Daily Archives: 18/09/2009

Acordos “históricos” para os pequenos agricultores

MEIO AMBIENTE Mudanças no Código Florestal incorporam concepção dos camponeses de preservar e produzir.

MEIO AMBIENTE
Mudanças no
Código Florestal
incorporam
concepção dos
camponeses de
preservar e produzirAline Scarso
de São Paulo (SP)

O CÓDIGO FLORESTAL brasileiro ganhou três novas instruções normativas que favorecem a agricultura familiar. A partir de agora, pode-se somar as Áreas de Proteção Permanente (APPs) – que são as margens de rios e encostas de morros – com as de Reserva Legal.
Isso aumentará a área na qual as plantações são permitidas, contribuindo para o desenvolvimento das atividades do pequeno produtor. A segunda mudança é a simplificação e a gratuidade do reconhecimento de Reserva Legal de pequenas propriedades, processo caro e que, atualmente, pode levar anos para ser concluído. Por fim, as mudanças possibilitam o plantio e a condução de espécies florestais frutíferas, nativas ou exóticas como recomposição e recuperação das APPs e de reservas legais.
A reunião que acertou os acordos foi realizada no dia 23 de julho e contou com a presença dos ministros Carlos Minc (Meio Ambiente) e Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) e de representantes de movimentos sociais, como a Via Campesina, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetraf).
Em entrevista, o integrante da Via frei Sérgio Görgen conta sobre o encontro que, segundo ele, fechou acordos “históricos” para a agricultura familiar.
Como você avalia a discussão feita na reunião?
Frei Sérgio Görgen –
Essa reunião selou um acordo entre as organizações que representam a agricultura familiar e os assentados. Estávamos junto com o Ministério [do Meio Ambiente] para fazer uma avaliação das medidas que devem ser adotadas para que o Código Florestal seja devidamente adaptado para ser cumprido. E o ministro atendeu, praticamente, ao conjunto de nossas reivindicações, de que é preciso facilitar para que os agricultores possam fazer a preservação da Reserva Legal. Fazemos uma afirmação, nós, os movimentos sociais, e os governos, com seus dois ministérios, de que é perfeitamente possível – não só possível, como necessário – que a produção de alimentos nesse país esteja conjugada com a preservação ambiental.
O que muda para o pequeno agricultor somar Áreas de Proteção Permanente (APP) com a Reserva Legal?
Muitas vezes, fazer preservação permanente implica para o pequeno agricultor em [um comprometimento de] 20% da sua área. Então, se eu tiver 20% de área de preservação permanente, não preciso fazer mais 20% de reserva legal para ficar somente com 60% da área para produzir. Por exemplo, numa área de dez hectares, somente seis poderiam ser cultivados de forma intensiva. Agora isso estará regulamentado, fazendo com que o Código seja cumprido de forma inteligente, as áreas [sejam] preservadas e o agricultor possa continuar tendo sua atividade agrícola e pecuária nas pequenas propriedades de maneira tranquila.
O que mais muda no Código com as instruções normativas do ministro Minc?
As adequações são para que os agricultores possam fazer estas duas coisas ao mesmo tempo: produzir e preservar. Uma outra [alteração] é reconhecer as agroflorestas. Como se faz uma combinação entre agricultura e floresta, é necessário reconhecer essa combinação como Reserva Legal. Uma outra adequação é que o agricultor possa retirar madeira. Ele não pode retirar toda [a floresta], mas madeira para lenha, para pequenas construções etc. Esse acordo é histórico porque mostra que o meio ambiente e a produção não são inimigos. Mostrou que o nosso projeto de reforma agrária é um projeto que respeita o meio ambiente.
Pode-se dizer que houve uma reavaliação mais favorável do Código Florestal aos pequenos agricultores?
Não pode ser diferente, porque o Código Florestal não é repressivo. Ele estimula que as áreas de preservação sejam áreas de uso, uso limitado. Elas não são unidades de conservação. E é esse uso com limites que nós deixamos muito claro que a agricultura familiar e camponesa são capazes de fazer. Nosso projeto de agricultura camponesa e familiar é um projeto que olha para o conjunto da população, garantindo a produção de alimentos.
O ministro Minc defendeu o tratamento diferenciado para os pequenos agricultores na Lei Ambiental. Como os latifundiários devem encarar isso?
A Lei Ambiental precisa ser cumprida. Se o latifúndio não consegue fazer, ao mesmo tempo, produção e cumprimento da legislação ambiental, nos avise. O governo desapropria, faz reforma agrária. E, na reforma agrária, fazemos as duas coisas, sem nenhum problema. E se tiver alguma coisa que tiver que ir ao Congresso, tem que avaliar muito bem, porque o Congresso Nacional é um ambiente hostil para os pequenos agricultores, hostil para qualquer mudança que favoreça os pequenos. O nosso medo é de que destruam simplesmente o Código Florestal, porque eles não querem cumprir nenhum compromisso ambiental. Eles querem licença para derrubar, licença para devastar e licença para destruir. E isso a gente não concorda.
A expansão do agronegócio sempre esteve na linha contrária a da preservação ambiental. De que forma isso se expressou ao longo dos anos no Código Florestal?
A primeira redação do Código Florestal é de 1933. O governo Getúlio Vargas, na sua expansão desenvolvimentista, estimulou a migração de agricultores do Sul para o Norte e estimulou a migração de agricultores do Nordeste e Sudeste em direção ao Oeste. O Código visava minimamente a preservar as matas dessa onda migratória.
O que não ocorreu. O desmatamento foi geral. Já em 1965, os militares fizeram uma ampla mudança para estimular a invasão da Amazônia pelos agricultores do Sul e do Nordeste. Uma nova mudança foi pressionada pelos preparativos adotados para a realização da ECO-92 e aconteceu, três anos antes, em 1989. Havia uma pressão internacional muito forte e uma grande entrada das multinacionais e do agronegócio na Amazônia.
Então, era uma tentativa de mostrar para o mundo que o Brasil iria preservar a Amazônia, o que não ocorreu porque o Código não foi respeitado e nenhum governo o fez respeitar. Já a última mudança, em 2001, foi para permitir que grandes empreendimentos, como barragens e estradas, pudessem ser feitos sem grandes preocupações com a derrubada da mata que tivesse no entorno. Essas mudanças ocorreram não para cumprir o Código Florestal, mas para dar satisfação a um setor da sociedade. Agora, é preciso o cumprimento de fato. Por isso, ele tem que sofrer algumas adaptações.
Há outras alterações necessárias a serem feitas no Código para que ele realmente cumpra com a sua função de preservar o meio ambiente?
As regulamentações que nós vimos com o Ministério [do Meio Ambiente] giram em torno de uns 30 pontos que teriam que ser adequados, mais do que alterados. Nós somos contra a destruição do Código Florestal porque ele é importante. Por exemplo, ele diz que pequena propriedade é de até 30 hectares. A Lei de Agricultura Familiar diz que pequena propriedade é de até quatro módulos fiscais. Nós queremos que seja até quatro módulos porque esse é um avanço que está já especificado em outra lei. E isso significará, com certeza, o reconhecimento de um número maior de agricultores, que estão dentro da caracterização da agricultura familiar, como pequeno agricultor. (Radioagência NP)
Para entender
Módulo fiscal –
Terreno suficiente para a sobrevivência de uma família. A área varia de município para município, podendo atingir no máximo 100 hectares. A lei nº 8.629 estabelece que são minifúndios as posses com até 1 módulo fiscal; pequenas propriedades possuem de 1 a 4 módulos; as médias têm entre 4 e 15; e as grandes, mais de 15.

Frei Sérgio Görgen,
ex-deputado estadual (2003-2006) pelo Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul, é frade franciscano e integrante da Via Campesina.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

A Saga Do Novo Coração

Em dezembro de 1967, o cirurgião sul-africano Christiann Barnard ousou realizar o primeiro transplante de coração em um ser humano, na Cidade do Cabo. A intervenção fez história na medicina.

Martina Keller

Sua ousadia poderia transformá-lo em herói da ciência, ou invocar contra ele a indignação dos que, comumente, recriminam os experimentos com seres humanos. Mas em uma noite de dezembro de 1967, o médico sul-africano Christiaan Barnard arriscou realizar um transplante de coração humano – a cirurgia que iria não apenas revolucionar a Medicina, mas também redefinir as fronteiras da morte

Anoite de 2 para 3 de dezembro de 1967 está límpida e estrelada. Sobre a Cidade do Cabo paira o calor do verão. Após a ronda hospitalar do sábado, Christiaan Barnard desfrutou uma tarde tranquila em sua casa à beira do lago Zeekoevlei. Então, à noite, ele recebe um telefonema. Por volta das 21h30min o médico volta às pressas ao Hospital Groote-Schuur.

O cirurgião cardíaco havia esperado semanas por este momento. Aos 45 anos, Barnard só é conhecido em círculos médicos especializados. Mas agora ele se prepara para realizar um transplante de coração humano – cirurgia inédita até ali, embora diversas equipes ao redor do mundo estejam, há anos, treinando para essa operação. Um eventual fracasso pode custar-lhe a carreira. Se, ao contrário, a intervenção for bem-sucedida, o sul-africano fará história na Medicina

O paciente, Louis Washkansky, 54, está sentado, apoiado em travesseiros, sobre a estreita mesa da sala de cirurgia “A”. Trata-se de um comerciante de artefatos coloniais. Mede 1,65 m de altura e pesa 58 quilos. Há sete anos teve seu primeiro infarto; um ano depois, o segundo.
Um terceiro ataque desse tipo – igualmente grave – em 1965 inutilizou-lhe dois terços do ventrículo esquerdo do coração. A esta altura o órgão está tão dilatado que a distância que o separa do lado esquerdo da caixa torácica mede só 2,5 centímetros; para o lado direito ainda há cinco . O músculo é enorme, mas fraco: em condições normais ele teria de bombear 15 litros de sangue por minuto, a fim de fornecer a Washkansky o necessário oxigênio; mas, nesse momento, só consegue mandar 2,36 litros.

Quando Barnard entra na sala, o paciente está à espera. É um homem de natureza estoica: mesmo estando mortalmente doente, se permite, de vez em quando, o prazer de fumar um cigarro; e também lê romances policiais no leito. “Eu disse que não tomaria nenhuma droga para me nocautear, antes que o senhor viesse se despedir de mim” , explica ao cirurgião. Ao que acrescenta, sem fôlego: “Vai me dar meu novo coração agora?”.

Planejar o implante de um novo coração em um condenado à morte, como Washkansky, é mais do que um ato de coragem. Até porque não é só esse órgão do comerciante que está arruinado. Ele sofre também de diabete. Fígado e rins estão comprometidos. A retenção de líquidos fez com que suas pernas inchassem consideravelmente. Sozinho Louis Washkansky nem consegue mais fazer a barba. Mas Barnard não poderia oferecer o novo – e extremamente arriscado – procedimento do transplante a um paciente em condições melhores, pois o resultado é completamente incerto.

Após três infartos, o sul-africano Louis Washkansky, 54, parece cansado, sem esperanças. “Deixem que a natureza siga o seu curso”, diz ele a um médico que o atende. O pedido fica anotado em seu prontuário. Mas não será atendido.

No caminho para a sala de cirurgia, o médico é tomado por dúvidas. Será possível trocar o coração da mesma forma que se faz para substituir uma simples bomba desgastada? Estou suficientemente preparado para essa intervenção, ou estou iniciando um experimento humano de forma leviana? Afinal, seus cães de laboratório não tinham sobrevivido muito tempo com corações transplantados
O coração que servirá ao transplante ainda bate no peito de uma jovem mulher. Ela está na sala de cirurgia “B” do Groote-Schuur – separada por apenas dois pequenos recintos da sala “A”, na qual se encontra o – agora anestesiado – receptor. Denise Darvall, a doadora, tem 24 anos e é esbelta. Cachos de cabelos escuros emolduram-lhe o rosto suave.


O PACIENTE ESTÁ MORTALMENTE

Denise Darvall, 24, é mantida viva artificialmente após um acidente de carro – até que seu coração sadio possa ser transplantado para o peito de Washkansky. E, de fato, lá ele continua batendo vigorosamente.

O corpo, todo pincelado com iodo, está coberto de hematomas; e suas pernas parecem estranhamente deslocadas em cima da mesa. Ela não foi engessada, pois os médicos não a tratam mais como paciente. Seu cérebro fora irremediavelmente machucado à tarde, em um acidente de carro. Denise respira por aparelhos, e seu coração bate forte – 100 vezes por minuto.
O estado geral da doadora, contudo, piora de hora em hora. Após a 1h do domingo, dia 3, os médicos constatam uma febre de 39,8 graus, provocada pela hemorragia cerebral. Doutor Barnard registra o fato com apreensão.

Ele está agora sob extrema pressão. Depois da operação, seu irmão mais novo Marius, integrante da equipe cirúrgica, irá medir-lhe o pulso: 140 batidas por minuto. Antes da cirurgia Barnard caminha inquieto, para lá e para cá, entre as duas salas cirúrgicas. Elas têm pé direito alto e paredes ladrilhadas em tom verde-claro. Para que o plano do cirurgião dê certo, o procedimento entre o receptor e a doadora do órgão tem de ser preciso, bem coordenado. Caso contrário, o coração de Denise Darvall perecerá, por falta de oxigênio, antes de ocupar seu lugar no peito de Washkansky
A operação começa à 1h30min.
Antes que seu coração doente possa ser desligado da circulação, o paciente precisa estar acoplado à máquina artificial coração-pulmão, que permite a circulação extracorpórea. Para conseguir essa conexão, o assistente de Barnard, Rodney Hewitson, 43, faz uma incisão na região da virilha direita do comerciante, e libera a artéria femoral da coxa. Logo ele inserirá uma cânula por aqui, na qual será acoplada a mangueira do aparelho de circulação extracorpórea.

À 1h40 min Hewitson faz uma incisão de pele em linha reta no meio do peito de Washkansky, e serra o osso esterno ao longo dessa linha. Uma nuvem de fumaça se espalha, quando a pequena serra atravessa, chiando, o osso que deve ser seccionado. O segundo assistente abre a caixa torácica com a ajuda de dois afastadores.
Em pouco tempo, o órgão mortalmente doente de Washkansky fica visível pela primeira vez: de cor amarelada por causa da gordura, e com as paredes do enorme ventrículo esquerdo cheias de sangue e cicatrizes. “O senhor já viu uma coisa dessas?”, Barnard pergunta ao assistente. “Acho que não”, responde Hewitson.

Até agora tudo transcorreu sem complicações. Barnard corre até a sala vizinha, para o corpo de Denise Darvall, a fim de supervisionar os preparativos para a retirada de seu coração. Hewitson, enquanto isso, prepara as veias cardíacas do receptor para a acoplagem na máquina coração-pulmão. São 2h32min quando a etapa decisiva começa.
“Pronto, Rodney?”, pergunta Barnard, de volta à sala “A”. O assistente meneia a cabeça . O cirurgião, então, ordena: “Ligar a bomba”. O zumbido da máquina preenche a sala de cirurgia, silenciosa até então. Dene Friedmann, a jovem assistente do equipamento extracorpóreo, repassa dados alarmantes: “Pressão na artéria femoral pouco acima de 200”. O normal seria 100. E a pressão continua subindo: 250, 275, 290, 300.

DOENTE. SÓ UM TRANSPLANTE PODERÁ SALVÁ-LO

O primeiro transplante de coração do mundo não foi fotografado. Mas já na cirurgia seguinte, Barnard (segundo da direita na mesa de operação) permite a entrada de um fotógrafo no centro cirúrgico do Hospital Groote-Schuur.

ANTES DO TRIUNFO, DÉCADAS DE FRACASSOS

Evidentemente, a aorta está estreitada por depósitos. Rapidamente, Barnard ordena o resfriamento do corpo de Washkansky. Com isso ele espera interromper, por alguns minutos, a circulação sanguínea do paciente. O frio retarda a troca de oxigênio, o que impedirá que o organismo do comerciante seja facilmente danificado pela falta de oxigênio.
Agora, a máquina coração-pulmão tem de ser ligada diretamente na artéria aorta do peito aberto. Barnard insere um cateter no vaso sanguíneo, certo de que ainda mantém a situação sob controle. Mas, então, comete um erro fatal .

“Fechem a ligação com pinças”, ele ordena à Peggy Jordaan, chefe das enfermeiras. A moça interrompe o fluxo para a artéria entupida da perna. O problema é que o cirurgião esqueceu de parar, simultaneamente, a máquina coração-pulmão. Ela continua bombeando e, em questão de segundos, a pressão no sistema (agora bloqueado) sobe. Isso faz com que uma mangueira se rompa – o sangue de Washkansky espirra no chão.

“Desligar a bomba imediatamente!”, grita Barnard. O barulho do motor morre. Ninguém fala uma palavra. Barnard sabe que, nesse momento, seu paciente corre perigo mortal. O rasgo na mangueira permitiu a entrada de ar no sistema de circulação extracorpóreo. Se as bolhas (de ar) atingirem o cérebro de Washkansky, ele morrerá antes mesmo de poder receber o coração da jovem ao lado.

Como se chegou ao transplante de um órgão que, desde sempre, foi tido como centro da alma, dos sentimentos e da personalidade?
A história que precede o primeiro transplante de coração humano tem início no começo do século XX. Nessa época, o cirurgião francês Alexis Carrel conseguiu, pela primeira vez, reconectar vasos sanguíneos interrompidos. Tentativas anteriores sempre haviam fracassado devido à formação de coágulos de sangue nas veias, ou porque os vasos ficavam constritos demais devido à sutura.

O paciente está fraco, mas vivo: à beira do leito do recém-operado Louis Washkansky, Barnard explica a colegas cardiologistas como transcorreu a intervenção de várias horas.

A técnica desenvolvida por Carrel não apenas ajudou a evitar amputações – a única terapia possível, até então, no caso de vasos sanguíneos rompidos; ela também criou, pela primeira vez, a condição necessária ao transplante de órgãos inteiros. O próprio Carrel fez o experimento. Ele transplantou o coração de um cão pequeno na área do pescoço de outro maior. O coração bateu durante duas horas em seu novo lugar, antes que pequenos coágulos pusessem fim ao ensaio científico.

Em 1933, médicos da Clínica Mayo, em Rochester, Minnesota, e da Universidade de Georgetown, em Washington, D.C., retomaram as tentativas de transplantes cardíacos. Os corações de coelhos, que eles transferiram através de uma técnica simplificada, bateram por oito dias após a intervenção – até que fibrilações ventriculares e perturbações arrítmicas os levaram ao colapso.

Exames posteriores de tecidos cardíacos revelavam enormes quantidades de glóbulos sanguíneas brancos. Sem conseguir decifrar o fenômeno, os médicos puderam apenas registrar aquilo que se constituiria, à época, o maior problema do transplante de coração: o processo de rejeição pelo próprio corpo do receptor. Nele, uma parte desses glóbulos brancos ataca os tecidos do coração estranho.
Depois dos primeiros experimentos em cães e coelhos, a pesquisa dos transplantes hiberna por vários anos. Há demasiadas questões sem respostas. Como, por exemplo, poderiam os médicos proteger um coração doado dos danos que esse órgão sofre com a falta de oxigênio?

Em 1951, cientistas da Faculdade de Medicina de Chicago, EUA, apresentam uma solução tecnicamente complexa. Em seus experimentos, eles usam três cães: um doador de órgão, um receptor, e um que tem a tarefa de manter em funcionamento, com a própria circulação sanguínea, o coração a ser transplantado. Mas os resultados não são animadores, e os pesquisadores escrevem: “Neste momento, a substituição cardíaca ainda precisa ser considerada um sonho mirabolante”.

Apesar do convencimento que exibem, seus trabalhos se transformam no ponto de partida de experimentos que tornam o inimaginável mais real.
Dois acontecimentos forçam esse progresso – um deles, o surgimento da máquina coração-pulmão de circulação extracorpórea. No início da década de 1950 esse equipamento inaugura uma nova era na cirurgia, ao permitir, pela primeira vez, intervenções no coração aberto. O órgão pode ser temporariamente desconectado da circulação corpórea do doador e imobilizado, enquanto o aparelho bombeia sangue saturado de oxigênio pelas veias do receptor, resfriando-o – uma proteção adicional contra a falta de oxigenação.

Um segundo avanço foi alcançado pelo cirurgião Joseph Murray. Em 1954, ele transplantou o rim de um gêmeo univitelino no corpo de seu irmão. Em consequência desse procedimento, o receptor sobreviveu por nove anos – mais tempo do que qualquer outro paciente antes dele

Um Dos Centros Mais Inovadores na cirurgia cardíaca foi, na década de 1950, a Clínica Universitária de Minnesota, EUA , dirigida pelo cirurgião Owen Wangensteen. A instituição atraía médicos jovens e ambiciosos do mundo todo. E foi no meio deles que apareceu um moço sul-africano chamado Christiaan Barnard, premiado, pelo governo de seu país, com uma bolsa de estudos de dois anos.
Para o rapaz de 33 anos, os Estados Unidos são um mundo novo e desconhecido. Ele crescera em Karoo – região semidesértica a seis horas de carro da Cidade do Cabo. Vinha de uma família de bôeres, financeiramente modesta. Seu pai era pastor protestante. Barnard ganhava algumas moedas capturando ratos, que entregava no Departamento de Saúde Pública de sua cidade. Mais tarde ele recordaria: “A maior motivação para eu me tornar médico foi a de que eu queria ganhar dinheiro para poder ajudar meu pai”.

SER MÉDICO: SONHO REALIZADO A PARTIR DA POBREZA

Christiaan Barnard recebera educação rigorosa. Sua mãe sempre exigiu o máximo de seus quatro filhos homens – eles deviam ser os melhores da escola. Como estudante de Medicina, Barnard teve um desempenho bom, mas que de forma alguma podia ser considerado excepcional. “Ele tinha problemas para falar inglês, que não era sua língua materna”, relembra seu colega de estudos (e, mais tarde, assistente) Rodney Hewitson.
Desde sua fase de jovem médico, Barnard sempre demonstrou uma capacidade incomum de criatividade e perseverança. Para concorrer à bolsa da clínica de Minnesota, ele desenvolveu pesquisa sobre um tipo de distúrbio digestivo congênito. Os pacientes, nesse caso, eram os bebês que nasciam com uma deformação parcial do intestino – a chamada atresia intestinal. Embora a parte afetada pudesse ser extraída, e as extremidades do intestino aceitassem um religamento cirúrgico, 80 % das crianças morriam.

Mediante um esboço de grampos cardíacos e vasos sanguíneos em giz, Barnard explica o seu método cirúrgico a jornalistas na Cidade do Cabo. Ele financiou sua formação como cirurgião cardíaco fazendo plantões noturnos e removendo neve para os vizinhos.

Para descobrir a origem do problema, Barnard abre cadelas prenhes e interrompe o fluxo de sangue para uma parte do intestino dos fetos. Se os filhotes nascerem com atresia intestinal, ficará claro que a causa terá sido falta de irrigação sanguínea. Quarenta e dois experimentos fracassam, mas o 43º fornece a comprovação. Agora, o médico já sabe: quando os cirurgiões religam as extremidades intestinais, eles precisam fazer a incisão com alguns centímetros de distância da região malformada, porque as áreas próximas a esta são também mal irrigadas. No futuro, a nova técnica cirúrgica salvará a vida de muitos recém-nascidos.

Barnard segue cheio de esperanças para Minnesota. Mas ao se apresentar na clínica, em fins de dezembro de 1955, experimenta forte decepção. Impressionado com o trabalho do sul-africano sobre a atresia intestinal, o cirurgião-chefe, Wangensteen, o incumbe de pesquisar defeitos no esôfago – e o condena ao desterro no laboratório de experimentos com animais.

O sul-africano está interessado em algo completamente diferente. Cirurgiões do estado de Minnesota criaram sua própria máquina coração-pulmão, para levar oxigênio ao sangue. Valendo-se de um agente antiespumante, o dispositivo oxigenador desse equipamento elimina as pequenas bolhas de ar que se formam no processo. O aparelho se revela economicamente viável, e, mais tarde, será bastante difundido. Tanto que estará presente, em 1967, na cirurgia de Louis Washkansky.

Três meses escoam antes que Barnard possa, finalmente, auxiliar um dos cirurgiões de Minnesota na operação da máquina de circulação extracorpórea. Depois disso, ele toma a decisão: será cirurgião cardíaco.
Antes, porém, ele precisará remover muita neve para os vizinhos, e fazer frequentes plantões noturnos no hospital – as formas que encontra para reforçar os recursos da bolsa de estudos e prover o sustento da família, que, em certo momento, decide visitá-lo por dez meses. Casado com a ex-enfermeira Louwtjie Louw, Christiaan Barnard tem dois filhos: Deirdre e André.

Ao mesmo tempo, ele trabalhava como louco na clínica universitária. Certo domingo chegou a ser expulso do laboratório. Envolvido com um teste-maratona para o estudo do funcionamento de uma válvula aórtica artificial, ele impedia o trabalho da equipe de limpeza. Ao final de sua permanência de dois anos e meio nos Estados Unidos, o sul-africano havia realizado o que outros, em geral, só conseguiam em seis. Resultado: ele obteve dois títulos acadêmicos e foi aprovado em exames feitos em dois idiomas estrangeiros. Wangensteen o queria em sua equipe, mas Barnard insistiu em voltar para a Cidade do Cabo.

O cirurgião-chefe não deixou o esforçado médico partir de mãos vazias. Conseguiu para ele, junto ao Departamento de Saúde norte-americano, a verba necessária à compra de uma máquina coração-pulmão. O equipamento foi embarcado para a África do Sul de navio. O embasamento técnico para a trajetória de Christiaan Barnard na cirurgia cardíaca estava, agora, assegurado.

Enquanto Isso, diversos cirurgiões norte-americanos trabalham no aperfeiçoamento da técnica de transplantes cardíacos – à frente de todos estão Norman Shumway e Richard Lower, do Centro Hospitalar de Stanford, em Palo Alto, Califórnia. O primeiro fez residência também em Minnesota e, como Barnard, foi aí que decidiu ser cirurgião cardíaco.
A dupla Shumway-Lower começou seus experimentos utilizando os corações de cães. Shumway conserva os órgãos extraídos mergulhando-os em uma gelada solução de sal de cozinha. Ele testa quanto tempo os corações resistem fora do corpo dos animais, e depois os reimplanta nos mesmos cães. Em algum momento ele tem a ideia de transplantar o coração extraído para o organismo de outro cão.

Tecnicamente isso é até mais simples, porque há pedaços mais longos de vasos sanguíneos disponíveis para as suturas. Em dezembro de 1959, quando a dupla consegue, pela primeira vez, implantar um novo coração em um cão , Shumway encerra seu relatório sobre o caso com as seguintes palavras: “Espero que este experimento seja o início de uma história muito frutífera”. A reflexão de um médico não apenas modesto – também decente.

Treinamento para a distante meta do transplante cardíaco nos humanos: em 1959, especialistas russos implantaram uma segunda cabeça nas costas de um cachorro. A horripilante criatura de laboratório até se deixava alimentar.

Barnard não tem inclinação por esse estilo recatado. De volta dos EUA, ele treina colegas do Hospital Groote-Schuur na operação da máquina de circulação extracorpórea, e logo monta uma equipe de cirurgia cardíaca. Ainda em 1958, ele realizara a primeira cirurgia bem-sucedida de coração aberto na África do Sul.
Em 1960, ao ler sobre a iniciativa do cirurgião russo Wladimir Demichow, que implantara uma segunda cabeça em um cão, Barnard corre para o laboratório, pede a ajuda de um talentoso médico assistente, e repete a experiência macabra. Logo em seguida, as duas cabeças caninas – a menor e a maior – tentam beber leite. Ávido de reconhecimento, Barnard fotografa sua criação e envia as fotos aos principais jornais sul-africanos (a televisão praticamente inexiste no país do Apartheid). Sua fama se espalha então, rapidamente, por todo o país.

Entre sua própria equipe Christiaan Barnard tem, contudo, fama bem diferente. Quando opera, ele frequentemente joga os instrumentos colericamente a sua volta. Johan van Heerden, técnico das bombas mecânicas durante o primeiro transplante de coração, lembraria mais tarde que sentia dores de estômago toda vez que era escalado para trabalhar com Barnard.
Como faz consigo mesmo, o cirurgião exige também o máximo dos outros. Quando está na clínica à noite, em vez de se concentrar nos cuidados com os pacientes, ele gosta de entrar inesperadamente na sala dos médicos e checar se o plantonista está dormindo. Mas Christiaan Barnard sabe ser charmoso, principalmente na presença de mulheres jovens. “Para mantê-lo de bom humor, sempre dava um jeito de ter uma enfermeira moça e bonita na sala de cirurgia”, diz a enfermeira-chefe Jordaan.

Nos Estados Unidos, os amigos Shumway e Lower mantêm-se firmes em sua meta de longo prazo: concluir com êxito um transplante cardíaco em humanos. Já em 1960 eles publicam um estudo, no qual estabelecem a técnica de transplantes usada ainda hoje. A teoria recomenda que o coração do receptor seja extraído de maneira a que as paredes posteriores dos átrios frontais permaneçam na cavidade torácica, juntamente com as respectivas veias de conexão. A vantagem disso: somente a artéria aorta e a artéria pulmonar precisarão ser seccionadas e reconectadas – com pontos milimétricos – nos vasos do órgão doado. Dntre os oito cães cujos corações eles transplantaram, alguns chegaram a sobreviver por 21 dias.

Outro cirurgião americano , Adrian Kantrowitz , do Hospital Maimonides, no Brooklyn, Nova York, obtém sucessos impressionantes em experimentos com animais. Entretanto, ele opta por um procedimento ligeiramente diferente do adotado por Shumway e Lower. Para evitar o problema da rejeição Krantowitz recorre a filhotes de cão, na esperança de que o sistema imunológico deles, ainda pouco desenvolvido, não reaja tão violentamente contra o órgão estranho. Em 1962 esse médico faz seu primeiro transplante bem-sucedido, e logo alcança períodos crescentes de sobrevida: 57, 112 e até mais de 200 dias.

No início da década de 1960 os cirurgiães norte-americanos já detêm o conhecimento técnico necessário ao transplante de um coração. O problema continua a ser a imunorreação do receptor. Ela ameaça o sucesso da cirurgia a longo prazo – e a pesquisa nesse campo está apenas engatinhando. Os médicos nem sabem ainda como diagnosticar uma rejeição. Suas primeiras tentativas de tratamento revelam-se, em consequência disso, inúteis.

Em meados dos anos de 1950 os médicos haviam tentado combater a rejeição ao transplante de rins bombardeando o corpo do paciente com radiações de raios X. Então, no início da década seguinte, surge a azatioprina, primeiro imunossupressor relativamente eficaz. Agindo sozinho o medicamento demonstra, contudo, ser ainda fraco para conter todos os efeitos da rejeição.
Novamente são Shumway e Lower que fazem avançar a ciência dos transplantes. Eles são os primeiros a usar uma combinação de azatioprina e cortisona em transplantes cardíacos. Os cães submetidos ao novo tratamento sobrevivem até 250 dias.

Outro Problema continuava, mesmo com as experiências práticas, insolúvel. Ao investigar os transplantes de coração, os cirurgiões se aventuraram em um terreno jurídico e ético desconhecido.
Os danos em um coração dependem, diretamente, da falta de oxigenação. Já se sabe, igualmente, que a qualidade de um transplante será tão boa quanto mais forte o órgão a ser transplantado estiver batendo. Contudo, nos Estados Unidos não está claro se o transplante é legalmente admissível – e até se ele pode, eventualmente, vir a ser julgado como assassinato.

O cardiologista norte-americano Norman Shumway desenvolveu a técnica do transplante de órgãos, e, usando animais, também aprendeu a dominar a reação de rejeição pelo organismo receptor. Mas Barnard foi o primeiro a aplicar esse conhecimento em seres humanos.

A moderna medicina intensiva começou a mexer nos limites entre a vida e a morte. Durante muito tempo, uma pessoa era declarada oficialmente morta quando seu coração e sua respiração paravam. Mas agora é possível reanimar uma pessoa depois de uma parada cardíaca, e fornecer-lhe respiração artificial mesmo que seu cérebro esteja permanentemente danificado. Isso gera um acirrado debate entre especialistas: quando os médicos podem desligar aparelhos, e deixar morrer um paciente definitivamente comatoso?

Muitos cirurgiões querem ir além. Eles exigem redefinir a morte de uma pessoa através do critério da morte cerebral irreversível, ou perda total da consciência humana. Só não ficam claros quais são os parâmetros clínicos que permitem aferir esse estado. Insensibilidade à dor e à luz poderiam atestar de forma inquestionável a morte cerebral? Quanto tempo precisa transcorrer até que o diagnóstico deva ser considerado irreversível?

Apesar de tais incertezas, os cirurgiões começam a transplantar órgão de pessoas com morte cerebral. No caso dos transplantes de rim, eles agora esperam em geral de cinco a dez minutos depois da parada cardiorrespiratória, antes de reanimar o coração com massagens ou medicamentos – com o único objetivo de conseguir extrair rins ainda bem irrigados de sangue.
Mas é permitido declarar uma pessoa morta quando ela ainda pode ser reanimada? E quando isso não é feito, é aceitável que se removam os órgãos de uma pessoa ainda viva? Shumway e seus colegas temem que um transplante de coração possa levar essa controvérsia a um auge.

A instabilidade do terreno no qual se movem os transplantadores fica óbvia na primavera de 1966, quando Adrian Kantrowitz planeja uma monstruosidade: após centenas de experimentos com filhotes de cães, ele quer implantar um novo coração no corpo de um bebê com aguda deficiência cardíaca. Em uma carta, endereçada a 500 clínicas norte-americanas, ele pede aos colegas que lhe enviem “o material do caso que agora necessitamos ”. O doador precisaria ser um recém-nascido com defeito congênito incurável, que só tivesse poucos meses de vida.

Kantrowitz estava pensando em bebês anencéfalos – desprovidos total ou parcialmente do encéfalo (cérebro) –, que normalmente são mantidos em encubadeiras após o nascimento até que o coração pare de bater. Em junho de 1966, o cirurgião consegue que uma criança dessas lhe seja enviada, com a autorização dos pais, desde Portland, no Oregon, até o Brooklyn nova-iorquino – pontos distantes 4.000 quilômetros entre si.
Tudo está preparado para o primeiro transplante cardíaco do mundo, quando na sala de cirurgia surge um conflito: dois cirurgiões da equipe se recusam, terminantemente, a retirar o coração enquanto ele ainda bate. Kantrowitz é obrigado a esperar até que o eletrocardiógrafo acuse linhas zero. Mas quando isso acontece o coração, devido à falta de oxigênio, já não se mostra mais apto a ser empregado em um transplante

FIXAÇÃO PELA VITÓRIA ACIMA DOS DEVERES COM A FAMÍLIA

Enquanto Isso, Barnard consolida a reputação de melhor cirurgião cardíaco da África do Sul. Ele se projeta principalmente através do tratamento de defeitos cardíacos congênitos, e ainda mostra extremo zelo com os cuidados pós-operatórios de seus pacientes. E desenvolve uma nova válvula cardíaca, que irá se revelar de grande utilidade
Ao mesmo tempo, ele direciona sua ambição em outra direção. Sua filha Deirdre é uma talentosa esquiadora aquática, e Barnard começa a treiná-la. A família chega, inclusive, a se mudar para a beira do lago Zeekoevlei, na planície do Cabo, onde Deirdre dispõe das melhores condições de treino possíveis
Todas as noite, independentemente do tempo, Barnard pilota a lancha puxando a filha sobre a lâmina d’água do lago. E com ela passa os fins-de-semana, quase não lhe restando tempo para seu filho André.
Aos 12 anos de idade, a garota se torna campeã sul-africana. Barnard tem, contudo, planos ainda mais ambiciosos para ela: ele quer que Deirdre seja a número 1 do mundo. Em 1965, ela consegue vaga no ranking mundial. Um ano depois, na Austrália, estabelece o recorde mundial em salto de rampa – mas a marca não é reconhecida por motivos formais (políticos). A jovem adolescente começa a sentir falta das diversões de garotas de sua idade. “Ela não tinha a tenacidade visceral necessária a uma campeã mundial. Quando era derrotada, só ria”, escreve Barnard em suas Memórias.

A essa altura, o cirurgião sul-africano está com mais de 40 anos, frustrado e vivendo plenamente uma crise de meia-idade. “Havia chegado o ponto em que eu tinha de parar de usar minha filha como meio de satisfação da minha própria ambição”. Ele, então, encerrou os treinamentos com Deirdre. Sua ambição parte agora em busca de novas metas, e elege o transplante de rim como a primeira delas. Em agosto de 1966, Christiaan Barnard embarca para fazer um curso prático em Richmond, Virgínia, EUA. Aí pretende aprender com o renomado transplantador de rins David Hume a técnica de tratar a imunorreação do organismo humano.

Ser vencedor, mesmo que a um preço alto: Barnard também adota esse princípio na vida pessoal. Ele pressiona sua filha Deirdre a superar marcas no esqui aquático – e, assim, negligencia a convivência com a mulher e o filho.

A viagem de Barnard tem, porém, outro bom motivo: na clínica de Hume, trabalha Richard Lower, o companheiro de Shumway. Certo dia, Barnard tem a chance de observá-lo fazendo um transplante cardíaco no laboratório – e fica fascinado com a simplicidade e a precisão de seus procedimentos.
Daí em diante, o sul-africano aproveita todas as oportunidades para observar Lower e memorizar os mínimos detalhes. Ao fim de seu estágio, Barnard toma a decisão: ele quer transplantar um coração humano.

O astro da Medicina dança com a alta nobreza: em agosto de 1968, Christiaan Barnard é o convidado de honra em uma festa de gala beneficente – e chama a atenção da princesa Grace Patrícia, de Mônaco.

De volta para a Cidade do Cabo, o cirurgião forma uma equipe para transplantes de rins e corações. Ele faz questão de incluir especialistas de todas as áreas. Seu perito em compatibilidade de tecidos percorre, como ele próprio já fez, os principais centros de pesquisa internacionais, em busca de atualização.
Finalmente, em outubro de 1967, chega a hora: Barnard realiza seu primeiro transplante de rim, que também será o único. A paciente viverá durante 20 anos com o novo órgão. Agora, o cirurgião-chefe do Hospital Groote-Schuur está pronto para dar o segundo grande passo.

No laboratório de experiências com animais, ele e seus colegas transplantaram corações em 48 cachorros. Shumway, Lower e Kantrowitz chegaram a operar centenas de caninos nos últimos anos, mas o doutor Barnard acredita que já tem experiência suficiente. Afinal, os corações novos que ele implantou começaram a bater em mais de 90 % dos casos.
Tudo o que ele precisava agora era de um paciente. Então, no início de novembro de 1967, o cardiologista-chefe do Groote-Schuur o chama à sua sala. “Escute, Chris”, acho que temos um paciente apropriado para um transplante de coração.”

Louis Washkansky tem um péssimo prognóstico, e também uma tenaz vontade de viver. Em sua juventude havia sido pugilista amador, mas desde setembro de 1967 ele está internado no Hospital Groote-Schuur. “Durante dois meses ele praticamente morria todo dia”, lembraria Ann, sua mulher.
O clínico geral já tinha contado a Washkansky sobre a possibilidade de um transplante de coração. Assim, quando Barnard lhe falou sobre o assunto, ele apenas respondeu: “De acordo, estou pronto a qualquer hora”.Ann Washkansky estava mais cética. Ela queria saber quais eram as chances de Louis sobreviver, e Barnard, sem hesitar, satisfez-lhe a curiosidade: 80 %, calculou. Foi o início da espera pelo doador adequado.

A VIDA APÓS O SUCESSO: FAMA E MULHERES JOVENS

Nos EUA havia igual expectativa. Apesar da complicada questão da morte cerebral, Shumway declarou a uma revista especializada, no dia 20 de novembro, que era chegada a hora de transplantar um coração humano. E essa chance viria, realmente, em pouco mais de duas semanas, mas para o sul-africano Christiaan Barnard.
Na tarde do dia 2 de dezembro de 1967, Denise Darvall sai de sua residência, em um subúrbio da Cidade do Cabo, acompanhada da mãe, do pai e do irmão, para visitar amigos. Ela estaciona o carro em uma rua movimentada para buscar com a mãe um bolo na confeitaria do outro lado da rua. O semáforo para pedestres está verde quando as duas voltam para o automóvel, mas elas não conseguem ver o carro em alta velocidade atrás de um caminhão que está freando. O veículo de passeio colide em cheio com as duas mulheres, atirando-as para o alto. A mãe morre instantaneamente. Denise bate com a cabeça na calota de um carro e permanece imóvel no chão.

Em poucos minutos, aparece uma ambulância que a leva ao Hospital Groote-Schuur. Cuidadosamente os socorristas empurram a maca pela entrada de emergência na lateral esquerda do hospital – destinada a pacientes brancos.
São 22 horas quando Joseph Ozinsky, anestesista da equipe cardiológica de Barnard, examina Denise pela primeira vez. Como potencial doadora de órgãos, ela está na unidade cardiopulmonar, entubada e respirando com a ajuda de aparelhos. Seu grupo sanguíneo O é compatível com o sangue grupo A do comerciante Washkansky.

Naquela época, na África do Sul, os pacientes eram considerados mortos quando dois médicos declaravam o óbito. Por precaução e para não ficar vulnerável posteriormente, Christiaan Barnard havia estabelecido alguns critérios para comprovar a morte cerebral. Ele combinara com o diretor de Medicina Forense mandar examinar o doador por um neurologista independente. Nessa noite de dezembro, o especialista chamado atesta para Barnard que a jovem mulher realmente havia sofrido gravíssimos ferimentos cerebrais que culminariam em sua morte.

Felicidade fugaz: Barnard, 47, com Barbara Zöllner, de apenas 19 anos, com quem se casou após o divórcio de sua primeira mulher, a enfermeira Louwtjie. O casal iria se separar em 1982. Seis anos depois, Barnard assume um terceiro matrimônio.

A equipe cardiológica, há semanas em permanente estado de prontidão, é convocada. No Groote Schuur, dois médicos se aproximam do pai de Denise, Edward Darvall, que se encontra em estado de choque. Eles o informam sobre a condição de sua filha e, então, fazem a constrangedora pergunta: ele estaria de acordo em doar o coração e os rins de Denise para transplante, e assim salvar outros pacientes? Darvall lembra-se de que a moça sempre gostou de presentear – e concorda.

Às 2h20min o aparelho de respiração artificial da jovem é desligado. A extração do coração é iminente. Mas o que ocorreu em seguida é motivo de discussão até hoje.
De acordo com o relatório oficial da operação, o coração de Darvall para de bater às 02h32min. Só depois disso é que os assistentes de Barnard abrem sua caixa torácica na sala de cirurgia “B”, para preparar a retirada do órgão.

Contudo, quase 40 anos depois, o jornalista britânico Donald McRae é cientificado de outra versão, fornecida por Marius Barnard. De acordo com esse relato, o cirurgião na sala “B”, Terence O’Donovan, insistiu em esperar as linhas zero do eletrocardiógrafo. Marius, entretanto, suplicava a Christiaan que ignorasse a hesitação de O’Donovan. Marius temia que o coração de Denise Darvall pudesse ficar irremediavelmente danificado pela falta de oxigênio. Ele então sugeriu provocar a parada cardíaca da moça acidentada por meio de uma injeção de potássio, método que lhe parecia mais prudente. Barnard concordou. Mais tarde, os dois irmãos decidiram manter a coisa toda em segredo.
A cirurgia, enfim, tem início. Assim que Washkansky está acoplado à máquina coração-pulmão de circulação extracorpórea, a fase decisiva do transplante pode começar.

“Quem Cometeu Este Erro Estúpido?”, grita Barnard, quando uma mangueira da máquina arrebenta e o sangue de Washkansky jorra para fora. “Mas o senhor disse pressionar”, defende-se a enfermeira-chefe Peggy Jordaan. Barnard retruca: “Eu nunca disse isso”. O cirurgião sabe que está errado, mas em momentos como esse ele só dá ordens. Na verdade, ele logo recupera seu autocontrole e reage com sangue frio.
Primeiro, o cirurgião separa a máquina coração-pulmão do corpo de Wash-kansky, para evitar que pequenas bolhas de oxigênio cheguem a seu cérebro. Em seguida, ele reconecta as extremidades da mangueira danificada, a fim de que as bolhas possam ser eliminadas da máquina pelo agente antiespumante. Segundos depois, Washkansky está novamente ligado à máquina de circulação extracorpórea; dessa vez, diretamente através da artéria aorta.

“Ligar a bomba”, ordena Barnard. A crise durou três minutos. Mas agora o corpo de Washkansky está sendo alimentado pela máquina com sangue vermelho, rico em oxigênio. Hewitson pode começar a liberar o órgão doente do corpo do homem. É hora de ir buscar o coração da doadora.
Depois da parada cardíaca de Denise, provocada pela injeção de potássio, os cirurgiões na sala “B” reanimaram seu coração e o acoplaram a uma segunda máquina coração-pulmão. Foi o próprio Christiaan Barnard quem extraiu o pequeno e rosado órgão de seu corpo.

Como sempre, quando pega um bisturi, sua mão treme – Barnard sofre de artrite. Mas ao contrário das outras vezes, sua mão continua tremendo enquanto ele começa a cortar. Finalmente o órgão a ser transplantado é posto em uma bacia redonda, cheia de uma solução gelada. Barnard a carrega cuidadosamente pelos 31 passos que o separam da sala de cirurgia “A”. São 3h:01min.
Imediatamente o coração é acoplado, através de uma bomba separada, à máquina de circulação extracorpórea de Washkansky. Quando Barnard extrai o coração velho, abre-se uma enorme cavidade vazia no peito de Washkansky. Hewitson coloca nela o pequeno coração de Denise Darvall. Será que ele voltará a bater?

Barnard começa a suturar. As duas aberturas do coração doado são ligadas aos dois terminais restantes dos átrios dianteiros de Washkansky; primeiro o esquerdo, depois o direito. Em seguida, Barnard e Hewitson reconectam a artéria pulmonar e a aorta. Às 5h19min começa o reaquecimento do paciente, resfriado a uma temperatura de aproximadamente 23 graus centígrados.
Às 5h34min termina a última sutura. O grande momento se aproxima. Às 5h52min Barnard encosta os eletrodos do desfibrilador, que emitirá descargas elétricas no coração, para fazê-lo bater novamente. “Vamos, choque!”

Por um momento, depois da primeira descarga elétrica, o coração continua imóvel, como paralisado, sem sinal de vida. De repente, os átrios se contraem, depois os ventrículos, depois novamente os átrios, e depois os ventrículos. Mas o corpo de Washkansky ainda está conectado à máquina de circulação extracorpórea.
Quando Barnard manda desligá-la pela primeira vez, a pressão cai e o coração trabalha com dificuldade sob o estresse. “Ligar bomba de novo!”, ordena Barnard. Só na terceira tentativa o novo coração bate estável e forte. São 06h13min.

Barnard vira-se para seu assistente de bomba e diz em africânder: “Jesus, Johan, ele bate!”.
Barnard retira o último cateter e estende a mão a seu assistente Hewitson por cima da cavidade peitoral aberta. “Conseguimos, Rodney.”
Louis Washkansky vive 18 dias com seu novo coração. Então morre de pneumonia, que Barnard tratou erroneamente como imunorreação de seu organismo.

Mesmo assim, os meios de comunicação comemoram o primeiro transplante cardíaco como um sucesso. E no meio cirúrgico ela provoca mundialmente ondas de imitação.
Apenas três dias depois da façanha pioneira de Barnard, Adrian Kantrowitz transplanta, no Brooklyn, em Nova York, o segundo coração da história da Medicina no corpo de um recém-nascido. Ao todo, são transplantados mais de 100 corações em 1968. Porém, os resultados são tão esmagadores – só poucos pacientes sobrevivem mais de seis meses – que no início da década de 1970 a maioria dos centros especializados desiste dos transplantes de coração.

QUANDO A OUSADIA VIRA PROCEDIMENTO PADRÃO

Somente após a introdução do imunossupressor ciclosporina A, no início dos anos 1980, o transplante de coração torna-se cirurgia de rotina. O medicamento não bloqueia todo o sistema imunológico, mas apenas aquela parte que provoca a rejeição. Hoje, os pacientes vivem, em média, dez anos com um coração novo. Desde 1967, mais de 80.000 foram transplantados em todo o mundo.
Para a compreensão do conceito de morte na Medicina moderna, o primeiro transplante de coração teve consequências radicais: ele forçou a opinião pública a debater a questão do fim da vida. Já em 1968, uma comissão da Escola de Medicina da Universidade Harvard declarou que um cérebro inoperante é um sinal seguro da morte, e estabeleceu alguns critérios diagnósticos. Atualmente, o conceito de morte cerebral está consolidado na maioria dos países do mundo ocidental. Na Alemanha ele é vinculado diretamente à lei dos transplantes, desde 1997.

Depois de 1967, Christiaan Barnard levou uma vida de estrela e playboy.Ele viajou pelo mundo como palestrante, flertou com mulheres jovens e belas e negligenciou seu trabalho no hospital na Cidade do Cabo. Apesar disso, em seus poucos transplantes subsequentes obteve bons resultados. Seu segundo paciente, Philip Blaiberg, conseguiu sobreviver um ano e meio com um coração novo.
Em 1969, Barnard se divorciou da mulher Louwtjie. Ele casaria mais duas vezes, sempre com mulheres mais jovens do que sua filha Deirdre. No final de 1983 é obrigado a parar de operar devido a problemas reumáticos.

Barnard morreu de ataque asmático no dia 2 de setembro de 2001, aos 78 anos de idade. Norman Shumway, que aos cardiologistas inspirava muito mais confiança do que Barnard, transplantou, em 6 de janeiro de 1968, o quarto coração da história. Seu centro médico foi um dos poucos no mundo que continuou a desenvolver o procedimento cirúrgico dedicado a esse tipo de intervenção cirúrgica.
Shumway descobriu um método de diagnosticar a imunorreação, e sua equipe foi a primeira a ousar um retransplante – caso em que o paciente recebe um segundo coração após uma primeira rejeição. Shumway foi também o primeiro a retirar corações em outros hospitais e mandar transportá-los para receptores em outros locais.

Desde o início, Shumway deixou claro que não simpatizava com Barnard. Nas palestras sobre transplantes cardíacos, ele costumava comparar os slides que mostravam os mais recentes progressos de sua equipe de Stanford com as imagens das últimas conquistas femininas de Barnard
Quando o seu grande antagonista morreu, em 2001, Shumway exibiu dignidade suficiente para ressaltar o fato de Barnard ter insistido no aproveitamento de vítimas de acidentes com morte cerebral para fins de transplante. Ele nunca quis comentar a cirurgia da madrugada do domingo, 3 de dezembro de 1967.

Somente no fim da vida Shumway falou, em tom conciliador, sobre o golpe que recebera do sul-africano, que se antecipara a ele na realização do primeiro transplante de um coração em humanos: “Talvez tenha sido sorte que não fomos os primeiros. Tivemos aborrecimentos suficientes com a imprensa por causa de todo o alarde”.

A colaboradora de GEO Martina Keller escreve há muitos anos sobre transplantes de órgãos. Em sua opinião, é especialmente notável como as necessidades da medicina dos transplantes contribuíram para redefinir o momento da morte do ser humano. Dois integrantes da lendária equipe cirúrgica de 1967 contaram a Keller, em primeira mão, suas experiências na África do Sul. A assistente da bomba da máquina de circulação extracorpórea Dene Friedmann (segunda da direita, na frente, na foto em grupo) e o cirurgião Rodney Hewitson (à direita, atrás dela), autor da incisão inicial na operação de Wash-kansky.

Fonte: Revista GEOUol – http://revistageo.uol.com.br/

Uma espiral de violência ameaça incendiar o sul do Sudão

Jean-Philippe Rémy
Em Johannesburgo (África do Sul)

Longe dos olhos, longe de Darfur, uma espiral de violência ameaça tomar o sul do Sudão e reacender a guerra civil sudanesa, interrompida com muito custo em 2005. Vários dias foram necessários para que circulassem informações confiáveis sobre o massacre ocorrido em Jonglei (um dos dez Estados da região semi-autônoma do Sul), o último de uma longa lista que começou no início do ano.

Nasser Nasser/AP

Sudanês exibe crânios humanos em Mukjar, no Sudão. Violência tem aumentado no sul do país

Na segunda-feira (31), esses detalhes diziam respeito a um ataque ocorrido na região isolada de Twic, onde homens armados do grupo étnico dos Dinka Bor atacaram, na sexta-feira, um vilarejo habitado por um grupo rival, os Lou Nuer. O objetivo era roubar gado, utilizando a força sem restrição. A ofensiva fez 46 mortos. Os agressores, segundo testemunhos recolhidos pela ONU, estavam equipados de uniformes e armamentos novos.
Em fevereiro, um ciclo de ataques sangrentos e de vendetas começou da mesma forma, perto da fronteira etíope. Em um mês, mais de 700 pessoas foram mortas. Nesse caso, eram grupos rivais que se enfrentavam, os Murle e os Lou Nuer. Não era a diferença étnica que motivava a escalada da violência, mas conflitos relacionados ao gado, à água e aos direitos de pastagem.
Além disso, começou a brotar a suspeita de que esses ataques pudessem estar sendo instrumentalizados, uma vez que outros confrontos se iniciavam em outras zonas do Sul, como em Malakal. "Alguns desses combates étnicos são comuns, mas eles nunca foram tão mortíferos assim, e conduzidos com armas modernas", ressaltava Salva Kiir, o presidente do governo semi-autônomo do sul do Sudão. "As mulheres e as crianças, que sempre foram poupados em combates tribais, agora estão sendo mortos", ele acrescentou com consternação.
Outros dirigentes do Sul mencionaram, mais diretamente, a possibilidade de que certos chefes de guerra sulistas, dos quais alguns combateram do lado do Norte durante a segunda guerra civil (1983-2005), estariam tentando mergulhar o Sul no caos para retardar, ou evitar, a realização em 2011 de um referendo que oferecerá aos sulistas a possibilidade de se separar de Cartum, e de conservar para si os recursos petrolíferos da região.

A acusação não foi acompanhada de provas. No seio do poder, em Cartum, nega-se veementemente. E os ataques continuam. Ainda em Jonglei, um ataque a Akobo, dia 4 de agosto, fez 185 mortos, entre os quais 12 soldados do exército sulista. A maioria das vítimas era de mulheres e crianças. Desde o início do ano, a ONU avalia que esses ataques fizeram 2 mil mortos e provocaram o deslocamento de 250 mil pessoas, enquanto o ciclo de represálias saiu de controle. Um número corroborado pelo major-general Gier Chuang Aluong, o ministro do Interior do governo do sul do Sudão, que no final de agosto fez o balanço das violências: 1.863 pessoas mortas, 341 feridas e, detalhe que passou desapercebido até agora, 604 crianças sequestradas.
A segunda guerra civil entre o Sul e o Norte durou 22 anos e fez cerca de 2 milhões de vítimas antes de terminar, em janeiro de 2005, pela assinatura de um acordo de paz completo (CPA). No último período das negociações estourou outro conflito em Darfur (oeste do Sudão), que logo eclipsaria as questões cruciais das relações entre Norte e Sul.
Desde então, o Sul é administrado por seu próprio governo e construiu seu próprio exército sobre as bases da antiga rebelião, uma vez que Cartum também parece se preparar para a eventualidade de uma retomada da guerra. O acordo de paz prevê a realização de eleições gerais, que deverão acontecer em abril de 2010, e depois um referendo de autodeterminação, no início de 2011, que possibilitará aos habitantes do Sul que continuem atrelados à parte norte do país, ou que façam a secessão.
Por enquanto, o surto de violência ressalta a dificuldade das autoridades do sul do Sudão em impor sua autoridade. A organização Human Rights Watch estabeleceu que Akobo só tinha 90 policiais para uma região tão extensa quanto a Suíça e a Áustria juntas.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

EUA: com os pés na Colômbia e os olhos no Brasil

Os EUA querem manter um papel protagonista no mundo e, para tanto, tentam expulsar a China da África e impedir uma aliança entre Rússia e Europa Ocidental. Essas duas grandes estratégias estão fracassando, daí a necessidade de garantir que a América Latina seja sua zona de influência exclusiva. A presença militar na Colômbia é um passo nesta direção, mas o verdadeiro alvo de Washington na região é o Brasil, país com maior poder relativo da região. A análise é dos cientistas políticos argentinos Marcelo Gullo e Carlos Alberto Pereyra Mele.

Agencia Periodística del Mercosur

Nos centros de planejamento do traçado estratégico dos Estados Unidos sabe-se que passou o tempo da potência única e global. Para enfrentar a União Européia, China e Rússia, Washington quer assegurar o controle da América Latina. Para isso precisa “acabar” com o Brasil. As possibilidades de resistência na região, o papel da Unasul e outras iniciativas de integração – esses pontos foram de uma entrevista exclusiva à Agencia Periodística del Mercosul, concedida pelos cientistas políticos especialistas e geopolítica, Marcelo Gullo (autor dos livros “Argentina-Brasil: a grande oportunidade” e “A insubordinação fundadora. Breve história da construção do poder das nações”) e Carlos Alberto Pereyra Mele, do Centro de Estudos Estratégicos Sulamericanos.
Para Gullo, o interesse geopolítico dos Estados Unidos consiste em atrasar o processo de passagem da condição de potência global para a de uma potência regional. A crise que atingiu o país, acrescenta, não é conjuntural, mas sim estrutural, porque, pela primeira vez desde 1970, ocorreu uma dissociação entre os interesses da alta burguesia norte-americana e os do Estado. A partir da década de 80, as indústrias estadunidenses, buscando pagar salários mais baixos, foram para a Ásia para produzir para o mercado interno norte-americano, alimentando assim um processo de desindustrialização dentro do próprio território. “Isso gerou um enorme processo de desemprego. Esse seria o eixo conceitual da crise financeira global, deixando os EUA desindustrializado, sem empregos suficientes e com 40 milhões de pobres”, diz Gullo.
E acrescenta: “Os EUA querem manter um papel protagonista e, para tanto, tentam expulsar a China da África e impedir a aliança entre Rússia e Europa Ocidental. Essas duas grandes estratégias estão fracassando, daí a necessidade de colocar um pé na Colômbia, um passo para que a América Latina seja sua zona de influência exclusiva”.
Os EUA, lembra, só produzem 15% da energia que consome e a América Latina provê 25% de suas necessidades em matéria de recursos. Pereyra Mele assinala que “a Colômbia é um país bioceânico, é vizinho do país (Venezuela) que vende 15% do petróleo consumido pelos EUA e também do Equador, outro país petroleiro. Desde as bases navais de Málaga e Cartagena de Índias, Washington tem rápido acesso ao maior ponto de comunicação comercial do mundo, o canal do Panamá”. Na mesma direção, Gullo observa que a importância geopolítica da Colômbia para os EUA se expressa tanto no plano tático como no estratégico.
Do ponto de vista tático, ele assinala: “o complexo militar necessita criar focos bélicos para justificar a produção e renovação de material bélico. Sem tal esquema, esse aparato não tem como justificar sua existência”. E do ponto de vista estratégico, “o objetivo é conseguir a capitulação do poder nacional brasileiro; para isso, procura traçar um cerco em volta do Brasil, começando na Colômbia e com a idéia de continuar pela Bolívia e pelo Paraguai”.
Nesse marco, a América Latina é obrigar a reforçar seus acordos regionais, como Unasul, Comunidade Andina de Nações e Mercosul, para evitar fraturas e controlar as turbulências domésticas (como o golpe de Estado em Honduras), que possibilitem a expansão das forças armadas dos EUA na região. Para Pereyra Mele, “a solução ao problema colocado pela ofensiva estadunidense sobre a América do Sul passa pela defesa irrestrita das áreas por onde fluem e se conectam os três sistemas hidrográficos mais importantes: o Orinoco, a Amazônia e o Prata”.
“Para isso devem ser desenvolvidas políticas internacionais coerentes, levando em conta as limitações colocadas pela potência hegemônica. É muito importante aprofundar o Mercosul, aumentar a presença da Unasul e dos organismos de defesa regionais. É necessária a criação de um complexo industrial militar argentino-brasileiro para melhorar nossa capacidade de defesa, sem dependência externa, incorporando outros países”, conclui Pereyra Mele.
Para Marcelo Gullo, a América a conforma uma comunidade cultural única. “Lamentavelmente, do ponto de vista político, a região está dividida em duas. De um lado México, América Central e o Caribe, zona de influência exclusiva dos EUA, e de outro a América do Sul”.
A respeito dessa última reflexão, talvez pudesse se acrescentar que o ódio sistemático dos poderes estadunidenses à Revolução Cubana pode ser explicado pelo fato de esta ter sido a única experiência concreta de freio à hegemonia de Washington sobre as regiões Norte, Central e Caribenha da América Latina. Diante disso, conclui Gullo, “a responsabilidade principal é do Brasil, por ser o país com maior poder relativo da região. O problema é que a classe dirigente brasileira não compreende adequadamente que, para resistir à agressão dos EUA, precisa de sócios fortes e não fracos. Devem compreender que o importante não é sua industrialização isolada, mas sim a industrialização de toda a América do Sul”.
As mudanças de política militares que Barack Obama prometeu em sua campanha presidencial até agora não apareceram. A menos que alguém queira que o caráter identitário passa exclusivamente pela pigmentação da pele, nem que sequer podemos dizer que um afroamericano chegou à presidência. Para além do discurso, Obama solicitou ao Congresso dos EUA a aprovação de 83,4 bilhões de dólares em fundos extras para financiar as aventuras bélicas no Iraque e no Afeganistão, avança com a instalação de novas bases militares na Colômbia e manteve uma posição mais do que ambígua em relação ao golpe de Estado em Honduras.
O orçamento do Pentágono é 50 vezes superior ao total de gastos militares do conjunto de países do sistema internacional. Além disso, realiza os maiores investimentos, em nível mundial, em pesquisas militares e espaciais. Essa disponibilidade de recursos permite aos EUA agir de forma simultânea com ingerências bélicas em diferentes áreas do planeta.
Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Biodiversidade sem fronteiras

Simulação em computador indica que espécies podem se formar sem isolamento geográfico.

Maria Guimarães 

Novas espécies de seres vivos podem surgir sem que a seleção natural favoreça os mais aptos e sem que barreiras geográficas isolem populações. Pelo menos no mundo virtual da simulação desenvolvida pelo físico Marcus de Aguiar, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), descrita em um artigo na edição de 16 de julho da Nature.
Especialista em teoria do caos, Aguiar é professor do Departamento de Física da Matéria Condensada, onde se estudam assuntos como cristalografia, propriedades de materiais e fenômenos ópticos. Nesse cenário é surpreendente encontrar em cima da mesa de um pesquisador o livro Why evolution is true, em que o evolucionista norte-americano Jerry Coyne brinda não especialistas com uma defesa detalhada de sua área de estudo. O interesse do físico da Unicamp nasceu de um encontro fortuito no Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra (Necsi, em inglês), nos Estados Unidos, quando o físico Yaneer Bar-Yam lhe apresentou um problema simples de aplicação de modelos teóricos a sistemas biológicos.
No início foi como resolver um quebra-cabeça num momento de lazer, mas de volta a Campinas Aguiar continuou a estudar e a pensar em evolução e propôs a seus colegas norte-americanos um teste da teoria neutra, segundo a qual a diversidade de espécies resulta de processos aleatórios que agem sobre populações semelhantes. Foi o que fez, como parte de um projeto temático financiado pela FAPESP: em colaboração com pesquisadores do Necsi e com ajuda de sua doutoranda Elizabeth Baptestini, escreveu um programa de computador que simula a evolução de uma população virtual ao longo de centenas de gerações.
O enfoque permite fazer experimentos virtuais para testar diferentes parâmetros em busca das variáveis mais importantes para gerar diversidade biológica. Nesses experimentos, os pesquisadores podem variar a distância máxima que um organismo pode percorrer em busca de um parceiro e a extensão de divergência genética que torna um par incompatível. Testaram também a importância da capacidade de migração, ou distância que cada indivíduo percorre para estabelecer residência, da taxa de mutação e da probabilidade de cada indivíduo se reproduzir. Este último parâmetro foi incluído por sugestão de Les Kaufman, o único biólogo entre os autores do artigo. “Ele disse que não era realista que todos os integrantes da população tivessem a mesma taxa reprodutiva”, lembra Aguiar. “No nosso modelo, é possível que um organismo nunca se reproduza e outro tenha vários filhotes.”

A simulação parte de alguns milhares de indivíduos geneticamente idênticos, cujo DNA é uma série de 125 algarismos – cada um deles representa um gene e pode ter o valor de zero ou um. Cada organismo aparece como um ponto colorido que escolhe aleatoriamente um par reprodutivo dentro de limites determinados pela distância que os separa e pela semelhança genética entre eles. Os parâmetros do programa determinam também as taxas de mutação e de migração, além da chance de cada integrante da população se reproduzir. O resultado é uma diversidade genética que, passadas cerca de 300 gerações, origina espécies diferentes. “Mostramos que a especiação acontece facilmente e não depende de isolamento entre populações”, conta o físico da Unicamp.

O modelo indica que novas espécies podem surgir sem barreiras que impeçam a movimentação dos organismos, contrariando a teoria adotada pela maior parte dos evolucionistas. Aguiar demonstrou que os limites máximos da distância entre parceiros e das diferenças genéticas entre eles são essenciais para a especiação. “Só um desses parâmetros não cria diversidade suficiente”, conta. Ele viu nas simulações um padrão de distribuição e abundância de espécies semelhante ao que prevê a teoria neutra, proposta em 2001 pelo ecólogo norte-americano Stephen Hubbell: como se fosse um sorteio, o acaso facilmente dá cabo de populações pequenas e leva espécies nascentes à extinção. Mas como novas espécies surgem o tempo todo, depois de cerca de 700 gerações os pesquisadores viram surgir um equilíbrio dinâmico, onde extinções eram compensadas por especiações e o número de espécies ficava mais ou menos constante.
Por enquanto, Aguiar sugere acrescentar mais um modo de especiação à lista teórica que já inclui especiação simpátrica, quando o espaço não interfere no processo; alopátrica, quando as populações estão isoladas; e parapátrica, quando espécies surgem em regiões adjacentes. “Inventei o termo ‘especiação topopátrica’”, diz Aguiar, “porque a distância entre os indivíduos é essencial” (em grego,topos significa lugar). Curioso para saber como será recebido pelos biólogos, o físico já venceu o primeiro obstáculo: durante o processo de revisão na Nature, o trabalho foi analisado por três biólogos, que aceitaram o artigo para publicação depois de feitos alguns ajustes.

Do virtual ao real - A novidade do trabalho, que garantiu a aprovação, foi fazer uma ponte entre a teoria e o que acontece na natureza. “Só a simulação não seria suficiente para publicação na Nature”, explica o físico. Ele foi além da simulação e comparou os resultados virtuais a dados reais de distribuição e abundância de espécies que outros pesquisadores observaram na natureza – em árvores no Panamá e aves no Reino Unido. Os gráficos mostram relações muito semelhantes entre o número de espécies no espaço, mesmo com a diferença óbvia na capacidade de migração entre árvores e aves. Os autores explicam: embora sejam migratórias, as aves voltam ao lugar em que nasceram para se reproduzir. A distribuição do número de integrantes em cada espécie é semelhante quando se comparam os dados empíricos e os simulados: espécies com população de tamanho médio são mais comuns.

O modelo de Aguiar surpreende  por reproduzir padrões de especiação observados na natureza embora numa representação simplificada. Todos os integrantes da população têm a mesma longevidade e o ambiente não tem áreas mais favoráveis do que as outras, por isso a probabilidade de se reproduzir não depende do genoma do organismo ou de onde ele está uma realidade diferente da observada pelos biólogos.

“Não existe organismo que não seja limitado pelo seu contexto ecológico”, afirma o evolucionista João Alexandrino, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. Mesmo que uma rã seja abundante numa floresta, ela precisa de água para viver e se reproduzir e não vive em zonas secas ou no alto das árvores, por exemplo. Além disso, ele argumenta que, apesar do ambiente virtual da simulação ter sido construído sem marcos geográficos como rios ou montanhas, há barreiras embutidas nos organismos: a capacidade de migração muito baixa dos pontos coloridos acaba formando populações isoladas.
Os pontos de vista da física teórica e da ecologia divergem, mas o encontro de ideias acaba por destacar como o modelo de computador pode contribuir para o estudo da evolução. A coincidência entre os resultados obtidos pela simulação e alguns dados empíricos parece revelar algo real e pode servir como ponto de partida para uma reflexão sobre o que determina a diversidade de espécies. “Talvez o surgimento do padrão de diversidade de espécies observado por Aguiar seja uma propriedade inerente a sistemas biológicos”, especula Alexandrino. “A limitação de espaço restringe o número de espécies muito abundantes, mas a especiação constante produz um grande número de espécies muito raras”, reflete, transferindo para o nível das espécies um processo já conhecido para genes. Parece que se físicos, ecólogos e evolucionistas pensarem juntos podem sair daí novas compreensões sobre possíveis origens de espécies.

Artigo científico

DE AGUIAR, M. A. M. et al. Global patterns of speciation and diversity. Nature. v. 460, n. 7.253, p. 384-387. 16 jul. 2009.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

‘Lula não fez reforma agrária’

RODRIGO MENDES
VALÉRIA NADER

No dia 20 de agosto último, o trabalhador sem terra e membro do MST Elton Brum da Silva, de 44 anos e pai de dois filhos, foi assassinado pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul, em uma ação de despejo na Fazenda Southall, em São Gabriel, RS. Testemunhas e a posterior divulgação de fotos do corpo de Elton comprovam que ele foi vítima de diversos disparos de calibre 12, todos pelas costas.

A ação da PM gaúcha resultou ainda em diversos homens, mulheres e crianças feridos, vítimas de estilhaços, golpes de espada e mordidas de cachorros. Para o MST, o uso de armas de fogo e de tal grau de truculência demonstra que há, por parte do Estado, uma política de criminalização dos movimentos sociais.

Essa forma de tratamento aos movimentos "não é uma exceção, e sim a regra", segundo nota do MST divulgada no dia seguinte à morte de Elton. Na mesma nota, o movimento condena o Poder Judiciário, por ter barrado a emissão de posse da Fazenda Antoniasi, onde o trabalhador rural Elton Brum seria assentado. Ou seja, pelos trâmites legais, Elton poderia estar trabalhando e produzindo.

Mas esse assassinato é apenas o capítulo mais recente de uma longa história de violência e marginalização sofrida pelos movimentos sociais. O mesmo MST teve outro membro assassinado no Paraná, por seguranças contratados pela transnacional Syngenta. O coronel Mario Pantoja, comandante na ocasião do massacre de Eldorado do Carajás, apesar de condenado a 228 anos de prisão, ainda responde ao processo em liberdade, mais de 13 anos depois do acontecido.

O assassinato de Elton faz parte ainda de um contexto em que a reforma agrária foi abandonada pelo governo Lula, conforme relatou em entrevista ao Correio da Cidadania a coordenadora nacional do MST Marina dos Santos.

Correio da Cidadania: Como o assassinato do trabalhador Elton Brum cai sobre o movimento no atual contexto das lutas?

Marina dos Santos: Para nós é uma situação muito difícil, os latifundiários, a polícia e o governo do Rio Grande de Sul estão usando métodos muito truculentos, em especial o Estado, para massacrar a população pobre do campo. Há uso de tortura, de cães, bala, até choque elétrico. Até espadas, de cima dos cavalos, os soldados usaram. Nesse momento, no Rio Grande do Sul, há uma criminalização muito grande dos movimentos sociais.

CC: A reforma agrária é uma prioridade do governo Lula? Anos se passaram sem a atualização dos índices de produtividade da terra (agora, finalmente, minimamente modificados), ainda há pouco se assinou a MP 458, batizada de "MP da Grilagem" etc. etc. Não tem ficado cada dia mais claro que há uma postura evidente de comprometimento com o agronegócio?

MS: Temos clareza de que a reforma agrária, no governo Lula, ficou para trás atropelada pelo agronegócio, e nós percebemos isso por uma série de coisas, começando pelo avanço nos últimos anos das transnacionais no país. Elas não se apropriam só da terra, tomam conta de toda a linha de produção do campo, da terra, mas também das sementes, da água, toda a cadeia produtiva do campo. Sem contar os investimentos que essas empresas e os fazendeiros mais atrasados, do latifúndio, têm recebido do governo federal, através do BNDES e de vários programas nos últimos anos. O agronegócio produz 120 bilhões de reais, mas o governo injeta 97 bilhões para isso, em especial pelo BNDES. Então, o que o agronegócio produz para a sociedade?

Além disso, o agronegócio usa agrotóxicos, venenos e ainda faz propaganda disso, como se fosse algo bom. Hoje o Brasil é campeão de consumo de veneno no mundo, essa indústria movimenta 7 bilhões de reais por ano. Não há preocupação ambiental, com as derrubadas das florestas, com a apropriação da biodiversidade, e isso tudo durante o governo Lula.

Há também os transgênicos, estão trabalhando pra empurrá-los. E é uma política patrocinada pelo governo. Então, não há espaço para a reforma agrária.

Lula tem falado que fez a maior reforma agrária, mas o que ele fez foi regulamentação fundiária – que tem que ser feita também, mas não se trata de reforma agrária, porque não descentraliza a terra, não mexe na estrutura fundiária. Essa política de reforma agrária é só para evitar os conflitos. O governo federal quer fazer reforma agrária sem conflito, mas isso não existe, uma política de reforma agrária no Brasil, país que mais concentra terra no mundo, tem que ter ofensiva, tem que ter disputa pela terra. Isso que o governo faz é política paliativa, assistencialista, que não destrói o latifúndio, não democratiza, não descentraliza.

CC: Os dirigentes e militantes do movimento sempre afirmam a sua autonomia frente aos governos, o que tem ficado evidente ao longo de sua atuação. Mas não acredita que, no atual momento, o movimento deva aprofundar seu enfrentamento com o atual governo em vista da postura que ele vem mantendo relativamente ao MST e à reforma agrária?

MS: O MST sempre adotou a linha da autonomia, é um movimento social de caráter político, social, organizativo e até sindical. Durante o governo Lula, nós continuamos desempenhando nosso papel, hoje são quase 15 milhões de sem terra no Brasil. Então, além de organizar as famílias, de fazer a ação reivindicativa, o MST nunca fez tanta luta quanto nos últimos anos, pressionamos governos estaduais e federal, ocupamos o ministério da Fazenda. Nós trabalhamos na perspectiva da luta, da reivindicação e da negociação com o Estado. Então, achamos que temos que continuar com essa linha, pois, independente do governo, seja de esquerda, de centro, de direita, o capital é que determina a ação.

CC: Que balanço o movimento faz das jornadas recém empreendidas nos estados? Qual é a efetividade das ocupações nos dias de hoje, quando se sabe que os latifúndios têm por trás de si exatamente o grande capital, como a Cargil, suscitando a necessidade de crítica e mudança do próprio modelo econômico, que privilegia o agronegócio?

MS: O nosso balanço é positivo, por diversos aspectos. Seja pelos internos, por conta do avanço da organização, seja por termos conseguido pautar o governo, com uma pauta antiga nossa, com três pontos. O primeiro é a atualização dos índices de produtividade de terra, que era um compromisso do governo e nunca havia sido cumprido. O segundo é a liberação dos quase 50% de recursos contingenciados no INCRA, para suplementar 90 mil famílias acampadas no país. E o terceiro é o desenvolvimento dos assentamentos, pois havia um compromisso do governo de qualificar os assentamentos, mas, hoje, 40 mil famílias assentadas ainda vivem em condições de acampadas, não receberam linhas de crédito, nenhuma infra-estrutura.

O governo se comprometeu a descontingenciar o orçamento, o que vai dar para assentar 15 mil famílias. Quanto à mudança dos índices de produtividade da terra, houve uma ação raivosa dos latifundiários e ruralistas [a questão ainda não havia sido definida no fechamento desta matéria], e o governo assumiu o compromisso de construir 280 escolas nos assentamentos. No geral, a jornada foi positiva, teve conquistas, por isso é que é necessário ter organização, mobilização e pressão.

CC: Acredita que, por se sentir segura com a política para o campo, a elite rural tem aumentado sua violência?

MS: Mais do que isso, os ruralistas têm tomado atitudes imorais, não têm agido só de maneira violenta, têm avançado muito nessa política de destruição ambiental, com a MP 458. Pelos dados do ministério do Trabalho, 2008 foi o ano no qual mais se encontrou trabalho escravo no Brasil, o que é uma vergonha. Com crise internacional e aqui os proprietários de terra têm todo esse poder e uma ação que é destrutiva pro conjunto da sociedade, não só para os trabalhadores. Eles [os ruralistas] se sentem mesmo muito à vontade.

Por exemplo, vemos nos dados da CPT [Comissão Pastoral da Terra] que os conflitos têm aumentado, a pobreza no campo tem aumentado, e não há política contundente que de fato enfrente esse tipo de ação do latifúndio.

CC: A postura de criminalização do Estado brasileiro (ao menos em algumas partes, como se viu no RS) assusta o MST em relação ao futuro?

MS: Se o Brasil não começar uma política séria de enfrentamento, não tiver política de punição, não só o MST deve ter medo, toda a sociedade vai sofrer. A violência no campo leva ao êxodo rural, desencadeia todo tipo de problema.

CC: Que cenários o movimento vislumbra a partir da próxima eleição presidencial?

MS: Esse é um tema que ainda não discutimos, mas hoje vemos a realidade do Brasil, o Lula que seria uma alternativa deu nisso. Teve avanços, mas tem um legado negativo. Então, qualquer cenário eleitoral tende a piorar a correlação de forças no próximo período.

Rodrigo Mendes é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

O mal-estar nas ciências humanas

Discussões sobre o futuro da universidade exigem reflexão sobre o que esperamos das ciências humanas.

Vladimir Safatle

Nas discussões a respeito do futuro da universidade, seja no Brasil seja em países europeus que passam atualmente por grave crise financeira, é comum identificarmos um estranho mal-estar em relação às ciências humanas. Tudo se passa como se a área de ciências humanas fosse a mais problemática por vir dela questionamentos reiterados a respeito de processos de financiamento, avaliação e pesquisa.

É comum vermos um certo anti-intelectualismo arraigado que acusa as humanidades de serem irrelevantes, fazerem pesquisas atrasadas ou ideologicamente comprometidas e não "dialogar" com a sociedade. No caso brasileiro, haveria uma longa história a contar referente à gênese desse anti-intelectualismo e seus vínculos orgânicos com momentos sombrios de nossa história.

No entanto, esse mal-estar não vem apenas de atores externos à universidade. Seria fácil se assim fosse. Por um lado, é comum instâncias internas à própria universidade mostrarem desconhecimento profundo a respeito do tipo de pesquisa desenvolvido na área de ciências humanas e sua multiplicidade natural. Nos momentos em que tais desconhecimentos afloram, somos normalmente brindados com discussões bizantinas a respeito da inutilidade das ciências humanas, a não ser como curso de extensão. Nessas horas, o melhor a fazer é perguntar ao interlocutor o que pesquisadores brasileiros realmente relevantes nas ciências exatas, como os físicos Mario Schömberg e César Lattes, teriam a dizer sobre o assunto.

"Ideologia científica"

Mais sintomático do que isso, no entanto, é encontrar determinadas áreas, como a psicologia e a economia, lutando desesperadamente para não serem mais vistas como pertencentes ao quadro das humanidades. A psicologia seria, nessa nova configuração do campo científico que parece querer se impor, um setor das ciências biológicas que estudaria a mente e o comportamento humano.

Afirmação que só teria algum sentido à condição de passarmos completamente ao largo de discussões sobre o estatuto do conceito de "comportamento", isso sem falar em outros conceitos fundamentais da psicologia como "aprendizado", "percepção", "memória", "desenvolvimento", só para ficar com aqueles termos mais dependentes de discussões que nos remetem à história da filosofia. Já a economia seria (e isto não é uma piada feita para divertir financista em estado de choque depois da quebra do Lehman Brothers, da concordata da GM e da estatização branca do Citibank) uma ciência matemática.

O que há por trás desse quadro? Certamente temos aqui uma convergência de fatores, sendo que um deles é, sem dúvida, a incapacidade de pesquisadores da área de ciências humanas saírem de uma posição, digamos, defensiva. Temos dificuldade em impor nossos sistemas de avaliação, em divulgar nossas pesquisas, em analisar a natureza daquilo cujo sintoma é o mal-estar em relação às ciências humanas.

Biblioteca Cesar Lattes, UNICAMP: A capacidade descritiva das ciências humanas é também capacidade produtiva.

Haveria também fatores claramente econômicos (que nunca podem ser desprezados). Georges Canguilhem, historiador fundamental das ciências, cunhou, décadas atrás, o termo "ideologia científica" para descrever este processo em que uma área do saber, em constituição, se apóia em áreas mais reconhecidas e tradicionais, mimetizando seu vocabulário e seus métodos na esperança de, com isso, ganhar legitimidade social.

O advento das ciências humanas foi claramente marcado por tal processo. Lembremos, por exemplo, de como o estudo dos comportamentos sociais foi, durante bom tempo, descrito como "física social", isso antes de ser visto enfim como "sociologia". Para estruturas institucionais que, para ter  suas pesquisas financiadas, entraram em dependência profunda em relação a instituições do sistema financeiro (como caso de vários departamentos de economia no mundo) ou a grandes indústrias farmacêuticas (como caso do departamento de psicologia), passar a impressão de que elas podem assegurar a previsibilidade, a quantificação e a mensuração de áreas como a matemática e a biologia virou uma questão não negligenciável.

A capacidade produtiva das humanidades

No entanto, para além desses dois fatores, vale a pena insistir em um terceiro, talvez de fato o mais importante. A constituição das ciências humanas enquanto conjunto de campos institucionalizados de pesquisa foi em larga medida impulsionada por preocupações estatais de controle social de populações a partir do século 19. Por exemplo, não compreenderemos o advento da psicologia como ciência se negligenciarmos a importância de questões que eram dirigidas aos psicólogos sobre a extensão da imputabilidade jurídica, a natureza do comportamento criminoso, a falta de disposição para o trabalho, a fraqueza moral.

No entanto, também não compreenderemos seu desenvolvimento posterior se restringirmos suas questões apenas a esse escopo de preocupações. Pois o campo das ciências humanas foi sempre indissociável da reflexão sobre a maneira como elas constituem, e não apenas descrevem, o "homem" como seu objeto de análise. Esse é um ponto importante: acapacidade descritiva das ciências humanas é tambémcapacidade produtiva. Sua descrição modifica o comportamento dos seus objetos, já que seus conceitos teêm forte capacidade normativa.

FFLCH-USP: Se não quisermos mais criticar nossos valores e visão dos sujeitos, as ciências humanas perdem toda a sua relevância.

Por exemplo, descrever processos sociais a partir de sistemas individuais de escolhas possíveis ou a partir de estruturas transindividuais não apenas influenciará radicalmente a visão do pesquisador a respeito dos fenômenos que ele tem diante de si.  Isso influenciará também a maneira com que as intervenções nos processos sociais se darão, assim como a configuração das crenças sociais sobre o que nós realmente somos.

Essa "reviravolta autocrítica" é elemento fundamental na história das ciências humanas. E, através dessa capacidade de reviravolta, as ciências humanas, em seus melhores momentos, forneceram quadros de reflexão sobre nossos valores sociais e sobre a maneira como nosso discurso é capaz de, em larga medida, constituir objetos. Não apenas um discurso sobre o homem, mas também um discurso que toma o discurso sobre o "homem" (com toda a carga valorativa que esse termo tem) como objeto.

Mas isso nos coloca uma questão maior: e se não quiséssemos mais criticar nossos processos, valores e nossa visão dos sujeitos? Desejo de preservação que não viria do fato de termos alcançado um consenso profundo a respeito de nossos ideais sociais, mas do fato de termos medo do futuro, de termos perdido a força de criar novos processos e valores. Numa situação como essa, de fato, as ciências humanas perdem toda a sua relevância.

Quando questionamos a relevância das ciências humanas, questionamos, no fundo, a importância de compreender o que está por trás de fenômenos como: a modificação na estrutura da autoridade paterna no interior das famílias (psicologia), a participação de grandes grupos econômicos na gestão da ditadura militar (história), as consequências das modificações na estrutura da sociedade do trabalho (sociologia), os impasses de nossas democracias contemporâneas na sua procura de dar realidade institucional a exigências sociais de reconhecimento (ciências políticas), o impacto dos desenhos animados na construção da criança como categoria da sociedade de consumo (estudos de mídia), o que está por trás da nossa "construção" do Oriente etc. Mas talvez a questão seja: sobre esses fatos, há algo que não queremos saber, há algo que preferimos não saber. Só assim poderemos perpetuar nossas formas de vida, mesmo que elas estejam profundamente desgastadas.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

Dom Quixote escapa da Inquisição

Para contar aventuras de seu cavaleiro errante, Miguel de Cervantes driblou a censura e negou a autoria de sua obra. Um cuidado justificado: seu livro era uma sátira cruel da Espanha da época.

hérèse Jerphagnon


Visão artística do anti-herói cinquentão, em seu pangaré Rocinante, seguido do gorducho Sancho: um cavaleiro medieval na Idade Moderna Dom Quixote e Sancho Panza, óleo sobre tela, Honore Daumier, século XIX.

Em 16 de janeiro de 1605, Miguel de Cervantes, então próximo dos 60 anos, publicou em Madri a primeira parte de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Naquele dia, os romances de cavalaria e a mentalidade medieval como um todo receberam um golpe mortal. No livro, que é considerado a obra fundadora da literatura espanhola, Cervantes narra a saga de um nobre que sonhava com aventuras incríveis de cavalaria mas não conseguia ver a miséria da realidade que o cercava.
A história começa em um vilarejo da região de Castela-La Mancha, vasta planície localizada ao sul da capital espanhola, Madri. Ali vivia um fidalgo cinquentão, Alonso Quijano, tão apaixonado por romances de cavalaria que perdeu o juízo. Certo dia, ele abandonou a sobrinha, a governanta e os empregados domésticos e partiu, montando um pangaré chamado Rocinante, armado unicamente com uma espada e tendo sobre a cabeça uma cuia de fazer a barba como capacete.
Inspirado por alucinações, Quijano tomou uma estalagem por castelo, onde se fez armar cavaleiro. Acabou convencendo seu ambicioso vizinho, Sancho, a se tornar seu escudeiro. Tendo cismado em defender os pobres e oprimidos, não faltariam a ele aventuras reais ou imaginárias: lutar contra moinhos de vento, libertar presos das galés e fazer penitência na cordilheira de Serra Morena.
O encanto da obra nasce do descompasso entre o idealismo do protagonista e a realidade na qual ele atua. Cem anos antes, Quixote teria sido um herói a mais nas crônicas ou romances de cavalaria, mas ele havia se enganado de século. Sua loucura residia no anacronismo. Isso permitiu ao autor fazer uma sátira de sua época, usando a figura de um cavaleiro medieval em plena Idade Moderna para retratar uma Espanha que, após um século de glórias, começava a duvidar de si mesma.

Quando Cervantes escreveu sua obra-prima, a Espanha de Carlos V, que governava um imenso império onde “o Sol nunca se punha”, já era coisa do passado. O soberano abdicou em 1556, quando dividiu seus domínios entre dois herdeiros: o irmão, Fernando, ficou com o título de sacro imperador romano-germânico e com as terras localizadas nas atuais Áustria e Alemanha; o filho assumiu o trono da Espanha com o nome de Felipe II e ficou com as terras da península Ibérica, dos Países Baixos e da América.
Durante seu reinado, Felipe II conseguiu manter a Espanha como a principal potência européia do período e ainda expandir seus domínios, anexando Portugal em 1581. As ameaças, porém, estavam por todas as partes. Os primeiros sinais de crise surgiram já em 1558, quando os planos espanhóis de invadir a Inglaterra naufragaram junto com os navios da “Invencível Armada”, que foram parar no fundo do canal da Mancha. O fracasso na Inglaterra ofuscou até a vitória contra os turcos na Batalha de Lepanto, em 1571.
Além do revés militar, o monarca também teve de combater os movimentos que colocavam em risco a unidade religiosa do Império Espanhol, como a expansão do protestantismo nos Países Baixos e os levantes dos muçulmanos convertidos no sul da Espanha. Felipe II conseguiu fazer frente a esses grandes desafios, mas seu filho e sucessor não teve a mesma sorte. Felipe III não tinha as mesmas virtudes do pai e, ao ser coroado, em 1598, deixou que seu favorito, o duque de Lerma, praticamente governasse em seu lugar. A corrupção, então, se espalhou por toda a administração.
Foi em uma Espanha em crise que Cervantes criou seu cavaleiro fora do lugar. Nesse reino decadente, as classes superiores eram incapazes de gerar riquezas e se refugiavam na trilogia: “Igreja, mar, casa real”. Os nobres viviam para defender a própria honra, e sua única fortuna estava na espada. Como diz Cervantes: “Com razão, os príncipes deveriam estimar esse primeiro tipo de cavalaria, pela qual (…) alguns garantiram não somente a salvação de um reino, mas a de muitos (nobres)”. Diante dessa cavalaria de “velhos cristãos”, emergia também uma nova nobreza, que vivia da riqueza da corte e só conhecia o inimigo de ouvir falar. Todos os ambiciosos conspiravam para se apoderar das migalhas do poder.

A repulsa pelo trabalho tinha contaminado até os camponeses. A manipulação do dinheiro, tradicionalmente reservada aos judeus, expulsos em 1492, era desprezada por todos. Seria preciso esperar por muito tempo ainda para ver emergir, na Espanha, uma burguesia industrial e comerciante, como nos países protestantes. Mesmo no fim do século XVIII, as atividades manuais e comerciais ainda eram evitadas por uma nobreza que substituiu a “pureza de sangue” por uma “pureza de ofícios”. O próprio Sancho, contaminado pela loucura de seu amo, se pretendeu governador da imaginária ilha de Barataria.
O fausto e o ócio da corte conviviam com a miséria das ruas. O ouro das Índias na prática havia empobrecido a população do país, mas esta se acreditava rica para sempre. Em Sevilha, onde Cervantes viveu até 1600, ao lado da população trabalhadora havia toda uma turba que povoava a literatura picaresca: malandros, prostitutas e assaltantes de todo tipo. É nesse contexto que a fome se transforma em personagem: Sancho tem uma única obsessão: encher a pança.
CLERO AGIGANTADO Como sublimar essa realidade, se não pela fuga rumo ao sonho? Os mais jovens se refugiavam na religião. Naquela época, contavam-se na Espanha 9 mil conventos, onde viviam, entre outros, 32 mil franciscanos e dominicanos. A magnitude do clero espanhol salta aos olhos quando comparada com o do resto da Europa: a Companhia de Jesus, por exemplo, não contava com mais de 13 mil membros em todo o continente no mesmo período.
Em um país como esse, a fina ironia do livro de Cervantes não seria tolerada. A obra, que revelava as contradições da Espanha no início do século XVII, certamente seria alvo da Inquisição, que ganhara ainda mais poder durante o reinado de Felipe II e sobreviveria na Espanha até 1834. Naquele contexto de perseguição, como um escritor poderia evitar ou contornar a censura?

Cervantes recorreu a um duplo subterfúgio. Primeiro, recusou a paternidade da obra. O escritor alegou ser tão-somente o herdeiro de Cide Hamete Benengeli, historiador mouro traduzido por um erudito muçulmano da cidade de Toledo que havia se convertido ao cristianismo no século XVI. O segundo álibi utilizado pelo autor foi declarar a loucura de seu herói.
A ambiguidade da obra e das posturas de Cervantes salvou Dom Quixote da fogueira. À primeira vista, o escritor parecia aderir à Contra-Reforma católica, que procurou deter o avanço do protestantismo reafirmando os dogmas da Igreja romana no Concílio de Trento, encerrado em 1563.
Logo no início do livro, o padre da aldeia de Dom Quixote faz um sermão que parece claramente inspirado no Index dos livros proibidos, publicado pelo tribunal da Inquisição em 1564: “Não há de passar de amanhã, sem que deles (romances de cavalaria) se faça auto-de-fé, e sejam condenados ao fogo, para não tornarem a dar ocasião, a quem os ler, de fazer o que o meu bom amigo (Quixote) terá feito”. Na presença da governanta, os livros atirados pela janela alimentavam um auto-de-fé bem ao estilo dos tempos da Inquisição. Como se não bastasse, Cervantes termina seu relato se justificando: “Eu nunca tive outra intenção que não a de fazer os homens detestarem as fabulosas e extravagantes histórias dos romances de cavalaria”.
Essas passagens dão a impressão de que o criador do Quixote era um seguidor da rigorosa moral definida pelo Concílio de Trento, mas em outras partes da obra o autor faz críticas claras à Inquisição. Em um ponto da narrativa Sancho cobre a cabeça de seu asno com um sanbenito, chapéu em forma de cone utilizado por aqueles que eram acusados de heresia pelo Santo Ofício.
O autor parece também zombar da tese da “pureza do sangue”, que permitia separar os descendentes de judeus e muçulmanos convertidos dos verdadeiros cristãos. Em uma passagem do livro, que foi alvo de severas críticas, Dom Quixote dá o seguinte conselho a Sancho Pança: “Não tenhas vergonha em dizer que és filho de lavradores, orgulha-te mais em seres humilde virtuoso que pecador soberbo. Inumeráveis são os que, nascidos de baixa estirpe, subiram à suma dignidade. Não há motivo para ter inveja dos príncipes e senhores, porque o sangue se herda e a virtude se adquire; e a virtude por si só vale o que não vale o sangue”.

O suposto desprezo de Cervantes pela pureza de sangue ajudou a reforçar a suspeita de que o autor não era um verdadeiro cristão. A própria palavra “Mancha” seria um jogo de duplo significado: fazia certamente referência à região árida, à imagem do herói que dela emana, mas não apontaria também para uma “mancha” judaica na ascendência do personagem e de seu criador?
As acusações de ligação com o judaísmo foram uma constante na vida do escritor. Foi em pleno bairro judeu de Toledo, na rua de Alcana, que se descobriu o manuscrito de Dom Quixote. A mulher de Cervantes, Catalina de Salazar y Palacios, nascida na região de Esquivias, tinha ali um tio cristão novo (judeu convertido), chamado Alonso Quijada, que teria inspirado o autor. Outro antepassado de Cervantes também teria se convertido ao catolicismo.
Sabe-se que o pai de Cervantes chegou a pedir um exame de “pureza de sangue” para que o filho pudesse obter um cargo no governo. O laudo atestou que Cervantes era um fidalgo, mas isso não prova muita coisa. A sanha da Inquisição tinha contaminado as pesquisas genealógicas, e as falsificações abundavam. No romance, Sancho pretendia ter “a alma bem protegida por uma camada de quatro dedos de gordura de velho cristão”. Mas seria isso um elogio ou uma sátira?
Para uns, Cervantes era judeu; para outros, antissemita. Ele já foi considerado um seguidor da moral rigorosa do Concílio de Trento e também um humanista inspirado pelas críticas à Igreja feitas por intelectuais como Erasmo de Roterdã (1466-1536). Nenhuma dessas contradições, no entanto, tira o brilho do autor e de sua obra. É justamente na ambiguidade que reside o fascínio do Quixote.
O movimento pendular entre o idealismo do cavaleiro errante e o realismo popular de seu escudeiro é a própria trama de todo o romance. Se ainda hoje o leitor vibra com Quixote e ri de Sancho, é porque se emociona com a capacidade que esses personagens têm de tocar no que temos de mais profundo, nas inúmeras contradições que carregamos em segredo dentro de nós.
No fim da vida, cheio de pessimismo em relação ao mundo real que redescobriu ao recobrar a sanidade, o moribundo Quixote pede perdão a Sancho por tê-lo arrastado em sua loucura e lamenta não ter podido lhe oferecer um reino, que ele bem merecia, por sua fidelidade. Perdida a glória, restava a virtude da caridade: “Eu fui Dom Quixote de La Mancha, e agora sou Alonso Quijano, o Bom”. No leito de morte, distribuiu seus parcos bens àqueles que o cercavam, mas advertiu a sobrinha de que ela seria deserdada se viesse a se casar com algum leitor de romances de cavalaria. Saía de cena o cavaleiro errante e surgia uma outra figura, que o jesuíta Baltasar Gracián chamaria de “o Sábio” e Molière de “o Fidalgo”. Um novo modelo de homem para o século XVII.

CRONOLOGIA

1547
Nascimento de Miguel de Cervantes Saavedra, em Alcalá de Henares
1569
Viagem a Roma
1571
Perde os movimentos da mão esquerda lutando na Batalha de Lepanto
1575
Fica cinco anos preso em Alger
1584
Casa-se com Catalina de Salazar y Palacios
1597-1597
Coletor de impostos malsucedido, se retira para uma assembleia religiosa em Sevilha, de onde é expulso. É preso por erros de tesouraria
1600
A peste o faz abandonar Sevilha
1605
Publicação da primeira parte de Dom Quixote
1614
Publicação da segunda parte de Dom Quixote
1616
Morre em Madri, aos 69 anos

ROTA DO QUIXOTE


ÉRIKA ONODERA

Cervantes não quis identificar com precisão a cidade natal de Dom Quixote “para permitir que todas as cidades e vilarejos de La Mancha disputassem a glória”. Uma “Rota do Quixote”, de 2.500 km de extensão, atravessa as cinco províncias que atualmente formam a comunidade autônoma de Castela-La Mancha. O itinerário passa por 145 cidades, entre as quais El Toboso, o vilarejo de Dulcineia, e três candidatas à cidade natal de Dom Quixote: Villanueva de Los Infantes, Argamasilla de Alba e Esquivias.
Os moinhos que o Cavaleiro da Triste Figura enfrenta no romance provavelmente ficavam na cidade de Campo de Criptana. Atualmente há uma dezena deles no município, mas apenas um existia na época de Cervantes. Várias prisões da região reivindicam a honra de ter acolhido o ilustre personagem, entre elas a de Argamasilla.
A estalagem onde Dom Quixote foi sagrado cavaleiro fica em Puerto Lápice, e a prefeitura de El Toboso conserva com orgulho algumas edições raras do romance. Na extremidade do vilarejo, pode-se visitar a imaginária “casa” de Dulcineia. Por fim, o episódio da gruta de Montesinos se passa em meio às lagoas de Ruidera, localizadas entre as cidades de Ciudad Real e Albacete.

PARA SABER MAIS

O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha (v.1). Miguel de Cervantes, Editora 34, 2002
O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha (v.2). Miguel de Cervantes, Editora 34, 2007

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

O que faz de você você?

Engraçado, tímido, agressivo, egoísta, inteligente. Um caldeirão de influências forma a sua personalidade. Descubra o que faz com que você seja do jeito que é – e veja o que ainda consegue mudar.

Mariana Sgarioni
Leandro Narloch

As irmãs iranianas Laleh e Ladan Bijani tinham exatamente os mesmos genes e viveram juntas todas as experiências da vida. Nascidas gêmeas idênticas e siamesas, ligadas pela cabeça, permaneceram 29 anos grudadas. Morreram em 2003, na cirurgia que as separou. Mesmo sabendo dos riscos da operação, elas toparam o desafio só pela oportunidade de viver separadas. “Somos dois indivíduos completamente distintos que estão grudados um no outro”, disse Ladan em uma entrevista antes da cirurgia. “Temos visões de mundo diferentes, estilos de vida diferentes e pensamos de modo muito diferente sobre os assuntos.” Laleh queria se mudar para Teerã e se tornar jornalista, enquanto Ladan planejava ficar em sua cidade natal e praticar advocacia. Uma era mais graciosa; a outra, mais fechada.

A individualidade humana é um mistério: somos todos diferentes uns dos outros, e isso acontece até mesmo com gêmeas idênticas como Laleh e Ladan, que carregam o mesmo DNA e foram educadas do mesmo jeito. A ciência moderna tenta há séculos explicar a intrincada malha que forma o nosso comportamento. Nessa corrida, há filósofos, psicólogos, neurocientistas, geneticistas e até literatos. No livro Notas do Subterrâneo, o escritor russo Fedor Dostoiévski zomba de quem acredita que “a ciência explicará ao homem que ele nunca teve vontade, nem caprichos e que não passa, em suma, de uma tecla de piano, de um pedal de órgão”.

Dostoiévski mostra que o nosso jeito de ser não é só uma questão de curiosidade pessoal. O que cientistas ou escritores estudam sobre a origem da personalidade geralmente cria novos modos de ver o mundo, códigos morais e sistemas políticos. No século 17, o filósofo inglês John Locke formulou a metáfora da tabula rasa, segundo a qual somos uma espécie de folha em branco que é preenchida no decorrer da vida. O princípio de Locke foi essencial para a criação de pilares da política moderna, como a Declaração dos Direitos Universais do Homem, de 1776, ou o socialismo. Afinal, se todos os homens nascem iguais, então merecem os mesmos direitos e oportunidades. No século 20, o líder comunista chinês Mao Tsé-tung, na tentativa de reformar radicalmente o homem chinês, cita a tábula rasa no seu Livro Vermelho, falando de folhas em que “as personalidades mais novas e mais bonitas podem ser escritas”. Já a idéia oposta à tabula rasa, de que pessoas e etnias nascem mais dotadas que outras, fundamentou projetos de engenharia social e genocídios como o Holocausto judeu.

Nas últimas décadas, o debate ganhou o nome de nature x nurture: no primeiro time, está quem coloca na natureza a raiz da nossa personalidade; no segundo, quem acha que o ambiente é o grande definidor. Hoje, essa polêmica deu lugar a uma cooperação, com os dois lados trabalhando juntos para desvendar a individualidade. Dessa união, estão saindo muitas das respostas novas e mais precisas das principais questões sobre o comportamento humano.

A genética determina o comportamento?

Não. O nosso DNA possibilita e favorece determinados tipos de comportamento, mas não determina nada. “Os genes não restringem a liberdade humana – eles a possibilitam”, diz Matt Ridley, autor do livro O Que Nos Faz Humanos, em um artigo para a revista New Scientist. “A genética não é um destino, não determina o que você vai ser. Ela oferece predisposições. Todos estão sujeitos a influências ambientais que podem, sim, mudar a expressão dos genes e fazer com que eles simplesmente não se manifestem”, diz André Ramos, diretor do Laboratório de Genética do Comportamento da Universidade Federal de Santa Catarina.

Traços de personalidade são idéias, conceitos culturais: dependem dos olhos de outros e da cultura de um lugar e de uma época para aparecerem e ganharem um nome. O que é inteligência, pedofilia, má-educação ou timidez no Brasil pode ganhar nomes bem diferentes no Japão, por exemplo. Por isso, não dá para encontrar a personalidade pura no DNA. Mas a nossa herança genética pode, sim, influenciar o funcionamento do corpo, que, numa cultura ou em outra, resulta em comportamentos diferentes.

Ao nascer, cada ser humano carrega uma composição de 30 mil a 35 mil genes, formações de DNA que ficam ali dentro dos nossos 23 pares de cromossomos. As principais descobertas dos geneticistas do comportamento relacionam os genes à regulação de mecanismos fisiológicos que mudam o comportamento, como impulsividade, vício de determinadas substâncias e memorização. Há indicações, por exemplo, de diferenças genéticas na regulação da dopamina, neurotransmissor relacionado à sensação de prazer. Em algumas pessoas, a cocaína provocaria uma descarga anormal de dopamina, causando vício. “É provável que esse medidor químico sofra uma deficiência natural e, portanto, alguns indivíduos sejam mais suscetíveis a se viciar em cocaína”, dizem os pesquisadores Howard S. Friedman e Miriam W. Schustack, autores de Teorias da Personalidade.

Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria de Londres, divulgada no ano passado, mostra como o comportamento pode ser afetado por uma interação entre genes e ambiente. Ele teve acesso a um estudo que acompanha desde 1972 a saúde física e mental de mais de 1 000 pessoas desde o nascimento. Descobriu que homens maltratados na infância tinham uma probabilidade 10 vezes maior que os demais de cometer crimes violentos desde que, além de terem sofrido maus-tratos, possuíssem pequena atividade da enzima MAOA do cromossomo X, que permite níveis elevados de serotonina. No total, 85% dos homens maltratados na infância e cuja MAOA é pouco ativa exibiram comportamento violento ao longo da vida. Entre os que possuíam a forma muito ativa, os maus-tratos não aumentaram o comportamento violento.

Outro exemplo é o gene FOXP2, no cromossomo 7, isolado recentemente pelo Centro de Genética Humana da Fundação Wellcome, no Reino Unido. Mutações nesse gene causam deficiências específicas de linguagem – ele parece ser necessário para o desenvolvimento da fala. “Ele permite que a mente humana absorva, a partir das experiências vividas na 1ª infância, o aprendizado necessário para falar”, afirma Matt Ridley. Com problemas de fala, é mais fácil para a criança desenvolver traços como a timidez.

A composição genética tem ainda efeitos indiretos, que acabam influenciando até o comportamento dos pais. É que, por mais que digam o contrário, os pais variam a forma de tratamento conforme o filho. Crianças alegres, que sorriem e olham nos olhos dos pais, costumam deixá-los gratos e mais carinhosos. Segundo uma pesquisa de 1994 feita pela Universidade da Pensilvânia, alguns autistas – que não costumam olhar nos olhos ou expressar emoções – têm, por isso, pais indiferentes e um pouco frios. Outro exemplo é a beleza das crianças. Se a composição genética faz uma criança ser considerada bonita, ela terá mais chances de ser o centro da atenção dos pais. E isso influenciará sua personalidade.

Os pais influenciam a personalidade dos filhos?

Sim, mas a influência é imprevisível. Desde os primeiros estudos de Sigmund Freud, e até antes deles, os pais são tidos como os agentes mais importantes na criação de uma pessoa. São os primeiros a conter o que há de animal em nós, nos ensinando a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções da civilização. Com essa premissa, Freud foi, ao lado de Darwin, um dos grandes pensadores do século 19 a abalar a idéia de Deus, mostrando que as noções de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem ser a causa de vários dos nossos problemas. Do conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços de personalidade (como a timidez, a vergonha), recalques inconscientes e fraquezas que nos acompanham vida afora. Freud vai mais longe: para ele, o jeito com que meninos e meninas lidam com a figura do pai e da mãe é essencial para definir a sexualidade da pessoa.

Mas as idéias do austríaco fomentaram tantas generalizações grosseiras e técnicas furadas de educação (veja na página 54) que hoje, fora dos círculos de psicanalistas, estão cada vez mais desacreditadas – e o pai da psicanálise é considerado mais um filósofo que propriamente um cientista. O que não quer dizer que ele deva ser descartado.

Até o ponto que a genética permite, um bebê recém-nascido é como um molde de argila flexível. O que ele aprender, ver, ouvir, sentir será armazenado no cérebro e irá compor a maneira como agirá no futuro. Ao nascer, vai demorar meses até conceber idéias básicas, como a de ser distinto das coisas ao redor. Aos poucos, porém, vai se dar conta de que consegue mover algumas dessas coisas – seus braços e pernas – e que outros seres fazem o mesmo. Assim, a partir do outro, o bebê começa a ter a noção de eu, de que é um indivíduo.

Conforme interage com os adultos, a criança se molda ao mundo em que nasceu. Se os adultos ao redor forem lobos ou cavalos, passará a vida toda uivando ou relinchando e bebendo água com a língua, como aconteceu como o “Selvagem de Aveyron”, garoto encontrado na França em 1799 que viveu a infância isolado na floresta e por volta dos 12 anos trotava, farejando e se alimentado de raízes. Ou então as indianas Kamala e Amala, dos anos 20. Acolhidas por lobos quando recém-nascidas, elas andavam de quatro, tinham horror à luz e passavam a noite uivando.

Entre lobos ou humanos, a criança aprende o que pode ou não fazer. Percebe que, ao chorar mais alto, a mamadeira vem mais depressa. Portanto, vale a pena ser manhosa, pelo menos de vez em quando. Quando joga um objeto no chão, é repreendida pela mãe e ganha uma bela bronca. Também começa a diferenciar sentimentos: o que achava ser dor, começa a receber nomes diferentes como “fome”, “ciúme”, “medo”. “As sinapses cerebrais são construídas a partir das relações externas. Sem interação com o outro, não há personalidade”, afirma Benito Damasceno, neurologista e professor de neuropsicologia da Unicamp.

E os “outros” mais importantes dos nossos primeiros anos são os pais. Com eles, exercitamos uma das nossas grandes capacidades inatas: a de imitar. Os pais servem de referência para estabelecermos padrões de sentimentos e atitudes – o filho que imita o pai se barbeando também conhece com ele jeitos de se relacionar com as mulheres, modos de regular o tom de voz e até preferências intelectuais.

Prova disso é um estudo citado no livro Freaknomics, de Steven Levitt e Stephen Dubnere, realizado no ano de 1991 com 20 mil crianças americanas até a 5ª série. O estudo tentou relacionar o desempenho escolar das crianças com o perfil dos pais e a convivência de todos em casa. Descobriu que as boas notas não estão relacionadas àquilo que os pais fazem – se mandam os filhos ler ou lêem para eles antes de dormir –, mas ao que eles são: se têm o hábito de ler para si próprios, se têm livros em casa e se são bem instruídos.

“Nos primeiros anos, o filho se identifica com quem faz o papel de pais e passa muito tempo copiando suas ações”, diz Eloísa Lacerda, fonoaudióloga e psicanalista da PUC-SP especializada na 1ª infância. Talvez se explique assim o caso do filho que passa a infância apanhando e, quando adulto, vira um pai igualmente agressivo. A mesma teoria serviria também para explicar o contrário: o filho que, em alguns pontos, se torna o contrário dos pais. É que eles podem servir de referência de traços aos quais reagimos. Assim os psicólogos explicam a família do casal que passa as noites brigando e tem um filho do jeito oposto – tranqüilo e pacificador.

O problema é que, se explicam muito bem a raiz das motivações de uma pessoa em particular, essas teorias não servem para montar leis gerais da natureza. Vale a regra do “cada caso é um caso”, que nem sempre é comprovada por estatísticas. Além disso, o convívio com os pais é só uma etapa do desenvolvimento. Em casa, a criança cria ferramentas que poderá desenvolver ou não quando passar por outro desafio: a busca para ganhar destaque entre seus iguais.

As amizades influenciam?

Muito mais do que imaginamos. Em 1998, a psicóloga americana Judith Rich Harris causou uma revolução nas teorias da personalidade ao afirmar que o convívio com os pais é só um dos fatores que influenciam a personalidade dos filhos – e um dos menos importantes. No livro Diga-me com Quem Anda…, ela fala que as relações horizontais dos 6 aos 16 anos – da criança com seus pares, o grupo de amigos da escola ou da vizinhança – são o grande definidor da personalidade adulta.

Para fundamentar o que diz, Judith Harris recorre aos 6 milhões de anos de evolução dos humanos. Durante esse tempo, os seres humanos que mais deixaram descendentes foram os que se acostumaram a andar em bando e conseguiram ter uma boa posição dentro dele. Quanto mais valiosos dentro do grupo, mais descendentes geravam. Do grupo dependia a sobrevivência e, depois da morte, a sobrevivência dos descendentes. Essa história evolutiva, para Judith Harris, resultou num cérebro sedento por relações gregárias e classificações que diferenciem um grupo de outro e os membros entre si.

Hoje, essa herança da seleção natural funciona assim: ao se identificar com um pessoal, a criança tende a agir conforme as regras internas daquelas pessoas, tentando encontrar um papel que lhe renda uma boa posição entre os membros. De certa maneira, estaria tentando realizar sua missão na Terra: ganhar a proteção do mesmo sexo, para não ser atacado, e atrair o oposto, para se reproduzir. “A identificação com um grupo, e a aceitação ou rejeição por parte do grupo, é que deixam marcas permanentes na personalidade”, afirma Judith Harris. Para ela, é assim que o gordinho da turma vira o gordinho engraçado: ele usa o humor para conquistar atenção. Assim se explicaria também a garota mais bonita da sala que não se preocupa em desenvolver a inteligência – a beleza já a destaca.

O principal exemplo usado pela psicóloga são os filhos de imigrantes. Apesar da língua, da religião e dos costumes que os pais tentam transmitir, a criança os ignora facilmente quando começa a ter contato com amigos do novo país. Aprende o idioma de uma hora para outra e, em poucos anos, se parece muito mais com os amigos que com os pais.

Outro exemplo é uma pesquisa com panelinhas de estudantes americanos por volta dos 12 anos. O psicólogo Thomas Kindermann descobriu que crianças de um mesmo grupo tinham notas e atitudes parecidas na escola. Se fizer parte de um grupo em que o desempenho escolar é importante, a criança se estimula a ter melhores notas. Se não conseguir, é provável que vá para outra panelinha, dos esportistas, por exemplo, que não consideram as notas uma coisa superlegal.

A teoria de Judith explicaria por que pais normais, que seguiram sempre as regras da boa educação, deparam com um filho criminoso. Talvez nossos avós não estivessem errados ao se preocupar tanto com as más companhias. A teoria também tem uma conseqüência aterradora: de que a educação teria pouquíssimo efeito sobre os filhos. Eles não se tornam o que os pais querem que sejam – mas o que os amigos querem. Se é assim, então como educar os filhos?

O estilo de educação importa?

Pouco. Traços de personalidade dependem de diversos fatores e são dificilmente previsíveis. Por isso, estudantes de um colégio militar não se tornam necessariamente adultos metódicos, e os de um colégio liberal não ficam mais criativos. Também não há comprovação científica de que impor limites rígidos previne que o filho seja um adolescente infrator.

Dizer que o estilo de educação importa pouco na personalidade deve fazer psicopedagogos e professores estremecer. Mas a afirmação pelo menos livra os pais de tanta culpa e responsabilidade pelo destino dos filhos. Notícias de adolescentes de classe média que ateiam fogo a mendigos ou espancam empregadas costumam ver acompanhadas de críticas ao pais. A idéia por trás dessa opinião é que os pais são responsáveis pela personalidade e por todos os atos dos descendentes.

Os primeiros estudiosos a culpar os pais pela educação dos filhos foram os psicólogos behavioristas. Eles adaptaram as idéias de Freud sobre o papel dos pais e criaram sistemas de educação baseados em estímulos e respostas. O psicólogo John Watson, famoso no começo do século 20, chegou a dizer que conseguiria fazer de qualquer criança um médico ou artista de sucesso se pudesse aplicar na “cobaia” um sistema contínuo de estímulos e respostas. De pensadores como Watson, veio a idéia, comum hoje em dia, de que uma personalidade bem formada é resultado de uma educação de recompensas e punições.

Essa idéia embala centenas de livros com fórmulas mágicas para transformar crianças em adultos simpáticos, bonitos, bem-sucedidos e livres das drogas. E resulta em pais que se sentem despreparados para criar filhos bem formados. Mas não é preciso ser perfeito para ter filhos, sobretudo porque, como você viu acima, os pais não determinam o destino das crianças e a influência deles é imprevisível. Muitos dos adolescentes que engravidam cedo, se afundam em drogas ou espancam empregadas receberam a mesma educação de jovens que andam na linha – às vezes, os próprios irmãos. Casos assim mostram que seres humanos não são robôs que podem ser programados pelos pais ou por pedagogos.

É importante, porém, não confundir pouca influên cia com nenhuma influência. “Muitos pais hoje em dia acham que devem agir como amigos. Mas a autoridade e a hierarquia precisa existir, para que se transmita o que é certo ou errado”, diz Eloísa Lacerda, da PUC-SP. Também é bom que os pais fiquem atentos ao relacionamento do filho com os amigos – se ele for sempre a vítima do grupo, sempre humilhado pelos colegas, talvez seja o caso de trocar de escola ou incentivá-lo a se relacionar com outras crianças. “Ao morar num bairro e não em outro, os pais podem aumentar ou diminuir o risco de que os filhos venham a cometer crimes, sejam expulsos da escola, usem drogas ou engravidem”, afirma Judith Harris em Diga-me com Quem Anda…

Por que os irmãos são tão diferentes?

Ninguém sabe exatamente. As irmãs siamesas Ladan e Laleh, do começo desta reportagem, são um exemplo de que nem o ambiente nem a biologia conseguem explicar completamente a personalidade. O caso delas mostra que o lar é um fator importante para fazer irmãos se diferenciar entre si. Uma pesquisa da Universidade de Minnesota descobriu que gêmeos idênticos são mais parecidos quando criados em ambientes separados. Você já deve ter ouvido histórias de gêmeos separados no nascimento que se reencontram 40 anos depois e descobrem que ambos compraram carros azuis, adoram feijoada e jogam xadrez muito bem. Longe um do outro, eles seguiram iguais.

Muita gente explica a personalidade de alguém pela ordem de nascimento ou pela diferença de idade entre os irmãos. O senso comum diz que os primôgenitos são mais independentes; os do meio, rebeldes; os temporões, precoces. O historiador Frank Sulloway, da Universidade da Califórnia, tem estudos nessa linha. Ele analisou a ordem de nascimento de mais de 6 mil personalidades mundiais e concluiu que os filhos mais velhos são mais conservadores, já os mais novos são os criativos e revolucionários – é 18 vezes mais fácil achar um revolucionário caçula que um primogênito.

A pesquisa de Sulloway mostra só um padrão de comportamento (ele não propõe uma lei da natureza), mas contribui para o que se chama de Teoria dos Nichos, tese mais aceita para explicar a diferença entre irmãos. Em casa, a criança procura desempenhar um papel diferente dos irmãos mais velhos. Se um irmão se destaca como esportista, ela pode se apegar mais aos livros. Se um é mais apegado à mãe, a filha do meio pode ser mais independente.

Steven Pinker, psicólogo evolucionista e professor da Universidade Harvard, acredita que a variação de personalidade se resume numa palavra: acaso. “Falo de acasos como um bebê que cai de cabeça no chão sem querer, um vírus que ele pega, um pensamento que deixe uma impressão permanente. Esses fatores podem ter uma influência tão grande no que somos quanto os genes, uma influência muito maior do que os pais”, afirma ele no livro Tábula Rasa.

É possível mudar nosso jeito de ser?

Sim. Na verdade, mudamos nossa personalidade a toda hora. Agimos de modos diferentes com pessoas de idade, sexo ou posição social diferentes. Você já deve ter passado pela sensação de ser amigável e inteligente com alguém que o deixa confortável e agir do modo contrário com quem o desafia. Além disso, a nossa personalidade depende do que os outros acham: você pode ser chato para uma pessoa, mas gente boa ou confiável para quem o conhece melhor. “O homem tem tantos eus quantos são os indivíduos que o reconhecem”, disse em 1890 o psicólogo William James, um dos primeiros a estudar a personalidade.

Mas é claro que há comportamentos e atitudes que são muito difíceis de largar. Somente 10% das pessoas com pontes de safena mudam hábitos alimentares e deixam o sedentarismo. As outras acabam morrendo de ataque cardía co simplesmente porque não conseguem mudar. Muitas vezes um pai que bate na mulher e nos filhos promete a si mesmo parar com as agressões, mas não consegue. Talvez os genes favoreçam o comportamento impulsivo – e não é nada fácil ir contra a própria composição genética. Ou então, olhando pelo lado da psicologia, somos tão arraigados à referência dos nossos pais e às experiências da infância que esses traços viram nossa identidade. Se é assim, fica difícil até perceber o próprio modo de ser.

Mesmo assim, dá para mudar. “Não existe nenhuma pesquisa científica que mostre que o ser humano não tem jeito”, diz Mariângela Gentil Savoia, psicóloga do Hospital das Clínicas de São Paulo. De ter consciência de si próprio, um traço bem arraigado à personalidade, atribuir a ele uma causa, vencer derrotismos e apegos, vão anos, se não uma vida toda. Mas talvez o caminho de nos conhecer, mudar o que for possível e nos contentar com o que somos seja o grande desafio da vida.

O gordinho engraçado

Este tipo comum é um bom exemplo da teoria da americana Judith Harris, para quem a relação entre os iguais é o fator que mais influencia a personalidade. Entre os vizinhos e os amigos da escola, a criança busca um jeito de receber atenção e ganhar destaque. Se não é o mais bonito ou o mais forte do grupo, conquista o carinho de todos de outro jeito: contando piadas.

A bonita e burra

A moça que nasce mais bonita que a média pode ter mais carinho dos pais (que tratam, sim, cada filho de forma diferente) e ser facilmente aceita entre os amigos. Mas essa herança pode ter um lado ruim: atraindo a atenção pela beleza, ela talvez não desenvolva artimanhas para se destacar, correndo o risco de ficar vazia e desinteressante.

Tímido e inteligente

Por que algumas pessoas são abertas e sociáveis enquanto outras são quietas e tímidas? Uma explicação é o jeito com que nossos pais nos ensinam os sentimentos. O rapaz inteligente e introvertido pode ter aprendido com o pai a ser frio e distante.

Gêmeas e diferentes

Gêmeos idênticos têm exatamente o mesmo DNA e foram educados de forma parecida. Então por que são tão diferentes? A explicação mais aceita é a Teoria dos Nichos: disputando a atenção dos pais, os irmãos adotam papéis diversos. Um serve de referência do contrário para o outro.

O médico altruísta

Para a psicanálise tradicional, tentamos repetir na vida adulta as experiências da infância. Imagine um garoto que nasceu pouco antes de o pai morrer e que, por isso, foi admirado como uma compensação pela mãe e pelos avós. Ao escolher a profissão, ele pode ter gostado da idéia de ser admirado – como um médico que faz tudo pelos pacientes.

Para saber mais

Tábula Rasa

Steven Pinker, Companhia das Letras, 2004.

Diga-me com Quem Anda…

Judith Rich Harris, Objetiva, 1998.

Não Há Dois Iguais

Judith Rich Harris, Globo, 2007.

Teorias da Personalidade

Howard S. Friedman e Miriam W. Schustack, Prentice-Hall, 2004.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/