Daily Archives: 12/06/2009

Os europeus que ajudaram Hitler no Holocausto

Georg Bönisch
Jan Friedmann
Cordula Meyer
Michael Sontheimer
Klaus Wiegrefe

Os alemães são responsáveis pelo assassinato em escala industrial de 6 milhões de judeus. Mas, surpreendentemente, o conluio de outros países europeus no Holocausto recebeu pouca atenção até há pouco tempo. O julgamento de John Demjanjuk deverá projetar luz sobre os estrangeiros que ajudaram Hitler.
Ele já esteve na Alemanha antes, neste país de criminosos. Tinha 25 anos na época e seu nome de batismo era Ivan, e não John — ainda não.
Ivan Demjanjuk serviu como guarda no campo de concentração de Flossenburg até pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Ele foi transferido para lá do campo da morte das SS em Sobibor, na atual Polônia. Era ucraniano, e um "travniki", um dos 5.000 homens que ajudaram o regime nazista da Alemanha a cometer o crime do milênio – o assassinato de todos os judeus da Europa, a "solução final".

Ele fez parte do esquema, embora fosse uma peça muito pequena no vasto maquinário do crime. Ivan Demjanjuk ficou na Alemanha do pós-guerra durante sete anos antes de emigrar para os EUA em 1952 com sua mulher e filha a bordo do General Haan. Quando chegou lá, trocou o nome para John. Estava terminado seu tempo como suposto DP, ou "displaced person" (pessoa deslocada), como os vencedores anglo-americanos chamavam as pessoas que ficaram sem teto na guerra.
O DP Demjanjuk tinha vivido nas cidades de Landshut e Regensburg, no sul da Alemanha, onde trabalhou para o exército americano. Mudou-se para Ulm, Ellwangen, Bad Reichenhall e finalmente para Feldafing, junto ao lago Starnberg. Feldafing pertence à área coberta pelo tribunal distrital de Munique, e por isso Demjanjuk está detido na prisão de Stadelheim, em Munique, desde que foi deportado dos EUA, na semana passada. Sua cela mede 24 metros quadrados – extraordinariamente espaçosa para os padrões habituais de prisões.
Último grande julgamento nazista na Alemanha
Ele enfrenta acusações de ajudar e apoiar o assassinato de pelo menos 29 mil judeus em Sobibor. O julgamento poderá começar no final do verão, desde que Demjanjuk, hoje com 90 anos, seja considerado capaz de suportá-lo. Testemunhas serão chamadas a depor, mas nenhuma delas poderá identificá-lo. A única evidência está nos arquivos, mas é forte. Por duas vezes, em 1949 e 1979, o ex-travniki Ignat Danilchenko, hoje morto, afirmou que Demjanjuk foi um "guarda experiente e eficiente" que levou judeus para as câmaras de gás — "que era um trabalho cotidiano".
Demjanjuk negou a acusação totalmente. Ele diz que nunca esteve em Flossenburg ou em Sobibor, e nunca empurrou pessoas para as câmaras de gás. O ex-americano adotou a mesma tática de negação de muitos outros réus julgados por crimes de guerra desde 1945.
Mas já está claro que este último grande julgamento nazista na Alemanha será profundamente extraordinário, porque pela primeira vez colocará réus estrangeiros sob os refletores da mídia mundial.
São homens que até agora receberam, surpreendentemente, muito pouca atenção – policiais ucranianos e a polícia auxiliar da Letônia, soldados romenos ou trabalhadores ferroviários húngaros, agricultores poloneses, tabeliães holandeses, prefeitos franceses, ministros noruegueses, soldados italianos – todos participaram do Holocausto na Alemanha.
Especialistas como Dieter Pohl, do Instituto Alemão de História Contemporânea, estimam que mais de 200 mil não-alemães – quase o mesmo número de alemães e austríacos – "prepararam, praticaram e ajudaram em atos de assassinato". E com frequência eles foram tão impiedosos quanto os carrascos de Hitler.
Só para dar um exemplo, em 27 de junho de 1941, um coronel da equipe do Grupo do Exército Norte da Alemanha na cidade lituana de Kaunas passou por um posto de gasolina cercado por uma multidão. Ouviu gritos de bravo e aplausos, mães erguiam seus filhos para que enxergassem melhor. O oficial se aproximou e mais tarde descreveu o que havia visto. "No pátio de concreto havia um homem louro de cerca de 25 anos, de altura mediana, que estava descansando apoiado em um bastão de madeira grosso como seu braço e que chegava até seu peito. A seus pés havia 15 ou 20 pessoas mortas ou agonizantes. Uma mangueira jorrava água, levando o sangue para um ralo".
O soldado continuou: "Alguns passos atrás desse homem estavam cerca de 20 homens que – guardados por vários civis armados – esperavam sua terrível execução em silenciosa submissão. Chamado com um gesto rude, o próximo se adiantou em silêncio e foi (…) espancado até a morte com o bastão de madeira, e cada golpe era acompanhado de gritos entusiasmados da plateia".
Orgia de assassinatos como cerimônia nacional
Quando todos estavam mortos no chão, o assassino louro subiu no monte de cadáveres e tocou acordeão. Sua plateia cantou o hino lituano como se a orgia de assassinatos fosse uma cerimônia nacional.
Como semelhante coisa pôde acontecer? Há muito tempo essa pergunta não é dirigida somente aos alemães – cuja responsabilidade principal pelo horror é indiscutível -, mas também aos perpetradores de todos os países.
O que levou o ditador romeno Ion Antonescu e seus generais, soldados, funcionários públicos e agricultores a assassinar 200 mil judeus (e talvez até o dobro disso) "por sua própria decisão", como diz o historiador Armin Heinen? Por que os esquadrões da morte no Báltico cometeram assassinatos sob ordens de alemães na Letônia, Lituânia, Belarus e Ucrânia? E por que os Einsatzgruppen alemães – "grupos de intervenção" paramilitares operados pelas SS – tiveram tal facilidade para incentivar a população não-judia a cometer massacres entre Varsóvia e Minsk?
É totalmente indiscutível que o Holocausto nunca teria acontecido sem Hitler, o chefe das SS, Heinrich Himmler, e muitos, muitos outros alemães. Mas também é verdade "que os alemães por si sós não teriam conseguido efetuar o assassinato de milhões de judeus europeus", diz o historiador Michael Wild, estabelecido em Hamburgo.
É uma ideia da qual muitos sobreviventes nunca duvidaram. Quando a Associação de Sobreviventes Judeus Lituanos se reuniu em Munique em 1947, aprovou uma resolução com um título inconfundível: "Sobre a culpa de grande parte da população lituana pelo assassinato dos judeus lituanos".
No Terceiro Reich, com sua burocracia azeitada, havia registros abrangentes da população judia. Mas nos territórios conquistados pelo exército alemão os asseclas de Hitler precisavam de informação, como a que foi fornecida na Holanda pelos tabeliães, cujos funcionários tiveram muito trabalho para compilar um "Registro de Judeus" preciso.
E como as SS e a polícia poderiam rastrear judeus nas cidades do Leste Europeu, com sua ampla mistura de grupos étnicos, sem o apoio da população local? Poucos alemães seriam capazes de "reconhecer um judeu em uma multidão", lembra Thomas Blatt, um sobrevivente de Sobibor que pretende depor no julgamento de Demjanjuk.
Na época, Blatt era um menino louro e tentou se passar por cristão em sua casa na cidade de Izbica, na Polônia. Ele não usava a estrela amarela e tentava parecer confiante quando encontrava a polícia uniformizada. Mas foi traído várias vezes – os alemães pagavam por informações sobre a localização de judeus – e sempre escapou, com muita sorte.
Denúncias eram comuns
As denúncias eram tão comuns na Polônia que havia um termo especial para os informantes pagos – "Szmalcowniki", que antes designava uma cerca. Em muitos casos os delatores conheciam suas vítimas. E enquanto os franceses, holandeses ou belgas podiam se entregar à ilusão de que tudo acabaria bem para os judeus deportados de Paris, Roterdã ou Bruxelas para o leste, as populações do Leste Europeu sabiam o que aguardava os judeus em Auschwitz ou Treblinka.
É claro que se podem encontrar muitos exemplos inversos. Um alto oficial do Einsatzgruppe C, responsável pelo assassinato de mais de 100 mil pessoas, queixou-se de que os ucranianos não tinham "um antissemitismo acentuado, com base em motivos raciais ou ideológicos". O oficial escreveu que "há uma falta de liderança e de ímpeto espiritual para a perseguição dos judeus".
O historiador Feliks Tych estima que cerca de 125 mil poloneses salvaram judeus sem receber dinheiro por seus serviços. É claro que os criminosos sempre constituíram uma pequena porcentagem de suas respectivas populações. Mas os alemães contavam com essa minoria. As SS, a polícia e o exército não tinham efetivos suficientes para vasculhar as amplas áreas onde a liderança nazista pretendia matar todas as pessoas de origem judaica.
Nos 4.000 quilômetros que vão da Bretanha, no oeste da França, ao Cáucaso, os nazistas estavam ocupados em caçar suas vítimas, deportá-las para campos de extermínio ou locais de assassinato próximos, evitar fugas, cavar valas comuns e realizar seu sangrento trabalho.
É claro que somente Hitler e seu círculo ou o exército poderiam ter detido o Holocausto. Mas isto não invalida o argumento de que sem a ajuda de estrangeiros, milhares ou mesmo milhões dos cerca de 6 milhões de judeus assassinados poderiam ter sobrevivido.
Nos campos da morte do Leste Europeu havia até dez ajudantes locais para cada policial alemão. A proporção é semelhante nos campos de extermínio. Não em Auschwitz, que era conduzido quase inteiramente por alemães, mas em Belzec (600 mil mortos), Treblinka (900 mil mortos) ou no Sobibor de Demjanjuk. Lá, um punhado de membros das SS era auxiliado por cerca de 120 "travniki".
Sem eles, os alemães nunca teriam conseguido matar 250 mil judeus em Sobibor, diz o ex-prisioneiro Blatt. Eram os travniki que guardavam o campo, conduziam todos os judeus dos vagões de trem e caminhões quando chegavam ao campo e os agrediam para que entrassem nas câmaras de gás.
O Holocausto foi um projeto europeu?
Um número tão absurdo de vítimas levanta perguntas perturbadoras, e o historiador de Berlim Götz Aly já começou a fazer algumas anos atrás: a chamada "solução final" seria na verdade um "projeto europeu que não pode ser explicado somente pelas circunstâncias específicas da história alemã"?
Ainda não há um veredicto final sobre as dimensões europeias do Holocausto. Os franceses e italianos começaram tarde – quando a maioria dos criminosos já estava morta – a tratar de forma abrangente essa parte de sua história. Outros, como os ucranianos e lituanos, ainda se arrastam; ou, em alguns casos, apenas começaram, como na Romênia, na Hungria e na Polônia.
Desde 1945 os países invadidos e arrasados pelos exércitos de Hitler se consideraram vítimas – o que sem dúvida foram, com seu enorme número de mortos. Isso torna ainda mais doloroso admitir que muitos compatriotas ajudaram os criminosos alemães.
Na Letônia, a ajuda local foi maior que em qualquer outro lugar. Segundo o historiador americano Raul Hilberg, os letões tiveram a maior proporção de ajudantes nazistas. Os dinamarqueses estão na outra ponta da escala. Quando a deportação dos judeus da Dinamarca estava prestes a começar, em 1943, grande parte da população ajudou os judeus a escapar para a Suécia ou os escondeu. Cerca de 98% dos 7.500 judeus da Dinamarca sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Em comparação, apenas 9% dos judeus holandeses sobreviveram.
O Holocausto representa o ponto baixo não apenas da história alemã, mas também da europeia, como afirma o historiador Aly?
Há evidências que contestam a noção amplamente aceita de que os criminosos estrangeiros foram obrigados a ajudar os alemães a cometer os assassinatos. É verdade que os ajudantes locais arriscavam a vida quando se recusavam a ajudar os ocupantes alemães. Isso se aplicava às unidades policiais e aos funcionários públicos na Europa Ocidental ocupada, assim como à polícia auxiliar recém-formada no Leste. Mas também é verdade que em muitos lugares as pessoas se ofereciam para servir aos alemães ou participaram de crimes sem ser obrigadas a isso.
Também há a alegação muitas vezes repetida de que os governos de países aliados a Hitler não tinham opção senão entregar os cidadãos judeus aos alemães. Isso também não é verdade. Os países dos Bálcãs, em particular, rapidamente entenderam como a "solução da questão judia" era importante para Hitler e seus diplomatas – e tentaram obter o maior preço possível por sua cumplicidade.
Também há motivos para duvidar da suposição de que os auxiliares eram sádicos patológicos. Se isso fosse verdade, deveria ser fácil identificá-los, por exemplo, no grupo de 50 lituanos que serviram sob o comando do SS Obersturmbannführer (tenente-coronel) Joachim Hamann. Os homens percorriam aldeias até cinco vezes por semana para assassinar judeus, e acabaram matando 60 mil pessoas. Bastava algumas caixas de vodca para animá-los. À noite, a tropa voltava para Kaunas e se gabava de seus crimes no refeitório.
Nenhum dos lituanos havia sido criminoso antes. Eles eram "total e absolutamente normais", acredita o historiador Knut Stang. Em quase toda parte depois da guerra os assassinos retornaram a suas vidas habituais, como se nada tivesse acontecido. Demjanjuk também era um cidadão correto. Em Cleveland, Ohio, onde vivia, era considerado um bom colega e vizinho simpático.
É a mesma coisa com os criminosos alemães. Não há um tipo de assassino identificável – é uma conclusão perturbadora a que chegaram os historiadores. Os assassinos incluíam católicos e protestantes, europeus meridionais de sangue quente e frios bálticos, extremistas de direita obcecados ou burocratas insensíveis, acadêmicos refinados ou caipiras violentos.
Entre eles estava Viktor Arajs (1910-1988), um advogado culto de uma família de agricultores letões que comandou uma unidade de mais de mil homens que percorreu a Europa Oriental assassinando em nome dos nazistas. Ou o romeno Generaru, filho de um general e comandante do gueto de Bersad, na Ucrânia, que mandou amarrar uma de suas vítimas a uma motocicleta e a arrastou até a morte.
Antissemitismo assolava a Europa
E o antissemitismo? Na década de 1930 o antissemitismo cresceu em toda a Europa porque a comoção após a Primeira Guerra Mundial e a crise econômica global haviam abalado as pessoas. No Leste Europeu, a tendência a considerar os judeus como bodes expiatórios e tentar excluí-los do mercado de trabalho era especialmente forte. Na Hungria, os judeus foram banidos de cargos públicos no final dos anos 1930, e proibidos de trabalhar em muitas profissões. A Romênia adotou voluntariamente as Leis de Nuremberg, racistas e antissemitas, da Alemanha nazista. Na Polônia, muitas universidades restringiram o acesso de estudantes judeus.
A extensão do ódio aos judeus também se reflete no fato de que após o fim da guerra, em 1945, turbas na Polônia mataram pelo menos 600, e talvez milhares, de sobreviventes do Holocausto. No entanto, o excesso de nacionalismo parece ter sido o fator mais importante, pelo menos no Leste Europeu. Lá, muitos sonhavam com uma nação-estado livre de minorias. Nesse sentido, os judeus eram simplesmente um dos vários grupos de que as pessoas queriam se livrar. Com o avanço da Segunda Guerra, os croatas não apenas mataram judeus, mas também um número muito maior de sérvios. Os poloneses e lituanos se matavam entre si. A Romênia liquidou ciganos e ucranianos.
É difícil determinar o que motivou as pessoas a matar. Muitas vezes o nacionalismo ou o antissemitismo eram simples desculpas. Durante a guerra, ninguém passava fome na Alemanha, mas as condições de vida no Leste Europeu eram miseráveis. "Para os alemães, 300 judeus significavam 300 inimigos da humanidade. Para os lituanos significavam 300 pares de calças e 300 pares de botas", diz uma testemunha. Era cobiça em nível pessoal. Mas também aparecia em nível coletivo. Na França, 96% das empresas "arianizadas" permaneceram nas mãos de franceses. O governo húngaro usou os bens expropriados dos judeus para ampliar seu sistema de aposentadorias e reduzir a inflação.
Bodes expiatórios para crimes de soviéticos
A vingança imaginária também teve uma participação. Os massacres da população da Polônia contra os judeus em 1941 se basearam na suposição de que os judeus formavam uma espécie de base para o regime soviético, porque os comunistas de origem judia foram por algum tempo muito representativos na burocracia soviética. Em consequência, muitas pessoas culpavam os judeus pelos crimes cometidos durante a ocupação soviética do leste da Polônia entre 1939 e 1941.
A polícia secreta de Stálin, a NKWD, mandou fuzilar ou deportar para os "gulags" os adversários reais e supostos do regime nos países bálticos, no leste da Polônia e na Ucrânia. Com o avanço das tropas alemãs, os soviéticos deixaram para trás uma sociedade profundamente traumatizada entre o Báltico e os Cárpatos – e muitas covas coletivas.
Hitler não tinha decidido todos os detalhes do Holocausto desde o início, supondo que conseguiria expulsar todos os judeus de sua esfera de influência depois de uma rápida vitória contra a União Soviética. Mas o avanço alemão contra a URSS começou a vacilar no outono de 1941, o que levantou o problema do que fazer com as pessoas amontoadas nos guetos, especialmente na Polônia. Muitos Gauleiter, oficiais das SS e altos administradores pediam que seus territórios fosse "judenfrei" ("livre de judeus"), o que significava liquidá-los. A construção dos campos de extermínio começou por Belzec, depois Sobibor, depois Treblinka.
Curso de treinamento rápido em Holocausto
Foi um programa de matança gigantesco, em que a maioria dos judeus da Polônia, 1,75 milhão de pessoas, foram assassinados. Os SS preferiam recrutar seus ajudantes entre os ucranianos ou alemães étnicos nos campos de prisioneiros de guerra, onde soldados do Exército Vermelho como Demjanjuk enfrentavam a opção de matar para os alemães ou morrer de fome.
Mais tarde, números cada vez maiores de voluntários da Ucrânia ocidental e da Galícia [sudeste da Polônia] aderiram à unidade. Os homens tinham de assinar uma declaração de que nunca haviam pertencido a um grupo comunista e não tinham ancestrais judeus.
Depois eram levados para Travniki, no distrito de Lublin no sudeste da Polônia, onde eram treinados na profissão mortífera no local de uma antiga fábrica de açúcar. Em meados de 1943 cerca de 3.700 homens estavam estacionados em Travniki. O treinamento para o Holocausto levava várias semanas. Os homens das SS mostravam aos recrutas como realizar batidas e guardar os prisioneiros, muitas vezes usando sujeitos vivos. Então a unidade ia até uma cidade próxima e espancava moradores judeus e os arrancava de suas casas. Execuções eram realizadas em uma floresta próxima, provavelmente para garantir que os recrutas eram leais.
No início, os travniki foram usados para guardar propriedades e evitar o saque de depósitos de suprimentos. Depois seus amos alemães os enviaram para esvaziar os guetos em Lviv e Lublin, onde foram impiedosos na captura de suas vítimas judias. Finalmente eles foram postos para trabalhar em turnos de oito horas no campo de extermínio. "Todo mundo se colocava onde era necessário", lembrou um oficial das SS. Tudo funcionava "como um relógio".
Historiadores estimam que um terço dos travniki escapou, apesar da punição que sofreriam se fossem apanhados. Alguns foram executados por desobediência. E os outros? Por que não tentaram escapar da máquina mortífera? Por que Demjanjuk não tentou? Ele teria sido corrompido pela sensação de ter "obtido um poder total sobre os outros", como afirma o historiador Pohl? Seria a perspectiva do saque? Em Belzec e Sobibor os travniki se envolveram em um comércio animado com os habitantes das aldeias vizinhas, e lhes pagavam com objetos que haviam subtraído dos prisioneiros.
Talvez houvesse outra coisa, algo ainda mais perturbador que muitas pessoas têm no fundo de sua psique: acatar ordens das autoridades, mesmo contrariando sua consciência. A obediência total e irrestrita.
Ajuda de fora no monstruoso projeto assassino
As tropas alemãs não tiveram toda a Europa continental sob suas armas na mesma medida. Fora do Terceiro Reich e dos territórios ocupados, os alemães precisaram da ajuda de governos estrangeiros em seu projeto assassino monstruoso – no oeste assim como no sul e sudeste da Europa.
Seu apoio foi mais forte entre os eslovacos e os croatas, a quem Hitler deu estados próprios. Os croatas fascistas do regime Ustasha montaram seus próprios campos de concentração onde os judeus foram mortos "de febre tifóide, fome, tiros, tortura, afogamento, punhaladas e golpes de martelo na cabeça", segundo o historiador Hilberg. A maioria dos judeus da Croácia foi morta por croatas.
O antissemitismo não estava tão enraizado na Itália e foi ordenado pelo estado em consideração aos alemães. Um comandante militar italiano em Mostar (atual Bósnia) se recusou a expulsar os judeus de suas casas porque essas operações "não estavam de acordo com a honra do exército italiano". Esse não foi o único caso. Mas está claro que o governo fantoche de Benito Mussolini de 1943 participou avidamente da perseguição aos judeus. Mais de 9 mil judeus italianos foram deportados para a morte.
Cerca de 29 mil judeus da Bélgica foram assassinados, muitos deles denunciados em troca de dinheiro. Denúncias também aconteceram na Holanda e na França. As autoridades locais obedientemente abriram caminho para a deportação dos judeus e mais tarde disseram que não suspeitavam do destino que os aguardava. Essa desculpa foi usada por asseclas, oportunistas e burocratas – uma categoria de criminosos que foi negada por muito tempo após a guerra na França, enquanto o país tentava construir o mito de que toda a população francesa se envolvera na heroica Resistência.
A França ficou dividida em duas. As tropas de Hitler tinham ocupado três quintos do país, mas o sul continuou desocupado até novembro de 1942 e foi governado por um regime de direita baseado em Vichy que colaborou com os alemães.
Quantos foram traídos?
A primeira grande captura de judeus ocorreu em meados de julho de 1942 na Paris ocupada, quando quase 13 mil judeus que não tinham passaporte francês foram tirados de suas casas pela polícia local. Pelo menos dois terços dos judeus deportados da França eram estrangeiros. Os restantes consistiam em cidadãos franceses naturalizados e crianças nascidas na França filhas de judeus apátridas. A polícia "expressou repetidamente o desejo" de que as crianças também fossem deportadas, anotou um oficial das SS em julho de 1942. Quase todos os deportados acabaram em Auschwitz.
Ao todo, quase 76 mil judeus foram deportados da França e somente 3% deles sobreviveram ao Holocausto. Não se sabe quantos foram delatados pela população local. Na Holanda há um número que dá um indício da extensão das denúncias. O país tinha uma autoridade que caçava judeus em nome dos nazistas e que listava as propriedades de judeus que estavam escondidos ou já tinham sido deportados.
O "departamento de registro de bens domésticos" pagava 7,50 florins por judeu que fosse localizado – cerca de 40 euros em valores atuais. O jornalista holandês Ad van Liempt analisou registros históricos e estimou que somente entre março e junho de 1943 mais de 6.800 judeus foram identificados dessa forma, e que pelo menos 54 pessoas participaram dessa caçada uma ou várias vezes. "A maioria delas fez dessa sua ocupação principal durante meses", ele diz.
O chefe da unidade era um mecânico de carros chamado Wim Henneicke, que evidentemente tinha boas conexões no submundo de Amsterdã. Ele montou uma extensa rede de informantes que lhe diziam onde havia judeus escondidos. Cerca de 100 mil judeus da Holanda foram assassinados em campos de concentração, uma proporção muito maior que na Bélgica ou na França.
No entanto, em comparação com a França, os colaboradores holandeses foram rapidamente punidos depois da guerra. Cerca de 16 mil foram julgados até 1951, e quase todos, condenados.
Demjanjuk é uma categoria diferente de criminoso. Ele não é um colaborador ou um caçador de cabeças, nem um policial ou o tipo que contribuiu para o Holocausto longe da matança real. Ele estava em cena, dizem os promotores em seu mandado de prisão minucioso.
O mundo terrível dos auxiliares do Holocausto
Nos próximos dias médicos vão decidir se e por quanto tempo o último capanga de Hitler em Sobibor pode ser julgado. O governo alemão quer que ele enfrente o tribunal. "Devemos isso às vítimas do Holocausto", disse o vice-chanceler Frank-Walter Steinmeier.
Os que sofreram nos campos sob travniki como Demjanjuk não têm qualquer desejo de vingança quando falam sobre isso hoje. O psicanalista americano Jack Terry, que esteve preso no campo de concentração de Flossenburg quando Demjanjuk era guarda lá, diz que bastaria que Demjanjuk "tivesse de passar apenas um dia trancado em sua cela".
O sobrevivente de Sobibor Thomas Blatt diz que "não se importa que ele vá para a prisão; o julgamento é importante para mim. Eu quero a verdade".
Demjanjuk poderá dar informações sobre Sobibor – e sobre o terrível mundo dos ajudantes do Holocausto.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Um lugar pra chamar de seu

DOIS ESTUDOS INVESTIGAM OS SENTIDOS SOCIAL, PSICOLÓGICO E CULTURAL DAS CIDADES NO RENASCIMENTO E NO SÉCULO 21.

REGINA MEYER
ESPECIAL PARA A FOLHA

As cidades estão na ordem do dia, sobretudo as grandes cidades. Qual será a explicação, ou melhor, as explicações para esse protagonismo?
Uma hipótese, entre outras, é que as cidades possuem atributos concretos por meio dos quais é possível avaliar as fortes e abrangentes transformações que estão em andamento em todas as esferas da organização da sociedade.
É no interior das cidades que estão se reorganizando as atividades produtivas, cujas dimensões espaciais, sociais e culturais ganham forma.
Seu caráter intrinsecamente ambivalente e material é, justamente, o tema de dois livros que se situam no interior de um grande arco de tempo que tem o ponto de partida no século 15 e o de chegada na primeira década do século 21.
Estão aí presentes cinco séculos decisivos para a história da cidade.
Nos dois extremos desse percurso situam-se "A Cidade do Primeiro Renascimento", de Donatella Calabi, arquiteta e professora no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, e "Confiança e Medo na Cidade", do sociólogo Zigmunt Bauman.
Professor nas universidades de Leeds e Varsóvia, é um dos mais profícuos autores da atualidade, com 17 livros já publicados no Brasil.
Pontos distintos
Embora muito diferentes nas suas abordagens, ambos se situam em pontos distintos de um processo marcado por mudanças no quadro físico que as cidades experimentaram.
Numa ponta situa-se o período identificado como primeiro Renascimento, patrocinado por príncipes que entenderam e exerceram com energia o poder a partir da edificação de espaços urbanos "mais organizados" no século 15.
Na outra, os espaços da cidade contemporânea, que Bauman aponta como pós-moderna, regidos por príncipes multinacionais e globalizados cujas manifestações iniciais ocorreram no final do século 20.
Enquanto Calabi utiliza instrumentos de análise que destacam a articulação entre os aspectos físicos e ideológicos das operações urbanas praticadas no século 15 europeu, Bauman aponta para a experiência desprovida de urbanidade que caracteriza a vida na cidade contemporânea.
Entretanto, é indiscutível que ambos analisam de forma distinta um mesmo tema: as relações entre cidade e a sociedade. Nos dois casos fica evidente o acerto da análise de Manuel Castells [sociólogo espanhol] quando diz que a cidade não pode nunca ser vista como mero reflexo da sociedade, mas o seu principal instrumento de realização.
Percorrendo os dois livros em sentido cronológico inverso, isto é, do texto de Bauman para o de Calabi, somos obrigados a constatar o malogro no modo de organização e de vida nas cidades.
Os temas atuais abordados por Bauman -o medo, a dificuldade de convívio entre indivíduos diferentes, a mixofobia, entre outros- revelam o considerável fracasso do "modus convivendi" nas cidades contemporâneas. Bauman apoia seus argumentos em importantes contribuições teóricas que procuram apreender a natureza da cidade contemporânea.
Ele apenas aflora conceitos centrais da vida urbana contemporânea, elaborados por autores do porte de Manuel Castells, Richard Sennett, Robert Castel, Peter Hall e muitos outros, produzindo um inteligente texto ensaístico de divulgação.
Calabi segue um modelo distinto para apresentar os elementos que compõem a cidade e o ideário urbano e político utilizado no século 15.
Ela descreve o remanejamento de velhas estruturas medievais e as adaptações que inauguram as manifestações da cidade moderna. Deixa bem claro, embora enfatize a dimensão urbana, o quanto naquele momento a cidade foi "uma razão de Estado", como aponta Walter Benjamin.
Comprometida com uma abordagem acadêmica, Calabi explora os atributos físicos, espaciais, simbólicos e teóricos que presidiram a construção da cidade da primeira fase da Renascença.
Técnicas de construção
Acompanhamos no seu texto a história dos modos de utilização das técnicas construtivas em favor da vida urbana.
No interior do perímetro das muralhas medievais, cuja função se extinguiu com a invenção da pólvora, ganha força um conjunto de transformações físicas que modificavam profundamente a organização urbana.
Retificação e alargamento das tortuosas ruas medievais, abertura de praças e edificação de pontes abrem espaço para a vida coletiva, reorganizam o tecido urbano medieval, buscando torná-lo mais representativo da organização pós-medieval. Isso implicou a criação de uma monumentalidade que colocava toda a cidade em evidência, deixando claro que ela não é apenas a imagem da vontade do príncipe, mas um poderoso instrumento de seu exercício de poder.
Ambivalência
Apesar dos poucos pontos em comum no que se refere ao método de abordagem, nos dois textos há questões que os conduzem a um mesmo objetivo: entender o sentido da urbanidade, concebida como experiência social, psicológica e cultural que nasce dentro do espaço concreto das cidades.
O caráter ambivalente da cidade grafado no título do livro de Bauman nasce justamente da necessidade de colocar a grande cidade no centro do debate sobre o mundo contemporâneo, admitindo todos os seus problemas.
Afinal, a confiança nelas, como defende Bauman, nasce justamente da possibilidade de reestruturá-las como ocorreu no século 15, quando se organizaram as primeiras manifestações da cidade moderna, almejando formas de convívio mais harmônicas.

REGINA PROSPERI MEYER é professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Marx, as crises e a "desregulação financeira"

A causa das crises econômicas, do ponto de vista marxista, é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam espaço para a continuidade do processo de acumulação. Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. O artigo é da economista Leda Paulani, o terceiro da série "Marxismo e Século XXI", organizada pela Carta Maior, com curadoria de Chico de Oliveira.

Leda Paulani

No terceiro texto da Série ‘Marxismo e Século XXI” – seminário virtual organizado por Carta Maior, com curadoria do sociólogo Chico de Oliveira – a economista Leda Paulani aborda a conceituação das crises cíclicas do capitalismo. Ela explica que Marx enxerga nas crises uma característica definidora do capitalismo, o modo pelo qual o sistema funciona, não o modo pelo qual ele falha. A causa das crises, do ponto de vista marxista, é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam espaço para a continuidade do processo de acumulação. Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. Leia o artigo de Leda Paulani.
Em artigo de seu clássico livro The Wordly Philosophers, Robert Heilbroner afirma que, conforme Marx, as crises servem para renovar a capacidade de expansão do sistema, sendo assim o modo pelo qual ele funciona, não o modo pelo qual ele falha. Não há forma mais concisa para expressar o que pensava o profeta mouro desses fenômenos.
Bem ao contrário do que postula a economia convencional, para a qual o estado normal da economia capitalista é a harmonia e o equilíbrio, sendo as crises momentos incomuns, rapidamente corrigidos se o mercado for deixado em paz, Marx enxerga nesses eventos a característica definidora do capitalismo. Vendo-o como um sistema complexo e dinâmico, movido a contradições, esses episódios são, para ele, tão naturais quanto necessários.
Na visão de Marx, a crise é o momento em que as contradições se materializam e exigem solução, sob pena de se comprometer a viabilidade do sistema. A causa das crises é sempre o excesso de acumulação de capital, que, a partir de determinado momento, não encontra condições de se realizar. Ao permitir a queima de capital, as crises liberam o espaço para a continuidade do processo de acumulação.
Tanto nos momentos de aceleração e auge quanto nos de desaceleração e crise, o lado produtivo e o lado financeiro operam combinadamente, cabendo ao último um papel multiplicador, pois ele tende a inflar a economia nos momentos de crescimento, tornando mais profundos, por conseqüência, os momentos de crise. Mas o pressuposto aí é que o lado produtivo comande o processo (o que não significa que ele possa por isso ficar imune ao trabalho amplificador que o lado financeiro produz).
Há quase três décadas, porém, o capitalismo vem sendo comandado pelo lado financeiro, e isso introduziu mudanças significativas na forma de operar do sistema. A riqueza financeira, constituída em boa parte por aquilo que Marx denominou capital fictício, cresce exponencialmente, enquanto o crescimento da renda real (PIB) e, por conseguinte, da riqueza real, dá-se de modo muito mais lento.
Com isso, o sistema fica estruturalmente frágil, dado que o caráter rentista da propriedade do capital se choca com o desenvolvimento vagaroso da produção de valor excedente. As pressões que se exercem sobre o setor produtivo são por isso enormes, justificando toda sorte de barbarismos e retrocessos na relação capital-trabalho. Ademais, o sistema fica muito mais exposto às crises provocadas pelos movimentos dos estoques de riqueza (ativos), que caracterizam o lado financeiro do sistema.
Dos anos 1980 para cá, o capitalismo já experimentou pelo menos cinco grandes crises, contando a maior delas, esta que ora presenciamos. Todas essas conturbações foram provocadas pela intensa mobilidade do capital financeiro planeta afora, com a recorrente formação e estouro de bolhas de ativos. A forma de “resolver” essas crises tem jogado para frente, de forma magnificada, o mesmo problema, pois busca salvar a riqueza financeira da fogueira que ela mesma provoca.

Leda Paulani é professora titular do Departamento de Economia da FEA/USP

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Escrito nas estrelas

Houve um tempo em que todo bom cientista sabia fazer um mapa astral. Este é o relato de como a astrologia foi decisiva para a origem da ciência moderna.

Reinaldo José Lopes

Tycho Brahe era uma figuraça, não há a menor dúvida. O nobre dinamarquês foi provavelmente o primeiro e único astrônomo do mundo a ostentar um nariz postiço de metal (o de verdade foi decepado durante um duelo) e a ter seu próprio bobo da corte, um anão chamado Jeppe. Brahe bateu as botas no outono de 1601, depois de literalmente estourar a própria bexiga – não quis ofender o anfitrião da festa em que estava e se recusou a se levantar da mesa para ir ao banheiro. Seu discípulo Johannes Kepler anotou meticulosamente a posição da Lua, de Saturno e de Marte no momento da morte e confirmou que, segundo os astros, a hora de Brahe tinha chegado mesmo.

Tudo isso não passaria de esquisitices do Renascimentonão fosse pelo fato de que a dobradinha Brahe-Kepler ajudou a fundar a ciência moderna, ao lado de sujeitos como Galileu Galilei e, mais tarde, Isaac Newton. As medições realizadas no nababesco observatório de Brahe, numa ilha do mar Báltico com instalações subterrâneas e instrumentos gigantes que permitiam observações com precisão inédita, fizeram com que Kepler desvendasse o movimento dos planetas do sistema solar e abrisse caminho para a compreensão da lei da gravidade. Ambos acreditavam piamente na conexão entre a ordem do Universo e a vida humana. E garantiam que o melhor jeito de encontrá-la era traçar um mapa astral.

É isso mesmo que você acaba de ler: embora a ciência hoje seja uma inimiga feroz da astrologia, questionando seus princípios, ela tem uma dívida um bocado grande com a arte de ler os desígnios dos astros. Por séculos, os sujeitos que tentavam entender a ordem do Cosmos eram os mesmos que recebiam gordas recompensas para contar aos poderosos o que o futuro reservava – e não pense que eles faziam isso só para descolar um extra no fim do mês. Conheça a história de como a astrologia fez o conhecimento científico avançar – e de como as duas coisas terminaram por se separar, provavelmente sem chance de reconciliação.

Um céu cheio de estrelas

De uma coisa pouca gente duvida: conhecimentos básicos sobre o movimento dos astros no céu são patrimônio da humanidade desde que o mundo é mundo. Monumentos pré-históricos que dão testemunho desse conhecimento aparecem no planeta todo, e ninguém nunca precisou de tecnologia avançada – aliás, de tecnologia nenhuma – para entender o traçado aparente do Sol, da Lua, dos planetas e das estrelas. "Tais conhecimentos vêm da observação da natureza, e qualquer caçador-coletor é capaz de obtê-los", diz o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da USP.

Entre as evidências mais antigas desse saber estaria uma estatueta de marfim de mamute, achada na atual Alemanha e com mais de 30 mil anos de idade.

Segundo o alemão Michael Rappenglück, especialista em arqueoastronomia (os conhecimentos astronômicos dos povos antigos), a estatueta, com forma humana estilizada e cabeça de leão, seria uma das representações mais antigas da constelação de Órion.

Certo ou errado, Rappenglück provavelmente tem razão em apontar que as constelações são reconhecidas como tais há vários milhares de anos. Quase tão antiga quanto esse conhecimento é a percepção de que o Sol traça um caminho (que hoje sabemos ser apenas aparente, pois quem se move é a Terra) pelo céu ao longo do ano, e que esse trajeto determina as estações do ano; e que algumas "estrelas" – chamadas hoje de planetas – se movimentam também pela abóbada celeste, enquanto outras permanecem (aparentemente) paradas ali o tempo todo. Monumentos do Neolítico, com idade entre 5 mil e 10 mil anos, deixam claro que já se sabia calcular momentos como o solstício de inverno, a data usada hoje para marcar o início dessa estação e que define o momento em que um dos hemisférios da Terra recebe menos luz solar durante o ano.

Ao juntar o conhecimento sobre as constelações com o caminho que o Sol, a Lua e os planetas descrevem no céu, os povos antigos passaram a contar com um verdadeiro relógio cósmico, que os ajudava a prever mudanças relevantes no clima e na natureza. Isso se tornou ainda mais importante com o avanço da agricultura, porque o único jeito de plantar e colher no tempo certo era seguir os sinais do céu. É claro que não dá para afirmar nada sobre isso com certeza (afinal, tais fatos aconteceram milhares de anos antes que a história começasse a ser registrada em forma escrita), mas é bastante possível que a mente dos povos antigos tenha saltado da conexão entre os acontecimentos celestes e os ciclos da natureza para uma relação direta entre os astros e a história de cada ser humano.

Coincidência ou não, parece ter sido na Mesopotâmia, o mais antigo berço da agricultura, que a idéia do que hoje chamamos de astrologia tomou corpo. Cerca de 1 000 anos antes de Cristo – no mínimo -, povos como babilônios e assírios já sabiam prever com precisão eclipses do Sol e da Lua. E iam além disso. Nas tabuletas de argila usadas como livros por esses povos do atual Iraque, arqueólogos encontraram predições que associavam as mudanças no céu a calamidades na Terra: "Quando Júpiter estiver na frente de Marte, haverá trigo nos campos e homens serão mortos… quando Marte se aproximar de Júpiter, haverá grande devastação… naquele ano o rei de Akkad morrerá", e por aí vão os registros. É dessa região que vem o mais antigo mapa astral traçado para o nascimento de alguém, uma criança que veio ao mundo ao sul da atual Bagdá em 29 de abril do ano 410 a.C. – o calendário na Babilônia já era solar, o que permitiu aos pesquisadores calcular com exatidão a data do nascimento.

Pouco a pouco, essas observações e predições relativamente simples foram dando lugar a um sistema padronizado, que dividia o céu em 12 casas, correspondentes aos 12 signos do zodíaco ainda usados hoje. Como o próprio Kepler explicaria mais tarde: "Os fazendeiros precisavam buscar seu calendário no céu. Quando a Lua estava cheia, eles podiam ver, por exemplo, que a primeira lua cheia aparecia nos chifres de Áries, a segunda perto das Plêiades, a terceira perto de Gêmeos etc., e que finalmente a 13ª aparecia de novo na primeira constelação". Esse primeiro calendário, lunar, foi unido à trajetória do Sol para criar a primeira versão da folhinha de 365 dias que ainda utilizamos.

Os conhecimentos mesopotâmicos não demoraram a se espalhar. Para o oeste, eles chegaram até o Egito e a Grécia; para leste, foram abraçados pelos persas, lar da casta dos magos, a classe de sacerdotes envolvida no estudo da astrologia que daria origem à história dos Reis Magos. No século 4 a.C., boa parte dessas terras, das cidades-Estado gregas às fronteiras da Índia, foram anexadas ao império de Alexandre, o Grande, criando um ambiente propício para que o conhecimento astrológico (e astronômico) se tornasse unificado e padronizado.

A adoção do grego como língua oficial da ciência e da cultura só fez impulsionar o intercâmbio entre estudiosos dos astros. E quando Roma chegou ao poder, o conhecimento astrológico foi abraçado com entusiasmo por seus poderosos nobres. Consta que vários imperadores romanos não davam um passo sem consultar seu astrônomo particular. Adriano, cujo reinado terminou no ano 138, teria feito predições para si mesmo todo santo ano.

Foi por volta da mesma época que um egípcio de fala grega, Cláudio Ptolomeu, desenvolveu a tese de que o Universo era ordenado por um modelo geocêntrico, no qual o Sol, a Lua e todos os demais planetas giravam em torno da Terra. Foi a primeira vez que alguém tentou explicar de forma coerente a mecânica do Cosmos. Estava tudo errado, claro, mas para o que se sabia na época ele até que se saiu razoavelmente bem. O trabalho ficou conhecido pelo nome árabe de Almagesto.

A cara-metade do Almagesto, por assim dizer, era o chamado Tetrabiblos.("4 livros", em grego). Enquanto o primeiro descrevia o movimento dos planetas, o segundo era um guia de como interpretá-los, explicando todas as regras básicas do trabalho astrológico – de como traçar um mapa astral até um método para determinar a duração da vida de uma pessoa no nascimento. Nos séculos seguintes, o Tetrabiblos passaria a ser o guia-padrão para qualquer astrólogo que se prezasse.

Por volta dessa época, também, Ptolomeu e outros astrólogos proeminentes estabeleceram a divisão da astrologia em 4 ramos principais. A divisão tentava cobrir todos os ramos da atividade humana de forma completa e adequada. Assim, surgiram a área mundana (ligada à sociedade como um todo, prevendo coisas como clima, colheitas, guerras e política); natal, baseada na data de nascimento de alguém (ou de alguma coisa, como a fundação de uma sociedade); horária, na qual um mapa astral é traçado com base na hora em que uma questão foi feita ao astrólogo; e eletiva, cujo propósito é escolher (ou eleger, como diz o nome) o melhor momento para se fazer alguma coisa.

A estrela islâmica

A queda de Roma acabou levando a uma diminuição do conhecimento astrológico na região durante os primeiros séculos da Idade Média. A prática da arte exigia um grau de educação formal e sofisticação tecnológica que sumiu junto com o domínio romano. Mas o surgimento do islã como nova potência mundial ajudou a preencher esse vácuo.

Com a conquista das regiões de influência persa e grega, a partir do século 7, os seguidores de Maomé traduziram para o árabe todas as principais obras ligadas à astrologia e às demais ciências da época. E, em muitos casos, ainda ampliaram esse conhecimento. Os árabes usaram a astrologia como base para avanços na matemática e na ótica, por exemplo. Quando as cruzadas colocaram em contato os mundos islâmico e cristão, as obras em árabe, traduzidas, impulsionaram avanços das ciências e das artes. A alquimia, "mãe" da química moderna, também tomou impulso com o conhecimento astrológico, porque considerava-se que os materiais alquímicos eram influenciados por princípios dos astros – acreditava-se que metais eram ligados a planetas, por exemplo.

O ápice desse processo de desenvolvimento do conhecimento e das artes passaria a ser conhecido como Renascimento, e algumas das principais figuras da ciência renascentista eram praticantes da astrologia. É o caso do italiano Girolamo Cardano, nascido em 1501. Seu trabalho matemático ajudou a fundar a álgebra moderna, e Cardano também estava à frente de seu tempo como médico, ao insistir que a higiene no quarto e na alimentação do doente eram essenciais para a cura – coisa óbvia agora, mas que nenhum médico medieval costumava levar em conta. Tabelas e mapas planetários produzidos por astrólogos-matemáticos guiaram a viagem de Colombo para a América em 1492, e o astrólogo Rui Faleiro ajudou Fernão de Magalhães a planejar a primeira expedição marítima a dar a volta ao mundo, que partiu em 1519 da Espanha.

Esses avanços vinham justamente quando o sistema cósmico elaborado por Ptolomeu – Terra no centro, planetas em volta – começava a desmoronar. O religioso polonês Nicolau Copérnico deflagrou a mudança ao propor que, na verdade, o centro do Universo era o Sol. Por ser contrária ao que a Bíblia parecia afirmar, a tese foi condenada pela Igreja.

Foi nesse contexto que Tycho Brahe, filho de um lorde e de uma condessa dinamarqueses, começou a atuar. Brahe conseguiu observar uma "estrela nova" (que hoje sabemos ser o resultado da explosão que marca a morte de uma estrela distante, aumentando muito seu brilho) e mostrar que ela estava acontecendo a uma imensa distância da Terra. Isso sugeria que a chamada região das estrelas fixas, supostamente imutável segundo a doutrina de Ptolomeu, não era tão imutável assim. Brahe foi além: tentou conciliar o sistema de Copérnico e o ptolomaico ao criar um modelo em que o Sol e a Lua giravam ao redor da Terra, enquanto os demais planetas circundavam o Sol.

Com o apoio do rei da Dinamarca, Frederico 2º, Brahe construiu um observatório na ilha de Hven, tão gigantesco que passou a ser conhecido como Uraniborg, "fortaleza do céu". Lá, Brahe e seus discípulos usaram os melhores instrumentos da época (antes da invenção do telescópio, é bom lembrar) para realizar observações extremamente precisas e abrangentes. Ao mesmo tempo, Brahe professava sua crença na tradição astrológica e fez um mapa astral detalhado do príncipe-herdeiro dinamarquês, Cristiano 4º. Ele só parece não ter previsto que Cristiano retiraria o apoio real a suas pesquisas quando chegasse ao poder. Por sorte, a fama de Brahe lhe granjeou o posto de matemático do imperador germânico Rodolfo 2º. Por conta do novo posto, ele se mudou para perto de Praga, onde morreu depois da bebedeira que mencionamos no começo desta reportagem.

O alemão Kepler herdou o posto do mestre, e não ficou devendo em nada a ele. Usou os dados obtidos em Uraniborg para confirmar que o modelo de Copérnico (e não o meio-termo de seu mestre) era o correto, e também para mostrar que as órbitas dos planetas do sistema solar não eram círculos, formas consideradas "perfeitas" no sistema ptolomaico, mas elipses – círculos "espichados" ou ovalados, digamos. Kepler também jurava de pés juntos que a astrologia era uma forma "divina" de conhecimento, e diz-se que ele teria previsto a própria morte, em 1630.

Em certo sentido, a carreira de Kepler marcou tanto a ascensão quanto o começo da queda do prestígio científico da astrologia. A vitória do modelo de Copérnico teve muito a ver com isso: ao tirar a Terra do centro das coisas, ele ajudou a tornar menos plausível a idéia de que a vida humana do dia-a-dia é influenciada pelos acontecimentos celestes. Conforme o conhecimento astronômico avançava, ficava cada vez mais claro que o Cosmos era imensamente vasto, e que o Sol e seus planetas não passavam de um cantinho insignificante de uma galáxia como qualquer outra Universo afora. Ou que, embora pareçam alinhadas se vistas da Terra, as constelações não são formações naturais. No espaço, as estrelas que formam Libra ou Aquário ocupam posições sem qualquer relação. Até onde sabemos, fora as influências óbvias do Sol e da Lua, astros têm pouco ou nada a ver com o dia-a-dia da Terra. Mas, sem a idéia de que isso poderia acontecer, talvez nunca tivéssemos chegado a um conhecimento mais claro da imensidão lá fora.

Se hoje todo mundo consegue dizer se é de Libra ou Escorpião, deve-se agradecer ao britânico William Allen – aliás, Alan Leo, ou "Alan de Leão", nome que ele assumiu de acordo com o seu signo solar. Nascido em 1860, Leo foi um dos pioneiros da astrologia para as massas, fundando uma revista batizada de Modern Astrology e popularizando a idéia de que o local ocupado pelo Sol no zodíaco durante o nascimento da pessoa era a principal influência sobre o seu destino e, principalmente, o seu caráter. Para Leo, o Sol era o "princípio universal", a "fonte primal da existência". A tese é bastante diferente da longa tradição astronômica desde Ptolomeu, que sempre viu o Sol como apenas mais uma energia planetária, que influenciava as demais, mas também sofria influências poderosas delas. Seja lá como for,a idéia de Leo rendeu um bocado, graças principalmente à oferta de horóscopo por apenas um xelim (subdivisão hoje obsoleta que equivalia a um vigésimoda libra britânica). Ele fundou um curso de astrologia por correspondência, abriu uma editora e montou filiais em Paris e Nova York.Quem seguiu os passos de Leo com sucesso estrondoso foi a americana Evangeline Adams. Dizendo-se descendente de John Quincy Adams, um dos primeiros presidentes dos EUA, a astróloga oferecia seus serviços para uma variada clientela, até ser presa por charlatanismo, em 1914. Adams não se intimidou: no julgamento, convenceu o juiz de que a astrologia era uma ciência séria. Absolvida, tornou-se a primeira astróloga a ter programa de rádio em 1930, além de lançar uma autobiografia e 3 guias astrológicos paraleigos. Seus clientes incluíam o rei inglês Eduardo 7º e o ator Charles Chaplin.

Enquanto mesopotâmicos, árabes e europeus transformavam a astrologia em arte elaborada, outras tradições tão ou mais antigas de leitura dos astros lançavam raízes na China. Há indícios de que a astrologia tenha se desenvolvido por lá antes do ano 2000 a.C. Curiosamente, as bases eram parecidas com a da astrologia mesopotâmica: um calendário anual que incorporava conhecimentos sobre as constelações. Chineses também desenvolveram um sistema que previa o destino de uma pessoa com base na data de nascimento – algo como um mapa astral. No lugar das 12 constelações do zodíaco ocidental, havia um ciclo de 12 anos, cada um correspondente a um animal – hoje conhecido como horóscopo chinês. Na sociedade centralizada da China, astrólogos eram funcionários públicos, subordinados diretamente ao imperador. Previsões consideradas subversivas – golpes de Estado ou doenças na família real – eram proibidas. Nos relatos do viajante italiano Marco Polo, do século 13, é mencionada a existência de 5 mil astrólogos na corte do imperador de origem mongol Kublai Khan. Outro europeu, o jesuíta Matteo Ricci, visitou Pequim em 1583 e relatou que era um crime capital estudar astrologia sem autorização do soberano chinês.

A Bruxa de Kepler, James A. Connor, Rocco, 2005

The Fated Sky, Benson Bobrick, Simon & Schuster, EUA, 2005

Heavenly Intrigue, Joshua Gilder e Anne-Lee Gilder, Anchor Books, EUA, 2005

Rumo ao Infinito, Salvador Nogueira, Globo, 2005.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

Pesquisa mostra ação do alho e da sálvia na carne de frango

Estudo da FEA avalia potencial de condimentos como conservantes e antioxidantes naturais

CARMO GALLO NETTO

A deterioração é a maior responsável pelas perdas econômicas nas indústrias processadoras de carne e de produtos derivados. O problema é causado por reações químicas que ocorrem em sua porção gordurosa, ou lipídica, desencadeadas pela ação da luz, do corte ou moagem, do cozimento e do armazenamento. Não raro levam à perda de qualidade e consequente rejeição do consumidor. Estas reações, responsáveis pela formação de vários compostos que alteram as características sensoriais dos produtos, produzem odores e sabores desagradáveis, diminuem o valor nutricional do alimento e podem até mesmo ser nocivos à saúde.

Para evitar estes inconvenientes, são utilizadas substâncias com a finalidade de retardar tais transformações, os chamados antioxidantes. Atualmente, o consumidor mais esclarecido procura evitar alimentos que contenham aditivos sintéticos, o que tem levado à sua substituição por produtos de origem natural. Para isso, têm sido usados condimentos, ervas, frutas, hortaliças e vegetais que contêm compostos com ação antioxidante.

A atuação de dois condimentos, a sálvia e o alho, como conservantes ou antioxidantes naturais na carne de frango foi objeto de pesquisa que deu origem à tese de doutorado de Lilian Regina Barros Mariutti, desenvolvida na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp e na Universidade de Copenhagem, na Dinamarca, sob orientação da professora Neura Bragagnolo, do Laboratório de Química de Alimentos, do Departamento de Ciências de Alimentos da FEA. A pesquisa foi financiada pela Fapesp.

O trabalho objetivou verificar a influência desses condimentos na formação de compostos oriundos da oxidação dos lipídios e na degradação de alguns constituintes nutricionais importantes, como os ácidos graxos insaturados e a vitamina E, quando o frango é grelhado ou processado sob alta pressão e também quando armazenado sob refrigeração e congelamento.

Paralelamente, a pesquisa se deteve na ação desses condimentos na formação de óxidos de colesterol, formados a partir da oxidação do colesterol naturalmente presente na carne de frango, e que são relacionados ao desenvolvimento de doenças degenerativas como o mal de Alzeimer e a catarata, ao câncer e à aterosclerose.

Surpreendente e diferentemente do esperado, a adição de alho aumentou a formação dos compostos indesejáveis, acelerando o desenvolvimento da oxidação da carne de frango e a consequente perda de qualidade do produto, principalmente durante o processo de armazenamento.

De outro lado, a adição de sálvia à carne de frango foi eficaz na contenção da oxidação lipídica e na formação de óxidos de colesterol em todas as condições testadas, detendo inclusive os efeitos oxidantes do alho quando juntada a ele.

Lílian explica: “Fizemos uma pesquisa prévia para determinar in vitro que condimentos ou ervas teriam potencial como antioxidantes. Testamos salsa, sálvia, alecrim, cebola, coloral, alho e vários outros, cujos resultados foram publicados no Brazilian Archives of Biology and Technology. Como deveríamos selecionar apenas alguns, optamos pela sálvia, que pertence à mesma família botânica do alecrim, que é o condimento mais estudado na atualidade, e por isso já utilizado em vários alimentos como carne de frango, carne suína, e óleos vegetais”, afirmou a pesquisadora.

Além disso, prossegue Lilian, nos testes preliminares in vitro a sálvia apresentou poder antioxidante maior que o próprio alecrim. Segundo ela, a escolha do alho se deu devido à diferença no mecanismo de ação esperado e pelo fato deste ser muito apreciado e utilizado na culinária brasileira. “Embora o alho tenha revelado atividade discreta nestes estudos preliminares, fomos levados mesmo assim a selecioná-lo, porque constatamos que existem várias publicações bastante controversas sobre sua ação, que ora o apresentam como de ação pouco significativa, ora como fator pró-oxidante e ora como eficiente antioxidante”.

Lilian esclarece que os estudos in vitro não permitem deduções quanto à ação da sálvia e do alho na carne de frango, pois é muito importante ter em mente que os resultados in vitro não serão necessariamente reproduzidos no alimento e, da mesma maneira, podem apresentar-se diferentes nos organismos humanos, assim como o efeito observado na carne de frango não obrigatoriamente se repetirá em outro tipo de carne ou alimento. Existem vários fatores intervenientes como a composição do alimento, o modo como foi processado e como foi conservado, sendo que todos eles determinam a ação dos condimentos.

A escolha
A carne de frango foi escolhida porque é muito consumida no Brasil, tem preço acessível, possui mais de 60% da gordura, é constituída por ácidos graxos insaturados, o que a torna suscetível à oxidação e viabiliza o estudo da ação dos condimentos sobre ela. Os ácidos graxos insaturados são benéficos à saúde e por isso devem ser preservados, evitando que se degradem, o que pode gerar produtos nocivos ou sensorialmente desagradáveis.

Mas existem outros fatores que justificam a escolha, segundo Lílian. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de carne de frango e o principal exportador, sendo a região Sul responsável por 52% da produção nacional e por 75% das exportações. A avicultura é o segundo item na pauta de exportações do agronegócio brasileiro e o quinto item da balança comercial do país. De acordo com as estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA, em 2008 o Brasil foi o quarto maior consumidor de carne de frango do mundo, atrás apenas de EUA, China e União Européia. Cada brasileiro consome em média 38 quilos de carne de frango por ano.

A avicultura brasileira destaca-se também pelo aumento da exportação de produtos com maior valor agregado, prontos para consumo, que atendem o conceito de alimentos saudáveis, de rápido preparo e com demanda crescente no exterior. Tais produtos, de longa vida de prateleira, exigem uso de aditivos e outros métodos de conservação que mantenham suas características organolépticas.

A pesquisa
No início, a pesquisa se deteve na otimização e validação de métodos para a determinação simultânea de colesterol e onze óxidos de colesterol por HPLC –UV-RI-MS – publicados no Journal Agricultural Food Chemistry – e na determinação de aldeídos voláteis pela técnica de SPME-GC em carne de frango.

O trabalho de investigação consistiu na adição de sal, sálvia e alho desidratados em hambúrgueres, separadamente e conjuntamente. Os hambúrgueres crus e grelhados foram embalados em sacos de polietileno permeáveis ao oxigênio e estocados no escuro a menos 18 graus Celsius durante 90 dias. Análises periódicas permitiram acompanhar o processo oxidativo.

A adição de 0,1% de sálvia à carne de frango mostrou-se eficaz em minimizar e retardar a oxidação dos lipídios e do colesterol durante o processo térmico e o armazenamento, sendo também capaz de reduzir os efeitos pró-oxidantes da adição de 0,5% de sal.

Por outro lado, a adição de 0,1% de alho em peito de frango apresentou comportamento variável de acordo com a metodologia analítica utilizada para a avaliação da oxidação lipídica, sugerindo que o alho não tem efeito antioxidante nessa matriz, podendo inclusive acelerar o processo de oxidação.

Além disso, a professora Neura esclarece que o processo oxidativo foi verificado também através da formação de óxidos de colesterol, compostos considerados prejudiciais à saúde humana, analisando a cada 30 dias amostras de hambúrgueres crus e grelhados armazenados sob congelamento durante 90 dias. “Também neste caso o objetivo foi estudar as condições de preservação da molécula do colesterol, o que exigiu uma série de investigações e testes que permitissem acompanhar o que acontecia tanto com os ácidos graxos como com a molécula do colesterol”.

Estes estudos permitiram constatar que todas as amostras que receberam adição de sal apresentaram maior formação de óxidos de colesterol e diminuição dos ácidos graxos insaturados quando comparadas com as respectivas amostras sem sal. Ou seja, o sal sempre foi um fator catalítico das reações indesejáveis. Já as amostras com sálvia, mesmo aquelas com sal, apresentaram os menores teores de óxidos de colesterol dentre todas e foram as únicas que conseguiram preservar os teores de ácidos graxos, tanto durante o processo de aquecimento como no período de armazenamento por 90 dias.

Segundo Lilian, as diferenças observadas foram muito significativas. A pesquisadora realizou ainda determinações para medir a formação de aldeídos voláteis, geralmente associadas aos odores desagradáveis, e os resultados referendaram a ação positiva da sálvia na manutenção da composição e da qualidade da carne de frango crua e grelhada quando estocada sob congelamento.

A adição de alho levou aos piores resultados até mesmo quando comparados aos observados no frango que não sofreu nenhuma adição. Não foi capaz de manter os teores de ácidos graxos e, na amostra que também recebeu adição de sal, a formação de óxidos de colesterol revelou-se muito maior do que do frango de controle e maior ainda do que no frango com apenas sal.

Em Copenhagem, Lilian estudou o efeito destes antioxidantes quando a carne de frango foi submetida à alta pressão. A aplicação de alta pressão em alimentos é uma tecnologia emergente, capaz de realizar uma “pasteurização a frio”, ou seja, eliminar os microorganismos patogênicos dos alimentos sem causar as alterações devidas ao tratamento térmico, e já vem sendo utilizada com sucesso na Europa, Japão e EUA.

Neste caso, a sálvia também foi capaz de conter a oxidação lipídica durante o armazenamento a quatro graus Celsius por duas semanas, enquanto o alho teve efeito pró-oxidante, que foi parcialmente minimizado pela adição simultânea de sálvia. Além disso, Lilian investigou também os possíveis mecanismos envolvidos na ação da sálvia e do alho no retardamento ou aceleração da oxidação lipídica. Esses estudos foram realizados através da espectrometria de ressonância paramagnética, que permite quantificar a formação de radicais livres, que constitui o evento inicial da oxidação lipídica. Os resultados foram publicados na European Food Research and Technology.

Segundo Lilian, em relação ao mecanismo de ação, ficou demonstrado que a sálvia, através de seus compostos polifenólicos, desativa os radicais livres produzidos no início da decomposição dos lipídios, impedindo que se desenvolvam as reações em cadeia e não se produzam novos compostos. “No caso do alho, os resultados sobre o mecanismo envolvido não foram conclusivos, necessitando de investigações complementares que estão em andamento”.

A pesquisadora acrescenta que os resultados experimentais permitem concluir que a adição de 0,1% de sálvia à carne de frango é efetiva como antioxidante, garantindo a composição de ácidos graxos insaturados e minimizando a formação de óxidos de colesterol e de aldeídos durante o processamento e o armazenamento. Já a adição de alho não é capaz de conter a oxidação lipídica e, em alguns casos, age até como pró-oxidante. Ela afirma ainda que a sálvia é também capaz de conter essa ação do alho quase que totalmente e que seu mecanismo de ação se dá pela desativação de radicais livres.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

A política, essa donna mobile

Recusada pelo presidente, a hipótese do terceiro mandato vaga pelo mundo da opinião e da política.

Renato Lessa

Áulicos, gulosos e palpiteiros têm certeza sobre a sucessão. Já os principais atores, nem tanto

Áulicos, gulosos e palpiteiros têm certeza sobre a sucessão. Já os principais atores, nem tanto

 

 

 

 

 

 

- Primeiro, ao que parece, nunca como antes na história deste país o capitalismo esteve tão consolidado. Há disso sinais eloquentes, todos inscritos no que há tempos designávamos como "a dimensão objetiva da vida social": o mundo da produção, das trocas e da economia política, em geral. Os termos do mundo do mercado estão, no entanto, inscritos, para além da chamada vida material, na configuração das expectativas dos cidadãos da República. O horizonte natural da "boa sociedade" parece não mais colidir com os assim chamados aspectos estruturais e com os valores daquela ordem. A demanda por inclusão, por exemplo, fixada nos semblantes e no vozerio de expressões políticas tidas como de maior radicalidade, está a indicar os contornos do horizonte de expectativas nos quais nos inserimos.
A semântica da inclusão opera na falha – ou na exaustão – da semântica da transformação. É mesmo de uma viragem político-existencial que se trata: a inclusão neste mundo dispensa o salto alucinatório na direção de outro mundo. Com efeito, a passagem entre as duas ordens semânticas, se vier, dependerá da operação mágica de uma megaalquimia: os efeitos mecânicos e de escala da inclusão acabarão por reconfigurar a forma e o sentido da experiência social, transformando-a, ao final. A hipótese traz consigo a tese de sabor fideísta e espontaneísta de que a democratização é antes propulsionada pelo volume material da incorporação do que por alguma direção político-cultural que venha a lhe conferir identidade política concreta. O tema, como sabemos, é vasto e aberto à imparável controvérsia, com implicações fortes para uma teoria da agência política e social.
Em segundo lugar, o cenário de consolidação capitalista, no entanto, é assaltado por uma curiosa assincronia: no âmbito econômico, os valores e as práticas do livre mercado; na esfera pública, valorização do Estado. É certo que os ventos da crise permitiram certa demonização retórica oficial dos efeitos deletérios de uma concepção de mundo que pensa a sociedade na ótica dos negócios. Mas, a despeito da conjuntura aziaga, a assincronia está posta desde 2003 (e mesmo desde antes). O interessante é que não se trata de uma oposição cujos polos estejam fixados respectivamente na sociedade e no Estado. É no núcleo mesmo da gestão do Estado que estão abrigados os que expressam, de forma tipificada, aquelas orientações díspares. Uma coalizão elástica e generosa incorpora um arco improvável que transita dos segmentos mais duros da direita social – os seres do agrobusiness e do mundo agrário, por exemplo – a hirsutas expressões do igualitarismo (um tanto desorientadas, é certo, pela linguagem do "reconhecimento"), nas hostes da esquerda.
Entre os antípodas desse arco, uma atualização prática de um mito brasileiro generoso: há lugar para todos. Mas, no lugar da harmonia e do "jogo cooperativo", a guerra de posições do interior do Estado. Nada de mobilização autônoma de forças sociais, o que implicaria a quebra do equilíbrio frágil daquilo que Luiz Werneck Vianna, em ensaio iluminado, identificou com a antiga imagem do "estado de compromisso". Se fosse outro o desenho, quanto mais os incluídos no arco reforçassem suas posições no âmbito da sociedade, mais difícil seria a administração política do governo.
Menos do que "Estado de Compromisso", parece-me ser o caso de uma "situação de compromisso" : uma forma de administrar o conflito político e social que depende do desempenho de seu principal operador pessoal. Estamos menos aqui na chave do pacto que deu origem ao consenso social europeu dos anos 50 e 60 e mais em um universo que exige as artes de um operador virtuoso.
Lula, ícone do presidencialismo de animação, veste bem a fatiota. Ninguém melhor do que ele se apresenta como protagonista de um mito de integração básica. Tem-se aqui o ator que estabelece as linhas de sutura – nunca de ruptura. Da assincronia entre economia e política passamos, pois, para a presença de um grande operador de sincronias, o presidente. É de se perguntar, a sustentabilidade do arranjo pode prescindir da presença física do seu operador?
O terceiro ponto: a pergunta precipita o diagnóstico geral sobre uma questão de conjuntura. O calendário eleitoral é uma das interpelações que o curto prazo impõe ao modo lulista de governar e a sua aparente imprescindibilidade na gestão sistêmica do país. Negada expressamente pelo presidente, a hipótese do terceiro mandato parece ainda assim errar, de algum modo, pelo mundo da opinião e da política, sem desaparecer inteiramente do horizonte e sem que inexistam dinâmicas propiciadoras, de ordem mais geral.
Mesmo como hipótese velada, o terceiro mandato poderá gerar efeitos imediatos. Não é absurdo imaginar benefícios para a oposição, em temporada de baixa qualificação política e cognitiva. Um governo não ultrapassável à direita não encontra na oposição conservadora reparos maiores, a não ser os de ocasião ou fundados em desvios – reais ou suspeitados – de conduta moral. A tese do terceiro mandato, se explicitamente posta, dará à oposição uma referência vertebradora. Dar-lhe-á ensejo a que abandone a guerrilha insincera do varejo e uma oportunidade para afirmações compungidas, e talvez não menos inautênticas, de apego à legalidade, com direito, por certo, a farto pugilato judiciário.
Desde o Golpe da Maioridade, em 1840, até os dias que correm, o País experimentou uma associação entre o enfrentamento de desafios macropolíticos, econômicos e sociais com o alongamento do calendário político, no sentido da maior durabilidade quer dos mandatos, quer dos arranjos que os sustentam. Da Maioridade resultou a plena instalação do Poder Moderador, e seu papel crucial para a consolidação do Estado Nacional. A viabilidade institucional da Primeira República resultou de um arranjo extralegal, estabelecido pelo presidente Campos Salles (1898-1902), que, a despeito da Constituição, eliminou do horizonte a possibilidade de vitória eleitoral das oposições. Os cenários de 1930, do Estado Novo e do experimento-64 têm todos como fulcro a perspectiva de congelamento e de extensão do ciclo político, em nome das transformações fundas na ordem social. Fernando Henrique Cardoso, por fim, submeteu o calendário político do País a seu diagnóstico que era imprescindível para a felicidade geral. Foi um dos pioneiros de recente prática sul-americana. Em todos esses momentos, dimensões sistêmicas fundamentais para o País estavam a ser tratadas.
Não parece ser trivial a associação entre a consolidação das dinâmicas básicas do mundo capitalista e a presença de mecanismos de minimização dos conflitos sociais "naturais". Lula, avesso à luta de classes, tem cumprido papel inestimável a tal respeito. Tal como nos momentos anteriormente mencionados, aqui estão a ser dados passos cruciais para a definição do que é e será o País. De tal cenário poderá resultar a alucinação da imprescindibilidade.
Viável ou não, em termos políticos e legais, o tema do terceiro mandato poderá vir a ser afetado, no entanto, pelo comportamento do principal personagem. Lula tem demonstrado aversão à hipótese. Apesar da ação de áulicos aflitos e gulosos, não há como apostar na insinceridade presidencial. Por certo, a política "è mobile", mas Lula, como um dos mais importantes personagens da história da República, sabe que sua bela biografia não terá acréscimo positivamente notável diante da mácula de haver modificado a Constituição, com finalidades idênticas às de seu antecessor.

Renato Lessa é professor titular de filosofia política do Instituto Universitário de Pesquisas do RJ (Universidade Candido Mendes) e da Universidade Federal Fluminense. Presidente do Instituto Ciência Hoje

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Apesar das promessas de auxílio, famílias de Gaza vivem na miséria

Ethan Bronner
Em Gaza

Dezenas de famílias ainda moram em tendas em meios a construções destruídas e tubulações enferrujadas. Com a proibição da entrada de materiais de construção na faixa de Gaza, algumas pessoas estão construindo casas de tijolos de barro cru. Com exceção de comida e remédios, tudo precisa ser contrabandeado do Egito por túneis subterrâneos no deserto. Entre os produtos mais procurados está um analgésico que provoca dependência, e que é usado para combater a depressão.

Quatro meses após Israel ter lançado uma guerra contra o território para acabar com o lançamento de foguetes do Hamas, e dois anos depois que o Hamas passou a controlar integralmente essa faixa costeira, Gaza parece uma ilha à deriva. Espremida de fora por um boicote israelense e egípcio, e de dentro pelos seus governantes islamitas, os 1,5 milhão de habitantes foram privados de qualquer produtividade ou esperança.
"Logo após o término dos ataques, todo mundo veio para cá – jornalistas, governos estrangeiros e instituições de caridade prometendo ajuda", afirma Hashem Dardona, 47, que encontra-se desempregado. "Agora, ninguém mais vem".
Mas como o governo Obama está pressionando Israel para que permita a entrada de materiais para a reconstrução, e com as atenções cada vez mais focadas nas divisões internas palestinas, a faixa de Gaza em breve voltará ao centro das negociações de paz do Oriente Médio.
Para muitos israelenses, a faixa de Gaza é um símbolo de tudo o que está errado quanto à soberania palestina, que eles veem cada vez mais como uma oportunidade para que Israel fique ao alcance dos foguetes das forças anti-israelenses, especialmente o Irã. A menos que encontre-se uma forma de reatar política e geograficamente a faixa de Gaza à Cisjordânia, mitigando-se ao mesmo tempo os temores israelenses, um Estado palestino parece estar mais distante do que nunca.
Isso deixa a faixa de Gaza suspensa em um estado de miséria que desafia categorizações fáceis. O território encontra-se, sem dúvida, com uma altíssima densidade populacional e em condição de pobreza, mas a sua situação é melhor do que a de quase toda a África, bem como de partes da Ásia. Não existe desnutrição aguda, e os índices de mortalidade infantil são comparáveis aos do Egito e da Jordânia, segundo Mahmoud Daher, representante local da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Isto ocorre porque, apesar de Israel e o Egito terem fechado as fronteiras nos últimos três anos na tentativa de esmagar o Hamas, Israel permite a entrada diária de rações de auxílio humanitário, deixando que entrem na faixa de Gaza cerca de cem caminhões com alimentos e remédios. Oficiais militares em Tel Aviv contam a quantidade mínima de calorias consumidas em Gaza para evitar um desastre. E a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) encarregada dos refugiados palestinos administra escolas e clínicas médicas que são limpas e eficientes.
Mas há muitos níveis de privação antes que se chegue a uma catástrofe, e os moradores da faixa de Gaza conhecem todos estes patamares. O território não conta com praticamente nada em termos de uma economia funcional, a não ser comércio básico e atividades agrícolas. A educação declinou terrivelmente, e os serviços médicos também estão caindo.
Há aqui dezenas de milhares de pessoas educadas e ambiciosas – professores, engenheiros, tradutores, gerentes empresariais – que não têm nada a fazer a não ser ficarem frustrados. Eles não podem praticar as suas profissões e são impedidos de sair. Essas pessoas recebem ajuda financeira humanitária e fumam em cafés. Uma pesquisa da ONU revela que houve um aumento da violência doméstica.
Muita gente diz ter passado a ingerir uma pequena cápsula de Tramal, o nome comercial de um analgésico semelhante a um opiato que faz aumentar o desejo sexual e a sensação de controle. Recentemente o Hamas ameaçou com pena de prisão os indivíduos que traficam e tomam a droga.
Mas mesmo assim a pílula entra em Gaza, juntamente com roupas, móveis e cigarros, através das centenas de túneis escavados no deserto na cidade de Rafah, na fronteira sul, trazida por empresários inescrupulosos que pagam às autoridades do Hamas um imposto sobre as mercadorias.
Túneis similares também servem de canais de entrada para armas. Israel bombardeia periodicamente esses túneis na esperança de enfraquecer o Hamas, que afirma que jamais reconhecerá Israel, e que se reserva o direito de usar a violência contra o Estado judeu até que este abandone todas as terras que ocupou na guerra de 1967. Depois disso, haveria uma trégua de dez anos enquanto os próximos passos fossem analisados, embora o estatuto do Hamas pregue a destruição de Israel em quaisquer fronteiras.
Israel iniciou o bloqueio contra a faixa de Gaza logo após o Hamas ter obtido uma surpreendente vitória nas eleições legislativas palestinas em 2006. O bloqueio foi intensificado depois que o Hamas expulsou totalmente a Autoridade Palestina da faixa de Gaza, em junho de 2007, após quatro dias de batalhas de rua. O apoio iraniano ao Hamas fez com que crescesse a convicção israelense de que o bloqueio é a ação correta.
O objetivo israelense é manter a população da faixa de Gaza em um mero nível de subsistência, de forma que a sua situação contraste com a da Cisjordânia, que em tese beneficia-se da ajuda econômica e do desenvolvimento político. Desta forma, os indivíduos que apoiam o Hamas perceberiam o seu erro. Porém, esse plano não tem transcorrido bem, em parte porque a Cisjordânia sob ocupação israelense não é exatamente um quadro paradisíaco, e ainda porque o Hamas parece a cada ano estar mais consolidado no poder em Gaza, mantendo as ruas limpas e a criminalidade reduzida, embora seja difícil avaliar a popularidade do grupo.
"O Hamas está aprendendo com os seus erros, e ficando cada vez mais forte", afirma Sharhabeed al-Zaeem, um proeminente advogado local. Ele e outros têm rogado às autoridades internacionais que façam com que os materiais de construções e outros produtos passem pelos pontos de entrada para o território, que estão fechados, e entrem finalmente na faixa de Gaza.
Eles argumentam que o atual sistema só beneficia o Hamas, já que o grupo impõe impostos sobre as mercadorias que entram pelos túneis e as operações cambiais limitadas, e o povo não o responsabiliza pelo cerco e o bloqueio israelenses. Eles afirmam que se fosse permitida a entrada de vidro e cimento pelos pontos de travessia para Israel, o Hamas não ficaria com o crédito e a Autoridade Palestina poderia coletar os impostos.
"O povo da faixa de Gaza está deprimido, e pessoas deprimidas voltam-se para o mito e a fantasia, o que significa religião e drogas", afirma Jawdat Khoudary, um empreiteiro do setor de construção civil. "Este tipo de prisão alimenta o extremismo. Deixem as pessoas saírem para que vejam uma versão diferente da realidade".
As autoridades israelenses continuam céticas quanto à abertura de fronteiras. Muitas acreditam que a guerra feita pelos israelenses serviu como dissuasão, e apontam como evidência disso a redução drástica do número de foguetes disparados. Eles temem que o aço e o cimento sejam desviados pelo Hamas para a produção de armas. Mas os israelenses estão sofrendo pressões dos norte-americanos e das Nações Unidas, e discutem um projeto piloto.
Enquanto isso, a faixa de Gaza parece-se cada dia mais com um Estado do Hamas, e parece menos vinculada à Cisjordânia. Os homens estão cada vez mais barbudos, e as mulheres mais cobertas. O Hamas é o principal empregador. Escolas e tribunais, que antes eram administrados pela Autoridade Palestina, dominada pela Fatah, encontram-se sob a autoridade do Hamas desde que o governo da Cisjordânica ordenou aos seus funcionários que ficassem em casa. O governo está coletando informações sobre companhias e grupos sem fins lucrativos e procurando assumir controle sobre as suas atividades.
Muita gente aqui está particularmente preocupada com os jovens e os seus horizontes. Em um programa cujo objetivo é ajudar jovens traumatizados pela guerra de janeiro, os adolescentes recebem canetas coloridas para desenhar o que quiserem, diz Farah Abu Qasem, 20, aluna de tradução de inglês que trabalha como voluntária no projeto.
"Eles parecem escolher apenas a cor preta e desenhar coisas como tanques de guerra", diz Qasem. "E quando peço-lhes que desenhem algo que represente o futuro, eles deixam o papel em branco".
Tradução: UOL

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Fôlego reduzido

O número de alunos na graduação, que teve o menor ritmo de crescimento desde 1999, demonstra a desaceleração do ensino superior do país

O número de matrículas no ensino superior brasileiro continua a crescer, mas em ritmo menor do que em anos anteriores. Pelos dados do Censo da Educação Superior de 2007, mais de 4,8 milhões de pessoas fazem um bacharelado presencial atualmente, 4,3% a mais do que em 2006, quando o número de alunos no sistema era de 4,6 milhões. Esse é o menor ritmo de crescimento desde 1999, quando o índice atingia a casa dos 10%. A estabilização no crescimento de matrículas já era esperada pelo segmento, que previa a saturação do mercado e as conseqüências da falta de alternativas para o financiamento estudantil. 
Clique para ver os gráficos de evolução de matrículas

"Embora ainda tenha muito espaço para crescer, as matrículas envolvem questões como mercado de trabalho e motivação, ou seja, outros aspectos que não estão só no âmbito da educação", avalia a diretora de estatísticas educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Maria Inês Pestana.

O Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), que há três anos faz projeções dos números do segmento, já esperava a desacelaração do ritmo de crescimento e havia projetado 4,9 milhões de alunos matriculados, sendo 3,6 milhões na rede privada, valores muito próximos aos revelados pelo Censo.
O crescimento de alunos matriculados mais uma vez se deu no âmbito das instituições particulares, que respondem por 74,5% das matrículas no ensino superior, com 3,6 milhões de alunos, aumento de 4,9% em relação a 2006, quando o sistema tinha 3,4 milhões de alunos.

Nas instituições públicas, o crescimento foi de 2,6%, e ainda se mantém no patamar de 1,2 milhão de alunos, próximo ao registrado em 2006. No período de 1997 a 2007, as instituições particulares cresceram 207% e as públicas 63%. Para se ter uma ideia da desaceleração do crescimento das matrículas, a média de crescimento por ano, de 2000 a 2003, entre as particulares foi de 16%. Agora, de 2004 a 2007, a média é de 7%, incluindo as matrículas do Programa Universidade para Todos (ProUni).

Aregião que mais agregou novos alunos pelo último levantamento do Censo da Educação Superior foi a Norte, com crescimento de 8,3%, passando de 280 mil matrículas em 2006 para 303 mil em 2007. Esse aumento possibilitou que a região Norte passasse a responder por 6,2% das matrículas do país, quando no ano anterior era responsável por 5,9% do alunado. Essa é uma das regiões onde os grandes grupos educacionais têm apostado atualmente, de olho na demanda ainda reprimida, como o Grupo DeVry, que neste ano comprou a Faculdade Nordeste (Fanor).
Por outro lado, os mercados que já mostravam indícios de saturação demonstraram em números as análises recentes dos consultores educacionais. A região que menos cresceu foi a Sudeste, com apenas 1,1% de aumento, passando de 2,3 milhões em 2006 para 2,4 milhões de matrículas em 2007. De qualquer forma, o Sudeste continua a responder por quase metade dos alunos no ensino superior brasileiro: 49,8%. Na relação de participação no cenário nacional, quem perdeu maior espaço foi a região Sul, que respondia por 18,2% das matrículas em 2006 e agora representa 17,7%.

Em São Paulo, o crescimento das matrículas ficou acima da média nacional,. Apesar disso, o Estado também emite sinais de estabilização do crescimento, mas especialistas apontam que o interior ainda tem capacidade de expansão. Prova disso são as recentes aquisições por grupos educacionais em cidades como Rio Claro e Itapecerica da Serra.

De acordo com o último levantamento do Censo da Educação Superior de 2007, o Estado de São Paulo congrega 1,3 milhão de alunos, sendo que 1,1 milhão estão nas instituições de ensino superior particulares. As matrículas cresceram 6,1% no comparativo com o ano anterior, já que em 2006 São Paulo congregava 1,2 milhão de matriculados na graduação. Para se ter uma ideia da diferença do ritmo de crescimento, enquanto o número de matrículas no Brasil cresceu 101% de 2000 a 2007, no Estado de São Paulo o crescimento foi de apenas 67%. A taxa de alunos ingressantes com até 24 anos nas instituições particulares de São Paulo é de 67,5%, abaixo da média nacional, de 74%. Isso quer dizer que o Estado ainda atende a uma camada de alunos que retornou aos estudos após alguns anos fora do sistema de ensino.

Somando as matrículas da educação tecnológica e do ensino a distância, o Brasil tem atualmente 5,2 milhões de alunos no ensino superior. Os cursos superiores de tecnologia respondem por 6,6% do total de matrículas, com 347 mil alunos. Já a educação a distância representa 7% do sistema de ensino superior todo, com 369 mil matriculados.

Fonte: Revista Ensino Superior – http://revistaensinosuperior.uol.com.br/

Mídia, cultura e comunicação

Everardo Rocha

O fenômeno do consumo na cultura contemporânea define um campo de investigação fundamental. A cultura é o centro da reflexão antropológica e o consumo é a experiência capaz de nomear o mundo no qual vivemos – a sociedade de consumo. Não é por outra razão que a articulação entre ambas indica uma área de reflexão acadêmica na qual caberia uma imensidão de idéias, teorias e pesquisas e que pode se revelar uma das mais promissoras para o projeto de compreender melhor a vida que levamos.

Na vida social cotidiana – reuniões com amigos, festas familiares, encontros, programas, jantares, saídas na nite, entre tantas outras – podemos constatar que certos tópicos de conversa são usuais e recorrentes. Entre os temas mais comuns estão as aventuras (por vezes desventuras também) vividas no trabalho, nos estágios, nos estudos, na chamadavida produtiva de cada um. Sempre que alguém tem algo para dizer sobre trabalho, os outros parecem prontos para ouvir, comentar e participar do assunto seja desenvolvendo o conteúdo, complementando a idéia, seja discordando. Projetos profissionais, carreiras, estudos, estágios, propostas, problemas, práticas, planos, ações, salários, resultados, conquistas, sucessos e dificuldades do mundo dos negócios são bons tópicos para criar ou manter uma conversa. A vida relacionada à esfera da produção é sempre assunto – legítimo, privilegiado, recorrente, interessante – nas múltiplas situações sociais que freqüentamos.

Mas, se falamos muito dos assuntos relacionados ao que se pode chamar de vida produtiva, falamos muito também (quem sabe até mais) de assuntos relacionados à outra ponta da questão – o consumo. De fato, falamos muito exatamente aquilo que gastamos ou queremos gastar por termos produzido. Essa é também uma conversa que rende muito na vida social. Às vezes as pessoas passam das questões da produção às do consumo, passam do ganho ao gasto, no mesmo diálogo. Entre os sofisticados, o chamado consumo cultural – livro, teatro, filme, atividade intelectual e sensível fruída, de preferência, em viagem muito especial ao exterior. E isso sem falar nos vinhos, recurso recente como parte do repertório dos signos de distinção e status. Entre as crianças, os brinquedos – os muitos bonecos dos complexos mundos habitados por Pokemons, Barbies, Digimons, Pollys, Dragonballs, Power Rangers ou cards de Yugiohs – alternam com as novas fitas de Wii, Playstation 3, Xbox 360, Nintendo DS ou Game Cube. Tudo isto e mais a Disney – essa inevitável peregrinação ao consumo sem a qual nossas crianças das camadas médias e altas não conseguem cumprir os sagrados requisitos da sociabilidade. Entre os adolescentes, pequenas viagens de fim de semana, roupas da moda, computadores, as festas pagas e boates, e até mesmo, para desespero dos pais, o carro. Os ricos falam das grifes caras, viagens sofisticadas, casas fora, carros importados, jantares. Os que têm menos dinheiro falam da casa própria, dos eletrodomésticos, celulares ou roupas novas. Enfim, no cotidiano da sociedade em que vivemos aquilo que se tem ou se quer, as razões das necessidades e desejos de produtos e serviços são temas que povoam as conversas e a imaginação.

É interessante observar que esstes tópicos, tanto ligados à produção, quanto ligados ao consumo perpassam – mudando devidamente os conteúdos – os diferentes grupos e classes socioeconômicas. Esses tópicos são como textos de um repertório essencial na cultura contemporânea, que dá livre acesso ao discurso sobre compras, trabalhos, gastos e ganhos, tornando amplamente disponível o imaginário destas experiências centrais da vida social do nosso tempo. Tudo isso indica que produção e consumo são (entre outras coisas, evidentemente) como códigos através dos quais um imenso conjunto de representações e práticas ganha sentido em nossas vidas.

Mas, ainda que produção e consumo sejam legítimos e largamente empregados como assunto, é interessante ver que eles geram diferenças significativas se aplicados ao comportamento das pessoas. Basta dizer que alguém é bom trabalhador ou que veste a camisa, que é comprometido com a empresa para que diferentes visões da produção e do consumo comecem a aparecer, pois nesse caso estamos atribuindo à pessoa uma identidade positiva. O inverso acontece quando classificamos alguém como consumistaou gastador, pois isto significa atribuir uma identidade negativa. Esta idéia nos fala de forma simples, porém eloqüente, de certa superioridade moral que a produção e os seus temas – trabalhos, empresas, profissões – possui quando comparada ao consumo e seus temas – marcas, compras, gastos. É como se a produção possuísse algo de nobre e valoroso, representando o mundo sério e verdadeiro e o consumo, no pólo oposto, tivesse algo de superficial e fútil, representando o mundo mais falso e inconseqüente. A visão do consumo como superficialidade, vício compulsivo, problema, coisa de fúteis, emergentes, dondocas – essa inferioridade moral em face da produção – tem grande apelo ideológico. É comum que essa idéia apareça em artigos de jornal, reportagens de revistas ou debates televisivos e nesses fóruns, geralmente, o consumo é julgado e condenado como responsável por boa parte das mazelas do mundo. Ele é um dos réus favoritos, sempre um culpado disponível, e sua condenação uma boa forma de alicerçar a superioridade moral da produção.

Em certo sentido, podemos afirmar que essa superioridade moral da produção sobre o consumo se traduz também na pouca atenção que ele recebe no âmbito de estudos das ciências humanas. Isso é revelador: o fenômeno que identifica nosso mundo é, paradoxalmente, ainda pouco estudado e conhecido. Para falar da idéia de produção e suas conseqüências sociais existe uma pesada tradição que atravessa várias disciplinas, inclusive uma delas, a economia, elaborada especificamente para pensar a produção. Isso, evidentemente, contrasta com a idéia de consumo em torno da qual ainda muito pouco se produz de forma sistemática. Entretanto, a pesquisa do consumo é fundamental, pois coloca em jogo um diversificado conjunto de atividades sociais, envolve todo um universo de pessoas, um imenso investimento de tempo e recursos, um amplo repertório de significados culturais e, por causa dele, estabelece-se uma formidável movimentação social que não se limita a uma sociedade específica, mas se espalha quase a nível planetário.

Na cultura contemporânea, cada singularidade cultural deve se encaixar no curso daquilo que chamamos globalização que elabora um imaginário amplamente difundido em um processo constante de mundialização da cultura. É, sobretudo, através do sistema de consumo e da narrativa midiática que se dá o compartilhamento de valores que caracteriza o processo de mundialização ou planetarização da cultura. Pesquisar o consumo é, portanto, um projeto decisivo para entender experiências e representações coletivas, tanto locais quanto globais, na sociedade contemporânea. A narrativa midiática é um dos principais suportes desse processo de planetarização da cultura e, através dela, é construída uma espécie de senso comum, expandindo formas sociais e valores do Ocidente nos mais diversos lugares da terra, naturalizando o imaginário capitalista em qualquer cultura, em todas as culturas. O consumo e a mídia falam incessantemente no sentido do estabelecimento do mercado consumidor como figura determinante, como passagem crucial na direção do capitalismo, atingindo, inapelavelmente, o tecido social e a cultura. A narrativa midiática – publicidade em especial – produz sentido para os bens de consumo e, nesse processo, prescreve valores e modela práticas sociais. O consumo, portanto, através de um complexo sistema de representações, define capitais sociais, expressa identidades, diferenças, subjetividades, projetos, comportamentos, relações e oferece um mapa classificatório que regula várias esferas da experiência social na cultura contemporânea.

O fato de que o consumo é parte importante de nossa vida é uma obviedade. Todos sabem disso. Portanto, não pesquisá-lo sistematicamente é negligenciar a oportunidade de, através dele, conhecer uma das formas mais importantes de expressão da nossa cultura. O estudo do consumo se impõe como uma chave fundamental para a compreensão da sociedade contemporânea. Coisas como Internet, moda, design, mídia, objetos, publicidade são marcas indeléveis no espírito do tempo e, cada uma à sua maneira, dá ampla visibilidade ao consumo na nossa vida cotidiana.

Por isso, é importante indicar alguns pontos que podem ser bons para pensar o consumo como um fenômeno central na cultura contemporânea. O primeiro é que o consumo é um sistema de significação e a principal necessidade que supre é uma necessidade simbólica. O segundo é que o consumo é como um código, através Do qual são traduzidas muitas das nossas relações sociais. O terceiro é que este código, ao traduzir relações sociais, permite a classificação de coisas e pessoas, produtos e serviços, indivíduos e grupos. O consumo é um sistema de classificação do mundo que nos cerca a partir de si mesmo e, como é próprio dos códigos, pode ser sempre inclusivo. E inclusivo em dois sentidos: de um lado, inclusivo de produtos e serviços que a ele se agregam e são por ele articulados aos demais, de outro, inclusivo de identidades e relações sociais que são definidas, em larga medida na nossa vida, a partir dele. Finalmente, o quarto ponto é que esse código possui uma instância que o viabiliza, ao comunicá-lo à sociedade. Essa é uma das funções essenciais da narrativa midiática e da cultura de massa no mundo moderno, industrial e capitalista. O sistema da mídia é o grande operador da dimensão pública desse código, fazendo com que nos socializemos para o consumo de forma semelhante. É a narrativa midiática que inscreve - a partir das micro-histórias que conta, dos pequenos mundos que elabora dentro de suas produções (como nos anúncios ou novelas, por exemplo) – o consumo em nossa vida social. Ao fazer essa reprodução dos modos de vida, das sociabilidades, das experiências sensíveis e do cotidiano, ela também define publicamente produtos e serviços como necessidades ; explica cada um deles como modos de uso ; confecciona o desejo como classificação social. A mídia, o marketing, a publicidade, o design interpretam a produção, socializam para o consumo e nos oferecem um sistema classificatório que permite ligar um produto a cada outro e todos juntos às nossas experiências de vida.

Este é precisamente o centro do edifício de representações da vida social que é reproduzido dentro da narrativa midiática: classificar a produção, criando e mantendo um processo permanente de socialização para o consumo. Assim, penso que uma especificidade da cultura moderno-contemporânea, sua singularidade histórica, reside em construir um sistema de integração simbólica da diferença entre produção e consumo, pela distribuição de significados a partir da esfera da produção, realizando o destino de produtos e serviços na direção de mercados e consumidores. É nesse jogo poderoso que envolve fantasias, desejos, magias, mitos e rituais, que acontece o consumo, lugar privilegiado para o exercício permanente de classificação que, ao estilo dos sistemas totêmicos, fornece valores e categorias com as quais concebemos semelhanças e diferenças entre objetos e seres humanos.

Assim, é essencial entender a natureza das relações entre cultura e consumo. Para tanto é preciso estudar os processos de criação do significado na esfera da produção; os sistemas de classificação que ligam, de um lado, produtos e serviços e, de outro, grupos sociais e identidades, e, finalmente; as formas pelas quais a mídia socializa para o consumo, através de um discurso que fala tanto na direção da cultura global quanto para as várias culturas locais. Toda esta complexidade indica que o consumo deve ser objeto de estudos sistemáticos para que possamos identificar o seu papel na cultura contemporânea, o espaço que ocupa no imaginário coletivo e seu lugar nos desejos humanos. É aí também que se inscreve o desafio de um estudo antropológico do consumo como campo de experimentação e de troca intelectual.

Everardo Rocha é professor-associado do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. Doutor e mestre em antropologia social pelo Museu Nacional da UFRJ. Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação da UFRJ. Autor, entre outros, dos livros de Magia e capitalismo, A sociedade do sonho, Representações do consumo, O que é etnocentrismo, Jogo de espelhos e O que é mito.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br