Daily Archives: 28/11/2009

Barbárie e modernidade no século 20

Michael Löwy

Barbárie civilizada

Barbárie civilizada

A palavra "bárbaro" é de origem grega. Ela designava, na Antigüidade, as nações não-gregas, consideradas primitivas, incultas, atrasadas e brutais. A oposição entre civilização e barbárie é então antiga. Ela encontra uma nova legitimidade na filosofia dos iluministas, e será herdada pela esquerda. O termo "barbárie" tem, segundo o dicionário, dois significados distintos, mas ligados: "falta de civilização" e "crueldade de bárbaro". A história do século 20 nos obriga a dissociar essas duas acepções e a refletir sobre o conceito – aparentemente contraditório, mas de fato perfeitamente coerente – de "barbárie civilizada".

Em que consiste o "processo civilizador"? Como bem demonstrou Norbert Elias, um de seus aspectos mais importantes é que a violência não é mais exercida de maneira espontânea, irracional e emocional pelos indivíduos, mas é monopolizada e centralizada pelo Estado, mais precisamente, pelas forças armadas e pela polícia. Graças ao processo civilizador, as emoções são controladas, o caminho da sociedade é pacificado e a coerção física fica concentrada nas mãos do poder político1. O que Elias não parece ter percebido é o reverso dessa brilhante medalha: o formidável potencial de violência acumulado pelo Estado… Inspirado por uma filosofia otimista do progresso, ele podia escrever, ainda em 1939: "Comparada ao furor do combate abissínio (…) ou daquelas tribos da época das grandes migrações, a agressividade das nações mais belicosas do mundo civilizado parece moderada (…); ela só se manifesta em sua força brutal e sem limites em sonho e em alguns fenômenos que nós qualificamos de ‘patológicos’".2

Alguns meses depois dessas linhas terem sido escritas, começava uma guerra entre nações "civilizadas" cuja "força brutal e sem limites" é simplesmente impossível de comparar com o pobre "furor" dos combatentes etíopes, tamanha é a desproporção. O lado sinistro do "processo civilizador" e da monopolização estatal da violência se manifestou em toda sua terrível potência.

Se nós nos referimos ao segundo sentido da palavra "bárbaro" – atos cruéis, desumanos, a produção deliberada de sofrimento e a morte deliberada de não-combatentes (em particular, crianças) – nenhum século na história conheceu manifestações de barbárie tão extensas, tão massivas e tão sistemáticas quanto o século XX. Certamente, a história humana é rica em atos bárbaros, cometidos tanto pelas nações "civilizadas" quanto pelas tribos "selvagens". A história moderna, depois da conquista das Américas, parece uma sucessão de atos desse gênero: o massacre de indígenas das Américas, o tráfico negreiro, as guerras coloniais. Trata-se de uma barbárie "civilizada", isto é, conduzida pelos impérios coloniais economicamente mais avançados.

Karl Marx era um dos críticos mais ferozes desses tipos de práticas maléficas e destruidoras da modernidade, que para ele estão associadas às necessidades de acumulação do capital. Em O Capital, especialmente no capítulo sobre a acumulação primitiva, encontra-se uma crítica radical dos horrores da expansão colonial: a escravização ou o extermínio dos indígenas, as guerras de conquista, o tráfico de negros. Essas "barbáries e atrocidades execráveis" – que segundo Marx (citando de modo favorável M.W. Howitt) "não têm paralelo em qualquer outra era da história universal, em nenhuma raça por mais selvagem, grosseira, impiedosa e sem pudor que ela tenha sido" – não foram simplesmente passadas aos lucros e perdas do progresso histórico, mas devidamente denunciadas como uma "infâmia"3. Considerando algumas das manifestações mais sinistras do capitalismo, como as leis dos pobres ou os workhouses – estas "bastilhas de operários" -, Marx escreveu em 1847 esta passagem surpreendente e profética, que parece anunciar a Escola de Frankfurt: "A barbárie reapareceu, mas desta vez ela é engendrada no próprio seio da civilização e é parte integrante dela. É a barbárie leprosa, a barbárie como lepra da civilização"4

Mas com o século XX, um limite é transgredido, passa-se a um nível superior; a diferença é qualitativa. Trata-se de uma barbárie especificamente moderna, do ponto de vista de seu etos, de sua ideologia, de seus meios, de sua estrutura. Nós voltaremos a esse ponto.

A Primeira Guerra Mundial inaugurou esse novo estágio da barbárie civilizada. Dois autores, os primeiros, soaram o sinal de alarme, em 1914-15: Roxa Luxemburgo e Franz Kafka. Apesar de suas evidentes diferenças, eles têm em comum o fato de terem tido a intuição – cada um à sua maneira – de alguma coisa sem precedente que estava para se constituir no curso daquela guerra.

Ao usar a palavra de ordem "socialismo ou barbárie", Rosa Luxemburgo em A crise da social-democracia, de 1915 (assinada com o pseudônimo "Junius"), rompeu com a concepção – de origem burguesa, mas adotada pela Segunda Internacional – da história como progresso irresistível, inevitável, "garantido" pelas leis "objetivas" do desenvolvimento econômico ou da evolução social. Essa palavra de ordem é sugerida por certos textos de Marx ou de Engels, mas é Rosa Luxemburgo que dá a ela essa formulação explícita e elaborada. Ela implica uma percepção da história como processo aberto, como série de "bifurcações", onde o "fator subjetivo" – consciência, organização, iniciativa – dos oprimidos tornam-se decisivos. Não se trata mais de esperar que o fruto "amadureça", segundo as "leis naturais" da economia ou da história, mas de agir antes que seja tarde demais.

Porque o outro lado da alternativa é um sinistro perigo: a barbárie. Em um primeiro momento ela parece considerar a "recaída na barbárie" como "a aniquilação da civilização", uma decadência análoga àquela da Roma antiga5. Mas logo ela se dá conta que não se trata de uma impossível "regressão" a um passado tribal, primitivo ou "selvagem", mas antes, de uma barbárie eminentemente moderna, da qual a Primeira Guerra Mundial dá um exemplo surpreendente, bem pior em sua desumanidade assassina que as práticas guerreiras dos conquistadores "bárbaros" do fim do Império Romano. Jamais no passado tecnologias tão modernas – os tanques, o gás, a aviação militar – tinham sido colocadas ao serviço de uma política imperialista de massacre e de agressão em uma escala tão imensa.

As intuições de Kafka são de uma natureza totalmente diferente. É sob a forma literária e imaginária que ele descreve a nova barbárie. Trata-se de uma novela intitulada A colônia penal: em uma colônia francesa, um soldado "indígena" é condenado à morte por oficiais cuja doutrina jurídica resume em poucas palavras a quintessência do arbitrário: "a culpabilidade não deve jamais ser colocada em dúvida!". Sua execução deve ser cumprida por uma máquina de tortura que escreve lentamente sobre seu corpo com agulhas que o atravessam a frase "Honra teus superiores".

O personagem central da novela não é nem o viajante que observa os acontecimentos com uma hostilidade muda, nem o prisioneiro, que não reage de modo nenhum, nem o oficial que preside a execução, nem o comandante da colônia. É a máquina mesma.

Toda a narrativa gira em torno desse sinistro aparelho (Apparat), que parece mais e mais, no curso da explicação detalhada que o oficial dá ao viajante, como um fim em si mesmo. O Aparelho não está lá para executar o homem, é sobretudo este que está lá pelo Aparelho, para fornecer um corpo sobre o qual ele possa escrever sua obra-prima estética, sua inscrição sangrenta ilustrada de "muitos florilégios e ornamentos". O oficial mesmo é apenas um servidor da Máquina e, finalmente, ele mesmo se sacrifica à esse insaciável Moloch6.

Em que "máquina de poder" bárbara, em que "aparelho da autoridade" sacrificador de vidas humanas, pensava Kafka? A colônia penal foi escrita em outubro de 1914, três meses após a eclosão da grande guerra. Há poucos textos na literatura universal que apresentam de maneira tão penetrante a lógica mortífera da barbárie moderna como mecanismo impessoal.

Esses pressentimentos parecem se perder nos anos do pós-guerra. Walter Benjamin é um dos raros pensadores marxistas a compreender que o progresso técnico e industrial pode ser portador de catástrofes sem precedentes. Daí seu pessimismo – não fatalista, mas ativo e revolucionário. Em um artigo de 1929 ele definia a política revolucionária como "a organização do pessimismo" – um pessimismo em todas as linhas: desconfiança quanto ao destino da liberdade, desconfiança quanto ao destino do povo europeu. E acrescenta ironicamente: "confiança ilimitada somente no IG Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Luftwaffe"7. Ora, mesmo Benjamin, o mais pessimista de todos, não podia adivinhar a que ponto essas duas instituições iriam mostrar, alguns anos mais tarde, a capacidade maléfica e destrutiva da modernidade8.

Pode-se definir como propriamente moderna a barbárie que apresenta as seguintes características:

- Utilização de meios técnicos modernos. Industrialização do homicídio. Exterminação em massa graças às tecnologias científicas de ponta.

- Impessoalidade do massacre. Populações inteiras – homens e mulheres, crianças e idosos – são "eliminados", com o menor contato pessoal possível entre quem toma a decisão e as vítimas.

- Gestão burocrática, administrativa, eficaz, planificada, "racional" (em termos instrumentais) dos atos bárbaros.

- Ideologia legitimadora do tipo moderno: "biológica", "higiênica", "científica" (e não religiosa ou tradicionalista)

- Todos os crimes contra a humanidade, genocídios e massacres do século XX não são modernos no mesmo grau: o genocídio dos armênios em 1915, o genocídio levado a cabo pelo Pol Pot no Camboja, aquele dos tutsis em Ruanda etc. associam, cada um de maneira específica, traços modernos e traços arcaicos.

Os quatro massacres que encarnam de maneira mais acabada a modernidade da barbárie são o genocídio nazista contra os judeus e os ciganos, a bomba atômica em Hiroshima, o Goulag estalinista e a guerra norte-americana no Vietnã. Os dois primeiros são provavelmente os mais integralmente modernos: as câmaras de gás nazistas e a morte atômica norte-americana contêm praticamente todos os ingredientes da barbárie tecno-burocrata moderna.

Auschwitz representa a modernidade não somente pela sua estrutura de fábrica de morte, cientificamente organizada e que utiliza as técnicas mais eficazes. O genocídio dos judeus e dos ciganos é também, como observa o sociólogo Zygmunt Bauman, um produto típico da cultura racional burocrática, que elimina da gestão administrativa toda interferência moral. Ele é, deste ponto de vista, um dos possíveis resultados do processo civilizador como racionalização e centralização da violência e como produção social da indiferença moral. "Como toda outra ação conduzida de maneira moderna – racional, planificada, cientificamente informada, gerida de forma eficaz e coordenada – o Holocausto deixou para trás todos seus pretensos equivalentes pré-modernos, revelando-os em comparação como primitivos, esbanjadores e ineficazes. (…) Ele se eleva muito acima dos episódios de genocídio do passado, da mesma forma que a fábrica industrial moderna está bem acima da oficina artesanal…."9

A ideologia legitimadora do genocídio é ela também de tipo moderno, pseudo-científico, biológico, antropométrico, eugenista. A utilização obsessiva de fórmulas pseudo-medicinais é característica do discurso anti-semita dos dirigentes nazistas, o que pode ser notado nas conversações privadas deles. Numa carta a Himmler em 1942, Adolf Hitler insistia: "A batalha na qual nós estamos engajados hoje é do mesmo tipo que a batalha liderada, no século passado, por Pasteur e Koch. Quantas doenças não tiveram sua origem no vírus judeu… Nós não encontraremos nossa saúde sem eliminar os judeus".10

Em seu notável ensaio sobre Auschwitz11, Enzo Traverso destaca, com palavras sóbrias, precisas e lúcidas, o contexto do genocídio. Não se trata nem de uma simples "resistência irracional à modernização", nem de um resíduo de barbárie antiga, mas de uma manifestação patológica da modernidade, do rosto escondido, infernal, da civilização ocidental, de uma barbárie industrial, tecnológica, "racional" (do ponto de vista instrumental). Tanto a motivação decisiva do genocídio – a biologia racial – quanto suas formas de realização – as câmaras de gás – eram perfeitamente modernas. Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, "a organização científica do trabalho" de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber.

Este último tinha intuído, como sublinha Marcuse, a transformação da razão ocidental em força destrutiva. Sua análise da burocracia como máquina "desumanizada", impessoal, sem amor nem paixão, indiferente a tudo aquilo que não é sua tarefa hierárquica, é essencial para compreender a lógica reificada dos campos da morte. Isso vale também para a fábrica capitalista, que estava presente em Auschwitz, ao mesmo tempo nas oficinas de trabalho escravo da empresa IG Farben e nas câmaras à gás, lugares de produção "em cadeia" de mortos. Mas a "solução final" é irredutível à toda lógica econômica: a morte não é nem uma mercadoria, nem uma fonte de lucro.

Traverso critica, de maneira muito convincente, as interpretações – inspiradas, em um grau ou outro, pela ideologia do progresso – do nazismo e do genocídio como produto da história do irracionalismo alemão (Georges Lukács), de uma "saída" da Alemanha para fora do berço ocidental (Jürgen Habermas) ou de um movimento de "descivilização" (Entzivilisierung) inspirado por uma ideologia "pré-industrial" (Norbert Elias). Se o processo civilizador significa, antes de tudo, a monopolização pelo estado da violência – como o mostram, depois de Hobbes, tanto Weber quanto Elias – é necessário reconhecer que a violência do Estado está na origem de todos os genocídios do século XX. Auschwitz não representa uma "regressão" em direção ao passado, em direção a uma idade bárbara primordial, mas é realmente um dos rostos possíveis da civilização industrial ocidental. Ele constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e universalista dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossa civilização.

Se o extermínio dos judeus pelo Terceiro Reich é comparável a outros atos bárbaros, nem por isso ele deixa de ser um evento singular. É necessário recusar as interpretações que eliminam as diferenças entre Auschwitz e os campos soviéticos, ou os massacres coloniais, os pogroms etc.12 O crime de guerra que tem mais afinidades com Auschwitz é Hiroshima, como compreenderam tão bem Günther Anders e Dwight MacDonald: nos dois casos delega-se a tarefa a uma máquina de morte formidavelmente moderna, tecnológica e "racional". Mas as diferenças são fundamentais. Inicialmente, as autoridades americanas não tiveram jamais como objetivo – como aquelas do Terceiro Reich – realizar o genocídio de toda uma população: no caso das cidades japonesas, o massacre não era, como nos campos nazistas, um fim em si mesmo, mas um simples "meio" para atingir objetivos políticos. O objetivo da bomba atômica não era o extermínio da população japonesa como fim autônomo. Tratava-se sobretudo de acelerar o fim da guerra e demonstrar a supremacia militar americana face à União Soviética. Em um relatório secreto de maio de 1945 ao presidente Truman, o Target Committee – o "Comitê de Alvo", composto pelos generais Groves, Norstadt e do matemático Von Neumann – observa friamente: "A morte e a destruição irão não somente intimidar os japoneses sobreviventes a fazer pressão pela capitulação mas também (a bônus) assustar a União Soviética. Em síntese, a América poderia terminar mais rapidamente a guerra e, ao mesmo tempo, ajudar à moldar o mundo do pós-guerra"13. Para obter esses objetivos políticos, a ciência e a tecnologia mais avançadas foram utilizadas e centenas de milhares de civis inocentes, homens, mulheres e crianças foram massacrados – sem falar da contaminação pela irradiação nuclear das gerações futuras.

Uma outra diferença com Auschwitz é, sem dúvida, o número bem inferior de vítimas. Mas a comparação das duas formas de barbárie burocrático-militar é muito pertinente. Os próprios dirigentes americanos estavam conscientes do paralelo com os crimes nazistas: em uma conversa com Truman no dia 6 de junho de 1945, o secretário de Estado, Stimson, relatava seus sentimentos: "Eu disse a ele que estava inquieto com esse aspecto da guerra… porque eu não queria que os americanos ganhassem a reputação de ultrapassar Hitler em atrocidade"14.

Em muitos aspectos, Hiroshima representa um nível superior de modernidade, tanto pela novidade científica e tecnológica representada pela arma atômica, quanto pelo caráter ainda mais distante, impessoal, puramente "técnico" do ato exterminador: pressionar um botão, abrir a escotilha que liberta a carga nuclear. No contexto próprio e asséptico da morte atômica entregue pela via aérea, deixou-se para trás certas formas manifestamente arcaicas do Terceiro Reich, como as explosões de crueldade, o sadismo e a fúria assassina dos oficiais da SS. Essa modernidade se encontra na cúpula norte-americana que toma – após ter cuidadosa e "racionalmente" pesado os prós e os contras – a decisão de exterminar a população de Hiroshima e Nagasaki: um organograma burocrático complexo composto por cientistas, generais, técnicos, funcionários e políticos tão cinzentos quanto Harry Truman, em contraste com os acessos de ódio irracional de Adolf Hitler e seus fanáticos.

No curso dos debates que precederam a decisão de lançar a bomba, certos oficiais, como o general Marshall, declararam suas reservas, à medida em que eles defendiam o antigo código militar, a concepção tradicional da guerra, que não admitia o massacre intencional de civis. Eles foram vencidos por um ponto de vista novo, mais "moderno", fascinado pela novidade científica e técnica da arma atômica, um ponto de vista que não tinha nada a ver com códigos militares arcaicos e que não se interessava senão pelo cálculo de lucros e perdas, isto é, em critérios de eficácia político-militar15. Seria necessário acrescentar que um certo número de cientistas que tinham participado, por convicção antifascista, nos trabalhos de preparação da arma atômica, protestaram contra a utilização de suas descobertas contra a população civil das cidades japonesas.

Uma palavra sobre o Goulag estalinista: se há muito em comum com Auschwitz – sistema concentracionário, regime totalitário, milhões de vítimas – ele se distingue pelo fato que o objetivo dos campos soviéticos não era o extermínio dos prisioneiros mas sua exploração brutal como força de trabalho escrava. Em outras palavras: pode-se comparar Kolyma e Buchenwald, mas não o Goulag e Treblinka. Nenhuma contabilidade macabra – como aquela fabricada por Stéphane Courtois e outros anticomunistas profissionais – pode apagar essa diferença.

O Goulag era uma forma de barbárie moderna na medida em que era burocraticamente administrado por um Estado totalitário e colocado ao serviço de projetos estalinistas faraônicos de "modernização" econômica da União Soviética. Mas ele se caracteriza também por traços mais "primitivos": corrupção, ineficácia, arbitrariedade, "irracionalidade". Ele se situa por essa razão em um degrau de modernidade inferior ao sistema concentracionário do Terceiro Reich.

Enfim, a guerra americana no Vietnã, atroz pelo número de vítimas civis exterminadas pelos bombardeios, o napalm ou as execuções coletivas, constitui, em vários aspectos, uma intervenção extremamente moderna: fundada sobre uma planificação "racional" – com a utilização de computadores, e de um exército de especialistas – ela mobiliza um armamento muito sofisticado, na ponta do progresso técnico dos anos 60 e 70: B-52, napalm, herbicidas, bombas à fragmentação etc.16

Essa guerra não foi um conflito colonial como os outros: bastava lembrar que a quantidade de bombas e explosivos lançados sobre o Vietnã foi superior àquela utilizada por todos os beligerantes durante a Segunda Guerra Mundial! Como no caso de Hiroshima, o massacre não era um objetivo em si, mas um meio político; e se a cifra de mortos é bem superior àquela das duas cidades japonesas, não se encontra no Vietnã aquela perfeição da modernidade técnica e impessoal, aquela abstração científica da morte que caracteriza a morte atômica"17.

A natureza contraditória do "progresso" e da "civilização" moderna se encontra no coração das reflexões da Escola de Frankfurt. Em Dialética do Iluminismo (1944), Adorno e Horkheimer constatam a tendência da racionalidade instrumental de se transformar em loucura assassina: a "luminosidade gelada" da razão calculista "carrega a semente da barbárie". Em uma nota redigida em 1945 para Minima Moralia, Adorno utiliza a expressão "progresso regressivo" tentando de dar conta da natureza paradoxal da civilização moderna.18

Entretanto, essas expressões ainda são tributárias, apesar de tudo, da filosofia do progresso. Na verdade, Auschwitz e Hiroshima não são em nada uma "regressão à barbárie" – ou mesmo uma "regressão": não há nada no passado que seja comparável à produção industrial, científica, anônima e racionalmente administrada da morte em nossa época. Basta comparar Auschwitz e Hiroshima com as práticas guerreiras das tribos bárbaras do século IV para se dar conta que eles não têm nada em comum: a diferença não é somente na escala, mas na natureza. É possível comparar as práticas mais "ferozes" dos "selvagens" – morte ritual do prisioneiro de guerra, canibalismo, redução das cabeças etc. – com uma câmara de gás ou uma bomba atômica? São fenômenos inteiramente novos, que não seriam possíveis a não ser no século XX.

As atrocidades de massa, tecnologicamente aperfeiçoadas e burocraticamente organizadas, pertencem unicamente à nossa civilização industrial avançada. Auschwitz e Hiroshima não são mais "regressões": são crimes irremediavelmente e exclusivamente modernos.

Existe entretanto um domínio específico da "barbárie civilizada" em que se pode efetivamente falar de regressão: a tortura. Como destaca Eric Hobsbawn em seu admirável ensaio de 1994, "Barbárie: um guia para o usuário": "A partir de 1782 a tortura foi formalmente eliminada do procedimento judiciário dos países civilizados. Em teoria, ela não era mais tolerada nos aparelhos coercitivos do Estado. O preconceito contra essa prática era tão forte que ela não pôde retornar após a derrota da Revolução Francesa que a havia seguramente abolido (…) Pode-se suspeitar que nos redutos da barbárie tradicional, que resistem ao progresso moral – por exemplo as prisões militares ou outras instituições análogas – ela de fato não desapareceu…" Ora, no século XX, sob o fascismo e o estalinismo, nas guerras coloniais – Argélia, Irlanda etc. – e nas ditaduras latino-americanas, a tortura é de novo empregada em grande escala.19

Os métodos são diferentes – a eletricidade substitui o fogo e os torniquetes – mas a tortura de prisioneiros políticos tornou-se, no curso do século XX, uma prática rotineira – mesmo se não-oficial – de regimes totalitários, ditatoriais, e mesmo, em certos casos (as guerras coloniais), "democráticos". Nesse caso, o termo "regressão" é pertinente, na medida em que a tortura era praticada em inúmeras sociedades pré-modernas, e também na Europa, da Idade Média até o século XVIII. Um uso bárbaro que o processo civilizador parecia ter suprimido no curso do século XIX voltou no século XX, sob uma forma mais "moderna" – do ponto de vista das técnicas – mas não menos desumana.

Levar em conta a barbárie moderna do século XX exige o abandono da ideologia do progresso linear. Isso não quer dizer que o progresso técnico e científico é intrinsecamente portador de malefício – nem tampouco o inverso. Simplesmente, a barbárie é uma das manifestações possíveis da civilização industrial/capitalista moderna – ou de sua cópia "socialista" burocrática.

Não se trata também de reduzir a história do século XX a seus momentos bárbaros: essa história conheceu também a esperança, as sublevações dos oprimidos, as solidariedades internacionais, os combates revolucionários: México, 1914; Petrogrado, 1917; Budapeste, 1919; Barcelona, 1936; Paris, 1944; Budapeste, 1956; Havana, 1961; Paris, 1968; Lisboa, 1974; Manágua, 1979; Chiapas, 1994; foram alguns dos momentos fortes – mesmo se efêmeros – dessa dimensão emancipadora do século. Eles constituem pontos de apoio preciosos à luta das gerações futuras por uma sociedade humana e solidária.

Notas:

1 Norbert Elias, La Dynamique de l’Occident, Paris, Calmann-Lévy, 1975, pp.181-190. A referência ao combate abissínio soa estranha no momento em que a Etiópia combatia pela sua liberdade contra a invasão colonial do fascismo italiano, portador de uma pretensa missão "civilizadora".

2 Norbert Elias, La civilisation des moeurs, Paris, Calmann-Lévy, 1973, p.280.

3 Marx, Le Capital, vol. I, p.557-558, 563.

4 K. Marx, "Arbeitslohn", 1847, Kleine Ökonomische Schriften, Berlin, Dietz Verlag, 1955, p.245.

5 R. Luxemburgo, A crise da social-democracia, 1915.

6 Kafka, "In der Strafkolonie", Erzählung und kleine Prosa, N. York, Schocken Books, 1946, pp.181-113.

7 W. Benjamin, "O surrealismo. O último instante de inteligência européia", 1929. Mythe et violence, Paris, Letras Novas, 1971, p.312

8 Lembremos que o grande truste químico IG Farben não somente utilizou massivamente a mão-de-obra escrava em Auschwitz mas também produziu o gás Zyklotron B, que servia para exterminar as vítimas do sistema concentracionário.

9 Zygmut Bauman, Modernity and the Holocaust, London, Polity Press, 1989, p.15, 28.

10 Citado por Zygmunt Bauman, op.cit, p.71

11 Enzo Traverso, L’Histoire déchirée. Essai sur Auschwitz et les intellectuels, Paris, Cerf, 1997

12 Sobre esse assunto, remeto à excelente colocação de Enzo Traverso, "A singularidade de Auschwitz. Hipóteses, problemas e derivações da pesquisa histórica". Pour une critique de la barbarie moderne. Ecrits sur l’histoire des Juifs e de l’antisémitisme, Lausanne, Ed. Page deux, 1997.

13 Citado dos arquivos históricos recentemente abertos ao público em Barton J. Bernstein, "The Atomic Bombings Reconsidered", Foreign Affairs, fevereiro 1995, p. 143.

14 Ibid, p.146.

15 Sobre as reservas de Marshall, cf. Barton J. Bernstein, Op.cit, p.143.

16 De fato, é inteiramente racional se a "razão" significa racionalidade instrumental, aplicar a força militar norte-americana, os B-52, o napalm e todo o resto no Vietnã "sob dominação comunista" (claramente um "objeto indesejável"), como o "operador" para o transformar em "objeto desejável". Joseph Weizenbaum, "Computer Power and Human Reason". From Judgmente to Calculation, S. Francisco, W.H. Freeman, 1976, p.252

17 Outras guerras coloniais tiveram lugar no século XX – na Indochina, na Argélia, na África colonial portuguesa etc., mas nenhuma atingiu o grau de modernidade como aquela do Vietnã. Em comparação, elas parecem arcaicas, primitivas.

18 T.W.Adorno, M. Horkheimer, La Dialectique de la raison, Paris, Gallimard, 1974, p.48 e T.W. Adorno, Minima Moralia, Paris, Payot, 1983, p.134

19 E. Hobsbawn, Barbarism: An User’s Guide. On History, London, Weidenfelds and Nicholson, 1997, pp.259-263.

Tradução: Alessandra Ceregatti

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Da Queda do Muro a Batalha de Seattle. Próxima parada: Copenhague

De Copenhague emergirá uma nova geopolítica e uma nova correlação de forças no sistema internacional.

Fátima Mello

Novembro de 2009 é o mês de aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim e também de 10 anos da batalha nas ruas de Seattle, quando ocorreu naquela cidade a reunião ministerial da OMC que iniciaria a Rodada do Milênio. Seattle veio a ser o ato inaugural do chamado movimento altermundialista, cujo lançamento formal ocorreu logo em seguida na primeira edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre em 2001. Ao longo das duas últimas décadas o movimento contra-hegemônico experimentou estes dois grandes marcos e hoje se vê desafiado a concluir este ciclo histórico e se lançar num novo patamar de reflexão e ação. Copenhague, onde se realizará a COP 15 (15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) será a próxima parada do movimento altermundialista. Das mobilizações em torno da conferência do clima sairão as novas bases que iluminarão um novo ciclo para este movimento.

A década iniciada em 1989 com a queda do Muro e o respectivo fim da Guerra Fria pode ser sintetizada como a década onde se anunciou o "fim da História" e o reinado absoluto das teses do chamado Consenso do Washington, que traduziam a hegemonia política, cultural, econômica e militar dos EUA na nova ordem internacional unipolar. Na América Latina vivemos o período sob o signo da "década perdida", que combinava a vitória do retorno das democracias após o tenebroso ciclo de ditaduras com economias com resultados desanimadores e desmontes das estruturas produtivas e do papel regulador do Estado, com a febre das privatizações e perdas de direitos e encolhimento das esferas públicas.

Ao longo desta década os movimentos sociais e outras forças da chamada esquerda, ainda tontos diante da desorganização programática e do desmoranamento de paradigmas que ruíram junto com os escombros do Muro, foram atingidos em cheio pela força do pensamento hegemônico. A década assistiu a uma ampla desmobilização e fragmentação dos movimentos sociais. Muitas organizações passaram a investir esforços nos processos de reforma institucional das Nações Unidas, tendo havido grande esforço na tentativa de influenciar o ciclo de conferências da ONU, que incluiu a Eco 92 – de fato o primeiro grande momento de internacionalização da ação das organizações e movimentos depois de muitos anos – , as conferências de Direitos Humanos em Viena, de População e Desenvolvimento no Cairo, de Desenvolvimento Social em Copenhague, de Mulheres em Beijing. Apesar dos aprendizados que estes esforços proporcionaram, sobretudo no sentido do entendimento do funcionamento do sistema ONU, é preciso reconhecer que estas organizações e movimentos não eram atores na política internacional e sua capacidade de mobilização estava esvaziada. Em meadas da década alguns sinais contraditórios passaram a revelar que algo estava se movendo nas tumbas do fim da História. Em 1994, por exemplo, de um lado o ex-presidente dos EUA Bill Clinton lançava o NAFTA – o acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México, a bula neoliberal que depois se tentaria estender para o resto das Américas através da ALCA -, e ao mesmo tempo o movimento zapatista deslanchava o levante de Chiapas, com a característica de ser ao mesmo tempo resistência anti-neoliberal num território específico e também uma iniciativa que convocava um movimento global.

Foi no apagar das luzes da década perdida, em 1999, que finalmente movimentos e organizações de todas as partes do mundo revelaram que a semente da resistência recomeçava a brotar. Seattle deu início a um novo ciclo na política internacional, tendo produzido um momento de ampla contestação que reunia sindicatos com ambientalistas, camponeses, mulheres, ativistas por direitos humanos. Seattle trouxe para as ruas a crise de legitimidade do neoliberalismo. Seattle foi o ato inaugural do Fórum Social Mundial. A História não havia terminado!

A primeira edição do FSM em 2001 foi um sucesso. A tônica anti-Davos se combinou com o encontro entre várias culturas e tradições políticas da esquerda. Porto Alegre foi o espaço de convergência para a construção de novas formas de organização e de ação política, novas questões e lutas, novas dinâmicas não-centralizadas de organização. Um poderoso encontro da diversidade e da pluralidade. O FSM ainda comemorava o fato de ter espelhado o impulso de criação de um novo ciclo político quando o atentado de 11 de setembro às torres gêmeas novamente alterou o curso da História, ao recolocar no centro da agenda da política internacional a guerra e ao reforçar a tendência à unipolaridade que já vinha sendo o novo fundamento da ordem internacional desde a queda do Muro. A partir do 11 de setembro os movimentos que integram o processo FSM passaram a ser criminalizados e passaram ter que incluir no centro de suas lutas a resistência contra a guerra.

Na América Latina o início do novo milênio revelou que os anos de lutas de resistência e a força do FSM começavam a dar frutos com a eleição de um novo ciclo de governos. O projeto dos EUA para a região, a ALCA, fora derrotada por uma ampla campanha continental e pelos novos governos que responderam a esta campanha com o esvaziamento das negociações.

O FSM seguiu se mundializando e se enraizando em sociedades tão ricas e diversas como as da Índia, Quênia, Paquistão, EUA, Marrocos e tantos outros. O FSM hoje pode ser considerado como o ponto de referência de um ciclo longo de recomposição histórica de um pensamento contra-hegemônico. Ao voltar para o Brasil em 2009, e em especial para a Amazônia, o FSM revelou que um novo ciclo está se inaugurando. O FSM Belém teve uma nova qualidade em relação às edições anteriores, ao fazer emergir uma crítica mais profunda ao modelo de desenvolvimento que se reproduz devorando a natureza e os recursos naturais. Ao colocar o meio ambiente no centro do debate político, o FSM realizado na Amazônia, território onde os conflitos sócio-ambientais são tão evidentes, nos convida a dar um passo adiante, para além da crítica ao neoliberalismo.

A próxima parada do processo FSM inaugurado em Seattle será em Copenhague, na COP 15, onde as lutas de Seattle serão atualizadas e agenda do FSM Belém ganhará estatura. As mobilizações da nova geração política iniciada em 1999 serão amadurecidas nas ruas de Copenhague com a resistência contra a privatização do ar. Seattle e o FSM denunciaram ao mundo que o chamado pensamento único fundado nas teses do neoliberalismo levaria o mundo ao esgotamento e anunciaram que Outro Mundo É Possível. Os movimentos reunidos em Copenhague re-afirmarão a resistência ao neoliberalismo na sua versão atual de mercantilização do ar. Mas também irão muito além. A grave crise climática não encontrará solução adequada pela via do mercado de carbono. Além de reafirmar a resistência, as mobilizações em Copenhague demonstrarão que o planeta só terá chance de sobrevivência se o atual modo de produção e de consumo for alterado, se formos capazes de encurtar distâncias entre produção e consumo, desglobalizando a produção, apostando na energia limpa, democratizando o sistema internacional através da criação de novas instituições e regras que sirvam aos povos e a natureza e não às corporações transnacionais, se relacionando com a natureza como bem comum e não mais privatizando a terra, água, sementes, ar, conhecimentos, cultura.

Ao contrário de Seattle, onde quisemos e conseguimos que a reunião ministerial da OMC fracassasse, em Copenhague queremos que a conferência obtenha compromissos por parte dos governos condizentes com a gravidade da crise. Para tal, nossas lutas de resistência se alimentam de uma clara visão alternativa, que será o eixo das ações nas ruas: a Justiça Climática exige que governos e povos do mundo não entreguem ao mercado e às mega corporações a gestão da crise climática. Exige que os povos e grupos sociais mais vulneráveis – que serão os mais gravemente afetados – não paguem a conta e tenham prioridade nas políticas e programas de combate aos efeitos das alterações do clima. E exige que os países responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa assumam que têm uma dívida climática a pagar.

De Copenhague emergirá uma nova geopolítica e uma nova correlação de forças no sistema internacional, onde países do Norte e do Sul deverão assumir compromissos com a transição para um novo modelo de desenvolvimento. Para o movimento altermundialista, Copenhague proporcionará as bases para uma nova plataforma de ação, que terá no seu centro a defesa dos bens comuns, dos territórios e direitos dos povos e da natureza como perspectiva de futuro para um Outro Mundo Possível e, mais do que nunca, urgente.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

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Um espectro de racismo assusta o planeta

GRUPO DE SÃO PAULO

Enquanto, entre os seus pares, as fronteiras da União Européia estão sendo cada vez mais dissipadas, verifica-se em toda a forte Comunidade Européia uma onda de xenofobia contra estrangeiros de várias origens, sobretudo os pobres, que para lá tentam imigrar em busca de sobrevivência.

Sonhos de uma vida mais digna e justa têm sido quebrados com perseguições, prisões, maus tratos e expulsões sumárias com um perigoso teor discriminatório que, em muito, lembra os anos 30 a 40 do século passado. Esses fatos têm acirrado a já histórica aversão ao outro, fruto do eurocentrismo, que vê os migrantes como negativamente diferentes, como aqueles que vêm perturbar a ordem e colocar em risco a segurança do europeu.

Nesses últimos meses a Europa tem dado exemplos de intolerância, discriminação e racismo. Como se tal absurdo não bastasse, os últimos acontecimentos na Itália deixaram o planeta em alerta. Na já chamada "deriva fascista", denúncias colocaram a público que 70 eritreus permaneceram durante 20 dias em alto mar tentando entrar na Itália pela costa da Ilha de Lampedusa – a principal rota marítima que liga a África à Europa.

A notícia virou manchete quando se constatou que esses imigrantes ilegais haviam morrido antes de pisar em terra firme, sem qualquer ação de socorro por parte da marinha italiana. Esta, ciente do que ocorria, os abandonou à míngua, com fome e sede, ignorando por completo uma histórica lei marítima que prevê o socorro em casos dessa envergadura.

Enquanto isso, outros países europeus, como Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, também têm promulgado legislações evidentemente xenófobas visando criminalizar a imigração, tornando-a ilegal. Esta postura não visa apenas às populações africanas, alvo do racismo. Ela é muito mais ampla e atinge muçulmanos, ciganos, latino-americanos e habitantes de muitos países da Europa Oriental.

A Europa talvez nunca tenha sido realmente tolerante, mas, quando os empregos considerados inferiores não eram aceitos pela maioria dos europeus, um grande número de imigrantes foi recebido para preencher esses cargos indesejados. Com a recente crise econômica mundial, no entanto, esse mesmo europeu, assolado pelo medo do desemprego, voltou a enxergar o estrangeiro como um inimigo à espreita, pronto a dar o bote e roubar seu espaço no mundo do trabalho. Por conta de um possível medo da concorrência, uma parcela da população européia voltou a eleger o estrangeiro como bode expiatório. Assim, criou-se um perigoso espaço para partidos políticos de extrema direita, de cunho nazi-fascista.

Apesar de não ser considerado xenófobo, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, eleito com uma plataforma de extrema direita, chegou a apoiar a tese de que a França só deve receber "trabalhadores inteligentes e diplomados". Defendeu ainda a realização de testes de DNA para estrangeiros, vindos da África, que queiram provar graus de parentesco na França e, assim, serem liberados a entrar. Aprovada pelo Parlamento francês em 2007, essa idéia acabou não sendo posta em prática em função de fortes pressões externas.

Conquanto o governo francês tenha enfatizado a não obrigatoriedade dos testes, analistas e estudiosos estão alertando que, graças ao avanço da engenharia genética, tal medida pode abrir um precedente perigoso. Testes como esses podem servir para detectar a origem dos pretendentes a ingressar no território francês, o que lembra justamente no país que proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos a sombria política de eugenia (que significa "bem nascido" em grego), que assustou o mundo na Alemanha nazista.

Para completar esse quadro, já foi aprovado no Senado italiano, e está em discussão na Câmara dos Deputados, uma proposta do partido de extrema direita Liga Norte, defendida pelo governo Berlusconi, que impõe aos médicos delatarem imigrantes ilegais que buscarem tratamento. Uma medida que deixaria orgulhoso o fascista Mussolini. A respeitada instituição "Médicos sem Fronteiras" reagiu e afirmou: "somos médicos e não espiões".

Essa aversão ao estrangeiro não é nova na historiografia mundial. Segundo a historiadora Pietra Diwan, foi nos Estados Unidos – o mesmo país que ergueu o chamado "muro da vergonha" que separa os estadunidenses dos mexicanos – que o número de instituições eugênicas cresceu vertiginosamente entre os anos de 1905 e 1920. O medo era de que a "raça pura" norte-americana pudesse ser contaminada com a entrada maciça de asiáticos, libaneses, moradores do Leste

Europeu, além de todo europeu pobre, incluindo, por ironia do destino, países como a Espanha e a própria Itália.

Nesse sentido, o que a Alemanha nazista fez foi transformar em política de Estado um processo que já vinha ocorrendo, inclusive, nas escolas estadunidenses. Talvez não seja por acaso que temáticas como a inclusão tenham surgido depois que o mundo presenciou até onde o homem pode chegar ao dividir a humanidade em binômios excludentes, tais como superior e inferior, apto e não apto. Esperemos que a Europa não venha, em pleno século XXI, a reeditar essa política discriminatória e estigmatizante contra o "diferente".

Guga Dorea, José Juliano de Carvalho Filho, Luis Eça, Marietta Sampaio e Thomaz Ferreira Jensen, do Grupo de São Paulo – um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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A atormentada vida de John Lennon

Joseba Elola
Em Madri

Infância dura, sexo e drogas na decisiva biografia de Philip Norman sobre o "beatle".

Suíte do hotel Delmónico em Nova York, 28 de agosto de 1964. Um "folkie" apaixonado que começava a aparecer chamado Bob Dylan entra na suíte de um dos rapazes que andam em turnê pelos Estados e dos quais todo mundo fala, The Beatles. John Lennon organizou o encontro por meio de Al Aronowitz, jornalista amigo de Dylan. As duas figuras, que provavelmente são as mais influentes da música popular do século 20, admiram-se mutuamente, mas são incapazes de admiti-lo.
Dylan rompe o gelo e comenta que gosta da canção "I want to hold your hand", com seu estribilho tão contagiante "I get high, I get high" (fico louco, fico louco). John e Paul lhe confessam que não: o que a canção diz é "I can’t hide" (não posso me esconder); uma coisa é o inglês britânico e outra, o americano.
Envergonhados, admitem que não é que tenham colado de repente esse verso no tema; de fato, apenas provaram maconha a sério. Dylan se oferece para remediar tal carência e enrola um cigarro, mas não é muito bom nessas lides. Afinal, como não poderia ser diferente, é o jornalista quem o enrola.
Esta é uma das diversas anedotas deliciosas contidas em "John Lennon", a sólida biografia de Philip Norman que a Anagrama lança em 26 de novembro na Espanha. Paul McCartney viu a luz com aquele bendito petardo compartilhado com Dylan. John e Ringo não conseguiam parar de rir.
A biografia de Philip Norman esclarece novas paisagens da atormentada existência do gênio rebelde dos Beatles. Já retratou Lennon como um sujeito torturado em "Shout!", publicado em 1981 e elogiado no ano seguinte como a grande biografia do quarteto de Liverpool.
Nesta nova versão, concentrada no compositor de "Imagine", dá uma volta de parafuso e tenta explicar as causas dessa infelicidade, dessa tortura interior. Para seu trabalho de pesquisa, Norman contou com a colaboração de Yoko Ono, Sean Lennon – o filho de John e Yoko – e Paul McCartney, além de George Martin – o produtor – e até Arthur Janov, o terapeuta do beatle; seu acesso a fontes é privilegiado, cimentado pelo respeito que infundiu seu trabalho anterior como biógrafo.
Philip Norman mergulha na infância do homem que compôs "Julia", essa jóia alojada no chamado "Disco Branco", para encontrar as raízes dessa infelicidade que acompanhou Lennon em seus escassos 40 anos de vida. "Nunca escapou das feridas de sua infância, nunca superou o fato de que seus pais o abandonaram", explica o autor em conversa telefônica de Londres.
Aos 6 anos, seu pai lhe pediu que escolhesse com quem preferia morar: com sua mãe Julia ou com ele. John acabou indo morar com a tia Mimi, a cuja correspondência privada se tem acesso pela primeira vez.
Lennon cresce em casa de sua rígida tia. Quando tem 17 anos, certa tarde, Julia, sua mãe, vem visitá-los. Ao sair, a caminho do ponto de ônibus, é atropelada pelo carro de um policial fora de serviço e morre. Pouco depois falece de uma hemorragia cerebral seu grande amigo Stu Sutcliffe, o primeiro baixista dos Beatles. "A pessoa que somos por dentro nunca muda. Ele foi muito infeliz. Sua enorme fama poderia ter catapultado sua autoestima", explica Norman, "mas ele se desvalorizava."
As 786 páginas dessa biografia mostram um homem que apesar de ser muito invejado sofria em seu dia-a-dia. "Ele podia ser duro e cruel, mas era tremendamente sensível, uma pessoa muito vulnerável."
As fitas cassete que gravou em seus dois últimos anos de vida, quando seu tormento interior parecia amainar, levam Norman a revelar um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos tabloides britânicos quando se publicou esta biografia no Reino Unido, há um ano. Em uma dessas fitas, Lennon lembra o dia em que por acaso se deitou ao lado de sua mãe e tocou acidentalmente seu seio. Não soube se prosseguia ou não. "Sempre pensei que deveria tê-lo feito", confessa Lennon nas fitas. "Presumivelmente ela poderia ter aceitado."
Essa tendência à autoanálise e a provar de tudo que ilumina outra das revelações incluídas no livro. O episódio supostamente gay, que mais parece corresponder a um flerte intelectual, mas que Norman desfia nestas páginas. John e Paul tiveram uma relação de amor e ódio muito forte. E Yoko conta a Norman que ela acredita que houve um momento em que John considerou uma aventura com Paul, pelo fato de que um verdadeiro boêmio tem de provar de tudo.
O alvoroço que se armou com a distorção e amplificação desse episódio do livro conduz Norman a baixar o tom e a destacar com contundência a condição profundamente heterossexual do beatle.
Norman, que conheceu John nos anos 60, quando trabalhava como jornalista em uma gazeta local, mostra-se amargurado pela rejeição de Yoko Ono a esta biografia. "Ninguém exceto ela disse que a biografia seja maliciosa. Não sei por que diz isso. Yoko foi uma mulher demonizada por todo mundo e foi o grande amor de John, eram feitos um para o outro. Tinham muitas coisas em comum, entre elas sua sinceridade. Se você perguntava, eles respondiam. Ela foi muito sincera comigo nas 14 horas de entrevista que fizemos."
A biografia percorre com precisão a vida de Lennon e se encerra com um capítulo comovente em que Sean Lennon, o filho de John e Yoko, fala de coração aberto sobre seu pai e lembra aquela manhã em que acordou e sua casa estava cheia de pessoas com a cara muito séria. Era 9 de dezembro de 1980 e da rua subia até sua janela o barulho de policiais e câmeras de televisão.
Seu pai acabava de ser assassinado na noite anterior diante da porta de casa. Sean tinha então 5 anos. O menino que mal conheceu seu pai e que invejou o mundo por tê-lo conhecido, o garoto que ainda lembra de Lennon com cabeleira e quimono, andando sempre descalço pela casa, conta que entendeu que devia se comportar como um adulto e não chorar em uma situação como essa. "Não se preocupe, já vai encontrar outro", disse-lhe Yoko Ono naquela negra manhã.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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O aquecimento do Ártico

Christoph Seidler

Todo mundo sabe que a camada de gelo da Groenlândia está derretendo. Mas nova pesquisa mostra que ela está desaparecendo mais rapidamente do que se imaginava. Os resultados poderiam significar que o nível dos oceanos também está aumentando mais rapidamente.

As dimensões deste gigante gelado vão além da imaginação humana. Com uma área de superfície que se estende por cerca de 17 milhões de quilômetros quadrados, uma visão do gelo da Groenlândia do alto da geleira Sermeq-Kujalleq, perto de Ilulisat, faz com que ele parece interminável. A ideia de que esta camada de gelo, com até três quilômetros de espessura em algumas partes, está derretendo parece extremamente absurda.
Mas o grande número de icebergs gigantes -e o vale para o qual estão lentamente deslizando- contam uma história diferente. Aqui, como em outras partes da Groenlândia, uma transformação gigantesca está em andamento. Quão rapidamente o gelo da Groenlândia está derretendo permanece tema de certo debate, mas o derretimento do gelo está contribuindo para a elevação do nível dos oceanos -com consequências potencialmente dramáticas para milhões de pessoas ao redor do globo.
Caso a Groenlândia perca todo seu gelo, o nível dos mares sofreria uma elevação de cerca de 7 metros acima dos níveis atuais. Esse cenário não se tornaria realidade da noite para o dia -de fato, o processo poderia durar centenas de anos. Mas novos resultados de uma equipe de pesquisadores holandeses sugerem que estimativas conservadoras para a velocidade com que o gelo está derretendo devem ser descartadas. Segundo o estudo, a taxa com que o gelo da Groenlândia está derretendo acelerou substancialmente nos últimos anos.
Há, estritamente falando, dois processos paralelos responsáveis pelo recuo do gelo. Por um lado, a elevação das temperaturas derrete o gelo na terra enquanto as correntes oceânicas mais quentes devoram as geleiras, que se desprendem no oceano. Uma equipe de pesquisa liderada por Michiel van den Broeke, da Universidade de Utrecht, relatou na mais recente edição da revista "Science" que os dois processos estão contribuindo igualmente para o desaparecimento da camada de gelo.
Perdendo peso
Segundo o novo relatório, a Groenlândia perdeu cerca de 1.500 gigatoneladas (uma gigatonelada é igual a 1 bilhão de toneladas) de gelo do ano 2000 a 2008. "Este é o limite superior das recentes estimativas para perda de massa da Groenlândia usando vários outros métodos", disse Van den Broeke para a "Spiegel Online". Entre 2006 e 2008, a perda de peso totalizou 273 gigatoneladas por ano, ele disse.
Os cientistas estão convencidos de que seus resultados são precisos porque chegaram aos números usando dois métodos fundamentalmente diferentes -e ambos apresentaram a mesma conclusão. Por um lado, eles monitoraram o movimento do gelo, que inseriram em um modelo por computador regional. Para uma segunda fonte de dados, eles usaram os satélites de observação Grace, que medem o campo gravitacional da Terra.
No período entre 2000 e 2008, o encolhimento das geleiras foi responsável pela elevação do nível dos mares a uma média de cerca de meio milímetro por ano. Mas, durante os últimos três anos de observação, o valor subiu para 0,75 milímetro por ano. Segundo os pesquisadores, esses resultados poderiam indicar que a camada de gelo está derretendo a uma taxa acelerada.
Chegando a um consenso
É possível, é claro, que o período de observação represente apenas uma fase no derretimento em andamento -uma fase que pode acabar. Mas Van den Broeke não acredita que seja o caso: "Desde 2000, a camada de gelo da Groenlândia vem perdendo massa continuamente e a uma taxa acelerada, que se encaixa em nosso quadro de um mundo em aquecimento".
"A comunidade científica está se aproximando de chegar a um consenso quanto ao tamanho da perda de massa da camada de gelo da Groenlândia", disse o glaciólogo-chefe da Dinamarca, Andrea Peter Ahlstrøm, à "Spiegel Online". Ele elogiou o recente estudo e os cientistas envolvidos: "É de fato uma forte equipe de autores, levando à credibilidade dos resultados". Do ponto de vista de Ahlstrøm, esses resultados recentes também provarão ser úteis para o próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) da ONU, já que permitirão aos cientistas descrever a situação da Groenlândia com maior precisão. Em um relatório de 2007, o IPCC ainda não tinha previsões precisas para o destino da camada de gelo gigante, porque os cientistas envolvidos não conseguiam chegar a um acordo.
Mas muito mudou desde então. Neste ano, pesquisadores britânicos conseguiram indicar onde o gelo estava desaparecendo mais rapidamente usando dados do altímetro a laser do satélite IceSat da Nasa. Uma equipe de cientistas liderada por David Vaughan, do Levantamento Antártico Britânico, reuniu um total de 7 milhões de elementos de dados de fevereiro de 2003 a novembro de 2007, resultando em uma imagem de clareza sem precedente. Quase todas as regiões costeiras cobertas de gelo da Groenlândia -em particular aquelas no sudeste e noroeste- exibiram gelo derretendo rapidamente. Os cientistas notaram em particular o efeito dramático nas geleiras que se movem velozmente. Alguns desses efeitos também são sentidos no interior distante.
‘Nos dê um pouco mais de tempo’
Uma equipe de pesquisa no navio Arctic Sunrise do Greenpeace, incluindo, entre outros, Gordon Hamilton, da Universidade do Maine, e Fiammo Straneo, do Instituto Oceanográfico Woods Hole, relatou neste ano que a água incomumente quente nos fjords da Groenlândia é culpada pelo rápido recuo das geleiras.
Van den Broeke e seus colegas acreditam que não apenas o gelo desaparecerá em uma taxa mais rápida, mas que a natureza do processo também mudará com o tempo. Segundo os pesquisadores, o rápido recuo das geleiras será menos importante no futuro, em comparação ao derretimento direto. No final, as geleiras terão recuado tanto que as correntes quentes do mar não mais as alcançarão.
Ainda não está claro quando isso poderá acontecer -nem está claro o quanto os níveis dos mares poderão se elevar no futuro."Nós usaremos o mesmo modelo para prever futura perda de massa da Groenlândia, mas nos dê um pouco mais de tempo para chegarmos aos resultados", disse Van den Boeke. Para isso, a União Europeia lançou no ano passado um grande projeto de pesquisa chamado "Ice2Sea".
Os pesquisadores consideram esses novos resultados como sendo um importante sinal para o encontro de cúpula sobre o clima, em dezembro. Muitos observadores não esperam que o encontro resulte em um acordo climático particularmente ambicioso -para descontentamento de Van den Broeke: "Todos os sinais estão apontando para uma contínua perda de massa da Groenlândia a taxas que não considerávamos possíveis há dez anos. É certamente algo a ser considerado por um autor de políticas, eu diria."

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

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O contador de histórias

Um dos fotógrafos mais originais do País, o documentarista João Urban já desvendou a alma dos imigrantes poloneses do Sul, viajou com os últimos tropeiros e registrou a difícil rotina dos boias-frias. Brasileiros conta algumas das histórias deste fotógrafo que escreve com imagens.

Luiz Rebinski Junior

Fotógrafo publicitário desde os anos 1960, o curitibano João Urban conseguiu conciliar, com a mesma eficiência, dois campos da fotografia que parecem distantes e, para muitos, incompatíveis: o trabalho documental e autoral com a fotografia de produtos, direcionada ao mercado publicitário. Essa aparente contradição, Urban explica com uma frase rápida como um clique: "A publicidade bancou o artista". E quando a publicidade dá uma folga, é a deixa para que o "contador de histórias", na definição do próprio Urban, entre em cena.
"Entendo que a minha fotografia está muito mais próxima do texto que das artes plásticas; muito mais próxima da poesia e da literatura que das artes visuais. Procuro, sempre, escrever com as minhas imagens, por isso me considero um contador de histórias, não um artista plástico", diz Urban.
Nascido em 1943, Urban teve, desde cedo, uma relação próxima com o objeto que ia lhe acompanhar por toda a vida. Influenciado por um tio, fotógrafo amador, logo descobriu as maravilhas que a câmara escura era capaz de revelar. A curiosidade inicial do então garoto foi logo se transformando em coisa séria. Um dos momentos decisivos na trajetória de Urban foi quando ele viu, pela primeira vez, os ensaios fotográficos da Farm Security Administration, o serviço de previdência rural da época da depressão norte-americana. As imagens da pobreza nos rincões norte-americanos, que chegavam aqui por meio dos Anuários da Popular Photography, tiveram o efeito de um soco no estômago para o jovem fotógrafo que, à época, já esboçava uma militância política contra a ditadura militar que se instalara no Brasil em 1964. Formaram-se aí as bases do trabalho de cunho social que Urban desenvolveria ao longo de sua brilhante trajetória como fotógrafo.
"Nessa época, comecei a fotografar peças de teatro de Brecht e passeatas estudantis", diz Urban, que começava também a ampliar seus conhecimentos fotográficos com a descoberta da mítica revista suíça Camera, editada por Allan Porter. A revista, assim como os Anuários da Popular Photography, foi decisiva para reforçar sua vocação pela fotografia documental. "A Camera, com certeza, foi minha verdadeira escola de fotografia. Lia todos os artigos, sem descartar nenhum." Foi por meio da revista suíça que o autodidata Urban conheceu melhor o trabalho de ícones como Henri Cartier-Bresson e de um nome que seria, durante anos, sua maior influência: August Sander. Alemão nascido em 1876, Sander foi responsável por um trabalho bastante original com operários em seus locais de trabalho, uma fotografia que buscava revelar os estratos sociais da Alemanha do início do século XX. Perseguido pelos nazistas, o fotógrafo teve grande parte de sua produção destruída pela polícia de Hitler. Considerado um dos grandes retratistas da história, Sander e sua fotografia de corte sociológico já podem ser percebidos, como influência, nos retratos em preto e branco dos boias-frias, primeiro trabalho de fôlego de Urban e mote de sua estreia em livro, no ano de 1984. Por uma dessas coincidências inexplicáveis, Boias-frias – Tageluhner in Suden Brazilien sai primeiramente na Alemanha, por uma pequena editora, dedicada à publicação de trabalhos sobre a América Latina, chamada Edition Diá. O fã de Sander começava a ser reconhecido justamente na terra onde o ídolo fez história.
"Eu tinha exposto na Bienal de Veneza, na seção de jovens fotógrafos, e mostrei o catálogo para o meu futuro editor. Ele se interessou e o livro foi publicado na Alemanha e na Suíça", explica. Apesar do tratamento gráfico do livro ter ficado aquém do esperado, a edição serviu como uma espécie de cartão de visitas para futuros trabalhos. Quatro anos depois, Boias-frias ganharia edição nacional, editada pela Imprensa Oficial do Paraná. O ensaio, que lhe consumiu cinco anos de trabalho, de 1976 a 1980, além de revelar a vida sofredora de trabalhadores braçais, é também um registro importante de um momento de ruptura na economia do Paraná, um Estado essencialmente agrícola. Em meados dos anos 1970, o Paraná vive seu mais radical êxodo rural, com milhões de pessoas saindo do campo e indo para as cidades, sobretudo para a capital Curitiba, que em pouco tempo quase dobrou sua população. Com as plantações de café dizimadas pela geada de 1975 e o sistema de colonato em crise por conta da mecanização da lavoura, agricultores abandonaram suas terras para tentar a sobrevivência nas cidades. Os retratos dos boias-frias congelam esse período, em que trabalhadores procuram um novo espaço em um momento de reorganização social.
Para Nego Miranda, outro grande nome da fotografia paranaense, o olhar aguçado para questões sociais é o grande diferencial de Urban. "O João é, sem dúvida, a grande referência da fotografia no Paraná. Assim como os grandes mestres, ele tem um olhar único, que capta coisas que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Além disso, seu campo de visão está voltado unicamente para o homem", diz Miranda.
O jornalista José Carlos Fernandes, que comandou o caderno cultural do jornal Gazeta do Povo, o principal diário do Paraná, segue a mesma linha de Miranda ao enumerar as qualidades da fotografia de Urban. "O João é um sujeito bastante fiel a seu estilo documental, mas surpreende no tema. De minha parte, gosto da série sobre manifestações religiosas populares. É um assunto aparentemente fácil, mas deve ser uma lenha fugir dos clichês. E ele consegue, já que as fotos trazem uma certa ordem, uma organização, que faz todos aqueles santos parecerem membros de uma convenção de RH", diz o jornalista, referindo-se ao ensaio Aparecidas, publicado em livro em 2002.
Poloneses
Assim como Bresson é associado ao "momento decisivo" e Sebastião Salgado aos garimpeiros cheios de lama de Serra Pelada, é praticamente impossível falar de João Urban e não se lembrar dos imigrantes poloneses do Sul do Brasil. Os ensaios sobre os "polacos" não são apenas o seu trabalho mais conhecido, mas também o mais revelador da alma desse descendente de poloneses que foi criado em meio a costumes antigos trazidos da terra natal dos pais.
Na casa em que recebeu a reportagem da Brasileiros, uma antiga construção polonesa erguida pelo próprio pai e hoje transformada em estúdio, Urban montou seu primeiro ateliê. Hoje, praticamente incorporado ao centro de Curitiba, o antigo bairro do Campo da Galícia era, nos anos 1940, quase que uma filial de Varsóvia no Brasil. Pelas ruas de terra, o que se escutava nas esquinas e nos pequenos comércios era gente falando polonês. Em casa, a língua materna dos pais e avós dividia as atenções com o português. Dona Janina, matriarca dos Urban, se desdobrava entre a confecção de pierogi, os irresistíveis pasteizinhos de ricota e batata, e peças de teatro que escrevia em polonês.
Foi nesse contexto, entre a valorização da cultura polonesa e as transformações dos novos tempos, que Urban cresceu. O período em que era "comissário político" apenas retardou, momentaneamente, o desejo de resgatar reminiscências da infância. Após o fim da série com os boias-frias, Urban volta o olhar para seus ancestrais, em um trabalho que marcaria de modo definitivo sua condição de fotógrafo preocupado com o resgate da memória.
E, por fina ironia, aquele que ficaria conhecido como o seu principal trabalho autoral, nasceu de uma encomenda. Mais uma vez, o publicitário dava uma mãozinha para o artista. Por conta da vinda do Papa João Paulo II ao Brasil, em 1980, Urban foi escalado por um banco estatal, o Badep (extinto em 1991), para fazer fotografias de imigrantes poloneses que viviam no Paraná. Começava ali, despretensiosamente, um trabalho que se estenderia por mais de duas décadas.
"Minha primeira experiência fotografando os ‘polacos’ foi em Tomás Coelho, uma colônia fundada em 1876, pertinho de Curitiba. Ali, comecei a resgatar coisas da minha infância que me levaram a outros lugares". De Tomás Coelho, Urban foi para Cruz Machado, no extremo sul do Estado, onde uma grande colônia de poloneses e ucranianos vivia ainda como se estivesse no Leste europeu. Nesses lugares, além de fazer uma viagem sentimental ao próprio passado, Urban encontrou o ambiente e os personagens propícios para ir fundo ao que chama de "fotografia de enfrentamento". Ali, frente a frente com parte de sua história, o fotógrafo partia para um trabalho pautado em uma relação de troca com o fotografado, o que o levaria a uma "fotografia de retrato".
"Eu só faço fotografias consentidas, em que estabeleço um envolvimento epidérmico com o personagem. Existe uma troca entre quem fotografa e quem é fotografado", explica Urban. E é por meio dessa troca que o fotógrafo consegue revelar a simplicidade daqueles imigrantes que não conservam apenas o sobrenome complicado, mas também uma série de pequenos hábitos, como a fervorosa fé no catolicismo, herdados dos pais.
Mas, para desenvolver uma fotografia tão intimista e próxima dos personagens, a origem "polaca" do fotógrafo foi imprescindível. "Todos os poloneses me conheciam, sabiam o que eu estava procurando e colaboravam na hora de fotografar. No trabalho com os tropeiros foi a mesma coisa. Eles me acolheram e por isso pude desenvolver os retratos de acordo com a minha preferência." No caso dos poloneses, o contato foi tão intenso, que algumas pessoas foram fotografadas em mais de uma ocasião ao longo dos anos. "No trabalho feito com os imigrantes poloneses, o João se envolve de maneira profunda. Ali está a tônica de seu trabalho, em que o ensaio parte de uma pesquisa séria, anterior ao ato fotográfico", diz Rosely Nakagawa, curadora do projetoEncontros com a fotografia. Curadora de prestígio, Rosely acompanha o trabalho de Urban desde os anos 1980, quando ambos estavam envolvidos com as "Semanas de Fotografia da Funarte", uma espécie de feira itinerante que rodava as principais capitais do País e com o objetivo de aproximar fotógrafos de diferentes regiões.
Entre idas e vindas, Urban dedicou 24 anos ao projeto dos poloneses. A partir da exposição inicial, realizada quando o Papa esteve no Brasil, muitos outros projetos se desenvolveram. Inclusive uma exposição, em 1988, na própria Polônia, patrocinada pelo consulado polonês no Brasil. Dessa experiência nasceu, em 2004, o livro Tui i Tam – Memória da imigração polonesa (Edições Mirabilia) – tui i tam, aqui e lá, em polonês. O livro reúne as imagens dos anos de peregrinação de Urban pelos labirintos da memória polonesa no Brasil e também os registros de sua passagem pela Polônia.
Com mais de dez livros publicados e dezenas de mostras, entre individuais e coletivas, no currículo, aos 66 anos João Urban está em plena atividade. Além da participação no projeto da Fnac, o curitibano esteve, em setembro, na capital paraguaia para uma retrospectiva de sua obra. Este ano lançou, também, o livro Mar e mata – a serra, a floresta e a baía (Aguaforte Hipereditora), em que registra imagens da região litorânea do Paraná. Por ora, deixando de lado a fotografia publicitária, Urban terá mais tempo para seus trabalhos autorais. "Agora estou totalmente à disposição dos documentários. Vou fazer aquilo que sempre me deu tesão", afirma.

Fonte: Revista Brasileiros – http://www.revistabrasileiros.com.br/

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Detalhes no solo

Sistema integra satélite e sensores para elaborar um mapa pormenorizado de áreas de plantio.

Marcos de Oliveira

Método de sensoriamento detecta e avalia pastagens que recebem sangue bovino descartado de forma irregular.

A agricultura que visa à boa produtividade e ao melhor uso do solo tem à disposição sistemas tecnológicos para análise do potencial da terra. Chamada de agricultura de precisão, essa área está sempre em evolução e acompanha o avanço da microeletrônica com computadores de mão, softwares, receptores GPS (posicionamento por sinais de satélite), além de máquinas agrícolas, do sensoriamento remoto do solo e da geoestatística. Algumas dessas soluções estão reunidas e se tornam mais atraentes para o futuro da agricultura nos estudos do professor José Alexandre Demattê, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP). Ele e seu grupo desenvolveram um novo tipo de mapa digital do solo que facilita o planejamento do plantio e pode ser elaborado de forma mais rápida que o convencional. “Utilizamos ao mesmo tempo imagens de satélite, fotos aéreas e sensores portáteis para obter um mapa de solos mais detalhado e permitir ao agricultor escolher as melhores áreas para plantio, estabelecer as áreas de reserva legal de mata, racionalizar a adubação e escolher as melhores variedades para aumentar a produtividade de uma cultura”, diz Demattê.
“Os mapas de solo feitos atualmente no Brasil possuem poucos detalhes, têm custo financeiro alto e demoram para ser elaborados porque são muito trabalhosos.” Para formar um mapa mais detalhado e rápido, tornando-o mais barato, Demattê utiliza a análise do solo feito por reflectância, que é a energia refletida do solo e captada na forma de radiação eletromagnética pelos sensores localizados em terra e nos satélites, como os norte-americanos Landsat e Aster. “A radiação eletromagnética está associada com os constituintes do solo como argila, areia, óxidos de ferro, potássio, cálcio, matéria orgânica e minerais.” Para avaliação da camada superficial de uma área por imagem de satélite, o solo precisa estar exposto. Se estiver com vegetação, muda-se o método e utiliza-se o parâmetro de formas de relevo como modelos de elevação do solo geralmente adquiridas pelo sistema shuttle radar topography mission(SRTM), ou missão topográfica por radar do ônibus espacial, realizada em 2000 pelo Endeavour. “O objetivo de utilizar imagens de satélite não é saber a classificação do solo, porque a imagem capta apenas a camada superficial, mas obter mais uma informação que se agregue às outras, permitindo chegar ao provável tipo do solo.”

Outra ferramenta utilizada pelo pesquisador em áreas cobertas e descobertas é um sensor óptico, que pode ser levado em uma mochila. Ainda pouco utilizado na agricultura, esse aparelho custa em torno de US$ 60 mil. “É só apontar a fibra ótica para o solo para captar a energia refletida. Os dados são posteriormente processados e modelos matemáticos quantificam e ajudam a formar um mapa detalhado do solo”, diz Demattê. O sensor não substitui totalmente as análises em laboratório para saber a composição do solo. “Ele permite uma racionalização da coleta de amostras. Por exemplo, se numa fazenda for preciso coletar 500 amostras numa densidade de 1 por hectare (ha), pelo novo método coletam-se as mesmas 500 amostras, mas somente 150 seriam enviadas ao laboratório e o restante quantificado pelo sensor (que faz a leitura em 1 segundo), atingindo um ganho financeiro em análises de solo da ordem de até 64%, conforme mostrou a dissertação de mestrado do aluno Leo nardo Ramirez Lopez, com bolsa da FAPESP, e participante do grupo.”
Demattê propõe uma maior integração de todas as técnicas para a formação de novos mapas. “É possível agregar informações de cada equipamento como os satélites, sensores de campo, modelos de elevação, forma do terreno, entre outros.” Ele diz existirem duas comunidades científicas que pouco se integram e isso é refletido na comunidade em geral. “São os pesquisadores da área de sensoriamento remoto e os da ciência do solo em que uns não utilizam os conhecimentos de análise do solo e os outros que não veem a real dimensão da aplicação do sensoriamento.”
Parâmetros finais - A integração de softwares para o novo sistema ainda não está pronta para que possa ajudar o agricultor. “Trata-se da próxima fase dos estudos em que vamos sistematizar a entrada de parâmetros para ter um resultado final. Já estamos em contato com outras instituições para estabelecer uma sequência de trabalhos e disponibilizar o sistema para a agricultura em geral.
As pesquisas do professor Demattê também avançaram para o monitoramento ambiental com a utilização do sensor óptico na detecção rápida de sangue bovino despejado de forma irregular em áreas de pastagem e perto de riachos. Cada bovino gera de 15 a 20 litros de sangue, produto que pode ser vendido, pelos frigoríficos, para empresas que o processam para fabricação de plasma e farinha usados em rações. Demattê elaborou um estudo para avaliar as alterações ocorridas no solo. “Foram observadas alterações em solos da região oeste de São Paulo.” Para detectar a presença do sangue na terra, utilizaram-se amostras com e sem o produto, analisadas pelo sensor em laboratório.
“Verificamos que os solos são muito alterados na parte química, principalmente com excesso de sódio, com modificação nos teores de nutrientes e do pH.”  Os dados indicam que o produto é jogado em locais impróprios e os resíduos se deslocam para os rios e riachos, além de possivelmente contaminarem os lençóis freáticos. O professor conseguiu determinar um método de sensoriamento remoto para detectar e avaliar o problema rapidamente. O grupo de pesquisa em Geotecnologia em Ciência do Solo (GeoCis) da Esalq, coordenado por Demattê, está agora preparando artigos científicos que depois serão transformados em um relatório a ser apresentado para a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), órgão responsável pela fiscalização do destino de sub-produtos de origem animal.

Outra ferramenta utilizada pelo pesquisador em áreas cobertas e descobertas é um sensor óptico, que pode ser levado em uma mochila. Ainda pouco utilizado na agricultura, esse aparelho custa em torno de US$ 60 mil. “É só apontar a fibra ótica para o solo para captar a energia refletida. Os dados são posteriormente processados e modelos matemáticos quantificam e ajudam a formar um mapa detalhado do solo”, diz Demattê. O sensor não substitui totalmente as análises em laboratório para saber a composição do solo. “Ele permite uma racionalização da coleta de amostras. Por exemplo, se numa fazenda for preciso coletar 500 amostras numa densidade de 1 por hectare (ha), pelo novo método coletam-se as mesmas 500 amostras, mas somente 150 seriam enviadas ao laboratório e o restante quantificado pelo sensor (que faz a leitura em 1 segundo), atingindo um ganho financeiro em análises de solo da ordem de até 64%, conforme mostrou a dissertação de mestrado do aluno Leo nardo Ramirez Lopez, com bolsa da FAPESP, e participante do grupo.”
Demattê propõe uma maior integração de todas as técnicas para a formação de novos mapas. “É possível agregar informações de cada equipamento como os satélites, sensores de campo, modelos de elevação, forma do terreno, entre outros.” Ele diz existirem duas comunidades científicas que pouco se integram e isso é refletido na comunidade em geral. “São os pesquisadores da área de sensoriamento remoto e os da ciência do solo em que uns não utilizam os conhecimentos de análise do solo e os outros que não veem a real dimensão da aplicação do sensoriamento.”
Parâmetros finais - A integração de softwares para o novo sistema ainda não está pronta para que possa ajudar o agricultor. “Trata-se da próxima fase dos estudos em que vamos sistematizar a entrada de parâmetros para ter um resultado final. Já estamos em contato com outras instituições para estabelecer uma sequência de trabalhos e disponibilizar o sistema para a agricultura em geral.
As pesquisas do professor Demattê também avançaram para o monitoramento ambiental com a utilização do sensor óptico na detecção rápida de sangue bovino despejado de forma irregular em áreas de pastagem e perto de riachos. Cada bovino gera de 15 a 20 litros de sangue, produto que pode ser vendido, pelos frigoríficos, para empresas que o processam para fabricação de plasma e farinha usados em rações. Demattê elaborou um estudo para avaliar as alterações ocorridas no solo. “Foram observadas alterações em solos da região oeste de São Paulo.” Para detectar a presença do sangue na terra, utilizaram-se amostras com e sem o produto, analisadas pelo sensor em laboratório.
“Verificamos que os solos são muito alterados na parte química, principalmente com excesso de sódio, com modificação nos teores de nutrientes e do pH.”  Os dados indicam que o produto é jogado em locais impróprios e os resíduos se deslocam para os rios e riachos, além de possivelmente contaminarem os lençóis freáticos. O professor conseguiu determinar um método de sensoriamento remoto para detectar e avaliar o problema rapidamente. O grupo de pesquisa em Geotecnologia em Ciência do Solo (GeoCis) da Esalq, coordenado por Demattê, está agora preparando artigos científicos que depois serão transformados em um relatório a ser apresentado para a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), órgão responsável pela fiscalização do destino de sub-produtos de origem animal.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Jean-Jacques Rousseau – O filósofo da liberdade como valor supremo

Em sua obra sobre educação, o pensador suíço prega o retorno à natureza e o respeito ao desenvolvimento físico e cognitivo da criança.

Foto: ARCHIVO ICONOGRAFICO, S.A./Corbis /Stock Photos

Na história das idéias, o nome do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) se liga inevitavelmente à Revolução Francesa. Dos três lemas dos revolucionários – liberdade, igualdade e fraternidade –, apenas o último não foi objeto de exame profundo na obra do filósofo, e os mais apaixonados líderes da revolta contra o regime monárquico francês, como Robespierre, o admiravam com devoção.
O princípio fundamental de toda a obra de Rousseau, pelo qual ela é definida até os dias atuais, é que o homem é bom por natureza, mas está submetido à influência corruptora da sociedade. Um dos sintomas das falhas da civilização em atingir o bem comum, segundo o pensador, é a desigualdade, que pode ser de dois tipos: a que se deve às características individuais de cada ser humano e aquela causada por circunstâncias sociais. Entre essas causas, Rousseau inclui desde o surgimento do ciúme nas relações amorosas até a institucionalização da propriedade privada como pilar do funcionamento econômico.
O primeiro tipo de desigualdade, para o filósofo, é natural; o segundo deve ser combatido. A desigualdade nociva teria suprimido gradativamente a liberdade dos indivíduos e em seu lugar restaram artifícios como o culto das aparências e as regras de polidez.
Ao renunciar à liberdade, o homem, nas palavras de Rousseau, abre mão da própria qualidade que o define como humano. Ele não está apenas impedido de agir, mas
privado do instrumento essencial para a realização do espírito. Para recobrar a liberdade perdida nos descaminhos tomados pela sociedade, o filósofo preconiza um mergulho interior por parte do indivíduo rumo ao autoconhecimento. Mas isso não se dá por meio da razão, e sim da emoção, e traduz-se numa entrega sensorial à natureza.

Biografia

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, Suíça, em 1712. Sua mãe morreu no parto. Viveu primeiro com o pai, depois com parentes da mãe e aos 16 anos partiu para uma vida de aventureiro. Foi acolhido por uma baronesa benfeitora na província francesa de Savoy, de quem se tornou amante. Converteu-se à religião dela, o catolicismo (era calvinista). Até os 30 anos, alternou atividades que foram de pequenos furtos à tutoria de crianças ricas. Ao chegar a Paris, ficou amigo dos filósofos iluministas e iniciou uma breve mas bem-sucedida carreira de compositor. Em 1745, conheceu a lavadeira Thérèse Levasseur, com quem teria cinco filhos, todos entregues a adoção – os remorsos decorrentes marcariam grande parte de sua obra. Em 1756, já famoso por seus ensaios, Rousseau recolheu-se ao campo, até 1762. Foram os anos em que produziu as obras mais célebres (Do Contrato Social, Emílio e o romance A Nova Heloísa), que despertaram a ira de monarquistas e religiosos. Viveu, a partir daí, fugindo de perseguições até que, nos últimos anos de vida, recobrou a paz. Morreu em 1778 no interior da França. Durante a Revolução Francesa, 11 anos depois, foi homenageado com o translado de seus ossos para o Panteão de Paris.

Bom selvagem

Até aqui o pensamento de Rousseau pode ser tomado como uma doutrina individualista ou uma denúncia da falência da civilização, mas não é bem isso. O mito criado pelo filósofo em torno da figura do bom selvagem – o ser humano em seu estado natural, não contaminado por constrangimentos sociais – deve ser entendido como uma idealização teórica. Além disso, a obra de Rousseau não pretende negar os ganhos da civilização, mas sugerir caminhos para reconduzir a espécie humana à felicidade.

Um pensamento rebelde na Era da Razão

Já adulto, Emílio, o personagem de Rousseau, ouve preleção sobre a natureza: religião natural. Ilustração: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil

Já adulto, Emílio, o personagem de  Rousseau, ouve preleção sobre a natureza: religião natural. Ilustração: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil.

Havia mais desacordo do que harmonia entre Rousseau e os outros pensadores iluministas que inspiraram os ideais da Revolução Francesa (1789). Voltaire (1694-1778), Denis Diderot (1713-1784) e seus pares exaltavam a razão e a cultura acumulada ao longo da história da humanidade, mas Rousseau defendia a primazia da emoção e afirmava que a civilização havia afastado o ser humano da felicidade. Enquanto Diderot organizava a Enciclopédia, que pretendia sistematizar todo o saber do mundo de uma perspectiva iluminista, Rousseau pregava a experiência direta, a simplicidade e a intuição em lugar da erudição – embora, mesmo assim, tenha se encarregado do verbete sobre música na obra conjunta dos filósofos das luzes. Também o misticismo os opunha: Rousseau rejeitava o racionalismo ateu e recomendava a religião natural, pela qual cada um deve buscar Deus em si mesmo e na natureza. Com o tempo, as relações entre Rousseau e seus contemporâneos chegou ao conflito aberto. Voltaire fez campanha pública contra ele, divulgando o fato de ter entregue os filhos a adoção. Os seguidores mais fiéis de Rousseau seriam os artistas filiados ao Romantismo. Por meio deles, suas idéias influenciaram profundamente o espírito da época. No Brasil, por exemplo, José de Alencar escorou seus romances indigenistas no mito rousseauniano do bom selvagem.

Não basta a via individual. Como a vida em sociedade é inevitável, a melhor maneira de garantir o máximo possível de liberdade para cada um é a democracia, concebida como um regime em que todos se submetem à lei, porque ela foi elaborada de acordo com a vontade geral. Não foi por acaso que Rousseau escolheu publicar simultaneamente, em 1762, suas duas obras principais, Do Contrato Social – em que expõe sua concepção de ordem política – e Emílio – minucioso tratado sobre educação, no qual prescreve o passo-a-passo da formação de um jovem fictício, do nascimento aos 25 anos. "O objetivo de Rousseau é tanto formar o homem como o cidadão", diz Maria Constança Peres Pissarra, professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "A dimensão política é crucial em seus princípios de educação."
Não há escola em Emílio, mas a descrição, em forma vaga de romance, dos primeiros anos de vida de um personagem fictício, filho de um homem rico, entregue a um preceptor para que obtenha uma educação ideal. O jovem Emílio é educado no convívio com a natureza, resguardado ao máximo das coerções sociais. O objetivo de Rousseau, revolucionário para seu tempo, é não só planejar uma educação com vistas à formação futura, na idade adulta, mas também com a intenção de propiciar felicidade à criança enquanto ela ainda é criança.
Dependência das coisas
Rousseau via o jovem como um ser integral, e não uma pessoa incompleta, e intuiu na infância várias fases de desenvolvimento, sobretudo cognitivo. Foi, portanto, um precursor da pedagogia de Maria Montessori (1870-1952) e John Dewey (1859-1952). "Rousseau sistematizou toda uma nova concepção de educação, depois chamada de ‘escola nova’ e que reúne vários pedagogos dos séculos 19 e 20", diz Maria Constança.

Método natural e educação negativa

Rousseau dividiu a vida do jovem – e seu livro Emílio – em cinco fases: lactância (até 2 anos), infância (de 2 a 12), adolescência (de 12 a 15), mocidade (de 15 a 20) e início da idade adulta (de 20 a 25). Para a pedagogia, interessam particularmente os três primeiros períodos, para os quais Rousseau desenvolve sua idéia de educação como um processo subordinado à vida, isto é, à evolução natural do discípulo, e por isso chamado de método natural. O objetivo do mestre é interferir o menos possível no desenvolvimento próprio do jovem, em especial até os 12 anos, quando, segundo Rousseau, ele ainda não pode contar com a razão. O filósofo chamou o procedimento de educação negativa, que consiste, em suas palavras, não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro. Desse modo, quando adulto, o ex-aluno saberá se defender sozinho de tais perigos.

Para Rousseau, a criança devia ser educada sobretudo em liberdade e viver cada fase da infância na plenitude de seus sentidos – mesmo porque, segundo seu entendimento, até os 12 anos o ser humano é praticamente só sentidos, emoções e corpo físico, enquanto a razão ainda se forma. Liberdade não significa a realização de seus impulsos e desejos, mas uma dependência das coisas (em oposição à dependência da vontade dos adultos). "Vosso filho nada deve obter porque pede, mas porque precisa, nem fazer nada por obediência, mas por necessidade", escreveu o filósofo em Emílio.
Um dos objetivos do livro era criticar a educação elitista de seu tempo, que tinha nos padres jesuítas os expoentes. Rousseau condenava em bloco os métodos de ensino utilizados até ali, por se escorarem basicamente na repetição e memorização de conteúdos, e pregava sua substituição pela experiência direta por parte dos alunos, a quem caberia conduzir pelo próprio interesse o aprendizado. Mais do que instruir, no entanto, a educação deveria, para Rousseau, se preocupar com a formação moral e política.

Para pensar

Por incrível que pareça, Rousseau, ao criar o mito do bom selvagem, acabou dando argumentos para negar a importância ou o valor da educação. Afinal, a educação é antes de tudo ação intencional para moldar o homem de acordo com um ideal ou um modelo que a sociedade, ou um segmento dela, valoriza. A educação aceita a natureza, mas não a toma como suficiente e boa em princípio. Se tomasse, não seria necessária… Se você comparar, por exemplo, as idéias de Rousseau e as de Émile Durkheim (1858-1917), verá que, nesse sentido, eles estão em extremos opostos. Para o sociólogo francês, tema de outro capítulo desta edição (leia na página 59), a função da educação era introduzir a criança na sociedade.

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

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Conversações sobre o efêmero

Como as obras de João Gilberto Noll e de Luiz Ruffato dialogam com as ciências sociais e jogam luz sobre os nossos dias.

MANUEL ALVES FILHO

Promover o diálogo entre as ciências sociais e a literatura e, a partir dessa aproximação, obter elementos para compreender e interpretar aspectos não tão perceptíveis da sociedade contemporânea foram os objetivos que nortearam a tese de doutorado da cientista social Cristina Maria da Silva, defendida recentemente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Intitulado Rastros das socialidades – Conversações com João Gilberto Noll e Luiz Rufatto, o trabalho procurou pensar a realidade atual, permeada por conflitos e embates, a partir das narrativas contidas nas obras dos dois autores brasileiros. A orientadora do estudo foi a professora Suely Kofes, do Departamento de Ciências Sociais do IFCH.

De acordo com Cristina, a tese apresenta uma crítica ao conceito de sociedade, tão caro a alguns estudiosos, segundo o qual seria possível estabelecer definições totalitárias para entender o que ocorre na vida social. Na opinião da pesquisadora, porém, a sociedade não deve ser vista como um domínio constituído apenas por regras e funções, no qual as experiências individuais possam ser unificadas. “As ciências sociais tendem a eleger categorias e conceitos para tentar se aproximar da vida social, como o de sociedade ou cultura. Ocorre que a sociedade também se configura por meio de conflitos, embates e encontros de alteridades. Se a sociabilidade deu conta de trabalhar a questão dos indivíduos inseridos na vida social, a partir de regras e funções, a socialidade, conceito que emprego no trabalho, surge como contraponto a ela, para dar conta das altercações, que a meu ver singularizam a nossa realidade atual”, explica.

Parte dos estudos que deram sustentação à tese foram desenvolvidos na França, mais especificamente no Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, Paris V, unidade da Sorbonne, sob orientação do professor Michel Maffesoli. “Essa experiência me ajudou a compreender melhor as ciências sociais contemporâneas e me deu subsídios para analisar as narrativas literárias”, afirma Cristina. Ela conta que inicialmente pensou em trabalhar com outros autores, mas elegeu entre eles somente Noll e Rufatto. Depois de analisar mais detidamente as obras de ambos, concluiu que os escritos deles traziam os rastros das socialidades que pretendia decifrar. “Procurei estabelecer um diálogo entre as ciências sociais e esses dois escritores, que chamei de conversações. A ideia não foi tomar conceitos das ciências sociais e colar na literatura, o que poderia ser chamado de uma sociologia da literatura. O que eu fiz foi pensar se era possível construir uma possível etnografia ficcional, de modo a enxergar a literatura não como um reflexo da sociedade, mas como o avesso dela”, explicita.

O ponto que aproxima as obras de Noll e Rufatto, conforme Cristina, é justamente o fato de ambos não registrarem em seus livros somente o que está nos signos da vida social, da forma como normalmente são dados, mas de maneira deslocada. “Eles se valem daquilo que está na sociedade, mas contam de outra forma, mostrando que os signos são contingentes e que não existe uma verdade imutável. A meu juízo, a literatura não está aí para dizer como as coisas devem ser ou acontecer. Antes, ela serve para falar daquilo que não está posto, do que ficou de fora da construção da sociedade e da cultura”, analisa a autora da tese. Ela acrescenta que outra característica marcante nas obras de Noll e Rufatto é a provisoriedade.

Ou seja, eles falam com freqüência de situações que são provisórias, efêmeras. “Essa é também uma das características da sociedade contemporânea. Frequentemente, as pessoas se pegam achando que algo está se esvaindo, que está escorrendo por entre os seus dedos”. No caso de Rufatto, prossegue a cientista social, o escritor trata com frequência do resgate da memória, principalmente dos imigrantes italianos que vivem em Minas Gerais e de seus descendentes que migram, sobretudo para São Paulo. Ele narra o cotidiano desses e de outros personagens nas mais diversas situações. “Rufatto se vale de fragmentos da cidade para construir a sua narrativa. Nela, aparece desde um diálogo dentro de um táxi até detalhes em torno de uma oração de Santo Expedito, inscrita nesses panfletos que encontramos na calçada ou nos bancos das igrejas. Para mim, esses elementos que aparecem fragmentados na literatura são manifestações das socialidades presentes no cotidiano de centros urbanos como São Paulo”, compara Cristina.

Os personagens de Noll, destaca a pesquisadora, não são propriamente migrantes, mas nômades ou desmemoriados. São pessoas que vivem nas ruas, ex-atores atormentados, ex-escritores em conflito. “São personagens que sempre estão em trânsito, vagando pelas vias, rodoviárias e becos de cidades como Rio de Janeiro, Florianópolis, Porto Alegre ou Londres. Na minha interpretação, os percursos cumpridos por essas pessoas constituem formas de rasurar a vida social. Elas estão o tempo todo se batendo com aquilo que é colocado na vida social. Ou seja, o escritor trabalha com figurações que nos permitem pensar aspectos da realidade atual”, analisa a autora da tese.

Para a elaboração do trabalho acadêmico, Cristina entrevistou os dois escritores. De acordo com ela, foram contatos extremamente interessantes e enriquecedores. “Na verdade, foram bate-papos. Eu não defini um roteiro ou gravei os diálogos, porque considerei que isso não faria muito sentido dentro da proposta da tese. Eu não estava com eles para saber se o que escrevem é tal qual como vivem. Meu interesse era saber quem eram aquelas duas pessoas”, diz. Nesses contatos, a cientista social obteve depoimentos valiosos. Rufatto, por exemplo, falou sobre aspectos relacionados ao seu processo de criação. “Ele me contou que, quando escreve, tenta contar uma história do mesmo modo como a gente tenta se lembrar de algo que aconteceu. Ou seja, a gente não consegue se recordar de todos os detalhes, mas mesmo assim consegue descrever o que ocorreu”.

Segundo Cristina, a sua tese está inserida numa linha de pesquisa que vem sendo desenvolvida no IFHC sob a coordenação da professora Suely Kofes. Os estudos, informa, trabalham com questões das trajetórias, narrativas e biografias dentro das ciências sociais. “Por meio dessa abordagem, o grupo tem proposto um questionamento aos métodos tradicionais empregados pelas ciências sociais para analisar a vida social. Nós procuramos compreender a sociedade contemporânea por meio dos diálogos e relações entre os indivíduos, que são normalmente pontuados por conflitos”.

A pesquisadora entende que a principal contribuição do seu trabalho acadêmico está justamente no uso do diálogo entre as ciências sociais e a literatura para suavizar as teorizações áridas tão presentes nas abordagens das ciências sociais. “Ou seja, busquei pensar o ‘objeto de estudo’ de uma maneira mais poética”, finaliza Cristina, que contou, no Brasil, com bolsa concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e bolsa no exterior fornecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgãos vinculados, respectivamente, aos ministérios da Ciência e Tecnologia e Educação.

Os autores
João Gilberto Noll e Luiz Rufatto estão entre os mais importantes escritores da atualidade no Brasil. O primeiro nasceu em 1946, em Porto Alegre. Tem 13 livros publicados, entre romances e contos. Ganhou diversos prêmios literários, entre eles o Jabuti, em cinco ocasiões: 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. Sua obra mais recente, Acenos e Afagos, é de 2008. O segundo nasceu em 1961, em Cataguases, Minas Gerais. Seu primeiro livro, Histórias de Remorsos e Rancores, uma coletânea de contos, foi publicado em 1998. Em 2005, iniciou a série Inferno Provisório, projetada para cinco volumes, com os livros Mamma, son tanto felice e O Mundo inimigo. Na sequência, escreveu Vista parcial da noite e O livro das impossibilidades.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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