Em dezembro de 1967, o cirurgião sul-africano Christiann Barnard ousou realizar o primeiro transplante de coração em um ser humano, na Cidade do Cabo. A intervenção fez história na medicina.
Martina Keller
Sua ousadia poderia transformá-lo em herói da ciência, ou invocar contra ele a indignação dos que, comumente, recriminam os experimentos com seres humanos. Mas em uma noite de dezembro de 1967, o médico sul-africano Christiaan Barnard arriscou realizar um transplante de coração humano – a cirurgia que iria não apenas revolucionar a Medicina, mas também redefinir as fronteiras da morte
Anoite de 2 para 3 de dezembro de 1967 está límpida e estrelada. Sobre a Cidade do Cabo paira o calor do verão. Após a ronda hospitalar do sábado, Christiaan Barnard desfrutou uma tarde tranquila em sua casa à beira do lago Zeekoevlei. Então, à noite, ele recebe um telefonema. Por volta das 21h30min o médico volta às pressas ao Hospital Groote-Schuur.
O cirurgião cardíaco havia esperado semanas por este momento. Aos 45 anos, Barnard só é conhecido em círculos médicos especializados. Mas agora ele se prepara para realizar um transplante de coração humano – cirurgia inédita até ali, embora diversas equipes ao redor do mundo estejam, há anos, treinando para essa operação. Um eventual fracasso pode custar-lhe a carreira. Se, ao contrário, a intervenção for bem-sucedida, o sul-africano fará história na Medicina
O paciente, Louis Washkansky, 54, está sentado, apoiado em travesseiros, sobre a estreita mesa da sala de cirurgia “A”. Trata-se de um comerciante de artefatos coloniais. Mede 1,65 m de altura e pesa 58 quilos. Há sete anos teve seu primeiro infarto; um ano depois, o segundo.
Um terceiro ataque desse tipo – igualmente grave – em 1965 inutilizou-lhe dois terços do ventrículo esquerdo do coração. A esta altura o órgão está tão dilatado que a distância que o separa do lado esquerdo da caixa torácica mede só 2,5 centímetros; para o lado direito ainda há cinco . O músculo é enorme, mas fraco: em condições normais ele teria de bombear 15 litros de sangue por minuto, a fim de fornecer a Washkansky o necessário oxigênio; mas, nesse momento, só consegue mandar 2,36 litros.

Quando Barnard entra na sala, o paciente está à espera. É um homem de natureza estoica: mesmo estando mortalmente doente, se permite, de vez em quando, o prazer de fumar um cigarro; e também lê romances policiais no leito. “Eu disse que não tomaria nenhuma droga para me nocautear, antes que o senhor viesse se despedir de mim” , explica ao cirurgião. Ao que acrescenta, sem fôlego: “Vai me dar meu novo coração agora?”.
Planejar o implante de um novo coração em um condenado à morte, como Washkansky, é mais do que um ato de coragem. Até porque não é só esse órgão do comerciante que está arruinado. Ele sofre também de diabete. Fígado e rins estão comprometidos. A retenção de líquidos fez com que suas pernas inchassem consideravelmente. Sozinho Louis Washkansky nem consegue mais fazer a barba. Mas Barnard não poderia oferecer o novo – e extremamente arriscado – procedimento do transplante a um paciente em condições melhores, pois o resultado é completamente incerto.

Após três infartos, o sul-africano Louis Washkansky, 54, parece cansado, sem esperanças. “Deixem que a natureza siga o seu curso”, diz ele a um médico que o atende. O pedido fica anotado em seu prontuário. Mas não será atendido.
No caminho para a sala de cirurgia, o médico é tomado por dúvidas. Será possível trocar o coração da mesma forma que se faz para substituir uma simples bomba desgastada? Estou suficientemente preparado para essa intervenção, ou estou iniciando um experimento humano de forma leviana? Afinal, seus cães de laboratório não tinham sobrevivido muito tempo com corações transplantados
O coração que servirá ao transplante ainda bate no peito de uma jovem mulher. Ela está na sala de cirurgia “B” do Groote-Schuur – separada por apenas dois pequenos recintos da sala “A”, na qual se encontra o – agora anestesiado – receptor. Denise Darvall, a doadora, tem 24 anos e é esbelta. Cachos de cabelos escuros emolduram-lhe o rosto suave.
O PACIENTE ESTÁ MORTALMENTE

Denise Darvall, 24, é mantida viva artificialmente após um acidente de carro – até que seu coração sadio possa ser transplantado para o peito de Washkansky. E, de fato, lá ele continua batendo vigorosamente.
O corpo, todo pincelado com iodo, está coberto de hematomas; e suas pernas parecem estranhamente deslocadas em cima da mesa. Ela não foi engessada, pois os médicos não a tratam mais como paciente. Seu cérebro fora irremediavelmente machucado à tarde, em um acidente de carro. Denise respira por aparelhos, e seu coração bate forte – 100 vezes por minuto.
O estado geral da doadora, contudo, piora de hora em hora. Após a 1h do domingo, dia 3, os médicos constatam uma febre de 39,8 graus, provocada pela hemorragia cerebral. Doutor Barnard registra o fato com apreensão.
Ele está agora sob extrema pressão. Depois da operação, seu irmão mais novo Marius, integrante da equipe cirúrgica, irá medir-lhe o pulso: 140 batidas por minuto. Antes da cirurgia Barnard caminha inquieto, para lá e para cá, entre as duas salas cirúrgicas. Elas têm pé direito alto e paredes ladrilhadas em tom verde-claro. Para que o plano do cirurgião dê certo, o procedimento entre o receptor e a doadora do órgão tem de ser preciso, bem coordenado. Caso contrário, o coração de Denise Darvall perecerá, por falta de oxigênio, antes de ocupar seu lugar no peito de Washkansky
A operação começa à 1h30min.
Antes que seu coração doente possa ser desligado da circulação, o paciente precisa estar acoplado à máquina artificial coração-pulmão, que permite a circulação extracorpórea. Para conseguir essa conexão, o assistente de Barnard, Rodney Hewitson, 43, faz uma incisão na região da virilha direita do comerciante, e libera a artéria femoral da coxa. Logo ele inserirá uma cânula por aqui, na qual será acoplada a mangueira do aparelho de circulação extracorpórea.
À 1h40 min Hewitson faz uma incisão de pele em linha reta no meio do peito de Washkansky, e serra o osso esterno ao longo dessa linha. Uma nuvem de fumaça se espalha, quando a pequena serra atravessa, chiando, o osso que deve ser seccionado. O segundo assistente abre a caixa torácica com a ajuda de dois afastadores.
Em pouco tempo, o órgão mortalmente doente de Washkansky fica visível pela primeira vez: de cor amarelada por causa da gordura, e com as paredes do enorme ventrículo esquerdo cheias de sangue e cicatrizes. “O senhor já viu uma coisa dessas?”, Barnard pergunta ao assistente. “Acho que não”, responde Hewitson.
Até agora tudo transcorreu sem complicações. Barnard corre até a sala vizinha, para o corpo de Denise Darvall, a fim de supervisionar os preparativos para a retirada de seu coração. Hewitson, enquanto isso, prepara as veias cardíacas do receptor para a acoplagem na máquina coração-pulmão. São 2h32min quando a etapa decisiva começa.
“Pronto, Rodney?”, pergunta Barnard, de volta à sala “A”. O assistente meneia a cabeça . O cirurgião, então, ordena: “Ligar a bomba”. O zumbido da máquina preenche a sala de cirurgia, silenciosa até então. Dene Friedmann, a jovem assistente do equipamento extracorpóreo, repassa dados alarmantes: “Pressão na artéria femoral pouco acima de 200”. O normal seria 100. E a pressão continua subindo: 250, 275, 290, 300.
DOENTE. SÓ UM TRANSPLANTE PODERÁ SALVÁ-LO

O primeiro transplante de coração do mundo não foi fotografado. Mas já na cirurgia seguinte, Barnard (segundo da direita na mesa de operação) permite a entrada de um fotógrafo no centro cirúrgico do Hospital Groote-Schuur.
ANTES DO TRIUNFO, DÉCADAS DE FRACASSOS
Evidentemente, a aorta está estreitada por depósitos. Rapidamente, Barnard ordena o resfriamento do corpo de Washkansky. Com isso ele espera interromper, por alguns minutos, a circulação sanguínea do paciente. O frio retarda a troca de oxigênio, o que impedirá que o organismo do comerciante seja facilmente danificado pela falta de oxigênio.
Agora, a máquina coração-pulmão tem de ser ligada diretamente na artéria aorta do peito aberto. Barnard insere um cateter no vaso sanguíneo, certo de que ainda mantém a situação sob controle. Mas, então, comete um erro fatal .
“Fechem a ligação com pinças”, ele ordena à Peggy Jordaan, chefe das enfermeiras. A moça interrompe o fluxo para a artéria entupida da perna. O problema é que o cirurgião esqueceu de parar, simultaneamente, a máquina coração-pulmão. Ela continua bombeando e, em questão de segundos, a pressão no sistema (agora bloqueado) sobe. Isso faz com que uma mangueira se rompa – o sangue de Washkansky espirra no chão.
“Desligar a bomba imediatamente!”, grita Barnard. O barulho do motor morre. Ninguém fala uma palavra. Barnard sabe que, nesse momento, seu paciente corre perigo mortal. O rasgo na mangueira permitiu a entrada de ar no sistema de circulação extracorpóreo. Se as bolhas (de ar) atingirem o cérebro de Washkansky, ele morrerá antes mesmo de poder receber o coração da jovem ao lado.
Como se chegou ao transplante de um órgão que, desde sempre, foi tido como centro da alma, dos sentimentos e da personalidade?
A história que precede o primeiro transplante de coração humano tem início no começo do século XX. Nessa época, o cirurgião francês Alexis Carrel conseguiu, pela primeira vez, reconectar vasos sanguíneos interrompidos. Tentativas anteriores sempre haviam fracassado devido à formação de coágulos de sangue nas veias, ou porque os vasos ficavam constritos demais devido à sutura.

O paciente está fraco, mas vivo: à beira do leito do recém-operado Louis Washkansky, Barnard explica a colegas cardiologistas como transcorreu a intervenção de várias horas.
A técnica desenvolvida por Carrel não apenas ajudou a evitar amputações – a única terapia possível, até então, no caso de vasos sanguíneos rompidos; ela também criou, pela primeira vez, a condição necessária ao transplante de órgãos inteiros. O próprio Carrel fez o experimento. Ele transplantou o coração de um cão pequeno na área do pescoço de outro maior. O coração bateu durante duas horas em seu novo lugar, antes que pequenos coágulos pusessem fim ao ensaio científico.
Em 1933, médicos da Clínica Mayo, em Rochester, Minnesota, e da Universidade de Georgetown, em Washington, D.C., retomaram as tentativas de transplantes cardíacos. Os corações de coelhos, que eles transferiram através de uma técnica simplificada, bateram por oito dias após a intervenção – até que fibrilações ventriculares e perturbações arrítmicas os levaram ao colapso.
Exames posteriores de tecidos cardíacos revelavam enormes quantidades de glóbulos sanguíneas brancos. Sem conseguir decifrar o fenômeno, os médicos puderam apenas registrar aquilo que se constituiria, à época, o maior problema do transplante de coração: o processo de rejeição pelo próprio corpo do receptor. Nele, uma parte desses glóbulos brancos ataca os tecidos do coração estranho.
Depois dos primeiros experimentos em cães e coelhos, a pesquisa dos transplantes hiberna por vários anos. Há demasiadas questões sem respostas. Como, por exemplo, poderiam os médicos proteger um coração doado dos danos que esse órgão sofre com a falta de oxigênio?
Em 1951, cientistas da Faculdade de Medicina de Chicago, EUA, apresentam uma solução tecnicamente complexa. Em seus experimentos, eles usam três cães: um doador de órgão, um receptor, e um que tem a tarefa de manter em funcionamento, com a própria circulação sanguínea, o coração a ser transplantado. Mas os resultados não são animadores, e os pesquisadores escrevem: “Neste momento, a substituição cardíaca ainda precisa ser considerada um sonho mirabolante”.
Apesar do convencimento que exibem, seus trabalhos se transformam no ponto de partida de experimentos que tornam o inimaginável mais real.
Dois acontecimentos forçam esse progresso – um deles, o surgimento da máquina coração-pulmão de circulação extracorpórea. No início da década de 1950 esse equipamento inaugura uma nova era na cirurgia, ao permitir, pela primeira vez, intervenções no coração aberto. O órgão pode ser temporariamente desconectado da circulação corpórea do doador e imobilizado, enquanto o aparelho bombeia sangue saturado de oxigênio pelas veias do receptor, resfriando-o – uma proteção adicional contra a falta de oxigenação.
Um segundo avanço foi alcançado pelo cirurgião Joseph Murray. Em 1954, ele transplantou o rim de um gêmeo univitelino no corpo de seu irmão. Em consequência desse procedimento, o receptor sobreviveu por nove anos – mais tempo do que qualquer outro paciente antes dele
Um Dos Centros Mais Inovadores na cirurgia cardíaca foi, na década de 1950, a Clínica Universitária de Minnesota, EUA , dirigida pelo cirurgião Owen Wangensteen. A instituição atraía médicos jovens e ambiciosos do mundo todo. E foi no meio deles que apareceu um moço sul-africano chamado Christiaan Barnard, premiado, pelo governo de seu país, com uma bolsa de estudos de dois anos.
Para o rapaz de 33 anos, os Estados Unidos são um mundo novo e desconhecido. Ele crescera em Karoo – região semidesértica a seis horas de carro da Cidade do Cabo. Vinha de uma família de bôeres, financeiramente modesta. Seu pai era pastor protestante. Barnard ganhava algumas moedas capturando ratos, que entregava no Departamento de Saúde Pública de sua cidade. Mais tarde ele recordaria: “A maior motivação para eu me tornar médico foi a de que eu queria ganhar dinheiro para poder ajudar meu pai”.
SER MÉDICO: SONHO REALIZADO A PARTIR DA POBREZA
Christiaan Barnard recebera educação rigorosa. Sua mãe sempre exigiu o máximo de seus quatro filhos homens – eles deviam ser os melhores da escola. Como estudante de Medicina, Barnard teve um desempenho bom, mas que de forma alguma podia ser considerado excepcional. “Ele tinha problemas para falar inglês, que não era sua língua materna”, relembra seu colega de estudos (e, mais tarde, assistente) Rodney Hewitson.
Desde sua fase de jovem médico, Barnard sempre demonstrou uma capacidade incomum de criatividade e perseverança. Para concorrer à bolsa da clínica de Minnesota, ele desenvolveu pesquisa sobre um tipo de distúrbio digestivo congênito. Os pacientes, nesse caso, eram os bebês que nasciam com uma deformação parcial do intestino – a chamada atresia intestinal. Embora a parte afetada pudesse ser extraída, e as extremidades do intestino aceitassem um religamento cirúrgico, 80 % das crianças morriam.

Mediante um esboço de grampos cardíacos e vasos sanguíneos em giz, Barnard explica o seu método cirúrgico a jornalistas na Cidade do Cabo. Ele financiou sua formação como cirurgião cardíaco fazendo plantões noturnos e removendo neve para os vizinhos.
Para descobrir a origem do problema, Barnard abre cadelas prenhes e interrompe o fluxo de sangue para uma parte do intestino dos fetos. Se os filhotes nascerem com atresia intestinal, ficará claro que a causa terá sido falta de irrigação sanguínea. Quarenta e dois experimentos fracassam, mas o 43º fornece a comprovação. Agora, o médico já sabe: quando os cirurgiões religam as extremidades intestinais, eles precisam fazer a incisão com alguns centímetros de distância da região malformada, porque as áreas próximas a esta são também mal irrigadas. No futuro, a nova técnica cirúrgica salvará a vida de muitos recém-nascidos.
Barnard segue cheio de esperanças para Minnesota. Mas ao se apresentar na clínica, em fins de dezembro de 1955, experimenta forte decepção. Impressionado com o trabalho do sul-africano sobre a atresia intestinal, o cirurgião-chefe, Wangensteen, o incumbe de pesquisar defeitos no esôfago – e o condena ao desterro no laboratório de experimentos com animais.
O sul-africano está interessado em algo completamente diferente. Cirurgiões do estado de Minnesota criaram sua própria máquina coração-pulmão, para levar oxigênio ao sangue. Valendo-se de um agente antiespumante, o dispositivo oxigenador desse equipamento elimina as pequenas bolhas de ar que se formam no processo. O aparelho se revela economicamente viável, e, mais tarde, será bastante difundido. Tanto que estará presente, em 1967, na cirurgia de Louis Washkansky.
Três meses escoam antes que Barnard possa, finalmente, auxiliar um dos cirurgiões de Minnesota na operação da máquina de circulação extracorpórea. Depois disso, ele toma a decisão: será cirurgião cardíaco.
Antes, porém, ele precisará remover muita neve para os vizinhos, e fazer frequentes plantões noturnos no hospital – as formas que encontra para reforçar os recursos da bolsa de estudos e prover o sustento da família, que, em certo momento, decide visitá-lo por dez meses. Casado com a ex-enfermeira Louwtjie Louw, Christiaan Barnard tem dois filhos: Deirdre e André.
Ao mesmo tempo, ele trabalhava como louco na clínica universitária. Certo domingo chegou a ser expulso do laboratório. Envolvido com um teste-maratona para o estudo do funcionamento de uma válvula aórtica artificial, ele impedia o trabalho da equipe de limpeza. Ao final de sua permanência de dois anos e meio nos Estados Unidos, o sul-africano havia realizado o que outros, em geral, só conseguiam em seis. Resultado: ele obteve dois títulos acadêmicos e foi aprovado em exames feitos em dois idiomas estrangeiros. Wangensteen o queria em sua equipe, mas Barnard insistiu em voltar para a Cidade do Cabo.
O cirurgião-chefe não deixou o esforçado médico partir de mãos vazias. Conseguiu para ele, junto ao Departamento de Saúde norte-americano, a verba necessária à compra de uma máquina coração-pulmão. O equipamento foi embarcado para a África do Sul de navio. O embasamento técnico para a trajetória de Christiaan Barnard na cirurgia cardíaca estava, agora, assegurado.
Enquanto Isso, diversos cirurgiões norte-americanos trabalham no aperfeiçoamento da técnica de transplantes cardíacos – à frente de todos estão Norman Shumway e Richard Lower, do Centro Hospitalar de Stanford, em Palo Alto, Califórnia. O primeiro fez residência também em Minnesota e, como Barnard, foi aí que decidiu ser cirurgião cardíaco.
A dupla Shumway-Lower começou seus experimentos utilizando os corações de cães. Shumway conserva os órgãos extraídos mergulhando-os em uma gelada solução de sal de cozinha. Ele testa quanto tempo os corações resistem fora do corpo dos animais, e depois os reimplanta nos mesmos cães. Em algum momento ele tem a ideia de transplantar o coração extraído para o organismo de outro cão.
Tecnicamente isso é até mais simples, porque há pedaços mais longos de vasos sanguíneos disponíveis para as suturas. Em dezembro de 1959, quando a dupla consegue, pela primeira vez, implantar um novo coração em um cão , Shumway encerra seu relatório sobre o caso com as seguintes palavras: “Espero que este experimento seja o início de uma história muito frutífera”. A reflexão de um médico não apenas modesto – também decente.

Treinamento para a distante meta do transplante cardíaco nos humanos: em 1959, especialistas russos implantaram uma segunda cabeça nas costas de um cachorro. A horripilante criatura de laboratório até se deixava alimentar.
Barnard não tem inclinação por esse estilo recatado. De volta dos EUA, ele treina colegas do Hospital Groote-Schuur na operação da máquina de circulação extracorpórea, e logo monta uma equipe de cirurgia cardíaca. Ainda em 1958, ele realizara a primeira cirurgia bem-sucedida de coração aberto na África do Sul.
Em 1960, ao ler sobre a iniciativa do cirurgião russo Wladimir Demichow, que implantara uma segunda cabeça em um cão, Barnard corre para o laboratório, pede a ajuda de um talentoso médico assistente, e repete a experiência macabra. Logo em seguida, as duas cabeças caninas – a menor e a maior – tentam beber leite. Ávido de reconhecimento, Barnard fotografa sua criação e envia as fotos aos principais jornais sul-africanos (a televisão praticamente inexiste no país do Apartheid). Sua fama se espalha então, rapidamente, por todo o país.
Entre sua própria equipe Christiaan Barnard tem, contudo, fama bem diferente. Quando opera, ele frequentemente joga os instrumentos colericamente a sua volta. Johan van Heerden, técnico das bombas mecânicas durante o primeiro transplante de coração, lembraria mais tarde que sentia dores de estômago toda vez que era escalado para trabalhar com Barnard.
Como faz consigo mesmo, o cirurgião exige também o máximo dos outros. Quando está na clínica à noite, em vez de se concentrar nos cuidados com os pacientes, ele gosta de entrar inesperadamente na sala dos médicos e checar se o plantonista está dormindo. Mas Christiaan Barnard sabe ser charmoso, principalmente na presença de mulheres jovens. “Para mantê-lo de bom humor, sempre dava um jeito de ter uma enfermeira moça e bonita na sala de cirurgia”, diz a enfermeira-chefe Jordaan.
Nos Estados Unidos, os amigos Shumway e Lower mantêm-se firmes em sua meta de longo prazo: concluir com êxito um transplante cardíaco em humanos. Já em 1960 eles publicam um estudo, no qual estabelecem a técnica de transplantes usada ainda hoje. A teoria recomenda que o coração do receptor seja extraído de maneira a que as paredes posteriores dos átrios frontais permaneçam na cavidade torácica, juntamente com as respectivas veias de conexão. A vantagem disso: somente a artéria aorta e a artéria pulmonar precisarão ser seccionadas e reconectadas – com pontos milimétricos – nos vasos do órgão doado. Dntre os oito cães cujos corações eles transplantaram, alguns chegaram a sobreviver por 21 dias.
Outro cirurgião americano , Adrian Kantrowitz , do Hospital Maimonides, no Brooklyn, Nova York, obtém sucessos impressionantes em experimentos com animais. Entretanto, ele opta por um procedimento ligeiramente diferente do adotado por Shumway e Lower. Para evitar o problema da rejeição Krantowitz recorre a filhotes de cão, na esperança de que o sistema imunológico deles, ainda pouco desenvolvido, não reaja tão violentamente contra o órgão estranho. Em 1962 esse médico faz seu primeiro transplante bem-sucedido, e logo alcança períodos crescentes de sobrevida: 57, 112 e até mais de 200 dias.
No início da década de 1960 os cirurgiães norte-americanos já detêm o conhecimento técnico necessário ao transplante de um coração. O problema continua a ser a imunorreação do receptor. Ela ameaça o sucesso da cirurgia a longo prazo – e a pesquisa nesse campo está apenas engatinhando. Os médicos nem sabem ainda como diagnosticar uma rejeição. Suas primeiras tentativas de tratamento revelam-se, em consequência disso, inúteis.
Em meados dos anos de 1950 os médicos haviam tentado combater a rejeição ao transplante de rins bombardeando o corpo do paciente com radiações de raios X. Então, no início da década seguinte, surge a azatioprina, primeiro imunossupressor relativamente eficaz. Agindo sozinho o medicamento demonstra, contudo, ser ainda fraco para conter todos os efeitos da rejeição.
Novamente são Shumway e Lower que fazem avançar a ciência dos transplantes. Eles são os primeiros a usar uma combinação de azatioprina e cortisona em transplantes cardíacos. Os cães submetidos ao novo tratamento sobrevivem até 250 dias.
Outro Problema continuava, mesmo com as experiências práticas, insolúvel. Ao investigar os transplantes de coração, os cirurgiões se aventuraram em um terreno jurídico e ético desconhecido.
Os danos em um coração dependem, diretamente, da falta de oxigenação. Já se sabe, igualmente, que a qualidade de um transplante será tão boa quanto mais forte o órgão a ser transplantado estiver batendo. Contudo, nos Estados Unidos não está claro se o transplante é legalmente admissível – e até se ele pode, eventualmente, vir a ser julgado como assassinato.

O cardiologista norte-americano Norman Shumway desenvolveu a técnica do transplante de órgãos, e, usando animais, também aprendeu a dominar a reação de rejeição pelo organismo receptor. Mas Barnard foi o primeiro a aplicar esse conhecimento em seres humanos.
A moderna medicina intensiva começou a mexer nos limites entre a vida e a morte. Durante muito tempo, uma pessoa era declarada oficialmente morta quando seu coração e sua respiração paravam. Mas agora é possível reanimar uma pessoa depois de uma parada cardíaca, e fornecer-lhe respiração artificial mesmo que seu cérebro esteja permanentemente danificado. Isso gera um acirrado debate entre especialistas: quando os médicos podem desligar aparelhos, e deixar morrer um paciente definitivamente comatoso?
Muitos cirurgiões querem ir além. Eles exigem redefinir a morte de uma pessoa através do critério da morte cerebral irreversível, ou perda total da consciência humana. Só não ficam claros quais são os parâmetros clínicos que permitem aferir esse estado. Insensibilidade à dor e à luz poderiam atestar de forma inquestionável a morte cerebral? Quanto tempo precisa transcorrer até que o diagnóstico deva ser considerado irreversível?
Apesar de tais incertezas, os cirurgiões começam a transplantar órgão de pessoas com morte cerebral. No caso dos transplantes de rim, eles agora esperam em geral de cinco a dez minutos depois da parada cardiorrespiratória, antes de reanimar o coração com massagens ou medicamentos – com o único objetivo de conseguir extrair rins ainda bem irrigados de sangue.
Mas é permitido declarar uma pessoa morta quando ela ainda pode ser reanimada? E quando isso não é feito, é aceitável que se removam os órgãos de uma pessoa ainda viva? Shumway e seus colegas temem que um transplante de coração possa levar essa controvérsia a um auge.
A instabilidade do terreno no qual se movem os transplantadores fica óbvia na primavera de 1966, quando Adrian Kantrowitz planeja uma monstruosidade: após centenas de experimentos com filhotes de cães, ele quer implantar um novo coração no corpo de um bebê com aguda deficiência cardíaca. Em uma carta, endereçada a 500 clínicas norte-americanas, ele pede aos colegas que lhe enviem “o material do caso que agora necessitamos ”. O doador precisaria ser um recém-nascido com defeito congênito incurável, que só tivesse poucos meses de vida.
Kantrowitz estava pensando em bebês anencéfalos – desprovidos total ou parcialmente do encéfalo (cérebro) –, que normalmente são mantidos em encubadeiras após o nascimento até que o coração pare de bater. Em junho de 1966, o cirurgião consegue que uma criança dessas lhe seja enviada, com a autorização dos pais, desde Portland, no Oregon, até o Brooklyn nova-iorquino – pontos distantes 4.000 quilômetros entre si.
Tudo está preparado para o primeiro transplante cardíaco do mundo, quando na sala de cirurgia surge um conflito: dois cirurgiões da equipe se recusam, terminantemente, a retirar o coração enquanto ele ainda bate. Kantrowitz é obrigado a esperar até que o eletrocardiógrafo acuse linhas zero. Mas quando isso acontece o coração, devido à falta de oxigênio, já não se mostra mais apto a ser empregado em um transplante
FIXAÇÃO PELA VITÓRIA ACIMA DOS DEVERES COM A FAMÍLIA
Enquanto Isso, Barnard consolida a reputação de melhor cirurgião cardíaco da África do Sul. Ele se projeta principalmente através do tratamento de defeitos cardíacos congênitos, e ainda mostra extremo zelo com os cuidados pós-operatórios de seus pacientes. E desenvolve uma nova válvula cardíaca, que irá se revelar de grande utilidade
Ao mesmo tempo, ele direciona sua ambição em outra direção. Sua filha Deirdre é uma talentosa esquiadora aquática, e Barnard começa a treiná-la. A família chega, inclusive, a se mudar para a beira do lago Zeekoevlei, na planície do Cabo, onde Deirdre dispõe das melhores condições de treino possíveis
Todas as noite, independentemente do tempo, Barnard pilota a lancha puxando a filha sobre a lâmina d’água do lago. E com ela passa os fins-de-semana, quase não lhe restando tempo para seu filho André.
Aos 12 anos de idade, a garota se torna campeã sul-africana. Barnard tem, contudo, planos ainda mais ambiciosos para ela: ele quer que Deirdre seja a número 1 do mundo. Em 1965, ela consegue vaga no ranking mundial. Um ano depois, na Austrália, estabelece o recorde mundial em salto de rampa – mas a marca não é reconhecida por motivos formais (políticos). A jovem adolescente começa a sentir falta das diversões de garotas de sua idade. “Ela não tinha a tenacidade visceral necessária a uma campeã mundial. Quando era derrotada, só ria”, escreve Barnard em suas Memórias.
A essa altura, o cirurgião sul-africano está com mais de 40 anos, frustrado e vivendo plenamente uma crise de meia-idade. “Havia chegado o ponto em que eu tinha de parar de usar minha filha como meio de satisfação da minha própria ambição”. Ele, então, encerrou os treinamentos com Deirdre. Sua ambição parte agora em busca de novas metas, e elege o transplante de rim como a primeira delas. Em agosto de 1966, Christiaan Barnard embarca para fazer um curso prático em Richmond, Virgínia, EUA. Aí pretende aprender com o renomado transplantador de rins David Hume a técnica de tratar a imunorreação do organismo humano.

Ser vencedor, mesmo que a um preço alto: Barnard também adota esse princípio na vida pessoal. Ele pressiona sua filha Deirdre a superar marcas no esqui aquático – e, assim, negligencia a convivência com a mulher e o filho.
A viagem de Barnard tem, porém, outro bom motivo: na clínica de Hume, trabalha Richard Lower, o companheiro de Shumway. Certo dia, Barnard tem a chance de observá-lo fazendo um transplante cardíaco no laboratório – e fica fascinado com a simplicidade e a precisão de seus procedimentos.
Daí em diante, o sul-africano aproveita todas as oportunidades para observar Lower e memorizar os mínimos detalhes. Ao fim de seu estágio, Barnard toma a decisão: ele quer transplantar um coração humano.

O astro da Medicina dança com a alta nobreza: em agosto de 1968, Christiaan Barnard é o convidado de honra em uma festa de gala beneficente – e chama a atenção da princesa Grace Patrícia, de Mônaco.
De volta para a Cidade do Cabo, o cirurgião forma uma equipe para transplantes de rins e corações. Ele faz questão de incluir especialistas de todas as áreas. Seu perito em compatibilidade de tecidos percorre, como ele próprio já fez, os principais centros de pesquisa internacionais, em busca de atualização.
Finalmente, em outubro de 1967, chega a hora: Barnard realiza seu primeiro transplante de rim, que também será o único. A paciente viverá durante 20 anos com o novo órgão. Agora, o cirurgião-chefe do Hospital Groote-Schuur está pronto para dar o segundo grande passo.
No laboratório de experiências com animais, ele e seus colegas transplantaram corações em 48 cachorros. Shumway, Lower e Kantrowitz chegaram a operar centenas de caninos nos últimos anos, mas o doutor Barnard acredita que já tem experiência suficiente. Afinal, os corações novos que ele implantou começaram a bater em mais de 90 % dos casos.
Tudo o que ele precisava agora era de um paciente. Então, no início de novembro de 1967, o cardiologista-chefe do Groote-Schuur o chama à sua sala. “Escute, Chris”, acho que temos um paciente apropriado para um transplante de coração.”
Louis Washkansky tem um péssimo prognóstico, e também uma tenaz vontade de viver. Em sua juventude havia sido pugilista amador, mas desde setembro de 1967 ele está internado no Hospital Groote-Schuur. “Durante dois meses ele praticamente morria todo dia”, lembraria Ann, sua mulher.
O clínico geral já tinha contado a Washkansky sobre a possibilidade de um transplante de coração. Assim, quando Barnard lhe falou sobre o assunto, ele apenas respondeu: “De acordo, estou pronto a qualquer hora”.Ann Washkansky estava mais cética. Ela queria saber quais eram as chances de Louis sobreviver, e Barnard, sem hesitar, satisfez-lhe a curiosidade: 80 %, calculou. Foi o início da espera pelo doador adequado.
A VIDA APÓS O SUCESSO: FAMA E MULHERES JOVENS
Nos EUA havia igual expectativa. Apesar da complicada questão da morte cerebral, Shumway declarou a uma revista especializada, no dia 20 de novembro, que era chegada a hora de transplantar um coração humano. E essa chance viria, realmente, em pouco mais de duas semanas, mas para o sul-africano Christiaan Barnard.
Na tarde do dia 2 de dezembro de 1967, Denise Darvall sai de sua residência, em um subúrbio da Cidade do Cabo, acompanhada da mãe, do pai e do irmão, para visitar amigos. Ela estaciona o carro em uma rua movimentada para buscar com a mãe um bolo na confeitaria do outro lado da rua. O semáforo para pedestres está verde quando as duas voltam para o automóvel, mas elas não conseguem ver o carro em alta velocidade atrás de um caminhão que está freando. O veículo de passeio colide em cheio com as duas mulheres, atirando-as para o alto. A mãe morre instantaneamente. Denise bate com a cabeça na calota de um carro e permanece imóvel no chão.
Em poucos minutos, aparece uma ambulância que a leva ao Hospital Groote-Schuur. Cuidadosamente os socorristas empurram a maca pela entrada de emergência na lateral esquerda do hospital – destinada a pacientes brancos.
São 22 horas quando Joseph Ozinsky, anestesista da equipe cardiológica de Barnard, examina Denise pela primeira vez. Como potencial doadora de órgãos, ela está na unidade cardiopulmonar, entubada e respirando com a ajuda de aparelhos. Seu grupo sanguíneo O é compatível com o sangue grupo A do comerciante Washkansky.
Naquela época, na África do Sul, os pacientes eram considerados mortos quando dois médicos declaravam o óbito. Por precaução e para não ficar vulnerável posteriormente, Christiaan Barnard havia estabelecido alguns critérios para comprovar a morte cerebral. Ele combinara com o diretor de Medicina Forense mandar examinar o doador por um neurologista independente. Nessa noite de dezembro, o especialista chamado atesta para Barnard que a jovem mulher realmente havia sofrido gravíssimos ferimentos cerebrais que culminariam em sua morte.

Felicidade fugaz: Barnard, 47, com Barbara Zöllner, de apenas 19 anos, com quem se casou após o divórcio de sua primeira mulher, a enfermeira Louwtjie. O casal iria se separar em 1982. Seis anos depois, Barnard assume um terceiro matrimônio.
A equipe cardiológica, há semanas em permanente estado de prontidão, é convocada. No Groote Schuur, dois médicos se aproximam do pai de Denise, Edward Darvall, que se encontra em estado de choque. Eles o informam sobre a condição de sua filha e, então, fazem a constrangedora pergunta: ele estaria de acordo em doar o coração e os rins de Denise para transplante, e assim salvar outros pacientes? Darvall lembra-se de que a moça sempre gostou de presentear – e concorda.
Às 2h20min o aparelho de respiração artificial da jovem é desligado. A extração do coração é iminente. Mas o que ocorreu em seguida é motivo de discussão até hoje.
De acordo com o relatório oficial da operação, o coração de Darvall para de bater às 02h32min. Só depois disso é que os assistentes de Barnard abrem sua caixa torácica na sala de cirurgia “B”, para preparar a retirada do órgão.
Contudo, quase 40 anos depois, o jornalista britânico Donald McRae é cientificado de outra versão, fornecida por Marius Barnard. De acordo com esse relato, o cirurgião na sala “B”, Terence O’Donovan, insistiu em esperar as linhas zero do eletrocardiógrafo. Marius, entretanto, suplicava a Christiaan que ignorasse a hesitação de O’Donovan. Marius temia que o coração de Denise Darvall pudesse ficar irremediavelmente danificado pela falta de oxigênio. Ele então sugeriu provocar a parada cardíaca da moça acidentada por meio de uma injeção de potássio, método que lhe parecia mais prudente. Barnard concordou. Mais tarde, os dois irmãos decidiram manter a coisa toda em segredo.
A cirurgia, enfim, tem início. Assim que Washkansky está acoplado à máquina coração-pulmão de circulação extracorpórea, a fase decisiva do transplante pode começar.
“Quem Cometeu Este Erro Estúpido?”, grita Barnard, quando uma mangueira da máquina arrebenta e o sangue de Washkansky jorra para fora. “Mas o senhor disse pressionar”, defende-se a enfermeira-chefe Peggy Jordaan. Barnard retruca: “Eu nunca disse isso”. O cirurgião sabe que está errado, mas em momentos como esse ele só dá ordens. Na verdade, ele logo recupera seu autocontrole e reage com sangue frio.
Primeiro, o cirurgião separa a máquina coração-pulmão do corpo de Wash-kansky, para evitar que pequenas bolhas de oxigênio cheguem a seu cérebro. Em seguida, ele reconecta as extremidades da mangueira danificada, a fim de que as bolhas possam ser eliminadas da máquina pelo agente antiespumante. Segundos depois, Washkansky está novamente ligado à máquina de circulação extracorpórea; dessa vez, diretamente através da artéria aorta.
“Ligar a bomba”, ordena Barnard. A crise durou três minutos. Mas agora o corpo de Washkansky está sendo alimentado pela máquina com sangue vermelho, rico em oxigênio. Hewitson pode começar a liberar o órgão doente do corpo do homem. É hora de ir buscar o coração da doadora.
Depois da parada cardíaca de Denise, provocada pela injeção de potássio, os cirurgiões na sala “B” reanimaram seu coração e o acoplaram a uma segunda máquina coração-pulmão. Foi o próprio Christiaan Barnard quem extraiu o pequeno e rosado órgão de seu corpo.
Como sempre, quando pega um bisturi, sua mão treme – Barnard sofre de artrite. Mas ao contrário das outras vezes, sua mão continua tremendo enquanto ele começa a cortar. Finalmente o órgão a ser transplantado é posto em uma bacia redonda, cheia de uma solução gelada. Barnard a carrega cuidadosamente pelos 31 passos que o separam da sala de cirurgia “A”. São 3h:01min.
Imediatamente o coração é acoplado, através de uma bomba separada, à máquina de circulação extracorpórea de Washkansky. Quando Barnard extrai o coração velho, abre-se uma enorme cavidade vazia no peito de Washkansky. Hewitson coloca nela o pequeno coração de Denise Darvall. Será que ele voltará a bater?
Barnard começa a suturar. As duas aberturas do coração doado são ligadas aos dois terminais restantes dos átrios dianteiros de Washkansky; primeiro o esquerdo, depois o direito. Em seguida, Barnard e Hewitson reconectam a artéria pulmonar e a aorta. Às 5h19min começa o reaquecimento do paciente, resfriado a uma temperatura de aproximadamente 23 graus centígrados.
Às 5h34min termina a última sutura. O grande momento se aproxima. Às 5h52min Barnard encosta os eletrodos do desfibrilador, que emitirá descargas elétricas no coração, para fazê-lo bater novamente. “Vamos, choque!”
Por um momento, depois da primeira descarga elétrica, o coração continua imóvel, como paralisado, sem sinal de vida. De repente, os átrios se contraem, depois os ventrículos, depois novamente os átrios, e depois os ventrículos. Mas o corpo de Washkansky ainda está conectado à máquina de circulação extracorpórea.
Quando Barnard manda desligá-la pela primeira vez, a pressão cai e o coração trabalha com dificuldade sob o estresse. “Ligar bomba de novo!”, ordena Barnard. Só na terceira tentativa o novo coração bate estável e forte. São 06h13min.
Barnard vira-se para seu assistente de bomba e diz em africânder: “Jesus, Johan, ele bate!”.
Barnard retira o último cateter e estende a mão a seu assistente Hewitson por cima da cavidade peitoral aberta. “Conseguimos, Rodney.”
Louis Washkansky vive 18 dias com seu novo coração. Então morre de pneumonia, que Barnard tratou erroneamente como imunorreação de seu organismo.
Mesmo assim, os meios de comunicação comemoram o primeiro transplante cardíaco como um sucesso. E no meio cirúrgico ela provoca mundialmente ondas de imitação.
Apenas três dias depois da façanha pioneira de Barnard, Adrian Kantrowitz transplanta, no Brooklyn, em Nova York, o segundo coração da história da Medicina no corpo de um recém-nascido. Ao todo, são transplantados mais de 100 corações em 1968. Porém, os resultados são tão esmagadores – só poucos pacientes sobrevivem mais de seis meses – que no início da década de 1970 a maioria dos centros especializados desiste dos transplantes de coração.
QUANDO A OUSADIA VIRA PROCEDIMENTO PADRÃO
Somente após a introdução do imunossupressor ciclosporina A, no início dos anos 1980, o transplante de coração torna-se cirurgia de rotina. O medicamento não bloqueia todo o sistema imunológico, mas apenas aquela parte que provoca a rejeição. Hoje, os pacientes vivem, em média, dez anos com um coração novo. Desde 1967, mais de 80.000 foram transplantados em todo o mundo.
Para a compreensão do conceito de morte na Medicina moderna, o primeiro transplante de coração teve consequências radicais: ele forçou a opinião pública a debater a questão do fim da vida. Já em 1968, uma comissão da Escola de Medicina da Universidade Harvard declarou que um cérebro inoperante é um sinal seguro da morte, e estabeleceu alguns critérios diagnósticos. Atualmente, o conceito de morte cerebral está consolidado na maioria dos países do mundo ocidental. Na Alemanha ele é vinculado diretamente à lei dos transplantes, desde 1997.
Depois de 1967, Christiaan Barnard levou uma vida de estrela e playboy.Ele viajou pelo mundo como palestrante, flertou com mulheres jovens e belas e negligenciou seu trabalho no hospital na Cidade do Cabo. Apesar disso, em seus poucos transplantes subsequentes obteve bons resultados. Seu segundo paciente, Philip Blaiberg, conseguiu sobreviver um ano e meio com um coração novo.
Em 1969, Barnard se divorciou da mulher Louwtjie. Ele casaria mais duas vezes, sempre com mulheres mais jovens do que sua filha Deirdre. No final de 1983 é obrigado a parar de operar devido a problemas reumáticos.
Barnard morreu de ataque asmático no dia 2 de setembro de 2001, aos 78 anos de idade. Norman Shumway, que aos cardiologistas inspirava muito mais confiança do que Barnard, transplantou, em 6 de janeiro de 1968, o quarto coração da história. Seu centro médico foi um dos poucos no mundo que continuou a desenvolver o procedimento cirúrgico dedicado a esse tipo de intervenção cirúrgica.
Shumway descobriu um método de diagnosticar a imunorreação, e sua equipe foi a primeira a ousar um retransplante – caso em que o paciente recebe um segundo coração após uma primeira rejeição. Shumway foi também o primeiro a retirar corações em outros hospitais e mandar transportá-los para receptores em outros locais.
Desde o início, Shumway deixou claro que não simpatizava com Barnard. Nas palestras sobre transplantes cardíacos, ele costumava comparar os slides que mostravam os mais recentes progressos de sua equipe de Stanford com as imagens das últimas conquistas femininas de Barnard
Quando o seu grande antagonista morreu, em 2001, Shumway exibiu dignidade suficiente para ressaltar o fato de Barnard ter insistido no aproveitamento de vítimas de acidentes com morte cerebral para fins de transplante. Ele nunca quis comentar a cirurgia da madrugada do domingo, 3 de dezembro de 1967.
Somente no fim da vida Shumway falou, em tom conciliador, sobre o golpe que recebera do sul-africano, que se antecipara a ele na realização do primeiro transplante de um coração em humanos: “Talvez tenha sido sorte que não fomos os primeiros. Tivemos aborrecimentos suficientes com a imprensa por causa de todo o alarde”.
A colaboradora de GEO Martina Keller escreve há muitos anos sobre transplantes de órgãos. Em sua opinião, é especialmente notável como as necessidades da medicina dos transplantes contribuíram para redefinir o momento da morte do ser humano. Dois integrantes da lendária equipe cirúrgica de 1967 contaram a Keller, em primeira mão, suas experiências na África do Sul. A assistente da bomba da máquina de circulação extracorpórea Dene Friedmann (segunda da direita, na frente, na foto em grupo) e o cirurgião Rodney Hewitson (à direita, atrás dela), autor da incisão inicial na operação de Wash-kansky.
Fonte: Revista GEOUol – http://revistageo.uol.com.br/