Daily Archives: 19/04/2009

Intestino, Sete metros de encrenca

Alergias, artrites, dores de cabeça, problemas de pele, tumores – esses e vários outros problemas de saúde que afligem as pessoas na nossa civilização industrializada estão relacionados ao mau funcionamento do intestino.

O intestino representa a terceira etapa que os alimentos ingeridos nas refeições devem atravessar em sua viagem dentro de nós. Eles passam primeiramente pela boca, onde devem ser bem mastigados e misturados à saliva, depois pelo estômago, onde acontece boa parte da digestão, e finalmente por esse longo tubo onde a digestão se completa – o intestino. Neles são absorvidos os nutrientes e aquilo que resta do bolo fecal é tornado semissólido para poder ser eliminado. Como consequência desse processo, pelo menos três vezes ao dia transitam no intestino os alimentos e as bebidas que consumimos nas refeições principais.

Na primeira metade do século 20, Sir Arbuthnot Lane, cirurgião do rei da Inglaterra, se especializou na amputação de trechos doentes do intestino e em costurar as pontas que sobraram para fazer com que o órgão recobrasse sua capacidade de funcionamento. Ele observou um curioso fenômeno: alguns meses depois de passar por intervenções no cólon, alguns pacientes se curavam de doenças que não tinham, aparentemente, nenhuma ligação com o órgão operado. Entre eles, um rapaz sarou de uma grave forma de artrite e uma mulher se curou completamente do bócio que a fazia sofrer.

Essas e outras experiências convenceram o cirurgião Lane de que a intoxicação intestinal – sobretudo a do cólon – podia contribuir para o adoecimento de outras partes do organismo que pareciam não ter relação com os intestinos.

Ainda hoje, a medicina oficial declara não ter descoberto a causa de muitas doenças que afligem a humanidade, entre elas o câncer, tumores, doenças autoimunes, vários problemas da pele (psoríase, etc.), alergias ambientais e alergias e intolerâncias alimentares, as quais são cada vez mais numerosas.

Por que ainda não se descobriram as causas desses males? Segundo o médico e escritor norte-americano Bernard Jensen, porque, ao examinar casos de intoxicação orgânica, a medicina leva em consideração apenas os venenos que podem chegar do meio externo (fungos, substâncias químicas, gases, etc.) e não avalia aqueles que podem ser criados no intestino e se difundir para o resto do organismo, prejudicando a boa saúde de outras áreas dele. Essa falha é surpreendente. Até poucos anos atrás, a limpeza intestinal era considerada muito importante, e a purga mensal, bem como os periódicos enemas dos quais as pessoas mais velhas certamente se recordarão, era um sinal evidente disso.

Que podemos fazer?

Os laxantes – infelizmente, hoje bastante usados – constituem apenas um benefício momentâneo. A longo prazo, eles tendem a danificar a mucosa intestinal. Para limpar o intestino de forma radical, podem-se fazer algumas sessões (no máximo quatro ou cinco) de lavagens intestinais (hidrocoloterapia,http://www.hidrocolon.com.br/index.php) e outros tratamentos ainda mais completos. Mas eles exigem acompanhamento médico.

Para manter limpo o intestino, convém retomar o velho, sábio e salutar hábito de tomar um purgante uma vez ao mês e quando se volta das férias.

Um dos primeiros sinais de que nosso intestino está carregado de impurezas é o aparecimento de cravos, espinhas, furúnculos e outras inflamações na pele.

Se procurarmos eliminar essas inflamações com o uso de pomadas, corremos o risco de bloquear essa “descarga” e fazer com que o corpo acumule as impurezas em algum outro órgão ainda mais importante do que a pele. Criam-se assim os pressupostos para problemas bem mais graves.

O intestino, com sua notável área de contato com os produtos da digestão (cerca de 300 metros quadrados de superfície!), representa um dos “órgãos” mais influentes do corpo. Ele executa importantes funções digestivas, promove a absorção dos nutrientes e colabora com os rins, a pele e os pulmões nos processos de eliminação de detritos.

As últimas partes do intestino – o cólon (ou intestino grosso) e o reto – são certamente as mais relevantes. Nessas áreas, graças às enzimas e à flora bacteriana, a digestão se completa e substâncias fundamentais são absorvidas: a água, os aminoácidos (constituintes das proteínas) e muitos dos produtos medicinais que usamos.

O que acontece quando as paredes do cólon não são sadias? Acontece algo muito perigoso para a boa saúde: a mucosa se inflama e perde sua impermeabilidade, ou seja, permite que substâncias tóxicas, alguns parasitas e fragmentos de alimento não bem digeridos a atravessem e entrem nos líquidos orgânicos (o sangue e a linfa).

Tais substâncias nocivas, difundindo- se no organismo inteiro, podem gerar os sintomas mais diversos. A relação inclui enxaquecas e hemicranias crônicas, alergias, acnes, psoríase e outras doenças da pele, distúrbios da próstata, diverticulite, graves prisões de ventre, prolapsos intestinais, artrites, reumatismos, problemas cardíacos, asma, problemas respiratórios, nódulos das mamas, perda de vitalidade, cansaço, depressão, falta de concentração, agressividade, ataques de pânico, infecção, inflamações, poliartrite, problemas dos cabelos, parasitoses intestinais que produzem o bruxismo (ranger de dentes noturno) e muitos outros distúrbios.

Examinemos algumas condições responsáveis por fazer do nosso intestino o ponto inicial de tantas disfunções e doenças que, num primeiro momento, ninguém iria associar a esse órgão. Fundamentalmente, até mesmo numa pessoa sadia é possível se encontrar uma ou mais das seguintes anomalias:

1. Incrustações fecais
2. Disbiose intestinal
3. SII (síndrome do intestino irritável)
4. Síndrome de hiperpermeabilidade intestinal
5. Glúten e doença celíaca

As incrustações fecais
“Metade das pessoas que declaram gozar de boa saúde carrega continuamente dentro de si, desde a infância, vários quilos de substâncias que nunca foram eliminadas”, afirma o professor médico Arnold Ehret. “Para essas pessoas, uma boa evacuação ao dia não tem nenhum significado.”

Quando pensamos na farinha de trigo, sentimos gratidão, imaginando que com ela se mata a fome da humanidade desde os primórdios da história. É preciso, porém, deixar claro que a farinha usada nos tempos passados era integral, e as donasde- casa que tentaram fazer com ela massa para pão sabem muito bem quanto é difícil trabalhá-la sem misturá- la com farinha branca normal.

Mas a farinha branca, infelizmente, apresenta um grave inconveniente, perigoso e pouco conhecido: ela cola! Isso é fácil de verificar cozinhando a fogo baixo farinha branca e água: cria-se uma cola tão boa que até hoje é usada para encadernar livros antigos.

Com o passar dos anos, os alimentos que contêm farinha branca deixam uma camada sobre as paredes do intestino, especialmente sobre a parte final deles, o intestino grosso ou cólon. Essa pátina, acumulandose mais e mais a cada dia, pode se tornar tão espessa que no espaço central do intestino (o chamado lúmen) fica difícil passar um lápis.

Uma das maiores causas dos problemas intestinais, especialmente os do cólon, é essa pátina que, ao longo dos anos, se torna uma verdadeira incrustação, parecida, nas palavras do doutor Jensen, aos pneus de um automóvel! Claro, essas incrustações não são as únicas responsáveis. A elas deve-se acrescentar a vida sedentária, a poluição ambiental, o uso de medicamentos não naturais, uma alimentação não balanceada, demasiado rica em açúcares, alimentos refinados e aditivos químicos e, ao mesmo tempo, pobre de elementos importantes como fibras, vitaminas e sais minerais.

A tudo isso é preciso acrescentar o estresse, que determina uma alteração das paredes intestinais, provocando contrações excessivas ou insuficientes. Essa condição não apenas causa um acúmulo de escórias e um aumento das incrustações fecais antes descritas, mas pode influenciar a flora bacteriana, tornando mais lentos e menos eficazes os processos biológicos próprios do intestino.

2 A disbiose intestinal
No cólon existe uma notável flora intestinal, passível de modificações que a tornam muito perigosa para a saúde. Quando a flora é equilibrada e útil ao organismo, ocorre uma condição de saúde que tem o nome de eubiose. Ao contrário, quando essa flora está desequilibrada (condição, infelizmente, muito difundida na atualidade), toma o nome de disbiose, e suas consequências podem ser nefastas.

Uma alimentação pouco inteligente (muitos açúcares e proteínas, combinações erradas de alimentos, pouca ou nenhuma mastigação), refeições ingeridas de modo apressado e uso de laxantes, antiácidos, antibióticos, etc. criam um produto da digestão (um “bolo”) rico de proteínas mal digeridas e outros elementos anômalos que predispõem ao desenvolvimento de várias substâncias tóxicas e bactérias da putrefação, ambas muito danosas. Tudo isso, infelizmente, contribui para o forte aumento estatístico das patologias graves do cólon, como diverticulites, pólipos, retocolites ulcerosas e tumores.

3 SII (síndrome do intestino irritável)
A SII (síndrome do intestino irritável) é uma patologia que faz o intestino “espremer” o alimento ingerido de modo excessivamente débil ou forte, fazendo com que o trânsito desse alimento seja demasiado lento ou veloz.

Às vezes, a SII é provocada pela ansiedade ou pelo estresse. No entanto, muitas outras vezes, os testes que determinam a permeabilidade e a motilidade intestinal revelam a presença de fungos, parasitas e/ou bactérias patogênicas. Os micróbios mais comumente encontrados em situações do gênero são o Blastocystis hominis e as várias espécies de cândida.

Se se permite que a SII prossiga no tempo sem o devido tratamento, ela pode dar origem a desordens muito sérias, como a infecção por cândida, a sensibilidade química múltipla, a síndrome da fadiga crônica, muitas doenças autoimunes e até mesmo o câncer.

Vale notar que raras vezes os tratamentos médicos conseguem eliminar a SII. Para seu tratamento efetivo, são mais adequados os remédios naturais. Eles devem ser dirigidos à remoção das causas, à melhora das funções gastrointestinais e à cura da mucosa intestinal.

4 Síndrome de hiperpermeabilidade intestinal

Diversos problemas de saúde surgem por conta do mau funcionamento do intestino, muitas vezes causado pelo estado precário de suas paredes, que perderam a necessária impermeabilidade. Essa patologia é chamada de “perda de impermeabilidade da mucosa intestinal”. Há fortes suspeitas de que essa perda é a causa básica de várias patologias, entre as quais doença celíaca, infecção por cândida, doença de Crohn, infestação por giárdias, eczema atópico, problemas digestivos, fadiga crônica, alergias alimentares, intolerâncias alimentares, asma, dores de cabeça e artrite.

A patologia acontece quando, nas paredes do intestino, os espaços entre as células se ampliam a ponto de possibilitar a passagem e a subsequente entrada de substâncias tóxicas na corrente sanguínea. Essa condição anômala permite às gorduras e aos dejetos que não puderam ser absorvidos (bactérias, fungos, parasitas com suas toxinas, proteínas não digeridas) “gotejar para fora” e entrar na corrente sanguínea.

Considerando-se a vasta superfície da mucosa intestinal e sua grande capacidade de absorção, pode-se compreender quanto é importante que ela permaneça perfeitamente impermeável, para evitar que as substâncias tóxicas possam ser lançadas nos líquidos externos (sangue e linfa) e distribuídas no corpo todo, criando múltiplas disfunções e doenças.

Dessa distribuição de venenos deriva uma série de distúrbios de caráter geral que, à primeira vista, parecem não ter nenhuma relação com o intestino: dores de cabeça, nervosismo, ansiedade, depressão, mau hálito, rinites, acne, dermatites, eczemas, fadiga crônica, envelhecimento da pele, dores nas articulações, artroses, etc. Essa invasão provoca também uma forte baixa das defesas orgânicas, pois no intestino existem entre 100 e 200 “placas de Peyer” (aglomerados de nódulos linfáticos localizados principalmente na mucosa do íleo, que têm a mesma atividade das tonsilas: produzir substâncias que protegem a mucosa contra a ação de micróbios), essenciais para a manutenção do nosso potencial imunológico. Isso, obviamente, abre as portas a várias alergias e intolerâncias alimentares.

5 Glúten e doença celíaca

O glúten é uma proteína que, infelizmente, está cada dia mais presente na nossa alimentação. Ao contrário da crença comum que o associa sobretudo ao pão e ao macarrão, o glúten existe também em vários outros cereais (trigo, cevada, farro, centeio, sorgo) e, obviamente, em todos os seus derivados. Às vezes o glúten é utilizado para tornar mais densos cremes e pudins, no presunto cozido e em embutidos como salames, mortadelas, salsicha e inclusive em alguns medicamentos.

Com o passar dos anos, especialistas em agricultura selecionaram cereais com conteúdo cada vez maior de glúten. Do farro com pouquíssimo glúten, como aquele usado na Europa na época dos antigos romanos, passou-se ao trigo, que contém muito glúten.

A grande utilização atual do glúten advém do fato de que essa substância torna as massas mais macias e elásticas – uma grande vantagem na panificação, pois assim o pão fica mole e não se esfarela quando cortado em fatias.

Arroz, milho e trigo-sarraceno não contêm glúten. Ainda não foi bem definida a sua quantidade na aveia e no cereal quinoa. Mas o seitan (produto de linha macrobiótica) contém 100% de glúten!

Esse é o motivo pelo qual se prescreve uma “dieta branca” aos que sofrem de gastroenterites, de doenças do aparelho digestivo ou de fenômenos de infecção generalizada. Essa dieta se baseia em arroz cozido e água de arroz.

São relativamente comuns as alergias ao glúten, nas quais a resposta imunológica é similar àquela que acontece nas demais doenças alérgicas de origem alimentar, com o aparecimento de vários sintomas. Às vezes, essas alergias podem desembocar numa moléstia autoimune extremamente grave, a doença celíaca. Nessa patologia, o sistema imunológico cria anticorpos contra o glúten e pode destruir as vilosidades intestinais e/ou gerar caquexia (estado de magreza extrema), e inclusive levar à morte.

Dieta para sair da encrenca

Uma alimentação correta e saudável é fundamental para corrigir patologias intestinais e manter esse órgão em equilíbrio. A dieta abaixo pode ajudar na recuperação da eubiose intestinal.
CAFÉ DA MANHÃ: fruta fresca da estação. Uma maçã, alguns figos ou ameixas secas, colocadas de molho num pouco d’água na noite anterior. Beber muita água. Iogurte e coalhada naturais. Evitar os alimentos em que haja mistura de farinhas e açúcar, pois ela acidifica o organismo.
ALMOÇO: comer apenas um prato; melhor arroz do que macarrão e pão branco; verduras e legumes crus à vontade. Algumas azeitonas pretas.
JANTAR: comer apenas um prato, sempre com verdura crua. Alternar: frango, peixe, ovos, queijos de cabra ou ovelha, iogurte ou coalhada. Melhor evitar carnes vermelhas. Atenção aos alimentos à base de soja, pois quase sempre fazem parte dos OGMs (organismos geneticamente modificados).
FRUTAS: melhor quando estão maduras e da estação, mas sempre longe das refeições principais.
DOCES: reduzir ao máximo; devem ser evitados depois das refeições.
ELIMINAR: café com leite, leite e laticínios de vaca. Salames, mortadelas, embutidos e laticínios de vaca. Carnes vermelhas. Bebidas com gás, sucos de fruta conservados. Pão branco e mole; melhor o pão integral, ou biscoitos integrais de boa marca.

Fonte: Terra – http://www.terra.com.br/

Preparando-se para os conflitos urbanos

Após séculos de batalhas campestres, as forças armadas francesas treinam para o combate urbano. Os exemplos do Iraque e do Afeganistão e a preocupação crescente em conter o nível de violência nas cidades levaram o exército a simular situações de ocupação e controle de territórios.

Philippe Leymarie

Desde o começo do século passado, a população urbana mundial quintuplicou. Atualmente, cerca de 280 aglomerações ultrapassam a marca de 1 milhão de habitantes e 27 têm mais de 7 milhões de pessoas. Calcula-se que, em 2025, dois terços da população global morarão em cidades. Alguns apostam que essa cifra chegará a 85% por volta de 2050. É com esse cenário em mente que, nos últimos anos, o governo francês decidiu treinar seu exército para atuar, particularmente, em conflitos urbanos.

Assim, as tropas multiplicaram os exercícios em condições que imitam a realidade: em abril de 2008, 800 militares e 200 blindados se deslocaram na cidade de Sedan em uma manobra centrada na logística e que acentuava, sobretudo, o tratamento de feridos, a proteção de comboios e a evacuação de refugiados.

No mês seguinte, a operação “Anvil 08”colocou 1.500 homens nas praias de Fréjus para testar a “segurança e evacuação de populações em face de uma ameaça constituída por grupos paramilitares e terroristas”. Em 2007, um exercício de combate urbano “em tamanho natural”, com 1.200 militares e importante apoio aéreo foi levado a cabo pela 11ª Brigada de Paraquedistas, no centro da cidade de Cahors.

De fato, desde 2005, um “comando Azur” (Ação em Zona Urbana) impunha a duas grandes brigadas do exército terrestre francês a obrigação de “reforçar sua capacidade de adentrar zonas urbanas, independente da intensidade do combate e executando, até mesmo, operações humanitárias em proveito das populações, em face de um adversário cujo armamento e modos de ação evoluem”. No ano passado essa diretiva foi estendida ao conjunto das brigadas, obrigadas a se familiarizar com o combate em “zona habitada”. Principalmente nas maiores cidades que, em geral, concentram o essencial dos poderes político, econômico, social e cultural e formam um nó na rede de comunicações. além disso, são espaços “mediatizados”, que funcionam como uma caixa de ressonância.

Após a Segunda Guerra Mundial

No decorrer das guerras mundiais do século XX e do conflito “leste-oeste”, os exércitos tinham sido formados para batalhas no plano, em vastas extensões essencialmente rurais, com fronts se movendo ao sabor dos recuos e dos avanços das unidades de infantaria, apoiados por blindados, pela artilharia e por caças da aeronáutica. “Durante os 45 anos que sucederam a rendição da Alemanha, gerações de soldados se prepararam para a guerra total entre o Pacto de Varsóvia e a Aliança Atlântica. A guerra nas cidades era praticamente inexistente. Nos regulamentos da infantaria, tratava-se esse tema pudicamente como ‘combate em localidade’” [1], sublinha o general Yves Jacops, antigo comandante da Escola de aplicação da Infantaria francesa.

Quando a guerra se tornou urbana, como em Berlim, em 1944, e mais recentemente em Grozny, na Tchetchênia, o choque entre exércitos deixou um cenário de terra arrasada. “Nós não vamos refazer a batalha de Stalingrado!”, afirmava, em um vídeo do Estado-Maior francês, um general que se apresentava como um dos “pais” do comando Azur. “Fazer tudo como se ainda fosse 1944 não seria aceitável!”

Realmente o contexto mudou, explica outro oficial: “Os novos modos de ação devem minimizar os desgastes colaterais. O exército intervem primeiro para acalmar a situação, mas deve passar o bastão à polícia e a instituições civis assim que possível. Não há motivo para se destruir hoje, o que se deverá reconstruir amanhã de manhã”.

“Durante a Segunda Guerra Mundial”, resume uma nota da Fundação para a Pesquisa Estratégica [2], “cidades inteiras eram bombardeadas, como Londres e Dresden. No Vietnã, o foco recaía sobre um quarteirão. Hoje, no Iraque ou nos territórios palestinos, lidamos com um imóvel e mesmo com uma janela em um dos andares desse imóvel.” [3]

Diferente dos grandes palcos de batalhas de fronteiras ou de regiões, o espaço urbano é um labirinto de múltiplas dimensões, formado por subsolos (porões, cinturões, esgotos, estacionamentos, metros, vias subterrâneas); ruas, praças e becos; e por edifícios com todos os tipos de configurações (centros históricos, setores habitacionais, grandes superfícies comerciais, arranha-céus). Essa encruzilhada oferece ao beligerante, sobretudo se ele conta com o apoio de uma parcela considerável da população – característica própria aos conflitos “assimétricos” do momento – uma “opacidade protetora”, que permite a um adversário, tido por mais fraco, encontrar uma vantagem tática.

Nesta nova abordagem do campo de batalha, a presença das populações é um dado central: elas são frequentemente as vítimas, mas às vezes são protagonistas nos conflitos. Na cidade, revela o coronel Nicol, “a ameaça vem de toda parte. Cada rua, cada quarteirão pode se tornar um microteatro de operação. Às vezes, as unidades são cercadas, despedaçadas. É uma situação permanente de “duelo”, não importando o sistema de armas. Você deve tentar perceber, dentre os habitantes, qual está implicado, quem é o agente perigoso e quem não é, algo muito delicado. E você age sempre sob o olhar da mídia”.

O coronel Pascal Langard, chefe do batalhão francês da força especial da organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Kosovo, estimava – após uma nova série de incidentes em março de 2008 em Mitrovica [4] – que “o combate realizado em presença da população é sem dúvida um dos mais difíceis, pois não pode se resumir à destruição do adversário”. O oficial insiste, como muitos outros, sobre “a necessidade de dominar a violência” – tarefa tanto mais complexa quanto mais variem as motivações, os atos reais e os meios utilizados no interior de uma mesma multidão de manifestantes. Para ele, a situação pode evoluir rapidamente, tanto do ponto de vista do espaço como do tempo. Esse contexto exige “muito sangue frio, coesão perfeita e uma confiança sem hesitações dos subordinados". [5]

A preocupação em conter o nível de violência, notadamente nos conflitos de tipo insurrecional, demanda ações diretas “com contato” frequente: os militares buscam uma “mira cirúrgica”. Para o chefe do Bata- lhão Arminjon, esse tipo de combate “exige uma concentração intelectual muito forte”. Já o coronel Vincent Pons, chefe de opera- ções da 27ª Brigada de Infantaria de Montanha, acredita que “o importante é estabelecer rapidamente uma relação de forças favorável e assegurar uma proteção blindada significativa para os envolvidos”.

Esse tipo de ação, realizada em intervalos curtos de tempo e com demandas logísticas complexas, necessita de estoques de munição dez vezes mais significativos do que uma campanha militar normal, assim como um número suficiente de blindados, ora para apoio, ora para proteção. E, sobretudo, requer tropas permanentemente treinadas: “No espaço de seis meses, pode-se perder os reflexos e esquecer os procedimentos, perder a capacidade de desferir golpes mais duros”, analisa um instrutor do Centro de Treinamento para ações em Zona Urbana (Cenzub).

Os exemplos reais dessa nova forma de combate são vistos nas intervenções americanas em Bagdá ou Falluja, e nas britânicas em Bassorah, no Iraque; nas russas em Grozny, nos anos 1990; nas europeias em Pristina e Mitroviça, no Kosovo; e nas israelenses face à resistência palestina. Aliás, as operações de contrainsurreição na Irlanda do Norte, desde os anos 1960, e de manutenção da paz nos Bálcãs nos anos 1990, deram oportunidade para as tropas britânicas “refrescarem a memória” quando engajadas em missões recentes no Afeganistão e no Iraque.

Para o ministério francês da Defesa, a experiência conhecida como “Hotel Ivoire”, em Abidjan, na Costa do Marfim, em novembro de 2004, foi particularmente marcante: após o bombardeio de um quartel do exército da França, em Bouaké, e a retaliação vinda de Paris, que ordenou a destruição da pequena aviação do país africano, os militares franceses tiveram de enfrentar, com instrumentos de guerra, uma multidão hostil. “Naquele dia, a força terrestre simplesmente não executou suas funções. Graças ao sangue-frio das unidades mobilizadas, houve um número mínimo de vítimas. Mas a tendência era de linchamento generalizado. Daí a necessidade, quando não houver pessoal especializado, de dispor pelo menos de unidades de infantaria treinadas para a manutenção da ordem, e que estejam adequadamente equipadas com meios de proteção e armamento de letalidade reduzida”, avaliam os representantes do governo.

Alta tecnologia

Com base nesses modelos e a partir de acontecimentos como o da Costa do Marfim, os efetivos das companhias de infantaria francesa foram reforçados e as ações são, doravante, executadas em “interarmas”, ou seja, com a participação de todas as forças armadas, incluindo o apoio de tanques e de engenheiros militares, o deslocamento de soldados sob blindagem e disponibilidade de equipamentos de rádio e para visão noturna. [6]

Além disso, dispositivos de detecção reforçados foram instaurados para enfrentar os foguetes e os chamados “Improvised explosive devices” (IED, artigos explosivos improvisados), um modo de ação corrente para os insurgentes do Iraque e do Afeganistão, sobretudo na zona urbana. A partir deste ano, uma parte dos veículos blindados será equipada com visão panorâmica e armamento teleoperado, a fim de limitar a exposição dos combatentes. As condições de utilização em meio urbano de certos materiais originários da Guerra Fria, como os tanques pesados do tipo Leclerc de 56 toneladas, também foram repensadas, bem como as técnicas de apoio aéreo, com uso privilegiado de helicópteros e drones. [7]

O exército dos EUA, que interveio mais de 20 vezes nos últimos 30 anos em terrenos urbanos ou suburbanos, só deu início a uma reflexão estratégica sobre o tema depois da desastrosa operação de Mogadíscio em 1993. [8] A partir daí, os americanos desenvolveram novas técnicas, como grupos de combate esparsos, interconexão entre combatentes, geolocalização e drones, testadas hoje nos palcos iraquiano e afegão. Ao aplicar essas táticas, os Marines acreditam conseguir uma redução sensível no número de perdas. [9]

Enquanto isso, na França, o exército dispõe de cerca de 20 lugares para manobras, tiros ou simulações. Aproximadamente 400 unidades foram familiarizadas com o combate de tipo urbano, cada uma contando entre 130 e 170 homens. Mas o Estado-Maior deposita muito de suas esperanças no desenvolvimento de seu Centro de Treinamento em Zona Urbana, aberto em 2006 em Sissone: a expansão em curso permitirá o treinamento de um regimento completo, em condições quase reais, a partir de 2011, com uma estrutura inteiramente dedicada aos combates urbanos, prevendo a movimentação de uma “força adversa” permanente, do tamanho de uma companhia. Em breve, o centro finalizará uma cidade artificial de 3 mil habitantes, que reproduzirá o conjunto das condições espaciais sob as quais os combatentes têm de agir. Para o coronel Didier Leurs, o Cenzub será o primeiro estabelecimento desse gênero na Europa, com um enfoque “ao mesmo tempo multinacional, integrando as forças armadas e associando de modo duradouro ministérios, organizações internacionais e ONGs”. [10]

Os atores dessas encenações militares admitem ser difícil reconstituir a ameaça: é preciso não somente propor um roteiro e um ambiente plausíveis, mas também dispor de pessoal apto a figurar como inimigos – militares, milícias ou simples civis. Para transportar os “jogadores”, a simulação deve incluir todos os atores possíveis. Por exemplo: jornalistas, reais ou fictícios, podem ser introduzidos no local para os militares se habituarem a reagir diante de testemunhas, com a companhia de uma equipe de imprensa e respondendo às questões que dela surgirem. Os soldados aprendem igualmente alguns rudimentos de direito dos conflitos e, sobretudo, a delicada interpretação das regras convencionadas: em uma mesma cidade, em face de situações em níveis muito diferentes, um militar poderá abrir fogo de um lado da rua, mas não do outro.

Desde o episódio do Hotel Ivoire, o exército francês utiliza sistematicamente para operação externa uma companhia de infantaria formada em “controle de multidões” – “versão militar para a manutenção da ordem”, analisa o site SecretDéfense. [11]Diferentemente dos agentes de policia, para quem a intervenção armada diante de uma multidão é o ponto “máximo” a que chega sua gama de missões, os soldados somente praticam a manutenção da ordem como um “mínimo”, como um recurso, na pior das hipóteses, para limitar a escalada da violência, e devem ser capazes de retornar às movimentações mais intensas, caso necessário, com meios militares blindados, atiradores de elite, cachorros etc.

A revista Fantassins questiona, no início de um dossiê sobre o controle de multidões, “se a utilização desse modo de ação não engendra novos problemas, como o estímulo ao contato impune de civis desarmados com a força militar e a inibição do uso de armas, arriscando uma exposição a ações terroristas” [12]. De status militar, mas força intermediária entre a polícia civil e o exército, chamada a participar cada vez mais dessas operações, a polícia militar móvel se considera mais preparada para o emprego inteligente da força e para o manejo de armamentos não letais. [13]

Enquanto alguns experts temem a mistura de gêneros, sugerindo aos militares que não se enganem quanto à sua profissão, a anexação da antiga Polícia Militar francesa ao Ministério do Interior, desde 1º de janeiro de 2009, ilustra a nebulosidade crescente das fronteiras entre defesa e segurança.

Uma coincidência se tornou simbólica: foi em um certo dia 11 de setembro de 2001 que o primeiro grupo “interarmas” do exército terrestre francês começou a ser treinado para o combate urbano…

*Philippe Leymarie é jornalista.

[1] Fantassins, magazine d’information de l’infanterie, nº 20, Montpellier, junho de 2007.

[2] Michel Asencio, Notes de la FRS (Fondation pour la Recherche Stratégíque) (Notas da FRS (Fundação para a Pesquisa Estratégica), Paris, 2 de junho de 2006.

[3] Nota-se que durante a ofensiva israelense em Gaza, em janeiro de 2009, o “tratamento” teve muito menos “mira”.

[4] A violência sucedeu após uma operação da polícia para retirar os sérvios que ocupavam dois tribunais da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a organização do tratado do Atlântico Norte (OTAN), 25 policiais da ONU, oito soldados da força da OTAN (Kfor) e 80 sérviosforam feridos.

[5] Terre Information Magazine, Paris, julho-agosto de 2008.

[6] Chefe de batalhão Lecerf, “retex Azur”, Fantassins, nº 22, junho de 2008.

[7] Tipo de veículo militar aéreo controlado a distância.

[8] A perda de 18 homens, caídos em uma emboscada nas ruas da capital da Somália, tinha provocado a retirada do contingente americano.

[9] Alain de Neve, Joseph Herotin, Mythes et réalités du combat urbain (Mitos e realidade do combate urbano), Réseau Multidisciplinaire d’Études Stratégiques, 23 de março de 2003; www.lalibre.be

[10] Coronel Didier Leurs.

[11] ean-Dominique Merchet, 30 de março de 2008. (http:/ secretdefense.blogs.liberation.fr/). Cerca de 40 unidades foram formadas, na França, para o “controle de multidões”, que precisam de equipamentos especiais.

[12] Fantassins, abril de 2008, publicada pela École d’application de l’infanterie (Escola de Aplicação da Infantaria).

[13] Yves Chevreul e Olivier Masseret, La gendarmerie, acteur paradoxal de la securité intérieure-extrérieure (Polícia militar, ator paradoxal da segurança interior-exterior), revue Internationale et Stratégique, Paris, 2005-3 (nº 59).

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Desemprego e precarização: um grande desafio para a esquerda

István Mészáros

desempregadosIntrodução
Escolhi este assunto para a nossa discussão por duas razões principais. Primeiro, porque a questão afecta todas as cambiantes da esquerda. Pois no nosso tempo nenhuma secção da força de trabalho pode considerar-se imune à desumanizante dureza do desemprego e da precarização. De facto "eventualização" ("casualisation") é mais apropriadamente chamada em algumas línguas de "precarização" ("precarisation") , embora em geral seja tendenciosamente mal representada como "emprego flexível" desejável. Uns poucos meses atrás uns 25 mil empregados do Wesminster Bank tiveram de enfrentar a perspectiva do desemprego (redundancy) ; hoje os trabalhadores da empresa automobilística Rover – uma parte da bancarrota da orgulhosa corporação transnacional BMW – são lançados aos lobos da insegurança total. A questão não é se o desemprego ou a "precarização flexível" vai ameaçar as pessoas ainda empregadas mas sim quando elas irão partilhar as agruras da precarização forçada. A segunda razão principal para nos preocuparmos com esta questão é porque ela representa um inultrapassável problema estrutural para o capital. Assim, é impensável que a esquerda possa desenvolver uma estratégia viável para o futuro sem dar um lugar central à questão vital do desemprego e da precarização.Tenciono hoje considerar três aspectos principais daquilo que está em jogo.
1- A "globalização" do desemprego e da precarização, afectando mesmo as partes do mundo capitalisticamente mais desenvolvidas.
2- O mito da "flexibilidade" com o qual a pílula amarga é coberta de açúcar. Pois do que estamos a falar é de facto a grave tendência socioeconómica da equalização descendente (downward equalisation) da taxa de exploração diferencial.
3- A única solução factível para os problemas que enfrentamos é abandonar as trocas socioeconómicas reguladas pela submissão à tirania do "tempo de trabalho necessário" (também chamado "trabalho necessário") para a emancipação através do "tempo disponível" como a alternativa positiva ao modo de reprodução social metabólica do capital.

Como ponto de partida, podemos considerar a questão da redução da semana de trabalho para 35 horas a qual, não por acaso, veio a apresentar-se nos últimos tempos.

Parte I ─ A "globalização" do desemprego

Socialistas em vários países europeus – assim como na América do Norte e do Sul – estão a combater pelo objectivo de reduzir o tempo de trabalho para 35 horas por semana sem perda de pagamento. Esta importante reivindicação estratégica não está de forma alguma livre de dificuldades. Pois ela destaca tanto os prementes problemas do desemprego por todo o mundo como as contradições do sistema socioeconómico que, por sua própria perversa necessidade, impõe a incontáveis milhões as dificuldades e os sofrimentos que decorrem do desemprego. Assim, o combate pelas "35 horas de trabalho" não pode ser uma reivindicação sindicalista tradicional, confinada aos mecanismos há muito estabelecidos das negociações salariais. Ao contrário, tem de estar plenamente consciente não só da magnitude da tarefa e das implicações a longo prazo das questões em causa e também da inevitável resistência tenaz da ordem socio-económica, a qual deve seguir os seus próprios imperativos a fim de anular qualquer concessão que possa ser feita na esfera legal/política sob condições temporariamente favoráveis aos sindicatos e aos seus representantes políticos à esquerda. Compreensivelmente, portanto, na Itália por exemplo, o partido da Rifondazione no seu modo de levantar o problema simultaneamente sublinha a preocupação com o aumento do emprego e da melhoria das condições de vida ("per l’occupazione & per migliorare la vita") e a necessidade de mudar a sociedade ("per cambiare la società") a fim de assegurar o objectivo desejado de abreviar o tempo de trabalho numa base viável. Pois o êxito final neste assunto só é factível através de uma troca sustentada – uma reciprocidade dialéctica – entre o combate pelo objectivo imediato do tempo de trabalho reduzido significativamente e a progressiva transformação da ordem social estabelecida, a qual não pode contribuir para resistir e anular tais reivindicações. Aqueles que negam a legitimidade destas reivindicações, exaltando em alternativa as virtudes do seu querido sistema, continuam a idealizar o modelo americano para resolver o problema do desemprego bem como todos os males sociais inseparáveis do mesmo. Ainda assim, um exame rápido do estado real dos negócios revela que as confortáveis idealizações dos EUA pertencem ao reino da fantasia. Pois, como enfatizou um editorial de The Nation :
"A taxa de pobreza no último ano, 13,7 por cento, era mais elevada do que em 1989, apesar de sete anos de crescimento quase ininterrupto. Aproximadamente 50 milhões de americanos – 19 por cento da população – vive abaixo da linha nacional de pobreza. Aqueles na pobreza incluem uma em cada quatro crianças abaixo dos 18 anos, um em cada cinco cidadãos adultos e três em cada cinco famílias monoparentais. Em dólares constantes, os rendimentos médios semanais dos trabalhadores caíram de US$ 315 em 1973 para US$ 210, enquanto os 5 por cento mais ricos ganhavam uma média de US$ 6440 (não contando seus ganhos de capitais). … O número de americanos sem seguro de saúde mantinha-se em 40,6 milhões em 1995, um aumento de 41 por cento desde meados da década de setenta. Em 1995, quase 80 por cento dos não assegurados estavam em famílias onde o chefe da família tinha um emprego." [1]
É assim que aparece o róseo modelo americano desde que se esteja disposto a abrir os olhos. Podemos também acrescentar aqui um número mais significativo fornecido recentemente pelo Gabinete do Orçamento do Congresso dos EUA, não objectável nem mesmo para os piores apologistas do capital. Ele informa-nos que o rendimento dos um por cento mais ricos da população é equivalente àquele dos 40 por cento da base. E ainda mais importante: também se verifica que este número aterrador realmente duplicou nas últimas duas décadas, em consequência da crise estrutural do capital. Assim, nenhuma camuflagem cínica da deterioração das condições de trabalho, não importa quão ilusoriamente adulterada com a benção da "flexibilidade", pode esconder as sérias implicações desta tendência para o futuro da expansão e acumulação do capital. As estatísticas do desemprego podem, naturalmente, ser trapaceadas ou definidas e redefinidas de forma totalmente arbitrária não só nos EUA como em todos os países do assim chamado "capitalismo avançado". Na Grã-Bretanha, por exemplo, mesmo os apologistas profissionais do sistema do capital – os editores do London Economist – tiveram de admitir que os números do desemprego foram "revistos" 33 vezes pelo governo a fim de faze-los parecer mais apresentáveis. Sem mencionar o facto de que qualquer um que trabalhe 16 horas por semana na Grã-Bretanha é contado como se desfrutasse de um emprego a tempo inteiro. E, ainda mais surpreendentemente, no Japão – um país que até recentemente era saudado como um caso paradigmático de "capitalismo dinâmico avançado" – "qualquer um que efectue trabalho assalariado por mais de uma hora na última semana do mês deixa de ser incluído nas estatísticas de desemprego". [2] Mas quem pode ser enganado por tais artifícios de manipulação económica e política? Pois não importa quão arranjada e tortuosa seja a adulteração do estado de coisas existente, o desafio potencialmente muito grave do desemprego não pode ser evitado em qualquer dos países capitalisticamente mais avançados. Dessa forma, seja o que for que os números das estatísticas apologéticas possam sugerir, já não é mais possível ocultar o alarme acerca dos registos de desemprego em ascensão constante no Japão e o aprofundamento da recessão económica que isto implica. Na realidade, a dramática ascensão do desemprego nos países capitalistas avançados não é um fenómeno recente. Ela surgiu no horizonte – depois de 25 anos de uma expansão do capital no pós-guerra relativamente sem perturbações – com o princípio da crise estrutural do sistema do capital como um todo. Surgiu como a característica necessária e sempre em agravação desta crise estrutural. Consequentemente, argumentei em 1971 que sob as condições em desdobramentos do desemprego
"O problema não é mais apenas a condição difícil dos trabalhadores não qualificados mas também a de vastas quantidades de trabalhadores altamente qualificados que estão agora a perseguir, em acréscimo ao primitivo mar de desempregados, os escassos empregos disponíveis. Além disso, a tendência da amputação "racionalizante" já não está mais confinada aos "ramos periféricos da indústria envelhecida" mas abrange alguns dos mais desenvolvidos e mais modernizados sectores da produção – desde estaleiros navais e aviação à electrónica, e do engineering à tecnologia do espaço. Assim, já não estamos preocupados com os "normais", e bem aceites, subprodutos do "crescimento e desenvolvimento" mas sim com sua tendência para uma travagem, nem na verdade com os problemas periféricos dos "bolsões de subdesenvolvimento" e sim com uma contradição fundamental do modo de produção capitalista como um todo que converte até as últimas conquistas do "desenvolvimento", da "racionalização" e da "modernização" em fardos paralisantes de subdesenvolvimento crónico. E, acima de tudo, a agência humana que se considera como a receptadora final já não são as pessoas "desfavorecidas" socialmente e sem poder, multidão apática e fragmentada, mas todas as categorias de trabalho qualificado e não qualificado: i.e., objectivamente a força de trabalho total da sociedade". [3]
Desde o tempo em que estas linhas foram escritas testemunhámos um decuplicar do desemprego na Grã-Bretanha e alhures. Tal como estão as coisas hoje, mesmo de acordo com os números oficiais – grosseiramente subestimados -, há mais de 40 milhões de desempregados nos países industrialmente mais desenvolvidos. Deste número, a Europa conta com mais de 20 milhões, e a Alemanha – outrora elogiada por produzir o "milagre alemão" – ultrapassou a marca dos 5 milhões. Um país como a Índia – altamente louvado nos órgãos tradicionais de sabedoria económica pelos seus feitos como um país em saudável desenvolvimento – tem não menos de 336 milhões de pessoas nos seus registos de desemprego, [4] e muitos milhões mais sem trabalho adequado que deveriam ser contados mas não são registados. Além disso, a intervenção do FMI nos países "em desenvolvimento", verdadeira organização dos EUA para ditar comandos, piora a condição difícil dos desempregados ao pretender melhorar as condições económicas dos países afectados. Tal como afirma outro editorial de The Nation:
"A economia do México pode parecer estar bem, mas o seu povo está em estado lastimável. Desde a salvação (bailout) do FMI, as camadas médias foram esmagadas; 25 mil pequenos negócios foram à falência; 2 milhões de trabalhadores perderam os seus empregos no mesmo período. Em termos de dólar, os salários afundaram 40 por cento. O FMI tinha de destruir a economia interna a fim de salvá-la". [5]
Ao mesmo tempo, os antigos países pós-socialistas pertencentes ao sistema de tipo soviético, desde a Rússia à Hungria – os quais no passado não sofriam de desemprego, apesar de terem de administrar suas economias com altos níveis de subemprego, tiveram de acomodar-se, muitas vezes sob a pressão directa do FMI, às condições desumanizantes do desemprego maciço. A Hungria, por exemplo, foi felicitada pelo FMI [6] por "estabilizar" o desemprego em cerca de 500 mil. Na realidade o número é consideravelmente superior, e ainda aumenta. Mas mesmo 500 mil, em termos da relativamente pequena população húngara, é o equivalente a ter 6,5 milhões de desempregados na Grã-Bretanha ou na Itália, e algo em torno dos 8 milhões na Alemanha. Na Federação Russa a situação é igualmente má, e em vias de tornar-se pior, incluindo ultrajes como não pagar os salários de mineiros e outros trabalhadores por muitos meses. O Vietname apresenta um exemplo particularmente trágico. Após a heróica vitória do seu povo sobre a longa e devastadora guerra intervencionista do imperialismo americano, a paz está a ser perdida sob a pressão da restauração capitalista. [7] E mesmo a China não é excepção à regra geral de desemprego em ascensão, apesar do modo muito especial como a sua economia é controlada politicamente. Um relatório confidencial mas que veio à luz, preparado pelo seu Ministério do Trabalho, adverte o governo chinês de que dentro de uns poucos anos o desemprego no país está destinado a atingir o número estarrecedor de 268 milhões – apontando também para o perigo de grandes explosões sociais a decorrerem disso – a menos que medidas apropriadas (mas não especificadas) sejam adoptadas para conter a presente tendência. [8]
É assim que alcançamos um ponto no desenvolvimento histórico no qual o desemprego é uma característica dominante do sistema do capital como um todo. Na sua nova modalidade, constitui uma rede fechada de inter-relações e inter-determinações pelas quais agora é impossível encontrar remédios e soluções parciais para o problema do desemprego em áreas limitadas, em agudo contraste com as décadas de desenvolvimento do pós-guerra nuns poucos países privilegiados em que políticos liberais podiam falar acerca de "Pleno emprego numa sociedade livre" (Full Employment in a Free Society) . [9]
Nos últimos anos tem havido muita conversa propagandeando as virtudes universalmente benéficas da "globalização", deturpando a tendência da expansão global e integração do capital como um fenómeno radicalmente novo destinado a resolver todos os nossos problemas. A grande ironia da tendência real de desenvolvimento – inerente à lógica do capital desde os primórdios da constituição do seu sistema há séculos atrás, que alcançou a sua maturidade no nosso tempo de uma forma inextricavelmente ligada à crise estrutural do sistema – é que o avanço produtivo deste modo antagónico de controlar o metabolismo social lança uma porção cada vez maior da humanidade na categoria de mão-de-obra supérflua. Já em 1848, no Manifesto Comunista, Marx insistia em que
"A fim de oprimir uma classe devem ser-lhe asseguradas certas condições sob as quais esta possa, pelo menos, continuar a sua existência servil. … [Mas] a burguesia é incapaz de continuar a ser por muito mais tempo a classe dominante da sociedade e a impor à sociedade como lei reguladora as condições de vida da sua classe. Ela é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar ao seu escravo a própria existência no seio da escravidão, porque é obrigada a deixá-lo mergulhar num tal estado em que tem de ser ela a alimentá-lo ao invés de ser alimentada por ele". [10]
Dessa forma, ironicamente, o desenvolvimento daquele que é de longe o mais dinâmico sistema produtivo da história culmina por proporcionar (rendering) um número cada vez maior de seres humanos supérfluos para a sua maquinaria de produção , embora – de acordo com o carácter incorrigivelmente contraditório do sistema – longe de supérfluos como consumidores . A novidade histórica do tipo de desemprego no sistema globalmente realizado é que as contradições de qualquer parte específica complicam e agravam o problema em outras partes e, consequentemente, no todo. Pois a necessidade de produzir desemprego, "downsizing", etc, necessariamente levanta-se dos imperativos antagónicos do capital de perseguir o lucro e acumulação ao qual não pode concebivelmente renunciar, nem tão pouco conter-se de acordo com princípios de satisfação racional e humana. O capital ou mantém o seu inexorável impulso em direcção aos objectivos de auto-expansão, não importa quão devastadoras sejam as consequências, ou deixa de ser capaz de controlar o metabolismo social da reprodução. Aqui não pode haver qualquer meio-termo ou mesmo a mais ligeira atenção a considerações humanas. Eis porque pela primeira vez desde sempre na história ascende um sistema dinâmico – e em suas implicações finais dinamicamente destrutivo – de controle social metabólico auto-expansivo, o qual expele brutalmente, se necessário, a esmagadora maioria da espécie humana do processo de trabalho. Este é o significado profundamente perturbante de "globalização". Quando o capital alcança este estágio de desenvolvimento não há maneira de corrigir as causas da sua crise estrutural; ele pode apenas trapacear com efeitos e manifestações de superfície. Consequentemente, desde que o capital "já não pode alimentar o seu escravo", as "personificações" do seu sistema (para utilizar a expressão de Marx) tentar resolver o problema pela reversão mesmo do limitados benefícios concedidos ao trabalho na forma do "Estado providência" ("Welfare State") – durante o período do pós-guerra de despreocupada expansão do capital – através do ataque e abolição do dito "Estado providência". Assim, nos EUA, os desempregados são obrigados a submeterem-se aos ditames dos "programas de trabalho do governo" (work-fare") se quiserem receber quaisquer benefícios sociais. E, exactamente do mesmo modo, na Grã-Bretanha está a ser tentada a mesma transferência do "Welfare" para o "work-fare" pelo governo de um partido que outrora considerou-se socialista. Em consequência, quando uma manchete a oito colunas de um jornal liberal britânico (que acontece ser muito amigo do governo do "New Labour") anuncia: "Dizem aos desempregados: alistem-se no Exército ou percam os benefícios" [11] , tal manchete dá uma antevisão das medidas que aguardam a juventude desempregada. Isto, mais uma vez, sublinha o facto, tal como os outros aspectos do nosso problema mencionados até aqui, que a agora plenamente cumprida globalização do desemprego e da precarização não pode ser reparada sem a substituição radical do próprio sistema do capital. Não muitos anos atrás era confiantemente previsto que todos os males sociais conhecidos, mesmo nas mais "subdesenvolvidas" partes do mundo, seriam ultrapassados pela "modernização" universal, em conformidade com o modelo americano. Caracteristicamente, contudo, somos agora confrontados por algo diametralmente oposto àquele quadro róseo. Pois as condições outrora confinadas, nos contos da "teoria do desenvolvimento" e da sabedoria governamental, às supostamente temporárias dificuldades do "subdesenvolvimento" estão agora a tornar-se claramente visíveis mesmo nos mais desenvolvidos países capitalistas.

Parte II ─ O mito da "flexibilidade": equalização declinante da taxa de exploração diferencial

Em 19 de Maio de 1998 o Parlamento francês aprovou uma lei que reduz a semana de trabalho para 35 horas. Legislação semelhante também é aguardada na Itália em futuro não demasiado distante. Seria ingénuo, entretanto, pensar que isto é o fim da história. Pois em Paris o movimento foi imediatamente "descrito por muitos economistas e líderes de negócios como suicídio económico" [12] , e na Itália antes até de qualquer iniciativa legislativa o líder da Confederação da Indústria Italiana (Confindustria), Giorgio Fossa, tornou absolutamente clara a intenção da sua organização de anular qualquer legislação desse género. [13] Além disso, o presidente Fossa da Confindustria (cujo nome em italiano significa, mais apropriadamente, "túmulo") também declarou sem vergonha (como se isto não fosse óbvio para todos os que conhecem a sua organização) que pretende enterrar a lei, se aprovada no Parlamento, com a ajuda de uma "grande coligação" que incluiria os apoiantes mesmo dos partidos da extrema direita. [14] E conforme o seu cinismo habitual, o London Economist assim pontificou acerca da proposta de lei:
"Assim, quem realmente quer a semana laboral de 35 horas de Lionel Jospin? Certamente não o patronato da França, o qual reclama que isto aumentará os custos do trabalho e reduzirá a sua competitividade. Nem tão pouco o contribuinte, o qual suspeita que terá de pagar impostos mais elevados para financiar o esquema. Nem, cada vez mais, os sindicatos, os quais temem que isto leve a salários mais baixos e menos direitos para os trabalhadores. Nem mesmo os trabalhadores, a maior parte dos quais espera continuar a trabalhar tanto quanto antes, mas com mais mudanças comprometedoras e horas não sociais. Mesmo os desempregados, os supostos beneficiários do esquema, estão a perguntar-se a si próprios quantos empregos, se algum, isto realmente criará. … O sr. Jospin encontra-se encravado num esquema que nem mesmo ele – murmura-se – acredita". [15]
Assim, aparentemente a lei em questão representou um mistério total. Disto fomos assegurados por The Economist com base na autoridade dos misteriosos murmuradores bem informados. Naturalmente, há sérias dificuldades que devem ser enfrentadas pelo movimento trabalhista na sua luta pela redução real da semana de trabalho sem perda de pagamento. Mas elas são de uma ordem muito diferente em comparação com os contos aterrorizantes inventados por The Economist e pelos outros porta-vozes da ordem vigente. Os obstáculos reais que confrontam o trabalho no presente e no futuro próximo podem ser resumidos em duas palavras: "flexibilidade" e "desregulamentação" : dois dos mais queridos slogans das personificações do capital nos negócios de hoje e também na política. Eles pretendem soar muito atraentes e progressistas. Na verdade, contudo, eles condensam as mais agressivas aspirações anti-trabalho e políticas neoliberais, apregoadas como recomendáveis para todo o ser racional tal como a maternidade e a torta de maçã. Pois a "flexibilidade" em relação às práticas de trabalho – a ser facilitada e forçada através de várias espécies de "desregulamentação" – aumenta na realidade a brutalidade da eventualização (casualisation) da força de trabalho. Ela é frequentemente emparelhada com legislação anti-trabalho autoritária – desde a supressão de Reagan dos controladores aéreos dos EUA até as longas séries de viciosas leis anti-trabalho de Margaret Thatcher: caracteristicamente mantidas pelo governo "New Labour" de Tony Blair. E as mesmas pessoas que clamam ser a difusão das condições de trabalho mais precárias "flexibilidade" universalmente benéfica também se atrevem a chamar a prática da legislação autoritária anti-trabalho de "democracia".
Espera-se que a "flexibilidade" tome conta da concessão das 35 horas, se por razões de contingência política se tornar inevitável, como parece ser o caso em França e na Itália. Assim, em França "alguns ministros falam em tornar o mercado de trabalho mais flexível , notavelmente pela permissão aos empregadores de variarem a semana de trabalho de acordo com a procura sazonal, de modo que o número de horas trabalhadas semanalmente seria calculado como uma média ao longo do ano". [16] Espera-se que a mesma trama faça chegar ao mesmo resultado na Itália. No momento da sua introdução o primeiro-ministro da Itália, Prodi – posteriormente premiado com a Presidência da Comissão Europeia – reassegurou aos seus críticos que a "flexibilidade" apropriada deveria ser capaz de conter os efeitos negativos da lei. A preocupação real das personificações do capital é promover a "flexibilidade laboral" e combater de todas as formas possíveis "mercados de trabalho rígidos". Assim, um artigo importante no Financial Times insiste em que "tanto no Japão como na Europa as companhias estão intensificando a eliminação de empregos mais rapidamente do que rígidos mercados de trabalho podem criá-los", indicando aprovadoramente que a " desregulamentação pode forçar o ritmo" e acrescentando para efeitos de consolo propagandístico que "Optimistas acreditam que a desregulamentação finalmente conduzirá à criação de suficientes empregos em novos mercados para absorver muito do excesso de trabalho. Mas para isto acontecer o Japão precisará da espécie de mobilidade do trabalho que se verifica nos EUA". [17] (A história do takeover da Nissan pela Renault, provocando com isto o despedimento de 30 mil trabalhadores da Nissan, deve agradar os advogados de tais remédios, pois isto mostra que o Japão está a mover-se na "direcção certa"). De modo análogo, um documento do staff do FMI – entusiasticamente revisto por The Economist – assevera que "estudos sugerem que na Europa salários reais são flexíveis apenas pela metade em relação àqueles nos EUA, que os trabalhadores da Europa são muito menos propensos a moverem-se à procura de trabalho do que aqueles dos EUA". Eles dizem isto enquanto beatificamente esquecem a queixa de John Kenneth Galbraith há muitos anos atrás de que os trabalhadores nos EUA podem culpar-se apenas a si próprios pelo seu desemprego porque se recusam a "mover-se" devido ao seu "instinto para ficar em casa", o qual liga-os ao lugar da sua formação. Nada parece mudar ao longo de décadas tanto no diagnóstico como na visão terapêutica. E para completar o inapreciável raciocínio pronto a comer, os autores do documento do staff do FMI apresentam o seu longe de reflexivo mas, ao contrário, a solução reflex automática e pavloviana na forma de projecções do que "deveriam ser" as soluções desejáveis para o capital neoliberal:
"Suponha, por exemplo, que um governo corte benefícios de desemprego. Os trabalhadores então têm um incentivo mais forte para procurar trabalho e assim o desemprego cairia. Um aumento no número de pessoas à procura de emprego também provocaria pressão descendente nos salários. Custos salariais mais baixos deveriam, por seu turno, promover o emprego". [18]

Naturalmente, em resultado desta maravilhosa contracção do custo salarial, viveremos felizes para sempre. E por outro lado, se – apesar dos sacrifícios muito reais dos trabalhadores (descritos na nossa citação) – as expectativas fictícias do "deveriam" não se materializassem, isso não poderia de modo algum invalidar a teoria partilhada pelo FMI e por The Economist . Isto revelaria apenas que os porcos proverbiais do bem conhecido provérbio inglês recusam-se teimosamente a que lhes cresçam asas, para parecerem abelhas gigantes, a fim de fugir rumo ao ilusoriamente projectado futuro "optimista" do capital. Nesse ínterim, a selvajaria real do sistema continua ininterruptamente não só a expulsar cada vez mais pessoas do processo de trabalho como, numa contradição característica, também a estender o tempo de trabalho, sempre que o capital possa conseguir isso. Para mencionar um exemplo muito importante, no Japão o governo introduziu recentemente um projecto de lei "para elevar os limites superiores do dia de trabalho de 9 para 10 horas, e a semana de trabalho de 48 para 52 horas. Tal disposição legal permitirá a uma empresa forçar os empregados a trabalharem mais horas quando estiver ocupada enquanto o total de horas trabalhadas em um ano não exceder o limite fixado", [19] tal como os "mercadores da flexibilidade" propõem em França, na Itália e por toda a parte. Além disso, o mesmo projecto de lei pretende também estender os chamados "cronogramas de trabalho arbitrários" ("discretionary work schedules") a fim de "permitir a uma empresa que pague aos seus trabalhadores de colarinho branco apenas 8 horas de trabalho mesmo que eles possam ter trabalhado mais". [20] Alguns assustadores exemplos dos efeitos destrutivos desumanos do tal "trabalho arbitrário" são relatados nos campos onde já estão em prática, agora a serem estendidos. Exemplo: um jovem programador de computador morreu devido ao enorme excesso de trabalho, segundo julgamento do Tribunal Distrital de Tóquio. Lemos que "o seu tempo médio anual de trabalho era superior a 3000 horas. Nos três meses anteriores à sua morte ele trabalhou 300 horas por mês. Naquele momento ele estava empenhado em desenvolver um sistema de software para bancos". [21] Outro jovem que morreu de ataque de coração devido a um excesso de trabalho brutal, "nas duas semanas anteriores à sua morte trabalhou em média 16 horas e 10 minutos por dia". [22] Segundo outro jornal japonês mesmo hoje
"os empregadores impõem quotas estritas aos trabalhadores, o que significa longas horas de trabalho e trabalho não pago colocado nas costas dos trabalhadores. … Um condutor de comboio, por exemplo, a trabalhar para a East Japan Railways Co., o maior caminho de ferro do Japão, realmente cumpriu os seus deveres durante 14 horas e 5 minutos e manteve-se no lugar de trabalho durante 24 horas e 13 minutos, e a companhia não lhe pagou pelas restantes 10 horas e 8 minutos, dizendo que estas horas "não são nem horas de trabalho nem períodos de descanso". [23]
Significativamente, na era da crise estrutural do capital mesmo este nível de exploração não é suficiente. Ele deve ser estendido tanto quanto o movimento dos trabalhadores possa suportar. No Japão, o actual projecto de lei apresentado ao parlamento "é o maior ataque no período do pós-guerra aos direitos dos trabalhadores" . [24] Não é de admirar, portanto, que alguns sindicatos estejam a encarar a adopção de um papel político muito mais directo no futuro, em relação à sua linha tradicional do passado. Para citar Kanemichi Kumagai, secretário-geral da Confederação Nacional Japonesa de Sindicatos: "A luta da Primavera deste ano não seguirá o que foi feito no passado mas terá como objectivo mudar as tendências da política e do movimento dos trabalhadores, incluindo como as políticas e a economia do Japão deveriam ser. Por isso concedemos a maior importância ao objectivo de conseguir que os trabalhadores e os sindicatos adoptem acções que tenham influência sobre a sociedade". [25]
O Japão é um exemplo particularmente importante pois não estamos a falar de um país do chamado "Terceiro mundo" em relação aos quais mesmo as mais coriáceas e brutais práticas de exploração do trabalho sempre foram consideradas como uma prática normal. Ao contrário, o Japão representa a segunda mais poderosa economia do mundo: um paradigma dos avanços capitalistas. E agora mesmo num tal país o desemprego está a crescer perigosamente as condições de trabalho devem ser tornadas piores do que nunca no longo período do desenvolvimento do pós-guerra e de expansão do capital, incluindo não só a grande intensificação de cronogramas de trabalho exploradores em nome da "flexibilidade" como também o – para muitas pessoas bastante incompreensível – imperativo de uma semana laboral mais longa.
Nas raízes desta embaraçosa e de certa forma auto-contraditória advocacia da "flexibilidade", emparelhada com rígida e autoritária legislação trabalhista, encontramos a vitalmente importante lei tendencial da equalização descendente da taxa de exploração diferencial , a qual torna-se agudamente evidente através da cada vez mas destrutiva globalização do capital neste período da crise estrutural do sistema. Foi por isto que escrevi em 1971:
"as classes trabalhadoras de algumas das mais desenvolvidas sociedades "pós-industriais" estão a adquirir uma antevisão da crueldade real do capital "liberal". … Assim, a natureza real das relações de produção capitalistas: a impiedosa dominação do trabalho pelo capital está a tornar-se cada vez mais evidente como um fenómeno global. … A compreensão do desenvolvimento e da auto-reprodução do modo de produção do capital é absolutamente impossível sem o conceito de capital social total … Analogamente, é absolutamente impossível entender os múltiplos e espinhosos problemas das variações nacionais e do trabalho socialmente estratificado se não se mantiver sempre em mente a estrutura necessária para uma avaliação adequada, nomeadamente o antagonismo irreconciliável entre capital social total e a totalidade do trabalho".
Este antagonismo fundamental é inevitavelmente modificado conforme (1) as circunstâncias sócio-económicas locais; (2) as respectivas posições de países particulares na estrutura global de produção de capital; e (3) a maturidade relativa do desenvolvimento sócio-histórico global. Consequentemente, em diferentes períodos de tempo o sistema como um todo revela a actuação de um complexo conjunto de diferenças de interesses objectivos de ambos os lados do antagonismo social. A realidade objectiva das diferentes taxas de exploração – tanto dentro de um dado país como no sistema mundial do capital – é tão inquestionável quanto as diferenças objectivas nas taxas de lucro em qualquer momento particular … Da mesma maneira, a realidade das diferentes taxas de exploração e lucro não altera a própria lei fundamental, i.e., a crescente equalização das taxas de exploração diferenciais como a tendência global de desenvolvimento do capital mundial.
Sem dúvida esta lei da equalização é uma tendência a longo prazo na medida em que o sistema global do capital é afectado. … Deixe agora enfatizar que o "capital social total" não deveria ser confundido com o "capital nacional total". Quando este último está a ser afectado por um enfraquecimento relativo da sua posição dentro do sistema global, este inevitavelmente tentará compensar-se das suas perdas através do aumento da sua taxa específica de exploração em relação à força de trabalho sob o seu controle directo – ou de algum outro modo se a sua posição competitiva for novamente enfraquecida dentro da estrutura global do "capital social total". … Aqui não pode haver nenhum outro caminho de saída, além da intensificação das taxas específicas de exploração, as quais somente podem conduzir, tanto localmente como em termos globais, a uma intensificação explosiva do antagonismo social fundamental a longo prazo. Aqueles que têm estado a falar acerca da "integração" da classe trabalhadora – descrevendo o "capitalismo organizado" como um sistema que teve êxito em dominar radicalmente suas contradições sociais – erraram irremediavelmente na identificação do êxito manipulativo das taxas de exploração diferenciais (as quais prevaleceram durante a fase histórica relativamente "livre de perturbações" da reconstrução do pós-guerra e da expansão) como um remédio estrutural básico. [26]
Como acompanhamento necessário da globalização das relações produtivas e distributivas, a equalização descendente (downward equalisation) das taxas de exploração diferenciais afecta cada um dos países capitalistas avançados, mesmo os mais ricos. Aqui já não há mais espaço para relações de trabalho manipuladas paternalistamente, por mais "tradicionais" e "profundamente enraizadas" se suponha que possam estar, nem na verdade para evitar permanentemente o severo impacto negativo da omnipresente crise estrutural através de vantagens comerciais e tecnológicas relativas. Na realidade, tal como enfatizou um Apelo assinado por alguns distintos intelectuais num jornal italiano, o que torna a situação grave é que a precarização e a insegurança ("la precarietà e l’insicurezza") avançam por toda a parte no mundo do trabalho: "o trabalho desprotegido e sub-pago está a alastrar-se como mancha de óleo, ao passo que mesmo o trabalho mais estável experimenta uma pressão em direcção à intensificação sem precedentes, e em direcção à plena disponibilidade para a submissão aos mais diversificados horários de trabalho". [27]
Dizendo isto de um outro modo, temos aqui de enfrentar uma tendência extremamente significativa e de longo alcance: o retorno da mais-valia absoluta , numa extensão crescente, nas sociedades do "capitalismo avançado" nas últimas poucas décadas. O Professor Augusto Graziani falou eloquentemente em Fevereiro de 1998, na Convenção da Rifondazione em Milão dedicada à questão das 35 horas semanais, acerca das condições de trabalho do "Mezzogiorno" em geral e acerca da terrível exploração do trabalho feminino na Calábria em particular. Sua intervenção é mais relevante para a questão da "mais-valia absoluta" num país capitalista avançado, como a Itália, em que algumas das práticas de trabalho altamente exploradoras podem ser identificadas também no Norte do país mais industrialmente desenvolvido. Na Inglaterra, ao mesmo tempo, um documentário recente da TV ilustrou a difusão generalizada do trabalho infantil, embora seja claramente contra a lei. Naturalmente, a lei não é de modo algum aplicada. Ao contrário, são promovidas todas as espécies de argumentos falsificados para justificar indirectamente tais práticas ilegais. Assim, os interesses empresariais conduzem uma vociferante campanha contra o salário mínimo em geral, com a desculpa de que a sua introdução tornaria o emprego dos jovens muito pior. Outro modo de manipular a mesma questão, adoptado pela Confederation of British Industry, pelo Institute of Directores e por várias organizações "Think Tank" de negócios, é pressionar pela "isenção dos jovens" da legislação do salário mínimo, ou a concessão de salário mínimo muito mais baixo. Além disso, a pioria das condições de trabalho de pessoas de todas as idades em incontáveis lugares de trabalhos escravizantes ("sweatshops") – imigrantes legais ou ilegais bem como uma porção longe de negligenciável da força de trabalho inglesa, escocesa, galesa e irlandesa – falam bastante alto acerca do reaparecimento do impulso para a mais-valia absoluta, como uma das mais retrógradas tendências do desenvolvimento do capital no século XX, num dos mais privilegiados países do "capitalismo avançado". É desnecessário dizer, que tanto a procura implacável da mais-valia absoluta em geral como a sua manifestação particularmente obnóxia na forma de trabalho infantil foram sempre proeminentes nos países do ‘Terceiro mundo’ (e, naturalmente, assim continuam ainda hoje).
Paradoxalmente, a crise global da acumulação de capital na era da globalização avançada cria algumas grandes dificuldades novas, ao invés de resolver aquelas há muito contestadas iniquidades do sistema, como os "optimistas" porta-vozes da "globalização" não problemática querem fazer-nos acreditar. Pois as margens viabilidade produtiva do capital estão a diminuir (daí o impulso para a mais-valia absoluta), apesar de todos os esforços dos Estados capitalistas – individualmente ou em conjunto, como nos encontros do G7/G8 – para expandir, ou pelo menos manter firmes, as margens produtivas do sistema. Na realidade só pode haver um caminho para tentar alargar as margens contraídas da acumulação de capital: a expensas do trabalho. Isto é uma estratégia promovida activamente pelo Estado – na verdade, devido a esta necessidade, o papel intervencionista do Estado nunca foi tão grande [28] como neste nosso tempo, apesar de toda a mitologia neoliberal em contrário – e a estratégia é objectivamente apoiada no nosso tempo pela tendência para a equalização declinante da taxa de exploração diferencial. No fim, contudo, a estratégia agora perseguida está votada ao fracasso, desde que o movimento dos trabalhadores tenha êxito em rearticular radicalmente suas próprias estratégias e formas de organização, orientando-as rumo à criação de um movimento de massas genuíno, a fim de fazer face ao desafio histórico. Pois nem mesmo os teóricos mais "optimistas" do FMI e dos outros generosamente financiados órgãos de apologia do capital conseguiram até agora inventar, nem é provável que o consigam no futuro, um dispositivo pelo qual seria possível espremer para fora o exigido poder de compra sempre crescente e a correspondente acumulação de capital das cada vez piores condições económicas e dos "pacotes de salários precarizados" da força de trabalho.
Parte III ─ Da tirania do "tempo de trabalho necessário" à emancipação através do "tempo disponível"
Como pode o trabalho – o antagonista estrutural do capital – reagir à tendência de deterioração inseparável do estreitamento da margem de viabilidade do capital produtivo?
Esta pergunta conduz-nos de volta ao terceiro elemento do pedido da Rifondazione para assegurar a semana de trabalho de 35 horas citada no princípio desta palestra: "mudar a sociedade" ("per cambiare la società") . Pois hoje – em resultado da necessidade do capital de arrancar sem cerimonias [29] mesmo as suas concessões passadas, ao invés de aceder a novas – é totalmente impossível realizar mesmo os objectivos mais imediatos e limitados do sindicalismo tradicional sem tomar a rota que conduz a uma transformação social fundamental. A reconstituição radical do movimento socialista é uma parte vitalmente importante deste processo. [30]
Alguns dos mais inteligentes representantes do capital, como Dean Witter – o economista chefe e director de economia global do Morgan Stanley – estão prontos a confessar que a tendências em andamento são mais problemáticas do que habitualmente pintadas nos órgãos de propaganda do neoliberalismo. Num artigo publicado no Sunday New York Times , intitulado "The Worker Backlash", ele rejeita a explicação de que os êxitos recentes resultaram da "desregulamentação e do aumento de produtividade". A sua própria explicação, de longe mais consciente do conflito e menos reconfortante, é que foi
“um realinhamento dramático do bolo económico do país, com uma fatia muito maior indo para o capital e uma mais pequena indo para o trabalho. Chamo a isto uma recuperação do trabalho triturado, que floresceu só porque a América empresarial aplicou uma pressão implacável sobre a sua força de trabalho". [31]
Na verdade, não só a América empresarial aplica pressão implacável sobre a sua força de trabalho como também as personificações do capital fazem-no por toda a parte. Pois as conquistas reformistas do passado foram precedidas pelo crescimento contínuo do bolo – as quais surgiram sob condições económicas favoráveis como concessões do capital, ainda que nunca pudessem ser uma questão de "realinhamento do bolo em favor do trabalho" uma vez que o capital deve sempre apropriar-se da fatia do leão. Agora, devido à crise estrutural do capital e do estreitamento da margem de viabilidade do sistema produtivo, torna-se absolutamente necessário "realinhar o bolo económico do país", mais do que nunca, em favor do capital, de modo a assegurar uma "recuperação do trabalho triturado", graças à passividade e resignação da força de trabalho. Mas o que acontece quando o trabalho recusa-se a acompanhar tal brutal realinhamento do bolo económico, porque não pode mais permitir-se isso devido à crescente dureza imposta pelas tradicionais e recém-inventadas formas de "economia do trabalho triturado"? As possibilidades de "realinhar" um bolo estacionário, para não falar num em processo de encolhimento, tem os seus limites bem definíveis. Não esquecer o facto de que a inactividade contemplativa ("resignatory") do movimento dos trabalhadores não pode ser tomada simplesmente como garantida para sempre em qualquer país, como uma matéria de necessidade natural. Nem mesmo nos países capitalistas mais avançados. Não é de admirar, portanto, que hoje mesmo o economista chefe do Morgan Stanley tenha de falar acerca da "Revanche dos trabalhadores" ("The Worker Backlash") nos EUA, dando voz às suas preocupações acerca de uma possível "luta pelo poder primário entre o capital e o trabalho" e acrescentando que "longe estão os dias de uma força de trabalho dócil que outrora concordou com as reestruturações empresariais de retalhamento e queima (slash-and-burn) ". [32]
Naturalmente, do ponto de vista do capital não pode haver respostas para a pergunta: que espécie de alternativa à "economia do trabalho triturado" deveria ser perseguida a fim de evitar "a luta pelo poder primário entre o capital e o trabalho". Quaisquer que sejam os seus temores e preocupações, o economista chefe do Morgan Stanley deve continuar a aconselhar a sua firma acerca dos melhores meios de explorar as oportunidades da especulação financeira "globalizada", ou ele será rapidamente despachado para pastagens mais tranquilas com um poderoso aperto de mão dourado. Do ponto de vista do capital realmente "não há alternativa" ao "trabalho triturado" tanto quanto possível – e mais ainda em situações de emergência -, mesmo que alguém perceba os perigos implícitos de perseverar nesse caminho socio-económico. Pois no fim há sempre a sedução de soluções autoritárias, não só no país do General Suharto, cliente dos EUA, como também nas "democracia capitalistas avançadas" do Ocidente que ajudaram a colocar Suharto no poder, apoiando-o de todas as formas possíveis durante 32 anos, incluindo sua selvagem repressão militar do povo, e tentando salvar o seu miserável regime com fundos maciços do FMI até no último minuto antes da sua morte.
A promessa geral de resolver as gritantes iniquidades e contradições do sistema foi durante muito tempo – e ainda hoje continua – que através dos benefícios do sempre crescente e globalmente integrado "livre comércio" as condições dos trabalhadores melhorariam muito em todo o mundo, graças ao retorno da economia a uma situação de expansão não perturbada do capital, livre dos defeitos das décadas do pós-guerra que acabaram em inflação e estagnação. Os sinais reais e os indicadores económicos, contudo, apontam na direcção oposta, um facto por vezes reconhecido mesmo por economistas da "corrente predominante" (mainstream) que mantêm a sua crença nas virtudes insuperáveis do sistema do capital. Assim, para citar um artigo que resenha um livro recente de um tal economista:
"Rodrick argumenta que o comércio em geral, não apenas as importações de baixos salários, piora a distribuição do rendimento. A competição internacional acrescida, escreve ele, traduz-se numa maior "elasticidade" da procura interna por trabalho. Em termos simples, isto significa que um trabalhador está agora a competir com uma oferta de trabalho muito mais vasta. Em resultado disso, uma pequena mudança nos salários de trabalhadores estrangeiros ou na procura global por um produto ou serviço pode causar grandes mudanças na procura interna de trabalhadores. A maior vulnerabilidade do trabalho a flutuações do mercado enfraquece a sua posição negocial em relação ao capital. Portanto, conclui Rodrick, "O efeito de primeira ordem do comércio parece ter sido uma redistribuição do excedente da empresa em benefício do patronato e não a ampliação do excedente". A evidência, portanto, diz-nos que os críticos do livre comércio estavam certos; o comércio não está a ampliar a riqueza e sim a redistribuí-la para um nível mais alto". [33]
Mas, ainda assim, quando chega à questão das alternativas, obtemos de Rodrick apenas piedosas pregações. Assim, para continuar nossa citação:
"As políticas de Rodrick são na melhor das hipóteses ingénuas. Ele aconselha o trabalho e o governo a serem mais responsáveis, mas nada tem a dizer às corporações de negócios multinacionais. … "O trabalho deveria advogar uma economia global que tivesse uma face mais humana", escreve Rodrick, mas silencia acerca dos ferozes esforços organizados pelos negócios multinacionais e pelas finanças para impedir que políticas humanas sejam sequer consideradas pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial, pela Organização Mundial de Comércio, e por outros que estabelecem as regras para o mercado global. Isto sugere um ponto de vista que está, para dizer a coisa suavemente, desligado das realidades da economia política global". [34]
Na verdade, adoptar o ponto de vista do capital – não só na sua forma neoliberal cegamente acrítica e mais agressiva, mas também nas suas ilusórias variedades liberal-reformistas – significa desde há muito "desligar-se das realidades da economia política global".
A novidade radical do nosso tempo é que o sistema do capital já não está em posição de conceder ao trabalho seja o que for, em contraste com as aquisições reformistas do passado. A acomodação deprimente, e mesmo a capitulação total, de alguns dos antigos partidos da classe trabalhadora às exigências dos interesses dos grandes negócios – como na Grã-Bretanha e em vários países europeus, mas de modo nenhum apenas na Europa -, uma capitulação que chega não só a manter a autoritária legislação anti-trabalhista das últimas poucas décadas como também a dar postos ministeriais chave nos governos do "New Labour", da "Esquerda Democrática" italiana e alhures a proeminentes representantes do capital corporativo, fala inequivocamente acerca desta postura. (Lord Simon, Lord Sainsbury, Geoffrey Robinson, etc na Grã-Bretanha e figuras semelhantes na Alemanha, França e Itália). Eis porque no actual período histórico mesmo os objectivos limitados e modestos do trabalho – como a semana de 35 horas – só podem ser realizados através da "mudança de sociedade", uma vez que objectivamente contestam a ordem socio-económica e política estabelecidas (por outras palavras: todo o sistema de tomada de decisão) sob a qual "o bolo económico do país" é produzido e distribuído. Nas condições da crise estrutural do capital esta é a natureza objectivamente inevitável da contestação socio-económica, mesmo que no momento muitos representantes do trabalho não conceptualizem ou articulem isto nestes termos. E esta é também a razão porque o reformismo liberal e social-democrata, o qual em outros tempos tinha um poderoso aliado no dinamismo expansionário do capital, está agora condenado à futilidade das pregações piedosas – desde os sermões do professor John Kenneth Galbraith acerca da "Cultura do contentamento" (rapidamente reflectidos, sem os mais ligeiros efeitos curativos, por Bispos e Arcebispos na Igreja da Inglaterra) à noção do "trabalho e governo inspirados pela economia global com uma face humana" citada atrás. Uma pregação que as personificações do capital provavelmente não podem ouvir.
A exigência de uma redução significativa da semana de trabalho tem uma importância estratégica fundamental. Não só porque a questão subjacente afecta profundamente e portanto preocupa directamente cada trabalhador, manual e intelectual afim, qualquer que seja a cor dos seus colarinhos. Igualmente porque a questão do enfrentamento deste desafio não está a desvanecer-se. Ao contrário, cresce em importância a cada dia que passa, e o imperativo de fazer algo significativo em relação a isto não pode ser decretado como inexistente pelas personificações parlamentares do capital nos países capitalistas avançados, nem na verdade reprimidos pelas forças nuas na "periferia" da ordem global do capital. Por outras palavras, trata-se de uma exigência estratégica vital para o trabalho porque ela é "não negociável": isto é, não pode ser integrada nas pseudo-concessões manipuladas da ordem existente. Pois refere-se directamente à questão do controle – um sistema alternativo de controle social metabólico – ao qual o capital opõe-se frontalmente.
Naturalmente, as 35 horas de trabalho semanal – mesmo que pudessem ser genuinamente concedidas e não anuladas tortuosamente de muitas maneiras, como é cinicamente planeado ou já praticado – não poderiam resolver o monumental e sempre crescente, bem como socio-economicamente grave, problema do desemprego. Assim, a questão que legitimamente se levanta é: porque 35 e não 25 ou 20 horas por semana, que faria uma maior diferença em relação a isso? Esta é a questão que nos transporta ao coração do assunto.
As incompatibilidades radicais entre a ordem social existente e uma na qual seres humanos estejam no controle da sua actividade vital, incluindo o seu "tempo livre", a ser posto livre por uma redução significativa da semana de trabalho, foi gráfica e penosamente ilustrado na Grã-Bretanha através da destruição da indústria mineira. Em 1984 os mineiros de carvão travaram uma luta heróica, não por dinheiro mas em defesa do seus empregos: uma longa greve de um ano que foi derrotada através dos esforços combinados do governo da sra. Thatcher – a qual chamou os mineiros de "o inimigo interno" – e o Partido Trabalhista de Neal Kinnock o qual apunhalou-os pelas costas. Como resultado, a força de trabalho dos mineiros, que na época era de mais de 150 mil, foi dizimada, caindo para o número actual de menos de 10 mil, e as cidades e aldeias de muitas comunidades mineiras foram transformadas num deserto de desemprego desumanisado. No tempo da greve dos mineiros as minas de carvão estavam ainda "nacionalizadas", o que significa que eram administradas com os mais brutais critérios capitalistas de "eficiência" de controle autoritário pelo National Coal Board, tornando-se em seguida "privatizadas" numa fracção da sua dimensão original. O que foi altamente característico do modo como o Coal Board tratava do problema da "maior eficiência", enquanto falava acerca da absoluta necessidade de "racionalizar" as exigências do trabalho na indústria do carvão, foi o facto de que Board dirigido pelo Estado impôs aos mineiros uma quase insano cronograma de sete dias de trabalho ao mesmo tempo em que cortava de forma selvagem a força de trabalho sob o seu controle. Pois o capital é absolutamente incapaz de considerações humanas. Ele conhece só uma maneira de administrar o tempo de trabalho: pela maximização da exploração do "tempo de trabalho necessário" da força de trabalho empregada, ignorando totalmente o "tempo descartável" disponível na sociedade de forma geral, pois não pode extrair lucro do mesmo.
Isto é o que impõe limites inultrapassáveis ao capital no seu modo de tratar o problema do desemprego. Há algo paradoxal, na verdade profundamente contraditório em relação a isto. Pois o sistema produtivo do capital de facto cria "tempo supérfluo" na sociedade como um todo, numa escala cada vez maior. Ainda assim ele não pode concebivelmente reconhecer a existência de juro (i.e., a legitimidade) deste tempo excedente socialmente produzido como o potencialmente mais criativo tempo descartável que todos nós temos, o qual poderia ser utilizado na nossa sociedade para a satisfação de muitas das necessidades humanas que agora são cruelmente negadas, desde exigências de educação e serviços de saúde até à eliminação da fome e desnutrição em todo o mundo. Ao contrário, o capital deve assumir uma atitude negativa/destrutiva/desumanisante em relação a isto. Na verdade, o capital deve ser rigidamente indiferente ao facto de que o conceito de "trabalho supérfluo", com o seu "tempo supérfluo", refere-se na realidade a seres humanos vivos e possuidores de capacidades produtivas socialmente utilizáveis – ainda que capitalisticamente redundantes ou inaplicáveis.
O conceito de tempo disponível, tomado no seu sentido positivo e libertador, como uma aspiração de socialistas, surgiu bem antes de Marx, num panfleto anónimo intitulado "A fonte e o remédio das dificuldades nacionais" ("The Source and Remedy of the National Difficulties") , publicado em Londres quase 50 anos antes de O Capital de Marx, em 1821. Em algumas passagens citadas por Marx este panfleto oferecia uma notável compressão dialéctica tanto da natureza capitalística do processo produtivo e – ao focar a sua atenção sobre as categorias vitalmente importante do "tempo disponível", "trabalho excedente", "dia de trabalho abreviado" – como das possibilidades de escapar às suas contradições. Cito:
"Riqueza é tempo disponível e nada mais. … Se todo o trabalho de um país fosse suficiente somente para obter o sustento de toda a população, não haveria trabalho excedente, consequentemente nada que pudesse ser permitido acumular como capital. … Uma nação será verdadeiramente rica se não houver qualquer interesse ou se o dia de trabalho for de 6 horas ao invés de 12". [35]
Estamos vagarosamente a alcançar a exigência, tal como nossos ancestrais o fizeram em 1821, das 6 horas de trabalho diárias, mas ainda estamos muito longe de organizar a sociedade com base no imensamente maior potencial de produção de produção de riqueza do tempo disponível. Sem este último, não pode colocar-se a questão da emancipar os indivíduos trabalhadores da tirania de determinações fetichísticas e de iniquidades gritantes. A realização de mesmo alguns dos nossos limitados objectivos exigirá mobilização em massa [36] das pessoas empregadas e desempregadas , guiadas pela solidariedade para com os problemas que todos nós somos obrigados a partilhar, hoje ou amanhã. A perspectiva estratégica num prazo mais longo, que torna factível também a realização das exigências imediatas, é inseparável da nossa consciência da viabilidade e na verdade da necessidade fundamental de adoptar o modo de controlar a nossa reprodução social metabólica com base no tempo descartável. Este é o objectivo a que precisamos dedicar recursos se nos importamos com o problema do desemprego. Só um movimento de massa socialista radical pode adoptar a alternativa estratégica de regular a reprodução social metabólica – um dever absoluto no futuro – com base no tempo descartável . Pois devido aos constrangimentos inultrapassáveis e às contradições do sistema do capital, qualquer tentativa de introduzir o tempo descartável como o regulador dos intercâmbios sociais e económicos – o que teria de significar colocar à disposição das pessoas individuais grandes quantidades de tempo livre , libertados através da redução do tempo de trabalho bem além dos limites de mesmo umas 20 horas de trabalho por semana – actuaria como dinamite social , explodindo o alto firmamento da ordem reprodutiva estabelecida. Pois o capital é totalmente incompatível com o tempo livre utilizado autonomamente e de forma significativa por indivíduos sociais livremente associados.
Notas
1 "Underground Economy", The Nation , January 12/19, 1998, p. 3.
2 Japan Press Weekly , 16 May 1998.
3 István Mészáros, The Necessity of Social Control, Isaac Deutscher Memorial Lecture, delivered at the London School of Economics and Political Science on 26 January 1971. Merlin Press, London, 1971, pp. 54-55; reprinted in Mészáros, Beyond Capital, Merlin Press, London 1995 and Monthly Review Press, New York 1996. Quotation is from pp.889-890.
4 "Enquanto o número total de pessoas desempregadas registadas em agências de empregos manteve-se em 336 milhões em 1993, o número de pessoas empregadas no mesmo ano segundo a Planning Commission era apenas de 307,6 milhões, o que significa que o número de pessoas desempregadas registadas é mais elevado do que o número de pessoas empregadas. E a taxa da porcentagem de aumento de emprego é quase desprezível". Sukomal Sen, Working Class of India: History of the Emergence and Movement 1830-1990. With an Overview up to 1995, K.P. Bagchi & Co., Calcutta 1997, p. 554.
5 "Waterloo in Asia?", The Nation , January 12/19, 1998, p. 4.
Os interesses americanos são cinicamente perseguidos e impostos sempre que a oportunidade dá ocasião. Assim, "responsáveis americanos, que efectivamente vetaram a criação de um Fundo Regional Asiático independente do FMI, e portanto de Washington, também fizeram saber – mais recentemente no caso da Coreia – que nenhuma ajuda americana directa virá até que os países aflitos concordem com as exigências do FMI. Dessa forma, as autoridades tailandesas concordaram em remover todos os limites sobre a propriedade estrangeira de empresas financeiras e estão a promover legislação que permita aos estrangeiros possuírem terra, o que era um tabu. Mesmo antes do pedido de ajuda ao FMI, Djacarta aboliu suas restrições à propriedade estrangeira de acções comercializadas publicamente, um movimento replicado por Seul quando concedeu aos investidores estrangeiros acesso aos US$64 mil milhões a longo prazo, garantidos por títulos de empresas no mercado, cujo acesso eles procuraram durante anos". Walden Bello, "The End of the Asian Miracle", The Nation , January 12/19, 1998, p. 19.
6 Cumprimentos do FMI, certamente, significam muito pouco, se é que alguma coisa, mesmo nos seus próprios termos de referência. Caracteristicamente, "quando a economia tailandesa estava direccionada para perturbações, o FMI ainda estava louvando o ‘registo consistente de saudáveis políticas de administração macro-económica’ do governo". Walden Bello, "The End of the Asian Miracle", loc. cit., p. 16. Analogamente, nos poucos meses decorridos desde que o FMI "salvou" a economia sul coreana, o desemprego realmente duplicou no país.
Ver também um artigo criterioso de János Jemnitz, "A review of Hungarian politics 1994-1997", Contemporary Politics, Vol. 3, No. 4, 1997, pp. 401-406.
7 Ver o primoroso livro de Gabriel Kolko, Vietnam: Anatomy of a Peace, Routledge, London and New York, 1997. Ver também Nhu T. Le’s passionate rejoinder in his review of Kolko’s book in The Nation , "Screaming Souls", 3 November 1997.
8 Anthony Kuhn, "268 million Chinese will be out of jobs in a decade", The Sunday Times , 21 August 1994.
9 Ver o livro de Lord Beveridge com o mesmo título e o seu importante papel no estabelecimento do "Welfare State" britânico.
10 Marx and Engels, Manifesto of the Communist Party, Progress Publishers, Moscow 1971, p. 44. Ver o artigo profundamente compreensivo de Marshall Berman sobre o 150º aniversário do Manifesto, "Unchained Melody", The Nation , 11 May 1998, pp. 11-16.
11 "Jobless told: join Army or lose benefit" de Stephen Castle (Political Editor), Independent on Sunday , 10 May 1998. Outra manchete na mesma página relata reacções ao nível miserável com que o salário mínimo foi introduzido pelo governo britânico do "New Labour" com o título: "Union fury as Labour sets minimum wage at £3.60."
12 Susan Bell, "Paris pass law on 35-hour week", The Times , 20 May 1998.
13 "Nem resignado nem amaciado sobre a questão das 35 horas, o Presidente dos industriais está mais determinado do que nunca a repelir o referendo". ("Né rassegnato, né ammorbidito sul tema delle 35 ore, il presidente degli industriali è più deciso che mai a promuovere un referendum abrogativo.") Vittorio Sivo, "Referendum sulle 35 ore", La Repubblica , 22 April 1998.
14 Ibid.
15 "The working week: Fewer hours, more jobs?", The Economist , 4 April 1998, p. 50.
16 Ibid., p.51.
17 Michiyo Nakamoto, "Revolution coming, ready or not", Financial Times, 24 October 1997. Ver no mesmo número do Financial Times um artigo de John Plender, "When capital collides with labour", escrito no mesmo espírito.
18 "Policy Complementation: The Case for Fundamental Labour Market Reform", por David Coe e Dennis Snower. IMF Staff Paper Volume 44, No. 1, 1997. Revisto em The Economist , 15 November 1997, p. 118. Contundentemente, o título do artigo de revisão é "All or nothing: Piecemeal labour-market reforms will not cure Europe’s unemployment problem. Governments need to go the whole way."
19 Japan Press Weekly , 14 February 1998, p. 25. Em outro número do Japan Press Weekly lemos: "Os principais objectivos do projecto de lei são aumentar a aplicação de cronogramas de trabalho arbitrário para facilitar as restrições ao sistema existente de variação de horas de trabalho (sistema flexível) e tornar legais contratos de emprego a curto prazo". 18 April 1998.
20 Japan Press Weekly , 14 February 1998.
21 Japan Press Weekly , 28 March 1998.
22 Japan Press Weekly , 4 April 1998.
23 Akira Inukai, "Attack against workers’ rights", Dateline Tokyo , No. 58, April 1998, p.3.
24 Ibid.
25 Ibid., p. 4.
26 The Necessity of Social Control, pp. 56-59, and Beyond Capital, 890-892.
27 "il lavoro sottotutelato e sottopagato si allarga a macchia d’olio, mentre anche il lavoro più stabile subisce la pressione verso una intensificazione senza precedenti della sua prestazione lavorativa e verso una piena disponibilità alla sottomissione ai più diversificati tempi di lavoro." In: "Trentacinque ore della nostra vita", um Apelo de intelectuais assinado por Mario Agostinelli, Pierpaolo Baretta, Heinz Birnbaum, Carla Casalini, Marcello Cini, Giorgio Cremaschi, Pietro Ingrao, Oskar Negt, Paolo Nerozzi, Valentino Parlato, Marco Revelli, Rossana Rossanda, Claudio Sabattini and Arno Teutsch; Il Manifesto, 13 February 1998, p. 5.
28 O papel intervencionista do Estado fica em evidência tanto no plano económico como no político. No domínio económico os fundos generosamente esbanjados com grandes empresas capitalistas são medidos em centenas de milhões de libras. A British Aerospace, por exemplo, vai receber aproximadamente £600 milhões para um dos seus empreendimentos, além dos incontáveis milhões obtidos semi-fraudulentamente do Estado num passado não tão distante, inclusive numa ocasião em que a companhia pretendia por numa base económica saudável a empresa Rover, agora novamente em bancarrota. E posteriormente os fundos maciços necessários hoje para salvar a Rover são esperados mais uma vez que sejam fornecidos pelo Estado – e ninguém parece saudar agora as miraculosas virtudes da empresa privada – enquanto deixam os lucros, naturalmente, para a parte capitalista do chamado "Partenariato Privado-Público" ("Private Public Partnerships") tão favorecido pelo New Labour. Igualmente importante, se não mesmo mais, é o papel da intervenção do Estado como procurador (on behalf) do capital no plano político. Pois o sistema do capital necessita extremamente da legislação autoritária anti-trabalhista – gentilmente introduzida pelos Conservadores e governos social democratas afins (na verdade, a maioria deles efectivamente reconhece a gravidade a gravidade da crise estrutural do sistema, mesmo alguns governos presididos por antigos partidos comunistas, como na Itália) – a fim de manter o seu domínio
29 Tal como Marshall Berman afirmou no seu artigo citado na nota 10, "a crueldade estúpida autodenomina-se liberalismo (estamos a massacrá-lo e aos seus filhos ao eliminar o bem estar social para o seu próprio bem)" e vocês são "afastados ou despedidos – ou desqualificados, terciarizados (outsourced) , reduzidos (downsized) . (É fascinante verificar como muitas destas palavras trituradoras são absolutamente novas)." The Nation , 11 May 1998, p. 16.
30 Ver um poderoso capítulo acerca dos desafios enfrentados pelo movimento dos trabalhadores; "Beyond Labour and Leisure", in Daniel Singer’s book, Whose Millennium?, publicado pela Monthly Review Press, New York, Spring 1999.
31 Dean Witter, "The Worker Backlash", Sunday New York Times, citado numa carta enviada aos leitores e apoiantes da Monthly Review pelos seus Editores em Outubro de 1997.
32 Ibid.
33 Jeff Faux, "Hedging the neoliberal bet", (a review of Dani Rodrick’s book, Has Globalization Gone Too Far?, Institute for International Economics, Washington D.C., 1997), in Dissent , Fall 1997, p. 120.
34 Ibid.
35 Citado no Grundrisse de Marx, Penguin Books, Harmondsworth, 1973, p. 397.
36 O Apelo citado na Nota 27 refere-se certamente à necessidade de "promover uma mobilização de massa em favor das 35 horas semanais, para afectar tanto o mundo do trabalho como da política e da cultura assim como o mundo das associações". ("promuovere una mobilitazione di massa a favore delle 35 ore che tocchi il mondo del lavoro cosi come quello della politica, quello della cultura come quello delle associazioni.")

István Mészáros é Professor Emérito de Filosofia e Teoria Política da Universidade de Sussex, Reino Unido, e autor de Beyond Capital; Marxist Theory of Alienation; Works of Sartre; Search for Freedom; Philosophy, Ideology and Social Science; The Power of Ideology .
Tradução de Jorge Figueiredo

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

Legados da Revolução Russa e dilemas do Estado socialista

Luis Fernandes

No âmbito deste Seminário, o primeiro legado da revolução soviética que quero destacar diz respeito à própria existência do Partido Comunista do Brasil, que nasceu da influência da experiência de 1917 no Brasil. Na maioria dos países, e destacadamente na Europa, os partidos comunistas nasceram da cisão de partidos socialistas já existentes. No caso brasileiro, o partido surgiu da conversão ao socialismo de setores do anarcossindicalismo, que não estavam organizados politicamente, e que sob influência da Revolução Soviética constituíram o Partido Comunista do Brasil em 1922, na época como a Seção Brasileira da Internacional Comunista. Do ponto de vista da evolução política do Brasil, trata-se de feito histórico porque, pela primeira vez, se introduziu a luta política no seio movimento operário recém-constituído no nosso país. Numa realidade marcada pelo capitalismo ainda incipiente, o desenvolvimento do Partido se tornou possível dado o seu enraizamento nos grandes desafios nacionais e sua participação decisiva nas grandes jornadas da vida política nacional desde então.

Do ponto de vista do movimento comunista e das forças socialistas, a Revolução Soviética foi a primeira experiência histórica de tentativa de estruturação de uma alternativa viável ao capitalismo. Isso é o que imprime importância histórico-mundial à revolução. É como disse Álvaro Cunhal: ao invés de o século 20 ser lido como o século do fim do socialismo — e aí é preciso ressaltar que toda leitura tem um conteúdo ideológico e político —, deve ser lido, isto sim, como o século do início das primeiras experiências socialistas e que, justamente por serem as precursoras, tiveram de enfrentar as dores, as limitações e incertezas próprias do nascimento de uma nova forma de vida.

Pensando pelo prisma de um horizonte mais amplo do que o do nosso movimento, o grande legado da Revolução Soviética para a humanidade foi o fato de ter introduzido na agenda mundial a questão social. A Revolução Francesa, por exemplo, deixou como marca a bandeira dos direitos humanos e da cidadania política latu sensu. O grande legado da Revolução Soviética, por sua vez, foi o de ter problematizado a questão da desigualdade no mundo moderno. Isso não apenas por suas realizações diretas, que transformaram as estruturas sociais do antigo Império Russo e promoveram o maior e mais profundo processo de reconfiguração social e de desconcentração de riqueza e de renda da história da humanidade. Há também a afirmação “indireta” da questão social pela experiência soviética, fruto da “ameaça” que o mundo socialista representou para as elites do mundo capitalista e que tornou possível a estruturação de Estados de Bem-Estar e a generalização de direitos sociais na Europa, bem como a sua ampliação nos processos de desenvolvimento dos países capitalistas dependentes. Isso também é uma realização concreta e histórica de profundo significado da Revolução de Outubro.

Um terceiro legado que gostaria de destacar é o fato de a URSS, num primeiro momento, e posteriormente o campo socialista unificarem, em torno de si, forças políticas que desempenharam papel absolutamente determinante nos processos de descolonização que varreram o mundo na segunda metade do século 20. Foi uma conquista civilizacional ampla e profunda que, infelizmente, nem sempre é devidamente valorizada, em função de uma leitura que encara o processo de descolonização como resultado automático e não-conflitivo da opção natural dos povos por sua autodeterminação. A verdade é que, dado o poder das potências coloniais dominantes, não haveria processo de descolonização tão amplo e tão profundo no mundo, caso a luta anti-imperialista não tivesse sido convertida em pilar das políticas externas da União Soviética e dos demais países do antigo campo socialista.

A base para essas políticas de Estado foi a teoria do imperialismo desenvolvida por Lenin, que fincou a luta anti-imperialista como uma segunda grande vertente do movimento revolucionário mundial e que, posta em prática pelo campo socialista, conduziu ao desmantelamento de quase todos os antigos impérios coloniais, deslegitimando a prática colonialista no mundo. Trata-se de uma realização tornada possível em função do apoio político, diplomático, militar e ideológico dado pela URSS e pelos países socialistas à causa anti-imperialista e anticolonialista.

Outro legado fundamental, embora no âmbito de uma coalizão mais ampla, foi a derrota do nazifascismo e seu desmantelamento como força política organizada no mundo e a sua deslegitimação como alternativa de organização econômica, social e política. Mesmo com a coalizão mencionada acima, todos sabem também que a força determinante na derrota do nazifascismo foi a URSS, que perdeu 1/6 de sua população na resistência. Sua atuação mudou o curso da Segunda Guerra Mundial e desarticulou essa forma de autoritarismo extremo dos países capitalistas, outro legado civilizacional para a humanidade. Não se trata de autoemulação nem de autocongratulação, mas qualquer balanço objetivo do legado da Revolução de Outubro não pode abstrair essas realizações históricas concretas.

Viabilidade do socialismo

No entanto, apesar dessas realizações, a URSS foi desmantelada e o antigo bloco socialista se dissolveu. Isso nos coloca, como socialistas e comunistas, um desafio crítico porque o socialismo nasceu como perspectiva emancipatória enraizada nas contradições intrínsecas do modo de produção capitalista e sempre se afirmou como uma alternativa histórica real que não se limitava à crítica romântica dos males do capitalismo. Com essa derrota, o questionamento sobre a viabilidade da construção de uma sociedade alternativa ao capitalismo ganhou força por conta da ofensiva reacionária que tomou o mundo depois da derrocada do campo socialista.

Hoje, não basta criticar as mazelas do capitalismo. É preciso comprovar que o socialismo é viável. E isso exige dos comunistas a atualização e o desenvolvimento da teoria marxista, de maneira que ela dê conta desse desafio. Se isso não for feito, a força de nossas convicções também esmorece e a viabilidade da construção de uma sociedade alternativa aos padrões dominantes no mundo passa a ser limitada.

Há uma saída fácil, porém falsa, para lidar com a derrota do socialismo, que consiste em atribuí-la à não aplicação da teoria marxista. Muitos intelectuais bem intencionados enveredam por esse caminho e ficam procurando olhar para trás e precisar a data exata em que houve a traição que redundou no fracasso. Esta é uma forma de fugir da questão, porque a operação teórica empreendida é a seguinte: o socialismo é a negação do capitalismo, é a sociedade que visa a sua superação. Então, constrói-se um modelo ideal de sociedade socialista como antípoda às mazelas do capitalismo. E se aquele modelo ideal não se realiza, significa que ele foi traído, e ponto. Ou seja, a chave dessa explicação simplista é o abandono ou a traição da teoria marxista. Esta é uma solução fácil, mas utópica, porque não desenvolve a teoria para aprender com as próprias lições da experiência soviética e dos países do bloco socialista. Cabe-nos, também, aprofundar a nossa própria avaliação autocrítica desse tipo explicação.

Programa de emancipação

Marx dizia que, se pudesse resumir o seu projeto de emancipação em uma única frase, essa frase seria “a abolição da propriedade privada”. Para refletir mais precisamente o seu conteúdo dialético, poderíamos refrasear a sua formulação como “a superação da propriedade privada”. É claro que esta é uma síntese quase caricatural do que seria o projeto de emancipação comunista, mas, como toda caricatura, reúne os seus elementos cruciais e determinantes. Tanto a URSS como as demais experiências socialistas passaram por processos de coletivização do grosso de suas forças produtivas. E construíram, dessa forma, o embrião de sociedades socialistas entendidas como sociedades de transição para a eliminação das diferenças de classe. Eram projetos que realizavam o desenho fundamental do que o próprio Marx colocou como rumo fundamental de uma sociedade socialista.

No entanto, a realização desse programa de emancipação nas condições históricas concretamente enfrentadas pela URSS diferia enormemente das condições previstas no século 19 por Marx e Engels. A visão de superação do capitalismo construída por eles partia da compreensão de que as primeiras experiências de superação do capitalismo se originariam nos países capitalistas mais desenvolvidos. Isso porque, sendo mais desenvolvidos, a produção fabril desses países estaria mais concentrada e a contradição entre propriedade privada dos meios de produção e natureza social da produção e entre o Capital e o Trabalho estariam mais intensificadas, gerando, portanto, condições mais maduras para efetuar a transição socialista.

Nas condições históricas concretas geradas mundialmente pelo advento do imperialismo, no entanto, a possibilidade primeira de superação do capitalismo surgiu na periferia e não no coração do sistema. Essa era a condição do Império Russo, caracterizado por vários autores da época, inclusive Lenin, como sendo uma espécie de ponte entre o Ocidente e o Oriente, porque conjugava, nas últimas décadas do século 19, um capitalismo bastante concentrado e de desenvolvimento tardio nas cidades, com uma massa de população na área rural, onde predominavam relações pré-capitalistas. Além disso, havia o agravante de que o Império Russo era institucionalmente débil, pois nunca chegou a se consolidar como Estado unificado e centralizado.

Esse era o contexto histórico em que se tomou, pela primeira vez no mundo, o poder de forma duradoura para tentar promover a superação do modo de produção capitalista. Havia, portanto, os elementos do atraso, da semiperiferia, do Estado pouco consolidado, do contexto geopolítico adverso — o cerco capitalista —, da ameaça permanente de invasão e da guerra civil. Do ponto de vista econômico, a ausência de experiências socialistas em países mais avançados, somada a esse cenário adverso, resultou no dilema de ter que se combinar a construção do socialismo com a superação acelerada do atraso herdado da condição semiperiférica anterior.

O dilema do desenvolvimento

Historicamente, esse desafio foi enfrentado, de maneira vitoriosa, pela implantação de uma economia altamente centralizada, com estatização quase completa das forças produtivas. Processou-se, ainda, a fusão entre partido e Estado, com a estrutura hierárquica do partido tendo uma função de mobilização centralizada da sociedade, para que fosse possível enfrentar os desafios da industrialização, que eram também desafios de sobrevivência do Estado soviético. Aliás, se não houvesse todo aquele esforço extremamente custoso de industrialização acelerada dos anos 30, não haveria base econômica para ser convertida à indústria de defesa, que, em última instância, foi a força determinante — evidentemente junto com o heroísmo dos povos soviéticos — para a derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial.

O dilema que se apresentou é que, uma vez superado o desafio de industrialização e da montagem de uma economia medianamente integrada, aquele desenho — composto por mecanismos de estatização integral das forças produtivas, pela direção centralizada e pela planificação detalhada das metas de produção — começou a perder capacidade de manter a dinâmica de desenvolvimento e elevação contínua da produtividade na economia soviética.

O principal problema era justamente a impossibilidade de sustentação dessa direção centralizada da economia, via comando e mobilização, em uma sociedade cada vez mais heterogênea e complexa, e a inexistência de um mecanismo econômico que, no contexto do socialismo, induzisse à contínua inovação e à contínua elevação da produtividade nas empresas já constituídas. Não se trata, porém, de um dilema exclusivo do socialismo. De certa maneira, o Brasil de hoje também enfrenta dilema semelhante. Como superar o fosso entre a capacidade de pesquisa científica e tecnológica existente em unidades de pesquisa, universidades e institutos, e a rápida incorporação do conhecimento gerado à inovação das empresas?

Trata-se de um dilema mais amplo do desenvolvimento, mas que se expressou de maneira muito forte na experiência soviética e que chamo de “dilema da produtividade” ou “da inovação”. O capitalismo tem mecanismos indutores dessa inovação radicados na própria anarquia da produção que caracteriza o sistema e que induzem a chamada “destruição criadora”, destacada por Joseph Schumpeter. Para enfrentar a concorrência e sobreviver, as empresas são levadas a tentar incorporar rapidamente novas tecnologias, apesar do elevado custo social que resulta disso. Faltou à URSS estruturar um mecanismo econômico indutor de inovação análogo nas condições do socialismo, uma vez ultrapassada a fase inicial de superação do atraso herdado dos tempos do Império.

Trata-se de dilema crucial para as sociedades socialistas e por isso devemos valorizar enormemente as lições das experiências chinesa e vietnamita nesse terreno. Estas experiências construíram uma alternativa a esse problema que conjuga variadas formas de propriedade, mantendo elementos de concorrência entre elas, mas com predomínio de formas sociais e coletivas de propriedade e com um plano de orientação do desenvolvimento feito pelo Estado. O mínimo que se pode dizer é que esse desenho conseguiu superar um entrave que foi fatal na construção econômica da experiência soviética e do modelo que foi exportado a partir dela para os demais países do campo socialista.

Doutrinação do marxismo

Aqui, destaco outro equívoco oriundo da transformação do marxismo em doutrina de Estado: a exportação do modelo soviético, gerado para responder a condições históricas muito específicas, como modelo único de socialismo. A sua não aceitação foi muitas vezes encarada como traição ou como abandono do socialismo. A imposição de um modelo único de socialismo é fruto desse embotamento da teoria marxista transformada em doutrina de Estado. Grosso modo, ocorreu com a teoria de Marx um processo análogo ao que acometera, anteriormente, a teoria de Hegel. O próprio Marx destacava que, no pensamento hegeliano, o elemento dialético era eminentemente revolucionário. No entanto, ao ser fechado como sistema filosófico e ao ser transformado em doutrina de Estado na Prússia, houve um estrangulamento sistêmico do elemento revolucionário de sua filosofia. De certa maneira, a transformação do marxismo em doutrina de Estado tolheu a natureza dialética e revolucionária da própria teoria marxista, tornando-a incapaz de teorizar, de enfrentar e de refletir sobre os novos problemas gerados pela própria experiência da construção do socialismo.

Há, portanto, uma combinação de fatores para a qual chamo atenção: o legado das condições históricas vividas pela primeira experiência socialista no mundo com os problemas universais do próprio projeto de emancipação socialista — porque esse dilema da produtividade é de validade e repercussão mais amplas do que as condições históricas específicas da revolução soviética. A grande referência política para a construção institucional do Estado socialista, assumido pelo próprio Marx no século 19, foi a Comuna de Paris, uma experiência efêmera no contexto de uma cidade sitiada. Mas essa experiência serviu de referência para as reflexões de Marx sobre a institucionalidade de um Estado de base operário-popular, retomadas em seguida por Lenin ao escrever O Estado e a revolução

As formas da democracia socialista

As lições extraídas por Marx da experiência da Comuna de Paris apontam para a generalização de formas de democracia direta e participativa. Como sabemos, não foi exatamente o que se consolidou como forma dominante de Estado na URSS. Mas, ao invés de ler isso simplesmente pela chave da traição, acho que era importante examinar a questão sob a chave dos dilemas históricos da construção do Estado soviético. A verdade é que se tentou, inicialmente, construir o poder soviético nos moldes destacados originalmente por Marx no seu estudo da experiência da Comuna de Paris.

No contexto histórico concreto enfrentado pela Revolução Soviética — em particular guerra civil, cerco, invasão e ameaças geopolíticas continuadas —, aqueles mecanismos de democracia direta e participativa se mostraram incapazes de promover a mobilização de forças necessária para o triunfo na guerra civil e a derrota das tropas invasoras. Mas os mecanismos de democracia direta e participativa no poder soviético nunca chegaram a ser dissolvidos. Todos aqueles mecanismos — mandato imperativo, revogação de mandatos, etc. — foram preservados na experiência soviética. Só que, na mobilização concreta da luta pela sobrevivência do Estado soviético, a realidade da luta política levou crescentemente o partido a assumir a função de mobilização centralizada da luta de resistência. E o que se observou foi, apesar da preservação de formas comunais no poder soviético, a crescente fusão do partido bolchevique com as estruturas do Estado e a própria estrutura vertical-hierárquica do partido se sobrepondo aos mecanismos de controle democrático, previstos na constituição dos poderes soviéticos.

Parte da explicação para essa evolução nos remete, uma vez mais, para as circunstâncias históricas que marcaram a origem da URSS: a debilidade da própria consolidação do Estado no antigo Império Russo, a rapidez do seu colapso e depois a brevíssima experiência liberal. Mas há reflexões mais amplas a serem extraídas dessa evolução — a saber, a concepção altamente fechada, não subordinada ao controle popular, dirigista e burocratizada que o Estado assumiu —, que nos remetem a dilemas e tensões do próprio projeto socialista.

Se recuperarmos a visão que Marx esboçou na “Crítica ao Programa de Gotha”, do socialismo como etapa de transição prolongada, podemos encaixar melhor a noção de variedade de formas de propriedade no âmbito da transição prolongada e o próprio princípio distribuidor da riqueza no socialismo, que é: “de cada um de acordo com suas capacidades e a cada um de acordo com o seu trabalho”. Quer dizer, a medida é o trabalho, o que pressupõe, ainda, a predominância de relações de alienação na sociedade de transição, já que as pessoas continuam a ser motivadas para o trabalho não tanto pela sua contribuição criativa ao bem-estar da humanidade e sim pela ampliação do acesso a fundos de consumo. E isso implica o predomínio de visões particularistas durante um prolongado período da transição.

Portanto, ao generalizar os mecanismos de democracia direta e participativa, como Marx pensava ser possível pela leitura da experiência da Comuna de Paris, pode-se gerar, na verdade, a multiplicação de corporativismos particularistas e a paralisia do projeto de desenvolvimento mais amplo da sociedade socialista. Acredito que aqui há um problema que repõe o imperativo da construção da democracia representativa no socialismo. Ao longo da transição, creio que será necessário preservar mecanismos de democracia representativa como alicerces centrais do Estado para construir o interesse coletivo democraticamente. Porque a alternativa a isso, historicamente, foi o partido de vanguarda, que, por ser possuidor da teoria mais avançada, era reconhecido como dirigente da sociedade e do Estado. Mas, se é isso, onde ficam os controles democráticos? Até que ponto a estrutura hierárquica do partido não se sobrepõe aos controles democráticos na transição socialista? Este é um problema de fundo, que nos remete à necessidade de conceber o Estado socialista como um Estado socialista de direito.

Luis Fernandes é cientista político, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e atual presidente da Financiadora de Estudos e Projetos — Finep, do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Fonte: Acessa – http://www.acessa.com

Angola: pobreza é vergonha nacional

ANÁLISE Apesar do crescimento provocado pela recente elevação na extração do petróleo e dos diamantes, desigualdade mantém população pobre

Nelson Pestana

A POBREZA É um fenômeno mundial. Desde há algum tempo, várias lideranças se deram conta de que ela é uma questão global localizada em um terreno que mina a coesão social dos países e destrói a irmandade dos povos.
É também um fenômeno antigo. As idades Antiga e Média foram muito marcadas pela pobreza, uma vez que eram épocas menos produtivas. Já a Modernidade apresenta-se, pela sua capacidade tecnológica, como a era da abundância.
Pela primeira vez na história, o homem foi capaz de produzir em quantidade e qualidade suficiente para as suas necessidades. No entanto, continua a haver uma grande massa de pessoas afastadas do bem-estar.
A exclusão provoca a degradação do ser humano, estimula a sua marginalização, divide o mundo entre os que são partícipes do sucesso do desenvolvimento científico e tecnológico alcançados e desfrutam das vantagens do consumo e aqueles que nada têm e se escondem, pois estão relegados às sarjetas das grandes avenidas do mundo.
Parece ser já um dado incontroverso o fato de que a pobreza não está mais associada à preguiça de uns, à incapacidade de alguns ou à identidade de outros, mas a uma muito desigual distribuição da riqueza produzida. A curva de progressão da riqueza é cada vez maior, porém, lamentavelmente, a curva de progressão da pobreza também aumenta. Daí que se fale no “paradoxo da abundância”.
País rico, povo pobre
Em Angola, a pobreza deve ser tida como uma vergonha nacional. Temos um país extremamente rico e uma população muito pobre. O que denota que o forte crescimento econômico registrado pelo país, numa média de 20% nos últimos cinco anos, tem uma fraca incidência social (com informações do Relatório Econômico de Angola).
Nosso país tem uma população estimada em 18,5 milhões de habitantes, sendo cerca de 12,5 milhões pobres, que vivem com cerca de 1,7 dólar por dia, numa situação de serviços básicos reduzidos, baixos indicadores sociais e fraco funcionamento do sistema de direitos. A pobreza no país está associada à vulnerabilidade estrutural das famílias, à doença e a um fraco acesso a serviços básicos.
O contexto geral de Angola diferencia diversas formas de paupérie e, sobretudo, uma diferença entre a carestia no meio urbano e no rural. Hoje, a maior parte das pessoas vive nas cidades (65%), sendo a pobreza das famílias aí estimada em 57%, enquanto que no campo atinge 94% dos agregados. Aqui, “as famílias mais vulneráveis dependem normalmente de atividades agrícolas e do cultivo de alimentos para a sua sobrevivência, porque têm acesso limitado a terras de cultivo e a outros inputs [insumos] agrícolas, porque têm acesso limitado a escolas e serviços médicos e água potável e, frequentemente, são excluídos das decisões que os afetam, e apenas uma minoria tem conhecimentos sobre Aids” (Fundo de Ação Social-FAS, Pobreza, vulnerabilidade e exclusão social em Angola pósconfl ito).Essa vulnerabilidade é agravada por outras variáveis estruturais, específicas e imprevisíveis (fatores naturais e agroecológicos), embora seja diferente de região para região, em função dos hábitos e costumes, da organização comunitária, da organização social e econômica e da composição demográfica da população.
Direito ao bem-estar
Tais fatores, pelos quais se manifesta a pobreza, têm um impacto direto na vida cotidiana das populações, pois é no acesso à água potável, à educação, à saúde, ao crédito, à cultura, aos meios de produção e trabalho, à habitação e às necessidades inerentes à dignidade da pessoa humana que se baseia o futuro das sociedades, a construção de uma nação solidária e harmoniosa, onde cada um pode encontrar o seu lugar e ter um sentimento de pertença, onde nenhuma pessoa, nenhuma camada social se sinta excluída.
A situação social de Angola pode ser ilustrada também pelos indicadores do desenvolvimento humano do país em relação às infraestruturas básicas, ao mercado de trabalho, à saúde e nutrição, à educação, às características dos agregados familiares, à urbanização e ao direito à cidadania, num contexto não só de reduzido acesso a serviços básicos, mas também de fraco funcionamento do Estado de Direito.
Perante o contínuo crescimento da riqueza nacional (real e potencial), agrava-se o “paradoxo de Angola”, de ser um país rico (muito rico) com uma população muito pobre.
O que faz do combate à pobreza, de fato, não só um desafio crucial das políticas públicas dos anos vindouros, mas também uma razão de mobilização de vários atores sociais.
Combate à pobreza
O governo estabeleceu, a partir de meados de 2004, uma estratégia de desenvolvimento baseada, por um lado, na estabilização macroeconômica, na correção das distorções da economia, no controle e redução da inflação e, por outro lado, no combate à pobreza.
A estratégia de redução da inflação e a subida em flecha do preço do petróleo reforçaram os resultados positivos no domínio da estabilização macroeconômica, enquanto que a Estratégia de Combate à Pobreza (ECP), que nunca foi assumida como um guia de ação do governo, foi abandonada, e os baixos níveis dos indicadores sociais persistem.
No entanto, a ECP tinha como propósito concreto (em consonância com os Objetivos do Milênio – ODM’s) reduzir para metade a população pobre e a mortalidade infantil (que é de 260/ano, por mil nascimentos).
Da conjuntura que motivou a Estratégia de Combate à Pobreza, então associada ao programa de estabilização econômica, reinserção social, reabilitação e reconstrução nacional, resta, para bem do país, o Fundo de Ação Social (FAS), financiado pelo Banco Mundial.
Desigualdades
Mas o país continua a registrar não somente uma forte desigualdade social, mas também grandes assimetrias regionais. A capital do país concentra cerca de um quarto da população (mais de 4 milhões de habitantes) e representa 75% da indústria, 65% do comércio e 90% da atividade financeira e bancária. Além disso, o crescimento econômico continua concentrado em dois setores de enclave: o petróleo e os diamantes.
O PIB agrícola e da indústria transformadora não representam mais do que, respectivamente, 12% e 15% do total (mesmo se agora revelam uma maior dinâmica). A questão da terra e da sua distribuição para o aproveitamento da atividade agropecuária continua a privilegiar um grupo restrito ligado ao poder. Por outro lado, os investimentos na agricultura têm privilegiado a agricultura empresarial, que abarca um universo reduzido de famílias, em detrimento da agricultura familiar, que representa 1,5 milhão de famílias.
Pouco investimento
Todos esses fatores conjugados que caracterizam o crescimento econômico de enclave são responsáveis pelas reduzidas oportunidades de emprego e de rendimento, o que não contribui para a redução da pobreza e, nomeadamente, da pobreza urbana extrema.
O desemprego permanece alto devido não só à fraca capacidade da economia de criar empregos – porque a economia de enclave requer mãode-obra qualificada e é estruturalmente incapaz de produzir emprego em quantidade –, mas também porque o plano de obras infraestruturais está sendo desenvolvido com recurso da mão-de-obra expatriada, incluindo a mão-deobra não-qualificada. Um outro fator é o fraco investimento na qualificação da mão-deobra nacional, traduzida pela fraca taxa de escolarização bruta combinada (25,6%) e pelas despesas públicas com a educação (2,6% do PIB).
Por isso, é fato incontestável que o forte crescimento econômico tem uma fraca incidência social e largas camadas da população continuam em situação de pobreza e de pobreza extrema. Não há dúvida de que o considerável crescimento do PIB per capita beneficiou sobretudo as classes mais abastadas (isso é traduzido pelo aumento do índice de Gini) e a política clientelar de criação de uma burguesia nacional restrita, que será, segundo os seus mentores, uma vez consolidada, o motor do desenvolvimento.
Combate aos pobres
Neste contexto, o mercado informal aparece como um setor de recurso para a sobrevivência dos pobres urbanos, particularmente no pequeno comércio informal varejista.
Mas, também aqui, há uma grande pressão, pois os rendimentos são cada vez mais dificultados pela concorrência do sempre maior número de participantes nesse mercado e de um programa do Estado de estabelecimento de uma nova rede de comércio no varejo que os exclui.
A tentação é a de criminalizar esse tipo de atividade e de combatê-la com medidas de polícia (e não de política). O que se traduz no combate aos pobres, em vez da pobreza (Pambazuka News – Fórum para a Justiça Social na África).

Nelson Pestana é cientista político angolano.
Quanto: 260 crianças, a cada mil, morrem por ano em Angola, que tem uma população de 18,5 milhões

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Turbulências na zona do Euro

Durante sua primeira década, a moeda europeia não correspondeu às expectativas iniciais: experimentou um crescimento enfraquecido e uma taxa de desemprego elevada. Além disso, o déficit orçamentário de várias das suas economias superou, com frequência, o teto estabelecido em 3% do PIB.

Laurent Jacque

Até que ponto a tormenta financeira que está assolando a economia internacional poderia ameaçar a perenidade do Euro? Os seus defensores estão convencidos de que isso jamais acontecerá, muito pelo contrário. Argumentam que no espaço de dez anos a zona do Euro, que é a segunda economia mundial, tornou-se um refúgio de paz e segurança apoiado em uma moeda forte ou, no pior dos casos, estável.

Em 1º de janeiro de 2009, a Eslováquia tornou-se o 16º país a adotar o Euro. Ainda mais significativo é o fato de que importantes estados europeus como Dinamarca, Reino Unido e Suécia, que ficaram de fora na ocasião do lançamento da moeda única, em 1999, estariam agora reconsiderando sua posição. Os partidários da moeda única defendem que o Banco Central Europeu (BCE), que sempre se mostrou ferozmente independente dos poderes políticos, deu mostras de competência na tarefa de controlar a expansão da massa monetária, reduzindo a inflação para cerca de 2%; as taxas de juros nominais foram mantidas em 2,5% em média, enquanto as taxas de juros reais não eram tão baixas desde os anos 1960.

Ao eliminar os riscos inerentes ao câmbio [1] e aos custos das transações, a supressão de 15 moedas nacionais dinamizou o comércio e os investimentos no interior da zona do Euro, os quais constituem um terço do seu Produto Interno Bruto (PIB).

Dez anos depois do seu lançamento, a divisa europeia alcançou uma valorização recorde em relação ao dólar e colocou os países membros da zona do Euro numa posição vantajosa frente à libra esterlina e à coroa islandesa.

A zona do euro passou a representar uma alternativa à zona do dólar, até então todo-poderoso; o Euro “forte” constitui mais de um quarto das reservas dos bancos centrais e vai se afirmando como a divisa mais indicada para lastrear os títulos financeiros emitidos nos mercados internacionais.

Conforme resume com entusiasmo o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, “nós contribuímos dia após dia para criar um nível de prosperidade sempre mais elevado, e estamos desempenhando desta forma um papel importante no processo de unificação da Europa” [2].

A zona do Euro, no entanto, teve sua primeira década marcada por um crescimento enfraquecido, uma taxa de desemprego elevada e, além disso, o déficit orçamentário de várias das suas economias superou com frequência o teto, determinado pelo Pacto de estabilidade e de Crescimento (PEC) [3], de 3% do PIB.

O contraste é espantoso quando comparamos essa situação com as do Reino Unido, da Suécia e da Dinamarca, três países situados fora da zona do Euro que apresentaram nesse período taxas de desemprego reduzidas, taxas de crescimento mais elevadas e déficits limitados (ou até mesmo excedentes orçamentários).

Superar a crise

Até hoje, a moeda única contribuiu muito pouco para debelar as dificuldades econômicas europeias, causadas principalmente por problemas estruturais contra os quais o Euro nunca teve a pretensão de constituir uma panaceia. As promessas de aceleração da atividade e de redução do desemprego que a moeda trazia praticamente não se concretizaram. Terá sido o euro responsável, em parte, pelas dificuldades econômicas da década que se encerrou, e conseguirá ele sair incólume de uma crise que se apresenta como arrasadora?

As transações comerciais efetuadas internamente representam cerca de 15% do PIB da zona do Euro, o que é muito pouco se comparado ao que ocorre nos Estados Unidos

O lançamento da moeda única, em 1999, estava fundado numa vontade política e não na teoria econômica da zona monetária ideal (ZMI). Segundo essa teoria, um grupo de países ou de regiões pode constituir uma ZMI quando as suas economias estão fortemente articuladas, tanto no que diz respeito aos intercâmbios de bens e de serviços, quanto à mobilidade dos fatores de produção (trabalho e capital).

As transações comerciais que são efetuadas internamente representam cerca de 15% do PIB da zona do Euro, o que é muito pouco se comparado ao que ocorre do outro lado do Atlântico, nos EUA. enquanto a mobilidade do capital no âmbito da zona do Euro aumentou consideravelmente, a mobilidade do trabalho permanece muito limitada em relação à dos Estados Unidos.

Ignorando essas questões essenciais, o tratado de Maastricht, assinado em 1992, criou uma política monetária única cuja gestão foi entregue ao BCE. Nesse tratado foram retiradas de cada país duas das suas três ferramentas de gestão econômica: a da condução de uma política monetária nacional independente e aquela da manutenção da flexibilidade do preço da sua moeda. A terceira ferramenta, a da política orçamentária, que permanece uma competência nacional, é comprometida, por sua vez, pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento. Este determina que o déficit de cada país membro não pode ser superior a 3% do seu PIB e que a dívida nacional de cada um desses países está limitada a 60% do PIB. Na prática, porém, essa regra andou sofrendo notáveis distorções, principalmente por parte da Itália e da Grécia, onde a dívida pública já alcança, respectivamente, 104% e 95% do PIB.

Em razão dessas diferenças de desempenho econômico entre os Estados membros, a autonomia das suas políticas econômicas torna-se uma questão preocupante, principalmente no caso de algum deles sofrer um choque particular que não tenha repercussão no restante da zona do Euro.

Se a zona do Euro fosse efetivamente uma ZMI, o país em dificuldade se ajustaria por meio das seguintes medidas: a mobilidade da sua mão-de-obra em relação ao restante da zona do euro; a flexibilidade dos salários e dos preços; e uma transferência orçamentária equilibradora, partindo de Bruxelas em benefício do membro em dificuldade.

Nenhuma dessas três condições estava preenchida na criação do Euro e foram implementadas, desde então, apenas algumas poucas reformas estruturais destinadas a tornar o mercado de trabalho mais “maleável”, no sentido de se criar uma ZMI. A terceira e mais simples de todas torna necessária certa dose de federalismo fiscal, além de um poder econômico centralizado que contrabalançaria a independência do BCE.

Esses objetivos permanecem muito distantes porque ameaçam a soberania de cada Estado. De fato, a União Europeia, que dispõe de recursos bastante limitados – um orçamento mantido teoricamente em 1,27% do seu PIB, mas que na prática permanece estagnado em 1,23% –, não está habilitada a proceder transferências orçamentárias para amortecer os choques que atingem as economias nacionais.

Isso contrasta fortemente com a situação dos Estados Unidos, onde 60% das despesas públicas são realizadas no nível federal e onde a mobilidade do trabalho e a flexibilidade dos salários são muito superiores às normas europeias. Nem mesmo a Alemanha unificada – que em 1991 fusionou o marco do Leste com o do oeste – conseguiu criar uma ZMI para a moeda. Apesar de ter havido uma transferência maciça (de 200 bilhões de Euros) a partir de 1991, a taxa de desemprego na parte oriental do país se mantém em mais de 20%.

No decorrer da sua primeira década de existência, o Euro teve de enfrentar ao menos dois choques “assimétricos”, assim chamados por não atingirem os países membros da mesma maneira: o dólar que se manteve “caro” ou supervalorizado de 1999 a 2002 e, mais recentemente, no período de 2005 a 2008, a disparada dos preços do petróleo.

No primeiro caso, os Estados que estavam direcionados em demasia para o comércio internacional (em vez de darem preferência para transações com os outros países da zona do Euro), foram atingidos por uma inflação importada – custo elevado das importações em razão da carestia do dólar. E isso ocorreu de forma muito mais rápida do que nos países cujas transações comerciais ou estavam voltadas principalmente para a zona do euro.

Nem mesmo a Alemanha conseguiu criar uma zona monetária ideal. Apesar de uma transferência maciça de Euro, a taxa de desemprego na parte oriental está em 20%

Assim, entre 1999 e 2002, a Irlanda viu sua taxa de inflação alcançar 4,1%, ao passo que a Alemanha, mais orientada para o comércio com os outros membros da UE do que com o resto do mundo, manteve essa taxa em 1,2%. Da mesma forma, a alta dos preços do barril de petróleo, que teve seu custo multiplicado por quatro nesse período não prejudicou o crescimento nem estimulou a inflação dos países membros de maneira uniforme: a França, por exemplo – em função da sua decisão de priorizar a energia nuclear –, depende em apenas 35% do petróleo para garantir seu abastecimento de energia, diferentemente da Grécia, da Espanha e da Itália, onde esse número é superior a 55%.

A combinação de uma política monetária centralizada com uma política orçamentária descentralizada resulta, infelizmente, em diferenças entre os níveis de inflação de cada país, as quais instauram disparidades no poder aquisitivo do euro e geram competitividade entre os Estados membros. No quadro de um sistema de moedas “nacionais”, esse efeito seria facilmente corrigido por meio da valorização ou da desvalorização “competitiva” da moeda. Mas isso deixou de ser possível, uma vez que a moeda única paralisa a ferramenta das taxas de câmbio, anulando, ao mesmo tempo, a independência das políticas monetárias nacionais.

Tarefa difícil

Em razão dessa impossibilidade de se corrigir as discrepâncias inflacionárias, o poder aquisitivo da moeda europeia vai sendo corroído em muitos países, particularmente na Alemanha, em relação à média dos demais estados da zona do Euro. entre janeiro de 1999 e setembro de 2008, por exemplo, levando-se em conta as diferenças entre os custos salariais, o Euro na Itália sofreu uma valorização de cerca de 40% em relação ao Euro na Alemanha. o mesmo ocorreu com a Espanha e a Grécia, que não estão muito atrás da Itália.

As tentativas de corrigir essas discrepâncias cumulativas constituem uma tarefa difícil porque toda diminuição das remunerações parece ser politicamente explosiva. Apenas a obtenção de ganhos de produtividade pode reverter essa tendência; a Alemanha e a Holanda foram bem-sucedidas ao implementar essa política. Portanto, não surpreende que muitas empresas, no afã de resolverem seu “problema”, tenham optado por transferir (ou tenham ameaçado fazê-lo) suas atividades para países da Europa central e oriental.

Um fator complicador da situação é a mais completa falta de sintonia entre as agendas eleitorais (dos pleitos presidencial, legislativo e municipal) dos membros da União, o que exacerba a falta de sincronia entre os ciclos econômicos nacionais, na medida em que as eleições são geralmente precedidas por uma política orçamentária expansionista.

No momento em que o mundo está se atolando numa crise profunda, a tarefa de deter o forte aumento da taxa de desemprego, que pode superar rapidamente o nível crítico de 10% a 12%, vai se tornar o objetivo primordial. Esse já é o caso na Espanha, onde a taxa de desemprego disparou repentinamente para 13% nos últimos seis meses.

A tarefa de combater o desemprego resultará inevitavelmente em déficits fiscais maciços, os quais abrirão brechas no Pacto de Estabilidade e Crescimento difíceis de serem controladas e acabarão ameaçando a estabilidade da moeda única. Isso porque os planos de recuperação costumam estourar os limites máximos do déficit orçamentário (de 3% do PIB) e da dívida pública (60% do PIB), o que consiste também em uma ameaça à independência do BCE.

Os Subcompetitivos

Para certos países, cujas economias já estão muito fragilizadas pelas disparidades inflacionárias, isso não será sequer suficiente, o que pode levá-los facilmente a ceder à tentação de seguir o exemplo da recente e brutal desvalorização da libra esterlina.

A Espanha, a Grécia, a Itália e Portugal (cujas taxas de desemprego superaram com frequência a faixa dos 10% no decorrer dos últimos dez anos) não aceitarão permanecer eternamente “subcompetitivos” por conta da supervalorização do “seu” Euro. Por mais delicada que seja a tarefa de restaurar sua moeda nacional, o risco é de que certos países optem por abandonar o euro com o objetivo de recuperar sua competitividade econômica. É pouco provável que tais guinadas ocorram a curto prazo – entre outras razões, seria muito caro para um país que acaba de se despedir da zona do Euro financiar a dívida nacional (contraída em Euros) por meio de uma moeda novamente restaurada e desvalorizada. Entretanto, toda deterioração do ambiente social já frágil (conforme demonstra a violência das recentes manifestações populares na Grécia [4]) e prejudicado ainda mais por uma aceleração brutal do desemprego, poderia, em alguns países, aumentar a tentação de se adotar dessa solução extrema.

[1] Riscos vinculados à variação da taxa de câmbio das divisas. Antes da unificação monetária, investidores especulavam com frequência com o franco francês, a lira italiana ou a libra esterlina. Em setembro de 1992, George Soros acumulou mais-valias consideráveis apostando na desvalorização da libra, no momento em que o Reino Unido se atolava na crise econômica.

[2] Jean-Claude Trichet, entrevista concedida a Die Zeit, Hamburgo, 23 de julho de 2007.

[3] O Pacto de Estabilidade e de Crescimento retoma os critérios de convergência definidos pelo Tratado de Maastricht; ele mantém, entre outros, o objetivo da redução dos déficits públicos, um compromisso que todo membro deve assumir tendo em vista a sua incorporação na União Econômica e Monetária (UEM).

[4] Ler Valia Kaimaki, “A recusa do futuro”, Le Monde Diplomatique Brasil, edição 18, janeiro de 2009.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Um rio que flui pelo ar

Ventos da Região Norte aumentam umidade no Sudeste e no Sul do país

Ricardo Zorzetto

Reciclagem: na Amazônia evaporação devolve à atmosfera parte da água das chuvas

Em alguns dias do ano um rio com as dimensões do Amazonas atravessa os céus do Brasil. Ele nasce sobre o Atlântico próximo à linha do Equador, ganha corpo sobre a Floresta Amazônica e segue para oeste até os Andes, onde o encontro com a imponente muralha rochosa o faz desviar para o sul. Dali esse imenso volume de água flutua sobre a Bolívia, o Paraguai e os estados brasileiros de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Às vezes, alcança Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul antes de retornar para o oceano. Apesar de sua extensão, ninguém o vê. É que esse rio não tem margens nem peixes. É um rio metafórico – mas não inexistente – formado por uma coluna de vapor d’água com cerca de 3 quilômetros de altura, algumas centenas de quilômetros de largura e milhares de extensão.
Os especialistas em meteorologia e hidrologia sabiam desse rio voador – na realidade, correntes de ventos úmidos que recebem o nome técnico de jatos de baixos níveis – desde o início dos anos 1960, mas só agora começam a conhecer melhor a origem de sua água e a forma como ele interage com a superfície do planeta ou como ajuda na formação de nuvens gigantes que sobem a 15 quilômetros acima do solo.
Os primeiros dados do projeto Rios Voadores, divulgados no dia 19 de março em São Paulo, confirmam as alterações de composição que essa corrente de ventos úmidos sofre em seu longo trajeto sobre o Brasil. A maior parte do vapor d’água vem do oceano, transportada para o continente pelos ventos alíseos, que sopram de leste para oeste – uma pequena porção dessa umidade se condensa em nuvens e cai como chuva sobre a Amazônia. Mas boa parte do vapor que forma esse rio invisível vem da própria floresta. É que, ao passar sobre a maior floresta tropical do planeta, ele incorpora a água que evapora diretamente do solo e também aquela retirada pelas plantas da terra e lançadas na forma de vapor na atmosfera. Uma parte da água da Amazônia chega ao sul do país e possivelmente vira chuva.
Identificar de onde vem a água desse rio voador, um dos muitos que cortam os céus brasileiros, exigiu uma parceria pouco comum no mundo científico. Uniu pesquisadores, com conhecimento teórico sobre os fenômenos hidrológicos e atmosféricos, e um engenheiro-explorador, habituado a vivê-los em seus voos ao redor do mundo. Com patrocínio da Petrobras, Gérard Moss, o engenheiro, realizou de 2007 ao início deste ano 12 voos sobre diferentes regiões do país planejados em colaboração com equipes da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

A cada viagem, Moss, suíço naturalizado brasileiro, e seu companheiro de voos, Tiago Iatesta, coletavam a bordo de um avião monomotor amostras de vapor d’água que se condensavam em um tubo resfriado por gelo-seco. Em um desses voos, sob condições atmosféricas extremamente favoráveis, Moss acompanhou o rio voador da Amazônia até São Paulo e calculou que, em determinado trecho, a quantidade de água que fluía nessa corrente era de 3.200 metros cúbicos por segundo, mais do que a vazão do rio São Francisco. Toda a água carregada por essa corrente de ar em 24 horas equivaleria a 115 dias de consumo de São Paulo, uma metrópole com 11 milhões de habitantes.
Assinatura química - Em pouco menos de dois anos Moss e Iatesta colecionaram cerca de 500 amostras de água obtidas de 500 metros a 2 mil metros de altitude que estão sendo examinadas no Laboratório de Ecologia Isotópica da USP em Piracicaba pela equipe de Reynaldo Victoria. A análise de uma espécie de assinatura química (a proporção de átomos de hidrogênio e oxigênio radiativos) das amostras de água e a comparação dessa assinatura com a de amostras de água da chuva e de rios de todo o país permitirão aos pesquisadores conhecer como se altera a composição dessa massa de ar à medida que ela avança pelo continente. Também devem tornar clara a colaboração da umidade que evapora da Amazônia para as chuvas do Sul e do Sudeste.
“Esses dados preenchem uma lacuna importante no conhecimento dessas correntes úmidas e permitem verificar a validade dos modelos climáticos desenvolvidos para o país”, afirma Pedro Leite da Silva Dias, pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e diretor do LNCC, integrante do projeto.
Anos atrás grupos do IAG e do Inpe haviam participado de um estudo feito em colaboração com Bolívia, Paraguai e Argentina que mediu por meio de equipamentos lançados em balões a temperatura, a umidade, a pressão e a velocidade dessas correntes de ar úmido apelidadas de rios voadores pelo climatologista José Marengo, do Inpe (ver Pesquisa FAPESP nº 114). “Na época um avião coletou amostras de vapor de água apenas nos outros países porque não conseguimos autorização para voar no Brasil”, conta Dias.

Serão necessários anos para analisar os dados coletados mais recentes. Mas uma avaliação preliminar indica não ser nada desprezível a contribuição da Amazônia para a umidade que chega ao Sudeste e ao Sul do país. No Inpe, Demerval Moreira e Wagner Soares usaram modelos matemáticos de previsão do tempo para fazer uma estimativa de quanta água da Amazônia essas correntes de ar levam para outras regiões. Concluíram que nos dias que esse rio voador passa sobre a Amazônia – isso acontece apenas em cerca de 35 dias por ano – mais umidade chega ao Centro-oeste, ao Sudeste e ao Sul, aumentando a probabilidade de chuvas.

“Quando esses ventos passam sobre a Amazônia elevam em média em 20% a 30% a umidade do ar em Ribeirão Preto, por exemplo, aumentando o potencial de chuvas”, conta Dias. Em algumas ocasiões, esse acréscimo pode chegar a 60%. “Agora estamos tentando calcular quanto dessa umidade vinda da Amazônia de fato precipita na forma de chuva”, explica.

Moss se preocupa com o ritmo do desmatamento que observa de seu avião – e que pode modificar o clima da Amazônia, com efeitos capazes de atingir o restante do país. “A floresta funciona como um tampão: as plantas e o solo retêm água da chuva, que depois penetra no solo e fica armazenada antes de evaporar”, explica Dias. Sem a floresta, os ventos úmidos vindos do oceano que penetram no continente podem chegar mais rapidamente, em dois ou três dias, ao sul do país, aumentando o risco de tempestades. “A retirada da floresta diminuiria em 15% a 30% as chuvas na Amazônia, segundo vários modelos climáticos, e aumentaria as chuvas no Sul e na bacia do Prata”, conta Dias.
“As informações disponíveis hoje no Brasil”, afirma Eneas Salati, criador do Laboratório de Ecologia de Isótopos na USP em Piracicaba e um dos idealizadores desse projeto, “são mais do que suficientes para que se adote uma política de parar o desmatamento e iniciar o reflorestamento”.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

Diagnóstico precário

Número de professores temporários não é consensual no país; perfil de atuação, salário e critérios para contratação também são variados

Beatriz Rey

Professor em sala de aula, em Camboriú (SC): precariedade marca as relações dos docentes temporários

 

 

 

 

Pelo menos um em cada cinco professores brasileiros é contratado em caráter temporário. Mais: há estados, como Mato Grosso, em que 95% dos docentes estão nesta situação. Um levantamento realizado pela reportagem da revista Educação junto às secretarias estaduais revelou, além do número expressivo, a falta de clareza sobre os dados efetivos de temporários no país. Isso porque a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) fez, em março, o mesmo mapeamento, levando em consideração informações fornecidas por sindicados filiados à instituição. Apesar de o universo considerado ser o total de professores das redes de ensino estaduais, aposentados inclusos, há discrepância enorme entre os números. É o caso, por exemplo, do Estado do Maranhão. A CNTE diz que há 25 mil professores temporários de um total de 98 mil docentes. Mas, segundo a secretaria estadual, o número é outro: são 8.681 temporários de 36.969 docentes.

"É uma contabilidade difícil de ser feita", reconhece o secretário de Educação de Taboão da Serra e presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Callegari. Ele explica que os temporários existem porque não há como abrir concurso para novos professores, sendo que os efetivos estão afastados por licença médica ou gravidez, por exemplo. "O que eu vou fazer quando a professora afastada voltar da licença-maternidade?", questiona. Vanessa Guimarães Pinto, secretaria estadual de Educação de Minas Gerais, concorda com Callegari. Dos 166.462 mil docentes do estado, 26.732 são temporários, segundo a secretaria. Destes, 13 mil estão afastados por licença médica ou aguardam o tempo necessário para se aposentar (período que varia entre 6 e 8 meses). "Apesar de afastados, são professores ativos. Não posso liberar essas vagas", explica Vanessa. O restante dos temporários é contratado para lecionar as novas disciplinas obrigatórias, como sociologia e filosofia, no caso do ensino médio. "Os temporários vão ser sempre necessários porque o país nunca terá professores suficientes nessas disciplinas", afirma.

Nas regiões mais remotas de Minas Gerais, em que há carência de professores licenciados, também há engenheiros, farmacêuticos e pedagogos lecionando em sala de aula. Vanessa considera a opção pelos temporários como uma economia para o estado. Na capital, Belo Horizonte, há três professores para duas vagas – assim, há sempre uma pessoa excedente na equipe. A secretária estadual considera que o formato adotado por Belo  Horizonte representaria uma despesa a mais para o Estado. Mas, ao mesmo tempo, diz que sua pasta não economiza com os temporários, já que o processo de treinamento e capacitação desses profissionais é constante.

O estado que concentra o maior número de temporários em relação aos efetivos é o Mato Grosso: são 10.700 para 11.200 do total de docentes, segundo a própria secretaria. Os dados do CNTE são outros: 5 mil temporários em um total de 26 mil professores. Para explicar os próprios números, o secretário de Educação Ságuas Moraes diz que há municípios em que só há uma escola. Como a carga horária máxima de um professor no estado é de 30 horas/aula semanais, quando a escola precisa de mais horas, chamam-se os temporários. "Uma escola que necessita, para todas as suas turmas, de 70 horas de história, tem de contratar um temporário para pegar as 10 horas restantes", diz. Cerca de 6 mil professores exercem essa função no estado. O restante cobre licenças médicas e afastamentos por aposentadoria. Ságuas diz que há caso de professores que trabalham na divisa entre Mato Grosso e Goiás, e que lecionam 15h semanais em uma escola, em um estado, e 15h semanais em outra, no outro. "Gostaríamos de realizar outro concurso, mas levantar o número de vagas livres é difícil", diz.

Precariedade
D.T.B. é uma professora da rede estadual de São Paulo que lecionava, até o final do ano passado, na cidade litorânea de Santos. Desde dezembro, ela não é chamada por nenhuma escola para dar aulas como eventual. O desânimo é tanto que desistiu de esperar por aulas em Santos, onde morava: já se inscreveu em escolas no bairro de Interlagos, zona sul de São Paulo, esperando pela falta não programada de docentes. Em São Paulo, há temporários de dois tipos: os Ocupantes de Função Atividade (OFA) e os eventuais. Os OFAs já começam o ano letivo com aulas atribuídas, pois substituem aqueles professores com licenças programadas. O salário de um OFA é, segundo a secretaria de educação, o mesmo de um efetivo: R$ 1.819,63 para 40 horas semanais. O problema, segundo o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp), é que, na prática, tanto o efetivo como o OFA não cumprem essa carga horária. A jornada básica de trabalho de um professor é 30h – o período cai para 24h no início de carreira. Ainda de acordo com a Apeoesp, quem trabalha 40h são os diretores, supervisores, vice-diretores e coordenadores.
O caso dos eventuais é mais complicado. Eles podem se inscrever diretamente nas escolas para receber atribuição de aulas, como D.T.B. fez no início de março, ou serem chamados diretamente pela rede de ensino. Um professor eventual de Educação Básica 1 ganha, de acordo com a Apeoesp, R$ 6,50 hora/aula. Já o eventual de Educação Básica 2 recebe R$ 7,60 hora/aula. Esse tipo de vinculação dos docentes às secretarias estaduais – os eventuais aparecem em outros estados brasileiros – cria problemas sérios em sala de aula. D.T.B. relata que, além da falta de vínculo com os alunos, resultante da alta rotatividade da função, o desrespeito acaba aparecendo entre os próprios estudantes. "Eles dizem: ‘vou te respeitar por quê? Você não é minha professora, é só uma substituta’", lembra.

O mapa dos professores temporários no Brasil
(clique para ampliar)

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"O aluno percebe que esse professor é um tapa-buracos", afirma José Marcelino Rezende Pinto, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto. Ele identifica um movimento interessante no estado. As escolas de bairros mais ricos têm um número maior de professores efetivos. Já as periféricas têm mais temporários. "É como um vestibular: os que saem em primeiro lugar vão para medicina. Os temporários, em especial os eventuais, pegam essas aulas porque elas somam pontos. O sistema dá preferência a quem tem mais tempo dando aulas", diz.

Um perfil
Há estados brasileiros que exigem, como critério para seleção dos temporários, o tempo de serviço. Por isso, Marcelino Rezende afirma que eles desejam somar pontos: quanto maior o tempo de serviço, maiores as chances de o professor ser chamado. Além de São Paulo, Minas Gerais é um desses estados. Lá, além do tempo de serviço, conta também a titulação. O problema é que ela varia de acordo com a realidade local: se todos os inscritos só tiverem ensino médio, essa será a titulação máxima. No Acre, estado em que os números da CNTE diferem do levantamento da secretaria estadual – 9% e 28% de temporários, respectivamente -, os critérios para seleção são, além do diploma em ensino superior, a participação em processo seletivo, com entrevista e análise de currículo. Um professor temporário ganha, naquele estado, R$ 1.256, para 25 horas/aula semanais (R$ 12,56 por hora). Remuneração bem diferente tem o professor temporário de Pernambuco. Ali, para uma carga horária de 200 horas/aula mensais, o salário é de R$ 824,00 (R$ 4,12 por hora). Esses docentes devem ter licenciatura plena para atuar em projetos especiais, como os de redução da defasagem idade/série. A seleção acontece por meio de análise de currículo, comprovação de experiência em sala de aula e existência de cursos de especialização.

No Maranhão, o salário é igualmente inferior: um temporário com nível superior recebe R$ 693,11; com 50% do curso de licenciatura completo, o salário é R$ 517,21; o nível médio corresponde a R$ 465,00. A secretaria estadual local não especificou a carga horária relacionada a cada faixa salarial. Para dimensionar quão variado é o cenário nesse quesito, no Distrito Federal um professor temporário que leciona no segundo ciclo do fundamental recebe R$ 15,54 a hora/aula, podendo receber até R$ 2.802.90 se trabalhar 40 horas por semana. Na capital, o candidato passa por um processo de seleção, com uma prova objetiva, de caráter eliminatório e classificatório, e avaliação de títulos e de experiência profissional.

Foi exatamente a instituição de uma prova seletiva o fator que causou o recente impasse entre a Apeoesp e a secretaria estadual de São Paulo – após o anúncio de que os temporários deveriam participar de uma prova, que avaliaria os conhecimentos nas áreas pleiteadas. Os candidatos com a melhor classificação usariam a nota como um dos critérios para atribuição de aulas em 2009. A Apeoesp moveu uma ação civil pública contra o Estado, alegando irregularidades na avaliação: algumas diretorias de ensino teriam vazado o gabarito da prova. A juíza Maria Gabriela Pavlópoulos Spaolonzi, da 13ª Vara Cível, determinou, então, a suspensão da prova, por considerar que ela desprestigiava os professores mais antigos, especializados nas disciplinas  que lecionam. "São Paulo é uma incógnita e um exemplo que o país não deve seguir. Principalmente por algo que vem sendo questionado agora. Há professores que atuam há 25 anos como temporários", alega Denílson Costa, secretário-geral da CNTE e responsável pelo levantamento dos números dos temporários no país.

Ele identifica situações que explicitam a marginalização desses profissionais: há professores no Brasil que não recebem a hora de trabalho pedagógico coletivo, mais conhecida por HTPC. É o caso do Mato Grosso, que paga R$ 1.450 para os temporários, teoricamente o mesmo salário dos efetivos. A diferença é clara e assumida pelo secretário Ságuas: os efetivos trabalham 30h, mas ganham 10h de HTPC. Os temporários trabalham as 30h corridas. "O temporário trabalha direto, em sala de aula, 10 horas a mais que o efetivo, tendo que arcar com o tempo em que realiza os trabalhos da HTPC", aponta Gilmar Soares Ferreira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público de Mato Grosso. Outro problema identificado em relação aos temporários é que não há planos de carreira. A cada final de ano, são demitidos para serem recontratados no início do próximo. No caso dos eventuais, não há qualquer tipo de planejamento: apenas cobrem faltas e são dispensados. Um professor que cobre licenças de qualquer tipo de um efetivo em Minas Gerais e ganha R$ 850 mensais por 24 horas de trabalho semanais não pode, portanto, mudar de nível em sua carreira.

Para Marcelino Rezende, da USP, os temporários simbolizam uma tradição ruim do sistema educacional brasileiro, já que são mantidos pelo governo em uma situação de instabilidade que aparentemente não tem fim. Gilmar, do sindicato mato-grossense, lembra que quem perde é a escola, porque não pode contar com um conjunto de profissionais efetivos com disponibilidade para trabalhar o projeto político-pedagógico da instituição. Mas é dela que poderia partir a solução para acabar com esse quadro. É o que sugere a professora de Política e Organização da Educação Básica na Unifesp, Maria Angélica Minhoto. Para ela, os governos estaduais devem descentralizar o processo e dar autonomia às escolas para que elas estabeleçam de quantos professores precisam. "O candidato prestaria concurso para ser professor do estado de uma determinada escola. O vínculo seria dado nesse momento. O próprio sistema exige a existência dos temporários. Eles não seriam forasteiros se pudessem ficar", diz.

Fonte: Revista Educação – http://revistaeducacao.uol.com.br

1000 dias no gelo – Saga Polar parte um, 1893-1896

Era uma ideia bizarra: botar um navio para congelar no oceano Ártico e se deixar levar no gelo à deriva até o polo Norte. Quando as coisas não saíram como o planejado, o norueguês FridtJof Nansen partiu de trenó junto com um companheiro rumo a um lugar a que ninguém havia chegado antes.

Hampton Sides
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oto: Biblioteca Nacional da Noruega

Em um fiorde gelado, a uma curta distância de balsa do centro da cidade, Oslo criou uma espécie de cemitério nacional para navios famosos. É uma coisa bem norueguesa – que outro país construiria criptas abertas ao público para alojar seus mais bem-amados barcos de modo a venerá-los para sempre? Ali, na península de Bygdøy, os visitantes podem passar dias zanzando por esplêndidos museus, que abrigam antigos navios vikings, barcos pesqueiros do século 19 e até o Kon-Tiki, a famosa jangada do navegador Thor Heyerdahl. Mas o que mais chama atenção é uma estrutura pontiaguda que se ergue da linha-d’água em forma de uma enorme letra A. Lá dentro jaz uma robusta escuna de madeira, construída em 1892.

Fram, que significa "adiante", é, talvez, o mais famoso barco da longa história náutica norueguesa e um ícone da exploração polar. Não há nada nessa arca bojuda que possa sugerir as exasperantes odisseias que enfrentou. A história de Fram é uma moderna saga nórdica, uma história de provações e façanhas da inteligência cara à identidade nacional norueguesa. O barco é em si mesmo um assombro de engenharia. Seu casco reforçado já suportou três anos espremido pelo gelo do Ártico. Fazendo jus ao nome assertivo que exibe na proa, o Fram foi mais longe pelas latitudes geladas adentro que qualquer outro barco antes dele.

O dínamo humano por trás do Fram – o brilhante cientista e explorador que encomendou sua construção e liderou a viagem inaugural às brumas polares – tornou-se um patriarca da nação. Seu nome é Fridtjof Nansen, e hoje não é tão conhecido fora da Noruega como outros aventureiros polares – Peary, Scott e Amundsen -, muito embora devesse ser. Nansen foi o pai da moderna exploração polar. Todos os demais são seus epígonos.

Nansen era loiro, de pele clara e constituição sólida, dono de olhar gélido e rosto truculento que destoava do refinamento de seu intelecto. Ele passava ao largo dos tipos quixotescos sedentos de glória, característicos de boa parte da era dourada da exploração dos polos. Pode-se chamá-lo de um "viking da renascença": era um bem-dotado escritor, um disputado conferencista, um zoólogo de primeira grandeza e um proeminente estadista. Dominando com fluência ao menos cinco línguas, hábil com uma câmera fotográfica, ele fez belos mapas e ilustrações, manteve copiosa correspondência científica e trouxe um componente de rigor cerebral a todas as suas explorações. Um cientista alemão seu contemporâneo, o anatomista Wilhelm Waldeyer, disse que Nansen "sabia lidar com um microscópio tão bem quanto com picaretas de gelo e esquis", e suas conquistas científicas incluem um revolucionário ensaio sobre a natureza do sistema nervoso central.

Em 1888, Nansen capitaneou a primeira travessia da Groenlândia – um "passeio de esqui", como ele dizia com seu típico ar blasé -, mas perdeu o último barco para casa, o que o forçou a passar o inverno caçando focas e convivendo com os groenlandeses. Essa experiência foi a base de seu aclamado relato, A Primeira Travessia da Groenlândia, publicada em 1890, e de uma vívida obra etnológica, A Vida Esquimó. Na sequência de suas aventuras na Groenlândia, ele tornou-se um destacado proselitista da prática do esqui. No Museu Holmenkollen Ski, em Oslo, Nansen é representado como uma divindade agasalhada em peles e assentada num par de esquis, um patriarca do esporte nacional da Noruega.

Entre tantos feitos de Nansen, foi a jornada do Fram entre 1893 e 1896 que conferiu carga dramática a sua história de vida. A expedição ancorava-se numa ideia tão exótica que as maiores autoridades polares da época, incluindo a Real Sociedade Geográfica, a consideraram suicida. O cientista deliberadamente se fez ao mar pensando em se deixar aprisionar no Ártico – ou, como ele dizia, "entregarmo-nos ao gelo".

Nansen procurava avançar em relação a uma viagem anterior que havia terminado em desastre. Em 1879, o vapor americano USS Jeannette viu-se aprisionado na massa de gelo acima da Sibéria. Ficou à deriva no Ártico por 21 meses, antes de ser esmagado pela pressão do gelo e naufragar, em 13 de junho de 1881. Embora a tripulação tenha empreendido uma valente arrancada até a Sibéria, mais da metade dos 33 homens da expedição polar pereceu. Entretanto, três anos depois, artefatos que pertenciam ao Jeannette foram levados pela maré até a costa da Groenlândia, depois de vagar pelas correntezas, presos no gelo, por milhares de quilômetros.

Ao ler sobre isso, Nansen indagou se a forte correnteza de leste a oeste que passa pelo Ártico poderia ser utilizada para se chegar ao polo Norte, ou pelo menos perto. Assim nasceu uma ideia. Diz Roland Huntford, o biógrafo de Nansen, que esta era uma noção pouco ortodoxa: "Prestar atenção às forças da natureza e tentar trabalhar com elas, em vez de contrariá-las".

A chave, é claro, estava em construir um barco bem mais resistente que o Jeannette. Em 1891, Nansen contratou um brilhante arquiteto naval norueguês de ascendência escocesa chamado Colin Archer. O projeto de Archer introduzia um curioso casco arredondado sem quilha pronunciada e dotado de fossos que permitiam içar o leme e a hélice em segurança no caso de esmagamento pelo gelo. O espaço de carga era reforçado com poderoso madeiramento. Para manter os exploradores aquecidos, Nansen isolou o navio com feltro espesso, pelo de rena, aparas de cortiça e alcatrão. Para enfrentar a longa noite polar, instalou um moinho de vento para fornecer eletricidade a lâmpadas de arco voltaico. Sob o deque havia um salão acolhedor e uma biblioteca que Nansen proveu com cerca de 600 volumes bem escolhidos.

Quando Nansen declarou o barco pronto para a viagem, sua mulher, Eva, às vistas de milhares de simpatizantes no cais de Oslo, batizou o Fram. Com uma tripulação de 13 membros e provisões para cinco anos,  o explorador partiu, no verão de 1893, rumo às Novas Ilhas Siberianas.

Como era esperado, o Fram logo se viu preso no gelo, em setembro. A pressão contra o casco era intensa; a agitação e o atrito do gelo incessantes produziam barulhos medonhos. "O ruído não parou de aumentar até que ficou como se todos os tubos de um órgão soassem ao mesmo tempo", escreveu Nansen. O gelo, como ele anotou dois dias depois, "está fazendo o possível para moer o Framaté ele virar poeira". Mas a embarcação suportou com facilidade esse tremendo aperto e se elevou, intacto, das profundezas do gelo. Com o tempo, o cientista viria a "rir do gelo; estamos vivendo como se o barco fosse uma castelo inexpugnável".

O Fram seguiu com as banquisas na direção do polo à rangente velocidade de uns poucos quilômetros por dia. A despeito de vários incidentes – inclusive um ataque de urso-polar que deixou um tripulante mordido e dois cães mortos -, os primeiros dois anos da jornada foram tranquilos. Os homens comiam bem no tépido e luminoso salão, onde um órgão automático tocava nas longas noites árticas e as luminárias elétricas, como Nansen anotou, "agiam sobre nosso espírito como goles de um bom vinho".

Os homens publicavam o próprio jornal, faziam excursões de esqui no gelo como exercício e realizavam sondagens de profundidade e outras mensurações. O tédio era um companheiro constante, mas os homens não padeciam de outros males. "Eu mesmo", escreveu Nansen, "nunca levei uma vida mais sibarita que esta."

No começo do segundo ano, todavia, começava a parecer que o Fram não chegaria ao polo. Para atingir o objetivo, Nansen teria de sair num estirão pelo gelo com trenós e cães. Ele escolheu um companheiro, Hjalmar Johansen, e, em março de 1895, ambos abandonaram o navio. Uma salva de canhão troou pelos ares quando os esquiadores, rebocando três trenós com dois caiaques, em companhia de 28 cães, rumaram para o norte. Nansen e Johansen logo se viram encrencados por causa do terreno impraticável, de falhas no equipamento e das banquisas em movimento que anulavam seu progresso. As provisões escasseavam, e eles passaram a sacrificar os cães mais fracos para alimentar os restantes. Em abril, eles haviam viajado o mais ao norte que conseguiram: 86° 14′ N. Embora ainda estivessem a 364 quilômetros do polo, os dois haviam se aventurado na maior latitude que qualquer ser humano antes deles. Foi o maior avanço individual em 400 anos de exploração ártica.

Nansen prometera a Eva voltar vivo para casa, e isso era mais importante que o risco de morte – e de imortalidade – no polo. "Você está pensando em mim", escreveu ele em seu diário. "Seus pensamentos voam para o norte através da desolação. Eles não sabem onde me encontrar."

Eis que Nansen, por prudência, dá meia-volta na expedição. Os dois homens não rumam para o Fram, que, de todo jeito, já derivou para longe do alcance deles, mas sim para o distante arquipélago da Terra de Francisco José, mil quilômetros ao sul. A viagem desesperada que empreenderam por cima das banquisas com certeza deve estar entre as mais terríveis maratonas polares jamais levadas a cabo. Durante meses, eles foram matando os cães que sobraram (cortando-lhes a garganta para economizar munição). Num momento crítico, viram-se forçados a comer mingau de sangue canino. "Se eu disser que estava bom, estarei mentindo", escreveu Johansen. "Mas a coisa desceu, e isso é o que importa."

Durante o verão de 1895, Nansen e Johansen procuraram em vão pela Terra de Francisco José. "Passamos um trimestre vagando nesse deserto de gelo", desesperava-se Nansen, "e ainda estamos aqui." Viajando às vezes de esqui, outras a pé ou de caiaque, eles lidaram com infindáveis labirintos de placas de gelo soltas, separadas por hiatos de água coalhada de gelo derretendo. O cientista reconhecia que nem ele nem Johansen  tinham "qualquer perspectiva de prosseguir, com provisões que vão diminuindo rapidamente e mais nada agora para se apanhar ou caçar…"

Por fim, em 6 de agosto, os dois homens chegaram a uma ilha – primeira terra em que puseram os pés em mais de dois anos -, e a sorte mudou. Caçando urso-polar e morsa, eles logo arranjaram um monte de carne fresca, recuperando as forças. Esgueirando-se rumo ao sul, perceberam, em 26 de agosto, que teriam de passar mais um inverno ártico longe de casa. Usando um patim quebrado de trenó como picareta, Nansen e Johansen construíram uma toca. Ali permaneceram pelos nove meses seguintes, dividindo o mesmo saco de dormir ensebado, o que lhes fornecia mais calor, e subsistindo à base de consomê de urso-polar e carne de urso frita na gordura de morsa. Imobilizados por circunstâncias tão severas, eles mantiveram a sanidade mental admiravelmente intacta. "Nós não brigávamos", diria Johansen mais tarde. "O único senão é que eu tinha o mau hábito de roncar… Nansen costumava me cotucar as costas."

Quando chegou o degelo da primavera, Nansen e Johansen aventuraram-se a abandonar sua choça. Eles seguiram para o sul de esqui e caiaque num trajeto tortuoso através do arquipélago. Quando uma morsa virou o caiaque de Nansen, eles aportaram na ilha Northbrook para se secar. Ali se prepararam para uma perigosa jornada em mar aberto até Spitsbergen, onde acreditavam que seriam resgatados por algum barco baleeiro ou de caça às focas. Mas eis que, em 17 de junho, o cientista pensou ter ouvido um barulho familiar vindo de algum lugar da vastidão congelada: o latido de um cão. E partiu sozinho em seu par de esquis, perseguindo o som. Ele escreveu: "De repente, julguei ter ouvido um grito humano… Meu coração disparou, o sangue afluiu ao cérebro… Gritei com toda a força dos meus pulmões". Lá longe, sem dúvida nenhuma, havia outro ser humano. Nansen aproximou-se da figura e logo os dois homens desfrutaram de um memorável momento à la Stanley-Livingstone, quando o repórter Henry Stanley, comissionado por um jornal inglês, encontrou às margens do lago Tanganica, na África, o famoso doutor Livingstone, explorador e antiescravagista há anos desaparecido nas florestas africanas.

"O senhor não é Nansen?", disse o homem, em inglês, examinando o ensebado e fuliginoso farrapo humano à sua frente. "Sim, sou eu. Por Júpiter! Estou contente em vê-lo!" "Que tremenda viagem o senhor fez", disse o homem ao cientista norueguês. "Estou feliz em ser a primeira pessoa a congratular o senhor em seu retorno."

O homem que resgatou Nansen era o explorador britânico Frederick George Jackson, que, por coincidência, havia se encontrado com o cientista quatro anos antes, em Londres. Jackson tinha navegado em seu barco, o Windward, até a Terra de Francisco José como estágio preparatório a sua tentativa de atingir o polo. O explorador não estava procurando por Nansen, mas sabia que o norueguês poderia estar nas vizinhanças.

E, no entanto, todas as probabilidades eram contra esse encontro numa ilha tão desolada. Se Jackson não tivesse aparecido naquele momento, Nansen e Johansen poderiam ter morrido. Jackson acolheu os dois homens em sua cabana, onde aguardaram o Windward, enviado à Inglaterra no ano anterior em busca de suprimentos, no qual voltaram direto para casa.

Quando Nansen e Johansen chegaram à Noruega, no verão de 1896, era como se eles estivessem voltando do lado escuro da Lua. A recepção como heróis que tiveram se tornou ainda mais doce uma semana depois, ao chegar a notícia de que o Fram, sob o comando do capitão Otto Sverdrup, havia se liberado do gelo ártico e retornado em segurança naquele mesmo mês.

Pouco importa que Nansen não tenha atingido seu objetivo de alcançar o apogeu da Terra. Ele chegou perto, realizando isso com estilo e graça, e numa época em que seus compatriotas, ainda sob o domínio da Suécia, ansiavam por um herói norueguês. E foi testemunho de sua antevisão e bom julgamento o fato de que nenhum tripulante da expedição tenha morrido.

À parte ter provado a teoria da corrente polar, Nansen fez uma importante descoberta a respeito do Ártico: era um mar profundo recoberto por uma camada de gelo em movimento constante – e quase vazia de massas de terra. O Ártico era, em outras palavras, um oceano.

Uma das muitas características admiráveis da personalidade de Nansen, rara num explorador, é que ele sabia quando desistir. Sentindo que seus dias aventureiros tinham chegado ao fim, ele deixou a corrida pelo polo nas mãos de Peary, Scott e seu patrício norueguês Amundsen (que, de fato, levou o Fram à Antártica, usando-o de trampolim para a sua histórica viagem inaugural ao polo Sul). Nansen, de seu lado, lançou-se em áreas novas: oceanografia, metereologia, diplomacia. Em 1906, um ano após a Noruega ter conquistado sua independência da Suécia, ele tornou-se o primeiro embaixador de seu país no Reino Unido. Depois da morte de Eva, Nansen cortejou uma série de beldades internacionais ao mesmo tempo que perseverava em uma carreira humanitária. Nomeado alto comissário para a Liga das Nações, ele ajudou a repatriar prisioneiros de guerra e a resolver crises de refugiados na Turquia e na Rússia, na sequência da Primeira Guerra Mundial – um trabalho que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1922.

Nansen morreu de ataque cardíaco, em 1930, na sacada de sua mansão-castelo em Lysaker, na periferia de Oslo, onde suas cinzas estão enterradas debaixo de uma lápide simples no jardim. Tinha 69 anos. A casa, chamada de Polløgda, é hoje um instituto voltado para políticas de energia e meio ambiente, além de abrigar um pequeno museu. No escritório do cientista podem ser vistos artefatos da sua época de explorador: diagramas e mapas embolorados, um par de "óculos de sol" do povo inuit e um tapete de pele de urso-polar. Dali também se pode avistar, através de espessas florestas, o gélido fiorde onde o Fram, agora patrimônio da Noruega, se fez ao mar e onde repousa em sua esplêndida tumba. A cadeira de sua escrivaninha, voltada para a janela, defronta com a única direção que Fridtjof Nansen conheceu em vida – adiante.

Em busca da aura de Nansen – Saga Polar parte dois, 2007

Dois aventureiros saem pelo Ártico seguindo as pegadas do explorador polar norueguês pioneiro.

Peter Miller
Foto: Børge Ousland e Thomas Ulrich

Thomas Ulrich viu primeiro. A coisa era de um branco puro riscado por uma única listra escura. As sombras que passavam sobre a listra deram a pista. Elas moviam-se – eram nuvens -, mas a listra permanecia imóvel. "Acho que eu estou vendo terra", disse Ulrich a Børge Ousland, com quem passara as últimas seis semanas pelo Ártico no encalço da memória de dois famosos exploradores. Partindo do polo Norte, a dupla esquiou 974 quilômetros até esse lugar perto da costa norte da Terra de Francisco José, o arquipélago siberiano em que Fridtjof Nansen e Hjalmar Johansen procuraram refúgio depois da tentativa de alcançar o polo, em 1895.

A exemplo de muitos garotos noruegueses, Ousland cresceu ouvindo contos de ninar sobre as explorações de Nansen. Anos mais tarde, partiu para fazer a primeira viagem em esquis ao polo, uma de suas 14 visitas como guia e aventureiro profissional. Agora, ele e Ulrich, montanhista e fotógrafo, seguiam o mesmo trajeto que Nansen e Johansen empreenderam há 112 anos – algo que ninguém mais havia feito antes.

"Tínhamos o livro de Nansen; então sabíamos que estávamos revivendo muitas daquelas coisas", diz Ulrich. "Como eles, também utilizamos esquis e caiaques", acrescenta Ousland. "Só que usamos parapente (um tipo de pára-quedas ascendente que usa o vento para tracionar os esquis), em vez de cães, para andar mais rápido. E, claro, dispúnhamos de comunicação e navegação, ao passo que eles não sabiam ao certo onde estavam.
O mapa que usavam não era nada acurado."

A terra que Ulrich localizou era a distante costa da ilha Eva-Liv, batizada por Nansen com os nomes de sua esposa e filha. Avistar a ilha não significava que a alcançariam. Quando Nansen e Johansen vislumbraram pela primeira vez Eva-Liv, imaginaram que levaria apenas um ou dois dias para chegar ali. No fim, demoraram 13 dias, e eles quase não conseguiram pisar em terra.

Em junho de 2007, Ulrich e Ousland encararam os mesmos obstáculos. O suave mar de gelo que eles haviam atravessado durante dias, puxando seus resistentes caiaques de plástico cheios de comida e equipamento, virou um caos de detritos de gelo. E o pior é que toda aquela mixórdia derivava para o noroeste, para longe de Eva-Liv, com uma banquisa se atritando com outra, movidas por baixo pelas correntes marinhas.

Sem outra escolha que não tocar em frente, os aventureiros se arriscaram pelo gelo à deriva. Ainda a 15 quilômetros da terra, eles pularam de uma banquisa para outra, puxando seus pesados caiaques com 12,5 metros de cordas. Foi exaustivo e estressante. Ousland já tinha caído gelo adentro semanas antes, afundando até a cintura na água gelada. Agora Ulrich tinha lembranças de uma terrível experiência em 2006, quando uma tempestade o encurralou numa banquisa em desintegração perto do cabo Arkticheskiy, na Sibéria (veja a edição de janeiro de 2007).

À noite, era uma luta dormir com o gelo se movendo debaixo deles. A coisa mais estranha era o silêncio. No inverno, o gelo marinho faz uma barulheira terrível ao rachar e se atritar, mas, no tempo ameno da primavera, com as temperaturas subindo em direção a 0°C, banquisas de até 1 metro de espessura colidiam sem ruído. Às 4 da madrugada, certa vez, Ulrich acordou Ousland para lhe contar que eles estavam derivando para longe da costa a uma velocidade de 1 quilômetro por hora, de acordo com o GPS. Quando abriram a tenda, viram que se abrira um amplo canal de águas escuras a 100 metros dali.

Naquele momento, decidiram tocar em frente a todo vapor para alcançar a terra. "Se não alcançássemos Eva-Liv naquele mesmo dia, não conseguiríamos mais fazê-lo", diz Ousland. Rumo ao sudeste, eles bateram pernas e remaram através de uma forte neblina até chegar a uma margem de gelo sólido. Já estavam em marcha havia mais de 24 horas. Ulrich checou o aparelho de GPS para avaliar a deriva: nenhuma. O gelo estava grudado à terra. Eles haviam conseguido.

Nas oito semanas seguintes os dois vagaram pela trilha de Nansen na direção sudoeste, saltando de ilha em ilha. Outrora uma zona militar soviética, e ainda de acesso interditado à maioria das pessoas, a Terra de Francisco José se mantém intocada, como nos tempos de Nansen.

Em cabo Norveiya, na ilha Jackson, Ousland e Ulrich acharam as ruínas da miserável cabana de pedras com teto de pele de morsa em que os exploradores se haviam abrigado. Nansen havia adquirido habilidades cruciais dos aldeões inuits na Groenlândia, onde passara o inverno de 1888-89. Quando ele e Johansen ficaram sem combustível para o fogareiro, tiveram de se valer de lamparinas alimentadas com gordura de morsa para cozinhar. "Surpreende-me que eles não tenham se matado", diz Ulrich, olhando para o círculo baixo de pedras do abrigo exíguo.

Na época em que Ousland e Ulrich alcançaram o cabo Flora, na ilha Northbrook, onde Nansen e Johansen haviam sido resgatados pelo explorador Frederick George Jackson, também eles estavam loucos para partir. Um amigo de Oslo concordara em apanhá-los de veleiro, mas se atrasou algumas semanas. "Era um lugar tranqüilo, com um lago, um recanto perfeito para se esperar três semanas", conta Ulrich. "As outras ilhas não passavam de rochas, pedras e gelo, mas o cabo Flora era verde, todo musgo e flores." Os únicos residentes eram milhares de pássaros marinhos, aninhados nos penhascos, e uma ursa-polar com seu filhote, isolada pela ausência de gelo marinho – consequência das recentes mudanças climáticas. Noite após noite, os ursos rodeavam o acampamento, forçando a dupla a disparar os últimos foguetes de sinalização para assustá-los. Por fim, os homens tiveram de espantar os bichos encharcando-os com spray de pimenta, disparando seus rifles para o ar, batendo em panelas e frigideiras e gritando a plenos pulmões. "Nós os empurramos para dentro d’água", diz Ousland. "Depois disso chegamos a um entendimento."

Em 13 de agosto, conforme o combinado, o veleiro Atheneapareceu ao largo da costa do cabo Flora. Ousland e Ulrich remaram nos caiaques até a carona que os levaria à Noruega. Depois de 15 semanas no extremo norte, era hora de seguir o fantasma de Nansen de volta para casa.

"Nansen estava muito adiante de seu tempo em sua maneira de encarar o Ártico e de viajar por ele", diz Ousland. "Para nós, em comparação com a expedição dele, foi um passeio de férias", acrescenta Ulrich. "A gente sabia o que ia encontrar pela frente. Ele não tinha noção de onde estava nem de quanto ainda deveria caminhar."

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/