Daily Archives: 20/11/2009

A proletarização da docência superior e o que o jornal Le Monde não viu no Brasil

Paulo Henrique Costa Mattos

Paulo Henrique Costa Mattos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é mesmo um sujeito fadado a entrar na história do Brasil. Suas ações políticas e econômicas e culturais irão repercutir na vida nacional século XXI.  No que tange especificamente ao modelo universitário brasileiro, por exemplo,  suas ações estão repercutindo inclusive fora do país. Recentemente o jornal francês Le Monde publicou  uma elogiosa reportagem sobre educação no Brasil, na qual afirma que, com sua política para a área, o presidente,  Lula da Silva "inventa a universidade brasileira do século 21".

Em um caderno  especial sobre educação, o correspondente do jornal Le Monde em São Paulo, Philippe Jacqué, afirma que o presidente Lula deu "um sopro de oxigênio ao ensino superior" e multiplicou, desde 2002, planos para dinamizar as universidades do país. O jornal francês analisando as "profundas transformações na educação superior do Brasil" cita como exemplo a Universidade Federal do ABC, em São Paulo, criada em 2005, para "formar os engenheiros do futuro". Essas  inovações da Universidade Federal do ABC, estariam ocorrendo inclusive "na zona operária onde Lula começou sua carreira" e demonstrando compromisso com suas origens.

A matéria jornalística de Philippe Jacqué afirma que "o governo federal do presidente Lula não economizou na Universidade do ABC. Meio bilhão de euros foi injetado. Desde 2005, pelo menos 280 professores foram contratados, como titulares, todos doutores e muito bem preparados". Segundo o jornalista, há hoje uma "reformulação total na Universidade brasileira", pois há nessas Instituições de Ensino Superior uma nova geração de jovens professores, com idade média de 35 anos, que  desejam  reformular totalmente o modelo universitário brasileiro. Para isso inclusive, a Universidade do ABC já iniciou o fim dos departamentos de disciplinas e está implementando centros de pesquisas multidisciplinares para facilitar a cooperação, a integração e a renovação da velha estrutura universitária.

O jornal francês afirma ainda que o presidente Lula "vem desenvolvendo instrumentos para facilitar o acesso ao ensino universitário, pois no Brasil apenas 16% dos brasileiros (4,9 milhões de universitários) entre 18 e 24 anos chegam  à Universidade. De acordo com o periódico, o país não soube até o momento democratizar o seu ensino superior" fazendo com que apenas a classe média alta, em grande maioria tenha acesso às 200 instituições de ensino superior público e gratuito no país. E por último, o jornal lembra que o sistema universitário brasileiro, é "seletivo", favorecendo alunos com maior poder aquisitivo, que são mais bem preparados porque puderam estudar nas melhores e mais caras escolas privadas.

O que o jornal francês não diz é que as transformações ocorridas no magistério superior do Brasil sob o governo Lula na verdade é impulsionado por uma profunda proletarização do exercício intelectual, pelo arrocho salarial dos docentes, que cada vez mais sofrem com os baixos salários e pelo favorecimento da Educação Superior de caráter privado em detrimento da Universidade Pública.

Isso faz com que hoje as condições de vida e de trabalho na Universidade Pública sejam marcadas por medidas econômicas que  não só reduzem drasticamente a massa salarial dos docentes de nível superior como gere um aumento da exploração desse segmento de trabalhador especializado.  Aliás, esse segmento cada vez mais  compartilha traços próprios dos grupos profissionais com características da classe operária. Para esse processo de proletarização, contribui o próprio crescimento numérico dos professores sem remuneração compatível com seus títulos, a expansão e concentração das empresas privadas do setor educacional superior e a tendência de corte dos gastos em pesquisas estratégicas para o país.

Apesar dos elogios franceses a Lula, o que está ocorrendo hoje na Universidade pública brasileira é algo profundamente desastroso e com impactos decorrentes da efetivação de políticas que já estão levando, com certeza, à efetivação de aposentadorias em massa, preconizáveis pelo quantitativo atual de solicitações de contagem de tempo de serviço que estão registrando os setores de RH das Instituições de Ensino Superior públicas (federais e estaduais), de cerca de 30% de servidores, entre os quais se incluem vários reitores de Universidades Federais.

A  exemplo do que se deu na segunda metade dos anos 90, no Brasil de hoje, está ocorrendo sob o governo Lula uma perda crescente de professores de maior experiência, que estão desistindo da profissão (ou se aposentando) por absoluta falta de perspectiva e estímulos reais a vida docente.  Ao lado disso,  há também uma radicalização do processo de expansão do ensino superior privado, mediante a imolação das Instituições de Ensino Superior públicas, pelo sucateamento de equipamentos, precarização de laboratórios e dificuldades de efetivação do tripé ensino pesquisa e extensão.

Há cerca de 20 anos atrás, o ensino de terceiro grau público respondia a aproximadamente 60% das matrículas, enquanto que o setor privado a não mais do que  40%,  já no quadro atual o segmento privado chega a atender a mais de 70%, enquanto que as instituições públicas federais e estaduais, hoje, em meio aos impactos da política governamental Lulista, não chegam a responder aos 30% das matrículas restantes.

A quantidade de instituições de ensino superior no Brasil realmente vem crescendo  (de 900 entidades, em 1997, para 1.391, em 2001), acompanhada de um incremento igualmente expressivo de cursos superiores (100%) e de matrículas (55%). Mas essa expansão do ensino superior brasileiro ocorre com o debilitamento das instituições públicas, pelo minguar progressivo e lento de seus recursos e prestígio social, em paralelo à oxigenação das instâncias particulares que, salvo algumas exceções – em especial as confessionais e as poucas particulares com tradição acadêmica -, pouco contribuem para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia do País.

O que o Le Monde  não viu, ou não quis ver,  foi que a política de Lula  para a educação superior brasileira  vem gerando prejuízos a rede pública de forma incalculável, sobretudo se levado em conta que a prática do contrato precário de trabalho que se intensifica entre as instituições públicas, agora em decorrência de pedidos de aposentadoria em massa e da falta de horizontes em torno de novas contratações, aprofundando ainda mais o déficit estrutural docente.

Nas universidades públicas, há muito que o contrato precário de trabalho foi integrado às rotinas administrativas, pactuado em diversas áreas da instituição, sobretudo no âmbito da docência. Professores, alcunhados de substitutos (aqueles que irão atuar em cursos de graduação) e visitantes (aqueles que irão atuar em programas de pós-graduação) são freqüentemente contratados para suprir demandas eventuais resultantes, por exemplo, da cessão de colegas efetivos para outras unidades da própria universidade ou de outras esferas governamentais, de licenças médicas e congêneres, ou, no caso dos cursos de pós-graduação, para o atendimento, por exemplo, de necessidades pontuais relativas a determinadas linhas ou projetos de pesquisa, a intercâmbios, entre outros.

O contrato precário de trabalho vem contribuindo para a degradação do ensino superior público brasileiro, em virtude das disfunções e abusos que marcam sua adoção institucional: de solução, mesmo que paliativa, para déficits conjunturais, que se transmuta em instrumento dedicado à manutenção e cimentação de déficits estruturais. Sendo assim, é preciso perguntar, o que há de inovador na proletarização involuntária dos docentes? O que há de profundamente novo na debilitação da qualidade dos cursos e na expansão sem garantia de recursos para toda a rede pública. Boa educação não se faz apenas com prédios e mais salas de aulas, como vem fazendo Lula e o seu projetos, a exemplo do famigerado Reune.

Que qualidade há nas instituições superiores públicas que hoje, significativamente, operam com docentes temporários, tornando-se cada vez mais débil a Universidade? Que modernidade há na contratação de professores substitutos que não prevê seu envolvimento em espaços voltados à pesquisa e extensão, tampouco em atividades administrativas e pedagógicas, que marcam a excelência do trabalho docente e o caráter acadêmico atinente ao papel jurídico-social das Universidades públicas brasileiras?

Que modernidade há em abrir cada vez mais salas de aulas e não desenvolver o espírito investigativo, a realização de pesquisas que contribuam para o desenvolvimento nacional, que estreitem os vínculos entre a instituição universitária e a sociedade como um todo, ou seja, pela via das atividades de extensão? Que vantagens há efetivamente em massificar o ensino superior sem qualidade, responsabilidade social e preocupação efetiva em propiciar uma formação superior capaz de beneficiar professores, alunos, e, de modo geral, a sociedade?

Que modernidade há em permitir a existência de Faculdades e Centros Universitários Estaduais e até Municipais, comandados por Fundações "Públicas" autoritárias, corruptas e quase sempre a serviço de interesses patrimonialistas, paternalistas e privatistas de prefeitos e gestores públicos sem a mínima visão do que é o ensino superior e respeito aos funcionários públicos?

Ninguém pode ser contra a verdadeira democratização do ensino superior, o acesso das classes mais depauperadas à formação universitária ou a renovação da estrutura das IES do Brasil, mas isso não pode ser feito de forma sofística, enganadora e acima de tudo cosmética como vem fazendo Lula e seu ministério da Educação, inclusive alimentando a rede privada de professores que adquirem experiência na rede pública e depois são "obrigados" migrarem para as "escolonas" de 3° grau particulares. Isso ocorre porque muitos dos profissionais que são contratados após o término dos contratos de dois anos, estão condenados a não mais poder voltar a "prestar serviços" às instituições públicas, sob a alegação de que tal fato pode vir a caracterizar vínculo empregatício.

Ora, esses docentes, em sua grande maioria, são imediatamente absorvidos pelas entidades de ensino superior particulares, se servindo da experiência adquirida e do nome da instituição de ensino superior pública em que atuou como substituto. Sob este aspecto, a universidade pública parece privada de usufruir o aprimoramento e maturidade atingidos por seus professores substitutos, transferindo para as entidades particulares os quadros que consegue formar. Ou seja, a instituição pública se encontra, em certa medida, a serviço da preparação de recursos humanos para o setor privado da educação, afigurando-se como um grande centro de treinamento docente. O que há de inovador e moderno nisso? Apenas a velha lógica de atender os interesses de mercado e transformando o Estado numa fonte "inesgotável" de benesses ao capital.

A proletarização involuntária dos docentes brasileiros vem transformando inúmeros profissionais da educação em "marginais",  que se situam à margem das prerrogativas, direitos trabalhistas e possibilidades de desenvolvimento profissional concernentes aos docentes estatutários. Ou seja, o contrato precário de trabalho assume caráter poupador de contratações de efetivos, e portando como instrumento legal de terceirização do trabalho docente.

O professor temporário entra na universidade pública, ministra sua aula e, ao final desta vai embora cansado e desestimulado pois já não há espaços efetivos para o seu engajamento, envolvimento ou comprometimento com o projeto político-pedagógico da instituição, a não ser o da sala de aula propriamente dita. Essa é a mesma rotina de milhões de operários de chão de fábrica que diariamente seguem produzindo a mais-valia que engorda os patrões e faz a alegria dos capitalistas do mundo burguês.
Sob a batuta de Lula o que está havendo hoje no Brasil é verdadeiramente o assassinato da Universidade Pública, a esterilização do ensino superior público de qualidade, o estupro e a desfiguração da Universidade estatal, tornando-a um monstrengo inútil e longe  de sua verdadeira tradição, vocação e responsabilidades social. É isso que tem feito Lula com a Universidade Pública do Brasil! Não há nada de inovador, transformador ou oxigenação nisso. Privatização, sucateamento, exploração da força de trabalho não tem nada de novo, é a velhíssima prática do velho capitalismo. A única inovação é que agora isso vem sendo comanda por um ex-operário presidente, que um dia foi a esperança de milhões.

Se no passado havia as obras públicas para inglês ver e justificar o empréstimo de recursos financeiros,  hoje com Lula, "o cara", a Educação Superior Pública virou coisa para gringo nenhum botar defeito. Para nós, os novos proletários do século XXI, só resta a luta como única alternativa e esperança, o resto é fantasia de francês deslumbrado.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Ho Chi Minh

“Em primeiro lugar, foi o patriotismo, e não o comunismo, que me levaram a acreditar em Lênin e na Terceira Internacional. Aos poucos, durante a luta e enquanto estudava o marxismo-leninismo paralelamente às minhas participações nas atividades práticas, eu me dei conta de forma gradativa de que somente o socialismo e o comunismo poderiam libertar as nações oprimidas e o povo trabalhador ao redor do mundo da escravidão.”

Ho Chi Minh
in "O Caminho Que Me Levou ao Leninismo"

Ho Chi Minh, cujo nome verdadeiro era Nguyen Tat Thanh, foi um líder comunista vietnamita e principal articulista da luta do Vietnã contra o domínio colonial francês.

Ho nasceu em 19 de maio de 1890, na vila de Kimlien, em Anã (no Vietnã central), filho de um oficial que se demitiu em protesto contra o domínio francês de seu país. Ho freqüentou a escola em Hue e lecionou por pouco tempo em uma escola particular em Phan Thiet. Em 1911 foi empregado como cozinheiro em um navio a vapor francês. Em uma de suas viagens desembarcou no Rio de Janeiro para tratamento de saúde tendo ficado hospedado, por cerca de três meses, em uma pensão no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro[1N]. Em 1924, ao encontrar-se, em Moscou, com Astrojildo Pereira e Rodolfo Coutinho, que buscavam o reconhecimento do Partido Comunista do Brasil – PCB pela Terceira Internacional, Ho evocou seus dias de Rio de Janeiro e revelou que ficara impressionado com a "zona do mangue" (antiga zona de prostituição do Rio de Janeiro): com o cheiro fétido, com o mercado do sexo, subproduto do capitalismo nas condições do atraso semicolonial.

Depois da Primeira Guerra Mundial, adotando o pseudônimo Nguyen Ai Quoc (“Nguyen, o Patriota”), Ho se envolveu em atividades radicais e foi do grupo fundador do Partido Comunista francês. Ele foi convocado por Moscou para treinamento e, posteriormente, em 1924, foi enviado para Cantão, na China, onde organizou um movimento revolucionário junto a exilados vietnamitas.

Ho foi obrigado a deixar a China quando autoridades locais desbarataram as atividades comunistas, mas em 1930 retornou para fundar o Partido Comunista Indochinês (PCI). Ele permaneceu em Hong Kong como representante da Internacional Comunista e lá, em junho de 1931, foi detido pela polícia britânica e ficou preso até sua soltura, em 1933. Ho voltou então para a União Soviética, onde, segundo consta, ficou alguns anos se recuperando de uma tuberculose. Ele retornou em 1938 à China e serviu como conselheiro junto à militância armada comunista no país.

Quando o Japão ocupou o Vietnã em 1941, Ho retomou contato com os líderes do PCI e ajudou a fundar um novo movimento independentista de orientação comunista, popularmente conhecido como Vietminh, que lutou contra os japoneses. Em agosto de 45, com a rendição do Japão, o Vietminh tomou o poder e proclamou a República Democrática do Vietnã (RDV) em Hanói. Então conhecido por seu último e mais conhecido pseudônimo, Ho Chi Minh (que quer dizer o “Iluminador”) se tornou presidente. Os franceses não estavam dispostos a conceder a independência de suas colônias e no fim de 1946 explodiu a guerra.

Por oito anos, guerrilheiros do Vietminh combateram as tropas francesas nas montanhas e arrozais do Vietnã, derrotando-os finalmente na decisiva Batalha de Dien Bien Phu, em 1954. Ho, entretanto, foi privado de sua vitória. Negociações subseqüentes em Genebra dividiram o país, restando apenas a parte norte ao Vietminh. A RDV, tendo ainda Ho na presidência, concentrou então seus esforços na construção de uma sociedade comunista no Vietnã do Norte. Todavia, no começo dos anos 60, o conflito no Sul foi retomado por guerrilheiros de liderança comunista que organizaram uma insurgência contra o governo de Saigon, este apoiado pelos Estados Unidos. Então com a saúde debilitada, Ho foi relegado a um posto mais cerimonial, enquanto as políticas eram conduzidas por outros.

Em 3 de setembro de 1969, ele faleceu em Hanói de ataque cardíaco. Com a conquista comunista do Sul em 1975, Saigon foi renomeada em sua homenagem como Cidade Ho Chi Minh. Ho não foi apenas o fundador do comunismo vietnamita; ele era também a verdadeira alma da revolução e da luta do Vietnã por sua independência. Suas qualidades pessoais de simplicidade, integridade e determinação eram amplamente admiradas não apenas em seu país, mas também em todo lugar onde esteve.

Atualmente estão disponíveis em Português as seguintes obras:

1922 – Mai

Algumas Considerações Sobre a Questão Colonial

1922 – Jun

Igualdade!

1922 – Jul

Os Civilizadores

1922 – Ago

Civilização Assassina!

1924 – Jan

Lênin e os Povos Colonizados!

1945 – Set

Declaração de Independência do Vietnã

1945 – Set

Carta aos Anciãos

1945 – Abr

Doze Recomendações

1950 – Mai

Recomendações ao I Congresso Nacional de Educação dos Quadros

1960 – Abr

Notas:

[1N] Fonte: Moniz Bandeira em "Poemas do Cárcere", Ho Chi Minh, Gráfica Editora Laemmert SA, 1968.

Fonte: Marxists – http://www.marxists.org/

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Sonhos do avesso

"Quem vai olhar para um modelo fora de linha como eu?" "Como promover a otimização de meus finais de semana?" "Fiz as contas: com o que gastei na análise de meu filho já poderia ter trocado de carro duas vezes".

A psicanalista Maria Rita Kehl afirma que a clínica tem sido "contaminada" por critérios de mercado e que o universo familiar gerador de valores está "totalmente atravessado pela linguagem da eficiência comercial".

O aparente apagamento da dívida simbólica não nos tornou menos culpados; ao contrário: hoje escutamos pessoas que se dizem culpadas de tudo.

MARIA RITA KEHL

Dizem que Karl Marx descobriu o inconsciente três décadas antes de Freud. Se a afirmação não é rigorosamente exata, não deixa de fazer sentido desde que Marx, no capítulo de "O Capital" sobre o fetiche da mercadoria, estabeleceu dois parâmetros conceituais imprescindíveis para explicar a transformação que o capitalismo produziu na subjetividade.
São eles os conceitos de fetichismo e alienação, ambos tributários da descoberta da mais-valia -ou do inconsciente, como queiram. A rigor, não há grande diferença entre o emprego dessas duas palavras na psicanálise e no materialismo histórico. Em Freud, o fetiche organiza a gestão perversa do desejo sexual e, de forma menos evidente, de todo o desejo humano; já a alienação não passa de efeito da divisão do sujeito, ou seja, da existência do inconsciente. Em Marx, o fetiche da mercadoria, fruto da expropriação alienada do trabalho, tem um papel decisivo na produção "inconsciente" da mais-valia. O sujeito das duas teorias é um só: aquele que sofre e se indaga sobre a origem inconsciente de seus sintomas é o mesmo que desconhece, por efeito dessa mesma inconsciência, que o poder encantatório das mercadorias é condição não de sua riqueza, mas de sua miséria material e espiritual.
Se a sociedade em que vivemos se diz "de mercado" é porque a mercadoria é o grande organizador do laço social.
Não seria necessário recorrer a Marx e Freud para defender o caráter político das formações do inconsciente. Bastaria citar a frase "o inconsciente é a política", proferida por Lacan, que convocou os psicanalistas a se empenharem por "alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época". Mas insisto em recorrer aos clássicos para lembrar aos lacanianos extremados que a verdade não nasceu por geração espontânea da cabeça de Lacan.
Crise do sujeito
Se Freud fundou a psicanálise ao vislumbrar, no horizonte de sua época, as razões da insatisfação histérica, é nossa vez de tentar escutar o que mudou desde então, à medida que a norma produtiva/repressiva foi sendo substituída pela norma do gozo e do consumo.
Alguns sintomas, na atualidade, têm se tornado mais frequentes e mais incômodos do que as formas consagradas das neuroses e das psicoses no século passado. Hoje as drogadições, os transtornos alimentares, os quadros delinquenciais e as depressões graves desafiam os analistas a repensar a subjetividade. Isso não implica necessariamente que as antigas estruturas clínicas tenham se tornado obsoletas.
O que encontramos hoje nos consultórios psicanalíticos é um novo sujeito? Ou são novas expressões sintomáticas que buscam responder ao velho conflito entre as pulsões e o supereu -este representante das interdições e das moções de gozo, no psiquismo? O sujeito contemporâneo está mais próximo do perverso, que sabe driblar a falta pelo uso do fetiche? Ou é ainda o neurótico comum que, em vez de tentar seguir à risca a norma repressiva, tenta obedecer a um mestre fetichista que lhe ordena a transgredir e gozar além da medida?
Por enquanto, tenho escutado, em média, neuróticos mais ou menos estruturados tentando corresponder à suposta normalidade vigente, a qual -esta sim- já não é mais a mesma nem do tempo de Freud, nem do de Lacan.
A "crise do sujeito", outra face da chamada "crise da referência paterna", corresponde, a meu ver, ao deslocamento e à pulverização das referências que sustentavam, até meados do século passado, a transmissão da lei. Não se trata da ausência da lei na atualidade, mas da fragilidade das formações imaginárias que davam sentido e consistência à interdição do incesto -a qual, desde Freud, é considerada condição universal de inclusão dos sujeitos na chamada vida civilizada, seja ela qual for.
Se o homem contemporâneo sofre do que [o psicanalista francês] Charles Melman chamou de falta de um centro de gravidade, é porque as referências tradicionais -Deus, pátria, família, trabalho, pai- pulverizaram-se em milhares de referências optativas, para uso privado do freguês.
Culpa e frustração
O "self-made man" dos primórdios do capitalismo deixou de ser o trabalhador esforçado e econômico para se tornar o gestor de seu próprio "perfil do consumidor" a partir de modelos em oferta no mercado. Cada um tem o direito e o dever de compor a seu gosto um campo próprio de referências, de estilo, de ideais. Aparentemente, não devemos mais nada ao pai e ao grupo social a que pertencemos, dos quais imaginamos prescindir para saber quem somos.
Este aparente apagamento da dívida simbólica não nos tornou menos culpados; ao contrário: hoje escutamos pessoas que se dizem culpadas de tudo. Não citarei, em hipótese alguma, falas dos que se analisam comigo: daí o caráter ligeiramente caricato dos exemplos que se seguem, como expressões genéricas da transformação que o mercado produziu nos discursos.
A antiga donzela angustiada com as manifestações involuntárias de sua sexualidade reprimida -lembrem-se de que Freud relacionou o tabu da virgindade e a moral sexual entre as causas do mal-estar, no início do século 20- hoje se sente culpada por não usufruir tanto do sexo, das drogas e do "rock and funk" quanto deveria. O obsessivo escrupuloso, acossado por fantasias perversas, agora se queixa de seu bom comportamento: queria ser um predador sem escrúpulos, eliminar os rivais, abusar sem pudor das mulheres.
As pessoas vivem culpadas por não conseguirem gozar tanto quanto lhes é exigido. Culpadas por não alcançar o sucesso e a popularidade instantâneos, por perderem tempo em sessões de análise -culpados por sofrer. O sofrimento não tem mais o prestígio que lhe conferia o cristianismo. Sofrer não redime a dívida; ao contrário, reduplica os juros.
Sem recurso à referência a autoridades repressivas que faziam obstáculo aos prazeres, as pessoas têm dificuldades em justificar seus sintomas. Não encontram a quem endereçar suas queixas ou apoiar seus ideais.
"Meus pais são amigos, meus professores são legais, ninguém me impõe ou me impede nada: eu sou um otário porque não consigo ser feliz". O sentimento de culpa, como escreve [o sociólogo francês Alain] Ehrenberg, tomou a forma de sentimento de insuficiência. Assim, a resposta à dor psíquica não é buscada pela via da palavra, mas pelo consumo abusivo dos psicofármacos que prometem adicionar a substância faltante ao psiquismo deficitário. O remédio age em lugar do sujeito, que não se vê responsável por seu desejo e por suas escolhas.
Não se concebe a vida como um percurso de risco que inclui altos e baixos, incertezas, acertos, dúvida, sorte, acaso. A vida é um empreendimento cujos resultados devem ser garantidos desde os primeiros anos -daí o surgimento de uma geração de crianças de agenda cheia de atividades preparatórias para a futura competição por uma vaga promissora no mercado de trabalho.
Não por acaso, essas mesmas crianças estarão mais predispostas à depressão na adolescência, esvaziadas de imaginação, de vida interior, de capacidade criativa. O universo amoroso ou familiar que substitui o espaço público como gerador de valores está totalmente atravessado pela linguagem da eficiência comercial. "Quem vai olhar para um modelo fora de linha como eu?" "Como promover a otimização de meus finais de semana?" "Fiz as contas: com o que gastei na análise de meu filho já poderia ter trocado de carro duas vezes" (nesse caso, o analista sente-se tentado a sugerir que, de fato, ficaria mais em conta trocar de filho).
Vale ainda mencionar o estranho silêncio, nos consultórios dos analistas, em torno do eterno mistério do desejo e da diferença sexual. A falta de objeto que caracteriza a atração erótica parece ter sido ofuscada pela onipresença de imagens sexuais nos outdoors, na televisão, nas lojas, nas revistas -por onde olhe, o sujeito se depara com o sexual desvelado que se oferece e o convida.
As fantasias sexuais são todas prêt-à-porter. Seria ok, se o suposto desvelamento do mistério não produzisse sintomas paradoxais. O tédio, em primeiro lugar, entre jovens que se esforçam desde cedo para dar mostras de grande eficiência e voracidade sexuais. As intervenções cirúrgicas no corpo, de consequências por vezes bizarras, em rapazes e moças que pensam que a imagem corporal perfeita seja a solução para o mistério que mobiliza o desejo.
A reificação do sujeito identificado como mais uma mercadoria se revela no medo generalizado de não agradar. O mistério do desejo persiste, assim como não deixa de existir o inconsciente: mas é como se suas manifestações não interrogassem mais os sujeitos.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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Aumento da agressividade de Washington contra a ALBA

Eric Toussaint

A agressividade dos Estados Unidos frente aos governos dos países membros da Alba (Aliança Bolivariana dos povos de Nossa América) cresce na medida em que reage ante a perda de sua influência sobre a América Latina e o Caribe em geral, atribuída, particularmente a Hugo Chávez (e a Cuba; porém, isso não é novidade).

Alguns sinais dessa perda de controle: por ocasião das negociações posteriores à agressão da Colômbia contra o Equador, no dia 1º de março de 2008, ao invés de recorrer a Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual os Estados Unidos fazem parte, os presidentes latinoamericanos se reuniram em Santo Domingo, capital da República Dominicana, sem os grandes vizinhos do Norte, no marco do Grupo do Rio, contrariando com clareza a Colômbia, aliada dos Estados Unidos. Em 2008, Honduras, aliada tradicional e incondicional da política de Washington, uniu-se a Petrocaribe, entidade criada por iniciativa da Venezuela com a finalidade de proporcionar petróleo aos países da região não exportadores de hidrocarbonetos a um preço inferior ao do mercado mundial.

Honduras também aderiu a Alba, outra iniciativa de integração regional lançada pela Venezuela e por Cuba. Em dezembro de 2008, realizou-se em Salvador, Bahia/Brasil uma importante cúpula que reuniu a maioria dos presidentes latinoamericanos, com a presença destacada do chefe de Estado cubano, Raúl Castro, sentado ao lado de Felipe Calderón, presidente do México, que, até então, mantinha uma atitude hostil em relação a Cuba, seguindo as diretrizes de Washington. Meses mais tarde, a OEA decidia, apesar da oposição estadunidense, o reingresso de Cuba, que havia sido excluída em 1964. Em 2009, o Equador também se juntou a Alba e decidiu por fim à concessão da Base de Manta feita ao Exército dos Estados Unidos.

Desde inícios da década dos 2000, Washington tentou sistematicamente contrapor o giro à esquerda de parte dos povos da América Latina: apoio ao golpe de Estado contra Chávez, em abril de 2002; apoio financeiro massivo à oposição antichavista; sustentáculo da greve patronal venezuelana, dezembro de 2002 a janeiro de 2003; intervenção ativa do embaixador dos Estados Unidos na Bolívia, para impedir a eleição de Evo Morales; monitoramente da intervenção do Banco Mundial no Equador, em 2005, para conseguir a demissão de Rafael Correa, que, na época, era Ministro da Economia e Finanças; organização de manobras militares conjuntas no Cone Sul; reativação de sua IV Frota; grande aumento da ajuda militar a seu aliado colombiano, a quem utiliza como testa de ferro na região andina.

E para sobrepor-se ao fracasso da Alca, em novembro de 2005, a negociação e/ou a assinatura do máximo possível de Tratados de Livre Comércio bilaterais (com o Chile, Nicarágua, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Costa Rica, Peru, Panamá, Colômbia, Uruguai).

A agressividade dos Estados Unidos contra o contágio chavista na América Latina subiu vários pontos em junho-julho de 2009, com o golpe de Estado-militar em Honduras, que derrocou o presidente liberal Manuel Zelaya, quando este propunha à população uma consulta sobre a convocatória a eleições por sufrágio universal de uma Assembleia Constituinte.

Se a Assembleia houvesse sido convocada, inevitavelmente teria legislado sobre uma reforma agrária que questionaria enormes privilégios dos grandes latifundiários e das transnacionais estrangeiras dos agronegócios presentes no país. Diante dessa perspectiva, a classe capitalista local, com um setor agrário muito influente, respaldou o golpe de Estado. Deve-se levar em consideração também que esta classe é uma burguesia compradora, totalmente voltado ao comércio de importação-exportação e que depende das boas relações com os Estados Unidos. Por essa razão, a burguesia hondurenha teria apoiado a assinatura de um Tratado de Livre Comércio com Washington e feito oposição a Alba.

Além disso, entre as razões que levaram a patronal hondurenha a sustentar a sustentar o golpe está o aumento do salário mínimo decretado por Manuel Zelaya. Por outro lado, sabe-se que Zelaya queria pedir a Washington a liberação da Base Aérea de Cano Soto (Palmerola), situada a menos de 100 km da capital, para transformá-la em aeroporto civil.

Evidentemente, o Pentágono não assumiu a virada para a esquerda de um presidente do qual esperava docilidade, já que, para eles, Honduras faz parte do grupo de seus subordinados na região. Imaginemos (o que é muito improvável) que os generais hondurenhos tenham atuado por iniciativa própria na aliança com a classe capitalista local, é inconcebível que Roberto Micheletti, fantoche designado pelos militares, pudesse manter-se no poder se o governo estadunidense se opusesse realmente.

Há décadas os Estados Unidos formam os militares hondurenhos; mantém uma Base em Soto cano (com 500 militares presentes continuamente); e como Hillary Clinton reconheceu depois do golpe, seu governo financiou amplamente a oposição ao presidente Zelaya. Além de tudo, suas transnacionais, especialmente as do agronegócio, estão fortemente implantadas nesse país, que consideram uma ‘república bananeira’.

Com a finalidade de incrementar sua ameaça contra a Venezuela e o Equador, Washington obteve do presidente Álvaro Uribe o anúncio, em julho de 2009, da cessão de sete bases instaladas em território colombiano para os militares estadunidenses. O curto tempo transcorrido entre o golpe militar em Honduras e o anúncio do presidente colombiano não é mera coincidência: Washington quer indicar claramente que deseja deter a expansão da Alba e eliminar o gérmen do socialismo do século XXI.

Seria irresponsável subestimar a capacidade daninha de Washington e a continuidade que tem marcado a política externa dos Estados Unidos, apesar do acesso de Barack Obama à presidência e de uma retórica mais soft. Até o momento, Washington se nega a considerar que em Honduras, no dia 28 de junho de 2009, houve um golpe de Estado. O presidente Zelaya, que regressou clandestinamente a Honduras no dia 21 de setembro de 2009 e encontrou refúgio na Embaixada do Brasil, em Tegucigalpa; os golpistas reprimem violentamente as manifestações dos seguidores do presidente constitucional e fecham os meios opositores; no dia 27 de setembro decretaram estado de sítio por 45 dias; e tudo o que o número 2 de Washington disse na OEA foi: "O retorno de Zelaya é irresponsável e idiota".

Por outro lado, H. Clinton não condenou o prolongado toque de recolher decretado por Micheletti, para evitar manifestações de apoio a Zelaya diante da embaixada do Brasil. Portanto, podemos afirmar que o governo de Obama não mostra nenhuma vontade de romper com os métodos que seus antecessores instauraram: o financiamento massivo dos diversos movimentos de oposição no marco de sua política de "reforço da democracia"; o lançamento de campanhas midiáticas de descrédito contra os governos que não partilham sua orientação (Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, a Honduras de Zelaya…); a manutenção do bloqueio contra Cuba; o apoio aos movimentos separatistas: na Bolívia, a chamada Meia Lua boliviana, cuja capital política é a cidade de Santa Cruz de La Sierra; no Equador, a cidade de Guayaquil e sua região; na Venezuela, o Estado petroleiro de Zulia e sua capital Maracaibo; o apoio a agressões militares como a perpetrada pela Colômbia ao Equador, em março de 2008; bem como as ações de forças paramilitares na Colômbia e na Venezuela.

É evidente que a União Europeia continua uma política muito próxima a de Washington. Também durante o putsch contra Chávez, no dia 11 de abril de 2002, a União Europeia, através de José Maria Aznar, deu seu apoio aos golpistas. Em agosto de 2009, anunciou que mantém os acordos comerciais com Honduras e que não denunciará como ilegais as eleições organizadas pelos golpistas hondurenhos. Em setembro, distanciou-se mais. O diretor geral adjunto de Relações Exteriores da comissão Europeia (CE), Stefano Sannino, indicou em uma entrevista concedida a Efe que a União Europeia, como os demais países latinoamericanos, não reconhece que essas eleições possam basear-se em um contexto aberto, livre e democrático. Em matéria de negociações e de assinaturas de Tratados de livre Comércio, a União europeia é tão agressiva quanto os Estados Unidos e, inclusive, exige concessões ainda maiores do que as concedidas pelos países latinoamericanos a Washington.

Fonte: Adital – http://www.adital.org.br

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"Sou socialista, mesmo sendo rico", diz Sting

Joseba Elola

Gordon Matthew Sumner é um homem que está colocando ordem em sua vida. Sua mãe morreu aos 53 anos; seu pai aos 57; ele acaba de completar 58. Não pode ir ao enterro de nenhum dos dois quando eles faleceram no final dos anos 80; estava em turnê. Gordon Matthew Sumner, mais conhecido como Sting, diz que hoje em dia está enfrentando os fantasmas do passado.

El País: O que esse processo lhe traz?
Sting:
Uma sensação de estar ligando os pontos, de fechar um círculo; de que não fique nada sem ser dito nem feito. Estou num período da minha vida em que preciso colocar as coisas em ordem.

El País: Por quê?
Sting:
Porque é isso que os seres humanos fazem em algum momento. Há uma parte de sua vida na qual tudo é caos, movimento; há outro momento no qual você precisa ordenar e limpar a casa.

Reuters

Agora faz 33 anos que ele deixou Newcastle em busca de uma carreira musical em Londres. Foi em dezembro de 1976, no comando de um Citroën Dyane abarrotado. Com ele viajavam Frances, sua primeira mulher; Joseph, seu primeiro filho, recém-nascido, e um cachorro. Pouco suspeitava naquele momento que viajava rumo a um sucesso mundial com sua banda, The Police, o projeto pelo qual será lembrado. O grupo com o qual disse que nunca voltaria a tocar e com o qual percorreu o mundo há um ano e meio.
Há alguns meses, Gordon Matthew Sumner voltou a Newcastle. Fez a viagem de volta. Para enfrentar seus fantasmas, diz. Seu novo lançamento não está livre do processo no qual anda debruçado. "In on a Winter’s Night" é uma coleção de canções de inverno onde há chaminés, espíritos, contos e fantasmas. Sting abriu as portas de sua casa em Londres ao El País. Apareceu com o aspecto de um Capitão Haddock de olhos azuis e cabelo castanho. Bonito, alto e hoje, um pouco seco.

El País: Então estamos diante do seu álbum branco.
Sting:
Sim, com sorte será isso. Parece que as pessoas gostam, pode ser que faça sucesso. Não esperava fazer esse disco agora.

El País: Por que não?
Sting:
Porque nunca sei o que vou fazer em seguida. Alguém me sugeriu há 18 meses: "Por que não faz um disco de natal?". Eu respondi: "Não, não faço isso. Farei um disco sobre o inverno". Comecei a pesquisar discos sobre o inverno de diferentes séculos. Canções sagradas, seculares, folk… Para produzir um disco diferente; não é um disco normal.

El País: É um pouco estranho que, a estas alturas de sua carreira, alguém chegue da gravadora para sugerir que você faça um disco de Natal.
Sting se move no assento de couro preto no segundo andar de sua casa em Londres. O couro preto do sofá range pela primeira vez durante esta entrevista
Sting: Eu escuto as sugestões, posso dizer sim ou não. Mas, bem, sim, provavelmente é uma ideia comercial. Para mim o inverno é uma estação que me intriga, me inspira.
A casa de Sting em Londres fica a quase meio quilômetro do Palácio de Buckingham. Fica de frente para o parque St. James. No segundo dos quatro andares fica a sala em que acontece a entrevista, um espaço para relaxar, para tocar: piso de largas tábuas de madeira, sofá de couro preto desgastado tipo Chester, um piano de cauda, um suporte com partituras e um baixo elétrico do qual se apropriou a rainha da casa, sua filha Coco.
Coco também é protagonista nas almofadas do sofá da sala, no térreo. O rosto de cada um dos quatro filhos fruto de seu segundo casamento com a atriz e produtora Trudie Styler está estampada nas almofadas que repousam sobre o sofá. Todo um exercício kitsch.

El País: Como foi a turnê de reunião com o The Police? Disseram que houve, mais uma vez, uma briga de egos no grupo.
Sting:
Isso não é o importante. O importante é que atamos os pontos, fechamos o círculo. Dissemos: "Aqui estamos". Precisávamos mostrar ao público que podíamos voltar a fazê-lo. Esta aí.

El País: Ficou satisfeito com a experiência?
Sting:
Foi uma das turnês mais bem sucedidas da história. Meu instinto foi de fazê-la nesse momento, eu me sinto bem. Criamos um sentimento de nostalgia, o público desfrutou disso. Ganhamos muito dinheiro, consegui mais liberdade. Foi um sucesso em todos os níveis.
Sting pronuncia a palavra sucesso com orgulho. Ele continua fazendo sucesso. Ainda que seja um sucesso baseado no passado. Ainda que seus trabalhos se baseiem, já faz alguns anos, em repertórios alheios. Ainda que a inspiração como compositor lhe pareça esquiva e que viva fundamentalmente abraçado a suas qualidades de intérprete, quer seja para cantar músicas tradicionais (as do compositor John Dowland do século 16 em "Songs from the labyrinth", 2006), as canções que compôs quando era jovem (eis aí sua turnê 2007-2008 com o The Police) ou seu novo lançamento, onde há temas de Schubert e Bach.

El País: Por que não gravou algo novo com o The Police?
Sting:
Porque havia sido um exercício para criar nostalgia. Não íamos fazer nada novo. Foi isso o que pensei.

El País: Isso foi algo que você percebeu durante a turnê?
Sting:
Acho que sabia disso desde o princípio. Que íamos recriar algo, não fazer algo novo.
Sting vendeu 80 milhões de álbuns com o The Police. Têm vinhedos em sua propriedade da Toscana, onde gravou o disco, que será lançado em 10 de novembro; um castelo em Wiltshire (sudoeste do Reino Unido); uma cobertura dúplex em Manhattan, Nova York; uma casa em Malibu, Los Angeles. Sua fortuna está estimada em 205 milhões de euros, segundo a lista dos homens mais ricos do jornal The Sunday Times.

El País: O que ainda existe daquele jovem que subiu num Citröen Dyane no final de 1976?
Sting:
Encontrei-me com esse cara há pouco tempo, voltei à minha cidade. Passei duas semanas lá. Fazia 40 anos que eu não passava duas semanas lá.

El País: Em Wallsend [sua cidade natal]?
Sting:
Na região de Newcastle. Estive com a minha gente. Encontrei velhos amigos, pessoas com as quais estudei; encontrei com alguns fantasmas que já não estão entre nós, mas que continuam na minha mente, mais fantasmas do que eu imaginava… Vi a mim mesmo fazendo essa viagem há 40 anos, e decidi voltar. Teve sentido para mim, de certa maneira, isso deu forma à minha vida.

El País: E reconhece o cara do Citroën?
Sting:
Claro que o reconheço, e o compreendo melhor do que ele me compreende. Ele não me entende para nada. É bom fazer isso numa idade como a minha, 58, e ter essa perspectiva da vida em vez de andar à deriva.

El País: Numa entrevista que foi publicada nesse jornal, você dizia…
Sting:
Deve estar certo, então.

El País: Deve estar certo, sim; você dizia que gostava do jogo da fama e do sucesso. Continua gostando?
Sting:
Sim. Continua sendo um jogo, de toda forma, e os jogos não são tão importantes. São divertidos. Mas isso não é a vida. A vida está em outro lugar. A vida são as relações, a família, os amigos. Eu não me vejo como esse personagem famoso, não me vejo como Sting. Sei quem sou e leio coisas absurdas sobre mim, às vezes falam de uma pessoa muito má, outras de uma pessoa muito boa, mas a verdade está no meio. Não quero ser nem o demônio, nem o santo; gosto de ficar no meio, gosto dessa liberdade.

El País: A fama também tem um custo.
Sting:
Sim, veja a vida de Michael Jackson, o cantor de pop mais famoso do mundo e provavelmente o mais infeliz, a equação é simples: o sucesso e a fama não significam felicidade, às vezes significam o contrário. Eu posso andar por qualquer cidade que não sou incomodado. Eu não convido a histeria, não vou com guarda-costas, assim as pessoas me respeitam, cumprimentam-me, podem pedir uma foto e eu tiro, mas não há histeria nem sensação de medo; odeio isso. Michael Jackson é o meu exemplo, ele estava rodeado de… histeria, do tipo equivocado de atenção… Assim não é surpresa que já não esteja entre nós.

El País: Outro jornal publicou que uma de suas cozinheiras, Jane Martin, acusou-o de tê-la demitido por estar grávida em 2007 e revelou algumas intimidades sobre seu estilo de vida. A mulher ganhou o julgamento. Como acabou essa história?
Sting:
[Tosse] Emprego mais de 100 pessoas na minha casa, em minhas casas. Estão muito contentes, eu as trato muito bem, sou muito generoso. Há ocasiões em que algumas pessoas querem tirar mais dinheiro, mais dinheiro; e a melhor maneira de tirar mais dinheiro é mentir, sempre há alguém que quer ouvir uma nova história sobre você, sempre. Vão aos jornais, contam a história, isso é uma merda. Não é certo [diz com um fio de voz].

El País: Há 15 anos você se colocava à frente de múltiplas causas, como a preservação da floresta amazônica; você tinha uma maior presença como ativista. Foi dissuadido pelas críticas que recebeu?
Sting:
Não foi pelas críticas. Simplesmente, às vezes, as celebridades e as causas confundem, porque as pessoas veem você, mas não veem aquilo do que você está falando. Agora fico nos bastidores. Arrecado fundos e são outros os que falam, os especialistas. Meu instinto me dizia há 20 anos que se destruíssemos a floresta, o clima sofreria. Agora comprovamos cientificamente o aquecimento global, portanto eu não estava falando besteira.

El País: Logo haverá eleições no Reino Unido, parece que os conservadores retomarão o poder. Qual é a sua opinião?
Sting:
Bom, aqui costumava haver uma esquerda; ela já não existe mais. É como se houvesse um só partido, nos parecemos mais com os EUA. E talvez isso não seja bom.

El País: Seu coração continua de esquerda, ou não mais?
Sting se mexe, o couro preto do sofá volta a ranger.
Sting: Sim, eu venho da classe operária. Continuo sendo de esquerda, continua sendo socialista [e ao se ouvir, começa a rir, como que antecipando a reação de alguns quando o lerem], embora seja muito rico.

El País: É?
Sting:
Sim.

El País: E o fato de ser tão rico não faz com que tenha nenhum conflito interior?
Sting:
Não. Sou muito rico, mas invisto o dinheiro nas pessoas. Emprego muita gente. Gasto o dinheiro, não guardo, eu gasto; e acredito que o gasto bem.

El País: O que você aprendeu durante a gravação deste último disco?
Sting:
o disco é sobre enfrentar os fantasmas do passado. Acredito que isso é o inverno: você se senta com os fantasmas e fala com eles, escuta o que eles têm a dizer. E só então pode passar para a primavera. É preciso enfrentar o passado.

El País: Foi esse processo que o levou a voltar a Newcastle?
Sting:
Sim, de certo modo. Foi bom voltar às minhas raízes. Há muitos fantasmas na minha vida: meus pais, meus amigos, minhas amantes… Há mais fantasmas do que eu lembrava. Foi bom falar com eles.

El País: E como se faz isso?
Sting:
Eles vêm à cabeça e você tem que lidar com eles. E não escapar.

El País: É um processo duro ou é algo que ajuda?
Sting:
É difícil, mas é importante fazê-lo; para sua psicologia, também. Se você o faz, logo pode seguir adiante.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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Coca-Cola usa açúcar de usina sem licença ambiental

Única produtora de açúcar e etanol do Amazonas, Agropecuária Jayoro ocupa irregularmente terra pública em Presidente Figueiredo (AM). Para a Coca-Cola, que investiu na usina, “a questão fundiária é um problema antigo da região”

Thaís Brianezi

O Amazonas possui somente uma usina de açúcar e etanol atualmente em funcionamento: a Agropecuária Jayoro, no município de  Presidente Figueiredo (AM). Caso o Projeto de Lei do Zoneamento Agroecológico (ZAE) da Cana seja aprovado conforme proposto pelo governo federal – com proibição de novas usinas na Amazônia -, o empreendimento continuará sendo o único do Estado.
Apesar da produção relativamente pequena (são em média 18 mil toneladas por ano), o açúcar da Jayoro chega indiretamente a todo o país e também é exportado para Colômbia, Venezuela e Paraguai. Isso porque como ele é feito, em Manaus (AM), o caramelo que dá sabor à misteriosa fórmula do concentrado de Coca-Cola distribuído para todas as fábricas de produção e engarrafamento do refrigerante no Brasil e nos três países vizinhos.
Considerada uma usina modelo pelo diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, José Mauro de Moraes, a Agropecuária Jayoro está funcionando em 2009 sem ter obtido a renovação anual da licença ambiental dos seus 4 mil hectares de canaviais e de seus 400 hectares de pés de guaraná junto ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão ambiental estadual. Apesar disso, conseguiu renovar as licenças ambientais das unidades industriais de produção de açúcar e etanol e de processamento do guaraná.
A não renovação da licença das lavouras é motivada por irregularidades fundiárias que afetam a averbação da Reserva Legal (80% na Amazônia), segundo Eduardo Costa, analista ambiental do Ipaam. A área ocupada pela Jayoro tem 59 mil hectares, dos quais apenas 13% estão desmatados (4,4 mil hectares com plantações de cana e guaraná; 600 hectares com estradas e construções e 2,67 mil hectares com pastagem degradada). 
Poderia ser um bom exemplo de cumprimento da legislação ambiental, mas, formalmente, esses 59 mil hectares são a soma da área de 17 imóveis rurais. A maioria dessas propriedades são terras públicas ocupadas ilegalmente ou áreas tituladas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) há menos de 10 anos (período no qual o posseiro com título não pode vender nem arrendar a terra). "Para considerar a averbação da Reserva Legal de forma conjunta, considerando a área total de 59 mil hextares, a agropecuária precisa resolver a questão fundiária", explica o analista.

"A questão fundiária é um problema antigo da região amazônica. A Jayoro já tem um plano para trabalhar esse problema. Consideramos essa uma não-conformidade que pode ser solucionada", rebateu José Mauro, diretor da Coca-Cola Brasil. "Quando obtivemos nossa licença de operação, o Ipaam não questionou a regularidade da documentação fundiária que apresentamos. Se tivesse nos alertado antes sobre a necessidade de ajustes, isso já estaria resolvido", argumenta o superintendente da Jayoro, Waltair Prata.
Waltair acrescenta que a empresa já enviou ao Ipaam os títulos dos seis imóveis rurais em nome da empresa e que, para as demais áreas, haverá um processo de licenciamento ambiental individualizado, a ser solicitado pelos próprios posseiros quando eles obtiverem os títulos definitivos do Incra.
De acordo com o chefe da unidade avançada do Incra em Presidente Figueiredo (AM), Alfredo Nonato, a regularização fundiária dessas áreas pode acontecer ainda este ano, dentro do Programa Terra Legal – criado com objetivo de simplificar e agilizar o rito de titulação de terras públicas (que hoje demora cerca de cinco anos), mas marcado por críticas de figuras públicas e de setores da sociedade civil. A meta do programa, lançando pelo presidente Lula em junho deste ano, é regularizar em até três anos 296,8 mil posses de até 15 módulos fiscais ocupados antes de 1º de dezembro de 2004 na região amazônica. Desses, cerca de 58,5 mil estão no Amazonas.

Sobre o fato de o governo estadual só agora estar cobrando da Jayoro a regularização fundiária do empreendimento, a diretora-geral do Ipaam, Aldenira Queiroz, justifica que "a administração pública pode a qualquer momento rever seus atos". Ela explica que apenas há dois anos o órgão passou a contar com dados precisos de georreferenciamento das áreas alvo de monitoramento ambiental e que foi a partir de então que os fiscais perceberam que "a empresa incorporou terras além das que ela possuía". Em 2007 e 2008, a licença ambiental das lavouras da Jayoro foi renovada graças à assinatura de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ipaam.

"Além da questão fundiária, outra cláusula ainda não cumprida pela empresa diz respeito à criação de uma unidade de conservação. Por isto, neste ano, a licença está suspensa", sustenta a diretora-geral. O superintendente da Jayoro revelou que há quatro meses apresentou ao Centro Estadual de Unidades de Conservação do Amazonas o pedido de criação de uma Reserva Privada de Desenvolvimento Sustentável. No projeto, há duas áreas em estudo: uma com 334 hectares e outra com 304 hectares de extensão.

O Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM) tomou ciência da falta de licenciamento ambiental válido das lavouras da Jayoro em julho deste ano – mas, como a procuradora responsável pelo processo entrou em licença maternidade, não houve ainda oferta de denúncia à Justiça nem tentativa de se firmar um TAC com a empresa.
A agropecuária caiu na mira do MPF no ano passado, quando o órgão abriu um procedimento administrativo para investigar denúncias de que os agrotóxicos utilizados pela Jayoro estariam contaminando igarapés e prejudicando agricultores familiares do entorno. Em 2008, o Ipaam informou aos procuradores que o empreendimento estava cumprindo todas as exigência legais. No início deste ano, porém, quando o MPF oficiou o órgão estadual para que ele enviasse os laudos de análises dos cursos d´água utilizados pelos agricultores em questão, obteve como resposta (em maio) que a renovação da licença da Jayoro estava em análise. Dois meses depois, o Ipaam enviou um parecer informando que a licença não havia sido renovada.

Empreendimento foi retomado em 1995; Coca-Cola foi uma das investidoras.

Antigo projeto, novos investidores
O desmatamento na Agropecuária Jayoro ocorreu há mais de 30 anos, no início dos anos 70. A usina nasceu no contexto do Pró-Álcool, com apoio da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), mas logo entrou em decadência. Em 1995, quando o empreendimento foi retomado, com novos investidores (entre eles a Coca-Cola). Eram apenas 300 hectares de canaviais destinados à produção de pinga.

"Hoje 70% de nossa cana vai para produção de açúcar e o restante para etanol, com uma média de 8 milhões de litros por ano, que é a capacidade máxima da nossa destilaria", informa o superintendente da Jayoro. Esse combustível é vendido para pequenas distribuidoras (como a Atem´s e a Distribuidora Nacional de Petróleo – DNP), que atuam no mercado local. "Para eles, somos uma garantia de regularidade no fornecimento quando atrasa a balsa [que traz etanol do Centro-Sul do país]", afirma Waltair Prata.

Já a produção de açúcar, além de atender a Recofarma – empresa do Grupo Coca-Cola, que produz o concentrado do refrigerante nca capital Manaus (AM) -, é vendida para pequenos empacotadores da capital amazonense. "Atendemos cerca de 10% da demanda local de açúcar, apenas. Os maiores fornecedores da região são usinas do Mato Grosso, como a Imarati e a Jaciara", detalha o superintendente da Agropecuária Jayoro.

O guaraná, com o qual se produz o concentrado do refrigerante Kuat, também se destina à Recofarma. "Até o momento, temos vendido o guaraná em xarope", revela Waltair, "mas estamos iniciando o processamento em pó, que facilita a exportação para Atlanta [nos EUA, sede mundial da Coca-Cola]. Isso também nos possibilita alcançar novos mercados, como o da cosmética".

Boas práticas
José Mauro, diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil, ressalta que a empresa "audita regularmente" seus fornecedores, avaliando principalmente suas práticas ambientais e trabalhistas. "Se algum aspecto for contraditório, é necessário um plano de ajustamento", declarou o executivo. Questionado sobre se essas auditorias periódicas já apontaram problemas na Agropecuária Jayoro, ele pondera que "correções" fazem parte do processo industrial. "Irregularidades ocorrem em qualquer local. Sempre há motivos para planos de correção. Se você vier ao prédio da Coca-Cola no Rio de Janeiro, agora, vai encontrar problemas", provoca o executivo.

O superintendente da Jayoro confirma que a Coca-Cola, mais do que os órgãos governamentais, pressiona pela adoção de boas práticas ambientais e trabalhistas. "Com o incentivo dela, estamos em processo de certificação ISO 14000", revela Waltair. O ISO 14000 é uma série de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas.

Entre as chamadas tecnologias limpas já adotadas pela Jayoro, está a canalização e pulverização do vinhoto (líquido resultante da produção de etanol, altamente poluente) nos canaviais, servindo como adubo complementar. Há também o aproveitamento do bagaço da cana na geração de energia elétrica. "Nesta safra, inauguramos um novo turbo gerador de 5 megawatts, que consome menos bagaço e produz mais energia que o anterior. Nossa moagem terminou no dia 29 de setembro, mas conseguimos abastecer a agropecuária com energia própria até o dia 24 de outubro, e ainda estocamos um tanto de bagaço para a próxima safra", comemora o superintendente.

Relações trabalhistas
O quadro fixo de funcionários da Jayoro é de 650 pessoas, mas na safra esse número chega a 980 trabalhadores. Na retomada, em 1995, 70% dos cortadores de cana eram trazidos do Maranhão, em aviões fretados. Hoje, os migrantes são apenas 10% e boa parte da colheita (40%) é mecanizada.
"Quando fui contratado pela Jayoro, em 1999, a produtividade média diária de cada cortador era de 4,8 toneladas de cana. Hoje já subiu para 6,7 toneladas", orgulha-se Waltair. "Para aumentá-la, a gente contratou os cortadores mais produtivos e com menos acidentes como instrutores dos demais. Durante duas safras, eles ganharam para ficar andando pelos canaviais, dando dicas aos colegas", gaba-se o superintendente.
Outra estratégia adotada pela empresa é o sorteio anual de uma passagem aérea ao Nordeste, com direito a acompanhante, entre os membros da equipe recordista de dias livres de acidentes de trabalho. Todos os funcionários participam do concurso, inclusive os da área industrial.
"A maior dificuldade que enfrentei foi pegar esses agricultores, que só estão acostumados a plantar mandioca, a caçar de manhã para colher à noite, e treiná-los", afirma o diretor da Agropecuária Jayoro, Eduardo Camillo, que mora em São Paulo (SP). "Quando cheguei a Presidente Figueiredo, mandei derrubar os barracões nos quais se alojavam os cortadores e ordenei que construíssem alojamentos. Logo que entrei para o empreendimento, eu fiz questão de declarar que ali não iríamos ter bóias-frias", destaca.
Os auditores fiscais do trabalho Rômulo Machado e Silva e Klênio Fábio Gomes Lima, da área de Segurança e Medicina, estiveram neste ano na Jayoro. "A agropecuária sempre entra na nossa agenda de fiscalização. A condição geral dela é boa, os trabalhadores usam EPIs [equipamentos de proteção individual], há banheiro na lavoura, a comida é razoável", comenta Rômulo.
Klênio, que fiscalizou a empresa pelo terceiro ano consecutivo, concorda com a avaliação positiva. Ele ressalta que a Jayoro tem se adequado às notificações feitas pelos auditores fiscais e citou como exemplos a inserção de cinto de segurança no ônibus que faz o transporte dos trabalhadores, a remodelagem do facão utilizado no corte manual da cana (para evitar acidentes) e a construção de local apropriado para refeições nas frentes de trabalho.
O chefe da fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Amazonas (SRTE/AM), Francisco Edson Rebouças, lembra, porém, que o corte manual da cana é extenuante sob qualquer condição climática, mas ainda pior no calor e umidade da região. "Não é possível que um trabalhador esteja feliz cortando cana sob o sol de 40ºC do Amazonas".

Em setembro, outra equipe de auditores da SRTE esteve na empresa e aplicou cinco autos de infração. Os funcionários faziam mais que duas horas-extras diárias permitidas por lei; as horas-extras eram pagas ou compensadas, mas não registradas integralmente no cartão de ponto; o período de pagamento ou compensação das horas-extras, às vezes, excedia o prazo legal de um ano; e o tempo de deslocamento dos trabalhadores até a empresa não entrava na contagem da jornada de trabalho. Houve atraso nos salários.

Fonte: Reporter Brasil  – http://www.reporterbrasil.com.br

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Ensino em liquidação

Para filósofo que instigou Sartre, a mercantilização impede a escolarização nacional: ‘Eis nossa catástrofe’.

Mônica Manir

– Num domingo de Ferroviária x Santos no Estádio Fonte Luminosa, Jean-Paul Sartre chegou de kombi a Araraquara, interior de São Paulo, para incendiar mentes de um time de intelectuais que incluía d. Ruth Cardoso, FHC e Antonio Candido. Acompanhado, a contragosto, por Simone de Beauvoir e Jorge Amado, fora responder in loco à pergunta feita por um jovem professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da cidade. Fausto Castilho, então com 31 anos, havia usado um amigo como correio elegante para questionar Sartre, na passagem dele pelo Recife, sobre os fundamentos de esforço de aproximação entre o existencialismo e o marxismo. Resumindo, queria saber o seguinte, no bilhete escrito em francês: é possível superar a filosofia sem realizá-la?
"Ele disse aos jornais que iria a Araraquara fazer uma conferência sobre a pergunta mais difícil que havia ouvido no Brasil", conta o inquisidor, lembrando o 4 de setembro de 1960, quando a igreja do município, aterrorizada com a chegada de um pensador de esquerda, gritou pregações pelo rádio contra o francês. "A conferência acabou com a minha carreira na USP", brinca Fausto, que ainda percorreria longa trajetória acadêmica pela Unesp e pela Unicamp até se tornar professor emérito da última.
Entusiasta do pensamento educacional dos anos 20, ele participou decisivamente da criação do campus radial da Universidade de Campinas, transformando-se em crítico de faculdades estanques, utilitárias, mercantilistas. Para ele, universidades verdadeiras são pouquíssimas. Eleições para reitor, mera rotina administrativa. A USP Leste, uma excrescência. Quer uma mexida estrutural no eixo educacional brasileiro, que ele explica nesta entrevista e em detalhes no livro O Conceito de Universidade no Projeto da Unicamp. A quem possa interessar, a Ferroviária ganhou de 4 a 0 de Pelé no dia da conferência. Mas, a quem deseja saber se Sartre, afinal, respondeu àquele dilema a 300 km da capital, ele contemporiza: "Aí é que está, minha filha. Isso são outros quinhentos. Eu nunca quis revelar a resposta".
Esta foi a primeira vez na história da USP que as eleições para reitor se realizaram fora da Cidade Universitária. A transferência, em razão dos protestos dos alunos, funcionários e moradores de favelas, é uma vergonha para a universidade, como afirmaram alguns professores?

Não acho que seja uma vergonha. Mostra descontrole da situação. A reitoria não consegue estabelecer normas de funcionamento para a universidade. É o que se verifica.
As críticas mais contundentes nos protestos foram quanto ao segundo turno, que é decidido por um colégio restrito de professores. Isso faz dessas eleições um processo antidemocrático?

Há um ponto que legitima todo esse processo: a escolha do governador, que entra no último momento, na lista tríplice, mas que afinal de contas foi eleito por maioria pela totalidade do eleitorado paulista. Exigir uma democracia interna é impossível aqui porque a carreira universitária prevalece sobre qualquer outro aspecto. O mestre depende do doutor, o doutor do livre-docente, e assim por diante. É o fundamento da produção científica. Essa carreira depende mais da titulação por trabalho acadêmico do que por tempo de serviço, por exemplo. A democracia que os sindicatos e mesmo uma parte dos alunos pedem não existe em universidade nenhuma no mundo.
Avaliando mais detidamente as propostas dos que se candidataram a reitor…

Eu não vejo muita diferença entre elas.
Pois então, foi praticamente consensual que a USP do século 21 tivesse espírito mais formativo, com estímulo à atitude empreendedora em relação à própria educação.

Muito bem, eu acho que isso é correto desde que você passe a considerar, como indicaram os educadores dos anos 20, toda a escala da escolarização a partir da criança de 4 anos até a pós-graduação. Tem de reconsiderar a totalidade do eixo educacional. Enquanto isso não for feito, não haverá mudança nenhuma na educação brasileira. Todas essas medidas sugeridas hoje são paliativas. A própria substituição de reitores é meramente uma rotina de gestão administrativa. Trocar aqui, eleger ali, isso não leva a nada. É preciso que o Estado retome o controle nos termos que os educadores dos anos 20 propunham.
Por que remontar aos anos 20?

Porque eles detêm a chave interpretativa da universidade brasileira. A interpretação marxista, que peguei na minha juventude, tendia a estudar a USP a partir da Revolução de 32, como se fosse uma reação dos paulistas à derrota na revolução. Não tem nada disso. Mostro no meu livro que a concepção da ideia de USP é de 1925. Mais ainda: que a consolidação ocorreu em 1926.
O que foi essa chave interpretativa?

Os educadores dessa época, entre eles Fernando de Azevedo, tinham uma proposta de escolarização que desapareceu porque em 1965 a ditadura resolveu mercantilizar o aparelho de educação. Aí começa a catástrofe brasileira. A mercantilização não permite a escolarização nacional. Para esses educadores dos anos 20, a instância da democratização não é a universidade, mas o lycée francês, o gymnasium alemão; é isso que estava a caminho de ser instalado no Brasil, isto é, o liceu público para a toda a população jovem e não para um segmento, como faz a mercantilização. Você não pode firmar o processo de universalização formadora da educação formativa na universidade. Assim você a transforma numa instituição de ensino apenas. E ela não pode ser uma instituição de ensino.
O que ela precisa ser?

Precisa ser uma instituição de estudo, porque o ensino é consequente à pesquisa, ele não vem antes do estudo. Ao contrário. Só quem estuda é capaz de ensinar, ao passo que no Brasil, por interesse comercial, você enfatiza o ensino. O ensinismo inverte a equação, deixando a situação cada vez pior, cada vez pior… O cara que vai ser professor não precisa estudar, não precisa produzir. Ele simplesmente se apoia num manual qualquer. É o gráfico que se estabeleceu em cima da hora-aula. É isso que chamam de curso.
Como funcionaria o liceu no Brasil?

Como funciona na França e na Alemanha, o que nos anos 20 se chamava de universidade ampla. Ele acompanharia toda a população porque não faz diferença de classe. Na França e na Alemanha, tanto o filho do operário quanto o filho do magnata vão para o liceu. Quem é o proprietário desse liceu? É o Estado. Não existe o particular nesse jogo. Eis o foco dos educadores dos anos 20, que ainda não eram mercantilistas. Lembro que participei da campanha em defesa da escola pública já no final dos anos 50 sob a liderança de Júlio de Mesquita Filho. Perguntei a ele como explicava sua posição antagônica em relação à do seu amigo Carlos Lacerda, autor da proposta privatista de Lei de Diretrizes e Bases. Ele me respondeu o seguinte: educar é tarefa do Estado.
O que constaria do currículo do liceu?

Na França, há dois currículos: um chamado tradicional e outro chamado profissional. Dos 4.339 liceus, 2.449 são tradicionais e 1.890 profissionais. Por paradoxal que seja, a população prefere o tradicional, que tem grego, história, arte, literatura. É por isso que nesses países há um eleitorado diferenciado. Ele tem muita capacidade de decisão. Os operários também preferem o currículo tradicional. A inteligência não escolhe classe de renda.
Quanto ao que aconteceu na Uniban…

Isso é fait divers, não tem importância.
Mas faço uma pergunta, professor: quando a Uniban revogou a expulsão da aluna, o reitor disse que a medida havia deixado de ser disciplinar para se transformar numa ação educativa. A expressão "educativa" teria a capacidade de redimir arbitrariedades?

Olha, começo não reconhecendo pelo mero proprietário de uma firma comercial a apropriação do título de reitor. Não há esse direito na legislação brasileira de um dono de escola se intitular reitor. Onde é que já se viu uma coisa dessas? Ele faz isso e outros donos de cursos também. Tudo é culpa dos políticos. Os políticos que toleram tudo isso são os culpados por essa mercantilização geral do aparelho educacional.
O que o senhor acha das exigências da Nova Lei de Estágios, que demandam mudanças importantes nos cursos de graduação, licenciatura e bacharelado que preveem esse dado nos currículos?

O governo federal é responsável atualmente pela maior parcela do financiamento do mercantilismo, por meio das bolsas de estudo. Essas bolsas são um expediente para financiar os mercantilistas. Elas é que dão dinheiro para sustentar essas universidades particulares, que não são universidades. Aliás, as universidades federais também não são universidades.
São arranjos das oligarquias locais em cada um dos Estados brasileiros.
A Universidade Federal de São Paulo, inclusive?

Isso é uma invenção surgida a partir de uma faculdade de medicina. Imagine você se pode uma escola de medicina ser uma universidade! Só mesmo por interesse eleitoreiro. Essa transformação do núcleo inicial, que é de pura medicina, em universidade, eu ainda estou aguardando, estou observando para ver se é possível.
E a USP Leste?

Ela é uma excrescência.
Por quê?

Para que isolar do centro maior? O centro maior da USP é no Butantã. Deveriam ter reforçado o centro. Se você tem um, é para que a função central seja exercida, e não para que fique simplesmente numa declaração. Você nunca vai poder fazer interdisciplinaridade, nunca! A universidade tem de estar em um único campus porque ela depende da enciclopédia do ponto de vista interdisciplinar. Eis é o ponto chave. A vocação da universidade é ser uma comunidade de trabalho interdisciplinar na pesquisa e no conhecimento. No Brasil, a tendência é multiplicar os campi. Acham que isso é grandeza.
Qual era a vocação primeira da USP?

Sempre foi o estudo, a pesquisa. A USP é a primeira universidade brasileira concebida segundo o modelo proposto por Humboldt ao criar a Universidade de Berlim, que durante o século 19 se difundiu pelo mundo inteiro, nos EUA, no Japão… O problema é que o plano uspiano não pôde ser realizado. A posição política da história da USP e do Brasil de integrar à Universidade de São Paulo escolas preexistentes, como a Faculdade de Direito e a de Medicina, acabou com o plano.
Por quê?

Porque o plano da USP foi pensado, pela primeira vez no Brasil, como uma estrutura universitária focada num centro, que é a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Essa concepção vai depois servir de referência à Universidade de Brasília e à Universidade de Campinas. A comissão nomeada pelo governador não conseguiu mostrar qual seria a articulação entre o centro e as universidades dependentes. Essa foi a primeira grande falha teórica.
Qual foi a segunda?

A demora na construção da Cidade Universitária. O plano previa que ela fosse erguida nos anos 30, o que só aconteceu no final dos anos 50. Isso destruiu a USP porque, em vez de passarem a tarefa ao urbanismo – a disciplina que deveria prenunciar a Cidade Universitária dentro do campus – entregaram o projeto a engenheiros e arquitetos ligados à edificação de obras. Virou isso: reconstrução de obras, com departamentos que chegam a um quilômetro de distância entre si. Como essa turma pode ter ideia do que seja uma universidade? São estranhos a isso.
A Unb seguiu o modelo centrado à risca?

Ela optou por dotar todos os institutos num mesmo prédio. Ora, não pode. É preciso ter área para se expandir. Tem que ser como na Unicamp. Do contrário não pode crescer.
A Unicamp, então, conseguiu levar adiante o sistema radial?

Na Unicamp, fizemos tudo para o que o contato com as disciplinas básicas fosse feito a pé. Você não precisa motorizar. Ali, o campus não se confunde com a cidade universitária. O campus é a enciclopédia espacialmente estruturada, enquanto a cidade universitária abrange, por exemplo, os organismos administrativos e financeiros. Agora, se a Unicamp terá sucesso nessa empreitada, não sei dizer. Vai depender da força do sistema brasileiro de ensino superior, que é antiuniversidade. O sistema brasileiro de ensino superior foi implantado por D. João VI para desfazer as realizações do Marquês de Pombal. É um processo que persiste desde o século 19 e se infiltra em todas as universidades: são os advogados, os engenheiros, os médicos, profissionais de mercado que nada têm nada a ver com a universidade. Eles querem um papel que tenha o nome da universidade sem nunca terem frequentado a própria. Foram apenas à faculdade deles. A universidade verdadeira se distingue pelo homem de ciência, alguém que seja capaz de ensinar.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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Aristóteles

O primeiro lógico via na escola o caminho para a vida pública e o exercício da ética.

Foto: Bettmann/Corbis /Stock Photos

De todos os grandes pensadores da Grécia antiga, Aristóteles (384-322 a.C.) foi o que mais influenciou a civilização ocidental. Até hoje o modo de pensar e produzir conhecimento deve muito ao filósofo. Foi ele o fundador da ciência que ficaria conhecida como lógica e suas conclusões nessa área não tiveram contestação alguma até o século 17. Sua importância no campo da educação também é grande, mas de modo indireto. Poucos de seus textos específicos sobre o assunto chegaram a nossos dias. A contribuição de Aristóteles para o ensino está principalmente em escritos sobre outros temas.
As principais obras de onde se pode tirar informações pedagógicas são as que tratam de política e ética. "Em ambos os casos o objetivo final era obter a virtude", diz Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "Em suas reflexões sobre ética, Aristóteles afirma que o propósito da vida humana é a obtenção do que ele chama de vida boa. Isso significava ao mesmo tempo vida ‘do bem’ e vida harmoniosa." Ou seja, para Aristóteles, ser feliz e ser útil à comunidade eram dois objetivos sobrepostos, e ambos estavam presentes na atividade pública. O melhor governo, dizia ele, seria "aquele em que cada um melhor encontra o que necessita para ser feliz".
Cultivo da perfeição
"A educação, para Aristóteles, é um caminho para a vida pública", prossegue Carlota. Cabe à educação a formação do caráter do aluno. Perseguir a virtude significaria, em todas as atitudes, buscar o "justo meio". A prudência e a sensatez se encontrariam no meio-termo, ou medida justa – "o que não é demais nem muito pouco", nas palavras do filósofo.
Um dos fundamentos do pensamento aristotélico é que todas as coisas têm uma finalidade. É isso que, segundo o filósofo, leva todos os seres vivos a se desenvolver de um estado de imperfeição (semente ou embrião) a outro de perfeição (correspondente ao estágio de maturidade e reprodução). Nem todos os seres conseguem ou têm oportunidade de cumprir o ciclo em sua plenitude, porém. Por ter potencialidades múltiplas, o ser humano só será feliz e dará sua melhor contribuição ao mundo se desfrutar das condições necessárias para desenvolver o talento. A organização social e política, em geral, e a educação, em particular, têm a responsabilidade de fornecer essas condições.

Imitação, o princípio do aprendizado

Aristóteles não era, como Platão, um crítico da sociedade e da democracia de Atenas. Ao contrário, considerava a família, como se constituía na época, o núcleo inicial da organização das cidades e a primeira instância da educação das crianças. Atribuía, no entanto, aos governantes e aos legisladores o dever de regular e vigiar o funcionamento das famílias para garantir que as crianças crescessem com saúde e obrigações cívicas. Por isso, o Estado deveria também ser o único responsável pelo ensino. Na escola, o princípio do aprendizado seria a imitação. Segundo ele, os bons hábitos se formavam nas crianças pelo exemplo dos adultos. Quanto ao conteúdo dos estudos, Aristóteles via com desconfiança o saber "útil", uma vez que cabia aos escravos exercer a maioria dos ofícios, considerados indignos dos homens livres.

Ninguém nasce virtuoso

A virtude, para Aristóteles, é uma prática e não um dado da natureza de cada um, tampouco o mero conhecimento do que é virtuoso, como para Platão (427-347 a.C.). Para ser praticada constantemente, a virtude precisa se tornar um hábito. Embora não se conheça nenhum estudo de Aristóteles sobre o assunto, é possível concluir que o hábito da virtude deve ser adquirido na escola.

Grande parte da obra que originou o legado aristotélico se desenvolveu em oposição à filosofia de Platão, seu mestre e fundador da Academia ateniense, que Aristóteles freqüentou durante duas décadas. Posteriormente, ele fundaria uma escola própria, o Liceu. Uma das duas grandes inovações do filósofo em relação ao antecessor foi negar a existência de um mundo supra-real, onde residiriam as idéias. Para Aristóteles, ao contrário, o mundo que percebemos é suficiente, e nele a perfeição está ao alcance de todos os homens. A oposição entre os dois filósofos gregos – ou entre a supremacia das idéias (idealismo) ou das coisas (realismo) – marcaria para sempre o pensamento ocidental.
A verdade científica

A segunda inovação de Aristóteles foi no campo da lógica. De acordo com o filósofo, determinar uma verdade comum a todos os componentes de um grupo de coisas é a condição para conceber um sistema teórico. Para a construção de tal conhecimento, Aristóteles não se satisfez com a dialética de Platão, segundo a qual o caminho para chegar à verdade era a depuração dos argumentos e pontos de vista por intermédio do diálogo.

Aristóteles quis criar um método mais seguro e desenvolveu o sistema que ficou conhecido como silogismo. Ele consiste de três proposições – duas premissas e uma conclusão que, para ser válida, decorre das duas anteriores necessariamente, sem que haja outra opção. Exemplo clássico de silogismo é o seguinte. Todos os homens são mortais. Sócrates é um homem. Portanto, Sócrates é mortal. Isso não basta, porém, para que a lógica se torne ciência. Um silogismo precisa partir de verdades, como as contidas nas duas proposições iniciais. Elas não se sujeitam a um raciocínio que as demonstre. Demonstram-se a si mesmas na realidade e são chamadas de axiomas. A observação empírica – isto é, a experiência do real – ganha, assim, papel central na concepção de ciência de Aristóteles, em contraste com o pensamento de Platão.

O início da Época Helenista

Mosaico romano representa Alexandre em batalha: aluno rebelde de Aristóteles. Foto: Araldo de Luca/Corbis /Stock Photos

Mosaico romano representa Alexandre em batalha: aluno rebelde de Aristóteles. 

Aristóteles era um jovem estudante da Academia de Platão, em Atenas, quando, em 359 a.C., Felipe II, da Macedônia, interveio militarmente na Grécia. Uma tardia reação dos gregos foi sufocada quase 20 anos depois, com a vitória de Felipe na batalha de Queronéia – marcando o fim das cidades-estados na Grécia. Enquanto Aristóteles educava Alexandre, filho de Felipe, tentava incutir no aluno os ideais dos heróis de Homero e o dever de combater os povos considerados "bárbaros" (todos aqueles que não eram gregos nem haviam recebido influência grega). Embora Alexandre tenha mais tarde defendido a Grécia dos persas e Aristóteles tenha gozado até o fim da vida de apoio material dos governantes macedônios, o imperador não reteve muitos ensinamentos do mestre. Alexandre foi um tirano dedicado à conquista de territórios pelas armas, princípios opostos à autodeterminação democrática das cidades, defendida pelo filósofo. Com a Grécia incorporada ao império de Alexandre, Atenas perdeu importância como produtora de conhecimento, mas a cultura helenística ganhou centros de difusão fundados pelo imperador, como Alexandria, no Egito. Grande parte da extensa obra de Aristóteles se perdeu e o que restou foi reorganizado (e talvez deturpado) por pensadores de outras épocas. A obra aristotélica só voltou a circular na Europa na Idade Média, por intermédio dos invasores árabes, que haviam preservado seus livros.

Biografia
Aristóteles nasceu em 384 a.C. em Estagira, na Macedônia (então sob influência grega e onde o grego era a língua predominante), filho de um médico. Aos 17 anos foi enviado à Academia de Platão, em Atenas, onde estudou e produziu filosofia durante 20 anos – parte de sua obra no período tem o objetivo de atacar a escola rival, de Isócrates, segundo a qual a finalidade do ensino era levar os alunos a dominar a retórica para serem capazes de defender qualquer ponto de vista, dependendo do interesse. Na Academia, a finalidade da educação era alcançar a sabedoria. Com a morte de Platão, em 347 a.C., Aristóteles mudou-se para Assos, na atual Turquia, possivelmente decepcionado por não ter sido escolhido para substituir o mestre na direção da Academia. Em 343 a.C., foi chamado por Felipe II, da Macedônia, para educar seu filho, Alexandre, e permaneceu na função durante vários anos, até que o pupilo começou a conquistar um vasto império (que incluía a Grécia, anexada por seu pai). De volta a Atenas, Aristóteles fundou a própria escola, o Liceu, desenvolvendo uma obra marcadamente antiplatônica. Depois da morte de Alexandre, Aristóteles passou a ser perseguido por ter colaborado na educação do imperador macedônio. Refugiou-se em Calcis, onde morreu em 322 a.C.

Para pensar

Aristóteles acreditava que educar para a virtude era também um modo de educar para viver bem – e isso queria dizer, entre outras coisas, viver uma vida prazerosa. No mundo atual, nem sempre se vê compatibilidade entre a virtude e o prazer. Ainda assim, você acredita que seja possível desenvolver em seus alunos uma consciência ética e, ao mesmo tempo, a capacidade de apreciar as coisas boas da vida?

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

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