Daily Archives: 04/11/2009

Um universo em expansão: o poder, o capital e as guerras

Neste “universo em expansão” que nasceu na Europa, nunca houve nem haverá “paz perpétua”, nem “sistemas políticos internacionais” estáveis. Porque se trata de um “universo” que necessita da preparação para a guerra e das crises para se ordenar e se “estabilizar”. Foram quase sempre essas guerras e essas crises que abriram os caminhos da inovação e do “progresso”. Está em curso uma grande “explosão expansiva” do sistema inter-estatal capitalista e uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências, que deverão se intensificar nos próximos anos. O artigo é de José Luís Fiori, publicado no n° 5 do Jornal de Resenhas.

José Luís Fiori

A recepção ao meu ensaio “O sistema inter-estatal capitalista, no início do século XXI”, publicado no livro "O mito do colapso do poder americano", atestou uma mesma dificuldade na compreensão do argumento sobre as relações entre o poder, o capital e as guerras dentro do sistema mundial. O artigo parte de uma hipótese central sobre o movimento de longo prazo do “sistema inter-estatal capitalista”, desde sua formação, na Europa, durante o “longo século XIII”, até o início do século XXI. Uma hipótese que permite compreender e diagnosticar a conjuntura internacional que estamos vivendo, desde a década de 1970.
Julgo possível identificar, nesta longa duração da história do sistema mundial, quatro momentos em que ocorreu uma espécie de “explosão expansiva”, no interior do próprio sistema. Nestes “momentos históricos”, houve primeiro um aumento da “pressão competitiva” dentro do “universo” e, depois, uma grande “explosão” ou alargamento de suas fronteiras internas e externas.
O aumento da “pressão competitiva” foi provocado – quase sempre – pelo expansionismo de uma ou várias “potências” líderes, e envolveu também um aumento do número, e da intensidade do conflito, entre as outras unidades políticas e econômicas do sistema. E a “explosão expansiva” que se seguiu projetou o poder dessas unidades ou “potências” mais competitivas para fora delas mesmas, ampliando as fronteiras do próprio “universo”.
Uma espécie de “big bang”
“A primeira vez que isso ocorreu, foi no “longo século XIII”, entre 1150 e 1350. O aumento da “pressão competitiva”, dentro da Europa, foi provocado pelas invasões mongóis, pelo expansionismo das Cruzadas e pela intensificação das guerras “internas”, na península ibérica, no norte da França, e na Itália. E a “explosão expansiva” que seguiu, se transformou numa espécie de “big bang” do “universo” de que estamos falando, o momento do nascimento do primeiro sistema europeu de “guerras e trocas”, com suas unidades territoriais soberanas e competitivas, cada uma delas, com suas moedas e tributos. A segunda vez que isto ocorreu foi no “longo século XVI”, entre 1450 e 1650. O aumento da “pressão competitiva” foi provocado pelo expansionismo do Império Otomano e do Império Habsburgo e ainda pelas guerras da Espanha, com a França, com os Países Baixos e com a Inglaterra. É o momento em que nasceram os primeiros Estados europeus, com suas economias nacionais e com uma capacidade bélica muito superior à das unidades soberanas do período anterior.
Foi a “explosão expansiva” deste embrião do sistema inter-estatal europeu – para fora da própria Europa – que deu origem ao “sistema mundial moderno”, liderado, inicialmente, pelas potências ibéricas e, depois, pela Holanda, França e Inglaterra. A terceira vez foi no “longo século XIX”, entre 1790 e 1914. O aumento da “pressão competitiva” foi provocado pelo expansionismo francês e inglês, dentro e fora da Europa, pelo nascimento dos Estados americanos e pelo surgimento, depois de 1860, de três potências políticas e econômicas – EUA, Alemanha e Japão – que cresceram muito rapidamente, revolucionando a economia capitalista e o “núcleo central” das grandes potências.
Logo em seguida, houve uma terceira “explosão expansiva” que assumiu a forma de uma “corrida imperialista” entre as grandes potências, que trouxe a África e a Ásia para dentro das fronteiras coloniais do “sistema mundial moderno”. Por fim, desde a década de 1970, está em curso uma quarta ‘explosão expansiva’ do sistema mundial. Nossa hipótese é que, desta vez, o aumento da pressão dentro do sistema mundial está sendo provocado pela estratégia expansionista e imperial dos EUA, depois dos anos 70, pela multiplicação dos Estados soberanos do sistema, que já são cerca de 200, e, finalmente, pelo crescimento vertiginoso do poder e da riqueza dos estados asiáticos, e da China, muito em particular” (1).
Minha pesquisa sobre as relações entre a geopolítica e a geo-economia do sistema mundial começou há mais de 20, com o estudo da “crise dos anos 1970” e a “restauração liberal-conservadora” da década de 1980 e seguiu com o acompanhamento das transformações internacionais das décadas seguintes.
A impossibilidade de entender esta conjuntura a partir de si mesma me levou a uma longa viagem no tempo, até as origens do “sistema inter-estatal capitalista”, procurando entender suas tendências de longo prazo. Comecei pelas “guerras de conquista” e pela “revolução comercial” que ocorreram na Europa nos séculos XII e XIII, para chegar até a formação dos Estados e das economias nacionais européias e o início de sua vitoriosa expansão mundial, a partir do século XVI.
Na Europa, ao contrário do que aconteceu nos impérios asiáticos, a desintegração do Império Romano e, depois, do Império de Carlos Magno provocou uma fragmentação do poder territorial e um desaparecimento quase completo, entre os séculos IX e XI, da moeda e da economia de mercado.
Nos dois séculos seguintes, entretanto – entre 1150 e 1350 –, aconteceu a grande revolução que mudou a história da Europa, e do mundo: foi naquele período que se forjou no continente europeu uma associação indissolúvel e expansiva entre a “necessidade da conquista” e a “necessidade de produzir excedentes” cada vez maiores, que se repetiu, da mesma forma, em várias unidades territoriais soberanas e competitivas, que foram obrigadas a desenvolver sistemas de tributação e criar suas próprias moedas, para financiar suas guerras de conquista. As guerras e os tributos, as moedas e o comércio, existiram sempre, em todos os tempos e lugares, a grande novidade européia foi a forma como combinaram, somaram e multiplicaram em conjunto, dentro de pequenos territórios altamente competitivos, e em estado de permanente preparação para a guerra.
Circuito acumulativo
A preparação para a guerra e as guerras propriamente ditas, na Europa, transformaram-se na principal atividade de todos os seus “príncipes”, e a necessidade de financiamento dessas guerras se transformou num multiplicador contínuo da dívida pública e dos tributos. E, por derivação, num multiplicador do excedente e do comércio, e também do mercado de moedas e de títulos da dívida, produzindo e alimentando – dentro do continente – um “circuito acumulativo” absolutamente original entre os processos de acumulação de poder e de riqueza.
Não há como explicar o aparecimento desta “necessidade européia” da “acumulação do poder” e do “excedente produtivo” apenas a partir do “mercado mundial” ou do “jogo das trocas”. Mesmo que os homens tivessem uma propensão natural para trocar – como pensava Adam Smith -, isso não implicaria necessariamente que eles também tivessem uma propensão natural para acumular lucro, riqueza e capital. Porque não existe nenhum “fator intrínseco” à troca e ao mercado que explique a necessidade “compulsiva” de produzir e acumular excedentes.
Ou seja, a força expansiva que acelerou o crescimento dos mercados e produziu as primeiras formas de acumulação capitalista não pode ter vindo do “jogo das trocas”, ou do próprio mercado, nem veio, nesse primeiro momento, do assalariamento da força de trabalho. Veio do mundo do poder e da conquista, do impulso gerado pela “acumulação do poder”, mesmo no caso das grandes repúblicas mercantis italianas, como Veneza e Gênova.
Pois bem, do meu ponto de vista, o conceito de poder político tem mais a ver com a idéia de fluxo do que com a de estoque. O exercício do poder requer instrumentos materiais e ideológicos, mas o essencial é que o poder é uma relação social assimétrica indissolúvel, que só existe quando é exercido; e, para ser exercido, precisa se reproduzir e acumular constantemente.
A “conquista”, como disse Maquiavel, é o ato fundador que instaura e acumula o poder, e ninguém pode conquistar nada sem ter poder, e sem ter mais poder do que o que for conquistado. Num mundo em que todos tivessem o mesmo poder, não haveria poder. Por isso, o poder exerce uma “pressão competitiva” sobre si mesmo, e não existe nenhuma relação social anterior ao próprio poder.
Capital, poder e guerra
Além disto, como a guerra é o instrumento em última instância da conquista e da acumulação de poder, ela se transformou num elemento co-constitutivo deste sistema de poderes territoriais que nasceu na Europa, e que depois se expandiu pelo mundo. Por isso, a origem histórica do capital e do sistema capitalista europeu é indissociável do poder político e das guerras, e a teoria sobre a formação deste “universo europeu” tem que começar pelo poder e pelas suas guerras, pelos tributos e pelo excedente, e por sua transformação em dinheiro e em capital, sob a batuta do poder dos “soberanos”.
O “fator endógeno” ou “primeiro princípio” que move este universo é exatamente esta força da compulsão sistêmica e competitiva que leva à acumulação sem fim do poder e do capital. E, do meu ponto de vista, o poder tem precedência lógica, dentro dessa relação simbiótica, a despeito de que a “acumulação de capital” tenha adquirido uma “autonomia relativa” cada vez mais extensa e complexa, com o passar dos séculos.
Mais tarde, depois do “longo século XVI” e da formação na Europa dos seus primeiros Estados nacionais, estas mesmas regras e alianças fundamentais, que haviam se estabelecido no período anterior, se mantiveram. Com a diferença de que, no novo sistema de competição, as unidades envolvidas eram grandes territórios e economias articulados num mesmo bloco nacional, e com as mesmas ambições expansivas e imperialistas. O objetivo da conquista não era mais a destruição ou ocupação territorial de outro Estado, poderia ser apenas sua submissão econômica. Mas a conquista e a monopolização de novas posições de poder político e econômico seguiu sendo a mola propulsora do novo sistema.
No novo sistema inter-estatal, a produção do excedente e os capitais de cada país passaram a ser uma condição indispensável de seu poder internacional. E foi dentro dessas unidades territoriais expansivas que se forjou o “regime de produção capitalista”, que se internacionalizou de mãos dadas com estes novos impérios globais criados pela conquista destes primeiros Estados europeus.
E, depois do século XVI, foram sempre estes Estados expansivos e ganhadores que também lideraram a acumulação de capital, em escala mundial. Além disso, a chamada “moeda internacional” sempre foi a moeda desses Estados e dessas economias nacionais mais poderosas, transformando-se num dos principais instrumentos estratégicos, na luta pelo poder global.
A expansão competitiva dos “Estados-economias nacionais” europeus criou impérios coloniais e internacionalizou a economia capitalista, mas nem os impérios, nem o “capital internacional” eliminaram os Estados e as economias nacionais. Neste novo sistema inter-estatal, os Estados que se expandiam e conquistavam ou submetiam novos territórios também expandiam seu “território monetário” e internacionalizavam seus capitais. Mas, ao mesmo tempo, seus capitais só puderam se internacionalizar na medida em que mantiveram seu vínculo com alguma moeda nacional, a sua própria ou a de um Estado nacional mais poderoso.
Por isso, pode-se dizer que a globalização econômica sempre existiu e nunca foi uma obra do “capital em geral”, nem levará jamais ao fim das economias nacionais. Porque, de fato, a própria globalização resulta da expansão vitoriosa dos “Estados-economias nacionais” que conseguiram impor seu poder de comando sobre um território econômico supranacional cada vez mais amplo, junto com sua moeda, sua dívida pública, seu sistema de crédito, seu capital financeiro e suas várias formas indiretas de tributação.
Potência autodestrutiva
Do mesmo modo, qualquer forma de “governo mundial’ é sempre uma expressão do poder da potência ou das potências que “lideram” o sistema inter-estatal capitalista. Muitos autores falam em “hegemonia” para referir-se à função estabilizadora desse líder dentro do núcleo central do sistema. Mas esses autores não percebem – em geral – que a existência dessa liderança ou hegemonia não interrompe o expansionismo dos demais Estados, nem muito menos o expansionismo do próprio líder ou hegemon.
Por isso, toda potência hegemônica é sempre, ao mesmo tempo, autodestrutiva, porque o próprio hegemon acaba desrespeitando as regras e instituições que ajudou a criar para poder seguir acumulando seu próprio poder, como se pode ver no caso americano, depois do fim da Guerra Fria.
Donde é logicamente impossível que algum país “hegemônico” possa vir a estabilizar o sistema mundial, como pensam vários analistas.
Neste “universo em expansão” que nasceu na Europa, durante o “longo século XIII”, nunca houve nem haverá “paz perpétua”, nem “sistemas políticos internacionais” estáveis. Porque se trata de um “universo” que necessita da preparação para a guerra e das crises para se ordenar e se “estabilizar”. Foram quase sempre essas guerras e essas crises que abriram os caminhos da inovação e do “progresso”, na história desse sistema inventado pelos europeus.
É a partir dessa compreensão do sistema mundial, e não assentado apenas em opiniões e vaticínios, que fundamento minha avaliação sobre o “mito do colapso americano”. A mesma visão que me autoriza a pensar que os fracassos político-militares norte-americanos, no início do século XXI, e a atual crise econômica mundial não apontam para o fim do “modo de produção capitalista”, nem para uma “sucessão chinesa” na liderança mundial, que deverá seguir nas mãos dos EUA.
O que não quer dizer, obviamente, que a liderança americana seja definitiva ou que o sistema mundial não esteja vivendo uma transformação gigantesca. Como já disse no início deste artigo: do meu ponto de vista, está em curso uma grande “explosão expansiva” do sistema inter-estatal capitalista e uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências, que deverão se intensificar nos próximos anos. Este não é um mundo “sombrio”, como pensam alguns, é apenas o mundo em que nascemos.
Nota
(1) FIORI, José Luís – “O sistema inter-estatal capitalista no início do século XXI”, in: O mito do colapso do poder americano. Rio de Janeiro, Record, 2008, p. 22 e 23.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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Barbárie e modernidade no século 20

Michael Löwy

Barbárie civilizada

A palavra "bárbaro" é de origem grega. Ela designava, na Antigüidade, as nações não-gregas, consideradas primitivas, incultas, atrasadas e brutais. A oposição entre civilização e barbárie é então antiga. Ela encontra uma nova legitimidade na filosofia dos iluministas, e será herdada pela esquerda. O termo "barbárie" tem, segundo o dicionário, dois significados distintos, mas ligados: "falta de civilização" e "crueldade de bárbaro". A história do século 20 nos obriga a dissociar essas duas acepções e a refletir sobre o conceito – aparentemente contraditório, mas de fato perfeitamente coerente – de "barbárie civilizada".

Em que consiste o "processo civilizador"? Como bem demonstrou Norbert Elias, um de seus aspectos mais importantes é que a violência não é mais exercida de maneira espontânea, irracional e emocional pelos indivíduos, mas é monopolizada e centralizada pelo Estado, mais precisamente, pelas forças armadas e pela polícia. Graças ao processo civilizador, as emoções são controladas, o caminho da sociedade é pacificado e a coerção física fica concentrada nas mãos do poder político1. O que Elias não parece ter percebido é o reverso dessa brilhante medalha: o formidável potencial de violência acumulado pelo Estado… Inspirado por uma filosofia otimista do progresso, ele podia escrever, ainda em 1939: "Comparada ao furor do combate abissínio (…) ou daquelas tribos da época das grandes migrações, a agressividade das nações mais belicosas do mundo civilizado parece moderada (…); ela só se manifesta em sua força brutal e sem limites em sonho e em alguns fenômenos que nós qualificamos de ‘patológicos’".2

Alguns meses depois dessas linhas terem sido escritas, começava uma guerra entre nações "civilizadas" cuja "força brutal e sem limites" é simplesmente impossível de comparar com o pobre "furor" dos combatentes etíopes, tamanha é a desproporção. O lado sinistro do "processo civilizador" e da monopolização estatal da violência se manifestou em toda sua terrível potência.

Se nós nos referimos ao segundo sentido da palavra "bárbaro" – atos cruéis, desumanos, a produção deliberada de sofrimento e a morte deliberada de não-combatentes (em particular, crianças) – nenhum século na história conheceu manifestações de barbárie tão extensas, tão massivas e tão sistemáticas quanto o século XX. Certamente, a história humana é rica em atos bárbaros, cometidos tanto pelas nações "civilizadas" quanto pelas tribos "selvagens". A história moderna, depois da conquista das Américas, parece uma sucessão de atos desse gênero: o massacre de indígenas das Américas, o tráfico negreiro, as guerras coloniais. Trata-se de uma barbárie "civilizada", isto é, conduzida pelos impérios coloniais economicamente mais avançados.

Karl Marx era um dos críticos mais ferozes desses tipos de práticas maléficas e destruidoras da modernidade, que para ele estão associadas às necessidades de acumulação do capital. Em O Capital, especialmente no capítulo sobre a acumulação primitiva, encontra-se uma crítica radical dos horrores da expansão colonial: a escravização ou o extermínio dos indígenas, as guerras de conquista, o tráfico de negros. Essas "barbáries e atrocidades execráveis" – que segundo Marx (citando de modo favorável M.W. Howitt) "não têm paralelo em qualquer outra era da história universal, em nenhuma raça por mais selvagem, grosseira, impiedosa e sem pudor que ela tenha sido" – não foram simplesmente passadas aos lucros e perdas do progresso histórico, mas devidamente denunciadas como uma "infâmia"3. Considerando algumas das manifestações mais sinistras do capitalismo, como as leis dos pobres ou os workhouses – estas "bastilhas de operários" -, Marx escreveu em 1847 esta passagem surpreendente e profética, que parece anunciar a Escola de Frankfurt: "A barbárie reapareceu, mas desta vez ela é engendrada no próprio seio da civilização e é parte integrante dela. É a barbárie leprosa, a barbárie como lepra da civilização"4

Mas com o século XX, um limite é transgredido, passa-se a um nível superior; a diferença é qualitativa. Trata-se de uma barbárie especificamente moderna, do ponto de vista de seu etos, de sua ideologia, de seus meios, de sua estrutura. Nós voltaremos a esse ponto.

A Primeira Guerra Mundial inaugurou esse novo estágio da barbárie civilizada. Dois autores, os primeiros, soaram o sinal de alarme, em 1914-15: Roxa Luxemburgo e Franz Kafka. Apesar de suas evidentes diferenças, eles têm em comum o fato de terem tido a intuição – cada um à sua maneira – de alguma coisa sem precedente que estava para se constituir no curso daquela guerra.

Ao usar a palavra de ordem "socialismo ou barbárie", Rosa Luxemburgo em A crise da social-democracia, de 1915 (assinada com o pseudônimo "Junius"), rompeu com a concepção – de origem burguesa, mas adotada pela Segunda Internacional – da história como progresso irresistível, inevitável, "garantido" pelas leis "objetivas" do desenvolvimento econômico ou da evolução social. Essa palavra de ordem é sugerida por certos textos de Marx ou de Engels, mas é Rosa Luxemburgo que dá a ela essa formulação explícita e elaborada. Ela implica uma percepção da história como processo aberto, como série de "bifurcações", onde o "fator subjetivo" – consciência, organização, iniciativa – dos oprimidos tornam-se decisivos. Não se trata mais de esperar que o fruto "amadureça", segundo as "leis naturais" da economia ou da história, mas de agir antes que seja tarde demais.

Porque o outro lado da alternativa é um sinistro perigo: a barbárie. Em um primeiro momento ela parece considerar a "recaída na barbárie" como "a aniquilação da civilização", uma decadência análoga àquela da Roma antiga5. Mas logo ela se dá conta que não se trata de uma impossível "regressão" a um passado tribal, primitivo ou "selvagem", mas antes, de uma barbárie eminentemente moderna, da qual a Primeira Guerra Mundial dá um exemplo surpreendente, bem pior em sua desumanidade assassina que as práticas guerreiras dos conquistadores "bárbaros" do fim do Império Romano. Jamais no passado tecnologias tão modernas – os tanques, o gás, a aviação militar – tinham sido colocadas ao serviço de uma política imperialista de massacre e de agressão em uma escala tão imensa.

As intuições de Kafka são de uma natureza totalmente diferente. É sob a forma literária e imaginária que ele descreve a nova barbárie. Trata-se de uma novela intitulada A colônia penal: em uma colônia francesa, um soldado "indígena" é condenado à morte por oficiais cuja doutrina jurídica resume em poucas palavras a quintessência do arbitrário: "a culpabilidade não deve jamais ser colocada em dúvida!". Sua execução deve ser cumprida por uma máquina de tortura que escreve lentamente sobre seu corpo com agulhas que o atravessam a frase "Honra teus superiores".

O personagem central da novela não é nem o viajante que observa os acontecimentos com uma hostilidade muda, nem o prisioneiro, que não reage de modo nenhum, nem o oficial que preside a execução, nem o comandante da colônia. É a máquina mesma.

Toda a narrativa gira em torno desse sinistro aparelho (Apparat), que parece mais e mais, no curso da explicação detalhada que o oficial dá ao viajante, como um fim em si mesmo. O Aparelho não está lá para executar o homem, é sobretudo este que está lá pelo Aparelho, para fornecer um corpo sobre o qual ele possa escrever sua obra-prima estética, sua inscrição sangrenta ilustrada de "muitos florilégios e ornamentos". O oficial mesmo é apenas um servidor da Máquina e, finalmente, ele mesmo se sacrifica à esse insaciável Moloch6.

Em que "máquina de poder" bárbara, em que "aparelho da autoridade" sacrificador de vidas humanas, pensava Kafka? A colônia penal foi escrita em outubro de 1914, três meses após a eclosão da grande guerra. Há poucos textos na literatura universal que apresentam de maneira tão penetrante a lógica mortífera da barbárie moderna como mecanismo impessoal.

Esses pressentimentos parecem se perder nos anos do pós-guerra. Walter Benjamin é um dos raros pensadores marxistas a compreender que o progresso técnico e industrial pode ser portador de catástrofes sem precedentes. Daí seu pessimismo – não fatalista, mas ativo e revolucionário. Em um artigo de 1929 ele definia a política revolucionária como "a organização do pessimismo" – um pessimismo em todas as linhas: desconfiança quanto ao destino da liberdade, desconfiança quanto ao destino do povo europeu. E acrescenta ironicamente: "confiança ilimitada somente no IG Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Luftwaffe"7. Ora, mesmo Benjamin, o mais pessimista de todos, não podia adivinhar a que ponto essas duas instituições iriam mostrar, alguns anos mais tarde, a capacidade maléfica e destrutiva da modernidade8.

Pode-se definir como propriamente moderna a barbárie que apresenta as seguintes características:

- Utilização de meios técnicos modernos. Industrialização do homicídio. Exterminação em massa graças às tecnologias científicas de ponta.

- Impessoalidade do massacre. Populações inteiras – homens e mulheres, crianças e idosos – são "eliminados", com o menor contato pessoal possível entre quem toma a decisão e as vítimas.

- Gestão burocrática, administrativa, eficaz, planificada, "racional" (em termos instrumentais) dos atos bárbaros.

- Ideologia legitimadora do tipo moderno: "biológica", "higiênica", "científica" (e não religiosa ou tradicionalista)

- Todos os crimes contra a humanidade, genocídios e massacres do século XX não são modernos no mesmo grau: o genocídio dos armênios em 1915, o genocídio levado a cabo pelo Pol Pot no Camboja, aquele dos tutsis em Ruanda etc. associam, cada um de maneira específica, traços modernos e traços arcaicos.

Os quatro massacres que encarnam de maneira mais acabada a modernidade da barbárie são o genocídio nazista contra os judeus e os ciganos, a bomba atômica em Hiroshima, o Goulag estalinista e a guerra norte-americana no Vietnã. Os dois primeiros são provavelmente os mais integralmente modernos: as câmaras de gás nazistas e a morte atômica norte-americana contêm praticamente todos os ingredientes da barbárie tecno-burocrata moderna.

Auschwitz representa a modernidade não somente pela sua estrutura de fábrica de morte, cientificamente organizada e que utiliza as técnicas mais eficazes. O genocídio dos judeus e dos ciganos é também, como observa o sociólogo Zygmunt Bauman, um produto típico da cultura racional burocrática, que elimina da gestão administrativa toda interferência moral. Ele é, deste ponto de vista, um dos possíveis resultados do processo civilizador como racionalização e centralização da violência e como produção social da indiferença moral. "Como toda outra ação conduzida de maneira moderna – racional, planificada, cientificamente informada, gerida de forma eficaz e coordenada – o Holocausto deixou para trás todos seus pretensos equivalentes pré-modernos, revelando-os em comparação como primitivos, esbanjadores e ineficazes. (…) Ele se eleva muito acima dos episódios de genocídio do passado, da mesma forma que a fábrica industrial moderna está bem acima da oficina artesanal…."9

A ideologia legitimadora do genocídio é ela também de tipo moderno, pseudo-científico, biológico, antropométrico, eugenista. A utilização obsessiva de fórmulas pseudo-medicinais é característica do discurso anti-semita dos dirigentes nazistas, o que pode ser notado nas conversações privadas deles. Numa carta a Himmler em 1942, Adolf Hitler insistia: "A batalha na qual nós estamos engajados hoje é do mesmo tipo que a batalha liderada, no século passado, por Pasteur e Koch. Quantas doenças não tiveram sua origem no vírus judeu… Nós não encontraremos nossa saúde sem eliminar os judeus".10

Em seu notável ensaio sobre Auschwitz11, Enzo Traverso destaca, com palavras sóbrias, precisas e lúcidas, o contexto do genocídio. Não se trata nem de uma simples "resistência irracional à modernização", nem de um resíduo de barbárie antiga, mas de uma manifestação patológica da modernidade, do rosto escondido, infernal, da civilização ocidental, de uma barbárie industrial, tecnológica, "racional" (do ponto de vista instrumental). Tanto a motivação decisiva do genocídio – a biologia racial – quanto suas formas de realização – as câmaras de gás – eram perfeitamente modernas. Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, "a organização científica do trabalho" de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber.

Este último tinha intuído, como sublinha Marcuse, a transformação da razão ocidental em força destrutiva. Sua análise da burocracia como máquina "desumanizada", impessoal, sem amor nem paixão, indiferente a tudo aquilo que não é sua tarefa hierárquica, é essencial para compreender a lógica reificada dos campos da morte. Isso vale também para a fábrica capitalista, que estava presente em Auschwitz, ao mesmo tempo nas oficinas de trabalho escravo da empresa IG Farben e nas câmaras à gás, lugares de produção "em cadeia" de mortos. Mas a "solução final" é irredutível à toda lógica econômica: a morte não é nem uma mercadoria, nem uma fonte de lucro.

Traverso critica, de maneira muito convincente, as interpretações – inspiradas, em um grau ou outro, pela ideologia do progresso – do nazismo e do genocídio como produto da história do irracionalismo alemão (Georges Lukács), de uma "saída" da Alemanha para fora do berço ocidental (Jürgen Habermas) ou de um movimento de "descivilização" (Entzivilisierung) inspirado por uma ideologia "pré-industrial" (Norbert Elias). Se o processo civilizador significa, antes de tudo, a monopolização pelo estado da violência – como o mostram, depois de Hobbes, tanto Weber quanto Elias – é necessário reconhecer que a violência do Estado está na origem de todos os genocídios do século XX. Auschwitz não representa uma "regressão" em direção ao passado, em direção a uma idade bárbara primordial, mas é realmente um dos rostos possíveis da civilização industrial ocidental. Ele constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e universalista dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossa civilização.

Se o extermínio dos judeus pelo Terceiro Reich é comparável a outros atos bárbaros, nem por isso ele deixa de ser um evento singular. É necessário recusar as interpretações que eliminam as diferenças entre Auschwitz e os campos soviéticos, ou os massacres coloniais, os pogroms etc.12 O crime de guerra que tem mais afinidades com Auschwitz é Hiroshima, como compreenderam tão bem Günther Anders e Dwight MacDonald: nos dois casos delega-se a tarefa a uma máquina de morte formidavelmente moderna, tecnológica e "racional". Mas as diferenças são fundamentais. Inicialmente, as autoridades americanas não tiveram jamais como objetivo – como aquelas do Terceiro Reich – realizar o genocídio de toda uma população: no caso das cidades japonesas, o massacre não era, como nos campos nazistas, um fim em si mesmo, mas um simples "meio" para atingir objetivos políticos. O objetivo da bomba atômica não era o extermínio da população japonesa como fim autônomo. Tratava-se sobretudo de acelerar o fim da guerra e demonstrar a supremacia militar americana face à União Soviética. Em um relatório secreto de maio de 1945 ao presidente Truman, o Target Committee – o "Comitê de Alvo", composto pelos generais Groves, Norstadt e do matemático Von Neumann – observa friamente: "A morte e a destruição irão não somente intimidar os japoneses sobreviventes a fazer pressão pela capitulação mas também (a bônus) assustar a União Soviética. Em síntese, a América poderia terminar mais rapidamente a guerra e, ao mesmo tempo, ajudar à moldar o mundo do pós-guerra"13. Para obter esses objetivos políticos, a ciência e a tecnologia mais avançadas foram utilizadas e centenas de milhares de civis inocentes, homens, mulheres e crianças foram massacrados – sem falar da contaminação pela irradiação nuclear das gerações futuras.

Uma outra diferença com Auschwitz é, sem dúvida, o número bem inferior de vítimas. Mas a comparação das duas formas de barbárie burocrático-militar é muito pertinente. Os próprios dirigentes americanos estavam conscientes do paralelo com os crimes nazistas: em uma conversa com Truman no dia 6 de junho de 1945, o secretário de Estado, Stimson, relatava seus sentimentos: "Eu disse a ele que estava inquieto com esse aspecto da guerra… porque eu não queria que os americanos ganhassem a reputação de ultrapassar Hitler em atrocidade"14.

Em muitos aspectos, Hiroshima representa um nível superior de modernidade, tanto pela novidade científica e tecnológica representada pela arma atômica, quanto pelo caráter ainda mais distante, impessoal, puramente "técnico" do ato exterminador: pressionar um botão, abrir a escotilha que liberta a carga nuclear. No contexto próprio e asséptico da morte atômica entregue pela via aérea, deixou-se para trás certas formas manifestamente arcaicas do Terceiro Reich, como as explosões de crueldade, o sadismo e a fúria assassina dos oficiais da SS. Essa modernidade se encontra na cúpula norte-americana que toma – após ter cuidadosa e "racionalmente" pesado os prós e os contras – a decisão de exterminar a população de Hiroshima e Nagasaki: um organograma burocrático complexo composto por cientistas, generais, técnicos, funcionários e políticos tão cinzentos quanto Harry Truman, em contraste com os acessos de ódio irracional de Adolf Hitler e seus fanáticos.

No curso dos debates que precederam a decisão de lançar a bomba, certos oficiais, como o general Marshall, declararam suas reservas, à medida em que eles defendiam o antigo código militar, a concepção tradicional da guerra, que não admitia o massacre intencional de civis. Eles foram vencidos por um ponto de vista novo, mais "moderno", fascinado pela novidade científica e técnica da arma atômica, um ponto de vista que não tinha nada a ver com códigos militares arcaicos e que não se interessava senão pelo cálculo de lucros e perdas, isto é, em critérios de eficácia político-militar15. Seria necessário acrescentar que um certo número de cientistas que tinham participado, por convicção antifascista, nos trabalhos de preparação da arma atômica, protestaram contra a utilização de suas descobertas contra a população civil das cidades japonesas.

Uma palavra sobre o Goulag estalinista: se há muito em comum com Auschwitz – sistema concentracionário, regime totalitário, milhões de vítimas – ele se distingue pelo fato que o objetivo dos campos soviéticos não era o extermínio dos prisioneiros mas sua exploração brutal como força de trabalho escrava. Em outras palavras: pode-se comparar Kolyma e Buchenwald, mas não o Goulag e Treblinka. Nenhuma contabilidade macabra – como aquela fabricada por Stéphane Courtois e outros anticomunistas profissionais – pode apagar essa diferença.

O Goulag era uma forma de barbárie moderna na medida em que era burocraticamente administrado por um Estado totalitário e colocado ao serviço de projetos estalinistas faraônicos de "modernização" econômica da União Soviética. Mas ele se caracteriza também por traços mais "primitivos": corrupção, ineficácia, arbitrariedade, "irracionalidade". Ele se situa por essa razão em um degrau de modernidade inferior ao sistema concentracionário do Terceiro Reich.

Enfim, a guerra americana no Vietnã, atroz pelo número de vítimas civis exterminadas pelos bombardeios, o napalm ou as execuções coletivas, constitui, em vários aspectos, uma intervenção extremamente moderna: fundada sobre uma planificação "racional" – com a utilização de computadores, e de um exército de especialistas – ela mobiliza um armamento muito sofisticado, na ponta do progresso técnico dos anos 60 e 70: B-52, napalm, herbicidas, bombas à fragmentação etc.16

Essa guerra não foi um conflito colonial como os outros: bastava lembrar que a quantidade de bombas e explosivos lançados sobre o Vietnã foi superior àquela utilizada por todos os beligerantes durante a Segunda Guerra Mundial! Como no caso de Hiroshima, o massacre não era um objetivo em si, mas um meio político; e se a cifra de mortos é bem superior àquela das duas cidades japonesas, não se encontra no Vietnã aquela perfeição da modernidade técnica e impessoal, aquela abstração científica da morte que caracteriza a morte atômica"17.

A natureza contraditória do "progresso" e da "civilização" moderna se encontra no coração das reflexões da Escola de Frankfurt. Em Dialética do Iluminismo (1944), Adorno e Horkheimer constatam a tendência da racionalidade instrumental de se transformar em loucura assassina: a "luminosidade gelada" da razão calculista "carrega a semente da barbárie". Em uma nota redigida em 1945 para Minima Moralia, Adorno utiliza a expressão "progresso regressivo" tentando de dar conta da natureza paradoxal da civilização moderna.18

Entretanto, essas expressões ainda são tributárias, apesar de tudo, da filosofia do progresso. Na verdade, Auschwitz e Hiroshima não são em nada uma "regressão à barbárie" – ou mesmo uma "regressão": não há nada no passado que seja comparável à produção industrial, científica, anônima e racionalmente administrada da morte em nossa época. Basta comparar Auschwitz e Hiroshima com as práticas guerreiras das tribos bárbaras do século IV para se dar conta que eles não têm nada em comum: a diferença não é somente na escala, mas na natureza. É possível comparar as práticas mais "ferozes" dos "selvagens" – morte ritual do prisioneiro de guerra, canibalismo, redução das cabeças etc. – com uma câmara de gás ou uma bomba atômica? São fenômenos inteiramente novos, que não seriam possíveis a não ser no século XX.

As atrocidades de massa, tecnologicamente aperfeiçoadas e burocraticamente organizadas, pertencem unicamente à nossa civilização industrial avançada. Auschwitz e Hiroshima não são mais "regressões": são crimes irremediavelmente e exclusivamente modernos.

Existe entretanto um domínio específico da "barbárie civilizada" em que se pode efetivamente falar de regressão: a tortura. Como destaca Eric Hobsbawn em seu admirável ensaio de 1994, "Barbárie: um guia para o usuário": "A partir de 1782 a tortura foi formalmente eliminada do procedimento judiciário dos países civilizados. Em teoria, ela não era mais tolerada nos aparelhos coercitivos do Estado. O preconceito contra essa prática era tão forte que ela não pôde retornar após a derrota da Revolução Francesa que a havia seguramente abolido (…) Pode-se suspeitar que nos redutos da barbárie tradicional, que resistem ao progresso moral – por exemplo as prisões militares ou outras instituições análogas – ela de fato não desapareceu…" Ora, no século XX, sob o fascismo e o estalinismo, nas guerras coloniais – Argélia, Irlanda etc. – e nas ditaduras latino-americanas, a tortura é de novo empregada em grande escala.19

Os métodos são diferentes – a eletricidade substitui o fogo e os torniquetes – mas a tortura de prisioneiros políticos tornou-se, no curso do século XX, uma prática rotineira – mesmo se não-oficial – de regimes totalitários, ditatoriais, e mesmo, em certos casos (as guerras coloniais), "democráticos". Nesse caso, o termo "regressão" é pertinente, na medida em que a tortura era praticada em inúmeras sociedades pré-modernas, e também na Europa, da Idade Média até o século XVIII. Um uso bárbaro que o processo civilizador parecia ter suprimido no curso do século XIX voltou no século XX, sob uma forma mais "moderna" – do ponto de vista das técnicas – mas não menos desumana.

Levar em conta a barbárie moderna do século XX exige o abandono da ideologia do progresso linear. Isso não quer dizer que o progresso técnico e científico é intrinsecamente portador de malefício – nem tampouco o inverso. Simplesmente, a barbárie é uma das manifestações possíveis da civilização industrial/capitalista moderna – ou de sua cópia "socialista" burocrática.

Não se trata também de reduzir a história do século XX a seus momentos bárbaros: essa história conheceu também a esperança, as sublevações dos oprimidos, as solidariedades internacionais, os combates revolucionários: México, 1914; Petrogrado, 1917; Budapeste, 1919; Barcelona, 1936; Paris, 1944; Budapeste, 1956; Havana, 1961; Paris, 1968; Lisboa, 1974; Manágua, 1979; Chiapas, 1994; foram alguns dos momentos fortes – mesmo se efêmeros – dessa dimensão emancipadora do século. Eles constituem pontos de apoio preciosos à luta das gerações futuras por uma sociedade humana e solidária.

Notas:

1 Norbert Elias, La Dynamique de l’Occident, Paris, Calmann-Lévy, 1975, pp.181-190. A referência ao combate abissínio soa estranha no momento em que a Etiópia combatia pela sua liberdade contra a invasão colonial do fascismo italiano, portador de uma pretensa missão "civilizadora".

2 Norbert Elias, La civilisation des moeurs, Paris, Calmann-Lévy, 1973, p.280.

3 Marx, Le Capital, vol. I, p.557-558, 563.

4 K. Marx, "Arbeitslohn", 1847, Kleine Ökonomische Schriften, Berlin, Dietz Verlag, 1955, p.245.

5 R. Luxemburgo, A crise da social-democracia, 1915.

6 Kafka, "In der Strafkolonie", Erzählung und kleine Prosa, N. York, Schocken Books, 1946, pp.181-113.

7 W. Benjamin, "O surrealismo. O último instante de inteligência européia", 1929. Mythe et violence, Paris, Letras Novas, 1971, p.312

8 Lembremos que o grande truste químico IG Farben não somente utilizou massivamente a mão-de-obra escrava em Auschwitz mas também produziu o gás Zyklotron B, que servia para exterminar as vítimas do sistema concentracionário.

9 Zygmut Bauman, Modernity and the Holocaust, London, Polity Press, 1989, p.15, 28.

10 Citado por Zygmunt Bauman, op.cit, p.71

11 Enzo Traverso, L’Histoire déchirée. Essai sur Auschwitz et les intellectuels, Paris, Cerf, 1997

12 Sobre esse assunto, remeto à excelente colocação de Enzo Traverso, "A singularidade de Auschwitz. Hipóteses, problemas e derivações da pesquisa histórica". Pour une critique de la barbarie moderne. Ecrits sur l’histoire des Juifs e de l’antisémitisme, Lausanne, Ed. Page deux, 1997.

13 Citado dos arquivos históricos recentemente abertos ao público em Barton J. Bernstein, "The Atomic Bombings Reconsidered", Foreign Affairs, fevereiro 1995, p. 143.

14 Ibid, p.146.

15 Sobre as reservas de Marshall, cf. Barton J. Bernstein, Op.cit, p.143.

16 De fato, é inteiramente racional se a "razão" significa racionalidade instrumental, aplicar a força militar norte-americana, os B-52, o napalm e todo o resto no Vietnã "sob dominação comunista" (claramente um "objeto indesejável"), como o "operador" para o transformar em "objeto desejável". Joseph Weizenbaum, "Computer Power and Human Reason". From Judgmente to Calculation, S. Francisco, W.H. Freeman, 1976, p.252

17 Outras guerras coloniais tiveram lugar no século XX – na Indochina, na Argélia, na África colonial portuguesa etc., mas nenhuma atingiu o grau de modernidade como aquela do Vietnã. Em comparação, elas parecem arcaicas, primitivas.

18 T.W.Adorno, M. Horkheimer, La Dialectique de la raison, Paris, Gallimard, 1974, p.48 e T.W. Adorno, Minima Moralia, Paris, Payot, 1983, p.134

19 E. Hobsbawn, Barbarism: An User’s Guide. On History, London, Weidenfelds and Nicholson, 1997, pp.259-263.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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A longa caminhada do papel eletrônico

Colunista destaca principais avanços na busca do dispositivo flexível que pode revolucionar a leitura.

Um objeto semelhante a uma folha flexível, capaz de "carregar" diferentes configurações de textos e imagens? É isso o que promete o papel eletrônico, inovação que pode se tornar uma realidade muito antes do que você imagina.

Imagine-se sentado em um banco de praça, quando alguém ao seu lado retira de um fino canudo uma folha retrátil e transparente de tamanho A4. De repente, letras e imagens aparecem naquela folha, como se fosse uma página impressa. O contraste e a visibilidade das letras em diferentes ângulos lembram uma folha de papel.
Isso ainda é uma cena de ficção. Você não encontra esse produto na loja da esquina, mas Epson, Fujitsu, HP, Hitachi, IBM, Kodak, Motorola, Philips, Pioneer, Samsung, Siemens, Sony e Xerox, para citar apenas empresas conhecidas do grande público, trabalham para que isso não demore a acontecer. O papel eletrônico – a folha transparente da cena imaginária – já existe em diversos produtos. Falta apenas ele aparecer nodesign imaginado acima e com um preço compatível com a renda de boa parte da população.
Nos laboratórios de pesquisa, os trabalhos que viabilizaram o papel eletrônico já têm uma longa história. Podemos dizer que a saga remonta aos anos 1950, quando propriedades elétricas foram descobertas em alguns polímeros e as primeiras imagens xerográficas foram obtidas com o processo conhecido como eletroforese. Na década seguinte, com a descoberta dos polímeros semicondutores, estava aberta a estrada para se chegar ao papel eletrônico.
Mas a evolução da ciência e da tecnologia não é assim tão certinha. Tropeços metodológicos e estratégias comerciais entortaram o rumo dessa história. Passados mais de 40 anos, ainda estamos à espera do papel eletrônico com as propriedades que teoricamente consideramos adequadas.
E quais são essas propriedades? Para se assemelhar ao papel impresso em funcionalidade e disponibilidade, o papel eletrônico deve ter bom contraste, de modo a ser lido até na claridade da luz solar. Isso implica que as imagens deverão ser visualizadas por reflexão da luz e não por transmissão, como ocorre nas usuais telas de computadores e de televisores. É claro que isso não impede que um fabricante possa fazer um papel eletrônico que emita luz, mas essa não é a alternativa que está fazendo a cabeça da indústria.
Assim como o papel convencional, de celulose, o eletrônico também deve ser flexível, de modo que possa ser encurvado e guardado em um canudo. Tem que apresentar baixo consumo de energia e, sobretudo, ter preço de venda compatível com o orçamento de grande parte da população. Ainda não se conseguiu um produto que atenda a todas essas exigências. Vejamos alguns dos caminhos seguidos pelos pesquisadores para chegar a elas.
Tinta e suporte

Folha enrolada de Gyricon, papel eletrônico desenvolvido pelo Centro de Pesquisa da Xerox. O dispositivo foi batizado a partir da expressão grega que significa "rotação de imagem".

O papel eletrônico tem basicamente dois componentes: a tinta e o suporte flexível. A este associa-se o sistema eletrônico, capaz de imprimir e apagar texto e imagens. Cada um desses componentes é parte de uma grande área de pesquisa, agraciada com alguns prêmios Nobel pelo caminho. O principal modo de preparação da tinta eletrônica, por exemplo, utiliza a eletroforese, fenômeno cuja descoberta em 1937 valeu o Nobel de Química de 1948 ao sueco Arne Tiselius (1902-1971).
Antes de abordarmos os métodos atuais, vale a pena recordar a primeira ideia de uma tinta eletrônica. Ela foi inventada por Nicholas Sheridon em 1974, quando era pesquisador do Centro de Pesquisa da Xerox, em Palo Alto, naquela região da Califórnia conhecida como Vale do Silício. O processo foi batizado de Gyricon, palavra grega que significa “rotação de imagem”.
Essencialmente o processo funciona assim: esferas de plástico microscópicas são fabricadas com um hemisfério pintado de branco e outro de preto. Cada um deles tem uma carga elétrica diferente – digamos que o hemisfério branco seja negativo, enquanto o preto é positivo. Milhares dessas esferas são dispersas em um líquido entre duas camadas de material flexível. Uma delas é necessariamente transparente.
Se uma voltagem positiva for aplicada na camada transparente, as esferas giram e exibem o hemisfério negativo (branco). Letras e imagens são então produzidas com uma distribuição adequada de voltagens na camada transparente. O processo foi abandonado pela Xerox em dezembro de 2005, quando seus competidores avançavam na técnica de eletroforese.
No processo de eletroforese, por sua vez, existem duas alternativas. Na primeira, algumas esferas são brancas, enquanto outras são pretas. Esferas de uma cor são carregadas positivamente, e as outras, negativamente. Na segunda alternativa, apenas um tipo de esfera é disperso em um líquido colorido e que apresente um bom contraste com a cor das esferas – esferas brancas em um líquido azul, por exemplo. Em ambos os casos, a formação da imagem é similar ao processo do Gyricon: a distribuição de voltagens é que define a imagem.
No caso de esferas brancas carregadas negativamente, uma voltagem positiva na superfície visível apresenta uma imagem branca, pois as esferas são atraídas pela voltagem. No caso de uma voltagem negativa, elas são repelidas, e a imagem fica azul. Esse mecanismo é aplicado em cada ponto da imagem. Ou seja, cada pixel tem um conjunto de esferas e uma conexão ao sistema eletrônico. Vejamos um dos processos utilizados para formar cada pixel.
A tinta eletrônica do MIT

A tinta eletrônica desenvolvida no MIT se baseia no princípio da eletroforese. O dispositivo conta com milhares de micropartículas esféricas de cor preta e branca, cada tipo carregada com um sinal diferente. Em função da carga elétrica aplicada, muda a disposição das microesferas na superfície do suporte flexível. O rearranjo dessas partículas permite formar diferentes textos e imagens.

Esse método foi inventado por Joseph Jacobson e colaboradores, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), entre 1997 e 1998. Milhares de micropartículas com diâmetro em torno de 5 micrômetros, metade brancas e metade pretas, são encapsuladas numa esfera de material transparente, com diâmetro entre 30 e 300 micrômetros.
As micropartículas brancas podem ser obtidas com dióxido de titânio, e as pretas, com pigmentos inorgânicos. Cada espécie de micropartícula é carregada com um sinal diferente. Existem procedimentos químicos para evitar que haja atração entre as cargas de sinais contrários. Outra alternativa é usar um único tipo de partícula em um fluido dielétrico cuja cor contraste com a das micropartículas.
Milhares de cápsulas formando um líquido como uma tinta comum são fixadas em uma folha de polímero semicondutor. Uma vez fixada, a tinta é manipulada pelo sistema eletrônico para a formação de imagens.
Antes de descrever o sistema eletrônico, convém adiantar que este é o principal responsável pela esperada popularização do papel eletrônico. A base polimérica permite a flexibilidade do papel, e o baixo custo de produção dos circuitos integrados redundará em produtos baratos.

O sistema eletrônico
Para a fabricação de circuitos integrados baseados no silício são necessários ambientes de alto vácuo, sofisticados e caros. No caso de polímeros semicondutores, filmes finos podem ser formados a partir de soluções líquidas, por intermédio de um processo de auto-organização em pressão atmosférica – uma espécie de impressão de jato de tinta.
Embora simples, o processo não deixa de ter suas exigências em termos de precisão. Um circuito integrado é formado por milhares de transistores. Em cada um deles, existem partes ocupadas pelo elemento ativo – no caso, o polímero – e partes ocupadas por contatos elétricos passivos. Em transistores de polímeros, a distância entre alguns contatos é inferior a 5 micrômetros.

Não é fácil controlar gotas d’água que se esparramam sobre uma superfície. De forma análoga, o controle da forma como se esparramam as gotas da solução polimérica usada no papel eletrônico foi um dos desafios no seu desenvolvimento.

A deposição da solução polimérica no substrato do circuito deve ter resolução suficiente para não cobrir esses contatos. Ocorre que os processos mais simples de deposição não conseguem resolução inferior a 20 micrômetros. Isso é consequência da dificuldade de se controlar o fluxo e a tendência das gotas de polímero se esparramarem pela superfície do substrato.
Uma solução interessante para restringir o espalhamento das gotas de polímero foi inventada por Henning Sirringhaus e colaboradores no Laboratório Cavendish, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), há menos de cinco anos. Eles simplesmente colocaram um produto hidrofóbico nas regiões proibidas. Como as gotas de polímero contêm água, elas não conseguem penetrar naquelas regiões hidrofóbicas.
Em escala de laboratório o avanço é extraordinário. A empresa americana E Ink Corporation tem contribuído significativamente para isso. Já em 2003 eles apresentaram, em associação com a Philips, um pequeno painel (12,7 centímetros na diagonal), utilizando a tinta eletrônica do MIT. Dois anos depois eles apresentaram o primeiro protótipo no tamanho de uma folha A4.
Esse protótipo usa 100 vezes menos energia do que um monitor de cristal líquido convencional. A razão – válida para todos os dispositivos desse tipo – é que, uma vez formada a imagem, ela permanece na tela mesmo na ausência do campo elétrico que a formou. Por outro lado, como sua visualização se dá por reflexão da luz incidente no painel, não há necessidade de bateria para manter a exibição da imagem. Esta será utilizada apenas para acionar o sistema eletrônico nos momentos em que se desejar formar ou apagar imagens.

Uma perspectiva mais ampla
Quando se fala em papel eletrônico, geralmente vem à mente a imagem do início desta coluna. Nesse sentido, ele seria uma evolução dos atuais livros eletrônicos. No entanto, a indústria tem uma perspectiva mais ampla quando se refere a esse produto. Não devemos esquecer que papel eletrônico é qualquer coisa que seja flexível, possa exibir imagens por reflexão de luz, apresente baixo consumo de energia e, se possível, tenha grande capacidade de armazenamento.
Assim, o leque de assemelhados se abre extraordinariamente. Teremos, por exemplo, papel eletrônico em etiquetas de produtos nas prateleiras de lojas e supermercados. Os dados ali contidos poderão ser alterados por um sistema de comunicação sem fio. Teremos papel eletrônico em grandes painéis, a um custo bem inferior aos atuais.
No que se refere ao sonho de consumo de muitos leitores, voltemos à cena inicial: um canudo com 1 centímetro de diâmetro e 15 a 20 centímetros de comprimento. Lá dentro, uma folha retrátil, com milhares de livros gravados e conexão sem fio para buscar conteúdo em repositórios na internet e um sistema que permita uso de mensagens eletrônicas. Tudo isso por não mais do que 250 reais, e em futuro mais próximo do que muitos imaginam!

Fonte: Instituto Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br

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“Minha Casa” é a “reconciliação” entre capital e trabalho, afirma Lula

PEDRO FIORI ARANTES

O pacote habitacional, as medidas anunciadas e os discursos que o legitimam têm deixado cada vez mais claro o projeto do governo Lula de um "capitalismo popular" para o Brasil, sem que dele façam parte as reformas condizentes com o seu antigo "programa democrático-popular", incluindo aí a Reforma Urbana. A promoção da "casa popular" é apresentada como grande saída, não apenas para a crise econômica como também para os problemas do país, justamente por ser uma solução de unidade de interesses, dissociada da transformação social efetiva.

Em um programa de Reforma Urbana, ao contrário, apresentam-se interesses divergentes, evidenciando-se a oposição entre o direito dos trabalhadores à cidade e o ganho rentista do capital, entre o interesse público de planejar cidades habitáveis e a irracionalidade do laissez-faire imobiliário.

Em um programa de Reforma Urbana haveria combate à especulação, taxação progressiva e urbanização compulsória de imóveis que não cumprem a função social, requisição pública de imóveis que sonegam impostos, política de estoque de terras, combate aos despejos, investimentos em transportes coletivos em detrimento do individual etc. Mas em um programa focado exclusivamente na construção de casas não há conflitos, pois os interesses do capital e do trabalho parecem milagrosamente convergir.

Foi assim que Lula, na recente abertura do 81º Encontro Nacional da Indústria da Construção (ENIC), no Rio de Janeiro, pôde tratar os empresários como "companheiros" e "meus queridos". E não era apenas seu velho cacoete, pois Lula fez questão de explicar que "mudou muito" nestes anos para poder "chamá-los (os empresários) de companheiros e não só o trabalhador, pois o Brasil não é só construído pelos que produzem, mas também pelos que têm capital para contratar". E completou, para surpresa da platéia, afirmando que "em três ou quatro meses (os empresários da construção) irão disputar espaço com os mais importantes artistas brasileiros, porque podem ser melhores do que eles" para o povo brasileiro ao dar uma "contribuição inestimável para a melhoria das suas condições de vida".

O ENIC reúne anualmente os vários sindicatos patronais da construção e ocorre em clima de evento social. Os mediadores das mesas de "debate" são da Rede Globo. O patrocínio é do próprio governo federal e da Caixa Econômica, além de empresas do setor. Há presença garantida de políticos e do primeiro escalão do governo, favorecendo o lobismo. O encontro termina com jantar de gala no Copacabana Palace, o mais caro e luxuoso hotel do Rio de Janeiro. Bem diferente dos encontros dos movimentos de luta por moradia, posso garantir.

O clima de aliança e reconciliação era dado não apenas pela "mudança" de Lula, mas pelo objetivo comum da "casa própria", cuja ideologia compensatória é o melhor elo da unidade entra capital e trabalho – pois beneficiaria ambos. Para Lula, "a democratização do acesso à casa própria é um dos pilares da reconciliação entre desenvolvimento econômico e inclusão social". Na "aliança pela casa própria" não há interesses divergentes: forja-se um consenso inexpugnável entre a necessária lucratividade dos capitais, os ganhos eleitorais dos políticos e o benefício social dos atendidos pelo programa. Heureca!

A reconciliação se estendeu não apenas ao empresariado, mas também ao regime militar, lembrado por Lula como último grande momento do desenvolvimento brasileiro, ao qual ele afirma "dar continuidade" por meio do PAC, do Pré-Sal e do pacote habitacional. Estamos vivendo um "salto do financiamento imobiliário capitaneado pelos bancos públicos como não ocorria há 20 anos, desde o BNH", disse Lula. A Caixa Econômica Federal atingiu volume recorde de empréstimos em habitação em 2009 e bateu o recorde anterior, do governo Figueiredo, em 1982. A atual injeção de 34 bilhões de reais de recursos públicos na construção civil irá "imprimir velocidade ao motor do desenvolvimento que patinava desde a crise do BNH".

Ao adotar a primeira pessoa em todo o discurso – "o ‘Minha Casa’ foi um desafio que fiz a mim mesmo" –, Lula deixou claro que a iniciativa do programa foi pessoal, ao invés de se tratar de uma política de Estado. "Eu disse a Dilma e Guido para conversarem com os empresários", afirmou, desprezando a existência de um Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social – primeira lei de iniciativa popular aprovada desde a Constituição de 1988, com 1,2 milhões de assinaturas –, do próprio Ministério das Cidades, feito de seu primeiro mandato, com seus conselhos e fundos vinculados, além do recém aprovado Plano Nacional de Habitação. Para Lula a conversa é direta, do presidente com o empresariado, e admite poucos intermediários, de preferência que não atrapalhem com "fiscalização, problema ambiental, Ministério Público" etc. É uma forma de concentrar em si o capital político da operação e personalizar uma iniciativa que deveria ser parte de uma política consistente de Estado e duradoura no tempo.

Apresentada a reconciliação e a aliança pela casa própria, Lula passa então a cobrar dos empresários que façam a sua parte: "dinheiro está disponível, temos gente que quer casa, o que é que está faltando?" Segundo ele, o problema dos empresários "não é mais de dinheiro, é que não estavam preparados para comer um prato cheio, só de grão em grão", ironiza. O presidente operário cobra dos capitalistas que sejam mais capitalistas.

Lula percebe no atraso dos projetos e obras – que totalizam apenas 3,7% da meta até o momento – uma incoerência com o fato de que "o programa foi criado para enfrentar parte da crise internacional". O que revela, na verdade, como o pacote é inócuo enquanto política anticíclica. A crise serviu, isto sim, como álibi para que o governo privatizasse a política habitacional e injetasse fundos públicos no setor imobiliário e da construção – não por acaso o que mais patrocina campanhas e caixas de políticos –, com vistas à sucessão de 2010.

A maneira como trata em seu discurso o problema da moradia – "desovar" e "construir casa a dar com pau" – é reflexo do entendimento que o pacote e empresários têm da habitação, como uma mercadoria qualquer. Isto é, não se trata de produzir cidades melhores, mais justas e integradas, mas de fazer unidades habitacionais como se monta geladeiras ou automóveis. A moradia entendida por esse viés, no qual se privilegiam quantidades (o que mais interessa a empresários e políticos) ao invés de qualidades, e desconsidera-se o processo complexo de fazer cidades, irá promover desastres urbanos e sociais, como se viu no México, Chile e África do Sul, que adotaram o mesmo modelo recentemente.

Não se ouviu qualquer palavra do presidente a respeito do grande despejo ocorrido dias antes na zona sul de São Paulo, da ocupação Olga Benário, e que fora primeira página dos principais jornais do país. Duas mil famílias foram postas na rua e tiveram seus bens queimados numa reintegração de posse violenta de uma área que estava vazia há décadas e inadimplente em relação aos impostos municipais. Problema de moradia? Sem dúvida, e dos mais eloqüentes. E onde está a sensibilidade social do presidente?

Acontece que a produção de casas como "reconciliação" entre capital e trabalho está muito distante do que poderia ser uma verdadeira política de transformação das cidades brasileiras, para que deixem de ser a expressão mais cabal de uma sociedade desigualitária e espoliadora. A reconciliação pressupõe encobrir a própria existência do conflito e de perdedores – pois, afinal, na promoção da casa própria o interesse de todos aparece como sendo igual, e todos ganham. Deixemos a Reforma Urbana pra lá.

"Desculpe a euforia", brincou Lula, mas "o país está perdendo o complexo de cidadão de segunda classe". E antecipou o próximo pacote para beneficiar o setor da construção, para delírio dos empresários: "temos que preparar o projeto de mobilidade urbana para as cidades da Copa do Mundo". E provoca uma última vez, como líder operário que sabe defender melhor os interesses do capital do que os próprios capitalistas: "vocês também tem que mudar de patamar e não apenas eu".

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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Enquanto o petróleo enriquece a Austrália, vazamento é visto como alerta

Meraiah Foley
Em Sydney (Austrália)

Os turistas que esperam observar a exótica vida marinha da Austrália costumam ir direto para a Grande Barreira de Corais. Mas os conservacionistas dizem que um ambiente marinho tão notável, embora menos conhecido, está ameaçado pela crescente exploração de petróleo e gás que acontece entre os recifes e atóis da costa noroeste do país.

Pavel Shevtsov/Reuters - 12.nov.2007

Pássaro coberto de óleo derramado por navio
que se partiu no mar Negro, na Rússia, em 2007.

Um poço de petróleo avariado na região tem expelido milhares de litros de óleo cru no Mar do Timor desde 21 de agosto, quando um vazamento forçou a evacuação de todos os 69 trabalhadores da plataforma. Equipes de emergência vêm trabalhando para conter o derramamento, mas funcionários dizem que poderá levar mais três semanas para bloquear o vazamento.
A plataforma fica acima da jazida de petróleo Montara, a 250 quilômetros a noroeste da base aérea Mungalalu Truscott na região remota da Kimberley, na Austrália. O poço que está vazando é propriedade da companhia nacional de petróleo da Tailândia, a PTT Exploration and Production, uma das muitas companhias de energia que montaram operações no oeste da Austrália para satisfazer o apetite cada vez maior da Ásia por petróleo e gás.
Na primeira metade deste ano, mais de 50 poços foram perfurados nas águas tropicais no litoral oeste da Austrália, somando-se a centenas de outros projetos recentes. No mês passado, o governo deu à Chevron sinal verde para expandir sua exploração na gigante jazida de gás de Gorgon, um projeto de US$ 40 bilhões que foi contestado pelos conservacionistas por causa de seu potencial impacto ambiental.
Os economistas dizem que o aumento no comércio de petróleo e outros recursos minerais ajudou a Austrália a escapar da violência da crise econômica global, mas os ambientalistas dizem que essa prosperidade tem um preço. Eles dizem que o vazamento de petróleo de Montara é meramente um sinal do que virá adiante, a menos que haja uma proteção maior em relação a vastas extensões de recifes tropicais no noroeste da Austrália.
"É um conflito clássico entre o desenvolvimento e os valores ecológicos da região", disse John Carey, gerente do Kimberley Conservation Program para o Pew Environmental Group. "Precisamos encontrar o equilíbrio certo. Mas neste momento o balanço é que menos de 1% dessa área de importância global está sob alguma forma de proteção."
A companhia petrolífera tailandesa disse que ainda está investigando o que causou o vazamento. Para contê-lo, a companhia alugou um equipamento especializado para perfurar a 2,57 quilômetros abaixo do leito marinho e inundar a área com lama pesada.
Mas esse equipamento altamente especializado não chega tão facilmente. Levou três semanas para ser transportado de Cingapura.
A companhia recusou-se a estimar quanto petróleo vazou no mar, dizendo que é muito perigoso fazer medições acuradas a partir do equipamento danificado. A companhia e funcionários australianos, que estão ajudando a limpar o vazamento, dizem que a mancha de óleo tem 40 quilômetros de largura e 136 quilômetros de comprimento, mas parece que o vazamento está diminuindo.
O ministro do meio ambiente, Peter Garrett, disse em setembro que o governo acreditava que 300 a 400 barris de petróleo estavam vazando no mar por dia. Isso representa mais de 1,7 milhão de litros de petróleo, e quantidades desconhecidas de gás e hidrocarboneto líquido, desde que o vazamento começou. Segundo esta conta, o vazamento de Montara é relativamente pequeno. O Exxon Valdez, em comparação, derramou cerca de 41 milhões de litros quando encalhou na costa do Alaska em 1989.
A mancha de óleo não atingiu nenhuma costa, graças em parte às condições climáticas amenas e aos esforços do governo australiano para desfazer a mancha pulverizando-a com dispersante químico. Mas os conservacionistas temem que a mancha possa ter um forte impacto sobre os animais marinhos que se alimentam ou viajam sobre a superfície do oceano ou próximo a ela.
"Precisamos destruir o mito de que um vazamento de óleo só se torna um problema quando chega às praias", disse Gilly Llewellyn, gerente dos programas de conservação da WWF-Austrália.
A companhia tailandesa PTT disse que está comprometida em ajudar a limpar o vazamento e planeja conduzir monitoramento ambiental na região para verificar o prejuízo. O ministro de Energia da Austrália, Martin Ferguson, anunciou planos para uma investigação ampla sobre a causa do vazamento.
Ferguson e a Associação Australiana de Produção e Exploração do Petróleo, que representa 98% dos operadores de petróleo e gás do país, defenderam o recorde do setor, dizendo que o vazamento do poço de Montrara é o primeiro que aconteceu no mar desde 1984.
Pesquisadores marinhos e grupos conservacionistas dizem que são realistas em relação à tendência econômica de continuar desenvolvendo a região, mas querem que o governo estabeleça mais santuários marinhos e regulações ambientais mais severas no oeste da Austrália. O governo deve divulgar uma estratégia para a região no ano que vem.
"Não dá para impedir a produção; esta é uma área imensa de exploração futura", disse Nic Bax, principal investigador do Marine Biodiversity Research Hub. "Precisamos nos certificar de que estamos cooperando com a indústria para determinar qual é a melhor maneira e a mais segura de fazer isso."
Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

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Qual é a participação da China na economia brasileira?

A República Popular da China, que foi fundada há 60 anos, hoje é o país que mais importa produtos brasileiros.

Renata Costa

Terminal privado da China Shipping, armadora de contêineres, no Porto de Santos. Foto: Paulo Vitale

Terminal privado da China Shipping,
armadora de contêineres, no Porto
de Santos.

A China, assim como o Brasil, é considerado um país em pleno crescimento. Por isso, as relações comerciais entre ambos têm crescido muito na última década e a China já tem papel importante na economia brasileira. Para começar, nos primeiros três meses de 2009, ela foi o importador número 1 de nossos produtos, ultrapassando os Estados Unidos que, até então, sempre foram os maiores compradores do Brasil. Com isso, os chineses pagaram US$ 3,4 bilhões por produtos brasileiros, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

Os produtos mais comprados são minério de ferro e soja, mas também petróleo, alimentos e carne. Além disso, segundo um estudo da Fundação Dom Cabral, até 2008, pelo menos 10 das 200 maiores indústrias chinesas já haviam se instalado por aqui.

Por outro lado, o Brasil também importa produtos da China, principalmente materiais eletroeletrônicos e carvão mineral. O sapato chinês era um item que preocupava os fabricantes brasileiros do setor, pois custava mais barato que o produzido aqui. Por isso, a partir de setembro, todo par de sapato que vier de lá terá um imposto fixo de US$ 12,47. Isso aumenta o preço do produto e deixa a concorrência mais leal com o produzido no Brasil.

Mas por que, afinal, o produto chinês é tão mais barato que o nosso? O economista João Pedro da Silva, membro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), explica que o principal motivo é a mão-de-obra chinesa baratíssima. “O país tem mais de um bilhão de habitantes, e boa parte está na zona rural, trabalhando com carvão, já que a área propícia para agricultura é muito pequena. Essas pessoas estão loucas para trabalhar na indústria e, por isso, aceitam salários muito baixos”, explica o especialista. Segundo ele, um trabalhador em uma fábrica chinesa ganha em torno de US$ 25 mensais, ou seja, cerca de R$ 50. É muito pouco para um custo de vida que não é baixo. Um quilo de frutas, por exemplo, custa o equivalente a R$1,50.

Para o economista, a parceria entre os dois países só tende a crescer. “O Brasil é um país de economia estável, por isso o interesse de tantos outros, entre eles a China, de investirem aqui”, afirma.

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

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A economia real está corroída por um câncer

ENTREVISTA Para o jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues, a crise do capitalismo é estrutural, e não cíclica, e os senhores da finança não têm soluções para ela; gigantescas lutas sociais se esboçam no horizonte.


ENTREVISTA Para o jornalista e
escritor português Miguel Urbano
Rodrigues, a crise do capitalismo
é estrutural, e não cíclica, e os
senhores da finança não têm
soluções para ela; gigantescas lutas
sociais se esboçam no horizonteNilton Viana
da Redação

O MUNDO ESTÁ num caos. É assim, como Fidel Castro, que o jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues vê o atual cenário mundial. Segundo ele, Obama mente conscientemente ao repetir exaustivamente que o pior da crise já passou. “Nos EUA e na União Europeia vão ser suprimidos muitos milhões de postos de trabalho para ‘modernizar e racionalizar a produção’, avalia Urbano. Para ele, a economia real está corroída por um câncer, e gigantescas lutas sociais se esboçam no horizonte. E afirma: “a crise do capitalismo é estrutural, e não cíclica, e os senhores da finança não têm soluções para ela.”
Em entrevista, Urbano fala também sobre a Assembleia Geral da ONU, na qual, segundo ele, na caixa de ressonância única, foram proferidos discursos de sinal contrário; analisa o quadro atual da América Latina – o golpe militar em Honduras, as bases militares na Colômbia – e reafirma sua total solidariedade com a Revolução Bolivariana, “baluarte na América do Sul da luta anti-imperialista”. Mas adverte: “Para transformar uma sociedade capitalista numa forma de organização socialista com ela incompatível, a receita não pode ser uma teorização confusa e contraditória que rejeita ou ignora a herança de Marx, Engels e Lenine”.
Brasil de Fato – Passado mais de um ano da eclosão da crise no centro do capitalismo, uma das maiores enfrentadas pela humanidade nos últimos séculos, que avaliação o senhor faz do momento atual?
Miguel Urbano Rodrigues –
O mundo está num caos, como tem afirmado Fidel Castro. A responsabilidade da crise de civilização que a humanidade enfrenta – econômica, financeira, social, cultural, política, militar, energética, ambiental – é do capitalismo.
As medidas adotadas pelos capitalistas têm, de certa forma, amenizado os efeitos da crise? Como o senhor avalia essas medidas? Elas são apenas paliativas?
As medidas adotadas pelos governos dos países industrializados variam de Estado para Estado. A recente reunião do G-20 em Pittsburgh (leste dos EUA) iluminou divergências profundas entre os poderosos e os chamados “emergentes”. O G-20 decidiu transformar-se num fórum permanente de administração da economia global. Alguns analistas concluíram que foi instituída uma espécie de “nova ordem econômica mundial”. Mas inventam. Na realidade a montanha pariu um rato. As únicas medidas concretas saídas de Pittsburgh foram decididas no dialogo entre EUA e Europa.
Obama tem repetido exaustivamente que o pior da crise já passou. Mente conscientemente. Ele próprio reconhece que, embora o PIB possa voltar a crescer no próximo ano, o desemprego continuará aumentando. Nos EUA e na União Europeia vão ser suprimidos muitos milhões de postos de trabalho para “modernizar e racionalizar a produção”. A economia real está corroída por um câncer, e gigantescas lutas sociais se esboçam no horizonte. A crise do capitalismo é estrutural, e não cíclica, e os senhores da finança não têm soluções para ela.
A crise tende a se agravar mais ou os capitalistas vão conseguir alternativas para controlá-la? Quais consequências ainda virão?
A administração dos EUA e os governos da União Europeia insistem em apresentar a crise como resultado de erros cometidos na área da finança; mas, uma vez corrigidos através de um controle dos mercados financeiros, tudo voltará à normalidade.
Na realidade o sistema está podre. Não é somente a quebra de grandes bancos e a salvação in extremis dos gigantes da indústria de automóvel estadunidense (graças à injeção pelo governo de dezenas de bilhões de dólares) que refletem essa putrefação. A engrenagem da finança que controla o establishment sobreviveu intacta e, no fundamental, impõe a sua vontade à Casa Branca. É significativo que o secretário do Tesouro de Obama seja Geithner, um homem-chave de Wall Street. Igualmente significativa é a impotência do presidente para impor limites aos vencimentos e prêmios bilionários que se atribuem aos banqueiros, responsáveis pelo tsunami financeiro desencadeado. As medidas aplicadas até agora visaram sobretudo a salvar os responsáveis pela crise.
A ONU acaba de realizar sua 64ª Assembleia Geral. A tônica dos discursos, especialmente do presidente do Brasil, foi no sentido de pedir regulação do mercado e reforma das instituições, afirmando que é preciso “construir um novo mundo” após a crise financeira. Que avaliação o senhor faz desse cenário da ONU?
Não subestimo a importância para a Humanidade da Assembleia Geral da ONU. Mas, sendo um órgão consultivo, carece de poder para tomar decisões vinculativas. Esse papel cabe ao Conselho de Segurança, hegemonizado pelos EUA com o apoio firme da França de Sarkozy e do Reino Unido de Brown, dois membros permanentes quase sempre solidários com a estratégia imperial de Washington.
Na atual Assembleia Geral, caixa de ressonância única, foram proferidos discursos de sinal contrário. Os grandes meios de comunicação ocidentais cumpriram o seu papel, privilegiando a oratória humanista de Obama, sugerindo que o presidente tudo fará para lutar por uma paz universal e promover a desnuclearização do planeta. Mas, se despojarmos da retórica a fala do presidente dos EUA, o que dela fica é pouquíssimo.
Dias depois, na reunião do G-20, informou que não exclui a “opção militar” se o Irã não se submeter às exigências dos EUA e dos grandes da União Europeia. Como pode lutar pela paz quem fez da vitória na guerra do Afeganistão a primeira prioridade da política de Washington na Ásia? Como acreditar no pacifismo de um presidente que mantém Robert Gates como secretário da Defesa e nomeou para comandante supremo no Afeganistão o general Stanley Mc Chrystal, um oficial com currículo de criminoso de guerra?
É oportuno lembrar que o discurso de Ahmadinejah – uma veemente denúncia das políticas imperiais e dos crimes do sionismo contra o povo da Palestina – foi praticamente ignorado pela mídia ocidental, que chamou sobretudo a atenção para o fato de as delegações dos EUA e de uma dezena de aliados seus terem se retirado do anfiteatro como forma de protesto. A importante intervenção de Hugo Chávez para condenar o gorilazo de Honduras e exigir solidariedade à luta do presidente Zelaya também mereceu escassa atenção da mídia internacional.
E como o senhor analisa os discursos na Assembleia da ONU sobre a crise mundial, especialmente a participação do presidente Lula?
Não atribuo grande significado aos discursos pronunciados na Assembleia Geral sobre a crise financeira e econômica. Na maioria foram exercícios de retórica. Nada concreto vai resultar dos apelos e sugestões ali formulados.
No tocante a Lula, creio que, em vez de debitar lugares-comuns sobre a necessidade de se “construir um mundo novo”, deveria, como chefe de Estado de uma grande nação, batalhar pela construção de um Brasil verdadeiramente soberano e lutar contra desigualdades afrontosas da condição humana nele existentes, isto é, assumir os desafios que tem desconhecido.
Sobre a América Latina, como o senhor analisa o atual cenário que aqui vivemos?
Numa entrevista como esta, seria cair em banalidades ensaiar uma análise mesmo sintética da conjuntura latinoamericana, tal a diversidade de situações existentes. Limito-me, por isso, a chamar a atenção em primeiro lugar para um fenômeno que é global: a contestação crescente dos povos ao sul do Rio Grande à dominação imperial dos EUA. O fracasso total das políticas do chamado Consenso de Washington criou condições favoráveis à eleição em muitos países de presidentes com programas anti-imperialistas moderadamente antineoliberais.
O andamento da história não tardou contudo a demonstrar que era ingênua a convicção de que essas vitórias eleitorais, em alguns casos esmagadoras, garantiam o respeito pelos compromissos assumidos perante o povo. No Brasil, na Argentina, no Uruguai, as expectativas de mudanças radicais foram rapidamente defraudadas. O economista argentino Cláudio Katz, num brilhante ensaio intitulado, “Socialismo ou Neodesenvolvimentismo”, ilumina bem dois campos com projetos divergentes (para não dizer antinômicos). De um lado identifi camos a opção do Brasil de Lula, da Argentina dos Kirchner, do Uruguai de Tabaré Vasquez. Para os defensores dessa linha de compromissos com o inimigo, a tarefa prioritária seria a construção de um “capitalismo regulado”, dependente, sem os males do neoliberalismo. O Mercosul é o instrumento eficaz desse neodesenvolvimentismo, comandado no fundamental por uma classe empresarial moderna, sucessora da burguesia nacional que tantas esperanças suscitou após a 2a Guerra Mundial.
No outro campo, três países – a Venezuela, a Bolívia e o Equador –, embora sem se afastarem da via institucional, escolheram um caminho diferente. Hugo Chávez e Evo Morales, ao proclamarem a sua opção pelo socialismo, enfrentam-se abertamente com Washington.
No Equador, Rafael Correa não vai tão longe, mas a sua política de defesa intransigente da soberania nacional transformou-o, aos olhos do imperialismo norte-americano, num inimigo. Não lhe perdoam o encerramento da Base de Manta, a expropriação de empresas estadunidenses e a sua firmeza na condenação das intervenções militares, diretas e indiretas, da Colômbia de Uribe.
Numa zona intermediária, três países – a Nicarágua, El Salvador e o Paraguai – são hoje governados por presidentes eleitos por forças progressistas. Não cabe aqui refletir sobre o rumo seguido por cada um deles. Registro apenas que, em El Salvador, Funes, levado à presidência pela Frente Farabundo Martí, tem realizado uma política de compromissos incompatível com as grandes tradições revolucionárias daquele partido.
Na Nicarágua, Daniel Ortega, o veterano dirigente da Frente Sandinista, mantêm relações privilegiadas com a Venezuela e a Bolívia, mas o discurso anti-imperialista não encontra tradução no plano interno, frente em que pratica uma política apoiada pela direita e que não fere interesses do imperialismo.
As importantes lutas travadas pelas forças progressistas do México, do Chile e do Peru inserem-se também na grande onda de rejeição ao neoliberalismo, o projeto a que se submetem os respectivos governos, mas o tratamento do tema extrapola também os limites desta entrevista.
Uma referência indispensável a Cuba: sem a resistência da Revolução Cubana a uma guerra não-declarada e a meio século de bloqueio, a atual mobilização dos povos do hemisfério contra a dominação imperialista dos EUA não teria sido possível.
Para terminar, julgo útil sublinhar que a minha total solidariedade com a Revolução Bolivariana, baluarte na América do Sul da luta antiimperialista, não impede de me distanciar daqueles que na Venezuela identificam hoje, no chamado “Socialismo do Século 21”, a ideologia que apresentam como o guia teórico e prático para a ação libertadora dos povos latinoamericanos. Para transformar uma sociedade capitalista numa forma de organização socialista com ela incompatível, a receita não pode ser uma teorização confusa e contraditória que rejeita ou ignora a herança de Marx, Engels e Lenine.
Que avaliação o senhor faz da crise em Honduras, instalada a partir do golpe militar que derrubou o presidente Manuel Zelaya?
É hoje transparente o envolvimento dos EUA no golpe militar que derrubou o presidente constitucional, Manuel Zelaya. Documentação irrefutável prova que o golpe foi concebido com muita antecedência em reuniões realizadas na sede da missão diplomática dos EUA em Tegucigalpa, com a presença do embaixador Hugo LLorens, um cubano de Miami, naturalizado.
O presidente Obama, é fato, condenou o golpe, mas o Departamento de Estado nem sequer define como “golpe” o cuartelazo; e o Pentágono continua a manter relações especiais com os generais que assaltaram o poder. A sede da Força Aérea Hondurenha funciona, aliás, na Base militar norte-americana de Palmerola. Ou seja, sem a cumplicidade de Washington, a situação em Honduras estaria há muito normalizada.
O Equador não permitiu as bases militares dos EUA. No entanto, a Colômbia cada vez mais torna-se fiel escudeiro do império na região. Como o senhor avalia o acordo entre os EUA e a Colômbia que utiliza bases militares no país?
A decisão do governo Obama de instalar na Colômbia sete bases militares estadunidenses insere-se na continuidade da estratégia de dominação mundial dos EUA. O discurso pacifista e humanista do atual presidente e uma campanha de propaganda massacrante contribuíram para que centenas de milhões de pessoas acreditassem que a política imperial de George W. Bush seria substituída por uma política orientada para o fim das guerras imperiais. Mas isto não ocorreu, como afirmei na resposta anterior.
Não se percebe, aliás, como pode Obama conciliar a política do Departamento de Estado que apresenta a Colômbia como uma democracia respeitada e o fato inocultável de o governo de Álvaro Uribe Velez, aliado preferencial, ter características neofascistas ostensivas. A reunião extraordinária da UNASUR em Bariloche foi, registre- se, convocada para denunciar a instalação das sete bases estadunidenses na Colômbia e identificar nessa iniciativa uma ameaça à segurança das nações da América Latina.
Como é do domínio público, o objetivo não foi atingido. E a responsabilidade cabe em parte ao presidente Lula, que se absteve de criticar Uribe e chegou a ser grosseiro ao dirigir- se aos presidentes Chávez, Evo Morales e Rafael Correa. Cabe ao governo brasileiro uma parcela da responsabilidade por uma Declaração Final inócua.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

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SOBRE O PIB DO 2° TRIMESTRE: REALIDADE E MITO

O IBGE publicou, em setembro, os dados sobre o período abril-junho deste ano, detectando um crescimento de 1,9% no PIB ante o 1o trimestre e o retorno de uma parte dos empregos perdidos. Foi suficiente para que se orquestrasse o coro dos empiristas e deslumbrados. As autoridades federais, que emitiram opiniões pueris e até absurdas a partir de setembro de 2008, segundo as quais o País estaria imune a uma crise considerada como doença alheia, hoje se jactam do que julgam ser a façanha de sua exemplar política antirrecessiva. Menos, menos …

Para além do vício pragmático e das pirotecnias midiáticas de costume, potencializados pela disputa presidencial de 2010, que já começou, os analistas e governantes se deparam com dificuldades reais quando tentam fazer prognósticos econômicos sobre o fundo do poço, o tempo necessário para emergir-se e os efeitos a serem esperados. Isso porque, como assinalaram as Teses sobre Conjuntura e Tática (Cap. I, As dimensões cíclicas da crise, tese 20), a crise contemporânea tem múltiplas esferas, que são dinâmicas, interrelacionadas, contraditórias e hoje confluentes entre si:

“a) os fundamentos essenciais, com seus limites absolutos localizados no modo de produção e na reprodução do capital, expressos em forma de impasse universal;

b) as ondas longas – a fase depressiva da última tem mais de três décadas –, com suas características histórico-sociais e limites relativos;

c) os pulsos conjunturais, com suas conformações e características singulares, mais ou menos abrangentes ou persistentes em cada região, país ou momento.”

Ora, os políticos e economistas da ordem, mesmo aqueles com pretensões progressistas e humanitárias – como os social-liberais –, ignoram completamente os fundamentos essenciais (item a) e as ondas longas (item b). Não enxergam a crítica da economia profunda, que embasa a teoria dos ciclos sob o jugo capitalista e que descortina tanto as contradições quanto os limites absolutos da sociabilidade burguesa desde sempre e ainda mais na contemporaneidade. Também estão cegos diante da fase B ou depressiva da onda longa, conhecida como 4º Kondratiev, iniciada em 1972 mundialmente e no Brasil, que persiste e lastreia os ciclos conjunturais e as inúmeras recidivas ocorridos desde então, incluindo seus limites relativos de maior expressão.

O que chamam de crise – grosso modo – é apenas a constatação dos aspectos superficiais e mais notórios do ciclo conjuntural em curso, horizonte máximo de sua miséria teórica e de suas angústias práticas, articuladas em torno do binômio lucro-governabilidade. A conclusão desses profetas do senso comum é que a crise, como um todo, já foi superada. Para Luiz Inácio da Silva a “crise está vencida no Brasil”. Um comentarista da grande imprensa chegou a ombrear a economia brasileira com a chinesa – que teve um aumento no PIB de 2% no 3º trimestre –, decretando uma espécie de “empate técnico”. Existe até quem passou a elogiar o titular do Planalto, aludindo à sua “premonitória” imagem de “marolinha”, a exemplo de articulistas brasileiros e jornais considerados austeros do exterior.

Viseira? Desejo? Ambos? É obvio que o pulso conjuntural no Brasil será ultrapassado mais dia menos dia, com ou sem repiques e recidivas. O comportamento cíclico, como comprovou Marx, é próprio do metabolismo capitalista e sua recuperação é tão certa como dois e dois são quatro. Não menos garantido é que haverá novos pulsos enquanto existir a formação econômico-social burguesa. Também é claro que as políticas federais – o aumento persistente do salário mínimo e os projetos de assistência social, bem como a intervenção do Estado na forma de renúncia fiscal, financiamentos e aumento de gastos públicos – destoantes pontualmente dos dogmas e diretrizes neoliberais prevalecentes em geral ajudaram a evitar o pior em plenadébâcle, possibilitaram o aumento do consumo familiar em 2,1% no 2otrimestre e seguraram o mercado nos últimos meses. Diga-se de passagem: bastou uma pequena oscilação nas condições objetivas para que setores mais conscientes e mobilizados do proletariado, até agora carregando o maior peso da crise, se sentissem motivados e capazes de protagonizar um novo e corajoso ciclo grevista.

Todavia, mesmo a retomada momentânea tem mais complexidades do que, lembrando Shakespeare, “pode conceber” “a vã filosofia” dos ingênuos de sempre e dos vivaldinos de ocasião. Já ficou constatado, pela mera observação da linha desenhada pelos dados empíricos nos eixos do sistema cartesiano bidimensional, que o ciclo conjuntural no Brasil não se assemelhou à letra “V”. Em vez de recuperar-se a partir de imediata ascendência após tocar o fundo do poço, constituindo um vértice pontiagudo, manteve-se em baixa, assumindo uma forma alongada semelhante àquela da parte inferior do “U”. Assim, o fundo espichou-se de janeiro (com suave descida) a junho (com suave subida), isto é, por todo o 1º semestre deste ano.

Se a referência for apenas o PIB, o crescimento de 1,9% em abril-junho superou o recuo de 0,85% em janeiro-março, que foi o termo comparativo para o cálculo, compondo a curvatura típica da mencionada base. Entretanto, a queda de 3,6 no 4o trimestre de 2008 ainda está por ser compensada: a onda conjuntural ainda se situa em sua fase côncava. Eis uma das diferenças abissais – há outras – entre China e Brasil: naquele país oriental ocorreu mais um crescimento de 2% sobre uma base forte e ascendente; nesta nação sul-americana, houve uma recuperação de 1,9% sobre uma base fraca e declinante.

Se o termo de comparação for o desempenho em 2008, a recuperação aparece ainda mais precária. No 1o trimestre de 2009 a retração foi de 1,8%, bem mais pronunciada, pois, do que a recuperação de 1,2% no 2º, ambas consideradas relativamente aos mesmos períodos do ano anterior. A situação da indústria, onde se localizou o epicentro da recessão, é ainda mais débil, haja vista a queda de 19,8% no último trimestre de 2008 e de 3,1% no 1o de 2009 ante os anteriores. A produção baixou 7,9% entre abril-junho de 2009 e o 2o trimestre do ano anterior. Tanto é que a base física da transformação industrial recuou 13,4% no 1o semestre de 2009 sobre igual período de 2008 e continuava, em junho, 11% abaixo da existente antes do ciclo conjuntural da crise.

Logo, o conceito corrente de “recessão técnica”, que referencia as análises dos especialistas oficiais, é insuficiente para entender-se a lógica, a dinâmica e as conseqüências sociais dos processos econômicos, mesmo em se tratando de ciclos de curto prazo, especialmente num país como o Brasil, em que nas últimas décadas o desenvolvimento foi deveras insuficiente – compondo um déficit acumulado de atraso, problemas sociais gravíssimos e pobreza crônica – e em que o desemprego só recuará significativamente se o PIB crescer a uma taxa média sustentada acima de 4,5%, como a experiência vem comprovando.

Mesmo que o movimento de saída do pulso conjuntural – ou a aproximação de uma nova fase convexa – se mantenha firme no 2osemestre, como esperam os responsáveis pelo BNDES, BC e Ministério da Fazenda e Presidência da República, voltando aos níveis de setembro de 2008, a recuperação efetiva, estável e duradoura do crescimento e do mercado de trabalho não se dará antes de 2010, por conta das seguintes características, dentre outras:

- localização em ramos particulares;

- oscilações em parte sazonais, como nos fins de ano;

- índices em geral mais baixos do que os de 2008;

- condições objetivas internacionais adversas;

- comércio exterior inibido;

- mercado interno desequilibrado, sustentado basicamente pelos segmentos de baixa renda e pela venda de bens de consumo financiados;

- produção e importação de meios de produção paralisadas;

- dependência exagerada de estímulos públicos providos por fonte estatal de capacidade limitada e motivação datada;

- sangria constante dos recursos públicos por meio do endividamento a juros altos;

- fonte de bens industriais localizada, basicamente, nos estoques acumulados e na capacidade já instalada;

- taxa muito baixa de formação bruta de capital fixo ou investimento, que caiu 17% no 2o trimestre ante igual período de 2008;

- política econômica eclética, sem uma estratégia clara.

Diante desse quadro, o futuro continua nebuloso. Trata-se de má notícia para os profetas que vaticinam para breve um novo Mar de Almirante! Que futuro poderia ter o diagnóstico desses candides nada voltaireanos, que caíram do céu em setembro de 2008 para as profundas do inferno em janeiro de 2009 e agora se imaginam novamente sentados ao lado do Senhor sem ao menos passar pelo purgatório? Tão somente a repetição inconsciente e trágica do gesto simbólico, pedagógico e irônico do padre José de Anchieta numa praia do litoral sul capixaba, quando simulava esvaziar os oceanos com um simples dedal.

Fonte: Refundação Comunista – http://refundacaocomunista.blogspot.com/

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Consumo excessivo de doces pode levar ao crime, indica estudo

Willy Wonka, doceiro do filme "A Fantástica Fábrica de Chocolates", ficaria horrorizado. Crianças que comem muitos doces podem ser mais propensas à prisão devido a comportamento violento quando se tornam adultas, segundo aponta uma nova pesquisa.

Especialistas britânicos estudaram mais de 17 mil crianças nascidas em 1970 por um período de 40 anos. Das pessoas que apresentaram características violentas quando tinham por volta de 34 anos, 69% comeram doces ou chocolates diariamente até os dez anos. Daquelas que não tiveram qualquer combate violento, 42% haviam comido doces diariamente.

Crianças que comem muitos doces podem ser mais propensas à prisão devido a comportamento violento quando se tornam adultas

Crianças que comem muitos doces podem ser mais propensas à prisão devido a comportamento violento.

O estudo estará na próxima edição da revista "British Journal of Psychiatry", e foi financiado pelo Conselho de Pesquisa Econômica e Social do Reino Unido.

Os pesquisadores disseram que os resultados foram interessantes. Entretanto, mais estudos são necessários, a fim de confirmar esta ligação. "Isso não significa que doces são ruins, é mais uma interpretação sobre como as crianças tomam decisões", disse Simon Moore, da Universidade de Cardiff, um dos autores do trabalho.

Moore diz que os pais que subornam seus filhos com doces e chocolates com o intuito de fazerem com que se comportem podem prejudicá-los. Isso leva crianças à privação do aprendizado de satisfação –o que leva ao comportamento impulsivo e à violência.

No trabalho, Moore e a equipe usaram outras variáveis, como experiências diferentes com a paternidade e a variação socioeconômica.

Estudos prévios haviam descoberto que uma melhor nutrição leva a um comportamento igualmente melhor, tanto em crianças quanto em adultos.

Moore disse que estes resultados não são fortes o suficientes para recomendar pais a pararem de dar doces e chocolates para os filhos. "Isso é uma área inacreditavelmente complexa", disse. "Não é justo culpar os doces."

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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