Monthly Archives: maio 2009

A ORIGEM DA TRAGÉDIA

FILHO DO CASAL DE POETAS MAIS FAMOSO DO SÉCULO 20, NICHOLAS HUGHES VIVIA COMO BIÓLOGO NO ALASCA ANTES DE SE MATAR, EM MARÇO PASSADO.

DAVID BARSTOW

Antes de sua morte em 1998, o poeta inglês Ted Hughes publicou um livro doloroso sobre sua vida com Sylvia Plath, intitulado "Cartas de Aniversário" [ed. Record, trad. Paulo Henriques Britto]. Os poemas, quase todos endereçados a Plath, tratavam de beleza e da fratura de seu casamento, antes do suicídio dela em 1963.
Um dos poemas foi escrito para os filhos do casal, Frieda e Nicholas. Chamado "The Dogs Are Eating Your Mother" (Os Cães Estão Devorando Sua Mãe), o poema avisava sobre os famintos devotos de Plath que "acharão vocês igualmente suculentos" e oferecia uma espécie de bênção a Nicholas, que, havia anos, já mantinha os literatos à distância:
"Então a deixe.
Que ela seja o despojo deles. Vá mergulhar
Sua cabeça nos rios nevados
Da Brooks Range."
Os versos faziam um retrato sucinto de Nicholas Hughes, homem que se dedicou de corpo e alma ao estudo dos peixes dos rios nevados do Alasca e cuja casa, um belo chalé de 280 metros quadrados em meio a oito hectares de abetos e bétulas intocados, era voltada para a distante cadeia de montanhas Brooks Range.
Ele foi um homem que deixou claro a seus amigos que preferia discutir as minúcias da pesca no gelo aos escritos de seus pais. De fato, alguns de seus colegas na Escola de Ciências Oceânicas e da Pesca da Universidade do Alasca, em Fairbanks, trabalharam com ele durante anos sem saber que ele era filho de dois importantíssimos poetas do século 20.
Tudo isso mudou em 16 de março.
O dia estava ensolarado, com a temperatura um pouco abaixo de zero, e Hughes aparentava estar de bom humor.
Durante anos ele combatera a depressão, como tinha sido o caso de sua mãe, e, numa viagem recente à Nova Zelândia, chegara a falar em suicídio.
Mas suportara os períodos difíceis, buscando o apoio de amigos íntimos, procurando ajuda médica e administrando sua doença com exercício e migrações regulares, no inverno, para o clima mais ensolarado da Nova Zelândia.
Em seu chalé, naquela tarde, ele tomou chá com sua namorada, Christine M. Hunter.
"É um dia bom", comentou com ela. Disse que sairia para fazer uma caminhada. Hunter, que é professora de ecologia silvestre na universidade, foi para o primeiro andar da casa para fazer a avaliação de trabalhos de alunos.
Corda de náilon
Por volta das 16h, quando ele ainda não retornara, ela saiu à sua procura. Hughes tinha dito a amigos que, se algum dia decidisse pôr fim à própria vida, concluíra que o melhor método seria enforcar-se em sua oficina ao lado de seu chalé. Foi ali que Hunter o encontrou, enforcado com uma corda fina de náilon amarrada a uma viga exposta no teto.
Nicholas Hughes, 47 anos, não deixou uma carta. Mas os investigadores disseram que as evidências deixaram claro que ele planejou sua morte com cuidado. "Ele sabia o que estava fazendo", disse o policial estadual Michael Wery. Nas semanas após sua morte, a notícia do suicídio reverberou de maneiras muito diferentes em dois mundos distantes e desligados um do outro.
Na dinâmica comunidade de estudiosos de Plath e Hughes, a morte de Nicholas foi sentida profundamente pelo viés dos escritos de seus pais.
Seu nascimento foi registrado vividamente nos diários de Sylvia Plath. Ele foi "o bebê no celeiro" de "Nick e o Castiçal", da coletânea mais conhecida de Plath, "Ariel" [ed. Verus], escrita nos meses finais de sua vida. E, no acontecimento cuja presença pesa sobre cada página de "Cartas de Aniversário", ele era o pequeno Nick, que mal completara um ano de idade quando Plath cuidadosamente o encerrou em outro cômodo com Frieda e então se matou, inalando gás do forno em seu apartamento, em Londres.
"As pessoas sentem como se quase conhecessem os dois pela poesia", disse Karen V. Kukil, curadora da coleção de Sylvia Plath no Smith College.
Kukil disse que, quando faz palestras, as pessoas inevitavelmente lhe perguntam sobre Nicholas e Frieda. Afinal, eles não apenas absorveram a morte de sua mãe como também tiveram que suportar o que aconteceu seis anos mais tarde, quando Assia Wevill, a mulher por quem Hughes deixara Plath, matou a si mesma e à meia-irmã deles, Shura, de 4 anos, também inalando gás.
Kukil contou que as plateias pareciam sentir-se tranquilizadas quando ela descrevia a vida de Nicholas Hughes no distante Alasca, um caminho de vida condizente com o amor do pai dele pela natureza e pela pesca. Seu suicídio, disse, "atingiu as pessoas com muita força".
Pesca e jardinagem
As reações em Fairbanks são mais complexas. Aqui uma comunidade de cientistas conhecia Nicholas Hughes não pela poesia de seus pais, mas por suas inteligentes pesquisas com ecossistemas de água doce. Conheciam-no pela pesca no gelo, o ciclismo, a jardinagem ou a cerâmica. E sua morte provocou um ressentimento crescente, de que sua vida e sua morte estão sendo distorcidas por estranhos, retratadas como o inevitável efeito posterior das infidelidades de seu pai ou como tendo sido de alguma maneira predeterminadas pelos demônios de sua mãe.
O Nicholas Hughes que essas pessoas conheciam era um homem de imensa energia e curiosidade e que se mostrava mais à vontade num velho pulôver de lã e um par gasto de botas, caminhando sobre a tundra em direção a algum riacho escondido.
Sentia aversão absoluta pela política acadêmica e possuía um dom especial para encontrar soluções simples para problemas científicos complexos, que traduzia em prosa enxuta e clara para as publicações mais importantes de sua área.
"Para mim, seu trabalho era elegante e belo, como um bom poema", disse Amanda E. Rosenberger, professora na Escola de Ciências Oceânicas e da Pesca, enxugando lágrimas.
Seus amigos em Fairbanks estão enfrentando sua morte não como um ponto final literário lastimável, mas como uma perda irreparável -para sua namorada, para os estudantes que orientava e para o futuro da ecologia ictiológica.
Usando sistemas complexos de câmeras subaquáticas e modelos computadorizados sofisticados, Hughes havia desenvolvido novas ideias sobre como salmões e outros peixes escolhem seus habitats.
Possuía um conhecimento enciclopédico dos ecossistemas, era perito em hidrodinâmica e biologia evolucionária.
Fascínio por peixes
Essa é uma razão pela qual as pessoas aqui zombam da ideia de que ele teria vindo ao Alasca como uma fuga à moda de "Na Natureza Selvagem" [Cia. das Letras], de Jon Krakauer.
O fascínio que sentia por peixes remontava a mais de duas décadas, desde sua passagem pela Universidade de Oxford, onde fez bacharelado e mestrado em zoologia, seguidos por um doutorado em biologia na Universidade do Alasca, em 1991.
Após conquistar vários cargos de prestígio como pesquisador no Canadá e no Alasca, em 1998 a Universidade do Alasca em Fairbanks o contratou como professor-assistente.
Nicholas Hughes trabalhava em um conjunto de construções no alto de uma escarpa, com vista para uma planície onde pastam renas. É um ambiente informal, onde os cientistas guardam esquis em seus laboratórios para que possam esquiar na hora do almoço.
O estilo de vida agradava a Hughes, tanto profissionalmente quanto pelo amor que nutria pela natureza do Alasca.
Privacidade
Mas também apreciava outra qualidade do Alasca: o respeito por ser deixado sozinho. Vários amigos seus rejeitaram educadamente os pedidos de entrevista, dizendo simplesmente que achavam que Hughes não gostaria de qualquer invasão em sua privacidade.
Aqueles que conheciam sua história familiar também acharam questão de bons modos básicos não tocar no assunto sem serem convidados.
Frank Soos, professor de inglês aposentado, participava de um grupo de ciclismo com Nicholas Hughes e conhece bem o trabalho de Sylvia Plath e Ted Hughes. Mas em nenhuma ocasião tocou no assunto.
"Era muito evidente que não queria falar nisso", disse Soos.
Na realidade, lembra, o relacionamento deles mudou quando Hughes soube que ele lecionava inglês. "Senti uma distância palpável surgir entre nós".
Seus colegas sabiam de sua luta contra a depressão, mas disseram que Hughes se esforçava para administrar a doença.
Mesmo assim, em setembro de 2006, ficaram alarmados quando ele deixou de comparecer ao trabalho por vários dias. Pediram à polícia estadual que verificasse como estava.
Alguns meses mais tarde, Hughes renunciou inesperadamente a seu cargo na universidade. Seus amigos disseram que ele queria escapar do estresse da política acadêmica e dos trabalhos administrativos burocráticos.
Mas, graças à receita do legado literário de sua mãe, ele tinha condições econômicas de levar suas pesquisas adiante por conta própria e continuou a colaborar com outro professor, Mark S. Wipfli, em um grande projeto de estudo demográfico e ecológico dos salmões chinook no rio Chena.
Hughes comprou seu chalé nos arredores de Fairbanks e começou a namorar Christine Hunter, cujas pesquisas ajudaram a descrever como o aquecimento global ameaça a sobrevivência dos ursos polares. Rosenberger jantou com o casal em dezembro, antes da partida deles para a Nova Zelândia.
"Fiquei contente de ver que ele estava tendo um relacionamento e estava feliz", disse. Mas o policial Wery disse que Christine Hunter contou aos investigadores que Hughes estava aflito com um tema particular: as desavenças entre sua irmã e a madrasta deles, Carol Hughes. Nos últimos dois anos, as duas mulheres se desentenderam em torno do espólio de Ted Hughes. Nem Hunter nem Frieda, ela própria poeta, pintora e escritora residente na Inglaterra, responderam a pedidos de declarações.
Em 30 de março, amigos de Nicholas Hughes se reuniram numa sala da universidade para uma cerimônia memorial. Embora sua morte tivesse gerado manchetes em todo o mundo, a cerimônia só foi mencionada no "Daily News-Miner" da manhã seguinte.
Seu colunista principal, Dermot Cole, disse que, havia pelo menos uma década, sabia que o filho de Sylvia Plath e Ted Hughes vivia na cidade. De vez em quando ligava para tentar convencer Hughes a autorizar que escrevesse sobre ele.
"Mas ele simplesmente não queria", comentou Cole. Depois do suicídio, ele escreveu o obituário de Hughes, mas disse que não sentiu que seria certo invadir a cerimônia memorial.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Vale por um bifinho

PESQUISADORA DA EMBRAPA DIZ QUE COMMODITY SERÁ A MATÉRIA-PRIMA DOS PRÓXIMOS SÉCULOS

"Hoje, quase todas as grandes indústrias de alimento têm uma linha à base de soja".

Produto que compõe a dieta alimentar do brasileiro, a soja possui, segundo a pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa Mercedes Carrão Panizzi, características que a fazem benéfica para o consumo humano: é fonte de proteínas, minerais e compostos bioativos.
Em entrevista à Folha, diz também que alguns trabalhos de pesquisa "têm mostrado que a soja pode atuar na redução do colesterol".
Panizzi ressalta ainda que a soja geneticamente modificada não apresenta desvantagens.
"A obtenção de melhores variedades favorecem produtores pela redução no uso de insumos e pelo aumento de rendimento. Os consumidores são favorecidos pela melhor qualidade dos produtos."
Na entrevista abaixo, ela diz que o consumo de alimentos à base de soja tem crescido nos EUA e na Europa, apesar de o grande negócio envolvendo esse grão no Brasil e no mundo ainda ser o do fornecimento de matéria-prima para a composição de ração animal.
A soja também é usada em produtos como o biodiesel, lubrificantes, tintas, plásticos e cosméticos. Por isso, argumenta, "podemos afirmar que a soja pode ser a matéria-prima dos próximos séculos".

FOLHA – A soja será o "novo trigo", pela sua potencial importância na cadeia alimentar?
MERCEDES CARRÃO PANIZZI
- Prefiro dizer que não será o trigo, porque também precisamos do trigo, e sabemos que da combinação de leguminosas (soja) e cereais (trigo) temos a oferta de proteínas de alta qualidade, semelhante às proteínas de origem animal.
Entretanto, podemos afirmar que a soja poderá ser a matéria-prima dos próximos séculos.
Pois é uma das únicas plantas produzidas em larga escala que podem fornecer matéria-prima para a produção de alimentos e também pode ser utilizada em produtos industriais não-alimentares, tais como lubrificantes, tintas, plásticos e cosméticos, além de também poder ser fonte de energia (biodiesel).

FOLHA – Quais as consequências da soja geneticamente modificada para produtores e consumidores?
PANIZZI
- Sempre que se faz melhoramento genético por meio de métodos tradicionais ou por meio da biotecnologia, o objetivo é aperfeiçoar o desempenho da planta para o aumento de rendimento e adaptação. Isso pode ser conseguido pela melhora de características da planta ou pela tolerância a diferentes "estresses" (bióticos e abióticos).
Vários componentes de qualidade podem ser modificados por melhoramento genético clássico ou por biotecnologia. A obtenção de melhores variedades favorecem produtores pela redução no uso de insumos e pelo aumento de rendimento.
Os consumidores são favorecidos pela melhor qualidade dos produtos.
Na minha opinião, não há desvantagens, porque todo o trabalho é conduzido para a obtenção de melhores variedades -as quais só são lançadas após extensivas avaliações, que são ainda mais rigorosas para a soja geneticamente modificada.

FOLHA – Qual o papel da soja na economia alimentar no Brasil?
PANIZZI
- O grande negócio da soja no Brasil e no mundo ainda é ser matéria-prima para a composição de ração animal.
Entretanto, o uso da soja e de seus derivados devem agregar valor nutricional nos alimentos, como também, dependendo dos custos de processamento, podem, em alguns casos, fornecer alimentos mais econômicos para a população.

FOLHA – Quais as vantagens da utilização da soja como alimento?
PANIZZI
- A soja é fonte de proteínas de excelente qualidade (boa composição de aminoácidos), além de ser fonte de minerais e de compostos bioativos, tais como isoflavonas e saponinas, entre outros, que são benéficos para a saúde humana. Tecnologias de processamento adequadas transformam a soja em produtos com qualidade e boa aceitabilidade pelos consumidores, como no caso das bebidas à base de extrato de soja.
Alguns trabalhos mostram que a soja pode atuar na redução do colesterol.
É, portanto, um alimento disponível no Brasil, que é o segundo produtor mundial, e deveria ser mais consumido pela população.

FOLHA – O que falar do uso da soja na culinária de países como China, Japão e Coreia do Sul?
PANIZZI
– A soja é uma leguminosa utilizada há milênios no Oriente como constituinte de diferentes pratos da culinária daqueles países.
Entre esses pratos tradicionais, tem-se os fermentados, como shoyu, miso e natto, por exemplo.
Todos esses pratos demandam variedades de soja com características específicas. O processo de fermentação também agrega alguns aspectos nutricionais importantes, como biodisponibilidade de alguns minerais, de vitaminas e de compostos bioativos.

FOLHA – Qual a relevância e a taxa de consumo de alimentos feitos à base de soja nos EUA e na Europa?
PANIZZI
- Observa-se um crescimento muito significativo no consumo de alimentos à base de soja nos EUA e em países europeus, algo que também vem acontecendo no Brasil. O de bebidas à base de extrato de soja, por exemplo, cresce cerca de 25% ao ano. Esse crescimento se deve ao processamento tecnológico adequado, o qual permite a obtenção de produtos de excelente qualidade.
Atualmente, quase todas as grandes indústrias de alimento têm uma linha à base de soja. Também se observa uma constante disponibilidade de novos produtos alimentares à base de soja no mercado.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

O novo trigo

DE ALIMENTO ATÉ BASE PARA TINTAS, COSMÉTICOS E BIODIESEL, GRÃO ALAVANCOU ECONOMIAS COMO BRASIL E ARGENTINA, MAS INFLACIONOU CULTURAS DE SUBSISTÊNCIA E AMEAÇA O CERRADO E A AMAZÔNIA, DIZ ORGANIZADORA DE "O MUNDO DA SOJA"

"Alguns desinformados fazem a relação entre a expansão da soja e o desflorestamento"

EUCLIDES SANTOS MENDES

Produto em franca expansão no mercado internacional, a soja é hoje uma das principais commodities brasileiras (o país é o segundo produtor mundial), cultivada do Rio Grande do Sul ao Norte-Nordeste do Brasil. Além do uso na alimentação do ser humano, é utilizada também no fabrico de ração para animais, tintas e biodiesel, entre outras aplicações.
A função estratégica desse grão vital em vários áreas é tema de "The World of Soy" (O Mundo da Soja, University of Illinois Press, 337 págs., US$ 40, R$ 83), lançado nos EUA e no Reino Unido.
Uma das organizadoras do livro (com Chee-Beng Tan e Sidney Mintz), a antropóloga norte-americana Christine Du Bois ressalta o papel da soja na modernização da agricultura, no mercado de commodities, na indústria e na transformação de produtos alimentares. Mas não esquece da ameaça ambiental que representa a expansão do cultivo da soja. "É preocupante", diz Du Bois, que também é pesquisadora vinculada à Universidade Johns Hopkins, nos EUA.
Já Ivan Sergio Freire de Sousa, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e coautor de dois artigos publicados no livro, considera que, no caso brasileiro, o produto "não pede mais expansão de áreas", mas "demanda tecnologias cada vez mais eficientes".
Na entrevista abaixo, discutem também os impactos econômicos e a relevância do grão como commodity: sozinhos, Brasil, EUA e Argentina respondem por 81% da produção.

FOLHA – Como a soja se tornou um dos sustentáculos do processo de modernização da agricultura?
IVAN SERGIO FREIRE DE SOUSA
– Há cerca de 40 anos a produção de soja no Brasil era inexpressiva.
As variedades que utilizávamos vinham do sul dos EUA, algumas outras eram desenvolvidas pelos nossos institutos de pesquisa, como o Instituto Agronômico de Campinas (SP).
Quando se falava em soja no Brasil, a lembrança que vinha à mente era a região Sul, Rio Grande do Sul principalmente, onde existia a famosa dobradinha trigo/soja, sendo o trigo, na época, o principal produto.
Isso mudou, e por vários fatores. A partir dos anos 1980, os pesquisadores conseguiram desenvolver variedades de soja cada vez menos dependentes da latitude, tornando possível a produção em todo o país.
Juntando tudo isso com o dinamismo do agricultor brasileiro e o forte apoio governamental nas áreas de financiamento e infraestrutura, houve a modernização do setor.
CHRISTINE DU BOIS – Nos EUA, pesquisas com apoio do governo realizadas na metade do século 20 mostraram muitos caminhos em que a soja poderia ser usada de modo rentável.
Eles vão desde aplicações industriais (por exemplo, no fabrico de tintas), na produção animal (especialmente para a alimentação de porcos e galinhas) e na alimentação humana (sobretudo o óleo utilizado em muitos alimentos processados em todo o mundo).
Esses variados usos da soja, juntamente com várias políticas privadas e governamentais de sustentação de preços, incentivaram fazendeiros do Meio-Oeste dos EUA a cultivá-la em grande escala.
Muita modernização na agricultura, mercado de commodity, indústria e a transformação de produtos alimentares alinharam-se a essa agricultura, embora a colheita da soja não seja a única a ter semelhante impacto.

FOLHA – A soja teve, então, papel decisivo na modernização da agricultura brasileira?
SOUSA
- A agricultura moderna é, em grande medida, um empreendimento científico envolvendo sociedade, ciência, tecnologia e natureza. Não foi só a soja que se modernizou no Brasil, outros cultivos também passaram por esse processo.
Mas, no caso da soja, os agricultores foram aos centros de pesquisa solicitar tecnologias e houve resposta rápida para essa demanda.
DU BOIS – O que podemos chamar de "complexo industrial da soja" exige equipamento agrícola pesado, fertilizantes, inseticidas, sementes, unidades de armazenamento dos grãos, transporte por barco, trens, caminhões.
Além disso, são necessárias facilidades para pesquisas agrícolas, operações bancárias, especialistas em comercialização, advogados, migração da força de trabalho e o desenvolvimento das cidades para abrigar, alimentar e cuidar dos trabalhadores e suas famílias.
O cultivo de soja em grande escala traz, assim, múltiplos níveis de modernização e desenvolvimento em seu rastro, onde quer que aconteça, incluindo o Brasil.

FOLHA – A soja terá a importância que o trigo já representou para a humanidade?
DU BOIS
- A soja talvez já seja o "novo trigo". Pelo volume, é a colheita mais internacionalmente comercializada.
Como populações em países em via de desenvolvimento começam a comer mais carne (especialmente os chineses), a demanda para a soja como ração animal continuará a crescer firmemente.

FOLHA – Como se configura o mapa da produção mundial de soja hoje?
SOUSA
- Originária de regiões de altas latitudes, a soja pode hoje ser produzida em quase todas as partes do mundo.
Sua produção, porém, está concentrada em alguns poucos países, como EUA, Brasil, Argentina e China, principalmente. A soja produzida na China é para consumo interno, mas devido a sua grande população, é um país importador.
É a produção desses países que dita os preços internacionais da soja. DU BOIS – Os EUA são ainda o maior país produtor de soja, mas o Brasil e a Argentina não ficam para trás.

FOLHA – E quanto ao mapa brasileiro da produção de soja?
SOUSA
- O Centro-Oeste é a grande região produtora, mas a soja é plantada do Rio Grande do Sul ao Norte do país.
Há municípios baianos [na região de Barreiras, no oeste do Estado] especializados na produção de soja.
Utilizando-se de critérios como período de plantio, área plantada e uso intenso de tecnologia, sua produção no Brasil pode ser dividida em três regiões distintas: a tradicional, a de expansão e a potencial.
A região tradicional corresponde aos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, onde a introdução da soja foi baseada na tecnologia importada do sul dos EUA, com suprimentos locais que cresceram durante o tempo. A situação atual é completamente diferente, com oferta de tecnologia competitiva originada localmente.
A região de expansão é formada pelos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Maranhão, oeste de Minas Gerais e Bahia.
Em contraste com a região tradicional, o solo típico da região de expansão é o do cerrado. Essa expansão somente se tornou possível quando a pesquisa agropecuária nacional fez importantes conquistas, incluindo a criação de variedades menos suscetíveis aos problemas das baixas latitudes e o desenvolvimento de novas técnicas de fertilidade de solo. A região potencial inclui o restante do país. Germoplasmas [material genético contido na semente] adaptados a todas as latitudes encontradas no Brasil tornaram possível a produção de soja em qualquer parte do território nacional.

FOLHA – Qual o impacto da soja no desenvolvimento do agronegócio e na abertura e ocupação de novas fronteiras agrícolas no Brasil?
SOUSA
- Esse impacto tem sido grande. A cadeia produtiva da soja cresceu bastante, principalmente quando comparamos com os anos 1970, época do início da expansão. Hoje se pensa mais em produtividade, e o papel da tecnologia é fundamental. Essa fronteira agrícola chegou ao seu limite.

FOLHA – Quais as principais consequências, do ponto de vista econômico e ambiental, do modelo agroindustrial de produção de soja no país? A expansão das regiões produtoras representa uma ameaça ambiental para a Amazônia?
SOUSA
- Alguns desinformados costumam fazer a relação entre a expansão da soja e o desflorestamento. Mas o que ocorre é o aproveitamento parcial das áreas desmatadas, integrando-as ao processo produtivo.
O economista e engenheiro agrônomo Alfredo Kingo Homma, um estudioso da área, costuma lembrar que, num período de 30 anos, a safra de grãos do Brasil quadruplicou, mas a área plantada nem sequer dobrou de tamanho. A pesquisa agropecuária tem oferecido resultados tecnológicos significativos, do ponto de vista ambiental, em várias áreas, como é o caso do controle biológico de pragas. Com isso se tem evitado ou diminuído o uso intensivo de pesticidas.
Não conheço casos em que sojicultores estejam clamando por desmatamento. Isso não existe.
DU BOIS – Economicamente, o agronegócio da soja no Brasil é sem dúvida rentável, embora a riqueza seja distribuída de maneira desigual.
Além disso, em algumas regiões como o Nordeste, a conversão da terra para o consumo de alimento local em terra para a produção de soja para exportação tem feito com que os preços dos alimentos locais aumentem. E, com isso, os pobres são atingidos.
Do ponto de vista ambiental, a conversão do cerrado -uma savana com biodiversidade extremamente rica- numa terra para a monocultura agrícola da soja é preocupante.
A região da Amazônia está também ameaçada, porque mesmo que se diga aos fazendeiros que eles não devem desmatar, a menos que sigam regras estabelecidas, o desmatamento continuará. A Amazônia precisa, de fato, da aplicação de regras. O cerrado precisa de áreas extensas preservadas. Esses recursos naturais selvagens são o patrimônio do Brasil, com grande valor para as futuras gerações -e devem ser protegidos.

FOLHA – A soja é, hoje, uma das principais commodities brasileiras. Qual o futuro do país como um "commodity country"?
SOUSA
- O Brasil precisa ser mais do que um "commodity country", embora suas commodities agrícolas venham trazendo garantia de empregos no campo e nas pequenas cidades, além de gerarem divisas.

FOLHA – Na América Latina, a soja é predominantemente usada como um componente básico da nutrição animal. No Brasil, qual o papel da soja e dos seus derivados (como o óleo) na economia alimentar?
SOUSA
- Em todo o mundo, a soja é predominantemente utilizada como ração animal. No Brasil deu-se um caso interessante. O óleo foi um derivado de muita importância.
Antes da soja, os óleos alimentícios disponíveis no mercado eram os de amendoim, algodão e milho, principalmente. O óleo vegetal era caro e difícil. Consumia-se muito a gordura animal, vendida em latas.
O óleo de soja foi o óleo vegetal que modificou drasticamente esse quadro. Os demais apenas complementaram o que a soja realmente fez.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Futuro concentrado

O segmento já aponta para um novo perfil, com 30% das instituições nas mãos de 15 grupos. Expectativa é que eles detenham 50% das operações até 2012.

Vinícius Gorgulho

O setor de ensino superior privado no Brasil sofreu mudanças radicais. De 2007 até o primeiro trimestre de 2009, foram registradas 78 fusões e aquisições de instituições de ensino superior. Atualmente, 15 grupos detêm 30% do mercado, sendo que, em 2006, esses mesmos grupos representavam 16,2% das instituições do país. Esse movimento ainda deve continuar, com a concentração de 50% do mercado por esses 15 grupos até 2012, conforme previsão de Ryon Braga, presidente da Hoper Educacional, empresa especializada em consultoria de marketing e planejamento estratégico para instituições de ensino. Segundo o consultor, os grupos educacionais já falam, inclusive, em fazer negócios entre eles mesmos.

Do início da consolidação do setor até o primeiro trimestre de 2009, as fusões e aquisições movimentaram cerca de R$ 2 bilhões. Em 2007, foram realizadas 19 aquisições e no ano seguinte esse número pulou para 52 negócios, um histórico aumento de 274%. Entre as fusões e aquisições mais importantes desde o negócio que inaugura a consolidação do setor – a compra da Universidade Anhembi-Morumbi pela Laureate, em 2006 -, Ryon destaca a aquisição da Uniderp pela Anhanguera por cerca de R$ 240 milhões. "Foi importante e surpreendeu inclusive o MEC, por ser considerada uma das três melhores universidades privadas do país."

Outros destaques são a compra da Radial pela Estácio por R$ 70 milhões, devido à "luta" da Estácio para entrar no mercado paulista; a compra da Universidade Potiguar (UnP) pela Laureate; a compra da Faculdade Nordeste (Fanor) pelo grupo DeVry (a primeira IES a abrir capital no mundo) por US$ 40 milhões e a compra do Grupo Dom Bosco pelo SEB (COC), um dos maiores sistemas de ensino do Brasil. Além disso, o consultor destaca os aportes de investidores financeiros em instituições de ensino, cujo dinheiro é destinado diretamente ao desenvolvimento do negócio: a entrada da GP na Estácio, com 20% de aquisição, "por ser um grande grupo de capital aberto detentor das Lojas Americanas, Submarino, entre outras" e a aquisição de 20% do Grupo Maurício de Nassau no Nordeste pela Cartesian.
O crescimento de apenas 0,47% no número de novas instituições no país em 2007 não tem relação com as fusões e aquisições, segundo Ryon. "É uma questão demográfica e de renda no país. A demanda reprimida se esgotou. A taxa de crescimento orgânico agora vai permanecer entre 2% e 3% ao ano", avalia.

Com o advento da crise financeira internacional, a movimentação do mercado sofreu um desaquecimento. No primeiro trimestre de 2009 foram registradas apenas seis aquisições, contra 12 efetuadas no mesmo período de 2008. Na opinião de Ryon, não foi o dinheiro que diminuiu. Segundo ele, ainda há cerca de US$ 1 bilhão disponível para aquisições e fusões. "A crise veio em boa hora para quem compra. Os compradores estão usando a crise como momento de espera para ver o que vai acontecer. Antes da crise, o ágio girava entre 30% e 40% a mais do que as instituições valiam realmente. Quem tinha a casa mais ou menos arrumada sempre tinha uns cinco ou seis interessados", analisa o consultor.

O que mudou foi o ritmo e o perfil das operações, que não devem parar. "Agora o mercado está mais seletivo. O que vale é o porte, o portfólio, a localização, a estrutura econômico-financeira-operacional e a projeção de resultados. A crise praticamente interrompeu as aquisições. O mercado ainda não está baixando os preços. Os compradores estão apenas aguardando a hora certa", diz.

Segundo ele, mesmo instituições que não têm uma gestão bem estruturada e cujos ativos não pagariam as dívidas estão sendo vendidas por apresentarem vantagens estratégicas. "Elas são compradas mesmo assim, pois o ativo é a autonomia universitária, a possibilidade de criar negócios sem autorização prévia do MEC. Muitas ainda serão compradas dessa maneira. Entre as de grande porte, umas 20 e entre as médias e pequenas, calculo que mais de 200 negócios terão esse perfil."
Mesmo com o intenso número de negociações nos últimos dois anos, Ryon acredita que o movimento poderia ter sido maior. "Para cada negócio que deu certo há três frustrados por questão de transparência ou por se tratar de instituições ‘incompráveis’, cujas dívidas são iguais a mais de dois anos de faturamento". Segundo ele, hoje há 38 instituições de ensino superior ‘incompráveis’ com mais de três mil alunos.

De acordo com os seus dados, 10% do mercado atual é composto por instituições que têm condições para competir com uma estrutura financeira, econômica e operacional saudável, ou seja, profissional. Outros 30% estão se profissionalizando e 60% não cuidam da gestão. "Essas, derradeiramente, vão ter de encarar a venda como única alternativa", acredita o consultor.
Segundo ele, da metade de 2008 até hoje, entre 25 e 30 instituições fecharam no Brasil.

Por isso, ele aposta num crescimento grande da profissionalização, da qualificação de gestores e da transparência financeiro-contábil para os próximos anos. Entre os atuais atores do mercado, ele acredita que cinco instituições de ensino superior irão se destacar como competidores, profissionalizando a gestão e abrindo capital: a Iuni, com 53 mil alunos no Centro-Oeste, Norte e Nordeste; o Grupo Anima, com 32 mil alunos, que detém o Centro Universitário Uma, em Belo Horizonte, a UniBH e Unimonte em Santos; a Veris Educacional (Ibmec e outras), com 15 mil alunos, faturamento alto e pós-graduação; as Faculdades Maurício de Nassau, com 26 mil alunos, e o grupo DeVry, com 12 mil alunos.

Quem deve se destacar nos próximos anos

Iuni
53 mil alunos no Centro-Oeste, Norte e Nordeste
Grupo Anima
32 mil alunos, dono do Centro Universitário Uma, Belo Horizonte

UniBH
Unimonte
em Santos
Veris Educacional
dona do Ibmec e Ibta, com 15 mil alunos

Faculdades Maurício de Nassau
com 26 mil alunos
Grupo DeVry
12 mil alunos

> Principais aquisições desde 2007


Comprador

Aquisição Valor(R$)
Anhanguera Educacional Unibero 15 milhões

Anhanguera Educacional

Fafeb/Isefeb 6,5 milhões
Anhanguera Educacional Fizo 18,2 milhões
Anhanguera Educacional Fac. Atlântico Sul 16,8 milhões
Kroton Educacional Pitágoras/Ined 7,1 milhões
SEB S/A Itaigara 4,2 milhões
SEB S/A Esamc/ Nobel -
Anhanguera Educacional Unia 59,9 milhões
Kroton Educacional Pitágoras/ Umep 18 milhões
SEB S/A Fac. Metropolitana 10 milhões
Iuni Unicen -
Estácio Participação Fac. Magister 4,3 milhões
Iuni Uesp -
Anhanguera Educacional Cesur 13,6 milhões
Estácio Participações Unida 2,4 milhões
Anhanguera Educacional Microlins 12,2 milhões
Anhanguera Educacional Faculdade JK 31,3 milhões
Anhanguera Educacional Uniderp Cesup/ Unaes 206 milhões
Estácio Participações UniRadial -
Kroton Educacional Nabec – ES 150 mil
Anhanguera Educacional Faplan 10, 2 milhões
Estácio Participações Fac. Interlagos 6,2 milhões
Estácio Participações Fac. Europan 8,3 milhões
Estácio Participações Fac. Brasília de São Paulo – SP 2,2 milhões
Anhanguera Educacional Facnet 20,4 milhões
Anhanguera Educacional Instituto Educacional (Educar – SC) 30 milhões
Grupo Educacional Cruzeiro do Sul UniDF -
Kroton Educacional Uniminas 22 milhões
SEB S/A Grupo Dom Bosco – PR 94,5 milhões
Anhanguera Educacional Faenac 34 milhões
Anhanguera Educacional Fabrai 10,3 milhões
Anima Educação UniBH -
Grupo Campos de Andrade Unib -
Grupo DeVry Fanor -
Fonte: CM Consultoria

Fonte: Revista Ensino Superior – http://revistaensinosuperior.uol.com.br/

IAN KERSHAW

UM DOS PRINCIPAIS HISTORIADORES DO NAZISMO, O INGLÊS IAN KERSHAW MOSTRA COMO HITLER CHEGOU AO PODER E EXPLICA POR QUE O REGIME NÃO PROSPEROU EM OUTROS PAÍSES

"O nazismo não nasceu do psiquismo ou de uma característica específica da população alemã".

MARTHA ZUBER
MARTINE FOURKIEN

Apesar da fama que seus trabalhos sobre o nazismo lhe garantiu na comunidade internacional, Ian Kershaw continua apegado a sua Inglaterra natal.
Ele concedeu a entrevista abaixo na Universidade de Sheffield, onde leciona história contemporânea. Kershaw fala de seus estudos sobre o nazismo com confiança tranquila, revelando conhecimento aprofundado de inúmeras publicações sobre o assunto.
Como esse homem sossegado se tornou um dos maiores especialistas no regime hitlerista? Um pouco por acaso, explica. Duas circunstâncias orientaram sua escolha.
Por um lado, seu interesse nas questões políticas desse período e na história social; por outro, as aulas de alemão que cursou no Instituto Goethe de Manchester.
Em 1972 e 1974, duas estadas na Baviera reforçaram seu interesse pela civilização alemã. Trabalhou no prestigioso Instituto de História do Tempo Presente, em Munique, dirigido pelo historiador alemão Martin Broszat.
Dessa época nasceria o livro "Popular Opinion and Political Dissent in the Third Reich" [Opinião Popular e Dissenso Político no Terceiro Reich].
Uma coisa levou a outra, e várias questões começaram a despertar a curiosidade do historiador: como explicar o "sucesso" do nazismo? A população alemã era impregnada de um antissemitismo mais profundo que o antijudaísmo tradicional dos países católicos? Por que, entre todas as economias industriais e capitalistas, a Alemanha foi a única a ter produzido uma ditadura fascista tão extrema?

PERGUNTA – Hitler elaborou uma teoria política ou aproveitou circunstâncias favoráveis para instalar sua ditadura? A quem, de fato, cabe a responsabilidade pelo nazismo?
IAN KERSHAW
- Hitler foi alguém que tinha opiniões muito fortes e decididas sobre qualquer assunto. Radicalizava tudo e podia igualmente bem se enfurecer rapidamente ou entusiasmar-se de maneira desmedida.
Em Viena, ele era solitário e pouco sociável. Na Primeira Guerra, foi considerado um soldado muito corajoso, mas um pouco excêntrico, que se mantinha à margem dos outros.
Mas em 1919, em Munique, ele se deu conta de que podia ser ouvido. Ele diz em dois momentos do livro "Minha Luta": "Então tomei consciência de que eu podia falar". Essa visão muito maniqueísta das coisas se tornou um trunfo formidável quando ele começou a falar com as pessoas nas cervejarias de Munique.
Foi essa visão de conjunto, taticamente muito flexível, que lhe permitiu, nos anos 1920 e 1930, adaptar-se aos interesses mais diversos -aqueles das diferentes facções nazistas e os da população alemã.
Contudo seria restritivo demais dizer que a responsabilidade pelo nazismo recai sobre um único indivíduo. É verdade que Hitler tem mais responsabilidade que qualquer outra pessoa, mas, à medida que a crise da democracia alemã foi se desenvolvendo, ele foi atraindo mais e mais pessoas.
Tampouco podemos dizer que o nazismo tenha nascido do psiquismo ou de uma característica específica da população alemã. Nas eleições de 1932 e 1933, 13 milhões de alemães votaram no partido nazista, número que não representava mais do que um terço dos eleitores. Quando as eleições eram livres, Hitler nunca recebeu mais de um terço dos votos, o que significa que dois terços dos alemães não votaram nos nazistas.
O que se pode afirmar é que Hitler conseguiu articular certas tendências da cultura política alemã e atrair mais e mais pessoas. Portanto, a responsabilidade pelo regime nazista cabe, ao mesmo tempo, a Hitler, o homem, e a certos setores da sociedade -mas não à sociedade alemã em sua totalidade.

PERGUNTA – Então o sr. não aprova a tese do americano Daniel J. Goldhagen, que defende que o conjunto da população alemã, fundamentalmente antissemita, foi cúmplice do nazismo e do Holocausto?
KERSHAW
- É evidente que havia um antissemitismo profundo na Alemanha muito antes da Primeira Guerra. Talvez mais do que na França, mas não mais que em toda a Europa oriental -na Polônia, Romênia, Hungria, Áustria, onde Hitler nasceu, e, sobretudo, Rússia. Nos anos 1920, porém, esse antissemitismo alemão era sobretudo passivo; o antissemitismo violento -e ativo- era obra de uma pequena minoria.
É claro que essa minoria despertou entre 1929 e 1932, e os eleitores que votaram no Partido Nacional Socialista alemão (ou seja, os nazistas) sabiam que estavam votando num partido que odiava os judeus. Mas os estudos que foram feitos sobre o voto nazista nesse período mostram que o antissemitismo não foi a motivação principal desses eleitores.

PERGUNTA – Foi Hitler quem decretou a "solução final"?
KERSHAW
- Considerar que Hitler tenha decretado a solução final equivaleria a dizer que essa ditadura funcionava segundo as leis ditadas por ele. Acontece que o que constatamos ao estudar o período dos anos 1930 é, antes, uma forma pragmática de governar.
A radicalização do nazismo se deu por etapas até 1941-42, quando a Alemanha já estava em plena guerra contra a União Soviética, visando a erradicar o "bolchevismo judaico".
Para os nazistas, judeus e bolcheviques eram a mesma coisa. Desde o primeiro dia da operação Barbarossa (a invasão da União Soviética pelas tropas alemãs), não houve nenhuma ordem explícita de Hitler.
É preciso destacar o papel das SS como a organização mais poderosa e mais radical do Estado nazista. Foram elas que, nessa fase, colocaram em prática a divisa de Hitler sobre ser preciso livrar a Alemanha dos judeus.
No verão de 1941, na União Soviética invadida pelas tropas alemãs, esse movimento se radicalizou. Os judeus começaram a ser fuzilados às dezenas de milhares. Em setembro, 33 mil judeus foram mortos em dois dias!
O que seria feito, então, com os outros judeus da Europa? O extermínio já tinha começado na União Soviética; os chefes nazistas pressionavam Hitler para deportar os judeus austríacos e alemães para o leste, e Hitler deu sinal verde. Em seguida, o mesmo passou a ser feito com os judeus da Europa ocidental (incluindo a França).
Os massacres foram o resultado de um processo que se desenrolou por etapas. Hitler tinha uma visão geral das coisas, mas deixava os outros agirem em seu lugar.
Não pode haver dúvida quanto a sua responsabilidade nem quanto ao fato de ele ter sido um antissemita fanático. Mas foi o sistema nazista, com sua radicalização progressiva, que levaria ao genocídio dos judeus.

PERGUNTA – Em que Hitler, como o sr. diz em seus trabalhos, foi um líder carismático?
KERSHAW
- É preciso entender a palavra "carismático" em seu sentido técnico, e não no sentido usual que assumiu hoje, quando falamos do carisma de um astro da música pop ou até mesmo de John F. Kennedy.
Para o sociólogo Max Weber, o carisma significa que uma comunidade se investe em uma pessoa e atribui a ela certo número de qualidades heroicas. O que retiro de Weber é que o indivíduo não necessariamente possui essas qualidades que os outros enxergam nele.
No caso de Hitler, por que esse homem que descrevemos como estando à margem da sociedade, ao mesmo tempo excêntrico e tão voluntarista, começa a ser ouvido por certas pessoas?
Porque ele responde às aspirações delas.
Na sociedade alemã dos anos 1920, as pessoas que nunca tinham ouvido falar em Hitler consideravam que o regime era corrompido pelos políticos, que a Alemanha estava afundando e que ela precisava de um grande líder como Bismarck ou Frederico, o Grande -alguém que pudesse salvar o país dessa terrível crise política e econômica e que permitisse um renascimento nacional.
Foi assim que as pessoas começaram a acreditar em Hitler.
Para um megalomaníaco como ele, que naquele momento já conquistara muita autoconfiança, o caminho estava traçado: o grande personagem que salvaria a Alemanha era ele.
Ele ocupava o ápice de um sistema, tendo por missão alcançar certos objetivos.
Mas, por trás disso, era submetido a pressões de diferentes facções -entre as quais é preciso destacar o papel poderoso do Exército, que até 1938 teve exatamente os mesmos objetivos de expansão militar que Hitler, embora a maioria dos oficiais não fosse nazista.
Durante muito tempo, os objetivos dos nazistas mais ou menos coincidiram com os de grande número de nacionalistas alemães que faziam parte das elites tradicionais do país. Podemos afirmar que as Forças Armadas, os grandes empresários, os grandes proprietários de terras e os altos funcionários apoiaram Hitler durante muito tempo, até que foi tarde demais e se viram presos numa armadilha, dentro do culto a esse líder carismático.

PERGUNTA – Um modelo como esse poderia funcionar em outro país?
KERSHAW
- É preciso levar em conta que uma das causas muito importantes para a ascensão do nazismo foi a crise profunda que atingiu a Alemanha nos anos 1930.
A particularidade dessa crise é que ela foi multiforme: crise do sistema político e governamental, crise econômica, social e ideológica, tudo isso associado a um sentimento de humilhação nacional devido à derrota na Primeira Guerra.
A Alemanha era um país em que a democracia tinha raízes frágeis, e o sistema político instalado após a guerra (a República de Weimar) nunca chegou a ser verdadeiramente aceito, nem por grande parte da população, nem pelas elites.
Quando chegou a depressão mundial, em 1929, todo o sistema que passou a ser questionado, e não apenas certos setores. Na Grã-Bretanha, por exemplo, de 1929 a 1931, houve uma crise econômica e política, mas não uma crise de Estado. Com a exceção de uma pequena minoria muito radical, ninguém cogitava em questionar o rei ou o Parlamento. O sistema era suficientemente estável para fazer frente a uma crise.
Na França, os governos da Terceira República (1870-1940) foram muito frágeis. Mas a França estava no campo dos vencedores (de 1914-18) e não passava por uma crise de amplitude igual à dos países em que o fascismo se instalou.
Na Alemanha, a necessidade de uma regeneração nacional era uma mensagem muito forte da qual Hitler era o portador.
Alguns imaginaram que ele não permaneceria no poder por muito tempo, mas, sob o Terceiro Reich, a economia começou a crescer novamente, o Exército foi reconstituído, a Alemanha recuperou territórios que havia perdido.
Os ingleses e os franceses se mostraram muito fracos diante de Hitler, que foi se fortalecendo mais e mais. Diante disso, os alemães que hesitavam ou que não gostavam de Hitler se uniram à sua volta. E a dinâmica carismática funcionava cada vez melhor.
Quando a guerra chegou, já era tarde para recuar -a ditadura já estava bem instalada por um processo progressivo de radicalização. O mito só desabou com a derrota, quando o sistema se audodestruiu depois de ter exterminado mais de 5 milhões de judeus.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Exploração sexual na Espanha: leis vigentes são insuficientes para combater o tráfico

Álvaro de Cózar e Mónica Ceberio Belaza
Em Madri

Os policiais que estão há anos na luta contra o tráfico lembram os primeiros anos do combate. Em certa ocasião, os agentes conseguiram colocar no banco dos réus o dono de um clube onde se exploravam mulheres. Duas prostitutas do local depuseram contra o homem. O juiz o condenou, mas não fechou o lugar. O argumento foi que só havia duas vítimas de tráfico de pessoas. O resto das mulheres que trabalhavam no local não haviam denunciado. "Fechar o local seria prejudicar as que estão lá porque querem", disse o juiz aos policiais. A escravidão de duas mulheres não era razão suficiente para encerrar o bordel.

A atitude dos juízes mudou desde então, mas continua havendo diversos problemas para combater com eficácia o tráfico de seres humanos. Por um lado, a falta de determinação do governo – tanto deste como dos anteriores do PP – sobre o que fazer com a prostituição faz que haja um grande negócio que se move à margem da lei e gera lucros extraordinários para os exploradores do sexo. E, à margem do debate recorrente entre abolicionistas e regulacionistas da prostituição, não são abordadas de forma prioritária as reformas necessárias para erradicar o tráfico.

Um dos problemas mais graves denunciados pelas ONGs é que as vítimas são protegidas não pelo fato em si, mas por colaborar com a polícia. Só lhes concedem a licença de residência quando denunciam e se a informação que derem for "relevante" para desarticular uma rede. Se o que a mulher contar não for útil não há permissão. Algo que no caso da violência de gênero seria inadmissível quando se trata da exploração sexual é tolerado. "Não se enfoca a questão como uma violação terrível dos direitos humanos mais básicos em uma sociedade democrática, mas se recompensam as vítimas se ajudarem", diz Cristina Garaizábal, porta-voz da associação Hetaira. Opinião compartilhada pela ONG Projeto Esperança.
A regulamentação das licenças de residência acabam de custar à Espanha uma condenação da União Europeia. O tribunal de Luxemburgo ditou uma sentença na semana passada contra nosso país por não ter incorporado ao nosso direito uma diretriz de 2004 sobre expedição de carteiras de residência às vítimas de tráfico. A UE, que aceita que as licenças possam ser concedidas em troca de informação, exige garantias que ainda não são cumpridas na Espanha, como conceder às vítimas um período de reflexão para decidir se desejam denunciar. Esse é um dos momentos mais delicados. As vítimas, sobretudo quando estão nas mãos de redes violentas, têm medo e precisam de tempo – com assistência à saúde, jurídica e psicológica – para pensar no que desejam fazer. Muitas vezes suas famílias são ameaçadas no país de origem. Um porta-voz do Ministério da Igualdade afirma que a transposição dessa diretriz está prevista na proposta de modificação da Lei de Estrangeiros.
Depois da denúncia, e mesmo quando lhes concedem a autorização de residência – só 951 mulheres a conseguiram nos últimos oito anos e ela foi negada para 648 -, os problemas continuam. "Depois veem que precisam de uma licença de trabalho", afirma Cristina Garaizábal. "E é muito difícil que lhes façam uma oferta."
Nessa situação se encontra nestes dias Hope, citada na reportagem "As redes de tráfico". A garota nigeriana veio para a Espanha enganada e foi obrigada a se prostituir em vários clubes de estrada. Depois de denunciar os criminosos obteve autorização de residência. Desde então procura emprego e sempre acontece a mesma coisa: lhe dizem que podem contratá-la, mas se primeiro conseguir uma licença de trabalho. Ninguém quer fazer a primeira oferta. Sem licença de trabalho não há emprego e sem emprego não há licença. "Todos os dias vou entregar meu currículo em bares e lojas. Ninguém me faz caso e a residência vai caducar dentro de alguns meses. Não tenho mais dinheiro e tenho medo de ser expulsa", lamenta.
A proteção às vítimas é sem dúvida uma das questões pendentes no tema do tráfico. Mas também há pendências no âmbito da justiça. O Código Penal regulamenta por um lado o obrigar uma mulher a se prostituir, e por outro o tráfico de pessoas. A primeira questão é punida só com dois a quatro anos de prisão (uma pena não-grave, segundo o código). A mesma sanção é imposta aos que lucram "explorando a prostituição de outra pessoa", mesmo com seu consentimento. E como o tráfico muitas vezes é difícil de provar este pode ser o único castigo que o criminoso receba.
Por outro lado, se regulamenta o tráfico de pessoas. O artigo 318 bis estabelece penas de quatro a oito anos de prisão para quem traficar imigrantes e de cinco a dez anos para quem o fizer com fins de exploração sexual. Esse dispositivo apresenta dois problemas. Em primeiro lugar que se juntam duas condutas que não têm nada a ver: uma coisa é introduzir na Espanha de forma ilegal imigrantes que querem entrar e outra muito diferente é trazê-los enganados para escravizá-los e explorá-los. "Esses tipos penais devem ser separados", afirma Joaquín Sánchez-Covisa, promotor do Tribunal Supremo e coordenador de estrangeiros. "É necessário um delito específico de tráfico de seres humanos." O Plano Integral de Luta Contra o Tráfico de Seres Humanos com Fins de Exploração Sexual, aprovado pelo governo em dezembro passado, inclui essa alteração legal. Mas ainda não se materializou.
Outro problema desse artigo é que fala só de imigrantes, o que implica que ficam excluídos todos os cidadãos da UE. As mulheres romenas não são consideradas vítimas de tráfico, e são uma das nacionalidades mais afetadas por esse problema. Marta González, da ONG Projeto Esperança, acredita que é uma das primeiras questões que é preciso modificar. Espera-se que o governo introduza algumas dessas mudanças em sua próxima reforma do Código Penal.
Outro grande problema é a falta de dados. Não se conhece a dimensão do problema e portanto é complicado agir adequadamente. Não há informação confiável e centralizada sobre o número de prostitutas na Espanha, o número de bordéis, o número de testemunhas protegidas, o número de denúncias ou o número de condenações por esse tipo de delito. Tudo são estimativas baseadas em nada concreto.
"Isto é verdade", responde um porta-voz do Ministério da Igualdade. "Mas é uma característica comum a todos os países. Conscientes dessa realidade, em nosso plano incluímos diversas medidas que nos permitem conhecer melhor a situação e quantificá-la. Há vários estudos planejados. Além disso, o Centro de Inteligência Contra o Crime Organizado (CICO) e o Ministério do Interior estão trabalhando desde 1º de janeiro na criação e implementação de um banco de dados que nos permitirá conhecer mais ampla e adequadamente a realidade."
Também não há por enquanto campanhas de sensibilização, apesar de ser um problema grave que quase não preocupa nosso país. Nem a sociedade em seu conjunto nem os clientes da prostituição. No Ministério da Igualdade se afirma que as campanhas estão sendo preparadas, mas que levam tempo.
Outro debate é o da mídia. Deve suprimir anúncios de prostituição porque talvez em suas páginas haja vítimas de tráfico de pessoas? Dois jornais de criação recente admitem isso: "Público" e "20 Minutos". O Plano Contra o Tráfico do governo diz que será promovido o "controle" desse tipo de publicidade. Não diz como. Os principais jornais (incluindo este) não seguiram o conselho. Os responsáveis por El País dizem que os anúncios não são proibidos.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Exploração sexual na Espanha: as redes de tráfico

Álvaro de Cózar e Mónica Ceberio Belaza
Em Madri

Benim City é um conglomerado de casas empoeiradas de chapa oxidada, fios pelados cruzando as ruas e estradas cheias de buracos. Mas é um lugar perfeito para fazer negócios. A cidade no sudoeste da Nigéria é um lugar de gente empreendedora e comerciante, capaz de vender na rua desde uma antiga peça pré-colonial de grande valor até uma máquina de lavar imprestável. Se se perguntar a qualquer jovem ocioso dos que passam o dia todo sentados na rua a que se dedica, o mais provável é que o rapaz puxe um celular e diga com certa arrogância: "Sou um homem de negócios. Este é o meu ‘call center’". O político nigeriano Bola Ige, assassinado a tiros em 2001, descrevia esse dom de seus compatriotas para os negócios com uma frase eloquente: "Se você souber empacotar merda, poderá vendê-la na Nigéria".

Quase todas as mulheres africanas que exercem a prostituição na Espanha procedem de Benim City. Durante o século 18 a cidade foi o centro da costa dos escravos, lugar de onde partiam milhares de africanos para serem explorados nas colônias. Negócio e exploração de pessoas, as duas faces da prostituição séculos depois. Quem a controla em Benim City tem meio negócio montado se souber utilizar o desejo de milhares de mulheres de sair da pobreza, prosperar na Europa e enviar dinheiro para suas famílias.

Sobre esse sonho se erguem as redes de tráfico de pessoas na Nigéria e no resto dos países exportadores de mulheres. Estudos indicam que na Espanha há prostitutas de mais de 50 nacionalidades, mas a grande maioria procede de um punhado de países, nos quais estão instaladas redes organizadas: Brasil, Romênia, Paraguai, Colômbia, República Dominicana, Rússia, Moldávia, Bulgária, Nigéria e China. Também há marroquinas no sul da Andaluzia, sobretudo perto da fronteira.
O lugar de origem da mercadoria muda segundo a dificuldade ou facilidade que tenham para introduzi-la na Espanha e segundo a moda estética do momento. Como quem decide deixar de comprar café na Colômbia e o procura no Quênia. Na América Latina, o país que mais exporta mulheres é o Brasil. O segundo é o Paraguai, que é novo no setor. O acesso é fácil – nem as brasileiras nem as paraguaias precisam de visto – e suas mulheres são muito apreciadas na Espanha. Nosso país não importa garotas de traços mais indígenas, como bolivianas, equatorianas ou peruanas.
Junto com o Brasil, a Romênia se transformou no outro grande provedor de mulheres para a Espanha. As jovens romenas são brancas, louras e bonitas, e desde que o país faz parte da União Europeia podem entrar livremente na Espanha. As redes buscam garotas nas áreas rurais pobres em que, como em Benim City, é fácil convencê-las de que se atrevam a viajar à Espanha com um desconhecido em busca de uma vida melhor. Não têm nada a perder.
As redes são heterogêneas e de difícil controle, segundo explica Carlos Botrán, comissário chefe da Brigada Central da UCRIF (Unidade Contra as Redes de Imigração Ilegal e Falsificações de Documentos da Polícia Nacional): "Podem ser formadas por um casal, um grupo de quatro amigos ou podem ser organizações complexas e estruturadas, que operam em vários países com mais de cem pessoas trabalhando. Uma autêntica multinacional".
O captador é o primeiro elo da cadeia, e um dos mais importantes. Em todas as histórias de mulheres exploradas ele é o encarregado de encontrar a mercadoria, sem a qual não há negócio. Deve escolher e convencer as mulheres até conseguir tirá-las do país. Com uma mentira e uma meia verdade. Quando lhes oferecem diretamente trabalhar como prostitutas, lhes falam de uma situação de liberdade que depois não existe.
O captador, às vezes com a ajuda de uma terceira pessoa (o intermediário), arranja os passaportes, o visto, a passagem de avião ou ônibus e dá a mulher um pouco de dinheiro para que mostre na fronteira e a deixem entrar como turista. Ele cuida de tudo e ensina a garota a se vestir e atuar.
"Um truque que as redes costumam empregar para entrar é utilizar um país intermediário de entrada que pertença ao espaço Schengen, como Portugal, França ou Itália", explica um inspetor chefe da UCRIF. "Se no aeroporto de Paris veem que o destino final da mulher não é a França, mas a Espanha, os controles são relaxados." Algumas redes, como as nigerianas, as russas ou as chinesas, utilizam métodos muito sofisticados para falsificar documentos.
Vejamos uma dessas histórias, a de uma das milhares de mulheres que todo ano entram na Espanha para trabalhar como prostitutas. Vamos chamá-la de Hope. Há dois anos – tinha então 18 – contou a uma amiga as dificuldades econômicas que ela e sua família estavam passando em Lagos, no sul da Nigéria. "Vou colocá-la em contato com um primo meu que precisa de uma secretária para trabalhar na Espanha", disse a garota. A oferta era um presente e Hope não duvidou um segundo em dizer sim. Poucos dias depois conheceu um homem. Este lhe vendeu um futuro cômodo na Espanha, onde ganharia dinheiro para ela e sua família. Eles a ajudariam com os papéis e a ensinariam a passar pela fronteira. Pagariam todos os gastos da viagem e depois, quando ela ganhasse seu abundante salário de secretária na Europa, lhes devolveria o dinheiro aos poucos. Para cruzar a fronteira lhe deram o passaporte da mulher que a esperava na Espanha, uma nigeriana para a qual ia trabalhar.
Dias depois ela pegou um avião em Cotonou (República do Benim) rumo a Casablanca para aterrissar pouco depois no aeroporto de El Prat em Barcelona. Outro homem a pegou em um táxi e a levou para a casa de sua nova patroa. "Me lembro muito desse caminho. Ia vendo a cidade de Barcelona, tão bonita, com gente tão distinta, e me senti uma mulher com muita sorte", lembra a garota no escritório da ONG Projeto Esperança.
Essa sensação de ter pela frente grandes oportunidades é compartilhada por todas as mulheres que chegam com as redes. Uma mistura de nervosismo e esperança, até que vem o balde de água fria. No caso de Hope, aconteceu quando lhe mostraram sua nova roupa de trabalho: tangas e sutiãs. "Me disseram o que eu teria de fazer e me neguei, mas o marido da mulher me ameaçou, me bateu e me disse: ‘Se não fizer isso eu a atiro pela janela agora mesmo e digo para a polícia que você se suicidou’."
Os métodos de coação para dobrar a vontade da vítima são diferentes segundo o país de origem da rede e as vítimas. "As redes romenas são as mais violentas", explica Botrán. "Eles dão surras, socos, há violações em grupo, não hesitam na hora de exercer a violência física para assustar e dobrar a vontade das mulheres." Como a maioria das vítimas é captada em pequenos povoados e o traficante conhece a família, é muito comum que ameacem matar seus pais ou seus filhos, se os tiverem. Além disso, quando chegam lhes tiram as passagens de volta, o passaporte e o dinheiro e as vigiam de perto a cada minuto. Algumas não falam espanhol e não têm como sair.
No caso da Nigéria, um dos métodos de controle mais eficazes é o vodu. "Dias antes de pegar o avião me levaram a um curandeiro", lembra Hope. "Tinha de fazer o que ele me dissesse para que eles tivessem segurança de que eu ia pagar minha dívida." Cortaram pêlos de suas sobrancelhas e do púbis, os colocaram em um envelope e os misturaram com sangue. "Senti muito medo. Então acreditava que com o vodu podem controlar o que você faz e inclusive você pode morrer. Fui muito inocente. Acreditava em tudo pela vontade de vir à Espanha."
As dívidas que as mulheres se comprometem a pagar – € 2 mil, € 3 mil, € 4 mil ou € 5 mil, dependendo do país de origem, do custo do trajeto e do que podem abusar da situação da necessidade da mulher – põem a vida da vítima nas mãos da rede durante meses ou inclusive anos, porque algumas redes vão aumentando a dívida com enganos. As nigerianas são as mais exploradas: costumam se comprometer desde o início a pagar quantias exorbitantes, US$ 40 mil ou US$ 50 mil.
Para pagar, as mulheres têm de trabalhar todo dia 13 ou 14 horas. As redes se encarregam de colocá-las no mercado, como se fossem laranjas: clubes, apartamentos e rua. A Universidade de Oviedo, que elaborou um dos estudos de campo mais completos sobre o tema, indica que em Astúrias 72% das prostitutas trabalham em casas noturnas, 35% o fazem em apartamentos e só 2,6% na rua – parques, terrenos baldios, bairros industriais, centro urbano. Esses dados não podem ser extrapolados para todo o país, mas a polícia e a Guarda Civil fazem cálculos semelhantes.
Como muitas outras, Hope acabou dando voltas por várias províncias espanholas, de clube em clube. A cada três semanas a mudavam de local. Não tinha ideia de onde estava em cada momento. Não sabe em que lugares viveu. "Me davam surras se eu não fizesse € 3 mil por mês", relata. Nunca viu um euro de seus ganhos.
"As redes de exploração sexual são muito cruéis e refinadas em seus métodos de coação", diz Carlos Igual, da Guarda Civil. "Das mais duras que eu vi em minha carreira. Se aproveitam da ignorância, de que se encontram isoladas e desamparadas. É o que as redes querem. Por isso as trocam de lugar a cada pouco tempo. Para que não peguem confiança com os clientes e não se tornem amigas entre elas."
A rede de Hope era mínima, formada por quatro pessoas: dois casais de nigerianos que haviam feito do tráfico de mulheres sua forma de vida e tinham diversos contatos com empresários do sexo espanhóis. Ela não sabe qual era o acordo econômico entre seus captores e os donos dos clubes. A que cobrava por cada serviço sexual não era ela, mas sua "mami". As mamis, ou controladoras, são outro dos pilares fundamentais das redes. Vigiam e controlam as garotas de perto. São as encarregadas de que não escapem e também de tranquilizá-las e fazê-las crer que sua situação não é tão horrível. Costumam ser ex-prostitutas, mulheres que passaram pela mesma situação e que depois ascenderam dentro da organização ou se casaram com algum empresário.
Hope decidiu acabar com tudo isso um ano depois de aterrissar em Barcelona. Conseguiu sair graças à polícia, à ONG Projeto Esperança e à ajuda de pessoas que se preocuparam com ela. Denunciou seus captores. A polícia conseguiu reunir as provas para levá-los ao tribunal e o caso ainda está pendente.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

A razão como produto da História

VERNANT, JEAN-PIERRE , AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO

Leonardo Lourenço

O objeto da presente resenha é o livro As origens do pensamento grego1, do destacadíssimo especialista em Grécia Antiga, Jean-Pierre Vernant, autor de inúmeras obras a respeito da Antiguidade grega, que abordam questões como a mitologia, o pensamento, o teatro e a política, entre outros temas relevantes.
Segundo minha compreensão, a perspectiva analítica de Vernant, como pensador que sempre manteve uma proximidade com a Escola dos Annales2, prima por recorrer de maneira profícua à interdisciplinaridade, mantendo assim um diálogo com áreas do conhecimento auxiliares da história, a saber, a antropologia, a sociologia, a psicologia e até mesmo a arqueologia, sobretudo quando o autor se debruça sobre tempos mais remotos, casos dos períodos Pré-Homérico (séculos XX – XII a. C.) e Homérico (séculos XII – VIII a. C.).
O objeto da presente reflexão é um estudo que utilizei largamente em minha pesquisa de IC (Demóstenes: mito e discursos políticos) e que me trouxe subsídios para compreender as formas e conteúdos do debate político e filosófico na pólis do Período Clássico, bem como refletir acerca de algumas causas do declínio da mesma, sem o qual certamente, abriria-se uma lacuna muito difícil de ser preenchida por alguma outra obra.
Este pequeno livro traz uma grandiosa contribuição ao trazer discussões sobre a formação do pensamento racional na história da Grécia Antiga. Ao buscar uma explicação verdadeiramente histórica para a razão grega, característica do Período Clássico, (séculos V e IV a. C.) Vernant inicia seu estudo remontando a fenômenos ocorridos cerca de quinze séculos antes, quando povos de origem indo-européia começam a chegar em território grego. Aqui, novamente podemos perceber ecos da historiografia dos Annales nas pesquisas desse autor, já que uma concepção historiográfica que procura abordar os fenômenos históricos levando em conta o nível mais profundo das mentalidades, necessariamente deve procurar balizá-los dentro de uma temporalidade de longa duração.
Nesse sentido, é já por volta do século XX a. C. que a civilização micênica, oriunda dos pelasgos, habitantes primitivos da Grécia, passa sistematicamente a entrar em contato com povos indo-europeus que incursionam na Hélade. A partir desse momento começam a se observar mudanças significativas que afetam a história da Grécia e que acabarão por determinar outras formas de organização política, econômica, social e cultural bem diferentes daquelas vigentes até então.
No final do Período Pré-Homérico (século XII a. C.) os dórios chegam à Hélade. Povo guerreiro por excelência, conhecedor da metalurgia do ferro, algo inédito na Grécia até aquele momento, são os responsáveis pela Primeira Diáspora Grega.
Até essa época, o mundo grego tinha sua organização político-administrativa voltada em torno do palácio do ánax, o grande rei. Com a chegada dos dórios, esse sistema dará lugar aos genos, um tipo de organização social fundada sob linhagens de parentesco que determinava solidariedades políticas e judiciais, precursora da cidade3. É também nesse momento que surge na Grécia Antiga uma primeira forma de sabedoria humana, de reflexão moral e de especulação política já um pouco mais distanciadas do mito.
Na aurora do século VII a. C., o crescimento populacional, a dispersão dos gregos por toda a bacia do Mediterrâneo e a partilha dos genos, – a Segunda Diáspora Grega – dão origem à mais importante instituição da Antiguidade grega, aquela cuja forma de organização política, administrativa, religiosa e militar, dará a tônica da história da antiga Grécia durante seu apogeu e crise, o Período Clássico, que abrange os séculos V e IV a. C. Trata-se da pólis.
Nessa parte de seu brilhante estudo, em um belíssimo capítulo denominado "O universo espiritual da pólis", Vernant concentra a reflexão sobre esse mesmo universo, marcado essencialmente pela ligação íntima entre logos, a razão e a atividade política. É um período no qual a vida pública – refletida no debate político na ágora, nas trocas comerciais realizadas no mercado (asty) e o consequente aparecimento das moedas, na laicização e expansão das formas de religiosidade ao espaço externo, até então assunto privado, restrito ao interior dos templo e na organização racional e geométrica do périplo urbano – adquire uma importância cabal para os antigos gregos.
Assim, o pensamento racional vai se elaborando e se desenvolvendo em torno desse novo tipo de organização que afeta todas as dimensões históricas. É nessa época que os filósofos da Escola de Mileto e posteriormente os pitagóricos e os sofistas formulam pensamentos que visam explicar a formação do Universo, não mais a partir dos mitos, como por exemplo em Hesíodo, (Teogonia e Os trabalhos e os dias) onde o sobrenatural, o divino e a hierarquização entre homens e deuses definem o mundo, mas a partir de elementos passíveis de racionalidade, como a água, o ar, ou o número.
Tendo chegado a esse ponto, cumpre-se por bem antes de continuar, fazer duas importantes considerações. A primeira delas é ressaltar que seria errado pensar que a razão abandona por completo os mitos, ao contrário disso, o pensamento racional, muitas vezes, resgata os elementos míticos de forma a lhes dar uma reinterpretação política. Na atividade militar, o herói, figura singular presente nas epopéias, é, no tempo da pólis, transformado no demos, isto é, a coletividade de cidadãos, à qual é atribuída a heroicidade e a honra das batalhas, aludindo desse modo, aos mitos da bela morte e da autoctonia ateniense, exemplos que o bom cidadão deve seguir para que se torne imortal na memória cívica. Como bem escreve Vernant, existem zonas de sombra em que a razão não possui poder de explicação, terreno onde os mitos sobrevivem e encontram refúgio seguro.
Portanto, como já discutido anteriormente, no Período Clássico os mitos não servem mais para explicar a gênese do Universo, mas ainda são muito úteis para legitimar e dar exemplos no campo da ação política, atividade de caráter racional. Em segundo lugar, essas reflexões são pertinentes apenas quando se pensa em Atenas e em algumas outras cidades de sistemas políticos semelhantes, em outras, caso de Esparta, as características são bem diferentes e não são objeto do estudo em questão.
Seguindo adiante, Vernant discute a respeito da crise da cidade, iniciada já no século V a.C. com a guerra do Peloponeso e a derrota ateniense e agravada no século seguinte pelos sucessivos reveses da principal cidade grega, além do quadro geral de fragmentação em todo o mundo helênico. O problema que se coloca é como entender a pólis, instituição que deve manter a harmonia da sociedade conservando seu aspecto de unidade, em contraponto com a multiplicidade de categorias sociais. Daí advém o conflito entre Eris X Philia, discórdia contra harmonia, resultando em um dos temas mais debatidos pelos historiadores da Grécia Antiga, ou seja, a democracia ateniense é algo que deve ser compreendido indissociavelmente ou não de seu imperialismo e de sua estabilidade política?
O autor defende a idéia de que se deve buscar a chave para essa resposta na compreensão do pensamento filosófico do século IV a. C., pautado pela discussão sobre a cidade ideal e sobre as formas de conhecimento mais eficazes no intuito de manter a coesão política e a ordem cívica, reflexo direto do contexto de decadência em que Atenas se encontrava. Aqui, duas figuras de peso travam um embate que até hoje alimenta discussões intensas no campo da filosofia e da história das idéias e do pensamento; Platão, discípulo de Sócrates e sistematizador de todo o seu legado oral, defensor da Filosofia e da busca do Bem como caminhos únicos para a retidão do homem, e Isócrates, mestre da retórica, para o qual as discussões filosóficas apenas contribuíam para idealizações menos importantes no dia-a-dia da pólis.4
O leitor desta resenha talvez já tenha podido perceber que em As origens…, Vernant traça um perfil rico e abundante em sutilezas, que considera a história da cidade grega desde tempos bem anteriores ao seu próprio surgimento, para daí, resgatar minuciosamente cada elemento histórico específico, cada quadro de pensamento, cada personagem significativo partícipe do longo processo histórico-espiritual que fez desembocar na pólis clássica. Tal rigor analítico e riqueza de detalhes e dimensões, faz parte do argumento em defesa do pensamento racional, de matriz grega e pilar fundamental do Ocidente, não como algo dado por uma simples revelação pontual ou por um capricho de ordem transcendental, mas baseado em antecedentes históricos, de modo a ter que se considerar aspectos políticos, econômicos, filosóficos, psicológicos, culturais e mentais.
Assim, seguindo a reflexão de Vernant, observa-se que a lógica da argumentação e a coerência que o autor busca, visam refutar a tese de que o pensamento racional floresceu na Grécia Antiga obedecendo ao "milagre grego", que teria escolhido os gregos por uma espécie de gênio metahistórico que concebera a estes a primazia de pensar racionalmente, apartando-os radicalmente da mitologia. Antes, foi o lento desenrolar da história, evidentemente não-lógico aprioristicamente e, por assim dizer, a ação humana que levou ao universo racional da pólis.
Se o elemento político nos salta aos olhos como o mais substancial e emblemático nesse processo, é porque o logos mantinha em tal contexto uma estreita relação com a atividade política, que se estendia inclusive ao campo religioso – daí a religião assumir essencialmente um caráter cívico na Antiguidade Clássica, característica que duraria até o advento da religião cristã. Cabe lembrar inclusive, que foi o próprio declínio do ideal cívico-político que custou a degradação e o desabamento da pólis.
Quando Aristóteles definiu o homem como "animal político", quis exatamente dizer que a razão é fundamentalmente política, ligada às novas formas de organização da ordem humana no interior da cidade, mas não que o processo histórico que a ela conduziu não comportasse várias outras dimensões. A razão é a arte do político que age sobre os homens, filha direta da pólis.5
A essa altura talvez já seja redundância destacar a importância de As origens do pensamento grego como leitura indispensável para aqueles que desejam entender a história do pensamento racional na Grécia Antiga, assim como o funcionamento da pólis, instituição máxima dessa civilização. Todavia, a insistência é pequena quando estamos a tratar de uma obra de tamanha qualidade, erudição e inovação historiográfica, já há muito tornada um clássico dos estudos em Antiguidade.
NOTAS
1. VERNANT, Jean-Pierre, As origens do pensamento grego, Rio de Janeiro, Difel, 2002.
2. Ver nesse sentido o livro de BURKE, Peter, A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia, São Paulo, UNESP, 1997.
3. Para tanto, ver o verbete "genos", em MOSSÉ, Claude, Dicionário da civilização grega, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004, pp. 145-6.
4. Uma discussão muito importante sobre isso pode ser encontrada em JAEGER, Werner, Paidéia, São Paulo, Martins Fontes, 2001, pp. 475-998, 1177-213 e 1253-374 .
5. Nesse ponto, a ressalva única ao estudo de Vernant, já que o autor não considera a razão como transformadora da natureza, mas, dado seu cunho político, permite o agir humano. Nesse segundo ponto, obviamente Vernant está correto, porém, em seu livro Uma história da razão, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994, o filósofo François CHÂTELET apresenta argumentos bastante convincentes quanto ao aspecto transformador da razão, – legado grego – além da atividade cívico-política, até porque as transformações puderam partir justamente da dimensão política, para daí se espraiarem em direção a outras áreas. Talvez a razão não transforme a natureza diretamente, mas proporcione mudanças extremamente significativas nas relações dos homens com a mesma e com o mundo. Ver sobretudo as páginas 15-33 da obra de CHÂTELET, embora o livro inteiro seja importante.
BIBLIOGRAFIA
obra analisada:
VERNANT, Jean-Pierre, As origens do pensamento grego, Rio de Janeiro, Difel, 2002.
obras de referência:
BURKE, Peter, A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia, São Paulo, UNESP, 1997.
CHÂTELET, François, Uma história da razão, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994.
JAEGER, Werner, Paidéia, São Paulo, Martins Fontes, 2001.
MOSSÉ, Claude, Dicionário da civilização grega, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.
Leonardo Basilio Lourenço, professor formado em História pela PUC/SP

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

Desafio no fundo do mar

Petrobras e Unicamp estudam bactérias de poços de petróleo que degradam o óleo

Marcos de Oliveira

Petróleo da bacia de Campos

 

 

 

 

 

 

A exploração de petróleo nas profundezas dos oceanos engloba um obstáculo pouco conhecido e capaz de trazer muitas dificuldades para as empresas petrolíferas: é a presença de microrganismos que degradam o óleo. Eles representam um desafio a ser superado, além das forças da natureza como as correntes marítimas e a pressão no fundo do mar que impõem o uso de tecnologias de ponta para a instalação de plataformas. Tanto nos reservatórios como na água existente dentro dos poços de petróleo vivem várias espécies de bactérias que se alimentam e degradam o óleo e ainda secretam biofilmes, estruturas moleculares usadas por elas para se proteger de agentes tóxicos e se fixar naturalmente em rochas e sedimentos.
Com o início da produção submarina, os biofilmes, que também podem ser formados pela aglutinação das próprias bactérias, começam a se fixar em plásticos e metais. Essas estruturas de tamanhos micrométricos se acumulam e atingem espessuras de até 4 milímetros (mm). “O problema é que esses biofilmes prejudicam a exploração petrolífera porque eles grudam no interior das tubulações e corroem os dutos que são equipamentos de difícil limpeza”, diz a professora Anita Marsaioli, do Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que participa de vários projetos em conjunto com a Petrobras na identificação e estudo dessas bactérias e das enzimas que elas produzem.
Na degradação, uma parte do petróleo com grande valor comercial é destruída parcial ou totalmente, reduzindo assim o seu valor comercial. “As bactérias transformam os hidrocarbonetos em ácidos graxos tornando o óleo mais pesado e com qualidade inferior”, diz Anita. O melhor conhecimento dessa população de bactérias e das condições que lhes são favoráveis vai contribuir para a elaboração de estratégias para a empresa reduzir o risco na exploração e agir de forma a detectar e antecipar os problemas na produção. Existe também um imenso potencial para o uso futuro de alguns desses microrganismos para limpar, por meio de técnicas de biotecnologia, o petróleo derramado de oleodutos, plataformas e navios de transporte. “Sabemos da existência de bactérias, por exemplo, que produzem biossurfactantes com dupla função, para inibir o crescimento de outras espécies de bactérias, o que é bom, e ao mesmo tempo dissolver o petróleo.” Os biossurfactantes são moléculas produzidas pelas bactérias que reduzem a tensão superficial da área fronteiriça entre água e óleo nos reservatórios facilitando a mistura desses líquidos e a posterior degradação do petróleo.

Os estudos realizados na Unicamp em parceria com o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes) da Petrobras são feitos com a água e o petróleo extraídos da bacia de Campos. As bactérias vivem tanto na área entre o óleo e a água existente nos poços como em separado em cada um desses ambientes, em profundidades de 2.800 metros de profundidade a partir da lâmina d’água, conforme já estudado até aqui, em temperaturas próximas a 80° Celsius, como no Campo Pampo, posicionado a quase 100 quilômetros da costa do Rio de Janeiro. “Para estudar esses materiais nós recebemos direto das plataformas amostras de água e óleo em recipientes de vidro lacrados e depois, nos laboratórios aqui em Campinas, fazemos o cultivo dessas bactérias em vários meios”, conta Anita.

Entre as razões científicas de estudo dessas bactérias está o de saber se elas são aeróbias ou anaeróbias. As primeiras precisam de oxigênio para viver enquanto as segundas não. Isso é fundamental para entender a formação dessas bactérias e os meios de lidar com elas no ambiente de exploração petrolífera. “O reservatório de petróleo é um ambiente anaeróbio, mas acreditamos que possa existir microambientes onde o oxigênio é produzido principalmente pela penetração de água no interior das jazidas ou por reações químicas”, diz Anita. No trabalho realizado pelo grupo, que inclui o geólogo Eugênio dos Santos Neto, da Petrobras, já foram identificadas e avaliadas 29 bactérias dos dois tipos e grande parte delas mostrou tendência à biodegradação do petróleo. Os estudos até aqui mostram que as linhagens de bactérias com boa produção de biofilmes, do grupo das aeróbias, não degradam o petróleo.
Os pesquisadores trabalham com a hipótese de que as relações de convivência entre as bactérias aeróbias e anaeróbias, como, por exemplo, biofilmes sendo produzidos pelas primeiras podem servir como uma “esponja” de oxigênio e agir para aumentar ou diminuir a atividade degradadora das outras. Toda a coleção de bactérias encontradas nos poços e analisadas, muitas ainda desconhecidas da ciência, faz parte de uma coleção da Petrobras mantida pela Unicamp.
As atividades do grupo de pesquisa incluem a participação dos professores Luzia Koike e Francisco Machado Reis, do IQ da Unicamp, e a professora Valéria Maia de Oliveira, do Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPBQA), da mesma universidade. Desde 2003, o grupo já obteve mais de R$ 10 milhões para pesquisas, em recursos do Fundo Setorial do Petróleo (CTPetro) e da Rede Temática de Geoquímica, uma das redes tecnológicas da Petrobras, mantidas com recursos da própria empresa equivalentes a 0,5% da produção de petróleo em campos de alta produtividade que, por lei federal, devem ser destinados às pesquisas em parcerias com as universidades.

Artigo científico
Cruz, Georgiana F. da; Santos Neto, E.V.; Marsaioli, A.J. Petroleum degradation by aerobic microbiota from the Pampo Sul Oil Field, Campos Basin, Brazil. Organic Geochemistry. v. 39 p. 1.204-1.209, 2008.

Os projetos
1. Ampliação das infraestruturas analíticas em química, metagenômica e biocatalítica do grupo de geoquímica orgânica do Instituto de Química e da Divisão de Recursos Microbianos do CPQBA da Universidade Estadual de Campinas
2. Estudo multidisciplinar de biodegradação
Modalidade
1 e 2 Rede Temática
Coordenador
1 e 2 Francisco Machado Reis – Unicamp
Investimento
1. R$ 3.504.189,57 (Petrobras)
2. R$ 3.101.932,51 (Petrobras).

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

O computador e a inteligência

Escrita, imprensa, novas tecnologias: a humanidade nunca deixou de estocar sua memória. Até surgir o computador. Ele vai substituir nosso cérebro?

Michel Serres

Não conheço nenhum ser vivo de que não se possa dizer que estoca, trata, emite e recebe informação. Esse quádruplo característico é tão próprio aos seres vivos que ficaríamos tentados a definir a vida dessa maneira. No entanto, os contra-exemplos são abundantes, já que também não conheço nenhum objeto no mundo de que possamos dizer que estoque, trate, emita e receba informação. Esse quádruplo característico é então comum a todos os objetos do mundo, vivos ou inertes. Dito isso, tampouco conheço associação humana de que não possamos dizer novamente que estoca, trata, emite ou recebe informação.

Eis então uma característica comum às ciências humanas e exatas, de modo que, no dia em que inventamos um objeto que estoca, trata, emite ou recebe informação, refiro-me ao computador, inventamos uma ferramenta universal. Ele é universal porque imita o comportamento de todos os objetos desse mundo sobre o qual acabo de falar. Quando falei do quádruplo característico, tinha em mente um par entre um suporte e uma mensagem. Esse par tem uma história e peço que a analisem comigo.

Na época do estágio oral, nós nos reuníamos à noite para ouvir cantar os contadores gregos chamados aedos. Estes tinham naquela época uma memória considerável, pois eram capazes de contar as viagens de Ulisses em mais de 5.000 versos. Os contadores gregos tinham memória. A invenção da escrita representa uma primeira catástrofe, pois vem acompanhada então de uma perda de memória significativa.

Essa perda de memória nada tem a ver com a catástrofe da Renascença, quando a invenção da imprensa fez os contemporâneos perderem a memória. Temos provas nos textos de Montaigne em que ele afirma que prefere "uma cabeça bem feita a uma cabeça cheia". Ele quer simplesmente dizer que um historiador daquela época que quisesse trabalhar em sua disciplina era obrigado a saber de cor a totalidade da biblioteca, pois esta não era acessível alhures, mas apenas em algumas outras bibliotecas do mundo. Com a chegada da imprensa, basta conhecer o lugar em que está o livro. É uma catástrofe para a memória.

Por conseguinte, com a quase totalidade da informação posta à disposição hoje na tela, não precisamos mais de memória e não a temos mais, aliás. Cada vez que inventamos uma ferramenta, o organismo perde as funções que externa através da ferramenta. A escrita e a imprensa eram memórias. Hoje dispomos de memórias superiores a nossos precedentes: perdemos a memória subjetivamente, mas ela não é externada objetivamente. Eu chamo esse fenômeno de "ex-darwinismo da técnica". Há exteriorização dos objetos e esses objetos evoluem no lugar de nossos corpos.

Para terminar, falarei de todas as faculdades em geral. No século II de nossa era, um imperador romano decretou que os cristãos seriam perseguidos e executados em toda a face do Império. Uma noite, em Lutécia [Paris], os primeiros cristãos que acabavam de eleger um bispo chamado Denis, uniram-se numa sala. Quando eles escutavam seu bispo, a legião romana penetrou na sala, um centurião subiu pela escada externa e cortou a cabeça do bispo Denis, que rolou no chão.

Estupefação, pavor, mas milagre: o bispo Denis abaixa-se, pega a própria cabeça com as mãos e a apresenta a suas ovelhas enquanto os legionários, apavorados, fogem diante do que chamamos desde então do milagre de São Denis. Eis a história pela qual eu queria terminar. Quando, de manhã, vocês se sentarem diante de seus computadores, vocês terão diante de si sua cabeça, como a de São Denis. Com efeito, as faculdades de que acabo de lhes falar se encontram em sua cabeça: a memória, a imaginação, a razão, milhares de programas para finalizar operações que não se fariam sem sua cabeça. Entretanto, sua cabeça está objetivada. Você perdeu a cabeça. Para parodiar o título do romance de Robert Musil, eu chamaria com prazer o homem moderno de "o homem sem faculdades". Você perdeu essas faculdades, mas elas se encontram todas diante de vocês.

A questão que persiste é a seguinte: o que nos resta sobre o pescoço? Eu terminarei por uma palavra catastrófica: as novas tecnologias nos condenaram a nos tornar inteligentes. Já que temos o saber e as tecnologias, condenaram-nos a nos tornar inventivos, inteligentes, transparentes. A inventividade é tudo o que nos resta. A novidade é catastrófica para os ranzinzas, mas é entusiástica para as novas gerações, pois o trabalho intelectual é obrigado a ser inteligente e não repetitivo como o foi até agora.

                                        —————-

O texto acima é resultado de uma conferência proferida pelo filósofo francês em dezembro de 2007, cuja íntegra se encontra no sítio de internet http://interstices.info/m-serres-lille

O último da série

Michel Serres nasceu em 1930 e entrou para a Escola Naval em 1940. Em 1952, ingressou na Escola Normal Superior, onde obteve, três anos depois, o mestrado em filosofia. De 1956 a 1958, serviu na marinha francesa, quando teve a oportunidade de participar da reabertura do canal de Suez. Defendeu tese de doutorado em 1968, passando depois a ensinar filosofia nas universidades de Clermont-Ferrand, Vincennes, Paris e Stanford.

Em seus numerosos escritos, interessa-se, entre outras coisas, por história das ciências. Eleito para a Academia Francesa em 1990, é também comendador da Legião de Honra. Epistemólogo, preocupa-se com a educação e a difusão do saber e visa à popularização do conhecimento científico. O texto do filósofo Michel Serres encerra uma parceria iniciada em novembro de 2007, quando Educação começou a publicar, com exclusividade, artigos e reportagens produzidos pela revista francesa Le Monde de L´Éducation.

A parceria se encerra em função da mudança do formato da publicação, que passou de revista mensal a suplemento, também mensal, no diário francês Le Monde. Durante este ano e meio, os textos do Le Monde proporcionaram aos leitores de Educação um olhar amplificado de questões da educação mundial. A seus realizadores desejamos boa sorte em sua nova empreitada.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao. ol.com.br

Pediatra investiga desenvolvimento de bebês que nascem pequenos para a idade gestacional

RAQUEL DO CARMO SANTOS

Bebês que nascem pequenos para a idade gestacional – ou PIG, como também são chamados pelos especialistas – possuem desenvolvimento neurológico distinto daqueles nascidos com peso e medida normais no primeiro ano de vida. A investigação foi feita pela pediatra Maura Mikie Fukujima Goto, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), que avaliou 33 bebês PIG, comparando-os com outras 62 crianças que constituíram um grupo controle. Pela pesquisa, orientada pela professora Maria Valeriana Leme de Moura Ribeiro, o desempenho global dos bebês PIG não apresentou diferenças significativas que pudessem ser consideradas como atraso no desenvolvimento, mas houve diferenças em pontuações específicas de algum tipo de atributo em relação aos do grupo controle.

“O objetivo foi verificar se, nos primeiros meses de vida, estas crianças apresentariam algum tipo de distúrbio que caracterizasse um desenvolvimento diferenciado de bebês que nasceram com tamanho adequado. Não podemos afirmar que os bebês PIG possuem problemas neurológicos no primeiro ano de vida. Mas, o estudo demonstra que é evitar problemas nas idades futuras dessas crianças, uma vez que foi constatado que o desenvolvimento é distinto em relação aos bebês normais”, explica a pediatra.
Os bebês PIG são assim denominados por sofrerem algum tipo de restrição de crescimento já no útero materno. Mães fumantes durante a gestação, com hipertensão arterial ou com quadro de desnutrição podem ocasionar o nascimento de um bebê PIG. Ao contrário do que se pode imaginar, o pequeno para idade gestacional não necessariamente nasce com baixo peso ou prematuro. Mas, a grande maioria dos bebês PIG são também baixo peso, ou seja, nascem com menos de 2,5 quilos.
No Brasil, como não há avaliação rotineira da idade gestacional em todas as maternidades, as estatísticas identificam com maior freqüência os bebês de baixo peso e não os nascidos PIG. Os de baixo peso representam 10% dos nascidos vivos. “Trata-se de um número preocupante e um indicativo de que também se deveria atentar para os bebês PIG logo ao nascimento”. Na literatura, explica Maura, vários trabalhos indicam problemas neurológicas em crianças que nasceram pequenas. Mas, poucos estudos focam a avaliação no primeiro ano de vida da criança. “Tanto na fase intra-uterina quanto nos primeiros meses de vida, as estruturas cerebrais são desenvolvidas em uma velocidade alta, por isso decidi avaliar o desempenho dos bebês ao longo de um ano e tentar detectar alterações que possibilitassem uma intervenção o mais cedo possível”, argumenta. O estudo contemplou avaliações, através da escala americana Bayley de desenvolvimento infantil, desde o nascimento com medidas mensais até o terceiro mês e, depois, no sexto e nono meses. A última avaliação ocorreu ao completar um ano de vida. 
A pediatra explica que quanto mais cedo a criança puder sofrer uma intervenção, melhor será o seu desenvolvimento nas idades subsequentes. Mesmo não tendo identificado nenhuma diferença significativa no desempenho global no primeiro ano de vida dos  bebês PIG, Maura acredita que a pesquisa serve de referência para se atentar para o período mais crítico da criança em que o cérebro está se desenvolvendo. Uma sugestão é ampliar o tempo de avaliação nos próximos trabalhos sobre o assunto. Neste sentido, seria interessante ressaltar a importância da vigilância do desenvolvimento nessas crianças consideradas com algum risco, uma vez que as alterações podem surgir em idades maiores, como, por exemplo, no período de alfabetização. A pesquisa faz parte dos estudos desenvolvidos pelo Grupo Interdisciplinar de Avaliação do Desenvolvimento Infantil (Giadi), que é coordenado pela neurologista Vanda Maria Gimenes Gonçalves.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Readequação do Estado ao capital. Crescimento da pobreza e da fome

Horacio Martins de Carvalho

A readequação do estado aos interesses do capital. O crescimento da pobreza e da fome no mundo. Parte I (1)

Se da vida nasce a vida,
é livre o sonho e a fantasia,
e nada impedirá a felicidade.

Poucas vezes se constatou na história da Humanidade tanta indiferença, hipocrisia e cinismo dos governos nacionais, dos organismos internacionais e das classes dominantes com relação a mais de um bilhão de pessoas em situação de pobreza e subalimentação.

As causas dessa pobreza e subalimentação são conhecidas, assim como as soluções prováveis. No entanto, como a superação das atuais condições de vida das pessoas pobres e subalimentadas se transformou num negócio sob a égide da racionalidade neoliberal, as iniciativas para equacionar tal exclusão social deixaram de ser uma questão de direitos universais para se reduzirem à mesquinhez da rentabilidade comercial das ações possíveis.

A crise financeira global que se está vivenciando mostrou que há recursos públicos disponíveis para salvar os bancos e as grandes empresas nacionais e transnacionais das consequências explícitas da especulação, da fraude e da sordidez em que os seus negócios se reproduziam e reproduzem. Porém, mantida a concepção de mundo da ideologia capitalista onde o valor central é a vida como negócio, será impossível se eliminar as causas dos sofrimentos das pessoas pobres e subalimentadas sem romper com o paradigma de sociedade em que se vive.

A superação dessa desumanidade exige ação integrada dos povos que desejam encontrar e instituir uma solução global que seja portadora de uma diversidade que contemple outros paradigmas para as sociedades de todo o mundo, e que sejam capazes de canalizar as esperanças e desejos de superação das causas das desigualdades sociais, das discriminações étnicas e as de gênero e incorporem uma nova relação dos homens com a natureza.

Essa busca de superação do modelo único imposto às atuais sociedades em todo o mundo pelos interesses de reprodução ampliada do capital deverá exigir cada dia mais que a resistência social e as propostas de alternativas para novas formas de sociedade sejam explicitadas no campo complexo e difícil da luta ideológica contra as concepções neoliberais do mercado desregulamentado e do Estado a serviço do capital.

Não seria em demasia recordar o que nos alertou Bantu Steve Biko(2) quando da explanação de suas idéias sobre a ‘consciência negra e a busca de uma verdadeira humanidade’: "(…) O negro quer, portanto, explorar por conta própria o ambiente em que vive e testar suas potencialidades — em outras palavras, conquistar a liberdade por quaisquer meios que considerar adequados. Na essência desse pensamento está a compreensão dos negros de que a arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente dos oprimidos. Se dentro do nosso coração estivermos livres, nenhuma corrente feita pelo homem poderá nos manter na escravidão; mas se nossa mente for manipulada e controlada pelo opressor a ponto de fazer com que o oprimido acredite que ele é uma responsabilidade do homem branco, então não haverá nada que o oprimido possa fazer para amedrontar seus poderosos senhores. Por isso, pensar segundo a linha da Consciência Negra faz com que o negro se veja como um ser completo em si mesmo. Torna-o menos dependente e mais livre para expressar sua dignidade humana. Ao final do processo, ele não poderá tolerar quaisquer tentativas de diminuir o significado de sua dignidade humana."

É sugiro que tenhamos presente na leitura deste texto a convicção de Miguel Palacin Quispe(3), Comunitário de Vicos e Coordenador Geral da CAOI(4), quando afirma que (…) Mantemos nosso apego à terra, montanhas, bosques, lagos, à Pachamama (em Runa Simi) ou Ñuque Mapú (em Mapuche); mantemos nosso ‘mandar obedecendo’ pelo qual nossas autoridades devem escutar e obedecer muito à comunidade antes de querer nos dirigir; e desde aí, desde nossas reservas comunitárias respondemos que já é hora de terminar este longo velório do Estado Uni Nacional e de enterrá-lo, de substituí-lo por novos Estados PluriNacionais, Comunitários, de Unidade na Diversidade, com políticas públicas que procurem a harmonia entre Natureza, Sociedade e Cultura, o que chamamos o Sumaq Kawsay em Quechua, Sumaq Qamana en Aymara".

1. POBREZA E FOME NO MUNDO

No dia 2 de abril deste ano (2009) os chefes de Estado, presidentes da república e monarcas dos paises que constituem o denominado G20(5), reunidos em Londres, Reino Unido, apresentaram ao mundo um plano global numa escala inédita(6) para enfrentar a crise financeira mundial. Segundo os principais pontos desse plano se pretende, como uma das soluções básicas para a crise financeira, reforçar os organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional – FMI, o Banco Mundial – BM e a Organização Mundial do Comércio – OMC, ou seja, foram definidas mais ações favoráveis à afirmação e fortalecimento do mercado e da concorrência desigual como fundamento para a reprodução das sociedades sob a égide do capital financeiro mundializado. Afirmaram que "(…) nós somos confrontados com o maior desafio lançado à economia mundial dos tempos modernos… Uma crise mundial exige uma solução global"(7). A solução global é mais neoliberalismo e mais exclusão social.

Os principais pontos desse plano global ignoraram a questão agrícola mundial, ainda que, "(…) segundo a FAO(8), mais de um bilhão de pessoas vão sofrer de subalimentação em 2009, contra 963 milhões no final de 2008 (…)(9). E essa atitude além de evidenciar absoluto desprezo com relação à população pobre e em situação de subalimentação em todo o mundo, quiz mostrar a todos que a crise financeira seria uma problemática restrita aos bancos, aos interesses do capital financeiro. Ademais, aparentaram desconhecer que o Relatório preparado para a reunião sobre agricultura do G8(10) (países esses que integram o G20) já estava elaborado para a reunião desse Grupo que se realizaria logo a seguir entre os dias 18 a 20 de abril deste ano na Itália, e no qual se alertava para o agravamento da crise agrícola e do aumento da pobreza no mundo. De acordo com a própria FAO, seriam suficientes 30 bilhões de euros por ano para o combate à fome, reavivando a agricultura camponesa em todo o mundo.

No final de 2008 a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina, da ONU) já havia alertado para a frustração das iniciativas governamentais e privadas para a redução das desigualdades sociais. "Já passou metade do prazo de 15 anos para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM (um conjunto de metas socioeconômicas que os países da ONU, o Brasil inclusive, se comprometeram a atingir até 2015 – HMC). Os resultados globais demonstram que, apesar dos importantes avanços, ainda há muito a ser feito. Hoje, temos certeza de que o alcance dos ODMs só será efetivo se conseguirmos reduzir as desigualdades entre países, regiões, mulheres e homens, brancos, negros e indígenas, ricos e pobres. E também se houver novos consensos para evitar fatores como as mudanças climáticas e a crise alimentar mundial, que ameaçam reverter os progressos já feitos (…)"(11)

Ora, como se comentará mais adiante, tudo leva a crer que o esforço realizado nesses últimos anos foi exatamente no sentido contrário àqueles necessários para se alcançar os supostos ‘Objetivos do Milênio’, pois, a readequação dos Estados Nacionais, assim como dos organismos multilaterais, para facilitarem a omnipresença da concorrência desigual e dos mercados oligopolizados em todos os setores da economia mundial, caminhava em sentido oposto àquele da redução das desigualdades sociais e do número de pessoas em situação de pobreza e subalimentação. Segundo Diouf (Diretor da FAO), no final de 2008(12) havia 963 milhões de pessoas subalimentadas, sendo que esse número aumentou em 2008 em aproximadamente 37 milhões de pessoas e em 2007 já havia sido ampliado de 75 milhões de pessoas. O mais dramático é que a expectativa desse Diretor da FAO é que em 2009 a esses 963 milhões de pessoas deverão ser acrescidas mais 104 milhões, alcançando-se então um total, no final de 2009, um total de 1,067 bilhão de pessoas subalimentadas em todo o mundo.

Diouf afirmou, ainda, que a insegurança alimentar afeta principalmente 32 países no mundo e que eles precisam de uma ajuda urgente, alertando que a produção alimentícia mundial tem que ser multiplicada por dois. Esse Diretor, na ingenuidade consentida da tecnocracia dos organismos multilaterais a serviço do grande capital, também exortou os países ricos a cumprirem suas promessas em matéria de ajuda aos países pobres. "Não se pode comparar o trilhão de dólares concedido pelos governos para resgatar o setor financeiro com as somas que são necessárias para permitir às pessoas satisfazerem sua necessidade mais fundamental, o ato de se alimentar"(13). Todavia a pobreza está presente em todos os paises do mundo, principalmente, mas não somente, naqueles do hemisfério sul e na maioria dos paises da Ásia. E é na pobreza que a fome se revela.

"(…) A instituição (CEPAL – HMC) entende a pobreza como um fenômeno multidimensional, que associa subconsumo, desnutrição, condições precárias de vida, baixa escolaridade, inserção instável no mercado de trabalho e pouca participação política e social. A pobreza é o resultado de um processo social e econômico de exclusão social, cultural e política. (…) Nos últimos anos houve uma evolução das concepções de pobreza para além da carência de renda, na direção de conceitos mais abrangentes tais como: desigualdade, exclusão social e vulnerabilidade. A desigualdade proveniente da estrutura econômica continua sendo a primeira razão da pobreza. Desigualdade de renda, desigualdade de acesso, desigualdade de meios, desigualdade na detenção de ativos."(14)

"(…) A exclusão aparece menos como um estado de carência do que como uma trajetória ao longo da qual, a insuficiência de renda e a falta de recursos diversos somam-se às desvantagens acumuladas pelas pessoas no seu cotidiano miserável. São processos de rupturas, situações de desvalorização social, advindas da perda de status social e da redução drástica das oportunidades. Substituir o enfoque de pobreza pelo de exclusão é levar em consideração a vivência de insegurança, o excluído não controla seu futuro. Esta tem conotação negativa, significa má integração, seja pelo lado do sistema produtivo, seja pelo lado do padrão de consumo. A tônica da exclusão é dada pelo empobrecimento das relações sociais e das redes de solidariedade (…)"(15)

"(…) Na perspectiva cepalina (da CEPAL – HMC) pobreza e exclusão são fenômenos que atingem de forma diferenciada os sexos. Para as mulheres esta realidade de carências é mais aguda, uma vez que elas realizam uma gama enorme de atividades não remuneradas, seja no âmbito mercantil, seja no seio da família, pela dedicação às atividades do lar que as fazem ser majoritariamente dependentes da provisão masculina para o sustento de suas famílias. Como dentro das famílias há um intenso processo de redistribuição de renda e como há uma variação das necessidades de consumo com a idade das pessoas e as ‘economias de escala’ nas despesas familiares que penalizam as mulheres, responsáveis pelo bem-estar familiar. (…)."(16)

"(…) O rosto feminino da pobreza (no Brasil – HMC) tem seus traços pintados com a dissolução dos laços familiares que provocou um aumento relativo das famílias cujas pessoas de referência são mulheres. Estas respondem por 27% das famílias pobres e 25% das indigentes. A dramaticidade destes dados fica acentuada quando se olha para as crianças, a proporção destas que vivem com o responsável sem cônjuge passou de 11,2% em 1991 para 16% em 2000 (3,6 milhões de menores), e 50% destas (1,8 milhões) vivem sós com responsáveis mulheres, sem cônjuges (…)".(17)

"(…) É importante assinalar que o FMI e sobretudo o Banco Mundial tem uma enorme responsabilidade na crise alimentaria já que são os que recomendaram aos governos do Sul suprimir os organismos de crédito público para os camponeses e colocaram os pequenos produtores agrícolas entre as garras dos financiadores privados (em geral grandes comerciantes), ou de bancos privados que aplicaram taxas de juros usurárias. Isso provocou o endividamento massivo dos camponeses, seja na Índia, na Nicarágua, no México, no Egito ou em numerosos paises da África subsaariana. Segundo as pesquisas oficiais, o sobreendividamento que afetou (a) os camponeses índios é a principal causa de suicídio de 150.000 camponeses na Índia durante os últimos 10 anos. É um país onde precisamente o Banco Mundial teve êxito em convencer às autoridades para que suprimissem as agências públicas de crédito aos agricultores. E isto não é tudo: durante os últimos quarenta nos, o Banco Mundial e o FMI estimularam os paises tropicais a diminuir sua produção de trigo, de arroz ou de milho para substituí-los por cultivos para a exportação (cacau, café, chá, bananas, amendoim, flores…). Finalmente, para completar seus trabalhos a favor das grandes empresas do agronegócio e dos grandes paises exportadores de cereais (começando pelos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental), conseguiram que os governos abrissem as fronteiras inteiramente para a importação de alimentos, que se beneficiaram das subvenções massivas do Norte, o que provocou a quebra de muitos produtores do Sul e uma forte redução da produção de alimentos para o consumo local (…)".(18)

Tanto o Banco Mundial – BM como o FMI mantém o cinismo no seu discurso no âmbito da racionalidade neoliberal. Assim é que no dia 22 de abril deste ano (2009) foi apresentado pelas duas organizações citadas o "Relatório de Monitoramento Global 2009", onde se afirma que mais de 1,3 bilhão de pessoas vivem na extrema pobreza nos países em desenvolvimento, com menos de US$ 1,25 por dia. John Lipsky, subdiretor do FMI, afirmou que o mundo desenvolvido está enfrentando uma situação de emergência e, segundo ele, a contração econômica mundial reverterá as conquistas na luta contra a desnutrição e tornará especialmente urgente a necessidade de investir no setor agrícola.(19) Mesmo assim, na reunião do G20, a abordagem relacionada com a questão agrícola resumiu-se a disponibilizar recursos para a proteção social dos paises mais pobres, ainda que mantendo a exploração que se realiza historicamente dos seus recursos naturais, o ajuste do perfil da produção destinada ao consumo interno para a agroexportação, a adoção de cima para baixo de um modelo tecnológico dependente dos insumos industriais e o controle dos mercados de alimentos pelas grandes empresas transnacionais do agronegócio.

"(…) no último informe sobre Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD sobre as mudanças climáticas há um número preocupante que ronda a cabeça das pessoas: em menos de 20 anos, 2,4 bilhões de seres humanos viverão em subúrbios indigentes, lugares onde os ocidentais ricos não colocariam para viver nem seus gatos. Limitando-nos aos subúrbios indigentes dos principais conglomerados urbanos da África, América Latina e Ásia, estima-se que neles mais de um bilhão de seres humanos ‘vivem’ em condições de pobreza duradoura, violência física, social e moral coletiva, exclusões de todo tipo e negação das normas mínimas de existência dignas da qualidade humana."
"Na realidade, estes assentamentos refletem o crescimento disfuncional das cidades e são os elementos fracos e mais vulneráveis de nossa atual civilização urbana. Enquanto Londres pode gastar 1,2 bilhão de euros anuais para se proteger contra os riscos das inundações, tempestades e outras catástrofes naturais, recentemente os subúrbios de Rangun e Bogolav na Birmânia foram assolados por um ciclone que deixou mais de 50 mil mortos. Seus habitantes eram, simplesmente, pobres."
"Voltando a atenção para os últimos 30 anos, a partir do momento em que os países do Norte impuseram as Políticas de Ajuste Estrutural ao resto do mundo, não há dúvida alguma de que nem as classes governantes do Norte nem as do Sul (submetidas às primeiras) têm alguma intenção de adotar medidas necessárias para promover o desaparecimento dos subúrbios indigentes e transformá-los em lugares civilizados para seres humanos. O cenário mais provável para os próximos 30 anos é o crescimento ‘inevitável’ dos milhares de milhões que integram a enorme população dos subúrbios indigentes do mundo’ (…)"(20)

Não somente aumenta em ritmo vigoroso a parcela das populações em situação de pobreza e de fome, como aumenta também a concentração e centralização das empresas transnacionais que exercem o controle sobre os mercados de alimentos em todo o mundo. "(…) as crises atuais tem um contexto de concentração crescente do poder corporativo, apropriação dos recursos naturais e desregulamentação ou leis a favor das empresas e especuladores financeiros, que aumentaram sem cessar nas últimas décadas. Em 2003, o valor global de fusões e aquisições foi de 1,3 bilhões de dólares. Em 2007, alcançou 4,48 bilhões de dólares. Na indústria de alimentos, o valor das fusões e compras entre empresas duplicou de 2005 a 2007, alcançando a 200 bilhões de dólares. O desastre financeiro terminou com algumas empresas, favorecendo oligopólios mais ainda fechados."(21)

A ofensiva das empresas transnacionais que são controladoras das tecnologias dos OGMs ( Organismos Geneticamente Modificados) e aquelas que participam do oligopólio dos mercados de alimentos tem pressionado não apenas os governos nacionais, mas, sobretudo os organismos multilaterais como o FMI, Banco Mundial, FAO e outros de caráter regional, a incrementarem seus esforços para a facilitação das mudanças nas leis, normas e procedimentos que possam impedir o ‘livre mercado’ de seus produtos e serviços, neste caso em especial as tecnologias que mantém sob domínio privados por patentes, mas que são ou deveriam ser de utilização pública como as sementes.

A Coréia do Sul (assim como o México, entre outros) é um dos mais marcantes exemplos de Estado-Cliente a serviços dos interesses estratégicos norte-americanos. A efetivação de Tratados de Livre Comércio – TLCs bilaterais com os Estados Unidos coloca não apenas os Estados Liberais desses países, mas a sua população, como reféns dos interesses dos governos e das grandes corporações transnacionais com sede nos EEUU.

"(…) Coréia do Sul é uma das nações que foi severamente afetada nos últimos tempos pela estratégia estadunidense de utilizar políticas de sanidade animal e vegetal para garantir o controle empresarial corporativo dos EEUU em todos os paises que o permitiram. Em março de 2007 se firmou um acordo bilateral secreto sobre organismos geneticamente modificados (OGMs ou transgênicos), lateralmente à rodada final de negociações do TLC EUA-Coréia do Sul. Esse acordo debilita substancialmente a capacidade da Coréia do Sul para regular o ingresso de transgênicos de origem norteamericana. Não é surpresa, então, que a Organização da Indústria de Biotecnologia com sede em Washington recebera com beneplácito o acordo, e que esse grupo provavelmente tenha sido consultado previamente."
"Quando a tinta da assinatura do acordo sobre transgênicos apenas estava secando já havia iniciado a aparecer componentes de cultivos transgênicos de origem norteamericana nas provisões de alimentos da Coréia do Sul. Até esse momento as leis sobre transgênicos, e especificamente as normas de rotulagem, haviam impedido basicamente o ingresso de transgênicos no país, exceto alguns utilizados em rações para animais, óleo de soja e molho de soja. Mas, ao final de abril de 2008, apenas cinco meses depois que a Coréia do Sul havia começado a aplicar o Protocolo de Biossegurança da ONU, quatro fabricantes locais de amido iniciaram a importar milho transgênico, argumentando que não tinham outra opção devido a que o preço do milho não modificado geneticamente havia disparado astronomicamente no mercado mundial. Em meio a protestos dos consumidores, esses fabricantes manifestaram que sua expectativa era comprar 1,2 milhões de toneladas de milho transgênico dos EEUU durante o ano."
"Coréia do Sul não é o primeiro país que renuncia ao seu direito soberano de fixar sua própria política sobre alimentos transgênicos sob as pressões dos EEUU. Tanto Índia como a China já haviam eliminado suas restrições às importações de transgênicos, sob ‘discussões’ bilaterais com EEUU. Tailândia revogou em 2004 sua legislação estrita sobre rotulagem de transgênicos quando os EEUU lhes advertiu que essa normativa afetaria suas negociações por um TLC. Depois, as empresas norteamericanas pressionaram o escritório do Representante Comercial dos EEUU (USTR), a fim de utilizar o TLC proposto com a Tailândia como elemento de persuasão para que os tailandeses autorizassem ensaios de campo com transgênicos. Na Malásia se deu um processo semelhante, onde os grupos de pressão empresarial dos EEUU tinham tratado de forçar o governo malaio a que abandonasse a idéia de impor a rotulagem obrigatória nos produtos transgênicos como pré-requisito para a assinatura do TLC proposto entre EEUU e Malásia".(22)

A ofensiva norteamericana pela liberação das pesquisas e a comercialização de OGMs ocorre em quase todo o mundo. Inclusive, um dos argumentos das corporações transnacionais que detém as patentes de várias plantas alimentares transgênicas é de que os alimentos transgênicos contribuirão para reduzir e, mesmo, acabar com a fome no mundo. Essa visão corporativa e oligopolista é compartilhada pela FAO e os outros organismos internacionais multilaterais como o Banco Mundial.

Na África, os produtos transgênicos já estão presentes em diversos países, sendo que na África do Sul já dominam há mais de dez (10) anos os cultivos como a soja e o algodão. "(…) A África do Sul foi o primeiro país do continente a adotar os OGMs e hoje é o oitavo no mundo em área plantada. Os transgênicos ocupavam 1,4 milhões de hectares no país, em 2006, segundo levantamento do Serviço Internacional para Aquisições de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA)… Um dos principais motivos para a expansão dos transgênicos na África do Sul é a facilidade que as multinacionais têm para fazer seus experimentos e comercializar os OGMs… Empolgados com o desempenho, pequenos e grandes fazendeiros só pensam em expandir as áreas de cultivo dos grãos modificados em laboratórios. Em um cenário favorável, as multinacionais do setor fazem do país de 47 milhões de habitantes um laboratório e uma vitrine para os transgênicos… No caso do milho, 44% dos grãos colhidos eram geneticamente modificados. A previsão é de chegar a 80% em 2010. O milho é a base da alimentação dos sul-africanos, principalmente a dos negros, 88% da população do país…. São os grandes produtores brancos que classificam os produtos e ditam os preços. Todo o algodão plantado por 4 mil pequenos fazendeiros negros de Kwazulu-Natal vai para a Makhatini Cotton Gin, empresa que tem a única descaroçadeira e reserva de água particular da região. Além de ditar preços e classificações, a Makhatini Cotton Gin vende sementes e defensivos agrícolas aos seus fornecedores."(23)

Clive James, fundador e presidente do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrobiotecnologia (ISAAA), afirmou em 2008 que "se todos nós trabalharmos juntos, vamos ganhar e sobreviver" e acrescentou que, no ano passado (2007), "23 países no mundo estavam aplicando a biotecnologia aos processos da agricultura para o cultivo de soja, algodão, milho e outros, mas esse número pode aproximar-se de 40 em 2015".(24)

As populações mais pobres dos países do Hemisfério Sul, assim com aquelas dos países asiáticos, como Índia, Paquistão, Tailândia, Birmânia entre outros tantos, se encontram submetidas à racionalidade dos interesses das grandes corporações transnacionais e dos governos historicamente colonizadores que por diversos tipos de pressões, desde as políticas até as militares, convertem os Estados Nacionais Liberais em Estados-Clientes, estes francamente favoráveis à dependência externa mesmo que isso condene a maior parte das populações desses países à pobreza e à subalimentação.

Esses Estados-Clientes além de facilitarem a realização da presença ostensiva e dos interesses das grandes corporações transnacionais nos seus países, realizam políticas compensatórias (ajudas sociais) que cooptam grande parte das direções das organizações populares da sociedade civil e submetem as populações mais pobres a um processo continuado e servil de subalternidade à racionalidade dominante. Um exemplo dessa prática é a aceitação passiva dos governos desses Estados-Clientes da ajuda alimentar norteamericana, como maneira de aplacar a fome das populações subalimentadas, ao mesmo tempo em as empresas transnacionais norteamericanos exploram os camponeses e os trabalhadores desses países e se apropriam dos recursos naturais neles existentes.

"(…) Não é de hoje que os Estados Unidos querem transformar o continente africano num quintal para disseminar suas sementes transgênicas e o excedente de sua produção de alimentos desse tipo. A maior parte da ajuda humanitária que a África recebe em forma de alimentos geneticamente modificados vem dos EUA, único país do hemisfério norte a impor ajuda ‘em espécie’, com uma política de comprar somente nos Estados Unidos os alimentos a serem doados, privilegiando a agricultura e as multinacionais estadunidenses."(25)

Nesse contexto histórico as desigualdades sociais são crescentes, ao contrário do que afirma a ideologia neoliberal dominante. Acentua-se a exclusão social, cultural e política de milhões de pessoas e se fragiliza as iniciativas populares de fortalecimento da sociedade civil em decorrência da subalternidade consentida (Estados-Clientes) a que se submetem os governos da maior parte dos países do Hemisfério Sul e da Ásia.

A construção da contraconsciência no sentido de se elaborar alternativas críticas à lógica neoliberal hegemônica é dificultada pelo avanço das forças favoráveis ao livre mercado e à concorrência desigual, como apregoam simultaneamente o FMI, OMC, FAO e Banco Mundial e os Estados-Clientes dependentes do capital estrangeiro.

Notas:

(1) Este texto foi elaborado em contribuição ao Diálogo dos Povos, iniciativa de estímulo ao diálogo sul-sul entre organizações e movimentos sociais e sindicais de diversos países da América Latina e da África Austral.
(2) Biho, Bantu Steve (1990). Escrevo o que quero (uma seleção dos principais textos do líder negro). São Paulo, Ática; Série Temas, volume 21 Sociedade e Política. p. 114-15.
(3) Quispe, Miguel Palacin (2008). Prólogo, in Estados Plurinacionales Comunitários. Op. cit. p. 3.
(4) CAOI: Coordinadora Andina de Organizaciones Indígenas.
(5) África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia, Turquia e União Européia.
(6) Le Monde. Un plan global à une échelle inédite… Le Sommet du G20. 4 avril de 2009, Diplomatie, p. 8.
(7) Le Monde, op. cit. p. 8 (tradução literal do autor deste texto – HMC)
(8) FAO: Food Agricultural Organization. Organismo das Nações Unidas – ONU.
(9) Le Monde. La crise alimentaire, un risque politique negligé. Planéte, 10 avril 2009, p. 4.
(10) G8: Alemanha, Canadá, França, Estados Unidos, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia.
(11) Emprego, Desenvolvimento Humano e Trabalho Descente: a experiência brasileira. Brasília, CEPAL/NUD/OIT, setembro de 2008, arquivo pdf. 91 p.; p. 8.
(12) Jornal do Commercio, PE.. ONU: crise provoca fome em mais de 100 milhões. Recife, 7 de maio de 2009.
(13) Ibidem.
(14) Melo, Hildete Pereira de (2005). Gênero e pobreza no Brasil. Relatório Final do Projeto Governabilidad Democrática de Género en América Latina y el Caribe. Brasília, CEPAL – SPM, cópia arquivo pdf. 47 p.; p. 7.
(15) Melo, op. cit. p. 8
(16) Melo, op. cit. p. 14
(17) Melo, op. cit. p. 43
(18) Tousssaint, Eric e Millet, Damien (2008). ¿Por qué un hambre galopante en pleno siglo XXI? ¿Cómo se puede erradicar? Bruxelas, CADTM, cópia arquivo, 4 p. (http://www.cadtm.org).
(19) Conforme Folha de São Paulo, edição on line. Crise pode levar até 90 milhões à extrema pobreza, aponta estudo. EFE, 24/04/2009. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u555726.shtml)
(20) Petrella, Ricardo. Não se deve combater os pobres, mas a pobreza. Comitê Internacional para o Contrato Mundial da Água. Louvain, Bélgica.
(21) Ribeiro, Silvia (2009). Los que se quieren comer el mundo: corporaciones 2008. México, ETCGROUP, 05 de janeiro. (www.etcgroup.org/es).
(22) GRAIN (2009). Normas sanitarias y fitosanitarias: ¿una estrategia para amañar el mercado de alimentos? Red por una América Latina libre de transgênicos. Boletín 326.
(23) Alves, Renato (2007). Transgênicos dominam África do Sul há 10anos, in: ÍROHÍN, jornal on line. Fonte: Correio Brasiliense, abril. (http://www2.correioweb.com.br/cbonline/economia/pri_eco_174.htm)
(24) Riera, Liliam (2008). Cientistas cubanos desenvolvem milho transgênico. Havana, in Gramna Internacional, dezembro. (http://www.granma.cu/portugues/2008/diciembre/juev11/50Maiz.htm)
(25) Felinto, Marilene (2008). EUA impõe transgênicos a africanos. (http://blog.controversia.com.br/2008/09/11/eua-impoem-transgenicos-a-africanos).

Horacio Martins de Carvalho professor. Engenheiro agrônomo e especialista em ciências sociais, atualmente membro da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA) e assessor da Via Campesina.

Fonte: Adital – http://www.adital.org.br

Como o homem mais rico do mundo juntou seus tostões

Ao contrário do mito do Tio Patinhas, que iniciou sua fortuna com uma única moeda, o megempresário mexicano, dono no Brasil da Claro e de muita coisa mais, já nasceu rico. E acumulou mais de 67 bilhões de dólares graças às suas excelentes relações com os círculos do poder.

Renaud Lambert

Quando lemos os perfis do mexicano Carlos Slim, que inundaram a imprensa depois que ele entrou para o primeiro lugar na lista das maiores fortunas do planeta, temos a impressão de que seu modo de vida parece mais próximo do de um mexicano comum do que de um integrante do jet-set, grupo pelo qual ele “só tem desprezo” [1]. “Não há nenhum sinal de ostentação exagerada nesse apaixonado por beisebol, que não usa computador, foge de jantares da alta sociedade, prefere pimentas a caviar e, durante muito tempo, dirigia o próprio carro” [2]. Tudo nele indicaria, portanto, “austeridade” e até “humildade” [3]. Tudo… exceto os números.

Segundo a revista Forbes, a fortuna de Slim chegou a 59 bilhões de dólares na metade de 2007. Mas, para o Sentido Comun, um site mexicano de informação econômica , a Forbesestaria ainda longe do total, pois o “Rei Midas”, como também é chamado, teria aproveitado uma oportunidade na bolsa para ultrapassar os 67 bilhões de dólares, acumulando um crescimento de aproximadamente 740% desde 2000 [4]. Naquela época, ele detinha “apenas” a 33ª fortuna do mundo. Porém, não dá para ter a medida exata do que representa toda essa fortuna sem colocá-la no contexto do México, onde 40% da população vivem com menos de dois dólares por dia. Com uma riqueza que ultrapassa um quarto do orçamento do governo, Slim conta com mais de 40% da capitalização total da Bolsa do México. Outro recorde absoluto: ele controla o equivalente a 8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país [5], enquanto que, na comparação, a riqueza de John D. Rockefeller nunca ultrapassou 2,5 % do PIB americano.

Assim, o retrato de Carlos Slim como “filho de um pequeno comerciante” [6] talvez corresponda menos à realidade do que à forma como o capitalismo moderno se apresenta, por meio de “percursos exemplares” de joões-ninguém cujo sucesso viria recompensar a competência e o trabalho. Essas “trajetórias” têm, de fato, o dom de levar aos “menos ricos” (de quem se poderia temer que acabassem se cansando das desigualdades, que não param de crescer) a esperança de um dia “chegar lá”. A revista Le Point abre, aliás, um de seus (diversos) perfis de Slim nos seguintes termos: “Quem não sonha em acordar uma manhã fazendo parte da grande família dos milionários? Seja confiante, isso ainda pode acontecer com você. Os novos milionários em dólar brotam como cogumelos” [7].

Segundo a mitologia capitalista, é por meio dessas predisposições intelectuais excepcionais – freqüentemente perceptíveis desde a infância! –, que se explica o “segredo” da fortuna dos heróis modernos. Apesar de ser provavelmente bastante inteligente, Slim, de fato, não se diferencia tanto da grande maioria dos freqüentadores das “listas Forbes” [8] e talvez deva a fortuna menos ao amor pelos números do que… ao seu nascimento e às suas amizades políticas.

Nascido rico, em 1940, depois de o pai, imigrante de origem libanesa, ter feito fortuna no comércio e no ramo de imóveis durante a Revolução Mexicana [9], Slim tornou-se rapidamente uma das principais fontes de financiamento do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México, sem concessões, de 1929 até 2000. O que não deixaria de lhe valer alguns favores em troca.

Em 1982, a queda do preço do petróleo desencadeou uma grave crise econômica no México. O presidente José López Portillo estatizou os bancos, não movido por uma súbita guinada socializante, mas com o intuito de “nacionalizar a dívida privada da oligarquia” [10]. No entanto, a elite tradicional se alarmou e liquidou seus ativos para abandonar o país o mais rápido possível. Sem passar pela mesma incerteza – afinal, seus amigos estavam no poder –, Slim aproveitou o pânico para arrematar algumas das empresas mais importantes, com um gosto especial por aquelas que vivem das encomendas estatais. Teria um belo lucro com elas. Assim, a Seguros de México, a principal seguradora do país, que ele comprou por 44 milhões de dólares, vale hoje 2,5 bilhões.

Mas foi graças a seu bom amigo Carlos Salinas de Gotari – eleito presidente em 1988 –, que a fortuna de Slim realmente decolou. No momento da “abertura econômica”, impulsionada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial (BM), Salinas, apesar de bastante condescendente em relação aos interesses transnacionais, procurou favorecer um capital autóctone capaz de resistir ao ataque das empresas americanas. Uma vontade menos “nacionalista” do que interessada em estabelecer ligações diretas com as futuras fontes de renda do país. Assim, o presidente beneficiou os maiores empresários com vista a atrair seus benefícios, ainda mais por ter chegado ao poder por meio de uma fraude eleitoral que não passou despercebida. Centenas de empresas estatais foram então vendidas, de preferência aos mais íntimos. De dois, em 1991, o número de bilionários mexicanos pulou para 24, em 1994, no final de seu mandato. O primeiro deles chamava-se Carlos Slim.

Em 1990, em parceria com a Southwestern Bell e a France Telecom, Slim comprou a empresa Teléfonos de México (Telmex), em circunstâncias mais do que problemáticas. Além do preço, que as autoridades mexicanas tiveram a delicadeza de manter em um nível bastante generoso (cerca de 2 bilhões de dólares por 20% do capital), as condições da venda pouparam a Slim os aborrecimentos da concorrência: “Enquanto países como o Brasil e os Estados Unidos dividiram seus monopólios estatais em diversas empresas, que fariam concorrência entre si, o México vendeu seu monopólio intacto, proibindo qualquer competição durante seis anos”, explica o Wall Street Journal [11].

Além disso, a Telmex foi agraciada com a única concessão de telefonia celular de envergadura nacional, enquanto suas concorrentes tiveram de se contentar com concessões limitadas a determinadas regiões. A companhia – que controla 90% das linhas fixas do país – é hoje a segunda sociedade latino-americana mais cotada na bolsa. Quanto à América Móvil – a filial encarregada de telefonia celular do Grupo Slim –, esta foi facilmente alçada ao quinto posto mundial do setor, com 70% do mercado mexicano e mais de 120 milhões de clientes em 15 países.

Mas o império do megaempresário não se limita apenas às telecomunicações. Quando acende a luz, coloca gasolina no carro, passa pelo caixa do supermercado, compra um disco, um livro ou uma barra de chocolate, fuma, viaja de trem, pratica esportes, assiste televisão, navega na internet ou usa papel higiênico, o mexicano médio está derramando seus “pesos” nos bolsos – profundos – de Slim. Seu conglomerado, o Grupo Carso, conta, efetivamente, com mais de 250 empresas, em setores tão diversos como cadeias de lojas de departamento (Sanborns), cigarros (Cigatam), minas e química (Frisco), estradas de ferro (Ferromex), cabos submarinos e tubulação em PVC (Condumex), plataformas de petróleo etc. Ou ainda o ramo dos computadores, no qual 3% da Apple, que Slim comprou – num golpe de sorte! – alguns dias antes do retorno de Steve Jobs ao comando da empresa, volta que provocaria uma alta de mais de 480 % no valor das ações. Presente na quase totalidade dos países latino-americanos – em especial no segmento das telecomunicações –, Slim teria recentemente decidido reforçar sua presença no setor agrícola, investindo em biocombustíveis no Paraguai.

No total, o Grupo Carso registra um faturamento que ultrapassa os 150 bilhões de dólares, emprega cerca de 120 mil pessoas, para os quais distribui folhetos conclamando a “aumentar a produtividade e reduzir os custos e as despesas” [12] – uma orientação devidamente colocada em prática. Enquanto se beneficia de um dos maiores crescimentos do planeta, o grupo dispensa a seus funcionários remunerações particularmente baixas, nas quais a parte relativa aos “bônus” ultrapassa freqüentemente 50 % do salário.

Dinheiro atrai dinheiro, o sucesso abre portas, o que, por sua vez, facilita o sucesso futuro. Assim, Slim joga bridge com Bil Gates (seu sócio), convive com os Rockefeller, o príncipe Charles, o ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe González (seu lobista no mundo todo) ou ainda o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, cuja campanha financiou (assim como a da pré-candidata democrata Hillary Clinton).

Herança, conivências políticas e exploração de funcionários: somando tudo, o “segredo” da fortuna de Slim repousa menos sobre um talento especial do que sobre os tradicionais fermentos da acumulação capitalista. Não que se possa ver nele, porém, um conservador antiquado! Ao contrário. A grande linha de ruptura passa, segundo ele, entre “a modernidade e o arcaísmo, não entre a esquerda e a direita” [13].

Assim, para a surpresa de alguns, Slim não esconde sua amizade com o presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva, com quem compartilha críticas ao neoliberalismo [14]. Os defensores da abertura econômica se convertem facilmente em protecionistas, uma vez que seu monopólio esteja constituído.

No México, os interesses de Slim subrepõem-se tranquilamente aos da nação. As tarifas cobradas pelo Grupo Carso ultrapassam as dos países vizinhos em 260% para conexões de internet, 312% para a telefonia celular e 65% para as linhas fixas, provocando, segundo o presidente do Banco Central mexicano, Guillermo Ortiz, um impacto direto sobre a “competitividade da nação” [15].

Seria preciso por tudo isto criticar o império de Carlos Slim? No México, ninguém se arrisca. Coluna vertebral da economia do país, o Grupo Carso tornou-se intocável. Com sua “generosidade”, o megaempresário tornou a classe política indulgente, financiando a totalidade dos partidos políticos, principalmente aqueles que se enfrentaram na última eleição presidencial [16]. Também beneficiários de sua magnanimidade desde o começo dos anos 1990, os grandes sindicatos evitam qualquer crítica. E, do lado das mídias, o bom senso exige, no México como em outros lugares, que se evite irritar os anunciantes. Slim é o mais importante entre eles.

Para Andrés Oppenheimer, um dos editorialistas mais conhecidos da América Latina, criticar a fortuna de Slim é um ato vão. Seria preciso, ao contrário, “criar uma cultura de caridade que pregue que sejam louvados aqueles que dêem mais, como verdadeiros heróis” [17]. Slim parece ter escutado essa “piedosa” exortação – com a ressalva explícita de que não pretende “distribuir sua fortuna a torto e a direito, como um Papai Noel” [18]. Mas, em alguns anos, o magnata financiou 100 mil cirurgias, 70 mil pares de óculos, 150 mil bolsas de estudos e 15 mil bicicletas [19].

É só o começo. O filântropo anunciou querer investir 4 bilhões de dólares – um pouco menos de 7% do dinheiro que juntou ao longo dos sete últimos anos – em diversos projetos de caridade e educativos. O setor privado, diz ele, deve “engajar-se intensamente na formação de capital humano e físico” [20], a fim de formar uma clientela para os seus produtos. Questionado pelo Financial Times sobre a contribuição que poderia dar nessa área, ressaltou sua responsabilidade de fazer o México lucrar com a “experiência do empreendorismo, que pode permitir responder a desafios sociais que ultrapassam a política” [21]. Em outros termos, trata-se de fazer com que o país seja gerenciado como uma empresa. Uma das suas, de preferência.

[1] Patrice Gouy, “Carlos Slim – le Rockefeller mexicain”, Le Point, 16 de agosto de 2007.

[2] Frédéric Saliba, “Le maître du Mexique et du monde”,Marianne, 18 de agosto de 2007.

[3] Brian Winter, “How Slim Got Huge”, Foreign Policy, novembro/dezembro de 2007.

[4] “Um aumento de 27% no preço da ação da América Móvil, maior operadora de telefonia celular da América Latina, que, no Brasil, é dona da Claro, o deixou quase 8,6 bilhões de dólares mais rico que Bill Gates”. Leia mais

[5] Anne Denis, “Carlos Slim, le Midas des télécoms”, Les Echos, 16 de julho de 2007. No Brasil, Slim comprou a participação da Globopar na rede de TV a cabo Net; controla a Claro, terceira empresa de celulares do país; e a Embratel, que opera ligações à distância. A este respeito, ver.

[6] Stephanie N. Mehta, “The son of Mexico City shopkeeper has built a staggering $59 billion fortune”, Fortune, 20 de agosto de 2007.

[7] Marc-Antoine de Poret, “Millionnaires de tous les pays…”,Le Point, 26 de julho de 2007.

[8] Forbes publica, a cada ano, a lista dos milionários do planeta, e também a dos americanos mais ricos, a das personalidades mais famosas, a das “100 mulheres mais poderosas”, e assim por diante.

[9] Proveniente do Líbano, seu pai, Yussef Salim Haddad, chegou ao México em 1902. Apesar do “Yussef” árabe corresponder ao “Jose” espanhol, adotou o prenome “Julián”, transformou o “Salim” em “Slim”, e do original manteve somente o “Haddad”. Assim, como Julián Slim Haddad, prosperou inicialmente no comércio, estabelecendo sua loja, Estrella de Oriente, nas proximidades do Palácio Nacional .

[10] Marco Rascón, “Los Bancos, el poder… “, La Jornada, México, 9 de maio de 1990.

[11] David Lunhow, “The secrets of the world’s richest man”,The Wall Street Journal, Nova York, 4 de agosto de 2007.

[12] Gisela Vázquez e Alberto Bello, “El secreto de Carlos Slim”, Expansion.com, 23 de dezembro de 2007.

[13] David Cayon, “El empresario más rico del mundo y la Argentina”, Perfil, Buenos Aires, 28 de outubro de 2007.

[14] “Com Lula, Slim diz que investirá R$ 2 bi no Brasil”, Folha de S. Paulo, 25 de outubro de 2007.

[15] Ginger Thompson, “Prodded by the left, Mexico’s richest man talks equity”, The New York Times, 3 de junho de 2006.

[16] O Partido da Ação Nacional (PAN) do atual presidente Felipe Calderón e o Partido da Revolução Democrática (PRD) do oposicionista Andrés Manuel López Obrador.

[17] “Latin America’s riches should donate more”, Miami Herald, 20 de setembro de 2007.

[18] Stephanie N. Mehta, op. cit.

[19] Francesca Relea, “Carlos Slim. El hombre más rico del mundo”, El País, Madri, 12 de julho de 2007.

[20] Financial Times, Londres, 27 de setembro de 2007.

[21] Financial Times, op. cit.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Epidemias nas missões jesuíticas

Na atual fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, ocupada pelas Missões no século XVII, as doenças do branco eram usadas para convencer os indígenas do poder do Deus católico

Jean Baptista

Padre, padre, um dos nossos está com a cara toda pintada de vermelho”, disse o índio de uma Missão jesuíta tão logo o padre saiu do claustro, ainda pela manhã. O religioso estremeceu: “Fui correndo ver o que era, já pensando na peste”. Corria o século XVII na região onde hoje fica a tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai.
Ao chegar à pequena choça indígena, instalada próximo do povoado, ao padre não restaram dúvidas de que se tratava de varíola, doença que lhe rendia profundas preocupações. Ele tinha viva na memória a experiência de surtos anteriores: era preciso reagir rapidamente para tentar salvar o corpo dos índios enfermos, ainda que com baixa chance de vitória.
Mas, pensou o cura, também era o momento propício para fazer semear a mística do salvamento pelo Deus único do catolicismo. Ou seja, de aplicar seu apostolado para que os indígenas compreendessem que o Altíssimo ansiava pela alma de cada silvícola, podendo oferecer em troca uma vida longa e saudável.
Correspondência, livros de catequese, sermões e outros registros datados dos séculos XVII e XVIII revelam o trabalho dos jesuítas da Província Eclesiástica do Paraguai, atualmente parte do território da Argentina, do Paraguai e do Brasil. Eles tentaram implantar entre os indígenas abrigados nos povoados missionais (Guarani, Jê e Pampianos) noções de pecado, culpa e castigo. E a ação nefasta de doenças epidêmicas teve sua valia nesse esforço catequista.

“Os deuses ameríndios são mais fracos que o Deus verdadeiro” – eis o princípio da argumentação de missionários ativos na América colonial quando o assunto era varíola, sarampo ou gripe, doenças européias contra as quais os indígenas não possuíam defesas biológicas. Assim, os religiosos apresentavam-se aos nativos como representantes de uma vontade divina que, quando contrariada, não se fazia de rogada e enviava enfermidades a uma comunidade.
A estratégia religiosa tinha conexões com o que os nativos entendiam por doenças. Eles, de fato, eram inclinados a interpretá-las como manifestações do desgosto dos deuses diante do comportamento da humanidade. Muitas vezes, os silvícolas consideravam os surtos, as epidemias e as doenças individuais como o resultado de um “embruxamento”, vindo de algum indivíduo poderoso.
Ao acenar com a chave do controle das epidemias, os missionários se tornavam legítimos feiticeiros entre os indígenas. Tão logo uma epidemia abatia um povoado, uma série de medidas relacionadas à vida e espiritualidade era tomada, para tentar efetivar o processo de conversão dos nativos.
A modalidade do “praguejamento missionário” fundamentado em pestes visava, sobretudo, os índios que já haviam recebido a “boa nova” e, mesmo assim, seguiam com uma “vida pagã”. Na perspectiva jesuítica, o preço dessa opção era cobrado, em primeiro lugar, nas matas ao redor dos povoados missionais. Nelas se espalhava uma infinidade de cadáveres e moribundos provenientes de grupos devastados pelos surtos. Mas igualmente órfãos, mulheres e velhos desamparados – potenciais novas “ovelhas” para o rebanho dos padres.

Também nas matas moravam os xamãs, os indivíduos com poderes e funções espirituais entre os grupos sacerdotais dos indígenas. Eles foram descritos na documentação católica da época como diabólicos opositores do projeto missional. Não por acaso, os religiosos diziam que a mata habitada por xamãs era a incubadora das epidemias.
A guerra de poder entre padres e os tais “ministros do demônio” era explícita e rendeu relatos pitorescos, como o episódio que envolveu o padre jesuíta Mola, fundador da Missão de San Carlos, no atual território brasileiro.
Mola enfrentou um poderoso feiticeiro que se proclamava o “senhor das pestes e das enfermidades”, causa de profundo assombro na comunidade. O feiticeiro, contudo, acabou “provando de seu próprio veneno e caiu doente”. Os índios, então, zombaram dele: como poderia ser o senhor das enfermidades se não conseguiu se defender da epidemia?
Já os xamãs que aceitavam a conversão ao catolicismo – de preferência em praça pública – podiam obter a remissão de seus pecados e o perdão do Deus dos brancos. De modo geral, graças ao auxílio pestilento, os missionários conseguiam sobrepujar os adversários na disputa pela liderança espiritual dos nativos.
No interior dos povoados, a realidade também era dramática. Apesar das instalações hospitalares, as epidemias afetavam drasticamente os censos anuais. Adultos eram presas fáceis, mas a mortandade atingia mais as crianças das Missões.

MARANGATU Relatos dos missionários explicitam as idéias de então. A salvação física de uma criança, durante epidemias, só se dava mediante intercessão divina – o veículo da bênção poderia ser um elemento da medicina mágica administrada por jesuítas e seus enfermeiros ou, especialmente, a interferência dos santos, capazes de aplacar a cólera divina.
Certa feita, um povoado foi quase extinto por uma epidemia. Entre seus habitantes, havia uma menina de 10 anos que costumava ajoelhar-se todos os dias aos pés de uma imagem de Maria, a quem destinava rezas e pedidos. Em outra Missão, dois pequenos irmãos, de 5 e 7 anos, fo RAM vistos caminhando em direção à igreja do povoado, mortificando-se com açoites e implorando a complacência de santa Ana. As três crianças – e outras com vivências semelhantes – teriam se salvado, de acordo com registros dos religiosos.
Chamados pelos indígenas de marangatu (os bem-aventurados), os santos se assemelhavam aos heróis xamânicos dotados de poderes de cura. Só que os santos, segundo os padres, cobravam um preço diferente para conceder graças: desejavam humilhações, resignações, missas, confissões, conversões e novenas. Apesar de muitos indígenas terem seguido essas recomendações, a preferência por cantos, danças e oferendas de alimentos era majoritária.
De todo modo, os padres ensinavam que osmarangatu ofereciam a imunidade por meio de intervenções notáveis. Um bom exemplo eram as supostas aparições de santo Ignácio, fundador da Companhia de Jesus, em tempos de epidemia. O santo costumava “aparecer” aos doentes de um modo aterrador: demonstrando sua irritação com os homens.

Sobre isso, eis o relato de um jesuíta: “O santo apareceu no sonho de um enfermo, ralhou com ele asperamente pelo pecado que havia cometido e deu-lhe bofetadas para que lhe servissem de memória”. A outra pessoa enferma, uma índia com difteria, santo Ignácio também providenciou em sonho uma reprimenda: “Vocês comem de maneira desenfreada tudo o que encontram pela frente! Por isso estão enfermos!”. Palavra do santo…
Mesmo opressoras, as intervenções podiam resultar em medidas salutares, algumas capazes de salvar a vida dos que demonstravam alinhamento à moral pregada nas Missões. Assim, a religiosidade ameríndia, que via nos sonhos a possibilidade de encontrar explicações e curas para problemas terrenos, dialogava de perto com percepções ocidentais.
A banalização da morte, ilustrada pela existência de covas comuns durante epidemias, no período de 1630 a 1730, deu origem a outro fenômeno: um intenso, criativo e imprevisível debate entre padres e índios sobre o destino dos mortos.
Os jesuítas tentavam difundir a sua “geografia do além”, segundo a lógica ocidental, assim como suas idéias sobre as relações entre os vivos e os mortos. Já os nativos trataram de construir um “além-morte” singular. Não raro, relatavam aos jesuítas que, em sonho, haviam estado num inferno habitado por onças, corujas e serpentes. Ou no paraíso, ao lado de resplandecentes anjos de asas vermelhas, em terras de alimento abundante onde se cantava, dançava e se mantinha morfologia social experimentada na vida terrena.
Como se vê, o cenário pintado pelos missionários correspondia à tentativa de sobrepujar as percepções da cultura indígena. A lógica deles era objetiva: tempo de epidemia, tempo de dar combate ao diabo, ou seja, de eliminar o que não era cristão. Entretanto, a necessidade de convívio levou jesuítas e sul-ameríndios a dialogar sobre as representações em circulação e a experimentar aproximações e distanciamentos em prol da sobrevivência do projeto missional.
Padres e nativos geraram, com isso, uma religiosidade que, ao fim, não era nem jesuítica nem indígena, mas sim um conjunto de crenças relacionadas, aplicável unicamente no solo das incríveis Missões.

O TRABALHO NOS HOSPITAIS MISSIONAIS

A principal medida material em tempos de epidemia nas Missões era a instalação de um hospital – na verdade, apenas um galpão erguido ou adaptado ao evento. A Coleção De Angelis, importante documentação sobre o processo jesuítico na região do rio Prata, hoje depositada na Biblioteca Nacional, e em microfilmes no Centro de Pesquisas Históricas da PUCRS, reúne uma série de relatos sobre esse espaço missional ao longo de 150 anos.
Conforme os registros, nesses hospitais os padres tentavam alterar práticas e costumes indígenas perante a doença e a cura, assim como se esforçavam para mantê-los à vista, bem longe das influências xamânicas. Ali uma “boa morte” cristã estava garantida, com sacramentos aplicados ao doente, assim como uma medicina mágica: ervas nativas (outrora xamânicas) junto com recursos católicos (imagens de santos, água-benta, óleos sagrados). Um altar portátil era erguido no centro do estabelecimento.
O contingente de trabalhadores daquele espaço também era singular: há registros de homens e mulheres distribuídos na limpeza, no carregamento dos corpos para o cemitério (havia um serviço especial no caso de surtos em locais distantes do povoado), na administração de remédios e de alimentos. Não raro, meninos do coral, devidamente instruídos, permaneciam ao lado dos enfermos para lhes dar consolo por meio de cantos e até mesmo da extrema-unção.
Esses enfermeiros indígenas eram aqueles espiritualmente destacados entre todos do povoado, selecionados nas congregações, no coral, no exército e, possivelmente, entre antigos praticantes do xamanismo.
Quando a epidemia era mais mortal e restavam apenas nativos saudáveis sem nenhuma distinção espiritual, a própria imunidade passava a ser sinal da preferência divina sobre o restante. – J. B.

OS 30 POVOS DAS MISSÕES

O Brasil foi pioneiro na preservação do que restou das Missões jesuíticas na região de fronteira com a Argentina e o Paraguai. Já na década de 30, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) iniciou o tombamento e restauro das ruínas gaúchas. Atualmente, todo o assombroso conjunto arquitetônico dos chamados 30 Povos das Missões está tombado pela Unesco, como Patrimônio Cultural da Humanidade.
A catequização das comunidades ditas primitivas começou em Paris, na mente do teólogo espanhol Ignácio de Loyola, que fundou a Companhia de Jesus em 1534. Roma aprovou a nova ordem em 1540, e os jesuítas, então, partiram de seus países para evangelizar os povos da Índia, do Extremo Oriente e das Américas portuguesa e espanhola.
Com a criação da Província Espanhola do Paraguay, em 1607, reduções jesuíticas foram fundadas em Guayrá, hoje área pertencente ao estado do Paraná. Essas Missões foram dizimadas pelos bandeirantes paulistas entre 1628 e 1629, e milhares de guaranis assentados foram levados a São Paulo para escravidão.
A experiência trágica em Guayrá levou os jesuítas a migrar para as regiões dos rios Uruguai, Paraná, Paraguai e Tebicuary, onde fundaram novas comunidades. Recém-convertidos, os guaranis foram educados de acordo com as normas jesuíticas pedagógicas. Alguns, iniciados nas artes e ofícios, se tornaram músicos, fabricantes de instrumentos musicais, impressores de livros, calígrafos e copistas, carpinteiros, ferreiros, tecelões e alfaiates, escultores, construtores e entalhadores.
O plano arquitetônico e urbanístico dessas comunidades serviu de cenário para liturgias e músicas polifônicas semelhantes às das catedrais européias, fruto da abnegação de jesuítas educadores, como o arquiteto João Batista Primoli (1673-1747) e o maestro Domenico Zipoli (1688-1726).
Juntas, as Missões chegaram a ter população de 80 mil indígenas em 1772 – cada uma abrigava entre 2 mil e 4 mil nativos. Na atual configuração geográfica da região, estavam assim distribuídas: 7 povos no oeste gaúcho, 15 povos na província argentina de Misiones e 8 povos no Paraguai.
O fim dessa saga começou com a disputa de fronteiras entre as duas Coroas. Pelo Tratado de Madri, de 1750, a região portuguesa de Sacramento (atual Uruguai) foi trocada pela região espanhola dos 7 Povos. Apesar da catastrófica Revolta Guarani, levante dos índios contra o fim das Missões, entre 1754 e 1756, a população assentada foi obrigada a se retirar de suas modernas cidades para a outra margem do rio Uruguai.
Ciúmes de outras ordens religiosas em Roma, rumores de minas de ouro escondidas e conspiração jesuítica para a criação de Estado independente colaboraram para a extinção da Companhia de Jesus em 1759. Os jesuítas das missões paraguaias foram presos e deportados para a Europa em 1767.
Os cerca de 80 mil índios das 30 Missões ficaram sob os cuidados de outras ordens religiosas, como a dos franciscanos, mas sem sucesso. A população nativa foi declinando. Muitos índios voltaram para as selvas ou migraram para Buenos Aires e outras cidades, graças aos ofícios aprendidos com os padres.

CLÓVIS ROBERTO DOS SANTOS FILHO é arquiteto, professor de educação patrimonial e especialista em patrimônio arquitetônico – preservação e restauro. É ainda co-autor do livro Os descaminhos da educação profissional e tecnológica no estado de São Paulo (Sinteps, 2008)

PARA SABER MAIS

A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. Ronaldo Vainfas. Companhia das Letras.
Xamanismo e cura na Coleção De Angelis. Org. de Maria Cristina dos Santos. PUCRS.
História do medo no Ocidente. Jean Delumeau. Companhia das Letras.
Negros da terra. John Manuel Monteiro. Companhia das Letras.
Religião como tradução. Cristina Pompa. Edusc, 2003.

Jean Baptista é professor-doutor de América Latina e América do Norte no curso de Relações Internacionais da ESPM de Porto Alegre e autor da pesquisa Fomes, pestes e guerras: dinâmicas dos povoados missionais em tempos de crise (1670-1750).

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

Uma pletora de capital: a gênese da crise econômica

Em entrevista ao jornal argentino Pagina 12, o pesquisador marxista Rolando Astarita defende que a crise não se deu só por causa de um mau funcionamento do mercado financeiro, mas da economia em seu conjunto. "Produziu-se o que Marx chamava “uma pletora de capital”: capital líquido abundante, taxas de juros muito baixas (dirigidos pelo Federal Reserve e pela entrada de capitais que buscavam refúgio nos EUA) e uma super-oferta do crédito. Esses capitais líquidos terminaram no setor da construção, onde encontraram um campo de expansão relativamente rápido. E terminou explodindo".

Natalia Aruguete

Diversas posturas econômicas, desde progressistas a heterodoxas, afirmam que estamos numa época de hegemonia do setor financeiro sobre o produtivo e numa hipertrofia do capital especulativo, que deixou a descoberto o estancamento da economia mundial nos últimos 30 anos. Num diálogo com o caderno Cash, suplemente econômico do Página 12, o pesquisador marxista Rolando Astarita assinalou que, na realidade, no último quarto de século houve uma expansão mundial do capitalismo, que a distância entre ricos e pobres não impediu o crescimento dos mercados e que a crise não se deu só por um mal funcionamento do mercado financeiro, mas da economia em seu conjunto. “Há que se pensar o tal do capital fictício com parâmetros; ele não pode nos fazer perder a análise estrutural”, explicou.
Pagina12: Acreditas que a crise financeira marca a queda da ditadura das finanças?
Roland Astarita: Não vejo que haja uma ditadura das finanças, mas um domínio do capital em geral, acentuado de maneira muito profunda a partir dos anos 80. No último quarto de século, o disciplinamento do capital sobre as classes trabalhadoras operou através de mecanismos diretos, mas também do mercado, com políticas monetárias duras, aberturas comerciais, flexibilização laboral. Mas não vejo distinção de setores dentro do capital.
P12: No entanto, o crédito e as dívidas cresceram em todo o mundo. Isso pode ter afetado o desenvolvimento da economia real?
RA: Nunca houve desenvolvimento do capitalismo sem desenvolvimento do crédito e de uma monetarização da economia. Na perspectiva de Marx, o crédito é uma alavanca da acumulação de capital. Isto também se vê na fase que vai de 1890 a 1929. Na China, junto à expansão capitalista cresceram seus índices monetários e a participação dos mercados financeiros. Mas o crédito também potencializa as possibilidades de especulação, de sobre-acumulação e de quebradeira. Marx trabalhava com tendências e contra-tendências. Hoje, ao contrário, toma-se só um aspecto da realidade.
P12: Alguns sustentam que o crescimento do crédito prova o estancamento do sistema capitalista.
RA: A idéia de que o sistema capitalista está estancado há 25 anos não resiste à análise da realidade. Nos últimos 30 anos a economia capitalista teve taxas de expansão superiores a 3% em nível mundial, ainda que tenham sido desiguais: o Japão está estancado desde 1992 e a Europa teve um crescimento débil. Houve uma expansão geográfica do sistema capitalista, que entrou na China, no Leste Europe e na Rússia, e um aprofundamento das relações capitalistas. O aumento da produtiviade na economia dos EUA desde 1995 foi maior do que 3% ao ano. O crédito atua como uma potencialização de tendências do sistema e muitas vezes permite que um ciclo econômico se expanda para além de suas possibilidades. Em 2001 os EUA sofreram uma recessão suave. A economia cresceu 0,8% e o crédito lubrificou os mecanismos econômicos. Mas a recuperação de 2002 foi débil, com pouca geração de postos de trabalho e débil recuperação do investimento.
P12: Nesse contexto o crédito migrou para que setores?
RA: Para a construção residencial e para o consumo em geral, não para as empresas. Desde 2000 as empresas dos EUA e do G7 diminuíram sua dependência do sistema financeiro. Houve um excesso de poupança e as empresas diminuíram suas dívidas com os bancos. Inclusive, usaram parte dessa liquidez para recomprar suas ações. Não houve uma grande expansão do investimento produtivo, mas tampouco uma dependência do capital produtivo em relação ao financeiro. As relações de dependência voltaram em meados dos anos 70. Não se pode dizer que fosse uma crise como a diagnosticada a la Hyman Minsky, um autor keynesiano que sustentava que as crises se produzem porque as empresas caem num sobre-endividamento e pagam dívida com dívida até que a situação exploda.
P12: No entanto, houve uma “financeirização dos consumidores”, com a qual se amorteceu a crise de 2001.
RA: E ademais ajudou a recuperação de 2002. Isso é certo. O equivocado é pensar que isso atuou isoladamente. Em 2001, a superabundância de capital líquido e o investimento débil ocorreram porque a taxa de rentabilidade do capital vinha se debilitando desde 1996/7. Esse é o fundo do problema. Produziu-se o que Marx chamava “uma pletora de capital”: capital líquido abundante, taxas de juros muito baixas (dirigidos pelo Federal Reserve e pela entrada de capitais que buscavam refúgio nos EUA) e uma super-oferta do crédito. Esses capitais líquidos terminaram no setor da construção, onde encontraram um campo de expansão relativamente rápido. E terminou explodindo.
P12: Também se diz que, desde os anos setenta, o mundo assiste a uma crise de superprodução combinada com uma crise de subprodução.
RA: Há dois tipos de explicações da crise. Uma diz que o problema da crise deu-se com as finanças. Outra, que a Argentina repete bastante, que se deve a uma importante desigualdade de renda, o que produziu uma crise de consumo por falta de demanda. Creio que isto tampouco explica o que aconteceu. No último quarto de século houve um processo de “proletarização”, enormes massas da população se incorporaram no exército de assalariados. Os casos mais ressonantes são China e Índia. Isso supõe uma ampliação de mercados, enquanto houver crescimento nos lucros. Segundo a The Economist, nos Estados Unidos 0,1% da população ganha 77% vezes mais do que 90% da população restante. Nos anos 70 essa diferença era de 1 para 20. Também na China a desigualdade cresce. Mas não é certo que se a desigualdade cresce, crescem os mercados.
P12: Neste crescimento da economia capitalista, como se compõe o produto bruto no mundo?
RA: No caso dos Estados Unidos, desde a recuperação de 2001 se geraram fenômenos de sobre-acumulação de capital e de queda da taxa de rentabilidade. Esse é o pano de fundo da crise. Sobre isso o fator financeiro atuou, mas também o crescimento desproporcional na construção residencial, entre 2001-2007. Sua participação no PIB passou de 4,2% a mais de 6%. Isso gera tensões, porque um setor está crescendo em taxas muito superiores ao resto, e num contexto em que os investimentos se mantêm débeis. Isso potencializou o sistema de crédito e deu-se uma sobre-expansão do setor em relação às necessidades da economia.
P12: Pegando apenas o setor financeiro, o crescimento da sua participação no PIB dos EUA implicou uma mudança ou uma continuidade em relação a etapas anteriores?
RA: Não me parece que a taxa de crescimento tenha se acelerado desde 1979-80. Entre 1895 e 1929, a taxa de crescimento desse setor nos EUA foi superior a dos últimos vinte anos. Com a crise dos anos 30, o setor financeiro diminuiu sua participação na economia e recuperou terreno desde a década de 50, com um crescimento relativamente constante desde 1960. Não houve uma queda importante nos anos 80, ainda que as taxas de juros tenham aumentando muito: entre 1979 e 1985, o peso dos juros nos balanços empresariais subiu consideravelmente. Isso expressa parte da tese da financeirização, mas não se converteu em algo permanente.
P12: Por que?
RA: Prognosticou-se que iria se produzir uma punção permanente do setor financeiro sobre o lucro empresarial, mediante a taxa de juros. E que isso debilitaria o setor produtivo e levaria ao estancamento. Mas insisto que o peso dos juros sobre o setor produtivo tendeu a baixar. Segundo dados do Official Bureau of Economic Analysis dos Estados Unidos, entre 2006 e princípios de 2007, esse peso estava nos níveis de 1970, que era uma época keynesiana. Penso que esta é uma crise muito grave, muito profunda, mas estamos longe de uma crise como a dos anos 30.
P12: Então acreditas que não há um predomínio do capital fictírico sobre o produtivo, em detrimento da economia real?
RA: Há que se perguntar até que ponto isso é novidade. Quando houve expansão de capital no sistema capitalista, na Bolsa de Valores houve sobrevalorizações. Tradicionalmente, metade disso estaria em 10 anos deprice earning (1). No momento de euforia das bolsas, alcançou 20 ou 30 anos. Isso ajuda à instabilidade do sistema capitalista, já que provoca inflação dos lucros que desaparecem da noite para o dia, mas esses lucros não crescem à margem do trabalho produtivo.
P12: Acreditas que a crise atual reflita esse mecanismo?
RA: Aqui estouraram ativos financeiros ligados ao crédito, que se havia sobrevalorizado. O estouro reflete que a economia estava funcionando mal. Há que se pensar o tal do capital ficítcio com parâmetros; ele não deve nos fazer perder a análise estrutural. Ao extrair a mais valia e a realizá-la nos mercados, pode haver inflações que terminam arrebentando. Mas, à medida que a instabilidade se agrava, as crises não se explicam por si mesmas.
P12: Pode estabelecer-se alguma relação entre o excesso de liquidez e a tendência à financeirização da economia?
RA: Esse excesso de liquidez deveu-se à debilidade do investimento produtivo. Em determinado momento, houve setores que super-acumularam. Os neoclássicos interpretaram esse fenômeno como uma decisão das instâncias domésticas, das famílias, quando, na realidade, foi uma debilidade no investimento. Um exemplo é a queda de investimento na Ásia – com exceção da China – depois da crise de 1997-98. Essa massa de capital líquido pressiona sobre o setor financeiro em busca de sua valorização. Mas há que se destacar a relação de causalidade. O crescimento deste setor é consequência da acumulação de capital, ele não opera por fora do conjunto dos problemas dessa acumulação. A interpretação dos neokeynesianos – que hoje são mainstream – é a do acelerador financeiro. Quer dizer, o uso dos ativos financeiros como garantias em empréstimos, até que, em determinado momento, produza-se um choque que se potencializa através do mecanismo financeiro.
P12: E qual a tua opinião sobre esse diagnóstico?
RA: Há aspectos de realidade importantes, mas não analisa a quê se deve o choque, de onde vem. É o próprio sistema de competição capitalista que obriga a um banco a competir com outros para oferecer mais rentabilidades. Se não os ligamos aos problemas de fundo, não entendemos por que essas especulações podem explodir numa brutal crise financeira, que nem sempre afeta a economia. Por exemplo: o crash de Wall Street de 1987 não se tornou uma crise global e foi a segunda grande queda da bolsa dos Estados Unidos.
P12: No encontro do G20 propô-se uma maior regulação dos mercados como forma de sustentar a situação econômica. Crês que essa seria uma solução?
RA: No G20 a regulação dos mercados foi defendida como uma grande questão para depois da crise. Hoje a discussão é até que grau há de se ter intervenção estatal e se medidas protecionistas serão ou não aplicadas. Todo mundo pede que não haja medidas protecionistas mas, no fundo, muitos as aplicam. Sobre isso gostaria de fazer duas reflexões. Os mercados financeiros e capitalistas pressionam para afastar as regulações. As regulações da Basiléia estabeleceram que os bancos deviam ter certa ratio de capital em relação a sua carteira de ativos. Mas os bancos criaram “Sociedades de Propósitos Especiais” (espécie de fideicomisso) para armar suas operações por fora do balanço e, assim, comprar papéis que essas entidades emitiam.
P12: E a segunda reflexão?
RA: Lênin dizia que estavam bem as consignas, mas há que se pensar em quem as aplica. No G20, defendeu-se que o FMI deve retomar o poder de regular. Esse organismo está governado pelas grandes potências, os grandes banqueiros e o capital internacionalizado. Vai responder a esses interesses. É um controle dos altos comandos do capital para evitar desequilíbrios. Não há controles em abstrato.
Publicado no suplemento CASH, do jornal argentino Pagina 12, em 17 de maio de 2009. Para conhecer o trabalho, os interesses e parte das publicações do professor Rolando Astarita, ver a sua página: www.rolandoastarita.com
Tradução: Katarina Peixoto
(1) Ratio Price Earning é um indicador (normalmente designado por P/E ou PER) de análise do valor de uma ação. É a medida estabelecida entre o preço da ação e os lucros das empresas. Quanto mais elevado for o seu valor, mais cara deverá estar a ação e vice-versa. Exemplo: se a Empresa X estiver cotada a € 60 por ação e os seus lucros forem de € 3 por ação, o seu PER é de 20 (60/3). Isto significa que os investidores estão pagando € 20 por cada € 1 de lucros da Empresa X. Esta relação é também conhecida por stock multiple, significando que a Empresa X está a negociar num múltiplo de 20 vezes os seus lucros. Este é um indicador muito utilizado pelos analistas e um dos mais conhecidos dos investidores. Na verdade, é muito frequente ver na imprensa a referência a uma ação como cara ou barata apenas por referência ao PER. Veja-se a estratégia de investimento boas & baratas divulgada pela Revista Carteira, em que um dos critérios para selecção das acções é um PER inferior a 14, dado que este representa aproximadamente a média a nível mundial. Porém, a realidade não é assim tão clara e de simples análise. O PER tem limitações e devem ser conhecidas do investidor, de modo a que não se tomem decisões apenas com base nele. N.deT. Com http://www.analistafinanceiro.com/fiscal-financeiro/o-price-earnings-ratio-pe-ou-per/

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

O boxeador contra Hitler

Max Schmeling foi a glória da Alemanha nazista ao ganhar o cinturão mundial de boxe. Na moita, ele ajudava judeus a fugir do extermínio

Álvaro Oppermann

Kristallnacht, a terrível "Noite dos Cristais" de 8 de novembro de 1938. Tropas nazistas massacravam milhares de judeus por toda a Alemanha. Nas ruas de Berlim, reinava o terror. Num quarto do Hotel Excelsior, o boxeador Max Schmeling estava apreensivo. Alguém bateu na porta. Era o amigo David Lewin.

– Onde estão os garotos? – perguntou Max.

– Estão aqui – respondeu David, um próspero comerciante judeu. De trás dele, agarrados ao sobretudo negro, surgiram então os rostos assustados de seus dois filhos: Werner e Henri.

– Eu tomo conta deles – disse Max.

O pugilista escondeu os meninos e conseguiu que eles fugissem – Werner e Henri terminariam fixando residência nos EUA. Esse foi apenas um dos gestos humanitários de Max.

Por ironia, Max Schmeling era um ídolo na Alemanha do 3º Reich. Foi campeão mundial dos pesos pesados em 1930 e 1931. Em 1936, com Adolf Hitler já no poder, derrotou o até então invencível americano Joe Louis. A alegria de Hitler durou pouco: o lutador se recusou a entrar para o Partido Nazista. Também negou-se a demitir o seu agente americano, Joe Jacobs, de origem judaica.

Em junho de 1938, Max perdeu a luta de revanche para Joe Louis, transmitida pelo rádio a toda Europa e EUA direto do Yankee Stadium, em Nova York. O americano deslocou uma vértebra de Schmeling e lesionou um dos seus rins. Hitler, furioso, mandou interromper a transmissão em território alemão. No fim daquele ano, os espiões da SS descobriram a ajuda do pugilista aos garotos judeus. Foi a gota d’água. Quando a guerra começou,s em 1939, Hitler enviou Max como pára-quedista em missões suicidas. O boxeador, porém, sobreviveu uma missão após outra.

Quando Hitler beijou a lona, com o fim da 2ª Guerra, outra luta começou para o campeão. Modesto, nunca disse a ninguém ter ajudado os filhos de Lewin e carregou o estigma de ser um queridinho do führer. Em 1989, porém, Henri Lewin, que se tornara empresário do ramo hoteleiro em Las Vegas, convidou Max à cidade e revelou a uma platéia comovida: "Se não fosse por ele, eu e meu irmão estaríamos mortos". A vitória final de Max Schmeling veio com um tapa de luvas de pelica.

• Nascido em 1905 e morto pouco antes dos 100 anos, Maximillian Adolph Otto Siegfried Schmeling tinha a alcunha de Ulano Negro do Reno. Ulanos eram lanceiros em exércitos medievais.

• Max entrou para o Hall da Fama do Boxe Internacional em 1992, com 56 vitórias (40 por nocaute), 10 derrotas e 4 empates.

• Depois da guerra, Max estava na penúria. Lutou até 1948. Ficou rico ao montar, em 1954, uma franquia da Coca-Cola na Alemanha.

• Max Schmeling e Joe Louis ficaram amigos. Quando Joe morreu na pobreza, em 1981, Max pagou seu funeral.

Fonte: Revista Superinheressante – http://super.abr l.com.br/super2/home/

Mercado da fé

FREI BETTO

Como os supermercados, as Igrejas disputam clientela. A diferença é que eles oferecem produtos mais baratos e, elas, prometem alívio ao sofrimento, paz espiritual, prosperidade e salvação.

Por enquanto, não há confronto nessa competição. Há, sim, preconceitos explícitos em relação a outras tradições religiosas, em especial às de raízes africanas, como o candomblé e a macumba, e ao espiritismo.

Se não cuidarmos agora, essa demonização de expressões religiosas distintas da nossa pode resultar, no futuro, em atitudes fundamentalistas, como a "síndrome de cruzada", a convicção de que, em nome de Deus, o outro precisa ser desmoralizado e destruído.

Quem mais se sente incomodada com a nova geografia da fé é a Igreja Católica. Quem foi rainha nunca perde a majestade… Nos últimos anos, o número de católicos no Brasil decresceu 20% (IBGE, 2003). Hoje, somos 73,8% da população. E nada indica que haveremos de recuperar terreno em futuro próximo.

Paquiderme numa avenida de trânsito acelerado, a Igreja Católica não consegue se modernizar. Sua estrutura piramidal faz com que tudo gire em torno das figuras de bispos e padres. O resto são coadjuvantes. Aos leigos não é dada formação, exceto a do catecismo infantil. Compare-se o catecismo católico à escola dominical das Igrejas protestantes históricas e se verá a diferença de qualidade.

Crianças e jovens católicos têm, em geral, quase nenhuma formação bíblica e teológica. Por isso, não raro encontramos adultos que mantêm uma concepção infantil da fé. Seus vínculos com Deus se estreitam mais pela culpa que pela relação amorosa.

Considere-se a estrutura predominante na Igreja Católica: a paróquia. Encontrar um padre disponível às três da tarde é quase um milagre. No entanto, há igrejas evangélicas onde pastores e obreiros fazem plantão toda a madrugada.

Não insinuo assoberbar ainda mais os padres. A questão é outra: por que a Igreja Católica tem tão poucos pastores? Todos sabemos a razão: ao contrário das demais Igrejas, ela exige de seus pastores virtudes heróicas, como o celibato. E exclui as mulheres do acesso ao sacerdócio. Tal clericalismo trava a irradiação evangelizadora.

O argumento de que assim deve continuar porque o Evangelho o exige não se sustenta à luz do próprio texto bíblico. O principal apóstolo de Jesus, Pedro, era casado (Marcos 1, 29-31); e a primeira apóstola era uma mulher, a samaritana (João 4, 28-29).

Enquanto não se puser um ponto final à desconstrução do Concílio Vaticano II, realizado para renovar a Igreja Católica, os leigos continuarão como fiéis de segunda classe. Muitos não têm vocação ao celibato, mas sim ao sacerdócio, como acontece nas Igrejas anglicana e luterana.

Ainda que Roma insista em fortalecer o clericalismo e o celibato (malgrado os escândalos freqüentes), quem conhece uma paróquia efervescente? Elas existem, mas, infelizmente, são raras. Em geral, os templos católicos ficam fechados de segunda à sexta (por que não aproveitar o espaço para cursos ou atividades comunitárias?); as missas são desinteressantes; os sermões, vazios de conteúdo. Onde estão os cursos bíblicos, os grupos de jovens, a formação de leigos adultos, o exercício de meditação, os trabalhos voluntários?

Em que paróquia de bairro de classe média os pobres se sentem em casa? Não é o caso das Igrejas evangélicas, basta entrar numa delas, mesmo em bairros nobres, para constatar quanta gente simples ali se encontra.

Aliás, as Igrejas evangélicas sabem lidar com os meios de comunicação, inclusive a TV aberta. Pode-se discutir o conteúdo de sua programação e os métodos de atrair fiel. Mas sabem falar uma linguagem que o povo entende e, por isso, alcançam tanta audiência.

A Igreja Católica tenta correr atrás com as suas showmissas, os padres aeróbicos ou cantores, os movimentos espiritualistas importados do contexto europeu. É a espetacularização do sagrado; fala-se aos sentimentos, à emoção, e não à razão. É a semente em terreno pedregoso (Mateus 13, 20-21).

Não quero correr o risco de ser duro com a minha própria Igreja. Não é verdade que ela não tenha encontrado novos caminhos. Encontrou-os, como as Comunidades Eclesiais de Base. Infelizmente não são suficientemente valorizadas por ameaçarem o clericalismo.

Aliás, as CEBs realizarão seu 12º encontro intereclesial de 21 a 25 de julho deste ano, em Porto Velho (RO). O tema, "Ecologia e Missão"; o lema, "Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia". São esperados mais de 3 mil representantes de CEBs de todo o Brasil.

Bom seria ver o papa Bento XVI participar desse evento profundamente pentecostal.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de "Mística e Espiritualidade" (Garamond), entre outros livros.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

O Papel do Trabalho na Transformação do macaco em Homem

Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem

Friedrich Engels

O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem. Há multas centenas de milhares de anos, numa época, ainda não estabelecida em definitivo, daquele período do desenvolvimento da Terra que os geólogos denominam terciário provavelmente em fins desse período, vivia em algum lugar da zona tropical – talvez em um extenso continente hoje desaparecido nas profundezas do Oceano Índico – uma raça de macacos antropomorfos extraordinariamente desenvolvida. Darwin nos deu uma descrição aproximada desses nossos antepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba, orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas.
É de supor que, como conseqüência direta de seu gênero de vida, devido ao qual as mãos, ao trepar, tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se acostumando a prescindir de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a adotar cada vez mais uma posição ereta. Foi o passo decisivo para a transição do macaco ao homem. Todos os macacos antropomorfos que existem hoje podem permanecer em posição ereta e caminhar apoiando-se unicamente sobre seus pés; mas o fazem somente em casos de extrema necessidade e, além disso, com enorme lentidão. Caminham habitualmente em atitude semi-ereta, e sua marcha inclui o uso das mãos. A maioria desses macacos apóia no solo os dedos e, encolhendo as pernas, fazem avançar o corpo por entre os seus largos braços, como um paralítico que caminha com muletas. Em geral, podemos ainda hoje observar entre os macacos todas as formas de transição entre a marcha a quatro patas e a marcha em posição ereta.
Mas para nenhum deles a posição ereta vai além de um recurso circunstancial. E posto que a posição ereta havia de ser para os nossos peludos antepassados primeiro uma norma, e logo uma necessidade, daí se depreende que naquele período as mãos tinham que executar funções cada vez mais variadas. Mesmo entre os macacos existe já certa divisão de funções entre os pés e as mãos. Como assinalamos acima, enquanto trepavam as mãos eram utilizadas de maneira diferente que os pés. As mãos servem fundamentalmente para recolher e sustentar os alimentos, como o fazem já alguns mamíferos inferiores com suas patas dianteiras. Certos macacos recorrem às mãos para construir ninhos nas árvores; e alguns, como o chimpanzé, chegam a construir telhados entre os ramos, para defender-se das inclemências do tempo. A mão lhes serve para empunhar garrotes, com os quais se defendem de seus inimigos, ou para os bombardear com frutos e pedras. Quando se encontram prisioneiros realizam com as mãos vá rias operações que copiam dos homens. Mas aqui precisamente é que se percebe quanto é grande a distância que se para a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, aperfeiçoada pelo trabalho durante centenas de milhares de anos. O número e a disposição geral dos ossos e dos músculos são os mesmos no macaco e no homem, mas a mão do selvagem mais primitivo é capaz de executar centenas de operações que não podem ser realizadas pela mão de nenhum macaco. Nenhuma mão simiesca construiu jamais um machado de pedra, por mais tosco que fosse.
Por isso, as funções, para as quais nossos antepassados foram adaptando pouco a pouco suas mãos durante os muitos milhares de anos em que se prolongou o período de transição do macaco ao homem, só puderam ser, a princípio, funções sumamente simples. Os selvagens mais primitivos, inclusive aqueles nos quais se pode presumir o retorno a um estado mais próximo da animalidade com uma degeneração física simultânea, são muito superiores àqueles seres do período de transição. Antes de a primeira lasca de sílex ter sido transformada em machado pela mão do homem, deve ter sido transcorrido um período; e tempo tão largo que, em comparação com ele, o período histórico por nós conhecido torna-se insignificante. Mas havia sido dado o passo decisivo: a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade; e essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em geração.
Vemos, pois, que a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento especial assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também pelos ossos; unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini.
Mas a mão não era algo com existência própria e independente. Era unicamente um membro de um organismo integro e sumamente complexo. E o que beneficiava à mão beneficiava também a todo o corpo servido por ela; e o beneficiava em dois aspectos. Primeiramente, em virtude da lei que Darwin chamou de correlação do crescimento. Segundo essa lei, certas formas das diferentes partes dos seres orgânicos sempre estão liga das a determinadas formas de outras partes, que aparente mente não têm nenhuma relação com as primeiras. Assim, todos os animais que possuem glóbulos vermelhos sem núcleo e cujo occipital está articulado com a primeira vértebra por meio de dois côndilos, possuem, sem exceção, glândulas mamárias para a alimentação de suas crias. Assim também, a úngula fendida de alguns mamíferos está ligada de modo geral à presença de um estômago multilocular adaptado à ruminação. As modificações experimentadas por certas for mas provocam mudanças na forma de outras partes do organismo, sem que estejamos em condições de explicar tal conexão. Os gatos totalmente brancos e de olhos azuis são sempre ou quase sempre surdos. O aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição ereta exerceram indubitavelmente, em virtude da referida correlação, certa influência sobre outras partes do organismo. Contudo, essa ação se acha ainda tão pouco estudada que aqui não podemos senão assinalá-la em termos gerais. Muito mais importante é a ação direta – possível de ser demonstrada – exercida pelo desenvolvimento da mão sobre o resto do organismo.
Como já dissemos, nossos antepassados simiescos eram animais que viviam em manadas; evidentemente, não é possível buscar a origem do homem, o mais social dos animais, em antepassados imediatos que não vivessem congregados. Em face de cada novo progresso, o domínio sobre a natureza que tivera início com o desenvolvimento da mão, com o trabalho, ia ampliando os horizontes do homem, levando-o a descobrir constantemente nos objetos novas propriedades até então desconhecidas. Por outro lado, o desenvolvimento do trabalho, ao multiplicar os casos de ajuda mútua e de atividade conjunta, e ao mostrar assim as vantagens dessa atividade conjunta para cada indivíduo, tinha que contribuir forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. Em resumo, os homens em formação chegaram a um ponto em que tiveram necessidade de dizer ‘algo uns aos outros. A necessidade criou o órgão: a laringe pouco desenvolvida do macaco foi-se transformando, lenta mas firmemente, mediante modulações que produziam por sua vez modulações mais perfeitas, enquanto os órgãos da boca aprendiam pouco a pouco a pronunciar um som articulado após outro.
A comparação com os animais mostra-nos que essa explicação da origem da linguagem a partir do trabalho e pelo trabalho é a única acertada. O pouco que os animais, inclusive os mais desenvolvidos, têm que comunicar uns aos outros pode ser transmitido sem o concurso da palavra articulada. Nenhum animal em estado selvagem sente-se prejudicado por sua incapacidade de falar ou de compreender a linguagem humana. Mas a situação muda por completo quando o animal foi domesticado pelo homem. O contato com o homem desenvolveu no cão e no cavalo um ouvido tão sensível à linguagem articulada que esses animais podem, dentro dos limites de suas representações, chegar a compreender qualquer idioma. Além disso, podem chegar a adquirir sentimentos antes desconhecidos por eles, como o apego ao homem, o sentimento de gratidão, etc. Quem conheça bem esses animais dificilmente poderá escapar à convicção de que, em muitos casos, essa incapacidade de falar é experimentada agora por eles como um defeito. Desgraçadamente, esse de feito não tem remédio, pois os seus órgãos vocais se acham demasiado especializados em determinada direção. Contudo, quando existe um órgão apropriado, essa Incapacidade pode ser superada dentro de certos limites. Os órgãos vocais das aves distinguem-se em forma radical dos do homem e, no entanto, as aves são os únicos animais que podem aprender a falar; e o animal de voz mais repulsiva, o papagaio, é o que melhor fala. E não importa que se nos objete dizendo-nos que o papagaio não sabe o que fala. Claro está que por gosto apenas de falar e por sociabilidade o papagaio pode estar horas e horas repetindo todo o seu vocabulário. Mas, dentro do marco de suas representações, pode chegar também a compreender o que diz. Ensinai a um papagaio dizer palavrões (uma das distrações favoritas dos marinheiros que regressam das zonas quentes) e vereis logo que se o irritardes ele fará uso desses palavrões com a mesma correção de qualquer verdureira de Berlim. E o mesmo ocorre com o pedido de gulodices.
Primeiro o trabalho, e depois dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano – que, apesar de toda sua semelhança, supera-o consideravelmente em tamanho e em perfeição. E à medida em que se desenvolvia o cérebro, desenvolviam-se também seus Instrumentos mais Imediatos: os órgãos dos sentidos. Da mesma maneira que o desenvolvimento gradual da linguagem está necessariamente acompanhado do correspondente aperfeiçoamento do órgão do ouvido, assim também o desenvolvimento geral do cérebro está ligado ao aperfeiçoamento de todos os órgãos dos sentidos. A vista da águia tem um alcance multo maior que a do homem, mas o olho humano percebe nas coisas muitos mais detalhes que o olho da águia. O cão tem um olfato muito mais fino que o do homem, mas não pode captar nem a centésima parte dos odores que servem ao homem como sinais para distinguir coisas diversas. E o sentido do tato, que o macaco possui a duras penas na forma mais tosca e primitiva, foi-se desenvolvendo unicamente com o desenvolvimento da própria mão do homem, através do trabalho.
O desenvolvimento dó cérebro e dos sentidos a seu ser viço, a crescente clareza de consciência, a capacidade de abstração e de discernimento cada vez maiores, reagiram por sua vez sobre o trabalho e a palavra, estimulando mais e mais o seu desenvolvimento. Quando o homem se separa definitivamente do macaco esse desenvolvimento não cessa de modo algum, mas continua, em grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido mesmo às vezes por retrocessos de caráter local ou temporário, mas avançando em seu conjunto a grandes passos, consideravelmente Impulsionado e, por sua vez, orientado em um determinado sentido por um novo elemento que surge com o aparecimento do homem acabado: a sociedade
Foi necessário, seguramente, que transcorressem centenas de milhares de anos – que na história da Terra têm uma importância menor que um segundo na vida de um homem antes que a sociedade humana surgisse daquelas manadas de macacos que trepavam pelas árvores. Mas, afinal, surgiu. E que voltamos a encontrar como sinal distintivo entre a ma nada de macacos e a sociedade humana? Outra vez, o trabalho. A manada de macacos contentava-se em devorar os alimentos de uma área que as condições geográficas ou a resistência das manadas vizinhas determinavam. Transportava-se de um lugar para outro e travava lutas com outras manadas para conquistar novas zonas de alimentação; mas era Incapaz de extrair dessas zonas mais do que aquilo que a natureza generosamente lhe oferecia, se excetuarmos- a ação Inconsciente da manada ao adubar o solo com seus excrementos. Quando foram ocupadas todas as zonas capazes de proporcionar alimento, o crescimento da população simiesca tornou-se já, Impossível; no melhor dos casos o número de seus animais mantinha-se no mesmo nível Mas todos os animais são uns grandes dissipadores de alimentos; além disso, com freqüência, destroem em germe a nova geração de reservas alimentícias. Diferentemente do caçador, o lobo não respeita a cabra montês que lhe proporcionaria cabritos no ano seguinte; as cabras da Grécia, que devoram os jovens arbustos antes de poder desenvolver-se, deixaram nuas todas as montanhas do país. Essa "exploração rapace" levada a efeito pelos animais desempenha um grande papel na transformação gradual das espécies, ao obrigá-las a adaptar-se a alimentos que não são os habituais para elas, com o que muda a composição química de seu sangue e se modifica to da a constituição física do animal; as espécies já plasmadas,desaparecem. Não há dúvida de que essa exploração rapace para a humanização de nossos ante. passados, pois ampliou o número de plantas e as partes das plantas utilizadas na alimentação por aquela raça de macacos que superava todas as demais em inteligência e em capacidade de adaptação. Em uma palavra, a alimentação, cada vez mais variada, oferecia ao organismo novas e novas substâncias, com o que foram criadas as condições químicas para a transformação desses macacos em seres humanos. Mas tudo isso não era trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa com a elaboração de instrumentos. E que representam os instrumentos mais antigos, a julgar pelos restos que nos chegaram dos homens pré-históricos, pelo gênero de vida dos povos mais antigos registrados pela história, assim como pelo dos selvagens atuais mais primitivos? São instrumentos de caça e de pesca, sendo os primeiros utiliza dos também como armas. Mas a caça e a pesca pressupõem a passagem da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, o que significa um novo passo de sua importância na transformação do macaco em homem. A alimentação cárnea ofereceu ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. Desse modo, abreviou o processo da digestão e outros processos da vida vegetativa do organismo (isto é, os processos análogos ao da vida dos vegetais), poupando, assim, tempo, materiais e estímulos para que pudesse manifestar-se ativamente a vida propriamente animal. E quanto mais o homem em formação se afastava do reino vegetal, mais se elevava sobre os animais. Da mesma maneira que o hábito da alimentação mista converteu o gato e o cão selvagens em servidores do homem, assim também o hábito de combinar a carne com a alimentação vegetal contribuiu poderosamente para dar força física e independência ao homem em formação. Mas onde mais se manifestou a influência da dieta cárnea foi no cérebro, que recebeu assim em quantidade muito maior do que antes as substâncias necessárias à sua alimentação e desenvolvimento, com o que se foi tomando maior e mais rápido o seu aperfeiçoamento de geração em geração. Devemos reconhecer – e perdoem os senhores vegetarianos – que não foi sem ajuda da alimentação cárnea que o homem chegou a ser homem; e o fato de que, em uma ou outra época da história de todos os povos conhecidos, o emprego da carne na alimentação tenha chegado ao canibalismo (ainda no século X os antepassados dos berlinenses, os veletabos e os viltses devoravam os seus progenitores) é uma questão .que não tem hoje para nós a menor importância.
O consumo de carne na alimentação significou dois novos avanços de importância decisiva: o uso do fogo e a domesticação dos animais. O primeiro reduziu ainda mais o processo da digestão, já que permitia levar a comida à boca, como se disséssemos, meio digerida; o segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte para obtê-la em forma mais regular. A domesticação de animais também proporcionou, com o leite e seus derivados, um novo alimento, que era pelo menos do mesmo valor que a carne quanto à composição. Assim, esses dois adiantamentos converteram-se diretamente para o homem em ovos meios de emancipação. Não podemos deter-nos aqui em examinar minuciosamente suas conseqüências indiretas, apesar de toda a Importância que possam ter para o desenvolvimento do homem e da sociedade, pois tal exame nos afastaria demasiado de nosso tema. O homem, que havia aprendido a comer tudo o que era comestível, aprendeu também, da mesma maneira, a viver em qualquer clima. Estendeu-se por toda a superfície habitável da Terra, sendo o único animal capaz de fazê-lo por iniciativa própria. Os demais animais que se adaptaram a todos os climas – os animais domésticos e os insetos parasitas -não o conseguiram por si, mas unicamente acompanhando o homem. E a passagem do clima uniformemente cálido da pátria original para zonas mais frias, onde o ano se dividia em verão e Inverno, criou novas exigências, ao obrigar o homem a procurar habitação e a cobrir seu corpo para proteger-se do frio e da umidade. Surgiram assim novas esferas de trabalho, e com elas novas atividades, que afastaram ainda mais o homem dos animais.
Graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a propor-se e alcançar objetivos cada vez mais elevados. O trabalho mesmo se diversificava e aperfeiçoava de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas atividades. À caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao lado do comércio e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram as nações e os Estados. Apareceram o direito e a política, e com eles o reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a religião. Frente a todas essas criações, que se manifestavam em primeiro lugar como produtos do cérebro e pareciam dominar as sociedades humanas, as produções mais modestas, fruto do trabalho da mão, ficaram relegadas a segundo plano, tanto mais quanto numa fase mui to recuada do desenvolvimento da sociedade (por exemplo, já na família primitiva), a cabeça que planejava o trabalho já era capaz de obrigar mãos alheias a realizar o trabalho projetado por ela. O rápido progresso da civilização foi atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento e à atividade do cérebro. Os homens acostumaram-se a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar essa explicação em suas necessidades (refletidas, naturalmente, na cabeça do homem, que assim adquire consciência delas). Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu essa concepção idealista do mundo que dominou o cérebro dos homens, sobretudo a partir do desaparecimento do mundo antigo, e continua ainda a dominá-lo, a tal ponto que mesmo os naturalistas da escola darwiniana mais chegados ao materialismo são ainda incapazes de formar uma idéia clara acerca da origem do homem, pois essa mesma influência idealista lhes impede de ver o papel desempenhado aqui pelo trabalho.
Os animais, como já indicamos de passagem, também modificam com sua atividade a natureza exterior, embora não no mesmo grau que o homem; e essas modificações provocadas por eles no meio ambiente repercutem, como vimos, em seus causadores, modificando-os por sua vez. Nada ocorre na natureza em forma isolada. Cada fenômeno afeta a outro, e é por seu turno influenciado por este; e é em geral o esquecimento desse movimento e dessa interação universal o que Impede a nossos naturalistas perceber com clareza as coisas mais simples. Já vimos como as cabras impediram o reflorestamento dos bosques na Grécia; em Santa Helena, as cabras e os porcos desembarcados pelos primeiros navegantes chegados à ilha exterminaram quase por completo a vegetação ali existente, com o que prepararam o terreno para que pudessem multiplicar-se as plantas levadas mais tarde por outros navegantes e colonizadores. Mas a influencia duradoura dos animais sobre a natureza que os rodela é inteiramente involuntária e constitui, no que se refere aos animais, um fato acidental. Mas, quanto mais os homens se afastam dos animais, mais sua Influência sobre a natureza adquire um caráter de uma ação Intencional e planejada, cujo fim é alcançar objetivos projetados de antemão. Os animais destroçam a vegetação do lugar sem dar-se conta do que fazem. Os homens, em troca, quando destroem a vegetação o fazem com o fim de utilizar a superfície que fica livre para semear trigo, plantar árvores ou cultivar a videira, conscientes de que a colheita que irão obter superará várias vezes o semeado por eles. O homem traslada de um país para outro plantas úteis e animais domésticos, modificando assim a flora e a fauna de continentes Inteiros. Mais ainda: as plantas e os animais, cultivadas aquelas e criados estes em condições artificiais, sofrem tal influência da mão do homem que se tomam irreconhecíveis. Não foram até hoje encontra dos os antepassados silvestres de nossos cultivos cerealistas. Ainda não foi resolvida a questão de saber qual o animal que deu origem aos nossos cães atuais, tão diferentes uns de outros, ou às atuais raças de cavalos, também tão numerosos. Ademais, compreende-se de logo que não temos a intenção de negar aos animais a faculdade de atuar em forma planificada, de um modo premeditado. Ao contrário, a ação planificada existe em germe onde quer que o protoplasma – a albumina viva – exista e reaja, isto é, realize determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz, não digamos Já na célula nervosa, mas inclusive quando ainda não há célula de nenhuma espécie, O ato pelo qual as plantas insetívoras se apoderam de sua presa aparece também, até certo ponto, como um ato planejado, embora se realize de um modo totalmente Inconsciente. A possibilidade de realizar atos conscientes e premeditados desenvolve-se nos animais em correspondência com o desenvolvimento do sistema nervoso e adquire já nos mamíferos um nível bastante elevado.
Durante as caçadas organizadas na Inglaterra pode-se observar sempre a infalibilidade com que a raposa utiliza seu perfeito conhecimento do lugar para ocultar-se aos seus perseguidores, e como conhece e sabe aproveitar muito bem todas as vantagens do terreno para despistá-los. Entre nossos animais domésticos, que chegaram a um grau mais alto de desenvolvimento graças à sua convivência com o homem podem ser observados diariamente atos de astúcia, equiparáveis aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião humano no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larva, assim também o desenvolvimento espiritual da criança representa uma réplica, ainda mais abreviada, do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos. Mas nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade, Só o homem pôde fazê-lo.
Resumindo: só o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo mero fato de sua presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, inala unia vez, resulta do trabalho. Contudo, não nos deixemos dominar pelo entusiasmo em lace de nossas vitórias sobre a natureza. Após cada uma dessas vitórias a natureza adota sua vingança. E verdade que as primeiras conseqüências dessas vitórias são as previstas por nós, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem consequências muito diversas, totalmente imprevistas e que, com freqüência, anulam as primeiras. Os homens que na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e outras regiões devastavam os bosques para obter terra de cultivo nem sequer podiam imaginar que, eliminando com os bosques os centros de acumulação e reserva de umidade, estavam assentando as bases da atual aridez dessas terras. Os italianos dos Alpes, que destruíram nas encostas meridionais os bosques de pinheiros, conservados com tanto carinho nas encostas
setentrionais, não tinham idéia de que com isso destruíam as raízes da indústria de laticínios em sua região; e muito menos podiam prever que, procedendo desse modo, deixavam a maior parte do ano secas as suas fontes de montanha, com o que lhes permitiam, chegado o período das chuvas, despejar com maior fúria suas torrentes sobre a planície. Os que difundiram o cultivo da batata na Europa não sabiam que com esse tubérculo farináceo difundiam por sua vez a escrofulose. Assim, a cada passo, os fatos recordam que nosso domínio sobre a natureza não se parece em nada com o domínio de um conquistador sobre o povo conquistado, que não é o domínio de alguém situado fora da natureza, mas que nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, pertencemos à natureza, encontramo-nos em seu seio, e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos capazes de conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada.
Com efeito, aprendemos cada dia a compreender melhor a leis da natureza e a conhecer tanto os efeitos imediatos comi as conseqüências remotas de nossa intromissão no curso natural de seu desenvolvimento. Sobretudo depois dos grandes progressos alcançados neste século pelas ciências naturais, estamos em condições de prever e, portanto, de controlar cada vez melhor as remotas conseqüências naturais de nossos atos na produção, pelo menos dos mais correntes. E quanto mais isso seja uma realidade, mais os homens sentirão e compreenderão sua unidade com a natureza, e mais inconcebível será essa idéia absurda e antinatural da antítese entre o espírito e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo, Idéia que começa a difundir-se pela Europa sobre a base da decadência da antiguidade clássica e que adquire seu máximo desenvolvimento no cristianismo.
Mas, se foram necessários milhares de anos para que o homem aprendesse, em certo grau, a prever as remotas conseqüências naturais no sentido da produção, muito mais lhe custou aprender a calcular as remotas conseqüências sociais desses mesmos atos. Falamos acima da batata e de seus efeitos quanto à difusão da escrofulose. Mas que importância pode ter a escrofulose, comparada com os resultados que teve a redução da alimentação dos trabalhadores a batatas puramente sobre as condições de vida das massas do povo de países inteiros, com a fome que se estendeu em 1847 pela Irlanda em conseqüência de uma doença provocada por esse tubérculo e que levou à sepultura um milhão de irlandeses que se alimentavam exclusivamente, ou quase exclusivamente, de batatas e obrigou a que emigrassem para além-mar outros dois milhões? Quando os árabes aprenderam a destilar o álcool, nem sequer ocorreu-lhes pensar que haviam criado uma das armas principais com que iria ser exterminada a população indígena do continente americano, então ainda desconhecido. E quando mais tarde Colombo descobriu a América não sabia que ao mesmo tempo dava nova vida à escravidão, há muito tempo desaparecida na Europa, e assentado as bases do tráfico dos negros. Os homens que nos séculos XVII e XVIII haviam trabalhado para criar a máquina a vapor não suspeitavam de que estavam criando um instrumento que, mais do que nenhum outro, haveria de subverter as condições sociais em todo o mundo e que, sobretudo na Europa, ao concentrar a riqueza nas mãos de uma minoria e ao privar de toda propriedade a imensa maioria da população, ha veria de proporcionar primeiro o domínio social e político à burguesia, e provocar depois a luta de classe entre a burguesia e o proletariado, luta que só pode terminar com a liquidação da burguesia e a abolição de todos os antagonismos de classe. Mas também aqui, aproveitando uma experiência ampla, e às vezes cruel, confrontando e analisando os mate riais proporcionados pela história, vamos aprendendo pouco a pouco a conhecer as conseqüências sociais indiretas e mais remotas de nossos atos na produção, o que nos permite estender também a essas conseqüências o nosso domínio e o nosso controle.
Contudo, para levar a termo esse controle é necessário algo mais do que o simples conhecimento. É necessária uma revolução que transforme por completo o modo de produção existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.
Todos os modos de produção que existiram até o presente só procuravam o efeito útil do trabalho em sua forma mais direta e imediata. Não faziam o menor caso das conseqüências remotas, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar os possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal. Todas as formas mais elevadas de produção que vieram de pois conduziram à divisão da população em classes diferentes e, portanto, no antagonismo entre as classes dominantes e as classes oprimidas. Em conseqüência, os Interesses das classes dominantes converteram-se no elemento propulsor da produção, enquanto esta não se limitava a manter, bem ou mal, a mísera existência dos oprimidos. Isso encontra sua expressão mais acabada no modo de produção capitalista, que prevalece hoje na Europa ocidental. Os capitalistas individuais, que dominam a produção e a troca, só podem ocupar-se da utilidade mais imediata de seus atos. Mais ainda: mesmo essa utilidade – porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada – passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.
A ciência social da burguesia, a economia política clássica, só se ocupa preferentemente daquelas conseqüências sociais que constituem o objetivo imediato dos atos realizados pelos homens na produção e na troca. Isso corresponde plenamente ao regime social cuja expressão teórica é essa ciência. Porquanto os capitalistas isolados produzem ou trocam com o único fim de obter lucros imediatos, só podem ser levados em conta, primeiramente, os resultados mais próximos e mais imediatos. Quando um industrial ou um comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro habitual, dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira alguma o que possa ocorrer depois com essa mercadoria e seu comprador. O mesmo se verifica com as conseqüências naturais dessas mesmas ações. Quando, em Cuba, os planta dores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas para obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de cafeeiros de alto rendi mento pouco lhes Importava que as chuvas torrenciais dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada da proteção das árvores, e não deixassem depois de si senão rochas desnudas! Com o atual modo de produção e no que se refere tanto às conseqüências naturais como às conseqüências sociais dos atos realizados pelos homens, o que Interessa prioritariamente são apenas os primeiros resultados, os mais palpáveis E logo até se manifesta estranheza pelo fato de as conseqüências remotas das ações que perseguiam esses fins serem muito diferentes e, na maioria dos casos, até diametralmente opostas; de a harmonia entre a oferta e a procura converter-se em seu antípoda, como nos demonstra o curso de cada um desses ciclos industriais de dez anos, e como puderam convencer-se disso os que com o "crack" viveram na Alemanha um pequeno prelúdio; de a propriedade privada baseada no trabalho próprio converter-se necessariamente, ao desenvolver-se, na ausência de posse de toda propriedade pelos trabalhadores, enquanto toda a riqueza se concentra mais e mais nas mãos dos que não trabalham. Escrito por Engels em 1876. Publicado pela primeira vez em 1896 em Neue Zelt. Publica-se segundo com a edição soviética de 1952, de acordo com o manuscrito, em alemão.
Traduzido do espanhol.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

Carapaça versátil

Biopolímero obtido do camarão pode ser usado em vacinas e cosméticos.

Dinorah Ereno

Duas matérias-primas encontradas em grande quantidade no Rio Grande do Sul, a quitosana, um biopolímero preparado a partir da carapaça do camarão, e o poliol, obtido do óleo do grão da soja, são os principais componentes de uma nova substância para incorporação de partículas ou princípios ativos utilizados no preparo de gel para cabelo ou para ultrassonografia, além de entrar na composição de repelente de insetos. Registrado com o nome comercial de Quiol-gel, ele apresenta viscosidade semelhante às substâncias utilizadas atualmente em vários produtos farmacêuticos e cosméticos e fabricadas a partir de polímeros petroquímicos, com a vantagem de ser biocompatível e biodegradável.
“O produto tem uma composição específica que permite a aplicação do material diretamente na pele após a incorporação de ingredientes cosméticos ou ativos”, diz a professora Nádya Pesce da Silveira, do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora da pesquisa. Uma das principais características do Quiol-gel é a possibilidade de variar a viscosidade da formulação. É possível obter tanto um gel, como uma pomada, um fluido ou até um spray. Para isso, basta modificar as condições de preparação das macromoléculas de quitosana associadas às moléculas menores do poliol, adequando o pH desejado.
Os estudos que derivaram na formulação do gel começaram com o desenvolvimento de uma nanopartícula de origem biológica, que recebeu o nome de quitossoma, resultado da incorporação da quitosana ao lipossoma, uma nanoestrutura semelhante a pequenas esferas de gordura considerada um excelente sistema de liberação controlada de medicamentos ou substâncias biologicamente ativas. “O diferencial desse sistema para outros similares é o método de preparação, que faz com que a estabilidade da partícula melhore muito”, diz Nádya. Lipídios extraídos da lecitina de soja, um subproduto da produção do óleo de soja, foram associados à quitosana, molécula natural com propriedade antifúngica, para que o sistema ficasse mais estável. “O quitossoma se mantém estável durante um mês em temperatura ambiente sem criar fungos”, diz Nádya. Essa propriedade, aliada ao fato de ser biodegradável e biocompatível, faz dessa nanopartícula um veículo com grande potencial para encapsular ativos biológicos. “Dentro do quitossoma posso colocar uma vacina, um antioxidante, um protetor solar ou até mesmo medicamentos”, explica.
“Algumas possibilidades de aplicação já foram testadas. Quitossomas preparados na UFRGS foram utilizados como adjuvantes (veículos de transporte de substâncias) em vacinas contra a difteria, uma doença bacteriana que afeta a garganta e pode causar sérias complicações. O experimento foi feito por pesquisadores do Instituto Butantan coordenados pela pesquisadora Maria Helena Bueno da Costa, do Laboratório de Microesferas e Lipossomas do Centro de Biotecnologia, em parceria com pesquisadores da Universidade de Havana, em Cuba. Três formulações diferentes de toxoide diftérico, a toxina atenuada, foram testadas e comparadas. Uma delas era composta do toxoide associado ao quitossoma, outra do toxoide veiculado com lipossoma normal e a terceira apenas o toxoide sem nenhum adjuvante extra. “A resposta do quitossoma como adjuvante foi superior”, diz Maria Helena. Ela diz que ainda não se sabe o mecanismo da ação adjuvante do quitossoma, mas que foi possível observar nos experimentos com camundongos maior produção de anticorpos.

A pesquisadora ressaltou que o método de incorporar as quitosanas nos lipossomas desenvolvido pelo grupo da professora Nádya é inovador. “A quitosana é colocada internamente e externamente nos lipídios”, diz. É como se fosse um sanduíche, que melhora a resistência das partículas. Pelos outros métodos já conhecidos a quitosana é colocada apenas externamente. “Como as nanopartículas aderem ao tecido e liberam lentamente a substância encapsulada, há um aumento na eficácia da vacina ou do medicamento encapsulado porque o contato com o corpo é mais prolongado”, explica Nádya. Isso significa economia das substâncias ativas e menores efeitos colaterais. Um novo estudo conduzido atualmente por Maria Helena utiliza o quitossoma como modelo para vacina oral contra difteria e contra veneno de abelha. “Ele induz também a resposta da mucosa, que é um grande problema da vacina oral”, diz a pesquisadora.
Radiação solar - O quitossoma também foi testado em associação com a melatonina, uma substância produzida no cérebro pela glândula pineal e presente em pequenas quantidades em frutos, vegetais, cereais e plantas aromáticas, para avaliar como a formulação responde ao envelhecimento cutâneo produzido pela radiação solar. O experimento foi feito pela mestranda Manuela França Gonçalves, orientada pela professora Silvia Guterres, do Departamento de Produção e Controle de Medicamentos da Faculdade de Farmácia da UFRGS e coordenadora da Rede Nanocosméticos, criada e financiada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. A professora Nádya foi coorientadora na parte da caracterização do quitossoma.
A melatonina associada ao quitossoma foi comparada com a melatonina incorporada a um hidrogel. As duas formulações foram passadas no dorso de camundongos submetidos à radiação ultravioleta. “A melatonina tem efeito antioxidante, protege contra o envelhecimento cutâneo e a radiação  UVA do sol, que promove danos a longo prazo”, diz Manuela. O quitossoma ajuda a transportar a melatonina e pode ser um sistema promissor na incorporação de aplicações cutâneas, como protetores solares, porque vai ajudar na proteção da pele contra os efeitos da radiação UVA. Isso significa que o quitossoma poderia ser associado a filtros físicos e químicos em protetores solares que já são utilizados para aumentar a eficácia dos produtos.
No Instituto de Ciências e Tecnologia de Alimentos da UFRGS o quitossoma tem sido avaliado em associação com algumas enzimas pelo grupo do professor Adriano Bradelli. “Eles podem fazer com que, por exemplo, o queijo permaneça mais tempo estável”, diz Nádya. São várias linhas de estudo com aplicações diversas que ultrapassam as fronteiras da cosmética, área em que as pesquisas tiveram início.

Artigo científico
MARÓN, L. B., et al. LUVs recovered with chitosan: a new preparation for vaccine delivery. Journal of Liposome Research. v. 17, ed. 3&4, p. 155-163, jul. 2007.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Antigüidade Oriental

Esse tema comumente é tratado dentro do chamado Modo de Produção Asiático.

Falar em Modo de Produção é um tanto abstrato e conceitual, mas, na realidade, quando entendemos que Modo de Produção é a forma pela qual uma sociedade organiza seu modo de vida, com certeza torna-se mais fácil nos prendermos ao assunto.
Sem dúvida, ao iniciarmos o tema o primeiro interesse despertado é em relação à uma série de mitos em torno dessas primeiras civilizações que se formaram na História.

Porém, devemos levar em consideração que um dos papéis da História é justamente o de destruir os mitos — pois, muitas vezes nos deixamos seduzir por determinados mitos que nos impedem de realmente ver a História.
Existe uma grande preocupação do estudante no sentido de "como estudar " e "como compreender" as várias civilizações antigas do Oriente Próximo, nos vários períodos de sua história.
É necessário não se apegar a detalhes – muitas vezes curiosos e interessantes – e procurar entender a essência dessas civilizações dentro de uma regra geral : O Modo de Produção Asiático, e a partir de então estudar algumas exceções ou peculiaridades.
As características gerais do Modo de Produção Asiático
Quando falamos que a produção econômica dessas civilizações é predominantemente agrária, que as sociedade é estratificada e estamental, que predomina a teocracia enquanto forma de dominação política e que a religião é politeísta. Não podemos entender essas várias realidades como partes estanques e desligadas umas das outras.
Muito ao contrário, em razão de um Estado teísta, forte, despótico e centralizado toda a comunidade era levada a obedecer a esses grandes deuses que a governava.
A situação a que esses grupos eram reduzidos, vivenciando a mais plena condição de ignorância, fazia-os acreditar que esse grande deus controlava, inclusive, os destinos da própria Natureza.
Dessa forma, vimos nesse momento também a criação de mecanismos de dominação ideológica, além de uma mera preocupação com o controle sobre a Natureza.
Portanto, para nós o estudo sobre construção de pirâmides, zigurates, mumificação, tábuas e códigos de leis escritas apenas ganham sentido quando vistos dentro dessa perspectiva.
As principais exceções
A Civilização Fenícia foi uma grande exceção na Antigüidade: Ocupando uma estreita faixa de terra do litoral do mediterrâneo até as montanhas do Líbano, o povo fenício dividiu-se politicamente, fazendo com que suas cidades possuíssem autonomia política uma frente a outra, como cidades Estado, não havendo portanto um Estado centralizado. A economia baseava-se no comércio, principalmente marítimo, pelo Mediterrâneo, alcançando a Península Ibérica, possibilitou a formação de uma camada enriquecida, responsável pelo controle político da cidade, portanto dizemos que nas cidades fenícias houve umaTalassocracia ( Governo "daqueles que vêm do mar" ). Em tese havia mobilidade social, pois um mercador poderia enriquecer e então passar a Ter direitos políticos, o que na prática era muito difícil.
Destaca-se a criação do primeiro alfabeto fonético e grande desenvolvimento da arte náutica, tanto em termos de construção como em termos de navegação.

No Egito, apesar de ser considerado o modelo clássico do modo de produção asiático, encontramos um momento importante de exceção: Em 1377 a.C. o faraó Amenófis IV implementou o culto monoteísta à ATON, representado pelo disco solar. O Faraó executou violenta repressão aos sacerdotes, tomou terras e fechou templos, com o intuito de eliminar a grande influência do clero sobre o povo e sobre as relações sócio econômicas.
Na Mesopotâmia a principal exceção foi o povo assírio, originário da região norte, montanhosa e pouco fértil, portando dependiam da caça e posteriormente da guerra para sobreviverem. Sua expansão foi responsável pelo domínio sobre toda região sul e pela construção de um grande Império.

O Império Persa começou sua expansão após a unificação com os Medos, em 555 a.C., liderada por Ciro. A religião oficial era dualista, criada por Zoroastro, que supunha uma eterna luta entre o deus do bem e o deus do mal. No entanto, os persas foram bastante tolerantes do ponto de vista cultural e religioso com os povos dominados.

O povo Hebreu caracteriza-se principalmente por ter sido o único povo monoteísta da Antigüidade. Sua história é conhecida principalmente através do Antigo Testamento, que não é apenas uma obra religiosa, mas que trata de aspectos variados de sua história, como a importância de patriarcas e juizes, assim como das técnicas utilizadas na agricultura. Existem três momentos importantes que devem ser destacados: O Êxodo, o Cisma e a grande Diáspora do século II.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

A revolução do cérebro

A máquina mais complexa do Universo está na sua cabeça. Agora que começamos a entender como ela funciona, descobrimos capacidades que nem imaginávamos. Saiba quais são esses superpoderes – e o que fazer para adquiri-los.

Rafael Kenski

O seu cérebro é capaz de quase qualquer coisa. Ele consegue parar o tempo, ficar vários dias numa boa sem dormir, ler pensamentos, mover objetos a distância e se reconstruir de acordo com a necessidade. Parecem superpoderes de histórias em quadrinhos, mas são apenas algumas das descobertas que os neurocientistas fizeram ao longo da última década. Algumas dessas façanhas sempre fizeram parte do seu cérebro e só agora conseguimos perceber. Outras são fruto da ciência: ao decifrar alguns mecanismos da nossa mente, os pesquisadores estão encontrando maneiras de realizar coisas que antes pareciam impossíveis. O resultado é uma revolução como nenhuma outra, capaz de mudar não só a maneira como entendemos o cérebro, mas também a imagem que fazemos do mundo, da realidade e de quem somos nós. Siga adiante e entenda o que está acontecendo (e aproveite que, segundo uma das mais recentes descobertas, nenhum exercício para o seu cérebro é tão bom quanto a leitura).

Superpoder 1 – Mudar a própria forma

Os dedos da mão esquerda de um violinista fazem todo tipo de movimentos. Já os da mão direita fazem só um: segurar o arco, algo importante, mas simples. Todas essas ações são coordenadas pelo córtex motor, uma fatia acima da orelha que possui um mapa de todo o corpo: um pedaço coordena o pé, outro, a perna, e assim vai até a cabeça. Quando os cientistas analisaram esse mapa em violinistas, repararam em algo curioso: a região que comanda os dedos da mão esquerda é maior do que a da direita. O cérebro se adapta ao estilo de vida do seu dono.

O mesmo acontece com todo mundo. Quem lê textos em braile desde pequeno utiliza para o tato uma parte do cérebro normalmente ocupada pela visão. Em pessoas que perdem um braço, a área que recebia sensações desse membro se liga a outras partes do corpo, como o rosto, o que às vezes gera "dores fantasmas": um toque na bochecha é interpretado como uma lesão no braço. Aliás, não se assuste, mas, agora mesmo, este texto e tudo o mais a sua volta estão deixando marcas físicas no seu cérebro.

Está aí a revolução: segundo os cientistas, o seu cérebro é muito elástico. Há menos de 20 anos, imaginava-se que ele era como um computador, uma máquina com circuitos fixos, em que tudo o que se podia fazer era acrescentar informações. Agora se sabe que não. "O hardware também é aprendido. Caminhar, falar, mover partes do corpo envolve experiência e memória", diz Iván Izquierdo, neurocientista da PUC gaúcha. O cérebro se reiventa, cria novos neurônios, novas conexões e novas funções para áreas pouco utilizadas.

Não é de espantar que os cientistas tenham demorado a perceber isso. Até 3 décadas atrás, tudo o que se podia fazer para estudar o cérebro humano era abrir a cabeça e olhar dentro. Alguns chegaram a fazer isso com pacientes vivos, mas o normal era esperar as pessoas morrerem e depois olhar o que sobrava. Na época, as principais descobertas vinham de pesquisas com animais ou com pessoas com lesões no cérebro – por exemplo, se alguém perdia o hipocampo e, junto com ele, a memória recente, é porque os dois deviam estar ligados.

Agora os cientistas conseguem desde entender como os genes dão origem às moléculas do cérebro até simular em computador conjuntos de neurônios. E surgiram maneiras de observar o cérebro em atividade, graças, principalmente, à ressonância magnética funcional (RMF), uma espécie de telescópio Hubble para os neurocientistas. O princípio é colocar o paciente em um campo magnético tão forte que, pendurado em um guindaste, seria capaz de levantar dois carros juntos (o que mostra por que não é uma boa idéia aproximar objetos metálicos de aparelhos como esse). Essas circunstâncias possibilitam detectar, por ondas de rádio, o fluxo de sangue oxigenado para diferentes partes do cérebro, o que indica as regiões mais ativas em cada situação.

A técnica permitiu, pela primeira vez, mapear o cérebro em funcionamento. Também enterrou aquela idéia de que só usamos 10% da nossa mente: todo o cérebro trabalha o tempo inteiro. Mas, de acordo com o que fazemos, algumas partes são mais ativadas que outras (veja quadro na página 54). Nos últimos anos, as pesquisas mostraram os sistemas que acendem em situações como se apaixonar, tomar uma decisão, sentir sono, medo, desejo de uma comida ou até schadenfreunde, palavra alemã para o prazer de ver alguém se dando mal (que, percebeu-se, é mais intenso em homens). "Estamos decifrando a linguagem com que as áreas do cérebro conversam. É possível que os sistemas que conseguimos ver sejam como um arquipélago: parecem ilhas isoladas, mas, por baixo, são parte de uma mesma montanha", diz o radiologista do Hospital das Clínicas Edson Amaro, membro do projeto internacional Mapeamento do Cérebro Humano.

O que complica as pesquisas é que, assim como não existe pessoa igual a outra, cada cérebro é diferente. Além disso, a aparência dos neurônios não é um indicador fiel do que acontece na cabeça. "Existe quem morra com problemas de memória e, na autópsia, se percebe que o cérebro estava perfeito. E também os que não apresentaram problemas até o fim da vida, mas têm um cérebro danificado", diz Lea Grinberg, uma das coordenadoras do banco de cérebros da USP, que reúne e tenta comparar 3 600 amostras para resolver problemas como esse. Mesmo ainda misterioso, é provável que seja esse o ponto em que o modo como você utiliza o cérebro faça a diferença.

"É como um músculo: se você exercita, você está mais protegido contra problemas", diz Lea. Em caso de danos ao cérebro – seja causado por doenças como Alzheimer ou por pauladas na cabeça –, pessoas com bom nível educacional ou QI alto sofrem perdas menores da capacidade cerebral. Ao que tudo indica, exercitar o cérebro cria uma espécie de reserva. É possível que, quando necessário, os atletas mentais consigam recrutar outras áreas do cérebro mais facilmente, ou talvez compensem a perda por usarem cada área de forma mais eficiente.

Aliás, uma boa notícia: só o fato de você estar lendo este texto já é um começo. "Leitura é um exercício fantástico. Quem não lê está fadado a uma memória mais lenta", diz Izquierdo. Enfrentar desafios e sair da frente da TV também ajuda, assim como fazer exercícios físicos. Eles não só permitem que o seu cérebro funcione melhor como, provavelmente, fazem nascer novos neurônios.

Superpoder 2 – Regenerar suas partes

A história do seu cérebro começa pouco depois da concepção, quando o embrião humano ainda é chato como uma panqueca. Até que, com uns 17 dias, uma parte da superfície começa a dobrar até se fechar em um tubo. Esse tubo acabará se transformando no sistema nervoso inteiro. De 5 a 6 meses depois, seu crescimento cerebral atinge a velocidade máxima, espantosos 250 mil novos neurônios por minuto. Antes mesmo de você nascer, o cérebro está praticamente formado. Daí em diante, segundo o que se acreditava até há pouco tempo, ele poderia aprender coisas novas, mas não ganharia novos neurônios. Só nos restava cuidar bem dos que já temos.

Tudo isso mudou em 1998, quando os cientistas provaram que o cérebro produz, sim, novas células ao longo da vida – num processo batizado de neurogênese. Caía um dos mais arraigados mitos da ciência. Desde então, descobrir como surgem novos neurônios e para que eles servem se tornou um dos temas mais quentes da neurociência. É possível que dessas pesquisas saiam formas de curar doenças como depressão e Alzheimer, retardar o envelhecimento e até garantir um melhor funcionamento do cérebro para pessoas saudáveis.

Apesar de os cientistas terem visto sinais de novos neurônios em várias partes do cérebro, a produção está restrita a duas regiões. "É possível que ela exista em outras áreas de forma bem reduzida, que não conseguimos detectar com os métodos atuais", diz neurobiólogo Alysson Muotri, do Instituto Salk, EUA. O primeiro ponto é uma zona logo abaixo dos ventrículos (um bolsão de líquidos no meio do cérebro), que produz neurônios relacionados aos sentidos. O segundo é o hipocampo, o que é intrigante porque ele é uma área essencial para a formação de memórias, embora ninguém saiba dizer qual a função dos novos neurônios ali. "A neurogênese é um processo muito lento e fraco para dar conta da memória", diz Izquierdo. Ou seja, ele descarta que os novos neurônios surjam a cada nova memória que gravamos – afinal temos muitas memórias e poucos neurônios nascendo. O mais provável é que eles tenham um papel mais limitado.

Mas não há dúvidas de que a neurogênese é um processo importante. Sabe-se, por exemplo, que alguns tipos de derrames aumentam a produção de neurônios. A maioria deles morre, mas alguns conseguem chegar ao local da lesão e formar um remendo que não resolve os casos mais graves, mas corrige microderrames que acabam passando despercebidos. E um grande número de doenças, de uma forma ou de outra, está ligado à neurogênese. A depressão é uma delas (veja quadro na página 53). O mal de Alzheimer é outra: ratos modificados geneticamente para desenvolver a doença apresentam também problemas na neurogênese, prova de que alguma conexão há. E remédios capazes de estimular o nascimento de neurônios em cobaias conseguiram atenuar os sintomas de mal de Parkinson – uma abordagem que pode se revelar promissora para humanos.

O grande sonho dos cientistas agora é controlar o processo para fazer o cérebro tapar os próprios buracos – mais ou menos como uma lagartixa regenera uma perna cortada. E, possivelmente, estimular o cérebro de pessoas saudáveis a fabricar neurônios – afinal, células novinhas em folha podem dar uma bela mão na hora de raciocinar. Ainda estamos distantes desse sonho, mas já existe um caminho. "Muitos fatores que incentivam o crescimento de novos neurônios já são conhecidos", diz o neurologista Cícero Galli Coimbra, da Universidade Federal de São Paulo. Um deles é evitar estresse, que sabidamente bloqueia o crescimento de neurônios. Outro é viver em um ambiente rico, com estímulos mentais e físicos variados: basta colocar ratos em jaulas agradáveis e cheias de brinquedos divertidos para que a neurogênese triplique. O mesmo para banhos de sol – que fazem o corpo produzir vitamina D, essencial para o crescimento das novas células – e para uma dieta rica em colina, substância presente em gema de ovos e ingrediente-chave dos neurônios. Junte tudo isso e a sua mente, literalmente, começará a crescer.

Superpoder 3 – Mover objetos

O seu corpo, ao que parece, é muito pequeno para conter uma máquina tão poderosa quanto o cérebro. Prova disso veio em julho, quando foram divulgadas as aventuras de Matthew Nagle, um americano que ficou paralítico em uma briga em 2001. Três anos depois, cientistas da Universidade Brown, EUA, e de 4 outras instituições implantaram eletrodos na parte do cérebro dele responsável pelos movimentos dos braços e registraram os disparos de mais de 100 neurônios. Enviados a um computador, esses sinais permitiram que ele controlasse um cursor em uma tela, abrisse e-mails, jogasse videogames e comandasse um braço robótico. Somente com o pensamento, Nagle conseguiu mover objetos.

Mas não espere virar logo um personagem de Matrix e se plugar a computadores. Além de ser meio incômodo viver com fios saindo de dentro da cabeça, os movimentos de Nagle eram desajeitados, o sistema precisava ser recalibrado todo dia e, depois de alguns meses, os eletrodos perderam a sensibilidade. Foi, entretanto, uma prova de que o nosso cérebro é capaz de comandar objetos fora do corpo – uma idéia que pode mudar nossa relação com o mundo.

Um dos pioneiros nesse tipo de experiência é o neurobiólogo brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, EUA, que desde 1999 vem tornando primatas capazes de comandar computadores com a mente. Ele chegou a fazer experiências em que sinais cerebrais de um macaco eram transmitidos pela internet e reproduzidos por um braço robótico a mais de 1 000 quilômetros de distância. No ano passado, ele e sua equipe demonstraram um fato curioso: depois de um tempo ligado ao aparelho, o cérebro do macaco começou a assimilar a nova extensão como parte do próprio corpo. A grande promessa da descoberta é abrir caminho para que pessoas que perderam um membro operem membros robóticos como se fossem naturais. Mas tem mais: apesar de os eletrodos terem sido colocados na área do córtex que comanda o braço, o macaco havia se adaptado à prótese: era possível fazer uma coisa com o braço natural, e outra diferente com o mecânico. Ou seja, não é absurdo imaginar que esse novo conhecimento permita não apenas criarmos próteses para deficientes, mas também membros novos para pessoas perfeitamente saudáveis – que tal um terceiro braço?

Tudo isso parece ficção, mas é possível que todos nós façamos algo parecido no dia-a-dia. Pense na quantidade de instrumentos que você usa e na facilidade com que faz coisas difíceis como dirigir automóveis, ler, tocar instrumentos, usar talheres. O que a pesquisa de Nicolelis sugere é que tanta destreza pode existir porque, para os nossos neurônios, é como se todos esses objetos fizessem parte do nosso corpo. "Macacos e humanos têm a habilidade de incorporar ferramentas na estrutura do cérebro. Na verdade, achamos que o próprio conceito de identidade se estende às nossas ferramentas", diz Nicolelis. Ou seja, para o cérebro, o lápis, o violão ou a bicicleta são literalmente partes de nós. Já é uma idéia impressionante, mas fica mais incrível ainda com outra descoberta: a de que não fazemos isso apenas com objetos, mas também com seres humanos.

Superpoder 4 – Ler pensamentos

Um macaco em um laboratório da Universidade de Parma, na Itália, jamais imaginaria que faria parte de uma das maiores descobertas da ciência quando, 15 anos atrás, descansava com eletrodos implantados no cérebro. Os fios estavam conectados a neurônios que disparavam quando ele fazia movimentos. Por exemplo, se o macaco levantava um objeto, um neurônio começava a funcionar. Até que, despretensiosamente, um cientista levantou um objeto perto do simpático primata. E, para surpresa de todos, exatamente o mesmo neurônio que disparava quando o próprio macaco fazia a ação começou a funcionar. Em alguns casos, bastava o som dessa ação para acionar a célula. Ou seja, era como se a mente do macaquinho simulasse tudo o que os outros fizessem ao redor. Essa tendência para imitar tudo fez com que, em 1996, ao publicarem a descoberta, os cientistas italianos batizassem essas células de "neurônios-espelho".

Nos anos seguintes, os cientistas descobriram que não só temos o mesmo sistema dos macacos, como em humanos ele é muito mais desenvolvido. Em humanos, os neurônios-espelho envolvem muito mais áreas e são acionados com mais freqüência. Tanto que, apesar de recém-descobertos, eles já estão sendo propostos para responder por que os bocejos são contagiosos, por que apreciamos a arte, como surgiu a cultura, a sociedade, a linguagem e a civilização e até mesmo para definir quem somos nós.

Os neurônios-espelho estão ativos desde o momento em que nascemos. Faça o teste: mostre sua língua para um recém-nascido e, provavelmente, ele tentará copiá-lo. "Parece que o único modo de perceber as coisas é usando o nosso sistema motor e o nosso corpo para imitá-las", diz o neurologista Marco Iacoboni, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Com o tempo, conseguimos até prever as intenções dos outros: o sistema pode disparar mesmo que as pessoas apenas dêem sinais de que farão alguma coisa. O mesmo vale para as emoções. Cientistas em Marselha, França, mostraram que sentir um cheiro nojento ou ver pessoas fazendo cara de nojo dispara o mesmo grupo de neurônios-espelho.

"Esses neurônios, ao que parece, dissolvem a barreira entre a pessoa e os outros", diz o neurologista indiano Vilayanur Ramachandran, da Universidade da Califórnia em San Diego, EUA. Ele faz parte de um grupo de cientistas que acredita que essa tendência para imitar emoções esteja na base da empatia, das habilidades sociais e da própria cultura. Um argumento a favor dessa teoria é a importância dos neurônios-espelho na linguagem: basta ler um texto com a descrição de uma ação para que você dispare essas células cerebrais da mesma forma que faria se a estivesse executando. Ramachandran e outros acreditam que a imitação de movimentos tenha funcionado como uma espécie de linguagem primitiva, que foi se sofisticando até dar origem a sinais abstratos, palavras, línguas complexas e Prêmios Nobel de Literatura.

Os neurônios-espelho podem mudar até mesmo a idéia de quem é você: afinal, para eles, tanto faz se uma ação foi feita por você ou por qualquer outro. "Isso mostra que você ‘compartilha’ sua mente com outras pessoas, que você e os outros não são duas entidades totalmente independentes, mas, sim, dois lados da mesma moeda", diz Iacoboni. É um ponto em que as mais avançadas pesquisas médicas ganham ar de filosofia oriental: a idéia de que você e os outros são partes de um mesmo todo. "Culturas onde a ênfase é menos no indivíduo e mais no grupo devem ter pessoas com um sistema de neurônios-espelho mais robusto", diz ele. Ou seja, para o seu cérebro, talvez você seja uma soma do seu organismo, de vários objetos que você usa e de pessoas que estão à sua volta. Pense nisso da próxima vez que alguém disser que você precisa ser você mesmo.

Superpoder 5 – Ampliar seus poderes

Já que o nosso cérebro muda tanto, imagine só se você pudesse fazer isso na marra. Aperte um botão e a depressão vai embora. Mude a configuração e um viciado deixa de sentir a fissura. Ajuste mais um pouco e você consegue aprender mais rápido, ficar mais atento, mais acordado ou ter mais memória. Interessante, não? Não admira que muitos laboratórios estejam buscando máquinas e remédios capazes de algo parecido.

Um dos avanços tem um nome estiloso: estimulação magnética transcraniana de repetição (EMTr). É uma técnica que permite estimular, inibir e modelar circuitos específicos do cérebro. Trata-se de um ímã fortíssimo – tão forte quando o de um aparelho de ressonância magnética – focado em partes específicas do córtex e aplicado em flashes de apenas 0,2 milésimos de segundo. Emitir menos de um pulso por segundo inibe a região do cérebro sobre a qual ele é direcionado. Dois ou 3 por segundo estimulam. E centenas por segundo fazem a pessoa entrar em convulsão.

Mas, dentro dos parâmetros seguros, a máquina faz proezas. "Nós conseguimos usar a EMTr para estimular uma parte do córtex e aliviar a depressão. Também usamos para acelerar o efeito de antidepressivos: em vez de um mês, o remédio apresenta resultados em apenas uma semana", diz o psiquiatra Marco Antonio Marcolin, do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ele é um dos pioneiros da técnica: seu laboratório também conseguiu o feito de puxar o freio de áreas do cérebro que fazem alguns pacientes sentir dor crônica ou ter alucinações auditivas. Entre as possibilidades da EMTr também está estimular a recuperação em derrames, fazer pessoas parar de fumar, atenuar transtorno de déficit de atenção ou até regular o apetite. A grande vantagem é que a técnica não requer cirurgias nem anestesias e traz resultados que podem se prolongar por meses. Além disso, tem poucos efeitos colaterais – e o mais interessante é que, entre eles, pode estar um aumento da memória.

Uma técnica que aumente a capacidade de aprendizado do cérebro é algo que nunca existiu e que muitos pesquisadores tomam como impossível. Mas a EMTr tem a chance de fazer esse milagre, apesar de ninguém ter provado isso com testes em larga escala. Uma das maiores evidências nesse sentido veio da Universidade de Göttingen, na Alemanha, em uma pesquisa que assusta à primeira vista: os voluntários não só receberam os fortíssimos pulsos magnéticos da EMTr como ainda levaram pequenos choques em áreas relacionadas ao controle de movimentos. O surpreendente resultado foi uma melhora de 10% em testes de aprendizado de tarefas motoras. "Não conseguimos ainda provar que um baterista poderia usar a técnica para aprimorar seu treinamento, mas é provável que ela poderia ajudá-lo a chegar mais rapidamente ao auge da performance", diz o neurofisiologista alemão Walter Paulus, um dos autores do estudo.

Pesquisas patrocinadas pelo Exército dos EUA também tentam reduzir as máquinas que geram magnetismo a algo que se possa colocar no capacete de um piloto de caça para melhorar seu desempenho. E até já se imaginou um aparelho parecido com um tocador de mp3 que usasse pequenos choques para estimular o cérebro ao toque de um botão.

Mas ninguém tem prometido tanto um caminho para uma mente turbinada quanto a indústria farmacêutica. Existe mais de uma dezena de remédios em estudo para aprimorar funções do cérebro como memória, atenção e resistência ao sono. Alguns agem sobre uma proteína chamada CREB, capaz de aumentar ou diminuir a produção de moléculas essenciais nas ligações que os neurônios fazem entre si ao gravarem novas informações – e, assim, turbinar a memória. Ao menos em laboratório, ratos e moscas lembram mais rapidamente dos objetos em seu ambiente ao receber um remédio que estimula a CREB. Outras pesquisas buscam agir sobre neurotransmissores – substâncias que os neurônios usam para se comunicar –, uma abordagem que já rendeu remédios em fase de testes para pacientes com o mal de Alzheimer. Mas, assim como com a EMTr, pouco se chegou a provar sobre a eficácia desses estimulantes em pessoas saudáveis.

Por enquanto, a grande sensação nesse tipo de pesquisa é o modafinil, uma droga disponível nos EUA e na Europa que permite descansar 4 horas por noite ou ficar dois dias sem dormir e sem sentir sono. Desde que foi lançada há 7 anos para curar narcolepsia (um sono súbito e incontrolável), o remédio vem se tornando popular, com vendas chegando a 575 milhões de dólares só no ano passado. A grande vantagem sobre outras drogas até então usadas para se ficar acordado – como café ou anfetaminas – é a quase ausência de efeitos colaterais. A pessoa continua atenta e com boa capacidade de julgamento mesmo com até 72 horas sem dormir. Para alguns, ela fará para o sono o que o anticoncepcional fez para o sexo: separar o ato das suas conseqüências biológicas. Para outros, pode não ser tão bom negócio: sabe-se lá o que pode acontecer a longo prazo com a vida, a criatividade e os hábitos de uma pessoa – ou de uma sociedade – que nunca dorme.

É que mudar o funcionamento do cérebro pode trazer problemas. Aumentar a memória, por exemplo, tem riscos. "Milhões de anos de evolução otimizaram o equilíbrio entre a informação necessária e a não necessária. Desregular esse sistema talvez encha a sua cabeça de informações inúteis – e de problemas", diz Paulus. Para o bem ou para o mal, o nosso conhecimento sobre a mente aumentará daqui em diante. Mas, mesmo com novas máquinas e remédios, nenhuma tecnologia será capaz de fazer você saber o que nunca aprendeu. A capacidade do seu cérebro depende, antes de mais nada, de tudo o que leu, viu, experimentou e viveu. E isso depende apenas de você.

A teoria tradicional diz que a depressão é uma deficiência de serotonina – um neurotransmissor relacionado a funções como o humor, o sono e o apetite – e, para combatê-la, tudo o que os antidepressivos fazem é aumentar a quantidade dessa substância no cérebro. Mas duas questões nessa teoria intrigam os cientistas há algum tempo. A primeira é que, pouco depois de tomar esses remédios, o cérebro já está cheio de serotonina e, no entanto, nada acontece. O segundo é que os efeitos esperados só vão aparecer um mês depois. Um mês é exatamente o tempo que o cérebro leva para produzir novos neurônios e fazê-los funcionar. Foi daí que se suspeitou que existe uma relação entre a depressão e a queda na produção de novas células no cérebro.

Outros indícios reforçaram a hipótese: o estresse – um dos principais fatores que desencadeiam a depressão – também inibe a neurogênese, como se o cérebro estivesse mais preocupado em sobreviver ao fator estressante que em produzir neurônios para o futuro. Mas a primeira evidência concreta veio em 2000, quando cientistas americanos mostraram que os principais tratamentos antidepressivos aumentam a neurogênese em ratos adultos. No ano seguinte, percebeu-se também que bloquear o nascimento de neurônios em ratos tornava ineficazes os antidepressivos. Agora a esperança é encontrar uma forma de estimular a neurogênese e, com isso, aliviar a depressão. Ao que indicam esses estudos, essa doença pode não ser só um estado de tristeza, mas, sim, o efeito da falta de neurônios novos e da conseqüente perda da habilidade de se adaptar a mudanças.

Paixão

Muita coisa muda, mas poucas relacionadas ao desejo sexual. Os sistemas mais acionados são os de motivação e recompensa, também usado quando um viciado consome drogas ou quando um apostador ganha um prêmio. Para os pesquisadores, é uma resposta parecida com a que os demais mamíferos apresentam ao buscar um parceiro adequado.

Susto

O sentimento de uma possível ameaça faz dois caminhos no cérebro. Um é direto para um estrutura chamada amígdala, responsável por lidar com fortes estímulos emocionais e capaz de dar respostas rápidas, como aumentar os batimentos cardíacos. O segundo passa pelo córtex e é mais lento, mas é onde percebemos se aquilo é mesmo algo perigoso ou apenas um susto.

Humor

Ver cartuns aciona sistemas relacionados à linguagem e ao processamento de imagens para que você entenda a graça. Mas, uma vez que você pegou a piada, muda tudo lá no cérebro. Aí acendem sistemas de recompensa, que estão ligados a vários tipos de prazer. Curiosamente, isso acontece mais em mulheres que em homens – ninguém ainda sabe explicar bem por quê.

Concentração

Segundo cientistas israelenses, em tarefas que exigem muita atenção (como identificar uma imagem em uma série rápida de figuras), o cérebro concentra os esforços em áreas sensoriais e silencia uma região associada ao sentimento de introspecção. O que significa que, diante de uma tarefa difícil, você literalmente esquece que a vida existe.

Cuidado com o que você pensa. Alguns laboratórios já criaram técnicas para ler a mente. Em 2005, pesquisadores japoneses mostraram para voluntários padrões de linhas em várias direções enquanto escaneavam o cérebro com aparelhos de ressonância magnética funcional (RMF). Em seguida, analisaram as áreas acionadas durante a experiência e conseguiram deduzir qual padrão os voluntários estavam vendo.

A brincadeira deve esquentar até o final do ano. É quando duas empresas americanas – a Cephos e a No Lie MRI – devem levar ao mercado os primeiros detectores de mentiras baseados em RMF. A diferença em relação aos detectores tradicionais é a precisão: não dá para enganar uma máquina que está olhando dentro da sua cabeça. A técnica parte do princípio de que, para o cérebro, contar uma mentira é difícil – envolve as mesmas áreas de falar a verdade e algumas outras mais –, como se a sua mente precisasse primeiro ocultar o impulso de dizer a verdade e depois inventar uma mentira. Ou seja, se alguém perguntar o seu nome, ele automaticamente aparece na sua cabeça. Se quiser mentir, você terá que primeiro esquecê-lo e depois inventar um outro.

Ainda é bastante complicado usar essas máquinas – a pessoa precisa ficar completamente imóvel dentro de um enorme tubo – e por isso se acredita que, a princípio, ela será usada apenas por voluntários dispostos a confirmar sua versão da história. Mas, com o tempo, é possível que ela se torne disponível em todo tipo de julgamento e até em salas de embarque de aeroportos ou em entrevistas de emprego. Fascinante. E assustador.

Não é muito difícil fazer minutos e segundos durar mais. Algumas drogas ilegais bastante disponíveis fazem isso. Monges em meditação, atletas no auge de sua atividade e pessoas muito concentradas em sua atividade têm a mesma impressão. E pesquisas científicas podem encontrar outras formas de fazer isso, à medida que os cientistas comecem a decifrar os mecanismos com os quais percebemos a passagem do tempo. O nosso cérebro tem 3 relógios. O primeiro determina o ritmo dos dias, os momentos de sono ou de alerta. Outro controla atividades que duram milésimos de segundo, como as que se passam no controle de atividades motoras finas. Já o terceiro fica no meio do caminho, no ritmo dos minutos e segundos, e é em grande parte aí que está nossa consciência da passagem do tempo. No ano passado, pesquisas com técnicas de imagem feitas na Universidade Duke, EUA, levaram a um modelo de como ele funciona. O segredo pode estar no corpo estriado, uma região bem na base do cérebro que monitora as ondas que os demais neurônios emitem ao produzir suas atividades. Assim como um maestro dá o ritmo de uma orquestra, essa região integra todas essas ondas em uma estimativa da passagem do tempo. No futuro, talvez seja possível manipular neurotransmissores nessa região e, dessa forma, fazer o tempo passar mais devagar sem sofrer outros efeitos colaterais. Até lá, a única forma é tentar formas mais naturais de esticar os minutos e segundos, como exercícios de meditação e concentração, ou simplesmente ficando parado: afinal, sempre que você está sem fazer nada, o tempo passa mais devagar.

The Future of the Brain, Steven Rose, Oxford University Press, Reino Unido, 2005

Cérebro – A Maravilhosa Máquina de Viver Alessandro Greco, Terceiro Nome, 2006.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

"Assim se prova que os índios e negros são inferiores"

Emir Sader seleciona mais uma coletânea de textos de Eduardo Galeano para os leitores da Carta Maior. Nesta seleção, Galeano escreve sobre como os conquistadores europeus e seus pensadores, dos séculos XVI e XVII, pretendiam "provar a inferioridade" de negros e índios nas terras "descobertas". Montesquieu, por exemplo, escreveu sobre os negros: "É impensável que Deus, que é sábio, tenha posto uma alma, sobretudo uma alma boa, num corpo negro".

Eduardo Galeano

Assim se prova que os índios são inferiores (segundo os conquistadores dos séculos XVI e XVII)

Suicidam-se os índios das ilhas do Mar Caribe?
Por que são vadios e não querem trabalhar.

Andam desnudos, como se o corpo todo fosse cara?
Porque os selvagens não tem pudor

Ignoram o direito de propriedade, tudo compartiham e não tem ambição de riqueza?
Porque são mais parentes do maçado do que do homem.

Banham-se com suspeitosa freqüência?
Porque se parecem aos hereges da seita de Maomé, que com justiça ardem nas fogueiras da Inquisição.

Acreditam nos sonhos e lhes obedecem as vozes?
Por influencia de Satã ou por crassa ignorância.

É livre o homossexualismo? A virgindade não tem importância alguma?
Porque são promíscuos e vivem na ante-sala do inferno.

Jamais batem nas crianças e as deixam viver livremente?
Porque são incapazes de castigar e de ensinar.

Comem quando têm fome e não quando é hora de comer?
Porque são incapazes de dominar seus instintos.

Adoram a natureza, considerando-a mãe e acreditam que ela é sagrada?
Porque são incapazes de ter religião e só podem professar a idolatria.

ASSIM SE PROVA QUE OS NEGROS SÃO INFERIORES
(Segundo os pensadores dos séculos XVIII e XIX)

Barão de Montesquieu, pai da democracia moderna:
É impensável que Deus, que é sábio, tenha posto uma alma, sobretudo uma alma boa, num corpo negro.

Karl Von Linneo, classificador de plantas e animais:
O negro é vagabundo, preguiçoso e inteligente, indolente e de costumes dissolutos.

David Hume, entendido em entendimento humano:
O negro pode desenvolver certas habilidades próprias das pessoas, assim como o papagaio consegue articular certas palavras.

Etienne Serres, sábio em anatomia:
Os negros estão condenados ao primitivismo porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis.

Francis Galton, pai da eugenia, método cientifico para impedir a propagação dos ineptos:
Assim como um crocodilo jamais poderá chegar a ser uma gazela, um negro jamais poderá chegar a ser um membro da classe média.

Louis Agassiz, eminente zoólogo:
O cérebro de um negro adulto equivale ao de um feto branco de sete meses: o desenvolvimento do cérebro é bloqueado porque o crânio do negro se fecha muito antes do que o crânio do branco.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Japão passa do "grande esbanjamento" à época de vacas magras

Philippe Pons
Em Tóquio

Pouco antes da pausa para o almoço, nos bairros comerciais das grandes cidades, aparecem caminhonetes de vendedores ambulantes de marmitas. O "bentô", belamente apresentado em uma caixa de madeira leve ou de plástico dividida em compartimentos contendo pequenas quantidades de peixe, carne, legumes e arroz, é o lanche rápido e barato (de R$ 8,50 a R$ 14) da maioria dos assalariados japoneses. Os vendedores ambulantes atacam com descontos: cada vez mais os assalariados levam bentôs feitos em casa, que saem um pouco mais barato que aqueles vendidos no comércio.

Os restaurantes, ainda baratos na hora do almoço – menos de R$ 28 – , são menos frequentados. Em compensação, filas se formam diante das cadeias de restaurante Yoshinoya, que por R$ 5,60 servem um "gyudon" (cumbuca de arroz com fatias finas de carne cozidas no molho de soja), ou diante dos botecos especializados em sopas, que também fazem uma "guerra de preços" entre si, a algumas dezenas de ienes. Nos pequenos restaurantes dos bairros populares, não é raro ver clientes pedindo para embalar seus restos para viagem.
Enquanto americanos e europeus se encolhem com a crise, os japoneses voltam a praticar uma frugalidade ancestral. Eles se esforçam para reduzir suas despesas, revisam suas prioridades. O Japão superconsumidor, do frenesi das grifes, o país do "grande esbanjamento", é uma imagem recorrente das mídias estrangeiras, fascinadas pelo brilho de alguns bairros das grandes cidades. Mas grande parte da população conservou uma mentalidade de "povo pobre". A taxa de poupança continua sendo uma das mais elevadas do mundo: por necessidade (previdência social insuficiente, custo de educação dos filhos) e por precaução.
Essa sabedoria milenar se conjuga no imperativo de não desperdiçar ("mottainai"). A expressão, utilizada normalmente como uma interjeição de indignação, teve uma repercussão internacional graças à queniana Wangari Maatahi, Prêmio Nobel da Paz de 2004, que fez dela um slogan de sua campanha de defesa do meio ambiente. A expressão acompanhou a infância de gerações: hoje ela é o leitmotiv de pequenos movimentos, como aquele que incentiva as pessoas a não usarem os palitos de madeira fornecidos pelos restaurantes, que são jogados fora em seguida, e que cada um leve os seus.
Frugalidade herdada de antigamente, reação ditada pela crise? Qualquer que seja o motivo, as atitudes de consumo dos japoneses estão mudando. Mal saíram da recessão dos anos 1990, eles entraram em outra, socialmente mais dolorosa. Talvez essa experiência gere menos frustrações entre eles do que entre os americanos, que foram derrubados da euforia consumista alimentada pelo crédito fácil. As desigualdades também aumentam: 6 milhões de japoneses não dispõem mais do mínimo necessário para ter uma vida decente. Sem estabilidade, muitos se sentem vulneráveis: os demitidos, com contratos temporários não renovados, são um sinistro presságio.
Após o estouro da bolha financeira do fim dos anos 1980, que viram desabrochar uma mentalidade de novo rico ostentatória, o pêndulo começou a balançar para o lado inverso. Surgiram as "yen shops"(vendendo tudo a 100 ienes, ou R$ 2,15) e as lojas de reciclagem de produtos de segunda mão. Depois veio um breve retorno de hiperconsumo causado pelo crescimento econômico dos últimos anos, sucedido por uma nova era de moderação. As vendas das grifes, assim como as de carros, recuam: somente um quarto dos homens de 20 anos quer um carro, contra 40% em 2000.
Os produtos sem marca e os alimentos cuja data de validade está no fim são cada vez mais procurados. Há dois fatores para isso: os consumidores procuram ofertas, e as empresas querem se desfazer de seus estoques. Os produtos chamados "wake-ari" (literalmente "existe uma razão") são vendidos sobretudo na internet. A Yahoo! Shopping Web viu suas vendas aumentarem 40% entre novembro de dezembro de 2008. E seu similar Rakuten Ichiba está entre os dez sites mais visitados. Ali se encontram todo tipo de produtos: eletrônicos, cosméticos, produtos alimentícios… Os pontos de venda desses produtos estão vivendo uma grande popularidade: ainda que os japoneses tenham muito cuidado com a higiene alimentar, os artigos que estão para vencer são vendidos rapidamente, pela metade do preço.
Talvez estejam acontecendo mudanças duradouras de comportamento. Pois, como acredita o economista Takamitsu Sawa, "hoje não se trata mais de uma ‘pobreza virtuosa’, inspirada em uma ética de vida ancestral. Mas de um empobrecimento que devemos enfrentar".
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Armas enviadas pelos EUA podem estar nas mãos do Taleban

C. J. Chivers
Cabul (Afeganistão)

Os rebeldes do Afeganistão, que lutam por uma das regiões mais pobres e remotas do mundo, conseguiram ao longo dos anos manter uma guerrilha intensiva contra as forças afegãs e norte-americanas, que têm mais recursos materiais.

As armas e munição coletadas de guerrilheiros mortos sugerem uma das possíveis razões para isso: entre os 30 pentes de fuzil encontrados recentemente com os corpos de guerrilheiros, pelo menos 17 continham cartuchos idênticos à munição que os Estados Unidos forneceram para as forças do governo do Afeganistão, de acordo com exames das marcas de munição feitos pelo New York Times e entrevistas com oficiais americanos e negociantes de armas.
A presença dessa munição entre os mortos afegãos no vale de Qurangal, uma região de batalhas violentas próxima à fronteira do Afeganistão com o Paquistão, sugere fortemente que as armas fornecidas pelo Pentágono vazaram das forças afegãs e foram usadas contra as tropas norte-americanas.
Ainda não se sabe quanta munição foi desviada, e os 30 pentes representam só uma amostra, com menos de mil cartuchos. Mas alguns militares, analistas e negociantes de armas dizem que isso aponta para uma possibilidade preocupante: o controle irregular dos EUA e do Afeganistão sobre o vasto inventário de armas e munição enviadas ao país durante os oito anos de conflito, a falta de disciplina e a corrupção generalizada das forças afegãs podem ter ajudado os insurgentes a permanecerem armados.
Os Estados Unidos foram criticados em fevereiro pelo Government Accountability Office [órgão de controle do governo federal americano], por não conseguirem prestar contas de milhares de fuzis distribuídos para as forças de segurança afegãs. Algumas dessas armas foram documentadas em mãos de insurgentes, incluindo algumas usadas numa batalha em que nove americanos morreram no ano passado.
Em resposta, o Comando Multinacional de Transição para a Segurança no Afeganistão, unidade liderada pelos EUA que fornece treinamento e suprimentos para as forças afegãs, disse que a responsabilidade sobre todas as propriedades da polícia e dos militares afegãos é agora uma prioridade máxima, e tomou medidas para localizar e registrar os fuzis fornecidos mesmo há alguns anos. O Pentágono criou uma base de dados de pequenas armas cedidas às unidades afegãs.
Mas não existe nenhum sistema de inventário similar para a munição, que é mais difícil de rastrear e mais volátil do que as armas de fogo, mudando de mãos rapidamente por conta da corrupção, vendas ilegais, roubo, perdas nas batalhas e outras formas de desvio.
As forças norte-americanas não examinam todas as armas e munições capturadas para descobrir como os insurgentes as obtiveram, ou para determinar se o governo afegão, direta ou indiretamente, é um fornecedor importante do Taleban, dizem oficiais. Os motivos para isso incluem a falta de recursos e de uma memória institucional das armas concedidas, além da falta de colaboração entre as unidades de campo que coletam equipamentos e os investigadores e supervisores em Cabul que poderiam rastreá-los.
Nesse caso, os pentes de fuzil foram confiscados em abril por um pelotão da Companhia B, 1º Batalhão, 26ª Infantaria, que matou pelo menos 13 guerrilheiros talebans numa emboscada à noite no leste do Afeganistão. Os soldados fizeram uma busca nos corpos dos guerrilheiros e coletaram 10 fuzis, um lançador de granadas com propulsão de foguete, 30 pentes e outros equipamentos.
É raro ter acesso ao equipamento do Taleban. Mas depois da emboscada, a companhia permitiu que os itens fossem examinados pela reportagem.
Foram tiradas fotos dos números de série das armas e das marcações de munição, na parte de baixo dos cartuchos, que podem revelar onde e quando a munição foi fabricada. As marcas foram então comparadas com munições do governo, e com um registro que tenho de munição recolhida de pentes e depósitos afegãos nos últimos anos, em várias províncias.
O tipo de munição em questão, 7,62 x 39 mm, coloquialmente conhecida como "7,62 curta", é um dos cartuchos pequenos mais abundantes entre os militares, e pode vir de dezenas de fornecedores diferentes.
Ela é usada em fuzis Kalashnikov verdadeiros e falsificados, e é fabricada em vários países, incluindo a Rússia, China, Ucrânia, Coreia do Norte, Cuba, Índia, Paquistão, Estados Unidos, nos países do antigo Pacto de Varsóvia e em vários outros da África. Alguns países têm várias fábricas, cada uma associada a uma marcação diferente no cartucho.
O exame dos cartuchos do Taleban encontrou sinais de desvio, 17 dos pentes continham munição com uma dessas duas marcas: a palavra "WOLF", em letras maiúsculas, ou a sigla "bxn", em minúsculas.
A marca "WOLF" designa a munição da Wolf Performance Ammunition, uma companhia da Califórnia que vende cartuchos feitos na Rússia para proprietários de armas americanos. A companhia também fornece cartuchos para soldados afegãos e policiais, normalmente através de intermediários. Suas munições podem ser encontradas nos depósitos de armas do governo afegão.
A marca "bxn" era usada por uma fábrica tcheca durante a Guerra Fria.
Desde 2004, o governo tcheco doou seu estoque de munição e equipamentos para o Afeganistão. A AEY Inc., antiga fornecedora do Pentágono, também enviou munição tcheca excedente para o Afeganistão, de acordo com o Exército dos EUA, incluindo cartuchos com marcas "bxn".
A maior parte da munição Wolf e tcheca encontrada nos pentes talebans estava em boas condições e mostrava poucos sinais de exposição ao tempo, marcas, corrosão ou sujeira, sugerindo que haviam sido tiradas da embalagem recentemente.
Não há provas de que a Wolf, o governo tcheco ou a AEY tenham voluntariamente enviado munição para os rebeldes afegãos. No ano passado, A AEY foi proibida de negociar com o Pentágono, mas os seus problemas legais vêm de alegações de fraude.
Dado o número de fontes possíveis, a probabilidade de que o Taleban e o Pentágono estejam compartilhando os mesmos fornecedores é pequena.
Em vez disso, a quantidade de munição Taleban idêntica em marcas e condições à usada pelas unidades afegãs indica que é mais provável que essa munição tenha saído da custódia do Estado na surdina, disse James Bevan, pesquisador especializado em munição para o Small Arms Survey, um grupo de pesquisa independente em Genebra.
Bevan, que documentou o desvio de armas no Quênia, em Uganda e no Sudão, disse que uma explicação possível é que os intérpretes, soldados ou policiais tenham vendido sua munição para ganhar dinheiro, ou que a passaram para frente por outras razões, incluindo o apoio aos guerrilheiros. "A mesma história de sempre, só muda o lugar", disse ele.
A maioria dos cartuchos nos 13 pentes talebans restantes traziam marcas indicando sua fabricação na Rússia durante o período soviético.
Vários deles tinham marcas chinesas e datas que indicavam a fabricação nos anos 60 e 70. Um número menor vinha da Hungria. Grande parte dessa munição estava em péssimas condições.
A munição húngara e chinesa também havia sido fornecida pela AEY ao governo afegão, o que significa que é possível que vários dos pentes restantes incluíssem cartuchos fornecidos pelo governo americano.
O Exército dos EUA não contesta a possibilidade de que o roubo ou a corrupção possam ter desviado a munição Wolf e tcheca para os rebeldes.
O capitão James C. Howell, que comanda a companhia que capturou a munição, disse que o desvio ilícito é uma hipótese compatível com a notória reputação de corrupção das unidades afegãs, especialmente na polícia. "Não é nenhuma surpresa", disse ele.
Mas disse que, na sua experiência, essa corrupção não é a norma. Em vez do desvio deliberado, diz ele, a causa mais provável é falta de disciplina e fiscalização das forças de segurança afegãs, ou ANSF.
"Acho que a maior parte da ANSF não quer que sua própria munição seja usada contra eles mesmos", disse.
Os fuzis capturados do Taleban também indicam o desvio de armas.
Depois da batalha no vilarejo de Wanat no leste do Afeganistão no ano passado, na qual nove americanos morreram e mais de 20 ficaram feridos, os investigadores encontraram um grande depósito com fuzis de assalto AMD-65 no posto de polícia local, que estava envolvido no ataque, de acordo com oficiais norte-americanos. Ao todo, o posto de policia tinha mais de 70 fuzis de assalto, mas apenas 20 oficiais em sua folha de pagamento. Três AMD-65 foram recuperados próximo ao local da batalha.
O AMD-65, um peculiar fuzil húngaro, raramente era visto no Afeganistão, até que os Estados Unidos os fornecessem aos milhares para a polícia afegã. Eles agora podem ser encontrados nos mercados de armas do Paquistão.
Na emboscada dos EUA em abril, todos os 10 fuzis capturados tinham marcas de fabricação da China ou de Izhevsk, na Rússia. Os que tinham marcas de datas haviam sido fabricados nos anos 60 e 70.
As fotografias das armas e de seus números de série foram fornecidas pelo brigadeiro general Anthony R. Ierardi, comandante do Comando de Transição. Depois de checá-los na base de dados do Pentágono, o general disse que um dos fuzis chineses havia sido fornecido a um oficial da polícia auxiliar afegã em 2007. Não está claro como os guerrilheiros talebans conseguiram o fuzil.
A polícia auxiliar, que fazia parte do Ministério de Interior afegão, estava corrompida pela corrupção e incompetência. Ela foi suspensa no ano passado.
Sobre a munição capturada do Taleban, Ierardi alertou que a diversidade das marcas poderia indicar que o uso de munição fornecida pelos EUA por parte dos guerrilheiros talebans não é comum. Ele observou que a amostra de munição capturada era pequena e que as munições podem ter vazado por meios menos perversos.
"A variedade da munição pode sugerir perdas em batalhas; pode sugerir munição capturada", disse. E acrescentou, entretanto, que não queria parecer defensivo e que a responsabilidade pelas armas e munições afegãs é "da maior prioridade".
"A ênfase, no nosso ponto de vista, é em relação à responsabilidade sobre toda a propriedade de logística", disse. O vazamento de armamentos do Pentágono para os rebeldes é certamente "a pior das hipóteses", disse ele, acrescentando: "Queremos evitar exatamente esse cenário que você descreveu."
Tradução: Eloise De Vylder.

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

UMA HISTÓRIA CUJO HERÓI É O DINHEIRO

Eduardo Sá

"K" (Editora Ensaio)
Vassilis Vassilikos
preço: R$ 10,00 a 20,00

 

 

 

O livro não é novo, mas a mensagem que transmite e o contexto de sua história são mais que atuais. A obra “K”, do escritor grego Vassilis Vassilikos, publicada no Brasil em 1995 pela Editora Ensaio, é um retrato de nossa época: “Hoje o dinheiro está nu. Não é temperado com nenhuma ideologia, nenhuma cruzada. É o dinheiro pelo dinheiro, como se diz arte pela arte. Quem possui tem o direito de filosofar. Quem não tem não é ninguém".

Trata-se da história de um banqueiro que, ainda adolescente, vai morar no Bronx, bairro pobre nos Estados Unidos, onde desenvolve seu exercício de falsário. Enriquece ao fraudar o seguro desemprego norteamericano e, com dinheiro e um emprego garantido por seu professor, no Banco de Creta, volta para a sua terra natal, a Grécia, onde constrói seu império vertiginosamente: em um ano, de contador passa a diretor do banco, logo depois o compra e daí em diante estende seu negócio para os meios de comunicação, o futebol, as construções e outras áreas. É o Berlusconi grego, segundo os “jornais da época”.
Apesar de ser um romance, uma ficção, utiliza elementos da realidade, inclusive o tema chave é baseado num escândalo ocorrido na Grécia, na década de 80. Tem um quê deRecordações do Escrivão Isaías Caminha, do nosso querido Lima Barreto, mas, com todo o respeito, é ainda mais interessante: seus personagens, instituições, empresas, locais, etc. são representados em magnatas da comunicação como Rupert Murdoch e Hearst; presidentes como Margaret Thatcher, Mitterrand e Bush; instituições como FMI; empresas relacionadas ao mercado financeiro como a Merrill Lynch, Citibank, American Express; e países como Iraque, em guerras infundadas.
Jorge Amado e o Brasil também são citados. Jorge K., o banqueiro protagonista, foge clandestinamente para o Rio de Janeiro em determinado momento, cidade onde, segundo o autor, existem as favelas: “esses bairros miseráveis são controlados pelo maior cartel da droga no hemisfério sul".
Tudo se passa em torno do enredo principal, na Grécia, descrevendo também o processo político durante os últimos anos no país, a queda da ditadura dos coronéis e a ascensão do partido socialista ao poder, o seu atraso frente às grandes potências, a evolução da informática e do audiovisual, dentre outros aspectos da época.
A essência da obra “K” evidencia os mecanismos da corrupção financeira, das relações escusas nas cúpulas do poder, dos privilégios e abusos de influências, dos paraísos fiscais, dos meios de comunicação, da nítida intrusão do setor privado no setor público, tornando quase impossível distingui-los, e muito mais. Temas como o aborto, agrotóxicos, meio ambiente, miséria, imigração e até as favelas do Rio de Janeiro, como já mencionado, são colocados ligeiramente em questão.
O jornalismo, sobretudo a grande imprensa, muitas vezes é abordado no livro, pois assim que “K” entra no mercado, quebra o monopólio de cinco oligarquias no país: “seus concorrentes, fechados em si mesmos há muitos anos, como se estivessem constipados, não podiam admitir aquele elefante na sua loja de porcelana. Aproveitaram a ocasião em que Sua Grandeza (presidente) ficou doente, para começar a derrubá-lo, metodicamente”. Foi a sua forma de apresentar criticamente a concentração e uniformidade da estrutura comunicacional que impera nos dias de hoje. Os bancos também recebem suas alfinetadas: “Isso não interessa ao banco que empresta (…) Repito: a única coisa que nos interessa é o dinheiro, não sua proveniência".
A linguagem é instigante, Vassilikos instrumentaliza diversos recursos lingüísticos, intercalando desde um avô (que "vivenciou" o processo narrado, era jornalista e literato) contando toda a história ao seu neto, até aos diálogos da época, as notícias dos jornais, as falas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do processo, as cartas trocadas pelos personagens… O tempo da narração é arranjado de tal maneira que, passado, presente e futuro vão e voltam a todo instante, numa constante mutação, e a cada hora escritos de uma maneira.
Jorge K. é preso, responde ao processo na CPI, mas o desfecho fica aberto à imaginação de cada leitor, segundo o desenvolvimento do romance, “cujo herói é o dinheiro”: “A história de ‘uma nova época, a do dinheiro fictício’, em que as fronteiras entre o legal e o ilegal, o certo e o errado se diluem, em que a imagem é mais importante que a verdade”. Qualquer semelhança entre a história de “K” e os fatos recentes da história brasileira é mera coincidência!?
Vassilis Vassilikos mora hoje na França, sua principal obra é “Z”, sucesso literário mundial que foi adaptado para o cinema por Costa Gravas, e é um dos mais importantes autores gregos da atualidade. Foi jornalista e sempre um escritor engajado, fato que o levou ao exílio quando houve o golpe de estado em 1967 na Grécia. Vassilikos tem mais de 80 livros publicados e hoje se dedica exclusivamente à literatura.

Fonte: Fazendo Média – http://www.fazendomedia.com

Cleópatra, a rainha do Egito

CRISTIANO CATARIN

Cleópatra, a rainha grega do Egito. Provavelmente tudo que o mundo sabe sobre ela esteja errado. Muitas versões a descrevem como uma mulher fatal e de rara beleza. Alguns relatos valorizam, com certo exagero, a questão estética da jovem rainha. Quem era a verdadeira Cleópatra?

Trezentos anos antes de Cleópatra governar o país mais rico do mundo, Alexandre, o grande, tinha acabado de conquistar o Egito. Desejoso de ser considerado uma divindade, o comandante militar dirigiu-se ao templo de Siwa – onde fora proclamado um deus pelo oráculo. Alexandre conquistou o maior império de toda história, dominando terras que iam da Europa a Índia. Cleópatra certamente inspirou seus objetivos, sobretudo políticos, as façanhas alcançadas por Alexandre, o maior líder militar que o mundo já conheceu. Ela era ambiciosa, determinada e inteligente, mas sua aparência não era de uma mulher fatal (veja a ilustração acima).

Origem e família da jovem rainha

Cleópatra era descendente dos reis gregos do Egito, os ptolomáicos. Ela nasceu em Alexandria. Seus cabelos eram avermelhados, a ilustração acima não mostra a rainha utilizando-se de jóias. Definitivamente, estas não são características de uma mulher fatal. Por outro lado, uma harmoniosa combinação de: espiritualidade, determinação e inteligência tornaram Cleópatra à mulher mais famosa do mundo. A localização dos ancestrais da jovem rainha fica a oitocentos quilômetros de Alexandria, na ilha de Filae. Nesta região, durante 300 anos, foram construídos templos dedicados aos XII Ptolomeus. Ptomoleu III foi o ultimo grande faraó da era ptolomáica, reconquistando grande riqueza que havia sido perdida para outras civilizações. Ptolomeu IV foi um grande fracassado que perdera grande parte das riquezas do Egito antigo.
O pai de Cleópatra, Ptolomeu XII, era conhecido como “o tocador de flauta”. O tempo todo ele dava primazia em tocar o pequeno instrumento de sopro, evitando assim, as responsabilidades do governo. Aos dezoito anos de idade, Cleópatra perdeu seu pai. O testamento de Ptolomeu XII dizia que o Egito deveria ser governado por Cleópatra e seu irmão, Ptolomeu. Mas na prática isto não chegou a ocorrer. Os dois brigaram pela disputa ao poder.

O Romance com Julio César

Júlio César, poderoso general romano, acompanhou de perto as desavenças entre Cleópatra e seu irmão, e no palácio de Alexandria, mandou chamá-los para entender melhor a questão.
Fontes antigas nos revelam que Cleópatra chegou até César antes de seu irmão. Enrolada e escondida em um tapete, ela temia ser surpreendida pelo seu irmão. O general romano ficou impressionado com a jovem rainha. Desde então uma atração física começou a dominar o futuro casal.
Cleópatra estava determinada com a idéia de conquistar um grande império, como de Alexandre. O terrível incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandria durante um conflito entre egípcios e romanos deixou a jovem rainha profundamente magoada, revelando seu apreço pelos livros, seu maior patrimônio era a inteligência.
Cesar adiou sua volta a Roma e juntou-se a Cleópatra para conhecer melhor o Egito. Decerto, Cleópatra queria impressionar o general romano com a grandeza e principalmente riqueza de seu país. Cleópatra era considerada uma deusa, César como seu acompanhante também era visto como um deus.

Uma Esperança de vida

Foi no cemitério de Sakara que César viu pela primeira vez uma múmia de perto. A crença na vida após a morte e a possibilidade da imortalidade com a preservação do corpo, é uma idéia que pode ter atraído César que já estava envelhecendo. O nobre casal passou por Tebas, Karnak e Luxor, locais de grande admiração do Egito antigo. Durante este longo passeio, César observou também os grandes campos de trigo do Egito, alimento suficiente para alimentar seu exército.
Os restos do templo de Cleópatra podem ser visto em Hermonts. Foi neste local que a democracia romana entraria em declínio.

Cleópatra em Roma

César agora era um deus que teria um filho com Cleópatra. Esta idéia de governar Roma como um deus contaminou os sucessores de César. Era o fim da democracia no senado romano. Cesário, filho de Cleópatra com César governaria um grande império como o de Alexandre. Era uma possibilidade que passou a ser uma obsessão da jovem rainha. Em Roma havia grandes comemorações que aconteciam como desfiles de triunfos. Num triunfo egípcio, Cleópatra presenciou sua irmã, Arsenob acorrentada pelo exército romano, em correntes de ouro.
Cleópatra amava César, não Roma. Arsenob era uma ptolomáica, derrotada por romanos, isto marcaria a vida da jovem rainha para sempre. Mas a esta altura, Cleópatra era o assunto em evidencia de Roma. César ganhou muito dinheiro e comprou muitas casas, construiu um templo com a estátua de Cleópatra e um belo jardim para sua amada. Isto revelava o quanto era verdadeiro seu amor pela rainha do Egito. Já por dois anos em Roma, Cleópatra – aliada ao homem mais poderoso do mundo – tornou-se a mulher mais poderosa do mundo. Parecia certo que seu filho, Cesário, herdaria um império de grandeza similar ao conquistado por Alexandre, o grande. A idéia de eliminar a república romana não agradou nenhum pouco o senado. César foi terrivelmente assassinado por inimigos políticos.
Marco Antônio, aliado do Casal e general de César, expôs ao senado romano que Cesário, filho de Cleópatra era o herdeiro legítimo de César. Otaviano (sobrinho de César) reclamou tal legitimidade. A beira duma guerra civil, Cleópatra voltou para o Egito com seu filho. O país mais rico do mundo estava em declínio econômico e político. Mas Cleópatra utilizou de toda sua habilidade administrativa para melhorar a situação explorando as estradas de comercio (com a extração do Pófiro) e a rota das caravanas, esta última, estabelecida desde a era ptolomáica. A rota das caravanas desempenhava um duplo objetivo econômico, além de abastecer o comercio local, era também a principal mantenedora dos luxos do palácio egípcio.

O romance com Marco Antônio

O general Marco Antônio precisada das riquezas do Egito para vencer seu principal inimigo, Otaviano e conquistar Roma. Ele solicitou um encontro com Cleópatra em Tarsus. Cleópatra aceitou o encontro, porém, de acordo com sua conveniência. Por outro lado, Cleópatra precisava de Marco Antonio para dar continuidade em seu plano de entregar um grande império a seu filho, Cesário. Em Alexandria, Cleópatra já voltou amante de Marco Antonio e grávida de gêmeos. O general partiu para uma batalha e deixou a rainha no Egito. Algum tempo depois, uma carta de Marco Antonio revelava que ele estava com outra mulher e tinha abandonado Cleópatra.
Aos 29 anos, mãe de três filhos pequenos, Cleópatra teve de adiar mais uma vez seus planos quanto ao futuro de Cesário. Foi nesta ocasião, em Dendera, que a rainha dedicou-se intensamente a religião, que no Egito antigo significava basicamente uma transição entre deuses e o faraó. O país teria prosperidade assegurada, desde que esta transição ocorresse de maneira harmoniosa e precisa. Dendera abriga uma imagem de Cleópatra fazendo oferendas aos deuses. Detalhe: normalmente os faraós apareciam em paredes de templos acompanhados de seus maridos ou esposas. Mas Cleópatra não era uma rainha qualquer, seu filho Cesário, é quem aparece ao seu lado.

A volta de Marco Antônio

Marco Antônio voltou tempos depois e pediu um novo encontro com Cleópatra. Ele ainda precisava das riquezas do Egito para vencer Otaviano. A rainha estava com a mente confusa, mesmo com toda dedicação em preparar um futuro prospero para Cesário, Cleópatra tinha sentimentos. Ela fora abandonada prestes a dar vida a dois filhos gêmeos. Mas sua determinação política venceu seus ressentimentos, aceitando assim, um novo encontro com Marco Antônio. Desta vez Cleópatra condicionou as riquezas do Egito a um grande acordo nupcial. Para ela ficou a região de Arnúbia, Chipre, Sinai, Armênia, Norte da África e Fenícia.
Territórios conquistados com o sangue romano tinham sido entregues a uma rainha egípcia. Isto causou fúria em Roma, alimentando com raiva às tropas lideradas por Otaviano que estava preparando um confronto final contra Marco Antonio. Nesta batalha, Otaviano sagrou-se vitorioso. Cleópatra chegou a acompanhar de perto o confronto, mas quando percebeu a eminente derrota de Marco Antonio, fugiu em sua nau capitânia. A rainha seguiu para Alexandria. Marco Antonio não conseguiu acompanha-la e perdeu-se no caminho, caindo em desespero. Cleópatra planejou uma viajem até a Índia, onde fundaria um novo império com sua riqueza. Era sua última chance.
Em Petra, Cleópatra foi surpreendida e suas embarcações (carregadas e prontas para ganhar o mar) foram incendiadas. Marco Antônio, preservando o estilo romano, entregou-se a espada e fora morrer aos braços de sua amada. Já havia uma tumba preparada para Cleópatra. Porém, sua morte faz parte de uma discussão interminável.

A morte de Cleópatra

Muitos textos antigos afirmam que ela tenha sido morta por meio de uma picada de cobra. (resta saber se por uma NAJA, ou uma VÍBORA). A Naja possui um veneno mais letal e sua picada é de difícil identificação. Já a Víbora provoca um inchaço grotesco, e, por esta razão, a morte por meio de uma víbora é descartada por estudiosos.
A morte por meio da picada da naja evitaria a exposição de Cleópatra num triunfo romano, conforme desejo de Otaviano. Cleópatra estava confinada num dos quartos do palácio e, tudo que era levado até ela era inspecionado para evitar seu suicídio. Mas de alguma forma, ela conseguira se matar conduzindo uma de suas mãos a uma “compota” onde uma naja estaria entre os frutos. Quando os soldados romanos de Otaviano entraram no quarto da rainha, ela já jazia morta e vestida com trajes reais. Otaviano nada pode fazer a não ser expor para seu poderio militar um retrato da rainha Cleópatra.
Os dois filhos gêmeos de Cleópatra perderam-se na história. Otaviano matou Cesário, impedindo definitivamente qualquer chance de prosperidade política para o filho da rainha. Alexandria deixou de ser um lugar dedicado ao saber, passando a ser uma mera província romana no Egito. Mas Cleópatra nunca fora esquecida. Ela era a rainha do antigo Egito.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

‘Bancários vivem fase da geração tarja preta’

GABRIEL BRITO

Diz-se que ganham até quando o mundo está em crise, cobram das mais altas taxas mundiais por seus serviços, recebem aportes governamentais quando vão à ruína e desviam seu destino do crédito para os títulos seguros da própria dívida de quem lhe emprestou dinheiro. Também pagam salários progressivamente decrescentes em relação à inflação e pressionam cada vez mais seus funcionários por resultados e abdicação de direitos historicamente conquistados. Se soam familiar, é por se tratarem, todos, de fatos e práticas que podem ser atribuídos às instituições bancárias brasileiras. Para quem tem acompanhado o noticiário dos últimos meses, parecem condizentes com a realidade.

Uma das instituições financeiras mais beneficiadas pelo período de bonança bancária, o Santander é um dos que estão na linha de frente dos bancos que adotam essa política de modo incisivo em sua rotina de trabalho.

"O sistema financeiro do Santander talvez seja dos mais agressivos, pois estabelece metas para os diversos produtos que eles tentam vender goela abaixo dos clientes, forçando os funcionários a conseguir alcançá-las. E na maioria das vezes essa pressão se dá através do assédio moral", conta Edson Carneiro, do Sindicato dos Bancários.

Um dos assuntos mais polêmicos a envolver o grupo espanhol refere-se ao pagamento aos aposentados do antigo Banespa, comprado pelo Santander em 2000, na onda de privatizações que a gestão tucana patrocinou a partir da década de 90. Em matéria de 13 de fevereiro de 2008, reportagem de André Siqueira, a revista Carta Capital informou que uma comissão de parlamentares formada para analisar o caso estimou, em caráter preliminar, que a conta em favor dos aposentados já estaria em 15 bilhões de reais.

O banco, obviamente, segue se negando a tratar do assunto. Em sua página na internet, é impossível encontrar qualquer referência a um tema de notória repercussão na sociedade. Ao mesmo tempo, podem ser encontradas fartas informações sobre projetos de sustentabilidade, meio ambiente, cultura, entre outros, patrocinados pelo grupo.

Em declaração publicada no caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo no dia 26 de abril de 2008, uma cliente denunciou um claro exemplo de como a instituição busca em todas as esferas livrar-se de custos e repassá-los a quem diz prestar serviço. O que no caso estava em jogo era a cobrança de tarifa em chamadas feitas por clientes por determinada demanda, propagandeando-se, além disso, na ligação, outros serviços que o banco oferece a seus correntistas. "Ou seja, ao pagar a ligação tarifada, financiávamos o merchandising do banco".

É esta mesma lógica de faturar sempre no pico da curva, repassando todos os ônus para os clientes e funcionários, que impera na hora de determinar por conta própria como investir os recursos concedidos pelo governo, em forma de isenções tarifárias ou empréstimos – seja nos momentos de auge ou nos momentos de crise. Na hora de administrar a bolada dada pelo governo à época das privatizações, um fundo que chegou à casa de 7 bilhões de reais, é possível imaginar como o banco buscou tirar proveito do montante recebido para compensar seus gastos na compra do Banespa.

"O governo na época passou 4 bilhões de reais ‘carimbados’ para o banco cumprir suas obrigações com os aposentados. Os títulos tinham esse carimbo exatamente para remunerar os aposentados e arcar com seus custos", informa Carneiro. "No entanto, essa destinação exclusiva mudou, o banco pôde usá-la como quis, investindo os valores no mercado financeiro, ganhando, por sinal, muito dinheiro com isso. Para os funcionários e aposentados sobrou o congelamento salarial, que reduziu seus ganhos em mais de 50%, de acordo com a inflação", completa.

O aposentado João Bosco Galvão de Castro é um caso concreto de ex-funcionário que padece das atuais políticas do banco para com seus trabalhadores e já travou diversas batalhas judiciais contra a instituição. "Como aposentado, 66 anos, sinto que, como tantos outros na mesma situação, umas 14 mil pessoas, estamos sendo massacrados e humilhados pelo banco, ao mesmo tempo em que presenciamos os recursos provenientes do erário (INSS) sendo usados indevidamente", protesta.

Seu caso é apenas mais um em uma pilha de processos que envolvem o Santander, que entre suas operações recentes de maior destaque registra a compra do Banco Real, tendo em março deste ano realizado outro negócio de envergadura: a aquisição, por 678 milhões de reais, da seguradora Real Tokio Marine.

De quebra, como informou o Valor Econômico do dia 29 de abril, fechou o primeiro trimestre deste ano com lucros de R$ 594 milhões e aumento de 7,1% do patrimônio líquido no mesmo período. Nada mal quando estamos surfando ainda nas primeiras ondas do que se definiu de forma amplamente consensual como a maior crise do capitalismo desde 1929.

"O INSS dá e o banco tira"

No que diz respeito à ojeriza do banco em arcar com custos de sua responsabilidade patronal, podemos ver como os anos foram acostumando o Santander a tais práticas, pouco ou nada combatidas por nossos representantes e denunciada por meios de comunicação.

"Desde a privatização do Banespa já morreram cerca de 2.000 aposentados, sem conseguirem ver restituídos os seus direitos", relata João Bosco. "Tanto o banco como o INSS contribuíam cada um com 50% sobre o total da aposentadoria. Passados oito anos, o INSS participa com 74% e o banco, via fundo de pensão, com 26%", revela.

O processo de deterioração das condições dos aposentados também se relaciona com as más negociações celebradas pelas entidades sindicais que os representavam. "Como o banco fez diversos acordos lesivos aos aposentados (2001, 2004), ocorreu que, em alguns anos, tivemos ‘reajuste zero’, em face da discriminação para com os aposentados, deixando-os fora de reajustes oferecidos aos funcionários da ativa, disfarçados em abonos ou outras premiações".

"Essa questão deve ser respondida pelas correntes majoritárias do sindicato. Em minha opinião, foi um erro o congelamento salarial. E isso trouxe prejuízo a ativos e aposentados. Aos da ativa, ainda estava condicionado a uma garantia de emprego que durou pouco. De toda forma, foi muito prejudicial aos aposentados", concorda Edson Carneiro, ligado à Intersindical e deixando claro suas discordâncias com a CUT, condutora de tais negociações e também vista como culpada pela penúria dos ex-funcionários do Banespa.

"Este quadro se tornou ainda mais cruel, visto que os reajustes concedidos pelo INSS eram apropriados pelo banco, quando comentávamos que ‘o INSS dá e o banco tira’", denuncia João Bosco, que explica como se daria tal apropriação. "Recebemos de duas fontes diferentes e declaramos o Imposto de Renda de ambas as fontes. Durante os períodos de ‘reajuste zero para os aposentados’, quando havia reajuste da parte do INSS, o banco ao mesmo tempo reduzia, de forma proporcional, sua complementação, de modo que ficávamos com nossos valores sempre congelados".

"Sem dúvida, essa é uma apropriação indébita clara. São recursos dos aposentados que deveriam ser destinados para bancar seus salários e direitos", endossa Carneiro.

A própria conclusão dos técnicos do Senado, publicada por Carta Capital, atesta claramente qual o teor das negociações para os aposentados. Diz que "a negociação dos títulos emitidos para securitizar o passivo atuarial dos aposentados e pensionistas do plano pré-75 (como ficou conhecida a geração de João Bosco na querela) fere a autorização senatorial". Fora isso, foi dada a instrução de que os trabalhadores lesados procurassem defender seus direitos na justiça. Isto é, o próprio Estado, através de representantes incumbidos de analisar o caso, reconhece que os aposentados são vitimados pela sanha financeira do Santander.

Como o próprio João Bosco afirma, "o dinheiro que o banco deixou de repassar aos trabalhadores, cuja destinação era exclusivamente essa, por conta dos rendimentos alcançados por outros investimentos feitos pelo banco, já serviu para cobrir a compra do Banespa".

Presente sombrio

Se a realidade de quem entregou anos ou décadas de sua vida para o bom funcionamento do banco é de infindável espera e angústia por benefícios que podem ser vitais na hora de uma necessidade de saúde – vale lembrar que no período cerca de 2000 aposentados já faleceram sem terem visto um desfecho positivo -, a situação de quem trabalha atualmente no banco não parece das mais saudáveis.

"No Santander agora estamos vendo muitas demissões. Depois da compra do Real elas têm ocorrido aos montes. Ontem mesmo (terça, 19/05) foram suspensas atividades em mais de 60 agências no estado de São Paulo", avisa Carneiro. "Nesse momento, o centro da nossa luta é lutar contra as demissões, com algumas manifestações sendo realizadas, denunciando abusos de instituições como o próprio Santander", destaca, desmistificando a promessa de que os postos de trabalho seriam conservados após a bilionária transação.

Uma contundente demonstração das condições de trabalho adversas no setor foi a greve que os bancários realizaram em outubro do ano passado, com duração de aproximadamente 15 dias, terminando com tímidos reajustes à categoria – no Chile, trabalhadores do Santander Banefe, holding da instituição, chegaram inclusive a fazer greve de fome.

"No último período, tivemos muitas paralisações, e além de lutar pelos empregos, também travamos batalha na PLR (Participação nos Lucros e Rendimentos), em que o banco tenta enganar os funcionários, e numa questão fundamental: a pressão por metas de vendas", alerta o sindicalista. "Nossa avaliação é que a categoria está sendo submetida a um processo de adoecimento profundo, o que leva toda uma geração de trabalhadores a comprometer sua saúde, por conta desse assédio moral, pressão, sobrecarga, demissões, enfim, é uma situação grave", completa.

"Para garantir o lucro dos bancos, leva-se adiante o adoecimento de muita gente. Vivemos a fase da ‘geração tarja preta’, a dos bancários que para conseguirem trabalhar e cumprir tarefas precisam se entupir de remédios, antidepressivos e medicação controlada", desabafa. "A saúde de muita gente está abalada e acreditamos se tratar de caso de saúde pública, pois é um problema muito coletivo, e o Santander tem um dos mais altos níveis de adoecimento. É um banco que não prima pelo respeito à dignidade dos funcionários", finaliza.

Gabriel Brito é jornalista.

Correio da Cidadania

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Unicamp recebe 36 universidades para discutir a utopia

ÁLVARO KASSAB

Depois de Florença, Campinas. O II Congresso Internacional de Estudos Utópicos vai reunir na Unicamp, de 7 a 10 de junho, docentes, pesquisadores e estudantes de 11 países e de 36 universidades. Segundo o professor Carlos Eduardo Berriel, coordenador do evento e do Centro de Estudos Utópicos do Instituto de Estudos da Linguagem (U-TOPOS/IEL), o congresso busca delimitar a natureza literária da utopia e demarcar as modalidades de sua definição enquanto gênero. “Trata-se de definir o gênero como ponto de chegada crítico, localizando-o dentro da História concreta, deduzindo-o de forma sintética”. Nesta entrevista, Berriel faz um apanhado histórico da utopia e fala sobre seu papel nos dias de hoje.

Jornal da Unicamp – Qual o objetivo do II Congresso Internacional de Estudos Utópicos?
Carlos Eduardo Berriel – Este Congresso ocorrerá por determinação dos participantes do “Convegno Internazionale – Scienza e Tecnica nell’utopia e nella distopia”, ocorrido na Itália em maio de 2007, numa iniciativa conjunta da Revista Morus – Utopia e Renascimento e do Departamento de Estudos sobre o Estado da Universidade de Florença, e visa precisamente delimitar a natureza literária da utopia e definir as modalidades de sua definição enquanto gênero – verificando se este projeto é possível. Temos o apoio da Unicamp, do Instituto de Estudos da Linguagem, de vários centros estrangeiros de estudos utópicos. Buscaremos neste evento avaliar a historicidade da utopia, sua relação com a experiência da viagem, com a crítica social, isto é, com a política e também com os outros fenômenos literários; a utopia exige a mobilização do raciocínio filosófico, linguístico, antropológico, religioso, econômico, ético: o fundamental é conseguir transformá-lo de assunto em objeto. Trata-se de definir o gênero como ponto de chegada crítico, localizando-o dentro da História concreta, deduzindo-o de forma sintética. Definir um gênero é estabelecer o encontro entre História e uma obra específica. Há um elemento constante dentro da diversidade, e este é o terreno do gênero.

JU – Quem está apoiando o evento?
Berriel – O tema da utopia possui grande relevância e tem sido objeto de reflexão privilegiado de muitos pesquisadores das principais universidades no mundo nos últimos anos. São várias as instituições diretamente envolvidas no II Congresso: a RevistaMorus – Utopia e Renascimento; o U-TOPOS – Centro de Estudos Utópicos do IEL/Unicamp –, a própria Unicamp, que ajudou de todas as formas; o IEL/Unicamp, na pessoa de seu diretor; o Programa de Pós-Graduação em Teoria e História Literária; o Dipartimento di Studi Sullo Stato da Università di Firenze, Itália, com quem temos um convênio; o Centro Interuniversitario di Studi Utopici da Università del Salento, de Lecce, Itália, com quem também temos convênio; o Centro Interdipartimentale di Ricerca sull’Utopia da Università de Bologna, Itália; o Departamento de História da PUC-Campinas e outras instituições. Este Congresso será uma oportunidade preciosa de envolver os estudiosos brasileiros com a expressão de ponta da discussão sobre utopia realizada nesses centros.

JU – O primeiro congresso foi realizado em Florença e a segunda edição será em Campinas. Por que esta escolha?
Berriel – Em Florença tivemos o apoio da Universidade, através da pessoa do professor Claudio de Boni, e a várias mãos empreendemos aquele encontro, que conheceu uma surpreendente adesão – compareceram mais de 30 expositores, de 11 países. Agora teremos o dobro de expositores, e a representação de 36 universidades. Acredito que o fato da utopia ter nascido enquanto gênero no Renascimento, que por sua vez formalizou-se dentro do Humanismo florentino, pode ter a ver com a tomada de Florença como local ideal de sua realização. O Humanismo florentino criou a noção de que o homem, que é o indivíduo burguês, era livre para construir sua vida com liberdade. A existência humana terrena deixou de ser vista como destino, um livro escrito por forças metafísicas e alheias ao indivíduo, a quem cabia apenas desempenhar o papel de viver. Com o Humanismo, tudo muda. E da capacidade humana de traçar sua existência individual para idêntica liberdade no plano coletivo, foi um passo. E por livre organização do viver associado entendo a utopia. A RevistaMorus, a organizadora, trouxe naturalmente para a Unicamp sua segunda edição.

JU – Como você definiria a utopia?
Berriel – Bem, a minha definição certamente coincide e também discorda da opinião de muitos pesquisadores, sendo esta divergência, aliás, a razão deste congresso. Eu penso que a utopia é uma forma de pensamento basicamente moderno, para onde convergiram várias outras formas de pensamento social. Mas a utopia é também herdeira de algumas formas de pensamento antigo, principalmente da literatura grega – da República de Platão e das viagens imaginárias de Luciano em primeiro lugar –, ambas citadas diretamente por Morus. Também foi importante o messianismo judaico-cristão, que fazia esperar a regeneração do homem e a volta ao Paraíso Terrestre.
A utopia nasce trazendo uma contraditoriedade congênita: sendo filha do desenvolvimento das forças produtivas próprias do Renascimento, funda virtualmente uma sociedade tão perfeita em seus fundamentos que termina por impedir toda forma de desenvolvimento. Existe assim como uma construção imaginária refém de sua própria perfeição. A utopia, em função do contexto no qual surge, corresponde aos desejos e às esperanças coletivas de seu tempo. Em outras palavras: as utopias, partindo de elementos reais, constroem virtualmente todas as Histórias possíveis, todos os cenários que a História não realizou. A raiz desta idéia vem da Poética de Aristóteles, onde está dito ser a poesia mais ampla que a História, pois realiza até o fim aquilo que a História apenas esboçou.

Hegel elaborou um conceito de realidade notavelmente rico, em que o existente conta com várias dimensões – todas reais. Aquilo que aparece como uma tendência concreta, mesmo que não venha a se efetivar, também ganha estatuto de realidade. Para ele, a verdade do Ser está em seu processo, isto é, no fato da mais alta realidade ser constituída pelas tendências de desenvolvimento da História, bem mais do que pelos fatos, que revelam um aspecto da possibilidade dominante em um determinado momento. A utopia está aí: é uma tendência da realidade, operante e efetiva, mas que não se efetiva enquanto Estado. Ela depende da dimensão ética e política.

JU – Podemos afirmar então que a utopia está ligada a todos os campos do saber humano?
Berriel – Não há dúvida. A utopia não poderia ter surgido, enquanto gênero, sem os procedimentos intelectuais que a precederam. No campo teórico da política, juntamente com O Príncipe, ela constitui um ponto de chegada do Humanismo do Renascimento, e expõe privilegiadamente algumas de suas tópicas: a racionalização da vida individual e coletiva, e a ideia de que ambas podem alcançar a perfeição através de uma idealidade ético-social platônica. A explicação mais geral do nascimento deste gênero literário, tão próximo da história, da filosofia e da política, segue basicamente a ideia de que a utopia foi gerada pelo processo burguês de racionalização da vida, tão própria do Quattrocento e do Cinquecento. A perfeição do viver associado, da cidade, do Estado, do príncipe e do povo: esta ambição caracterizou a utopia. A construção de uma utopia, que é um esforço intelectual sempre datado, parte de um ponto de vista subjetivo que se alarga sobre o social. A utopia não parte de um ponto fora do sujeito histórico (de Deus, por exemplo), mas do próprio sujeito. Isto quer dizer que toda utopia, mesmo falando de um futuro fictício, está na verdade falando dos problemas da época em que foi escrita. A utopia possui a sua própria história, que de certa maneira é a história do inconformismo intelectual diante das formas do mundo estabelecido.

JU – E quanto às ciências da natureza?
Berriel – Lembremos que as ciências naturais, como as conhecemos, foram construídas no âmbito do Humanismo renascentista. A essência do método de Galileu, humanista toscano, estava em considerar o corpo humano como a fonte suprema do conhecimento do universo. Todos os instrumentos científicos inventados ou aperfeiçoados neste período visavam aumentar os sentidos corporais humanos, para torná-los mais eficientes. O telescópio, por exemplo, torna a visão mais eficiente. A questão central que Galileu enfrentou com a Inquisição é justamente essa, se os sentidos corporais, uma vez tendo percebido aspectos desconhecidos da natureza, seriam suficientes para obrigar a Igreja a rever seu cânone. Galileu achava que sim, a Inquisição achava que não. Não poderia haver esta concepção revolucionária sem a prévia autoconfiança humanista.

JU – Com o tempo, houve uma banalização da palavra utopia. A que você atribui essa distorção?
Berriel –
Acredito que este fato se deva ao fato de que o conceito de utopia ficou “sem dono”, isto é, nenhuma força decisiva da sociedade se identificou com ele. Com isto quero dizer que nem a esquerda nem a direita se sentiram formalizadas pelo pensamento utópico – embora em momentos esparsos pudessem se utilizar da palavra. Apenas movimentos residuais da prática política, na sua maioria de expressão pequeno-burguesa, mantiveram a idéia em uso – e isto fez mal à utopia. Há muito tempo que a utopia é alvo de críticas, o que significa que foi, neste processo, objeto de avaliação e julgamento. Como resultado destas análises, as utopias foram muitas vezes criticadas como promotoras de uma atitude cega para com as “realidades humanas”, tais como as ambições, o desejo de poder, etc., pois não é difícil imaginar uma sociedade ideal quando as realidades concretas não são levadas em consideração.

Também já foi dito que o espírito revolucionário utópico se dissolve por si mesmo, já que numa sociedade perfeita não cabem revoluções nem, portanto, mudanças e progresso. Segundo a pensadora Maria Moneti, o que aconteceu com a palavra utopia é similar ao que aconteceu com a palavra filosofia: chegamos a um uso semântico distendido destas palavras, de forma que não sabemos mais o que exprimimos quando dizemos utopia ou filosofia. Estas palavras têm no vulgar uso semelhante ao de grife de roupas.

JU – A utopia é criticada pela direita e pela esquerda. Por quê?
Berriel – A utopia tornou-se um termo pejorativo no século XIX, na polêmica entre a burguesia e a escola política liberal, por um lado, e por outro na disputa entre as diferentes correntes do socialismo anterior a 1848. Até esta data o termo é aplicado às diversas correntes do socialismo de forma claramente pejorativa. Depois das revoluções deste ano, o termo “utopia” se torna uma injúria explícita aplicada ao socialismo e ao comunismo. O termo é vitima das críticas do pensamento burguês, mas seu descrédito deve ser atribuído igualmente a Engels, que denunciou em Saint-Simon, Fourier e Owen um “socialismo utópico” e sentimentalmente pequeno-burguês. Marx e Engels se consideravam, corretamente, tanto herdeiros quanto liquidadores da utopia. Engels pensava que o socialismo científico mandara definitivamente para a lata de lixo da História a utopia.

Hoje podemos dizer que a História mandou para a lata de lixo o socialismo real, que tanto se inspirou quanto traiu o pensamento de Marx e Engels. Desde então o marxismo tentou recuperar a utopia como testemunho da permanência da luta de classes: em 1898, Karl Kautsky refere-se a Thomas Morus como o “primeiro socialista moderno”. O socialismo real compartilhou com a direita uma adesão ao Pragmatismo, que em resumo é uma visão estreita da História, pela qual apenas os fenômenos hegemônicos são reais. Isto desqualifica a utopia, que é o real não manifesto – e todas as alternativas sociais foram canceladas. Não por acaso o Futurismo, corrente pragmática de vanguarda, teve suas conseqüências mais efetivas tanto na Itália de Mussolini quanto na União Soviética do mesmo período.

No século XX, com o socialismo real, a utopia foi removida para o plano da irrelevância. Não casualmente volta a ser estudada com intensidade depois dos acontecimentos chamados de “queda do muro de Berlim”, e por intelectuais interessados tanto em não repetir os erros do leninismo quanto em não considerar o capitalismo financeiro e sua cultura, a pós-modernidade, como o fim da História.
JU – Que é sua avaliação dos estudos sobre a utopia no Brasil? E nos chamados países centrais?
Berriel – No Brasil, ainda de um modo geral, a utilização do conceito ainda não superou a indefinição entre utopia e utopismo, isto é, entre o uso conceitualmente rigoroso da palavra e a tomada genérica do conceito. Enquanto a utopia é o conceito em seu rigor, o utopismo é a tomada de qualquer lugar ou sociedade imaginária como utópica. Se for assim, como distinguir o Sítio do Picapau Amarelo da Cidade do Sol de Campanella, ou o Planeta Mongo de Flash Gordon da República de Platão? Afinal, são todos esses lugares imaginários. Patinamos na ausência de rigor nesta área, e o II Congresso foi pensado, em parte, para sanar este problema. Isto em parte se deve à indigência da biblioteca brasileira, no que toca à utopia. Na França, Itália, Portugal, Irlanda e Inglaterra existem centros muito avançados de estudos utópicos, com uma vasta biblioteca já publicada nos últimos 20 anos, principalmente. Acaba de ser inaugurado, em Portugal, o primeiro curso de pós-graduação em utopia.

JU – Como funciona o grupo coordenado por você no IEL-Unicamp? Quais são suas atividades e linhas de pesquisa?
Berriel – Está funcionando no IEL-Unicamp o U-TOPOS – Centro de Estudos sobre Utopia, que reúne pesquisadores de algumas faculdades da Unicamp, e de fora dela. Lutamos todos contra a banalização acima referida. Muitas pesquisas de ponta estão saindo deste Centro, incluindo uma nutrida safra de traduções de utopias para o português. Aliada a este Centro está a Revista Morus – Utopia e Renascimento, com 5 números publicados, um livro no prelo e outros a caminho, e 2 congressos internacionais em seu haver. O objetivo é atrair pesquisadores de dentro e de fora da Unicamp para a construção de um patrimônio crítico e histórico da utopia, no plano mais amplo. Todas as linhas de pesquisa são válidas, condicionadas ao critério do rigor conceitual. De minha parte busco conjugar o pensamento de Marx com o objeto utópico.

JU – A utopia serve para quem, ou para o quê?
Berriel –  Toda vez que você se perguntar se a forma atual da sociedade é eterna, ou se haveria um outro modo possível, você está operando no terreno da utopia – você está imaginando uma estrutura social virtual. Aí está a qualidade humana essencial: a teleologia, ver antes o que ainda vai acontecer. A utopia serve claramente para humanizar o homem, dotá-lo da noção de que o mundo social se constrói e se destrói pela exclusiva ação humana, sem interferências sobrenaturais. A utopia é filha da descoberta de que a sociedade é obra exclusivamente da ação humana, sendo portanto passível de mudança de acordo com uma projeção anterior.

A utopia serve para destruir o status quo, e serve àqueles interessados neste trabalho. Aos reacionários a utopia causa horror. Lembremos que a distopia, isto é, a ficção que cria os mundos mergulhados no pesadelo social (Admirável Mundo Novo, 1984, Fazenda de Animais, Blade Runner) são utopias de sinal trocado, chamadas de distopias – e sem essas obras estaríamos desarmados para compreender o mundo atual. Podemos dizer que a dimensão libertadora da utopia está no fato de que ela buscava adaptar não o indivíduo ao meio, mas o meio ao indivíduo.

JU – Especificamente para os dias de hoje, qual a função da utopia?
Berriel – Precisaríamos antes definir o que significa “hoje”, o que não é fácil. Um esquema possível seria: 1) falência das alternativas concretas da esquerda; 2) até algumas semanas atrás, o capitalismo financeiro arrogava-se a forma derradeira e insuperável da História; e 3) do fim de 2008 para cá, a forma arrasadora deste capital revelou-se falida. Estamos, portanto, numa encruzilhada que, imagino, será mais confortável estudar no futuro do que viver agora. Mas e a utopia com isso? Bem, a utopia é, antes de qualquer coisa, um modo de enxergar a realidade social.

Para a disciplina do utopista, o mundo nunca é apenas aquilo que se nos apresenta, mas é também aquilo que está oculto. Para o bem e para o mal. Então, diante de qualquer forma social, a utopia capta as possibilidades dissimuladas, que poderão no futuro crescer e assumir o poder. Portanto, em relação àquilo que chamamos fase 2 – apoteose do capitalismo financeiro – a disciplina utópica podia observar que longe dos holofotes respiravam dois seres, um “do bem”, outro “do mal”: a primeira, uma forma de vida associada generosa, um outro mundo que seria construído sobre as ruínas do capital e do socialismo real; este, infelizmente, não se deu a conhecer – não temos utopias de fato eficientes. A outra forma, esta “do mal”, é um mundo de pesadelo – a distopia. Notemos que a disciplina utópica fez a sua parte neste segundo caso: só para dar um exemplo, os filmes Minority Report e Inteligência Artificial, ambos de Spielberg e extraídos de obras literárias dos anos 60. Neles vemos no que o mundo poderia se transformar se transbordassem as águas da informática e de suas associadas, a robótica e a vigilância eletrônica. Aliás, estes temas já haviam sido tocados por Orwell, Kubrick, Huxley, Phillip K. Dick e todos os grandes distopistas. E ninguém que participa da cultura pode dizer que não sabia de nada.

E a vertigem informática, prestemos atenção, é uma das manifestações estruturais do capital financeiro. Será preciso lembrar que a robótica e a informática desempregaram centenas de milhões de trabalhadores e destruíram o movimento operário? Quem advertiu isso muito antes? Foram os utopistas em Blade Runner, 1984, Admirável Mundo Novo, 2001 – Uma Odisséia no Espaço (em que um robô-computador assassino enlouquece de inveja dos homens).

Certamente os líderes trabalhistas, mergulhados nos assuntos cotidianos, que tanto elucidam quando escondem os verdadeiros problemas, não entenderam que os avanços tecnológicos vieram, nesta quadra em particular, para quebrar a espinha das reivindicações dos trabalhadores. A marginalização de grossos contingentes de técnicos e operários, assim como o isolamento das elites em estruturas residenciais policiadas já estavam desenhadas nos vários galhos da árvore utópica, como a ficção científica. Basta pôr-se a lembrar.

JU – Mas devemos ser contra os avanços técnico-científicos?
Berriel – De modo algum! Voltaríamos à pré-história, ou pior. O que seria de nós sem a penicilina, e no que me toca em particular, o cinematógrafo? A questão é que somos contemporâneos de uma ciência desprovida de ética. Creio ser a primeira vez na História em que isso acontece. O desenvolvimento técnico-científico anda, ou melhor, voa, sem qualquer governo quanto às suas finalidades humanas. Mary Shelley, fundando o romance de terror em 1818 com Frankenstein, já nos avisara sobre isso. A criatura grotesca, produto da ciência, em determinado momento indaga ao seu criador: “Por que você me criou?”, e o cientista moderno não tem a resposta. É uma premonição da bomba de Hiroshima. Há um divórcio entre padrão científico e padrão ético.

Aí está o problema que interessa à utopia: o que acontece com a sociedade, ou acontecerá, se as invenções científicas não passarem pelo vestíbulo do consenso moral? A resposta me parece óbvia: a destruição do planeta, da vida, da cultura, de tudo que vale a pena levar em consideração. E é o que estamos vendo – com a advertência da biblioteca utópica. E de certa forma, com o desgoverno da técnica, podemos estar voltando à pré-história, ou pior.

JU – Vimos alguns aspectos positivos da utopia. E os aspectos negativos?
Berriel – Os aspectos negativos estão em querer construir uma sociedade utópica, ou seja, sair do terreno filosófico-literário, essencial para a autonomia humana, para a construção de uma sociedade real utópica. Isso é um grave perigo. Cito a antropóloga Margareth Mead: “O sonho de um é o pesadelo de outro”. Cito ainda outra frase, esta de Marx: “Quem compõe um projeto para o futuro é um reacionário”. Concordo com as duas. Se a utopia é uma sociedade perfeita, isto significa que ela não pode se aperfeiçoar e nem se degradar, porque ambas as coisas pressupõem a imperfeição. Na prática, esta utopia significaria uma estática social, um mundo parado e eternizado em si mesmo. Isto é a u-cronia, ou ausência de tempo – uma impossibilidade. Mas podemos ir além: uma sociedade utópica real, para garantir sua existência estática, precisaria recorrer à eterna vigilância e a todas as formas de violência.

Quem projeta uma sociedade crê que os seres humanos estão inteiramente à sua disposição, num consenso incondicionado, aceitando implicitamente que serão controlados e dispostos conforme o desenho lógico do engenheiro social – aquele que crê que sua lógica pessoal deve ser universal. Estamos falando daqueles senhores tão famosos na História, o Grande Inquisidor, o Grande Irmão, o Grande Timoneiro, o Guia Genial. Karl Popper considerava que a utopia prática é indissociável da violência. "A utopia", disse Aldous Huxley, "parece hoje muito mais realizável do que jamais o foi. O problema agora é como nos defendermos de sua realização".

Nomes confirmados

Adriano Prosperi – Scuola Normale Superiore di Pisa (Itália)
Alcir Pécora – Unicamp
Alfredo Cordiviola – UFPE
Ana Cláudia Romano Ribeiro – Unicamp
Antônio Edmilson M. Rodrigues – UFRJ/PUC-RJ/UF
Arrigo Colombo – Universidade di Lecce (Itália)
Benjamin Abdalla Jr. – USP
Biagio d’Angelo – PUC-SP
Bruno Dallari – PUC-SP
Carlos Antônio Leite Brandão – UFMG
Carlos Eduardo Ornelas Berriel – Unicamp
Carmelina Imbroscio – Università di Bologna (Itália)
Carolina Araújo – UFRJ
Claudio De Boni – Università di Firenze (Itália)
Cosimo Quarta – Università di Lecce (Itália)
Christian Rivoletti – Universidade de Saarland (Alemanha)
Claude-Gilbert Dubois – Université Michel de Montaigne – Bordeaux -III (França)
Costica Bradatan – Texas Tech University (EUA)
Cristina Meneghello – Unicamp
Daniel Ogden – Uppsala University (Suécia)
Edwiges Morato – Unicamp
Edgar De Decca – Unicamp
Edson Luiz André de Souza – UFRGS
Elias Thomé Saliba -  USP
Emerson Tin – FACAMP
Enzo Baldini – Università di Torino (Italia)
Fátima Vieira – Universidade do Porto (Portugal)
Francisco Foot Hardmann – Unicamp
Gianluca Bonaiuti – Università di Firenze (Itália)
Jean-Michel Racault – Université de la Réunion (França)
Jorge Bastos da Silva – Universidade do Porto (Portugal)
Helvio Gomes Moraes Junior – Unemat/Unicamp
Hernán Martignone – Universidad de Buenos Aires (Argentina)
Hilário Franco Jr. – USP
Iara Lis Schiavinatto – Unicamp
Ildney Cavalcanti – UFAL
Ivone Gallo – PUC-Campinas/ Unicamp
Jacyntho Lins Brandão -UFMG
Jens Baumgarten – UFSP
José Alexandrino de Souza Filho – UFPb
Krishan Kumar – University of Virginia (EUA)
Laetitia Bontemps – CESR, Université François-Rabelais, Tours (França)
Laura Tundo Ferente – Università del Salento (Itália)
Leandro Karnal – Unicamp
Luciano Migliaccio – FAU-USP
Luiz Marques – Unicamp
Marcio Seligmann-Silva – Unicamp
Margarida Salomão – UFJF
Maria José García Soler – Universidad del País Vasco (Espanha)
Maurizio Cambi – Università di Salerno (Itália)
Marianna Forleo – Isfol (Itália)
Marie-Luce Demonet – Centre d’Etudes Supérieures de la Renaissance de Tours (França)
Nadia Minerva – Università di Bologna (Itália)
Nathaniel Coleman – Newcastle University (Inglaterra)
Paola Spinozzi – Università di Bologna (Itália)
Peter Kuon – Université de Salzburg (Áustria)
Silvia Solimeo – Università di Lecce (Itália)
Susani Silveira Lemos França – UNESP
Suzana Albornoz – Universidade de Santa Cruz do Sul (Brasil)
Wilhelm Vosskamp – University of Cologne (Alemanha)
Yvone Soares dos Santos Greis – UNICAMP / Université François Rabelais (França)
Vita Fortunati – Università di Bologna (Itália).

Jornal UNICAMP

A América Pré Colombiana

Os Olmecas

A cultura olmeca, que se originou na costa sul do Golfo do México (La Venta,
San Lorenzo, Tenochtitlán, Três Zapotes), é considerada a primeira cultura elaborada da Mesoamérica, e matriz de todas as culturas posteriores dessa área.

Quem foram os olmecas? A sua antigüidade remonta á époci em que na Europa, depois de invadirem Creta, os aqueus se preparavam para conquistar Tróia.
Portanto, por volta do século XIII a.C., surgiu na América a primeira civilização,
Que durou até cerca do ano 100 a.C.. As características marcantes do Império Olmeca, que se estendeu desde o México Ocidental até, talvez, a Costa Rica – foram a escultura monumental (colossais cabeças de pedra) e a presença de centros cívicos religiosos a que se subordinavam áreas periféricas (satélites).
Tem razão o historiador mexicano Ignacio Bernal em declarar que "para nós,
americanos, ainda é melhor conhecida a vida de Roma que a de Tenochtitlán ou de Cuzco". Embora já se conheça razoavelmente bem a vida econômica e sócio-política dos astecas e incas, a mesmo não acontece com relação aos olmecas. Recentes pesquisas arqueológicas, realizadas em San Lorenzo, um dos principais centros Olmecas e, provavelmente, o primeiro centro civilizada da Mesoamérica, nos dão conta da existência de colinas artificiais, com desaguamentos subterrâneos que funcionariam como sistemas para controle da água. A costa meridional do Golfo do México é uma área pantanosa, irrigada por numerosos rios. Nesse ambiente tropical, os olmecas cultivaram milho, feijão e abóbora, complementando a subsistência com os produtos obtidos através da caça e da pesca.

Além de talhar monumentos gigantescos, feitos de pedra, os olmecas também
destacaram-se no artesanato de jade. Nem pedra, nem jade existiam no litoral da
Golfo. Os olmecas iam buscar essas matérias-primas em regiões distantes. Como
não conheciam a roda, nem possuíam animais de carga, a pedra era transportada
em balsas, por via fluvial. A procura do jade deve ter servido como estimulo ao
comércio, que se fazia através de numerosas rotas. Acredita-se que a notável influência olmeca na Mesoamérica seja devida á extensão desse comércio.
A organização social dos olmecas era bastante desenvolvida. A população,
espalhada pelo Império, dividia-se entre urna minoria (sacerdotes, artífices de elite), que habitava os centros cerimoniais, e a maioria do povo – camponeses – que vivia nas aldeias.
Nos centros cerimoniais, como o de La Venta, havia altos cômoros, em for.
ma de pirâmide truncada, construídos sobre grandes plataformas de terra, organizadas ao redor de plazas, segundo um plano sistemático. Esses montículos de argila eram rodeados de enormes fossas, onde foram encontradas máscaras religiosas profundamente enterradas. Ao que parece, os cômoros tinham funções primordialmente funerárias
É de se supor a existência de Chefias ou Estados incipientes (como em Três
Zapotes), devido á necessidade de supervisão e planejamento, além de recruta-
mento de numerosa mão-de-obra, para a construção das pirâmides, plataformas
e aterros.

O valor dominante do religioso caracterizou a Arte olmeca. A escultura era
bastante desenvolvida: monumentais cabeças de pedra, com rosto redondo, lábios
grossos e nariz achatado; estatuetas com formas humanas; e outras apresentando
uma mistura de traças humanos e felinos (aguar). Todas caracterizavam-se pela
boca retorcida – típica da Arte olmeca. São freqüentes as representações do jaguar, a principal divindade, sendo que o homem-jaguar representaria, provável.
mente, o deus da chuva. Quanto a pintura, dela encontraram-se poucas exemplares, em locais distantes.
Sabe-se que tinham conhecimentos de Astronomia – basta observar-se o traçado das suas cidades, obedecendo aos pontos cardeais (como La Venta) – e um
calendário, pois foram encontrados, em alguns monumentos, registros de datas
muito antigas. Também conheciam a escrita e possuíam sistemas matemáticos.
Muitos traços e tradições dos olmecas sobreviveram entre as diversas culturas
que os sucederam, como é o caso das culturas dos maias e astecas.
Os Maias
Os maias – que ocuparam as planícies da Península do Iucatâ, quase toda
a Guatemala, a parte ocidental de Honduras e algumas regiões limítrofes – constituíam povos que falavam línguas aparentadas, e elaboraram uma das mais complexas e influentes culturas da América. Alguns historiadores, para quem a Europa é o centro do mundo, chegaram a comparar os maias aos gregos, em termos de importância cultural.
Estes Gregos do Novo Mundo possuíam uma economia agrícola baseada na
produção do milho, considerado alimento sagrado, pois dele se teria originado o
homem, segundo a mitologia maia. A terra era cultivada coletivamente. obrigando-
se os camponeses ao pagamento do imposto coletivo. A caça e a pesca eram atividades complementares, sendo desconhecida a pecuária.

A organização social dos maias ainda é, em grande parte, desconhecida. Entretanto, através do estudo da Arte maia, sobretudo de sua Pintura, pode-se caracterizar essa civilização como uma sociedade de classes. Uma elite (militares e sacerdotes) constituía a classe dominante, de caráter hereditário, que habitam as numerosas centros cerimoniais, circundados pelas aldeias onde vivia a numerosa mão-de-obra composta por camponeses submetidos ao regime da servidão coletiva. Os centros maias não eram apenas o lugar da administração e do culto, mas também exerciam funções comercias: trocas de produtos cultivados e de artigos do artesanato, objetos de ouro e cobre, tecidos de algodão, cerâmica), sendo muito importante o ofício de mercador. Havia ainda os escravos, cujas figuras apareciam em numerosos monumentos do Antigo Império Maia. "Estas figuras de cativos certamente são uma representação dos prisioneiros de guerra reduzidos á escravidão, ainda que possam representar também as pessoas de todo um povoado ou aldeia, coletivamente, melhor do que a um indivíduo em especial, as vezes, os rostos dos prisioneiros são diferentes dos das principais figuras, diferença que possivelmente indica que os senhores pertenciam a uma classe hereditária especial."

Politicamente, acredita-se que o governo maia fosse uma teocracia, exercida
peio Halach Uinic, de caráter hereditário, incumbido da política interna e externa,
e do recolhimento do imposto coletivo das aldeias. Uma espécie de Conselho assessorava esse governante. As chefias das aldeias eram exercidas pelos Batab, com jurisdição local e submetido ao supremo governante, como, aliás, todos os habitantes das aldeias e os funcionários reais. Estas chefias locais poderiam ser constituídas pelas antigas aristocracias tribais, cooptadas pelo Estado para melhor afirmar sua autoridade sobre as aldeias. Havia ainda os Nacom, chefes militares eleitos por um período de três anos, que intervinham nos assuntos da guerra, organizando o exército; e funcionários menos categorizados, os Tupiles, que zelavam pela ordem pública.
Os maias na verdade, nunca chegaram a constituir um Império: cada cidade.
com suas respectivas aldeias, formava um Estado independente: Palenque, Copán, Tical e outras.
Do ponto de vista religioso, os maias acreditavam que o destino do homem era
controlado pelos deuses, e, assim, toda sua produção cultural foi nitidamente influenciada pela religião. A arquitetura era sobretudo religiosa. Utilizando principalmente pedra e terra como materiais, e trabalho forçado da numerosa mão-de-obra camponesa, construíram-se templos, de forma retangular, sobre pirâmides truncadas, com escadarias, e estendendo-se ao redor de praças. Também se edificaram palácios, provavelmente para residência dos sacerdotes, em que os interiores , geralmente longos e estreitos, eram cobertos por uma falsa abóbada, característica desse tipo de edificação. Todas as dependências revestiam-se de elaborada decoração – esculturas, pinturas murais, geralmente representando cenas guerreiras ou cerimoniais (altos dignitários sendo homenageados ou servidos por súditos). A escultura em terracota foi outro exemplo notável da Arte maia, enquanto a Pintura, utilizando cores vivas e intensas, atingiu alto grau de perfeição.

A preocupação religiosa também estava presente nas realizações das maias
no campo do registro do tempo. "Uma das grandes realizações devidas aos sacerdotes foi o calendário da América Central. Todas as religiões se interessam pela determinação do tempo. Elas ligam o ciclo vital da indivíduo aos atos rituais que revivem periodicamente na sociedade e sincronizam este tempo social com a marcha do tempo.
O calendário cíclico, que abrangia um período de 52 anos, era um sistema complexo de contagem do tempo, agrupando três ciclos, com número diferente de dias e com múltiplas combinações. Esse calendário orientava as atividades humanas e pressagiavam as vontades dos deuses. Os maias fizeram notáveis progressos na Astronomia. (eclipses solares, movimento dos planetas). Também adquiriram avançadas noções de Matemático, como um símbolo para o zero e o principio do valor relativo.
Embora não esteja ainda de todo decifrada, já se sabe que a escrita maia, considerada sagrada, não se baseava em um alfabeto: havia sinais pictográficos e símbolos apresentando sílabas, ou combinações de sons.
No que restou da produção literária, sobressai o Popol Vuh, livro sagrado dos
maias, que contém numerosas lendas e é considerado um dos mais valiosos exemplos de Literatura indígena.
Por volta do ano 900, o Antigo Império Maia sofreu um declínio de população,
e teria iniciado um processo erroneamente confundido com decadência. Alguns
estudiosos atribuem o abandono dos centros maias à guerra, insurreição, revolta
social, invasões bárbaras etc. De fato, os grandes centros foram abandonados, porém não de súbito. As hipóteses mais prováveis apontam para uma exploração intensiva de meios de subsistência inadequados, provocando a exaustão do solo e a deficiência alimentar.
A cultura maia posterior, fundindo-se com a dos Toltecas, prolongou-se no
Novo Império Maia até a conquista definitiva pelos espanhóis.

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