Monthly Archives: novembro 2009

Classes sociais necessárias e supérfluas

Friedrich Engels

Engels

Freqüentemente, perguntam-nos em que medida as diferentes classes da sociedade são úteis, quase indispensáveis. A resposta, naturalmente, varia para cada período histórico. É indubitável que houve um tempo em que a aristocracia agrária foi um elemento inevitável e necessário da sociedade.

Porém, isto aconteceu há muito tempo. Depois, houve um tempo em que a classe capitalista – a bourgeoisie, com chamam os franceses – surgiu como uma necessidade também inevitável: lutou contra a aristocracia agrária, quebrou seu poder político e conquistou, por sua vez, a hegemonia econômica e política. Entretanto, desde que apareceram as classes, não houve nenhuma época em que a sociedade tenha prescindido da classe trabalhadora. O nome e o nível social desta classe mudou: o servo substituiu o escravo até que o trabalhador livre tomou seu lugar. Por trabalhador livre devemos entender o trabalhador liberado da servidão, assim como de toda a propriedade além de sua força de trabalho.
Uma coisa está clara: quaisquer que sejam as mudanças que se produzam nas camadas superiores não produtivas da sociedade nenhuma sociedade pôde viver jamais sem uma classe de produtores. Portanto, essa classe é necessária em todas as circunstâncias, ainda que deva chegar um tempo no qual já não existirá sob a forma de classe, mas sim que se estenderá por toda a sociedade.
No entanto, em que medida é necessária, hoje, a existência de cada uma destas três classes?
É um eufemismo dizer que, na Inglaterra, a aristocracia agrária é uma classe inútil no plano econômico, mas na Irlanda e Escócia converteu-se em um câncer que as corrói ao despovoar a terra. O único mérito que podem reivindicar os latifundiários da Irlanda e da Escócia é o de provocar as fomes extremas que arremessam os expropriados do outro lado do Atlântico, para substituí-los por carneiros e animais para caça. E tão logo aumente a disputa pelos alimentos vegetais ou animais, a aristocracia dos latifundiários da Inglaterra seguirá o mesmo caminho, ao menos a fração que se apóia na grande propriedade imóvel das cidades. Além disso, logo teremos a concorrência americana nos alimentos. E não nos queixaremos, porque sua ação política tanto na Câmara dos Comuns como na dos Lordes é uma verdadeira praga para a nação.
Mas o que será da classe capitalista, desta classe iluminada e liberada que fundou o Império Colonial britânico e criou a liberdade britânica? Da classe que reformulou o Parlamento em 1831, aboliu as leis cerealistas e baixou as taxas alfandegárias, uma depois da outra? Desta classe que deu vida a gigantescas empresas industriais, a uma imensa frota comercial e a uma rede ferroviária cada vez mais extensa e que segue dirigindo tudo isto na Inglaterra? Esta classe ao menos é tão necessária como a classe operária, à qual dirige e à qual sobrecarrega de progresso em progresso.
A função econômica da classe capitalista era, com efeito, a de criar o sistema moderno das indústrias movidas a vapor e eliminar os obstáculos econômicos e políticos que freavam ou travavam o desenvolvimento desse sistema. Enquanto a classe capitalista cumpria esta função, sem dúvida, era uma classe necessária, dadas as circunstâncias mencionadas. Mas o problema é saber se ainda hoje ela é necessária. Segue cumprindo sua função específica, que é a de dirigir e ampliar a produção social em proveito de toda a sociedade? Vejamos:
Consideremos em princípio os meios de comunicação, que representam a infra-estrutura do modo de produção capitalista. Comprovamos que o telégrafo está nas mãos do governo, Também as ferrovias, assim como grande parte dos transportes marítimos não estão nas mãos de capitalistas individuais, dirigentes de suas próprias empresas, mas de sociedades anônimas, cuja direção se confia a empregados assalariados, funcionários ocupando a mesma posição que os trabalhadores mais altos e melhores pagos entre os operários.
No que se refere aos diretores e acionistas, sabem muito bem que o truste funciona muito melhor se os primeiros não se imiscuem na direção da empresa e os segundos não se misturam no controle dos negócios. De fato, um controle muito fraco e na maioria dos casos, superficial, é a única função que resta aos proprietários da empresa.
Portanto, vemos que os proprietários capitalistas dessas empresas gigantescas não cumprem nenhuma outra função a não ser de embolsar os dividendos a cada semestre. A função social do capitalista passou às mãos de agentes remunerados apesar de o capitalista continuar embolsando, sob a forma de dividendos, as remunerações por funções que deixou de exercer há bastante tempo.
Mas o capitalista, a quem o desenvolvimento das grandes empresas forçou a “se retirar” de sua direção, conserva, entretanto, outra função: a de especular na bolsa com suas ações. À falta de uma ocupação melhor, nossos capitalistas “afastados” – ou mais exatamente supérfluos – especulam à vontade nesse tempo de Mamón. A ele se dirigem com a intenção deliberada de fazer dinheiro e justificam assim o dinheiro que embolsam. Apesar disso, afirmam que o trabalho e a poupança são a origem da propriedade, origem talvez, mas seguramente não o seu fim. Que hipocrisia fechar pela força algumas pequenas casas de jogo, quando a sociedade capitalista não pode prescindir de uma gigantesca casa de jogo, na qual se ganham e perdem milhões e que representam seu mais importante centro! Mas a existência do capitalista “afastado”, que é o proprietário das ações, não só é supérflua como também nociva.
O que é verdade para as ferrovias e para a navegação, o é cada dia mais para todas as grandes empresas industriais e comerciais. A transformação das grandes empresas privadas em sociedades por ações tem sido a diretriz do momento durante estes últimos dez anos e continua sendo. Desde as grandes casas da City Manchester até as grandes empresas siderúrgicas e minas de carvão de Gales e do norte da Inglaterra, assim como as fábricas de Lancashire, tudo é ou era objeto de grandes negócios. Apenas resta uma fábrica de tecidos de algodão em todo Oldham que está em mãos privadas. No mais, o comércio privado é substituído cada vez mais por cooperativas, a maioria das quais só tem de cooperativas o nome, porém, logo voltaremos a este tema. Tudo isso nos mostra que precisamente o desenvolvimento do sistema de produção capitalista é o que faz com que o capitalista seja tão desnecessário, como o tecelão, com a diferença de que este está condenado à morte lenta por fome e o capitalista, que é supérfluo, agora está condenado a morrer lentamente por superalimentação. Só têm uma coisa em comum: nem um, nem outro sabem no que vão se transformar.
De qualquer maneira, o resultado é o seguinte: o desenvolvimento econômico da sociedade moderna tende a uma concentração cada vez mais forte a uma socialização da produção, sob a forma de empresas gigantescas que já não podem ser dirigidas por capitalistas privados. Todas as charlatanices em torno da perspicácia do patrão e dos milagres que realiza se convertem num absurdo quando a empresa alcança certa amplitude. Imaginemos essa perspicácia em uma empresa ferroviária de Londres e do noroeste! Mas o que o dono não pode fazer, os trabalhadores e os empregados assalariados da Companhia podem fazê-lo e com êxito.
Assim pois, no futuro, o capitalista já não poderá justificar seu lucro como “salário de direção e de controle”, porque já não dirige nem controla nada. Recordemos tudo isso quando os defensores do capital nos martelarem com essa frase vazia!
Em outro artigo, já nos esforçamos por mostrar que a classe capitalista é incapaz, além disso, de dirigir o imenso sistema produtivo de nosso país: por um lado, a produção alcançou tal extensão, que todos os mercados estão periodicamente abarrotados de mercadorias; por outro lado, tem-se mostrado cada vez mais inapta, para fazer frente à concorrência estrangeira. Em resumo, consideramos que não só estamos em condições de dirigir a grande industria do país sem a burguesia, como também que sua intervenção provoca prejuízos crescentes.
De novo, dizemo-lhes: saiam! Dêem à classe operária a ocasião de mostrar do que ela é capaz!

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Adeus, Fernando Henrique Cardoso

Adeus também foi feito pra se dizer

Adeus também foi feito pra se dizer

Fernando Henrique Cardoso foi um presidente da República limítrofe, transformado, quase sem luta, em uma marionete das elites mais violentas e atrasadas do país. Era uma vistosa autoridade entronizada no Palácio do Planalto, cheia de diplomas e títulos honoris causa, mas condenada a ser puxada nos arreios por Antonio Carlos Magalhães e aquela sua entourage sinistra, cruel e sorridente, colocada, bem colocada, nas engrenagens do Estado. Eleito nas asas do Plano Real – idealizado, elaborado e colocado em prática pelo presidente Itamar Franco –, FHC notabilizou-se, no fim das contas, por ter sido co-partícipe do desmonte aleatório e irrecuperável desse mesmo Estado brasileiro, ao qual tratou com desprezo intelectual, para não dizer vilania, a julgá-lo um empecilho aos planos da Nova Ordem, expedida pelos americanos, os patrões de sempre.
Em nome de uma política nebulosa emanada do chamado Consenso de Washington, mas genericamente classificada, simplesmente, de “privatização”, Fernando Henrique promoveu uma ocupação privada no Estado, a tirar do estômago do doente o alimento que ainda lhe restava, em nome de uma eficiência a ser distribuída em enormes lucros, aos quais, por motivos óbvios, o eleitor nunca tem acesso.

Das eleições de 1994 surgiu esse esboço de FHC que ainda vemos no noticiário, um antípoda do mítico “príncipe dos sociólogos” brotado de um ninho de oposição que prometia, para o futuro do Brasil, a voz de um homem formado na adversidade do AI-5 e de outras coturnadas de então. Sobrou-nos, porém, o homem que escolheu o PFL na hora de governar, sigla a quem recorreu, no velho estilo de república de bananas, para controlar a agenda do Congresso Nacional, ora com ACM, no Senado, ora com Luís Eduardo Magalhães, o filho do coronel, na Câmara dos Deputados. Dessa tristeza política resultou um processo de reeleição açodado e oportunista, gerido na bacia das almas dos votos comprados e sustentado numa fraude cambial que resultou na falência do País e no retorno humilhante ao patíbulo do FMI.

Isso tudo já seria um legado e tanto, mas FHC ainda nos fez o favor de, antes de ir embora, designar Gilmar Mendes para o Supremo Tribunal Federal, o que, nas atuais circunstâncias, dispensa qualquer comentário.

Em 1994, rodei uns bons rincões do Brasil atrás do candidato Fernando Henrique, como repórter do Jornal do Brasil. Lembro de ver FHC inaugurando uma bica (isso mesmo, uma bica!) de água em Canudos, na Bahia, ao lado de ACM, por quem tinha os braços levantados para o alto, a saudar a miséria, literalmente, pelas mãos daquele que se sagrou como mestre em perpetuá-la. Numa tarde sufocante, durante uma visita ao sertão pernambucano, ouvi FHC contar a uma platéia de camponeses, que, por causa da ditadura militar, havia sido expulso da USP e, assim, perdido a cátedra. Falou isso para um grupo de agricultores pobres, ignorantes e estupefatos, empurrados pelas lideranças pefelistas locais a um galpão a servir de tribuna ao grande sociólogo do Plano Real. Uns riram, outros se entreolharam, eu gargalhei: “perder a cátedra”, naquele momento, diante daquela gente simples, soou como uma espécie de abuso sexual recorrente nas cadeias brasileiras. Mas FHC não falava para aquela gente, mas para quem se supunha dono dela.

Hoje, FHC virou uma espécie de ressentido profissional, a destilar o fel da inveja que tem do presidente Lula, já sem nenhum pudor, em entrevistas e artigos de jornal, justamente onde ainda encontra gente disposta a lhe dar espaço e ouvidos. Como em 1998, às vésperas da reeleição, quando foi flagrado em um grampo ilegal feito nos telefones do BNDES. Empavonado, comentava, em tom de galhofa, com o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, das Comunicações, da subserviência da mídia que o apoiava acriticamente, em meio a turbilhão de escândalos que se ensaiava durante as privatizações de então:

Mendonça de Barros – A imprensa está muito favorável com editoriais.

FHC – Está demais, né? Estão exagerando, até!

A mesma mídia, capitaneada por um colunismo de viúvas, continua favorável a FHC. Exagerando, até. A diferença é que essa mesma mídia – e, em certos casos, os mesmos colunistas – não tem mais relevância alguma.

Resta-nos este enredo de ópera-bufa no qual, no fim do último ato, o príncipe caído reconhece a existência do filho bastardo, 18 anos depois de tê-lo mandado ao desterro, no bucho da mãe, com a ajuda e a cumplicidade de uma emissora de tevê concessionária do Estado – de quem, portanto, passou dois mandatos presidenciais como refém e serviçal.

Agora, às portas do esquecimento, escondido no quarto dos fundos pelos tucanos, como um parente esclerosado de quem a família passou do orgulho à vergonha, FHC decidiu recorrer à maconha.

A meu ver, um pouco tarde demais.

Fonte: Conversa Afiada – http://www.paulohenriqueamorim.com.br

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"Há ONGs para tudo, exceto para melhorar a política", diz escritora Nélida Piñón

Juan Jesús Aznárez

A paixão pelo conhecimento de Nélida Piñón não se esgota na leitura do Antigo e Novo Testamentos, do Alcorão, dos clássicos, e de tudo o que foi publicado sobre a vida e a condição humana. A escritora brasileira de origem galega (da Galícia, norte da Espanha), amante incondicional do polvo e do bacalhau desde que tem dentes, vibra com Kant e a Grécia de Ésquilo, mas também com os pratos de frutos do mar tão abundantes na Espanha.

Alonso Gonzalez/Reuters - 19.out.2005

A escrita Nélida Piñon é imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Filosofia

"Desfruto comendo", diz a autora de "Corazón Andariego" (Editora Alfaguara), uma obra que combina a memória e a criação literária na feliz evocação da saga familiar. "Olhe, esse é do PP, não?" Efetivamente, o secretário de Comunicação do Grupo Popular, Esteban González Pons, senta-se perto, em um refeitório cheio de políticos. A sábia nascida no Rio de Janeiro não lhes tem simpatia: "Há ONGs para tudo, menos para melhorar a política e os políticos".
Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Filosofia, gostaria de viver nos séculos seguintes ao cristianismo, quando ainda sobreviviam os restos pagãos. Nélida Piñón é fecunda e tem uma imaginação regulada pelo conhecimento que lhe ordena viajar, sair de casa, percorrer o mundo e, de passagem, comprar três jornais em cada capital. "Oscilo entre o que a realidade me obriga e o que a imaginação me sugere."
A exaltação gastronômica lhe sugere interessar-se pelos croquetes caseiros e as lentilhas, e a curiosidade pela disputa interna no PP. "Quem você crê que vai ganhar entre Rajoy, Gallardón e Aguirre? Sou muito curiosa." "O galego é muito esperto", digo-lhe. Nélida Piñón quer saber tanto sobre tudo, que quando era menina sentava-se perto dos idosos para escutá-los. Nunca se dava por satisfeita. "Quando acabavam, eu lhes dizia: conte-me mais."
Apaixonada pela Espanha, brasileira até o tutano, devota do avô Daniel e de seus adorados pais, a romancista de "A República dos Sonhos" (1999) é uma mulher alegre, tremendamente organizada e inclinada a se emocionar com a miséria africana e os maus-tratos aos animais. "Nunca comprei uma roupa confeccionada com pele."
E o Rio de Janeiro sede olímpica? Como se sentirá a delegação holandesa, japonesa ou alemã, em uma cidade tão quente e desaforada? A autora prevê sem sombra de dúvida: "Se sentirão em estado de graça. O carioca tem vocação universal. Carioca não é quem nasce, é quem vive aqui. Se você ficar, já será. O Rio é uma cidade maravilhosa."
É o que bem sabe esta mulher com uma casa na Lagoa, ao pé do Cristo, não longe de Ipanema, onde seus amigos degustarão no próximo Natal um bacalhau com passas preparado pela anfitriã, e algumas das esquisitices e caprichos comprados na Espanha. "Estas sardinhas me custaram 0,90 euros em uma loja de bairro." Nélida Piñón tira a lata de um bolso que contém uma caderneta companheira de viagem, o caderno de dados e impressões presentes em uma obra extensa e profunda, merecedora de vários prêmios, entre eles o Príncipe de Astúrias de 2005.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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A Guerra do Contestado

A região denominada "Contestado" abrangia cerca de 40.000 Km2 entre os atuais estados de Santa Catarina e Paraná, disputada por ambos, uma vez que até o início deste século a fronteira não havia sido demarcada. As cidades desta região foram palco de um dos mais importantes movimentos sociais do país.

A formação da Região
A região do interior de Santa Catarina e Paraná desenvolveu-se muito lentamente a partir do século XVIII, como rota de tropeiros que partiam do Rio Grande do Sul em direção à São Paulo.
No século XIX algumas poucas cidades haviam se desenvolvido, principalmente por grupos provenientes do Rio Grande, após a Guerra dos Farrapos, dando origem a uma sociedade baseada no latifúndio, no apadrinhamento e na violência. Após a Proclamação da República, com a maior autonomia dos estados, desenvolveu-se o coronelismo, cada cidade possuía seu chefe local, grande proprietário, que utilizava-se de jagunços e agregados para manter e ampliar seus "currais eleitorais", influenciando a vida política estadual. Havia ainda as disputas entre os coronéis, envolvendo as disputas por terras ou pelo controle político no estado.
Em 1908 a empresa norte americana Brazil Railway Company recebeu do governo federal uma faixa de terra de 30Km de largura, cortando os 4 estados do sul do país, para a construção de uma ferrovia que ligaria o Rio Grande do Sul a São Paulo e ao mesmo tempo, a outra empresa coligada passaria a explorar e comercializar a madeira da região, com o direito de revender as terras desapropriadas ao longo da ferrovia.

A Situação Social
Enquanto os latifundiários e as empresas norte americanas passaram a controlar a economia local, formou-se uma camada composta por trabalhadores braçais, caracterizada pela extrema pobreza, agravada ainda mais com o final da construção da ferrovia em 1910, elevando o nível de desemprego e de marginalidade social. Essa camada prendia-se cada vez mais ao mandonismo dos coronéis e da rígida estrutura fundiária, que não alimentava nenhuma perspectiva de alteração da situação vigente. Esses elementos, somados a ignorância, determinaram o desenvolvimento de grande religiosidade, misticismo e messianismo.

O Messianismo na Região
Os movimentos messiânicos são aqueles que se apegam a um líder religioso ou espiritual, um messias, que passa a ser considerado "aquele que guia em direção à salvação". Os "líderes messiânicos" conquistam prestígio dando conselhos, ajudando necessitados e curando doentes, sem nenhuma pretensão material, identificando-se do ponto de vista sócio econômico com as camadas populares. Na região sul, a ação dos "monges" caracterizou o messianismo, sendo que o mais importante foi o monge João Maria, que teve importante presença no final do século passado, época da Revolução Federalista (1893-95).

O monge João Maria.

Durante muitos anos apareceram e desapareceram diversos "monges", confundidos com o próprio João Maria. Em 1912 surgiu na cidade de Campos Novos, no interior de Santa Catarina, o monge José Maria. Aconselhando e curando doentes a fama do â??mongeâ?? cresceu, a ponto de receber a proteção de um dos mais importantes coronéis da região, Francisco de Almeida. Vivendo em terras do coronel, o monge recebia a visita de dezenas de pessoas diariamente, provenientes de diversas cidades do interior. Proteger o monge passou a ser sinal de prestígio político, por isso, a transferência de José Maria para a cidade de Taquaruçu, em terras do coronel Henrique de Almeida, agudizou as disputas políticas na região, levando seu adversário, o coronel Francisco de Albuquerque, a alertar as autoridades estaduais sobre o desenvolvimento de uma "comunidade de fanáticos" na região.
Durante sua estada em Taquaruçu, José Maria organizou uma comunidade denominada "Quadro Santo", liderada por um grupo chamado "Os Doze pares de França", numa alusão à cavalaria de Carlos Magno na Idade Média, e posteriormente fundou a "Monarquia Celestial".

Caboclos armados.

O Confronto (1912-16)
Ao iniciar a Segunda década do século, o país era governado pelo Marechal Hermes da Fonseca, responsável pela "Política das Salvações", caracterizada pelas intervenções político-militares em diversos estados do país, pretendendo eliminar seus adversários políticos. Além da postura autoritária e repressiva do Estado, encontramos outros elementos contrários ao messianismo, como os interesses locais dos coronéis e a postura da Igreja Católica no sentido de combater os líderes "fanáticos".
O primeiro conflito armado ocorreu na região de Irani, ao sul de Palmas, quando foi morto José Maria, apesar de as tropas estaduais terem sido derrotadas pelos caboclos. Os seguidores do monge, incluindo alguns fazendeiros reorganizaram o "Quadro Santo" e a Monarquia Celestial; acreditavam que o líder ressuscitaria e o misticismo expandiu-se com grande rapidez. Os caboclos condenavam a república, associando-a ao poder dos coronéis e ao poder da Brazil Railway.

Grupo de soldados federais.

No final de 1913 um novo ataque foi realizado, contando com tropas federais e estaduais que, derrotadas, deixaram para trás armas e munição. Em fevereiro do ano seguinte, mais de 700 soldados atacaram o arraial de Taquaruçu, matando dezenas de pessoas. De março a maio outras expedições foram realizadas, porém sem sucesso.
A organização das Irmandades continuou a se desenvolver e os sertanejos passaram a Ter uma atitude mais ofensiva. Sua principal líder era uma jovem de 15 anos, Maria Rosa, que dizia receber ordens de José Maria. Em 1° de setembro foi lançado o Manifesto Monarquista e a partir de então iniciou-se a "Guerra Santa", caracterizada por saques e invasões de propriedades e por um discurso que vinculava pobreza e exploração à República.
A partir de dezembro de 1914 iniciou-se o ataque final, comandado pelo General Setembrino de Carvalho, mandado do Rio de Janeiro a frente das tropas federais, ampliada por soldados do Paraná e de Santa Catarina. O cerco à região de Santa Maria determinou grande mortalidade causada pela fome e pela epidemia de tifo, forçando parte dos sertanejos a renderem-se, sendo que os redutos "monarquistas" foram sucessivamente arrasados.
O último líder do â??Contestadoâ??, Deodato Manuel Ramos foi preso e condenado a 30 anos de prisão, tendo morrido em uma tentativa de fuga.
As fotos foram retiradas do livro "O CONTESTADO" de Eduardo José Afonso, Editora Ática, Coleção Guerras e Revoluções Brasileiras.
Depois de 4 anos de perseguições e de grande mortalidade, o movimento da região do Contestado foi desfeito, a fronteira entre os estados foi demarcada e consolidou-se o poder dos latifundiários no interior.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

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A televisão como Moderno Príncipe

Giulio Ferroni

Para o professor de literatura italiana da Universidade La Sapienza, de Roma, Giulio Ferroni, a concepção gramsciana do moderno Príncipe não está presente nas ideias dos atuais partidos de esquerda italianos. Ele é enfático ao dizer que, na Itália, “o moderno Príncipe atual é a televisão”. Ferroni ressalta que na política italiana Gramsci foi usado como modelo polêmico, principalmente entre 1950 e 1960. “O Partido Comunista procurou construir um modelo gramsciano”, impondo uma “hegemonia” cultural própria, ele explica. E, em seguida, dispara: “Mas aquele modelo atuou apenas em parte sobre as massas trabalhadoras e foi cancelado totalmente pelo domínio da mídia, da cultura da aparência, da publicidade, do espetáculo”.

De sua produção intelectual, citamos: Mutazione e riscontro nel teatro di Machiavelli (Roma: Bulzoni, 1972), Il comico nelle teorie contemporanee (Roma: Bulzoni, 1974) e Istruzione, cultura e illusioni della riforma (Turim: Einaudi, 1997). A entrevista a seguir foi concedida por e-mail à IHU On-Line.

Qual é a atualidade do conceito de intelectual orgânico, cunhado por Gramsci?
Poder-se-ia dizer que o conceito de intelectual orgânico é, ao mesmo tempo, atual e inatual. Atual pela lucidez com que Gramsci estendeu a categoria de intelectual, incluindo não só as figuras tradicionais (escritores, filósofos, artistas, etc.), mas abrangendo todas as figuras de técnicos e de mediadores do consenso e das formas de consciência e conhecimento sob títulos diversos (aqueles que hoje poderíamos chamar de operadores culturais). Inatual porque hoje não podemos mais falar de intelectuais que sejam orgânicos para uma classe ou um grupo de classes. Quando muito, há intelectuais funcionários que são orgânicos em relação ao sistema de comunicação e intelectuais “não orgânicos”, que resistem ao sistema global da comunicação, sem nenhum mandato social.
Na Itália, como a intelectualidade da esquerda e a da direita se posicionaram no século XX com base neste conceito?
No fundo, os verdadeiros intelectuais orgânicos foram aqueles “políticos” com que precisamente o fascismo tentou construir, mesmo que contraditoriamente, um modelo de atividade intelectual centralizada, reunindo em torno de uma função orgânica até mesmo intelectuais divergentes e de oposição (como é o caso do Instituto da Enciclopédia Italiana e da atividade de Giovanni Gentile, ou da revista Primato, dirigida por Giuseppe Bottai). Na esquerda, foi o Partido Comunista Italiano, de 1945 a 1970, que tentou, de várias maneiras, criar um grupo de intelectuais orgânicos, empenhados no trabalho de construir o consenso para aquele “Moderno Príncipe” que era o partido. Mas diga-se que se tratou prevalentemente de intelectuais “políticos” ou de intelectuais funcionários, enquanto as contribuições mais fecundas para o pensamento e a política de esquerda vieram precisamente de intelectuais “não orgânicos”.
Como o senhor faz a análise da influência de Maquiavel no pensamento político de Gramsci? Que elementos conserva do escritor florentino e em que o supera?
Para Gramsci, Maquiavel  é um grande modelo “mítico”. Gramsci vê em Maquiavel a capacidade de confrontar-se com as mais avançadas monarquias europeias da época e a busca de uma intervenção sobre a situação italiana que criasse, também na Itália, um regime centralizado e moderno: o Príncipe é aquele que sabe dar-se conta da situação e sabe pôr em campo todos os meios para agir sobre ela, conquistando no “povo” o necessário consenso. Assim, o partido moderno deve ter, como o Príncipe de Maquiavel, aquela capacidade de suscitar consenso e de intervir de modo revolucionário na situação contemporânea. Este é, precisamente, o mito do “Moderno Príncipe”. Mas Gramsci também percebeu, no cárcere, a falência do projeto de Maquiavel, acabando por também ver nele uma imagem de sua própria derrota.
Quais seriam as maiores diferenças entre a concepção de Estado de Gramsci em relação a Marx e Lenin?
A maior diferença está no fato de que, em seu pensamento mais maduro, Gramsci parece indicar a imagem de um Estado muito articulado, cuja estrutura não deve apoiar-se sobre a ditadura do proletariado, mas sobre a capacidade do proletariado de ser “hegemônico”, de impor o desenvolvimento revolucionário através do consenso e da aliança com as classes intermediárias.
Togliatti afirmou que Gramsci era o primeiro bolchevique italiano, o primeiro leninista do país. De que modo a concepção gramsciana de “Moderno Príncipe” influencia os atuais partidos de esquerda na Itália?
Bolchevique nos anos da revolução soviética e naqueles da fundação do Partido Comunista Italiano, Gramsci se afastou do bolchevismo no pensamento mais maduro dosCadernos do cárcere, pensamento que também é animado por uma forte contraditoriedade e por uma grande tensão dramática. Quanto à concepção do “Moderno Príncipe”, os atuais partidos de esquerda, também aqueles que ainda pretendem ser “comunistas”, estão, com efeito, muito distantes disto. Na realidade, o atual “Moderno Príncipe” não é mais um partido ou o partido, mas é a televisão.
Para Lenin, os sovietes são órgãos do governo para os trabalhadores, os quais são conduzidos pelo estrato de vanguarda do proletariado e não pelas massas trabalhadoras. De que modo esta situação se apresentou na Itália? Houve na Itália uma revolução cultural do ponto de vista gramsciano?
Parece-me que, na política italiana, Gramsci tenha sido usado como modelo polêmico e lhe tenham sido atribuídos os pontos de vista mais diversos e até mesmo opostos. Sobretudo nos anos 1950 e nos primeiros anos 1960, o Partido Comunista procurou construir um modelo gramsciano, procurando impor uma “hegemonia” cultural própria, até mesmo por causa da inteligência, da rica cultura dos seus dirigentes, mas que atuou apenas em parte sobre as massas trabalhadoras e foi totalmente eliminado pelo domínio da mídia, da cultura da aparência, da publicidade, do espetáculo.
Poderia dar detalhes do contexto no qual emergem e o que eram as Comissões Internas, consideradas por Gramsci como embriões de sovietes?
Em meio aos conflitos econômicos e sociais da Itália saída da Primeira Guerra Mundial, no contexto muito vivaz e vital da Turim operária, os conselhos de fábrica foram uma grande tentativa de gestão direta da fábrica por parte dos operários (que o turinense Gobetti  apreciava precisamente a partir de um ponto de vista “liberal”): certamente havia muitas semelhanças com os sovietes, mas eles emergiam num horizonte cultural, econômico e social muito diverso.
Gramsci teve influência na literatura italiana? De que forma?
A influência foi importante do ponto de vista da crítica e da teoria literária, e, sobretudo, da linguística. Um eco da reflexão de Gramsci é sentido provavelmente naquelas experiências que confrontaram a língua nacional com os diversos dialetos, que deram atenção aos encontros e conflitos entre a língua literária e a expressividade das línguas regionais (de Pasolini a Meneghello). No famoso livro de Pasolini, Le ceneri di Gramsci, há uma referência a um modelo heroico, à perspectiva histórica e política e ao empenho por uma nova humanidade que Gramsci representa, mas não se pode falar de um verdadeiro influxo de Gramsci. Sobre narradores e poetas a influência de Gramsci foi somente indireta.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – http://www.unisinos.br/ihu/

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Trabalho integrado

Projeto mostra como a escola pública pode se transformar num espaço de reflexão.

Fabrício Marques

A escola municipal de ensino fundamental Vicente Ráo, localizada em Campinas (SP), foi campo de trabalho de um projeto de pesquisa que buscou transformar a organização burocrática do ensino público, combatendo a fragmentação e a falta de diálogo que, com frequência, marcam as relações entre professores, gestores e alunos. Docentes e dirigentes da instituição receberam bolsas para participar do projeto “Trabalho integrado na escola pública: participação político-pedagógica”, coordenado por Pedro Ganzeli, professor da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e financiado pelo Programa de Melhoria do Ensino Público da FAPESP.
O objetivo principal do projeto foi construir novas formas de conceber a prática da organização escolar, transformando as relações de trabalho no âmbito interno da escola e entre ela e os órgãos centrais da educação. A partir da crítica sobre a fragmentação verificada na realidade escolar e a pouca participação dos profissionais na definição das atividades cotidianas, ações foram elaboradas, executadas e avaliadas pelos próprios sujeitos que vivenciam o cotidiano educacional. Um problema associado à relação da escola com os órgãos centrais de ensino era a falta de coordenação entre as esferas administrativa e pedagógica. “A supervisora educacional conversava com a diretora escolar enquanto a coordenadora pedagógica mantinha contato com a orientadora pedagógica de forma isolada. E esse grupo de especialistas nunca se reunia para promover uma ação conjunta”, diz Ganzeli. Ao longo dos três anos de duração do projeto, um grupo que chegou a 19 bolsistas participou de 114 reuniões gerais, voltadas para a reflexão das ações pedagógicas e a elaboração de ações concretas. A metodologia utilizada foi a de “pesquisa-ação”, na qual se permite que todos os pesquisadores participantes intervenham na condução do processo de pesquisa, o que favorece a avaliação dos impactos gerados na realidade escolar. “A intenção era fazer com que os sujeitos refletissem sobre o seu trabalho e, dessa reflexão, surgissem propostas de ação, que mais tarde seriam avaliadas e resultariam em novas propostas e novas ações”, explica.
Uma das ações do projeto foi a elaboração de uma estrutura comum de plano de ensino para todos os professores, favorecendo a definição clara e objetiva dos conteúdos e do desenvolvimento das atividades didáticas previstas anualmente de todas as disciplinas. A princípio houve resistência, pois o plano foi interpretado como uma forma de controle. Mas, com os debates nas reuniões de pesquisa, os bolsistas compreenderam a vantagem de trabalhar de forma integrada e o plano de ensino foi percebido como instrumento didático que favorece a interdisciplinaridade. “No início diziam que mudar era uma utopia”, diz Ganzeli. “Não acreditavam que poderiam fazer pesquisa científica. Com o desenvolvimento das atividades de pesquisa, eles começavam a perceber de forma mais clara o que estava ocorrendo em seu próprio trabalho. E isso foi criando a ideia de pesquisa coletiva. Mudaram o fazer pedagógico tendo como referência maior a reflexão sobre a própria prática, tiveram um aprendizado organizacional e passaram a acreditar na transformação da escola pública.”

Equipe completa - Participar das reuniões gerais e reuniões específicas dos subprojetos, fazer registros em diários de campo e produzir relatórios mensais foram os principais procedimentos de trabalho adotados na pesquisa. A escola Vicente Ráo foi escolhida porque tinha a equipe de gestores completa – uma diretora, duas vices e uma orientadora pedagógica –, condição importante para analisar a relação entre o comando da escola e os professores. “O projeto de pesquisa foi elaborado de forma participativa, quando gestores e professores levantaram as principais necessidades da unidade escolar, sendo essas transformadas em subprojetos, coordenados por grupos de pesquisadores da própria escola”, diz Ganzeli. “É uma inovação colocar professores e gestores no desenvolvimento de uma pesquisa comum”, afirma.
Com todos os professores participando coletivamente do planejamento escolar, as atividades de educação física, por exemplo, ganharam cores interdisciplinares. Os Jogos Interclasses, que possuíam um caráter excludente, uma vez que só os melhores participavam, foram transformados em Jogos da Amizade e garantiu-se a participação de todos os alunos. Promoveu-se entre os professores a integração interdisciplinar. “Muitos foram os exemplos de integração. A professora de ciências utilizou o evento dos jogos para medir os batimentos cardíacos dos alunos, a professora de matemática produziu quadros estatísticos de desempenho das equipes com seus alunos e a professora de português coordenou a montagem de uma revista pelos alunos dos jogos com entrevistas e textos históricos dos Jogos Olímpicos”, diz Ganzeli. O combate ao preconceito foi um dos motes de um subprojeto voltado para a inclusão social. “Um aluno portador de deficiência visual candidatou-se a representante do Conselho de Escola e foi tratado com respeito por todos durante a campanha. Esse foi um dos frutos do trabalho integrado entre os professores de educação especial, funcionários e demais professores”, afirma o pesquisador.
Atribuiu-se ao projeto um incentivo para que gestores e professores buscassem qualificação. A diretora, uma vice-diretora e três professores incentivados pelo desenvolvimento das atividades de pesquisa resolveram fazer cursos de especialização. A experiência, observa Ganzeli, deve ser compreendida como uma construção dos próprios sujeitos da escola. “Não estamos preocupados em reproduzir um modelo de gestão, mas incentivar a investigação sistematizada da prática político-pedagógica na escola pública. Observamos que os participantes da pesquisa, gestores e professores, passaram a levantar esse debate nas demais escolas em que trabalham”, afirma o professor, que planeja sistematizar num livro o conhecimento acumulado no projeto.
O Programa de Melhoria do Ensino Público da FAPESP já apoiou 121 projetos desde sua criação, em 1996. Uma das exigências do programa é o envolvimento dos professores da rede pública como coparticipantes, por meio da distribuição de bolsas. Sua meta principal é incentivar soluções de problemas ou de desafios específicos das escolas, além de aproximar estudantes e professores do conhecimento gerado por outros programas da Fundação, como já aconteceu, por exemplo, com o Biota-FAPESP, que estuda a biodiversidade paulista. “O programa vem evoluindo, incorporando benefícios complementares, como a reserva técnica, que dá mais flexibilidade aos pesquisadores”, diz Marilia Sposito, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e coordenadora do programa.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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A crise, do rescaldo ao que vem por aí

Professor do IE prevê baixo dinamismo intercalado por períodos de melhora

SILVIO ANUNCIAÇÃO

Em setembro do ano passado, a imprensa mundial anunciava a falência de uma das mais influentes instituições de Wall Street, o banco de investimento Lehman Brothers. Após período de quebras de outras instituições financeiras, crise do setor automotivo, demissões em massa e período de recessão mundial, indicadores recentes sinalizam para uma recuperação da renda e do emprego. Passado um ano do episódio que marcou, até o momento, a fase mais aguda da crise, já se fala em fim da recessão e discute-se um cenário pós-crise. Mas, afinal, a crise acabou mesmo? O professor Ricardo Carneiro, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, faz uma análise conjuntural do quadro atual e traça cenários futuros. Membro do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon) do IE, o docente prevê “um lento desenrolar da crise, marcado por um baixo dinamismo que pode ser compatível com alguns períodos de melhora”.

Na entrevista que segue, Carneiro analisa que, ao contrário da crise de 1929, a forma e intensidade da ação do Estado determinaram uma menor gravidade do quadro atual. Mas, alerta: “Durante um tempo mais ou menos longo, todos vão procurar reduzir suas dívidas ao invés de gastar”. Sobre uma nova configuração para o poder econômico global, ele antecipa: “Dificilmente, a economia americana voltará a ser a ‘locomotiva do mundo’, mas não há outra candidata a substituí-la”.

Jornal da Unicamp – Já podemos falar em um cenário mundial pós-crise? Há sinais que evidenciem este cenário ou pelo menos de que o pior da crise tenha passado?
Ricardo Carneiro - Não creio que a crise tenha sido superada tão depressa. O fato de estar havendo uma leve recuperação da renda e do emprego nos países avançados e nos periféricos não significa muito diante da profundidade da crise. De qualquer modo, há uma forte divergência entre os economistas quanto ao assunto. Há os que apostam que “o pior já passou”, outros que falam em reincidência de fases mais agudas. Do meu ponto de vista estaremos diante não de movimentos bruscos, mas de um lento desenrolar da crise, marcado por um baixo dinamismo permanente que pode, eventualmente, ser compatível com alguns períodos de melhora. Ou seja, creio que a crise terá uma dimensão crônica.

JU – Após a crise de 1929 houve longo período de recessão mundial.Desta vez, em um ano, a recessão parece estar chegando ao fim. Houve uma reação exagerada com a atual crise ou o mundo está mais preparado para sair de turbulências como as de 1929?
Ricardo Carneiro – A grande diferença que marca o desenrolar da crise atual ante a crise de 1929 é a forma e intensidade da ação do Estado. Em 1929 houve uma espécie de omissão do Estado – por meio das suas principais agências econômicas, o Banco Central e o Tesouro. As ações só começaram a ganhar corpo, no caso americano, por exemplo, em 1933, quando o impacto maior da crise em termos de emprego e PIB já havia se manifestado.

Em 2008, o Estado agiu prontamente com os bancos centrais emprestando dinheiro barato aos bancos e uma gama mais ampla de instituições financeiras. O Tesouro, por sua vez, ampliou seus gastos. Com isso se evitou uma falência em cadeia dos agentes – o que os economistas chamariam de deflação – e, ao mesmo tempo, promoveu-se uma sustentação da renda pelo gasto público.

Isto explica a menor gravidade da crise atual em termos de perda de renda e emprego. Ma é preciso também analisar os limites da ação do Estado; ela vai se manifestar exatamente na forma e intensidade da recuperação. Depois da catástrofe de 1929 houve, na década de 1930, uma recuperação substantiva induzida pelo gasto público. Agora é diferente: ao evitar a deflação, o Banco Central evitou que os ativos e endividamento das famílias e das empresas “virassem pó” como no passado. Em contrapartida, o fato de manter as dívidas faz com que esses agentes estejam menos dispostos a gastar seus eventuais aumentos de renda, induzidos pelo setor público. Durante um tempo mais ou menos longo todos vão procurar reduzir suas dívidas ao invés de gastar.

JU – É possível fazer uma comparação entre as duas crises?
Ricardo Carneiro - Há semelhanças e diferenças. Ambas as crises são resultado da operação de um capitalismo desregulado e financeirizado. Nas duas houve um processo de ampliação sustentada de preços de ativos, descolada dos fundamentos, as chamadas bolhas que terminaram por “furar”, ocasionando vários tipos de problemas. É interessante notar que esse tipo de capitalismo tem na especulação uma importante mola propulsora que lhe confere durante certo tempo elevado dinamismo.

Mas, ele leva sempre a um “descolamento” e a um ajuste que nem mesmo a ação do Estado pode evitar. As diferenças são relevantes e dizem respeito de um lado ao ativo principal sobre o qual se fixou a especulação. Em 1929, a bolsa de valores era o carro-chefe; em 2008, os imóveis. No segundo caso, o grau de envolvimento das famílias foi muito maior. Ou seja, havia um percentual mais elevado de famílias americanas comprometidas na especulação imobiliária, até porque a propriedade de imóveis é mais disseminada.

JU – Com a fragilidade da economia norte-americana diante da crise, o senhor acha que haverá, do ponto de vista econômico, uma divisão de forças e uma nova configuração internacional?
Ricardo Carneiro - Na verdade, mesmo antes da crise já era visível uma certa redistribuição do poder econômico global em direção à Ásia e principalmente à China. A crise deve acelerar este processo, mas ele será eivado de contradições ou de marcha e contra-marchas. Eis alguns exemplos: dificilmente a economia americana voltará a ser a “locomotiva do mundo” como foi no ciclo recente, mas não há outra candidata a substituí-la.

Para manter o ritmo de crescimento, as economias asiáticas terão que se alimentar do dinamismo interno, o que não é trivial. O crescimento da dívida pública americana deverá criar algum grau de rejeição ao dólar como moeda de reserva internacional. No entanto, não há no horizonte uma moeda substituta para cumprir o seu papel. A proliferação de moedas/acordos regionais pode ser uma resposta. Em síntese, nós deveremos entrar num período de relações econômicas internacionais mais instáveis até que alguma outra ordem de maior estabilidade seja posta no seu lugar.

JU – Podemos falar num novo modo de regulação da economia internacional e da reabilitação do papel Estado nessa regulação?
Ricardo Carneiro – Até o momento não, pois o que temos de fato é o G-20 que constitui na prática um grupo informal de consulta. É importante enquanto agrupamento por incluir países em desenvolvimento, mas seria necessário que caminhasse para alguma forma institucional. Por sua vez é necessário considerar que há interesses divergentes dentro do grupo. Na minha opinião, uma forte regulação do sistema financeiro internacional, ou seja, dos fluxos de capitais, que constituiria a contrapartida à regulação financeira doméstica, não interessa aos EUA. Isto significaria reduzir a importância do dólar no cenário internacional. As medidas que têm se originado do G-20 são, por enquanto, cosméticas ou retóricas.

JU – O senhor poderia citar aspectos negativos e positivos de reação à crise que foram adotados pelos principais países afetados, incluindo o Brasil?
Ricardo Carneiro – Creio que a resposta à crise nos vários países, incluindo o Brasil, foram no geral positivas. Ela envolveu a aceitação da importância do papel do Estado como instrumento de estabilização em momentos de turbulência. O aspecto negativo é que esse papel estabilizador é visto como necessário apenas em momentos de crise. Ou seja, creio que não se viabilizou ainda um consenso ancorado em forças sociais expressivas capazes de propor e implantar uma nova forma de regulação e de participação do Estado na vida econômica capaz de evitar a constituição de economias guiadas pela especulação.

JU – Qual é o papel dos Brics – Brasil, Rússia, Índia e China – na retomada do crescimento mundial diante deste cenário?
Ricardo Carneiro - O que caracteriza esses países é uma certa capacidade – diferenciada entre eles – de resistir à crise. A China está muito melhor posicionada pelo seu grau de desenvolvimento produtivo, volume de reservas internacionais, perfil da política econômica etc. Seguem-se a Índia, o Brasil e a Rússia. De todo modo, devemos deixar de lado a ilusão de que esses países podem liderar um novo ciclo de crescimento mundial: eles não têm as pré-condições para fazê-lo, tais como tamanho, moeda, finanças, controle da tecnologia etc. Talvez, quem sabe, essa capacidade possa vir daqui a uns 20, 30 anos se esses países continuarem numa trajetória de crescimento acelerado.

JU – Em certa medida, a crise evidenciou, internacionalmente, o bom desempenho da economia brasileira, já que o país foi um dos últimos a entrar e está sendo um dos primeiros a sair dela, segundo analistas. Que fatores podemos destacar da economia brasileira que contribuíram para o bom desempenho do país diante da crise, quando comparado a outras nações?
Ricardo Carneiro - As ações do Brasil têm semelhanças e distinções com as dos demais países. Do ponto de vista macroeconômico, seguimos a orientação correta de realizar uma política anti-cíclica de razoável envergadura: reduzimos a taxa de juros para patamares civilizados – embora com algum atraso em relação aos demais países – e diminuímos o superávit primário em cerca de 2% do PIB.

Cometemos o pecado de deixar a nossa moeda se valorizar, o que nos custou algum dinamismo e pode custar ainda mais no futuro. De qualquer modo, nessa dimensão, o saldo foi positivo. O outro aspecto que merece ser enfatizado, e que é talvez o mais importante, refere-se à ação do Estado no plano mais estrutural. O Brasil – assim como a China, a Índia e a Rússia – possui importantes setores econômicos controlados pelo Estado. Assim foi possível evitar uma queda substancial no crédito por meio dos bancos públicos e assegurar um programa importante de investimentos na área de energia por meio da Petrobrás. O PAC também tem constituído um importante instrumento de criação de expectativas favoráveis sobre o futuro. Em resumo, enfrentamos melhor a crise, saímos dela com uma perspectiva razoável de crescimento mas ainda é necessário deixar mais clara a estratégia de um crescimento de longo prazo num mundo marcado por fortes incertezas.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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A atualidade do pensamento árabe sobre a tradução

Manhal Kasouha

Atualmente é vasta a produção intelectual em torno de questões relativas à prática da tradução, embora esse tema tenha despertado o interesse de estudiosos ainda em épocas remotas. No entanto, nota-se uma escassez no que diz respeito à divulgação em língua portuguesa das ideias desenvolvidas por teóricos árabes no campo da tradução. Foi com essa preocupação em mente que desenvolvi dissertação de mestrado (“Os clássicos árabes da teoria da tradução", que pode ser lida integralmente em: http://www.pget.ufsc.br/curso/dissertacoes_defendidas.php no curso de Pós-graduação em Estudos da Tradução, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Os objetivos da dissertação incluíram a tradução para o português de textos sobre a prática da tradução escritos por estudiosos árabes em diferentes épocas e o cotejo das ideias desses autores com as indagações de dois teóricos alemães, com a finalidade de se descobrir possíveis semelhanças no pensamento desses estudiosos. Os textos traduzidos foram escritos por al-Jáhiz (776-868), as-Safadi (1296-1363), Suleimán al-Bustáni (1856-1925) e Taha Hussein (1899-1973). As ideias contidas nesses textos foram confrontadas com algumas considerações teóricas de Schleiermacher (1768-1834) e Humboldt (1767-1835), intelectuais cuja obra ainda nos dias de hoje exerce grande influência no campo dos Estudos da Tradução. É desse estudo comparativo que trata o presente artigo.
A análise dos textos em questão logrou demonstrar algumas semelhanças entre o posicionamento dos teóricos alemães e aquele dos estudiosos árabes. Por exemplo, a leitura dos textos de Humboldt, Taha Hussein(طه حسين) e al-Jáhiz (الجاحظ)revela, por um lado, uma mesma preocupação com a atividade da tradução, qual seja, a dificuldade de se conciliar forma e conteúdo, ou forma e sentido, sobretudo na transposição de obras literárias, e por outro lado, visões semelhantes no que diz respeito ao papel do tradutor e aos conceitos de língua e cultura. No século IX, al-Jáhiz, importante prosador nascido em Basra, já se deparava com a questão da traduzibilidade da poesia, tema esse que veio a ser abordado também por Humboldt, quase um milênio mais tarde. Para al-Jáhiz, a dificuldade, senão a impossibilidade, de se traduzir a poesia reside principalmente no fato de que, na tradução, rompe-se a forma poética e elimina-se a métrica, justamente os elementos portadores da beleza de um poema, na visão do autor. Segundo al-Jáhiz, caso a poesia árabe tivesse sido traduzida para outras línguas, ter-se-ia destruído exatamente aquele elemento que constituiria a novidade para os leitores estrangeiros, visto que, no que diz respeito aos significados, nada haveria de novo para esses leitores.
Humboldt, tendo traduzido para o alemão a obra Agamêmnon, do poeta grego Ésquilo, escreveu uma introdução, na qual discute alguns aspectos teóricos e práticos da tradução tal como ele os vivenciou durante a tradução desta obra. O seu principal argumento é que, se não levarmos em consideração as palavras e expressões que se referem somente a objetos físicos, não nos é possível encontrar numa língua palavras às quais correspondam com perfeição palavras de uma outra língua. Possivelmente, isso se deve ao fato de que as palavras refletem a experiência de seus falantes, e esta, por ser sempre situada, difere de uma cultura para outra. Portanto, salienta Humboldt, uma tradução que busque alcançar um grau elevado de fidelidade, torna-se desviante por esse mesmo fato.
De modo semelhante, as-Safadi (الصفدي) demonstrava ter grande preocupação com as maneiras ou métodos de traduzir. Segundo este autor, existiam à sua época dois métodos bem difundidos, os quais relaciona aos seus principais adeptos. O primeiro, que era o adotado por Yuhanna Bin al-Bitríq (البطريق بن يوحنا) e Ibn an-Ná’ima al-Homsi (الحمصي الناعمة ابن), consistia em examinar uma palavra árabe que lhe fosse sinônima. O segundo método, por sua vez, empregado por Hunayn Bin Ishaq(حنين بن إسحق) e al-Jawhari(الجوهري) , consistia em analisar cada frase com o intuito de compreender o seu significado e, posteriormente, traduzi-lo para o árabe, sem que se preocupasse com a equivalência entre as palavras. É interessante notar que tal tema, aproximadamente cinco séculos mais tarde, viria a ocupar um lugar relevante entre os interesses de Schleiermacher, um dos mais destacados teóricos ocidentais do século XIX.
Segundo Schleiermacher, quando o objeto da tradução é de natureza prosaica, é comum que não haja dificuldade para se encontrar numa língua palavras correspondentes àquelas de uma outra, fato que confere à tradução um caráter quase mecânico. Todavia, quando a tradução tem por objeto produções literárias ou científicas, surgem imediatamente duas questões que tornam o trabalho mais complexo. O autor argumenta que, se as palavras de uma determinada língua tivessem correspondentes exatas numa outra, a tradução de textos artísticos e científicos continuaria a ter um caráter mecânico. Contudo, afirma Schleiermacher, com exceção das línguas aparentadas entre si, não há palavras de uma que abarquem a totalidade de sentidos contida nas palavras de outra língua, o que faz da atividade da tradução uma tarefa de grande complexidade, tamanha a vastidão de conhecimento específico e o domínio das duas línguas em questão que tal tarefa impõe ao tradutor.
Todos os autores discutidos nos parágrafos anteriores ofereceram, cada um à sua época, contribuições teóricas importantes e produtivas para o campo da tradução. No entanto, é interessante citar que, obviamente sem o intuito de diminuí-los, alguns desses autores foram controversos também em questões relativas a uma suposta superioridade de suas culturas em comparação com as demais. Num comentário que poderia soar chauvinista aos ouvidos modernos, Humboldt defende a ideia de que o destino intelectual de uma nação é definido ou caracterizado pelo modo como na sua língua “as letras se combinam em sílabas, as sílabas em palavras e como essas palavras estão no discurso em uma relação de tempo e de som”, graça essa concedida aos gregos e, em épocas recentes à língua alemã, sendo esta última provavelmente a única “capaz de reproduzir este ritmo [o ritmo dos clássicos gregos]”.
Surpreendentemente, atitude semelhante a respeito do árabe já manifestara al-Jáhiz aproximadamente mil anos antes. Este autor afirma, “Diz-se: o mérito da poesia se limita aos árabes e àqueles que falam árabe. A poesia não se pode traduzir, nem é possível a sua transposição. Quando se verte, a forma poética se rompe, e a métrica se elimina; sua beleza desaparece e se perde aquilo que está relacionado à admiração. Tal não ocorre com a prosa.”
A breve discussão apresentada aqui leva-nos a algumas conclusões importantes. É possível verificar tanto nos teóricos árabes quanto nos alemães, e em momentos bastante distintos, inquietações relacionadas ao ato da tradução. Como buscou-se demonstrar grande parte da dificuldade imposta ao tradutor deriva do caráter único da organização conceitual subjacente a cada língua, e em consonância com as culturas particulares. Por outro lado, há também problemas resultantes da estratégia de tradução utilizada pelo tradutor.
Com o que foi exposto, espera-se ter demonstrado certa coincidência ou continuidade seja no que diz respeito aos aspectos da tradução considerados problemáticos tanto por autores árabes quanto por autores ocidentais, seja no que diz respeito às possíveis estratégias propostas para superar tais dificuldades e possibilitar a tradução, sobretudo no campo das artes.

Fonte: ICARABE – http://www.icarabe.org/

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Os vencidos não se entregam

Luana Lila

No acampamento Rosa Luxemburgo, como em tantos outros ligados ao MST, as condições de vida são precárias. As lonas esquentam em demasia durante o dia, falta água e energia elétrica. Mas o que mais incomoda as 180 famílias acampadas nos arredores de Iaras, no sudoeste de São Paulo, são as tempestades. “Você nunca sabe se vai deitar e amanhecer em pé ou não. Tudo sai voando, eu tenho um medo terrível. Se cai granizo é pior ainda, porque você vê que a lona não vai resistir. Depois que passa, a gente sai para ver o que sobrou, todo mundo tem de se ajudar para reconstruir”, afirma Rosalina Beatriz de Oliveira, acampada há cerca de um ano. 

A fazenda Agrocentro, que dá lugar ao acampamento, foi declarada improdutiva pelo Incra e aguarda a conclusão do processo de desapropriação. Para chegar lá, depois de três horas pelas modernas estradas do estado, o progresso do agronegócio se faz mais tímido e grandes buracos no asfalto dificultam a circulação dos veículos. Em seguida, o carro segue derrapando na areia grossa, ao longo de 32 quilômetros de estrada de terra cercada de plantações de eucalipto e cana. 
Na fazenda o pasto deu lugar aos barracos de lona que surgem no horizonte. Com o sol forte na cabeça e a terra fervendo sob os pés, o olhar insiste na busca por um abrigo, mas são poucas as árvores que sobraram. No interior dos barracos a temperatura é insuportável. 
Na varanda improvisada com um puxadinho de lona está Marta Pereira da Silva, que mora há oito meses no acampamento. Marta parece ter bem menos idade do que os 40 anos que sua certidão de nascimento aponta, mas está doente. Tem pressão alta e diabetes e toma mais de vinte comprimidos por dia.
Quando vai ao pronto-socorro, em Bauru, sempre ouve que a primeira coisa a fazer, se quiser continuar viva, é deixar o acampamento o mais rápido possível. Os médicos sabem que, da próxima vez que passar mal, ela pode não chegar a tempo ao hospital. Dependerá da boa vontade de um companheiro de carro ou da polícia, que já foi acionada em momentos de emergência e não apareceu. Marta prefere correr o risco: “Os médicos falam para eu sair daqui, mas e a minha terra, e a minha luta? ”
O acampamento Rosa Luxemburgo não está ali por acaso. Na região existem 50 mil hectares de terras públicas indevidamente ocupados por particulares. A história começou em 1920, quando a União adquiriu a área, que abrange os municípios de Águas de Santa Bárbara, Iaras, Borebi, Lençóis Paulista e Agudos, para a colonização de famílias de imigrantes. O problema é que as terras não foram discriminadas regularmente e, com o passar do tempo, particulares começaram a tomar conta e registrar as áreas em cartório. 
Foi só a partir de 1994 que o Incra começou a fazer um levantamento da área pública total, conhecida como Núcleo Colonial Monção. Em 2002, o Instituto passou a identificar os ocupantes irregulares, concluindo que os atuais proprietários não são os mesmos que tomaram as terras originalmente, pois, ao longo dos anos, elas foram vendidas diversas vezes. Isso acaba dando bases para longas disputas judiciais, enquanto o Incra solicita a devolução das terras à União, mediante indenização. Ele se baseia em artigo da Constituição que determina que as terras públicas devem ser prioritariamente direcionadas à reforma agrária. 
Para complicar ainda mais, além das terras públicas, existem na região onze fazendas, cerca de 15 mil hectares, que já foram vistoriadas e consideradas improdutivas pelo Incra, mas aguardam uma certidão de uso e ocupação do solo da prefeitura de Agudos para que o processo de desapropriação tenha início. Mas o prefeito Everton Octaviani, que por enquanto concedeu o documento apenas para a fazenda Agrocentro, afirma que, dos onze imóveis, ao menos quatro proprietários entraram com ações na Justiça contra o laudo de improdutividade. Quanto aos outros, o prefeito explica a demora na emissão do documento: “Eu ainda não emiti porque não quero que venham para o município essas famílias de outras localidades, que são do MST. Eu tenho negociado com o Incra e exijo que sejam colocadas ali famílias da minha cidade, famílias de trabalhadores que vão fazer um bom uso da terra, que vão produzir. Eu não posso dizer que só quero agudenses, mas preferencialmente de Agudos, e que não sejam do MST”.
No meio desse entroncamento de interesses estão centenas de pessoas que, após uma história de despejos violentos e promessas não cumpridas, aguardam um lote para se estabelecer. Rosalina é uma delas. Aposentada, ela trabalhou em Bauru durante muitos anos como atendente de enfermagem. Sua experiência é útil ao acampamento, assim como os ensinamentos familiares sobre o uso de ervas medicinais. “O tradicional do hospital não serve para nada aqui.” 
Enquanto as famílias vivem no acampamento, as pequenas hortas pipocam lá e cá, fartas. São plantações de mandioca, abóbora, chuchu, almeirão e alface. Mesmo com a situação indefinida, eles já podem se alimentar do que plantaram, mas não expandem o cultivo por medo de ser expulsos a qualquer momento, como aconteceu diversas vezes com Francisca Ângela dos Santos: “Quando acontece o despejo, a gente tem de levar a casa inteira nas costas. A minha casa está toda aqui, você já pensou se for para sair dentro de 24 horas, o que vou fazer com isso? Eu tenho de levar os animais, o que não puder ir fica”. 
As primeiras ocupações do MST na região datam de 1995, quando o movimento percebeu a complexidade agrária do local e vislumbrou uma possibilidade para o assentamento de suas famílias. Desde então, a disputa judicial entre o Incra e os fazendeiros rendeu alguns frutos aos trabalhadores. Segundo o superintendente do Incra em São Paulo, Raimundo Pires Silva, entre Iaras e Bauru existem cerca de mil famílias assentadas. Algumas empresas preferiram fazer acordos de permuta nos quais cedem à União uma área equivalente à que ocupam, mas em outro local, para não perder as benfeitorias já instaladas. O mesmo tipo de acordo foi discutido durante seis meses com a Cutrale, mas ela decidiu continuar o processo judicial. 
Para Paulo Beraldo, dirigente regional do MST, isso explica a ação do movimento na fazenda Santo Henrique, no início de outubro: “Ocupamos em 2008 em busca de um acordo para passar uma área equivalente para que a Cutrale não tivesse de mexer nas laranjas. Tendo o acordo, a gente respeitava aquela área como deles, só queríamos saber onde seria a nossa”. 
O MST alega ainda que as acusações de depredação das benfeitorias da empresa e o roubo de funcionários não foram ações efetuadas por eles, e, sim, nas palavras de Paulo, por “alguém que se aproveitou da situação e, como estava lá, saiu na conta do movimento”. Segundo ele, alguns tratores destruídos estavam danificados na própria oficina da fazenda. 
Enquanto as investigações sobre o caso não são concluídas, o superintendente do Incra critica a ação do MST na fazenda da Cutrale: “A reforma agrária não é um processo de revolução para fazer o socialismo. A reforma agrária implica um debate sobre a nossa dívida social. Estamos empregando uma família, dando condições de vida, de cidadania”.

Fonte: Carta Capital – http://www.cartacapital.com.br/

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Para que a rede não entre em colapso

Pesquisadores integram esforços na busca de salto na capacidade de transmissão de dados.

LUIZ SUGIMOTO

O acesso febril dos internautas ao YouTube é um bom parâmetro do aumento exponencial da demanda de dados por habitante que se observa no planeta. A tecnologia existente vem dando conta do recado, mas supondo que os recursos não sejam aprimorados, há estimativa de um colapso no setor de telecomunicações dentro de uma década. “Temos componentes que viabilizam a comunicação atualmente, mas que não acompanham a velocidade do crescimento da demanda”, alerta o professor Newton Cesario Frateschi, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp.

Frateschi colabora com os esforços dos pesquisadores em fotônica e optoeletrônica na busca de componentes capazes de promover um salto na capacidade de transmissão de sinais, atendendo à próxima geração de sistemas de comunicação. “Tanto aqui, como no exterior, estamos ainda na fase de exploração das alternativas. Asseguro que, por enquanto, ninguém no mundo sabe quais são esses dispositivos”.

O grupo brasileiro desenvolve seus estudos no Laboratório de Pesquisa em Dispositivos do Departamento de Física Aplicada IFGW e no Centro de Componentes Semicondutores (CCS) da Unicamp, estando inserido no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CePOF) e no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Fotonicom (coordenado por Hugo Fragnito, também docente do IFGW).

Como lembra Newton Frateschi, que acumula a coordenação do CCS, já vai longe o tempo em que havia um fio ligando cada canal de comunicação – só os mais velhos guardam a imagem da telefonista trocando os pinos no painel de telefonia. “Hoje lidamos com as telecomunicações ópticas, enviando luz entre pontos de um prédio e entre cidades, países, continentes. Dentro de uma única fibra óptica, temos um vaivém de sinais de voz, áudio e imagem, numa comunicação pesada”.

O professor explica que a transmissão de diversos sinais através de um único canal físico é possível desde que surgiu, há cerca de 20 anos, a técnica denominada multiplexação por divisão de cores (ou de comprimentos de onda). “Na fibra óptica, cada canal de comunicação é dividido em intervalos de tempo e em comprimentos de onda (cor de luz). A transmissão exige um componente que converte os sinais eletrônicos nos sinais ópticos que viajam pela fibra e, na outra ponta, um dispositivo semelhante que realiza o processo inverso”.

Os pesquisadores em fotônica e optoeletrônica, conforme acrescenta Frateschi, atuam entre esses dois domínios: da luz e da eletrônica. “Buscamos componentes que façam a conversão cada vez mais rapidamente. Outro objetivo sempre perseguido é a miniaturização progressiva, ou seja, componentes cada vez menores e com maior capacidade de informação, propiciando menor consumo de energia”.

Um exemplo de mudança de paradigma que se faz necessária agora, e que propiciou grande avanço em telecomunicações, envolveu um problema na transmissão a longas distâncias: a luz ia sendo absorvida pela fibra e caía de intensidade, por vezes a ponto de a informação não ser reconhecida na outra ponta. “A alternativa era implantar receptores – mesmo no meio da mata – que convertiam o sinal de luz em sinal eletrônico, corrigindo-o e jogando-o novamente como luz na fibra”.

Segundo o pesquisador da Unicamp, a solução veio com a fibra dopada a érbio. Inserido na fibra óptica que conduz a informação, este dispositivo amplifica o sinal no próprio domínio óptico, sem necessidade da conversão em sinal eletrônico. “Assim como este amplificador de érbio proveu grande avanço na comunicação a longa distância, alguém precisa pensar na próxima geração de emissores, moduladores e filtros de luz, a fim de afastar o risco do colapso”.

Newton Frateschi observa que, além do exemplo do YouTube, logo teremos a tevê de alta definição pela Internet e, de fato, todo um tráfego de dados envolvendo praticamente todos os setores da vida humana. “Há ainda a tendência de que a fibra óptica seja levada até a porta das casas. E grandes centros com redes sem fio (wireless) também necessitarão de uma interface eficiente entre o domínio de radio frequência e o da luz, assim como de capacidade de escoamento do sinal óptico por luz”.

Na opinião do pesquisador, é grande a capacidade instalada de fibras ópticas, graças principalmente à técnica de multiplexação por comprimentos de onda que multiplicou o envio de sinais por uma só fibra. “O gargalo está se formando em torno da densidade de informações e não do tamanho dos canos. Aumentar a quantidade de sinais transmitidos implica, basicamente, em fazer a luz piscar mais rapidamente e misturar mais cores em uma única fibra”.

Microlasers
No entanto, o sucesso depende da superação de vários desafios. Frateschi toma o exemplo de uma rádio FM, que não possui muitas estações em seu espectro, haja vista que havendo canais demais, eles se misturam. Seguindo esta lógica, quanto mais fina a cor (canal), mais informações podem ser transmitidas dentro da fibra óptica. “Um primeiro objetivo do nosso grupo é a miniaturização e a diminuição do consumo de potência dos componentes. Isso implica criar novos meios de amplificação da luz e de criação de microcavidades ressonantes para alcançar uma elevada pureza espectral. Um segundo objetivo é utilizar a interação entre essas estruturas de forma funcional, aplicada ao processamento de sinais ópticos”.

O docente da Unicamp afirma que as pesquisas envolvem novas arquiteturas de laser, com dimensões micrométricas ou ainda menores, chamadas de microlasers. “Produzimos discos com dimensões que vão de 1 a 40 micra, onde a luz gira e tem a sua emissão estimulada. Uma alternativa buscada é a modificação das propriedades de materiais comuns à optoeletrônica, por meio da nanotecnologia, desenhando estruturas cujas propriedades optoeletrônicas dependam do confinamento quântico de portadores de carga”.

Um desafio, de acordo com o pesquisador, é que a emissão dos microlasers é isotrópica (para todos os lados) e com tendência de emissão em mais de uma cor pura. “Uma saída é distorcer as cavidades ressonantes onde o laser é produzido, buscando-se novos formatos da luz que melhorem essas qualidades. A ideia, portanto, é mudar o meio ativo (a aplicação da luz) ou então a arquitetura da cavidade para criar novos emissores de dimensões microscópicas. Acreditamos em resultados importantes nesta área de trabalho”.

Fazendo o silício emitir luz

Outro foco do grupo do professor Newton Frateschi está na tentativa de tornar mais compatíveis as tecnologias de optoeletrônica e fotônica e aumentar a emissão de luz no silício – o que este elemento faz de forma muito pobre, apesar de outras propriedades excepcionais na área de eletrônica. A inspiração veio da fibra dopada com o érbio que, como vimos anteriormente, tem o dom de excitar o laser. “O professor Leandro Tessler, também do CePOF, já estuda o érbio misturado ao silício há algum tempo. Ele utiliza o silício amorfo, obtido com uma técnica de deposição bastante simples”.

O grupo decidiu utilizar este silício co-depositado com érbio nas cavidades ressonantes que produzem o laser, observando os resultados em termos de emissão e de direcionalidade da luz. Trata-se de um trabalho de dois alunos, David Figueira (orientando de Frateschi) e Danilo Mustafá (orientando de Tessler). “Eles associaram pontos quânticos de silício a esses materiais nas estruturas ressonantes. Dentro da cavidade, o érbio e os pontos quânticos são bombeados opticamente. Os pontos quânticos se ‘desexcitam’, bombeando mais os átomos de érbio, o que aumenta a emissão de luz. Esta talvez seja uma proposta para chegar aos emissores de silício”.

Newton Frateschi menciona ainda uma alternativa híbrida, defendida por outros pesquisadores no mundo, visando aproveitar tanto as propriedades do silício como dos materiais da optoeletrônica. “A proposta é acoplar as duas partes, literalmente, criando um processador trazendo de um lado a eletrônica e, do outro, as fibras ópticas, ambos acoplados por circuitos fotônicos”.

Outro caminho está em circuitos fotônicos onde sinais de luz são gerados, recebidos, condicionados e enviados permanecendo no domínio óptico. Isto exige o desenvolvimento de plataformas de nano e microfabricação em materiais compatíveis com silício. Este trabalho está sendo desenvolvido entre o Laboratório de Pesquisa de Dispositivos (LPD) do IFGW e o Centro de Componentes Semicondutores (CCS) da Unicamp, com o uso do sistema de feixes de íons focalizados (FIB) e, futuramente, da litografia de feixes de elétrons.Frateschi destaca, também, uma parceria do professor Hugo Figueroa, da Faculdade de Engen

haria Elétrica e de Computação (FEEC), com a pesquisadora Michal Lipson, da Universidade de Cornell, estabelecida no contexto do INCT Fotonicom. A parceria visa o desenvolvimento de guias de onda e acopladores a fim de obter alta densidade de emissão, na expectativa de produzir filtros, conversores e misturadores de comprimento de onda – inclusive de ondas de rádio.

Demanda imediata
Ainda dentro do CePOF, foi concluído o estudo de mestrado de Felipe Vallini, orientado por Frateschi, em torno de amplificadores ópticos, mas de laser com dimensões convencionais. “Normalmente, esses amplificadores trabalham de duas formas: a linear, em que a amplificação é independente da potência e o sinal reproduzido fielmente; e a não-linear, em que o a amplificação do sinal depende da pot

ência, gerando distorção”.O pesquisador da Unicamp aponta aspectos positivos tanto no amplificador de operação linear (não-saturada) como não-linear (saturada), já que o primeiro permite ampliar a intensidade da luz sem distorcê-la, enquanto que o segundo pode ser usado como estabilizador da potência, assim como eliminar ruído ou modulação do sinal. “Ocorre que não existe um amplificador que funcione das duas formas, e é isso o que buscamos. Trata-se de um componente com controle de saturação, microscópico, como resposta mais para a demanda atual, mas que poderá se tornar importante também para a próxima geração de sistemas de comunicação”.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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A revolta árabe: traição britânica

Muito do que hoje se assiste no Oriente Médio, a continua violência, a infelicidade coletiva, as massas pobres manifestando-se com fúria pelas ruas, origina-se de muito tempo atrás, dos tempos da Iª Guerra Mundial, quando o Império Britânico, via correspondência Hussein-McMahon, trocada entre 1915-6, prometera falsamente reconhecer a liberdade e a independência das nações árabes. Ao terminar a guerra em 1918, os xeques e demais lideres árabes ficaram profundamente indignados ao perceberem que eles haviam lutado contra os turcos otomanos, seus dominadores, para nada.

A carta do xerife Hussein

Feisal (1885-1933), líder da revolta árabe.

"Em todas as partes da nação árabe, sem nenhuma exceção sequer, decidiu-se neste ultimo ano conquistar a liberdade e abraçar as rédeas da sua própria administração, tanto na teoria como na prática, e torna-se evidente que este também é o interesse do govenro da Grã-Bretanha em poder apoia-la e ajudá-la no intento de alcançar tal firme e lícita intenção, sem que manifeste posteriormente qualquer outra coisa desligada desse objetivo. (…) a Grã-Bretanha deve aprovar o Califado Islâmico da Arábia"
Xerife Hussein, Emir de Meca, a H. McMahon, Alto Comissário britânico do Cairo, 14 de julho de 1915.

A carta que o Xerife Hussein ibn Ali, o Emir de Meca, enviou a Henry McMahon, o procônsul britânico sediado no Cairo, datada de 14 de julho de 1915, tornou-se histórica porque apontou o começo do fim do longo domínio que o Império Otomano exercia sobre o Quadrilátero Árabe. Em 1517, quatro séculos antes, o então Emir de Meca entregara a chave da Cidade Sagrada dos muçulmanos ao representante do Sultão de Istambul, sinalizando que ela dali em diante aceitava a guarda e a proteção dos turcos otomanos, os novos líderes do Islã. Para Hussein era a hora de por um fim naquela subordinação, de terminar com a vassalagem das tribos árabes frente aos otomanos.

Na correspondência que se seguiu entre ambos , entre o xerife árabe e o comissário britânico (um total de oito cartas trocadas entre 14 de julho de 1915 e 10 de março de 1916), foram acertadas as premissas das futuras relações entre a Nação Árabe e o Reino Unido. Objetivamente, os árabes consideravam os turcos, ainda que seguidores da mesma religião do profeta Maomé, como seus opressores, e, aproveitando-se da guerra mundial que eclodira na Europa um ano antes, em agosto de 1914, queriam servir-se da ocasião para livrar-se deles.

Como o Império Turco Otomano era aliados das Potências Centrais (o Império Germânico e o Império Austro-húngaro), inimigas dos britânicos, nada mais natural do que procurar uma aliança com o govenro de Londres para conseguir o auxilio militar e diplomático com o objetivo de conquistar a independência definitiva das terras árabes, livrando-as do Sultão. Igualmente pesou na decisão do emir Hussein, a radical transformação que o movimento dos Jovens Turcos, iniciado em 1908, imprimira nos destinos do império.

Os então reformistas do Sultanato turco agonizante começaram a dar ênfase não mais no pan-islamismo, ideologia que, até então, mantinha o Império coeso, mas sim na “solidariedade otomana”. Portanto, o nascente nacionalismo árabe, emancipador, foi uma reação às pretensões do opressor nacionalismo turco. Para o Alto Comissário Britânico no Cairo, a proposta de Hussein soava como música. Com a guerra em andamento, não havia nada mais tentador do que dispor das belicosas tribos do deserto como aliadas para assolarem os turcos pela retaguarda, infernizando-os, obrigando-os a distenderem suas forças pelos milhares de quilômetros de areia e pedra que iam do al-Hijaz até o Golfo Pérsico.

Fixando-as por lá, haveria menos resistência à campanha militar desencadeada pelo exército britânico no fronte do Sinai, abrindo caminho para a conquista inglesa da Palestina e da Síria, então vilayets, províncias, do Império Turco Otomano. Logo que deu-se a declaração de guerra entre turcos e ingleses, o Emir de Meca não só negara-se a atender ao apelo dos seus senhores em declarar a Jihad, uma guerra santa contra os britânicos cristãos, como os surpreendeu inteiramente.

A partir de julho de 1916, Hussein ibn Ali, proclamando-se rei, ordenou ao seu filho Feisal bin Hussein que capitaneasse um grande levante tribal em todo al-Hijaz contra o poder de Istambul. Dinamitando os trilhos dos trens, atacando guarnições isoladas, interrompendo as comunicações, fazendo do deserto um território perigoso, mortífero, para o soldado turco, as guerrilhas árabes dos Ruallas, dos Wuld Alis, e de tantos outros, como se fossem uma flecha disparada nas costas dos otomanos, não demoraram a sair do sul para irem assediar Damasco(*).

Enquanto isso, as vanguardas britânicas comandadas pelo general Allenby avançavam na Palestina e tomavam Gaza, em 28 de outubro de 1917, e Jerusalém, em 19 de setembro de 1918. Encerrada a campanha com a ocupação de Damasco, em 30 de setembro de 1918, os líderes árabes ficaram então no aguardo do cumprimento da palavra britânica que lhes prometera a independência do Califado Árabe do Islã. Vã esperança.

(*) Nesses episódios todos estiveram presente T.E. Lawrence, o Lawrence da Arábia, o autor do livro Os Sete Pilares da Sabedoria, 1926, um oficial britânico de ligação que lutou ao lado das tribos árabes e que foi um sincero simpatizante e defensor da autonomia deles.

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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Outro Saara

Uma rara vista aérea da região líbia do Fezzan, em que antigas sociedades florescem e desaparecem assim como o vaivém das chuvas.

Charles Bowden
Foto:
George Steinmetz

Outro Saara

No coração do Saara, a água da chuva que caiu há milênios empoça na cratera vulcânica de Waw na Namus. Ventos carregaram as cinzas da última erupção por 20 quilômetros.

Um vento milenar sopra des-de as profundezas do tempo. O Saara nos impacta como um inferno perene de dunas sob o céu azul. Suas paisagens nos deslumbram, mas nada indica que estamos diante de um dos maiores depósitos de registros geológicos da Terra. O passado sobrevive ali e nos fala através da areia, das pedras, do calor e dos ventos secos. Sussurra em nossos ouvidos uma história de mudanças climáticas ocorridas aos trancos e solavancos, bem como do avanço e do recuo da humanidade.
David Mattingly lidera um time de pesquisadores do Projeto sobre Migrações no Deserto, cujo trabalho nos remete à pré-história. São viajantes do tempo a navegar pelo Saara em busca de vestígios dos nossos antepassados. Eles conquistam dunas com mais de 30 metros de altura e abrem novos caminhos para se apreciar esse deserto. No sudoeste da Líbia, uma região conhecida com Fezzan é o coração palpitante do Saara, um lugar inacessível, repleto de mares de areia, wadis (leitos de rios intermitentes no norte da África), montanhas, platôs, oásis e mistério. Entre 500 a.C. e 500 d.C., estima-se que cerca de 100 mil pessoas viveram da terra ali, em uma área que costuma receber só alguns milímetros de chuva por ano – quando recebe. "É muita gente para os padrões da paisagem hiperárida do Saara central", diz Mattingly.
Arqueólogo da Universidade de Leicester, ele tornou-se um escravo do deserto. "Trabalho na Líbia há 30 anos e desde logo fiquei maravilhado com as paisagens." Muitos partilharam da mesma sina. As pessoas ficam viciadas na luz brilhante e nos horizontes limpos. Onde muitos veem um vazio sem fim, outros enxergam a claridade.
Se recuarmos até o período entre 1822 e 1825, flagraremos o explorador escocês Hugh Clapperton mergulhado no deserto a sudoeste da Líbia. Em 7 de novembro de 1824, atravessando a secura do chão, Clapperton topa com uma escrava abandonada "para perecer no deserto hoje, com uma cabeça inchada – incapaz de andar – sem reações". Ele encontra um dos criados do amo encolhido ao lado da mulher, "esperando ali pela morte dela, não para enterrá-la, mas para se apoderar dos escassos andrajos que a cobriam".
Ela não consegue montar um camelo, está fraca demais. O explorador acha que não deve se demorar ali para não morrer também.
O vento é frio, ele observa. E toca em frente.
Esse é o Saara dos horrores. Um mar ressecado de areia e pedra, infestado de escorpiões, em que víboras serpenteiam sob um sol inclemente. A Líbia é grande, do tamanho de Itália, França, Espanha e Alemanha juntas. E quase todos os seus 6 milhões de habitantes vivem na costa do Mediterrâneo. Para entender-se a região, devemos dar as costas ao mar e mirar o sul. Noventa e cinco por cento da Líbia são desertos, 20% são dunas e nenhum rio perene passa por ali. O Saara líbio detém o recorde mundial de calor (57,8ºC) e é capaz de gelar os ossos de uma pessoa em uma noite de inverno.
Ibrahim al-Koni, o maior romancista do país, foi criado como tuaregue no Fezzan. Em seu livro A Pedra Que Sangra, ele cita uma canção sufi:

O deserto é um verdadeiro tesouro
para quem busca refúgio
dos homens, da maldade dos homens.
Nele há contentamento,
nele há morte e tudo que procuras.

O Fezzan revela milhares de anos de uma luta da vida contra a mudança, de seres humanos adaptando-se ao meio hostil. É uma máquina do tempo que faz o passado esbofetear nossa cara.
Nós, modernos, admitimos com relutância que o passado é a história de mudanças climáticas, de grandes migrações, de ascensão e queda de nações. Mesmo assim, agimos como se nosso presente fosse o capítulo final. No Saara, porém, qualquer visitante se confronta com uma história longa demais a nos lembrar de que o atual capítulo é tênue e frágil.

As investigações de Mattingly levam-no até o Mar de Areia de Ubari, onde, por incrível que pareça, há muitos laguinhos da cor de pedras preciosas, alguns púrpura, outros alaranjados, por causa dos minerais e das algas. Eles são a lembrança quase desidratada de uma época anterior, quando o lençol freático corria mais próximo da superfície que hoje. É difícil imaginar, mas um lago do tamanho da Inglaterra, o Megafezzan, existiu ali há cerca de 200 mil anos, quando chuvas eram abundantes e, como provam os antigos canais, os rios corriam pelo centro do deserto.
As mudanças climáticas têm ocorrido feito um interruptor que liga e desliga no Saara. No tempo seco, os lagos minguavam e a vegetação reduzia-se a nichos. Então, quando dias mais úmidos retornavam, os lagos se enchiam e partes do Saara viravam savana. Comunidades humanas pulsaram por lá como uma explosão de plantas depois de uma chuva rara. Nas eras úmidas, prosperavam. Nas secas, encolhiam ou se extinguiam.
Com base em imagens de radar, Kevin White e Nick Drake, membros da equipe do Projeto de Migrações, mapearam a localização de resíduos minerais de antigos lagos e nascentes. Depois, os paleoantropólogos Robert Foley e Marta Mirazón Lahr descobriram artefatos de pedra, pontas de flecha, indícios de fogueiras, túmulos.
Os mais antigos seres humanos na região eram caçadores e coletores que viviam em uma savana há cerca de 130 mil anos. Esse povo foi sumindo à medida que as chuvas começaram a rarear, 70 mil anos atrás. Quando as chuvas voltaram, as pessoas também retornaram. Riscadas nas pedras do deserto estão as memórias de um Saara mais úmido, quando criaturas dependentes de água, como leões, elefantes e rinocerontes, viviam ali.
Algo curioso ocorreu quando a mais recente fase úmida terminou. Há cerca de 5 mil anos, as chuvas cessaram de novo, os lagos desapareceram e o deserto venceu. Dessa vez as pessoas permaneceram. A arte rupestre registra a transição da caça ao pastoreio. Na sequência surgiu uma sociedade que começaria a construir cidades e daria início à agricultura: a civilização garamante.
Os garamantes floresceram ali em um clima bem parecido com o do Saara de hoje. Estudiosos achavam que eram nômades do deserto. Mas escavações no sítio em que ficava Garama, sua capital – e onde hoje se ergue Jarmah -, além de sondagens no terreno feitas pela equipe de Mattingly, revelaram que era um povo sedentário, que vivia de agricultura de oásis. Eles construíram um sofisticado sistema de irrigação que lhes permitia plantar trigo, cevada, sorgo, tâmara e azeitona. Canais subterrâneos – chamados de foggaras – levavam a água dos lençóis freáticos aos campos. Quase mil quilômetros desses canais ainda podem ser detectados. O sistema funcionou bem por centenas de anos. Até que a água "fóssil", armazenada nas épocas chuvosas, começou a desaparecer. E a civilização teve fim.
O Saara parece uma barreira à primeira vista, dividindo a África em dois pedaços. Mas, para os seres humanos que viveram na Líbia por milhares de anos, era um corredor. Ouro, marfim e escravos chegavam ao norte vindos da África subsaariana. Azeite de oliva, vinho, vidros e outros produtos do Mediterrâneo rumavam para o sul. O comércio criou uma imagem duradoura em nossa cabeça: a caravana trilhando seu caminho por imensas dunas.
O corredor do Saara pode ter sido uma das passagens usadas por nossos ancestrais ao deixarem a parte oriental do continente para povoar o resto do mundo. Estudiosos sustentam que os primeiros seres humanos se expandiram para além da África subsaariana rumo à Eurásia, migrando tanto ao longo do rio Nilo quanto através do Sinai ou do mar Vermelho. Agora outra hipótese está sendo explorada: a de que o Fezzan pode ter feito parte de um longo corredor migratório por onde alguns seres humanos modernos chegaram ao litoral do Mediterrâneo e, a partir dali, cruzaram o Sinai. Talvez ao cruzar esse mar de areia, nossos ancestrais tenham caminhado pelo Great Rift Valley, ou, literalmente, o "Vale da Grande Fenda", uma depressão de aproximadamente 6 mil quilômetros de extensão que rasga o território de vários países africanos. E o resultado é sermos quem somos hoje.
Mattingly diz que gosta da arqueologia porque "ela traz lições aos dias de hoje". Mil e quinhentos anos após o declínio dos garamantes, o governo líbio está construindo o "Grande Rio Feito pelo Homem", uma série de imensos aquedutos que fará minar antigas reservas de água subterrânea existentes debaixo do Saara, água que será usada para fazer o deserto brotar. A água que está sendo bombada se depositou ali dezenas de milhares de anos atrás, em tempos bem mais úmidos. O lençol d’água já declina por causa do bombeamento. O projeto tem uma vida estimada de apenas 50 ou 100 anos, um piscar de olhos nessa região. O último capítulo do Fezzan ainda está por ser escrito.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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Pestalozzi – O teórico que incorporou o afeto à sala de aula

Para o educador suíço, os sentimentos tinham o poder de despertar o processo de aprendizagem autônoma na criança.

Fotos: CORBIS/STOCKPHOTOS

Para a mentalidade contemporânea, amor talvez não seja a primeira palavra que venha à cabeça quando se fala em ciência, método ou teoria. Mas o afeto teve papel central na obra de pensadores que lançaram os fundamentos da pedagogia moderna. Nenhum deles deu mais importância ao amor, em particular ao amor materno, do que o suíço Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827).
Antecipando concepções do movimento da Escola Nova, que só surgiria na virada do século 19 para o 20, Pestalozzi afirmava que a função principal do ensino é levar as crianças a desenvolver suas habilidades naturais e inatas. "Segundo ele, o amor deflagra o processo de auto-educação", diz a escritora Dora Incontri, uma das poucas estudiosas de Pestalozzi no Brasil.
A escola idealizada por Pestalozzi deveria ser não só uma extensão do lar como inspirar-se no ambiente familiar, para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, o pensador suíço não concordava totalmente com o elogio da razão humana. Para ele, só o amor tinha força salvadora, capaz de levar o homem à plena realização moral – isto é, encontrar conscientemente, dentro de si, a essência divina que lhe dá liberdade. "Pestalozzi chega ao ponto de afirmar que a religiosidade humana nasce da relação afetiva da criança com a mãe, por meio da sensação de providência", diz Dora Incontri.

Biografia

Johann Heinrich Pestalozzi nasceu em 1746 em Zurique, na Suíça. Na juventude, ele abandonou os estudos religiosos para se dedicar à agricultura. Quando a empreitada se tornou o primeiro de muitos fracassos materiais de sua vida, Pestalozzi levou algumas crianças pobres para casa, onde encontraram escola e trabalho como tecelãs, aprendendo a se sustentar. Alguns anos depois, a escola se inviabilizou e Pestalozzi passou a explorar suas idéias em livros, entre eles Os Crepúsculos de um Eremita e o romance Leonardo e Gertrudes. Uma nova chance de exercitar seu método só surgiu quando ele já tinha mais de 50 anos, ao ser chamado para dar aulas aos órfãos da batalha de Stans. Mais duas experiências se seguiram, em escolas de Burgdorf e Yverdon. Nesta última, que existiu de 1805 a 1825, Pestalozzi desenvolveu seu projeto mais abrangente, dando aulas para estudantes de várias origens e comandando uma equipe de professores. Divergências entre eles levaram a escola a fechar. Yverdon projetou o nome de Pestalozzi no exterior e foi visitada por muitos dos grandes educadores da época.

Inspiração na natureza

A vida e obra de Pestalozzi estão intimamente ligadas à religião. Cristão devoto e seguidor do protestantismo, ele se preparou para o sacerdócio, mas abandonou a idéia em favor da necessidade de viver junto da natureza e de experimentar suas idéias a respeito da educação. Seu pensamento permaneceu impregnado da crença na manifestação da divindade no ser humano e na caridade, que ele praticou principalmente em favor dos pobres.

Sem notas, castigos ou prêmios

Escola pestalozziana contemporânea na Suíça: educação integral

Escola pestalozziana contemporânea na Suíça: educação integral.

Ao contrário de Rousseau, cuja teoria é idealizada, Pestalozzi, segundo a educadora Dora Incontri, "experimentava sua teoria e tirava a teoria da prática", nas várias escolas que criou. Pestalozzi aplicou em classe seu princípio da educação integral – isto é, não limitada à absorção de informações. Segundo ele, o processo educativo deveria englobar três dimensões humanas, identificadas com a cabeça, a mão e o coração. O objetivo final do aprendizado deveria ser uma formação também tripla: intelectual, física e moral. E o método de estudo deveria reduzir-se a seus três elementos mais simples: som, forma e número. Só depois da percepção viria a linguagem. Com os instrumentos adquiridos desse modo, o estudante teria condições de encontrar em si mesmo liberdade e autonomia moral. Como alcançar esse objetivo dependia de uma trajetória íntima, Pestalozzi não acreditava em julgamento externo. Por isso, em suas escolas não havia notas ou provas, castigos ou recompensas, numa époc a em que chic otear os alunos er a comum. "A disciplina exterior, na escola de Pestalozzi, era substituída pelo cultivo da disciplina interior, essencial à moral protestante", diz Alessandra Arce.

A criança, na visão de Pestalozzi, se desenvolve de dentro para fora – idéia oposta à concepção de que a função do ensino é preenchê-la de informação. Para o pensador suíço, um dos cuidados principais do professor deveria ser respeitar os estágios de desenvolvimento pelos quais a criança passa. Dar atenção à sua evolução, às suas aptidões e necessidades, de acordo com as diferentes idades, era, para Pestalozzi, parte de uma missão maior do educador, a de saber ler e imitar a natureza – em que o método pedagógico deveria se inspirar.
Bondade potencial

Tanto a defesa de uma volta à natureza quanto a construção de novos conceitos de criança, família e instrução a que Pestalozzi se dedicou devem muito a sua leitura do filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nome central do pensamento iluminista. Ambos consideravam o ser humano de seu tempo excessivamente cerceado por convenções sociais e influências do meio, distanciado de sua índole original – que seria essencialmente boa para Rousseau e potencialmente fértil, mas egoísta e submissa aos sentidos, para Pestalozzi.

Um liberal na Era das Revoluções

A Liberdade Conduzindo o Povo, de Delacroix: França exporta revolução

A Liberdade Conduzindo o Povo, de Delacroix: França exporta revolução.

Embora durante a maior parte de sua vida Pestalozzi tenha escolhido viver em relativo isolamento, com a mulher e um filho que morreu aos 31 anos, ele nunca se alienou dos acontecimentos de sua época – chamada pelo historiador britânico Eric Hobsbawn de "Era das Revoluções". Na juventude, Pestalozzi militou num grupo que defendia a moralização da política suíça. Mais tarde, por simpatizar com o pensamento liberal e republicano, se alinhou aos defensores da Revolução Francesa. Em 1798, os franceses, em apoio aos republicanos suíços, passaram a sufocar os focos de resistência à nova ordem no país vizinho, e levaram à frente um massacre na cidade de Stans. Pestalozzi, embora chocado com os acontecimentos, atendeu à convocação do governo e montou uma escola para os órfãos da batalha, que acabou sendo uma de suas experiências pedagógicas mais produtivas. Pestalozzi não foi um iluminista típico, até por ser religioso demais para isso. Por outro lado, a importância que dava à vivência e à experimentação aproximam seu trabalho de um pioneiro enfoque científico para a educação, num reflexo da defesa da razão que caracterizou o "século das luzes". "A arte da educação deve ser cultivada em todos os aspectos, para se tornar uma ciência construída a partir do conhecimento profundo da natureza humana", escreveu Pestalozzi.

"A criança, na concepção de Pestalozzi, era um ser puro, bom em sua essência e possuidor de uma natureza divina que deveria ser cultivada e descoberta para atingir a plenitude", diz Alessandra Arce, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. O pensador suíço costumava comparar o ofício do professor ao do jardineiro, que devia providenciar as melhores condições externas para que as plantas seguissem seu desenvolvimento natural. Ele gostava de lembrar que a semente traz em si o "projeto" da árvore toda.
Desse modo, o aprendizado seria, em grande parte, conduzido pelo próprio aluno, com base na experimentação prática e na vivência intelectual, sensorial e emocional do conhecimento. É a idéia do "aprender fazendo", amplamente incorporada pela maioria das escolas pedagógicas posteriores a Pestalozzi. O método deveria partir do conhecido para o novo e do concreto para o abstrato, com ênfase na ação e na percepção dos objetos, mais do que nas palavras. O que importava não era tanto o conteúdo, mas o desenvolvimento das habilidades e dos valores.

Para pensar

A pesquisadora Dora Incontri vê na obra dos filósofos da educação anteriores ao século 19 uma concepção do ser humano "mais integral" do que a que passou a prevalecer então. Segundo Dora, naquela época a ciência, incluindo a pedagogia, se tornou materialista. "Pensadores como Pestalozzi levavam em conta aspectos hoje negligenciados, como o espiritual. " Ela lamenta a ausência dessa dimensão. No seu dia-a-dia na escola ou em seus estudos sobre educação, você já sentiu a sensação de que falta algo à teoria pedagógica? Chegou a pensar que carência é essa? De que forma ela se reflete na prática?

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

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A Expansão do café no Brasil

Originário da Etiópia, onde já era utilizado em tempos remotos, o café atravessou o Mediterrâneo e chegou à Europa durante a segunda metade do século 17. Era a época do Barroco e das monarquias absolutas, e a expansão do comércio internacional enriquecia a burguesia. Já no início do século 18, os Cafés tornaram-se centros de encontro e reunião elegante de aristocratas, burgueses e intelectuais.
Precedido pela fama de "provocar idéias", o café conquistou, desde logo, o gosto de escritores, artistas e pensadores. Lord Bacon atribuía-lhe a capacidade de "dar espírito ao que não o tem". os enciclopedistas eram adeptos fervorosos do café e dos Cafés, que Eça de Queiroz chegou a afirmar, muito depois, que foi do fundo das negras taças "que brotou o raio luminoso de 89", referindo-se às discussões entre iluministas que precederam a Revolução Francesa.


No Brasil

No Brasil, o café anda, derruba matas, desbrava as terras do Oeste.
Foi em 1727 que o oficial português Francisco de Mello Palheta, vindo da Guiana Francesa, trouxe as primeiras mudas da rubiácea para o Brasil. Recebera-as de presente das mãos de Madame dáOrvilliers, esposa do governador de Caiena. Ora, como a saída de sementes e mudas de café estava proibida na Guiana Francesa, é licito pensar que o aventureiro português recebeu de Madame não só os frutos, mas outros favores talvez mais doces. As mudas foram plantadas no Pará, onde floresceram sem dificuldade.
Mas não seria no ambiente amazônico que a nova planta iria tornar-se a principal do país, um século e meio mais tarde. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos o consumo da bebida crescia extraordinariamente, exigindo o constante aumento da produção, o café saltou para o Rio de Janeiro, onde começou a ser plantado em 1781 por João Alberto de Castello Branco. Tinha início, assim, um novo ciclo econômico na história do país. Esgotado o ciclo da mineração do ouro em Minas Gerais, outra riqueza surgia, provocando a emergência de uma aristocracia e promovendo o progresso do Império e da Primeira República.
Penetrando pelo vale do rio Paraíba, a mancha verde dos cafezais, que já dominava paisagem fluminense, chegou a São Paulo, que, a partir da década de 1880, passou a ser o principal produtor nacional da rubiácea (café). Na sua marcha foi criando cidades e fazendo fortunas. Ao terminar o século XIX, o Brasil controlava o mercado cafeeiro mundial.

Nas cidades surgem Cafés. E o culto ao "ouro verde"

"No começo do século o Café Lamas é um cenáculo de (…) irrequietos boêmios: estudantes, artistas, bancários, rapazes do esporte, do funcionalismo público e do comércio. Funciona dia e noite. Suas portas não se fecham, nem se abrem. De tal sorte que, uma vez, quando se amotina a Escola Militar em 1904, durante a Revolta da Vacina e a notícia corre que, sob o comando do general Travassos, descem os alunos pela.rua da Passagem, caminho do Catete, as portas do estabelecimento, de tanto viverem sem (…) movimento, não podem fechar, perras, imobilizadas nos seus gonzos. E assim é que se manda chamar, para fazer movê-las, um esperto carpinteiro". (Luiz Edmundo.).
Na madrugada carioca, os caminhos de todos os boêmios convergiam, ziguezagueantes e trôpegos, para o Café Lamas. Depois da meia-noite era para ali que avançavam, a passo vacilante, notívagos e intelectuais saídos de outros Cafés famosos, como o Papagaio, o Cascata, o Café Paris e muitos mais.
Nos movimentados Cafés tomava-se de tudo, inclusive café, servido por ágeis e animados garçons, que talvez não tivessem plena consciência de seu papel na complexa estrutura econômica do Brasil, mas cuja função representava o último elo, fumegante, negro e aromático, da ampla cadeia do café.

Financiando, armazenando e vendendo, as Casas Comissárias reinam sobre o café

Contemplando certo edifício em Buenos Aires, Olavo Bilac – então em viagem oficial á Argentina – exclamava em 1910: "Casa querida! Como tu lembras, aqui, no estrangeiro, todas as casas da minha vida". Referia-se à sede do Café Paulista, empresa de comercialização fundada por Octaviano Alves de Lima na capital portenha. Notável propagandista, Alves de Lima conseguira aumentar o consumo do café brasileiro pelos argentinos, divulgando o slogan "Café Paulista (Brasil) – O melhor do mundo". O café era o símbolo do Brasil no exterior.

Entre a fazenda produtora e o consumidor estrangeiro, o café passava por uma série de etapas, mudando várias vezes de mão. Depois de conduzido em lombo de burros ou em carros de boi até a estrada de ferro mais próxima, que passava com freqüência pela própria fazenda, era embarcado em vagões, que desciam para o porto de Santos ou do Rio de Janeiro. Mas não era imediatamente exportado. Fazia, antes, um estágio nos armazéns de alguma Casa Comissária e era então vendido aos exportadores. Os comissários de café – geralmente comerciantes portugueses e brasileiros, ou grandes fazendeiros que diversificavam suas atividades metendo-se no comércio e fundando bancos – financiavam plantações sob hipoteca e por conta da produção a ser vendida. Vendendo o café aos exportadores, os comissários tiveram papel decisivo, particularmente no primeiro período de expansão dessa lavoura (final do século XIX), quando a maior parte dos fazendeiros ainda não se mudara para a cidade e vivia isolada nas casas-grandes de suas fazendas. .
Os comissários cobravam dos fazendeiros comissão pela venda, despesas de armazenamento e juros pelo financiamento da plantação. Houve um momento em que foi muito estreita a relação de dependência pessoal do produtor para com o comissário, tomando-se este uma espécie de conselheiro daquele. "Daí persistir em 1890 o costume de grandes casas comerciais hospedarem, nos seus andares superiores, senhores rurais ou pessoas de suas famílias. Quando em visita ás cidades, era aí ou nas próprias residências dos seus comissários (…) que se instalava essa gente do interior". (Gilberto Freyre.) ‘.
Entre as mais importantes Casas Comissárias estavam a Prado Chaves, que era também exportadora – chegando a exportar, em 1910, 1,5 milhão de sacas de café-, a Whitalter & Brotero, a Companhia Intermediária de Café de Santos e a Companhia Paulista de Armazéns de Santos, controlada por ingleses.
Embora a presença estrangeira pudesse ser notada entre os comissários, era, porém, no comércio de exportação que mais forte se fazia sentir sua intervenção. Das dez maiores firmas exportadoras, em 1907, apenas uma era brasileira, a Prado Chaves, que ocupava o sétimo lugar. Todas as outras, como a Theodor Wille (alemã) e a Neumann & Gepp (inglesa), pertenciam a estrangeiros. As vendas externas proporcionavam enormes lucros, pois a própria cotação do café era manipulada pelos exportadores, numa época em que as trocas de informações entre os continentes mostravam-se precárias.
Apesar das crises econômicas conjunturais, o consumo mundial de café crescia constantemente. Os lucros dos exportadores, entretanto, não subiam na mesma proporção, pois, entre 1891 e 1900, a exportação de 74 491 000 sacas de café rendeu a cifra de 4691906 contos de réis, enquanto na década seguinte, isto é, entre 1901 e 1910, houve uma queda para 4 179 817 contos de réis no pagamento da exportação de uma quantidade maior de café (130 599 000 sacas). Em 1906, o providencial Convênio de Taubaté viria salvar a situação. E os exportadores poderiam, outra vez, dormir em paz.

Na alta, fortuna. Na baixa, falência. Um convênio irá equilibrar essa balança?

Mas, afinal, o que estava acontecendo com o café? perguntava-se, perplexo, o homem da rua, em fins de 1902. Não era ele o "ouro verde" de que tantos falavam? Que anúncios de crise eram aqueles? Onde estava a antiga euforia, aquela impressão de riqueza sem limites, proporcionada pelo café, e que foi a marca dos últimos decênios do século XIX?
E, com efeito, aquilo que parecia impossível na década de 1880 estava de fato acontecendo. A cotação internacional do café caía constantemente, enquanto as fazendas lançavam no mercado quantidades crescentes do "ouro verde". A safra dos anos 1901/1902 havia superado a marca de 16 milhões de sacas, para um consumo mundial ligeiramente superior a 15 milhões. E a cotação do produto no mercado externo, que havia sido de 102 francos-ouro em 1885, caíra para 33 francos-ouro em 1902. De fato, desde 1893, os preços
internacionais vinham caindo sistematicamente como conseqüência dos problemas econômicos dos Estados Unidos, nosso principal cliente, e da expansão mundial da produção de café.
Mas durante alguns anos a queda dos preços havia sido compensada pela desvalorização do mil-réis. Os cafeicultores recebiam menos em libras ou em francos, mas o montante de suas rendas em moeda nacional não se alterava substancialmente. Essa desvalorização do dinheiro era provocada pelo "encilhamento" – política de farta emissão de papel-moeda adotada na gestão de Ruy Barbosa no Ministério da Fazenda (1889-1891), durante o governo de Deodoro da Fonseca. Visando a aumentar a quantidade de dinheiro em circulação, para incentivar o estabelecimento de indústrias e possibilitar o pagamento da massa assalariada que começava a substituir os escravos, o "encilhamento" gerou um galopante processo de inflação. Essa política caracterizou-se também pelo estímulo oficial à constituição de sociedades por ações, o que gerou desenfreada especulação na Bolsa de Valores. (Daí o nome "encilhamento", que se refere ao momento em que são apertadas as selas dos cavalos antes das corridas nos hipódromos – e o ritmo das apostas se torna frenético.) No final do século XIX, depois de um período de euforia, as ações começaram a baixar – e muitos cafeicultores abriram falência.
Para restaurar as finanças, o presidente Campos Salles, logo que tomou posse, em 1898, passou a aplicar uma política deflacionária, forçando a revalorização do mil-réis. Ora, revalorizar a moeda significava – caso a tendência baixista na cotação do café não fosse modificada – reduzir fortemente a renda dos cafeicultores. E era o que estava começando a acontecer, agora que a política "saneadora" de Campos Salles apresentava seus primeiros resultados.

A opulência do passado entra em crise

Em 1902, olhando os jornais do dia, ao tomar o fumegante café da manhã, os homens de negócios não podiam esconder seu temor diante dos fatos. E preciso fazer alguma coisa! exclamava o fazendeiro, franzindo o cenho. E preciso fazer algumas coisas! repetiam, como um eco, deputados e senadores, presidentes de Estado, potentados do café. Pois era a rubiácea o sustentáculo da jovem República, assim como o fora do Império.
Expandindo-se em ondas verdes em direção do Oeste durante a segunda metade do século XIX, os cafezais haviam ocupado enormes espaços geográficos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Uma nova classe dirigente surgiu daí, muito mais poderosa e opulenta do que os antigos barões do açúcar. Mais urbana do que estes e muito ligada á vida cultural e social da Europa, essa nova classe contribuiu poderosamente para modificar a paisagem das cidades. Sua ação fez surgir um novo estilo arquitetônico, copiado de modelos europeus, e levou o fausto da casa-grande senhorial às chácaras e sobrados urbanos. No Rio de Janeiro, por exemplo, Antonio Clemente Pinto, Barão de Nova Friburgo, possuidor de vinte fazendas, fez construir o Palácio do Catete, entre 1858 e 1865, por 8000 contos de réis.
A ação urbanizadora do café permitiu também a modernização das grandes cidades e motivou a revolução nos transporte com a implantação das primeiras estradas de ferro. As ferrovias paulistas – a primeira das quais, ligando Santos a Jundiaí é de 1867 -, abrindo caminho para o oeste, acompanharam a plástica fronteira verde. E foram plantando cidades em seu avanço. Só em São Paulo, entre 1891 e 1900, foram criados 41 municípios.

A salvação vem de Taubaté

Em 1906, a crise atingiu seu ponto culminante. A safra de café desse ano ultrapassou os 20 milhões de sacas, para um consumo mundial inferior a 16 milhões, enquanto os preços continuavam a cair. Em fevereiro, reuniram-se em Taubaté os presidentes Jorge Tibiriçá (São Paulo), Nilo Peçanha (Rio de Janeiro) e Francisco Salles (Minas), procurando encontrar uma saída para o impasse. Precedida de intensas pressões dos cafeicultores sobre o presidente da República, Rodrigues Alves – que tomara posse em 1902 – para que fosse aprovado um plano de valorização do café, proposto pelo industrial paulista Alexandre Siciliano, a reunião estabeleceu princípios que iriam modificar inteiramente a orientação econômica do Governo federal. Rodrigues Alves, apesar de paulista e cafeicultor, opunha-se à valorização, pois queria dar continuidade à política deflacionária do governo anterior, de Campos Salles. No entanto, obedecendo aos reclamos do "complexo do café", os presidentes Tibiriçá, Peçanha e Salles firmaram acordo que representava literalmente a "salvação da lavoura". Conhecido como Convênio de Taubaté, esse acordo fixou os seguintes princípios: a) preço mínimo para a saca de café; b) negociação de um empréstimo externo de 15 milhões de libras esterlinas para custear as compras de café a serem feitas pelos Governos estaduais, com a finalidade de retirar do mercado uma parte do produto;
c) estabelecimento de um fundo para a estabilização do câmbio, impedindo assim que o mil-réis fosse revalorizado; esse fundo seria a Caixa de Conversão; d) imposição de uma taxa proibitiva para impedir o surgimento de novas plantações.
"Depois de alguma luta para demover os opositores do plano, o Convênio foi finalmente aprovado pelo Congresso Nacional, não sem certa resistência de Rodrigues Alves. Tal resistência, aliás, custou-lhe o mando político do país. Durante aquele ano ocorreria a sucessão presidencial e os representantes dos grandes Estados rejeitaram o candidato preferido de Rodrigues Alves, escolhendo Affonso Penna, inteiramente identificado com a valorização do café. Empossado em novembro, Penna honraria fielmente seus compromissos com cafeicultura.
Durante os três anos seguintes foi implantada a Caixa de Conversão e os Estados conseguiram dos banqueiros europeus o ansiado empréstimo de 15 milhões de libras, com o qual puderam efetuar compras maciças de café excedente. Em 1909, surgiram os primeiros efeitos da política de valorização. Os preços internacionais do café começaram a subir, enquanto a Caixa de Conversão conservava o câmbio artificialmente baixo. No entanto, o país endividara-se no exterior. Os grandes bancos europeus passaram a controlar o comércio do café. Muitas fazendas foram vendidas a estrangeiros, pois o esquema valorizador enriqueceu apenas uma parte dos produtores.
Os principais beneficiários da nova política econômica foram basicamente os banqueiros internacionais e as casas comissárias, que, comprando o café na baixa e vendendo-o na alta, auferiram lucros fabulosos. Algumas delas, aliás, tornaram-se grandes proprietárias de fazendas. A Prado Chaves, por exemplo, adquiriu, nesse período, catorze fazendas, vendidas a baixo preço por cafeicultores arruinados, com um total de 3,5 milhões de pés de café.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

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XARÁ, FIQUE FIRME!

Quando assisti ao videoclipe de “Ninguém Regula a América” pela primeira vez, imaginei que ele fosse encerrar com a imagem do Che. Mas os realizadores tiveram outra idéia: terminaram com o rosto de quem havia iniciado o filme: Marcelo Yuka.

Marcelo Salles

Volto a pensar no músico após conversarmos sobre aquilo tudo que sempre conversamos: política, Rio de Janeiro, violência, desigualdade social e, mais importante, como intervir na sociedade para melhorar a situação.

Aí relembro algumas de suas letras, primeiro as que compôs no Rappa. “Minha alma”, “Me deixa”, “Ninguém Regula a América”, “O que sobrou do céu”, “Pescador de Ilusões”, além da adaptação de “Hey Joe”, em que conseguiu a proeza de deixar a letra mais forte e densa que a versão original de Jimmy Hendrix – não é pouca coisa. São composições belíssimas, mesmo raras, que conseguem reunir harmonias encantadoras, mensagens importantes e algumas das levadas mais contagiantes da música brasileira.

Inevitável pensar o quanto perdeu o Rappa com a saída do Yuka. Pra ilustrar, cito apenas uma entrevista, em que os principais integrantes da banda estavam presentes. Perguntados sobre os problemas sociais, um deles responde banalidades do tipo: “do mesmo jeito que os problemas existem, há a nossa vontade de continuar tocando junto”. Lamentável… Não é difícil concluir que as novas letras da banda não chegam aos pés de um ou dois trechos de qualquer uma dessas letras criadas por Yuka. Perde o Rappa. E perde a sociedade, aliás.

Na sequencia, Yuka tentou resgatar o ativismo social no FURTO. Novas canções importantes foram compostas, como “Egocity” e “Desterro”, a primeira sobre a violência implícita nas grandes metrópoles, e a segunda sobre a violência globalizada. Em comum está o ser humano, visivelmente a preocupação central do músico. Não sei por que razões, mas o FURTO foi interrompido. A tempo.

Depois disso, dois anos atrás, Yuka esteve à frente do Manifesto Contra a Política de Extermínio, lançado na esteira do rastro de sangue deixado pela mega-operação policial no Complexo do Alemão. Na época, o secretário de Segurança do RJ José Mariano Beltrame acusou o manifesto de “míope e deslocado da realidade” – pra quem acha que no Rio não há violência, até que faz sentido…

oilimpiadas

Atualmente, Marcelo Yuka desenvolve o projeto “Outdoor Humano”, estamparia de camisas com mensagens políticas, além de produzir bandas e artistas em seu estúdio. É dele a idéia das “Olimpíadas Sociais”, com os arcos olímpicos em forma de algemas, entre outras.

Pra resumir: o Rio de Janeiro tem, ali na Tijuca, uma mente brilhante. E um coração extremamente carinhoso. E uma visão que alcança muito além do horizonte. Alguém preocupado com a cidade, o país, o planeta. E preocupado também com os sentimentos de cada ser humano. Uma pessoa assim é fundamental para todos os que tremem diante de toda injustiça cometida em qualquer lugar do mundo. Donde se vê que eu não estava enganado quando pensei na imagem do Che para o final do clipe de “Ninguém Regula a América”. Alguma coisa me diz que muitas composições do Yuka ainda vêm por aí, talvez as melhores. Xará, fique firme!

Fonte: Fazendo Média – http://www.fazendomedia.com

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Todos mentimos, o que muda é a dose

Silvia Blanco
El País

Se alguém muito entusiasmado lhe der um pastor-alemão de porcelana em tamanho natural no seu aniversário, o mais provável é que você diga "muito obrigado" e sorria como puder. Mesmo que lhe pareça um cachorro absurdo e você esteja maquinando que, para jogá-lo no lixo, o mais prático será quebrá-lo a marteladas.

A um gentil "Como vai?" no elevador do escritório, pouca gente responderia que está muito deprimida porque vai se divorciar, mesmo que seja verdade. Pura sociabilização. Mark Twain mostrou isso claramente em seu sarcástico "A decadência da arte de mentir": "Ninguém poderia viver com alguém que dissesse a verdade de habitualmente; por sorte, nenhum de nós nunca teve de fazê-lo". Ele escreveu isso mais de um século antes que Robert Feldman, professor de psicologia na Universidade de Massachusetts, estabelecesse em seu livro "The Liar in Your Life" [O mentiroso na sua vida] que mentimos entre duas e três vezes em uma primeira conversa de dez minutos com um novo conhecido.
Mentimos porque há público. Porque os outros existem. As relações exigem esse tipo de ficção consentida, quase sempre inofensiva. O psiquiatra Carlos Castilla del Pino, em seu livro póstumo "Conductas y Actitudes" (ed. Tusquets, 2009), afirma que "a vida social exige temperar, isto é, melhorar como pudermos a imagem de nós mesmos diante dos outros".
Para Nicolas Sarkozy, a comemoração da queda do Muro de Berlim o fez escorregar. Em 9 de novembro publicou em sua página no Facebook suas lembranças sobre o que ele fazia nesse dia 20 anos atrás. Disse: "[naquele dia] pela manhã nos interessamos pelas informações que vinham de Berlim e que pareciam anunciar as mudanças na capital dividida da Alemanha. Decidimos deixar Paris com Alain Juppé para participar do evento que se perfilava".
Ou bem a memória o traiu (não seria estranho: falseamos nossa própria biografia com relativa facilidade sem intenção de enganar) ou ele mentiu, como tentaram demonstrar alguns jornais franceses ("Libération", "Le Figaro"). Afirmam que esteve em Berlim, sim, mas uma semana depois.
Tal devoção por protagonizar momentos históricos não é nova, segundo Miguel Catalán, professor de ética da comunicação na Universidade Cardenal Herrera de Valência e autor do tratado "Seudología" [Pseudologia], editado por Mario Muchnik, do qual publicou três volumes: "Na Espanha houve um momento em que todo mundo parecia ter participado ‘in situ’ das revoltas de maio de 1968. Um bom número de escritores e intelectuais espanhóis parecia se encontrar casualmente em Paris nesse exato momento, e depois contou sua experiência pessoal em artigos e livros", explica.
Mas há mentiras que crescem demais e atingem o outro extremo da falsidade, a impostura. Para isso é preciso cálculo, vontade de enganar, muita energia, engenhosidade, memória e provavelmente muito tempo. É assim que se consegue ocultar a própria identidade para cimentar uma nova sobre uma mentira. Há grandes diferenças das "mentirinhas", sim, mas o preocupante é que as grandes e gordas mentiras seguem, segundo Castilla del Pino, mecanismos idênticos.
O caso de Enric Marco é exemplar. O homem passou quase 30 anos, de 1978 até 2005, dizendo que havia estado no campo de concentração nazista de Flossenbürg. Recebeu a Cruz de Sant Jordi, uma das mais altas distinções concedidas pelo governo da Catalunha. Deu centenas de conferências. Inventou-se um número de deportado, 6448. Presidiu a associação Amical de Mauthausen. Quando um historiador que passou três anos rastreando a vida de espanhóis que foram vítimas do Holocausto descobriu, demonstrou e denunciou a impostura, Marco disse à agência de notícias Efe que não o fez "por mal". "Parecia que [quando começou a contar essa história] me davam mais atenção e podia divulgar melhor o sofrimento dos que passaram pelos campos de concentração."
Não é difícil compreender – embora não se compartilhe nem se aceite – que um político minta para ocultar que roubou dinheiro público ou que recebe um suborno; que um assassino conte um filme mais ou menos verossímil à polícia para tentar demonstrar que não tem nada a ver com aquele cadáver, ou que alguém invente todo tipo de desculpa para manter uma infidelidade. São mentiras instrumentais, têm um objetivo pontual e correspondem aos três principais motores da falsidade: "poder, sexo e dinheiro", indica Catalán.
"Há algo de gratuito e desnecessário nessa impostura, e portanto de criativo", prossegue. "Mente só para ocupar o centro da atenção. Além de natural (no fundo, poucos preferem passar despercebidos a ser protagonistas), essa motivação retém algo do egocentrismo associal da infância, e por isso pode nos fazer sorrir, porque descumpre o primeiro preceito da prudência adulta nesses casos: nunca se deve mentir quando dizer a verdade é mais vantajoso. O problema surge quando a impostura é radical ou vital; quando ocupa o centro da personalidade do sujeito."
O que há por trás de um impostor? Por que ele arrisca tudo por uma invenção aparentemente desnecessária? "Uma insatisfação sobre a própria personalidade que ele tende a compensar de maneira simbólica. No início há uma recompensa imediata, conta-se algo que impressiona os outros em um pequeno âmbito. Mas depois é cada vez mais difícil ser convincente, envolve-se mais pessoas e perde-se o controle", comenta Catalán.
Castilla del Pino explica em seu livro que "a impostura é uma incongruência no processo permanente de construção e uso da identidade obtida. (…) Exige tal memória de evocação sobre as muitas mentiras contadas que sempre existe o risco de se autorrevelar. O impostor transgride de maneira total os pactos de veracidade que regem de maneira decisiva a interação que, fora a questão moral, constituem uma economia mental. A tensão é de tal ordem que às vezes os leva à confissão como maneira de resolver a angústia".
Uma mentira exige muitas outras. Uma grande mentira exige compromisso. Calcular, elaborar, elucubrar possíveis cenários perigosos e respostas para perguntas incômodas, capacidade de improvisação. Para José María Martínez Selva, professor de psicologia na Universidade de Murcia e autor de "La Gran Mentira" (ed. Paidós, 2009), é preciso distinguir entre o impostor instrumental, o que ele chama de "canalha", ou o fabulador. Marco entraria na primeira categoria. Tania Head, na segunda.
Essa barcelonesa cujo nome real é Alicia Esteve Head chegou a presidir a associação de vítimas do World Trade Center. Tania Head entra em cena logo depois dos atentados de 11 de Setembro em Nova York, quando o mundo inteiro está comovido pelo desastre. Ela explica à mídia, no ponto zero, que estava no 78º andar da torre sul, entre as 20 pessoas que sobreviveram embora se encontrassem em andares mais altos que os afetados pelo impacto do avião. Dizia trabalhar nos escritórios da Merrill Lynch e que um homem, pouco antes de morrer, lhe deu sua aliança de casamento para que a entregasse a sua mulher. Como se não fosse suficientemente impactante, seu relato incluía a tragédia de seu namorado, Dave, que morreu na torre norte e com o qual estava prestes a se casar.
Os jornais "The New York Times" e "La Vanguardia" desmontaram a história em setembro de 2007. O jornal espanhol reuniu dados sobre Alícia Esteve, que nem era filha de diplomatas nem havia estudado em Harvard nem em Stanford. "É a autêntica fabuladora", opina Martínez Selva. "Nem todo mundo é capaz de mentir assim. Ela se recria nos detalhes, desfruta sendo o centro da atenção e impressionando os demais a golpe de emoção. Esse tipo de pessoa é capaz de continuar mentindo, de mudar de ambiente ou de país e reinventar-se, diferentemente de Enric Marco, que, uma vez descoberto, parou. Ele evitava contar anedotas de sua passagem pelo campo e compartilhar experiências com os sobreviventes."
Quanto mais gente estiver envolvida na mentira, maior o risco assumido pelo impostor. Para alguns dá exatamente na mesma. A realidade se transforma em um mero estorvo que pode ser modificado. O fabulador simplesmente a ignora. Se for confrontado com dados, improvisa outra versão. Mas a maioria faz um cálculo que acaba sendo impossível de controlar: a bola tem vida própria e é difícil de parar. Apesar de ter começado com algo muito pequeno, em um entorno próximo, como ocorreu com Marco. "Uma vez imerso nas palestras e conferências, de falar no Congresso dos Deputados e presidir a Amical de Mauthausen, descer dessa roda teria sido quase tão difícil quanto tirar a própria vida", explica Catalán.
É habitual que uma grande mentira, mesmo que não tenha suplantação da identidade ou impostura no sentido de mentir sobre si mesmo até ser outra pessoa, leve a cometer crimes. É o caso da família Heene, os pais do "menino do balão". Na última quinta-feira eles admitiram as acusações por denúncia falsa, por mobilizar as autoridades para que resgatassem seu filho de um perigo inexistente, informa a BBC.
Há 15 dias o cientista sul-coreano Hwang Woo-suk, especialista mundial em clonagem, foi condenado a dois anos de inabilitação por falsear o programa de pesquisa com células-tronco que dirigia. Hwang tinha um enorme prestígio profissional, uma carreira sólida e tinha conseguido clonar um cachorro (esta descoberta foi verificada). Em 2005 publicou um estudo que criou falsas expectativas em relação à cura de doenças como o Alzheimer ou o câncer, manipulando dados. Ele fez isso na revista "Science", uma referência internacional de rigor e qualidade. "É um impostor, sim, mas neste caso sua conduta é condicionada pela enorme pressão que representa dirigir um laboratório de pesquisa de ponta, com muita gente sob seu comando. Teve a tentação e foi vítima da fama", explica Martínez Selva.
Nas grandes mentiras sempre existe a dúvida de se, à força de repeti-las e contá-las, o impostor acaba acreditando nelas. A maioria deles não sofre qualquer enfermidade mental, explica Jerónimo Saiz, presidente da Associação Espanhola de Psiquiatria. Mentir é quase sempre uma escolha. Desde a mera maquiagem da realidade para que se adapte à imagem que queremos dar em um dado momento, até a grande mentira, buscamos coerência. Quando se conta algo falso que produz culpa ou intranquilidade, é habitual que se relativize ou se incline, que não se leve em conta o dado que nos confronta com a realidade. O tornamos óbvio intimamente se decidimos continuar com o engano, explica o psicólogo Pedro Rodríguez.
Levar esse mecanismo ao extremo pode explicar em parte a persistência na falsidade, até que se torne inevitável reconhecê-la. A própria configuração da memória – um processo ativo que se refaz constantemente – propicia que haja gente capaz de lembrar como verdadeiros fatos que nunca ocorreram, sobretudo em relação à infância, explica o catedrático em fisiologia da Universidade Complutense, Francisco José Rubia. "Ao armazenar lembranças, comparamos com o que já conhecemos e nesse processo utilizamos emoções, crenças, expectativas e realidade. Tendemos a embelezá-los e a contá-los várias vezes, assim os vamos modificando", afirma. De fato, o autoengano é positivo, já que "nos ajuda a suportar as frustrações da vida. As pessoas deprimidas manifestam o que chamamos de realismo depressivo: a imagem que têm de si mesmas se parece mais com como os outros as veem. Não fazem como as outras pessoas, dizer a si mesmo que é boa pessoa, que é inteligente e elevar suas virtudes", conta Martínez Selva.
A mentira é uma questão de dose: um pouco de autoengano e um pouco de cortesia para poder sair à rua. As demais ficam para os que preferem finais com fogos de artifício.
A aterrissagem abrupta do menino do balão
O balão inflado com mentiras em que se elevou o casal Heene do Colorado (EUA) acabou de desinchar na quinta-feira. A BBC informou que ambos tinham aceitado as acusações de denúncia falsa e que portanto enfrentam uma pena entre dois e três meses de prisão. Admitindo o embuste, conseguiram evitar que fossem acusados de conspiração e de induzir um menor ao crime, seu filho, e por isso poderiam ter pegado seis anos de prisão.
O casal já tinha participado de "reality shows" na televisão. Há algumas semanas devem ter sentido saudade. Pensaram que se fingissem que seu filho de 6 anos estava em um balão que havia se elevado descontroladamente, conseguiriam passar para a posteridade. Mesmo que por um breve momento. Durante horas eles conseguiram. As redes de televisão dos EUA emitiram imagens do balão à deriva e a notícia se espalhou por meio mundo; a polícia e os bombeiros se preparavam para resgatar o rapaz em um raio de 64 km. Com grande dramaticidade, os pais compungidos esperavam o milagre enquanto o menino estava escondido em um quarto de despejo em sua casa. Agora eles admitem que sabiam de tudo.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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Barbárie e modernidade no século 20

Michael Löwy

Barbárie civilizada

Barbárie civilizada

A palavra "bárbaro" é de origem grega. Ela designava, na Antigüidade, as nações não-gregas, consideradas primitivas, incultas, atrasadas e brutais. A oposição entre civilização e barbárie é então antiga. Ela encontra uma nova legitimidade na filosofia dos iluministas, e será herdada pela esquerda. O termo "barbárie" tem, segundo o dicionário, dois significados distintos, mas ligados: "falta de civilização" e "crueldade de bárbaro". A história do século 20 nos obriga a dissociar essas duas acepções e a refletir sobre o conceito – aparentemente contraditório, mas de fato perfeitamente coerente – de "barbárie civilizada".

Em que consiste o "processo civilizador"? Como bem demonstrou Norbert Elias, um de seus aspectos mais importantes é que a violência não é mais exercida de maneira espontânea, irracional e emocional pelos indivíduos, mas é monopolizada e centralizada pelo Estado, mais precisamente, pelas forças armadas e pela polícia. Graças ao processo civilizador, as emoções são controladas, o caminho da sociedade é pacificado e a coerção física fica concentrada nas mãos do poder político1. O que Elias não parece ter percebido é o reverso dessa brilhante medalha: o formidável potencial de violência acumulado pelo Estado… Inspirado por uma filosofia otimista do progresso, ele podia escrever, ainda em 1939: "Comparada ao furor do combate abissínio (…) ou daquelas tribos da época das grandes migrações, a agressividade das nações mais belicosas do mundo civilizado parece moderada (…); ela só se manifesta em sua força brutal e sem limites em sonho e em alguns fenômenos que nós qualificamos de ‘patológicos’".2

Alguns meses depois dessas linhas terem sido escritas, começava uma guerra entre nações "civilizadas" cuja "força brutal e sem limites" é simplesmente impossível de comparar com o pobre "furor" dos combatentes etíopes, tamanha é a desproporção. O lado sinistro do "processo civilizador" e da monopolização estatal da violência se manifestou em toda sua terrível potência.

Se nós nos referimos ao segundo sentido da palavra "bárbaro" – atos cruéis, desumanos, a produção deliberada de sofrimento e a morte deliberada de não-combatentes (em particular, crianças) – nenhum século na história conheceu manifestações de barbárie tão extensas, tão massivas e tão sistemáticas quanto o século XX. Certamente, a história humana é rica em atos bárbaros, cometidos tanto pelas nações "civilizadas" quanto pelas tribos "selvagens". A história moderna, depois da conquista das Américas, parece uma sucessão de atos desse gênero: o massacre de indígenas das Américas, o tráfico negreiro, as guerras coloniais. Trata-se de uma barbárie "civilizada", isto é, conduzida pelos impérios coloniais economicamente mais avançados.

Karl Marx era um dos críticos mais ferozes desses tipos de práticas maléficas e destruidoras da modernidade, que para ele estão associadas às necessidades de acumulação do capital. Em O Capital, especialmente no capítulo sobre a acumulação primitiva, encontra-se uma crítica radical dos horrores da expansão colonial: a escravização ou o extermínio dos indígenas, as guerras de conquista, o tráfico de negros. Essas "barbáries e atrocidades execráveis" – que segundo Marx (citando de modo favorável M.W. Howitt) "não têm paralelo em qualquer outra era da história universal, em nenhuma raça por mais selvagem, grosseira, impiedosa e sem pudor que ela tenha sido" – não foram simplesmente passadas aos lucros e perdas do progresso histórico, mas devidamente denunciadas como uma "infâmia"3. Considerando algumas das manifestações mais sinistras do capitalismo, como as leis dos pobres ou os workhouses – estas "bastilhas de operários" -, Marx escreveu em 1847 esta passagem surpreendente e profética, que parece anunciar a Escola de Frankfurt: "A barbárie reapareceu, mas desta vez ela é engendrada no próprio seio da civilização e é parte integrante dela. É a barbárie leprosa, a barbárie como lepra da civilização"4

Mas com o século XX, um limite é transgredido, passa-se a um nível superior; a diferença é qualitativa. Trata-se de uma barbárie especificamente moderna, do ponto de vista de seu etos, de sua ideologia, de seus meios, de sua estrutura. Nós voltaremos a esse ponto.

A Primeira Guerra Mundial inaugurou esse novo estágio da barbárie civilizada. Dois autores, os primeiros, soaram o sinal de alarme, em 1914-15: Roxa Luxemburgo e Franz Kafka. Apesar de suas evidentes diferenças, eles têm em comum o fato de terem tido a intuição – cada um à sua maneira – de alguma coisa sem precedente que estava para se constituir no curso daquela guerra.

Ao usar a palavra de ordem "socialismo ou barbárie", Rosa Luxemburgo em A crise da social-democracia, de 1915 (assinada com o pseudônimo "Junius"), rompeu com a concepção – de origem burguesa, mas adotada pela Segunda Internacional – da história como progresso irresistível, inevitável, "garantido" pelas leis "objetivas" do desenvolvimento econômico ou da evolução social. Essa palavra de ordem é sugerida por certos textos de Marx ou de Engels, mas é Rosa Luxemburgo que dá a ela essa formulação explícita e elaborada. Ela implica uma percepção da história como processo aberto, como série de "bifurcações", onde o "fator subjetivo" – consciência, organização, iniciativa – dos oprimidos tornam-se decisivos. Não se trata mais de esperar que o fruto "amadureça", segundo as "leis naturais" da economia ou da história, mas de agir antes que seja tarde demais.

Porque o outro lado da alternativa é um sinistro perigo: a barbárie. Em um primeiro momento ela parece considerar a "recaída na barbárie" como "a aniquilação da civilização", uma decadência análoga àquela da Roma antiga5. Mas logo ela se dá conta que não se trata de uma impossível "regressão" a um passado tribal, primitivo ou "selvagem", mas antes, de uma barbárie eminentemente moderna, da qual a Primeira Guerra Mundial dá um exemplo surpreendente, bem pior em sua desumanidade assassina que as práticas guerreiras dos conquistadores "bárbaros" do fim do Império Romano. Jamais no passado tecnologias tão modernas – os tanques, o gás, a aviação militar – tinham sido colocadas ao serviço de uma política imperialista de massacre e de agressão em uma escala tão imensa.

As intuições de Kafka são de uma natureza totalmente diferente. É sob a forma literária e imaginária que ele descreve a nova barbárie. Trata-se de uma novela intitulada A colônia penal: em uma colônia francesa, um soldado "indígena" é condenado à morte por oficiais cuja doutrina jurídica resume em poucas palavras a quintessência do arbitrário: "a culpabilidade não deve jamais ser colocada em dúvida!". Sua execução deve ser cumprida por uma máquina de tortura que escreve lentamente sobre seu corpo com agulhas que o atravessam a frase "Honra teus superiores".

O personagem central da novela não é nem o viajante que observa os acontecimentos com uma hostilidade muda, nem o prisioneiro, que não reage de modo nenhum, nem o oficial que preside a execução, nem o comandante da colônia. É a máquina mesma.

Toda a narrativa gira em torno desse sinistro aparelho (Apparat), que parece mais e mais, no curso da explicação detalhada que o oficial dá ao viajante, como um fim em si mesmo. O Aparelho não está lá para executar o homem, é sobretudo este que está lá pelo Aparelho, para fornecer um corpo sobre o qual ele possa escrever sua obra-prima estética, sua inscrição sangrenta ilustrada de "muitos florilégios e ornamentos". O oficial mesmo é apenas um servidor da Máquina e, finalmente, ele mesmo se sacrifica à esse insaciável Moloch6.

Em que "máquina de poder" bárbara, em que "aparelho da autoridade" sacrificador de vidas humanas, pensava Kafka? A colônia penal foi escrita em outubro de 1914, três meses após a eclosão da grande guerra. Há poucos textos na literatura universal que apresentam de maneira tão penetrante a lógica mortífera da barbárie moderna como mecanismo impessoal.

Esses pressentimentos parecem se perder nos anos do pós-guerra. Walter Benjamin é um dos raros pensadores marxistas a compreender que o progresso técnico e industrial pode ser portador de catástrofes sem precedentes. Daí seu pessimismo – não fatalista, mas ativo e revolucionário. Em um artigo de 1929 ele definia a política revolucionária como "a organização do pessimismo" – um pessimismo em todas as linhas: desconfiança quanto ao destino da liberdade, desconfiança quanto ao destino do povo europeu. E acrescenta ironicamente: "confiança ilimitada somente no IG Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Luftwaffe"7. Ora, mesmo Benjamin, o mais pessimista de todos, não podia adivinhar a que ponto essas duas instituições iriam mostrar, alguns anos mais tarde, a capacidade maléfica e destrutiva da modernidade8.

Pode-se definir como propriamente moderna a barbárie que apresenta as seguintes características:

- Utilização de meios técnicos modernos. Industrialização do homicídio. Exterminação em massa graças às tecnologias científicas de ponta.

- Impessoalidade do massacre. Populações inteiras – homens e mulheres, crianças e idosos – são "eliminados", com o menor contato pessoal possível entre quem toma a decisão e as vítimas.

- Gestão burocrática, administrativa, eficaz, planificada, "racional" (em termos instrumentais) dos atos bárbaros.

- Ideologia legitimadora do tipo moderno: "biológica", "higiênica", "científica" (e não religiosa ou tradicionalista)

- Todos os crimes contra a humanidade, genocídios e massacres do século XX não são modernos no mesmo grau: o genocídio dos armênios em 1915, o genocídio levado a cabo pelo Pol Pot no Camboja, aquele dos tutsis em Ruanda etc. associam, cada um de maneira específica, traços modernos e traços arcaicos.

Os quatro massacres que encarnam de maneira mais acabada a modernidade da barbárie são o genocídio nazista contra os judeus e os ciganos, a bomba atômica em Hiroshima, o Goulag estalinista e a guerra norte-americana no Vietnã. Os dois primeiros são provavelmente os mais integralmente modernos: as câmaras de gás nazistas e a morte atômica norte-americana contêm praticamente todos os ingredientes da barbárie tecno-burocrata moderna.

Auschwitz representa a modernidade não somente pela sua estrutura de fábrica de morte, cientificamente organizada e que utiliza as técnicas mais eficazes. O genocídio dos judeus e dos ciganos é também, como observa o sociólogo Zygmunt Bauman, um produto típico da cultura racional burocrática, que elimina da gestão administrativa toda interferência moral. Ele é, deste ponto de vista, um dos possíveis resultados do processo civilizador como racionalização e centralização da violência e como produção social da indiferença moral. "Como toda outra ação conduzida de maneira moderna – racional, planificada, cientificamente informada, gerida de forma eficaz e coordenada – o Holocausto deixou para trás todos seus pretensos equivalentes pré-modernos, revelando-os em comparação como primitivos, esbanjadores e ineficazes. (…) Ele se eleva muito acima dos episódios de genocídio do passado, da mesma forma que a fábrica industrial moderna está bem acima da oficina artesanal…."9

A ideologia legitimadora do genocídio é ela também de tipo moderno, pseudo-científico, biológico, antropométrico, eugenista. A utilização obsessiva de fórmulas pseudo-medicinais é característica do discurso anti-semita dos dirigentes nazistas, o que pode ser notado nas conversações privadas deles. Numa carta a Himmler em 1942, Adolf Hitler insistia: "A batalha na qual nós estamos engajados hoje é do mesmo tipo que a batalha liderada, no século passado, por Pasteur e Koch. Quantas doenças não tiveram sua origem no vírus judeu… Nós não encontraremos nossa saúde sem eliminar os judeus".10

Em seu notável ensaio sobre Auschwitz11, Enzo Traverso destaca, com palavras sóbrias, precisas e lúcidas, o contexto do genocídio. Não se trata nem de uma simples "resistência irracional à modernização", nem de um resíduo de barbárie antiga, mas de uma manifestação patológica da modernidade, do rosto escondido, infernal, da civilização ocidental, de uma barbárie industrial, tecnológica, "racional" (do ponto de vista instrumental). Tanto a motivação decisiva do genocídio – a biologia racial – quanto suas formas de realização – as câmaras de gás – eram perfeitamente modernas. Se a racionalidade instrumental não basta para explicar Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica capitalista da qual falava Marx, "a organização científica do trabalho" de Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber.

Este último tinha intuído, como sublinha Marcuse, a transformação da razão ocidental em força destrutiva. Sua análise da burocracia como máquina "desumanizada", impessoal, sem amor nem paixão, indiferente a tudo aquilo que não é sua tarefa hierárquica, é essencial para compreender a lógica reificada dos campos da morte. Isso vale também para a fábrica capitalista, que estava presente em Auschwitz, ao mesmo tempo nas oficinas de trabalho escravo da empresa IG Farben e nas câmaras à gás, lugares de produção "em cadeia" de mortos. Mas a "solução final" é irredutível à toda lógica econômica: a morte não é nem uma mercadoria, nem uma fonte de lucro.

Traverso critica, de maneira muito convincente, as interpretações – inspiradas, em um grau ou outro, pela ideologia do progresso – do nazismo e do genocídio como produto da história do irracionalismo alemão (Georges Lukács), de uma "saída" da Alemanha para fora do berço ocidental (Jürgen Habermas) ou de um movimento de "descivilização" (Entzivilisierung) inspirado por uma ideologia "pré-industrial" (Norbert Elias). Se o processo civilizador significa, antes de tudo, a monopolização pelo estado da violência – como o mostram, depois de Hobbes, tanto Weber quanto Elias – é necessário reconhecer que a violência do Estado está na origem de todos os genocídios do século XX. Auschwitz não representa uma "regressão" em direção ao passado, em direção a uma idade bárbara primordial, mas é realmente um dos rostos possíveis da civilização industrial ocidental. Ele constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e universalista dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades negativas e destrutivas de nossa civilização.

Se o extermínio dos judeus pelo Terceiro Reich é comparável a outros atos bárbaros, nem por isso ele deixa de ser um evento singular. É necessário recusar as interpretações que eliminam as diferenças entre Auschwitz e os campos soviéticos, ou os massacres coloniais, os pogroms etc.12 O crime de guerra que tem mais afinidades com Auschwitz é Hiroshima, como compreenderam tão bem Günther Anders e Dwight MacDonald: nos dois casos delega-se a tarefa a uma máquina de morte formidavelmente moderna, tecnológica e "racional". Mas as diferenças são fundamentais. Inicialmente, as autoridades americanas não tiveram jamais como objetivo – como aquelas do Terceiro Reich – realizar o genocídio de toda uma população: no caso das cidades japonesas, o massacre não era, como nos campos nazistas, um fim em si mesmo, mas um simples "meio" para atingir objetivos políticos. O objetivo da bomba atômica não era o extermínio da população japonesa como fim autônomo. Tratava-se sobretudo de acelerar o fim da guerra e demonstrar a supremacia militar americana face à União Soviética. Em um relatório secreto de maio de 1945 ao presidente Truman, o Target Committee – o "Comitê de Alvo", composto pelos generais Groves, Norstadt e do matemático Von Neumann – observa friamente: "A morte e a destruição irão não somente intimidar os japoneses sobreviventes a fazer pressão pela capitulação mas também (a bônus) assustar a União Soviética. Em síntese, a América poderia terminar mais rapidamente a guerra e, ao mesmo tempo, ajudar à moldar o mundo do pós-guerra"13. Para obter esses objetivos políticos, a ciência e a tecnologia mais avançadas foram utilizadas e centenas de milhares de civis inocentes, homens, mulheres e crianças foram massacrados – sem falar da contaminação pela irradiação nuclear das gerações futuras.

Uma outra diferença com Auschwitz é, sem dúvida, o número bem inferior de vítimas. Mas a comparação das duas formas de barbárie burocrático-militar é muito pertinente. Os próprios dirigentes americanos estavam conscientes do paralelo com os crimes nazistas: em uma conversa com Truman no dia 6 de junho de 1945, o secretário de Estado, Stimson, relatava seus sentimentos: "Eu disse a ele que estava inquieto com esse aspecto da guerra… porque eu não queria que os americanos ganhassem a reputação de ultrapassar Hitler em atrocidade"14.

Em muitos aspectos, Hiroshima representa um nível superior de modernidade, tanto pela novidade científica e tecnológica representada pela arma atômica, quanto pelo caráter ainda mais distante, impessoal, puramente "técnico" do ato exterminador: pressionar um botão, abrir a escotilha que liberta a carga nuclear. No contexto próprio e asséptico da morte atômica entregue pela via aérea, deixou-se para trás certas formas manifestamente arcaicas do Terceiro Reich, como as explosões de crueldade, o sadismo e a fúria assassina dos oficiais da SS. Essa modernidade se encontra na cúpula norte-americana que toma – após ter cuidadosa e "racionalmente" pesado os prós e os contras – a decisão de exterminar a população de Hiroshima e Nagasaki: um organograma burocrático complexo composto por cientistas, generais, técnicos, funcionários e políticos tão cinzentos quanto Harry Truman, em contraste com os acessos de ódio irracional de Adolf Hitler e seus fanáticos.

No curso dos debates que precederam a decisão de lançar a bomba, certos oficiais, como o general Marshall, declararam suas reservas, à medida em que eles defendiam o antigo código militar, a concepção tradicional da guerra, que não admitia o massacre intencional de civis. Eles foram vencidos por um ponto de vista novo, mais "moderno", fascinado pela novidade científica e técnica da arma atômica, um ponto de vista que não tinha nada a ver com códigos militares arcaicos e que não se interessava senão pelo cálculo de lucros e perdas, isto é, em critérios de eficácia político-militar15. Seria necessário acrescentar que um certo número de cientistas que tinham participado, por convicção antifascista, nos trabalhos de preparação da arma atômica, protestaram contra a utilização de suas descobertas contra a população civil das cidades japonesas.

Uma palavra sobre o Goulag estalinista: se há muito em comum com Auschwitz – sistema concentracionário, regime totalitário, milhões de vítimas – ele se distingue pelo fato que o objetivo dos campos soviéticos não era o extermínio dos prisioneiros mas sua exploração brutal como força de trabalho escrava. Em outras palavras: pode-se comparar Kolyma e Buchenwald, mas não o Goulag e Treblinka. Nenhuma contabilidade macabra – como aquela fabricada por Stéphane Courtois e outros anticomunistas profissionais – pode apagar essa diferença.

O Goulag era uma forma de barbárie moderna na medida em que era burocraticamente administrado por um Estado totalitário e colocado ao serviço de projetos estalinistas faraônicos de "modernização" econômica da União Soviética. Mas ele se caracteriza também por traços mais "primitivos": corrupção, ineficácia, arbitrariedade, "irracionalidade". Ele se situa por essa razão em um degrau de modernidade inferior ao sistema concentracionário do Terceiro Reich.

Enfim, a guerra americana no Vietnã, atroz pelo número de vítimas civis exterminadas pelos bombardeios, o napalm ou as execuções coletivas, constitui, em vários aspectos, uma intervenção extremamente moderna: fundada sobre uma planificação "racional" – com a utilização de computadores, e de um exército de especialistas – ela mobiliza um armamento muito sofisticado, na ponta do progresso técnico dos anos 60 e 70: B-52, napalm, herbicidas, bombas à fragmentação etc.16

Essa guerra não foi um conflito colonial como os outros: bastava lembrar que a quantidade de bombas e explosivos lançados sobre o Vietnã foi superior àquela utilizada por todos os beligerantes durante a Segunda Guerra Mundial! Como no caso de Hiroshima, o massacre não era um objetivo em si, mas um meio político; e se a cifra de mortos é bem superior àquela das duas cidades japonesas, não se encontra no Vietnã aquela perfeição da modernidade técnica e impessoal, aquela abstração científica da morte que caracteriza a morte atômica"17.

A natureza contraditória do "progresso" e da "civilização" moderna se encontra no coração das reflexões da Escola de Frankfurt. Em Dialética do Iluminismo (1944), Adorno e Horkheimer constatam a tendência da racionalidade instrumental de se transformar em loucura assassina: a "luminosidade gelada" da razão calculista "carrega a semente da barbárie". Em uma nota redigida em 1945 para Minima Moralia, Adorno utiliza a expressão "progresso regressivo" tentando de dar conta da natureza paradoxal da civilização moderna.18

Entretanto, essas expressões ainda são tributárias, apesar de tudo, da filosofia do progresso. Na verdade, Auschwitz e Hiroshima não são em nada uma "regressão à barbárie" – ou mesmo uma "regressão": não há nada no passado que seja comparável à produção industrial, científica, anônima e racionalmente administrada da morte em nossa época. Basta comparar Auschwitz e Hiroshima com as práticas guerreiras das tribos bárbaras do século IV para se dar conta que eles não têm nada em comum: a diferença não é somente na escala, mas na natureza. É possível comparar as práticas mais "ferozes" dos "selvagens" – morte ritual do prisioneiro de guerra, canibalismo, redução das cabeças etc. – com uma câmara de gás ou uma bomba atômica? São fenômenos inteiramente novos, que não seriam possíveis a não ser no século XX.

As atrocidades de massa, tecnologicamente aperfeiçoadas e burocraticamente organizadas, pertencem unicamente à nossa civilização industrial avançada. Auschwitz e Hiroshima não são mais "regressões": são crimes irremediavelmente e exclusivamente modernos.

Existe entretanto um domínio específico da "barbárie civilizada" em que se pode efetivamente falar de regressão: a tortura. Como destaca Eric Hobsbawn em seu admirável ensaio de 1994, "Barbárie: um guia para o usuário": "A partir de 1782 a tortura foi formalmente eliminada do procedimento judiciário dos países civilizados. Em teoria, ela não era mais tolerada nos aparelhos coercitivos do Estado. O preconceito contra essa prática era tão forte que ela não pôde retornar após a derrota da Revolução Francesa que a havia seguramente abolido (…) Pode-se suspeitar que nos redutos da barbárie tradicional, que resistem ao progresso moral – por exemplo as prisões militares ou outras instituições análogas – ela de fato não desapareceu…" Ora, no século XX, sob o fascismo e o estalinismo, nas guerras coloniais – Argélia, Irlanda etc. – e nas ditaduras latino-americanas, a tortura é de novo empregada em grande escala.19

Os métodos são diferentes – a eletricidade substitui o fogo e os torniquetes – mas a tortura de prisioneiros políticos tornou-se, no curso do século XX, uma prática rotineira – mesmo se não-oficial – de regimes totalitários, ditatoriais, e mesmo, em certos casos (as guerras coloniais), "democráticos". Nesse caso, o termo "regressão" é pertinente, na medida em que a tortura era praticada em inúmeras sociedades pré-modernas, e também na Europa, da Idade Média até o século XVIII. Um uso bárbaro que o processo civilizador parecia ter suprimido no curso do século XIX voltou no século XX, sob uma forma mais "moderna" – do ponto de vista das técnicas – mas não menos desumana.

Levar em conta a barbárie moderna do século XX exige o abandono da ideologia do progresso linear. Isso não quer dizer que o progresso técnico e científico é intrinsecamente portador de malefício – nem tampouco o inverso. Simplesmente, a barbárie é uma das manifestações possíveis da civilização industrial/capitalista moderna – ou de sua cópia "socialista" burocrática.

Não se trata também de reduzir a história do século XX a seus momentos bárbaros: essa história conheceu também a esperança, as sublevações dos oprimidos, as solidariedades internacionais, os combates revolucionários: México, 1914; Petrogrado, 1917; Budapeste, 1919; Barcelona, 1936; Paris, 1944; Budapeste, 1956; Havana, 1961; Paris, 1968; Lisboa, 1974; Manágua, 1979; Chiapas, 1994; foram alguns dos momentos fortes – mesmo se efêmeros – dessa dimensão emancipadora do século. Eles constituem pontos de apoio preciosos à luta das gerações futuras por uma sociedade humana e solidária.

Notas:

1 Norbert Elias, La Dynamique de l’Occident, Paris, Calmann-Lévy, 1975, pp.181-190. A referência ao combate abissínio soa estranha no momento em que a Etiópia combatia pela sua liberdade contra a invasão colonial do fascismo italiano, portador de uma pretensa missão "civilizadora".

2 Norbert Elias, La civilisation des moeurs, Paris, Calmann-Lévy, 1973, p.280.

3 Marx, Le Capital, vol. I, p.557-558, 563.

4 K. Marx, "Arbeitslohn", 1847, Kleine Ökonomische Schriften, Berlin, Dietz Verlag, 1955, p.245.

5 R. Luxemburgo, A crise da social-democracia, 1915.

6 Kafka, "In der Strafkolonie", Erzählung und kleine Prosa, N. York, Schocken Books, 1946, pp.181-113.

7 W. Benjamin, "O surrealismo. O último instante de inteligência européia", 1929. Mythe et violence, Paris, Letras Novas, 1971, p.312

8 Lembremos que o grande truste químico IG Farben não somente utilizou massivamente a mão-de-obra escrava em Auschwitz mas também produziu o gás Zyklotron B, que servia para exterminar as vítimas do sistema concentracionário.

9 Zygmut Bauman, Modernity and the Holocaust, London, Polity Press, 1989, p.15, 28.

10 Citado por Zygmunt Bauman, op.cit, p.71

11 Enzo Traverso, L’Histoire déchirée. Essai sur Auschwitz et les intellectuels, Paris, Cerf, 1997

12 Sobre esse assunto, remeto à excelente colocação de Enzo Traverso, "A singularidade de Auschwitz. Hipóteses, problemas e derivações da pesquisa histórica". Pour une critique de la barbarie moderne. Ecrits sur l’histoire des Juifs e de l’antisémitisme, Lausanne, Ed. Page deux, 1997.

13 Citado dos arquivos históricos recentemente abertos ao público em Barton J. Bernstein, "The Atomic Bombings Reconsidered", Foreign Affairs, fevereiro 1995, p. 143.

14 Ibid, p.146.

15 Sobre as reservas de Marshall, cf. Barton J. Bernstein, Op.cit, p.143.

16 De fato, é inteiramente racional se a "razão" significa racionalidade instrumental, aplicar a força militar norte-americana, os B-52, o napalm e todo o resto no Vietnã "sob dominação comunista" (claramente um "objeto indesejável"), como o "operador" para o transformar em "objeto desejável". Joseph Weizenbaum, "Computer Power and Human Reason". From Judgmente to Calculation, S. Francisco, W.H. Freeman, 1976, p.252

17 Outras guerras coloniais tiveram lugar no século XX – na Indochina, na Argélia, na África colonial portuguesa etc., mas nenhuma atingiu o grau de modernidade como aquela do Vietnã. Em comparação, elas parecem arcaicas, primitivas.

18 T.W.Adorno, M. Horkheimer, La Dialectique de la raison, Paris, Gallimard, 1974, p.48 e T.W. Adorno, Minima Moralia, Paris, Payot, 1983, p.134

19 E. Hobsbawn, Barbarism: An User’s Guide. On History, London, Weidenfelds and Nicholson, 1997, pp.259-263.

Tradução: Alessandra Ceregatti

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Da Queda do Muro a Batalha de Seattle. Próxima parada: Copenhague

De Copenhague emergirá uma nova geopolítica e uma nova correlação de forças no sistema internacional.

Fátima Mello

Novembro de 2009 é o mês de aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim e também de 10 anos da batalha nas ruas de Seattle, quando ocorreu naquela cidade a reunião ministerial da OMC que iniciaria a Rodada do Milênio. Seattle veio a ser o ato inaugural do chamado movimento altermundialista, cujo lançamento formal ocorreu logo em seguida na primeira edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre em 2001. Ao longo das duas últimas décadas o movimento contra-hegemônico experimentou estes dois grandes marcos e hoje se vê desafiado a concluir este ciclo histórico e se lançar num novo patamar de reflexão e ação. Copenhague, onde se realizará a COP 15 (15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) será a próxima parada do movimento altermundialista. Das mobilizações em torno da conferência do clima sairão as novas bases que iluminarão um novo ciclo para este movimento.

A década iniciada em 1989 com a queda do Muro e o respectivo fim da Guerra Fria pode ser sintetizada como a década onde se anunciou o "fim da História" e o reinado absoluto das teses do chamado Consenso do Washington, que traduziam a hegemonia política, cultural, econômica e militar dos EUA na nova ordem internacional unipolar. Na América Latina vivemos o período sob o signo da "década perdida", que combinava a vitória do retorno das democracias após o tenebroso ciclo de ditaduras com economias com resultados desanimadores e desmontes das estruturas produtivas e do papel regulador do Estado, com a febre das privatizações e perdas de direitos e encolhimento das esferas públicas.

Ao longo desta década os movimentos sociais e outras forças da chamada esquerda, ainda tontos diante da desorganização programática e do desmoranamento de paradigmas que ruíram junto com os escombros do Muro, foram atingidos em cheio pela força do pensamento hegemônico. A década assistiu a uma ampla desmobilização e fragmentação dos movimentos sociais. Muitas organizações passaram a investir esforços nos processos de reforma institucional das Nações Unidas, tendo havido grande esforço na tentativa de influenciar o ciclo de conferências da ONU, que incluiu a Eco 92 – de fato o primeiro grande momento de internacionalização da ação das organizações e movimentos depois de muitos anos – , as conferências de Direitos Humanos em Viena, de População e Desenvolvimento no Cairo, de Desenvolvimento Social em Copenhague, de Mulheres em Beijing. Apesar dos aprendizados que estes esforços proporcionaram, sobretudo no sentido do entendimento do funcionamento do sistema ONU, é preciso reconhecer que estas organizações e movimentos não eram atores na política internacional e sua capacidade de mobilização estava esvaziada. Em meadas da década alguns sinais contraditórios passaram a revelar que algo estava se movendo nas tumbas do fim da História. Em 1994, por exemplo, de um lado o ex-presidente dos EUA Bill Clinton lançava o NAFTA – o acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México, a bula neoliberal que depois se tentaria estender para o resto das Américas através da ALCA -, e ao mesmo tempo o movimento zapatista deslanchava o levante de Chiapas, com a característica de ser ao mesmo tempo resistência anti-neoliberal num território específico e também uma iniciativa que convocava um movimento global.

Foi no apagar das luzes da década perdida, em 1999, que finalmente movimentos e organizações de todas as partes do mundo revelaram que a semente da resistência recomeçava a brotar. Seattle deu início a um novo ciclo na política internacional, tendo produzido um momento de ampla contestação que reunia sindicatos com ambientalistas, camponeses, mulheres, ativistas por direitos humanos. Seattle trouxe para as ruas a crise de legitimidade do neoliberalismo. Seattle foi o ato inaugural do Fórum Social Mundial. A História não havia terminado!

A primeira edição do FSM em 2001 foi um sucesso. A tônica anti-Davos se combinou com o encontro entre várias culturas e tradições políticas da esquerda. Porto Alegre foi o espaço de convergência para a construção de novas formas de organização e de ação política, novas questões e lutas, novas dinâmicas não-centralizadas de organização. Um poderoso encontro da diversidade e da pluralidade. O FSM ainda comemorava o fato de ter espelhado o impulso de criação de um novo ciclo político quando o atentado de 11 de setembro às torres gêmeas novamente alterou o curso da História, ao recolocar no centro da agenda da política internacional a guerra e ao reforçar a tendência à unipolaridade que já vinha sendo o novo fundamento da ordem internacional desde a queda do Muro. A partir do 11 de setembro os movimentos que integram o processo FSM passaram a ser criminalizados e passaram ter que incluir no centro de suas lutas a resistência contra a guerra.

Na América Latina o início do novo milênio revelou que os anos de lutas de resistência e a força do FSM começavam a dar frutos com a eleição de um novo ciclo de governos. O projeto dos EUA para a região, a ALCA, fora derrotada por uma ampla campanha continental e pelos novos governos que responderam a esta campanha com o esvaziamento das negociações.

O FSM seguiu se mundializando e se enraizando em sociedades tão ricas e diversas como as da Índia, Quênia, Paquistão, EUA, Marrocos e tantos outros. O FSM hoje pode ser considerado como o ponto de referência de um ciclo longo de recomposição histórica de um pensamento contra-hegemônico. Ao voltar para o Brasil em 2009, e em especial para a Amazônia, o FSM revelou que um novo ciclo está se inaugurando. O FSM Belém teve uma nova qualidade em relação às edições anteriores, ao fazer emergir uma crítica mais profunda ao modelo de desenvolvimento que se reproduz devorando a natureza e os recursos naturais. Ao colocar o meio ambiente no centro do debate político, o FSM realizado na Amazônia, território onde os conflitos sócio-ambientais são tão evidentes, nos convida a dar um passo adiante, para além da crítica ao neoliberalismo.

A próxima parada do processo FSM inaugurado em Seattle será em Copenhague, na COP 15, onde as lutas de Seattle serão atualizadas e agenda do FSM Belém ganhará estatura. As mobilizações da nova geração política iniciada em 1999 serão amadurecidas nas ruas de Copenhague com a resistência contra a privatização do ar. Seattle e o FSM denunciaram ao mundo que o chamado pensamento único fundado nas teses do neoliberalismo levaria o mundo ao esgotamento e anunciaram que Outro Mundo É Possível. Os movimentos reunidos em Copenhague re-afirmarão a resistência ao neoliberalismo na sua versão atual de mercantilização do ar. Mas também irão muito além. A grave crise climática não encontrará solução adequada pela via do mercado de carbono. Além de reafirmar a resistência, as mobilizações em Copenhague demonstrarão que o planeta só terá chance de sobrevivência se o atual modo de produção e de consumo for alterado, se formos capazes de encurtar distâncias entre produção e consumo, desglobalizando a produção, apostando na energia limpa, democratizando o sistema internacional através da criação de novas instituições e regras que sirvam aos povos e a natureza e não às corporações transnacionais, se relacionando com a natureza como bem comum e não mais privatizando a terra, água, sementes, ar, conhecimentos, cultura.

Ao contrário de Seattle, onde quisemos e conseguimos que a reunião ministerial da OMC fracassasse, em Copenhague queremos que a conferência obtenha compromissos por parte dos governos condizentes com a gravidade da crise. Para tal, nossas lutas de resistência se alimentam de uma clara visão alternativa, que será o eixo das ações nas ruas: a Justiça Climática exige que governos e povos do mundo não entreguem ao mercado e às mega corporações a gestão da crise climática. Exige que os povos e grupos sociais mais vulneráveis – que serão os mais gravemente afetados – não paguem a conta e tenham prioridade nas políticas e programas de combate aos efeitos das alterações do clima. E exige que os países responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa assumam que têm uma dívida climática a pagar.

De Copenhague emergirá uma nova geopolítica e uma nova correlação de forças no sistema internacional, onde países do Norte e do Sul deverão assumir compromissos com a transição para um novo modelo de desenvolvimento. Para o movimento altermundialista, Copenhague proporcionará as bases para uma nova plataforma de ação, que terá no seu centro a defesa dos bens comuns, dos territórios e direitos dos povos e da natureza como perspectiva de futuro para um Outro Mundo Possível e, mais do que nunca, urgente.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

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Um espectro de racismo assusta o planeta

GRUPO DE SÃO PAULO

Enquanto, entre os seus pares, as fronteiras da União Européia estão sendo cada vez mais dissipadas, verifica-se em toda a forte Comunidade Européia uma onda de xenofobia contra estrangeiros de várias origens, sobretudo os pobres, que para lá tentam imigrar em busca de sobrevivência.

Sonhos de uma vida mais digna e justa têm sido quebrados com perseguições, prisões, maus tratos e expulsões sumárias com um perigoso teor discriminatório que, em muito, lembra os anos 30 a 40 do século passado. Esses fatos têm acirrado a já histórica aversão ao outro, fruto do eurocentrismo, que vê os migrantes como negativamente diferentes, como aqueles que vêm perturbar a ordem e colocar em risco a segurança do europeu.

Nesses últimos meses a Europa tem dado exemplos de intolerância, discriminação e racismo. Como se tal absurdo não bastasse, os últimos acontecimentos na Itália deixaram o planeta em alerta. Na já chamada "deriva fascista", denúncias colocaram a público que 70 eritreus permaneceram durante 20 dias em alto mar tentando entrar na Itália pela costa da Ilha de Lampedusa – a principal rota marítima que liga a África à Europa.

A notícia virou manchete quando se constatou que esses imigrantes ilegais haviam morrido antes de pisar em terra firme, sem qualquer ação de socorro por parte da marinha italiana. Esta, ciente do que ocorria, os abandonou à míngua, com fome e sede, ignorando por completo uma histórica lei marítima que prevê o socorro em casos dessa envergadura.

Enquanto isso, outros países europeus, como Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, também têm promulgado legislações evidentemente xenófobas visando criminalizar a imigração, tornando-a ilegal. Esta postura não visa apenas às populações africanas, alvo do racismo. Ela é muito mais ampla e atinge muçulmanos, ciganos, latino-americanos e habitantes de muitos países da Europa Oriental.

A Europa talvez nunca tenha sido realmente tolerante, mas, quando os empregos considerados inferiores não eram aceitos pela maioria dos europeus, um grande número de imigrantes foi recebido para preencher esses cargos indesejados. Com a recente crise econômica mundial, no entanto, esse mesmo europeu, assolado pelo medo do desemprego, voltou a enxergar o estrangeiro como um inimigo à espreita, pronto a dar o bote e roubar seu espaço no mundo do trabalho. Por conta de um possível medo da concorrência, uma parcela da população européia voltou a eleger o estrangeiro como bode expiatório. Assim, criou-se um perigoso espaço para partidos políticos de extrema direita, de cunho nazi-fascista.

Apesar de não ser considerado xenófobo, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, eleito com uma plataforma de extrema direita, chegou a apoiar a tese de que a França só deve receber "trabalhadores inteligentes e diplomados". Defendeu ainda a realização de testes de DNA para estrangeiros, vindos da África, que queiram provar graus de parentesco na França e, assim, serem liberados a entrar. Aprovada pelo Parlamento francês em 2007, essa idéia acabou não sendo posta em prática em função de fortes pressões externas.

Conquanto o governo francês tenha enfatizado a não obrigatoriedade dos testes, analistas e estudiosos estão alertando que, graças ao avanço da engenharia genética, tal medida pode abrir um precedente perigoso. Testes como esses podem servir para detectar a origem dos pretendentes a ingressar no território francês, o que lembra justamente no país que proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos a sombria política de eugenia (que significa "bem nascido" em grego), que assustou o mundo na Alemanha nazista.

Para completar esse quadro, já foi aprovado no Senado italiano, e está em discussão na Câmara dos Deputados, uma proposta do partido de extrema direita Liga Norte, defendida pelo governo Berlusconi, que impõe aos médicos delatarem imigrantes ilegais que buscarem tratamento. Uma medida que deixaria orgulhoso o fascista Mussolini. A respeitada instituição "Médicos sem Fronteiras" reagiu e afirmou: "somos médicos e não espiões".

Essa aversão ao estrangeiro não é nova na historiografia mundial. Segundo a historiadora Pietra Diwan, foi nos Estados Unidos – o mesmo país que ergueu o chamado "muro da vergonha" que separa os estadunidenses dos mexicanos – que o número de instituições eugênicas cresceu vertiginosamente entre os anos de 1905 e 1920. O medo era de que a "raça pura" norte-americana pudesse ser contaminada com a entrada maciça de asiáticos, libaneses, moradores do Leste

Europeu, além de todo europeu pobre, incluindo, por ironia do destino, países como a Espanha e a própria Itália.

Nesse sentido, o que a Alemanha nazista fez foi transformar em política de Estado um processo que já vinha ocorrendo, inclusive, nas escolas estadunidenses. Talvez não seja por acaso que temáticas como a inclusão tenham surgido depois que o mundo presenciou até onde o homem pode chegar ao dividir a humanidade em binômios excludentes, tais como superior e inferior, apto e não apto. Esperemos que a Europa não venha, em pleno século XXI, a reeditar essa política discriminatória e estigmatizante contra o "diferente".

Guga Dorea, José Juliano de Carvalho Filho, Luis Eça, Marietta Sampaio e Thomaz Ferreira Jensen, do Grupo de São Paulo – um grupo de pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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A atormentada vida de John Lennon

Joseba Elola
Em Madri

Infância dura, sexo e drogas na decisiva biografia de Philip Norman sobre o "beatle".

Suíte do hotel Delmónico em Nova York, 28 de agosto de 1964. Um "folkie" apaixonado que começava a aparecer chamado Bob Dylan entra na suíte de um dos rapazes que andam em turnê pelos Estados e dos quais todo mundo fala, The Beatles. John Lennon organizou o encontro por meio de Al Aronowitz, jornalista amigo de Dylan. As duas figuras, que provavelmente são as mais influentes da música popular do século 20, admiram-se mutuamente, mas são incapazes de admiti-lo.
Dylan rompe o gelo e comenta que gosta da canção "I want to hold your hand", com seu estribilho tão contagiante "I get high, I get high" (fico louco, fico louco). John e Paul lhe confessam que não: o que a canção diz é "I can’t hide" (não posso me esconder); uma coisa é o inglês britânico e outra, o americano.
Envergonhados, admitem que não é que tenham colado de repente esse verso no tema; de fato, apenas provaram maconha a sério. Dylan se oferece para remediar tal carência e enrola um cigarro, mas não é muito bom nessas lides. Afinal, como não poderia ser diferente, é o jornalista quem o enrola.
Esta é uma das diversas anedotas deliciosas contidas em "John Lennon", a sólida biografia de Philip Norman que a Anagrama lança em 26 de novembro na Espanha. Paul McCartney viu a luz com aquele bendito petardo compartilhado com Dylan. John e Ringo não conseguiam parar de rir.
A biografia de Philip Norman esclarece novas paisagens da atormentada existência do gênio rebelde dos Beatles. Já retratou Lennon como um sujeito torturado em "Shout!", publicado em 1981 e elogiado no ano seguinte como a grande biografia do quarteto de Liverpool.
Nesta nova versão, concentrada no compositor de "Imagine", dá uma volta de parafuso e tenta explicar as causas dessa infelicidade, dessa tortura interior. Para seu trabalho de pesquisa, Norman contou com a colaboração de Yoko Ono, Sean Lennon – o filho de John e Yoko – e Paul McCartney, além de George Martin – o produtor – e até Arthur Janov, o terapeuta do beatle; seu acesso a fontes é privilegiado, cimentado pelo respeito que infundiu seu trabalho anterior como biógrafo.
Philip Norman mergulha na infância do homem que compôs "Julia", essa jóia alojada no chamado "Disco Branco", para encontrar as raízes dessa infelicidade que acompanhou Lennon em seus escassos 40 anos de vida. "Nunca escapou das feridas de sua infância, nunca superou o fato de que seus pais o abandonaram", explica o autor em conversa telefônica de Londres.
Aos 6 anos, seu pai lhe pediu que escolhesse com quem preferia morar: com sua mãe Julia ou com ele. John acabou indo morar com a tia Mimi, a cuja correspondência privada se tem acesso pela primeira vez.
Lennon cresce em casa de sua rígida tia. Quando tem 17 anos, certa tarde, Julia, sua mãe, vem visitá-los. Ao sair, a caminho do ponto de ônibus, é atropelada pelo carro de um policial fora de serviço e morre. Pouco depois falece de uma hemorragia cerebral seu grande amigo Stu Sutcliffe, o primeiro baixista dos Beatles. "A pessoa que somos por dentro nunca muda. Ele foi muito infeliz. Sua enorme fama poderia ter catapultado sua autoestima", explica Norman, "mas ele se desvalorizava."
As 786 páginas dessa biografia mostram um homem que apesar de ser muito invejado sofria em seu dia-a-dia. "Ele podia ser duro e cruel, mas era tremendamente sensível, uma pessoa muito vulnerável."
As fitas cassete que gravou em seus dois últimos anos de vida, quando seu tormento interior parecia amainar, levam Norman a revelar um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos tabloides britânicos quando se publicou esta biografia no Reino Unido, há um ano. Em uma dessas fitas, Lennon lembra o dia em que por acaso se deitou ao lado de sua mãe e tocou acidentalmente seu seio. Não soube se prosseguia ou não. "Sempre pensei que deveria tê-lo feito", confessa Lennon nas fitas. "Presumivelmente ela poderia ter aceitado."
Essa tendência à autoanálise e a provar de tudo que ilumina outra das revelações incluídas no livro. O episódio supostamente gay, que mais parece corresponder a um flerte intelectual, mas que Norman desfia nestas páginas. John e Paul tiveram uma relação de amor e ódio muito forte. E Yoko conta a Norman que ela acredita que houve um momento em que John considerou uma aventura com Paul, pelo fato de que um verdadeiro boêmio tem de provar de tudo.
O alvoroço que se armou com a distorção e amplificação desse episódio do livro conduz Norman a baixar o tom e a destacar com contundência a condição profundamente heterossexual do beatle.
Norman, que conheceu John nos anos 60, quando trabalhava como jornalista em uma gazeta local, mostra-se amargurado pela rejeição de Yoko Ono a esta biografia. "Ninguém exceto ela disse que a biografia seja maliciosa. Não sei por que diz isso. Yoko foi uma mulher demonizada por todo mundo e foi o grande amor de John, eram feitos um para o outro. Tinham muitas coisas em comum, entre elas sua sinceridade. Se você perguntava, eles respondiam. Ela foi muito sincera comigo nas 14 horas de entrevista que fizemos."
A biografia percorre com precisão a vida de Lennon e se encerra com um capítulo comovente em que Sean Lennon, o filho de John e Yoko, fala de coração aberto sobre seu pai e lembra aquela manhã em que acordou e sua casa estava cheia de pessoas com a cara muito séria. Era 9 de dezembro de 1980 e da rua subia até sua janela o barulho de policiais e câmeras de televisão.
Seu pai acabava de ser assassinado na noite anterior diante da porta de casa. Sean tinha então 5 anos. O menino que mal conheceu seu pai e que invejou o mundo por tê-lo conhecido, o garoto que ainda lembra de Lennon com cabeleira e quimono, andando sempre descalço pela casa, conta que entendeu que devia se comportar como um adulto e não chorar em uma situação como essa. "Não se preocupe, já vai encontrar outro", disse-lhe Yoko Ono naquela negra manhã.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

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O aquecimento do Ártico

Christoph Seidler

Todo mundo sabe que a camada de gelo da Groenlândia está derretendo. Mas nova pesquisa mostra que ela está desaparecendo mais rapidamente do que se imaginava. Os resultados poderiam significar que o nível dos oceanos também está aumentando mais rapidamente.

As dimensões deste gigante gelado vão além da imaginação humana. Com uma área de superfície que se estende por cerca de 17 milhões de quilômetros quadrados, uma visão do gelo da Groenlândia do alto da geleira Sermeq-Kujalleq, perto de Ilulisat, faz com que ele parece interminável. A ideia de que esta camada de gelo, com até três quilômetros de espessura em algumas partes, está derretendo parece extremamente absurda.
Mas o grande número de icebergs gigantes -e o vale para o qual estão lentamente deslizando- contam uma história diferente. Aqui, como em outras partes da Groenlândia, uma transformação gigantesca está em andamento. Quão rapidamente o gelo da Groenlândia está derretendo permanece tema de certo debate, mas o derretimento do gelo está contribuindo para a elevação do nível dos oceanos -com consequências potencialmente dramáticas para milhões de pessoas ao redor do globo.
Caso a Groenlândia perca todo seu gelo, o nível dos mares sofreria uma elevação de cerca de 7 metros acima dos níveis atuais. Esse cenário não se tornaria realidade da noite para o dia -de fato, o processo poderia durar centenas de anos. Mas novos resultados de uma equipe de pesquisadores holandeses sugerem que estimativas conservadoras para a velocidade com que o gelo está derretendo devem ser descartadas. Segundo o estudo, a taxa com que o gelo da Groenlândia está derretendo acelerou substancialmente nos últimos anos.
Há, estritamente falando, dois processos paralelos responsáveis pelo recuo do gelo. Por um lado, a elevação das temperaturas derrete o gelo na terra enquanto as correntes oceânicas mais quentes devoram as geleiras, que se desprendem no oceano. Uma equipe de pesquisa liderada por Michiel van den Broeke, da Universidade de Utrecht, relatou na mais recente edição da revista "Science" que os dois processos estão contribuindo igualmente para o desaparecimento da camada de gelo.
Perdendo peso
Segundo o novo relatório, a Groenlândia perdeu cerca de 1.500 gigatoneladas (uma gigatonelada é igual a 1 bilhão de toneladas) de gelo do ano 2000 a 2008. "Este é o limite superior das recentes estimativas para perda de massa da Groenlândia usando vários outros métodos", disse Van den Broeke para a "Spiegel Online". Entre 2006 e 2008, a perda de peso totalizou 273 gigatoneladas por ano, ele disse.
Os cientistas estão convencidos de que seus resultados são precisos porque chegaram aos números usando dois métodos fundamentalmente diferentes -e ambos apresentaram a mesma conclusão. Por um lado, eles monitoraram o movimento do gelo, que inseriram em um modelo por computador regional. Para uma segunda fonte de dados, eles usaram os satélites de observação Grace, que medem o campo gravitacional da Terra.
No período entre 2000 e 2008, o encolhimento das geleiras foi responsável pela elevação do nível dos mares a uma média de cerca de meio milímetro por ano. Mas, durante os últimos três anos de observação, o valor subiu para 0,75 milímetro por ano. Segundo os pesquisadores, esses resultados poderiam indicar que a camada de gelo está derretendo a uma taxa acelerada.
Chegando a um consenso
É possível, é claro, que o período de observação represente apenas uma fase no derretimento em andamento -uma fase que pode acabar. Mas Van den Broeke não acredita que seja o caso: "Desde 2000, a camada de gelo da Groenlândia vem perdendo massa continuamente e a uma taxa acelerada, que se encaixa em nosso quadro de um mundo em aquecimento".
"A comunidade científica está se aproximando de chegar a um consenso quanto ao tamanho da perda de massa da camada de gelo da Groenlândia", disse o glaciólogo-chefe da Dinamarca, Andrea Peter Ahlstrøm, à "Spiegel Online". Ele elogiou o recente estudo e os cientistas envolvidos: "É de fato uma forte equipe de autores, levando à credibilidade dos resultados". Do ponto de vista de Ahlstrøm, esses resultados recentes também provarão ser úteis para o próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) da ONU, já que permitirão aos cientistas descrever a situação da Groenlândia com maior precisão. Em um relatório de 2007, o IPCC ainda não tinha previsões precisas para o destino da camada de gelo gigante, porque os cientistas envolvidos não conseguiam chegar a um acordo.
Mas muito mudou desde então. Neste ano, pesquisadores britânicos conseguiram indicar onde o gelo estava desaparecendo mais rapidamente usando dados do altímetro a laser do satélite IceSat da Nasa. Uma equipe de cientistas liderada por David Vaughan, do Levantamento Antártico Britânico, reuniu um total de 7 milhões de elementos de dados de fevereiro de 2003 a novembro de 2007, resultando em uma imagem de clareza sem precedente. Quase todas as regiões costeiras cobertas de gelo da Groenlândia -em particular aquelas no sudeste e noroeste- exibiram gelo derretendo rapidamente. Os cientistas notaram em particular o efeito dramático nas geleiras que se movem velozmente. Alguns desses efeitos também são sentidos no interior distante.
‘Nos dê um pouco mais de tempo’
Uma equipe de pesquisa no navio Arctic Sunrise do Greenpeace, incluindo, entre outros, Gordon Hamilton, da Universidade do Maine, e Fiammo Straneo, do Instituto Oceanográfico Woods Hole, relatou neste ano que a água incomumente quente nos fjords da Groenlândia é culpada pelo rápido recuo das geleiras.
Van den Broeke e seus colegas acreditam que não apenas o gelo desaparecerá em uma taxa mais rápida, mas que a natureza do processo também mudará com o tempo. Segundo os pesquisadores, o rápido recuo das geleiras será menos importante no futuro, em comparação ao derretimento direto. No final, as geleiras terão recuado tanto que as correntes quentes do mar não mais as alcançarão.
Ainda não está claro quando isso poderá acontecer -nem está claro o quanto os níveis dos mares poderão se elevar no futuro."Nós usaremos o mesmo modelo para prever futura perda de massa da Groenlândia, mas nos dê um pouco mais de tempo para chegarmos aos resultados", disse Van den Boeke. Para isso, a União Europeia lançou no ano passado um grande projeto de pesquisa chamado "Ice2Sea".
Os pesquisadores consideram esses novos resultados como sendo um importante sinal para o encontro de cúpula sobre o clima, em dezembro. Muitos observadores não esperam que o encontro resulte em um acordo climático particularmente ambicioso -para descontentamento de Van den Broeke: "Todos os sinais estão apontando para uma contínua perda de massa da Groenlândia a taxas que não considerávamos possíveis há dez anos. É certamente algo a ser considerado por um autor de políticas, eu diria."

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

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O contador de histórias

Um dos fotógrafos mais originais do País, o documentarista João Urban já desvendou a alma dos imigrantes poloneses do Sul, viajou com os últimos tropeiros e registrou a difícil rotina dos boias-frias. Brasileiros conta algumas das histórias deste fotógrafo que escreve com imagens.

Luiz Rebinski Junior

Fotógrafo publicitário desde os anos 1960, o curitibano João Urban conseguiu conciliar, com a mesma eficiência, dois campos da fotografia que parecem distantes e, para muitos, incompatíveis: o trabalho documental e autoral com a fotografia de produtos, direcionada ao mercado publicitário. Essa aparente contradição, Urban explica com uma frase rápida como um clique: "A publicidade bancou o artista". E quando a publicidade dá uma folga, é a deixa para que o "contador de histórias", na definição do próprio Urban, entre em cena.
"Entendo que a minha fotografia está muito mais próxima do texto que das artes plásticas; muito mais próxima da poesia e da literatura que das artes visuais. Procuro, sempre, escrever com as minhas imagens, por isso me considero um contador de histórias, não um artista plástico", diz Urban.
Nascido em 1943, Urban teve, desde cedo, uma relação próxima com o objeto que ia lhe acompanhar por toda a vida. Influenciado por um tio, fotógrafo amador, logo descobriu as maravilhas que a câmara escura era capaz de revelar. A curiosidade inicial do então garoto foi logo se transformando em coisa séria. Um dos momentos decisivos na trajetória de Urban foi quando ele viu, pela primeira vez, os ensaios fotográficos da Farm Security Administration, o serviço de previdência rural da época da depressão norte-americana. As imagens da pobreza nos rincões norte-americanos, que chegavam aqui por meio dos Anuários da Popular Photography, tiveram o efeito de um soco no estômago para o jovem fotógrafo que, à época, já esboçava uma militância política contra a ditadura militar que se instalara no Brasil em 1964. Formaram-se aí as bases do trabalho de cunho social que Urban desenvolveria ao longo de sua brilhante trajetória como fotógrafo.
"Nessa época, comecei a fotografar peças de teatro de Brecht e passeatas estudantis", diz Urban, que começava também a ampliar seus conhecimentos fotográficos com a descoberta da mítica revista suíça Camera, editada por Allan Porter. A revista, assim como os Anuários da Popular Photography, foi decisiva para reforçar sua vocação pela fotografia documental. "A Camera, com certeza, foi minha verdadeira escola de fotografia. Lia todos os artigos, sem descartar nenhum." Foi por meio da revista suíça que o autodidata Urban conheceu melhor o trabalho de ícones como Henri Cartier-Bresson e de um nome que seria, durante anos, sua maior influência: August Sander. Alemão nascido em 1876, Sander foi responsável por um trabalho bastante original com operários em seus locais de trabalho, uma fotografia que buscava revelar os estratos sociais da Alemanha do início do século XX. Perseguido pelos nazistas, o fotógrafo teve grande parte de sua produção destruída pela polícia de Hitler. Considerado um dos grandes retratistas da história, Sander e sua fotografia de corte sociológico já podem ser percebidos, como influência, nos retratos em preto e branco dos boias-frias, primeiro trabalho de fôlego de Urban e mote de sua estreia em livro, no ano de 1984. Por uma dessas coincidências inexplicáveis, Boias-frias – Tageluhner in Suden Brazilien sai primeiramente na Alemanha, por uma pequena editora, dedicada à publicação de trabalhos sobre a América Latina, chamada Edition Diá. O fã de Sander começava a ser reconhecido justamente na terra onde o ídolo fez história.
"Eu tinha exposto na Bienal de Veneza, na seção de jovens fotógrafos, e mostrei o catálogo para o meu futuro editor. Ele se interessou e o livro foi publicado na Alemanha e na Suíça", explica. Apesar do tratamento gráfico do livro ter ficado aquém do esperado, a edição serviu como uma espécie de cartão de visitas para futuros trabalhos. Quatro anos depois, Boias-frias ganharia edição nacional, editada pela Imprensa Oficial do Paraná. O ensaio, que lhe consumiu cinco anos de trabalho, de 1976 a 1980, além de revelar a vida sofredora de trabalhadores braçais, é também um registro importante de um momento de ruptura na economia do Paraná, um Estado essencialmente agrícola. Em meados dos anos 1970, o Paraná vive seu mais radical êxodo rural, com milhões de pessoas saindo do campo e indo para as cidades, sobretudo para a capital Curitiba, que em pouco tempo quase dobrou sua população. Com as plantações de café dizimadas pela geada de 1975 e o sistema de colonato em crise por conta da mecanização da lavoura, agricultores abandonaram suas terras para tentar a sobrevivência nas cidades. Os retratos dos boias-frias congelam esse período, em que trabalhadores procuram um novo espaço em um momento de reorganização social.
Para Nego Miranda, outro grande nome da fotografia paranaense, o olhar aguçado para questões sociais é o grande diferencial de Urban. "O João é, sem dúvida, a grande referência da fotografia no Paraná. Assim como os grandes mestres, ele tem um olhar único, que capta coisas que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Além disso, seu campo de visão está voltado unicamente para o homem", diz Miranda.
O jornalista José Carlos Fernandes, que comandou o caderno cultural do jornal Gazeta do Povo, o principal diário do Paraná, segue a mesma linha de Miranda ao enumerar as qualidades da fotografia de Urban. "O João é um sujeito bastante fiel a seu estilo documental, mas surpreende no tema. De minha parte, gosto da série sobre manifestações religiosas populares. É um assunto aparentemente fácil, mas deve ser uma lenha fugir dos clichês. E ele consegue, já que as fotos trazem uma certa ordem, uma organização, que faz todos aqueles santos parecerem membros de uma convenção de RH", diz o jornalista, referindo-se ao ensaio Aparecidas, publicado em livro em 2002.
Poloneses
Assim como Bresson é associado ao "momento decisivo" e Sebastião Salgado aos garimpeiros cheios de lama de Serra Pelada, é praticamente impossível falar de João Urban e não se lembrar dos imigrantes poloneses do Sul do Brasil. Os ensaios sobre os "polacos" não são apenas o seu trabalho mais conhecido, mas também o mais revelador da alma desse descendente de poloneses que foi criado em meio a costumes antigos trazidos da terra natal dos pais.
Na casa em que recebeu a reportagem da Brasileiros, uma antiga construção polonesa erguida pelo próprio pai e hoje transformada em estúdio, Urban montou seu primeiro ateliê. Hoje, praticamente incorporado ao centro de Curitiba, o antigo bairro do Campo da Galícia era, nos anos 1940, quase que uma filial de Varsóvia no Brasil. Pelas ruas de terra, o que se escutava nas esquinas e nos pequenos comércios era gente falando polonês. Em casa, a língua materna dos pais e avós dividia as atenções com o português. Dona Janina, matriarca dos Urban, se desdobrava entre a confecção de pierogi, os irresistíveis pasteizinhos de ricota e batata, e peças de teatro que escrevia em polonês.
Foi nesse contexto, entre a valorização da cultura polonesa e as transformações dos novos tempos, que Urban cresceu. O período em que era "comissário político" apenas retardou, momentaneamente, o desejo de resgatar reminiscências da infância. Após o fim da série com os boias-frias, Urban volta o olhar para seus ancestrais, em um trabalho que marcaria de modo definitivo sua condição de fotógrafo preocupado com o resgate da memória.
E, por fina ironia, aquele que ficaria conhecido como o seu principal trabalho autoral, nasceu de uma encomenda. Mais uma vez, o publicitário dava uma mãozinha para o artista. Por conta da vinda do Papa João Paulo II ao Brasil, em 1980, Urban foi escalado por um banco estatal, o Badep (extinto em 1991), para fazer fotografias de imigrantes poloneses que viviam no Paraná. Começava ali, despretensiosamente, um trabalho que se estenderia por mais de duas décadas.
"Minha primeira experiência fotografando os ‘polacos’ foi em Tomás Coelho, uma colônia fundada em 1876, pertinho de Curitiba. Ali, comecei a resgatar coisas da minha infância que me levaram a outros lugares". De Tomás Coelho, Urban foi para Cruz Machado, no extremo sul do Estado, onde uma grande colônia de poloneses e ucranianos vivia ainda como se estivesse no Leste europeu. Nesses lugares, além de fazer uma viagem sentimental ao próprio passado, Urban encontrou o ambiente e os personagens propícios para ir fundo ao que chama de "fotografia de enfrentamento". Ali, frente a frente com parte de sua história, o fotógrafo partia para um trabalho pautado em uma relação de troca com o fotografado, o que o levaria a uma "fotografia de retrato".
"Eu só faço fotografias consentidas, em que estabeleço um envolvimento epidérmico com o personagem. Existe uma troca entre quem fotografa e quem é fotografado", explica Urban. E é por meio dessa troca que o fotógrafo consegue revelar a simplicidade daqueles imigrantes que não conservam apenas o sobrenome complicado, mas também uma série de pequenos hábitos, como a fervorosa fé no catolicismo, herdados dos pais.
Mas, para desenvolver uma fotografia tão intimista e próxima dos personagens, a origem "polaca" do fotógrafo foi imprescindível. "Todos os poloneses me conheciam, sabiam o que eu estava procurando e colaboravam na hora de fotografar. No trabalho com os tropeiros foi a mesma coisa. Eles me acolheram e por isso pude desenvolver os retratos de acordo com a minha preferência." No caso dos poloneses, o contato foi tão intenso, que algumas pessoas foram fotografadas em mais de uma ocasião ao longo dos anos. "No trabalho feito com os imigrantes poloneses, o João se envolve de maneira profunda. Ali está a tônica de seu trabalho, em que o ensaio parte de uma pesquisa séria, anterior ao ato fotográfico", diz Rosely Nakagawa, curadora do projetoEncontros com a fotografia. Curadora de prestígio, Rosely acompanha o trabalho de Urban desde os anos 1980, quando ambos estavam envolvidos com as "Semanas de Fotografia da Funarte", uma espécie de feira itinerante que rodava as principais capitais do País e com o objetivo de aproximar fotógrafos de diferentes regiões.
Entre idas e vindas, Urban dedicou 24 anos ao projeto dos poloneses. A partir da exposição inicial, realizada quando o Papa esteve no Brasil, muitos outros projetos se desenvolveram. Inclusive uma exposição, em 1988, na própria Polônia, patrocinada pelo consulado polonês no Brasil. Dessa experiência nasceu, em 2004, o livro Tui i Tam – Memória da imigração polonesa (Edições Mirabilia) – tui i tam, aqui e lá, em polonês. O livro reúne as imagens dos anos de peregrinação de Urban pelos labirintos da memória polonesa no Brasil e também os registros de sua passagem pela Polônia.
Com mais de dez livros publicados e dezenas de mostras, entre individuais e coletivas, no currículo, aos 66 anos João Urban está em plena atividade. Além da participação no projeto da Fnac, o curitibano esteve, em setembro, na capital paraguaia para uma retrospectiva de sua obra. Este ano lançou, também, o livro Mar e mata – a serra, a floresta e a baía (Aguaforte Hipereditora), em que registra imagens da região litorânea do Paraná. Por ora, deixando de lado a fotografia publicitária, Urban terá mais tempo para seus trabalhos autorais. "Agora estou totalmente à disposição dos documentários. Vou fazer aquilo que sempre me deu tesão", afirma.

Fonte: Revista Brasileiros – http://www.revistabrasileiros.com.br/

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Detalhes no solo

Sistema integra satélite e sensores para elaborar um mapa pormenorizado de áreas de plantio.

Marcos de Oliveira

Método de sensoriamento detecta e avalia pastagens que recebem sangue bovino descartado de forma irregular.

A agricultura que visa à boa produtividade e ao melhor uso do solo tem à disposição sistemas tecnológicos para análise do potencial da terra. Chamada de agricultura de precisão, essa área está sempre em evolução e acompanha o avanço da microeletrônica com computadores de mão, softwares, receptores GPS (posicionamento por sinais de satélite), além de máquinas agrícolas, do sensoriamento remoto do solo e da geoestatística. Algumas dessas soluções estão reunidas e se tornam mais atraentes para o futuro da agricultura nos estudos do professor José Alexandre Demattê, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP). Ele e seu grupo desenvolveram um novo tipo de mapa digital do solo que facilita o planejamento do plantio e pode ser elaborado de forma mais rápida que o convencional. “Utilizamos ao mesmo tempo imagens de satélite, fotos aéreas e sensores portáteis para obter um mapa de solos mais detalhado e permitir ao agricultor escolher as melhores áreas para plantio, estabelecer as áreas de reserva legal de mata, racionalizar a adubação e escolher as melhores variedades para aumentar a produtividade de uma cultura”, diz Demattê.
“Os mapas de solo feitos atualmente no Brasil possuem poucos detalhes, têm custo financeiro alto e demoram para ser elaborados porque são muito trabalhosos.” Para formar um mapa mais detalhado e rápido, tornando-o mais barato, Demattê utiliza a análise do solo feito por reflectância, que é a energia refletida do solo e captada na forma de radiação eletromagnética pelos sensores localizados em terra e nos satélites, como os norte-americanos Landsat e Aster. “A radiação eletromagnética está associada com os constituintes do solo como argila, areia, óxidos de ferro, potássio, cálcio, matéria orgânica e minerais.” Para avaliação da camada superficial de uma área por imagem de satélite, o solo precisa estar exposto. Se estiver com vegetação, muda-se o método e utiliza-se o parâmetro de formas de relevo como modelos de elevação do solo geralmente adquiridas pelo sistema shuttle radar topography mission(SRTM), ou missão topográfica por radar do ônibus espacial, realizada em 2000 pelo Endeavour. “O objetivo de utilizar imagens de satélite não é saber a classificação do solo, porque a imagem capta apenas a camada superficial, mas obter mais uma informação que se agregue às outras, permitindo chegar ao provável tipo do solo.”

Outra ferramenta utilizada pelo pesquisador em áreas cobertas e descobertas é um sensor óptico, que pode ser levado em uma mochila. Ainda pouco utilizado na agricultura, esse aparelho custa em torno de US$ 60 mil. “É só apontar a fibra ótica para o solo para captar a energia refletida. Os dados são posteriormente processados e modelos matemáticos quantificam e ajudam a formar um mapa detalhado do solo”, diz Demattê. O sensor não substitui totalmente as análises em laboratório para saber a composição do solo. “Ele permite uma racionalização da coleta de amostras. Por exemplo, se numa fazenda for preciso coletar 500 amostras numa densidade de 1 por hectare (ha), pelo novo método coletam-se as mesmas 500 amostras, mas somente 150 seriam enviadas ao laboratório e o restante quantificado pelo sensor (que faz a leitura em 1 segundo), atingindo um ganho financeiro em análises de solo da ordem de até 64%, conforme mostrou a dissertação de mestrado do aluno Leo nardo Ramirez Lopez, com bolsa da FAPESP, e participante do grupo.”
Demattê propõe uma maior integração de todas as técnicas para a formação de novos mapas. “É possível agregar informações de cada equipamento como os satélites, sensores de campo, modelos de elevação, forma do terreno, entre outros.” Ele diz existirem duas comunidades científicas que pouco se integram e isso é refletido na comunidade em geral. “São os pesquisadores da área de sensoriamento remoto e os da ciência do solo em que uns não utilizam os conhecimentos de análise do solo e os outros que não veem a real dimensão da aplicação do sensoriamento.”
Parâmetros finais - A integração de softwares para o novo sistema ainda não está pronta para que possa ajudar o agricultor. “Trata-se da próxima fase dos estudos em que vamos sistematizar a entrada de parâmetros para ter um resultado final. Já estamos em contato com outras instituições para estabelecer uma sequência de trabalhos e disponibilizar o sistema para a agricultura em geral.
As pesquisas do professor Demattê também avançaram para o monitoramento ambiental com a utilização do sensor óptico na detecção rápida de sangue bovino despejado de forma irregular em áreas de pastagem e perto de riachos. Cada bovino gera de 15 a 20 litros de sangue, produto que pode ser vendido, pelos frigoríficos, para empresas que o processam para fabricação de plasma e farinha usados em rações. Demattê elaborou um estudo para avaliar as alterações ocorridas no solo. “Foram observadas alterações em solos da região oeste de São Paulo.” Para detectar a presença do sangue na terra, utilizaram-se amostras com e sem o produto, analisadas pelo sensor em laboratório.
“Verificamos que os solos são muito alterados na parte química, principalmente com excesso de sódio, com modificação nos teores de nutrientes e do pH.”  Os dados indicam que o produto é jogado em locais impróprios e os resíduos se deslocam para os rios e riachos, além de possivelmente contaminarem os lençóis freáticos. O professor conseguiu determinar um método de sensoriamento remoto para detectar e avaliar o problema rapidamente. O grupo de pesquisa em Geotecnologia em Ciência do Solo (GeoCis) da Esalq, coordenado por Demattê, está agora preparando artigos científicos que depois serão transformados em um relatório a ser apresentado para a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), órgão responsável pela fiscalização do destino de sub-produtos de origem animal.

Outra ferramenta utilizada pelo pesquisador em áreas cobertas e descobertas é um sensor óptico, que pode ser levado em uma mochila. Ainda pouco utilizado na agricultura, esse aparelho custa em torno de US$ 60 mil. “É só apontar a fibra ótica para o solo para captar a energia refletida. Os dados são posteriormente processados e modelos matemáticos quantificam e ajudam a formar um mapa detalhado do solo”, diz Demattê. O sensor não substitui totalmente as análises em laboratório para saber a composição do solo. “Ele permite uma racionalização da coleta de amostras. Por exemplo, se numa fazenda for preciso coletar 500 amostras numa densidade de 1 por hectare (ha), pelo novo método coletam-se as mesmas 500 amostras, mas somente 150 seriam enviadas ao laboratório e o restante quantificado pelo sensor (que faz a leitura em 1 segundo), atingindo um ganho financeiro em análises de solo da ordem de até 64%, conforme mostrou a dissertação de mestrado do aluno Leo nardo Ramirez Lopez, com bolsa da FAPESP, e participante do grupo.”
Demattê propõe uma maior integração de todas as técnicas para a formação de novos mapas. “É possível agregar informações de cada equipamento como os satélites, sensores de campo, modelos de elevação, forma do terreno, entre outros.” Ele diz existirem duas comunidades científicas que pouco se integram e isso é refletido na comunidade em geral. “São os pesquisadores da área de sensoriamento remoto e os da ciência do solo em que uns não utilizam os conhecimentos de análise do solo e os outros que não veem a real dimensão da aplicação do sensoriamento.”
Parâmetros finais - A integração de softwares para o novo sistema ainda não está pronta para que possa ajudar o agricultor. “Trata-se da próxima fase dos estudos em que vamos sistematizar a entrada de parâmetros para ter um resultado final. Já estamos em contato com outras instituições para estabelecer uma sequência de trabalhos e disponibilizar o sistema para a agricultura em geral.
As pesquisas do professor Demattê também avançaram para o monitoramento ambiental com a utilização do sensor óptico na detecção rápida de sangue bovino despejado de forma irregular em áreas de pastagem e perto de riachos. Cada bovino gera de 15 a 20 litros de sangue, produto que pode ser vendido, pelos frigoríficos, para empresas que o processam para fabricação de plasma e farinha usados em rações. Demattê elaborou um estudo para avaliar as alterações ocorridas no solo. “Foram observadas alterações em solos da região oeste de São Paulo.” Para detectar a presença do sangue na terra, utilizaram-se amostras com e sem o produto, analisadas pelo sensor em laboratório.
“Verificamos que os solos são muito alterados na parte química, principalmente com excesso de sódio, com modificação nos teores de nutrientes e do pH.”  Os dados indicam que o produto é jogado em locais impróprios e os resíduos se deslocam para os rios e riachos, além de possivelmente contaminarem os lençóis freáticos. O professor conseguiu determinar um método de sensoriamento remoto para detectar e avaliar o problema rapidamente. O grupo de pesquisa em Geotecnologia em Ciência do Solo (GeoCis) da Esalq, coordenado por Demattê, está agora preparando artigos científicos que depois serão transformados em um relatório a ser apresentado para a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), órgão responsável pela fiscalização do destino de sub-produtos de origem animal.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Jean-Jacques Rousseau – O filósofo da liberdade como valor supremo

Em sua obra sobre educação, o pensador suíço prega o retorno à natureza e o respeito ao desenvolvimento físico e cognitivo da criança.

Foto: ARCHIVO ICONOGRAFICO, S.A./Corbis /Stock Photos

Na história das idéias, o nome do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) se liga inevitavelmente à Revolução Francesa. Dos três lemas dos revolucionários – liberdade, igualdade e fraternidade –, apenas o último não foi objeto de exame profundo na obra do filósofo, e os mais apaixonados líderes da revolta contra o regime monárquico francês, como Robespierre, o admiravam com devoção.
O princípio fundamental de toda a obra de Rousseau, pelo qual ela é definida até os dias atuais, é que o homem é bom por natureza, mas está submetido à influência corruptora da sociedade. Um dos sintomas das falhas da civilização em atingir o bem comum, segundo o pensador, é a desigualdade, que pode ser de dois tipos: a que se deve às características individuais de cada ser humano e aquela causada por circunstâncias sociais. Entre essas causas, Rousseau inclui desde o surgimento do ciúme nas relações amorosas até a institucionalização da propriedade privada como pilar do funcionamento econômico.
O primeiro tipo de desigualdade, para o filósofo, é natural; o segundo deve ser combatido. A desigualdade nociva teria suprimido gradativamente a liberdade dos indivíduos e em seu lugar restaram artifícios como o culto das aparências e as regras de polidez.
Ao renunciar à liberdade, o homem, nas palavras de Rousseau, abre mão da própria qualidade que o define como humano. Ele não está apenas impedido de agir, mas
privado do instrumento essencial para a realização do espírito. Para recobrar a liberdade perdida nos descaminhos tomados pela sociedade, o filósofo preconiza um mergulho interior por parte do indivíduo rumo ao autoconhecimento. Mas isso não se dá por meio da razão, e sim da emoção, e traduz-se numa entrega sensorial à natureza.

Biografia

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, Suíça, em 1712. Sua mãe morreu no parto. Viveu primeiro com o pai, depois com parentes da mãe e aos 16 anos partiu para uma vida de aventureiro. Foi acolhido por uma baronesa benfeitora na província francesa de Savoy, de quem se tornou amante. Converteu-se à religião dela, o catolicismo (era calvinista). Até os 30 anos, alternou atividades que foram de pequenos furtos à tutoria de crianças ricas. Ao chegar a Paris, ficou amigo dos filósofos iluministas e iniciou uma breve mas bem-sucedida carreira de compositor. Em 1745, conheceu a lavadeira Thérèse Levasseur, com quem teria cinco filhos, todos entregues a adoção – os remorsos decorrentes marcariam grande parte de sua obra. Em 1756, já famoso por seus ensaios, Rousseau recolheu-se ao campo, até 1762. Foram os anos em que produziu as obras mais célebres (Do Contrato Social, Emílio e o romance A Nova Heloísa), que despertaram a ira de monarquistas e religiosos. Viveu, a partir daí, fugindo de perseguições até que, nos últimos anos de vida, recobrou a paz. Morreu em 1778 no interior da França. Durante a Revolução Francesa, 11 anos depois, foi homenageado com o translado de seus ossos para o Panteão de Paris.

Bom selvagem

Até aqui o pensamento de Rousseau pode ser tomado como uma doutrina individualista ou uma denúncia da falência da civilização, mas não é bem isso. O mito criado pelo filósofo em torno da figura do bom selvagem – o ser humano em seu estado natural, não contaminado por constrangimentos sociais – deve ser entendido como uma idealização teórica. Além disso, a obra de Rousseau não pretende negar os ganhos da civilização, mas sugerir caminhos para reconduzir a espécie humana à felicidade.

Um pensamento rebelde na Era da Razão

Já adulto, Emílio, o personagem de Rousseau, ouve preleção sobre a natureza: religião natural. Ilustração: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil

Já adulto, Emílio, o personagem de  Rousseau, ouve preleção sobre a natureza: religião natural. Ilustração: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil.

Havia mais desacordo do que harmonia entre Rousseau e os outros pensadores iluministas que inspiraram os ideais da Revolução Francesa (1789). Voltaire (1694-1778), Denis Diderot (1713-1784) e seus pares exaltavam a razão e a cultura acumulada ao longo da história da humanidade, mas Rousseau defendia a primazia da emoção e afirmava que a civilização havia afastado o ser humano da felicidade. Enquanto Diderot organizava a Enciclopédia, que pretendia sistematizar todo o saber do mundo de uma perspectiva iluminista, Rousseau pregava a experiência direta, a simplicidade e a intuição em lugar da erudição – embora, mesmo assim, tenha se encarregado do verbete sobre música na obra conjunta dos filósofos das luzes. Também o misticismo os opunha: Rousseau rejeitava o racionalismo ateu e recomendava a religião natural, pela qual cada um deve buscar Deus em si mesmo e na natureza. Com o tempo, as relações entre Rousseau e seus contemporâneos chegou ao conflito aberto. Voltaire fez campanha pública contra ele, divulgando o fato de ter entregue os filhos a adoção. Os seguidores mais fiéis de Rousseau seriam os artistas filiados ao Romantismo. Por meio deles, suas idéias influenciaram profundamente o espírito da época. No Brasil, por exemplo, José de Alencar escorou seus romances indigenistas no mito rousseauniano do bom selvagem.

Não basta a via individual. Como a vida em sociedade é inevitável, a melhor maneira de garantir o máximo possível de liberdade para cada um é a democracia, concebida como um regime em que todos se submetem à lei, porque ela foi elaborada de acordo com a vontade geral. Não foi por acaso que Rousseau escolheu publicar simultaneamente, em 1762, suas duas obras principais, Do Contrato Social – em que expõe sua concepção de ordem política – e Emílio – minucioso tratado sobre educação, no qual prescreve o passo-a-passo da formação de um jovem fictício, do nascimento aos 25 anos. "O objetivo de Rousseau é tanto formar o homem como o cidadão", diz Maria Constança Peres Pissarra, professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "A dimensão política é crucial em seus princípios de educação."
Não há escola em Emílio, mas a descrição, em forma vaga de romance, dos primeiros anos de vida de um personagem fictício, filho de um homem rico, entregue a um preceptor para que obtenha uma educação ideal. O jovem Emílio é educado no convívio com a natureza, resguardado ao máximo das coerções sociais. O objetivo de Rousseau, revolucionário para seu tempo, é não só planejar uma educação com vistas à formação futura, na idade adulta, mas também com a intenção de propiciar felicidade à criança enquanto ela ainda é criança.
Dependência das coisas
Rousseau via o jovem como um ser integral, e não uma pessoa incompleta, e intuiu na infância várias fases de desenvolvimento, sobretudo cognitivo. Foi, portanto, um precursor da pedagogia de Maria Montessori (1870-1952) e John Dewey (1859-1952). "Rousseau sistematizou toda uma nova concepção de educação, depois chamada de ‘escola nova’ e que reúne vários pedagogos dos séculos 19 e 20", diz Maria Constança.

Método natural e educação negativa

Rousseau dividiu a vida do jovem – e seu livro Emílio – em cinco fases: lactância (até 2 anos), infância (de 2 a 12), adolescência (de 12 a 15), mocidade (de 15 a 20) e início da idade adulta (de 20 a 25). Para a pedagogia, interessam particularmente os três primeiros períodos, para os quais Rousseau desenvolve sua idéia de educação como um processo subordinado à vida, isto é, à evolução natural do discípulo, e por isso chamado de método natural. O objetivo do mestre é interferir o menos possível no desenvolvimento próprio do jovem, em especial até os 12 anos, quando, segundo Rousseau, ele ainda não pode contar com a razão. O filósofo chamou o procedimento de educação negativa, que consiste, em suas palavras, não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro. Desse modo, quando adulto, o ex-aluno saberá se defender sozinho de tais perigos.

Para Rousseau, a criança devia ser educada sobretudo em liberdade e viver cada fase da infância na plenitude de seus sentidos – mesmo porque, segundo seu entendimento, até os 12 anos o ser humano é praticamente só sentidos, emoções e corpo físico, enquanto a razão ainda se forma. Liberdade não significa a realização de seus impulsos e desejos, mas uma dependência das coisas (em oposição à dependência da vontade dos adultos). "Vosso filho nada deve obter porque pede, mas porque precisa, nem fazer nada por obediência, mas por necessidade", escreveu o filósofo em Emílio.
Um dos objetivos do livro era criticar a educação elitista de seu tempo, que tinha nos padres jesuítas os expoentes. Rousseau condenava em bloco os métodos de ensino utilizados até ali, por se escorarem basicamente na repetição e memorização de conteúdos, e pregava sua substituição pela experiência direta por parte dos alunos, a quem caberia conduzir pelo próprio interesse o aprendizado. Mais do que instruir, no entanto, a educação deveria, para Rousseau, se preocupar com a formação moral e política.

Para pensar

Por incrível que pareça, Rousseau, ao criar o mito do bom selvagem, acabou dando argumentos para negar a importância ou o valor da educação. Afinal, a educação é antes de tudo ação intencional para moldar o homem de acordo com um ideal ou um modelo que a sociedade, ou um segmento dela, valoriza. A educação aceita a natureza, mas não a toma como suficiente e boa em princípio. Se tomasse, não seria necessária… Se você comparar, por exemplo, as idéias de Rousseau e as de Émile Durkheim (1858-1917), verá que, nesse sentido, eles estão em extremos opostos. Para o sociólogo francês, tema de outro capítulo desta edição (leia na página 59), a função da educação era introduzir a criança na sociedade.

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

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Conversações sobre o efêmero

Como as obras de João Gilberto Noll e de Luiz Ruffato dialogam com as ciências sociais e jogam luz sobre os nossos dias.

MANUEL ALVES FILHO

Promover o diálogo entre as ciências sociais e a literatura e, a partir dessa aproximação, obter elementos para compreender e interpretar aspectos não tão perceptíveis da sociedade contemporânea foram os objetivos que nortearam a tese de doutorado da cientista social Cristina Maria da Silva, defendida recentemente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Intitulado Rastros das socialidades – Conversações com João Gilberto Noll e Luiz Rufatto, o trabalho procurou pensar a realidade atual, permeada por conflitos e embates, a partir das narrativas contidas nas obras dos dois autores brasileiros. A orientadora do estudo foi a professora Suely Kofes, do Departamento de Ciências Sociais do IFCH.

De acordo com Cristina, a tese apresenta uma crítica ao conceito de sociedade, tão caro a alguns estudiosos, segundo o qual seria possível estabelecer definições totalitárias para entender o que ocorre na vida social. Na opinião da pesquisadora, porém, a sociedade não deve ser vista como um domínio constituído apenas por regras e funções, no qual as experiências individuais possam ser unificadas. “As ciências sociais tendem a eleger categorias e conceitos para tentar se aproximar da vida social, como o de sociedade ou cultura. Ocorre que a sociedade também se configura por meio de conflitos, embates e encontros de alteridades. Se a sociabilidade deu conta de trabalhar a questão dos indivíduos inseridos na vida social, a partir de regras e funções, a socialidade, conceito que emprego no trabalho, surge como contraponto a ela, para dar conta das altercações, que a meu ver singularizam a nossa realidade atual”, explica.

Parte dos estudos que deram sustentação à tese foram desenvolvidos na França, mais especificamente no Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, Paris V, unidade da Sorbonne, sob orientação do professor Michel Maffesoli. “Essa experiência me ajudou a compreender melhor as ciências sociais contemporâneas e me deu subsídios para analisar as narrativas literárias”, afirma Cristina. Ela conta que inicialmente pensou em trabalhar com outros autores, mas elegeu entre eles somente Noll e Rufatto. Depois de analisar mais detidamente as obras de ambos, concluiu que os escritos deles traziam os rastros das socialidades que pretendia decifrar. “Procurei estabelecer um diálogo entre as ciências sociais e esses dois escritores, que chamei de conversações. A ideia não foi tomar conceitos das ciências sociais e colar na literatura, o que poderia ser chamado de uma sociologia da literatura. O que eu fiz foi pensar se era possível construir uma possível etnografia ficcional, de modo a enxergar a literatura não como um reflexo da sociedade, mas como o avesso dela”, explicita.

O ponto que aproxima as obras de Noll e Rufatto, conforme Cristina, é justamente o fato de ambos não registrarem em seus livros somente o que está nos signos da vida social, da forma como normalmente são dados, mas de maneira deslocada. “Eles se valem daquilo que está na sociedade, mas contam de outra forma, mostrando que os signos são contingentes e que não existe uma verdade imutável. A meu juízo, a literatura não está aí para dizer como as coisas devem ser ou acontecer. Antes, ela serve para falar daquilo que não está posto, do que ficou de fora da construção da sociedade e da cultura”, analisa a autora da tese. Ela acrescenta que outra característica marcante nas obras de Noll e Rufatto é a provisoriedade.

Ou seja, eles falam com freqüência de situações que são provisórias, efêmeras. “Essa é também uma das características da sociedade contemporânea. Frequentemente, as pessoas se pegam achando que algo está se esvaindo, que está escorrendo por entre os seus dedos”. No caso de Rufatto, prossegue a cientista social, o escritor trata com frequência do resgate da memória, principalmente dos imigrantes italianos que vivem em Minas Gerais e de seus descendentes que migram, sobretudo para São Paulo. Ele narra o cotidiano desses e de outros personagens nas mais diversas situações. “Rufatto se vale de fragmentos da cidade para construir a sua narrativa. Nela, aparece desde um diálogo dentro de um táxi até detalhes em torno de uma oração de Santo Expedito, inscrita nesses panfletos que encontramos na calçada ou nos bancos das igrejas. Para mim, esses elementos que aparecem fragmentados na literatura são manifestações das socialidades presentes no cotidiano de centros urbanos como São Paulo”, compara Cristina.

Os personagens de Noll, destaca a pesquisadora, não são propriamente migrantes, mas nômades ou desmemoriados. São pessoas que vivem nas ruas, ex-atores atormentados, ex-escritores em conflito. “São personagens que sempre estão em trânsito, vagando pelas vias, rodoviárias e becos de cidades como Rio de Janeiro, Florianópolis, Porto Alegre ou Londres. Na minha interpretação, os percursos cumpridos por essas pessoas constituem formas de rasurar a vida social. Elas estão o tempo todo se batendo com aquilo que é colocado na vida social. Ou seja, o escritor trabalha com figurações que nos permitem pensar aspectos da realidade atual”, analisa a autora da tese.

Para a elaboração do trabalho acadêmico, Cristina entrevistou os dois escritores. De acordo com ela, foram contatos extremamente interessantes e enriquecedores. “Na verdade, foram bate-papos. Eu não defini um roteiro ou gravei os diálogos, porque considerei que isso não faria muito sentido dentro da proposta da tese. Eu não estava com eles para saber se o que escrevem é tal qual como vivem. Meu interesse era saber quem eram aquelas duas pessoas”, diz. Nesses contatos, a cientista social obteve depoimentos valiosos. Rufatto, por exemplo, falou sobre aspectos relacionados ao seu processo de criação. “Ele me contou que, quando escreve, tenta contar uma história do mesmo modo como a gente tenta se lembrar de algo que aconteceu. Ou seja, a gente não consegue se recordar de todos os detalhes, mas mesmo assim consegue descrever o que ocorreu”.

Segundo Cristina, a sua tese está inserida numa linha de pesquisa que vem sendo desenvolvida no IFHC sob a coordenação da professora Suely Kofes. Os estudos, informa, trabalham com questões das trajetórias, narrativas e biografias dentro das ciências sociais. “Por meio dessa abordagem, o grupo tem proposto um questionamento aos métodos tradicionais empregados pelas ciências sociais para analisar a vida social. Nós procuramos compreender a sociedade contemporânea por meio dos diálogos e relações entre os indivíduos, que são normalmente pontuados por conflitos”.

A pesquisadora entende que a principal contribuição do seu trabalho acadêmico está justamente no uso do diálogo entre as ciências sociais e a literatura para suavizar as teorizações áridas tão presentes nas abordagens das ciências sociais. “Ou seja, busquei pensar o ‘objeto de estudo’ de uma maneira mais poética”, finaliza Cristina, que contou, no Brasil, com bolsa concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e bolsa no exterior fornecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgãos vinculados, respectivamente, aos ministérios da Ciência e Tecnologia e Educação.

Os autores
João Gilberto Noll e Luiz Rufatto estão entre os mais importantes escritores da atualidade no Brasil. O primeiro nasceu em 1946, em Porto Alegre. Tem 13 livros publicados, entre romances e contos. Ganhou diversos prêmios literários, entre eles o Jabuti, em cinco ocasiões: 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. Sua obra mais recente, Acenos e Afagos, é de 2008. O segundo nasceu em 1961, em Cataguases, Minas Gerais. Seu primeiro livro, Histórias de Remorsos e Rancores, uma coletânea de contos, foi publicado em 1998. Em 2005, iniciou a série Inferno Provisório, projetada para cinco volumes, com os livros Mamma, son tanto felice e O Mundo inimigo. Na sequência, escreveu Vista parcial da noite e O livro das impossibilidades.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Os Palestinos da Amazônia

Latuff

Cansados de esperar por uma reforma agrária que nunca chega,camponeses fazem a "revolução agrária" na Amazônia. Por Latuff *A convite do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO),passei uma semana na companhia de lavradores nos acampamentos da Ligados Camponeses Pobres (LCP), no interior do estado de Rondônia. Nestesmeus dias ao lado dos aldeões, tive a honra de comer de sua comida,participar de suas conversas, de sua rotina, tomar conhecimento desuas necessidades, de suas demandas e seus sonhos. Povo forte, quesofre o diabo, mas que não tem medo dele.

Por duas vezes passei a noite numa cabana de palha, onde vivem seuAbel e sua esposa Zilda. Reservaram uma cama pra mim, me receberam comtodo carinho e gentileza. Mesmo na simplicidade daquela choupana,havia uma extrema preocupação em me agradar, na melhor tradição dehospitalidade do homem do campo. Acordava-se bem cedo, ainda escuro."Bom dia, dormiu bem?". Escova de dentes na mão, rumo ao rio que beiraa cabana. No moedor a manivela, os grãos de café eram preparados parao desjejum. O leite fervia no fogão a lenha. A mesa posta, os copos,os talheres, o silêncio era discretamente interrompido tanto por mimquanto pelos pássaros. Daqui a pouco seu Abel já estava seguindo paraa roça, pra cortar lenha, pra capinar a terra, irrigar as mudas,trabalho árduo para transformar seu pequeno pedaço de selva em lar. Oslavradores humildes precisam de bem pouco para viver uma vida digna, enem mesmo isso lhes é permitido. Com o argumento do combate aodesmatamento, o IBAMA persegue e aplica multas altas aos que vivem daagricultura de subsistência, usam da Polícia Federal, da ForçaNacional de Segurança e mesmo tropas do Exército para sufocar ascomunidades, como no caso de Rio Pardo, onde barreiras foram erguidasnas entradas e saídas, pessoas e veículos revistados, postos decombustível do acampamento removidos, um rigor que não tem sidoaplicado aos latifundiários, que transformam vastas extensões defloresta nativa em pasto ou monocultura.

O histórico de violência naquela área já vem de longe. No BrasilColônia, o vale do Guaporé foi palco de disputas imperialistas entrePortugal e Espanha, que só terminaram com as demarcações de terraacordadas pelo Tratado de Madrid em 1750. No século 18 com o ciclo damineração e particularmente no final do século 19 com o ciclo daborracha, uma grande leva de migrantes de diversas partes do Brasilforam atraídos para a região, causando conflitos agrários com avizinha Bolívia, que foram resolvidos em 1903 com o Tratado dePetrópolis. Em 1943, como resultado do desmembramento de áreas dosestados do Amazonas e Mato Grosso, foi criado por Getúlio Vargas oTerritório Federal de Guaporé, tendo sido rebatizado para Rondônia em1956, em homenagem ao Marechal Cândido Rondon, militar que entre 1910e 1940 comandou expedições de Cuiabá até o Amazonas para instalarlinhas telegráficas e levar a boa e velha civilização branca para oseio dos povos indígenas. Rondônia torna-se estado em 1982.

A Liga dos Camponeses Pobres surgiu em agosto de 1995, quandotrabalhadores rurais que ocupavam terras da Fazenda Santa Elina, nacidade de Corumbiara, resistiram ao brutal despejo promovido porpoliciais e jagunços, resultando na morte de 11 pessoas (em númerosoficiais), incluindo a menina Vanessa de apenas 6 anos, no que ficouconhecido como o "Massacre de Corumbiara". De lá pra cá, cansados deesperar por uma reforma agrária que nunca chega, os camponeses e suasfamílias decidiram promover a "revolução agrária" no peito e na raça.São eles os acusados pela revista Isto É de serem sanguináriosguerrilheiros ligados (adivinhem) as FARC.

O que pude presenciar durante minha visita aos acampamentos foramtrabalhadores rurais e suas famílias armados, isso sim, de uma forçade vontade poderosa, capaz de enfrentar os rigores da AmazôniaOcidental. O clima equatorial, extremamente quente e úmido, onde o solinclemente castiga a carne, as doenças tropicais como a leshmaniose ea malária, que por aquelas bandas são tão comuns quanto um resfriado,animais selvagens como onças, porcos-do-mato e serpentes venenosas, umrisco sempre presente, oculto pela densa vegetação.

Mas não são os rigores da selva amazônica os maiores inimigos do povodo campo. São os fazendeiros milionários e seus exércitos particularesformados por assassinos de aluguel e policiais, cujas ações criminosassão sustentadas por políticos locais e a imprensa corrupta, quealimentada com verbas publicitárias e mesmo matérias pagas, tentademonizar a justa resistência dos pequenos agricultores. Os matadoressão conhecidos por todos, andam tranquilamente pelas ruas, por vezesostensivamente armados. Não são raras as execuções a luz do dia, avista de todos. Qualquer um que tenha coragem de, por exemplo,denunciar os pistoleiros num programa de rádio, corre o sério risco deser assassinado assim que por os pés pra fora da emissora. Conceitoscomo direitos humanos e cidadania inexistem nos cantões de Rondônia,onde a pistolagem é uma instituição consagrada pela sociedade. Numacorrida de taxi em Ariquemes, junto com mais três passageiros, passei

a viagem que durou cerca de 45 minutos ouvindo animadas histórias defazendeiros, políticos e mortes encomendadas. Uma delas reproduzoaqui.

Um homem pescava num rio. Conseguiu apanhar dois pintados. Amarrou ospeixes na garupa de sua bicicleta e seguiu tranquilamente por umaestrada. No meio do caminho foi parado por um fazendeiro e seu jagunçonuma caminhonete.

- "Onde você pescou isso?", perguntou o fazendeiro.

- "Naquele rio logo ali", respondeu o sujeito.

- "Então pode deixar por aí mesmo, que aquele rio é meu", disse ofazendeiro, no momento em que o capanga já saía do veículo de formaameaçadora. O pescador teve de fugir. Ao comentar esse caso com opessoal da LCP, me disseram que ele teve sorte de não ter sidosimplesmente baleado. Essa é somente uma das histórias que explica bema razão da revolta que o camponês de Rondônia traz consigo no peito.

Historicamente, a reforma agrária no Brasil nunca se deu de maneiraespontânea pelos governos, e sim pela pressão feita pelos movimentospopulares de luta pela terra, que no caso da LCP, sequer contam com oINCRA para assentar as famílias. Para os integrantes da LCP, nãoexiste o conceito de "desapropriação de terras improdutivas", vistoque mesmo as produtivas, estando em mãos de ricos fazendeiros,servirão invariavelmente aos interesses do agronegócio. Os camponesesda LCP escolhem as grandes fazendas, as ocupam, erguem lonas, resistemao ataque de jagunços, e depois de 2 a 3 meses fazem demarcação doslotes, o chamado "corte popular", inicialmente erguendo cabanas depalha e depois de madeira. Depois de algum tempo, os acampamentos seassemelham a povoados do velho oeste norte-americano, como no caso deJacinópolis, com farmácia, escola, mercado, tudo feito detábuas.

Diferente da confortável vida das grandes cidades, onde restaurantes,lanchonetes e supermercados estão logo ali na esquina, nas áreas deacampamento o supermercado mais próximo pode estar a 80km de estradasde terra acidentadas. É natural portanto que os camponeses tenham decaçar para comer, o que justifica a posse de velhas espingardas queservem também para a defesa contra onças e porcos selvagens. Operaçõesconstantes do IBAMA e das polícias, tentam tomar estes armamentosrústicos das mãos dos lavradores, impedindo que eles se defendam tantode animais ferozes quanto de pistoleiros. O direito a legítima defesatambém lhes é negado. Os camponeses, no entanto, seguem resistindo aestas agressões como podem. Fecham estradas, bloqueiam o avanço dapolícia com barricadas, criam seus próprios sistemas de vigilância esegurança. Não se entregam nunca.

São os palestinos da Amazônia.

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

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Os EUA e a incerteza em Honduras

É difícil prever o que vai acontecer em Honduras depois do acordo. Na aparência, ele sequer impõe a volta do presidente constitucional Manuel Zelaya, cujo mandato foi capado em mais de quatro meses. O retorno era ponto de honra não só para os partidários de Zelaya, mas para a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a comunidade internacional, até porque nenhum país reconheceu o regime do golpista Roberto Micheletti. O artigo é de Argemiro Ferreira.

Argemiro Ferreira

O objetivo maior da comunidade internacional era deixar claro na América Latina com seu passado marcado por golpes militares (em geral teleguiados dos EUA e quase sempre acompanhados pelo respaldo americano, com desembarque de tropas ou a ameaça de fazê-lo) que tais práticas não serão mais toleradas no continente – e que o golpismo será sistematicamente repudiado.
Para os atuais detentores do poder de fato aceitarem a fórmula, autoridades dos EUA – Thomas Shannon, sub-secretário de Estado para assuntos do hemisfério, e o embaixador Hugo Llorens – tiveram de convencer os golpistas (que antes do golpe tinham tido o cuidado de obter deles o nihil obstat de Washington) de que Zelaya só voltaria se o Congresso de Honduras aprovasse seu retorno ao poder.
A estranha epifania dos golpistas
Estranho a contradição. Os partidários de Zelaya concordaram em deixar a decisão final para a mesma maioria parlamentar que se mostrara favorável ao golpe quando os militares sequestraram o presidente legítimo no palácio (de pijama) e o enfiaram num avião para tirá-lo do país? Será que diante da pressão internacional a tal maioria, tão golpista como Micheletti, teve uma epifania?
Shannon e Llorens podem ser a chave para entender a suposta epifania. Herdados do governo Bush (e sua desastrada política externa) pela secretária de Estado Hillary Clinton, os dois e mais algumas figuras sinistras (entre elas um dos chefes da máfia dos cubanos de Miami, o lobista Otto Reich) tinham servido na Casa Branca e no Departamento de Estado na trama golpista de 2002 contra Hugo Chávez na Venezuela.
Dias depois do golpe hondurenho escrevi neste espaço que Shannon e Llorens tinham vivido situação igual sete anos antes: “um tratava então de questões andinas (Venezuela entre elas) no Departamento de Estado, como adjunto do secretário assistente Reich, lobista anti-Cuba e padrinho do golpe (da Venezuela); o outro cuidava do mesmo assunto no Conselho de Segurança da Casa Branca, junto com Elliot Abrams (condenado pela Justiça americana no escândalo Irã-Contras.”
Fazendo o que a CIA fazia antes
Naquele e em outros textos sobre mais complicadores, lembrei ainda a ação golpista em Washington do NED (National Endowment for Democracy), grupo criado no governo Reagan para apoiar golpes e ditaduras, usado depois tanto por republicanos (através do IRI, instituto então criado no partido) como por democratas (através do NDI, semelhante ao do adversário), cada um com suas ONGs apoiadas por empresários e sindicatos que agem no continente.
Citei ainda a frase dita em 1991 por Allen Weinstein, um dos criadors do NED: “Boa parte das coisas que estamos fazendo hoje (usando o NED) eram feitas clandestinmente, 25 anos atrás, pela CIA, Agência Central de Espionagem”. Aquela referência era aos golpes da CIA, na América Latina e nos quatro cantos do mundo, como os do Irã (em 1953) e da Guatemala (1954).
Com o NED, seja em governos republicanos ou democratas, os mecanismos mudaram (em geral não chegam a dispensar a CIA, mas a notoriedade dela passou a exigir cobertura mais eficaz). No caso de Honduras escancarou-se também uma ação mais ostensiva dos lobbies na capital dos EUA, tanto os ligados a um partido como os ligados ao outro, conforme foi destacado numa análise.
Tudo isso acaba por justificar certo desencanto com a possibilidade de reformas e mudanças mais substantivas no governo Obama. De qualqur forma, será preciso no mínimo esperar o final do processo em Honduras. Sem familiaridade com a América Latina, que ela sempre subestimou, Hillary revela-se pouco inclinada a renovar a política para a região, talvez por temer complicadores previsíveis.
Uma eleição e muitos problemas
No governo do marido dela, a oposição republicana impediu o presidente Clinton de nomear vários embaixadores – ente eles, William Weld, republicano que para chefiar a missão dos EUA no México chegara a renunciar ao governo do estado de Massachusetts. E até hoje não foi votada a indicação de Thomas Shannon para o Brasil e a do substituto dele no Departamento de Estado, Arturo Valenzuela.
Mas na crise de Honduras, apesar do papel conspícuo de Shanon e Llorens nas últimas semanas, os EUA optaram por dar mais espaço à OEA. E cabe neste momento à uma Comissão de Verificação, criada no acordo assinado pelas partes, acompanhar através da americana Hilda Solis e do chileno Ricardo Lagos o cumprimento, passo a passo, de cada uma das cláusulas.
Depois de consumado o retorno de Zelaya, ainda haveria, claro, a questão eleitoral. O jogo dos golpistas foi (na verdade, ainda está sendo) retardar ao máximo todo o processo – o que tende a questionar depois a legitimidade da eleição, já que na campanha candidatos golpistas foram naturalmente beneficiados pelo controle oficial. Essa e outras questões dificilmente deixarão de reaparecer nos próximos desdobramentos.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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Terra das sombras

Para voltar ao centro do palco no Oriente Médio, a Síria tenta superar um passado obscurantista.

Don Belt
Foto:
Ed Kashi

Terra das sombras

Damasco vista do topo do monte Qasiyun durante uma festa para celebrar o fim do Ramadã.

Há um trecho em O Poderoso Chefão no qual o jovem Michael Corleone, que está fora do país, percebe que, com a morte súbita e violenta de seu irmão mais velho, agora ele está destinado – condenado seria melhor – a assumir o império mafioso construído pelo pai, já decrépito. "Avise meu pai para que mande me buscar", diz Michael, resignado ao papel que terá de cumprir, a seu anfitrião. "Diga a meu pai que quero ser seu herdeiro."

Se na vida de Bashar al Assad, o atual presidente da Síria, houve um momento assim, ele ocorreu pouco depois das 7 da manhã de 21 de janeiro de 1994, quando o telefone tocou no apartamento que alugava em Londres. Alto e estudioso, o oftalmologista Bashar, então com 28 anos, realizava sua residência no Western Eye Hospital, na capital britânica. Ao atender a ligação, soube que seu irmão mais velho, Basil, dirigindo em alta velocidade a caminho do aeroporto de Damasco em meio a densa neblina, se chocara com seu Mercedes em uma rotatória. Basil, um personagem carismático que vinha sendo preparado para suceder o pai, morreu na hora. E agora ele, Bashar, era convocado de volta a seu país.
Seis anos depois, em junho de 2000, chegou a hora final do pai, Hafez al Assad, que morreu de insuficiência cardíaca aos 69 anos. Logo após o funeral, Bashar entrou no gabinete paterno pela segunda vez em toda sua vida. Ele se lembra com nitidez da primeira vez que estivera lá, excitado para contar ao pai sobre sua primeira lição de francês. Bashar recorda-se de ter visto um frasco de colônia no armário ao lado da escrivaninha do pai. Ele ficou espantando de ainda ver o frasco ali 27 anos depois, intocado. Esse detalhe, a colônia rançosa, diz muito a respeito do regime fechado da Síria, uma ditadura à moda antiga que Bashar se sentia pouco preparado para liderar.
"Meu pai jamais me falou de política", me revela Bashar. "Mesmo depois que voltei para casa, em 1994, tudo o que aprendi sobre sua maneira de governar foi pela leitura das anotações que ele fazia durante as reuniões ou por conversas com seus colaboradores." Uma dessas lições era a de que o governo de um país como a Síria requer certo acomodamento com a ambiguidade. Entusiásta da fotografia, Bashar usa como comparação uma foto em preto-e-branco. "Nunca há preto absoluto ou branco absoluto, algo completamente ruim ou completamente bom", diz ele. "Só várias tonalidades de cinza."
A Síria é uma terra antiga, moldada ao longo de milênios pelo comércio e pelas migrações humanas. Mas, se toda a nação é como uma foto em preto-e-branco com incontáveis tons cinzentos, então a Síria, apesar de toda sua antiguidade, é na verdade uma imagem que vem sendo lentamente revelada diante de nossos olhos. É o tipo de lugar em que podemos ouvir, em um café de Damasco, um contador de histórias de 75 anos evocar as Cruzadas e o Império Otomano como se fossem lembranças de infância enquanto brande sua espada com tanta dramaticidade que os ouvintes recuam para se proteger. Em seguida, podemos caminhar na vizinhança até a magnífica mesquita omíada, erguida em 715, e nos misturarmos aos meninos que jogam futebol na entrada, sem prestar atenção à multidão de peregrinos iranianos que lá acorrem para as orações de fim da tarde. Também é um lugar no qual é possível jantar com amigos em um café elegante e, depois, enquanto se espera pelo ônibus noturno, ouvir gritos arrepiantes vindos de uma janela no segundo andar da delegacia de polícia de Bab Touma. No ponto do ônibus, os sírios trocam olhares de quem sabe muito bem o que está acontecendo, mas ninguém diz nada.
O regime dos Assad não se mantém no poder há quase 40 anos com medidas tolerantes. Ele conseguiu sobreviver em uma região violenta graças a uma combinação de astúcia política e aproximação interesseira com nações mais poderosas – primeiro a União Soviética e agora o Irã. Em estado de guerra com Israel desde 1948, a Síria fornece material aos grupos fundamentalistas islâmicos Hezbollah e Hamas e está empenhada em retomar as colinas de Golã, capturadas por Israel em 1967. As relações com os Estados Unidos, raramente boas, se tornaram ainda mais difíceis após a invasão do Iraque em 2003, quando George W. Bush, citando a oposição à guerra e o apoio aos rebeldes iraquianos, ameaçou derrubar o regime em Damasco e estigmatizou o jovem presidente como um príncipe das trevas árabe.
Este é um bom momento para avaliar a situação do país, agora que a Síria parece prestes a retomar um papel crucial nas questões regionais. Em um famoso comentário, Henry Kissinger afirmou que ali não é possível travar nenhuma guerra sem o Egito nem obter a paz sem a Síria – e provavelmente ele tinha razão. Para o bem ou para o mal, o caminho para a paz no Oriente Médio passa por Damasco.
No lado de fora do antigo mercado Hamadiya, em Damasco, antes havia uma foto de Hafez al Assad tão alta quanto um prédio de três andares. A cabeça do presidente espiava de cima a congestionada capital de 4 milhões de habitantes. Inspirada nos cultos totalitários do império soviético, essa iconografia do Grande Irmão sempre conferiu à Síria a aparência de uma nação preservada em âmbar, remanescente de uma época na qual os ditadores eram de fato ditadores, como Stalin e Mao. E foi esse país que, ao morrer, Hafez deixou para o filho.]

Hoje, no lugar da foto imensa, vê-se um grande outdoor branco com uma imagem do primeiro presidente sírio pós-moderno. Bashar está acenando com um sorriso animado no rosto. "Eu acredito na Síria", diz uma frase. Mas será preciso mais que um sorriso e um slogan para reinventar o país. "O que a Síria precisa agora”, me diz Bashar, “é de uma mudança de mentalidade."
O vilarejo natal da família Assad, Al Qardahah, está situado em uma encosta, resguardada como são as cidadezinhas montanhosas, mas tão próxima do Mediterrâneo que dá para distinguir os barcos de pesca em Latakia, maior porto da Síria. Uma estrada sobe da costa, levando os peregrinos ao vilarejo, onde as ruas são pavimentadas, as casas, imponentes, e os altos funcionários do regime – homens corpulentos na faixa dos 50 ou 60 anos com jeito de mafiosos em férias – passeiam de pijama pelas calçadas.
Centenas de anos atrás, Al Qardahah era um enclave de xiitas pobres que veneravam Ali, o genro e sucessor de Maomé, com tal fervor que foram declarados heréticos por outros muçulmanos e forçados a viver nas montanhas do noroeste da Síria, onde ficaram conhecidos como alauís. Então, em 1939, um deles – um brilhante menino de 9 anos chamado Hafez – foi enviado para estudar fora. Ele foi para Latakia, onde frequentou escolas mantidas pelos franceses que tomaram a região do Império Otomano após a Primeira Guerra, na partilha da Síria histórica (que incluía os territórios atuais de Israel, Palestina, Jordânia, Líbano, oeste do Iraque e sul da Turquia) feita pela Grã-Bretanha e pela França nos termos do Acordo Sykes-Picot, de 1916.
Quieto e alto para sua idade, Hafez era consumido pela ambição de ser bem-sucedido e chegar ao poder. Após a independência da França em 1946, ele passou a integrar o Partido Baath, um movimento nacionalista árabe de cunho secular que assumiria o controle do país em 1963. Hafez fez carreira militar e acabou nomeado ministro da Defesa. Em 1970, articulou um golpe de Estado com a ajuda de um grupo de oficiais, muitos também alauís. Desde então, os seguidores dessa minúscula seita xiita conseguiram se manter no comando dessa nação complexa com 20 milhões de habitantes, 76% dos quais sunitas.
Hafez al Assad sobreviveu graças a sua rara capacidade de manipular eventos geopolíticos, jogando com tal inteligência as cartas fracas que tinha na mão que Bill Clinton o considerou o líder do Oriente Médio mais astucioso que conhecera. Hafez revelou-se um mestre em manter sob controle as explosivas diferenças religiosas no país, estabelecendo um regime laico. Desestimulou a menção ao termo "alauí" em público e alterou o nome de sua região natal para "montes Ocidentais". E empenhou-se ao máximo em proteger outras minorias religiosas – cristãos, ismaelianos, drusos -, pois dependia delas para contrabalançar a preponderância sunita.
Hafez era inclemente com seus inimigos, sobretudo com a Irmandade Muçulmana Síria, um movimento fundamentalista sunita ansioso para afastar do poder os alauís apóstatas e instalar no país um Estado islâmico. Quando, no fim da década de 1970, a Irmandade promoveu uma série de atentados, Hafez ordenou que aviões da Força Aérea bombardeassem áreas densamente povoadas em Hama, reduto dos militantes. Entre 10 mil e 40 mil pessoas morreram, e milhares foram detidas, torturadas e abandonadas em prisões. O regime logo em seguida lançou sua polícia contra todos os opositores políticos.
Quando Hafez al Assad morreu, em 2000, seu corpo foi levado de volta a Al Qardahah e sepultado ao lado de seu primogênito, Basil, cujas façanhas ousadas o distinguiam do estudioso irmão mais novo. "Bashar é tão amistoso que é fácil subestimá-lo", comenta Ryan Crocker, que era embaixador dos Estados Unidos no período em que Bashar assumiu o governo. "Mas não há como negar: ele é bem parecido com o pai."
Um rapaz vestindo uma jaqueta preta de couro sintético desenha em minha caderneta, lançando um barco a vela em um mar revolto com traços cuidadosos de caneta azul. Estamos em um café com vista para as colinas do norte da Síria, seguindo as sombras de nuvens que se movem sobre uma paisagem de terra vermelha e oliveiras de um verde prateado. Liberdade, comenta o jovem. É disso que precisamos.
"Não falo de liberdade política", diz ele olhando para se assegurar de que não há por perto nenhum mukhabarat, ou policial disfarçado. "E sim da liberdade para fazer coisas", segue o rapaz, "sem ser sufocado por questões burocráticas. Na Síria, para gente como eu, não há nenhum incentivo para se tentar algo novo. Jamais se consegue aprovação do governo. Aqui tudo se resume a quem você é, a qual clã ou vilarejo pertence e ao tanto de vitamina Uau que tem no bolso."

"Vitamina Uau?", pergunto. "Wasta!", replica ele rindo. Dinheiro! Suborno! "Para onde vai o barquinho?", pergunto apontando o desenho. "A lugar nenhum", diz. "Não tenho vitamina Uau!"
Logo depois de voltar de Londres, Bashar concluiu que a Síria sofria de overdose de vitamina Uau. Ao assumir o governo em 2000, ele lançou uma campanha anticorrupção, afastando ministros e altos funcionários. Colocou em liberdade centenas de prisioneiros políticos e amenizou as restrições aos dissidentes – uma assim chamada Primavera de Damasco que logo se espalhou, desde a sala das residências até uma crescente subcultura de cafés com acesso à internet. O próprio Bashar tornou possível esta última tendência, junto de tecnocratas com ideias similares, a fim de difundir o uso de computadores mesmo antes de virar presidente. Vencendo as objeções da poderosa comunidade militar, Bashar conseguiu, em 1998, convencer o pai a conectar o país à rede mundial de computadores.
Ele também tomou medidas para reativar a economia. "Quarenta anos de socialismo – isso é o que temos de superar", comenta Abdallah Dardari, de 46 anos, economista formado em Londres e vice-primeiro-ministro para assuntos econômicos. Bashar recrutou no exterior os melhores e mais brilhantes expatriados. Essa nova equipe privatizou o sistema bancário, formou parques industriais isentos de impostos e criou em Damasco uma bolsa de valores de modo a estimular os investimentos internos e externos.
"Minha missão é melhorar a vida dos sírios", comenta Bashar. Nesse ímpeto modernizador, o maior aliado é sua mulher, Asma al-Akhras. Elegante, formada em administração no Ocidente, ela encarregou-se de vários programas voltados para a melhoria das condições educacionais e econômicas da população. Filha de um proeminente cardiologista sírio, Asma nasceu e foi criada em Londres. Ela e Bashar têm três filhos, com os quais costumam fazer piqueniques nas colinas em torno da capital – em acentuado contraste com Hafez al Assad, que raramente era visto em público. "Só dá para saber do que as pessoas precisam tendo contato com elas”, diz Bashar. “Nós nos recusamos a viver em uma bolha. Acho que é por isso que o povo confia em nós."
Por 4 mil anos, a cidade de Aleppo, no norte da Síria, é passagem de rotas comerciais do Crescente Fértil, ligando a Mesopotâmia ao Mediterrâneo. Guardada por uma cidadela no topo de um morro, os 365 hectares do centro antigo de Aleppo estão intactos desde a Idade Média. Hoje, quando adentramos seu suq coberto, o maior mercado público do mundo árabe, é como se transpuséssemos um portal de pedra para o século 15 – uma mistura medieval de merceeiros, mercadores de ouro, carroças, artesãos, mendigos, pregoeiros de todo tipo movendo-se em um imenso desfile colorido e barulhento de sinetas de cabra e pés calçados com sandálias. Se as autoridades municipais tivessem conseguido o que queriam, isso seria coisa do passado.
Na década de 1950, os urbanistas de Aleppo projetaram a modernização da cidade, que previa a passagem pelo centro antigo de amplas ruas de estilo ocidental. Em 1977, porém, os moradores, liderados pelo arquiteto Adli Qudsi, que também vivia na área, se organizaram contra e convenceram as autoridades a alterá-lo. Hoje o centro antigo está preservado. Antes uma relíquia em ruínas, a velha Aleppo é citada por Bashar como um exemplo da mentalidade que promove, um modelo de como é possível reaproveitar o passado da Síria para que possa apontar o futuro.
"Levando em conta que há milênios a Síria é uma nação mercantil, o que procuramos fazer é recuperar as raízes empresariais do país", comenta Abdallah Dardari. "Mas não vai ser fácil: um quarto da força de trabalho ainda vive de salários pagos pelo governo. Herdamos uma economia baseada em privilégios e recursos oficiais."
Ao permitir investimentos privados em setores estatais, Bashar espera modernizar suas operações e administrá-las com mais eficiência. Nesse processo, muita gente já ficou desempregada e houve uma escalada dos preços. Todavia, são tantos trabalhadores que dependem dos salários públicos no setor de algodão que ele continua quase todo sob a tutela do Estado.
A Síria herdada por Bashar exibe sinais tão antiquados que seria melhor começar do zero. Criado pelo Partido Baath nos anos 1960, o sistema de estatais e empregos públicos melhorou o padrão de vida e levou educação e assistência médica às áreas rurais, mas lembra o falido socialismo do Leste Europeu. E a burocracia síria é ainda mais antiga, com base na administração do Império Otomano e no domínio francês.

A reforma educacional está nos planos de Bashar, e é urgente. As crianças aprendem memorizando manuais velhos, e são avaliadas, mesmo em nível universitário, pela quantidade de fatos que sabem de cor. "Minha filha de 11 anos está muito confusa", conta Dardari. "Em casa ela ouve falar nos mercados e como funciona o mundo, e aí, quando vai à escola, lê manuais de 1970 que pregam o marxismo e o triunfo proletário."
Quando um filho assume o negócio familiar, às vezes é difícil mudar o modo como as coisas sempre foram feitas. E, mesmo que o filho mais velho, Basil, fosse mais afinado com o pai, Bashar acabou seguindo os passos de Hafez. Quando estava há um ano na Presidência, aviões foram lançados contra o World Trade Center, em Nova York, e, de repente, parecia cada vez maior a ameaça aos regimes laicos, como a Síria, por parte da Al Qaeda e da Irmandade Muçulmana. A invasão americana no Iraque inflamou os fundamentalistas sírios, ao mesmo tempo que o país recebeu 1,4 milhão de refugiados iraquianos. Alguns acreditam que Bashar, em tática similar a de seu pai, desviou a fúria contra seu governo de modo que se voltasse contra os americanos, permitindo que os jihadistas usassem a Síria como área de reagrupamento e passagem.
Mesmo antes do 11 de Setembro, Bashar começou a recuar nas reformas políticas e na liberdade de expressão. Sua iniciativa anticorrupção estagnou, solapada por negócios escusos de membros da própria família. Investigações sobre o assassinato em Beirute do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri, em 2005, apontaram para uma conexão síria. Pouco depois Bashar ordenou a detenção de prisioneiros políticos a quem colocara em liberdade anos antes. E, em 2008, em uma reviravolta irônica para um entusiasta da informática que levou a internet à Síria, Bashar bloqueou o acesso a uma enorme quantidade de sites. Em tudo isso, alguns veem Bashar como vítima de elementos reacionários de seu governo. Outros, no entanto, o consideram mais como um jovem chefão exercitando seus músculos.
O mesmo Bashar responsabiliza a invasão do Iraque por ter empurrado toda a região para uma situação difícil e perigosa, e defende as duras medidas de segurança interna como vitais na luta pela sobrevivência. "Estamos em estado de guerra com Israel", diz. "Temos problemas com a Irmandade Muçulmana desde 1950. Mas agora há um perigo bem maior. A Al Qaeda é um estado de espírito. É muito difícil de ser detectada. Precisamos reforçar a segurança interna."
Os membros da oposição, quase todos na clandestinidade ou na prisão, não se convencem com tal argumentação, brandida há 30 anos para sufocar qualquer discordância. Embora reconheçam que a repressão não é tão violenta quanto a anterior, os ativistas com quem conversei consideram superficiais as diferenças entre o regime de Bashar e o de seu pai. "Bashar parece razoável, mas o governo é mais que uma pessoa", comenta um jovem militante de direitos humanos com quem me encontro em um apartamento abarrotado de livros na periferia da capital. "Viver aqui é viver com medo", prossegue o rapaz de olheiras marcadas fumando um cigarro. "Você tem a impressão de estar sendo observado. Aí olha em torno e não vê ninguém. Então pensa: ‘Eu não deveria sentir isso, mas estou. Devo estar enlouquecendo’. E é isso o que eles querem."
Seja qual for o propósito, a sombra do medo, a nuvem que bloqueia o sol, está por toda parte. A fim de proteger as pessoas com quem conversei, muitas não foram identificadas, pois eu temia pela prisão delas uma vez publicado este artigo. Um professor universitário que conheci em Aleppo foi submetido a um interrogatório brutal após ter participado de um colóquio em que estiveram cientistas israelenses. Os interrogadores o deixaram partir com a ameaça de que, se divulgasse o ocorrido, seu caso seria reaberto.
Certa manhã, em Damasco, estou em um parque com um grupo de trabalhadores ocasionais, com idades em torno dos 20 anos, todos à procura de serviço. A maioria é da região de Dara, no sul do país, e debatemos os prós e os contras daquela cidade. Para eles, é um lugar horrível, seco e sujo. Eu a defendo. Enquanto discutimos em tom de brincadeira, um homem de meia-idade se aproxima e nos ouve. Quando notam a presença dele, a conversa acaba.
"Dara é uma grande cidade", diz o recém-chegado. Os outros começam a se afastar. Para ver qual seria a reação dele, conto que tenho uma entrevista com o presidente e pergunto se gostaria que eu lhe transmitisse alguma mensagem. Ele rabisca algo em um bloco, e imagino que seja sobre mim. Mas o homem diz: "Por favor, entregue isto ao presidente". No papel está rabiscado seu nome e telefone e uma mensagem em árabe precário: "Saudações, respeitável Dr. Presidente Bashar. Este bilhete é de um jovem sírio, de Al Hasakah, que precisa muito de um emprego no funcionalismo público. Muito obrigado".

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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Os países em desenvolvimento, principais vítimas do aquecimento climático

Hervé Kempf

Diversos estudos confirmam que os países pobres serão as principais vítimas da mudança climática, ainda que sejam os menores responsáveis por ela, por não serem grandes emissores de gases de efeito estufa. Um estudo publicado no início de setembro deste ano pela Maplecroft, uma consultoria britânica especializada em riscos globais, mostra que os países mais vulneráveis ao aquecimento são a Somália, o Haiti, o Afeganistão e Serra Leoa. Dos vinte e oito países expostos a um "risco extremo", vinte e dois estão situados na África subsaariana.

Enquanto isso, em Manila, o Banco Asiático de Desenvolvimento apresentava os resultados de uma pesquisa que concluía que o derretimento das geleiras do Himalaia ameaça a segurança alimentar e a disponibilidade de água dos 1,6 bilhão de habitantes do sul da Ásia. Em Nova York, Rob Vos, diretor do departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, avaliou que "se não reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa de forma significativa, os danos causados à economia dos países pobres serão dez vezes maiores do que aqueles registrados nos países desenvolvidos". Vos comentava o relatório publicado por seu departamento. Segundo as conclusões, seria preciso investir todos os anos na atenuação da mudança climática e na adaptação a seus efeitos, da ordem de 1% do produto interno bruto (PIB) mundial, ou seja, US$ 500 bilhões (R$ 855 bilhões).

Yuri Cortez/AFP

No desastre climático mais recente, o furacão Ida deixou dezenas de mortos em El Salvador

Alguns meses antes, em maio de 2009, a ONU havia publicado um relatório da Estratégia Internacional de Redução de Riscos, lançado em 2000. O documento faz a primeira síntese dos conhecimentos sobre os desastres naturais que se produziram entre 1975 e 2008. Ainda que reconheça não ser completo, o texto representa um aglomerado único de conhecimentos.
Entre 1975 e 2008, ele lista 8.866 desastres que mataram 2.284.000 pessoas. A respeito das inundações, o risco de morte aumentou 13% entre 1990 e 2007. Pode-se dizer que o quadro não é uniformemente catastrófico. O número absoluto de perdas humanas ou econômicas aumenta no período como um todo, mas ele permanece proporcionalmente estável, pelo aumento demográfico e do PIB mundial.
Mas, segundo os especialistas da ONU, a situação deverá se deteriorar em razão da mudança climática e da degradação dos ecossistemas. Esta é um fator muito ignorado, pois estes últimos conseguem amortecer o impacto das catástrofes de origem natural. Quanto à mudança climática, ela aumentará o risco dos desastres. A vulnerabilidade das populações é um dos outros fatores que acentuam os riscos. A ação do poder público (normas antissísmicas, etc.) torna-se crucial: o Japão e as Filipinas sofrem com mais ou menos o mesmo número de furacões, mas estes provocam 17 vezes mais mortes nas Filipinas do que no Japão.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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O Brasil ‘inventado’ por Varnhagen

Historiador aponta viés etnocêntrico no conjunto da obra do Visconde de Porto Seguro.

MANUEL ALVES FILHO

Em seu livro História e Historiografia: Brasil pós-1964, o professor José Roberto do Amaral Lapa, criador do Centro de Memória da Unicamp (CMU), registrou que “a história, como outras áreas do saber na área de Ciências Humanas, é muito sujeita aos ventos que sopram de latitudes as mais diferentes”. Em outros termos, o tarimbado historiador, que viria a falecer em junho de 2000, aos 70 anos, alertava o leitor para o fato de não haver uma verdade única no que toca ao relato histórico. Orientado por esta referência, entre outras, o historiador Renilson Rosa Ribeiro decidiu investigar em sua tese de doutoramento, apresentada recentemente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, como foram construídas as representações discursivas que acabaram por forjar um tipo de memória oficial para o Brasil. Do trabalho, orientado pelo professor Paulo Miceli, emergiu a figura de Francisco Adolfo de Varnhagen, mais conhecido como Visconde de Porto Seguro. “Ele foi um dos maiores artífices de uma visão histórica que perdura até hoje, tanto nos livros didáticos quanto no imaginário nacional”, afirma.

O interesse de Ribeiro pelo tema remonta à sua dissertação de mestrado, quando analisou o discurso de raça presente nos manuais escolares produzidos no final do século 19 e ao longo do século 20. Durante a investigação, ele deparou com a recorrência de temas quando os autores se dedicavam a pensar a história do Brasil. “Nas obras que tomei para análise, o perío do colonial sempre era apresentado, com maior ou menor destaque, como a semente da nação. Isso me levou a querer investigar, com a orientação do professor Paulo Miceli, como esse discurso, que normalmente é apresentado como algo natural, foi construí do ao longo do tempo”, explica.

A pesquisa de Ribeiro concentrou-se na produção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838 com o objetivo de “forjar uma memória para a nação brasileira”, que acabara de conquistar a sua independência. Ao analisar os temas, documentos e personagens vinculados ao instituto, o historiador elegeu como objeto principal de investigação a Revista do IHGB, que circula até hoje e cujo primeiro número foi editado em 1839. “Durante o trabalho de prospecção, percebemos que um personagem apresentava-se como emblemático em relação ao tema do nosso interesse, que vinha a ser Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro”, relata.

Embora tenha nascido na região de Sorocaba, interior de São Paulo, em 1816, Varnhagen viveu durante muitos anos fora do Brasil, sobretudo em Portugal, Espanha e Áustria-Hungria. Ele somente teve reconhecida a sua nacionalidade brasileira na década de 40 daquele século por meio de um decreto imperial. “Depois que obteve a cidadania brasileira, Varnhagen foi incorporado à diplomacia nacional, servindo em Portugal e na Espanha. Além disso, por desenvolver pesquisas históricas, foi convidado a integrar o IHGB, onde deu início a uma série de trabalhos. Uma das missões assumidas por ele foi realizar um levantamento nos arquivos europeus sobre o Brasil Colonial, de modo a produzir uma memória nacional. O objetivo final era compilar, sistematizar, organizar, arquivar e, por último, publicar as informações obtidas, principalmente nas páginas da Revista do IHGB”, informa Ribeiro.

Tais pesquisas, prossegue o autor da tese, forneceram subsídios para que Varnhagen escrevesse mais tarde a sua mais importante obra, História Geral do Brasil, publicada em dois tomos (1854 e 1857) e considerada uma espécie de livro-monumento. “Nessa obra, Varnhagen apresenta uma proposta de narrativa da história do Brasil, que tem como cenário principal a atuação dos portugueses na formação da Colônia. Na narrativa, ele registra que a transição do Brasil Colonial para o Brasil Imperial teria ocorrido de forma tranqüila, sem rupturas. Também valoriza o legado português, deixando em plano secundário as figuras do índio e do negro, num posicionamento com profundo viés etnocêntrico”, afirma o historiador.

A partir da publicação de História Geral do Brasil, Varnhagen lançou-se no esforço para fazer com que a obra fosse aceita como uma produção oficial do IHGB. Para isso, recorreu até mesmo a Dom Pedro II, a quem pediu apoio. A despeito do seu empenho, o livro foi recebido com profundo silêncio pelos seus pares, e o instituto acabou por não acolhê-lo. “Tal recusa o deixou extremamente indignado e lhe valeu vários ataques por parte dos autores românticos e indigenistas que também integravam o IHGB”, diz Ribeiro. Mesmo não desfrutando do reconhecimento almejado entre seus pares, Varnhagen, que recebeu o título de nobreza somente no final da vida, foi alçado, após sua morte, como um historiador símbolo do instituto.

Essa nova condição, infere o autor da tese, certamente deve ter contribuído para que o Brasil “inventado” pelo Visconde de Porto Seguro ganhasse crédito e longevidade. Nesse processo de construção da memória nacional, reforça o pesquisador, Varnhagen trabalhou com enredos temáticos encadeados cronologicamente. Assim, nos seus escritos, as origens do Brasil remontam à época do Descobrimento. É como se a história do Brasil não existisse antes da chegada dos portugueses. Na sequência, o autor de História Geral do Brasil considera a formação do povo, por meio da integração entre negros, índios e brancos. Neste caso, a herança portuguesa se sobrepunha às demais. “No livro, Varnhagen também trabalha com um mito fundador, este relacionado à invasão holandesa. Na visão dele, a união das três raças para expulsar os elementos estrangeiros teria sido o primeiro sinal de nacionalidade”, esclarece o pesquisador.

A abordagem cronológica desemboca, enfim, no que o autor da tese de doutorado classificou de “elos de continuidade”, que teriam sido forjados, no entender de Varnhagen, na transição sem conflitos entre o período Colonial e o Imperial. “Esses enredos temáticos constituíram um modelo de cronologia que se tornou constante nos manuais e livros didáticos de História do Brasil elaborados a partir da segunda metade do século 19 e ao longo do século 20. Se consultarmos as obras de autores do naipe de João Ribeiro, João Pandiá Calógeras, Pedro Calmon, Vicente Tapajós, Boris Furtado, entre outros, será possível identificar a presença da grade cronológica temática esboçada por Varnhagen, ainda que inserida em abordagens teóricas, metodológicas e ideológicas distintas”.

A mesma visão histórica, acrescenta Ribeiro, costuma passear pelas falas de importantes personagens da atualidade, bem como pelos enredos de obras televisivas e cinematográficas. Um exemplo do uso atual de elementos presentes na construção histórica de Varnhagen, ressalta o historiador, pode ser encontrado no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ocasião do anúncio da descoberta de uma gigantesca reserva de petróleo na camada pré-sal. Lula afirmou que os recursos que serão gerados pelo combustível fóssil significarão “a nova independência do Brasil”. “Quando assistimos a produções como Carlota Joaquina, no cinema, ou Caramuru, na televisão, também podemos identificar traços claros da ideia da Colônia como berço do Brasil independente”, analisa.

Retornando à frase do professor Amaral Lapa, que abre este texto e que também está consignada na tese de Ribeiro, convém situar a produção de Varnhagen no espaço e no tempo, como adverte o pesquisador. Ele pontua que, como qualquer historiador, o Visconde de Porto Seguro identificava-se com questões da sua época. “Isso implica trazer o historiador-diplomata para o interior dos debates travados naquele período acerca do fazer histórico, como objetivos, procedimentos e compromissos”, detalha. Desse modo, entende Ribeiro, Varnhagen não pode ser considerado um mero reflexo de um projeto político, mas sim um participante deste, na medida em que elaborou suas leituras e interpretações do passado pelas vivências e limites do seu tempo. “Em outros termos, a narrativa da nação de Varnhagen está permeada pelos termos de seu lugar social e das práticas de seu ofício. E foi neste espaço que ele interagiu e elaborou sua obra”. E completa: “Não se pode querer, portanto, definir pretensiosamente por meio de Varnhagen como o Brasil oitocentista pensava o passado e o papel do historiador. Sua obra não é uma janela aberta para toda uma época, mas ela ajuda a compreender um dos possíveis ângulos do seu tempo”.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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