Daily Archives: 14/10/2009

O Blog Controvérsia vai virar um site e distribuir conhecimento

Parceria vai distribuir livros e revistas científicas e culturais.

O blog Controvérsia é uma iniciativa vencedora: há pouco mais de 3 anos no ar (3 anos e dois meses, para ser mais exato) já ultrapassou a marca de 2,5 milhões de visitantes. São cerca de 3,5 mil visitas/dia, ou 100 mil/mês.

Para um blog que se destina apenas a leitura, consideramos que ele vem cumprindo seu papel na disseminação de textos interessantes e inteligentes. E as visitas acumuladas são um reconhecimento disto.

Mas chegou a hora de dar um passo maior.

Numa parceria entre o blog Controvérsia, a Livraria Pacobello e a SuperBanca(todos em Santo André-SP) vamos distribuir livros e revistas científicas e culturais. Com sorteios públicos (loteria federal) os dois primeiros colocados ganharão vales-livros e os três últimos revistas. Elas serão entregues aos vencedores em casa, sem custo.

O início da votação é o dia 20 de outubro (veja quadro abaixo).

Visite: www.controversia.com.br

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Não perca. Indique o site e o Blog aos seus conhecidos.

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Obrigado.

Ricardo Alvarez

Modelo simula formação de novas espécies

Estudo sobre especiação rende artigo de docente do IFGW e de outros quatro autores na Nature.

LUIZ SUGIMOTO

Físico com certa queda para biólogo, o professor Marcus Aloizio Martinez de Aguiar, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp, está entre os autores do artigo em destaque na edição de 16 de julho da revista Nature por alimentar a discussão em torno dos mecanismos que levam à formação de novas espécies – a especiação. “Acho fascinante o tema da dinâmica das populações e a teoria da evolução. A própria existência de espécies, onde indivíduos se agrupam e não se reproduzem com indivíduos de outro grupo, já é algo misterioso. Sempre me perguntei por que não existe um continuum genético”.

Marcus Aguiar assina o artigo juntamente com a aluna de doutorado Elizabeth Machado Baptestini e três colaboradores dos Estados Unidos: Yaneer Bar-Yam (New England Complex Systems Institute), Michel Baranger (Massachusetts Institute of Technology, MIT) e Les Kaufman (Boston University). Os autores apresentam um modelo que simula a formação de novas espécies a partir de uma população de indivíduos inicialmente idênticos e distribuídos no espaço, com a diferenciação se dando através de mutações e do acasalamento seletivo.

O docente da Unicamp explica que os biólogos ainda não se convenceram de que sejam possíveis outros mecanismos de especiação além do alopátrico, que é o mais aceito. “O processo de especiação alopátrica baseia-se no isolamento geográfico, em que uma população é dividida pelo surgimento de obstáculos como rios ou montanhas. Não havendo mais reprodução entre indivíduos dos dois grupos, interrompe-se o fluxo genético. Ambos vão sofrendo mutações ao longo do tempo, até a incompatibilidade genética tornar impossível a reprodução entre eles, criando-se duas espécies”.

Entretanto, Marcus Aguiar vê pouca sustentabilidade na tese de que a especiação alopátrica seja única, haja vista a estimativa de que existem entre 10 milhões e 100 milhões de espécies no planeta. “A história evolutiva mostra que as espécies são instáveis: algumas se ramificam, outras desaparecem, em movimento constante. Como vivemos numa escala de tempo muito pequena, achamos que está tudo no seu lugar. Penso que a especiação acontece a toda hora e de maneira fácil e espontânea”.

O pesquisador afirma que vem crescendo o número de evidências de especiação simpátrica, na qual novas espécies aparecem sem que haja isolamento geográfico, citando o exemplo das centenas de espécies de peixes ciclídeos encontrados no lago africano Vitória. “Estudos indicam que o lago foi colonizado por uma única espécie ancestral, que teria vivido há cerca de 1 milhão de anos. No lago não existem barreiras, mas como ele é grande, os peixes foram se espalhando e acasalando seletivamente. Considerando que o fluxo genético de um ponto a outro do lago pode demorar várias gerações, acreditamos que ali o isolamento por distância teria sido o mecanismo de especiação”.

Uma espécie de pássaros em Camarões, também na África, pode ser um caso de especiação simpátrica em curso. Esses pássaros colocam seus ovos nos ninhos de outras espécies que, por sua vez, tornam-se pais adotivos dos filhotes. Quando adultos, os filhotes já incorporaram características da outra espécie, como padrão de canto e outros hábitos. Embora esses novos pássaros ainda possam acasalar entre si, já surgiram diferentes raças e as fêmeas, para reproduzir, preferem machos com o mesmo padrão de canto que elas emitem.

O professor do IFGW está particularmente interessando em estudar pássaros da Amazônia, que possui enorme diversidade de espécies, ainda que numa floresta praticamente contínua, sem obstáculos importantes. “Há a teoria de que na última era glacial a região secou e foi reduzida a trechos isolados de floresta, com a consequente diferenciação de espécies. No entanto, o biólogo canadense Paul Colinvaux mostrou que a floresta, apesar das mudanças climáticas bruscas, permaneceu contínua e verde, o que contrariaria a tese de especiação alopátrica na Amazônia”.

Marcus Aguiar ressalta que a proposta deste grupo de pesquisadores é demonstrar a existência de outro mecanismo de formação de novas espécies, e não desacreditar a versão mais corrente. “A especiação alopátrica seguramente ocorreu em diversos momentos, mas não achamos possível que seja o único processo. Por outro lado, acreditamos que a especiação simpátrica não é tão rara como se pensa. Entender a diversidade do planeta é um problema ainda em aberto e que desperta muito interesse”.

A simulação
O modelo desenvolvido pelo grupo traz a novidade de se basear apenas na auto-organização da população em conjuntos que se formam principalmente por conta do acasalamento seletivo. Ao contrário de outros modelos atuais de especiação simpátrica, esta simulação não envolve suposições ecológicas como a segregação pela adaptação a determinados nichos ou a disponibilidade de alimentos.

Segundo Aguiar, o que se monitorou foi a evolução de uma população cujos membros são inicialmente distribuídos de maneira uniforme no espaço e possuem genomas idênticos. “Julgamos que os ingredientes fundamentais para o acasalamento são a distância espacial (S) e a distância genética (G). A hipótese é de que, para reproduzir, o indivíduo escolhe um parceiro mais próximo (a uma distância espacial inferior a S) e que reconheça como da mesma espécie (distância genética inferior a G)”.

Sem entrar em tantos detalhes do modelo, como os descritos na Nature, os resultados apontam que os valores de S e G podem fazer com que uma população homogênea se divida em grupos espacial e geneticamente isolados. “Simulando uma reprodução sexuada com crossover, escolhemos um ponto arbitrário no genoma dos pais para promover a troca de genes entre os dois indivíduos e construir o genoma do filho; em seguida permitimos a mutação dos genes e a dispersão do filho. O resultado é o aparecimento de conjuntos de indivíduos que vão se separando geneticamente da população principal. No entanto, existem situações em que não ocorre a especiação, particularmente quando os valores de S e G são muito grandes”.

Anel do Tibete
Uma ocorrência deste tipo de especiação tratada no modelo é o “anel de espécies” do Planalto Tibetano, formado por grupos de pássaros Phylloscopus trochiloides, em que as diferenças genéticas são progressivas ao longo da cadeia de indivíduos. Isto faz com que aqueles localizados nos extremos sejam diferentes a ponto de não poderem mais se acasalar com indivíduos da população original. A justificativa é que na última era glacial, quando a Sibéria se dividiu em pequenos focos de floresta, essas aves ficaram confinadas ao sul da área em que viviam anteriormente. Reconstituída a floresta, elas seguiram para o norte circundando o platô pelo oeste e pelo leste.

Marcus Aguiar abre no computador uma imagem colorida que retrata a ocupação do espaço e as mudanças graduais nos padrões de canto dos grupos de pássaros do Tibete, conforme foram dando a volta no platô. “Quando o canto é parecido, eles ainda se reconhecem como da mesma espécie e a reprodução é possível. À medida que se distanciam, os pássaros de um extremo já não reproduzem com os do meio – porque o canto ficou completamente diferente – mas o fazem com outros enquanto avançam. No futuro, o anel poderá ser composto por espécies totalmente distintas”.

O modelo ainda inclui um parâmetro Q, que é a probabilidade de que um indivíduo não reproduza. Nesse caso, um vizinho é escolhido para fazê-lo. Como nas populações naturais, os melhores adaptados deixam mais descendentes. Na simulação, a escolha de quem se reproduz ou não é aleatória, e o modelo pode ser definido como “neutro”, sem seleção natural.

O professor da Unicamp acrescenta que o número de espécies formadas e de indivíduos em cada espécie depende igualmente dos parâmetros S e G. As curvas estatísticas mostram que o número de espécies formadas e a abundância de seus indivíduos variam bastante. “Os resultados que produzimos foram bastante compatíveis com dados observados na natureza, explicitamente sobre um conjunto de pássaros da Inglaterra e de árvores no Panamá. A comparação pesou para que o nosso trabalho ganhasse esse destaque na Nature”.

Sobre a seleção natural

O modelo elaborado pelo professor Marcus Aguiar e seus colaboradores é tido como neutro porque não inclui os efeitos da seleção natural, mas isto não significa descrença no processo proposto por Darwin. “A seleção natural é fundamental e deve começar a agir logo que acontece a especiação. O comentário favorável ao nosso trabalho é de que se trata de uma contribuição importante para mostrar que o modelo neutro de especiação é compatível com dados de abundância encontrados na natureza”.

Aguiar afirma que um exemplo clássico de seleção natural é a evolução das baleias, mamíferos que vivem na água e precisam subir à superfície para respirar. Seus ancestrais em terra buscaram o ambiente marinho, certamente devido à abundância de alimentos neste habitat. “A baleia era uma espécie de porco que, ao longo da sua cadeia evolutiva, foi perdendo as patas e ganhando um bico maior, a ponto de seu nariz se deslocar para a parte superior da cabeça. É um processo de especiação que implica na transformação completa de uma espécie em outra, chamado de anagênese”.

O mecanismo abordado pelos autores do artigo na Nature está relacionado com a cladogênese (de clado, ramo), que é a divisão de uma espécie em outras. “Nós, humanos, originamos de um ancestral que deu origem também ao chimpanzé, gorila, orangotango. Em nossas simulações, observamos uma espécie se ramificando em duas ou mais. Dependendo dos parâmetros, é possível gerar vinte espécies de uma só vez”.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Trotsky foi assassinado

Leon Trotsky, revolucionário comunista, foi o segundo dirigente mais importante da Revolução Russa de 1917. Ao lado de Lênin iniciou a construção daquilo que deveria ter sido o primeiro Estado socialista no mundo.

Trotsky nasceu em Ianovka, Ucrânia, em 1879, seu verdadeiro nome era Lev Davidovitch Bronstein, de origem judaica e de família abastada. Aos 16 anos iniciou sua participação política como social democrata, contra a autocracia czarista e dois anos depois foi preso e exilado na Sibéria. Em 1902 fugiu do exílio e em Londres conheceu Lênin. Ao voltar para a Rússia, participou ativamente da Revolução de 1905, quando foi preso novamente por liderar o soviete de São Petersburgo mas fugiu em 1907. Durante dez anos foi escritor e editor revolucionário na Europa ocidental. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi expulso da França e da Espanha, seguindo então para Nova York, E.U.A., onde recebeu a notícia da queda do czar em 1917. Retornou à Rússia onde, em Outubro (novembro pelo calendário ocidental) de1917 os bolcheviques liderados por Lênin e Trotsky, derrubam o governo provisório e o proclamam o primeiro Estado Operário da História.
Trotsky foi responsável pela organização do exército vermelho, milícia formada principalmente por operários, que foi fundamental para a tomada do poder e por sua manutenção, na luta contra "os brancos"

"Poster relativo à Guerra Civil"

De 1918 a 1921 exerce o cargo de Comissário do Povo para a Guerra. Em 1923 aprofunda-se a cisão entre Stálin e Trotsky, provocada pela crescente burocratização de Stálin e por sérias divergências políticas relacionadas a questão da autodeterminação da Geórgia. Lênin morre em 21 de janeiro de 1924, no mesmo ano começa no Comitê Central do Partido Bolchevique o processo de calúnia e difamação de Trotsky promovido por Stálin e seus 2 principais aliados Kamenev e Zinoviev.
A maioria dos livros didáticos passa a idéia de que a disputa entre Trotsky e Stálin ocorre como uma briga pessoal pelo poder, sobre o partido e sobre o Estado. Os fundamentos políticos da disputa são simplificados, envolvendo o ideal de "Revolução Permanente" de Trotsky, e a defesa da política do "socialismo em um só país" de Stálin que normalmente não são explicados ou discutidos
Em 1925 Trotsky é proibido de falar em público, em 1929 é banido da União Soviética, por ordem de Stálin.

"Foi o principal organizador do Exército Vermelho"

Vai para o exílio na Turquia onde fica até 1933 depois França até 1935, Noruega até 1937.Chega ao México em 9 de janeiro de 1937. Escreve um dos seus mais importantes livros "Programa de Transição", que é o programa de fundação da IV Internacional em 1938. A mando de Stálin é assassinado por Ramón Mercader em 1940. Trotsky deixou, na história, a imagem de um incansável batalhador pela revolução

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

A criação da mãe moderna

Revistas femininas da década de 1920 foram usadas na difusão de um novo papel da maternidade.

Gonçalo Junior

Esqueça o instinto materno, as dicas de mães, tias e avós. Na década de 1920, ser mãe de classe média exigia principalmente estar atenta e bem-informada sobre as orientações de como cuidar do filho estampadas nas páginas das revistas femininas, a partir da defesa e difusão de um discurso maternalista.
Por meio de matérias e artigos e de pu blicidade dirigidos a mulheres, profissionais médicos reconheciam a presença de um instinto maternal inerente à natureza feminina, mas o consideravam insuficiente para a criação saudável dos filhos. Os chamados médicos higienistas se tornaram, assim, crescentemente presentes, ancorados nos pressupostos da higiene – e sua concepção de saúde como responsabilidade individual e alvo de processo educativo próprio. Esses profissionais eram informados pelos conhecimentos da eugenia e embebidos na atmosfera nacionalista que enxergava a viabilidade brasileira através de suas crianças. Apresentavam-se, portanto, como autoridades na promoção e na manutenção da saúde das crianças.
Para isso dedicaram-se, tanto em consultórios e hospitais quanto nas páginas de revistas e de livros, a uma campanha sistemática em prol do exercício de uma maternidade de base científica, orientada pelos princípios médicos da puericultura (especialidade da pediatria voltada para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento das crianças). “Ao se apoiarem na supremacia da ciência e da razão sobre a emoção – e nesse plano ganhando sua legitimidade –, os médicos ofereciam um amplo e diversificado estoque de ensinamentos técnicos para guiar a conduta das mulheres na criação de seus filhos, em substituição aos ‘antigos’ dogmas religiosos ou palpites de curiosas, vizinhas ou avós, considerados perniciosos e ‘arcaicos’. Usar e fazer ciência: este seria o novo papel social da mãe moderna”, explica a médica Maria Martha de Luna Freire, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), doutora em história das ciências e da saúde pela Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e professora do Instituto de Saúde da Comunidade da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Maria Martha é autora da tese Mulheres, mães e médicos: discurso maternalista em revistas femininas(Rio de Janeiro e São Paulo, década de 1920), que acaba de sair em livro com o título Mulheres, mães e médicos – Discurso maternalista no Brasil (264 páginas, R$ 35), pela Editora FGV. Em seu estudo, ela se debruçou sobre duas publicações importantes da década de 1920: Vida Doméstica (1920-1963) e Revista Feminina (1914-1936). Os artigos assinados por médicos, explica, habitualmente recebiam títulos que reforçavam essa identidade, como “Palestra médica”, “Conselho médico”, “Puericultura”, “Medicina doméstica” ou “Medicina do lar”, e versavam sobre todo o amplo universo infantil: da roupa ao sono, da dentição à alimentação. “Práticas corriqueiras como o banho ou as brincadeiras infantis adquiriam a dimensão de rituais higiênicos, ocupando muitas páginas das revistas com explicações pormenorizadas dos procedimentos”, diz. Nesse contexto, novos “objetos de saúde” eram apresentados e seu uso estimulado como prerrogativa da mãe moderna, como o termômetro doméstico e a balança.

O psiquismo da criança, desse modo, “passou a merecer cuidados especiais, por exemplo, com sugestões de estratégias para controlar o medo e a teimosia e o estímulo a leituras ‘sadias’”. Já os costumes associados à herança colonial, como o de embalar as crianças, eram fortemente condenados com base nos preceitos científicos. Segundo a pesquisadora, a alimentação infantil foi o campo mais explorado pelas matérias das revistas consultadas, principalmente no que se referia à defesa da amamentação – lado a lado com a prescrição de substitutos ao leite materno. “Ao transformar a alimentação em nutrição, e a cozinha em laboratório, essas matérias alçavam as mulheres ao status de ‘nutricionistas da família’, valorizando, de um lado, a função maternal, e, de outro, facilitando o acesso à profissionalização feminina no campo da nutrição.”

Mãe de quatro filhos, Maria Martha conta que vivenciou as dores e alegrias de gestar, parir e cuidar de crianças. Como médica, dedicou muitos anos de sua atividade profissional à puericultura. “Transitei, portanto, na dupla dimensão de agente e receptora das práticas de puericultura.” Nesse meio tempo, ela acumulou reflexões e questionamentos quanto às origens, aspectos ideológicos e limites da puericultura como campo de prática médica. A pesquisa para o doutorado a levou a concluir que a maternidade científica constituiu uma das dimensões do discurso maternalista, ao articular tanto os princípios científicos da puericultura − como principal ferramenta de ação médica − quanto os argumentos produzidos pelos movimentos feministas. “O discurso da maternidade científica, apesar de enunciado pelos médicos, não se reduziu, portanto, à autoridade destes, mas emergiu da confluência de seus interesses comuns com as mulheres − coprotagonistas da ação.”
No momento histórico em que a construção da nacionalidade adquiria papel central e a função maternal consolidava-se como preocupação de ordem pública, prossegue Maria Martha, a valorização da maternidade − ganhando novo significado como a valorização da própria nação brasileira − adquiriu maior força argumentativa e forneceu renovada justificativa tanto para o discurso médico quanto para o feminista. “Ao tornar as mulheres − na qualidade de mães − responsáveis pela formação dos futuros cidadãos brasileiros, tal concepção de maternidade lhe agregaria o status de função social, elevando também o prestígio dos médicos dedicados à higiene infantil. Assim, se esses profissionais enxergaram na valorização da maternidade um caminho para obterem reconhecimento e legitimação profissional, para as mulheres tal perspectiva representava uma maneira de extrapolar o espaço doméstico e melhorar sua posição social.”

Articulistas - A qualificação das revistas femininas como espaço social de construção da aliança negociada entre mulheres e médicos se mostrou acertada na opinião da pesquisadora. “Concluí que a partir da dimensão compartilhada de modernidade as revistas conformaram o ambiente de circulação cultural adequado para a difusão do ideário da maternidade científica.” O crescente quantitativo de matérias que versavam sobre a maneira científica de cuidar das crianças e a fidelidade das assinantes confirmavam o interesse das leitoras no assunto. “As manifestações na seção de correspondência da Revista Femininaenalteciam a qualidade do periódico, noticiavam eventos feministas ou acontecimentos sociais e solicitavam orientação sobre questões de ordem variada − de moda a receitas culinárias.” Já a coluna do Dr. Wittrock, em Vida Doméstica, recebia perguntas mais específicas sobre os cuidados com as crianças, o que a transformava em verdadeiro “consultório médico”.

Da mesma maneira, a progressiva substituição dos anúncios publicitários relativos ao campo dos insumos agrícolas e da zootecnia por reclames do campo da alimentação infantil − particularmente mais explícito em Vida Doméstica − representou outro sinal da penetração do discurso médico maternalista. “A análise do perfil dos articulistas forneceu outro indicativo da ade quação das revistas femininas. Entre os colaboradores de Vida Doméstica e Revista Feminina, encontrei representantes da elite intelectual e médica da época, como Aprygio Gonzaga, Osorio Lopes, Antonio Wittrock, J. P. Fontenelle e Octavio Gonzaga.” Muitos desses autores ocupavam cargos de direção ou funções prestigiadas em instituições públicas, como o doutor Fontenelle − inspetor sanitário do Departamento de Saúde Pública e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Higiene −, o que confirmava ainda a capilaridade do movimento sanitarista brasileiro, como estratégia essencial do projeto reformista.
Da mesma forma, Maria Martha localizou entre os articulistas várias escritoras renomadas, como Ana de Castro Osorio, Chrysanthème, Condessa de Pardo Bazan e Maria de Eça − militantes de movimentos feministas e colaboradoras de periódicos em vários países −, o que reforçou o pressuposto da associação entre os ideários higienista, maternalista e feminista. “A presença simultânea de assinaturas tão distintas demonstra que o discurso maternalista expresso nas revistas femininas não se originava exclusivamente da comunidade médica, mas espelhava a convergência de interesses por parte de médicos e mulheres na construção do novo papel feminino de mãe.

Os dois primeiros anos da pesquisa de Maria Martha foram dedicados à reflexão teórica. A análise das fontes durou cerca de um ano, seguida de mais um ano para a redação final da tese. “Inicialmente localizei todas as revistas femininas que circularam na década de 1920, e, após uma análise preliminar, selecionei Vida Doméstica e Revista Feminina como representativas desse gênero de periódico, o qual prevê um conjunto de atributos, no que se refere à forma e ao conteúdo, habitualmente associados ao universo feminino – basicamente a moda e a literatura.” Ela observa que o longo período de circulação – 43 anos, a primeira; e 22 anos, a segunda – atestava a sua boa recepção e autorizava que fossem tomadas por exemplares do gênero. Foram examinados todos os exemplares das revistas produzidos na década de 1920, num total de 243 números.
Urbano - Através dos artigos publicados nas revistas, foi possível para a médica-pesquisadora perceber que as mulheres das camadas alta e média dos principais centros urbanos participaram ativamente da construção e difusão da ideologia da maternidade científica. “Ao reafirmarem a vinculação da função maternal à sua natureza e a compatibilidade de tal atribuição com outros papéis femininos, muitas dessas mulheres, em particular aquelas vinculadas aos movimentos feministas, aproveitaram a concepção de maternidade – como dimensão exclusiva do gênero – para aumentar seu poder e facilitar a reivindicação de outros direitos.” Endossaram, portanto, a ideologia da maternidade científica, enxergando na aliança com os médicos − e adesão aos princípios científicos da puericultura − meios para transformar a maternidade no papel social feminino.
Para essas mulheres, conclui Maria Martha, o exercício da maternidade científica, ao representar acesso ao espaço socialmente reconhecido da ciência − até então de domínio quase exclusivamente masculino −, constituiu caminho potencial de inserção dessas no espaço público − via filantropia ou trabalho profissional.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Daí para frente serão muitos.

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Ricardo Alvarez

A outra margem do rio

Na calha norte do rio Amazonas, em terras paraenses, projeta-se uma floresta intocada que só agora os cientistas começam a decifrar.

Felipe Milanez
Foto:
Adriano Gambarini

A outra margem do rio

Ao amanhecer, nuvens de vapor sobem da mata úmida no norte do Pará. Na região montanhosa e isolada, a geografia ocupou-se de afastar a colonização, permitindo que a floresta se mantivesse soberana.

O latido parou. Com a decepção estampada no rosto, o biólogo Marinus Hoogmoed senta-se em uma pedra ao lado da corredeira, decide descascar laranjas e esperar o tempo passar. Guiado pela fraca luz de uma lanterna de cabeça, o biólogo permanece atento. A noite na Amazônia é submersa em sons misteriosos. Há grunhidos ritmados de insetos, como a percussão de grilos, e uma orquestra melódica de rãs, sapos e pererecas que coaxa insistentemente atrás de sexo. Os machos, excitados depois do longo período de seca, competem em serenatas para atrair parceiras logo após as primeiras chuvas de inverno.
O biólogo distingue cada ruído como se fosse um maestro. O latido poderia enganar um ouvinte leigo, mas não o experiente Hoogmoed: é de anfíbio e destoa de todo o resto, provocando sua imaginação. Ele está em dúvida sobre a classificação da rã que late – o que espera resolver assim que pegar o animal que ele persegue há quatro noites. Escondido no vão de uma pedra, o bicho decide se calar. Mesmo cansado, Hoogmoed prossegue. Desiste de retornar ao distante acampamento. Guarda a esperança de que a rã volte a se excitar e a latir, denunciando em alto e bom som sua localização exata.
Estamos sobre uma montanha de rochas vermelhas, cercada por uma vegetação áspera. O ar é fresco e úmido, a temperatura está agradável. Não chove, a lua é minguante e o céu está estrelado. Marinus Hoogmoed, pesquisador do Museu Paraense Emilio Goeldi e ex-curador do Museu de História Natural da Holanda, ouve essa escuridão com atenção. Depois do crepúsculo, à noite é o melhor momento para encontrar anfíbios. "Estes rochedos no meio da floresta, rodeados de savanas, possuem uma fauna particular", comenta ele entusiasmado. O bicho que late é preto com bolas vermelhas. Restam poucas dúvidas de que se trata de um Leptodactylus myersi, um tipo de rã-pimenta. O latido que escutamos agora é o primeiro registro científico da espécie no estado do Pará. Hoogmoed permanece em busca do espécime até altas horas – quando enfim consegue capturá-lo.
A nosso redor estende-se uma floresta gigante e intocada, a Amazônia do planalto das Guianas, na margem setentrional do rio Amazonas. Em uma linha imaginária, estamos próximos ao Suriname; a localidade mais perto é Brownsweg. Os rios que correm por ali não são navegáveis. Cachoeiras e montanhas cortam qualquer percurso. A população indígena é pequena e esparsa, tendo o povo zo’é ao centro geográfico. Há relatos de índios sem contato. Nunca brotaram seringueiras, o que deixou de atrair colonos para a coleta de borracha ao longo do século passado. Pela foz do rio Trombetas, escravos fugidos no século 19 formaram quilombos e hoje colhem castanhas na época das chuvas. Garimpeiros escavam a várzea dos rios Jari e Maicuru, em direção ao Amapá, enquanto alguns madeireiros furam as matas próximas ao rio Amazonas. Não há mais gente além dessa população que, em cálculo aproximado, indica menos de 5 mil pessoas em um território do tamanho do estado de São Paulo.
Essa região, conhecida como “calha norte” do Pará, em referência a sua localização ao norte do rio Amazonas, intacta devido à barreira natural de acidentes geográficos, começava nos últimos anos a sofrer grilagem e exploração predatória e preparava-se para receber grandes mineradoras. Hoje é, ao menos no papel, um território de preservação. Em dezembro de 2006, um decreto estadual criou cinco unidades de conservação, com suas fronteiras emendadas de forma contínua a terras federais e reservas indígenas, no que se constituiu o maior mosaico de floresta tropical preservada no mundo. As áreas protegidas totalizam quase 22 milhões de hectares.
Para que essas unidades sejam implantadas, é preciso a realização de pesquisas que descrevam, mesmo que na forma de amostragem, a ecologia da calha norte. Os estudos devem servir de fundamento aos planos de manejo. As sete expedições planejadas são a primeira chance de biólogos estudarem, no Pará, a região de endemismo conhecida como Guiana – uma das oito áreas da Amazônia que, divididas por grandes rios, desenvolveram fauna e flora únicas. A logística foi financiada pela mineradora Rio Tinto como compensação pela prospecção e pelo estudo da existência de bauxita por lá. Coube ao Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) a análise socioeconômica e cartográfica, enquanto a da biodiversidade ficou a cargo do Emilio Goeldi, ambas instituições de Belém.
Ora em ziguezague, ora enfrentando a cortina úmida, o helicóptero faz seu percurso por blocos de chuva que caem de forma esparsa. A floresta vai até onde os olhos alcançam. A mata é densa e lembra um gigantesco campo de brócolis. Ela ergue-se sobre o relevo, debruça-se em rochas expostas em desfiladeiros e esparrama-se no meio de vales. Em terras de solo mais pobre surgem as manchas claras dos campos de savanas. Os rios são finos, marrons, caudalosos e encachoeirados. Espumas brancas das corredeiras marcam os cursos, e as margens são tomadas por uma vegetação ainda mais consistente.

Alexandre Aleixo, biólogo especialista em aves, está a meu lado. É o chefe das expedições científicas. Ao contrário de mim, deslumbrado, ele observa com um olhar blasé o tapete verde – essa é sua sétima expedição. Agora, Aleixo quer descansar. Em campo, ele caminha ao menos 10 quilômetros por dia em trilhas abertas por mateiros e coordena as outras equipes de biólogos, cerca de 30 pessoas.
"Esta é a única parte da Amazônia aonde o Estado veio antes do problema", explica Adalberto Veríssimo, pesquisador sênior do Imazon. O "problema", no caso, é o avanço da fronteira de ocupação predatória que recentemente começou a se estabelecer na calha norte do rio Amazonas. A demora no desembarque de colonos deu-se graças ao terreno intransponível. Isso ocasionou a desistência de projetos públicos anteriores de colonização, especialmente os megalomaníacos do período militar. A ideia de fazer a estrada perimetral Norte, que ligaria o Amapá a Roraima e atravessaria de ponta a ponta essa região, ou uma possível ampliação da BR-163 de forma a abrir uma via de acesso a esse lado do rio Amazonas, teria sido fatal para a floresta. Mas os projetos ao menos não saíram do papel. "Em nossas pesquisas, constatamos a existência de uma estrutura de grilagem no mesmo modelo do conflituoso sul do Pará", aponta Veríssimo. "Mas era incipiente; e, com a criação das unidades de conservação, os títulos de terra falsos foram declarados nulos. Isso cessou um processo inicial de desmatamento."
Definir a titulação das terras como unidades de preservação foi uma negociação política hábil. O objetivo dos ambientalistas era preservar a maior área possível de florestas. No papel, por enquanto, conseguiram. A mineradora Rio Tinto pressiona, ainda hoje, por uma fatia da Estação Ecológica do Grão-Pará para prospectar bauxita. De acordo com o gerente de exploração da empresa, Marcos Diógenes, o fato de ser uma "estação ecológica", de preservação total, inviabiliza o uso do que pode ser uma das maiores jazidas de bauxita do Brasil.
A logística é um empecilho para a fronteira econômica, e é possível que continue assim. Às florestas estaduais, em que são permitidos a mineração e o uso sustentável, o acesso é difícil. Levar a produção até o Amazonas, o eixo de transporte, implica atravessar um relevo acidentado. E o preço da madeira e do minério no mercado internacional pode não justificar o investimento. Já nas áreas próximas do Amazonas, em que a taxa de desmatamento é crescente, o problema será controlar a indústria madeireira.
São 5 da madrugada. Faz frio. Está escuro e a floresta, em raro silêncio, ainda dorme. Aleixo tem fome. Ele devora seu café da manhã com disposição. A marmita do almoço, preparada por um sonolento mestre-cuca, virá com linguiça frita e arroz. O biólogo carrega 2 litros de água filtrada – "sinto muita sede", diz. Seu equipamento, que inclui espingarda, microfone e amplificador, tocador de MP3, cartuchos, capa de chuva e mais uma série de coisas, está separado desde a noite anterior. Aleixo é metódico.
Ao longo de 5 quilômetros, vamos subir morros íngremes, atravessar terrenos secos de savana e pedras e seguir por uma mata densa até culminar em um banhado. A floresta começa a despertar ao som agudo de insetos até que o canto melódico dos pássaros anuncia a claridade. O dia está nublado, e as folhas, molhadas do sereno. Em um universo invisível a nossos olhos, o ornitólogo aprende a "ver" com os ouvidos e a distinguir a comunicação de cada animal cantor, seja inseto, seja anfíbio, seja ave.
A menos de mil metros do acampamento, um som fino se desvia através da vegetação densa. Aleixo identifica no aparelho iPod o nome científico da espécie para reproduzir no alto-falante. É um Hemitriccus inonartos, um passarinho que se mostra indignado com a pirataria do som de algum outro espécime. "A natureza é sexo e guerra", reflete Aleixo. "Não é à toa que eles são descendentes de dinossauro", brinca. A ave não suporta dividir seu território com outros machos, e vem rapidamente em nossa direção disposta a um enfrentamento. Canta a plenos pulmões e se mostra agressiva. Aleixo anota a hora e o local em sua caderneta. Seguimos adiante.
Sob o sol suave da tarde, em um campo de árvores baixas, Aleixo ouve um canto especial. O som agudo lhe confere um momento singular de alegria. Não por sua beleza – não é propriamente a estética o que atrai a atenção de biólogos -, mas pela raridade. Em voz baixa, para não assustar o passarinho, ele comenta: "É uma espécie que só era conhecida no alto rio Negro. O Neopelma palessi. Era uma das aves mais raras da Amazônia, com uma das menores distribuições conhecida, candidata a ser ameaçada de extinção", diz. "Agora tudo mudou."

Compreender a composição dessa floresta primária é um desafio instigante para os biólogos. A vegetação varia conforme a quantidade de luz e a composição do solo – e, em cada uma dessas variantes, há uma fauna particular. Entre duas serras, nesse percurso, penetro em uma mata colossal, irrigada pela água que escorre dos morros em um solo fofo. A copa das árvores é tão alta que mal consigo enxergar o topo. O dossel é dominado pelo angelim, espécie gigantesca, ouro verde para a indústria madeireira. A poucos passos dali, ao subir um rochedo de solos pobres, a vegetação torna-se uma savana seco e áspero como no centro-oeste brasileiro. O chão rochoso é ácido e rico em bauxita.
A análise botânica indica que há muito mais áreas de campos e savanas antigos espalhados pela Amazônia do que se pensava, o que comprova a chamada "teoria de refúgios florestais" de que a floresta aumentou depois de um período prolongado de secas. Enquanto algumas partes de mata densa contêm cerca de 150 espécies de árvore, com copa como a do angelim, que ultrapassa os 60 metros de altura, em outras, mais áridas, há longos trechos em que foram encontradas menos de 40 espécies distintas em 1 hectare – e que, em média, sua copa não passa de 20 metros de altura. Há ainda, além desses vastos campos, um tipo de floresta que se assemelha a uma campina, um pouco mais úmido que a savana. As pesquisas ainda são embrionárias, e os cientistas a classificaram como uma "campinarana", do mesmo modo que as matas em solo arenoso localizadas no distante alto rio Negro. Nesse tipo de ambiente, ao olhar o horizonte, distinguem-se árvores finas de uma mesma espécie lado a lado, onde uma luz suave filtrada pelas folhas faz lembrar um bosque europeu.
Nem tudo são flores, luzes e cantos na região. Garimpos pipocam no leste do mosaico, com maior concentração na Reserva Biológica Maicuru e na Floresta Estadual do Paru. Estima-se em mil pessoas a população garimpeira local. São homens com idade média de 42 anos, solteiros (48%), com um a três filhos – deixados em casa, para onde vão uma vez por ano. Dados do Imazon mostram que 40% dessa gente é natural do Maranhão e 31% do Pará. São migrantes pobres. Após o decreto que protege as áreas entrar em vigor, eles terão de abandonar a extração de ouro. A atividade passa a ser ilegal, assim como a exploração madeireira. E não há muitas opções a quem vive na margem norte do rio Amazonas.
É o caso de Louro, de 29 anos, natural de Monte Alegre, importante cidade da região, mateiro e ajudante de campo da equipe de botânica. Filho de um pequeno agricultor, até o início das expedições estava desempregado. "Para ganhar algum, às vezes vendemos madeira de nossa terra. Mas o Ibama fechou as serrarias", lamenta.
Historicamente, o isolamento propiciou refúgios e esconderijos. Negros escravos que trabalhavam com cacau em cidades antigas, como Santarém e Óbidos, subiam o rio Trombetas para formar quilombos no século 19. Hoje há mais de 30 comunidades, por exemplo, no entorno da cidade de Oriximiná. Algumas, como Ariramba, estão em conflito com a Floresta Estadual de Faro. "Essas novas unidades de conservação envolvem parte do território tradicional, e eles não concordam", explica a antropóloga Lúcia Andrade. O que perturba os quilombolas é que as florestas estaduais podem ter exploração econômica, e eles vão ter de discutir com todos os que vivem e exploram a mata – no caso, aguarda-se a chegada de madeireiras e mineradoras. Para usarem sua terra, os quilombolas agora terão de negociar com pessoas de fora da comunidade.
Cai uma chuva leve. Sigo a equipe de Hoogmoed em mais uma coleta. A chuva é bem-vinda aos herpetólogos, assim como aos ictiólogos – os calmos pescadores que coletam peixes silenciosos durante o dia em rios e pequenos igarapés.
Descemos das rochas e marchamos dentro de um igarapé. Ali não há latidos, mas outros coaxos mais melódicos. Nosso objetivo é seguir o som de microchips amarelos e pretos do tamanho de um dedão. São sapos Atelopus hoogmoedi. O animal, bem conhecido da equipe, foi batizado em homenagem ao biólogo que caminha comigo na água. "Nunca tinha visto tantos juntos", diz Hoogmoed. "Há muito canto de machos. Deve ser um período de reprodução."

O espanto de Hoogmoed é compartilhado com todos os cientistas ali. "Tenho certeza de que nunca um biólogo esteve aqui por onde estamos caminhando; tudo é praticamente desconhecido", comenta. Foi assim que comemorou a coleta de uma rã de cor azul, aDendrobates tinctorius, que ele conhecia em suas pesquisas no sul da Guiana e no Suriname. Mas a distribuição era imprecisa no Brasil. "A pele dela contém um veneno que dá uma sensação desagradável quando entra na boca e nos olhos, mas não chega a ter efeito mortal nos homens", alerta. Na mesma noite em que perseguiam a rã que latia, a Leptodactylus myersi, a equipe de Hoogmoed encontrou uma cobra vermelha endêmica dali, a Pseudoboa coronata. Pequena, é um belo animal com toda aparência de ser peçonhenta. "Ela faz parte de um grupo de espécies de cobra da Amazônia que usa o mesmo padrão de cor, um vermelho forte, para assustar predadores", explica. "É só um disfarce, ela não é venenosa."
Pisar num terreno que é um "vazio" para a ciência – sim, ainda existem áreas desconhecidas – fascina exploradores. Enquanto os biólogos espalham armadilhas, eu passo a revirar folhas nas margens de um igarapé. "Quem sabe descubro o menor sapo do mundo?", pergunto a Hoogmoed. "Nada impede", diz. Nessa busca, distingo um inseto no chão. Parece uma formiga, mas é um microssapo. Coleto e mostro ao biólogo, na esperança de um feito relevante. "Ele é muito pequeno", diz ao examinar minha pretensa descoberta. "Mas é só um filhote de Bufo margaritifer. Vai crescer até uns 10 centímetros", conclui ele.
Apesar de as novidades saltitarem cantantes pela floresta, foi uma estranha e discreta cobra-de-duas-cabeças o que mais surpreendeu Hoogmoed. "Encontramos uma nova espécie", diz. O animal da família Amphisbaenidae, répteis parentes de lagarto, tem uma "cabeça" coniforme e um "rabo" que seria, diz ele, "bem diferenciado de outras espécies daquela família". Após o espécime ser coletado, um minucioso processo de pesquisa é feito nos laboratórios por taxonomistas. Só então a espécie é considerada "nova".
Muito além de relatórios para planos de manejo, o que move o ímpeto desses biólogos é a chance de descrever a fauna e a flora de um vazio científico – trabalho que ainda vai levar tempo nos laboratórios. Cada equipe de especialistas, seja de mamíferos, seja de aves ou répteis, deve descrever cerca de cinco espécies novas. Mas o principal, eles comemoram, são as informações inéditas que obtiveram da área. "Agora temos conhecimento mais completo da distribuição das espécies no norte amazônico", explica o ornitólogo Aleixo. "O material coletado vai alimentar uma discussão de novas espécies e revisão taxonômica de grupos durante décadas."
Igualmente surpreendente é a sensação de aterrissar na Terra Indígena Zo’é. Ela fica no centro geográfico do mosaico das unidades de conservação – e, por ser terra federal, ficou de fora das recentes pesquisas ecológicas. É um universo singular em que transparece a harmonia do ser humano com a floresta pouco conhecida pela ciência. Os índios zo’és foram contatados por uma missão religiosa americana, em 1987, que tinha o objetivo de evangelizá-los. Nos primeiros anos, 30% da tribo foi aniquilada por epidemias de gripe. A missão foi expulsa, e o povo recuperou-se demograficamente – hoje somam 246 pessoas. A terra indígena, originalmente com mais de 2 milhões de hectares, foi reduzida a cerca de 600 mil por um laudo da própria Funai, e ainda não foi homologada. Parte do território suprimido está localizada dentro do que se tornou a Estação Ecológica do Grão-Pará, rica em bauxita e reivindicada pela mineradora Rio Tinto. A exploração do minério poderia trazer impactos à vida dos zo’és ainda mais fortes que a frustrada experiência missionária. A bauxita espalha-se pela superfície e exige a supressão da cobertura vegetal para sua extração, assim como é necessária a construção de complexa malha logística. João Lobato, funcionário local da Funai, está preocupado: "Hoje, a única garantia à sobrevivência dos zo’és é preservar a floresta".
Em uma das aldeias, a índia M’Bossoi, mãe adotiva de um jovem casal de gêmeos cuja mãe biológica morreu no parto, canta para mim músicas que me lembram um fado. Está em sua rede com os olhos mareados fitando o horizonte. As crianças, ao lado, escutam atentas. O ambiente é calmo. Eu não entendo o que ela diz. A expressão é melancólica – mas não deve cantar algo triste. Na poética voz de M’Bossoi, penso no destino desse paraíso. As ameaças podem estar distantes como a margem de um rio.
O avião decola, e o gigante campo de brócolis floresce novamente abaixo. Mas bastam 25 minutos para aparecer as primeiras clareiras na planície. A partir dali vejo quadrados pretos de queimadas cada vez maiores, agora cortados pela cicatriz de uma estrada. Quando avisto o rio Amazonas, já há núcleos urbanos e pequenas cidades. Dessa margem até a outra beira, em Santarém, o avião precisa dos mesmos 25 minutos que levou da aldeia zo’é até eu avistar os focos de devastação. A fronteira de mundos tão diferentes é como a calha de um rio. Como se a harmonia dos zo’és e desse ecossistema ainda incógnito para a ciência estivesse em uma margem. E na outra, justamente em frente, a fronteira colonizadora que avança sobre a água.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

O adeus a Mercedes Sosa

Sem perder sua ligação com o folclore, música predominante do interior argentino, Mercedes Sosa circulou por diversos gêneros musicais, enfrentou a censura de ditadores e dividiu o palco em todo mundo com músicos de diferentes estilos e gerações. Centenas de fãs e personalidades fizeram fila do lado de fora do Congresso da Nação de Buenos Aires, onde a cantora foi velada até o meio-dia de segunda-feira. Homens e mulheres de todas as idades e com flores nas mãos esperavam pacientemente para dar seu último adeus à artista.

Vermelho.org

A cantora argentina Mercedes Sosa morreu domingo (4), aos 74 anos. Hospitalizada desde 18 de setembro em Buenos Aires, seu estado de saúde se agravou na última semana devido a problemas renais e hepáticos. Sem perder sua ligação com o folclore, música predominante do interior argentino, Mercedes circulou por diversos gêneros musicais, enfrentou a censura de ditadores e dividiu o palco em todo mundo com músicos de diferentes estilos e gerações.
Centenas de fãs e personalidades fizeram fila do lado de fora do Congresso da Nação de Buenos Aires, onde a cantora foi velada até o meio-dia de segunda-feira. Homens e mulheres de todas as idades e com flores nas mãos esperavam pacientemente para dar seu último adeus à artista, cujo corpo ficará exposto no Salão dos Passos Perdidos.
"A secretária de Cultura da Nação se despede com profundo pesar de Mercedes Sosa, La Negra, uma das mais trascendentais representantes da cultura argentina no mundo", afirmou Jorge Coscia, secretário de Cultura, assegurando que "sua voz é única e será para sempre inesquecível".
"Dona de um repertório comprometido com a identidade latino-americana e mulher de sensibilidade social, La Negra foi uma das maiores figuras do canto popular universal", afirmou ainda.
"A Argentina chora uma de suas filhas mais talentosas", assinalou, por sua parte, o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.
"Foi uma mulher que transcedeu as fronteiras da música e projetou o folclore não apenas como um emblema artístico e cultural a nível mundial, como também o canto de liberdade e de justiça", acescentou.
"Foi a voz dos que não tinham voz na época da ditadura e levou a angústia pelos direitos humanos na Argentina a todo o mundo", declarou o músico Víctor Heredia, cantor e compositor de algumas músicas que ficaram famosas na voz de Mercedes Sosa como "Razón de Vivir".
Governo brasileiro lamenta
O governo brasileiro lamentou a morte da cantora argentina e agradeceu por sua contribuição à música e à vida.
"Gracias, Mercedes, que nos ha dado tanto!", disse o ministro de Cultura, Juca Ferreira, em espanhol, em uma nota oficial.
Ferreira destacou a voz incomparável e o comprometimento de Sosa com a arte ibero-americana e ressaltou que sua voz potente rompeu fronteiras e transmitiu ensinamentos além de territórios e bandeiras.
"Com Mercedes Sosa aprendemos o quanto temos para compartilhar com povos e nações. Ela nos deu o sentido de lugar, de pertinência a uma latinidade que nos consagra em beleza e tragédias comuns", concluiu o ministro.
Luto oficial
A presidente argentina, Cristina Fernández, vai declarar luto oficial pela morte da cantora Mercedes Sosa.
A chefe de Estado decidiu antecipar o retorno de uma viagem à Patagônia para assinar, assim que chegue a Buenos Aires, o decreto de luto oficial pela morte da artista.
O futebol argentino fez neste domingo uma homenagem à cantora popular Mercedes Sosa, com um minuto de silêncio antes de cada partida da sétima rodada do Torneio Apertura 2009 da primeira divisão.

O lado do barão

Blasco Miranda

A televisão tem mostrado repetidas vezes um breve vídeo feito desde um helicóptero da Polícia Militar de São Paulo onde aparece um trator atropelando alguns pés de laranjeira, no interior paulista. A ação é atribuída a militantes do MST, que invadiram a propriedade de cinco hectares de laranjais e estavam limpando uma área para fazer roças de milho e feijão, para subsistência do acampamento de sem-terras, próximo dali, na região de Bauru, a cerca de 320 km de São Paulo.
A área de laranjais de cinco hectares está localizada numa imensa gleba de 10 mil hectares e pertence à União federal. Foi grilada (invadida) pela empresa Sucocítrico Cutrale Ltda., de propriedade da família Cutrale, oriundos da Sicília, sul da Itália, há muitos anos. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) já teria se manifestado em relação ao conhecimento de que as terras são realmente da União, mas nenhuma providência legal foi tomada pelo órgão federal.
Segundo a Folha, edição de hoje, "a Cutrale, defendida com veemência por deputados e senadores depois de ter visto um de seus laranjais destruído pelo MST, injetou R$ 2 milhões em campanhas de congressistas nas eleições de 2006".
A revista Veja, em maio de 2003, publicou matéria com chamada de capa sobre a empresa Cutrale. Para a insuspeita revista da família Civita, "o brasileiro José Luís Cutrale e sua família detêm 30% do nercado global de suco de laranja, quase a mesma participação da Opep no negócio de petróleo".
Assim, a Cutrale não é cachorro pequeno, como pode parecer a quem não conhece a sua história, suas conquistas e seus feitos. É Preciso, pois, contar um pouco desses fatos, para que o senso comum não pré-julgue a partir das imagens do vídeo da PM paulista (ou da própria Cutrale).
A partir deste parágrafo, as informações que passaremos foram extraídas da Veja, edição 1802 (14 de maio de 2003). Ninguém desconhece a marca direitista e conservadora do semanário da Abril, portanto, insuspeitos de estarem distorcendo informações sobre um player agressivo do nosso capitalismo tupinambá, como veremos.
A produção mundial de laranjas e derivados se reduz a duas regiões pontuais do globo terrestre, interior de São Paulo, no Brasil, e interior da Flórida, nos Estados Unidos. Cerca de 70% do suco consumido no mundo é plantado e industrializado por brasileiros (números conservadores de 2003).
A Cutrale vende suco concentrado para mais de vinte países, entre os quais os Estados Unidos, todos os da Europa e a China. Seus clientes são grandes companhias do padrão da Parmalat, da Nestlé e da Coca-Cola, dona de uma das marcas de suco de laranja mais populares nos Estados Unidos. O principal segredo do negócio consiste em adquirir fruta a um preço baixo – preço de banana, brincam os fornecedores –, esmagá-la pelo menor custo possível e vender o suco a um valor elevado – informa a Veja.
Em 2001, ainda no governo FHC, a Receita Federal se interessou pela questão enigmática da altíssima lucratividade da Cutrale (nos anos 80, a empresa teve taxas de retorno na ordem de 70%, um fenômeno raro) e teve dificuldade em analisar as contas do grupo. Fiscais de Brasília e São Paulo procuraram entender como a Cutrale ganha tanto dinheiro. Não localizaram nenhuma irregularidade. Uma autoridade da Receita relatou a Veja que a estratégia para elevar a lucratividade do grupo passa por contabilizar uma parte dos resultados por intermédio de uma empresa sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Com isso, informa a autoridade da Receita, a Cutrale conseguiria pagar menos imposto no Brasil. Trata-se de um mecanismo legal. Foi o que a Receita descobriu ao escarafunchar as contas da organização da família Cutrale.
A agressividade gerencial da família Cutrale é uma lenda no interior paulista. Os plantadores de laranja no Brasil têm poucas opções para escoar a produção. Há apenas cinco grandes compradores da fruta e Cutrale é o maior deles. Por essa razão, acabam mantendo com o rei da laranja uma relação que mistura temor e dependência. Por um lado, precisam que ele compre a produção. Por outro, assustam-se com alguns métodos adotados por Cutrale para convencê-los a negociar as laranjas por um preço mais baixo. Produtores ouvidos por Veja afirmam que a família Cutrale costuma fazer enorme pressão para conseguir preços melhores na fruta ou mesmo adquirir fazendas. "Empregados deles nos visitavam e queriam que a gente vendesse nossa propriedade. Do contrário diziam que seríamos prejudicados na safra seguinte", afirmou um produtor que passou pela experiência de negociar com os Cutrale. Outro fazendeiro relata história semelhante, pois também foi procurado para vender sua fazenda de laranja. "Antes de eu ser abordado, minha fazenda foi sobrevoada algumas vezes por um helicóptero da companhia", diz.
Outra reclamação comum feita a Veja por produtores diz respeito aos termos de alguns contratos de compra de laranja. No ano 2000, 200 produtores acionaram em bloco a Cutrale. Acusavam-na na Justiça de descumprir um contrato pelo qual a empresa se comprometia a receber 5 milhões de caixas de laranjas. Segundo os produtores, nos dias em que eles tentaram fazer a entrega, os portões estavam fechados e a laranja começou a estragar. Os produtores quiseram ser ressarcidos pelo prejuízo, mas a Cutrale alegava que não lhes devia nada, já que não havia recebido a fruta. Os produtores receberam uma liminar para entregar o produto. Só depois disso a Cutrale aceitou a encomenda. "É difícil conseguir bons preços tratando com alguém que pode dizer não até sua laranja apodrecer", conta um produtor que por razões óbvias prefere não se identificar.
Essa linha dura já rendeu à Cutrale discussões legais por formação de cartel. De 1994 para cá [2003], Cutrale já foi alvo de cinco processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, a autarquia encarregada de preservar a concorrência. Ele não estava sozinho no caso. Foi investigado juntamente com outras grandes indústrias do setor. Jamais sofreu uma punição. Num desses processos, duas associações de produtores de laranja denunciaram ao Cade que Cutrale e outras indústrias estavam se reunindo para combinar preços, o que prejudicava os plantadores. O desfecho do caso foi amigável. As empresas assinaram um "termo de compromisso de cessação das irregularidades" com os fazendeiros, comprometendo- se a não se reunir para organizar preços. O Cade decidiu que as empresas de suco de laranja não poderiam se organizar dessa forma.
Em vários aspectos, a indústria de suco de laranja lembra as empreiteiras. Além de ser um mercado concentrado nas mãos de poucos gigantes, os dois setores mantêm uma longa história de dependência em relação aos governos.

http://blascomiranda.blogspot.com/

Os irmãos de Jesus: Um mistério bíblico ainda sem solução

Maria deu à luz uma única vez ou teve vários filhos depois de Jesus? Segundo Santo Agostinho, Jesus foi o único filho de Maria, que, por milagre do Espírito Santo, permaneceu virgem como antes e por toda a vida.

Sheila Lobato

Em várias passagens dos evangelhos há menções diretas ou indiretas a irmãos e irmãs de Jesus, todos filhos de Maria. Ao contar como Jesus nasceu, Lucas diz, no evangelho que leva seu nome, que Maria deu à luz seu filho primogênito. Se Jesus fosse o único filho de Maria, não haveria por que referir-se a ele como o primogênito, isto é, o primeiro entre outros.

"Também no Evangelho de Mateus a palavra primogênito aparece nas antigas versões em latim, mas os tradutores cortaram essa palavra", diz o historiador florentino David Donnini, autor do livro Jesus e os manuscritos do Mar Morto. "Estava escrito em Mateus – diz ele: ‘Peperit filium suum primogenitum’. A última palavra foi suprimida. E na versão em grego se lê, com mais detalhe: ‘E não a conheceu até que deu à luz seu filho primogênito, a quem deu o nome de Jesus’." A frase refere-se a José, o pouco lembrado pai de Jesus, com quem Maria não teria tido relações sexuais "até que deu à luz seu filho primogênito". E a família foi numerosa, segundo o especialista em cristianismo antigo Mauro Pesce, da Universidade de Bolonha: quatro irmãos e um número não sabido de irmãs.

Segundo o historiador David Donnini, a palavra primogênito figura nas primeiras versões em latim do Evangelho de Mateus, mas depois os tradutores a cortaram

Ícone de São Tiago Menor/Stephanos Tzangarolas (16

"Sobre a existência dos irmãos e irmãs de Jesus não faltam menções no Novo Testamento. O mais importante deles chamava-se Giacomo (Tiago), que foi o chefe da Igreja de Jerusalém após a morte de Jesus", diz o historiador. De acordo com ele e outros estudiosos, Tiago era o líder de uma facção antiromana do cristianismo antigo, até ser assassinado.

O Evangelho de Marcos diz explicitamente: "Chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo. Muita gente estava sentada ao redor dele, e lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora, à tua procura" (Marcos, capítulo 3, versículos 31-32). A mesma passagem é descrita por Lucas (Lc 8, 19-20). E Marcos, em outra passagem (Mc 6, 3), cita os nomes dos quatro irmãos de Jesus e ainda pergunta pelas irmãs: "Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset (variação de José), Judas e Simão? E as suas irmãs, não estão aqui entre nós?"

A mesma passagem está em Mateus, com ligeiras diferenças de palavras: "Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs, não estão todas conosco?" (Mt 13, 55).

Em João também há referência aos irmãos de Jesus: "Aproximava-se a Festa dos Judeus, chamada dos Tabernáculos, e seus irmãos lhe disseram: Parte daqui e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que tu fazes" (Jo 7, 2-3). O trecho é importante porque faz uma clara distinção entre irmãos e discípulos. Irmãos poderiam significar não irmãos de sangue, mas de fé, e o texto descarta essa hipótese.

De todos os textos canônicos do catolicismo, as cartas de Paulo, o grande propagador do cristianismo entre os nãohebreus, são consideradas os documentos mais próximos da realidade histórica. Todas foram escritas por ele mesmo, após a morte de Jesus e muitos anos antes das transcrições dos evangelhos. Numa das cartas, ele diz: "Só três anos depois fui a Jerusalém para conhecer Pedro e não vi nenhum dos outros apóstolos, com exceção de Tiago, o irmão do Senhor" (Gal 1, 18-19).

"Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset (variação do nome José), Judas e Simão? E suas irmãs, não estão aqui entre nós?"

Os evangelistas nunca escreveram seus evangelhos. Todos foram transmitidos por via oral e transcritos dezenas de anos depois por diferentes escribas da Igreja, que lhes deram os nomes que têm como homenagem aos apóstolos, já falecidos. As cartas de Paulo, ao contrário, não passaram por transcrições ou traduções de terceiros e foram preservadas tal qual o apóstolo as escreveu. Nelas, em nenhum momento Paulo fala em virgindade de Maria ou que Jesus fosse seu único filho. Na verdade, de Maria não cita nem mesmo o nome. Sobre o nascimento de Jesus, a única coisa que diz é que "nasceu de uma mulher, segundo a Lei", referindo-se à lei dos hebreus.

O culto a Maria é posterior. Ela só foi declarada virgem no século 4 d.C., quando o patriarca Cirilo fez valer sua tese de que Maria era mãe de Deus, o Deus Jesus, e não do homem Jesus – tornando, assim, possível (ao menos no plano teológico) sua virgindade carnal. No entanto, a idéia de que Jesus era Deus é estranha aos evangelhos, pois o próprio Jesus refere-se inúmeras vezes ao "Pai que está no céu", inclusive quando, na cruz, pronuncia a célebre frase: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mt 27, 46; Mc 15, 34) – cujo real significado permanece um grande mistério.

As incongruências provam como era importante para a Igreja demonstrar a virgindade de Maria, 400 anos depois do nascimento de Jesus. E o porquê disso é também um mistério. A questão não existia na época em que Maria era viva. Aparentemente, havia coisas mais importantes a tratar. Havia perseguições, a Palestina vivia convulsionada. Quando Jesus morre, quem será seu sucessor? Jesus havia feito uma multidão de seguidores e eles precisavam de um chefe. Seria Pedro? João? Ou Maria Madalena? E Maria, a mãe, seria ouvida sobre essa questão? E José, o pai?

A sucessão de Jesus seria um problema sério se ele fosse o único filho de Maria. Felizmente, para o cristianismo, não era. O escolhido foi Tiago – o que pode parecer estranho, porque Jesus diz no Evangelho de Mateus (Mt 16, 18) que seu eleito para construir sua Igreja era Pedro. Mas Tiago foi escolhido porque era irmão de Jesus, "seguindo uma regra semelhante à do califado muçulmano xiita, em que o sucessor deve ser sempre um membro da família, diferentemente da regra sunita, em que o sucessor é eleito por seus seguidores", explica o historiador Mauro Pesce.

Mas Tiago, além de irmão, tinha méritos. De acordo com o historiador Robert Eisenman, da California State University e autor de Tiago, o irmão de Jesus, ele era o chefe de um grupo de cristãos que não aceitavam a dominação romana da Palestina, pregavam que o reino de Deus estava próximo – seria anti-romano e neste mundo – e defendiam a pureza da tradição hebraica (eram, por isso mesmo, chamados de integristas). Não havia unanimidade entre os judeus sobre a dominação romana e toda a região vivia, já naquela época, em pé de guerra.

O irmão de Jesus foi chefe da Igreja até o ano 61 d.C., quando irromperam violentas revoltas na Palestina e ele foi apedrejado até a morte, a mando de judeus colaboracionistas que o acusaram de estar por trás das rebeliões. Em 70 d.C., as tropas de ocupação romanas atearam fogo ao Templo de Jerusalém, destruindo-o, fato que é atribuído nos evangelhos apócrifos do Mar Morto à punição divina pelo assassinato de Tiago.

Outro irmão de Jesus, Judas, também teria participado dos movimentos de libertação. Seus filhos foram presos como subversivos em 90 d.C., durante as perseguições movidas pelo imperador romano Domiciano. O fato é citado por Eusébio de Cesaréia – historiador, teólogo e bispo da Igreja do século 4 -, lembrando que os presos eram sobrinhos de Jesus e membros da estirpe real de Israel.

A Igreja Católica justifica a menção a irmãos e irmãs de Jesus nas escrituras como um mal-entendido semântico. Seriam primos dele, filhos de uma irmã de Maria também chamada Maria, dita "de Cleofas". De acordo com essa explicação, a confusão vem do fato de que em aramaico se emprega a mesma palavra para irmão e primo. "Mas essa idéia não se sustenta", afirma David Donnini. "Os evangelhos não foram escritos originariamente em aramaico, mas em grego, e o termo utilizado é adelphos, que significa inequivocamente irmão, e não primo."

Outro historiador, Daniel Maguerat, da Universidade de Bolonha, foi tirar a prova: examinou os textos dos evangelhos na língua original e só descobriu um único caso em que o termo irmão podia estar sendo usado para designar primo. Em todos os outros, era irmão mesmo.

"Só três anos depois fui a Jerusalém para conhecer Pedro e não vi nenhum dos outros apóstolos, com exceção de Tiago, o irmão do Senhor"

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

O Blog Controvérsia vai virar um site e distribuir conhecimento

Parceria vai distribuir livros e revistas científicas e culturais.

O blog Controvérsia é uma iniciativa vencedora: há pouco mais de 3 anos no ar (3 anos e dois meses, para ser mais exato) já ultrapassou a marca de 2,5 milhões de visitantes. São cerca de 3,5 mil visitas/dia, ou 100 mil/mês.

Para um blog que se destina apenas a leitura, consideramos que ele vem cumprindo seu papel na disseminação de textos interessantes e inteligentes. E as visitas acumuladas são um reconhecimento disto.

Mas chegou a hora de dar um passo maior.

Numa parceria entre o blog Controvérsia, a Livraria Pacobello e a SuperBanca(todos em Santo André-SP) vamos distribuir livros e revistas científicas e culturais. Com sorteios públicos (loteria federal) os dois primeiros colocados ganharão vales-livros e os três últimos revistas. Elas serão entregues aos vencedores em casa, sem custo.

O início da votação é o dia 20 de outubro (veja quadro abaixo).

Visite: www.controversia.com.br

Veja como funciona: clique

Veja as regras: clique

Veja alguns exemplos de prêmios: clique

Caso queira se cadastrar para participar e receber os boletins clique.

Não perca. Indique o site e o Blog aos seus conhecidos.

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Obrigado.

Ricardo Alvarez

Jerusalém o centro do mundo

Como uma cidade do tamanho de João Pessoa pode se manter no centro dos assuntos mais relevantes do planeta por 4 mil anos? Para judeus, cristãos e árabes, a resposta passa tanto pela história quanto pelos mitos.

Eduardo Szklarz

O grito de guerra ecoou nas pedras crispadas pelo sol naquele setembro de 1187: Alá-hu akbar! (“Deus é grande!”). Sob o comando do sultão Saladino, o exército muçulmano celebrava sucessivas conquistas na Galiléia e agora marchava rumo ao objetivo máximo: Jerusalém. A missão era recuperar a cidade santa após 88 anos de domínio dos cruzados. Saladino montou acampamento no monte das Oliveiras e avistou a enorme cruz no topo da Cúpula do Rochedo, um dos tantos santuários islâmicos profanados pelos infiéis. As tropas inimigas logo se renderam, e no dia 2 de outubro Saladino entrou triunfante na cidade murada. Ele tolerou a permanência dos cristãos, permitiu a volta dos judeus que haviam sido expulsos e purificou o solo de Jerusalém segundo os preceitos do islã.

Em julho de 2000, uma multidão se reuniu nas ruas de Gaza gritando vivas ao “novo Saladino”: um velhinho de voz trêmula e corpo arqueado. Tratava-se do palestino Yasser Arafat, que voltava da conferência de paz de Camp David, nos EUA. Lá ele havia rejeitado a proposta de divisão de Jerusalém oferecida pelo primeiro-ministro israelense Ehud Barak e pelo presidente americano Bill Clinton. Agora, fazendo o V da vitória, Arafat era glorificado nas ruas como a reencarnação do herói que tomou a cidade dos cruzados em 1187.

Histórias como essas ajudam a explicar por que Jerusalém se mantém por tanto tempo no centro do mundo. Em nenhum outro lugar o passado reverbera no presente de maneira tão profunda. Sempre escutamos que a cidade é sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos, mas essa é apenas uma parte da história. Segundo vários pesquisadores, Jerusalém só alcançou importância global porque seu caráter sagrado vem sendo utilizado como propaganda política. Templos, batalhas e personagens (reais ou imaginários) podem ficar esquecidos durante milênios… e, de repente, ressurgir com força total para legitimar uma nova ideologia, um carro-bomba ou um míssil teleguiado.

Arafat não foi o único a evocar a simbologia de Jerusalém para atrair adeptos. Osama bin Laden, líder da Al Qaeda, e Hassan Nasrallah, chefe do Hezbollah, também usam a figura de Saladino ao pregar a jihad contra o Ocidente. O ex-premiê israelense Ariel Sharon gostava de aludir à memória dos guerreiros macabeus, símbolos da resistência judaica contra o império selêucida, em 167 a.C. O ex-presidente iraquiano Saddam Hussein se proclamou sucessor de Nabucodonosor, rei da Babilônia, que destruiu o Templo de Salomão em 586 a.C. e mandou os judeus para o exílio. O presidente americano George W. Bush seguiu a mesma receita quando usou a palavra “cruzada” para lançar a guerra contra o terrorismo.

Não é à toa que a Cidade Dourada – que hoje tem uma população aproximada de 700 mil habitantes, equivalente à de João Pessoa (PB), Campo Grande (MS) ou Santo André (SP) – tem sido a mais disputada da história. “Nos últimos 4 mil anos, houve pelo menos 118 conflitos por Jerusalém. Ela foi 2 vezes destruída, 23 vezes sitiada, 52 vezes atacada e 44 vezes capturada e recapturada, por tribos ou exércitos de impérios”, diz o historiador Eric Cline, autor de Jerusalem Besieged (“Jerusalém Sitiada”, sem tradução no Brasil). Nesta reportagem, vamos reconstruir a história da cidade para tentar entender por que o passado, o presente e o futuro da humanidade passam por ali.

Os primórdios

Na hora de defender seus direitos sobre Jerusalém, os líderes de hoje usam dois argumentos principais: seus antepassados chegaram lá primeiro e sua ligação com a cidade é a mais autêntica. E, claro, negam as versões dos outros. Os palestinos não aceitam as evidências arqueológicas do reino judaico fundado por Davi há 3 mil anos. Os israelenses acham absurda a história de que Maomé subiu ao céu a partir de lá – motivo da devoção islâmica à cidade. Há controvérsia até entre os pesquisadores, pois a fonte de muito do que se afirma sobre Jerusalém são textos sagrados, não documentos históricos.

“Para muita gente, certas histórias sobre Jerusalém não passam de mitos. Mas não devemos descartá-las por isso. A questão de Jerusalém é explosiva exatamente porque a cidade adquiriu status mitológico”, diz a historiadora britânica Karen Armstrong, autora de Jerusalém: Uma Cidade, Três Religiões. Aí é que mora o problema: se você acredita que Deus lhe deu uma terra, vai ser difícil dividi-la. “É quase impossível falar da cidade de maneira racional”, diz o jornalista americano Richard Zimler, especialista em religiões comparadas.

Afinal, quem chegou primeiro à cidade? Ninguém sabe. Cerâmicas encontradas em tumbas do monte Ofel, ao sul das atuais muralhas da Cidade Velha, sugerem que o local já era habitado em 3200 a.C. Nessa época, teriam surgido as primeiras cidades em Canaã (região que hoje englobaria Israel, Gaza, Cisjordânia e partes da Jordânia, da Síria e do Líbano). Como ficava sobre um platô de difícil acesso, distante dos portos do Mediterrâneo, Jerusalém foi durante muito tempo uma ilustre desconhecida. No século 19 a.C., porém, ela chamou a atenção dos faraós do Egito – sabemos disso graças aos Textos de Execração, em que os egípcios listavam as cidades e governantes inimigos.

Jerusalém teria se tornado um núcleo urbano um século mais tarde, quando provavelmente estava nas mãos dos cananeus. Em algum momento depois disso (não se sabe ao certo quando), a cidade foi conquistada pela tribo dos jebusitas.

No século 13 a.C, outro povo entrou em cena: os israelitas, descendentes de Abraão. Segundo a Bíblia, Abraão nasceu na Mesopotâmia e emigrou para Canaã atendendo a um chamado divino – daí ser conhecido como o primeiro hebreu (“o que vem do outro lado”). Os israelitas haviam sido escravizados no Egito. Liderados por Moisés, escaparam e viveram como nômades na península do Sinai até alcançar Canaã, que lhes havia sido prometida por Deus.

Os israelitas formaram dois reinos em Canaã: um ao norte (Israel) e outro ao sul (Judá, nome de uma das 12 tribos israelitas). Por volta do ano 1000 a.C., o rei Davi unificou os reinos e, para agradar a ambos, escolheu governar de uma cidade neutra: Jerusalém. Só faltava conquistá-la.

Assim, depois de várias tentativas, Davi tomou a fortaleza jebusita. Seu exército entrou pelo norte da cidade, mais vulnerável, já que os outros lados eram protegidos naturalmente por barrancos. “Como a topografia não mudou muito nos séculos seguintes, a mesma tática seria usada por conquistadores babilônios, gregos, romanos, cruzados, otomanos, ingleses, árabes e israelenses”, diz Eric Cline.

Segundo a tradição judaica, Davi levou para Jerusalém a Arca da Aliança, onde estavam guardadas as tábuas dos Dez Mandamentos. Seu filho, o rei Salomão, completou a empreitada construindo um templo para Javé, Deus de Israel, no topo do monte Sião. Jerusalém saía da periferia para se tornar o centro do judaísmo. Mais do que isso, ela passou a simbolizar o lugar de Deus na Terra – um único Deus, tal como dizia o patriarca Abraão.

Três mil anos se passaram, mas essas histórias continuam fundamentais para entender as disputas pela soberania de Jerusalém. Os israelenses todo ano festejam a conquista de Davi como o marco zero da fundação da cidade – embora ela já existisse muito antes. Os palestinos não fazem por menos. Em outubro de 1999, Faisal Husseini, ex-ministro da Autoridade Palestina e homem de confiança de Arafat, declarou que era descendente dos jebusitas, que chegaram a Jerusalém antes de Davi. Esse tipo de argumento também não tem base histórica, já que os palestinos modernos fazem parte do povo árabe, e os árabes chegaram a Jerusalém no século 7 depois de Cristo – e 16 depois de Davi. Porém, ele é extremamente eficiente na hora de conseguir adeptos nas ruas.

Da Babilônia a Roma

A cidade dos israelitas foi chamada Ierushalaim – hebraico para “cidade da paz”. Mas paz é o que ela menos tem visto. Com a morte de Salomão, o reino foi sacudido por conflitos internos até se tornar uma mera zona de separação entre a Mesopotâmia e o Egito. No fim do século 7 a.C., virou alvo da disputa entre egípcios e assírios. Mas quem levou a melhor foram os babilônios: em 586 a.C., o rei Nabucodonosor destruiu o templo e mandou milhares de judeus ao exílio na Babilônia.

Em 538 a.C, houve uma nova reviravolta. O rei persa Ciro derrotou os babilônios e uniu a maior parte do Oriente Médio num só Estado, que ia da Índia ao Mediterrâneo. Ele transformou Judá numa província persa (que passou a ser conhecida como Judéia) e permitiu que os israelitas voltassem a Jerusalém. Agora eles já eram chamados de judeus, mesmo que não pertencessem à tribo de Judá.

Aqueles fatos ainda repercutem. Nos anos 1980, o governo iraquiano promoveu o festival cultural De Nabucodonosor a Saddam Hussein, no qual o presidente anunciou as façanhas do rei babilônio como modelo para sua estratégia no Oriente Médio. Saddam inclusive distribuiu uma foto sua ao lado de uma réplica da carroça usada por Nabucodonosor.

Com a conquista de Jerusalém pelos persas, em 538 a.C., os judeus recons­truíram o templo e retomaram seus cultos. A vida tranqüila só chegou ao fim 200 anos depois, com a derrota dos persas para o macedônio Alexandre, o Grande, que colocou a Judéia em contato com a cultura grega. Após a sua morte, Jerusalém caiu na disputa de duas dinastias gregas rivais: os selêucidas e os ptolomeus.

Em 200 a.C., Antíoco, rei dos selêucidas, finalmente pôs os ptolomeus para correr e mudou o nome da cidade para Antioquia da Judéia. Ele desfigurou o templo e o dedicou ao deus grego Zeus. “Antíoco proibiu a prática do judaísmo. Foi a primeira perseguição religiosa da história”, diz Karen Armstrong. A reação foi arquitetada pelo sacerdote Matatias, da seita judaica dos asmoneus. Conhecidos como macabeus, os revoltosos combateram os conquistadores por 16 anos. Em 141 a.C., eles destruíram a fortaleza selêucida e instalaram um reino independente – o último Estado judeu que existiria por lá até a recriação de Israel, em 1948.

Por isso, a revolta dos macabeus teve uma profunda repercussão no mundo moderno. Ela inspirou a criação do movimento sionista, no século 19, que pregava a volta dos judeus a Sion (Jerusalém) para restaurar ali o seu lar nacional. No livro O Estado Judeu, de 1896, o líder sionista Theodor Herzl dizia: “Uma maravilhosa geração de judeus vai surgir. Os macabeus vão se erguer outra vez”.

Por ironia, o governo dos asmoneus abriu ainda mais espaço à cultura grega e enfezou outras facções judaicas, principalmente os fariseus e os essênios. A luta entre esses grupos atraiu a atenção de Roma, os EUA da época. Em 63 a.C., o general romano Pompeu tomou Jerusalém e, para variar, profanou o templo. “Seus soldados cortaram a garganta dos que estavam no altar”, escreveu o historiador Flavio Josefo, contemporâneo desses fatos, no livro Antiguidades Judaicas.

A idéia inicial dos romanos era resolver a disputa de poder na Judéia. Mas eles resolveram ficar e exercer o governo, sem perceber o lodaçal em que estavam afundando. Havia movimentos de revolta contra o invasor, disputas entre as facções judaicas, outros invasores aproveitando o pandemônio e – não menos importante – as brigas internas na sede do império (nesse ínterim, Júlio César tomou o poder de Pompeu, foi traído pelos senadores e assassinado). A Judéia vivia o caos, e o poder em Jerusalém trocava de mãos com freqüência extraordinária. Até que Herodes, filho de um líder local apoiado por setores romanos, fugiu para Roma e convenceu os senadores de que era o sujeito certo para governar a província. Em 40 a.C., obteve deles o título de “rei dos judeus” e voltou para a Judéia no ano seguinte.

No ano 37 a.C., Herodes conquistou Jerusalém. Seu governo sanguinário deixou pelo menos uma benfeitoria: a restauração do templo dos judeus, que na época já tinha 500 anos. Esse ficou conhecido como o Segundo Templo – embora, na prática, fosse o terceiro.

A revolução de Jesus

Poucos anos depois, o santuário sofreu nova ameaça. Comandada por um homem montado num jumento, uma pequena procissão desceu o monte das Oliveiras, atravessou o vale do Cedron e entrou em Jerusalém aos brados de “Salva-nos, filho de Davi!” O homem era Jesus, um profeta judeu da Galiléia. Ele rumou para o templo e usou um tipo de chicote para espantar os cambistas e vendedores de pombos.

“Jesus não protestava contra o comércio no espaço sagrado. Essa gente era essencial para as atividades de qualquer templo antigo”, diz Karen. Segundo a historiadora, o episódio poder ter sido a demonstração física de uma profecia: não iria sobrar pedra sobre pedra naquela sociedade submissa aos emissários de Roma. Qualquer que fosse sua intenção, a performance no templo foi uma clara afronta à autoridade, do tipo que não passaria impune.

Segundo a Bíblia, o procurador romano Pôncio Pilatos condenou Jesus à morte e o obrigou a carregar uma cruz pelas ruas de Jerusalém até o monte Gólgota, ou lugar da Caveira (Calvarius, em latim), onde foi crucificado. Aquele devia ser o final da história, mas logo surgiram rumores de que Jesus ressuscitara. Seus discípulos seguiram rezando no templo como judeus, mas alguns deles entraram em choque com o sistema religioso e se refugiaram em Antioquia (atual Turquia). Foi lá que receberam pela primeira vez o nome de cristãos, porque diziam em grego que seu mestre era Christos, o Ungido, o Messias.

No ano 66, a luta entre facções judaicas havia descambado para a guerra civil. Para complicar, o procurador romano Floro não teve idéia melhor que surrupiar tesouros do templo. Foi a gota d’água para uma nova revolta judaica, liderada pela seita dos zelotes. Nesse clima tenso, entrou em ação um grupo judaico ainda mais radical, o dos sicários. Seu nome vem do latim sicae, uma adaga curva que eles usavam para matar os romanos e simpatizantes.

Para reprimir os revoltosos, Roma destacou Vespasiano, seu melhor general. Ele reuniu cerca de 60 mil soldados e planejou um ataque decisivo a Jerusalém, mas precisou voltar a Roma para suceder o imperador Nero. A tarefa coube então a seu filho Tito, que sitiou a cidade em agosto do ano 70. Como em outras vezes, o templo foi palco das lutas mais sangrentas.

Resultado: a revolta foi massacrada e o templo novamente destruído. Da estrutura original sobrou só o Muro das Lamentações, um trecho da muralha externa – hoje o local mais sagrado do judaísmo. Antigo centro espiritual, Jerusalém era pouco mais que uma base longínqua do império. Os judeus expulsos iniciaram uma grande diáspora pelo mundo. Os que ficaram foram tomados por uma nova surpresa no ano 130, quando o imperador Aélio Adriano visitou a cidade e anunciou que a transformaria num centro de adoração dos deuses pagãos. Se levado a cabo, o projeto jogaria uma pá de cal na ligação judaica com Jerusalém.

Assim, entre 132 e 135, os judeus voltaram à guerrilha – e sofreram reveses ainda piores. Foram queimadas as 50 fortalezas e as 985 vilas judaicas. Centenas de milhares de judeus morreram e os outros tantos foram desterrados. Sobre as ruínas de Jerusalém, Adriano construiu a cidade romana de Aélia Capitolina e ergueu um santuário a Júpiter no local do antigo templo. Para apagar qualquer ligação dos judeus com aquela terra, os romanos mudaram o nome da Judéia para Síria Palestina, em alusão aos filisteus – povo que habitou a costa mediterrânea na Idade do Ferro e que, àquela altura, já desaparecera.

De Bizâncio ao islã

Os cristãos viveram como uma seita perseguida durante os primeiros anos da Aélia Capitolina. “Mas tudo mudou no século 4, quando o imperador Constantino se converteu ao cristianismo e o transformou na religião oficial de Roma”, diz o pesquisador americano Michael Hart. Constantino também transferiu a capital do império para Bizâncio e a chamou de Constantinopla (atual Istambul). Esse novo império seria conhecido como Bizantino.

Com a ascensão do cristianismo, o bispo Macário pediu ao imperador para demolir o templo de Vênus, construído 200 anos antes por Adriano, e expor a tumba de Cristo – que, segundo ele, estaria embaixo do santuário. “Constantino gostou da idéia. Seu império cristão precisava de símbolos e monumentos que lhe conferissem ressonância histórica”, diz Karen. “Sob o templo, achou-se um túmulo que foi logo identificado como o Santo Sepulcro.”

Anos depois, sob a supervisão da rainha Helena, mãe de Constantino, os operários também descobriram aquela que foi identificada como a pedra do Gólgota. O imperador mandou construir várias igrejas nesse novo complexo sagrado, que ganhou o nome de Nova Jerusalém. “Tão logo foi descoberto o túmulo de Jesus e construída a Basílica do Santo Sepulcro, os cristãos desenvolveram sua própria mitologia a respeito do lugar, situando-o no centro de sua espiritualidade”, diz a historiadora. Graças às novas imigrações, os cristãos passaram a ser maioria em Jerusalém. Os pontos de peregrinação também mudaram: em lugar do monte do Templo e das ruínas da cidade de Davi, as novas atrações eram o Gólgota e o Santo Sepulcro.

O cristianismo floresceu em Jerusalém até 614, quando o Exército persa chegou aos muros da cidade. Testemunha dos acontecimentos, o monge Antíoco Strategos relatou que os invasores irromperam como “javalis ferozes, rugindo e matando quem quer que avistassem, inclusive mulheres e crianças”. Segundo Strategos, 60 mil cristãos foram mortos. Os persas destruíram todas as igrejas e confiaram Jerusalém aos aliados judeus, mas por pouco tempo: em 629, o imperador Heráclito retomou a ofensiva e ocupou a cidade.

No início, Heráclito perdoou quem tinha colaborado com os persas. Porém, para apaziguar os cristãos, ele baniu novamente os judeus da cidade e depois ordenou que todos eles recebessem o batismo. De novo um soberano cristão desagradava os súditos judeus, cujo apoio seria irrecuperável 3 anos depois – quando os bizantinos enfrentariam um novo perigo mortal.

De fato, quando a Pérsia e Bizâncio estavam exaustos de lutar entre si, Jerusalém caiu na mira de uma nova potência: o islã. “Seus conquistadores partiram da Arábia e avançaram sobre o Oriente Médio, África, Europa, Índia e China ao mesmo tempo, aliando a vanguarda da ciência ao maior poderio militar da Terra”, diz o historiador Bernard Lewis, da Universidade Princeton. As tropas marchavam sob o comando dos califas, sucessores do profeta Maomé.

Quando entrou em Jerusalém, o califa Omar liderou a conquista mais pacífica até então. Os cristãos se renderam e não houve matança, queima de símbolos religiosos ou expulsão. Omar conferiu aos cristãos e aos judeus o status de minorias protegidas. Ou seja, eles poderiam seguir sua fé desde que pagassem impostos.

Como os ocupantes anteriores, os muçulmanos deixaram suas marcas na cidade. A mais impressionante é a Cúpula do Rochedo (ou Domo da Rocha), construída no monte do Templo no século 7 pelo califa Abd Al Malik. Ela atuou como divisor de águas porque alçou a cidade ao centro do islã. Muito da doutrina muçulmana vem da herança judaica, incluindo a devoção aos sítios sagrados de Jerusalém. Soma-se a isso a fé exclusivamente islâmica num episódio: a viagem que Maomé teria feito de Meca a Jerusalém sobre um animal alado – e na companhia do arcanjo Gabriel – e sua posterior ascensão ao céu desde a rocha sobre a qual seria erguido o domo. Agora chamada de Al Quds (“A Santa”), Jerusalém passou a ser a 3ª cidade mais sagrada do islã, atrás de Meca (onde Maomé nasceu) e de Medina (local da primeira comunidade islâmica).

O contra-ataque da cristandade começou em 1096, quando milhares de soldados rumaram a Jerusalém, seguidos de hordas de camponeses e peregrinos – todos motivados pela promessa papal de que a cruzada anularia seus pecados. Foi um banho de sangue. “Cabeças, mãos e pés se amontoavam nas ruas”, escreveu na época o cronista Raimundo de Aguilers, testemunha da matança. O novo líder local, Godofredo de Bulhão, fez da mesquita al-Aqsa sua residência oficial e converteu a Cúpula do Rochedo numa igreja.

Entretanto, muitos soldados voltaram para casa após a conquista, fazendo o exército cristão minguar. Os cruzados também não tinham um plano de governo definido, o que gerou disputas internas. Enquanto isso, o império islâmico se reorganizou em torno do sultão curdo Salah al-Din Yusuf Ibn Ayyub, ou Saladino. Em 1187, ele entrou em Jerusalém disposto a vingar o massacre, mas aceitou a rendição pacífica. Retirou as cruzes das mesquitas e entregou a custódia do Santo Sepulcro aos gregos ortodoxos. Com a morte de Saladino, em 1194, o império muçulmano ruiu com as lutas entre os herdeiros. Al Quds passou então para o império dos mamelucos, um povo islamizado da Ásia Central. Foi nessa época que ela começou a se parecer mais com a Jerusalém Velha de hoje, com bairros para muçulmanos, judeus, cristãos e armênios (veja os mapas na pág. 48).

Em 1453, os turcos otomanos derrubaram o Império Bizantino. Não tardou até conquistarem Jerusalém, dando início a um domínio de 4 séculos marcado pela restauração da cidade e pela boa convivência entre os moradores. Foi o sultão otomano Solimão, o Magnífico, que mandou reerguer as muralhas da cidade – as mesmas que podem ser vistas até hoje.

O presente

Os turcos dominaram Jerusalém por 400 anos, mas foi apenas no final desse período que ela assumiu as feições atuais. A antiga cidade nas colinas da Judéia se expandia além dos muros. Sua população saltou de 11 mil habitantes em 1830 para quase 22 mil em 1870 – metade deles judeus e a outra metade árabes (muçulmanos e cristãos). Em 1880, chegaram as primeiras levas de imigrantes judeus, que realizavam o refrão entoado em 1 000 anos de diáspora: “Ano que vem, em Jerusalém”.

O problema estava só começando. O Império Otomano cambaleava nas batalhas contra os exércitos europeus e enfrentava o crescente nacionalismo árabe em seu território. Em 1918, quando o Império Otomano caiu, franceses e britânicos lotearam as terras da região em fronteiras totalmente novas, que só respeitavam os seus próprios interesses. O Reino Unido, que passou a administrar a Palestina, logo percebeu o abacaxi que tinha nas mãos: judeus e árabes reivindicavam aquela terra.

Até então, Jerusalém era secundária nessa questão. Os primeiros sionistas eram laicos – fizeram o primeiro escritório da Organização Sionista na Palestina em Jaffa, perto de Tel-Aviv. Aos poucos, porém, Jerusalém passou a representar a essência do projeto nacional judaico. Entre os árabes, a luta política também assumiu caráter religioso. Muhamad Amin Al-Hussaini, o grão-mufti de Jerusalém – responsável pelos lugares santos muçulmanos –, utilizou a mitologia para incentivar o nacionalismo de seu povo. “Ele transformou o monte do Templo em símbolo da identidade palestina”, diz o historiador e ex-chanceler israelense Shlomo Ben Ami no livro Cicatrizes de Guerra, Feridas de Paz.

Não foi por acaso que o primeiro grande conflito entre judeus e árabes explodiu em 1929, ao pé do monte do Templo. A partir desse ano, a festa que comemorava a ascensão de Maomé ao céu (Al Isra) foi chamada de “Dia da Palestina”. A tensão cresceu em 1936, quando os palestinos se revoltaram contra a permissão dos ingleses à imigração judaica. À medida que a violência aumentava, com ataques de radicais de ambos os lados, a comunidade internacional cogitou a divisão da Palestina. Os ingleses propuseram isso em 1937, mas Al-Hussaini recusou a idéia.

Após um atentado com 91 mortos, perpetrado por radicais judeus em seu QG, os ingleses passaram o pepino para as Nações Unidas. Em 1947, a ONU aprovou a divisão da Palestina em dois Estados – um judeu e outro árabe –, com Jerusalém sob administração internacional. Os judeus aceitaram, mas não a Liga Árabe. Resultado: Israel declarou sua independência em 1948, ano em que eclodia a primeira das 6 guerras com os países vizinhos. No armistício de 1949, a parte oriental de Jerusalém (de maioria árabe) passou para a Jordânia. A ocidental (de maioria judaica) ficou com os israelenses.

Na Guerra dos 6 Dias, em 1967, Israel conquistou a parte oriental – e a Cidade Velha. “Retornamos ao nosso lugar mais sagrado. Nunca o deixaremos”, disse o general israelense Moshé Dayan, que redesenhou a cidade. “Muitos israelenses hoje se perguntam: esses devem ser realmente os limites da cidade?”, diz Aaron Klein, correspondente da revista Time em Jerusalém. “Existem áreas ali que são 100% palestinas. Não fosse o traçado de Moshé Dayan, elas seriam hoje parte da Autoridade Palestina.”

Se Jerusalém não vai à Palestina, a Palestina vai a Jerusalém. Quando Dayan reunificou Jerusalém, 74% dos habitantes eram judeus e 26% árabes. Como os árabes têm mais filhos e a radicalização de ambos os lados afugenta os judeus laicos, hoje há 66% de judeus e 34% de árabes.

Tem solução?

A questão atual de Jerusalém envolve dois elementos: a) a soberania sobre a cidade, reivindicada por israelenses e palestinos; e b) o status dos lugares sagrados, reclamado por judeus, cristãos e muçulmanos.

Não que identificar esses elementos facilite a coisa. “Nacionalismo e religião estão mais entrelaçados em Jerusalém do que em qualquer outro lugar”, diz Bernard Wasserstein, autor de Divided Jerusalem (“Jerusalém Dividida”, sem tradução no Brasil). A cidade é como uma boneca russa: sempre há uma boneca menor dentro dela. Ela está no coração da disputa entre palestinos e israelenses – apesar da pouca importância estratégica e econômica, Jerusalém tem um valor simbólico imensurável. Esse conflito, por sua vez, está dentro da contenda entre Israel e os países árabes ou – como alguns querem – entre o Ocidente e o islã. Essas disputas escondem bonecas menores, como a briga entre Hamas e Fatah e entre judeus laicos e religiosos. O cristianismo não fica de fora, pois Jerusalém está na origem do antagonismo entre católicos e ortodoxos.

É por isso que Jerusalém permanece no centro do mundo, enquanto cidades como Roma ficaram no passado. Desde que Davi tomou a fortaleza jebusita, a cidade foi continuamente destruída e reconstruída. Onde antes voavam lanças de bronze hoje explodem terroristas suicidas – mas as tensões continuam as mesmas.

Felizmente, as esperanças também. “As sociedades que permaneceram por mais tempo em Jerusalém foram as que permitiram algum tipo de tolerância e convivência”, diz Karen Armstrong. Essa pode ser a lição para que Jerusalém realmente seja um dia a cidade da paz.

Uma cidade em camadas
Em Jerusalém, o que é velho esconde jóias arqueológicas ainda mais antigas

JERUSALÉM HOJE

O acesso à cidade murada de Jerusalém é feito pelas antigas portas (a mais nova – chamada, veja só!, Porta Nova, foi construída em 1887). O centro é dividido em 4 setores: judeu, cristão, muçulmano e armênio. Com exceção do setor judeu – em que a população judia predomina –, os muçulmanos são maioria em todo o casco histórico.

PERÍODO OTOMANO (até o séc. 20)

Os limites da cidade histórica se mantêm desde o domínio dos otomanos. A Via Dolorosa, que aparece no mapa, representa as estações do suplício de Jesus. Não há evidência histórica de que esse tenha sido o caminho da crucifixão – é provável que o trajeto tenha sido recriado pela tradição cristã.

A CIDADE DOS CRUZADOS (sécs. 11 e 12)

Os cruzados deixaram sua marca na arquitetura de Jerusalém ao tomar a cidade no século 11. Além de transformar várias mesquitas e outras edificações muçulmanas (até o Domo da Rocha) em igrejas, eles construíram seus próprios templos – como a igreja Santa Maria Latina, que no século 19 seria tranformada em igreja luterana.

ROMANOS E BIZANTINOS

No início da era cristã, os romanos destruíram a cidade e construíram outra, batizada Aélia Capitolina. Sobre as ruínas do templo judeu, fizeram estátuas de seus imperadores, além de um santuário dedicado aos deus Júpiter. Mais tarde, os bizantinos descobriram sítios como o Santo Sepulcro e inauguraram a era das peregrinações cristãs. Eles foram sucedidos pela ocupação muçulmana.

TERRA DE DAVI E SALOMÃO (séc. 10 a.c.)

Nos primórdios do reino de Israel, esta era a área ocupada pela cidade. Davi foi o primeiro rei hebreu, e seu filho Salomão foi o responsável pela construção do Templo de Jerusalém. Mas os hebreus não foram os primeiros ocupantes do terreno: eles o tomaram dos jebusitas, que sucederam os cananeus…

O TEMPLO DE HERODES (séc. 1 a.c.)

Era assim a Jerusalém por onde andou Jesus Cristo: o rei Herodes, um judeu testa-de-ferro dos romanos, havia restaurado o templo, onde eram feitos os sacrifícios rituais judeus (após a destruição do local, eles baniram a prática). A capital da Judéia tinha um território bem maior que o delimitado pela muralha atual.

A pedra da discórdia

Um monte de terra árida, distante de portos e rotas comerciais. Falando assim, nem dá para imaginar que se trata do pedaço mais disputado do planeta: o monte do Templo. Sobre esse monte jaz uma grande rocha que é fundamental para entender as disputas por Jerusalém.

Há 2 mil anos, essa rocha ficava no Templo de Herodes, cujo único vestígio atual é o Muro das Lamentações. “Segundo a tradição judaica, essa é a rocha sobre a qual Abraão ofereceu seu filho Isaac em sacrifício a Deus e Davi depositou a Arca Sagrada”, diz o arqueólogo americano Eric Cline. Os muçulmanos, porém dizem que o filho que o patriarca ofereceu em holocausto era Ismael, de quem eles descenderiam.

O monte também é o ponto de onde Maomé teria ascendido ao céu. Sem falar que ele é sagrado para os cristãos, pois está ligado à passagem de Jesus pelo templo. Para as 3 religiões, portanto, ali é o centro do mundo.

Muitos crêem que a rocha esteve no Templo de Salomão, erguido há 3 mil anos. Na verdade, ninguém sabe o local exato do templo. Não importa: essa combinação de pedras e idéias tornou Jerusalém a cidade mais importante da história.

Hoje a segurança do monte do Templo está a cargo de Israel, enquanto a administração é feita por um conselho religioso islâmico chamado waqf. Os não-muçulmanos podem visitar o monte, mas só em grupos reduzidos, em dias restritos e sem objetos religiosos. Em setembro de 2000, o então primeiro-ministro Ariel Sharon esteve lá: isso causou a fúria dos palestinos, que usaram o episódio como pretexto para a 2ª intifada.

Atualmente, as atenções estão voltadas para um complexo subterrâneo conhecido como Estábulos de Salomão. Em 1996, os waqf transformaram o local na maior mesquita de Israel. No ano seguinte, iniciaram uma obra que retirou 12 mil toneladas de terra – o que Israel classificou como “um crime arqueológico sem precedentes”. Com tantas mexidas no subsolo, os arqueólogos temem que as peregrinações às mesquitas façam o complexo desmoronar.

O que cada grupo quer para a cidade

Governo israelense:

A posição oficial é que Jerusalém é a capital eterna e indivisível de Israel. Recentemente, porém, setores do governo afirmaram que o país estaria disposto novamente a entregar bairros de maioria árabe à Autoridade Palestina.

População israelense:

59% é contra a divisão da cidade, segundo pesquisa da Universidade de Tel-Aviv e do Centro Tami Steinmetz de Pesquisas pela Paz.

Judeus ultra-ortodoxos:

Opõem-se a qualquer concessão de partes de Jerusalém.

Autoridade Palestina:

Reivindica Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado palestino. Isso inclui lugares sagrados como o monte do Templo. Porém, na conferência de Annapolis, realizada em dezembro passado, o líder Mahmoud Abbas se comprometeu a negociar.

Árabes de Jerusalém:

Apesar do apoio à Palestina, a maioria se opõe à divisão da cidade, pois perderia o trabalho nos bairros judaicos, além do bem-estar social garantido pela cidadania israelense. Também temem que a cidade seja governada pelo Hamas.

Hamas:

Não reconhece a existência do Estado de Israel e boicota as negociações de paz. Seu projeto é fundar um regime teocrático na Palestina, com Jerusalém como capital.

Vaticano:

Defendeu a internacionalização da cidade quando a ONU votou pela partilha da Palestina, em 1947. Ultimamente vem apoiando a internacionalização apenas dos lugares santos.

Evangélicos de Jerusalém:

São contra qualquer divisão da cidade, pois isso contraria a promessa bíblica da Terra Santa ao povo judeu.

Para saber mais

Jerusalém: Uma Cidade, Três Religiões

Karen Armstrong, Companhia das Letras, 2000.

Jerusalem Besieged

Eric Cline, University of Michigan Press, 2005.

Divided Jerusalem

Bernard Wasserstein, Yale University Press, 2002.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

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Ricardo Alvarez

Contra a ideia da força, a força das ideias

Tomo emprestado ao professor Florestan Fernandes o título de minha coluna deste mês. Esse foi o slogan de sua campanha a deputado constituinte na década de 80. Saíamos de uma ditadura militar e a USP, por meio de alguns de seus mais ilustres professores, tomava parte na cena política em defesa do diálogo como arma contra a violência. Décadas depois, numa manhã fria de 1º de junho, enquanto caminhava com meus alunos em direção à reitoria, perguntava-me o que diria o professor se, como nós, visse a entrada do prédio ocupada por uma tropa da PM, com seus cassetetes, seus escudos, suas metralhadoras e seus fuzis. E que lá estavam a pedido da própria reitoria…

A cena era repugnante e paradoxal. Uma universidade pode ter múltiplas ‘tarefas’ ou ‘funções’ sociais, a depender de circunstâncias específicas do momento. Mas sua razão de ser é seu compromisso histórico com a livre produção e difusão de conhecimentos. O exame crítico de ideias e o escrutínio público de teses não são meros recursos metodológicos; constituem a alma de seu ethos específico. Daí que o cultivo ao diálogo e à pluralidade – por oposição à violência que silencia e uniformiza – seja seu princípio motor. A força das ideias contra a ideia da força.

Lembrei-me, então, de uma história que precisava ser contada a meus alunos. Em outubro de 1936, Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca, encontrava-se numa cerimônia ao lado do bispo de Salamanca, da mulher do ditador espanhol Francisco Franco e do general mutilado de guerra Millán Astray. Na audiência, falangistas gritavam periodicamente sua saudação fascista: Viva a morte! A ela Astray respondia com força e entusiasmo: Viva a morte!

Unamuno não se conteve em face da barbárie e proferiu o que viria a ser sua última lição: Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser interpretado como consentimento… De um mutilado de guerra que careça da grandeza espiritual de Cervantes, é de esperar que encontre terrível alívio vendo como se multiplicam a sua volta os mutilados. Nesse preciso momento, Astray responde com um grito bárbaro e irracional: Abaixo a inteligência! Viva a morte!

Os falangistas apontaram uma arma contra a cabeça de Unamuno que, não obstante, prosseguiu seu discurso: Este é o templo da inteligência. Sou seu sumo sacerdote. Estais a profanar seu recinto sagrado. Vencereis porque vos sobra a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir seria necessário algo que vos falta: razão e direito na luta… Tenho dito. Unamuno foi condenado à prisão domiciliar e algum tempo depois morreu.

Evoco suas palavras na esperança, talvez vã, de que a grandeza de alguns de nossos antepassados possa iluminar a escuridão densa de nosso presente. Para que sejamos, como diz Políbio, dignos de nossos antepassados. E possamos nos orgulhar da herança que deles recebemos e que aos novos legaremos. Para que permaneça viva a força de suas ideias.

José Sérgio Fonseca de Carvalho doutor em filosofia da educação pela Feusp
jsfc@editorasegmento.com.br

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

Testamentos de um exílio enigmático

Livro de Edward W. Said descreve o "estilo tardio" como o gesto paradoxal de recusa à maturidade e à complacência estética.

Eduardo Socha

A apatia quase protocolar de boa parte dos intelectuais contemporâneos em relação à música de vanguarda é compreensível até certo ponto. Razões internas à própria história da música, como o encapsulamento formal da linguagem em torno de si própria (ocorrido principalmente a partir da atonalidade) e a cooptação da música popular pela indústria do entretenimento explicam apenas de maneira parcial essa indiferença.

Afinal, no cinema, no teatro, na literatura ou na pintura, o século 20 também testemunhou uma espinhosa e difícil evolução em seus respectivos modos de expressão. Entretanto, ao contrário do que acontece com a música, a apatia (ou o desconforto) aqui tende a não existir. Se nomes como Godard, Beckett, Joyce e Pollock transitam livremente pela vida letrada como notórias figuras de transgressão em seus domínios, esse trânsito parece bloqueado para artistas igualmente fundamentais da cultura ocidental como Alban Berg e György Ligeti.

No contexto nacional, Gilberto Mendes detectou o fenômeno com bastante precisão: "Se você perguntar a um intelectual brasileiro quais são seus artistas preferidos, ele responderá: Guimarães Rosa, Joyce, Kafka, Volpi, Bergman, Glauber Rocha… e Caetano Veloso, Chico Buarque. Nem mesmo Villa-Lobos ou Stravinsky vão passar pela cabeça dele. A música erudita de nosso tempo não existe para a classe culta brasileira". Tal indiferença generalizada, diga-se de passagem, não se restringe ao caso brasileiro. Adorno já procurava expor as razões estruturais para o divórcio entre a produção da vanguarda musical e sua recepção no sistema da cultura.

Para o elitismo renitente e corrosivo de Adorno, todavia, seriam precisamente o interesse e as análises de obras musicais que forneceriam o estofo a reflexões filosóficas consistentes, de modo que a música, em vez de ser reduzida ao mero divertissement, converte-se em solo fértil de conhecimento. Se a franqueza perturbadora e quase obscena, o refinamento acalorado, as frases desconcertantes e o alcance crítico da escrita de Adorno não encontraram precedentes na história da filosofia, isso se deve em boa parte à sua relação com a música.

Evasão do tempo

A coleção de ensaios, lançada agora no Brasil, do crítico de origem palestina Edward W. Said (1935-2003) apenas confirma a centralidade da reflexão musical adorniana para além do domínio exclusivamente musical; a começar já pela expressão que dá título ao livro – "estilo tardio" é um conceito desenvolvido por Adorno no pequeno ensaio sobre as obras do terceiro período de Beethoven (as cinco últimas sonatas para piano, os seis últimos quartetos, a Missa solemnis e a Nona sinfonia).

O crítico palestino Edward W. Said: "estilo tardio" como forma de exílio do artista

Said, que foi professor de literatura comparada em Columbia (Nova York) e pianista competente, tornou-se conhecido pelo engajamento a favor da causa palestina e pelo livro Orientalismos, no qual discutia a imagem caricatural do Oriente forjada secularmente pela cultura ocidental. Em Estilo tardio, porém, a referência política aparece de maneira transversal – na realidade, aparece com feições episódicas no ensaio sobre o escritor francês Jean Genet, em que se apresenta a relação com o Oriente Médio e a política árabe.

Publicado originalmente em 2006, três anos depois da morte de Said, o livro de sete longos ensaios examina o caráter de obras tardias de artistas tão diferentes como Thomas Mann, Jean Genet, Konstantinos Kaváfis, Glenn Gould, Luchino Visconti, além do próprio Adorno, o interlocutor "saturado de cultura" que permanece implícito ao longo do livro.

Seria necessário esclarecer aquilo que, para Said, não é o "estilo tardio" desses pensadores e artistas: não é o coroamento resignado de uma vida de produção intensa destinada a finalmente encarar a proximidade da morte, não é a consequência madura de um pensamento satisfeito consigo próprio, nem o acordo subjetivo com as normas sociais e estéticas estabelecidas de sua época.

Ao contrário, é antes um tipo de postura criativa que, afastada das tradições e intolerante ao "tom afável ou oficial" de época, abandona o preceito da expressividade e inibe toda possibilidade de síntese. As obras tardias, contraditórias e não reconciliadas com as obras anteriores "constituem uma forma de exílio", como defende Said, um exílio radical que obriga à evasão do tempo.

Mas, se artistas como Strauss, Gould e Lampedusa "transitam na contramão dos grandes códigos totalizantes da cultural ocidental e da difusão cultural", isso não significa dizer que o estilo tardio corresponda a uma rebeldia cega contra todas as convenções. Pois há casos, como os de Beethoven e Strauss, em que o estilo tardio é justamente perturbador por sua adesão quase primitiva às convenções: convenções e fórmulas prontas transformam-se nesses casos em "representação nua delas mesmas". Como se estivessem livres do controle do compositor, como se o compositor abandonasse a obra pela metade e deixasse o clichê falar por si, a mais vulgar retórica musical emerge de forma arbitrária.

Said exemplifica com o tema inicial da Sonata nº 31 opus 111, uma das últimas de Beethoven. O tema, apresentado de maneira "desajeitada", de escrita imperfeita, recebe um acompanhamento insistente e "rasgadamente primitivo", e portanto incompreensível na pena rigorosa de Beethoven. Dando a impressão de ser um "material não processado", contrastava com a força do desenvolvimento temático e a clareza irresoluta do compositor da Quinta sinfonia.

O elitismo de Adorno

Seria esse "descuido" o sintoma de uma intervenção psicológica provocada pela iminência da morte? Não, pois a morte, no estilo tardio assim como na arte, aparece apenas "como refração, como ironia" ou alegoria – a obra em si nunca morre. O estilo tardio não é grito de morte, não é o distanciamento desesperado do mundo, o protesto de um não que seria reiterado na história da arte. Se fosse apenas isso, o estilo tardio não passaria de uma obviedade desinteressante. Há algo de construtivo e inédito no gesto tardio que permanece em aberto, como um enigma para a posteridade.

O desvelo crítico de Said procura mapear as diferentes formas de exílio do estilo tardio, mas não se propõe a fazer disso uma "teoria geral". A óperaAriadne auf Naxos, de Richard Strauss, a releitura das Variações Goldbergpor Glenn Gould, o poema A cidade, de Kaváfis, o romance O leopardo,  de Lampedusa, são obras que possuem o denominador comum da intransigência; no entanto, o conceito mesmo de intransigência padece de um contínuo deslocamento semântico, que Said não hesita em acompanhar com erudição e coloquialidade.

Em que pesem os ensaios sobre Genet, Kaváfis, Lampedusa e Visconti (na capa da edição feita pela Companhia das Letras aparece estranhamente também "Samuel Beckett", nem sequer mencionado nos ensaios do livro!), o centro de gravidade da obra está mesmo na música (a julgar pelas considerações exaustivas a respeito de Mozart, Beethoven, Britten, Strauss e Gould).

Também pelo veio da música (em especial a de Arnold Schoenberg), surgem as páginas, provavelmente as melhores do livro, dedicadas à prosa e ao estilo da ensaística de Adorno. Nelas, encontramos as coordenadas necessárias para entender o incômodo que ainda hoje sentimos ao ler Adorno, não apenas por seu estilo exigente (cuja dificuldade é popularmente exagarada), nem pelo "diletantismo inspirado" que pressupõe os privilégios de uma sólida formação cultural, mas, sobretudo, pelo "pendor miniaturista para o detalhe cruel: ele procura e acha a última mácula, a ser contemplada com um risinho de satisfação pedante", independentemente do assunto a ser tratado.

Adorno, profundo conhecedor de palavras e sons, não realizava concessões didáticas nem permitia que questões técnicas travassem seu argumento. Nisso residia talvez o maior protesto de seu estilo tardio: diante das esperanças ilusórias de uma sociedade crecentemente administrada, resta a solenidade intransigente como característica do pensamento autêntico.

Estilo tardio
Edward W. Said
Trad.: Samuel Titan Jr.
Companhia das Letras
194 págs.
R$ 59

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

Após o trauma, a superação

Segundo estudos epidemiológicos, de 8% a 10% da população apresenta o Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Porém, a detecção e o tratamento precoce implicam no sofrimento abreviado dos pacientes.

Julio Peres

A exposição a situações traumáticas tem sido constante ao longo de toda a História da humanidade. Na literatura, na arte e nas mais diversas áreas é incontável o número de indivíduos que, em algum momento, registraram um quadro de sofrimento traumático. Entre as principais sequelas psicológicas causadas pelo impacto de experiências traumáticas estão os medos específicos, que se tornam condicionados a qualquer aproximação semelhante ao trauma.
Recordações aflitivas, revivescência do trauma (pesadelos, pensamentos intrusivos, memórias traumáticas recorrentes), esquiva/entorpecimento emocional (distanciamento afetivo, anestesia emocional) e hiperestimulação autonômica (irritabilidade, insônia, hipervigilância), entre outros sintomas, podem ser indicadores do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Estudos epidemiológicos estimaram que a prevalência ao longo da vida para ocorrência de eventos potencialmente traumáticos pode alcançar de 50% a 90%, e que a prevalência do TEPT na população geral é estimada de 8% a 10%. Um número maior de pessoas traumatizadas não preenche os critérios diagnósticos do TEPT ou de outros transtornos psiquiátricos. Essas pessoas podem apresentar o TEPT parcial (ou subsindrômico) – correspondentes a 30% da população.
Na prática, isso significa que a maioria de nós vivenciou ou vivenciará pelo menos uma experiência passível de causar trauma psicológico. Sem dúvida, trata-se de um número bastante expressivo, mas é importante lembrar que eventos estressores em si não levam obrigatoriamente à manifestação de traumas psicológicos. Experiências intensas e devastadoras podem disparar efeitos variáveis.

A teoria da "reação universal ao trauma" foi relativizada a partir de estudos que mostraram a grande variedade de processamentos individuais ante os episódios dolorosos ocorridos durante a vida e as emoções básicas. Muitas vítimas de eventos estressores procuram ajuda profissional, literatura, apoio de amigos, enquanto outras enfatizam o silêncio, o isolamento, o colapso e/ou a vitimização.

Peculiaridades

O TEPT reúne aspectos diferentes da maioria dos outros transtornos: como ocorre sempre após um ou mais eventos estressores, se for diagnosticado a tempo, existe uma grande probabilidade de não se tornar crônico. Após três meses da ocorrência traumática os sintomas do TEPT são mais facilmente reconhecíveis. Por outro lado, quanto maior o tempo decorrido, mais difícil se torna o diagnóstico preciso aos profissionais da saúde devido aos aspectos evolutivos do transtorno.
A manifestação de pelo menos um transtorno, secundário ao trauma, foi observada em 88% dos homens e 79% das mulheres, sendo mais comuns abuso de substâncias (álcool, maconha, cocaína, estimulantes), depressão, transtornos de ansiedade, transtorno de pânico, fobias e quadros de mania.

Outros estudos na população americana revelam que entre as patologias comórbidas ao TEPT mais frequentes destacam-se: transtorno de humor, especialmente depressão (de 46% a 51%); transtorno de ansiedade, (de 29% a 56%); abuso/dependência de substâncias psicoativas (de 27% a 80%); transtorno obsessivo-compulsivo (13%). Pacientes com TEPT têm probabilidade três vezes maior de apresentar sintomas de somatização e dissociação (desagregação temporária das funções psíquicas).
As comorbidades podem diminuir as chances de que se realize o diagnóstico do TEPT. Muitas vezes, quadros mais conhecidos, como o transtorno depressivo, são diagnosticados primeiramente. A detecção e o tratamento precoce do TEPT implicam no sofrimento abreviado de indivíduos que sofreram trauma. Assim, a Psicoterapia tem sido indicada como a primeira linha de tratamento ao trauma por ser a estratégia mais importante para a diminuição do risco de cronificação do TEPT.

Via de comunicação

A maioria das Psicoterapias faz uso das palavras como veículo para a comunicação. Ainda que a palavra não seja a única via, certamente é uma das mais usadas no contexto terapêutico.
Uma corrente de psicólogos e filósofos analíticos acredita que o pensamento é completamente verbal, como se sempre fosse realizado por meio de palavras. Esta ideia fortaleceu-se com o surgimento de estudos de Linguística contrapondo a concepção alternativa segundo a qual os pensamentos são imagens incorpóreas que flutuam na mente.
De todas as maneiras, aprender a falar é aprender a traduzir pensamentos mediante as palavras. Indivíduos com TEPT ou TEPT parcial apresentam dificuldade em comunicar verbalmente seus traumas.

Um de nossos estudos com neuroimagem publicado no periódico Psychological Medicine em 2007, mostrou uma atenuação da atividade na área de Broca envolvida na expressão verbal durante a evocação do trauma antes da Psicoterapia. As pessoas traumatizadas podem também evitar tocar no "assunto", com o objetivo de se manter "a salvo" e não reviver a situação dolorosa. Paradoxalmente, ficar em silêncio não impede que as lembranças e as emoções causadas pelo evento estressor se manifestem com toda a sua potência e, mais grave ainda, não permite o processamento do trauma, a reestruturação do fato pelo indivíduo e a sua superação.

Efeitos do trauma

Eventos traumáticos podem afetar o funcionamento cognitivo, a saúde física e as relações interpessoais. Veja as respostas mais frequentes (isoladas ou conjuntas) após o trauma:

Efeitos cognitivos
- Confusão mental
- Desorientação temporal (cronológica)
- Dificuldade de concentração e de tomada de decisão
- Dificuldade em expressar pensamentos
- Estreitamento perceptual
- Incredulidade (descrença)
- Pensamentos intrusivos (indesejados)
- Perturbações de memória
- Pesadelos
- Preocupações exacerbadas

Efeitos físicos

- Abuso de álcool ou drogas
- Alterações cardiovasculares (aumento ou diminuição da frequência cardíaca)
- Arrepios
- Excitação, estado de alerta e hiperatividade
- Fadiga
- Fraqueza
- Insônia
- Perda da energia sexual
- Perda do apetite (ou alimentação compulsiva)
- Tonturas
- Transpiração intensa
- Tremores

- Problemas de saúde (somatizações. Exemplos: dor de cabeça, desconfortos gástricos, dor de estômago, náusea, etc.)
- Transtorno Somatoforme (caracteriza-se por múltiplas, recorrentes, mutáveis e prolongadas queixas de sintomas físicos sem uma base médica constatável)

Efeitos Emocionais

- Anestesiamento
- Ansiedade
- Apreensão
- Culpa
- Desamparo
- Desesperança
- Desespero
- Irritabilidade
- Pânico
- Raiva
- Tristeza

Efeitos Interpessoais

- Conflitos de relacionamentos sociais
- Isolamento
- Perturbações familiares
- Prejuízo do desempenho profissional
- Recusa de seguir regras ou ordens

Um dos focos do tratamento terapêutico de indivíduos traumatizados consiste justamente na tradução da experiência buscando palavras que a sintetizem. À medida que traduzimos a ocorrência em sínteses (representações narrativas), conseguimos atribuir significados à vivência pessoal, equacioná-la e, finalmente, superá-la.
Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto, Prêmio Nobel da Paz em 1986, escreveu e reescreveu suas experiências e pode significar e ressignificar seus traumas por meio de sua obra. Esse exemplo de superação nos deixa uma importante lição: "… nós devemos falar. Ainda que não consigamos expressar nossos sentimentos e memórias da maneira mais adequada, devemos tentar. Precisamos contar nossa história tão bem quanto pudermos. Eu aprendi que o silêncio nunca ajuda a vítima, apenas o vitimizador… Se eu ficar em silêncio, enveneno minha alma."

Memórias estado-dependentes

A memória traumática é um dos principais sintomas apresentados por indivíduos traumatizados e as contribuições neurocientíficas a respeito dessa vital faculdade são valiosas à Psicoterapia. A memória apresenta o interessante fenômeno estado-dependência, isto é, podemos nos recordar de experiências e aprendizados mediante a apresentação de "dicas" alinhadas a esses conteúdos.
Por isso, ao jantar com amigos num restaurante, outros restaurantes e jantares são lembrados frequentemente. Um bom exemplo do fenômeno estado-dependência da memória nos traz Marcel Proust em sua obra O tempo reencontrado. O narrador recua no tempo das suas memórias em episódios desencadeados por recordações de cheiros, sons, paisagens ou mesmo sensações tácteis, que exacerbam a vivacidade do que ocorreu.

"A partir das memórias não traumáticas podemos representar o trauma por meio das redes associativas"

Shutterstock

Mesmo que os indivíduos com TEPT possuam dificuldade de se comunicar, os psicoterapeutas acreditam e usam da fala como forma de tratamento de pessoas com esse quadro. Para os especialistas, a fala é a melhor forma de traduzir os pensamentos.

O mesmo acontece, porém de maneira mais intensa, com indivíduos traumatizados. Lugares, circunstâncias, odores, etc. associados ao trauma, podem disparar a memória do evento e mecanismos de alerta como se a ameaça estivesse por acontecer.
Muitas vezes, tais dicas se tornam distantes do que de fato ocorreu e, mesmo assim, como num processo de generalização, as memórias do trauma são disparadas. Por outro lado, as memórias emocionais e sensoriais agradáveis estão associadas a contextos geralmente não lembrados por indivíduos matizados pelo trauma.

Resgatar esses repertórios pode mobilizar novas associações para construção dos aprendizados terapêuticos. Um indivíduo que sofre um acidente de carro em um dia chuvoso e desenvolve um trauma psicológico não deve, em seu processo terapêutico, esquecer dessa experiência, e sim associá- la a outros aprendizados adaptativos ao momento atual. Certamente, em dias chuvosos, esse indivíduo tomará os cuidados necessários para que um acidente similar não venha a ocorrer.
Os efeitos terapêuticos podem ser, em boa parte, decorrentes do aprendizado de extinção, que estabelece uma nova hierarquia de respostas em vez de provocar o esquecimento da resposta original de temor. A extinção não consiste em uma perda da experiência (esquecimento), mas num processo ativo de aprendizado pelo qual o indivíduo organiza uma nova associação em detrimento da anterior.

A nova associação envolve expressão gênica e síntese proteica, assim como ocorre com a consolidação ou formação de qualquer aprendizado associativo. A transmissão nervosa glutamatérgica – principal forma de transmissão excitatória – tem coparticipação na fase inicial da consolidação de um aprendizado, entre outras várias cascatas bioquímicas no hipocampo. Os processos moleculares subjacentes à extinção são similares, mas não idênticos aos da consolidação das memórias originais.

É certo que, do ponto de vista adaptativo, a extinção cumpre um papel superior ao do esquecimento. A Psicoterapia então busca dissecar e trabalhar as associações estabelecidas entre o evento traumático e os respectivos sistemas de crenças e comportamentos disfuncionais. A identificação de tais processos associativos nem sempre é imediata, especialmente quando memórias complexas que abrangem outras memórias e, portanto, outras redes associativas, estão envolvidas.

Representações internas

A dinâmica cerebral nos permite ver ou perceber o que conhecemos e acreditamos ser possível. A partir de nossas experiências construímos associações e padrões perceptivos. Quando nos deparamos com algo que não faz parte de nosso repertório aprendido, podemos não perceber ou saber o que significa tal informação.
Por exemplo, os esquimós percebem vários tons de branco, enquanto os ocidentais percebem apenas poucos tons. Isso ocorre porque os vários outros tons não fazem parte do nosso "banco de significados", ou seja, não podemos enxergar aquilo que desconhecemos. Da mesma maneira, um esquimó certamente não conseguiria perceber muitos estímulos familiares à nossa cultura (tonalidades quentes como variações de vermelho, laranja, amarelo, etc.) por não fazerem parte do seu repertório de associações.

Outro bom exemplo da importância de unificar o que vemos ou percebemos em conceitos aprendidos é o caso, mundialmente conhecido entre os oftalmologistas, do indivíduo que sofria de cataratas congênitas. Ele não podia enxergar até a idade adulta, quando fez uma cirurgia que lhe reabilitou a visão. Após a operação, não conseguia ainda ver o que as células recebiam como informações sensoriais do mundo exterior, pois os "conceitos" não estavam devidamente formados e, por essa razão, não compreendia o que seus olhos podiam enxergar.

Contudo, se começarmos a aprender e atribuir significados a novos estímulos, por meio de nossos padrões associativos de memória, passaremos a aprender e conhecer o que não éramos capazes de compreender antes. Entretanto, se a informação tiver expressiva magnitude tal como um trauma, que quase sempre é imprevisível e imponderável, tal informação será percebida, mas não compreendida e associada a outras memórias autobiográficas.

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Sentido de coerência interna

Imagem do campo de concentração Auschwitz II (Birkenau), localizado no sul da Polônia, onde morreram aproximadamente 1 milhão de judeus e perto de 19 mil ciganos.

Baseado em observações de sobreviventes de campos de concentração nazistas que foram capazes de se manter saudáveis e levar uma vida normal (apesar do que tinham vivido), Aaron Antonovsky desenvolveu o conceito de "sentido de coerência interna" (SCI), que está fundamentado em três componentes:

1) Compreensibilidade (a vida e seus acontecimentos têm sentido em termos cognitivos; é a habilidade de compreender a situação como um todo);
2) Significabilidade (a vida faz sentido do ponto de vista emocional; os problemas são vistos como desafios e não como fardos);
3) Maneabilidade (habilidade para usar os recursos disponíveis para lidar com os acontecimentos da vida).

Esse conceito procura fornecer alguns indicadores dos motivos pelos quais algumas pessoas conseguem permanecer bem, apesar de vivenciarem situações severamente estressoras. O SCI foi investigado em mais de 500 estudos e esteve fortemente associado a uma melhor percepção da saúde, particularmente da saúde mental. Pessoas com alto SCI mostraram-se mais resilientes sob condições de estresse.

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Em síntese: nossa percepção do mundo busca uma reflexão no espelho de nossas memórias. A partir das nossas memórias não traumáticas podemos representar o trauma. A Psicoterapia pode facilitar o acesso a outras redes de padrões associativos e o processo de aprendizado e significação do trauma a partir do repertório já conhecido de memórias que o indivíduo traumatizado dispõe.
A semelhança entre a dinâmica do perceber e do lembrar não é surpresa, uma vez que esses processos são complementares e interdependentes. As redes neurais envolvidas na recordação de situações do passado (memórias episódicas) são compartilhadas quando pensamos em situações futuras. Podemos dizer que temos memórias episódicas de situações que ainda não ocorreram e talvez nem venham a acontecer, mas que para o nosso cérebro já existem.

Os mesmos circuitos neurais relacionados à memória foram encontrados durante a imaginação de experiências fictícias não explicitamente ligadas a um contexto temporal (passado, presente ou futuro). A projeção dos referenciais internos na construção dessas "cenas" parece ser o elemento comum no largo leque de funções cognitivas.
Em virtude desses achados recentes das neurociências, temos de reavaliar a nossa compreensão sobre a memória episódica, que abrange processos projetivos de desconstrução e construção, viés subjetivo de interpretação e outras funções cognitivas como a imaginação.

Uma das ferramentas terapêuticas, trazida pela Neurociência, mostra que ao visualizar uma situação com riqueza de detalhes e "colorido emocional", o indivíduo fortalece redes neurais que propiciam a manifestação objetiva daquelas imagens criadas em sua mente. Tais "construções psíquicas" afetam o processamento, a atribuição de significado e a superação do trauma.
As abordagens mais eficazes ao tratamento de indivíduos com pesadelos pós-trauma utilizam justamente a criação de uma narrativa imaginária com um final agradável para o conteúdo interrompido ao acordar. O uso de visualizações durante a construção de narrativas imaginárias possivelmente promove a integração dos fragmentos emocionais e sensoriais do trauma no sistema declarativo de memória (envolve o córtex pré-frontal e o hipocampo) permitindo o processamento de novas sínteses cognitivas atenuadoras do sofrimento.

Costumo dizer aos meus pacientes que "visualizar o caminho antecipadamente é um passo fundamental para percorrê-lo". A observação e a simulação de comportamentos de superação podem trazer referenciais ainda não apreendidos por indivíduos que continuam manifestando os sintomas do transtorno, sensibilizando a própria experiência de superação.
Embora os pacientes traumatizados apresentem uma constelação de sintomas e reportem com frequência sua inabilidade de agir diferentemente, "observar" exemplos bem-sucedidos de lidar com o trauma pode sensibilizar o "agir", uma vez que os novos comportamentos sejam "conhecidos" pelo indivíduo e seus neurônios-espelho. É importante que a Psicoterapia aplicada a vítimas de traumas facilite a percepção dessas novas possibilidades para a geração de comportamentos adaptativos.

Resiliência

O termo resiliência vem da Física e refere-se à capacidade que um corpo tem de sofrer uma deformação pela ação de um agente externo e voltar à sua forma natural. Assim, também, quando um indivíduo se depara com um evento estressor, vivencia o seu impacto, mas não vem a desenvolver sintomas crônicos e volta à qualidade satisfatória de vida, o que significa que ele possui resiliência. A percepção de si e das capacidades de lidar com o trauma são os mais importantes preditivos de resultados satisfatórios. Resiliência envolve flexibilidade, otimismo, ousadia, autoestima e autoconfiança para resignificar o que ocorreu a favor do crescimento humano. A resiliência não é um estado específico, mas uma qualidade dinâmica de autorrenovação diretamente ligada aos princípios naturais de adaptação à vida.

A resiliência é uma qualidade dinâmica de autorrenovação ligada aos princípios naturais de adaptação à vida

Todos têm a possibilidade da autorrenovação por meio do desenvolvimento de habilidades adaptativas ao enfrentamento. Onde há uma vontade, haverá um caminho para a resiliência. Para isso, é importante seguir alguns passos: o primeiro é ver os problemas como oportunidades de crescimento; o segundo consiste em integrar (do latim integrare: tornar-se inteiro) as capacidades e recursos pessoais ao enfrentamento; o terceiro envolve a autoproposição de um objetivo desafiador; o quarto é trilhar o caminho com o foco no novo objetivo (veja quadro Sentido de coerência interna)

Durante a ocorrência do trauma, identificar e atribuir significados ao que está acontecendo pode ser um preditor de boas respostas após o evento traumático.
Um bom exemplo de superação nos traz um paciente que foi sequestrado e passou 15 dias sem ouvir voz alguma. Mesmo isolado absolutamente, o paciente pediu caneta e papel para escrever sobre suas experiências, amigos e família. A escrita o ajudou a elaborar o que estava acontecendo e contribuiu para sua recuperação após o sequestro.

Outro exemplo de bom processamento durante a ocorrência traumática nos traz um casal que sofreu um sequestro relâmpago. Carina permaneceu apavorada durante as 3 horas que durou o sequestro. Diego ficou da mesma maneira, porém apenas na primeira meia hora. Enquanto Carina vivenciava o desespero, Diego procurou dialogar internamente com perguntas e respostas para si mesmo:
"Meu Deus, isso não parece real, o que está acontecendo aqui? É real sim, estamos correndo risco de vida e eles não estão brincando! O que eles esperam de nós, como devo agir? Droga… nunca pensei nisso antes, nunca achei que fosse acontecer… Como devo agir? O que devo fazer para eu e minha mulher sairmos vivos? Reagir, nem pensar! Acho que devo tentar conversar… Falar o quê? E se eu falar alguma coisa que eles não gostem? Acho melhor só responder o que eles perguntarem. Ah, o tom de voz! Acho que se eu passar calma eles também ficarão calmos. É isso, vou tentar!"

Criar uma referência mais clara sobre o que acontecia e alguma estratégia de conduta trouxe ao marido um sentimento subjetivo de certo controle sobre a situação, mesmo que a variável determinante do risco de morte não estivesse "nas mãos do casal". Diego teve os sintomas pós-trauma atenuados mais cedo que Carina.

A terapia de exposição

A ciência psicológica tem dado maior atenção às terapias de exposição (imaginária e in vivo) para a reestruturação cognitiva de eventos passados sob uma nova perspectiva de compreensão e aprendizagem. O componente essencial do tratamento de exposição envolve repetidos confrontos com as memórias do evento estressor (exposição às memórias e imagens traumáticas) para propiciar a reescrita do trauma alinhada à superação.
Em particular, a Terapia de Exposição e Reestruturação Cognitiva é indicada como a abordagem de escolha ao tratamento de indivíduos com memórias traumáticas. Ao integrar as contribuições das neurociências, desenvolvi um programa psicoterápico, que tem se mostrado eficaz à superação de traumas psicológicos. Durante o processo, o paciente é submetido a uma minuciosa anamnese (histórico clínico) e, em seguida, a sessões de reestruturação cognitiva, intercaladas por sessões integrativas, nas quais o exercício com as novas sínteses terapêuticas é avaliado e orientado.

O procedimento terapêutico inclui uma importante fase chamada de Psicoeducação, que abrange quatro etapas: (1) normalização, na qual o terapeuta demonstra continência e compreensão em relação aos sintomas manifestados, normalizando essas respostas na visão do paciente; (2) legitimação, na qual há um reforço da fase anterior para que o paciente entenda que o comportamento por ele manifestado pode ser esperado diante da magnitude e do impacto do evento traumático sofrido; (3) descrição das respostas, quando o terapeuta utiliza as referências do manual de diagnóstico DSM-IV e investiga se o paciente também apresenta outros sintomas, além dos citados; (4) procedimento terapêutico, quando o paciente recebe explicações sobre a natureza subjetiva do trauma, a dificuldade de tradução narrativa dos fragmentos sensoriais – um dos objetivos da terapia é ajudar o paciente a recontar essa história -, a importância do resgate dos bancos positivos de memória, autoeficácia e superação (influenciando o viés perceptivo sobre o evento), o papel dos "Cartões de Enfrentamento" – frases afirmativas que traduzem sínteses terapêuticas adaptativas para serem lembradas e cultivadas diariamente.

Com a ajuda do terapeuta, o paciente então delimita com precisão o "Estado Atual" em que se encontra e o "Estado Desejado" (como quer sair do processo terapêutico). Nesse momento, é importante que o terapeuta confira as expectativas do paciente em relação ao resultado do tratamento psicológico, inclusive se são exequíveis ou não. Não raro, os pacientes trazem expectativas milagrosas e inalcançáveis (exemplo: quero apagar isso da minha memória), que certamente causarão frustração.
Os dados de realidade devem ser esclarecidos para que o paciente compreenda desde o princípio o caminho que vai percorrer durante o processo para depois atingir os resultados esperados.

O "Estado Desejado" pode ser investigado com perguntas simples (exemplo: "Qual é o seu objetivo nesse processo terapêutico?"; "Como você deseja estar ao final da Psicoterapia?") e deve ser resgatado em exercícios de visualização ao longo do processo. A consciência do objetivo resgata o sentido da jornada. Os objetivos definidos pelo paciente promovem a conexão com o desejo de mudança, como também a razão pela qual está trabalhando consigo mesmo.

O Bem-Estar

O psiquiatra americano Robert Cloninger dedicou décadas de estudo à compreensão do bem-estar e afirmou que a negligência de métodos que valorizem as emoções positivas, o desenvolvimento da personalidade, a satisfação na vida e a espiritualidade, assim como o foco exclusivo na enfermidade e no sofrimento mental – explicam a dificuldade dos profissionais da saúde em melhorar o bem-estar geral dos pacientes.

É natural que os psicólogos e psiquiatras concentrem a atenção na remissão de sintomas que os pacientes apresentam. Contudo, quando o tratamento enfatiza apenas o sintoma (dor, sofrimento) é como se alguém orientasse um endereço para uma pessoa perdida, apenas com referências de caminhos que ele não deve seguir. Quando estamos perdidos no labirinto da dor, precisamos ter referências "para chegar ao bem-estar". O trauma pode matizar a percepção de tal maneira que o repertório do prazer do sorriso e da vivência agradável se torna quase esquecido pelo distanciamento.

Portanto, a Psicoterapia deve igualmente abordar o sofrimento, a fragilidade e os temores, assim como as qualidades de experiências que tornam a vida mais saudável e interessante. É necessário um equilíbrio entre a atenção direcionada ao alívio do medo e o trabalho alinhado à construção da força. A honestidade em relação às fraquezas e dificuldades é muito importante, assim como em relação aos êxitos, vitórias e atos de coragem. Essas considerações podem abrir as portas para a exploração consciente de crenças e pressupostos que norteiam comportamentos.
Finalmente, considero que construímos o processo de superação sobre os valores e capacidades que temos e não sobre o que nos falta. Lembrar das situações de superação anteriores ao trauma – sejam essas da infância, adolescência ou idade adulta – favorece a atenção para os valores e talentos que naturalmente fortalecem as capacidades de enfrentamento bem-sucedido.

Sete fatores

Segundo especialistas, a resiliência psicológica apresenta sete fatores: 1) Administração das Emoções, 2) Controle dos Impulsos, 3) Empatia, 4) Otimismo, 5) Análise Causal, 6) Auto Eficácia e 7)Alcance de Pessoas. Para ler detalhes de cada fator acesse:http://www.eca.usp.br/njr/espiral/papiro35b.htm

Divulgação

Lançamento

- Recém-lançado pela editora Roca, o livro Trauma e Superação – O que a Psicologia, a Neurociência e a Espiritualidade Ensinam faz uma minuciosa reunião de contribuições científicas atuais sobre o tema e ensina o que fazer, na prática, para evitar a caracterização do trauma, assim como as estratégias de superação que facilitam significativamente a melhora da qualidade de vida. A obra também mostra depoimentos de pessoas que cresceram e se desenvolveram com base nos aprendizados adquiridos em suas experiências dolorosas, além de relatar o tratamento e a prevenção do trauma psicológico.

Referências

Julio Peres (2009). Trauma e Superação: o que a Psicologia, a Neurociência e a Espiritualidade ensinam. Editora ROCA.www.julioperes.com.br

Julio Peres é psicólogo clínico, doutor em Neurociências e Comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e pós-doutorado pelo Center for Spirituality and the Mind, University of Pennsylvania

Fonte: Portal Ciência e Vida – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br