Monthly Archives: março 2009

Cidades dos EUA enfrentam um aumento das favelas

Jesse McKinley
Em Fresno, Califórnia

Como gerente de operações de um centro de apoio aos sem-teto daqui, Paul Stack está acostumado a ver pessoas em situação difícil. O que nunca tinha visto antes era pessoas vivendo em tendas e barracos no terreno da estrada de ferro.
"Elas surgiram há cerca de 18 meses", disse Stack. "Um dia estava vazio. No outro, havia pessoas morando lá."

Como uma dezena de outras cidades por todo o país, Fresno está lidando com um déjà vu desagradável: o surgimento de "Hoovervilles" modernas, acampamentos ilegais de pessoas sem-teto que lembram, em pequena escala, as favelas da era da Depressão. Em sua coletiva de imprensa na noite de terça-feira (dia 24), foi perguntado diretamente ao presidente Barack Obama a respeito das favelas e ele respondeu que é "inaceitável crianças e famílias ficarem sem teto em um país tão rico quanto o nosso".

Jim Wilson/The New York Times

Barracos de sem-teto formam acampamento em Sacramento, Califórnia

Apesar dos acampamentos e moradores de rua sempre terem feito parte da paisagem de grandes cidades como Los Angeles e Nova York, estas novas cidades de tendas brotaram -ou cresceram a partir de pequenos enclaves de sem-teto à medida que mais pessoas perdiam empregos e seus lares- em lugares tão díspares como Nashville, Tennessee; Olympia, Washington; e Saint Petersburg, Flórida.
Em Seattle, os sem-teto descontentes com o acampamento de 100 pessoas o apelidaram de Nickelsville, uma referência pouca lisonjeira ao prefeito, Greg Nickels. Uma cidade de tendas em Sacramento, Califórnia, levou o governador Arnold Schwarzenegger a anunciar na quarta-feira um plano para transferir todo o acampamento de 125 pessoas para um parque de diversões próximo. Isso ocorreu após uma recente visita do programa "The Oprah Winfrey Show" ter provocado uma enxurrada de notícias, a ponto dos sem-teto se queixarem de exposição excessiva e pedirem para serem deixados em paz.
O problema em Fresno é diferente, já que é tanto crônico quanto longe da atenção nacional. O número de moradores de rua daqui costuma ser alimentado pelos altos e baixos dos empregos sazonais e de subsistência na agricultura, mas agora a recessão ampliou seu número -com o acréscimo de caminhoneiros e eletricistas.
"Estas são pessoas capazes que trabalhavam por um salário mínimo ou mais e que antes eram capazes de arcar com as despesas de moradia com sua renda", disse Michael Stoops, o diretor executivo da Coalizão Nacional dos Sem-Teto, um grupo de defesa com sede em Washington.
O número crescente de pessoas sem-teto em Fresno, uma cidade de 500 mil habitantes, é uma surpresa. As autoridades municipais dizem que há três grandes acampamentos perto do centro e acampamentos menores ao longo de duas estradas. Ao todo, até 2 mil pessoas estão sem-teto aqui, segundo Gregory Barfield, um administrador de política e prevenção de moradores de rua da cidade, que disse que o uso de drogas, prostituição e violência são comuns nos acampamentos. "Tudo isso faz parte da economia underground", disse Barfield. "É o que acontece quando uma pessoa tenta sobreviver."
Ele disse que a cidade planeja realizar uma "triagem" nos acampamentos nas próximas semanas, para determinar quantas pessoas precisam de serviços e de uma moradia permanente. "Nós estamos tratando disso como se fosse uma área de desastre", disse Barfield.
O administrador municipal assumiu o cargo recém-criado em janeiro, após o condado e a cidade terem adotado um plano de 10 anos para tratar do problema. Uma ação coletiva impetrada em prol dos moradores de rua contra a cidade e o Departamento de Transporte da Califórnia levou a um acordo de US$ 2,35 milhões em 2008, disponibilizando dinheiro para cerca de 350 moradores que tiveram seus pertences descartados em ações de remoção realizadas pela prefeitura.
O crescimento dos acampamentos levou a cidade a colocar toaletes portáteis e guardas de segurança próximos de um acampamento conhecido como New Jack City, que leva o nome de um filme sombrio e cheio de drogas de 1991. Mas isso apenas atraiu mais moradores sem-teto.
"Foi uma espécie de convite para virem", disse Stack, o gerente do centro de apoio.
Em uma tarde recente, ninguém parecia empolgado por morar em New Jack City, uma coleção imunda de tendas surradas pelo vento e chuva em um terreno cheio de lixo. Vários moradores com aparência cansada estavam sentados em sofás velhos enquanto dois pitbulls acorrentados a uma cerca latiam.
Ao norte de New Jack City fica um acampamento menos sombrio. Ele às vezes é chamado de Taco Flats ou Little Tijuana, devido ao grande número de moradores latinos, muitos deles atraídos para Fresno pela promessa de empregos na agricultura, que desapareceram diante da fraca economia e os três anos de seca.
Guillermo Flores, 32 anos, disse que procurou trabalho nos campos e em restaurantes de fast food, mas não encontrou nada. Nos últimos oito meses, ele tem coletado latas, as vendendo para reciclagem por US$ 5 a US$ 10 por dia, e morando em um barraco com três cômodos construído a mão, um lar do qual se orgulha, com porta, lençóis limpos na cama e uma travessa cheia de maçãs frescas na sua cozinha a gás.
"Eu a construí porque precisava", disse Flores, enquanto preparava um jantar com ovos, cebola e pimenta sobre uma fogueira. "O único problema que tenho são as aranhas."
Dezenas de sem-teto daqui encontraram um abrigo mais organizado no Village of Hope, um conjunto de barracões de 2,5 m x 3 m construídos pelo grupo sem fins lucrativos Poverello House, sob supervisão de Stack. Situado em um ex-ferro-velho atrás de uma cerca, cada unidade contém duas camas portáteis de lona, sacos de dormir e uma luz à energia solar.
Doug Brown, um engenheiro elétrico free-lance, disse que descobriu a Village of Hope enquanto estava desempregado, há dois anos, e que voltou após perder seu emprego em outubro.
Stoops, da coalizão dos sem-teto, previu que a população destas novas favelas poderá crescer à medida que aqueles sem terem onde morar queimarem lentamente suas opções e se juntarem às fileiras dos cronicamente sem-teto, muitos dos quais são indigentes devido ao analfabetismo, alcoolismo, doenças mentais e vício em drogas.
Esta mistura já é evidente em uma caminhada por Taco Flats, onde Sean Langer, 42 anos, que perdeu seu emprego como caminhoneiro em dezembro, mora em seu carro diante de uma barraco que é lar de Barbara Smith, 41 anos, uma viciada em crack.
"Esta é uma casa de um quarto", disse Smith, levando orgulhosamente o visitante para conhecer sua casa feita de ripas de madeira descartadas. "Nós temos teto e não tem goteiras."
Durante o dia, a favela parece pacata. Bandeiras americanas tremulam em alguns barracos e tendas e os vizinhos se cumprimentam. Alguns alimentam animais de estimação, enquanto outros fazem fogueiras e conversam.
Daniel Kent, um homem barbeado de 27 anos do Oregon, está morando em Taco Flats há três meses, após ficar sem dinheiro durante uma viagem de carona para a Flórida. Ele conseguiu ganhar US$ 35 por dia segurando uma placa informando o fechamento da Mervyn’s até que a loja de departamentos de fato fechou.
Kent planejava ir a uma feira de empregos, mas disse que não se importa de ser um morador sem-teto. "Nós temos veteranos aqui; temos pessoas com coração, orgulhosas de quem são", disse Kent. "Independente das situações que enfrentaram na vida, isso não muda os corações. Há pessoas muito boas aqui."
Mas o risco após o anoitecer é real. Smith, que perdeu um olho após levar um tiro no rosto anos atrás, disse que ela já viu duas pessoas serem mortas em New Jack City, o que fez se mudar para Taco Flats e tentar abandonar as drogas. Seu companheiro, Willie Mac, 53 anos, que se autodescreve como um pastor jovem, disse estar "esperando ela se acertar com o Senhor".
Smith disse que seu sonho é simples: "Sair daqui, sair das ruas, ter nossa própria casa".
Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

“Hoje não tenho mais esses sonhos”

Dom Pedro Casaldáliga

Dom Pedro CasaldáligaO CARDEAL Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: “Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse de raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimo, especialmente, àqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos”. Essa afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus. Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a “outra Igreja possível”, a serviço do “outro Mundo possível”. E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; ele tem demonstrado.
Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus, que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, “é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade”; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos…
A grande crise econômica atual é uma crise global de humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: trata-se de salvar o sistema ou se trata de salvar a humanidade? As grandes crises, grandes oportunidades.
No idioma chinês, a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade. Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente “o sonho de Luther King”, querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto, em seus 13 pontos, insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.
Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos; sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC…). Comprometemo-nos a vivermos uma “ecologia profunda e integral”, propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de “alta intensidade”.
Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. “Meu Deus, me deixa ver a Deus?”. Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário.
Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de descriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da humanidade.
Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: “Não será assim entre vocês” (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada, e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anúncio, de denúncia, de consolação.
A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela “expressão mais alta do amor fraterno” (Pio XI).
Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. “Ainda cantamos, ainda sonhamos”. Nós nos atemos à palavra de Jesus: “Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda” (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro e, em todo o caso, mais uma vez e sempre, “eu me atenho ao dito: a esperança”.
Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nesses dias esta definição: “A velhice é uma espécie de pós-guerra”; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro. (Circular 2009).

Pedro Casaldáliga é bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

A quem pertence o DNA?

Transnacionais farmacêuticas, antropólogos, governos e polícias buscam reunir o maior número possível de dados genéticos sobre as populações. Saúde e Ciência podem se tornar pretextos para que algumas empresas controlem a produção de medicamentos inovadores e para invasões de privacidade

Franz Manni

DNA Três letras para designar uma substância inquietante, misteriosa e quase imaterial que, contudo, está em cada uma das mais de cem trilhões de células dos nossos organismos. Sem dúvida, trata-se de algo real, dotado de uma massa – cerca de 200 gramas – e de uma forma – a famosa dupla-hélice. É desta concretude que eu parto para afirmar minha percepção européia e individualista sobre o tema, formada no respeito aos princípios da propriedade privada: da mesma maneira que eu poderia, eventualmente, vender meu rim a uma organização ligada ao tráfico de órgãos ou doá-lo para um familiar, o DNA do meu corpo também me pertence.

Entretanto, mesmo que eu optasse por comercializar meu conteúdo genético, não saberia quanto ele vale. Isso porque ignoro completamente o que meu DNA contém. E, ainda que conhecesse sua seqüência, precisaria da ajuda de um especialista para compreender alguma coisa. O mesmo acontece toda vez que nos separamos de um bem quase desconhecido, tal como um livro escrito numa língua estranha ou as bobinas de um filme impossível de ser visto: temos dificuldades em atribuir-lhes valor. Claro, sempre podemos usar o “truque” de um vendedor numa feira de bricabraque, que para não avaliar de maneira distorcida as mercadorias sobre as quais não têm nenhum conhecimento, tenta medir com maior precisão o perfil do comprador. Se este for bem vestido, vier de longe ou estiver acompanhado de um perito, o feirante pode razoavelmente supor que o bem cobiçado tem grande valor, e comprá-lo ou vendê-lo de maneira mais segura. No caso do DNA, as coisas funcionam mais ou menos da mesma forma. Só que os compradores podem ser pesquisadores que se deslocam até lugares remotos do planeta para coletar o código genético de certas populações humanas; ou funcionários de seguradoras norte-americanas, que andam sempre bem vestidos e à procura de uma seqüência portadora de alguma doença prejudicial à saúde financeira da companhia; e até mesmo a polícia, que investe quantias consideráveis na constituição de bancos de dados. Todos são grandes negociantes em potencial.

Podemos pensar que eles estão agindo movidos por um interesse geral, mas nada garante isso. Os geneticistas que solicitam uma amostragem do nosso DNA justificam em geral seu pedido apresentando razões científicas, que englobam as necessidades da pesquisa médica aplicada a patologias supostamente hereditárias. Conhecendo-se os vínculos genealógicos que unem certos indivíduos acometidos de uma mesma doença, pode-se determinar se esta é genética e identificar o fragmento de DNA responsável pelas disfunções. Em tal contexto, o interesse pessoal dos pesquisadores e seu desejo eventual de galgar degraus na carreira parecem irrisórios, se comparados ao bem que farão aos enfermos e à sociedade como um todo, que arca com os custos dos seus tratamentos. Neste caso, é bastante compreensível ceder seu DNA sem receber em troca qualquer compensação financeira. Isso se o geneticista estiver trabalhando para um hospital ou um centro público de pesquisas. Caso ele atue servindo uma companhia privada cujo lucro vem, em parte, das pesquisas médicas, é plausível questionar se a prestação de serviços proporcionada para os doentes e a sociedade será mesmo efetuada de maneira tão desinteressada quanto a doação da amostragem de DNA.

Na Islândia, colonizada pelos vikings, e nas Ilhas Norfolk, cuja população originou-se de um motim no mar, exemplos de populações consangüíneas que atraem pesquisas

Além disso, os cientistas interessados na pesquisa do código genético solicitam contribuições não apenas de indivíduos, mas também de coletividades. E até mesmo de países inteiros. Os vikings, por exemplo, que colonizaram a Islândia a partir do século 9, deixaram como herança uma tradição administrativa robusta o suficiente para que a genealogia da ilha estivesse quase integralmente disponível e remontasse a épocas muito distantes. Relativamente isolados por razões geográficas, os islandeses formam uma população homogênea, o que fez com que seu país fosse o lugar ideal para uma pesquisa sobre eventuais causas genéticas de doenças: nesse território, os vínculos de consangüinidade que existem entre dois doentes podem ser determinados com facilidade. Esta condição favorável não passou despercebida pelo grupo farmacêutico Hoffman-La Roche, que propôs ao governo, por intermédio da sociedade deCODE Genetics, a seguinte troca: o Estado forneceria o acesso aos dados médicos dos islandeses e, caso conseguissem desenvolver tratamentos, estes seriam disponibilizados gratuitamente para a população inteira.

Apesar da violação da vida privada que caracterizava esta operação, perpetrada por uma sociedade comercial, o Parlamento islandês decidiu, em 1998, centralizar o conjunto dos dossiês médicos da população, além das árvores genealógicas, e autorizar seu acesso exclusivo à deCODE Genetics para que os pesquisadores pudessem confrontar esses elementos com os dados genéticos coletados. Dessa forma, o DNA dos cidadãos islandeses adquiriu o status de uma espécie de propriedade coletiva, da qual os representantes legais – os parlamentares – puderam dispor, trocando-a pelos benefícios médicos pretendidos pelo grupo Hoffmann-La Roche. E não se tratava de um “empréstimo temporário”, conforme alguns dos participantes haviam acreditado, mas sim de uma cessão definitiva que não lhes dava direito algum de interferirem no curso dos eventos. Assim, um doador voluntário que decidisse voltar atrás e se retirar do acordo não tinha chance alguma de ganhar a causa. O registro da sua seqüência de DNA não seria apagado do banco de dados.

Aos olhos de um geneticista, os habitantes da ilha de Norfolk apresentam um interesse comparável aos islandeses. Situado entre a Nova Zelândia e a Austrália, este território dispõe de um governo autônomo, ainda que dependente de Camberra. Seus moradores descendem, em grande parte, dos amotinados da fragata inglesa HMS Bounty: em 1789, conforme bem mostra um célebre filme com Marlon Brando, vários marinheiros e um oficial revoltaram-se contra o terrível capitão William Bligh e se apoderam do navio. Bligh e seus seguidores foram abandonados numa chalupa no meio do Pacífico e depois de oito mil quilômetros navegando conseguiram alcançar a ilha de Timor. Já os amotinados, depois de um périplo pelo Tahiti, conheceram um destino mais difícil: caíram nas mãos da justiça inglesa. Apenas nove conseguiram escapar e se instalaram, acompanhados das suas mulheres polinésias, na obscura ilha de Pitcairn, onde fundaram uma comunidade. O grupo, cuja presença foi detectada pelos ingleses em 1808, foi abandonado à sua sorte. A situação permaneceu a mesma até 1856, quando a colônia foi deslocada para uma ilha maior e mais acessível, Norfolk.

Instituições como a Unesco e a OCDE tentam definir recomendações para que as pesquisas e coletas sejam realizadas de maneira aceitável do ponto de vista ético

Em 1999, 143 anos depois, eu ainda era um estudante à procura de um assunto para a sua tese e escrevi para o governo de Norfolk solicitando autorização para estudar o DNA dos ilhéus. Assim como na Islândia e também devido ao seu processo de colonização, existe une genealogia exaustiva da população. Oito meses mais tarde, o ministro da Saúde respondeu negativamente. A sua carta acrescentava que uma série de questões sensíveis, tais como as da propriedade da informação obtida, do seu controle e do respeito pela vida privada, além do temor de que os habitantes sejam considerados cobaias, havia motivado esta decisão da Assembléia Legislativa. Além de tudo, ele me proibiu de empreender demais contatos com os ilhéus, qualquer que fosse o motivo. Ou seja, os temores que haviam sido ignorados pela votação islandesa foram reconhecidos como legítimos em Norfolk. Legitimidade esta que desmoronou um ano mais tarde quando, sempre em nome do povo, a Assembléia Legislativa da ilha emitiu um parecer favorável à proposta da pesquisadora Lyn Griffiths, da universidade australiana Griffith. Seu projeto comportava um programa de saúde pública praticamente idêntico ao da Islândia. Tanto num caso como no outro, as duas assembléias pareceram agir em nome de um interesse geral do qual elas se consideravam depositárias.

Às margens da pesquisa médica, outras disciplinas estão envolvidas na coleta de DNA, como os estudos antropológicos que se focalizam na compreensão da história genética das populações humanas. Este campo, que se aparenta à arqueologia ou à paleontologia no que diz respeito às suas motivações científicas, em geral escapa das decisões governamentais, pois seus avanços não são tão relevantes quanto os proporcionados por áreas com a saúde pública. Por isso, estes outros pesquisadores preferem negociar diretamente com dirigentes locais – prefeitos, diretores de hospital ou chefes de aldeia – as condições do seu acesso à população. Uma vez que a questão científica foi debatida à exaustão e que essas pessoas chegam a um acordo em relação à relevância do estudo, os pesquisadores começam a convencer os possíveis doadores voluntários de DNA.

Instituições tais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), ou a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), tentaram definir recomendações para que essas operações sejam realizadas de maneira aceitável do ponto de vista ético. Tudo se baseia na assinatura de um acordo, por meio do qual cada doador aceita ceder uma amostragem do seu DNA após o acesso a uma série de informações. Mas este ato não confere ao pesquisador, em teoria, o direito de operar cruzamentos dos resultados dos testes genéticos com informações individuais provenientes de outras fontes, eventualmente disponíveis em outros lugares. Ele teria que obter um novo consentimento para utilizar os dados já estocados. Além disso, as amostragens são anônimas e devem ser supostamente destruídas ao final das experiências.

Certos cidadãos bascos conferiram conteúdo político à especificidade genética que parece caracterizá-los. O Bene Israel, uma comunidade judaica da Índia, também

No quadro desta genética “antropológica” o peso das decisões individuais parece ser mais importante. Em relação à pesquisa médica, no entanto, a escala se altera: a genética das populações estuda grupos humanos de dimensão mais reduzida do que a dos habitantes de uma ilha ou de um país. Quando os objetivos almejados são corretamente explicados, torna-se claro para os doadores que o seu DNA poderia conter uma mensagem que será significativa no plano da comunidade. A informação genética é então considerada patrimônio comum, da mesma forma que uma tradição musical, artística ou culinária, conforme mostram as reações suscitadas pelos resultados de pesquisas locais.

Certos cidadãos bascos, por exemplo, conferiram um conteúdo político à especificidade genética que parece caracterizá-los. Da mesma forma, os integrantes da Bene Israel, uma comunidade judaica da Índia, associaram um conteúdo religioso aos testes genéticos que haviam demonstrado a similaridade do seu DNA com o de populações do Oriente Médio. Com essa similitude, eles viam as suas tradições serem confirmadas. Ao mesmo tempo, enquanto as análises genéticas parecem poder reforçar a identidade de um grupo, elas podem também vir a questioná-la ou apontar certas ressalvas. Este foi o caso de uma pesquisa sobre os caracalpaques, habitantes do Caracalpaquistão (região do Uzbequistão), que não conseguiu estabelecer nenhum embasamento genético próprio destas tribos, embora cada uma delas reivindicasse ser descendente de um ancestral único.

Resta definir até que ponto o DNA pode ser percebido como coletivo pelo próprio grupo interessado, uma questão diferente daquela do direito de uma assembléia legislativa de autorizar ou não o acesso a ele. Geneticamente falando, um grupo de pessoas possui um DNA tanto mais “coletivo” – ou seja, que apresenta fortes similitudes entre indivíduos nas seqüências que comportam as variações genéticas humanas – quanto os seus membros são consangüíneos. Embora esta noção faça sentido no plano familiar, ela se torna imprecisa à medida que o círculo se amplia e se complica ao sofrer interferências de fatores lingüísticos e religiosos. Não foi por acaso que as decisões tomadas pelas assembléias de Norfolk e da Islândia diziam respeito a duas comunidades isoladas e integradas: debates desta natureza passam a se focalizar na identidade do grupo e na legitimidade atribuída aos seus representantes.

Pesquisa ou intimidação? Na França, militantes anti-transgênicos militantes que destruíram uma plantação de milho transgênico foram submetidos à coleta do seu DNA

Entre os interesses coletivos que justificam uma coleta em grande escala de DNA estão as questões relativas à segurança, que ocupam um espaço importante. Na França, as forças da ordem estão autorizadas a colher o código genético de indivíduos detidos, no âmbito dos seus inquéritos. Este direito resultou na criação, em 1998, do Fichier National Automatisé des Empreintes Génétiques (FNAEG – Arquivo Nacional Automatizado das Impressões Genéticas), que fora concebido inicialmente para colher as impressões genéticas apenas de autores de crimes sexuais em crianças. De 2001 a 2007, seis substitutivos ampliaram o seu alcance para outras infrações, como a destruição ou a deterioração de bens [1]. Com base nessas novas disposições legais, militantes anti-OGM (organismos geneticamente modificados) que destruíram uma plantação de milho transgênico foram submetidos à coleta do seu DNA. Os que se recusaram viram-se obrigados a pagar uma multa de 15 mil euros (cerca de 40 mil reais), eventualmente acrescida de uma pena de um ano de prisão.

Os arquivos do FNAEG dizem respeito tanto aos condenados quanto a pessoas processadas e mais tarde inocentadas. Neste último caso, a lei prevê a possibilidade de exclusão da ficha, solicitado por meio de um requerimento perante o procurador da República. Mas o pedido não obtém ganho de causa automático e, além de tudo, o requerente não dispõe de meio algum para verificar se sua solicitação foi realmente cumprida. Com a entrada em vigor da lei sobre a segurança interna do território, de 2003, a decisão de proceder a uma coleta de DNA deixa de ser da alçada exclusiva do ministério público: a polícia pode também decidir sobre a questão. Além disso, os textos legais não determinam atualmente nenhum limite de idade para os alvos da coleta.

No começo de 2008, o FNAEG continha cerca de 717 mil fichas e seguia inchando, no ritmo de 30 mil novos perfis por mês [2]. Elas serão conservadas durante 40 anos no caso dos condenados, e por 25 anos nos de todas as outras pessoas fichadas. Este número elevado de informações resulta, em parte, do fichamento retroativo: uma pessoa que foi encarcerada por conta de fatos que, no momento em que foram cometidos, não eram enquadrados pela lei e não justificavam uma coleta, pode ter seu DNA requerido se a lei tiver sido alterada nesse meio-tempo. Não muda nada o fato do caso já ter sido julgado e de a coleta não representar outro interesse senão o de fichar o indivíduo. Em caso de recusa, a justiça sabe se mostrar convincente: as sanções por insubmissão aos testes de DNA prevêem a anulação das reduções de eventuais penas.

Em 2004, um matemático alemão demonstrou a falta de confiabilidade dos retratos falados elaborados pelo FBI nos Estados Unidos, a partir de um banco de dados genético

Este quadro coercitivo mostra que nós não podemos dispor como bem entendemos do nosso genoma. Por enquanto, a lei não autoriza (ainda) a coleta por meio da força. Contudo, ela admite que a polícia use algumas artimanhas que tornam o primeiro método desnecessário: um pequeno lenço, uma bituca de cigarro ou um fio de cabelo contêm DNA em quantidade suficiente para se obter uma impressão genética. A tendência, que já despontava com a pesquisa médica e com a genética das populações, se confirma na chamada luta contra o crime: o DNA é considerado como uma propriedade coletiva administrada pelos governantes de cada país. Não só o nosso DNA não nos pertence verdadeiramente, como ele não vale mais do que 15 mil euros, no melhor dos casos.

Desde a sua criação, a eficiência dos serviços franceses de identificação judiciária não parou de progredir. Ao que tudo indica, eles deverão lançar mão de uma utilização cada vez mais maciça do DNA – mesmo em casos que não estejam enquadrados pelo direito penal, como já ocorreu. Aos olhos do ministério do Interior, o DNA não passa de uma extensão das impressões digitais, mais confiável e poderosa. Seria o caso de se esperar das autoridades que elas empreendam uma reflexão científica, ética ou filosófica sobre a diferença entre as duas? Ou de temer que o DNA de uma prova de delito também seja utilizado para elaborar o “retrato falado genético” de um suspeito procurado (proveniência geográfica possível, origem étnica potencial), e não apenas para se assegurar de que um indiciado possui efetivamente um DNA idêntico àquele encontrado na cena do crime? Esta prática é oficialmente proibida na França, porém legal nos Estados Unidos. Se ela se generalizar, poderá provocar erros judiciários em grande escala, concentrando as investigações em pessoas consideradas potencialmente culpadas de um delito, por “terem um semblante genético suspeito”.

Em 2004, o matemático alemão Hans Jurgen Bandelt demonstrou a falta de confiabilidade dos retratos falados elaborados nos Estados Unidos pelo Federal Bureau of Investigação (FBI) a partir de um banco de dados genético [Bandelt et al., “Problems in FBI mtDNA Database”, Science, Washington, 2004. ]. Aliás, o próprio princípio da elaboração de perfis a partir de dados genéticos apresenta problemas. Em 1997, a análise do DNA de um grande número de pessoas cujo sobrenome era “Cohen” identificava um marcador genético que parecia ser característico de todas elas [3]. Alguns círculos religiosos viram nisso a confirmação científica de uma narrativa tradicional que identifica os Cohen como sendo os descendentes de uma casta de sacerdotes judeus chamada Cohanim. Contudo, pesquisas realizadas posteriormente apontaram que o tal marcador também era encontrado, em uma freqüência análoga, em populações orientais tais como os iemenitas, além de beduínos do deserto, os quais não tinham vínculo algum com os Cohanim.

Imaginemos agora que um crime tenha sido cometido em Nova York por um beduíno que tivesse se radicado nos Estados Unidos e que os investigadores resolvam estabelecer o perfil dos suspeitos por meio de testes de DNA. Se estudos mais aprofundados não tivessem sido conduzidos a respeito do marcador “Cohen”, a polícia concentraria em vão o seu inquérito no contexto da comunidade judaica mais próxima do local do crime.

[1] Artigo 29 da lei francesa de 18 de março de 2003, sobre a segurança interna do território.

[2] “O arquivo de impressões genéticas contém 717 mil perfis”, Reuters, 23 de abril de 2008.

[3] Skorecki et al., “Y chromosomes of Jewish priests”, Nature, Londres, 1997.

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

A esquerda dos EUA debate: como reimaginar o socialismo?

A revista The Nation promoveu um fórum intitulado "Reimaginando o socialismo", para debater a situação da esquerda no mundo e suas perspectivas diante da falência do neoliberalismo. A Carta Maior publica algumas das contribuições deste debate; artigos de Immanuel Wallerstein, Robert Pollin e Vijay Prashad, todos eles intelectuais e professores em universidades nos EUA. Com a eleição de Obama, a esquerda estadunidense vive um momento efervescente e promove um importante debate sobre a necessidade de reinventar o socialismo. O primeiro artigo é de Vijay Prashad, professor do Trinity College, que fala sobre como a esquerda não estava preparada para o colapso do neoliberalismo.

Vijay Prashad

Sometimes he seems to sleep, but will not fail
In every age to rear up to defend
Each dying force of history to the end.
W.H. Auden, August 1936(¹)

Eu passei minha vida adulta inteira lutando para pôr o capitalismo de joelhos. Agora ele tropeça – e eu estou ansioso. Nos primeiros sessenta dias de 2009, 1,2 milhões de pessoas perderam seus empregos nos Estados Unidos, e os tremores dessa desordem financeira sacudiram as fundações de bilhões a mais ao redor do planeta. As coisas estão num caminho tão inglório que até o Banco Mundial teve de se liberar de suas obrigações neoliberais. Seu presidente Robert Zoellick, que já foi o capitão da globalização neoliberal na sua cabine de comando como Representante de [Livre] Comércio Exterior dos EUA diz, agora, “Essa crise global precisa de uma solução global…Precisamos de investimentos em redes seguras, infraestrutura e em empresas pequenas e médias para criar empregos e impedir a agitação social e política”. O neoliberalismo está morto. Agora temos de entrar numa fase diferente: neo-keynesiana, talvez?
Eu estou ansioso. O neoliberalismo sucumbiu às suas próprias contradições. O domínio da finança, sempre uma casa vazia, finalmente se desfez. E, ainda, nós não estamos preparados. Mesmo com o levante da esquerda na América Latina, de um novo populismo vira-lata em Beirute, Bagdá, Teerã, Bangkok – os dragões da velha ordem permanecem no poder. Eles resistiram à crise econômica, mantendo sua autoridade legitimada. Eles fazem, com temeridade, essa ou aquela concessão (mesmo à idéia da nacionalização dos bancos), mas sabem muito bem que seus opositores estão irritados, ávidos, sem o tipo de fundação poderosa para lhes oprimir.
Idéias corretas nunca são suficientes; não se crê e põe em prática idéias pelo fato de elas serem corretas. Elas se tornam idéias de nosso tempo só quando são adotadas por aqueles que chegam a acreditar no nosso próprio poder, que usam-no para lutar por meio das instituições e para consolidar esse poder. Nós, representantes dos descamisados, temos pouco poder, mesmo com nossas pastas carregadas das melhores idéias.
No notável livro Monopoly Capital [O Capital Monopolista, publicado no Brasil pela Zahar], de 1996, Paul Sweezy e Pau Baran se perguntam por que a recuperação da Depressão dos anos 30 teve de esperar pela expansão maciça dos gastos do governo federal para a Segunda Guerra Mundial. ONew Deal foi importante para conduzir um “salvamento” do que tinha sido quebrado pela Era de Ouro, mas era ele mesmo incapaz de ser um estímulo. Interesses poderosos se recusaram a permitir que o governo Roosevelt fizesse um movimento para aumentar o consumo e o investimento governamentais para além dos 15% do Produto Interno Bruto (era 14,5 % em 1938).
Esse teto não era uma barreira estritamente econômica, pois outras sociedades tinham condições de gastar acima desse limite sem seguir a trilha das pedrinhas amarelas da servidão. Era, antes, uma barreira política. Ensaiando esse argumento, John Bellamy Foster e Robert McChesney sustentaram recentemente que essa barreira não poderia ser quebrada “sem uma maciça, na verdade transformadora luta social, a despeito de uma administração relativamente progressista e da pior crise econômica desde a Grande Depressão…as forças que mantêm os gastos públicos domados são poderosas demais para serem afetadas por qualquer coisa, salvo um grande levante na sociedade”. Os Dragões, em outras palavras, devem ser acorrentados.
O chamamento à ação não é o bastante. Nós nos Estados Unidos temos de retrabalhar nossa cansada gramática política. Não mais messianismo, não mais a espera pelo “homem mágico” (como disse Ella Baker). Não mais pensamento alinhado, não nos exaurir mais com a ilusão de que deveríamos lutar como fragmentos e acreditar que nós “vencemos” uma fatia da fábrica social e precisamos defendê-la. Não mais confiar nos profissionais, nas organizações não-lucrativas, as fundações. Não mais reter a capacidade de trazer as pessoas comuns para um movimento extraordinário. Agora é o momento para nós estendermos nossos braços corajosamente e nos ligarmos uns aos outros através de uma perspectiva de lutas combinadas.
“Às vezes, quando você puxa algo para muito longe, ele se torna outra coisa”, explicou Fred Hampton em 1969. “Você já cozinhou algo por tanto tempo que ele se tornou outra coisa? Não é assim? É disso que estamos falando na política”. Reunir, formar, pressionar: as melhores idéias a respeito do que fazer são importantes, mas elas são insuficientes. Precisamos organizar nosso poder de tornar nossas idéias corretas.
Vijay Prashad é Professor de Estudos Internacionais e de História do Sul Asiático no Trinity College, em Hartford, Connecticut, EUA, onde ocupa a cadeira George e Martha Kellner. É autor de vários livros e reivindica orientação marxista. Autor do notório The Darker Nations: A People’s History of the Third World (New Press, 2007) e co-fundador do Fórum dos Indianos de Esquerda (FOIL, na sua sigla em inglês), contribui com inúmeras publicações e sites ao redor do mundo. É também um crítico contumaz do nacionalismo cultural hindu, conhecido como Hindutva.

(¹)
Às vezes ele parece dormir, mas não falhará
Em cada época, para se levantar e defender
Cada força agonizante da história ao fim.

W.H.Auden, 1936

Fonte: Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Em Chernobyl, vinte anos após o acidente nuclear, insetos polinizadores não irradiam felicidade

Stéphane Foucart

Intermináveis controvérsias. É o que suscita, há vários anos, a avaliação de danos do acidente nuclear de Chernobyl, ocorrido em 26 de abril de 1986, aos ecossistemas locais. Essas discussões devem ser retomadas com a publicação, na última edição da revista "Biology Letters", dos trabalhos de Anders Moller (CNRS, Universidade Paris XI) e Timothy Mousseau (Universidade da Carolina do Sul).

Segundo eles, a radioatividade residual continua a ter, vinte anos após o acidente, um efeito sobre determinados insetos e aranhas.
No entanto, em 2006, o Fórum Chernobyl – reunindo órgãos como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) – entregou um relatório segundo o qual os ecossistemas situados na "zona de exclusão" tiravam o melhor partido da radioatividade persistente em níveis diversos. "É verdade no nível macroscópico", diz Gérard-Deville Cavelin, coautor do relatório. "Não que a radioatividade lhes seja favorável, é claro, mas a saída do homem da zona favoreceu uma parte da fauna selvagem, em especial, os mamíferos. A população de javalis, por exemplo, aumentou oito vezes".
Na escala de nocividade, o homem estaria posicionado bem acima da radioatividade… Mas, para Anders Moller e Timothy Mousseau, seria preciso olhar mais de perto. Entre 2006 e 2008, os pesquisadores abriram caminho na zona de exclusão medindo, sobre centenas de pontos e ao longo de linhas transversais, a abundância de determinados animais, em paralelo com a intensidade da radioatividade. Nas cinco categorias contadas (abelhas, borboletas, gafanhotos, libélulas e aranhas), as populações diminuem quando a radioatividade aumenta.
Rarefação dos predadores
Segundo Deville-Cavelin, as correlações são poucas, às vezes. Mas, em 2007, os mesmos autores haviam conduzido um estudo de recenseamento dos pássaros e notaram uma tendência idêntica à rarefação, proporcional à radioatividade medida localmente. O que é coerente. "Quando a abundância de insetos diminui, é normal que seus predadores estejam presentes em número menor", explica Moller. Além disso, trabalhos ainda não publicados sugerem, segundo Anders, que o número de frutas contadas nos antigos pomares da antiga zona de exclusão também cai quando a radioatividade se eleva – o que poderia, seguindo essa linha, se explicar por uma redução das populações de insetos polinizadores.
"Essas constatações devem ser estudadas mais a fundo", avalia Deville-Cavelin. "Aumentando o número de observações e, talvez, as durações das contagens, e também tentando diferenciar a natureza da radioatividade". Com a intenção de descobrir qual dos três tipos de radioatividade (alfa, beta ou gama) é a mais nociva aos insetos polinizadores.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Guadalupe: cai o verniz das aparências

CRISE MUNDIAL Há meses, população da ilha caribenha, que possui o status de departamento ultramarino francês, se mobiliza contra o alto custo de vida do país

CRISE MUNDIAL Há meses,
população da ilha caribenha, que
possui o status de departamento
ultramarino francês, se mobiliza
contra o alto custo de vida do paísTidiane Kassé
de Basse-Terre (Guadalupe)

DESDE O DIA 5 de janeiro, Guadalupe, departamento ultramarino francês no Caribe, está agitada por um amplo movimento social. Lançado por forças sindicais e levado a cabo, hoje, pelo Coletivo Contra a Exploração (LKP, na sigla em crioulo), esse levante, que se exprime através de reivindicações contra o alto custo de vida e contra um sistema de exploração que sujeita as populações, traz, em si mesmo, relações de causas ainda mais profundas.
Duzentos anos após o fim da escravidão, uma fraca minoria, descendentes “dos mestres brancos”, controla o destino de toda população, numa ordem capitalista que a metrópole deixou prosperar e que as populações contestam.
Após um mês de agitações cuja intensidade foi crescente, até a morte, na madrugada de 17 para 18 de fevereiro, de um dos líderes do movimento social, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, passou a dar atenção aos acontecimentos. Mas para levar adiante que tipo de soluções?
A escritora guadalupense Maryse Condé constata que, “apesar das denominações que se alternaram durante séculos, como ‘Velha colônia’, ‘Departamento Francês Ultramarino’, ‘Departamento Francês das Américas’, o estatuto de Guadalupe nunca foi alterado. Sempre viveu em um sistema colonial. Isso significa que deve servir de mercado aos produtos manufaturados da metrópole e, em troca, fornecer matéria- prima”.
Pobreza e dependência
Essa matéria-prima era o açúcar de cana, cujo caráter sazonal se conhece bem. Desde a queda de sua produção, devido à concorrência do açúcar de beterraba, ele foi substituído alternadamente e sem grande sucesso por cultivos como banana e cítricos.
“Guadalupe, prossegue Maryse, continuou, após o fim oficial da colonização, a não cultivar nenhum alimento, importando tudo que sua população consome. Os partidos políticos independentes não tiveram êxito em fazer passar a mensagem de que só uma mudança de estatuto político poderia remediar os problemas nascidos da persistência de tal sistema de trocas colonial.”
Desde o dia 5 de janeiro de 2009, manifestações contra o alto custo de vida estouraram em Guadalupe. Em 5 de fevereiro, estenderam-se à Martinica. A ilha de Reunião, que tinha uma palavra de ordem de greve lançada para 5 de março, está prestes a juntar-se ao movimento.
Nesses territórios da França, sobrevivências da conquista colonial, o lodo das frustrações e os males sociais transbordaram. Paris manteve essas dependências no espírito dos protetorados que prevaleceram na África durante o período colonial.
Nenhum investimento de valor permite às Antilhas francesas viverem por elas mesmas. Os bens de consumo, largamente importados da metrópole, custam 20% mais caro do que no país de origem. A taxa de desemprego ultrapassa os 20%.
“Os guadalupenses ficaram cegos diante da realidade porque se beneficiavam dos subsídios que o Estado francês lhes concedia, como segurosdesemprego e bolsas”, explica Maryse. “A crise mundial descascou o verniz das aparências e o povo de Guadalupe viu, a olho nu, sua pobreza, sua dependência e as desigualdades com as quais sofrem”, completa.
Dominação
Portanto, essa crise que agita o país caribenho vai além de simples manifestações diárias de mal-estar. Diz respeito, na verdade, a um sistema de dominação que, “duzentos anos após o fim da escravidão, guarda ainda as suas raízes”, sublinha o jornalista Luigi Trevo, da Radio Tambou, de Guadalupe. “O que se passa é uma mobilização contra colonos, descendentes dos escravagistas, que controlam 90% do mercado de distribuição de produtos, sem nenhuma transparência sobre os preços”, explica.
As primeiras manifestações, lideradas por diferentes sindicatos, entre eles a União Geral dos Trabalhadores de Guadalupe (UGTC), começaram no dia 16 de dezembro de 2008. Alguns meses depois, outros setores se somaram. De políticos a associações culturais, de organizações de jovens a movimentos de mulheres.
“Assiste-se a um levante popular contra um sistema de exploração. Dois mil ‘Békés’ [descendentes dos colonos brancos] controlam toda a economia. Para nós não se trata de um problema de raça. Mas, por parte de um dos representantes dessa comunidade, o industrial Alain Huyghes-Despointes, sim. E não é por acaso que ele falou, intencionalmente, em qualidade de raça. Duzentos anos após o fim da escravidão, nos encontramos na mesma situação: temos que negociar com brancos para termos condições de vida melhores”, analisa Trevo.
O movimento de reivindicação que se organizou no LKP é composto por diferentes tendências. Apesar disso, o jornalista da Radio Tambou nota que os sentimentos autonomistas estão muito presentes. Segundo ele, o coletivo conseguiu abrir os olhos da população, que pôde ver o jugo ao qual está sujeita. “Isso empurra muita gente para a radicalização. E o sentimento que prevalece é que o governo francês não vai atacar o problema de fundo. Haverá algumas medidas de fachada, mas nada que questione o sistema vigente”, diz.
Independência
Para Trevo, os interesses dominantes em Guadalupe são os mesmos da metrópole. Como exemplo, ele cita o grupo Sara, que controla o setor dos hidrocarbonetos. Com práticas “escandalosas” no que se refere à política de preços, a empresa é um braço da francesa Total. De acordo com o jornalista, isso é reproduzido em outros setores da economia do país.
Na opinião de Trevo, a França peca na sua maneira de conduzir a situação. “Em vez de propôr verdadeiras soluções, Paris opta pela estratégia de esperar para ver no que vai dar, esperando o desânimo e uma desmobilização conforme o tempo passe. Mas é uma má apreciação da realidade, pois o que acontece é importante.
Não se conheceu tal movimento social há décadas. Hoje, essa questão toca a Martinica, onde as realidades são as mesmas, com o mesmo grupo minoritário, descendente de colonos e escravagistas, que controla absolutamente tudo”.
O sentimento independentista nas Antilhas francesas não data de hoje. Exprimindo- se em setores importantes, é protagonizado por líderes do atual movimento social. Mesmo que ele não estruture o discurso reivindicativo, está presente nas reflexões que o acompanham.
“Nós, que somos independentistas há muito tempo, gostaríamos que a mobilização dos últimos meses deflagrasse uma reivindicação política. É provável que aconteça, já que o LKP é procedente do sindicato UGTG, que nunca escondeu sua simpatia pela independência. Mas ainda não sabemos nada. É necessário esperar e esperar”, opina a escritora Maryse Condé. (Pambazuka News).

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Vitória na adversidade

Capital paulista perdeu indústrias, mas inovação preservou sua importância econômica, diz estudo

Fabrício Marques

A ideia de que a economia paulista perde importância para as de outros estados está sendo matizada pelos resultados de um estudo capitaneado por Aurílio Caiado, professor da Universidade de Sorocaba (Uniso). Financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a pesquisa Performance Econômica das Regiões Brasileiras (Perb) compara dados relacionados à inovação em empresas nos principais estados brasileiros, mas, no caso de São Paulo, consegue distinguir o que está acontecendo na capital, na Região Metropolitana de São Paulo e no interior do estado. Os resultados mostram que a saída de indústrias restringiu-se ao município de São Paulo e seu entorno. Se em 1985 a capital abrigava 15% de toda a indústria de transformação do país, o índice em 2005 caiu para 6,1%. No caso da Região Metropolitana, excluindo a capital, a queda foi de 14,2% para 10,5%. Mas o desempenho do interior foi crescente: de 22,7% de toda a indústria nacional de transformação em 1985 para 27,2% em 2005. 
A pesquisa mostra que a perda de indústrias na capital paulista nem de longe é sinônimo de decadência, pois a cidade consolida-se como o grande polo brasileiro de empresas que investem em inovação, aquelas cujos produtos têm mais valor agregado. “O Brasil tem uma peculiaridade: a terceira revolução industrial acontece no mesmo lugar onde havia ocorrido a segunda revolução”, diz Caiado. “São Paulo perde para outros estados indústrias tradicionais, intensivas em mão de obra ou em recursos naturais e que utilizam tecnologia já madura, mas atrai atividades intensivas em tecnologia” Com base numa análise inédita dos dados da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), do IBGE, sobre o conjunto de empresas brasileiras que implementaram inovações entre 2003 e 2005, a equipe de Caiado constatou que 6,32% das empresas industriais localizadas na capital paulista lançaram produtos novos para o mercado nacional, ante 4,79% do estado e 3,25% da média nacional. A cidade só perde para o Amazonas, que teve 7,96%, graças à Zona Franca de Manaus.
As empresas inovadoras paulistanas são as que têm maior porcentual no Brasil de atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de alta complexidade (28%, diante de 23,5% da média estadual e 16,6% da média nacional). Dos 47.628 brasileiros ocupados em atividades de P&D em empresas em 2005, 26.517 estão no estado de São Paulo e 8.865 na capital paulista.
Segundo Caiado, o estado de São Paulo deverá seguir como principal polo de inovação do Brasil. Séries estatísticas mostram que, desde 2000, cresce a concentração no estado de pesquisadores contratados por empresas industriais. Naquele ano estavam em São Paulo 57,8% das pessoas com nível superior ocupadas nas atividades de P&D das empresas inovadoras. Em 2005 esse porcentual cresceu para 61,1% do total do Brasil. De acordo com o pesquisador, os dados da Perb sugerem que a política industrial de São Paulo deve seguir num trilho próprio, diferente do brasileiro, de modo a reforçar o vínculo entre a pesquisa e o setor produtivo e a estimular a criação de empresas de base tecnológica. “É um erro imaginar que São Paulo deva disputar todo tipo de empresa. O estado não tem o que ganhar entrando na guerra fiscal”, afirma.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

MP 458: mais uma farsa no campo

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE REFORMA AGRÁRIA

Como tem feito em várias ocasiões ao longo de sua existência, inclusive nos difíceis tempos da ditadura militar, a ABRA vem mais uma vez a público para denunciar a política agrária do governo federal.
O motivo da presente denúncia é a MP 458, assinada pelo presidente da república em 11 de fevereiro do presente ano e que trata da regularização de terras públicas na Amazônia Legal. São 67,4 milhões de hectares de terras arrecadadas e registradas em nome da União que serão entregues aos seus ocupantes.

Os aspectos principais da MP 458 são os seguintes:

- em seu artigo 2º, tenta igualar o grileiro ao posseiro. O posseiro tem pela Constituição Federal de 88 o direito à legitimação da posse, como informa o artigo 191. A grilagem é considerada crime;

- admite a chamada ocupação indireta, praticada por intermediários e a exploração indireta, através de algum funcionário assalariado;

- estabelece que somente poderão ser regularizadas posses até 15 módulos fiscais (1.500 hectares);

- autoriza a União a licitar áreas excedentes às regularizáveis (15 módulos fiscais) até o limite de 2.500 hectares, dando preferência de compra aos seus ocupantes;

- Determina a arrecadação de terras de posses superiores a 2.500 hectares;

- Transfere para uma Diretoria criada no Ministério do Desenvolvimento Agrário e da Reforma Agrária (MDA), as atribuições atuais do INCRA no que se refere à titulação das posses.

A Medida Provisória 458 inscreve-se numa seqüência de normas relativas à situação fundiária da região amazônica:

- artigo 118 da Lei nº 11.196/05 (a MP do Bem) que elevou para 500 hectares a área máxima para alienação das terras griladas;

- MP 422, emitida em março e aprovada em julho de 2008, que permitiu ao INCRA titular diretamente, sem licitação, propriedades na Amazônia Legal com até 15 módulos rurais ou 1.500 hectares;

- Instrução Normativa nº 49 do INCRA, de 28 de setembro de 2008, que dificultou em muito o processo de reconhecimento dos territórios quilombolas;

- MP 454 transferiu ao governo do Estado de Roraima Terras Públicas da União, antes destinadas a programas federais de Reforma Agrária, como uma compensação pela demarcação das terras indígenas da Reserva Raposa Serra do Sol.

O conteúdo dos dispositivos constantes das normas citadas indica a entrega da maior parte de 67,4 milhões de hectares de terras públicas a grileiros, autodenominados empresários rurais, que ocupam ilegalmente terras que, pela Constituição Federal, não podem ser objeto de usucapião.

Quanto aos demais aspectos destacam-se:

O dispositivo que possibilita ao governo a arrecadação de terras superiores a 2,5 mil hectares: é uma farsa que afronta a nação. Conforme as pesquisas recentes na região, todas as terras públicas da Amazônia Legal já estão divididas em lotes inferiores a 2,5 mil hectares, normalmente 2499 hectares. Os pedidos de aquisição dessas terras já estão protocolados nas Superintendências do INCRA de Santarém, Marabá, Belém, Cuiabá, Porto Velho, Manaus e Rio Branco. Como não se pode comprar terra pública acima de 2.500 hectares, uma parte das terras será adquirida por interpostas pessoas.

O aparato de instrumentos colocados à disposição do INCRA (ou de qualquer outro órgão público responsável pela efetivação da política) não tem condições mínimas para enfrentar as forças econômicas e políticas que acompanham o avanço do agronegócio.

A MP 458 nada mais é do que um enorme empreendimento imobiliário a favor de grileiros contraventores (e outros interesses do capital) que se apropriaram do patrimônio público e contra as populações com legítimo direito às terras públicas arrecadadas pela União: posseiros, quilombolas, povos indígenas e outros sem terra. Dizer o contrário é desprezar as evidências de mais de trinta anos de pesquisas, encomendadas e pagas pelo próprio governo, para a avaliação de intervenções públicas supostamente voltadas às populações pobres e/ou vítimas do processo da expansão do capital no campo.

A justificativa dada pelo governo para editar a Medida Provisória 458 é o beneficio que a lei proporcionará aos pequenos posseiros estabelecidos na Amazônia Legal. Mas o motivo real dessa seqüência de normas está ligado evidentemente à opção feita pelo governo Lula a favor do desenvolvimento agrícola caracterizado pela implantação de enormes fazendas de gado, de soja, de cana-de-açúcar e de outros plantios — com óbvios impactos negativos sobre o meio ambiente. Elas evidenciam que o governo abandonou definitivamente a reforma agrária e adotou o modelo de desenvolvimento onde prevalecem os interesses dos capitais nacionais e internacionais consorciados no agronegócio. No entender dos atuais formuladores das políticas agrícolas e fundiárias do governo, prioritariamente, a região amazônica está destinada a transformar-se em uma grande exportadora de commodities e minérios. Será um território do capital, não do seu povo.

Não é a primeira vez na história da questão agrária brasileira que os governos tentam enganar a população rural com mentiras e ilusionismos: nos governos da ditadura militar, a Reforma Agrária não ocorreu e foi transformada em ações de colonização; nos dois governos de FHC o mesmo aconteceu e criou-se a reforma agrária de mercado; o governo Lula ficará conhecido como aquele que no lugar da Reforma Agrária prometida instituiu a política agrária imobiliária — a reforma agrária imobiliária.

CONCLAMAÇÃO

A cidadania brasileira não pode aceitar esse escárnio. A Medida Provisória 458 precisa ser sumariamente revogada. A Reforma Agrária, preceito constitucional e programa de desenvolvimento sócio-econômico para geração de trabalho, emprego e renda, não pode ser abandonada.

A ABRA conclama as entidades da sociedade civil e os parlamentares comprometidos com o bem comum do povo brasileiro a unirem suas forças para barrar esse atentado à soberania nacional.

São Paulo, Instituto de Estudos Avançados da USP, 13 de março de 2009.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

A energia limpa do futuro virá dos resíduos

Javier Sampedro
Em Madrid

Os biocombustíveis primários – milho, coco e cana de açúcar cultivados para produzir energia – perdem o fôlego diante de uma segunda geração, inspirada nos recicláveis. A Alemanha, primeira produtora mundial de biodiesel, estabeleceu um marco com a primeira refinaria que produz combustível a partir da madeira, e o Reino Unido abriu em janeiro um Centro de Bioenergia Sustentável que usa resíduos agrícolas, algas marinhas e micróbios alterados para obter energia.

Há dois problemas com os biocombustíveis primários: um é ambiental – a necessidade de substituir as matas por novas terras de cultivo, o que agrava a mudança climática -, o outro é econômico: eles alteram os preços e ameaçam o fornecimento de alimentos básicos como o açúcar, a soja e o milho à população.
No ano passado, a União Europeia revisou sua meta para 2020, que era de suprir 10% da demanda energética dos transportes com os biocombustíveis primários. Bruxelas mantém a meta de 10%, mas decidiu que a demanda pode ser substituída também por hidrogênio, painéis solares ou qualquer outra fonte renovável de energia. Ao contrário das expectativas de alguns anos atrás, e apesar do apoio de muitos governos, incluíndo o espanhol, o mercado mundial ainda continua acumulando excedentes de biocombustíveis primários. Há um excesso de oferta desses produtos, segundo o setor. A Repsol, por exemplo, acaba de interromper a construção de uma fábrica em Tarragona que produziria 150 mil toneladas anuais de biodiesel primário.
Ao mesmo tempo, entretanto, a primeira refinaria da segunda geração nasceu em Friburgo: a Indústrias Choren, que começam este ano a produzir 13.500 toneladas de biodiesel a partir de resíduos de madeira. A empresa usa uma técnica própria chamada Carbo-V, que primeiro transforma madeira em gás, e depois usa o gás para sintetizar o diesel.
Os resíduos lenhosos – palha, madeira e partes não comestíveis dos alimentos cultivados – são uma fonte potencial muito abundante para a produção de energia. Mas digerir a madeira se tornou um problema técnico extremamente difícil. Enquanto a Indústrias Choren explora seu método químico, os britânicos se lembraram de um velho pesadelo do seu
litoral: o gribble, uma espécie de cupim marinho.
O gribble de quatro pontos (Limnoria quadripunctata) é um pequeno crustáceo devorador de madeira. Ele é conhecido no norte da Europa há séculos por seus estragos na quilha dos barcos, e mais ainda na Inglaterra por ter comido o cais vitoriano de Swanage. Simon McQueen-Mason, da Universidade de York, identificou as enzimas (catalisadores biológicos) que digerem a madeira no estômago do crustáceo. "Temos encontrado enzimas para digerir a celulose nunca vistas", disse o cientista. "Falta ver se podemos adaptá-las a objetivos industriais".
McQueen-Mason coordena o programa de pesquisa sobre o gribble no novo Centro de Bioenergia Sustentável do Reino Unido. Com uma verba de 27 milhões de libras, o centro é o maior investimento britânico em biocombustíveis. Seus seis programas perseguem um objetivo muito
definido: a produção industrial de bioetanol, a partir da palha.
Incluem o desenvolvimento de uma cevada modificada de uma forma que ainda não foi durante dez mil anos de agricultura: para que seja mais energética. Outros laboratórios trabalham com microorganismos que produzem o atual bioetanol primário a partir de cultivos. Querem criar variações adaptadas a usar palha em vez de grãos.
O pioneiro da genômica no setor privado, Craig Venter, tem planos mais ambiciosos para as bactérias. Ele criou sua nova empresa, Synthetic Genomics, em torno do conceito de vida sintética: um genoma bacteriano que poderá ser feito a partir do zero, acrescentando uma a uma as funções desejadas e combinando-as como quiser. Um dos grandes planos de Venter é usar esta vida sintética para produzir biocombustível. Ou, simplesmente, combustível.
Tradução: Eloise de Vylder

Fonte: El País – http://www.elpais.com/

A barca dos insensatos

Mauro Santayana
Do Correio Braziliense

Volta o presidente do Supremo Tribunal Federal a sair de seus limites constitucionais para atacar o Poder Executivo, no caso do MST. O apoio recebido pelo juiz demonstra a alienação de grande parcela da sociedade brasileira, que parece viver em outra galáxia. O mundo se mobiliza para restaurar o contrato entre a espécie e a natureza, o que significa reexaminar as estruturas sociais e o convívio político. Nos Estados Unidos, o presidente Obama propõe cobrar mais dos ricos para favorecer os pobres. No Brasil, o sistema continua baseado na injustiça.

Os interesses pessoais perturbam a inteligência, quando não a expulsam da mente. Quem examinar a História brasileira das últimas décadas verá que, ao contrário do que dizem, o MST serviu para amortecer a grande crise social contemporânea, ao transformar a revolta latente em esperança. Os que brandem as foices e enxadas estariam com outros instrumentos nas mãos se parcela da Igreja, com o senso histórico da conciliação, não os houvesse encaminhado para a ocupação de terras ociosas ou de titularidade duvidosa.
A propriedade da terra, por mais reduzida que seja, é mais do que promessa de subsistência. Ela é a necessária identidade com o mundo, com o cosmos. Quando o homem deixou de ser nômade, apartou-se dos azares da vida em bandos para situar-se junto a uma fonte e sob uma estrela, a fim de cultivar o solo e sobre ele construir sua posteridade.
Ao edificar as cidades, os homens nelas mantiveram o sentimento telúrico de ligação com o universo. Quando a miséria torna intolerável a vida urbana, a memória ancestral lhes acena com o retorno ao campo. Eles não podem ser privados desse forte sentimento de continuidade da vida, que os distingue dos outros seres.
O sonho de segurança e de felicidade de cada pai de família, de acordo com o católico radical Chesterton, pode ser resumido na propriedade de three acres and a cow. Ao traduzir a frase para o leitor brasileiro, Gustavo Corção teve o cuidado de aumentar a área, transformando os três acres de Chesterton (1,21 hectare) em três alqueires. O alqueire, em certas regiões brasileiras, corresponde a 4,84 hectares. Para as nossas dimensões, 14,52 hectares é ainda insuficiente minifúndio.
A chegada do capitalismo ao campo agravou a natureza dos conflitos rurais e transformou o pequeno lavrador em operário que maneja máquinas e não sente, nas mãos, a morna suavidade das sementes. No passado, pistoleiros, a soldo dos latifundiários, queimavam ranchos, espancavam os posseiros e chacinavam famílias humildes.
Hoje atrevem-se a assassinar sacerdotes e líderes dos trabalhadores, não se contendo nem mesmo diante de religiosas estrangeiras, como Dorothy Stang. Com mais competência agem os grandes empresários do agronegócio. Muitos deles conhecem suas terras pelos mapas e as escrituras e rápidos sobrevoos. Não sujam as mãos com a terra, não conhecem seu gado, como não conhecem os pistoleiros que contratam de empresas terceirizadas para "desinfestar" de posseiros as áreas "adquiridas" mediante fraudes.
Os defensores do latifúndio argumentam com a violência dos "invasores" de terras ociosas, mas não se preocupam com os mortos do outro lado. A diferença é brutal. São milhares de trabalhadores de um lado, e meia dúzia de jagunços do outro. O ministro Gilmar Mendes talvez estivesse lendo Carl Schmitt no dia em que a Polícia Militar do Pará cometeu o massacre de Eldorado dos Carajás.
Os porta-vozes do MST estão corretos em sua advertência, embora lhes fosse melhor evitar o tom ameaçador. Se o Estado não intervier com decisão nas atividades econômicas, o crescente desemprego irá jogar nas ruas e nas estradas exércitos cada vez mais numerosos e desesperados de trabalhadores. Em lugar de empregar a justiça de classe (a dos ricos) e a violência policial contra os excluídos de seus empregos, de suas casas, de sua dignidade de chefes de família, o Estado terá, isso sim, que desapropriar mais terras ociosas e gastar o que puder para que eles possam ali acomodar suas esperanças.
Do contrário, não só podemos esperar por uma jacquerie no campo – muito mais extensa do que a ocorrida na França do século 16, quando centenas de nobres foram empalados na frente de seus castelos – mas, também, pela explosão dos excluídos nas grandes cidades. A classe média, tão afastada da realidade pela ficção do noticiário, deve pensar nisso.

Fonte: MST – http://www.mst.org.br/mst/index.html

Na batalha por empregos, velhos podem estar ganhando dos jovens

Steven Greenhouse
Em Fort Lauderdale, Flórida (EUA)

Esta cidade [Fort Lauderdale] se tornou uma linha de frente na batalha de gerações por empregos, enquanto os trabalhadores mais velhos competem cada vez mais com novatos na casa dos 20 anos por cargos em supermercados, redes de fast-food e dezenas de outros lugares. E os trabalhadores mais velhos parecem estar ganhando.

Com o desemprego em seu auge dos últimos 26 anos [nos Estados Unidos] e muitos trabalhadores mais velhos buscando trabalhos em nível de iniciante, como os que eles procuravam meio século atrás, "[a idade de] 70 tornou-se o novo 20", como diz um economista.
Milhões de americanos mais velhos adiaram a aposentadoria por causa da queda no sistema de pensões, do aumento dos custos da saúde, da sensação de que somente os benefícios da previdência social são pouco para viver ou todas as opções anteriores. Esse adiamento, segundo os economistas, tornou mais difícil para milhões de jovens trabalhadores subir os primeiros degraus da escada profissional, especialmente porque muitos empregadores preferem candidatos com experiência de trabalho.
"O pessoal da geração ‘baby boom’ está ficando mais tempo no sistema, e isso está atravancando o conjunto", disse Mason Jackson, presidente da Workforce One, uma agência financiada pelo governo federal que ajuda os desempregados do condado de Broward. "Muitos querem se aposentar mas não podem." Ele caracterizou a atitude predominante entre os empregadores hoje como "que entrem os velhos e saiam os novos".
Ao longo das praias oceânicas e da Intracoastal Waterway aqui, os aposentados em condomínios coexistem há muito tempo com uma geração muito mais jovem, mas no mercado de trabalho deprimido as tensões crescem enquanto cada grupo se queixa de que os empregadores favorecem injustamente o outro.
Desde que perdeu o emprego de carpinteiro, 13 meses atrás, Arnold Stone se candidatou sem sucesso a empregos tão diferentes quanto empacotador de mercearia e operário da construção. Em sua casa-trailer numa dessas manhãs, Stone, 69, bronzeado e vigoroso, mostrou centenas de currículos. "Tenho certeza de que a idade influi", ele disse. "O problema dos mais velhos é que ninguém quer contratá-los."
Naquela mesma semana, Farah Titus, 25, cruzou todo o condado de Broward em um Toyota de 11 anos, em sua busca cotidiana por emprego. Ela apontou para uma loja J.C. Penney’s, uma Macy’s e um Wal-Mart onde já se inscreveu sem sucesso.
"É difícil furar", disse Titus, uma estudante de enfermagem em tempo parcial que disse detestar pedir dinheiro ao pai. "Se você tem experiência, eles o colocam no alto da pilha."
Os últimos relatórios do Departamento de Estatísticas do Trabalho confirmam sua opinião. O número de trabalhadores empregados de 16 a 24 anos caiu 2 milhões nos últimos dois anos, para 18,3 milhões, enquanto o número de americanos de 65 anos ou mais que estão trabalhando aumentou 700 mil, chegando a 6 milhões.
"Em um mercado de trabalho ruim, grupos diferentes percebem que estão sendo discriminados quando o verdadeiro problema é que estão sendo maltratados pela economia em geral", disse Teresa Ghilarducci, professora de economia na Nova Escola de Pesquisa Social e autora de "When I’m Sixty-Four" [Quando eu fizer 64 anos].
A proporção de americanos mais velhos que está empregada também aumentou muito – 16% dos americanos de 65 anos ou mais estavam empregados no mês passado, um aumento de 11% em relação a dez anos atrás. Mas para os trabalhadores de 16 a 24 anos a porcentagem de empregados caiu 49%, contra 59% dez anos atrás. Quanto à faixa de 25 a 29 anos, 74% estão empregados, contra 81% há uma década.
"Os mais jovens estão levando uma grande surra", disse Andrew Sum, diretor do Centro para Estudos do Mercado de Trabalho da Universidade Northeastern. "É preocupante porque eles não estão desenvolvendo a experiência e as habilidades de que vão precisar e de que a economia do país vai precisar."
Todos os dias, jovens e velhos candidatos a empregos lotam os escritórios da Workforce One de Jackson, procurando nas bases de dados dos computadores. Os empregadores veem forças e fraquezas em cada grupo, ele disse. "Muitas empresas preferem trabalhadores mais velhos", disse Jackson. "Elas sabem que eles são confiáveis. Eles aparecem e em algum ponto do caminho desenvolveram técnicas de serviço ao consumidor. Os trabalhadores mais velhos têm menos faltas por doença. A maioria das licenças tiradas não tem nada a ver com doença. Em muitos dias bonitos as pessoas telefonam dizendo que estão doentes para ir à praia."
Uma categoria em que os jovens levam vantagem são os empregos de tecnologia, ele disse. "Se é um emprego tecnológico, os jovens correm como peixes para a água."
Uma de suas assistentes, Kelly Allen, acrescenta que os jovens estão habituados a se comunicar eletronicamente – ela levanta um Blackberry imaginário e escreve loucamente com os polegares. Por outro lado, "os empregadores gostam dos trabalhadores mais velhos porque estão acostumados a tratar as pessoas cara a cara", ela disse.
Maria Brous, diretora de comunicações da Publix, uma das maiores redes de supermercados da Flórida, disse que os funcionários mais velhos têm uma experiência importante, mas os mais jovens têm capacidades técnicas e são criativos para solucionar problemas. A Publix contrata funcionários jovens e velhos, ela disse, porque eles se complementam.
Wendy Smith, 23, diz que notou outro tipo de discriminação ao se candidatar a empregos administrativos. Os potenciais empregadores dizem que ela precisa ter três ou quatro anos de experiência. "Eles não querem que você seja jovem demais e não querem que seja velha demais", ela disse. "Querem que seja simplesmente perfeito."
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

O "Dr. Madoff" da indústria farmacêutica

Hervé Morin

Era tudo falso. Os pacientes, que supostamente teriam testado medicamentos que deveriam acelerar sua recuperação pós-operatório, nunca existiram. Os 21 artigos científicos onde estavam descritos os benefícios dessas fórmulas milagrosas não passavam de um emaranhado de estatísticas sem fundamento. Mas, acreditando nesses resultados fraudulentos, milhões de pessoas ingeriram fórmulas bem reais, que renderam quantias gigantescas às empresas que as comercializam: Pfizer, Merck ou Wyeth.

Scott Reuben inventou tudo. O anestesista americano, autor respeitado de dezenas de artigos médicos, confessou a fraude. Não por remorso. Mas porque ele foi desmascarado: dois dos resumos de estudos que ele havia produzido em maio de 2008 intrigaram os serviços de saúde do Baystate Medical Center (Massachusetts), onde ele chefiava o setor de analgesia. O dr. Reuben não tinha autorização para conduzir esses testes. A extensão da farsa não demorou a ser descoberta.
A fraude vinha acontecendo desde 1996. É uma das maiores do gênero. O sul-coreano Hwang Woo-suk, que em 2004 fingiu ter conseguido a primeira clonagem humana a partir de resultados falsificados, ou ainda o físico Hendrik Schön, da Bell Labs, autor de pelo menos 16 artigos "forjados" entre 1998 e 2001, são fichinha perto de Scott Reuben, às vezes chamado pela imprensa anglo-saxônica de "Dr. Madoff", em referência ao vigarista das finanças.
A corrida pelas glórias, e pelos créditos que as acompanham, é o que move esse tipo de comportamento. Os "trabalhos" do dr. Reuben eram em parte financiados pela Pfizer, que havia feito dele um de seus porta-vozes durante conferências científicas nas quais suas intervenções eram remuneradas. Um representante da firma se disse "desapontado ao saber das acusações contra o sr. Reuben". Este último não hesitava em defender junto às agências reguladoras de medicamentos o uso de fórmulas testadas em pacientes fictícios…
Enquanto se esperam eventuais desdobramentos judiciários, este caso, como a cada vez que uma fraude do tipo é revelada, leva ao questionamento da confiabilidade das publicações científicas, especialmente as médicas. Segundo a famosa máxima "publish or perish" [publique ou morra], na verdade é graças à publicação em revistas científicas que se constrói uma carreira. É por isso que elas possuem uma responsabilidade em especial sobre a qualidade dos trabalhos que lhes são submetidos. As melhores delas fazem com que eles sejam sistematicamente examinados por especialistas antes da publicação.
No caso do dr. Reuben, a falha desse filtro foi gravemente exposta.
Como o sistema editorial não desconfiou, especialmente pela produtividade de Reuben? Confiança abusiva, e abusada? Muitos estudos recentes mostram que inúmeros pesquisadores, em menor escala, se aproveitam de falhas desse sistema de autorregulação – muitas vezes considerado como o menos imperfeito.
O plágio parece ser uma forte tentação, ainda que a prática permaneça marginal. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Texas, e publicado na revista "Science" em 5 de março, permitiu assim identificar 212 pares de artigos duplicados em 86,2%, mas assinados por autores diferentes. Quando contatados, os plagiadores reagiram de formas diversas: 28% negaram ter agido de forma errada; 35% admitiram ter feito empréstimos, e se desculparam; 22% se declararam ser coautores não envolvidos na redação; 17% disseram ignorar que seus nomes apareciam no artigo incriminado. Metade dos casos de plágio apontados nos jornais científicos não recebeu resposta por parte dos editores.
Um outro estudo, publicado em 13 de fevereiro no "British Medical Journal", mostra que algumas revistas facilitam, inconscientemente ou não, a publicação de trabalhos financiados pela indústria farmacêutica. Passando no pente fino 274 estudos sobre as vacinas de gripe, Tom Jefferson (Cochrane Vaccine Field, Itália) constatou que as que apareciam nos jornais consideradas como as melhores não eram necessariamente as mais bem concebidas ou mais pertinentes. O que fazia a diferença era a natureza do patrocinador do estudo. Em outras palavras, as grandes companhias farmacêuticas têm mais chance de ver os trabalhos que elas financiam publicados nas revistas de alta categoria. "Os patrocinadores industriais encomendam um grande número de exemplares dos estudos que valorizam seus produtos, garantindo eles mesmos a tradução. Eles também compram espaços publicitários nesses jornais. Já está na hora de revelarem suas fontes de financiamento", observa Jefferson.
A Fundação Europeia para a Ciência (ESF) manifesta uma preocupação muito parecida em recomendações publicadas em 12 de março: ela acredita que os testes clínicos guiados pela curiosidade dos pesquisadores acadêmicos, mais do que pelos interesses industriais, podem ser um benefício maior para os pacientes.
Suspeita de instrumentalização, a publicação médica às vezes também é criticada por aquilo que ela não publica. Um estudo divulgado na Internet, pela revista "PLoS Medicine" em 17 de fevereiro, mostra que os estudos clínicos franceses de fase I – destinados a avaliar a toxicidade de um possível medicamento – possuem uma probabilidade muito pequena de serem publicados em revistas científicas: 17%, contra 43% dos estudos de fase II a IV, mais próximos da comercialização. Ora, mesmo que eles se revelem negativos, os resultados de fase I não devem ser ignorados: pode-se aprender sobre as fórmulas testadas, evitando que outros sigam pistas falsas.
Será que esses estudos, no contexto do caso Reuben, devem levar a novos códigos de conduta entre os cientistas e editores? Os otimistas dirão que os trapaceiros sempre acabam se traindo. Os outros pedirão por uma maior transparência sobre os laços financeiros entre os diversos agentes. Mas em um contexto mais geral de crise econômica, a maior parte concordará que um aumento na vigilância é indispensável.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Da impossibilidade de esquecer

Anistia não pacificou a família brasileira, como previam os militares

Glenda Mezarobba
Paulo Sérgio Pinheiro

- Há três décadas a mesma história se repete, com periodicidade e intensidade variadas. Mais uma vez, acirra-se o debate em torno da Lei da Anistia e dos crimes cometidos pelos organismos de repressão das Forças Armadas entre 1964 e 1985. A explicação para esse contínuo retorno de demandas por justiça, referentes ao desrespeito de direitos fundamentais durante a ditadura militar, é simples. Elas não vão desaparecer enquanto não se descobrir o paradeiro dos desaparecidos, não houver um pedido de perdão e uma declaração oficial de culpa. No Brasil, como se sabe, apesar do reconhecimento da responsabilidade do Estado em 356 casos de mortes e desaparecimentos, e do pagamento de reparações aos familiares dessas vítimas, a partir da Lei 9.140, promulgada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, em 1995, e de outras leis que se seguiram, o paradeiro das vítimas fatais permanece desconhecido. E continuam mudos os responsáveis pelas instituições que cometeram os crimes, recusando-se a revelar a verdade sobre o que ocorreu no passado.
Ao sancionar a Lei da Anistia, em 1979, o governo do general João Baptista Figueiredo pretendia colocar um ponto final na questão das punições infligidas aos opositores do regime e aos perseguidos políticos. A lei, diziam os militares, vinha para "pacificar a família brasileira". A ênfase estava no esquecimento. Trinta anos se passaram e essa intenção revelou-se um fracasso rotundo. É impossível esquecer a anistia! Ainda que por motivos distintos, os desdobramentos se deram de forma muito parecida entre aqueles que estiveram diretamente envolvidos na questão. Permanentemente assombrados pela ameaça de reconstituição do passado, os militares continuam mostrando-se os mais interessados em não lembrar os crimes ocorridos a partir de 1964, evidenciando que ainda hoje não lhes foi possível esquecer. Da mesma forma, a necessidade de recordar, movida por reivindicações nunca atendidas, verdades desconhecidas e pelo desejo de que o sofrimento não mais se repita, tem oposto as vítimas do arbítrio e seus familiares à possibilidade de olvidar.
Vivemos em pleno século 21, em um momento em que o respeito aos direitos humanos está intimamente vinculado à definição de Estado democrático. A comunidade internacional fez decisivos avanços em direção ao reconhecimento de que o legado de graves e sistemáticas violações daqueles direitos gera obrigações aos Estados, em relação às vítimas e às sociedades. Tais deveres são pelo menos quatro e consistem em: 1) investigar, processar e punir os violadores de direitos humanos; 2) revelar a verdade para as vítimas, seus familiares e toda a sociedade; 3) oferecer reparação adequada; 4) afastar os criminosos de órgãos relacionados ao exercício da lei e de outras posições de autoridade. Essas obrigações têm respaldo na legislação internacional de direitos humanos e no direito internacional humanitário, e em nossa região, nas decisões da Comissão e da Corte Interamericana de Direitos Humanos, sendo que o enfoque principal está nos direitos e nas necessidades das vítimas. Logo, não é possível insistir na vigência da interpretação de uma lei de anistia que impede a investigação de graves violações de direitos humanos e crimes cometidos contra a humanidade – caso dos sequestros, homicídios e ocultação de cadáveres, praticados por integrantes das Forças Armadas, das polícias militares e civis durante o regime militar, que se enquadram em normas do direito internacional, vigentes já na época do golpe de Estado.
Até agora, os avanços observados no processo de acerto de contas do Estado brasileiro com as vítimas da ditadura couberam ao Executivo e ao Legislativo. Apesar de alguns (sérios) equívocos na elaboração da legislação que sustenta o esforço reparatório, foram iniciativas desses dois poderes que permitiram a expansão das fronteiras legais da anistia, com o reconhecimento da responsabilidade do Estado nas mais graves violações de direitos humanos do período (as mortes e os desaparecimentos) e o pagamento de indenizações a ex-perseguidos políticos que conseguiram demonstrar suas perdas econômicas, sofridas nos anos de arbítrio, pelo governo anterior e pelo atual do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tal legislação reiterou princípios como o da continuidade do Estado, segundo o qual novos governantes herdam a responsabilidade legal de seus antecessores, desde a época em que determinada violação ocorreu e até que seja declarada ilegal. Outras duas instituições ainda não desempenharam o papel que lhes compete em uma democracia: o Judiciário e as Forças Armadas. Da primeira se espera, sobretudo, o enfrentamento do aspecto criminal da questão – cabe assinalar que, no final de 2002, o STJ desconsiderou a imposição quinquenal prescritiva para casos em que se postula a defesa de direitos fundamentais e reconheceu a imprescritibilidade do crime de tortura, em uma ação indenizatória por danos morais movida por um militante de esquerda preso e torturado em meados da década de 70 no Paraná. Às Forças Armadas não resta outra opção a não ser abrir logo os arquivos e revelar a totalidade dos fatos ocorridos, permitindo à sociedade reconstruir sua própria história. Com o reconhecimento dos crimes do período, e a explícita manifestação de ruptura com tais práticas do passado, terá de vir um pedido de perdão. Às vítimas, seus familiares e a toda a sociedade. Só assim teremos a certeza de que se consolida a opção pela democracia e vivemos em um país em que todos têm os mesmos direitos (o que abrange o acesso à Justiça) e deveres. E que todos, inclusive o Estado e especialmente seus governantes e agentes, respondem por seus atos.

Glenda Mezarobba é pesquisadora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e autora de Um Acerto de Contas com o Futuro: A Anistia e suas Consequências (Humanitas/Fapesp);

Paulo Sérgio Pinheiro é pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência e professor de relações internacionais da Brown University, EUA. Foi secretário de Estado de Direitos Humanos do governo FHC

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

O açaí, fruto da globalização

Jean-Pierre Tuquoi

É preciso chegar às 3 da manhã. A noite está escura, a temperatura é agradável e o porto de Belém fervilha. A cidade ainda dorme, mas tudo que essa parte da Amazônia brasileira recebe de riquezas desembarca aqui, no cais, em uma agitação confusa e colorida. Há dezenas de variedades de frutas exóticas, legumes com formatos estranhos, peixes de água doce de um tamanho desconcertante. E, acima de tudo, há o açaí.

O açaí é o fruto de uma variedade de palmeira que prolifera na bacia amazônica. Ele é colhido em cachos bem no alto da árvore. Vermelho arroxeado puxando para o violeta, ele lembra o mirtilo ou o cassis pela sua aparência e seu tamanho, e o chocolate pelo seu gosto. Mas o mais surpreendente é que esse fruto, recentemente glorificado por suas virtudes medicinais e nutritivas – algumas bem reais, outras, imaginárias – , se lançou à conquista dos países ricos. Servido sob forma de mingau por toda a Belém, o açaí se transformou ao se emancipar da Floresta Amazônica. Ele se tornou bebida, sorvete, biscoito, cápsula, bala e até mesmo bebida alcoólica. As grandes marcas de refrigerantes e as de cosméticos também se interessaram por ele.
Ele só era vendido em Belém. Hoje em dia pode ser encontrado na Califórnia, no Japão, na Austrália, amanhã na Europa… na Internet, os sites que propõem o novo elixir se multiplicam. "O açaí é o fruto da globalização", resume a governadora do Estado do Pará, Ana Júlia Carepa. "Amanhã, você poderá encontrá-lo nas prateleiras do supermercado, ao lado de garrafas de suco de abacaxi ou de maçã", afirma o secretário estadual da Agricultura, Cássio Pereira. Isso seria um pouco precipitado. Por enquanto, o mercado é local, acima de tudo.
Todas as noites no porto de Belém, são arrancados dos porões dos barcos milhares de cestos, todos idênticos, cheios até a borda de açaí, colhidos na floresta; eles se amontoam na plataforma esperando por compradores, que estão lá. À medida que chegam, eles mergulham suas mãos nos cestos, apalpam os frutos, provam as bagas, oferecem um preço e negociam firme antes de fechar a compra.
Às 9 horas, maços de notas de reais mudaram de mãos, e não há mais nenhum grão de palmeira para vender. Em Belém, o açaí é o alimento básico oferecido por centenas de barracas, sinalizadas por um minúsculo letreiro vermelho. A receita é simples e econômica. Descascado e misturado com água em máquinas simples, ele vira uma polpa que é misturada com mandioca ou peixe frito. "O açaí é um prato popular que mata a fome", diz Reginaldo, dono de um minúsculo restaurante instalado ao ar livre no porto. "É bom para a saúde. Aqueles que colhem os frutos na floresta, longe de tudo, nunca ficam doentes". Ainda que cause sonolência, acredita-se que o fruto da "palmeira pinot" seja um remédio contra a anemia, melhore o desempenho sexual e esportivo, combata certos tipos de câncer e favoreça a luta contra o envelhecimento das células…
Os médicos recomendam dá-lo às crianças a partir dos seis meses. "Na verdade, quando os bebês têm dois meses os pais já o colocam na mamadeira", garante o comerciante Mario Maves, que abriu recentemente no centro da cidade a primeira butique de luxo onde se realiza uma série de preparações.
Os benefícios do açaí são verdadeiros, mas a pequena baga não é a panaceia descrita por alguns. Ana Vânia de Carvalho sabe bem disso. Cientista de formação, a jovem dirige um departamento de pesquisa na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). "Os estudos científicos sobre o açaí são recentes, e os resultados ainda são fragmentados. As pesquisas foram conduzidas em laboratório, feitas com animais, mas ainda não com humanos", ela explica. "Os primeiros resultados mostram que o açaí faz parte dos frutos que possuem mais antioxidantes, que combatem o envelhecimento precoce. O açaí também é rico em fibras, e é um alimento muito energético, recomendado para esportistas. As outras vantagens que lhe são atribuídas não se baseiam em dados científicos sérios. O açaí está na moda. Em grande parte, é um produto de marketing".
No entanto, seu sucesso é um caso típico. Há três anos, o açaí era um produto cuja fama não ultrapassava o nordeste do Brasil. Em seguida, ele se tornou a bebida fetiche dos esportistas do Rio de Janeiro, e conquistou, sob forma de sorbet, as praias de Copacabana e Ipanema. Desde então a moda chegou na Califórnia e a Flórida. Puro ou misturado a outras frutas exóticas, o açaí é mais freqüentemente vendido em garrafas – pelo mesmo preço que um vinho Bordeaux de uma grande safra! – ou em saquinhos. Aquele que é importado pela empresa Belizza e comercializado na Califórnia resume bem as vantagens atribuídas ao açaí. A embalagem de plástico evoca uma bebida "cheia de antioxidantes, lotada de vitaminas e que fornece às pessoas ativas energia durante horas, e não minutos".
Esse sucesso nos mercados estrangeiros é ótimo para os industriais locais. Ex-funcionário do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), enviado ao Pará na época da construção da Rodovia Transamazônica, Ben-Hur Borges, hoje voltado para os negócios, é um deles. Cerca de dez anos atrás, ele criou uma pequena empresa de produção de açaí a meia hora de barco dos grandes bancos instalados no centro de Belém. "Eu mal tinha 35 hectares para explorar, e vendia por todo o Brasil. Depois os americanos chegaram, e comparam toda minha produção. Fui o primeiro exportador da região. Hoje, envio mais de 100 mil toneladas de açaí por ano para toda parte. Vendo para os Estados Unidos, a Nova Zelândia, qualquer país do norte da Europa, a Suíça e a Grã-Bretanha há dois anos. Por meio de Portugal, nosso antigo colonizador, vou chegar no sul da Europa. O mercado está em plena expansão".
A empresa do ex-funcionário, a Amazon Frut, emprega centenas de agricultores. No auge da estação, entre novembro e março, ela emprega quase 50 pessoas na usina de produção, em uma pequena ilha no delta do Amazonas, Murutuku. Ao mesmo tempo ultramoderna e antiquada, a empresa vale ser visitada, com sua rede de trilhos de ferro – ou melhor, trilhos de madeira – para transportar a matéria-prima, suas construções de uma limpeza exemplar, onde a polpa da fruta é congelada em grandes tonéis antes de ser exportada, e sua máquina a vapor de uma idade canônica. Descoberta toda enferrujada em uma antiga serraria, ela foi restaurada e voltou a trabalhar, queimando os caroços de açaí e fornecendo energia para a usina, a comunidade local e a escola vizinha.
"Não há mais nenhum caso de desnutrição. A região era pobre. A produção do açaí permitiu seu crescimento econômico", garante o dono da Amazon Frut. É o mesmo que diz o secretário estadual da Agricultura, que sonha em desenvolver o setor. Este emprega quase um habitante em cada dez no Estado, e representa 10% das exportações agrícolas do Pará. "A prioridade é aumentar a produção", diz Cássio Pereira. Das 500 mil toneladas colhidas a cada ano, pode-se passar a 700 mil toneladas explorando palmeiras que estão em zonas recuadas. Quase toda a produção vem da floresta. Mas podemos fazer plantações artificiais de açaí e melhorar as mudas com a genética".
A governadora do Pará – Estado que tem 2,5 vezes a superfície da França – também pensa nisso, no contexto de um programa de reflorestamento dessa parte da Amazônia (projeto criticado por associações de defesa do meio ambiente que temem a monocultura). "Ao longo dos próximos cinco anos, previmos plantar 1 bilhão de árvores no Pará. Parte delas serão palmeiras que dão o açaí", afirma a política socialista. Um futuro promissor… mas a mania dos consumidores dos países ricos pela pequena baga roxa pode muito bem despertar o apetite de uma concorrência ainda inexistente. Belém já viveu uma decepção parecida. Foi no fim do século 19. A cidade, como sua rival Manaus, vivia do monopólio da extração da borracha. A seringueira de onde ela é retirada não crescia em nenhum outro lugar. Até o dia em que os britânicos conseguiram, com exemplares levados da Amazônia, aclimatar a árvore em suas colônias na Ásia. O fim do monopólio havia chegado, e, com ele, o declínio de Belém. Será que a história se repetirá?
Outros Estados do Brasil já começam a cultivar a famosa palmeira. E delegações da Colômbia, Suriname, Bolívia se dirigem ao Pará para aprender a tirar proveito da árvore mágica. E a Ásia, não seguirá esse caminho? A perspectiva não preocupa os dirigentes do Estado. "A concorrência é uma coisa boa. Ela não nos assusta. Somos os melhores, mais competitivos. Sempre teremos uma distância de vantagem", responde o secretário estadual da Agricultura. A síndrome da borracha está distante.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Minas de carvão têm futuro sombrio na Rússia

Alexandre Billette
Em Korkino (Rússia)

Acima da segunda maior mina de carvão a céu aberto do mundo, em Korkino, nos Montes Urais, na Rússia, só se ouve o vento glacial soprando. Um silêncio raramente interrompido por um ruído surdo, vindo debaixo, a mais de 600 metros de profundidade, onde a extração do carvão se dá com dificuldades. Nessa região carvoeira do coração da Rússia, a indústria já está mal há alguns anos: o gás substituiu o carvão para alimentar as centrais elétricas, enquanto o carvão extraído é de uma qualidade cada vez mais baixa.

A PRODUÇÃO DE CARVÃO

Produção
321 milhões de toneladas de carvão por ano (5ª maior do mundo)
Reservas
173 bilhões de toneladas, o que faz do país o segundo maior do mundo, atrás dos EUA.
Indústria
A Rússia conta 240 minas, a céu aberto ou subterrâneas. O setor carvoeiro ainda emprega 300 mil pessoas.
Terceira energia
O carvão constitui 16% das fontes de energia primárias na Rússia, logo atrás do petróleo, que corresponde a 19%, e do gás natural, responsável por 54%.
Recursos mundiais remanescentes
Segundo os analistas, o país possui 17% do carvão, mas de menor qualidade.

Com a crise econômica atual, a indústria do carvão sofre um novo choque, do qual ela pode não se recuperar. Desde dezembro de 2008, milhares de mineradores não são mais pagos, e agora já se fala em simplesmente se fechar as minas.
Uma catástrofe para as cidades que não conheciam nenhuma outra indústria além da carvoeira.
"Antes, isso aqui fervilhava", lembra Viktor Belov, ex-minerador em Korkino, apontando o enorme abismo de três quilômetros de circunferência. Hoje, são raros os vagonetes que circulam nos trilhos que envolvem a "Xícara", como chamamos aqui essa cratera monstruosa. Do cume, conseguimos ver algumas máquinas ao fundo, que parecem minúsculas por causa da distância, mas a atividade é mínima.
No entanto, a cidade de Korkino só existe em função da Xícara. Quando a extração carvoeira começou, nos anos 1930, ela não passava de uma aldeia. Hoje, é uma cidade de 60 mil habitantes que circunda a Xícara, enquanto uma segunda mina, subterrânea, foi perfurada nas proximidades. Situada a cerca de 50 quilômetros da capital regional, Tcheliabinsk, a cidade de Korkino constitui, junto com os municípios de Kopeisk e Emangelinsk, um dos três locais de extração da Companhia Carvoeira de Tcheliabinsk (TchOuK).
"Há alguns anos, havia 3.500 mineradores na Xícara", lembra Oleg Kirtch, assessor municipal em Korkino. "Agora, eles não passam de 1.200, às vezes com semanas de trabalho de dois dias, no máximo. O que vai ser dessa cidade? Não há nada além da mina. E como os mineradores poderão mudar de ramo, com um nível baixo de educação, e tendo, em sua maioria, mais de 40 anos? Não há nenhum projeto para esta cidade, nenhum plano anticrise. O Estado se esqueceu de nós".
Os salários também foram esquecidos. Em dezembro, os mineradores de Korkino só receberam uma parte ínfima do que lhes era devido, mais nada. No fim de janeiro, um pequeno grupo improvisou uma greve sem o apoio do sindicato oficial, subordinado à direção da TchOuK.
"Todos os empregados da mina seguiram o movimento, sem exceção", afirma Liuba, uma mineradora de 34 anos que organizou a paralisação do trabalho. "Meu salário habitual é de 11 mil rublos (€ 242), mas só recebi 3 mil rublos em dezembro. Por enquanto, estamos vivendo dos legumes em conserva colhidos no verão passado; parei de comer carne, eu a deixo para as crianças". Os mineradores voltaram ao trabalho depois de três dias de greve, seguindo a promessa da direção de pagarem os atrasos antes do dia 15 de fevereiro. Mas até hoje, nada foi depositado ainda.
Na sede da empresa TchOuK, em Tcheliabinsk, Kostantin Strukov mexe nervosamente com sua caneta. "Nossos 6 mil funcionários são pagos em dia, não houve demissões, não temos medo da crise", garante o presidente do conselho de direção e principal acionário da empresa. As explicações serão breves. Ao se mencionar os salários atrasados e o depoimento de seus empregados, ele bruscamente põe um fim à entrevista: "Vocês não têm crise na França? Por que vêm remexer a lama aqui, fiquem na casa de vocês!"
Um nervosismo que traduz a amplitude dos problemas da indústria. As pequenas centrais elétricas a carvão, que constituíam os principais clientes, agora são deixadas para as centrais a gás, mais baratas.
O que é ainda pior, após anos de extração, o carvão que sobrou seria de qualidade medíocre. Algumas centrais elétricas da região também preferiram comprar sua matéria-prima no vizinho Cazaquistão,um melhor mercado e de melhor qualidade.
Resultado: a empresa, que extraía até 40 milhões de toneladas de carvão por ano, só produziu 2,3 milhões em 2008. "O fechamento das minas nos próximos meses é uma possibilidade real", teme Marina Morozova, jornalista em Korkino. A crise econômica, extinguindo a demanda, poderia aplicar um golpe fatal em uma indústria já moribunda. "No momento, a mina não é mais rentável", explica Marina Morozova. "Em resumo, não só o trabalho está mais escasso, como a direção assume mais riscos por economia, em detrimento da segurança. Quando acontecem os pequenos incêndios no interior da mina, eles são apagados sem se evacuar os mineradores que trabalham ali.
Antes, isso seria impensável!"
Em Kopeisk, outro lugar de extração de carvão de TchOuK, a situação não é melhor. Nesse "monogorod", cidade de uma só indústria, as minas começam a se esgotar. Um dos três locais de extração já foi fechado, enquanto as duas funcionam de forma lenta. A cada dia, os corredores da agência para o emprego são tomados por centenas de trabalhadores "dispensados", que vêm se inscrever para obter indenizações às vezes inferiores a 1000 rublos (€ 22).
Nessa pequena manhã de fevereiro, a diretora da agência, Svetlana Buldashova, abre com dificuldade um caminho entre a multidão para penetrar em um local superlotado, para explicar aos desempregados os seus direitos. "E isso é só o começo", ela diz entre duas apresentações. "Nas minas de Kopeisk, as grandes ondas de demissões devem acontecer em abril ou em maio…"
Que futuro haverá para os "monogorod" dos Montes Urais? Na ausência total de diversificação econômica, nenhuma alternativa à indústria carvoeira está prevista para esses grandes povoados de dezenas de milhares de habitantes. "As únicas ofertas de emprego em Kopeisk propõem empregos de segurança na entrada de pequenas lojas", diz com um sorriso amargo Vitali, um desempregado com cerca de 40 anos. "Daqui a alguns anos, só haverá os porteiros aqui… Mas, para vigiar o quê?"
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

A Crise Capitalista: apenas um início

DANIEL BENSAÏD

O capitalismo? "É compreensível que as pessoas não acreditem mais nele", confessa Tony Blair em pessoa (1). Quando se deixa de acreditar no inacreditável, uma crise de legitimidade, ideológica e moral se soma à crise social, e acaba por estremecer a ordem política. A crise atual não é uma crise a mais, equiparável à dos mercados asiáticos ou à da bolha da Internet.

Uma crise de fé

Trata-se, na realidade, de uma crise histórica – econômica, social, ecológica – da lei do valor, uma crise de medição e de excesso. A medição de tudo através do tempo de trabalho abstrato passou a ser – como anunciava Marx nos Manuscritos de 1857 – uma forma "miserável" de medir as relações sociais. "As crises econômica e planetária têm um ponto em comum", constata Nicholas Stern, autor em 2008 de um informe sobre a economia das mudanças climáticas. "Ambas são conseqüência de um sistema que não considera os riscos que seu funcionamento gera, que não leva em conta o fato de que pode conduzir a uma destruição superior ao benefício imediato que procura, e que subestima a interdependência entre os atores" (2). A lógica da corrida atrás do lucro, pelo "benefício imediato" é, com efeito, uma lógica a curto prazo, E a "concorrência não falsificada", por sua parte, é cega à "interdependência" sistemática.Um novo Brenton Woods? Um sistema de governo mundial? O problema é que a União Européia nem sequer tem sido capaz de criar uma agência de controle dos mercados financeiros em escala continental, ou de promover uma definição comum de paraísos fiscais! Desde outubro de 2008, Laurence Parisot tem se encarregado de deixar claro que o Estado deve desempenhar seu papel nos socorro das finanças, mas que deve retirar-se, quando os negócios recuperem seu curso lucrativo. Dito de maneira mais direta: que deve socializar as perdas para logo reprivatizar os lucros. Por trás de ter admitido que o Estado é o único capaz, de forma imediata, de "salvar a economia e os bancos", Jean-Marie Messier, ressuscitado do purgatório, não se esquece de explicar que "o guarda-chuva deverá fechar uma vez que a tempestade tenha passado". O Estado não deveria, assim, ser mais do que "um passageiro em meio à chuva" (3).

O plano de recuperação governamental descarrega o custo sobre os trabalhadores e os contribuintes. Por detrás do congresso de Reims, Martine Aubry pretendia descobrir que "torna-se inoperante atacar aos que se utilizaram do sistema, sem atacar o próprio sistema" (4). Contudo, o Partido Socialista se contenta em oferecer um contra-plano "equilibrado", de medidas supostamente sociais, mas em nenhum momento radicais, no sentido de que suponham uma nova redistribuição de riquezas em benefício do trabalho. Nada se falou sobre a nacionalização do sistema bancário e a criação de um serviço público para tratar do crédito, nada sobre uma reforma fiscal radical, nada sobre a necessidade de reorientar a construção européia. "Atacar o próprio sistema" seria atacar o poder absoluto do mercado, a propriedade dos grandes meios de produção e troca, a concorrência de todos contra todos. Até o liberal Nicolas Baverez define a banca como um "bem público da mundialização": "pelas suas características, tem a natureza de um bem público" (5). Seria de esperar, na verdade, que, dada esta "natureza", este bem público fosse submetido a gestão pública sob o controle público. Para Baverez, pelo contrário, o Estado deveria assegurar aos bancos uma "imunidade ilimitada" por suas perdas, e assumir os riscos ligados a seus lucros.

Atacar o coração do sistema suporia adotar-se uma blindagem social que proteja os trabalhadores das conseqüências da crise. Para isso, dever-se-ia romper os grilhões dos critérios de Maastricht e do Pacto da Estabilidade, restabelecer os controles políticos sobre o Banco Central europeu, abolir o Tratado de Lisboa, reorientar de maneira radical a construção européia, começando pela harmonização social e fiscal, e iniciar um processo constituinte de verdade. No mínimo, exigir a revogação do artigo 56 do Tratado de Lisboa que proíbe qualquer restrição aos movimentos do capital financeiro, assim como a "liberdade de estabelecimento", reconhecida no artigo 48, uma liberdade que permite ao capital mudar de lugar, para onde as condições lhe sejam mais favoráveis, e às instituições financeiras encontrar asilo onde lhes agrade.

Uma crise duradoura

Porque se trata de uma crise sistêmica, que anuncia o fim de um modo de acumulação, as medidas de recuperação conjuntural terão um efeito limitado. Uma saída para a crise que conduza à emergência de uma nova ordem produtiva e de um novo regime de acumulação não depende somente da economia. Exige uma nova correlação de forças, novas relações geopolíticas, novos dispositivos institucionais e políticos.

Se a crise de 1929 foi a da "emergência estadunidense", que emergência prefigura a crise atual? A chinesa? A de uma organização multipolar de espaços continentais? A de um sistema de governo mundial?

Em um tempo em que se invocam a necessidade de uma nova ordem monetária internacional e respostas globais, o próprio Giscard d’Estaing reconhece que "a gestão econômica da crise se tornou, na Europa, mais nacional durante a crise do que antes do seu início", e que "os instrumentos de intervenção são essencialmente nacionais" (6). A crise agudiza, na verdade, as diferenças nacionais e libera tendências centrífugas. Em nome de uma "correspondência necessária entre os espaços econômicos e sociais", Emmanuel Todd se arvora em paladino de um "protecionismo europeu" (7) que crie "as condições para a recuperação dos salários" e uma oferta que gere sua própria demanda. A questão não é doutrinária ou de princípios. Proteger? Sim, mas quem, contra quem e como? Se a Europa começasse em adotar critérios sociais de convergência em matéria de emprego, renda, proteção social, direito do trabalho e harmonização fiscal, poderia, legitimamente, adotar medidas de proteção, não as dos interesses egoístas de seus empresários e financistas, mas a dos direitos e conquistas sociais. Poderia fazê-lo de maneira seletiva e pontual, adotando como contrapartida acordos de desenvolvimento solidário com os países do Sul em questões migratórias, de cooperação técnica, de comércio eqüitativo, sem ceder a um protecionismo de ricos, cujo efeito principal fosse disseminar os estragos da crise entre os países mais pobres.

Imaginar que uma medida de proteção alfandegária implicaria de forma mecânica em melhora nas condições sociais européias, como se pudesse ser tecnicamente neutra no contexto de uma luta de classes exacerbada pela crise, é uma enorme ingenuidade. Os trabalhadores acabariam afetados pelas travas burocráticas e fronteiriças, sem obter as respectivas vantagens sociais. Um protecionismo desta índole não resistiria muito tempo em razão de sua impopularidade, ou não tardaria em derivar para uma "preferência nacional" (ou européia) de corte chauvinista.

Refundar o capitalismo ou combatê-lo

Todos os governantes, de ontem e de hoje, de direita e de esquerda, acabaram por denunciar a loucura sistêmica dos mercados. Contudo, sua desregulação não tem sido fruto da famosa mão invisível, mas de decisões políticas e de medidas legislativas concretas. Foi a partir de 1985, quando era ministro da Economia o socialista Pierre Bérégovoy, que se concebeu a grande desregulamentação dos mercados financeiros e da bolsa de valores na França. Foi um governo socialista que, em 1989, liberalizou os movimentos do capital, antecipando-se a uma decisão européia. Foi o governo de Jospin que, ao privatizar mais do que os governos de Balladur e Juppé juntos, assentou as bases para que o capitalismo francês pudesse acolher fundos de investimentos especulativos. Foi um ministro das finanças socialista, Dominique Strauss-Khan, que propôs uma forte "desfiscalização" das célebres stock-options, e foi outro ministro socialista, Laurent Fabius, quem a pôs em prática. Foi um Conselho Europeu, com maioria social-democrata, que decidiu em 2002, em Barcelona, liberalizar o mercado de energia e o conjunto de serviços públicos, aumentar em 5 anos a idade de aposentadoria e sustentar os fundos de pensão. Foi a maioria do Partido Socialista que aprovou a sacralização da concorrência gravada no projeto do Tratado constitucional europeu de 2005. Foi seu voto, uma vez mais, que permitiu a adoção do Tratado de Lisboa, confirmando assim a lógica liberal da construção européia.

Para os salvadores do Titanic capitalista, a tarefa se anuncia dura. Um novo New Deal? Um retorno ao Estado social? Seria esquecer muito rápido que a desregulação liberal não foi um capricho doutrinário de Thatcher ou de Reagan. Foi a resposta à baixa das taxas de lucros, provocada pelas conquistas sociais do pós-guerra. Depois de 1973, "a incapacidade das políticas keynesianas para recuperar a atividade produtiva deixa o campo aberto a uma surpreendente contra-revolução conservadora", recorda Robert Boyer (8). Voltar ao ponto de partida seria reencontrar-se com as mesmas contradições. Como comenta ironicamente Jean-Marie Harribey: "regular sem transformar não é regular".

Por trás da crise de 1929, para redistribuir as cartas da riqueza e do poder e para anunciar uma nova onda expansiva, fez-se necessário nada menos do que uma guerra mundial. A colocação em marcha de um novo modelo de acumulação, e o, eventual, impulso de uma nova grande onda de crescimento envolverão o surgimento de novas hierarquias planetárias de dominação, uma re-acomodação de nações e continentes, novas condições para a valorização do capital, uma transição da matriz energética. Tal mudança não pode ser resolvida através da amabilidade diplomática, nos tapetes verdes das chancelarias, mas no campo de batalha, através de lutas sociais. A crise, como bem escreveu Marx, supõe "o estabelecimento por força da unidade entre momentos (produção e consumo) impulsionados de forma autônoma".

Na realidade, não é mais do que um começo

"A crise financeira – insistia Nicolás Sarkozy em seu discurso de Toulon – não é a crise do capitalismo. É a crise de um sistema afastado dos valores fundamentais do capitalismo, dos que – de certo modo – o traíram. Quero deixar claro aos franceses: o anticapitalismo não oferece nenhuma solução para a crise atual". A mensagem é clara: o inimigo não é o capitalismo, mas o anticapitalismo.

O presidente retornou à questão na sua intervenção no colóquio sobre a refundação do capitalismo, organizado, por sua iniciativa, em 8 de janeiro de 2009, pela Secretaria de Estado: "A crise do capitalismo financeiro não supõe a do capitalismo como tal. Não é um chamamento a sua destruição, o que seria uma catástrofe, mas a sua moralização". Suas palavras receberam um vigoroso respaldo de Michel Rocard: "Devemos começar por aí: nosso propósito é salvar o capitalismo". Estas declarações de guerra social traçam uma linha forte entre dois campos. É preciso eleger: ou discutir com os proprietários como refundar, reinventar, moralizar o capitalismo, ou lutar junto com os explorados e despossuídos para derrotá-lo.

Ninguém poderia predizer como serão as revoluções futuras. O que temos, unicamente, é um fio condutor. Trata-se de duas lógicas de classe que se enfrentam. A do lucro a qualquer preço, do cálculo egoísta, da propriedade privada, da desigualdade, da concorrência de todos contra todos, e a do serviço público, dos bens comuns da humanidade, da apropriação social, da igualdade e da solidariedade.

Notas:

(1) Le Journal du Dimanche, 14 de dezembro de 2008.

(2) Le Monde, 15 de dezembro de 2008.

(3) La Tribune, 15 de janeiro de 2009.

(4) Journal du Dimanche, 5 de outubro de 2008.

(5) Le Monde, 26 de novembro de 2008.

(6) Le Monde, 13 de janeiro de 2008.

(7) Emmanuel Todd, Après la démocratie, París, Gallimard, 2008.

(8) Libération, 29 de dezembro de 2008.

Daniel Bensaïd é professor de Filosofia na Universidade de Paris VIII. Foi um dos fundadores das Juventudes Comunistas Revolucionárias e da Liga Comunista Revolucionária. Atualmente é um dos intelectuais de referência do Novo Partido Anticapitalista, recentemente constituído na França.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

Lições de Exxon Valdez

Ao longo dos 20 anos de batalhas judiciais, 6 mil autores da inicial da ação já morreram. A ExxonMobil, com seus ganhos milionários e exércitos de advogados, pode fazer com que o caso Valdez permaneça nos tribunais durante décadas, enquanto os pescadores prejudicados vão morrendo pouco a pouco.

Amy Goodman (foto)

Faz vinte anos que o navio petroleiro Exxon Valdez derramou ao menos 11 milhões de galões de petróleo nas águas prístinas no canal Prince William, no Alasca. As consequências do derramamento foram desastrosas e até hoje continuam sendo. O incidente teve um grande impacto no meio ambiente e na economia. No lugar de considerá-lo simplesmente como um caso de contaminação, Riki Ott acredita que o desastre do Exxon Valdez é uma ameaça fundamental à democracia estadunidense.
Ott, que é uma bióloga marinha e pescadora comercial de salmão, natural de Cordova, Alasca, começa seu livro sobre o desastre, “Not One Drop” (Nenhuma gota), com uma citação de Albert Einstein: “Nenhum poblema pode ser solucionado com o mesmo nível de consciência que o gerou”.
O derramamento massivo se estendeu em 1900 quilômetros a partir do local do acidente, e cobriu 5150 quilômetros da costa e uma área de 25.900 quilômetros quadrados no total. Em 24 de março de 1989, Ott, que era membro do Conselho Diretor do Sindicato de Pescadores do Distrito de Cordova, estava inspecionando num vôo: “Era uma cena surreal. Era simplesmente maravilhoso, março, o amanhecer, as montanhas rosadas brilhando com a luz do sol e, de repente, chegamos ao local onde estava o convés vermelho do navio petroleiro, que é da largura de três quadras de futebol. A água mansa, de cor azul profundo, e esta mancha negra, como de tinta, que se estendia no mar”
A notícia do derramamento ficou conhecida em todo mundo, e muita gente foi a cidade de Valdez, no Alasca, para começar a limpeza. A vida marinha foi devastada. Ott disse que quase meio milhão de pássaros marinhos morreram, além de 5000 lontras marinhas, 300 ou mais focas da Groelândia e milhões de salmões jovens, ovos de espécies e espécies jovens. A morte dos ovos das espécies provocou impacto, ainda que retardado, de longo prazo na pesca do arenque e do salmão no Canal de Prince William. Em 1993, a indústria pesqueira estava quebrada. As famílias perderam seu sustento depois de terem tomado empréstimos para comprar botes obter permissões custosas de pesca. Mesmo que a pesca de salmão tenha melhorado, os arenques nunca mais voltaram.
Esta situação econômica desfavorável é uma das bases da ação legal contra a ExxonMobil, a maior empresa petroleira do mundo. O complexo litígio vem se prolongando há décadas, e a ExxonMobil está ganhando. Há 22.000 pessoas processando a ExxonMobil. Um júri outorgou uma indenização de 5 bilhões de dólares aos autores da ação, por danos e prejuízos, que equivalem ao que eram, naquele momento, os lucros da Exxon. Esta cifra foi reduzida pela metade no Tribunal Federal de Apelações, e finalmente foi reduzida a pouco mais de 500 milhões de dólares pela Corte Suprema. Ao longo dos 20 anos de batalhas judiciais, 6000 autores da inicial da ação já morreram. A ExxonMobil, com seus ganhos milionários anuais e exércitos de advogados, pode fazer com que o caso Valdez permaneça nos tribunais durante décadas, enquanto os pescadores prejudicados vão morrendo pouco a pouco.
O poder da ExxonMobil para travar uma batalha contra dezenas de milhares de cidadãos fez com que Ott se unisse ao crescente número de ativistas que querem pôr as empresas em seus lugares, retirando-lhes seus status jurídico de “pessoa”. Uma decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos no século XIX deu às empresas o status de “pessoa”, dando-lhes o acesso a proteções amparadas pela Carta de Direitos.
Ironicamente, este direito surge da “Cláusula de Proteção Igualitária” da 14ºª Emenda, adotada para proteger os escravos liberados das leis estatais opressores depois da Guerra Civil. Historicamente, as empresas era habilitadas pelos estados para realizar suas atividades. Os estados podiam revogar a autorização das empresas se houvesse descumprimento da lei ou se a empresa desempenhasse algum papel além do que lhe tinha sido autorizado.
Riki Ott me disse: “Durante os primeiros quarenta anos após a apropriação dessa lei, apresentaram-se 307 demandas judiciais, 19 das quais por parte dos afroamericanos e o resto por empresas. E, nesse momento, quando a Décima Quarta emenda foi aprovada para as empresas, surgiu isto que se chama pessoa empresarial. E a pessoa empresarial, aos olhos da lei, pode ter acesso a direitos, direitos humanos, à Carta de Direitos, a proteções constitucionais. Isso está errado. A palavra ‘empresa’ nunca aparece na Constituição nem na Carta de Direitos. É assim que perdemos a liberdade de expressão. Ainda temos, enquanto povo, a Primeira Emenda, mas essa também o tem as empresas”.
Considera-se liberdade de expressão das empresas inclusive contribuições em campanhas políticas e lobby no Congresso. As pessoas que descumprem a lei podem ser presas; quando uma empresa descumpre a lei – ainda que cometa crime doloso, provocando morte – as consequências não são mais do que uma multa, que a empresa pode cancelar via pagamento de impostos. Como diz Ott: “Se as leis conhecidas por ‘three strikes and you’re out’ pode na prática pôr alguém em prisão perpétua, por que não acontece o mesmo com as empresas?”. A chamada reforma das leis de indenização(‘”tort reform”) do direito estadunidense está erodindo a capacidade dos indivíduos acionarem às empresas de modo a dissuadí-las do cometimento de atos ilícitos e a capacidade dos tribunais de avaliarem os danos e prejuízos, de modo tal que afastaria as empresas do cometimento de ilícitos.
Ott e outras pessoas redigiram uma “28ª Emenda” à Constituição que retiraria o status de “pessoa” das empresas, submetendo-as à mesma supervisão que existia nos primeiros 100 anos de história dos EUA.
Com a atual crise econômica mundial e a crescente indignação pública com os excessos dos executivos da AIG e de outros beneficiários do resgate financeiro, poderia ser o momento agora de ampliar o compromisso público para acabar com o desequilíbrio de poder existente entre as pessoas e as empresas que têm solapado a democracia.
Denis Moynihan colaborou com a pesquisa para essa coluna
Tradução: Katarina Peixoto

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

Fonte: Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

Psicopatas no divã

O psicólogo canadense, criador de uma escala usada para medir os graus de psicopatia, explica por que uma pessoa aparentemente normal pode fazer as piores coisas sem sentir remorso.

Laura Diniz

"O psicopata é como o gato, que não pensa no que o rato sente. Ele só pensa em comida. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato".

O trabalho do psicólogo canadense Robert Hare, de 74 anos, confunde-se com quase tudo o que a ciência descobriu sobre os psicopatas nas últimas duas décadas. Foi ele quem, em 1991, identificou os critérios hoje universalmente aceitos para diagnosticar os portadores desse transtorno de personalidade. Hare começou a aproximar-se do tema ainda recém-formado, quando, trabalhando com detentos de uma prisão de segurança máxima nas proximidades de Vancouver, ficou intrigado com uma questão: "Eu queria entender o motivo pelo qual, em alguns seres humanos, a punição não tem efeito algum". A curiosidade levou-o até os labirintos da psicopatia – doença para a qual, até hoje, não se vislumbra cura. "O que tentamos agora é reduzir os danos que ela causa, aos seus portadores e aos que os cercam."

Um psicopata nasce psicopata?
Ninguém nasce psicopata. Nasce com tendências para a psicopatia. A psicopatia não é uma categoria descritiva, como ser homem ou mulher, estar vivo ou morto. É uma medida, como altura ou peso, que varia para mais ou para menos.

O senhor é o criador da escala usada mundialmente para medir a psicopatia. Quais são as características que aproximam uma pessoa do número 40, o grau máximo que sua escala estabelece?
As principais são ausência de sentimentos morais – como remorso ou gratidão –, extrema facilidade para mentir e grande capacidade de manipulação. Mas a escala não serve apenas para medir graus de psicopatia. Serve para avaliar a personalidade da pessoa. Quanto mais alta a pontuação, mais problemática ela pode ser. Por isso, é usada em pesquisas clínicas e forenses para avaliar o risco que um determinado indivíduo representa para a sociedade.

"Não há como dizer se uma criança se tornará um adulto psicopata. Mas, se ela age de modo cruel com outras crianças e animais, mente olhando nos olhos e não tem remorso, isso sinaliza um comportamento problemático no futuro"

Todo psicopata comete maldades?
Não necessariamente com o intuito de cometer a maldade. Os psicopatas apresentam comportamentos que podem ser classificados de perversos, mas que, na maioria dos casos, têm por finalidade apenas tornar as coisas mais fáceis para eles – e não importa se isso vai causar prejuízo ou tristeza a alguém. Mas há os psicopatas do tipo sádico, que são os mais perigosos. Eles não somente buscam a própria satisfação como querem prejudicar outras pessoas, sentem felicidade com a dor alheia.

Até que ponto a associação entre a figura do psicopata e a do serial killer é legítima?
A estimativa é que cerca de 1% da população mundial preencheria os critérios para o diagnóstico de psicopatia. Nos Estados Unidos, haveria, então, cerca de 3 milhões de psicopatas. Se o número de serial killers em atividade naquele país for, como se acredita, de aproximadamente cinquenta, isso significa que a participação desses criminosos no universo de psicopatas é muito pequena. Por outro lado, segundo um estudo do psiquiatra americano Michael Stone, cerca de 90% dos serial killers seriam psicopatas.

Em que medida o ambiente influencia na constituição de uma personalidade psicopata?
Na década de 20, John B. Watson, um estudioso de psicologia comportamental, dizia que, ao nascer, nós somos como páginas em branco: o ambiente determina tudo. Na sequência, entrou em voga o termo sociopata, a sugerir que a patologia do indivíduo era fruto do ambiente – ou seja, das suas condições sociais, econômicas, psicológicas e físicas. Isso incluía o tratamento que ele recebeu dos pais, como foi educado, com que tipo de amigos cresceu, se foi bem alimentado ou se teve problemas de nutrição. Os adeptos dessa corrente defendiam a tese de que bastava injetar dinheiro em programas sociais, dar comida e trabalho às pessoas, para que os problemas psicológicos e criminais se resolvessem. Hoje sabemos que, ainda que vivêssemos uma utopia social, haveria psicopatas.

"Um psicopata ama alguém da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro — e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor, mas não o sente da maneira como nós entendemos. Em geral, é um sentimento de posse, de propriedade"

Como se chegou a essa conclusão?
Na década de 60, vários estudiosos, inclusive eu, começaram a pesquisar a reação de um grupo de psicopatas a situações que, em pessoas normais, produziriam efeitos sobre o sistema nervoso autônomo. Quando se está na expectativa da ocorrência de algo desagradável, a preocupação do indivíduo transparece por meio de tremores, transpiração e aceleração cardíaca. Os psicopatas estudados, mesmo quando confrontados com situações de tensão, não exibiam esses sintomas. Isso reforçou a conclusão de que existem diferenças cerebrais entre psicopatas e não psicopatas. Pouco a pouco, essas diferenças vêm sendo mapeadas.

É possível observar sinais que indiquem que uma criança pode se tornar um adulto psicopata?
Não há nada que indique que uma criança forçosamente se transformará num psicopata, mas é possível notar que algo pode não estar funcionando bem. Se a criança apresenta comportamentos cruéis em relação a outras crianças e animais, é hábil em mentir olhando nos olhos do interlocutor, mostra ausência de remorso e de gratidão e falta de empatia de maneira geral, isso sinaliza um comportamento problemático no futuro.

Os pais podem interferir nesse processo?
Sim, para o bem e para o mal, mas nunca de forma determinante. O ambiente tem um grande peso, mas não mais do que a genética. Na verdade, ambos atuam em conjunto. Os pais podem colaborar para o desenvolvimento da psicopatia tratando mal os filhos. Mas uma boa educação está longe de ser uma garantia de que o problema não aparecerá lá na frente, visto que os traços de personalidade podem ser atenuados, mas não apagados. O que um ambiente com influências positivas proporciona é um melhor gerenciamento dos riscos.

Os psicopatas têm consciência de que são diferentes?
A consciência, o processo de avaliar se algo deve ser feito ou não, envolve não somente o conhecimento intelectual, mas também o aspecto emocional. Do ponto de vista intelectual, o psicopata pode até saber que determinada conduta é condenável, mas, em seu âmago, ele não percebe quão errado é quebrar aquela regra. Ele também entende que os outros podem pensar que ele é diferente e que isso é um problema, mas não se importa. O psicopata faz o que deseja, sem que isso passe por um filtro emocional. É como o gato, que não pensa no que o rato sente – se o rato tem família, se vai sofrer. Ele só pensa em comida. Gatos e ratos nunca vão entender um ao outro. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato.

É muito difícil identificar um psicopata no dia a dia?
Superficialmente, um psicopata pode parecer um sujeito normal. Mas, ao conhecê-lo melhor, as pessoas notarão que ele é um indivíduo problemático em diversos aspectos da vida. Ele pode ignorar os filhos, mentir sistematicamente ou apresentar grande capacidade de manipulação. Se é flagrado fazendo algo errado, por exemplo, tenta convencer todo mundo de que está sendo mal interpretado.

Um psicopata não sente amor?
Acredito que sim, mas da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro – e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor, mas não o sente da maneira como nós entendemos. Em geral, é traduzido por um sentimento de posse, de propriedade. Se você perguntar a um psicopata por que ele ama certa mulher, ele lhe dará respostas muito concretas, tais como "porque ela é bonita", "porque o sexo é ótimo" ou "porque ela está sempre lá quando preciso". As emoções estão para o psicopata assim como o vermelho está para o daltônico. Ele simplesmente não consegue vivenciá-las.

Que figuras históricas podem ser consideradas psicopatas?
É difícil dizer, porque seu comportamento é mediado por relatos de terceiros, e não por um diagnóstico psiquiátrico. Mas o ditador da ex-União Soviética Josef Stalin, por exemplo, era de tal forma impiedoso que talvez possa ser considerado psicopata. O ex-ditador iraquiano Saddam Hussein é outro exemplo. Eu ficaria muito surpreso se ele não preenchesse todos os critérios para a psicopatia. Aliás, Saddam tinha um filho claramente psicopata (Udai Hussein, morto em 2003), dirigente de um time de futebol. Quando o time perdia, ele torturava os jogadores – ou seja, era sádico também. Já o líder nazista Adolf Hitler é um caso mais complexo. Ele provavelmente não era só psicopata.

A psicopatia é incurável?
Por meio das terapias tradicionais, sim. Pegue-se o modelo-padrão de atendimento psicológico nas prisões. Ele simplesmente não tem nenhum efeito sobre os psicopatas. Nesse modelo, tenta-se mudar a forma como os pacientes pensam e agem estimulando-os a colocar-se no lugar de suas vítimas. Para os psicopatas, isso é perda de tempo. Ele não leva em conta a dor da vítima, mas o prazer que sentiu com o crime. Outro tratamento que não funciona para criminosos psicopatas é o cognitivo – aquele em que psicólogo e paciente falam sobre o que deixa o criminoso com raiva, por exemplo, a fim de descobrir o ciclo que leva ao surgimento desse sentimento e, assim, evitá-lo. Esse procedimento não se aplica aos psicopatas porque eles não conseguem ver nada de errado em seu próprio comportamento.

No Brasil, os psicopatas costumam ser considerados semi-imputáveis pela Justiça. Os magistrados entendem que eles até podem ter consciência do caráter ilícito do que cometeram, mas não conseguem evitar a conduta que os levou a praticar o crime. Assim, se condenados, vão para a cadeia, mas têm a pena diminuída. O senhor acha que, do ponto de vista jurídico, os psicopatas são totalmente responsáveis por seus atos?
Eu diria que a resposta é sim. Mas há divergências a respeito e existem muitas investigações em andamento para determinar até que ponto vai a responsabilidade deles em certas situações. Uma corrente de pensamento afirma que o psicopata não entende as consequências de seus atos. O argumento é que, quando tomamos uma decisão, fazemos ponderações intelectuais e emocionais para decidir. O psicopata decide apenas intelectualmente, porque não experimenta as emoções morais. A outra corrente diz que, da perspectiva jurídica, ele entende e sabe que a sociedade considera errada aquela conduta, mas decide fazer mesmo assim. Então, como ele faz uma escolha, deve ser responsabilizado pelos crimes que porventura venha a cometer. Não há dados empíricos que deem apoio a um lado ou a outro. Ainda é uma questão de opinião. Acredito que esse ponto será motivo de discussão pelos próximos cinco ou dez anos, tanto por parte dos especialistas em distúrbios mentais quanto pelos profissionais de Justiça.

O senhor está para publicar um estudo sobre um novo modelo de tratamento para psicopatas. Do que se trata?
Trata-se de um modelo mais afeito à escola cognitiva, em que os pacientes são levados a compreender que até podem fazer algo que desejem, sem que isso seja ruim para os outros. Não vai mudá-los, mas talvez possa atenuar as consequências de suas ações. É um tratamento com ambições relativamente modestas – tem por objetivo a redução de danos.

Fonte: Revista Veja – http://veja.abril.uol.com.br/

Moradores de cidade dos EUA vão às compras… de armas

Yves Eudes
Em Paso Robles (Califórnia)

Paso Robles, cidade da Califórnia central, famosa por suas criações de cavalos e seus vinhedos. Nesta manhã de inverno, o "gun show" (feira de armas de fogo) abre às 9 horas, mas desde as 8h30 uma pequena multidão espera diante da porta do amplo pavilhão de exposição: US$ 9 a entrada pelos dois dias, grátis para menores de 13 anos. Do lado de dentro, cerca de cinquenta fabricantes de armas expõem em seus stands milhares de armas de fogo, desde o revólver de bolso até o fuzil semiautomático, de todos os preços: US$ 89 por um velho fuzil russo, mais de US$ 2 mil pelo fuzil de longo alcance último modelo.

Steve e sua esposa Teresa, a quinquagenária esportista, estão à busca de uma pistola de grosso calibre não muito cara. Eles já têm um pequeno revólver e um fuzil, comprados em um outro "gun show", mas não é o suficiente: "Com a recessão, as falências, o desemprego, a criminalidade aumenta", afirma Teresa. "Antes, os jovens roubavam para comprar drogas, mas hoje famílias roubam para comer. Devemos nos armar para proteger nosso lar".
Eles mesmos temem por seu futuro, pois Steve acaba de perder seu emprego de vendedor de carros, e a renda da família caiu pela metade. Eles calculam que a compra de uma arma extra é uma despesa justificada: "Temos duas filhas de 12 e 14 anos, já está na hora de aprenderem a manejar diferentes tipos de arma, é uma parte importante de sua educação". Steve também tem outra motivação: "Nós compramos nosso fuzil após a eleição de Obama. Temos um presidente democrata, mais um Congresso democrata, mais um governo cheio de liberais ‘anti-gun’. Eles vão procurar limitar nosso direito de possuir armas. Temos de comprar logo o que pudermos, enquanto ainda é legal". Depois de muita consideração, ele também vai comprar um silenciador e uma mira telescópica.
John, de 22 anos, um rapaz musculoso de risonhos olhos azuis, e sua esposa Becca, uma bela loira de 24 anos, acabam de comprar um fuzil em perfeito estado por US$ 300, após uma dura negociação. John está contente: "É para caçar javalis, e também para nossa proteção. A região não é tão tranquila quanto parece. Trabalho em construção, e a maioria dos caras de minha equipe tem algum processo na justiça…" Becca, que trabalha em um salão de beleza, não comprou nada, pois ela já possui uma escopeta e uma carabina calibre 22 LR.
John votou no partido republicano em novembro de 2008, e a derrota o deixou muito rebelde: "Estou esperando que esses democratas tentem tirar minhas armas, mas não vou deixar. Peguem-me se puderem. Se as leis forem severas demais, as pessoas vão se arriscar para manter suas armas". Apesar de tudo, John, com seu fuzil na mão, faz fila diante do guichê de registros. A Califórnia possui uma legislação mais rígida que a dos Estados vizinhos: é preciso preencher um formulário detalhado, e depois apresentar um documento de identidade. Uma funcionária diante de um computador conectado a um arquivo central verifica se John não tem nenhum processo judicial e não está indicado como doente mental. Em seguida, John deve deixar seu fuzil com um armeiro local, e só poderá recuperá-lo em dez dias.
A Califórnia também proibiu algumas armas automáticas e pentes com mais de dez cartuchos. De forma geral, o porte de armas em lugares públicos é muito regulamentado. Essas pressões burocráticas irritam John: "Dois anos atrás, um jovem maluco matou 32 pessoas em um campus. Se os outros estudantes estivessem armados, ele só teria feito duas ou três vítimas antes de ser abatido. Mas não se deve contar com os democratas para ajudar as pessoas a se defenderem".
No pavilhão, todo mundo parece concordar com ele. Ainda lembram que, em abril de 2008, em San Francisco, em plena campanha presidencial, o candidato Obama havia se permitido fazer alguns comentários sociológicos, sem saber que estava sendo filmado: "Você vai nessas cidadezinhas (…), os empregos desapareceram há 25 anos e nada apareceu para substituí-los. Então não é surpreendente que as pessoas fiquem amargas, se apeguem às suas armas ou à religião…"
Seus adversários republicanos logo lançaram uma campanha midiática descrevendo Obama como um elitista, que olha a vida do povo do alto de sua torre de mármore. Os amantes de armas de fogo se sentiram especialmente visados. Grupos conservadores criaram sites na Internet explicando que, se Obama fosse eleito, ele proibiria as armas, deixando as pessoas honestas à mercê de gangues. Alguns chegaram a prever que a polícia revistaria casa por casa, ou que o governo promoveria uma escassez de munição. Frente a essa ofensiva, a equipe de Obama havia publicado regularmente comunicados tranquilizadores: "Nós recomendamos medidas de bom senso, que respeitem os direitos dos proprietários de armas garantidos pela segunda emenda da Constituição, ao mesmo tempo em que deixem as armas fora do alcance das crianças e dos criminosos".
Essas explicações não diminuíram a desconfiança dos meios conservadores. Heb Crowley, com sua barbicha, sorridente e tagarela, proprietário de uma loja de armas em uma cidade vizinha e detentor do maior stand do "gun show", é categórico: "Antes da eleição de Obama, eu vendia de cinco a dez armas por semana. Mas desde que ele foi eleito, passaram a ser cinco a dez por dia. Em seguida, o furor voltou a diminuir, mas as vendas continuam fortes".
Bem em frente se encontra o stand da National Rifle Association (NRA), que defende os direitos dos proprietários de armas em todo o país. Harold Morgan, de 76 anos, militante da NRA em tempo integral, organizou uma rifa: apostando US$ 10, tem-se a chance de ganhar uma pistola Ruger MK2, um fuzil Marlin ou uma escopeta Henry. Enquanto vende seus bilhetes, Harold desenvolve seus argumentos: "Uma sociedade armada é uma sociedade policiada. Ninguém vai insultar ou ameaçar um desconhecido sabendo que o outro sem dúvida tem uma pistola no bolso". Na verdade, ele considera o porte de arma como a única garantia das liberdades públicas: "A segunda emenda protege todas as outras. Todos os ditadores da história primeiro confiscaram as armas antes de oprimir e massacrar seu povo".
Ultimamente, a arma que está na moda é o fuzil semiautomático AR-15, preto, enorme, projetado para parecer o máximo possível com o M16 do exército americano. O vendedor está de mau humor: "Estou sem o AR-15 em estoque, não fizeram a entrega a tempo, os atacadistas estão sobrecarregados. Tive de colocar clientes na lista de espera". Um adolescente explica em voz baixa que ele vai comprar peças e ferramentas especiais para fazer em casa um AR-15 totalmente automático. As coronhas e as bandoleiras são rosa para as meninas, e azuis para os rapazes. Também há um modelo laranja com formas futuristas, tipo video-game.
As filas de espera mais longas se estendem diante dos stands de vendedores de munição, que tem venda livre. Seu preço aumenta rapidamente, o que incentiva os clientes a fazerem provisões. Sozinho, o stand da associação Advanced Tactical Supplies terá vendido em dois dias mais de 50 mil cartuchos comuns e 5 mil modelos de luxo.
O fundo do pavilhão está ocupado pelos "vendedores privados", particulares sem licença que compram e vendem todo tipo de armas, de preferência em dinheiro vivo. O mercado de segunda mão cresce, pois na Califórnia os fuzis com mais de 50 anos escapam de qualquer regulamentação. Ora, uma arma dos anos 1950, se tiver sido bem cuidada, está em perfeito estado. Ou seja, muitas armas consideradas antigas na verdade estão quase novas, pois suas peças essenciais foram substituídas. Durante todo o dia compradores entram e saem do pavilhão com fuzis de repetição, sem passar pela mesa de registros.
Depois de comprar suas novas armas, os apreciadores da região vão testá-las no clube de tiro de Morro Bay, instalado em uma esplêndida colina que se eleva por sobre o oceano Pacífico. Nesta manhã de domingo, cerca de quinze homens estão lá. Todos se dizem conservadores, e mais ou menos hostis aos democratas de Washington. Há única exceção, mas de respeito: Joe Kingston, de 65 anos, uma figura local. Ex-operário metalúrgico, sindicalista e militante democrata desde sempre, Joe fez campanha para Obama desde o primeiro momento. Isso não o impede de ser apaixonado por armas de fogo, desde a infância. Ele possui diversos fuzis de primeira linha, pois participa de competições de tiro. Ele também tem, para sua proteção pessoal, uma pistola Glock de grosso calibre: "Obama não vai tomar nossas armas, ele já disse várias vezes, é um direito fundamental desde a independência dos Estados Unidos". Joe prevê que, nesse domínio, nada de muito grande acontecerá nos próximos meses: "Talvez uma restrição sobre os fuzis de assalto, nos Estados onde eles são de venda livre, mas é só".
Para os conservadores, já é demais. Pouco após a chegada de Obama na Casa Branca, um incidente reavivou a polêmica. Para substituir Hillary Clinton, que deixou seu cargo de senadora, o governador do Estado de Nova York nomeou Kirsten Gilligrand, uma democrata local. Os dirigentes democratas de todo o país logo criticaram essa decisão, pois Gillibrand é membro da NRA. Para os republicanos, essa mobilização "anti-guns" contra a nova senadora é a prova de que algo está sendo tramado no Congresso, e que é preciso permanecer mobilizado.
Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

Europa vira as costas para a mão-de-obra imigrante

Renate Flottau, Thomas Hüetlin, Jan Puhl e Helene Zuber

Com o aumento do desemprego, muitos países da União Europeia querem que os trabalhadores imigrantes que antes atraíam voltem para suas casas o mais rápido possível. Eles não estão poupando despesas ou esforços para encorajá-los a partir.
Chultem Choijusuren estava assistindo televisão em Ulan Bator quando decidiu embarcar no trem da globalização. Segundo uma propaganda que ele viu, empresas na República Tcheca estavam pagando "€ 1.000 por mês" para jovens mecânicos. A maioria das pessoas nas estepes da Mongólia já estavam familiarizadas com o pequeno país do Leste Europeu. Afinal, muitos jovens daqui estudaram em Praga durante o passado socialista dos dois países.
Choijusuren tomou um empréstimo equivalente a € 3 mil junto aos bancos locais. Parte do dinheiro era para pagar a taxa de € 1.500 que a agência de empregos mongol cobrava para lhe garantir um emprego. Ele também precisava de dinheiro para começar a vida no exterior, e a passagem apenas de ida de trem da capital mongol, Ulan Bator, para Praga, via Moscou, custa € 700. Sua esposa e filha de oito anos acenaram em despedida enquanto o trem partia da estação.
O mongol planejava permanecer na Europa por talvez meio ano, economizar alguns poucos milhares de euros e voltar para casa para abrir sua própria oficina mecânica de automóveis.
Choijusuren faz parte de um exército de imigrantes que se deslocaram para o Ocidente, vindos nos últimos anos de países em desenvolvimento, com um entre três escolhendo a Europa como seu destino. Após a expansão da União Europeia para o leste em 2004, dezenas de milhares de asiáticos encontraram emprego em fábricas polonesas, tchecas e eslovacas, onde eram recebidos de braços abertos, pois um milhão de poloneses e centenas de milhares de tchecos, bálticos, eslovacos e húngaros as deixaram para trás quando migraram para os países mais ricos da UE. Irlanda, Reino Unido e Suécia, diferente da Alemanha e da Áustria, abriram imediatamente suas fronteiras para os cidadãos dos novos países membros, e a Espanha fez o mesmo dois anos depois.
Construtoras e restaurantes nestes países ficaram felizes em empregar mão-de-obra barata do Leste. Mais e mais famílias contratavam mulheres polonesas para limpar suas casas ou babás com sotaque eslavo para colocar seus filhos na cama. Os salários dos migrantes eram modestos, mas em alguns casos até três vezes mais do que ganhavam em casa. Os recém-chegados enviavam o máximo possível do que ganhavam para casa, injetando capital que ajudava suas cidades natais a obterem uma prosperidade sem precedente.
Assim que a crise econômica global estourou, esses dias acabaram. O desemprego subiu duas vezes mais rápido no Reino Unido e na Espanha do que em qualquer outro lugar na Europa. Agora os cidadãos dos países da Europa Ocidental precisam eles mesmos dos empregos, de forma que seus governos estão recorrendo a todo tipo de truque e incentivo para se livrarem daqueles que antes precisavam tanto.
A globalização transformou 200 milhões de pessoas em trabalhadores imigrantes nas últimas décadas. Um quinto dessas pessoas são europeias, menos de um décimo são africanas e 3% são da América Latina. Agora a tendência está revertendo, uma mudança que geralmente afeta aqueles que vêm das regiões mais pobres da Europa e de países em desenvolvimento e emergentes. Representantes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da ONU temem que 30 milhões de pessoas de todo o mundo poderão perder seu ganha-pão até o final do ano.
Não mais uma terra prometida
Há uma tentação considerável de lidar com a crise com a adoção de medidas protecionistas. Em muitos lugares, os trabalhadores convidados agora são vistos apenas como concorrentes. No Reino Unido, os membros do sindicato trabalhista doméstico impediram mecânicos que trabalhavam para uma empresa siciliana de reformarem uma refinaria de petróleo. Os operários britânicos também protestaram contra o uso de trabalhadores espanhóis e poloneses na construção de uma usina de força em Nottinghamshire. Em Londres, o ministro das Fronteiras e Imigração anunciou que restrições seriam necessárias para "proteger os empregos britânicos".
"O Reino Unido era a terra prometida para mim", diz Andrzej Wlezinski, um polonês, "mas agora acabou". O encanador de 40 anos planeja voltar para Lodz, uma cidade na região central da Polônia, no final de março. Ele veio para Londres, ele diz, imediatamente após a expansão da UE para o leste. Os britânicos, que toleraram por décadas o trabalho ruim dos caros trabalhadores especializados locais, receberam Wlezinski e outros como eles com abundância de trabalho e bons salários. E então o ministro do Interior, Charles Clarke, chamou homens como Wlezinski de "as joias de nossa nação".
Mas agora isso é história. Desde o final do ano passado, Wlezinski tem procurado constantemente na Internet por empregos temporários. Ele costumava ganhar 90 libras (€ 114) por dia, mas agora ele se considera com sorte quando ganha a metade -se puder encontrar trabalho, é claro. Mas ele precisa ganhar 200 libras por semana para pagar o aluguel do pequeno quarto escuro onde mora, as passagens de metrô e alguns poucos hambúrgueres. Lodz, ele diz, é uma cidade mais barata e com "menos estresse". Se voltar para casa agora, após cinco anos na Inglaterra, ele não levará quase nada de valor em suas duas malas. Economizar dinheiro não era uma opção.
Em outras partes da Europa, os imigrantes dispostos a voltar para seus países de origem podem se inscrever para receber uma assistência substancial. Organizações de ajuda espanholas, por exemplo, pagam os custos de viagem e oferecem € 450 em dinheiro para despesas. O país está especialmente ávido por se separar da forma mais tranquila possível de seus mais de 700 mil romenos, o maior grupo de imigrantes registrados no país.
O governo em Madri até mesmo deu um passo além, ao anunciar seu "Programa de Retorno Voluntário" em propagandas nos trens do metrô e nos ônibus. José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro socialista, espera que o programa ajude a mandar embora 100 mil dos 2,8 milhões de não-europeus que vivem legalmente na Espanha.
Em dezembro passado, 240 mil deles já tinham requisitado os benefícios do seguro-desemprego, e o número provavelmente aumentou de lá para cá. Se os trabalhadores imigrantes concordarem em não voltar à Espanha por três anos, é devolvida a eles suas contribuições para o sistema do seguro-desemprego: 40% adiantados e o restante assim que voltarem para seus países de origem.
Entretanto, a oferta não fez muito sucesso até o momento, com apenas 2 mil estrangeiros se inscrevendo nos primeiros três meses. A maioria deles era equatoriana, que, depois dos marroquinos, é o maior grupo de imigrantes não-europeus.
Aqueles que trabalharam legalmente na Espanha por um período prolongado não são autorizados a levar mais do que € 12 mil consigo na partida. Isso mal dá para abrir um pequeno comércio ou empresa de táxi em casa. Dora Aguirre, presidente da Rumiñahui, uma associação equatoriana em Madri e que dá conselhos aos seus compatriotas, disse: "Aqueles que estão partindo agora o fariam de qualquer forma. São pessoas em idade de aposentadoria".
Os homens que perderam o emprego no setor de construção nos últimos meses frequentemente não têm condição de partir. Eles trouxeram esposas e filhos para a Espanha e geralmente estão presos na armadilha do crédito. Eles compraram carros que agora ninguém quer, e alguns assumiram hipotecas em condomínios em conjunto com quatro ou cinco outras pessoas. Porque ninguém está disposto a assumir a parte deles, eles precisam continuar pagando. "A maioria acredita que este é um lugar melhor para enfrentar uma crise econômica do que na América Latina", diz Aguirre.
Nenhum país europeu atraiu mais trabalhadores convidados nos últimos anos do que a Espanha. Desde que Madri ingressou na UE em 1986, a economia desfrutou consistentemente de altas taxas de crescimento, e recentemente estava até mesmo acima da média dos países que adotaram o euro como moeda. Havia mais construção na Espanha do que em qualquer outro lugar, e havia muito o que fazer para os 5,3 milhões de estrangeiros do país, que agora correspondem a mais de 10% da população.
O aumento da xenofobia
Quando os socialistas chegaram ao poder em 2004, eles introduziram uma anistia, dando documentação a 700 mil não-europeus ilegais com emprego, para poderem recolher suas contribuições ao sistema do seguro social. Além disso, as empresas espanholas recrutaram trabalhadores na Colômbia, Equador, México, Mauritânia, Polônia, Bulgária como trabalhadores rurais, para trabalhar em hotéis, restaurantes e no setor de construção.
Agora o mercado de trabalho não pode mais absorver imigrantes adicionais, diz o ministro do Trabalho, Celestino Corbacho. Dezenas de milhares de cidadãos espanhóis agora estão se candidatando a empregos sazonais para colheita de azeitonas e morangos nos vilarejos da Andaluzia, tirando assim o emprego dos trabalhadores estrangeiros. Isso inevitavelmente envenenou o clima para os trabalhadores imigrantes.
Na região de Madri, governada pelo conservador Partido Popular da Espanha, a força policial foi instruída a reprimir os estrangeiros durante verificações de identidade e prender um número predeterminado de estrangeiros sem residência ou visto de trabalho a cada semana. A xenofobia também está crescendo na França, onde o presidente Nicolas Sarkozy, durante sua campanha eleitoral em 2007, já tinha elevado a "luta contra a fraude fiscal e social" ao status de responsabilidade nacional. A cota de deportação aumentou consideravelmente desde então.
O sentimento agora passou a ser de xenofobia franca na Itália, que, assim como a Espanha, apenas se tornou um país para imigração na última década. Os imigrantes ilegais não podem "ser tratados de forma branda", disse o ministro do Interior, Roberto Maroni, e o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi apresentou prontamente uma nova lei de segurança. Ela pede uma taxa para os vistos de residência e comprovação de renda mínima. Segundo a lei, os sem-teto terão suas impressões digitais colhidas, médicos são obrigados a informar pacientes sem documentação e patrulhas de cidadãos são autorizadas a prender imigrantes ilegais. Qualquer um que estiver trabalhando no país ilegalmente será deportado e aqueles que se recusarem a partir podem ficar na prisão por até quatro anos.
A UE há muito tinha planos de regulamentar uniformemente a imigração. Mas diante da crise econômica, alguns governos estão à procura de uma saída pelos fundos. Eles querem adiar as novas regras que permitiriam aos trabalhadores romenos e búlgaros livre acesso a todo o mercado de trabalho da Europa Ocidental neste ano, e 11 países da UE querem manter as restrições existentes. Isto, por sua vez, agrava a situação dos países mais pobres da UE. As autoridades em Bucareste, por exemplo, esperam ver o retorno de pelo menos metade dos cerca de três milhões de romenos que trabalham no exterior.
Aneliya, 38 anos, e seu marido, Georgiy, 40 anos, já voltaram de Manta Rota, um ensolarado destino de férias na região de Algarve, no sul de Portugal, para Dolno Ossenovo, no sudoeste da Bulgária. A construtora onde o búlgaro trabalhou por oito anos notificou os trabalhadores que esperava uma redução do número de contratos. Em casa, em seu vilarejo nas Montanhas Rila, Aneliya planeja colher tabaco por € 150 por mês, desde que consiga arrumar trabalho. Seu salário terá que bastar para sustentar os dois filhos do casal, com 12 e 15 anos, e seu marido, é claro, até que ele consiga arrumar um novo emprego. O único problema é que 300 dos 1.500 moradores do vilarejo se mudaram para Portugal, e 200 agora estão de volta.
‘Minhas dívidas estão crescendo’
A disputa pelos poucos empregos disponíveis será impiedosa. Um desastre está tomando forma no mercado de trabalho por toda a Bulgária. Os investidores estão mantendo distância. Apenas em dezembro, 15 mil trabalhadores foram demitidos, principalmente na indústria de metais, mineração e no setor têxtil. O governo espera arrumar emprego em projetos de construção para os trabalhadores desempregados que agora estão voltando para casa.
Chultem Choijusuren, o mecânico mongol, também está fazendo as malas. Não há dúvida de que quando ele chegou à Europa, ele já tinha perdido o barco. Choijusuren agora está sentado no escritório sem aquecimento da Sociedade Tcheca-Mongol em Plzen, um dos 13 mil mongóis no país. Um quadro na parede atrás dele retrata Genghis Khan, e apenas a poucos metros de distância se encontra um retrato do ex-presidente tcheco, Václav Havel. Ele nunca conseguiu encontrar um emprego, ele diz, "mas minhas dívidas crescem a cada dia".
Quando Choijusuren desceu do trem em Praga, após uma viagem que durou uma semana, ele foi recebido pelo contato mongol, mas com a notícia de que "não há mais trabalho na República Tcheca". Ele encontrou um lugar para ficar com outros mongóis, racionou suas economias e saiu por conta própria à procura do emprego de € 1.000 que esperava. Mas seus esforços foram em vão. "Não há nada mais para mim aqui", ele diz.
O governo tcheco pagará sua passagem de volta. Ele prevê que haverá mais de 30 mil estrangeiros desempregados no país nos próximos meses. As autoridades tchecas estão profundamente preocupadas com a possibilidade de que alguns dos trabalhadores imigrantes vietnamitas, chineses e mongóis possam se voltar para o crime.
Praga prefere se livrar destas vítimas da globalização antes que isso aconteça.
Tradução: George El Khouri Andolfato

A ditabranda dos alienados

Luciano Martins Costa

Apesar da retratação publicada no domingo (8/3), o infeliz trocadilho publicado em editorial da Folha de S.Paulo no dia 17 de fevereiro, que achou acertado qualificar como "ditabranda" o regime militar imposto ao Brasil a partir de 1º de abril de 1964, ainda produz artigos e debates. Não tão intensamente quanto deveria ou quanto merece a revisão daquele período, nem tão profundamente quanto o que nos recomendaria a necessidade de entender como vimos construindo penosamente a nossa democracia desde então.

Para não ter que discorrer monotonamente sobre o que tem sido abrigado pela imprensa, e em especial pela própria Folha, pode-se partir da observação de que a maioria das opiniões sobre a questão se concentra, de um lado, no grupo daqueles que foram atingidos pessoalmente pelos atos de violência dos agentes do regime ou estiveram próximos de outras vítimas, e, do outro lado, por aqueles que procuram justificar a ditadura, afirmando que, afinal, ela não foi tão dura quanto suas congêneres da Argentina ou do Chile.

Entre estes há os que brandem os números do desempenho econômico do Brasil no período, como se indicadores esparsos pudessem justificar o rompimento da normalidade institucional e a fratura na História. Ainda assim, esses indicadores são pura ficção, se confrontados com o conceito contemporâneo de desenvolvimento sustentável.

Modernização atrasada

Também há os desorbitados que ainda sacam o ramerrão segundo o qual o Brasil, em 1964, foi salvo de uma ditadura comunista, a despeito de todas as evidências históricas em contrário. Estes costumam alegar que não se faz com igual severidade o julgamento de ditaduras "de esquerda", como a cubana. Ora, ditaduras são ditaduras, seja em nome de quem tenham se estabelecido, se em nome do povo ou dos banqueiros.

Assim como a estabilidade econômica alcançada temporariamente por Pinochet no Chile, com amplo suporte dos Estados Unidos, não justifica a ditadura chilena, também os avanços cubanos em educação e saúde não devem justificar a supressão da liberdade.

A questão central é a quebra da ordem democrática pela imposição autocrática de um grupo de poder, e que sempre resulta em atos de violência, com ou sem derramamento de sangue. A violência mais grave é a institucional, uma vez que o Estado também pratica violência física arbitrária sob o regime democrático.

A maioria dos que rejeitam a tese da "ditabranda" repete que o grau de violência não pode ser qualificado da forma como propôs o editorial, como um ranking macabro de pontuações pelo número de mortos e desaparecidos ou pelo padrão das torturas impostas pelo regime militar aos seus opositores. Violência é sempre condenável, e o rompimento da legalidade pelos militares e seus apoiadores – entre os quais se alinharam, sim, quase todos os grandes jornais do país – é o ponto central, argumentam os indignados.

No entanto, têm escapado ao debate algumas sutilezas que, na verdade, nunca foram verdadeiramente apropriadas pela imprensa, e que têm profundas consequências em algumas das mazelas que ainda corroem este país. Uma delas é a corrupção, enraizada na política e nos negócios públicos desde antes da proclamação da República, mas que se consolidou durante os vinte e poucos anos da ditadura militar. A imprensa conhece os empresários, ministros e outros agentes públicos cujos negócios floresceram graças a relações perversas com os chefes militares. O fato de não ter sido possível publicar tais escândalos na ocasião, por impedimento da censura, não a exime de registrar o que lhe chegou ao conhecimento.

Da mesma forma, a imprensa nunca abordou o tema das negociações da dívida externa brasileira durante o regime militar, que envolveram o desvio de propinas incalculáveis, favorecimento a empresas estrangeiras, transferência de patrimônio nacional para investidores externos e a criação de reluzentes fortunas que, passadas quase três décadas, se exibem hoje cobertas de boa reputação. Isso sem levar em conta os monopólios e oligopólios que atrasaram a modernização da indústria brasileira, do setor financeiro e do mercado de capitais, por conta de favorecimentos a "empreendedores" cujo principal capital era o estômago tolerante o suficiente para negociar com os milicos de plantão.

Lata de lixo

Finalmente, mas ainda longe de esgotar as possibilidades do debate, a tal "ditabranda" brasileira produziu, sim, mortos, desaparecidos e torturados em número comparável aos das ditaduras argentina e chilena. Esses números estão maquiados sob a insensibilidade da imprensa e das instituições públicas para os problemas sociais do país. Eles estão equivocadamente encaixotados nas estatísticas da violência policial.

Sim, porque a polícia brasileira, em todos os estados, foi transformada durante a ditadura militar num perverso e incontrolável instrumento de controle social, que foi treinado para "identificar" e punir preventivamente os supostos objetores do regime e acabou produzindo uma lógica toda especial segundo a qual todo jovem de pele relativamente escura é um inimigo potencial da ordem pública. No tempo da ditadura, esse estereótipo incluía os jovens que se descolavam do modelo caserna com que eram identificados os "moços bons".

Treinada para a repressão preventiva nos termos vagos de um "inimigo do regime", a Polícia Militar mantém até hoje o padrão de identificação e neutralização do "inimigo da ordem social". Basta observar como agem seus homens nos estádios de futebol. Os inocentes torturados, desaparecidos ou mortos nesse processo contam-se aos milhares. Isso sem contar os mortos nos conflitos rurais, quase sempre vitimados sob acobertamento dos agentes da segurança pública.

Somente na região de Xapuri, no Acre, são duas dezenas, entre eles o líder dos seringueiros, Chico Mendes. Na região do Bico do Papagaio, que cobre 66 municípios entre os estados do Pará, Maranhão e Tocantins, perde-se a contabilidade dos assassinatos ocorridos nos últimos trinta anos. Por conta da "estratégia" militar segundo a qual era preciso "integrar para não entregar", hoje temos 70 milhões de cabeças de gado na Amazônia, uma verdadeira bomba ambiental.

Isso é parte da conta da tal "ditabranda". A diferença fundamental entre os nossos gorilas e os da Argentina e Chile é que, lá, eles saíram do poder diretamente para a lata de lixo da História. Aqui, eles continuam rosnando porque sabem que deixaram aliados bem acomodados no poder do regime que chamamos democracia. E na imprensa, claro.

Masmorras oficiais

Poderíamos colocar na contabilidade a destruição da infraestutura do Estado, desde a educação e a saúde ao abandono das cidades. Os prefeitos indicados pelos governos militares nunca se preocuparam com outra coisa do que em construir vias de tráfego. Paulo Maluf é seu ícone, mas todos eles se caracterizaram por se omitir do planejamento urbano e o resultado é o que vemos: favelas, rios transformados em esgotos, ruas desordenadas, com uma ou outra exceção cujo ícone é Curitiba.

Na educação, muitos equivocadamente se referem à escola pública dos tempos da ditadura como exemplo de qualidade. Os indicadores mostram que eram escolas excludentes, para minorias, e o esforço que se tem de fazer hoje para recuperar a estrutura de ensino é parte do preço que pagamos pela "ditabranda". A obsessão pela centralização e controle gerou os monstros da burocracia que levamos duas décadas para domesticar.

E por aí vai. Praticamente todas as mazelas que infestam o Brasil contemporâneo têm raízes naqueles anos de insanidade. A Folha de S.Paulo se retratou na edição do domingo (8/3), depois que cerca de 300 manifestantes protestaram na frente da sede do jornal, reconhecendo que o uso da expressão "ditabranda" foi um erro, pois o termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Mas reafirmou que "do ponto de vista histórico, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena – ou que a ditadura cubana, de esquerda".

Menos mal que o jornal venha a público se explicar, mas ainda assim persiste no equívoco, e sua retratação não apaga as manifestações de apoio que recebeu de apressados e sempre solícitos articulistas. Como assim, "do ponto de vista histórico?" Do ponto de vista de qual historiador? Daquele que permaneceu na universidade, escondido na biblioteca, ou do que foi perseguido, exilado, torturado? Por outro lado, a truculência das ditaduras só se calcula pela violência física? Quem estabeleceu os critérios desse ranking? O departamento de infográficos da Folha?

Fazer a conta da ditadura pelo número de mortos nas masmorras oficiais é vilipendiar a História. É coisa de alienados.

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

As cinzas de Gramsci

Ricardo Rizzo

‘Não, meu coração não é maior que o mundo
(Carlos Drummond de Andrade).

É preciso queimar todo o passado e reconstruir uma nova vida. Ninguém deve se deixar dominar pela vida vivida até agora, ou, pelo menos, só conservar o que foi construtivo e belo. É preciso sair do fosso e lançar o sapo longe do coração (Gramsci, em carta à esposa, de 27 de junho de 1932).

Resultado do segundo congresso da International Gramsci Society, realizado no Rio de Janeiro em 2001, apenas uma semana depois dos acontecimentos de 11 de setembro, este Ler Gramsci, entender a realidade condensa, nos seus vinte ensaios de variados sotaques, um propósito rigoroso: desafiar a imensa contribuição teórica gramsciana confrontando-a com uma realidade que parece ter intensificado vertiginosamente aspectos daquele mundo “grande e terrível, e complicado” sobre o qual o revolucionário sardo se debruçara de corpo e alma. Na verdade, entre “ler Gramsci” e “entender a realidade”, vai uma distância, tem lugar um esforço de mediação de contextos particulares em alguma medida semelhante ao mesmo esforço que Gramsci empreendera ao tentar achar as razões da derrota da revolução socialista no Ocidente, dentro da escuridão do cárcere fascista.

É certo que cada época articula, a seu modo, os adjetivos do mundo. Sem dúvida que no decorrer do século XX, talvez o mundo tenha sido mais intensamente “terrível”, ou mesmo “maior”, do que é hoje. Somos freqüentemente levados a acreditar que as distâncias estão se comprimindo na concretude de uma humanidade tangível, comunicante. De outro lado, a expansão da cultura democrática, apontada por alguns dos ensaístas deste livro como movimento estrutural sólido e distinguível na bagunça da totalidade social contemporânea, indica algum recuo do “terrível”. Difícil é sustentar que o mundo seja hoje menos “complicado” do que ontem. Convém lembrar que os fatores de complexificação que tanto ocuparam Gramsci na tentativa de determinar as características das sociedades de tipo “ocidental” (e com isso pensar uma filosofia da práxis revolucionária adequada à “complicação” das sociedades mais avançadas) não cessaram de atuar por todo o século passado, produzindo uma correlação de forças esfacelada por múltiplas experiências históricas demasiado singulares para se deixarem reduzir, sem resistência, a um modelo comum. O mundo certamente é hoje um lugar ainda mais complicado do que na primeira metade do século XX. Não espanta, então, que um filósofo do “complicado” por excelência, reconhecedor da primazia do objeto no cálculo da prática (o mundo, afinal, é maior que o coração), seja chamado novamente a “entender a realidade”.

Igualmente esperável, nesse multilivro, a recorrência bastante marcada de alguns temas centrais, aqueles surgidos exatamente desse exame da realidade complicada, empreendido ao longo principalmente dos Cadernos do Cárcere. Conceitos fortes da equação política gramsciana como “Estado”, “sociedade civil” e “hegemonia”; bem como seus pares dialéticos, “força-consenso”, “dominação-direção”, são esquadrinhados e testados a todo o tempo na sua capacidade de iluminar os diversos contextos atuais. É como se essas próprias centralidades temáticas cuidassem, com sua força gravitacional, de “organizar”, na memória do leitor, os vinte ensaios dispostos aqui em ordem alfabética segundo o sobrenome dos autores. Dessa maneira, é possível que a forma do livro denuncie melhor a pluralidade das leituras em torno de Gramsci, o que por sua vez depõe pela multiplicidade de focos com que a sua atenção dialética procurou ler nas entrelinhas do mundo.

Mas, se por um lado as leituras aqui coligidas celebram a pluralidade, por outro elas implicam também alguma irregularidade. Evidentemente, cada leitor trará para essa coleção seus critérios e com eles elegerá seus textos preferidos, que certamente não serão todos. Nem por isso, no entanto, torna-se desaconselhável tentar buscar e discutir entre as diferentes abordagens os marcos de uma avaliação crítica.

Nesse sentido, o texto de Dante Germino, professor da Universidade de Amsterdã tragicamente falecido em maio de 2002, a quem o volume é dedicado, pode ocupar uma posição central. O ensaio chama-se “Interpretando Gramsci”, e, partindo da premissa um pouco óbvia de que existem tantas interpretações de Gramsci quanto forem os intérpretes, pergunta: existiria um Gramsci gramsciano? No contexto de uma espécie de “luta por Gramsci”, Germino parece inverter o título da coletânea: trata-se, antes, de entender Gramsci, e aí ler a realidade. O critério que Germino oferece para distinguir a verdadeira “interpretação” da mera “expropriação” do texto gramsciano seduz pela sua ambição intransigente. Trata-se de aplicar a Gramsci o método que ele mesmo empregou para “interpretar” suas principais influências (Marx e Croce entre elas): “primeiro, uma análise minuciosa de todos os textos do autor, e não apenas os considerados ‘principais’; e, segundo, uma investigação da vida e da época do autor”.

Para Germino, no quadro de uma “investigação da vida” do autor, adquire especial relevo a leitura das cartas que Gramsci escreveu antes e depois de preso, à guisa de biografia intelectual. Nessa linha, tampouco a sua experiência como gobbo, ou “corcunda”, poderia ser desprezada. Ao contrário, esses e outros dados da sua vida (a origem sarda, pobre, a prisão do pai e a precariedade econômica da família) seriam indispensáveis para definir o modo pelo qual Gramsci “lia a realidade”, na opinião de Germino: “das margens para o centro”.

Assim como Gramsci procurava compreender Marx não a partir de “afirmações casuais e aforismos isolados”, mas captando “o ritmo do pensamento em desenvolvimento”, Germino entende que devemos compreender Gramsci através de suas origens, de sua obra como processo e construção orgânica (Cadernos e escritos pré-carcerários) e das condições em que ela se desenvolveu. Para ele, o Leitmotiv do pensamento gramsciano deve ser buscado “na sua paixão por superar a marginalização”. O ressentimento de Gramsci, cuja formação deve tanto à prática, de ter sido afastado da realidade tangível constituiria também um dado importante.

A menção a este fato, feita de passagem, nos leva a pensar num curioso paradoxo: quiçá não foi justamente por ter sido arrancado da vida prática que Gramsci pôde elevar a filosofia da práxis à mais elaborada dignidade teórica? Na intenção de impedir que esse cérebro funcionasse, o fascismo pode ter criado as condições para a mobilização máxima de suas energias. Numa carta de 19 de novembro de 1928, à esposa, Gramsci revela o seu medo de ser esmagado pela rotina do cárcere, mas reage: “Certamente eu resistirei”. A escrita surge então como trincheira da lucidez. Seguindo o método de Germino, devemos interpretar os Cadernos inclusive à luz desse seu desenvolvimento improvável. Certamente a estrutura que resulta daí acaba sendo mais propícia, por fragmentada, àquilo que Germino chama de “expropriação”: “Expropriar Gramsci significa arrancar determinadas idéias ou passagens do contexto, para dar apoio ao projeto pessoal do expropriador”. E acrescenta que, para ele, todas as supostas interpretações que apresentam Gramsci como um “revisionista”, por exemplo, seriam típicas “expropriações”. “Entre Gramsci e Bernstein existe um abismo” – ressalta.

O critério de Germino é generoso porque recoloca a obra considerada como um todo vivo, e seu contexto como parte da sua vida, no centro do processo interpretativo, que passa a exigir maior fôlego (o método fica um pouco parecido com a empresa que o Pierre Ménard, personagem de Borges, descartou por considerar muito fácil: tornar-se o próprio Miguel de Cervantes como estratégia para escrever o Quixote). Seguramente alguns dos textos desta coletânea parecem ater-se mais que outros a este exercício de contextualização dialética que presta homenagem à própria obra. Nesse sentido, os três primeiros textos do livro, de Giorgio Baratta, Francisco Buey e Joseph Buttigieg, são genuínos casos de interpretação.

Baratta, no ensaio “Antonio Gramsci entre a Itália e o Brasil”, explicita como a condição a um só tempo européia e italiana de Gramsci influi no desenvolvimento de seu “método comparativo”, cujo código-fonte é o estudo da gramática histórica. Para Baratta, o que articula em Gramsci o interesse pela questão nacional (as “coordenadas territoriais da problemática político-social”) e a aguda consciência de que sempre a “história” é “história mundial”, é o fato de ele ser “um pensador organicamente internacionalista”, ou seja, capaz de abrigar tanto a questão da unidade italiana quanto a da união européia sob o signo da “unificação do gênero humano”, com sua marca filológica. Os Cadernos seriam assim a tematização do contraponto entre dois temas, a “crise” italiana e a marcha do “mundo grande e terrível, e complicado”. Um Gramsci cingido entre o impulso cosmopolita e a origem provinciana, inclinando-se para o primeiro sem jamais se perder da segunda, resumiria assim a própria condição histórica da sociedade que ele buscava interpretar.

Baratta procura demonstrar como o Brasil de hoje consistiria um “caso” de articulação entre questão nacional e dimensão internacional a ser visto sob a ótica gramsciana. E para tanto recorta duas contribuições centrais da nossa tradição de “pensamento nacional”: Sérgio Buarque de Holanda e Carlos Nelson Coutinho comparecem como pensadores do desenvolvimento da “nação e do Estado-nação”. Em Buarque a temática da implantação da cultura européia em território tropical (o contraponto entre a “sociabilidade pública” e a tradição de nossa “cordialidade privada”) e, em Coutinho, a situação do nosso DNA colonial no contexto da acumulação primitiva de capital fornecem os pontos de partida para a reflexão acerca do “justo equilíbrio entre peculiaridades nacionais e horizonte internacional”, em que, entre outros, os traços da “cultura popular” e da “questão americana” evidenciariam convergências mais pontuais com Gramsci.

A Buey também interessa a “dialética histórica da identidade e diferença entre culturas” (“Gramsci no mundo de hoje”). Mas sua interpretação cumpre outro trajeto. Partindo da reflexão nos Cadernos sobre língua, linguagens e política, Buey salienta o esforço de Gramsci para fabricar uma linguagem política nova (descartando qualquer formalismo, porque sabia que a política é feita de metáforas). Essa vontade de linguagem estaria em consonância com a concepção de Gramsci sobre o trabalho intelectual (e seu papel na construção de hegemonias, que, no fundo, não deixam de ser grandes acordos de sentido) e com a necessidade constante de travar o diálogo entre culturas e entre gerações – esta sendo, para Buey, a principal “tarefa pré-política” de uma nova esquerda nesse início de século. Buey sustenta então que a “forma-Cadernos”, através da qual Gramsci pensou, seria precisamente a forma de um diálogo, um diálogo com a tradição, com seus contemporâneos, e inclusive um “diálogo consigo mesmo, mas sem ensimesmamento”. Buey acrescenta à dialética nacional/internacional o ingrediente da tradutibilidade das linguagens, com seus pressupostos assentes numa perspectiva mundialista e na idéia de progresso, que Gramsci compartilha com a melhor tradição iluminista.

A idéia de que a forma dialógica é fundamental na estrutura dos Cadernos é compartilhada por Buttigieg, no seu “Educação e hegemonia”. Ele nota que precisamente a noção tão importante de hegemonia não chega a se pôr como um “tema” pontualmente enfrentado por Gramsci. É antes uma “construção orgânica de sentido” que atravessa o próprio “ritmo do pensamento em desenvolvimento”, forjando-se no diálogo e no confronto crítico das idéias. Sua espessura conceitual, entretanto, deixa revelar um pouco do fundamento ético que a textura aberta do pensamento gramsciano transporta.

Buttigieg, finíssimo intérprete, lê as cartas e alude ao périplo doloroso do jovem Gramsci através do sistema de ensino de sua época até sua passagem pela universidade, uma superação dos mais variados obstáculos, sempre “da margem para o centro”. Atenta também para a sua atividade de jornalista político, marcada pela “convicção profunda de que a tarefa mais urgente do movimento socialista tinha natureza cultural e educacional”. Ressalta ainda a forte presença de Vico na certeza de Gramsci de que a emancipação passa pelo conhecimento, especialmente pelo conhecimento “dos outros”, de sua história e cultura, e pela forja de uma “consciência superior”. É nesse cruzamento que Buttigieg situa a gestação do conceito de hegemonia e sua presença orgânica nos Cadernos, que seriam “o registro de uma extensa investigação destinada a ‘conhecer os outros’”.

O diálogo da “forma-Cadernos” estaria atravessado desse fundamento ético e epistemológico que informa a noção de hegemonia como “uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõem, mas em todo o campo internacional e mundial”. A hegemonia, nessa sua essência pedagógica, atuaria inclusive no interior das próprias classes dirigentes, acentuando-lhes a capacidade de ver além de seus interesses corporativos (talvez ajudando a explicar as “reservas políticas” das classes dominantes nas sociedades avançadas). O Iluminismo, como expressão da hegemonia revolucionária na Revolução Francesa, teria funcionado como “uma Internacional espiritual burguesa” por si só revolucionária. Buttigieg nos vai conduzindo, por diversas mediações, a essa idéia de hegemonia como relação educacional, em sentido amplo. Sua preocupação é mostrar que as questões centrais da educação, como a diferença na instrução recebida pelas classes privilegiadas e setores desfavorecidos, são propriamente as questões da hegemonia.

Aos intérpretes cuidadosos, entretanto, se sucedem ilações não muito escrupulosas no que concerne à organicidade da própria obra de Gramsci. O Gramsci acolhido pela “teoria dos direitos humanos”, no artigo dos australianos Alastair Davidson e Kathleen Weekley, é declaradamente o Gramsci parcial que enxergava a importância do senso comum nacional-popular. Refratária ao momento institucional dos direitos (“Sua insuficiência [do governo das leis] residia no fato de que tornava os tribunais o lugar da palavra final”), bem como ao movimento dialético que insiste na importância dos Estados nacionais num contexto de internacionalização, a “teoria dos direitos humanos” reivindica seu Gramsci democrático e pluralista, supondo a existência, em algum lugar, de um Gramsci totalitário.

Nesse passo, vemos que as “expropriações” são essencialmente leituras pouco dialéticas. Talvez a pressa em subsumir aspectos da realidade palpitante às sempre sedutoras categorias gramscianas atropele, de vez em quando, as mediações necessárias, precisamente aquelas que já estão indicadas no seu método. O inglês Jeremy Lester (“Alinhando a inteligência com a vontade”), por exemplo, propõe um acordo entre o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade que supere a tendencial primazia do primeiro, promovendo seu encontro num híbrido “terreno mútuo do otimismo”. Sua síntese (nada menos do que um “otimismo da inteligência”) o leva a comentar o nosso MST no contexto das “lutas contra-hegemônicas” de hoje. Lester salienta a universalidade e organicidade de um movimento capaz de articular-se para além do interesse de classe, sob direção espiritual de “um misticismo não metafísico, mas materialista”, o que teria, a seu juízo, fascinado Gramsci (o recurso a um Gramsci hipotético é bastante caro aos expropriadores, de um modo geral). Provavelmente aqui a expropriação se dá não só com respeito a Gramsci, mas também com relação a uma realidade que, sendo muito mais rica, aparece fora de sua problemática histórica, reduzida a fantoche argumentativo.

Um dialético do tamanho de Guido Liguori, muito diferentemente, nos oferece um “estudo de caso” profundamente respeitador do desenvolvimento das categorias gramscianas (“Estado e sociedade civil: entender Gramsci para entender a realidade”). Seu artigo se ocupa da centralidade do conceito de “Estado ampliado” nos Cadernos, em direção à compreensão do protagonismo do Estado no século XX, e no contexto conceitual de uma luta teórica contra a separação orgânica (adialética) entre “sociedade civil” e “Estado”. Para Liguori, essa centralidade não põe o Estado como sujeito da história, mas faz lembrar que os verdadeiros sujeitos, as classes sociais, tornam-se hegemônicos a partir justamente da sua “capacidade de tornar-se Estado”.

Mas o “estudo de caso” empreendido por Liguori versa sobre o atualíssimo “fenômeno Berlusconi”. Liguori procura ver de que modo as categorias gramscianas podem ajudá-lo a compreender a ascensão estonteante do dono de redes televisivas que se tornou chefe de governo (realidade muito verossímil para os brasileiros). Ressaltando que, na época em que Gramsci escreveu não havia televisão, Liguori retoma a famosa nota sobre “Hegel e o associacionismo”: “O Estado tem e pede o consenso, mas também ‘educa’ este consenso através das associações políticas e sindicais, que, porém, são organismos privados”. Tendo em vista a expansão exponencial dos processos de formação das consciências verificada nas últimas décadas, Liguori chega a indicar a modificação do panorama antropológico italiano, com a criação do novo “homem berlusconiano”, modificação esta tornada possível justamente a partir do Estado (entendido em chave ampla), que, com suas televisões tidas por privadas, estaria em posição de produzir um novo “senso comum”.

É curioso ver que o processo detectado por Liguori com a ajuda de Gramsci talvez já tivesse sido esboçado por Walter Benjamin, de outra forma, na década de trinta. Preocupado com os efeitos das inovações técnicas sobre o estatuto estético e político da obra de arte, Benjamin escreve que: “Essa nova técnica esvazia os parlamentos, assim como esvazia os teatros. O rádio e o cinema não modificam apenas a função do ator profissional, mas – de maneira semelhante – a de qualquer um, como o caso do governante, que se apresente diante do microfone e da câmara”. Com recurso a esta passagem de Benjamin, fica mais fácil compreender como a ascensão de Berlusconi, segundo Liguori, fez-se acompanhar de um discurso hostil à política institucional.

Percorrendo os artigos deste múltiplo Ler Gramsci, entender a realidade, teremos ainda acesso a uns tantos outros casos, interpretações e expropriações. A “luta por Gramsci” mostra, nos seus diversos rounds, o gigantismo de um legado duramente composto de cinzas e margens, na precariedade absoluta com que a história do breve século vinte (mais breve ainda para Gramsci) acalentou seus derrotados.

Um livro como este torna-se logo fundamental até como registro de uma qualidade do pensamento de Gramsci que podemos associar àquela virtude literária chamada por Italo Calvino, nas suas Seis propostas para o próximo milênio, de “multiplicidade”: “De qualquer ponto que parta, seu discurso se alarga de modo a compreender horizontes sempre mais vastos, e se pudesse desenvolver-se em todas as direções acabaria por abraçar o universo inteiro”.

Ricardo Rizzo é autor de Cavalo marinho e outros poemas. São Paulo/Juiz de Fora: Nankin/Funalfa, 2002.

Fonte: Acessa – http://www.acessa.com

A fênix americana

EUA saem da crise melhor que Europa, Japão e China, diz um de seus mais influentes intelectuais

Ivan Marsiglia 

– A seleção dos temas que deveriam ter a mais alta prioridade na pauta das preocupações com o bem-estar e os direitos humanos é, naturalmente, matéria subjetiva. Algumas opções parecem, no entanto, inevitáveis, porque dizem respeito muito diretamente à possibilidade de uma sobrevivência decente. Três delas são, com certeza, a guerra nuclear, a catástrofe ambiental e o fato de o governo da maior potência mundial agir de modo a aumentar a probabilidade de tais catástrofes." Eis o ponto de partida de Estados Fracassados, livro do linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky lançado esta semana pela editora Bertrand Brasil. Desde que a obra saiu nos EUA, em 2006, o país mergulhou em uma das mais graves crises econômicas de sua história e elegeu Barack Obama presidente. Entretanto, o diagnóstico do autor de 80 anos, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e "talvez a voz mais amplamente ouvida em todo o planeta em assuntos de política internacional", na definição do The New York Times Book Review, continua na ordem do dia em um mundo ameaçado pelo desemprego, terrorismo e aquecimento global.
Descendente de judeus russos imigrados para os EUA, Noam Avram Chomsky nasceu na Filadélfia, Pensilvânia, em 1928, filho de "liberais do New Deal", como costuma dizer. Seus pais, de fato, sentiram na pele as aflições do crash da bolsa de Nova York em 29 e o alívio proporcionado pelas políticas sociais do presidente Franklin Delano Roosevelt, inspiradas nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes.
Em 1945, Chomsky iniciou estudos de linguística e filosofia na Universidade da Pensilvânia. No início da década de 50 já era pesquisador em Harvard e publicou, em 1957, Estruturas Sintáticas – trabalho no qual sustenta a existência de uma gramática universal do ser humano, que revolucionou os estudos da linguagem. Na efervescência dos anos 60, a notoriedade acadêmica de Chomsky passou a servir de palco para difusão de sua visão política – fortemente crítica à Guerra do Vietnã e à política externa dos EUA.
De lá para cá, percorreu uma notável trajetória de pensador da contracultura e crítico de toda forma de poder – do comunismo soviético ao liberalismo norte-americano das grandes corporações, ambos opressores da liberdade do indivíduo, em sua opinião. "O fascismo foi derrubado, o bolchevismo foi derrubado e o corporativismo também pode ser", disse Chomsky certa vez, perguntado sobre sua ideologia, tachada por muitos de anarquista. Igualmente contundente é seu diagnóstico sobre os meios de comunicação de massa no mundo contemporâneo. Certa ocasião, chegou a afirmar que "qualquer ditador ficaria admirado com a uniformidade e a obediência da mídia norte-americana" – um statement interessante, ainda que paradoxal em relação à repercussão que o linguista tem na imprensa de seu país há quatro décadas.
Seu livro Human Rights and Foreign Policy, lançado em 1978, foi um êxito de vendas e tornou-se referência nos meios políticos de esquerda. Com O Lucro ou as Pessoas? – Neoliberalismo e Ordem Global, libelo antiglobalização, e 11 de Setembro, coletânea de entrevistas concedidas após o atentado contra as Torres Gêmeas, Chomsky assumia de vez o posto de primeiro guru dos militantes altermundialistas.
Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade para o Aliás, de sua casa nos EUA, Noam Chomsky volta à tona após um período de recolhimento pela morte, no final de dezembro, da mulher, a também linguista e professora de Harvard Carol Schatz, com quem teve dois filhos. Na conversa, o pensador avalia que os EUA emergirão da catástrofe econômica em posição melhor que a Europa, o Japão e mesmo a China. Diz que a única superpotência mundial apresenta uma série de características peculiares ao que chama de "Estados fracassados" – como um sistema de saúde "cujo custo é o dobro do dos outros países industrializados e apresenta alguns dos piores resultados". E afirma, a respeito do debate sobre a nacionalização de bancos e empresas americanos, que "a socialização dos custos e dos riscos, com a privatização dos lucros, é uma característica básica da economia capitalista".
ESTADOS FRACASSADOS
"Os EUA não são um ?Estado fracassado? como os que descrevo em meu livro, mas apresentam certas características deles. O sistema de saúde americano é há muito tempo um desastre, e a razão disso é bastante clara: a privatização e o enorme poder da indústria farmacêutica, o que eleva enormemente os preços e preduz resultados piores em termos de saúde. Fala-se em proteção ao cidadão americano, mas ela não é uma prioridade no país. E a ameaça terrorista de hoje foi criada em grande parte por Reagan, depois significativamente intensificada por Clinton e particularmente por Bush.
A GUERRA FRIA DE SEMPRE
"Imediatamente após a queda do Muro de Berlim, o governo Bush pai divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional e um orçamento militar que dizia essencialmente que tudo continuaria como antes, com novos pretextos. Devemos manter a mesma estrutura militar gigantesca, mas não porque ?os russos estão chegando? – e sim por causa da ?sofisticação tecnológica das potências do Terceiro Mundo?. Em suma, para os EUA, a Guerra Fria foi em grande parte uma guerra contra a independência do Terceiro Mundo (assim como, para os russos, uma guerra para o controle de seus países satélites no Leste Europeu). Ou seja, a tarefa americana continua a mesma, embora as táticas mudem de acordo com as circunstâncias.
UMA CRISE DO CAPITALISMO?
"Grande parte da economia que se diz capitalista depende profundamente de um setor estatal dinâmico no que se refere à inovação, ao desenvolvimento e outras formas de socialização de riscos e custos. As raízes da crise atual foram plantadas na década de 70, com o fracasso do sistema de Bretton Woods, no pós-guerra, com a financeirização da economia e a movimentação contra qualquer regulamentação, baseadas em dogmas quase religiosos a respeito da ?eficiência dos mercados?. Isso intensificou as já conhecidas ineficiências inerentes ao mercado. Transações não levaram em conta as consequências. No caso das grandes financeiras, isso levou a um grave menosprezo pelos riscos – e o risco sistêmico foi ignorado. Desde o fim do sistema de Bretton Woods houve repetidas crises financeiras, mas elas se deram em países pobres (e portanto não importavam, na verdade ofereciam às corporações americanas uma chance de adquirir valiosos ativos a preços baixos). A crise atual é importante porque afeta os ricos e os poderosos e é muito difícil de estancar. Ninguém conhece a profundidade da crise. E ninguém que conheça história econômica se surpreenderá com o fato de que as medidas que estão sendo tomadas pelos ricos para resolver o problema de suas próprias crises são o oposto das ditadas aos pobres quando estes enfrentavam uma crise.
O SÓLIDO DESMANCHA NO AR
"A decisão do governo de permitir que o Lehman Brothers entrasse em colapso foi um duro golpe para o combalido sistema financeiro. O Citigroup é um caso interessante. Seu predecessor, o Citibank, recebeu uma polpuda ajuda do governo Reagan (por meio do Fundo Monetário Internacional, FMI, e do ajuste estrutural na América Latina, fundamentalmente). O secretário do Tesouro de Clinton, Robert Rubin, chefiou a iniciativa bem-sucedida que revogou a legislação do New Deal, que protegia os bancos comerciais de estabelecer vínculos arriscados com bancos de investimentos e seguradoras. Então, ele deixou o governo e se tornou diretor do Citigroup, que se beneficiou consideravelmente dessas medidas (assim como o próprio Rubin). Quando elas levaram ao colapso do Citigroup, Rubin demitiu-se do cargo, levando consigo seus ganhos… e tornou-se um dos principais assessores econômicos de Obama! O Citigroup agora foi nacionalizado (menos nas palavras), mas o objetivo é recuperá-lo, depois que o público pagar os custos. Além disso, está se livrando das operações arriscadas que lhe foram acrescentadas durante a iniciativa legislativa de Rubin. A AIG beneficia-se da apólice de seguro do governo denominada ?grande demais para falir? – que proporciona às instituições financeiras americanas significativas vantagens competitivas. Se é trágico ou irônico? Depende do ponto de vista. À parte a escala, nada disso deve causar grande surpresa.
SOCIALIZAÇÃO DA QUEBRADEIRA
"Vamos deixar as ilusões de lado. A socialização dos custos e dos riscos, com a privatização dos lucros, é uma característica básica da economia capitalista. Tomemos como exemplo os computadores e a internet. Ambos foram desenvolvidos e utilizados substancialmente pelo setor estatal durante décadas antes de serem postos ao alcance do poder privado para produzir lucro. Isso é geral. Portanto, não há nada de novo na socialização da crise. Operações de ajuda são muito comuns, não apenas no sistema financeiro, mas também no industrial. As novidades de hoje se devem apenas à escala do desastre. A alternativa a uma política que faz o público subsidiar os ricos e poderosos seria a democratização da sociedade e da economia. Mas isso exigiria uma ampla compreensão do público e um ativismo que hoje é escassamente visível no mundo.
QUE ESTADO MÍNIMO?
"Mais uma vez, é preciso deixar ilusões de lado. O Estado americano parece ?mínimo? somente se desconsiderarmos sua presença crucial e massiça na economia. Ele é ?mínimo?, sem dúvida, nos serviços que presta à população em geral, mas não em seu cuidado solícito para com os ricos e poderosos. Vejamos Ronald Reagan, sumo sacerdote do livre mercado. Ele foi o presidente mais protecionista da história americana do pós-guerra. Reagan convocou o Pentágono para ensinar aos administradores do país os modernos métodos de produção de estilo japonês. E empreendeu uma das maiores operações de ajuda da história econômica americana (Continental Illinois); suas extravagantes políticas econômicas prepararam o terreno para uma ajuda ainda mais maciça (associações de poupança e empréstimos), imediatamente depois que o vice-presidente Bush assumiu o cargo.
DÉFICIT DEMOCRÁTICO DOS EUA
"Afirma-se que um Estado com instituições democráticas formais tem ?déficit democrático? na medida em que essas instituições deixam de funcionar. O público americano acha que esse déficit é imenso, e é fácil perceber por quê. Ambos os partidos políticos estão à direita do público em inúmeras questões internas e internacionais, que discuto em Estados Fracassados. Na literatura das ciências políticas tradicionais foi mostrado que a opinião pública é frequentemente coerente em questões importantes e coerente no tempo, mas substancialmente diferente, em questões de política pública. Uma das principais preocupações da população há muito tempo é o sistema de saúde, cujo custo é o dobro do dos outros países industrializados e apresenta alguns dos piores resultados. Há décadas, uma ampla maioria prefere um sistema de saúde estatal, mas nas eleições de 2004 a imprensa o descrevia como ?politicamente impossível? porque a ele se opunham as seguradoras e as indústrias farmacêuticas. Em 2008, os candidatos democratas apresentaram propostas que pelo menos começam a se aproximar do que o público prefere. Por quê? A opinião pública não mudou. O que aconteceu é que parte da indústria está sofrendo com o incompetente e ineficiente sistema privatizado e pede reformas. Portanto, agora a vontade do público começa a ser ?politicamente possível?, com ?apoio político? para prosperar.
DEPOIS DA TEMPESTADE
"A catástrofe econômica mundial tem raízes nos EUA, mas o país provavelmente sairá dela em posição melhor do que seus principais rivais industrializados, Europa e Japão. Quanto à China, que experimentou rápido crescimento, é ainda mais fraca do que os EUA em todo e qualquer parâmetro realista, tem enormes problemas internos que o Ocidente não tem. Uma indicação nesse sentido é sua classificação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU: ela ocupa o 88º lugar, e poderia ser pior se a sociedade fosse mais aberta para que pudéssemos conhecê-la melhor. Também tem enormes problemas ecológicos. É verdade que suas reservas financeiras são imensas, mas a maioria atrelada ao sistema financeiro americano. Se a China reduzir significativamente seus ativos nos EUA, destruirá seu principal mercado de exportação. Além do que, grande parte de sua indústria, particularmente no campo da alta tecnologia, é de capital estrangeiro. A hegemonia está sempre em risco, mas não existe um concorrente forte para os EUA no futuro previsível, a não ser que a Europa decida seguir curso independente, talvez da maneira sugerida por De Gaulle. Entretanto, não há indicações disso."

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

Com 900 mil afegãos, Irã concentra 6% do PIB do país vizinho

Maioria fugiu da ocupação soviética, nos anos 80, e hoje exporta renda para casa; instabilidade atual os faz criar raiz no país anfitrião
Urbanos e assimilados, refugiados são mão-de-obra barata para iranianos, mas também drenam assistência do regime dos aiatolás

MARINA MESEGUER TORRES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM TEERÃ

A fronteira que separa o Irã do Afeganistão é uma fonte constante de problemas para a república islâmica há 30 anos.
Por ela passam diariamente milhares de refugiados e imigrantes ilegais -uma multidão confusa de homens e mulheres que fogem do conflito e da pressão do Taleban, misturados a contrabandistas e traficantes.
São invisíveis, mas estão por toda parte. Homens de pele escurecida e roupa suja que passam longas jornadas arrastando carrinhos de mercadorias pelas vielas do bazar ou nos andaimes dos muitos edifícios em construção em Teerã. Sentam-se a seu lado nos ônibus, olhando fotos em seus celulares, pequenos símbolos de seu progresso pessoal.
Essa turba é parte dos mais de 900 mil afegãos e 50 mil iraquianos que fizeram do Irã o segundo país que acolhe mais refugiados. Só o supera, e por muito pouco, o Paquistão.
Do outro lado, o enorme fluxo de afegãos para o exterior não é só consequência do conflito armado entre milícias pós-Taleban e tropas da Otan, a aliança militar ocidental.
A maioria dos exilados é formada por hóspedes antigos que vivem no Irã desde a ocupação soviética (1979-1989), quando o Afeganistão se tornou um dos mais convulsos e violentos países do mundo. A guerra civil que sucedeu a retirada russa, a repressão dos fundamentalistas do Taleban desde sua ascensão em 1996 até sua queda em 2001, a ofensiva americana e a instabilidade atual, tudo isso fez dos afegãos um povo de apátridas, que no Irã já chegaram a ser mais de 3 milhões.
Mão-de-obra
Os refugiados afegãos são a mão-de-obra barata e flexível de que o regime dos aiatolás precisava para acelerar a economia iraniana.
Eles vivem majoritariamente nos núcleos urbanos (a maioria abandonou os campos de refugiados da fronteira). Destes, 60% chegaram há mais de 15 anos, e seus vínculos com o país de origem já começam a se perder. Não querem voltar a um país ainda inseguro e cuja economia está devastada. No Irã, ganham quatro vezes o que ganhariam em Cabul ou Candahar. Calcula-se que os refugiados enviem a suas famílias cerca de US$ 500 milhões por ano, 6% do PIB afegão.
Muitos já não pensam em voltar: no Irã encontraram estabilidade e fonte de renda. Mas há também os que simplesmente não podem, como os hazaras, afegãos descendentes dos mongóis que há séculos vivem no centro do Afeganistão e seguem a vertente xiita do islã.
Eles sempre foram um povo marginalizado, por motivos tanto religiosos quanto étnicos: sua escravidão foi permitida até 1923. Os membros do Taleban, defensores radicais da fé sunita, tentaram exterminá-los, acusando-os de heresia. Os hazaras veem o Irã, o maior país xiita do mundo islâmico, como refúgio perfeito. O Afeganistão deixou de ser sua pátria.
Mas se os exilados afegãos beneficiaram a muitos empresários iranianos, também é verdade que causam dor de cabeça aos governantes do país.
O Estado tem que se encarregar das crianças abandonadas pelas famílias exiladas pobres e acaba destinando muitos recursos para combater o aumento das atividades ilegais, especialmente o tráfico de drogas, de armas e de pessoas.
Por isso, apesar das rivalidades com Israel e os EUA, a linha de frente do Exército iraniano está na fronteira porosa de mais de 1.600 quilômetros de extensão que separa o Irã do Afeganistão e do Paquistão.
Tradução de CLARA ALLAIN

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Não há resgate para os mais atingidos

A AIG utilizou dezenas de bilhões de dólares do resgate financeiro para pagar gigantes como o Bank of American e o Goldman Sachs que já tinham recebido bilhões de dólares em fundos de resgate. É isso o que os contribuintes estadunidenses estão fazendo: resgatando seus abastados compatriotas sonegadores de impostos.

Amy Goodman

A utilização do dinheiro do resgate financeiro – dinheiro aportado pelos contribuintes – para o pagamento de bônus da AIG provocou, com razão, uma virulenta reação massiva contra a seguradora e contra Wall Street. Mas também contra o presidente Barack Obama e seus assessores econômicos – o Secretário do Tesouro, Timothy Geithner e Larry Summers. Com o resgate financeiro, os cidadãos estadunidenses passaram a ser proprietários de 80% da AIG.
A indignação se deu tanto no Partido Democrata como no Republicano. O senador republicano por Iowa, Charles Grassley, disse o seguinte sobre os executivos da AIG: “A primeira coisa que me faria sentir um pouco melhor em relação a eles é que seguissem o modelo japonês, fizessem uma profunda reverência diante do povo estadunidense, pedissem desculpas e optassem por uma destas alternativas: renunciar ou suicidar-se”. O Procurador Geral de Nova York, Andrew Cuomo, acaba de divulgar detalhes do pagamento de bônus que deixam em evidência a absurda afirmação da AIG de que se trata de “bônus de retenção” destinados a conservador empregados chave: onze dos executivos que receberam bônus de um milhão de dólares já não trabalham mais para a AIG.
Estes milionários da AIG teriam que devolver estas fortunas que não ganharam com seu trabalho, e de fato é possível que o Congresso aprove uma lei impositiva exclusivamente para eles, taxando seus bônus em 100%.
Mas, para aqueles que foram mais atingidos pela crise econômica, essa indignação toda servirá para algo? Virá alguma coisa das centenas de bilhões de dólares dos diversos pacotes de estímulo econômico e resgates financeiro para o cidadão comum que tenta simplesmente seguir adiante? Ou serão monopolizados pelas corporações consideradas “demasiado grandes para quebrar”, deixando para trás milhões de pessoas que, pelo visto, são suficientemente pequenas para quebrar?
O Centro para a Inclusão Social (CSI, na sigla em inglês) acaba de publicar um informe sobre a crise econômica que inclui recomendações sobre a melhor maneira para resolvê-la. Vincula o fator racial com a falta de oportunidades e a proliferação das tristemente famosas hipotecas de alto risco que desencadearam a crise econômica.
Maya Wiley, Diretora Executiva do CSI, me disse: “Para estimular a economia temos que estimular a igualdade”. As pessoas precisam de educação, transporte, moradia e um meio ambiente limpo, porque esses são os fatores que lhes permite ter uma base sólida para responder à crise e seguir adiante. Wiley adverte que a proposta de criar postos de trabalho a partir de projetos de infraestrutura de rápida implementação (projetos conhecidos como “shovel-ready”, prontos para escavar) dirigidos para estimular a economia, favorecerá de forma desproporcional quem trabalha no setor da construção, que são predominantemente homens brancos.
Por isso propõe que se estabeleçam acordos de benefícios comunitários para a criação de empregos. Sobre este tema, Wiley me disse: “É necessário contar com acordos de benefícios comunitários; devemos garantir que, quando o governo realize obras de construção, garanta que as pessoas com baixos rendimentos, afroamericanos, imigrantes e as mulheres tenham acesso em igualdade de condições a esses postos de trabalho. E devemos garantir também que o orçamento de trânsito, ou melhor, o orçamento de transporte seja destinado realmente a projetos inteligentes de trânsito que conectem as pessoas que necessitam de trabalho com os lugares onde estão os postos de trabalho”.
O grupo Unidos por uma Economia Justa também põe ênfase na brecha racial que existe na distribuição da riqueza, assinalando que “24% da população negra e 21% da latina vivem abaixo da linha de pobreza, enquanto que somente 8% da população branca encontra-se nesta situação.
No mundo corporativo estamos presenciando os maiores resgates financeiros da história, ao mesmo tempo em que as remunerações recebidas pelos executivos alcançam montantes inusitados. O salário de um alto executivo é 344 vezes maior que o de um trabalhador médio.
Existe uma crença generalizada de que a liberação de créditos salvará a economia e que, portanto, estes gigantes financeiros necessitam de bilhões de dólares dos resgates financeiros custeados pelos contribuintes. Mas a crise começou justamente pelos descumprimentos de pagamento dos créditos hipotecários de alto risco. Uma solução que poderia ter sido tentada quando começou a crise teria sido ajudar aos proprietários que não podiam pagar, de maneira que pudessem evitar a execução de suas moradias. Maya Wiley, do Centro para a Inclusão Social, assinala:
“Cerca de 35% dos titulares de hipotecas de alto risco estavam, na verdade, em condições de receber empréstimos a taxas preferenciais. Trinta e cinco por cento. Imagine se tivéssemos tido um sistema de financiamento no qual as pessoas pudessem ter acesso realmente aos créditos que lhes correspondiam. A maioria dessas pessoas não era branca. E inclusive se olharmos como se ampliou a indústria de empréstimos de alto risco, vemos que, em grande medida, se desenvolveu porque estas comunidades de afroamericanos e imigrantes não tinham um acesso justo ao crédito”.
Os bancos e as instituições de empréstimos hipotecários impulsionaram uma estratégia agressiva para impor empréstimos rigorosos a pessoas pobres e minorias. A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) apresentou demandas contra a Wells Fargo e o HSBC, acusando estas instituições de “racismo sistemático e institucionalizado na concessão de empréstimos hipotecários”.
Os bancos empacotaram estes empréstimos de risco em valores financeiros e os venderam; com base nestes valores, criaram instrumentos derivados impossíveis de entender ou avaliar. A AIG segurou aos bancos de investimentos contra as potenciais perdas com estes instrumentos derivados complexos. O Tesouro dos EUA resgatou então seus bancos e a AIG.
A AIG utilizou dezenas de bilhões de dólares de seu dinheiro do resgate financeiro para pagar a esses mesmos gigantes bancários que já tinham recebido bilhões de dólares em fundos de resgate: Bank of America e Goldman Sachs. Mas, apesar desta sangria de centenas de bilhões de dólares destinados a estes megabancos, agora nos dizem que o mercado de créditos segue paralisado. Muitos bancos europeus também receberam fundos através de resgates similares, incluindo o banco suíço UBS, que oferece contas bancárias secretas que permitem aos estadunidenses mais ricos sonegar impostos. De fato, o que os tão golpeados contribuintes estadunidenses estão fazendo é isso: resgatando seus abastados compatriotas sonegadores de impostos.
Obama cercou-se de assessores financeiros, como Summers e Geithner, que têm vínculos muito estreitos com Wall Street. É hora de canalizar o estímulo econômico para aqueles que realmente necessitam: os cidadãos que o estão financiando com seus impostos.
Denis Moynihan colaborou na produção desta coluna.
Tradução: Katarina Peixoto

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

Fonte: Carta Maior – http://www.agenciacar amaior.com.br

O latifúndio de Lobato

Ensaios analisam cada um dos livros infantis da série do Sítio do Picapau Amarelo

© Reprodução da Coleção centenária de Monteiro Lobato – Editora Brasiliense/Ilustrações Manoel Victor Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

Em junho de 1941 o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de repressão da ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas (1882-1954), viu-se diante de um “grave” fato que vinha recebendo generosa cobertura da imprensa paulistana. Segundo os jornais, o Departamento de Ordem Política e Social (Deops) estava investigando uma denúncia feita pelo procurador do estado de São Paulo, Clóvis Kruel de Morais, contra o escritor Monteiro Lobato (1882-1948), autor de Urupês, Negrinha e América e uma série de livros dirigidos às crianças, escritos ou traduzidos por ele. Morais pediu ao Tribunal de Segurança Nacional (TSN) a apreensão imediata em todo o estado de Peter Pan, história do menino que não queria crescer contada por Dona Benta, uma adaptação livre do texto do escritor inglês James Matthew Barrie (1860-1937), publicada pela primeira vez em 1930.
Na verdade, a “denúncia” contra o livro partiu do diretor da Recebedoria Federal do Ministério da Fazenda, em São Paulo, Tupi Caldas, que acusou o escritor de ter acrescentado conteúdo subversivo no texto original. Pela queixa formalizada por Morais, de número 4.180, de 20 de junho de 1941, a versão “alimentava nos espíritos infantis, injustificadamente, um sentimento errôneo quanto ao governo do país”. O procurador afirmou que havia na obra um “confronto premeditado” quando se referia às diferenças de vida entre crianças da Inglaterra e as do Brasil com o propósito de incutir nos brasileiros “nossa inferioridade, desde o ambiente em que são colocadas até os mimos que se lhes dão”. 
Para ele, o brasileiro agiu “insidiosamente” quando explicou o motivo da desigualdade entre os dois povos, aproveitando-se para criticar as autoridades nacionais. Ao dizer às crianças como eram arrecadados e aplicados os impostos no país, acrescentou ao texto o seguinte comentário: “Há no Brasil uma peste chamada Governo que vai botando impostos e selos em todas as coisas que vêm de fora, a torto e a direito, só pela ganância de arrecadar dinheiro do povo para encher a barriga de parasitas”. O procurador concluiu que a causa para o desrespeito do autor estava justamente na liberdade “excessiva” dada pelo regime aos escritores, numa época em que o livro estava entre os mais importantes veículos de comunicação para as crianças.

Embora o caso seja brevemente citado num dos capítulos, esses detalhes do processo para apreensão e destruição de todos os exemplares da adaptação de Peter Pan não aparecem em destaque emMonteiro Lobato, livro a livroObra infantil, de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini, que acaba de ser lançado pela Editora Unesp e Imprensa Oficial. Não tira, de forma alguma, claro, a grandiosidade e o valor do volume. São citados aqui apenas como um detalhe revelador ainda hoje de dois aspectos: o quanto o escritor era popular e reinava soberano na época em sua faixa de público e, em segundo lugar, até que ponto ele levava a sério sua obra e seu público mirim. Embora continue a ser lido, nos últimos 40 anos, sua obra infantil perdeu muito espaço nas livrarias graças a uma briga judicial entre os herdeiros do escritor e a Editora Brasiliense, que ficou proibida de fazer qualquer atualização editorial e gráfica nas edições – que se tornaram pouco interessantes.
Mesmo assim as gerações mais velhas continuam a citá-lo como uma referência fundamental para desenvolver o hábito pela leitura e parte integrante do universo de imaginação quando criança. As versões das histórias do Sítio do Picapau Amarelo para a televisão, a partir de 1978, também ajudaram a perpetuar o legado do escritor. E é essa produção o objeto de análise deste interessante volume de 512 páginas, que trata de aspectos como linguagem, ilustrações e práticas editoriais do escritor. “Uma das novidades deste livro é apresentar o percurso cumprido por cada obra lobatiana – desde, muitas vezes, a discussão de seu projeto original até as alterações perceptíveis em suas diferentes edições”, observa Marisa.
O conjunto do livro é o que ela chama de “uma história da leitura do Brasil de Lobato”. Todos os convidados são pesquisadores da obra lobatiana – entre mestres e doutores. Há, explica ela, um grande esforço de pesquisa nesse sentido. Para análise da obra do escritor, os autores recorreram a documentos inéditos até então, como as cartas enviadas ao escritor por seus leitores, documentos editoriais e escolares. “Nunca se sabe exatamente como nasce uma ideia. No caso deste livro, rolavam conversas entre pesquisadores de leitura e literatura infantil da necessidade de um estudo mais aprofundado da obra de Monteiro Lobato”, recorda, em entrevista à Pesquisa Fapesp. Em uma Jornada Lobatiana na Unicamp, que reuniu pesquisadores seniores e juniores de todo país, surgiu a expressão “livro a livro” como um modo interessante de abordagem. “A ideia ficou em circulação, até que Ceccantini e eu a transformamos em um projeto, preto no branco, roteiro dos capítulos etc.”

Marisa concorda que, do ponto de vista histórico ou crítico, os livros infantis de Monteiro Lobato foram realmente subestimados, apesar de terem sempre sido bastante populares no decorrer de todo o século XX. “Lobato ainda é muito lido, felizmente! E creio que também a perspectiva crítica com que ele é visto está mudando.” Ela acha que o conjunto de artigos do livro monta um Monteiro Lobato muito rigoroso na construção de seu texto. “Seus livros são constantemente reescritos e é, na comparação entre as várias versões deles, que podemos ir percebendo a concretização do projeto literário lobatiano: o humor cada vez mais refinado, a linguagem cada vez mais simples, o respeito cada vez maior pelo seu leitor.” 
A pesquisadora, porém, não crê em “retratos acabados” de obras ou de autores. “Cada livro sobre um autor abre um feixe de caminhos a serem trilhados por outros pesquisadores, e com isso a imagem que se tem de um autor e de sua obra é sempre meio caleidoscópica, isto é, sempre cambiante, embora as peças sejam as mesmas.” Monteiro Lobato, livro a livro, acrescenta ela, é uma espécie de “amostra” do resultado a que é possível chegar quando se trabalha com uma noção de literatura que inclui na discussão a materialidade do objeto livro e sua dimensão comercial. “Nesse sentido, tenho certeza de que nosso trabalho pode gerar outras pesquisas que irão aprofundar e complementar esta visão do artista da palavra enquanto trabalhador.” 
O material de que se vale Lobato na construção de sua obra é, em sua opinião, muito variado: o folclore brasileiro, clássicos da literatura universal, conteúdos escolares. Nesse sentido, seu conteúdo é bastante representativo do caráter plural e mestiço da cultura brasileira. “A sua vasta correspondência, quer com outros escritores e amigos, quer com seus leitores, parece sugerir que ele – à medida que foi amadurecendo como escritor – trabalhou em um projeto cada vez mais articulado. A reescritura de suas primeiras publicações, livrinho muito curto que em 1931 foi reunido emReinações de Narizinho, pode representar uma espécie de modelo do modo de trabalho do escritor, isto é, alguém sempre voltado para o que se poderia chamar de unificação de sua obra, unificação esta internamente garantida pela constância das personagens e do espaço.”

Cada autor escolheu uma abordagem para tratar do escritor. Maria Alice de Oliveira Faria, professora titular de Literatura Brasileira da Unesp e que faleceu antes de ver o livro pronto, optou por falar das ilustrações de Belmonte (1896-1947), um dos mais importantes cartunistas brasileiros da primeira metade do século XX. A verve crítica de Lobato, escreveu ela, seu temperamento polêmico, a participação em grandes discussões políticas e educacionais de seu tempo e a vertente educacional e pedagógica de seus livros encontraram no traço do artista a transposição ideal das palavras para a linguagem visual. E um dos livros em que a dupla realiza um dos melhores trabalhos em parceria, para Maria Alice, foi Emília no país da gramática, publicado em 1934. “Quanto ao texto de Lobato nesse livro, dois aspectos se contrapõem: de um lado, a paródia, a gozação da gramática escolar do tempo; e, num campo mais amplo, a sua entrada na polêmica sobre a simplificação ortográfica do português, na qual tomou partido pela grafia fonética contra os partidários da grafia etimológica.”
O outro organizador do livro, João Luís Ceccantini, preferiu escrever sobre a contribuição de Lobato para o universo editorial brasileiro no papel de editor – que desenvolveu na década de 1920, quando se tornou um nome importante na modernização do livro como produto de consumo, na sua divulgação e promoção. De acordo com o pesquisador, só é possível compreender esse aspecto de sua vida “por meio do esforço contínuo em perceber a sobreposição dos papéis de escritor e editor, nessa mesma figura humana, em que se dá ênfase sucessiva de um ou de outro desses dois aspectos, mas ambos sempre em estreita relação de complementaridade”.
Para ele, esse aspecto constituiria apenas uma dentre as outras muitas facetas de um fenômeno maior, ligado à personalidade de Lobato, que teria permitido a convivência, no mesmo homem, entre o humanista engajado socialmente e cheio de ideais e seu lado de empresário plenamente alinhado à lógica do capital. Ou entre o literato lusitanizante, vinculado a modelos estéticos do século XIX, com o escritor afeito ao coloquialismo, aos neologismos e à metalinguagem, do admirador da cultura greco-latina com o apreciador de inúmeros produtos da indústria cultural, nas suas várias vertentes. E, ainda, “do publicista de agudo senso do concreto e atento às mazelas do país com o artista livre, imaginativo e amante da fantasia desbragada”. 
Enfim, conclui ele, do artista que, entre o início da década de 1920 e meados da década de 1940, criou as narrativas do Sítio do Picapau Amarelo, as quais, seguramente, configuram o que Ceccantini chamou de “o mais alentado e consciente projeto literário nacional para crianças de que se tem notícia, seduzindo até hoje não apenas os pequenos, mas também jovens e adultos, e revelando-se como objeto de maior interesse para os estudiosos de nossa cultura”.

Fonte: Revista Pesquisa – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

PREDADORES PSÍQUICOS

NA ÁUSTRIA, EM PERNAMBUCO OU EM SP, ABUSADORES SEXUAIS PARTILHAM DA MESMA IDENTIFICAÇÃO MALIGNA COM A MÃE E DA INDIFERENÇA PELO OUTRO

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

Os casos de pedofilia e incesto recentemente noticiados pela imprensa -a menina engravidada pelo padrasto em Alagoinha (PE), o austríaco que manteve presa sua filha por mais de 20 anos e com ela engendrou sete filhos/netos, a rede criminosa baseada em Catanduva (SP)- provocaram repulsa e horror em todos os que deles tomaram conhecimento.
Como é possível que alguém pratique tais atos, perguntam-se as pessoas, e quais as consequências deles para as vítimas?
Mesmo que pedófilo e incestuoso não sejam sinônimos -o primeiro se interessa sexualmente por crianças, o segundo toma como objeto uma pessoa da mesma família ou clã (criança ou não), portanto proibido pela lei ou pelo costume-, não é raro que as duas condições coincidam num mesmo indivíduo, como no caso de Alagoinha, e em tantos outros que diariamente chegam às instituições de tutela da infância.
Os motivos pelos quais um adulto -geralmente homem- aborda uma criança com o objetivo de se aproveitar dela são de diversas ordens.
Balas e pipocas
Em primeiro lugar, ela é mais fácil de atrair do que um parceiro adulto: balas, pipocas e a promessa de deixar jogar videogames bastaram para levar ao quarto do borracheiro de Catanduva os garotos que ele cobiçava.
Quem assim procede tem medo de que o adulto recuse seu convite; pode-se supor que seja acometido de ansiedade em relação ao seu desempenho ou que suas fantasias de castração sejam particularmente intensas.
Em segundo lugar, o "predador psíquico" -termo que tomo emprestado ao antropólogo Boris Cyrulnik- tem características que o singularizam entre as várias classes de perversos. A principal delas é uma identificação maligna com a mãe, diferente da que desemboca numa posição homossexual "normal" ou da que -caso venha a fazer parte da porção sublimada da libido- resulta num interesse pedagógico, numa atitude maternal e devotada para com os amigos etc.
O que norteia o impulso sexual do pedófilo é a combinação dessa identificação com um ódio imenso pela criança que ele mesmo foi -"meu objeto deve sofrer ainda mais do que eu sofri"- e com um completo desinteresse pelos sentimentos do outro, que leva o indivíduo a não se incomodar com as consequências que seus atos possam acarretar para a criança.
Quer esta tenha sido "apenas" bolinada, induzida a praticar felação ou estuprada, tais consequências são de extrema gravidade.
O abusador sexual busca muitas vezes uma revanche contra violências de que ele próprio foi vítima na infância (é a justificativa do austríaco Josef Fritzl para o que fez com a filha) e se aproveita do fato de que as crianças são efetivamente dotadas de sexualidade para as seduzir.
Mas atenção: a sexualidade infantil não se confunde com a adulta, e certamente não faz parte dela o intento de servir de meio para prazeres dos quais não tem noção.
Esse ponto é crucial. Todos sabemos que as crianças se interessam pelo que acontece no quarto dos pais e, no contexto do complexo de Édipo, desejam inconscientemente ocupar o lugar de um dos cônjuges.
"Pessoas grandes"
Sua imaturidade, porém, e o fato de desconhecerem muito do que se refere à vida sexual das "pessoas grandes" as fazem inventar o que Freud chamava de "teorias sexuais infantis".
Brincadeiras de médico, de "gato mia" e outras semelhantes expressam a curiosidade natural sobre o corpo, sobre a diferença entre meninos e meninas, sobre como se fazem bebês -mas são parte do que Sándor Ferenczi [1873-1933] denominou "linguagem da ternura".
Já o adulto -perverso ou normal- opera na "linguagem da paixão", ou seja, num registro que confere sentido bem diverso à excitação, às fantasias e aos atos eróticos.
A "confusão de línguas" da qual fala o psicanalista húngaro nasce de que o adulto não controla seus impulsos e excede os limites que a cultura impõe na esfera sexual.
Como afirma com razão Renata Cromberg, não se podem confundir "carinhos de pai" -beijos, abraços, afagos normais e desejáveis na relação pai-filha- com "carinhos de homem": os mesmos gestos, porém realizados com o intuito de proporcionar prazer sexual para si, e nunca para a criança.
Quando isso acontece, esta se vê enredada numa armadilha fatal: sente-se culpada por suas fantasias incestuosas (que, repito, fazem parte do desenvolvimento normal) e chocada pela maneira como elas acabaram por se realizar.
A perplexidade se soma à vergonha e ao trauma de se ver traída por alguém em quem confiava; os efeitos na mente infantil são devastadores, e a eles se somam muitas vezes vestígios corporais, da irritabilidade ou ferimentos nos genitais à gravidez.
A situação é frequentemente complicada pelo medo de contar o que ocorreu ou, pior ainda, pela incredulidade com que o relato é recebido.
Mães se recusam a acreditar que o homem que amam possa ter cometido "aquilo" ou são coniventes (alguém duvida de que a mulher de Fritzl sabia -ou pelo menos suspeitava- do que estava acontecendo naquele porão?); autoridades (como a responsável pela Delegacia da Mulher de Catanduva) não dão seguimento à investigação; e o silêncio contribui para agravar a confusão e a dor.
Diante da incompreensão dos adultos, a criança vítima de abuso sexual aciona mecanismos de defesa violentíssimos, que acabam por aumentar ainda mais o seu sofrimento: identificação com o agressor, entrada numa posição masoquista, cisão da parte da sua mente que abriga as lembranças do fato e outros mais.
Pode se tornar abúlica ou muito agressiva, perder a capacidade de sonhar ou reviver a cena em pesadelos, ser to- mada por sentimentos de perseguição, pela culpa de ter "induzido" o ato ou pela imagem obsedante do agressor. Este, porém, pouco se importa com tais consequências: como sua personalidade é de tipo narcisista, a desumanização do outro não lhe provoca emoção nenhuma.
Contudo, por trás da fachada triunfante, nota-se que esse narcisismo é muito frágil: recobre precariamente um grande vazio e uma angústia atroz quanto à própria identidade.
Compreende-se que o perverso -e particularmente o pedófilo/incestuoso- busque na sexualidade um lenitivo para a incerteza sobre quem é e sobre o que pode ("a pedofilia é a perversão dos fracos e impotentes", diz Freud) e um meio de desviar sobre um ser indefeso o ódio e a hostilidade contra seus objetos internos.
O entendimento sobre como funciona a personalidade do agressor, porém, não diminui a gravidade dos atos que pratica nem a dor imensa que inflige à sua vítima.
O tema do abuso sexual é complexo, e é evidente que estas breves observações não o podem esgotar. A informação adequada é essencial para quem lida com os desastres que ele provoca.
Por isso, gostaria de concluir este artigo recomendando a juízes, médicos, promotores, assistentes sociais, psicólogos -e também aos familiares das vítimas- a leitura de quatro livros nos quais me baseei para o redigir: "Cena Incestuosa", de Renata Cromberg; "Perversão", de Flávio Carvalho Ferraz; "Psicopatia", de Sidnei Kiyoshi Shine; e "Narcisismo e Vínculos", de Lucía Barbero Fuks, este uma coletânea na qual figuram vários trabalhos sobre o assunto [todos publicados pela ed. Casa do Psicólogo].
Lembremos o dito de Freud: "Primum non nocere" -antes de mais nada, não prejudicar quem está ferido!

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais! .

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

O império das bases militares inúteis

Espalhados pelo mundo, postos do Exército dos EUA causam ressentimento e torram dinheiro

Hugh Gusterson

Antes de ler este artigo, tente responder à seguinte pergunta: quantas bases militares os EUA têm em outros países? a) 100; b) 300; c) 700; ou d) 1.000?
Segundo a própria lista do Pentágono, a resposta é 865, mas se incluirmos o Iraque e o Afeganistão, chegaremos a mais de mil. Essas mil constituem 95% do total de bases militares estrangeiras de todos os países do mundo.
O colonialismo à moda antiga dos europeus consistia em tomar países inteiros e administrá-los. Mas era uma prática muito complexa. Os EUA foram os pioneiros de uma estratégia mais enxuta para o império global. Como afirma o historiador Chalmers Johnson: "A versão americana de colônia é a base militar." Os EUA, diz Johnson, têm um "império de bases".
Elas não custam pouco. Com exceção das instaladas no Afeganistão e no Iraque, os EUA gastam cerca de US$ 102 bilhões anuais para administrar seus postos avançados, segundo Miriam Pemberton, do Instituto de Estudos Políticos. E em muitos casos, devemos nos perguntar para que servem.
Por exemplo, os EUA têm 227 bases na Alemanha. Talvez elas tivessem algum sentido na Guerra Fria, quando alemães estavam divididos pela Cortina de Ferro e estrategistas americanos procuravam convencer soviéticos de que um ataque à Europa equivaleria a uma agressão aos EUA.
Mas numa nova era, com a Alemanha reunificada e os EUA preocupados com conflitos na Ásia, África e Oriente Médio, tem tanto sentido para o Pentágono manter 227 bases militares na Alemanha quanto para os Correios manter uma frota de cavalos e carroças.
Asfixiada pela burocracia, a Casa Branca está desesperada por cortar os custos desnecessários do orçamento federal. Em 2004, Donald Rumsfeld calculou que os EUA poderiam economizar US$ 12 bilhões com o fechamento de cerca de 200 bases no exterior. Seria uma medida relativamente isenta de custos políticos, já que os dependentes dessas bases são estrangeiros e não têm peso eleitoral nos EUA.
Entretanto, essas bases parecem invisíveis quando os políticos preocupados em economizar analisam uma proposta de orçamento de US$ 664 bilhões. No editorial do dia 1º de março do New York Times, intitulado "O Pentágono descobre o mundo real", os editorialistas pediram "coragem política" à Casa Branca para minguar o orçamento da Defesa.
Quais foram as sugestões? Eliminar o caça F-22 da Força Aérea, o destroier DDG-1000 da Marinha e reduzir o Sistema de Combate Futuro do Exército para economizar mais de US$ 10 bilhões ao ano. São todas boas sugestões, mas e as tais bases no exterior? Líderes americanos dizem que os postos estrangeiros consolidam alianças com outros países, especialmente por causa dos acordos comerciais e da ajuda que costumam acompanhar seu arrendamento. Nelas, soldados americanos vivem numa espécie de casulo, um simulacro dos EUA, assistindo canais de TV americanos, ouvindo rap e heavy metal americano, comendo fast-food, de modo que os jovens do interior e os garotos de rua transplantados para essas bases ficam muito pouco expostos a um outro modo de vida. Do outro lado da cerca de arame farpado, moradores e empresas locais se tornam economicamente dependentes dos soldados.
Essas bases podem se converter em pontos de ignição de conflitos. Elas descarregam lixo tóxico em ecossistemas locais, com em Guam, onde deixaram nada menos do que 19 depósitos. A contaminação estimula ressentimentos e, às vezes, como ocorreu na ilha de Vieques, em Porto Rico, na década de 90, é causa de movimentos sociais declarados contra as bases.
Os EUA usaram Vieques para ensaios de bombardeios 180 dias por ano. Quando se retiraram, em 2003, a área estava coberta de resíduos de cápsulas, urânio empobrecido, metais pesados, óleo, lubrificantes, solventes e ácidos. Segundo ativistas locais, o número de casos de câncer na ilha era 30% superior ao registrado em todo o restante de Porto Rico.
É inevitável também que, de tempos em tempos, soldados americanos – geralmente embriagados – cometam crimes. O ressentimento causado por esses delitos ainda é exacerbado pela insistência do governo americano para que eles não sejam julgados por tribunais locais. Em 2002, dois soldados americanos mataram duas adolescentes na Coreia. Ativistas coreanos alegam que esse foi um dos 52 mil crimes cometidos por soldados dos EUA no país entre 1967 e 2002. Os dois soldados foram imediatamente repatriados, escapando de um processo na Coreia.
Em 1998, um piloto da Marinha cortou, com seu avião, o cabo de um teleférico numa região de esqui na Itália, matando 20 pessoas. Mas ele recebeu apenas um puxão de orelhas das autoridades americanas, que não permitiram que ele fosse processado na Itália. Incidentes com esses têm corroído as relações dos EUA com importantes aliados.
Os atentados do 11 de Setembro são o mais espetacular exemplo do tipo de contragolpe que pode ser provocado pelos ressentimentos contra bases dos EUA. Nos anos 90, a presença de soldados americanos próximo dos locais mais sagrados do islamismo, na Arábia Saudita, enraiveceu Bin Laden e deu à Al-Qaeda uma ferramenta de recrutamento poderosa.
Os americanos fecharam suas maiores bases no reino saudita, mas abriram outras no Iraque e no Afeganistão, que rapidamente se converteram em novos motivos de discórdia.
Com o seu "império de bases", os EUA têm um alcance global, mas a configuração desse império, à medida que ele tende para a Europa, é um remanescente anacrônico da Guerra Fria. Muitas dessas bases são um luxo que os americanos já não podem se permitir em um momento de déficit orçamentário recorde.
Na Declaração de Independência dos EUA há uma crítica aos britânicos "por aquartelarem grandes destacamentos de tropas armadas entre nós" e, "por meio de julgamentos simulados, protegê-las contra uma punição pelos assassinatos de habitantes desses Estados". Belas palavras que os EUA deveriam levar mais a sério.
Hugh Gusterson é professor de sociologia na George Mason University. Artigo publicado na Yale Global – Boletim dos Cientistas Atômicos

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

"É impossível pensar a cidade apenas a partir do transporte público"

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PARIS

Mais jovem entre os dez arquitetos convidados para o projeto de renovação urbana de Paris, Djamel Klouche, 42, nasceu na Argélia e desde os 18 vive na França, onde é professor na Escola de Arquitetura Versailles. Na semana que vem, embarca para o Brasil, onde desenvolve uma parceria com a PUC-Rio e a Universidade Federal do Rio de Janeiro para a revitalização urbana da zona norte da cidade. Ainda em Paris, conversou com a Folha sobre seu projeto para a capital francesa.

FOLHA – Você é bastante jovem em relação aos arquitetos selecionados. Essa diferença se manifesta na hora de repensar a Grande Paris?
DJAMEL KLOUCHE
- Ser a equipe mais jovem inclui uma certa responsabilidade nesse processo de reflexão. A ideia de planejar a partir do zero, como muitos arquitetos dos anos 60, é atualmente inviável. O que me pareceu mais importante nesse processo foi pensar a Paris que de fato já existe, com métodos de reciclagem arquitetônica e rearticulação de territórios.

FOLHA – Quais foram suas principais influências?
KLOUCHE
- Tenho uma relação próxima com Tóquio e com alguns japoneses da equipe. Não posso dizer que tomo essa cidade por modelo, mas ela me serve como referência para pensar a relação centro/periferia. A França, e mesmo a Europa, costumam criticar os bairros unicamente residenciais. Eu, ao contrário, gosto de repensar a ideia da casa metropolitana e me inspiro em alguns bairros da capital japonesa e no relacionamento entre zonas comerciais e residenciais.

FOLHA – Seu projeto foi criticado por dar muita atenção aos carros…
KLOUCHE
- Muitos arquitetos gostam de pensar que a cidade funcionará inteiramente baseada no transporte público. É impossível. Penso em carros elétricos, menores e não poluentes. Articulados, sim, ao transporte público e às bicicletas.

FOLHA – Como lidar com o dilema da modernização contra a preservação arquitetônica?
KLOUCHE
- Gosto especialmente de pensar o centro de Paris. Muitos falam na construção de torres, mas não sou a favor. É preciso criar maneiras de fazer com que esse material histórico desempenhe um papel contemporâneo, reformulando os interiores e repensando o significado da arquitetura

FOLHA – Como você vê a nova rede de trens proposta pelo secretário do Desenvolvimento?
KLOUCHE
- Não acho que seja uma solução de todo ruim. É evidente que prefiro trens de superfície a trens subterrâneos, não resta dúvida.
Mas ainda acredito que seja possível conciliar as duas coisas -trechos de superfície e trechos subterrâneos. Ele se propõem a construir 130 quilômetros de metrô em dez anos.
Se conseguir, é algo revolucionário. Não podemos pensar como se se tratasse de um trem para turistas da Disney.

Ftnte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

Paris 21

DEZ RENOMADOS ARQUITETOS, COMO RICHARD ROGERS E JEAN NOUVEL, PROPÕEM SOLUÇÕES QUE PODEM LEVAR A CAPITAL DA FRANÇA A PASSAR POR UMA DAS MAIORES RENOVAÇÕES URBANAS DA HISTÓRIA

GABRIELA LONGMAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PARIS

Um ano atrás, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, convocou dez dos mais importantes escritórios de arquitetura e urbanismo da Europa com uma encomenda ao mesmo tempo fluida e precisa: traçar planos para o futuro de Paris, a partir de duas prioridades -integração centro-periferia e forte preocupação ambiental.
Cada equipe recebeu 200 mil e total liberdade para identificar problemas, estudar, planejar, imaginar o que seria "a metrópole do século 21 pós-Protocolo de Kyoto" num prazo de 20 a 40 anos.
Associados a grandes universidades e centros de pesquisa, os arquitetos tiveram a colaboração de economistas, sociólogos, geógrafos e engenheiros para formular seus projetos.
O resultado foi apresentado no dia 13 e foi tema de um debate público na última terça.
Entre os envolvidos está o britânico Richard Rogers, o alemão Finn Geipel e os três "caciques" da arquitetura francesa: Jean Nouvel, Yves Lion e Christian de Portzamparc -este último responsável pelo projeto da Cidade da Música, no Rio de Janeiro.
Mas não se trata de uma competição, pois, ao que consta, nenhum dos projetos será "selecionado" para se transformar em realidade.
A ideia foi, ao contrário, criar uma "enciclopédia" de soluções possíveis que ajude nas futuras decisões políticas ligadas à gestão urbana, espécie de "dossiê do território" que permita gerir como e para onde a cidade irá crescer.
O mapa atual mostra uma divisão marcada entre a Paris "oficial" (administrada pela Prefeitura de Paris) e a Grande Paris (cidades-satélite inclusas). Separadas pelo bulevar Périphérique (anel viário que cerca a cidade), a Paris de "dentro" -turística, patrimonial e bem servida por transportes e áreas de lazer- não se parece em nada com a outra, de fora, onde estão os grandes escritórios, os bairros-dormitórios e a maior parte da população -a cidade "real".
"Não conheço nenhuma outra cidade em que o coração esteja tão separado de seus membros", declarou Rogers, cuja proposta prevê um trem de superfície ocupando o lugar do Périphérique e a construção de 400 quilômetros de área verde sobre os telhados da cidade.
Poesia
Se algumas equipes deram ênfase aos relatórios técnicos, outras fizeram planos mais imaginativos.
Antoine Grumbach, por exemplo, propôs um crescimento horizontal, margeando o Sena, aproveitando "os potenciais econômicos, ecológicos e poéticos" do rio.
No projeto de Yves Lion, dois enormes "central parks" combateriam o aquecimento global previsto -cálculos da agência Méteo France estimam que, em 2100, o clima de Paris será semelhante ao de Córdoba, no sul da Espanha.
Baseado em tudo o que viu e ouviu dos arquitetos, Sarkozy prepara o que será o "seu" plano para a Grande Paris, com anúncio oficial marcado para o próximo domingo.
A obra-símbolo do projeto, no entanto, já foi divulgada por seu secretário de Desenvolvimento da região capital, Christian Blanc: trata-se de uma linha de trem circular de 130 quilômetros de extensão integrando os principais subúrbios, os aeroportos de Orly e Charles de Gaulle e La Défense (principal centro financeiro).
Os números são monumentais: o novo arco ferroviário prevê de dez a 12 anos de trabalho, com custos estimados em 15 bilhões a serem financiados em 50 anos no sistema PPP (parceria público-privada).
O sistema deverá funcionar 24 horas, com "segurança total" e trens conduzidos automaticamente "para evitar greves". O projeto original previa que os trens fossem subterrâneos, o que gerou protesto da parte dos arquitetos.
"Não enterramos as pessoas para que se desloquem", contestou Jean Nouvel em entrevista ao "Le Monde". Os urbanistas fazem coro: para alguém se sentir parte de uma metrópole, é preciso poder descobri-la ao atravessá-la.
Mas a verdade é que ninguém sabe ainda se a gritaria vai surtir efeito. Em declarações à imprensa, Blanc explicou que o trem em túnel "evita os procedimentos de consulta pública que alongam muito os prazos de realização".
Grandes obras
Todos os últimos presidentes da França deixaram monumentos na capital, a começar por Georges Pompidou -o Beaubourg.
Já François Mitterrand é associado ao prédio da Bibliothèque Nationale de France (por Dominique Perrault, 1996), enquanto o reinado de Jacques Chirac ficou marcado pelo Musée du quai Branly (por Jean Nouvel, 2006).
Mas os paralelos não param aí. Ao pensar em reformular toda a estrutura urbana, a atitude de Sarkozy vem sendo comparada à de Napoleão 3º.
Muito bem impressionado com o que vira em Londres entre 1846 e 1848, o imperador juntou-se ao então prefeito de Paris, Georges Haussmann, para uma completa reconfiguração urbana da cidade.
Centrada na construção de largas avenidas (para impedir as barricadas), as reformas de Haussmann enterraram o caráter medieval da cidade e deram à capital francesa o traçado imponente que até hoje conserva.
Para o bem ou para o mal, a escala das obras previstas tem levado a imprensa francesa a formular um diagnóstico: Nicolas Sarkozy não pretende deixar o Palácio do Eliseu tão cedo. Por hora, restam os croquis apresentados para o deleite dos amantes de arquitetura.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br