Monthly Archives: julho 2009

O primeiro avião do futuro

Esqueça o 14 Bis. A aeronave mais influente da história é outra obra de Santos Dumont: o Demoiselle, que popularizou a aviação no mundo todo.

Salvador Nogueira

O 14 Bis fez seus primeiros vôos no final de 1906. Ok. Mas talvez o Brasil esteja comemorando o centenário errado. É que os aviões modernos talvez não tenham nascido nem naquele ano nem em 1903, quando o Flyer, dos irmãos Wright decolou no interior dos EUA. Mas, sim, em 1907, com a segunda aeronave bem-sucedida de Alberto Santos Dumont: o Demoiselle.

“Esse aparelho, o Nº 19 do brasileiro, representou uma mudança radical na forma dos aviões”, diz o físico Henrique Lins de Barros, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, e especialista no assunto. Uma mudança que, cedo ou tarde, iria parar em todos os outros aviões, inclusive nos dos irmãos Wright.

A chave para isso foi uma iniciativa audaz de Dumont: colocar o “rabo” do avião no devido lugar, a parte de trás. O que vai ali são aquelas duas asinhas menores, que formam uma peça chamada leme profundor – uma das partes responsáveis por levantar e baixar o avião durante o vôo. E a tradição de colocá-la no “lugar errado” (a parte da frente) vinha desde o fim do século 19. Tudo por razões de segurança. Depois que o construtor de planadores alemão Otto Lilienthal morreu em um de seus inventos, em 1896, seus seguidores decidiram manter o leme à frente. Isso porque Lilienthal tinha sido vítima de um estol (do inglês stall, fenômeno em que o aeroplano aponta para cima, perde sustentação e cai de bunda). Para evitar essas empinadas, todos os inventores da época acharam crucial deixar esse leme na parte da frente.

Só tem um problema: essa configuração deixa a máquina bem mais instável no ar – o piloto precisa estar sempre atento aos controles para mantê-la em vôo, do mesmo jeito que um ciclista não pode largar o guidão. Convenhamos, não é a melhor coisa do mundo num avião, que cobra caro por qualquer falha humana.

Por isso, os pioneiros acharam melhor não arriscar. E foi com a parte “de trás” colocada na frente que os irmãos Wright realizaram, em Kitty Hawk, Carolina do Norte (EUA), os primeiros vôos motorizados da história. Os outros aspirantes a aviador usaram sistemas parecidos, inclusive Santos Dumont. O 14 Bis, por exemplo: tem aquele bico enorme na ponta justamente para abrigar o leme. Graças a isso, aliás, o primeiro avião de Dumont não costuma ser chamado de 14 Bis em lugar nenhum fora do Brasil. Lá fora, conhecem a aeronave pelo apelido: Canard (“pato”, em francês).

Só fracasso

Com seu Pato, Dumont percorreu 60 metros no ar em 23 de outubro de 1906. E abocanhou um prêmio de 3 mil francos (R$ 30 mil em dinheiro de hoje), que ofereciam para o primeiro que voasse por mais de 25 metros. Logo depois, em 12 de novembro, faria os primeiros vôos reconhecidos pela Federação Aeronáutica Internacional. Dessa vez, estabeleceu a marca de 220 metros como recorde.

Mas o 14 Bis não era exatamente prático: voava a apenas 6 metros de altitude e só alcançava 40 km/h. Ele não tinha mais para onde evoluir com aquele desenho. E Santos Dumont logo passou a desenvolver novos modelos, bem diferentes – e agora incluindo o inovador leme traseiro. Especialistas da época farejavam que ele estava na trilha certa. Escreveu a revista francesa L’Aérophile, em fevereiro de 1907: “Sob o ponto de vista da estabilidade, o senhor Dumont fez uma volta completa, colocando o que estava atrás na frente e vice-versa. Isso é lógico, ele se conforma à natureza.” No entanto, ainda faltava aprender como decolar direito com essa configuração. E o sucessor do 14 Bis, o Nº 15, não conseguiu levantar vôo.

Frustrado, Alberto fez o Nº 16, um misto de balão e aeroplano. E mais uma vez não conseguiu subir. O Nº 17 seria uma variação do Nº 15 com motor maior e um trem de pouso mais elaborado. Também não saiu do chão. E eis que então o inventor brasileiro vai buscar inspiração de um lugar inesperado: a água. O aparelho Nº 18 de Alberto era um barco de alta velocidade, tipo um ancestral dos offshore. Ao testar a coisa, que tinha hélices fora d’água e lemes submersos, ele teve uma luz: deduziu a aerodinâmica que faltava para que seu novo avião decolasse. “É engraçado que Dumont tenha encontrado uma solução justamente quando não estava fazendo um aeroplano, mas foi exatamente o que ocorreu”, diz Lins de Barros. Nascia então o Demoiselle.

A revolução da libélula

O Nº 19 foi apresentado ao mundo em novembro de 1907 – só um ano depois do 14 Bis. Por sua aparência e leveza, a aeronave ganhou o apelido de Demoiselle, palavra francesa que pode ser traduzida como “senhorita” ou “libélula”, dependendo do contexto. No caso, o nome parecia apropriado nos dois sentidos. Com leveza e elegância nunca antes vistas num avião, merecia o “senhorita” – pesava uns 50 quilos, contra 240 do 14 Bis. E sua aparência no ar lembrava mesmo a de uma libélula.

Tudo ali era mais suave. Até o motor. Enquanto o Pato usava um motor de 8 cilindros e 50 cavalos, o Demoiselle vinha com um pequenininho, com 2 cilindros e metade da potência. Só que o projeto ainda tinha problemas. O motor se mostrou fraco e a estrutura, capenga. A fuselagem, por exemplo, não passava de um tronco de bambu ligando o assento do piloto à cauda. O vôo ainda era instável. E o máximo que Dumont conseguiu com o Demoiselle em 1907 foi um vôo de 200 metros – menos do que havia obtido com o 14 Bis. Talvez por isso mesmo as qualidades de seu invento tenham demorado a contagiar os outros inventores da época.

Mas chegaria a hora do Demoiselle. Primeiro, Dumont aumentou a envergadura das asas, para que o avião se sustentasse no ar com mais facilidade. Depois, reforçou o corpo da senhorita com uma cauda mais firme, em forma de triângulo. Para arrematar, trocou o motor por um de 30 cavalos.

Pronto. Com o banho de loja, o Demoiselle (agora rebatizado como Nº 20) saiu da garagem em 1909 e mostrou a que veio. Confiante, Dumont apostou com um amigo que conseguiria voar os 8 quilômetros que separavam Saint Cyr e Buc, dois campos de pouso nos arredores de Paris. Ganhou. E ainda fez o trajeto em apenas 5 minutos, mostrando que seu novo avião tinha velocidade média de quase 100 km/h. Além de veloz, o avião com o leme no lugar certo era ágil. Tanto que Dumont começou a usar o Demoiselle para visitar os amigos – os jardins das mansões deles serviam de pista. Mas fazer um avião capaz de voar quilômetros a fio não foi pioneirismo de Dumont. Um ano antes, os Wright tinham levado a versão mais nova do Flyer para demonstrações na França. Eles passaram 5 anos na surdina para que ninguém copiasse sua idéias. E, quando finalmente foram a público na Europa, deixaram todo mundo de queixo caído: Wilbur Wright voou por assombrosos 124 quilômetros sem escalas.

Os ianques decidiram mostrar sua força por um motivo pragmático: empurrar seus aviões para as Forças Armadas dos EUA. Conseguiram. Ao voltar para casa, em 1909, receberam o equivalente a R$ 1,3 milhão (US$ 30 mil da época) do governo americano por um de seus Flyers. E a máquina virou a primeira aeronave militar da história. Já Dumont, para quem dinheiro não era problema (nem solução), tinha uma postura idealista: sonhava em transformar o Demoiselle num meio de transporte popular, no esquema “uma aeronave em cada garagem”. Se alguém quisesse construir um por conta própria, era só pedir as plantas do projeto, que ele dava. “É meu presente para a humanidade”, disse o brasileiro.

Campeão de vendas

E tudo isso num momento em que a aviação se transformava num mercado para valer. O interesse por aeronaves cresceu principalmente depois de 25 de julho de 1909, quando o aviador francês Louis Blériot, discípulo de Dumont, cruzou os 35 quilômetros do canal da Mancha em sua aeronave – que era parecida com o Demoiselle, diga-se.

A carga simbólica do feito turbinou as vendas de aeroplanos. Diante disso, amigos insistiam que Alberto patenteasse a tecnologia da libélula de uma vez. Mas ele batia o pé, como descreve o jornalista americano Paul Hoffman, em seu livro As Asas da Loucura, biografia mais recente do aviador: “Dumont preferia morrer num cortiço do que cobrar alguém pelo privilégio de copiar sua invenção”. Aí a montadora de carros Clement-Bayard resolveu aproveitar o privilégio. Ainda em 1909, ela passou a fabricar o Demoiselle em massa, vendendo cada um pela bagatela de 7 500 francos (R$ 75 mil de hoje), ou um terço de qualquer outro avião daqueles tempos. E as vendas foram muito bem, obrigado: 300 unidades. Como Dumont dizia que era possível fazer um Demoiselle com 5 mil francos (R$ 50 mil), dá para calcular os lucros que a fábrica francesa teve com o modelo: o equivalente a R$ 7,5 milhões.

E a coisa não parou por aí. O fervor do Demoiselle logo tomaria de assalto a terra dos irmãos Wright. Em 1910, a revista Popular Mechanics publicou as plantas do projeto nos EUA, e vários fabricantes passaram a construir versões do aparelho. “Milhares de pessoas nos EUA estão intensamente interessadas no assunto do vôo aéreo, mas até o momento nada de natureza tangível foi apresentado de forma a permitir que se comece a trabalhar com uma perspectiva razoável de sucesso. É com grande satisfação que tornamos acessíveis os desenhos de trabalho do maravilhoso aeroplano inventado pelo senhor Santos Dumont”, escreveu o editor da publicação. “Ele é melhor que qualquer outro jamais construído para os que quiserem obter resultados com um custo baixo e o mínimo de experiência.”

De forma discreta, até os irmãos Wright endossaram os elogios às inovações do Demoiselle, quando, em 1910, apresentaram um novo modelo de aeroplano. Era o Wright Flyer Model B, o primeiro criado pela dupla com o leme profundor lá atrás, como sugeriu Dumont.

Ah, claro: o aviãozinho do nosso amigo Alberto continua firme no mercado. E olha que a cara da libélula nem mudou muito nesses 99 anos. Só o nome. Hoje ele se chama ultraleve.

O homem do dirigível

Santos Dumont entrou para a história por causa de seus aviões, claro, mas no início do século 20 ele era uma das maiores celebridades científicas no mundo por outro motivo: seus dirigíveis. Nascido em Minas Gerais, em 1873, e filho de cafeicultores ricos, ele estudou na Inglaterra e na França, mas jamais chegou a ir a uma faculdade. Quando foi morar em Paris, decidiu realizar um vôo de balão, sonho de menino. Subiu em 1898 e resolveu que, dali por diante, se dedicaria a construir e projetar seus próprios balões. Depois que dominou a técnica, decidiu partir para algo mais complexo: os balões dirigíveis. E com seu aparelho Nº 6 Dumont criaria o primeiro dirigível prático da história, coisa que lhe rendeu o maior prêmio de sua vida – 100 mil francos (R$ 1 milhão), por circunvagar a Torre Eiffel em 1901. Seus dirigíveis lhe compraram a fama. Ele foi recebido na Casa Branca e trocou correspondência com inventores como o americano Thomas Edison. O reconhecimento era tal que, quando os Wright anunciaram seu vôo, em 1903, o jornal Dayton Daily News cravou: "Rapazes de Dayton imitam o grande Santos Dumont". Na seqüência, partiu para os aviões. Mas uma queda com o Demoiselle e um diagnóstico de esclerose múltipla – ele tinha desenvolvido problemas de visão e vertigens – o aposentaram em 1910. Deprimido com a doença, passou a viver entre suas propriedades no Brasil e casas de repouso na Europa. Em 23 de julho de 1932 ele estava num hotel no Guarujá (litoral paulista). Foi lá que um sobrinho o encontrou pendurado na porta do banheiro. Alberto Santos Dumont tinha se enforcado.

Dumont e os irmãos Wright voam juntos pela primeira vez

Após 100 anos de rixas, um espetáculo. Finalmente voaram juntos, lado a lado, uma réplica de um aeroplano de Santos Dumont e uma de um avião dos Wright. Foi no dia 30 de setembro deste ano, em Dayton, Ohio, cidade natal dos irmãos Wright. A escolha dos modelos também não poderia ter sido melhor. Do lado tupiniquim, um Demoiselle, o mais influente dos aviões do inventor brasileiro. Do lado ianque, um Flyer Model B, primeiro avião dos Wright com infra-estrutura moderna, por decolar sobre rodas e ter asas auxiliares na parte de trás. O episódio aconteceu no Aeroporto Irmãos Wright, de Dayton, bancado pelo Instituto Arruda Botelho, uma ong voltada à preservação da cultura que construiu a réplica do Demoiselle, e da Heritage Foundation, comandada por Amanda Wright Lane, sobrinha-bisneta de Wilbur e Orville Wright. Claro que os americanos não estão dispostos a largar o osso – o primeiro avião, para eles, é indiscutivelmente o Flyer de 1903 dos irmãos Wright. Entretanto, até mesmo a família da dupla de inventores ianques admite que existe mais que 1, 2 ou 3 “pais da aviação”. “Não há como questionar certas datas e eventos”, diz Lane. “Mas eu acredito que há espaço para mais de um pioneiro, no sentido de que vários homens contribuíram para a evolução da ciência aeronáutica naqueles primeiros anos.”

Demoiselle Reloaded

Por dentro da réplica

Fusquinha

Para simular o propulsor antigo, de 30 cv, usaram metade de um motor de Fusca. Já os freios são um luxo moderno: no Demoiselle original, o piloto tinha que usar luvas bem grossas e parar as rodas à unha.

Cockpit

No 14 Bis, o piloto ia de pé num cesto de balão. No Flyer, dos irmãos Wright, deitado. Já no Demoiselle a posição é a mesma dos ultraleves de hoje, com o piloto encaixado na estrutura do avião.

Para saber mais

Santos Dumont e a Invenção do Vôo – Henrique Lins de Barros, Jorge Zahar, 2004

Asas da Loucura – Paul Hoffman, Objetiva, 2004

The Wright Brothers Legacy – Walt Burton, Harry N. Abrams, EUA, 2004

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

Democracia corrompida

O potencial autêntico da democracia vem perdendo terreno hoje para a ascensão de um novo capitalismo autoritário.

Slavoj Zizek

O filósofo alemão Peter Sloterdijk (que, definitivamente, não é um de nós e tampouco um completo idiota) observou que, se há uma pessoa para quem farão monumentos daqui a cem anos, ela é Lee Kuan Yew, o líder de Cingapura que inventou e colocou em prática o chamado "capitalismo de valores asiáticos". O vírus desse capitalismo autoritário tem se espalhado de maneira vagarosa porém certeira pelo globo.

Antes de dar início a suas reformas, Deng Hsiao-Ping visitou Cingapura e enalteceu expressamente aquele país como um modelo que toda a China deveria seguir. Essa mudança tem um significado histórico mundial: até agora, o capitalismo parece inextricavelmente ligado à democracia – viu-se, é claro, de tempos em tempos, o recurso da ditadura direta, mas, depois de uma década ou duas, a democracia se impôs de novo (lembre-se, por exemplo, apenas dos casos da Coreia do Sul e do Chile). Agora, no entanto, a ligação entre a democracia e o capitalismo está rompida.

Diante da atual explosão do capitalismo na China, os analistas com frequência perguntam-se quando a democracia política, como acompanhamento político natural do capitalismo, se fortalecerá. Não obstante, uma análise mais detida rapidamente desfaz essa esperança – e se o prometido segundo estágio democrático que se segue ao autoritário vale de lágrimas nunca chegar? Talvez seja isso o que há de mais inquietante sobre a China de hoje: a suspeita de que seu capitalismo autoritário não é apenas uma sobra do nosso passado, a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, deu-se do século 16 ao 18, e sim um sinal do nosso futuro.

E se "a perniciosa combinação do açoite asiático com a bolsa de valores europeia" (a velha caracterização de Trotski da Rússia tsarista) provar-se economicamente mais eficiente que o nosso capitalismo liberal? E se ela sinalizar que a democracia, como a entendemos, não é mais condição e mola propulsora do desenvolvimento econômico, mas seu obstáculo?

Salto adiante

Há aqui ainda um paradoxo adicional: existe, para além de todos os comentários maliciosos e analogias superficiais, uma profunda homologia estrutural entre o permanente autorrevolucionamento maoísta, o permanente combate contra a ossificação das estruturas estatais, e a dinâmica inerente ao capitalismo. Aqui torna-se tentador parafrasear o trocadilho de Bertolt Brecht "o que é o roubo de um banco se comparado com a fundação de um novo banco?": o que são os ímpetos violentos e destrutivos de um membro da Guarda Vermelha durante a Revolução Cultural se comparados à verdadeira Revolução Cultural, a dissolução permanente de todas as formas de vida necessárias à reprodução capitalista? Hoje, a tragédia do Grande Salto Adiante [campanha de Mao Tsé-tung para tornar a China uma nação desenvolvida e socialmente justa em tempo recorde] está se repetindo como a comédia do acelerado Grande Salto Adiante capitalista para a modernização, com o velho slogan "fundição de ferro em cada vilarejo" ressurgindo como "um arranha-céu em cada rua". Ou, para dizer de uma maneira brutalmente irônica, a liquidação dos inimigos nos expurgos maoístas dá lugar à liquidação total dos estoques nos centros de comércio.

Mao Tsé-tung, o grande capitalista?

Alguns esquerdistas ingênuos alegam que o legado da Revolução Cultural e o maoísmo em geral atuam como força contrária ao capitalismo desenfreado, evitando seus piores excessos, mantendo um mínimo de solidariedade social. E se, entretanto, o caso for exatamente o oposto? E se, numa espécie de malandragem involuntária e, por isso mesmo, ainda mais cruelmente irônica, a Revolução Cultural, com seu apagamento brutal de tradições passadas, foi um "choque" que criou as condições para a subsequente explosão capitalista? E se a China tiver de ser adicionada à lista de Naomi Klein de Estados nos quais uma catástrofe natural, militar ou social abriu o caminho para uma nova explosão capitalista?

Mao Tsé-Tung: criador das condições ideológicas para  o rápido desenvolvimento capitalista.

A suprema ironia da história é tal que foi o próprio Mao quem criou as condições ideológicas para o rápido desenvolvimento capitalista demolindo a base da sociedade tradicional. Qual foi o seu clamor para o povo, especialmente para os jovens, na Revolução Cultural? "Não esperem que outra pessoa lhes diga o que fazer, vocês têm o direito de se rebelar! Então pensem e ajam por si próprios, destruam relíquias culturais, denunciem e ataquem não apenas os mais velhos, mas também o governo e oficiais do partido! Varram do mapa o mecanismo repressor estatal e organizem-se em comunas!" E o clamor de Mao foi ouvido – o que se seguiu foi uma explosão de paixão desenfreada que visava deslegitimar todas as formas de autoridade, de modo que, no fim, Mao teve de chamar o exército para restabelecer alguma ordem. O paradoxo é tal que a batalha-chave da Revolução Cultural não se deu entre o aparato do Partido Comunista e os inimigos tradicionais denunciados, mas entre exército e Partido Comunista e as forças que Mao havia invocado.

Confrontar a limitação da democracia parlamentar

Isso não significa, é claro, que devamos renunciar à democracia em favor do progresso capitalista. Mas deveríamos confrontar a limitação da democracia parlamentar representativa, bem formulada por Noam Chomsky quando disse que "é apenas quando a ameaça de participação popular é superada que formas democráticas podem ser contempladas com segurança" e, dessa forma, destacou o núcleo "apassivador" da democracia parlamentar que a torna incompatível com a auto-organização política direta do povo.

Walter Lippmann, o ícone do jornalismo norte-americano no século 20, desempenhou um papel fundamental na compreensão da democracia estadunidense. Apesar de politicamente progressista (tendo defendido uma relação justa com a União Soviética etc.), propôs uma teoria da mídia pública que tem um arrepiante efeito de verdade. Ele cunhou a expressão "manufatura do consentimento", mais tarde tornada famosa por Chomsky – mas Lippmann a pensou de uma maneira positiva. Em Public opinion (1922), ele escreveu que "uma classe governante" deve se erguer para enfrentar o desafio – ele via o povo à maneira de Platão, como uma enorme besta ou um rebanho perplexo – debatendo-se no "caos das opiniões locais".

Assim, o rebanho de cidadãos deve ser governado por "uma classe especializada cujos interesses não se limitem à sua localidade" – essa elite deve agir como uma maquinaria de conhecimento que remedia o defeito primário da democracia, o ideal impossível do "cidadão onicompetente".

Cada cidadão é um rei

É assim que funcionam nossas democracias: com nosso consentimento. Não há mistério no que Lippmann estava dizendo. É um fato óbvio; o mistério reside no fato de que, cientes disso, nós jogamos esse jogo. Agimos como se fôssemos livres e estivéssemos decidindo livremente, não só aceitando silenciosamente, mas até mesmo exigindo que uma injunção invisível (inscrita na própria forma de nosso discurso livre) nos diga o que fazer e pensar. Como há muito já sabia Marx, o segredo está na própria forma.

Reprodução

Iraque: cidadãos saem em massa para votar em sua primeira "eleição livre", em 2005.

Nesse sentido, numa democracia, cada cidadão ordinário é efetivamente um rei – mas um rei numa democracia constitucional, um rei que decide apenas formalmente, cuja função é a de assinar medidas propostas pela administração executiva. É por isso que o problema dos rituais democráticos é homólogo ao grande problema da democracia constitucional: como proteger a dignidade do rei? Como manter a aparência de que o rei de fato decide, quando todos sabemos que isso não é verdade? Trotski estava, portanto, certo em sua reprovação da democracia parlamentar, que não se deve ao fato de ela dar demasiado poder às massas incultas, mas, paradoxalmente, ao fato de ela apassivar demasiadamente as massas, deixando a iniciativa para o aparato de poder estatal (diferentemente do que ocorreria nos "sovietes", nos quais as classes trabalhadoras se mobilizam de maneira direta e exercem o poder).

A crise da democracia

O que chamamos "crise da democracia" não ocorre, portanto, quando as pessoas deixam de acreditar em seu próprio poder, mas, ao contrário, quando deixam de confiar nas elites, naqueles de quem se espera que saibam por elas e que as orientem, quando experimentam a ansiedade que indica que "o (verdadeiro) trono está vago", que a decisão é agora de fato sua. Há, assim, nas "eleições livres" sempre um aspecto mínimo de polidez: os que estão no poder educadamente fingem não reter o poder e nos pedem que decidamos livremente se queremos dar-lhes o poder – uma forma que imita a lógica de um gesto que se espera que seja recusado.

Ou, posto em termos da Vontade Popular: a democracia representativa em sua própria noção envolve um apassivamento da Vontade Popular, sua transformação em não voluntariedade – a voluntariedade é transferida para o agente que representa o povo e que exerce a vontade em seu lugar.

Quando alguém é acusado de comprometer a democracia, deveria então responder com uma paráfrase da réplica à similar acusação (de que os comunistas estão comprometendo a família, a propriedade, a liberdade etc.) no Manifesto comunista: a própria ordem dominante já os está comprometendo. Da mesma forma que a liberdade (de mercado) é não liberdade para aqueles que vendem sua força de trabalho, da mesma maneira que a família é comprometida pela família burguesa sob a forma de prostituição legalizada, a democracia é comprometida por sua forma parlamentar com seu concomitante apassivamento da grande maioria e os crescentes privilégios executivos implicados pela contagiosa lógica de estado de emergência.

Tipos de corrupção na democracia

Badiou propôs uma distinção entre dois tipos (ou, antes, níveis) de corrupção na democracia: a corrupção empírica de fato e a corrupção que é inerente à própria forma da democracia com sua redução da política à negociação de interesses privados. Essa separação torna-se visível nos casos (raros, admita-se) em que um político "democrático" honesto luta contra a corrupção empírica ao mesmo tempo em que apoia o espaço formal da corrupção. (Claro que também ocorre o caso oposto do político empiricamente corrupto que age em favor da ditadura da Virtude.)

Tendo em vista a distinção benjaminiana entre violência constituída e constituinte, seria possível dizer que estamos lidando com a distinção entre a corrupção constituída (casos empíricos de violação da lei) e a corrupção "constituinte" da própria forma de governo:

"Se a democracia é uma representação, em primeiro lugar ela representa o sistema geral que sustenta sua forma. Em outras palavras, a democracia eleitoral só é representativa na medida em que é antes a representação consensual do capitalismo, hoje chamado de ‘economia de mercado’. Tal é a sua corrupção em princípio." (Alain Badiou, De quoi Sarkozy est-il le nom?)

Essas linhas de Badiou deveriam ser tomadas em seu sentido mais estritamente transcendental: é claro que no nível empírico a democracia liberal multipartidária "representa" – espelha, registra, mede – a dispersão quantitativa das diferentes opiniões das pessoas, o que elas pensam sobre os programas propostos pelos partidos e sobre seus candidatos etc.; no entanto, mais importante que esse nível empírico e num sentido muito mais "transcendental", a democracia liberal multipartidária "representa" – institui – uma certa visão de sociedade, política e do papel que os indivíduos nela têm.

A indiferença política das pessoas

A democracia liberal multipartidária "representa" uma visão muito precisa da vida social na qual a política se organiza em partidos que competem por meio de eleições para exercer o controle sobre o estado legislativo e o aparato executivo etc. Deve-se sempre estar ciente de que essa "moldura transcendental" nunca é neutra – ela privilegia certos valores e práticas.

Essa não neutralidade torna-se palpável nos momentos de crise ou indiferença, quando experimentamos a incapacidade do sistema democrático de captar o que as pessoas de fato querem ou pensam – essa incapacidade foi demonstrada por fenômenos anômalos como as eleições britânicas de 2005: apesar da crescente impopularidade de Tony Blair (ele era constantemente eleito a pessoa mais impopular do Reino Unido), não houve meio de esse descontentamento encontrar uma expressão política efetiva.

Havia algo de obviamente problemático nesse caso – não que as pessoas "não soubessem o que queriam", mas, antes, a resignação cínica as impediu de agir de acordo com essa vontade, de modo que o resultado foi o estranho desencontro entre o que as pessoas pensavam e como elas agiram (votaram).

Já Platão, em sua crítica à democracia, mostrava-se totalmente ciente desse segundo tipo de corrupção; e essa crítica também é claramente discernível no favorecimento jacobino da Virtude: na democracia no sentido de representação e negociação da pluralidade de interesses privados, não há espaço para a Virtude. É por esse motivo que, na revolução proletária, a democracia tem de ser substituída pela ditadura do proletariado.

Eleições não são um meio de Verdade

Não há razão para desprezar as eleições democráticas; deve-se apenas insistir que não existe uma indicação per se da Verdade – como regra, elas tendem a refletir a doxa predominante determinada pela ideologia hegemônica.

Tomemos um exemplo que certamente não é problemático: a França em 1940. Até Jacque Duclos, o segundo homem do Partido Comunista Francês, admitiu numa conversa particular que se, àquela altura da história, eleições livres tivessem ocorrido na França, o marechal Pétain teria ganhado com 90% dos votos. Quando De Gaulle, em seu ato histórico, recusou-se a reconhecer a rendição aos alemães e continuou a resistir, alegando que apenas ele, e não o regime de Vichy, falava em nome da verdadeira França (em nome da verdadeira França como tal, não apenas em nome da "maioria dos franceses"!), o que ele estava dizendo era profundamente verdadeiro ainda que do ponto de vista "democrático" fosse não apenas ilegítimo como também claramente oposto à opinião da maioria do povo francês…

Pode haver eleições democráticas que sancionem um evento de Verdade – uma eleição na qual, contra a inércia cético-cínica, a maioria "desperte" momentaneamente e vote contra a opinião ideológica dominante -, porém, o caráter bastante excepcional de um tal surpreendente resultado eleitoral prova que as eleições como tal não são um meio de Verdade.

A ascensão do capitalismo autoritário

É esse potencial autêntico da democracia que vem perdendo terreno para a ascensão do capitalismo autoritário, cujos arroubos se aproximam cada vez mais do Ocidente – de acordo, é claro com os "valores" de cada país. O capitalismo de Putin com "valores russos" (demonstração brutal de poder), o capitalismo de Berlusconi com "valores italianos" (uma postura cômica)…

Berlusconi: uma democracia daqueles que ganharam graças à inércia, que reinam por meio da desmoralização cínica.

Tanto Putin quanto Berlusconi governam em uma democracia que é cada vez mais reduzida para sua casca vazia e ritualizada e, a despeito da situação econômica que se degrada rapidamente, ambos gozam de amplo (acima de dois terços dos votos) apoio popular. Não admira que sejam amigos pessoais: cada um deles apresenta tendência a escândalos ocasionais e "espontâneos" (que são, pelo menos no caso de Putin, preparados com antecedência para que se adéquem ao "caráter nacional" russo). De tempos em tempos, Putin gosta de usar um palavrão vulgar ou de soltar uma ameaça obscena – quando, há alguns anos, um jornalista ocidental lhe fez uma pergunta desagradável sobre a Chechênia, Putin retrucou que, se ele ainda não fosse circuncidado, estava cordialmente convidado a visitar Moscou, onde há excelentes cirurgiões que poderiam circuncidar seu pênis com um corte um pouco mais profundo que o habitual…

Itália: laboratório da barbárie futura?

A imagem de um Berlusconi como um líder "humano, demasiado humano" aqui é crucial, já que a Itália de hoje é uma espécie de laboratório experimental do nosso futuro. Se nossa cena política se dividir entre a tecnocracia permissiva liberal e o fundamentalismo populista, a grande façanha de Berlusconi foi a de unir os dois, de ser os dois ao mesmo tempo. Talvez seja essa combinação que o torne invencível, ao menos no futuro próximo: os remanescentes da "esquerda" italiana agora o aceitam resignadamente como seu Destino. Essa silenciosa aceitação de Berlusconi como Destino é talvez o mais triste aspecto do seu reino: sua democracia é uma democracia daqueles que ganharam graças à inércia, que reinam por meio da desmoralização cínica.

A fórmula do "antissemitismo razoável" foi mais bem elaborada em 1938 por Robert Brasillach, que se viu como um antissemita "moderado":

"Nós nos permitimos aplaudir Charlie Chaplin, um meio judeu, nos cinemas; admirar Proust, outro meio judeu; aplaudir Yehudi Menuhin, um judeu; e a voz de Hitler é carregada por ondas de rádio que receberam seu nome do judeu Hertz (…) Nós não queremos matar ninguém, nem queremos organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor maneira de conter as sempre imprevisíveis ações do antissemitismo instintivo é organizar um antissemitismo razoável."

Não é essa a mesma atitude dos atuais governos europeus ao lidar com a "ameaça imigrante"? Depois de rigorosamente rejeitar o racismo populista direto como "irracional" e inaceitável para nossos padrões democráticos, eles endossam medidas "razoavelmente" racistas e protetoras… ou, como Brasillachs de hoje, ainda que alguns deles sejam social-democratas, nos dizem:

"Nós nos permitimos aplaudir os esportistas africanos e europeus orientais, os doutores asiáticos, os programadores de software indianos. Nós não queremos matar ninguém, nós não queremos organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor maneira de conter as sempre imprevisíveis e violentas medidas defensivas anti-imigrante é organizar uma proteção anti-imigrante razoável."

Essa visão de desintoxicação do Vizinho apresenta uma clara passagem do barbarismo direto para o barbarismo berlusconiano com rosto humano.

Tradução: Abilio Godoy

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

Mundo da lua

Há 40 anos a Nasa lançou o foguete Apollo 11, levando o homem à Lua. A missão foi bem-sucedida e deixou trunfos para a era pós-Apollo.

Joel Achenbach
Foto: Nasa

Mundo da lua

Em dezembro de 1972, na última das seis missões Apollo que pousaram na Lua, o astronauta Harrison H. "Jack" Schmitt, Ph.D. em geologia, recolhe amostras de pedras a bordo do veículo de exploração lunar, ou "jipe da Lua".

Até hoje, é quase inacreditável: "Homem caminha sobre a Lua". Ao lado dessa manchete, tudo parece banal. Os acontecimentos mais importantes desde o dia 20 de julho de 1969 envolveram guerras, escândalos, terrorismo, desastres. Talvez devêssemos reconhecer o valor da invenção da internet e da decodificação do genoma humano. Também não é que tenhamos ficado atolados nesses últimos 40 anos.
Mas nada se sobrepõe ao programa Apollo. As viagens à Lua foram feitos tão exuberantes que, até hoje, há gente que se recusa a acreditar que elas de fato ocorreram. As missões Apollo exigiram uma combinação de criatividade tecnológica, coragem e predisposição nacional (leia-se: muito dinheiro dos contribuintes), sem contar o fato de que ocorreram em um momento político propício.
Como sabemos o desfecho da história, é difícil lembrar como a ida à Lua foi audaciosa, como foi cheia de incerteza – e perigosa. As missões Apollo usavam, diferentemente das Mercury ou Gemini que as precederam, um foguete novo, o Saturn V, que tinha
110 metros de altura e era carregado com 2,7 milhões de quilos de oxigênio líquido explosivo e inflamável, além de outros materiais propulsores. Todas as pessoas sensatas fizeram questão de ficar a quilômetros da nave na plataforma de lançamento. Três astronautas se acomodariam na parte de cima dela. Então a coisa entraria em ignição e uma explosão os carregaria para o espaço sideral.
Os tripulantes seriam carregados até um outro mundo, tão distante que nosso planeta se transformaria em uma bolinha de gude azul tão pequena que poderia ser escondida por um polegar esticado. Depois, teriam que pousar. Não é possível usar pára-quedas em um mundo sem ar. Ninguém sabia se a superfície da Lua comportaria o peso de um astronauta, muito menos de uma nave espacial. Existia a hipótese de que o módulo lunar – o pequeno invólucro que desceria até a superfície da Lua com a ajuda de foguetes – pudesse afundar depois do pouso. Ou que a poeira, em contato com o oxigênio contido dentro do módulo, pudesse entrar em combustão.
Os astronautas precisavam encontrar um local plano para pousar, porque se o módulo lunar tombasse, nunca mais conseguiriam sair da Lua. Chegar até lá não era a parte mais difícil – o maior problema seria voltar para casa. Eles teriam que executar o lançamento da Lua, encontrar com o módulo de comando na órbita lunar e então colocar o motor para funcionar mais uma vez, para ganhar impulso até a Terra, onde re-entrariam na atmosfera a 11 quilômetros por segundo. Eles se transformariam em uma bola de fogo e cairiam de pára-quedas no meio do Pacífico, onde esperariam que alguma pessoa gentil fosse recolhê-los.
Na época, os entusiastas consideraram a visita à Lua como a primeira de muitas façanhas ousadas fora da Terra. Mas as previsões não se tornaram realidade. O pouso na Lua não representou o início da conquista inexorável do espaço. O que podemos dizer é que ela sinalizou o final de uma era. Os americanos ficaram emocionados com a missão Apollo 11 e entediados com a Apollo 12. O drama da Apollo 13 – o fracasso glorioso que deve ter sido o ápice da Nasa – ajudou a fazer o público se lembrar de que ir à Lua não era tão fácil quanto lançar um frisbee. O projeto Apollo já estava sendo podado quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram na Lua. A Nasa, pressionada pelos matemáticos do Congresso, cancelou várias missões à Lua. Fomos até lá, demos uma olhada, conquistamos e então cortamos o orçamento.
A era pós-Apollo deixou sua marca com triunfos, por exemplo quando os astronautas a bordo do ônibus espacial consertaram o telescópio espacial Hubble. A construção da Estação Espacial Internacional (ISS na sigla em inglês, International Space Station) é uma conquista notável da engenharia. Mas o simples objetivo da exploração se perdeu no meio da burocracia do programa espacial. O intuito inicial da invenção do ônibus espacial, que era transformar as viagens espaciais em algo rotineiro, revelou-se tanto uma idéia impossível de tão ambiciosa (o programa já tirou a vida de duas tripulações e continua sendo perigoso) e imprudente do ponto de vista político (porque as pessoas nem dão mais atenção às viagens).

Nenhum ser humano saiu da órbita da Terra desde a última missão à Lua, em 1972. Os europeus, os chineses e os japoneses têm programas espaciais robustos. No futuro próximo, empreendedores bilionários contam com a venda de viagens espaciais a meros milionários. E o programa espacial civil nos Estados Unidos tem um plano elaboradíssimo de retorno à Lua (quem sabe até uma missão tripulada a Marte). Mas ninguém precisa ser cínico para ficar imaginando quando e como e se haverá dinheiro para promover mais uma viagem à Lua.
Colocar seres humanos na Lua seria um enorme feito da engenharia – mais uma vez -, e pode render inovações que nem somos capazes de imaginar hoje, mas a conquista principal de chegar até lá e voltar em segurança teria que ser construída sobre o estilo de arquitetura das missões Apollo. O que foi feito na década de 1960 é bem parecido com o que faremos na de 2020.
O programa Apollo aconteceu por causa da guerra fria. A viagem complicada teria que ser feita até o fim de 1969, devido à promessa do presidente americano Kennedy de colocar um homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra em segurança, "antes do fim desta década". Afinal, tratava-se de uma corrida contra a União Soviética. Os russos inauguraram a era espacial com o minúsculo satélite Sputnik, em 1957. Alardearam ao mundo sua vantagem em relação à tecnologia dos mísseis. A ciência dos foguetes e dos mísseis andava de mãos dadas; a história do programa Apollo está conectada intimamente à história da corrida das armas nucleares. O espaço era, assim como a Coréia e o Vietnã, um campo de batalha terceirizado em que as superpotências se enfrentavam.
Nos primeiros anos, os foguetes dos soviéticos eram mais potentes, e seu programa espacial tinha conseguido obter número maior de conquistas. Sua superioridade foi comunicada ao mundo em 1961, quando o cosmonauta russo Yuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a ir para o espaço e orbitou a Terra. Alan Shepard, um dos famosos astronautas das sete missões Mercury originais, chegou ao espaço um mês depois e, apesar de ter realizado apenas um vôo suborbital, seu feito serviu para mostrar que os Estados Unidos estavam no jogo.
Ambos os programas espaciais sofreram tragédias e fiascos. O segundo vôo espacial americano acabou mal: a cápsula afundou ao retornar e o astronauta Gus Grissom quase morreu. Grissom, juntamente com Roger Chafee e Ed White, faleceu no início de 1967, quando a cápsula da Apollo 1 pegou fogo num treinamento em Cape Canaveral. A tragédia fez o programa recuar quase dois anos. Os soviéticos também sofreram fatalidades, mas elas foram abafadas – atitude típica da do regime político fechado de Moscou na época.
O programa lunar soviético emperrou depois da morte repentina de seu líder, Sergei Korolev, e depois de vários testes fracassados do N-1, um gigantesco foguete lunar. Talvez também não tenha dado certo porque, apesar de os planejadores centrais soviéticos terem sido eficientes na construção de coisas grandes, como metrôs, tanques e foguetes, os vôos espaciais envolvem muitos detalhes, criatividade, contingências e descobertas fortuitas. Para que dêem certo, às vezes é necessário meter as caras sem saber em que terreno se está pisando.
Todos nos lembramos – pelo menos aqueles entre nós que têm idade para isso – de onde estávamos quando Armstrong desceu aquela escadinha. Mas poucos de nós têm noção de como o pouso da Eagle foi complicado.
Quando Armstrong e Aldrin se aproximaram da superfície, um alarme começou a soar. O computador exibiu o código de alerta 1202. Nenhum dos dois astronautas sabia o que aquilo significava. Na verdade, o computador avisava que estava sobrecarregado de dados. Na central de controle em Houston, os especialistas decidiram ignorar o fato e permitir que o Eagle prosseguisse no pouso.

Armstrong, que pilotava a descida, percebeu que eles estavam indo direto para uma cratera cheia de pedras bem grandes. Foi preciso sobrevoar a cratera em busca de outro ponto de pouso – quilômetros além do local inicialmente previsto. E o nível de combustível estava baixo.
"Sessenta segundos", informou o centro de controle. Só havia mais um minuto de combustível. Armstrong mal enxergava. Os foguetes levantavam poeira. Parecia que estava voando dentro de uma nuvem. "Trinta segundos."
Em Houston, o pessoal estava tendo ataques do coração. O mundo assistia, mas não tinha como compreender que os astronautas estavam mesmo muito próximos de um desastre. O coração de Armstrong, que era o protótipo do astronauta calmo e quase robótico, começou a bater a 156 pulsações por minuto durante sua concentração para pousar a cápsula. "Luz de contato!", Aldrin gritou. Uma luz indicava que um pino na parte de baixo de uma das pernas do aparelho tinha encostado em solo firme.
A humanidade é uma espécie imperfeita, e talvez por isso mesmo as palavras ditas pelo homem que pisou na Lua pela primeira vez tenham parecido atabalhoadas. "Este é um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade", declarou Armstrong. O que ele queria dizer era "um pequeno passo para um homem". Há quem diga que o artigo se perdeu na transmissão.
Em última instância, tanto faz: apesar de falarmos de forma imperfeita, aprendemos a compreender o sentido geral do que as pessoas querem transmitir. Nós sabíamos o que ele queria dizer. E gostamos do que falou.
Será que as missões Apollo tiveram mesmo toda essa importância? Elas não venceram o regime soviético, que se arrastou por mais duas décadas. Os críticos do programa Apollo gostam de dizer que as únicas coisas que sobraram foram "bandeiras e pegadas". Já foi chamado de encenação – a maior encenação de todos os tempos.
O fato é que nós simplesmente precisávamos chegar até lá. A exploração está no nosso DNA. E como é que podemos colocar preço naquelas imagens absurdas dos astronautas na Lua? Pense na visão maravilhosa do veículo de exploração lunar sacudindo por sobre as colinas e os vales alienígenas, lembrando a nós de que os seres humanos não gostam de ir a lugar nenhum sem carro. Há 400 anos, Galileu olhou através de seu telescópio e enxergou algo que se assemelhava a montanhas na Lua. Claro que era necessário ir conferir mais de perto.
Pode ser que a exploração espacial sofra mudanças fundamentais. Talvez, em breve, as pessoas possam explorar Marte, Europa, Titã e um ou dois cometas da maneira como fazem tudo hoje em dia: online. Com um aparelho portátil. Vão apertar o botão de "ignorar" ao receberem uma ligação enquanto estiverem ocupadas manobrando um veículo de exploração na superfície de Mercúrio.
A vida no século 21 envolve cada vez mais elementos eletrônicos e virtuais. Ninguém precisa estar lá em carne e osso. Mas, em 1969, isso era a coisa mais importante. Ninguém se lembra de que os soviéticos tentaram fazer uma sonda não tripulada pousar na Lua na mesma época que a Apollo 11 (a sonda se acidentou). Apollo 11 tinha a ver com a ingenuidade humana, com coragem, com risco.
Apollo serviu para estabelecer padrões de excelência tecnológica. Tudo que sobrou de antiquado na sociedade ganhou tal contorno: se pudemos colocar um homem na Lua, por que não conseguiremos fazer tal e tal?
E, a isso, uma das respostas possíveis é a seguinte: para falar a verdade, só conseguimos colocar um homem na Lua com esforço extraordinário e coragem, sob circunstâncias muito específicas. Continua sendo difícil de acreditar que isso aconteceu, mesmo 40 anos depois.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

Atlas revela perfil agrário do país

Redação do Jornal Unesp

A política agrária brasileira nas últimas décadas não alterou a elevada concentração de terras e o modelo agrícola voltado para culturas de exportação, nem melhorou o volume de oportunidades de trabalho no campo, além de ter contribuído para a devastação da floresta amazônica. A conclusão é do geógrafo Eduardo Girardi, autor de um abrangente e detalhado atlas sobre o setor agrário brasileiro, resultado de sua tese de doutorado desenvolvida na Faculdade de Ciências e Tecnologia, câmpus de Presidente Prudente (FCT).

Sustentado por cerca de 300 mapas, o estudo de Girardi aborda a pobreza, o desmatamento, a distribuição da posse fundiária, o agronegócio, os conflitos agrários e a política de assentamentos dos últimos anos. “Através do mapeamento, foi possível identificar a configuração da estrutura agrária e como ela pouco contribui para o desenvolvimento social no campo”, afirma.
A pesquisa constata que os imóveis rurais ocupam quase a metade do território brasileiro. De 1992 a 2003, devido à incorporação de terras públicas a programas de reforma agrária, a área que eles englobam cresceu 35%, passando de 310 milhões para 410 milhões de hectares. O número de propriedades no campo aumentou 47%, de 2,9 milhões para 4,2 milhões.
Concentração
No entanto, essas transformações não reduziram a concentração da posse da terra. Girardi ressalta que tal fenômeno pode ser medido pelo índice de Gini, em que 1,0 é valor máximo da concentração: em 1992, ele era de 0,826, e, em 2003, passou para 0,816.
A situação se evidencia também nas diferenças entre as áreas destinadas às pequenas, médias e grandes propriedades. Em 2003, os pequenos imóveis, com tamanho médio abaixo de 200 hectares, representavam 92% do total de propriedades, mas ocupavam apenas 28% da área agrária. As propriedades de médio porte, de 200 a 2 mil hectares, respondiam por 6% do total de imóveis e 36% da área. Já aquelas acima de 2 mil hectares, embora não chegassem a 1% do total, ocupavam 35% da área do setor.
“Das novas terras incorporadas na estrutura fundiária brasileira, de 1992 a 2003, o porcentual das pequenas propriedades cresceu pouco, para 93% do total dos imóveis e para 34% da área; já as médias e grandes, somadas, atingiram 7% do total de imóveis e 66% da área”, comenta Girardi.
O geógrafo explica que, se a taxa de crescimento do número de imóveis for superior à taxa de crescimento de sua área, ocorre uma evolução desconcentradora das propriedades rurais; no caso contrário, há concentração. “A partir da interpretação dos dados, verificamos que a evolução no Sul foi desconcentradora, no Sudeste e Nordeste foi equilibrada, e no Norte e Centro-Oeste foi concentradora”, esclarece.
A partir das informações do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Girardi também assinala que, em 1998, cerca de 75,4 milhões de hectares de terras exploráveis não tinham nenhuma atividade produtiva – o correspondente a 23% da área agricultável do País. Das terras não exploradas, 45% se localizavam na Região Norte, 24% no Nordeste, 26% no Centro-Oeste, 2% no Sudeste e 1,9% no Sul.
Modelo agrário
O estudo mostra, ainda, que o atual modelo agrário não tem contribuído para criar empregos e fixar o homem no campo. Nos últimos dez anos, cerca de 1,5 milhão de pessoas deixaram as atividades agropecuárias. De acordo com o Censo Agropecuário 2006 do IBGE, 16 milhões de pessoas estavam então ocupadas nos estabelecimentos agropecuários. As pequenas propriedades rurais empregavam 87% do total de postos de trabalho no campo, enquanto as grandes ficavam com apenas 2,5%.
Comentando as conclusões do atlas, o economista José Gilberto de Souza, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), câmpus de Jaboticabal, lembra que, em 2008, o setor sucroalcooleiro recebeu cerca de R$ 6,5 bilhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Porém, os dados revelam a redução do número de trabalhadores por hectare nessas áreas.
Girardi enfatiza que os investimentos confirmam um direcionamento da agricultura brasileira para o agronegócio. “A alta produtividade está concentrada no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, em contraste com a estagnação do Norte e Nordeste, onde grande parte dos imóveis não dispõe sequer de tratores”, observa. O geógrafo lembra que a concentração da estrutura fundiária no Brasil está inserida no modelo de desenvolvimento exportador.
Em 2006, dos US$ 46 bilhões do superávit total da balança comercial (que envolve a relação entre exportações e importações), US$ 42 bilhões foram obtidos pelo setor agropecuário. Cerca de 80% das exportações agropecuárias brasileiras são de apenas nove produtos (soja, carnes, cana-de-açúcar, café, couro, fumo, laranja, produtos florestais e algodão), que ocupam 74% de toda área plantada no País. “Enquanto isso, em 2004, cerca de 15 milhões de brasileiros com carência alimentar viviam no campo”, aponta Girardi.
Para Souza, o modelo agrário baseado na concentração fundiária precisa ser revertido. “A reforma agrária e o desenvolvimento da agricultura familiar devem estar inseridos em uma estratégia vinculada à produção alimentar”, acrescenta.
Ocupações e assentamentos – Como reação a esse modelo, Girardi assinala que trabalhadores rurais sem oportunidades ocupam áreas para ter uma opção de renda e vida. O Atlas mostra que, de 1988 a 2006, houve cerca de sete mil ocupações de terras no Brasil, com mais de um milhão de famílias envolvidas, que se concentraram no centro-sul, leste e nordeste do País. “Essas são as áreas onde a reforma agrária tem sentido, pois desconcentra as terras e otimiza a sua utilização”, argumenta Girardi.
Entre 1988 e 2006, os programas de reforma agrária criaram 7.666 assentamentos – áreas destinadas a pequenos agricultores -, em 64,5 milhões de hectares, beneficiando cerca de 900 mil famílias. Eles se concentraram, em sua maioria, na Região Norte, junto à fronteira agropecuária. Apenas na Amazônia Legal, foram assentadas 62% das famílias, sendo que nas Regiões Sul e Sudeste, apenas 28%. “As famílias foram assentadas na região amazônica, em grande parte em terras públicas, sem a infra-estrutura necessária de transporte, serviços de saúde, educação e assistência técnica”, aponta o pesquisador.
Outra análise do trabalho de Girardi ilumina a violência no campo. Nos últimos 20 anos, 1,1 mil trabalhadores rurais foram assassinados e cerca de 19 mil famílias foram retiradas de áreas ocupadas. “Por fazer parte da fronteira agropecuária, o leste do Pará e o norte do Maranhão foram as regiões com maior concentração dos conflitos, afirma.
Cooperativismo
O professor Roberto Rodrigues, da FCAV e ex-ministro do governo Lula, considera que a agricultura brasileira não deve se sustentar a partir de “obras de caridade”, em que se converteu, segundo ele, a política de assentamentos rurais. Rodrigues defende o modelo de cooperativas de agricultores com vocação e conhecimento para a cultura agrícola. “Neste modelo, ganham os agricultores, o governo e a população, que terá produtos de melhor qualidade”, avalia.
Rodrigues destaca que a terra representa apenas 15% do valor de um empreendimento agrário. “A agricultura precisa de crédito, conhecimento técnico e infra-estrutura de escoamento da produção”, afirma. Ele discorda do argumento de que não haveria apoio ao pequeno produtor. “O governo tem aumentado significativamente o crédito para a agricultura familiar, implantou o seguro gratuito de safra e a produção vinculada à distribuição de cestas básicas pelas prefeituras próximas”, enfatiza.
Banco de dados
O Atlas agrário servirá como um banco de dados para consulta pública e suporte para pesquisas acadêmicas. Uma versão impressa deverá ser publicada até o final do ano, mas o material pode ser acessado no site do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (Nera – http://www.fct.unesp.br/nera/atlas).
Com apoio da Fapesp, Girardi utilizou dados de IBGE, Incra, Comissão Pastoral da Terra, Ministério do Trabalho e Emprego, INPE e FAO (Food and Agriculture Organization).
Para o orientador da tese, o professor Bernardo Mançano Fernandes, o Atlas é o mais completo sobre o tema produzido até hoje no Brasil. “É um marco do estado da arte do conhecimento de tudo que foi estudado no Nera que servirá de referência aos estudiosos de diversas áreas do conhecimento e na elaboração de políticas públicas”, aponta.

Política para setor estimulou desmatamento
Nos últimos 11 anos, cerca de 54 milhões de hectares da floresta amazônica foram desmatados, conforme dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial). No mesmo período, na região, a atividade agropecuária se expandiu sobre 23 milhões de hectares, dos quais 45% de pastagens.
Para Girardi, a política agrária das últimas décadas,favorável ao agronegócio e ao latifúndio, foi a responsávelpelo forte desmatamento ocorrido nos nove Estados da Amazônia Legal. “Apesar dos assentamentos instalados na região contribuírem com o desflorestamento, a maior parte dele foi feito por particulares”,diz.
A ocupação da Amazônia começou durante o regime militar, para não se realizar a reforma agrária nas Regiões Sul e Sudeste. “Essa estratégia não mudou com a redemocratização do País”, observa.
Para Girardi, a ocupação de novos espaços da Amazônia é desnecessária, pois as terras já desmatadas que não foram devidamente exploradas, em 2007, somavam 86,7 milhões de hectares na Amazônia Legal. “Isso sem considerar a necessária mudança do sistema técnico-produtivo da agropecuária, que utiliza grandes extensões de terras”, analisa.

Fonte: Envolverde – http://www.envolverde.ig.com.br/

E, no entanto, se move

NOS 400 ANOS DAS OBSERVAÇÕES DE GALILEU, QUE INAUGURARAM A CIÊNCIA MODERNA E SEU CONFLITO COM A IGREJA, PADRE PREMIADO POR UNIÃO ASTRONÔMICA DIZ QUE RELAÇÃO ENTRE ESSAS ÁREAS EVOLUI, MAS LENTAMENTE.

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL

No quarto centenário das observações lunares de Galileu Galilei (1564-1642), o padre americano George Coyne, 76, conseguiu um feito memorável para um líder religioso: receber uma condecoração de uma associação científica.
Tendo dirigido o Observatório do Vaticano por 28 anos, o matemático jesuíta com doutorado em astronomia foi julgado digno de receber o prêmio Van Biesbroeck, da AAS (Associação Americana de Astronomia), concedido àqueles que prestam "generosos serviços de longo prazo" à comunidade acadêmica de astrônomos.
Além de ter criado um curso de verão que introduziu centenas de estudantes jovens na carreira de astronomia, Coyne foi o pesquisador que colocou o observatório numa condição de fazer pesquisa de ponta. Por meio de um convênio com a Universidade do Arizona, onde Coyne leciona, a instituição religiosa construiu um telescópio de primeira linha.
Donna Wiestrop, astrônoma da AAS que coordena o prêmio Van Biesbroeck, diz que aparentemente esta é a primeira vez que a maior associação de astronomia do mundo premia um padre. Os "serviços prestados" por Coyne, porém, vão além de sua área de pesquisa.
Ele escreveu livros e deu grande contribuição ao diálogo entre religião e ciência. Coyne também se meteu em controvérsias por defender a teoria da evolução de Darwin como a melhor explicação científica para a origem do Universo e dos sistemas vivos.
Tal defesa colocou-o em choque contra um cardeal, ex-aluno do papa Bento 16, que advogava o design inteligente. Segundo a imprensa britânica, isso lhe custou o posto no observatório, em 2006. Coyne nega. Em entrevista à Folha por telefone de seu escritório em Tucson (EUA), ele explica como acredita que essa relação conturbada pode amadurecer.

FOLHA – Neste ano a ciência tal qual desenvolvida por Galileu completa quatro séculos. Em sua época, o cientista teve entreveros com a Igreja Católica, e isso parece estar acontecendo ainda hoje, nas igrejas cristãs de um modo geral. Alguma coisa amadureceu nesses 400 anos na relação entre ciência e religião, ou ela continua a mesma?
GEORGE COYNE
- Há muito que pode ser dito sobre o período de Galileu até hoje. Durante esses 400 anos, muitas coisas mudaram na ciência e na igreja. Na época de Galileu, a ciência moderna, tal qual a conhecemos, ainda estava nascendo. Galileu foi um dos pioneiros, com Descartes, Kepler e depois Newton. Partamos desse princípio.
O que aconteceu em 400 anos ou mais foi que a ciência cresceu para se tornar um método muito bem definido de explorar o Universo. Mas é um método muito limitado. Ele busca causas naturais para eventos naturais, e ele foi muito bem sucedido em fazê-lo.
Veja a cosmologia do Big Bang, que é a melhor explicação para todas as observações que já fizemos durante esses 400 anos sobre o Universo. É a melhor explicação científica. Talvez amanhã ela sofra aprimoramentos. É assim que a ciência caminha. Além da cosmologia do Big Bang eu mencionaria a evolução neodarwinsta. É a melhor explicação que temos – se a estendermos para o Universo todo- para todos os processos físicos e biológicos. Ela se aplica diretamente a sistemas vivos, mas vamos estendê-la para o Universo e tudo o que há nele, incluindo nós mesmos. Esses são apenas dois exemplos, entre muitos, mas acho que a maioria das pessoas concordaria que essas são duas das realizações mais significativas da ciência, desde o tempo de Galileu até hoje. Ainda assim, às vezes elas se encontram em grandes controvérsias. A razão pela qual isso ocorre é porque alguns cientistas pisam fora dos limites da ciência. A ciência, como tal, não pode provar a existência de Deus nem prová-la falsa usando sua própria metodologia. Repito: ela se limita a procurar explicações naturais para eventos naturais. E se existe um Deus -a natureza própria de um Deus-, isso está além da natureza.

FOLHA – A Igreja Católica só pediu perdão a Galileu no ano 2000, mas o Observatório do Vaticano é uma instituição bem mais antiga e já tinha começado a fazer astronomia com seriedade antes disso. Quando exatamente as autoridades católicas começaram a mudar de ideia com relação a Galileu?
COYNE
- Não existe uma data precisa. A igreja é como um ser vivo, que cresce e muda com o tempo, assim como qualquer outra instituição. E a mudança foi principalmente em duas áreas: a compreensão das escrituras pela igreja e a compreensão da ciência pela igreja.
Não sou historiador, mas sei que o entendimento da ciência pela igreja só veio a ocorrer do século 18 para o meio do século 19, quando a igreja finalmente removeu todos os livros relacionados ao copernicanismo do Index. Isso foi por volta de 1845. Até um século antes, houve muitas tentativas de correção por parte da igreja, removendo os livros de Copérnico do Index, mas isso nunca tinha sido feito de maneira completa.
A igreja levou tempo para se acomodar às mudanças. Você poderia perguntar quando surgiu a prova do copernicanismo. Mas o que é uma prova em ciência? Acho que você aceitaria como prova a descoberta da paralaxe e a descoberta da aberração da luz.
A paralaxe era explicada da melhor forma pela Terra dando voltas ao redor do Sol. E a aberração é explicada da melhor forma pela Terra circundando o Sol e girando em seu próprio eixo. A aberração da luz da luz das estrelas foi descoberta lá pelo meio do século 17, e a paralaxe, por volta de 1830.
Então, o entendimento da ciência por parte igreja cresceu, assim como a própria ciência cresceu, mas de modo lento. E, quando apareceu o darwinismo, a igreja novamente hesitou. Isso é por causa da compreensão da ciência. Ainda hoje a igreja está elaborando sua compreensão da ciência. O que a ciência faz? Ela não faz tudo. Ela é uma ferramenta muito limitada, mas muito poderosa.

"A ciência não pode provar a existência de Deus nem prová-la falsa usando sua própria metodologia. Ela se limita a procurar explicações naturais para eventos naturais"

FOLHA – E o que isso tem a ver com a compreensão das escrituras pela Igreja Católica?
COYNE
- Um dos grandes problemas na época de Galileu é que a igreja disse que o copernicanismo era claramente contraditório com as escrituras, que em muitos trechos afirmam ou implicam que o Sol esteja se movendo. Mesmo hoje dizemos "o Sol se levanta" e "o Sol se põe". É modo de falar, mas a igreja encarava isso como se a escritura estivesse ensinando ciência. A igreja, depois de quatro séculos, se deu conta de que isso está errado.
Uma grande realização dentro da igreja foi a encíclica "Providentissimus Deus", de Leão 13, que começou a ensinar aquilo que a igreja defende hoje: você deve interpretar as escrituras de acordo com a técnica literária. Você não pode interpretá-las literalmente. E além disso: não há nenhuma ciência nas escrituras. As escrituras começaram a ser compostas por volta de 5.000 a.C., com o patriarca Abraão, até cerca de 200 d.C., mais ou menos. A ciência moderna começou a existir entre os séculos 16 e 17. Como poderia haver alguma ciência nas escrituras? Há uma separação de pelo menos 1.500 anos entre a redação final das escrituras e a ciência moderna. Então, não há nenhuma ciência nas escrituras. Zero. E qualquer um que quiser usar as escrituras de modo científico incorrerá em erros.

FOLHA – Pouca gente esperava que o Vaticano fosse se desculpar pelo episódio de Galileu, muito menos quatro séculos depois, em 2000, com João Paulo 2º. Por que isso foi decidido naquele momento?
COYNE
- Ele sabia que seria um gesto importante. E a razão disso data de muito antes. Antes de ele se tornar papa, quando era cardeal-arcebispo de Cracóvia, ele costumava promover encontros de cientistas, filósofos e teólogos. Ele tinha entusiasmo pelo diálogo entre a cultura científica e a religiosa.
Quando ele se tornou papa, ele se deu conta de que o caso de Galileu, nas palavras dele próprio, ainda era um mito. O mito de que, por causa da controvérsia com Galileu, havia um conflito intrínseco entre a crença religiosa e a ciência. E ele queria acabar com isso. Então, uma das coisas que fez, em um dos primeiros anos de seu papado, foi indicar que ele queria estabelecer uma comissão para tratar disso. Ele foi muito dedicado em estabelecer um diálogo entre a igreja e a ciência e se livrar de coisas negativas do passado. Uma das principais, claro, era Galileu.

FOLHA – A controvérsia envolvendo o darwinismo é em grande parte restrita a países com grande contingente protestante, mas não se ouve falar muito da posição do Vaticano.
COYNE
- Não há documento oficial. Não uma declaração oficial a respeito de evolução e design inteligente. É isso, ponto. Há alguns integrantes da igreja que estão discutindo o assunto. Alguns estão discutindo de maneira inteligente, outros não, porque não entendem o que a ciência é nem o que a evolução representa como explicação científica. João Paulo 2º, em uma mensagem para a Pontifícia Academia de Ciências, disse que a evolução "não é mais uma mera hipótese". Disse que a paleontologia, a geologia, a biologia, a química e a cosmologia, todas convergem no sentido de que a evolução é a melhor teoria científica que temos hoje. O papa Bento 16 ainda não deu declarações de alta importância sobre isso.

FOLHA – Quando o sr. deixou a direção do Observatório do Vaticano em 2006, depois de 28 anos de trabalho, alguns jornais disseram que o papa Bento 16 teria lhe pedido a renúncia por causa de suas críticas ao design inteligente. Isso é verdade?
COYNE
- Não, absolutamente. E não digo isso para me defender, mas para defender a verdade. Eu já tinha pedido renúncia voluntariamente por quatro vezes durante minha gestão. Apesar de amar meu emprego, eu francamente acho que a direção de uma instituição científica precisa sempre de sangue novo. Quando eu completei oito anos na direção, pedi demissão, quando completei 16 anos, pedi de novo, e depois de 24, mais uma vez. Quando pedi após 28 anos na diretoria, eles finalmente a aceitaram.
Fora isso, o papa Bento nunca falou da evolução de maneira negativa e nunca apoiou ou rejeitou o design inteligente. Depende de o que você considera design inteligente. Se você considera que é uma explicação científica, está errado. Não é. Para começar, não conseguimos detectar inteligência pelo método científico. Não conseguimos encontrar o design inteligente na ciência.
Agora, a fé pode me ensinar que tudo isso foi projetado de maneira inteligente, e eu acredito nisso, mas não consigo descobrir isso como cientista.
E uma coisa não está em contradição com a outra. Na verdade, se eu acreditar em Deus, o Universo em evolução me diz um bocado sobre Deus como criador inteligente. Ele criou um Universo que não é uma máquina de lavar, nem um carro, nem um relógio. Ele criou um Universo que tem um dinamismo e uma criatividade próprios. É um "se" importante.

FOLHA – Como foi sua carreira? Por que o sr. veio a se interessar tanto por ciência quanto por religião?
COYNE
- Eu entrei para o seminário como jesuíta aos 18 anos, em 1951. Fiz meus estudos espirituais, meu noviciado, onde estudei história antiga e literaturas latina e grega por dois anos. Também estudei filosofia por três anos, e durante esse tempo conclui minha graduação em matemática. No fim desse período, ainda como seminarista, fui enviado para um doutorado em astronomia e astrofísica. Quando terminei, depois de cinco anos, fui estudar teologia. Depois fui ordenado padre. E, então, comecei minha carreira pesquisando astronomia na Universidade do Arizona. Tudo foi meio emaranhado, e sou feliz com isso.
Não vejo nenhum conflito na minha vida em ser padre e cientista. Acho que ambos complementam um ao outro. Não sou um cérebro ambulante. Sou uma pessoa. E, como todas as pessoas tenho experiências em minha vida: experiências de fé, experiências de amizade… todos nós temos essas emoções.
Temos partes das nossas vidas que tentamos integrar. Isso é o que torna a vida interessante.

FOLHA – O fato de ser jesuíta o influenciou, já que a Companhia de Jesus tem uma tradição em se relacionar com a Academia?
COYNE
- Sim. É uma longa tradição. Após 30 anos da fundação da Companhia de Jesus, em 1540, nós tínhamos um grupo renomado de matemáticos e astrônomos no Colégio Romano, e alguns deles foram contemporâneos de Galileu. Foram os precursores do observatório, e trabalharam para a reforma do calendário. Esses jesuítas foram os primeiros a corroborar as observações telescópicas de Galileu, que foram, claro, o começo da ciência moderna. Nós [jesuítas] realmente temos uma longa tradição de cientistas, mas ela não é exclusiva. Mendel, o pai da genética, era um agostiniano.

"Não vejo nenhum conflito em ser padre e cientista. Acho que ambos complementam um ao outro. Não sou um cérebro ambulante. Sou uma pessoa"

FOLHA – O sr. já enfrentou algum tipo de preconceito no meio científico por ser padre?
COYNE
- Nunca. E trabalhei durante toda a minha carreira como cientista na universidade estadual, que não era um seminário nem uma universidade de afiliação religiosa. Sempre fui muito bem recebido lá, colaborei com pessoas lá em minha pesquisa. Colaborei com pessoas na Finlândia e até no Brasil, na Universidade de São Paulo. Faz tempo que não vou para aí, mas em algumas vezes passei vários meses em São Paulo e no Rio. "Falo um pouco de português brasileiro [falando em português]."

FOLHA – O sr. pretende vir ao Rio neste ano para o encontro da União Astronômica Internacional?
COYNE
- Eu espero conseguir ir. Tenho alguns problemas para resolver, mas acho que conseguirei fazer isso a tempo.

FOLHA – O sr. foi premiado pela AAS, em grande parte por conta dos cursos de verão no Vaticano. O que era esse programa?
COYNE
- Antes de começarmos as escolas de verão, éramos apenas um instituto de pesquisa. Alguns de nós ensinávamos -como eu, no Arizona-, mas isso era pessoal. Não tinha nada a ver com o Observatório do Vaticano. E nós colaborávamos com astrônomos ao redor do mundo. Nós nunca conseguíamos nos relacionar com astrônomos jovens, estudantes. Mas também não podíamos transformar o observatório em um instituição de ensino.
Então, resolvemos criar esse tipo especial de evento, uma escola de verão de um mês em astrofísica, para o qual convidaríamos astrônomos jovens de todo o mundo. Tivemos apoio de nossos superiores no Vaticano para isso, em particular do papa João Paulo 2º, e o projeto deu certo. Chegamos a 11 edições, para onde levamos ao todo 275 jovens do mundo todo, de 22 países, sendo 62% de países em desenvolvimento. As mulheres eram 48%.

FOLHA – O que o sr. tem pesquisado ultimamente?
COYNE
- Eu não tenho sido muito ativo em pesquisa agora porque tenho um trabalho em tempo integral, que é levantar fundos para financiar o nosso telescópio. Mas, quando vim para o Arizona, eu trabalhei com raios e partículas interestelares. Eu trabalhei por muitos anos em estudos de polarização, em meio interestelar, em estrelas com atmosferas estendidas e até em alguns tipos de galáxias. Os estudos de polarização nos ajudam a entender a geometria dos sistemas.

FOLHA – O telescópio com o qual o sr. trabalha foi uma iniciativa do Observatório do Vaticano, não?
COYNE
- Sim. Nos foi oferecida a opção de nos unirmos à Universidade do Arizona quando ela estava começando a trabalhar em uma nova tecnologia de espelhos de telescópios. O primeiro espelho que eles produziram foi o do nosso. Colaboramos no desenvolvimento dessa tecnologia, e nosso telescópio foi o tubo de ensaio dela. E deu tão certo que agora temos como vizinho o maior telescópio do mundo usando essa tecnologia com dois espelhos de oito metros de diâmetro.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Interpretando Galileu

PEÇA DE BERTOLT BRECHT QUE INTRODUZIU A VIDA E OS DILEMAS ÉTICOS DO CIENTISTA ITALIANO A GERAÇÕES DE ESPECTADORES COMPLETA 70 ANOS

"O Galileu de Brecht não aceita a absolvição. Ele afirma ter errado ao abjurar sua doutrina".

TIAGO TRANJAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Galileu: "(…) Repassei o meu caso, e pensei sobre o juízo que o mundo da ciência (…) deverá fazer a respeito."
Duas bombas atômicas -e uma guerra, a emigração para os EUA, o macartismo, o retorno para a Alemanha Oriental- separam o texto final de "A Vida de Galileu" (1955) de sua primeira versão, escrita por Bertolt Brecht em 1939, durante o exílio na Dinamarca.
A peça, considerada por muitos o ponto culminante do teatro brechtiano, introduziu gerações de plateias ao personagem Galileu, não apenas como genial cientista, mas como portador de um dilema ético central para toda a ciência contemporânea. Essa ciência que, justamente a partir da Renascença, foi ganhando relevância progressiva, até se tornar importante força de moldagem social, ao mesmo tempo em que se institucionalizava e se profissionalizava.
Um antigo discípulo: "O senhor escondeu a verdade, diante do inimigo. Também no campo da ética o senhor estava séculos adiante de nós (…) O senhor fugia meramente a uma briga política sem chances, para avançar o trabalho verdadeiro da ciência".
Em retiro forçado, após abjurar a doutrina heliocêntrica de Copérnico devido às ameaças da Inquisição, Galileu prossegue solitariamente seu trabalho científico. É nessas condições que escreve sua obra máxima, os "Discursos sobre Duas Novas Ciências". Com ela, a ciência começa a assumir a forma como a conhecemos hoje, como descrição matemática do mundo, baseada na livre investigação dos fatos. Galileu aparece envolvido, aqui, em uma luta grandiosa: para libertar a ciência do jugo da religião, dos preconceitos intelectuais, da tirania ideológica. Para ele, o livro da natureza está aberto para quem deseje ler; e o valor a ser buscado é a verdade, o conhecimento. Delineiam-se nessa luta valores que viriam a ser vistos como fundamentais para a ciência: imparcialidade, autonomia e neutralidade. Valores cognitivos puros. Valores da busca pelo conhecimento.
Galileu: "A prática da ciência me parece exigir notável coragem (…). Ela negocia com o saber obtido através da dúvida. Arranjando saber, a respeito de tudo e para todos, ela procura fazer com que todos duvidem."
De maneira surpreendente e cruel, porém, na última cena da peça, o Galileu de Brecht não aceita a absolvição oferecida por seu ex-discípulo. Ele afirma ter errado ao abjurar sua doutrina. Diz ter perdido a luta: essa luta pela nova física que, hoje, nos parece ganha. Por que, então, o genial cientista não consegue perdoar-se? Acontece que o Galileu de Brecht está falando de uma outra luta. "A miséria de muitos é velha como as montanhas, e, segundo os púlpitos e as cátedras, ela é indestrutível, como as montanhas."
Para Brecht, o conhecimento era um instrumento de transformação. Toda sua teoria do teatro épico fundava-se na ideia de que o homem podia sempre reconstruir-se, ao mesmo tempo em que reconstruía as próprias estruturas sociais. Não havia natureza definitiva da humanidade, senão a possibilidade de avançar, de descobrir novas formas de sociabilidade, mais justas e fraternas. Para isso, porém, uma condição impunha-se: que as pessoas pudessem compreender sua própria realidade, e refletir acerca de seu papel no mundo.
Galileu: "E se os cientistas (…) acham que basta amontoar saber, a ciência pode se transformar em aleijão (…) Com o tempo, é possível que vocês descubram tudo o que haja por descobrir, e ainda assim o seu avanço há de ser apenas um avanço para longe da humanidade. O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto que, ao grito alegre de vocês, grito de quem descobriu alguma coisa nova, responda um grito universal de horror."
As duas bombas atômicas haviam se tornado a marca profunda do que Brecht vinha tentando dizer. Podia-se ver agora, que a ciência não possuía apenas um método, a ser libertado e aperfeiçoado, nem somente um objetivo -o conhecimento -a ser buscado. Ela possuía também um uso político e uma apropriação social, e estes exigiam, urgentemente, uma nova configuração. Diferentes lutas, mas que precisavam ser lutadas sempre ao mesmo tempo.
Tanto Galileu quanto Brecht buscam a "verdade". Mas qual verdade? Brecht pede a Galileu que faça com sua busca científica o que ele próprio fizera com sua arte: a busca da "verdade" como revelação do homem ao próprio homem. Cabe então perguntar: estaria Brecht oferecendo, assim, um novo dogmatismo ideológico, que deveria submeter a investigação científica assim como o "realismo socialista" havia tentado submeter a arte?
A mensagem é mais crucial e precisa. Brecht coloca em dúvida a possibilidade do valor cognitivo puro, pois sabe que valores estão sempre imersos em uma sociedade. O termo "verdade" só pode apontar em uma direção: para uma melhor compreensão do ser humano e de suas possibilidades no mundo; para a consciência do homem que constantemente se reconstrói. A cobrança que Brecht dirige a Galileu -aos cientistas e homens de sua época- é tudo menos dogmática. Existe uma busca pelo conhecimento científico? Não se questiona. Mas, tudo somado, a "verdade" pode apenas ser uma busca humana.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Capitalismo cognitivo. A financeirização, em crise, é a sua forma econômica real.

Entrevista especial com Gigi Roggero

“A financeirização – longe de contrapor-se à economia “real” – é a forma da economia capitalista exerce o comando sobre o trabalho cognitivo e sobre a produção do saber vivo”, afirma o economista italiano.

Confira a entrevista.

Na visão de Gigi Roggero, a financeirização constitui a forma econômica real da produção e está conexa às transformações produtivas e do trabalho das últimas décadas, o que ele entende como a afirmação de um “capitalismo cognitivo”

A crise “longe de estar confinada a uma fase descendente do ciclo e de preparar uma nova expansão, ou então, ao tornar-se impulsionadora de uma dinâmica de crescimento, não é mais somente um dado estrutural do desenvolvimento capitalista, mas se torna seu elemento permanente e insuperável”. A opinião é do professor e economista Gigi Roggero. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line ele defende que “a financeirização – longe de contrapor-se à economia ‘real’ – é a forma da economia capitalista apta para exercer o comando sobre o trabalho cognitivo e sobre a produção do saber vivo”. Ao analisar a crise financeira mundial, Roggero considera que “a salvação dos bancos por parte do Estado só demonstra aquilo que sustentamos até agora, ou seja, a íntima articulação do público e do privado no desenvolvimento capitalista”. Segundo ele, “a crise é, de fato, um processo profundamente ambivalente, no qual convivem extraordinárias oportunidades e inquietantes riscos, instâncias de transformação e lutas sociais com crescentes formas de racismo e reação”.

Gigi Roggero é formado em História Contemporânea pela Università degli Studi di Torino. É coautor de Futuro Anteriore. Dai "Quaderni Rossi" ai movimenti globali: ricchezze e limiti dell’operaismo italiano (Roma: DeriveApprodi, 2002). Trabalha no campo da pesquisa social. É doutorando no Departamento de Sociologia e Ciência Política da Università della Calabria.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que muda no processo econômico mundial com a crise financeira internacional?

Gigi Roggero – Partamos da definição: estamos dentro de uma crise econômica global, certamente a maior após 1929. Isso significa, de um lado, que o mundo se tornou um só, que lá onde as coordenadas espaço-temporais se tornam globais é impossível pensar em crises locais circunscritas e independentes; e de outro, que a crise financeira é imediata à crise econômica. Ou melhor, que estourou completamente a dicotomia – ainda cara a muitas esquerdas – de economia real versus economia financeira. Hoje nossas vidas estão inteiramente no processo de financeirização: quando usamos o cartão de crédito ou o cheque especial, quando recorremos a empréstimos para ter acesso a necessidades fundamentais (casa, formação, mobilidade, e principalmente a saúde), quando uma parte dos salários é paga em stock option ou as pensões se tornam fundos de investimentos.

Para a economia clássica e moderna, a financeirização e a crise intervinham no final do ciclo, após a expansão da economia real ligada à afirmação de um modelo produtivo. Hoje, a financeirização não só recobre o ciclo econômico inteiro, mas põe em discussão a própria categoria de ciclo. Esta categoria era ligada a períodos médios e longos de algumas décadas. Agora, pensamos somente na última dezena de anos: tivemos o desmoronamento dos mercados do Sudeste Asiático em 1997, o do índice Nasdaq e da new economy em 2000, a crise do sistema do débito e dos subprime, desde 2007. Ou então, o acontecimento de crises econômico-financeiras de âmbito mundial em períodos totalmente breves, a ponto de tornar impossível reconstruir, mesmo que somente a posteriori, a dinâmica cíclica. A crise, longe de estar confinada a uma fase descendente do ciclo e de preparar uma nova expansão, tornando-se impulsionadora de uma dinâmica de crescimento, não é mais somente um dado estrutural do desenvolvimento capitalista, mas torna-se seu elemento permanente e insuperável.

IHU On-Line – Quais as principais transformações que a crise internacional tem provocado no mundo do trabalho?

Gigi Roggero – Inverterei o ponto de vista: a questão é, então, de que forma o trabalho determinou a crise global? A financeirização não é, de fato, um processo externo à produção: constitui, ao contrário, sua forma econômica real. É, portanto, estreitamente conexa às transformações produtivas e do trabalho das últimas décadas, que internamente na Universidade Nômade definimos como o afirmar-se de um “capitalismo cognitivo” – categoria que usamos como conceito explorador, embora não como postulado. É bom esclarecer: quando falamos de cognição do trabalho, não entendemos a intelectualização linear da força de trabalho como uma dinâmica progressiva que conduzirá objetivamente à libertação do capitalismo ao desaparecimento do trabalho industrial. A cognição é, em vez disso, um processo de transformação complexa, filigrana de “iluminação geral” por meio da qual se pode ler toda a composição do trabalho e os novos processos de hierarquização. Não é, realmente, a mesma coisa trabalhar numa fábrica ou num centro de pesquisa universitário. Todavia, é comum a linha em torno da qual se organiza a nova divisão cognitiva do trabalho, ou seja, a finalização à produção de saberes, à inovação permanente e à valorização do desenvolvimento tecnológico. Nas novas coordenadas espaço-temporais globais, também a clássica imagem da divisão internacional do trabalho – calcada na dialética entre centro e periferia – entra em crise: de São Paulo a Johanesburgo, de Xangai a Berlim, de Hyderabad ao Silicon Valley se pode observar – com gradações extremamente diferentes – todo o espectro das formas contemporâneas da produção e do trabalho.

Neste processo de transformação complexa, no qual os saberes se tornam, ao mesmo tempo, recurso produtivo central e meio de produção, mudam as formas de extração do mais valor (plusvalore – mais valia). Em resumo, o capital deve renunciar à tendência de organizar o ciclo produtivo a montante, para limitar-se a capturar os processos de auto-organização da cooperação social, ou então, àquilo que chamamos a produção do comum. Se pensarmos, para limitar-se a um exemplo conhecido, na internet, o que é a web 2.0, senão a captura capitalista de um processo cooperativo que não pode mensurar e que a excede estruturalmente? Poderemos, então, dizer que a financeirização – longe de contrapor-se à economia “real” – é a forma da economia capitalista apta ao comando sobre o trabalho cognitivo e sobre a produção do saber vivo. Não é por acaso que círculos próximos ao The Economist tenham proposto recentemente a fórmula “comunismo do capital”. É, em outros termos, a captura e a transfiguração do comum no signo da renda, entendida – marxianamente – como o poder de apropriação de uma parte crescente dos valores criados pela cooperação social sem uma intervenção direta do capital. Carlo Vercellone, da rede Universidade Nômade, fala de um tornar-se renda do lucro. Isso significa que, diversamente de sua definição clássica, hoje a renda comanda o trabalho.

IHU On-Line – Como a crise internacional tem sido discutida pelos membros da Universidade Nômade? Qual tem sido o senso comum?

Gigi Roggero – Um primeiro fruto importante da discussão coletiva da Universidade Nômade está coletado no livro organizado por Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra, intitulado Crise da economia global. Mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos (Ombrecorte, 2009). Não estamos interessados na “batalha das ideias” ou na elaboração de análises desarticuladas pelos processos de organização. O que produzimos na Universidade Nômade é uma prática teórica. Em particular, quando os saberes se tornam um campo de batalha central na luta de classes em plano global, uma experiência como a da Universidade Nômade não pode ser pensada como uma simples rede intelectual, deve tornar-se uma instituição política autônoma e, em parte, completamente dentro dos processos de conflito, organização e transformação que analisa. Não criar senso comum, mas tornar-se lugar comum. Deste ponto de vista, não há da nossa parte nenhuma exaltação ingênua da mudança epocal que estamos vivendo. A crise é, de fato, um processo profundamente ambivalente, no qual convivem extraordinárias oportunidades e inquietantes riscos, instâncias de transformação e lutas sociais com crescentes formas de racismo e reação.

Sem dúvida, acabou finalmente a ideia de que o socialismo tem a tarefa histórica de salvar o capitalismo de suas crises cíclicas, superando dialeticamente a endêmica irracionalidade por meio de uma racionalidade superior do desenvolvimento, ou, em outros termos, encarregando-se de realizar as promessas de progresso que o capitalismo não está estruturalmente em condições de manter. Portanto, concluiu-se, felizmente, a época na qual socialismo e capitalismo se espelhavam na presumida objetividade das hierarquias do trabalho, da técnica e da produção. O “comunismo do capital” deve capturar continuamente a produção do comum. Mas o comum não é realmente a inversão dialética e especular do “comunismo do capital”. Ele é, ao mesmo tempo, a livre organização da potência do trabalho vivo, e a destruição dos dispositivos da captura capitalista. O comum não está inscrito no progresso racional da história, mas nos conflitos e nas práticas cooperativas da nova composição do trabalho global. É por isso que, na profunda ambivalência da crise, não somos guiados pelo otimismo da vontade, mas movidos pelo otimismo da razão.

IHU On-Line – Como a crise da economia global se relaciona com a crise da universidade?

Gigi Roggero – No interior do projeto transnacional edu-factory, falamos de uma dupla crise, para evidenciar precisamente o entrelaçamento, no plano global, entre crise econômica e crise da universidade. Esta última significa, por um lado, crise da dialética entre público e privado. A assim dita privatização da universidade, de fato, não é simplesmente a imissão de fundos privados em instituições que primeiro eram públicas nem depende do estatuto jurídico. Descreve, em vez disso, o processo da própria universidade de tornar-se privada, em seu dever de raciocinar em termos de custos e benefícios, de input e output, de lucro e renda.

As agências de rating, por exemplo, se tornam um índice de mensuração do valor das instituições acadêmicas no mercado global da formação. A privatização da universidade, de resto, acompanha a financeirização do welfare. Nos Estados Unidos, o empréstimo é um canal de acesso à instrução superior. Os estudantes acumulam, assim, muitas dezenas de milhares de dólares de débito para terminar o próprio percurso de estudos, vendo preventivamente, reduzido o próprio salário real, ou seja, antes que seu salário seja efetivamente recebido. Por outro lado, a crise da universidade significa o fim da universidade moderna como lugar de construção da cultura nacional. A global university é parte da dupla crise. Das “ruínas da universidade” – para citar um conhecido livro de Bill Readings (A universidade em ruínas (Coimbra: Angelus Novus, 2003) da metade dos anos 1990 – não saiu um novo modelo de universidade do capital global. Também neste caso, a crise se tornou elemento permanente.

IHU On-Line – Qual o papel da universidade neste momento de crise? Quais os limites e as possibilidades em relação à produção de conhecimento que pode contribuir para a solução dos problemas econômicos mundiais?

Gigi Roggero – Como argumentei num recente livro meu (A produção do saber vivo, Ombrecorte 2009), não existe uma crise da universidade fora da crise econômica. A crise é, de fato, também crise da medida do trabalho cognitivo. A universidade perde centralidade, torna-se um dos lugares de criação de uma medida artificial dos saberes, de certificação do skill [perícia], onde isso é, atualmente, desconexo da concreta atividade desenvolvida. A quantificação dos saberes, ou seja, a imposição da lei do valor, é inteiramente contra a qualidade. É a redução do saber vivo ao saber abstrato. A universidade não pode, por conseguinte, intervir numa crise da qual é intimamente parte. De resto, a organização disciplinar (e seus novos códigos e limites, como a inter ou multidisciplinaridade tão difusa na academia anglo-saxônica) está completamente falida, serve somente para reproduzir um poder parasitário. Recentemente, saiu um artigo de importantes economistas que explicam por que a disciplina econômica não só não esteve em condições de prever o que está acontecendo, mas não está estruturalmente em condições de fazê-lo. Dessa forma, podemos jogá-la fora! E o mesmo poderemos dizer das outras disciplinas.

Eis o núcleo radical a captar: o que está em crise é o estatuto epistemológico do saber e sua organização. E nós também quisemos esta crise. Os conflitos contra a privatização e a global university não podem sentir nenhuma nostalgia pelo público e pela academia nacional. Está aqui a importância do movimento da “onda anômala” na Itália. Aquela que chamamos de “autorreforma da universidade” não é um cahier de doléance [caderno de queixas] ou um elenco de propostas a submeter aos indivíduos da representação: é a afirmação da não representabilidade, é a prática constituinte, é a imediata organização de institucionalidade autônoma. E é por isso que estou extraordinariamente interessado no projeto de acesso massificado dos negros na universidade brasileira. Enquanto foi determinado também pelas lutas e pelos movimentos, como tinha sido para os Black Studies nos Estados Unidos, parece-me que não se trata somente de um problema de inclusão. A questão radical é o que acontece, quando figuras sociais irrompem em instituições originariamente não pensadas para eles. A questão é, então, uma nova organização do saber, cuja direção e controle não são mais externas, mas imanentes à composição do trabalho. Na dupla crise é este o grande espaço que se abre: a construção, hic et nunc, de uma universidade do comum, ou seja, além da dialética entre público e privado, que são as duas faces da mesma medalha capitalista.

IHU On-Line – Quais as novas formas de protesto e resistência que a sociedade contemporânea tem utilizado em função da crise financeira e da crise no mundo do trabalho?

Gigi Roggero – Entre as transformações que estamos discutindo, a crítica dos saberes se torna hoje imediatamente a crítica da economia política. E as lutas pela formação são as lutas pelo trabalho. Assim, a crise da universidade nos fala da crise do modo de produção capitalista, e vice-versa. Ela nos faz entender como a financeirização é uma forma adequada e perversa de um sistema que se reproduz na captura do comum. Quando falo de comum, entendo algo que não existe in natura, mas que é continuamente produzido pela cooperação do trabalho/saber vivo. E o comum tem um duplo estatuto: é prática cooperativa de liberdade e igualdade, mas é também aquilo que é continuamente desfrutado pelo capital. Todavia, precisamente porque depende do comum, ou seja, daquilo que constitui sua ameaça mortal, a financeirização é também uma forma muito frágil. Podemos pensar aqui no sistema de empréstimo, que procura pôr em valor para o capital necessidades e desejos que não podem ser atendidos. Mas, precisamente por isso, é refém de milhões e milhões de proletários que têm se recusado a pagar os débitos contraídos para ter uma casa ou para estudar, contribuindo para determinar a crise do sistema. E, com o desmoronamento do sistema do débito, creio que nos próximos tempos assistiremos nos Estados Unidos a importantes explosões nas universidades, em torno da questão do acesso, do corte dos salários e da redução também do trabalho precário.

Ora, neste quadro o problema das lutas é o de libertar-se de qualquer tentação nostálgica, para a assim chamada “economia real” ou para os estados-nação. Essa é uma resistência conservadora. O que nos interessa é, ao contrário, uma resistência transformadora. Não penso que seja possível um New Deal, como nos anos 1930. O sistema é irreformável. Então, a questão é um New Deal das lutas e dos movimentos que se ponha num plano imediatamente constituinte ou de construção de um novo welfare do comum, o commonfare, ou seja, uma reapropriação da riqueza social e das instituições atualmente congeladas na dialética entre público e privado. Em outros termos, o problema não é reconsignar a economia nas mãos do Estado, mas reapropriar-se também das instituições financeiras, determinar dentro delas comando e decisão coletiva.

IHU On-Line – Como a Europa de modo geral tem reagido à crise internacional? O que mais tem mudado na vida das pessoas?

Gigi Roggero – A Europa desconsidera a falta de coragem institucional no processo de unificação política, a par das resistências “soberanistas” e “estatalistas” de boa parte da esquerda. O resultado é claramente visível nas últimas eleições europeias, com a derrota seca e provavelmente irreversível das opções liberal-democráticas e socialistas e a afirmação de posições “antieuropeístas”, algumas das quais de claro cunho racista e xenófobo. Estas posições se alimentam na crise, fornecendo à dura materialidade das condições de vida proletárias (redução dos salários, aumento da precariedade, desaparecimento dos amortizadores sociais) uma clássica resposta de fechamento territorial, identitário e corporativo, no qual o trabalho migrante é o principal objetivo. Então, emergem expressões políticas justicialistas de quem aponta o índice e invoca a forca para os corruptos simplesmente para salvar um sistema que produz essa mesma corrupção. Não se sai, no entanto, dessa situação, como alguns destacados teóricos radicais gostariam, com uma opção classicamente reformista, que visa a desenvolver o “comunismo do capital”, pensando que a crise seja simplesmente um bloqueio temporário ao pleno crescimento do capitalismo cognitivo  na Europa central. A Europa política é, ao contrário, repensada das lutas (por exemplo, aquelas da universidade e do trabalho cognitivo e migrante) que nos últimos anos construíram uma rede comum. Não quero aqui propor uma fé qualquer nas magníficas e progressivas espécies dos movimentos. O problema é a relação – conflitiva e pragmática – entre estas e as outras formas de governar. De fato, não existe um fora da governança: qualquer idéia de uma ilha feliz é especular sobre a opção reformista. O governar [a governança] significa impossibilidade de governo sobre o trabalho vivo e é a forma institucional da crise permanente. O problema dos movimentos é, então, o dar lugar institucional de reapropriação e espaço constituinte, ao mesmo tempo, no âmbito metropolitano e continental, levando à exaustão os consumidos limites nacionais. Este é um dos motivos pelos quais procuramos aprender daquilo que está acontecendo no extraordinário e também produtivamente contraditório laboratório político da América Latina.

IHU On-Line – Que rumos o senhor imagina que a economia mundial tomará a partir desta crise financeira global?

Gigi Roggero – A crise da economia global significa o fim do neoliberalismo. Com isso não quero dizer que tenham terminado os seus efeitos, mas estes não conseguem mais fazer sistema. Isso não é acompanhado pelo retorno de um forte papel do Estado, como muitos da esquerda sonham. Ainda bem, acrescento! A salvação dos bancos por parte do Estado só demonstra aquilo que sustentamos até agora, ou seja, a íntima articulação do público e do privado no desenvolvimento capitalista. O capitalismo não desaparecerá por si, isso é certo. Além disso, as hipóteses de um desmoronamento do capitalismo – como ensina o que aconteceu nos anos 1920 e 1930 do século XX – sempre trouxeram muito mal… E em todo o caso, de fato, não se diz que aquilo que vem depois do capitalismo seja, por natureza ou por graça recebida, algo melhor. Certamente está emergindo um capitalismo profundamente modificado, que assume a crise como elemento insuperável. É um capitalismo que procura reproduzir-se do conceito de limite, que na Europa se chama de teoria do “decrescimento”, propugnada por quem procura convencer os proletários e os não ocidentais a não desejarem as mercadorias que eles (teóricos de uma classe média em crise) consomem. A tese do decrescimento é hoje uma política capitalista, feita de valorização da sustentabilidade ambiental, de uma nova hierarquia das mercadorias e do contínuo bloqueio das forças produtivas. Crescimento e desenvolvimento são, de fato, coisas completamente distintas. Uma crítica radical do desenvolvimento capitalista – que se compõe historicamente de crescimento e decrescimento – deve, pois, mover, não o limite, mas a potência do trabalho vivo, a possibilidade de decisão coletiva sobre a riqueza social produzida em comum.

Dizer isso não significa não conceder nada à utopia, como prefiguração de um futuro distante que, desde sempre, tem sido usado pelos partidos da esquerda para edulcorar as instâncias de transformação radical no presente. Nem significa retornar a uma ideia do desenvolvimento histórico que procede por estádios progressivos. A tendência não pertence à objetividade, mas à organização e às relações de força. Para argumentar sobre este otimismo da razão quero apenas fazer notar que os anos 1990 se abriram com o anúncio triunfal do “fim da história” de Fukuyama e, paralelo a isso, a declaração de impotência de pensadores radicais que falavam de um invencível “pensamento único”. Não faz nem vinte anos e a crise do capitalismo é o argumento cotidiano de toda a mídia do mundo. Se completarmos o quadro com aquilo que está ocorrendo no Brasil e na América Latina e ao mesmo tempo com a derrota do unilateralismo americano, escutando quem há muitos anos implora a passividade das novas figuras do trabalho aniquiladas e fragmentadas pelo “pensamento único”, se traz à lembrança aquilo que Marx, em 09 de dezembro de 1851, respondia a Engels que se lamentava do comportamento “estúpido e infantil” do povo parisiense que não se opusera ao golpe de estado de Luiz Bonaparte: “o proletariado poupou as suas forças”. Agora se trata de organizá-las no agir comum.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – http://www.unisinos.br/ihu/

Gripe suína: os porcos perigosos andam de terno

POR MIKE DAVIS – As hordas de turistas americanos regressaram de Cancún este ano com um souvenir invisível mas sinistro. A gripe suína mexicana, uma quimera genética provavelmente concebida na lama fecal de um criadouro industrial, ameaça subitamente o mundo inteiro com uma febre.

Gripe suína: os porcos perigosos andam de terno

Os brotos na América do Norte revelam uma infecção que está viajando já em maior velocidade do que aquela que viajou a última cepa pandêmica oficial, a gripe de Hong Kong, em 1968.

Roubando o protagonismo de nosso último assassino oficial, o vírus H5N1, este vírus suíno representa uma ameaça de magnitude desconhecida. Parece menos letal que a Sars (Síndrome Respiratória Aguda, na sigla em inglês) em 2003, mas como gripe, poderia resultar mais duradour que a Sars. Dado que as domesticadas gripes estacionais de tipo “A” matam nada menos do que um milhão de pessoas ao ano, mesmo um modesto incremento de virulência poderia produzir uma carnificina equivalente a uma guerra importante.

Micróbios que voam pelo mundo

Uma de suas primeiras vítimas foi a fé consoladora, predicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na possibilidade de conter as pandemias com respostas imediatas das burocracias sanitárias e independentemente da qualidade da saúde pública local. Desde as primeiras mortes causadas pelo H5N1 em 1997, em Hong Kong, a OMS, com o apoio da maioria das administrações nacionais de saúde, promoveu uma estratégia centrada na identificação e isolamento de uma cepa pandêmica em seu raio local de eclosão, seguida de uma massiva administração de antivirais e, se disponíveis, vacinas para a população.

Uma legião de céticos criticou esse enfoque de contrainsurgência viral, assinalando que os micróbios podem agora voar ao redor do mundo – quase literalmente no caso da gripe aviária – muito mais rapidamente do que a OMS ou os funcionários locais podem reagir ao foco inicial. Esses especialistas observaram também o caráter primitivo, e às vezes inexistente, da vigilância da interface entre as enfermidades humanas e as animais.

Mas o mito de uma intervenção audaciosa, preventiva (e barata) contra a gripe aviária resultou valiosíssimo para a causa dos países ricos que, como os Estados Unidos e a Inglaterra, preferem investir em suas próprias linhas Maginot biológicas, ao invés de incrementar drasticamente a ajuda às frentes epidêmicas avançadas de ultra mar. Tampouco teve preço esse mito para as grandes transnacionais farmacêuticas, envolvidas em uma guerra sem quartel com as exigências dos países em desenvolvimento empenhados em exigir a produção pública de antivirais genéricos fundamentais como o Tamiflu, patenteado pela Roche.

A situação do México e a dos EUA

A versão da OMS e dos centros de controle de enfermidades, que já trabalha com a hipótese de uma pandemia, sem maior necessidade novos investimentos massivos em vigilância sanitária, infraestrutura científica e reguladora, saúde pública básica e acesso global a medicamentos vitais, será agora decisivamente posta a prova pela gripe suída e talvez averigüemos que pertence à mesma categoria de gestão de risco que os títulos e obrigações de Madoff. Não é tão difícil que fracasse o sistema de alertas levando em conta que ele simplesmente não existe. Nem sequer na América do Norte e na União Européia.

Não chega a ser surpreendente que o México careça tanto de capacidade como de vontade política para administrar enfermidades avícolas ou pecuárias, pois a situação só é um pouco melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância se desfaz em um infeliz mosaico de jurisdições estatais e as grandes empresas pecuárias enfrentam as regras sanitárias com o mesmo desprezo com que tratam aos trabalhadores e aos animais.
Analogamente, uma década inteira de advertências dos cientistas fracassou em garantir transferências de sofisticadas tecnologias virais experimentais aos países situados nas rotas pandêmicas mais prováveis. O México conta com especialistas sanitários de reputação mundial, mas tem que enviar as amostras a um laboratório de Winnipeg para decifrar o genoma do vírus. Assim se perdeu toda uma semana.

Mas ninguém ficou menos alerta que as autoridades de controle de enfermidades em Atlanta. Segundo o Washington Post, o CDC (Centro de Controle de Doenças) só percebeu o problema seis dias depois de o México ter começado a impor medidas de urgência. Não há desculpas para justificar esse atraso. O paradoxal desta gripe suína é que, mesmo que totalmente inesperada, tenha sido prognosticada com grande precisão. Há seis anos, a revista Science publicou um artigo importante mostrando que “após anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte tinha dado um salto evolutivo vertiginoso”.

Mutações mais virulentas a cada ano

Desde sua identificação durante a Grande Depressão, o vírus H1N1 da gripe suína só havia experimentado uma ligeira mudança de seu genoma original. Em 1998, uma variedade muito patógena começou a dizimar porcas em uma granja da Carolina do Norte, e começaram a surgir novas e mais virulentas versões ano após ano, incluindo uma variante do H1N1 que continha os genes do H3N2 (causador da outra gripe de tipo A com capacidade de contágio entre humanos).

Os cientistas entrevistados pela Science mostravam-se preocupados com a possibilidade de que um desses híbridos pudesse se transformar em um vírus de gripe humana – acredita-se que as pandemias de 1957 e de 1968 foram causadas por uma mistura de genes aviários e humanos forjada no interior de organismos de porcos – e defendiam a criação urgente de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína: advertência, cabe dizer, que encontrou ouvidos surdos em Washington, que achava mais importante então despejar bilhões de dólares no sumidouro das fantasias bioterroristas.

Gigantescos infernos fecais

gripe suina porcos

O que provocou tal aceleração na evolução da gripe suína: Há muito que os estudiosos dos vírus estão convencidos que o sistema de agricultura intensiva da China meridional é o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico intercâmbio genômico. Mas a industrialização empresarial da produção pecuária rompeu o monopólio natural da China na evolução da gripe. O setor pecuário transformou-se nas últimas décadas em algo que se parece mais com a indústria petroquímica do que com a feliz granja familiar pintada nos livros escolares.

Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos muito debilitados.

No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um informe sobre a “produção animal em granjas industriais”, onde se destacava o agudo perigo de que “a contínua circulação de vírus (…) característica de enormes aviários ou rebanhos aumentasse as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também que o uso promíscuo de antibióticos nas criações de suínos – mais barato que em ambientes humanos – estava propiciando o surgimento de infecções de estafilococos resistentes, enquanto que os resíduos dessas criações geravam cepas de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou um bilhão de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).

O monstruoso poder dos monopólios

Qualquer melhora na ecologia deste novo agente patógeno teria que enfrentar-se com o monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e pecuários, como Smithfield Farms (suíno e gado) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática de suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas algumas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento de pesquisadores que cooperaram com a investigação.

Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como a gigante avícola Charoen Pokphand, sediada em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste Asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do vírus da gripe suína bata de frente contra a pétrea muralha da indústria do porco.

Isso não quer dizer que nunca será encontrada uma acusadora pistola fumegante: já corre o rumor na imprensa mexicana de um epicentro da gripe situado em torno de uma gigantesca filial da Smithfield no estado de Vera Cruz. Mas o mais importante – sobretudo pela persistente ameaça do vírus H5N1 – é a floresta, não as árvores: a fracassada estratégia antipandêmica da OMS, a progressiva deterioração da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industrializada e ecologicamente bagunçada.

Mike Davis é professor no departamento de História da Universidade da Califórnia (UCI), em Irvine; artigo publicado originalmente no britânico The Guardian, reproduzido no La Vanguardia (México), Sin Permiso (Espanha) e Carta Maior (Brasil)

Fonte: Enlace – http://www.enlace.org.br

Cientistas revertem evolução e devolvem barbatanas a peixe

Experimento, inédito, foi feito por grupo da Universidade Stanford, EUA, que estuda a genética da espécie há 11 anos

Animais de água doce, que perderam os apêndices há mais de 10 mil anos, tiveram restaurada característica de seu ancestral marinho

CLAUDIO ANGELO
ENVIADO ESPECIAL A COLD SPRING HARBOR

Os criacionistas costumam dizer que Darwin está errado porque nunca viram uma espécie se transformar em outra. Pois cientistas americanos acabam de fazer quase isso: transformaram um peixe de água doce no seu ancestral marinho, revertendo a evolução.
A pesquisa, inédita, foi apresentada no último dia 27 nos EUA a uma plateia de cientistas pelo biólogo David Kingsley, da Universidade Stanford. Foi um dos pontos altos do 74º Simpósio de Cold Spring Harbor sobre Biologia Quantitativa.
O resultado culmina um esforço de 11 anos de Kingsley e seus colegas para decifrar o mais novo animal modelo da biologia, o peixinho esgana-gata (Gasterosteus aculeatus).
O que os pesquisadores fizeram foi devolver a esgana-gatas de água doce, que habitam lagos nos EUA, um par de barbatanas pélvicas em forma de espinho. Essas estruturas estão nas populações marinhas do bicho, mas foram perdidas em algumas populações de lagos nos últimos 10 mil anos.
O grupo também devolveu aos peixes lacustres as placas ósseas externas que caracterizam os esgana-gatas marinhos, mas que igualmente se perderam na água doce.
Reversão
"Nós revertemos dois grandes traços morfológicos", disse Kingsley à Folha. "Ganho ou perda de um membro é um grande traço. É o tipo de coisa com base na qual os zoólogos classificam organismos em diferentes categorias."
Ambas estruturas são usadas para defesa dos esgana-gatas, que são refeição de diversos predadores no mar.
Os espinhos, na pelve e no dorso, ferem predadores de boca mole, como trutas. Em alguns dos lagos em que os peixinhos ficaram presos no fim da Era Glacial, porém, maiores inimigos dos esgana-gatas são insetos. Eles agarram suas vítimas justamente pelos espinhos da pelve.
Onde há pressão de insetos e pouco cálcio na água, a evolução acabou por eliminar os espinhos. Quanto à armadura óssea, ela se perdeu em todos os esgana-gatas de água doce. "Isso dá mais flexibilidade e velocidade de nado", afirmou Kingsley. Restava descobrir de que forma isso aconteceu -o mecanismo molecular da perda- e, por fim, tentar emular a ação da seleção natural.
Modelo à espera
Kingsley decidiu estudar o esgana-gata em 1998. "Havia milhares de trabalhos sobre ele, mas ninguém havia feito sua genética molecular. Era um animal modelo esperando para acontecer", recorda-se.
Os cientistas começaram coletando animais de várias populações de mar e de lago, com características diferentes (presença ou não de espinhos pélvicos ou armadura), e cruzando-os. Observando os traços em milhares de filhotes e analisando o seu DNA, mapearam os genes que respondiam por eles.
O gene que controla quase toda a formação dos espinhos pélvicos, por exemplo, foi identificado: era o Pitx1. Mas Kingsley e colegas ainda precisavam saber o que acontecia no gene para fazer a diferença entre a presença da pelve no animal marinho e sua ausência no esgana-gatas de água doce.
Para isso, eles sequenciaram o Pitx1 dos dois peixes. Aí veio a surpresa: "Não havia diferença alguma na parte codificante do gene", conta Kingsley. "Isso faz sentido, porque o Pitx1 está envolvido na formação da glândula ptuitária e da mandíbula. Não dá para zoar com todas as funções de um gene desses."
O segredo estava nas sequências de DNA que não trazem a receita para a fabricação de nenhuma proteína (e que até algum tempo atrás eram consideradas mero "lixo" genético), mas que controlam a intensidade com que o gene se liga em certos tecidos e em certas fases do desenvolvimento.
Para descobrir que sequências eram essas, o grupo quebrou o DNA em pedacinhos e injetou cada pedacinho em um embrião de peixe para ver no que dava. A busca levou anos.
Finalmente, o time chegou à "região mágica" de controle. Os peixes de lago tiveram em sua evolução um trecho de DNA apagado que estava intacto nos ancestrais marinhos. O tamanho do bloco deletado variava entre sa populações, mas a região era sempre a mesma.
A prova final foi feita por um aluno de Kingsley, Frank Chan: pegar o trecho de DNA do peixe marinho e injetá-lo no lacustre. "Ficamos maravilhados em ver que isso funciona", disse o biólogo. "A região de controle do Pitx1 do peixe marinho gera um peixe que tem uma estrutura pélvica de novo." O mesmo foi feito para a sequência reguladora do gene Ectodysplasin, que controla a armadura.
Abaixo as mariposas
"Esse é o mais belo exemplo demonstrando um mecanismo molecular de evolução que eu já vi", diz o geneticista brasileiro Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, que assistiu à palestra de Kingsley.
"A seleção natural que atuou sobre esses peixes pode agora ser explicada quimicamente, não apenas como uma abstração. Nossa geração foi apresentada à evolução usando como exemplo mariposas na Inglaterra. Nossos filhos provavelmente aprenderão com o trabalho de David Kingsley."
A pesquisa traz uma implicação intrigante: grandes transições evolutivas, como a perda ou o ganho de membros, podem ocorrer sem alterações na sequência de um gene e em um só passo -como aconteceu com os esgana-gatas-, e não por pequenas mutações, como prevê o darwinismo padrão.
"O quanto isso pode ser generalizado não dá para saber", diz Nóbrega. "Mas só o fato de Kingsley mostrar que grandes transições podem ocorrer já é interessante o suficiente."

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

E o general Golbery, afinal, não se enganou

Ao elogiar Collor, Renan e Sarney, Lula retrocede na história e confirma avaliação inicial do guru da ditadura.

José de Souza Martins

– Quem viu as fotografias e leu o noticiário sobre a visita do presidente Luiz Inácio a Palmeira dos Índios, em Alagoas, deve ter estranhado exuberantes elogios (além da carona no Aerolula) ao ex-presidente Collor, extensivos a Renan Calheiros, que teve problemas na presidência do Senado. A que se pode juntar os elogios e o empenhado apoio que nestes dias deu a José Sarney, presidente do Senado, enrolado na questão dos atos secretos de nomeações para funções naquela casa do Congresso.

O Lula e o PT de hoje são irreconhecíveis em face do que disseram que seriam, no manifesto de fundação do partido, em 1980. Eles se tornaram interessantes enigmas para a compreensão dos nossos impasses políticos, os de uma história política que avança recuando. Em discurso de 1980, na Escola Superior de Guerra, o general Golbery do Couto e Silva, militar culto, ideólogo do regime instaurado pelo golpe de Estado de 1964, deu indicações sobre a armação do futuro político do País e do lugar que nele vislumbrara para Lula. O discurso está centrado nos requisitos da segurança nacional e se refere ao âmbito da liberdade política que romperia a dependência de facções da oposição em relação à polarização da Guerra Fria.

Para ele, a redução da liberdade política criara uma rede de organizações extrapolíticas de oposição ao regime. A abertura se justificava como meio de fazer com que os partidos renascessem "na plenitude de sua função de partidos", para que a política retornasse ao seu leito natural, forma de manter as oposições divididas. Dedica umas poucas palavras à "ala esquerdista da Igreja", e é quando cita Lula enquanto membro de uma elite sindical de líderes autênticos, "sem revanchismo ideológico". Lula "poderia ter sido" um desses líderes, diz Golbery, que se confessa desapontado com ele porque fora atraído "para as atividades mais políticas do que propriamente sindicais".

Intuitivo e prático, tudo sugere que Lula aos poucos compreendeu o plano de Golbery melhor do que o próprio Golbery. Era evidente a orfandade das esquerdas, que culminaria com a queda do Muro de Berlim no fim de 1989. No Brasil essa orfandade se traduzia numa fragmentação tão extensa que Paulo Vannuchi, hoje secretário de Direitos Humanos, chegou a escrever utilíssimo manual que mapeia e lista todos os grupos partidários da esquerda clandestina, indicando a origem de cada um como fragmento de outro. Sem passar pela aglutinação de ao menos parte dessa esquerda fragmentária, Lula nunca teria conseguido a legitimidade propriamente política que o tornaria a personagem que é.

Assim como Golbery, Lula também compreendeu que a Igreja Católica estava dividida em consequência das inovações do Concílio Vaticano II e que nela havia uma importante facção, que ia de leigos a bispos, ansiosa por aliar-se às esquerdas com base no capital político das comunidades eclesiais de base. A Igreja tinha seus motivos, temerosa de ver-se repudiada por ponderáveis parcelas da população, vitimadas por notórias carências sociais. A primeira manifestação da Igreja em favor da reforma agrária fora em 1950 e viera de um bispo conservador da diocese de Campanha (MG), dom Inocêncio Engelke, que alude em sua carta pastoral ao risco de que o êxodo de trabalhadores rurais para a cidade os colocasse à mercê do proselitismo comunista. É evidente que essa Igreja também compreendeu que Lula era um personagem politicamente à deriva ao qual poderia aliar-se, como se aliou.

Operário qualificado e bem pago de multinacional, Lula compreendia que o sindicalismo da era Vargas se tornava obsoleto e agonizava, impróprio para a nova militância do entendimento e da mesa de negociação. O sindicalismo lulista era apenas o instrumento da nova realidade das relações laborais, divorciadas da concepção de classes sociais, tendente ao fortalecimento das categorias profissionais e setoriais. Longe, portanto, do mito da greve geral, a greve política, mais de confronto com o Estado do que com o capital, que era a estratégia dos comunistas, fortes no ABC operário. Lula e o PT serão decisivos na demolição da esquerda característica e histórica.

O carisma crescente de Lula, a figura mítica buscada pelas esquerdas órfãs e pelo catolicismo social, foi fundamental para o salto de modernização política representado pelo surgimento do PT (e também pelo PSDB, entre outros partidos), com a abertura política promovida pela ditadura no marco das concepções de Golbery. Lula e o PT cresceram, aglutinando o que nem sempre corretamente se autodefine como esquerda. O manifesto de 2002, pelo qual o PT realinha suas orientações ideológicas a favor de uma generosa aliança com o capital e com as multinacionais, bem como com os grupos políticos de origem oligárquica, representa o cume na construção de esquerda do partido e o início do processo de sua desconstrução de direita. Ainda antes das eleições presidenciais daquele ano, Lula, falando a usineiros de açúcar e fornecedores de cana de Pernambuco e da Paraíba, fez a crítica do socialismo e lhes prometeu benefícios de política econômica, o que resultou na imediata adesão de todos a sua candidatura.

Daí em diante, Lula no poder e o próprio PT foram descartando pessoas e facções internas à esquerda de sua opção conservadora. Foram descartando também as organizações que atuam como movimentos sociais, abandonando ou atenuando programas e projetos. Inicialmente, para trazer o apoio do latifúndio e do grande capital a sua pessoa e a seu governo. Depois, para agregar a sua base política o que de mais representativo há do remanescente oligarquismo brasileiro e da obsoleta, e não raro corrupta, dominação patrimonial.

O solidário e empolgado abraço de Lula, com sorrisos, nesses três aliados, emblemáticos senadores da República, é sobretudo um fraterno e decisivo abraço no retrocesso histórico e nos reacionários arcaísmos da política brasileira. O general Golbery achou que se enganara. Não se enganou.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Feras marinhas

Enquanto dinos barbarizavam em terra firme, estes monstros aquáticos garantiam fortes emoções nos oceanos. Foi a primeira e única vez na história do planeta que répteis foram os senhores do mar. Conheça aqui quem eram esses terríveis predadores.

Yuri Vasconcelos

Tanystropheus

Com 6 metros de comprimento, vivia a maior parte do tempo em terra firme. Caçava peixes e mariscos mergulhando no oceano o pescoção de 3 metros. E, para não virar ele a caça, tinha um belo recurso: seu longo rabo podia ser cortado para escapar de um predador. Depois, se regenerava – igual a uma lagartixa moderna.

Quando viveu: Triássico.

Icthyosaurus

Os “peixes-lagarto” tinham formato hidrodinâmico, que os fazia adaptadíssimos à vida marinha – seus ancestrais estavam entre os primeiros répteis a se aventurar na água. Por terem olhos grandes, paleontólogos supõem que eles não eram assíduos das grandes profundidades, onde a visão é desnecessária.

Quando viveu: Jurássico.

Cymbospondylus

O Cymbospondylus era quase que só um rabo: sua cauda equivalia à metade do corpo de 10 metros. Com esse físico, era veloz e um dos predadores mais agressivos do mar – só o crânio media 1 metro, recheado por dezenas de dentes pequenos, mas extremamente afiados.

Quando viveu: Triássico.

Liopleurodon

Com cerca de 25 metros, foi um dos maiores carnívoros que já habitou o planeta. Tinha 3 metros só de boca e dezenas de dentes entrelaçados, com cerca de 30 centímetros cada. Seu ponto fraco: durante travessias marítimas, muitos encalhavam em águas rasas e acabavam devorados por carniceiros pré-históricos.

Quando viveu: Jurássico.

Plesiosaurus

Este caçador implacável, de pescoço longo e flexível, era carnívoro e comia qualquer coisa que se movesse na água – a forte mandíbula, com dentes afiados, ajudava na tarefa. Diz a lenda que um Plesiosaurus escapou à extinção e chegou aos dias atuais. Hoje, ele daria expediente como o famoso monstro do lago Ness, na Escócia.

Quando viveu: Triássico.

Kronosauros

Hoje, o tubarão ocupa o topo da cadeia alimentar. Mas seus antepassados eram presas fáceis dos Kronosaurus. Seus banquetes também incluíam Icthyosaurus e Mosasaurus. A anatomia ajudava: eram quase 2 metros de boca e dentes do tamanho de bananas. E a cauda pequena garantia agilidade nas perseguições.

Quando viveu: Cretáceo.

Elasmosaurus

Este animal de nadadeiras potentes boiava que era uma beleza. Mas, para mergulhar, teve de desenvolver um método bizarro: cientistas acreditam que ele engolia pedras para ganhar peso e afundar. Graças ao pescoço longo, conseguia capturar (e depois comer) pterossauros que voavam próximos à superfície da água.

Quando viveu: Cretáceo.

Mosasauros

Com a forma de uma serpente, atingia até 17 metros – quase o dobro das maiores cobras conhecidas hoje. Deslocava-se ondulando o corpo e vivia exclusivamente no mar. Os dentes, encurvados para trás, impediam que as presas escapassem. Seu cardápio incluía aves de até 2 metros, capturadas ao mergulhar para pescar.

Quando viveu: Cretáceo.

ONDE ESTAMOS

A Era Mesozóica, quando viveram os dinossauros, é dividida nos períodos Triássico (248 milhões a 206 milhões de anos atrás), Jurássico (206 milhões a 144 milhões de anos atrás) e Cretáceo (144 milhões a 65 milhões de anos atrás). Neste último, a colisão de um asteróide com a Terra teria provocado a extinção de todos os répteis mostrados aqui.

Triássico / Jurássico / Cretáceo

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

O último enforcamento no Brasil

A pena de morte executada contra um escravo, na cidade do Pilar, em Alagoas, encerrou a prática no País. Curiosamente, o imperador Pedro II decidiu impor o castigo mais por uma questão de favor político do que pelo crime em si que havia ocorrido

David Roberto Bandeira da Silva

Fogueira, esmagamento, decapitação, fuzilamento, eletrocução, garrote vil, apedrejamento e enforcamento são alguns dos métodos utilizados na execução por pena capital, também conhecida como pena de morte. Os desavisados de plantão que acreditam que a última execução judicial no Brasil ocorreu em Macaé, então província do Rio de Janeiro, no dia 6 de março de 1855, com o enforcamento do fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, saibam que o presente texto contradiz esse mito.

Corria o ano de 1874. Era abril, dia 27, por volta das oito horas da noite. O fato aconteceu na então província das Alagoas, na pacata cidade do Pilar – de 9.811 habitantes, dos quais 8.463 eram livres e 1.348, cativos -, quando os escravos Prudêncio e Vicente resolveram ajustar as contas com o senhor, o capitão da Guarda Nacional João Evangelista de Lima. Foram auxiliados pelo escravo Francisco, cujo senhor era o renomado médico e membro do Instituto Arqueológico Alagoano, Joaquim Telésforo Ferreira Lopes Viana. Utilizando-se de um punhal no golpe inicial, os assassinos atraíram a primeira vítima, João de Lima, para o hotel que este possuía, onde, depois, desfecharam-lhe vários golpes de cacete e jogaram o cadáver na estribaria do estabelecimento.

Logo rumaram em direção ao Sítio Bonga, para ali fazerem o mesmo com a esposa de João Lima, Josefa Martha de Lima. Chamaram-na e, quando ela abriu a porta, desfecharam-lhe um golpe de punhal no lado esquerdo do peito e a assassinaram a pancadas. Pouco antes, o escravo Prudêncio tinha ido à residência do dr. Telésforo Viana, a fim de atraí-lo para a emboscada, com a ardilosa mensagem de que o capitão João de Lima estava passando mal no hotel e havia solicitado a presença do médico. Talvez desconfiado de alguma coisa, o dr. Telésforo Viana disse que não iria por já se achar recolhido àquela hora da noite, escapando, provavelmente, de ser mais uma vítima.

O crime fora minuciosamente elaborado, com as vítimas, aos poucos, compondo a ordem das tenebrosas conexões da trama macabra. Assim, compreende-se que o resultado, em parte, foi um "sucesso" arrasador, conforme relato do Jornal do Pilar: "… os cadáveres estavam mutilados, cobertos de talhos profundíssimos, com especialidade sobre a fronte e sobre o rosto".

Os escravos roubaram das vítimas alguns pertences, furtaram os cavalos na cocheira do sítio e fugiram. Vicente foi preso no dia 1º de maio, no engenho Hortelã, ao sul da província alagoana. Francisco e Prudêncio abrigaram-se em Pesqueira, cidade da vizinha província de Pernambuco, onde reagiram à prisão em confronto com a Guarda Nacional. Na resistência, os escravos assassinaram um subdelegado junto com um praça; em revide, Prudêncio foi abatido pela tropa. Resolveu Francisco se render, foi algemado e escoltado para a cadeia de Maceió.

O imperador negou clemência a Francisco e reiterou a pena de morte por enforcamento ao condenado

Assim que o inquérito foi concluído e os escravos denunciados pelo promotor público da Comarca, dr. Aureliano Numeriano da Silveira, Vicente e Francisco foram indiciados como assassinos do nefasto crime. Passados dois anos da tramitação processual, lavrada a sentença, Francisco foi incurso no Art. 1º da Lei nº 4, de 10 de junho de 1835 e condenado à pena última. Vicente teve mais sorte: impetrou uma petição de Graça Imperial ao Poder Moderador e teve a vida poupada, pois não houve pronunciamento quanto a ele. Condenado à prisão perpétua, morreu, tempos depois, na cadeia de Maceió. O imperador, porém, negou clemência a Francisco e reiterou a pena de morte por enforcamento ao condenado. Entretanto, implicitamente, D. Pedro II aboliu, a partir desse exato momento, todas as penas de morte, comutando-as em prisão perpétua.

O suplício como espetáculo

Negado o pedido de Graça Imperial, o juiz Francisco José da Silva Porto elegeu a data de 28 de abril de 1876 – dois anos após os assassinatos – para a execução do escravo Francisco, que foi transferido da cadeia de Maceió para a cidade do Pilar, onde seria enforcado. O instrumento de suplício foi erigido, dois troncos de 5,5 metros de altura, no sítio Bonga, local em que a esposa de João de Lima fora assassinada.

O palco do espetáculo estava montado, aguardando apenas o personagem principal. Revelam os jornais da época que mais de 2 mil pessoas acompanharam o cortejo macabro, no qual Francisco foi levado à forca. Percorreu as ruas do Pilar acompanhado pelo carrasco contratado para sua execução, enquanto a sentença condenatória era lida solenemente em voz alta pelo escrivão privativo do júri. Durante o trajeto, o condenado solicitou ao juiz permissão para uma última prece, na igreja do Rosário, sendo atendido.

No sítio, o público era numeroso. A plateia, formada por senhores, feitores, curiosos, proprietários de engenho e também por escravos, em volta da área da forca, estava imobilizada com a cena sombria do espetáculo inédito. O sacerdote declamou o "Creio em Deus Pai". A etapa seguinte era inevitável. Por fim, ao sinal do juiz de rufar do tambor, passou-se algum tempo, e o condenado deu os primeiros passos rumo à encenação trágica.

A pena de morte no Brasil

A punição foi abolida com o advento do Código Penal de 1890, mas voltou a fazer parte da Constituição brasileira durante o regime Vargas e a ditadura militar

O Livro V das Ordenações Filipinas era o livro jurídico vigente no período colonial brasileiro, que tratava do Direito Penal, seu respectivo processo e a execução. Foi sucedido pelo Código Criminal do Império do Brasil, sancionado a 16 de dezembro 1830, e, por consequência, seu instrumental, o Código do Processo Criminal de 1832. A pena última estava prevista na Constituição de 1824, mas foi abolida com o advento do Código Penal de 1890.

As constituições brasileiras redigidas em regimes democráticos – 1891, 1934 e 1946 – foram explicitamente contrárias à legalização da pena de morte (com ressalva à legislação militar em tempo de guerra). Entretanto, constituiu exceção a elaborada na ditadura getulista (1937), que previa a pena última para seis tipos de crime, bem como a que foi elaborada sob o jugo do regime militar – Constituição de 1967 -, que restabeleceu a pena capital para os casos de "guerra psicológica, revolucionária ou subversiva", por meio do Ato Institucional nº 14, de 5 de setembro de 1969, modificando o Art.150, § 11. O Decreto-lei nº 898, de 29 de setembro de 1969, previa a morte por fuzilamento, ou prisão perpétua para os acusados de crimes contra a segurança nacional e a ordem política e social. Por fim, a Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969, outorgada pela Junta Militar, substituía a Carta Magna de 1967, declara que a pena de morte passa a ser aplicada a outros casos, além do de guerra externa, já previsto na legislação anterior.

Atualmente, por intermédio de uma Cláusula Pétrea (dispositivo constitucional imutável, não podendo ser alterado nem mesmo por emenda constitucional), a Constituição Federal Brasileira de 1988, outorgada democraticamente, permite, em seu Art. 5º, Inciso XLVII, a adoção da pena de morte somente para crimes militares em caso de guerra declarada.

À exata uma hora da tarde, Francisco subiu, com coragem, de degrau em degrau, o caminho da morte

À exata uma hora da tarde, Francisco subiu, com coragem, de degrau em degrau, o caminho da morte. Então, saltou e irrompeu em violento som o estrangular da asfixia e ouviu-se o estalar das vértebras cervicais. A cena deixou a enorme plateia de olhos arregalados e visivelmente horrorizada, inclusive algumas senhoras passaram mal ao assistirem tão triste cena. Em seguida, o cadáver foi retirado da forca e enterrado sem pompas no local da execução. Encerrado o espetáculo, a numerosa multidão retornou aos seus afazeres.

Interesses em jogo

Mas por que razão o imperador Pedro II confirmou a pena na forca para Francisco, se esse não era escravo das vítimas? Qual a razão de ter assim procedido? Supõe-se que a conveniência política, mais uma vez, em uma sociedade escravista, interferiu na decisão imperial sobre o desfecho em relação ao condenado. Quando o imperador visitara as províncias do Norte, entre 1859 e 1860, fora bem recepcionado pelas maiores autoridades locais.

o contexto político de agradar-se à comitiva imperial, D. Pedro II foi recebido na cidade do Pilar, a 10 de janeiro de 1860, e agraciado com um vaso de ouro maciço pela elite local. A respeito da visita, D. Pedro II registrou em seu diário: "Ladeira não calçada de todo o caminho do Pilar até a chegada da Atalaia, canal que comunica as lagoas. Boa água nascente. Conversa com os juízes e promotor".

Fez parte da comissão receptiva o dr. Telésforo Viana, até porque era capitão cirurgião da Guarda Nacional, sendo, dois anos após essa visita, eleito deputado provincial por dois mandatos consecutivos. Conforme boletim divulgado no Diário das Alagoas, a 16 de novembro de 1859, o dr. Telésforo Viana foi nomeado, junto a uma comissão, pelo presidente da província alagoana. O objetivo era realizar os preparativos necessários na residência imperial – no prédio denominado Sobrado do Barão – para a recepção de Dom Pedro II.

 

Alagoas: O gosto amargo do açúcar

A província foi marcada pelas crises entre liberais e conservadores e revoltas de escravos

À época do Segundo Reinado (1840-1889), considerando esse período ter iniciado com a maioridade de Pedro II, em 23 de julho de 1840, Alagoas ultrapassou o extraordinário número de 91 administradores (incluindo vice-presidentes em exercício). No período de 12 de abril de 1874 a 25 de abril de 1875, governou a província o dr. João Vieira de Araújo, nomeado por ato imperial de 21 de março de 1874.

Com a potencialidade da economia local voltada principalmente para a cana-de-açúcar, alguns estudiosos, ao analisar a evolução política e administrativa de Alagoas, identificaram diversas características atribuídas ao período provinciano. Registram que esses aspectos estavam condensados a questões de crise política (confronto entre liberais e conservadores pelo poder) e social (Revolta dos Quebra-Quilos, em 1874), bem como de hegemonia econômica, sobretudo no comércio desenvolvido pelos portugueses, na concentração do mercado exportador pelos ingleses e no aumento de impostos.

Todavia, Alagoas não fugiu à regra observada nas demais províncias do Império brasileiro no que tange à violência levada a cabo por negros escravos contra senhores e feitores. Inúmeros foram os casos relativos a esse tipo de reação do escravo, decorrente, a maior parte, pela intensa rigidez da disciplina do trabalho.

As administrações que sucediam à velha província, somente a serviço dos caprichos politiqueiros, mal conseguiam destacar algum melhoramento ou marco duradouro, tendo em vista a efemeridade sucessória dos presidentes. Assim, à proporção que se sobressaía a expansão comercial do período em tela, muitas melhorias, objeto de protesto da sociedade alagoana, nunca foram atendidas.

Na incompleta estatística criminal elaborada pelo chefe de polícia, apesar da falta de dados e elementos seguros, encontram-se, ao menos, a natureza dos crimes cometidos no quadriênio (1871-1874), as quais podem ser verificadas na tabela correspondente.

Crimes cometidos durante os anos de 1871 a 1874 em Alagoas

Natureza dos Crimes

Período (anos)

1871

1872

1873

1874

Sedição

1

Resistência

1

10

2

6

Tomada ou fuga de presos

3

11

18

8

Homicídios

17

27

32

27

Tentativas de homicídios

1

11

3

Ferimentos e ofensas físicas

54

47

24

55

Ameaças

2

4

Estupro

2

7

Roubo

5

12

4

8

Furto

24

45

Calúnias e injúrias

5

8

Moeda falsa

1

Estelionatos e outros crimes contra a sociedade

6

Danos

4

1

Ofensas à religião, moral e bons costumes

7

Vadiação

193

Armas defesas

5

2

Total

324

191

80

108

TOTAL GERAL

703

Escravos fugidos

Uma das poucas alternativas de resistência negra à escravidão era a fuga. Individual ou coletiva, escapar foi a principal maneira de reação do escravo aos maus-tratos e ao regime escravista no qual estava submetido à base da mais dura servidão. Os "papa-méis", alcunha utilizada para os negros fugidos, embrenhavam-se em locais de difícil acesso, em geral, mata adentro.

O cálculo estatístico habitacional realizado em Alagoas, em 1870, aponta índices da população escravizada e livre. Possuía 310.585 habitantes, sendo 261.769 livres e 48.816 escravos. Embora se observe em algumas áreas da província e sob determinados contextos, sobretudo o econômico, o aumento da população livre estava fundamentado na necessidade de novos braços na agricultura monocultora, em especial, a de açúcar. Veja a relação da população livre e cativa na tabela, lembrando que a Lei do Ventre Livre foi promulgada apenas em 1871.


FREGUESIA

LIVRES

ESCRAVOS

TOTAL

Maceió

11.176

1.160

12.336

Porto Calvo

6.887

2.294

9.181

Água Branca

5.661

340

6.001

Coruripe

13.378

3.739

17.117

Penedo

13.482

2.000

15.482

Na província das Alagoas, as fugas coletivas culminavam, algumas vezes, na existência de quilombos, a exemplo de Palmares, na Serra da Barriga e de Songuê, no Pilar. As queixas dos senhores de escravos eram frequentes sobre as fugas, cujos anúncios eram publicados na imprensa maceioense. Uma das exceções foi a Gazeta de Notícias, dirigida por José Higino de Carvalho, que não publicava anúncios sobre escravos fugidos e estava à disposição da Sociedade Libertadora Alagoana (Abolicionista).

Valendo-se da queixa de um senhor de engenho, reproduziremos anúncio curioso publicado em O Liberal, de Maceió, de 18 de junho de 1881. Haja vista, assevera o texto, o escravo possuía habilidades na função de mestre de pedreiro:

"Escravos fugidos – Em fevereiro do corrente ano fugiu do engenho Varrela, propriedade do abaixo-assinado, o seu escravo de nome Benedito, com os sinais seguintes: bem preto, estatura e corpo regular, tendo na barba e na cabeça alguns cabelos brancos, muito bom mestre pedreiro e especial em fornalha de engenho. O abaixo-assinado gratifica com a quantia de 100$000 a quem o pegar dentro da Província e fora dela com 200$000 e protesta contra quem o tiver açoitado, que lhe será o responsável pelos dias de serviço de seu escravo – Engenho Varrela, 1º de junho de 1881 – Aristides Arnaldo Bezerra Cansanção".

No que se refere à captura dos foragidos, competia aos capitães do mato e à Companhia de Polícia executar tal empreitada. Sendo assim, mesmo com o receio de perder a própria vida em meio às fugas, os negros mantinham, na imperiosa resistência, a firmeza e coragem que nunca faltou ao escravo fugido, e a certeza de que o panorama da sociedade escravista não haveria de conciliar gratuitamente a liberdade e a escravidão.

Porém, o que dizer então de outro boletim do jornal Diário das Alagoas, de 2 de novembro de 1878, que acusou o dr. Telésforo Viana de atentar contra a vida, com um tiro de pistola, por ciúme, do então jovem poeta e funcionário público Antonio Romariz. A vítima, Antonio Romariz, fundador do jornal O Órgão do Povo e da revista O Eco do São Francisco, editados em Penedo, dirigiu-se ao chefe de polícia a quem pediu providências. Observação que deve aqui ser feita é que, segundo o boletim, os liberais empenhavam-se na defesa do dr. Telésforo, o qual passeava de "ombros" com as autoridades, ante o fato ocorrido. O aludido escrito recordou, inclusive, a punição do escravo Francisco. Segundo o qual o médico "empenhou-se com o júri para que o levasse ao cadafalso", bem como continuou "empenhando-se pela morte de um seu escravo quando deveria opor-se".

A forma como eram realizadas as "penas últimas" foram arduamente criticadas pelos jornais do País na época. Muitos escravos eram executados com extrema crueldade

Senhores e escravos

Nas questões referentes ao motivo dos assassinatos, nunca apareceu um questionamento sobre o tratamento dispensado pelas vítimas aos escravos. A alegação dos assassinos de que eram maltratados, castigados e obrigados a trabalhar durante vários dias, muitas vezes sem alimentação, soou como simples ato que estava atrelado à responsabilidade de seu senhor. Essa tensão natural entre senhores e escravos, inerente às complexas relações senhor/escravo na sociedade escravista, jamais foi avaliada com relação ao crime.

A crueldade com que foram ceifadas as vítimas pela ação explosiva dos escravos, conforme relato dos jornais da época e relatórios provinciais, certamente contribuiu para a execução do condenado à pena última. De qualquer forma, o escravo Francisco transcendeu sua simples vida ao perpetuar sua existência na História do Brasil como o último enforcado judicialmente no País.

Fonte: Portal Ciência e Vida – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

Mais uma onda de sem-teto, a pior

Nova York e outras cidades esperam, no verão, o maior número de desabrigados de todos os tempos

Julie Bosman

– No fim do ano letivo, no mês passado, Arielle Figueras subiu de beca e chapéu de formatura no palco da sua escola para receber orgulhosa o diploma da 5ª série. No dia seguinte, não tinha mais casa para morar.
Arielle, de 11 anos, e seus pais, irmão e irmã empacotaram seus pertences e dirigiram-se ao centro de acolhida para famílias sem teto no South Bronx. Embora brigassem com o senhorio havia meses e o fornecimento de gás e luz tivesse sido desligado, eles se recusaram a sair do apartamento antes do fim das aulas. "Ela estava se formando, por isso tivemos de esperar", disse a mãe de Arielle, Marilyn Maldonado.
Para muitos nova-iorquinos, o verão é uma época de férias, campings e dias de ócio na praia. Mas a prefeitura se prepara para um ritual de verão muito diferente, em razão do grande aumento das famílias sem teto. As autoridades o chamam de "o surto de verão" e afirmam que este ano poderá ser o pior já registrado.
Como nesta primavera a população sem teto aumentou mais de 20% em relação ao mesmo período do ano passado, talvez por causa do aumento do desemprego, a prefeitura deve atender nos abrigos ao maior número de famílias de todos os tempos, prevendo a entrada de cerca de 10 mil. O número já está em torno dos 9.400.
Outras cidades observam tendência semelhante. Em Toledo, Ohio, um abrigo superlotado manda de volta à rua dezenas de pessoas, todas as noites. Em Charlotte, Carolina do Norte, outro abrigo que costuma abrir somente no inverno manteve as portas abertas no verão para atender à demanda, que cresceu 20% em relação ao verão passado. Do outro lado da cidade, um abrigo do Exército de Salvação está tão lotado que precisou colocar colchões no chão dos quartos.
Os motivos são vários, mas simples. Os senhorios que relutam em despejar as pessoas no inverno hesitam menos no verão, quando o clima é mais ameno. Pais como os Maldonado, que suportaram viver numa habitação sem conforto para poupar aos filhos a agitação e a humilhação na escola, finalmente ajeitaram suas coisas e partiram. Além disso, parentes que hospedam famílias em apartamentos apinhados perdem a paciência quando, de repente, encontram crianças correndo pela casa o dia inteiro.
Nos últimos três anos, em Nova York, o número de famílias sem teto que se inscreveram para ter lugar em um abrigo no verão cresceu 28% em relação ao restante do ano. Sua primeira parada é no centro de acolhida, um edifício de tijolos imenso, localizado no Bronx, com 6.130 mil metros quadrados e aberto 24 horas por dia. Elas precisam passar por detectores de metal e responder a uma série de perguntas feitas pelo pessoal do serviço social. Depois de esperar horas, são levadas de ônibus para um quarto ou um apartamento de hotel, onde permanecerão temporariamente.
O serviço social começou a arrumar espaço para as centenas de novas famílias que estão sendo esperadas no centro neste verão. No segundo andar, foram desmantelados todos os cubículos para dar lugar a uma sala de espera única, com fileiras de cadeiras de plástico para até 114 pessoas. Instalou-se ainda uma série de armários de metal cinza claro – suficientemente espaçosos para conter várias malas. Os funcionários do centro só podem tirar uma semana de férias durante julho e agosto.
No verão, poucas horas depois do encerramento do ano letivo nas escolas públicas, as famílias começam a chegar ao centro, os rostos tensos por causa do stress. Uma mulher entra agitada com o filho jovem, ainda com uma mochila azul vibrante nas costas, segurando uma braçada de livros.
Outra mulher, que não quis se identificar, espera fora com a filha, que acaba de finalizar o 2º grau. "Minha irmã disse que não poderíamos mais ficar morando com ela", conta, abanando-se por causa do calor úmido.
O pai de Arielle, Douglas Maldonado, afirma que seu senhorio parou de fazer consertos na casa e alterou a conta de luz do prédio para que a família Maldonado pagasse a conta de outros apartamentos, conta essa que chegou a US$ 8 mil por mês. Mas ele continuou no seu até que Arielle se formasse e o filho, Sabino Figueras, terminasse a 8ª série, na semana anterior.
O prefeito Michael Bloomberg já enfrentou outras vezes esses problemas com a chegada das famílias sem teto no verão. Em 2002, as autoridades permitiram que pais e filhos dormissem no chão do escritório de acolhida. Outras famílias foram instaladas em uma cadeia masculina vazia, no Bronx, que posteriormente se soube estava contaminada com tinta à base de chumbo.
Neste verão, a prefeitura acolherá os sem-teto em abrigos já existentes, não muito lotados, e em edifícios de apartamentos vazios que foram reformados para essas famílias, disse Robert V. Hess, o comissário do serviço para os sem-teto.
Uma parte essencial do plano da prefeitura é colocar as famílias temporariamente em hotéis, alguns dos quais são usados tanto para pessoas necessitadas quanto para clientes pagantes. Hess não quis dar o nome desses hotéis, mas disse que num deles, no Queens, o seu departamento reservará 120 quartos para as famílias. Durante o inverno, o departamento costuma reservar ali de 20 a 30 quartos. A família Maldonado passou as primeiras noites em um hotel da Rua 145, no Bronx. Um dos colchões do quarto, segundo Maldonado, fedia e estava manchado de urina.
No dia 28 de junho, Tarshima Dixon, mãe de quatro filhos, foi para o centro de acolhida com seu filho Jason, de 14 anos. Outros dois filhos, Craig Dixon, de 13, e Nahjee Johnson, de 8, esperavam do lado de fora com a avó, brincando com uma bola de basquete na calçada enquanto a música Billie Jean, de Michael Jackson, tocava no rádio da sua minivan.
A família foi despejada em abril, e a avó não tinha lugar para todos. Portanto, a sra. Dixon com Craig, Nahjee e outro filho de 16 anos, Gregory, mudaram-se para um abrigo no Brooklyn. Jason morava com o pai em Camden, Nova Jersey, mas a mãe queria que ele voltasse para morar com os irmãos. Tiveram de ir para o centro de acolhida. A prefeitura precisava saber, enfim, que haveria mais uma pessoa sem teto precisando de uma cama.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

A favela como um espaço da cidade

Ao estudar os bolsões de moradia irregular, a classe aprende sobre o espaço, a transformação do visual e as relações sociais e econômicas.

Ana Rita Martins

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro. Foto: Sambaphoto/Paulo Fridman/Getty Images

Favela da Rocinha no Rio de Janeiro.
Foto: Sambaphoto/Paulo Fridman/Getty Images.

Subindo morros, margeando córregos ou penduradas em palafitas, as favelas fazem parte da paisagem de um terço dos municípios do país, abrigando mais de 10 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nas salas de aula, é difícil encontrar um professor que já não tenha recebido um estudante morador dessas áreas – ou, inclusive, lecionado em uma unidade dentro desses precários complexos habitacionais. Mesmo assim, nos livros didáticos dos estudantes, é raro encontrar uma abordagem aprofundada sobre o tema.
Estudar o assunto em classe, mais do que uma forma de romper preconceitos, é uma oportunidade para ensinar a turma a reconhecer as diferentes formas das paisagens urbanas, compará-las, entender as modificações no espaço feitas pelo homem e as relações sociais e econômicas nesses territórios. O primeiro passo para iniciar a discussão é entender como esses bolsões de moradia surgiram.
O crescimento da cidade e o aparecimento das favelas

Com o declínio do mercado negreiro, ex-escravos e outras parcelas da população acabaram se fixando em fundos de vale e encostas de morros, que, por estarem dentro da cidade, ficavam mais próximos do mercado de trabalho, conta o geógrafo Andrelino Campos, no livro Do Quilombo à Favela – A Produção do Espaço. Com o desenvolvimento da economia brasileira durante o século 20, esses espaços também foram sendo ocupados, pouco a pouco, pelas pessoas que saíam do campo em busca de melhores condições nos centros urbanos, mas que não podiam pagar para morar nas áreas nobres.
O tempo fez crescer o número de favelas no Brasil sem que, no entanto, o Estado oferecesse a infraestrutura apropriada – com acesso a saneamento básico e segurança, por exemplo. "A população se organizou. Podemos citar os mutirões e também as associações de moradores, criadas para reivindicar o acesso a serviços públicos", afirma Jailson de Souza, geógrafo da organização não-governamental Observatório de Favelas.
Em classe, cabe ao professor abordar a organização coletiva para os alunos perceberem a importância da luta social pela alteração do espaço. As relações familiares, marcadas pela convivência em cômodos apertados, também podem servir de subsídio para conversar com a turma. Nas discussões sobre emprego e renda, a questão da ilegalidade na obtenção de energia, luz e esgoto – os chamados "gatos" – não pode ser esquecida.
Pobreza material não significa miséria cultural

Foto: Marcelo Min

TRANSFORMAÇÃO Os mutirões fazem parte da realidade das favelas. Coletivamente, o espaço da cidade é modificado. Foto: Marcelo Min

É importante que os estudantes também percebam que a favela não é um espaço isolado e caracterizado apenas por problemas socioeconômicos e de infraestrutura. "Por ser um ambiente multicultural, com pessoas vindas de diferentes lugares do país, esse espaços se tornaram condensadores de cultura", afirma Paulo Lins, poeta e autor do livro Cidade de Deus, que dedicou parte de sua vida a pesquisas antropológicas sobre o assunto. "Não à toa, certas manifestações que fazem parte da identidade cultural brasileira, como o samba e o pagode, têm seus maiores expoentes vindos justamente das comunidades. O rap, o funk e mesmo a religiosidade afro-brasileira, como a umbanda e o candomblé, também floresceram lá. Pobreza material não significa pobreza cultural", complementa.

Foto: Marcelo Min

MISTURA CULTURAL Abrigando negros, brancos e índios, os bolsões de moradia são caldeirões musicais. Foto: Marcelo Min

Diversidade é um conceito presente a todo momento nas discussões sobre os bolsões de moradias irregulares. É necessário explorar também o fato de que elas não são todas iguais. "No Norte e no Nordeste do país, existem comunidades erguidas sobre palafitas por causa de cheias dos rios e de mangues. E podem existir tipos diferentes de casa: de alvenaria e de madeirite, por exemplo", afirma Antonia dos Santos Garcia, mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para compreender a realidade da favela por meio do seu espaço, o professor pode usar os procedimentos geográficos de observação, descrição e registro. Se for recorrer a fotografias, é essencial que elas mostrem a disposição das ruas, os tipos de moradia e os bairros que circundam a comunidade. Com base nisso, deve perguntar aos alunos quais elementos percebem após essa observação. As ruas são asfaltadas? Há espaço para a circulação de transporte público? De que materiais são feitas as moradias? E quais elementos estabelecem os limites físicos entre a favela e os bairros?

Foto: SambaPhoto/Juan Pratginestos/Getty Images

HETEROGENEIDADE Barracos em palafitas, comuns no Norte e Nordeste, constrastam com as favelas de morro. Foto: SambaPhoto/Juan Pratginestos/Getty Images

Para comparar diferentes paisagens, é útil usar também imagens do bairro vizinho e fazer as mesmas perguntas para que eles identifiquem semelhanças e diferenças. A descrição, feita durante um debate com a turma, depois que todos analisarem as fotografias, merece registro em um texto.

A turma precisa perceber se as casas são numeradas, se as ruas têm nome, se a favela é pequena ou grande, próxima ou distante do centro. "É fundamental abordar ainda o modo de vida das pessoas, pois a paisagem também é composta das relações sociais que nela se estabelecem", afirma Roberto Giansanti, geógrafo e autor de livros didáticos.

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

Em 2008, bancos tiveram mais ajuda que pobres em 50 anos

Segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU), enquanto os países pobres receberam, em meio século, cerca de US$ 2 trilhões em doações de países ricos, bancos e outras instituições financeiras ganharam, em apenas um ano, US$ 18 trilhões em ajuda pública. A ONU alertou que a crise econômica mundial piorará ainda mais a situação dos países mais pobres, agravando os problemas da fome, da desnutrição e da pobreza.

Redação - Carta Maior

O setor financeiro internacional recebeu, apenas em 2008, quase dez vezes mais recursos públicos do que todos os países pobres do planeta nos últimos cinqüenta anos. O dado foi divulgado nesta quarta-feira (24) pela campanha da Organização das Nações Unidas (ONU) pelas Metas do Milênio, destinada a combater a fome e a pobreza no mundo. Enquanto os países pobres receberam, em meio século, cerca de US$ 2 trilhões em doações de países ricos, bancos e outras instituições financeiras ganharam, em apenas um ano, US$ 18 trilhões em ajuda pública.
A ONU alertou que a crise econômica mundial piorará ainda mais a situação dos países mais pobres, lembrando que, na semana passada, a Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) afirmou que a crise deixará cerca de 1 bilhão de pessoas passando fome no mundo.
A revelação foi feita no início de uma conferência entre países ricos e pobres, que ocorre na sede da ONU, em Nova York, para debater o impacto da crise. Segundo o diretor da Campanha pelas Metas do Milênio, Salil Shetty, esses números mostram que a destinação de recursos públicos ao desenvolvimento dos países mais pobres não é uma questão de falta de recursos, mas sim de vontade política.
“Sempre digo que se você fizer uma promessa e não cumprir, é quase um pecado, mas se fizer uma promessa a pessoas pobres e não cumprir, então é praticamente um crime”, disse Shetty à BBC. “O que é ainda mais paradoxal”, acrescentou, “é que esses compromissos (firmados pelos países ricos para ajudar os mais pobres) são voluntários”. “Ninguém os obriga a firmá-los, mas logo eles são renegados”, criticou o funcionário da ONU.
Um dos efeitos desta perversa distorção foi apontado pela FAO: a quantidade de pessoas desnutridas aumentará no mundo em 2009, superando a casa de um bilhão. “Pela primeira vez na história da humanidade, mais de um bilhão de pessoas, concretamente 1,02 bilhão, sofrerão de desnutrição em todo o mundo”, advertiu a entidade. A FAO considera subnutrida a pessoa que ingere menos de 1.800 calorias por dias.
Do total de pessoas subnutridas hoje no mundo, 642 concentram-se na Ásia e na região do Pacífico e outras 265 milhões vivem na África Subsaariana. Na América Latina e Caribe, esse número é de 53 milhões de pessoas. Em 2008, o total de desnutridos tinha caído de 963 milhões para 915 milhões. O motivo foi uma melhor distribuição dos alimentos, Mas com a crise, o quadro de fome no mundo voltará a se agravar. Segundo a estimativa da ONU, um milhão de pessoas deverão passar fome no mundo nos próximos meses.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

O acadêmico e o boêmio

Machado de Assis e Lima Barreto foram considerados antípodas pela crítica tradicional, mas as releituras recentes do autor de Dom Casmurropermitem perceber como ponto comum entre os dois escritores cariocas a preocupação com as contradições da formação nacional.

Carlos Eduardo Ortolan Miranda

"A minha alma é de
bandido tímido" Lima Barreto

Seria tarefa difícil a imaginação de existências mais distintas do que as vividas por Machado de Assis e Lima Barreto. Com efeito, à vida de tranqüilidade metódica, sucesso extraordinário na República das Letras e na carreira burocrática, ao casamento feliz e ao reconhecimento social do bruxo do Cosme Velho, contrapor-se-ia de forma completa Lima Barreto em sua luta diuturna pela sobrevivência, enfrentando a tragédia familiar do pai condenado pela doença mental, escravizado a um emprego modesto como amanuense em uma repartição pública, entregue ao vício da bebida que o conduziria por fim à morte precoce, não sem antes ter atravessado um calvário de acessos de loucura e internações em hospitais psiquiátricos, e acumulado fracassos e frustrações de toda ordem.

Sofrimentos de herói dostoievskiano e realização da felicidade burguesa, vida boêmia e chá da Academia, celibato e solidão e uma esposa dedicada e culta, desespero e alcoolismo e paz de espírito, essas polaridades antitéticas parecem mesmo desestimular qualquer aproximação entre ambos. E, se deixarmos  por um instante o âmbito das informações dos episódios biográficos, encaminhando-nos para a avaliação crítica das obras dos dois autores, a clivagem parece, à primeira vista, tornar-se verdadeiramente abissal.

Com efeito, e tratando-se de um caso quase único em nossa história literária, Machado de Assis conheceu, ainda em vida, uma avaliação laudatória praticamente unânime da crítica de seu tempo (a nota dissonante sendo Sílvio Romero), que o julgava um fino cultor do estilo, um analista profundo dos meandros da alma humana, um cético à maneira de Anatole France, repleto de humour inglês, lançando um olhar de galhofa por sobre seu pincenê. Tal estilo machadiano, que coleciona influências universais dos clássicos, de Montaigne a Pascal, de Homero à Bíblia e aos padres da Igreja, de Dante e Shakespeare a Almeida Garrett e aos ironistas ingleses, passando por uma leitura profundamente cuidadosa do melhor da produção nacional, que recupera e supera, caracteriza-se pela elegância, inteligência e espirituosidade refinadas. Arte suprema de dissimulação, jogo de esquivas e de despistamento, a obra de Machado teve, por suas próprias características de construção e elaboração, um estranho destino: foi julgada absolutamente genial (o que é certamente verdadeiro), mas por razões bastante diversas das atualmente sustentadas pela fortuna crítica. Machado seria, aos olhos dos intérpretes seus contemporâneos (e mesmo depois), um autor universal, que combinaria o olhar de psicólogo ou filósofo a um desprezo pelas questões menores da vida nacional. Um perscrutador da alma humana que não desperdiçaria seu poder analítico olhando para o Brasil. Em suma, um escritor aris tocrata, um cético e um absenteísta político. Nas palavras de Lima Barreto (conforme citado por Francisco de Assis Barbosa, em A vida de Lima Barreto): "Machado era um homem de sala, amoroso das coisas delicadas, sem uma grande, larga e ativa visão da humanidade e da Arte. Ele gostava das coisas decentes e bem postas, da conversa da menina pren dada, da garridice das moças."

O caso paradigmático parece ser o de Dom Casmurro. Todos decerto conhecemos a infindável (pois indecidível) polêmica acerca da culpabilidade ou inocência de Capitu. Houve até o caso recente da tentativa de instauração de um "tribunal" para que se julgasse o mérito da questão, o que só reforça o espírito poderoso da criação machadiana. Poderoso, como veremos, menos por sua natureza de aventura rocambolesca de folhetim, mas por ser revelador de contradições muito determinadas da sociedade brasileira.

Foi necessário transcorrer mais de meio século da publi cação da obra para que seu sentido mais profundo principiasse a ser deslindado pela crítica. Refiro-me aos trabalhos de Helen Caldwell, John Gledson e Roberto Schwarz, que imprimiram uma direção completamente nova aos estudos machadianos. Assim, em lugar de uma discussão um tanto tola e ociosa acerca de um possível caso de adultério, os estudos em questão apontam para um sentido muito mais grave e recôndito: quem está, na verdade, sob desconfiança e suspeição, quem merece um olhar crítico não é mais a provável adúltera, mas seu acusador. É Bentinho, bacharel em direito, católico, proprietário, conservador até o último fio de cabelo, que ao narrar a história produz uma verdadeira peça de acusação jurídica, peça essa que, acuradamente analisada por Gledson e Schwarz, revelará seu caráter essencial de mistificação, engano, táticas sofísticas e artimanhas legais de toda sorte.

Portanto, longe de tratar-se apenas, como sugeria a análise anteriormente citada, de um escritor pouco afeito às questões mais graves da vida nacional, a clarividência de Machado localizava, com precisão absoluta, toda a constelação de problemas que constitui a má-formação nacional. Por detrás do discurso elegante e dos artíficios da sedução oratória, oculta-se uma crítica impiedosa, que, do ponto de vista da realização formal, beira o maquiavelismo: Machado explicita sua crítica não confrontando a elite ou escrevendo invectivas contra ela, como o Lima Barreto de Isaías Caminha, por exemplo, mas lhe dando voz. Ao tornar Brás Cubas e Bento Santiago protagonistas, Machado expõe-lhes magistralmente o caráter violento, politicamente regressivo e historicamente pernicioso. O escritor de salão e da pilhéria inglesa, preocupado com as grandes questões de uma "alma humana universal" (o que quer que isso possa significar) aparece-nos, sob nova luz, como um crítico ferino das iniqüida des mais terríveis da história brasileira.

Retomando o argumento: a visão da crítica tradicional, que chegou mesmo a considerar "absurda" a comparação entre ambos os autores (leia-se, a esse respeito, comentário de Brito Broca em Papéis de Alceste) e que era, segundo vimos, compartilhada pelo próprio Lima Barreto, parece fundar-se em uma leitura equivocada ou, no mínimo, limitadora da obra de Machado; ao apostar todas as fichas do exercício analítico no caráter univocamente universal da ficção machadiana (universalidade efetivamente existente, mas que, como vimos tentando argumentar, longe de ser unívoca ou fundar-se em uma negação de seu tempo e de sua história, extraía sua força e sentido, ao contrário, de um equacionamento muito fino das contradições formativas da época), a distância entre o intelectual de gabinete e presidente da Academia de Letras e o boêmio maltrapilho, defensor radical de uma literatura, com perdão da palavra um tanto fora de moda, "engajada", afigura-se realmente imensa.

O que parece então digno de no ta é que, depois do renversement crítico ao qual aludimos, Machado e Lima estariam, sim, no mesmo campo. Seriam, abusando do anacronismo provocador, compagnons de route. Eles tratavam, sim, de uma e mesma coisa. Produziram literatura (extraordinária, no caso de Machado, e com momentos de excelência, no tocante a Lima)  a partir de uma perspectiva crítica, lúcida e consciente do país em que viviam. Numa simplificação excessiva e evidente, o bisturi de Machado procura preferencialmente seccionar o nervo das relações entre a figura do agregado (da qual ele fazia parte, ao menos em sua juventude) e as elites econômicas, representadas geralmente por herdeiros de fortunas de base agrária um tanto perdidos no novo mundo da modernização capitalista, num período em que,  par excellence, "tudo o que era sólido desmanchava no ar". Já Lima elege, via de regra, como núcleo dramático de seus romances, a figura do cidadão das classes inferiores, que ao não conseguir as benesses de um benfeitor magnânimo, ou no entrechoque da busca de ascensão social, é inexoravelmente condenado à miséria, aos empregos subalternos e humilhantes, à doença e à exclusão social. Temos aqui, de preferência, a crônica de um "outro" Rio de Janeiro, como aponta Walnice Nogueira Galvão em ensaio recente ("Uma cidade, dois autores", em Desconversa, Editora da UFRJ). O microcosmo dos subúrbios e da periferia, e não o da rua do Ouvidor de Machado, com sua comédia humana particular, seu conjunto de sonhos, aspirações e angústias, seus militares de nenhuma glória que lutam por um estipêndio qualquer, seus intelectuais provincianos enfatuados e medíocres, seus bacharéis ignaros e rancorosos, suas donzelas casadoiras de pouco brilho e quase nenhum dote, forma precisamente o entrecho e o espaço ficcional do romance mais bem-acabado de Lima, o Policarpo Quaresma. A saber, dado o mesmo país, o mesmo tempo (com um intervalo histórico pequeno, é verdade) e a mesma trama de relações sociais, o foco dos protagonistas é deslocado, em um e outro de nossos autores, com as conseqüências que acompanhamos.

Assim, estamos portanto próximos de um movimento interessante: é o desenvolvimento da fortuna crítica machadiana, a partir do apuramento de seu arsenal teórico, que, não seria ocioso relembrar, se desenvolveu de forma solidária ao ajuste de sintonia fina do pensamento sobre os problemas nacionais, que passa a lançar luz sobre a obra, pouca estudada, mas de importância, suponho, inegável, de Lima Barreto.

À guisa de conclusão, e ao che garmos aos oitenta anos da morte do boêmio-escritor, leiamos Lima e Machado. Eles têm muito a nos dizer sobre os dramas da história nacional recente e, devo acrescentar com uma ponta de amargura, sobre os dramas dos tempos em que vivemos.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

O Materialismo Histórico

O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuidos, capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma continuação, mais desenvolvida e mais conseqüente, dos princípios proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao nascer, às Idéias existentes. 

A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na idéia que eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a razão se converteu em insensatez e a bênção em praga (7), isso não é mais que um indício de que nos métodos de produção e nas formas de distribuição produziram-se silenciosamente transformações com as quais já não concorda a ordem social, talhada segundo o padrão de condições econômicas anteriores. E assim já está dito que nas novas relações de produção têm forçosamente que conter-se – mais ou menos desenvolvidos – os meios necessários para pôr termo aos males descobertos. E esses meios não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobrí-los nos fatos materiais da produção, tal e qual a realidade os oferece.

Qual é, nesse aspecto, a posição do socialismo moderno?

A ordem social vigente – verdade reconhecida hoje por quase todo o mundo – é obra das classes dominantes dos tempos modernos, da burguesia. O modo de produção característico da burguesia, ao qual desde Marx se dá o nome de modo capitalista de produção, era incompatível com os privilégios locais e dos estados, como o era com os vínculos interpessoais da ordem feudal. A burguesia lançou por terra a ordem feudal e levantou sobre suas ruínas o regime da sociedade burguesa, o império da livre concorrência, da liberdade de domicílio, da igualdade de direitos dos possuidores de mercadorias, e tantas outras maravilhas burguesas. Agora já podia desenvolver-se livremente o modo capitalista de produção. E ao chegarem o vapor e a nova maquinaria ferramental, transformando a antiga manufatura na grande indústria, as forças produtivas criadas e postas em movimento sob o comando da burguesia desenvolveram-se com uma velocidade Inaudita e em proporções até então desconhecidas. Mas, do mesmo modo que em seu tempo a manufatura e o artesanato, que continuava desenvolvendo-se sob sua influência, se chocavam com os entraves feudais das corporações, a grande indústria, ao chegar a um uivei de desenvolvimento mais alto, já não cabe no estreito marco em que é contida pelo modo de produção capitalista. As novas forças produtivas transbordam já da forma burguesa em que são exploradas, e esse conflito entre as forças produtivas e o modo de produção não é precisamente nascido na cabeça do homem – algo assim como o conflito entre o pecado original do homem e a Justiça divina – mas tem suas raízes nos fatos, na realidade objetiva, fora de nós, independentemente da vontade ou da atividade dos próprios homens que o provocaram. O socialismo moderno não é mais que o reflexo desse conflito material na consciência, sua projeção Ideal nas cabeças, a começar pelas da classe que sofre diretamente suas conseqüências: a classe operária.

Em que consiste esse conflito? Antes de sobrevir a produção capitalista, isto é, na Idade Média, dominava, com caráter geral, a pequena Indústria, baseada na propriedade privada do trabalhador sobre seus meios de produção: no campo, a agricultura corria a cargo de pequenos lavradores, livres ou vassalos; nas cidades, a indústria achava-se em mãos dos artesãos. Os meios de trabalho – a terra, os instrumentos agrícolas, a oficina, as ferramentas – eram meios de trabalho individual, destinados unicamente ao uso individual e, portanto, forçosamente, mesquinhos, diminutos, limitados. – Mas isso mesmo levava a que pertencessem, em geral, ao próprio produtor. O papel histórico do modo capitalista de produção e seu portador – a burguesia – consistiu precisamente em concentrar e desenvolver esses dispersos e mesquinhos meios de produção, transformando-os nas poderosas alavancas produtoras dos tempos atuais. Esse processo, que a burguesia vem desenvolvendo desde o século XV e que passa historicamente pelas três etapas da cooperação simples, a manufatura e a grande indústria, é minuciosamente exposto por Marx na seção quarta de O Capital. Mas a burguesia, como fica também demonstrado nessa obra, não podia converter aqueles primitivos meios de produção em poderosas forças produtivas sem transformá-los de meios individuais de produção em meios sociais, -só manejáveis por uma coletividade de homens. A roca, O tear manual e o martelo do ferreiro foram substituídos pela máquina de fiar, pelo tear mecânico, pelo martelo movido a vapor; a oficina individual deu o lugar à fábrica, que impõe a cooperação de centenas e milhares de operários. E, com os meios de produção, transformou-se a própria produção, deixando de ser uma cadeia de atos Individuais para converter-se numa cadeia de atos sociais, e os produtos transformaram-se de produtos individuais em produtos sociais. O fio, as telas, os artigos de metal que agora safam da fábrica eram produto do trabalho coletivo de um grande número de operários, por cujas mãos tinha que passar sucessivamente para sua elaboração. Já ninguém podia dizer: isso foi feito por mim, esse produto é meu.

Mas onde a produção tem por forma principal um regime de- divisão social do trabalho criado paulatinamente, por impulso elementar, sem sujeição a plano algum, a produção imprime aos produtos a forma de mercadoria, cuja troca, compra e venda permitem aos diferentes produtores Individuais satisfazer suas diversas necessidades. E Isso era o que acontecia na Idade Média. O camponês, por exemplo, vendia ao artesão os produtos da terra, comprando-lhe em troca os artigos elaborados em sua oficina. Nessa sociedade de produtores Isolados, de produtores de mercadorias, veio a Introduzir-se mais tarde o novo modo de produção. Em meio àquela divisão elementar do trabalho, sem plano nem sistema, que imperava no seio de toda a sociedade, o novo modo de produção implantou a divisão planificada do trabalho dentro de cada fábrica; ao lado da produção individual surgiu a produção social Os produtos de ambas eram vendidos no mesmo mercado e, portanto, a preços aproximadamente iguais. Mas a organização planificada podia mais que a divisão elementar do trabalho; as fábricas em que o trabalho estava organizado socialmente elaboravam seus produtos mais baratos que os pequenos produtores Isolados. A produção Individual foi pouco a pouco sucumbindo em todos os campos e a produção social revolucionou todo o antigo modo de produção. Contudo, esse caráter revolucionário passava despercebido; tão despercebido que, pelo contrário, se Implantava com a única e exclusiva finalidade de aumentar e fomentar a produção de mercadorias. Nasceu diretamente ligada a certos setores de produção e troca de mercadorias que já vinham funcionando: o capital comercial, a indústria artesanal e o trabalho assalariado. E já que surgia como uma nova forma de produção de mercadorias, mantiveram-se em pleno vigor sob ela as formas de apropriação da produção de mercadorias.

Na produção de mercadorias, tal como se havia desenvolvido na Idade Média, não podia surgir o problema de a quem pertencer os produtos do trabalho. O produtor individual criava-os, geralmente, com matérias-primas de sua propriedade, produzidas não poucas vezes por ele mesmo, com seus próprios meios de trabalho e elaborados com seu próprio trabalho manual ou de sua família. Não necessitava, portanto, apropriar-se deles, pois já eram seus pelo simples fato de produzi-los. A propriedade dos produtos baseava-se, pois, no trabalho pessoal. E mesmo naqueles casos em que se empregava a ajuda alheia, esta era, em regra, acessória, e recebia freqüentemente, além do salário, outra compensação: o aprendiz e o oficial das corporações não trabalhavam menos pelo salário e pela comida do que para aprender a chegar a ser mestres algum dia. Sobrevêm a concentração dos meios de produção em grandes oficinas e manufaturas, sua transformação em meios de produção realmente sociais. Entretanto, esses meios de produção e seus produtos sociais foram considerados como se continuassem a ser o que eram antes: meios de produção e produtos individuais. E se até aqui o proprietário dos meios de trabalho se apropriara dos produtos, porque eram, geralmente, produtos seus e a ajuda constituía uma exceção, agora o proprietário dos meios de trabalho continuava apoderando-se do produto, embora já não fosse um produto seu, mas fruto exclusivo do trabalho alheio. Desse modo, os produtos, criados agora socialmente, não passavam a ser propriedade daqueles que haviam posto realmente em marcha os meios de produção e eram realmente seus criadores, mas do capitalista. Os meios de produção e a produção foram convertidos essencialmente em fatores sociais. E, no entanto, viam-se submetidos a uma forma do apropriação que pressupõe a produção privada Individual, Isto é, aquela em que cada qual é dono de seu próprio produto e, como tal, comparece com ele ao mercado. O modo de produção se vê sujeito a essa forma de apropriação apesar de destruir o pressuposto sobre o qual repousa(8) Nessa contradição, que imprime ao novo modo de produção o seu caráter capitalista, encerra-se em germe, todo o conflito dos tempos atuais. E quanto mais o novo modo de produção se impõe e impera em todos os campos fundamentais da produção e em todos os países economicamente importantes, afastando a produção individual, salvo vestígios insignificantes, maior é a evidência com que se revela a incompatibilidade entre a produção social e a apropriação capitalista.

Os primeiros capitalistas já se encontraram, como ficou dito, com a forma do trabalho assalariado. Mas como exceção, como ocupação secundária, como simples ajuda, como ponto de transição. O lavrador que saía de quando em vez para ganhar uma diária, tinha seus dois palmos de terra própria, graças às quais, em caso extremo, podia viver. Os regulamentos das corporações velavam para que os oficiais de hoje se convertessem amanhã em mestres. Mas, logo que os meios de produção adquiriram um caráter social e se concentraram em mãos dos capitalistas, as coisas mudaram. Os meios de produção e os produtos do pequeno produtor individual foram sendo cada vez mais depreciados, até que a esse pequeno produtor não ficou outro recurso senão ganhar um salário pago pelo capitalista. O trabalho assalariado, que era antes exceção e mera ajuda, passou a ser regra e forma fundamental de toda a produção, e o que era antes ocupação acessória se converte em ocupação exclusiva do operário. O operário assalariado temporário transformou-se em operário assalariado para toda a vida. Ademais, a multidão desses para sempre assalariados vê-se engrossada em proporções gigantescas pela derrocada simultânea da ordem feudal, pela dissolução das mesnadas (9) dos senhores feudais, a expulsão dos camponeses de suas terras, etc. Realizara-se o completo divórcio entre os meios de produção concentrados nas mãos dos capitalistas, de um lado, e, de outro lado, os produtores que nada possuíam além de sua própria força de trabalho. A contradição entre a produção social e a apropriação capitalista reveste a forma de antagonismo entre o proletariado e a burguesia.

Vimos que o modo de produção capitalista Introduziu-se numa sociedade de produtores de mercadorias, de produtores Individuais, cujo vinculo social era o intercâmbio de seus produtos. Mas toda sociedade baseada na produção de mercadorias apresenta a particularidade de que nela os produtores perdem o comando sobre suas próprias relações sociais. Cada qual produz para si, com os meios de produção de que consegue dispor, e para as necessidades de seu intercâmbio privado. Ninguém sabe qual a quantidade de artigos do mesmo tipo que os demais lançam no mercado, nem da quantidade que o mercado necessita; ninguém sabe se seu produto Individual corresponde a uma demanda efetiva, nem se poderá cobrir os gastos, nem sequer, em geral, se poderá vendê-lo. A anarquia Impera na produção social. Mas a produção de mercadorias tem, como toda forma de produção, suas leis características, próprias e Inseparáveis dela; e essas leis abrem caminho apesar da anarquia, na própria anarquia e através dela. Tomam corpo na única forma de enlace social que subsiste: na troca, e se Impõem aos produtores Individuais sob a forma das leis Imperativas da concorrência. A principio, esses produtores as Ignoram, e é preciso que uma larga experiência vá revelando-as, pouco a pouco. Impõem-se, pois, sem os produtores, e mesmo contra eles, como leis naturais cegas que presidem essa forma de produção. O produto Impera sobre o produtor.

Na sociedade medieval, e sobretudo em seus primeiros séculos, a produção destinava-se principalmente ao consumo próprio, a satisfazer apenas às necessidades do produtor e sua família. E onde, como acontecia no campo, subsistiam relações pessoais de vassalagem, contribuía também para satisfazer às necessidades do senhor feudal. Não se produzia, pois, nenhuma troca, nem os produtos revestiam, portanto, o caráter de mercadorias. A família do lavrador produzia quase todos os objetos de que necessitava: utensílios, roupas e viveres. Só começou a produzir mercadorias quando começou a criar um excedente de produtos, depois de cobrir suas próprias necessidades e os tributos em espécie que devia pagar ao senhor feudal; esse excedente, lançado no intercâmbio social, no mercado, para sua venda, converteu-se em mercadoria. Os artesãos das cidades, por certo, tiveram que produzir para o mercado desde o primeiro momento. Mas também elaboravam eles próprios a maior parte dos produtos de que necessitavam para seu consumo; tinham suas hortas e seus pequenos campos, apascentavam seu gado nos campos comunais, que lhes forneciam também madeira e lenha; suas mulheres fiavam o linho e a lã, etc. A produção para a troca, a produção de mercadorias, achava-se em seu inicio. Por Isso o intercâmbio era limitado, o mercado era reduzido, o modo de produção era estável. Em face do exterior imperava o exclusivismo local; no interior, a associação local: a Marca no campo, as corporações nas cidades.

Mas ao estender-se a produção de mercadorias e, sobretudo, ao aparecer o modo capitalista de produção, as leis da produção de mercadorias, que até aqui haviam apenas dado sinais de vida, passam a funcionar de maneira aberta e p0-dêrosa. As antigas associações começam a perder força, as antigas fronteiras vão caindo por terra, os produtores vão convertendo-se mais e mais em produtores de mercadorias independentes e isolados. A anarquia da produção social sai à luz e se aguça cada vez mais. Mas o instrumento principal com que o modo de produção capitalista fomenta essa anarquia na produção social é precisamente o Inverso da anarquia: a crescente organização da produção com caráter social, dentro de cada estabelecimento de produção. Por esse meio, põe fim à velha estabilidade pacifica. Onde se implanta num ramo industrial, não tolera a seu lado nenhum dos velhos métodos. Onde se apodera da indústria artesanal, ela a destrói e aniquila. O terreno de trabalho transforma-se num campo de batalha. As grandes descobertas geográficas e as empresas de colonização que as acompanham multiplicam os mercados e aceleram o processo de transformação de oficina do artesão em manufatura. E a luta não eclode somente entre os produtores locais isolados; as contendas locais não adquirem envergadura nacional, e surgem as guerras comerciais dos séculos XVII e XVIII (10). Até que, por fim, a grande indústria e a implantação do mercado mundial dão caráter universal à luta, ao mesmo tempo que lhe imprimem uma inaudita violência. Tanto entre os capitalistas individuais como entre industriais e países inteiros, a primazia das condições – natural ou artificialmente criadas – da produção decide a luta pela existência. O que sucumbe é esmagado sem piedade. É a luta darwinista da existência individual transplantada, com redobrada fúria, da natureza para a sociedade. As condições naturais de vida da besta convertem-se no ponto culminante do desenvolvimento humano. A contradição entre a produção social e a apropriação capitalista manifesta-se agora como antagonismo entre a organização da produção dentro de cada fábrica e a anarquia da produção no seio de toda a sociedade.

O modo capitalista de produção move-se nessas duas formas da contradição a ele inerente por suas próprias origens, descrevendo sem apelação aquele "círculo vicioso" já revelado por Fourier. Mas o que Fouriernão podia ver ainda em sua época é que esse círculo se vai reduzindo gradualmente, que o movimento se desenvolve em espiral e tem de chegar necessariamente ao seu fira, como o movimento dos planetas. chocando-se com o centro. É a força propulsora da anarquia social da produção que converte a Imensa maioria dos homens, cada vez mais marcadamente, em proletários, e essas massas proletárias serão, por sua vez, as que, afinal, porão fim à anarquia da produção É a força propulsora da anarquia social da produção que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano. E assim como a implantação e o aumento quantitativo da maquinaria trouxeram consigo a substituição de milhões de operários manuais por um número reduzido de operários mecânicos, seu aperfeiçoamento determina a eliminação de um número cada vez maior de operários das máquinas e, em última instância, a criação de uma massa de operários disponíveis que ultrapassa a necessidade média de ocupação do capital, de um verdadeiro exército industrial de reserva, como eu já o chamara em 1845 (11), de um exército de trabalhadores disponíveis para as épocas em que a indústria trabalha a pleno vapor e que logo nas crises que sobrevêm necessariamente depois desses períodos, é lançado às ruas, constituindo a todo momento uma grilheta amarrada aos pés da classe trabalhadora em sua luta pela existência contra o capital e um regulador para manter os salários no nível baixo correspondente às necessidades do capitalista. Assim, para dizê-lo com Marx, a maquinaria converteu-se na mais poderosa arma do capital contra a classe operária, um meio de trabalho que arranca constantemente os meios de vida das mãos do operário, acontecendo que o produto do próprio operário passa a ser o instrumento de sua escravização. Desse modo, a economia nos meios de trabalho leva consigo, desde o primeiro momento, o mais impiedoso desperdício da força de trabalho e a espoliação das condições normais da função mesma do trabalho. E a maquinaria, o recurso mais poderoso que se pôde criar para reduzir a jornada de trabalho, converte-se no mais infalível recurso para converter a vida inteira do operário e de sua família numa grande jornada disponível para a valorização do capital; ocorre, assim, que o excesso de trabalho de uns é a condição determinante da carência de trabalho de outros, e que a grande indústria, lançando-se pelo mundo inteiro, em desabalada carreira, à conquista de novos consumidores, reduz em sua própria casa o consumo das massas a um mínimo de fome e mina com isso o seu próprio mercado interno. "A lei que mantém constantemente o excesso relativo de população ou exército industrial de reserva em equilíbrio com o volume e a intensidade da acumulação do capital amarra o operário ao capital com ataduras mais fortes do que as cunhas com que Vulcano cravou Prometeu no rochedo. Isso dá origem a que a acumulação do capital corresponda a uma acumulação igual de miséria. A acumulação de riqueza em um dos polos determina no polo oposto, no polo da classe que produz o seu próprio produto como capital, uma acumulação igual de miséria, de tormentos de trabalho, de escravidão, de ignorância, de embrutecimento e de degradação moral." (Marx, O Capital, t. 1, cap. XXIII) E esperar do modo capitalista de produção uma distribuição diferente dos produtos seria o mesmo que esperar que os dois eletrodos de uma bateria, enquanto conectados com ela, não decomponham a água nem engendrem oxigênio no polo positivo e hidrogênio no polo negativo.

Vimos que a capacidade de aperfeiçoamento da maquinaria moderna, levada a seu limite máximo, converte-se, em virtude da anarquia da produção dentro da sociedade num preceito imperativo que obriga os capitalistas industriais, cada qual por si, a melhorar incessantemente a sua maquinaria, a tornar sempre mais poderosa a sua força de produção. Não menos imperativo é o preceito em que se converte para ele a mera possibilidade efetiva de dilatar sua órbita de produção. A enorme força de expansão da grande indústria, a cujo lado a expansão dos gases é uma brincadeira de crianças, revela-se hoje diante de nossos olhos como uma necessidade qualitativa e quantitativa de expansão, que zomba de todos os obstáculos que se lhe deparam. Esses obstáculos são os que lhe opõem o consumo, a saída, os mercados de que os produtos da grande indústria necessitam. Mas a capacidade extensiva e intensiva de expansão dos mercados obedece, por sua vez, a leis muito diferentes e que atuam de uma maneira muito menos enérgica. A expansão dos mercados não podo desenvolver-se ao mesmo ritmo que a da produção. A colisão torna-se inevitável, e como é impossível qualquer solução senão fazendo-se saltar o próprio modo capitalista de produção, essa colisão torna-se periódica. A produção capitalista engendra um novo "círculo vicioso".

Com efeito, desde 1825, ano em que estalou a primeira crise geral, não se passam dez anos seguidos sem que todo o mundo industrial e comercial, a distribuição e a troca de todos os povos civilizados e de seu séquito de países mais ou menos bárbaros, saia dos eixos. O comércio é paralisado, os mercados são saturados de mercadorias, os produtos apodrecem nos armazéns abarrotados, sem encontrar saída; o dinheiro torna-se invisível; o crédito desaparece; as fábricas param; as massas operárias carecem de meios de subsistência precisamente por tê-los produzido em excesso, as bancarrotas e falências se sucedem. O paradeiro dura anos inteiros, as forças produtivas e os produtos são malbaratados e destruidos em massa até que, por fim, os estoques de mercadorias acumuladas, mais ou menos depreciadas, encontram saida, e a produção e a troca se vão reanimando pouco a pouco. Paulatinamente, a marcha se acelera, a andadura converte-se em trote, o trote industrial em galope e, finalmente, em carreira desenfreada, num steeple-chase (12) da indústria, do comércio, do crédito, da especulação, para terminar, por fim, depois dos saltos mais arriscados, na fossa de um crack. E assim, sucessivamente. Cinco vezes repete-se a mesma história desde 1825, e presentemente (1877) estamos vivendo-a pela sexta vez. E o caráter dessas crises é tão nítido e tão marcante que Fourier as abrangia todas ao descrever a primeira, dizendo que era uma crise plétorique, uma crise nascida da superabundância.

Nas crises estala em explosões violentas a contradição entre a produção social e a apropriação capitalista. A circulação de mercadoria fica, por um momento, paralisada. O meio de circulação, o dinheiro, converte-se num obstáculo para a circulação; todas as leis da produção e da circulação das mercadorias viram pelo avesso. O conflito econômico atinge seu ponto culminante: o modo de produção rebela-se contra o modo de distribuição.

O fato de que a organização social da produção dentro das fábricas se tenha desenvolvido até chegar a um ponto em que passou a ser inconciliável com a anarquia – coexistente com ela e acima dela – da produção na sociedade é um rato que se revela palpavelmente aos próprios capitalistas pela concentração violenta dos capitais, produzida durante as crises à custa da ruína de numerosos grandes e, sobretudo, pequenos capitalistas. Todo o mecanismo do modo de produção falha, esgotado pelas forças produtivas que ele mesmo engendrou. Já não consegue transformar em capital essa massa de meios de produção, que permanecem inativos, e por isso precisamente deve permanecer também inativo o exército industrial de reserva. Meios de produção, meios de vida, operários em disponibilidade: todos os elementos da produção e da riqueza geral existem em excesso. Mas a "superabundância converte-se em fonte de miséria e de penúria" (Fourier), já que é ela, exatamente, que impede a transformação dos meios de produção e de vida em capital, pois na sociedade capitalista os meios de produção não podem pôr-se em movimento senão transformando-se previamente em capital, em meio de exploração da força humana de trabalho. Esse imprescindível caráter de capital dos meios de produção ergue-se como um espectro entre eles e a classe operária. É isso o que impede que se engrenem a alavanca material e a alavanca pessoal da produção; é o que não permite aos meios de produção funcionar nem aos operários trabalhar e viver. De um lado, o modo capitalista de produção revela, pois, sua própria incapacidade para continuar dirigindo suas forças produtivas. De outro lado, essas forças produtivas compelem com uma intensidade cada vez maior no sentido de que resolva a contradição, de que sejam redimidas de sua condição de capital, de que seja efetivamente reconhecido o seu caráter de forças produtivas sociais.

É essa rebelião das forças de produção, cada vez mais imponentes, contra a sua qualidade de capital, essa necessidade cada vez mais imperiosa de que se reconheça o seu caráter social, que obriga a própria classe capitalista a considerá-las cada vez mais abertamente como forças produtivas sociais, na medida em que é possível dentro das relações capitalistas. Tanto os períodos de elevada pressão industrial, com sua desmedida expansão do crédito, como o próprio crack, com o desmoronamento de grandes empresas capitalistas, estimulam essa forma de socialização de grandes massas de meios de produção que encontramos nas diferentes categorias de sociedades anônimas. Alguns desses meios de produção e de comunicação já são por si tão gigantescos que excluem, como ocorre com as ferrovias, qualquer outra forma de exploração capitalista. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento já não basta tampouco essa forma; os grandes produtores nacionais de um ramo Industrial unem-se para formar um truste, um consórcio destinado a regular a produção; determinam a quantidade total que deve ser produzida, dividem-na entre eles e impõem, desse modo, um preço de venda de antemão fixado. Como, porém, esses trustes se desmoronam ao sobrevirem os primeiros ventos maus nos negócios, conduzem com isso a uma socialização ainda mais concentrada; todo o ramo industrial converte-se numa única grande sociedade anônima, e a concorrência interna dá lugar ao monopólio interno dessa sociedade única; assim aconteceu já em 1890 com a produção inglesa de álcalis, que na atualidade, depois da fusão de todas as quarenta e oito grandes fábricas do país, é explorada por uma só sociedade com direção única e um capital de 120 milhões de marcos.

Nos trustes, a livre concorrência transforma-se em monopólio e a produção sem plano da sociedade capitalista capitula ante a produção planificada e organizada da nascente sociedade socialista. É claro que, no momento, em proveito e benefício dos capitalistas. Mas aqui a exploração torna-se tão patente, que tem forçosamente de ser derrubada. Nenhum povo toleraria uma produção dirigida pelos trustes, uma exploração tão descarada da coletividade por uma pequena quadrilha de cortadores de cupões.

De um modo ou de outro, com ou sem trustes, o representante oficial da sociedade capitalista, o Estado, tem que acabar tomando a seu cargo o comando da produção (13) A necessidade a que corresponde essa transformação de certas empresas em propriedade do Estado começa a manifestar-se nas. grandes empresas de transportes e comunicações, tais como o correio, o telégrafo e as ferrovias.

Além da incapacidade da burguesia para continuar dirigindo as forças produtivas modernas que as crises revelam, a transformação das grandes empresas de produção e transporte em sociedades anônimas, trustes e em propriedade do’ Estado demonstra que a burguesia já não é indispensável para o desempenho dessas funções. Hoje, as funções sociais do capitalista estão todas a cargo de empregados assalariados, e toda a atividade social do capitalista se reduz a cobrar suas rendas, cortar seus cupões e jogar na bolsa, onde os capitalistas de toda espécie arrebatam, uns aos outro, os seus capitais. E se antes o modo capitalista de produção deslocava os operários, agora desloca também os capitalistas, lançando-os, do mesmo modo que aos operários, entre a população excedente; embora, por enquanto ainda não no exército industrial de reserva.

Mas as forças produtivas não perdem sua condição de capital ao converter-se em propriedade das sociedades anônimas e dos trustes ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes e sociedades anônimas, é palpàvelmente claro. Por sua parte, o Estado moderno não é tampouco mais que uma organização criada pela sociedade burguesa para defender as condições exteriores gerais do modo capitalista de produção contra os atentados, tanto dos operários como dos capitalistas isolados. O Estado moderno, qualquer que seja a sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista, é o Estado dos capitalistas, o capitalista coletivo Ideal. E quanto mais forças produtivas passe à sua propriedade tanto mais se converterá em capitalista coletivo e tanto maior quantidade de cidadãos explorará. Os operários continuam sendo operários assalariados, proletários. A relação capitalista, longe de ser abolida com essas medidas, se aguça. Mas, ao chegar ao cume, esboroa-se. A propriedade do Estado sobre as forças produtivas não é solução do conflito, mas abriga já em seu seio o meio formal, o instrumento para chegar à solução.

Essa solução só pode residir em ser reconhecido de um modo efetivo o caráter social das forças produtivas modernas e, portanto, em harmonizar o modo de produção, de apropriação e de troca com o caráter social dos meios de produção. Para isso, não há senão um caminho: que a sociedade, abertamente e sem rodeios, tome posse dessas forças produtivas, que já não admitem outra direção a não ser a sua. Assim procedendo, o caráter social dos meios de produção e dos produtos, que hoje se volta contra os próprios produtores, rompendo periodicamente as fronteiras do modo de produção e de troca, e só pode impor-se com uma força e eficácia tão destruidoras como o impulso cego das leis naturais, será posto em vigor com plena consciência pelos produtores e se converterá, de causa constante de perturbações e cataclismas periódicos, na alavanca mais poderosa da própria produção.

As forças ativas da sociedade atuam, enquanto não as conhecemos e contamos com elas, exatamente como as forças da natureza: de modo cego violento e destruidor. Mas, uma vez conhecidas, logo que se saiba compreender sua ação, suas tendências e seus efeitos, está em nossas mãos o sujeitá-las cada vez mais à nossa vontade e, por meio delas, alcançar os fins propostos. Tal é o que ocorre, muito especialmente, com as gigantescas forças modernas da produção. Enquanto resistirmos obstinadamente a compreender sua natureza e seu caráter – e a essa compreensão se opõem o modo capitalista de produção e seus defensores -, essas forças atuarão apesar de nós, e nos dominarão, como bem ressaltamos. Em troca, assim que penetramos em sua natureza, essas forças, postas em mãos dos produtores associados, se converterão de tiranos demoníacos em servas submissas. É a mesma diferença que há entre o poder maléfico da eletricidade nos raios da tempestade e o poder benéfico da força elétrica dominada no telégrafo e no arco voltaico; a diferença que há entre o fogo destruidor e o fogo posto a serviço do homem. O dia em que as forças produtivas da sociedade moderna se submeterem ao regime congruente com a sua natureza por fim conhecida, a anarquia social da produção deixará o seu posto à regulamentação coletiva e organizada da produção, de acordo com as necessidades da sociedade e do indivíduo. E o regime capitalista de apropriação, em que o produto escraviza primeiro quem o cria e, em seguida, a quem dele se apropria, será substituído pelo regime de apropriação do produto que o caráter dos modernos meios de produção está reclamando: de um lado, apropriação diretamente social, como meio para manter e ampliar a produção; de outro lado, apropriação diretamente individual, como meio de vida e de proveito.

O modo capitalista de produção, ao converter mais e mais em proletários a imensa maioria dos indivíduos de cada pais, cria a força que, se não quiser perecer, está obrigada a fazer essa revolução. E, ao forçar cada vez mais a conversão dos grandes meios socializados de produção em propriedade do Estado, já indica por si mesmo o caminho pelo qual deve produzir-se essa revolução. O proletariado toma em suas mãos o Poder do Estado e principia por converter os meios de produção em propriedade do Estado. Mas, nesse mesmo ato, destrói-se a si próprio como proletariado, destruindo toda diferença e todo antagonismo de classes, e com isso o Estado como tal. A sociedade, que se movera até então entre antagonismos de classe, precisou do Estado, ou seja, de uma organização da classe exploradora correspondente para manter as condições externas de produção e, portanto, particularmente, para manter pela força a classe explorada nas condições de opressão (a escravidão, a servidão ou a vassalagem e o trabalho assalariado), determinadas pelo modo de produção existente. O Estado era o representante oficial de toda a sociedade, sua síntese num corpo social visível; mas o era só como Estado que, em sua época, representava toda a sociedade: na antiguidade era o Estado dos cidadãos escravistas, na Idade Média o da nobreza feudal; em nossos tempos, da burguesia. Quando o Estado se converter, finalmente, em representante efetivo de toda a sociedade, tornar-se-á por si mesmo supérfluo. Quando já não existir nenhuma classe social que precise ser submetida; quando desaparecerem, juntamente com a dominação de classe, juntamente com a luta pela existência individual, engendrada pela atual anarquia da produção, os choques e os excessos resultantes dessa luta, nada mais haverá para reprimir, nem haverá necessidade, portanto, dessa força especial de repressão que é o Estado.

O primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente como representante de toda a sociedade – a posse dos meios de produção em nome da sociedade – é ao mesmo tempo o seu último ato independente como Estado. A intervenção da autoridade do Estado nas relações sociais tornar-se-á supérflua num campo após outro da vida social e cessará por si mesma. O governo sobre as pessoas é substituído pela administração das coisas e pela direção dos processos de produçâo. O Estado não será "abolido", extingue-se. É partindo daí que se pode julgar o valor do falado "Estado popular livre" no que diz respeito à sua justificação provisória como palavra de ordem de agitação e no que se refere à sua falta de fundamento científico. É também partindo daí que deve ser considerada a exigência dos chamados anarquistas de que o Estado seja abolido da noite para o dia.

Desde que existe historicamente o modo capitalista de produção, houve indivíduos e seitas inteiras diante dos quais se projetou mais ou menos vagamente, como ideal futuro, a apropriação de todos os meios de produção pela sociedade. Mas, para que isso fosse realizável, para que se convertesse numa necessidade histórica, fazia-se preciso que se dessem antes as condições efetivas para a sua realização. A fim de que esse progresso, como todos os progressos sociais, seja viável, não basta ser compreendido pela razão que a existência de classes é incompatível com os ditames da justiça, da Igualdade, etc.; não basta a simples vontade de abolir essas classes – mas são necessárias determinadas condições econômicas novas. A divisão da sociedade em uma classe exploradora e outra explorada, em uma classe dominante e outra oprimida, era uma conseqüência necessária do anterior desenvolvimento incipiente da produção. Enquanto o trabalho global da sociedade der apenas o estritamente necessário para cobrir as necessidades mais elementares de todos, e talvez um pouco mais; enquanto, por isso, o trabalho absorver todo’ o tempo, ou quase todo o tempo, da imensa maioria dos membros da sociedade, esta se divide, necessariamente, em classes. Junto à grande maioria constrangida a não fazer outra coisa senão suportar a carga do trabalho, forma-se uma classe que se exime do trabalho diretamente produtivo e a cujo cargo’ correm os assuntos gerais da sociedade: a direção dos trabalhos, os negócios públicos, a justiça, as ciências, as artes, etc., É, pois, a lei da divisão do trabalho que serve de base à divisão da sociedade em classes. O que não impede que essa divisão da sociedade em classes se realize por meio da violência e a espoliação, a astúcia e o logro; nem quer dizer que a classe dominante, uma vez entronizada, se abstenha de consolidar o seu poderio à custa da classe trabalhadora, transformando seu papel social de direção numa maior exploração das massas.

Vemos, pois, que a divisão da sociedade em classes tem sua razão histórica de ser, mas só dentro de determinados limites de tempo, sob determinadas condições sociais. Era condicionada pela insuficiência da produção, e será varrida quando se desenvolverem plenamente as modernas forças produtivas. Com efeito, a abolição das classes sociais pressupõe um grau histórico de desenvolvimento tal que a existência, já não dessa ou daquela classe dominante concreta, mas de uma classe dominante qualquer que seja ela, e, portanto, das próprias diferenças de classe representa um anacronismo. Pressupõe, por conseguinte, um grau culminante no desen~o1vi-mento da produção em que a apropriação dos meios de produção e dos produtos e, portanto, do poder político, do monopólio da cultura e da direção espiritual por uma determinada classe da sociedade, não só se tornou de fato supérfluo, mas constitui econômica, política e intelectualmente uma barreira levantada ante o progresso. Pois bem, já se chegou a esse ponto. Hoje, a bancarrota política e intelectual da burguesia não é mais um segredo nem para ela mesma e sua bancarrota econômica é um fenômeno que se repete periodicamente de dez em dez anos. Em cada uma dessas crises a sociedade se asfixia, afogada pela massa de suas próprias forças produtivas e de seus produtos, aos quais não pode aproveitar e, impotente, vê-se diante da absurda contradição de que os seus produtores não tenham o que consumir, por falta precisamente de consumidores. A força expansiva dos meios de produção rompe as ataduras com que são submetidos pelo modo capitalista de produção, Só essa libertação dos meios de produção é que pode permitir o desenvolvimento ininterrupto e cada vez mais rápido das forças produtivas e, com isso, o crescimento praticamente ilimitado da produção. Mas não- é apenas isso. A apropriação social dos meios de produção não só elimina os obstáculos artificiais hoje antepostos à produção, mas põe termo também ao desperdício e à devastação das forças produtivas e dos produtos, uma das conseqüências inevitáveis da produção atual e que alcança seu ponto culminante durante as crises. Ademais, acabando-se com o parvo desperdício do luxo das classes dominantes e seus representantes políticos, será posta em circulação para a coletividade toda uma massa de meios de produção e de produtos. Pela primeira vez, surge agora, e surge de um modo efetivo, a possibilidade de assegurar a todos os membros da sociedade, através de um sistema de produção social, uma existência que, além de satisfazer plenamente e ceda dia mais abundantemente suas necessidades materiais, lhes assegura o livre e completo desenvolvimento e exercício de suas capacidades físicas e intelectuais (14).

Ao apossar-se a sociedade dos meios de produção cessa a produção de mercadorias e, com ela, o domínio do produto sobre os produtores. A anarquia reinante no seio da produção social cede o lugar a uma organização planejada e consciente. Cessa a luta pela existência individual e, assim, em certo sentido, o homem sal definitivamente do reino animal e se sobrepõe às condições animais de existência, para submeter-se a condições de vida verdadeiramente humanas. As condições que cerca o homem e até agora o dominam, colocam-se, a partir desse instante, sob seu domínio e seu comando e o homem, ao tomar-se dono e senhor de suas próprias relações sociais, converte-se pela primeira vez em senhor consciente e efetivo da natureza. As leis de sua própria atividade social, que até agora se erguiam frente ao homem como leis naturais, como poderes estranhos que o submetiam a seu império, são agora aplicadas por ele com pleno conhecimento de causa e, portanto, submetidas a seu poderio. A própria existência social do homem, que até aqui era enfrentada como algo imposto pela natureza e a história, é de agora em diante obra livre sua. Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na história colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir de então, ele começa a traçar a sua história com plena consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade.

***

Resumamos, brevemente, para terminar, nossa trajetória de desenvolvimento:

1. – Sociedade medieval: Pequena produção Individual. Meios de produção adaptados ao uso individual e, portanto, primitivos, torpes, mesquinhos, de eficácia mínima. Produção para o consumo imediato, seja do próprio produtor, seja de seu senhor feudal. Só nos casos em que fica um excedente de produtos, depois de ser coberto aquele consumo, é posto à venda e lançado no mercado esse excedente. Portanto, a produção de mercadorias acha-se ainda em seus albores, mas já encerra, em potencial, a anarquia da produção social

2. – Revolução capitalista: Transformação da indústria, iniciada por meio da cooperação simples e da manufatura. Concentração dos meios de produção, até então dispersos, em grande oficinas, com o que se convertem de meios de produção do indivíduo em meios de produção sociais, metamorfose que não afeta, em geral, a forma de troca. Ficam de pé as velhas formas de apropriação, Aparece o capitalista: em sua qualidade de proprietário dos meios de produção, apropria-se também dos produtos e os converte em mercadorias. A produção transforma-se num ato social; a troca e, com ela, a apropriação continuam sendo atos individuais: o produto social é apropriado pelo capitalista individual. Contradição fundamental, da qual se derivam todas as contradições em que se move a sociedade atual e que a grande indústria evidencia claramente:

A. Divórcio do produtor com os meios de produção. Condenação do operário a ser assalariado por toda a vida. Antítese de burguesia e proletariado.

B. Relevo crescente e eficácia acentuada das leis que presidem a produção de mercadorias. Concorrência desenfreada. Contradição entre a organização social dentro de cada fábrica e a anarquia social na produção total.

C. De um lado, aperfeiçoamento da maquinaria, que a concorrência transforma num preceito imperativo para cada fabricante e que eqüivale a um afastamento cada dia maior de operários: exército industrial de reserva. De outro lado, extensão ilimitada da produção, que a concorrência impõe também como norma incoercível a todos os fabricantes. De ambos os lados, um desenvolvimento inaudito das forças produtivas, excesso da oferta sobre a procura, superprodução, abarrotamento dos mercados, crise cada dez anos, círculo vicioso: superabundância, aqui, de meios de produção e de produtos e, ali, de operários sem trabalho e sem meios de vida. Mas essas duas alavancas da produção e do bem-estar social não podem combinar-se, porque a forma capitalista da produção impede que as forças produtivas atuem e os produtos circulem, a não ser que se convertam previamente em capital, o que lhes é vedado precisamente por sua própria superabundância. A contradição se aguça até converter-se em contra-senso: o modo de produção revolta-se contra a forma de troca. A burguesia revela-se incapaz para continuar dirigindo suas próprias forças sociais produtivas.

D. Reconhecimento parcial do caráter social das forças produtivas, arrancado aos próprios capitalistas. Apropriação dos grandes organismos de produção e de transporte, primeiro por sociedades anônimas, em seguida pelos trustes, e mais tarde pelo Estado. A burguesia revela-se uma classe supérflua; todas as suas funções sociais são executadas agora por empregados assalariados.

3. – Revolução proletária, solução das contradições: o proletariado toma o poder político e, por meio dele, converte em propriedade pública os meios sociais de produção, que escapam das mãos da burguesia. Com esse ato redime os meios de produção da condição de capital, que tinham até então, e dá a seu caráter social plena liberdade para Impor-se, A partir de agora já é possível uma produção social segundo um plano previamente elaborado. O desenvolvimento da produção transforma num anacronismo a sobrevivência de classes sociais diversas. À medida que desaparece a anarquia da produção social, vai diluindo-se também a autoridade política do Estado. Os homens, donos por fim de sua própria existência social, tornam-se senhores da natureza, senhores de si mesmos, homens livres.

A realização desse ato, que redimirá o mundo, é a missão histórica do proletariado moderno. E o socialismo científico, expressão teórica do movimento proletário, destina-se a pesquisar as condições históricas e, com isso, a natureza mesma desse ato, infundindo assim à classe chamada a fazer essa revolução, à classe hoje oprimida, a consciência das condições e da natureza de sua própria ação.


Notas:

(7) Palavras de Mefistófeles em Fausto de Goethe. (N. da R. )

(8) Não precisamos explicar que, ainda quando a forma de apropriação permaneça invariável, o caráter da apropriação sofre uma revolução pelo processo que descrevemos, em não menor grau que a própria produção. A apropriação de um produto próprio e a apropriação de um produto alheio são, evidentemente, duas formas muito diferentes de apropriação. E advertimos de passagem que o trabalho assalariado, no qual se contém já o germe de todo o modo capitalista de produção, é muito antigo; coexistiu durante séculos inteiros, em casos isolados e dispersos, com a escravidão. Contudo, esse germe só pode desenvolver-se até formar o modo capitalista de produção quando surgiram as premissas históricas adequadas. (Nota de Engels)

(9) Mesnada: tropas mercenárias que serviam aos senhores feudais nas guerras. (N. da Ed. Bras.)

(10) Trata-se das guerras travadas entre Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra pela posse do comércio com a Índia e a América e a colonização desses continentes. Dessas guerras saiu vencedora a Inglaterra, que teve em suas mãos, até os fina do século XVIII, o domínio do comércio mundial. (N.da Ed. Bras.).

(11) A Situação da Classe Operária na Inglaterra, pág. 109. (Nota de Engels)

(12) Corrida de obstáculos. N da R.).

(13) E digo que tem de tomar a seu cargo, pois a nacionalização só representará um progresso econômico, um passo adiante para a conquista pela sociedade de todas as forças produtivas, embora essa medida seja levada a cabo pelo Estado atual, quando os meios de produção ou de transporte superarem já efetivamente os marcos diretores de urna sociedade anônima, quando, portanto, a medida da nacionalização já for economicamente inevitável. Contudo, recentemente, desde que Bismarck empreendeu o caminho da nacionalização, surgiu uma espécie ~e falso socialismo, que degenera de quando em vez num tipo especial de socialismo, submisso e servil, que em todo ato de nacionalização, mesmo nos adotados por Bismarck, vã uma medida socialista. Se a nacionalização da indústria do fumo fosse socialismo, seria necessário inclui, Napoleão e Metternich entre os fundadores do socialismo. Quando o Estado belga, por motivos políticos e financeiros perfeitamente vulgares decidiu construir por sua conta as principais linhas térreas do pais, eu quando Bismarck, sem que nenhuma necessidade econômica o levasse a isso, nacionalizou as linhas mais importantes da rede ferroviária da Prússia, pura e simplesmente para assim poder manejá-las e aproveitá-las melhor em caso de guerra, para converter o pessoal das ferrovias em gado eleitoral submisso ao Governo e, sobretudo, para encontrar uma nova fonte de rendas isenta de fiscalização pelo Parlamento, todas essas medidas não tinham, nem direta nem Indiretamente, nem consciente nem inconscientemente, nada de socialistas. De outro modo, seria necessário também classificar entre as instituições socialistas a Real Companhia de Comércio Marítimo, a Real Manufatura de Porcelanas e até os alfaiates do exército, sem esquecer a nacionalização dos prostíbulos, proposta muito seriamente, ai por volta do ano 34, sob Frederico Guilherme III, por um homem muito esperto (Nota de Engels).

(14) Algumas cifras darão ao leitor uma noção aproximada da enorme força expansiva que, mesmo sob a pressão capitalista, os modernos meios de produção desenvolvem. Segundo os cálculos de Giffen, a riqueza global da Grã Bretanha e Irlanda ascendia, em números redondos, a 1814 -. . – 2 200 milhões de libras esterlinas – 44 000 milhões de marcos 1865 – - – - 6 100 milhões de libras esterlinas – 122 000 milhões de marcos 1875 . . – - 8 500 milhões de libras esterlinas — 170 000 milhões de marcos Para dar uma idéia do que representa a dilapidação dos meios de produção e de produtos desperdiçados durante a crise, direi que no segundo congresso dos industriais alemães, realizado em Berlim, em 21 de fevereiro de 1878, calculou-se em 455 milhões de marcos as perdas globais representadas pelo último crack, somente para a indústria siderúrgica alemã. (Nota de Engels).

Fonte: Marxists – http://www.marxists.org/

Dialética

Entretanto, junto à filosofia francesa do século XVIII, e por trás dela, surgira a moderna filosofia alemã, cujo ponto culminante foi Hegel. O principal mérito dessa filosofia é a restauração da dialética, como forma suprema do pensamento. Os antigos filósofos gregos eram todos dialéticos inatos, espontâneos, e a cabeça mais universal de todos eles – Aristóteles – chegara já a estudar as formas mais substanciais do pensamento dialético. Em troca, a nova filosofia, embora tendo um ou outro brilhante defensor da dialética (como por exemplo, Descartes e Spinoza) caía cada vez mais, sob a influência principalmente dos ingleses, na chamada maneira metafísica de pensar, que também dominou quase totalmente entre os franceses do século XVIII, ao menos em suas obras especificamente filosóficas. Fora do campo estritamente filosófico, eles criaram também obras-primas de dialética; como prova, basta citar O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e o estudo de Rousseausôbre a origem da desigualdade entre os homens. Resumiremos aqui, sucintamente, os traços mais essenciais de ambos os métodos discursivos.

Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre a história humana, ou sobre nossa própria atividade espiritual,. deparamo-nos, em primeiro plano, com a imagem de uma trama infinita de concatenações e Influências recíprocas, em que nada permanece o que era, nem como e onde era, mas tudo se move e se transforma, nasce e morre. Vemos, pois, antes de tudo, a imagem de conjunto, na qual os detalhes passam ainda mais ou menos para o segundo plano; fixamo-nos mais no movimento, nas transições, na concatenação, do que no que se move, se transforma e se concatena Essa concepção do mundo, primitiva, ingênua, mas essencialmente exata, é a dos filósofos gregos antigos, e aparece claramente expressa pela primeira vez em Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo se acha sujeito a um processo constante de transformação, de Incessante nascimento e caducidade. Mas essa concepção, por mais exatamente que reflita o caráter geral do quadro que nos é oferecido pelos fenômenos, não basta para explicar os elementos isolados que formam esse quadro total; sem conhecê-los a Imagem geral não adquirirá tampouco um sentido claro. Para penetrar nesses detalhes temos de despregá-los do seu tronco histórico ou natural e Investigá-los separadamente, cada qual por si, em seu caráter, causas e efeitos especiais, etc. Tal é a missão primordial das ciências naturais e da história, ramos de investigação que os gregos clássicos situavam, por motivos muito justificados, num plano puramente secundário, pois primariamente deviam dedicar-se a acumular os materiais científicos necessários. Enquanto não se reúne uma certa quantidade de materiais naturais e históricos não se pode proceder ao exame crítico, à comparação e, consequentemente, a divisão em classes, ordens e espécies. Por isso, os rudimentos das ciências naturais exatas não foram desenvolvidos senão a partir dos gregos do período alexandrino (6) e, mais tarde, na Idade Média, pelos árabes; a ciência autêntica da natureza data semente da segunda metade do século XV e, desde então, não fez senão progredir a ritmo acelerado. A análise da natureza em suas diversas partes, a classificação dos diversos processos e objetos naturais em determinadas categorias, a pesquisa interna dos corpos orgânicos segundo sua diversa estrutura anatômica, foram outras tantas condições fundamentais a que obedeceram os gigantescos progressos realizados, durante os últimos quatrocentos anos, no conhecimento científico da natureza. Esses métodos de Investigação, porém, nos transmitiu, ao lado disso, o hábito de enfocar as coisas e os processos da natureza isoladamente, subtraídos à concatenação do grande todo; portanto, não em sua dinâmica, mas estaticamente; não como substancialmente variáveis, mas como consistências fixas; não em sua vida, mas em sua morte. Por Isso, esse método de observação, ao transplantar-se, com Bacon e Locke, das ciências naturais para a filosofia, determinou a estreiteza específica característica dos últimos séculos: o método metafísico de especulação.

Para o metafísico, as coisas e suas Imagens no pensamento, os conceitos, são objetos de Investigação Isolados, fixos, rígidos, focalizados um após o outro, de per si, como algo dado e perene. Pensa só em antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas uma: sim, sim; não, não; o que for além disso, sobra. Para ele, uma coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo tempo o que é e outro diferente. O positivo e o negativo se excluem em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus olhos, a forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método discursivo parece-nos extremamente razoável, porque é o do chamado senão comum. Mas o próprio senso comum – personagem multo respeitável dentro de casa, entre quatro paredes – vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se aventura pelos caminhos amplos da investigação; e o método metafísico de pensar, pois muito justificado e até necessário que seja em muitas zonas do pensamento, mais ou menos extensas segundo a natureza do objeto de que se trate, tropeça sempre, cedo ou tarde, com uma barreira, ultrapassada a qual converte-se num método unilateral, limitado, abstrato, e se perde em Insolúveis contradições, pois, absorvido pelos objetos concretos, não consegue perceber sua concatenação; preocupado com sua existência, não atenta em sua origem nem em sua caducidade; obcecado pelas árvores, não consegue ver o bosque. Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos dizer com toda certeza se um animal existe ou não; porém, pesquisando mais detidamente, verificamos que às vezes o problema se complica consideravelmente, como sabem muito bem os juristas, que tanto e tão inutilmente têm-se atormentado por descobrir um limite racional a partir do qual deva a morte do filho no ventre materno ser considerada um assassinato; nem é fácil tampouco determinar rigidamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia demonstrou que a morte não é um fenômeno repentino, instantâneo, mas um processo muito longo. Do mesmo modo, todo ser orgânico é, a qualquer instante, ele mesmo e outro; a todo Instante, assimila matérias absorvidas do exterior e elimina outras do seu interior; a todo instante, morrem certas células e nascem outras em seu organismo; e no transcurso de um período mais ou menos demorado a matéria de que é formado renova-se totalmente, e novos átomos de matérias vêm ocupar o lugar dos antigos, por onde todo o seu ser orgânico é, ao mesmo tempo, o que é e outro diferente. Da mesma maneira, observando as coisas detidamente, verificamos que os dois polos de uma antítese, o positivo e o negativo, são tão inseparáveis quanto antitéticos um do outro e que, apesar de todo o seu antagonismo, se penetram reciprocamente; e vemos que a causa e o efeito são representações que somente regem, como tais, em sua aplicação ao caso concreto, mas que, examinando o caso concreto em sua concatenação com a imagem total do universo, se juntam e se diluem na idéia de uma trama universal de ações e reações, em que as causas e os efeitos mudam constantemente de lugar e em que o que agora ou aqui é efeito adquire em seguida ou ali o caráter de causa, e vice-versa.

Nenhum desses fenômenos e métodos discursivos se encaixa no quadro das especulações metafísicas. Ao contrário, para a dialética, que focaliza as coisas e suas Imagens conceituais substancialmente em suas conexões, em sua concatenação, em sua dinâmica, em seu processo de nascimento e caducidade, fenômenos como os expostos não são mais que outras tantas confirmações de seu modo genuíno de proceder. A natureza é a pedra de toque da dialética, e as modernas ciências naturais nos oferecem para essa prova um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecido cada dia que passa, demonstrando com Isso que a natureza se move, em última instância, pelos caminhos dialéticos e não pelas veredas metafísicas, que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira história. Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar, quem, com sua prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais, e entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo de desenvolvimento de milhões de anos, assestou na concepção metafísica da natureza o mais rude golpe. Até hoje, porém, os naturalistas que souberam pensar dialeticamente podem ser contados com os dedos, e esse conflito entre os resultados descobertos e o método discursivo tradicional põe a nu a Ilimitada confusão que reina presentemente na teoria das ciências naturais e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e leitores.

Somente seguindo o caminho da dialética, não perdendo jamais de vista as inumeráveis ações e reações gerais do devenir e do perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a uma concepção exata do universo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem projetada por esse desenvolvimento nas cabeças dos homens. E foi esse, com efeito, o sentido em que começou a trabalhar, desde o primeiro momento, a moderna filosofia alemã. Kant iniciou sua carreira de filósofo dissolvendo o sistema solar estável de Newton e sua duração eterna – depois de recebido o primeiro impulso – num processo histórico: no nascimento do Sol e de todos os planetas a partir de uma massa nebulosa em rotação. Dai, deduziu que essa origem implicava também, necessariamente, a morte futura do sistema solar. Meio século depois sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace e, ao fim de outro meio século, o espectroscópio veio demonstrar a existência no espaço daquelas massas igneas de gás, em diferente grau de condensação.

A filosofia alemã moderna encontrou sua culminância no sistema de Hegel, em que pela primeira vez – e aí está seu grande mérito – se concebe todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um processo, isto é, em constante movimento, mudança, transformação e desenvolvimento, tentando além disso ressaltar a intima conexão que preside esse processo de movimento e desenvolvimento. Contemplada desse ponto de vista, a história da humanidade já. não aparecia como um caos inóspito de violências absurdas, todas igualmente condenáveis diante do foro da razão filosófica hoje já madura, e boas para serem esquecidas quanto antes, mas como o processo de desenvolvimento da própria humanidade, que cabia agora ao pensamento acompanhar em suas etapas graduais e através de todos os desvios, e demonstrar a existência de leis internas que orientam tudo aquilo que à primeira vista poderia parecer obra do acaso cego.

Não importava que o sistema de Hegel não resolvesse o problema que se propunha. Seu mérito, que marca época. consistiu em tê-lo proposto. Não em vão, trata-se de um problema que nenhum homem sozinho pôde resolver. E embora fosse Hegel, como Saint-Simon, a cabeça mais universal. de seu tempo, seu horizonte achava-se circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável de seus próprios conhecimentos e, em segundo lugar, pelos conhecimentos e concepções de sua época, limitados também em extensão e profundidade. Deve-se acrescentar a isso uma terceira circunstância. Hegel era idealista; isto é, para ele as Idéias de sua cabeça não eram imagens mais ou menos abstratas dos objetos ou fenômenos da realidade, mas essas coisas e seu desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contrário, como projeções realizadas da "Idéia", que já existia, não se sabe como, antes de existir o mundo. Assim, foi tudo posto de cabeça para baixo, e a concatenação real do universal apresentava-se completamente às avessas. E por mais exatas e mesmo geniais que fossem várias das conexões concretas concebidas por Hegel, era inevitável, pelos motivos que acabamos de apontar, que muitos dos seus detalhes tivessem um caráter amaneirado, artificial, construído; em uma palavra, falso. O sistema de Hegel foi um aborto gigantesco, mas o último de seu gênero. De fato, continuava sofrendo de uma contradição interna incurável; pois, enquanto de um lado partia como pressuposto inicial da concepção histórica, segundo a qual a história humana é um processo de desenvolvimento que não pode, por sua natureza, encontrar o arremate intelectual na descoberta disso que chamam verdade absoluta, de outro lado nos é apresentado exatamente como a soma e a síntese dessa verdade absoluta. Um sistema universal e definitivamente plasmado do conhecimento da natureza e da história é incompatível com as leis fundamentais do pensamento dialético – que não exclui, mas longe disso implica que o conhecimento sistemático do mundo exterior em sua totalidade possa progredir gigantescamente de geração em geração.

A consciência da total inversão em que incorria o Idealismo alemão levou necessariamente ao materialismo; mas não, veja-se bem, àquele materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecânico do século XVIII. Em oposição à simples repulsa, ingenuamente revolucionária, de toda a história anterior, o materialismo moderno vê na história o processo de desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas é missão sua descobrir. Contrariamente à idéia da natureza que imperava entre os franceses do século XVIII, assim como em Hegel, em que esta era concebida como um todo permanente e invariável, que se movia dentro de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal como Newton os representava, e com espécies invariáveis de seres orgânicos, como ensinara Linneu, o materialismo moderno resume e compendia os novos progressos das ciências naturais, segundo os quais a natureza tem também sua história no tempo, e os mundos, assim como as espécies orgânicas que em condições propícias os habitam, nascem e morrem, e os ciclos, no grau em que são admissíveis, revestem dimensões infinitamente mais grandiosas. Tanto em um como em outro caso, o materialismo moderno é substancialmente dialético e já não precisa de uma filosofia superior às demais ciências. Desde o momento em que cada ciência tem que prestar contas da posição que ocupa no quadro universal das coisas e do conhecimento dessas coisas, já não há margem para uma ciência especialmente consagrada ao estudo das concatenações universais. Da filosofia anterior, com existência própria, só permanece de pé a teoria do pensar e de suas leis: a lógica formal e a dialética. O demais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história.

No entanto, enquanto que essa revolução na concepção da natureza só se pôde impor na medida em que a pesquisa fornecia à ciência os materiais positivos correspondentes, já há muito tempo se haviam revelado certos fatos históricos que imprimiram uma reviravolta decisiva no modo de focalizar a história. Em 1831, estala em Lyon a primeira insurreição operária, e de 1838 a 1842 atinge o auge o primeiro movimento operário nacional: o dos cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia passou a ocupar o primeiro plano da história dos países europeus mais avançados, ao mesmo ritmo em que se desenvolvia neles, de uni lado, a grande indústria, e de outro lado, a dominação política recém-conquistada da burguesia. Os fatos refutavam cada vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da identidade de interesses entre o capital e o trabalho e da harmonia universal e o bem-estar geral das nações, como fruto da livre concorrência. Não havia como passar por alto esses fatos, nem era tampouco possível ignorar o socialismo francês e inglês, expressão teórica sua, por mais imperfeita que fosse. Mas a velha concepção idealista da história, que ainda não havia sido removida, não conhecia lutas de classes baseadas em interesses materiais, nem conhecia interesses materiais de qualquer espécie; para ela a produção, bem como todas as relações econômicas, só existiam acessoriamente, como um elemento secundário dentro da "história cultural". Os novos fatos obrigaram à revisão de toda a história anterior, e então se viu que, com exceção do Estado primitivo, toda a história anterior era a história das lutas de classes, e que essas classes sociais em luta entre si eram em todas as épocas fruto das relações de produção e de troca, isto é, das relações econômicas de sua época; que a estrutura econômica da sociedade em cada época da história constitui, portanto, a base real cujas propriedades explicam, em última análise, toda a superestrutura Integrada pelas instituições jurídicas e políticas, assim como pela ideologia religiosa, filosófica, etc., de cada período histórico. Hegel libertara da metafísica a concepção da história, tornando-a dialética; mas sua interpretação da história era essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora despejado do seu último reduto: a concepção da história -, substituída por uma concepção materialista da história, com o que se abria o caminho para explicar a consciência do homem por sua existência, e não esta por sua consciência, que era até então o tradicional.

Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a burguesia. Sua missão já não era elaborar um sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas investigar o processo histórico econômico de que, forçosamente, tinham que brotar essas classes e seu conflito, descobrindo os meios para a solução desse conflito na situação econômica assim criada. Mas o socialismo tradicional era incompatível com essa nova concepção materialista da história, tanto quanto a concepção da natureza do materialismo francês não podia ajustar-se à dialética e às novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo anterior criticava o modo de produção capitalista existente e suas conseqüências, mas não conseguia explicá-lo nem podia, portanto, destrui-lo ideologicamente; nada mais lhe restava senão repudiá-lo, pura o simplesmente, como mau. Quanto mais violentamente clamava contra a exploração da classe operária, inseparável desse modo de produção, menos estava em condições de indicar claramente em que consistia e como nascia essa exploração. Mas do que se tratava era, por um lado, de expor esse modo capitalista de produção em suas conexões históricas e como necessário para uma determinada época da história, demonstrando com isso também a necessidade de sua queda e, por outro lado, pôr a nu o seu caráter interno, ainda oculto. Isso se tornou evidente com a descoberta da mais-valia. Descoberta que veio revelar que o regime capitalista de produção e a exploração do operário, que dele se deriva, tinham por forma fundamental a apropriação de trabalho não pago; que o capitalista, mesmo quando compra a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o valor que representa como mercadoria no mercado, dela retira sempre mais valor do que lhe custa e que essa mais-valia é, em última análise, a soma de valor de onde provém a massa cada vez maior do capital acumulado em mãos das classes possuidoras. O processo da produção capitalista e o da produção de capital estavam assim explicados.

Essas duas grandes descobertas – a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista através da mais-valia – nós as devemos a Karl Marx. Graças a elas o materialismo converte-se em uma ciência, que só nos resta desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações.


Notas:

(6) O período alexandrino de desenvolvimento da ciência abrange desde o século III antes de nossa era até o século VII de nossa era, recebendo o seu nome da cidade de Alexandria, no Egito, um dos mais importantes centros das relações econôm1ca internacionais daquela época. No período alexandrino adquiriram grande desenvolvimento várias ciências: as matemáticas (com Euclides e Arquimedes), a geografia, a astronomia, a anatomia, a fisiologia, etc. (N. da R.)

Fonte: Marxists – http://www.marxists.org/

O Socialismo Utópico

O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuidos, capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma continuação, mais desenvolvida e mais conseqüente, dos princípios proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao nascer, às Idéias existentes. 

Os grandes homens que, na França, iluminaram os cérebros para a revolução que se havia de desencadear, adotaram uma atitude resolutamente revolucionária. Não reconheciam autoridade exterior de nenhuma espécie. A religião, a concepção da natureza, a sociedade, a ordem estatal: tudo eles submetiam à crítica mais impiedosa; tudo quanto existia devia justificar os títulos de sua existência ante o foro da razão, ou renunciar a continuar existindo. A tudo se aplicava como rasoura única a razão pensante. Era a época em que, segundoHegel, "o mundo girava sobre a cabeça" (1), primeiro no sentido de que a cabeça humana e os princípios estabelecidos por sua especulação reclamavam o direito de ser acatados como base de todos os atos humanos e toda relação social, e logo também, no sentido mais amplo de que a realidade que não se ajustava a essas conclusões se via subvertida, de fato, desde os alicerces até à cumieira. Todas as formas anteriores de sociedade e de Estado, todas as leis tradicionais, foram atiradas no monturo como irracionais; até então o mundo se deixara governar por puros preconceitos; todo o passado não merecia senão comiseração e desprezo, Só agora despontava a aurora, o reino da razão; daqui por diante a superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam substituídos pela verdade eterna, pela eterna justiça, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos Inalienáveis do homem.

Já sabemos, hoje, que esse império da razão não era mais que o império idealizado pela burguesia; que a justiça eterna tomou corpo na justiça burguesa; que a igualdade se reduziu à igualdade burguesa em face da lei; que como um dos direitos mais essenciais do homem foi proclamada a propriedade burguesa; e que o Estado da razão, o "contrato social" de Rousseau, pisou e somente podia pisar o terreno da realidade, convertido na república democrática burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, como todos os seus Predecessores, não podiam romper as fronteiras que sua própria época lhes impunha.

Mas, ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a burguesia, que se erigia em representante de todo o resto da sociedade, mantinha-se de pé o antagonismo geral entre exploradores e explorados, entre ricos gozadores e pobres que trabalhavam. E esse fato exatamente é que permitia aos representantes da burguesia arrogar-se a representação, não de uma classe determinada, mas de toda a humanidade sofredora. Mais ainda: desde o momento mesmo em que nasceu, a burguesia conduzia em suas entranhas sua própria antítese, pois os capitalistas não podem existir sem os operários assalariados, e na mesma proporção em que os mestres de ofícios das corporações medievais se convertiam em burgueses modernos, os oficiais e os jornaleiros não agremiados transformavam-se em proletários. E se, em termos gerais, a burguesia podia arrogar-se o direito de representar, em suas lutas com a nobreza, além dos seus Interesses, os das diferentes classes trabalhadoras da época, ao lado de todo grande movimento burguês que se desatava, eclodiam movimentos independentes daquela classe que era o precedente mais ou menos desenvolvido do proletariado moderno. Tal foi na época da Reforma e das guerras camponesas na Alemanha. a tendência dos anabatistas e de Thomas Münzer; na grande Revolução Inglesa, os "levellers"(2), e na Revolução Francesa, Babeuf. Essas sublevações revolucionárias de uma classe incipiente são acompanhadas, por sua vez, pelas correspondentes manifestações teóricas: nos séculos XVI e XVII (3) aparecem as descrições utópicas de um regime ideal da sociedade; no século XVIII, teorias já abertamente comunistas, como as de Morelly e Mably. A reivindicação da igualdade não se limitava aos direitos políticos, mas se estendia às condições sociais de vida de cada indivíduo; já não se tratava de abolir os privilégios de classe, mas de destruir as próprias diferenças de classe. Um comunismo ascético, ao modo espartano, que renunciava a todos os gozos da vida: tal foi a primeira forma de manifestação da nova teoria. Mais tarde vieram os três grandes utopistas: Saint-Simon, em que a tendência continua ainda a se afirmar, até certo ponto, junto à tendência proletária; Fourier e Owen, este último, num pais onde a produção capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressão engendrada por ela, expondo em forma sistemática uma série de medidas orientadas rio sentido de abolir as diferenças de classe, em relação direta com o materialismo francês.

Traço comum aos três é que não atuavam como representantes dos interesses do proletariado, que entretanto surgira como um produto histórico. Da mesma maneira que os enciclopedistas, não se propõem emancipar primeiramente uma classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade. E assim como eles, pretendem instaurar o império da razão e da justiça eterna. Mas entre o seu império e o dos enciclopedistas medeia um abismo. Também o mundo burguês, instaurado segundo os princípios dos enciclopedistas, é Injusto e irracional e merece, portanto, ser jogado entre os trastes inservíveis, tanto quanto o feudalismo e as formas sociais que o antecederam. Se até agora a verdadeira razão e a verdadeira justiça não governaram o mundo é simplesmente porque ninguém soube penetrar devidamente nelas. Faltava o homem genial, que agora se ergue ante a humanidade com a verdade, por fim descoberta. O fato de que esse homem tenha aparecido agora, e não antes, o fato de que a verdade tenha sido por fim descoberta agora, e não antes, não é, segundo eles, um acontecimento inevitável, imposto pela concatenação do desenvolvimento histórico, e sim porque o simples acaso assim o quis. Poderia ter aparecido quinhentos anos antes, poupando assim à humanidade quinhentos anos de erros, de lutas e de sofrimentos.

Vimos como os filósofos franceses do século XVIII, que abriram o caminho à revolução, apelavam para a razão como o juiz único de tudo o que existe. Pretendia-se instaurar um Estado racional, uma sociedade ajustada à razão, e tudo quanto contradissesse a razão eterna deveria ser rechaçado sem nenhuma piedade. Vimos também que, em realidade, essa razão não era mais que o senso comum do homem idealizado da classe média que, precisamente então, se convertia em burguês. Por isso, quando a Revolução Francesa empreendeu a construção dessa sociedade e desse Estado da razão, redundou que as novas instituições, por mais racionais que fossem em comparação com as antigas, distavam bastante da razão absoluta. O Estado da razão falira completamente. O contrato social de Rousseau tomara corpo na época do terror, e a burguesia, perdida a fé em sua própria habilidade política, refugiou-se, primeiro na corrupção do Diretório e, por último, sob a égide do despotismo napoleônico. A prometida paz eterna convertera-se numa interminável guerra de conquistas. Tampouco teve melhor sorte a sociedade da razão. O antagonismo entre pobres e ricos, longe de dissolver-se no bem-estar geral, aguçara-se com o desaparecimento dos privilégios das corporações e outros, que estendiam uma ponte sobre ele, e os estabelecimentos eclesiásticos de beneficência, que o atenuavam. A "liberação da propriedade" dos entraves feudais, que agora se convertia em realidade, vinha a ser para o pequeno burguês e o pequeno camponês a liberdade de vender a esses mesmos poderosos senhores sua pequena propriedade, esgotada pela esmagadora concorrência do grande capital e da grande propriedade latifundiária; com o que se transformava na "liberação" do pequeno burguês e do pequeno camponês de toda propriedade. O ascenso da indústria sobre bases capitalistas converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condição de vida da sociedade. O pagamento à vista transformava-se, cada vez mais, segundo a expressão de Carlyle, no único elo que unia a sociedade. A estatística criminal crescia de ano para ano. Os vícios feudais, que até então eram exibidos impudicamente, à luz do dia, não desapareceram, mas se recolheram, por um momento, um pouco ao fundo do cenário; em troca, floresciam exuberantemente os vícios burgueses, até então superficialmente ocultos. O comércio foi degenerando, cada vez mais, em trapaça. A "fraternidade" do lema revolucionário tomou corpo nas deslealdades e na inveja da luta de concorrência. A opressão violenta cedeu lugar à corrupção, e a espada, como principal alavanca do poder social, foi substituída pelo dinheiro. O direito de pernada (4) passou do senhor feudal ao fabricante burguês. A prostituição desenvolveu-se em proporções até então desconhecidas. O próprio casamento continuou sendo o que já era: a forma reconhecida pela lei, o manto com que se cobria a prostituição, completado ademais com uma abundância de adultérios. Numa palavra, comparadas com as brilhantes promessas dos pensadores, as Instituições sociais e políticas instauradas pelo "triunfo da razão" redundaram em tristes e decepcionantes caricaturas. Faltavam apenas os homens que pusessem em relevo o desengano, e esses homens surgiram nos primeiros anos do século XIX. Em 1802, vieram à luz as Cartas de Genebra de Saint-Simon; em 1808, Fourierpublicou a sua primeira obra, embora as bases de sua teoria datassem já de 1799; a 1.0 de janeiro de 1800, Robert Owen assumiu a direção da empresa de New Lanark.

No entanto, naquela época, o modo capitalista de produção, e com ele o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, achava-se ainda muito pouco desenvolvido. A grande indústria, que acabava de nascer na Inglaterra, era ainda desconhecida na França. E só a grande indústria desenvolve, de uma parte, os conflitos que transformam numa necessidade Imperiosa a subversão do modo de produção e a eliminação de seu caráter capitalista – conflitos que eclodem não só entre as classes engendradas por essa grande indústria, mas também entre as forças produtivas e as formas de distribuição por ela criadas – e, de outra parte, desenvolve também nessas gigantescas forças produtivas os meios para solucionar esses conflitos. Às vésperas do século XIX, os conflitos que brotavam da nova ordem social mal começavam a desenvolver-se, e menos ainda, naturalmente, os meios que levam à sua solução. Se as massas despossuídas de Paris conseguiram dominar por um momento o poder durante o regime de terror, e assim levar ao triunfo a revolução burguesa, Inclusive contra a burguesia, foi só para demonstrar até que ponto era impossível manter por muito tempo esse poder nas condições da época. O proletariado, que apenas começava a destacar-se no seio das massas que nada possuem, como tronco de uma nova classe, totalmente incapaz ainda para desenvolver uma ação política própria, não representava mais que um estrato social oprimido, castigado, incapaz de valer-se por si mesmo. A ajuda, no melhor dos casos, tinha que vir de fora, do alto.

Essa situação histórica Informa também as doutrinas dos fundadores do socialismo. Suas teorias incipientes não fazem mais do que refletir o estado Incipiente da produção capitalista, a incipiente condição de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a solução dos problemas sociais, latentes ainda nas condições econômicas pouco desenvolvidas da época. A sociedade não encerrava senão males, que a razão pensante era chamada a remediar.

Tratava-se, por isso, de descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem social, para implantá-lo na sociedade vindo de fora, por meio da propaganda e, sendo possível, com o exemplo, mediante experiências que servissem de modelo. Esses novos sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no reino da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos fossem, mais tinham que degenerar em puras fantasias.

Assentado isso, não há por que nos determos nem um momento mais nesse aspecto, já definitivamente incorporado ao passado. Deixemos que os trapeiros literários revolvam solenemente nessas fantasias, que parecem hoje provocar o riso, para ressaltar sobre o fundo desse "cúmulo de disparates" a superioridade de seu raciocínio sereno. Quanto a nós, admiramos os germes geniais de idéias e as idéias geniais que brotam por toda parte sob essa envoltura de fantasia que os filisteus são incapazes de ver.

Saint-Simon era filho da grande Revolução Francesa, que estalou quando ele não contava ainda trinta anos. A. Revolução foi o triunfo do terceiro estado, isto é, da grande massa ativa da nação, a cujo cargo corriam a produção e o comércio, sobre os estados até então ociosos e privilegiados da sociedade: a nobreza e o clero. Mas logo se viu que o triunfo do terceiro estado não era mais que o triunfo de uma parte multo pequena dele, a conquista do poder político pelo setor socialmente privilegiado dessa classe: a burguesia possuidora. Essa burguesia desenvolvia-se rapidamente já no processo da revolução, especulando com as terras confiscadas e logo vendidas da aristocracia e da Igreja, e lesando a nação por meio das verbas destinadas ao exército. Foi precisamente o governo desses negocistas que, sob o Diretório, levou à França e a Revolução à beira da ruína, dando com isso a Napoleão o pretexto para o golpe de Estado. Por isso, na idéia de Saint-Simon, o antagonismo entre o terceiro estado e os estados privilegiados da sociedade tomou a forma de um antagonismo entre "trabalhadores" e "ociosos". Os "ociosos" eram não só os antigos privilegiados, mas todos aqueles que viviam de suas rendas, cem intervir na produção nem no comércio. No conceito de "trabalhadores" não entravam somente os operários assalariados, mas também os fabricantes, os comerciantes e os banqueiros. Que os ociosos haviam perdido a capacidade para dirigir espiritualmente e governar politicamente era um fato Indisfarçável, selado em definitivo pela Revolução. E, para Saint-Simon, as experiências da época do terror haviam demonstrado, por sua vez, que os descamisados não possuíam tampouco essa capacidade. Então, quem haveria de dirigir e governar? Segundo Saint-Simon, a ciência e a indústria, unidas por um novo laço religioso, um "novo cristianismo", forçosamente místico e rigorosamente hierárquico, chamado a restaurar a unidade das idéias religiosas, destruída desde a Reforma. Mas a ciência eram os sábios acadêmicos; e a indústria eram, em primeiro lugar, os burgueses ativos, os fabricantes, os comerciantes, os banqueiros. E embora esses burgueses tivessem de transformar-se numa espécie de funcionários públicos, de homens da confiança de toda a sociedade, sempre conservariam frente aos operários uma posição autoritária e economicamente privilegiada. Os banqueiros seriam os chamados em primeiro lugar para regular toda a produção social por meio de uma regulamentação do crédito. Esse modo de conceber correspondia perfeitamente a uma época em que a grande indústria, e com ela o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, mal começava a despontar na França. Mas Saint-Simon insiste muito especialmente neste ponto: o que o preocupa, sempre e em primeiro lugar, é a sorte da "classe mais numerosa e mais pobre" ela sociedade ("la classe la plus nombreuse et la plus paurre").

Em suas Cartas de Genebra, Saint-Simon formula a tese de que "todos os homens devem trabalhar". Na mesma obra já se expressa a Idéia de que o reinado do terror era o governo das massas despossuídas. "Vede – grita-lhes – o que se passou na França quando vossos camaradas subiram ao poder: provocaram a fome". Mas conceber a Revolução Francesa como urna luta de classes, e não só entre a nobreza e a burguesia, mas entre a nobreza, a burguesia e os despossuídos, era, em 1802, uma descoberta verdadeiramente genial.

Em 1816, Saint-Simon declara que a política é a ciência da produção e prediz já a total absorção da política pela economia. E se aqui não faz senão aparecer em germe a idéia de que a situação econômica é a base das instituições políticas, proclama já claramente a transformação do governo político sobre os homens numa administração das coisas e na direção dos processos da produção, que não é senão a idéia da "abolição do Estado", que tanto alarde levanta ultimamente. E, elevando-se ao mesmo plano de superioridade sobre os seus contemporâneos, declara, em 1814, imediatamente, depois da entrada das tropas coligadas em Paris, e reitera em 1815, durante a Guerra dos Cem Dias, que a aliança da França com a Inglaterra e, em segundo lugar, a destes países com a Alemanha é a única garantia do desenvolvimento próspero e da paz na Europa. A fim de aconselhar aos franceses de 1815 uma aliança com os vencedores de Waterloo era necessário possuir tanto valentia quanto capacidade para ver longe na história.

O que em Saint-Simon é amplitude genial de visão, que lhe permite conter já, em germe, quase todas as Idéias não estritamente econômicas dos socialistas posteriores, em Fourier é a critica engenhosa autenticamente francesa, mas nem por isso menos profunda, das condições sociais existentes. Fourier pega a burguesia pela palavra, por seus inflamados profetas de antes e seus Interesseiros aduladores de depois da revolução. Põe a nu, impiedosamente, a miséria material e moral do mundo burguês, e a compara com as fascinantes promessas dos velhos enciclopedistas, com a imagem que eles faziam da sociedade em que a razão reinaria sozinha, de urna civilização que faria felizes todos os homens e de uma ilimitada capacidade humana de perfeição. Desmascara as brilhantes frases dos ideólogos burgueses da época, demonstra como a essas frases grandiloqüentes corresponde, por toda parte, a mais cruel das realidades e derrama sua sátira mordaz sobre esse ruidoso fracasso da fraseologia. Fourier não é apenas um crítico; seu espírito sempre jovial faz dele um satírico, um dos maiores satíricos de todos os tempos. A especulação criminosa desencadeada com o refluxo da onda revolucionária e o espírito mesquinho do comércio francês naqueles anos aparecem pintados em suas obras com traços magistrais e encantadores. Mas é ainda mais magistral nele a crítica das relações entre os sexos e da posição da mulher na sociedade burguesa. É ele o primeiro a proclamar que o grau de emancipação da mulher numa sociedade é o barômetro natural pelo qual se mede a emancipação geral. Contudo, onde mais sobressai Fourier é na maneira como concebe a história da sociedade. Fourier divide toda a história anterior em quatro fases ou etapas de desenvolvimento:o selvagismo, a barbárie, o patriarcado e a civilização, esta última fase coincidindo com o que chamamos hoje sociedade burguesa, isto é, com o regime social implantado desde o século XVI, e demonstra que a "ordem civilizada eleva a uma forma complexa, ambígua, equívoca e hipócrita todos aqueles vícios que a barbárie praticava em meio à maior simplicidade". Para ele a civilização move-se num "círculo vicioso", num ciclo de contradições, que reproduz constantemente sem poder superá-las, conseguindo sempre precisamente o contrário do que deseja ou alega querer conseguir. E assim nos encontramos, por exemplo, com o fato de que "na civilização, a pobreza brota da própria abundância". Como se vê, Fourier maneja a dialética com a mesma mestria de seu contemporâneo Hegel. Diante dos que enchem a boca falando da ilimitada capacidade humana de perfeição, põe em relevo, com Igual dialética, que toda fase histórica tem sua vertente ascensional, mas também sua ladeira descendente, e projeta essa concepção sobre o futuro de toda a humanidade. E assim como Kant Introduziu na ciência da natureza o desaparecimento futuro da Terra, Fourier introduz em seu estudo da história a idéia do futuro desaparecimento da humanidade.

Enquanto o vendaval da revolução varria o solo da França, desenvolvia-se na Inglaterra um processo revolucionário, mas tranqüilo, porém nem por isso menos poderoso. O vapor e as máquinas-ferramenta converteram a manufatura na grande indústria moderna, revolucionando com Isso todos os fundamentos da sociedade burguesa. O ritmo vagaroso do desenvolvimento do período da manufatura converteu-se num verdadeiro período de luta e embate da produção. Com uma velocidade cada vez mais acelerada, ia-se dando a divisão da sociedade em grandes capitalistas e proletários que nada possuem e, entre eles, em lugar da antiga classe média tranqüila e estável, uma massa Instável de artesãos e pequenos comerciantes, a parte mais flutuante da população, levava unia existência sem nenhuma segurança. O novo modo de produção apenas começava a galgar a vertente ascensional; era ainda o modo de produção normal, regular, o único possível, naquelas circunstâncias. E no entanto deu origem a toda uma série de graves calamidades sociais: amontoamento, nos bairros mais sórdidos das grandes cidades, de uma população arrancada do seu solo; dissolução de todos os laços tradicionais dos costumes, da submissão patriarcal e da família; prolongação abusiva do trabalho, que sobretudo entre as mulheres e as crianças assumia proporções aterradoras; desmoralização em massa da classe trabalhadora, lançada de súbito a condições de vida totalmente novas – do campo para a cidade, da agricultura para a indústria, de uma situação estável para outra contentemente variável e insegura. Em tais circunstâncias, ergue-se como reformador um fabricante de 29 anos, um homem cuja pureza quase infantil tocava às raias do sublime e que era, ao lado disso, um condutor de homens como poucos. Roberto Owen assimilara os ensinamentos dos filósofos materialistas do século XVIII, segundo os quais o caráter do homem é, de um lado, produto de sua organização Inata e, de outro, fruto das circunstâncias que envolvem o homem durante. sua vida, sobretudo durante o período de seu desenvolvimento. A maioria dos homens de sua classe não via na revolução industrial senão caos e confusão, uma ocasião propícia para pescar no rio revolto e enriquecer depressa. Owen, porém, viu nela o terreno adequado para pôr em prática a sua tese favorita, Introduzindo ordem no caos. Já em Manchester, dirigindo uma fábrica de mais de 500 operários, tentara, não sem êxito, aplicar praticamente a sua teoria. De 1800 a 1829 orientou no mesmo sentido, embora com maior liberdade de iniciativa e com um êxito que lhe valeu fama na Europa, a grande fábrica de fios de algodão de New Lanark, na Escócia, da qual era sócio e gerente. Uma população operária que foi crescendo paulatinamente até 2 500 almas, recrutada a principio entre os elementos mais heterogêneos, a maioria dos quais muito desmoralizados, converteu-se em suas mãos numa colônia-modelo, na qual não se conheciam a embriaguez, a policia, os juizes de paz, os processos, os asilos para pobres nem a beneficência pública Para Isso bastou, tão somente, colocar seus operários em condições mais humanas de vida, consagrando um cuidado especial à educação da prole. Owen foi o criador dos jardins-de-infância, que funcionaram pela primeira vez em New Lanark. As crianças eram enviadas às escolas desde os dois anos, e nelas se sentiam tão bem que só com dificuldade eram levadas para casa. Enquanto nas fábricas de seus concorrentes os operários trabalhavam treze e quatorze horas diárias, em New Lanark a jornada de trabalho era de dez horas e meia. Quando uma crise algodoeira obrigou o fechamento da fábrica por quatro meses, os operários de New Lanark, que ficaram sem trabalho, continuaram recebendo suas diárias Integrais. E contudo a empresa incrementara ao dobro o seu valor e rendeu a seus proprietários, até o último dia, enormes lucros.

Owen, entretanto, não estava satisfeito com o que conseguira. A existência que se propusera dar a seus operários distava muito ainda de ser, a seus olhos, uma existência digna de um ser humano. "Aqueles homens eram meus escravos". As circunstâncias relativamente favoráveis em que os colocara estavam ainda muito longe de permitir-lhes desenvolver racionalmente e em todos os aspectos o caráter e a inteligência, e muito menos desenvolver livremente suas energias. "E, contudo, a parte produtora daquela população de 2500 almas dava à sociedade uma soma de riqueza real que, apenas meio século antes, teria exigido o trabalho de 600 000 homens juntos. Eu me perguntava: onde vai parar a diferença entre a riqueza consumida por essas 2 500 pessoas e a que precisaria ser consumida pelas 600 000?" A resposta era clara: essa diferença era invertida em abonar os proprietários da empresa com 5 por cento de juros sobre o capital de instalação, ao qual vinham somar-se mais de 300 000 libras esterlinas de lucros. E o caso de New Lanark era, só que em proporções maiores, o de todas as fábricas da Inglaterra. "Sem essa nova fonte de riqueza criada pelas máquinas, teria sido impossível levar adiante as guerras travadas para derrubar Napoleão e manter de pé os princípios da sociedade aristocrática. E, no entanto, esse novo poder era obra da classe operária." (5) A ela deviam pertencer também, portanto, os seus frutos. As novas e gigantescas forças produtivas, que até ali só haviam servido para que alguns enriquecessem e as massas fossem escravizadas, lançavam, segundo Owen, as bases para uma reconstrução social e estavam fadadas a trabalhar somente para o bem-estar coletivo, como propriedade coletiva de todos os membros da sociedade.

Foi assim, por esse caminho puramente prático – resultado, por dizê-lo, dos cálculos de um homem de negócios que surgiu o comunismo oweniano, conservando sempre esse caráter prático Assim, em 1823, Owenpropõe um sistema de colônias comunistas para combater a miséria reinante na Irlanda e apresenta, em apoio de sua proposta, um orçamento completo de despesas de instalação, desembolsos anuais e rendas prováveis. E assim também em seus planos definitivos da sociedade do futuro, os detalhes técnicos são calculados com um domínio tal da matéria, Incluindo até projetos, desenhos de frente, de perfil e do alto que, uma vez aceito o método oweniano de reforma da sociedade, pouco se poderia objetar, mesmo um técnico experimentado, contra os pormenores de sua organização.

O avanço para o comunismo constitui um momento crucial na vida de Owen. Enquanto se limitara a atuar só como filantropo, não colhera senão riquezas, aplausos, honra e fama. Era o homem mais popular da Europa Não só os homens de sua classe e posição social, mas também os governantes e os príncipes o escutavam e o aprovavam. No momento, porém, em que formulou suas teorias comunistas, virou-se a página. Eram precisamente três grandes obstáculos os que, segundo ele, se erguiam em seu caminho da reforma social: a propriedade privada, a religião e a forma atual do casamento. E não ignorava ao que se expunha atacando-os: à execração de toda a sociedade oficial e à perda de sua posição social. Mas isso não o deteve em seus ataques implacáveis contra aquelas instituições, e ocorreu o que ele previa. Desterrado pela sociedade oficial, ignorado completamente pela imprensa, arruinado por suas fracassadas experiências comunistas na América, às quais sacrificou toda a sua fortuna, dirigiu-se à classe operária, no seio da qual atuou ainda durante trinta anos. Todos os movimentos sociais, todos os progressos reais registrados na Inglaterra em interesse da classe trabalhadora, estão ligados ao nome de Owen. Assim, em 1819, depois de cinco anos de grandes esforços, conseguiu que fosse votada a primeira lei limitando o trabalho da mulher e da criança nas fábricas. Foi ele quem presidiu o primeiro congresso em que as trade-unions de toda a Inglaterra fundiram-se numa grande organização sindical única. E foi também ele quem criou, como medidas de transição, para que a sociedade pudesse organizar-se de maneira integralmente comunista, de um lado, as cooperativas de consumo e de produção – que serviram, pelo menos, para demonstrar na prática que o comerciante e o fabricante não são Indispensáveis -, e de outro lado, os mercados operários, estabelecimentos de troca dos produtos do trabalho por meio de bonus de trabalho e cuja unidade é a hora de trabalho produzido; esses estabelecimentos tinham necessariamente que fracassar, mas se antecipam multo aos bancos proudhonianos de troca, diferenciando-se deles somente em que não pretendem ser a panacéia universal para todos os males sociais, mas pura e simplesmente um primeiro passo para uma transformação multo mais radical da sociedade.

As concepções dos utopistas dominaram durante muito tempo as idéias socialistas do século XIX, e em parte ainda hoje as dominam. Rendiam-lhes homenagens, até há muito pouco tempo, todos os socialistas franceses e Ingleses e a eles se deve também o incipiente comunismo alemão, incluindo Weitling. Para todos eles, o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua virtude, conquistar o mundo. E, como a verdade absoluta não está sujeita a condições de espaço e de tempo nem ao desenvolvimento histórico da humanidade, só o acaso pode decidir quando e onde essa descoberta se revelará. Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça variam com os fundadores de cada escola; e como o caráter específico da verdade absoluta, da razão e da justiça está condicionado, por sua vez, em cada um deles, pela Inteligência pessoal, condições de vida, estado de cultura e disciplina mental, resulta que nesse conflito de verdades absolutas a única solução é que elas vão acomodando-se umas às outras. E, assim, era inevitável que surgisse uma espécie de socialismo eclético e medíocre, como o que, com efeito, continua imperando ainda nas cabeças da maior parte dos operários socialistas da França e da Inglaterra: uma mistura extraordinariamente variegada e cheia de matizes, compostas de desabafes críticos, princípios econômicos e as imagens sociais do futuro menos discutíveis dos diversos fundadores de seitas, mistura tanto mais fácil de compor quanto mais os ingredientes individuais iam perdendo, na torrente da discussão, os seus contornos sutis e agudos, como as pedras limadas pela corrente de um rio. Para converter o socialismo em ciência era necessário, antes de tudo, situá-lo no terreno da realidade.

Início da página


Notas:

(1) É a seguinte a passagem de Hegel referente à Revolução Francesa: "A Idéia, o conceito de direito, fez-se valer de chofre, sem que lhe pudesse opor qualquer resistência a velha armação da Injustiça. Sobre a idéia do direito baseou-se agora, portanto, uma Constituição, e sobre esse fundamento deve basear-se tudo mais no futuro. Desde que o Sol ilumina o firmamento e os planetas giram em torno daquele ninguém havia percebido que o homem se ergue sobre a cabeça, isto é, sobre a idéia, construindo de acordo com ela a realidade. Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o nus, a razão, governa o mundo: mas só agora o homem acabou de compreender que o pensamento deve governar a realidade espiritual. Era, pois, uma esplêndida aurora Todos os seres pensantes celebraram a nova época. Uma sublime emoção reinava naquela época a um entusiasmo do espirito) abalava o mundo, como se pela primeira vez se conseguisse a reconciliação do mundo com a divindade". Hegel Philosophie der Geschichte. 1840, pág. 535) [Hegel, Filosofia da História, 1840 pág. 535]. Não terá chegado o momento de aplicar a essas doutrinas subversivas e atentatórias à sociedade, do finado professor Hegel, a lei contra os socialistas? (Nota de Engels)

(2) Leveller (niveladores): nome que se dava aos elementos plebeus da cidade e do campo que durante a revolução de 1648 apresentavam na Inglaterra as reivindicações democráticas mais radicais. (N. da E.)

(3) Engels refere-se aqui às obras dos representantes do comunismo utópico Tomas Morus (século XVI) e Campanella (Século XVII). (N. da R.)

(4) "Direito de pernadas: direito que tinha o senhor feudal à primeira noite com as nubentes do seu feudo. (N. da Ed. Bras.)

(5) De The Revolution In Mind and Practice [A Revolução no Espírito e na Prática, um memorial dirigido a todos os republicanos vermelhos. comunistas e socialistas da Europa", e enviado ao governo provisório francês de 1848. mas também "à rainha Vitória e seus conselheiros responsáveis". (Nota de Engels)

Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico

Friederich Engels


Escrito: Entre Janeiro e Março de 1880
Primeira Edição:  como folheto Revue Socialiste de Março, Abril e Maio  de 1880,em alemão, em Zurique (1882) e em Berlim (1891), e em inglês, em Londres(1892).
Fonte: amavelmente cedido pelo "Grupo Acropolis" Publica-se segundo a edição soviética de 1952, de acordo com o texto da edição alemã de 1891. Traduzido do espanhol.
HTML de  José Braz para o Marxist Internet Archive.


Introdução:

[General Introduction and the History of Materialism] (english version)
[History of the English middle-class] (english version)

Conteúdo:

Parte I: Socialismo Utópico
Parte II: Dialética
Parte III: Materialismo Histórico


Resumo

Entre as melhores explicações do Marxismo escritas por Marx e Engels. Engels escreveu esta brochura baseado em partes do Anti-Dúhring com o intuito de prover os trabalhadores com uma exposição simples e concisa do pensamento Marxista.

Nas três secções da brochura, Engels explica os três componentes do pensamento Marxista: o Socialismo Francês, A Filosofia Germânica e a Economia Inglesa. Na primeira parte do "panfleto" Engels explica que o Socialismo do passado tinha sido utópico – mantendo a crença em quando numa a sociedade todos o compreendessem e nele acreditassem, a pareceria uma sociedade Socialista. Engels escreveu, "… Os Utópicos tentaram evoluir a partir do cérebro humano. A sociedade apresentaria apenas erros; eliminá-los erta tarefa da razã. Era então necessário descobrir um novo e mais perfeito sistema de ordem social e impô-la à sociedade a partir de fora com propaganda, e, sempre que possível, pelo exemplo de experiências modelo."

Engels explica em seguida o lento desenvolvimento histórico da dialética filosófica através de milhares de anos; conhecimento que culminou no que permitiu a Marx ver e explicar a concepção materialista da história, a qual Engels explica na terceira parte da brochura.

Sobre a publicação da edição inglesa da brochura Engels escreveu:

A pedido do meu amigo Paul Lafargue, agora representante de Lille na câmara de deputados francesa, organisei os três capitulos desta brochura que ele traduziu e publicou em 1880 sob o titulo "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico". A partir deste texto em francês forma preparadas edições em Ppolaco e espanhol. Em 1883, os nossos amigos alemães devolveram este texto à lingua original. Desde então, com base no texto alemão, foram publicadas traduções para Italiano, Russo, Holandês e Romêno. Desta forma, contando com a presente edição em Inglês, este pequeno livro circula já em 10 linguas. Não tenho conhecimento de que qualquer outro trabalho socialista, nem mesmo o nosso Manifesto Comunista de 1848, ou o Capital de Marx tenham tido tantas traduções. Em alemão, já houve quatro edições com um total de cerca de 20 000 cópias.

Fonte: Marxists – http://www.marxists.org/

Nietzsche para além do século XX

Dono de uma obra contundente na forma e no conteúdo, o pensador alemão, embora bastante citado, contemporaneidade. Suas ideias, no entanto, seduzem ávidos por rebeldia ao STATUS QUO.

Julio Daio Borges

Friedrich Wilhelm Nietzsche foi praticamente ignorado pelo seu próprio século – o XIX -, consagrou-se durante o século XX e tudo indica que sua filosofia vai sobreviver ao século XXI. Nietzsche nasceu em 1844, faleceu em 1900, mas antecipou os modernistas do início do século passado e foi, portanto, "vanguardista antes da vanguarda. Em tempos pós-modernos, manteve sua atualidade oportunamente "no vácuo". Infelizmente não desfrutou, em nada, dessa consagração. Enlouqueceu por volta de 1889, depois de escrever sua autobiografia, Ecce Homo, aos 44 anos. Mas foi brilhante desde cedo. Assumiu a cátedra de filologia, na Universidade da Basileia (na Suíça), aos 24 anos, antes de se doutorar. Privou da companhia de algumas das maiores figuras de sua época, gente como o músico Richard Wagner e o historiador Jacob Burckhardt.

Filho de pastor Luterano, Nietzsche foi chamado "Friedrich" por causa de Frederico IV, um dos reis da Prússia, região onde passou seus primeiros anos. Revelou muito cedo um talento para as línguas e para a música, tendo sido convidado para estudar fora de sua cidade natal, Röcken. Provavelmente por influência paterna, dedicou-se à teologia durante um semestre, mas veio a perder a fé na religião e descobriu, aos 20 anos, a filosofia de Artur Schopenhauer, que se tornaria um de seus mentores. Teria, em seguida, um primeiro encontro com Wagner, por intermédio de seu orientador em filologia, mas daria seu primeiro grande salto, como pensador, com quase 30 anos – ao compor O Nascimento da Tragédia (1872), um de seus primeiros ensaios, cujo manuscrito seria dado de presente a então esposa de Wagner, Cosima. Por essa altura, Nietzsche já se apegara aos autores clássicos gregos, que serviriam de matériaprima recorrente para sua filosofia.

Viriam ainda, em forma de ensaio, Schopenhauer como Educador e Richard Wagner em Bayreuth, da mesma fase. Mas o primeiro livro efetivo de Nietzsche só veria a luz do dia em 1878 e seria – o, hoje, clássico – Humano, Demasiado Humano. Depois de se alistar voluntariamente no exército prussiano, ainda na juventude, e de participar da posterior guerra franco-prussiana, sua saúde acabaria debilitada, levando alguns biógrafos a concluir que havia adquirido, nesses conflitos armados, a sífilis, que supostamente o enlouqueceria dez anos mais tarde. O fato é que, por conta de mal-estares físicos, Nietzsche prolongaria, cada vez mais, suas férias e seus períodos de recesso, a ponto de não conseguir mais trabalhar na universidade, sendo obrigado a viver de uma pensão e a assumir a condição de "filósofo independente" – até pela indiferença com que seriam recebidos seus escritos e pela desconfiança com que seria visto por seus antigos colegas da filologia.

As obras

Se a década de 1878 a 1888 foi de crescente isolamento – incluindo o afastamento "ideológico" de Wagner depois da ópera Parsifal (1882) e os recorrentes conflitos afetivos com sua única irmã, Elisabeth -, foi igualmente um período de enorme produtividade, tendo Nietzsche composto, em média, um livro por ano e deixado inacabados outros cinco, antes do fim. Alternando temporadas em cidades como Sils-Maria, na Suíça; Turim, na Itália; e Nice, na França, reagiria inicialmente ao pessimismo de Wagner e Schopenhauer e desovaria, em 1882, A Gaia Ciência – talvez um título em homenagem aos tempos em que pensou em largar a filologia e se tornar, por incrível que pareça, "um homem de ciência".

Depois de um verão com a musa intelectual Lou Andreas Salomé – um suposto pedido de casamento dele, uma suposta recusa dela e uma alardeada tentativa de suicídio -, nasceria o, também, clássico desde o título, Assim Falava Zaratustra(1883), cuja primeira versão foi composta em apenas dez dias. Na obra, Nietzsche faria uso de um antigo profeta persa, Zoroastro , para exorcizar o "dualismo" que, segundo ele, condenara o homem ocidental a oscilar entre o "bem" e o "mal", quando, antes do cristianismo, o gregos falavam, apenas, em "bom" e "ruim". Nasceria, ali, o conhecidíssimo "superhomem" nietzschiano , junto ao desejo do filósofo de superar nossos eternos conflitos morais – algo que ficaria indubitavelmente expresso no título seguinte, Além do Bem e do Mal (1886).

Em Genealogia da Moral (1887), o próximo livro, Nietzsche reconstituiria o nascimento da moral que culminara na tradição judaico-cristã , dominante em seu tempo, e que permanecia ainda entranhada, no seu ponto de vista, apesar da ascensão da ciência com Charles Darwin e outros autores. Em meio à descoberta de Dostoiévski – "o melhor psicólogo que já conheci" (afirmaria) – e Kierkegaard, comporia, em 1888, O Crepúsculo dos Ídolos e o, popularíssimo, Anticristo. Como se pressentisse a urgência de seus últimos momentos de lucidez, Nietzsche emendaria ainda Ecce Homo (a autobiografia) e proclamaria – depois de uma década de muito silêncio por parte do establishmentfilosófico e de raríssimos discípulos – que "alguns homens nascem póstumos", evocando, muito possivelmente, Schopenhauer, que se despediu da vida, e da incompreensão de seus contemporâneos, saudando os que então nasciam e, com os quais, sua filosofia enfim viveria…

Outra leitura, novas intenções

Depois de seu falecimento, em 1900, Nietzsche veio à tona novamente no século XX, mas por um motivo errado, que foi aapropriação de sua filosofia pelo nazismo – ideologia pela qual sua irmã nutria simpatias. Os nazistas fizeram sua própria interpretação do super-homem nietzschiano, adequando-o ao conceito de eugenia (superioridade de uma determinada "raça") e pensando justificar seu antissemitismo. Nietzsche, pessoalmente, nunca foi um antissemita (e brigaria com Wagner também por isso) – ainda que, como filósofo, tenha combatido a já referida moral judaico-cristã, sendo, nesse caso, uma objeção em termos de ideias, não esperando servir, obviamente, como salvo-conduto para o genocídio e para os campos de concentração.

Contudo, o apelo de obras como O Anticristo ecoaria pelo século XX afora, com o avanço crescente da ciência, as revoluções nos costumes (feminismo, aqui, incluso) e até os embates com o fundamentalismo religioso. Nietzsche, com sua formação oriunda do luteranismo, conhecia a doutrina tão profundamente que poderia criticá-la "de dentro pra fora", não como um ateu contemporâneo, mas como um "descrente fervoroso" (nas palavras bem achadas de um de seus comentadores). Inicialmente influenciado por Ludwig Feuerbach , Nietzsche combateria o cristianismo por, entre outras coisas, inventar "pecados capitais" que atentavam contra nossos instintos, transformando a religião cristã numa inimiga aguerrida do corpo humano.

Além do bem e do mal

O elitismo pregado por sua filosofia – além de cair bem, mais uma vez, para os seguidores de Hitler – ecoou mesmo depois da Segunda Guerra, por ser também um contraponto ao socialismo, aos ideais "de esquerda" e ao "revolucionário" desejo de igualdade, que Nietzsche considerava pernicioso. Buscaria, nos gregos e nos romanos, uma afirmação dos "melhores", já que, por o cristianismo nascer no seio de um povo originalmente escravo, o povo judeu, enaltecia, justamente, os perseguidos, os vencidos, os desfavorecidos… Uma religião – e, mais profundamente, uma moral – que tinha por base esses valores desembocaria, ainda que de maneira indireta, nos imperativos categóricos de Kant (com raiz nos dez mandamentos de Moisés) e no princípio de negatividade da filosofia de Schopenhauer.

Em resumo, o homem é, por natureza, "infeliz" ou "mau", tendo, como alternativa, a "santidade" ou, no máximo, a salvação post-mortem. Era o que afirmava a doutrina paulina da graça, que permeava ainda Kant, e da qual nem Schopenhauer conseguiria se livrar, mesmo com um insight tão transformador quanto o da "vontade" (que se tornaria, em Freud, o inconsciente, o id, nosso lado irracional e irredutível). Nietzsche, ao contrário, queria uma afirmação da vida, um retorno à natureza, um amor ao próprio destino (amor fati), que a tragédia grega clássica enaltecia e que havia ficado, injustificadamente, para trás com o racionalismo desde Sócrates, Platão e Aristóteles…

Nietzsche "rezaria" no altar de Dionísio e declararia, por conseguinte, que o "pensamento" deveria aprender a "dançar". Seu apoio irrestrito a Baco (a versão romana de Dionísio) e à livre interpretação de sua expressão "além do bem e do mal" cairia como uma luva sobre as ideologias libertárias dos 1900. "Se Deus está morto, então tudo é permitido" – a frase não é nem de Nietzsche e nem mesmo de Dostoiévski, a quem ficou associada, mas quem não a escutou, durante todo o século XX, ao menos uma vez na vida?

O perspectivismo de Nietzsche, outro contraponto aos "absolutos" de Kant, afirmando que as visões particulares de mundo permeavam tudo, inclusive o conhecimento objetivo, caiu, desta vez, como uma luva no colo de artistas e até de charlatães que, no embalo do pós-modernismo, propuseram um "relativismo" exacerbado que, infelizmente ainda hoje, tudo justifica. Sem absolutos, não há valores possíveis, artisticamente falando, portanto, não existem mais os ditames do "gosto" e, então, "tudo" passa a ser "arte", até penico de Duchamp. Levando esse raciocínio para outros domínios, poderíamos, inclusive, evocar o politicamente correto, que teve sua utilidade social, mas que travou a linguagem e, igualmente, o debate de ideias.

O "eterno retorno"

Nietzsche, como tantos outros filósofos mais conhecidos, é mais citado do que lido – e seus escritos, em caráter extraordinário, permitem isso. Dono de um estilo poderoso, o autor do Zaratustra não foi modesto e se comparou a Goethe e a Lutero, dois mestres do idioma alemão. Fora a capacidade verbal, mais do que reconhecida (até por seus detratores), Nietzsche, devido à sua condição física (que não lhe permitia longos períodos de concentração), optou pela forma do aforismo e, levando adiante a tradição perpetrada por Schopenhauer, facilitou a difusão de seu pensamento em forma de frases – justo numa época em que os índices de leitura ou são baixos ou indicam forte dispersão.

Como que preso ao seu próprio mito de "eterno retorno", Nietzsche, para completar, fascina adolescentes e jovens rebeldes há gerações – pela fúria de seus argumentos, pela sua inclinação aparentemente subversiva e pelo combate solitário a "verdades estabelecidas". Vale lembrar, ainda, que Nietzsche inaugurou a prática do "ad hominem", ou seja, do ataque à pessoa do autor (e não necessariamente às suas ideias), o que o aproxima, evidentemente, de nossos polemistas. Nietzsche é, logicamente, muito mais profundo do que sua imagem contemporânea, de "darling" da filosofia, preferido de quem "pensa ma non troppo", porém não consegue, por enquanto, escapar disso – até porque, dessa publicidade involuntária, sobrevive, igualmente, sua verdadeira filosofia

Fonte: Portal Ciência e Vida – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br

Marcio Pochmann: Trabalho imaterial e redução da jornada de trabalho

Com a elevação da taxa de juros, haverá uma “piora na distribuição de renda brasileira e um aumento nos gastos do governo”, avalia Marcio Pochmann, economista e presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Para ele, “todas as decisões tomadas em relação à política macroeconômica, seja fiscal ou monetária, tem implicações inegáveis no nível de emprego, nas condições de contratação e remuneração dos trabalhadores”.

Patricia Fachin

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o economista defende uma jornada de trabalho de 12 horas semanais. Segundo ele, essa medida é viável uma vez que estamos numa “fase em que aumenta a produtividade imaterial”. Pochmann lembra que esse modelo de produção “beneficia apenas as grandes corporações. As 50 maiores empresas do mundo, por exemplo, têm faturamento superior a cem países do mundo”.
Marcio Pochmann é doutor em Economia e professor do Instituto de Economia da Unicamp. Entre seus livros, destacamos Políticas do trabalho e de garantia de renda – O capitalismo em mudança (São Paulo: Editora São Paulo); E-trabalho (São Paulo: Publisher Brasil, 2002) e Desenvolvimento, trabalho e solidariedade (São Paulo: Cortez, 2002).

IHU On-Line – Para muitos, estamos transitando da sociedade industrial para a pós-industrial, da sociedade fordista para a pós-fordista. Quais são as principais características dessa transição e como ela impacta a realidade do trabalho?
Marcio Pochmann
– Nesse início de século, temos vários movimentos que dão conta de uma grande heterogeneidade de situações. Há aqueles que identificam justamente esse marco da construção de uma sociedade associada ao serviço, partindo do pressuposto que nós tivemos uma primeira fase em que a organização econômica se encontrava nas atividades agrárias. Posteriormente, com o avanço do capitalismo tivemos uma melhoria na parte urbana e industrial, na produção de manufaturas. Por conseqüência disso, estaríamos agora numa nova fase em que a maior importância das atividades econômicas e ocupacionais estariam associadas ao serviço. O conceito de sociedade pós-industrial tem a ver com essa dinâmica centrada no setor terciário da economia. É verdade que desde os anos 1950 o centro da economia mundial já apontava essa perspectiva.
Quando olhamos o mundo como um todo, verificamos, com um certo atraso, que até o final do século passado a maioria das ocupações no mundo estavam ainda centradas nas atividades agrícolas. Agora, com a expansão na Ásia, sobretudo, assistimos uma mudança substancial em que a maior parte da ocupação já está pertencendo ao setor urbano. Se usarmos como referência os países do centro do capitalismo mundial, podemos dizer que está ocorrendo uma nova fase de expansão centrada no setor terciário. Mas isso ainda não é tão significativo quando olhamos o conjunto de países, já que muitas regiões se encontram atrasadas no ponto de vista do desenvolvimento econômico.

IHU On-Line – Que aspectos são centrais ao pensar a situação do trabalho na atualidade?
Marcio Pochmann
– Considero importante pensar na mudança da divisão internacional do trabalho. Assistimos, na conjuntura atual, um deslocamento do centro dinâmico da economia concentrada até então nos EUA, que se desloca agora para Ásia, onde a China ganha destaque. Essa situação, guardadas as devidas proporções, pode ser comparada ao que ocorreu na passagem do século XIX para o século XX, quando houve o deslocamento do centro dinâmico da Europa para a América. Esse deslocamento foi importante, porque reconfigurou um novo marco na organização e percepção da condução do emprego.
Agora, em função do modelo de produção asiático, que tem como objeto fundamental a profunda redução dos custos, temos uma incorporação significativa dos segmentos de menor renda em consumo de bens. Ao contrário do que era marca da conjunção fordista, em que um automóvel custava 20 mil dólares, hoje, devido à produção asiática, ele custa quatro mil dólares. Essa mudança faz com que cada vez mais a China se transforme na grande oficina do mundo, enquanto a Índia passa a ser o escritório do planeta e a América do Sul, uma grande fazenda do mundo. Assim, essa divisão ocasional do trabalho impõe constrangimentos para aqueles países que, como o Brasil, pretendem ser uma exceção diferenciada na economia mundial.

IHU On-Line – Alguns setores industriais cresceram e o desemprego parece estar escondido. Entretanto, o sistema industrial brasileiro tem sido refém de um fordismo tardio? A produção industrial alcança padrões de excelência fabril, mas é relativamente retrograda no seu cerne organizativo e tecnológico, como defende Mangabeira?
Marcio Pochmann
– Concordo com essa posição. O fordismo é tardio porque a industrialização foi tardia no Brasil. Nós começamos a construir automóveis na segunda metade da década de 1950, quando o homem se preparava para ir à lua. Percebe-se que parte significativa do setor produtivo brasileiro se encontra numa fase pré-fordista e, sobretudo, as micro e pequenas empresas que não têm acesso a crédito, à tecnologia. Por outro lado, o principal centro de condução industrial, ou seja, a região Sudeste está muito identificada com o tipo de produção tardia. Por isso, é necessário estimular que as atividades pré-fordistas realizadas em muitas regiões brasileiras não passem do pré-fordismo para o fordismo e posteriormente para o pós-fordismo. O nosso desafio é construir uma ponte entre o pré-fordismo e as novas formas de organização da produção. Isso implica um conjunto de políticas públicas do ponto de vista industrial, comercial, tecnológico.

IHU On-Line – O senhor propõe uma jornada de trabalho de quatro horas diárias, três vezes por semana. Como mudar essa jornada sem reduzir salários e beneficiar o trabalhador?
Marcio Pochmann
– Essa discussão na forma como apresento tem um conteúdo diferente do tradicionalmente evocado. Temos dois tipos de debate sobre a reforma da jornada de trabalho. Um é justamente aquele que propõe a redução de 44 horas para 40 ou 35 horas, como foi feito na França. Desde o século XIX, essa discussão da redução da jornada e o aumento do número de trabalhadores são diferentes daquela feita pelos trabalhadores anarco-sindicalistas, que tinham por objetivo a redução da jornada para reduzir as perdas dos trabalhadores.
O novo sindicalismo defende a redução da jornada como uma medida de ampliação do emprego, entendendo principalmente o lucro como elemento chave para propiciar mais investimentos e, conseqüentemente, elevar o nível de emprego.
Na minha proposta, a redução significativa da jornada de trabalho tem outra fundamentação. Em primeiro lugar, não há razão técnica que justifique a jornada de trabalho tão elevada como temos hoje, em função justamente da expansão da produtividade imaterial. Em segundo lugar, deve-se ao reconhecimento de que estamos numa fase em que aumenta a produtividade imaterial. Assim, estamos diante de uma produtividade gerada pelas novas possibilidades de trabalho, ou seja, fora do local de trabalho. Todos estão trabalhando muito mais. Isso faz com que as pessoas durmam com o trabalho e sonhem com ele. Todo esse esforço com a atividade produtiva imaterial está gerando uma ação brutal da riqueza. Esse trabalho imaterial beneficia apenas as grandes corporações. As 50 maiores empresas do mundo, por exemplo, têm um faturamento que é superior a cem países do mundo. Assim, vejo que a redução drástica da jornada de trabalho seria um elemento chave para compensar o desequilíbrio que estamos assistindo em termos da repartição da renda e da riqueza.

IHU On-Line – Como o senhor percebe a negociação para a aprovação da emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais? Segundo a proposta, os trabalhadores abririam mão de aprovar a ratificação pelo Brasil da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) . Essas iniciativas são vantajosas para os trabalhadores?
Marcio Pochmann
– Percebo essa situação de forma positiva, já que os patrões estão se colocando como atores de uma negociação. Até agora, o tema da redução da jornada de trabalho era uma vontade dos trabalhadores e, em contrapartida, sem grande condicionamento patronal. Entretanto, ressalto que o fato dos empregadores oferecerem uma proposta é uma indicação clara de que eles estão abertos para negociação. Se cabe ou não aceitar a redução da jornada combinada com outras modalidades, como está sendo levantado agora, é uma decisão dos trabalhadores. Entretanto, cabe a eles perceber que estamos diante de uma oportunidade inédita de repensar todo o sistema trabalhista, já que esse debate propõe rever, além da jornada, as formas de contratação.

IHU On-Line – A elevação dos juros na última semana e o aumento da dívida interna brasileira trazem algum impacto para o mundo do trabalho e especificamente para os trabalhadores?
Marcio Pochmann
– Todas as decisões tomadas em relação à política macroeconômica, seja fiscal ou monetária, têm implicações inegáveis no nível de emprego, nas condições de contratação e na remuneração dos trabalhadores. A elevação da taxa de juros tem implicações no âmbito dos custos daqueles que estão endividados. O aumento gasto com o pagamento de juros, em função da elevação da dívida pública, implica um volume de recursos superior ao que o governo vai gastar nesse ano com o Bolsa Família. Então, esse aumento de recursos vai diretamente para os ricos. Isso significa uma piora na distribuição da renda brasileira e um aumento nos gastos do governo. Interessante que o pensamento liberal, sempre contra o gasto do governo, não fala nada em relação aos impactos do aumento dos gastos que o governo vai ter pela simples elevação da taxa de juros.
Há questões também preocupantes com o aumento da taxa de juros, pois passamos a ter o risco de não termos a continuidade do ciclo de investimentos que temos agora, já que se torna cada vez mais interessante deixar o dinheiro no sistema financeiro do que aplicar produtivamente na economia nacional.

IHU On-Line – Como o senhor percebe a relação das centrais sindicais com o governo? O trabalhador ganha vantagens com essa parceria?
Marcio Pochmann
– Essa pluralidade da cúpula sindical tem tido uma convergência em termos de ações como a defesa do salário mínimo e a elevação do reajuste da tabela do imposto de renda. Isso mostra que essa convergência na cúpula tem repercutido positivamente não apenas para os sindicatos, mas também para os trabalhadores. No que se refere à transferência de recursos para as centrais sindicais, penso que essa iniciativa seja importante. Entretanto, precisamos considerar que essa verba é inferior ao que é transferido para as entidades patronais, na medida em que elas administram o Sistema S (Sesi, Senai, Senac, Sebrae, Sesc), que apresenta uma soma estimada em torno de R$ 8 bilhões.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – http://www.unisinos.br/ihu/

Bernard Charlot: ensinar com significado para mobilizar os alunos

O pesquisador francês investiga na prática como os alunos se relacionam com o saber.

Tatiana Pinheiro

BERNARD CHARLOT. Foto: Arquivo pessoal

BERNARD CHARLOT.
Foto: Arquivo pessoal

Há 40 anos, vertentes da Sociologia analisam a relação entre o desempenho escolar de uma criança e a classe social que seus pais ocupam. Boa parte das considerações aponta que alunos de camadas populares têm menos chances de ser bem-sucedidos nos estudos do que os jovens de classe média. Mas como explicar um estudante de família desfavorecida que se sai bem na escola? E o aluno de família abastada que fracassa em sua trajetória escolar? 
Pesquisador francês radicado no Brasil, Bernard Charlot (leia a biografia no quadro abaixo) se voltou para essas questões na década de 1980, ainda em Paris, e trabalhou em um conceito que explica de maneira mais abrangente e menos preconceituosa histórias de sucesso e de fracasso escolar: a relação com o saber (leia mais no último quadro).

Essa é uma condição que se estabelece desde o nascimento, uma vez que "nascer significa ver-se submetido à obrigação de aprender", escreveu Charlot. A condição humana exige que seja feito um movimento, "longo, complexo e nunca acabado", no sentido de se apropriar (parcialmente) de um mundo preexistente. Essa apropriação obrigatória desencadeia três processos: de hominização (tornar-se homem), singularização (tornar-se exemplar único) e socialização (tornar-se membro de uma comunidade). 
O ato de construir-se e ser construído pelos outros é a própria Educação, entendida de forma ampla, em situações que ocorrem dentro e fora da escola. É por meio de suas experiências que a criança toma contato com as muitas maneiras de aprender. Ela pode adquirir um saber específico, no sentido de compreender um conteúdo intelectual (a gramática, a Matemática, a história da arte etc.), pode dominar um objeto ou uma atividade (como caminhar, amarrar os sapatos, nadar etc.) e pode aprender formas de se relacionar com os outros no mundo (saber como cumprimentar as pessoas, ter boas maneiras à mesa etc.). 
Nesse ir-e-vir da relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo, toma forma o desejo de aprender. É esse desejo que propulsiona a criança em direção ao saber. Em pesquisas de campo, Charlot e sua equipe identificaram que esse "direcionar-se para o saber" pressupõe um movimento de mobilização – e não simplesmente de motivação. "O conceito de mobilização se refere à dinâmica interna, traz a ideia de movimento e tem a ver com a trama dos sentidos que o aluno vai dando às suas ações", explica Jaime Giolo, professor titular da pós-graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF) e estudioso do pensamento de Charlot. "A motivação, por sua vez, tem a ver com uma ação externa, enfatizando o fato de que se é motivado por alguém ou algo."

Biografia
De Paris a Aracaju, atrás de pistas sobre o ensino

Bernard Jean Jacques Charlot nasceu em Paris, em 1944. Formou-se em Filosofia em 1967 e, dois anos depois, foi lecionar Ciências da Educação na Universidade de Túnis, na Tunísia. De volta à França, em 1973, trabalhou por 14 anos na Ecole Normale, um instituto de formação de docentes. No período de 1987 a 2003, atuou como professor catedrático da Universidade de Paris 8, onde fundou a equipe de pesquisa Escol (Educação, Socialização e Comunidades Locais), voltada para a elaboração dos elementos básicos da teoria da relação com o saber. Após se aposentar, veio para o Brasil. Como professor-visitante da Universidade Federal de Mato Grosso, seguiu fazendo pesquisas até ser convidado para ser visitante na Universidade Federal de Sergipe, em Aracaju. Desde 2006, é lá que coordena o grupo de pesquisas Educação e Contemporaneidade, engajado em delinear as relações com os saberes e explicitar de que forma os alunos se apropriam deles.

Ensinar com significado para mobilizar os estudantes 
Como acionar nos alunos mecanismos de interesse pelo saber? Como notar que relação os estudantes estabelecem com o saber escolar? Segundo contou o próprio Charlot em entrevista a NOVA ESCOLA de Aracaju, cidade onde mora atualmente, suas pesquisas ainda devem uma resposta mais completa para essas perguntas, principalmente quando o olhar se volta para alunos de periferias – na França, na Tunísia, na República Tcheca ou no Brasil, países em que ele coordenou estudos. O que se sabe é que, quanto mais significativo for o que está sendo ensinado, mais o aluno se põe em movimento, se mobiliza para se relacionar com aquele conteúdo. Mas essa situação, que seria a ideal, não é a predominante. 
Os estudos de Charlot apontam que a maioria dos estudantes – quase 80% deles – só vê sentido em ir à escola para conseguir um diploma, ter um bom emprego e ganhar dinheiro e levar uma vida tranquila. Nesse discurso, não há a menção ao fato de aprender. "Esses jovens que ligam escola e profissão sem referência ao saber estabelecem uma relação mágica com ambos. Além disso, sua relação cotidiana com o estudo é particularmente frágil na medida em que aquilo que se tenta ensinar a eles não faz sentido em si mesmo, mas somente em um futuro distante", define o pesquisador.

Os caminhos de Charlot
Um passo adiante na Sociologia da reprodução

Foto: Reprodução

CRIANÇAS DE PARIS Os estudos de Charlot começaram analisando os jovens de periferia. Foto: Reprodução

O estudo da relação do homem com o saber não é novidade. Com outras denominações, Bernard Charlot vê o assunto atravessar a história da Filosofia clássica, desde Sócrates (469-399 a.c), que disse "conhece-te a ti mesmo", passando por René Descartes (1596-1650) e a formulação da dúvida metódica, até chegar em Hegel (1770-1831) e sua visão de que novos conhecimentos se constroem com base em antigos. 
Porém é nas décadas de 1960 e 70 que a expressão "relação com o saber" e outras derivadas podem ser encontradas em maior quantidade nas produções de psicanalistas e sociólogos. Em 1970, por exemplo, Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean Claude Passeron usaram no livro A Reprodução termos como "relação com a linguagem" e "relação com a cultura". 
Mas é Charlot que faz um novo recorte e se volta para o saber nas classes populares. Ele sai do discurso mais teórico para encontrar elementos de compreensão da trajetória escolar de crianças de periferia. Nessa proposta, o sujeito, com seus desejos, ganha importância. Charlot assume para si o pressuposto de que os indivíduos não são simples objetos de pesquisa, mas agentes capazes de subverter a lógica dominante, mesmo que o façam localmente e com o simples intuito de melhorar um pouco o modo de vida.

No caso desses estudantes, o professor Jaime Giolo avalia que se estabelece uma relação mecânica, quase de indiferença, com o saber. Recuperar o sentido do aprender e o prazer em estudar está entre os desafios de hoje. A atividade escolar precisa se apresentar de forma significativa, prazerosa, para merecer o esforço intelectual dos alunos no sentido de se apropriar de diversas porções de saberes produzidos pela humanidade. 
Não há uma receita pronta para isso. O que não basta para Charlot é dar a situação por resolvida ao justificar o desinteresse ou o fracasso de alunos por causa da classe social da família ou das carências culturais inerentes à origem deles. Segundo o francês, pensar de maneira determinista lança uma leitura negativa sobre a realidade. Em vez disso, ele sugere uma leitura positiva do indivíduo, levando em conta sua história de vida, seus desejos e suas atividades cotidianas.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
A Mistificação Pedagógica – Realidades Sociais e Processos Ideológicos na Teoria da Educação
, Bernard Charlot, 314 págs., Ed. Zahar, tel. (21) 2108-0808 (edição esgotada)
Da Relação com o Saber – Elementos para uma Teoria, Bernard Charlot, 96 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 38 reais
Os Jovens e o Saber – Perspectivas Mundiais, Bernard Charlot, 152 págs., Ed. Artmed, 38 reais
Relação com o Saber, Formação dos Professores e Globalização – Questões para a Educação Hoje, Bernard Charlot, 160 págs., Ed. Artmed, 40 reais

Fonte: Revista Escola – http://revistaescola.abril.com.br/

O que os olhos não vêem

Atenção: as páginas desta reportagem estão cheias de mensagens subliminares. Será que elas têm algum poder para manipular as suas ações?

Texto Mariana Weber

Dê uma olhada nestas páginas. Tem uns prédios e um skatista aí ao redor, não? A seguir, há elefantes e girafas durante um entardecer. Só? Na verdade, estas páginas da Super guardam palavras e imagens secretas. Sem você perceber, seu cérebro está captando fotos e desenhos ocultos de um abacaxi, uma mulher de biquíni e um urso polar, e conselhos como “escute música” e “proteja-se do sol”. No texto que você lê agora, a frase “como bananas” está escondida entre as palavras. Cuidado. Há mais de 50 anos, mensagens subliminares como essas assustam consumidores, fomentam teorias conspiratórias e dividem a opinião dos cientistas.

Na década de 1950, não bastasse o medo dos comunistas, das invasões extraterrestres e da bomba nuclear, os americanos descobriram a propaganda subliminar como um novo inimigo a temer. Em 1957, o consultor de marketing James Vicary deu início à onda de desconfiança contra propagandas que seriam uma forma de lavagem cerebral. Ele disse ter aumentado a venda de pipocas e refrigerante nas sessões do filme Férias de Amor, em um cinema de Nova Jersey, após projetar imagens por milésimos de segundo. Assim como no cinema, músicas esconderiam sons secretos e embalagens guardariam figuras disfarçadas.

Desde então, muita gente acredita que mensagens assim têm um efeito maior que qualquer tipo de propaganda. Manipulariam o inconsciente independentemente do nosso livre-arbítrio. Até hoje, porém, ninguém tem certeza se a indústria da propaganda usa mensagens imperceptíveis para atrair consumidores. Mas uma descoberta de abril deste ano provou que, intencional ou não, a mensagem subliminar tem efeito sobre nós.

Um grupo de psicólogos holandeses afirma ter provado que é possível levar as pessoas a optar por uma marca valendo-se de estímulos imperceptíveis conscientemente. Os psicólogos das universidades de Utrecht e Radboud relataram ter aumentado a preferência pela marca de chá gelado Lipton Ice em um estudo com 105 voluntários. Primeiro, os participantes ganharam balas de alcaçuz salgadas, um petisco holandês que provoca sede. Em seguida, todos foram colocados diante de um computador que exibia instruções sobre a pesquisa. Entre elas, apareciam imagens do chá por 23 milésimos de segundo, rápido demais para o cérebro captar racionalmente. Depois de assistirem os flashes de Lipton Ice, 82% dos participantes escolheram a bebida – a outra opção era água mineral. No grupo que foi exposto a subliminares sem sentido, apenas 20% dos sedentos tomaram a mesma decisão. “A descoberta mostrou uma clara diferença entre os que foram expostos às mensagens e os que não foram”, diz o psicólogo Johan Karremans.

O pesquisador afirma que o estímulo subliminar aumenta a acessibilidade de um conceito na mente. É como se uma idéia que estivesse bem enterrada fosse de repente jogada para a superfície e ganhasse mais força para influenciar o comportamento (na experiência, o conceito é a marca Lipton Ice e o comportamento, a escolha de um meio para aplacar a sede). Outros estímulos têm o mesmo poder, mesmo que não estejam camuflados. Em um estudo da Universidade de Leicester, no Reino Unido, música típica francesa e alemã nos alto-falantes de um supermercado levou consumidores a comprar mais vinhos desses países, sem se darem conta da associação que levou às compras. “Acreditamos que algumas conexões do cérebro deixem alguns termos mais acessíveis”, diz Karremans. “Quando eu digo ‘mesa’, ‘colher’ vai automaticamente ser ativado.”

História

Ao afirmar que a propaganda subliminar é factível, o psicólogo Karremans insere seu nome em uma história em que estudos sérios dividem espaço com teorias conspiratórias. A primeira incursão na área foi feita pelo psiquiatra austríaco Otto Pötzl, que em 1917 expôs pacientes a estímulos visuais rápidos e constatou que posteriormente, de forma distorcida, eles apareciam em sonhos. Mais tarde, nos anos 50, o americano Charles Fisher relatou que, após serem estimulados rapidamente com a imagem de um pássaro entre dois gatos, participantes de um estudo diziam não se lembrar da visão, mas, convidados a desenhar, botavam formas parecidas no papel.

O assunto virou moda quando o jornalista Vance Packard escreveu o livro Nova Técnica de Convencer, em que denunciava uma espécie de complô para manipular a mente dos consumidores. Mais tarde, o experimento foi desacreditado por falta de rigor científico. O próprio Vicary, aquele que disse ter aumentado a venda de pipocas no cinema, admitiu, em 1962, que sua técnica nem sempre dava certo e não tinha validade científica.

Mas já não importava – o medo tinha se espalhado. “O segredo tem sido bem guardado”, disse Wilson Bryan Key em Subliminal Seduction, de 1976, primeira de uma série de obras em que ele denunciava intenções escondidas em todo tipo de imagem: de um prato de mariscos surgia uma orgia e, com algum esforço de percepção, as letras “s”, “e” e “x” (“sexo”, em inglês) apareciam em cubos de gelo, em sombras na pele ou em biscoitos. Segundo Key, palavras com forte significado emocional, captadas de forma subliminar, se fixam na memória inconsciente com o conteúdo relacionado a elas.

Com esses estudos em voga, virou conversa de bar achar mensagens subliminares sobretudo em embalagens, como as de cigarros. Logo o assunto foi banalizado. Bandas de rock esconderiam nas músicas sons perversos. Filmes infantis não escaparam da paranóia. Segundo o site da ong Mensagem Subliminar, que se propõe a “divulgar as mensagens subliminares e todas as suas técnicas criminosas”, em duas cenas de O Rei Leão, partículas formam no ar a palavra “sex”.

Estardalhaços como esses assustaram os cientistas. “Por uma geração de pesquisadores, muita gente ficou desconfiada em relação ao trabalho de Vicary e evitou qualquer envolvimento com seus estudos”, diz Diane Zizak, co-autora do artigo Beyond Gizmo Subliminality (‘Além do Mecanismo de Subliminaridade’) no livro The Psychology of Entertainment Media (‘A Psicologia da Mídia de Entretenimento’, sem edição no Brasil). “No entanto, à medida que a psicologia cognitiva se desenvolveu e explorou os limites da consciência, trabalhos sérios nos campos relativos à percepção subliminar se tornaram mais aceitos”, diz Diane.

O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) informa que não faz comentários sobre propagandas subliminares porque elas simplesmente não existem. Por via das dúvidas, o assunto está no estatuto da entidade: “Este Código não se ocupa da chamada ‘propaganda subliminar’, por não se tratar de técnica comprovada, jamais detectada de forma juridicamente inconteste”. Apesar disso, já houve condenações por causa de subliminares no Brasil (leia quadro ao lado). Em 2002, a MTV foi acusada de exibir cenas de sexo de forma subliminar em uma vinheta – em frames que só podiam ser vistos claramente em câmera lenta. Segundo a promotora de Justiça do Consumidor Deborah Pierri, a emissora alegou que a direção não tinha conhecimento da existência dessas imagens na vinheta, que foi retirada do ar. O caso terminou com um acordo judicial, em que a MTV se comprometeu a promover uma campanha educacional voltada para jovens.

Subliminar é tudo?

Apesar de subliminar muitas vezes ser definido como algo captado abaixo do limiar da consciência, hoje se questiona a idéia de haver um limite dividindo o que pode e o que não pode ser percebido conscientemente. Essa linha divisória seria uma abstração – à medida que o estímulo se torna mais intenso, a probabilidade de que ele seja notado cresce gradualmente. Os estímulos chamados de subliminares seriam pouco intensos – porque têm volume reduzido (no caso dos sons) ou porque estão perdidos no meio de outras mensagens. “Nós podemos extrair informação conceitual de figuras que são projetadas durante aproximadamente 0,1 a 0,2 segundo”, diz o neurobiólogo Valdir Pessoa, da Universidade de Brasília.

Segundo o neurofisiologista Luiz Eugenio Moraes Mello, da Universidade Federal de São Paulo, também é subliminar grande parte das imagens captadas pela visão periférica, ou seja, fora da fóvea, região da retina usada para focalizar objetos. “O processamento desses estímulos ocupa preferencialmente o lado direito do cérebro, mais ligado às emoções, e o armazenamento ocorre de forma paralela ao dos estímulos supraliminares”, diz ele. “A diferença é que não se tem consciência disso.” Como focamos a atenção em um conjunto de estímulos, haverá outros que serão percebidos de forma subliminar.

“Em uma cultura com dados abundantes oferecidos em uma velocidade crescente, as mensagens passam para o inconsciente de forma inadvertida”, afirma Flávio Calazans, autor do livro Propaganda Subliminar Multimídia e maior propagador no meio acadêmico brasileiro do suposto perigo das técnicas subliminares.

Pior: como há pouco limite para aquilo que é ou não percebido conscientemente, a propaganda subliminar pode ser entendida como qualquer peça publicitária que leve você a fazer associações sem se dar conta. Colocar uma modelo sexy ao lado de um carro é um jeito de fazer isso. “De fato, se a mensagem por associação for explícita demais, o sujeito pode rejeitá-la criticamente”, afirma Diane Zizak. Para atingir um homem de 45 anos, cujo pai possivelmente é idoso ou morreu, um filme que mostra uma figura paterna dando ensinamentos tem grande chance de gerar empatia. “O espectador transfere esse sentimento à marca sem ter isso processado claramente”, afirma Paulo Tarsitano, professor de publicidade da Universidade Metodista. Ou seja: é muito difícil que mensagens ocultas estejam sendo veiculadas do modo como fizemos nestas páginas. Mas talvez toda propaganda, sem exceção, seja subliminar.

Foi de propósito?

Camelo ereto

A polêmica mais famosa envolvendo subliminares é a da embalagem dos cigarros Camel. Muita gente enxergou um pênis com testículos ou um pênis e uma vagina no rosto do camelo da marca. A empresa não foi condenada, mas retirou o desenho de circulação.

Democratas ratas

Em 2000, na campanha à Presidência dos EUA, uma propaganda republicana atacava os democratas com o termo bureaucrats (“burocratas”). A última parte da palavra (rats, “ratos”), ocupava a última tomada do anúncio. Coincidência?

Subliminar tupiniquim

A Souza Cruz, a agência Ogilvy & Mather e a produtora Conspiração Filmes foram condenadas em março por veicular, em 2000, uma propaganda dos cigarros Free com subliminares. Para o Ministério Público, havia uma imagem de uma pessoa fumando atrás da figura central, de um artista plástico. As empresas negam e recorrem da sentença, que exige R$ 14 milhões de multa.

Para saber mais

Propaganda Subliminar Multimídia – Flávio Calazans, Summus Editorial, 2006

Televisão Subliminar – Joan Ferrés, Artmed, 1998

The Psychology of Entertainment Media: Blurring the Lines Between Entertainment and Persuasion – L.J. Shrum(org.), LEA, EUA, 2003.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

No centro da gestão

Valorizar os colaboradores por meio de processos de recursos humanos incentiva o ensino de qualidade. Mas um dos desafios é romper os vínculos emocionais.

Rodolfo C. Bonventti

No meio dos profissionais de recursos humanos é comum ouvir que o que mais vale em uma empresa é o seu capital humano. Só para citar alguns exemplos, grandes empresas como Microsoft, Google e IBM possuem um valor de mercado muito maior do que o total de seus bens.

Com a abertura de capital de algumas instituições de ensino superior e o atual cenário de fusões e aquisições, a necessidade de investir em ativos intangíveis ganha ainda mais relevância no setor educacional. Além disso, um corpo docente de excelência atrai um corpo discente igualmente motivado. E uma equipe de colaboradores bem preparada e treinada tem mais chances de prestar serviços de excelência.

No caso das instituições de ensino superior, o investimento na gestão de pessoas ganha contornos específicos. Afinal, entre os colaboradores estão situações tão diversas quanto diretores, gestores, funcionários ligados à área de atendimento e professores. Para completar o quadro, as instituições também operam em realidades díspares, como gestões familiares ou empresas de capital aberto. Por isso, é necessária a ação de uma área de recursos humanos moderna, que saiba se reinventar a cada nova situação, que seja conhecedora do plano estratégico da instituição, não tenha medo de quebrar paradigmas e de romper os vínculos emocionais do passado.

"As instituições de ensino superior se movimentam cada vez mais no sentido de desenvolverem ações capazes de criar um clima de melhoria contínua na sua organização e isso é muito positivo, já que lidam com o conhecimento, com um público mais diferenciado, exigente e que cobra uma constante atualização e informações de ponta", defende Willian Bull, consultor da Mercer Human Resource na área de capital humano.

Já que negócios são sempre feitos por pessoas que quanto mais talentosas mais sucesso conquistam, a gestão de recursos humanos tem hoje, seja na área comercial, industrial ou de prestação de serviços, um papel fundamental no desenvolvimento da capacidade competitiva das organizações. "A gestão de pessoas vem sendo compreendida como uma área central para organizar e efetivar qualquer mudança em uma organização, e as instituições de ensino superior como fontes geradoras e disseminadoras de conhecimento, que hoje sofrem uma forte concorrência, estão acordando para investir em profissionais de RH que possam contribuir na união de esforços para a conquista dessas vantagens competitivas", acrescenta Willian Bull.

Com uma grande e diversificada oferta de cursos; uma nova estrutura de trabalho; a organização e implementação de processos como a formação de docentes; o investimento em alta tecnologia; a necessidade de redução de custos fixos e a melhoria da qualidade e perfil dos seus profissionais formados, as instituições estão deixando de enxergar as políticas e práticas de recursos humanos apenas como atividades rotineiras e burocráticas, para inseri-las de forma a agregarem valor econômico às instituições.

"Quando se definem claramente as responsabilidades de cada um e se consegue manter um equilíbrio interno e externo na remuneração, garantindo o poder de atração e retenção da mão de obra, principalmente quando essa mão de obra deve ter necessariamente um capital intelectual elevadíssimo, como é o caso dos docentes de uma instituição de ensino, o resultado é uma política de cargos e salários mais transparente e mais próxima do ideal", justifica Lucia Helena, da diretoria administrativa da Etep Faculdades, uma instituição do Vale do Paraíba que tem 53 anos de atividades, seis mil alunos e 350 colaboradores, dos quais mais de 70% são docentes.

Ela, que há 20 anos atua nas áreas de recursos humanos e administração e antes de ir para a Etep, há quatro anos, atuou na área industrial, levanta um ponto polêmico. "Nas indústrias já há um processo estabelecido que facilita o trabalho da área de recursos humanos como um aliado às prioridades da empresa. Esses profissionais trabalham como parceiros de todas as outras áreas, para garantir a coerência e o sucesso entre os vários planos que existem nessas organizações, o que leva a um ajuste integrado entre as práticas de RH e as prioridades do negócio. Já nas instituições de ensino superior muitos professores costumam exercer uma resistência a qualquer mudança, por considerarem que não têm mais nada a aprender e acabam fazendo uma interpretação equivocada das ferramentas que o RH está utilizando nos novos projetos."

Marcos Vono: desafo é alinhar projeto às expectativas pessoais.

Marcos Vono, diretor de RH e Carreiras do Grupo Ibmec Educacional, concorda. "Boa parte das instituições tem certa dificuldade em profissionalizar a gestão por sua própria gênese, muitas vezes formada por pessoas puramente acadêmicas, sem experiências administrativas, e que portanto provocam uma resistência natural às inovações e mudanças. Trabalhar com um RH alinhado com as expectativas das pessoas em perfeita comunhão com os objetivos das instituições de ensino é o grande desafio nesse segmento."

Lucia Helena reconhece a dificuldade de implantar planos estratégicos capitaneados pela área de recursos humanos quando não estão bem estruturados e não respeitam o tipo de público e o tempo de maturação de cada grupo de profissionais. "É preciso quebrar paradigmas, romper os vínculos emocionais com o passado e não sucumbir ao clientelismo", acentua. "Em uma instituição de ensino existem estágios diferenciados de públicos e é preciso sempre ajustar o discurso. É preciso ser persistente e, acima de tudo, ter foco e nunca se afastar dele", explica.

Para Alexandre Gracioso, diretor nacional de graduação da ESPM, o grande desafio do RH em uma instituição de ensino é desenvolver os talentos e ao mesmo tempo mantê-los sob motivação elevada. "Em instituições como a nossa, que possui uma estrutura enxuta, com possibilidades de promoções verticais limitadas, precisamos de formas alternativas para que as pessoas se sintam recompensadas pelo trabalho que realizam e estejam constantemente motivadas a dar o melhor de si para a construção da imagem de excelência da escola."

Gracioso também destaca a importância de compreender o papel que uma empresa de prestação de serviços tem no mercado. "Todos os dias, por um período longo de tempo, todos os consumidores vêm ao local de execução e consumo dos serviços e isso faz com que a sensibilidade à qualidade do serviço prestado seja muito exacerbada dentro de uma escola, principalmente se for privada. Normalmente, quem procura a secretaria ou o financeiro tem de resolver algum problema urgente. Se a pessoa julgar que a questão não foi resolvida adequadamente, pode destratar o funcionário que está no atendimento e isso, ao longo do tempo, gera um desgaste emocional que um funcionário de uma indústria, por exemplo, não terá."

Lucia Helena, que montou uma Plataforma de Treinamento na Etep, acrescenta. "Os colaboradores precisam estar bem treinados e engajados nos projetos, mas a escolha das ferramentas também é muito importante para o sucesso da missão."

Segundo especialistas do mercado, o sistema de gestão de recursos humanos tem maior reconhecimento nas instituições públicas do que nas particulares porque são as universidades públicas, ainda, aquelas que dão maior importância e se pautam por planos de carreira, regimes de trabalho integral e titulação dos seus docentes e produção de conhecimento por meio de pesquisa e de serviços prestados à comunidade.

Já o reconhecimento dos colaboradores ganha contornos cada vez mais modernos no mercado educacional. "Na Etep, implantamos há dois anos a remuneração variável (um conjunto de diferentes formas de recompensa oferecida aos colaboradores), que é uma ferramenta nova em termos de reconhecimento e de recompensa, até o nível de professor por metas alcançadas", exemplifica Lucia Helena. "Esse é um grande desafio nas instituições de ensino superior, porque precisamos construir uma proatividade orientada pela estratégia do negócio, estabelecendo metas passíveis de mensuração, que promovam o trabalho em equipe e mantenham o equilíbrio entre o reconhecimento financeiro e emocional dos colaboradores. E esse desafio se vence também com muita transparência, com as pessoas envolvidas informadas constantemente sobre o andamento do processo", diz Lucia.

Como diz George T. Milkovich, autor de livros sobre administração de recursos humanos, "são as pessoas que traçam estratégias e as conduzem. São as pessoas que determinam se uma empresa ou uma instituição é ou não lucrativa, portanto administrá-las por meio de um conjunto integrado de práticas de administração de RH torna-se uma parte essencial do processo geral de gerenciamento de qualquer organização".

Compromisso com o projeto

No Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, antigo Ibmec-São Paulo, desde 2001 é realizado um forte investimento no desenvolvimento e elaboração de políticas voltadas para todos os colaboradores, sejam eles do corpo administrativo ou docente. O objetivo é muito claro: garantir o comprometimento com o projeto da instituição de ensino.

O Insper Pessoas foi criado com o foco em três públicos: alunos, professores e funcionários. A gestão por competência foi eleita como linha mestra dos processos de admissão, remuneração, aprendizagem contínua, gestão de avaliação e desligamentos. Outra prioridade foi o desenvolvimento e o apoio à pesquisa com professores em dedicação integral para produzir conhecimento científico.

"Temos de formar pessoas para a vida. Essa tem de ser uma das premissas de uma instituição de ensino e, por isso, implantamos no Insper um ciclo de gestão de pessoas que, respeitando o contexto de cada um (professores, colaboradores e alunos), tem a filosofia de gestão da escola", explica Vilma Santos, gerente de RH e do Insper Pessoas.

O ciclo de gestão de pessoas tem quatro etapas: comprometimento, acompanhamento das metas, análise de desempenho e o reconhecimento. Na primeira fase há o envolvimento do colaborador, seja ele administrativo ou docente, no processo como um todo, com a definição das metas individuais, das metas das respectivas áreas e da instituição. Segue-se o acompanhamento dessas metas, que procura deixar claro como as pessoas e a instituição podem e devem caminhar juntas.

Na análise ou avaliação de desempenho, que já é feita em 360º, com os profissionais sendo avaliados pelos próprios pares também, há toda uma análise da carreira de cada um, com a modelagem da carreira do profissional dentro da instituição de ensino. A quarta etapa do ciclo, a do reconhecimento, ganha contornos especiais no Insper, já que há prêmios específicos de excelência de ensino para os docentes tanto na graduação como na pós-graduação, e a avaliação que leva a esse reconhecimento é feita pelos alunos que estão terminando tanto um curso como o outro.

"O ciclo de gestão de pessoas é uma novidade na academia, uma proposta moderna, um desafio de gestão empresariada, mas como suas ações refletem as metas da escola, ele tem sido uma grata surpresa para todos nós do Insper", diz Vilma Santos.

Estrutura bem definida

Na Etep Faculdades, o projeto de recursos humanos está alicerçado em quatro pilares fundamentais: plano de cargo e salários; avaliação de competências; plataforma de treinamento e reconhecimento/endomarketing.

"Para ter resultados, o projeto precisa ser muito bem estruturado. Principalmente no meio acadêmico, tem de possuir métrica, estrutura e é de vital importância que esteja totalmente alinhado com o planejamento estratégico da organização", explica Lucia Helena, diretora administrativa da Etep, que comanda várias áreas de apoio da instituição, entre elas a área de recursos humanos.

No plano de cargos e salários, a remuneração é definida a partir de uma avaliação objetiva do cargo com uma definição clara das responsabilidades de cada um e há uma grande preocupação em manter o equilíbrio interno e externo na remuneração, garantindo o poder de atração e retenção da mão de obra.

Este é um pilar em que, ao envolver os funcionários e responsáveis das áreas na descrição das atividades, se gera o comprometimento com o plano. A transparência na divulgação da estrutura e da política de salários para todos os colaboradores é outra característica importante.

Na avaliação de competências surge a oportunidade para que todos os colaboradores e docentes conheçam seu diferencial competitivo e agreguem valor à sua carreira. Assim acontecem o desenvolvimento e a capacitação de todos os gestores e líderes e surgem desafios como o feedback.

Todos os colaboradores administrativos e os professores são avaliados, respeitando-se as características e os estágios de cada área, a partir do mesmo grupo de competências. As diferentes percepções dos grupos são comparadas visando a um posterior alinhamento à estratégia final.

Priorizar as necessidades e otimizar os recursos são premissas básicas na plataforma de treinamento, que tem o objetivo de promover o desenvolvimento de toda a equipe. Nesse pilar entram as pesquisas de clima interno na instituição, a avaliação de competências, as reuniões com grupos de colaboradores, a definição de orçamentos e o equilíbrio entre as diversas áreas.

O quarto pilar procura o reconhecimento por meio da proatividade orientada pela estratégia do negócio, e cria metas que devem promover o trabalho em equipe. São estabelecidas metas passíveis de mensuração e se trabalha com o equilíbrio entre o reconhecimento financeiro possível e o emocional dos colaboradores.

Nesse pilar também está um importante trabalho de endomarketing. É uma ferramenta que busca fortalecer o engajamento dos docentes, permitindo que haja uma adequada entrega dos cursos e a consequente fidelização dos alunos. Nesse caso, é muito im portante usar todos os canais de comunicação disponíveis.

"Uma etapa é premissa da outra e para chegarmos a esse formato final fizemos mais de 70 reuniões com várias equipes multidisciplinares. E essa transparência é, sem dúvida, uma aliada muito importante no sucesso do projeto e dos seus quatro pilares", diz Lucia Helena.

Fonte: Revista Ensino Superior – http://revistaensinosuperior.uol.com.br/

O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem

Friederich Engels


Escrito em: 1876

1ª Edição: Neue Zeit, 1896.

Tradução de: (?)

Origem da presente transcrição: edição soviética de 1952, de acordo com o manuscrito, em alemão. Traduzido do espanhol.

Transcrição de: amavelmente cedia por "O Vermelho" para Marxists Internet Archive, 2004

HTML por José Braz para Marxists Internet Archive, 2004.


O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.

Há muitas centenas de milhares de anos, numa época, ainda não estabelecida em d efinitivo, daquele período do desenvolvimento da Terra que os geólogos denominam terciário, provavelmente em fins desse período, vivia em algum lugar da zona tropical — talvez em um extenso continente hoje desaparecido nas profundezas do Oceano Indico — uma raça de macacos antropomorfos extraordinariamente desenvolvida.Darwin nos deu uma descrição aproximada desses nossos antepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba, orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas.

É de supor que, como conseqüência direta de seu gênero de vida, devido ao qual as mãos, ao trepar, tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se acostumando a prescindir de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a adotar cada vez mais uma posição ereta. Foi o passo decisivo para a transição do macaco ao homem.

Todos os macacos antropomorfos que existem hoje podem permanecer em posição erecta e caminhar apoiando-se unicamente sobre seus pés; mas o fazem só em casos de extrema necessidade e, além disso, com enorme lentidão. Caminham habitualmente em atitude semi-erecta, e sua marcha inclui o uso das mãos. A maioria desses macacos apóiam no solo os dedos e, encolhendo as pernas, fazem avançar o corpo por entre os seus largos braços, como um paralítico que caminha com muletas. Em geral, podemos ainda hoje observar entre os macacos todas as formas de transição entre a marcha a quatro patas e a marcha em posição erecta. Mas para nenhum deles a posição erecta vai além de um recurso circunstancial.

E posto que a posição erecta havia de ser para os nossos peludos antepassados primeiro uma norma, e logo uma necessidade, dai se depreende que naquele período as mãos tinham que executar funções cada vez mais variadas. Mesmo entre os macacos existe já certa divisão de funções entre os pés e as mãos. Como assinalamos acima, enquanto trepavam as mãos eram utilizadas de maneira diferente que os pés. As mãos servem fundamentalmente para recolher e sustentar os alimentos, como o fazem já alguns mamíferos inferiores com suas patas dianteiras. Certos macacos recorrem às mãos para construir ninhos nas árvores; e alguns, como o chimpanzé, chegam a construir telhados entre os ramos, para defender-se das inclemências do tempo. A mão lhes serve para empunhar garrotes, com os quais se defendem de seus inimigos, ou para os bombardear com frutos e pedras. Quando se encontram prisioneiros realizam com as mãos várias operações que copiam dos homens. Mas aqui precisamente é que se percebe quanto é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, aperfeiçoada pelo trabalho durante centenas de milhares de anos. O número e a disposição geral dos ossos e dos músculos são os mesmos no macaco e no homem, mas a mão do selvagem mais primitivo é capaz de executar centenas de operações que não podem ser realizadas pela mão de nenhum macaco. Nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra, por mais tosco que fosse.

Por isso, as funções, para as quais nossos antepassados foram adaptando pouco a pouco suas mãos durante os muitos milhares de anos em que se prolongam o período de transição do macaco ao homem, só puderam ser, a princípio, funções sumamente simples. Os selvagens mais primitivos, inclusive aqueles nos quais se pode presumir o retorno a um estado mais próximo da animalidade, com uma degeneração física simultânea, são muito superiores àqueles seres do período de transição. Antes de a primeira lasca de sílex ter sido transformada em machado pela mão do homem, deve ter sido transcorrido um período de tempo tão largo que, em comparação com ele, o período histórico por nós conhecido torna-se insignificante. Mas já havia sido dado o passo decisivo: a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade; e essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em geração.

Vemos, pois, que a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento especial assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também pelos ossos; unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini.

Mas a mão não era algo com existência própria e independente. Era unicamente um membro de um organismo íntegro e sumamente complexo. E o que beneficiava à mão beneficiava também a todo o corpo servido por ela; e o beneficiava em dois aspectos.

Primeiramente, em virtude da lei que Darwin chamou de correlação do crescimento. Segundo essa lei, certas formas das diferentes partes dos seres orgânicos sempre estão ligadas a determinadas formas de outras partes, que aparentemente não têm nenhuma relação com as primeiras. Assim, todos os animais que possuem glóbulos vermelhos sem núcleo e cujo occipital está articulado com a primeira vértebra por meio de dois côndilos, possuem, sem exceção, glândulas mamárias para a alimentação de suas crias. Assim também, a úngula fendida de alguns mamíferos está ligada de modo geral à presença de um estômago multilocular adaptado à ruminação. As modificações experimentadas por certas formas provocam mudanças na forma de outras partes do organismo, sem que estejamos em condições de explicar tal conexão. Os gatos totalmente brancos e de olhos azuis são sempre ou quase sempre surdos. O aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição erecta exerceram indubitavelmente, em virtude da referida correlação, certa influência sobre outras partes do organismo. Contudo, essa ação se acha ainda tão pouco estudada que aqui não podemos senão assinalá-la em termos gerais.

Muito mais importante é a ação direta — possível de ser demonstrada — exercida pelo desenvolvimento da mão sobre o resto do organismo. Como já dissemos, nossos antepassados simiescos eram animais que viviam em manadas; evidentemente, não é possível buscar a origem do homem, o mais social dos animais, em antepassados imediatos que não vivessem congregados. Em face de cada novo progresso, o domínio sobre a natureza, que tivera início com o desenvolvimento da mão, com o trabalho, ia ampliando os horizontes do homem, levando-o a descobrir constantemente nos objetos novas propriedades até então desconhecidas. Por outro lado, o desenvolvimento do trabalho, ao multiplicar os casos de ajuda mútua e de atividade conjunta, e ao mostrar assim as vantagens dessa atividade conjunta para cada indivíduo, tinha que contribuir forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. Em resumo, os homens em formação chegaram a um ponto em que tiveram necessidade de dizer algo uns aos outros. A necessidade criou o órgão: a laringe pouco desenvolvida do macaco foi-se transformando, lenta mas firmemente, mediante modulações que produziam por sua vez modulações mais perfeitas, enquanto os órgãos da boca aprendiam pouco a pouco a pronunciar um som articulado após outro.

A comparação com os animais mostra-nos que essa explicação da origem da linguagem a partir do trabalho e pelo trabalho é a única acertada. O pouco que os animais, inclusive os mais desenvolvidos, têm que comunicar uns aos outros pode ser transmitido sem o concurso da palavra articulada. Nenhum animal em estado selvagem sente-se prejudicado por sua incapacidade de falar ou de compreender a linguagem humana. Mas a situação muda por completo quando o animal foi domesticado pelo homem. O contato com o homem desenvolveu no cão e no cavalo um ouvido tão sensível à linguagem articulada que esses animais podem, dentro dos limites de suas representações, chegar a compreender qualquer idioma. Além disso, podem chegar a adquirir sentimentos antes desconhecidos por eles, como o apego ao homem, o sentimento de gratidão, etc. Quem conheça bem esses animais dificilmente poderá escapar à convicção de que, em muitos casos, essa incapacidade de falar é experimentada agora por eles como um defeito. Desgraçadamente, esse defeito não tem remédio, pois os seus órgãos vocais se acham demasiado especializados em determinada direção. Contudo, quando existe um órgão apropriado, essa incapacidade pode ser superada dentro de certos limites. Os órgãos vocais das aves distinguem-se em forma radical dos do homem e, no entanto, as aves são os únicos animais que podem aprender a falar; e o animal de voz mais repulsiva, o papagaio, é o que melhor fala. E não importa que se nos objete dizendo-nos que o papagaio não sabe o que fala. Claro está que por gosto apenas de falar e por sociabilidade o papagaio pode estar horas e horas repetindo todo o seu vocabulário. Mas, dentro do marco de suas representações, pode chegar também a compreender o que diz. Ensinai a um papagaio dizer palavrões (uma das distrações favoritas dos marinheiros que regressam das zonas quentes) e vereis logo que se o irritardes ele fará uso desses palavrões com a mesma correção de qualquer verdureira de Berlim. E o mesmo ocorre com o pedido de gulodices.

Primeiro o trabalho, e depois dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano — que, apesar de toda sua semelhança, supera-o consideravelmente em tamanho e em perfeição. E à medida em que se desenvolvia o cérebro, desenvolviam-se também seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos. Da mesma maneira que o desenvolvimento gradual da linguagem está necessariamente acompanhado do correspondente aperfeiçoamento do órgão do ouvido, assim também o desenvolvimento geral do cérebro está ligado ao aperfeiçoamento de todos os Órgãos dos sentidos. A vista da águia tem um alcance muito maior que a do homem, mas o olho humano percebe nas coisas muitos mais detalhes que o olho da águia. O cão tem um olfato muito mais fino que o do homem, mas não pode captar nem a centésima parte dos odores que servem ao homem como sinais para distinguir coisas diversas. E o sentido do tato, que o macaco possui a duras penas na forma mais tosca e primitiva, foi-se desenvolvendo unicamente com o desenvolvimento da própria mão do homem, através do trabalho.

O desenvolvimento do cérebro e dos sentidos a seu serviço, a crescente clareza de consciência, a capacidade de abstração e de discernimento cada vez maiores, reagiram por sua vez sobre o trabalho e a palavra, estimulando mais e mais o seu desenvolvimento. Quando o homem se separa definitivamente do macaco esse desenvolvimento não cessa de modo algum, mas continua, em grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido mesmo às vezes por retrocessos de caráter local ou temporário, mas avançando em seu conjunto a grandes passos, consideravelmente impulsionado e, por sua vez, orientado em um determinado sentido por um novo elemento que surge com o aparecimento do homem acabado: a sociedade.

Foi necessário, seguramente, que transcorressem centenas de milhares de anos — que na história da Terra têm uma importância menor que um segundo na vida de um homem — antes que a sociedade humana surgisse daquelas manadas de macacos que trepavam pelas árvores. Mas, afinal, surgiu. E que voltamos a encontrar como sinal distintivo entre a manada de macacos e a sociedade humana? Outra vez, o trabalho. A manada de macacos contentava-se em devorar os alimentos de uma área que as condições geográficas ou a resistência das manadas vizinhas determinavam. Transportava-se de um lugar para outro e travava lutas com outras manadas para conquistar novas zonas de alimentação; mas era incapaz de extrair dessas zonas mais do que aquilo que a natureza generosamente lhe oferecia, se excetuarmos a ação inconsciente da manada ao adubar o solo com seus excrementos. Quando foram ocupadas todas as zonas capazes de proporcionar alimento, o crescimento da população simiesca tornou-se já impossível; no melhor dos casos o número de seus animais mantinha-se no mesmo nível Mas todos os animais são uns grandes dissipadores de alimentos; além disso, com freqüência, destroem em germe a nova geração de reservas alimentícias. Diferentemente do caçador, o lobo não respeita a cabra montês que lhe proporcionaria cabritos no ano seguinte; as cabras da Grécia, que devoram os jovens arbustos antes de poder desenvolver-se, deixaram nuas todas as montanhas do pais. Essa “exploração rapace” levada a efeito pelos animais desempenha um grande papel na transformação gradual das espécies, ao obrigá-las a adaptar-se a alimentos que não são os habituais para elas, com o que muda a composição química de seu sangue e se modifica toda a constituição física do animal; as espécies já plasmadas desaparecem. Não há dúvida de que essa exploração rapace contribuiu em alto grau para a humanização de nossos antepassados, pois ampliou o número de plantas e as partes das plantas utilizadas na alimentação por aquela raça de macacos que superava todas as demais em inteligência e em capacidade de adaptação. Em uma palavra, a alimentação, cada vez mais variada, oferecia ao organismo novas e novas substâncias, com o que foram criadas as condições químicas para a transformação desses macacos em seres humanos. Mas tudo isso não era trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa com a elaboração de instrumentos. E que representam os instrumentos mais antigos, a julgar pelos restos que nos chegaram dos homens pré-históricos, pelo gênero de vida dos povos mais antigos registrados pela história, assim como pelo dos selvagens atuais mais primitivos? São instrumentos de caça e de pesca, sendo os primeiros utilizados também como armas. Mas a caça e a pesca pressupõem a passagem da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, o que significa um novo passo de sua importância na transformação do macaco em homem. A alimentação cárnea ofereceu ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. Desse modo abreviou o processo da digestão e outros processos da vida vegetativa do organismo (isto é, os processos análogos ao da vida dos vegetais), poupando, assim, tempo, materiais e estímulos para que pudesse manifestar-se ativamente a vida propriamente animal. E quanto mais o homem em formação se afastava do reino vegetal, mais se elevava sobre os animais. Da mesma maneira que o hábito da alimentação mista converteu o gato e o cão selvagens em servidores do homem, assim também o hábito de combinar a carne com a alimentação vegetal contribuiu poderosamente para dar força física e independência ao homem em formação. Mas onde mais se manifestou a influência da dieta cárnea foi no cérebro, que recebeu assim em quantidade muito maior do que antes as substâncias necessárias à sua alimentação e desenvolvimento, com o que se foi tomando maior e mais rápido o seu aperfeiçoamento de geração em geração. Devemos reconhecer — e perdoem os senhores vegetarianos — que não foi sem ajuda da alimentação cárnea que o homem chegou a ser homem; e o fato de que, em uma ou outra época da história de todos os povos conhecidos, o emprego da carne na alimentação tenha chegado ao canibalismo (ainda no século X os antepassados dos berlinenses, os veletabos e os viltses, devoravam os seus progenitores) é uma questão que não tem hoje para nós a menor importância.

O consumo de carne na alimentação significou dois novos avanços de importância decisiva: o uso do fogo e a domesticação dos animais. O primeiro reduziu ainda mais o processo da digestão, já que permitia levar a comida à boca, como se disséssemos, meio digerida; o segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte para obtê-la em forma mais regular. A domesticação de animais também proporcionou, com o leite e seus derivados, um novo alimento, que era pelo menos do mesmo valor que a carne quanto à composição. Assim, esses dois adiantamentos converteram-se diretamente para o homem em novos meios de emancipação. Não podemos deter-nos aqui em examinar minuciosamente suas conseqüências.

O homem, que havia aprendido a comer tudo o que era comestível, aprendeu também, da mesma maneira, a viver em qualquer clima. Estendeu-se por toda a superfície habitável da Terra, sendo o único animal capaz de fazê-lo por iniciativa própria. Os demais animais que se adaptaram a todos os climas — os animais domésticos e os insetos parasitas —não o conseguiram por si, mas unicamente acompanhando o homem. E a passagem do clima uniformemente cálido da pátria original para zonas mais frias, onde o ano se dividia em verão e inverno, criou novas exigências, ao obrigar o homem a procurar habitação e a cobrir seu corpo para proteger-se do frio e da umidade. Surgiram assim novas esferas de trabalho, e com elas novas atividades, que afastaram ainda mais o homem dos animais.

Graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a propor-se e alcançar objetivos cada vez mais elevados. O trabalho mesmo se diversificava e aperfeiçoava de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas atividades. A caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao lado do comércio e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram as nações e os Estados. Apareceram o direito e a política, e com eles o reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a religião. Frente a todas essas criações, que se manifestavam em primeiro lugar como produtos do cérebro e pareciam dominar as sociedades humanas, as produções mais modestas, fruto do trabalho da mão, ficaram relegadas a segundo plano, tanto mais quanto numa fase muito recuada do desenvolvimento da sociedade (por exemplo, já na família primitiva), a cabeça que planejava o trabalho já era capaz de obrigar mãos alheias a realizar o trabalho projetado por ela. O rápido progresso da civilização foi atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento e à atividade do cérebro. Os homens acostumaram-se a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar essa explicação em suas necessidades (refletidas, naturalmente, na cabeça do homem, que assim adquire consciência delas). Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu essa concepção idealista do mundo que dominou o cérebro dos homens, sobretudo a partir do desaparecimento do mundo antigo, e continua ainda a dominá-lo, a tal ponto que mesmo os naturalistas da escola darwiniana mais chegados ao materialismo são ainda incapazes de formar uma idéia clara acerca da origem do homem, pois essa mesma influência idealista lhes impede de ver o papel desempenhado aqui pelo trabalho.

Os animais, como já indicamos de passagem, também modificam com sua atividade a natureza exterior, embora não no mesmo grau que o homem; e essas modificações provocadas por eles no meio ambiente repercutem, como vimos, em seus causadores, modificando-os por sua vez. Nada ocorre na natureza em forma isolada. Cada fenômeno afeta a outro, e é por seu turno influenciado por este; e é em geral o es. esquecimento desse movimento e dessa interação universal o que impede a nossos naturalistas perceber com clareza as coisas mais simples. Já vimos como as cabras impediram o reflorestamento dos bosques na Grécia; em Santa Helena, as cabras e os porcos desembarcados pelos primeiros navegantes chegados à ilha exterminaram quase por completo a vegetação ali existente, com o que prepararam o terreno para que pudessem multiplicar-se as plantas levadas mais tarde por outros navegantes e colonizadores. Mas a influência duradoura dos animais sobre a natureza que os rodeia é inteiramente involuntária e constitui, no que se refere aos animais, um fato acidental. Mas, quanto mais os homens se afastam dos animais, mais sua influência sobre a natureza adquire um caráter de uma ação intencional e planejada, cujo fim é alcançar objetivos projetados de antemão. Os animais destroçam a vegetação do lugar sem dar-se conta do que fazem. Os homens, em troca, quando destroem a vegetação o fazem com o fim de utilizar a superfície que fica livre para semear trigo, plantar árvores ou cultivar a videira, conscientes de que a colheita que irão obter superará várias vezes o semeado por eles. O homem traslada de um pais para outro plantas úteis e animais domésticos, modificando assim a flora e a fauna de continentes inteiros. Mais ainda: as plantas e os animais, cultivadas aquelas e criados estes em condições artificiais, sofrem tal influência da mão do homem que se tornam irreconhecíveis.

Não foram até hoje encontrados os antepassados silvestres de nossos cultivos cerealistas. Ainda não foi resolvida a questão de saber qual o animal que deu origem aos nossos cães atuais, tão diferentes uns de outros, ou às atuais raças de cavalos, também tão numerosos. Ademais, compreende-se de logo que não temos a intenção de negar aos animais a faculdade de atuar em forma planificada, de um modo premeditado. Ao contrário, a ação planificada existe em germe onde quer que o protoplasma — a albumina viva — exista e reaja, isto é, realize determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz, não digamos já na célula nervosa, mas inclusive quando ainda não há célula de nenhuma espécie. O ato pelo qual as plantas insetívoras se apoderam de sua presa aparece também, até certo ponto, como um ato planejado, embora se realize de um modo totalmente inconsciente. A possibilidade de realizar atos conscientes e premeditados desenvolve-se nos animais em correspondência com o desenvolvimento do sistema nervoso e adquire já nos mamíferos um nível bastante elevado. Durante as caçadas organizadas na Inglaterra pode-se observar sempre a infalibilidade com que a raposa utiliza seu perfeito conhecimento do lugar para ocultar-se aos seus perseguidores, e como conhece e sabe aproveitar muito bem todas as vantagens do terreno para despistá-los. Entre nossos animais domésticos, que chegaram a um grau mais alto de desenvolvimento graças à sua convivência com o homem podem ser observados diariamente atos de astúcia, equiparáveis aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião humano no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larval, assim também o desenvolvimento espiritual da criança representa uma réplica, ainda mais abreviada, do desenvolvimento intelctual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos. Mas nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pôde fazê-lo.

Resumindo: só o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo mero fato de sua presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E ai está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, mais uma vez, resulta do trabalho.

Contudo, não nos deixemos dominar pelo entusiasmo em face de nossas vitórias sobre a natureza. Após cada uma dessas vitórias a natureza adota sua vingança. É verdade que as primeiras conseqüências dessas vitórias são as previstas por nós, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem conseqüências muito diversas, totalmente imprevistas e que, com freqüência, anulam as primeiras. Os homens que na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e outras regiões devastavam os bosques para obter terra de cultivo nem sequer podiam imaginar que, eliminando com os bosques os centros de acumulação e reserva de umidade, estavam assentando as bases da atual aridez dessas terras. Os italianos dos Alpes, que destruíram nas encostas meridionais os bosques de pinheiros, conservados com tanto carinho nas encostas setentrionais, não tinham idéia de que com isso destruíam as raízes da indústria de laticínios em sua região; e muito menos podiam prever que, procedendo desse modo, deixavam a maior parte do ano secas as suas fontes de montanha, com o que lhes permitiam, chegado o período das chuvas, despejar com maior fúria suas torrentes sobre a planície. Os que difundiram o cultivo da batata na Europa não sabiam que com esse tubérculo farináceo difundiam por sua vez a escrofulose. Assim, a cada passo, os fatos recordam que nosso domínio sobre a natureza não se parece em nada com o domínio de um conquistador sobre o povo conquistado, que não é o domínio de alguém situado fora da natureza, mas que nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, pertencemos à natureza, encontramo-nos em seu seio, e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos capazes de conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada.

Com efeito, aprendemos cada dia a compreender melhor as leis da natureza e a conhecer tanto os efeitos imediatos como as conseqüências remotas de nossa intromissão no curso natural de seu desenvolvimento. Sobretudo depois dos grandes progressos alcançados neste século pelas ciências naturais, estamos em condições de prever e, portanto, de controlar cada vez melhor as remotas conseqüências naturais de nossos atos na produção, pelo menos dos mais correntes. E quanto mais isso seja uma realidade, mais os homens sentirão e compreenderão sua unidade com a natureza, e mais inconcebível será essa idéia absurda e antinatural da antítese entre o espírito e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo, idéia que começa a difundir-se pela Europa sobre a base da decadência da antigüidade clássica e que adquire seu máximo desenvolvimento no cristianismo.

Mas, se foram necessários milhares de anos para que o homem aprendesse, em certo grau, a prever as remotas conseqüências naturais no sentido da produção, muito mais lhe custou aprender a calcular as remotas conseqüências sociais desses mesmos atos. Falamos acima da batata e de seus efeitos quanto à difusão da escrofulose. Mas que importância pode ter a escrofulose, comparada com os resultados que teve a redução da alimentação dos trabalhadores a batatas puramente sobre as condições de vida das massas do povo de países inteiros, com a fome que se estendeu em 1847 pela Irlanda em conseqüência de uma doença provocada por esse tubérculo e que levou à sepultura um milhão de irlandeses que se alimentavam exclusivamente, ou quase exclusivamente, de batatas e obrigou a que emigrassem para além-mar outros dois milhões? Quando os árabes aprenderam a distilar o álcool, nem sequer ocorreu-lhes pensar que haviam criado uma das armas principais com que iria ser exterminada a população indígena do continente americano, então ainda desconhecido. E quando mais tarde Colombo descobriu a América não sabia que ao mesmo tempo dava nova vida à escravidão, há muito tempo desaparecida na Europa, e assentado as bases do tráfico dos negros. Os homens que nos séculos XVII e XVIII haviam trabalhado para criar a máquina a vapor não suspeitavam de que estavam criando um instrumento que, mais do que nenhum outro, haveria de subverter as condições sociais em todo o mundo e que, sobretudo na Europa, ao concentrar a riqueza nas mãos de uma minoria e ao privar de toda propriedade a imensa maioria da população, haveria de proporcionar primeiro o domínio social e político à burguesia, e provocar depois a luta de classe entre a burguesia e o proletariado, luta que só pode terminar com a liquidação da burguesia e a abolição de todos os antagonismos de classe. Mas também aqui, aproveitando uma experiência ampla, e às vezes cruel, confrontando e analisando os materiais proporcionados pela história, vamos aprendendo pouco a pouco a conhecer as conseqüências sociais indiretas e mais remotas de nossos atos na produção, o que nos permite estender também a essas conseqüências o nosso domínio e o nosso controle.

Contudo, para levar a termo esse controle é necessário algo mais do que o simples conhecimento. É necessária uma revolução que transforme por completo o modo de produção existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.

Todos os modos de produção que existiram até o presente só procuravam o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e Imediata. Não faziam o menor caso das conseqüências remotas, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar os possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal. Todas as formas mais elevadas de produção que vieram depois conduziram à divisão da população em classes diferentes e, portanto, no antagonismo entre as classes dominantes e as classes oprimidas. Em conseqüência, os interesses das classes dominantes converteram-se no elemento propulsor da produção, enquanto esta não se limitava a manter, bem ou mal, a mísera existência dos oprimidos.

Isso encontra sua expressão mais acabada no modo de produção capitalista, que prevalece hoje na Europa ocidental. Os capitalistas individuais, que dominam a produção e a troca, só podem ocupar-se da utilidade mais imediata de seus atos. Mais ainda: mesmo essa utilidade — porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada — passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.

* * *

A ciência social da burguesia, a economia política clássica, só se ocupa preferentemente daquelas conseqüências sociais que constituem o objetivo imediato dos atos realizados pelos homens na produção e na troca. Isso corresponde plenamente ao regime social cuja expressão teórica é essa ciência. Porquanto os capitalistas isolados produzem ou trocam com o único fim de obter lucros imediatos, só podem ser levados em conta, primeiramente, os resultados mais próximos e mais imediatos. Quando um industrial ou um comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro habitual, dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira alguma o que possa ocorrer depois com essa mercadoria e seu comprador. O mesmo se verifica com as conseqüências naturais dessas mesmas ações. Quando, em Cuba, os plantadores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas para obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de cafeeiros de alto rendimento pouco lhes importava que as chuvas torrenciais dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada da proteção das arvores, e não deixassem depois de si senão rochas desnudas! Com o atual modo de produção, e no que se refere tanto às conseqüências naturais como às conseqüência sociais dos atos realizados pelos homens, o que interessa prioritariamente são apenas os primeiros resultados, os mais palpáveis. E logo até se manifesta estranheza pelo fato de as conseqüências remotas das ações que perseguiam esses fins serem multo diferentes e, na maioria dos casos, até diametralmente opostas; de a harmonia entre a oferta e a procura converter-se em seu antípoda, como nos demonstra o curso de cada um desses ciclos industriais de dez anos, e como puderam convencer-se disso os que com o “crack” viveram na Alemanha um pequeno prelúdio; de a propriedade privada baseada no trabalho próprio converter-se necessariamente, ao desenvolver-se, na ausência de posse de toda propriedade pelos trabalhadores, enquanto toda a riqueza se concentra mais e mais nas mãos dos que não trabalham; de [...] (2)

Notas:

(1) Notas Sir William Thomson. grande autoridade na matéria, calculou em pouco mais de cem milhões de anos o tempo transcorrido desde o momento em que a Terra se esfriou o suficiente para que nela pudessem viver as plantas e os animais.

(Nota de Engels) Engels refere-se à crise econômica de 1873/1874. (N. da R)

(2) Aqui se interrompe o manuscrito. (N. da R.)

Fonte: Marxists – http://www.marxists.org/

Sérvios – Uma nação dividida

Eles olham para Kosovo com arrependimento – e para a Europa com esperança.

Chris Carroll
Foto: Christopher Anderson

Sérvios - Uma nação dividida

Nacionalistas marcham em Belgrado sob a bandeira de Radovan Karadzik, acusado de crimes de guerra. Dois desejos conflitantes roem os sérvios: unir seu povo disperso, uma aspiração histórica, e ingressar na Europa, o que implica aceitar uma Sérvia menor.

No vilarejo de Velika Hoca, sudoeste de Kosovo – um novo país ou uma província rebelde da Sérvia, dependendo de quem nos informa -, ainda se comenta sobre uma briga acontecida há anos. Foi depois da Guerra de Kosovo, entre albaneses separatistas e forças sérvias, que terminou em junho de 1999, quando ataques da Otan subjugaram a Sérvia e seu presidente linha-dura Solobodan Milosevic. O Ocidente interferira para impedir as atrocidades contra os albaneses kosovares e evitar uma crise de refugiados, supondo que a paz reinaria assim que o ditador e seus combatentes fossem vencidos.
A realidade do pós-guerra, porém, não foi a paz. A maioria albanesa ficou por cima e jogou para escanteio a minoria sérvia. A matança de civis prosseguiu. A montanhosa Kosovo, região de área pouco maior que a da Grande São Paulo, assolada pela estagnação econômica e endêmicos conflitos étnicos, derramou novo fluxo de refugiados, dessa vez sérvios. No dia da briga em Velika Hoca, o fio de orgulho que ainda restava nessa terra que os sérvios consideram seu berço foi defendido por um político e ex-soldado chamado Bojan Nakalamic, um atarracado valentão de 30 e poucos anos.
Conta-se por lá que vários rapazes albaneses entraram no vilarejo e começaram a dar atenção demais às moças. O dia terminou com os albaneses postos em seus devidos lugares e expulsos do reduto sérvio, e Bojan Nakalamic liderou a sova. Para a gente de Velika Hoca, isso provou que os sérvios ainda podiam produzir um campeão, um homem a ser temido. Para mim, a cada vez que me contam o caso, mais Nakalamic parece um nacionalista encrenqueiro.
Por isso, é uma surpresa quando em fim o conheço e fico sabendo – numa inversão atordoante bem típica nos Bálcãs – que esse tranca-ruas que espancou albaneses por transporem linhas culturais havia tomado o partido deles, participado de seu governo e desafiado o da Sérvia. Apoiar o nacionalismo albanês não é o objetivo de Nakalamic. Mas, como membro de um povo vencido em uma terra hostil, ele concluiu que se isolar em um gueto sérvio seria a perdição. Em escrupuloso inglês, ele me diz: "Se quisermos sobreviver em Kosovo, precisamos participar".
A bandeira da Igreja Ortodoxa Sérvia, guardiã da singularidade dessa nação por séculos de luta, traz o lema "Só a união salvará os sérvios". Ela adeja sobre um povo marcado pelo passado. As guerras e os caprichos de impérios conquistadores separaram os sérvios, hoje mais de 10 milhões de pessoas, que rumaram para o sul e se fixaram em bolsões em Kosovo (em que restam 150 mil deles) e Montenegro, foram para o centro da Sérvia, onde a maioria hoje vive, para o norte, na Hungria, e para o oeste até Bósnia-Herzegóvina e Croácia. (Muitos outros se espalharam pela Europa Ocidental e pela América do Norte.) Por séculos eles labutaram com épico fervor para unir seu povo disperso, definir sua terra e preservar sua identidade única.
Mas a unidade é uma aspiração que mergulhou os sérvios em furiosos conflitos com seus vizinhos da colcha de retalhos étnica dos Bálcãs e com o mundo em geral. Hoje muitos os veem como os primeiros agressores nas sangrentas guerras dos anos 1990 que desmembraram a Iugoslávia. Com muitos envolvidos em crimes contra a humanidade – inclusive limpeza étnica e genocídio na Guerra da Bósnia -, os sérvios protestam encolerizados que o Ocidente os escolheu para criticar, mas faz vista grossa a crimes semelhantes perpetrados contra eles. Uma incômoda questão os aflige: o que pode significar a unidade sérvia na Europa do século 21?
Essa pergunta divide os sérvios e inquieta seus vizinhos. Nakalamic acha que a resposta, para começar, é cuidar de seu vilarejo. Por isso, agora ele é o único sérvio integrante da Câmara Municipal de Rahovec (Orahovac), que tem jurisdição sobre os vilarejos próximos, inclusive Velika Hoca. A Câmara é subordinada à República de Kosovo, o país com 90% de população albanesa que declarou independência da Sérvia em fevereiro de 2008 com forte apoio dos Estados Unidos e da maioria da Europa. Para muitos sérvios, isso faz de Nakalamic um traidor.
Depois de Kosovo arrebatar sua independência, o mundo assistiu pela televisão nacionalista aos radicais invadirem Belgrado, a capital sérvia, quebrarem vidraças e incendiarem um símbolo da arrogante interferência estrangeira: a Embaixada dos Estados Unidos. O governo sérvio vê a independência de Kosovo como desmembramento ilegal do território soberano da Sérvia. Ordenou aos sérvios kosovares, muitos dos quais financeiramente apoiados pela Sérvia, que boicotassem as eleições locais, e a maioria obedeceu. Sem os votos requeridos de seu distrito eleitoral, Nakalamic não tem poder de voto na Câmara; portanto, não pode participar da elaboração de orçamentos ou leis municipais.

Hoje muitos sérvios parecem resignados às novas fronteiras e à perspectiva de uma Sérvia menor, mais mansa e em paz com seus vizinhos. "Apesar dos protestos, ninguém de fato acredita que teremos Kosovo de volta", diz Marina Alavanja, uma jovem que conheci quando ela e seu noivo, um americano-caribenho residente em Nova York, tomavam um drinque com amigos à meia-noite numa elegante rua de Belgrado. Marina, que estuda em Florença, é uma sérvia liberal e cosmopolita, e em sérvios como ela os governos do Ocidente depositam suas esperanças. Depois da independência de Kosovo e dos tumultos resultantes, o eleitorado sérvio surpreendeu o mundo em meados de 2008 levando ao poder um governo pró-União Europeia que jurou caçar os sérvios criminosos de guerra – mostra da difundida opinião de que a melhor esperança do país para crescer nos campos cultural e econômico é com o Ocidente.
Mas que o mundo não confunda resignação com aceitação, diz Marina. "É o orgulho sérvio", explica ela. "Não podemos falar: ‘Tudo bem, fiquem com Kosovo, façam o que quiserem conosco’. Que tipo de povo seríamos?" Srdja Popovic, advogado da área de direitos humanos que procura sérvios acusados de crimes de guerra, diz que o abismo entre os nacionalistas inconformados e os democratas ocidentalizados, incluindo o presidente da Sérvia, Boris Tadic, não é tão profundo como podem pensar os forasteiros à primeira vista. Para Popovic, em certa medida todos os principais envolvidos acalentam o ideal de unir as terras habitadas pelos sérvios – um catalisador da guerra dos anos 90. "Dizer que este país está dividido entre democratas e nacionalistas é bondade", afirma. "Na verdade, o ideal nacionalista impera.
E reina também a obsessão pelo passado, que para os sérvios é uma narrativa do sofrimento e do valor de sua nação. "Povos pouco numerosos vivem sendo vítimas de injustiça", reflete Dragoljub Micunovic, um oposicionista na era Milosevic e hoje democrata do alto escalão. Micunovic cita a anexação da Bósnia (que abrigava muitos sérvios) pela Áustria-Hungria em 1908. Embora ultrajada, a Sérvia foi forçada a aquiescer. Em 1914, porém, o servo-bósnio Gavrilo Princip retaliou, assassinando o herdeiro da coroa austríaca em Sarajevo e desencadeando a Primeira Guerra Mundial. Metade dos homens em idade militar da Sérvia talvez tenha morrido nessa guerra, mas o império ofensor foi aniquilado, e na atual Sérvia Princip é um herói.
Hoje o marco zero do martírio sérvio é Kosovo. Os sérvios direitistas tacham de Judas os políticos como os democratas, que se recusam a lutar com unhas e dentes por sua terra ancestral. A alusão religiosa dessa crítica é intencional, pois muitos sérvios consideram Kosovo sua pátria espiritual. Slobodan Milosevic explorou esse sentimento na década de 1980. Chegou à Presidência, em parte graças a seu programa de esmagar o poder albanês em Kosovo, e morreu, em 2006, no meio da maratona de seu julgamento por crimes de guerra que incluíram violência contra civis albaneses kosovares. É difícil saber se é a persistente aura de sua propaganda pela ofensiva ou uma autêntica veneração cultural pelo lugar o que leva alguns sérvios a chamar Kosovo de sua Jerusalém ou de seu Gólgota.
No monte a oeste de Velika Hoca, abaixo de um posto de observação ocupado durante quase uma década por soldados da Otan, há um cemitério com vista panorâmica. Em meio ao casario e aos vinhedos nas encostas que abastecem a vinícola pertencente ao mosteiro ortodoxo sérvio, mais de uma dúzia de minúsculas igrejas salpicam o vale. Algumas são tesouros medievais adornados com afrescos antigos da vida de Cristo, de ícones de santos, do Juízo Final. Ninguém ali, nem mesmo o vigário, sabe explicar por quê, ao longo dos séculos, esse modesto lugarejo rural acabou dotado de tanta representação do sagrado.
Algumas das igrejas do povoado, conta Bojan Nakalamic, foram construídas no século 14, durante o reinado de Stefan Dusan. Esse foi o mais eminente governante que os sérvios tiveram. Kosovo era o centro quando Dusan se intitulou "imperador dos sérvios e gregos, búlgaros e albaneses". Com sorriso maroto, de mão no peito, Nakalamic declara: "Por fora, sou um político subalterno. Mas, por dentro, sou Dusan".
Apenas algumas décadas após a morte de Dusan, em 1389, um exército de talvez 25 mil sérvios enfrentou uma força otomana muito superior no Campo de Kosovo e sucumbiu numa derrota a que muitos sérvios consideram gloriosa. A Sérvia definhou sob a expansão do Império Otomano, que apagou o país do mapa em pouco mais de um século. Mas a Batalha de Kosovo sobrevive na literatura e na música sérvias como símbolo da luta contra o domínio estrangeiro.
A Sérvia readquiriu a independência no século 19 e retomou Kosovo no 20, durante o colapso do Império Otomano. No entanto, várias centenas de anos de domínio turco não só moldaram o sentimento de perseguição dos sérvios mas também dispersaram esse povo pelo oeste dos Bálcãs. No fim do século 20, as marés da história tornaram a mudar com o colapso da Iugoslávia. Muitos descendentes dos que haviam fugido do jugo otomano retornaram, acrescentando outro capítulo à história dos dramas sérvios.

O sofrimento infligido por sérvios, porém, é o que o mundo lembra mais. Na antiga zona comercial turca da capital da Bósnia, Sarajevo, Dragan Tanic pega meu braço e me vira na direção dos montes que assomam ao sul. "Se você ficasse aqui por dez segundos no dia errado durante a guerra – puf!" E bate no meio do meu peito para indicar que eu acabo de ser morto por um franco-atirador. "O sérvio na montanha mata você. Um dia normal em Sarajevo."
O surpreendente, mas não tanto para quem tem familiaridade com nomes eslavos, é que o próprio Tanic é sérvio. Como outros milhares de servo-bósnios em Sarajevo, Tanic pegou em armas contra as forças sérvias que sitiaram a cidade depois que a Bósnia declarou independência da Iugoslávia, em 1992. Dadas as circunstâncias, a herança religiosa importou menos do que quem atirava nele. "Estavam atacando meu lar e, quando alguém ataca meu lar, eu o defendo."
Mas ele era minoria. Outros servo-bósnios não queriam viver num país em que dominavam os muçulmanos bósnios, ou bosniaks, e escolheram lutar contra a independência da Bósnia. Controlaram o arsenal do Exército do Povo Iugoslavo e subjugaram 70% da Bósnia nos primeiros meses da guerra, forçando populações não-sérvias a deixar as terras conquistadas. A ordem do dia era limpar o território das numerosas e importunas populações minoritárias, inadequadas à inclusão em uma Sérvia unificada.
Na guerra, a limpeza étnica descambou para a mera chacina na área da cidade de Srebrenica, no leste da Bósnia. Ali as forças sérvias mataram talvez 8 mil homens e meninos bosniaks, a maioria civis. Alguns foram enfileirados e fuzilados; outros, abatidos quando tentavam fugir. Foi o mais sangrento episódio na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e o primeiro caso de genocídio desde o Holocausto, determinado pela Corte Internacional de Justiça.
Srebrenica foi um evento decisivo na história moderna dos sérvios. Embora depois o tribunal decidisse que a Sérvia não tivera participação direta, os servo-bósnios que perpetraram o massacre ajudaram a forjar uma imagem de todos os sérvios como assassinos sádicos, e com isso prejudicaram os interesses nacionais, mais do que qualquer um de seus inimigos poderia fazer.
Quando terminou a guerra, em 1995, e caiu o cerco de quatro anos a Sarajevo logo depois, a Bósnia viu-se mais ou menos dividida entre grupos étnicos. Hoje, embora a maioria dos habitantes consiga conviver de forma decente, os líderes étnicos vivem às turras. Políticos bosniaks deblateram contra o separatismo sérvio e os criminosos de guerra que continuam soltos, enquanto líderes dos sérvios – que compõem 37% da população da Bósnia – espicaçam os bosniaks com sua retórica sobre secessão.
A maioria dos sérvios da capital partiu para áreas da Bósnia controladas por sérvios, e os bosniaks afluíram da direção oposta. Sarajevo conserva um verniz de diversidade étnica. Tanic e sua mulher, Sanja, que é muçulmana croata, são um exemplo. Mas, na realidade, hoje é uma cidade de maioria muçulmana, diferente da que Dragan Tanic recorda de sua infância.
Em um café da rua Ferhadija, a poucos passos de lugares em que numerosos civis foram eviscerados por projéteis sérvios durante a guerra, Tanic diz: "Cresci na rua ao lado, onde minha mãe ainda mora. Mas posso ficar aqui sentado por duas horas e não ver um só rosto conhecido".
Vigilando das alturas a confluência dos rios Danúbio e Sava, em Belgrado, a colossal fortaleza de Kalemegdan guarda um monte em que soldados romanos acampavam. Impérios estrangeiros posteriores que dominaram essa terra usaram o castelo como posto fronteiriço. Abaixo ficam as decrépitas mas elegantes ruas da Cidade Velha, pontilhadas de prédios ainda em ruínas desde os ataques dos aviões da Otan durante a Guerra de Kosovo, na década passada. A oeste, na margem oposta do Sava, fica a Nova Belgrado, um aglomerado urbano que brotou após a Segunda Guerra. E na periferia da cidade há um pequeno acampamento, sossegado e arborizado, que foi um centro da juventude comunista e hoje abriga refugiados sérvios fugidos dos novos países nascidos da desintegração da Iugoslávia.
Uma dessas pessoas é Maritsa Stula, uma cinquentona miúda e serena de sorriso distante. Sua terra é Osijek, cidade croata 160 quilômetros a noroeste de Belgrado. Naquela região, séculos atrás, governantes austríacos davam terras e liberdade religiosa a sérvios em fuga do domínio otomano que concordassem em guardar a fronteira militar contra os turcos. Nos anos 70, quando Maritsa começou a constituir família em Osijek, ambos os impérios estavam extintos havia muito tempo; porém, mais de 600 mil sérvios ortodoxos viviam na Croácia católico-romana e compunham cerca de 14% da população.

Naquela época, diz Maritsa, "ninguém queria saber quem era croata, quem era sérvio". A Iugoslávia era forte e próspera, o presidente vitalício marechal Tito ainda tinha o poder em suas hábeis mãos e todos os iugoslavos eram iguais.
Por isso, ela não entendeu por que seus vizinhos deram ouvidos quando, no ocaso do governo de Tito, as trombetas do nacionalismo começaram a soar em Belgrado e na capital croata, Zagreb. Sérvios contavam que croatas aliados dos nazistas os haviam confinado em campos de extermínio e aniquilado centenas de milhares deles 50 anos antes. Novos massacres poderiam estar sendo tramados. Croatas falavam da perseguição na Iugoslávia por comunistas sérvios que agora conspiravam para se apropriar de milhares de quilômetros quadrados no coração da Croácia para a "Grande Sérvia". O poder dos políticos nacionalistas por toda a Iugoslávia cresceu, e a vida em Osijek azedou. Em 1990, sérvios de outras partes da Croácia declararam independência, expulsando croatas de seus lares em quase um terço da república. Em junho de 1991, a Croácia votou pela separação da Iugoslávia.
No mês seguinte, apareceu um dia à porta de Maritsa um vizinho desesperado. Valentões haviam ordenado que ele matasse a família dela se não partissem de imediato. Era gente do campo, enfurecida, talvez, por ter perdido suas terras. Ela embarcou num ônibus para o leste com os três filhos. O marido foi em seguida, e desde então ela nunca mais viu sua casa.
Maritsa fez parte da primeira onda; outras centenas de milhares fugiram no fim da guerra da independência da Croácia, quando forças croatas atacaram as regiões separatistas sérvias com apoio logístico de países-membros da Otan. Centenas dos que ficaram para trás, a maioria idosos, foram assassinados em seguida.
A partir de 2008, a Sérvia acolheu quase 320 mil pessoas desarraigadas de rincões da ex-Iugoslávia. Cerca de 200 mil vieram de Kosovo, em que a resposta de Milosevic aos bombardeios da Otan foi um bizarro plano de livrar de albaneses vastas áreas da província. Quando Milosevic fracassou e mais de 850 mil exilados albaneses voltaram de campos de refugiados no exterior, muitos sérvios fugiram. Outros foram expulsos mais tarde, apesar da presença de soldados de uma força de paz internacional que às vezes não reagiam quando turbas iradas atacavam civis.
O resto veio da Croácia, como Maritsa, ou da Bósnia. Maritsa fala com saudade de seu lar, mas acha que as coisas poderiam ser piores. Encontrou vaga de cozinheira em um restaurante no Delta City, um shopping luxuoso aberto em 2007 pelo homem mais rico da Sérvia. Graças às reformas dos governos pós-Milosevic, a economia da Sérvia reagiu bem, com um crescimento médio de 7% nos últimos anos. A renda pessoal da população está em ascensão, e o shopping anda movimentado – sem dúvida esse é o emprego mais bem remunerado que Maritsa já teve. Porém, se ela conseguir juntar o suficiente para pagar pelos documentos de viagem exigidos pela União Europeia, irá deixar a Sérvia para sempre. Talvez vá para a Inglaterra, onde seu filho mais velho matriculou-se em uma faculdade.
Maritsa faz um gesto de consolo quando fica sabendo minha nacionalidade, como se lamentasse ter de dar a notícia. "América. Ne dobra, ne dobra", diz ela. Ruim, ruim. Por que, ela pergunta, os Estados Unidos expulsam pobres de suas casas em Kosovo? "Bill Clinton, ne dobra. Albright, Rice, ne dobra. Bush…"
Uma noite, em uma casa flutuante no rio Sava, em Belgrado, a repreensão é menos delicada. Dois jovens de cabelo comprido e rosto afogueado me desafiam a adivinhar quantas toneladas de urânio empobrecido os Estados Unidos haviam lançado com a munição usada contra seu país em 1999 e quantos casos de câncer poderiam decorrer disso. Um deles pergunta se eu sei sobre os civis sérvios mortos pelos bombardeios americanos na Guerra de Kosovo. Provavelmente não, eles deduzem, já que a mídia americana censura notícias que não mostram os sérvios como nazistas modernos. Um deles tem os olhos marejados e diz: será que eu faço alguma ideia de tudo o que os sérvios têm sofrido?
No oeste da sérvia há um vilarejo chamado Sljivovica, nome sérvio de um conhaque de ameixa conhecido em países de língua inglesa como slivovitz. Essa é uma das rakija, bebidas feitas de fruta essenciais, na vida social dos sérvios e outros iugoslavos que com elas brindam aos amigos e saúdam visitantes. Como me diz certa manhã o padre de um vilarejo, depois que a mulher lhe serve um cálice com um líquido claro de teor alcoólico muito além do recomendável: a boa rakija é fogo na barriga, mas não na garganta.

E eu, lacrimejando, tento dar a impressão de que é meu estômago que está em chamas. Com a Sérvia no caminho do ingresso na União Europeia e às voltas com a adequação de suas leis aos padrões europeus, poderá a verdadeira rakija sobreviver? A produção de bebida alcoólica na União Europeia favorece as grandes destilarias. Mas a rakija mais apreciada é a de fabricação caseira, como essa do padre.
Sljivovica parece um bom lugar para encontrar o tipo de pequeno fabricante de rakija que poderia temer a adesão à Europa. Homens que tomam café em um kafana (bar e café) indicam uma viela que sobe por uma colina. Ao lado da última casa da estrada, um velho e um jovem trabalham em uma caldeira de alambique que exala fumaça e um agridoce odor de terreiro de fazenda. O octogenário Ostoja Stanic alimenta o fogo, enquanto Milan Stanic, de 32 anos, despeja baldes de ameixas fermentadas numa panela. Meia hora depois, a mistura começa a ferver e a derramar um fiozinho de álcool adocicado, a rakija suave. Uma segunda destilação a deixará mais forte. Pergunto a Milan se a burocracia da União Europeia fechará sua destilaria. Ele desata a falar em inglês para ser mais eloquente: "We want EU [nós queremos a UE]".
Quando o país se aproximar da Europa, ele acredita, novos mercados se abrirão, e logo quem antes só tinha acesso à slivovitz industrializada poderá experimentar a bebida genuína. A família Stanic está prestes a expandir seu negócio, ele anuncia. Na adega da casa, Milan suga um tubo plástico usado como sifão e enche de rakija envelhecida uma garrafa de 2 litros. Com uma piscadela, ele diz: "Tive de aprender isso durante os bombardeiros da Otan. Era o único modo de conseguir gasolina". É impressionante como esse tema aflora com facilidade. Ele me dá um aperto de mão e parte às pressas para o casamento de um empregado do kafana da família.
Ostoja Stanic fica para cuidar do alambique. Fala da guerra durante sua juventude e das perturbadoras e fratricidas façanhas de dois bandos rivais de combatentes da resistência antinazista, os chetniks, leais à monarquia sérvia, e os comunistas liderados por Tito, futuro presidente da Iugoslávia. "Os chetniks cortavam gargantas nesta região", lembra ele. Para Ostoja, os heróis foram os partidários de Tito, que empreenderam uma luta corajosa e sem esperança contra os alemães na cidade vizinha, Uzice. No entanto, eu sei muito bem que a algumas centenas de quilômetros há outros velhos que me contariam como os comandados de Tito massacraram inocentes ali. Essa é uma perfeita fatia da história sérvia: saturada de sangue e bravura, com poucos finais felizes ou verdades incontestadas.
Mas Ostoja Stanic só está jogando conversa fora. O que ele quer mesmo é fabricar rakija. Ele me entrega a garrafa de slivovitz, me dá um tapinha nas costas quando tento lhe pagar e vai pôr lenha em seu alambique fumegante.

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

Análise da conjuntura atual

Ivo Lesbaupin

Ivo Lesbaupin

A crise mundial

A crise que eclodiu publicamente em setembro de 2008 é, em primeiro lugar, uma crise econômica, resultado da hegemonia do capital financeiro nos últimos trinta anos (neoliberalismo e globalização), que levou a uma desregulamentação da produção, do comércio, das finanças. Ela tem gerado conseqüências sociais extremamente graves, porque atingem prioritariamente os que não são responsáveis por ela – os trabalhadores e os mais pobres – através de um desemprego massivo e uma enorme precarização do emprego.

Mas não se trata de uma crise meramente econômica, é também uma crise ecológica. O capitalismo desenfreado dos últimos anos acelerou fortemente as mudanças climáticas, aumentando o aquecimento global e acelerando a destruição dos elementos mais essenciais: a água (poluição e desperdício), a terra (erosão, envenenamento), as florestas (desmatamento). A campanha – bem sucedida – a favor do consumismo está promovendo a depredação dos recursos naturais.
É também uma crise energética, porque este desenvolvimento se apoiou na exploração da energia de origem fóssil (petróleo), altamente prejudicial ao meio-ambiente. E não investiu no aproveitamento das energias renováveis (solar, eólica, sobretudo).
É, finalmente, uma crise alimentar, porque investiu na produção de alimentos carregados de agrotóxicos ou potencialmente prejudiciais à saúde humana e ao meio-ambiente e à agricultura orgânica (como os transgênicos). O fato de que parte da humanidade, em pleno século XXI, não tem acesso aos alimentos necessários é uma denúncia do sistema capitalista: há meios suficientes para produzir e distribuir alimentos para todos, mas eles estão submetidos à lógica do lucro. O controle da produção é feito por um pequeno número de grandes multinacionais; e o preço dos alimentos é objeto de jogo na bolsa. (E a desinformação sobre os efeitos negativos sobre a saúde humana revela a falta de liberdade de informação que caracteriza o sistema capitalista, supostamente defensor da liberdade: os cidadãos não podem saber que estão sendo envenenados, para não prejudicar os negócios, para não interromper o consumo, para que a produção continue a gerar lucros).
Trata-se, portanto, de uma crise de civilização, que coloca em risco a humanidade, por motivos ligados unicamente à lógica do lucro exorbitante para poucos e o rebaixamento da grande maioria à pobreza, à miséria e à fome – sobretudo através do desemprego massivo e estrutural.
A saída não é a retomada do crescimento econômico anterior, é a ruptura com o modelo econômico baseado na exploração e no lucro e o estabelecimento de um modelo de sociedade baseado em uma economia solidária e uma economia ecológica, na relação respeitosa com a natureza, na busca do bem-viver, produzindo aquilo que é necessário, evitando o esgotamento dos recursos naturais. Temos de desmontar a lógica produtivista-consumista.
O Brasil

Desde Collor, os governos brasileiros se submeteram à hegemonia neoliberal; Fernando Henrique foi o grande estruturador do neoliberalismo no Brasil, privatizando 76% do patrimônio público; e o governo Lula deu continuidade não apenas à política econômica neoliberal como à agenda neoliberal, realizando reformas e implementando medidas para completar a submissão do país aos interesses do capital financeiro.
No que diz respeito ao governo Lula, gostaria de chamar a atenção para dois elementos, que me parecem fundamentais.
1. Hoje, o governo brasileiro é o organizador da transferência da maior parte da renda e da riqueza produzida pelo país para a elite mais rica (através do superávit primário, da política de juros altos e do sistema tributário altamente regressivo que temos).
50% do orçamento se destina a pagar os juros e a amortização da dívida (externa e interna), para satisfação dos banqueiros internacionais e nacionais, assim como dos nossos rentistas (que não chegam a 1% da população).
Enquanto isso, a saúde recebe menos de 5%, a educação, menos de 3%, habitação e saneamento, menos de 1%, ciência e tecnologia, menos de 0,5%.
2. Nos últimos vinte anos, o país não tem um projeto de desenvolvimento. Além de pagar a dívida, a preocupação do governo é exportar produtos primários (minério de ferro, soja transgênica, etanol, petróleo, principalmente), de baixo valor agregado. O Brasil voltou a ser o que era na República Velha: um país agro-exportador.
E todo o discurso de nossas autoridades enaltecendo Vargas e Juscelino é só para inglês ver, pois ambos foram governos que investiram na industrialização do país, o que o atual governo simplesmente desconhece: o governo não investe um centavo em pesquisa e tecnologia de energia solar, para citar um pequeno exemplo (não só o governo, toda a mídia oficial – comprometida com o ideário neoliberal – desconhece o que seja projeto de desenvolvimento, investimento em indústria, ciência e tecnologia).
Embora não tenha qualquer compromisso com o desenvolvimento do país, o governo quer crescimento econômico (mesmo mantendo as políticas neoliberais – que, por sua própria natureza, reduzem o crescimento). Para atender aos interesses dos grandes empresários, das empreiteiras e do agronegócio, o governo promove a destruição do meio ambiente, desde o desmatamento da floresta amazônica à demolição da legislação ambiental. (Neste ponto, ele se assemelha ao regime militar, para o qual desenvolvimento e defesa do meio-ambiente são excludentes).
O enfrentamento da crise

O governo tem procurado minimizar a crise ou seus efeitos sobre o país ou insiste que o Brasil estava melhor preparado para enfrentá-la ou que vai sair mais rápido que os outros etc.
Há certas medidas fundamentais que poderiam reduzir o impacto da crise sobre o Brasil e que o governo não tomou antes nem depois: a principal é o estabelecimento do controle dos fluxos de capital. Esta medida daria autonomia à política econômica e evitaria que o governo se torne refém dos mercados, além de proteger o país contra os ataques externos (como fez a Malásia há dez anos atrás).
A outra medida que teria um enorme impacto positivo seria a auditoria da dívida externa. O Equador acaba de fazer isso e teve 65% do pagamento da dívida suspenso. Com isso, poderíamos, enquanto se realiza a auditoria – entre um e dois anos, por exemplo -, contar com imensos recursos para aplicar na saúde, na educação, no transporte, na habitação, na infra-estrutura e na energia, investimentos que permitiriam um forte processo de geração de empregos. E deixaríamos de pagar uma fortuna que não devemos: a única auditoria que o Brasil fez, em 1931, revelou que 60% da dívida era falsa (não tinha documentos que a comprovassem).
A redução drástica dos juros seria uma outra medida fundamental – adotada imediatamente pelos países desenvolvidos -, que o governo levou vários meses para adotar e, ainda assim, de forma tímida. Por uma simples razão: o objetivo principal do governo não é o emprego, é a inflação – para atender aos interesses do capital financeiro.
A análise da crise internacional revelou que uma das principais causas foi a desregulamentação promovida nos últimos trinta anos: o mercado, desregulado, é fonte de graves problemas e distorções. Muitos analistas apontaram a vinculação entre a crise econômica e a crise ecológica, em razão da desregulamentação, da busca desenfreada de lucro, da exacerbação do consumismo. Vários governos tomaram a dimensão da gravidade desta crise e deram início à busca de uma maior sustentabilidade.
O governo Lula se destaca por sua absoluta insensibilidade para esta questão. Além de ter criado as condições para o afastamento de Marina Silva do Ministério – o governo aprovou o plantio de soja e de milho transgênico, entre tantas outras medidas -, os projetos de lei que tem proposto vão na direção oposta à defesa do meio-ambiente, em favor dos interesses do agro-negócio e das empreiteiras: haja vista a implementação da construção de grandes hidrelétricas, a retomada de projetos abandonados (Belo Monte; usinas nucleares), a manutenção do projeto de transposição do Rio São Francisco. A cada dia, o presidente discursa para defender os desmatadores, os usineiros ("nossos heróis"), os promotores do agronegócio que estão destruindo a Amazônia e as terras agricultáveis. O BNDES empresta recursos, a juros baixos, para novas usinas de etanol.
A crise revelou, graças à pressa dos governos em enfrentar os aspectos mais danosos da crise, que o discurso sobre a falta de recursos do Estado era totalmente falso. De repente, somas fabulosas e inimagináveis foram colocadas à disposição. No entanto, o governo Lula logo se apressou a dizer que não haveria recursos para cumprir o acordo salarial feito com os funcionários públicos (cerca de R$ 20 bilhões). No entanto, tinha, sim, meios para ajudar os pequenos bancos privados que estivessem em dificuldades (R$ 40 bilhões).
A crise demoliu o discurso neoliberal – Estado mínimo, Estado sem recursos, o Estado não pode intervir na economia, o Estado não pode estatizar, "o Estado é o problema, o mercado é a solução", "privado é bom, público é ruim". Não sobrou pedra sobre pedra.
Mas permitiu que os governos aprofundassem a prática neoliberal, transferindo para o setor privado (bancos e corporações) mais recursos públicos do que já se apropriavam antes. As fabulosas somas que foram levantadas a partir de outubro de 2008 e injetadas em bancos e empresas falidos – todos eles diretamente envolvidos na produção desta mesma crise – é impressionante. E todo este dinheiro é público, vem dos cidadãos, daqueles mesmos cidadãos que foram empobrecidos nos últimos 30 anos e que não foram ajudados pelo Estado (seria "paternalismo") e que continuam a não ser ajudados pelo Estado – antes dos trabalhadores, dos desempregados, dos pobres, é preciso atender a necessidades mais prementes: bancos em dificuldades, corporações em vias de falência.
3. Embora tenha políticas assistenciais melhores que os governos anteriores, o governo Lula nada está fazendo para mudar as estruturas geradoras da enorme desigualdade social do Brasil. Nós disputamos o primeiro lugar em desigualdade com o Burundi e Serra Leoa, dois pequenos países africanos. Nosso sistema tributário é altamente regressivo, de modo que, proporcionalmente, os mais pobres pagam muito mais que os ricos: ao invés de ser um sistema de distribuição de renda, ele transfere renda dos mais pobres para os mais ricos. E, no alto da pirâmide social, os mais ricos nada pagam.
A Reforma Tributária preparada pelo governo, atualmente em discussão no Congresso, não mexe na regressividade do nosso sistema. Ao contrário, retira recursos da Seguridade Social: os movimentos sociais, entidades da sociedade civil, e os partidos de esquerda (minoritários), promovem uma ampla campanha para impedir que este item seja aprovado.
Completam o quadro a política de juros altos e o superávit primário: assim, a cada ano, entre 150 e 200 bilhões de reais, expropriados dos trabalhadores, são pagos aos credores internacionais e à nossa elite. Para ter uma idéia do que significa este valor, basta saber que todos os gastos do Bolsa-Família – que atendem a 11 milhões de famílias (ou 44 milhões de pessoas) – não chegam a 10 bilhões de reais.
Uma das promessas mais importantes do candidato Lula em 2002, a Reforma Agrária, foi abandonada. Ela poderia resolver a situação de 4 milhões de famílias, investindo na agricultura familiar – produtora de alimentos orgânicos -, gerando emprego e melhorando a gestão das cidades. Nós temos um país com recursos naturais extraordinários, com 13,7% da água doce do planeta, com o semi-árido mais pluvioso do mundo, com sol o ano inteiro e nossos trabalhadores do Nordeste são obrigados a deixar suas terras – onde não conseguem emprego – para ser explorados nos canaviais de São Paulo, ou para se tornarem escravos nas fazendas seja do Norte, seja do Sul. Se quisesse realmente acabar com o trabalho escravo no país, o governo faria a Reforma Agrária, de modo a que nenhum trabalhador fosse obrigado a se escravizar para sobreviver.
4. O que é mais grave: o processo de despolitização da sociedade, de desmobilização dos movimentos sociais. Animada pelo auxílio assistencial que está recebendo, a população empobrecida vê no governo seu salvador; algumas centrais sindicais, outrora combativas, foram cooptadas pelo governo (cargos, recursos); alguns setores de movimentos sociais, críticos ao neoliberalismo, receiam criticar o governo para não reforçar a campanha de setores da direita, também interessados em enfraquecer o governo. E o governo desenvolve uma bem sucedida campanha de propaganda para se afirmar como defensor dos pobres e oprimidos, ao mesmo tempo em que defende efetivamente os interesses dos "banqueiros, usineiros e empreiteiros" (conforme a feliz análise de Guilherme Delgado). O resultado é a desarticulação e a divisão em boa parte dos movimentos.
5. Finalmente, para não eludir o assunto do momento, a corrupção no Senado, é preciso dizer o seguinte: o Senado é o palco de muitos corruptos, e de muitos atos corruptos, mas o corruptor é o Executivo. No ano passado, o escândalo envolvia Renan Calheiros: nada lhe aconteceu, porque o governo impediu. Agora, o escândalo envolve Sarney e o governo parte imediatamente para a sua defesa. Por que? para garantir o apoio de que precisa para continuar no poder, para aprovar seus projetos, para apoiar seu sucessor (ou sucessora). Como disse o editorial de um jornal de direita, "Lula não tem princípios, tem fins".
E onde estão os parlamentares do PT, tão destacados e tão combativos contra a corrupção na época da CPI do PC, da CPI do Orçamento (1992-1993)? Em silêncio. Foi-se o tempo em que o PT era o partido da ética na política (há políticos do PT que são éticos, mas o partido já abandonou esta bandeira há muito tempo). Hoje, o PT, como afirmou seu líder máximo na época de outro escândalo, o do "mensalão", é "um partido igual aos outros", que também usa o caixa 2, que também quer cargos, que também quer ficar no poder (a pergunta que nos fazemos hoje é: para que ficar no poder? para fazer o que? onde foi parar o "projeto de sociedade" do PT? qual é o seu "projeto de sociedade"?). O projeto do PT hoje é aquele que já foi de Collor, já foi de FHC (e do PSDB): é ficar 20 anos no poder.
- Felizmente, não há só isso: por todo o país, há movimentos sociais e setores de outros movimentos sociais, há entidades da sociedade civil, há trabalhadores e estudantes que estão se organizando, se mobilizando, tomando posição frente a esta situação, frente a este governo neoliberal. Entre outras, gostaria de chamar a atenção para a articulação de movimentos e entidades chamada Assembleia Popular, que reuniu em 2005 oito mil pessoas de todo o país, em Brasília, e que continua a se articular e a gerar mobilizações. A Assembleia produziu um livreto que se chamou "Mutirão por um novo Brasil: o Brasil que queremos" – um texto que vale a pena ser consultado por quem quer um projeto de sociedade a partir da perspectiva dos movimentos sociais, dos trabalhadores. E há muitas outras iniciativas na nossa sociedade às quais devemos estar atentos, na luta pela transformação social. Na América Latina, há hoje governos populares realizando mudanças fundamentais, a mostrar que é possível construir um outro mundo (Bolívia, Equador, Venezuela e, possivelmente, Paraguai – e já estão surgindo outros países).
Que fazer?

Seguem algumas sugestões, certamente insuficientes.
- Fazer uma intensa campanha pela a instalação da CPI da Dívida, para reforçar uma ampla campanha pela instalação da auditoria da dívida externa.
- Denunciar o caráter anti-ecológico da política econômica deste governo: utilizar para isso as redes internacionais (partidos, ONGs, organizações internacionais, órgãos de comunicação), mais sensíveis a esta causa e com mais poder de influência.
- Denunciar o descompromisso do governo com a soberania alimentar e o envenenamento dos nossos alimentos pela atual política a favor dos transgênicos e a desconsideração quanto ao uso dos agrotóxicos.
- Denunciar a regressividade do nosso sistema tributário, que transfere renda dos pobres para os ricos.
- Reforçar os meios de comunicação alternativos de que dispomos – que são poucos, têm poucos recursos e enfrentam enormes dificuldades – porque a batalha da comunicação é fundamental em nossa luta.
- Aproveitar a crise para promover um amplo debate sobre o tipo de economia de que precisamos, não mais produtivista-consumista, mas para atender às necessidades de nossa população – alimentação, habitação, saúde, educação, transporte coletivo (trens, barcas, metrô, ônibus), produção agrícola familiar e orgânica, pesquisa científica e tecnológica etc. Como vamos gerar emprego sem passar pelo incentivo à produção automobilística? (o automóvel é parte intrínseca do modelo atual). Ou nós mudamos a economia agora – em que a crise abriu uma oportunidade de mudança – ou não teremos mais tempo.
- O presidente está cobrando coragem dos governos dos países desenvolvidos para estatizar bancos. Precisamos aproveitar este seu novo ânimo para exigir que ele, Lula, tenha coragem para reestatizar a Vale do Rio Doce, reestatizar a Petrobras, suspender os leilões das áreas de exploração do petróleo, etc. E para que nós, cidadãos, assumamos o controle dos bancos e das empresas em que o Estado está investindo o nosso dinheiro para sua recuperação: se o dinheiro público é quem salva os bancos, eles são nossos (Susan George, apud Caccia-Bava, Le Monde Diplomatique, junho/2009).
- Incentivar, apoiar, ajudar a criar formas de intervenção da sociedade civil de forma a exercer o controle social da esfera pública, tais como: os Grupos de Acompanhamento do Legislativo existentes em vários municípios do país, por iniciativa dos movimentos sociais; os mandatos participativos, em que cidadãos organizados participam do mandato do parlamentar. É preciso criar meios para tornar efetiva a soberania popular: parlamentares e ocupantes de cargos executivos devem estar sob permanente pressão e fiscalização por parte dos cidadãos, para atender a suas reivindicações.

Ivo Lesbaupin é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Graduado em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, é mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, da França. É, também, autor e organizador de diversos livros, entre os quais Igreja, movimentos populares, política no Brasil (São Paulo: Loyola, 1983); As classes populares e os direitos humanos (Petrópolis: Vozes, 1984); Igreja: Comunidade e Massa (São Paulo: Paulinas, 1996); e O desmonte da nação: balanço do governo FHC (Petrópolis: Vozes, 1999).

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

Qual foi a maior extinção causada pelo homem?

O maior bando conhecido tinha quase 2 bilhões de aves, que voando ocupavam um espaço de 1,6 km de largura por 500 quilômetros de comprimento. Sua passagem por uma cidade levava dias seguidos.

Marcelo Bortoloti

A grande vítima foi o pombo-passageiro, da América do Norte, provavelmente a ave mais abundante do planeta no século 17. Estima-se que havia até 5 bilhões desses pássaros somente nos EUA. O maior bando conhecido tinha quase 2 bilhões de aves, que voando ocupavam um espaço de 1,6 km de largura por 500 quilômetros de comprimento. Sua passagem por uma cidade levava dias seguidos.

O pombo-passageiro começou a ser caçado pelo homem como alimento. Depois descobriu-se que ele poderia ser usado para ração de porcos e até para fertilização do solo. Nos séculos 17 e 18, ele foi a carne que aparecia em quase todas as refeições servidas aos escravos. Em 1805, um par de pombos passageiros custava 2 centavos de dólar em Nova York.

Por volta de 1850, percebeu-se que o número de pombos havia caído drasticamente. As fêmeas botavam apenas um ovo por vez, e seriam necessários alguns anos para recuperar o volume da população. Mas não deu tempo. Acredita-se que todos os pássaros do último bando remanescente tenham sido mortos num único dia, em 1896, quando aproximadamente 250 mil indivíduos foram abatidos numa caçada esportiva. Em 1900, um garoto de Ohio matou o último exemplar selvagem.

Restou apenas um pombo-passageiro em cativeiro, ou melhor, uma pomba chamada Martha, que morreu no zoológico de Cincinnati, Ohio, em 1914. Seu corpo embalsamado está até hoje exposto à visitação no Museu Nacional de História Natural, em Washington.

Eles também foram eliminados

Outras extinções gigantes que temos nas costas

1. Pombo-Passageiro

População estimada: 2 a 5 bilhões

Data da extinção: 1900

2. Blue Pike

População estimada: 50 a 100 milhões

Data da extinção: 1970

Era um peixe de coloração azul, que vivia na região dos Grandes Lagos, no Canadá e nos EUA. O blue pike chegou a representar 50% de toda a pesca comercial da região – entre 1885 e 1962 foram comercializados 450 milhões de quilos dessa espécie.

3. Great Auk

População estimada: 200 mil

Data da extinção: 1844

Eram os pingüins do Ártico. Começaram a ser perseguidos pelo homem ainda no século 8, por causa da sua carne e da pele, usada na fabricação de agasalhos. O último casal foi morto em julho de 1844, enquanto chocava um ovo.

4. Dodô

População estimada: Na casa dos milhares

Data da extinção: 1681

Ave de 1 metro de altura das ilhas Maurício, no oceano Índico. O dodô não sabia voar e não tinha medo das pessoas, o que fez dele uma presa fácil para os portugueses que chegaram às ilhas. Toda a espécie foi exterminada em menos de 200 anos.

5. Lobo-da-Tasmânia

População estimada: Mais de 3 500

Data da extinção: 1936

Um dos maiores mamíferos carnívoros do mundo, habitava o sul da Austrália. Foi exterminado porque era considerado uma ameaça aos rebanhos. Em 1888 foi oferecida uma recompensa de 1 libra por cabeça de lobo entregue ao governo.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

Revitalização de línguas nativas

Segundo pesquisadores, pelo menos 21% das 150 línguas nativas atualmente em uso no Brasil estão seriamente ameaçadas de desaparecer em curto prazo.

Agência FAPESP

Das cerca de 150 línguas nativas atualmente em uso no Brasil – aquelas empregadas tradicionalmente por povos indígenas antes do contato com os não-indígenas -, pelo menos 21% estão seriamente ameaçadas de desaparecer em curto prazo, devido ao número reduzido de falantes e à baixa taxa de transmissão para novas gerações, segundo pesquisadores.

Um caminho para tentar reverter esse quadro seria a formulação e aplicação de uma Política Linguística e Científica. Essa foi uma das principais conclusões da mesa-redonda "Línguas Nativas da Região Norte: perspectivas para a sua documentação, manutenção e pesquisa", realizada na 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus.

De acordo com os participantes, essa política poderia contribuir para: definir parâmetros de documentação (trabalhar por família linguística ou por áreas etnográficas como a calha dos rios, por exemplo, seguindo o que pensam os falantes ou membros dos povos envolvidos); criar mecanismos que ajudem a suprir a falta de recursos humanos interessados nessa área de pesquisa; e promover a valorização das línguas nativas, contribuindo com o desenvolvimento de estratégias de transmissão desses idiomas.

"O processo de documentação é fundamental para ampliar o conhecimento sobre a diversidade e transmissão das línguas nativas", destacou Frantomé Pacheco, professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas, que presidiu a mesa-redonda.

Para Dennis Albert Moore, curador da Coleção Linguística e coordenador da área de linguística do Museu Paraense Emílio Goeldi, um dos desafios da documentação é que idiomas que são registrados como diferentes às vezes são dialetos de uma mesma língua, reflexo de divisões étnicas e políticas.

Moore, que contribuiu com a produção de um atlas das línguas em extinção, usa como exemplo o caso da família linguística Mondé, do tronco Tupi. "A fala dos Gavião, de Rondônia, e a fala dos seus vizinhos Zoró são geralmente listadas como línguas distintas, quando, na realidade, são dialetos tão próximos como o português de Salvador e o português do Rio de Janeiro", disse.

Em artigo publicado na revista Scientific American, em setembro de 2008, intitulado O desafio de documentar e preservar as línguas amazônicas, Moore, juntamente com outros especialistas, explica que na coleta de dados há uma tendência de confundir a população de um grupo com o número de indivíduos que falam a língua. "Certamente, o número de falantes é muito menor do que se pensava e a situação das línguas é, portanto, mais grave", afirmou.

Línguas e falantes

Além de ser a região com maior concentração de populações indígenas no Brasil, a Amazônia concentra dois terços das línguas indígenas faladas no país.

Apenas no Estado do Amazonas o número de línguas ainda faladas está entre 50 e 56. Entre as que desapareceram diante do contato com os não-indígenas estão Baré, Mura, Kokama e Torá. Há pessoas que se identificam etnicamente como pertencentes a essas etnias, mas que empregam uma variedade regional/indígena do português.

A Língua Geral Amazônica (Nhenngatu) é empregada por muitas etnias, identificando seus membros como indígenas pertencentes a elas (como os Baré, cuja língua tradicional já não é mais falada).

Segundo dados apresentados por Pacheco, a maioria das línguas conta com poucos falantes (abaixo de 100). Entre as com maior número (acima de 4 mil) estão: Sateré (6.219), Baniwa (5.811), Tikuna (cerca de 35 mil), Tukano (8 mil), Yanomami (6 mil), Yanomam (4 mil) e Língua Geral Amazônica (6 mil).

No Pará há cerca de 26 idiomas nativos, número semelhante ao de línguas faladas na Europa Ocidental, apontou Moore. Dessas 26, duas não têm pesquisas sobre elas. Das demais, 50% têm estudo em nível de doutorado e muitos artigos publicados, 31% têm estudo em nível de mestrado e 12% têm boa descrição.

Segundo o pesquisador do Museu Goeldi, o futuro de uma língua é determinado pela transmissão à geração subsequente, o que é difícil de apurar. No Pará, foram identificadas cinco línguas (19%) com índice zero de transmissão. Outras duas (8%) têm pouca transmissão, três (12%) têm índice médio e 16 (62%) têm boa ou alta transmissão.

Em Roraima, de acordo com Maria Odileiz Sousa Cruz, da Universidade Federal de Roraima, há 61 povos indígenas com menos de 200 falantes do idioma nativo e cinco povos que variam de 10 mil a 20 mil falantes.

O número de falantes em cada uma das famílias linguísticas no Estado, sem contabilizar o grupo Yanomami, que vive isolado, é: Makuxí (cerca de 12 mil falantes), Taurepang (600), WaiWai (2.500), Ingarikó (1.170), Waimiri-Atroari (970), Ye’kuana (426), Wapixana (4.000), Atoraiú (1) e Sapará (1).

Estratégias

A demanda por documentação por parte dos grupos indígenas tem aumentado rapidamente, de acordo com os participantes da mesa-redonda na reunião da SBPC. Um deles, Euclides Pereira, gerente técnico do Projetos Demonstrativos para Povos Indígenas, ligado ao Ministério do Meio Ambiente, reforçou essa preocupação como representante do povo Makuxí.

Segundo Pereira, não adianta só proteger a língua, é preciso difundi-la. Mas como se trata de uma língua oral, para ensinar é preciso conhecer sua estrutura. Há palavras, por exemplo, que só são ditas por homens e outras só por mulheres, assim como estão surgindo novas no contato com outros povos e com não-indígenas.

"Não funciona ensinar Makuxí da mesma forma que se ensina o português. A universidade poderia contribuir no assessoramento da produção de materiais que explorem não só a escrita, mas também imagens que envolvam os alunos com histórias, mitos e fundamentos da língua. Talvez possa produzir vídeos e CDs que facilitem o entendimento e a difusão", sugeriu.

No Brasil, a digitalização e a anotação de gravações de amostras naturais de línguas estão em fase inicial. O Museu Goeldi monta arquivos digitais modernos em servidores. Arquivos desse tipo têm como beneficiários principais os grupos indígenas, tal como na Austrália, onde 95% das consultas aos arquivos são feitas por aborígenes.

Há ainda programas de alfabetização e revitalização, mas os resultados não são levantados e avaliados sistematicamente. Uma das iniciativas que visam ao levantamento da situação de todas as línguas é o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, planejada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em parceria com a Associação Brasileira de Linguística (Abralin).

Em Roraima, destacam-se algumas iniciativas de instrumentalização dos falantes nativos que têm como objetivo trabalhar com a história das línguas em seus diversos estágios. É o caso de duas emissoras de rádio que transmitem programas educativos em línguas nativas. A Universidade Federal de Roraima também criou o Núcleo Insikiran de Formação Superior Indígena, hoje com 240 alunos, entre outros cursos criados por outras instituições do Estado.

Fonte: Portal Ciência e Vida – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br