Monthly Archives: abril 2009

Os sentidos da punição

Marcos César Alvarez

O mundo contemporâneo assiste a dramáticas transformações nos mais diversos âmbitos da vida social. E também as formas de violência e os mecanismos sociais e políticos voltados para seu controle parecem estar em acelerada mutação.

Por um lado, manifestações de violência que caracterizaram grande parte do século XX (cf. Wieviorka, 1997) – como a violência política e o terrorismo de extrema-esquerda, a violência de extrema-direita, voltada para o controle do Estado, e a violência decorrente das lutas de libertação nacional – entraram em refluxo, substituídas, em grande medida, por práticas de violência articuladas a identidades étnicas e religiosas e pelo assim chamado crime organizado, agora de alcance transnacional. Por outro lado, modificou-se igualmente a forma como as instituições de controle social, o sistema de justiça e as instituições e políticas públicas a ele associadas respondem aos desafios – reais ou imaginários – que emergem no horizonte da contemporaneidade.

A discussão do papel da prisão na atualidade exemplifica bem o que está em jogo. Se, até meados dos anos 70 do século XX, as políticas reformadoras no âmbito prisional buscavam seguir a retórica da recuperação dos criminosos, a partir de então pode-se perceber uma significativa inflexão, tanto nas políticas e nas práticas no âmbito prisional quanto no próprio significado mais geral da punição para o conjunto da sociedade. Desde o Iluminismo, a idéia de que a punição deveria ser não um castigo cruel mas um mecanismo de correção e recuperação foi uma diretriz-chave para as reformas das prisões e para a assim chamada humanização das penas na maior parte dos países do mundo. Sem dúvida, autores como Michel Foucault (1977) analisaram muito bem as ambivalências desse processo, que irá se desdobrar posteriormente nas políticas criminais do Estado Social no século XX. O declínio do caráter supliciante das penas não foi uma simples vitória dos valores humanistas mas implicou toda uma reorganização das formas de governo dos indivíduos e das populações no Ocidente, a partir das quais novas formas disciplinares de poder espalharam-se nas mais diversas instituições.

Entretanto, no mundo contemporâneo, mesmo essa retórica recuperadora tem sido abandonada em proveito de uma concepção muito mais conservadora. A prisão voltou a ser defendida apenas como um instrumento de confinamento dos marginalizados da nova ordem social globalizada. Bauman (1999) indica as prisões de segurança máxima –supermax –, onde os presos permanecem 23 horas por dia na cela, sem qualquer tipo de atividade, como o exemplo típico dessa nova estratégia política contemporânea de contenção das massas.

Outras transformações associadas ao endurecimento das instituições penais – como o retorno da defesa da tortura, inclusive pelas democracias liberais a partir dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 – indicam que o processo civilizador da modernidade (cf. Elias, 1990/1993) é um fenômeno muito mais tenso e ambivalente do que poderiam antever as análises habituais nos âmbitos da criminologia e das ciências sociais. Por isso, inúmeros autores contemporâneos têm buscado uma nova compreensão tanto das mutações históricas que levaram à construção do paradigma moderno da punição, quanto das rupturas que parecem apontar para sua crise e ultrapassagem no contexto contemporâneo.

No Brasil, essas questões ganham ainda mais relevância pois o combate à violência permanece como um dos principais desafios à consolidação de uma sociedade efetivamente justa e democrática. Se, no início dos anos 80 do século XX, imaginava-se que a redemocratização do regime político traria imediatamente o cumprimento do estado de direito e a afirmação dos direitos humanos, com as instituições da justiça criminal sendo submetidas a controles mais sistemáticos por parte da sociedade, o que se seguiu foi, de fato, a consolidação de um quadro desalentador: violência disseminada na sociedade, sentimento generalizado de insegurança e impunidade, falta de transparência das instituições públicas, superpopulação nas prisões e as rotineiras rebeliões daí decorrentes, corrupção dos agentes públicos, facções criminosas controlando as prisões e realizando ataques espetaculares contra autoridades etc. O debate público, por sua vez, acerca das alternativas de combate à violência, parece desenrolar-se num limbo de valores e inovações, no qual a ausência de memória histórica caminha pari passu com propostas populistas no campo penal que mimetizam, de forma ainda mais canhestra, o endurecimento penal já descrito em âmbito mundial.

Em oposição a esse quadro desalentador, as pesquisas multidisciplinares nos mais diversos campos das ciências humanas têm buscado uma melhor compreensão do fenômeno da violência no Brasil, bem como das dificuldades das instituições da justiça criminal de se modernizarem e atuarem efetivamente como instrumentos de fortalecimento do estado de direito e da democracia.

O Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV – USP), entre outras pesquisas, tem desenvolvido um projeto no âmbito da sociologia histórica voltado justamente para recuperar o caminho percorrido pelas instituições da justiça criminal e da segurança pública, no estado de São Paulo, no período de 1822 a 2000. O projeto, originalmente intitulado Construção das políticas de segurança e o sentido da punição, São Paulo (1822-2000)1, e que contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), voltou-se para a caracterização das linhas gerais de atuação do governo de São Paulo no âmbito das instituições da justiça criminal e da segurança pública, bem como das práticas dessas mesmas instituições2. Para atingir esse objetivo, o projeto buscou descrever e analisar o papel que as elites políticas e econômicas tiveram na definição de práticas sociais tipificadas como crime ou encaradas como violência e entender como esse papel interferiu na elaboração de leis e de mecanismos de controle social. Parte considerável do trabalho consistiu em identificar e catalogar fontes que permitiriam descrever a implementação das ações na área, ao envolver as dimensões das leis ou regulamentos, da constituição de instituições legais – polícia, prisões, manicômios, instituições para menores – da distribuição orçamentária etc. Foram, desse modo, levantadas e catalogadas fontes documentais tais como: a legislação relativa à área de segurança-justiça, os debates parlamentares, as mensagens do chefe do executivo para as casas legislativas, os relatórios dos secretários de Justiça ou Segurança, bem como os relatórios internos do chefe de polícia, de órgãos policiais especializados, de diretores de presídios e ainda os documentos internos de instituições como livro de controle de movimentação de presos, a correspondência oficial, os prontuários de internos em instituições de controle etc3.

Dada a amplitude do período estudado, envolvendo quase duzentos anos de história, e face à diversidade dos contextos históricos que ele encerra, num segundo momento o projeto concentrou-se sobre três momentos relevantes da história política, econômica e social do país e do estado de São Paulo – de 1880 a 1900, de 1937 a 1950 e de 1960 a 1974.

Tais períodos apresentam, como característica comum, transições políticas complexas, articuladas a densas transformações no plano econômico e social e diversos conflitos ideológicos que proporcionam uma análise sobre as condições de formulação de uma agenda de ações voltadas para a área da justiça e segurança, as formas de sua implementação no estado de São Paulo e alguns dos resultados das ações governamentais nesse setor.

O primeiro período, de 1880 a 1900, abrange, no plano político, a passagem do regime monárquico para o republicano. Ao mesmo tempo, envolve, no terreno econômico e social, a abolição da escravidão e a constituição do mercado de trabalho livre no país. Ocorre, nesse período, um acentuado processo migratório de trabalhadores europeus para o estado de São Paulo, uma intensificação na ocupação espacial agrícola, impulsionada sobretudo pela produção do café, e, ao mesmo tempo, uma acelerada urbanização da capital de São Paulo que passou a concentrar um núcleo de pequenas indústrias. Transformações que alteraram o arcabouço jurídico do país, mudaram a percepção das elites dirigentes quanto à ordem pública, conformaram políticas de segurança que começam a construir uma rede de instituições voltadas para o controle social, bem como a burocratizaram os aparelhos estatais que atuavam nessa área, sobretudo o aparelho policial.

O segundo período, de 1937 a 1950, corresponde à entrada do país no chamado Estado Novo, entre 1937 a 1945, para depois reorganizar-se num quadro de normalidade democrática. Politicamente, de 1937 a 1945, houve uma forte centralização da máquina governamental e foram reprimidos duramente os grupos de oposição na fase autoritária, além de ocorrer o cerceamento à liberdade de organização e expressão. A fase de democratização dá início a um novo período da história política brasileira que coloca em cena novas alianças políticas em torno dos desafios ao desenvolvimento econômico e social, reconhecido como tema de relevância na agenda política nacional. No plano econômico, o país sente as oscilações da economia mundial em torno da conjuntura provocada pela Segunda Guerra Mundial. Internamente, a base industrial se consolida e a classe operária se torna um ator cada vez mais relevante no cenário das políticas de desenvolvimento econômico que iriam ser implementadas. No campo das políticas de segurança, o período permite verificar algumas persistências nas práticas repressivas por parte dos aparelhos policiais, antes e depois do Estado Novo, as relações entre repressão política e repressão ao crime comum e o perfil da atuação do governo autoritário na criação de instituições no âmbito da justiça criminal. Um dos pontos interessantes revelados por esse período é o da persistência das práticas autoritárias e do funcionamento da máquina repressiva instalada e que perdura, mesmo depois do fim do Estado Novo.

No terceiro período, de 1960 a 1974, ocorre o inverso, ou seja, o país vive uma situação de normalidade democrática, entre 1960 e 1964, para posteriormente mergulhar num novo período autoritário, sob a mão de governos militares que impuseram forte repressão aos grupos de oposição e, como no Estado Novo, promoveram a tortura e a execução sumária de integrantes dos grupos considerados subversivos. O período que antecede o golpe de 1964 ainda é marcado por forte mobilização popular em torno de reformas sociais. O golpe instaura uma política econômica francamente favorável ao capital externo e à concentração da renda, promove diversas formas de desmobilização de sindicatos, de organizações populares e estudantis. As resistências políticas ao regime militar provocam a radicalização da ditadura entre 1969 e 1974, período no qual as forças de repressão atuavam sem qualquer controle legal. A transição de um regime democrático e de mobilização popular para um progressivamente autoritário a partir de 64, permite analisar as alterações no plano das concepções de uma agenda de segurança pública bem como os novos arranjos institucionais que permitiram a implementação de ações nessa área. É o período propício para a análise das articulações entre a repressão aos grupos de oposição política e a repressão aos criminosos comuns.

A partir da análise desses períodos, pode-se afirmar que atravessa de modo profundo toda nossa história, desde o final do século XIX até o final do século XX, o desejo das elites de transformar o Brasil num país moderno, entendido como espelho nos trópicos dos avanços materiais e das formas de organização social e política em curso na Europa e nos EUA, e daí a importância de modernizar igualmente as instituições da justiça criminal e da segurança pública, como exemplificado no caso de São Paulo. Entretanto, essas mesmas elites não manifestam idêntico entusiasmo pelas formas de vida democráticas, que marcam igualmente a maior parte daquelas sociedades, nem acreditam que o direito à cidadania plena possa ser exercido, sem maiores problemas, pelo conjunto da população. No que diz respeito à justiça criminal e à segurança pública, há um recorrente esforço de modernização institucional, mas com resultados tímidos no âmbito da consolidação das garantias legais e dos direitos civis, sobretudo para a população mais pobre ao confrontar-se com o universo da lei e do direito.

A área da justiça criminal e da segurança pública é, desse modo, uma das que mais parece se caracterizar por esse processo de “modernização seletiva” (cf. Souza, 2000), no qual o crescimento dos orçamentos, a criação de novas instituições, o aperfeiçoamento técnico da legislação e das práticas de controle social caminham dissociados da efetiva expansão da cidadania para o conjunto da população. Na passagem dos diferentes regimes políticos, uma clara continuidade autoritária se manifesta, pois práticas de violência ilegal, de tortura e outras violações de direitos são repostas mesmo em contextos políticos e sociais em mutação. A contrapartida dessa continuidade autoritária é, justamente, a descontinuidade das práticas democráticas e republicanas pois estas, mesmo quando implementadas, não ganham continuidade e são freqüentemente esquecidas, o que só contribui para o esvaziamento do debate público. Por exemplo, entre os anos de 1946 e 1964, os temas discutidos na área de segurança pública em São Paulo envolviam questões como as rivalidades entre as corporações, as descontinuidades das políticas na área, as denúncias de violência policial, a cultura policial avessa aos projetos de reforma que pudessem prejudicar os interesses corporativos, entre outros (cf.Battibugli, 2006), enfim, debates ainda muito atuais mas que não tiveram continuidade devido à ruptura institucional produzida pelo golpe militar de 1964.

Projetos de cunho sociológico e histórico, tal como o desenvolvido no NEV – USP, associados às muitas pesquisas hoje em curso sobre os temas da violência, da criminalidade e da justiça, ganham especial relevância, ao colocar em perspectiva algumas das principais questões do presente, como as práticas de violência promovidas pelos agentes do Estado, a presença de uma cultura autoritária dispersa na sociedade e a resistência que o poder judiciário e as instituições da segurança pública ainda manifestam ao efetivo avanço dos valores democráticos.

Por sua vez, o discurso conservador que, no debate público atual, elege, entre seus principais inimigos, os direitos fundamentais e sociais afirmados pela Constituição de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente, os direitos humanos em geral – nomeados como supostos “direitos de bandidos” – e outras reais conquistas obtidas pela democracia no Brasil nas últimas décadas, vale-se com freqüência de argumentos sem perspectiva histórica nem fundamentação sociológica. Por essa via, é toda uma cultura política autoritária que busca se sobrepor ao regime democrático e os temas da punição se prestam bem de alavanca para essa renovada construção simbólica do medo e da insegurança.

Desnudar as raízes históricas dos problemas contemporâneos, em contrapartida, não deixa de ser uma maneira de mostrar que o presente poderia ser de outra forma e que mesmo as instituições e as práticas mais refratárias à mudança podem ser transformadas por meio do pensamento crítico e da ação conseqüente.

Marcos César Alvarez é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e pesquisador do Núcleo de Estudos de Violência (NEV – USP)

1 Desde seu início, o projeto foi coordenado pelos pesquisadores Luis Antonio Francisco de Souza, Fernando Salla e Marcos Alvarez.
2 Sobre as principais diretrizes do projeto, agora em fase de finalização, consultar: Alvarez, Salla e Souza (2004).
3 Por exemplo, banco de dados sobre legislação referente à justiça criminal e à segurança pública já está disponível no site do Núcleo de Estudos da Violência: www.nevusp.org

Referências Bibliográficas:

ALVAREZ, Marcos César; SALLA, Fernando; SOUZA, Luís Antonio Francisco de. (2004) "Políticas de Segurança Pública em São Paulo: uma perspectiva histórica". Justiça & História, Porto Alegre, v. 4, n. 8, p. 173-199.
BATTIBUGLI, Thaís. (2006) "Democracia e segurança pública em São Paulo (1946-1964)". Doutorado em Ciência Política, FFLCH-USP.
ELIAS, Norbert. (1990/1993) O processo civilizador. Rio de Janeiro : Zahar. 2.vol.
FOUCAULT, Michel. (1977) Vigiar e punir. Petrópolis : Vozes.
SOUZA, Jessé de. (2000) A modernização seletiva: uma reinterpretação do dilema brasileiro. Brasília : Universidade de Brasília.
WIEVIORKA, Michel. (1997) O novo paradigma da violência. Tempo Social, São Paulo, vol.9, n.1, p.5-41, maio.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

Japão paga para trabalhadores estrangeiros voltarem para casa, para sempre

Hiroko Tabuchi
Em Hamamatsu (Japão)

Rita Yamaoka, uma mãe de três que imigrou do Brasil, recentemente perdeu seu emprego em uma fábrica daqui. Agora, o Japão lhe fez uma oferta que poderá não ter como recusar.

O governo pagará milhares de dólares para enviar Yamaoka, seu marido, que é um cidadão brasileiro de descendência japonesa, e sua família em um voo de volta ao Brasil. Mas em troca, Yamaoka e seu marido devem concordar em nunca mais tentarem trabalhar no Japão.
"Eu sinto uma pressão imensa. Eu choro com frequência", disse Yamaoka, 38 anos, após uma reunião onde as autoridades locais detalharam a oferta nesta cidade industrial na região central do Japão.

Franck Robichon/The New York Times

Sergio Yamaoka, sua mulher, Rita, e os seus três filhos vieram do Brasil há 3 anos, no auge da oferta de empregos na indústria japonesa

 

 

 

Franck Robichon/The New York Times

Trabalhadores participam de reunião na Câmara Municipal de Hamamatsu, onde foi estabelecido um plano de pagamento aos trabalhadores

 

 

"Eu digo ao meu marido que temos que pegar o dinheiro e voltar", ela disse, com os olhos cheios de lágrimas. "Não temos condição financeira de permanecer aqui por mais tempo."
A oferta do Japão, feita a centenas de milhares de operários imigrantes latino-americanos, faz parte de um novo esforço para encorajá-los a deixar este país atingido pela recessão. Até o momento, pelo menos 100 trabalhadores e suas famílias concordaram em partir, disseram autoridades japonesas.
Mas os críticos denunciam o programa como míope, desumano e uma ameaça ao pequeno progresso que o Japão obteve em abrir sua economia para trabalhadores estrangeiros.
"É uma desgraça. É cruel", disse Hidenori Sakanaka, diretor do Instituto de Política de Imigração do Japão, uma organização independente de pesquisa.
"E o Japão está dando um tiro no pé", ele acrescentou. "Nós podemos estar em uma recessão no momento, mas está claro que o país não tem um futuro sem os trabalhadores estrangeiros."
O programa é limitado aos trabalhadores convidados latino-americanos no país, cujos pais e avós japoneses emigraram para o Brasil e países vizinhos há um século para trabalhar nas plantações de café.
Em 1990, o Japão – enfrentando uma crescente escassez de mão-de-obra na indústria – começou a emitir milhares de vistos especiais de trabalho para os descendentes desses emigrantes. Cerca de 366 mil brasileiros e peruanos atualmente vivem no Japão.
Os trabalhadores convidados rapidamente se transformaram no maior grupo de operários estrangeiros em um país avesso à imigração, preenchendo os empregos chamados três-K (kitsui, kitanai, kiken – árduos, sujos e perigosos).
Mas o setor manufatureiro do país sofreu uma retração com a evaporação da demanda por bens japoneses, elevando o desemprego à maior alta em três anos, 4,4%. As exportações do Japão despencaram 45,6% em março em comparação ao ano anterior, e a produção industrial está em seu ponto mais baixo em 25 anos.
Novos dados do ministério do comércio japonês sugerem que a produção do setor manufatureiro poderia aumentar em março e abril, à medida que o setor começa a reduzir seus cortes de produção. Mas os números podem ter mais a ver com o fato dos estoques estarem tão baixos a ponto de precisarem ser recuperados, em vez de um aumento na demanda.
Enquanto o Japão espera que isso aconteça, ele tem se mostrado disposto a ajudar os trabalhadores estrangeiros a partirem, o que poderia reduzir a pressão sobre o mercado de trabalho doméstico e o número de desempregados.
"Não haverá boas oportunidades de emprego por algum tempo, por isso estamos sugerindo aos nikkei brasileiros que voltem para casa", disse Jiro Kawasaki, um ex-ministro da Saúde e legislador do Partido Liberal Democrático do governo.
Os vistos "nikkei" são vistos especiais concedidos por ancestralidade ou associação.
Ele liderou a força-tarefa do partido do governo que concebeu o plano de repatriação, parte de uma estratégia mais ampla de emergência para combate ao aumento do desemprego.
Segundo o programa de emergência, apresentado neste mês, é oferecido aos trabalhadores convidados brasileiros e de outros países latino-americanos US$ 3 mil para passagem aérea, mais US$ 2 mil por cada dependente – somas atraentes para muitos imigrantes aqui. Os trabalhadores que partem são informados que podem embolsar qualquer troco.
Mas aqueles que voltarem para casa às custas do Japão não poderão pedir novamente um visto de trabalho. Privados desse status, uma volta seria praticamente impossível. Eles poderiam voltar com vistos de turismo de três meses. Ou, caso se tornem médicos, banqueiros ou outras profissões específicas, e contarem com uma empresa patrocinadora, poderiam pedir um visto profissional. A Espanha, com uma taxa de desemprego de 15,5%, adotou um programa semelhante, mas os imigrantes podem recuperar sua residência e os vistos de trabalho após três anos.
O Japão está sob pressão para permitir o retorno e as autoridades disseram que considerarão essa modificação, mas ainda não se comprometeram.
"Naturalmente, nós não queremos que as mesmas pessoas voltem ao Japão após dois meses", disse Kawasaki. "Os contribuintes japoneses perguntariam: ‘Que política ridícula é essa?’"
O plano foi um choque para muitos, especialmente após o governo ter apresentado várias medidas nos últimos meses para ajudar os estrangeiros desempregados, incluindo cursos gratuitos de língua japonesa, treinamento vocacional e orientação profissional. Os trabalhadores convidados têm direito a um seguro desemprego limitado, caso tenham pago as contribuições mensais.
"É desconcertante", disse Ângelo Ishi, um professor associado de sociologia da Universidade Musashi, em Tóquio. "O governo japonês já tinha deixado claro que os nipo-brasileiros eram bem-vindos, mas isto é um insulto à comunidade."
Também poderia prejudicar o Japão a longo prazo. O país que está envelhecendo enfrenta uma escassez de mão-de-obra iminente. A população tem encolhido desde 2005, e sua população em idade de trabalho poderá cair em um terço em 2050. Apesar do setor manufatureiro estar demitindo trabalhadores, os setores agrícola e de atendimento aos idosos ainda enfrentam escassez.
Mas Kawasaki disse que a recessão foi uma boa oportunidade para reformar a política de imigração do Japão como um todo.
"Nós temos que parar de permitir a entrada de trabalhadores não qualificados no Japão. Nós temos que assegurar que até mesmo os empregos três-K sejam bem-remunerados e que sejam preenchidos por japoneses", ele disse. "Eu não acho que o Japão deve se tornar uma sociedade multiétnica.
Ele disse que os Estados Unidos foram "um fracasso na frente da imigração" e citou as desigualdades extremas de renda entre os americanos ricos e os imigrantes pobres.
Em uma reunião lotada no prédio da prefeitura em Hamamatsu, imigrantes expressaram descrença de que seriam impedidos de voltar. Membros enfurecidos na platéia se voltaram contra as autoridades. Outros abandonaram a sala de reunião.
"Vocês estão dizendo que mesmo nossos filhos não poderão voltar?" gritou um participante.
"Isso mesmo, eles não poderão voltar", respondeu calmamente uma autoridade local do trabalho, Masahiro Watai.
Cláudio Nishimori, 30 anos, disse que estava considerando voltar ao Brasil porque seus turnos na fábrica de peças eletrônicas foram recentemente reduzidos. Mas que se sentia ansioso em relação a voltar a um país que deixou há tanto tempo.
"Eu moro no Japão há 13 anos. Eu não sei ao certo que emprego posso encontrar quando voltar ao Brasil", ele disse. Mas sua esposa está desempregada desde que foi demitida no ano passado e ele não consegue mais sustentar sua família.
Yamaoka e seu marido, Sérgio, que vieram para cá há três anos no auge do boom de exportação, estão indecisos. Mas ambos perderam seus empregos na indústria automotiva. Outros já decidiram partir. Cerca de 1.000 dos brasileiros que moravam em Hamamatsu deixaram a cidade antes que a ajuda fosse anunciada. A escola primária brasileira da cidade fechou no mês passado.
"Eles nos toleraram enquanto precisavam do nosso trabalho", disse Wellington Shibuya, que chegou há seis anos e perdeu seu emprego em uma fábrica de fogões em outubro. "Mas agora que a economia está ruim, eles nos atiram um pouco de dinheiro e dizem adeus."
Ele pediu recentemente a ajuda do governo para repatriação e deverá partir em junho.
"Nós trabalhamos arduamente, tentamos nos encaixar. Mas eles não perderam tempo em nos chutar para fora", ele disse. "Eu fico feliz por partir de um país como este."
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

América Latina, um continente sem teoria

Os liberais nunca tiveram uma teoria original a respeito da América Latina, nem precisam dela. A repetição recorrente de algumas platitudes cosmopolitas foi mais do que suficiente para sustentar sua visão da economia mundial, e legitimar sua ação política e econômica idêntica em todos os países. Mas no caso dos intelectuais progressistas do continente, é uma má notícia saber que não existe mais uma teoria capaz de ler e interpretar a história do continente, e fundamentar uma estratégia coerente de construção do futuro. A análise é de José Luís Fiori.

José Luís Fiori

No século XIX, o pensamento social europeu dedicou pouquíssima atenção ao continente americano. Mesmo os socialistas e marxistas que discutiram a “questão colonial”, no final do século, só estavam preocupados com a Ásia e a África. Nunca tiveram interesse teórico e político nos novos estados americanos, que alcançaram sua independência, mas se mantiveram sob a tutela diplomática e financeira da Grã Bretanha. Foi só no início do século XX, que a teoria marxista do imperialismo se dedicou ao estudo específico da internacionalização do capital e seu papel no desenvolvimento capitalista a escala global. Assim mesmo, seu objeto seguiu sendo a competição e a guerra entre os europeus e a maior parte dos autores marxistas ainda compartilhava a visão evolucionista de Marx, com relação ao futuro econômico dos países atrasados, seguros de que “os países mais desenvolvidos industrialmente mostram aos menos desenvolvidos, a imagem do que será o seu próprio futuro”.
Foi só depois da década de 20, que a III Internacional Comunista transformou o imperialismo num adversário estratégico e num obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas nos países “coloniais e semi-coloniais”. De qualquer forma, o objeto central de todas as análises e propostas revolucionárias foi sempre, a Índia, a China, o Egito e Indonésia, muito mais do que a América Latina. Na primeira metade do século XX, os Estados Unidos já haviam se transformado numa grande potência imperialista, e o resto da América Latina foi incluída pela III Internacional, depois de 1940, na mesma estratégia geral das “revoluções nacionais”, ou das “revolução democrático burguesa”, contra a aliança das forças imperialistas com as oligarquias agrárias feudais, e a favor da industrialização nacional dos países periféricos.
Um pouco mais à frente, na década de 1950, a tese da “revolução democrático-burguesa”, e sua defesa do desenvolvimento industrial, foi reforçada pela “economia política da CEPAL” (Comissão Econômica para a América Latina) que analisava a economia latino-americana no contexto de uma divisão internacional do trabalho entre países “centrais” e países “periféricos”. A CEPAL criticava a tese das “vantagens comparativas” da teoria do comercio internacional de David Ricardo, e considerava que as relações comerciais entre as duas “fatias” do sistema econômico mundial prejudicavam o desenvolvimento industrial dos países periféricos. Tratava-se de uma crítica econômica heterodoxa, de filiação keynesiama, mas do ponto de vista prático acabou convergindo com as propostas “nacional-esenvolvimentista”, que foram hegemônicas no continente, depois da II Guerra Mundial.
Na década de 60, entretanto, a Revolução Cubana, a crise econômica e a multiplicação dos golpes militares em toda América Latina provocaram um desencanto generalizado com a estratégia “democrático-burguesa”, e com a proposta “cepalina” da industrialização por “substituição de importações”. Sua crítica intelectual deu origem às três grandes vertentes da “teoria da dependência”, que talvez tenha sido a última tentativa de teorização latino-americana, do século XX.
A primeira vertente – de filiação marxista – considerava o desenvolvimento dos países centrais e o imperialismo um obstáculo intransponível para o desenvolvimento capitalista periférico. Por isto, falavam do “desenvolvimento do subdesenvolvimento” e defendiam a necessidade de uma revolução socialista imediata, inclusive como estratégia de desenvolvimento econômico. A segunda vertente – de filiação “cepalina”- também identificava obstáculos à industrialização do continente, mas considerava possível superá-los através de uma série de “reformas estruturais” que se transformaram em tema central da agenda política latino-americana, durante toda a década de 60. Na verdade, a própria teoria da CEPAL, sobre a relação “centro-periferia”, já não dava conta da relação dos EUA com o seu “território econômico supranacional”, que era diferente do que havia acontecido com a Grã Bretanha.
Por fim, a terceira vertente da teoria de dependência – de filiação a um só tempo marxista e cepalina – foi a que teve vida mais longa e efeitos mais surpreendentes, por três razões fundamentais: primeiro, porque defendia a viabilidade do capitalismo latino-americano; segundo, porque defendia uma estratégia de desenvolvimento “dependente e associado” com os países centrais; e terceiro, porque saíram deste correntes alguns dos principais líderes políticos e intelectuais da “restauração neoliberal” dos anos 90. Como se tivesse ocorrido um apagão mental, velhos marxistas, nacionalistas e desenvolvimentistas abandonaram suas teorias latino-americanistas e aderiram à visão do sistema mundial e do capitalismo, própria do liberalismo europeu do século XVIII.
Nesta linha de pensamento, ainda em 2009, um importante intelectual desta corrente de idéias defendia – por cima de tudo o que passou no mundo, desde o início do século XXI- que: “não existe mais geopolítica nem imperialismo no novo mundo pós-colonial, da globalização, do sistema político e da democracia global…. [e que ] a estratégia clássica da geopolítica de garantir acesso exclusivo a recursos naturais na periferia do capitalismo já não faz sentido não só por seus custos, mas também porque, com a globalização, todos os mercados estão abertos, e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado…[donde], as guerras entre as grandes potências já não fazem sentido porque todas as fronteiras já estão definidas….”[1].
Ingenuidade à parte, os liberais nunca tiveram uma teoria original a respeito da América Latina, nem precisam dela. A repetição recorrente de algumas platitudes cosmopolitas, foi mais do que suficiente para sustentar sua visão da economia mundial, e legitimar sua ação política e econômica idêntica em todos os países. Mas no caso dos intelectuais progressistas do continente, é uma má notícia saber que não existe mais uma teoria capaz de ler e interpretar a história do continente, e fundamentar uma estratégia coerente de construção do futuro, respeitada a imensa heterogeneidade do continente latino-americano.

[1] Bresser Pereira, L.C. “O mundo menos sombrio. Política e economia nas relações internacionais entre os grandes países”, in Jornal de Resenhas. Março de 2009, N° 1. Discurso Editorial, São Paulo, pp: 6 e 7

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fonte: Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Gripe suína: o medo aterrissa no México

Pablo Ordaz
No México

As autoridades cogitam a possibilidade de paralisar a cidade, incluindo o metrô, os ônibus e o aeroporto

A Cidade do México está em silêncio, escutando a si mesma, sentindo o ritmo de sua respiração por baixo dos pedaços de pano azul. Nessa cidade, que não se amedronta com nada e com ninguém, começa-se a notar o medo nos olhos. Somente nos olhos. Porque o sorriso, que é seu orgulho e chamariz turístico, há dois dias está sepultado embaixo de máscaras usadas por quase todos, desde os guardas de trânsito até os imutáveis mariachis noturnos da praça de Garibaldi.
O medo vai aumentando não apenas junto com o número de mortos, mas também à medida que os mexicanos vão vendo na televisão que o mundo inteiro está preocupado com o que está acontecendo aqui, pela propagação do maldito vírus da gripe suína.
Os mexicanos – é o que dizem as pesquisas e o que qualquer um que saia na rua pode atestar – têm uma desconfiança congênita diante da informação oficial. Não é culpa do governo atual. Ou pelo menos não somente dele. O fato é que, nos primeiros momentos, o anúncio do surto foi deixado de lado por boa parte da população. Na sexta-feira (24), somente algumas horas depois que a palavra "influenza" [gripe, em inglês] chegou para ficar, as pessoas continuaram tocando suas vidas como se nada estivesse acontecendo.
Mas no domingo já foi diferente. O chefe do governo do Distrito Federal, Marcelo Ebrard, não era capaz de disfarçar sua preocupação. Anunciou que nas últimas horas haviam ocorrido mais cinco mortes em diferentes hospitais da cidade. E que, em uma escala de 1 a 10, o estado de alerta já estava no número 8. E isso, só na parte da manhã…
O presidente do México, Felipe Calderón, apareceu muito sério na televisão para pedir mais uma vez por calma. Insistiu que o governo federal dispõe de vacinas suficientes – serão suficientes um milhão de vacinas em uma cidade de 20 milhões de habitantes, em um país com 100 milhões? – , mas em seguida se pôs a detalhar as medidas de precaução como se fosse um médico. Uma a uma, sem pular nenhuma. Lavar as mãos, usar máscara, evitar aglomerações, limpar com cuidado as maçanetas das portas e as torneiras. É claro, nada de beijos ou de dividir a colher ou o garfo com um possível transmissor do vírus. Algo também fundamental: "Procurar um médico assim que perceber os primeiros sintomas. Foi provado que há muitas chances de salvar aqueles que procuram ajuda logo".
Mas, como poderiam procurar ajuda logo aqueles que, uma semana atrás, se sentiram mal sem saber que um vírus assassino andava à solta pela cidade? Os vizinhos do México estão começando a juntar as peças e deduzir que algumas estranhas mortes ocorridas há 15 ou 20 dias podem ter sido consequência da gripe. Mas até quinta-feira passada à noite, ninguém avisou nada. Somando-se a isso o fato de que a cifra oficial de baixas inclui apenas os falecidos a partir do dia 13, então qual o real alcance da epidemia?
O que se sabe é que o grupo de risco, que inicialmente as autoridades haviam limitado às crianças e aos idosos, inclui toda a população. As poucas identidades que se vão conhecendo correspondem, na verdade, a pessoas jovens, cheias de saúde até que foram atingidas pela gripe suína.
Um deles se chamava Jorge Francisco Guzmán Juárez, de 24 anos. Passou menos de uma semana desde que começou a se sentir mal até que faleceu, ontem (27). Sentiu dor de estômago, calafrios e febre. Foi atendido por um médico que só lhe receitou um remédio para dor de barriga. Quando seus familiares o levaram ao hospital, ele já chegou inconsciente.
À espera de novos dados dos falecidos, o que já parece claro é que o chefe do governo do Distrito Federal, Marcelo Ebrard, está cada vez mais inclinado a paralisar a cidade por completo. Seria a primeira vez na história. O metrô e os ônibus podem deixar de funcionar nas próximas horas, e as autoridades federais cogitam a possibilidade de fechar o aeroporto. Os colégios estão fechados até o dia 6 de maio. Os aviões já chegam quase vazios. Mas, se de repente pararem de chegar, esta cidade conhecerá um medo novo, impensável. O de ficar isolada de um mundo que, bem ou mal, sempre faz escala aqui.
Tradução: Lana Lim

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

Dilma Rousseff é a dama de ferro com os pés no barro

Jean-Pierre Langellier

Sobrenome: Rousseff; nome: Dilma; idade: 61 anos. Você não a conhece? Mas ouvirá falar dela, cada vez mais, até o fim de 2010, quando acontecerá a eleição presidencial no Brasil.

Há quatro anos ela detém o segundo cargo político mais importante do país: chefe da Casa Civil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma espécie de primeiro-ministro não oficial. É uma função exaustiva ("Um Paris-Dacar a cada dia", ela diz), mas discreta, longe dos holofotes que se focam em Lula.
Uma discrição relativa, que já deveria ser tratada quase no passado. Pois Dilma, como muitos de seus compatriotas a chamam – evitemos "Dilminha", uma familiaridade que ela não aprecia muito – está se tornando a estrela política do Brasil.

Alan Marques / Folha imagem - 25.mar.2009

Dilma acena aos jornalistas ao chegar ao Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília

E isso, por uma razão muito importante. O presidente Lula, a quem a Constituição proíbe de disputar um terceiro mandato de quatro anos, a escolheu como sua princesa herdeira. A menos que aconteça algo inesperado, ela será a candidata em 2010 pelo Partido dos Trabalhadores (PT), fundado por Lula em 1980, e no poder graças a ele desde 2002. Imaginemos que Dilma seja eleita: uma mulher, pela primeira vez presidente, oito anos após a eleição de um operário. Seria matar dois coelhos com uma cajadada só, e bom para a imagem da democracia brasileira.
Lula não possui herdeiro natural em um partido que ele domina com sua forte personalidade. A escolha de Dilma se impôs a ele aos poucos. É uma aposta segura. A futura candidata está na política desde sempre, e como! Ela é filha de um advogado comunista de origem búlgara. Esse intelectual bon vivant lhe transmitiu o gosto pela leitura e pelos cigarros. Ela tinha 15 anos quando ele morreu.
O golpe de Estado pelos militares em 1964 levou essa estudante idealista e determinada para o militantismo radical. Ela se juntou a uma organização que pregava a luta armada, casou com outro militante, de quem logo se divorciou, passou a estudar economia e mergulhou na clandestinidade após o endurecimento da ditadura no fim de 1968. Ela admirava Jean-Paul Sartre, os guerrilheiros vietnamitas e Fidel Castro. O encontro com um "velho" comunista de 31 anos, Carlos Araújo, que se tornaria seu segundo marido, a envolveu um pouco mais no combate.
Ela adotou nomes falsos, dos quais sua ficha de polícia ainda tem registro: Luiza, Estella, Marina. Aprendeu a manejar um fuzil, a fabricar explosivos ao mesmo tempo em que pregava a prioridade do trabalho político, da "luta de massa" sobre a ação militar. Ela não participou diretamente de nenhuma operação armada, mas esteve estreitamente associada à mais famosa delas: o roubo, no Rio de Janeiro em 1969, de US$ 2,5 milhões do cofre da amante de um ex-governador. Quando a polícia a deteve, em janeiro de 1970 em São Paulo, ela tinha uma arma em seu poder.
"Você não pode imaginar a quantidade de secreção que pode sair de um ser humano quando ele apanha e é torturado", ela confessou recentemente. Será que ela se referia a ela mesma? As testemunhas de então se lembram que, depois de sua detenção, ela enfrentou com coragem 22 dias de torturas. Ela só saiu da prisão quase quatro anos mais tarde: "Tive tempo suficiente para aprender a tricotar e fazer crochê".
Sua juventude agitada não causou nenhum arrependimento na ex-guerrilheira: "Nós éramos ingênuos e generosos. Queríamos salvar o mundo". Ela certamente mudou sua visão e seus métodos: "Aprendi a importância da democracia. Mas tenho orgulho de não ter mudado de lado".
Ela teve uma filha, Paula, se divorciou novamente em 2000, e no meio tempo teve uma brilhante carreira político-administrativa, especialmente como secretária de Minas e Energia em Porto Alegre. Lula, a cujo partido ela filiou-se tardiamente, lhe ofereceu o mesmo posto em nível federal antes de lhe confiar em 2005 a "Casa Civil", onde ela rapidamente adquiriu a reputação de uma "dama de ferro".
Seus trunfos? A inteligência, a força de trabalho, as qualidades como administradora. Seu defeito? Ela nunca passou pela prova das urnas. Sob aconselhamento e auxílio de Lula, seu principal defensor, Dilma Rousseff tenta se tornar conhecida. Ela põe "o pé no barro", como se diz aqui. Há vários meses ela está em formação pré-eleitoral acelerada. Ela acompanha com frequência o presidente em suas atividades oficiais, divide os palanques com ele, cede entrevistas à imprensa. Várias vozes do PT se puseram à sua disposição para tecer uma teia nacional.
Apesar da imensa popularidade de seu principal defensor, sua vitória em 2010 não é garantida. Ela terá como provável adversário um homem de peso, José Serra, governador de São Paulo e ex-rival de Lula nas urnas, derrotado em 2002.
Como é de se esperar no Brasil, paraíso da cirurgia estética, Dilma já mudou de visual. Alguns golpes estratégicos de bisturi rejuvenesceram e suavizaram seus traços. Ela perdeu 10 kg, adotou um penteado mais moderno e mais ruivo, substituiu seus óculos de míope por lentes de contato. Ela cuida de sua maquiagem, sorri com mais frequência e usa palavras mais simples em público.
O "produto" Dilma logo estará pronto para venda. Lula lhe deixou de herança seu velho slogan de campanha, que já se ouve nos comícios do PT: "Brasil! Urgente! Dilma presidente!"
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Grécia está à beira da falência

Manfred Ertel

A Grécia está à beira da falência, apesar da recessão global ainda não ter atingido o país com força total. Greves paralisam o país e a União Europeia faz pressões sobre ele. Mas o governo ainda está tentando conferir aos fatos uma conotação positiva.

Faz 33 anos que Dionisis Sargentis, 58, vende equipamentos médicos e ortopédicos a hospitais. Produtos como parafusos e grampos para vértebras danificadas e articulações quebradas, implantes e instrumentos cirúrgicos. Ele começou o negócio sozinho. Atualmente Sargentis tem 13 empregados e as suas vendas anuais chegam a quase € 7 milhões (US$ 9,3 milhões).
Seria de se pensar que este tipo de empresa fosse imune a recessões, já que sempre haverá necessidade de equipamentos médicos e entre os clientes regulares dele estão grandes hospitais públicos de Atenas.
No entanto, Sargentis está atualmente perto de fechar as portas do seu negócio. "Eu adoro o meu trabalho", diz ele. "Mas a atividade não está mais valendo a pena". Há quatro anos e meio os hospitais públicos não pagam pelo material que ele fornece. No momento eles devem a Sargentis cerca de € 4,5 milhões – o que é mais da metade das vendas anuais da sua companhia.
Agora ele está cansado de esperar. Acompanhado de outros fornecedores de material hospitalar, ele seguiu para o Hospital General Ática, o maior centro de tratamento ortopédico de Atenas. Mas em vez de entregar novos materiais, ele removeu os estoques existentes dos depósitos da clínica. "Estamos simplesmente resgatando aquilo que nos pertence", justifica Sargentis. "Eles estavam apenas emprestados". Sargentis e os outros fornecedores de material hospitalar esperam que o governo grego entenda a mensagem e finalmente pague a dívida.
Em 31 de dezembro do ano passado, o governo grego devia às 75 companhias que fazem parte da associação grega de fornecedores de equipamentos médicos, da qual Sargentis é o presidente, quase exatamente € 800 milhões. Um setor inteiro da economia encontra-se a um passo da ruína. "Todos estão com as costas contra a parede", diz Sargentis.
Existe uma razão sistêmica para isso. Na Grécia, os fornecedores dos hospitais vendem os seus produtos a clínicas em um sistema que é praticamente de comissão. As clínicas só pagam pelo que usam, e em muitos casos só muito depois da aquisição. Um período de espera de dois anos a dois anos e meio é considerado normal. No seu planejamento, os fornecedores levam isso em consideração. As encomendas feitas pelos hospitais servem como garantia para que as companhias possam receber empréstimos dos bancos para pagar salários e fazer novos pedidos aos fabricantes. É desta forma que o sistema funciona – ou melhor, como costumava funcionar.
Mas agora os bancos deixaram de cooperar. Eles recusam-se a fornecer novos empréstimos, e isto fez que o sistema inteiro entrasse em colapso. "Eles cortaram o nosso suprimento de oxigênio", queixa-se Sargentis. "Estamos sendo sufocados pela dívida". Mas não são as dívidas dos fornecedores dos hospitais que preocupam os bancos. É o altamente endividado governo grego que eles não consideram mais confiável para receber empréstimos. Companhias como a de Sargentis são as vítimas acidentais dessa mudança de atitude.
Assim sendo, não é de se surpreender que tanta insatisfação esteja sendo manifestada contra o governo grego. Nas últimas semanas, trabalhadores e funcionários públicos têm convocado greves em todo o país. Na quinta-feira passada, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas em grandes cidades gregas, paralisando a vida pública. Trens, ônibus e barcas pararam de circular. Os hospitais só atenderam aos casos de emergência. As escolas públicas foram fechadas.
"Os trabalhadores não podem ser obrigados a pagar por esta crise", gritavam manifestantes enfurecidos. Eles culparam o governo do primeiro-ministro grego Costas Caramanlis – tanto pelos hábitos antigos e perniciosos quanto pela nova crise financeira.
"Crise? A situação na Grécia não é tão ruim assim", insiste Panos Livadas, o secretário-geral de Informação do governo. Ele observa que as lojas e os cafés estão cheios de fregueses. "A economia grega é realmente indestrutível. Não compreendo essas avaliações da situação internacional", afirma ele.
A função de Livadas é fazer com que as pessoas enxerguem as coisas através de lentes cor-de-rosa. Ele explica que em 2008 a economia do país cresceu 3,2%, (um dos maiores índices de crescimento da zona do euro). Segundo Livadas, nos últimos quatro anos o crescimento econômico na Grécia foi o dobro da média registrada nos países da União Europeia.
Ele afirma que o setor bancário da Grécia encontra-se "basicamente sólido" e "em condição consideravelmente melhor" do que a dos outros países da União Europeia e dos Estados Unidos. Ele observa que a Grécia foi o primeiro país da União Europeia a fornecer uma garantia governamental para as poupanças pessoais no valor total de até € 100 mil. Nada parece abalar o quadro róseo da realidade grega pintado por Livadas.
Mas será que a situação parece de fato estar tão boa assim?
Falta de dinheiro
É necessário ter sorte, especialmente em épocas difíceis. Na reunião de crise dos países membros da União Europeia em Bruxelas, o primeiro-ministro Caramanlis teve sorte no sentido de que a comunidade estava sofrendo fortes pressões para agir em resposta à crise na Europa Oriental, de forma que não deu muita atenção à situação na Grécia.
Mas agora a Comissão Europeia pediu medidas disciplinares, porque Atenas ultrapassou pela terceira vez seguida o limite de déficit orçamentário de 3% para os países da zona do euro. Os resultados das auditorias feitas por Bruxelas são bem diferentes das informações contidas nas brochuras de papel brilhante fornecidas por Livadas.
Nas estatísticas da União Europeia, a dívida do governo grego equivale a 94% do produto interno bruto do país. A Itália é o único outro país da zona do euro com um índice mais elevado de endividamento governamental. A Grécia possui ainda o mais baixo índice de crédito dentre os países da zona do euro. Ela tem que financiar a dívida do seu governo obedecendo a exigências que são piores do que as impostas a qualquer outro país do bloco, com a exceção de Malta.
A Grécia ainda não rompeu com os seus velhos hábitos. O nível de competitividade é baixo, há reformas muito necessárias que ainda não foram feitas, a burocracia governamental é hipertrofiada e corrupta, e o país continua gastando mais do que arrecada. Ainda que os fundos nacionais de pensão careçam cronicamente de verbas, as funcionárias públicas que têm filhos em idade escolar podem aposentar-se aos 50 anos de idade.
Jovens da classe média com elevado grau de escolaridade têm pouca perspectiva de encontrar emprego, apesar de serem bastante qualificados, e são obrigados a aceitar empregos informais para sobreviver. Como resultado, muitos jovens gregos veem-se obrigados a morar com os pais até bem depois dos 30 anos. A fúria da "geração dos € 700" – como são conhecidos os jovens – com a situação explodiu em dezembro do ano passado durante várias semanas de rebelião em todo o país.
Agora a União Europeia não está mais disposta a aceitar a letargia por parte do governo grego. Joaquín Almunia, o comissário europeu de Questões Econômicas e Monetárias, pediu medidas bem mais duras para a redução de gastos, "uma política salarial prudente para o setor público", e maiores esforços na área de reformas estruturais. Georgios Provopoulos, o governador do Banco da Grécia, o banco central do país, advertiu os seus compatriotas para os perigos da "auto-satisfação" e falou a respeito da ameaça cada vez maior de uma falência nacional. E a Grécia ainda não sentiu os efeitos totais da recessão global.
"Os fatores negativos que estamos presenciando aqui são todos reflexos do passado", diz um diplomata a União Europeia, acrescentando que a maioria dos problemas é de natureza doméstica. Os especialistas econômicos estão aguardando ansiosamente para ver o que acontecerá neste verão. Eles temem que possa haver um declínio no setor turístico, um dos mais importantes pilares de crescimento da economia grega, que responde por 17% do produto interno bruto do país. O volume de turistas que fazem reservas a partir dos Estados Unidos sofreu uma queda de até 50%. E o número de turistas britânicos em férias, que no passado chegava a três milhões anualmente, juntamente com 2,3 milhões de alemães, deverá encolher em até 30%.
A situação dos bancos que investiram na Europa Oriental e nos Bálcãs é incerta. As instituições financeiras gregas investiram bilhões de euros na aquisição de bancos ou na criação das suas próprias filiais na Romênia, na Bulgária e na Sérvia. Como o valor das moedas nacionais em alguns desses países caiu drasticamente, aquilo que antigamente era visto como um investimento atraente nas economias em desenvolvimento poderá transformar-se em um enorme prejuízo.
"Esta é a face da crise na Grécia. Ninguém quer vê-la, mas todos estão com medo dela", afirma Kalliope Amyg, um jovem cientista político. "O país está dançando sobre um vulcão".
"Não sabemos o que o amanhã trará"
Em grego não existe uma tradução direta para o verbo "poupar", no sentido monetário. E é exatamente desta forma que os gregos vivem.
A Grécia continua tendo um setor informal próspero. "Ele ajuda a estabilizar a renda e o padrão de vida das pessoas", observa um empresário europeu que trabalha na Grécia. "As famílias procuram contar com o maior número possível de fontes de renda distintas".
Há 24 anos, Popi Kalogeropoulou, 48, trabalha como artista gráfica para editoras, sendo que o seu trabalho mais recente foi para a revista feminina "Young". No final do ano passado ela foi demitida. A revista foi obrigada a reduzir os custos, o que significou corte de empregos.
Felizmente ela não demorou muito para conseguir um novo emprego. Desde meados de janeiro, Kalogeropoulou faz o layout de um jornal semanal. O salário que lhe ofereceram, de mais de € 2.000 por mês, não é ruim, sendo mais do que ela recebia no seu último emprego.
O único problema é que ela não recebeu um contrato – está sendo obrigada a trabalhar por debaixo dos panos. "Estou sendo forçada a fazer algo que não quero", diz ela. Kalogeropoulou recebeu o primeiro pagamento oito semanas e um dia após começar a trabalhar. Mas ela só recebeu mil euros – em dinheiro vivo, naturalmente. "As companhias estão simplesmente tirando vantagem da crise", diz ela.
Ninguém acredita que a Grécia será capaz de enfrentar a crise – quando e se esta atingir o país com força total – usando como arma apenas os seus hábitos antigos e ineficientes. "Não sabemos o que o amanhã trará", diz o empresário Dionisis Sargentis.
Sargentis só sabe o que acontecerá se o governo grego continuar sendo incapaz de pagar as suas contas e se as companhias do seu setor não conseguirem vender os seus produtos. "Isso significará o fim do sistema de saúde no nosso país". Entre outras coisas.
Tradução: UOL

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Mad Maria: os trilhos do diabo

A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, construída no coração da floresta Amazônica entre 1907 e 1912, foi uma das mais ousadas obras da engenharia ferroviária em todos os tempos. Estendida por mais de 300 km, foi aberta em meio a incríveis dificuldades climáticas e sanitárias, comuns à selva tropical, para prover a Bolívia de uma saída comercial pelo Atlântico.

Poucos anos depois da sua inauguração em 1912, com o declínio da extração da borracha, ela foi desativada, restando por lá algumas locomotivas e outros trastes ferroviários como testemunhas mudas do enorme esforço inútil despendido na construção daquela que foi chamada de Ferrovia do Diabo, ou simplesmente Mad Maria (Maria a louca)

O isolamento da Bolívia

Madeira-Mamoré, os trilhos do diabo (1907-1912)

A pobre Bolívia não é um lugar muito feliz de se viver. Encerrada em meio às altíssimas montanhas dos Andes, uma infeliz guerra contra o Chile privou-a do acesso ao Oceano Pacífico desde 1879. Do outro lado, da fronteira voltada para o Brasil, é a muralha da floresta Amazônica que a deixa ainda mais isolada. Não só isso, o único rio que poderia ser aproveitado por ela para alcançar o Atlântico, cortando a selva e desaguando no rio Amazonas, é o rio Madeira, conhecido pelas suas perigosas e intransponíveis cachoeiras. Foi Raposo Tavares, numa bandeira organizada em 1647 no interesse de El Rei, quem por primeiro chegou a percorrê-lo na totalidade. Navegar no alto Madeira, meter-se de canoa e carga nele, era suicídio.

Duzentos anos depois do bandeirante, o engenheiro boliviano José Augustin Palácios, um entusiasta da saída pelo Atlântico, num relatório aprontado em 1846, apresentou como solução a construção de uma estrada que contornasse as quedas d’água da confluência Madeira-Mamoré, como se ainda fosse fácil enfrentar depois os 3.300 quilômetros restantes, as febres, e os índios que não davam trégua a ninguém.

Na medição feita pelo engenheiro brasileiro Silva Coutinho, em 1861, da primeira à última cachoeira do rio Madeira, percorria-se 70 léguas (ou 462 km), algo que somente poderia transposto por uma estrada–de-ferro construída ao longo das margens (sugestão que também foi apresentada pelo general boliviano Quentin Quevedo). Passado o trajeto dos limites bolivianos até Porto Velho (hoje capital do Estado da Rondônia), o rio Madeira tornava-se apto à navegação.

Impulso para a construção da madeira-mamoré

Foi a Guerra do Paraguai (1864-1870) quem por igual convenceu o govenro brasileiro a planejar algum tipo de saída amazônica para o estado do Mato Grosso, tão afastado do restante do pais como a Bolívia da América do Sul e do mundo. Todavia, tudo isso ficou letra morta até dar-se a explosão da borracha no final do século 19.

Então, milhares de seringueiros vindo do Brasil invadiram aquelas selvas desertas que separavam a Estado do Amazonas da Bolívia. O Acre, área boliviana, encheu-se de caucheiros sangrando tudo o que viam pela frente. Parecia, por fim, que havia-se encontrado o tão lendário El Dorado, o tesouro no meio da floresta que pusera a perder Francisco Orellana e o celerado do Lopo de Aguirre, ainda no século 16.

Portanto, evitada a guerra entre a Bolívia e o Brasil pelo controle do Acre (Tratado de Petrópolis de 1903), foram as exigência da nascente industria dos transportes, automóveis e caminhões, faminta pela borracha para fazer pneus, transformada num ouro negro, quem forçou a que a estrada-de-ferro sonhada antes por tantos tomasse forma pelas mãos de Percival Farquhar, um empreendedor norte-americano que fazia de tudo naquela época e que havia ganho a concessão do govenro brasileiro para a sua construção.

Construindo a estrada

Inauguração do primeiro trecho da Madeira-Mamoré, em 1910 (foto: Danna Marrill)

A partir de 1907, aquela parte da região amazônica virou um formigueiro com mais de 3 mil trabalhadores vindos de todos os cantos do mundo. Até uma loja maçônica, a dos “Temporários”, fundou-se por lá. Vindas de Nova York, modernas máquinas à vapor foram instaladas para ajudar os trabalhadores na derrubada da paisagem paleozóica que cercava os trilhos da temerária e desabrida ferrovia que, segundo seus detratores “ ligava o nada a lugar nenhum”.

A bexiga, a beribéri, a diarréia, a pneumonia, a malária e enxames de mosquitos os devastou. Eram os anti-corpos usados pela floresta para expelir os invasores. Metade dos médicos morreu ou adoeceu com gravidade. Pavorosas ainda eram as chuvas. As trombas d’água, uma a cada 24 horas, dissolvendo tudo, punham o trabalho de meses a perder. Partindo do cais de Porto Velho em direção à fronteira boliviana, o primeiro trecho de 90 km da estrada de ferro Madeira-Mamoré foi inaugurado em 1910.

No ano seguinte a Madeira-Mamoré Company, controlada por Farquhar, importou mais de 5 mil braços para afundá-los nos igarapés e pântanos que cercavam os trilhos da ferrovia, já conhecida então como Mad Maria (“Maria louca”), como a imprensa estrangeira começou a referir-se a ela. No total dos quatros anos e meio que durou sua construção foram contratados 21.817 operários que se espalharam ao longo do trajeto, habitando ranchos de folhas de palmeiras ou precários galpões, tudo supervisionado por uma equipe de engenheiros americanos sob a liderança do superintendente Harry Meyer.

Manoel Rodrigues Ferreira, engenheiro paulista, historiador e sertanista que escreveu o mais detalhado e confiável livro sobre a ferrovia (“A Ferrovia do Diabo”, 1962) assegura que a mortandade dos operários não foi tão elevada como espalharam na época. Na verdade, pelo menos pelos registros oficiais, os óbitos foram de 1.552, ou seja 7% do total de trabalhadores empregados na obra, bem longe dos propalados 6 mil mortos que disseram que ela provocara.

Em 1º de agosto de 1912, com 366 km completados, finalmente a inauguraram, encerrando assim um dos maiores feitos da engenharia do nascente século 20. A outra grande obra que se fazia naquele momento era a abertura do Canal do Panamá, construção mastodônica que de certo modo ofuscou o da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Naquele ano da sua inauguração a borracha correspondia a 39% das exportações brasileiras (equivalente a 60% da exportada no mundo inteiro).

No ano seguinte, em 1913, Farquhar estava falido. Uns anos depois, superada os tormentos que o pagamento da ferrovia custou ao governo brasileiro (62 mil contos ou 28 toneladas de ouro), os trilhos que pareciam ser de ouro, com a estrada abandonada, viraram trilhos do diabo. A concorrência dos seringais do sudeste asiático e, depois, a invenção da borracha sintética, fizeram a extração amazonense entrar em crise definitiva. Tal como depois deu-se com Henry Ford (Fordlândia) e Daniel Ludwig (Projeto Jari), Percival Farquhar mediu forças com a floresta amazônica e perdeu. A Bolívia, enquanto isto continuou na mesma.

Recomendação bibliográfica

Cunha, Euclides – Um Paraíso Perdido. Petrópolis, Editora Vozes-MEC, 1976.

Ferreira de Castro – A Selva. Rio de Janeiro: Moura Fontes Editor, 1934.

Ferreira, Manoel Rodrigues – A Ferrovia do Diabo. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1982.

Gauld, Charles – The Last Titan: Percival Farquhar, american entrepeneur in Latin America. Califórnia: Stanford University, 1964.
Souza, Márcio de – Mad Maria. São Paulo: Círculo do Livro, 1990.

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

Plano energético do governo é refém dos setores eletro-intensivos

VALÉRIA NADER
GABRIEL BRITO

No início do ano, o governo anunciou seu novo Plano Decenal de Energia, que vista estabelecer os parâmetros de oferta de energia nacional até 2017. Em conversa com o Correio da Cidadania, o engenheiro Célio Bermann, do Instituto de Estudos de Energia da USP, analisa o plano e seu caráter de atender preferencialmente aos grandes consumidores, isto é, a indústria eletro-intensiva.

Para o professor, o plano relega as fontes alternativas a um papel nulo, limitando o debate energético à falsa dicotomia entre hidrelétricas ou termelétricas. Apesar de serem fontes de complementaridade a seu ver, poderiam ter uma participação muito mais ampla.

Diante da idéia também polêmica de que, ao se dar menor peso às hidrelétricas, o mais provável seria a proliferação das termelétricas, Bermann é enfático em dizer que se trata de debate prescrito, baseado em uma visão ‘ofertista’: ‘sem questionar para onde vai a energia, a gente acaba caindo na querela de que, se não forem construídas hidrelétricas, serão feitas termelétricas’, enfatiza.

Finalmente, para o engenheiro, Belo Monte irá ilustrar bem como o governo tratará a fronteira elétrica na Amazônia a partir de agora.

Correio da Cidadania: O que pensa a respeito do plano decenal de energia anunciado pelo governo para os próximos 10 anos? Há pontos positivos para o país no enfoque deste plano, ou há muito a reparar?

Célio Bermann: Esse último Plano Decenal apresentado pelo governo no final do ano passado faz uma previsão do consumo de energia elétrica e de combustíveis no período de 2008 a 2017. Porém, apresentou-se o plano no final de 2008, e nisso há um problema de ordem temporal, porque normalmente o que deveria estar sendo apresentado no final de 2008 seria um plano decenal cobrindo o período 2009-2018, o que não ocorre, por várias razões.

De qualquer forma, o plano, entre outras coisas, aponta os empreendimentos de produção de energia necessários para satisfazer a demanda de energia. Por exemplo, na energia elétrica o plano prevê necessidade de 54 mil megawatts (MW) até 2017. Significa elevar em mais ou menos 50% a atual capacidade, da ordem de 107 mil MW. Num primeiro aspecto, em 10 anos a previsão é de aumento extremamente significativo do consumo de energia elétrica. Para fazer isso, o plano estabelece uma relação entre crescimento econômico – medido através do PIB – e o consumo de energia elétrica. Estimou que o crescimento médio do PIB no período será de 4,9% ao ano, enquanto o de energia elétrica chegaria a 5,5% ao ano. Detalhe importante: todas essas são projeções que a EPE – Empresa de Pesquisa Energética – fez antes da crise econômica e que, certamente, deverão ser reformuladas na próxima revisão, que é anual, em função das projeções de menor crescimento do PIB.

Estamos num país em que, para se alcançar o crescimento econômico, precisa-se consumir, proporcionalmene, mais energia. Para cada unidade a mais no PIB, há necessidade do incremento de 1,2, 1,3 vezes o consumo de energia. Isso nos caracteriza como um país cujas indústrias consomem muita energia.

Chamo atenção para o fato de que é preciso reorientar o perfil industrial brasileiro, de forma a não se submeter ao mercado internacional, como mero produtor de matérias-primas. Estamos falando da produção de alumínio primário, aço bruto, celulose. Todos esses produtos são caracterizados por alto gasto energético e baixo valor agregado. Eu avalio que os planos decenais, historicamente, sempre têm a demanda como inquestionável. Mas deveriam passar a reorientar o planejamento energético a partir dos próprios questionamentos sobre essa demanda. A pergunta ‘energia para que e para quem?’ deve ser feita. E o debate é importante, o que não está sendo feito.

É claro que há o interesse de empresas transnacionais no setor, que definem o que querem. E o governo brasileiro, através do Ministério das Minas e Energia (MME), mas também pela incapacidade de vários outros ministérios que poderiam se envolver no debate, faz com que o próprio MME fique refém da situação. Não há debate, não há reorientação e se estima, o que é uma grandeza, um consumo crescente de energia elétrica da ordem de 5,5% ao ano.

Esse é o questionamento principal: a necessidade de se reorientar o perfil produtivo brasileiro, caracterizado por alta atividade energética. O que acontece no Brasil vai na direção contrária do que ocorre nos países desenvolvidos, onde a riqueza é alcançada consumindo-se pouca energia.

CC: Dessa forma, poderia ser dito que este plano está a serviço dos grandes consumidores?

CB: É claro que foi concebido para atender ao consumo de vários setores, mas é marcadamente um plano que busca, através dessa enorme projeção de demanda, se adequar àquilo que está definido já há alguns anos em relação ao Brasil: um país que possui recursos naturais e minerais disponíveis, mão-de-obra barata e uma disponibilidade energética tida como uma vantagem comparativa relativamente a outros países, que fazem com que o Brasil se apresente no cenário internacional como adequado para exercer tal papel.

Eu acredito no contrário. As fontes primárias de produção de energia no país estão cada vez mais distantes. O principal potencial de aproveitamento das águas está localizado na região amazônica. Assim, há uma distância em relação ao centro de consumo, que acaba determinando um custo da energia comparativamente alto, o que caracteriza hoje no parque produtivo de nosso país uma tendência de aumento desses custos. Como a prioridade está sendo dada aos setores eletro-intensivos, que gozam de baixas tarifas comparativas, eu temo que a energia para a população apresente uma tendência de custar cada vez mais caro, contrariando uma das diretrizes do atual governo, a de apresentar ao país o que se chama de modicidade tarifária.

Trata-se de uma tarifa que se equilibre entre o poder aquisitivo da população e suas necessidades energéticas. Essa modicidade não quer dizer tarifas baixas, mas sim equilibradas em relação à capacidade aquisitiva de cada um. Num país de extrema desigualdade de renda como o nosso, temo que a população encontrará dificuldades de satisfazer suas necessidades energéticas em função de seus custos.

CC: Falando das contrapartidas sociais, em favor da população, e da discussão com a sociedade, você acredita que, ao final, serão atendidos esses reclamos de cunho social também?

CB: Eu penso o seguinte, reforçando a idéia: o plano apenas define, em função da previsão de demanda, que do ponto de vista social a população irá crescer num ritmo ‘xis’ e existirá a demanda por bens e serviços que em média vai se acentuando. Assim, pode-se estimar quanto da energia vai ser disponibilizada ao setor residencial. O plano não faz uma leitura que deveria ser necessária, de incorporar a extrema desigualdade de renda em nosso país, pois, afinal, somos um dos piores nesse assunto, com a renda muito mal distribuída.

Eventuais melhorias em relação à distribuição da renda foram pequenas nos últimos anos, como podemos ver nos dados do IBGE em sua PNAD, que mostra uma ligeira melhora, mas um quadro ainda extremamente desigual.

No entanto, podemos ter a perspectiva de satisfação de energia para o conjunto da população a partir do atendimento da demanda por necessidade, que seria básica. A questão seria assegurar um padrão de qualidade de vida ao conjunto da população e com isso fazer uma estimativa de quanta energia seria necessária. Infelizmente, estamos longe desse tipo de atitude.

Existe um problema de que uma usina, quando construída, não tem sua eletricidade destinada à população, nem vai produzir eletricidade para a indústria, se ela estiver no sistema elétrico. Ela vai produzir para onde tiver demanda. Como nosso país se caracteriza por atender a uma concentrada demanda desses setores que destaquei, temo que a demanda residencial, principalmente pela dificuldade de se obter um ritmo de crescimento da oferta, sofrerá um processo de exclusão social no acesso à energia elétrica.

CC: E o que você pensa do espaço reservado no plano às energias alternativas? Quais você enxerga como as mais promissoras no Brasil e quais as possíveis formas de aproveitamento de tais fontes?

CB: Há uma questão que precisa ser também ressaltada. A natureza das energias alternativas – estamos falando das energias renováveis, como biomassa, resíduos agrícolas, solar, eólica – não as permite serem entendidas como concebemos as fontes tradicionais, todas elas. Elas são intermitentes, não estão disponíveis o tempo todo.

Portanto, a energia alternativa deve necessariamente ser entendida a partir de seu caráter de complementaridade. Temos atualmente um parque instalado de termelétricas e hidrelétricas em que essas energias se complementam. E pode haver uma complementaridade muito maior que a prevista no plano. A participação das chamadas energias alternativas, ou renováveis, ainda é pífia. Ela ainda se prende à idéia de que a geração dessas fontes é muito cara. Com isso, abandona-se uma maior utilização de tais fontes. Enquanto isso, o que se vê internacionalmente é justamente o contrário: quanto maior a escala de aproveitamento, menores ficam os custos. E no Brasil ainda não estabelecemos um padrão em relação a essas fontes e que nos permita acompanhar o ritmo de crescimento das mesmas no contexto nacional.

Mas temos vento, temos Sol, por que não os exploramos em uma escala mais significativa? Temos hoje um parque de energia eólica de 15 usinas. Essas 15 têm uma capacidade total de cerca de 237 MW. O potencial avaliado de energia eólica no Brasil é da ordem de 143000 MW. E nós exploramos 237. Sendo assim, estamos com uma participação na energia eólica extremamente pífia em relação ao uso potencial dessas fontes – pegando só o exemplo da energia do vento. Se formos olhar as fontes alternativas no plano decenal, elas saem de um patamar atual de 1200 MW para chegarem em 2017 a 6200MW. Poderiam, comparativamente, representar o quádruplo em relação a 2008, mas significam muito pouco no conjunto de fontes previstas até 2017. As fontes alternativas correspondem a pouco mais de 1,2% da oferta energética, pouquíssimo frente ao potencial que podemos desenvolver.

CC: E como fica a situação das hidrelétricas e qual papel elas terão no desenrolar dos próximos anos? Quais são também os impactos ambientais dos projetos atuais, a seu ver?

CB: O plano indica, não define, quais usinas deverão ser construídas de forma a atender a previsão de demanda até 2017. De certa forma, atende ao pressuposto do papel do planejamento energético no nosso país, que vem da época em que havia o monopólio do Estado no setor e que rumou para uma situação de união entre capital privado e estatal.

Nesse atual contexto, o planejamento do governo indica quais usinas deverão ser construídas para atender a demanda, que por sua vez é inquestionável. Uma parte considerável da satisfação dessa demanda será pela hidroeletricidade. A previsão é de se passar de algo do tipo de 84 mil MW em 2008 para 118 mil MW. Significa um acréscimo da ordem de 34 mil MW, apenas em hidrelétricas. Disse no início que a previsão de consumo impõe a necessidade de acréscimo de 54 mil MW; desses, 33 mil MW só das hidrelétricas. E onde elas se localizam? Básica, notada e preponderantemente na região amazônica.

Assim, entendo que assistimos a uma situação de ambigüidade, na medida em que o governo fala em considerar de forma adequada a questão social e ambiental na Amazônia. Na região amazônica existem 46 milhões de hectares considerados unidades de preservação, que a legislação ambiental prescreve como áreas de ecossistema frágil. Somamos o fato de 25% da região ser caracteristicamente ocupada por territórios indígenas. E a outra categoria a ser citada, a área de conservação de biodiversidade na região amazônica corresponde a 40%. Temo que o impasse entre considerar de forma adequada a questão social, ambiental e antropológica e ao mesmo tempo lidar com a voracidade em se ampliar a capacidade de produção de eletricidade, baseada na falsa premissa de que as hidrelétricas são limpas, renováveis e baratas, faça com que essas áreas e populações acabem sendo ocupadas pelos reservatórios das usinas.

Temos estratégias que estão sendo pensadas pelo governo e uma delas é a criação de reservas para exploração de potenciais hidráulicos, com as hidrelétricas definindo áreas para a construção de centrais hidrelétricas, sem considerar restrições ambientais. Essa era uma proposta que durante muito tempo foi preconizada pelo ex-diretor geral da Aneel, Gerson Kelman. Houve também outra idéia de se identificarem projetos de centrais hidrelétricas que teriam natureza estratégica. Assim, várias usinas foram incorporadas ao PAC e, no final do ano passado, o ministro Mangabeira Unger propôs um PL que estabelece o prazo de 4 meses para que os órgãos ambientais definam a viabilidade ambiental de determinado empreendimento.

Joga-se, portanto, com uma situação extremamente ambígua. O governo procura considerar as restrições ambientais e a questão indígena, mas ao mesmo tempo também reduz, através de instrumentos de coerção, a possibilidade de intervenção desses mesmos órgãos. É quase a estratégia do fato consumado. Sabemos que, para se fazer uma avaliação ambiental adequada, dificilmente 4 meses são suficientes. Evidentemente, há a necessidade de redução do tempo, mas esse tempo é muito menos determinado pelos órgãos ambientais e muito mais pela qualidade dos estudos ambientais apresentados pelas usinas.

O caso de Belo Monte ilustrará bem como o governo tratará da expansão da fronteira elétrica na região amazônica.

CC: Analisando pelo aspecto ambiental, essas grandes hidrelétricas não poderiam ser substituídas por centrais menores ou pela repotenciação de antigas?

CB: A questão da repotenciação foi objeto de debate num trabalho que conduzi há cerca de 4 anos, recebendo a avaliação de que não foi baseado em dados concretos das usinas hidrelétricas do Brasil com mais de 20 anos. Na época utilizei dados internacionais que mostravam a possibilidade média de se chegarem a ganhos de potência de até 22%. Com isso, estimei um acréscimo de potência a partir da repotenciação que poderia ser de 860 MW a 3400 MW. E se antes fosse feita a troca de equipamentos, como motor e gerador, o acréscimo poderia alcançar 8000 MW.

No ano passado, a EPE publicou nota técnica em que desqualifica meu estudo, mostrando que o máximo de potência que poderia se alcançar seria de 5000 MW. Ao lado da minha equipe pesquisadora, estou elaborando uma nota técnica de resposta à avaliação, argumentando que em realidade esse estudo da EPE superdimensiona a capacidade de geração do atual parque. E ao fazer isso, estima rendimentos das usinas muito maiores do que efetivamente elas apresentam. É o que explica o pouco ganho que aparece no resultado do estudo da EPE.

De toda forma, é um debate em curso, mas diria que essas usinas projetadas na Amazônia precisam verificar o contexto social e ambiental em que vão se inserir. Se reproduzirem o que fizeram historicamente – em Tucuruí, Usina de Samuel-RO, Balbina –, a opção hidrelétrica pode resultar em um acelerado processo de degradação ambiental e num desastre do ponto de vista social. Eu não digo que é irreversível, mas é preciso considerar o que se fez historicamente nas usinas da região amazônica, e não há indícios de que os procedimentos serão diferentes daqueles que marcaram os desastres ambientais e sociais já verificados.

CC:Os defensores de hidrelétricas vêm como ‘romantizada’ a idéia de que se possa utilizar menos delas hoje em nosso país, pois nenhuma outra fonte seria capaz de suprir nossa demanda de energia, e de forma limpa. Dizem até que, ao se abandonarem as hidrelétricas, o mais provável seria a proliferação das termelétricas. O que você pensa disto?

CB: Há essa controvérsia também. Ela está pautada pela visão ofertista. Sem questionar para onde vai a energia, a gente acaba caindo na querela de que, se não forem construídas hidrelétricas, serão feitas termelétricas. Procuro sair desse debate, que é prescrito.

É realmente necessário construir essas usinas? A demanda energética é mesmo um fato inquestionável? Evidentemente, se admitirmos que parte dessa energia realmente tem importância e necessidade de ser suprida, há de se buscá-la, não demonizando as hidrelétricas; mas, se tiverem efetivamente de ser construídas, que não atendam aos interesses das transnacionais que procuram tarifas baixas através da hidreletricidade.

Se a perspectiva for outra, devemos ter um procedimento significativamente diferente daquele que tem pautado a política energética até o momento. É necessário considerar as populações envolvidas e que serão deslocadas compulsoriamente, concedendo indenizações que possibilitem a recuperação ou melhoria da qualidade de vida delas.

Há, portanto, essa mentalidade hoje muito em voga, que coloca a situação da seguinte forma: ‘se não construirmos hidrelétricas, teremos de construir usinas poluidoras, seja a óleo diesel, carvão mineral ou gás natural’. Quero sair desse falso debate para discutir efetivamente o destino da energia.

CC: Os ambientalistas destacam bastante as conseqüências ambientais que podem ser deixadas no entorno das novas vias de acesso às hidrelétricas. Não serão ainda mais agravadas essas conseqüências com o projeto que dispensa novas rodovias no centro-oeste de estudo de impacto ambiental?

CB: Sem dúvidas. É mais um elemento de promoção da degradação ambiental.

CC: Em todo este contexto, como situa a retomada do projeto de Angra 3? E o que pensa da ausência de nova licitação para o projeto?

CB: Angra 3 esteve parada por muito tempo e, no final do ano passado, conseguiu aval ambiental, com uma pré-condição, a de selecionar a destinação dos resíduos nucleares de alta radioatividade. Em relação a Angra 3, estamos fazendo de conta que existe uma consideração ambiental a esse respeito, que é social também, pois se trata da destinação de resíduos radioativos; só que, ao mesmo tempo, se fecham os olhos para o fato de que no mundo tal questão dos rejeitos não foi resolvida. Essa é a principal razão que explica por que nenhuma usina nuclear foi construída nos EUA nos últimos 15 anos, por que na Europa nenhuma usina nova foi construída nos últimos anos. Apenas uma está em processo de construção, com uma empresa que pretende incorporar uma tecnologia intrinsecamente segura, na Finlândia.

Aonde temos construções de usinas nucleares? China, Índia, Coréia, regiões nas quais a questão ambiental não é adequadamente considerada.

Estamos indo numa direção perigosa, pois a deliberação do IBAMA em relação à viabilidade de Angra 3 parte do princípio de que, em 2014, quando estiver operando, a EPE terá a definição do destino final dos rejeitos. Desculpem-me, mas, em todas as partes onde há tais resíduos, eles estão contidos nas piscinas, que foram concebidas para recebê-los de forma provisória, mas acabaram se tornando permanentes. A rigor, hoje não há solução para o destino dos rejeitos nucleares.

Os EUA estão construindo um depósito subterrâneo numa área do deserto da Nevada a um custo inicialmente orçado em US$ 58 bilhões, mas que alcança hoje US$ 90 bilhões. É um projeto que receberia 70% do material radioativo de alta intensidade dos EUA, mas que está parado porque a agência ambiental norte-americana descobriu que aquela região é sujeita a terremotos, o que inviabiliza a área. É uma situação controversa, não é apenas nossa, mas estamos olhando para ela como se estivesse resolvida.

Evidentemente, ninguém irá desautorizar de operar uma usina que custará algo em torno de US$7 bilhões por falta de local adequado para esses rejeitos serem depositados. É assim que a questão ambiental é conduzida.

O Plano Decenal prevê a entrada em operação de Angra 3, mas não prevê nenhuma outra usina nuclear. Ao mesmo tempo, o ministro Edison Lobão veio recentemente a público anunciar a intenção do governo de construir 50 usinas nucleares.

São situações que nos mostram que a questão energética no Brasil não está sendo conduzida, para dizer o mínimo, de forma satisfatória.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania
Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

A Dívida Externa Brasileira

Durante a última semana a imprensa emudeceu frente a organização do plebiscito em relação à dívida externa. O pouco espaço dedicado à questão foi ocupado por entrevistas do ministro Pedro Malan, para defender a posição neoliberal do governo ou por editoriais que iniciam-se chamando a idéia de "calote".


O Jornal Opinião da década de 70

Uma Questão de Cidadania
Em momento algum a grande imprensa e aqueles que são contrários ao "calote" se preocuparam em falar sobre todos os calotes que foram dados na sociedade brasileira, quando, ao longo de mais de um século, o endividamento serviu para sustentar uma elite parasitária e criar uma economia subserviente ao capital internacional e ao F.M.I..
Em momento algum a imprensa e os governantes preocuparam-se em defender a realização de um grande debate nacional, para que a sociedade que paga os empréstimos tenha consciência de sua origem e dos "benefícios" que trouxe à ela; percebem que qualquer movimento de discussão desse assunto representa um questionamento à política em andamento, assim como também percebem que qualquer discussão que possa envolver a sociedade como um todo, não interessa a essa minoria.
A proposta da realização do plebiscito representa um grande avanço, exatamente por que pode envolver toda a sociedade num grande debate, que na verdade é muito maior do que a discussão da Dívida Externa, trata-se de discutir a cidadania. Independentemente da importância do tema, a participação da sociedade é que está em jogo e nesse sentido fica patente o que as elites pensam da cidadania: a ação do homem no sentido de respeitar as leis do Estado e em hipótese alguma participar, discutir, opinar.
Ninguém é ingênuo em acreditar que o Plebiscito que ocorre nesse momento vá definir o encaminhamento da questão da dívida, porém cria um debate em toda a sociedade
Origem da Dívida
A Dívida Externa adquiriu proporções astronômicas durante o regime militar (1964-85), no entanto sua origem remonta à Independência do país, no século XIX.
O primeiro empréstimo externo do Brasil foi obtido em 1824, no valor de 3 milhões de libras esterlinas e ficou conhecido como "empréstimo português", destinado a cobrir dívidas do período colonial e que na prática significava um pagamento à Portugal pelo reconhecimento de nossa independência. A independência não alterou as estruturas sócio econômicas e restringiu-se a um movimento político muito limitado, mantendo o regime monárquico e o herdeiro português no trono, aliado aos latifundiários conservadores sob o comando de José Bonifácio. A aceitação do pagamento da indenização está ligada aos vínculos mantidos com Portugal e ao mesmo tempo aos interesses ingleses, que somente reconheceu nossa soberania após o acordo com Portugal.
Em 1829 foi realizado novo empréstimo que passou para a história como "o ruinoso" e serviu para cobrir parcelas não pagas do empréstimo anterior. Do total tomado emprestado, o Brasil recebeu apenas 52%, pois o restante serviu para cobrir os juros da dívida anterior.
Dois novos empréstimos importantes foram realizados durante o Império — em 1843 e 1852 — utilizados ainda para pagar débitos relativos ao primeiro empréstimo, que somente foi saldado em 1890.
Durante esse período o Brasil ainda endividou-se ainda mais com a Guerra contra o Paraguai. A Inglaterra forneceu os navios e empréstimos ao Brasil para o conflito que também interessava à ela.
A Primeira República
Durante a república do "café com leite" o endividamento aumentou ainda mais, porém a idéia central ainda era a mesma, garantir os privilégios da elite. O presidente Campos Salles, eleito em 1898, viajou à Inglaterra antes mesmo da posse, para renegociar a dívida com os banqueiros Rotshild, e firmou um acordo que ficou conhecido como "Funding Loan", que suspendia o pagamento por um período de 13 anos, sendo que o pagamento dos juros seria realizado em 3 anos, em títulos da dívida pública e obtinha um novo empréstimo. Como garantia do cumprimento do acordo, as rendas das alfândegas brasileiras ficaram hipotecadas aos credores ingleses.
Novo endividamento surgiu em 1906, representando o início da "Política de Valorização do Café". Neste ano, foi assinado o Convênio de Taubaté, entre os governadores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que, a partir de empréstimos tomados no exterior, comprariam e estocariam o excedente da produção de café. A valorização, como outras políticas protecionistas, resolvia o problema imediato da burguesia paulista e mantinha o nível de emprego nos setores da economia vinculados ao café, porém prejudicava a maioria da sociedade, na medida em que setores essenciais eram relegados a segundo plano em termos de investimento, além de promover a desvalorização da moeda, originando um processo que ficou conhecido como "socialização das perdas", quer dizer, a maioria da sociedade pagava pela política que beneficiava a minoria.
Os governos do período continuaram a realizar empréstimos que beneficiavam a elite cafeeira, contrastando com a situação de crise nas exportações durante a Primeira Guerra Mundial e posteriormente, na metade da década de 20.

Com a crise iniciada nos EUA afetando a economia do país, o pagamento da dívida foi suspenso em 1931 por decisão unilateral do Brasil. Em 1934 a Assembléia Nacional Constituinte passou a investigar o endividamento brasileiro, que chegava a 237 milhões de libras esterlinas e já estava documentado de forma detalhada pelo ministro Oswaldo Aranha. O ministro não era um crítico dos empréstimos do exterior, nem defendia o não-pagamento da dívida. Depois de viver por alguns anos nos EUA, defendia um estreitamento das relações do Brasil com aquele país, em detrimento dos interesses ingleses, então nossos maiores credores. Condenava apenas a forma pela qual os empréstimos tinham sido aproveitados — não em obras públicas, como achava que deveria Ter ocorrido. Pensava ainda que o país deveria parar de tomar emprestado para pagar empréstimos e deveria pagar com seus próprios recursos. O ministro destacava a característica básica do endividamento: "foram feitos uns para pagar os outros, em parte ou no todo, refundindo-se em novos empréstimos".
As Últimas Décadas
Apesar da ausência de empréstimos externos e das condições desfavoráveis do comércio exterior, nos anos 30 a economia brasileira se expandiu em ritmo maior que na década de 20, "época de maciço ingresso de capital externo.
No período posterior ao golpe militar os empréstimos voltam a aumentar substancialmente, devido a política econômica desenvolvida então, particularmente no período que ficou conhecido como "milagre econômico", quando a indústria brasileira cresceu a taxas elevadíssimas graças ao ingresso maciço de capitais estrangeiros, fazendo com que a dívida saltasse de 4 para 12 bilhões de dólares.
O endividamento pós 64 tem dois estágios. O primeiro é o dos governos
Costa e Silva e Médici, nos anos 68-73, do "milagre econômico". Nesse período, os empréstimos foram usados para, ao cabo de tudo, realizar ar operações de crédito na compra de geladeiras, secadores de cabelo, automóveis e outros bens supérfluos e também para financiar ar grandes obras urbanas e serviços que viabilizaram a existência dos automóveis e das geladeiras, tais como estradar, viadutos e redes de energia elétrica.
No final de 1983, em depoimento na CPI da Dívida Externa, Celso Furtado, economista que fora ministro do Planejamento antes do golpe, mostrou como o Brasil pòs-64, graças a mudanças de política financeira e cambial –
nas regras de conversão do dólar em cruzeiros -, acabou na prática pagando, através do Banco Central, para os capitais estrangeiros, parte do preço de automóveis c secadores de cabelo, comprados a crédito obtido por dólares emprestados.
A Segunda fase do endividamento começa no governo do general Ernesto Geisel (1974-79). A partir de 74, a indústria de bens de consumo duráveis, com a produção de automóveis à frente, começa a encalhar, em grande parte devido a crise mundial do petróleo, que repercute na elevação nas taxas de juros, que somadas aos gastos dos grandes projetos de geração de energia.
Em 1982 temos o ano da falência declarada do modelo brasileiro de desenvolvimento e o país recorre ao FMI e ao final do governo Figueiredo, que encerra a ditadura militar, a dívida externa chegava a casa de 100 bilhões de dólares.
A Dívida atual alcança a casa dos 231 bilhões de dólares.

Fonte: História Net – http://www.historianet.com.br

Entre os limites da educação e violência

Luciano Valente

Educar crianças para que elas compreendam e obedeçam às regras da convivência é um desafio enfrentado por pais, escola e sociedade em geral. A tríade punição-premiação-educação está na raiz da aprendizagem social e sua discussão é considerada sempre pertinente. Para pesquisadores, as mudanças na família e na sociedade contemporâneas ainda não resultaram em uma configuração das relações entre educar e punir. A questão dos limites volta-se para os próprios pais e escola: a educação deve privilegiar o diálogo com crianças e adolescentes aos invés de punições, especialmente as corporais.

Os pais modernos têm tido dificuldades para conseguir impor limites e educar os seus filhos. Exemplo disto é o sucesso do programa Super Nanny (ou Super Babá, em português). O reality show britânico tem sua trama baseada em uma babá disciplinadora que visita casas de famílias em que os pequenos controlam, mandam e desmandam em seus pais. Jo passa uma semana com as crianças e ensina aos pais como conseguirem impor respeito e criar regras sem bater ou alterar a voz. Ela apresenta técnicas para coordenar brincadeiras, fazer com que os pequenos obedeçam os horários de dormir etc. No show seu disciplinamento baseado no diálogo e compreensão mútua funciona muito bem.

Edilza Ribeiro é professora de enfermagem na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e conduziu um projeto na unidade de pediatria no hospital universitário, criando oficinas de diálogo com a comunidade. Uma delas focou na discussão de como os pais trabalham, no seu processo educativo, as questões com as quais eles não concordam, como punem e se lançam mão de castigos físicos. “Sinto os pais um pouco perdidos. A família mudou, convive menos, tem mais estresse, tem menos pessoas para ajudar nas tarefas e a mulher não é mais a cuidadora oficial da família. Há um distanciamento maior entre pais e filhos. Os pais podem não conseguir acompanhar a tecnologia, nem mesmo saber ao que os filhos têm acesso. Nem a família e nem a sociedade têm encontrado formas punitivas que sejam significativas e produzam efeito nessa nova família”, afirma ela.

A diminuição no número de filhos é um outro ponto levantado por Ribeiro. O estresse aumentou devido a essa preciosidade que a criança ganhou. “Este modelo tem levado a essa preponderância da vontade da criança. É por isso que na Super Nanny, existem crianças de 5, 6 anos que controlam a vida familiar. Os adultos deixaram de ser adultos, os pais deixaram de cumprir os seus papéis e não atendem mais às necessidades das crianças, mas sim aos seus desejos” conclui. O trabalho dela aponta que é justamente nessa somatória que o castigo físico persiste, pois ele cessa imediatamente um comportamento indesejável e é fácil de aplicar, ao contrário do diálogo, que demanda tempo e convivência.

“Palmada já era”

O Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), do Instituto de Psicologia da USP, pesquisa a problemática da infância em geral, em especial temas como a educação infantil e a violência doméstica. Maria Amélia Azevedo, junto com outros pesquisadores do Lacri, publicou diversos livros, como Mania de bater e Palmada já era, que abordam o tema da violência doméstica e a educação.

Maria Amélia acredita que a punição é um recurso que deve ser usado como exceção. Ela defende um modelo de diálogo entre pais e filhos que aja preventivamente, ou seja, antes que seja necessária uma punição. “Eu sou absolutamente contrária à punição corporal, ou qualquer tipo de castigo que humilhe as pessoas. Minha perspectiva da criança é otimista. Ela é um ser com possibilidades e que, bem conduzido, de uma forma que se sinta valorizado, pode aprender qualquer coisa, inclusive a se comportar socialmente. Sou a favor da punição pedagógica, que significa lidar com as conseqüências dos seus atos”, defende a pesquisadora.

Junto com a deputada Maria do Rosário, a pesquisador foi autora do Projeto de Lei No. 2654/2003, ainda em trâmite no Congresso, que ficou conhecida como “Lei da Palmada”. O texto classifica como crime qualquer forma de punição corporal contra crianças, seja no lar ou na escola, e prevê punições contra os pais, assim como a perda da guarda dos filhos para “o pai, ou a mãe que castigar imoderadamente o filho”.

No livro Palmada já era, Maria Amélia apresenta 12 alternativas à punição corporal, levantadas em entrevistas com cerca de 500 crianças de 9 a 12 anos, alunas de escolas de São Bernardo do Campo. As crianças foram perguntadas sobre como é que elas poderiam ser educadas sem apanhar, mesmo quando elas apresentam maus modos, recusa de ir a escola, mentira, bagunça etc. “O meu trabalho levantou as sugestões das próprias crianças. As crianças devem aprender pelo diálogo que elas estão erradas. A palmada é violência. É preciso criar um castigo significativo e pedagógico, por exemplo, se ela copia um trabalho escolar, ela deve refazê-lo, perdendo o seu tempo de lazer e aprendendo a lidar com as conseqüências de seus erros”, diz a pesquisadora. O livro defende uma criação, em conjunto entre pais e filhos, de regras, com direitos e deveres de cada e afirma que ao participar dessa criação, as crianças criam uma predisposição para obedecê-las.

A punição corporal é abominada por ambas as pesquisadoras. Edilza Ribeiro aponta os riscos desse tipo de punição. “A problemática do castigo físico é colocar as pessoas que o aplicam em um nível de adrenalina e estresse altíssimo. Eu acho que ele deve ser combatido e reduzido até que ele seja zero. O castigo físico é uma escada. Ele tem um degrau, o segundo degrau etc. E quando você está no décimo degrau, já não existe autocensura e a pessoa não se escandaliza mais. É aí que ocorrem as agressões” descreve ela.

Maria Amélia tem uma postura ainda mais agressiva contra o castigo corporal:. “Bater num adulto é agressão, num animal é crueldade, como você pode dizer que bater numa criança é educação? Não sou contra punição, em certas situações é necessário você usar medidas de contenção. Mas, sem degradar, nem humilhar. A criança deve entender porque está sendo punida. O ser humano fala e dialoga e assim transmite valores. A palmada é o caminho do curto-circuito”, argumenta.

Na escola, o dilema da disciplina

A pedagoga Áurea Guimarães, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, cita Freud e sua célebre frase, “sem repressão não há civilização”, para exemplificar como o ato de educar é uma necessidade da vida em sociedade.

Áurea defende que a escola seja um espaço propício à discussão. “É preciso ensinar a criança a relação entre o ‘eu’ e o ‘mundo’, fazer com que ela reflita sobre em que medida aquilo que ela quer afeta os outros. Isto é um exercício, é uma prática social”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, a instituição da escola não tem conseguido ser um espaço fomentador dessa reflexão. Quando existe a punição, como suspensões, advertências e até expulsões, elas têm um caráter muito mais exemplar, do que reflexivo. “A criança deixa de fazer algo por medo, não por compreender o certo e o errado” conclui.

A temática da pesquisa da pedagoga é a depredação e a violência na escola. Ela conta que seu interesse pelo tema surgiu ao visitar escolas públicas na cidade de Campinas, São Paulo, onde havia algumas muito depredadas e outras bem conservadas. Ao desenvolver o estudo, ela pôde perceber que quanto mais disciplinador era o regime, menos havia depredação do patrimônio escolar. “A depredação surge não como uma revolta à disciplina, mas sim como uma tentativa de chamar a atenção. Pois nas escolas com um regime disciplinar muito frouxo, a sensação não era de liberdade, mas, de descaso e abandono”, conta Áurea.

Infelizmente, ela avalia que a escola, no momento atual, está sendo incapaz de ajudar nessa construção de um censo crítico. O número de escolas em estado de abandono é muito maior do que as com um disciplinamento mais presente, e os casos de indisciplina aumentam vertiginosamente, devido a falta de limites. Ela aponta que quando há escolas com maior ordem e disciplina, isto é fruto muito mais de iniciativas individuais do que do Estado. “Há, por exemplo, uma escola do Jardim Ângela, um dos bairros mais violentos de São Paulo, onde o diretor fez um trabalho, seguindo a linha do Paulo Freire, envolveu a comunidade, os pais, a sua equipe e teve um ótimo resultado. A escola evoluiu de uma aparência de destroços de guerra para um lugar limpo, organizado e disciplinado”, exemplifica.

A falta de medidas que envolvam um projeto pedagógico para toda a escola é o grande erro, segundo Áurea. Ela afirma que de nada adianta cada professor tentar disciplinar de uma maneira. Essa desordem pinta o cenário atual, em que os professores não conseguem impor limites aos alunos, chegando a casos extremos de até terem medo deles.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

Longe do gueto, perto do centro

MANUEL ALVES FILHO

A arquitetura brasileira ainda está formando consciência acerca da necessidade da construção de habitações de interesse social (HIS), notadamente quando a proposta é inserir esse tipo de edificação nos centros consolidados de médias e grandes cidades. A constatação é da primeira dissertação de mestrado na área defendida por ex-aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp, criado em 1999. De acordo com a autora do trabalho, Julia Spinelli, que comparou projetos nacionais e europeus, todos apresentados em concursos públicos, o processo ainda não está amadurecido no Brasil porque o país começou a considerar efetivamente esse tipo de solução há pouco tempo, a partir dos anos 90. "Na Europa e Estados Unidos, as discussões nesse sentido remontam à década de 70", afirma. O trabalho foi orientado pelo professor Leandro Medrano.

Em sua pesquisa, Julia considerou os projetos que obtiveram as primeiras e segundas colocações em concurso público promovido pela Prefeitura de São Paulo, entre 2003 e 2004, com o apoio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Nenhum deles, porém, foi construído. A razão alegada para o engavetamento da proposta foi a mudança da gestão municipal e, com isso, a inversão das intenções para a área central. A ideia original do concurso era a construção de edificações multifuncionais, que abrigassem habitações de interesse social e programas institucionais, como uma escola para a formação de profissionais aptos a trabalhar na reforma e restauro de prédios históricos. As áreas escolhidas para receber as estruturas foram uma quadra no bairro da Barra Funda e um terreno nas imediações da Praça da Sé.

Depois de analisar os projetos brasileiros, Julia os comparou com similares europeus. O dado interessante, segundo ela, é que as áreas centrais, tanto no Brasil quanto na Europa, apresentavam semelhanças entre si. Todas tinham como característica o fato de serem núcleos urbanos consolidados que careciam de revitalização, principalmente por meio do fortalecimento da diversidade social local. "Entretanto, ao confrontar os projetos, a partir de seus conceitos e tecnologias, pude identificar grandes diferenças entre eles", assinala a autora da dissertação. Tais distinções, prossegue ela, estão relacionadas com o fato de o conceito de habitação de interesse social associada a centros consolidados ou históricos já fazer parte da cultura arquitetônica européia, enquanto que por aqui ele ainda está se firmando.

Na Europa, explica Julia, desde 1989 é realizado o Europan, evento que congrega perto de 70 concursos públicos simultâneos, promovidos por diversos países do Continente. "Lá, cerca de 70% dos projetos vencedores são efetivamente construídos. Aqui, a porcentagem de construção de projetos vitoriosos em concursos de arquitetura, no mesmo período, é foi de 12%. Além disso, alguns governos europeus concedem bolsas aos jovens arquitetos, para que eles montem escritórios e participem desses certames. O Europan é visto pelos profissionais em início ou com poucos anos de carreira como uma grande oportunidade de inserção ou consolidação no mercado de trabalho", detalha. Entre as características dos projetos europeus, acrescenta o professor Leandro Medrano, destacam-se os compromissos de promover a diversidade social e cultural, oferecer condições dignas de moradia aos cidadãos de baixa renda e revigorar o ambiente urbano nas regiões centrais. Tais premissas estão associadas a inovações tecnológicas, conceituais e metodológicas incentivadas pelos concursos.

Preceitos semelhantes orientaram os projetos brasileiros analisados pela autora da dissertação, mas ela notou que o conceito mais geral não foi totalmente absorvido pelos projetos vencedores do concurso patrocinado pela Prefeitura de São Paulo. "Alguns dos projetos vencedores caberiam tanto na região central da Capital quanto na periferia. Ou seja, eles não trouxeram grandes inovações, como era esperado", avalia. Para o professor Leandro Medrano, isso se deve ao fato de o país ter optado, durante várias décadas, pela alternativa de construir moradias populares nas periferias dos municípios, onde os terrenos são mais baratos. "Entretanto, essa solução criou outros problemas, visto que as administrações municipais eram obrigadas a levar transporte, infraestrutura urbana e equipamentos públicos até esses locais. Somente a partir dos anos 90 é que começamos a discutir, a exemplo do que ocorria na Europa desde a década de 70, a necessidade construir habitações de interesse social em regiões mais adensadas, de modo a aproveitar a estrutura já existente e a eliminar os guetos que se formavam em determinados pontos das cidades", reforça.

Ainda em relação aos projetos vencedores do concurso lançado pela Prefeitura de São Paulo, Julia constatou alguns problemas técnicos, que segundo ela não podem ser considerados graves. Ainda assim, uma proposta projetava dormitórios voltados para a face Sul, o que não é desejável, no Brasil, em termos de insolação. Ademais, algumas unidades contavam com cômodos sem janelas, o que compromete o conforto térmico nos apartamentos. "São falhas que poderiam ser facilmente corrigidas", desconta a autora da dissertação. Conforme os projetos, o edifício da Barra Funda teria 160 unidades, sendo 40% com um dormitório, 30% com dois e outros 30% no formato de quitinetes. Destes, 5% seriam adaptados ao uso de deficientes físicos. Já o complexo projetado para a região da Sé teria 240 habitações, também divididas entre quitinetes e apartamentos de um e dois quartos.

Tanto no entender de Julia quanto no do professor Leandro Medrano, o Brasil ainda precisa aprofundar as discussões em torno da necessidade de construir, em regiões altamente adensadas, habitações de interesse social voltadas principalmente às famílias com renda na faixa de três salários mínimos. Também precisa promover mais concursos públicos para projetos que contemplem essa preocupação e estimulem a discussão arquitetônica e urbana. O docente da FEC lembra que o déficit habitacional brasileiro gira em torno de 8 milhões de unidades. "Não podemos encarar o desafio de oferecer moradia a um contingente tão grande da população com base em conceitos arquitetônicos e urbanísticos do passado. Continuar construindo bairros inteiros do zero em áreas isoladas das cidades, compostos por edificações monofuncionais, certamente não constitui uma alternativa sustentável do ponto de vista urbano e social", reflete.

Ainda conforme o orientador da pesquisa, que contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma alternativa para incrementar a geração de novas moradias de interesse social seria o aproveitamento dos prédios abandonados localizados nas áreas centrais das médias e grandes cidades brasileiras, como já vem sendo incentivado pelo Programa de Arrendamento Residencial (PAR). De acordo com estudo realizado pela USP, existiriam o equivalente a 7 milhões de habitações nessas condições. "Ou seja, o aproveitamento desses imóveis praticamente resolveria o nosso problema de déficit habitacional, isso sem construir nada. É uma alternativa fantástica do ponto de vista econômico e ambiental, ainda que sua real implantação demande complexos acordos políticos e econômicos", diz Leandro Medrano. Na FEC, destaca o docente, existe uma área dedicada exclusivamente ao estudo de habitações de interesse social em áreas centrais consolidadas.

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/marco2009/ju422_pag12.php

Acima, projeto vencedor do Habitasampa Assembléia: infográficos com eixos de implantação, área construída e espaços públicos; abaixo, perspectiva aérea do projeto Zaanwerf, apresentado em concurso na Holanda

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/marco2009/ju422_pag12.php

A arquitetura brasileira ainda está formando consciência acerca da necessidade da construção de habitações de interesse social (HIS), notadamente quando a proposta é inserir esse tipo de edificação nos centros consolidados de médias e grandes cidades. A constatação é da primeira dissertação de mestrado na área defendida por ex-aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp, criado em 1999. De acordo com a autora do trabalho, Julia Spinelli, que comparou projetos nacionais e europeus, todos apresentados em concursos públicos, o processo ainda não está amadurecido no Brasil porque o país começou a considerar efetivamente esse tipo de solução há pouco tempo, a partir dos anos 90. "Na Europa e Estados Unidos, as discussões nesse sentido remontam à década de 70", afirma. O trabalho foi orientado pelo professor Leandro Medrano.

Em sua pesquisa, Julia considerou os projetos que obtiveram as primeiras e segundas colocações em concurso público promovido pela Prefeitura de São Paulo, entre 2003 e 2004, com o apoio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Nenhum deles, porém, foi construído. A razão alegada para o engavetamento da proposta foi a mudança da gestão municipal e, com isso, a inversão das intenções para a área central. A ideia original do concurso era a construção de edificações multifuncionais, que abrigassem habitações de interesse social e programas institucionais, como uma escola para a formação de profissionais aptos a trabalhar na reforma e restauro de prédios históricos. As áreas escolhidas para receber as estruturas foram uma quadra no bairro da Barra Funda e um terreno nas imediações da Praça da Sé.

Depois de analisar os projetos brasileiros, Julia os comparou com similares europeus. O dado interessante, segundo ela, é que as áreas centrais, tanto no Brasil quanto na Europa, apresentavam semelhanças entre si. Todas tinham como característica o fato de serem núcleos urbanos consolidados que careciam de revitalização, principalmente por meio do fortalecimento da diversidade social local. "Entretanto, ao confrontar os projetos, a partir de seus conceitos e tecnologias, pude identificar grandes diferenças entre eles", assinala a autora da dissertação. Tais distinções, prossegue ela, estão relacionadas com o fato de o conceito de habitação de interesse social associada a centros consolidados ou históricos já fazer parte da cultura arquitetônica européia, enquanto que por aqui ele ainda está se firmando.

Na Europa, explica Julia, desde 1989 é realizado o Europan, evento que congrega perto de 70 concursos públicos simultâneos, promovidos por diversos países do Continente. "Lá, cerca de 70% dos projetos vencedores são efetivamente construídos. Aqui, a porcentagem de construção de projetos vitoriosos em concursos de arquitetura, no mesmo período, é foi de 12%. Além disso, alguns governos europeus concedem bolsas aos jovens arquitetos, para que eles montem escritórios e participem desses certames. O Europan é visto pelos profissionais em início ou com poucos anos de carreira como uma grande oportunidade de inserção ou consolidação no mercado de trabalho", detalha. Entre as características dos projetos europeus, acrescenta o professor Leandro Medrano, destacam-se os compromissos de promover a diversidade social e cultural, oferecer condições dignas de moradia aos cidadãos de baixa renda e revigorar o ambiente urbano nas regiões centrais. Tais premissas estão associadas a inovações tecnológicas, conceituais e metodológicas incentivadas pelos concursos.

Preceitos semelhantes orientaram os projetos brasileiros analisados pela autora da dissertação, mas ela notou que o conceito mais geral não foi totalmente absorvido pelos projetos vencedores do concurso patrocinado pela Prefeitura de São Paulo. "Alguns dos projetos vencedores caberiam tanto na região central da Capital quanto na periferia. Ou seja, eles não trouxeram grandes inovações, como era esperado", avalia. Para o professor Leandro Medrano, isso se deve ao fato de o país ter optado, durante várias décadas, pela alternativa de construir moradias populares nas periferias dos municípios, onde os terrenos são mais baratos. "Entretanto, essa solução criou outros problemas, visto que as administrações municipais eram obrigadas a levar transporte, infraestrutura urbana e equipamentos públicos até esses locais. Somente a partir dos anos 90 é que começamos a discutir, a exemplo do que ocorria na Europa desde a década de 70, a necessidade construir habitações de interesse social em regiões mais adensadas, de modo a aproveitar a estrutura já existente e a eliminar os guetos que se formavam em determinados pontos das cidades", reforça.

Ainda em relação aos projetos vencedores do concurso lançado pela Prefeitura de São Paulo, Julia constatou alguns problemas técnicos, que segundo ela não podem ser considerados graves. Ainda assim, uma proposta projetava dormitórios voltados para a face Sul, o que não é desejável, no Brasil, em termos de insolação. Ademais, algumas unidades contavam com cômodos sem janelas, o que compromete o conforto térmico nos apartamentos. "São falhas que poderiam ser facilmente corrigidas", desconta a autora da dissertação. Conforme os projetos, o edifício da Barra Funda teria 160 unidades, sendo 40% com um dormitório, 30% com dois e outros 30% no formato de quitinetes. Destes, 5% seriam adaptados ao uso de deficientes físicos. Já o complexo projetado para a região da Sé teria 240 habitações, também divididas entre quitinetes e apartamentos de um e dois quartos.

Tanto no entender de Julia quanto no do professor Leandro Medrano, o Brasil ainda precisa aprofundar as discussões em torno da necessidade de construir, em regiões altamente adensadas, habitações de interesse social voltadas principalmente às famílias com renda na faixa de três salários mínimos. Também precisa promover mais concursos públicos para projetos que contemplem essa preocupação e estimulem a discussão arquitetônica e urbana. O docente da FEC lembra que o déficit habitacional brasileiro gira em torno de 8 milhões de unidades. "Não podemos encarar o desafio de oferecer moradia a um contingente tão grande da população com base em conceitos arquitetônicos e urbanísticos do passado. Continuar construindo bairros inteiros do zero em áreas isoladas das cidades, compostos por edificações monofuncionais, certamente não constitui uma alternativa sustentável do ponto de vista urbano e social", reflete.

Ainda conforme o orientador da pesquisa, que contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma alternativa para incrementar a geração de novas moradias de interesse social seria o aproveitamento dos prédios abandonados localizados nas áreas centrais das médias e grandes cidades brasileiras, como já vem sendo incentivado pelo Programa de Arrendamento Residencial (PAR). De acordo com estudo realizado pela USP, existiriam o equivalente a 7 milhões de habitações nessas condições. "Ou seja, o aproveitamento desses imóveis praticamente resolveria o nosso problema de déficit habitacional, isso sem construir nada. É uma alternativa fantástica do ponto de vista econômico e ambiental, ainda que sua real implantação demande complexos acordos políticos e econômicos", diz Leandro Medrano. Na FEC, destaca o docente, existe uma área dedicada exclusivamente ao estudo de habitações de interesse social em áreas centrais consolidadas.

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/marco2009/ju422_pag12.php

Acima, projeto vencedor do Habitasampa Assembléia: infográficos com eixos de implantação, área construída e espaços públicos; abaixo, perspectiva aérea do projeto Zaanwerf, apresentado em concurso na Holanda

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Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

Cheiro Bom Cheiro Ruim: Em busca do olfato perdido

Perceber os odores é fundamental para a qualidade de vida. É pelo olfato que o bebê encontra o seio da mãe. O que fazer quando o olfato enfraquece ou desaparece?

SHEILA LOBATO

Para grande parte dos animais, o olfato é o mais importante dos sentidos.
Para os humanos, ele não é menos primordial. Sentir o cheiro das coisas é tão importante que somente nos damos conta disso quando nosso olfato, por alguma razão, desaparece. Na maioria das vezes esse processo é lento e a pessoa nem percebe que está perdendo um sentido tão importante. Ao se desconfiar disso, deve-se procurar o médico. Não há tratamento clínico específico, mas um treinamento para recuperação do olfato que ele pode prescrever.

No exame clínico, o médico passa sob o nariz do paciente tiras de papel com cheiro e sem cheiro e pergunta quantos odores diferentes ele sentiu.
Pelas respostas, constata se o paciente está sentindo bem ou mal os cheiros.
O olfato pode desaparecer por traumatismo craniano, tumores na cabeça, cirurgias no cérebro, inalação frequente de substâncias tóxicas e certas disfunções orgânicas que afetam o funcionamento dos órgãos sensoriais.

Uma equipe de especialistas franceses liderada por Thomas Hummel desenvolveu um treinamento em que o paciente cheira frascos com diferentes odores duas vezes por dia, de manhã e à noite, durante pelo menos quatro a seis semanas. Depois desse tempo, o olfato começa a voltar na maioria dos casos. Os que não melhoram são submetidos a um tratamento mais intenso na clínica, com várias sessões de múltiplos cheiros e testes repetidos à exaustão.

Este sentido tem uma particularidade que a visão e a audição não têm: ao contrário das células oculares e auditivas, as olfativas se regeneram.
O treinamento estimula as células nervosas e o centro cerebral responsáveis pela transmissão e processamento da informação vinda das narinas.
É por isso que nosso nariz pode ser treinado para detectar odores, como os de perfumes e bebidas, um trabalho muito bem remunerado nas grandes indústrias do setor.

O custo do tratamento resumese ao médico e aos frasquinhos de vidro ou plástico contendo fitas de gaze com odores estimulantes.
Às vezes, o olfato do paciente volta sem nenhum tratamento.
Em 10% a 20% dos casos, a volta ocorre antes ou muito depois da média. Alguns casos são hereditários e não têm cura. Outros se devem à idade muito avançada e também não têm cura. No restante, a reabilitação se dá entre quatro e seis semanas.

O olfato é fundamental para a qualidade de vida. Sentir a fragrância das flores, o cheiro de sua comida predileta, o perfume da pessoa amada é parte essencial dos prazeres da vida. Sentir o cheiro do gás vazando do fogão ou do peixe que está se estragando é essencial à preservação dela. É pelo olfato que o bebê encontra o seio da mãe e é pelo cheiro da fumaça que fugimos do incêndio enquanto é tempo.

Mas, apesar de tão importante, pouco mais de 5% das pessoas não sentem cheiro nenhum. Sofrem de anosmia, um mal hereditário.
E uma a cada quatro pessoas após os 60 anos também.
Nessa idade, é importante prestar atenção não só à audição e à visão, mas ao olfato. O cheiro vem sempre de um gás. Quando se está cozinhando, o cheiro que se sente é dos gases do alimento e dos temperos liberados pelo calor. Moléculas desses gases entram nas cavidades nasais e as células olfativas localizadas nas mucosas, dotadas de cílios minúsculos, absorvem as partículas de gás.

O nervo olfativo e o nervo trigêmeo levam a sensação ao centro cerebral responsável pelo olfato.O primeiro transporta os odores mais puros, enquanto o trigêmeo transmite mais as sensações desagradáveis, como os cheiros amargos e picantes – por exemplo, do amoníaco e das cebolas.
No cérebro, as sensações são identificadas, classificadas e arquivadas.

É assim que sabemos que um determinado cheiro é de um alimento ou de outro, de uma flor ou de outra, do nosso marido ou da nossa mulher – ou de outros -, da roupa de cama limpa, do bolo de chocolate assando no forno, do cheiro do campo, do mar, do peixe estragado, do estrume do gado e outros.

O ser humano pode distinguir mais de 10 mil cheiros diferentes.
Cada um tem sua própria representação em nosso cérebro, conforme a impressão que nos causou. A maioria dessas impressões é coletada quando temos entre 0 e 3 anos de idade, mas nunca paramos de aprender.
E muitas são eminentemente pessoais: um cheiro pode ser de alguma coisa para um e de outra coisa para outro, pode evocar uma coisa boa para um e má para outro.

Este sentido tem uma particularidade que a visão e a audição não têm: ao contrário das células oculares e auditivas, as olfativas se regeneram

Algumas pessoas perdem o olfato antes de surgirem doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. A perda do olfato é, com frequência, um aviso de mal de Parkinson. O tratamento depende da causa identificada. A retificação do septo nasal é um caso frequente,pois o desvio do septo é uma causa comum de perda do olfato.

Pólipos no nariz também provocam a perda de olfato e podem ser retirados por cirurgia. O diabete não tratado ou tratado inadequadamente também pode ocasionar a perda de olfato, e a recuperação virá com o tratamento efetivo do diabete. Uma gripe tem o mesmo efeito, e o olfato volta depois que é curada.

São raros os casos de anosmia por hereditariedade e quando ocorrem, em geral, afetam as mulheres. São comuns, porém, os casos em que a perda se deve a uma pancada na cabeça, por acidente, queda ou agressão.
Uma pancada forte na parte de trás da cabeça repercute violentamente na parte da frente e pode romper o nervo olfativo, que fica logo atrás da testa

Nos treinamentos de recuperação, pode-se fazer um programa para recuperar primeiramente o nervo trigêmeo e depois o olfativo.
Nesse caso, o paciente receberá para cheirar recipientes contendo os cheiros mais fortes e desagradáveis, como os do amoníaco, da cebola e do alho.
As células reagem ao estímulo multiplicando- se e levando mais informação ao trigêmeo, que por sua vez é estimulado a funcionar mais ativamente.
Nas sessões de treinamento, repetem-se 30 ou 40 vezes os mesmos exercícios. Entre uma sessão e outra, o paciente deve fazer exercícios em casa.

Há muitos casos em que a perda do gosto se deve à perda do olfato. A pessoa se queixa de que não sente mais o gosto de nenhum alimento e o problema não está nas células gustativas, mas nas olfativas.
O olfato está intimamente associado à degustação e é um fator dominante: sem o olfato, é impossível sentir o gosto real das coisas. O sabor de um abacaxi, por exemplo, depende da interação entre o gosto e o olfato. Sem o aroma, o abacaxi pode ser doce ou ácido, mas não é abacaxi. E assim com qualquer fruta, que será somente doce ou ácida se o olfato for suprimido. Os centros cerebrais da emoção e da memória também atuam em conjunto com o do olfato. Por isso, certos cheiros evocam lembranças de fatos ocorridos há muito tempo em nossas vidas, ou coisas que até já esquecemos, mas ficaram em nosso subconsciente. E, como esses fatos deixaram impressões em nosso centro de emoções, certos cheiros despertam emoções boas ou ruins.

O olfato é , dos nossos sentidos, o mais antigo e o mais ligado às emoções. Quem não se lembra do cheirinho de pão assando no forno da vovó quando vai à padaria comprar pão para o café? E do próprio café, quando na fazenda de sua infância espalhavam os grãos pelo sequeiro e depois o levavam para torrar? Sem essas lembranças, evocadas por aromas fugidios e sutis, uma parte de nossa história é perdida para sempre. O sabor de momentos que gostaríamos de reter como parte de nossa intimidade se vai. Pessoas depressivas têm o olfato menos desenvolvido que pessoas não depressivas, segundo pesquisas realizadas pela psicóloga francesa Bettina Pause.

Não se sabe se isso é causa ou consequência, mas 75% dos pacientes que procuram a clínica de Thomas Hummel sofrem de alguma forma de depressão. Ainda não se sabe se ou quantos se curam da depressão depois de recuperarem o olfato. Mas que vale a pena recuperar o olfato perdido, ninguém duvida.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

O legado da era Bush

Lluís Bassets

O cabo dos tormentos
Obama está prestes a dobrar esse cabo das tormentas que são os cem dias de sua presidência. A uma semana de tal feito, o oceano já começa a se mostrar tão bravio quanto exige a lenda. E não é por causa da economia, apesar de seu estado lamentável, nem pelo agitado mapa-múndi onde se desdobra a nova política americana. É pelas torturas, a ignomínia que mais sujou a presidência de George W. Bush e hipotecou a imagem de seu país no mundo.

Paul J. Richards/AFP

Foto de dezembro de 2006 mostra correntes para prender os pés dos presos em Guantánamo

 

 

 

 

 

 

 

O presidente declarou rapidamente com toda a clareza: aqui não se tortura. No segundo dia de seu mandato suspendeu todos os ditames legais que o permitiam. Na semana passada autorizou o levantamento do segredo sobre vários documentos do departamento jurídico de Bush que cobriam e autorizavam essas práticas. E esta semana deu a entender que será necessária uma investigação profunda e que não se podem descartar ações judiciais contra os juristas que fabricaram esses argumentos mentirosos para praticá-las.
Obama navega entre os que querem ajustar contas com Bush e os que o criticam como tolerante com o terrorismo. Esses últimos movimentos foram acompanhados de não poucas contradições e desmentidos entre os próprios colaboradores do presidente: no princípio Obama era partidário de olhar para a frente e evitar os ajustes de contas judiciais com a administração anterior, mas nem todos são da mesma opinião, sobretudo nas fileiras democratas.
E no outro campo a publicação dos documentos secretos e a eventualidade de uma investigação judicial que termine processando os advogados que fabricaram as desculpas jurídicas para as práticas ilegais está agindo como cimento aglutinador: nada produz mais coesão que o medo, neste caso dos juízes e da prisão. Antigos altos funcionários do governo Bush, encabeçados pelo vice-presidente Cheney, estão se unindo para defender a legalidade dos interrogatórios reforçados, o eufemismo no qual se inclui todo o repertório de técnicas de tormento, e advertem sobre o perigo que representa para a segurança dos EUA tanto a publicação como a investigação desse tipo de interrogatório.
Tudo isso, dizem, vai desanimar os agentes da CIA e seus parceiros e colaboradores dos serviços secretos dos países aliados e amigos. Mas o maior argumento, profunda e perversamente neoconservador, considera que Washington está renunciando a uma arma dissuasiva de primeira ordem para os terroristas e para qualquer inimigo atual ou futuro: até agora sabiam que seu governo estava disposto a fazer qualquer coisa, legal ou ilegal, em nome da segurança; a partir de agora sabem que é mais vulnerável porque impõe limites a si próprio.
A direita atribui a culpa de tudo isso a Obama. Alguma ele deve ter, sobretudo na clareza de suas ideias e na vontade de aplicá-las. Mas não é toda sua, e inclusive se fosse não estaríamos onde estamos agora, com um horizonte certamente cheio de nuvens pesadas para os torturadores. Obama, de disposição moderada e centrista, quer resolver as contas pendentes, mas quer fazê-lo de forma controlada e evitando danos colaterais.
A publicação dos memorandos sobre torturas não foi uma decisão fácil; em suas palavras, "uma das mais duras que tive de tomar como presidente". A culpa se espalha dentro e inclusive fora dos EUA. O próprio governo republicano começou a afrouxar nos últimos meses, quando o diretor do departamento jurídico de Bush, Steven Bradbury, autor de vários relatórios secretos, reconheceu em dois deles que as opiniões sobre os interrogatórios, as entregas extraordinárias de detidos a terceiros países e a detenção sem garantias "não deveriam ser consideradas como fonte de autoridade em nenhum sentido".
Em vários países europeus, entre os quais se destaca a Espanha, foram tentados processos legais contra os advogados da Casa Branca e outros funcionários que autorizaram as torturas. Um deles, Jay Bybee, atualmente juiz de apelações, se transformou em alvo de associações de direitos humanos que defendem sua demissão. Outras associações pedem o processamento de médicos e psicólogos que ajudaram a realizar os interrogatórios. No próprio Congresso há investigações em curso sobre todo o caso. A ONU também está tomando posição no assunto, na medida em que os EUA são signatários das convenções contra a tortura.
Embora o presidente tenha sido muito claro desde o primeiro dia, não se pode dizer o mesmo de seus colaboradores. Seu chefe de gabinete, Rahm Emmanuel, não queria saber nada de investigações nem de processos. O diretor da CIA, Leon Panetta, não excluiu que em algum momento tivesse de pedir permissão presidencial para atuações excepcionais do mesmo tipo. O diretor nacional de Inteligência, Dennis Blair, admitiu que as torturas tinham produzido resultados valiosos.
Também não se deve esquecer que o Congresso – inclusive a atual presidente da Câmara, Nancy Pelosi – foi informado de tais práticas pelo governo anterior. A iniciativa atual de Obama tem como efeito imediato amarrar as mãos dos que poderiam conservar o propósito de manter alguma das práticas de legalidade duvidosa do governo anterior, tal como lhe censuraram explicitamente o ex-diretor da CIA, Michael Hayden, e o ex-ministro da Justiça, Michael Mukasey, em um artigo conjunto no "Wall Street Journal". É um momento certamente decisivo, talvez o mais crucial dos cem dias, quando o barco presidencial se prepara para dobrar o cabo não das tormentas, mas dos tormentos.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

"O Irã também teria de ser um membro do Conselho de Segurança" (Entrevista com Mahmoud Ahmadinejad, parte 3)

Dieter Bednarz
Erich Follath
Georg Mascolo

O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falou à Spiegel sobre o que ele espera do presidente dos EUA Barack Obama, por que a nova estratégia dos EUA para o Afeganistão está errada e por que o Irã deve ter um lugar no Conselho de Segurança da ONU. A entrevista será publicada pelo UOL Notícias em três partes, em três dias consecutivos. Na primeira parte da conversa, o presidente iraniano disse que "Obama precisa transformar suas palavras em ações". Em seguida, Ahmadinejad questionou a ação norte-americana no Afeganistão e propôs a diminuição das ações militares. Confira abaixo a última parte da entrevista.

Mahmoud Ahmadinejad

“Se uma tecnologia é benéfica, todos deveriam tê-la. Se não é, ninguém deveria. Como pode os Estados Unidos terem 5.400 ogivas nucleares e a Alemanha não ter nenhuma? E nós não podemos nem mesmo buscar o uso pacífico da energia nuclear? Nossa lógica é totalmente clara: direitos iguais para todos. A composição do Conselho de Segurança e o veto de seus membros permanentes são consequências da 2ª Guerra Mundial, que terminou há 60 anos. As potências vitoriosas devem continuar dominando a humanidade para sempre, elas devem constituir o governo do mundo? A composição do Conselho de Segurança deve ser mudada”

Spiegel: O senhor se opõe às nações mais importantes do mundo em um dos principais conflitos internacionais. O Irã é altamente suspeito de construir uma bomba nuclear sob o pretexto de realizar pesquisas civis. Apenas recentemente, o presidente Obama alertou quanto a esse perigo real durante visita à Europa. Existem quatro resoluções da ONU pedindo que o Irã pare com suas atividades de enriquecimento de urânio. Porque o senhor não atende a esses pedidos de uma vez por todas?
Ahmadinejad:
O que você quer dizer com isso?
Spiegel: Presidente, queremos dizer que o mundo está esperando um sinal de vocês, que estamos esperando um sinal. Por que o senhor não suspende o enriquecimento de urânio, pelo menos temporariamente, estabelecendo assim o alicerce para o começo de negociações sérias?
Ahmadinejad:
Essas discussões estão ultrapassadas. O tempo para isso já foi. Os 118 membros do Movimento Não-Alinhado nos apoiam unanimemente, assim como os 57 Estados membros da Organização da Conferência Islâmica. Se eliminarmos a duplicação entre os dois grupos, temos 125 países que estão ao nosso lado. Se poucos países se opõem a nós, você certamente não pode afirmar que é o mundo inteiro.
Spiegel: Estamos falando da Europa e dos Estados Unidos, não somos apenas um político que quer se encontrar com o senhor. Políticos italianos experientes o evitaram na conferência da ONU em Roma no ano passado.
Ahmadinejad:
Nós vemos isso também, é claro. Mas estamos dizendo que a Europa não é o mundo inteiro. Por que você acredita nisso? Além do mais, eu nem mesmo queria encontrar os políticos italianos.
Spiegel: Mesmo que o senhor se recuse a acreditar, o organismo internacional mais importante, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, quase que por unanimidade se opõe ao senhor. Não apenas as potências do Ocidente, mas também a China e a Rússia já aprovaram sanções contra o Irã.
Ahmadinejad:
Permita-me esclarecer as coisas, tanto legalmente quanto politicamente. Pelo menos dez membros do Conselho de Segurança da ONU…
Spiegel: … que inclui, além dos membros permanentes, os EUA, a Rússia, a Grã-Bretanha, França e China, dez representantes eleitos com base num princípio de rotatividade…
Ahmadinejad:
… diseram-nos que só votaram contra nós por causa da pressão americana e britânica. Muitos disseram isso nesta mesma sala.
Qual é o valor de um consentimento sob pressão? Consideramos que isso seja legalmente irrelevante. Falando politicamente, acreditamos que este não seja o jeito certo de administrar o mundo. Todos os povos precisam ser respeitados, e precisam ter os mesmos direitos garantidos.
Spiegel: Que direito tem o Irã de se sentir excluído?
Ahmadinejad:
Se uma tecnologia é benéfica, todos deveriam tê-la. Se não é, ninguém deveria. Como pode os Estados Unidos terem 5.400 ogivas nucleares e a Alemanha não ter nenhuma? E nós não podemos nem mesmo buscar o uso pacífico da energia nuclear? Nossa lógica é totalmente
clara: direitos iguais para todos. A composição do Conselho de Segurança e o veto de seus membros permanentes são consequências da 2ª Guerra Mundial, que terminou há 60 anos. As potências vitoriosas devem continuar dominando a humanidade para sempre, elas devem constituir o governo do mundo? A composição do Conselho de Segurança deve ser mudada.
Spiegel: O senhor se refere à Índia, Alemanha, África do Sul? O Irã também deveria ser um membro permanente do Conselho de Segurança?
Ahmadinejad:
Se as coisas fossem feitas com justiça no mundo, o Irã também teria de ser um membro do Conselho de Segurança. Nós não aceitamos a ideia de que um punhado de países veja a si mesmo como os donos do mundo. Eles deveriam abrir os olhos e reconhecer as condições reais.
Spiegel: Essas condições reais incluem sua recusa em abandonar o programa nuclear apesar da pressão internacional. Isso significa que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e seu diretor geral, Mohamed El-Baradei, pode desistir da tarefa de estabelecer negociações com o Irã? O enriquecimento do urânio não será interrompido sob nenhuma circunstância?
Ahmadinejad:
Acredito que eles já chegaram a essa conclusão em Vienna. Por que nos tornamos um membro da AIEA? Para que pudéssemos usar a energia para fins pacíficos. Quando um país se torna membro de uma organização internacional, ele só tem deveres, ou também tem direitos?
Que assistência recebemos da AIEA? Ela nos forneceu alguma tecnologia ou conhecimento? Não. Mas de acordo com seus estatutos, ela teria de fazer isso. Mas não, simplesmente executou as instruções vindas dos Estados Unidos.
Spiegel: Com todo o respeito, presidente, o Irã escondeu, enganou e deu informações falsas, o que levantou as suspeitas do mundo todo.
Infelizmente, a suspeita de que o senhor está abusando de seus direitos e desenvolvendo uma bomba secretamente não foi até agora descartada.
Ahmadinejad:
Onde é que nós enganamos? Essa é uma grande mentira! Nós cooperamos com a Agência de Energia Atômica. E além disso, a AIEA não foi fundada para que as potências nucleares se desarmassem? Onde estão os relatórios que documentam quem foi desarmado, e em que extensão?
Isso simplesmente não aconteceu. Estamos preocupados, e profundamente desconfiados.
Spiegel: O mundo não confia no senhor, e a maior preocupação do mundo é de que o senhor esteja construindo a bomba, porque se sente cercado de potências nucleares, os Estados Unidos, a Índia e o Paquistão, e não porque Israel possui a bomba.
Ahmadinejad:
Não temos interesse em construir uma arma nuclear. Nós enviamos milhares de páginas de relatórios à AIEA e possibilitamos milhares de horas de inspeção. Câmeras da AIEA monitoram nossas atividades. Quem é perigoso, e de quem os inspetores deveriam desconfiar? Daqueles que secretamente construíram a bomba, ou de nós, que cooperamos com a IAEA?
Spiegel: Certamente não se pode falar de uma vontade genuína de cooperar de sua parte. O diretor geral El-Baradei disse isso repetidas vezes em nossas conversas e isso também está documentado em relatórios públicos da AIEA.
Ahmadinejad:
Permita-me fazer duas observações finais em relação a essa questão nuclear. Primeiro, enquanto não houver justiça, não poderá haver solução. Não é possível medir o mundo com dois parâmetros – esse foi o grande erro de Bush. Os americanos não deveriam cometer o mesmo erro novamente. Nós dizemos: estamos dispostos a cooperar sob condições justas. As mesmas condições, e num campo nivelado. A segunda observação diz respeito aos defensores da guerra e aos sionistas…
Spiegel: … seu eterno inimigo de conveniência…
Ahmadinejad:
… cuja existência se alimenta da tensão e que enriqueceram com a guerra. E há também um terceiro grupo, os intolerantes, aqueles que estão interessados apenas no poder. O maior problema de Obama é a política interna. Por um lado, os EUA precisam do Irã e devem se realinhar de uma nova maneira. Por outro lado, o novo presidente dos EUA está sob pressão desses grupos. Decisões corajosas são necessárias, e a bola está na quadra de Obama.
Spiegel: Até recentemente, suas visões sobre os EUA incluíam a convicção de que um homem negro jamais pudesse ser presidente dos Estados Unidos. É possível que o senhor tenha uma imagem equivocada e totalmente distorcida dos EUA?
Ahmadinejad:
Não, não foi assim como você descreveu. Esperamos que as mudanças na política americana tenham uma natureza fundamental, e que muito mais tenha mudado além da cor. E que a política americana seja mais justa, para o benefício da África, Ásia e, principalmente, do Oriente Médio.
Spiegel: O senhor se tornou um dos jogadores políticos mais importantes na região porque se tornou um defensor da causa palestina.
Ahmadinejad:
Estamos defendendo mais do que os direitos básicos dos palestinos oprimidos. Nossa proposta para resolver os conflitos no Oriente Médio é de que os palestinos possam decidir seu próprio futuro num referendo livre. Você acha que é certo que alguns países europeus e os Estados Unidos apoiem o regime de ocupação e o Estado sionista artificial, mas condenem o Irã, simplesmente porque estamos defendendo os direitos do povo palestino?
Spiegel: Você está falando de Israel, um membro das Nações Unidas que foi reconhecido mundialmente há muitas décadas. O que o senhor faria se a maioria dos palestinos votassem por uma solução de dois Estados, ou seja, se eles reconhecessem o direito de existir de Israel?
Ahmadinejad:
Se eles decidissem assim, todos deveriam aceitar essa decisão…
Spiegel: … e o senhor teria de reconhecer Israel, um país que, no passado, o senhor disse que gostaria de "varrer do mapa". Por favor nos diga exatamente o que o senhor falou e qual o significado disso.
Ahmadinejad:
Deixe-me colocar assim, em tom de brincadeira: por que os alemães causaram tanta confusão no passado, permitindo que esses problemas surgissem, antes de mais nada? O regime sionista é resultado da 2ª Guerra Mundial. O que isso tem a ver com o povo palestino? Ou com a região do Oriente Médio? Acredito que devemos chegar à raiz do problema. Se não consideramos as causas, não pode haver solução.
Spiegel: Chegar à raiz do problema significa varrer Israel?
Ahmadinejad:
Significa exigir os direitos do povo palestino. Acredito que isso seja para o benefício de todos, para o dos EUA, Europa e Alemanha. Mas não queríamos discutir a Alemanha e as relações entre a Alemanha e o Irã?
Spiegel: É sobre isso que estamos falando. O fato de que o senhor nega o direito de existir de Israel é muito importante para as relações entre a Alemanha e o Irã.
Ahmadinejad:
Você acredita que o povo alemão apoia o regime sionista?
Você acredita que poderia haver um referendo na Alemanha sobre essa questão? Se permitissem que um referendo assim existisse, você descobriria que o povo alemão odeia o regime sionista.
Spiegel: Estamos confiantes que não é esse o caso.
Ahmadinejad:
Não acredito que os países europeus seriam tão indulgentes se apenas um centésimo dos crimes que o regime sionista cometeu em Gaza tivesse acontecido na Europa. Por que os governos europeus apoiam esse regime? Eu já tentei explicar isso para você antes…
Spiegel: … quando discutimos sobre sua negação do Holocausto há três anos [Veja a entrevista realizada em 2006 (em inglês)]. Depois da entrevista, enviamos um filme da Spiegel TV sobre o extermínio de judeus durante o Terceiro Reich. O senhor recebeu o DVD sobre o Holocausto, chegou a assisti-lo?
Ahmadinejad:
Sim, recebi o DVD. Não não quis responder a vocês sobre esse assunto. Acho que a controvérsia sobre o Holocausto não é um assunto para o povo alemão. O problema é mais profundo do que isso. A propósito, obrigado novamente por virem. Vocês são alemães, e tenho os alemães em alta conta.
Spiegel: O senhor tem alguma mensagem para o governo alemão?
Ahmadinejad:
Enviei uma carta para a chanceler Merkel há três anos, na qual eu enfatizava a importância de nossas relações históricas, culturais e econômicas e pedia para a Alemanha exercitar uma maior independência.
Spiegel: O Irã terá eleições presidenciais em 12 de junho. O senhor é considerado o favorito. Acha que vai vencer?
Ahmadinejad:
Vamos ver o que acontece. Nove semanas é muito tempo. Em nosso país, não há vencedores e, portanto, não há verdadeiros perdedores.
Spiegel: Se o senhor for reeleito, será o primeiro presidente da República Islâmica do Irã a apertar a mão de um presidente norte-americano?
Ahmadinejad:
O que você quer dizer?
Spiegel: Senhor presidente, obrigado pela entrevista.
Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

"A solução para o Afeganistão não é militar, mas humanitária" (Entrevista com Mahmoud Ahmadinejad, parte 2)

Dieter Bednarz
Erich Follath
Georg Mascolo

O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falou à Spiegel sobre o que ele espera do presidente dos EUA Barack Obama, por que a nova estratégia dos EUA para o Afeganistão está errada e por que o Irã deve ter um lugar no Conselho de Segurança da ONU. A entrevista será publicada pelo UOL Notícias em três partes, em três dias consecutivos. Na primeira parte da conversa, o presidente iraniano disse que "Obama precisa transformar suas palavras em ações". Confira abaixo a continuação da entrevista.

Mahmoud Ahmadinejad

“Nesse momento, digo para você que a nova política de Obama está errada.
Os americanos não têm familiaridade com a região, e a percepção dos comandantes da Otan está equivocada.
Digo isso na condição de um professor treinado: isso está errado. Pelo menos no que diz respeito aos US$ 250 bilhões – se o dinheiro tivesse sido gasto nos EUA, talvez tivesse resolvido o problema do desemprego, pelo menos em parte. E talvez hoje não houvesse crise econômica”

 

 

Spiegel: É verdade que a reputação dos EUA no mundo sofreu com o presidente George W. Bush. Mas com todo o respeito, presidente, a reputação do Irã também sofreu tremendamente durante seu tempo de governo.
Ahmadinejad: Onde? Com quem? Com os que estão no poder ou com o povo? Com que povo e com que governos? Durante os mais de três anos que estou no governo, visitei mais de 60 países, onde fui recebido com grande afeição tanto pelo povo nas ruas quanto pelos que estão no governo. Temos o apoio de 118 países do Movimento Não-Alinhado. Concordo que nossa reputação junto ao governo americano e a alguns governos europeus não é positiva. Mas isso é problema deles. Todos os povos estão fartos do governo americano.
Spiegel: Mas o senhor não está nem mesmo dando uma chance ao novo governo. Sua atitude é caracterizada pela falta de confiança.
Ahmadinejad:
Nós falamos de Barack Obama com muito respeito. Mas somos realistas. Queremos ver mudanças concretas. Nesse contexto, também estamos interessados em ajudar a corrigir uma política equivocada no Afeganistão.
Spiegel: O que o senhor propõe fazer?
Ahmadinejad:
Veja, mais de US$ 250 bilhões foram gastos na campanha militar no Afeganistão até hoje. Com uma população de 30 milhões, isso chega a mais de US$ 8 mil por pessoa, ou cerca de US$ 42 mil para uma família média de cinco pessoas. Fábricas e estradas poderiam ter sido construídas, universidades criadas e campos cultivados para o povo afegão. Se isso tivesse acontecido, será que haveria algum espaço para os terroristas? É preciso agir na raiz do problema, e não nos galhos.
A solução para o Afeganistão não é militar, mas humanitária. É do interesse do Ocidente nos ouvir, e se não o fizerem, nós lavamos nossas mãos em relação ao assunto. Somos apenas observadores. Nós lamentamos profundamente a perda de vidas humanas, não importa quais vidas foram tiradas. Isso vale tanto para os civis afegãos quanto para as forças militares que intervieram no país.
Spiegel: Isso soa como se o senhor não tivesse nenhum interesse em ajudar os americanos e a Otan a lutar contra o Taleban. Obama coloca mais ênfase na reconstrução civil, mas ele também acredita que é preciso usar a força militar para lidar com os radicais que querem atrapalhar essa reconstrução.
Ahmadinejad:
Nesse momento, digo para você que a nova política de Obama está errada. Os americanos não têm familiaridade com a região, e a percepção dos comandantes da Otan está equivocada. Digo isso na condição de um professor treinado: isso está errado. Pelo menos no que diz respeito aos US$ 250 bilhões – se o dinheiro tivesse sido gasto nos EUA, talvez tivesse resolvido o problema do desemprego, pelo menos em parte. E talvez hoje não houvesse crise econômica.
Spiegel: O senhor está seriamente insistindo que os EUA se retirem da região?
Ahmadinejad:
É preciso ter um plano, é claro. Uma retirada só pode ser feita com várias medidas. É preciso que seja acompanhada por outras ações simultâneas, como um fortalecimento do governo regional. Você sabe que a produção de narcóticos cresceu cinco vezes durante o comando da Otan no Afeganistão? Narcóticos! Isso mata gente. Perdemos mais de 3.300 pessoas na guerra contra o tráfico de drogas. Nossa força policial se sacrificou ao defender nossa fronteira de mil quilômetros com o Afeganistão.
Spiegel: O Irã sempre se opôs ao Taleban. Mas o retorno deles ao poder não pode ser evitado sem a força militar.
Ahmadinejad:
O poder deve ser dado ao povo. Isso requer ajuda econômica, além de um processo político claro. O governo afegão deveria ter recebido mais responsabilidade nos últimos sete anos. O presidente Hamid Karzai disse para mim uma vez: eles não permitem que façamos nosso trabalho.
Spiegel: Todos, incluindo os americanos, enfatizam que as pessoas precisam ser respeitadas. Obama e a Otan concordaram com uma lista abrangente de medidas para o Afeganistão e estão contando com o apoio do Irã a essas medidas, em prol de um Afeganistão estável. O senhor tem a intenção de recusar qualquer cooperação?
Ahmadinejad:
Acredito que o caminho diplomático seja a abordagem correta para avaliar uma opção como essa. Vocês são jornalistas, não representantes da Otan, é por isso que não vou explicar minha posição em relação a isso. Se recebermos um pedido por meio dos canais diplomáticos, responderemos.
Spiegel: Mas alguns políticos em Teerã temem o contato com os EUA. De acordo com oficiais norte-americanos, o vice-ministro de exterior do Irã, Mohammed Mehdi Ahundzadeh, cumprimentou o enviado especial dos EUA Richard Holbrooke na conferência sobre o Afeganistão em Haia na semana passada, mas depois o ministro de exterior negou veementemente o encontro. Como podemos confiar em sua disposição para cooperar se um inofensivo aperto de mão representa um problema para vocês?
Ahmadinejad:
Não acho que isso seja de fato relevante. Um aperto de mão, uma gentileza, isso não é um problema a meu ver.
Spiegel: O senhor está minimizando o fato. Mas talvez haja mais coisas por trás de um aperto de mão que causem tumulto. Talvez seja um símbolo de quão profunda é a rixa entre Teerã e Washington – e do fato de que vocês estão de fato indispostos a se acertar com seu favorito arqui-inimigo.
Ahmadinejad:
Naturalmente, não podemos esperar que problemas que surgiram durante mais de meio século sejam resolvidos em apenas alguns dias. Não somos obstinados nem ingênuos. Somos realistas. O importante é a determinação de fazer melhorias. Se a atmosfera muda, é possível encontrar soluções.
Spiegel: O senhor, assim como os americanos, faz uma distinção entre o Taleban incorrigível que deve ser combatido, e o Taleban moderado, com o qual é possível manter um diálogo?
Ahmadinejad:
Eu não me aventuraria a um veredicto conclusivo sobre esse aspecto. Eu não sei o que isso significa. Não se esqueça, o povo afegão tem laços históricos estreitos com o Irã. Mais de três milhões de cidadãos afegãos vivem no nosso país. E como também somos amigáveis com os alemães, eu repito: uma presença militar mais forte não é a solução.
Spiegel: O senhor está preocupado com os soldados alemães no Afeganistão?
Ahmadinejad:
Nós também gostamos dos alemães. Estamos preocupados.
Spiegel: E ainda assim o senhor ignora as consequências.
Ahmadinejad:
Não. Se algo nos é explicado de uma maneira lógica, nós aceitamos. Nós negociamos com os americanos no Iraque, ainda que isso fosse contra o nosso princípio básico de não falar com os americanos.
Fizemos isso por causa do problema em questão, dentro do contexto da lógica clara.
Spiegel: Se as tropas americanas se retirarem do Iraque, a situação de segurança provavelmente irá se deteriorar dramaticamente. Vocês irão preencher o vácuo de poder no vizinho Iraque, onde seus colegas xiitas somam dois terços da população? Vocês defendem o estabelecimento de uma teocracia, uma República Islâmica do Iraque?
Ahmadinejad:
Acreditamos que o povo iraquiano é capaz de cuidar de sua própria segurança. O povo iraquiano tem uma civilização com mais de mil anos de história. Nós apoiaremos o que quer que os iraquianos decidam fazer e qualquer forma de governo que escolherem. Um Iraque soberano, unido e forte é benéfico para todos. Nós receberíamos bem isso.
Spiegel: Os serviços de inteligência americanos concluíram que Teerã desempenha um papel totalmente diferente no Iraque. A CIA alega que o Irã está incitando a resistência às tropas através das milícias xiitas.
Ahmadinejad:
Não prestamos atenção aos relatórios dos serviços de inteligência americanos. Os americanos ocuparam o Iraque e são responsáveis por sua segurança. No passado, eles quiseram desviar a atenção de seus próprios erros culpando-nos pela agitação. Eles precisam corrigir os próprios erros. As coisas melhoraram para os americanos desde que eles reconheceram isso e começaram a respeitar o povo iraquiano. Nossas relações com Bagdá são muito próximas. Nós apoiamos totalmente o governo iraquiano. Como sempre, nossas políticas são totalmente transparentes.
Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

"Sentimos que Obama precisa transformar suas palavras em ações" (Entrevista com Mahmoud Ahmadinejad, parte 1)

Dieter Bednarz
Erich Follath
Georg Mascolo

O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falou à Spiegel sobre o que ele espera do presidente dos EUA Barack Obama, por que a nova estratégia dos EUA para o Afeganistão está errada e por que o Irã deve ter um lugar no Conselho de Segurança da ONU. A entrevista será publicada pelo UOL Notícias em três partes, em três dias consecutivos. Confira abaixo a primeira parte da conversa.

Mahmoud Ahmadinejad

“Achei surpreendente que Obama tenha dado um valor tão alto para a civilização iraniana, nossa história e cultura. Também é positivo o fato de ele ter enfatizado o respeito mútuo e as interações honestas como base para a cooperação. Em uma parte de seu discurso, ele diz que uma nação no mundo não depende apenas de armas e força militar, foi exatamente isso o que dissemos para os governos americanos anteriores. O grande erro de George W. Bush foi que ele queria resolver todos os problemas militarmente. Já se foram os dias em que um país podia enviar ordens para outros povos. Hoje, a humanidade precisa de cultura, ideias e lógica”

Spiegel: Presidente, até agora o senhor viajou para os Estados Unidos quatro vezes para comparecer à Assembléia Geral das Nações Unidas.Qual é a sua impressão dos EUA e dos norte-americanos?
Ahmadinejad:
Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo, tenho prazer de recebê-los em Teerã mais uma vez, depois de nossa extensa conversa há quase três anos [Veja a entrevista realizada em 2006 (em inglês)]. Agora sobre os EUA: É claro, é impossível conhecer um país como os Estados Unidos em algumas visitas curtas, mas meu discurso e as discussões na Universidade de Columbia foram muito especiais para mim. Tenho muita consciência de que deve-se fazer uma distinção entre o governo americano e o povo americano. Nós não responsabilizamos os americanos pelas decisões equivocadas do governo Bush. Eles querem viver em paz, como todos nós.
Spiegel: O novo presidente dos EUA, Barack Obama, enviou uma mensagem em vídeo para a nação iraniana há três semanas, durante o festival de Ano Novo iraniano. O senhor assistiu ao discurso?
Ahmadinejad:
Sim. Coisas importantes estão acontecendo nos Estados Unidos. Acredito que os americanos estejam no processo de iniciar desenvolvimentos importantes.
Spiegel: Como o senhor se sentiu em relação ao discurso?
Ahmadinejad:
Ambivalente. Algumas passagens eram novas, enquanto outras repetiam posições já bem conhecidas. Achei surpreendente que Obama tenha dado um valor tão alto para a civilização iraniana, nossa história e cultura. Também é positivo o fato de ele ter enfatizado o respeito mútuo e as interações honestas como base para a cooperação.Em uma parte de seu discurso, ele diz que uma nação no mundo não depende apenas de armas e força militar, foi exatamente isso o que dissemos para os governos americanos anteriores. O grande erro de George W. Bush foi que ele queria resolver todos os problemas militarmente. Já se foram os dias em que um país podia enviar ordens para outros povos. Hoje, a humanidade precisa de cultura, ideias e lógica.
Spiegel: O que isso significa?
Ahmadinejad:
Sentimos que Obama precisa transformar suas palavras em ações.
Spiegel: O novo presidente dos EUA, apesar de ter chamado de "repugnantes" as críticas anti-israelenses agressivas feitas pelo senhor, ainda assim falou de um novo começo nas relações com o Irã e estendeu suas mãos.
Ahmadinejad:
Eu não entendi os comentários de Obama exatamente assim. Presto atenção ao que ele diz hoje. Mas é por isso mesmo que eu vejo que falta algo de decisivo. O que o leva a falar sobre um novo começo? Aconteceu alguma mudança na política americana? Nós recebemos bem as mudanças, mas elas ainda têm de ocorrer.
Spiegel: O senhor está constantemente fazendo demandas. Mas a verdade é: suas políticas, as relações desastrosas do Irã com os Estados Unidos, são um peso para a comunidade global e uma ameaça para a paz mundial. Onde está a sua contribuição para aliviar as tensões?
Ahmadinejad:
Eu já expliquei isso para você. Apoiamos as conversações com base na justiça e no respeito. Essa sempre foi nossa posição. Estamos esperando que Obama anuncie seus planos, para que possamos analisá-los.
Spiegel: E é só?
Ahmadinejad:
Temos que esperar e ver o que Obama quer fazer.
Spiegel:> O mundo vê de forma diferente, e nós também. O Irã precisa agir. O Irã precisa mostrar que tem boa vontade.
Ahmadinejad:
Onde fica esse mundo do qual você está falando? O que nós temos que fazer? Você está ciente de que não fomos nós que cortamos relações com os Estados Unidos. Os Estados Unidos cortaram relações conosco. O que você espera do Irã agora?
Spiegel: Atitudes concretas, ou pelo menos um gesto de sua parte.
Ahmadinejad:
Eu já respondi a essa pergunta. Washington cortou relações.
Spiegel: O senhor está dizendo que receberia bem uma retomada das relações com os Estados Unidos?
Ahmadinejad:
O que você acha? O que deve acontecer? Qual abordagem é a correta?
Spiegel: O mundo espera respostas do senhor, não de nós.
Ahmadinejad:
Mas eu enviei uma mensagem para o novo presidente dos EUA. Foi um grande passo, um passo imenso. Eu o parabenizei por sua vitória nas eleições, e disse algumas coisas em minha carta. Isso foi feito com cuidado. Nós estávamos e continuamos interessados em mudanças significativas. Se quisermos resolver o problema entre nossos países, é importante reconhecer que o Irã não exerceu um papel no desenvolvimento desse problema. O comportamento dos governos americanos foi a causa. Se o comportamento dos Estados Unidos mudar, podemos esperar um progresso importante…
Spiegel: … isso poderia levar à retomada de relações diplomáticas, talvez até à reabertura da embaixada, que foi ocupada em 1979, ano da revolução?
Ahmadinejad:
Ainda não recebemos um pedido oficial nesse sentido. Se isso acontecer, tomaremos uma posição sobre o assunto. Esta não é uma questão de forma. Mudanças fundamentais precisam acontecer, para beneficiar todos os envolvidos. O governo americano precisa finalmente aprender lições com o passado.
Spiegel: E o senhor não?
Ahmadinejad:
Todos precisam aprender com o passado.
Spiegel: Então, por favor, nos diga quais lições o senhor está aprendendo.
Ahmadinejad:
Estivemos sob pressão durante os últimos 30 anos, injustamente e sem que tivéssemos cometido erros. Nós não fizemos nada…
Spiegel: …de acordo com o senhor. Os americanos veem as coisas de um jeito bem diferente. A crise dos reféns de 444 dias, durante a qual 50 cidadãos americanos foram detidos no final de 1979 até o começo de 1981 na embaixada americana em Teerã, ainda hoje é um trauma coletivo americano.
Ahmadinejad:
Mas pense nas coisas que foram feitas aos iranianos! Nós fomos atacados pelo Iraque. Foram oito anos de guerra. Os Estados Unidos e alguns países europeus apoiavam essa agressão. Nós fomos atacados até mesmo com armas químicas e o seu país, entre outros, ajudou e encorajou esses ataques. Nós não cometemos uma injustiça com ninguém. Não queríamos atacar ninguém, nem ocupamos outros países. Não temos presença militar na Europa ou nos EUA. Mas as tropas da Europa e dos EUA estão estacionadas ao longo de nossas fronteiras.
Spiegel: Os governos ocidentais, incluindo o da Alemanha, estão convencidos de que o Irã apoia organizações terroristas e de que o Irã teve dissidentes mortos no exterior. Talvez os erros não tenham sido cometidos apenas por um lado…
Ahmadinejad:
Você quer dizer que as tropas foram colocadas ao longo de nossas fronteiras porque nós supostamente apoiamos organizações terroristas?
Spiegel: Nós não dissemos nem concluímos isso. Mas a acusação de apoio ao terrorismo foi feita. Onde está sua contribuição construtiva?
Ahmadinejad:
Antes de mais nada: nós não praticamos o terror, mas somos vítimas dele. Depois da revolução, nosso presidente e primeiro-ministro foram mortos num ataque a bomba no prédio adjacente ao meu gabinete. Nossa fé proíbe que nos engajemos no terrorismo. E no que diz respeito às contribuições construtivas que nos cobram, nós contribuímos com a estabilização tanto do Afeganistão quanto do Iraque nos últimos anos. Enquanto fazíamos essas contribuições, o governo Bush nos acusou de fazer o oposto. Você acredita que os problemas podem ser resolvidos com força militar e invasão? A estratégia empregada pelos EUA e pela Otan não estava errada desde o princípio? Nós sempre dissemos que essa não é a maneira de lutar contra os terroristas. Hoje eles estão mais fortes do que nunca.
Spiegel: Mais uma vez, não vemos evidência de nenhuma autocrítica.
Ahmadinejad:
Então porque você não me diz quais são os erros que nós supostamente cometemos. Não temos interesse num acerto de contas histórico.
Spiegel: O senhor não está insistindo que os americanos peçam desculpas pelo golpe da CIA em 1953 contra o primeiro-ministro iraniano eleito Mohammed Mossadegh?
Ahmadinejad:
Nós não queremos nos vingar. Só queremos que os americanos corrijam seu curso. Você vê de fato algum sinal de que isso esteja acontecendo?
Spiegel: Sim, vemos. George W. Bush declarou que o Irã era um integrante do Eixo do Mal e ameaçou Teerã, pelo menos indiretamente, com uma mudança de regime. Não há mais nenhuma menção a isso no governo Obama.
Ahmadinejad:
Há mudanças na escolha da linguagem. Mas não é suficiente. Durante os últimos 30 anos, a Alemanha e outros países europeus estiveram sob pressão dos americanos para não melhorarem suas relações com Teerã. É o que todos os estadistas europeus nos dizem.
Spiegel: Foi isso o que o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder disse quando o senhor se encontrou com ele em Teerã em fevereiro?
Ahmadinejad:
Sim, ele disse isso, entre outras coisas. Agora esperamos ver ações concretas. Isso é bom para todos, mas é especialmente benéfico para os Estados Unidos, porque a posição americana no mundo não é exatamente boa. Ninguém confia nas palavras dos americanos.
Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

O adulto desmontado

Cada vez mais pessoas crescidas teimam em continuar vivendo como adolescentes e já não existem referências claras sobre o que é ser adulto e se comportar como tal. Por que anda tão difícil envelhecer?

Mariana Sgarioni

O cara só usa bermudão e camiseta tipo skatista, fala gíria e masca chiclete sem parar, mora com os pais, nunca se preocupou em aprender a fazer um nó de gravata (ele só tem uma, comprada para o casamento do melhor amigo), se nega a assumir o relacionamento com a "ficante" oficial há mais de um ano, e, para completar, acha que previdência não é assunto que lhe deva despertar interesse. Há alguns anos, tal descrição certamente seria referente a um rapaz de 18 anos. Acontece que as fronteiras etárias se tornaram nebulosas: atualmente o perfil acima também corresponde a muitos homens de 35 ou 40 anos. Eles fazem parte de uma turma que anda com uma certa dificuldade – para não dizer aversão – de encarar a vida adulta como ela é conhecida. Aquela vida chata, mas inevitável, cheia de responsabilidades e suas conseqüências. Como, por exemplo, trocar a lâmpada queimada da geladeira, lembrar de pagar o seguro do carro, usar terno e gravata ou salto alto quando for necessário, concordar em estabelecer vínculos verdadeiros com os outros. Enfim, aceitar a maturidade e assumir de vez o controle da própria vida. Está parecendo papo de gente careta? Cuidado, você pode ser o cara descrito ali atrás: um adultescente em potencial.

Por que é difícil crescer?

Não faz tanto tempo (coisa de 30 ou 40 anos atrás), as opções de estilo de vida eram um tanto restritas. As mulheres eram educadas para se casar e ter filhos. Já os homens, para serem chefes de família e manterem um emprego estável. Quando atingiam esse estágio, pronto, se tornavam adultos aos olhos de todos. E o que fugisse disso causava uma certa indignação. O negócio é que os dias de hoje – ainda bem – permitem outras escolhas que não são mais marginalizadas. É possível não casar, trocar de emprego toda hora, não ter filhos, deixar a faculdade para mais tarde, morar fora do país… o leque é infinito. "Isso é bom, por um lado, uma vez que a vida passou a ser menos restritiva", afirma a psicóloga Maria Tereza Maldonado, autora do livro Maturidade. "Mas, por outro, gerou a cultura do transitório, do descartável, algo típico do comportamento adolescente que não se preocupa em se responsabilizar por nada. Ninguém quer mais nada a longo prazo que gere comprometimento, uma vez que isso implica renúncias, tolerância, paciência e, principalmente, maturidade emocional."

Existe também um aspecto mercadológico na adultescência. A partir do período pós-guerra, tudo o que remete à juventude passou a ser extremamente valorizado. Não é cool comprar fixador de dentaduras, mas é bacana ostentar uma calça jeans de cintura baixa – não interessa se o "corpitcho" já não tem o vigor dos 20 anos. Não é surpreendente que o fenômeno só atinja indivíduos das classes mais abonadas, que podem se dar ao luxo de manter o estilo de vida juvenil indefinidamente (ou cujos pais têm condições de bancar esse luxo).

Antigamente, mesmo esses bem-nascidos tinham uma senha para ingressar na idade adulta: o fim dos estudos (e a conseqüente entrada no mercado de trabalho), quando o cidadão passava a ganhar seu próprio dinheiro e se sustentar sozinho. Isso acontecia, em geral, no fim da faculdade. Agora, a vida escolar pode se alongar ad aeternum: as pós-graduações e os cursos de extensão podem esticar a fase de estudos e a dependência financeira até por volta dos 27 anos. Sem contar que a conclusão da universidade não significa mais nenhuma garantia de emprego. Debaixo do teto e proteção dos pais, fica bem mais difícil mesmo saber onde fica o botijão de gás.

Biologicamente falando, existe ainda outra justificativa para os garotões de meia-idade: no ser humano, a adolescência tem idade certa para começar, a entrada na puberdade, por volta dos 11 anos. Mas não tem idade para terminar. Por isso, nas culturas primitivas, existiam rituais de passagem, justamente para marcar a diferença entre jovens e adultos. Até hoje, diversas etnias continuam promovendo esses rituais, por vezes bem dolorosos inclusive (veja quadro ao lado), mas indispensáveis para a entrada no convívio com os mais velhos. "Crescer invariavelmente dói, não tem jeito. O negócio é que as sociedades mais complexas acabaram criando uma cultura de proteção excessiva à criança e ao adolescente, que acaba não preparando para a vida adulta", diz Francisco Assumpção, psiquiatra de crianças e professor do Instituto de Psicologia da USP. "Os pais assumem toda a responsabilidade pelo filho durante muito tempo. Portanto, é muito mais confortável continuar debaixo das asas de quem resolve tudo pra você. Afinal, ser adulto é não apenas correr riscos como também bancar o preço desses riscos."

Maturidade = caretice

Mas o que acontece quando os adultescentes têm filhos? Aí é que está. Como a idade cronológica dessa turma passa dos 30, é evidente pensar que a geração dos eternos imaturos está procriando. O fenômeno tem chamado tanto a atenção que, segundo a revista americana New York, já existe até um nome para esses pais: os grups. Trata-se de uma contração da palavra grown-ups ("adultos", em inglês), e se refere a um episódio do seriado Jornada nas Estrelas em que aparece um planeta governado por crianças, uma vez que os adultos desapareceram vítimas de um vírus. Existem vários tipos de grups: aqueles que escutam as mesmas músicas dos filhos, se vestem da mesma forma e que são ainda mais agitados do que as crianças. Ou ainda aqueles que disputam com eles o chocolate, o controle remoto da televisão, o videogame, o tempo na internet, a minissaia. O comportamento de não tomar nenhuma decisão para não ter que abrir mão de nada, que deveria ser típico do adolescente, passa a ser dos pais. "A mãe e o pai servem para dar referências, concentrar o poder decisório, para definir um sistema hierárquico. É por essa falha que vem sendo comum os jovens chamarem seus pais pelo nome e se referirem a eles como irmãos", diz Assumpção.

O xis da questão é: amadurecer, virar gente grande, não precisa ser algo obrigatoriamente chato, como todo mundo pensa. Claro que pode usar bermuda e jogar videogame com os filhos. Mas existe uma diferença do ponto de vista emocional – é ele que conta. "Uma pessoa que passou da fase adolescente para a fase adulta é aquela que adquiriu a capacidade de tomar conta da própria vida, de responsabilizar-se por si mesma e por aqueles que precisam dela", afirma Maria Tereza. Só isso. Ninguém é obrigado a deixar crescer um bigodão, cultivar a barriga de chope, comprar um carro sedã ou começar a ouvir Ray Conniff para entrar no enfadonho mundo dos adultos. Também não precisa casar, ter filhos, um emprego estável com carteira assinada, almoçar na casa da sogra, e criar labradores sorridentes correndo nos jardins de uma casa própria.

Nada disso define um sujeito maduro – essas são apenas escolhas de um determinado estilo de vida, que ficou impregnado na nossa mente como o estereótipo de adulto. "É preciso relativizar essa definição de amadurecimento, uma vez que normalmente ela vem contaminada por um senso moral" , diz o psiquiatra Luiz Cuschnir, da USP, autor do livro Homem – Um Pedaço Adolescente. "O que significa ser adulto? Ele é um sujeito que trabalha honestamente pelo país, é chefe de família, tem filhos? Como saber se ele, nos bastidores, não tem atitudes infantis como manter mil amantes, humilhar a esposa, sonegar imposto de renda ou puxar o tapete dos colegas de trabalho? Esse cara continuaria sendo adulto mesmo assim?"

O que importa de verdade não é a aparência, muito menos a escolha do estilo de vida. O que vale é a maturidade emocional. E isso um surfista ou roqueiro pode ter muito mais do que um bem-sucedido empresário.

Aceitar a própria idade

Para atingir a idade adulta com dignidade, a primeira coisa a lembrar é que não tem jeito: nossas células têm um tempo de vida e ninguém permanece criança para sempre. Ou seja: por mais que exista uma enxurrada de propagandas exaltando o valor e a beleza da eterna juventude, você vai, sim, ficar velho, querendo ou não. Então, um bom começo é fazer as pazes com o tempo. "Se você envelhecer sem amadurecer, certamente estará em débito com sua vida emocional, psíquica e física", diz Luiz Cuschnir. Por outro lado, para a manutenção do equilíbrio, é preciso preservar para sempre dentro de nós o lado criança e adolescente da vida – é ele, por exemplo, que nos oferece a capacidade de aprender sempre, de nos adaptar a novas situações, de estar abertos a novidades e a um mundo de descobertas. Não fosse assim, quem hoje tem mais de 30 anos não saberia como usar o celular ou mandar um e-mail.

Mas qual seria então o ponto ideal do amadurecimento? Primeiro, tudo vai depender da referência e dos olhos de quem observa: uma criança de rua que trabalha desde os 5 anos de idade pode ser muito madura. Depende do que a gente valoriza como maturidade. Segundo Cuschnir, "o amadurecimento está ligado à forma como sua estrutura emocional se ajusta ao meio em que vive. Não dá para ir de chinelos a um casamento. Nem deixar de declarar o imposto de renda. Isso seria sinal de imaturidade, de alguém que não se adapta ao meio em que vive. Mas é perfeitamente possível fazer a declaração em casa, em 5 minutos, antes de jogar uma partida de videogame. E de chinelos".

Tatuagens, perfurações, circuncisões, cabelos arrancados. Dói – e muito – entrar para o mundo dos adultos em algumas culturas. A idéia desses povos, na verdade, não é promover nenhum show de horrores, pelo contrário – trata-se de uma celebração. A dor e, naturalmente, o temor e a ansiedade dos envolvidos têm o objetivo de demonstrar aos novos adultos a importância social do momento ou até mesmo de fortalecer os laços de solidariedade entre os iniciandos. Conheça quem pratica e como funcionam alguns desses rituais:

Tucunas (Amazonas)

A "festa da moça nova" é uma das principais celebrações da tribo tucuna. O ritual celebra a primeira menstruação e tem seu ápice quando as mulheres mais velhas da tribo arrancam os cabelos das meninas.

Nambiquaras (Mato Grosso)

O ritual de perfuração do nariz a sangue frio marca a passagem do menino do povo nambiquara para a vida adulta. Os adolescentes, nesse momento, devem demonstrar coragem, firmeza e força espiritual. Ou seja, agüentar a tortura sem implorar pelo colinho da mãe.

Sioux (EUA)

Os jovens passavam pelo ritual do o-kee-pa. Primeiro, seu peito era perfurado por afiados pedaços de madeira – sem anestesia, claro. Depois, presos a uma corda amarrada em um galho de árvore, seus corpos eram suspensos aos poucos. Com os pés saindo do chão, o sacrifício significava que o menino deixava de ser criança para virar guerreiro.

Xhosas (África do Sul)

Para serem considerados homens de respeito e adquirem status e direitos, adolescentes devem se submeter ao ritual de circuncisão. Líderes tribais cortam o prepúcio dos meninos utilizando um instrumento cortante primitivo, sem nenhuma assepsia nem o refresco de qualquer substância anestésica.

Ijos e iorubás (Nigéria)

Os adolescentes ijos, para se tornar adultos, devem copular com um carneiro na frente dos homens mais velhos. Entre os iorubás, a tradição mandava que o jovem caçador transasse com o primeiro antílope que matasse.

O ser humano é um animal que prolonga sua infância ao máximo. Isso, na linguagem dos biólogos, se chama neotenia. Nenhuma outra espécie se compara a nós nesse quesito. De acordo com o etólogo (especialista em comportamento animal) César Ades, da USP, essa característica é uma bela vantagem. "Nas outras espécies, o aprendizado é restrito à infância. O filhote olha e aprende com os adultos. Para eles, a imaturidade é um mecanismo de aprendizagem. Já o ser humano, por ser neotênico, é capaz de aprender o tempo todo", diz o pesquisador. O que acontece com o bicho homem é que ele já nasce mais exposto, mais dependente e prematuro, precisando de mais cuidados que os outros. E nossos companheiros no mundo animal, diferentemente de nós, são escorraçados pelas mães logo cedo: as fêmeas aceleram o desmame, uma vez que elas sentem a necessidade de se reproduzir novamente. Já as mães humanas gostam de ter seus filhotes "debaixo das asas" pelo maior tempo possível. Muitos jovens animais, como lobos e leões, ao entrar na idade certa, se afastam do grupo para finalmente se tornar adultos e buscar constituir família por outras bandas. Já o homem é o único que mantém vínculos familiares para sempre – muitos, inclusive, não saem nunca de suas casas. "Mas é preciso relativizar isso. Se o animal estiver em um contexto ameaçador, ele não se destaca do grupo, prolonga sua dependência ao lado dos familiares. Entre nós, podemos dizer o mesmo: se não há empregos, a situação do mercado está difícil lá fora, continuamos na casa de nossos pais até que tudo melhore."

Une Boussole pour la Vie – Les Nouveaux Rites de Passage – Fabrice Hervieu-Wane, Albin Michel, França, 2005

Amor Líquido – Zygmunt Bauman, Jorge Zahar, 2004

Maturidade – Maria Tereza Maldonado e Alberto Goldin, Planeta, 2004.

Homem – Um Pedaço Adolescente – Luiz Cuschnir, Saraiva, 1994.

Fonte: Super Abril – http://super.abril.uol.com.br

Crime S.A.

As facções criminosas do país se sofisticaram e viraram empresas que garantem o lucro à bala. Entender como funcionam – e como surgiram – pode ser a única forma de combatê-las

Cristina Charão
Luís Indriúnas
Fábio de Castro

Houve uma época em que os criminosos eram simpáticos. Com chapéu de lado e navalha no bolso, os malandros passeavam pelas ruas cometendo pequenas transgressões, aplicando golpes e tentando ganhar a vida do jeito que desse. Ao menos era assim que o mundo do crime era visto – e homenageado – em livros, músicas e filmes. Até ladrões de casas e de jóias poderiam se tornar celebridade (veja na página 50). Cerca de meio século depois, no mês passado, o retrato do crime era outro. O Primeiro Comando da Capital (PCC), uma facção criminosa nascida nas cadeias de São Paulo, aterrorizou a capital paulista a ponto de fechar lojas, parar o trânsito e, na prática, instituir um toque de recolher na cidade. Uma operação tão bem organizada que, nas piadas que circularam na capital nos dias seguintes, se dizia que, nas próximas eleições, o ideal seria não votar nem no PT nem no PSDB, mas sim no PCC, que costuma ter ações mais eficientes.

Não era a única quadrilha a demonstrar organização em suas ações no país – e nem os partidos políticos são a melhor metáfora para explicar o nosso crime organizado. Tanto as chamadas facções criminosas como as grandes quadrilhas especializadas nas diversas atividades fora-da-lei assemelham-se muito mais a grandes corporações do mundo empresarial. Elas não disputam poder com o Estado, embora demonstrar força faça parte da sua estratégia de posicionamento. Lidam com negócios que vão do tráfico de drogas à venda de ambulâncias superfaturadas. É praticamente impossível calcular quanto cada um desses setores do crime movimenta, mas estimativas apenas sobre o tráfico de drogas apontam que este movimenta cerca de US$ 1 trilhão no mundo por ano. Pelo Brasil, grande consumidor e ponto importante de várias rotas de transporte de entorpecentes, passaria uma boa parte disso.

Não houve um grande passo que levou o malandro romantizado do início do século 20 ao crime organizado e violento de hoje. Em pequenos passos e se aproveitando de várias das mudanças pelas quais o país passou ao longo desse tempo, os criminosos foram se tornando mais profissionais. E um dos primeiros motivos dessa mudança foi, à primeira vista, bem inocente: o crescimento das cidades.

Ladrões de rua

Nos anos 70, o crescimento econômico levou muitas pessoas a sair do campo em direção às cidades. Em 1970, 56% da população brasileira vivia em regiões urbanas. Dez anos depois, esse índice passou para 67,6% e, em 1996, já era de quase 80%. Só que, ainda nos anos 80, a situação havia mudado para essas famílias de migrantes: a economia havia enfraquecido e, evidentemente, não oferecia muitas oportunidades de trabalho ou moradia. "O problema não era só pobreza, mas também a urbanização precária, a desigualdade e a falta de chance de ascender socialmente. São questões muito mais complexas que a pobreza", diz José Marcelo Zacchi, coordenador institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma união de ongs relacionadas a segurança.

Para muitos, ingressar na economia ilegal se tornou uma alternativa atraente. Espaços não faltavam: periferias e favelas, os terrenos que mais cresceram com a chegada de novos moradores à cidade, estavam pouco atendidos pela polícia e pelos serviços governamentais. Eram, enfim, lugares propícios para atividades criminosas. "São zonas de marginalidade, que tendem a se auto-regular sem a presença do Estado", afirma José Marcelo. Até esse momento, o crime ainda mantinha um pouco daquela aura da malandragem, de saber se virar pela cidade. O que mudaria tudo, e em pouco tempo, era o surgimento de novas oportunidades de negócios ilegais – e o volume de riqueza que passariam a movimentar.

Até os anos 80, as estruturas criminosas limitavam-se ainda a quadrilhas de ação localizada. E ao jogo do bicho. Ele surgiu no Brasil no fim do século 19, em uma situação inusitada – o dono do antigo Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, vendo-se diante da falência, estimulou a visitação trocando o ingresso por um papel com o nome de um dos 25 animais do parque; o animal sorteado pagava 20 vezes o preço do ingresso. Até ser proibido na década de 1890, era um jogo aristocrático, com os resultados dos sorteios publicados nos jornais. Desde então, mantém a popularidade entre as classes mais baixas graças, em parte, à facilidade na aposta, uma vez que se pode jogar qualquer quantia. Além disso, é até hoje considerado contravenção e não crime, o que ajuda os bicheiros a formar quadrilhas poderosas. Não à toa, muitos especialistas consideram que ainda hoje eles são o grupo mais representativo do crime organizado no Brasil. "O jogo do bicho contempla boa parte da definição desse termo: tem território definido, faz lavagem de dinheiro e tem forte penetração na máquina do Estado", diz Michel Misse, coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu), da UFRJ.

O grande divisor de águas, que tornaria o crime organizado muito mais complexo e violento, foi a entrada com força da cocaína no mercado nacional. A gestão diária do jogo não exigia uma estrutura muito complexa, mas as drogas sim. Para operar nesse novo mercado, era preciso montar quase uma indústria, com estratégias para criar e manter pontos- de-venda e sistema de transporte para garantir a oferta constante. "A logística da economia da droga exigiu mudanças estruturais na forma como os grupos atuavam", diz a antropóloga Jacqueline Muniz, ex-diretora da Secretaria Nacional de Segurança Pública e professora da Universidade Cândido Mendes (Ucam), do Rio de Janeiro. Em especial, era preciso mais gente envolvida. E é com o tráfico que a imagem positiva do malandro – "aquela de saber se virar pela cidade" – é substituída pela do bandido feio e mau.

O aumento de complexidade da atividade criminosa significa, também, o crescimento da violência. Não é de espantar: a violência é uma das formas de administrar esse novo negócio. É preciso garantir segurança em todas as etapas de operação e, como diz Jacqueline, "se não há leis para garantir o funcionamento, existe a arma". Daí a aceleração paralela de outro setor do crime, o tráfico de armas. Dados do Necvu mostram o paralelismo dos dois tráficos: em 91, foram feitas 1 866 apreensões de entorpecentes e de 3 958 armas na cidade do Rio de Janeiro. Em 2005, os números são 11 761 e 14 876. "Na verdade, esses grupos trabalham com uma relação de confiança e desconfiança mútuas entre seus membros. A linha tênue pode romper-se rapidamente", diz Michel Misse. Mas, mesmo com mais violência, os traficantes continuavam a ter relações entre si e com as comunidades ao redor de forma bem parecida com a praticada pelos bicheiros.

De um modo geral, traficar drogas era um trabalho que exigia o emprego de uma mão-de-obra maior do que as atividades criminosas mais comuns até ali. Com muita gente no crime, aumentou também o número de prisões relacionadas ao tráfico. A população carcerária explodiu. E isso teve conseqüências graves no modo como o crime operava.

Onde nascem as gangues

Da mesma forma que o crescimento da população nas cidades levou ao aumento da criminalidade, o crescimento da população nas cadeias levou à radicalização do crime. O berço das principais facções criminosas do Brasil são os presídios. Aqui, como em outros países, o melhor lugar para o crime se organizar ou aumentar seu poder é atrás das grades. "Há vários casos no mundo, inclusive de movimentos religiosos, como os islamitas americanos. É angustiante que isso apareça exatamente entre os bandidos que estão sob a tutela do Estado", diz Norman Gall, do Instituto Fernand Braudel, uma ong de pesquisas econômicas e sociais.

A primeira a sair dos presídios brasileiros foi o Comando Vermelho (CV), ainda na década de 1970. Posteriormente, ela teria dado origem a todas as demais grandes facções cariocas (veja quadro na página 80). Acredita-se que seus primeiros líderes tenham convivido com grupos guerrilheiros de esquerda no presídio Cândido Mendes, em Ilha Grande, Rio de Janeiro, e se inspirado neles para criar sua organização (daí o "vermelho" no nome). A princípio, eram apenas quadrilhas de ladrões tentando criar uma unidade para facilitar seu trabalho. Com a chegada das drogas, tornou-se um grupo voltado para o tráfico. A primeira conseqüência foi exacerbar dois componentes que já existiam no bicho: o terror aplicado àqueles que se voltassem contra a facção e o assistencialismo à comunidade. Houve até uma época em que o Comando Vermelho especializou-se em uma tática Robin Hood: assaltar caminhões com mercadorias e distribuir para os moradores das favelas.

Se as prisões são o berço de tantas organizações criminosas, isso não é por acaso. Em primeiro lugar, é um espaço em que os fora-da-lei mais experientes podem transmitir seus conhecimentos para os mais jovens – uma escola, por assim dizer. Em segundo, a situação das cadeias brasileiras sempre foi tão degradante que acabou exigindo dos presos alguma organização própria. "Na verdade, alguns grupos surgem como uma forma de os próprios presos se protegerem das mortes e dos estupros nas cadeias", diz o cientista político Guaracy Minguardi, do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud). As várias tentativas dos presos ao longo da história de se organizarem e discutirem com as autoridades uma solução para o abandono e o desrespeito a que são submetidos também ajudaram a criar as facções. "Mas qualquer tentativa de se organizar era vista como dotada de propósitos ilegais, o que eliminava a possibilidade de diálogo", diz Jacqueline. Nesse cenário, é fácil a ascensão de qualquer líder – por mais tirano que seja – com a mínima chance de organizá-los em torno de suas reivindicações. Não por acaso, e por mais que pareça irônico, o CV diz ser seu objetivo a luta pela liberdade, pela justiça e pela paz. E essas mesmas 3 palavras estavam pintadas no chão dos pátios dos presídios na primeira megarrebelião organizada pelo PCC, em 2001. "A reivindicação de melhorias nas cadeias é uma estratégia de cooptação de membros e de validação dessas organizações criminosas", diz José Marcelo.

Rede do crime

Estava nascido o crime organizado no país. Favelas e periferias haviam fornecido o território; os presídios deram origem à organização, aos funcionários e a um motivo de existir; as drogas trouxeram dinheiro, muito dinheiro, tanto que acabou criando um efeito cascata que estimulou várias outras redes criminosas.

À medida que aumentou o comércio ilegal de drogas, cresceram também crimes como roubo de carga, assalto a bancos, seqüestros, pirataria e contrabando. Não foi necessariamente por financiamento dos traficantes, ou por interesse deles em diversificar os negócios. Uma das formas como eles estimularam outras redes criminosas foi criando um mercado consumidor de produtos ilegais – afinal, traficar não é fácil e, como em qualquer empresa, envolve uma cadeia produtiva complicada. Daí o estímulo a redes de compra ilegal ou roubo de cargas químicas (para refino da coca, por exemplo), de tráfico de armas (para municiar os pontos-de-venda) ou de lavagem de dinheiro (para legalizar as fortunas ganhas com o tráfico). É sabido, por exemplo, que líderes do PCC e do CV trocam figurinhas, embora não se tenha definido exatamente para quê. "As facções formam cadeias de negócios", diz José Marcelo. "São sócias ou parceiras, mas não precisam fundir uma ‘empresa’ com a outra."

Outro motivo para a diversificação da criminalidade foi que, assim como os bicheiros abriram caminho para as redes de tráfico, essas criaram rotas de distribuição e contatos dentro da burocracia estatal que, depois, serviram também a outras quadrilhas. Um exemplo é o Cartel de Medellín, na Colômbia, que, sem abandonar o tráfico, usou a sua infra-estrutura para fornecer serviços a outras organizações. "Em um dado momento, ele se especializou no transporte de drogas. Abriu rotas, modelos de segurança, tornou-se um DHL do crime. Depois disso, essa estrutura serviu a todo tipo de tráfico, do contrabando ao comércio ilegal de biodiversidade", diz Jacqueline.

A interligação dessas redes ganhou um bom aliado com a tecnologia. Assim como os líderes do PCC encontraram nos celulares uma forma de organizar a facção mesmo de dentro do presídio, várias ferramentas de comunicação auxiliam as redes criminosas a se expandirem.

Existe, entretanto, uma ferramenta que, para os criminosos, é mais importante do que todas as outras: a corrupção. Em maior ou menor grau, todas dependem de algum tipo de infiltração no aparelho do Estado para prosseguir com suas atividades. Alguns pesquisadores chegam a considerar que o nível de corrupção é o que diferencia cada organização. "Não dá para comparar o nível de organização do PCC com o da Operação Sanguessuga [de compra superfaturada de ambulâncias envolvendo deputados federais]. O PCC não tem adeptos de alto escalão", diz Adriano de Oliveira, do Núcleo de Instituições Coercitivas da Universidade Federal de Pernambuco. Diferentemente das quadrilhas envolvendo altos funcionários, o PCC e outras organizações criminosas que não aquelas que surrupiam diretamente o erário público encontram brechas no governo com a mesma técnica que usam no controle interno da organização: a intimidação. Usando diferentes níveis de violência, eles podem conseguir favores no sistema policial, judicial ou penitenciário. "Um carcereiro pode ser corrompido por dinheiro ou ser intimidado por ameaças de um preso que sabe onde sua filha estuda e a que horas sai da escola", diz José Marcelo.

E agora?

Todos os especialistas concordam que o grande culpado pelo crescimento do crime organizado são os vazios deixados pelo Estado. A criminalidade prospera graças às brechas abertas pela corrupção e pela desproteção policial.

O ideal seria, com ações sociais, resolver os próprios fatores que deram origem às facções, como a superlotação nos presídios, a desigualdade e as áreas não atendidas pelo Estado. Essa é, no entanto, uma estratégia de longo prazo e que tampouco pode ser justificada apenas pelo combate à criminalidade.

De imediato… bom, de imediato, não há consenso sobre o que fazer. Os episódios registrados em São Paulo no último mês tendem a acirrar o debate sobre as soluções. Quase sempre, eles desembocam em cobranças sobre a Justiça para que seja "mais dura", com penas maiores. Apesar de popular, é uma das poucas propostas em que os especialistas estão de acordo: ela não funciona. A frase parece batida, mas resume bem o espírito da idéia: não é o tamanho da pena, mas a certeza de sua aplicação que tem realmente algum efeito. Existem várias sugestões, cada uma mais ou menos viável (veja quadro acima). Difícil dizer qual delas é a mais promissora. Assim como fazem os criminosos, o ideal talvez seja atacar em em várias frentes. E rápido.

O PCC é um dos mais organizados grupos criminosos brasileiros. Influenciado pelos integrantes do CV, o grupo era, no início, um time de futebol de detentos. Nos anos 90, fortaleceu-se principalmente dentro das cadeias e acabou criando uma estrutura maior e mais complexa que a dos grupos cariocas. Em São Paulo, domina 90% dos presídios e a maioria dos criminosos soltos.

Líder

Desde 2002, o ex-trombadinha e ex-ladrão de bancos Marcola é o grande chefe da organização, considerado também o mais intelectualizado e pragmático. Diz ter lido mais de 3 mil livros. Da prisão, e sem falar ao celular, ele controla a organização, que conta com cerca de 140 mil filiados.

Pilotos

São aqueles que, dentro ou fora da cadeia, organizam os filiados para operações como as megarrebeliões e os ataques do mês passado. Alguns deles são os intermediários em negociações com autoridades.

Contadores

O PCC tinha um único contador até 2005, ano em que ele foi preso. Agora a administração dos R$ 700 mil arrecadados por mês passou para cerca de 6 contadores, que usam até registros em livros-caixas.

Advogados

A polícia estima que o grupo tenha cerca de 18 advogados trabalhando a seu favor. Eles também usam artifícios ilegais, como a compra da gravação dos depoimentos sigilosos da CPI do Tráfico de Armas.

Criminosos

O PCC ajuda seus filiados a realizar crimes como assaltos à mão armada e seqüestros. Também garante proteção aos vendedores das bocas-de-fumo, que pagam ao grupo uma porcentagem dos seus lucros.

Presos

A maior força do PCC, eles se unem ao grupo para ganhar prestígio e proteção contra estupros e espancamentos. A polícia reconhece que a ação deles diminuiu o índice desses delitos nas cadeias.

Comunidade

Além dos criminosos, a comunidade do PCC conta com simpatizantes, como cantores de funk que os homenageiam. O grupo também financia estudos para quem quer ser um advogado do crime organizado.

Bin Ladens

Pessoas em débito com o PCC acabam sendo manipuladas pelo grupo. Ameaçadas, são obrigadas a participar das ações coordenadas, como os ataques violentos do último mês em São Paulo.

Armas

São compradas principalmente de fornecedores no Brasil, no Suriname e no Paraguai. O arsenal do PCC pode ser usado em ações do grupo ou alugado para que outros criminosos levem adiante suas ações.

Rifas

Detentos, criminosos soltos e familiares participam de rifas que custam até R$ 7 o número. Os principais prêmios são carros populares, mas há outros, como eletrodomésticos. O resultado sai pela Loteria Federal.

Ação Social

Como os traficantes do Rio, o PCC mantém creches em favelas, paga enterros e ajuda os familiares dos detidos. Para quem tem parentes presos no interior de São Paulo, o grupo arca com os custos das visitas.

Contribuições

Como um sindicato, os filiados têm que pagar mensalidades para o PCC. Presos pagam R$ 50 e, para quem está fora, esse dízimo pode chegar a R$ 500 em cima do lucro de assaltos, furtos, seqüestros e tráfico.

Drogas

Apesar de contar com alguns pontos-de-venda, o PCC não é um grupo de traficantes. A principal ação é proteger as bocas-de-fumo da polícia e de outros boqueiros, em troca de contribuições mensais.

Políticos

Com pouca penetração no Estado, o PCC começa a articular possíveis candidatos para as próximas eleições, usando como moeda de troca os votos de seus milhares de filiados.

O traficante Fernandinho Beira-Mar, antes de ser preso em 2001, estava escondido na selva colombiana com a ajuda das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Não foi um episódio isolado: as Farc também tiveram um papel importante na formação das quadrilhas. Integrantes da guerrilha colombiana teriam vindo para o Brasil, por exemplo, para treinar os traficantes no uso do armamento pesado que eles compravam dos mesmos fornecedores. Foi mais um exemplo da relação entre o crime organizado brasileiro e o internacional. Na maioria dos casos, a parceria obedece às regras de mercado. "Eles se plugam e desplugam de acordo com as conveniências", diz Walter Maierovitch, do Instituto Giovanni Falcone e ex-Secretário Nacional Anti-Drogas. Grupos brasileiros e estrangeiros, segundo ele, atuam em sinergia, num sistema de redes de cooperação. O tráfico de drogas, a estrutura mais internacionalizada, é um bom exemplo dessa cooperação. Os plantadores da Bolívia fornecem 80% da pasta de coca e da cocaína que entra no Brasil, mas precisam de insumos químicos como o permanganato de potássio. Esse é fornecido por brasileiros que o encontram facilmente na indústria nacional. Outra parte das drogas e armas que chegam ao Brasil vem do Suriname e do Paraguai. Mas o tráfico internacional propriamente dito – aquele que, por conta da geografia, precisa passar pelo Brasil para chegar à Europa – não seria controlado por grupos como o PCC e o CV. "Metade do que chega ao Brasil vai para fora num esquema mais sofisticado e até hoje praticamente não desbaratado", diz o coronel José Vicente Silva Filho, ex-secretário de Segurança Pública do governo FHC.

Comando Vermelho

A primeira facção criminosa carioca, de onde surgiram todas as demais. Surgiu em 1979 em um presídio em Ilha Grande, levando para o mundo do crime ensinamentos dos guerrilheiros de esquerda presos no mesmo local. Controla cerca de 60% das favelas cariocas, entre elas a do Complexo do Alemão e a de Vigário Geral. Entre seus principais líderes estão Fernandinho Beira-Mar e Elias Maluco (ambos presos). O único fundador vivo é Willians da Silva Lima, o Professor, com 60 anos de idade e ainda preso.

Comando Vermelho Jovem

A briga pelo controle dos pontos do tráfico de drogas no Complexo do Alemão criou a dissidência liderada pelo traficante Marcinho VP. O líder da facção é suspeito de ser um dos mandantes da morte, em 2000, de Sidneya dos Santos Jesus, uma diretora linha-dura da penitenciária de Bangu 1. Além do comércio de drogas, é responsável por várias blitze policiais falsas nas vias públicas do Rio de Janeiro para roubar carros. Não costuma se relacionar com os moradores. Hoje, divide o Complexo do Alemão com o Comando Vermelho.

Terceiro Comando

Outra dissidência do Comando Vermelho, surgida nos anos 80 de maneira ainda pouca clara para a polícia. Controla favelas do Complexo da Maré, área estratégica por estar às margens da baía da Guanabara. Evita a violência contra policiais– mas não contra outros traficantes – e costuma praticar, nas áreas onde age, o assistencialismo. Seu principal líder é o Linho, também chamado de Paulinho, que já foi dado como morto, mas está foragido há anos. Tem um acordo de atuação amigável com a Amigos dos Amigos.

Terceiro Comando Puro

É uma facção de uma facção. O grupo surgiu depois de uma briga entre seu principal líder, Robinho Pinga, e Linho, do Terceiro Comando. São donos do tráfico em favelas como as da Coréia. Tem o segundo maior arsenal de armas dos grupos cariocas, com cerca de 180 fuzis. Nos seus depósitos foram encontradas granadas e até minas terrestres. Tem ajuda de ex-militares do Exército. Religioso, Robinho Pinga só deixa as festas nas favelas começarem depois de uma oração.

Amigos dos Amigos

Dissidência do Comando Vermelho, fundada pelo Uê, que, mesmo preso na penitenciária de Bangu 1, chegou a comandar ataques a postos da Polícia Militar e a delegacias. Uê foi assassinado em 2002 durante uma rebelião no presídio. Hoje, seu maior líder é Celsinho da Vila Vintém. É o mais capitalista dos grupos e também um dos mais brutais. Não faz assistencialismo e aterroriza a população. Comanda as favelas do Complexo de São Carlos, Adeus/Juramento, Caju e Vila Vintém.

Serviço de inteligência

O crime organizado atua em rede. Em suas ações, ele costuma mobilizar desde outros grupos criminosos até comparsas dentro do governo e da polícia. A maioria dos especialistas defende que a inteligência – e não a força – é o meio mais eficiente para combatê-lo. Os métodos incluem escutas telefônicas, agentes infiltrados nas facções e troca de informações entre as polícias. "Só a Receita Federal e o Disque-Denúncia do Rio de Janeiro fazem um trabalho assim. O Brasil também usa pouco o serviço da Interpol [uma agência internacional de inteligência]", diz o coronel José Vicente Silva Filho, ex-secretário de Segurança Pública do governo FHC.

Legislação

Endurecer as penas, embora seja uma idéia popular, não é a solução contra o crime organizado. Mesmo assim, algumas mudanças nas leis poderiam ajudar. Hoje elas impedem, por exemplo, escutar conversas entre os criminosos e seus advogados, que acabam levando recados para fora das cadeias. "Devia se isolar esse tipo de criminoso. É preciso um big brother nas cadeias", diz Walter Maierovitch, do Instituto Giovanni Falcone. As leis brasileiras também poderiam ter leis específicas para o crime organizado. "Nossa legislação só considera a ‘formação de quadrilha’. Tipificar o crime organizado poderia ampliar as penas", diz o coronel José Vicente Silva Filho.

União entre os governos

As facções criminosas muitas vezes atuam com conexões em vários estados e países. Por isso, não faz sentido que cada polícia tente combater isoladamente o crime em seu estado. Especialistas como Norman Gall, do Instituto Fernand Braudel, acreditam que a gestão da segurança pública é trabalho para o governo federal. Os governos estaduais, segundo ele, não têm os contatos, a capacidade técnica nem a perícia para combater o crime organizado. Ele propõe a criação de um Ministério de Segurança Pública e de uma Guarda Nacional – uma polícia militar que atue em todo o território nacional, e dispense o uso do Exército em ações contra o crime.

Mudanças nas polícias

A polícia de todos os estados sofre com baixos salários, equipamento precário e planos de carreira inconsistentes. Além disso, a Polícia Civil e a Militar acabam atuando separadas e muitas vezes invadindo as funções uma da outra, o que acaba gerando rivalidades. Enquanto os policiais ficam brigando entre si, a vida do crime organizado fica mais fácil. Uma saída possível é integrar as duas forças policiais em uma só organização, com estrutura e burocracia mais modernas e capaz de coordenar melhor a estratégia de combate ao crime. "É preciso investir também em recursos humanos e diminuir o desvio de policiais para serviços burocráticos", diz Norman.

Do CV ao PCC – A irmandade do crime – Carlos Amorin, Record, 2005

www.necvu.ifcs.ufrj.br – Núcleo de estudos de violência urbana da UFRJ.

Fonte: Super Abril – http://super.abril.uol.com.br

Retratos metropolitanos

Projeto reúne dados sobre economia e trabalho, dinâmica demográfica e proteção social de três regiões e sete pólos de SP.

MANUEL ALVES FILHO

Prefeituras que compõem as três regiões metropolitanas e sete pólos regionais do Estado de São Paulo contarão nas próximas semanas com uma importante ferramenta para ajudar a orientar a definição de políticas públicas nas áreas de economia e trabalho, dinâmica demográfica e proteção social. Projeto desenvolvido por pesquisadores da Unicamp, apoiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), elaborou um mapa que traz dados espacializados sobre esses temas. Ao consultá-lo, os gestores públicos terão uma visão ao mesmo tempo detalhada e regionalizada de cada campo investigado, o que deverá facilitar a adoção das ações municipais. "Penso que o grande mérito desse projeto foi ter agregado e organizado os indicadores disponíveis sobre cada tópico, embora o trabalho também ofereça aos entes públicos um diagnóstico da situação atual e trace algumas tendências", analisa Cláudio Dedecca, professor do Instituto de Economia (IE) e coordenador da pesquisa.

O projeto, informa o economista, gerou um CD que está em fase final de elaboração e que será distribuído gratuitamente às prefeituras que integram as dez regiões analisadas. Ao todo, a pesquisa demandou dois anos e meio de trabalho e contou com a colaboração de pesquisadores e alunos do IE, Núcleo de Políticas Públicas (Nepp) e Núcleo de Estudos da População (Nepo). Os trabalhos foram financiados pela Finep dentro de uma concorrência pública nacional destinada projetos que pudessem contribuir para a formulação de políticas públicas. Foram consideradas as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas e Baixada Santista, além dos pólos regionais de Ribeirão Preto, Sorocaba, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, Araçatuba e Bauru. Esse conjunto, conforme Dedecca, responde por cerca de 90% da população e pelo mesmo percentual das riquezas produzidas pelo Estado. "Olhando detalhadamente para essas regiões nós estaremos olhando também para o Estado", afirma.

Para levantar a massa de dados utilizada no trabalho, os pesquisadores recorreram a várias fontes, tais como o censo demográfico, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e pesquisas de campo. Segundo a coordenadora do Nepo, professora Rosana Baeninger, em termos demográficos a pesquisa conferiu maior ênfase à questão das migrações. O dado novo em relação aos últimos 30 anos é que os fluxos migratórios sofreram mudanças. "Até o final da década de 70, havia uma saída de população da Região Metropolitana de São Paulo em direção às cidades do entorno, no que classificamos de processo de interiorização industrial. Entretanto, a partir dos anos 80 e mais fortemente nos anos 90 esses deslocamentos passaram a ocorrer num contexto regionalizado, em razão da dinâmica desses pólos. Se antes a metrópole de São Paulo perdia população para o seu entorno imediato, nos últimos anos ela passou a perder para todos os municípios do Interior, inclusive os pequenos", afirma.

A pesquisa também identificou que as migrações nordestinas deixaram igualmente de ter como alvo a Região Metropolitana de São Paulo e passaram a mirar o Interior do Estado. "Essa situação não se alterou apenas para os baianos e pernambucanos, que continuaram migrando para a metrópole paulistana. No caso de maranhenses, alagoanos, piauienses e outros grupos a rota de migração passou a ter como destino o Interior". Para a coordenadora do Nepo, os municípios interioranos começaram a absorver mais população não necessariamente por conta da interiorização da indústria, "mas por outros processos que fazem com que a dinâmica populacional se alie as transformações locais".

O professor Dedecca destaca que uma análise das regiões consideradas no trabalho revela que a economia do Estado é extremamente urbanizada. Embora os dados primários ainda sejam escassos em relação ao tema, o estudo apurou que o mercado de trabalho paulista é predominantemente urbano, assalariado e com alto grau de precarização. A informalidade responde por cerca de 40% das atividades e o nível de desemprego varia de 11% a 19%, dependendo da região avaliada. "O processo de interiorização do Estado, embora ainda gere grande concentração da atividade econômica, foi capaz de urbanizar e de transformar a estrutura econômica e o mercado de trabalho. A questão que fica diante dessa constatação é a seguinte: se o Estado não for capaz de impor um dinamismo econômico a essas regiões, isso certamente se traduzirá em desemprego e na ampliação da informalidade", adverte.

No que toca à renda domiciliar, o estudo apurou que esse indicador sofreu um ligeiro aumento nas regiões consideradas entre 1991 e 2000, período em que há dados disponíveis. A professora Eugênia Troncoso Leone, do IE, observa, porém, que esses anos não são os melhores para efeito de comparação, visto que o primeiro foi marcado pela baixa atividade econômica e o segundo por uma recuperação nesse sentido. De toda forma, na década tratada as regiões metropolitanas de Campinas e São Paulo registraram, na média, uma renda domiciliar per capita acima daquela verificada para o Estado, cuja taxa de crescimento anual foi de 1,8%. Já a Região Metropolitana da Baixada Santista e os demais pólos regionais apresentaram um desempenho inferior ao do Estado nesse tópico.

A despeito do crescimento da renda domiciliar, a desigualdade também avançou no período tomado para análise tanto nas regiões metropolitanas quanto nos pólos regionais, aponta o estudo. De acordo com o índice de Gini, que leva em consideração diversas variáveis econômicas, a desigualdade foi ligeiramente menor nas regiões metropolitanas de Capinas e Baixada Santista e nos pólos de Sorocaba, São José dos Campos e Ribeirão Preto. "Um dado que reforça essa constatação do aprofundamento das desigualdades é o fato de que a apropriação de renda por parte dos 20% mais ricos aumentou em todas as regiões e pólos considerados. Nesse aspecto, tiveram destaque Araçatuba e Presidente Prudente, onde o índice de concentração de renda foi maior do que nas demais localidades", esclarece a economista. Ainda em relação ao tema renda, a pesquisa verificou uma ampliação da proporção de domicílios com renda da mulher tanto no Estado quanto nas dez áreas pesquisadas. Em torno de 60% das residências são mantidas com a participação feminina. Nos pólos regionais, a proporção de domicílios com renda da mulher é maior que nas metrópoles. Nestas, no entanto, a participação da renda feminina no total do domicílio é superior", detalha a docente do IE.

Proteção social
Para traçar o diagnóstico da questão social nas dez regiões elencadas, os pesquisadores da Unicamp também recorreram a variadas fontes, entre elas o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Sistema Pró-Social, mantido pelo governo paulista, e entrevistas com gestores e coordenadores de programas municipais. "As entrevistas foram feitas em 24 municípios das três regiões metropolitanas e em 21 dos pólos regionais", afirma Lilia Terezinha Montali, pesquisadora do Nepp. De acordo com ela, foi possível constatar que os programas estaduais de transferência de renda estão presentes em todos os municípios investigados. Ademais, o estudo concluiu que mais de 100% das famílias com renda equivalente a meio salário mínimo per capita são atendidas por programas de transferência de renda. Isso ocorre porque o Bolsa Família, mantido pelo governo federal, normalmente é complementado por políticas públicas semelhantes implantadas pelo Estado e municípios.

A pesquisa desenvolvida pelos especialistas da Unicamp analisou também as condições da educação e da saúde nas dez regiões, entre os anos de 1991 e 2000. Uma das constatações foi de que a taxa de analfabetismo caiu significativamente em praticamente todas as localidades. "Hoje, elas apresentam índices semelhantes ao da Argentina ou Uruguai", compara Stella Silva Telles, pesquisadora do Nepp. Outro dado relevante levantado pelo estudo, este referente ao ensino fundamental, dá conta que as regiões metropolitanas e pólos estão muito próximos da universalização do setor, notadamente entre a 1ª e a 4ª séries. "As taxas, que são bem homogêneas para todas as localidades, giram em torno de 90%", diz. Já para a segunda fase do ensino fundamental, que vai da 5ª até a 9ª série, esse índice é de 80%.

O maior desafio a ser enfrentado pelo Estado, no entender de Stella, é ampliar a oferta de vagas no ensino médio. Embora tenham ocorridos avanços nesse sentido, apenas 52% dos jovens em idade escolar estão efetivamente matriculados em uma das séries desse nível de ensino. Outra informação relevante refere-se à taxa de evasão escolar, que é particularmente elevada no ensino médio. "Em pólos como Araçatuba, Ribeirão Preto e Bauru e nas regiões metropolitanas esse índice varia de 6% a 10%, enquanto que no ensino fundamental, entre a 1ª e a 4ª série, a taxa é de 1%", revela Stella. Sobre o desempenho dos alunos, foi possível verificar que houve uma discreta melhoria em relação ao ensino da língua portuguesa, mas um retrocesso no que diz respeito à matemática. "Os níveis de desempenho em matemática para a 3ª série do ensino médio ficaram abaixo do básico", afirma.

Na saúde, o dado positivo é que a taxa de mortalidade infantil sofreu queda acentuada entre 1990 e 2000 e continuou mantendo a mesma tendência posteriormente, mas de forma mais suave. A Região Metropolitana da Baixada Santista foi a que apresentou o pior desempenho nesse aspecto, com 17 mil óbitos de menores de um ano por mil nascidos vivos. O estudo mensurou que o Programa de Saúde da Família (PSF) foi ampliado em todas as regiões, sendo que Araçatuba registrou a maior cobertura – cerca de 50%. Além disso, a pesquisa apurou que as três regiões metropolitanas e mais São José dos Campos apresentaram os indicadores mais tímidos no que toca à realização de consultas básicas por habitante por ano.

Para o professor Dedecca, assim que os gestores públicos estiverem de posse dos dados fornecidos pelo estudo, eles certamente terão uma visão muito mais detalhada sobre todos esses temas, com a vantagem adicional de contarem com informações trabalhadas no contexto regional. "Essas informações já existiam, mas não estavam reunidas e nem sistematizadas da forma como se encontram na pesquisa. Isso deverá facilitar a tomada de decisão por pare dos entes públicos", infere. Na opinião do docente do IE, graças à metodologia adotada, o estudo pode ser atualizado sempre que possível e adaptado para traçar o mapa de outras regiões paulistas ou mesmo de localidades de outros estados do país.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

UMA QUESTÃO DE DETERMINAÇÃO

Na crise, o direito à palavra dos trabalhadores não passa de um prémio de abate social

Robert Kurz

Os tempos mudam, já dizia Bob Dylan. Esta sabedoria banal apenas ganha sentido quando nos mostra como o conteúdo das principais palavras-chave muda com os tempos. Assim se distorceu o significado de “reformas”, com a apropriação deste termo da esquerda pelo neo-liberalismo, transformando-o em sinónimo de desmontagem social. A hegemonia do discurso neoliberal conseguiu tornar este paradigma no seu contrário; e os sindicatos nem perceberam o que lhes aconteceu para serem acusados de “boicote às reformas”, tal como o Governo era acusado de “lassidão nas reformas”. Entretanto os tempos voltaram a mudar drasticamente. Sendo certo que o neoliberalismo teve de ceder o lugar, a ameaça de novas mexidas sociais de peso surge agora no âmbito da administração de crise.

Em nome das famosas “forças de auto-recuperação do mercado” nas duas últimas décadas a co-gestão nas empresas foi considerada um fóssil keynesiano. O modelo alemão tornou-se uma pedra de tropeço para os hardliner radicais do mercado. Perante o desabar da crise financeira global e à medida que começava a manifestar-se uma crise económica mundial, a questão da co-gestão não emergiu logo do afundamento. As preocupações eram então outras. Contudo, rapidamente estavam na ordem do dia programas de estatizações parciais, começando pela banca, para logo depois se estenderem aos principais sectores industriais, como os recentes casos Opel e Schaeffler. Na classe política tornou-se moda forçar o direito estatal à co-gestão, já que tinha de se apertar os cordões à bolsa nos pacotes de salvamento dos conglomerados empresariais. Ao mesmo tempo torna-se pertinente a pergunta preocupante sobre se a força do Estado não se virá a revelar uma fraqueza, caso o saneamento dos balanços se transforme num poço sem fundo. Neste contexto, qual o significado de pairar no ar de repente a exigência de que as participações do Estado teriam de ser reconvertidas em direitos alargados dos trabalhadores?

As esperanças numa nova Primavera de co-gestão dos trabalhadores, alimentadas pelos discursos da esquerda e dos sindicatos, são totalmente inoportunas. Nos tempos de prosperidade do pós-guerra, a co-gestão poderá ter contribuído para melhorias sociais modestas. Mas já nessa altura os direitos dos trabalhadores estavam ligados à “co-responsabilização empresarial”. Por maioria de razão dá que pensar agora o facto de a crise na Opel e na Schaeffler ser tratada com tanto engenho que leva os conselhos de empresa a aceitar cortes no vencimento e abdicação de férias como medidas do programa de salvamento. Com isto estão dadas as coordenadas. Que conteúdo de melhorias será este, se o desmantelamento social se efectua agora com uma auto-participação voluntária, na base de direitos alargados dos trabalhadores? Em época de crise estes “direitos” tornam-se ratoeiras, quando o Estado e os gestores se limitam a transferir a ameaça de insolvência para os trabalhadores. A co-gestão transforma-se em auto-enclausuramento na razão da economia empresarial e, portanto, numa “responsabilidade” para com o capitalismo, o qual neutraliza assim toda e qualquer contra-movimentação.

É um dilema em tudo semelhante ao das empresas em auto-gestão e das cooperativas de economia alternativa: a suposta auto-determinação de “um trabalho sem chefe” transforma-se no seu contrário, uma vez que a mediação social, através da concorrência do mercado mundial, entretanto proclama e torna obrigatória a execução das “leis do mercado” em si mesmo. Esta experiência também é comum às empresas em nome individual e aos “empresários da própria força de trabalho”; como, de resto, ainda que numa outra variante, com isso se confrontou a naufragada auto-gestão dos trabalhadores jugoslavos. A lógica férrea da valorização do capital não se altera nem um milímetro, mesmo que a forma da propriedade seja modificada ao nível da empresa individual. Se a valorização esbarra contra as suas próprias barreiras internas, como é agora obviamente o caso, os esperançados proprietários colectivos têm forçosamente de executar a crise em si mesmos, porque assumiram as funções do capital.

E isto é tanto mais mais válido quanto mais a co-gestão é ressuscitada na crise. É claro que, nas associações empresariais, o “prémio de abate” de concessões alargadas aos trabalhadores só pode ser concedido sob a forma de participação nas funções do capital. Tal medida não conduz apenas a cortar voluntariamente na própria carne. Também a concorrência de crise entre trabalhadores efectivos e precários é assumida em auto-governo. Em nome do salvamento da empresa, os primeiros a serem literalmente banidos são todos aqueles que têm relações contratuais precárias, como os subcontratados e os contratados a termo. A co-gestão da economia empresarial na crise da economia mundial está tão pouco na agenda dum contra-movimento social como a delegação no Estado das necessidades fundamentais da vida. Pelo contrário, as formas capitalistas de circulação que se tornaram insustentáveis é que constituem o osso duro de roer, ao nível do conjunto da sociedade. Se a tentativa de enquadrar os representantes dos trabalhadores com a isca do direito de participação na empresa resultasse, isso seria o último triunfo da propaganda neoliberal, em prol da “auto-responsabilização” capitalista.

Fonte: O Beco – http://o-beco.planetaclix.pt

A tragédia da migração por barco na Europa

Alexander Smoltczyk

Centenas de pessoas morreram na semana passada quando um barco levando migrantes virou na costa da Líbia. Este foi apenas o mais recente incidente em uma tragédia humana constante, que as medidas de combate à imigração apenas agravam.

É o mesmo tipo de areia, talvez a mesma areia de fato. As praias entre Siracusa e Gela estão cheias dela, uma areia desértica extremamente fina e ligeiramente vermelha. Os refugiados que sobreviveram à perigosa jornada do Saara líbio para a ilha italiana de Sicília estão habituados a esta areia. Eles sabem o gosto que tem e como dói nos pulmões quando inalada.
"Eles passaram por aqui; um deles acenou para mim", disse Carmelo Barbagallo, que gerencia o La Giara, um restaurante no cais do porto de pesca de Portopalo. Ele estava lá quando os 249 imigrantes desembarcaram na ponta sul da Sicilia na última segunda-feira. Eles estavam usando jaquetas de esqui velhas de segunda mão e seus bolsos continham areia da travessia do deserto e dos acampamentos no Saara. "Havia três mulheres grávidas entre eles", disse Barbagallo.

Mauro Seminara/AFP - 16.mar.2009

Africanos são escoltados pela polícia italiana na ilha de Lampedusa, na Sicília

Ele mostra três barcos atracados no cais, pintados diversas vezes com cenas idílicas, símbolos de boa sorte e louvor a Alá. "Ninguém sabe como eles conseguiram chegar aqui, sem luz a bordo e sem comida", disse ele. "Devem estar tão desesperados que perderam o medo da morte."
Este barco também veio da Líbia, diz ele, apontando para outra embarcação. Assim como a que apareceu poucas horas depois na costa, a 70 km a oeste em Scoglitti, com 165 pessoas a bordo. Assim como o que emborcou perto da costa da Líbia poucas horas antes, depois de partir em meio a uma tempestade a oeste de Trípoli. Vinte sobreviventes foram encontrados boiando entre os corpos dos outros passageiros afogados.
A Organização Internacional de Migração estima que pelo menos 230 pessoas se afogaram no incidente, inclusive 69 mulheres e duas crianças. Aproximadamente 100 corpos foram recuperados até agora. O resto encontrou um túmulo de água no cemitério na porta da Europa chamado de Mediterrâneo.
Um segundo barco de pesca, com 357 pessoas a bordo, foi resgatado por um reboque napolitano, o Asso 22, pouco antes de afundar, e rebocado de volta para Trípoli. O capitão do Asso 22 falou da "cena apocalíptica" que o esperava quando centenas de figuras, umas abraçadas às outras para se salvar e gritando por ajuda, subitamente apareceram sob as luzes.
Uma minoria desesperada
O vento leva mais do que areia do Saara para a Sicília; leva pessoas para o norte desde os tempos antigos. São Paulo teve um acidente de barco na costa de Malta e, segundo a lenda, Maria Madalena foi levada para Provence. Desde 1988, quase 14.000 pessoas morreram fugindo para a Europa. Elas foram jogadas ao mar, surradas até a morte -ou simplesmente morreram de sede. E esse é apenas o número oficial de mortes registradas.
Há um elemento geopolítico por trás de todas as imagens de refugiados sofrendo com exaustão severa e exposição ao tempo. Os políticos nas capitais da Europa também decidem sobre as rotas e o carregamento transportado pelos contrabandistas de seres humanos. Tem a ver com gás natural, petróleo e urânio.
No final de março, por exemplo, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, fez uma visita a Níger e assegurou à gigante de tecnologia nuclear francesa Areva que permaneceria uma parceira estratégica na produção de urânio até o ano de 2030. Esse urânio enche os barcos. "Milhares de jovens de Níger estão fugindo da guerra pelo controle dos depósitos de urânio e estão se agrupando na Líbia", disse Laurence Hart da Organização Internacional de Migração.
Em agosto de 2008, o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi assinou um pacto de amizade com o líder líbio Muammar Kadafi. "Vamos receber mais gás e petróleo da Líbia e menos imigrantes ilegais", disse Berlusconi na época. Ele também concordou em pagar US$ 5 bilhões como compensação pelos anos que a Líbia foi colônia italiana. A firma de defesa italiana Finmeccanica também vai desenvolver um sistema de satélite para que a Líbia possa monitorar o fluxo de refugiados.
A ampla maioria de imigrantes ilegais, contudo, entra na Itália de forma perfeitamente legal. Eles chegam de avião, entram no país com visto de turismo e se escondem. Os refugiados que vão de barco são uma minoria de indivíduos desesperados que teriam poucas chances de serem admitidos por um consulado.
Resolver os "problemas da África"
A agência de segurança na fronteira externa da União Europeia, Frontex, tem base em Varsóvia. A Alemanha apoia seus programas "Hera" e "Nautilus". A ideia é impedir a vinda dos refugiados muito antes de chegarem às fronteiras da UE. Em 2004, o ministro do interior alemão da época, Otto Schily sugeriu usar fundos da UE para financiar campos no Norte da África para quem busca asilo. "Os problemas da África têm que ser resolvidos na África", disse ele.
Para deter o fluxo de refugiados, o Ministério do Interior em Roma equipou o Egito e a Tunísia com barcos para a guarda costeira, veículos com tração nas quatro rodas, binóculos de infravermelho e equipamentos para a polícia, além de organizar treinamentos. A Líbia, de sua parte, anunciou em janeiro de 2008 que ia destruir os barracos e acampamentos em seu território e imediatamente prender e expulsar todos os estrangeiros ilegais na Líbia. Contudo, desde que Kadafi foi eleito presidente da União Africana em fevereiro, este zelo aparentemente decaiu.
Organizações de ajuda denunciaram deportações para o deserto e campos de prisioneiros na Líbia e no Senegal onde os presos são brutalmente surrados e violentados, e as crianças passam fome. Para os que escapam desses acampamentos, o cruzamento noturno do Mediterrâneo em um barco de pesca provavelmente parece um pouco menos atormentador. De qualquer forma, o número de pessoas que chegam pelo mar na Itália aumentou fortemente no ano passado para 36.952.
Nesta semana, um destacamento da polícia italiana vai viajar para a Líbia para preparar a logística para patrulhas conjuntas dos dois países com um total de seis barcos. Será a primeira vez que os guardas costeiros de um país da UE será ativo nas águas territoriais da Líbia. Qualquer pessoa que for presa será colocada em um campo de deportação da Líbia -sem a possibilidade garantida pela constituição italiana de pedir asilo.
O ministro do Interior Roberto Maroni, do partido populista de direita Liga Norte, disse que a imigração ilegal da Líbia vai terminar assim que as patrulhas começarem, no dia 15 de maio. Nada poderia ser mais incerto. O que está claro, contudo, é que, quando controles mais rígidos são introduzidos, os contrabandistas escolhem rotas mais perigosas, e mais pessoas perdem suas vidas tentando entrar na Europa.
Desde que a Frontex conseguiu bloquear a passagem do Senegal para as Ilhas Canárias, os refugiados tiveram que fazer um desvio via Saara e Líbia. E desde que a data de 15 de maio foi anunciada, os contrabandistas da Líbia se apressaram em enviar seus barcos, em todo tipo de clima, tão lotados que quase afundam.
Uma guerra entre pobres
Hussein Gopalgong, 24, estudante de agronomia de Bangladesh, passou por tudo isso. Todo coberto com sua jaqueta polar de explorador no Ártico, está no portão do campo de refugiados Cassibilie, ao sul de Siracusa. É um dos sortudos que conseguiram chegar ao solo italiano. Ele pagou US$ 1.000 para a viagem de Trípoli pelo mar, seu pedido de asilo está sendo estudado e recebeu documentos de identificação das autoridades italianas. Pode começar uma nova vida.
Perto dele está Tonino, 47, gerente do armazém Magliocco & Sons, um homem todo arrumado, de barba grisalha. Tonino diz o que todos os italianos pensam, segundo ele. Ele fala das doenças que foram introduzidas, de tuberculose e AIDS, e da vida doce dos moradores dos campos, de sua arrogância, de seus acordos nebulosos, do dinheiro que recebem aos montes. "Mas quando você abre a boca, logo é taxado de racista", diz ele. "Ninguém diz nada, nem os políticos, nem a mídia, nem os juízes. Deve haver uma razão para isso, certo?"
Gopalgong ouve educadamente. Seu italiano ainda é rudimentar.
"Eles conhecem as leis melhor do que pessoas como nós. E quando seu pedido de asilo é rejeitado, eles fogem para o mato. É isso!" Tonino aponta para o outro lado dos trilhos onde, debaixo de um arbusto grande, um barraco feito de tábuas e lona pode ser visto. Ao ver o barraco seu tom se suaviza. "São uns pobres coitados. Como nós", diz Tonino.
Na Sicilia, o povo sabe o que é ser forçado a procurar uma nova vida em outro lugar. A edição desta manhã da "Gazzetta Del Sud", informou que o número de pessoas emigrando da província de Ragusa voltou a crescer. "O espectro da emigração voltou", diz a manchete.
"Se houver uma guerra aqui, será entre nós, os pobres, como sempre", diz Tonino. "É assim, não é?"
Gopalgong apenas sorri sob o capuz forrado de seu casaco e concorda hesitantemente com a cabeça. Ele parece incrivelmente feliz apenas por estar aqui.
Tradução: Deborah Weinberg

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Estudo aponta contaminação em 70% das águas superficiais do Brasil

Luana Lourenço

habitação

Bairro popular de Brasília

Brasília – A poluição tornou 70% das águas de rios, lagos e lagoas do Brasil impróprias para o consumo. É o que aponta relatório editado pela organização não-governamental Defensoria da Água, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A pesquisa, que traz dados do período 2004-2008, envolveu 423 pesquisadores, 830 monitores de campo e cerca de 1.500 voluntários, que identificaram 20.760 áreas de contaminação em todo o país.
Em relação à primeira edição do documento, divulgado em 2004, a contaminação das águas superficiais cresceu 280%, dado que torna do Dia Mundia da Água, celebrado hoje (22), um momento de reflexão sobre a necessidade de medidas urgentes.
“Nesse ritmo, se nada for feito, nos próximos quatro anos 90% das águas estarão impróprias para o contato humano, sendo que atualmente mais de 70% já é imprópria para o consumo”, diz o texto dos pesquisadores.
As principais causas da contaminação são atribuídas principalmente ao agronegócio e à atividade industrial. “Há uma falta generalizada de controle e de fiscalização da geração, da destinação e do tratamento de resíduos, sejam eles urbanos, de saúde ou residenciais”, avalia o secretário-geral da Defensoria da Água, Leonardo Morelli.
De acordo com o relatório da ONG, a mineração, a produção de suco de laranja e de derivados da cana-de-açúcar são “destaques negativos” pelos problemas ambientais provocados pelo descarte inadequado de resíduos industriais e pelas conseqüências sociais ligadas aos empreendimentos, como exploração de mão-de-obra e avanço sobre áreas indígenas.
O documento critica ainda a “euforia” com a produção de biodiesel, o que, segundo a ONG, demonstra “uma tendência para a economia agrícola, com empresas petrolíferas altamente contaminadoras apropriando-se indevidamente do discurso do uso de elementos naturais que na verdade mascaram as tentativas de sobrevida dos combustíveis fósseis”.
O lançamento de esgotos diretamente nos rios e a exposição de resíduos em lixões também são apontadas como causas do crescimento contínuo da poluição das águas, principalmente em áreas urbanas.
“A existência de lixões continua sendo uma realidade irrefutável em mais de 4,7 mil municípios sendo que a deposição de resíduos sem controle ou proteção continua ocorrendo nas margens de cursos de água e proximidades de nascentes”, relata o texto.
Um agravante, segundo a ONG, é que menos de 3% dos lixões enquadram-se na categoria de “aterros controlados”, por exemplo. Além disso, o país conta com cerca de 20 aterros devidamente licenciado e com capacidade para receber lixo hospitalar infectante.
De acordo com o relatório, as 20.760 áreas de contaminação mapeadas pelos pesquisadores afetam diretamente cinco milhões de pessoas, além de outras 15 milhões de vítimas de impactos indiretos.

A dez quilômetros de Brasília, moradores ainda convivem com esgoto a céu aberto
Luana Lourenço – repórter da Agência Brasil

Brasília – O serralheiro José Silva faz parte do grupo de 30% de brasileiros que não têm suas casas atendidas por serviços de coleta de esgoto. Morador da Estrutural, bairro pobre do Distrito Federal – a dez quilômetros de Brasília – ele e outros 40 mil moradores sofrem diariamente com a falta de saneamento, visível nas ruas atravessadas por filetes e poças de esgoto.
“É um problema sério. Atrapalha até o trabalho da gente; às vezes chega um carro para eu fazer uma solda e eu tenho que dizer que não posso. Porque não posso trabalhar dentro da água”, relata.
“Sem saneamento básico, uma cidade não consegue ir para a frente. Não tem jeito. O comércio, por exemplo, só não se desenvolve mais por causa disso. Se você vê uma loja arrumada, mas tem uma poça de esgoto na frente dela você não vai entrar, é difícil para a gente”, acrescenta o líder comunitário Carlos Roberto, o Gaúcho.
Em quase todas as ruas, entre as casas simples, os filetes de água escura e mau-cheirosa fazem parte da paisagem. Sem tratamento, o esgoto da cidade têm destino certo: o Córrego Cabeceira do Vale, que passa a poucos quilômetros.
A dona-de-casa Kariele Duarte, moradora do bairro há nove anos, disse que não agüenta mais a situação. Ela conta que há alguns anos o quadro não era tão ruim, mas piorou depois que a administração local começou a passar tratores nas ruas e tentar cobrir as poças com cascalho. “Eles fecham as poças em uma rua e a água vem para a outra. Quando chove, fica impossível passar aqui”, conta, enquanto mostra a água acumulada na porta de casa.
“A gente só faz paliativos. A solução só vai vir com o sistema de águas pluviais”, reconhece Carlos Roberto.
Os irmãos Andressa e Felipe Gomes, de 10 e 9 anos, conhecem de perto as dificuldades listadas pelos adultos. “Não dá para brincar aqui, toda hora o pé fica sujo da água do esgoto”, lamenta Felipe. A irmã conta que na última temporada de chuvas, chegou a ficar com lama na altura dos joelhos. “Minha mãe não deixa a gente ficar muito na rua por causa disso. Dizem que a água pode dar doença também”.
A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) estima que sejam necessários R$ 57 milhões para implantar rede de esgotos na Estrutural. O dinheiro, segundo o governo local, devem ser liberado nos próximos meses. Os projetos técnicos já estão concluídos e a licitação para as obras está em andamento, de acordo com a Caesb.
“É a realização de um sonho você saber que vai ter águas pluviais e rede de esgotos, porque com isso vem toda a infra-estrutura da cidade”, disse o líder comunitário.

Dos 5,5 mil municípios, apenas 39% têm destinação adequada de resíduos sólidos
Antonio Arrais – repórter da Agência Brasil

Brasília – Dos 5.564 municípios brasileiros, apenas 39% têm meios de destinação adequada para os resíduos sólidos coletados, enquanto os 61% dos municípios, que não dão destino adequado, "contribuem para a degradação do meio ambiente, do solo, das águas e, principalmente, estão colocando em risco a saúde pública da população, num quadro bastante precário", segundo o assessor Jurídico e de Assuntos Institucionais da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), Carlos Silva Filho, em entrevista à Rádio Nacional.
De acordo com o assessor, a situação mais crítica está concentrada nas Regiões Norte e Nordeste, onde os percentuais de municípios que não dão destinação adequada aos resíduos sólidos chegam a 85% e 76%, respectivamente. Situação inversa é registrada nas Regiões Sudeste, puxada pelo estado de São Paulo, e a Sul.
Carlos Silva Filho citou o que ele considera um dado mais preocupante ainda: além do alto percentual de municípios que não fazem destinação adequada dos resíduos sólidos, no ano de 2007 "dez milhões de toneladas de resíduos urbanos sequer foram coletados, o que demonstra, com certeza, que eles não tiveram destino adequado".
O diagnóstico dessa situação precária, segundo o representante da Abrelpe, se deve "a um conjunto de fatores, como a falta de uma cultura sobre a real necessidade de adequação da destinação dos resíduos sólidos, a falta em muitos municípios de locais adequados para a construção de aterros sanitários ou depósito ou qualquer outra forma de recepção de resíduos adequada, mas, principalmente, à falta de recursos a serem aplicados nesse setor".
Segundos dados citados por Carlos Silva Filho, a média de gastos dos municípios brasileiros, em 2007, com esse setor de resíduos sólidos, está em R$ 2,20 por mês, por domicílio de quatro pessoas, o que significa mais ou menos entre R$ 0,60 a R$ 0,80 por dia, por pessoa:
"Então não dá para fazer nada com esse valor tão pequeno", alerta o especialista.
Para Carlos Silva Filho, não há necessidade de uso de recursos públicos na melhoria dos serviços do setor, "porque existem empresas privadas dispostas a investir nesse setor, embora falte aplicação desses recursos públicos em pesquisas de tecnologias alternativas e de reciclagem, o que significaria a aplicação de políticas públicas de apoio ao setor".
O representante da Abrelpe lembrou que, na semana passada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma regulamentação de que o pet (garrafa de plástico) agora pode ser reciclado para poder fazer pet para alimentos novamente, porque a tecnologia permite isso.
"Nós temos que ter o cuidado de não deixarmos que esse pet vá para um aterro sanitário, mas que volte para a cadeia produtiva, para se tornar pet novamente e volte para a sua utilização normal", disse Carlos Silva Filho.

Apesar da legislação moderna, Brasil tem que cumprir lição de casa, diz WWF
Luana Lourenço – repórter da Agência Brasil

Brasília – A legislação de águas do Brasil, que inclui a Lei das Aguas, sancionada em 1997, e o Plano Nacional de Recursos Hídricos, aprovado em 2006, está entre as mais modernas do mundo. No entanto, é preciso garantir a implementação para obter resultados internos significativos na preservação de rios, lagos, lagoas e das regiões costeiras. A avaliação é do coordenador do Programa Água para a Vida da organização não governamental WWF Brasil, Samuel Barreto.
“Do ponto de vista da política pública, o Brasil tem uma das políticas mais avançadas do mundo. A Europa, por exemplo, só conseguiu aprovar em 2000 sua política de águas. Mas ainda é preciso fazer a lição de casa, porque ao andar por todo o país o que a gente percebe é que os rios estão sendo degradados”, alertou Barreto em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional.
A solução, de acordo com Barreto, passa pela implementação das políticas nacionais e estaduais de recursos hídricos, mas o primeiro passo, segundo ele, deve ser a conscientização com mudanças de hábitos de consumo de água.
“Por causa da grande quantidade de recursos hídricos do país dá impressão de que a água nunca vaia acabar, e não é verdade. É importante que cada cidadão faça sua parte, revendo os hábitos de uso dentro de casa”, sugeriu.
Para comemorar o Dia Mundial da Água, o WWF lançou a campanha Nascentes do Brasil. O objetivo, segundo Barreto, é “convocar a sociedade e os governos” para a necessidade de preservação dessas áreas, que entre outros serviços ambientais, servem as bacias hidrográficas que abastecem as áreas urbanas.
“Atividades crescendo de forma desordenada, invadindo as áreas periféricas, desmatando, com problema de lixo e de esgoto correndo para dentro desses ambientes, do aterramento de nascentes, comprometem a qualidade e a quantidade de água. O ritmo de degradação é muito maior do que a resposta dada pelos órgãos públicos para proteger essas áreas”, afirmou.

Apenas 25% do esgoto coletado no país é tratado
Luana Lourenço – repórter da Agência Brasil

Brasília – Os números do saneamento básico mostram que o Brasil ainda tem muito a avançar na data em que a Organização das Nações Unidas (ONU) comemora o Dia Mundial da Água. O índice médio de coleta de esgotos no país é de 69,7%, sendo que o tratamento atinge apenas 25%. Os números são do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades.
A ONU elegeu 2008 como o Ano do Saneamento e deve recomendar aos países a formulação de políticas públicas para universalizar o acesso a esse serviço. “No mundo todo, 2,6 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento e estão expostas diariamente a doenças, como diarréia e cólera”, aponta o representante da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO), José Turbino.
Os números de coleta e tratamento de esgotos no Brasil refletem diferenças regionais históricas do país: no Sudeste, o índice de coleta é de 91,4%, já na região Norte, não chega a 9% das habitações. “Temos uma distribuição desigual do desenvolvimento e, evidentemente, a conseqüência disso é que as políticas públicas muitas vezes também acompanham esse desnível. [A diferença] é decorrência da falta de políticas de saneamento no âmbito nacional em sucessivos governos”, avalia secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do MMA, Luciano Zica.
Entre as capitais, as diferenças chegam a mais de 90%. Enquanto em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre a coleta de esgoto atinge quase toda a população (com índices superiores a 85%), em Porto Velho, apenas 2,2% têm saneamento básico. Os dados fazem parte de um relatório do Instituto Socioambiental (ISA), que traça um panorama do alcance de sistemas de saneamento no país.
“Um dos principais desafios do Brasil é a coleta e tratamento de esgoto, em especial nas áreas mais urbanizadas. Tivemos um período muito grande de descaso, há um déficit a ser cumprido. Temos que parar de transformar o Brasil, que é o país dos rios, no país dos esgotos”, alerta uma das coordenadoras do ISA Marussia Whately.
Além de investimentos em programas de saneamento, Whately também aponta a necessidade de políticas específicas para tratamento de resíduos sólidos, avaliação compartilhada pelo representante do MMA. “A questão do ambiente urbano e dos resíduos sólidos foram agregadas ao debate dos recursos hídricos, que até bem pouco tempo eram políticas bem desfocadas. Teremos condições de trabalhar de forma harmônica segmentos que têm impactos diretos na qualidade da água; não há como dissociar a questão do lixo da boa gestão da água”, avalia Zica.
O Ministério das Cidades prevê a aplicação de R$ 40 bilhões até 2010, no chamado PAC do Saneamento, em referência ao Programa de Aceleração do Crescimento. A previsão de investimentos precisa ser cumprida para que o país alcance a meta estabelecida pela ONU nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

Após investir no Cazaquistão, a China está de olho nas terras russas inexploradas

Alexandre Billette
Correspondente em Moscou

O caso havia levantado uma polêmica em 2003: o anúncio feito pelo jornal "China Daily", a respeito do aluguel de terras aráveis pela China no vizinho Cazaquistão, havia primeiro obrigado as autoridades cazaques a desmentirem a informação. No entanto, tal projeto foi lançado abertamente: mais de 7 mil hectares de terras foram cedidos a uma empresa mista sino-cazaque, e mais de 3 mil camponeses chineses se dirigiram para a região de Alakol, na fronteira chinesa, para cultivar campos de soja e de trigo.

Mas diante do mal-estar suscitado por esse aluguel – por dez anos – de uma parcela do território nacional, o governo cazaque continuou preferindo demonstrar discrição sobre esse assunto. O país só reconhece cinco lugares utilizados por potências estrangeiras em seu solo: trata-se de zonas militares "emprestadas" à Rússia desde a queda da União Soviética, a exemplo da base espacial de Baikonur.

Então, oficialmente, as terras cultiváveis alugadas à China não existem. É porque as autoridades cazaques temem a reação da população diante da "concorrência desleal", representada pela chegada em massa de camponeses chineses, cujo equipamento agrícola é superior ao velho material soviético ainda utilizado na maior parte das fazendas cazaques.
Para a China, que sofre de escassez de terras cultiváveis, o atrativo dessas regiões da Ásia central é evidente. Na região chinesa de Ili, situada no outro lado da fronteira cazaque, 1,7 milhão de camponeses disputam cerca de 267 mil hectares de terras.
Segundo as estimativas do ministério chinês da agricultura, o país produzirá, em 2015, cerca de 20 milhões de toneladas de soja, ou seja, somente 40% de suas necessidades anuais. Portanto, Pequim não se interessa somente pelas planícies da Ásia central, mas também pelas terras virgens do grande vizinho russo.
Eldorado agrícola
No início dos anos 2000, era basicamente o setor da silvicultura que atraía os agricultores chineses. Mas um endurecimento da legislação russa fez com que fossem anulados, então, os projetos desenvolvidos por empresas mistas russo-chinesas criadas para a ocasião.
Agora a soja é a atividade mais promissora, especialmente no Extremo Oriente russo, nas províncias de Khabarovsk e na região autônoma de Birobidjan, situadas a 6 mil km de Moscou, mas a somente 2 mil km de Pequim. Para os onze primeiros meses de 2008, mais de 420 toneladas de soja foram exportadas dessa forma para a China.
Para ela, a Rússia parece um eldorado agrícola: segundo as estimativas de especialistas russos, mais de 20 milhões de hectares de terras aráveis lá não são cultivados, e os preços são inferiores aos praticados na China. As terras oferecidas para o aluguel são de boa qualidade, com um rendimento estimado em 3 mil kg de soja por ano e por hectare, ou seja, duas vezes mais do que nas fazendas chinesas.
Com tal quantidade de terras cultiváveis e as imensas necessidades da China, a corrida pelas terras russas poderá aumentar. Por enquanto, as autoridades russas veem com bons olhos o cultivo dessas terras anteriormente vagas, que lhes permitirá impor uma taxa sobre a exportação dos produtos agrícolas.
Mas a chegada em massa de camponeses chineses também poderá criar tensões com a população local, uma vez que a severa crise econômica que o país atravessa pode alimentar reações xenófobas.
Segundo o último recenseamento russo, cerca de 35 mil chineses vivem de forma permanente no país. Mas, como o próprio ministro do Interior admite, na verdade entre 400 mil e 700 mil chineses estariam instalados em território russo.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

PROFESSOR TEMPORÁRIO É PRODUTO PERVERSO DE JOSÉ SERRA

Marilene Felinto

Metade dos professores da escola pública paulista não existe – são aparições temporárias, que perambulam de uma periferia a outra, lugares aos quais não pertencem e com os quais não lhes dão tempo de criar vínculo. Manter estes cem mil cidadãos na incerteza trabalhista (são contratados sem concurso público) e no modo de vida nômade que não escolheram, tratá-los como peças de um jogo sem regras, expor todos ao ridículo e desqualificá-los mediante seus colegas profissionais e mediante a sociedade foi o ato mais recente da criminosa “política educacional” do governo de José Serra em São Paulo.

Pior educação pública que a paulista não há no país – e ela é a cara do tucanato (o PSDB), é a obra máxima do descompromisso com a coisa pública quando se trata do interesse da maioria da população pobre. Estes governos afinados com a classe dominante, como os oito anos de Fernando Henrique Cardoso na presidência da República (1995-2002) ou os quase quinze anos em que o grupo de José Serra infesta o Estado de São Paulo deram golpes de morte na educação pública.
Em dezembro último, a Secretaria Estadual de Educação de SP aplicou uma prova ao professorado temporário da rede estadual para utilizar a nota como critério classificatório na atribuição de aulas deste ano letivo de 2009, uma armadilha para demitir milhares de professores que os próprios governos tucanos de Serra e sua turma contrataram em condições de absoluta precariedade e com os quais não sabem o que fazer.
A prova, mal elaborada, cheia de questões visivelmente erradas, avaliaria o conhecimento dos professores sobre a proposta curricular da Secretaria. Concorreram com os quase cem mil temporários outros milhares de novos candidatos a lecionar na rede pública, professores recém-formados. Na concorrência desleal, muitos dos temporários perderiam para os novos seus empregos e um mínimo de direitos conquistados. O professorado recorreu à Justiça e ganhou a causa.
A Secretaria de Educação de Serra, por seu lado, não teve dúvida: saiu divulgando na mídia serrista (em São Paulo, especialmente os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo e as redes de TV) a “nota zero” atribuída a centenas de professores na tal prova, incluindo neste número as tantas centenas de professores que entregaram a prova em branco, em ato de protesto. Uma desonestidade, uma manipulação flagrante dos resultados. A “proposta curricular” da gestão Serra para a educação pública não passa disso: culpabilizar o professor pelo fracasso da política educacional cada vez mais perversa conduzida pelo tucanato em São Paulo. Para que gastar dinheiro com os pobres contratando professores por concurso público? Para que oferecer uma escola de qualidade aos filhos dos pobres?
Certamente não é aos elitistas do PSDB que isso interessa. E ainda que caiba ao governo paulista avaliar seu professorado, ainda que fosse numa avaliação justa, e ainda que o professor tirasse nota zero, ainda assim a culpa deveria recair sobre os governos do PSDB em São Paulo e por aí afora: os professores que zerassem seriam os mesmos formados nas faculdades particulares de quinta categoria (faculdades para pobres), abertas feito barracas de camelôs na gestão do ex-ministro da Educação do governo Fernando Henrique, o hoje deputado Paulo Renato Souza. Nota zero mesmo é a esta gente.
Há tempos que ser professor tornou-se profissão penosa, desonrada, sem nenhum reconhecimento social, ainda mais na escola pública – sintoma dessa grave doença da injustiça social brasileira, nos quadros da qual estudar, educar-se, formar-se virou um culto requintado, apenas para quem pode. Ora, se antes professor era uma figura eterna… Mesmo quando, antes, aprender as letras era com caco de telha riscando o chão, pedaço de tijolo, tudo vermelho-alaranjado no piso de cimento cinzento das calçadas da rua. Aprender letra cursiva era com a mão grande de dona Helena, com a voz mansa de dona Cremilda. Quem nunca teve um amor qualquer por um doce professor ou professora?
Essas minhas podem ter desaparecido no tempo, dona Helena e dona Cremilda – uma do jardim de infância, outra do primeiro ano (antigo primário) –, desaparecidas como os riscos de telha lavados pela chuva na calçada. Só nunca saíram da minha cabeça, da memória da importância monstruosa que tiveram na minha vida. Paulo Freire, o educador, também contava: “Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz”.(1982) Educação também é isso, lembrança para sempre. Temporários (e tomara extintos logo) devem ser os governos perversos da gente do PSDB.

Marilene Felinto é escritora. Artigo publicado originalmente na edição nº145, abril de 2009, da revistaCaros Amigos. Contato: marilenefelinto@carosamigos.com.br

Fonte: Fazendo Média – http://www.fazendomedia.com

Crise lança classe média norte-americana na pobreza

Gregor Peter Schmitz
Gabor Steingart

A crise financeira nos Estados Unidos provocou uma crise social de dimensões históricas. Repentinamente há uma grande demanda pela sopa dos pobres e cidades de tendas estão brotando à sombra de torres de escritórios reluzentes. Até mesmo traficantes de drogas estão sentido o aperto.

Os negócios atualmente vão mal no distrito bancário de Nova York, nos arredores de Wall Street, mesmo para os traficantes de drogas. Nos bons velhos tempos, eles costumavam fornecer cocaína e crack à elite endinheirada americana. Mas agora que os bons tempos se foram, eles passam seus dias na Missão do Bowery, um abrigo para moradores de rua com refeitório e uma capela.
Alvin, 47 anos, é um deles. Seus clientes se foram, assim como o dinheiro que ganhou durante os bons tempos. E quando outro traficante mais alto na cadeia alimentar decidiu que tinha direito a uma maior fatia dos lucros, as coisas ficaram arriscadas demais para Alvin. "Eu estou com medo", ele diz.

AFP/Justin Sullivan/Getty Images - 21.mar.2009

Novos sem-teto, Tammy e Keith Day preparam jantar na cidade de tendas de Sacramento

Natural da Louisiana, Alvin entregou seu apartamento e se mudou para o mais antigo abrigo de moradores de rua em Nova York. No ramo das drogas, um traficante que não paga suas contas recebe pena máxima: morte. Mas Alvin se sente seguro na Missão do Bowery, apesar da demanda por camas estar muito alta. "Na noite passada, eu dormi no chão diante do púlpito", ele diz.
Como detritos humanos, os decepcionados e rejeitados da sociedade ficam sentados ao redor da mansão todo início de noite, aguardando para receber um lugar para dormir – uma cama, um colchonete no chão ou um banco de igreja – pelo diretor do abrigo.
Ironicamente, as doações à missão caíram 13% em relação ao ano passado, disse o diretor, James Macklin. Macklin já foi um morador de rua e viveu na missão antes de ascender no quadro de funcionários até seu atual cargo administrativo. "Nós sairemos mais fortes desta crise", ele diz desafiadoramente.
Nos Estados Unidos, a recessão econômica se transformou em uma crise social de uma dimensão que o país não via desde a Grande Depressão do início do século 20. Além de derrubar os preços das ações e os ganhos corporativos, a atual crise privou milhões de pessoas de seu sustento.
A pobreza como fenômeno de massa está de volta. Cerca de 50 milhões de americanos não possuem atendimento de saúde e mais e mais pessoas se juntam a elas a cada dia. Mais de 32 milhões de pessoas recebem cupons de alimentos e 13 milhões estão desempregadas. A população de moradores de rua está crescendo atrelada ao rápido aumento de execuções hipotecárias, que aumentaram 45% em março de 2009 em comparação ao mesmo mês no ano passado.
Os efeitos da crise são até mesmo palpáveis nos melhores bairros. As ruas são largas em Venice Beach, um subúrbio rico de Los Angeles, próximo do mar. Mas agora elas parecem mais estreitas do que o habitual, porque estão ocupadas por campistas estacionados e peruas, os lares temporários de pessoas cujas vidas foram colocadas na espera. Muitas cobrem as janelas com papelão para preservar um mínimo de privacidade. Algumas colocaram cartazes que dizem "Entre se ousar", na esperança de dissuadir ladrões de carros e outros criminosos.
A crise também se fez sentir na rica Georgetown, um bairro residencial histórico em Washington, DC, que é lar de muitos políticos, lobistas e advogados. Qualquer um que se esquecer de trancar seu carro à noite pode esperar encontrar convidados indesejados dormindo dentro dele na manhã seguinte.
Quando uma mulher local, que trabalha em uma embaixada de um país do Oriente Médio em Washington, abriu a porta de seu carro certa manhã, ela ficou surpresa ao encontrar uma mulher segurando uma bolsa e usando um colar de pérolas sentada no assento da frente. A mulher humilhada cobriu seu rosto, pediu desculpas educadamente e rapidamente deixou seu local de pernoite.
A perda do emprego geralmente marca o início do fim do modo de vida da classe média. Em um delírio de corte de custos, as empresas americanas começaram a demitir parte de sua força de trabalho. O número de desempregados cresceu em cerca de 690 mil pessoas em março, 850 mil em fevereiro e 510 mil em janeiro. Desde o início da crise, em meados de 2007, o número total de desempregados nos Estados Unidos inchou em 6 milhões.
A rede de seguro social do governo é insuficiente para permitir que pessoas que perderam seus empregos continuem vivendo suas vidas como se pouco ou nada tivesse acontecido. Após a farra de consumo dos últimos anos, as contas bancárias das pessoas comuns estão vazias e as contas de investimento da classe média perderam em média 40% de seu valor. Devido a estes fatores, o desemprego frequentemente é seguido por uma rápida queda na pobreza abjeta.
Atualmente, os políticos passam tanto tempo visitando abrigos de moradores de rua quanto antes visitavam novas empresas no Vale do Silício. As pessoas aguardando na fila da sopa da Miriam’s Kitchen, em Washington, recentemente ficaram felizes em ver a primeira-dama Michelle Obama, quando fez uma visita surpresa à cozinha de sopa para os pobres. Antes de tomar posse, o presidente Barack Obama ajudou a pintar um abrigo para moradores de rua não distante da Casa Branca.
Em um recente discurso, Obama disse que prevê "um futuro onde o crescimento econômico sustentado crie bons empregos e aumento da renda". Mas estas palavras parecem vazias na atual crise.
O presidente agora deve zelar por um país que está se desfazendo. Com os empregos desaparecendo e a renda encolhendo, o futuro dos Estados Unidos parece vulnerável no momento.
A crise no terço mais baixo da sociedade se transformou em uma ameaça existencial para alguns americanos. Muitas sopas para pobres não estão conseguindo atender aos famintos e mesmo novas instalações, construídas às pressas para abrigar os sem-teto, frequentemente são inadequadas para atender o aumento da demanda. Muitas empresas privadas por todos os Estados Unidos estão retirando seu financiamento a projetos de bem-estar social. Ironicamente, sua generosidade está acabando no momento em que a pobreza em massa está retornando aos Estados Unidos.
O governo também está contribuindo para um agravamento da crise. Apesar do governo federal em Washington ter disponibilizado recursos adicionais para atendimento aos sem-teto, muitos governos estaduais reduziram seus orçamentos sociais. Um dos motivos para as reduções são as Constituições estaduais, que proíbem os Estados de se endividarem, impondo um regime forçado de frugalidade.
A terra da oportunidade é apenas uma piada cruel
Em Nova York, as sopas para os pobres precisam se virar com verbas altamente reduzidas, apesar da demanda pelo serviço ter quadruplicado. Segundo a prefeitura, refeições gratuitas foram fornecidas a 1,3 milhão de pessoas em 2007. De outubro a novembro de 2008, o número de nova-iorquinos vivendo abaixo da linha da pobreza saltou repentinamente para 3 milhões.
Mais recentemente, as sopas para os pobres da cidade foram sobrecarregadas pela clientela. A Igreja dos Santos Apóstolos, em Manhattan, atualmente distribui 1.250 refeições por dia, mas mesmo isso não é o bastante, diz Joel Berg, diretor da Coalizão Contra a Fome de Nova York. "Muitas pessoas vão embora sem terem recebido uma refeição."
A fome raramente é uma aflição solitária. Muitos daqueles que aguardam na fila da sopa não mais possuem um lar permanente. Milhares dos sem-teto, incluindo muitas famílias que não podem mais pagar seu aluguel, se mudaram para motéis baratos. Estas pessoas antes faziam parte da classe média americana.
O Costa Mesa Motor Inn fica em Orange County, uma área rica perto de Los Angeles, familiar para muitos telespectadores como cenário de "The O.C.", uma série sobre as vidas amorosas glamourosas de adolescentes mimados. O motel fica ao lado de um campo de golfe deslumbrantemente verde, e um novo shopping center do outro lado da rua oferece cafés para adultos e parques de diversões para as crianças.
Mas não há nada glamouroso a respeito do Costa Mesa Motor Inn, onde regras rígidas estão colocadas na entrada: proibido álcool e mendicância. Uma viatura da polícia fica estacionada na frente do motel. Carros de brinquedo enfileirados em um peitoril de janela no quarto 1108 servem como lembrete de tempos melhores. "Nós conseguimos trazer os carros de brinquedo conosco, mas tive que jogar fora a maioria dos brinquedos", diz Sergio Gallardo. Ele aluga um quarto no motel, que não chega a ter 10 metros quadrados de tamanho e conta com uma pequena cozinha, por US$ 870 por mês. Seus filhos – Raymon, 13 anos, Sergio, 12, Alina, 8, Jacob, 5 e Lovely, 3 – espiam do quarto mal iluminado.
Os Gallardos, que moravam em um grande apartamento de três quartos, estão no motel desde novembro. Sergio, 33 anos, um homem de aparência poderosa e vestindo camiseta, antes ganhava bem como operário de construção, enquanto sua esposa criava os filhos. Mas agora ele perdeu seu emprego, a esposa e o carro. O pastor alemão da família teve que ser levado a um abrigo de animais, porque cães não são permitidos no motel.
O único benefício do novo endereço da família é que há muitos amigos para as crianças. Uma caridade local estima que mais de 1.000 famílias estejam morando em motéis em Orange County. A face da crise é alegre no playground do Costa Mesa Motor Inn, onde as crianças riem e gritam como se estivessem na Disneylândia.
Por mais difícil que seja sua situação atual, os Gallardos são mais afortunados do que alguns na capital californiana de Sacramento. Lá, não distante de um aterro ferroviário, uma cidade de tendas era, até recentemente, lar dos mais pobres dentre os pobres. A cidade de tendas existe há vários anos, mas era habitada principalmente por viciados em drogas e jovens que abandonaram os estudos. Mas, nos últimos meses, se juntaram a eles as vítimas da crise econômica. Cidades de tendas semelhantes estão crescendo por todos os Estados Unidos, de Seattle até a Flórida.
A compaixão rende boa audiência na TV, como demonstrou recentemente a apresentadora Oprah Winfrey, quando chamou a atenção de seus telespectadores para a cidade de tendas de Sacramento. A publicidade de Oprah foi embaraçosa para Sacramento e seu prefeito, Kevin Johnson, de forma que a cidade de tendas foi removida pela cidade na semana passada. Johnson disse que Sacramento gastaria cerca de US$ 1 milhão para encontrar um abrigo alternativo para aqueles no acampamento e no fornecimento de uma moradia mais permanente. As imagens de televisão da reportagem de Oprah lembravam fotos de um livro de história. Como um lembrete amargo do passado, fotos de adultos com olhares vazios e crianças carentes pareciam uma caricatura do sonho americano. O criminologista James Alan Fox, que há muito alerta para o aumento do crime relacionado à crise, diz que mais e mais americanos estão enfrentando dificuldades atualmente. "O sonho americano se transformou em um pesadelo para eles, e a terra da oportunidade é apenas uma piada cruel", disse Fox recentemente ao jornal "The Washington Post".
Estatísticas recentes confirmam suas previsões, enquanto os Estados Unidos começam a se transformar novamente em um local brutal. Abril já se transformou em um dos meses mais sangrentos na história criminal americana. Uma semana antes da Páscoa, um homem de 22 anos matou três policiais em Pittsburgh. No mesmo dia, um homem de 34 anos no Estado de Washington atirou em seu cinco filhos antes de atirar em si mesmo. Um dia antes, um homem matou 13 pessoas em um centro de atendimento a imigrantes e então tirou sua própria vida. No mesmo mês, um homem de Priceville, Alabama, atirou em sua esposa, irmã, o filho dela de 11 anos, sua própria filha de 16 anos e, finalmente, em si mesmo.
"Este é o modo americano", escreveu cinicamente o colunista Bob Herbert do "The New York Times". Ele aponta que os americanos mataram cerca de 120 mil outros americanos desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 – quase 25 vezes o número de americanos mortos até o momento nas guerras no Iraque e Afeganistão.
Mais e mais os especialistas atribuem o aumento na criminalidade nos últimos meses ao estado ruim da economia. "Eu nunca vi um número tão grande [de homicídios] em um período tão curto de tempo envolvendo tantas vítimas", disse Jack Levin, um professor de criminologia da Universidade do Nordeste, em Boston, ao "The Washington Post".
Novamente, está crescendo uma geração de crianças americanas no país cuja vida diária é marcada por violência e desesperança. A educação frequentemente sofre entre a nova classe baixa. As crianças que são sem-teto ou moram em motéis apresentam menos probabilidade de fazer sua lição de casa ou mesmo ir à escola.
Rhonda Haramis está encarregada do programa de ajuda aos estudantes do Centro de Transição Mary Bethune, em Long Beach, Califórnia. Certo dia, ela recebeu ligações de 18 pais, muitos deles dizendo que estavam prestes a ser despejados e que não podiam mais garantir que seus filhos frequentariam a escola ou que poderiam ajudar seus filhos na lição de casa. Haramis e seus professores não sabem o que dizer aos pais. Em uma entrevista para um jornal local, eles compararam o impacto da crise sobre eles aos efeitos do furacão Katrina em Nova Orleans.
A crise social é particularmente dura para aqueles que já enfrentavam dificuldades antes, como os imigrantes ilegais que trabalham como diaristas. Um grupo deles se reúne toda manhã em um grande estacionamento de uma loja do Home Depot em Los Angeles, bem no mundialmente famoso Sunset Boulevard da cidade.
Atualmente os trabalhadores não nutrem qualquer ilusão. Às 11h da manhã, centenas de homens ainda estão sentados sobre os baixos muros de pedra que cercam o estacionamento, e sempre que um carro encosta, uma multidão cerca o veículo, na esperança de arrumar trabalho. Eles empregam o pouco de inglês que aprenderam: "pintura", "faxina", "faço de tudo", "barato". Dificilmente algum é bem-sucedido.
A crise pode perturbar de tudo, inclusive a fé dos americanos nas ações de seu próprio governo. O governo Obama já injetou bilhões no sistema bancário, e bilhões adicionais foram reservados para construção de estradas e pontes. Todavia, a situação social tem se deteriorado de forma constante.
A euforia em torno do primeiro presidente negro do país, um homem que venceu a eleição com palavras como "mudança" e "esperança", diminuiu consideravelmente. As palavras de Obama ainda têm apelo, mas seus ouvintes recentemente passaram a prestar mais atenção ao que ele faz em vez do que ao que ele diz.
Quando o presidente discute a situação econômica atualmente, a euforia dá lugar ao desencanto em muitos lugares. Quando Obama assumiu o microfone na Universade de Georgetown, em Washington, na semana passada, ele alertou sua platéia que seu discurso seria "prosa, não poesia". Mas aquelas palavras pareciam supérfluas, já que atualmente ninguém pensaria em dizer: "Sim, nós podemos!"
Acima de tudo, um Obama pensativo pediu paciência à platéia. Ele notou que apesar de haver raios de esperança iniciais de que a situação poderá melhorar, "nós não podemos reconstruir a economia sobre o mesmo monte de areia. Nós temos que construir nossa casa sobre uma rocha". Mas isso, ele disse, não pode ser feito em um curto período de tempo.
Ele continua apontando seu dedo para seu antecessor, o impopular George W. Bush, para lembrar às pessoas como tudo começou. Nós herdamos um desastre orçamentário, uma verdadeira confusão, ele diz repetidamente. Mas suas palavras não são mais capazes de provocar paixões, porque Bush já é história.
O ex-presidente agora passa seus dias fazendo coisas como dar o primeiro arremesso em jogos de beisebol, como fez recentemente no Texas. Nestas ocasiões, ele gosta de sorrir para as câmeras.
Mas, sempre que lhe pedem para comentar as políticas de Obama e a forma como está lidando com a crise, ele educadamente se recusa a responder a pergunta. "Ele merece meu silêncio", diz Bush. A crise se tornou a crise de Obama.
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Rede Globo e Daniel Dantas: um caso de polícia

OSWALDO DA COSTA

Não se trata de cobertura dos fatos, se trata de um ataque à consciência dos telespectadores. Na noite de 19 de abril, o programa de variedades Fantástico, da Rede Globo, apresentou uma suposta reportagem sobre um conflito ocorrido numa fazenda do Pará, envolvendo "seguranças" (o termo procura revestir de legalidade a ação de jagunços) da fazenda do banqueiro Daniel Dantas e militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Só pude descobrir que se tratava de propriedade do banqueiro processado por inúmeros crimes e protegido por Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, após ter vasculhado algumas páginas na internet em busca de meu direito de escutar o outro lado da notícia, a versão dos fatos dos sem terra, pois na reportagem eles aparecem como invasores, baderneiros, seqüestradores da equipe de reportagem da Rede Globo, assassinos em potencial, e ao final, corpos de militantes aparecem baleados no chão, agonizantes, sangrando, sem nenhum socorro, e a reportagem não fornece nenhuma informação sobre o estado de saúde das vítimas.

Sem ter acesso às causas do conflito, e a nenhum dos dois lados envolvidos, o telespectador se vê impelido a acompanhar o julgamento que o narrador da reportagem e a câmera nos sugerem. No caso, tendemos a concordar com a punição dada aos desordeiros: "que sangrem até morrer!", ou "quem mandou brincar com fogo?!" podem ser algumas das bárbaras conclusões inevitáveis a que os telespectadores serão levados a chegar.

Nós, em nossas casas, consumidores do que a televisão aberta nos apresenta, não temos direito ao juízo crítico, porque o protocolo básico das regras do jornalismo não é mais cumprido. Nós somos atacados em nosso direito de receber informações e emitir julgamentos, nós somos saqueados por emissoras privadas que mobilizam nosso sentimento de medo, ódio e desprezo, para em seguida nos exigir sorrisos com a próxima reportagem.

Como um exercício de manutenção da capacidade de reflexão, precisamos nominar esse tipo de ataque fascista com os termos que ele exige. A ilusão de verdade deve ser desmontada, a suposta neutralidade deve ser desmascarada, caso a caso, na medida de nossas forças.

Seguem questionamentos à reportagem, com o intuito de expor o arbítrio de classe da Rede Globo, para que esse texto possa endossar a documentação que denuncia a irregularidade das emissoras privadas e protesta contra a manutenção de concessões públicas para empresas que não cumprem com as leis do setor.

1º) Por que a Globo protege Dantas? Por que a emissora não tornou evidente que as terras pleiteadas pelo MST para Reforma Agrária são de Daniel Dantas? Qual o grau de envolvimento da emissora nas manobras ilícitas do banqueiro?

2°) Por que o MST não foi escutado na reportagem? Quais os motivos do movimento para decidir ocupar aquela fazenda?

3°) As imagens contradizem os fatos. A câmera da equipe de reportagem aparece sempre posicionada atrás dos seguranças da fazenda, e nunca à frente dos sem terra.

E vejam informação da Agência Estado: "A polícia de Redenção informou a Puty [Cláudio Puty, chefe da Casa Civil do governo do Pará] não ter havido cárcere privado de jornalistas e funcionários da Agropecuária Santa Bárbara, pertencente ao grupo do banqueiro Daniel Dantas e que tem 13 fazendas invadidas e ocupadas pelo MST. Os jornalistas, porém, negam a versão da polícia e garantem que ficaram no meio do tiroteio entre o MST e seguranças da fazenda" (http://br.noticias.yahoo.com/s/19042009/25/manchetes-pm-desarmar-mst-segurancas-no.html). Quer dizer, nem mesmo os grandes jornais conservadores estão fazendo coro com a cobertura extremamente parcial da Rede Globo.

4°) Ocorreu um tiroteio mesmo? Só aparecem os jagunços da fazenda atirando, e com armas de calibre pesado. E a imagem dos feridos mostra os sem terra baleados e um jagunço de pé, com pano na cabeça, possivelmente contendo sangramento de ferimento não causado por arma de fogo, dado o estado de saúde do homem.

5º) Por que os feridos não são tratados com o mesmo direito à humanidade que as vítimas de classe média da violência urbana? Eles não têm nomes? O que aconteceu com eles? Algum morreu? Quem prestou socorro? Em que hospital estão? Por que essas informações básicas foram omitidas?

6°) Por que mostrar como um troféu a agonia de seres humanos sangrando no chão, sem nenhum socorro?

Osvaldo da Costa é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Justiça com as próprias mãos

Luiz Paulo Juttel
Marina Mezzacappa

23 de abril de 2008, bairro de Quintino, zona norte do Rio de Janeiro. Mais de 50 mil fiéis se reúnem na Igreja local em comemoração ao dia do padroeiro, São Jorge. A segurança do evento é supostamente garantida pela milícia, que se instalou nas favelas próximas em janeiro deste ano, após expulsar os traficantes. Exigência para a realização da festa: entre R$ 20 e R$ 50 por barraca montada. Ironicamente, os festejos pelo dia do santo guerreiro retratam a entrada de mais um ator na dinâmica de um sistema paralelo de “segurança” e punição que se estabeleceu no Brasil e inclui também pistoleiros, grupos de extermínio e justiceiros.

“Essas formas de punição veladas, bem como o poder paralelo que existe atualmente no Brasil, crescem e ganham força diante da ausência do Estado”, declara Roberto Porto, promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e integrante do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). “Temos uma precariedade absurda em termos de segurança pública. A popularização da ação dos grupos de extermínio, por exemplo, está diretamente vinculada à demanda por segurança e à privatização de sua oferta feita pelo monopólio ilegal/legal dos assassinos”, completa o sociólogo José Cláudio Souza Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Para ele, as relações de dominação, desigualdade e discriminação presentes na nossa sociedade também são terreno fértil para a expansão das lógicas do "bandido bom é bandido morto" e da punição não-estatal.

Segundo Porto, o Estado deixou de se posicionar diante do poder paralelo ao longo dos anos. “Preferiu negá-lo, temendo admitir a sua ineficiência”, afirma. Para o sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará, César Barreira, o Estado vem mudando essa postura histórica de conivência com os grupos que ameaçam seu monopólio legítimo no uso da violência, como os matadores de aluguel. “Essas práticas deixaram de ser funcionais para o Estado”, avalia, enfatizando que muitos políticos e famílias influentes tiveram vínculos estreitos com as formas privadas de punição. Em fevereiro, um dia após a prisão de dez policiais acusados de participação em um grupo de extermínio, o governador de São Paulo, José Serra, admitiu a existência de organizações desse tipo dentro da Polícia Militar do estado e declarou “não ser fácil combatê-los”.

História e lógica do extermínio

Nos anos 50, grupos de extermínio surgiram no Brasil sob a forma de “esquadrões da morte” que vingavam o assassinato de policiais por bandidos. Durante a ditadura militar, tais grupos ganharam conotação política ao eliminar adversários do regime vigente. Logo depois, vincularam-se ao crime e, na década de 80, passaram a ser conhecidos como grupos de extermínio, tendo como alvo preferencial os meninos de rua das grandes cidades. A ligação mais recente foi com os traficantes. “O objetivo principal agora é eliminar membros de facções rivais”, revela Umberto Sudbrack, desembargador da 5 a Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

Além dos grupos de extermínio, um novo agente agregou-se nos últimos anos ao sistema punitivo não-estatal brasileiro. Trata-se das milícias, grupos formados por policiais, aposentados ou na ativa, bombeiros e outros indivíduos que invadem as favelas e bairros do Rio de Janeiro, expulsam os traficantes de drogas e passam a cobrar uma taxa de moradores e comerciantes para garantir sua suposta proteção. Esses grupos mantêm a ordem nas favelas através do assassinato de traficantes, assaltantes, mendigos e meninos de rua. “As milícias encontraram na utilização da execução sumária, enquanto política pública de segurança, o melhor dos cenários possíveis”, pontua Alves. “Eliminar pobres em áreas periféricas do Brasil tornou-se algo muito rentável política e economicamente”, completa.

A lógica que impulsiona as atividades criminosas das milícias e grupos de extermínio é semelhante a de pistoleiros e justiceiros. “Eles acham que cumprem o papel de promover uma ‘assepsia social’ que o Estado ineficiente deveria, mas não vem fazendo”, diz Barreira. “É uma lógica maniqueísta, de eliminar fisicamente os indesejados, os maus elementos, da sociedade”, concorda Sudbrack.

Pistoleiros, justiceiros e vingadores

Antes do surgimento de grupos organizados de criminosos que executam quem causa problemas, a eles ou à sociedade como um todo, já existia a figura do matador de aluguel. “Historicamente, o serviço desses matadores não era contratado em casos de conflito passional. Nessas situações, a punição era levada a cabo pela própria pessoa que se sentia desonrada”, explica Barreira. Mas esse quadro mudou no decorrer do século XX. A pistolagem, antes restrita ao meio rural e político, chegou à cidade como uma possibilidade de resolução dos mais diversos conflitos interpessoais e viu o perfil dos mandantes aumentar.

Outros atores na dinâmica da punição são os justiceiros e vingadores. Enquanto a ação do pistoleiro é motivada pura e simplesmente pelo retorno financeiro e não se constitui de valores, a do justiceiro baseia-se no conceito de limpeza social e a do vingador no de limpeza da honra (própria ou de uma pessoa próxima e querida). “Todos eles se consideram no direito de matar alguém que tenha cometido um ‘delito’ não passível de punição pelo Estado como, por exemplo, o adultério”, afirma Barreira.

Apesar de muitas semelhanças, o modus operandis desses atores difere. O pistoleiro geralmente intenciona apenas o resultado final, matar a vítima, por isso procura realizar seu trabalho de forma rápida, sem causar muita dor, disfarçada, para evitar o seu reconhecimento, e sem revelar o mandante. “Já o justiceiro pode aplicar tortura sobre suas vítimas”, diz Barreira. Sua intenção é não apenas matar quem está sendo punido, mas lhe causar sofrimento e usá-lo como exemplo, publicizando o feito.

Outro aspecto interessante é a consciência que essas pessoas têm sobre a possibilidade de virem a ser punidas pelo Estado. Segundo Barreira, pistoleiros consideram que suas ações violentas merecem punição, mas acreditam que ela deve ser maior para o mandante da execução, já que ele é o autor intelectual do crime. Justiceiros e vingadores, por sua vez, acreditam que não são passíveis de punição porque estão apenas eliminando maus elementos da sociedade.

Nos presídios

Formas de punição não institucionalizadas não se restringem à sociedade livre. Dentro dos presídios, impera um rígido código de ética que, quando quebrado, gera repreensões violentas. Pequenas atitudes, como agir com má educação contra um companheiro de cela, observar a visita alheia ou ser considerado inconveniente pelos outros presos, podem levar a surras e outras formas de violência que, às vezes, terminam em internação hospitalar, coma e até mesmo morte.

“Uma vez, um cara ficou ‘secando’ <olhando> a visita de outro preso. Quando acabou o tempo de visita, ‘furaram’ <esfaquearam> ele. Ficou 12 dias em coma”, conta Rodrigo Corrêa Goulart, estudante universitário e ex-presidiário, condenado em 2006 a um ano e 11 meses de prisão por tráfico de drogas. O estudante cumpriu pena em um pequeno presídio do interior de Santa Catarina. Nem por isso deixou de vivenciar situações de duras punições perpetradas pelos próprios presidiários. “Toda semana rolava um estresse. Tinha preso que apanhava, que era impedido de comer, que ficava de joelhos um tempão, que tinha que desfilar de saia e calcinha dentro da cela, ou era até mesmo estuprado por companheiros”, comenta Goulart.

O castigo, segundo ele, sempre é definido por aquele que está há mais tempo no presídio: “Esse é quem manda”, revela o estudante. Nos grandes presídios do país, em especial de São Paulo e Rio de Janeiro, existe o agravante das facções criminosas, como o PCC. “As facções dominam o sistema prisional. Elas se tornaram uma grife no mundo do crime, na qual o preso inserido ganha o respeito dos outros”, explica Roberto Porto. Segundo o pesquisador, esse respeito é vantajoso para o preso na medida em que o Estado não tem condições de assegurar sua segurança.

Dentro dos complexos prisionais de São Paulo, o chefe de uma facção criminosa é chamado de “piloto” e exerce liderança sobre os demais. Sua voz de comando se estabelece graças ao trabalho dos “disciplinas”, detentos encarregados de aplicar o castigo a quem agir contra os interesses da facção.

Nos presídios, alguns criminosos são mais mal vistos do que outros, de acordo com o crime que cometeram. Estupradores e homens que espancam mulheres, crianças ou idosos, por exemplo, costumam ser isolados dos demais presos para garantir sua integridade física.

Mudança de paradigmas

Para César Barreira, os valores defendidos pelos presidiários e outros agentes não-estatais de punição são, de certa forma, compartilhados pela sociedade, o que “legitima” muitos atos de punição junto à população. O código de honra dos presos diz que punir quem estupra ou violenta mulheres e crianças é uma forma de proteger suas esposas e filhos que estão do lado de fora da cadeia. “Os linchamentos mostram como esta lógica de punição se amplia para a sociedade em geral. Existe certa ambigüidade por parte da sociedade em relação a essas práticas punitivas. Ela ao mesmo tempo nega e aceita tais práticas”, atesta Barreira.

Segundo ele, é preciso mudar o arcabouço social que valoriza pessoas corajosas, valentes, que “não levam desaforo para casa” e resolvem os conflitos não pela palavras, mas por meio da violência. Alves destaca ainda que “a permissividade da execução sumária praticada contra grupos sociais identificados como executáveis se alimenta de todo o preconceito, segregação, desqualificação e desumanização praticados tanto na esfera familiar como escolar”. De acordo com ele, é necessário um esforço de dar rosto, voz e compreender quem são essas pessoas, “simplesmente rotuladas de vagabundos, marginais, a serem abatidos”.

Barreira acredita que só se pode reverter a aceitação dessas práticas de punição veladas por meio do trabalho educativo. “É preciso ter total clareza de que apenas o Estado tem o direito de aplicar punições e qualquer ato que ocorra fora desse anteparo estatal deve ser combatido”, pontua. Para isso, é importante que a população retome a confiança no Estado e na polícia, que, por sua vez, precisa passar a exercer sua funções de maneira mais satisfatória.

Já Sudbrack lembra que “a desigualdade social brasileira é o fator determinante da criminalidade e da repressão que os autores desta sofrem”. Para ele, o combate a essa realidade requer a resolução de problemas básicos, como a concentração de renda, e a formulação de políticas públicas que visem à promoção de reformas sociais. “Apenas a vontade política, reforçada por processos de controle supranacional, pode combater violações de direitos humanos, como o extermínio de pessoas”, conclui.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

Cidades velhas

ZUMTHOR DÁ AS COSTAS PARA A EXUBERÂNCIA DO MERCADO, DIZ MENDES DA ROCHA; PARA O ARQUITETO CAPIXABA, PROGRAMAS DE CASAS POPULARES IGNORAM AVANÇOS DEMOCRÁTICOS

”Habitação tem de ser onde o acesso ao trabalho é mais fácil”

MARIO GIOIA
DA REPORTAGEM LOCAL

Paulo Mendes da Rocha está debruçado sobre suas origens. Ou melhor, sobre as águas de suas origens. Aos 80 anos, está mais perto de finalmente inaugurar seu primeiro projeto para a cidade natal, Vitória (ES): o Cais das Artes.
Até 2012, deve ser entregue à cidade um edifício de linhas contemporâneas, que invade as águas da baía de Vitória, feito em concreto e metal.
A construção terá um museu em condições de receber mostras internacionais, com área total de 3.000 m2, além de um teatro de 1.300 lugares e outros espaços (reserva técnica, sede de corpos estáveis, salas para oficinas educativas, entre outras coisas).
Em entrevista à Folha, o arquiteto capixaba radicado em São Paulo fala sobre o Pritzker dado ao suíço Peter Zumthor -que ganhou o Mies van der Rohe para arquitetura europeia, outra honraria importante da área, no mesmo ano em que Paulo Mendes da Rocha recebeu a versão latino-americana -1999.
Discute também projetos similares ao Cais, que utilizam engenhosamente a ligação entre território e edificação, em especial em paisagens portuário-marítimas, como os destinados a Montevidéu (Uruguai) e Alexandria (Egito).
Também não deixa de comentar o que considera nocivo para o urbanismo paulistano, como a manutenção do MAM-SP (Museu de Arte Moderna de SP) embaixo da marquise projetada por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera e a não execução de um anexo para a Pinacoteca do Estado, projeto de 1993 que trouxe de novo luzes sobre sua obra arquitetônica.

O Pritzker a Zumthor
Peter Zumthor é um arquiteto com uma obra que pensa e reflete profundamente o espaço. O prêmio dado a ele distingue uma arquitetura que está fora da exuberância mercadológica tão presente atualmente no meio. O Pritzker sempre está olhando para o futuro e faz com que uma obra como a dele seja vista e estudada com mais profundidade.
O local do Cais das Artes
É um projeto que, para mim, tem um encanto e uma sedução muito especiais, pois nasci lá. A casa do meu avô era quase em cima do porto, junto do parque Moscoso.
O porto fica na cidade velha, no fundo de um canal formado entre o continente e a própria ilha de Vitória. Na entrada desse canal, portanto, acabou se fazendo uma ponte que liga o continente à ilha, era um território abandonado "in natura" até outro dia.
Há pouco tempo, uns 15, 20 anos, foi feita uma muralha de cais com material da dragagem do próprio canal. Ganhou-se uma área do mar, retificou-se essa frente e prolongou-se uma avenida.
O programa
Este projeto contempla um teatro capaz de exibir óperas. Portanto, deve ter todos os recursos de orquestra, fosso, capacidade para 1.300 pessoas. E há um museu de arte moderna; hoje toda cidade importante do mundo tem seu MAM. O projeto tem de organizar essa praça de 70 metros por 300 metros na frente do mar. O lugar é esplêndido, porque você assiste aos trabalhos do mar, num desfile constante de navios para lá e para cá, rebocadores, lanchas de práticos. Ou seja, é uma cidade que se pode ver ali amparada pelos trabalhos.
Dificuldades
É um território de Marinha, ganho do mar, com problemas de lençol freático superficial.
Nós fizemos o teatro levantado do chão, o que dá a ele uma impostação de liberdade no chão, com galerias laterais.
E, junto da avenida, fica a parte de serviço, a entrada dos artistas, fundo de palco, espaço para cenários.
O grande salão, de onde se desce para a plateia, está debruçado sobre as águas do mar.
Nós pusemos toda a sustentação, os pilares, dentro d’água. Nos fundos do teatro, as janelas abrem para o mar.
De Vila Velha para Vitória, há uma navegação muito interessante de passageiros. Há desde grandes transatlânticos de turistas a lanchas, embarcações menores, que se dirigem para os recintos turísticos da baía, riquíssimos.
Esse lugar, assim, toma um certo ar veneziano. De quem constrói enfrentando as águas.
A influência de Reidy
O museu é desenvolvido de modo linear ao longo do mar, mas levantado do chão, para que desde a avenida você não tenha tolhida a visão do mar, dos navios e do lado de lá do canal. É bom lembrar que o MAM do Rio de Janeiro, do [Affonso Eduardo] Reidy, já é assim também -ou seja, diante de uma paisagem belíssima, você procura, sempre que pode, que um grande edifício não seja uma pedra no chão.
A influência portuária
Eu nunca saí de Vitória, não é? Do ponto de vista da minha formação, essa cidade sempre teve uma importância grande. Quem nasce num porto de mar, tem uma educação peculiar.
Há uma visão das virtudes da natureza, dos seus fenômenos, mas também das engenhosidades humanas. Um porto atrai e abriga inexoravelmente catraieiros, estaleiros, máquinas, ligações especiais com o tempo, com os horários…
Quem nasce num porto de mar tem tudo para ser sábio. Acostuma-se a ver a natureza não como uma simples paisagem, mas sim como um conjunto de fenômenos. Se o outro diz que é doce morrer no mar, nós, entretanto, achamos que não convém [risos].
A Biblioteca de Alexandria
Você deve ter uma atenção especial com essa disposição espacial "sui generis" para o enfrentamento das águas, é uma questão universal e muito interessante. Basta ver a Holanda toda, por exemplo.
A necessidade de saneamento nessas áreas alagadas, inundadas, de baixios, abrir canais, corrigir as marés.
Santos teve um trabalho magnífico do Saturnino de Brito. A população não tem consciência disso. E é por isso que as nossas cidades vão para o brejo.
No concurso para a Biblioteca de Alexandria [Egito], em 1988, saí do terreno exclusivo que deram, na frente do mar, mas separado por uma avenida.
E, avançando sobre as águas, há o que chamam de Península dos Faraós. Fizemos um grande túnel, que atravessa a avenida. Você rompe a avenida como obstáculo e usa toda a península como se fossem os jardins da biblioteca, com dois anexos.
É um partido arquitetônico que enfrenta uma espacialidade nova e necessária, num lugar extraordinário.
Não é simplesmente destinar um terreno para fazer um casarão como outro qualquer, para resolver um programa da biblioteca. Isso é fácil resolver.
A própria biblioteca também teria um pequeno porto. Você desembarcaria na biblioteca livre do trânsito de automóveis, pelas águas de um lugar que tem uma história, uma monumentalidade.
Montevidéu
Ao seminário que eu fui, em 1998, o tema era a baía de Montevidéu. É uma baía rasa, imprópria para a navegação.
A ideia era fazer uma avenida circular em volta da baía. A mesma questão de sempre, você fica com uma avenida de tráfego intenso, que impede a aproximação com a frente das águas. A própria avenida tem um lado só, o outro lado não serve para nada.
Como a baía não produz praias, não tem atrativos, surgiu a ideia de retificar as frentes, aterrar as esplanadas horizontais, inclusive com material dragado da própria baía, e mostrar que essa água morta passa a ter uma virtude incrível.
Ou seja, ela pode ser intensamente navegável de um lado para o outro, aliviando o tráfego de automóveis e criando um hábito novo para a população.
As vias elevadas em Vigo
Na Universidade de Vigo [projeto para a cidade espanhola, de 2004, em construção], a questão é enfrentar uma topografia muito enérgica e violenta. O terreno é escabrosamente vertiginoso, pode-se dizer assim. A partir de uma certa costa, mais ou menos numa posição de anfiteatro natural. Portanto, não surgiu a ideia de continuar fazendo muro de arrimo, estradas difíceis.
Era melhor construir uma via elevada na mesma cota, fazendo os novos prédios de maneira vertical, associados a essa rua elevada.
Os novos edifícios nascem todos desse viaduto. Aqui em São Paulo é fácil entender isso: o edifício Matarazzo, o Conde Prates e o antigo prédio da Companhia Light são edifícios que têm entradas pela cota do viaduto e pela cota do vale do Anhangabaú.
Vigo, assim, não tem nada de extraordinário nem de novo. A via elevada resolve uma série de problemas e facilita o encontro dos estudantes, a frequência e a convivência entre eles, que é muito difícil no descalabro de uma cidade feita num terreno montanhoso.
Minha Casa, Minha Vida
De maneira geral, todos os chamados planos habitacionais são erráticos porque não amparam a questão essencial da moradia, que é o endereço.
Habitação tem de ser junto do transporte público, nas áreas mais centrais, onde o acesso ao trabalho é fácil.
A grande questão da habitação é a construção da cidade.
Se você considerar uma cidade como as nossas, com mais de 5 milhões de habitantes, não pode fazê-la inteira pensando em palácios, museus, teatros.
Isso são adereços indispensáveis à cidade. Mas ela é feita de milhões de casas, que têm de saber conviver com o comércio, com acesso à saúde, à educação, ao transporte público.
Portanto, é um problema muito mais complexo do que simplesmente fazer um determinado número de casas, no caso 1 milhão.
Esse contrassenso de se afastar das áreas centrais é até explicável pela ideologia das classes mais ricas.
Mas a cidade bem feita é sempre um espaço democrático. Isso apavora esse pessoal que gosta de morar afastado.
Não percebem que, com isso, destroem a sua própria cidade, a sua própria moradia. Eu não sei como é que se faz para educar os filhos na adolescência em condomínios fechados. Estão produzindo monstrengos.
O anexo da Pinacoteca
É uma ideia do Emanoel Araujo, que era o diretor da Pinacoteca no tempo da reforma que fiz lá.
A ideia era transformar o que hoje é uma escola estadual em uma instituição de caráter museológico, que formaria de carpinteiros, eletricistas e montadores de exposições até museólogos, críticos, como um anexo da Pinacoteca do Estado.
Queria até fazer uma pequena ponte para a passagem de pedestres, alta, que ligasse um daqueles terraços altos da Pinacoteca atual ao outro lado do novo edifício.
A ideia é brilhante. Hoje, uma grande dificuldade dos museus é arranjar um corpo de funcionários capaz de gerir tudo aquilo. É uma coisa para fazer, não há o que discutir.
Esse é um projeto da cidade de São Paulo, qualquer arquiteto pode fazer, um pouco mais assim, um pouco mais assado.
Não estou dizendo que quero fazer, não sou catador de projetos. É um projeto que qualquer pessoa de bom senso faz.
O MAM-SP
A tragédia do parque Ibirapuera é o MAM, porque é fruto de um engano absurdo. Se é um museu, tem de respeitar as artes e, muito particularmente, a arquitetura, como manifestação artística.
O museu se enfiar embaixo da marquise é uma estupidez que não é possível ser feita por um museu. O grande empenho do MAM deveria ser de sair debaixo da marquise e liberar a entrada do Pavilhão da Bienal. Você não pode usar um quadro de Picasso como tela para pintar outro quadro e dizer que aproveitou a tela. Foi o que fizeram com a marquise.
Não vejo razão para ficar inventando novos museus [o antigo prédio da Prodam se tornará um museu de arte popular até 2011 enquanto um está desamparado, como o MAM.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Alemanha Oriental, na intimidade

Karlheinz Jardner

Quando um fotógrafo da Alemanha Ocidental saiu para uma viagem à ilha de Rügen, na Alemanha Oriental, logo depois da queda do Muro de Berlim, na primavera de 1990, capturou um mundo que logo desapareceria para sempre. Vinte anos depois do evento histórico, ele revê sua jornada em um relato em primeira pessoa.

Lembro-me da pintura mostrada na aula de educação artística: Os Penhascos de Giz de Rügen, de Caspar David Friedrich. Aquilo parecia lendário para mim. Por outro lado, fiquei fascinado pelas cores, os rosas, os cinzas, os verdes, e o azul cintilante da água em contraste com o branco luminoso da rocha branca.
Por outro lado, estava convencido de que, apesar de sempre poder ver a pintura, nunca seria capaz de contemplar o mesmo cenário na realidade. Eu me perguntava se a paisagem da ilha de Rügen de fato correspondia à pintura. Era um mistério para mim.
Então o Muro de Berlim caiu. Foi na primavera de 1990, eu tinha 36 anos e vivia na cidade de Essen, na Alemanha Ocidental. Visitava um amigo em Berlim quando tudo aconteceu, e decidi aproveitar a oportunidade. Deveria ser o mês de maio quando viajei para Rügen.
Cresci na região de Ruhr e tudo o que eu sabia sobre a outra metade da Alemanha —além da pintura dos penhascos de giz de Friedrich— eram as imagens da Alemanha Oriental que eu via na televisão. Uma delas era o Palácio da República, uma imagem que me levava a concluir que a mentalidade alemã do outro lado não era tão diferente da mentalidade de onde eu vivia.
Em outras palavras, tudo era muito organizado e ordenado. Fora isso, eu via um pequeno trecho da Alemanha Oriental sempre que viajava pela estrada entre a fronteira em Marienborn e Berlim Oriental. Eu não estava muito tentado a ver mais.
Houve apenas uma ocasião em que vivenciei um pequeno fragmento da verdadeira Alemanha Oriental. Em 1985, acompanhei o cantor Klaus Lage e seu fotógrafo numa turnê pelo leste, mas tudo foi organizado de forma que não houve muito tempo para passear. Da segunda vez foi diferente. Apesar de meu destino ser Rügen e seus penhascos de giz, o resto da minha viagem era mais ou menos aleatório.
Eu queria me permitir vagar por lá, decidir espontaneamente se queria virar para a esquerda ou para a direita na estrada, fotografar aquilo que me chamasse atenção e passar a noite onde quer que eu fosse parar. Como as pessoas reagiriam? Eu me perguntava.
"Pode dormir no quarto da minha filha!"
Tive muitas surpresas ao viajar pelo distrito de Mecklenburg Lake, onde logo percebi que algumas cidades eram bastante deprimentes —e muito diferentes das imagens que eu via na TV. Num vilarejo, perguntei a uma mulher na rua se ela poderia me recomendar um lugar para ficar, e ela me mandou procurar a enfermeira do lugar.
Toquei a campainha, e quando a mulher abriu a porta, disse a ela: "Olá. Disseram-me que eu poderia ficar aqui." Ela respondeu prontamente: "Claro. Minha filha está na universidade em Leipzig. Você pode ficar no quarto dela".
Foi exatamente isso o que aconteceu. Lá estava eu, um completo estranho, e essa mulher me convidava para ficar no quarto de sua filha. Fiquei muito surpreso, e imaginei como seria se um estranho tocasse a campainha de alguma casa na região de onde venho, Ruhr.
Será que o dono da casa teria dito: "É claro! Por favor, entre! Você pode ficar aqui!"? Essa recepção amigável foi uma experiência muito especial para mim, e foi com a mesma sinceridade que fui recebido muitas vezes mais durante minha viagem. Outra coisa que percebi foi a atitude dos meus anfitriões.
As pessoas se desculpavam pelas coisas que tinham. No café da manhã, por exemplo, elas pediam desculpas pelo fato de a manteiga estar dura – apesar de estar ótima para mim! Mesmo quando eu dizia isso a elas, parecia que se sentiam culpadas por não poderem me oferecer mais. É claro, algumas pessoas eram céticas, principalmente os homens, e seu ceticismo ficou claro em muitas conversas.
Eles queriam saber como se beneficiariam com a reunificação, e o que aconteceria com seus empregos "quando todas as pessoas começassem a vir do ocidente". O que aconteceria com seus negócios, suas cooperativas agrícolas? Eles estavam preocupados com sua sobrevivência, e não sem motivos.
Tudo era encantadoramente kitsch
A hospitalidade deles me deu a oportunidade de ver como as pessoas de fato viviam. É difícil descobrir alguma coisa sobre o modo de vida das pessoas vendo suas casas só pelo lado de fora. Mas o que eu vi nos interiores foi uma surpresa para mim: prateleiras com bibelôs, canecas de cerveja e pratos decorativos, e conjuntos de móveis que me faziam
pensar: já vi isso antes! Na região de Ruhr, esse estilo é conhecido como "Gelsenkirchen Baroque". Tudo parecia tão cafona para mim, e ainda assim havia um ar privado e aconchegante nesse modo de viver.
Uma coisa que eu não havia experimentado no ocidente era o mundo das mercadorias da Alemanha Oriental. Eu queria tirar fotos das coisas, documentá-las, porque sentia que essas imagens mudariam muito rapidamente: uma vitrine de loja com nada além de duas televisões, um papel cuidadosamente dobrado anunciando o preço com as palavras "Placa de Circuito Lógico: 9,50 marcos", escrito com caneta de ponta porosa, produtos de limpeza Ata por 13 centavos, "Legumes Comestíveis" e "Pão Doce Inglês". Tudo parecia uma grande queima de estoque.
Também houve situações simplesmente bizarras, como minha visita a um café em Neustrelitz. Os únicos clientes naquela noite eram algumas mulheres, que logo me abordaram e perguntaram se eu era do ocidente.
Depois a porta se abriu, e um homem que estava claramente bêbado se aproximou das mulheres. Ele xingou "Wessis" (alemães ocientais) e ergueu a voz para me acusar de ter batido nas mulheres. Então a porta se abriu novamente e entraram cinco soldados soviéticos.
Eles passaram por mim, pegaram o homem pelos cabelos e o jogaram para fora. Eu fiquei muito irritado e decidi que era hora de ir embora. Quando saía do café, a mulher da chapelaria me disse: "Já está indo embora, jovem?
Que pena, porque estava começando a ficar interessante". Não tinha muita certeza do que ela queria dizer com aquilo, mas fiquei feliz de ter saído de lá inteiro.
Maré alta
Então finalmente cheguei a Rügen. A Alemanha Oriental era completamente diferente por lá. Meu lugar favorito foi a cidade de Sellin, com suas casas de madeira da época do Kaiser, para onde a nobreza costumava ir para fugir do calor do verão.
Hans Knospe, um fotógrafo de praia, falou-me sobre as casas, e explicou que "nada havia sido feito durante o período da Alemanha Oriental", e por isso elas estavam tão arruinadas. Ele disse ainda: "Bom, você sabe, de certa forma a vida não foi tão ruim para mim. A vida na praia sempre melhora o humor". Senti que suas palavras eram uma reflexão inteligente de um homem que havia trabalhado como fotógrafo sob um regime autoritário.
Fui visitar o Hotel Cliff Rügen, onde os políticos importantes da Alemanha Oriental se hospedavam, e o quarto onde o presidente do partido comunista SED Eirch Honecker supostamente passava suas noites. Na época, muitos alemães orientais visitavam o lugar. Eles diziam que finalmente queriam "ver onde eles sempre ficavam". Antes da reunificação, o hotel era proibido para as pessoas comuns.
Num dia agradável, acordei cedo e fui para os penhascos de giz. Não havia uma trilha, e eu não consegui ver nada de imediato. Mas persisti e, de repente, vi o mar, e vi a pintura. Tive que sentar e dizer para mim mesmo: É isso, você está a está vendo de verdade! Foi uma experiência muito comovente. Sentei-me ali por cerca de uma hora, observando o grande penhasco branco e o oceano luminoso, e então decidi ver a paisagem por uma perspectiva diferente.
Havia algumas escadas de madeira misteriosamente encostadas na rocha, desci por uma delas e caminhei pela orla. A praia ficava cada vez mais estreita, chegando a dois ou três metros de largura, e de repente veio o pensamento inquietante de que o Mar Báltico poderia ter marés altas.
Fiquei eufórico e decidi voltar. Eu havia visto o penhasco e a cor fascinante da água, seu brilho esverdeado em contraste com a rocha branca, com meus próprios olhos.
Era exatamente como eu tinha imaginado! Fiquei comovido com a paisagem, e queria voltar para lá. Em retrospecto, meus encontros com as pessoas foram talvez mais importantes do que a sensação de ter finalmente chegado ao meu destino. A natureza permaneceria a mesma, como eu havia conhecido na pintura de Caspar David Friedrich, mas as pessoas estavam prestes a passar por grandes mudanças.
Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: Der Spiegel – http://www.spiegel.de/

Nossa velha companheira, A fobia

Tremores, suor frio, taquicardia, sufocação e, por fim, uma paralisia total: é a escalada das fobias, uma síndrome que vai do medo ao pânico. Elas podem arruinar a nossa vida. Com um pouco de coragem e muita luta, todas têm cura.

SHEILA LOBATO

Milhões de pessoas em todo o mundo sofrem hoje de um mal para o qual, desde a infância, damos muito pouca ou nenhuma importância. Só há pouco tempo é aceita como uma doença e seus números a situam entre as que mais afligem a humanidade. É o medo, sua versão mais branda, e o pânico, a mais devastadora. Fobia é a palavra que define todas as suas formas.

Seus sintomas são bem conhecidos pelas vítimas: tremores, suor frio, taquicardia, sufocação e, no fim, uma paralisia total que pode ou não acontecer, e quando acontece o medo se transforma em pânico. Não tem hora para acontecer. Pode atacar mesmo quando a pessoa está dormindo, e destrói sua vida. Quando a fobia se estabelece, o prazer de viver desaparece.

A doença é cruel. Muitas pessoas, mesmo da própria família, riem ou zombam do sofrimento do outro. Se é homem, taxam-no de efeminado e outros adjetivos pouco edificantes; se é mulher, dizem que é uma criancice, um resquício de seu comportamento infantil. O doente sofre e ainda é humilhado. Muitos sofrem em silêncio, tanto quanto puderem, para não serem novamente molestados.

Mas a fobia tem tratamento, ainda que o medo não desapareça por completo. Aliás, fobias todos nós podemos ter. Elas só viram um problema quando seu impacto sobre o dia-a-dia se torna insuportável no trabalho, na família ou mesmo na rua. Há doentes que não conseguem andar numa calçada vazia ou descer uma escada sozinhos. Outros não podem ver aranhas, baratas e outros bichos.

O tratamento mais recomendado para todas as formas de fobias é a terapia cognitivo-comportamental.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 13 milhões de pessoas procuram anualmente os consultórios especializados nessa terapia. Na população em geral, estima-se que uma em cada dez pessoas sofra de fobias. Menos da metade procura tratamento.

A definição clínica para fobia é que se trata de "um medo persistente e intenso, sem motivo e excessivo, desencadeado pela presença ou antecipação de confronto com um objeto ou situação específica". O objeto ou situação servem apenas como um estímulo para o surto, que pode tomar a forma de um ataque de pânico. O doente sabe o que vai acontecer e, quando pode, evita o encontro com o objeto ou situação que disparam o processo. Mas mesmo conseguindo evitar o surto, há ansiedade e angústia.

A terapia cognitivo-comportamental é a mais eficaz na maioria dos casos. Suas técnicas evoluem rapidamente e há muita comunicação entre os psicólogos, garantindo que se mantenham sempre atualizados. Numa das técnicas mais utilizadas, a pessoa é colocada em contato virtual com o objeto que a oprime. Uma aranha, por exemplo. Ou com a situação que a ameaça: uma escada que precisa descer.

As imagens aparecem num visor eletrônico com monitor tridimensional, colocado sobre a cabeça do paciente. Sensores medem batimentos cardíacos, temperatura, respiração, contrações musculares, alterações cerebrais e outras perturbações, enquanto as imagens estão passando. O objetivo é "familiarizar" o paciente com os objetos e situações.

Antes, o psicólogo faz uma entrevista para saber como está o relacionamento familiar e profissional do paciente. Ele quer saber quando o problema começou, como aconteceu, o que o precedeu, como é a angústia que ele sente, se tem cansaço, insônia, depressão ou tristeza, se tem crises de angústia, se tem frequentemente ideias mórbidas, se pensa continuamente na morte. No decorrer do tratamento vai perguntar as mesmas coisas, mas com a intenção de saber se o paciente ainda sente os mesmos problemas que relatou.

O medo da morte é o sentimento mais forte durante as sessões. Quando o paciente é colocado numa situação em que uma enorme aranha negra anda sobre seu braço virtual, sua primeira reação é de desespero e grande agitação psíquica e motriz. O terapeuta comemora quando chega o dia em que o paciente mostra apenas ligeiras alterações quando a aranha "passeia" novamente sobre seu braço.

Descer uma escada é extremamente penoso para um paciente com esse tipo de fobia. Ele mal consegue descer os primeiros degraus e, em seguida, não consegue mais andar. Agarra-se ao corrimão como se fosse a corda que o mantém suspenso sobre o precipício. No final do tratamento, não descerá a escada virtual correndo, mas chegará até embaixo sem precisar da "corda".

Mas o "milagre" não aconteceu só porque o doente repetiu inúmeras vezes no monitor a situação de surto. Nas entrevistas, o terapeuta descobriu suas maiores fraquezas e trabalhou para reduzi-las ou eliminá-las. Conta ao paciente tudo que já sabe sobre ele, fala claramente de suas fobias e de suas suposições sobre suas causas e origens. Se já identificou o problema, diz o que é e quantas sessões serão necessárias para resolvêlo. A ideia é pôr tudo às claras, dissipando todas as sombras que possam existir na mente do paciente sobre suas perturbações. Quando tudo estiver claro, isto é, desdramatizado, o medo desaparece – como quando se acende a luz do quarto.

O paciente tem sua primeira melhora só de saber que a fobia é conhecida, o processo é sabido e o número de sessões é estabelecido. É como o cerco ao inimigo no campo aberto, do qual não escapará. O paciente se torna agente de sua própria cura. As sessões com o monitor têm, então, somente o papel de dessensibilizar o paciente.

O primeiro combate é à angústia, que advém, falando genericamente, do medo da derrota – medo de perder, de errar. O terapeuta colocará o paciente em situações em que ele passa da derrota à vitória e, no final, ele mesmo concluirá que nunca foi realmente derrotado, mas acossado por algo que não o perturbará mais. Ambos elaboram uma lista de situações angustiantes, das piores às menores, e a luta começa.

O terapeuta pede que sua paciente imagine, por exemplo, que está só em casa com seu gato, confortavelmente instalados no sofá da sala, a lareira acesa e o frio e a chuva rolando lá fora. É noite e começa a trovejar. Em breve, relâmpagos jogam clarões pela sala e a luz se apaga em todo o bairro. Estrondos estremecem a casa e cai a tempestade. A angústia é crescente e de 20 em 20 segundos o terapeuta pede à paciente que relaxe com exercícios de respiração abdominal até que ela imagine o máximo da angústia: seu gato com o pelo todo eriçado, o corpo curvado para cima, miando desesperadamente a cada raio que risca a noite, a casa mergulhada na escuridão, tomada por sombras assustadoras.

Essa paciente sofria de alergia ao pólen e a pelos de gato, embora amasse as flores e seu gato. A cena – ou teatro – se desenvolveu em sete sessões semanais, com doses crescentes de angústia. Após cada sessão, ela saía do consultório com um dever de casa: dar uma nota de zero a dez às situações angustiantes que encontrasse no seu dia-a-dia. No final das sete semanas, as notas estavam todas baixas. O teatro cumpriu a função de representar suas angústias – a solidão, o medo da morte, a impotência diante de forças maiores do que ela, o pavor de ser atacada sexualmente. E de desdramatizá- las, pois ao fim de cada ato eram analisadas, explicadas, esmiuçadas, viradas do avesso pelo terapeuta, na parte cognitiva do tratamento.

As fobias remontam às nossas estruturas psíquicas. A maior parte vem de nossos instintos ancestrais de sobrevivência. O medo de forças poderosas que nos ameaçam vem quase sempre dos ataques que nossos ancestrais sofreram de predadores colossais, num ambiente hostil. Estes sentimentos se ligam frequentemente à escuridão, ao vazio, a lugares desconhecidos. Nossos esquemas de perigo são inatos, transmitidos por "memória coletiva", como dizem os etnólogos. Mas em muitas pessoas, não se sabe por quê, esses esquemas – anacrônicos com o desenvolvimento da civilização – estão ainda ativos e fortes.

Coisas corriqueiras que se dizem às crianças, como "cuidado, você vai cair", carregadas de medo ou angústia, podem realimentar fobias ancestrais. Os pais trancarem a casa cedo da noite sem necessidade, comentando que "há assaltantes à solta por aí", também remetem nossas crianças a medos ancestrais. Canções de ninar, aparentemente inocentes, induzem as crianças a ter medo de tudo para que durmam logo, refugiando-se no sono para não morrerem de medo.

São maldades socialmente aceitas e que retroalimentam nossos esquemas de defesa inconscientes. Há, enfim, um matagal de causas possíveis e impossíveis de determinar. Melhor é animar o paciente a cada passo, elogiá- lo por suas conquistas, incentiválo a seguir em frente porque vai sair dessa por suas próprias forças. E nos momentos de surto, lá fora na vida, o esforço é físico mesmo: a respiração de baixo para cima, enchendo os pulmões pela energia muscular do abdome conjugada com a dos pulmões. Fazemos, assim, sugestiva e verdadeiramente, a união do inferior com o superior. E desse modo, não sem luta e coragem, se vence o medo.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/