Daily Archives: 11/08/2009

Devastação ambiental coloca tribos indígenas em perigo

Elisabeth Rosenthal
No Parque Nacional do Xingu (Brasil)

Enquanto os homens jovens pintados e nus da tribo Kamayurá se preparavam para os jogos de guerra ritualizados de um festival, eles encerraram seu canto de caça ao lado da fogueira com um som de sopro -"uoosh, uoosh"- uma tentativa simbólica de eliminar o odor de peixe, para que não fossem detectados pelos inimigos. Por séculos, os peixes dos lagos e rios da floresta foram a base da dieta dos Kamayurás, a principal fonte de proteína da tribo.

Damon Winter/The New York Times

Os homens kamayurás em trajes cerimoniais caminham pelo centro da aldeia

Damon Winter/The New York Times

Mulheres assam peixe para o café da manhã

Damon Winter/The New York Times

Céu estrelado sobre o Parque Nacional do Xingu

Mas o cheiro de peixe não é mais um problema para os guerreiros. O desmatamento e, segundo alguns cientistas, a mudança climática global estão tornando a região amazônica mais seca e mais quente, dizimando os cardumes de peixe e colocando em risco a existência dos Kamayurás. Como outras pequenas culturas indígenas ao redor do mundo com pouco dinheiro ou capacidade para se deslocar, eles estão lutando para se adaptar às mudanças.
"Nós macacos velhos podemos suportar a fome, mas os pequenos sofrem – eles sempre pedem peixe", disse Kotok, o cacique da tribo, que estava diante de uma oca contendo as flautas sagradas da tribo em uma noite recente. Ele vestia uma camiseta branca sobre o traje tradicional da tribo, que é basicamente nada.
Kotok, que como todos os Kamayurás só tem um nome, disse que os homens agora podem pescar a noite toda sem conseguir uma fisgada nos riachos onde os peixes costumavam ser abundantes; eles nadam em segurança nos lagos antes repletos de piranhas.
Responsável por três esposas, 24 crianças e centenas de outros membros da tribo, ele disse que sua existência antes idílica se transformou em uma espécie de sonho ruim. "Estou estressado e ansioso – isso tudo mudou muito rápido e a vida ficou muito dura", ele disse em português, falando por meio de um intérprete. "Como cacique, eu tenho que ter a visão e olhar mais à frente, mas eu não sei o que acontecerá aos meus filhos e netos."
O Painel Intergovernamental para a Mudança Climática diz que até 30% dos animais e plantas enfrentam um maior risco de extinção caso as temperaturas globais subam 2ºC nas próximas décadas. Mas antropólogos também temem uma onda de extinção cultural de dezenas de pequenos grupos indígenas – a perda de suas tradições, artes e línguas.
"Em alguns lugares, as pessoas terão que se deslocar para preservar sua cultura", disse Gonzalo Oviedo, um alto conselheiro de política social da União Internacional para Conservação da Natureza, em Gland, Suíça. "Mas parte dos povos que são pequenos e marginais será assimilado e desaparecerá."
Para sobreviver sem peixe, as crianças Kamayurá estão comendo formigas em seu esponjoso pão chato tradicional, feito de farinha de mandioca tropical. "Não há muitas por aqui porque as crianças as comeram", disse Kotok sobre as formigas. Às vezes os membros da tribo matam macacos por sua carne, mas, como disse o cacique, "é preciso comer 30 macacos para encher a barriga".
Vivendo nas profundezas da floresta sem transporte e pouco dinheiro, ele notou, "nós não temos como ir ao mercado para comprar arroz e feijão para complementar o que está faltando".
Tacuma, o velho e sábio pajé da tribo, disse que a única ameaça da qual se recordava que rivaliza a mudança climática foi o vírus do sarampo, que chegou às profundezas da Amazônia em 1954, matando mais de 90% dos Kamayurás.
As culturas ameaçadas pela mudança climática se espalham por todo o mundo. Elas incluem as dos moradores da floresta tropical como os Kamayurás, que enfrentam a redução da oferta de comida; comunidades remotas do Ártico, onde as únicas estradas eram os rios congelados que agora estão fluindo quase o ano todo; e os moradores de ilhas de baixa altitude, cujas terras estão ameaçadas pela elevação do nível dos mares.
Muitos povos indígenas dependem intimamente dos ciclos da natureza e tiveram que se adaptar às variações climáticas – uma estação de seca, por exemplo, ou um furacão que mata os animais. Mas em todo o mundo, a mudança é grande, rápida e implacável, seguindo em uma única direção: um clima mais quente.
Assentamentos de esquimós como Kivalina e Shishmaref, no Alasca, estão "literalmente sendo levados pelas águas", disse Thomas Thornton, um antropólogo que estuda a região, porque o gelo marítimo que antes protegia suas costas está derretendo e os mares ao redor estão subindo. Sem esse gelo duro, fica difícil, quando não impossível, caçar focas, a base da dieta tradicional.
Alguns grupos esquimós estão processando os poluidores e países ricos, exigindo indenização e ajuda para se adaptarem. "No entender deles, eles não causaram o problema e o estilo de vida deles está sendo ameaçado pela poluição dos países industrializados", disse Thornton, que é um pesquisador do Instituto para Mudança Ambiental da Universidade de Oxford. "A mensagem é que isto afeta pessoas, não apenas ursos polares e a vida selvagem."
Nas negociações para o clima em dezembro, em Poznan, Polônia, a ONU criou um "fundo de adaptação" por meio do qual os países ricos poderiam, em teoria, ajudar os países pobres a se ajustarem à mudança climática. Mas as contribuições são voluntárias e até o momento não ocorreu nenhuma, disse Yvo De Boer, o secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. "Ajudaria se os países ricos pudessem assumir compromissos financeiros", ele disse.
Por toda a história, a resposta final tradicional para as culturas indígenas ameaçadas por condições climáticas ou conflitos políticos dos quais não podem se defender é se mudarem. Mas hoje, a mudança frequentemente é impossível. As terras que cercam os nativos geralmente estão ocupadas por uma população global em expansão, e grupos antes nômades frequentemente são assentados, construindo casas, escolas e até mesmo declarando independência.
Para os Kamayurás, as opções parecem limitadas. Eles vivem no meio do Parque Nacional do Xingu, um vasto território que antes ficava nas profundezas da Amazônia, mas agora é cercado por fazendas e sítios.
Cerca de 13 mil quilômetros quadrados da floresta Amazônica são desmatados anualmente nos últimos anos, segundo o governo brasileiro. E com muito menos folhagem, há menos umidade no ciclo regional da água, causando imprevisibilidade às chuvas sazonais e deixando o clima mais seco e mais quente.
Isso alterou os ciclos da natureza que há muito regulavam a vida dos Kamayurás. Eles acordam com o sol e não têm refeições estabelecidas, comendo sempre que estão com fome.
Os cardumes de peixes começaram a encolher nos anos 90 e "entraram em colapso" desde 2006, disse Kotok. Com as temperaturas mais quentes e menos chuva e umidade na região, os níveis das águas dos rios estão extremamente baixos. Os peixes não conseguem chegar aos seus locais de procriação.
No ano passado, pela primeira vez, a praia no lago ao lado da aldeia não ficou coberta de água na estação chuvosa, inutilizando o método da tribo de pegar tartarugas, colocando alimento nos buracos que são enchidos de água, atraindo os animais.
A agricultura da tribo também sofreu. Por séculos, os Kamayurá realizaram seu plantio de verão quando uma certa estrela aparecia no horizonte. "Quando ela aparecia, todos celebravam porque era o sinal para começar a plantar mandioca, já que a chuva e o vento viriam", lembrou Kotok. Mas desde sete ou oito estações atrás, a aparição da estrela deixou de ser seguida por chuva, uma divergência nefasta que forçou a tribo a se adaptar.
De lá para cá tem sido um jogo que muda constantemente de tentativa e erro. No ano passado, as famílias tiveram que plantar sua mandioca quatro vezes -ela morreu em setembro, outubro e novembro porque não havia umidade suficiente no solo. Apenas em dezembro é que o plantio vingou. O milho também fracassou, disse Mapulu, a irmã do cacique. "Ele brotou e murchou", ela disse.
Uma especialista em plantas medicinais, Mapulu disse que a raiz que ela usava para tratar diarréia e outros males se tornou quase impossível de achar porque a flora da floresta mudou. O vegetal que usam para amarrar as vigas essenciais de suas ocas também se tornou difícil de encontrar.
Mas talvez o maior temor dos Kamayurás seja os novos incêndios florestais do verão. Antes úmida demais para pegar fogo, a floresta aqui está inflamável devido ao clima mais seco. Em 2007, o Parque Nacional do Xingu enfrentou pela primeira vez um incêndio, que destruiu milhares de hectares.
"Todo o Xingu estava queimando – aquilo feria nossos pulmões e olhos", disse Kotok. "Não tínhamos para onde escapar. Nós sofremos juntamente com os animais."
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Os Filósofos, o Riso e a Neurociência

João de Fernandes Teixeira

As teorias do riso na história da Filosofia são muitas, começando desde a Antiguidade. Platão e Aristóteles, por exemplo, diziam que o riso vem de certo sentimento de superioridade pelo qual expressamos nosso desprezo por aqueles que julgamos inferiores.

Na época moderna, flósofos como Kant também escreveram sobre o riso. Na sua Crítica da razão pura ele dizia que o riso faz bem à saúde, pois massageia os intestinos e o diafragma. Essa ideia seria retomada séculos mais tarde pelo médico indiano Madan Kataria, que a partir de 1995 fundou os clubes do riso. Neles, as pessoas se reúnem para rir, pois supostamente isso tem uma fnalidade curativa

No início do século XX, Henri Bergson escreveu um ensaio sobre o riso, que se tornou uma espécie de clássico na literatura flosófca sobre o tema. Nele, Bergson sugere a ideia do riso como o rompimento com o mecânico, com o automatismo que permeia constantemente nossa vida cotidiana. E nos diz também que rir é um ato profundamente humano e social, pois nós, seres humanos, somos os únicos seres capazes de rir de alguma coisa.

Mas esse rir de pode ser algo muito peculiar. Provavelmente os fenomenólogos diriam que esse é o caráter intencional do riso humano – aquilo que o torna um estado mental acerca de alguma coisa no mundo, da mesma maneira que sonhos, pensamentos e desejos também são acerca de algo no mundo. Uma hiena ri e uma boneca mecânica pode rir, mas nunca rirão como um ser humano, porque ao riso deles faltará essa característica intencional. Raramente o riso humano é intransitivo.

Não muito distante da época em que Bergson publicou seu ensaio sobre o riso encontramos a obra de Freud, Os chistes e suas relações com o inconsciente, de 1905. O livro é muito cansativo para o leitor atual e as piadas que ele apresenta hoje em dia não têm graça nenhuma, o que o torna de difícil leitura. Sua teoria consiste em dizer que o chiste (ou a piada) é um mecanismo pelo qual liberamos impulsos socialmente reprimidos, frequentemente relacionados ao sexo e à agressividade. Pelas piadas expressamos o que não temos coragem de falar, ou seja, proposições machistas, racistas, xenófobas e assim por diante.

A imagem faz parte da exposição 50 razões para rir, que tem caricaturas de diversos pensadores e cientistas com suas frases sobre o riso. Desde maio, a exposição circula pelas estações de metrô, em São Paulo, e está exposta atualmente na estação Brás. O trabalho é de Toni D’Agostinho e o livro que deu origem à exposição será lançado, em breve, pela Editora Noovha América

Hoje em dia, as teses de Bergson e Freud estão dando lugar a teorias neurocientífcas e antropológicas que visam explicar os mecanismos de produção do riso por meio de estudos do cérebro e do comportamento, não só de humanos, como também de primatas.

Há pesquisas sobre esse tema sendo feitas também por cientistas cognitivos, como é o caso, por exemplo, do laboratório do riso, criado na Inglaterra e que tem um site que vale a pena visitar (www. laughlab.co.uk).

Do ponto de vista da Filosofia da Mente, o riso também coloca uma questão muito interessante no que diz respeito aos problemas da causação mental, pois ao analisálo, nos deparamos com a necessidade de explicar como um relato (a piada) que nada contém de sensível pode produzir uma sensação de prazer.

Podemos afirmar que o problema com essas teorias é que todas elas são parcialmente corretas, mas nenhuma pode ser generalizada. Tampouco se chegou até hoje com algo parecido com uma teoria completa que integre todas essas visões parciais.

MAS O QUE É O RISO, AFINAL?

Seria interessante começar a responder essa questão ressaltando que é o corpo que ri. Os flósofos e pesquisadores do riso o têm tratado como uma espécie de fenômeno físico local, restrito a alguns poucos músculos da face e da laringe. Mas temos a sensação de que quando rimos é o corpo todo que subitamente interrompe suas atividades para rir.

Quando dizemos que o corpo ri, queremos afirmar também que o riso é um marcador somático. Esse foi um conceito criado pelo neurobiólogo português Antonio Damásio, autor do livro O erro de Descartes. Marcadores somáticos são mecanismos que têm a função de interromper um curso de ação ou um pensamento que não deve prosseguir, seja por razões orgânicas, seja por razões sociais. O marcador somático faz que seja produzido um sentimento como, por exemplo, o medo, que nos impede de colocar nossa vida em risco ou que cometamos excessos com nosso próprio corpo.

Filósofos como Kant também escreveram sobre o riso. Na sua crítica da razão pura ele dizia que o riso faz bem à saúde, pois massageia os intestinos e o diafragma

Quando bebemos em demasia ou usamos certos tipos de drogas, suspendemos temporariamente a ação de marcadores somáticos importantes, perdemos o medo e podemos cometer delitos ou arriscar a integridade do nosso próprio corpo dirigindo um carro de maneira totalmente imprudente. O marcador somático, expresso na forma de medo, pode aparecer na forma de imagens assustadoras que surgem em nossa mente, o que freia totalmente nossa ação.

Da mesma maneira, o riso pode frear nossa ação, embora de uma forma prazerosa. Rir quando começamos a difamar alguém por uma piada interrompe a sequência da crítica mordaz que só retornará, provavelmente, na forma de outra piada acerca daquela pessoa.

O neurocientista Ramachandran desenvolve hipótese semelhante ao nos falar das origens evolutivas do sorriso. Sua hipótese é a de que o sorriso deve ter surgido para abortar situações nas quais seres humanos se aproximavam de outros com caretas ameaçadoras, mas que, ao reconhecer o outro como amigo ou conhecido, podiam interromper a expressão de ameaça, substituindo-a pelo sorriso. Para ele, "o sorriso é uma resposta de orientação abortada, da mesma forma que o riso". Algo não muito distante da ideia de que se uma piada libera a agressividade reprimida, o riso a interrompe e não deixa essa agressividade prosseguir.

O RISO TORNA-SE instrumento de crítica social dentro de limites aceitáveis. Rir de alguém pode causar humilhação, mas, mesmo assim, isso será melhor do que esfaqueá-lo. A gargalhada que humilha sempre tem chance de ser seguida, pouco depois, por uma mudança de assunto na conversa.

Certamente essa é mais uma teoria parcial do riso. Talvez a única coisa que possamos falar com certeza acerca do riso é que cada vez que rimos ocorre um fenômeno único, inimitável. Não se ri igual da mesma piada duas vezes.

As conotações culturais e a base cerebral do riso ainda não são inteiramente conhecidas. Para os neurocientistas ainda há um longo caminho a percorrer. E para os filósofos da mente é preciso, ainda, desvendar o problema da causação mental.

João de Fernandes Teixeira é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos.www.flosofadamente.org

Fonte: Revista Filosofia – http://conhecimentopratico.uol.com.br/filosofia/

Honduras

Ignacio Ramonet

Com imenso gozo(1), os grupos conservadores do mundo e seus habituais propagandistas(2) receberam a notícia do golpe de Estado em Honduras. Apesar de que criticaram retoricamente o golpe, avalizaram e justificaram os argumentos dos golpistas, repetindo que "o Presidente Zelaya havia incorrido em múltiplas violações da Constituição ao querer organizar um referendo para manter-se no poder"(3).

Tais afirmações são falsas. O Presidente Zelaya não violou nenhum artigo da Constituição(4) e nem organizou nenhum referendo. Nem desejava prolongar seu mandato, que termina no dia 27 de janeiro de 2010. Sua intenção era organizar uma consulta, não vinculante (isto é, uma simples sondagem ou uma pesquisa de opinião), perguntando aos cidadãos: "Você está de acordo que nas eleições gerais de novembro de 2009 seja instalada uma quarta urna(5) para decidir sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte que emita uma nova Constituição da República?". Ou seja, tratava-se de uma pergunta sobre a eventualidade de fazer outra pergunta. Nenhum artigo da Constituição de Honduras proíbe que o Presidente consulte ao povo soberano.

E mais, supondo que uma maioria de hondurenhos houvesse respondido positivamente a essa demanda, a "quarta urna" somente teria sido instalada no dia 29 de novembro de 2009, dia da eleição presidencial, para a qual, em virtude da Constituição vigente, Manuel Zelaya não pode de nenhum modo apresentar-se como candidato.

Então, por que foi dado o golpe? Porque Honduras continua sendo "propriedade" de umas quinze famílias abastadas que controlam tudo: poderes executivo, legislativo e judiciário; principais recursos econômicos, hierarquia da Igreja Católica; meios de comunicação de massas e forças armadas. A maioria de seus governos tem sido corruptos e tão submissos aos interesses das empresas estrangeiras que, para designar Honduras o humorista estadunidense O. Henry acunhou o termo "República Bananeira"(6). Em 1929, querendo explicar quão fácil era comprar um congressista, Samuel Zamurray, apelidado de "Banana Sam", presidente da Cuyamel Fruit, empresa rival da United Fruit, afirmou: "Em Honduras, um deputado custa menos do que uma mula". No final dos anos 80, o Presidente José Azcona del Hoyo admitiu a submissão de Honduras à estratégia dos Estados Unidos, confessando: "Um país tão pequeno como Honduras não pode dar-se ao luxo de ter dignidade". E um grupo de empresários chegou a propor que Honduras se convertesse em um Estado Livre Associado dos Estados Unidos, tal como Porto Rico.

A relação econômica com a grande potência norteamericana é de dependência quase absoluta. Para os EUA vão 70% de suas exportações (bananas, café e açúcar); e de lá chegam uns 300 bilhões de dólares que 800 mil hondurenhos emigrados enviam às suas famílias. E o capital principal (40%) das fábricas montadoras (de mão de obra barata) nas zonas francas é estadunidense.

Há 30 anos, por ocasião do triunfo da revolução sandinista na Nicarágua, Washington decidiu converter Honduras em seu porta-aviões particular, com o objetivo de combater militarmente as guerrilhas revolucionárias na Guatemala e em El Salvador e apoiar a "Contra" antissandinista. Uma das primeiras medidas consistiu em implantar uma "democracia controlada" em Tegucigalpa. Em 1980, houve pela primeira vez "eleições livres"; um ano depois, foi eleito Roberto Suazo Córdova, que iniciou uma sinistra onde de terror, "esquadrões da morte", "desaparecimentos" e eliminação de ativistas de esquerda. Em tais circunstâncias foi promulgada a Constituição de 1982, atualmente vigente.

Uma Constituição redigida pelos principais grupos econômicos que desejam manter para sempre ao seu favor uma das repartições de riqueza mais desiguais do mundo, com 60% dos habitantes abaixo da linha de pobreza e mais de um terço abaixo da linha de pobreza extrema. Um país empobrecido, no qual a taxa de desemprego se situa em torno a 30%.

O Presidente Zelaya quis transformar essa situação. Pertencente a uma das grandes famílias latifundiárias de Honduras e membro do Partido Liberal, o mandatário tentou reduzir as desigualdades. Aumentou o salário mínimo em 50%, deteve a privatização de empresas públicas (energia elétrica, portos, sistema de saúde) e se pronunciou a favor de uma maior participação cidadã nas políticas públicas. E fez isso antes de aderir a Petrocaribe, em 2007 e de integrar-se a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), em 2008.

A poderosa oligarquia se escandalizou e tratou Zelaya como "traidor de sua classe". Mesmo que ele afirme: "Eu pensei em fazer as mudanças a partir do interior do esquema neoliberal; Porém, os ricos não cedem em nada. Querem tudo somente para eles. Então, logicamente, para fazer mudanças, temos que incorporar o povo".(7)

O itinerário intelectual de Manuel Zelaya e sua "conversão" a uma concepção progressista da sociedade são exemplares. No exercício do poder, constata que "o Estado burguês é composto pelas elites econômicas. Estão nas cúpulas dos exércitos, dos partidos, dos juízes; e esse Estado burguês sente-se vulnerável quando eu proponho que o povo tenha voz e voto"(8). E descobre essa ideia revolucionária: "A pobreza não se acabará até que as leis não sejam feitas pelas pobres"(9).

Isso é muito mais do que podem suportar os "donos" de Honduras. Com o apoio de velhos "falcões" estadunidenses -John Negroponte, Otto Reich- tramam o golpe do dia 28 de junho, executado pelas forças armadas. Todas as chancelarias do mundo condenaram esse golpe. A época dos "gorilas" já passou… E chegou a hora dos povos.

Notas:

(1) "Com imenso gozo" era o título da mensagem de Pio XII, em 16 de abril de 1939, através da qual se congratulava pela vitória de Franco na Guerra Civil.
(2) Mario Vargas Llosa, "El golpe de las burlas", El País, 12 de julho de 2009; e Álvaro Vargas Llosa, "Zelaya, el gran responsable del golpe", CNN em espanhol, 1 de julho de 2009.
(3) El País, 1 e 5 de julho de 2009.
(4) Francisco Palacios Romeo, "Argumentos de derecho constitucional primario para una oligarquía golpista primaria", Rebelión, 3 de julho de 2009.
(5) Nas eleições gerais são colocadas três urnas: a primeira, para designar ao Presidente; a segunda, aos deputados e a terceira aos prefeitos.
(6) Em sua novela Cabbages and Kings, 1904.
(7) El País, 28 de junio de 2009.
(8) Ibídem.
(9) Ibídem.

Fonte: Adital – http://www.adital.org.br

O grande voo das borboletas,dos picos andinos às matas brasileiras

Pesquisa revela que espécies encontradas hoje no país tiveram origem na Cordilheira há 18 milhões de anos.

CARMO GALLO NETTO

Borboletas de asas transparentes, com manchas vermelhas, amarelas e desenhos pretos, cuja coloração típica anuncia sua toxidade a potenciais predadores, são encontradas no Brasil. E também nos Andes. Elas pertencem à subfamília dos itomiíneos, da qual eram desconhecidos a origem, o tempo de existência e as causas da grande diversificação. Trabalho inédito publicado em abril na mais prestigiada revista especializada em ecologia molecular, a Molecular Ecology, mostra os resultados das buscas que objetivavam entender a origem e a história da diversificação dessas borboletas. O estudo revela o local e a idade de origem, explica como essas espécies se diversificaram e qual o parentesco entre elas.

Os resultados mostram que as borboletas dos gêneros Ithomia e Napeogenes surgiram nos Andes há cerca de 18 milhões de anos e começaram a se diversificar em torno de 15 milhões de anos, quando a Cordilheira já tinha passado dos mil metros e atingira 30% a 50% da elevação atual. À medida que as montanhas se ergueram, surgiram novos ambientes ecológicos e populações de borboletas ficaram isoladas umas das outras. Era um cenário propício para a diversificação, que não parou aí. Nos últimos sete milhões de anos, as borboletas transparentes chegaram à Mata Atlântica. Hoje, mais de 360 espécies delas povoam boa parte dos trópicos sul-americanos.

O estudo foi desenvolvido pelo professor André Victor Lucci Freitas, do Departamento de Biologia Animal do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, e pela pesquisadora Karina Lucas da Silva-Brandão, pós-doutoranda no Setor de Entomologia da Esalq – USP de Piracicaba, em parceria com a pesquisadora francesa Marianne Elias, do Imperial College de Londres.

Linha de pesquisa
O trabalho faz parte de linha de pesquisa iniciada há cerca de oito anos no IB. O objetivo do projeto é estudar as borboletas da América do Sul, utilizando conceitos da biologia molecular e da evolução. André Freitas considera que "se trata de uma linha muito promissora porque trabalha com elementos que permitem associar a história evolutiva dos organismos conjuntamente com a historia geológica do continente", o que pode ser estendido para outras espécies. No caso estudado, o desenvolvimento da Cordilheira dos Andes permite entender porque se deu a formação das espécies que depois migraram para outras regiões. No Brasil, a diversificação ocorreu em grau maior ainda por causa das variações geológicas e climáticas locais, que influenciam a evolução das espécies.

Essa linha de pesquisa muito ampla, que reúne elementos de biogeografia, evolução e leva em conta a diversificação na América do Sul, oferece parâmetros para o estudo de praticamente tudo, como aves, mamíferos, plantas e não apenas borboletas. Seu objetivo maior, diz André, é compreender os processos que levaram à grande riqueza de espécies no continente que apresenta maior biodiversidade da Terra.

Colaboração
Os pesquisadores estabeleceram a relação de parentesco entre as espécies e contribuíram para determinar quais delas ocorrem somente no Brasil, na Colômbia, no Equador e em outras regiões sul-americanas. Nesse tipo de trabalho há necessidade de colaboração entre vários grupos, como o de Edimburgo, na Grã-Bretanha. Karina esclarece: "Estudamos as nossas espécies e eles, as dos Andes. Isto nos permitiu juntar informações, estabelecer graus de parentesco e explicar a origem da diversificação desses grupos de borboletas".

O estudo envolveu a extração do DNA das borboletas e a amplificação do número dessas moléculas de forma a obtê-las aos milhares. Esta parte do trabalho foi realizada no CBMEG-Unicamp, no Laboratório de Genética Animal I, da professora Ana Maria Lima de Azeredo Espin. Para estabelecer a relação de parentesco entre borboletas, são analisados genes nucleares e mitocondriais das células. Cada um desses genes evolui em uma taxa diferente e fornece uma informação diferente.

Comparando as informações dos vários indivíduos, estabelece-se o grau de parentesco, o que permite chegar a uma figura que mostra graficamente as relações entre as espécies, chamada de árvore filogenética. Karina explica que com base nessa árvore é possível saber que espécies estão mais próximas uma da outra até chegar à espécie ancestral e conhecer sua história evolutiva. Ela enfatiza: "O que fizemos de mais importante foi calcular a idade do ancestral – que permite chegar à idade da espécie atual – o que ninguém tinha feito para esse grupo, porque não havia dados moleculares disponíveis".

A pesquisadora lembra que hoje existem condições de desenvolver todas as técnicas necessárias ao estudo no Brasil, o que não era possível antigamente. Este fato permitiu que os grupos brasileiro e o do Reino Unido pudessem estudar independentemente as borboletas do Brasil e dos Andes. Ela conta: "Depois juntamos os dados obtidos por Marianne com os nossos, no campo e no laboratório, e cada uma fez parte das análises filogenéticas. Foram elas que permitiram determinar a genealogia das espécies e construir uma árvore evolutiva extrapolada para milhões de anos, o que constituía o objetivo fundamental do nosso estudo". Essa pesquisa teve como consequência importante determinar o que aconteceu ao longo da história com esse grupo de borboletas, e que permitiu que se chegasse à riqueza de espécies hoje existentes.

O trabalho possibilitou estimar que os dois gêneros de borboletas estudados tiveram origem há cerca de 18 milhões de anos. Os dados geológicos revelam que nesse tempo os Andes ainda estavam subindo e tinham chegado a 50% do que são hoje. Através da árvore filogenética foi possível relacionar a história desses grupos com o que estava acontecendo nos Andes nessa época. Com a utilização da filogenia, se consegue estimar como era nessa época o ancestral das borboletas estudadas.

Explicações
O professor André Freitas explica que os Andes continuaram a subir e com isso foram surgindo novas espécies, tanto pelo isolamento promovido pelos altos picos, como pela criação de novas condições ambientais como temperatura e vegetação. Isso acontece porque, com as mudanças na altitude, uma série de características biológicas e físicas dos ambientes também mudam, o que permitem que as borboletas também possam mudar dando origem a novas espécies. Estes fatores, associados ao isolamento geográfico das populações originais, possibilitaram que as novas espécies criadas pudessem se dividir ainda mais, e o resultado foi um processo de especiação muito maior, jamais visto no continente.

Este processo, potencializado pelo surgimento dos Andes, explica a grande diversidade encontrada hoje. O inédito foi mostrar que o grupo estudado se originou em maiores altitudes, e só depois desceu e se espalhou pelo continente, pois diversos trabalhos relacionados a outros grupos de borboletas mostram o caminho inverso. Outro grupo de borboletas estudado por André e Karina confirma suas conclusões anteriores, de dispersão "do alto para baixo".

O pesquisador lembra que as informações geológicas são importantes para confirmar que as transformações nas espécies se deram acompanhando as transformações físicas no solo: "Embora nos Andes os picos continuassem gelados e os vales quentes, à medida que estes surgiam e aumentavam em número, as condições de cada um deles eram diferentes, o que levou à transformação das espécies. Sem esquecer que a Cordilheira criou duas macro-regiões, a que olha para o Pacifico e a que olha para o Atlântico".

Karina enfatiza que ninguém tinha mostrado antes que as espécies nasceram nos Andes e depois desceram e se espalharam pelo Brasil: "Isso que é bonito. Em cima de toda aquela história filogenética das espécies, eu consigo me situar no tempo geológico e finalmente entender porque existem tantas espécies nos trópicos".

André Freitas conclui que a linha de pesquisa por ele coordenada trabalha também com a evolução utilizando dados tradicionais da morfologia, da forma, além da biologia molecular. Com base nas características morfológicas, já existem dois trabalhos em andamento, um em fase final, com borboletas da América do Sul. Ele afirma que "esta é uma vertente de estudo que vai continuar, e que promete muita informação nova que possibilitará entender cada vez melhor o que a América do Sul tem de tão diferente que a faz o continente com a maior biodiversidade do planeta".

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Os seis meses de Obama e a reflexão de Amin Maalouf

MIGUEL URBANO RODRIGUES

Na Conferência que pronunciou em Lisboa, o escritor Amin Maalouf fez uma apologia apaixonada ao atual presidente dos EUA. "Essa pessoa – afirmou – também nos representa". Numa entrevista ao Público expressou a convicção de que o futuro da humanidade, quase a sua sobrevivência, depende do êxito da estratégia de Barack Obama. O eventual fracasso do presidente, em sua opinião, "seria uma tragédia para a América, para o ocidente e para o mundo".

É antiquíssima a tendência em tempos de grandes crises para o estabelecimento de uma ponte entre a sua superação e o aparecimento de um salvador providencial. Admiro Amin Maalouf. Terei sido o primeiro português a escrever sobre o seu belo e comovente livro "As Cruzadas vistas pelos Árabes". Essa antiga admiração pelo escritor humanista justifica a minha surpresa ao tomar conhecimento da sua adesão à perigosa tese dos "salvadores".

Nos milênios transcorridos desde a criação da escrita fonética, alguns homens, apresentando-se como reformadores do mundo, exerceram uma influência decisiva para alterar, recorrendo às armas, o rumo da História. Quase sempre para sofrimento dos seus contemporâneos. Cito, entre outros, Alexandre, César, Gengis Khan, Napoleão e Hitler.

Desconhecer o peso do fator subjetivo na História seria negar uma evidência. Mas basta acompanhar no seu percurso sinuoso a lenta marcha do grande rio da História para se compreender que as grandes transformações que contribuíram para o progresso da humanidade não resultaram da intervenção de salvadores providenciais.

Nem sempre isso foi temporalmente perceptível, mas o sujeito das viragens decisivas foram sempre os povos. O motor dessas mudanças geradoras de avanços civilizacionais não foi este ou aquele indivíduo, mas rupturas, muitas vezes súbitas, provocadas pela intervenção torrencial de massas populares que provocaram a destruição da ordem social preexistente. Isso aconteceu com a Revolução Francesa de 1789 e com as Revoluções Russas de 1917. Sem a teoria, essas revoluções não se teriam produzido, mas o sujeito que tornou possível a mudança – repito – foi nelas o povo, ou mais exatamente uma parcela minoritária da sociedade que atuou em nome do coletivo, traduzindo-lhe aspirações profundas.

A esperança messiânica no aparecimento de um salvador preparado para enfrentar vitoriosamente um presente sombrio e abrir as alamedas de um futuro de paz e prosperidade pode assumir contornos românticos e seduzir muita gente honesta, mas nas suas origens é identificável um pensamento incompatível com o progresso. A História oferece-nos muitos exemplos de salvadores cujo objetivo inconfessado era a defesa da ordem social em desagregação, responsável pela crise.

A mitificação de Obama

A grande crise de civilização que vivemos, inseparável da crise estrutural do sistema capitalista, gerou frustrações e angústias que desembocaram na convicção irracional de que a humanidade, uma vez mais, precisa de um salvador.

Seria incorreto afirmar que assistimos a uma repetição quase mecânica de situações já vividas.

O mundo era pequeno quando na Palestina surgiu um profeta judeu, Jesus. Crucificado pelos seus contemporâneos, os discípulos projetaram dele a imagem do messias redentor e a sua mensagem, muito alterada, deu origem a uma grande religião.

Outros salvadores, profetas e guerreiros, todos diferentes, houve, antes e depois, que deixaram memória como depositários da esperança. Mas nenhum, pelos atos ou pela herança, resolveu magicamente os males cuja denúncia o transformou em pólo da esperada mudança.

O mundo cresceu desmesuradamente. E a dimensão de uma nova e gravíssima crise facilita a compreensão do renascer da fome de um salvador.

Nos EUA puseram-lhe nome: Barack Obama. E na época da informação instantânea, uma campanha de dimensão planetária, desencadeada com o apoio entusiástico dos grandes da União Européia, co-responsáveis pela crise, difunde um discurso cuja conclusão encontramos na mensagem de Amin Maalouf: uma tragédia espera a humanidade se Obama não a salvar.

A campanha, insidiosa, massacrante, é uma ofensa à inteligência. Mas catapultada por governantes, políticos, banqueiros, militares, escritores, jornalistas, chega aos lugares mais remotos da Terra e impressiona milhões de pessoas em todas as camadas sociais.

O efeito é tão perigoso que a necessidade de lutar contra a mitificação do presidente dos EUA se torna um dever imperioso para as forças progressistas.

Não estou em condições de formar uma opinião fundamentada sobre o caráter do cidadão Barack Obama.

A sua inteligência e talento são transparentes. Uma oratória inabitual contribuiu decisivamente para a superação dos obstáculos, na aparência insuperáveis, que encontrou na longa e paciente caminhada que o conduziu à Casa Branca. É também inegável que o apoio do grande capital pesou muitíssimo na escolha que o establishment fez quando Hillary Clinton emergia como favorita. Mas não teria sido eleito se muitas dezenas de milhões de compatriotas seus não confiassem nas suas promessas de mudança. Obama convenceu esses eleitores de que introduziria transformações radicais na sociedade norte-americana e nas relações do seu país com o mundo exterior.

Transcorridos seis meses da sua entrada na Casa Branca, o balanço da presidência não justifica, antes desmente, o otimismo que a envolve, trombeteado pelos cultores da obamamania.

O que fez e não fez em seis meses não corresponde ao compromisso, desrespeita-o. No tocante à política interna, a promessa de enfrentar a engrenagem de Washington, por ele fustigada quando candidato, não foi cumprida. O presidente optou por uma estratégia que privilegia a finança como alavanca de superação da crise, atribuindo papel subalterno a uma política econômica baseada na produção e no emprego. O seu secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, é um tecnocrata de Wall Street, empenhado em acudir aos grandes bancos e a empresas gigantes ameaçadas de falência pelas suas práticas fraudulentas. Mecanismos que contribuíram decisivamente para a crise voltam a ser introduzidos no sistema pelos senhores da finança.

Essa política de namoro com o grande capital é tão ostensiva que tem sido criticada no próprio coração do sistema, inclusive por Prêmios Nobel da Economia que apoiaram a candidatura do presidente.

Obama manteve tribunais militares cuja inconstitucionalidade tinha denunciado e adiou para data imprevisível o encerramento do presídio de Guantánamo. Nas frentes da Educação, da Saúde e da Previdência Social, e no campo da política de imigração, o seu governo não tomou também até hoje iniciativas que respondam às promessas feitas.

O endividamento externo continua a ser a base em que assenta a hegemonia econômica mundial do país. Dai uma vulnerabilidade alarmante. Dois países, a China e o Japão, possuem mais de dois trilhões de dólares em títulos do Tesouro americano e em reservas. Se abandonassem o dólar, todo o sistema capitalista ruiria, arrastando aliás ambos.

Palestina, África, Europa e Honduras

No terreno internacional a política de Obama distancia-se também dos compromissos da campanha.

O discurso é outro, mas no fundamental o presidente mantém fidelidade ao projeto de dominação mundial dos EUA como nação predestinada a salvar a humanidade dos perigos que a ameaçam.

Admito que Obama está persuadido de que lhe cabe desempenhar uma missão providencial. Não é um político reacionário, beócio e enfeudado a grandes grupos financeiros.

Mas o seu desejo de não abdicar de um comportamento ético, tal como o concebe, esbarrou desde a entrada na Casa Branca com engrenagens cujo poder tinha subestimado.

Não se pode esquecer que as suas idéias liberais – na acepção americana da palavra – são inseparáveis da convicção de que o sistema capitalista precisa de grandes reformas, mas deve ser preservado custe o que custar.

Em poucos meses concluiu que o seu projeto de reformas teria de ser reformulado, no plano interno e no externo, ajustando-se a uma relação de forças muito complexa. E, de cedência em cedência, a sua política adquiriu contornos cada vez mais aceitáveis pelo establishment.

A insuficiência do seu conhecimento da História terá pesado muito na adoção de orientações para a política exterior que pouco diferem das anteriores, inspiradas pelo sonho imperial.

O chamado discurso histórico do Cairo é uma peça que, despojada da retórica, confirma a aliança dos EUA com Israel. Obama insiste nos dois Estados para a Palestina, mas quando o governo de Telavive intensificou a construção de milhares de edifícios em colonatos na Cisjordânia reagiu timidamente. Por si só a sua afirmação sobre uma "Jerusalém única e indivisível" ilumina a tendência para a capitulação perante o sionismo arrogante e expansionista.

O discurso dirigido de Gana a África foi outro exercício de retórica. O que dele fica de substancial é a defesa da criação de uma força transnacional para defesa da "democracia" no Continente. Traduzidas em linguagem comum, essas palavras anunciam um reforço de intervenções armadas do imperialismo como "solução" para as crises africanas.

O presidente expressou a sua grande preocupação com as situações criadas em Darfur (cujas reservas prováveis de petróleo são enormes) e na Somália, mas não proferiu ali um palavra sobre os acontecimentos em Honduras.

Esse silêncio foi atribuído pela própria imprensa dos EUA à contraditória posição assumida perante o golpe de Estado hondurenho. Obama criticou o gorilazo, não reconheceu o governo fantoche de Micheletti e apoiou a resolução da OEA que exige o regresso de Manuel Zelaya, o presidente legítimo. Mas os EUA não retiraram de Tegucigalpa o seu embaixador, um cubano de Miami que mantém íntimas relações com os golpistas. Indiscrições de militares e de ministros nomeados por Micheletti confirmaram que na embaixada se realizaram reuniões preparatórias do golpe. Para agravar essa rede de cumplicidades, o comando da Força Aérea hondurenha está instalado na base militar norte-americana de Palmerola, a umas dezenas de quilômetros da capital. Foi, aliás, de Hillary Clinton que partiu a idéia da mediação do costarriquenho Oscar Arias, iniciativa que permite aos golpistas ganhar tempo.

É transparente que a ambigüidade da posição dos EUA perante a crise hondurenha reflete o seu temor de que a reinstalação na presidência de Manuel Zelaya fortaleça o bloco de países da ALBA, liderado por Hugo Chávez.

Na União Européia, onde os governantes continuam a derramar elogios sobre Obama, o presidente utilizou na reunião do G-8 uma linguagem barroca para disfarçar o fundamental do recado transmitido: os EUA não abdicam da tarefa, que se auto-atribuíram, de dirigir o mundo, nem aceitarão qualquer projeto que retire do dólar o papel de moeda universal.

Os encontros com Medvedev e Putin deixaram as coisas no pé em que estavam. A troca de sorrisos e de palavras amáveis não pôde disfarçar a desconfiança mútua entre Washington e Moscou. Uma certeza: a OTAN não desiste da sua intenção de avançar para leste e os EUA não revelam disponibilidade para retirar das fronteiras russas o chamado escudo anti-mísseis.

Iraque e Afeganistão-Paquistão

É no Oriente Médio e na Ásia Central que as opções da política internacional de Obama suscitam maior preocupação em nível mundial. Em vez de contribuírem para a paz, disseminam a violência, prolongam e ampliam guerras criminosas herdadas da administração Bush.

Relativamente ao Irã, os apelos do presidente a um diálogo franco não encontraram até agora expressão prática. Pelo contrário. As exigências sobre a questão nuclear, com contornos de ultimato, persistem, acompanhadas da ameaça de novas sanções.

Simultaneamente, o envolvimento dos serviços de inteligência norte-americanos nas manifestações de rua de Teerã posteriores às eleições tem sido repetidamente confirmado por fontes críveis, inclusive estadunidenses.

A hipótese de uma agressão militar ao Irã parece, contudo, excluída na atual conjuntura. A Casa Branca terá chegado à conclusão, com o apoio do Pentágono, de que no momento em que os EUA se encontram atolados em duas guerras, no Iraque e no Afeganistão, não existem condições políticas e militares para uma escalada na região que atingiria o Irã.

No Iraque o esforço da máquina midiática para apresentar o país como ‘pacificado’, o que teria permitido a retirada das cidades do exército norte-americano, é desmentido no dia a dia pela realidade.

A violência no mês de junho e na primeira quinzena de julho atingiu ali um nível que não se registava há muito. A resistência à ocupação estrangeira aumenta a cada semana e o governo instalado por Washington está desacreditado.

Impressionado pelos relatórios do general Petraeus, Obama cometeu um erro que pode ser fatal para a imagem da sua administração. Não se limitou a transferir tropas do Iraque para o Afeganistão; decidiu enviar para aquele país mais 21.000 soldados.

Ao erigir o binômio Afeganistão-Paquistão em primeira prioridade da sua política exterior não parece consciente de que é arrastado por ilusões que, num contexto diferente, desembocaram há meio século na humilhante derrota do Vietnã.

A atual ofensiva na Província do Helmand, em que participam milhares de marines, está indo muito mal e o número de mortos britânicos suscita já protestos no Reino Unido.

O comandante no terreno é um militar americano cujo currículo contribui para aumentar as apreensões. O general Stanley Chrystal tem sido definido pelo seu passado como um criminoso de guerra.

Petraeus fala numa ‘nova atmosfera’ que permita a conquista das populações. Mas até agora o que se regista é um crescimento do ódio inspirado pelos invasores.

Correspondentes europeus, entre os quais jornalistas de El Pais, insuspeitos de simpatia pela resistência, afirmam que não existe contato algum da tropa com os moradores das aldeias, que fogem dos soldados americanos e ingleses como o diabo da cruz.

O medo de que o radicalismo islâmico se alastre pelo Paquistão está na origem da ambiciosa estratégia bipolar em que Obama deposita tanta confiança. Mas os bombardeios das tribos do noroeste paquistanês, que já causaram a morte de centenas de camponeses, geram a indignação da minoria pachtun, a segunda do país, ou seja, mais de vinte milhões de pessoas da mesma etnia dos afegãos pachtunes, separados destes por uma fronteira artificial imposta em 1893 pelo império britânico.

O ceticismo dos próprios veículos norte-americanos quanto ao desfecho da estratégia de Obama para a região já é inocultável. Alguns são tão pessimistas que, prevendo uma derrota de conseqüências catastróficas, definem a guerra no Afeganistão como ‘o novo Vietnã’.

Tudo leva a crer que a evolução da estratégia asiática do presidente dos EUA pesará muito na sua imagem.

O Barack Obama aclamado como salvador providencial da humanidade por intelectuais como Amin Maalouf corre o risco, se as coisas correrem mal na Ásia, sobretudo nas montanhas e vales do Afeganistão, de surgir como o coveiro involuntário do sonho imperial dos EUA.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Contra envelhecimento da população, China já incentiva o segundo filho

José Reinoso
Em Pequim (China)

Xangai decidiu atacar de frente os problemas que surgirão no futuro devido ao rápido envelhecimento de sua população. O governo municipal lançou uma campanha para animar os casais em que ambos são filhos únicos a ter dois filhos, com o objetivo de aumentar a população ativa e aliviar a carga para os cofres públicos e as famílias.

Que esse tipo de casal possa ter dois filhos não é novidade, mas é a primeira vez em décadas que as autoridades fomentam de maneira ativa que eles tenham mais descendentes. Responsáveis pelo serviço de planejamento familiar e voluntários vão entregar folhetos de casa em casa na capital econômica e financeira da China para animar os pais. O governo municipal afirmou que oferecerá assessoria psicológica e ajuda financeira.
"Recomendamos que os casais que reunirem os requisitos tenham dois filhos porque isso poderá ajudar a reduzir a proporção de idosos e aliviar a falta de força de trabalho no futuro", afirmou Xie Lingli, diretor da Comissão de População e Planejamento Familiar de Xangai.
Na cidade mais populosa da China, 21,6% – quase 3 milhões de pessoas – dos habitantes têm 60 anos ou mais, proporção que em 2020 se estima que chegará a 34%. Os números são calculados em relação aos 13,7 milhões de residentes permanentes registrados, embora a população real beire os 20 milhões de pessoas.
"O número crescente de idosos submeterá a grande pressão as gerações mais jovens e a sociedade. Precisamos encontrar maneiras de resolver o problema", disse Xie, segundo publicou ontem o jornal oficial "China Daily". O funcionário insistiu, porém, que isso não significa que a política de filho único tenha sido cancelada.
A proibição de ter mais de um filho foi imposta há três décadas para controlar o explosivo crescimento da população e garantir um aumento mais rápido do nível de vida. As autoridades chinesas dizem que evitaram 400 milhões de nascimentos; a China tem atualmente mais de 1,3 bilhão de habitantes.
Mas seus críticos afirmam que se realizaram esterilizações e abortos forçados e se provocou um perigoso desequilíbrio de gênero, já que muitas mulheres abortam quando estão grávidas de uma menina. Há diversas exceções à norma, e outras famílias escapam às proibições. As minorias étnicas podem ter dois ou mais filhos; os agricultores, dois, se o primeiro for menina; e os casais em que os dois membros não têm irmãos podem ter um segundo filho.
Quem descumprir a política oficial é multado, e as mulheres, em alguns casos, são obrigadas a abortar. Muitos casais evitam a lei enviando as grávidas para viver com parentes em outras cidades até que deem à luz, ou registram o filho em nome de um parente.
A maioria dos integrantes dos casais que se casam em Xangai não tem irmãos, segundo a Comissão de Planejamento, que afirma que o número de casais que poderiam se enquadrar na nova norma passou de 4.600 em 2005 para 7.300 no ano passado.
A decisão da municipalidade de Xangai, uma das mais ricas do país, revela o sério problema que representa o envelhecimento da população na China. Por um lado, pela falta de um sistema universal de seguro social e aposentadoria, e por outro porque o encolhimento das famílias eliminou o apoio tradicional para as pessoas idosas.
Em 2050 a China terá 438 milhões de maiores de 60 anos e 100 milhões com mais de 80 anos, segundo um relatório do Centro Estratégico de Estudos Internacionais dos EUA. O país asiático terá 1,6 adulto em idade ativa para financiar cada pessoa de 60 anos ou mais, comparado com 7,7 em 1975. Sem uma rede de seguro social ou o apoio familiar, milhões de idosos poderiam cair na pobreza.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

O que é democracia na escola?

Escolas que se autoproclamam democráticas revalorizam a ideia de liberdade do educando e acirram um debate antigo sobre o lugar do professor na educação.

Valéria Hartt

Estudante na escola Summerhill em 1969 (Foto: Hulton Archive / Getty Images)
Em 1959, o escocês Alexander Sutherland Neil lançava pela Hart Publishing a primeira edição de Summerhill (Summerhill: a radical approach to child rearing) e surpreendia o mundo ao descrever a experiência de uma escola inglesa, fundada por ele ainda nos anos 20, como a própria antítese da pedagogia tradicional. Em seu lugar, propunha uma escola voltada à construção da felicidade, em que as crianças não fossem obrigadas a frequentar as aulas e a prática da democracia participativa se constituísse num direito assegurado: professores, alunos e funcionários deveriam ter a mesma voz na tomada de decisões.

Quase um século depois, Summerhill resiste ao tempo e é possivelmente o exemplo mais categórico de uma proposta educacional partilhada hoje por centenas de escolas espalhadas pelo mundo. Elas se autoproclamam democráticas e, em comum, defendem a participação de todos na gestão escolar, além de conferir ao aluno autonomia para gerir seu próprio currículo. A ideia é polêmica e ainda hoje suscita debates calorosos.

"A partir dessa proposta, a escola passou a se mobilizar em torno de questões que transcendem o compromisso com o aprender. Os desafios se avolumaram e, hoje, parece que a escola tem pouco tempo para ser apenas escola", diz Lisandre Maria Castello Branco, professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae.

Inspiração
Summerhill se mantém fiel às ideias de seu fundador, que há 87 anos pregava contra a pedagogia tradicional. Na escola britânica, nenhum adulto impõe sua autoridade à criança. Hoje administrada pela filha de Neil, Zoë Readhead, a escola tem 73 alunos matriculados e, sem falsa modéstia, se compara a um farol a iluminar a pedagogia centrada no estudante. Sob sua inspiração, muitas propostas se desenharam, com diferentes contornos.

"O diálogo que tipifica a educação democrática vem do espírito de Martin Buber, da antropologia filosófica; do romantismo de Rousseau e dos ensinamentos de John Dewey, combinando modelos inspirados em Carl Rogers; na Comunidade Justa defendida por Lawrence Kohlberg e na escola Summerhill, de Alexander Neil", sintetiza o israelense Yaacov Hecht, fundador e diretor do Instituto para Educação Democrática (The Institute for Democratic Education- IDE), com sede em Tel-Aviv.

É nesse caldeirão de novas propostas pedagógicas que se inscrevem também as práticas da Escola da Ponte, a bola da vez entre as boas referências mundiais da educação. Prova de que a designação de "democrática" não passa de um rótulo a abrigar conotações teóricas e práticas bem distintas. Há muitas faces entre as proclamadas e apontadas como tal, que não se opõem tão radicalmente à pedagogia tradicional.

Mas o que importa saber é uma questão central: ao mudar o eixo – do ensinar para o aprender, da centralidade no professor à centralidade no aluno – teria a escola desvendado as melhores práticas pedagógicas? Estaria o acesso ao conhecimento realmente mais democrático?

A infiltração de novas ideias no cotidiano escolar é o ponto de partida para um processo considerado por muitos como o esvaziamento do ato educativo, compreendido aqui como a transmissão do legado cultural acumulado pela humanidade.

Pedagogia crítica
Dermeval Saviani, da Universidade de Campinas, é um crítico conhecido da pedagogia nova e de suas herdeiras nos meios educacionais, entre elas as que se identificam como democráticas. É também voz ativa da pedagogia crítica, corrente que ajudou a fundar. Ele lembra que a cartilha do escolanovismo difundiu-se rapidamente, despertando natural simpatia ao assumir uma roupagem progressista e emancipadora, em oposição à pedagogia burguesa, de inspiração liberal. Não por acaso, encontrou terreno fértil nos ares da redemocratização dos anos 80, quando o discurso da centralidade no educando ganhou nova tônica.  "(…) O ideário escolanovista, tendo sido amplamente difundido, penetrou na cabeça dos educadores, acabando por gerar consequências também nas amplas redes escolares oficiais organizadas na forma tradicional",  escreveu Saviani em Escola e Democracia, livro que em 2008 atingiu sua 40ª edição, 25 anos depois de seu lançamento, em 1983. E conclui:

"(…) tais consequências foram mais negativas que positivas uma vez que, provocando o afrouxamento da disciplina e a despreocupação com a transmissão de conhecimentos, acabou a absorção do escolanovismo pelos professores por rebaixar o nível de ensino destinado às camadas populares, as quais muito frequentemente têm na escola o único meio de acesso ao conhecimento elaborado".

Polêmica, a crítica formulada por Saviani ainda hoje divide os meios educacionais. Há quem julgue difícil afirmar, mesmo com os dados de pesquisa existentes,  em que grau e em que extensão o "escolanovismo" (e suas várias derivações) penetrou ou penetra na cabeça e nas práticas dos professores que atuam na linha de frente do sistema escolar brasileiro. A visão chega a parecer reducionista. Para explicar o fracasso da escola pública e as raízes do aligeiramento e rebaixamento do nível de ensino, melhor parece apoiar-se em análises mais globalizantes. Significa, por exemplo, considerar os objetivos postulados para a escola,  o financiamento público da educação, o sistema de formação, a remuneração e as condições de trabalho dos professores.

"Ou adotamos uma posição nostálgica, de recuperar a autoridade perdida, ou reconstruímos a escola em bases democráticas", defende Eli Ghanem, da Feusp.

Conflito geracional
Por outro lado, há quem identifique razões de caráter cultural que não estão dissociadas da vida escolar. Muito ao contrário, ajudam a explicar muitas das dinâmicas no interior da escola. Uma delas aponta para o padrão de relações entre adultos e gerações mais novas, que se modificou de forma acentuada pelo menos nas últimas cinco décadas. Chegou a se decompor, o que, seguramente, tem reflexos imediatos nas práticas didático-pedagógicas.
"Hoje, temos uma prática educacional que parece não satisfazer nem ao magistério nem às famílias nem à sociedade civil como um todo. Menos ainda  é algo que parece entusiasmar as novas gerações. Isso não é efeito de um movimento democratizante", contesta Eli Ghanem, professor de filosofia da educação da Universidade de São Paulo, autor de Educação escolar e democracia no Brasil (Autêntica, 2004).  "O que temos é uma tradição autoritária e um processo de mutação social de caráter muito amplo.O magistério até hoje se debate entre adaptar-se a essas mudanças ou manter-se dentro de uma tradição autoritária. Agora, ou adotamos uma posição nostálgica, de recuperar a autoridade perdida, ou reconstruímos a escola em bases democráticas. Se não for assim, dificilmente iremos encontrar caminhos", propõe.

Teoria e prática
Não se trata de saudosismo, nem de reabilitar o que parecia funcionar no passado. Trata-se, antes, de compreender  a diversidade de conceitos e suas aplicações, a começar pela visão de democracia. Existem ainda divergências inconciliáveis em torno de seu significado e, consequentemente, da noção de "ensino democrático".

Há muito a proposta de democratizar o ensino pela instituição de práticas educativas fundadas na liberdade do educando se apresenta como sedutora para os educadores. Mas não se democratiza o ensino reservando-o a uns poucos sob pretextos pedagógicos.  "A democratização da educação é irrealizável intramuros, na cidadela pedagógica; é um processo exterior à escola, que toma a educação como uma variável social e não como simples variável pedagógica", registrou o educador José Mário Pires Azanha, em debate realizado ainda no final dos anos 70 sobre a democratização do ensino (Democratização do Ensino: vicissitudes da idéia no ensino paulista, julho de 1978)

Não podemos chamar de democrática uma escola que não seja pública e, como tal, de livre acesso. Sob essa ótica, a democratização de ensino equivale à expansão de oportunidades para todos. Esse é um ponto de partida,  ainda que se tenha a clareza de que tal pressuposto não encontra amparo em outras conceituações.

Modernamente, não são poucos os que taxam de democráticas as propostas educacionais pautadas pelos ideais de liberdade e gestão participativa. Entendem que o caráter democrático é dado principalmente pela participação dos estudantes nas decisões a respeito da própria educação que se processa na escola. Alguns entendem mesmo que tanto mais democrática será a escola ou a prática educacional quanto maior for a participação desses estudantes nas decisões relativas à própria educação. É uma perspectiva que parece predominar entre os defensores do modelo. São escolas até há pouco tempo designadas de libertárias, progressistas, românticas e alternativas, que agora se articulam em torno da "nova" designação.

"Escola democrática é quase um slogan. Com o ruir do muro de Berlim, a democracia passou a ser um valor de referência para todas as instituições. Virou o tal modismo, a tal frase de efeito, desprovida de significado", critica Lisandre. "Afinal, o que é mesmo democracia? E o que é democracia na escola?", questiona a educadora.

Anísio Teixeira (de óculos), ao lado do escritor Monteiro Lobato, em foto feita nos Estados Unidos ,nos anos 20: influência das ideias de John Dewey ajudou a estruturar a Escola Nova.

A crise na educação
É nítido o reconhecimento de que a escola vai mal,  a educação precarizou-se e o magistério há tempos carece de revalorização. Ao afastar-se de seu objetivo central – a transmissão do conhecimento – parece mesmo que a escola perdeu o foco.

Na intenção de melhor compreender o cenário, vale recorrer ao pensamento da filósofa  Hannah Arendt, que, a partir da experiência americana do pós-guerra, refletiu sobre a crise na educação e a situou em uma crise maior, a crise da modernidade, marcada pela falência dos até então vigentes valores da autoridade e da tradição. Na nova conjuntura, a educação se daria pela eliminação do legado simbólico contido no ato educativo, imersa na convicção de que educar para o novo significa sepultar os métodos tradicionais. Nas palavras de Arendt, "o fio da tradição está rompido".

É através dessa perspectiva que se procura compreender outra crítica contundente: a psicologização da educação, fenômeno também referenciado na teoria arendtiana. Em um mundo que não está mais estruturado pela autoridade, nem mantido pela tradição, as raízes da falência educacional têm outras três vertentes. A primeira delas é descrita como  o reconhecimento "de que existe um mundo da criança e uma sociedade formada entre crianças, autônomas, e que se deve, na medida do possível, permitir que elas governem". O segundo pressuposto identifica que "sob a influência da psicologia moderna e dos princípios do pragmatismo, a pedagogia transformou-se numa ciência do ensino em geral, a ponto de se emancipar inteiramente da matéria efetiva a ser ensinada". E para fechar o tripé, Arendt nos apresenta a ideia da prática como valor máximo, expressando a visão de que "só é possível conhecermos e compreendermos aquilo que nós mesmos fizemos". Não basta mais o saber constituído, mas a prática, agora reverenciada.

Fracasso escolar
Os alunos com baixo rendimento escolar passaram a receber rótulos bem mais pomposos. Seriam acometidos de distúrbios psicopedagógicos ou déficits cognitivos, quem sabe até de um transtorno psicomotor ou vitimados por outra anomalia qualquer, que, por certo, ainda há de ser diagnosticada.

É ao incorporar esse repertório e um olhar pretensamente científico que a escola mostra outra herança do escolanovismo e sua crença nos saberes da psicologia do desenvolvimento e nas teorias interacionistas. O problema é que aquilo que se propunha como alternativa de superação é hoje em grande parte responsável pelo fracasso escolar, fazendo crescer as críticas à "psicologização" da educação, seja na prática docente, seja na fundamentação pedagógica. Àqueles que não alcançam os objetivos esperados, resta o rótulo de  inadaptados, desajustados, portadores de transtornos de toda ordem.
"(…) a tese psicopedagógica da "adequação" não só faz, hoje, às vezes de passaporte educativo dos povos e/ou guardiã da "felicidade", da "criatividade" e da "inocência infantil", senão que também é considerada um instrumento de "humanização" e "democratização" das práticas educativas por oposição a um passado marcado pelo "autoritarismo" e o "sadismo pedagógico", registra Leandro de Lajonquière, da Faculdade de Educação da USP. "Nesse ponto, a atual e hegemônica psicologização do cotidiano escolar é, parcialmente, tributária do espírito da Escola Nova", sustenta.

Se na escola tradicional a disciplina e a autoridade eram instrumentos de conduta pedagógica, que caminhos percorrer hoje diante das dificuldades de aprendizagem e do insucesso escolar? É possível o trabalho com o aluno em dificuldades longe do estigma do fracasso e das condutas que reforçam a psicologização no interior da escola? Que propostas e alternativas nos oferecem as chamadas escolas democráticas?

O dilema pedagógico

Resgatar as origens e motivações das escolas democráticas implica compreender o cenário de mudanças que começa a se desenhar no campo da educação ainda no século 19. Desponta um sentimento de desilusão com a pedagogia tradicional, erigida a partir dos sistemas nacionais de ensino, criados sob inspiração do ideário iluminista e os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa. Para transformar servos em cidadãos livres, a escola postulava o domínio de saberes legitimados pela ciência, em que a figura do professor é a autoridade máxima, que detém e transmite esses saberes. "Nessa perspectiva, os sistemas nacionais de instrução foram concebidos como imensas máquinas de transmissão do saber constituído", observa Ghanem.

As reações se multiplicam e, em meio às críticas à chamada escola tradicional, diferentes teorias sobre a prática pedagógica começam a aparecer, em várias partes do mundo. São experiências como as do suíço Johann Pestalozzi, o jardim da infância (kindergarten) de Frederich Froebel, o trabalho de Célestin Freinet e a Escola do Pragmatismo de John Dewey, entre tantas outras. A educação liberal burguesa, construtora da nacionalidade e da cidadania, está em xeque.

Aprender X Ensinar
As críticas à pedagogia tradicional terminam por impulsionar um amplo movimento reformista. No Brasil, sob a expressão do "escolanovismo" , assume sua representação máxima.

"Ensinamos crianças, não matérias", difundia o da Escola Nova, para quem a pedagogia tradicional, "verbalista e enciclopédica", reduzia o processo educativo exclusivamente à dimensão do saber. Se até então o professor era a figura central, com a responsabilidade de iluminar o caminho de seus discípulos e transformar súditos em cidadãos, agora se reivindica uma escola capaz de extrapolar a mera transmissão de conteúdos para valorizar os processos de aprendizagem.

Desloca-se o eixo – do ensinar para o aprender. E ao deslocar o eixo de uma pedagogia centrada na ciência da lógica para uma pedagogia de inspiração filosófica, com contribuições crescentes da biologia e da psicologia, a educação começa a viver mudanças profundas.

Muda o papel do professor, mudam as relações de poder no interior da escola. "Os saberes, que eram dispostos segundo uma ordem lógica, passam a subordinar-se ao que se entendia por uma ordem psicológica, com uma conexão muito mais intencional entre a prática educacional e a idéia de interesse", descreve Ghanem. A aprendizagem não é mais vista como um processo atrelado ao treino, à retenção e memorização.

Na nova concepção, também não há lugar para a autoridade absoluta do professor, nem ele é mais o detentor do conhecimento. Ao invés da relação vertical professor-aluno, a pedagogia nova sai em defesa da assimetria nas relações em sala de aula. A própria geografia da escola está em debate.

"A feição da escola mudaria seu aspecto sombrio, disciplinado, silencioso e de paredes opacas, assumindo um ar alegre, movimentado, barulhento e multicolorido", descreve Dermeval Saviani no livro Escola e democracia, um marco na crítica pedagógica ao escolanovismo.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

"Canção dos Nibelungos" é declarada patrimônio da humanidade

O mais antigo manuscrito, do século 13, é conservado em Karlsruhe

O mais antigo manuscrito, do século 13, é conservado em Karlsruhe

A epopeia medieval anônima inspirou artistas durante séculos – entre os quais o compositor Richard Wagner e o cineasta Fritz Lang – e agora passa a pertencer ao catálogo do patrimônio documental da humanidade.

A Canção dos Nibelungos passa a fazer parte do patrimônio documental da humanidade. Isso foi o que decidiu esta semana o comitê internacional do programa Memory of the World (Memória do Mundo), segundo informações da representação da Unesco em Bonn.

Este é o oitavo registro histórico e cultural da Alemanha a constar da lista do órgão das Nações Unidas. A meta do programa criado pela Unesco em 1992 é registrar em mídia digital testemunhos-chave da memória da humanidade e torná-los acessíveis através da internet.

Amor e guerra, com fundo histórico

Encenação do 'Anel do Nibelungo: Siegfried', de Wagner, no Festival de Bayreuth de 2007Encenação do ‘Anel do Nibelungo: Siegfried’, de Wagner, no Festival de Bayreuth de 2007

A Canção dos Nibelungos é um notável exemplar da épica européia, comparável às epopeias de Homero na Grécia antiga, comentou o comitê. Esse poema heróico medieval narra o amor do subjugador de dragões Siegfried à princesa burgúndia Kriemhild, a morte de Siegfried por Hagen e a vingança de Kriemhild com auxílio do rei dos hunos, Etzel, causa do declínio do Reino da Burgúndia.

A Canção do Nibelungos foi escrita em torno de 1200 por um poeta hoje desconhecido, por encomenda do então bispo de Passau, Wolfger von Erla. A saga consiste de 2.400 estrofes. O fundo histórico da epopeia é a vitória dos hunos sobre os burgúndios no ano de 436.

Os três mais importantes e mais completos manuscritos do poema estão guardados na Biblioteca Estatal da Baviera, em Munique, na Biblioteca Estadual de Baden, em Karlsruhe, e na biblioteca do Mosteiro de Sankt Gallen, na Suíça. O chamado Manuscrito C, conservado em Karlsruhe e considerado o mais antigo registro da Canção dos Nibelungos, data do século 13.

Séculos de inspiração épica

Esse poema heróico escrito em alto alemão médio caiu em esquecimento no século 16 e só voltou a ser objeto de apreciação cultural a partir de 1755, com a redescoberta de um de seus manuscritos na região austríaca de Vorarlberg.

Cartão postal com a cena de Siegfried contra o dragão, de 'Os Nibelungos', dirigido por Fritz Lang em 1922/24Cartão postal com a cena de Siegfried contra o dragão, de ‘Os Nibelungos’, dirigido por Fritz Lang em 1922/24

No século 19, o poema adquiriu grande importância como epopéia nacional. Richard Wagner transformou a saga em ópera, compondo a tetralogia O Anel do Nibelungo. O texto também inspirou inúmeras adaptações para o cinema, inclusive o filme mudo Os Nibelungos, rodado pelo diretor Fritz Lang entre 1922 e 1924.

Do códice asteca ao Solidarnosc

Entre os testemunhos culturais eleitos para fazer parte do catálogo Memory of the World estão valiosos livros, manuscritos, partituras, imagens, filmes e documentos sonoros de todo o mundo.

A lista inclui, por exemplo, as 21 teses do movimento sindical polonês Solidarnosc, os arquivos coloniais de Benin, do Senegal e da Tanzânia, o códice asteca no México e os arquivos do Gueto de Varsóvia, entre outros.

As contribuições alemãs para o catálogo da Unesco são a Bíblia de Gutenberg conservada em Göttingen; o arquivo fonográfico da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, com importantes registros sonoros de interesse etnológico; o espólio literário de Johann Wolfgang von Goethe; a 9ª Sinfonia de Beethoven; o filme mudo Metrópolis (1927), de Fritz Lang; o chamado Codex Egberti, um evangelho manufaturado na Ilha de Reichenau, no Lago de Constança, entre 980-993, e dedicado ao arcebispo Egbert de Trier.

Fonte: Dw-World – http://www.dw-world.de

Macacos me mordam

Chimpanzés surpreendem na interação com os seres humanos e devem ganhar direitos similares aos dos homens em breve.

Sheila Lobato

O casal Pedro e Vânia Maria Ynterian tinha acabado de adotar Guga, um chimpanzé, que hoje tem 9 anos. Eles seguiam pela estrada quando uma carreta jogou o carro para fora da pista. "Então, quando gritei ‘Ai, meu Deus’, o Guga, que ainda era um filhotinho, apertou a minha mão como se estivesse me passando segurança", conta Vânia. "A partir daí, a cada dia, me surpreendia mais com a inteligência dele. Toda manhã, ele ficava me vendo fazer o café. O primeiro cafezinho, inclusive, era ele que tomava comigo." São essas e outras histórias que levaram o casal a questionar até que ponto Guga era apenas um mascote.

A convivência com o chimpanzé fez com que o casal abraçasse a causa dos direitos dos grandes primatas. "Sempre que sabia que um animal estava sendo maltratado, eu pensava em Guga e no que aconteceria se fosse ele que estivesse nessa situação", lembra Pedro. Ele não agüentou e começou a acolher as vítimas dos maus-tratos.

Hoje, o empresário investe grande parte do seu dinheiro nos 23 alqueires do Criadouro Velho Jatobá e Santuário GAP, em Sorocaba (SP). Passa pelo menos 12 horas por dia lá, cuidando dos chimpanzés. Depois de Guga, vieram mais 47, além de dezenas de sagüis, gibões e outros. Detalhe: Pedro sabe o nome de todos os seus chimpanzés, bem como a personalidade de cada um.

Não por acaso, sua dedicação aos grandes primatas foi recompensada e Pedro foi nomeado presidente do Projeto dos Grandes Primatas, o GAP internacional do qual é filiado, tornando o Brasil a sede da instituição. Criado pelo filósofo Peter Singer em 1994, o GAP é um movimento ideológico em defesa dos direitos dos grandes primatas. Para quem não sabe, existem cinco tipo deles: o homem, os chimpanzés, os gorilas, os orangotangos e os bonobos (chimpanzés pigmeus).

Os grandes primatas reconhecem sua imagem em espelhos e fotografias, mandam beijos, entram em depressão e apreciam um ombro amigo. Por esses motivos é que os membros do Projeto
GAP defendem os seus direitos
Por Maíra Lie Chao

A princípio, o GAP não se preocupa com o resgate dos animais. Os membros do Brasil, contudo, participam da movimentação ideológica e recolhem aqueles animais que são maltratados e que não têm lar, dando-lhes todo o suporte e conforto. "O Brasil é o país mais ativo e atuante na defesa dos grandes primatas. É também o único que possui santuários relacionados ao GAP", informa Pedro. Ao todo são quatro santuários familiares que abrigam 74 chimpanzés.

Pedro afirma que a convivência com esses animais faz qualquer um acreditar que eles são pessoas. O empresário também ressalta que a cada dia aprende mais com os chimpanzés, além de sempre se surpreender com a inteligência e a capacidade deles. "Outro dia, estava brincando de casinha com o Guga. Peguei uma panela de brinquedo, coloquei gramas na água e fiquei cozinhando. No dia seguinte, quando cheguei para cumprimentá-lo, ele já tinha preparado a ‘cozinha’ e estava mexendo a sopa de folhas!", orgulha- se a "mamãe" Vânia.

Nos santuários, os chimpanzés são acolhidos de zoológicos e circos, onde geralmente são torturados. Em circos, eles têm seus dentes arrancados, são castrados (para que não se tornem uma ameaça) e podem até desenvolver outras deficiências. Hulk, por exemplo, foi vítima dessas agressões. Quando o encontraram, ele estava cego devido a uma infecção nos olhos. Por sorte, o antigo dono o vendeu a Pedro. Mais tarde, um oftalmologista o operou para que recuperasse parte de sua visão.

Há alguns anos, surgiram leis municipais que proíbem a entrada de circos com animais nas cidades – São Paulo, Campinas (SP), Rio de Janeiro e Curitiba são apenas algumas delas. Isso, somado à pressão de ONGs e da própria população, fez com que os proprietários de circos quisessem se desfazer dos animais. Então, negociavam os chimpanzés com os donos dos santuários. Hoje, a relação de Pedro e os proprietários de circos está light. No início, ele sofria ameaças de morte e até já foi vítima de um atentado. "Quando comecei, em 2000, um chimpanzé custava em média de US$ 15 mil a US$ 20 mil. Para um circo, era prejuízo vender sua fonte de renda", recorda.

Embora os chimpanzés sejam alvo de maus-tratos nos circos, o empresário garante que é nos zoológicos que eles sofrem mais. Ora por falta de companhia, ora pelo estresse de ficar exposto a desconhecidos. "No circo, eles têm relação com uma pessoa, que chega a ser de amor, carinho. No zoológico, é tudo impessoal. E eles sofrem o assédio do público ignorante. Ficam de oito a nove horas expostos a pessoas que não conhecem. Daí eles gritam, jogam coisas. Ficam num estresse tão grande que acabam pirados", explica Pedro.

"Os chimpanzés são muito inteligentes. Colocá-los nessas condições é como prender um homem em uma jaula", argumenta o empresário. Todos os animais que foram diagnosticados com alto índice de depressão ou loucura vieram de zôos. Ao chegarem, tomam remédios homeopáticos, como Charles e Caco, que se automutilavam (se mordiam e arrancavam os pêlos dos braços) para chamar a atenção. "Aqui tenho um hospício para os chimpanzés que resgatei e que nunca mais voltarão a ser normais. Consigo melhorar a qualidade de vida deles, mas sempre serão loucos. É irreversível."

O que separa esses primatas de nós? Segundo a genética, apenas 0,6% do DNA. Essa pequena diferença os impede de falar, ler e escrever. Bom, eles podem até não pronunciar palavras como eu ou você, mas compreendem o que conversamos. Quando a veterinária Camila Gentile se aproximou de Vítor mostrando a sua face ferida e dizendo "Olha, me machuquei", o chimpanzé quis acariciar o rosto dela. Porém, por não ter controle de força, poderia machucar, sem querer, a médica. "Não, Vítor, ainda está doendo. Não mexe", advertiu. Ele se aproximou perto de uma bochecha arranhada de Camila e lhe deu um beijo.

"Eles nos compreendem muito bem. Há vezes em que chego perto das grades com uma garrafa de refrigerante.

Então, falo sozinha – pensando alto – ‘não encontro copo por aqui’. Logo um deles já traz um copo", diz Vânia.

E tem mais: esses animais são tão inteligentes que reconhecem a si mesmos e outros primatas em espelhos e fotografias. Billy, outro chimpanzé do santuário, sentou-se em uma mesinha perto da grade e pediu para ver as fotos que a nossa fotógrafa tirou. Karime as mostrou na própria máquina e Billy só faltou dar piruetas de alegria. Para agradecê-la, deu-lhe um beijo estralado na bochecha.

Devido a esses comportamentos humanos, Selma Mandruca, presidente do GAP Brasil e proprietária de um santuário em Vargem Grande Paulista (SP), defende os chimpanzés juridicamente com uma denominação diferente: seres humanizados. Ela justifica que eles não são animais domesticados, como um cão ou um gato, tampouco podem ser chamados de homens. Em nome do GAP, Selma está assessorando o caso do habeas-corpus de duas chimpanzés, Megh e Debby, de 3 e 4 anos, respectivamente.

Esse recurso jurídico foi usado pela primeira vez para um primata em 2005. A chimpanzé Suíça, de 23 anos, entrou em crise após a morte de seu companheiro no zoológico. Como os chimpanzés são seres sociais e não conseguem viver sozinhos, Suíça começou a ter distúrbios mentais e recebeu um habeas-corpus para sair do local e morar em um santuário junto a outros de sua espécie. Infelizmente, ela faleceu um dia antes de ser liberada.

A história de Megh e Debby é diferente. Elas nasceram no Zoológico Paraíso Perdido, em Fortaleza, fechado pelo Ibama em 2006. As bebês foram doadas a Rubens Forte, que as levou para Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Mas o Ibama alegou que a documentação do transporte estava irregular e que não tinha aprovado o santuário. Forte, então, transferiu o santuário para Ibiúna, que foi aprovado pela instituição. A partir daí, a propriedade tem sido alvo de processos.

Para não perder a guarda das chimpanzés, Rubens entrou com um pedido de habeas-corpus em um Tribunal Regional de Justiça, que foi negado. Para piorar, uma desembargadora ordenou a reintegração das chimpanzés na natureza – o que é uma sentença de morte para elas. Primeiro, porque o hábitat dos chimpanzés é a África. Segundo, porque elas nasceram em cativeiro e não sobreviveriam na floresta. Diante desse impasse, Rubens entrou com um pedido de habeas-corpus no Superior Tribunal de Justiça. Nesse processo, um dos ministros se prontificou a analisar melhor a situação.

Segundo o GAP, esse fato abre a discussão dos direitos dos grandes primatas. Como o habeas-corpus é um recurso dado a humanos, se ele for concedido, o executivo responsável estará reconhecendo que os chimpanzés são seres humanizados. Com isso, ficarão proibidos a tortura, o aprisionamento, o uso comercial e as experiências em que eles são usados como cobaia. "Esse é o maior objetivo do GAP, pois, como seres humanizados, os chimpanzés têm direitos que não estão sendo respeitados", diz Selma. "Depois disso, teremos uma argumentação legal sempre que virmos alguma injustiça aplicada a um deles." A definição do caso está prevista para o início do ano.

Acima, o empresário Pedro Ynterian, presidente do GAP, brinca com um dos chimpanzés do santuário. Na foto acima, a veterinária e criadora Camila Gentile.

Pedro Ynterian antecipa que na Justiça existem pessoas contra, a favor e em dúvida. "Geramos uma dúvida na cabeça de muita gente e era exatamente isso o que queríamos. Temos um debate e dele vai sair uma conclusão melhor do que a que temos hoje (que o animal não tem nenhum direito)", afirma. "Hoje, é o chimpanzé que é praticamente humano. Amanhã, vai ser o resto dos animais. Com o tempo, todos terão de ser respeitados."

DIFERENÇA É PEQUENA

A diferença entre o DNA dos homens e o do chimpanzé é pequena. Mas nesses poucos genes está a diferença entre uma espécie dominante e uma em via de extinção. Eles permitem que a nossa espécie fale; em outros animais, porém, possibilitam apenas a emissão de sons, como grunhidos e gritos, no caso daqueles que seriam nossos ancestrais.

Cientistas alemães descobriram no gene FOXP2, presente em todos os mamíferos, uma particularidade que pode ter levado a uma importante mutação, milhares de anos atrás. Ainda não se conhece direito a função desse gene, mas, nos símios examinados (chimpanzés, gorilas e orangotangos), a seqüência de aminoácidos é quase idêntica e as proteínas têm estruturas equivalentes. No homem, porém, a mutação de duas únicas bases azotadas (matéria-prima do gene) leva a uma proteína diferente, que poderia ter inclusive uma função distinta da original.

Mais tarde, num estudo com um grupo de pessoas que apresentavam defeitos nesse gene, os cientistas descobriram que elas tinham problemas para dizer certas palavras – em geral, não conseguiam pronunciá-las ou não fixavam a seqüência correta dos seus fonemas. Concluiu- se, então, que o FOXP2 deve ser um gene envolvido na produção da palavra, em particular nos delicados movimentos musculares necessários para falar. Não é o gene da linguagem, pois esse processo é mais complexo do que pronunciar palavras, mas é um gene associado importante que se formou nos últimos 200 mil anos, quando o Homo sapiens começou a se espalhar pelo mundo.

Também os cientistas da Universidade de Detroit (EUA) examinaram uma centena de genes de homens, chimpanzés e outros animais e chegaram à conclusão de que os chimpanzés estão muito mais próximos ao homem, do ponto de vista do DNA, do que os outros animais. Os genes estudados foram somente aqueles que levam à produção de proteínas, chamados genes codificantes. A "distância" genética entre os homens e os chimpanzés se revelou tão pequena que ambos deveriam ser classificados na mesma espécie – algo como o Homo macacus, se o latim assim permitisse. A regra nas classificações zoológicas é que duas espécies com um ancestral comum a ambas devem partilhar o mesmo gênero. E a tal distância genética é tão curta que somente pode ser explicada pela existência de um ancestral comum.

Em outras palavras, se os chimpanzés são nossos primos, então temos os mesmos avós em algum momento de nossa árvore zoológica. Os cientistas consideram que esse momento se situa há cerca de 6 milhões de anos. Por essa época, os homens e os chimpanzés se separaram dos gorilas. Antes disso, homens, chimpanzés e gorilas se separaram dos orangotangos. Com os gorilas, portanto, teríamos bisavós em comum e com os orangotangos, tataravós. Mas como esses estão mais distantes, a vizinhança genética não nos obrigaria a incluí-los no gênero Homo.

Enquanto gorilas são mal encarados e orangotangos, bagunceiros, os chimpanzés são carinhosos, alegres e calmos. Chimpanzés gostam de colo como nossos bebês, abraçam como se não vissem há anos os tratadores que estiveram ontem com eles e gostam de aprender coisas novas. Um chimpanzé é capaz de memorizar os desenhos expostos numa tela e associá-los às imagens que os identificam. Flor, árvore, mesa – pode-se nomear qualquer figura da tela que o chimpanzé, depois que aprende, aponta-a sem errar. Podem ser figuras abstratas também, como círculos ou símbolos, como o triângulo dentro de um círculo. Para confirmar, as figuras são trocadas de posição e o chimpanzé continua acertando.

Não é tudo. No centro Great Ape Trust, em Iowa (EUA), a doutora Sue Savage- Rumbaugh e sua equipe desenvolvem estudos com chimpanzés bonobos – uma espécie de menor estatura, oriunda do Congo, na África. O centro é uma escola onde os alunos são os bonobos, em vários níveis de aprendizado. As salas de aula reproduzem seções de matas semelhantes às do Congo. Na área externa há uma floresta parecida ao hábitat natural desses chimpanzés. Num vídeo produzido nessa mata, um bonobo é levado por seu professor a um piquenique.

Numa clareira, o professor pede que o primata prepare o fogo no qual serão assados espetos com pedaços de queijo. Ele começa a catar galhos e gravetos. Quebra os galhos maiores em dois, estalando- os nos joelhos com a precisão de um homem. Faz um montinho com eles, juntando folhas secas e o papel entregue pelo professor. Quando está tudo pronto, chega no professor e remexe no bolso de sua calça até achar um isqueiro. Põe fogo no papel, acendendo e apagando o isqueiro sucessivas vezes, para não queimar os dedos. Logo os gravetos estão ardendo.

Quando o "fondue" está pronto, o professor oferece um espeto ao animal, que o recusa por estar fumegante, mas em seguida assopra o queijo para esfriá-lo antes de comer. Na hora de ir embora, o bonobo pega um balde, enche-o de água e apaga o fogo, com o cuidado de não deixar nenhuma brasa acesa. Depois, vai para um carro do tipo buggy, senta ao volante, põe a marcha e some na mata, deixando o professor para trás. Em função desses comportamentos, Sue afirma que as pessoas de uma comunidade remota das florestas da Tanzânia não são nem melhores, nem piores que os bonobos do Great Ape Trust. A única diferença é que esses primatas não sabem se defender e são impiedosamente caçados na África. Sua carne é uma iguaria servida em restaurantes da Europa e da Ásia. Por isso, estão em acelerado processo de extinção.

Mas não são só as semelhanças entre os homens e os chimpanzés que espantam. Os orangotangos de Sumatra, Bornéu e da Malásia também são capazes de mostrar que por pouco não são gente. Já foram identificados 24 exemplos de transmissão cultural entre eles. Uma de suas heranças culturais mais espantosas é que, depois de comer, os orangotangos limpam a boca com as folhas das árvores. Também as usam para beber água, fazendo uma concha com elas. E sabem que, para amplificar o som, basta levá-las até a boca e gritar. Fazem isso também com as mãos, colocando-as em forma de concha na frente da boca, como nós quando queremos chamar alguém.

Orangotangos sabem usar instrumentos para comer e beber. A fruta da neesia, uma árvore de grande porte do sudeste asiático, tem a casca cheia de espinhos, mas o seu suco é irresistível. Para sugá-lo sem se espetar, os orangotangos perfuram a fruta com um pauzinho e chupam o suco que escorre por ele. Os orangotangos correm risco de ser extintos devido à devastação das florestas da região. Como os chimpanzés e gorilas, não sabem falar. Mas têm muita história para contar ao Homo sapiens.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/