Daily Archives: 19/08/2009

Quem não paga, não sabe o custo

Da Repórter Brasil

Numa época de discursos sobre a responsabilidade social empresarial, usineiros não apresentam publicamente justificativas concretas para a recusa em fornecer alimentação aos cortadores de cana. Com base na alegação de representantes do setor sucroalcooleiro de que o sistema para saciar a fome dos trabalhadores seria "muito caro e complexo", o item foi barrado no "Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar", lançado pelo governo federal em junho.

Nas últimas semanas, a reportagem esteve em dois importantes eventos sobre o setor em São Paulo, principal estado canavieiro do país. Em nenhum deles, a realidade de insegurança alimentar dos cortadores foi mencionada nos discursos oficiais das lideranças dos usineiros. O Ethanol Summit 2009, principal encontro internacional sobre o tema – promovido pelo setor empresarial -, ocorreu em junho na capital paulista. Já o 3º Seminário Científico Açúcar Ético, iniciativa da ONG francesa, se deu de 23 a 24 de julho.

No Ethanol Summit, após uma mesa sobre requalificação profissional – o tópico alimentação não foi abordado no evento -, o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, tentou explicar o veto à proposta. "O sistema de alimentação é muito caro e tem uma logística complicadíssima", disse à Repórter Brasil. O empresário negou que a recusa seja decorrente de um possível temor dos usineiros em relação à fiscalização da Vigilância Sanitária nas frentes de trabalho nos extensos canaviais.

Já o seminário da ONG Açúcar Ético tinha o objetivo de discutir "direitos sociais, ambientais e manejo responsável no setor sucroalcooleiro". Pelo lado das empresas, uma das palestrantes era Maria Luiza Barbosa, que responde desde 2001 pela atuação da Unica nas áreas social, ambiental e de sustentabilidade. No encontro, ela afirmou não ter conhecimento a respeito de nenhum estudo ou estimativa sobre o eventual impacto econômico que poderia ser causado pela garantia de alimentação. Sem conseguir detalhar os motivos da recusa, ela limitou-se a dizer que "a intenção da Unica é de que as condições (no corte da cana) sejam melhores".

Nos bastidores, porém, os usineiros enumeram uma série de empecilhos para tentar justificar o fato de não arcarem com o custo da comida. Os empresários citam a "logística da alimentação", que envolve a distância entre as várias frentes de trabalho, o custo do transporte (dos funcionários mobilizados e da manutenção dos equipamentos), além do preço médio da marmita (em torno de R$ 5). Há empresas que optam ainda pelo fornecimento de cestas básicas no lugar das refeições. Algumas usinas também distribuem um componente à base de glicose aos trabalhadores, numa controversa tentativa de amenizar a intensa fadiga a qual estão submetidos e, é claro, garantir a sua produtividade.

Incômodo

Criada em 1997, a Unica é a maior entidade do setor agroenergético do Brasil. Ao todo, são 119 companhias associadas, responsáveis por mais de 50% do etanol e 60% do açúcar produzidos no país. A entidade, que estabeleceu para si a estratégia de "tornar-se uma referência global de informações e análises críveis sobre o setor de cana-de-açúcar", não possui dados básicos sobre quantas usinas filiadas fornecem alimentação aos trabalhadores rurais. Segundo Maria Luiza Barbosa, a Unica está realizando um levantamento que compilará esses índices e será divulgado em até quatro meses.

O consultor José Darciso Rui, presidente do Grupo de Estudos em Recursos Humanos na Agroindústria (Gerhai), que reúne representantes de diversas usinas, entre elas o Grupo Cosan – maior conglomerado sucroalcooleiro do mundo -, também esteve no evento da ONG Açúcar Ético. A despeito de a cana estar entre os setores econômicos campeões de casos de escravidão no país, ele acredita que as condições de trabalho nas lavouras já estão "um passo à frente dos outros setores do agronegócio". "Somos um dos setores com mais benefícios aos trabalhadores", alega.

Cid Caldas, coordenador-geral de Açúcar e Álcool do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), fez a "recepção" dos participantes e atuou como moderador da mesa sobre responsabilidade social das empresas. Para o representante do governo no seminário, o maior desafio da cana atualmente diz respeito à estratégia de "comunicação", que precisaria ser "melhor plantada". "O setor não conseguiu passar para a comunidade o papel que ele desempenha. Ainda é visto como um setor atrasado", sustenta.

Ao ser questionado sobre qual seria a sua posição diante da justificativa dos usineiros, Cid Caldas demonstrou desconforto. "Não me cabe concordar ou discordar disso", disse. "(O protocolo) é o possível neste momento. É o primeiro passo. Novos pontos serão agregados". Ele afirmou ainda que a alimentação "pode ser um item para uma próxima rodada". Em seguida, preferiu relativizar a negativa das entidades patronais: "Qual é o setor agrícola que fornece alimentação?", indagou.

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Unica, pedindo uma posição oficial da entidade sobre o tema – a organização participou como entidade patronal, juntamente com o Fórum Nacional Sucroenergético, desde o início do processo de elaboração do "Compromisso Nacional". Também foram solicitadas informações sobre a existência ou não de algum projeto da entidade junto às suas usinas filiadas no sentido de garantir o fornecimento de alimentação aos cortadores de cana.

Diante das perguntas enviadas, a Unica preferiu emitir uma nota oficial, na qual defende os "avanços do processo negocial": "O Compromisso Nacional foi amplamente negociado de forma tripartite, sendo concluído com a decisão de valorizar uma série de boas práticas em uso do setor sucroenergético, muitas delas além do que determina a atual legislação. Quanto ao processo negocial, entendemos que devem ser valorizados os avanços".

O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar e o segundo exportador de etanol. O setor sucroalcooleiro é o terceiro maior exportador do país, perdendo apenas para a soja e a carne. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) continua sendo um dos principais financiadores do ramo no país. No ano passado, o banco público destinou R$ 6,5 bilhões para as usinas. Desde 2004, foram R$ 14 bilhões. Segundo o Gerhai, a indústria sucroalcooleira possui um faturamento de R$ 60 bilhões.

Negociação

O "Compromisso Nacional", lançado no dia 25 de junho, foi elaborado por representantes dos usineiros, trabalhadores e governo, sob coordenação da Secretaria-Geral da Presidência da República (SG/PR), do ministro Luiz Dulci. O principal avanço é o fim da intermediação de mão-de-obra para produção de cana ou etanol, numa tentativa de eliminar a figura do "gato", que faz o aliciamento para empreitadas no meio rural. O pacto obteve a adesão voluntária inicial de 309 das 413 usinas em atividade no país, que serão fiscalizadas por auditorias independentes. O acordo não tem poder de lei.

O protocolo foi resultado da "Mesa de Diálogo para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar", instalada em julho de 2008 a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foram nesses encontros que os usineiros não aceitaram incluir na pauta a garantia de fornecimento de alimentação aos cortadores de cana, inviabilizando o consenso em torno do tema. No ano anterior, em março de 2007 – no auge da euforia do etanol -, o presidente Lula havia dito que os usineiros brasileiros estavam virando "heróis mundiais".

Em discurso no dia do lançamento, em Brasília, Lula declarou que trabalhadores e usineiros antigamente eram "inimigos de classe" e que agora "compreendem que um precisa do outro para sobreviver". "Usineiro era tratado e vendido como se fosse, sabe, a coisa nefasta do setor empresarial brasileiro. Ora, se no passado, nós tivemos alguém no setor que criou essa imagem, a verdade é que o tempo se encarrega de fazer a mudança para todos os lados e eu, que jamais imaginei ser o garoto-propaganda do etanol no mundo, virei o garoto-propaganda do etanol no mundo", disse.

Uma comissão nacional tripartite – governo, empresas e trabalhadores – foi formada para implementar e acompanhar os resultados do "pacto". Pelo lado dos trabalhadores, participam a Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). As entidades também integraram a mesa de diálogo organizada pela Secretaria-Geral da Presidência.

Alimentação

No item referente à alimentação nas lavouras – ao todo são 18 pontos -, o "Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar" estabelece apenas duas recomendações às usinas. São elas: "fornecer gratuitamente recipiente térmico – marmita – que garanta condições de higiene e manutenção de temperatura" e "assegurar, nas frentes de trabalho, mesas e bancos para a realização de refeições". A garantia de alimentação gratuita é uma reivindicação histórica dos trabalhadores rurais.

Elio Neves, presidente da Feraesp, critica a ausência de comida aos boias-frias. "Como conceber um setor produtivo que se diz capaz de abastecer os tanques dos automóveis do mundo inteiro e não abastece os estômagos dos empregados?", questiona. Ele reforça que, para ganhar o planeta, o etanol brasileiro precisa ter responsabilidade social. "A legislação trabalhista ainda não chegou ao campo", lamenta. Existem ao todo cerca de 500 mil trabalhadores no corte de cana-de-açúcar no país.

O ex-cortador José Maria de Lima, secretário de assalariados da Federação dos Trabalhadores Agrícolas do Estado de Goiás (Fetaeg), é ainda mais incisivo. Para ele, o acordo não traz avanços significativos para além do que a lei exige. Ele diz que a postura dos usineiros configura um "meio de discriminação". "Quando se trata de trabalhador da indústria e operador de máquina, eles fornecem alimentação. E os nossos rurais não", critica. "Enquanto a gente luta por alimentação, o governo está pedindo marmita vazia".

Goiás

Goiás é uma área de franca expansão das lavouras de cana-de-açúcar. Ao todo, são 31 usinas, sendo que 11 delas têm produção mista e 20 são produtores de álcool. O avanço do agronegócio ocorre em paralelo à precariedade das condições trabalhistas. O Estado ocupou a liderança no ranking de libertações em 2008, ano marcado pelo recorde de denúncias sobre o uso de mão-de-obra escrava no país. Ao todo, 867 pessoas foram libertadas em Goiás. O Pará veio logo a seguir (811) e, em terceiro, Alagoas (656).

Ao lado de Pernambuco, Goiás é um dos únicos estados onde a convenção coletiva atinge 100% da produção de cana. Outros estados têm acordos individuais entre sindicatos e empresas, o que pode enfraquecer o poder de negociação dos trabalhadores. Mesmo com a capacidade de mobilização, os cortadores ainda não incluíram o item alimentação na negociação coletiva. "Há cinco anos estamos tentando alimentação gratuita e de boa qualidade e não conseguimos", diz José Maria. "Está faltando mais união do lado dos trabalhadores para que todos os estados falassem a mesma língua".

Em Goiás, o dirigente sindical explica que os usineiros migraram da justificativa "logística" para a "financeira". "Há dois anos, quando eles falaram que não tinham como fazer a entrega da alimentação na hora certa, eu me ofereci a trabalhar em qualquer uma dessas usinas para fazer um projeto para experimentar. E garanti que essa comida chegaria no horário certo para todo mundo. Aí eles não tiveram mais argumento", conta. "Eles alegam agora que o problema é financeiro mesmo, que é custo. Mesmo oferecendo para o trabalhador pagar um pouco, eles não aceitam".

Apenas duas usinas em Goiás fornecem marmita aos cortadores de cana a R$ 1 real por refeição – há outras que dão comida apenas para o trabalhador migrante. A Energética Serranópolis, que fica no município de mesmo nome no sul de Goiás, é uma delas. A usina oferece aos seus 600 cortadores de cana café da manhã, almoço, jantar e, caso seja necessário, ceia da tarde. O sistema de alimentação funciona desde 2005, quando ela começou a operar. A Serranópolis é considerada uma usina de médio porte: a previsão para essa safra é de moagem de 850 mil toneladas de cana.

A empresa transferiu toda a "logística" da alimentação, incluindo o sistema de transporte, para uma empresa terceirizada. A usina opera com duas a três frentes de trabalho por dia, num raio médio de 35 km – dois veículos percorrem diariamente o trajeto para levar as refeições. A empresa fecha contratos anuais ao custo de R$ 1,6 milhão – 80% desse valor é pago pelos donos e 20% é dividido entre os funcionários. O valor médio desembolsado por cada cortador de cana gira em torno de R$ 0,88 centavos por cada refeição.

André Luís de Moura, gerente de Recursos Humanos da Energética Serranópolis, afirma que a iniciativa não comprometeu os rendimentos da empresa. "Você às vezes tem que abrir mão da parcela do seu lucro para se manter. Não adianta ter um quadro todo insatisfeito", constata. "Fomos elogiados por ser uma das poucas empresas que fornecem alimentação no campo. Eles (auditores fiscais do trabalho), quando aparecem aqui, até acham estranho porque as demais não conseguem fazer isso", conta o gerente.

Na prática, a usina observou que, caso não adotasse essa medida, a crescente rotatividade da mão-de-obra poderia inviabilizar a sua produção. Localizada num município com cerca de seis mil habitantes, 80% dos seus empregados chegam de outros estados como Pernambuco, Bahia, Piauí, Paraíba e Maranhão. "Não adianta nada trazer pessoas para cá e elas precisarem consumir 50% do salário em gêneros alimentícios", reconhece André Luís.

A outra empresa que fornece alimentação a um preço simbólico de R$ 1 real em Goiás é a usina da Brenco – Companhia Brasileira de Energia Renovável localizada em Mineiros (GO), a 450 km de Goiânia. A usina mantém um restaurante próprio no local. No entanto, a unidade tem um histórico de problemas trabalhistas: a companhia chegou a contratar formalmente o "gato" João Pereira da Silva, vulgo "João Paracatu", em janeiro do ano passado, com a finalidade de "assessoria no recrutamento de 240 trabalhadores rurais" até fazendas na região de Mineiros (GO), para o plantio de cana. Parte do grupo de aliciados (17) por "João Paracatu" para a Brenco foi encontrado em condições análogas à escravidão em Campo Alegre de Goiás (GO).

Escravidão

Nos últimos anos, o setor sucroalcooleiro vem despontando no ranking de libertações de trabalhadores escravizados no país. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 2.553 trabalhadores deixaram a condição análoga à escravidão nas lavouras de cana-de-açúcar em 2008. O índice representa 49% do total de 5.244 trabalhadores encontrados nessas condições no ano passado, acima dos 1.026 (20%) libertados na atividade pecuária.

Além da escravidão contemporânea, as infrações encontradas pelos auditores do trabalho no setor sucroalcooleiro dizem respeito a problemas como a falta de instalações sanitárias adequadas e água potável, jornada excessiva, ausência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e outros tipos de irregularidades na gestão de saúde e segurança.

Um amplo panorama sobre os impactos sociais e ambientais da expansão da cana-de-açúcar no país pode ser conferido no relatório sobre a cana do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA) da Repórter Brasil.

Fonte: MST – http://www.mst.org.br/mst/index.html

Marx e o Reino da Consciência

António Gramsci

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Origem da presente transcrição:  (Desconhecida)
Transcrição de: Alexandre Linares para o Marxists Internet Archive
HTML de: Fernando A. S. Araújo
Direitos de Reprodução:…..

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Nosso Marx

Somos marxistas? Existem marxistas? Somente tu, estupidez, és eterna. Essa questão provavelmente ressuscitará estes dias, por ocasião do centenário, e consumirá rios de tinta de estultice. A vã quinquilharia e o bizantinismo são heranças imarcescíveis dos homens. Marx não escreveu um catecismo, não é um messias que tenha deixado uma fieira de parábolas carregadas de imperativos categóricos, de normas indiscutíveis, absolutas, fora das categorias do tempo e do espaço. Seu único imperativo categórico, sua única norma é: "Proletários do mundo inteiro, uni-vos." Portanto, a discriminação entre marxistas e não marxistas teria de consistir no dever da organização e da propaganda, no dever de organizar-se e associar-se. Isto é muito e, ao mesmo tempo, muito pouco: quem não seria marxista? E, sem dúvida, assim são as coisas: todos são um pouco marxistas sem o saber. Marx foi grande e sua ação foi fecunda não porque tenha inventado a partir do nada, não por haver engendrado com sua fantasia uma original visão da história, mas porque com ele o fragmentário, o irrealizado, o imaturo, se fez maturidade, sistema, consciência. Sua consciência pessoal pode converter-se na de todos, e já é de muitos; por isso Marx não é apenas um cientista, mas também um homem de ação; é grande e fecundo na ação da mesma forma que no pensamento, e seus livros transformaram o mundo, assim como transformaram o pensamento.

Marx significa a entrada da inteligência na história da humanidade, significa o reino da consciência.

Sua obra surge precisamente no mesmo período em que se desenvolve a grande batalha entre Thomas Carlyle e Herbert Spencer relativa à função do homem na história.

Carlyle: o herói, a grande individualidade, mística síntese de uma comunhão espiritual, que conduz os destinos da humanidade para margens desconhecidas, evanescentes no quimérico país da perfeição e da santidade.

Spencer: a natureza, a evolução, abstração mecânica inanimada. O homem: átomo de um organismo natural que obedece a uma lei abstrata como tal, mas que se faz concreta historicamente nos indivíduos: a utilidade imediata.

Marx situa-se na história com a sólida postura de um gigante: não é um místico nem um metafísico positivista é um historiador, um intérprete dos documentos do passado, e de todos os documentos, não apenas de uma parte deles.

Este era o defeito intrínseco das investigações relativas aos acontecimentos humanos: o não examinar e não levar em consideração mais do que uma parte dos documentos. E essa parte era escolhida não pela vontade histórica, mas pelo preconceito partidário, que continua a ser isso ainda que inconscientemente e de boa fé. As investigações não tinham como objetivo a verdade, a exatidão a reconstrução integral da vida do passado, mas a acentuação de uma determinada atividade, a valoração de uma tese apriorística. A história era domínio exclusivo das idéias. O homem considerava-se como espírito, como consciência pura. Dessa concepção derivavam duas conseqüências errôneas: as idéias acentuadas eram freqüentemente arbitrárias, fictícias. E os fatos aos quais era dada importância eram anedotas, não história. Se apesar de tudo, foi escrita história, no real sentido da palavra, isso deveu-se à intuição genial de alguns indivíduos, não a uma atividade científica sistemática e consciente.

Com Marx a história continua sendo domínio das idéias, do espírito, da atividade consciente dos indivíduos isolados ou associados. Mas as idéias, o espírito, se realizam, perdem sua arbitrariedade, não são mais fictícias abstrações religiosas ou sociológicas. A substância que adquirem está na economia, na atividade prática, nos sistemas e nas relações de produção e de troca. A história como acontecimento é pura atividade prática (econômica e moral). uma idéia se realiza não quando é logicamente coerente com a verdade pura, com a humanidade pura (a qual não existe a não ser como programa, como finalidade ética geral para os homens), mas quando encontra na realidade econômica justificação, instrumento para afirmar-se. Para conhecer com exatidão quais são os objetivos históricos de um país, de uma sociedade, de um grupo, o que importa antes de tudo é conhecer quais são os sistemas e as relações de produção e de troca daquele país, daquela sociedade. Sem este conhecimento é perfeitamente possível redigir monografias parciais, dissertações úteis para a história da cultura, e serão captados reflexos secundários, conseqüências distantes; mas não será feita história, a atividade prática não ficará explícita com toda sua sólida compacticidade.

Caem os ídolos de seus altares e as divindades vêem como se dissipam as nuvens de incenso doloroso. O homem adquire consciência da realidade objetiva, se apodera do segredo que impulsiona a sucessão real dos acontecimentos. O homem conhece-se a si mesmo, sabe quanto pode valer sua vontade individual e como pode chegar a ser potente se, obedecendo, disciplinando-se de acordo com a necessidade, acaba dominando a realidade mesma, identificando-a com seus fins. Quem conhece a si mesmo? Não é o homem em geral, mas aquele que sofre o jugo da necessidade. A busca da substância histórica, o ato de fixá-la no sistema e nas relações de produção e de troca, permite descobrir que a sociedade dos homens está dividida em duas classes. A classe que possui o instrumento de produção necessariamente já conhece a si mesma, tem consciência, ainda que seja confusa e fragmentária, de sua potência e de sua missão. Tem fins individuais e os realiza através de sua organização, friamente, objetivamente, sem se preocupar se o seu caminho está calçado com corpos extenuados pela fome ou com os cadáveres dos campos de batalha.

A compreensão da real causalidade histórica tem valor de revelação para a outra classe, converte-se em princípio de ordem para o ilimitado rebanho sem pastor. A grei obtém consciência de si mesma, da tarefa que tem de realizar atualmente para que a outra classe se afirme, toma consciência de que seus fins individuais ficarão em mera arbitrariedade, em pura palavra, em veleidade vazia e enfática enquanto não disponha dos instrumentos, enquanto a veleidade não se converta em vontade.

Voluntarismo? Essa palavra não significa nada, se se utiliza no sentido de arbitrariedade. Do ponto de vista marxista, vontade significa consciência da finalidade, o que quer dizer, por sua vez, noção exata da potência que se tem e dos meios para expressá-la na ação. Significa, portanto, em primeiro lugar, distinção, identificação da classe, vida política independente da de outra classe, organização compacta e disciplinada para os fins específicos próprios, sem desvios nem vacilações. Significa impulso retilíneo até chegar ao objetivo máximo, sem excursões pelos verdes prados da cordial fraternidade, enternecidos pelas verdes ervazinhas e pelas suaves declarações de estima e amor.

Mas a expressão "do ponto de vista marxista" é supérflua, e até pode produzir equívocos inundações meramente verbais. Marxistas, de um ponto de vista marxista… todas expressões desgastadas como moedas que tenham passado por excessivas mãos.

Karl Marx é para nós mestre de vida espiritual e moral, não pastor com báculo. É estimulador das preguiças mentais, é o que desperta as boas energias dormidas e que se deve despertar para a boa batalha. É um exemplo de trabalho intenso e tenaz para conseguir a clara honradez das idéias, a sólida cultura necessária para não falar vagamente de abstrações. É bloco monolítico de humanidade que sabe e pensa, que não tem papas na língua para falar, nem põe a mão no coração para sentir, mas que constrói silogismos de ferro que aferram a realidade em sua essência e a dominam, que penetram nos cérebros, dissolvem as sedimentações do preconceito e a idéia fixa e robustecem o caráter moral

Karl Marx não é para nós nem a criança que geme no berço, nem o barbudo terror dos sacristãos. Não é nenhum dos episódios anedóticos de sua biografa, nenhum gesto brilhante ou grosseiro de sua exterior animalidade humana. É um vasto e sereno cérebro que pensa um momento singular da laboriosa, secular, busca que realiza a humanidade por conseguir consciência de seu ser sua mudança, para captar o ritmo misterioso da história e dissipar seu mistério para ser mais forte no fazer e no pensar. É uma parcela necessária e integrante do nosso espírito, que não seria o que é se Marx não tivesse vivido, pensado, arrancado chispas de luz com o choque de suas paixões e de suas idéias, de suas misérias e de seus ideais.

Glorificando a Karl Marx no centenário de seu nascimento, o proletariado glorifica a si mesmo, glorifica sua força consciente, o dinamismo de sua agressividade conquistadora que vai desquiciando o domínio do privilégio e se prepara para a luta final que coroará todos os esforços e todos os sacrifícios.

Fonte: Marxists – http://www.marxists.org/

Estratégias discursivas

A repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico. Investimentos nacionais, comparativamente, chegam a superar montante de países desenvolvidos.

Eduardo Bueno Fonseca Perillo
Maria Cristina Amorim

A saúde está em crise. Essa é uma afirmação ouvida quase diariamente e que, por isso mesmo, acaba por adquirir peso de verdade absoluta, ou de senso comum.
Devemos ter cuidado com conceitos generalizados. É preciso lembrar que, desde o século 16, com René Descartes, já se sabe que o senso comum confunde a compreensão da realidade. Isso significa dizer que, quando todo mundo pensa igual, ninguém realmente pensa.
Olhando bem de perto, veremos que os investimentos no setor de saúde são crescentes, e as taxas de lucro também. Além disso, os gastos brasileiros totais com saúde, tomados como porcentagem da renda nacional, são comparáveis, senão superiores, aos de diversos países desenvolvidos.
Contra os atuais mais de 8% do PIB gastos com saúde no Brasil, podemos comparar os gastos do Japão (7%), Reino Unido (8,1%), Itália (8,7%), Suécia (9,1%), França (9,5%), Austrália (9,6%), Canadá (9,8%), Alemanha (10,6%), e mais de 15% nos Estados Unidos. Na América Latina, os gastos com saúde alcançam cerca de 4% da renda nacional no Peru, 6% no Chile, 6,5% no México e Costa Rica, 8,2% no Uruguai e Nicarágua, e 9,6% na Argentina.

É claro que a renda nacional varia de país a país. Assim, 1% da renda nacional dos Estados Unidos é muito maior que 1% da renda nacional da Nicarágua ou Costa Rica, por exemplo. Mas a comparação é válida, pois mostra quanto do orçamento nacional é comprometido com saúde. Essa comparação é semelhante ao que ocorre com uma família, quando reparte o orçamento doméstico em alimentação, educação, plano de saúde e transporte.
No caso das comparações entre países, as despesas refletem principalmente o quanto é gasto com ações de assistência médico-hospitalar e farmacêutica – os gastos com saneamento e educação, essenciais para garantir qualidade de vida e saúde, não são computados. Despesas com ações de prevenção e promoção de saúde entram no cálculo, mas são muito menores que as com assistência médico-hospitalar e com medicamentos.
Os gastos com saúde têm sido crescentes, tanto nos países com economia já estabilizada quanto naqueles em desenvolvimento, variando entre um e três pontos percentuais na última década. No Brasil, as inversões governamentais em saúde também têm crescido para atender à população dependente do Sistema Único de Saúde (SUS) – embora, como mostrou recente estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os gastos privados tenham crescido ainda mais.
Discurso Repetitivo
Mesmo com gastos crescentes, não desapareceu o discurso de crise. Afinal, do que tratamos quando nos referimos à “crise”? Só é possível compreender as dificuldades do modelo brasileiro de atenção à saúde partindo de um princípio básico: o setor é muitíssimo heterogêneo, e para analisá-lo é preciso compreender o funcionamento e os interesses de cada elo de sua cadeia produtiva.

No campo das diferenças, separemos inicialmente a saúde privada ou complementar do SUS. A primeira depende dos recursos privados dos consumidores de planos de saúde e dos recursos governamentais diretos (compra de serviços e medicamentos) e indiretos (incentivos fiscais e tributários). A segunda depende apenas dos recursos estatais. Se a procura por planos de saúde varia em função da renda disponível para o consumo, a procura pelo SUS é infinitamente crescente. Quanto mais acessível e melhor for o serviço público gratuito, mais pessoas o procurarão – afinal, se for bom e barato, para que pagar o plano de saúde?
No segmento privado, as indústrias de materiais, equipamentos e medicamentos tiveram vendas e lucros crescentes nos últimos três anos. Por exemplo, os hospitais vinculados à Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP) tiveram, em 2007, lucro 12% maior que o obtido em 2006, enquanto as operadoras de planos de saúde obtiveram, em 2008, crescimento de 6% comparado a 2007. Para comparar, a taxa média de crescimento da economia brasileira entre 2006-2008 foi de magros 2,5% ao ano. Assim, vários outros indicadores de desempenho do setor privado nos desautorizam a caracterizá-lo como “em crise”.
Talvez o leitor esteja se lembrando das muitíssimas dificuldades pelas quais passou quando precisou usar seu plano de saúde e, a partir de sua experiência pessoal, ainda esteja convencido da existência da “crise” na saúde.
É verdade que as operadoras de planos de saúde encontram-se há anos no topo das listas de reclamações dos consumidores, mas as companhias telefônicas e os bancos também estão incluídos nessa lista e, no entanto, o senso comum não faz juízos sobre a crise do sistema financeiro e telefônico. O sistema financeiro tem uma “crise” desde setembro de 2008, mas essa é uma história inteiramente diferente. As agruras dos usuários de planos de saúde encontram-se no campo das relações de consumo, do direito do consumidor, da capacidade de o Estado vigiar e punir empresas, e são, literalmente, um problema de outra natureza, não exclusivo dos serviços de saúde.

No mundo do SUS, a realidade é outra. A queixa por mais recursos financeiros para saúde é unanimidade. Afinal, todas as organizações, estatais, públicas e privadas, seriam beneficiadas se o dinheiro repassado pelo governo fosse maior. Essa seria a solução, caso o Estado, como qualquer outra unidade orçamentária, não tivesse recursos finitos e vários outros setores tão importantes quanto a saúde. Mais dinheiro para a saúde? E por que não para a educação, saneamento, moradia, segurança…? Mais para a saúde, menos para quem?
Saúde e Democracia
Mas para absolutamente todos os agentes envolvidos na oferta de bens e serviços de atenção à saúde, os assuntos de eficácia e eficiência econômicas são muito mais espinhosos. Empreender ações necessárias para atingir os objetivos determinados, e fazê-las bem feitas e com economia de recursos, está no campo de aplicação dos instrumentos de gestão e controle das instituições e processos. No entanto, os conhecimentos econômico e administrativo não podem tudo quando eficácia e eficiência estão em jogo; aspectos culturais, legais e sobretudo relativos à disputa por poder e recursos econômicos em uma sociedade democrática pesam muito na escolha de prioridades e na forma de executá-las. É preciso levar em conta a existência de um permanente “cabode-guerra” entre as diversas instâncias envolvidas, e como no jogo real, ganha quem joga melhor.
Esse conjunto de aspectos econômicos, culturais, legais e políticos produz um problema sério: o acesso da população de baixa renda aos serviços de atenção à saúde. Discutir esse ponto é diferente de sair por aí em suposta ou verdadeira indignação contra a “crise na saúde”. Se a atividade tem sido crescentemente lucrativa para amplos segmentos, como comentamos antes, as dificuldades de uns constituem o modelo de operação de outros.
E discutir o modelo ou estrutura de atenção à saúde é, quase sempre, uma armadilha. Entre economistas, por exemplo, quando não se considera possível ou desejável levantar um determinado problema, costuma-se afirmar: “é estrutural”. Para bom entendedor significa que vai permanecer como está.

A constituição do modelo brasileiro de atenção à saúde vem ocorrendo desde os tempos coloniais, passando por transformações com a chegada da família real, em 1808, depois com a declaração de Independência, e os sucessivos golpes da República, do Governo Provisório, do Estado Novo e da ditadura militar. O país até hoje paga a conta da falta de estabilidade política e da rasa experiência democrática, e os reflexos no sistema de saúde são inevitáveis.
Não consideramos razoável, nos limites das sociedades democráticas, esperar ou promover mudanças drásticas de estruturas – nunca se viu lugar onde essa estratégia tenha dado certo. Recomendamos que o enfrentamento do grave problema da dificuldade de acesso ocorra de forma contínua e consistente, o que já seria muito em termos de concretizar a cidadania. Pensar soluções para problemas com um longo histórico nos remete justamente à história da implantação do complexo médico-hospitalar no Brasil. Vamos a ela.
Tanto em termos absolutos quanto relativos o Brasil gasta atualmente com assistência à saúde mais que países de renda média comparáveis. No entanto, consegue apenas resultados relativamente menores quanto ao montante despendido. Esses dados, apresentados no relatório do Banco Mundial “Desempenho Hospitalar no Brasil”, são acompanhados de outros: mesmo com 60% dos hospitais brasileiros oferecendo menos de 50 leitos, ainda assim respondem pelo emprego de 56% da mão-de-obra utilizada na saúde, representando 67% das despesas totais e 70% dos gastos públicos com saúde.
O estudo do IBGE “Economia da saúde – Uma perspectiva macroeconômica 2000-2005”, nos fornece mais dados interessantes. Mais de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro destinam-se aos gastos com saúde e 60% dessa despesa cabe às famílias; em 2005, isso correspondia a 8,2% de seus gastos totais. Nas economias desenvolvidas, a maior parte dos gastos com saúde, entre 70-85%, cabem ao governo; no Brasil, esse valor é menor que 40%, semelhante ao verificado nos Estados Unidos (45%). Mas lá, cerca de 50 milhões de habitantes não dispõem de cobertura de plano de saúde, e também não existe um sistema nacional de saúde.

Investimentos Superiores
Comparando o Brasil aos demais países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), os gastos brasileiros superaram os da Índia (19%) e China (39%), mas foram menores que os da Rússia (62%). Mesmo entre as famílias, o gasto com saúde não é uniforme, variando conforme a renda; enquanto o gasto médio mensal com saúde dos 40% mais pobres da população é R$ 28,00, a dos 10% mais ricos é R$ 376,00; mais de 13 vezes superior, concentrada nos planos de saúde, medicamentos e atenção odontológica.
Mais alguns dados interessantes: nos mais de sete mil hospitais brasileiros verifica-se tanto densidade de leitos como utilização de cuidados hospitalares em níveis superiores aos encontrados em economias de renda média semelhantes, mesmo tendo o Brasil uma população mais jovem que a dos demais países do Bric, com perfil epidemiológico menos dependente de hospitalização. A maior parte dos gastos estatais com saúde acaba destinada aos hospitais, e entender por que isso acontece é muito importante para o entendimento das dificuldades do sistema de atenção à saúde.
A história pode nos fornecer caminhos para a resposta. Entre 1942 e 1966, no contexto das modificações econômicas e políticas ocorridas no Brasil, ocorreu a implantação e consolidação do complexo médico-hospitalar de assistência à saúde, precursor do atual complexo médico-industrial. Acompanhando o desenrolar dos fatos históricos dessa fase, vamos compreender que parte significativa dos dilemas da saúde enfrentados atualmente já estava presente ao menos desde os anos 40, pressionando os tomadores de decisão e trazendo conseqüências para os cidadãos.
Complexo médico-hospitalar é o conjunto de estruturas de atenção à saúde orientado pelas demandas das organizações hospitalares, isto é, hospitais, clínicas e ambulatórios, laboratórios, entre outros, além das entidades médicas organizadas. Nesse conglomerado, o Estado é, simultaneamente, controlado por e controlador dos grupos privados, e também produtor e comprador de serviços, entre outros papéis.

Mesmo permanecendo atuante até hoje, o modelo progressivamente cede espaço e poder para seu sucessor, o complexo médico-industrial. Este modelo desloca os hospitais para posições de menor poder, conferindo hegemonia à indústria de materiais, equipamentos e medicamentos. Essa passagem de um complexo para outro é uma das causas, por exemplo, da perda de renda média da maioria dos médicos. O dinheiro antes destinado às consultas remunera hoje os produtores de exames, equipamentos e medicamentos. É ainda uma das causas dos conflitos e dificuldades atuais do sistema de saúde brasileiro, quando se tem em vista melhorar as condições de vida do cidadão e seu acesso aos serviços.
Com a Segunda Guerra Mundial já em andamento, e o alinhamento dos interesses políticos e econômicos do Brasil aos dos Estados Unidos, o modelo de saúde médico-hospitalar ganha impulso. Apresentando-se como “moderno” e “científico”, é progressivamente adotado em todo o país, tornando-se hegemônico. Baseado em “experimentação científica” e tecnologia, coloca o hospital no centro de atenção e integração de técnicas e equipamentos, tornados crescentemente indispensáveis para a atenção à saúde. A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo foi instrumental na implantação do modelo: auxiliada pelos recursos da Fundação Rockefeller, americana, deu legitimidade e espaço para o exercício da medicina centralizada no hospital.
Conceber Alternativas
Quando se discutem outros meios de acesso à saúde, prevenção e promoção, por exemplo, o peso de décadas de cultura médica que entende como recurso fundamental o consumo de serviços centralizados no hospital, não facilita a tarefa de imaginar outros modelos. Além do que, reduzir a atuação da medicina estritamente curativa é redirecionar dinheiro e poder para outros atores.
Maior acesso à saúde em 2009, o que é? Mais dinheiro para os hospitais e centros de diagnósticos ou para o saneamento, educação e habitação?

A criação do SUS, em 1988, ocorre em um contexto de transição do padrão controlado pelo hospital para aquele pautado por um novo ator, a indústria de medicamentos.
Na primeira situação, a centralização física das atividades de prestação de serviços nos hospitais repete-se na centralização do modelo como um todo. Os períodos ditatoriais dos governos brasileiros, Vargas, de 1930 a 1945, e os militares, de 1964 a 1985, agem no mesmo sentido. E o SUS, no bojo dos anseios sociais pela redemocratização, defende e defenderá a descentralização como uma das condições para melhorar o atendimento.
Descentralizar é distribuir poder e dinheiro. Não é tarefa fácil. Foi e continua sendo alvo de críticas. O relatório “Desempenho Hospitalar no Brasil”, já mencionado e patrocinado pelo Banco Mundial, critica o modelo descentralizado do SUS, sobretudo a autonomia dos municípios, considerada excessiva, apontando-a, entre outras, como uma das causas da ineficiência (sic) do sistema de saúde brasileiro.
A partir do final da década de 70, dados os controles governamentais sobre o balanço de pagamentos e a restrição à importação de materiais de consumo e de tecnologia menos sofisticada, a tecnificação da medicina no Brasil permitiu a instalação de uma indústria local de materiais médicos. Em 2009, a produção de insumos nacionais encontra- se bastante desenvolvida, mas voltada para equipamentos de tecnologia já dominada pelo parque industrial nacional. Dependemos ainda da importação de equipamentos de tecnologia de ponta, visto que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento são escassos, e as parcerias entre universidades e empresas permanecem embrionárias.

A crescente importância da incorporação de inovação tecnológica aos serviços de saúde é a base para a formação do complexo médico-industrial, significando que os interesses da indústria de materiais e medicamentos também contam nas decisões sobre a quantidade, características, qualidade e preço do acesso à saúde.
A inovação tecnológica é elemento vital no funcionamento do complexo médico-industrial. Os benefícios da inovação na saúde são inegáveis. Certa taxa de desperdício e erro na oferta de inovações são inevitáveis (o produto ou serviço, que parecia tão bom a princípio, pode revelar-se mais tarde um fiasco ou até mesmo mal-intencionado). Afinal, a ciência é parcialmente evolutiva, muitas vezes o novo é melhor, e os interesses econômicos também contam no lançamento de novidades. Nos anos 40/50, leite materno era considerado “cientificamente” fraco, recomendando-se dar leite em pó aos bebês. Hoje sabemos que a pesquisa sobre conveniência da substituição era patrocinada pelo fabricante de leite em pó. Mas, naturalmente, a inovação não é sempre a vilã. Novos procedimentos cirúrgicos, por exemplo, menos invasivos, até segunda ordem são um grande benefício para os pacientes.
A inovação custa mais caro, não necessariamente por causa do custo de produção: é da natureza das economias de mercado que seja assim. A questão é, portanto, quanto os contribuintes e consumidores pagarão pela inovação. Quanto vale o novo medicamento ou procedimento, em termos de custo comparado aos benefícios reais?
Em síntese, falar de “crise” na saúde, de forma genérica, não ajuda a compreender o problema – a dificuldade do acesso para as parcelas de baixa renda, entre outros – e muito menos a encontrar soluções.
E as soluções, como a história revela, terão de lidar com as características do modelo de atenção à saúde, construído há décadas, e considerar o quanto o modelo médico-industrial molda interesses, corações e mentes.

CONCEITOS-CHAVE

- O discurso de que a saúde está em crise no Brasil, ainda que não corresponda à realidade, camufla uma situação estrutural.
- Só é possível compreender as dificuldades do modelo brasileiro partir de um princípio básico: o setor é bastante heterogêneo.
- Hospitais vinculados à Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP) tiveram, em 2007, lucro.

PARA CONHECER MAIS

Dinâmica do segmento de saúde no Brasil: interesses, confl itos e perspectivas. Maria Cristina S. Amorim, in M. C. S. Amorim e E. B. F. Perillo (orgs.) Para entender a saúde no Brasil. São Paulo: LCTE, 2006.
Hospital performance in Brazil, the search for excellence. Gerard M. La Forgia e Bernard F. Couttolenc. Washington, The World Bank, 2008.
Importação e implantação do modelo médico-hospitalar no Brasil. Um esboço de história econômica do sistema de saúde 1942-1966. E. B. F. Perillo. Tese de doutorado, FFLCH, USP, 2008.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

A construção histórica do consumo e a gênese do capitalismo brasileiro

Tese defendida no IE mostra que a burguesia tradicional desprezava classe emergente.

MANUEL ALVES FILHO

O consumo de produtos falsificados, muito presente nos dias que correm, não é uma prática específica do capitalismo contemporâneo. No caso brasileiro, o fenômeno tem suas raízes fixadas no início do processo de formação desse sistema, que seu deu entre o final do século 19 e começo do século 20. Já naquela época, as classes que não tinham acesso aos artigos sofisticados vindos da Europa, primazia das famílias produtoras de café e de alguns comerciantes em ascensão, recorriam às imitações. “Como a industrialização brasileira foi tardia, por volta dos anos 70, a falsificação foi um dos elementos que contribuíram para dar impulso à dinâmica própria do capitalismo, que diferencia e massifica a um só tempo”, explica a economista Milena Fernandes de Oliveira, autora da tese de doutorado “Consumo e Cultura Material, São Paulo, Belle Époque (1890-1915)”, apresentada recentemente no Instituto de Economia (IE) da Unicamp”. O trabalho foi orientado pelo professor Fernando Antonio Novais.

Em sua pesquisa, Milena buscou compreender a questão do consumo a partir de sua construção histórica. De acordo com ela, o tema constitui um importante instrumento para o melhor entendimento do capitalismo e da sua dinâmica. “A conexão entre as dimensões econômica e cultural permite a interpretação dos conflitos de classe para além da esfera da produção, o que amplia as possibilidades de estudo do materialismo histórico”, detalha. A pesquisadora informa que o marco do processo de formação do capitalismo brasileiro foi a abolição da escravatura e a consequente adoção do trabalho livre, processo este que teve em São Paulo seu carro-chefe. O período coincidiu com a incipiente acumulação capitalista, que se manifestou na forma de administrar a propriedade agrícola, no desenvolvimento de atividade bancária urbana, no nascimento da indústria e na própria dinâmica de consumo. “Foram os primeiros indícios de uma sociedade capitalista nascente”, afirma a economista.

É a partir desse novo cenário, prossegue Milena, que surgem conflitos de classe que podem ser captados pela dinâmica de consumo. As famílias oriundas da riqueza cafeeira tinham um padrão de aquisição de bens materiais e culturais considerados sofisticados, fundado no modelo europeu, mais especificamente o francês. A cultura das lojas de departamentos e os romances de Gustave Flaubert, por exemplo, eram introduzidos no país por meio daqueles que viajavam à Europa, seja a passeio, seja a estudo ou trabalho. Subjacente a esse comportamento estava a intenção de ratificar uma posição social. Ao mesmo tempo, uma elite ascendente, formada por comerciantes de sucesso, aspirava ter acesso aos mesmos produtos. “Os documentos que analisei, principalmente no acervo dos Arquivos de Paris, revelam que a burguesia tradicional desprezava essa classe emergente, por considerá-la menos preparada e educada”, informa a autora da tese.

Nesse sentido, os grupos mais abastados procuravam se distinguir dos demais não somente pelo produto consumido, mas também pelo capital cultural acumulado. Isso ficava especialmente claro no ambiente da Ópera. De acordo com os representantes dessa “aristocracia”, os integrantes dos segmentos em ascensão não tinham cultura e educação suficientes para entender o que se passava durante o espetáculo, e somente frequentavam o teatro para tentar demonstrar um status que de fato não detinham. “Em uma revista que analisei, datada da década de 20, havia uma clara crítica aos ‘esnobes’ que iam à Ópera, mas que não compreendiam nada do que estava sendo representado no palco. Eram chamados pelo autor do artigo de ‘esnobes profissionais’”, conta Milena.

Paralela a essa situação, conforme a pesquisadora, havia também o desejo de consumo por parte dos segmentos ainda menos abastados. Como a base produtiva nacional, que ainda era incipiente, não tinha capacidade para atender à crescente demanda, aconteceu inicialmente a diferenciação para apenas posteriormente ocorrer a generalização desse mesmo consumo. “Num primeiro momento, a burguesia tradicional deu sequência ao seu padrão de aquisição de bens baseado no modelo europeu. O que nós chamaríamos hoje de classe média foi atendida, em parte, pela indústria nacional, que produzia artigos mais simples, como tecidos, pentes, chapéus, bolsas e luvas. Já os segmentos mais pobres passaram a recorrer às falsificações, também como forma de afirmação de uma identidade. Aliás, a chamada pirataria é intrínseca ao capitalismo. Tanto no passado quanto hoje ela é uma forma de generalização espúria do que é particular”, analisa.

Esse processo de contrafação como suporte de generalização de padrões, continua Milena, incomodou os franceses, importantes parceiros comerciais do país, principalmente no setor de bens de luxo. Vários dos produtos exportados por eles passaram, então, a concorrer com imitações nacionais, obviamente mais baratas. Por essa época, assinala a economista, existiam marcos legais relacionados às importações. Ela diz, porém, não ter conseguido identificar uma clara preocupação das autoridades brasileiras em defender a indústria nacional. “Alguns produtos considerados supérfluos, como bebidas e cigarros, passaram a ser taxados, mas isso nem de longe representava uma iniciativa ligada a um projeto nacionalista, como o que viria a ser implantado posteriormente no governo Vargas”, esclarece.

Alguns comportamentos presentes na formação do capitalismo no Brasil, reforça a autora da tese, continuam orientando até hoje hábitos de consumo que são representativos, em alguma medida, do fenômeno de construção e reconstrução de hierarquias. A aquisição de produtos falsificados é apenas um deles. Outro é a aquisição por parte de trabalhadores, ainda que de forma árdua, de símbolos de status. “O piano é um símbolo claro para o século XIX. Um funcionário público da época, um trabalhador de recursos médios, segundo Jorge Americano, economizava a vida toda para comprar um piano para uma filha que logo casaria e, então, deixaria o piano de lado. O consumo funcionava, dessa forma, como uma ponte entre a base material e a cultura”, aponta Milena.

Ademais, completa a economista, o consumo também esteve ligado desde sempre ao conceito de modernização. Associado ao processo de urbanização, o consumo se reportou a um modo de vida cosmopolita, relacionado por sua vez à forma como alguns segmentos entendiam a modernidade naquele momento. Inicialmente, as famílias ruralistas mantinham casas na cidade apenas para passar breves temporadas. Com o passar do tempo, elas foram se mudando definitivamente para a área urbana, em busca de luxo, comodidade e uma vida cultural mais atrelada à Europa. “Foi nesse contexto que foram formados, por exemplo, os bairros paulistanos de Campos Elíseos, Higienópolis e Santa Cecília. Em meio à transformação cultural em curso e à expansão das ideias cosmopolitas, também foram abertas as ‘grandes avenidas’, versões locais dos bulevares parisienses”, diz.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Cuba – Ilha da rebeldia

Os cubanos lutaram quatro séculos para se libertar do domínio espanhol. Desde os anos 50, desafiam os Estados Unidos, o que deu fama internacional ao pequeno e atrevido país.

Véronique Dumas

No dia 1º de janeiro deste ano, Cuba comemorou 50 anos da revolução liderada por Fidel Castro, que apeou do poder o golpista Fulgencio Batista, em 1958. E 517 anos de rebeldia e heroísmo que, se jamais tiraram a ilha da condição de subdesenvolvimento econômico, ao menos a transformaram em um símbolo mundial de resistência.
Neste 2009, o aniversário da revolução foi celebrado com Raúl Castro, irmão de Fidel, no comando do pequeno país. Mas o destino reservaria a ele mais do que o poder na ilha. A Raúl vem cabendo o papel de mediador das novas relações diplomáticas e, principalmente, econômicas entre Cuba e os Estados Unidos, agora sob a batuta do presidente democrata Barack Obama.
Foram dados até aqui passos decisivos para o processo de suspensão do embargo americano, que isola a ilha do resto do mundo há 46 anos. Contra todas as evidências, os irmãos Castro afirmam que a revolução está mais forte do que nunca. O bordão de ambos é conhecido: “Resistir foi a palavra de ordem de cada uma de nossas vitórias durante esse meio século de batalhas ininterruptas”.
É bem verdade que os 12 milhões de cubanos (renda per capita mensal média entre US$ 10 e US$ 15) podem não avaliar as tais “vitórias” da mesma forma. Mas, de fato, os 50 anos de antagonismos entre os Estados Unidos e Cuba se inscrevem em uma trajetória de relações difíceis entre os dois países, bem anteriores à tomada de poder por Fidel Castro. E em uma tradição de resistência que nasceu na época colonial espanhola.

A maior ilha das Antilhas, situada a 150 km da costa da Flórida, foi descoberta por Cristóvão Colombo já em sua primeira viagem, em 1492. O navegador tomou posse dela, em nome da Coroa espanhola. Mas a colonização só começou em 1511, com a chegada de Diego Velásquez de Cuellar, primeiro governador da ilha e fundador de Santiago de Cuba e de Havana.
O tempo correu, e os indígenas, dizimados por doenças e pelo trabalho forçado em lavouras, foram substituídos por mão-de-obra escrava africana, empregada nas plantações de cana-de-açúcar e tabaco e, depois, de café e cacau. Cuba, encruzilhada estratégica no imenso império colonial espanhol, também servia de escala e local de reunião dos navios de comércio vindos do continente americano, antes que partissem em comboio rumo à Espanha.
A ilha, rica e fértil, atraía a atenção dos britânicos, que tentaram uma incursão durante a Guerra dos Sete Anos. Em 1762, a Inglaterra chegou a ocupar Havana por nove meses.
Durante a primeira metade do século XIX, os movimentos revolucionários que agitavam os países da América Latina, sob influência de Simon Bolívar, não chegaram à ilha. A exemplo de Porto Rico, privado em 1837 de sua representação no Parlamento espanhol, Cuba estava então sob o domínio de um regime militar.

O primeiro levante popular contra o domínio espanhol eclodiu em 1868, seguido da proclamação de uma República insurreta. A guerrilha que se seguiu duraria dez anos, mas os ativistas de então não conseguiriam se impor como poder independente.
Em 1895 começava a segunda guerra de independência, dominada por uma figura de proa do nacionalismo local: o escritor e jornalista cubano José Martí. Exilado nos Estados Unidos, em 1892 ele fundou o Partido Revolucionário Cubano e, em seguida, organizou uma expedição militar contra os espanhóis. Morreu de armas em punho, na batalha de Dois Rios, em 1895.
Suas idéias e sua obra contribuiriam para forjar a consciência política latino-americana. Em 1897, um regime de autonomia foi, por fim, conquistado por Cuba. Mas os americanos, determinados a fazer a ilha entrar para sua zona de influência, declararam guerra contra a Espanha, derrotada em poucas semanas.
Assim, depois de ter se tornado Estado independente, Cuba foi ocupada, por quatro anos, pelas tropas americanas. A famosa emenda de Platt, inserida na Constituição cubana em 1901, definia a ilha como um protetorado americano e conferia aos Estados Unidos o direito de ocupação militar, caso seus interesses fossem desrespeitados.
A construção da base naval americana na baía de Guantánamo, no sudeste da ilha, data dessa época. O primeiro presidente cubano, Tomás Estrada Palma, firmou com os Estados Unidos, em 1903, um contrato perpétuo sobre a zona que cerca a baía, renovado em 1934. Sob o regime de Fidel Castro, esse contrato se tornaria um dos pomos de discórdia entre Washington e Havana, que recorreu ao direito internacional para denunciar o caráter ilícito do documento.

Dependente dos Estados Unidos desde o início do século XX, Cuba se transformou em objeto de sucessivos ditadores, entre eles Gerardo Machado (que governou entre 1925 e1933), seguido de Fulgencio Batista.
Batista, próximo da esfera do poder cubano desde 1933, foi presidente de 1940 a 1944 e voltou em 1952, depois de um golpe de Estado. Em 1o de janeiro de 1959, ele foi derrubado pelos guerrilheiros do Movimento de 26 de julho (M-26-7), em referência ao primeiro golpe de Estado fracassado, em 26 de julho de 1953, contra o regime de Batista.
Oriundos da mata de Sierra Maestra, de onde promoveram por dez anos a guerrilha, os ativistas foram apoiados pelos Estados Unidos e pelos camponeses cubanos. E foram liderados por um rival de Batista de primeira hora: Fidel Castro.
Esse advogado, organizador da resistência ao ditador durante anos de exílio no México, contava entre seus seguidores com sobreviventes dos primeiros combates, como seu meio-irmão Raúl e seu principal lugar-tenente, Ernesto Che Guevara.
Uma vez vitorioso, Fidel se transformou em ministro, mas negou, na época, querer o poder total e instaurar um regime comunista. O suposto compromisso agradou aos americanos, e a revolução cubana entusiasmou a ilha e o mundo.
Os Estados Unidos receberam Fidel em abril. O líder teve uma acolhida triunfal, festejado pela imprensa ao lado do então vice-presidente Richard Nixon.

A lua-de-mel com o capitalismo terminou rapidamente, com a nacionalização de todos os bens americanos e a instauração da reforma agrária, em junho de 1959, em um país onde 40% das plantações pertenciam a estrangeiros.
A decorrente ruptura de relações diplomáticas entre Washington e Havana, o embargo americano e a aproximação de Cuba à União Soviética anunciaram uma era de repetidas tensões e ações de todo tipo, incluindo surpreendentes tentativas de eliminar o líder, dignas dos melhores filmes de espionagem.
VOLTA DA DITADURA Em abril de 1961, 1.600 refugiados cubanos anticastristas, que haviam sido treinados pela CIA, tentaram desembarcar na baía dos Porcos, no sul da ilha. A operação fora decidida pela administração do presidente americano Eisenhower e, em seguida, aceita e empreendida por Kennedy.
A invasão da baía dos Porcos foi um fiasco e envenenou ainda mais as relações entre os dois países. A crise conheceu o ponto mais agudo depois que um avião de reconhecimento americano descobriu em Cuba rampas de lançamento de mísseis de ataque virados para os Estados Unidos. Eram soviéticos.
O mundo nunca esteve tão perto de uma guerra nuclear, como naquele momento da segunda metade do século XX. Começaram as negociações entre os dois blocos: Kennedy prometeu não invadir Cuba e retirar da Turquia os mísseis voltados para a Rússia, em troca da retirada dos mísseis russos. O compromisso, aceito pela União Soviética e assumido sob o controle das Nações Unidas, evitou o conflito iminente.

Foi rápida a evolução do regime de Fidel Castro para uma ditadura militar, com partido único e culto à personalidade do comandante. A degradação da economia, decorrente do embargo americano e das experiências comunistas promovidas na ilha, levou milhares de cubanos ao exílio nos anos 60.
Com a corrida de cubanos pedindo asilo na embaixada do Peru em Havana, em 3 de abril de 1980, Fidel mandou retirar os guardas que protegiam o edifício. Em 48 horas, mais de 10 mil pessoas se precipitaram para lá. Outras embaixadas também foram invadidas, em um movimento encorajado pela comunidade cubano-americana.
Em 23 de abril, Fidel anunciou a instauração de uma política de portas abertas a todos os candidatos ao exílio. Mais de 125 mil cubanos embarcaram no porto de Mariel, a bordo de 17 mil embarcações.
O entusiasmo dos Estados Unidos se transformou rapidamente, diante do fluxo de refugiados. Em 20 de junho, a administração americana pôs fim ao êxodo – que recomeçaria nos anos 90. Em setembro de 1994, o país firmou com Cuba um acordo comprometendo-se a receber só 20 mil refugiados por ano.
O desaparecimento do “grande irmão soviético”, que até 1989 dava uma polpuda ajuda financeira à ilha, em troca de alinhamento político, acelerou o esfacelamento da economia cubana, que se agravou com o reforço do bloqueio americano.
O governo passou então a tomar medidas para preservar as inegáveis conquistas nas áreas de saúde e educação. Mas a legalização da utilização de dólares, a criação de empresas mistas destinadas a atrair investidores estrangeiros e a abertura do turismo não foram suficientes para melhorar o nível de vida dos cubanos.
Agora, a ainda tímida abertura econômica promovida por Raúl Castro permite esperar algumas mudanças, mesmo que não uma reforma profunda, difícil de ser aplicada enquanto nomes históricos da revolução ainda estiverem no comando.

CRONOLOGIA

1492
Cristóvão Colombo toma posse da ilha, em nome da Espanha
1762
Os britânicos ocupam Havana durante nove meses
1868
Início da primeira guerra de independência, que dura dez anos
1959
O ditador Batista é apeado do poder pela revolução castrista
2006
Fidel fica doente
2008
Raúl Castro, seu irmão, assume o poder
2009
Posse de Obama nos EUA e abertura do diálogo com Cuba

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

Mao Tsé-Tung no auge da História

Bruno Philip

No dia 1º de outubro de 1949, Mao Tsé-Tung consagrou sua vitória do alto do simbólico coração da China: a praça Tiananmen. Diante dele, centenas de milhares de pessoas reunidas. A maioria nunca havia visto Mao (1893-1976). Foi a primeira vez em que o líder chinês se dirigiu a uma multidão tão numerosa, e também foi a última em que ele pronunciou um discurso verdadeiro do alto da porta da Paz Celestial: em suas outras aparições, ao longo de seu reinado, ele se contentou em enunciar rápidos bordões.

Longe de exaltar os valores marxistas, as primeiras palavras de Mao Tsé-Tung tinham um tom nacionalista: "Nós, os 475 milhões de chineses, agora estamos de pé, e o nosso futuro é infinitamente brilhante!", exclamou.
No outono de 1949, saindo de uma guerra civil e de um conflito com o Japão, cujo balanço em vidas humanas certamente chega a cerca de 15 milhões de mortos, Mao queria encarnar a vingança da China contra as potências nipônica, europeias e russa que, a partir de meados do século 19, impuseram seus ditames econômicos e militares a uma China enfraquecida. No dia seguinte a esse discurso, a União Soviética, dirigida por Stálin, reconheceu oficialmente o "governo central popular da China", que em Moscou se considerou que "exprimia a vontade da esmagadora maioria do povo chinês".

As palavras do novo Grande Timoneiro – expressão inventada bem mais tarde durante a Revolução Cultural (1966-1977) – encerraram o capítulo da guerra com os exércitos do Kuomintang (partido nacionalista), dirigido pelo general Chiang Kai-shek. A queda deste último teria sido mais rápida do que Mao previa: em março de 1948, o futuro líder chinês pensava que as tropas nacionalistas seriam derrotadas por volta de meados de 1951…
"70% positivo", "30% negativo"
O chefe militar Mao Tsé-Tung teve, em 1946, a ideia de mudar de estratégia: no início da guerra civil, o fundamental era defender as bases "vermelhas" nos distritos rurais, de acordo com a teoria "o campo cerca as cidades". Assim que a vitória começou a se delinear, foi dada a ordem aos generais do Exército de Libertação Popular (ELP) de se apossar das cidades. Somente depois é que se deveria pensar em voltar a investir nas regiões rurais ainda nas mãos dos nacionalistas. A estratégia se revelou compensadora, ainda que Mao não estivesse com pressa: ele preconizava atacar as forças do inimigo com tropas 3 ou 4 vezes superiores em número, em vez de se lançar em grandes batalhas com resultados incertos.
Em meados de março de 1948, a maior parte da Manchúria, bem como as províncias de Shaanxi, de Hebei e de Shandong, caiu nas mãos dos comunistas. Alguns meses antes, Mao havia anunciado orgulhosamente que 640 mil soldados do exército de Chiang haviam sido mortos ou feridos e que mais de um milhão deles haviam se rendido. Em janeiro de 1949, foi a vez de Pequim de cair nas mãos dos comunistas. Nanquim, a capital de Chiang Kai-shek, seguiu em abril, e depois Xangai, em maio.
A derrota dos soldados do Kuomintang não ocorreu somente pela genialidade militar maoísta: ela também foi causada pela incompetência de muitos oficiais nacionalistas, pela ausência de disciplina e pelo baixo nível de motivação dos soldados alistados à força, e que sobreviviam em condições abomináveis. Durante um dos anos do conflito, conta-se que do milhão de novos recrutas nacionalistas, metade havia morrido ou desertado antes de chegar às bases designadas!
Enquanto a China se prepara para celebrar com pompa, no dia 1º de outubro de 2009, o sexagésimo aniversário da criação da República Popular, a imagem do presidente Mao permanece sendo sobretudo a do vitorioso, daquele que devolveu ao Império sua dignidade. Com o tempo, as lembranças do "Grande Salto Adiante" (1958-1961, que provocou fome e milhões de mortes), da terrível Revolução Cultural (o chamado do comitê central para a "eliminação" dos "elementos da burguesia" que haviam se "infiltrado" em todos os níveis do partido) e da ditadura maoísta parecem estar se esvaindo. Para muitos jovens, essas tragédias são vistas, no máximo, como as etapas infelizes de um passado vago e muitas vezes quase ignorado.
Deng Xiaoping, que foi um discípulo de Mao e que o sucedeu na liderança do país após sua morte em 1976, acreditava que Mao foi "70% positivo" e "30% negativo". Seus sucessores retomaram a frase e ninguém, no auge do poder, se arriscaria a arranhar a imagem do Grande Timoneiro por medo de corroer a legitimidade do partido.
Somente os intelectuais, ex-dignitários ou pessoas que sofreram a loucura maoísta criticam o personagem de forma ácida. Um blogueiro escreveu recentemente na internet que "a China não poderá progredir enquanto não fizer uma crítica profunda ao maoísmo, pois Mao Tsé-Tung causou a destruição total dos valores chineses".
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

O pânico da natalidade em Berlim: menos alemães no futuro?

Estatísticas recém-divulgadas sugerem que a Alemanha apresenta a menor taxa de natalidade de toda a União Europeia -um número que está caindo. Com os temores do impacto do encolhimento da população sobre da economia, não é de se estranhar que a ministra da Família alemã esteja contestando os números.

Os alemães não gostam de ficar em último lugar. É um estereótipo nacional, mas é um particularmente verdadeiro para Ursula von der Leyen, a ministra da Família alemã, quando se trata da taxa de natalidade na Alemanha. Os números divulgados nesta semana pela Eurostat, o órgão estatístico da União Europeia em Bruxelas, parece indicar que a taxa de natalidade da Alemanha é a menor dentre todos os 27 países membros da UE. E agora há uma pequena briga entre Bruxelas e Berlim, com Jens Flosdorff, um porta-voz do Ministério da Família alemão, alegando que os números do Eurostat estão "errados ou datados".

Kai Pfaffenbach/Reuters

Um relatório divulgado na segunda-feira pela Eurostat diz que para cada mil habitantes na Alemanha, apenas 8,2 crianças nasceram em 2008. O que indica uma queda de 0,1% na taxa de natalidade alemã e torna a Alemanha o único país membro da UE no qual a taxa bruta de natalidade não aumentou entre 2007 e 2008. A taxa bruta de natalidade para os 27 países da UE é de 10,9 nascimentos por mil pessoas, com a Irlanda apresentando o índice mais elevado, de 16,9, e a Lituânia o maior aumento na taxa de natalidade.
O Escritório Federal de Estatística alemão não divulgará oficialmente seus próprios números sobre população para 2008 até setembro. Mas o escritório já indicou que espera que o número para a quantidade de crianças nascidas na Alemanha no ano passado seja de 682.524; o estudo de Bruxelas está trabalhando com um número de 675 mil.
O que significa que a taxa de natalidade alemã é na verdade relativamente estável, em 8,3 nascimentos por mil habitantes. E apesar de ser verdade que cerca de 2.300 menos bebês alemães nasceram em 2008, Flosdorff disse à "Spiegel Online" na segunda-feira que, do ponto de vista estatístico, a diferença seria de "décimos de um ponto percentual" e portanto "não significativa estatisticamente".

Talvez essa reação do Ministério da Família seja previsível. Em fevereiro, o ministério divulgou seu Relatório da Família 2009, alegando que a taxa de natalidade alemã estava aumentando. Trabalhando com base em uma estimativa do Escritório Federal de Estatística, ele notou que a expectativa era de que os nascimentos em 2008 subiriam para 690 mil. E sendo a política que pressionou por mais creches e pelo "Elterngeld" (literalmente "dinheiro para os pais") -onde o Estado paga aos pais quase 70% da renda líquida dos pais por até um ano caso decidam se licenciar do trabalho após o nascimento de seu filho- Von der Leyen foi rápida em reivindicar a responsabilidade pelo estímulo ao aumento da natalidade. Mas na política, o orgulho frequentemente aparece antes da queda, e após políticos de oposição atacarem Von der Leyen, dizendo que seu principal talento era a publicidade e que ela não fez nada a respeito da pobreza de crianças na Alemanha, o Escritório Federal de Estatística também revisou seus números, o que resultou em uma taxa de natalidade mais baixa do que aquela da qual Von der Leyen se gabava.
Os números mais recentes da Eurostat são apenas outro golpe. Somada à taxa de natalidade "estável" vem um aumento na taxa de mortalidade alemã, que subiu de 10,1 mortes por mil habitantes para 10,3 em 2008. Isso torna a Alemanha o país com a maior taxa de mortalidade entre os países da UE. E, segundo a Eurostat, também significa que a população do país encolheu em 168 mil.
Enquanto isso, o Escritório Federal de Estatística alemão estima que a atual população do país, de 82,1 milhões, encolherá para entre 69 milhões e 74 milhões até 2050 -menos do que a população em 1963, quando a Alemanha tinha 75 milhões. Isso poderia ter implicações sérias para a economia do país: uma combinação de baixa taxa de natalidade, alta taxa de mortalidade e expectativa de vida maior significa menos pessoas em idade de trabalho apoiando o sistema de seguridade social financeiramente exigente da Alemanha.
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

A origem das espécies

Meses antes de morrer, Stephen Jay Gould explicou como o genoma pode mudar até a nossa visão da seleção natural.

Rafael Kenski

Além de figurinha carimbada no mundo da divulgação científica, o paleontólogo Stephen Jay Gould foi o que se pode chamar de um professor caxias. Durante os 35 anos que esteve à frente do curso História da Vida, na Universidade Harvard, EUA, ele só abandonou o programa de suas clas-ses duas vezes. A primeira vez foi nos anos 60, após uma invasão da reitoria pelos estudantes. A segunda foi no início de 2001, quando interrompeu a aula para falar do impacto do mapeamento do genoma. “É um feito comparável à invenção das ferrovias no século 19 ou ao desenvolvimento da eletrônica e das telecomunicações”, disse.

Para Gould, o mapeamento dos nossos genes vem comprovando que a evolução biológica é bem mais complexa do que se imaginava. E, apesar de ter sido um ferrenho defensor de Charles Darwin, ele dizia que a seleção natural não explica, so-zinha, a evolução de todas as espécies. Idéias como essa o tornaram conhecido no mundo todo como um dos mais polêmicos cientistas dos EUA. Seus artigos científicos trataram de temas como biologia, geologia, arte, religião, história e paleontologia e, muitas vezes, foram reunidos em livros. De seu escritório em Nova York, ele falou à SUPER por telefone poucos meses antes de morrer.

P: Qual será o verdadeiro impacto do mapeamento do código genético humano na ciência?

R: A grande descoberta do Projeto Genoma é o número reduzido de genes que o ser humano possui. Não temos nem o dobro de genes do nematóide C. elegans, um pequeno verme. Esse dado é uma prova da ingenuidade do pensamento reducionista na biologia. Segundo essa visão, a complexidade de um organismo deveria ser resultado direto do maior número de genes ou proteínas. Não é o que acontece. Não temos tantos genes a mais que outros seres vivos. Aparentemente, cada gene pode fazer várias proteínas. Portanto, a com-plexidade de um animal não pode ser reduzida aos seus elementos básicos – seria o mesmo que avaliar a complexidade de uma casa pela quantidade de tijolos. A tendência de ver os seres vivos apenas como um produto dos genes vai mudar. Haverá mais respeito à integridade do organismo.

O ser humano terá de ser estudado de uma forma mais holística?

É o que tentamos fazer. E isso é um desafio ainda maior. Se pensássemos de maneira reducionista, que um gene faz uma proteína, seria fácil curar doenças genéticas. Precisaríamos apenas achar a seqüência errada, consertá-la e a doença seria erradicada. Na maioria dos casos, a solução não será tão simples. Provavelmente poucas doenças são causadas por apenas um gene defeituoso. Não poderemos patentear todo tipo de gene, esperando que os cientistas descubram que ele causa alguma moléstia. Tudo indica que a maioria das doenças são causadas por muitos genes interagindo entre si e com o ambiente. Além de estudar como o material genético trabalha durante o desenvolvimento do organismo, precisaremos saber como ele interage com a nutrição e com o ambiente. Sem dúvida, uma visão bem mais integral do homem.

O ser humano ainda está evoluindo?

A evolução não deixa de seguir seu rumo. Podemos averiguar isso ao perceber que alguns grupos se reproduzem mais rapidamente que outros. Os indianos estão se reproduzindo mais que os europeus, enquanto a população de aborígenes australianos está diminuindo. Mas esse processo é insignificante porque as diferenças genéticas entre os homens são muito específicas. Todos os seres humanos são muito parecidos. O que ocorre é que as mudanças culturais são tão rápidas que as alterações biológicas não importam mais. Com o uso em larga escala da engenharia genética, poderíamos mudar os homens, mas seria apenas um processo tecnológico. A evolução natural é um processo muito lento perto da velocidade das mudanças culturais. Os seres humanos não mudaram nos últimos 15 mil anos. Biologicamente, somos as mesmas pessoas que viviam nas cavernas há milhares de anos. É impressionante o que mudamos culturalmente com o mesmo corpo e o mesmo cérebro.

O que aconteceria se praticássemos a clonagem em massa?

Essa é mais uma questão ética. Existem usos benéficos da clonagem para a agricultura e na pecuária. O enxerto é uma forma de clonagem, apenas não é uma modificação genética e a planta que resulta não é exatamente uma réplica. Quanto à aplicação em humanos, podem surgir usos inapropriados. Companhias poderiam rastrear as notícias em busca de crianças que morreram, contatar os pais e oferecer um filho idêntico ao que eles tinham.

Como o homem interfere na evolução?

Tudo o que fizemos desde o surgimento da agricultura teve um impacto importante na evolução de algumas espécies, como o cultivo do milho, do arroz e de diversos tipos de alimento. Nós também já modificamos muitas espécies por cruzamento. No entanto, o maior impacto é a mudança do meio ambiente. Um dos maiores exemplos é o seu país, o Brasil, onde a remoção de florestas é muito acelerada. A forma como exterminamos hábitats naturais e levamos muitas espécies à extinção é o maior impacto que os humanos têm no processo evolutivo.

A ciência é capaz de explicar as diferenças entre os aspectos bioló gicos e culturais do ser humano?

De certa forma ela já faz isso. Nós não conhecemos cada detalhe dessas diferenças, mas temos uma compreensão básica de quais são elas. As mudanças culturais estão marcando o ser humano de forma muito rápida. Aprendemos os traços culturais e ensinamos diretamente às gerações seguintes. A herança biológica é darwinista e mendeliana, e opera em um processo muito mais lento e indireto. Sabemos por que a biologia e a cultura são tão diferentes e quais são as propriedades de cada uma, apesar de não conhecermos cada detalhe da interação complexa entre as duas.

Existe alguma pergunta complicada demais para ser respondida pela ciência?

Não. Existem algumas questões que poderiam ser respondidas. Mas simplesmente não temos a informação necessária para isso. E existem outras que a ciência não consegue responder não pela complexidade, mas porque ela é uma explicação do mundo baseada em fatos. A ciência nunca vai conseguir lidar com as questões morais, por exemplo. Ela não pode falar a respeito do que deveríamos estar fazendo e da maneira certa de nos comportar. A ciência se limita apenas a descobrir as conseqüências de cada comportamento, mas não tem como decidir se elas são boas ou más. Muitas dessas boas questões pertencem à religião. Eu não quero dizer que elas não possam ser respondidas – embora algumas não possam mesmo! – mas é importante que elas sejam discutidas. Questões morais e éticas podem ser discutidas, mas a ciência não pode respondê-las.

Stephen Jay Gould

• O cientista morreu em 20 de maio de 2002, vítima de um câncer de pulmão que se alastrou até o cérebro.

• Em 1982, foi desenganado pelos médicos – e sobreviveu por duas décadas – após descobrir que tinha um tumor abdominal maligno.

• Um de seus dois filhos, Jesse, é autista.

• Além da paixão pela teoria evolucionária, era fanático por beisebol.

• Em 1997, apareceu como convidado em um episódio do seriado Os Simpsons.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

Os mapas da alma não têm fronteiras

Eu não conheço felicidade maior que a alegria de reconhecer-me nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também me reconhecer em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos. As palavras são de Eduardo Galeano ao ser condecorado com a Ordem de Maio, da República Argentina.

Eduardo Galeano

(*) Palavras proferidas em Montevidéu, dia 9 de julho, quando Galeano foi condecorado com a Ordem de Maio, da República Argentina.
Permitam-me agradecer esta premiação que estou recebendo, que para mim é um símbolo da terceira margem do rio. Nesta terceira margem, nascida do encontro das outras duas, florescem e se multiplicam, juntas, nossas melhores energias, que nos salvam do rancor, da mesquinhez, da inveja e de outros venenos que abundam no mercado.
Aqui estamos, pois, na terceira margem do rio, argentinos e uruguaios, uruguaios e argentinos, rendendo homenagem a nossa vida compartilhada, e, portanto, estamos celebrando o sentido comunitário da vida, que é a expressão mais íntima do sentido comum.
Ao fim e ao cabo, e perdão por ir tão longe, para um ponto onde a história ainda não se chamava assim, lá no remoto tempo das cavernas, como se viraram para sobreviver aqueles indefesos, inúteis, desamparados avôs da humanidade? Talvez tenham sobrevivido, contra toda evidência, porque foram capazes de compartilhar a comida e souberam defender-se juntos. E se passaram os anos, milhares e milhares de anos, e vemos que o mundo raramente recorda essa lição de sentido comum, a mais elementar de todas e a que mais nos faz falta hoje.
Eu tive a sorte de viver em Buenos Aires, nos anos 70. Cheguei corrido pela ditadura militar uruguaia e acabei saindo corrido pela ditadura militar Argentina. Não saí: me saíram. Mas nestes anos comprovei, uma vez mais, que aquela lição pré histórica de sentido comum não havia sido esquecida de todo. A energia solidária crescia e cresce ao vai e vem das ondas que nos levam e nos trazem, argentinos que vêm e vão, uruguaios que vamos e viemos. E no tempo das ditaduras, soubemos compartilhar a comida e soubemos defender-nos juntos, e ninguém se sentia herói nem mártir por dar abrigo aos perseguidos que cruzavam o rio, indo para lá ou vindo de lá.
A solidariedade era, e segue sendo, um assunto de sentido comum e, portanto, era, e segue sendo, a coisa mais natural do mundo. Talvez por isso sua energia, sempre viva, foi mais viva do que nunca nos anos do terror, alimentada pelas proibições que queriam mata-la. Como o bom touro de lida, a solidariedade cresce no castigo.
E quero dar um testemunho pessoal de meu exílio na Argentina.
Quero render homenagem a uma aventura chamada Crise, uma revista cultural que alguns escritores e artistas fundaram com o generoso apoio de Federico Vogelius, onde eu pude aportar algo do muito que me havia ensinado Carlos Quijano, em meus tempos do semanário Marcha.
A revista Crise tinha um nome um tanto deprimente, mas era uma jubilosa celebração da cultura vivida como comunhão coletiva, uma festa do vínculo humano encarnado na palavra compartilhada. Queríamos compartilhar a palavra, como se fosse pão.
Nós, sobreviventes daquela experiência criadora, que morreu afogada pela ditadura militar, seguimos acreditando no que acreditávamos então.
Acreditávamos, acreditamos, que para não ser mudo é preciso começar por não ser surdo, e que o ponto de partida de uma cultura solidária está na boca daqueles que fazem cultura sem saber que a fazem, anônimos conquistadores dos sóis que as noites escondem, e eles, e elas, são também aqueles que fazem história sem saber que a fazem. Porque a cultura, quando é verdadeira, cresce desde o pé, como alguma vez cantou Alfredo Zitarrosa, e desde o pé cresce a história. A única coisa que se faz desde cima são os poços.
A ditadura militar acabou com a revista e exterminou muitas outras expressões de fecundidade social. Os fabricantes de poços castigaram o imperdoável pecado do vínculo, a solidariedade cometida em suas múltiplas formas possíveis, e a máquina da separação continuou trabalhando a serviço de uma tradição colonial, imposta pelos impérios que nos dividiram para reinar e que nos obrigam a aceitar a solidão como destino.
À primeira vista, o mundo parece uma multidão de solidões amontoadas, todos contra todos, salve-se quem puder; mas o sentido comum, o sentido comunitário, é um bichinho duro de matar. A esperança ainda tem quem a espere, alentada pelas vozes que ressoam desde nossa origem comum e nossos assombrosos espaços de encontro.
Eu não conheço felicidade maior que a alegria de reconhecer-me nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também me reconhecer em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos.
Os mapas da alma não têm fronteiras.
Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br