iniciou um movimento de redução da taxa básica de juros em janeiro desse ano, e, ainda assim, de uma forma extremamente tímida.

Contudo, sob o ponto de vista fiscal, o ministério da Fazenda procurou agir, liberando crédito, reduzindo impostos para determinados setores e aprovando uma pequena modificação no recolhimento do imposto de renda, com a aprovação de duas novas alíquotas para as pessoas físicas.

Porém, sofremos forte perda de postos de trabalho no último trimestre de 2008 e somente agora, no final de 2009, estamos retornando aos níveis de emprego da fase anterior à crise de 2008. Em termos de crescimento econômico, 2009 não nos deixará saudades. Embora não devamos ter um recuo do PIB, a propalada aceleração do crescimento poderá produzir apenas uma tímida expansão do produto interno, abaixo de 1%, em relação ao ano passado.

Esse resultado somente não será pior, em função da demanda por produtos primários, puxada pelas economias asiáticas. A especialização do Brasil na exportação de produtos agrícolas e minerais responde a essa procura. Ao mesmo tempo, a política de valorização do salário-mínimo e os programas de transferência de renda aos setores da população mais vulneráveis mantiveram aquecida a demanda interna por bens de consumo e alimentos, de uma população sabidamente carente e que sustenta a sua capacidade de compra com os esquemas de crédito oferecidos, com dilatados prazos de pagamento e altíssimas taxas de juros.

Sob o ponto de vista da produção, devemos também destacar o processo de aquisição e fusões em curso no meio empresarial, do setor financeiro ao varejista, concentrando capitais e fortalecendo o domínio do mercado em torno de um número ainda mais seleto de corporações.

O crescimento econômico estimado para o próximo ano estará influenciado pelo baixíssimo crescimento do PIB, nesse ano de 2009. Mesmo assim, dependendo do comportamento da economia global que, caso venha a sofrer uma nova crise – o que não se pode descartar – nos jogará novamente em uma dinâmica recessiva, conforme ocorreu na virada de 2008 para 2009.

Continuamos, portanto, dependendo do que vier a ocorrer na economia global.

Nesse ponto, outra preocupação que devemos ter é com o processo de valorização do real frente ao dólar e a volta do déficit em nossas transações correntes, que tenderá a se ampliar no próximo ano.

Para o pensamento e estratégia dos liberais, esse é um problema que tende a se resolver com maior liberalização financeira e atração de investimentos externos diretos, que impulsionarão ainda mais o forte processo de desnacionalização da economia brasileira.

Para os que defendem um projeto nacional de desenvolvimento, articulado com uma integração solidária com os países da América do Sul, este é um caminho nefasto, pois enfraquece os instrumentos de política fiscal e monetária adequados para objetivos que deveriam se voltar para a distribuição de renda e riqueza, em prol dos trabalhadores.

A melhor tradução desse dilema é o contínuo, acelerado e gigantesco endividamento do Estado brasileiro. Parcela considerável do orçamento público é comprometida com o pagamento de juros, sem que haja nenhuma tendência de mudança desse quadro. A contrapartida disso é a degradação de políticas públicas essenciais ao bem estar da população. A falência do sistema de saúde pública, do serviço de transportes públicos de massa, das políticas de saneamento ou a estagnação da política de reforma agrária são exemplos gritantes do retrocesso social que estamos vivendo.

O governo atual – apoiado por uma intensa máquina de propaganda mediática, sustentado pelo seu próprio discurso e pelas opiniões de analistas e especialistas afinados com o processo em curso na economia brasileira desde os anos noventa – procura dar legitimidade às suas opções de política.

Apresenta-se a melhor distribuição pessoal da renda entre os trabalhadores, como se fora evidência de uma melhor distribuição funcional da renda, imaginando-se um Brasil onde não existissem capitalistas, donos de empresas ou rentistas; apresentam-se os números mais variados possíveis para se mostrar que a quantidade de pobres diminui, com limites de renda per capita para a definição de miseráveis, pobres e ricos que não resistem a um olhar minimamente crítico e coerente à realidade; ou se apresentam os números mais estapafúrdios sobre o endividamento público, para se evitar a constatação do grave quadro de insolvência que vivemos.

Todas essas questões poderão ser mais bem discutidas, ao menos em tese, durante a campanha eleitoral à presidência da República, no ano que vem.

Mas, aqui, o problema é a posição assumida pela maior parte da esquerda, absolutamente neutralizada, em sua grande maioria, pelo lulismo.

Cooptada ou neutralizada, essa verdadeira ex-esquerda, massa de manobra de políticos como Lula, Sergio Cabral ou Eduardo Paes, para que fiquemos em exemplos da mediocridade reinante, ao menos no estado em que vivo, deixou de ser crítica do modelo liberal-periférico e apenas pensa em se aproveitar de benesses que o poder lhe confere, por menor que seja.

A variável da mudança, dentro de um quadro como esse, está depositada na esquerda que não se rendeu, ou não se vendeu, e que poderá se utilizar do espaço da campanha eleitoral para esclarecer, polemizar e preparar melhores condições para uma refundação da luta política no país.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Energia nuclear, há muito dormente, redesperta

Matthew L. Wald
Em Washington (EUA)

Quando especialistas em confiabilidade da rede elétrica se perguntaram recentemente como seria um futuro de energia mais limpa, sete dos oito conselhos regionais imaginaram como seus sistemas funcionariam com 10% de energia eólica.

Apenas um, representando o sudeste dos Estados Unidos, escolheu uma opção radicalmente diferente: dobrar a capacidade da energia nuclear.
Trinta anos após a indústria nuclear americana ter abandonado várias usinas semiconstruídas devido aos altos custos e problemas operacionais, como o acidente de Three Mile Island, ainda persiste o ceticismo sobre se vale a pena investir na tecnologia.
Mas o pêndulo pode estar balançando de volta. As 104 usinas atualmente em operação aumentaram acentuadamente sua capacidade, encorajando companhias elétricas de todo o país a argumentarem em prol da construção de novas.
E o setor está prestes a receber um grande estímulo. Nos próximos dias, o Departamento de Energia planeja anunciar a primeira das garantias de empréstimo no valor de US$ 18,5 bilhões para construção de novos reatores.
As garantias foram autorizadas em um projeto de lei aprovado pelo Congresso em 2005. Foram necessários quatro anos para o departamento estabelecer um sistema para avaliar os pedidos e determinar quanto os tomadores de empréstimo pagarão pelas garantias, para compensar o governo pelo risco que assumiu. Especialistas acreditam que a primeira garantia irá para a Southern Company, para construção de duas unidades em sua usina nuclear Vogtle, perto de Augusta, Geórgia.
O dinheiro fluirá em meio ao arrocho nacional de crédito e à intensa disputa entre os setores de energia solar, eólica, geotérmica e nuclear do país. Cada um está tentando se apresentar como uma opção de energia "limpa", à medida que o país busca conter as emissões de dióxido de carbono associadas ao aquecimento global.
Todas essas fontes poderiam se beneficiar com o sistema de comércio de carbono que está sendo considerado no Congresso, como parte da legislação sobre mudança climática. Este sistema estabeleceria um teto às emissões de dióxido de carbono e permitiria o comércio de permissões de poluição, minando os setores de carvão e gás natural, intensivos em carbono.
Historicamente, os republicanos são mais entusiasmados com a energia nuclear do que os democratas. Logo, se os projetos de lei sobre a mudança climática avançarem no Senado, alguns senadores democratas pretendem aumentar os US$ 18,5 bilhões em garantias de empréstimo ao setor nuclear, para atrair os republicanos e alguns democratas de Estados industriais. (A versão da Câmara foi aprovada em junho, por 219 a 212 votos.)
Alguns dos principais defensores do combate à mudança climática no Congresso não estão entusiasmados.
O deputado Edward Markey, democrata de Massachusetts, que há décadas caça a indústria nuclear por questões de segurança e que é um dos autores do projeto de lei na Câmara, é contrário a uma ajuda direta ao setor nuclear. Ele argumenta que o sistema de comércio de emissões daria ao setor nuclear o único estímulo de que precisa.
Se o sistema entrar em vigor, ele disse, a energia nuclear "poderá competir de forma mais eficaz em um novo mercado. Quão eficazmente ela poderá competir será a pergunta".
Outros veem a combinação de um sistema de comércio de emissões com um pacote de energia nuclear como sendo uma tática sensível para fazer com que o Congresso trate dos problemas ambientais.
"É possível argumentar que certamente está promovendo um casamento incomum de interesses aqui", disse Philip R. Sharp, democrata de Indiana, que serviu na Câmara dos Deputados de 1975 a 1995 e que liderou um comitê da Câmara com jurisdição sobre o sistema elétrico.
"É um dos caminhos potenciais para obtenção de uma ação real e uma legislação real", disse Sharp, que atualmente chefia o grupo não-partidário Recursos para o Futuro.
Questões econômicas também ajudaram a formar alianças nas esferas estadual e local. Como os novos reatores criam muitos empregos e grande receita tributária, os governadores democratas de Maryland e Ohio estão trabalhando arduamente para que sejam construídos em seus Estados.
Os Legislativos estaduais da Louisiana e de Dakota do Sul e as prefeituras de Port Gibson, Mississippi, até Oswego, Nova York, também estão defendendo novos reatores.
Peter A. Bradford, um ex-membro da Comissão Reguladora Nuclear e que atualmente é vice-presidente da União dos Cientistas Preocupados, questiona a sabedoria de uma ajuda direta ao setor.
Diferente do sistema de comércio de emissões, no qual as empresas compram e vendem o direito de emitir dióxido de carbono em um sistema guiado pelo mercado, ele disse, as garantias de empréstimo financiam projetos que o setor privado considera arriscado demais.
O governo "escolheria alguns vencedores e lhes concederia muito apoio dos contribuintes", ele disse.
Pelas contas de Bradford, dentre os 28 reatores que a Comissão Reguladora Nuclear atualmente lista como planejados, metade sofreram grandes atrasos, um grande aumento do custo estimado ou foram abortados.
Para complicar o desafio, as futuras garantias de empréstimo representam apenas US$ 18,5 bilhões e a indústria nuclear diz que precisa de dezenas de bilhões adicionais.
O secretário de Energia do presidente Barack Obama, Steven Chu, reconheceu que a soma era pequena. Ele disse que poderia financiar no máximo, talvez, uma usina para cada novo desenho de reator, dificultando determinar qual projeto é o mais prático.
"Se eu fosse uma companhia elétrica, talvez uma de cada não seria de ajuda", ele disse. Ele sugeriu que a indústria nuclear precisaria construir dois ou três de cada.
Mas Chu insiste que a energia nuclear terá um papel importante em qualquer solução climática.
"Nós temos uma indústria nuclear dormente", ele disse. "Nós temos que retomá-la de uma forma que dê às pessoas que farão o investimento a confiança de que isto é economicamente viável."
Cientes dos desafios impostos pelo aquecimento global, alguns ambientalistas estão avaliando cautelosamente suas posições a respeito da energia nuclear.
"Há um número crescente de pessoas que passaram suas vidas como defensores do meio ambiente e que acreditam que o carbono é um problema tão urgente, a ponto de repensarem seu ceticismo em relação à energia nuclear", disse Jonathan Lash, presidente do Instituto dos Recursos Mundiais, que se coloca nessa categoria.
"Mas há muitas pessoas que são ambientalistas passionais, que também são oponentes passionais da energia nuclear e continuam assim", ele disse.
Entre os oponentes está Karen Hadden, diretora executiva da Coalizão para Energia Sustentável e Desenvolvimento Econômico em Austin, Texas, que está combatendo um projeto nuclear local que está aguardando por uma garantia de empréstimo. Apesar de defender fortemente limites ao carbono, ela disse, ela é contrária à construção de reatores.
Ela alertou que o dinheiro para projetos de energia solar, eólica e geotérmica pode ser desviado para "esses projetos multibilionários que podem ou não vir a ser construídos".
Daniel L. Roderick, vice-presidente sênior para projetos de usinas nucleares da GE-Hitachi Nuclear Energy, uma parceria entre a General Electric americana e a Hitachi do Japão, disse que há um ano e meio, havia a expectativa de que mais de 20 unidades estariam em construção no momento nos Estados Unidos. "Esse número atualmente é zero", ele disse.
Todavia, a GE e outras empresas investiram dezenas de milhões de dólares em planos para os reatores que esperam construir ao redor do mundo, incluindo dezenas nos Estados Unidos.

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

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Enigmas da Engenharia

Como as pirâmides foram erguidas? E Stonehenge? As hipóteses mais recentes tentam desvendar os segredos dos ousados "engenheiros e arquitetos" de antigas construções e templos

Fabíola Musarra

Shutterstock

Megalomania As pirâmides de Miquerino, Quéops e Quéfren, em Gizé, perto do Cairo (Egito). Elas foram construídas em torno de 2500 a.C. e o resultado, dado o tempo, foi considerado quase um milagre.

Sinônimo de modernidade, luxo e elegância, Dubai e suas longas avenidas, edifícios contemporâneos e arquipélagos artificiais fascinam pela arquitetura futurista. Hoje, é possível construir complexas edificações em pleno deserto – a capital dos Emirados Árabes Unidos abriga inclusive a Torre de Dubai, o futuro prédio mais alto do mundo, previsto para ter quase 808 metros de altura e 162 andares, cujo projeto deve ser concluído ainda neste ano. Como nos audaciosos projetos de Dubai, atualmente avançados recursos e técnicas de engenharia permitem que blocos de pedras pesando toneladas possam ser suspensos e sobrepostos sobre outros, produzindo-se assim obras de quase mil metros de altura em poucos meses. Mas há cinco mil anos, sem conhecer as polias ou a utilização de ferramentas de metal e tendo à disposição só instrumentos de madeira e cordas, parece um empreendimento semelhante seria praticamente impossível.

A pirâmide de Quéops, na planície de Gizé, próximo do Cairo, no Egito, é diariamente admirada por milhares de turistas. Assim como também o são Stonehenge (Inglaterra), os templos gregos, as pirâmides maias e outros monumentos. Construções antiquíssimas que deixam os arqueólogos diante de um duplo mistério: o que envolve as funções desses monumentos e, outro, ainda mais intrigante, que diz respeito ao modo como eles foram construídos.
“Para os povos primitivos, construir esses monumentos foi, de algum modo, refazer com as mãos aquilo que a natureza tinha feito e, em seguida, adaptá-los às exigências de representação das religiões e mitos. Não foi por acaso que a maçonaria, anos mais tarde, foi fundada pela poderosa cooperativa de pedreiros”, explica Alberto Arecchi, arquiteto e estudioso da história da construção. Este raciocínio é também a chave para compreender a mais recente teoria sobre a realização das pirâmides egípcias.

Antigo fascínio

embora tenham sido construídas em tempos remotíssimos, as pirâmides até hoje exercem enorme fascínio no homem. os motivos são muitos, desde o fato de elas terem resistido a tantos anos até a sua construção perfeita, sendo que entre os blocos de pedra não se consegue introduzir sequer uma folha de papel, tamanha a perfeição de sua sobreposição. Com mão de obra escrava, as pirâmides eram construídas com blocos de pedras que chegavam a pesar até duas toneladas. muitas vezes, sua execução demorava mais de dez anos. Ainda em vida, o faraó começava a planejar e executar a construção de sua pirâmide, cuja função era abrigar e proteger o seu corpo mumificado e os seus pertences. Quanto maior fosse a pirâmide, maior o poder e glória do faraó. mas, depois que ela estivesse pronta, os seus construtores eram sacrificados, para que não revelassem o segredo que seu interior continha e, principalmente, as armadilhas que ali existiam para evitar o acesso de saqueadores ao túmulo e aos objetos lá guardados.

Segundo o arquiteto francês Jean-Pierre Houdin, a pirâmide de Quéops foi construída graças a uma rampa interna, que permitia que os operários trabalhassem em segurança e a uma temperatura suportável. A Grande Galeria (um túnel sem enfeites, mas com ranhuras singulares na parede) foi necessária para a construção da Câmara do Rei, no centro da pirâmide, servindo como base para a elevação de blocos de granito de 60 toneladas. Teoria apaixonante, apoiada numa complexa simulação no computador e em algumas anomalias nas medições da força da gravidade encontradas na pirâmide nos anos 80 que fizeram acreditar que ela continha os restos de uma rampa espiral.

A evolução das pirâmides

Em Dahshur, mais acima do Nilo a partir de Saqqara, fica a pirâmide do faraó Sneferu, da quarta dinastia. Sua forma inclinada se deve a uma mudança de curso dos trabalhos, pois os projetistas escolheram uma fundação fraca e a pirâmide começou a se inclinar quando já estava praticamente pronta. Para concluí-la e torná-la mais estável, os construtores reduziram o ângulo da parte superior e hoje ela é conhecida como a Pirâmide Inclinada (2565 a.C.). Insatisfeito com o resultado, Sneferu ordenou a construção de outra pirâmide em Dahshur. Os projetistas escolheram uma fundação melhor e fizeram essa pirâmide com a mesma altura da anterior, mas com uma base mais larga e um ângulo mais raso. A Pirâmide Vermelha foi concluída em 2560 a.C. • NOVEMBRO 2009 A Pirâmide Vermelha foi concluída em 2560 a.C.

Mas se esse foi o método empregado na construção das pirâmides, de onde vieram os blocos de pedra? Segundo o egiptólogo francês Joseph Davidovitis, um engenheiro especializado no estudo dos minerais do solo, o material usado para a fabricação dos blocos poderia ser uma espécie de “concreto”, obtido pelos os egípcios a partir de uma mistura de argamassa calcária, conchas e sódio (carbonato de sódio, que era também utilizado no processo de mumificação). Eles eram moldados dentro de uma “caixa” de madeira e teriam sido feitos no próprio local da construção da pirâmide. Em seguida, os grandes blocos eram içados por um complicado sistema de guinchos.

Essa hipótese inicialmente perturbou os egiptólogos, que a consideraram anti-histórica (a invenção “oficial” do concreto é atribuída aos romanos). Mas aqui entra em jogo a religião. No antigo Egito se venerava duas divindades opostas: Khnum e Amon. Segundo Arecchi, o primeiro era o deus da “pedra aglomerada” (que lembra o deus dos hebreus, capaz de criar o homem do barro), enquanto o segundo era o deus da “pedra esculpida”. Khnum era reverenciado por Quéops, que apoiava sua casta sacerdotal: a mesma casta que, cerca de 1.300 anos depois, praticamente foi substituída pelos sacerdotes do deus Amon, em consideração ao faraó Tutankhamon. “E, de fato, para ele não foi construída uma pirâmide, mas uma tumba esculpida em pedra no coração do Vale dos Reis, bastante diferente daquela erguida em torno de 2700 a.C. pelo arquiteto egípcio Imhotep, considerado o ‘inventor’ das pirâmides”, observa Arecchi.

Quem são eles?
As maiores pirâmides egípcias são as dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, em Gizé. Confira quem foram eles:

Fotos: Shutterstock

QUÉOPS: Reinou por volta de 2551 a.C. a 2528 a.C. e foi considerado um faraó cruel e impiedoso. É o responsável pela construção da maior pirâmide de Gizé.

Fotos: Shutterstock

QUÉFREN: Construiu a segunda maior pirâmide de Gizé, a Pirâmide de Quéfren, a Esfínge de Gizé e um templo, que é o único exemplo de templo remanescente do período.

Fotos: Shutterstock

MIQUERINOS: Reinou pouco tempo, por esse motivo não pôde concluir sua pirâmide. A Pirâmide de Miquerinos é a menor em tamanho e a terceira entre as mais famosas pirâmides do mundo antigo. Com a sua morte, a pirâmide foi terminada às pressas, e foi usado material de qualidade inferior.

De acordo com Davidovitis e com Arecchi, essa oposição de cultos também gerou um equívoco relacionado à origem da alquimia. “No Egito dos últimos faraós e na Alexandria quase só se falava grego. O que os egípcios chamavam ‘a matéria do corpo de deus’, significando pedra, foi traduzida pela expressão krysòs, cujo significado é ouro. Então, quando os conhecimentos sobre a construção do ‘corpo de deus’ começaram a ser transmitidos, os alquimistas acreditavam estar fazendo ouro, mas na realidade estavam produzindo o concreto”, comenta Arecchi.

Uma teoria que pode ser comprovada pela grande quantidade de vasos encontrados nas tumbas egípcias do primeiro período. “Os vasos foram confeccionados em materiais como cascalho, pedregulhos extraídos do leito de rios e microgrãos: pedras duríssimas, difíceis de serem trabalhadas até hoje. É muito mais provável que esses materiais tenham sido adicionados, implementando o aglomerado, para o qual foram utilizados vários tipos de silicatos hidratados de cobre, como o crisocola (similar à turquesa), minerais conhecidos e extraídos a partir do Sinai.”

Se a arquitetura egípcia se inspirava na natureza, resta o fato de não existir nenhuma grande forma piramidal natural. Na realidade, o tipo mais antigo e difuso de construção em pedra é um outro, o chamado sistema trilitico (mais conhecido como dólmen): três blocos, duas janelas verticais no solo (colunas) unidos por uma laje horizontal colocada acima delas (a arquitrave). Uma edificação aparentemente rudimentar: no entanto, provavelmente, era a parte visível de uma sepultura coletiva, originalmente cercada e coberta por um pequeno monte de terra.

“O conceito de casa pouco tem a ver com o dólmen trilitico, exceto pela inspiração de seu formato”, diz Arecchi. Segundo ele, algumas antigas habitações de apenas um piso térreo inspiram-se nos primitivos amontoados de pedras em círculo com um buraco. Em algumas cidades italianas, os exemplos são muitos: das construções em formato cônico da Sardenha (existem numerosos vestígios da Idade do Bronze na ilha, sendo os mais conhecidos asnuraghi – habitações circulares, por vezes cônicas, de pedra) às existentes na região de Puglia, como as de Alberobello, uma cidadezinha conhecida por um tipo de moradia muito peculiar: os trulli, espécie de casa de paredes arredondadas e teto cônico, feito de pedras encaixadas.

Essas construções conhecidas como “falsa cúpula” foram realizadas com a sucessiva sobreposição de círculos de pedra sempre muito pequenos. A construção nurághicatende a convergir em direção ao centro, enquanto a cúpula “empurra” todos os demais elementos para fora dela e por esta estrutura é sustentada. “Os conhecimentos para concretizar estes dois tipos de edificações eram muito diferentes, embora visualmente sejam bem parecidas”, conta Arecchi.

O caminho das pedras

A extração dos blocos Com o auxílio de cunhas de madeira e percursor (golpes) em pedra, as ranhuras eram feitas e, ampliando essas fraturas, obtinham-se os blocos.

Por água… Por vezes, os monólitos eram transportados ao longo dos rios, presos no interior de jangadas.

Ou por terra Em outras ocasiões, os blocos de pedra eram transportados em trilhas feitas de cilindros de madeira. Os rolos moviam-se arrastando os blocos de pedra.

A força da alavanca Os monólitos ficavam enfileirados numa fossa escavada no terreno. Para erguê-los, eram empregados troncos. Os blocos de pedra eram amarrados nas toras, que funcionavam como alavancas.

O sistema trilitico dos arquitetos do neolítico é também a base do usado na construção da arquitrave: duas pilastras e, em vez da pedra horizontal, um arco composto de “concreto”, blocos de pedra talhada, inclinadas, e com o topo fechado (teto). Uma evolução possível para o uso da madeira. “A madeira é muito mais resistente do que a pedra, pelo menos na construção de um teto: de fato, os minerais são poucos flexíveis e têm baixíssima resistência às flexões”, prossegue o especialista.

“As primeiras construções de madeira, projetadas pelos povos que viviam em regiões úmidas e ricas em madeira, tais como as da Mesopotâmia, ainda tinham telhados planos, conceitualmente não diferente dos empregados nos dolmens”, diz Arecchi, observando que na evoluída Grécia já se tinha conhecimento de que para construir um templo de pedra era necessário inclinar os blocos de um modo que eles se sustentassem, ao menos em parte, por si só. Assim foram construídos as arquitraves e os frontões dos templos clássicos. “Os gregos entenderam a importância de posicionar colunas juntas para distribuir melhor o peso da construção no solo.”

A construção de um complexo megalítico demorava de 7 mil a 30 mil dias de trabalho

A aplicação mais surpreendente do sistema trilitico é Stonehenge (em inglês, pedra suspensa), em Wiltshire, na Inglaterra: um conjunto de blocos de pedras alternados com buracos no chão, realizado em fases sucessivas a partir de cerca de 3100 a.C. Seria deste período o aterro e o círculo de pedra que se encontram no interior deste complexo de megalíticos. “Stonehenge é interessante pela disposição das pedras, bem como pela técnica de construção, que possivelmente precedeu a utilização de aterros”, afirma Arecchi. “É provável que se trate de um relógio meteorológico-astronômico e que os marinheiros soubessem que os ventos estavam favoráveis para a navegação ou também que uma nova estação estava começando quando uma certa estrela aparecesse em uma determinada ‘porta’ de Stonehenge”, especula o especialista.

É preciso dizer que as pedras de Stonehenge como conhecemos hoje têm pouca relevância para a sua posição inicial: nos primeiros anos do século 9, muitas “portas” (grupos individuais de triliticos) foram restauradas. Na época, os pesados blocos foram suspensos com tornos mecânicos (funcionavam como uma espécie de guincho), que acabaram separando-os da sua localização original. Vale lembrar que a antiga construção já havia sido alterada durante a invasão do Exército Romano em 61 a.C. Apesar disso, de uma coisa ninguém duvida: o estaleiro de Stonehenge, de onde cada um dos blocos de quatro toneladas era transportado por centenas de quilômetros antes de ser erguido (ver pág. 48), foi o mais extraordinário de sua época.

No decorrer dos séculos, os enigmas tecnológicos da construção de Stonehenge e das pirâmides de Gizé deram origem a uma série infinita de lendas e crenças mágicas. “A arquitetura e magia seguem de mãos dadas desde o início, estando ligadas à transmissão de conhecimentos”, explica Arecchi. O “saber construir” sempre teve em si um componente mágico: se a realização do concreto foi provavelmente a origem da alquimia, as técnicas que permitiam erguer obras colossais, do Templo de Salomão às catedrais góticas, deveriam ter, para o seu tempo, algo de milagroso. A partir da Idade Média, foram as cooperativas de pedreiros que transmitiram o seu conhecimento (o “poder de construir” e todos os detalhes relacionados a ele). Mais tarde, essas corporações deram origem à maçonaria.

Os ingleses free masons (pedreiros “liberais”, autônomos) não eram mais do que os membros das cooperativas de construtores, que ensinavam aos seus membros os segredos de como erguer colunas de dezenas de metros, por exemplo. Conhecimento que muito pouco tem a ver com o esoterismo. Conforme explicam os especialistas do Centro de Estudos sobre as Novas Religiões de Turim (Cesnur, na sigla em italiano), o conceito dos mistérios maçônicos, que tanto fascina os ocultistas, pode derivar de um erro banal de tradução. De fato, na Idade Média, as organizações de pedreiros ingleses era indicada pelo termo misteres, provavelmente derivado do italianomestiere (ofício). Nas transcrições do século 6, a palavra passa a ser mystery(mistério), despertando o interesse de um número crescente de “aprendizes” mais interessados no ocultismo que no modo de construir uma arquitrave.

Martelo e Picão
As rochas calcárias eram extraídas com martelos de granito ou de pedra de silício.

 

 

 

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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Gestão local

Responsável pela administração e pelo orçamento de sua rede de escolas, o município de Helsinque se depara com um novo desafio: os imigrantes.

Beatriz Rey

Crianças na escola Itäkeskus, em Helsinque: percentual de famílias multiculturais deve chegar a 25% até 2020.

Quando trabalhava como diretora de uma escola, Eeva Penttilä, hoje diretora de relações internacionais do Departamento de Educação de Helsinque, decidiu ligar para a administração municipal para solicitar areia. Queria criar um parquinho em sua escola. Eeva não entendeu quando ouviu um "não" pelo telefone. A justificativa era simples: se dermos areia para você, teremos de dar para as outras escolas também. "Ser diretor naquela época, na década de 70, significava apenas ler os documentos e traduzi-los para a linguagem do professor. Tudo já estava decidido", lembra. Seu trabalho atual é ajudar as escolas que fazem solicitações parecidas – a diferença é que ela pode dizer "sim".

O sistema municipal de administração finlandês tem funções executivas parecidas com as do Ministério da Educação no Brasil. A começar pelo orçamento. A maior parte dos municípios  é responsável por 58% do orçamento de educação. Helsinque é uma exceção: como a densidade populacional é alta, os impostos que recolhe são suficientes para arcar com todo o custo de seu sistema educacional. "O que fazemos com o nosso dinheiro é problema nosso", diz Eeva. Para a diretora de relações internacionais, a lei prevê autonomia do município e da escola – o que, na prática, se resume a uma questão: usar o bom senso. Por exemplo, não há definição nacional ou municipal sobre o número de alunos por sala. Há salas com 30 alunos e salas com apenas cinco. "Nosso departamento não decide isso. Sabemos depois que a escola decidiu", relata.

O mesmo acontece com o currículo. Há um mínimo nacional a ser seguido, mas a organização da grade curricular é responsabilidade da escola. Mais um exemplo: supõe-se que seja obrigatório ensinar 14 assuntos na 1ª e na 2ª séries do ensino fundamental na disciplina "língua materna". Se a escola decide introduzir apenas quatro lições no primeiro ano, precisa ensinar as outras 10 no segundo ano. Ela pode fazer isso sem comunicar o governo municipal ou federal. "Desde que você alcance o mínimo, não há problema. O currículo é realizado pelos professores, em cada escola específica", afirma Eeva. Ela relembra um caso que vivenciou numa região carente de Helsinque, onde havia muitos alunos com dificuldades de aprendizagem na língua materna. "Demos a eles mais aulas do que seria necessário numa determinada disciplina. A escola sabe o tipo de aluno que tem matriculado", diz.

Nesse contexto, não é estranho pensar que quem contrata os professores é a própria escola.  Em cada uma delas, há um grupo diretor formado por cinco pais, um representante de professores, um representante dos funcionários da escola, um representante dos alunos com mais de 13 anos, o diretor e um secretário. São eles que selecionam os docentes, elaboram o plano político-pedagógico da escola e aplicam punições a alunos desobedientes, o que quase nunca ocorre.

Katariina Wuoristo é uma das mães que integra um dos grupos diretores de uma escola finlandesa. Foi eleita diretora do grupo por quatro anos, e continua no cargo, mesmo depois de suas duas filhas terem saído do colégio. "É muito fácil trabalhar com o diretor. Praticamente não temos discussões", conta. Um dos desentendimentos aconteceu recentemente, por conta de um feriado de primavera. Os alunos queriam cinco dias, mas a escola só queria liberar dois. Na escola em que atua, o processo de contratação dos professores acontece por meio de seleção de currículo e sessões de entrevistas com todos os candidatos. "É papel do pai participar da escola. Aproximadamente 70% deles participam das reuniões de pais", opina.

Suporte e acompanhamento
Há algum tempo, o governo alemão procurou Eeva Penttilä para propor um projeto nas escolas finlandesas que incentivasse o ensino do idioma germânico. A maioria das escolas em Helsinque recusou – apenas três aceitaram. "Seguimos os movimentos das escolas, mas não podemos interferir em suas decisões. Eles tinham boas razões e devemos respeitá-los", diz. Uma das funções do Departamento de Educação é exatamente essa: acompanhar. "Precisamos garantir que todas as escolas estão boas como deveriam", afirma Eeva. Uma das políticas para atingir esse objetivo é o incentivo financeiro oferecido às instituições localizadas em regiões mais carentes. O critério é estabelecido a partir de um índice de vulnerabilidade social calculado pelo município. "Não fazemos a política de ver que a escola está ruim e fechá-la. Se você fizer isso, as crianças precisam escolher outro lugar para estudar. E vão para lá, e o desempenho vai cair em outra escola. Nos concentramos naquela escola em específico", pontua. Essa ajuda financeira pode funcionar de outra maneira. As escolas fazem autoavaliações periódicas. Se for detectado um problema como a falta de alunos, o grupo diretor pode estabelecer metas para resolver o problema. Caso sejam alcançadas, recebem um bônus. "Nesse processo de avaliação da escola não há ninguém de fora, a não ser que eles peçam", coloca.

Outro incentivo do governo municipal é a formação continuada dos professores. Quando os docentes saem das salas de aula para estudar e se atualizar, o Departamento de Educação oferece à escola dinheiro extra para que um substituto seja contratado. O intuito é capacitar os docentes sem onerar a escola. A capacitação de professores se torna cada vez mais importante na cidade, já que o número de imigrantes aumenta a cada ano e o montante de professores capacitados para esse grupo não é tão grande. A previsão é de que até 2020 o percentual de famílias total ou parcialmente multiculturais aumente para 25% (hoje é de 10%). "Temos refugiados que vêm de zonas de guerra, como o Iraque, e nunca foram à escola, não têm sequer o conceito de escola", conta Eeva. Quando chegam à Finlândia, têm um ano de aula preparatória na língua finlandesa. Depois, passam a frequentar a escola, onde aprendem, além do finlandês, a sua língua de origem, religião e cultura materna. Ensinam-se 14 línguas diferentes hoje em Helsinque, uma experiência que tem se comprovado cada vez mais difícil na prática. Não se encontra professor capacitado para ensinar determinadas religiões, por exemplo. "Uma vez, tínhamos de ensinar árabe para um ou dois alunos numa escola. Pensamos que um professor do Marrocos poderia ensinar, mas, quando ele chegou à escola, percebeu que os alunos eram da Arábia Saudita. As línguas têm variações. Não sabíamos disso", conta Eeva.

O que aprende quem ensina
Há muitas diferenças entre a formação docente finlandesa e a brasileira, a começar pela exigência de um diploma de mestrado para o exercício da profissão. A média de anos de estudos dos futuros professores no país é de 5,5 anos. Depois de estudar para obter o diploma de bacharelado (que equivale a 180 pontos estudantis, ou 4.860 horas de crédito), o aluno se empenha em obter o diploma do chamado "master" (equivalente a 120 pontos estudantis, ou 3.240 horas de crédito). Há três tipos de diploma na Faculdade de Ciências Sociais, que realiza a formação de professores: docente de sala de aula, de educação infantil e da educação especial. O docente de sala de aula equivaleria ao professor do primeiro ciclo do ensino fundamental brasileiro. Já o professor da educação especial é treinado para dar aulas a alunos com necessidades especiais de aprendizagem.

Há, ainda, o professor de disciplina (o equivalente às nossas licenciaturas), que ensina alunos de 7ª a 9ª série do ensino fundamental finlandês e do ensino médio. Como no Brasil, esses alunos cursam a faculdade na área que escolheram (física, por exemplo) e complementam seus estudos na Faculdade de Ciências Sociais. Entre as disciplinas que cursam estão os estudos pedagógicos, didáticos e psicológicos, assim como os estudos das bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação.
Há um componente interessante nos currículos dos cursos de quem pretende ser professor. Juhani Hytönen, do Departamento de Ciências Aplicadas em Educação da Universidade de Helsinque, de based-research teaching (em português, prática docente com base em pesquisa). "Não educamos robôs. É preciso aprender a analisar seus próprios comportamentos e objetivos, assim como desenvolver sua própria maneira de ensinar e inovar", conta. A ideia é criar, a partir de um método científico de pesquisa, subsídios para que o professor seja mais "profissional" em sala de aula. "Eles aprendem a identificar e resolver problemas. Isso os capacita, por exemplo, a planejar e definir o próprio currículo, que não é definido nacionalmente", diz Juhani. Há centros de pesquisa ligados à universidade, com focos diversos: ensino, estudos sociais da educação, matemática e educação científica, primeira infância e escola elementar, entre outros. "Tinha oito alunos de mestrado envolvidos em uma pesquisa sobre a organização e a efetividade da pré-escola em Helsinque, que foi pedida pela própria prefeitura. É melhor estar envolvido em projetos grandes do que ir para a escola sozinho", diz.

Mas, para que toda essa estrutura funcione, é preciso ter bons alunos dentro da universidade. Para o professor Juhani, o diferencial da formação de professores finlandesa começa antes: no vestibular ao qual se submetem os interessados na profissão. "Há um exame, mas realizamos uma entrevista individual, um grupo de discussão e, no caso da educação infantil, uma situação em que o candidato vai até uma escola e discute uma situação real", diz. Dos 1.258 candidatos ao curso de "professor de sala de aula" em 2008, apenas 123 foram admitidos. "Poucas vezes erramos na seleção dos candidatos. É fácil escolher em um grupo que já é selecionado", conclui.

O que aprende quem ensina

Há muitas diferenças entre a formação docente finlandesa e a brasileira, a começar pela exigência de um diploma de mestrado para o exercício da profissão. A média de anos de estudos dos futuros professores no país é de 5,5 anos. Depois de estudar para obter o diploma de bacharelado (que equivale a 180 pontos estudantis, ou 4.860 horas de crédito), o aluno se empenha em obter o diploma do chamado "master" (equivalente a 120 pontos estudantis, ou 3.240 horas de crédito). Há três tipos de diploma na Faculdade de Ciências Sociais, que realiza a formação de professores: docente de sala de aula, de educação infantil e da educação especial. O docente de sala de aula equivaleria ao professor do primeiro ciclo do ensino fundamental brasileiro. Já o professor da educação especial é treinado para dar aulas a alunos com necessidades especiais de aprendizagem.

Há, ainda, o professor de disciplina (o equivalente às nossas licenciaturas), que ensina alunos de 7ª a 9ª série do ensino fundamental finlandês e do ensino médio. Como no Brasil, esses alunos cursam a faculdade na área que escolheram (física, por exemplo) e complementam seus estudos na Faculdade de Ciências Sociais. Entre as disciplinas que cursam estão os estudos pedagógicos, didáticos e psicológicos, assim como os estudos das bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação.
Há um componente interessante nos currículos dos cursos de quem pretende ser professor. Juhani Hytönen, do Departamento de Ciências Aplicadas em Educação da Universidade de Helsinque, de based-research teaching (em português, prática docente com base em pesquisa). "Não educamos robôs. É preciso aprender a analisar seus próprios comportamentos e objetivos, assim como desenvolver sua própria maneira de ensinar e inovar", conta. A ideia é criar, a partir de um método científico de pesquisa, subsídios para que o professor seja mais "profissional" em sala de aula. "Eles aprendem a identificar e resolver problemas. Isso os capacita, por exemplo, a planejar e definir o próprio currículo, que não é definido nacionalmente", diz Juhani. Há centros de pesquisa ligados à universidade, com focos diversos: ensino, estudos sociais da educação, matemática e educação científica, primeira infância e escola elementar, entre outros. "Tinha oito alunos de mestrado envolvidos em uma pesquisa sobre a organização e a efetividade da pré-escola em Helsinque, que foi pedida pela própria prefeitura. É melhor estar envolvido em projetos grandes do que ir para a escola sozinho", diz.

Mas, para que toda essa estrutura funcione, é preciso ter bons alunos dentro da universidade. Para o professor Juhani, o diferencial da formação de professores finlandesa começa antes: no vestibular ao qual se submetem os interessados na profissão. "Há um exame, mas realizamos uma entrevista individual, um grupo de discussão e, no caso da educação infantil, uma situação em que o candidato vai até uma escola e discute uma situação real", diz. Dos 1.258 candidatos ao curso de "professor de sala de aula" em 2008, apenas 123 foram admitidos. "Poucas vezes erramos na seleção dos candidatos. É fácil escolher em um grupo que já é selecionado", conclui.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

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Premonição do racismo

Em ‘Raça e História’, ele se antecipou afirmando [br]não haver correlação científica entre raça e intelecto.

Lilia Schwarcz

Conselheiro Ayres, famoso personagem de Machado de Assis, certa vez afirmou que "as coisas só são previsíveis quando já aconteceram". No entanto, quando se trata da obra de Claude Lévi-Strauss, tudo indica que nosso conselheiro andava enganado.
O etnólogo é hoje conhecido em função da influência que seu modelo estruturalista alcançou em domínios como o parentesco, a mitologia e as classificações simbólicas. Mas a importância desse pensador não se restringe aos estudos acadêmicos. Ele escreveu textos dirigidos a um público mais amplo, e entre eles destaca-se uma pequena obra de 1952 – Raça e História – que prova como tamanho não é documento. A história desse manifesto merece atenção, entre outros motivos, pelo tom premonitório que apresenta. Lévi-Strauss foi signatário de declaração em repúdio ao racismo e a partir desse documento a Unesco encampou ampla pesquisa sobre o tema. Com o final da guerra e a abertura dos campos era preciso produzir uma resposta direta diante do cenário que então se desenhava.
Não era a primeira vez que antropólogos eram chamados a se manifestar diante de problemas públicos. Franz Boas, renomado etnólogo culturalista, já havia liderado manifesto contra o racismo. A diferença é que, se Boas se limitara ao contexto norte-americano, Lévi-Strauss tinha diante de si panorama mais amplo: a descolonização do pós-guerra.
Mas no panfleto Lévi-Strauss não apenas lidaria com problemas de época; pelas bordas delineia toda uma agenda de trabalho a ser seguida por ele e por gerações de discípulos. O primeiro ponto de ataque consistia em rejeitar a dimensão biológica do conceito de raça, mostrando como não existe correlação entre tipos raciais e características intelectuais. O discurso é claro: "Quando procuramos caracterizar as raças biológicas mediante propriedades psicológicas, afastamo-nos das verdades científicas". Tratava-se de mostrar como as diferenças entre grupos humanos eram resultado de fatores culturais e históricos e nada tinham a ver com a natureza.
De reboque o etnólogo atacava o suposto de que a humanidade evolui em um só sentido: "Não existem povos crianças, todos são adultos, mesmo aqueles que não tiveram diário de infância". Não há sociedades isoladas, muito menos adormecidas. "A diversidade seria menos função do isolamento dos grupos que das relações entre eles." Era preciso enfrentar o tema da diversidade sem abandonar a bandeira da universalidade dos direitos, herdeira do modelo de Rousseau. Mas era preciso também "diferenciar sem hierarquizar"; entender que as sociedades são várias, mas nem por isso expostas a regime único de evolução. "Um machado de pedra não é inferior ao de ferro", provocaria ele. "O problema é que a pedra não é ferro."
Nada há de ingênuo nesse texto que confessava nossa incapacidade de entender outra sociedade, já que não existe suspensão absoluta de julgamentos. O fato é que o jovem Lévi-Strauss convertia-se num pensador humanista das ciências humanas. O tom otimista do ensaio destacava-se em meio a um momento de pessimismo generalizado, assim como evidenciava a urgência de novas pesquisas.
Em Raça e História encontram-se condensadas não só lições de humanidade como uma pauta de trabalhos. Aí está, e em pequenas doses, o modelo de antropologia que Strauss desenvolveria por mais de 50 anos; aquela que inaugura um verdadeiro diálogo com o pensamento primitivo e entre filosofias simétricas. Aí estava delineada, também, uma "ciência do observado", onde objeto e sujeito da representação estão em questão e embaralhados.
Desenha-se assim um inventário involuntário de grandes temas de nosso autor. Entendemos como culturas não são essências, mas antes, relações. Percebemos em que medida a humanidade anda sempre às voltas com a luta entre unificação e diversificação de culturas, ou como não existe apenas uma história, a nossa, mas antes modelos de historicidade. Lévi-Strauss ensina, sobretudo, quanto vale desconfiar de verdades assentadas. "Bárbaro é aquele que crê na barbárie", e nesse território somos todos uns visionários. Hora de voltar ao início do texto. Nem sempre nosso conselheiro tinha razão. Neste caso, as coisas pareciam previsíveis e mal começavam a acontecer.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Estudo revela vulnerabilidade de sistemas de conservação da biodiversidade no país

Levantamento aponta que governo federal precisa implantar programa para incrementar pesquisas na área.

JEVERSON BARBIERI

Uma radiografia sobre a formação dos pesquisadores e os estudos em conservação da biodiversidade no Brasil, rea lizada pela analista ambiental Márcia Gonçalves Rodrigues, do Instituto Chico Mendes (ICMBio), apontou a necessidade de o governo federal, em parceria com seus ministérios, estabelecer um programa definitivo capaz de favorecer as pesquisas e as intervenções na área. A tese de doutorado, orientada pela professora Léa Velho, do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, chegou a essa conclusão a partir de dois recortes. O primeiro analisou a formação dos pesquisadores nos cursos de pós-graduação, enquanto o segundo lançou um olhar sobre a institucionalização das pesquisas após a criação do ICMBio. “O Brasil deveria ter um hoje um programa em âmbito nacional nos mesmos moldes do Biota-Fapesp”, afirmou Márcia, referindo-se ao Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo.

A pesquisadora analisou 25 programas de pós-graduação em ecologia reconhecidos pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ela explicou que, a partir de uma pesquisa realizada na base de dados do CNPq, foi possível observar que a área de ecologia foi a que apresentou o maior número de grupos envolvendo conservação da biodiversidade. “Organizei a pesquisa, estruturando-a a partir de uma ciência que surgiu com o objetivo de evitar a perda da biodiversidade, que é a biologia da conservação”, disse.

Ela constatou que, do total de cursos, os mais antigos são o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e o da Unicamp. Desses quatro, Márcia escolheu o programa da Unicamp para realizar um estudo de caso, tanto pela facilidade quanto pelo fato de a Universidade ter toda a base de teses em formato digital. Ademais, o programa de pós-graduação em Ecologia do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp tem nota seis na avaliação da Capes e foi o único recomendado para nota máxima, que é sete.

Um levantamento feito até o mês de junho de 2008 mostrou que 424 teses foram defendidas no programa, sendo 275 no mestrado e 159 no doutorado. A partir desses dados, a pesquisadora procurou saber por onde andava esse pessoal. Foram encontrados 311 pesquisadores e ficou constatado que 65% deles (202) são professores pesquisadores. Para Márcia, esse dado, por si só, já imputa ao programa da Unicamp uma grande responsabilidade. No entanto, afirma a autora da tese, essa responsabilidade aumenta ainda mais quando se observa que, desses 202 professores, 159 trabalham em instituições públicas de ensino superior.

Um dado que chamou bastante a atenção da pesquisadora foi o de que apenas 14 trabalhos (1,5% do total) se dedicaram à pesquisa de espécies de fauna e flora ameaçadas de extinção. “O Brasil é detentor do maior número de espécies no mundo, mas o volume de pesquisas ainda é muito restrito”, observou.

Institucionalização
Originário da divisão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), o Instituto Chico Mendes herdou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc), responsável pela criação, implantação e gestão de todas as unidades de conservação federais, e também a responsabilidade pela pesquisa para a conservação da biodiversidade. Márcia disse que traçar o perfil da pesquisa existente hoje no país é fundamental para que o levantamento consiga de maneira efetiva dar subsídios para a conservação. Por isso, cita como exemplo a questão das espécies ameaçadas de extinção. “Para cada espécie ameaçada de extinção é preciso desenvolver um plano de ação específico, que deve envolver tanto o poder público quanto a comunidade científica e a sociedade em geral”, argumentou.

Atualmente, o ICMBio conta com 11 centros responsáveis pela pesquisa para a conservação espalhados pelo território nacional. “Ainda que essa pesquisa tenha um componente científico muito forte – que no caso das espécies ameaçadas acabam por determinar onde vivem, qual a área necessária para sobrevivência e qual o sistema social de relacionamento –, é fundamental ressaltar que essas investigações precisam ter um componente de intervenção muito significativo”. E o grande gargalo para esse tipo de atividade está no reduzido número de analistas, se for levado em conta a extensão territorial brasileira.

Apenas como exemplo, Márcia disse que o maior parque do Brasil, o Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, na floresta amazônica (Estado do Amapá), conta com apenas quatro analistas para cuidar de uma área que abrange quase 4 milhões de hectares. Além do Snuc, o Instituto interage também com o Sistema Nacional de Áreas Protegidas (Snap), que inclui terras quilombolas e indígenas, juntamente com as áreas de preservação permanente e as reservas legais. A pesquisadora reforça que além da variedade de biomas e espécies, o Brasil tem uma diversidade cultural enorme, sendo preciso atender todos os interesses. “Trata-se de um grande desafio”.

A criação da Mata Santa Genebra, no município de Campinas, considerada um das maiores áreas florestadas do mundo dentro de um perímetro urbano, é outro exemplo das dificuldades encontradas pelo ICMBio na gestão do processo. Doada ao município em julho de 1981, no mesmo período em que foi criada a Fundação José Pedro de Oliveira, cujo objetivo era administrar a Mata, foi tombada em 1985 pelo governo federal como unidade de conservação federal. Atualmente, existem 270 dessas unidades no país todo e a maioria delas não está efetivamente implantada. Conforme a categoria da unidade, explica Márcia, é preciso desapropriar terras e criar conselhos gestores.

A Santa Genebra tem um conselho, constituído pela própria Fundação, no entanto, o ICMBio até hoje não fez a implantação dessa unidade e, portanto, ela tem sobrevivido, do ponto de vista da gestão, por uma iniciativa do próprio município, porque o que foi doado foi a sombra da Mata. O maior perigo era se um dia a sombra deixasse de existir, pois as terras voltariam para a família doadora – por isso, o Governo Federal decretou a área como uma unidade de conservação. Esta era uma preocupação muito grande porque a Mata está praticamente cercada de área urbana e corre riscos. “Além de todo o processo de degradação que uma área florestal isolada corre, há também uma diminuição da fauna, que tem a função, muito importante, de fazer a mata se renovar constantemente”, alertou a analista. Mesmo com a difícil missão de implantar essas unidades de conservação, Márcia acredita que isso pode se tornar factível se o Brasil construir um pacto social.

País sede da II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, conhecida como Rio 92, o Brasil já possui uma política nacional de biodiversidade e é referência no mundo porque é considerado detentor de megabiodiversidade, tanto pela sua extensão territorial quanto pela diversidade de biomas que apresenta. Por esses motivos, a pesquisadora crê que o Brasil, frente aos países em desenvolvimento e ao cenário mundial, tem uma responsabilidade maior. “O país precisa assumir esse papel de liderança, e foi por esta perspectiva que procurei enfocar meu trabalho”, disse.

Cerrado
Uma questão sempre muito discutida nessa área é com relação ao cerrado. Márcia garante que o bioma está num processo de degradação extremamente acelerado em função, principalmente, da agropecuária, do milho e da soja. Coincidentemente, o cerrado ocorre em áreas de platôs onde a mecanização é mais facilitada. A conservação enfrenta a todo momento conflitos com a sociedade, seja no setor agropecuário, seja no setor fundiário. Agora, com o zoneamento do setor sucroalcooleiro, essa conservação pode vir a ficar até mais ameaçada, uma vez que a restrição de áreas de plantio ficou, por enquanto, apenas com a cultura da cana-de-açúcar. A ideia inicial não é só fazer o zoneamento da cultura de cana, mas também de outras para estabelecer o que pode ou não ser plantado e quais as áreas passíveis para essa finalidade, de maneira que se consiga firmar as bases socioambientais para o desenvolvimento sustentável do campo. “A reserva legal da Amazônia é 80% e a reserva legal nos outros biomas é de apenas 20%. Essa diferença em si já é difícil de administrar e, ademais, vale lembrar que a Reserva Legal não é respeitada. O Estado de São Paulo, por exemplo, não possui nem 2% de reserva le gal averbada”, comentou a analista.

No entanto, de acordo com Márcia, é preciso observar que São Paulo está na vanguarda das políticas ambiental e de biodiversidade. O Biota-Fapesp nasceu com essa missão e tornou-se referência. “Precisaríamos ter um Biota-Fapesp nacional, o que seria um grande estímulo à realização de pesquisas com foco em conservação”, afirmou. E a questão dos recursos financeiros necessários para os investimentos nessa área reflete o status atual. O ICMBio é uma autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), que possui um dos menores orçamentos do governo federal.

Com relação à participação da sociedade nesse processo, a pesquisadora não hesitou em dizer que cada um deve ter consciência de que pode ajudar. Márcia argumenta que a sociedade precisa estar consciente de que todos têm um papel a cumprir, seja na reciclagem do lixo – que, além de reduzir o volume do material descartado e aumentar a vida útil dos aterros sanitários, colabora com as cooperativas e acaba por ofertar novos empregos –, seja no caso dos grandes empreendedores com responsabilidade socioambiental. As avaliações estão se aprofundando e, dessa maneira, é possível verificar se o compromisso é realmente efetivo. “Não existe nada mais público e coletivo no planeta do que o meio ambiente”, declarou.

Além da ampliação da consciência das pessoas, para Márcia a mídia tem um papel extremamente importante, principalmente a televisão, uma vez que é visível o aumento do número de programas que abordam a questão ambiental. “É necessário, portanto, trabalhar tanto o lado educacional quanto a construção de um pacto social para a conservação da biodiversidade do país”, concluiu.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Faxina contra o baixo-astral

Neurocientista defende que atividades simples, como limpar o chão, combatem a depressão.

ERNANE GUIMARÃES NETO

Entre as os contestadores da cultura dos antidepressivos está Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia da faculdade Randolph-Macon, na Virgínia (EUA). Para ela, a resistência à depressão é algo a ser desenvolvido no trabalho cotidiano. Na entrevista abaixo, Lambert diz que existe um ciclo de "recompensas" associadas a atividades manuais.
Assim, a sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto do paciente, é acompanhada de substâncias que o deixam mais persistente. Ou menos depressivo, como defende em "Lifting Depression" (Suspendendo a Depressão, Basic Books, 288 págs., US$ 26, R$ 45).

FOLHA – Sua pesquisa pode ser encontrada em artigos sobre como "fazer a faxina faz bem para a mente". Esse é mesmo um dos melhores exercícios contra a depressão?
KELLY LAMBERT
– Depende de quanto você valoriza a limpeza.

FOLHA – Estamos acostumados à explicação de que exercícios produzem endorfinas que nos fazem sentir bem. Há muito mais que isso?
LAMBERT
– Sim. Hoje temos uma prevalência da ideia de que a depressão é devida ao desequilíbrio químico relacionado à serotonina. É claro que a serotonina tem algum papel, mas questiono em meu livro se drogas têm alguma influência direta nas pessoas.
As drogas elevam o nível de serotonina no cérebro imediatamente, mas a maioria das pessoas não percebe melhora antes de um ou dois meses. Assim, examinei a atividade física como um ciclo de "recompensa adquirida pelo esforço".

FOLHA – Mas como podemos acompanhar o "circuito" desse sistema de recompensa no cérebro?
LAMBERT
– Não sou clínica, sou uma neurocientista de ratos de laboratório. Resolvi abordar o problema como um mistério. "Vamos olhar os sintomas envolvidos na depressão": há falta de recompensa, falta de concentração, movimentos lentos, problemas para dormir, alimentação desregulada. Um grande fator aqui foi relacionado a "prazer de recompensa".
Quanto mais eu pesquisava o assunto, mais parecia haver um circuito envolvendo prazer, movimento e solução de problemas, que chamei de "circuito da recompensa adquirida pelo esforço". Outra influência foi uma palestra de Martin Seligman, pai da psicologia positiva nos EUA, autor de livros sobre otimismo.
Ele falou sobre um estudo com pessoas nascidas até 1940 e criadas nos EUA. Eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Não faria sentido dizer que houve alguma mutação biológica que afetou nosso sistema de serotonina ou que nossos cérebros tenham mudado. O que mudou drasticamente no século 20 foi nosso estilo de vida. Estamos muito menos ativos, ficamos sentados ao computador para trabalhar -não trabalhamos como nossos ancestrais, nem mesmo como aqueles de 60 anos atrás.
Seligman observou outras culturas: populações agrárias chinesas centenas de vezes menos propensas à depressão. Nos EUA, temos o grupo religioso amish, que não usa eletricidade e produz sua própria comida. Eles têm menos depressão. Homens têm menos depressão -a taxa dobra entre as mulheres- porque são mais ativos, fazem mais atividades físicas, inclusive para desestressar.

FOLHA – Pode explicar como foi feita sua pesquisa de laboratório?
LAMBERT
– Fiz uma experiência com ratos para medir valores dessas recompensas adquiridas pelo esforço. Apelidamos alguns deles de "ratos pensionistas" -pois tinham "froot loops" [cereais adocicados] à vontade- e outros de "trabalhadores", pois tinham de trabalhar para consegui-los, cavando o cereal de uma pequena caixa. Depois de seis semanas, fizemos um teste de persistência.
Demos a eles um problema insolúvel, mas muito simples: pusemos um brinquedo de plástico com uma rodelinha de cereal dentro. O cereal não seria acessível, não cairia lá de dentro. Medimos por quanto tempo eles tentavam pegá-lo.
Os ratos trabalhadores ficaram o dobro do tempo tentando. Eram mais confiantes. Em seus cérebros, percebemos a presença do neuropeptídeo Y. Vimos mais dele em áreas do cérebro envolvidas com estresse e ansiedade no grupo trabalhador. Estava ajudando em algo -talvez confiança, talvez resistência. Isso tem muito a ver com depressão, afinal se trata de desistir das coisas.

FOLHA – Seu estudo definiu depressão como "falta de persistência"…
LAMBERT
– Sim, mas estamos lidando com ratos, afinal de contas. A falta de vontade de continuar tentando é um elemento da depressão.

FOLHA – E sua descoberta principal foi que não se trata de quão intenso é o esforço, mas sim de cumprir uma tarefa com sucesso?
LAMBERT
– Trata-se de aonde leva o esforço, e não o que se faz. Por isso "recompensas adquiridas pelo esforço". Para os ratos podem ser as rosquinhas, para os humanos o artesanato, a jardinagem. Atividades que usam as mãos são as mais relevantes, mas atividades físicas em si podem ser importantes também, por aumentarem as endorfinas e diminuírem os hormônios de estresse.

FOLHA – Vencer num jogo eletrônico, por exemplo, ajuda?
LAMBERT
– Pode ser melhor que nada. É mais importante interagir de forma "real" com o mundo. Mas o uso das mãos dá uma sensação de controle; se você tem prazer em atingir o que quer que o jogo dê como prêmio, pode ajudar.

FOLHA – Seu livro oferece "libertação" do jugo dos antidepressivos?
LAMBERT
– Se você já toma remédios, não é uma boa ideia simplesmente parar, pois sua neuroquímica foi alterada. Infelizmente, muitos médicos nem fazem exames para saber se o paciente está mesmo precisando de drogas. O paciente diz: "Estou com os sintomas do comercial". Isso basta.

FOLHA – Quando a sra. fala no trabalho de nossos antepassados funcionar para prevenir a depressão, quer dizer que essa é uma doença típica da sociedade atual?
LAMBERT
– Não falávamos tanto sobre depressão no início do século 20, o que pode sugerir tratar-se também de uma questão de diagnóstico. Ficar triste é algo que sempre existiu. Mas nosso modo de vida mudou.
É verdade que a depressão pode ser algo bom em certos casos, como quando precisamos ficar quietinhos, porque estamos doentes, por exemplo. Provavelmente há um fator evolutivo nisso tudo, afinal não é bom ficar parado quando precisamos coletar recursos.

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Não me chamem de bandido

Aílton Antunes da Silva era o centro das atenções naquele dia de agosto. A audiência, de cerca de 200 pessoas, ouvia o seu testemunho. A história daquele que chegou a controlar, diziam os jornais da década de 1990, 70% do tráfico de drogas em Minas Gerais, prendia a atenção dos presentes. Esses, condenados à prisão por tráfico, homicídios, assaltos, ouviam as palavras de Aílton de dentro da prisão que prometia a eles reintegração social.

O ponto alto do relato, entretanto, se deu quando outro personagem, Valdeci Antônio de Oliveira, entrou em cena. “Eu tenho um presente para você”, disse. Aílton calou-se e esperou. “É a sua liberdade”. Depois de quase 20 anos entre presídios e fugas, Aílton ganhava, em 2005, o direito de ir e vir.

O presente de Aílton havia sido encomendado alguns anos antes, em 1998. Nesse ano, Eduardo Oliveira, ou Gordo, pseudônimos utilizados por Aílton, foi preso pela última vez. Passou 6 dias na solitária da Penitenciária José Maria Alkimin, em Ribeirão das Neves (MG), e em seguida foi transferido para a Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem (MG). Lá, foram mais 30 dias de solitária. 21 deles sem banho. Quis morrer, mas nem isso conseguiria, já que não havia nada dentro da sua cela a não ser a escuridão. Depois do período de isolamento, recebeu a visita de Valdeci, o qual havia conhecido quando estava preso na Cadeia Pública de Itaúna (MG), ainda em seus primeiros passos na vida criminosa.

O visitante sugeriu a Aílton que escrevesse uma carta para o juiz da comarca de Itaúna, sua cidade natal, solicitando a transferência para a APAC (Associação de Proteção ao Condenado) . Aílton acatou a sugestão e o juiz acatou o pedido. A liberdade estava encomendada nesse dia. A APAC é um presídio diferenciado, que acolhe condenados pelos mais diversos crimes – tráfico, assalto, homicídio – e trabalha para que tais condenados voltem às ruas sem oferecer mais perigo para a sociedade. Para o trabalho de reeducação, o presídio conta com voluntários – treinados em um curso de cerca de 40 horas – e alguns poucos funcionários remunerados na administração. Não há policiais. O resultado é um índice de reincidência que não ultrapassa 8% na APAC de Itaúna, enquanto a média nacional chega a 85%.

Quando chegou à APAC, Aílton estava com pneumonia e com o corpo fraco, atrofiado, segundo sua própria descrição. Foi, para ele, como chegar em casa. O chuveiro era quente, havia espaço para caminhar, os funcionários o tratavam bem. Mas ainda assim foi difícil se adaptar. Ao ouvir qualquer barulho de chave, ele já corria para a cama e lá ficava, tremendo, em pânico. Na penitenciária, os presos não podiam estar tristes nem felizes. Sorrisos poderiam ser interpretados como zombaria. Os carcereiros puniam. Caras fechadas poderiam revelar olhares desafiadores. Eram punidos também. A solução era, diante de qualquer barulho, deitar e fingir estar dormindo. Não foi fácil se libertar desse hábito.

Em suas idas e vindas em várias cadeias e penitenciárias, Aílton já havia padecido dos mais diferentes males. Da cadeia pública de Itaúna, lembra-se de acordar à noite se coçando, abrir os olhos e ver vários presos chorando de dor, de desespero. Era a sarna, doença comum graças à falta de higiene na cadeia onde banho, só uma vez por semana. Nessa época, a cadeia não tinha nem colchão para os presos. Foi nessa situação que Valdeci conheceu Aílton. Comovido, ele fundou, junto a outros jovens atuantes na Igreja Católica, a Pastoral Carcerária. Visitava a cadeia, lutava por melhorias no espaço físico e até lavava pessoalmente as roupas dos presidiários. Anos depois, foi esse mesmo grupo que lutou pela construção da segunda unidade da APAC no mundo, inspirados na experiência da cidade de São José dos Campos (SP).

Da Delegacia de Furtos e Roubos, em Belo Horizonte (MG), Aílton lembra-se do pau-de-arara. Pelado, mãos e pés amarrados, ficou pendurado mais de uma vez na posição de um frango assado por um ferro que se apoiava em um buraco na parede de um lado e um cavalete do outro. No chão, abaixo dele, um pneu. No caso de queda, ninguém queria que o preso quebrasse uma costela. Ao redor de Aílton, seis policiais. Um segurava a mangueira, outro um fio de choque, um terceiro segurava uma máquina de choque próxima aos pés e um quarto cuidava da chamada “cocota”, que consistia em uma borracha amarrada a um pedaço de madeira – era usada para bater no interrogado. Os outros dois se encarregavam de fazer as perguntas necessárias. Queriam que ele confessasse, mas em certos casos não era possível, pois ele não era culpado e não saberia, portanto, contar os detalhes necessários para a confissão.

Da Penitenciária José Maria Alkmin, em Ribeirão das Neves (MG), lembra-se do início da carreira de traficante. Até então, vendia pouca droga. “É uma escola do crime”, define Aílton se utilizando de um clichê que suas lembranças parecem confirmar. É preciso ser violento para ganhar o respeito dos outros presidiários e sobreviver. Nas conversas, descobre-se como cada um foi preso e aprende-se a evitar os mesmos erros. Nas novas amizades, aumenta-se o ciclo de parceiros para os atos ilícitos.

Fugiu de todas essas cadeias. Às vezes por meio de suborno. Em outras ocasiões cerrava a grade e saia da prisão embaixo de tiros. Da APAC, onde ficou por 7 anos até ganhar a liberdade durante o seu testemunho na Jornada de Libertação com Cristo, evento anual da APAC, nunca tentou fugir. Para quem visita a instituição, isso pode ser difícil de entender. O enorme muro de concreto na frente do prédio até lembra uma prisão, mas as frágeis cercas de arame farpado aos fundos mais parece a delimitação de um pequeno sítio. Mesmo o enorme muro tem sua diferença em relação a outras prisões atrás do pequeno portão azul por onde se entra no prédio. É que o dono da chave que o tranca e destranca não é policial. Também não é um funcionário da administração e nem tão pouco um voluntário. É um recuperando – porque na APAC não existem presidiários, existem recuperandos.

Tudo parece favorável a uma fuga. Mas Aílton nem mesmo tentou. “Não podemos trair quem quer nos ajudar”, resume ele ao tentar explicar o porquê. Na APAC, a mãe de Aílton voltou a visitá-lo. Aos poucos, ele reconstruía seus laços afetivos. Isso lhe dava força, diminuía a sensação de isolamento, o sentimento de que era bandido mesmo e de que não havia outro caminho. Logo nos primeiros dias de APAC, já percebeu uma diferença fundamental. Não havia corrupção. Se não é possível comprar ninguém, se o dinheiro ou a fama não fazem diferença, então todos são iguais. Não é possível ter privilégios.

Dez anos antes de ganhar sua liberdade, no dia 18 de maio de 1995, o jornal Diário da Tarde trazia no caderno Polícia a foto de Aílton escondendo o rosto. Ele e sua quadrilha haviam sido presos com 250 quilos de maconha prensada e vários armamentos. “Para o delegado (Humberto Braz Pereira) essa quadrilha é uma das mais atuantes em Minas e abastecia 70% do mercado (de drogas)”, dizia a reportagem. O currículo de Aílton apresentado pelo jornal não deixava dúvidas sobre o perigo que ele representava: “Aílton, que também é conhecido com Eduardo Oliveira, é foragido do Centro de Reeducação de Neves, onde cumpria pena de 17 anos por tráfico de drogas. Ao ser preso, foi autuado em flagrante por tráfico, falsidade ideológica e falsa identidade”.

Quatorze anos se passaram e Aílton não apagou esse histórico, mas já pode se apresentar sem esconder o rosto e responde “sapateiro” quando é perguntado sobre a sua profissão. Ele produz sandálias manualmente, com a ajuda da família e de dois recuperandos da APAC, aos quais ensina o ofício. A fábrica é dentro da prisão e o que produz é vendido em uma de suas lojas, em Itaúna(MG) e em Pará de Minas (MG), ou distribuído por lojas em Belo Horizonte (MG). Ao contar a sua história, quase não sorri, possui o ar preocupado de quem sabe que tem que lutar muito para sobreviver. Olha para o chão enquanto relembra seus longos 45 anos de vida. Não manifesta emoções ao relatar as torturas, mas chora ao se lembrar da humilhação sofrida quando alguém o chamava de bandido.

Mora hoje com a esposa Cláudia, que conheceu quando estava no regime semi-aberto da APAC, Rúbia, a filha de dois anos do casal, os dois filhos que teve com a ex-namorada Valquíria, Romeu e Roger, e a filha do primeiro casamento de Cláudia, Débora, hoje com 10 anos. Ele não é alto, também não parece merecedor do apelido Gordo. A pele morena, os cabelos e os olhos pretos. É, fisicamente, um tipo comum.

A história, porém, é incomum. É por isso que entre os planos futuros de Aílton está escrever um livro autobiográfico. Nos primeiros tempos na APAC, ele tentou escrever essa biografia. Não conseguiu. Não tinha final. Agora será mais fácil. Ele já considera o seu final feliz. Happy end, no melhor estilo hollywoodiano

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

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Hominídeo "Ardi" foi a descoberta mais importante de 2009, diz revista

France Presse

"Ardi", o esqueleto de hominídeo fêmea mais antigo já encontrado até hoje, com 4,4 milhões de anos, foi a descoberta científica mais importante de 2009, segundo definição dada pela revista "Science" na quinta-feira (17).

O fóssil lidera a lista dos dez maiores avanços científicos do ano, que também inclui a descoberta de água na Lua e o uso de folhas de átomos de carbono ultrafinas em aparelhos eletrônicos experimentais.

Descoberta de esqueleto humano do _Ardipithecus ramidus_ na Etiópia lança luz sobre origens do homem

Descoberta de esqueleto humano do Ardipithecus ramidus na Etiópia lança luz sobre origens do homem

"Ardi", um Ardipithecus ramidus, foi objeto de 15 anos de estudo minucioso por antropólogos. O esqueleto, encontrado na Etiópia, deu início a uma nova etapa na pesquisa da evolução do homem, segundo os cientistas.

Sendo 1,2 milhão de anos mais velho que "Lucy", até então o fóssil de hominídeo mais antigo já encontrado, Ardi está ajudando a derrubar mitos populares sobre a relação direta entre o ser humano e os símios modernos.

A análise do crânio, dos dentes, da pélvis, das mãos, dos pés e de outros ossos de "Ardi" mostraram que os símios africanos evoluíram consideravelmente desde o momento em que compartilharam um ancestral comum com os humanos.

"[Ardi] muda a maneira de pensarmos sobre a evolução humana mais antiga", indicou Bruce Alberts, editor da "Science".

Crânio e mandíbula do _Ardipithecus ramidus_, descrito como o mais antigo esqueleto de ancestral humano

Crânio e mandíbula do Ardipithecus ramidus, descrito como o mais antigo esqueleto de ancestral humano.

Rol científico

Entre as outras descobertas destacadas pela revista estão os pulsares, vistos pela primeira vez pelo telescópio Fermi, da Nasa. Um deles foi localizado a 4.600 anos-luz da Terra.

As observações ajudaram a explicar como funciona um pulsar –o centro de uma estrela de nêutrons, caracterizado pela emissão, a intervalos regulares e curtos, de radiação muito intensa–, e como ele contribui para a radiação eletromagnética no Universo.

A astrofísica foi fonte de outras dois dos dez maiores avanços científicos do ano segundo a "Science" –que inclui a descoberta de água gelada na Lua pela Nasa.

Em outubro, a agência espacial americana enviou duas sondas para que se chocassem contra a superfície lunar, em uma experiência dramática em busca de água. Uma delas caiu na cratera Cabeus, perto do polo sul lunar, a 9.000 quilômetros por hora; a outra teve o mesmo destino quatro minutos depois, esta equipada com câmeras e sensores para registrar o impacto e o que resultaria dele.

A Nasa foi especialmente elogiada pela revista científica pelos reparos realizados por astronautas no telescópio espacial Hubble, que desde seu lançamento, em 1990, registra imagens sem precedentes do Universo.

Entre os "temas quentes" a serem acompanhados em 2010, a "Science" menciona o metabolismo das células cancerosas, o sequenciamento do exoma –genes que representam 1% do patrimônio genético, mas que controlam as funções vitais do organismo– e o futuro dos voos tripulados ao espaço.

Fonte: UOL Ciência e Saúde – http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/

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O chamado da montanha sagrada

A península do monte Athos está virtualmente isolada da Grécia, mas ainda atrai homens em busca da fé.

Robert Draper
Foto: Travis Dove

O chamado da montanha sagrada

A antiga comunidade monástica do monte Athos, no norte da Grécia, ainda atrai homens com fome espiritual. Apanhando caquis no lusco-fusco, um monge cristão ortodoxo leva uma vida muito parecida com a de seus confrades de mil anos atrás.

A península sagrada do monte Athos avança 50 quilômetros para dentro do mar Egeu, feito um apêndice lutando para se destacar do corpo secular no nordeste da Grécia. Nos últimos mil anos, uma comunidade de monges da Igreja Ortodoxa do Oriente habita a região procurando se afastar de tudo que não seja Deus.
Seu enclave, marcado por ondas violentas, densas florestas de castanheiros e o espectro rajado de neve do monte Athos, de 2 033 metros, é a própria essência do isolamento. Vivendo em algum dos 20 monastérios, em um dos 12 claustros autônomos dentro deles, os quais abrangem, no total, centenas de celas, os monges se isolam até mesmo uns dos outros. Ostentando pesadas barbas e trajes negros gastos, sinalizando sua morte para o mundo, parecem saídos de um afresco bizantino. Eles constituem uma fraternidade ritualística imperecível, de radical simplicidade, em constante devoção a Deus – não obstante suas imperfeições. Sim, pois existe a consciência, como explica um monge ancião, de que, "mesmo no monte Athos, somos seres humanos a caminhar a cada dia no fio da navalha".
São todos homens. De acordo com os costumes, mulheres estão proibidas de visitar o lugar desde seus primórdios, uma postura nascida antes da fraqueza que do despeito. Como diz um monge, "se as mulheres pudessem vir, dois terços de nós partiriam com elas para se casar".
O monge corta os laços com sua mãe para estabelecer outros com a Virgem Maria, figura sagrada que, reza a lenda, teve seu barco desgarrado pelos ventos ao navegar para Chipre, indo parar no monte Athos. Ali abençoou seus habitantes pagãos, que se converteram ao cristianismo. Cada monge cria uma ligação com o abade de seu monastério ou com o companheiro mais velho de cela, que se torna seu pai espiritual e o ajuda a estabelecer "um relacionamento pessoal com Cristo", como frisa um deles.
O afastamento ou a morte de uma dessas eminências podem ser penosos para os mais novos. Por outro lado, a decisão de um jovem de retornar ao mundo exterior também pode ser traumática. "No ano passado, um deles se foi, sem pedir minha opinião", diz um monge idoso, num tom que denuncia o ressentimento paterno. "Sendo assim, melhor mesmo que se tenha ido."
Os monges cristãos (a palavra monge deriva do grego monos, ou "singular"), inicialmente, formavam refúgios coletivos, ou monastérios, no deserto egípcio, durante o quarto século.
A prática disseminou-se pelo Oriente Médio e pela Europa, sendo que, lá pelo nono século, os eremitas chegaram ao Athos. A partir daí, à medida que a civilização se tornava mais complexa, multiplicavam-se os motivos para se manter distância da sociedade e optar pela vida monástica. De fato, depois que duas guerras mundiais e o evento do comunismo (o qual impedia a emigração da Rússia e do Leste Europeu) reduziram a população dos monastérios para 1 145 pessoas em 1971, as últimas décadas assistiram a um renascimento. Um fluxo constante de jovens – muitos graduados em universidades e em bom número advindos do ex-bloco soviético – fez inflar os quadros do monte Athos para cerca de 2 mil monges e noviços. Ao mesmo tempo, a entrada da Grécia na União Europeia, em 1981, habilitou a península a receber fundos de preservação.
"Há 2 mil histórias aqui, cada qual descrevendo um percurso espiritual", diz o padre Maximos, cujo próprio caminho se iniciou em Long Island quando ele, adolescente, era devoto de músicos da vanguarda pop, como Lou Reed e Leonard Cohen, antes de se tornar professor de teologia em Harvard para, em seguida, optar por "viver mais próximo de Deus".
Muitas dessas jornadas começam de forma atribulada. Um garoto ateniense foge de casa. Daí, quando seu irmão aporta no monte Athos para buscá-lo, o rapazote adverte: "Vou fugir de novo". O filho de um merceeiro de Pittsburgh, nos Estados Unidos, surpreende os pais com sua decisão, a qual, dois anos depois, ele reconhece que pode ser temporária, argumentando: "Quem há de saber quais são os planos de Deus?"
Se o aspirante não está pronto, o pai espiritual o estimula a voltar para casa. Do contrário, ele passará pela tonsura à luz de velas: o abade raspa uma cruz em seu cocuruto e outorga-lhe o nome de um santo. Assim nasce um monge.

As histórias dificilmente acabam com a chegada ao monte Athos. Um obstinado hippie da Austrália passou de Peter a padre Ierotheos, tornando-se cantor – barítono – no monastério Iviron. O padre Anastasios aprendeu a pintar ali, e agora exibe seus trabalhos em lugares tão distantes quanto Helsinque, na Finlândia, e Granada, na Espanha. E o padre Epiphanios, que resolveu restaurar os antigos vinhedos de Mylopotamos, hoje exporta um excelente vinho para quatro países, além de ter publicado um livro com as receitas dos monges em três idiomas.
Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, a irmandade consiste em homens que, ao fim e ao cabo, não deixam de ser quem são, seres de carne e osso debaixo de seus hábitos. Uns, independentes por natureza, optam por recolher-se em celas no campo. Outros se revelam mesquinhos e, diz um monge, nota-se que "a vida monacal pode ser consumida por ninharias".
No entanto, os melhores entre eles não apenas irradiam boa vontade como também procuram aplicá-la naquilo que é mais necessária. O padre Makarios, do monastério de Marouda, perto de Karyes, é desse naipe, sempre disposto a ceder a estranhos seu casaco sobressalente, os cômodos disponíveis de seus aposentos e o dinheiro que traz no bolso. "Quem tem fé verdadeira", sustenta esse monge de 58 anos, dono de vívidos olhos verdes, "tem também liberdade. Tem amor."
Os monastérios são tudo, menos blocos monolíticos. O Vatopediou, à beira-mar, está repleto de tesouros bizantinos e ambições – entre seus monges há um regente musical que trabalha em período integral. Por outro lado, o monastério Konstamonitou, agrário, abraça um estilo de vida rústico, sem eletricidade ou donativos da União Europeia. Já o Simonos Petras, suspenso acima de uma infinita paisagem marinha, parece agarrado à escada que leva aos céus.
Alguns monges se atêm à aridez de choças mambembes ao longo das encostas íngremes do monastério Karoulia. Outros ainda optam pelo fanatismo. É o caso dos residentes do Esfigmenou, monastério milenar durante muito tempo atormentado por piratas, incêndios e repressores otomanos, e que agora se vê vitimado pelo próprio radicalismo. Ao renunciar à política dos Patriarcas Ecumênicos de diálogo com outras denominações cristãs, aferrando-se ao lema “Ortodoxia ou morte”, a irmandade do Esfigmenou foi banida pelo corpo dirigente do monte Athos, conhecido como a Sagrada Comunidade. Eles agora subsistem em desafiadora ilegalidade de doações de simpatizantes espalhados pelos quatro cantos do mundo externo. "Prosseguiremos em nossa luta", declara seu abade renegado. "Depositamos nossas esperanças em Cristo e na Virgem Santa – e em ninguém mais."
Algo como 2 mil trabalhadores não religiosos dividem o território da península com o mesmo número de monges. O monte Athos faz parte da Grécia desde 1924. A sede do governo local é Karyes, a encardida capital onde são depositados os carregamentos vindos de longe e os recém-chegados peregrinos ortodoxos. (Os visitantes precisam solicitar uma autorização especial. A Sagrada Comunidade admite levas de cerca de 100 homens por até quatro dias.)
Encruzilhada em que se fundem o perene e o transitório, Karyes exorbita em contradições: um monge manquitola pela rua com uma bengala de galho retorcido em uma mão e, na outra, uma valise da Nike. Lojas oferecem velas, terços e garrafas de ouzo, a aguardente grega. A polícia tem de lidar com ocasionais bebedeiras em público ou roubos em lojas. Além disso, Karyes sedia a Sagrada Comunidade, o mais antigo Parlamento em atividade no mundo. Seus membros se debruçam sobre assuntos importantes, como as relações com a União Europeia, ou mínimos, como definir quem vai alugar uma loja.
O lugar tem sobrevivido dobrando-se quando é preciso, embora sempre com relutância. Santo Anastácio, fundador do monastério Megistis Lavras, em 963, enfureceu os eremitas ao introduzir uma arquitetura ousada em uma região rústica por excelência. Estradas e ônibus, depois eletricidade e telefones celulares, têm sido fonte de apreensão. A última transgressão foi a internet. Alguns monastérios fizeram pela rede encomendas de peças de reposição, se comunicaram com advogados, navegaram em sites de pesquisa acadêmica. "A maioria dos monges nem sequer sabia sobre os ataques às torres de Nova York, em setembro de 2001", adverte um monge.
Os religiosos mais novos têm educação universitária, laptops e pouca experiência em criar galinhas. E persistem as preocupações de que os donativos da União Europeia só terão continuidade se atrelados a exigências – tais como a permissão de visita de mulheres à península. Do jeito que a coisa vai, o monte Athos não poderá evitar o confronto com as questões terrenas.
Todavia, a irmandade avança à maneira usual: milímetro a milímetro, glorificando o mundo oculto – "digerindo a morte", nas palavras de um de seus mais proeminentes luminares, o padre Vasileios, "antes que ela nos digira".

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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Sistema permitirá visualização de cenários futuros do clima

Antonio Carlos Quinto

Um conjunto de técnicas e ferramentas para auxiliar na análise e visualização de dados metereológicos e de modelos de cenários futuros de mudanças climáticas vem sendo desenvolvido no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação de São Carlos (ICMC), da USP. O projeto AgroDataMine: Desenvolvimento de Métodos e Técnicas de Mineração de Dados para apoiar Pesquisas em Mudanças Climáticas com Ênfase em Agrometeorologia acaba de ser aprovado numa chamada pública do Instituto Microsoft Research e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) de pesquisas em TI.

Projeto será focado no setor agrícola, que é o mais afetado pelas mudanças climáticas

Projeto será focado no setor agrícola, que é o mais afetado pelas mudanças climáticas.

De acordo com a professora Agma Juci Machado Traina, do Departamento de Ciência da Computação do ICMC, o projeto teve origem na pesquisa de doutorado de Luciana Alvim Santos Romani, que é pesquisadora da Embrapa Informática Agropecuária, e conta com a parceria do Centro de Pesquisas Metereológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Agma é orientadora de Luciana e conta que o desafio do projeto é gerenciar um grande volume de dados meteorológicos e climáticos de até 100 anos. “As informações são da ordem de terabytes e o sistema deverá processar dados de imagens de satélites, estações metereológicas e radares, entre outros”, descreve a professora.

Fractais
Agma explica que o cruzamento dos dados no sistema são realizados por algoritmos que trabalham com regras de associação e com a teoria dos fractais. “A teoria dos fractais é um modelo matemático robusto que será usado no projeto. Afinal, o volume de dados é grande. Para se ter uma idéia, cada execução de um modelo de cenários futuros de mudanças climáticas, por exemplo, gera informações da ordem de dois a três terabytes. Isso é impensável de se processar num computador comum, um PC doméstico”, explica Agma, lembrando que um conjunto de servidores atua como base do AgroDataMine.

O projeto será focado no setor agrícola, já que a atividade é das mais afetadas pelas mudanças climáticas. Segundo Agma, a ocorrência de eventos extremos, como chuvas fortes, enchentes, secas e outros fenômenos leva a grandes perdas na agricultura bem como na população que é afetada. “A capacidade de analisar o cenário que propicia tais ocorrências e a correlação de índices e medidas climáticas permite a tomada de decisões estratégicas para se prevenir em relação aos eventos extremos”, avalia a professora. Além disso, a análise de cenários futuros permitirá que agricultores, cooperativas e governo possam decidir com melhor embasamento as melhores culturas ou adaptações a serem feitas nos plantios.

Na prática
O AgroDataMine já está sendo aplicado na prática. Os primeiros resultados, no entanto, serão conhecidos em um prazo de dois anos, que é a duração prevista do projeto. Para os primeiros testes, os pesquisadores analisaram cinco regiões produtoras de cana-de-açúcar localizadas na área central do estado de São Paulo, nas cidades de Araraquara, Jaboticabal, Jaú, Pitangueiras e Sertãozinho.

Os dados obtidos são referentes às temperaturas, mínimas e máximas, e imagens do satélite NOAA de um período de sete anos, entre 2001 e 2008. Os primeiros resultados indicam, por exemplo, que existe uma correlação entre a precipitação e o índice de vegetação obtido por meio das imagens de satélite, com uma defasagem de 2 meses. Isso significa que após 2 meses da ocorrência de muita chuva ou secas é que se observa um reflexo desse fenômeno na planta. Com isso, é possível utilizar as técnicas que estão sendo desenvolvidas pela equipe do projeto para encontrar correlações entre as diversas variáveis e definir modelos de previsão. “Esses novos métodos podem auxiliar os agrometeorologistas e fornecer informações aos agricultores ajudando-os na tomada de decisão”, revela a professora.

Fonte: Agência USP de Notícias – http://www.usp.br/

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Gênios do crime

Romances de detetive do italiano Andrea Camilleri e do sueco Henning Mankell evidenciam as diferenças dentro da literatura globalizada.

PETER BURKE

Desde que Arthur Conan Doyle virtualmente inventou um novo gênero literário ao criar Sherlock Holmes, em 1887, as histórias de detetives vêm florescendo.
O Marlowe de Raymond Chandler, o Poirot de Agatha Christie e o Maigret de Georges Simenon são famosos há muito (uma estátua de Maigret foi erigida na Bélgica natal de Simenon, em 1966), mas eles ganharam ao longo dos anos a adesão de um grupo multinacional de colegas mais jovens, quer policiais, quer investigadores particulares (gosto de imaginar a possibilidade de um jogo de futebol entre os dois grupos).
No passado quase confinado aos mundos de fala inglesa ou francesa, o gênero posteriormente floresceu de maneira muito mais ampla, especialmente no Japão e na Coreia do Sul.
Na Europa, há importantes escritores, da Espanha (Vázquez Montalbán, criador de Pepe Carvalho) à Holanda e da Itália (Andrea Camilleri) à Suécia -um país que por algum motivo se provou especialmente produtivo em termos de detetives literários, desde os anos 1960-, culminando com o sucesso infelizmente póstumo do jornalista Stieg Larsson [1954-2004] com sua Lisbeth Salander, a mais recente em uma linhagem cada vez mais longa de investigadoras.
A televisão ofereceu uma segunda vida a alguns desses personagens. O Hercule Poirot de Agatha Christie é hoje tão inseparável do ator David Suchet quanto o inspetor Morse, de Colin Dexter, o é do ator John Thaw (os fãs da atuação de Thaw na longa série de televisão protagonizada por Morse incluem a rainha Elizabeth 2ª).
As carreiras de outros detetives famosos, de Taggart em Glasgow [Escócia] a Columbo em Los Angeles, transcorreram inteiramente na televisão, e não nas páginas de romances. Os críticos literários certamente perceberão e provavelmente já escreveram sobre as alusões que uma história de detetives faz a figuras anteriores dessa tradição, um truque que muitos dos escritores desse tipo de livro adoram usar.
Assim, o nome do inspetor Montalbano, de Camilleri, é uma homenagem ao escritor Vázquez Montalbán, enquanto Lisbeth Salander, de Larsson, evoca o inspetor Wallander [de Henning Mankell].
De sua parte, o amor do inspetor Wallander pela ópera lembra os leitores do inspetor Morse (gosto de imaginar esses dois sujeitos solitários se encontrando e descobrindo na música um interesse comum).
O rastro de cada um
Do ponto de vista de um historiador da cultura, como é o meu caso, também é interessante perguntar se, a despeito dos traços comuns do gênero, histórias de detetives publicadas em diferentes países revelam algumas das principais características das culturas em que foram escritas.
Para testar a hipótese, consideremos dois dos principais detetives de ficção hoje em atividade, Montalbano e Wallander. Os dois compartilham alguns traços. Ambos são policiais, ao contrário de Holmes e Marlowe. Os dois trabalham em cidades pequenas de suas regiões natais, a Sicília no primeiro caso e Skane, no sul da Suécia, no segundo, em lugar de serem forasteiros, como Poirot na Inglaterra. Nem Montalbano nem Wallander são casados; no momento maridos ou mulheres de protagonistas são de fato coisa rara nesse gênero de ficção.
De outras maneiras, porém, eles são muito diferentes, quase opostos. Montalbano, como seu predecessor espanhol Pepe Carvalho, gosta de comer bem, enquanto Wallander come mal e pouco parece se importar com comida.
Montalbano é mais sociável e tem mais sucesso em suas relações com mulheres, e seu senso de diversão é superior, enquanto Wallander, enquadrado aos estereótipos das culturas protestantes em geral, e da sueca em particular, é melancólico, introspectivo e individualista, como um personagem de um filme de Ingmar Bergman -e também bebe pesadamente.
O mais revelador quanto às diferenças culturais entre Itália e Suécia talvez sejam as atitudes distintas que os dois policiais adotam com relação às leis em geral e às regras de investigação em particular. Montalbano está sempre quebrando as regras, sem remorso. Sua atitude para com o governo e a burocracia é cínica.
Wallander, por outro lado, sofre de desilusão apenas parcial para com o sistema. Ainda respeita "vacas sagradas" tais como diretores de empresas e políticos, a despeito de todos os indícios de corrupção. Prefere obedecer à lei, exceto quando precisa estacionar seu carro.
Mas muitas vezes, como em "O Homem Que Sorria" [Companhia das Letras], vê-se em "uma terra de ninguém onde qualquer bem que ele pudesse fazer sempre envolvia a necessidade de decidir que regulamentos obedecer e que regulamentos violar". Não é difícil adivinhar qual dos dois inspetores sobreviveria melhor a uma transferência para a polícia do Rio de Janeiro.
Depois do teatro
Os dois autores, o siciliano Camilleri e o sueco Mankell, também oferecem uma interessante mistura de semelhanças e contrastes. Ambos se tornaram famosos depois de publicar suas histórias de detetives, que venderam milhões de cópias em muitos idiomas e foram adaptadas para a televisão.
Os dois chegaram ao gênero relativamente tarde, depois de carreiras no teatro, o que se torna mais aparente nos livros de Camilleri, com suas cenas dramáticas e diálogos coloquiais, apresentados ao leitor em um italiano temperado -ou melhor, apimentado- pelo dialeto siciliano.
A caracterização de Mankell é discreta, calculada. Os personagens dele podem parecer um tanto apagados, inicialmente, mas, ao longo de uma série de livros, ganham contornos mais definidos.
Mas os maiores contrastes estão na percepção dos dois autores quanto a tempo e espaço, vinculados a seus diferentes lugares de nascimento (uma grande cidade, Estocolmo, e a pequena Porto Empedocle) e, possivelmente, à diferença geracional (Camilleri nasceu em 1925 e Mankell, em 1948).
A Sicília de Camilleri, especialmente a cidade de Vigàta [imaginada pelo autor italiano] e a área que a cerca, é apresentada como um mundo isolado, resistente a mudanças, a despeito de referências à história italiana recente, especialmente terrorismo, corrupção e imigração norte-africana. Por outro lado, os crimes que Wallander investiga na pequena Skane estão sempre conectados ao mundo exterior -à Letônia, em "Os Cães de Riga", à África do Sul, em "A Leoa Branca" [ambos publicados pela Companhia das Letras], e à República Dominicana, em "A Falsa Pista".
Isso permite que Mankell aproveite sua experiência de vida em Moçambique e outros países, mas também enfatiza que o global interfere cada vez mais nas culturas locais, mesmo em pequenas cidades como a Ystad de Wallander. Quer o tenham planejado, quer não, Camilleri-Montalbano e Mankell-Wallander têm muito a nos dizer sobre suas culturas.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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Antonio Gramsci – Um apóstolo da emancipação das massas

O filósofo italiano atribuía à escola a função de dar acesso à cultura das classes dominantes, para que todos pudessem ser cidadãos plenos.

MP/LEEMAGE/OTHERIMAGESPRESS

Co-fundador do Partido Comunista Italiano, Antonio Gramsci (1891-1937) foi uma das referências essenciais do pensamento de esquerda no século 20. Embora comprometido com um projeto político que deveria culminar com uma revolução proletária, Gramsci se distinguia de seus pares por desacreditar de uma tomada do poder que não fosse precedida por mudanças de mentalidade. Para ele, os agentes principais dessas mudanças seriam os intelectuais e um dos seus instrumentos mais importantes, a escola.

Alguns conceitos criados ou valorizados por Gramsci hoje são de uso corrente em várias partes do mundo. Um deles é o de cidadania. Foi ele quem trouxe à discussão pedagógica a conquista da cidadania como um objetivo da escola. Ela deveria ser orientada para o que o pensador chamou de elevação cultural das massas, ou seja, livrá-las de uma visão de mundo que, por se assentar em preconceitos e tabus, predispõe à interiorização acrítica da ideologia das classes dominantes.

Biografia

Nascido em Ales, na ilha da Sardenha, em 1891, numa família pobre e numerosa, Antonio Gramsci foi vítima, antes dos 2 anos, de uma doença que o deixou corcunda e prejudicou seu crescimento. Na idade adulta, não media mais do que 1,50 metro e sua saúde sempre foi frágil. Aos 21 anos, foi estudar letras em Turim, onde trabalhou como jornalista de publicações de esquerda. Militou em comissões de fábrica e ajudou a fundar o Partido Comunista Italiano em 1921. Conheceu a mulher, Julia Schucht, em Moscou, para onde foi enviado como representante da Internacional Comunista. Em 1926, foi preso pelo regime fascista de Benito Mussolini. Ficou célebre a frase dita pelo juiz que o condenou: "Temos que impedir esse cérebro de funcionar durante 20 anos". Gramsci cumpriu dez anos, morrendo numa clínica de Roma em 1937. Na prisão, escreveu os textos reunidos em Cadernos do Cárcere e Cartas do Cárcere. A obra de Gramsci inspirou o eurocomunismo – a linha democrática seguida pelos partidos comunistas europeus na segunda metade do século 20 – e teve grande influência no Brasil nos anos 1970 e 1980.

Ao contrário da maioria dos teóricos que se dedicaram à interpretação e à continuidade do trabalho intelectual do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), que concentraram suas análises nas relações entre política e economia, Gramsci deteve-se particularmente no papel da cultura e dos intelectuais nos processos de transformação histórica. Suas idéias sobre educação surgem desse contexto.
Para entendê-las, é preciso conhecer o conceito de hegemonia, um dos pilares do pensamento gramsciano. Antes, deve-se lembrar que a maior parte da obra de Gramsci foi escrita na prisão e só veio a público depois de sua morte. Para despistar a censura fascista, Gramsci adotou uma linguagem cifrada, que se desenvolve em torno de conceitos originais (como bloco histórico, intelectual orgânico, sociedade civil e a citada hegemonia, para mencionar os mais célebres) ou de expressões novas em lugar de termos tradicionais (como filosofia da práxis para designar o marxismo). Seus escritos têm forma fragmentária, com muitos trechos que apenas indicam reflexões a serem desenvolvidas.

A mente antes do poder

Hegemonia significa, para Gramsci, a relação de domínio de uma classe social sobre o conjunto da sociedade. O domínio se caracteriza por dois elementos: força e consenso. A força é exercida pelas instituições políticas e jurídicas e pelo controle do aparato policial-militar. O consenso diz respeito sobretudo à cultura: trata-se de uma liderança ideológica conquistada entre a maioria da sociedade e formada por um conjunto de valores morais e regras de comportamento. Segundo Gramsci, "toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica", isto é, de aprendizado.

Elogio do "ensino desinteressado"

Saudação fascista diante da residência de Mussolini em 1938: escola como privilégio de classe. Foto: HULTON ARCHIVE/Getty Images

Saudação fascista diante da residência de Mussolini em 1938: escola como privilégio de classe.

Uma parte importante das reflexões de Gramsci sobre educação foi motivada pela reforma empreendida por Giovanni Gentile, ministro da Educação de Benito Mussolini, que reservava aos alunos das classes altas o ensino tradicional, "completo", e aos das classes pobres uma escola voltada principalmente para a formação profissional. Em reação, Gramsci defendeu a manutenção de "uma escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa". Para ele, a Reforma Gentile visava predestinar o aluno a um determinado ofício, sem dar-lhe acesso ao "ensino desinteressado" que "cria os primeiros elementos de uma intuição do mundo, liberta de toda magia ou bruxaria". Ao contrário dos pedagogos da escola ativa, que defendiam a construção do aprendizado pelos estudantes, Gramsci acreditava que, pelo menos nos primeiros anos de estudo, o professor deveria transmitir conteúdos aos alunos. "A escola unitária de Gramsci é a escola do trabalho, mas não no sentido estreito do ensino profissionalizante, com o qual se aprende a operar", diz o pedagogo Paolo Nosella. "Em termos metafóricos, não se trata de colocar um torno em sala de aula, mas de ler um livro sobre o significado, a história e as implicações econômicas do torno."

A hegemonia é obtida, segundo Gramsci, por meio de uma luta "de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política". Ou seja, é necessário primeiro conquistar as mentes, depois o poder. Isso nada tem a ver com propaganda ou manipulação ideológica. Para Gramsci, a função do intelectual (e da escola) é mediar uma tomada de consciência (do aluno, por exemplo) que passa pelo autoconhecimento individual e implica reconhecer, nas palavras do pensador, "o próprio valor histórico". "Não se trata de um doutrinamento abstrato", diz Paolo Nosella, professor de filosofia da educação da Universidade Federal de São Carlos.

Acesso ao código dominante

O terreno da luta de hegemonias é a sociedade civil, que compreende instituições de legitimação do poder do Estado, como a Igreja, a escola, a família, os sindicatos e os meios de comunicação. Ao contrário do pensamento marxista tradicional, que tende a considerar essas instituições como reprodutoras mecânicas da ideologia do Estado, Gramsci via nelas a possibilidade do início das transformações, por intermédio do surgimento de uma nova mentalidade ligada às classes dominadas.
Na escola prevista por Gramsci, as classes desfavorecidas poderiam se inteirar dos códigos dominantes, a começar pela alfabetização. A construção de uma visão de mundo que desse acesso à condição de cidadão teria a finalidade inicial de substituir o que Gramsci chama de senso comum – conceitos desagregados, vindos de fora e impregnados de equívocos decorrentes da religião e do folclore. Com o termo folclore, o pensador designa tradições que perderam o significado mas continuam se perpetuando. Para que o aluno adquira criticidade, Gramsci defende para os primeiros anos de escola um currículo que lhe apresente noções instrumentais (ler, escrever, fazer contas, conhecer os conceitos científicos) e seus direitos e deveres de cidadão.

A experiência prática das contradições

Durante sua curta vida, Gramsci testemunhou de perto os dois extremos totalitários do século 20. Conheceu em Moscou a Revolução Russa no calor de seus primeiros anos e, pouco tempo depois, foi uma das vozes pioneiras a denunciar a degeneração da política soviética para a tirania, sob Josef Stalin. No outro extremo, a ditadura fascista em seu país natal fez de Gramsci um alvo precoce de perseguição, que resultou em seu aprisionamento. A trajetória do pensador pela Itália durante a infância e a juventude – do sul atrasado, camponês e tradicionalista ao norte industrial onde se engajou na política – também não podia ter sido mais emblemática das contradições de seu tempo. A lucidez com que Gramsci refletiu sobre essas experiências fez seu pensamento sobreviver não só a ele mesmo como ao próprio socialismo real, como era chamado o regime característico do conjunto de países comunistas do Leste Europeu, que desmoronou em bloco na virada dos anos 1980 para os anos 1990. Seu pensamento, que havia sido uma alternativa ao marxismo predominante nos meios acadêmicos de todo o mundo até então, continua atual, já que não conflita com o sistema democrático.

Para pensar

Muitos pensadores clássicos da educação, entre eles Comênio (1592-1670) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), subordinavam o processo pedagógico à natureza. A própria evolução das crianças daria conta de grande parte do aprendizado. Gramsci tinha outra idéia. "A educação é uma luta contra os instintos ligados às funções biológicas elementares, uma luta contra a natureza, para dominá-la e criar o homem ‘atual’ à sua época", escreveu. Você concorda com ele ou considera equivocada a tese de que a cultura distancia o homem da natureza? Ou será possível conciliar as duas correntes de pensamento?

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

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Lulismo paz e amor

Diretor da maior produção da história do cinema brasileiro, Fábio Barreto projeta imagem de um Lula sem defeitos.

Eduardo Socha

Por mais que o cineasta carioca Fábio Barreto se esquive com reticências e detalhes de sua epopeica produção, o filme Lula, o Filho do Brasil – cuja estreia ocorrerá no primeiro dia do ano da sucessão presidencial – possui uma clara destinação política e representará uma importante ferramenta na campanha eleitoral. Na pre-estreia, ocorrida no Festival de Cinema de Brasília em novembro, o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) escarneceu a oposição que, antecipadamente, criticava a instrumentalização eleitoreira do filme. Depois de tergiversar sobre os desdobramentos de uma narrativa cinematográfica quase idílica sobre Lula, Bernardo conclamou a oposição a também fazer um filme que contasse a vida de qualquer um de seus líderes. "Se procurar, acham alguma história interessante", ironizou o ministro na agitada sessão de abertura do festival; na plateia, figuras do alto escalão do governo, incluindo a primeira-dama Marisa Letícia.

Fábio desconversa quando o assunto envolve campanha eleitoral. O diretor de O Quatrilho (filme brasileiro indicado ao Oscar em 1996) limita-se a falar do Lula retirante ao Lula sindicalista – recorte biográfico da atual superprodução -, como se não houvesse dividendos políticos a ser recolhidos com a construção mítica do atual presidente da República. "É lógico que fazer a ligação com o que acontece hoje, cada um pode fazer como quiser", argumenta sumariamente, mostrando-se irredutível em prolongar o tema na entrevista concedida à CULT.

Barreto: "Fazer esse filme foi difícil porque adoro colocar prós e contras, considero uma obrigação deixar as pessoas julgarem como quiserem"

A produção mais cara da história do cinema nacional contou com recursos de 12 milhões de reais, provenientes do patrocínio direto (sem leis de incentivo) de conglomerados empresarias, como as construtoras  Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa, que possuem projetos diretamente ligados a programas do governo federal. Do orçamento total, 4 milhões de reais estão reservados apenas à distribuição. Estruturada de maneira audaciosa, ela conta com 400 cópias, além da projeção, a longo prazo, em telas itinerantes pelo país e de sessões a preços populares em algumas entidades sindicais.

Estrutura clássica

A ideia inicial de um documentário foi abandonada quando se descobriu, nas palavras do diretor, o "manancial dramático" da biografia do atual presidente. Conscientemente, o filme apoia-se na estrutura clássica e linear do melodrama, materializando a idealização retrospectiva e enaltecedora do "Lula paz e amor". O próprio diretor, aliás, apressa-se em definir o filme como "melodrama épico", como "espetáculo" – dado elementar que parece ter escapado às críticas realizadas sobre o filme até o momento, que focalizam os exageros da construção positiva da imagem de Lula, excessivamente "esquemática" e permeada de clichês.

Evidentemente, o filme conta com forte apelo emocional e explora de maneira novelesca e pedagógica (por vezes irritante) alguns dos momentos mais significativos da vida do presidente. Sem dúvida, o protagonista do filme, retratado como exemplo irretocável de virtude, encobre os defeitos "eventuais" do personagem real. Seria o caso então de uma espécie de Photoshop moral aplicado no retrato cinematográfico? Talvez. É preciso reconhecer, no entanto, que Fábio Barreto seguiu à risca a cartilha do melodrama.

Como se sabe, o melodrama é um gênero simplista, mas não necessariamente falso. Pela definição clássica, o melodrama possui pelo menos dois temas principais que aparecem na maior parte das vezes entrelaçados: a superação da injustiça e a cristalização amorosa. No filme, ambos os temas (nesse caso, injustiça social e ternura materna), que sublimam a reflexão em favor de uma conotação emocional mais exagerada, são manipulados com ritmo preciso e encadeados com apuro técnico e visual. Em O Olhar e a Cena, o crítico e professor de cinema Ismail Xavier lembra que "essa combinação de sentimentalismo e prazer visual tem garantido ao melodrama dois séculos de hegemonia na esfera dos espetáculos". Portanto, quer se goste ou não do melodrama, de suas limitações formais e de sua visada espontaneamente mercantil, do ponto de vista narrativo, pelo menos, Fábio manteve-se fiel às regras do gênero. Não por acaso, o produtor do filme, Luiz Carlos Barreto, pai de Fábio e chefe do clã dos Barreto (que inclui a produtora Paula e o também diretor Bruno), declarou sem embaraços que fez um filme popular, de espetáculo, "para ganhar dinheiro" – escolha comercial, aliás, que se conforma às ambições internacionais da produção, pronta para embarcar na popularidade "é o cara" de Lula no mundo.

Ator político

O problema começa obviamente quando o protagonista da ficção melodramática é também o principal ator da cena política brasileira. Ainda que a narrativa termine com a saída de Lula do Dops em 1980, vários elementos concorrem para o fortalecimento político de sua imagem atual. Como foi dito, o ex-metalúrgico é apresentado sob as feições quase divinizantes do homem virtuoso, cuja fatura política, em se tratando do jogo partidário do ano que vem, é autoexplicativa. Na cena de sua entrada no sindicato, por exemplo, Lula é introduzido como "sangue novo", alguém que veio para "fazer diferente", para "mudar". A biografia autorizada da jornalista Denise Paraná, que serviu de base para o roteiro, do qual participou, já enfatizava a transição do que chama de "cultura da pobreza" para a "cultura da transformação", o que sugere igualmente a encarnação de uma grande mudança estrutural na própria figura do presidente.

Outro elemento central para essa tonificação política é o alinhamento da biografia de Lula às tragédias sociais e aos acontecimentos marcantes de sua época: nasce em 1945, ano do fim do Estado Novo; perde o dedo no ano do golpe militar de 1964; filia-se ao sindicato no ano do decreto AI-5; organiza as greves do ABC no momento certo do processo de abertura política. O personagem atravessa o repertório das tragédias sociais brasileiras: fome, miséria, migração forçada, violência familiar, precariedade do sistema de saúde pública, problemas de infraestrutura urbana (casa inundada por enchente), violência urbana, abuso de autoridade policial, desemprego. O efeito é cristalino.

Pesquisa do Vox Populi realizada em novembro aponta ascensão de Dilma Rousseff (provável candidata petista na eleição de 2010) e queda de José Serra (provável candidato tucano) na corrida presidencial. Embora Fábio Barreto insista dizendo "que o filme está acima disso e não vai se prestar a nenhum tipo de arma política", a produção turbinará a campanha em sua dimensão ideológica. Não é necessário fazer o recenseamento teórico das estreitas afinidades entre estética e política, nem do potencial de distorção da realidade que uma imagem cinematográfica bem consolidada pode ocasionar. Basta dizer que associar a imagem do presidente à da candidata contribuirá para a pauta de uma sucessão que será colocada em termos de continuidade (ao projeto político de Lula) ou de ruptura (indiretamente tributária, na verdade,  à era FHC). Lula, o Filho do Brasil comprova o quanto a discreta clivagem entre cena cinematográfica e cena política pode ser rentável.

Barreto e o ator Rui Ricardo Diaz, que interpreta Lula 

CULT – A ideia inicial era fazer um documentário com base na biografia de Denise Paraná. Como aconteceu essa passagem da ideia de um documentário para a realização de uma superprodução?
Fábio Barreto – A ideia inicial era fazer um "docudrama". Mas  percebemos que ali estava uma grande história, com um manacial dramático muito rico, baseado, sobretudo, em uma história de mãe e filho. Relação entre mãe e filho já deu muito pano para manga em filmes. Esse seria mais um. Em segundo lugar, tinha essa família representando milhões de outras famílias que passaram pela mesma situação, aquela de um dos maiores movimentos migratórios internos da história da humanidade, que foi a migração nordestina para o sul do Brasil. E também a história de um brasileiro, como milhões de outros, sem oportunidade, sempre fadados a não conseguir nada na vida, que superou seu próprio destino com grande determinação e confiança, uma pessoa que acreditava em si mesma e conseguiu realizar seu sonho. É um exemplo, um vencedor. Então, essas três coisas nos motivaram a fazer um filme de ficção.

CULT – O livro de Denise Paraná fala da mudança da cultura da pobreza para a cultura da transformação em Lula. O filme, porém, define a relação materna como núcleo narrativo. Como foi negociar isso com os roteiristas, a começar pela própria Denise?
Barreto – Toda a parte do livro da Denise que não são os depoimentos, que são considerações da própria autora a respeito da família Silva, já fala muito da relação dele com a mãe e do sofrimento dessa família. As questões da fome, miséria, pau de arara, migração, acidente de trabalho, erro hospitalar, prisão política etc. Quer dizer, é uma família que passou por todas as mais difíceis provações da história do Brasil nos últimos 50 anos. A Denise concordou de pronto. Pediu a mim e ao Daniel Tendler [corroteirista do filme] que fôssemos pinçando do livro os fatos mais importantes que resultariam numa narrativa dramática. Então, fizemos um primeiro roteiro e daí fomos dilapidando, compilando, secando, até chegar um momento em que precisamos chamar o Fernando Bonassi para arrematar.

CULT – Por que chamar o Fernando Bonassi?
Barreto – O Fernando nasceu e foi criado no ABC paulista, assim como o Bráulio Mantovani, talvez nossos melhores roteiristas hoje. São oriundos do coração industrial da América Latina. Além disso, o Fernando foi um dos primeiros integrantes do PT, participou de campanhas do Lula, conhecia a fundo tudo isso, inclusive o movimento sindical propriamente dito. Então, foi a pessoa certa para dar a arrematada nos detalhes, em termos de verossimilhança, situações, diálogo, linguagem. A colaboração dele foi muito importante. Resultou numa realização dramática de ritmo apurado, que atende à pretensão de um longa-metragem que busca o mainstream e o grande público.

CULT – Você disse que evitou a construção mítica do Lula, mas ele é apresentado como virtuoso. Existe apenas uma passagem em que Lula diz ter herdado a bondade da mãe e a maldade do pai.  O espectador não sabe exatamente que maldade é essa. Assim como a biografia de Denise Paraná foi "autorizada", você se preocupou em criar algo "autorizado" ?
Barreto – Não. Nem a família nem o Lula interferiram. Pelo contrário, fizeram questão de se manter a distância para nos deixar com a maior liberdade possível. Li passagens para o Frei Chico [irmão de Lula] e para o Lula para tirar algumas dúvidas, mais no sentido de saber e averiguar alguns relatos. Tive apenas um encontro com Lula, três dias antes de filmar. Fiz algumas perguntas, li algumas cenas para tirar dúvidas. Inclusive ele pediu um DVD para ver o filme depois de pronto, mas a gente não fez DVD. O Ministério da Justiça nos recomendou não fazer cópias. Então, até o momento [novembro], Lula não viu ainda. Eu prefiro que ele assista ao filme em tela grande. É um filme de espetáculo, exige uma sala grande.

CULT – Sobre a distribuição nacional do filme, qual a estratégia adotada em um país em que 90% das cidades não têm cinema?
Barreto – A gente tem 400 cópias do filme. Em primeiro lugar, existe um público específico, filiado aos sindicatos. Então, fizemos acordos com as centrais sindicais no sentido de facilitar o acesso ao filme, com preços razoáveis para esse público. Existe um esquema montado também com telas itinerantes para rodar o Brasil, mas isso é mais a longo prazo, e vai colocar uma parcela muito grande da população em contato com o filme. No futuro próximo, poderá ser explorado também quando o Vale-Cultura estiver em vigor. Esse filme quer contribuir para o desenvolvimento de uma indústria de cinema no Brasil. Ele está sendo direcionado a um público que não costuma ir a salas de cinema.

CULT – E quanto à distribuição internacional?
Barreto – O filme tem claramente uma ambição internacional, dada a qualidade técnica e a popularidade de Lula no mundo. Nós nem lançamos ainda e já dei entrevistas para jornais, revistas e televisões do mundo inteiro:LA Times, NYTimes, Le Figaro, El País, Clarín, para as TVs canadense, francesa, alemã etc. A demanda e a expectativa pelo filme são muito grandes. Montamos um esquema de distribuição que pretende servir de modelo para a América Latina. Já temos certa experiência, por exemplo, com o Dona Flor e Seus Dois Maridos, e queremos dar continuidade a isso.Dona Flor, por exemplo, foi o filme estrangeiro mais visto na história da Argentina, mais do que qualquer blockbuster norte-americano. Pelo que representa o Lula hoje no mundo, esse filme vai despertar muita curiosidade.

CULT – Qual sua opinião sobre a atuação política de Lula?
Barreto – Posso dizer, muito sinteticamente, que Lula representa uma revolução no curso da sociedade brasileira, porque está mexendo profundamente numa coisa grave que sempre existiu no Brasil chamada complexo de inferioridade. Nossa elite – e essa é a diferença de Lula – sempre teve uma enorme relação de culpa com a população pobre e miserável, na medida em que sempre esteve no poder. Então, o governante sempre precisava dizer que estava fazendo de tudo para melhorar a vida da população etc. O Lula não tem esse sentimento de culpa porque veio de lá, sofreu na carne o que a população sofreu. E você também não pode negar que nenhum outro presidente projetou tanto o Brasil lá fora quanto ele. Existe uma coisa acontecendo, sim. Isso não é responsabilidade só dele, mas do próprio povo, como ele diz. Esse complexo de inferioridade está sendo vencido, essa mania de falar que é um povinho, uma gentinha, aquilo que os Diogos Mainardis da vida gostam de dizer. Essas pessoas acham que o Brasil não dá em nada, não percebem que o Brasil representa uma sociedade única e nova no mundo, um amálgama em que se misturam raça, religião, classe social, e que produz algo novo no mundo. Então, ele é responsável também por proporcionar essa coisa inédita, a ponto de irritar mesmo a elite, de deixá-la sem ação, de mostrar como a elite esclarecida é intelectualmente colonizada. Caetano Veloso, quando chama Lula de analfabeto, está se revelando uma pessoa profundamente colonizada, elitizada. Ao mesmo tempo, você tem um Obama que diz que Lula é "o cara".

CULT – Você disse que o filme não tem conotação político-partidária…
Barreto – Nenhuma.

CULT – Mas existe uma visão altamente positiva de Lula, uma construção clássica do herói. Como você se defende das críticas de que o filme seria não apenas chapa-branca, mas auxiliaria a campanha presidencial do ano que vem?
Barreto – O que o Lula representou naquela época a que o filme se refere [do nascimento em 1945 à saída do Dops em 1980] é uma grande realidade. Lula foi um homem que botou um exército de 300 mil operários contra o exército brasileiro. O exército estava lá defendendo a Volkswagen, a GM, a Mercedes, as grandes montadoras, contra o trabalhador brasileiro. Agora, o Lula no poder é outra coisa. Qualquer um que senta naquela cadeira… aquela cadeira muda as pessoas. Ali, é preciso negociar com forças diferentes. Para conseguir o que se quer, precisa ceder muita coisa. Mas o filme retrata o que ele foi naquela época. E ele foi o que houve de mais original, a principal força que precipitou o fim do regime militar. É lógico que fazer a ligação com o que acontece hoje, cada um pode fazer como quiser. Se hoje as pessoas não gostam do Lula pelo tipo de acordo que ele faz, por apoiar o Sarney na presidência do Senado, isso é outra coisa. São contingências que ele enfrenta para governar. Não que uma coisa justifique a outra. Mas o meu filme não se refere a isso, não fala do Lula presidente da República. Fala do Lula retirante até a presidência do sindicato dos metalúrgicos.

CULT – Mas o filme vai criar um clima. A oposição disse que eleição é emoção. Então, é justo dizer que o filme vai ser um instrumento político importante para a candidatura de Dilma, cuja imagem está atrelada à figura de Lula. De que maneira você pretende reagir para evitar o excesso de oportunismo gerado pelo filme?
Barreto – Acho que o filme está acima disso e não vai se prestar a nenhum tipo de arma política. Estamos negando delicadamente algumas solicitações do PT, pedidos que possam ter conotação política, que possam servir de instrumento político eleitoral. Há um trabalho nesse sentido para preservar o filme.

CULT – Como você analisa as relações entre política e cultura?
Barreto – Não tenho nenhuma ideologia. Minha ideologia é a exposição. O que procuro nos meus filmes é tentar expor todos os elementos ambíguos possíveis, para que o espectador se sinta livre para julgar à sua maneira. Fazer esse filme foi muito difícil para mim, porque a história desse homem, até onde eu conto, que é o enterro da mãe dele, é muito difícil de contar. Como ele sofreu muito, passou por provações, é difícil ter pontos negativos, ter tocado em coisa negativa. Foi difícil porque adoro colocar prós e contras, considero isso uma obrigação, para deixar as pessoas julgarem como quiserem. O que pretendo com esse filme, como todos os outros que fiz até agora, é participar e contribuir para avançar neste sonho de estabelecer uma indústria de cinema. Este é o sentido da minha existência: colaborar para a existência de uma indústria brasileira de cinema.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

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Pesquisa aponta alto consumo de álcool e tabaco entre crianças do Brasil e Espanha

RAQUEL DO CARMO SANTOS

Estudo realizado na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), em conjunto com a Universidade Complutense de Madrid, na Espanha, revela alto índice de consumo de álcool e tabaco entre crianças espanholas e brasileiras, mais precisamente na faixa etária dos 11 anos. Pelos resultados, 74,4% dos alunos espanhóis e 43,8% dos brasileiros já ingeriram bebidas alcoólicas. Quando o assunto é o consumo de tabaco, este percentual cai para 21,9% na Espanha e 12,7% na amostra brasileira. Os dados, segundo a autora da pesquisa no Brasil, a professora da FCM Kátia Stancato, demonstram a existência de uma percepção de menor perigo, assim como uma maior tolerância social, em relação ao álcool do que ao tabaco. A docente alerta, porém, para a gravidade do problema do uso indiscriminado em ambos os casos, já que são drogas consideradas lícitas, cujo consumo é liberado.

“A expectativa é que esses números possam orientar ações de conscientização e educação permanente de pais, alunos, professores e comunidade para um dos mais graves problemas de saúde pública: o consumo de álcool e tabaco cada vez mais frequente em idades precoces. Por isso, este primeiro estudo comparativo de crianças de culturas distintas, além da formulação de um perfil dos padrões de consumo, proporciona informações relevantes que podem subsidiar formuladores de programas de prevenção”, destaca.

A professora salienta ainda que o consumo irresponsável e inadequado das drogas legais tem aumentado nos últimos anos, mas muito pouco se sabe sobre a problemática no público infantil. “É fundamental obter informações objetivas e sistemáticas sobre a situação, assim como identificar os fatores de risco que levam ao consumo e os fatores de proteção que dificultam o seu início e abuso”.

O inquérito multicêntrico com amostragem internacional envolveu a aplicação de questionário entre 1.012 crianças, na faixa etária de 10 a 12 anos, da Espanha e do Brasil, frequentadoras de escolas públicas e privadas de ensino fundamental. No Brasil, a pesquisa foi feita em 2008 em 16 escolas de Campinas, mas com uma amostra inferior ao levantamento realizado na Espanha, em razão de problemas burocráticos. Enquanto a amostragem espanhola foi de 720 crianças, as brasileiras somaram 292. “Estava prevista a participação de 750 crianças brasileiras, mas devido à diferença dos calendários letivos dos países e o atraso nas autorizações legais para a aplicação dos questionários, não foi possível completar a amostra”, explica Kátia.

Denominado “Fatores de risco e fatores de proteção relacionados com o âmbito escolar: sua incidência no consumo de álcool e tabaco em alunos de 11 anos de idade, brasileiros e espanhóis”, o estudo foi realizado sob a coordenação da professora María Pérez Solís, da Universidade Complutense, a partir do programa de cátedras mantido pelas duas universidades.

No primeiro semestre de 2007, María Pérez Solís esteve na Unicamp, enquanto Kátia Stancato passou quatro meses em Madri, no segundo semestre do mesmo ano. A professora María Pérez Solís desenvolveu parte da pesquisa com a colaboração do psicólogo espanhol Isaac Garrido Gutiérrez. No Brasil, Kátia contou com a participação das psicólogas Caroline Conceição Bispo e Alexandra Luciana Licco, da aluna do terceiro ano de Enfermagem Ana Carolina Gaban, e da funcionária da Reitoria Eliene Barros.

Influência dos pais
Uma porcentagem elevada de pais e de mães consome bebidas alcoólicas, o que poderia indicar um modelo de conduta por parte dos filhos. Entre os espanhóis, 78,5% dos pais e 58,8% das mães fazem uso do álcool, enquanto no público brasileiro, as mães é que consomem mais bebidas alcoólicas. Elas somam 58,8% e os pais, 49%.

Nos resultados brasileiros existe ainda um fator a ser destacado: 36,6% dos entrevistados declararam já ter presenciado a mãe embriagada e, em 11,6%, o pai é quem foi visto alcoolizado, diferentemente dos dados espanhóis, cujo índice foi insignificante neste aspecto. Já a maioria dos participantes espanhóis e brasileiros obteve a bebida em bares, lugares de diversão e em supermercados. Os participantes de ambos os países assinalam como principais motivos para a ingestão de álcool “uma forma de celebração” e “esquecer problemas”.

As circunstâncias em que se dá o consumo das drogas legais também foi alvo de investigação das pesquisadoras. Segundo o relatório, as festas de Natal e Ano Novo, casamentos e batizados são as principais datas em que o consumo das drogas é mais ostensivo. “O estudo descritivo evidenciou que as circunstâncias em que se produz o consumo de bebidas alcoólicas e de tabaco, fundamentalmente, são as festas de Natal e Ano Novo, como se as datas fossem um ritual de iniciação”, destaca trecho das conclusões do relatório.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Ilha da ressurreição

Como a gélida Geórgia do Sul recuperou sua fauna luxuriante.

Kenneth Brower
Foto: Paul Nicklen

Ilha da ressurreição

Um iceberg pontilhado de pinguins passa em gélida imponência ao largo da Geórgia do Sul. Esse remoto posto avançado britânico no extremo sul do oceano Atlântico é refúgio para milhões de aves marinhas e focas.

A ilha da Geórgia do Sul ergue-se íngreme e desolada acima da superfície do mar, um arco com 160 quilômetros de escuros picos antárticos e campos de gelo. Do convés de um navio a ilha surge como uma aparição assombrosa, como se o Himalaia tivesse se soerguido após o Dilúvio. Para um posto avançado no polo Sul tão sólido e agreste, metade recoberto por neve e gelo permanentes e a outra metade por rochas nuas e vegetação similar à da tundra, a Geórgia do Sul é curiosamente quimérica. Seus significados são contraditórios e esquivos. Seus estados anímicos são instáveis: ensolarada por um instante, sombria e gélida em seguida e voltando a brilhar com o sol. A ilha parece marcada por um destino inusitado, ao mesmo tempo propício e maldito. Poucos locais do planeta contêm tanta ambiguidade e tanto paradoxo.
Para o visitante, o primeiro paradoxo depende da latitude de seu porto de origem. No caso dos viajantes que vêm do norte, a ilha parece agreste e gelada. Mas aqueles que chegam pelo sul, vindos da península Antártica, topam com uma ilha recoberta por uma vegetação quase tropical. (Na Antártica, há apenas duas espécies endêmicas de plantas vascularizadas; na Geórgia do Sul, são 26 as espécies nativas.) Aos olhos do explorador Ernest Shackleton – cujo navio Endurance foi esmagado pelas banquisas há quase um século -, que manteve o ânimo de sua tripulação durante os 16 meses em que ficaram presos em blocos de gelo, e que afinal conseguiu escapar com cinco companheiros em um bote, atravessando 1,3 mil quilômetros de mares encrespados até chegar às armações de baleeiros na Geórgia do Sul, essa ilha nevada era um verdadeiro paraíso.
Em fevereiro, o fotógrafo Paul Nicklen e eu refizemos o trajeto de Shackleton. Partimos da península Antártica e navegamos, tal como fez o explorador, até as ilhas Shetland do Sul, de onde ele partiu em sua insana jornada até a Geórgia do Sul. O bote usado por ele e seus companheiros tinha meros 6 metros de comprimento.
Já o navio de cruzeiro no qual Nicklen e eu pega-mos carona, o National Geographic Explorer, tem 112 metros de comprimento e desloca 6 mil toneladas. Enquanto a frágil embarcação de Shackleton teve de enfrentar um furacão e uma sequência de fortes ventanias, nosso grande navio realizou a travessia em ótimas condições. Eu já estava começando a me sentir defraudado da genuína experiência antártica quando, ao avistarmos no horizonte a Geórgia do Sul, ela nos recebeu com ventos de 180 quilômetros por hora, típicos de um furacão.
O segundo paradoxo da ilha é a instabilidade de seu clima. No oceano Meridional, como alguns chamam os mares que circundam a Antártica, são registrados, em média, os ventos mais fortes do planeta. Há poucos obstáculos para enfraquecê-los, pois as latitudes meridionais circundam o globo quase sem serem interrompidas por massas terrestres. As áreas de baixa pressão ficam assim livres para seguirem uma atrás da outra rumo ao leste em torno do polo, como um cão uivante perseguindo a própria cauda.
Por vezes, pode-se entrar de barco em uma baía sob um sol brilhante e com o ar incrivelmente limpo pelo incessante vento circumpolar. A vista parece se estender para sempre; a nitidez é infinita. Geleiras lançam uma profusão de regatos pelos paredões rochosos, riachos gélidos tão brilhantes que chegam a ferir os olhos.
Mas aí, poucos momentos depois, do nada, entra uma nova frente fria. O Sol vira uma débil mancha enevoada, através da qual lufadas de flocos de neve giram e rodopiam, com padrões mais escuros se destacando no fundo mais claro. Parece até que a Geórgia do Sul sofre da versão meteorológica de uma desordem bipolar.
O terceiro paradoxo é histórico. Em uma baía após a outra, o plano de fundo é sempre intacto – os picos, as neves e as geleiras intocadas que constituem a espinha dorsal da ilha -, ao passo que o primeiro plano é maculado por restos de armações de baleeiros, uma ruína após a outra se desfazendo em ferrugem próximo a praias de cascalho retomadas por pinguins e focas. A Geórgia do Sul é uma área de natureza virgem que perdeu sua virgindade e está se tornando virgem de novo. Nesse aspecto, o paradoxo é quase milagroso: a ilha, epicentro de um dos piores massacres de mamíferos da história, agora fervilha com multidões de seres vivos, na mesma escala que o planeta conhecia antes da invenção da lança, do arco e da flecha e das armas de fogo.

O capitão James Cook, depois de explorar a Geórgia do Sul em 1775, descreveu o lugar como uma "ilha de gelo" com rara abundância de focas. Foi um erro fatal. Pouco mais de uma década depois, ali aportaram os primeiros barcos de caçadores. Na temporada de caça de 1800-1801, um único barco, o Aspasia de Nova York – apenas um dentre as 18 embarcações americanas e britânicas que na época frequentavam a ilha -, voltou para casa com um carregamento de 57 mil peles. Os espécimes de leão-marinho seriam caçados quase até a beira da extinção. As populações de elefante-marinho também seriam muito reduzidas, em função da enorme demanda pelo óleo produzido com sua gordura.
Em seguida vieram os baleeiros. Primeiro investiram contra as espécies de baleia mais lentas, como as francas, as jubartes e os cachalotes. Depois, no início do século 20, com a difusão de rápidos barcos a vapor dotados de arpões explosivos, eles construíram as armações nas praias da Geórgia do Sul e voltaram sua atenção para as espécies mais velozes e com barbatanas, como a baleia-comum e a azul. O maior espécime de que se tem notícia, uma fêmea de baleia-azul medindo mais de 33 metros, foi morto e processado na armação de Grytviken em 1912.
A década de 1920 foi marcada pela introdução dos navios-fábricas baleeiros, capazes de capturar e processar os animais em alto-mar. Grytviken e todas as outras armações na Geórgia do Sul foram aos poucos se tornando obsoletas. Para mim, essas instalações fantasmagóricas, com suas enferrujadas plataformas onde se extraía a gordura das baleias, além de caldeiras, chaminés e tanques de armazenamento, são de uma tristeza comovente. Um ano antes, em outra missão para a revista, eu havia passado um mês na região tropical do Pacífico acompanhando a maior população remanescente de baleias-azuis (veja na edição de março de 2009). Eu havia entendido, em termos intelectuais, o significado da matança das azuis – o fato de que, em apenas quatro décadas, quase levamos à extinção a maior criatura que já existiu no planeta -, mas agora tive uma compreensão visceral dessa enormidade. Ali estavam os indícios inequívocos no ferro oxidado que ressoava sob os nós dos meus dedos. As baleias-azuis haviam desaparecido nesses gigantescos tanques dispostos em fileiras como em qualquer outra refinaria.
Porém, tal como o sol dissipa a geada na Geórgia do Sul, o mesmo ocorre com a tristeza pelo destino das baleias-azuis, que é logo dissipada pela realidade atual. São as armações de baleias que hoje se extinguiram. São os caçadores de focas que ficaram no passado. A maioria das espécies que tanto sofreram nas mãos deles está se recuperando – com a exceção da baleia-azul -, e hoje esses decrépitos locais de morticínio foram recuperados para a vida.
Um muro branco com 1 metro de altura – os peitos alinhados de uma falange de pinguins-reis – recebe o bote ou barco inflável que se aproxima da praia na baía St. Andrews. Antes o muro branco ali, com 20 metros de altura, era de outro tipo: o da geleira Cook. Mas, nos últimos 30 anos, todas as três geleiras da St. Andrews encolheram, e os pinguins se instalaram na área liberada. Basta caminhar até a praia para a vista se descortinar: 150 mil casais formam a maior colônia de pinguins-reis na Geórgia do Sul.
No meio da profusão de pinguins viam-se centenas de leões-marinhos, dormindo, lutando ou brincando. Há muito eles firmaram uma trégua com os pinguins, ainda que não com os seres humanos, e os filhotes adoram fazer investidas falsas contra as pessoas. Tais ataques são puro teatro. Basta bater palmas e gritar "Pare!" que o filhote perde a coragem e se afasta encabulado. As fêmeas de elefantes-marinhos – chegam a ser cerca de 6 mil em outubro, no auge da temporada de nascimentos – contribuem ainda mais para a superlotação da baía St. Andrews.
As populações dos elefantes e leões-marinhos passaram por espetacular recuperação. No início do século 20, após 100 anos de morticínio, restava apenas um grupo residual de leões-marinhos na Geórgia do Sul. Hoje são alguns milhões, e a maioria se reproduz na ilha. Do mesmo modo, centenas de milhares de elefantes-marinhos aportam ali para parir seus filhotes.
Em 1925, apenas 1,1 mil pinguins-reis foram contados na baía St. Andrews; desde então a colônia aumentou 300 vezes. Normalmente, um agrupamento de mais de 300 mil pinguins teria feito um escarcéu ensurdecedor de discussões, protestos e acusações, mas, na hora de minha visita, as aves que nidificavam se mostraram lacônicas. Não houve alarido na baía St. Andrews.

No solo da colônia, contudo, lufadas de vento lançavam penas rodopiantes em direção ao mar. De algum modo essas tempestades de penas, mais até que as legiões de aves que as produziram, são um eloquente testemunho da exuberância de vida na Geórgia do Sul. Ao contemplar aquilo, fiquei tão emocionado que quase chorei. Fui criado em uma família em que o ambientalismo era uma religião; ali, naquela colônia de pinguins, do ponto de vista de alguém com as minhas crenças, a vida é exatamente como devia ser, em toda sua magnífica profusão.
Esse tipo de epifania pode ser experimentado em quase todas as baías e angras da Geórgia do Sul. Por vezes as multidões de animais são horizontais, como na planície Salisbury, um terreno baixo criado pelo derretimento glaciário e densamente colonizado por pinguins-reis, elefantes e leões-marinhos e gaivotões. Em outros ajuntamentos têm aspectos mais verticais, como em Elsehul, onde as praias e as encostas mais baixas estão repletas de pinguins, leões-marinhos, mergulhões e pombas-antárticas, ao passo que os íngremes promontórios com vegetação rasteira no topo abrigam colônias de albatrozes das mais diversas espécies – cabeça-cinza, de-sobrancelha, gigantes, de-dorso-claro -, assim como gaivotas-rapineiras e trinta-réis-antárticos.
Toda essa abundância de formas de vida desfruta de um segredo: a Geórgia do Sul é uma ilha relativamente temperada que fica no caminho de uma população de krill transportada pelas correntes marítimas desde a península Antártica – um rio vivo de pequenos crustáceos.
O krill alimenta leões-marinhos e baleias desde antes da chegada dos exploradores, e hoje torna possível a ressurreição dos leões-marinhos e a recuperação de várias espécies de baleia.
Periodicamente, uma ou duas vezes por década, o krill aparentemente se torna menos abundante. Em 2004 havia pouco krill na Geórgia do Sul, e 2009 foi bem pior. Uma tendência muitas vezes se confunde com o início de um ciclo, e há indícios de que esses anos de escassez de krill talvez sejam uma antevisão de uma nova Geórgia do Sul. Um relatório de 2004 assinado por Angus Atkinson, do grupo British Antarctic Survey, apresentou indícios de um declínio na quantidade de krill durante um período de 30 anos em uma ampla área que abrange mais de metade dos estoques de krill no oceano Meridional.
Durante o inverno, o krill, sobretudo suas larvas, depende do gelo flutuante no mar e, nas últimas décadas, essa camada de água do mar congelada vem diminuindo em algumas regiões da Antártica (embora, de maneira geral, tenha aumentado um pouco). No começo deste ano, uma equipe de oceanógrafos relatou que a temperatura dos mares a oeste da península Antártica vem, nos últimos 50 anos, subindo com maior rapidez que a média mundial. O aquecimento é mais intenso junto à superfície e no inverno – uma péssima notícia para o gelo marinho.
Tampouco é uma boa notícia para as plataformas de gelo da Antártica – as geleiras que se estendem até o oceano. Grande parte da imensa plataforma de gelo Larsen desintegrou-se em 2002, e outra plataforma menor, a Wordie, simplesmente desapareceu em abril do ano passado. Se a lente de aumento do aquecimento global tem um ponto focal, provavelmente ele está nos mares a oeste da península Antártica, a nascente do rio de krill que banha a Geórgia do Sul.
No dia em que deixei a ilha, o navio ultrapassou um iceberg no crepúsculo. Foi talvez a coisa mais bonita que já vi. A brilhante muralha branca erguia-se acima de nós, íngreme e adorável como os últimos raios de sol. Há muito os icebergs são símbolo do grande continente branco – um microcosmo da Antártica. Em uma época na qual as imensas plataformas de gelo estão se desfazendo, aquele iceberg parecia ter um significado maior. Ele era o derradeiro paradoxo. Nessa nova era de mudanças climáticas, os icebergs são duplamente simbólicos, tanto da beleza intocada da região antártica como dos problemas que despontam no horizonte.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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O crepúsculo dos sábios

Apática, sem maravilhamento, a universidade pós-moderna se esqueceu de sua dívida simbólica com as gerações passadas.

Olgária Matos

O conceito de universidade moderna e a natureza do conhecimento que ela produziu até os anos 1960 tinham por objetivo formar o cientista. Este representava o "mestre da verdade" porque capaz de compreender seu ofício na complexidade dos saberes e da história. Sua autoridade procedia de sua palavra pública, pela qual se fazia responsável. O cientista era o intelectual, e para ele a pesquisa não correspondia a uma profissão, mas a uma vocação. O conhecimento mantinha sua autonomia com respeito às determinações imediatamente materiais e do mercado. Sua temporalidade – a da reflexão – compreendia-se no longo prazo, garantidora da transmissão de tradições e de suas invenções.
A universidade pós-moderna, por sua vez, converte pesquisa em produção, constrangendo-se à pressa e à produtividade quantificada do conhecimento, adaptando-se à obsolescência permanente das revoluções técnicas, promovidas pelas inovações industriais segundo a lógica do lucro. A temporalidade do mercado confisca o tempo da reflexão, selando o fim do papel filosófico e existencial da cultura. Para a universidade moderna não cabia a pergunta "para que serve a cultura", mas sim "de que ela pode liberar". A universidade moderna elevava a sociedade aos valores considerados universais no concerto das nações que procuravam uma linguagem comum ao patrimônio cultural de toda a humanidade, devolvendo-o à sociedade com seus maiores cientistas e seus melhores técnicos. Essa foi a tradição de Goethe que havia formulado a ideia da Weltliteratur, da literatura universal como cosmopolitismo do espírito.
A universidade pós-moderna é a da indiferenciação entre pesquisa e produção. O intelectual cultivado foi destituído – em todos os domínios do conhecimento – pelo especialista e seu conhecimento particularizado, cujo contato com a tradição cultural é episódico ou inexistente. Seu discurso não diz mais o "universal" e se limita a formulações técnicas, perdendo-se o sentido do conhecimento e seus fins últimos, com a passagem da questão teórica "o que posso saber" para a pragmática "como posso conhecer". Pra Gunther Anders, o emblema da conversão do intelectual em pesquisador, da razão crítica em desresponsablização ética e racionalidade técnica, foi Fermi na Itália e Oppenheimer nos EUA, cujas pesquisas sobre a bomba atômica foram tratadas por eles em termos estritamente técnicos.
A universidade pós-moderna não lida mais com as "grandes narrativas" nem busca a fundamentação do conhecimento e seus primeiros princípios. Como o mercado, se pauta pela mudança incessante de métodos e pesquisas. Nada aprofunda, produzindo uma cultura da incuriosidade, imune ao maravilhamento. Em sua pulsão antigenealógica, acredita que tudo o que nela se desenvolve deve a si mesma, não reconhecendo nenhuma dívida simbólica com as gerações passadas. Essa circunstância, por sua vez, pode ser compreendida no âmbito da massificação da cultura e da universidade.
Com a ditadura dos anos 1960 no Brasil, a universidade pública moderna – concebida de início para formar as elites governantes, a partir do ideário de universidade cultural, científica e com suas áreas técnicas – começa sua desmontagem, o que e resulta em sua massificação. Sob a pressão de massas historicamente excluídas dos bens científicos e culturais, bem como do sucesso profissional aferido pelo enriquecimento nas profissões liberais, a universidade pós-moderna acolhe populações sem o repertório requerido anteriormente para a vida acadêmica. Face ao ideário moderno baseado no mérito de cada um e não mais no sistema nobiliárquico do nascimento, e sua incompatibilidade com a desigualdade real de oportunidades para a ascensão social, a universidade pós-moderna questiona, contrapondo-os, mérito e igualdade, reconhecendo no primeiro a manutenção do regime de privilégios e distinções do passado.
Assim, a universidade atual adapta-se à fragilidade do ensino fundamental e médio, passando a compensar as deficiências dessa formação. Para isso, a graduação retoma o ensino médio, a pós-graduação a graduação, o doutorado o mestrado, cuja continuidade é o pós-doutorado, tudo culminando na ideia da "formação continuada" e de avaliações permanentes. Ao mesmo tempo, a ideia de pesquisa moderna anterior transforma-se em fetiche pós-moderno, tanto que a iniciação científica se faz para estudantes em preparação para a vida universitária adulta, mas constrangidos a publicações precoces. O paradoxo é grande, uma vez que, maiores as carências nos anos de formação do estudante – como a precariedade no acesso à bibliografia em idiomas estrangeiros e dificuldades de expressão oral e escrita na língua nacional -, mais estreitos são os prazos para a conclusão de mestrados e doutorados. Prazos e métodos, por sua vez, migram das disciplinas científicas para todos os campos do conhecimento, sob o impacto do prestígio da formalização do pensamento, como é possível reconhecer, em particular no estruturalismo e, mais recentemente, no linguistic turn, sua legitimidade garantida pelo rigor científico de suas formulações. Acrescente-se o abandono da ideia de rigor na escrita e o fim do estilo, com o advento do gênero paper e a multiplicação de congressos no mundo globalizado.
Massificada a cultura, proliferaram, com a ditadura militar, a privatização do ensino e seu barateamento, as universidades particulares – salvo as exceções de praxe – prometendo ascensão social e acesso ao "ensino superior" e decepcionando suas promessas. A universidade moderna que a antecedeu garantia o exercício da formação especializada e se encontrava na base dos cursos técnicos com formação humanista para todos os que não se encaminhavam para a pesquisa, devendo atender à profissionalização, mas também à felicidade do conhecimento.
A emergência da universidade pós-moderna diz respeito ao abandono dos critérios consagrados até então a fim de democratizá-la. Mas a democratização pós-moderna é massificação. A sociedade democrática comportava diversas representações das coisas: os partidos representavam as diferentes opiniões, os sindicatos os trabalhadores, a Confederação das Indústrias os empresários. Na sociedade pós-moderna, o consenso é produzido pela mídia e suas pesquisas de opinião, através da eficiência persuasiva da televisão, que primeiramente cria a opinião pública e depois pesquisa o que ela própria criou. Razão pela qual massificação significa perda da qualidade do conhecimento produzido e transmitido, adaptado às exigências de massas educadas pela televisão, com dificuldade de atenção e treinadas para a dispersão, mimadas por uma educação que se conforma a seu último ethos.
A cultura pós-moderna é a da "desvalorização de todos os valores". Sua noção de igualdade é abstrata, homóloga à do mercado onde tudo se equivale. Em meio à revolução liberal pós-moderna, a universidade presta serviços e se adapta à sociedade de mercado e ao estudante, convertido em cliente e consumidor, como o atesta a ideologia do controle dos docentes por seus alunos.
Em seu ensaio Filosofia e Mestres, Adorno diz, temendo incorrer em sentimentalismo, que o conhecimento exige amor. Sua universidade, a de Frankfurt, era moderna, humanista, como era humanista o professor de uma fita italiana dos anos 1970. No filme, estudantes impedem o franzino docente de literatura românica com seus compêndios eruditos de entrar na sala de aula onde discutem questões do curso. Sentado em um banco, o mestre escuta o vozerio e ruídos de cadeiras sendo arrastadas. Por fim é chamado e, quando entra, os estudantes em suas carteiras estão em círculo, e o professor senta-se entre eles. Discutem então o que o professor deveria ensinar-lhes. Como não chegam a nenhum consenso e o dia se faz crepuscular, decidem finalmente deixar que o professor se manifeste. Ao que o professor, retomando seu lugar junto à lousa e diante de todos, anuncia: "Estou aqui para ensinar a vocês a beleza de um verso de Petrarca".
Metáfora rigorosa para a educação, da escola maternal à universidade, o conhecimento, como escreveu Freud, é uma das tarefas mais nobres da humanidade no longo processo de sua humanização.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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