Monthly Archives: junho 2009

As peças invisíveis do univeso

Cientistas dizem ter detectado a famigerada matéria escura, que responderia por mais de 80% da massa do universo. Mas nem todo mundo concorda com eles.

Salvador Nogueira

No fim do mês de agosto, a Nasa reuniu cientistas e jornalistas para um anúncio importantíssimo: pela primeira vez, um grupo de pesquisadores obtinha evidências diretas de uma coisa que ninguém sabe direito o que é, de que é feita ou se existe mesmo. Acredite se quiser, mas, a despeito desses senões, todo mundo ficou interessado –afinal, esta questão é uma das mais cruciais a respeito do Universo. Estamos falando da enigmática matéria escura.

Mas que diabos é matéria escura? Boa pergunta. Se alguém hoje soubesse, ela provavelmente nem teria esse nome. O “escura” vem do fato de que, tudo bem, ela deve existir, mas nunca terá como ser vista. Ao que parece, ela praticamente não interage com a matéria que a gente conhece – a que está no seu corpo, nos planetas, nas estrelas. Você mesmo pode estar rodeado de matéria escura neste momento, mas nem percebe. A única maneira pela qual essa estranha substância parece manifestar sua existência é pela gravidade que exerce sobre as coi sas. E é uma senhora manifestação.

Ei, espera aí. Se você está rodeado por matéria escura e ela pode atrair você gravitacionalmente, por que você não é chutado pelos cantos por ela como um cachorro pulguento? Ocorre que a gravidade é uma força peculiarmente fraca – a despeito da impressão que seus tombos ocasionais possam dar. Para derrubar você no chão, por exemplo, é preciso um planeta inteiro atrai-lo. Não seriam, portanto, umas míseras partículas de matéria escura ao seu redor que fariam alguma diferença – mesmo porque elas estariam por todos os lados, até dentro de você, e o efeito atrativo seria cancelado. Agora, quando falamos de coisas realmente grandes, maiores que planetas e que estrelas, a matéria escura demonstra todo o seu poder gravitacional. A coisa só funciona de galáxias para cima, mas tem um efeito contundente.

A maioria das grandes galáxias tem um formato espiral, como a nossa boa e velha Via Láctea. Em geral, elas são compostas de centenas de bilhões de estrelas, misturadas a um monte de gás, que giram em torno de um buraco negro gigante.

Pelo que a física sabe, essas estrelas deveriam se mover igual aos planetas do sistema solar. Assim: a gravidade do Sol faz com que Mercúrio, o planeta mais próximo dele, gire com uma velocidade 60% maior que a da Terra. O nosso planeta é mais rápido que Marte, que é mais que Júpiter, e por aí vai, até Plutão e Eris, que rastejam pelo espaço. É como o velho astrônomo alemão Johannes Kepler calculou, lá no século 17: quanto mais longe, mais lento.

Mas as galáxias não obedecem a essa regra. Observações feitas desde os anos 70 mostraram que as estrelas do meio para fora do disco espiral giram com a mesma velocidade, e que se dane a distância que estiverem do buraco negro.

Não é pouca coisa. Se isso acontece, ou as leis da física que a ciência concluiu estão erradas ou… tem mais alguma coisa lá. Algo com ravidade suficiente para acelerar essas estrelas mais distantes com tanta força quanto se elas estivessem perto do centro. Algo com massa, pois é a massa dos corpos quem era ravidade. Mas ninguém enxergava nada.

Um dragão na garagem

Embora exista alguma coisa em todas as galáxias que produza esse efeito gravitacional anômalo, há uma grande distância entre dizer que se trata de matéria “que não estamos vendo” e matéria “que não podemos ver”. Muita gente supôs que essa massa que faltava fosse simplesmente composta de estrelas e objetos que são pouco (ou nada) brilhantes –daí não os estarmos vendo–, mas ainda assim pertencem à mesma categoria de matéria que nos compõe, feita de prótons, nêutrons e elétrons, além de outras partículas mais pedestres.

Claro, a idéia dessa matéria REALMENTE escura, 100% indectável, era perigosa demais para os cientistas engolirem de cara. Lembrava aquela velha parábola de Carl Sagan. O astrônomo americana dizia: “Qualquer um pode vir e falar que um dragão mora em sua garagem. Basta explicar que, embora ele esteja lá, não tem como ser detectado pela visão, pelo tato, pelo calor que o fogo dele era, ou seja, por nenhum meio conhecido”.

A própria ciência já havia tido um encontro desagradável com um conceito assim. Foi quando o rosso dos pesquisadores pressupunha que o Universo era permeado pelo “éter”, uma substância que serviria como meio para a propagação de ondas eletromagnéticas, como a luz. Embora todos os experimentos para detectá-lo no século 19 tenham fracassado, a idéia resistiu mais ou menos intacta até Albert Einstein chegar, em 1905, e provar por A mais B que esse negócio de éter não fazia o menor sentido.

Enfim, todo cuidado é pouco quando os cientistas precisam postular a existência de algo que não estão vendo. Então, muitos optaram pela solução mais simples: imaginar que aquela massa na verdade era feita de anãs marrons (estrelas abortadas, que não chegam a brilhar), buracos negros (que têm uma ravidade tão intensa que capturam até a luz, impedindo sua observação) e outras criaturas exóticas (mas ainda assim feitas de prótons, nêutrons e elétrons) do zoológico cósmico.

Ocorre que ficou mais difícil defender essa hipótese quando surgiram os primeiros cálculos de quanta matéria escura deveria existir por aí. Hoje, estima-se que 8 ou 9 em cada 10 quilos de matéria são feitos dessa coisa. Nenhuma teoria convincente de formação de objetos estelares parece bater com esse número abissal. Todos sabiam que era impossível haver tantos buracos negros, anãs marrons e afins no espaço. Sinuca de bico para os astrônomos.

“É desconfortável para um cientista ter de invocar algo invisível e indetectável para responder por quase 90% da matéria do Universo”, afirma Maxim Markevitch, um dos astrofísicos da Nasa que dizem ter finalmente obtido a primeira detecção direta da substância.

Douglas Clowe e seus colegas apontaram telescópios para uma região turbulenta do espaço, o aglomerado de Bala, um bolo de galáxias a 3,5 bilhões de anos-luz (um ano-luz equivale a 9,4 trilhões de quilômetros). Esse é um lugar onde uma quantidade monstruosa de gás e poeira se chocou. A pancada foi tão violenta que separou a matéria escura da normal. E permitiu que “enxergassem” adanada pela primeira vez (leia o quadro acima). Aí Douglas Clowe não teve dúvidas: “Nossos resultados são prova direta de que a matéria escura existe”.

Mas nem todo mundo na comunidade científica concorda com ele.

Teorias alternativas

Quando asprimeirasevidênciasg avitacionais da matéria escura começaram a pulular, muita gente pensou que o problema não estivesse em nossas teorias sobre a composição do Universo, mas, sim, em nossas teorias do comportamento da gravidade. Um dos caras que pensaram isso foi John Moffat, da Unive sidade de Wate loo, em Ontário, Canadá. Ele desenvolveu uma teoria chamadaMOG, que é basicamente uma versão modificada da teoria gravitacional.

Segundo esse modelo, a gravidade só funciona do jeito que a gente conhece até uma certa escala. Para algo com as dimensões do sistema solar, por exemplo, continuaria tudo igual. Mas, quando monstros como galáxias e aglomerados entrassem na jogada, as coisas mudaiam: agravidade mostrariaqueficamais forte conforme a distância aumenta, e não o contrário, como Kepler, Isaac Newtone Albert Einstein sempre acreditaram.

Audacioso, mas que servia para explicaro funcionamento do Universo dispensando a estranhíssima matéria escura, servia. Tanto que, após o anúncio espalhafatoso da Nasa, Moffat se pôs a redigir um estudo de 8 páginas, demonstrando que sua teoria poderia explicar com igual facilidade os efeitos observados.

“Ninguém deve tirar conclusões prematuras sobre a existência da matéria escura sem analisar as teorias alternativas”, afirmou o canadense.

A verdade é que os resultados da Nasa deixam mais perguntas do que respondem. Com ou sem eles, ainda não sabemos o que compõe a matéria escura. Experimentos atuais, como os que acontecem nas profundezas de uma mina em Minnesota, nos EUA, e no Laboratório Nacional Gran Sasso, na Itália, estão tentando detectar essas partículas vindas do espaço exterior. Mas até agora nada.

Talvez essa resposta não tenha mesmo como vir do espaço. Em vez disso, é possível que os aceleradores de partículas, que espatifam átomos a velocidades estonteantes, dêem as primeiras pistas.

No ano que vem, o Cern (principal laboratório de física da Europa) colocará para funcionar na Suíça o Grande Colisorde Hádrons (LHC). Será o maior acelerador já construído. E as pancadas lá dentro vão gerar energias quase tão violentas quanto as do big-bang, a explosão que deu origem ao Universo. Esse poder, em tese, seria suficiente para criar partículas diferentes de tudo o que a gente conhece. E algumas delas podem virar candidatas ao cargo de matéria escura.

Bom, esse mistério pode até estar com os dias contados. Mas, até hoje, o que os físicos viram século após século é que a natureza sempre parece ter um ás na manga –que ela apresenta quando a gente menos espera. Façam suas apostas.

Energia escura para acompanhar, por favor

Como se não bastasse os cientistas não saberem do que é feito o grosso da matéria que compõe o Universo, nos últimos anos também descobriram que toda essa matéria não dá nem um quarto de tudo o que existe no Cosmos. Aconteceu em meados dos anos 90, quando cientistas descobriram que a expansão do Universo não estava freando, como previam as teorias clássicas. Ela estava acelerando, como se houvesse uma força contrária à gravidade, que repelisse os objetos em vez de atraí-los, agindo nas maiores escalas do Cosmos. A essa misteriosa forma energética os cientistas deram o nome de, adivinhe só, energia escura. E, quando eles começaram a fazer as contas para descobrir quanta energia escura existia, descobriram algo surpreendente: a massa dela é 3 vezes maior que a de todo o resto. Quer dizer: a energia escura responde por mais de 70% do Universo – a matéria escura fica com uns 25% e a comum, com meros 5%. Mais: nosso destino está nas mãos dessa energia fantasma. Se ela continuar se comportando do jeito atual, o Universo irá se expandir para sempre, cada vez mais rápido. Se ela “virar a casaca ”e ajudar a gravidade a reunir toda a massa do Cosmos, podemos terminar num “big-crunch”. Seria uma grande implosão, tipo um big-bang ao contrário. E pode ser ainda que ela não faça nem uma coisa nem outra. Só que ninguém sabe o que vai ser.

Matéria escura às claras

Choque no espaço libertou a matéria fantasma, aí conseguiram detectar a imensa gravidade que ela gera sozinha

1. Estas bolas são aglomerados de galáxias. Num passado distante, as duas entraram em rota de colisão. Apesar de ambas conterem bilhões de estrelas, a maior parte da matéria aí é feita de nuvens de gás e poeira.

2. Na hora da pancada, os átomos do gás e da poeira se chocam. A atração eletromagnética entre eles cria uma barreira que age tipo a resistência do ar. Isso freia as partículas de matéria comum (em vermelho).

3. Mas não breca a matéria escura (em azul). Como ela só interage com a matéria comum pela atração gravitacional, nem sente a resistência da força eletromagnética. E fica livre para voar pelo espaço.

4. Esta imagem mostra a gravidade de cada pedaço da colisão. O azul representa uma força gravitacional maior. E justamente onde não tem matéria normal! Conclusão: essa força só pode vir da matéria escura.

Para saber mais

In Search of Dark Matter – Ken Freeman,Geoff Macnamara,Springer,EUA,2006

O Mundo Assombrado pelos Demônios – Carl Sagan,Companhia da Letras,1997

http://chandra.harvard.edu/photo/2006/1e0657/animations.html – Site com animações da colisão galática que revelou a matéria escura.

Fonte: Revista Super Abril – http://super.abril.uol.com.br

Dilemas da esquerda

A vida do Partido Die Linke (A Esquerda) tem sido marcada pelas tensões entre seu ideal socialista, que permanece no horizonte, e a necessidade de defender políticas imediatas dentro da moldura do capitalismo triunfante na Alemanha, na Europa e quase no mundo todo – com exceção de Cuba. O novo partido, que tem dois anos de existência e 54 cadeiras no Parlamento Nacional, está colocado “entre duas eleições”: a do passado recente, em junho, para o Parlamento  Europeu, e a vindoura, em setembro, para aquele. A análise é de Flávio Aguiar.

Flávio Aguiar

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No fim de semana que passou (20/21 de junho) realizou-se a convenção nacional do Partido Die Linke (A Esquerda), em Berlim, com mais de 500 delegados presentes. A convenção foi marcada por chamados à unidade e por dissensões e diferenças agudas, mas sem que possam levar a rupturas notáveis, pelo menos no momento.
O novo partido, que tem dois anos de existência e 54 cadeiras no Parlamento Nacional, está colocado “entre duas eleições”: a do passado recente, em junho, para o Parlamento Europeu, e a vindoura, em setembro, para aquele.
Nas eleições para o parlamento da União Européia, Die Linke teve um desempenho que ficou aquém do esperado. Contavam os líderes do partido com uma votação de 10% na Alemanha, mas ele teve pouco mais de 7%.
Para as próximas eleições, o maior trunfo no horizonte do partido é a difícil situação do Partido Social-Democrata (SPD), que, embora tendo uma votação bem maior na eleição de junho, sofreu uma queda de tal monta que o resultado passou por uma grande derrota.
A vida recente do SPD foi marcada por uma série de dissensões internas, depois da indicação de Kurt Beck como líder do partido, de seu curto mandato e de sua renúncia, motivada pela crise interna. Beck representava a ala esquerda do SPD, e sua indicação provocou uma série de comentários e acusações de “populismo” na imprensa e em outros meios do seu próprio partido, entre outras razões pela sua disposição de estudar a possibilidade de alianças eventuais com a Linke.
Sem Beck, à direção do SPD retornou às mãos de políticos mais conservadores, que defendem e integram a coalizão com o partido de direita, a União Democrata-Cristã de Ângela Merkel. Entretanto tais políticos, como Frank-Walter Steinmeier (o novo líder oficial), e Franz Müntefering, carecem de maior carisma. Isso, em parte, pode ajudar a entender o relativo fracasso do SPD na eleição para o Parlamento Europeu, junto com o clima de dissensão interna e o currículo do próprio partido, que, a partir do fim dos regimes comunistas deu uma guinada pronunciada para a direita e para a defesa de políticas neo-liberais que ele mesmo implementou na Alemanha, enfraquecendo a capacidade de barganha dos sindicatos (tradicional base de sustentação do SPD) e piorando as condições de trabalho dos próprios trabalhadores.
A Linke nasceu há dois anos atrás com a fusão de quatro blocos políticos: 1) dissidentes do SPD e de sua linha de defesa o ideário descendente do Consenso de Washington; 2) políticos ligados a frações do sindicalismo que deixaram de ter o SPD como referência; 3) remanescentes de correntes socialistas da Alemanha Oriental, inclusive do antigo Partido Comunista da RDA; 4) um conglomerado de tendências e movimentos socialistas, pequenos na maioria, e que representam tradicionalmente a esquerda mais radical. Os dois líderes máximos da Linke representam a dissidência social-democrata (Oskar Lafontaine) e os antigos socialistas (Lothar Bisky).
Outro político de grande expressão no partido, também procedente da antiga RDA, é Gregor Gysi. Gysi, advogado de formação, no passado defendeu dissidentes do lado oriental; mas também fizeram-lhe uma série de acusações de ter sido informante da Stasi, a polícia política do antigo regime.
O surgimento da Linke provocou uma maré de críticas na imprensa e em outros meios políticos mais conservadores levantando o argumento de “uma volta ao passado”, devido a ter o partido, ao contrário do SPD, acolhido o nome “socialismo” em seus programas e declarações. Além disso, a Linke marcou uma posição histórica por ser o único partido que defendeu, desde sempre, a retirada das tropas alemãs que fazem parte da presença da OTAN no Afeganistão. Ainda recentemente Gregor Gysi, perguntado sobre o tema por uma cadeia de TV alemão, respondeu que é posição do partido a idéia de que combater o terrorismo com uma ocupação militar só pode produzir mais terrorismo.
A vida da Linke tem sido marcada pelas tensões entre seu ideal socialista, que permanece no horizonte, e a necessidade de defender políticas imediatas dentro da moldura do capitalismo triunfante na Alemanha, na Europa e quase no mundo todo – com exceção de Cuba. A ala liderada por Lafontaine (e também por muitos políticos da ex-RDA) contempla, inclusive, a possibilidade de fazer alianças eventuais com o SPD – como acontece hoje, por exemplo, em Berlim, freqüentemente mencionada como a cidade da “aliança vermelha-vermelha (rot-rot)”, numa menção à esquerda do SPD, liderada pelo prefeito Klaus Wowereit, e aos “Linkes” que o apóiam.
Além da questão da aliança ou não com social-democratas (que em geral rejeitam a Linke, sobretudo na ex-Alemanha Ocidental (RFA), que desagrada sobretudo os grupos mais à esquerda, outros pontos de dissensão aparecem quando se trata de assumir uma crítica mais global e total do capitalismo como expressão principal do partido, ou uma série de propostas políticas mais ligadas ao contexto imediato, coisa que o partido tem feito preferencialmente, como adotar um salário mínimo (que não existe na Alemanha e é uma bandeira sindical significativa), melhorar o seguro desemprego e diminuir a idade exigida para a aposentadoria, que hoje é de 67 anos, e ainda ter uma política mais includente em relação aos imigrantes.
Refletindo essas tensões e a necessidade do partido ter propostas claras para a eleição de setembro, é que Gregor Gisy declarou, em meio a uma esfuziante ovação (que, esperemos, signifique realmente um passo adiante), que o partido precisava “se preocupar mais em atingir os eleitores, e se ocupar menos de nós mesmos”.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

CRISE Fórum reúne, em Nova York, organizações progressistas estadunidenses; entidades esperam que a saída venha do Estado

CRISE Fórum reúne, em Nova York, organizações progressistas estadunidenses; entidades esperam que a saída venha do EstadoMemélia Moreira
de Nova York (EUA)

DEZESSEIS MESES depois de instalada a crise do capitalismo que afeta praticamente todos os pontos cardeais do planeta, a esquerda dos Estados Unidos está longe de vislumbrar saídas e, menos ainda, preparada para enfrentar o momento, seja com ações a longo prazo ou estratégias imediatas que a levem a um crescimento dentro do próprio país, símbolo máximo da doutrina que há mais de dois séculos controla o jogo do poder.

A perplexidade na qual se encontra a esquerda diante da crise foi verbalizada na abertura do 40º “Fórum da Esquerda”, reunido em Nova York entre os dias 17 a 19 de abril, por Adolph Reed, militante do Partido Trabalhista dos EUA e professor da Universidade da Pensilvânia. “Os partidos da esquerda mundial têm, como primeiro desafio, saber se têm poder social e quais os seus limites para responder à crise”, afirmou. Limites estreitos, pelo que se viu a seguir.
Para a sorte dos participantes, as paredes do centenário prédio da Pace University, anfitriã do encontro a menos de quatro quadras de Wall Street, são de puro concreto. Caso contrário, os especuladores ficariam mais tranquilos sabendo que seus inimigos históricos estão quebrando a cabeça para saber o que fazer.
E ficariam ainda mais tranquilos se soubessem que o representante da Fundação Rosa Luxemburgo, Mário Candeias, disse estar convicto de que “o fim do neoliberalismo não representa automaticamente uma subida ou crescimento dos partidos de esquerda, mas é esta a melhor hora para que os movimentos de esquerda sejam reconhecidos pelos governos”.
Uma tímida proposta foi feita na abertura dos trabalhos. Ela veio da representante do Partido Comunista Alemão, Katja Kipping: “É preciso deixar claro e dizer bem alto que esta não é uma crise financeira. É uma crise do capitalismo e nós não vamos pagar por ela”.
Sem exceção, todos eles, embora reclamem e protestem, estão à espera de uma solução do Estado. Exatamente o Estado que eles acusam de trabalhar em benefício do capital. A dica foi dada no plenário de abertura pelo economista Richard D. Wolff, professor da universidade “Nova Escola” de Nova York. Ele encerrou seu discurso dizendo: “Vamos mudar. A alternativa é ter líderes políticos responsáveis ao lado dos trabalhadores. Políticos que gerenciem a crise”. Nenhuma palavra sobre a força dos movimentos sociais.
Essa é a primeira, e triste, constatação de quem participou do “Fórum da Esquerda”. Foram 210 painéis distribuídos em três dias e que começavam quase pontualmente às dez da manhã, encerrando-se sempre depois da meia-noite. Esse encontro, que há 40 anos agrupa intelectuais do mundo inteiro e que ostenta, entre seus organizadores, nomes respeitados na academia, entre eles os pensadores paquistanês Tariq Ali e o filipino Walden Bello, acontece sempre em Nova York, durante a primavera do hemisfério norte. Mas nem mesmo as tulipas de plástico que enfeitam a cidade foram capazes de levar qualquer colorido ao evento que, este ano, teve como tema “Turning Ponts” (Ponto de Retorno).
Perplexos, intelectuais e sindicalistas discutiram temas que variavam desde soberania alimentar até o futuro das greves e movimentos populares, passando pelas guerras do Iraque, Afeganistão e o conflito Israel- Palestina, os rumos da poesia e cinema revolucionários, além dos problemas ambientais, tema que os Estados Unidos têm muito a aprender, além da questão do trabalho dos imigrantes ilegais.
A única presença do Brasil foi a de Mário Candeias, do Instituto Rosa Luxemburgo, além de uma bandeira brasileira que decora o corredor principal da Pace University. Da América Latina, outros três catedráticos se fizeram presentes, a venezuelana Clara Irazabal, que é professora na Universidade de Columbia, em Nova York; Carlos Vilas, da Universidade Lanus, de Buenos Aires, e o boliviano Pablo Solón, embaixador de seu país nas Nações Unidas. E o único debate que trataria da problemática indígena latinoamericana foi cancelado.
Remanescentes dos 60
“Os trabalhadores estadunidenses estão exaustos. Desde Roosevelt [Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos durante a “Grande Depressão”, nos anos 30], os presidentes prometem dar passos para restabelecer a economia, mas nenhum deles cumpre. A partir dos anos 70, começou a desordem.
Os trabalhadores não tiveram mais ganhos. Primeiro porque os computadores fecharam muitos postos de serviço, depois porque as grandes corporações se mudaram dos Estados Unidos e se estabeleceram em países onde os salários são mais baixos ou inexistentes. A solução, a saída, é o socialismo”. Essa foi a primeira fala de abertura do Fórum. Seu autor é o economista Richard Wolff. Mesmo com um discurso sem nenhuma novidade, ele foi aplaudido.
As palmas vieram de uma platéia onde mais de 90% dos presentes era da faixa de 60 anos. Todos eles remanescentes das resistências dos “anos rebeldes” que caracterizaram os Estados Unidos no final da década de 1960 e início dos anos de 1970, quando a juventude resolveu dar um basta às atrocidades cometidas na guerra do Vietnã. Eram os mesmos que um dia fizeram Woodstock. Nenhum rosto jovem. Ninguém para lembrar que as atrocidades do Vietnã se repetem com maior intensidade no Iraque e no Afeganistão, as duas guerras mais visíveis dos Estados Unidos.
Os mais jovens eram os sindicalistas da área de saúde, que não estão sob o controle da AFL-CIO (American Federation of Labor/Congress of Industrial Organization), central sindical que nesta época de crise assumiu, de fato, a defesa dos patrões, inclusive ameaçando alguns líderes classistas que se mobilizam para greves e manifestações.
Mesmo sendo mais jovens, nenhum deles tem menos de 30 anos, nem qualquer idéia do que fazer para manter seus empregos a cada dia mais ameaçados. “O que vamos fazer? Estamos vendo os trabalhadores franceses mobilizados, em todos os lugares há manifestações e aqui não conseguimos nem nos reunir”, reclamava uma enfermeira vestida de “paciente” já que horas depois participaria de um teatro de protesto contra o sistema de saúde dos EUA. Sua aflição não mereceu resposta de Immanuel Ness, professor da Universidade do Brooklin, especialista na questão dos imigrantes e autor da “Enciclopédia Internacional de Revoluções e Protestos”.
O lamento da sindicalista aconteceu durante o painel “Rebelião em tempos de turbulência”. Mas, quando outro participante perguntou porque os trabalhadores não partem para a ocupação de hospitais e centros de saúde, denunciando o sistema e exigindo melhores condições de trabalho, prática bastante conhecida pelos sindicalistas brasileiros, um “oooohhh” percorreu a sala. A proposta pareceu uma heresia ou, quem sabe, um ato terrorista. E os trabalhadores do cais do porto de Nova York só participaram com a distribuição de panfletos convocando para manifestações em Kansas City e Chicago.
No manifesto, a maior demonstração de “rebeldia” se resumiu na frase “Não deixe banqueiros e seus executivos ficarem com a última palavra”.
Falta de diálogo
A dificuldade de diálogo com a sociedade talvez seja um dos obstáculos que a esquerda está enfrentando para dar respostas à crise e, também, para sensibilizar as novas gerações. O “Fórum da Esquerda” foi a maior demonstração de que, no país onde a crise é mais aguda, os jovens, público preferencial para o desemprego que já atinge números alarmantes, sequer tomou conhecimento dos debates. Para não dizer que estavam totalmente ausentes, os estudantes da Pace University participaram dos debates sobre segurança alimentar e movimento Hip-Hop.
No encerramento, o filipino Walden Bello, disse que a crise “ainda não chegou ao seu limite e o mais grave da situação é que não há uma estratégia definida para combatêla. Para cada caso, cada bancarrota, há uma solução diferente”. Menos mal, significa que não apenas a esquerda está sem respostas para a crise, mas os responsáveis por ela também estão sem rumo.
Mesmo assim, não deixa de ser melancólico ver que o sistema capitalista, que há mais de dois séculos vem devastando o planeta parece não ter um adversário à altura. O desafio citado pelo professor Adolph Reed, de que a esquerda tem que saber qual o seu potencial para responder ao problema, talvez tenha uma resposta desalentadora.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Rios empobrecidos

Hidrelétricas alteram funcionamento do rio Paraná e ampliam erosão das margens.

Carlos Fioravanti

De Minas ao rio da Prata: represas reduzem o fluxo do rio Paraná.

Enquanto são construídas, as usinas hidrelétricas represam as águas de um rio, inundam cidades e matas e forçam o deslocamento da população ribeirinha. Em troca, geram a indispensável energia elétrica. Depois de prontas, elas também causam problemas ambientais, embora menos conhecidos, mas igualmente impactantes. Geólogos e biólogos do Paraná e de São Paulo examinaram as transformações do rio Paraná nos últimos 20 anos e verificaram que as barragens das hidrelétricas, ao cortarem o rio, reduzem em 36% a velocidade da água, em 70% o volume de sedimentos em suspensão e diminuem a diferença entre os níveis máximos de água durante a seca e a cheia, modificando o modo como os peixes e outros seres viviam.
As barragens também causam marés diárias. As comportas fecham parcialmente à noite, quando o consumo de eletricidade é menor, e reduzem em quase um metro o nível de água abaixo da barragem. Durante o dia, as turbinas têm de produzir mais eletricidade, as comportas deixam passar mais água e causam o efeito inverso. Estudos coor denados pelo geólogo José Cândido Stevaux, professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, e da Universidade Guarulhos (UnG), em São Paulo, indicaram que a oscilação diária da água causada pelas barragens pode ampliar em 200% a erosão das margens do rio Paraná.
E hidrelétrica é o que não falta nesse rio. São cerca de 150, contando só as que têm barragens com pelo menos 15 metros de altura, no próprio rio Paraná e em seus afluentes, entre eles os rios Tietê, Grande e Paranapanema, que se ramificam por uma área de 2,5 milhões de quilômetros quadrados no Brasil, Paraguai e Argentina – é a segunda maior rede de rios do Brasil. Se por um lado essas hidrelétricas produzem 60% da energia elétrica do país e abastecem as regiões que concentram a maior parte da população e da atividade econômica na América Latina, por outro transformaram o Paraná e seus afluentes em uma sucessão de lagos que modificam o comportamento dos rios.
“Um ano depois da entrada em funcionamento da última hidrelétrica, o rio, no trecho mais próximo às barragens, tornou-se uma piscina, de tão transparente”, conta Stevaux, coordenador de um grupo que reúne especialistas da UEM, da UnG, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, interior paulista, e de universidades e institutos de pesquisa argentinos que estudam o rio Paraná. “Os turistas adoram, porque podem mergulhar e ver raias e outros peixes nadando bem perto.” No início peixes predadores como o dourado, de um metro de comprimento, também devem gostar. Sem a água turva, podem ver tudo melhor e comer à vontade. O problema é que esses predadores terão cada vez menos para comer nos anos seguintes, porque a população de peixes menores cairá rapidamente.

Os geólogos e os biólogos desse grupo concentram as pesquisas em um dos poucos trechos do Paraná sem barragens, entre a foz do rio Paranapanema, que separa São Paulo do Paraná, e o início da represa de Itaipu, que começa a se formar no município de Guaíra, Paraná, e se estende por mais de 120 quilômetros até chegar às barragens, uma delas com altura equivalente a um prédio de 65 andares. Para medir a carga suspensa de sedimentos nesse trecho de 200 quilômetros de extensão e 4 quilômetros de largura em média, os pesquisadores soltam um disco pintado de preto e branco, suspenso por um cordão, no meio do rio. Quanto antes o disco desaparecer de vista, mais rico em sedimentos é o rio. “Há alguns anos o disco desaparecia do nosso campo de visão depois de 1,5 metro”, conta Stevaux. “Agora bate no fundo do rio, a 4 metros da superfície, e ainda o vemos.” Nesse trecho a transparência das águas é maior nas proximidades das usinas de Porto Primavera, no rio Paranapanema, o maior reservatório artificial de água do mundo, com área alagada equivalente a sete vezes a da baía de Guanabara.

Quanto mais transparentes, mais as águas deixarão passar a luz do sol, que modifica as comunidades de plantas e de animais do fundo do rio. Microrganismos, peixes e plantas acostumados ao lodo e à escuridão desaparecem. As algas, que dependem de luz, podem crescer não só na superfície, seu espaço habitual, mas também no fundo. O perigo é que se multipliquem como o molusco bivalve Limnoperna fortunei, uma espécie invasora, que apareceu na última década no porto de Buenos Aires trazido em água de lastro de navios vindos da Ásia. “Sem predador, esse molusco se espalha e causa prejuízos”, diz Stevaux. Já atrapalhou até o funcionamento das turbinas de Itaipu.
Com esses trabalhos, que incluem a reconstrução da história geológica do rio, a equipe de Stevaux amplia o conhecimento sobre rios tropicais, menos estudados que os de clima temperado, cujo fluxo depende do derretimento da neve das montanhas. Stevaux imagina que essas pesquisas ajudarão a definir os limites aceitáveis de impactos ambientais de hidrelétricas a serem construídas no país. Já ajudaram a criar o Parque Nacional da Ilha Comprida e o Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, um afluente do Paraná.
Um dos objetivos do grupo é definir a variação mínima de água entre a seca e a cheia de modo a conciliar a sobrevivência de peixes e plantas com a necessidade de gerar energia. “Como as barragens estocam água, os rios não têm mais cheia e a água não chega mais às lagoas em que os peixes desovam. Os capinzais que passam a maior parte do tempo inundados nas margens dos rios só brotam quando a água baixa”, exemplifica. “Essas alterações no fluxo de água podem se propagar e mudar radicalmente todo o ambiente.”
Turismo – Segundo Stevaux, os artigos científicos e os trabalhos de mestrado e doutorado gerados por essa pesquisa estão ajudando a definir e a gerenciar atividades turísticas próximo aos grandes rios da bacia do Paraná ao indicar quanta exploração uma área suporta. Sua equipe elaborou uma equação matemática que define a fragilidade ambiental em 12 níveis e concluiu que os rios secundários nos municípios de Porto Rio, no Paraná, Taquarussu, no Mato Grosso do Sul, e Rosana, em São Paulo, encontram-se perto do máximo de impacto ambiental (nível 10), por serem intensamente visitados por pescadores no final do ano.

As barragens e os lagos artificiais não causam só problemas. Também promovem o turismo fluvial, que atrai quem mora na região de Presidente Prudente e de Maringá, e criam desafios, como a definição de espaços turísticos. As praias, transportadas pelo rio, são móveis: em um ano podem estar a 200 metros do final de uma cidade, no ano seguinte a 3 quilômetros. Outro desafio é a mineração de areia – ainda não está certo quanto se pode tirar sem prejudicar o rio. “Pretendemos ajudar na elaboração de leis de proteção também da foz dos rios e não só das nascentes, que já são protegidas”, diz Stevaux.

Artigo científico

STEVAUX, J.C. et al. Changes in a large regulated tropical river: the Paraná River downstream from the Porto Primavera Dam, Brazil. Geomorphology. v. 110 (in press).

O projeto

Propagação da “onda impactante” na dinâmica de fluxo e na carga de fundo do rio Paraná. Modelo para gerenciamento de rios aluviais sob impacto de barragem, hidrovia e mineração

Modalidade

Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa

Coordenador

José Cândido Stevaux – Universidade Guarulhos

Investimento

R$ 130.000,00 (FAPESP)
R$ 220.000,00 (CNPq-ProSul)

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Fraude na morte de Santos Dumont

O laudo necrológico do “pai da aviação” é uma mentira histórica. Ele jamais teve um “colapso cardíaco”. Na verdade, se enforcou no banheiro de um hotel no Guarujá (SP)

A morte do genial Alberto Santos Dumont foi por décadas edulcorada e relacionada a seu desgosto pelo uso de aviões para fins militares. Nos anos 60 e 70, professores nem mesmo falavam a palavra “suicídio” em sala de aula. Tudo para que o fim de um dos poucos heróis nacionais, capaz de inspirar os pequenos e motivar os adultos, fosse digno de sua biografia. A dar guarida oficial às versões “moralmente elevadas” do desaparecimento do aviador havia um laudo necrológico, assinado pelo legista Roberto Catunda, que indicava morte por “colapso cardíaco”. Uma fraude.
Santos Dumont morreu em 23 de julho de 1932, no banheiro do Grand Hôtel de La Plage, na cidade balneária de Guarujá (SP). Há controvérsias sobre o material utilizado como corda: o cinto do roupão ou uma gravata. Tinha apenas 59 anos. Muitos pesquisadores se debruçaram sobre esse episódio, ainda hoje mal explicado. Só o que se tem é de certeza é que, sim, foi suicídio por enforcamento. Permanecem no campo da especulação as razões do ato extremo.
A ideia de forjar o laudo necrológico teria sido partilhada por autoridades governamentais e familiares do inventor. A família teria insistido na dispensa da autópsia, e, para a polícia, ceder a esse pedido seria atitude humanitária e honrosa, opinião também do governo paulista, que teria impedido a abertura de um inquérito. Ajeitados os trâmites, a fraude ficou, e a verdade só aos poucos foi sendo descoberta.

Tanto cuidado se justificava, então, pela importância de Alberto Santos Dumont. Até aquele momento, brasileiro nenhum havia tido tamanha expressão internacional. Não bastasse ser genial, era ainda rico e alinhado conforme a moda do tempo – ou melhor, à frente dela, dado que seu lado inventivo se manifestou também no estilo de roupa e acessórios que usava.
Hoje se diz, com base em relatos, que o glamour que o aviador esbanjava escondeu por décadas episódios de depressão profunda ou de uma doença psíquica mais grave – e incontrolável para a medicina da primeira metade do século XX, como seria o caso de transtorno bipolar. Não há ainda hoje um diagnóstico fechado, apenas a evidência de que essa pode ser sido uma causa importante, entre outras, para que cometesse suicídio.
Que havia uma doença psíquica a atormentá-lo, disso não há dúvidas. Cartas, internações repetidas na Europa, recibos de compra de remédios e de consultas a psiquiatras indicam esse estado, presente em quase toda a sua maturidade – entre 1910 e 1932. Os documentos pertencem hoje ao acervo da Aeronáutica.
No dia da morte, Santos Dumont havia aproveitado a natureza: conta-se que deu um passeio pela linda praia de Pitangueiras, andou de charrete e retornou ao hotel para almoçar. Passou pelo quarto e de lá não desceu. Funcionários do hotel o encontraram já morto.

CRONOLOGIA

1873
Nasce em Palmira (MG), filho de próspera família cafeicultora
1898
Constrói o “nº 1”, o primeiro de 13 balões dirigíveis com sua assinatura
1906
Constrói um biplano, o 14-Bis, com o qual consegue se manter no ar
1907
Constrói o monoplano Demoiselle
1910
Anuncia o fim da carreira de aviador
1926
Interna-se num sanatório na Suíça
1929
Nova internação, agora na França
1932
Muda-se em maio para o Guarujá; em julho, comete suicídio

Trecho do documento

Laudo necrológico do legista Roberto Catunda
“Guarujá – Alberto Santos Dumont – 23-julho-1932. Alberto Santos Dumont – Brasileiro, branco, solteiro, com 59 anos de idade, inventor. Ao que consta, foi encontrado morto em um dos apartamentos do hotel de La Plage, no Guarujá, onde residia. Trata-se do cadáver de um homem de estatura mediana e de constituição regular, ainda em estado de fl acidez muscular. Veste terno de casimira preta, gravata preta e calça botinas pretas. Não encontramos pelo corpo vestígio de lesão traumática. A morte se deu por colapso cardíaco”.

Fonte:iHistória Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

Escritora analisa o resultado das eleições no Irã

Em uma entrevista à rede Al Jazeera, a escritora iraniana Azar Nafisi analisa o resultado das eleições no Irã. Para ela, uma parte importante do povo iraniano usou um espaço aberto para expressar o que quer. "Eles votaram não apenas contra Ahmadinejad, mas pelo que defendem. O quadro homogêneo pintado extremamente apresentado, em que a maioria das pessoas no Irã acreditam no islamismo ortodoxo não é verdadeira. O Irã é um país de diferentes minorias étnicas e de diferentes religiões. Muitas das minorias têm sido oprimidas pelo regime", afirma.

Kathleen McCaul

Azar Nafisi é mais conhecida como autora do Reading Lolita in Tehran: A Memoir in Books [algo como: “Lendo Lolita em Teerã: uma autobiografia nos livros”], um retrato sempre angustiante de como a Revolução Islâmica no Irã afetou uma professora e seus estudantes.
Seu novo livro, Things I’ve Been Silent About [“Coisas que tenho silenciado”], é um livro de memórias sobre como foi ter crescido contra o pano de fundo da revolução política iraniana.
Ela é professora visitante e diretora executiva das Cultural Conversations no Instituto de Política Externa da Faculdade de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins em Washington DC. Nafisi é professora de estética, cultura e literatura, e dá cursos sobre a relação entre cultura e política. A Al Jazeera conversou com ela sobre as recentes eleições no Irã.
Al JazeeraO que acaba de acontecer no Irã?
Azar Nafisi – Bem, o que acaba de acontecer no Irã é a continuação do que vem acontecendo há trinta anos. O povo iraniano levantou oposição e usou um espaço aberto para expressar o que quer. Eles votaram não apenas contra [o presidente Mahmoud] Ahmadinejad, mas pelo que defendem.
AJMas parece que Ahmadinejad ganhou com uma esmagadora maioria.
AN – Mas o mais impressionante é que tanta gente vá às ruas para demonstrar e protestar e tornar seus desejos conhecidos. Isso é ótimo porque desfaz o mito de que no o povo iraniano aprova as leis extremistas sobre eles imposta pelo regime islâmico. Em qualquer sociedade há extremistas.
Sempre haverá pessoas apoiando aqueles como Ahmadinejad, assim como muitos estadunidenses apoiaram o Senhor Bush ou os cristãos fundamentalistas. Mas isso não significa que o povo iraniano prefira uma teocracia a um país pluralista com liberdade religiosa e de expressão para todos.
Nos seus slogans e pedidos durante as eleições eles queriam liberdade e democracia e repudiaram as leis repressivas. Mas tão importante quanto isso é o fato de que muita gente da elite dominante no Irã estão entendendo que não podem comandar a sociedade do jeito que diziam que podiam. Um bom exemplo é o próprio Senhor Mousavi.
Para vencer, Mousavi assumiu alguns slogans progressistas, contra os quais ele já tinha lutado. Eu estava lá no começo da Revolução Islãmica, quando ele foi Primeiro Ministro, e implementou muitas das medidas repressivas que agora denuncia. Eu (assim como muitos outros) saí da universidade que Mousavi ajudou a fechar, como parte da Revolução Cultural.
O fato de Mousavi ou Karoobi escolherem falar de liberdade e direitos humanos mostra em que medida o regime está afetado pela resistência do povo iraniano. Eu penso que esses são pontos importantes a respeito das eleições e não apenas quem venceu e quem perdeu.
AJMas você não acha que o resultado dessas eleições, a eleição da linha dura de Ahmadinejad contra Mousavi, reformista, sugere que a maioria dos iranianos quer que sua teocracia continue?
AN – Para mim, eleições num país como o Irã não tem o mesmo significado que em países como os Estados Unidos. Nós dificilmente temos escolha em quem votar, de qualquer forma. Também não houve um só observador internacional. Um número razoável de pessoas não pode sequer ler no Irã e votará em Ahmadinejad.
Eu admito que posso estar enganada, mas para mim o verdadeiro critério de avaliação não é o número de votos. O verdadeiro critério está nas plataformas que os candidatos usam para vencer. Foi realmente impressionante e interessante ver o que Mousavi escolheu como plataforma para ganhar.
Ele não fez campanha apenas contra Ahmadinejad, mas contra os próprios fundamentos da República Islãmica. O fato de que Mousavi tenha posto sua carreira política em risco para defender essas posições indica que um número considerável de pessoas não quer o que existe agora.
AJEntão você, enquanto liberal, está otimista com o resultado dessas eleições?
AN – Sim, sem dúvida – quer dizer -, não otimista, mas esperançosa. Eu vivi 18 anos com a República Islãmica – nos piores anos. O que me deu esperança foi o modo como essa sociedade não-violenta resistiu ao poder oficial. E não tenho qualquer razão para mudar essa perspectiva. Mas o povo iraniano votou nesse poder oficial – eles votaram na República Islãmica. Agora votaram num presidente ortodoxo.
Um dos problemas das revoluções é que são um período de grande agitação mas também de grande confusão. Isso sempre me preocupa. As pessoas estão muito certas do que não querem, mas não muito do que querem. Quando o povo votou pela república islâmica não sabia em quê estava votando.
A JOs resultados dessas eleições pegaram o mundo de surpresa. A mídia internacional fracassou na percepção dos assuntos e sentimentos dos iranianos?
AN – Sim! Isso é o que me fascina toda vez que venho aos EUA. Quando eu escrevi sobre os estudantes lendo Lolita em Teerã fui acusada de dizer que a literatura ocidental é maior. Não era isso o que eu estava dizendo. O que eu estava dizendo era que as pessoas no Irã estavam tomando e analisando e vendo esse texto à sua própria maneira – de uma maneira que o Ocidente não faz.
O quadro homogêneo pintado extremamente apresentado, em que a maioria das pessoas no Irã acreditam no islamismo ortodoxo não é verdadeira. O Irã é um país de diferentes minorias étnicas e de diferentes religiões. Muitas das minorias têm sido oprimidas pelo regime. Isso não é o islamismo – é um estado usando o Islã para ter poder e nós precisamos acabar com essa mentira.
AJVocê tem falado e escrito sobre a importância da literatura e da cultura na luta pelos direitos humanos e liberdades no Irã e ao redor do mundo, mas será que a arte, a cultura e a literatura serão algum dia mais poderosas que a religião? É suficiente começar uma revolução?
AN – Se você observa isso no longo prazo, sim, serão. Eu nunca esqueço que Paul Ricoeur, o filósofo, veio falar no Irã. Ele tinha 80 anos mas foi tratado como Bon Jovi.
Em determinada altura, o Ministro para Orientação Islãmica disse a Ricoeur: “Pessoas como nós [políticos] vamos desaparecer, mas vocês, o povo, vai permanecer”. Isso sempre fica na minha lembrança. Nós não lembramos do rei da Pérsia No século XIV; tempo do poeta Hafiz; nós lembramos de Hafiz.
AJVocê trabalha para a Universidade John Hopkins como diretora executiva de conversações culturais. Como essa eleição influenciará as conversações do Irã com o resto do mundo?
AN – Parte disso depende do resto do mundo – como escolherá conversar com o Irã. O governo dos EUA é muitas vezes tolo nas suas respostas ao Irã. Para eles, apoiar os direitos humanos se traduz em dar dinheiro a vários grupos e indivíduos e em ter um tratamento hostil com o país. Mas o ponto é não agir por trás de indivíduo algum, mas dar voz ao povo. Shirin Ebadi, a advogada vencedora do Nobel, é alguém cuja confiança no Irã não é posta em questão. A mídia deveria dar-lhe mais espaço do que a Ahmadinejad.
Eu penso que Barack Obama deveria reconhecer que o povo iraniano tem uma história, uma cultura e aspirações que diferem do que diz o regime [de Ahmadinejad].
AJSeu último livro trata de um grupo de mulheres vivendo em Teerã e você tem conduzido muitos workshops para promover a atuação das mulheres na luta pelos direitos humanos e a cultura. O que o resutlado dessas eleições dizem a respeito da mulher hoje?
AN- Eu acho que as mulheres do Irã têm se tornado os canários do espírito. Se você quer medir o quanto uma sociedade é livre, observe as suas mulheres. As mulheres iranianas trabalharam verdadeiramente por sua liberdade nessas eleições. Veja a sua campanha pelas assinaturas – elas escolheram uma campanha não-violenta para educar as pessoas dentro e fora do país a respeito das leis repressivas do seu país.
Elas desempenharam um papel importante no último século trazendo para a disputa política uma revolução constitutional. No começo deste século, elas jogarão um papel central na mudança da sociedade em direção a sua abertura.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Estudo aponta despreparo de professores de Ciências em aulas de educação sexual

MANUEL ALVES FILHO

No Brasil, os professores de Ciências Biológicas com frequência não estão preparados para sanar as dúvidas dos estudantes do ensino fundamental sobre temas relativos à sexualidade. Isso acontece porque ao longo da formação desses profissionais a educação sexual é baseada quase que exclusivamente no aspecto biológico, deixando as dimensões humana e histórica em segundo plano. A constatação é da educadora Cláudia Ramos de Souza Bonfim, que acaba de defender tese de doutorado sobre o assunto na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, sob orientação do professor Sílvio Ancizar Sanches Gamboa. Segundo ela, as crianças e adolescentes de hoje anseiam por informações que vão além dos aspectos anatômicos e fisiológicos, e os educadores precisam estar aptos para preencher essa expectativa.

Atual vice-presidente da Associação Brasileira de Educação Sexual (Abrades), Cláudia Bonfim conta que o interesse em pesquisar o tema surgiu a partir da sua experiência como professora de Ciências em escolas de ensino fundamental. Ao deparar com as dúvidas dos alunos acerca de questões ligadas à sexualidade, ela própria percebeu que não havia sido devidamente preparada para esclarecê-los.

Quando o assunto é educação sexual, afirma a autora da tese, os cursos superiores de Ciências Biológicas costumam se ater quase que exclusivamente às vertentes anatômicas e fisiológicas dessa área do conhecimento. "Embora sejam importantes, elas não são suficientes para dar conta de explicar todos as nuances envolvidas num assunto tão relevante e complexo", afirma.

Conforme Cláudia Bonfim, ao falarem de educação sexual durante as aulas, os professores de Ciências normalmente repisam tópicos como métodos contraceptivos, gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis. "É necessário dissociar a sexualidade dos seus aspectos meramente negativos, como a questão do pecado ou como um desejo vergonhoso, que precisa ser profundamente controlado e silenciado. Ao silenciar o prazer, a potencialidade afetiva e a possibilidade de realização plena, a sociedade e a escola reforçam uma sexualidade procriativa, utilitarista, banal e consumista", afirma. No seu entender, é preciso falar sobre esses tópicos, mas também é indispensável ir além. "É fundamental, por exemplo, desenvolver uma visão mais crítica acerca da construção da sexualidade, de modo a promover um resgate histórico, político e filosófico do tema", acrescenta a especialista.

Nesse sentido, a autora da tese defende a criação de uma disciplina que trate da sexualidade humana no curso de Ciências Biológicas. Este, insiste ela, deve contemplar a construção histórica da sexualidade desde a Biologia às Ciências Humanas e da Saúde, com uma maior atenção à cultura, às políticas e às cenas contemporâneas, cujos produtos midiáticos têm produzido "significações" que influem diretamente na forma com que a sexualidade vem sendo vivida. "Ademais, por ser um tema transversal, é desejável que o tema também seja tratado nos demais cursos de Licenciatura e Pedagogia".

No entender da vice-presidente da Abrades, a falta de conhecimento dos professores, somada ao despreparo das famílias para falar sobre sexualidade, contribui para a desinformação dos jovens. Estes, por sua vez, tentam esclarecer as dúvidas em fontes pouco confiáveis, como amigos, sítios da internet ou televisão. "Os docentes pouco conseguiram avançar na superação da visão moralista, repressiva e biologista, o que se consolida, como já dito, pela falta de formação adequada desses profissionais. Os educadores encontram grande dificuldade para abordar um tema tão necessário como a educação sexual, especialmente em tempos de globalização e de difusão, por parte da mídia, de uma avalanche precoce, banal e hedonista do sexo".

Ao exibir telenovelas com cenas em que as pessoas possuem vários relacionamentos ao mesmo tempo e reportagens de adolescentes que vão para as baladas para disputar quem beija mais, prossegue Cláudia Bonfim, a televisão banaliza a discussão. "Está faltando falar de afeto. Falta, ainda, dizer que a sexualidade não está restrita aos genitais. A sexualidade envolve a mente e o corpo todo". Na sociedade atual, acrescenta a autora da tese, a sexualidade foi animalizada em vez de ser humanizada. "Cada vez mais, busca-se o prazer pelo prazer. Estamos esquecendo de transmitir com naturalidade aos jovens que sexo é bom, faz bem, pode ser vivido plenamente até a velhice, mas tem que ser feito com respeito, admiração e afeto pelo parceiro".

Passagem
Como tema, a sexualidade sofreu uma passagem histórica do campo da Biologia para o das Ciências Humanas. Num primeiro momento, explica Cláudia Bonfim, a sexualidade não tinha um peso econômico. Sua função era essencialmente a de perpetuar a espécie. As questões relativas ao assunto eram analisadas a partir de uma visão notadamente biológica, fundada nas contribuições dadas pelas pesquisas de Darwin, Lamarck e Mendel. Entretanto, com a mudança dos modos de produção, proporcionada pela Revolução Industrial, outros aspectos passaram a ser considerados. "A sociedade patriarcal passou a depositar um grande peso na sexualidade. A abordagem assumiu um caráter moralista, sempre em conformidade com o que pregava a Igreja Católica. Por essa posição, o sexo só poderia ser vivido dentro do casamento. A Igreja ainda nos condicionou a uma repressão sexual, não necessariamente para controlar nossos prazeres, mas para ter controle sobre aquilo que a sociedade considera fundamental: a garantia da perpetuação e legitimação da propriedade privada", detalha a pesquisadora.

A questão do filho legítimo, segundo ela, é exemplar nesse sentido. Ele era necessário para que o patriarca pudesse ter a quem deixar a herança da família. Ademais, o corpo permaneceu sendo visto como algo desprovido de sexualidade durante muito tempo. Era considerado antes de tudo um instrumento de trabalho. "A sexualidade humana não constituiu objeto de saber até o século XVII. A moral reinante prescrevia o silêncio sobre o sexo. Somente nos séculos XVII e XVIII é que são produzidos, por interesses diversos, como a expansão colonial, a industrialização incipiente e a consequente necessidade de povoação das colônias, novos discursos sobre a procriação e a sexualidade". O tema somente começou a ser objeto de uma reflexão humanista e crítica graças aos trabalhos de Marcuse, Engels, Foucault e Freud.

Atualmente, reforça Cláudia Bonfim, a sociedade vulgarizou ao extremo a sexualidade. "Nós ainda não conseguimos estabelecer um equilíbrio entre a repressão e a banalidade. Muitos pais vestem suas filhas de seis ou sete anos com roupas adultas, expondo precocemente a sua sexualidade, por meio de uma erotização inconsciente do corpo da criança. Não por acaso, as adolescentes estão ficando grávidas cada vez mais cedo. Sem que busquemos uma base histórica, filosófica e crítica, não conseguiremos alterar essa situação. Penso que o educador, com a devida contribuição da família, deve cumprir um papel central nessa tarefa, mas ele precisa ser devidamente qualificado para tal. Um integrante da banca que avaliou minha tese chegou a me perguntar se a minha visão não seria utópica. O que respondi é que se trata de uma utopia lúcida e desafiadora", finaliza a educadora, que trabalha atualmente como docente no curso de Pedagogia da Faculdade Dom Bosco e na Secretaria de Educação de Cornélio Procópio, município do Estado do Paraná.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Diploma desnecessário: uma vitória da lógica e da democracia

LUIZ ANTONIO MAGALHÃES

Não é mais preciso de canudo para ser jornalista no Brasil. Em uma decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal julgou na sessão de quarta-feira (17/06) a questão da obrigatoriedade de diploma específico para o exercício da profissão de jornalista. Foram oito votos contrários e apenas um favorável à exigência. Trata-se de uma vitória do jornalismo e da democracia brasileira, reafirmando as teses da liberdade de expressão e do livre pensamento, garantidas pela Constituição Federal.

Este observador já se manifestou sobre o assunto (aqui e aqui, entre outros tantos comentários no Observatório da Imprensa ou no blog Entrelinhas) e sempre apoiou o fim da obrigatoriedade do diploma. Antes que alguém pergunte, cabe logo o esclarecimento: jornalista desde 1995, quem assina este texto não tem o diploma específico, é formado em História pela Universidade de São Paulo e abandonou, no terceiro ano, o curso de Administração Pública na Fundação Getulio Vargas para abraçar a profissão (opção esta que acarretou algum prejuízo material, certamente). É preciso, portanto, desde logo esclarecer que não se trata aqui de advogar em causa própria, pois ao longo desses quase 15 anos a falta de diploma jamais foi óbice para o trabalho em veículos tão diferentes quanto a Folha de S. Paulo, Correio da Cidadania, PanoramaBrasil, DCI, Valor Econômico, além, é claro, deste Observatório, desde o ano 2000.

A questão da exigência do diploma para exercício do jornalismo é na verdade até simples: a profissão de jornalista dispensa a formação universitária específica porque não existe nenhuma técnica, norma ou regra que não se possa aprender nas redações, trabalhando, ou seja, fora das salas de aula. Há diversas profissões com as mesmas características, além da de cozinheiro, citada ironicamente pelo ministro Gilmar Mendes. Publicitários, músicos, artistas, escritores são alguns assemelhados: é perfeitamente possível realizar o trabalho sem ter aprendido a teoria na escola.

Tudo que um bom jornalista precisa é de talento, curiosidade e vontade de aprender a exercer a profissão, seja na universidade ou no dia-a-dia de seu trabalho. E de preferência manifestar esta vontade ao longo de toda a sua vida, continuamente.

Salvo exceções, os melhores profissionais acabarão sendo os mais bem formados e para isto só há uma coisa a fazer: estudar bastante. Este observador recomendaria a um jovem que deseja ingressar na profissão que curse qualquer faculdade – pode ser Direito, Economia, Engenharia, qualquer das Ciências Humanas ou até mesmo Medicina, Química ou Matemática. Uma pós-graduação em Comunicação complementaria maravilhosamente a formação, mas isto não é uma necessidade imperiosa.

O fim da exigência do diploma acaba com uma barreira corporativista tacanha, levantada por um sindicalismo medíocre, e não significa em absoluto o fim das escolas de jornalismo. De fato, o fim da exigência não impedirá que muitos jovens continuem cursando jornalismo para ingressar na profissão. Atualmente existem excelentes faculdades de Publicidade e Marketing, embora o diploma não seja obrigatório para o exercício da profissão. Muitos profissionais que se destacam neste meio são recrutados nas universidades. Por outro lado, gente com talento especial e até sem educação formal alguma poderá exercer o jornalismo sem os constrangimentos dos defensores de um canudo que no fundo só servia para a manutenção de seus próprios feudos no meio sindical. Ou alguém imagina, em sã consciência, um sindicato dos escritores lutando pela exigência de diploma específico para a profissão de escritor; um sindicato dos atores tentando impor a freqüência em escolas de arte dramática para que seus pares subam nos palcos?

É claro que a Fenaj e as faculdades privadas (ou seriam fábricas de diplomas?) não vão dar a batalha por perdida, certamente vem aí algum projeto de lei estapafúrdio como o do Conselho Federal de Jornalismo para reinventar a obrigatoriedade do diploma. Afinal, ninguém larga a rapadura assim de graça, portanto, esta briga ainda vai longe, muito longe.

Tudo somado, porém, a verdade é que o STF tomou a decisão mais acertada. Não que a questão do canudo seja central na discussão sobre mídia e imprensa no país hoje, mas o fim do diploma obrigatório foi bom para o Brasil, bom para o jornalismo, bom para os leitores. O futuro vai mostrar a correção da decisão tomada em uma fria quarta-feira de junho.

Luiz Antonio Magalhães é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Para antropóloga, uso da burca seria perpetuar estereótipos do período colonial

Dounia Bouzar

Lembremos que "religião" vem da palavra em latim "relegere" (recolher; reler) e "religare" (religar). O crente encontra forças em sua relação com Deus para ir até os outros e encontrar sentido para sua vida.

Em compensação, a palavra "seita" significa "seguir" e "separar". Historicamente, essa palavra designava a dissidência de um grupo religioso, mas hoje ela é empregada para designar qualquer "associação totalitária que solapa as liberdades individuais". "Seita" definitivamente assumiu um significado pejorativo em razão da intolerância manifestada por esses grupos, grandes ou pequenos, em relação ao mundo externo, e efeitos destruidores constatados na personalidade dos adeptos.

Manpreet Romana/AFP -5.out.2008

Mulheres vestidas com a burca fazem compra em feira de Cabul, no Afeganistão

O que mais é preciso para proibir qualquer vestimenta que despersonalize um ser humano? A burca ou o nikab têm isso de bom, eles são claros – por assim dizer – a respeito do objetivo que buscam: trata-se de erguer uma fronteira instransponível entre aqueles que estão "dentro" e aqueles que estão "fora"… Trata-se de levar os adeptos à autoexclusão e à exclusão dos outros, todos aqueles que não são como eles…
Vale a pena iniciar um grande debate sobre tais evidências? Seria o caso se esses pequenos grupos se referissem não ao islamismo, mas ao cristianismo ou ao budismo? Pois é um fato: quando a religião muçulmana está em questão, perde-se a razão e não se aplica mais os critérios de raciocínio habituais. Não se sabe mais onde colocar o cursor: a partir de quando tal ou tal comportamento faz parte da liberdade de consciência e a partir de quando ele revela uma disfunção, ou até um radicalismo? Divididos entre o medo de impedir o laicismo e o de cair na "islamofobia", oscilamos entre a demonização e a permissividade. Aquela que usa um pequeno lenço rosa combinando com seu jeans passa por islamita, enquanto os integristas passam por muçulmanos…

Pois não nos enganamos: esses pequenos grupos que se dizem "salafistas" não se inserem na história muçulmana, eles são uma emanação moderna deste último século! Abrir um debate para limitar a liberdade religiosa equivaleria a considerá-los como uma corrente muçulmana e não como uma simples seita. Toda sua estratégia consiste justamente em fazer seus discursos totalitários passarem como se fossem simples mandamentos religiosos. Segundo esses gurus, para respeitar o Islã, a sociedade deve aceitá-los. O posicionamento contrário seria prova de islamofobia e de etnocentrismo.
Se um pequeno grupo tivesse a mesma atitude em nome de uma outra religião, há muito tempo a opinião pública teria diagnosticado seu comportamento como preocupante de um ponto de vista psíquico. Em nenhum momento se fechar em um pano preto poderia ter sido ligado à simples aplicação automática de uma religião.
Essa hesitação em distinguir entre o que faz parte do islamismo e o que faz parte da disfunção de uma pessoa parte, a princípio, de um bom sentimento: respeitar os muçulmanos que têm outras tradições. Mas olhando melhor, ela também é o produto de representações negativas. A permissividade e a demonizacao são as duas faces de uma mesma moeda: aceitar tudo "em nome do islamismo" equivale a ter uma consideração bem fraca por essa religião, que continua a ser vista como "a própria alteridade".
Em nome do "respeito pela diferença" aparece, então, uma nítida tendência a cair em uma espécie de "clausura na diferenciação absoluta", que permite entender qualquer disfunção como o produto dessa religião que "permaneceu arcaica", uma vez que "o mundo deles" não é como "o nosso mundo"… Essa religião continua a encarnar "um outro mundo".
Aceitar o pano preto não seria um sinal de respeito pelo islamismo; pelo contrário, seria perpetuar os estereótipos que datam do período colonial.

Dounia Bouzar é antropóloga e pesquisadora visitante no Observatório de Fatos Religiosos
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Aliados ou adversários?

Movimento sindical tem desafio de unir trabalhadores em momento de fragmentação

Renato Godoy de Toledo
da Redação

O conjunto dos trabalhadores vive um conflito interno permanente, sobretudo em momentos de agravamento de sua situação econômica e social. Enquanto a condição de igualdade entre os trabalhadores os une em prol de um objetivo comum e contra um adversário – o patronato –, a dinâmica competitiva do capitalismo os coloca como oponentes na luta por um posto de trabalho ou por um cargo melhor dentro da empresa.
Disso, pode ser dito que a tarefa das organizações de trabalhadores comprometidas com a transformação social tem sido fortalecer a tendência à associação, em detrimento da competição. Para Ruy Braga, sociólogo da USP, essa contradição no seio da classe trabalhadora é inerente à sua própria constituição histórica. “Ela faz parte da classe, que é pressionada por duas tendências.
Primeiro, a exploração do trabalho, que produz a associação e faz com que os trabalhadores se reconheçam como aliados. Por outro lado, ela é fragmentada pelo mercado de trabalho. Então, ela vive nessa contradição entre associação e competição. Isso é uma constatação sociológica que independe da análise política”, constata.
Desafios
Diante dessa realidade, Braga aponta que as direções operárias têm o desa- fio de promover a associação num momento de fragmentação. “O grande enigma é como fazer com que as tendências de fragmentação sejam superadas pela associação. No caso brasileiro, nos últimos anos, o que ocorreu foi a tendência para a fragmentação. Houve uma atomização dos trabalhadores e uma desarticulação. E essa tendência não foi revertida no governo Lula, apesar de ter havido uma maior formalização”, analisa.
Medidas
O sociólogo Mauro Iasi ressalta o fato de o individualismo ter aumentado com a implementação da reestruturação produtiva. Como exemplo de associativismo, Iasi cita o momento de ascensão do movimento operário no final da década 1970 que deu origem ao chamado Novo Sindicalismo.
“Em períodos normais de funcionamento do capitalismo, os trabalhadores se veem como indivíduos concorrendo por um lugar na divisão do trabalho. A chamada reestruturação produtiva acirrou essa disputa. No enfrentamento contra o capital, os trabalhadores podem encontrar um ponto de fusão e se enxergar como uma classe além dos interesses imediatos e individuais.
Vimos isso na época do fim da ditadura militar no qual a fusão se deu contra o arrocho salarial e a própria forma autoritária do governo, produzindo uma unidade da classe”, relembra. Para Iasi, a forma de combater a atomização dos trabalhadores parte da postura que os seus dirigentes devem adotar diante das soluções propostas pelos empresários.
“O primeiro passo é recusar a tese do pacto social e buscar uma ação que preze a independência e a autonomia de classe. A classe trabalhadora não age movida por qualquer essência reformista ou revolucionária, mas, em grande parte, é moldada pela ação das organizações e direções que atuam em cada momento histórico”, ratifica.
Apesar do cenário de atomização visto no mundo do trabalho, Iasi sustenta que há condições propícias para tomar medidas mais incisivas. “Existe uma base material para retomar as lutas e enfrentamentos que resgatariam a independência de classe e permitiriam um salto na consciência de classe, hoje pulverizada em interesses pessoais e hegemonizada por uma visão marcada pelo entendimento e aliança com a burguesia”, acredita.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Emir Sader: crise não marcará fim do capitalismo

Para Emir, é preciso analisar a crise atual “sem analogia mecânica” com, por exemplo, a crise capitalista de 1929. “Já chegaram a dizer até que agora vem guerra. Guerra entre quem?”. A seu ver, a crise deve ser entendida nos marcos da trajetória do capitalismo no século 20. Como contrapartida, a crise trouxe novos parâmetros para o debate: “A História voltou a ficar aberta – se é que já chegou a fechar. As alternativas para a esquerda estão mais abertas que antes", defendeu durante seminário promovido por PT, PC do B, Fundação Maurício Grabois, Fundação Perseu Abramo e Corint.

André Cintra

“É verdade que a hegemonia americana se enfraquece. Mas não aparece no horizonte nenhum país candidato a potência que possa substituir os Estados Unidos”, disse Sader às cerca de 250 pessoas presentes no Hotel Braston, em São Paulo, no seminário promovido por PT, PCdoB, Fundação Maurício Grabois, Fundação Perseu Abramo e Corint.
Como contrapartida, ele afirmou que a crise trouxe novos parâmetros para o debate: “A História voltou a ficar aberta – se é que já chegou a fechar. As alternativas para a esquerda estão mais abertas que antes.”
Emir ponderou que qualquer interpretação da crise deve levar em conta os princípios do marxismo – que “não são dogmas nem axiomas”. Um dos princípios mais relevantes – por refletir um drama atual do marxismo – é a ideia de que “sem teoria revolucionaria não há prática revolucionária”.
“A primeira geração de marxistas – Marx, Engels, Lênin, Gramsci, Rosa Luxemburgo – era de pensadores revolucionários que também eram ativistas revolucionários”, lembra Emir. “Hoje a ruptura provoca a tendência de a intelectualidade girar sobre si mesma e os partidos serem muito pragmáticos.”
Contexto da crise
Para Emir, é preciso analisar a crise atual “sem analogia mecânica” com, por exemplo, a crise capitalista de 1929. “Já chegaram a dizer até que agora vem guerra. Guerra entre quem?”. A seu ver, a crise deve ser entendida nos marcos da trajetória do capitalismo no século 20.
Da Segunda Guerra Mundial até a década de 1970, o sistema viveu um longo ciclo de prosperidade – o “período de ouro”, conforme a definição do historiador anglo-egípcio Erich Hobsbawn. “Houve um grande crescimento industrial até na periferia do capitalismo – no Brasil, no México, na Argentina”, lembra Emir. O ciclo seguinte, no entanto, é de recessão econômica – mas a queda do socialismo fortalece os Estados Unidos.
“Quem ganha reconta a história, narra os fatos – e a vitória ideológica do capitalismo foi de proporções vitais.” O socialismo sai da agenda, perde em atualidade. Países como China e Cuba passam a uma “situação de defensiva histórica”. Além disso, o neoliberalismo fragmentou a sociedade, jogou os trabalhadores no trabalho informal, dificultou a resistência. “A derrota do socialismo serve, afinal, para desqualificar a política.”
A financeirização
Com o anúncio da “vitória da economia liberal”, os novos embates em pauta se davam em temas como “democracia e totalitarismo”, “ocidente versus terrorismo”. Já na economia, “consolida-se a passagem do Estado de bem-estar social para a fase neoliberal, de desregulamentação”. É a fase da financeirização radical – ou, nas palavras de Emir Sader, “um câncer incrustado dentro do capitalismo”.
“Marx dizia que o capitalismo é o sistema que faz crescer as forças produtivas como nenhum outro – seu problema era não distribuir a riqueza. O que ocorre, sob a hegemonia financeira, é a transferência de recursos do setor produtivo para o setor especulativo, que não produz bens nem serviços”, explica Emir. Na América Latina, segundo o professor, a “euforia neoliberal não trouxe vantagens econômicas. As três maiores economias mostraram fragilidade – o México quebrou em 1994, o Brasil em 1999 e a Argentina em 2002 e 2003”.
Para Emir Sader, a atual crise do capitalismo emerge em meio a “um período de relativa estabilidade, com uma única grande potência. Existe uma turbulência prolongada sem resolução previsível, mas qualquer resolução será de alternativas dentro do capitalismo, sem ruptura”.
Daí sua conclusão de que “o capitalismo não termina com a crise – porque ele não cai por si mesmo, tem de ser derrubado –, nem tampouco o neoliberalismo acabou”. Nessas condições, o Estado age tal qual um “médico acionado quando o capitalismo sofre doenças”.
Reflexos
A crise abre cenários distintos nas várias partes do mundo. Barack Obama assume a Casa Branca para enfrentar não só a crise econômica – mas também os impasses de duas guerras abertas e não-resolvidas. Com uma vantagem, brinca Emir: “É praticamente o único país com iniciação política no mundo: ele faz a guerra e também inicia as negociações de paz”. Na geopolítica, o tom do discurso muda – com Cuba e Irã, por exemplo.
Por outro lado, Emir Sader sustenta que “a crise revela a falência da Europa como conglomerado autônomo. Em tese, se era para ter uma moeda alternativa agora, seria o euro”. Mas, ao contrário, as ideias da direita voltam com força no Velho Mundo, e o continente se comporta como um “aliado subordinado dos Estados Unidos”.
Num mundo dominado pelo “monopólio das armas, do dinheiro e das palavras”, há brutais “guerras humanitárias” seguidas de intervenções políticas. É um “braço imperialista renovado na época unipolar”. Por isso, afirma Emir, iniciativas como a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) são importantes.
O “novo tempo” da América Latina possibilitou que a resolução do conflito entre Colômbia e Equador tenha ocorrido “no nosso âmbito”, sem o arbítrio dos Estados Unidos ou da ONU. O continente reage. “É extraordinário ver que o primeiro país a romper formalmente com Israel foi a Bolívia, num gesto de solidariedade baseada em seus próprios princípios.”
Saídas
Para a economia brasileira, a crise é um teste. “Estamos pagando um preço caro”, afirma Emir. Além de queda da demanda externa e, consequentemente, da exportação, houve um refluxo dos créditos. Na opinião do professor, o governo precisa “encampar a luta contra o monopólio da hegemonia neoliberal”, diversificar ainda mais o comércio internacional e aumentar o peso do mercado interno, taxando o capital externo.
“Lula manteve a hegemonia do capital financeiro e a autonomia do Banco Central, ainda que tenha retomado o papel do desenvolvimento. Sem abandonar a conciliação, a aliança de classes, sem deixar de ser parêntesis do modelo internacional, o governo Lula não será alternativa de um novo modelo”, criticou Emir. A seu ver, é preciso resistir ainda à precarização e à alienação do trabalho, voltando também a estimular a sindicalização. “Mesmo o Fórum Social Mundial nunca vai avançar muito se tiver só o tema da cidadania e não tratar do trabalho”.
Sobre a nefasta atuação da mídia na América Latina, Emir Sader opina que há “um único jornal bom” – o diário mexicano La Jornada, que tem oito edições regionais. “O Página 12, da Argentina, é bom, mas é um jornal pequeno.”. O Brasil, por sua vez, padece de um governo que, na área de comunicação, “não fez quase nada – apenas diversificou um pouco a distribuição de publicidade”. A TV Brasil, na sua opinião, “é um fracasso”.
“Teremos as heranças das transformações que o Lula fez e das que ele não fez”, sintetiza Emir. Além de “quebrar a hegemonia do capital financeiro”, o Brasil, “país mais desigual do continente mais desigual”, tem adotar “um modelo de desenvolvimento agrário que prescinda do agronegócio”.
Outra prioridade, segundo Emir, é “construir uma opinião pública alternativa – pela internet, com os blogs, mas também democratizando a comunicação, a TV, o lazer”. A maior dificuldade, diz ele, “é convencer as massas de que nossa utopia é a justiça social”. Seria uma resposta ao “individualismo brutal”, que leva as pessoas a pensarem apenas numa coisa: “O que vai acontecer comigo?”.
Fonte: Fundação Maurício Grabois

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

A quem pertence o DNA?

Transnacionais farmacêuticas, antropólogos, governos e polícias buscam reunir o maior número possível de dados genéticos sobre as populações. Saúde e Ciência podem se tornar pretextos para que algumas empresas controlem a produção de medicamentos inovadores e para invasões de privacidade.

Franz Manni

DNA Três letras para designar uma substância inquietante, misteriosa e quase imaterial que, contudo, está em cada uma das mais de cem trilhões de células dos nossos organismos. Sem dúvida, trata-se de algo real, dotado de uma massa – cerca de 200 gramas – e de uma forma – a famosa dupla-hélice. É desta concretude que eu parto para afirmar minha percepção européia e individualista sobre o tema, formada no respeito aos princípios da propriedade privada: da mesma maneira que eu poderia, eventualmente, vender meu rim a uma organização ligada ao tráfico de órgãos ou doá-lo para um familiar, o DNA do meu corpo também me pertence.

Entretanto, mesmo que eu optasse por comercializar meu conteúdo genético, não saberia quanto ele vale. Isso porque ignoro completamente o que meu DNA contém. E, ainda que conhecesse sua seqüência, precisaria da ajuda de um especialista para compreender alguma coisa. O mesmo acontece toda vez que nos separamos de um bem quase desconhecido, tal como um livro escrito numa língua estranha ou as bobinas de um filme impossível de ser visto: temos dificuldades em atribuir-lhes valor. Claro, sempre podemos usar o “truque” de um vendedor numa feira de bricabraque, que para não avaliar de maneira distorcida as mercadorias sobre as quais não têm nenhum conhecimento, tenta medir com maior precisão o perfil do comprador. Se este for bem vestido, vier de longe ou estiver acompanhado de um perito, o feirante pode razoavelmente supor que o bem cobiçado tem grande valor, e comprá-lo ou vendê-lo de maneira mais segura. No caso do DNA, as coisas funcionam mais ou menos da mesma forma. Só que os compradores podem ser pesquisadores que se deslocam até lugares remotos do planeta para coletar o código genético de certas populações humanas; ou funcionários de seguradoras norte-americanas, que andam sempre bem vestidos e à procura de uma seqüência portadora de alguma doença prejudicial à saúde financeira da companhia; e até mesmo a polícia, que investe quantias consideráveis na constituição de bancos de dados. Todos são grandes negociantes em potencial.

Podemos pensar que eles estão agindo movidos por um interesse geral, mas nada garante isso. Os geneticistas que solicitam uma amostragem do nosso DNA justificam em geral seu pedido apresentando razões científicas, que englobam as necessidades da pesquisa médica aplicada a patologias supostamente hereditárias. Conhecendo-se os vínculos genealógicos que unem certos indivíduos acometidos de uma mesma doença, pode-se determinar se esta é genética e identificar o fragmento de DNA responsável pelas disfunções. Em tal contexto, o interesse pessoal dos pesquisadores e seu desejo eventual de galgar degraus na carreira parecem irrisórios, se comparados ao bem que farão aos enfermos e à sociedade como um todo, que arca com os custos dos seus tratamentos. Neste caso, é bastante compreensível ceder seu DNA sem receber em troca qualquer compensação financeira. Isso se o geneticista estiver trabalhando para um hospital ou um centro público de pesquisas. Caso ele atue servindo uma companhia privada cujo lucro vem, em parte, das pesquisas médicas, é plausível questionar se a prestação de serviços proporcionada para os doentes e a sociedade será mesmo efetuada de maneira tão desinteressada quanto a doação da amostragem de DNA.

Na Islândia, colonizada pelos vikings, e nas Ilhas Norfolk, cuja população originou-se de um motim no mar, exemplos de populações consangüíneas que atraem pesquisas

Além disso, os cientistas interessados na pesquisa do código genético solicitam contribuições não apenas de indivíduos, mas também de coletividades. E até mesmo de países inteiros. Os vikings, por exemplo, que colonizaram a Islândia a partir do século 9, deixaram como herança uma tradição administrativa robusta o suficiente para que a genealogia da ilha estivesse quase integralmente disponível e remontasse a épocas muito distantes. Relativamente isolados por razões geográficas, os islandeses formam uma população homogênea, o que fez com que seu país fosse o lugar ideal para uma pesquisa sobre eventuais causas genéticas de doenças: nesse território, os vínculos de consangüinidade que existem entre dois doentes podem ser determinados com facilidade. Esta condição favorável não passou despercebida pelo grupo farmacêutico Hoffman-La Roche, que propôs ao governo, por intermédio da sociedade deCODE Genetics, a seguinte troca: o Estado forneceria o acesso aos dados médicos dos islandeses e, caso conseguissem desenvolver tratamentos, estes seriam disponibilizados gratuitamente para a população inteira.

Apesar da violação da vida privada que caracterizava esta operação, perpetrada por uma sociedade comercial, o Parlamento islandês decidiu, em 1998, centralizar o conjunto dos dossiês médicos da população, além das árvores genealógicas, e autorizar seu acesso exclusivo à deCODE Genetics para que os pesquisadores pudessem confrontar esses elementos com os dados genéticos coletados. Dessa forma, o DNA dos cidadãos islandeses adquiriu o status de uma espécie de propriedade coletiva, da qual os representantes legais – os parlamentares – puderam dispor, trocando-a pelos benefícios médicos pretendidos pelo grupo Hoffmann-La Roche. E não se tratava de um “empréstimo temporário”, conforme alguns dos participantes haviam acreditado, mas sim de uma cessão definitiva que não lhes dava direito algum de interferirem no curso dos eventos. Assim, um doador voluntário que decidisse voltar atrás e se retirar do acordo não tinha chance alguma de ganhar a causa. O registro da sua seqüência de DNA não seria apagado do banco de dados.

Aos olhos de um geneticista, os habitantes da ilha de Norfolk apresentam um interesse comparável aos islandeses. Situado entre a Nova Zelândia e a Austrália, este território dispõe de um governo autônomo, ainda que dependente de Camberra. Seus moradores descendem, em grande parte, dos amotinados da fragata inglesa HMS Bounty: em 1789, conforme bem mostra um célebre filme com Marlon Brando, vários marinheiros e um oficial revoltaram-se contra o terrível capitão William Bligh e se apoderam do navio. Bligh e seus seguidores foram abandonados numa chalupa no meio do Pacífico e depois de oito mil quilômetros navegando conseguiram alcançar a ilha de Timor. Já os amotinados, depois de um périplo pelo Tahiti, conheceram um destino mais difícil: caíram nas mãos da justiça inglesa. Apenas nove conseguiram escapar e se instalaram, acompanhados das suas mulheres polinésias, na obscura ilha de Pitcairn, onde fundaram uma comunidade. O grupo, cuja presença foi detectada pelos ingleses em 1808, foi abandonado à sua sorte. A situação permaneceu a mesma até 1856, quando a colônia foi deslocada para uma ilha maior e mais acessível, Norfolk.

Instituições como a Unesco e a OCDE tentam definir recomendações para que as pesquisas e coletas sejam realizadas de maneira aceitável do ponto de vista ético

Em 1999, 143 anos depois, eu ainda era um estudante à procura de um assunto para a sua tese e escrevi para o governo de Norfolk solicitando autorização para estudar o DNA dos ilhéus. Assim como na Islândia e também devido ao seu processo de colonização, existe une genealogia exaustiva da população. Oito meses mais tarde, o ministro da Saúde respondeu negativamente. A sua carta acrescentava que uma série de questões sensíveis, tais como as da propriedade da informação obtida, do seu controle e do respeito pela vida privada, além do temor de que os habitantes sejam considerados cobaias, havia motivado esta decisão da Assembléia Legislativa. Além de tudo, ele me proibiu de empreender demais contatos com os ilhéus, qualquer que fosse o motivo. Ou seja, os temores que haviam sido ignorados pela votação islandesa foram reconhecidos como legítimos em Norfolk. Legitimidade esta que desmoronou um ano mais tarde quando, sempre em nome do povo, a Assembléia Legislativa da ilha emitiu um parecer favorável à proposta da pesquisadora Lyn Griffiths, da universidade australiana Griffith. Seu projeto comportava um programa de saúde pública praticamente idêntico ao da Islândia. Tanto num caso como no outro, as duas assembléias pareceram agir em nome de um interesse geral do qual elas se consideravam depositárias.

Às margens da pesquisa médica, outras disciplinas estão envolvidas na coleta de DNA, como os estudos antropológicos que se focalizam na compreensão da história genética das populações humanas. Este campo, que se aparenta à arqueologia ou à paleontologia no que diz respeito às suas motivações científicas, em geral escapa das decisões governamentais, pois seus avanços não são tão relevantes quanto os proporcionados por áreas com a saúde pública. Por isso, estes outros pesquisadores preferem negociar diretamente com dirigentes locais – prefeitos, diretores de hospital ou chefes de aldeia – as condições do seu acesso à população. Uma vez que a questão científica foi debatida à exaustão e que essas pessoas chegam a um acordo em relação à relevância do estudo, os pesquisadores começam a convencer os possíveis doadores voluntários de DNA.

Instituições tais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), ou a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), tentaram definir recomendações para que essas operações sejam realizadas de maneira aceitável do ponto de vista ético. Tudo se baseia na assinatura de um acordo, por meio do qual cada doador aceita ceder uma amostragem do seu DNA após o acesso a uma série de informações. Mas este ato não confere ao pesquisador, em teoria, o direito de operar cruzamentos dos resultados dos testes genéticos com informações individuais provenientes de outras fontes, eventualmente disponíveis em outros lugares. Ele teria que obter um novo consentimento para utilizar os dados já estocados. Além disso, as amostragens são anônimas e devem ser supostamente destruídas ao final das experiências.

Certos cidadãos bascos conferiram conteúdo político à especificidade genética que parece caracterizá-los. O Bene Israel, uma comunidade judaica da Índia, também

No quadro desta genética “antropológica” o peso das decisões individuais parece ser mais importante. Em relação à pesquisa médica, no entanto, a escala se altera: a genética das populações estuda grupos humanos de dimensão mais reduzida do que a dos habitantes de uma ilha ou de um país. Quando os objetivos almejados são corretamente explicados, torna-se claro para os doadores que o seu DNA poderia conter uma mensagem que será significativa no plano da comunidade. A informação genética é então considerada patrimônio comum, da mesma forma que uma tradição musical, artística ou culinária, conforme mostram as reações suscitadas pelos resultados de pesquisas locais.

Certos cidadãos bascos, por exemplo, conferiram um conteúdo político à especificidade genética que parece caracterizá-los. Da mesma forma, os integrantes da Bene Israel, uma comunidade judaica da Índia, associaram um conteúdo religioso aos testes genéticos que haviam demonstrado a similaridade do seu DNA com o de populações do Oriente Médio. Com essa similitude, eles viam as suas tradições serem confirmadas. Ao mesmo tempo, enquanto as análises genéticas parecem poder reforçar a identidade de um grupo, elas podem também vir a questioná-la ou apontar certas ressalvas. Este foi o caso de uma pesquisa sobre os caracalpaques, habitantes do Caracalpaquistão (região do Uzbequistão), que não conseguiu estabelecer nenhum embasamento genético próprio destas tribos, embora cada uma delas reivindicasse ser descendente de um ancestral único.

Resta definir até que ponto o DNA pode ser percebido como coletivo pelo próprio grupo interessado, uma questão diferente daquela do direito de uma assembléia legislativa de autorizar ou não o acesso a ele. Geneticamente falando, um grupo de pessoas possui um DNA tanto mais “coletivo” – ou seja, que apresenta fortes similitudes entre indivíduos nas seqüências que comportam as variações genéticas humanas – quanto os seus membros são consangüíneos. Embora esta noção faça sentido no plano familiar, ela se torna imprecisa à medida que o círculo se amplia e se complica ao sofrer interferências de fatores lingüísticos e religiosos. Não foi por acaso que as decisões tomadas pelas assembléias de Norfolk e da Islândia diziam respeito a duas comunidades isoladas e integradas: debates desta natureza passam a se focalizar na identidade do grupo e na legitimidade atribuída aos seus representantes.

Pesquisa ou intimidação? Na França, militantes anti-transgênicos militantes que destruíram uma plantação de milho transgênico foram submetidos à coleta do seu DNA

Entre os interesses coletivos que justificam uma coleta em grande escala de DNA estão as questões relativas à segurança, que ocupam um espaço importante. Na França, as forças da ordem estão autorizadas a colher o código genético de indivíduos detidos, no âmbito dos seus inquéritos. Este direito resultou na criação, em 1998, do Fichier National Automatisé des Empreintes Génétiques (FNAEG – Arquivo Nacional Automatizado das Impressões Genéticas), que fora concebido inicialmente para colher as impressões genéticas apenas de autores de crimes sexuais em crianças. De 2001 a 2007, seis substitutivos ampliaram o seu alcance para outras infrações, como a destruição ou a deterioração de bens [1]. Com base nessas novas disposições legais, militantes anti-OGM (organismos geneticamente modificados) que destruíram uma plantação de milho transgênico foram submetidos à coleta do seu DNA. Os que se recusaram viram-se obrigados a pagar uma multa de 15 mil euros (cerca de 40 mil reais), eventualmente acrescida de uma pena de um ano de prisão.

Os arquivos do FNAEG dizem respeito tanto aos condenados quanto a pessoas processadas e mais tarde inocentadas. Neste último caso, a lei prevê a possibilidade de exclusão da ficha, solicitado por meio de um requerimento perante o procurador da República. Mas o pedido não obtém ganho de causa automático e, além de tudo, o requerente não dispõe de meio algum para verificar se sua solicitação foi realmente cumprida. Com a entrada em vigor da lei sobre a segurança interna do território, de 2003, a decisão de proceder a uma coleta de DNA deixa de ser da alçada exclusiva do ministério público: a polícia pode também decidir sobre a questão. Além disso, os textos legais não determinam atualmente nenhum limite de idade para os alvos da coleta.

No começo de 2008, o FNAEG continha cerca de 717 mil fichas e seguia inchando, no ritmo de 30 mil novos perfis por mês [2]. Elas serão conservadas durante 40 anos no caso dos condenados, e por 25 anos nos de todas as outras pessoas fichadas. Este número elevado de informações resulta, em parte, do fichamento retroativo: uma pessoa que foi encarcerada por conta de fatos que, no momento em que foram cometidos, não eram enquadrados pela lei e não justificavam uma coleta, pode ter seu DNA requerido se a lei tiver sido alterada nesse meio-tempo. Não muda nada o fato do caso já ter sido julgado e de a coleta não representar outro interesse senão o de fichar o indivíduo. Em caso de recusa, a justiça sabe se mostrar convincente: as sanções por insubmissão aos testes de DNA prevêem a anulação das reduções de eventuais penas.

Em 2004, um matemático alemão demonstrou a falta de confiabilidade dos retratos falados elaborados pelo FBI nos Estados Unidos, a partir de um banco de dados genético

Este quadro coercitivo mostra que nós não podemos dispor como bem entendemos do nosso genoma. Por enquanto, a lei não autoriza (ainda) a coleta por meio da força. Contudo, ela admite que a polícia use algumas artimanhas que tornam o primeiro método desnecessário: um pequeno lenço, uma bituca de cigarro ou um fio de cabelo contêm DNA em quantidade suficiente para se obter uma impressão genética. A tendência, que já despontava com a pesquisa médica e com a genética das populações, se confirma na chamada luta contra o crime: o DNA é considerado como uma propriedade coletiva administrada pelos governantes de cada país. Não só o nosso DNA não nos pertence verdadeiramente, como ele não vale mais do que 15 mil euros, no melhor dos casos.

Desde a sua criação, a eficiência dos serviços franceses de identificação judiciária não parou de progredir. Ao que tudo indica, eles deverão lançar mão de uma utilização cada vez mais maciça do DNA – mesmo em casos que não estejam enquadrados pelo direito penal, como já ocorreu. Aos olhos do ministério do Interior, o DNA não passa de uma extensão das impressões digitais, mais confiável e poderosa. Seria o caso de se esperar das autoridades que elas empreendam uma reflexão científica, ética ou filosófica sobre a diferença entre as duas? Ou de temer que o DNA de uma prova de delito também seja utilizado para elaborar o “retrato falado genético” de um suspeito procurado (proveniência geográfica possível, origem étnica potencial), e não apenas para se assegurar de que um indiciado possui efetivamente um DNA idêntico àquele encontrado na cena do crime? Esta prática é oficialmente proibida na França, porém legal nos Estados Unidos. Se ela se generalizar, poderá provocar erros judiciários em grande escala, concentrando as investigações em pessoas consideradas potencialmente culpadas de um delito, por “terem um semblante genético suspeito”.

Em 2004, o matemático alemão Hans Jurgen Bandelt demonstrou a falta de confiabilidade dos retratos falados elaborados nos Estados Unidos pelo Federal Bureau of Investigação (FBI) a partir de um banco de dados genético [Bandelt et al., “Problems in FBI mtDNA Database”, Science, Washington, 2004. ]. Aliás, o próprio princípio da elaboração de perfis a partir de dados genéticos apresenta problemas. Em 1997, a análise do DNA de um grande número de pessoas cujo sobrenome era “Cohen” identificava um marcador genético que parecia ser característico de todas elas [3]. Alguns círculos religiosos viram nisso a confirmação científica de uma narrativa tradicional que identifica os Cohen como sendo os descendentes de uma casta de sacerdotes judeus chamada Cohanim. Contudo, pesquisas realizadas posteriormente apontaram que o tal marcador também era encontrado, em uma freqüência análoga, em populações orientais tais como os iemenitas, além de beduínos do deserto, os quais não tinham vínculo algum com os Cohanim.

Imaginemos agora que um crime tenha sido cometido em Nova York por um beduíno que tivesse se radicado nos Estados Unidos e que os investigadores resolvam estabelecer o perfil dos suspeitos por meio de testes de DNA. Se estudos mais aprofundados não tivessem sido conduzidos a respeito do marcador “Cohen”, a polícia concentraria em vão o seu inquérito no contexto da comunidade judaica mais próxima do local do crime.

[1] Artigo 29 da lei francesa de 18 de março de 2003, sobre a segurança interna do território.

[2] “O arquivo de impressões genéticas contém 717 mil perfis”, Reuters, 23 de abril de 2008.

[3] Skorecki et al., “Y chromosomes of Jewish priests”, Nature, Londres, 1997.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Europa: direita, volver!

FREI BETTO

Eleitores de 27 países que configuram, hoje, a União Européia elegeram, a 7 de junho, os deputados do Parlamento europeu, sediado em Estrasburgo, França.

O nível de abstenção foi alto: 57,06% dos eleitores preferiram não comparecer às urnas. Comprova-se a progressiva despolitização dessa sociedade em que as pessoas estão mais interessadas em adquirir um carro novo do que conquistar direitos sociais. Na Europa, o consumismo venceu o comunismo…

Das 763 cadeiras do Parlamento europeu, 263 passam a ser ocupadas pelos partidos conservadores. Sem contar os eurodeputados britânicos, tchecos e poloneses que formam, à parte, a bancada dos eurocéticos, e sempre votam com a direita.

Os socialistas (leia-se: social-democratas) detinham 217 cadeiras. Ficam, agora, com apenas 161. Os ambientalistas ampliaram sua bancada de 43 para 52 cadeiras, liderados pelo ex-líder estudantil francês (maio de 1968) Daniel Cohn-Bendit.

Na bancada francesa de euroecologistas figura José Bové, líder camponês que, anos atrás, participou de atividades do MST no Brasil.

Os conservadores obtiveram expressiva vitória nos seguintes países: Reino Unido, Irlanda, Holanda, Áustria, Portugal, França, Eslovênia, Itália, Hungria, Luxemburgo, Chipre, Bulgária, República Tcheca, Polônia, Lituânia, Finlândia, Alemanha e Espanha (onde o Partido Popular, de direita, obteve 42,2% dos votos, e o PSOE, socialista, 38,5%).

Os socialistas venceram na Dinamarca, Suécia, Malta, Grécia, Romênia e Eslováquia. A meio caminho ficaram Bélgica, Letônia e Estônia.

Esse resultado confirma o adiamento da pretensão da Turquia de integrar a União Européia. No bojo dessa direitização da política européia está o antiterrorismo, com fortes conotações anti-islâmicas. A Europa "cristã" promove, à semelhança dos Reis Católicos da Espanha no século XV, novo expurgo de quem não reza por seu credo.

Vencido o ateísmo (leia-se comunismo) chegou a hora de rechaçar o islamismo em nome de uma "civilização cristã" que ostenta, como um de seus líderes, um primeiro-ministro italiano septuagenário que paquera meninas de 16 e promove, em sua casa de praia, embalos em trajes adâmicos…

O grande cabo eleitoral da direita foi a crise financeira. Nos anos 30, em consequência da bancarrota da Bolsa de Nova York (1929), o capitalismo passou pela crise de adolescência que levou a Europa ao nazi-fascismo e, com efeito, à guerra que fez 50 milhões de vítimas fatais.

Na atual crise senil, o pêndulo da história européia repete o mesmo movimento. A diferença reside nos alvos. Desta vez não são os judeus, e sim os imigrantes, sobretudo árabes e africanos. O crescente desemprego ainda não toma postos de trabalho de europeus, mas de estrangeiros que ali buscam sobreviver. Governos, como o espanhol, oferecem ao imigrante interessado em retornar ao seu país de origem passagem aérea, gastos de viagem e ainda uma ajuda equivalente a R$ 1.300.

O resultado dessas eleições confirma a falência da esquerda européia. Ela desabou com o Muro de Berlim, tentou resistir ao naufrágio agarrando-se em frágeis bóias como Mitterrand, Zapatero e D’Alema e, agora, obtém ridículos índices de aprovação. E ninguém ignora que foi ela que salvou a Europa do nazi-fascismo. As tropas aliadas tiveram êxito porque de um lado a União Soviética fez Hitler recuar, e de outro a Resistência clandestina minou o moral dos ocupantes.

Por que a esquerda faliu na Europa? Entre várias hipóteses, a dificuldade de entender que a classe operária já não é a mesma da primeira metade do século XX. E há uma nova agenda que a esquerda, de início, encarou com preconceito: ecologia, sustentabilidade, relações de gêneros, ecoeconomia solidária etc.

A religião, tão impregnada na consciência popular, também sofria discriminação. Refém de conceitos teóricos acadêmicos, a esquerda européia nem reconheceu nem manteve vínculos com os novos sujeitos históricos: imigrantes, desempregados, "minorias" excluídas e amplos setores da classe média desamparados pelo fim do Estado de bem-estar social e o advento do neoliberalismo.

Não são as teorias de Marx (aliás, "O Capital" é, hoje, um dos livros mais vendidos na Europa) que justificam a esquerda, e sim a existência de 4 bilhões de seres humanos sobrevivendo abaixo da linha da pobreza. Para esses, o capitalismo já nasceu fracassado. Só lhes resta buscar o outro mundo possível. Mas… com que roupa? Com que força política capaz de transformar o desalento e a indignação em mobilização e projeto de futuro?

Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira" (Rocco), entre outros livros.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Ambientalistas propõem texto para suceder Protocolo de Kyoto

Representando papel dos países envolvidos nas negociações reais, 50 ONGs chegam a uma proposta tratado

Associated Pres

Se os delegados de 190 países tiverem dificuldades em chegar Aum novo acordo para a mudança climática na reunião prevista para o fim deste ano em Copenhague, eles poderão se valer de um texto pronto elaborado por ativistas do meio ambiente.

Os negociadores dos diferentes governos poderão se consolar com o fato de que também não foi fácil para os ambientalistas chegar a um acordo.

Cerca de 50 representantes de organizações sem fins lucrativos de cerca de 20 países trabalharam durante meses para preparar um tratado "falso" que, acreditam, as delegações nacionais poderão aceitar. O documento está sendo divulgado nesta segunda-feira, em meio á mais recente rodada de negociações das Nações Unidas, em Bonn, na Alemanha.

"Tivemos alguns debates bem intensos. Algumas noites bem compridas, algumas manhãs que começaram muito cedo, desenhos em quadros brancos, desenhos em guardanapos", disse  Keya Chatterjee, do WWF, que representou os Estados Unidos no processo.

O documento mapeia obrigações para países ricos e para o mundo em desenvolvimento na tarefa de deter os gases causadores do efeito estufa. Ele exigiria o máximo de ambos os grupos, mas não vai além das propostas já apresentadas.

Em uma histórica reunião da ONU em 2007, realizada em Bali, na Indonésia, os países decidiram criar um tratado para suceder o Protocolo de Kyoto de 1997, que obrigava 37 nações industrializadas a cortar a emissão de dióxido de carbono e outros gases em 5%  até 2012, sobre a base das emissões de 1990. Eles se concederam uma margem de dois anos para completar o novo tratado.

Com apenas seis meses restantes, os negociadores ainda estão travados em questões importantes. Eles terão três reuniões antes da reunião decisiva de Copenhague, quando o novo acordo deverá ser firmado.

Organizações não-governamentais, ambientalistas, cientistas e empresários envolveram-se em todas as fases das discussões. Eles fazem lobby com os delegados nos corredores, divulgam artigos científicos e estudos, discursam nas sessões plenárias. Às vezes, são convidados para reuniões a portas fechadas, para assessorar os delegados quanto a questões específicas.

Os ativistas que trabalharam no tratado falso tentaram, cada um, defender os interesses de seus países, e tiveram de concordar "que algumas coisas são intocáveis" antes que o acordo fosse possível, disse Chatterjee. "Tivemos de ir além das posições mais enraizadas".

O documento sugere a adoção de um orçamento global de carbono para 2020, no qual a poluição total do mundo retornaria aos níveis de 1990. para chegar a isso, os países industrializados teriam de reduzir suas emissões em 40%, com base no nível de 1990, deixando espaço para que as economias em desenvolvimento possam continuar  a crescer.

Alguns países de industrialização recente teriam de entrar para o clube dos 37 obrigados a cortar emissões. Essa lsita incluiria Arábia Saudita, Cingapura e Coreia do Sul.

Países como a China, que superou os EUA como maior poluidor do mundo, devem adotar planos domésticos de longo prazo para reduzir a taxa de crescimento das emissões.

Fonte: Revista GEO – http://revistageo.uol.com.br/

Portugal em 1807, entre o mar e o rochedo (parte II)

Pequeno reino situado à beira do Oceano Atlântico, Portugal dos começos do século XIX sentia-se como um molusco aturdido entre a violência do mar e a solidez do rochedo. Era uma "orelha de terra" premida de um lado, do lado do mar, pelo Império Britânico, senhor das águas do mundo de então, do outro, o do rochedo, pelo Império Napoleônico, comandado pelo mais brilhante general da história européia. Qual seria o seu destino?

Transferir o trono de lugar

Todavia, mostrou-se suficiente hábil em conseguir protelar ao máximo o momento em que Napoleão daria sumiço no seu reino, conseguindo evacuar da capital em tempo curto a maior parte dos integrantes da corte e da fidalguia lusitana, junto com as louças e a prataria, quando chegou a hora derradeira.

O plano de levar o trono para a outra beira longínqua do Atlântico Sul não era novo entre os portugueses. Em ocasiões outras, monarcas premidos pelas circunstâncias infelizes, como foi o caso de d.João IV (1604-1656), na época do padre Vieira, já haviam cogitado em transferir-se para os trópicos, pelo menos como uma solução transitória no intuito de escapar ao sufoco de algum invasor.

Na época do regente D.João, a mais clara exposição de motivos para realizar a operação foi dada pelo Marquês de Alorna num arrazoado escrito seis anos antes da retirada, por ocasião da Guerra das Laranjas, em que dizia:

"A balança na Europa está tão mudada que os cálculos de há dez anos saem todos errados na era presente.Em todo caso o que é preciso é Vossa Alteza Real continue a reinar, e que não suceda à sua coroa, o que sucedeu à da Sardenha, à de Nápoles e o que entra no projeto das grandes potências que sucede a todas as coroas de segunda ordem na Europa.

V A .R. tem um grande império no Brasil, e o mesmo inimigo que o ataca agora com tanta vantagem, talvez trema e mude de projeto, se V.A .R. o ameaçar de que se dispõe a ir ser imperador naquele vasto território adonte facilmente pode conquistar as colônias espanholas e aterrar em pouco tempo as de todas as potências da Europa.

Portanto é preciso que V. A .R. mande armar com toda a pressa todos os seus navios de guerra, e todos os de transporte, que se acharem na Praça de Lisboa – que meta neles a princesa, os seus filhos,e os seus tesouros, e que ponha tudo isto pronto a partir sobre a Barra de Lisboa(…) (carta de 30 de maio de 1801, citada por Oliveira Lima- D.João VI e o Brasil)

Sem alternativas

O general Junot entrando em Lisboa (27/12/07)

Sabendo-o um indeciso crônico e medroso, não deixa de ser significativo que a determinação dele, acatando o ponto de vista do ministro D.Rodrigo de Souza Coutinho, dos Negócios da Marinha e do Ultramar, em deixar Lisboa, foi a melhor solução encontrada. No seu jornal Hipólito da Costa já recomendara "…se não tivesse o vasta império do Brasil, deveria ir para for, ainda que fosse para as Berlengas, ainda que se conservasse no mar sobre a vela, em suas esquadras…"

O exército português, reduzido a uns 10 ou 12 mil homens mal armados e pior adestrados, não era páreo para nenhuma das divisões de Napoleão (independente do fato de observadores terem apontado o estado lastimável dos regimentos franceses que chegaram à capital). Por conseguinte, o príncipe que se sabia pouco talhado a ser herói, não podia enfrentá-lo. D.João não tinha inclinação em se fazer de Davi para abater o Golias napoleônico. Ficar e resistir era perder o trono e a liberdade. Dele, da sua família e do reino inteiro.

Escafeder-se pelo oceano com tudo o que pudesse carregar pareceu-lhe o mais sensato, e de fato o foi. Pouco importa que chamassem isso de "fuga", ou de "ato covarde", pois o que imperou foi o bom senso. Quando, por fim, as vanguardas esfaimadas do exército o general Junot adentraram em Lisboa em 30 de novembro de 1807, vindos de uma campanha rápida e sem resistências, o comboio naval lusitano já inflara as velas. Levando umas 15 mil pessoas expremidas a bordo de 35 embarcações, apoiado por reforços ingleses da esquadra do almirante Sidney Smith, já fazia três dias que se desferrara do cais de Belém. O preço desse amparo à corte em retirada era a abertura dos portos do Brasil ao comércio britânico.

Somente na manhã do dia 29 de novembro conseguiu os ventos necessários rumando então para o alto mar, emproado em direção ao Brasil. Era o estado português inteiro, fundado 664 antes por D.Afonso Henriques, que se transladava para o exílio. Deixava atrás de si um povo pasmo e indignado com aquele abandono do que chamaram de "rei fujão".

Da barra do Tejo, qualquer francês com lunetas podia vislumbrar alguns mastros ao longe se indo embora; impotentes, outros viram-nos de cima dos morros da capital.

Bibliografia

Calmon, Pedro – O Rei do Brasil – a vida de D.João VI. São Paulo: Editora Nacional, 1943.

Cheke, Marcus – Carlota Joaquina, a rainha intrigante.Rio de Janeiro:José Olympio Editora, 1949.

Costa, Hipólito José da – Correio Brasiliense ou armazém literário. São Paulo, Brasília:

Imprensa Oficial do Estado, Correio Braziliense, 31 vols., 2002.

Dias, Maria Odila Leite da Silva – Interiorização da Metrópole e outros estudos. Rio de Janeiro: Editora Alameda, 2005.

Faoro, Raimundo – Os Donos do Poder. Formação do Patronato Político Brasileiro. Porto Alegre: Editora Globo, 2 vols. 1979.

Fragoso, João e Gouvêa, Maria de Fátima – Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2001.

Gomes, Laurentino – 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo:Editora Planeta de Brasil, 2007.

Lima, Oliveira – D.João VI e o Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 2006.

Manchester, Alan K. – Preeminência inglesa no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense,. 1973.

Novais, Fernando A. – Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo: Editora HUCITEC, 1979.

Malerba, Jurandir – A Corte no exílio: Civilização e poder no Brasil às vésperas da Independência (1808-1821).São Paulo:Cia das Letras, 2000.

Monteiro, Tobias – História do Império- o Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: F.Briguiet e Cia Editoras, 1939.

Prado. J.F. de Almeida – D. João VI e o início da classe dirigente do Brasil: depoimento de um pintor austríaco no Rio de Janeiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968 (Brasiliana, v. 345).

Schwarcz, Lilia Moritz – A longa viagem da Biblioteca dos Reis. São Paulo: Cia das Letras, 2002.

Silva, Maria Beatriz Nizza da – Cultura e sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821) – São Paulo: Editora Nacional, 1978, 2ª edição.

Wilcken, Patrick – Império à deriva: a corte portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821. Lisboa:Livraria Civilização Editora. 2005.

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

Portugal em 1807, entre o mar e o rochedo

Pequeno reino situado à beira do Oceano Atlântico, Portugal dos começos do século XIX sentia-se como um molusco aturdido entre a violência do mar e a solidez do rochedo. Era uma "orelha de terra" premida de um lado, do lado do mar, pelo Império Britânico, senhor das águas do mundo de então, do outro, o do rochedo, pelo Império Napoleônico, comandado pelo mais brilhante general da história européia. Qual seria o seu destino?

Portugal devia desaparecer

Embarque da Corte, 1807( tela de Nicolas Delerive)

Qual caminho lhe restava a seguir para poder sobrevier em meio àquela luta titânica que separava as duas maiores potências da Europa? A Coroa bragantina, todavia, tinha um trunfo secreto, algo que os outros reinos menores da época não tinham: a possibilidade de retirar-se para o distante Brasil.

Decretado o Bloqueio Continental por Napoleão em Berlim, em 21 de novembro de 1806 (visando isolar e levar a Grã-Bretanha a bancarrota em resposta a vitória do almirante Nelson na batalha de Trafalgar, em 21 de outubro de 1805), aguardou o imperador a obediência dos demais estados europeus a que não negociassem mais com Londres.

Portugal, entretanto, tinha históricas ligações com a coroa inglesa, sendo que praticamente naquelas alturas vivia na raia protetora das embarcações inglesas.(*)

Não havia modo do Regente português, o príncipe D.João, aceitar a imposição ordenada por Bonaparte sem que de imediato pusesse em perigo todas as suas colônias do ultramar. Colocou-se frente a uma situação extrema: se traísse os seus velhos aliados perdia o que lhe restava das possessões espalhadas pelo mundo, se desobedecesse a Napoleão seria invadido.

Exatamente isso, de por um fim às hesitações do Bragança, foi o que se tratou em Fontainebleau, em 27 de outubro de 1807, por ocasião do acordo secreto assinado entre franceses e espanhóis tendo em vista a posição de falso neutralismo de D.João. Como deveria ocorrer a ocupação de Portugal?

Antes de tudo a Espanha aceitaria tropas francesas, comandadas pelo Marechal Murat, em trânsito para fronteira de Portugal. Encerrada em seguida a invasão, o território ocupado seria dividido em três partes: o Reino da Lusitânia Setentrional , compreendendo o Porto e seus arredores, seria da rainha regente da Etrúria (como compensação pela entrega da Toscana aos franceses); o Principado do Algarves (com o Alentejo) ficaria para Manoel de Godoy, o Príncipe da Paz, ministro supremo do reino da Espanha; por fim, as Províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura, sob controle direto francês estaria à disposição de uma negociação futura.

Davam-se assim os passos para por fim à independência do reino lisboeta( sem que com tudo revertesse à situação de 1580, começo da União Ibérica, quando Portugal foi incorporado ao reino de Filipe II). Deste modo, numa só sentada, o reino autônomo que fora restaurado pelos Bragança em 1640, desapareceu no mapa do Império Napoleônico, subdividido em três minúsculas províncias.

(*) O mais remoto acordo acertado entre a Inglaterra e Portugal remonta ao Tratado de Londres de 16 de Junho de 1373, ocasião em que João de Gante deu a mão de sua filha, Filipa de Lencastre, a D. João I – ato que selou a aliança política. A influência de Filipa de Lencastre foi notável, tanto no ponto de vista da sua descendência (a Ínclita Geração) bem como pela sua intervenção no que diz respeito às relações comerciais entre Portugal e Inglaterra, incentivando as importações de bacalhau e vestuário de Inglaterra e a exportação de cortiça, sal, vinho e azeite, a partir dos armazéns do Porto. Situação que foi mais consolidada pelo Tratado de Windsor de 1386 acertando favores comerciais e defesa conjunta.Esta relação adquiriu caráter definitivo pela assinatura do Tratado de Methuen, de 1703, tão criticado, que trocava produtos portugueses primários por material mecânico e têxtil dos ingleses.

Dependência Ibérica

Tanto que reinos decadentes, a Espanha e Portugal mantinham enormes extensões no Novo Mundo, na África e na Ásia. As conservavam quase que inteiras devido à proteção que as duas potências emergentes do século XVIII-XIX, a Grã-Bretanha e a França, lhes davam.

O eixo Londres-Lisboa contrapunha-se ao de Paris-Madri. Natural fosse que quando ingleses e franceses crescentemente se rivalizavam pelo domínio do império do mundo, metendo-se em guerras (desde o começo da Guerra dos Sete Anos, em 1758, até a derrota de Napoleão em Waterloo, em 1815), arrastavam consigo os reinos ibéricos, forçando cada um deles a alinhar-se a um dos lados.

Ainda que a Espanha de Carlos IV, por razões ideológicas e de sangue (tinha parentesco com os Bourbon franceses), tivesse reagido à execução de Luis XVI, em 1793, enviando tropas juntamente com Portugal para assolar a jovem República Francesa na região do Languedoc-Roussillon (na campanha do Rossilhão, de 1793-5, desbaratada pelos generais republicanos que aplicaram derrota aos luso-espanhóis), Madri logo se deu conta que não podia voltar-se contra Paris, não importando o regime radical que de lá governasse, pois justamente a França era a principal fiadora do seu império ultramarino, permanentemente ameaçado pela cobiça britânica.

Fez então o acordo franco-espanhol de 1795, o Tratado de Basiléia, assinado em 22 de julho daquele ano, que projetou o nome de Manoel de Godoy, o plenipotenciário que representava o rei Carlos IV, e que logo ostentou o título de Príncipe da Paz. Por ele, a Espanha voltava a pôr-se ao abrigo de Paris, entregando em troca metade da ilha de São Domingos (Haiti).

Portugal, apesar de ter acolhido tropas inglesas em seu território, insistia retoricamente em manter-se neutro, tentando equilibrar-se em meio aquela confusão. Situação que conseguiu prolongar com estratagemas por mais doze anos com artifícios de toda ordem.(*)

(*)com exceção da curta invasão sofrida desde o Alentejo, liderada por Manoel de Godoy, no conhecido episódio chamado jocosamente de Guerra das Laranjas, de 1801, e que veio assinalar o começo da longa Guerra Peninsular, travada entre os reinos ibéricos, a Grã-Bretanha e a França, que se estendeu até 1814. Portugal safou-se do pior assinando o Tratado de Badajoz, de 6 de Junho de 1801.

O Brasil, por sua vez, fechado para o mundo desde 1605, como grande parte das possessões ultramarinas, passou a ser alvo do interesse britânico, ferindo o monopólio luso, arrancando aqui e ali concessões da metrópole Lisboeta.

Uma corte infeliz

D.João e Carlota Joaquina, um casal infeliz (tela de Manuel Dias de Oliveira)

A monarquia lisboeta, sabia-se, era uma corte infeliz. A rainha-mãe, D.Maria I, uma carola, enlouquecera de tanto acreditar que o seu pai, o rei D.José I, ao banir os jesuítas por injunção do Marquês de Pombal, havia virado numa pira de carvão, ardendo para sempre no inferno.

Em 1792 cedera de fato a autoridade ao seu filho D.João, seu secundogênito, um príncipe de escasso humor, com tendência a engordar, baixo e muito feio, que "dormia no teatro e deliciava-se na igreja".

Para o cúmulo da desdita ele casara com D.Carlota Joaquina, infanta espanhola de gênio temperamental, uma quase anã sem atrativo de beleza, manca e belicosa, "com os impulsos do sexo alvoroçados", que, entre outras coisas, conspirava contra o poder do próprio marido.

Situação que fez com que ambos vivessem separados, ela no Palácio de Queluz, o marido no Palácio-convento de Mafra (apesar disso, o casal teve uma ninhada de nove príncipes e princesas). Tudo isso envolto num cenário de beatice resignada, de procissões, de jejuns e flagelações, de missas em favor a quantidades infinitas de santos e santas, num um ar de tristeza mórbida. A Coroa infeliz reinava sobre "uma infeliz nação", distante do restante da Europa em usos e costumes, "que se julga andarem os portugueses ter séculos atrás das demais nações" (Hipólito da Costa – Correio Brasiliense, vol III, 146).

O jovem regente era famoso por apavorar-se com trovoadas e com as "conspirações jacobinas" que estavam a atentar contra ele, a maioria delas supostas ou inventadas por Pina Manique (1733-1805), um intendente-geral da polícia, feroz perseguidor de liberais e "pedreiros-livres" (maçons), explorava a inclinação assustadiça do soberano com pavores mil, fazendo-o acreditar estar Lisboa, quando não a própria Barraca Real, o Palácio da Ajuda, apinhada de punhais de Bruto, de doidos ou de revolucionários, prontos a abatê-lo em cada canto ou por detrás das cortinas. (*)

(*) A paranóia de D.João, o pavor a ser atacado das sombras, é que determinou uma curiosa reforma nas janelas do Rio de Janeiro. Quando a corte por lá se fixou em 1808, temeroso que pudessem embosca-lo de alguma delas, cobertas por rótulas de madeira, autorizou ao intendente-geral da polícia, o ouvidor e desembargador Paulo Fernandes Viana, que ordenasse que elas devessem ter vidraças para desse modo expor e assim desestimular um possível regicida. (ver Laurentino Gomes "1808", pág.230).

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

Na sua partida de xadrez com a Geórgia, a Rússia movimenta um peão

Michael Schwirtz
Em Moscou (Rússia)

Poucos meses após ficar embaraçada com a deserção de um soldado russo para a Geórgia, a Rússia respondeu na sexta-feira. Ela apresentou seu próprio desertor militar, um oficial georgiano, aparentemente buscando marcar pontos na guerra de propaganda entre os dois países.

UOL Mapas

Mapa com a região centro-sul da Ásia indica a posição da Geórgia, e sua fronteira com a Rússia

Apesar das forças armadas russas terem derrotado rapidamente as forças menores da Geórgia na guerra em agosto passado, a Geórgia provou ser mais capacitada na frente de relações públicas. Os dois lados lutam continuamente na imprensa, nas conferências internacionais e até mesmo na pista de dança.
A Geórgia desfilou o sargento Aleksandr Glukhov, o recruta russo, como um troféu de campeonato. Ele desertou em janeiro, ele disse, por ter sofrido um abuso verbal por parte de seu oficial de comando, e porque lhe foi negado comida suficiente e um banho.
A Rússia contra-atacou na sexta-feira, apresentando Alik D. Bzhania, um tenente do exército da Geórgia, em uma coletiva de imprensa lotada aqui. Bzhania, 35 anos, descreveu como, em 23 de maio, ele deixou seu posto como navegador em uma embarcação da guarda costeira, vestiu roupas civis e atravessou a fronteira para a Rússia, em busca de asilo político.
Não se sabe o que ele fez na Rússia entre o momento de sua deserção e sua estréia na mídia na quinta-feira, quando deu uma entrevista para a emissora de rádio "Echo Moskvy".

Naquela entrevista e na coletiva de imprensa de sexta-feira, ele falou de sua raiva contra o presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, e do medo de um novo confronto com a Rússia.
"Eu achei que após o conflito de agosto, Saakashvili recobraria o juízo", ele disse. "Mas nada mudou. Os reservistas estão sendo convocados e o exército está sendo mobilizado. Eu não quero lutar contra a Rússia, então parti."
Nos últimos meses, a oposição da Geórgia tem realizado manifestações quase contínuas pedindo a renúncia de Saakashvili, a quem acusam de renegar as promessas de reforma democrática e de provocar a guerra com a Rússia.
Bzhania, entretanto, disse que nunca se envolveu em política. Na verdade, ele só voltou às forças armadas em outubro, após um período trabalhando como operário de construção e, dessa forma, não lutou na guerra.
Ele se queixou de seu salário mensal de US$ 300, mas disse que, fora isso, sua vida como militar foi "ótima".
Em uma entrevista para a rádio "Echo Moskvy", Temuri Yakobashvili, o ministro da Reintegração da Geórgia, considerou o caso "uma provocação muito barata".
Ele acrescentou: "A liderança georgiana ri desses truques dos serviços especiais russos".
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

Memórias póstumas

Duas coletâneas reúnem cartas de Machado de Assis que tratam de temas como a gênese de "Memorial de Aires"

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA
ESPECIAL PARA A FOLHA

A publicação quase simultânea de dois volumes da correspondência de Machado de Assis representa um grande benefício para os estudiosos de sua obra.
É como se os volumes colocassem em cena o desejo de "atar as duas pontas da vida", pois, se "Correspondência de Machado de Assis" revela os primórdios das atividades do escritor, "Empréstimo de Ouro" equivale a um réquiem, pois reúne cartas escritas nos seus últimos anos de vida.
Além disso, os dois volumes apresentam uma organização impecável.
O texto das cartas, fixado a partir da consulta a documentos e manuscritos, encontra-se enriquecido por notas esclarecedoras tanto das circunstâncias particulares mencionadas pelo missivista, quanto dos motivos mais gerais, associados ao contexto político e cultural do tempo.
Vale ainda mencionar que a edição de "Empréstimo de Ouro" é uma verdadeira obra de arte, incluindo a edição fac-símile dos manuscritos de Machado, além de reunir uma rica iconografia, que não apenas ilustra, mas, a seu modo, oferece um comentário adicional ao conteúdo das cartas.
Sergio Paulo Rouanet esclareceu o critério adotado na organização de "Correspondência de Machado de Assis": "Seriam incluídas as cartas propriamente ditas, tanto as expedidas quanto as recebidas; os telegramas; os cartões-postais; e mesmo os cartões de visita, quando tivessem algum texto escrito (…), também as cartas abertas, publicadas em jornais, ou as cartas-prefácio, introduzindo livros."
O critério se justifica plenamente, permitindo ao leitor contemporâneo formar uma opinião mais completa acerca do jovem Machado. Cartas abertas tratando de temas políticos, nacionais ou internacionais, por exemplo, ajudam a compreender as preocupações do autor de "Helena".
Situação no México
Destaca-se, aqui, a carta escrita em 21 de março de 1865, na qual Machado respondia às considerações de um "Amigo da Verdade" sobre a delicada situação política mexicana, após a invasão das tropas francesas e a imposição do imperador Maximiliano.
Trata-se, como se sabe, de um dos episódios mais bizarros da história latino-americana e que já havia inspirado ao jovem poeta os versos eloquentes e bem-intencionados de "Epitáfio do México", publicado em seu livro de estreia, "Crisálidas" (1864): "E quando a voz fatídica/ Da santa liberdade/ Vier em dias prósperos/ Clamar à humanidade/ Então revivo o México/ Da campa surgirá."
O jovem articulista expressou opinião semelhante, embora em registro mais sóbrio: "Que o México mantenha o isolamento, e inspire desconfianças, é natural, é lógico, porque esse é o resultado da sua origem irregular. Mas o Brasil não pode ter comunhão de interesses nem de perigos, com o México, porque sua origem é legítima, e o seu espírito é americano."
Compreenda-se: Machado refere-se ao México invadido pelas tropas francesas.
Por sua vez, as mensagens de caráter pessoal esclarecem, pelo avesso, a montagem de uma ampla rede de relacionamentos -tarefa que ocupou parte considerável dos exercícios do jovem escritor. Rede cordial mais tarde institucionalizada na criação da Academia Brasileira de Letras.
Autêntico personagem de seus futuros romances, o Machadinho da década de 1860 teceu com mão hábil amizades duradouras e conexões importantes. Nesse sentido, é importante mencionar o notável trabalho das pesquisadoras Irene Moutinho e Sílvia Eleutério (em "Correspondência…"), cujas notas compõem um livro à parte, oferecendo um panorama completo da vida cultural e política da década.
O estilo do Conselheiro
De igual sorte, Eduardo Coutinho e Teresa de Oliveira esclareceram o propósito da organização das cartas de Machado a Mário de Alencar:
"Esperamos estar contribuindo não só com os estudiosos de Machado de Assis e os especialistas em crítica genética, como também para o enriquecimento dos estudos da literatura, da cultura e da história do Brasil." O objetivo foi plenamente alcançado, com destaque para as cartas que tratam da gênese do último romance de Machado, "Memorial de Aires".
Em 18 de março de 1907, buscando consolar o jovem amigo, Machado prescreveu uma terapia muito particular: "Por que não escreve alguma cousa? Ideias fugitivas, quadros passageiros, emoções de qualquer espécie, tudo são cousas que o papel aceita e a que mais tarde se dá método, se lhes não convier o próprio desalinho."
É como se descrevesse o estilo do Conselheiro e a fatura de seu último livro! Dez dias depois, nova missiva e uma referência nada velada à composição em andamento: "O meu trabalho teve uma interrupção de dias. (…) Agora quero ver se acabo a leitura e faço o remate."
O tom se torna menos cifrado em carta de 22 de dezembro de 1907: "Foi também por isso que achou o modelo íntimo de uma das pessoas do livro (…)".
"Fica entre nós dois"
Em carta de 16 do mesmo mês, Mário de Alencar havia tocado o dedo na ferida: D. Carmo, personagem do "Memorial de Aires", representava a última homenagem à viúva do escritor. Em carta de 8 de fevereiro de 1908 (incluída no volume 3 da "Obra Completa", organizada por Afrânio Coutinho, mas ausente nesta bela edição), Machado deixou a diplomacia de lado e pediu sem meias palavras: "Aproveito a ocasião para lhe recomendar muito que, a respeito do modelo de D. Carmo, nada confie a ninguém; fica entre nós dois".
Em "Empréstimo de Ouro" convivemos com um homem enfermo, ciente do pouco tempo que lhe restava. Porém, fiel à lição de toda uma vida, Machado recomendou ao jovem amigo que se recuperasse da depressão com o trabalho: "A arte é remédio e o melhor deles".
Isso disse em carta de 23 de fevereiro de 1908. Em 20 de abril, repisou o motivo: "Em duas palavras, busque o remédio na Arte". Para Machado, recorde-se, arte significava sobretudo disciplina e dedicação. Felizmente, com a reedição das cartas, o método não ficará só entre os dois missivistas.

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA é professor de literatura na Universidade do Estado do RJ.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Com Licença, sim?

A disputa entre aqueles que defendem o uso dos softwares livres e dos que utilizam o softwares proprietários não envolve apenas questões tecnológicas. A escolha do usuário tem efeitos na política, na economia e no desenvolvimento sustentável de um país como o Brasil.

Cíntia Guedes
Matheus Araújo

Navegar é preciso, pagar não é preciso

É quase sempre proibido copiar, distribuir, reproduzir ou modificar a maioria dos produtos que tem como matéria-prima a informação, a tecnologia ou o conhecimento. Acostumamos com o tal dos ‘direitos reservados’, e é assim com a imensa maioria dos livros, CDs, softwares etc. Até pouco tempo, só com muito dinheiro era possível acompanhar o ritmo das inovações. Agora, proliferam-se no mundo inteiro movimentos que defendem a bandeira do sistema colaborativo de produção de conhecimento criando soluções palpáveis, inteligentes e rentáveis de produção, entre outras coisas, de Softwares Livres. Alternativas, aparentemente, mais acessíveis e bem mais justas [1].

A principal característica de um software livre é a abertura do código fonte. O usuário pode estudar como o software funciona e adaptá-lo às suas necessidades, alterando-o num sistema de soma e não de sobreposição, uma vez que um problema é solucionado ou uma nova adaptação é feita ela é divulgada e pode ser usada por todos, sem pagar nada. O software proprietário trabalha de maneira oposta: não permite que o usuário tenha acesso ao código fonte e cobra preços de softwares novos por pequenas inovações. Ou seja, enquanto o Software Proprietário é padronizado, o Software Livre permite adequações aos mais diferentes usos.

O exemplo maior desta disputa parece ser entre o Software Proprietário Windows e o Software Livre Linux, ambos, sistemas operacionais para computadores. Há diferenças bem marcadas entre os dois. A atualização do Linux é muito mais rápida, uma vez que não há necessidade de uma nova versão: os erros podem ser corrigidos por usuários em qualquer lugar do mundo. Já o Windows demora mais tempo para ser atualizado, pois o acesso às novas versões depende da Microsoft e do lançamento do produto no mercado. O Vista, a mais recente atualização do Windows, foi lançado em 2007, cinco anos depois de seu antecessor, a versão XP. Isso acontece porque o Windows utiliza a licença de reserva de direitos autorais enquanto o Linux utiliza outra licença – a GPL (General Public License ou Licença Pública Geral). [2].

Ao navegar pelo Software Proprietário que conferiu a Bill Gates o status de homem mais rico do mundo durante anos, encontramos uma interface altamente amigável, com ferramentas simples e práticas.- Além disso, o uso massivo do Windows faz com que ele seja, na maioria das vezes, muito mais familiar. Já o Linux, à primeira vista, parece coisa de outro planeta. O usuário comum, acostumado com a interface do Windows e sem conhecimentos aprofundados de informática, demora a habituar-se ao Linux. Segundo o estudante de jornalismo Breno Fernandes, que usa tanto o Windows quato o Linux, a maior dificuldade para um iniciante em Software Livre é dar-se conta de que não entende tanto de computadores como pensava. O exemplo é bastante ilustrativo: “imaginemos que a pessoa só usou o Internet Explorer toda a vida; e aí quando chega no Linux vai logo buscar o ezinho azul e o nome internet. Nesse momento, falta, ou tarda a vir, a informação de que Internet Explorer não é a Internet, mas um browser ou navegador, uma ferramenta, um software que te permite acessar a internet. ”. Ainda a superação do estranhamento inicial depende, em parte, da predisposição do usuário em conhecer um novo sistema.

Pensando justamente nesse tipo de consumidor, foi desenvolvido o Ubuntu – Linux for human beings (Linux para seres humanos) http://www.ubuntu-br.org/, um sistema operacional baseado no Linux e que promete ser muito mais fácil de usar.

O que chama atenção nesta disputa é que ela abrange não somente questões tecnológicas; toca também a política, a economia e a esfera do desenvolvimento social. “Construir e utilizar o software livre é uma maneira de trabalhar com a perspectiva de que o processo educacional tem que formar um cidadão para que ele seja autor, produtor de conhecimento e de culturas e não só um consumidor de informações”, afirma Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA, fundador do Projeto Software Livre Bahia (PLS-Ba) e do projeto Tabuleiro Digital, que disponibiliza para a comunidade, na Faculdade de Educação, computadores em tabuleiros que se assemelham aos das baianas de acarajé. Os tabuleiros funcionam para navegação na internet por um curto intervalo de tempo – tempo de comer um acarajé – e todas as máquinas utilizam softwares livres.

Liberdade em verde e amarelo

"O software livre tem um significado fundamental para um país como o Brasil, porque tem como princípio a ideia de autonomia", afirma Pretto. Ao que parece, os empresários brasileiros já se deram conta dessa vantagem: segundo pesquisa publicada no blog Cultura Digital (http://www.cultura.gov.br/blogs/cultura_digital), do Ministério da Cultura, já em 2007, 53% das empresas no país utilizam Softwares Livres e esse número sobe para 73% quando contadas apenas as empresas de grande porte (aquelas com mais de mil funcionários).

O discurso governamental veiculado tanto em jornais de grande circulação no país quanto nos aparatos de comunicação do Estado (blogs do governo, por exemplo ) afirma que o Brasil tem ferramentas para despontar no desenvolvimento de SL, principalmente para o mercado de exportação. Nesse setor, a região nordeste tem chances de abocanhar grande fatia da produção, uma vez que no eixo sul-sudeste existem indústrias para exportação de software proprietário que absorvem muito mais mão de obra e, possivelmente, deixam o mercado menos suscetível às investidas do SL.

Atualmente Pernambuco desponta na produção de SL; Salvador, embora ainda não possua filiais de grandes empresas de produção de SL, é referência no desenvolvimento. Foi em terras soteropolitanas que surgiu, por exemplo, o primeiro Twiki do Brasil. SL que permite a interação de grupos usando um mesmo navegador, um Twiki é uma plataforma de criação colaborativa de conteúdo, a exemplo da Wikipédia. E o que tornou Salvador pioneira foi a criação do Twiki do Instituto de Matemática da UFBA, que permite uma melhor comunicação entre alunos e professores, pois todos são cadastrados e podem consultar informações sobre as disciplinas do curso, ler e baixar arquivos.

Parecendo andar na contramão, o governador da Bahia, Jacques Wagner, assinou no primeiro semestre de 2008 um protocolo de intenções com a Microsoft, em que acertavam a parceria do governo do estado com a empresa para o desenvolvimento de ações de inclusão digital. Entre as ações, está prevista a doação de computadores para escolas públicas, obviamente com o Windows já instalado.

A bandeira do SL foi levantada pelo Governo Lula desde a campanha presidencial de 1998, e quem não se lembra do ex- ministro Gilberto Gil, logo depois de assumir o Ministério da Cultura em 2003, usando um pingüim na lapela? Era o Tux, um pingüim farto após ter comido vários peixes, mascote escolhido por Linus Torvalds pra representar o Linux. O uso do SL nas instituições federais foi incentivado principalmente pelo MinC e pelo Ministério da Educação, contudo, a decisão da adoção do SL fica a cargo do gestor de cada instituição. Ainda não há nenhuma lei que regulamente a questão.

Bahia.br

"E o Linux começa a incomodar", é o que pontua Daniel Cason, estudante do curso de Ciências da Computação da UFBA e membro do Graco (Gestores da Rede Acadêmica de Computação) que gerencia parte da rede de computadores da sua faculdade desde 2005. O grupo de gestores funciona como uma oficina de redes prática, ou seja, o aluno trabalha efetivamente com o desenvolvimento e a manutenção de uma rede – o que para Cason deveria ser uma disciplina da grade curricular de qualquer curso de computação.

De acordo com Cason, a opção do Graco pelo uso de soluções livres é fundamental não só para o seu aprendizado acadêmico ou pelo fato de não serem cobradas licenças pelos softwares, mas também para uma eficiente manutenção da rede. A cada nova necessidade ou ideia que é apresentada e a cada falha encontrada os alunos têm a possibilidade de intervir nos softwares e de adequá-los às suas intenções. Afinal, eles próprios, através de um processo de criação conjunta, podem solucionar os problemas que encontram.

Vale ressaltar que o uso de um software livre não significa um uso necessariamente não comercial. No mercado de Salvador algumas empresas já apostam no uso do SL, seja buscando benefícios financeiros ou por ideologia, elas podem encontrar suporte em cooperativas que trabalham exclusivamente com tecnologias livres, e que oferecem desde serviços relacionados ao desenvolvimento de softwares até a migração de Software Proprietário para Software Livre. Este é o caso da Colivre www.colivre.coop.br , cooperativa soteropolitana, que oferece seus serviços desde a pessoas físicas, políticos, órgãos governamentais, ONG’s até mesmo a empresas privadas.

A cooperante Joselice de Abreu chama a atenção para a relação entre SL e Economia Solidária: "a gente desenvolve o software aqui e, se a população consome o nosso software, isso vai desenvolver a economia local". Para ela, a questão é simples. Trata-se do consumo consciente, já que o capital que é investido localmente, num bairro, cidade ou estado tem um retorno muito mais rápido. “Quando usamos o suporte de uma empresa a qual podemos contatar por telefone ou ‘bater na porta’ é diferente de usar os serviços de uma multinacional, cujo suporte está em outro país”, exemplifica Abreu .

O caso parece simples: as tecnologias desenvolvidas próximas à comunidade possibilitam o retorno mais rápido do capital investido para a própria comunidade. Em Salvador, o movimento Software Livre cresce quase que escondido, em meio ao frenesi pelos pseudo-super-novos Softwares Proprietários que economizam seu tempo, ou seja, pela sempre nova (e cara!) solução dos seus problemas. A grande sacada é sempre a da multinacional, que pensa de maneira organizada e inteligente na inserção dos seus produtos no mercado. Ainda assim, mesmo para aqueles não muito dispostos com a causa do Software Livre, ele pode ser uma opção econômica e tanto ou mais eficiente do que o Software Proprietário. Mas quem sabe valha a pena inverter a lógica e refletir sobre o caso, ou como disse o professor Nelson Pretto: "Farinha pouca, um pouquinho de farinha pra todo mundo".

[1] Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Fraude: ano p5 – n.06 – Salvador/Bahia. Essa publicação é realizada pelos bolsistas do Programa Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação da UFBA

[2] Em termos gerais, a GLP se baseia em quatro liberdades:
Liberdade n.o 0: A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito;
Liberdade n.o 1: A liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo para as suas necessidades. O acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade;
Liberdade n.o 2: A liberdade de resdistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo;
Liberdade n.o 3: A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie deles. O acesso ao código-fonte também é um pré-requisito para esta liberdade
Fonte: Wikipédia

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

A batalha da mídia na América Latina

Dênis de Moraes

A América Latina tem se destacado no cenário internacional pelas sucessivas vitórias da forças de esquerda nas eleições presidenciais. Nestas experiências de caráter mais ou menos transformador, os meios de comunicação vêm assumindo papel fundamental, seja como forças de resistência às mudanças ou como instrumentos de disputa de hegemonia de seus promotores.

Uma análise deste quadro complexo e rico está no livro “A Batalha da Mídia” (Pão e Rosas, 2009), escrito pelo professor Dênis de Moraes. A obra discute o papel da comunicação nas lutas políticas em curso na região a partir da investigacão sobre como os governos progressistas latino-americanos têm agido em relação à mídia, seja no campo das políticas públicas para a área, seja na disputa contra grupos midiáticos opositores.

O autor analisou as alterações promovidas no ambiente regulatório do setor nos vários países e identificou que as novas políticas de comunicação de governos progressistas da região buscam viabilizar legislações antimonopólicas, apoiar meios alternativos e comunitários e estimular a produção audiovisual independente.

Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO), sed iado em Buenos Aires, Argentina. É professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Autor e organizador de d iversos l ivros, entre os quais Cultura mediática y poder mundial (Norma, 2006), Sociedade midiatizada (Mauad, 2006),Combates e utopias: os intelectuais num mundo em crise (Record, 2004) e Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder (Record, 2003).

Nesta entrevista concedida ao Observatório do Direito à Comunicação, Dênis de Moraes fala sobre as experiências que encontrou em sua pesquisa e acerca de lições que podem ser adotadas no Brasil.

Como você analisa a importância das batalhas em torno da comunicação no processo atual de transformação na América Latina?

A comunicação tem importância estratégica no processo de transformação na América Latina. Trata-se de um campo de luta entre diferentes propostas hegemônicas, no quadro geral dos embates políticos e culturais que têm origem na totalidade social. É na arena da comunicação que se trava, neste momento, uma das mais renhidas batalhas pelo controle do imaginário social na região. De um lado, estão as elites políticas e econômicas associadas, por identidade de propósitos de dominação, à chamada grande mídia, formando um bloco privatista que tudo faz para manter a sua influência ideológica e suas ambições lucrativas.

De outro lado, estão as forças sociais e políticas que apóiam governos progressistas empenhados em superar os malefícios provocados por décadas de neoliberalismo, assumindo compromissos com a justiça social, com a inclusão das massas no processo de desenvolvimento e com a diversidade informativa e cultural. Há um cabo-de-guerra entre ações governamentais em favor da descentralização e da diversificação dos sistemas de comunicação e as violentas campanhas midiáticas em defesa de seus históricos privilégios e mandonismos. Sob alegação de que exerce uma hipotética função social específica (informar a coletividade), a mídia não quer submeter-se a freios de contenção e se põe fora do alcance das leis e da regulação estatal.

A opinião pública é induzida ao convencimento de que só tem relevância aquilo que os meios divulgam. Não somente é uma mistificação, como permite, perigosamente, a absorção de tarefas, funções e papéis tradicionalmente desempenhados por instâncias representativas da sociedade. Pela primeira vez na América Latina, essa posição hipertrofiada dos meios, coligada à absurda concentração dos setores de informação e entretenimento nas mãos de um reduzido número de corporações, está sendo contestada frontalmente, e em vários países podemos perceber providências concretas para se tentar reverter quadro tão adverso ao pluralismo.

Penso que a democratização dos sistemas de comunicação se insere numa moldura mais ampla, de revigoramento da esfera pública e do papel regulador e ativo do Estado na vida socioeconômica e cultural – o que depende, entre outros fatores, de políticas consistentes de promoção social e educação, formas de defesa e ampliação dos direitos de cidadania, gestão participativa na tomada de decisões, controle do capital especulativo, políticas externas independentes, redistribuição e elevação de renda e geração de empregos. Que não tenhamos ilusão: não cessarão as imprecações do conservadorismo, e os atritos com conglomerados de comunicação vão agudizar-se à medida que se acelere a velocidade das mudanças. Daí ser imperioso esclarecermos a opinião pública e desenvolvermos mobilizações e pressões para reclamar intervenções democratizadoras e afirmá-las frente às resistências das elites e da mídia.

Em que países você identificou políticas de comunicação orientadas para superação do atual quadro de hegemonia neoliberal no continente? Que experiências de contra-hegemonia você destacaria?

Os governos de Venezuela, Equador e Bolívia – que formam um bloco de poder nacionalista, antineoliberal, antiimperialista e de esquerda – têm sido os mais coerentes e ativos na rejeição à mercantilização da informação e ao monopólio privado da mídia e ao seu predomínio desmedido no mundo social. Naqueles três países, qualificados pelo sociólogo argentino Atílio Boron, como “o eixo da esperança” na América Latina, as intervenções governamentais visam enfrentar a concentração da mídia com legislações antimonopólicas e antioligopólicas, ao mesmo tempo em que põem em vigor um conjunto de medidas para diversificar as fontes de emissão, estimular meios alternativos e comunitários, apoiar a geração e a divulgação de conteúdos regionais e locais, revalorizar os meios públicos e redirecionar fomentos e patrocínios à produção audiovisual independente.

Tais medidas contam com o respaldo das maiorias parlamentares no legislativo e de movimentos sociais e entidades que lutam pela democratização da comunicação. O meu livro “A batalha da Mídia” apresenta um amplo e detalhado painel de tais providências, incluindo iniciativas análogas que estão em curso ou em vias de execução em outros países latino-americanos, com distintos graus de profundidade e eficácia. Sabemos que não é tarefa fácil, principalmente quando políticas públicas colocam em xeque conveniências de elites políticas, empresariais e midiáticas. Os governos de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Moraes estão sendo obrigados a travar duras pelejas para que suas propostas renovadoras sobrevivam às campanhas orquestradas pela mídia e por grupos conservadores, cujo alvo é debilitá-los perante a opinião pública.

Que experiências de políticas públicas analisadas pela pesquisa podem ser tomadas como exemplos interessantes para o Brasil?

As novas Constituições do Equador e da Bolívia consagram e protegem o direito à informação veraz e plural, instituindo mecanismos de combate à concentração e às oligopolização e assegurando a setores sociais e comunitários uma participação real na área de comunicação, incluindo o acesso à radiodifusão sob concessão pública. Também devem ser destacadas: a nova legislação de radiodifusão comunitária do Uruguai, considerada pela Amarc uma das mais avançadas do mundo; a nova lei geral de comunicação da Argentina, de clara inspiração antimonopólica e antioligopólica, em tramitação no Congresso; e a nova Lei do Audiovisual da Venezuela, que coíbe o controle da distribuição e da exibição cinematográficas por cartéis norte-americanos, garantindo reserva de mercado para filmes nacionais e latino-americanos e instituindo taxação dos lucros dos cartéis.

Merecem ainda ser apreciadas outras experiências, como, por exemplo, a cadeia de rádios dos povos originários da Bolívia, concebida por Evo Morales; os fundos de financiamento à produção independente para televisão e à regionalização da mídia patrocinados pelo governo de Michelle Bachelet no Chile; os inovadores canais públicos de televisão educativa e cultural Encuentro, criado pelo presidente Néstor Kirchner na Argentina, e Vive TV, levado ao ar

zpelo presidente Chávez na Venezuela; o programa de apoio ao audiovisual independente no Brasil; as modalidades de integração e intercâmbios entre órgãos públicos latino-americanos, como que acontece no canal Telesur, entre agências de notícias e emissoras de televisão estatais e com os mecanismos de co-produção e co-distribuição cinematográficas.

Mas nada disso será levado adiante, no Brasil ou em qualquer país, se faltarem vontade política aos governantes e sustentação popular. A feição progressista de um mandato não se mede por intenções retóricas nem por aptidão para contemporizar; mede-se, isto sim, pela coragem para inverter a pirâmide e colocar no alto tudo aquilo que estava sufocado e travado. O que pressupõe fazer cumprir deliberações democratizadoras. Este me parece ser o norte do presidente do Equador, Rafael Correa, ao tomar, em novembro de 2008, uma decisão importante e inédita na América Latina: designou uma comissão formada por especialistas nacionais e internacionais para realizar auditoria das licenças de rádio e televisão, com base nas disposições antimonopólicas da nova Constituição daquele país.

Aí está um exemplo fabuloso a ser seguido, com o propósito de dar transparência, legitimidade e garantias a um regime justo de concessão de canais de rádio e televisão. Um regime que ponha termo ao que Venício Artur de Lima bem definiu como “coronelismo eletrônico” e assegure equidade entre os setores público, privado e comunitário na divisão das outorgas e variedade de programação dos canais.

Dentro desse panorama de transformações na América Latina como você analisa a importância da Conferência Nacional de Comunicação, convocada para o final de 2009 no Brasil?

A Conferência é uma oportunidade extraordinária para a discussão e o encaminhamento de proposições que contribuam para a estruturação de um sistema de comunicação mais justo e democrático no Brasil. Por isso, devemos nos esforçar para realçar junto à sociedade sua importância neste momento histórico, inclusive salientando o direito que o exercício da cidadania nos confere de interferir nos rumos da comunicação no país. Contudo, não devemos cultivar ilusões, nem acreditar que males crônicos serão equacionados, por encanto, em função da repercussão dos trabalhos da Conferência. Não podemos esquecer que o mesmo governo Lula que convocou a Conferência praticamente nada fez em sete dos seus oito anos de mandato para modificar o quadro geral da comunicação no país.

Aí está a anacrônica legislação de radiodifusão que não me deixa mentir. Também não podemos desconhecer a força dos lobbies e interesses empresariais do setor. Penso que é essencial aumentar o grau de organização e de articulação de entidades e segmentos da sociedade civil que lutam pela democratização da comunicação, bem como buscar meios mais efetivos e conseqüentes de esclarecimento e convencimento da opinião pública sobre a relevância da comunicação para o desenvolvimento humano em bases igualitárias. Esses esforços me parecem decisivos, sobretudo para intensificar a pressão organizada de áreas reivindicantes da sociedade civil sobre os poderes públicos, e assim, no curso de persistentes campanhas e longas batalhas, construir, gradualmente, uma outra comunicação no país.

A Conferência, sem dúvida, poderá ter desdobramentos válidos e promissores. Mas não percamos de vista que enfrentamos e enfrentaremos inimigos poderosos, inclusive ramificados nas instituições hegemônicas. Daí a necessidade de avançarmos também no plano das mobilizações e campanhas permanentes, tanto para exigir e cobrar providências aos poderes públicos quanto para esclarecer a opinião pública sobre a necessidade urgente de políticas públicas que protejam e promovam o interesse coletivo contra ambições monopólicas privadas.

Gramsci é o autor mais presente nas suas análises, nos quatro ensaios de seu livro. Qual é a importância desse autor na compreensão das batalhas travadas na atualidade?

O pensamento crítico de Antonio Gramsci, brilhante filósofo marxista italiano, é uma fértil fonte inspiradora na luta por efetivas transformações sociais e na compreensão das disputas políticas, ideológicas e culturais que se manifestam no contexto concreto da luta de classes. Considero extremamente atual a argumentação de Gramsci sobre as possibilidades humanizadoras para a existência. Segundo ele, perseguir o consenso em torno de concepções emancipadoras pressupõe recusar e combater proposições que tentam, intencionalmente, afastar os homens da consciência contra o conformismo, a apatia e a alienação.

Se observamos atentamente o que se passa à nossa volta, perceberemos o quanto de proposital e insidioso existe nos discursos hegemônicos; quase sempre, eles atenuam os efeitos perversos do capitalismo, arrefecer o espírito crítico e neutralizar as vozes dissonantes e questionadoras. Também reputo como fundamental a contribuição de Gramsci a um entendimento ampliado do conceito de hegemonia, tão valioso para desvendarmos os jogos de consenso e dissenso que caracterizam a produção de sentido nos meios de comunicação. Gramsci nos faz ver que a hegemonia não se reduz à coerção militar e à superioridade econômica, pois decorre também de batalhas permanentes pela conquista da liderança cultural e político-ideológica de uma classe ou bloco de classes sobre as outras.

A hegemonia não é, por conseguinte, uma construção monolítica, e sim o resultado das medições de forças entre blocos e classes, traduzindo formas variáveis de conservação ou reversão do domínio material e imaterial que atravessam o campo midiático, sendo por ele influenciadas. Tem a ver, portanto, com entrechoques de valores e visões de mundo. A teoria da hegemonia de Gramsci permite-nos meditar sobre o lugar crucial dos meios de comunicação na contemporaneidade, a partir de sua condição privilegiada de produtores e distribuidores de conteúdos. Os veículos atuam na sociedade civil como aparelhos privados de hegemonia (organismos relativamente autônomos em face do Estado em sentido estrito).

São os agentes da hegemonia, os portadores materiais das ideologias que almejam sedimentar apoios na sociedade civil, seja para manter a dominação, seja para contraditar seus pressupostos. Assim sendo, situar a mídia como aparelho privado de hegemonia torna-se decisivo para avaliarmos, na exata medida, sua inserção no plano político-cultural, como caixas de ressonância de posições presentes nos embates sociais. Ao mesmo tempo, as teorias gramscianas ajudam-nos bastante a vislumbrar horizontes alternativos, mobilizar coligações de forças afins e construir ações contra-hegemônicas, com o propósito de intervirmos sistematicamente na difusão de informações e idéias que concorram para a formação progressiva de outros consensos em torno de concepções democratizadoras da vida social e da própria comunicação.

Fonte: PSol Sp – http://www.psolsp.org.br/

De telhado em telhado, de grito em grito: um resumo de 30 anos de revolução no Irã

Marie-Claude Decamps

Todas as noites, a partir dos telhados repletos de antenas de Teerã, se ouve um longo grito modulado, repetido por milhares de vozes: "Allah O Akbar!" ("Alá é grande!"). Como há 30 anos, quando os pais dos cantores de hoje gritavam ao anoitecer o mesmo chamado. Havia menos antenas – parabólicas, pelo menos – , mas o entusiasmo era tão grande quanto. Em 1979, a palavra de ordem vinha do exílio, de Neauphle-le-Château, perto de Paris, de onde o aiatolá Khomeini se preparava para voltar, para iniciar sua revolução islâmica. Tratava-se de invocar Alá contra o xá, rei autoritário que queria modernizar rapidamente o país, ajudado por seus protetores americanos.

Mas e desta vez? Será que se invocaria Alá, à noite no Teerã, contra a teocracia no poder? Deus contra uma República "islâmica" de mulás [líderes religiosos islâmicos], cada vez mais radicalizada e que decidiu voltar aos princípios dos primeiros dias da revolução? A situação é intrigante.
Em 2009, as ordens vieram do coração do país. É o único meio inventado para se fazer ouvir por centenas de milhares de iranianos, partidários do ex-primeiro ministro Mir Hussein Moussavi, que se julgam enganados pela eleição presidencial de 12 de junho que reelegeu Mahmoud Ahmadinejad com um resultado tão contestado quanto esmagador (63%).
De telhado em telhado, de grito em grito: um resumo de 30 anos de revolução. Basta ler de trás para frente esse playback à iraniana para ver que poucas coisas mudaram. Nos lugares públicos, as pessoas cochicham, há interferência e escuta nos telefones como antes. Não mais pela Savak, a terrível polícia do xá, mas pela Savama, Vevak ou sabe Alá qual outro serviço secreto entre esses que proliferaram. O trabalho mudou: saem os panfletos, entram os SMS, os vídeos e os celulares, esse pesadelo policial que tira tantas fotos…
Mas tudo está em ordem. Os opositores na prisão, os intelectuais e jornalistas vigiados, os reformistas suspeitos, e a penitenciária de Evine, lotada. Como nos bons e velhos tempos pré-revolucionários. E as pessoas do círculo interno, com o mesmo instinto de conservação, evitam comentar qualquer excesso. Eles não dizem mais "o Rei não sabia", mas "o Líder não sabia".
É tudo? Não. É claro que há as marchas pacíficas. Os revolucionários estendiam flores aos soldados imperiais: "Venham conosco!"; os adeptos da onda verde Moussavi (cor de sua campanha) dizem aos milicianos Basij [soldados voluntários islâmicos]de cáqui: "Mesmo no seu uniforme, o verde fica bonito…" E tudo, como sempre, acaba em golpes de cassetete. Moussavi, ausente por 20 anos da política, talvez não tenha entendido tudo, ao convocar seus partidários na praça da República (Engelab) para ir até a da Liberdade (Azadi). Um trajeto improvável. Mas sua ingenuidade e coragem fizeram escola: centenas de milhares se juntaram a ele. E até recomeçaram. Depois? Depois, o playback não diz nada.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Darwin nas águas da evolução


Jürgen Neffe
Foto:
Peter Ginter

"Mesmo na floresta, o solo está oculto sob uma massa de plantas orgânicas apodrecendo lentamente" (*Todas as citações de Charles Darwin)

Em um raro momento de calmaria, os troncos cobertos de fungos parecem estar em uma floresta mágica. Darwin considera a vegetação do extremo sul do continente americano escassa e triste, contrariando o que aqui se vê. Ssob o teto das coroas, ele lastima, não cresceriam nem cogumelos, musgos ou samambaias

"Diariamente, coloca-se aos olhos do geólogo que nada, nem mesmo o vento que sopra, é tão instável quanto a camada superior da crosta terrestre"

Darwin não relata sobre a luz do anoitecer nos Andes, aqui, ao norte da cidade chilena Lla Sserena. Sseu olhar está dirigido ao solo, no qual ele encontra em, grande altitude, muitas conchas. Ee conclui: as montanhas devem ter sido pressionadas para fora do mar. Ppara o pesquisador, mais um caso em que acontecimentos poderosos podem ser lidos em pequenos rastros

"A maioria dos produtos orgânicos é criatura local, que não se encontra em nenhum outro lugar"

A gigantesca mariposa cocytius antaeus caiu na armadilha dos pesquisadores na ilha Ssanta Cruz, em Ggalápagos. Pprovavelmente a borboleta imigrou recentemente da terra firme, como tantos outros insetos que ameaçam perturbar o equilíbrio da fauna insular. Darwin, porém, se queixa sobre a falta de insetos no arquipélago

A vila se parece com o seu nome: Puerto Hambre – Porto da Fome. A terra é cinza-azulada, o céu branco-acinzentado, o mar cinza-chumbo. Chove sem parar. Nunca vi algo mais triste, Charles Darwin escreve sobre a baía na costa da Argentina, onde havia ancorado em 1834 a bordo do navio de levantamento topográfico Beagle.

Perto dali, Fernão de Magalhães descobriu, em 1o de novembro de 1520, o estreito que leva o seu nome, dando passagem para a costa oeste da América do Sul e, consequentemente, para as terras das especiarias da Ásia. Por causa das inúmeras pequenas fogueiras, acesas pelos habitantes nativos nas colinas da região, o português chamou- a de Terra do Fogo

Com a gola levantada e o boné puxado sobre o rosto, estou caminhando pelo lugar. Pouco antes de a trilha terminar diante de um matagal intransponível, bem perto da costa, aparece um pequeno cemitério para marinheiros. O vento sudoeste gelado e úmido sopra uivando, ao passar pela corrente branca que cerca o gramado. Pintada com a mesma tinta branca, uma cruz de madeira sobressai entre outras nove sepulturas, separadas por simples estacas de madeira.

"Em memória do comandante Pringle Stokes", diz a inscrição na cruz, "que faleceu em consequência dos efeitos das aflições e das penúrias que sofreu ao fazer o levantamento da costa oeste da Terra do Fogo". Talvez não se possa parafrasear de maneira mais britânica um suicídio. Em agosto de 1828, em profunda depressão, o então capitão do Beagle se matou nessa região, com um tiro na cabeça.

Permaneço parado diante da cruz por mais tempo do que seria aconselhável sob chuva e frio. Sem esse tiro fatal, Darwin não teria sido convidado a embarcar a bordo do Beagle e eu também não estaria parado aqui. Após a tragédia com Stokes, o tenente Rrobert FitzRroy, de 23 anos, foi nomeado capitão. Ele prosseguiu com os trabalhos topográficos e conduziu o navio de forma segura à Grã-Bretanha.

Quando em 1831 recebe novamente a tarefa de velejar para a América do Sul e retomar a missão, o capitão pede licença ao almirantado para levar consigo um civil, cavalheiro de boa instrução e com conhecimentos em ciências naturais, para fazer-lhe companhia à mesa e como interlocutor. FitzRroy está ciente de suas próprias fraquezas e não quer passar pela mesma situação que seu predecessor. Por uma feliz coincidência, o lugar é oferecido ao jovem Charles Darwin, de 22 anos, que, sem titubear, agarra a chance de sua vida com as duas mãos.

Durante cinco anos ele viaja em torno do mundo. Ao longo desses anos, ele cria os fundamentos para sua obra do século, A origem das espécies, com a qual, há 150 anos, redefiniu a imagem que o homem tinha de si e de seu lugar no mundo. A consequência mais conhecida de sua teoria da evolução é a de que o homem descenda de primatas.


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Eu segui a sua senda para entender como Darwin descobriu e encadeou os tijolos para sua estrutura mental única. A força criativa da morte já lhe havia sido mostrada com os fósseis no Pampa e na Patagônia. Aqui, na Terra do Fogo, ele observa pela primeira vez a história de sua própria espécie.

Dentre os 76 viajantes que zarpam da Inglaterra no final de 1831 com o Beagle, encontravam-se também três fueguinos, além de Darwin, os oficiais e a tripulação. Durante sua primeira viagem, FitzRoy os fizera reféns, depois que outros nativos lhe haviam roubado um barco de pesca – e os levara para a Grã-Bretanha, onde receberam educação anglo-cristã. Agora, voltando para sua terra, o capitão pretende que eles ajudem a construir uma nova estação missionária na ilha Navarino, ao norte de Cabo Horn, e que convençam os outros membros de sua tribo a adotar a cultura europeia.

Até hoje, a baía de Wulaia, onde FitzRoy desembarcou os fueguinos, só pode ser acessada pela água. Nas cercanias da chilena Puerto Williams, a cidade mais meridional do planeta, capitán Eugênio declarase disposto a me transportar até ela. Ele é uma dessas pessoas que as longas permanências em terra tornam inquietas e que já devem ter nascido com um gorro de lã azul na cabeça. Após meia hora deixamos o canal Beagle e nos dirigimos ao sul em uma estreita hidrovia. Não há nenhum barco à vista, tampouco outro sinal qualquer de vida humana. Nesses fiordes entre ilhas íngremes com mata cerrada, quase nada mudou desde os tempos de Darwin. A floresta densa, quase intransponível, chega até o nível da água, de modo que a terra habitável se restringe às grandes pedras na margem.

Quando Darwin avista pela primeira vez os parentes diretos de seus companheiros de viagem indígenas, ele compreende a extensão de sua própria espécie. À vista de tais homens é quase impossível tentar nos convencer de que eles sejam nossos semelhantes e habitantes de um e o mesmo mundo. Mas, também, é aqui que surge um dos maiores enganos de sua carreira: que escala de melhoria abrange as capacidades de um selvagem fueguino e de um Sir Isac Newton!, Darwin escreve em seu diário. Será que permaneceram no mesmo estado desde a criação do mundo? Embora o pesquisador naturalista acredite que os "selvagens" pertençam à mesma espécie que ele, classifica-os biologicamente – não apenas civilizacional ou culturalmente – em uma etapa evolutiva mais baixa.

Na argentina Ushuaia, do outro lado do Canal de Beagle, descendentes dos fueguinos guardam em um pequeno museu a memória do "mundo yámana", o mundo de seus ancestrais. Ficaram gravadas em minha memória principalmente as fotos em preto e branco de uma expedição de pesquisa francesa, nos anos de 1882 e 1883: os nativos nus, agachados timidamente sob suas choças, cabanas parcialmente abertas feitas de taipa, ou em suas canoas – a única propriedade da família -, em cujo centro arde uma pequena fogueira. Cinco crianças estão em torno de uma poça, da qual bebem água como gatinhos de uma tigela.

Como será que esses nômades canoeiros conseguiram sobreviver por milênios nessa região inóspita no fim do mundo, e ainda por cima nus? Eu decidi penetrar um pouco terra adentro. Logo atrás dos campos em volta do atracadouro de Wulaia, onde também eu começo minha caminhada, se estende a mata verde úmida. Na floresta, o solo está escondido embaixo de uma massa orgânica de plantas em decomposição, que, ao ser pisada, cede, pois está saturada de água.

No fim do mundo – e de uma vida – tudo tem o seu começo

Na atmosfera sombria das montanhas da Terra do Fogo, o ex-capitão do Beagle, Pringle Stokes, comete suicídio. A fim de não se ver na mesma situação desesperadora, seu sucessor, Robert FitzRoy, pede ao almirantado permissão para levar a bordo um interlocutor com boa instrução. A escolha recai sobre Charles Darwin

Atualmente, a criação de ovinos é a base alimentar para boa parte da população no sul do Chile. Um cogumelo arbóreo amarelo, segundo Darwin, "viscoso", é uma importante fonte de vitaminas dos nativos da Terra do Fogo. Em seu habitat natural, como a cidade argentina de Ushuaia, as florestas de faias lenga dão lugar, a partir de aproximadamente 500 metros de altitude, a uma escassa vegetação de arbustos – ao passo que em regiões da costa chilena, essas florestas chegam a altitudes três vezes maiores

Onde a terra quase não dá nada para sobreviver

Um jardim do Éden tem outra aparência aqui, em uma fonte de vitamina como nenhuma outra em lugar algum: trata-se de um cogumelo amarelo-claro, em forma de esfera, que nasce em grande número nas faias. Eu colho uma bola madura, ela se parece com um pêssego, tanto no tato quanto na consistência. Ele tem um sabor levemente adocicado e meloso, cheirando a champignon. Agora já estou com Darwin até no estômago, pois o cogumelo pertence a uma espécie estranha; é chamado de cyttaria darwinI, segundo seu descobridor. Mas essa planta dificilmente sacia a fome de uma pessoa. Os yámana retiram da água gelada seu alimento principal.

Alcanço a praia todo enlameado. Pelo menos uma vez quero sentir até onde chegou a adaptação dos fueguinos nus. Quando o Sol aparece por entre as nuvens, fazendo brilhar os bosques de algas laminariales perto da superfície, tomo uma decisão: tiro as roupas e mergulho de cabeça na água.

Cinco graus centígrados. Uma dor como um golpe, depois uma brasa que passa pelo corpo todo. Logo depois, com a sensação de ter perdido toda a capacidade de sentir qualquer coisa, permaneço alguns segundos flutuando anestesiado, sem ar. Vejo peixes desviando de mim, camarões fugindo e ostras se fechando; são imagens como tiros, brilhantes, como as algas vermelhas e verdes. E volta aquela brasa, primeiro na cabeça, de lá atravessa o corpo até os pés, que só querem sair desse inferno gelado.

Então foi isso que ele, – o selvagem fueguino, o senhor miserável dessa terra miserável -, suportou. Depois, raptado, aprendeu a falar inglês e a rezar. Se, ao contrário, eu tivesse sido criado como criança enjeitada entre os yámana, eu saberia construir canoas com cascas de árvores, pescar com lanças e, todo coberto de gordura, iria catar ostras na água gelada.

Graças ao desenvolvimento de nossa capacidade cultural, a evolução nos transformou na espécie com maior habilidade de adaptação dentre as espécies mais desenvolvidas.

Cristina Calderón é a última yámana pura. Depois dela, ninguém mais cresceu falando a língua yámana, que tem um verbo para cada atividade especial que ocorre na vida de um índio. "Akeamana", por exemplo, significa: verificar com caibro e martelo, se a madeira de uma árvore é boa para cortar. Quando em 1832, Darwin encontra os ancestrais de Calderón na Terra do Fogo, ele fica chocado com a vida dura e "miserável" deles

Eu devo ter ficado bastante tempo diante das fotografias dos yámana. Vários grupos de turistas já haviam passado por trás de mim, quando então uma pequena mulher, de uns 50 anos, se colocou ao meu lado e disse: "O senhor parece interessar-se muito por nós." – "Nós? Mas existem ainda descendentes vivos?" – "Se contarmos também os mestiços, somos ainda uns cem." – "E se não os contarmos?" – "Então tem apenas uma." – "Uma?" – "Ela se chama Cristina Calderón e tem 78 anos."

n a manhã seguinte eu tenho a oportunidade de cumprimentar a hermana mayor entre os seus. Um pequeno grupo de não mais que 20 pessoas, todas jovens, descendentes de diversos povos, reuniu-se na periferia de Ushuaia, em um local de cerimônias, em torno de uma pequena fogueira, o símbolo de sua cultura. A maioria usa jaquetas baratas e calças de moletom. Estão passando tigelas entre si, das quais bebem uma espécie de limonada com gosto de fermento. Um celular toca, dois meninos jogam futebol, passa correndo um grupo de "joggers".

Cristina Calderón está no meio da roda dos jovens, um tanto perdida. Em seu nariz largo se apoiam óculos grandes e redondos com lentes grossas, através das quais pequenos olhos despertos olham para uma distância qualquer, que não existe mais. Uma emoção estranha toma conta de mim, quando me vejo frente a frente com uma última descendente "de raça pura".

Mas, afinal, o que quer dizer "raça pura"? Existe isso quando se fala de seres humanos? Os povos indígenas extintos não continuam a viver nos traços dos argentinos e chilenos, que em sua maioria têm sangue misturado em suas veias? E no caso dos ingleses, espanhóis e russos, que se formaram a partir de vários povos?

A igreja em Castro, na Ilha Chiloé, é "totalmente construída de tábuas", anota Darwin. Durante a viagem germinam dúvidas, mas o pesquisador ainda não desiste da fé em um Deus Criador

Durante a viagem, a luz da fé perde força

"O que significa ser a última de uma linhagem?" – "Eu acho que é o tema da minha vida." – "E isso quer dizer o quê?" – "Que a minha vida fala." – "Teria uma mensagem para aqueles que virão após a senhora?" Ela dá de ombros. "Ou melhor, espere, escreva: a sabedoria é imortal."

Uma vez por semana, uma balsa vai do patagônio Puerto Natales para Puerto Montt, no sul do Chile. Ela leva três dias e noites. Após aproximadamente um terço de seu caminho, ela segue o mesmo rumo do Beagle – uma das viagens de navio mais excitantes que se pode fazer hoje em dia: através de hidrovias tortuosas, passando por geleiras poderosas, ilhas minúsculas com torrezinhas de sinalização e uma única aldeia com o belo nome de Puerto Eden.

É um lugarejo cheio de melancolia, com aproximadamente 300 pessoas, os últimos kaweskar dispersos e que moram aqui no canal Messier, sem qualquer ligação com o mundo externo. Trata-se de fueguinos que antigamente viviam em canoas, como os yámana, e com os quais ninguém sabe o que fazer desde que lhes tomaram sua terra e seu modo de vida. Hoje em dia são alimentados pelo governo.

Quando ajudo a descarregar os mantimentos, porque o guincho quebrou, a dona da venda me dirige a palavra: "O que você está fazendo? Gente rica não trabalha." – "Eu gosto de ajudar." – "Você quer ir para o céu, não é?" – "Não foi por isso que eu ajudei." – "Acontece que o céu não é de vocês. Ele pertence aos pobres." – "Nunca ouvi isso." – "Para nós, ele contém um mundo todo, nossos sonhos, desejos e esperanças." – "Mas para mim, também." – "Não, para os ricos o céu está vazio. Eles já têm tudo aqui na terra."

Quando meu navio "Evangelistas" alcança o Pacífico, a arrebentação corre impiedosa sob a quilha. Açoitadas pela tempestade, as ondas se quebram na terra íngreme. A vista de uma costa dessas é suficiente para fazer um homem da terra sonhar por uma semana com morte, perigo e naufrágios.

Após atracar em Puerto Montt, o corpo quer equilibrar o movimento do navio, do qual já saiu faz tempo. O solo firme parece estar balançando. Pela rua, do outro lado do porto pesqueiro da capital da província, movem-se caminhões com pesados barris de plástico em suas carrocerias. As manobras são feitas com muito cuidado, como se o conteúdo fosse uma mercadoria perigosa. O que será que é transportado aqui?

Do mar, a cavalo, para um dos ápices da viagem

Em um vale entre montanhas, ao sul de Santiago, dois cavaleiros iniciam sua viagem. Partindo de Valparaíso – na época de Darwin um porto idílico, hoje globalizado – o pesquisador atravessa a cordilheira a cavalo. E com base na vegetação diversa a leste e oeste da cadeia de montanhas, abre-se um princípio essencial da evolução

"O futuro", diz Martin Hevia. Aos 42 anos e com especialização em aquacultura, o biólogo marinho dirige perto de Puerto Montt um laboratório de pesquisas da "Fundación Chile". Dentro dos caminhões, atravessando a cidade, em velocidade mínima, as tinas carregam, principalmente, água salgada e uma carga viva: peixes. Após a criação em estações terrestres, são levados a fazendas de engorda em mar aberto. Da janela de seu escritório, Hevia aponta para a ampla baía. "Lá cresce o que o senhor terá amanhã na mesa." Como coroas artificiais de espuma, vejo fileiras de boias brancas na água encrespada. Nelas estão dependuradas as enormes redes das fazendas de peixe.

Bem ao lado do escritório de Hevia, em galpões de chapa ondulada, estão barris redondos de plástico verde. Neles, milhares de peixes nadam sem parar, sob constante entrada de água. São sistemas automáticos de alimentação, instalações de filtragem e os tubos azuis das instalações de tratamento de água. Nada revela que aqui um homem, de maneira clássica, mas com os meios mais modernos, pode brincar de Deus: seres vivos criados como nunca existiram na natureza e também nunca existiriam sem a manipulação do homem. "Estamos ampliando a arte da criação de animais para os habitantes do mar."

Com expressão cética, Darwin olha para o escritório da diretoria da organização de pesquisa que leva o seu nome, na Ilha Santa Cruz, em Galápagos. A craca foi colocada pelo fotógrafo com um truque

O trabalho de gente como Hevia e de inúmeros predecessores faz que Darwin, logo após o retorno à sua pátria, enxergue, de fato, a possibilidade de reconhecer o mecanismo da evolução: quando espécies, como testemunhas fósseis lhe haviam mostrado, podem desenvolver-se e adaptar-se. Quem, diariamente e diante de nossos olhos, demonstra essa capacidade de adaptação melhor que os criadores? Criação de animais nada mais é que a evolução dirigida pela mão do homem, deduz o pesquisador.

Quando Darwin coloca lado a lado a mão invisível da criação e a visível do criador de animais, vem-lhe à mente, em princípios de 1839, a ideia de sua vida: a evolução pela seleção natural. Essa seleção funciona em longo prazo, segundo o princípio no qual o melhor é o inimigo do bom. Se populações produzem mais crias do que mais tarde possam chegar à procriação, ocorre a luta pela existência, à qual, ao final, sobrevivem os "mais aptos". Mais tarde, Darwin recorre à fórmula do filósofo Herbert Spencer e fala de "survival of the fittest."

Seu pensamento genial baseia-se em uma analogia simples: tão logo ocorra uma pressão seletiva por meio da criação, os animais, paulatinamente, seguem a direção desejada. Se na natureza surge uma pressão comparável, que, por exemplo, permita uma vantagem a camundongos mais rápidos sobre os mais lentos, por poderem fugir com mais rapidez diante de predadores, então a natureza atua como um criador de animais.

Os mais rápidos sobrevivem com maior probabilidade; com o passar do tempo, toda a população de roedores fica mais ligeira.

Nada diferente a isso fazem os criadores de animais, quando selecionam cães ou cavalos segundo a sua velocidade.

Darwin partiu para atravessar os Andes. Ele quer ver como os dois lados da cordilheira se diferenciam. O estreito de Uspallata, nos arredores da capital Santiago, conduz hoje em dia uma rodovia trafegável o ano inteiro. Curva a curva, caminhões carregados sobem com dificuldade. A cada elevação se apresenta um novo cenário. Rochas sedimentares vermelhas, púrpuras, verdes e totalmente brancas e lava preta; esses estratos são quebrados por colinas de porfiroides de todas as colorações de marrom a lilás-claro. A riqueza de cores das rochas andinas na luz mais brilhante da terra faz parte, para mim, das 77 maravilhas desse mundo.

De acordo com a escala temporal geológica, Darwin acabou de sair daqui. Tudo está ainda como ele descreve. Eu me senti feliz por estar sozinho, foi como observar uma tempestade ou ouvir o Messias com coro e orquestra completos. Essa imagem está em minha memória separada de todas as outras.

Na crista, Chile e Argentina mantêm, a poucos passos de distância um do outro, um pequeno posto militar, ambos construídos de pedras brutas. Um vento forte sopra do leste.

Caminhando mais um pouco montanha acima, o pouco oxigênio faz o coração acelerar de modo insano. A respiração curta por causa do ar rarefeito é chamada de puna pelos chilenos. Deve ter sido assim, quando Darwin teve seu momento de êxtase do reconhecimento. A única sensação que eu tive foi um leve aperto em torno da cabeça e do peito [...] Os habitantes todos recomendam cebola contra a puna [...] no que concerne a mim, nada teve efeito melhor em mim do que as conchas fossilizadas!

"Geralmente, os criadores falam da organização de um animal como de algo que se pode formar, algo que eles podem transformar quase a bel-prazer"

Sob os olhos do biólogo Martin Hevia desenvolvem-se, em tanques imensos, os peixes cultivados para o futuro. Nas vizinhanças de Ppuerto Montt, no Chile, os cientistas munidos da mais moderna tecnologia se dedicam ao milenar negócio da criação animal – a arte que leva Darwin à ideia da "seleção natural"

Os restos de antigos habitantes do mar no ponto mais alto da caminhada. A cordilheira inteira deve ter se erguido do oceano. E no solo oceânico se formam as próximas camadas. Apenas no espaço de tempo entre 10 e 6 milhões de anos atrás, conforme informações recentes de cientistas, os Andes se elevaram em até 2.500 metros.

A verdadeira sensação é fornecida a Darwin pela biologia viva, florescendo diante de seus olhos. Nos ele encontra material para outro tijolo de sua teoria, do qual não se pode abdicar: a separação geográfica como pressuposto para a cisão e a evolução separada das espécies. Marcante foi a considerável diferença entre a vegetação desses vales orientais e a do lado oposto: contudo, o clima bem como a característica do solo são quase idênticos, e a diferença de longitude é quase insignificante. A mesma observação vale para os quadrúpedes, e em menor grau para pássaros e insetos.

Quando dois grupos de uma mesma espécie, separados por montanhas ou águas, perdem contato entre si, eles não se reproduzem mais e, consequentemente, também não trocam mais características genéticas. Por inúmeras gerações eles se desenvolvem de maneira diferente, não podendo mais gerar descendentes e tornando- se duas espécies diferentes. Essa separação de espécies por meio de "divergência" torna-se um dos tijolos da teoria de Darwin, depois de reconhecer com nitidez bem maior o princípio do isolamento no destino mais conhecido de sua viagem, o arquipélago de Galápagos.

Alfred Russel Wallace

O homem na sombra de Darwin
Paralelamente a Darwin, um britânico desenvolve uma teoria sobre a origem das espécies

Sexta-feira, 18 de junho de 1858. Ao examinar sua correspondência, uma longa carta cai nas mãos de Charles Darwin, que havia sido postada no distante arquipélago das Ilhas Molucas. Ele lê e fica perplexo: diante dele está a sua ideia da seleção natural, claramente formulada por outra pessoa. Muito tempo já se passou desde que a maior aventura de Darwin, seu relato de viagem, foi publicada. Mas há 20 anos Darwin hesita em escrever a sua teoria sobre a origem das espécies. E agora alguém ameaça chegar à sua frente. Darwin reconhece a letra de cartas anteriores, ele sabe que o remetente, Alfred Russel Wallace, também se ocupa com a "questão das espécies". Por que ele subestimou o potencial desse homem? Wallace, 14 anos mais novo que ele, é filho de uma família de classe média empobrecida, do País de Gales. Não estudou ciências naturais e, como oitavo filho na sequência dos irmãos, desde cedo teve de cuidar de sua subsistência, mesmo assim torna-se agrimensor. Passa seu tempo livre na biblioteca, lendo sobre zoologia e botânica. E devora os relatos de viagem de Alexander von Humboldt e de Charles Darwin. Com 25 anos de idade, parte para sua primeira expedição na região do Amazonas. Quatro anos depois retorna à Inglaterra e planeja outra viagem para breve. Em março de 1854, retorna ao mar. Seu destino é o Mar do Sul da China. Fascinado, perambula pela selva das ilhas da Malásia, identifica e determina pássaros, coleta insetos e herboriza plantas. Mas seu interesse ultrapassa a coleta de raridades: Wallace estuda os padrões de disseminação de grupos de animais e plantas, está fascinado pela diversidade biológica e pelas inúmeras variantes de algumas espécies.

Em uma tarde de fevereiro de 1858, prostrado por um ataque de malária, Wallace mais uma vez quebra a cabeça sobre a "questão das espécies" – e tem uma inspiração: se o meio ambiente se modifica, não são favorizadas em sua reprodução aquelas variantes de uma espécie que estão mais bem-adaptadas às novas condições? Assim que se restabelece da febre, escreve sua ideia e a envia a Charles Darwin. Este repassa o manuscrito de Wallace a Sir Charles Lyell e Sir Joseph Dalton Hooker, que em 1° de julho de 1858, em um encontro da LiNean Society, o leem juntamente com extratos dos escritos de Darwin sobre a teoria da "transmutação" (mais tarde, teoria da evolução). Incentivado pela carta do concorrente, Darwin publica, cerca de um ano depois, seu famoso livro A origem das espécies. A obra monumental obscurece o manuscrito de 20 páginas de Wallace, que cai no esquecimento.

Injustamente, como acreditam alguns biólogos, Wallace também deu importantes contribuições para a teoria da evolução. Contudo, ele nunca contestou a primazia de Darwin. Quando o pesquisador naturalista retorna dos trópicos, trava amizade com Darwin, que escreve mais tarde: "O que mais me admira em Mr. Wallace é que ele não me inveja em nada. Ele deve ter uma índole acentuadamente boa e nobre. O que se deve valorizar mais do que simples inteligência".

Após sua viagem pelo mundo, Darwin se dedica por oito anos ao estudo dos bálanos, um grupo de animais do qual fazem parte as cracas-das-pedras. Por isso ele deixa de lado o trabalho em sua grande teoria da "transmutação"

A noite cai sobre a Cordilheira dos Andes e ativa os monitores no Observatório Europeu do Sul (ESO). Um meio de os pesquisadores dirigirem imensos "olhos" em direção às profundezas do Universo. Graças à atmosfera extremamente seca dos Andes, a Via Láctea brilha aqui mais intensa e mais estrelada do que em outro lugar qualquer. Os cientistas da ESO procuram também por planetas similares à Terra. Existe vida lá? Ela se desenvolve segundo os mesmos princípios que aqui? Eis um teste para a teoria de Darwin

Quando finda o dia, começa o trabalho dos pesquisadores do céu

Finalmente em um navio chamado Beagle, ponto culminante da viagem, 1 grau sul, 90 graus Oeste – Galápagos. O brigue, um barco esbelto de dois mastros, construção de 1970, segue rápido com o vento. As velas brancas estão esticadas, um mar de azul profundo. E no horizonte se veem as silhuetas de algumas ilhas. Focas saltam das ondas, caçando peixes-voadores. Atobás se arremessam como flechas sobre a superfície da água. No céu, com asas estendidas, velejam os pelicanos.

Nenhum outro lugar traz o nome de Darwin à memória como esse arquipélago, pouco menos de mil quilômetros diante da costa do Equador. Aqui surgiu o mito do gênio, a quem a vida, em forma de bicos de aves e carapaças de tartarugas, havia confiado um profundo segredo.

É por essa razão que, no começo, Darwin anda meio a esmo, como o fazem atualmente turistas curiosos. Ele descreve o iguana-marinho com a mesma surpresa horrorizada que acomete qualquer visitante. O animal tem uma aparência feia, de coloração preta, bobo e lerdo em seus movimentos. Em quase nenhum lugar do mundo tem-se a sensação de estar viajando no tempo, por épocas passadas, como aqui.

É por essa razão que, no começo, Darwin anda meio a esmo, como o fazem atualmente turistas curiosos. Ele descreve o iguana-marinho com a mesma surpresa horrorizada que acomete qualquer visitante. O animal tem uma aparência feia, de coloração preta, bobo e lerdo em seus movimentos. Em quase nenhum lugar do mundo tem-se a sensação de estar viajando no tempo, por épocas passadas, como aqui.

O ornitólogo John Gould, que examina os achados de Darwin, chama sua atenção sobre as diversidades. Os pássaros, todos eles até então desconhecidos da ciência, pertencem sem exceção à família dos fringilídeos. Eles formam um grupo próprio, restrito à localidade de Galápagos.

Testemunhas emplumadas de destaque em Darwin estão ameaçadas: a varíola aviária provoca tumores sob as asas de alguns pássaros. Recintos que abrigam tentilhões para observação são assaltados pelos ratos (pesquisadores analisam rastros de mordidas em ovos de massa espalhados pelo local)

Aproximadamente um ano após a visita de Charles Darwin ao arquipélago, ainda antes de retornar à Inglaterra, um parágrafo em suas notas zoológicas mostra como os acontecimentos em Galápagos o deixam inquieto. Ele acabou de catalogar seus tordos e notou que as diferentes espécies podem ser ordenadas a ilhas isoladas. Eu tenho exemplares de quatro ilhas maiores [...] Em cada uma delas se encontra exclusivamente apenas um tipo.

Não foram os fringilídeos, que podem ser encontrados em qualquer livro escolar de biologia, que o colocaram na pista, mas sim tordos discretos. Vendo suas peles, ele se lembra da informação do inglês Nicholas Lawson, governador do Equador em Galápagos, de que as tartarugas de diferentes ilhas podem ser diferenciadas conforme suas carapaças. Se existir o mínimo fundamento para essas observações, valerá a pena examinar a zoologia do arquipélago, pois tais fatos solapariam a estabilidade das espécies.

Podemos imaginar a ocasião como um dos momentos mais iluminados de sua vida: Darwin descobre que espécies imigradas para o arquipélago se adaptam às respectivas condições locais, diferenciando- se de ilha para ilha. Ilhas como as de Galápagos representam a forma ideal daquele princípio que já se esboçava para o pesquisador naturalista nos Andes: o isolamento geográfico. O que em outros lugares se forma ao longo de milhões de anos por meio de coevolução complicada, pode surgir em terra virgem em bem menos tempo.

As espécies, portanto, não conseguem apenas se desenvolver (por meio da evolução), como fósseis e criação já lhe haviam mostrado, mas podem apartar-se em diversos gêneros pela separação espacial. É apenas com essas ramificações na árvore da vida que Darwin pode explicar a desconcertante diversidade do mundo vital.

Durante sua estada em Galápagos, Darwin não compreende mais dos processos do que os visitantes de hoje. Em vez disso, o pesquisador faz travessuras com as tartarugas. Divertia-me sempre quando eu ultrapassava um desses grandes monstros em sua marcha pausada e ele, no momento em que eu passava, encolhia a cabeça e as pernas e, sibilando, caía na terra, com uma batida dura, feito morto.

O que protege as tartarugas contra todos os outros inimigos naturais, falha em confronto com o pior deles. Estima-se que 200 mil morreram em 200 anos para fornecer carne fresca aos homens. Algumas espécies morreram. Quando a estação de pesquisa Charles Darwin interveio na Ilha Espanhola havia ainda apenas 12 fêmeas e 2 machos. Porém, desde os anos 70 do século passado estão sendo procriadas com sucesso, retornando depois ao seu habitat natural.

O laboratório da evolução em apuros

As Ilhas Galápagos, ligadas ao nome de Darwin como nenhum outro lugar, atraem atualmente, da mesma forma, pesquisadores e turistas: a bióloga Birgit Fessl coleta, em armadilhas de funil, invertebrados da camada das folhas. As tartarugas-gigantes suportam com paciência os visitantes que se aproximam demais delas

Porque o jantar à luz de velas se torna uma ameaça

Nem toda criatura desperta veneração em Charles Darwin. Ele reprova os iguanas-marinhos do Arquipélago de Galápagos, chamando-os de "feios". O entomólogo Lázaro Roque estudou como navios de cruzeiros influenciam a fauna das ilhas. Sua conclusão: as luzes dos barcos atraem milhares de insetos que a bordo conseguem chegar em terra, para dano do biossistema.

Para o habitante mais famoso do arquipélago, todavia, o socorro da estação veio tarde demais. "Lonesome George", da Ilha Pinta, é o último de sua espécie. Em uma estação de procriação, ele divide seu recinto com duas fêmeas de uma espécie parecida da Ilha Isabela. Como elas lhe são geneticamente mais próximas, poderiam procriar com seu esperma.

Visitantes jogam moedas na água e lhe desejam boa sorte. De alguma forma, ele compreende seu imperativo biológico e procura as fêmeas, que regularmente se evadem. Aa frustração na cara anciã de George parece evidente: uma melhor imagem simbólica Galápagos não pode fornecer. Com um único representante solitário, uma espécie se despede deste planeta após zilhões de anos.

a tualmente, o turismo é mais perigoso para o arquipélago do que qualquer catástrofe natural. O número de visitantes aumenta constantemente; com 140 mil por ano, o limite colocado há poucos anos está bem ultrapassado. Em 50 anos, o número de habitantes do arquipélago pulou de inofensivos 2 mil para 30 mil. Nos tempos de Darwin eram de 200 a 300. Os esgotos são despejados sem tratamento no mar, as pastagens ampliadas, animais domésticos tornam-se selvagens, cabras já viraram praga, os pescadores ameaçam os pesquisadores por causa de cotas de pesca devidas à proteção ambiental. Aa Unesco colocou agora o arquipélago na lista do patrimônio mundial em perigo.

Com seu livro A origem das espécies, Darwin escreveu uma bíblia da biologia, o único livro de peso que trago comigo do começo ao fim da viagem. E não apenas de forma eletrônica. No ambiente paradisíaco-infernal, de tempos ancestrais de Galápagos, a obra se lê como a defesa do último advogado da humanidade diante do Juízo Final. O argumento final simplesmente não dá para não ler, reler e reler: Há uma grandeza nessa visão da vida, com seus diversos poderes, os quais foram soprados originalmente pelo Criador em poucas ou em apenas uma forma; e que, enquanto este planeta continuou girando segundo a lei fixa da gravidade, a partir de um princípio tão humilde, tenham surgido e continuem a surgir infinitas formas, as mais belas e as mais maravilhosas.

Enquanto escrevo estas linhas, recebo uma notícia da estação Darwin: "Finalmente encontrados dois ninhos, alguns ovos estão na incubadora, e em alguns meses se saberá se realmente haverá procriação ou não!" Talvez "Lonesome George" não fique tão sozinho, afinal.

A caminho

No único dia da viagem em que o fotógrafo Peter Ginter e seu assistente, motorista e tradutor, o argentinoFernando Gomez Bellocq, pretendiam descansar um pouco, bastou uma olhada pela janela, de manhã, para fazer os dois respirarem mais rápido: o vulcão Chaitén cuspia nuvens de cinzas a quilômetros de altitude no céu chileno. Contudo, documentar a devastação de bem perto foi vedado aos dois. Por duas vezes se encontravam na balsa totalmente vazia de Puerto Montt para Chaitén, mas soldados obrigavam-nos a retornar.

Durante seis meses, o escritor científico Jürgen Neffeplanejara e organizara quase todos os dias, até que sua viagem pelo mundo, igual à de Darwin, pudesse começar. A visita ao arquipélago de Galápagos havia sido planejada como um clímax – mas deixou sentimentos desencontrados.

Na verdade, Neffe acredita que o maior número possível de pessoas deveria ter a possibilidade de ver esse mundo de maravilhas – a fim de se entusiasmarem pela proteção ambiental. Por outro lado, para salvá-las em sua unicidade, as ilhas deveriam ter seu acesso completamente negado.

Fonte: Revista GEO – http://revistageo.uol.com.br/

Alá, meu bom Alá

Desprezado pelos outros escravos no Rio do século 19, muçulmanos negros viram sua população minguar com o fim do tráfico atlântico

MANOLO FLORENTINO
COLUNISTA DA FOLHA

Em "Um Rio Chamado Atlântico" [ed. Nova Fronteira], Alberto da Costa e Silva estabeleceu um método sutil para estimar a importância dos islamitas negros no Rio de Janeiro imperial.
Da correspondência oficial do conde de Gobineau, ministro da França no Brasil em 1869, colheu a informação que os livreiros franceses Fauchon e Dupont costumavam vender anualmente cerca de cem exemplares do Alcorão.
Alcorões escritos em árabe e à mão -logo, muito caros. Ainda assim, eram adquiridos "quase que exclusivamente por escravos e ex-escravos". Um best-seller cujas características permitiram ao nosso melhor africanista concluir ser maior do que se poderia imaginar o número de muçulmanos negros da corte.
Islamitas estritos, ademais, posto somente aceitarem o livro na língua de Maomé.
De acordo com as listas de escravos em inventários post-mortem, embora minoritário, o número de cativos embarcados entre a costa do Senegal e os Camarões -os "minas"- crescia mais do que o de bantos de Angola e de Moçambique.
Estigmas
Mas eles não vinham diretamente da África: alcançavam a capital imperial através de Salvador, e sua denominação genérica encobria adeptos da religião dos orixás e muçulmis [ou malês]. Eram "minas" enquanto permanecessem escravizados, bem entendido. Porque, ao obterem suas cartas de alforria, muitos se transformavam em "mina-jeje", "mina-nagô" ou "mina-hauçá" -estes, sequazes da religião de Maomé. A liberdade lhes permitia assumir identidades antes ocultadas por estigmas e perseguições.
Algumas cifras sugerem o caminho inverso -de que a reafirmação identitária também ajudava a obter a liberdade.
Segundo registros cartorários, quando Gobineau morava no Rio, os "minas" perfaziam 15% do total de escravos originários da África, representavam um terço dos africanos alforriados e detinham metade das cartas de liberdade por estes adquiridas mediante pecúlio -os bantos abandonavam o cativeiro sobretudo gratuitamente ou por meio de acordos com seus senhores.
A etapa de adaptação na Bahia deve ter sido muito importante para que os minas obtivessem alforrias em uma proporção duas vezes maior do que a sua participação entre os africanos escravizados -e, em especial, por meio de laboriosa poupança.
Entretanto essa aculturação não necessariamente significou o abandono de crenças primevas. Ao contrário, estas ajudavam a tecer estratégias que pavimentavam o caminho rumo à liberdade.
A dialética estabelecida entre afirmação identitária e manumissões compradas sugere que Costa e Silva acerta ao dar crédito a Gobineau: os dispendiosos alcorões eram adquiridos por islamitas escravizados e libertos, e não apenas por estes, como era de se esperar.
Jamais será conhecido o número exato de maometanos do Rio de Janeiro na década de 1860. Mas uma ordem de grandeza pode ser estabelecida.
Desaparecimento
Para tanto, partamos dos 80 mil escravos e 11 mil forros anunciados no censo de 1849 para as freguesias urbanas da Corte. A população escrava atingia o seu auge, e a queda viria a partir do ano seguinte, com o fim do tráfico atlântico.
Os escravos urbanos somavam 40 mil habitantes em 1872, quando o avanço do abolicionismo pode ter elevado para 20 mil o número de libertos.
O cruzamento dessas cifras com fontes cartorárias sugere que, racista, Gobineau convivia desgostoso com 5.000 "minas" forros e escravizados, dos quais uns 200 hauçás.
Ao considerarmos os muçulmanos nascidos no Brasil, os conversos e os que simplesmente temiam dar a conhecer a sua crença, não é implausível supor que a comunidade islamita flutuasse entre mil e 2.000 pessoas.
Ainda assim estaríamos frente a um grupo relativamente exíguo, embora adequado à demanda dos alcorões de Fauchon e Dupont.
Os maometanos estavam em franco desaparecimento nos primeiros anos do século 20, quando João do Rio escrevia "As Religiões no Rio" [ed. José Olympio].
Para explicá-lo, Costa e Silva menciona as deportações para a África -para onde muitos também regressavam voluntariamente- e a conversão a outras religiões. Destaca ainda a transformação dos muçulmanos em um grupo isolado, "a ressentir-se da rejeição dos demais negros".
Embora possa ter se acentuado na passagem do século, o hermetismo dos moslins não representou uma novidade trazida pela República.
Endogamia
Registros de casamentos de escravos de diversas freguesias do Rio de Janeiro, referentes aos séculos 18 e 19, mostram que os índices de endogamia entre os hauçás eram bem superiores aos observados nas outras etnias africanas.
O fechamento matrimonial da minguada comunidade maometana resultava do desprezo que lhe era imposto pelos outros negros, é certo.
Mas igualmente da crença na superioridade de seu monoteísmo, encarnada na estrita observância de suratas que desestimulavam casamentos de fiéis com mulheres idólatras.
Desse modo, enquanto pôde contar com os tráficos atlântico e interno, a reprodução física desses poucos muçulmanos não se viu comprometida. Ao contrário: a imigração forçada representava a condição de sobrevivência do grupo. Ao secarem, estas fontes externas de reposição humana levaram consigo os próprios islamitas.
Uma história instigante, quando menos pelo desconhecimento vigente acerca dos muçulmanos negros fora da Bahia.

MANOLO FLORENTINO leciona história na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é coautor de "Trabalho Compulsorio e Trabalho Livre na Historia" [ed. Unesp] e escreve regularmente na seção "Autores", do Mais!.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Imigrantes a caminho dos EUA são vítimas de tortura na passagem pelo México, diz relatório

Pablo Ordaz
Na Cidade do México (México)

A primeira parte do relatório surpreende. A segunda deixa os cabelos em pé. Porque as primeiras páginas da investigação realizada pela Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) do México demonstram que entre setembro de 2008 e fevereiro de 2009 quase 10 mil imigrantes centro-americanos que tentavam chegar aos EUA foram sequestrados e tratados com extrema crueldade em sua passagem pelo território mexicano.

Mas nas últimas 23 páginas são as próprias vítimas que relatam o calvário que sofreram nas mãos de seus captores. Diz uma jovem salvadorenha: "Enquanto não chegou o resgate, me violentaram. Mas minha amiga não tinha familiares para pagar por sua liberdade. Por isso lhe deram dois tiros na cabeça e a deixaram sangrando durante três horas na minha frente… para me intimidar".

UOL Mapas

Da América Central aos Estados Unidos: caminho de torturas e sequestros

As vítimas são homens e mulheres jovens que partem diariamente de Honduras, El Salvador, Guatemala ou Nicarágua em busca de um futuro melhor nos EUA. Mas também são velhos e crianças que empreendem o caminho sozinhos para encontrar-se com seus filhos ou com seus pais. Eles também fizeram um dia essa mesma rota e talvez tenham encontrado trabalho, mas não podem voltar para buscar seus seres queridos por falta de papéis e recursos. Crianças e idosos viajam escondidos em vagões de trem ou no fundo falso de caminhões controlados pelas máfias. Movem-se de noite e por caminhos secundários, fugindo das autoridades. Assim que cruzam a fronteira e entram no México, transformam-se nas vítimas perfeitas.
O relatório, realizado ao longo de seis meses por 30 agentes da comissão supervisionados pelo professor Mauricio Farah, contém um sem-fim de dados, cada qual mais alarmante. O número de pessoas sequestradas foi 9.758. Muitas delas foram capturadas em grupos, retiradas dos vagões de trens e confinadas em casas de segurança ou em armazéns industriais. O resgate exigido por elas flutuava entre 1.100 e 3.600 euros.
A Comissão Nacional de Direitos Humanos calcula que a indústria do sequestro obteve nesse curto espaço de tempo mais de 18 milhões de euros. Para isso não hesitou em utilizar uma violência extrema que inclui tortura, violação e assassinato. Nove em cada dez vítimas receberam ameaças de morte contra elas ou seus parentes; 67% dos sequestrados eram de Honduras, 18% de El Salvador, 13% da Guatemala e os demais da Nicarágua, Equador, Brasil, Chile, Costa Rica e Peru. Os investigadores souberam de 157 mulheres que foram sequestradas, quatro delas grávidas. Duas foram assassinadas por seus captores. Outras foram violentadas e uma foi obrigada a permanecer junto com seus agressores e a desempenhar o papel de "mulher" do chefe do bando.
Da leitura do relatório e de uma conversa posterior com o professor Farah, se deduz que foi realizada de forma conscienciosa. Que apesar da ausência de dados – os sem-documentos não denunciam por medo de ser devolvidos a seu país -, os números dos abusos foram contrastados para evitar duplicidade ou exagero. Também se chega à conclusão de que os criminosos atuam muitas vezes com a cumplicidade das autoridades: "Com frequência os migrantes são vítimas de bandos organizados e em muitas ocasiões de autoridades federais, locais e municipais, especialmente as encarregadas da segurança pública, as quais golpeiam brutalmente, humilham e extorquem com ameaças de privá-los da vida, da liberdade ou deportá-los para seus países de origem".
Embora os sequestros sejam mais frequentes na fronteira sul do México, os dados também demonstram que os sem-papéis não estão seguros em nenhum ponto de sua travessia pelo país. "Às vezes as máfias os roubam dos ‘polleros’ [traficantes que os ajudam a cruzar a fronteira em troca de dinheiro] para extorqui-los", explica o professor Farah.
E é nesse momento que o leitor do relatório se aproxima das páginas finais. Ali se encontra a história de uma imigrante de Honduras: "Eles me bateram na cabeça, no quadril, nos braços com uma tábua que chamam de ‘a lembrança’. Quando ligavam para minha família para pedir dinheiro me colocavam uma furadeira na mão para que eles escutassem. Depois me violentaram". E a de um menor de idade, também de Honduras: "Durante o sequestro só me davam de comer uma vez por dia, tortilhas duras e um pedaço de frango velho. Mataram um salvadorenho que estava conosco. Não denunciei o sequestro porque junto com os sequestradores, que bebiam cerveja e consumiam cocaína o dia todo, também havia policiais de uniforme. Obrigaram a mim e a um companheiro a violar uma mulher sequestrada na frente deles…"
EL PAÍS tentou na quarta-feira, sem êxito, que a Presidência da República ou algum departamento do governo mexicano desse sua versão sobre as graves denúncias feitas pela Comissão Nacional de Direitos Humanos.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

O drama da indústria da celulose em filme de Carlos Pronzato

ENTREVISTA Cineasta e escritor retratou a resistência de uma cidade argentina contra o avanço da papeleira finlandesa Botnia

ENTREVISTA Cineasta e escritor retratou a
resistência de uma cidade argentina contra
o avanço da papeleira finlandesa BotniaAchille Lollo
de Salvador (BA)

SITUADO NA Praça Municipal de Salvador (BA), ao lado do Elevador Lacerda, o Centro Cultural da Câmara Municipal soteropolitana realizou, no dia 27 de abril, um evento cultural que juntou poesia e cinema.
Foi o lançamento do livro Poemas sem terra e do documentário “Papeleras go home! A luta do povo de Gualeguaychú (Argentina) contra as fábricas de celulose”, ambos realizados pelos escritor e cineasta argentino radicado na Bahia, Carlos Pronzato.
A publicação, que é uma confissão de estima e amor à luta dos sem terra, contém 19 poemas dedicados aos camponeses do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que morreram no dia 17 de abril de 1996, no massacre de Eldorado dos Carajás. Complementam as 44 páginas do livro um romance em versos denominado “João e Maria Flor, uma história de terra e amor”, que é uma homenagem aos 25 anos do MST.
Já o filme, realizado em 2008, trata da instalação de fábricas de celulose na Argentina, bem como em outros países do Cone Sul. Nos 40 minutos do documentário, Pronzato analisa o ciclo de produção das papeleiras, detalhando os elementos tecnológicos que provocam a mortal poluição dos rios, o desequilíbrio do ecossistema, além do desrespeito à cidadania. Retrata a maneira arrogante e pretensiosa como as transnacionais de celulose conseguem as licenças ambientais.
Pronzato visualiza no filme esse contexto dando um particular enfoque sobre a poluição do rio Uruguai, na região da cidade de Gualeguaychu. Confira a seguir entrevista com o escritor e cineasta.
Brasil de Fato – Argentina, Uruguai e Brasil são três países onde a presença de indústrias de celulose está em clara expansão, graças também à cumplicidade de alguns governos progressistas que ficaram surdos e cegos diante das denúncias de desequilíbrio ambiental e poluição provocada pelas papeleiras. Você pode explicar como e por que o povo de Gualeguaychu reagiu e enfrentou as papeleiras?
Carlos Pronzato –
Em primeiro lugar, devemos levar em conta que Gualeguaychú [com 80 mil habitantes] está situada às margens do rio Uruguai e, portanto, abriga um povo fronteiriço [faz divisa com o Uruguai] e, como todo povo de fronteira, carrega um especial senso de atenção em torno do seu habitat.
Além da tradição que essa cidade tem de cuidado com o seu meio ambiente, sua limpeza e conservação, especialmente, com seus balneários, que são muito procurados, essa imponente fábrica veio a se situar justo em frente do balneário principal, Ñandubaysal. Essa foi a primeira agressão, poluindo a paisagem natural que se tinha da margem oposta do rio. Além disso, um aspecto principal dessa resistência foi a chegada de duas ambientalistas uruguaias, Delia Villaba e Julia Cóccaro, para alertar ao povo de Gualeguaychú sobre as nocivas conseqüências da instalação da fábrica da Botnia [grupo finlandês que é o líder mundial do setor de celulose] em solo argentino. A partir dali, a própria organização dos vizinhos foi se dando de maneira paulatina até constituir a Assembléia Cidadã Ambiental.
Quais sensações você teve quando filmou esse contexto?
Fiz as gravações nas vésperas e durante o carnaval, portanto, quando a cidade aponta todas as suas energias para a organização da festa, que é uma das principais da Argentina e mobiliza toda a economia da região. Assim, dentro da própria passarela do carnaval foram exibidos cartazes contra as papeleiras. Nesse contexto, não foi fácil encontrar pessoas para serem entrevistadas, atarefadas que estavam num período de grande fertilidade financeira e, ao mesmo tempo, levando em frente a luta contra a maior fábrica de celulose do continente. Contudo, chamou a minha atenção o fato de que todos os comércios da cidade exibiam cartazes incentivando a resistência contra a Botnia e que praticamente todo o povo da cidade estava enfileirado atrás da causa comum de expulsão da empresa.
Por que a sua produção cinematográfica é, antes de tudo, política, com muitos documentários relacionados com acontecimentos ou personagens como Che Guevara?
Utilizo o suporte audiovisual como arma de transformação social na maioria dos meus trabalhos. Disponho meu tempo e os parcos recursos obtidos com a própria circulação dos documentários na procura de episódios marcantes da nossa história social e da nossa atualidade que possam funcionar como exemplos a serem seguidos por aqueles que atuam nas várias frentes de combate contra a violência diária do capitalismo. E personagens como Salvador Allende [“Buscando a Allende”] e Che Guevara [“Carabina M2, Che na Bolívia”], assassinados pelo país do norte que promoveu a selvageria dos golpes de Estado para a implantar transnacionais. Acho que falarmos, inclusive hoje, por exemplo, do Sandino, o general que combateu os marines dos EUA nas costas da sua Nicarágua na década de 1920, é retomar um discurso de dignidade na defesa de nossos territórios.
Nossa história é nosso alimento, nossa possibilidade de revermos os erros, é nossa memória que nos compele a estarmos alertas contra todo tipo de agressão na defesa dos nossos territórios: contra a 4ª frota estadunidense, contra as transnacionais do agronegócio, mineradoras e papeleiras, contra as milionárias campanhas eleitorais ditas democráticas e até contra a invasão das igrejas neo-pentecostais.
E, por falar em Che, não é apenas como personagem político – no sentido restrito em que essa palavra caiu – que me interessa sua incomensurável figura. Mas também sua transcendência através dos tempos, que apenas está começando, atinge minha visão de mundo de forma muito mais profunda.
Por que as TVs públicas, no caso brasileiro a TV Brasil, optaram por serem “televisões antropológicas”, fugindo, assim, dos grandes temas da atualidade política urbana que, na realidade, são explorados pelas TVs privadas na ótica de criminalizar os excluídos? Trata-se de uma censura prévia das TVs públicas ou são os próprios diretores que optam por temas “antropológicos” (indígenas, quilombolas, cenas rurais em geral) para ganhar o gordo patrocínio das grandes empresas?
Primeiro, seria interessante entender o conceito do que é uma TV pública. Apesar de ter assistido programas excelentes em diversos países produzidos por TVs públicas, a participação popular da grande massa da população não está ali representada com a contundência e transparência que deveria. Não vejo participação popular – e o termo público inclui obrigatoriamente também o popular – na construção da maioria dos programas televisivos. A burocracia, a lentidão da máquina, os vícios da profissão, a falta de preparação cultural dos quadros ditos subalternos, as eternas panelas dos quadros superiores e o modelo empresarial das funções estão longe de tornar a TV pública um autêntico espaço público 24 horas. Quanto aos temas abordados, deveriam ter um maior espaço aqueles que dizem respeito à problemática social, mas por que não geridos pelos próprios atores desses segmentos?
Hoje, a parte da sociedade que se identifica com o capitalismo avançado utiliza o audiovisual em tudo e para tudo, da publicidade de seus produtos industriais à divulgação de projetos culturais, passando por mensagens políticas ou campanhas para influenciar a opinião pública. Por outro lado, a parte da sociedade que quer uma alternativa ao capitalismo é, talvez, a mais surda ao uso do audiovisual. Às vezes, negociar um patrocínio com sindicatos é até aviltante porque parece que se está pedindo esmola. Por que você acha que isso acontece? Você já vivenciou situação semelhante?
Muito, cada dia, cada hora, cada minuto do meu trabalho de documentarista é constituído também dessa triste realidade de ver o pouco que resta de interesse político/social na cabeça de um sindicalista depois de tantos anos de serem protagonistas da história do Brasil. Não me refiro apenas às mobilizações a partir do ABC paulista, ligadas mais substancialmente à emergência do governo atual, vou muito mais atrás, às mobilizações anarquistas do início de século 20, quando havia um fermento de autêntico fervor revolucionário.
E é bom esclarecer que não negocio patrocínios, apenas apoios que não configurem nenhum tipo de censura sobre os meus objetivos políticos. A multiplicação através da denominada pirataria militante é que faz circular os documentários pelo Brasil afora e constitui o braço fundamental do meu “orçamento participativo” para desenvolver a atividade nesse cinema militante. Acho que a questão é, lamentavelmente, educativa. Nos sindicatos, pelo que conheço, não há o espírito de formação, de elevação cultural que se tinha em épocas pretéritas. Hoje, prima apenas o marco das campanhas políticas internas, suas relações com o poder central e os cargos, a perpetuação num poder que eliminou definitivamente o departamento cultural com sentido de luta nos sindicatos. E o marco cultural é fundamental. Nessa geografia, não é fácil solicitar apoios nem angariar simpatias com projetos que falam de excluídos com suas próprias vozes e que trarão poucos benefícios nesse quadro capitalista do atual sindicalismo de manobras eleitoreiras.
Além de diretor de cinema, você é também um poeta. Como e por que escreveu o livro Poemas sem terra?
Comecei a redigir num congresso do MST em Brasília em 2006. Na ocasião, apresentamos o documentário “A Veracel no Abril Vermelho”, que fala da maior ocupação do MST baiano nas terras dessa transnacional sueca de celulose. O contato com as delegações de todo o país, o impressionante e colorido desfile diário e as vivências em conjunto no acampamento montado no Congresso devem ter deixado alguma marca, algum caminho a trilhar para iniciar esses poemas que finalmente foram 19. Em 2001, tinha publicado o livro Canudos não se rendeu, onde antecipo minha imersão no tema com a epopéia de Antonio Conselheiro e os seus seguidores até a gesta dos 25 anos do MST. A minha relação com os sem terra, então, nasce nos sertões da Bahia. Assim, nesses dois anos, no meio de outras publicações, fui dando forma a esses poemas que também se entrelaçam com a luta contra as transnacionais levadas a cabo pelo movimento e algumas das quais tive o privilégio de acompanhar. Achei que estava na hora de publicálos quando comecei a elaborar o material sobre a luta do povo argentino contra a Botnia e a ponte foi natural entre os dois temas. Não houve protestos nem cortes na ponte.
Por que seus filmes e poemas demonstram um grande amor pelo MST e pelas lutas dos sem terra?
As lutas camponesas foram e são um reduto crucial das transformações sociais e todos os que militamos nos ideais do Che estamos cientes que elas são o fermento essencial, um espaço privilegiado de experiências, um marco possível para aplicar às complexidades urbanas. A terra é o nosso espaço, a Pachamama ancestral, nossa raiz, seja qual for o habitat momentâneo do indivíduo e, por isso, uma parte de nós a ser cuidada e defendida com ardor. Como movimento, a organização demonstra que é possível o sucesso do cooperativismo, fato apenas comentado pelos meios hegemônicos e responsável por grande parte da alimentação nas cidades. As ocupações, que aqueles mesmos meios insistem em criminalizar, são um exercício de valentia e coragem para o enfrentamento com um inimigo mil vezes superior com todas as armas possíveis e que nunca admitirá o sucesso dessa singular experiência camponesa, uma das maiores que o mundo contemporâneo já conheceu.
Por tudo isso, e apesar de quaisquer discordâncias no enfoque da sua construção política e das suas alianças programáticas, nossas lentes sempre estarão ali para aportar na sua longa marcha até o amanhecer definitivo.
Quem é

Além de cineasta, documentarista e diretor de teatro, Carlos Pronzato é também poeta, tendo publicado em Salvador três livros de poesias: Che, um poema guerrilheiro (2007), Poesias contra o Império (2004) e Canudos não se rendeu (2001), além do recente Poemas Sem Terra.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Crise econômica faz setor de aviação cair em parafuso

Anne Seith
Timo Kotowski

“Apertem os cintos”
A crise econômica está abalando o setor da aviação e nenhuma empresa ficou imune. Os lucros das companhias aéreas estão sofrendo enquanto as encomendas de novos aviões diminuem. Não há como dizer quando a turbulência poderá terminar.

Parece uma espécie de pesadelo tubular. Randy Tinseth, diretor de marketing da Boeing, prevê que apesar dos inúmeros problemas atuais "veremos nossa indústria crescer", segundo disse no final de uma conversa por telefone. A aviação continua sendo "uma parte altamente valorizada e integral do tecido social e econômico do mundo", ele disse.

Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem - 10.dez.2007

As empresas aéreas modificaram suas atitudes sobre o Airbus A380 (modelo da foto). Muitas agora acham que usar um avião tão grande é arriscado demais do ponto de vista financeiro.

E quando se olha 20 anos à frente a situação realmente não parece tão terrível – pelo menos quando se analisam as previsões anuais da Boeing para as próximas duas décadas. A companhia disse na quinta-feira que cerca de 29 mil novos aviões serão necessários até 2028. Antes dos prognósticos deste ano, a Boeing havia previsto novas encomendas de 29.400. A empresa calcula o valor das máquinas encomendadas em US$ 3,2 trilhões, de acordo com o número do último do ano passado.
Mas neste momento a situação econômica do setor é sombria. Nesta segunda-feira, 2.000 representantes de todo o mundo se reunirão no Aeroporto de Le Bourget em Paris para a tradicional feira de aviação. Sob circunstâncias normais, o evento teria um clima de comemoração, pois a feira marca seu 100º aniversário e a Airbus comemora seu 40º. Mas diante dos atuais problemas o clima não será nada animado.
De fato, a indústria da aviação está nas garras de sua pior crise até hoje. "A terra está tremendo, nossa indústria está abalada", explicou o chefe da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata na sigla em inglês), Giovanni Bisignani, na reunião anual da organização. Seu grupo, que representa 230 companhias aéreas, estima que a indústria sofrerá um prejuízo total de US$ 9 bilhões em 2009. Até março, Bisignani havia falado em perdas de US$ 4,7 bilhões. "Cerca de 100 mil empregos estão ameaçados se a economia não melhorar", advertiu o economista-chefe da Iata, Brian Pearce. "Nossa indústria está lutando pela sobrevivência", disse Bisignani. "Não vejo qualquer motivo para otimismo hoje."
E mesmo quando a imagem melhorar ainda há incertezas sobre as consequências da crise em longo prazo. Segundo a Iata, o setor levou três anos para se recuperar do impacto dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Na época as vendas caíram 7% e hoje estão 15% menores.
Problemas tamanho jumbo
A queda no número de passageiros e de carga sofrida pelas companhias aéreas está atingindo duramente os fabricantes. A Airbus, em particular, sofre pressões com o prestígio de seu Superjumbo A380 abalado pela crise. Há preocupações de que as dificuldades se prolonguem demais.
Steven Udvar-Hazy, que dirige a International Lease Finance Corp (ILFC), já pensou em cancelar sua encomenda de dez aviões. As empresas aéreas modificaram suas atitudes sobre o Airbus A380, disse ele. Muitas delas agora acham que usar um avião tão grande é arriscado demais do ponto de vista financeiro.
É um duro golpe para a Airbus. A ILFC é o cliente isolado mais importante dos europeus e da Boeing. Além disso, Hazy é considerado uma espécie de guru do setor. Vários clientes do A380 já disseram que querem adiar as datas de entrega dos novos aviões. No início de maio a Airbus, mais uma vez, cortou o número de aviões A380 que pretende fabricar este ano para 14, quatro a menos do que havia planejado.
Ainda pior, a Airbus enfrenta problemas com seu avião de transporte militar A400M. O programa já está três anos atrasado. Mas a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, agora querem prorrogar o prazo, que daria à Airbus mais seis meses para acertar novas condições de contrato com seus clientes.
Mas os diretores de sua rival americana Boeing também têm poucos motivos para otimismo neste momento. No primeiro trimestre seus lucros caíram 50%, para US$ 610 milhões, levando a companhia a reduzir sua previsão de lucros para este ano. Em vez de ganhos de US$ 5,35 por ação, agora ela espera entre US$ 4,7 e US$ 5.
A companhia também anunciou que no próximo ano pretende construir cinco em vez das sete aeronaves 777 previstas. Um planejado aumento da produção dos aviões 747-8 e 767 também está sendo adiado.

Kevin P. Casey/AP - 8.mar.2005

Empresa anuncia que construção de boeings 777 (modelo da foto) vai diminuir em 2009

Crédito secando
Os livros de encomendas da Boeing e da Airbus continuam cheios, o que significa que a produção parece garantida para os próximos anos. Mas com os mercados de crédito secando as companhias aéreas mais atingidas poderão achar difícil financiar suas compras planejadas, advertem os especialistas.
A ILFC também está em dificuldades. Ela continua rentável – mas o negócio de leasing depende de acesso ao capital. E a empresa pertence à debilitada gigante dos seguros AIG. A classificação da ILFC tem sido constantemente rebaixada, acompanhando a de sua companhia matriz, que enquanto isso foi nacionalizada. Portanto, fica ainda mais difícil conseguir crédito. De fato, um colapso completo da ILFC é uma possibilidade distante. O setor espera que a venda da ILFC logo se concretize, como foi anunciado pela AIG. Hazy falou recentemente sobre um acordo iminente com um consórcio de investidores.
Portanto, não é uma surpresa que a Airbus só tenha fechado um décimo de suas encomendas previstas para este ano. E a Boeing, no início de maio, não tinha novas encomendas para o ano, depois de uma série de cancelamentos. Cerca de 25 pedidos foram cancelados só do novo Boeing 787 Dreamliner de longa distância.
Falando sobre a grande esperança da companhia, o jato Dreamliner, o diretor de marketing Tinseth diz que mais de 800 deles foram encomendados e que o avião deverá ajudar as empresas aéreas a lucrar em novos mercados. Enquanto isso, a Boeing está dando "grandes passos à frente", preparando-se para o voo de estreia da aeronave, que depois de grande atraso deverá ocorrer no final de junho.
O setor da aviação é um negócio cíclico, diz Tinseth, em tom de consolo. Em longo prazo o mercado se estabilizará. Na média, o número de passageiros anuais deverá aumentar 4,9% até 2028, ele explicou. Enquanto isso, no setor de carga está previsto um aumento de 5,4%. Mas sobre o xis da questão – quando ocorrerá o ponto de virada – Tinseth permanece calado.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

A mídia e a vida dos ricos

Os bilionários eclipsaram os milionários. E a imprensa passou a esmiuçar suas vidas com crescente avidez. No curso da eleição presidencial francesa, as corporações midiáticas enfatizaram o paralelo entre o estilo dos cantores de rap e o de Nicolas Sarkozy: óculos Ray-Ban, corrente de ouro e cronômetro Breitling de pulso.

Mathias Roux

Ao apresentar “A saga dos fazedores de fortuna”, em 26 de maio de 1983, o programa Antena 2 lançava a moda dos retratos de empresários “descomplexados”. Bernard Tapie, um quarentão comprador de empresas em dificuldades, era a estrela. A mudança das regras havia começado. Para as fortunas acumuladas rapidamente, o clima se amenizava. Com algumas semanas de intervalo, um filme estrelado por Claude Brasseur e uma canção de Johnny Hallyday saíam com o mesmo título: “Sinais exteriores de riqueza”. “Foram também sinais do verdadeiro poder, diante do qual, bom e mau gosto desaparecem”, observou o escritor Guy Hocquenghem ao descrever Serge July, então diretor do jornal Libération, como um “provinciano feliz por estar finalmente sentado à mesa dos poderosos, fascinado com as estrelas de cinema e com os aristocratas. Sua aparência de novo-rico, terno 1950 azul-petróleo, brilhantina no cabelo e charutos, cultivada cuidadosamente” [1].

Assim, os bilionários eclipsaram os milionários. E a imprensa passou a detalhar sua existência com crescente avidez. Três dias antes do segundo turno da eleição presidencial de 2007,Le Point fazia um paralelo entre o estilo de alguns cantores de rap e o de Nicolas Sarkozy: “óculos Ray-Ban, corrente de ouro, cronômetro Breitling de pulso. Como eles, o candidato da União para um Movimento Popular (UMP) adora as marcas, o luxo e tudo que brilha, o que na mitologia hip-hop é chamado de ‘bling-bling’”. O escrutínio presidencial marcou o momento em que a classe dirigente francesa teria rompido com seus entraves culturais para se livrar de uma exagerada discrição virtuosa. Fim de uma neurose francesa: ser rico não é mais tabu. “Ricos e orgulhosos de sê-lo: geração bling-bling”, anunciava o Le Nouvel Observateur de 25 de outubro de 2007.

Os banquetes organizados em 17 de setembro de 2007 para os sessenta anos da maison Dior por Bernard Arnault, ofereceram à revista Point de vue a oportunidade de anunciar o advento de uma era monarchic, celebrando a “nova aliança” entre “políticos, estrelas e bilionários” [2]. Na capa, a ministra da Justiça Rachida Dati, vestindo Dior, ao lado do costureiro John Galliano. Nas páginas internas, o primeiro ministro François Fillon posa na companhia de Juliette Binoche, Christine Ockrent e Hélène Arnault, todas as três também em Dior.

O reino “sem complexo do sucesso e do dinheiro” teria chegado? Comprada em novembro de 2005 pelo grupo de imprensa Roularta, Point de vue, a revista semanal da aristocracia, só recentemente trocou a atualidade principesca pela do luxo e do “mundo da fama” – mas com o entusiasmo do neófito. Em 2005 e 2006, apenas uma de suas capas foi reservada a celebridades não pertencentes à aristocracia. De janeiro a julho de 2007, a realeza apareceria ainda cerca de 26 vezes à frente da cena. Já entre julho e dezembro, a ordem protocolar se inverteu: 16 capas (em 23) foram consagradas aos políticos e aos “famosos”, entre os quais Nicolas Sarkozy (quatro vezes), Carla Bruni (duas vezes) e Cécilia Sarkozy (três vezes).

A partir de janeiro de 2008 o novo casal presidencial foi cinco vezes capa. Ao mesmo tempo, pela primeira vez em seis décadas de existência a tão chique Point de vue anunciou um dossiê intitulado “Quanto eles ganham?” com os presidentes Sarkozy e George W. Bush na foto principal. Na semana seguinte apareceu um número “Especial luxo” [3]. Um dos mais antigos títulos de publicações francesas reuniu, dessa forma, uma oferta editorial que se aproveitou da intimidade dos governantes, dos impulsos de consumo dos muito ricos e da atualidade do luxo escandaloso – esta última incontestavelmente bem explorada.

Mesmo fora dos períodos de festas, os artigos sobre moda e tendências fervilham de produtos totalmente fora do alcance dos bolsos médios. Há vários anos um suplemento mensal doFinancial Times, sobriamente intitulado “How to spend it”, explicava a seus leitores como gastar todo o dinheiro ganho com os conselhos econômicos do jornal. Le Point sempre incentivou seus clientes a se ofertarem “o luxo da semana” ao apresentarem uma matéria dedicada a marcas famosas de relógios, roupas, calçados e perfumes.

Somam-se aí reportagens sobre o modo de vida dos ricos e a maneira como gastam seu dinheiro. Esse tipo de matéria, em si, não tem nada de original: as excentricidades dos príncipes do petróleo ou as fotografias das vilas de veraneio das vedetes em Beverly Hills são objetos de investigações exaustivas há décadas. O que é recente é a presença semanal nas manchetes. Os jornais não se limitam mais ao relato dos excessos invernais das oligarquias russas em Courchevel, à crônica das excentricidades estivais dos jet-setters de Saint-Tropez, ou ainda à publicação anual da classificação da Forbes com os mais ricos do mundo – e sua versão nacional da Challenges.

Como sugeriu uma longa reportagem do Paris Match de 15 de novembro de 2007 sobre os requintados refúgios de caça na região de Sologne, freqüentados por empresários das quarenta maiores companhias cotadas na Bolsa francesa (CAC 40), a atualidade dos mais ricos não conhece mais estação: ela ganhou o status de editoria. Entre 2000 e 2003, as revistas semanais Le Point, L’Express e Nouvel Observateurtotalizaram uma dezena de artigos sobre os ricos, além de 25 longos textos e dossiês especiais entre 2004 e 2007.

O enfoque editorial também mudou. No início dos anos 2000, o assunto era abordado de maneira indireta, através de subterfúgios fiscais, de entrevistas com sociólogos ou pela boa e velha classificação comparativa. A partir de 2004, a riqueza se tornou o mote dos dossiês: “Ricos: como é ser?”, “Como eles ficaram ricos?”, “O que fazem com o dinheiro?”, “Como vivem os super-ricos?”, “O planeta dos ultra-ricos”, “As loucuras dos ultra-ricos” [4].

Desse modo, Point de vue mostrou, na edição de 14 de novembro de 2007, as rendas anuais de políticos misturadas às de reis, artistas e grandes empresários. Comparados ao salário de Bernard Arnault, presidente-diretor geral do grupo de bens de luxo LVMH, os 60 mil euros declarados por Vladimir Putin parecem quase insignificantes. No fundo, eles têm apenas um ponto em comum: permitem às mídias que falem de dinheiro. Quando a Challenges publicou, em julho de 2006, a classificação anual das maiores fortunas profissionais francesas, a capa exibia: “Assim vivem os ricos: casamento, casa, piscina e lazeres”.

Contudo, o número consagrou dois artigos a como enriquecer graças aos fundos de investimento privados e ao LBO (leverage buy-out). No ano seguinte, esse tipo de artigo desapareceu. Apenas as reportagens sobre gastos excêntricos permaneceram. Em 19 de julho de 2007, aChallenges justifica esse tratamento anedótico da economia: “na França de 2007, a ética puritana do capitalismo, feita de austeridade e discrição, é um valor que está em baixa. ‘Para vivermos felizes, vivemos expostos’, parece dizer um número crescente de executivos. A mistura dos gêneros ‘dinheiro, glória e beleza’ nos dá medo”.

As festas organizadas pelas marcas para lançar um novo produto, os casamentos ou aniversários, cedem espaço para a cobertura assídua e muitas vezes centrada nas questões financeiras. Certamente, os ecos mundanos das noites parisienses ou das festas beneficentes em Mônaco habitam há muito tempo as colunas da revista Paris Match. Porém, ao consagrar vinte páginas ao casamento da filha de Arnault – até então desconhecida do grande público, assim como seu noivo –, a revista marcou uma virada importante em 22 de setembro de 2005.

O fausto, a prodigalidade, a despesa e a incomensurabilidade dos fatos são amplamente descritos. No centro, o pai da noiva. À sua volta, vedetes do espetáculo, grandes empresários e personalidades políticas, não menos que seis ministros em exercício, entre os quais Nicolas Sarkozy. Depois disso, houve a festa de 17 de setembro de 2007, “muito privada” e muito midiática na Avenida Montaigne, em Paris, para comemorar os sessenta anos de Dior, descrita acima. Do número de maîtres à safra dos vinhos, Point de vue não deixou escapar nenhum detalhe da magnificência ao leitor.

A visibilidade da fortuna caminha junto com a exibição das relações entre empresários e políticos. Para a recepção dada na noite de sua vitória, na mansão parisiense de um amigo, Nicolas Sarkozy convidou Arnault, Bolloré, Dassault, Decaux, Bouygues, Desseigne (Barrière), Bernheim (Generali), Desmarais (Power Corporation), Kron (Alstom), Frère (Suez), Proglio (Veolia) [5]… “Eu não tive a intenção de me esconder”, respondeu àqueles que criticaram suas férias no iate de Bolloré. Antes da prudência anunciada após as eleições municipais de março de 2008, tanto os representantes políticos da direita como os da esquerda se preocuparam em aparecer nas festas mundanas [6], incluindo François Fillon.

Intitulada “Bem-vindo entre os poderosos” [7], a série publicada no Le Monde em agosto de 2007 apresenta uma reportagem sobre as aparências do poder. Infelizmente, a falsidade foi o tema mais exposto: despesas suntuosas, manifestações mundanas e formas de sociabilidade das elites. Um exemplo, entre tantos outros, dá o tom desta série: “um Airbus havia sido fretado especialmente para levar de Paris dezenas de personalidades do cinema, da arte, do teatro e da literatura. Quando a festa se prolongou mais que o previsto, Philippine [de Rothschild] conseguiu, a um alto custo, que o aeroporto de Bordeaux-Mérignac fosse aberto à noite para que o Airbus e seus prestigiosos passageiros pudessem retornar à capital”.

A proposta da imprensa se uniformiza com uma glorificação do dinheiro. Duas hipóteses correntes explicam este alinhamento. De acordo com a primeira, a oferta midiática responderia a uma demanda. Em Luxury Fever [8], o economista Robert H. Frank garante que, nos Estados Unidos, o desejo de consumir produtos de luxo não conhece fronteiras sociais, pois os objetos possuem a faculdade de preencher simbolicamente as diferenças de renda bem reais. Na França, o presidente-diretor geral das Publicações Condé Nast, Xavier Romanet, declarou: “seja Vogue, Glamour ou AD, nosso leitor mostra uma cultura e um desejo de luxo reais. E não é nem uma questão de idade, nem de renda. Podemos, a partir de agora, amar o luxo qualquer que seja nossa história familiar e cultural”. Sem dúvida, isso explica a estratégia de desenvolvimento dos produtos das grandes marcas de luxo [9]. O fato de que a pesquisa entre os leitores que gerou esta afirmação foi baseada em uma amostra extraída “da metade superior da população, em termos de renda”, tempera o entusiasmo de Romanet. “O luxo, hoje, não é mais destinado a uma elite, mas à parte elitista que existe em cada um de nós”, precisa a presidente do Comitê Colbert (Grupo de interesse de marcas de luxo), Elisabeth Ponsolle des Portes [10]. No entanto, se acreditarmos em uma sondagem publicada pela Challengesem 13 de julho de 2006, convém relativizarmos a amplitude do entusiasmo pelo luxo e pelo dinheiro. À pergunta “quais sentimentos você nutre pelos ricos?”, 71% das pessoas entrevistadas responderam “indiferença”, resultado praticamente idêntico ao de 1998.

Mas não importa. Para Le Point, o dinheiro não apenas “faz sonhar” como “na falta dele, nos surpreendemos observando os outros gastarem”. O suposto interesse dos leitores pelo luxo excita os anunciantes, que, por sua vez, estimulam esse tipo de matéria. Pressionado por um acionista (Roularta) que desejava dobrar a margem operacional de seu grupo, o diretor do L’Express, Christophe Barbier, estimava, em novembro de 2006, que “as oportunidades de crescimento estão no universo da moda, da beleza, do luxo e dos automóveis” [11]. Um lugar comum aos olhos de Laurent Joffrin. Desde 2001, o diretor editorial do Nouvel Observateuradmitia: “é verdade, fazemos uma espécie de recepção para ricos” [12]. E isso era só o começo. Entre 2004 e 2007, a revista publicou três vezes mais artigos sobre o luxo que no decorrer dos quatro anos precedentes.

A segunda hipótese para justificar o interesse da imprensa nos ricos defende que isso não se deve à demanda do público, mas sim à necessidade de informar. Como observou o editorialista americano Roger Cohen, o sonho dos capitalistas de fazer dinheiro unicamente com dinheiro, sem nada produzir diretamente, tornou-se realidade [13]. A multiplicação de fortunas rapidamente acumuladas justificaria a recorrência do tratamento midiático. Cronista da rubrica “Wealth” (“Riqueza”) do Wall Steet Journal, Robert H. Frank reuniu suas observações no livro Richistan [14]. O autor explica como a febre de gastar dos ricos criou novos padrões para a classe média e as de rendas mais baixas. Segundo Frank, os “seguidores de Richistan” mergulham a América no endividamento com este patamar de gastos.

Se confirmado o crescimento do número de bilionários, esses fenômenos comportam uma dimensão conexa que os dossiês sobre “As loucuras dos super-ricos” ou “As loucuras dos ultra-ricos” [15] procuram abordar com muito cuidado: o cruzamento das desigualdades de rendas, patrimônios e perspectivas mais reduzidas de promoção social, entre outros. Raros são os artigos que, como aquele da Newsweekde 12 de novembro de 2007, fazem uma relação entre o enriquecimento de alguns, principalmente nos países emergentes, e a precariedade da maioria, com a supressão das proteções coletivas e a ausência de direitos dos assalariados [16]. “Eles são 94.970 no planeta e têm fome… Fome de objetos faraônicos, únicos, extravagantes”, afirma uma matéria do Le Monde 2, de 15 de dezembro de 2007.

No fundo, por que se informar sobre as contrapartidas sociais dessas extravagâncias sendo que, em breve, o luxo estará ao alcance do bolso de todos? Porque amanhã seremos todos bilionários!

[1] Guy Hocquenghem, Lettre ouverte à ceux qui sont passés du col Mao au Rotary, Marselha, Agone, 2003.

[2] Poin de vue, Paris, 26 de setembro de 2007.

[3] Ibid., novembro de 2007.

[4] Le Point, 28 de julho de 2005; L’Express, 25 de janeiro de 2007; Le Point, 22 de julho de 2007; L’Express, 20 de julho de 2006; Le Nouvel Observateur, 20 de dezembro de 2007; Le Monde 2, 15 de dezembro de 2007.

[5] Ariane Chemin e Judith Perrignon, La Nuit du Fouquet’s, Paris, Fayard, 2007.

[6] Ler, por exemplo, o relato do casamento de Henri Weber, ex-dirigente trotskista que se tornou senador do governo Laurent Fabius: “La gauche à la noce”, Le Monde, Paris, 2 de outubro de 2007.

[7] Le Monde, de 21 a 26 de agosto de 2007. Cf. igualmente “Bienvenue chez les puissant: c’est Le Monde qui se charge de l’accueil”, disponível no site.

[8] Robert H. Frank, Luxury fever: money and happiness image of excess, Princeton University Press, 1999.

[9] “Les français et le luxe: je t’aime moi non plus”, Les Echos, 13 de dezembro de 2007.

[10] “Le luxe est mort, vive le luxe”, Le Nouvel Economiste, 19 de dezembro de 2007.

[11] Le Figaro, Paris, 22 de novembro de 2006.

[12] Citado em François Ruffin, Les Petits soldats du journalisme, Paris, Les Arènes, 2003.

[13] “The filthy rich are different from you and me”,International Herald Tribune, Paris, 2 de fevereiro de 2007.

[14] Richistan, A journey through the American wealth boom and the lives of the new richs, Nova York, Crown Publishers, 2007.

[15] Le Figaro, 19 de maio de 2001, e Le Monde 2, 15 de dezembro de 2007.

[16] Ler Renaud Lambert, “Como o homem mais rico juntou seus tostões”, Le Monde Diplomatique Brasil, abril de 2008.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Dos dispositivos de poder ao agenciamento da resistência

Eduardo Pellejero

A punição, pelo menos até ao século XVIII, tinha por objecto, menos a reparação moral de uma falta, que a reconstrução simbólica (mesmo que por meios ruidosamente materiais) da soberania desafiada. As mudanças nos mecanismos disciplinários dos séculos seguintes, e mais tarde a sua transformação dentro do contexto do que Deleuze denominará sociedades de controlo, não iriam simplesmente mudar o sentido das penas, senão que também iriam estender-se à integridade do corpo social, investindo a vida na sua totalidade. E, inclusive quando os seus objectos deixaram de ser estritamente a punição, ou a correcção, implicarão toda uma série de práticas de sujeição, cuja lógica e racionalidade exigem novos conceitos, que não deixarão de projectar consequências sobre a análise do presente e do diagnóstico da actualidade.

Em 1975, Foucault publicava Vigiar e punir, dando corpo a uma investigação que denotava um deslocamento dos seus interesses da constituição do saber à genealogia do poder. Não mudava apenas o objecto, mudavam, correlativamente, os conceitos. Entre outros, e sobretudo, o conceito de episteme deixa o lugar central que tinha ocupado até então para ser ocupado pelo conceito de dispositivo. E Foucault tem nisto, sobretudo, uma dívida com Deleuze1.

Nos anos seguintes, o conceito não deixa de ganhar importância. Foucault fala de dispositivo disciplinário, dispositivo carcerário, dispositivos de poder, dispositivos de saber, dispositivo de sexualidade, dispositivo de aliança, dispositivo de subjectividade, dispositivo de verdade, dispositivos de segurança, dispositivo estratégico de relações de poder, entre outros. Só em A vontade de saber, encontramos 70 ocorrências do conceito (mesmo se desaparecerá por completo nos seguintes volumes da História da sexualidade).

O conceito também ganha em precisão. Assim, Edgardo Castro assinala que o dispositivo implica: 1) uma rede de relações que se podem estabelecer entre o visível e o enunciável (discursos, instituições, arquitecturas, regulamentos, medidas administrativas, enunciados científicos, morais, filantrópicos); 2) um nexo não representativo entre esses elementos heterogéneos (por exemplo, o discurso pode aparecer como programa de uma instituição, como um elemento que pode justificar ou ocultar uma prática, ou funcionar como uma interpretação a posteriori dessa prática, etc); e 3) uma função estratégica (por exemplo, a reabsorção de uma massa de população flutuante que era excessiva para uma economia mercantilista, isto é, o hospital geral, como dispositivo de controlo-sujeição da loucura)2.

Deleuze, por sua parte, não desconhece a noção, mesmo se prefere falar de agenciamentos de desejo (antes que de dispositivos de poder). Não se trata apenas de uma diferença terminológica. Há uma característica fundamental dos agenciamentos que os colocam para além da sua determinação foucaultiana: qualquer agenciamento apresenta, por um lado, uma estratificação mais ou menos dura (digamos, os dispositivos de poder; Deleuze diz: “uma concreção de poder, de desejo e de territorialidade ou de reterritorialização, regida pela abstracção de uma lei transcendente”3), mas por outro lado compreende pontas de desterritorialização, linhas de fuga por onde se desarticula e se metamorfoseia (“onde se liberta o desejo de todas as suas concreções e abstracções”, diz Deleuze4). E adivinhamos aqui o problema que projectará Deleuze sobre o uso que faz Foucault da noção. Porque o problema de Deleuze não se esgota na determinação dos dispositivos nos quais nos encontramos comprometidos, senão que a partir dessa determinação lança a questão que atribui a Kafka: “Quando é que se pode dizer que um enunciado é novo?, para bem ou para mal; quando é que se pode dizer que um novo agenciamento se está a esboçar?, diabólico ou inocente, ou mesmo ambas as coisas ao mesmo tempo”5.

Esta diferença levará a uma inevitável confrontação. Em 1976, com efeito, Deleuze escreve a Foucault, a seguir à publicação de A vontade de saber6. O que é que diz Deleuze de Vigiar e punir? Em princípio, e de um modo geral, que representa uma “profunda novidade política” com relação ao modo em que concebe o poder. Em seguida, que a respeito do trabalho do próprio Foucault, implica uma superação da dualidade que existia entre formações discursivas e não-discursivas, ou, melhor, “uma razão das suas relações”. Deleuze considera, por outra parte, que A vontade de saber significa “um passo adiante” a respeito de Vigiar e punir. Primeiro, porque os dispositivos de poder passam a ser “constituintes” e não apenas normalizantes. Segundo, porque não se limitam a formar saberes, senão que são constitutivos de verdade (da verdade do poder). Por fim, porque já não se referem a “categorias” negativas – a loucura ou a delinquência como objectos de encerramento –, senão a uma categoria positiva: a sexualidade.

Isso no que diz respeito à avaliação positiva do trabalho de Foucault, porque, pelo que resta, a verdade é que tudo são críticas. Vou limitar-me às mais pertinentes para a questão dos dispositivos: 1) Em primeiro lugar, Deleuze não consegue reduzir os agenciamentos do desejo aos dispositivos do poder. Para Deleuze um agenciamento de desejo comporta dispositivos de poder, mas sempre entre outros componentes do agenciamento. Os dispositivos de poder surgem só aí onde se operam re-territorializações. Deleuze escreve: “Os dispositivos de poder seriam então uma componente dos agenciamentos. Mas os agenciamentos comportariam também pontas de desterritorialização. Brevemente, não seriam os dispositivos de poder que agenciariam, nem seriam constituintes, senão os agenciamentos de desejo que propagariam formações de poder seguindo uma das suas dimensões. O que me permitiria responder à questão, necessária para mim, desnecessária para Michel: como é que o poder pode ser desejado? A primeira diferença seria então que, para mim, o poder é uma afecção do desejo”7. 2) Em segundo lugar, Deleuze vê no deslocamento do princípio que define um campo social dado, das contradições às estratégias, um passo em frente; mas é uma idéia que não acaba por convencê-lo. Uma sociedade não se contradiz, mas também não se estrategiza: o primeiro é que foge, o social foge por todas as partes. Cito novamente Deleuze: “Ainda aí, eu reencontro o primado do desejo, uma vez que o desejo está precisamente nas linhas de fuga (…) Confunde-se com elas (…) As linhas de fuga, os movimentos de desterritorialização não me parecem ter equivalente em Michel, como determinações colectivas históricas. Para mim não há o problema de um estatuto dos fenómenos de resistência: uma vez que as linhas de fuga são as determinações primeiras (…) são linhas objectivas que atravessam uma sociedade (…) De onde o estatuto do intelectual e o problema político não serão teoricamente os mesmos para Michel e para mim”8.

O episódio perderá relevância, de qualquer modo, dez anos depois, quando Deleuze publica seu livro dedicado a Foucault, practicando uma reavaliação sistemática da sua obra. Quero dizer que temos então uma leitura incomensurável dos conceitos foucaultianos (incomensurável com a leitura de 77), que se estenderá através de entrevistas e referências circunstanciais até a década de 90. De 77 ficará apenas uma história: a história de uma crise. De uma crise de todas as ordens: política, vital, filosófica. É assim que Deleuze interpreta o longo silêncio que segue à A vontade de saber: Foucault teria tido a sensação de que se teria fechado nas relações de poder. Deleuze comenta: “O fracasso final do movimento das prisões, depois de 1970, já entristecera Foucault; outros acontecimentos posteriores, à escala mundial, aumentaram essa tristeza. Se o poder é constitutivo de verdade, como conceber um «poder da verdade» que já não seja verdade do poder, uma verdade que derive das linhas transversais de resistência e já não das linhas integrais de poder? Como «franquear a linha»?”9.

Nos setenta, havia problemas que se colocavam para Deleuze e não se colocavam para Foucault, e vice-versa. Nos oitenta, crise mediante, Foucault toma consciência de que os problemas não podem ser mais que os mesmos para ambos e que é no mesmo sentido que devem procurar uma solução: para além dos dispositivos de poder, tem que haver uma dimensão para a luta, para a criação, para a resistência. Em uma entrevista de 1986, Deleuze preenche essa distância: “Por muito que invoque os focos de resistência, de onde vêm tais focos? Necessitará muito tempo para encontrar uma solução, uma vez que, de facto, se trata de criá-la”10.

Qual é essa solução? São, diz Deleuze, os processos de subjectivação como dobra das relações de força dos dispositivos de poder. Trata-se da constituição de modos de existência, da invenção de possibilidades de vida, da criação de territórios existenciais, seguindo regras facultativas, capazes de resistir ao poder como de furtar-se ao saber, mesmo se o saber intenta penetrá-las e o poder de reapropriar-se delas. A luta por uma subjectividade moderna passaria para Foucault por uma resistência às formas actuais de sujeição, passaria por individuar-nos para além das exigências do poder, aquém também, da nossa determinação como indivíduos com uma identidade constituída e conhecida, decidida de uma vez por todas. Reconhecemos o tema do cuidado de si, o tema de uma estética da existência, que Foucault desenvolve a partir de O uso dos prazeres.

A resistência é primeira. É-o para Deleuze, e pode chegar a sê-lo para Foucault na medida em que a produção de subjectividade escapa aos poderes e aos saberes de um dispositivo para reinvestir-se nos de outro: a relação consigo mesmo – então – é uma das fontes de esses focos de resistência. O campo social deixou de estar composto apenas por formações isoladas e imutáveis: só as estratificações do saber e do poder lhe proporcionam alguma estabilidade, mas em si mesmo é instável, agitado, cambiante, como se dependesse de um “apriori paradoxal”, de uma “microagitação”11. Não há dispositivo ou agenciamento que não implique, ao lado dos pontos que conecta, no seu diagrama, digamos, pontos relativamente livres ou libertados, pontos de criatividade, de mutação, de resistência.

A tarefa é, então, alcançar as linhas de subjectivação que determinam a margem extrema de um dispositivo e esboçam a passagem de um dispositivo a outro: “faz falta chegar a dobrar a linha, para constituir uma zona vivível, onde poder alojar-se, tomar apoio, respirar – brevemente, pensar”12.

É neste sentido que Deleuze vai recusar violentamente as interpretações que vêem em Foucault um historiador. Para Deleuze, o que conta é a preocupação foucaultiana pela actualidade. Uma preocupação que nada tem a ver com um eventual retorno aos gregos, senão com as possibilidades que temos de constituir-nos como “si”, para além do saber e do poder, com os processos de subjectivação irredutíveis aos códigos morais dos que dispomos.

E esta é a principal consequência de uma filosofia dos dispositivos: uma mudança de orientação, que se desvia da filosofia do Eterno para aprender o novo. Não predizer, diz Deleuze, senão estar atento ao desconhecido que toca à porta13.

Eduardo Pellejero é doutor em filosofia contemporânea pela Universidade de Lisboa, com uma tese sobre a obra de Gilles Deleuze. Trabalha actualmente sobre a efectividade política da ficção nas sociedades contemporâneas. Publicou, entre outros: Deleuze e a redefinição da filosofia (2007) e, em colaboração com Golgona Anghel, “Fora” da filosofia(2008).

Notas

1 Neste sentido, Foucault escreve: “eu não saberia medir por referências ou citações o que este livro deve a Gilles Deleuze e ao trabalho que faz com Félix Guattari ” (Foucault, Surveiller et punir. Naissance de la prison, Paris, Gallimard, 1975; p. 29).
2 Cf. Edgardo Castro, El vocabulario de Michel Foucault: un recorrido alfabético por sus temas, conceptos y autores. Buenos Aires, 2004.
3 Deleuze-Guattari, Kafka: pour une litterature mineure. Paris: Éditions de Minuit, 1975, p. 153.
4 Ibid, p. 154.
5 Ibid, p. 148.
6 Alegadamente remetido, através de François Ewald, de acordo com o testemunho deste último, para transmitir o seu apoio a Foucault, que atravessava uma crise, este texto, que iria ser publicado quase vinte anos mais tarde em Le magazine littéraire (n°325, outubro 1994) sob o título “Désir et plaisir”. Deleuze, “Désir et plaisir”, Magazine littéraire, n° 325, octobre 1994, p. 59-65; reeditado em Deleuze, Deux régimes de fous: textes et entretiens 1975-1995, Edición de David Lapoujade. Paris: Minuit, 2003.
7 Deleuze, d eux régimes de fous: textes et entretiens 1975-1995. Edición de David Lapoujade. Paris: Minuit, 2003, p. 115.
8 Ibid, pp. 117-118.
9 Deleuze, Foucault. Paris: Éditions de Minuit, 1986. p. 101.
10 Deleuze, Pourparlers 1972-1990. Paris: Éditions de Minuit, 1990. p. 126.
11 Cf. Deleuze, Foucault, op. cit., p. 91.
12 Deleuze, Pourparlers, op. cit., p. 151.
13 Cf. Deleuze, Deux régimes de fous, op. cit., p. 323.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

Economistas dos EUA defendem resindicalização de trabalhadores

Um grupo de 40 importantes economistas dos Estados Unidos – incluindo, entre outros, Joseph Stiglitz, Jeffrey Sachs e James Galbraith – assinou uma declaração defendendo a importância de os trabalhadores voltarem a fazer parte de sindicatos para enfrentar a crise econômica. Só 7,5% dos trabalhadores do setor privado dos EUA estão neste momento representados por uma organização sindical. E, em todo ano de 2007, menos de 60 mil trabalhadores conseguiram ocupar uma posição sindical mediante eleições sancionadas pelo governo.

SinPermiso

Ainda que seu colapso tenha dominado a cobertura recente dos notícias nos meios de comunicação, o setor financeiro não é o único segmento da economia estadunidense que atravessa graves dificuldades. As instituições que governam o mercado de trabalho também fracassaram, gerando a insólita e insana situação atual, em que a remuneração dos trabalhadores norte-americanos estancou, apesar do aumento de sua produtividade.
Com efeito, entre 2000 e 2007, a renda familiar média das pessoas em idade economicamente ativa caiu 2000 dólares, uma queda sem precedentes. Nesse período, praticamente todo o crescimento econômico do país foi parar nas mãos de um reduzido número de ricos estadunidenses. Uma das razões de peso que explicam esse passo, de uma prosperidade amplamente compartilhada a uma desigualdade crescente é a erosão da capacidade dos trabalhadores de se organizarem sindicalmente e de negociarem coletivamente.
Uma resposta natural dos trabalhadores, incapazes de melhorar sua situação econômica é se organizarem sindicalmente para negociar uma participação mais equitativa nos resultados da economia, e esse desejo está bem refletido nas pesquisas recentes. Milhões de trabalhadores – mais da metade dos que têm cargos executivos – disseram que desejam a presença de sindicatos em seu posto de trabalho. Contudo, só 7,5% dos trabalhadores do setor privado estão neste momento representados por uma organização sindical. E, em todo ano de 2007, menos de 60 000 trabalhadores conseguiram ocupar uma posição sindical mediante eleições sancionadas pelo governo. O que é que explica tamanho hiato?
O problema é que o processo eleitoral supervisionado pelo Comitê Nacional de Relações de Trabalho degenerou-se e se tornou hostil, com campanhas ferozes da classe patronal para evitar a sindicalização, às vezes ao ponto de incorrerem em flagrante violação da legislação trabalhista. Os simpatizantes dos sindicatos são rotineiramente ameaçados e mesmo demitidos, e têm poucos recursos efetivos para se defenderem legalmente. E, quando os trabalhadores conseguem superar essa pressão e votar pela presença dos sindicatos nos postos de trabalho, dada a resistência patronal, uma em cada três vezes não conseguem contratos.
Para remediar essa situação, o Congresso está debatendo a oportunidade da Lei de Liberdade de Eleição dos Empregados (EFCA, em sua sigla em inglês). Essa lei cumpriria três propósitos: em primeiro lugar, daria aos trabalhadores a oportunidade de usar um mecanismo de listas majoritárias – instituindo um procedimento simples para que os trabalhadores possam indicar, com uma mera assinatura, seu apoio à presença sindical no posto de trabalho -, ou de pôr em marcha eleições supervisionadas pelo Comitê Nacional de Relações Trabalhistas; em segundo lugar, triplicaria a punição dos empresários que demitissem sindicalistas ou violassem outras leis trabalhistas ; e, em terceiro lugar, criaria um processo capaz de garantir que se dê aos empregados recém sindicalizados uma oportunidade justa para obter um primeiro contrato, podendo recorrer a uma arbitragem depois de 120 dias de negociações infrutíferas.
A EFCA refletirá melhor os desejos dos trabalhadores do que a atual “guerra em torno da representação”. A lei também rebaixará os níveis de aridez e desconfiança que agora acompanham, amiúde, as eleições sindicais sob o atual sistema.
Uma maré crescente só levanta todos os botes quando o trabalho e a classe patronal negociam em condições de igualdade relativa. Nas últimas décadas, o grosso do poder de negociação tem estado do lado patronal. A recessão atual seguirá debilitando a capacidade dos trabalhadores de negociarem individualmente. Mais do que nunca, os trabalhadores precisam atuar coletivamente.
A EFCA não é uma panacéia, mas restauraria certo equilíbrio em nossos mercados de trabalho. Como economistas, acreditamos que é de vital importância avançar na reconstrução de nossa vida econômica e robustecer nossa democracia fortalecendo a voz do povo trabalhador nos postos de trabalho.
Assinam essa declaração: Henry J. Aaron, Brookings Institution; Katharine Abraham, Universidade do Maryland; Phillipe Aghtion, Instituto de Tecnologia de Massachusetts [MIT, na sua sigla em inglês]; Eileen Appelbaum, Universidade Rutgers; Kenneth Arrow, Universidade Stanford; Dean Baker, Centro para a Pesquisa em Economia e Política; Jagdish Bhagwati, Universidade Columbia; Rebecca Blank, Brookings Institution; Joseph, Universidade Rutgers; Alan S. Blinder, Universidade Princeton; William A . Darity, Universidade Duke; Brad DeLong, Universidade da Califórina/Berkeley; John DiNardo, Universidade de Michigan; Henry Farber, Universidade Princeton; Robert H. Frank, Universidade Cornell; Richard Freeman, Universidade Harvard; James K. Galbraith, Universidade do Texas; Robert J. Gordon, Universidade Noroeste; David Lee, Universidade Princeton; Frank Levy, MIT; Lisa Lynch, Universidade Brandeis; Ray Marshall, Universidade do Texas; Lawrence Mishel, Instituto de Política Econômica; Robert Pollin, Universidade do Massachusetts; William Rodgers, Universidade Rutgers; Dani Rodrik, Universidade Harvard; Jeffrey D. Sachs, Universidade Columbia; Robert M. Solow, MIT; William Spriggs, Universidade Howard; Joseph E. Stiglitz, Universidade Columbia; Peter Temin, MIT; Mark Thoma, Universidade do Oregon; Lester C. Thurow, MIT; Laura Tyson, Universidade da Califórnia/Berkeley; Paula B. Voos, Universidade Rutgers; David Weil, Universidade Boston; Edward Wolff, Universidade Nova York.
Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Diagnóstico em tempo real

Técnica usa laser para determinar rapidamente o nível de gordura em fígado para transplante.

Marcos Pivetta
Foto:
Miguel Boyayan

Laser: fonte de informação sobre característica de tecidos biológicos

 

 

 

 

 

O casamento do laser com a medicina está perto de produzir uma ferramenta capaz de aprimorar o delicado trabalho de triagem de fígados destinados ao transplante. Pesquisadores do Centro de Pesquisas em Óptica e Fotônica (Cepof) de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram uma forma de biópsia óptica que fornece, em tempo real, de maneira não invasiva e objetiva, o teor de gordura acumulado no órgão. O aparelho que realiza o exame – uma fina cânula que emite um feixe de laser sobre o tecido em análise, absorve a luz devolvida pelo tecido biológico e envia os dados para um espectrômetro e um computador portátil acoplados em uma maleta – foi testado com sucesso em ratos e num estudo piloto com seres humanos por cirurgiões da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), também da USP.
A nova abordagem fornece com precisão e de maneira quase instantânea o grau de esteatose hepática (lipídios no fígado), uma informação indispensável na busca por órgãos mais viáveis para transplantes. Fígados gordurosos, com  esteatose maior do que  30%, não podem ser utilizados para esse fim. “(A biópsia óptica) pode ser uma alternativa promissora aos métodos de diagnóstico convencionais usados em cirurgias e transplantes”, escreveram Giovanni Bottiroli e Anna Cleta Croce, da Universidade de Pavia (Itália) em editorial na revista Liver International de março deste ano. Nessa mesma edição do periódico internacional os cientistas paulistas publicaram um artigo relatando o trabalho com os roedores. O Cepof, onde foi criada a técnica de diagnóstico de gordura no fígado com o auxílio do laser, é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) financiados pela FAPESP.
O médico Orlando Castro e Silva Júnior, chefe da divisão de cirurgia digestiva e coordenador do grupo de transplantes da FMRP, está convencido de que a nova abordagem será de grande valia em sua especialidade. “Com o resultado da biópsia óptica em mãos, basta fazermos uma regra de três para determinar o grau de esteatose do fígado”, explica o cirurgião, um dos autores dos trabalhos com animais e seres humanos. Dificilmente há tempo hábil para retirar uma amostra de tecido do fígado disponível para transplante e submetê-la aos devidos exames. Por isso, o diagnóstico do grau de esteatose hepática é feito normalmente de forma subjetiva pelo próprio cirurgião.“Hoje a avaliação do órgão doado é feita pelo olho do médico”, comenta Castro e Silva. “Não dá tempo de realizar uma biópsia (convencional).” O laser pode ser uma luz nessa lacuna de incerteza.

Para conceber um sistema rápido e acurado de diagnóstico do acúmulo de gordura no fígado, os pesquisadores da USP exploraram um fenômeno muito conhecido da física: a espectroscopia de fluorescência. Algumas moléculas apresentam a capacidade de absorver energia e emitir luz depois de excitadas por meio de uma fonte luminosa. No caso dos trabalhos com a esteatose hepática, um feixe de laser disparado sobre o tecido biológico em questão atua como agente indutor da fluorescência. “O que fizemos foi correlacionar diretamente a intensidade da fluorescência com o conteúdo de gordura do fígado”, explica Vanderlei Salvador Bagnato, coordenador do Cepof e um dos principais pesquisadores dessa área. “Cada grau de esteatose (leve, moderada ou avançada) gera respostas distintas.”

O desenho da estratégia não é novo. Os próprios cientistas de São Carlos trabalharam de forma semelhante quando desenvolveram sistemas de diagnóstico em tempo real por espectroscopia de fluo rescência para outras condições clínicas e tecidos, como alguns tipos de tumores de boca e de fígado e a doença do cancro cítrico que ataca os laranjais. Nesse tipo de abordagem, o primeiro passo é verificar se a técnica capta a alteração biólogica estudada e é capaz de gerar um padrão confiável que permita diferenciar os distintos estágios ou fases dessa patologia. “Temos de verificar se o método é sensível a essa condição biológica num modelo animal”, diz Cristina Kurachi, uma das pesquisadoras do Cepof. “Sem essa confirmação, fica muito difícil propor a técnica para uso em seres humanos.”

Os testes com os roedores animaram os pesquisadores de São Carlos e Ribeirão Preto – e também os editores da revista Liver International. O diagnóstico com espetroscopia de fluorescência deu conta de separar os ratos nos quatro grandes grupos em que estavam divididos clinicamente: animais normais (sem gordura no fígado), com grau leve, moderado e elevado de estea tose hepática. No artigo do periódico médico a equipe da USP mostra que, ao jogar um feixe de laser de um determinado comprimento de onda sobre o tecido biológico, é gerado um fator de fluorescência da estea tose que varia linearmente de acordo com a presença de lipídios no fígado: quanto mais gordura no órgão, maior é o fator. De posse desse dado, o cirurgião em dúvida sobre a real condição de um fígado doado pode descobrir instantaneamente o nível de lipídios no órgão. “Testamos o método em 27 fígados humanos doados, seis deles já descritos em nosso estudo piloto, e ele parece ser fantástico para o diagnóstico de esteatose”, afirma o cirugião Castro e Silva. “Acredito que possamos usar essa tecnologia para analisar outros problemas hepáticos, como a cirrose.” Antes de ganhar as salas de cirurgia dos hospitais, o laser a serviço da medicina terá de ser posto à prova em mais fígados humanos destinados ao transplante.

Artigo científico

Oliveira, G.R. et al. Fluorescence spectroscopy to diagnose hepatic steatosis in a rat model of fatty liver. Liver International. v. 29, n. 3, p. 331-336. mar. 2009.

O projeto

Biofotônica – Fluorescência óptica

Modalidade

Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids)

Coordenadores

Vanderlei Salvador Bagnato e Cristina Kurachi – Centro de Pesquisas em Óptica e Fotônica (Cepof) da USP de São Carlos Orlando Castro e Silva Júnior – FMRP da USP 

Investimento

R$ 40.000 e US$ 32.000 por ano para o projeto (FAPESP)

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/