As análises, interpretações e diagnósticos sobre a crise econômica mundial se tornaram unânimes: a crise será duradoura e os seus efeitos devastadores. Arrastará parte considerável do planeta para a recessão, e os indicadores sociais, particularmente do emprego, se agravarão. Ensaios, artigos e reportagens circulam em profusão dando conta de que essa crise é a maior que o capitalismo moderno já assistiu.
A crise mundial evidenciou também um vazio teórico das esquerdas. No Fórum Social Mundial em Belém, multiplicaram-se as análises do gênero “bem que avisamos”, “uma crise anunciada”, “nós prevíamos”. Uma questão de fundo, entretanto, permanece: O que a esquerda propõe frente à crise? A esquerda se encontra aparvalhada. A sua ousadia se resumiu quando muito à reprodução das ideias keynesianas. O máximo que a esquerda vê na crise mundial é a possibilidade de fortalecimento do Estado, algo para o qual nem a direita, hoje, oferece resistências.
Não seria a crise uma oportunidade para ousar a ruptura? Mais ainda: considerando-se que a crise econômica está entrelaçada à crise ecológica, não estaríamos diante de um momento único para repensar com radicalidade o atual modelo? A crise, para além de romper com a hegemonia da financeirização do mundo, não seria também uma oportunidade para descarbonizar a economia, ou seja, avançar em direção a uma sociedade sustentável?
O desafio para aqueles que desejam “outro mundo” não seria o de apenas “reformar”, mas antes de tudo “revolucionar”. Mas para que o revolucionamento não seja conservador, faz-se necessário subordinar as possíveis saídas da crise econômica mundial a outra crise ainda maior: a crise ecológica. Aqui, a adoção do princípio da ecologia da ação – ações praticadas para se realizar um fim específico, podem provocar efeitos contrários aos fins que pretendíamos – proposto por Morin pode ser um excelente instrumento para se avançar a um planeta descarbonizado.
A crise como oportunidade de ruptura de modelo
A crise como oportunidade. Essa é a referência que orienta a conjuntura da semana. Tomamos como objeto de análise o caso brasileiro. Um dos primeiros a provocar esse debate foi o sociólogo Francisco de Oliveira. Segundo ele, o hiato de reacomodação capitalista que se abre agora, reservaria à esquerda uma paradoxal possibilidade de repetir a história modernizante com ousadia e criatividade condensadas em um projeto democrático popular: “A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon … Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon”. Chico de Oliveira faz referência à crise de 30, época em que o país rompeu com o modelo agrário exportador e deu impulso ao modelo de industrialização. Para o sociólogo, “Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização”.
Diz Chico de Oliveira: “Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade”. Continua o sociólogo: “Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional”.
Francisco de Oliveira sugere que Lula seja um novo Getúlio e destaca que os instrumentos para essa possibilidade de ruptura de modelo estão aí: “Reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final”. O PT, no seu entender, seria o operador desse aggiornamento histórico do desenvolvimento: “É quem dispõe de massa e de liderança, enquanto os demais agrupamentos socialistas constituiriam a ponta de lança instigadora do processo”.
Na defesa provocativa dessa tese, o sociólogo cobra uma metamorfose do PT: “O PT tem a força sindical; a estrutura sindical tem todos os fundos de pensão sob seu controle”. Segundo, ele, a chance de emancipação do país na atual crise seria uma inusitada demonstração de competência e ousadia política da esquerda na canalização de fundos públicos para deflagrar um ciclo inédito de investimento pesado na economia.
Repete: “Falo em se criar algo como cinco EMBRAERs por ano; acelerar o crescimento e dar um novo rumo à economia e à sociedade”, e provoca: “se um estancieiro gaúcho fez isso na crise de 1930 porque uma Dilma, não poderia ser instrumentalizada para fazê-lo na crise atual?”. Arremata o sociólogo: “Devemos tratar essa possibilidade com uma discussão ampla e aberta; não oficialista, tampouco sectária, menos ainda cravejada de acusações entre petistas e não petistas. O que está em jogo é uma reacomodação brutal de forças; se ela devolver o poder aos tucanos aí sim estaremos fritos: eles ficarão aí mais dez anos”.
O que Chico de Oliveira está propondo é a possibilidade de uma ruptura com o modelo econômico instaurado por Collor, continuado por Fernando Henrique, e não interrompido por Lula. Segundo ele, com a crise, Lula tem a chance de fazer aquilo que não fez quando chegou ao poder, ou seja, romper com o modelo de inserção competitiva na economia internacional; modelo que levou o Brasil a um raquítico crescimento econômico, desaparelhou o poder estatal e subordinou a economia nacional à nova ordem econômica mundial.
A proposta de “cinco EMBRAERs” a que se refere Chico de Oliveira, apesar de não explícito, é uma alusão ao poder competitivo da 4ª maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo que joga um papel importante na área de desenvolvimento de tecnologia. Depreende-se que, assim como Vargas criou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Companhia Vale do Rio Doce (CRVD), a Petrobrás, a Eletrobrás, o sistema Embratel, entre outras empresas públicas; Lula tenha a ousadia de Vargas e recoloque em curso um projeto de pesado investimento estatal em nichos produtivos que tornem o país competitivo internacionalmente, alavanque o crescimento econômico, reafirme a soberania nacional, assim como aconteceu no pós-30.
Uma contestação ao que sugere Francisco Oliveira pode ser feita: o investimento estatal em setores produtivos que retroalimentam o paradigma produtivo da sociedade industrial não seria uma contradição com o esgotamento desse modelo? Ainda mais quando se têm em conta a crise ambiental e a urgência que ela apresenta para o conjunto da humanidade? Em outras palavras: já adentramos na Revolução Informacional, e insistir no paradigma produtivo da Revolução Industrial não seria um erro que a médio-prazo pode apresentar mais reveses do que benefícios ao país?
Retornaremos a essa temática. Por ora, destaque-se que aqui reside um tema da maior importância para uma esquerda que se pretende verdadeiramente revolucionária. Não se pode mais desconectar o tema da economia ao da ecologia. O crescimento econômico, mantra repetido por todos, e a toda hora, não é necessariamente desejável quando compromete a bios planetária. Considerando-se a emergência da economia do imaterial, já não estaríamos diante de outras possibilidades para (re)pensar um projeto radicalmente distinto do que até então temos como referência?
O governo Lula e a ausência de um projeto de nação
A análise de Francisco de Oliveira é pertinente quando afirma que a chegada de Lula ao poder não significou uma mudança de modelo. Vargas alterou o modelo, Collor também, mas não Lula. Lula optou pela continuidade do modelo anterior com algumas variações. Trata-se daquilo que muitas vezes denominamos de modelo do Pós-Consenso de Washington, ou seja, a possibilidade de se juntar o social com a ortodoxia econômica.
Uma das evidências da não ruptura é o entusiasmo de Luiz Carlos Mendonça de Barros – ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no governo Fernando Henrique Cardoso –, com as potencialidades do país na crise. Segundo ele, o Brasil "se descolou" da maioria dos demais mercados emergentes e já aparece aos olhos do mercado internacional como alternativa de investimento e como um país que será bem menos afetado do que a média dos seus pares.
O “sucesso” do Brasil, segundo o ex-ministro que operou o maior programa de privatização do país, das telecomunicações, se deve ao fato de que “alguns pecados do passado viraram qualidade: o compulsório elevado, que no fundo não permitiu aos bancos multiplicarem crédito; a taxa de juro elevada, que também segura o endividamento exagerado; o setor público bancário, que, nessa hora, é o que todo mundo está tentando fazer. O BNDES é um exemplo típico. Ele tem uma função, desde que faça as coisas direito. O banco público tem a sua função. Outra diferença é que o governo estava longo (comprado) em dólares, então, quando houve a desvalorização contra o dólar, que foi generalizada, o Brasil acabou incorrendo em lucro, não em prejuízo. A nossa dívida pública, quando comparada com a de outros países, numa perspectiva de um ou dois anos, ficou completamente fora da curva (com uma tendência melhor)”, diz ele.
O governo Lula tem sido isso. Por um lado, a aplicação dos fundamentos da disciplina fiscal e monetária e, por outro, políticas sociais de caráter compensatório. Lula oscila entre o resgate do social e do Estado, e os interesses do mercado. Não foi colocada em marcha nenhuma grande reforma estrutural na sociedade brasileira, embora se reconheça a adoção de políticaa na direção da correção das distorções das desigualdades sociais: aumento permanente do salário mínimo, a ampliação da oferta de crédito, os programas de mitigamento da miséria, como o Bolsa Família, e de inclusão, como o Pró-Uni.
O governo Lula não tem um projeto de nação. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é um programa e não um projeto. Nesse sentido pode-se afirmar que já houveram projetos bem mais ousados, como o plano de metas do período JK, e até mesmo o Plano de Desenvolvimento Nacional (PND), de Geisel.
A retomada de um possível nacional-desenvolvimentismo, que muitos atribuem ao governo Lula, é distinto do praticado na Era Vargas. No período varguista, os investimentos realizados pelo Estado constituíram a formação de um capital produtivo sob controle do próprio Estado. Foi assim que surgiu a CSN, a Companhia Vale do Rio Doce, a Petrobrás, a Eletrobrás, o sistema Telebrás. Foram essas empresas que possibilitaram a modernização conservadora do país e o alçou a uma das potências econômicas mundiais. Agora, no governo Lula, o Estado presta-se antes de tudo ao fortalecimento do capital privado. O papel do Estado – com o programa do PAC – é o de, sobretudo, responder às demandas de infra-estrutura, de energia e logística para atender aos interesses do capital privado nacional e transnacional.
Poder-se-ia afirmar que o governo Lula e o seu “modelo” renderam-se a uma determinada lógica economicista. O Estado coloca-se, sobretudo, a serviço da lógica do mercado. Nesse contexto é que devem ser compreendidas as obras da transposição do S.Francisco, as hidrelétricas do rio Madeira, a retomada do programa nuclear, a retomada da indústria bélica no país, a concessão das rodovias públicas, a tolerância com o agronegócio – para ficar em alguns exemplos.
Há ainda um agravante: o “modelo” consubstanciado no PAC coloca-se de costas para a problemática ambiental e reafirma a lógica produtivista da sociedade industrial. Exatamente no momento em que se fala em “descarbonizar” a economia, o país reafirma um “modelo” tributário ainda da Revolução Industrial, ou não?
Esse “modelo” é explicado pela concepção de mundo de Lula. Segundo Gilberto Carvalho, assessor especial de Lula, o presidente “fica feliz da vida com o crescimento todo, a produção industrial, a produção agrícola e ao mesmo tempo a distribuição dessa riqueza traduzida em salários, em empregos, em melhor qualidade de vida para o povo”. “Ele acha importante a preservação, mas, entre um cerradinho e a soja, ele é soja. O ambiente é uma questão importante, mas não é decisiva. O que é decisivo é a economia”, atesta Gilberto Carvalho em outra entrevista.
Lula e Getúlio. A política como conciliação
Por outro lado, a “provocação” de Chico de Oliveira para que Lula incorpore Getúlio, pode ser contrastada com a entrevista de Werneck Vianna. Para o sociólogo, “Lula é um Getúlio. Há muito tempo”. Segundo ele, “a ida ao social, como Getúlio foi, aos pobres, aos sindicatos, a maneira apaixonada através da qual Lula faz isso. É claro que ninguém atendeu melhor aos empresários e às finanças que ele. Mas não tirou de um lado para dar para o outro. Deu para os dois lados”.
O “Getúlio” incorporado por Lula de que fala Werneck é, sobretudo, o Lula da política, mas também o da economia. Segundo o sociólogo, mais do que ninguém Lula faz política no sentido getulista, ou seja, como aquele que sabe conciliar interesses. Segundo ele, “é o que dá um partido como o PT ir ao governo e não realizar o seu programa. Teve de se aliar aos outros para realizar um programa descoberto no meio do caminho. O programa do primeiro mandato não era esse que está sendo realizado”, diz Werneck.
Em uma outra entrevista, Werneck Vianna, comenta que Lula evoca o "Estado Novo" do período getulista: “Qual foi a operação que o Estado Novo getuliano fez? Exatamente esta: tudo o que era vivo na sociedade ele trouxe para si. Tal como agora. Trouxe para si e, de cima, formula políticas para a sociedade”. A interpretação de Luiz Werneck Vianna é a de que o governo Lula engoliu a todos e enveredou-se num governo que se aliou ao atraso, no caso o PMDB. Segundo ele, “o atraso é questão altamente sensível e estratégica na sociedade. Em linguagem fácil, rápida, quem tentou romper com ele perdeu”.
Para Werneck Vianna, “o PMDB é uma força política regional, fisiológica, tudo isso que se diz é um pouco verdadeiro e às vezes muito exagerado”. Ao mesmo tempo, destaca que “o PMDB é uma escora na defesa dessa tradição do público na sociedade brasileira. Possivelmente, não teríamos essas instituições que hoje estão nos defendendo se o PMDB não fosse um personagem tão presente na vida republicana recente. Agora, ao lado disso, o PMDB é um partido muito difícil de administrar. Mas não está postulando a Presidência até agora”.
Werneck Vianna acredita que, assim como Getúlio Vargas, Lula tem grandes chances de fazer o sucessor: “Getúlio não elegeu Dutra?”, pergunta Werneck numa referência ao Marechal Eurico Gaspar Dutra, apoiado por Vargas nas eleições de 1946. Dutra ministro da Guerra do governo de Getúlio Vargas, um homem da direita e impopular, que logo após as eleições cassou a legenda do PCB e o empurrou para a ilegalidade, elegeu-se graças ao prestígio do governo Vargas. Para Werneck, Lula será um ator importante em 2010: “Não sei se ele garante a vitória do seu candidato ou candidata. O outro lado é muito forte e vem de um Estado muito poderoso”.
A candidatura de Dilma Rousseff é uma aposta pessoal de Lula. Dilma nunca foi a candidata do PT, mas o partido aceitou porque também foi “engolido” por Lula, e nome “forte” do partido, José Dirceu, perdeu-se nos meandros do poder de Brasília. Dilma, antes de aportar no PT, passou pelo PDT, partido que rivalizou historicamente com o PT, mas que com a morte de Brizola perdeu força política. Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que a candidatura de Dilma é uma ruptura com a própria história do PT, uma ruptura com o seu programa radical transformador.
É nesse sentido que pode ser interpretada a proposta de Chico de Oliveira que “convoca” Lula a um projeto de corte getulista, transformador, não mais de cima para baixo, mas de baixo para cima, e sugere que o PT volte a ser essa força aglutinadora: “Reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade”.
A propósito da proposta de Chico de Oliveira, Maria Inês Nassif comenta: “O sociólogo Francisco de Oliveira, um dos primeiros quadros intelectuais a criticar os rumos que o partido tomou no poder, deu uma entrevista dando centralidade ao PT como operador do que considerou um ‘aggiornamento histórico do desenvolvimento’. Poderia exercer esse papel porque ‘é quem dispõe de massa e liderança, enquanto os demais agrupamentos socialistas constituiriam a ponta de lança instigadora do processo’. O singular em sua análise é que, na hipótese de assumir o comando de um processo de desenvolvimento nacional – a exemplo do que Getúlio Vargas fez em 1930 – contariam a seu favor as deficiências que, no passado, levaram o próprio Oliveira a afastar-se dele”.
Politicamente, todavia, diz ela, “o PT teria que passar por mudanças radicais para cumprir um papel histórico semelhante ao exercido por Vargas. Nos arranjos internos pós-crise do mensalão, prevaleceram grupos e pessoas com domínio sobre a máquina. As negociações internas, em especial no PT paulista – que tem um grande peso nacional -, fortaleceram-se grupos muito mais afinados com a política tradicional do que ideologicamente comprometidos com o programa partidário. A luta pelo poder interno tem inibido lideranças novas, e no vácuo as antigas, a quem se atribui a cultura da máquina de fazer votos, vêm ampliando o seu poder”.
Para Maria Inês Nassif, “não têm hegemonia, hoje, intelectuais orgânicos com liderança e capacidade de formulação para transformar o PT em algo mais do que um projeto de poder – num projeto de partido que tem liderança e substância para executar um projeto de grande mudança para o país”.
Em síntese, para a comentarista política, a proposta de Chico de Oliveira é fadada ao fracasso. De qualquer forma, em época de acomodação generalizada da esquerda, mesmo diante da crise, as “provocações” do sociólogo Francisco de Oliveira para que Lula se torne um Getúlio, são sugestivas. A análise de Chico de Oliveira torna-se mais complexa quando cotejada com a interpretação de Werneck Vianna, para quem Lula, já é um Getúlio e incorporou o seu modus operandi que o transformou, assim como Getúlio, num conciliador de classes, esvaziando a política. Nessa perspectiva a proposta de um novo projeto que recupere a sua radicalidade transformadora hegemonizado pelo PT, como propõe Chico de Oliveira perde força.
Elementos para um projeto de esquerda radicalmente transformador
O mérito da proposta de Chico de Oliveira reside no fato de estimular a esquerda a propor um projeto tomando a crise como oportunidade de romper com a hegemonia do capital. Retomamos aqui a indagação postulada no início dessa análise: o que seria hoje um projeto de esquerda radicalmente transformador considerando-se a crise econômica e a crise ecológica? Em nossa interpretação essas crises são conexas e, qualquer projeto alternativo, não pode separá-las. É nesse sentido que a proposta apresentada por Chico de Oliveira é insuficiente.
Em entrevista concedida ao IHU On-Line, o sociólogo Marcelo Ridenti afirma: “Não acho estranho, mas desejável a retomada do tema do desenvolvimento após anos de predomínio da ideologia neoliberal. Estranho é retomar o tema sem levar em conta toda uma tradição crítica de esquerda ao desenvolvimentismo, realizada, sobretudo nos anos 1970. Sejam quais forem hoje as retomadas desse pensamento, indissociável da ação, é preciso não esquecer as críticas clássicas a ele e indagar: a quem serve o desenvolvimento? A que grupos e classes sociais? Qual seu custo em termos ambientais? O risco de ignorar questões como essas seria repetir os erros do velho desenvolvimentismo, sem necessariamente reviver seus acertos”. A análise de Ridenti bem que poderia ser endereçada a Chico de Oliveira.
A novidade agora é que qualquer projeto radicalmente alternativo de sociedade não pode desconsiderar a questão ecológica. A questão ambiental revela-se um tema cada vez mais central. Progressivamente, veio parar no centro das atenções e preocupações mundiais. Emerge com intensidade crescente a consciência de que há uma relação vital entre a saga da vida, em especial, da vida humana na Terra e a própria sobrevivência do Planeta. É cada vez mais incontestável, inegável e indefensável o fato de que as alterações observadas no planeta se devem a intervenção humana, ao seu modo produtivo e de consumo.
A formulação de um projeto, de um outro modelo de sociedade por parte da esquerda, deve levar em consideração a superação do paradigma produtivo da sociedade industrial que já se evidenciou poluidor e destruidor do planeta. “A crise pode ser uma oportunidade para descarbonizar a economia”, afirma Achim Steiner, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnuma).
Segundo ele, “nós temos uma oportunidade histórica para financiar uma economia mundial descarbonizada. Há urgência para isso. Os custos econômicos associados às mudanças climáticas vão ser cada vez mais pesados. A vulnerabilidade dos países pobres aumenta e nós poderemos ultrapassar rapidamente aquilo que os cientistas chamam de ‘ponto de não retorno’, para além do qual as consequências do aquecimento dificilmente serão administráveis”. Para Steiner, trata-se de substituir a velha economia poluente, por uma nova economia verde.
Insistir na proposta de superação da crise econômica reafirmando as teses desenvolvimentistas e keynesianas do início do século passado, em que pesem, o seu caráter “público”, são insuficientes para dar conta da magnitude dos desafios em que estamos metidos. Não basta redirecionar o leme para o crescimento. É necessário perguntar-se de que crescimento estamos falando, qual o custo desse crescimento, e até mesmo se se faz necessário. Via de regra, o crescimento redunda em ganhos sempre maiores para os de sempre com elevados custos para o conjunto da sociedade.
A descarbonização da economia é possível? Há fatos novos que permitem a possibilidade dessa tese e elas se encontram na evolução das próprias forças produtivas. A Revolução Informacional em curso fez germinar a economia do imaterial. A sociedade industrial está em reviravolta. O imaterial está ancorado no centro da nova economia. André Gorz afirma que “o capitalismo moderno, centrado sobre a valorização de grandes massas de capital fixo material, é cada vez mais rapidamente substituído por um capitalismo pós-moderno centrado na valorização de um capital dito imaterial, qualificado também de ‘capital humano’ ou ‘capital inteligência’”.(1) Por sua vez, Jeremy Rifkin destaca que “conceitos, ideias, e imagens – e não coisas – são os verdadeiros itens de valor na nova economia. A riqueza já não é mais investida no capital físico, mas na imaginação e na criatividade humana”.(2)
Embora a sociedade industrial ainda seja preponderante, a essência da forma de organizar a sua produção é empurrada cada vez mais para a periferia do núcleo propulsor do novo capitalismo – a economia do imaterial, a new economy. Poder-se-ia falar em sociedade pós-industrial – o fato de que as categorias que organizam a representação do paradigma da sociedade industrial já não dão conta de interpretar o novo. Hoje precisamos de uma nova Einleitung (3), porque a essência do capitalismo está radicalmente modificada.
Faz-se necessário, portanto, ter em conta, num projeto radicalmente novo o caráter das mudanças estruturais por que passa o capitalismo. A nova economia potencializa a gestação de um novo tipo de organização produtiva menos poluidora e com potencial descarbonizador enorme. Essa nova economia potencializa novas matrizes energéticas que podem oportunizar inclusive a criação de outro tipo de empregos. Em termos energéticos, a humanidade estará passando da era do petróleo – altamente concentrada e concentradora, além de refém de seu gigantismo – para uma era em que a produção de energia se dará em escala descentralizada e com impactos menores sobre o ambiente.
Jeremy Rifkin nos dá uma idéia do que está por vir: “Estamos no início da terceira revolução industrial: no período dos próximos trinta anos, tudo mudará, como mudou quando o vapor foi substituído pela eletricidade. Desta vez, quem vencerá será a intergrid, a Internet da energia: uma rede elétrica interativa e descentralizada, que transformará milhões de consumidores em pequenos produtores de energia criando um sistema mais confiável, mais seguro e mais democrático. Os edifícios serão envoltos em fotovoltaicos e, em vez de sugar a energia, produzirão. Os motores dos automóveis poderão, por sua vez, transformar-se em minicentrais, os tetos dos pavilhões beberão a energia solar com seus painéis e a restituirão. Uma parte da eletricidade será consumida diretamente no local de produção, reduzindo a dispersão. É uma revolução radical que mudará toda a arquitetura do nosso sistema produtivo. E quem compreender isso primeiro guiará o novo salto industrial”.
Será que não deveríamos nos dar conta de que o próprio capitalismo já entrou em um novo estágio orientado por uma nova matriz produtiva, a revolução informacional, como destaca Rifkin? Parece-nos que a proposta de uma retomada de investimentos capitaneados pelo Estado proposta por Chico de Oliveira se faz ainda tendo como referência o paradigma da sociedade industrial. Porém, tendo presente o impasse ecológico, não seria oportuno e desejável refazer a proposta a partir do novo paradigma produtivo?
Já destacamos aqui, em outros momentos, a aguda intuição do ambientalista Washington Novaes que alerta que o Brasil se encontra numa encruzilhada histórica que pode ser decisiva para o futuro de nação soberana e um ganho comparativo mundial. Segundo ele, “um país que tem a biodiversidade que o Brasil tem, os recursos hídricos, a insolação o ano todo, enfim, com a riqueza que o país tem, deveria ter uma estratégia que colocasse esse fator escasso no mundo numa posição privilegiada como base de políticas. Mas essa estratégia não existe”.
Insistir num modelo econômico industrializante é a melhor saída? Transformar o Brasil num imenso canteiro de obras para destravar o crescimento econômico – por paradoxal que possa ser – não poderá isso sim travar o país mais à frente? A esse respeito, destaque-se que o PAC manifesta um silêncio absoluto sobre a questão ambiental.
Trabalho imaterial e multidão
Há ainda outros elementos importantes a serem resgatados na formulação de um projeto de esquerda. Por ora, chamamos a atenção de apenas um deles. A emergência da economia imaterial, descrita acima, ativa sempre e cada vez mais o trabalho imaterial e, nessa perspectiva, a concepção clássica da categoria trabalho da sociedade industrial e do sujeito do trabalho imbricado a ela, demonstra-se insuficiente para dar conta das mudanças em curso. É importante atentar-se para o fato de que sob a hegemonia do trabalho imaterial “a exploração já não é primordialmente a expropriação do valor medida pelo tempo de trabalho individual ou coletivo, e sim a captura do valor que é produzido pelo trabalho cooperativo e que se torna cada vez mais comum através de sua circulação nas redes sociais”. (4)
Gorz chama a atenção para o fato de que a economia do imaterial apresenta transtornos importantes para o sistema econômico: “Ela indica que o conhecimento se tornou a principal força produtiva, e que, consequentemente, os produtos da atividade social não são mais, principalmente, produtos do trabalho cristalizado, mas sim do conhecimento cristalizado. Indica também que o valor de troca das mercadorias, sejam ou não materiais, não é mais determinado em última análise pela quantidade de trabalho social geral que elas contêm, mas, principalmente, pelo seu conteúdo de conhecimentos, informações, de inteligências gerais” (5) , ou seja, hoje, e cada vez mais, o coração, o centro da criação de valor, é o trabalho imaterial.
Abre-se aqui, sob a perspectiva do sujeito do trabalho, nessa sociedade pós-industrial, a configuração de processos produtivos colaborativos. O caráter “revolucionário” do trabalho imaterial, destacam Hardt e Negri, repousa no fato de que “as formas centrais de cooperação produtiva já não são criadas pelo capitalista como parte do projeto para organizar o trabalho, mas, emergem das energias produtivas do próprio trabalho”(6). Em suma, permite também a produção do the common que dá forma à multidão como um sujeito social ativo, que age com base naquilo que as singularidades têm em comum. A questão de fundo proposta por Negri é “como transformar a autovalorização do trabalho imaterial em uma nova luta de classe, em desejo organizado de apropriação da riqueza social e de libertação da subjetividade”. (7)
Segundo ele, Marx era ligado a uma fenomenologia manufatureira de trabalho industrial. Conseqüentemente, surgia uma concepção fundamental auto-administrativa do partido e ditadura social do proletariado e neste contexto, a relação entre composição técnica do proletariado e, estratégia política chama-se ‘Comum’ ou ‘Partido Comunista’ – e são a ‘comuna’ ou o ‘Partido’ que realizam o reconhecimento do real e propõem uma plena circulação entre estratégia política (subversiva) e organização (biopolítica) das massas.
Nesta perspectiva, o partido é o motor de produção de subjetividade e se torna o instrumento na produção de subjetividade subversiva. Agora, diante da emergência do novo modo produtivo indaga: “Nossa questão é: qual é a produção de subjetividade para a tomada de poder, hoje, por parte do proletariado imaterial? Dito com outras palavras, o discurso pode ser assim formulado: se, hoje, o contexto da produção é constituído pela cooperação social do trabalho imaterial, e tudo isso chamamos General Intellect –, como será possível construir o corpo subversivo [biopolítico] do intelecto geral?”. (8)
Em sua opinião, o sujeito revolucionário, hoje, deve basear-se em outro esquema: não se coloca mais como preliminar um eixo industrial e/ou de desenvolvimento da economia, “mas através daquela multidão na qual se configura a intelectualidade de massa [general intellect], irá propor o programa de uma cidade libertada na qual a indústria se dobre às urgências da vida, a sociedade se dobre à ciência, o trabalho se dobre à multidão”. (9)
Cabe destacar que, para Negri e Hardt, o conceito de multidão é amplo e não se restringe aos trabalhadores que estão no mercado formal de trabalho. Segundo eles, devemos distinguir a multidão da classe operária. O conceito classe trabalhadora passou a ser usado como um conceito exclusivo, não apenas distinguindo os trabalhadores dos proprietários dos meios de produção – aqueles que não precisam trabalhar para se sustentar – mas também separando a classe operária dos outros que trabalham. Em sua utilização “mais estrita, o conceito é empregado para se referir apenas a trabalhadores industriais, distinguindo-os dos trabalhadores da agricultura, do setor de serviços e de outros setores; em seu sentido mais amplo, a expressão classe operária refere-se a todos os trabalhadores assalariados, diferenciando-os dos pobres que prestam serviços domésticos sem remuneração e de todos os demais que não recebem salário”. (10)
Porém, o conceito de multidão repousa na tese de que “não existe uma prioridade política entre as formas de trabalho: todas as formas de trabalho hoje em dia são socialmente produtivas, produzem em comum e também compartilham um potencial de resistir à dominação do capital. Podemos encarar essa realidade como uma igualdade de oportunidades de resistência. Isto não significa, queremos deixar bem claro, que o trabalho industrial ou a classe operária não sejam importantes, mas apenas que não detêm um privilégio político em relação às outras classes do trabalho no interior da multidão. Em contraste com as exclusões que caracterizam o conceito de classe operária, assim, a multidão é um conceito aberto e expansivo. A multidão confere ao conceito de proletariado sua definição mais ampla: todos aqueles que trabalham e produzem sob o domínio do capital”. (11)
Os elementos acima descritos de forma concisa exprimem que com a emergência da economia do imaterial faz-se necessário atentar para o surgimento do trabalho imaterial, que por sua vez, potencializa a configuração de um novo sujeito do trabalho – a multidão. As lutas contra o capital precisam se dar conta de que a classe trabalhadora de que falamos hoje já não é a mesma da sociedade industrial. Um programa de lutas anticapitalista precisa ter em conta esses novos acontecimentos no mundo do trabalho.
Repartir o trabalho existente
A emergência da economia do imaterial associado à introdução das Novas Tecnologias da Comunicação e da Informação (NTCI) recoloca em pauta a redução da jornada de trabalho, uma bandeira histórica dos trabalhadores. Repartir o trabalho existente é uma demanda atualíssima, considerando-se que o novo capitalismo fez aumentar a produtividade e reduzir os postos de trabalho. Recentemente em função da crise esse debate foi retomado, mas não pela ótica emancipatória e sim da flexibilização.
O empresariado desatou uma pesada pressão sobre os sindicatos. Aproveitam-se da fragilidade dos trabalhadores para tentar concretizar uma espécie de reforma trabalhista. Na pauta dos empresários para enfrentar a crise, foi apresentada a proposta de redução da jornada e salários sem a garantia do emprego.
O que se verifica no Brasil – assim como em outros países – é que há pessoas que trabalham demais, ao passo que outras literalmente não trabalham. Há várias alternativas possíveis para isso: 1) Redução da jornada de trabalho sem redução do salário; 2) Eliminação das horas-extras ou do ‘sobretrabalho’, o que permite que outras pessoas possam também trabalhar. Assim se instauraria um círculo de solidariedade na sociedade brasileira que por si só já seria capaz de diminuir em grande parte o grave problema do desemprego no Brasil.
No entanto, a simples redução da jornada de trabalho não aumenta automaticamente o tempo livre das pessoas, tempo disponível para desenvolver atividades que não tenham uma finalidade econômica. Trata-se, pois, de ir criando também uma nova cultura do tempo livre que não redunde num segundo ou mesmo num terceiro emprego. Trata-se de ir mudando a centralidade do tempo fora do trabalho, ou seja, criar uma cultura que revalorize os tempos de relações, de sociabilidade, o tempo dedicado, por exemplo, aos filhos ou às pessoas idosas e fazer com que estes tempos reencontrem seu lugar primordial como indicadores de melhores condições de vida, individual e coletiva. Portanto, por trás da redução da jornada de trabalho e do conseqüente aumento dos outros tempos, está a questão da qualidade de vida. Uma agenda de esquerda não pode abordar o tema da redução da jornada apenas do ponto de vista econômico.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – http://www.unisinos.br/ihu/