Daily Archives: 15/09/2009

Incapaz de gerenciar a saúde, governo paulista inicia seu desmonte definitivo

GABRIEL BRITO

No início desta semana foi aprovado na Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp) o Projeto de Lei Complementar (PLC) 62/2008, que permite a entrada das chamadas Organizações Sociais na assunção de diversos serviços da área de saúde. A nova legislação vai de encontro à tendência de entrega dos hospitais públicos à iniciativa privada, como já mostrado pelo Correio, política que tem marcado a gestão tucana no Estado desde os anos 90.

Repelido por entidades da sociedade civil, trabalhadores e sindicatos do setor, o projeto contou com todo o apoio da base governista, sendo aprovado por 55 votos a 17 contrários, que foram contabilizados pelas bancadas do PSOL, PC do B e PT. Na visão, ao menos declarada, dos entusiastas do projeto, a entrada de ditas entidades aumentará a eficiência dos atendimentos, o acesso e até mesmo o rendimento dos funcionários, mesmo diante do fato de que estes passarão a gozar de estabilidade zero e terão seus direitos trabalhistas reduzidos.

Em suma, discurso idêntico ao de todas as demais privatizações e terceirizações em estradas, telefonia, energia, ainda que com a plena constatação do público acerca da precarização nas condições de trabalho, da queda de qualidade no serviço e do aumento exorbitante de tarifas, a exemplo da explosão das tarifas de pedágios em estradas construídas pelo Estado.

"A aprovação do projeto preocupa, pois se fala em ampliar a atuação das OS no estado, mas antes esse sistema precisava ser repensado, melhorado e principalmente ser mais fiscalizado e transparente", disse ao Correio a promotora pública Ana Trotta Yarid, que entrará com Ação de Inconstitucionalidade contra o projeto. "A lei não visa aprimorar nada, apenas abrir caminho para a entrada das organizações", completa.

Preocupação justificada

Os perigos alertados pela procuradora possuem motivos de sobra para se justificarem. Em 2008, CPI promovida pela Alesp encontrou altíssimos indícios de irregularidades e malversação do dinheiro público. O parecer de Raul Marcelo aponta uma série de irregularidades denunciadas à CPI nos contratos com as OS. Nas visitas que fez a sete unidades das 13 geridas até então por OS, o deputado verificou a precarização dos contratos de trabalho; utilização de equipamentos de unidades públicas de saúde por entidades privadas, caso do Conjunto Hospitalar de Sorocaba; contratação de serviços prestados por empresas ou pessoas físicas ligadas a OS nas unidades geridas por estas; privatização de áreas-fim das unidades, como laboratórios, especialidades de maior complexidade (neurocirurgia, nefrologia, hemodiálise) e farmácias.

"Estou indo ao Hospital Brigadeiro e a cada vez há menos pacientes, inclusive o médico com quem trato já foi também transferido e, segundo informações que obtive de funcionários, até dezembro o hospital estará nas mãos de uma empresa terceirizada", contou ao Correio a leitora e paciente do hospital Maria Aparecida Alves (ver matériaa respeito do desmonte das clínicas do Hospital Brigadeiro).

No discurso, tanto governo como mídia não se cansam de reverberar que tais entidades não possuem finalidade lucrativa. No entanto, foi aprovada emenda que abre 25% dos atendimentos do SUS para os planos de saúde privados, medida de claro viés mercadológico e arrecadatório. "Além de contrariar o princípio do SUS, pois esses 25% não serão de todos, o pior é que isso já poderia ser feito pelo governo, que sempre teve a possibilidade de cobrar dos planos pelos atendimentos de que esses utilizaram na rede pública, pois já existe legislação para isso", lembra a promotora.

Se realizasse tal cobrança, o governo realmente ganharia um incremento na receita da saúde que muito poderia impulsionar a melhora e ampliação de toda a rede estadual. Em entrevista à Rádio CBN, em fevereiro deste ano, o secretário do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Ismar Barbosa Cruz, afirmou que a dívida dos planos de saúde com o SUS é de "no mínimo, 4,3 bilhões de reais".

Tal revelação já parece suficiente para que novamente fiquemos ressabiados com o famoso custo/benefício de mais uma política privatista do governo Serra. Contra a vontade da sociedade organizada e trabalhadores, conta com o apoio sempre afinado da mídia. Em seu editorial de primeiro de setembro, a Folha de S. Paulo recorre ao já surrado método de substituir a argumentação pela rotulação. Termos como ‘resistência estatal’, ‘enfadonha querela ideológica que opõe adeptos de uma concepção passadista e corporativista do Estado (…) que ameace seus feudos sindicais’ e por aí afora. Fazem falta, entretanto, exemplos de experiências anteriores com comprovado retorno social.

Salta aos olhos também a ausência da mais simplória menção a um de nossos primeiros artigos constitucionais, que sublinha a universalidade do acesso à saúde. Para o leitor desavisado, parece uma boa confluência de intenções um governo declarando que seu novo projeto qualificará o setor, enquanto a mídia formadora de opinião o avaliza euforicamente. Mas nessas horas é bom lembrar que nas últimas eleições governamentais, as que definiram a vitória de Serra, em todo o país foram doados cerca de R$ 7,2 milhões às campanhas eleitorais por parte de planos médicos. E que a Folha de S. Paulo tem a Golden Cross entre seus anunciantes.

No pleito que elegeu o atual governador, pode-se verificar através do site asclaras.org, parceira da conhecida ONG Transparência Brasil, que diversas empresas do ramo da saúde fizeram suas contribuições ao tucano. A Preslaf Emp. e Serv. Hospitalares repassou R$120 mil; o Hospital das Clínicas de… Niterói (!) 180 mil; as redes Drogasil e Raia 30 mil cada; já a Federação das Unimeds de São Paulo, entre todos os seus contemplados, distribuiu R$2 milhões. Não à toa já existe em nosso ‘politiquês’ a denominação ‘bancada da saúde’, grupo que envolve parlamentares patrocinados em suas campanhas por tais empresas.

(Na extensa lista de doadores do governador há empresas de diversos ramos mancomunados com as políticas tucanas, entre elas diversas consultorias e similares; uma delas, a Far-Fator, foi processada e condenada em 2004 por usar informação privilegiada na compra e venda de ações à época da privatização da COPEL – Companhia Energética Paranaense. Para se reabilitar diante da sociedade, a empresa ofereceu um termo de compromisso com a singela proposta de "cessação de ilícito". Considerando inaceitável, o diretor-relator da CVM Eli Loria rejeitou a idéia e ordenou que a justiça encaminhasse o processo)

Vale lembrar que o fim das OS foi proposto pelos Conselhos Estadual e Nacional de Saúde e a lei que criou as Organizações Sociais (9.637/98) sofre questionamentos até no Supremo Tribunal Federal, onde tramita ação direta de inconstitucionalidade (Adin 1923/98) contra o modelo de gestão há 11 anos. Já o sub-relatório do deputado estadual Raul Marcelo (PSOL), denunciando irregularidades na saúde estadual, foi aprovado por unanimidade.

Escala nacional

Se o estado de São Paulo já está condenado a entregar sua saúde ao que a CPI dos gastos do setor qualificou como ‘porta aberta à corrupção’, o país deve se preparar para o mesmo. Está em tramitação também o PL 92/07, que significa o mesmo do PLC 62/2008, porém, em nível federal. "A questão central das OS é a falta de transparência, de controle público e a inexistência de licitações. Existe margem para desvios de todos os tipos", já dissera anteriormente ao Correio o deputado estadual.

Os movimentos e trabalhadores contrários ao PL já realizaram algumas manifestações e audiências com parlamentares a fim de tratar do assunto. "Há casos em que se perde de vista quem é o responsável pela contratação de um determinado serviço, porque a terceirizada contrata outra empresa, que subcontrata uma quinta, e por aí vai. Esse sistema é uma verdadeira draga de recursos públicos", opina Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL-SP.

"Já temos dificuldades de gerenciar a saúde do jeito que ela está, e ainda querem ampliar essa política, sendo que o governo não investe na aparelhagem que melhoraria a fiscalização. As pessoas não entendem que quem não pode pagar plano de saúde precisa do SUS. E que planos de saúde também quebram", assinalada Ana Trotta.

Caos clientelista

Sem a garantia de concursos públicos para preenchimento de cargos e com o governo dispensando abertamente a necessidade de licitações, faz sentido, pelo menos dentro de uma visão republicana, toda a carga de preocupação de setores contrários à nova lei. "Agora a fundação da USP quer assumir o Emilio Ribas. Com as dificuldades que eles já têm no Hospital das Clínicas, certamente transferirão muitos tratamentos diferenciados para cá, superlotando nossas dependências", conta Vera, funcionária do laboratório do Instituto de Infectologia Emilio Ribas.

"O diretor caiu, houve uma precarização enorme nos exames e o laboratório piorou com a terceirização. Até a UTI foi deslocada para lá. Agora os resultados de exames infectológicos passaram a sair só no final do dia, quando antes levavam duas horas", relata. "Pra completar, os próprios médicos reclamam disso e os funcionários do laboratório têm receio de liberar os resultados por medo de imprecisão. O deslocamento de pessoas e o sucateamento já são claros".

"Relatório feito pelo DIEESE, a pedido dos sindicatos, mostra que saímos de 2004 gastando R$ 600 milhões com essas entidades e chegamos a 2008 gastando mais de R$ 1 bilhão. Em 2009, gastaremos o triplo desse valor, R$ 1,89 bilhão", informou Raul Marcelo na página de seu mandato.

"O governo precisa mostrar a situação ao público, pois deveria se preocupar em evitar o retrocesso da saúde, o que não interessa a ninguém. Além do mais, o Tribunal de Contas do Estado já apontou desvios nos montantes repassados pelo governo", revela a promotora.

Sua tese é endossada por Raul Marcelo. "Um governo que tem essa visão de gestão da saúde não merece confiança, por isso não vamos dar um cheque em branco a esse projeto, que, na nossa avaliação, não deixa claro que esses cargos serão criados por concurso público". "O que é necessário são políticas muito bem definidas para a saúde", finaliza Anna Trotta Yarid.

Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

A direita mais radical da Europa está na Hungria

Anna-Maria Hollain
Em Madri

O partido de extrema-direita mais ativo e ameaçador da Europa está na Hungria. Chama-se Jobbik (Movimento para uma Hungria Melhor) e tem três representantes no Parlamento Europeu. Dos 36% de húngaros que foram às urnas nas eleições europeias de junho, quase 15% decidiram lhes dar seus votos. Além de seus parlamentares, o Jobbik conta com um braço paramilitar, a Magyar Gárda (guarda húngara), fundada em 2007.

Antes de ser proibida pela justiça em julho por incitar ao ódio – fato que serviu para a Jobbik os transformar em mártires -, seus mais de 1.300 membros costumavam patrulhar os bairros de maioria cigana, assustando os moradores com seu aspecto marcial e slogans contra essa etnia. Eles vestem botas militares, calças pretas e uma insígnia, conjunto que parece inspirado no uniforme da Cruz Flechada, o partido fascista húngaro da época nazista.
Há suspeitas de que estejam por trás de 16 ataques com coquetéis molotov e armas de fogo contra a comunidade cigana registrados desde julho de 2008, que deixaram seis mortos e vários feridos, entre eles crianças e mulheres. O Jobbik baseia sua campanha para as eleições gerais de 2010 em promessas como a de tomar medidas drásticas contra o que chama de "criminalidade dos ciganos".
Essa estratégia, baseada em uma linguagem violenta, conta com o apoio de 11 a 12% dos eleitores, segundo pesquisas recentes. As faces públicas do Jobbik são Krisztina Morvai e Gábor Vona. A primeira é uma catedrática de direito que já ganhou um prêmio Mercury por seu compromisso com os doentes de Aids. O segundo, um jovem historiador. Ambos desqualificam as críticas a sua retórica anticigana e antissemita como temas de uma imprensa europeia que se alimenta de preconceitos, mas na verdade seus discursos públicos são baseados em ideias como a conspiração mundial judia e a criminalidade cigana.
Para György Dalos, historiador húngaro estabelecido em Berlim, essa direita "se encontra no nível mais baixo que a política húngara produziu desde a queda da cortina de ferro. É gente que demonstra uma ignorância primitiva, que com sua linguagem sexista e racista convence sobretudo a população mais decepcionada". "Acabaremos com o sistema de prisões que permite que os criminosos vão à academia e assistam televisão antes e depois de cometer os crimes."
Com esse lema o Jobbik ganhou popularidade nas últimas eleições europeias. É uma mensagem que não para de difundir o site da web Jobbik.com. E não só em húngaro, mas também em inglês, alemão e francês, talvez com a pretensão de estreitar laços com a extrema-direita europeia.
A luta do partido na política européia gira em torno de uma suposta discriminação e violação dos direitos da minoria húngara, de vários milhões, nos países vizinhos. Por trás dessas acusações se esconde um impulso nacionalista cujo mantra fundamental é a suposta injustiça do Tratado de Trianon, que restabeleceu as fronteiras da Hungria depois da Primeira Guerra Mundial e que deu origem a uma diáspora nos chamados "territórios perdidos".
Somada aos velhos ódios, a pior crise econômica das últimas duas décadas na Hungria, com uma queda do PIB esperada de 6,7% para 2009, deixou claras as tensões raciais latentes. A integração social dos ciganos, que representam entre 6 e 7% da população de 10 milhões, é uma tarefa pendente da classe política húngara.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Agressão ao Haiti completa cinco anos

FAUSTO ARRUDA

A Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), a força de ocupação do Haiti, que é (sub)comandada militarmente pelo Brasil, completou em junho cinco anos. Até o final do ano o Estado brasileiro terá gasto, segundo o Ministério da Defesa, cerca de R$ 700 milhões para custear as despesas de deslocamento e manutenção de suas tropas naquele país. Mas que interesses, afinal de contas, estão por trás desta investida?

O Brasil mantém hoje no Haiti um contingente de aproximadamente 1.200 militares (trocados a cada seis meses) do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha. Até hoje já passaram pelo Haiti cerca de 12.100 militares.

Historicamente, a participação do Brasil em intervenções militares se dava sob o manto do Capítulo VI da Carta da ONU, o qual prevê a manutenção da paz após conflitos internos e ajuda humanitária. Desta feita, porém, a intervenção brasileira se dá de forma abertamente repressora já que a missão é embasada no Capítulo VII da Carta da ONU que prevê a ocupação para "impor a ordem" e não para "manter a ordem" como prevê o Capítulo VI. Convenhamos que, na prática, não há uma diferença tão grande assim entre os dois capítulos, que igualmente atacam a soberania de qualquer país.

Submissão

Efetivamente, o Exército brasileiro está no Haiti para atender a uma imposição dos EUA, cujas forças armadas estão às voltas com a ocupação do Iraque e do Afeganistão. Trata-se de uma incapacidade do amo do norte de manter tropas de ocupação em cada ponto estratégico, necessitando recorrer a forças lacaias espalhadas pelo mundo.

Estão hoje ocupando o Haiti os seguintes países, além do Brasil: Argentina, Benin, Bolívia, Canadá, Chade, Chile, Croácia, França, Jordânia, Nepal, Paraguai, Peru, Portugal, Turquia e Uruguai. Todos, com exceção de França e Portugal, com Estados notoriamente serviçais do imperialismo, principalmente ianque. Interessante notar que Turquia, Peru e Nepal passam por processos revolucionários e suas forças armadas, ao mesmo tempo em que se cacifam perante a metrópole, adquirem mais conhecimento no combate à insurgência, além de utilizar a própria experiência contra os pobres do Haiti.

Ainda pior é o caso do Nepal, que tem tropas no Haiti e no Afeganistão, enviadas quando o rei Gyanendra ainda governava o país. Após a fundação da República, tendo à frente o Partido Comunista do Nepal (maoísta) – que conduziu por dez anos a guerra popular no país e capitulou em 2006 –, as tropas continuam a pisotear a soberania de outros povos.

Política de defesa?

Quando o Ministério da Defesa apresenta justificativas de que a "missão de paz" é uma das prioridades da atual Política de Defesa Nacional, que preconiza a maior inserção do país no âmbito das Nações Unidas e nos processos decisórios internacionais, é porque, na qualidade de semicolônia, sua política de "defesa" deve estar subordinada aos interesses do império. Assim, um dos maiores argumentos dos gerentes de turno para investir na missão é treinar militares e testar equipamentos bélicos em situação instável e real. Ou seja, preparar tropas para uma intervenção interna, como já ocorreu nos morros do Rio de Janeiro ou como ocorre atualmente na Amazônia.

E agora que Luiz Inácio propôs a criação do Conselho de Defesa Sul-Americano que deverá assumir funções como elaboração de políticas de defesa conjunta, intercâmbio de pessoal entre as Forças Armadas de cada semicolônia, realização de exercícios militares conjuntos, participação em "operações de paz" das Nações Unidas (leia-se imperialismo ianque) fica mais claro ainda o por quê de tal interesse na manutenção das tropas no Haiti. A missão, ou melhor, a submissão também está inserida no projeto de Luiz Inácio de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, pura fanfarronice para se cacifar perante a grande burguesia nativa e o capital financeiro.

A paz dos cemitérios

Em sua edição de nº 116 que circulou no início de 2009, a Revista Tecnologia & Defesa traz um artigo assinado pelo Coronel da Reserva do Exército brasileiro Claudio Barroso Magno Filho, ex- comandante da Força de ocupação no Haiti, denominada de Minustah, de dezembro de 2006 a junho de 2007. Neste artigo o Coronel se propõe a fazer um balanço sobre o que ele chama de "operações de pacificação" de Cité Soléil, a maior concentração de pobres de Porto Príncipe, a capital haitiana.

Segundo seu relatório "Cité Soleil foi inicialmente atribuída às tropas jordanianas, que lá tiveram cerca de uma dúzia de baixas fatais" e que "grupos de bandidos, organizados em células e fortemente armados, atuavam livremente em Cité Soleil. Esses marginais afrontavam a lei e a ordem, inclusive atirando contra as tropas de paz da ONU, os capacetes azuis". Em seguida deixa transparecer o sentido de treinamento da tropa para aplicação no Brasil, ao afirmar que "é natural que façamos uma associação do crime organizado de Cité Soleil com o das grandes cidades brasileiras, cabendo destacar alguns aspectos. Lá, os criminosos não estavam ligados ao comércio de drogas e nem eram tão organizados, faltando integração entre eles. As gangues haitianas sobreviviam de extorsões, seqüestros, roubos e furtos". Daí ele mesmo concluir que "o Haiti poderia ser visto como um campo de provas, onde aplicaríamos e aperfeiçoaríamos fundamentos doutrinários da organização (pessoal e material), do preparo (capacitação específica) e do emprego (como conduzir operações)".

Em contradição com a afirmação de que o Brasil comandava a Minustah, o coronel afirma que "no Haiti, estávamos diretamente subordinados ao Force Commander (FC) para o emprego relacionado ao Memorando de Entendimentos, entre o Brasil e a ONU…".

Mesmo pintando o seu informe de azul com bolinhas cor de rosas o Coronel não tem como evitar que, sendo Cité Soleil uma região densamente povoada, possamos inferir o tremendo terror que tomou conta da população moradora daquela favela. Assim, ele relata que "…atuamos contra os grupos de bandidos (para capturar ou eliminar) realizando operações de combate e tipo polícia (check-points, patrulhas etc.)". E mais adiante ele fala de operações noturnas e da distribuição de alimentos como se isso fosse capaz de superar os transtornos sofridos pela população.

Lá e cá

Tal como no Brasil, onde o exército e a polícia não respeitam os locais de moradia e a própria residência do povo pobre, para o Coronel não há nenhum incômodo em ter garantido a vitória sobre os "bandidos" após "vasculhadas vielas e casas" se, "ato contínuo, prestamos assistência social e apoio em geral". Ora, no jornal O Estado de S. Paulo do dia 31 de maio o repórter Bruno Paes relata denúncia de moradores da favela Paraisópolis na zona sul de São Paulo, cuja população é de 60 mil habitantes. Durante uma operação da polícia paulista, que durou 82 dias, tiveram seus barracos invadidos sem mandados judiciais; trabalhadores, crianças e idosos torturados; e 51.994 revistas a moradores do bairro. Tudo isso praticado por 400 policiais em 100 viaturas, um helicóptero, 20 cavalos e 4 cachorros. São muitas as coincidências nos métodos dos dois operativos.

Fausto Arruda é sociólogo e jornalista. Este texto foi retirado do jornal ‘A nova democracia’.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Aquecimento global está retardando era glacial, revela estudo

Andrew C. Revkin

O acúmulo provocado pelo homem de gases responsáveis pelo efeito estufa na atmosfera parece ter contido um mergulho, preparado por muitos milênios, na direção de temperaturas mais frias no verão no Ártico, informam os autores de um novo estudo.

Cientistas familiarizados com o trabalho, que será publicado na sexta-feira na revista "Science", disseram que ele fornece novas evidências de que a atividade humana não está apenas aquecendo o planeta, particularmente o Ártico, mas poderia até mesmo afastar um ingresso supostamente inevitável em uma nova era glacial ao longo das próximas poucas dezenas de milênios.

Francois Mori/AP

Iceberg fictício flui pelo rio Sena, em Paris (França), durante um protesto da ONG Greenpeace contra o aquecimento global. Estudo diz que o fenômeno está retardando a volta da era glacial.

A reversão da tendência de lento resfriamento do Ártico, registrada em amostras de camadas de sedimentos no leito dos lagos, de gelo glacial e dos anéis dos troncos de árvore do Alasca até a Sibéria, foi rápida e pronunciada, escreve a equipe.
Estudos anteriores também mostraram que o Ártico, mais do que o planeta como um todo, viu um aquecimento incomum nas últimas décadas. Mas a nova análise fornece detalhes década a década que remontam 2 mil anos – cinco vezes mais longe do que o trabalho anterior em escala tão detalhada.
Vários cientistas climáticos disseram que o novo estudo é mais significativo ao mostrar quão fortemente o clima do Ártico parece estar respondendo ao efeito estufa, que está tendo uma mistura mais complexa e sutil de efeitos por todo o mundo.
Darrell S. Kaufman, o principal autor e um especialista em clima da Universidade do Norte do Arizona, disse que a maior surpresa foi a força da mudança de resfriamento para aquecimento, que teve início em 1900 e se intensificou após 1950.

"A tendência de lento resfriamento é trivial em comparação ao aquecimento que está ocorrendo e que ainda ocorrerá", disse Kaufman.
Vários cientistas que não estiveram envolvidos no estudo concordaram que o ritmo da reversão de temperatura ultrapassa em muito a variação natural nas temperaturas árticas, apoiando a ideia de que o aquecimento é causado pelos seres humanos e é potencialmente disruptivo.
Segundo o estudo, após um lento resfriamento de menos de meio grau Fahrenheit por milênio, provocado por uma mudança cíclica na orientação do Pólo Norte e do Sol, a região aqueceu 2,2 graus apenas desde 1900, com a década de 1998 a 2008 sendo a mais quente em 2 mil anos.
Em teoria, as temperaturas de verão na região ártica deveriam continuar esfriando por pelo menos mais 4 mil anos, dada a crescente distância entre o Sol e o Pólo Norte durante o verão no Hemisfério Norte, diz o estudo.
Mas Jonathan T. Overpeck, um autor do estudo e especialista em clima da Universidade do Arizona, disse que o aumento da concentração de gases duradouros do efeito estufa garantiu um aquecimento em um ritmo que poderia estressar os ecossistemas e causar um rápido derretimento da grande camada de gelo da Groenlândia.
"A rápida velocidade do recente aquecimento é a parte assustadora", disse Overpeck. "Isso significa que grandes impactos sobre os ecossistemas árticos e sobre o nível global dos mares podem não estar distantes, a menos que atuemos rapidamente para conter o aquecimento global."
No longo prazo, a capacidade de aquecer artificialmente o clima, particularmente o Ártico, poderia ser vista como uma dádiva, à medida que a mudança da orientação do planeta em relação ao Sol entra em uma fase que poderia iniciar a próxima era glacial.
Como resultado dessas mudanças periódicas, 17 eras glaciais já ocorreram em 2 milhões de anos. A última era glacial terminou há 11 mil anos e a próxima, segundo a recente pesquisa, poderia ocorrer daqui 20 mil ou 30 mil anos descontando qualquer influência humana. A última era glacial enterrou grande parte do Hemisfério Norte sob mais de um quilômetro e meio de gelo.
Com a clara e crescente capacidade dos seres humanos de alterar o clima, disse Overpeck, "nós poderíamos pular totalmente a próxima oportunidade".
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Golpe em Honduras e bases na Colômbia

Frida Modak

Base MilitarMéxico, (PL) – À medida que se passam os dias vai ficando mais claro que o golpe em Honduras não foi um fato isolado nem provocado pela consulta cidadã convocada pelo presidente Manuel Zelaya.

Da mesma maneira, já é evidente que as sete bases militares em que os Estados Unidos se instalarão na Colômbia não têm por objeto combater o narcotráfico ou a insurgência.

Essas não são afirmações com antolhos.

Os Estados Unidos têm uma base militar em Honduras que hoje se chama Soto-Cano, mas que foi conhecida como Palmerola, quando foi criada para combater o governo sandinista.

Dessa base saiam os mercenários "contras" recrutados, adestrados e apetrechados pelos Estados Unidos.

O então presidente estadunidense, Ronald Reagan, batizou aqueles elementos terroristas como "combatentes da liberdade" e os financiou de maneiras muito diversas.

Quando o Congresso estadunidense se negou a conceder mais fundos para os mercenários, o financiamento saiu do narcotráfico.

Isso foi admitido e justificado pelo então subsecretário para assuntos latino-americanos Elliot Abrams, que sustentou que dada a atitude do Congresso de seu país, os contras tinham que buscar meios de subsistência.

Vale a pena recordá-lo quando o presidente colombiano, Álvaro Uribe, diz que, com as bases estadunidenses em seu país, busca combater o narcotráfico e erradicar a guerrilha.

Voltemos agora a Honduras.

Empresários e um embaixador no golpe

Na noite do sábado 27 de junho, véspera da consulta cidadã, um assessor do presidente Zelaya sinalizou para mim numa conversa telefônica que se sabia dos chamados do departamento de Estado à Embaixada estadunidense em Honduras e aos até então conspiradores, advertindo-os para "nada de golpes". Isso sugeria que se iniciaria uma ação contra o Governo de Zelaya na segunda-feira 29, quando se houvera produzido o que eles consideravam um delito.

Mas o setor empresarial, que era parte do complô, estimou que não havia que esperar porque a votação a favor da quarta urna seria copiosa e não a poderiam ignorar.

Em Honduras, os empresários chegaram a um acordo com o alto comando das forças armadas, a quem entregaram 30 milhões de lempiras, equivalentes a um milhão e meio de dólares, segundo uma carta em circulação elaborada por oficiais de media graduação.

Em esferas do governo do presidente Zelaya se estimava que votariam a favor da consulta entre um milhão 200 mil e um milhão 500 mil pessoas.

O país tem um padrão eleitoral de quatro milhões 700 mil inscritos, dos quais um milhão 300 mil radicados nos Estados Unidos.

Calcula-se que a média de votantes efetivos pode ser de dois milhões 100 mil, portanto, os votos a favor da consulta poderiam alcançar a maioria absoluta.

Tal evidência não podia ser desconhecida e daí surge a decisão dos empresários, entre os quais se contam ex-Presidentes da República, de acelerar suas ações.

Enquanto ao embaixador estadunidense Hugo Llorens, sua participação foi ativa antes e depois do golpe de Estado.

Assim o declarou publicamente faz uns oito dias o candidato presidencial do Partido Democrata Cristão, Felicito Ávila, coletividade que soe atuar de acordo com os setores que tomaram o governo.

Ávila afirmou que o embaixador ia às reuniões conspirativas e a respectiva crônica foi publicada na imprensa hondurenha, que majoritariamente pertence ao setor golpista, como uma advertência a Washington sobre tudo o que poderiam contar.

Se unimos o assinalado a respeito da base estadunidense de Soto-Cano (ex-Palmerola), com os antecedentes do golpe de Estado e a atuação do embaixador Llorens, e o vinculamos com as bases militares que Washington projeta instalar na Colômbia, teremos os lineamentos de um projeto que com justificada razão alarma os países sul-americanos.

As sete bases

O governo colombiano quer convencer a opinião pública internacional, não só a latino-americana, de que seu convênio com os Estados Unidos não significa instalar bases militares estadunidenses em seu território.

Segundo Uribe, só lhes permitirá ocupar um pedacinho de sete bases colombianas para que aí desenvolvam suas atividades.

Insiste em que os vão receber como achegados para que contribuam no combate aonarcotráfico, mas não se refere aos sete bilhões de dólares recebidos de Washington pelo Governo através do Plano Colômbia.

A essa altura já é um fato indiscutível que esse plano não diminuiu em nada o narcotráfico e a corrupção.

Numerosas figuras políticas do partido do presidente Uribe estão detidas e processadas por seus vínculos com o negócio das drogas.

Também está claro que os paramilitares só aparentemente se desmobilizaram, mas se sabe que voltarão a se reagrupar com outro nome.

O objetivo das bases é outro muito diferente do declarado pelas autoridades colombianas e norte-americanas.

Quando estavam instalados no Panamá, os militares estadunidenses tinham na base Howard um centro de controle não só da América Latina, mas também para monitorar outros continentes, pois ali dispunham de diversos equipamentos de espionagem de alcance internacional.

Os tratados Torrijos-Carter sobre o canal os obrigaram a sair do território panamenho e encontraram acolhida na localidade equatoriana de Manta, onde o depois derrocado presidente Yamil Mahuad permitiu-lhes estabelecer-se em seu território.

O atual presidente equatoriano, Rafael Correa, postulou em sua campanha que não renovaria essa autorização e obrigou-os a desmantelar a base de Manta.

Agora se vão a sete pontos da Colômbia com o pretexto de combater o narcotráfico, no que obviamente ninguém acredita, como tampouco é digerível que só utilizarão escritoriozinhos nas bases colombianas para apoiar o Plano Colômbia.

As autoridades das localidades em que vão se instalar tampouco estão muito à vontade, porque consideram que a presença dos soldados estadunidenses atrai prostituição e corrupção, como já aconteceu nos lugares onde estão há tempos.

Aos países sul-americanos tampouco lhes agrada o assunto porque representa uma ameaça e não o ocultaram.

A União das Nações Sul-americanas, UNASUR, acordou em sua recente reunião no Equador tratar o assunto diretamente com os Estados Unidos no mês de setembro, quando se inicia o período de sessões da Assembléia Geral da ONU e, previamente, se reunirão na Argentina para analisar o tema.

Ao mesmo tempo, UNASUR reiterou seu apoio a Zelaya e reclamou sua restituição na presidência de Honduras, no que também discrepam de Washington.

O presidente estadunidense, Barack Obama, reagiu com desagrado ante as críticas por não tomar medidas enérgicas contra os golpistas hondurenhos.

Segundo Obama, "há uma certa hipocrisia" por parte dos que exigem atuar com clareza em Honduras e os acusou de ser os mesmos que chamam Washington de intervencionista.

Os que criticam essa postura de Obama respondem que a hipocrisia não está aí, mas no papel do embaixador Llorens no golpe, no adestramento dado pelo Pentágono às forças armadas hondurenhas e no "lobby" que defende os golpistas no Congresso estadunidense.

Também há abundante informação sobre o envio de dinheiro proveniente do narcotráfico e de instituições estadunidenses que é entregue na Colômbia a opositores de governos democraticamente eleitos na região.

Em ouras palavras, a hipocrisia consiste em continuar ajudando o golpismo com uma pretensa não intervenção.

Frida Modak é uma reconhecida jornalista chilena radicada no México e colaboradora de Prensa Latina.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

"Bases dos EUA na Colômbia ofendem dignidade e inteligência"

Em entrevista concedida no Equador, Eduardo Galeano fala sobre o significado do projeto de instalação de bases militares norte-americanas na Colômbia e sobre o atual momento da América Latina. Ao mesmo tempo em que região vive um tempo aberto de esperança, diz o escritor uruguaio, a independência ainda é um projeto inacabado. "Há uma espécie de renascimento que é digno de celebração em países que não chegaram ainda a ser independentes, apenas começaram um pouquinho a sê-lo. A independência é uma tarefa pendente para quase toda a América Latina", afirma.

Fernando Arellano Ortiz

“A presença norteamericana em bases militares da Colômbia não só ofende a dignidade da América Latina, mas também a inteligência”. A afirmação é do escritor uruguaio Eduardo Galeano, em entrevista concedida em Quito a Fernando Arellano Ortiz, de Cronicón (Observatório Latinoamericano). Para Galeano, América Latina vive um tempo aberto de esperança, mas adverte que a independência da região ainda é uma tarefa inacabada.
Depois de 200 anos da emancipação da América Latina, pode-se falar de uma reconfiguração do sujeito político nesta região, levando em conta os avanços políticos que se traduzem em governos progressistas e de esquerda em vários países latinoamericanos?
Galeano: Sim, há um tempo aberto de esperança, uma espécie de renascimento que é digno de celebração em países que não chegaram ainda a ser independentes, apenas começaram um pouquinho a sê-lo. A independência é uma tarefa pendente para quase toda a América Latina
Com toda a irrupção social que se vem dando ao longo do hemisfério, se pode dizer que há uma acentuação da identidade cultural da América Latina?
Galeano: Sim, eu acho que sim e isto passa certamente pelas reformas constitucionais. Ofendeu a minha inteligência, além de outras coisas que senti, o horror deste golpe de Estado em Honduras que invocou como causa o pecado cometido por um Presidente que quis consultar o povo sobre a possibilidade de reformar a Constituição, porque o que queria Zelaya era consultar sobre a consulta, nem sequer era uma reforma direta. Supondo que fosse uma reforma da Constituição, que seja bem vinda, porque as constituições não são eternas e para que os países possam realizar-se plenamente têm que reformá-las.
Eu me pergunto: o que seria dos EUA se seus habitantes continuassem obedecendo à sua primeira Constituição? A primeira Constituição dos EUA estabelecia que um negro equivalia às três quintas parte de uma pessoa. Obama não poderia ser Presidente porque nenhum país pode ter como mandatário as três quintas partes de uma pessoa.
Você reivindica a figura do presidente Barack Obama por sua condição racial, mas o fato de manter ou ampliar a presença norteamericana mediante bases militares na América Latina, como está acontecendo agora na Colômbia com a instalação de sete plataformas de controle e espionagem, não desdiz das verdadeiras intenções desse mandatário do Partido Democrata, e simplesmente segue ao pé da letra os planos expansionistas e de ameaça de uma potência hegemônica como os EUA?
Galeano: O que acontece é que Obama não definiu muito bem o que quer fazer nem em relação à America Latina, as relações nossas, tradicionalmente duvidosas, nem tampouco em outros temas. Em alguns espaços há uma vontade de mudança expressa, por exemplo, no que tem a ver com o sistema de saúde que é escandaloso nos EUA, se você quebra a perna, tem que pagar até o fim dos teus dias a dívida com esse acidente.
Mas em outros espaços não, ele continua falando de “nossa liderança”, “nosso estilo de vida” em uma linguagem excessivamente parecida com as dos anteriores. Me parece muito positivo que um país tão racista como esse e com episódios de um racismo colossal, descomunal, escandaloso, ocorridos há quinze minutos em termos históricos tenha um presidente seminegro. Em 1942 ou seja médio século, nada, o Pentágono proibiu as transfusões de sangue negro e aí o diretor da Cruz Vermelha renunciou ou foi renunciado porque se negou a aceitar a ordem dizendo que todo sangue é vermelho e que era um disparate falar de sangue negro, e ele, Charles Drew, era negro e um grande cientista, o que fez possível a aplicação do plasma em escala universal. Então um país que fizesse um disparate como proibir o sangue negro ter agora Obama como presidente é um grande avanço. Mas por outro lado, até agora eu não vejo uma mudança substancial. Aí está, por exemplo, o modo como seu governo enfrentou a crise financeira. Pobrezinho, eu não gostaria de estar na sua pele, mas a verdade é que acabaram recompensando os especuladores, os piratas de Wall Street que são muitíssimo mais perigosos que os da Somália porque estes assaltam apenas aos naviozinhos na costa, mas os da Bolsa de Nova York assaltam todo o mundo. Eles foram finalmente recompensados; eu gostaria de começar uma campanha em princípio comovido pela crise dos banqueiros com o lema: “adote um banqueiro”, mas desisti porque vi que o Estado assumiu essa responsabilidade. E da mesma forma com a América Latina, que parece não ter muito claro o que fazer.
Os EUA estiveram mais de um século dedicados à fabricação de ditaduras militares na America Latina. Então, na hora de defender uma democracia como no caso de Honduras, diante de um claríssimo golpe de Estado, vacilam, tem respostas ambíguas, não sabem o que fazer, porque não tem prática, lhes falta experiência, há mais de um século trabalham no sentido oposto, então compreendo que a tarefa não é fácil. No caso das bases militares na Colômbia, não só ofende a dignidade coletiva da América Latina, mas também a inteligência de cada um de nós, porque que se diga que sua função vai ser combater as drogas, por favor, até quando! Quase toda a heroína que se consome no mundo provem do Afeganistão, quase toda, dados oficiais das Nações Unidas que todo mundo pode ver na internet. E o Afeganistão é um país ocupado pelos EUA e como se sabe os países ocupantes tem a responsabilidade do que acontece nos países ocupados, portanto tem algo que ver com este narcotráfico em escala universal e são dignos herdeiros da rainha Vitória que era narcotraficante.
Não se pode ser tão hipócrita
A rainha britânica que introduziu por todos os meios no século XIX o ópio na China através de comerciantes da Inglaterra e dos EUA
Galeano: Si, a celebérrima rainha Vitória da Inglaterra impôs na China ao longo de duas guerras de trinta anos, matando uma quantidade imensa de chineses, porque o império chinês se negava a aceitar essa substância dentro de suas fronteiras que estava proibida. E o ópio é o pai da heroína e da morfina, justamente. Então aos chineses lhes custou muito, porque a China era uma grande potência que podia ter competido com a Inglaterra no começo da revolução industrial, era a oficina do mundo, e a guerra do ópio os arrasou, os converteu em uma piltrafa, aí entraram os japoneses como anel ao dedo, em quinze minutos. Vitória era uma rainha traficante e os EUA, que tanto usam a droga como pretexto para justificar suas invasões militares, porque disso se trata, são dignos herdeiros desta feia tradição. Me parece que já é hora que acordemos um pouquinho, porque não se pode ser tão hipócrita. Se vão ser hipócritas que o sejam com mais cautela. Na América Latina temos bons professores de hipocrisia, se querem podemos em um convênio de ajuda tecnológica mútua emprestar-lhes alguns hipócritas nossos.
Há exatamente nove anos, você disse em uma entrevista concedida em Bogotá a mim a seguinte frase: “Deus livre a Colômbia do Plano Colômbia”. Qual é agora sua reflexão em relação a esse país andino que enfrenta um governo autoritário entregue aos interesses dos EUA, com uma alarmante situação de violação de direitos humanos e com um conflito interno que segue sangrando-o?
Galeano: Além disso, com problemas gravíssimos que se foram agudizando com a passagem do tempo. Eu não sei, te digo, quem sou eu para dar conselhos à Colômbia nem aos colombianos, além disso sempre estive contra esse costume ruim de algumas pessoas que se sentem em condições de dizer o que cada país tem que fazer. Eu nunca cometi esse pecado imperdoável e não vou cometê-lo agora com a Colômbia, só posso dizer que tomara que os colombianos encontrem seu caminho, tomara que o encontrem, ninguém pode impor-lhes de fora, nem pela esquerda, nem pela direita, nem pelo centro, nem por nada, serão os colombianos que devem encontrá-lo. O que eu posso dizer é que eu testemunho as coisas.
Se há um tribunal mundial que alguma vez chegue a julgar a Colômbia pelo que se diz da Colômbia: país violento, narcotraficante, condenado à violência perpétua, eu vou dar testemunho de que não, de que esse é um país carinhoso, alegre e que merece um destino melhor.
Reivindicando a memória de Raúl Sendic
Há muitos anos, talvez umas quatro décadas, havia um personagem em Montevidéu que se reunia com um jovem desenhista chamado Eduardo Hughes Galeano com o propósito de lhe dar idéias para a elaboração de suas caricaturas, chamado Raúl Sendic, o inspirador da Frente Ampla do Uruguai.
Galeano: E o dirigente guerrilheiro dos Tupamaros, mesmo se naquele momento ainda não o era. É verdade, quando eu era criança, quase catorze anos, e comecei a desenhar caricaturas, ele se sentava a olhar e me dava idéias, era um homem bastante mais velho que eu, com certa experiência, e ainda não era o que foi depois: o fundador, organizador e dirigente dos Tupamaros. Me lembro o que disse a Emilio Frugoni que naquela época era dirigente do Partido Socialista e diretor do semanário em que eu publicava umas caricaturas precoces, assinalando para mim: “Este vai ser ou presidente ou grande delinqüente”. Foi uma boa profecia e terminei sendo grande delinqüente.
O fato de que hoje a Frente Ampla está governando o Uruguai e que um ex-guerrilheiro como Pepe Mujica tenha possibilidade de ganhar as eleições constitui uma reivinidicação à memória de Sendic?
Galeano: Sim e de todos os que participaram em uma luta longa para romper o monopólio de dois, exercido pelo Partido Colorado e pelo Partido Nacional durante quase toda a vida independente do país. A Frente Ampla surge há pouco tempo no cenário político nacional e me parece muito positivo que esteja governando agora, aparte de que eu não coincida com tudo o que se faz e além disso creio que não se faz tudo o que se deveria fazer. Mas isso não tem nada que ver porque finalmente a vitória da Frente Ampla foi também uma vitória da diversidade política que eu creio que é a base da democracia. Na Frente coexistem muitos partidos e movimentos diferentes, unidos claro em uma causa comum, mas com suas diversidades e diferenças, e eu as reivndico, para mim isso é fundamental.
O que representa para você como uruguaio o fato de que um dirigente emblemático da esquerda como Pepe Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, tenha amplas possibilidades de chegar à Presidência da República?
Galeano: Com alguma sorte, não vai ser fácil, vamos ver o que acontece, mas eu acho que é um processo de recuperação, as pessoas se reconhecem justamente no Pepe Mujica porque ele é radicalmente diferente dos nossos políticos tradicionais, na sua linguagem, até no seu aspecto e tudo o mais, por mais que ele tratou de se vestir como cavalheiro fino, não cai bem nele, e expressa muito bem uma necessidade e uma vontade popular de mudança. Acho que seria bom que ele chegasse à Preisdência, vamos ver se isso acontece ou não. De qualquer maneira, o drama do Uruguai como o do Equador, certamente, país em que estamos conversando neste momento, é a hemorragia de sua população jovem. Ou seja, a nossa é uma pátria peregrina; no seu discurso de posse o presidente Rafael Correa falou dos exilados da pobreza e a verdade é que há uma enorme quantidade de uruguaios muito mais do que se diz, porque não são oficiais as cifras, mas não menos de 700 ou 800 mil uruguaios em uma população pequeniníssima, porque nós no Uruguai somos 3 milhões e meio, essa é uma quantidade imensa de gente fora, todos ou quase todos jovens, então ficaram os velhos ou as pessoas que já cumpriram essa etapa da vida em que a gente quer que tudo mude para se resignar a que não mude nada ou que mude muito pouco.
Tijolos coloridos para armar mosaicos
Depois de seus reputados livros “As veias abertas da América Latina”, publicado em 1970, e “Espelhos”, editado em 2008, que relatam histórias da infâmia, o primeiro sobre nosso continente e o outro de boa parte do mundo, há espaço para continuar acreditando na utopia?
Galeano: O que faz “Espelhos” é recuperar a história universal em todas suas dimensões, em seus horrores, mas também em suas festas, é muito diferente de “As veias abertas da América Latina”, que foi o começo de um caminho. “As veias abertas” é quase um ensaio de economia político, escrito em uma linguagem não muito tradicional no gênero, por isso perdeu o concurso da Casa das Américas, porque o jurado não o considerou um livro sério. Era uma época em que a esquerda só acreditava que o sério era o chato, e como o livro não era chato, não era sério, mas é um livro muito concentrado na história política econômica e nas barbaridades que essa história implicou para nós, como nos deformou e nos estrangulou. Em compensação, “Espelhos” tenta abordar o mundo inteiro recolhendo tudo, as noites e os dias, as luzes e as sombras, são todas histórias muito curtinhas, e há também uma diferença de estilo. “As veias abertas” tem uma estrutura tradicional, e a partir daí eu tentei encontrar uma linguagem própria minha, que é a do relato curto, tijolos coloridos para armar os grandes mosaicos, um estilo como o dos muralistas, e cada relato é um pequeno tijolo que incorpora uma cor, e um dos últimos relatos de “Espelhos” evoca uma recordação da minha infância que é verdadeiro; é que quando eu era pequenininho acreditava que tudo o que se perdia na Terra ia parar na Lua, estava convencido disso e me suprendeu quando chegaram os astronautas à Lua porque não encontraram nem promessas traídas, nem ilusões perdidas, nem esperanças rompidas, e então eu me perguntei: se não estão na Lua, onde estão? Será que não estão aqui na terra, esperando-nos?
Tradução: Emir Sader

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Abastecimento e sustentabilidade dependem da coexistência de fontes energéticas

Manuel V. Gómez
Em Madri (Espanha)

O potencial da energia eólica é enorme. Um mundo cheio de moinhos de vento de 2,5 megawatts abasteceria toda a fome de energia que existe. Bastaria que funcionassem com 20% de sua capacidade. Em conjunto, produziriam cinco vezes mais energia do que a que é consumida atualmente em todo o globo. Só nos EUA seriam geradas 16 vezes a eletricidade que se consome. Para que isso fosse possível, seria preciso instalar geradores eólicos praticamente em todos os lugares. O estudo que fornece esses dados, elaborado pelos professores da Universidade Harvard Michael B. McElroy e Juha Kiviluoma, só livra dos enormes postes com aerogeradores e grandes hélices as cidades, as áreas geladas e as florestas.

George Frey/Getty Images/AFP

Caminhão de carvão passa ao lado de uma usina eólica numa estrada do Utha (Estados Unidos).

Essa pesquisa de McElroy e Kiviluoma é um exercício acadêmico, na realidade. No entanto, salienta que, como dizia há algumas semanas o diretor financeiro da empresa espanhola Iberdrola Renovables, José Ángel Marra, argumentos extremos são fáceis de encontrar no debate energético. Mas o que parece claro é que hoje são necessárias todas as fontes de geração elétrica para garantir a segurança do abastecimento, manter os custos ou reduzir as emissões de CO2, como diz a maioria dos conhecedores do setor. Um argumento que, com matizes, é rejeitado pelos ecologistas e que outros consideram "clichê".
Depender exclusivamente da energia eólica – a renovável mais disseminada – em dias como o último 3 de agosto na Espanha teria sido um problema sério. Nesse dia, às 14 horas, quando o consumo elétrico se aproximava de 35 mil MW, os moinhos produziam apenas 1,7% da eletricidade que era consumida, embora a potência de geração instalada seja de 17%. E isto costuma ser habitual nos dias em que faz mais calor ou mais frio na península Ibérica. É comum que estes coincidam com uma grande estabilidade atmosférica, e por isso o vento não sopra.
Para enfrentar a queda da produção eólica necessária em 3 de agosto foi preciso recorrer aos ciclos combinados – centrais de geração elétrica que usam gás natural como combustível. Nessa hora eles assumiram pouco mais de 45% de toda a eletricidade que se produzia, segundo os dados da Rede Elétrica Espanhola (REE). Puxado por esses dados, pela mudança climática ou por sonoras discussões como a que foi organizada há um mês em torno da central nuclear de Garoña (Burgos), ressurge com frequência o debate sobre qual deve ser o parque de geração elétrica.
"Todas as energias são necessárias", clamam na Unesa, a organização patronal do setor. É a opinião majoritária dos especialistas. A ela soma-se Jorge Fernández, diretor-geral adjunto da Intermoney Energía. Ignacio Cruz, diretor do departamento eólico do Centro de Pesquisas Energéticas, Ambientais e Tecnológicas (Ciemat), parece apoiá-la, embora com nuances, quando afirma: "Sim, seria possível prescindir dela, mas perderíamos em segurança [de abastecimento]".
Pelo lado ecológico, Ladislao Martínez aceita esse argumento, mas para ele nem todas as energias são necessárias. Para chegar a essa conclusão, compara os 90 mil MW de capacidade de produção que tem o parque de geração espanhol com os 44.786 que foram exigidos no dia de maior consumo registrado, um distante 17 de dezembro de 2007. Nessa grande capacidade de produção têm grande responsabilidade a eólica e o gás – através do ciclo combinado. Há apenas alguns anos praticamente não existiam. Quase não faziam parte do "mix" elétrico – palavra com a qual o setor denomina habitualmente o parque básico de geração. Até 2002, na Espanha não houve uma só central de ciclo combinado. Sete anos depois, o vento e o gás representam em torno de 40% da potência de geração instalada e uma porcentagem semelhante do consumo. O resto é dividido de forma desigual entre a energia nuclear, o carvão, as quedas d’água, outras renováveis – mini-hidráulica, fotovoltaicas ou biomassa -, o combustível.
Mas o mix energético não é uma foto fixa. Com toda a segurança, o peso das energias renováveis aumentará no futuro. Até 2020 o objetivo é que representem 20% da energia primária – o conjunto de toda a energia utilizada, incluindo o transporte e a eletricidade – e 40% da elétrica. E isso afinal conduz a uma série de perguntas. Qual é o limite das energias renováveis? Pode-se prescindir de alguma? Há um parque de geração perfeito ou ideal?
"O mix ideal em princípio não existe", admite Fernández, da Intermoney Energía, respondendo à última pergunta. "Na realidade reflete as expectativas dos políticos", continua, e cita o caso da França, onde a nuclear produz quase 80% da eletricidade. "Um mix deve ser capaz de garantir a prioridade de abastecimento", afirma Miguel Duvisón, diretor de operação da REE. E isso, da perspectiva do gestor do sistema, é garantido pela geração térmica – ciclo combinado, combustível ou nuclear – e a grande hidráulica. São energias nas quais, em grandes traços, é simples fazer coincidir a disponibilidade com a vontade do consumidor.

Mas ao mesmo tempo que se garante a prioridade de abastecimento, explica Duvisón, o gestor também tem presentes outros objetivos: baratear os custos, reduzir a dependência do fornecimento energético do exterior – que no caso espanhol beira os 80% -, controlar as emissões de CO2 e garantir o abastecimento em longo prazo.
Critérios muito parecidos são os da Unesa. A patronal explica que para determinar qual deve ser o mix energético de um país é preciso levar em conta três fatores: geoestratégicos ou geopolíticos, ambientais e econômicos.
Atendendo a esses critérios, o recurso às energias renováveis parece evidente. São abundantes, autóctones, o combustível – embora não a produção – é bem barato e sua contribuição à luta contra a mudança climática é inquestionável. Mas a imprevisibilidade é seu calcanhar de Aquiles, um obstáculo para o primeiro princípio enunciado por Duvisón: "garantir a prioridade do abastecimento". Veja o exemplo da energia eólica. Das 8.760 horas que tem um ano, um aerogerador está em pleno rendimento em média 2.200 horas. Na opinião dos especialistas, o aumento das energias renováveis – sobretudo da eólica e da solar – no parque de geração elétrica exige fontes de apoio para cobrir a imprevisibilidade. "Se forem colocadas mais fontes não programáveis, há necessidade de mais colchão", explicam na REE. Nesse "colchão" entrariam, por sua flexibilidade, boa parte da geração térmica – gás, combustível e carvão – e também da hidráulica.
O porta-voz da Plataforma Contra as Centrais Térmicas, Ladislao Martínez, concorda que as renováveis precisam de um respaldo, e não que as térmicas sejam a fonte curinga à qual recorrer. Para ele, a solução está na chamada hidráulica de bombeamento – um tipo de geração elétrica composta de uma corrente e duas represas que permite elevar a água de uma para outra e reutilizá-la, e portanto uma forma de armazenar energia – que, além disso, tem uma capacidade de desenvolvimento potencial na Espanha de cerca de 3 mil MW sobre os que já estão instalados.
Ignacio Cruz, do Ciemat, dependente do Ministério da Indústria, também confia na hidráulica renovável como o "colchão" de outras renováveis "intermitentes". Além disso, ele dá ênfase para outros instrumentos como a previsão meteorológica. Por sua parte, Gonzalo Sáenz de Miera, da Iberdrola Renovables, que defende "a insustentabilidade" do mix energético atual por razões ambientais e a excessiva dependência dos combustíveis fósseis, acredita que conforme aumente a presença das renováveis será necessário o colchão do ciclo combinado e da hidráulica bombeável.
Mais difícil para desempenhar o papel de colchão é a sempre polêmica energia nuclear. Indicada por seus defensores como a solução para a mudança climática devido a seu baixo nível de emissões de CO2, e criticada pelos resíduos radioativos que gera ou os grandes investimentos que exige, essa fonte na Espanha não se caracteriza pela flexibilidade, algo necessário para um parque de geração com um peso crescente das renováveis. O desenho inicial das centrais as obriga a funcionar sempre no máximo de sua capacidade, e por isso sua contribuição para o sistema, salvo quando estão paradas, é constante.
Toda essa revisão leva a Unesa a uma conclusão tão simples quanto lógica: "Todas as tecnologias têm suas vantagens e seus inconvenientes". Formulada essa premissa, eles afirmam com contundência que todas as energias são necessárias. Não só agora, mas também no futuro. Conclusão que encontra a rejeição do Greenpeace, que em um relatório já antigo, de abril de 2007, tenta demonstrar que em 2050 toda a eletricidade produzida na Espanha poderá vir de fontes renováveis.
Muito cético com ambas as conclusões mostra-se Paul Isbell, do Instituto Elcano. Para ele, a frase "todas as energias são necessárias" é um dos grandes clichês. Não é o único. Isbell aponta outros dois: "toda a energia pode ser produzida com renováveis" e "a nuclear é imprescindível". "Em um sistema elétrico como o espanhol há um limite sobre a contribuição viável das energias renováveis que o consenso situa em torno de 40%. E isto abre a porta para o argumento de que a energia nuclear é insubstituível", afirma. Mas na opinião de Isbell tudo mudaria se o sistema elétrico espanhol deixasse de ser uma ilha.
Neste momento as interconexões com a França representam apenas 1.300 MW, indica a REE. "Se o sistema for aberto com mais interconexões, muda a perspectiva das renováveis", continua Isbell, que cita os países nórdicos como exemplo de lugares onde a melhora e a ampliação da rede permitiram aumentar sua contribuição ao sistema. Para ele, inclusive se aumentar o uso da eletricidade nos carros na Espanha, com uma rede elétrica de maior extensão e qualidade, se poderia satisfazer a demanda só com renováveis e ciclo combinado.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Saindo da crise: a tentação da inflação

Adrien de Tricornot

O presidente Nicolas Sarkozy apresentou, na quarta-feira (25), os trabalhos da comissão copresidida pelos ex-premiês Alain Juppé e Michel Rocard: ela deve definir em dois meses as "prioridades estratégicas" do grande "empréstimo nacional" a ser feito em 2010 para financiar investimentos futuros.

Mas essa dívida se somará às precedentes. Nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão, as perdas de receitas ligadas à recessão e ao custo dos planos de salvamento bancários e de retomada do crescimento chegarão a trilhões de euros. E isso em um contexto de progressão dos gastos ligados ao envelhecimento das populações. Uma vez alcançada a recuperação, serão a diminuição dos gastos públicos e o aumento dos impostos suportáveis, especialmente para aqueles lastreados por seus empréstimos imobiliários?

Daniel Roland/AP

Na zona do euro, o Tratado de Maastricht dá como principal missão ao Banco Central Europeu (BCE) zelar pela estabilidade dos preços; e este não gosta de assumir nenhum risco sobre isso

Abandonada nos anos 1980, uma receita poderia então voltar à moda: a inflação. A alta dos preços aumenta a renda das empresas e do Estado – e das pessoas físicas, quando os salários são indexados -, uma vez que o montante das dívidas e os juros permanecem constantes.
Pela inflação, os detentores de dívidas pagariam, por sua vez, sua parte para a crise, depois dos contribuintes, dos assalariados e dos acionistas.
"Não conseguiremos nos livrar de acúmulos de dívidas tão elevadas nos países industrializados sem aceitar mais inflação. O bom senso mandaria que nos preparássemos para uma volta da inflação para amenizar seus efeitos negativos. A alta dos preços seria hoje uma boa notícia levando em conta os riscos de deflação. Seria a forma menos dolorosa de aliviar o fardo da dívida. Ora, os Estados Unidos estão mais preparados para aceitar esse discurso do que os europeus", explica Véronique Riches-Flores, economista-chefe para a Europa da Société Générale.
Ao financiarem diretamente a dívida do Estado pela emissão monetária, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) e o Banco da Inglaterra (BoE) parecem seguir esse caminho. Entre o risco de depressão e de deflação – a volta aos anos 1930 – e o de sofrer, no longo prazo, um crescimento um pouco inflacionista – sobre o modelo dos "trinta anos gloriosos" do pós-guerra -, os Estados Unidos e o Reino Unido parecem ter escolhido o segundo.
Levando em conta a aversão americana pelos impostos, "o consenso político será em favor da expropriação legal que a inflação representa" para aliviar a dívida, prevê Jacques Delpla, membro do Conselho de Análise Econômica (CAE). "Qualquer ponto de inflação não antecipado é um lucro para os devedores, pois reduz o montante da dívida na mesma proporção. Além disso, esta é em parte detida pelos estrangeiros, especialmente os chineses, ao passo que a queda dos gastos e o aumento dos impostos atingiriam 100% dos americanos", ele acrescenta.

Mas "a inflação provoca efeitos de redistribuição poderosos, entre devedores e credores, e também, como na França, entre aqueles que recebem o salário mínimo – os únicos cujos salários são indexados pelos preços – e a maior parte dos assalariados", lembra Anton Brender, diretor de estudos econômicos da Dexia Asset Management.
Durante os "trinta gloriosos", esses efeitos eram corrigidos por medidas de apoio à poupança popular e pela indexação de todos os salários sobre os preços.
O retorno do Estado
Desde os anos 1980, os salários não acompanham mais automaticamente os preços, para evitar uma espiral que enfraquecia a competitividade das economias industrializadas. A concorrência crescente dos países emergentes acentuou essa pressão sobre os salários.
Mas essa pressão poderá se atenuar, em um contexto em que o Estado faz seu retorno à economia. "No mundo que sairá da crise", avalia Riches-Flores, "a possibilidade de uma volta da inflação não é absurda. As respostas trazidas para a recessão culminarão em um ‘desfiamento’ da globalização, em seus excessos financeiros e na economia real".
Assim, acrescenta ela, "o crescimento não será mais puxado pelo consumo, nos países ricos, de produtos fabricados nos países emergentes, mas pelo investimento público – gastos com infraestrutura, com desenvolvimento sustentável – que irá ao encontro do aumento do comércio, da hiperconcorrência e de seus efeitos deflacionistas sobre os salários. Essa política não é protecionista, mas tem os mesmos efeitos, sem barreiras comerciais", ela garante. Assim, a China se interessa mais pelo seu mercado interno.
Então a volta a um regime de crescimento inflacionista seria concebível a longo prazo. "No século 20, os períodos de forte crescimento que permitiram a aproximação do pleno emprego foram inflacionistas; não por natureza, mas porque eles remetiam a mecanismos mais ou menos formalizados de indexação das rendas, em particular dos salários sobre os preços, e porque eles aliviavam a dívida das pessoas físicas, do Estado e das empresas", explica Pierre Bezbakh, mestre de conferências na universidade Paris-Dauphine e cronista de Economia no "Le Monde".
A contrapartida desse crescimento – os rendimentos da poupança investida em empréstimos como o seguro de vida são reduzidos – poderia ser menos bem vista por uma população que envelheceu e poupou para sua aposentadoria.
Mas, temida ou desejada, será que essa alta dos preços realmente está se esboçando? Segundo Riches-Flores, certamente não haverá uma volta da inflação antes de 2011 ou 2012. "Nós estamos em uma situação intermediária onde pressões inflacionistas e deflacionistas coexistem", acrescenta Bezbakh. É difícil prever quais prevalecerão. A inflação não se decreta para aliviar a dívida, mas podemos não tomar medidas restritivas esperando… que ela vá aliviá-la".
A Société Générale calculou que aceitar 4% de inflação anual em 15 anos faria recuar, no período, as dívidas pública e privada francesas em 75 pontos do produto interno bruto (PIB) – 120 pontos nos Estados Unidos e 140 pontos no Japão! Mas se a alta dos preços saísse de controle – atingindo dois dígitos – , ela resultaria em uma forte tensão sobre os mercados de ações, o das taxas de juros a longo prazo. Os bancos centrais teriam de agir e voltar a elevar suas taxas agressivamente. Administrar a inflação precisaria, portanto, de muito tato.
O dogmatismo da BCE
Na zona do euro, o Tratado de Maastricht dá como principal missão ao Banco Central Europeu (BCE) zelar pela estabilidade dos preços; e este não gosta de assumir nenhum risco a esse respeito. "Não podemos modificar o tratado sem unanimidade. E existe um consenso político anti-inflacionista na Alemanha. Se quiserem a inflação, ou se deixa a zona do euro, ou os alemães a deixam", diz Delpla.
O BCE mesmo definiu a estabilidade dos preços como uma alta dos preços inferior a 2%, ou próxima a esse número. Será que ele poderia flexibilizá-la? "É melhor 3% de crescimento e 3% de inflação do que a deflação", afirma Marc Touati, diretor de estudos econômicos da empresa de gestão financeira Global Equities, para quem, "por dogmatismo", o BCE não abaixou até agora suficientemente suas taxas básicas de juros.
Depois da queda deste verão, devido aos efeitos tardios do refluxo dos preços do petróleo, a inflação deverá voltar a subir e se estabilizar em 2,3% na zona do euro em 2010, com picos técnicos em torno de 3% em ritmo anual. Se o BCE elevar suas taxas de forma muito rápida e agressiva, o crescimento dos países da zona e sua capacidade de suportar o fardo da dívida diminuiriam na mesma proporção.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Os problemas que geraram esta crise não foram resolvidos

Daniel Cohen

Em 15 de setembro de 2008, o banco de investimentos Lehman Brothers anunciou que iria declarar concordata. Como se acometida por um infarto, a economia mundial desabou. Mesmo em 1929 a queda havia sido menos brutal.

Um ano passou. Em poucas palavras, os governos "fizeram o serviço". O sistema financeiro foi salvo, a queda da demanda foi amortecida pelos déficits públicos. Os bons resultados registrados no segundo trimestre (retorno a um crescimento positivo na França, na Alemanha, no Japão…) certamente continuam frágeis: o esperado crescimento do desemprego, a perda de fôlego dos efeitos do incentivo à compra de carros novos reservam más surpresas…
Entretanto, parece estar certo que a crise de 1929 não se repetirá. Boa notícia, então. Mas a má notícia é que a crise atual não tem nada a ver com a de 1929. Ela não é uma crise do século 20 extraviada para o século 21: ela é a primeira crise da globalização. E, por essa medida, nenhum dos problemas que a criaram foi solucionado.
Recapitulemos. A crise atual nasceu de duas rupturas principais. A primeira data dos anos 1980: foi a revolução financeira que colocou a Bolsa no controle das empresas. Ela instituiu um novo modo de gestão. As firmas deixaram de ser organizações no sentido em que as entendíamos nos anos 1950 e 1960, favorecendo as carreiras longas e a lealdade dos funcionários. Elas agora visam a eficácia imediata. O bônus toma o lugar do tempo de casa como modo de gestão dos recursos humanos. Como Maya Beauvallet demonstrou de forma magnífica em seu livro "Les Stratégies Absurdes" ["As estratégias absurdas", Ed. Seuil], as necessidades de performance imediata tendem a suplantar todas as outras. Desaparecem o cuidado do trabalho bem-feito e a lealdade à empresa, e só o objetivo estabelecido importa, independentemente das patologias que resultem dele…
A globalização foi a segunda ruptura que virou o mundo de cabeça para baixo. Ela permitiu que os países emergentes se industrializassem, o que produziu dois efeitos de sentido oposto: queda nos preços dos produtos industriais, e aumento no preço das matérias-primas. Graças a isso, as pessoas pagam cada vez menos por suas telas planas e iPods, e cada vez mais por suas despesas básicas: aquecimento, comida e transporte.
Nos anos 1970, a alta do petróleo havia prejudicado o crescimento, gerando um novo mal: a estagflação. Os funcionários exigiram e obtiveram aumentos para compensar o encarecimento da energia, provocando uma aceleração da inflação. Nos anos 2000, a inflação permaneceu sob controle. A queda dos preços industriais e a erosão do poder de negociação dos funcionários derrubaram a inflação salarial. Os excedentes da produção de petróleo não foram corroídos pela inflação, como nos anos 1970, eles vagaram pela economia mundial em busca de investimentos lucrativos.

Com essa tendência geral como pano de fundo, um problema adicional foi introduzido. Ele foi gerado especificamente pela China, grande exportadora de produtos industriais e consumidora fora do comum de matéria-prima. Esse país acrescentou um desequilíbrio a mais. Preocupado com sua ausência de proteção social, seu esperado envelhecimento, seus salários insuficientes, o país poupa muito, quase 50% de sua receita, gerando excedentes comerciais absurdos. A China produz assim uma espécie de "buraco negro". Como os países exportadores de matéria-prima, ainda que ela a importe, a China faz flutuar na economia mundial ativos líquidos consideráveis.
É esse o quadro dentro do qual a crise dos subprimes precisa ser analisada. Os excedentes petroleiros e chineses buscaram contrapartidas. Wall Street os forneceu, inventando, apesar do longo prazo, meios inéditos de endividar os Estados Unidos. Costuma-se atribuir a crise à política monetária excessivamente indulgente de Alan Greenspan e às tentações constituídas pelos bônus pagos por Wall Street. Essas críticas não são infundadas, mas nos dois casos o pano de fundo é bem mais largo. Os abundantes ativos líquidos são a manifestação dos novos desequilíbrios do mundo, e os bônus, a expressão de um novo espírito do capitalismo. Coisas que não desaparecerão da noite para o dia.
E o que isso se tornará, a curto prazo? Agora que a bolha do crédito estourou, os americanos deverão recomeçar a poupar, o que significa que a demanda interna não deverá voltar a crescer tão cedo nos Estados Unidos. A crise chegou a uma solução instável, mas sem oferecer alternativas. Portanto, das duas coisas, uma. Ou novas bolhas de crédito substituirão aquela que acaba de estourar (por enquanto são os déficits públicos que exercem esse papel), ou o crescimento mundial permanecerá medíocre, por falta de saídas para absorver os excedentes chineses e petroleiros. Nos dois casos, novas desilusões se preparam… 1929 foi evitada, mas o veneno que deu origem a essa crise continua a agir.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/