Daily Archives: 22/11/2008

Igualdade dos sexos desde a escola

Anne Chemin

Elas escorregam em um tobogã, rindo, sobem com energia nos bancos, se apoderam dos carros de rolimã que as animadoras colocaram a sua disposição. Emma, Ida e Alice, que acabam de comemorar seus 3 anos, aproveitam um dos tempos não-mistos instaurados em 2005 pela escola de Järfälla, na periferia de Estocolmo: uma vez por semana, as meninas dessa escola piloto em termos de igualdade de sexos são convidadas, durante a manhã, a fazer ginástica “só entre elas”.

Esse ligeiro desvio no princípio de convivência foi introduzido em nome da igualdade entre meninas e meninos. “Quando as crianças faziam ginástica juntas, os meninos ocupavam o maior espaço”, conta Ingrid Stenman, uma das responsáveis pela escola. “Eles se apoderavam dos jogos, ocupavam o lugar, e as meninas acabavam se apagando: elas se reuniam nos cantos. Desde que as meninas ficam sozinhas, elas retomaram a confiança. Brincam livremente e descobrem que fazer tobogã, saltar ou correr é realmente divertido!”

Lições da vida doméstica
Desde 2005, os 24 educadores dessa escola sueca que recebe cerca de cem crianças de 1 a 5 anos também tentaram modificar seu comportamento. “Não tínhamos consciência, mas antes nós encorajávamos os meninos a assumir riscos, a saltar, a se divertir, enquanto dizíamos constantemente às meninas para tomar cuidado”, prossegue Ingrid. “Ficávamos ao redor delas, a segurá-la as como se fossem cair ou ajudá-las como se não tivessem capacidade. Sem saber, nós as impedíamos de desfrutar das brincadeiras!”

Alguns anos atrás Ingrid teria sorrido diante da idéia de que em sua escola as meninas e os meninos não eram tratados da mesma maneira. Mas em 2004 uma pesquisadora especializada em questões de “gênero” veio trabalhar em Järfälla no âmbito de um programa governamental sobre a igualdade dos sexos. Durante vários meses ela filmou as atividades, observou a recepção das crianças de manhã, assistiu às refeições ao meio-dia. E suas conclusões deixaram os educadores estupefatos: sem ter consciência, eles reservavam tratamentos bem diferentes para as meninas e os meninos.

Os adultos deixavam muito mais lugar para os meninos, que utilizavam em média dois terços do tempo de palavra. Durante a comunicação com as crianças, os educadores aceitavam sem dificuldade que os meninos interrompessem as meninas, enquanto pediam que elas esperassem pacientemente sua vez. Enfim, tinham dois registros de discurso: frases curtas e diretas para os meninos, discursos mais longos e detalhados para as meninas.

Durante as refeições, essas diferenças se tornavam caricatas: os filmes feitos em 2004 mostram meninas de 3 ou 4 anos servindo docilmente copos de leite ou pratos de batatas para meninos impacientes. Uma distribuição de papéis encorajada, involuntariamente, pelos educadores. “Sem percebermos, pedíamos que as meninas nos ajudassem a levar os pratos e a participar do serviço”, sorri Barbro Hagström, uma das educadoras. “Nunca pedíamos isso aos meninos.”

Em um país onde não se brinca com a igualdade dos sexos, o estudo deixou os educadores consternados. “Descobrimos que tínhamos preconceitos sobre a maneira como as crianças devem se comportar”, constata Hagström. “Esperávamos que as meninas fossem calmas, educadas e serviçais, enquanto aceitávamos sem dificuldades que os meninos fizessem barulho e pedissem aos gritos o que queriam. Isso provocou muitas discussões na escola, mas também na minha família, que tem três meninos.”

Em 2004, o governo sueco, que dedicou cerca de 500 mil euros a projetos escolares sobre a igualdade dos sexos, alocou 7.525 euros para a escola de Järfälla. Durante um ano, Ingrid Stenman freqüentou em meio período um curso universitário sobre o gênero, que lhe permitiu descobrir que os educadores de Järfälla agiam na verdade como a maioria dos adultos. “Nas escolas, assim como nas famílias, os estereótipos continuam muito presentes, embora os parentes ou os professores não tenham consciência disso”, resume Lars Jalmert, professor na Universidade de Estocolmo.

Ao final desse trabalho, a equipe educativa de Järfälla decidiu instaurar dois tempos não-mistos de uma hora e meia por semana. Segundo os educadores, esses momentos permitem que as crianças aproveitem tranqüilamente jogos associados ao “outro sexo”.

Assim, as meninas podem dirigir carros ou saltar nos bancos sem que os meninos as ponham em perigo. Reunidos em outra sala de jogos, eles se divertem com cozinhas de brinquedo, bichos de pelúcia e bonecas, sem que as meninas venham se apropriar do lugar e lhes dar lições de vida doméstica.

A convivência também é suspensa às vezes durante as refeições: para evitar que as meninas ajam como auxiliares de serviço, alguns almoços transcorrem ao redor de mesas separadas.

Mas o estudo de 2004 conduziu os educadores principalmente a prestar uma nova atenção a seus gestos cotidianos. “Esse trabalho nos abriu os olhos”, resume Ingrid. “Hoje tentamos mexer as fronteiras: um menino que quer brincar jogos ‘de menina’ não deve se sentir fraco ou ridículo; uma menina que se afirma e toma a palavra não deve sentir reprovação. É um jogo de ‘ganhar e ganhar’ que abre novos espaços para as meninas assim como os meninos: se eles desejarem, podem sair dos esquemas tradicionais.”

O programa sobre a igualdade dos sexos lançado em 2004 pelo governo afetou 28 escolas que recebem crianças de 1 a 5 anos. “As desordens escolares estão muitas vezes ligadas às desigualdades entre os sexos e à falta de respeito pelos outros seres humanos”, afirma Nyamko Sabuni, ministra da Integração e da Paridade do governo de centro-direita. “O combate pela igualdade dos sexos deve começar o mais cedo possível.” Um orçamento de cerca de 11 milhões de euros deverá permitir que esse programa seja estendido às escolas elementares nos próximos anos.

Le Monde

Vacina e rebelião

Revolta da vacina: um protesto contra a indiferença

Tiago Eloy Zaidan

O Brasil do alvorecer do século XX estava infestado de moléstias e epidemias. A miséria e a total falta de higiene apresentavam-se como uma bomba preste a explodir nos cortiços improvisados onde residentes da classe baixa empilhavam-se. Ninguém escapava às mortíferas “senhoras”: peste bubônica, varíola e a febre amarela. Nem mesmo o filho do então presidente Rodrigues Alves. Então o pai resolveu contra-atacar. Dentre as medidas, realce para a vacinação obrigatória contra a varíola. A população, por sua vez, reagiu com veemência nas ruas do Rio de Janeiro. A primeira vista tudo parecia surreal. Por que o povo protestaria contra algo que visa à erradicação de uma perigosa enfermidade?
Em 1902 a capital federal, Rio de Janeiro, representava um país atrasado e um estado com vista turva quando o assunto era política social. À imensa população desamparada, somavam-se numerosas levas de imigrantes, incentivados a vir ao Brasil para servirem de mão de obra – em condições sofríveis – nas plantações paulistas de café. Nas ruas acanhadas do Rio de Janeiro as epidemias fluíam assustando os navios, que preferiam seguir direto para Buenos Aires. Tal situação incomodava os cafeicultores e mesmo os líderes políticos da época, sedentos por atraírem mais imigrantes e, consequentemente, mais mão de obra prosaica. As elites – demasiadamente consideradas pelo poder público nas primeiras décadas do século XX – por sua vez, não escondiam o constrangimento de viverem num ambiente tão diferente das avenidas européias, especialmente as francesas.
É nessa capital – de beleza natural lendária – que o paulista Rodrigues Alves, assume a Presidência da República. Como era de se supor, Alves era um rico cafeicultor. Já havia “passeado” pelo Ministério da Fazenda nos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Moraes e também foi gestor de São Paulo, onde ensaiou sua obsessão por reurbanização, abrindo avenidas e construindo redes de esgotos. Agora era a sua vez de ser alçado ao palácio pelos conchavos entre mineiros e paulistas. Junto à Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro, Alves deu início à revolução urbana da cidade maravilhosa, mas não sem antes estreitar a dependência do Brasil com a Inglaterra, após contrair um empréstimo de oito milhões de libras.

Oswaldo Cruz

A pressa foi uma das marcas da reconstrução da cidade. A outra foi à insensibilidade com os moradores humildes da região. Completamente indiferente às classes baixas, o projeto tinha como principal meta a construção da “afrancesada” Avenida Central (posteriormente rebatizada de Avenida Rio Branco), iniciada em 29 de fevereiro de 1904. Sem nenhuma reparação, uma considerável leva de residentes miseráveis foi varrida do centro do “novo” Rio de Janeiro, que começava a surgir numa área limitada. Os novos imóveis, que margeariam a moderna avenida, deveriam antes passar pelo crivo de uma bancada de “ilustres” da sociedade de então. Dentro de meses a classe alta da capital poderia passear orgulhosa no belo bulevar tropical. Além da Avenida Central, fora reformada a rua do Ouvidor e construída a avenida Beira-Mar.
Dentro da meta de “civilizar” o centro administrativo do país, proposto por Rodrigues Alves, faltava o combate às enfermidades imundas e impertinentes que fustigavam a urbe. Aqui que entrou em cena o então desconhecido Oswaldo Cruz, com sua obstinação permeada por lances autoritários, visando alcançar os seus objetivos. Nascido em 1872, na pequena São Luís do Paraitinga (SP), formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1896. No Instituto Pasteur em Paris, tornou-se discípulo do sanitarista Émile Roux, que o indicou para o governo brasileiro. Em 1902, de volta ao Rio, assumiu a direção do Instituto Soroterápico Federal, que mais tarde receberia o seu nome. No ano de 1903 é nomeado Diretor de Saúde Pública com “liberdade de ação”. Pela frente, a peste e a febre amarela, com seus ratos e mosquitos, respectivamente. Foram criados batalhões mata-mosquitos com a intenção de pulverizarem locais de risco. Foi o suficiente para a imagem de Cruz tornar-se freqüente nas ilustrações de caricaturistas da época.
Contudo, foi no combate a varíola que os achincalhamentos evoluíram. Com a medida rígida de se vacinar maciçamente a população, por meio da obrigatoriedade – aprovada pelo congresso no fim de outubro de 1904 – foram estipuladas multas e restrições aos infratores, causando maiores reações. O Atestado de Vacinação passou a ser exigido trivialmente, desde a obtenção de um emprego público ao casamento. A falta de habilidade do governo no tratamento da rejeição popular à medida defendida por Oswaldo Cruz agravou a situação. Para se ter idéia da repressão oficial basta citar o episódio do dia 10 e novembro, quando um orador foi preso no palanque por pregar contra a vacina. Após uma série incontável de medidas arbitrárias da república “Café com Leite” (modo como foi apelidada a era das administrações oligárquicas de 1894 a 1930), tornou-se mais fácil enxergar o estado com desconfiança. Entre os dias 11 e 14 de novembro a massa enfurecida saiu às ruas do artificializado centro do Rio de Janeiro deixando um rastro de “postes envergados (…), vidros fragmentados (…), paralelepípedos revolvidos (…), destroços de bondes quebrados e incendiados (…)” e “vestígios de barricadas feitas pela multidão agitada”, proclamou em tom assustado o Jornal do Commercio de 15 de novembro de 1904.
O mesmo jornal relatou casos de mortes durante a revolta. “(…) Um robusto homem de cor, que vestia calça e camisas pretas, achava-se do alto, numa pequena janela, atirando. Ali o alcançou uma bala de carabina que lhe varou o crânio, prostrando-o instantaneamente morto”. É também relatada a história de um menino de 12 anos que, “(…) chegou à janela na ocasião do conflito e logo foi morto por um tiro que lhe varou a carótida”. A vacinação foi suspensa.

Diante das manifestações descontroladas, Tânia Maria Fernandes em seu livro Vacina Antivariólica: ciência, técnica e o poder dos homens – 1808 – 1920, faz saber, “Oswaldo Cruz tinha como característica não se pronunciar publicamente e assim se manteve mesmo diante de todas as críticas sobre sua conduta frente à higiene. Sua resposta ao episódio da revolta da vacina foi colocar o cargo à disposição do Ministro do Interior J. J. Seabra (…)”.
No dia 15 de novembro, quando se deveria comemorar o aniversário da proclamação da República brasileira, cadetes positivistas da Escola Militar de Praia Vermelha aderiram oportunamente ao movimento popular. Desejavam reassumir o controle da nação, perdido para os cafeicultores desde 1894. Todavia, essa rebelião, especificamente, foi debelada e Lauro Sodré – Tenente coronel que seria agraciado com o cargo presidencial – terminou ferido e preso; sorte menos infeliz que as dos 200 cadetes mortos no levante.
O que ocorreu a seguir foi a decretação de estado de sítio de um mês, adicionado às invasões bestiais de tropas governamentais a favelas e cortiços miseráveis, onde foram presos, praticamente à revelia, diversos indivíduos. Muitos desses foram exilados no longínquo Acre, então recém-anexado ao Brasil. A vacinação foi restaurada e, dentro de meses, a varíola foi erradicada da capital federal. Oswaldo Cruz consagrou-se. Convidado a atuar em outras localidades, entrou para a história da ciência em solo tupiniquim. Rodrigues Alves concluiu o mandato, assumiu novamente o posto de governador de São Paulo em 1912 e tornou a eleger-se presidente da república. Alves, entretanto, não chegou a tomar posse. Ironicamente acabou vítima de uma nova e assombrosa epidemia, a gripe espanhola. Morreu em 16 de janeiro de 1919, no Rio de Janeiro “devidamente” urbanizado, porém, indevidamente humanizado.

História Net

“A democracia é uma desculpa do capitalismo opressor”, diz o músico Femi Kuti

Fernando Neira

“Ãh?”, responde uma voz de além-túmulo do outro lado do telefone. São 3 da tarde, faz um frio demoníaco em Viena e tudo indica que acabamos de acordar da sesta o nigeriano Femi Kuti, 46 anos. Não importa: apenas um minuto depois, o cantor, saxofonista, trompetista e herdeiro do inesquecível Fela Kuti estará lançando críticas contra os governos corruptos, a ONU, os concertos beneficentes e até organizações não-governamentais como a Cruz Vermelha.

“A democracia não existe, é só mais uma desculpa do capitalismo opressor”, proclama um homem que sofreu a repressão militar na carne (o ditador Olusegun Obasanjo prendeu seu pai e mandou matar sua avó nos anos 1970) e que não descansará em seu empenho de que o Ocidente “escute a voz da África, na realidade a potência mais poderosa do planeta”. Neste domingo ele protagoniza no Parque de Santa Catalina a principal atuação do festival Womad de Las Palmas de Gran Canaria.

Um álbum de Kuti sempre constitui um acontecimento nos circuitos dos ritmos étnicos, mas pode ser que “Day by Day” o seja ainda mais. Rompe sete anos de silêncio desde o tempo de “Fight to Win” e, sobretudo, acentua os sinais de identidade de seu autor: puro “afrobeat” trepidante na parte musical e letras incendiárias sobre a opressão que, no seu entender, sofre o continente negro. E tudo em inglês, para que ninguém se faça de desentendido.

“Claro que a música pode sacudir consciências e mudar uma parte do mundo”, argumenta. “Minhas canções não chegam a milhões de pessoas, mas a algumas centenas, e são eficazes. Quem quiser escutar será mais consciente de nossos problemas, da fome ou da violência nas ruas.” Ele sabe que na Europa opulenta o consideram um rebelde, por uma incômoda voz da consciência, mas não se importa. “Me chamo Femi Anikulapo Kuti e luto contra a corrupção e a injustiça”, resume. Sem medo de nada, nem de morrer. “Aqueles que assassinam ou ordenam crimes também morrerão um dia.”

As canções de “Day by Day” são homenagens a todos esses homens e mulheres africanos “que sofrem diariamente a miséria, a fome e a guerra, que rezam diariamente para levar adiante os seus e viver em paz”. E títulos como Demo Crazy, um jogo de palavras entre democracia e louco, deixam claro seu posicionamento ideológico. “Estou há quase 50 anos escutando discursos solenes que não servem para nada. As pessoas estão fartas de tanto blablablá; são os fatos que interessam.”

Quando se pede que identifique os culpados, os EUA sempre figuram no topo da lista. “Fingem doar dinheiro, mas deve chegar sempre para os mesmos. Os problemas reais, em vez de melhorar, pioram.” Contudo, sua lista de culpados é mais extensa. “As ONGs dizem estar trabalhando, mas não as vemos. A ONU organiza conferências inúteis. Os músicos ocidentais promovem concertos beneficentes sem nenhum resultado. Lembra daquela canção, We Are the World? Passaram mais de 20 anos e tudo continua igual.”

Dessa perspectiva, o jogo democrático lhe parece uma farsa. “Democratas e republicanos se alternam nos EUA, assim como liberais e conservadores na Grã-Bretanha. São sistemas bipartidários financiados pelos próprios governos, por isso se perpetuarão até o infinito. Vocês chamam isso de democracia, mas para mim parece hipocrisia.”

Admite, sim, que se encanta com a vitória de um afro-americano como Obama. “Os jovens americanos se cansaram da CIA, do racismo e da repressão policial. A revolução da Internet está ajudando as pessoas a serem mais informadas, independentemente de onde vivam.”

Aquela modorra vespertina já é só uma tênue lembrança depois de um quarto de hora de discurso torrencial. Na realidade, Kuti só sossega e até beira o laconismo quando, surpresa, fala de música. Diz que nesses sete anos melhorou sua técnica como intérprete, nega que a imorredoura figura paterna – Fela foi um dos músicos africanos mais importantes, assim como um farol na luta do continente – represente um fardo e só recupera o entusiasmo ao falar de Made Kuti, um de seus sete filhos (três naturais, quatro adotivos), que com apenas 13 anos já faz parte de Positive Force, a banda que o acompanha.

“Espero que acabe sendo um ótimo músico. Gosta muito de música, mas também de jogar bola, por isso ainda é cedo para prever que futuro o espera. Aquilo que o fizer feliz também fará a mim. É claro que não quero nenhum Michael Jackson na família…” Já perdida definitivamente a esperança de um sono reparador, Femi Anikulapo Kuti se encaminha para o teste de som em Viena. No domingo fará o mesmo nas ilhas Canárias.

El Pais

O Japão enforca sem alarde

Uma mudança no governo reinicia as condenações à morte. Embora pouco violento, o país ainda convive com prisões em delegacias, torturas e um sistema judicial que vê na confissão a prova definitiva do crime

Aurore Brien

O novo primeiro-ministro japonês Shinzo Abe mudou de estilo, mas não de política. Ao contrário de seu antecessor, ele não visitou o santuário Yasukuni, onde se encontram enterrados criminosos de guerra. Porém, enviou um presente como homenagem. No âmbito judiciário, a mudança de ministro da Justiça traduz-se por uma retomada da pena de morte. Seu predecessor a havia abandonado, em virtude de suas convicçőes budistas. Prisioneiros, muitas vezes detidos há décadas, foram enforcados nos últimos meses.

A despeito das pressőes internacionais e, recentemente, internas, o Japão continua a aplicar a pena de morte por enforcamento. O número de execuçőes diminuiu em relação aos anos 1990 (foram doze, desde 2003). Contudo, elas tendem a aumentar. Segundo um porta-voz do Ministério da Justiça, três detentos foram executados em 27 de abril de 2007. Quatro prisioneiros, entre eles dois septuagenários, tiveram o mesmo destino, em 25 de dezembro de 2006. Além disso, em um sistema judiciário acusatório, em que as confissőes são mais importantes do que as provas, o número de condenados à morte que esgotaram todos os recursos cresceu — passando de 53, em 2000, para 96 em 2006.

Com exceção da última execução, que aconteceu em período de sessão parlamentar, elas, assinadas pelo ministro da Justiça, são realizadas durante o período de recesso da Assembléia Legislativa. Evita-se, assim, todo o tipo de debate e publicidade. O lema do ministério da Justiça japonês parece ser “quanto menos se souber, melhor”.

De fato, “o tema é tão tabuizado, que a maioria dos japoneses não sabe como os condenados são executados”, explicou Maiko Tagusari, procuradora pública em Tóquio, durante um encontro nos escritórios da Federação de Associaçőes de Advogados do Japão (Nichibenren). Essa ignorância é reforçada pelos principais meios de comunicação, que não informam praticamente nada sobre o tema, temendo perder postos de trabalho nos clubes de imprensa (kisha kurabu). Esses clubes são ligados às grandes instituiçőes e permitem acesso prioritário às informaçőes, das quais têm, praticamente, o monopólio, em detrimento dos jornalistas independentes.

Chama-se o condenado de improviso, no dia de sua execução
Contudo, o procedimento da execução dos prisioneiros é denunciado por vários organismos, como a Liga Parlamentar para a Abolição da Pena de Morte, que foi criada em 1994, e conta 80 membros sem distinção de partido. O condenado à morte, que pode permanecer por mais de 25 anos na prisão, é chamado de improviso, na manhã de sua execução, sem a possibilidade de contactar seu advogado ou sua família. Esse foi o caso de um dos executados em dezembro de 2006. Ele estava no corredor da morte há mais de trinta anos [1]. Quando a condenação é considerada definitiva (após procedimentos de apelação), a execução pode ser realizada mesmo que o prisioneiro tenha requerido revisão de seu processo ou anistia. Os recursos não têm efeito suspensivo [2].

Nobuto Hosaka, deputado do partido social-democrata e secretário-geral dessa liga, pleiteia, desde 2003, uma moratória para a pena capital, propondo comutá-la pela prisão perpétua. Uma moratória e não a abolição, porque segundo Hosaka, “por enquanto, é realmente impossível obter uma emenda para a abolição da pena de morte”. A Liga Parlamentar é, aliás, apoiada pela Nichibenren.

Desde que a atual Constituição japonesa entrou em vigor, em 1947, as execuçőes foram suspensas apenas duas vezes. Entre 1989 e 1993, sob a influência do tratado de abolição da pena de morte, adotado pela ONU em dezembro de 1989 — e não ratificado pelo Japão. E, depois, durante quase um ano, de outubro de 2005 a setembro de 2006, sob o mandato de Seiken Sugiura, o ministro da Justiça anterior, que em virtude de seu credo budista, recusava-se a assinar ordens de execução.

As pressőes da União Européia, como as realizadas por uma delegação da Comissão Européia e presidida por Bernard Zepter, em dezembro de 2005, e pela ONU, continuam sem efeito. Um estudo realizado pelo governo japonês, em 1999, com 3.600 pessoas, cujo resumo foi publicado no Japan Times [3] revelou que 80% dos entrevistados eram favoráveis à pena de morte; consideravam a sentença como algo natural; ignoravam seu retrocesso em outros países; e alguns, até mesmo, acreditavam que a França ainda utilizava a guilhotina. A Liga Parlamentar tenciona tomar medidas para melhor informar a população e tentar mudar a mentalidade, como por exemplo, convidar uma estrela internacional que atraia a cobertura da mídia e seja um grande veículo de publicidade para os abolicionistas.

Para o Estado, “um castigo justo” não inclui “manter a paz de espírito”
A Nichibenren, por sua vez, tomou a iniciativa inédita de enviar um questionário a 79 condenados à morte, detidos em sete prisőes. Cinqüenta e oito responderam. Essa pesquisa, realizada em 2006, e cujos principais resultados foram publicados no Asahi Shimbum [4], revela suas condiçőes de vida. Um detido vive isolado em uma cela de quatro tatames (2 x 4 metros), com um vaso sanitário, uma pia e uma janela com vidro fosco, que o impede de ver o céu. Quando não tem nenhuma atividade, precisa ficar sentado no chão. É filmado 24 horas por dia e a luz fica acesa das 21h até as 6h30, para evitar suicídios. Não tem permissão para se aproximar de outros detentos. Toma sua ducha sozinho e pratica esporte 30 minutos, duas vezes por semana, também sozinho, dentro do quarto ou sobre o teto (2 x 5 metros), com apenas um pula-corda como material. De cada quatro detentos, um declara não receber nenhuma visita. Um deles afirmou que, no seu caso, já faz dezessete anos. Para aqueles que têm autorização, é permitida apenas a visita do advogado e da família.

As respostas à questão “o que você desejaria?” refletem uma necessidade de melhora imediata das condiçőes de vida cotidianas: poder olhar para o céu através das janelas das celas; fazer mais esporte fora da cela e em um espaço menos estreito; receber da família legumes ou frutas, visto que a maioria dos detentos sofrem de avitaminose, devido a uma alimentação deficiente e sem verduras cruas; poder apagar a luz durante a noite; falar com outros presidiários; receber a visita de um amigo; não ter sua correspondência censurada. “Graças à pressão da Nichibenren, uma lei que poderá ser adotada pela Assembléia Legislativa em junho, atenderá a algumas destas reivindicaçőes”, afirma Yuichi Kaido, advogado ativo na defesa dos direitos dos prisioneiros.

Para justificar o fato de os prisioneiros terem permissão de conversar apenas com a família, o poder público apregoa que, com tal medida, os condenados à morte teriam a possibilidade de “manter a paz de espírito” e de aceitar tranqüilamente seu “justo castigo” [5]. Muitos, entre eles, são obrigados a se divorciar e não têm mais nenhum contato com a família. Alguns decidem recorrer, por escrito, a algum membro de um grupo de apoio ou a uma pessoa que não tenha nada a ver com seus familiares. Mas toda correpondência é submetida à censura do presídio, não podendo exceder certo número de páginas, podendo ser destruída, se a autoridade considerá-la como fator de perturbação das condiçőes mentais do prisioneiro.

Confirmando o aparecimento de problemas mentais graves e de neuroses causadas por isolamento e longos períodos de detenção, Kaido citou o caso de um “condenado à morte que cometeu suicídio devido às condiçőes de detenção”. Segundo Kaido, a nova lei será mais amena, ao estipular que, se uma pessoa contribuir para o “equilíbrio mental” do condenado à morte, ela poderá receber autorização para visitá-lo ou para se corresponder por correio.

A reforma deverá também melhor garantir o caráter confidencial das conversas entre o advogado e o detento. Por enquanto, toda conversa é vigiada por um guarda da prisão, que toma notas e decide arbitrariamente a duração da entrevista (de 10 a 30 minutos). O ministério da Justiça afirma que, na maioria dos casos, as conversas não serão mais vigiadas, exceto “em caso de necessidade”. Os defensores dos direitos do prisioneiros esperam que a nova lei esclareça o termo ambíguo “necessidade”.

Justiça considera confissões, muitas vezes forçadas, como provas definitivas
Outra questão delicada no sistema judiciário japonês são as daiyo kangoku (substituto de prisão). Estas celas foram criadas em 1908, dentro das delegacias, para atenuar a falta de espaço nas prisões. Mesmo não havendo mais racionamento hoje em dia, elas continuam a ser utilizadas, o que cria uma confusão entre o sistema de interrogatório e o de detenção, provocando confissőes forçadas de suspeitos encarcerados. Esses não estão sob controle dos guardas penitenciários, mas dos policiais envolvidos nos processos de investigação.

“A Nichibenren solicita a abolição dos daiyo kangoku há 30 anos, e o Comitê Internacional dos Direitos Humanos, desde 1998”, explica o advogado. Contudo, a lei sobre as prisőes, revisada em 2005, manteve o procedimento, que permite à polícia deter um suspeito durante 23 dias consecutivos em uma cela de delegacia, e não em uma penitenciária.

De acordo com a lei, o acusado tem direito a não dar depoimento e ter um advogado, mas na prática tais direitos não são respeitados. Segundo Kaido, “os policiais querem a todo custo resolver o caso, sejam as confissőes verdadeiras ou falsas, porque, se elas são obtidas, o caso é em encerrado”.

Uma vez que na justiça japonesa a confissão é mais importante que a prova, o réu que fez uma confissão não pode mais negá-la perante o tribunal. Durante os interrogatórios, que podem durar mais de dez horas, é aplicada tanto a pressão psicológica como a violência física. O inquiridores perturbam o acusado mostrando-lhe artigos de jornais que o declaram culpado, pois a suposição de inocência é raramente considerada pela mídia. Alguns acusados apresentam cicatrizes ou hematomas no rosto. “Em 90% dos casos, o suspeito é declarado culpado”, afirmaram Yu Terasawa e Miyake Katsuhisa, dois jornalistas independentes que se encontram em Tóquio. É a confirmação do que Masami Ito — jornalista do Japan Times — declarou em uma entrevista.

Quando o acusado pode conversar com um advogado e denuncia os maus tratos sofridos, esse apresenta as confissőes ao tribunal. Com freqüência, os defensores correm risco, para provar que seu cliente sofreu maltratos. Kaido, por exemplo, explicou: “Embora seja proibido, se o acusado tem marcas, às vezes utilizo meu celular para tirar fotos dele”. É arriscado, mas ao menos a prova é aceita.

Enfim, fala-se em instituir os júris. Mas há resistências
A Federação de Associaçőes de Advogados do Japão pleiteia a introdução de câmeras de vídeo para vigiar todos os procedimentos, o que diminuiria particularmente os riscos de confissőes forçadas. Basta ler alguns artigos extraídos do capítulo “Investigação de Suspeitos” do Código de Educação da Polícia, mantido guardado, para compreender os desvios e o comportamento abusivo dos inquiridores. “A necessidade absoluta de obter as confissőes” está indicada de maneira bem clara no Código. Para isso é necessário “ser paciente e persistente; não sair da sala de interrogatório até que o suspeito confesse; desconfiar de suas afirmações; se você (policial) sair da sala, significa uma derrota; durante o interrogatório tem de se fixar o olhar no acusado.”

Oficialmente, Kaido não estabelece nenhuma relação entre o aumento do número de condenados à morte e a utilização dos daiyo kangoku. Ele salienta, todavia, que todos os condenados à morte que obtiveram uma revisão de seu processo e foram libertados por terem sido declarados inocentes haviam sido vítimas de confissões forçadas nos daiyo kangoku.

No entanto, parece haver uma luz de esperança nos olhos dos abolicionistas: a lei de 28 de maio de 2004, que entrará em vigor, em maio de 2009 (cinco anos de prazo, que permitem ao governo informar seus cidadãos e mobilizar o sistema judiciário), autoriza-os a participar dos processos de crimes dolosos, na qualidade de saiban-in (juízes não togados). Rodeados de três juízes profissionais, os nove jurados proferirão a culpabilidade ou a não-culpabilidade do acusado e definirão a sentença. Um sistema jurídico semelhante existiu até 1923, mas foi suspenso em 1943 por falta de uso, pois o acusado podia recusar a presença dos jurados — o que não mais será possível, a partir de 2009.

“Graças a esse sistema, os processos refletirão a opinião geral. Esperamos que a compreensão e a confiança do público na justiça sejam reforçadas. Isto acelerará os processos”, explica-se no ministério da Justiça. Mas o sistema saiban-in está longe de ser popular. A população não quer assumir a responsabilidade, nem perder seu tempo com processos criminais que “não lhe dizem respeito”. Conforme uma sondagem realizada em 2005, pelo governo japonês, os homens seriam mais inclinados a participar do que as mulheres, os urbanos mais do que as pessoas do meio rural, a classe patronal mais do que os empregados (classe média) e donas de casa.

Nos escritórios do Nichiberen, Kazuko Ito, encarregada do governo para promover o sistema saiban-in, tem consciência do atraso a ser superado. “Devemos educar e encorajar o povo a participar e compreender como se torna uma sentença justa”. Tal educação compreende prospectos, simpósios, drama (mini-séries para televisão), o apoio da mídia e a inserção de programas educativos nas escolas e colégios.

Por meio das histórias em quadrinho, difundir a presunção de inocência
Mas isto não faz com que as apreensőes desapareçam. Ao contrário do governo, o Nichibenren não é favorável à participação civil na decisão da pena. Com uma população majoritariamente favorável à pena de morte e uma propaganda afirmando que, graças ao saiban-in, será possível e natural aplicar a pena capital, há pouco espaço para revitalizar o princípio da presunção de inocência. Ele existe no papel, mas é, na prática, ignorado. Contudo, a associação não desiste e faz pressão. “Com a colaboração de Jinpachi Mori, famoso autor de mangás, tentamos midiatizar o sistema saiban-in e o princípio da presunção de inocência por meio das histórias em quadrinho, que são lidas pela totalidade da população japonesa”, declara Kazuzo Ito.

A Liga Parlamentar para a Abolição da Pena de Morte gostaria de instaurar também um debate geral, aberto a todos, em torno da questão “Por que a pena de morte deveria ser aplicada?”. Convidar intelectuais, pessoas conhecidas e especialistas com opiniőes divergentes, permitiria, segundo a Liga, criar verdadeiros debates. “Isto provaria ao público que a pena capital não é a única solução”, concluiu o secretário-geral da Liga.

Resta esperar pelos resultados da aplicação do sistema saiban-in para saber se o número de condenados a morte continuará a aumentar, ou se, ao menos, a novidade será benéfica aos partidários da moratória, visto que a abolição da pena de morte se encontra longe da pauta do dia. Para isso, ainda serão necessários alguns anos.

Le Monde diplomatic

A hegemonia do bem?

Obama tem esse privilégio de oferecer ao mundo um momento de hegemonia do bem. Só por isso ficará na história. Esse momento não durará muito. A realidade não costuma demorar quando sai para almoçar. Quando terminar, tudo vai depender do modo como o impulso do bem enfrentará o do mal.

Boaventura de Sousa Santos

A eleição do Presidente Obama é um acontecimento de global e transcendente importância para todos os que acreditam na possibilidade de um mundo melhor. Nos últimos quinze anos, dois outros acontecimentos adquiriram esta mágica qualidade: a eleição de Nelson Mandela como Presidente a África do Sul em 1994 e os quinze milhões de cidadãos que por todo o mundo sairam à rua em 15 de fevereiro de 2003 para protestar contra a invasão do Iraque. Muito distintos entre si, estes três acontecimentos têm em comum uma concepção pós-nacionalista do mundo. O mundo é a cidade natal da esperança e o que acontece num país diz respeito a todos os demais. Partilham também o serem testemunho da inesgotável criatividade da espécie humana, para o melhor e para o pior.

Os três acontecimentos foram considerados impossíveis quase até ao momento de nos baterem à porta. Partilham ainda a capacidade mágica dos seres humanos de celebrarem incondicionalmente a magia dos momentos de comunhão liberta dos contrangimentos da realidade, como se esta tivesse saído para almoçar e ainda não tivesse regressado.

Mas a relação entre a vitória de Obama e os dois outros acontecimentos é ainda mais profunda. Obama e Mandela são dois homens com fortes raízes na África e são orgulhosos das sua raízes. Mandela é, além de tudo, um líder de linhagem nobre Xhosa e Obama é membro da etnia Lou do Quenia (uma etnia discriminada antes e depois da independência), como refere com naturalidade no seu livro bestseller. As suas identidades foram tecidas pela memória do sofrimento injusto, da segregação, do colonialismo.

Mandela simboliza o caso extremo de uma maioria submetida a um cruel sistema da apartheid durante décadas. Obama, apesar de não ser ele mesmo descendente de escravos, simboliza o resgate do inominavél sofrimento que foi infligido aos afro-americanos, um sofrimento tão naturalizado pelos opressores que continuou até aos nossos dias sob a forma do racismo. Para além do voto dos brancos, Obama conquistou o voto esmagador dos cidadãos afro-descendentes e latino-descendentes e conquistou ainda o voto de uma minoria quase esquecida, os jovens.

A sua vitória é a vitória das minorias quando estas descobrem que, unidas, são a maioria. Nos últimos quinze anos, a África mostra-se ao mundo nos ombros destes dois gigantes e assim responde Basta! aos insultos do Banco Mundial e do FMI para quem a África é o continente infeliz onde o capitalismo global decidiu depositar multidões de seres humanos considerados descartáveis. Por uma via muito própria—selada no seu passado colonial – a África chega ao protagonismo mundial que nas duas últimas décadas conquistaram a Ásia e a América Latina (que também é Afro-latina e Indo-latina).

A relação entre a vitória de Obama e os milhões em protesto contra a guerra ilegal e injusta contra o Iraque não é menos relevante. As multidões em protesto não conseguiram impedir a guerra, tal como aconteceu com o senador Obama, um dos poucos que votou contra a guerra. Mas agora, como presidente dos EUA, tem nas suas mãos a possibilidade de pôr fim a essa guerra e, aliás, foi isso mesmo que prometeu aos seus eleitores. Os que votaram neles querem aliás que ele ponha fim à guerra gêmea que avassala o Afeganistão.

Neste domínio o seu estado de graça será curto, tanto no país como no mundo. O Afeganistão tem uma memória e uma história exaltantes de lutas vitoriosas contra invasores estrangeiros bem mais poderosos militarmente. Não há armas que verguem este país. Tudo indica que Obama privilegiará a diplomacia e que entenderá que a Al-Queda não pode ser destruída militarmente. Pode, isso sim, ser isolada pela paz e pela cooperação não colonialista. A vitória de Obama significa que, afinal, os protestantes não protestaram em vão.

A menção conjunta de três acontecimentos que visam devolver a humanidade ao melhor de si mesma pode ser surpreendente já que a vitória de Obama parece ter um significado global incomparavelmente superior aos dos outros dois. Este desequilíbrio é o resultado do privilégio hegemônico dos EUA no mundo de hoje, um privilégio em declínio, sobretudo no domínio econômico, mas por enquanto muito forte. Para o bem e para o mal. O 11 de Setembro “transformou o mundo” quando outras populações do mundo sofrem anualmente ataques tão injustos, tão criminosos e muitas vezes mais devastadores do que o ataque às torres gêmeas, sem que isso mereça mais de uma pequena referência noticiosa. Da mesma forma, um pequeno país, o Paraguai, elegeu, em 2008, um bispo, teólogo da libertação, para libertar o país da mais odiosa oligarquia sem que tal merecesse referência detalhada na imprensa internacional.

Obama tem esse privilégio de oferecer ao mundo inteiro um momento glorioso de hegemonia do bem. Só por isso ficará na história. Esse momento não durará muito. A realidade não costuma demorar muito quando sai para almoçar. Quando terminar, tudo vai depender do modo como o impulso do bem enfrentará o do mal. E tudo vai começar nos EUA, um país contraditório e sofrido. Contraditório, porque é o mesmo povo que há oito anos “elegeu” W.Bush, o pior presidente da história dos EUA. Sofrido, porque a estupidez, a avareza e a corrupção que dominaram a Casa Branca deixaram o país à beira da falência financeira e moral. Esta última foi rapidamente resgatada por Obama. A primeira será muito mais difícil de resgatar.

Carta Maior

Cientistas detectam um gás de efeito-estufa dotado de um poder de aquecimento muito forte

Stéphane Foucart

Pesquisadores americanos acabam de medir, pela primeira vez, o teor atmosférico de um poderoso gás de efeito-estufa. Ora, este não havia sido levado em conta por ocasião das negociações internacionais visando à redução das emissões – ao passo que o seu poder de aquecimento é 17.000 vezes mais elevado que o do CO2. O trifluoreto de nitrogênio (NF3) está presente na atmosfera em concentrações tão reduzidas que até então, havia sido impossível avaliá-lo.

Este obstáculo foi aplainado por Ray Weiss e seus colegas da Scripps Institution of Oceanography (a Instituição Scripps de Oceanografia, da Universidade da Califórnia, em San Diego), cujos resultados deverão ser publicados na sexta-feira, 31 de outubro, na revista especializada “Geophysical Research Letters” (Cartas da Pesquisa Geofísica). Segundo eles, a concentração atmosférica de NF3 limitava-se, em julho, a 0,454 partes por trilhão (ppt) e participava então numa proporção de até 0,15% apenas do efeito-estufa antrópico (produzido pelo homem).

Entretanto, ao estudarem as amostragens da troposfera (a camada atmosférica mais próxima da superfície terrestre, situada de 10 km a 12 km de altitude), que foram colhidas desde 1978, os autores desses estudos conseguiram medir a velocidade na qual a concentração de NF3 vem aumentando na atmosfera: naquele ano, esta não passava de 0,015 ppt. No espaço de trinta anos, a concentração deste gás, portanto, foi multiplicada por um fator 30 – ou seja, um crescimento quase exponencial no decorrer deste período.

Existe um outro motivo para preocupação: o tempo de residência na atmosfera do NF3 é cinco vezes maior que o do gás carbônico, que já é da ordem de um século…

Um teor subestimado

As razões que explicam essa disparada se encontram em recentes alterações nas práticas industriais. Com efeito, a produção de trifluoreto de nitrogênio está intimamente vinculada a certas produções de circuitos integrados e de telas de cristais líquidos.

O NF3 é também utilizado como substituto para certos hidrocarbonetos perfluorados (PFC), os quais, por sua vez, já estão incluídos na lista dos gases de efeito-estufa que foram levados em conta nas negociações internacionais (dióxido de carbono, metano, PFC, óxido nítrico, etc.).

Os pesquisadores fazem uma outra constatação que evidencia toda a dificuldade para se lutar contra o aquecimento: o NF3 é necessário para a produção de elementos das células fotovoltaicas – cuja utilização é reputada como benéfica na luta contra o efeito-estufa antrópico.

“Esses primeiros valores de NF3 que foram medidos na atmosfera mostram que as concentrações atuais são significativamente mais elevadas do que havia sido previsto, com base apenas nos dados fornecidos pelos industriais”, acrescentam os autores da pesquisa.

As extrapolações que haviam sido feitas em função dos dados industriais de 2006 apontam, por exemplo, uma concentração atmosférica quatro vezes inferior àquela que foi medida no decorrer do mesmo período…

Portanto, os pesquisadores recomendam, na conclusão do seu estudo, que o NF3 seja “acrescentado na lista dos gases de efeito-estufa perfluorados, cuja produção é repertoriada e cujas emissões são regulamentadas”, a partir de 2012.

Le Monde

As bombas atômicas desaparecidas da Guerra Fria

Em um desastre de avião em 1968, as forças armadas dos Estados Unidos perderam uma bomba atômica no gelo ártico da Groenlândia. Mas este não foi um caso isolado. Acredita-se que até 50 ogivas nucleares tenham desaparecido durante a Guerra Fria, e nem todas elas estão em áreas desabitadas

Benjamin Maack

Naquele ano, ainda era meio cedo para nadar no Mediterrâneo. Mas no início de março de 1966, Manuel Fraga Iribarne, que na época era o ministro espanhol das Informações, e Biddle Duke, o embaixador norte-americano em Madri, juntamente com as respectivas famílias, mergulharam nas águas geladas da Costa Cálida. Jornalistas de todo o mundo reuniram-se na praia da pequena vila de Palomares para noticiar o banho de mar de primavera das duas famílias. Tal interesse seria surpreendente, se não fosse pelo fato de uma bomba de hidrogênio encontrar-se no fundo do oceano a apenas alguns quilômetros dali. Uma bomba dotada de uma potência explosiva mais de mil vezes superior a daquela que arrasou Hiroshima.

Apenas algumas semanas antes, em 17 de janeiro de 1966, o pior acidente com arma nuclear de toda a Guerra Fria tinha ocorrido na costa sudeste da Espanha. Durante uma manobra de abastecimento aéreo, um bombardeio B-52 e um avião-tanque KC-135 norte-americanos chocaram-se em pleno ar a uma altitude de 9.000 metros, e ambos os aviões explodiram em uma gigantesca bola de fogo sobre Palomares. Havia quatro bombas de hidrogênio no B-52. Uma caiu, intacta, em um campo de tomates perto da vila. Em duas outras o disparador não nuclear detonou, fazendo com que fragmentos e poeira de plutônio caíssem na área onde ocorreu o impacto. A quarta bomba caiu no mar, em algum lugar ao largo da costa, e ficou enterrada em vários metros de lodo. Mas onde exatamente ela caiu?

Nas semanas que se seguiram ao acidente, Palomares parecia o cenário de um filme sobre o apocalipse. Na terra, homens usando roupas de proteção e máscaras azuis manuseavam contadores Geiger para procurar indícios de radiação no solo. Os campos de cultivo foram interditados, e uma safra inteira de tomates apodreceu na plantação. O governo dos Estados Unidos escavou os campos e removeu 1.400 toneladas de terra. O solo contaminado foi transportado para os Estados Unidos para ser eliminado. Dezenas de navios de guerra norte-americanos patrulharam a área litorânea na qual um pescador afirmou ter visto a bomba cair na água. A recuperação da bomba nuclear, que estava em uma profundidade de 800 metros, demorou 81 dias. Expressando perplexidade com os acontecimentos na Espanha, um artigo do diário alemão de Hamburgo, “Abendlatt”, disse o seguinte: “Mais do que qualquer cenário hipotético, este incidente deixa claro o que significa atualmente ‘viver com a bomba’”.

A bomba atômica perdida da Groenlândia
A possibilidade de haver uma bomba atômica perdida, e possivelmente danificada, em algum ponto do fundo do mar é realmente terrível. Atualmente a BBC está provocando um rebuliço com o relato da perda de uma bomba atômica norte-americana em 1968. Quando um bombardeiro norte-americano B-52 caiu no gelo ao largo da costa da Groenlândia, os explosivos convencionais das suas bombas detonaram, fazendo com que uma grande área ficasse contaminada com radiação de plutônio. Mas o que o governo dos Estados Unidos manteve em segredo durante décadas foi que o trabalho de reconstrução feito com os componentes das bombas encontrados no local revelou que faltava uma ogiva nuclear. Ao que parece ela perfurou o gelo e submergiu na Baía Estrela do Norte. A bomba jamais foi encontrada.

“A perda de bombas atômicas não é um acontecimento tão raro quanto seria de se esperar. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos confirmou a perda de 11 bombas atômicas”, afirma Otfried Nassauer, especialistas em armamentos nucleares e diretor do Centro de Informações sobre Segurança Transatlântica, em Berlim. “Acredita-se que até 50 armas nucleares em todo o mundo tenham sido perdidas durante a Guerra Fria”.

A maioria dessas armas extremamente perigosas ainda está no fundo do oceano. Em abril de 1989, um incêndio a bordo do submarino nuclear russo Komsomolez fez com que a embarcação afundasse em um local do Atlântico Norte cuja profundidade é de 1.700 metros, levando consigo dois torpedos e as suas ogivas nucleares. Em 22 de maio de 1968, um outro submarino nuclear, o USS Scorpion, afundou em uma região de 3.300 metros de profundidade cerca de 320 milhas náuticas ao sul do arquipélago dos Açores. Havia duas ogivas nucleares a bordo. Devido às grandes profundidades, nem os armamentos nem os reatores nucleares desses submarinos foram recuperados.

“Flecha quebrada” absurda
Um número muito maior de bombas atômicas desapareceu em desastres de avião sobre o mar aberto. “No período inicial da Guerra Fria, as aeronaves não contavam com autonomia suficiente para atravessar o Oceano Atlântico sem reabastecimento”, explica Nassauer, especialista em armas nucleares. “Alguns bombardeiros colidiram com os aviões de abastecimento, e outros simplesmente não conseguiram fazer contato com estes aviões-tanques, e, após ficarem sem combustível, caíram no mar”.

Entre o final da década de 1950 e meados da de 1960, o período mais crítico da Guerra Fria, bombardeiros norte-americanos armados com bombas nucleares estavam no ar 24 horas por dia, 365 dias por ano. As quatro rotas principais destas aeronaves passavam sobre a Groenlândia, a Espanha e o Mediterrâneo, o Japão e o Alasca. A freqüência dos acidentes só diminuiu quando os bombardeiros tornaram-se capazes de atravessar o Atlântico ou o Pacífico sem reabastecimento.

Provavelmente a mais absurda “flecha quebrada” (“broken arrow”, o código norte-americano para acidentes envolvendo armas nucleares) ocorreu em 5 de dezembro de 1965, a bordo do USS Ticonderoga. O porta-aviões ia do Vietnã para Yokosuka, no Japão, quando um caça-bombardeiro que saía de um dos gigantescos elevadores que transportam as aeronaves do hangar interno ao convés da embarcação simplesmente mergulhou no mar. O piloto, o avião e a bomba nuclear que estava a bordo afundaram a uma profundidade de cinco quilômetros e jamais foram encontrados.

Esse incidente também foi mantido em segredo durante vários, anos, em parte porque, quando foi finalmente divulgado publicamente em 1981, ele provou que os norte-americanos mantinham mesmo armas nucleares no Vietnã. O episódio revelou também que os Estados Unidos violaram um tratado com o Japão, segundo o qual os norte-americanos concordaram em não trazer nenhuma arma nuclear para o território japonês.

Fusíveis queimados
A maneira displicente como os Estados Unidos lidam com os seus brinquedos mais perigosos não se limita a países estrangeiros. Na verdade, sete da 11 ogivas nucleares que estão oficialmente desaparecidas foram perdidas em território dos Estados Unidos. Em 5 de fevereiro de 1958, o piloto de bombardeiro Howard Richardson teve que lançar para fora da aeronave a bomba de hidrogênio que levava após ter se chocado com um avião de caça. A seguir, a bomba desapareceu nas águas rasas de Wassaw Sound, a cerca de 20 quilômetros de Savannah, na Geórgia, uma cidade de 100 mil habitantes. Richardson, um piloto experiente, mal conseguiu aterrissar a sua aeronave na pista próxima da Base de Hunter, do Exército dos Estados Unidos.

A tripulação do B-52 que explodiu em 24 de janeiro de 1961 devido a um sistema de combustível defeituoso teve menos sorte. Antes da aeronave partir-se, os homens conseguiram lançar para fora a carga perigosa. Uma das duas bombas de hidrogênio caiu de pára-quedas, sobre uma árvore, mas a outra foi parar em uma área pantanosa perto da pequena cidade de Goldsboro, na Carolina do Norte, onde afundou no lodo até uma profundidade estimada em 50 metros. A bomba permanece até hoje lá. O local do acidente continua sendo uma zona militar restrita.

Mas o que tornou este incidente famoso foi a bomba que caiu na árvore. Cinco dos seus seis fusíveis projetados para impedir uma detonação falharam, e apenas o último evitou uma explosão nuclear. Após este quase desastre, os sistemas de segurança nas armas nucleares dos Estados Unidos foram revistos, e Washington pediu à União Soviética que fizesse o mesmo.

Terroristas poderiam encontrar uma bomba nuclear?
Até hoje, estes dois incidentes são um tópico de muita polêmica entre especialistas, oficiais militares, adeptos das teorias conspiratórias e cidadãos preocupados de Savannah e de Goldsboro. Será que as duas bombas ainda representam perigo para os moradores dessas cidades? “É muito improvável que as bombas que estão no fundo do oceano explodam”, diz Nassauer. “No entanto, talvez o risco seja maior no caso das bombas perdidas em terra. Mas praticamente não se sabe nada a respeito da probabilidade de tais bombas explodirem espontaneamente”.

Um temor bem diferente surgiu após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. O que aconteceria se terroristas adquirissem uma das bombas perdidas? Segundo Nassauer, este é um medo sem fundamente, já que nem as forças armadas, após utilizarem todos os meios de que dispõem, conseguiram recuperar as bombas. “Várias dessas armas estão em locais que ainda são completamente inacessíveis com os recursos disponíveis atualmente”, diz Nassauer. Os perigos reais residem na área em torno do local de um acidente, e entre eles está a possibilidade de explosão no momento do acidente e os efeitos da corrosão, que poderiam permitir o vazamento de radioatividade no decorrer das décadas.

Em Palomares, por exemplo, o pesadelo continua mais de quatro décadas depois. Depois do acidente essa cidadezinha sonolenta tornou-se parte da próspera indústria turística da região. Mas, em 2004, duas áreas contendo solo radioativo foram descobertas no local de futuros campos de golfe e hotéis de luxo. Estudos amplos do solo revelaram que outras áreas continuam contaminadas. O governo espanhol confiscou a terra afetada, e em 2009 tropas norte-americanas serão novamente enviadas para descontaminar a área. Mais de 40 anos após a primeira bomba ter caído em Palomares, milhares de toneladas de terra contaminada serão mais uma vez transportadas para os Estados Unidos.

Der Spiegel

A Fazenda Brasil

Henrrique Cortez

Há quem estranhe as, aparentemente, desencontradas declarações dos ministros Mangabeira e Stephanes, em relação às políticas ambientais do governo Luiz Inácio da Silva. Mas o desencontro não existe, porque apenas refletem o que o governo realmente pensa e deseja.

O ministro Roberto Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) disse que o Brasil é o país com mais “proibições ambientais” no mundo e que o conjunto de restrições em vigor precisa ser “debatido com clareza e coragem”, para que se possa “viver, produzir e preservar a Amazônia”.

Por sua vez, o ministro Reinhold Stephanes afirmou que cerca de 70% da área do território brasileiro não pode ser cultivada por algum motivo legal, seja por reservas florestais, indígenas ou legislações que impedem o plantio comercial.

A senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, demonstrou sua indignação a estas posições, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, de 11/08/2008, no qual diz “Pergunto: o problema seria o suposto excesso de leis ambientais ou a resistência do velho vício patrimonialista que mistura o público com o privado e se imagina acima do interesse coletivo?”. E afirma: “Se o ministro expressa alguma nova visão do governo federal sobre política ambiental, trata-se de enorme contradição e retrocesso”.

Na verdade, em relação ao governo, apenas as afirmações da senadora Marina Silva merecem reparos, porque os ministros não expressam alguma nova visão do governo federal sobre política ambiental, mas apenas a mesma política de sempre, inclusive a política ambiental de quando a senadora estava ministra.

O governo, este e todos os anteriores, sempre demonstrou permanente submissão aos interesses do agronegócio de exportação, principalmente os pecuaristas e sojicultores que, aliados aos grandes grupos econômicos e financeiros, apenas percebem os ativos ambientais como recursos econômicos a serem apropriados. O manejo sustentável dos recursos naturais e a agricultura familiar não estão na agenda de compromissos dos grandes interesses econômicos e, por conseqüência, também não estão na agenda do governo.

O governo mantém a opção pelo incentivo à produção e exportação de produtos primários como cláusula pétrea da economia nacional. Como em outras áreas, é a versão século XXI do modelo colonial, no qual as colônias exportavam produtos primários (com pequeno valor agregado) para beneficiamento pelas metrópoles, as quais os reexportavam (com grande valor agregado). Foi assim que as colônias financiaram o desenvolvimento dos países colonialistas e ainda é assim que o terceiro mundo financia os países que se dizem desenvolvidos.

Esta pauta colonial de exportação está na origem de tantos desencontros e ambigüidades, tal como a encontrada na produção do biodiesel, cujo programa foi lançado com o argumento de que seria a “redenção” da agricultura familiar no norte e nordeste do país. No entanto, o biodiesel é majoritariamente produzido a partir da soja (70% do total), passando ao largo da agricultura familiar. Mostrou-se como mais um projeto para beneficiar os mesmos de sempre, como sempre.

Precisamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, alumínio primário, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia.

Ou questionamos e encontramos um outro modelo de desenvolvimento ou continuaremos no modelo colonial de exportação de produtos primários. É o que fazemos desde o descobrimento (apenas mudamos de senhores ao longo do tempo) e ainda não chegamos lá.

Parafraseando o jornalista e ambientalista Washington Novaes, se devastação e exploração irracional de recursos naturais levasse ao desenvolvimento, já seríamos o mais rico e desenvolvido país do mundo.

MST

Estamos vivendo uma mudança de regime financeiro?

Os choques do ano passado – trinta anos depois da última grande mudança – e os acontecimentos deste ano deram suporte à conjectura de que estamos testemunhando um terceiro regime de mudança no sistema financeiro global, impulsionado por uma perda geral de confiança no modelo anglo-americano das transações orientadas do capitalismo e da economia neoliberal que o legitima. A análise é de Robert Wade.

Robert Wade

Desde os anos 30 o mundo não-comunista experimentou duas mudanças substantivas o suficiente nas regras econômicas internacionais para serem chamadas de “mudanças de regime”. Elas foram separadas por mais ou menos um intervalo de trinta anos: o primeiro regime, caracterizado pelo Keynesianismo e governado pelos acordos internacionais de Bretton Woods, durou de 1945 a 1975; o segundo começou depois da queda do regime Bretton Woods, e durou até a Primeira Crise Mundial da dívida, de 2007 a 2008. Este último regime, que ficou mais conhecido por neoliberalismo, Consenso de Washington (1) ou consenso da globalização, centrado na noção de que todos os governos deveriam liberalizar, privatizar, desregular – prescrições que têm sido de tal forma dominantes no âmbito da economia global que constituem, nas palavras e Stuart Mill, “o sono profundo de uma opinião irreversível”.

Os dois regimes diferem no papel que atribuem ao estado, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. O regime Bretton Woods favoreceu o “liberalismo embutido”, como ficou depois sendo conhecido, que permitia o movimento de capitais em várias economias, mas o disciplinava no quadro de uma série de limites estabelecidos através de um processo político. O regime neoliberal que o sucedeu, particularmente associado a Reagan e a Thatcher, trouxe de volta as regras do laissez-faire abraçadas pelo liberalismo clássico e, desde esse paradigma, prescreveu um passo atrás na “intervenção” estatal e uma expansão do capital mercantil na vida econômica. Porém, deu mais ênfase que o liberalismo clássico à idéia de que a competição não é o estado “natural” dos negócios, e de que o mercado pode produzir resultados sub-otimizados onde quer que os produtores tenham o poder do monopólio (como observou Adam Smith, as “pessoas de uma mesma atividade de mercado raramente se juntam sem planejar uma conspiração contra o público”).

O neoliberalismo aceitou conceder a intervenção do estado não apenas para fornecer uma escala de bens públicos que não poderiam ser rentáveis no contexto da competitividade lucrativa (como o fez o liberalismo clássico), mas também, enquanto “neo”, para estruturar e reforçar as regras de competição, privilegiando interesses privados para dar conta desse objetivo. Seu principal parâmetro para julgar o sucesso dos negócios era o valor do acionista, e a sua noção fundamental de interesse econômico nacional era a eficiência enquanto determinada pela competição numa economia completamente aberta aos mercados mundiais; não deveria haver barreiras “artificiais” entre os preços de mercado nacionais e os mundiais, tais como impostos e subsídios às indústrias nacionais. É claro, no nível político, muitas modificações táticas e pragmáticas foram feitas para realizar esses princípios, susbsidiando corporações, canalizando mais saúde para os ricos e estabilizando a economia e a sociedade com políticas keynesianas sub-reptícias (2). Porém, no nível das normas, a diferença estava clara.

No campo da finança as prescrições neoliberais foram justificadas por “hipóteses de mercados eficientes”, que exigiam os preços de mercado contivessem todas as informações relevantes e que a transparência dos mercados fosse ininterrupta – tornando desequilíbrios contínuos, como bolhas, improváveis; e fazendo da ação política para interrompê-los desaconselhável, à medida que constituiria “repressão financeira”. Milton Friedman e a Escola de Chicago nomearam essa teoria; mas, como disse Paul Samuelson, “Chicago não é um lugar, mas um estado de espírito”, e ela começou a prevalecer nos ministérios das finanças, bancos centrais e nos departamentos de economia das universidades, em todo o mundo não-comunista.

Os choques do ano passado – trinta anos depois da última grande mudança – deram suporte à conjectura de que estamos testemunhando um terceiro regime de mudança, impulsionado por uma perda geral de confiança no modelo anglo-americano das transações orientadas do capitalismo e da economia neoliberal que o legitima (e pela perda da autoridade moral norte-americana, agora desvalorizada em boa parte do mundo). As respostas governamentais a essa crise sugerem fortemente que estamos entrando na segunda etapa do “duplo movimento” de Polanyi, o padrão recorrente no capitalismo por meio do qual (para tornar mais simples) um regime de mercados livres e de crescente transformação de mercadorias em commodities (commodification) gera tanta angústia e deslocamento que chega rapidamente a impor a regulação negociada de mercados e a reversão do regime de commodities (de-commodification) (portanto, “liberalismo embutido”) (3). O primeiro passo do atual duplo movimento foi o longo reinado do neoliberalismo e do seu consenso da globalização. O segundo ainda não tem nome, e talvez venha a se tornar um período marcado mais pela falta de acordo do que por qualquer consenso.

Está em curso uma certa precaução. Há um recorrente ciclo de debates diante da explosão da crise financeira, com um excesso inicial de propostas radicais que dão lugar a uma confusão crescente, seguida pela retomada da normalidade dos negócios. Há dez anos, as crises do sudeste asiático, da Rússia e do Brasil, em 1997-98 contaminaram o Alto Comando da finança mundial com pânico, e foram seguidas por uma vigorosa discussão em torno de uma “nova arquitetura financeira internacional”. Mas, uma vez que se tornou claro que o coração do Atlântico não seria afetado, a conversa radical rapidamente retrocedeu. O resultado foi o deslizamento de um novo ou revigorado corpo internacional público e privado compromissado com a formulação de padrões de boa prática na governança corporativa, supervisão bancária, contabilidade financeira, disseminação de dados e coisas do gênero (4). Esses esforços desviaram a atenção da questão da re-regulação, e o setor financeiro no Ocidente tornou-se capaz de assegurar que as iniciativas governamentais não incluiriam novos constrangimentos, como limites sobre alavancamento e sobre novos produtos financeiros. Não houve mudanças de normas no que concerne ao desejo de uma finança claramente regulada.

Tremores Sistêmicos

Quando o Bank of International Settlements (BIS) (5) disse, no seu relatório anual em junho de 2007, que “anos de política monetária desregulada inflaram uma gigantesca bolha global de crédito, deixando-nos vulneráveis a outra depressão nos moldes dos anos 30”, sua análise foi amplamente ignorada pelas empresas e pelos reguladores, não obstante a reputação de cautela do bis. Até o mês de maio deste ano alguns comentaristas ainda estavam argumentando que a crise era uma mancha, análoga a uma distensão muscular num atleta campeão que poderia ser curada com algum descanso e fisioterapia – como oposto a um ataque cardíaco num fumante de 60 cigarros por dia cuja cura requereria cirurgia e grandes mudanças no estilo de vida.

Um operador de títulos descreveu essa situação como “o equivalente financeiro do Reino do Terror durante a Revolução Francesa”.

Os eventos de setembro de 2008, contudo, tornaram difícil evitar a conclusão de que entramos numa nova fase. As condições do mercado financeiro na maioria dos países da OECD (6) afundaram ao mais baixo nível desde a quebra dos bancos de 1932, cujo fator individual mais poderoso foi a retração econômica de 1929 e a quebra do mercado de ações que se tornou a Grande Depressão. (Entre 1929 e 1933, algo como 11mil bancos nacionais e estaduais faliram nos EUA). Um operador de títulos descreveu essa situação como “o equivalente financeiro do Reino do Terror durante a Revolução Francesa” (7). Nessas circunstâncias, a hipótese dos mercados eficientes e as prescrições dela derivadas têm sido completamente desacreditadas.

Em particular, a segunda quinzena de setembro deste ano assistiu a não apenas um, mas a três convulsões “game-changing” no mais sofisticado sistema financeiro do mundo. Isso não inclui a nacionalização de Freddie Mac e Fannie Mae: por mais gigantes que sejam, essas “instituições quase-governamentais” tiveram uma confirmação de uma rede pública de proteção. Antes, a primeira reviravolta foi preservar mais dois dos cinco bancos de investimentos e grandes corretoras de Wall Street, seguindo o resgate anterior do Bear Stearns – em cada caso seguido de bancarrota de bancos. Só o Morgan Stanley e o Goldman Sachs permanecem de pé – por enquanto – e eles alteraram seu status para o de holding de companhias bancárias, o que significa que estarão sujeitos a uma regulação mais rigorosa do que anteriormente.

A bancarrota do Lehman Brothers no meio de setembro reteve fundos de mega-investidores, espalhou pânico pelos mercados financeiros e despencou o fluxo de crédito mesmo para negócios regulares. Isso poderia ter tido consequências muito mais graves, à medida que o Lehman tinha um grande volume de negócios de derivativos, e que jamais tinha havido um default de uma contraparte em contratos de derivativos em nada dessa escala.

A perda de três dos cinco gigantes fundamentalmente muda a política da finança internacional, porque esses bancos de investimento são atores imensamente poderosos no processo político – não apenas nos EUA mas também na União Européia. Das suas bases em Londres, os bancos de investimento norte-americanos deram a forma ao conteúdo da legislação financeira em Bruxelas. A vantagem de seu desaparecimento é, então, que ele enfraquece um dos maiores obstáculos à re-regulação financeira.

A segunda mudança de setembro foi a injeção de liquidez do Tesouro americano na AIG com uma promessa de 85 bilhões de dólares; não apenas a americana mas a maior ajuda do mundo. Como permaneceu fora do sistema bancário, essa ajuda quebrou a barreira de proteção separando intermediários financeiros da economia “real”. Agora, é provável que o contágio se espalhe para outras seguradoras, e para milhares de fundos hedge altamente alavancados, enquanto períodos de lock in (8) se encerrem no fim dos próximos dois trimestres e os investidores se tornem capazes de sacar seus fundos. A terceira grande convulsão ultrapassou inclusive a segunda: na mais dramática operação de resgate governamental da história, o Tesouro norte-americano anunciou um plano para comprar 700 bilhões de títulos tóxicos de bancos com problemas, num preço muito acima do valor corrente de mercado. Notavelmente, esse resgate foi improvisado quase no ato – a proposta original que o secretário redigiu tinha apenas três páginas digitadas –, indicando que o Tesouro tinha sido convencido de que poderia haver muito tumulto sem um plano de contingência.

Como se propôs, dar-se-ia a Wall Street quase acesso irrestrito à receita pública, a baixos custos. No fim de setembro a ajuda foi rejeitada pela Câmara de Deputados e depois modificada pelo Senado, ambos partes do alarmado Congresso diante da fúria pública num ano de eleição. A versão aprovada no Congresso no começo de outubro promete reverter grande parte dos lucros futuros em receita pública, a despeito do uso da receita tributária para socializar as perdas do setor financeiro – uma distribuição sem precedente para esses responsáveis pela crise, em primeiro lugar.

O prejuízo na economia real é crescente, medido pelo aumento do desemprego – nos EUA, o total de desempregados cresceu 2.2 milhões nos últimos 12 meses.

As quedas nos mercados imobiliários nos EUA e na Grã Bretanha, enquanto isso, continuam se dirigindo para uma descida em espiral. Os mercados futuros dos EUA estimam em no máximo 33% as perdas nos preços no período (baseados no Caso Shiller Home Price Index), durante um ano, ainda. O Reino Unido, que desde 2000 teve a segunda maior bolha imobiliária depois da japonesa dos anos 80, pode experimentar uma queda de 50% no máximo, no período; ainda assim os preços das casas, como rendimento múltiplo, ficariam mais altos do que em 1997. Enquanto a contração do crédito se alastra por regiões e setores, o prejuízo na economia real é crescente, medido pelo aumento do desemprego – nos EUA, o total de desempregados cresceu 2.2 milhões nos últimos 12 meses – e pela diminuição da velocidade do consumo; ainda que seja surpreendente como essas coisas estão ocorrendo gradualmente, desde 2007. Do mesmo modo como, no início de outubro de 2008, a crise varreu muitos bancos continentais europeus, que antes se orgulhavam de terem escapado do tumulto.

Até agora, contudo, a crise permaneceu no centro da economia do Atlântico, e teve pouca repercussão no leste asiático. Na verdade, é notável que a extrema iliquidez do mercado ocidental coexista com poupanças transbordantes e trocas de reservas estrangeiras no leste asiático e nas petro-economias da Rússia e do Golfo. Uma outra característica da crise atual que a torna sem precedentes é o fato de que o Ocidente esteja apostando suas fichas para recobrir o rápido crescimento no mundo em desenvolvimento, especialmente no leste asiático – e que os bancos ocidentais, lutando para evitar a bancarrota, estejam buscando injeções de capital desses países, e dos fundos soberanos de riqueza nacional de estados como China, Dubai e Cingapura, entre outros.

O Japão, a segunda maior economia do mundo, procura passar relativamente bastante incólume. Há poucos sinais de aperto no crédito, ainda que o crescimento econômico gire em torno de zero. A explicação rápida para isso é que os bancos japoneses permanecem muito cautelosos depois da amarga experiência dos anos 90, quando foram obrigados a limpar os estragos da bolha dos 80. Eles vêm sendo criticados no país e em outros lugares por estarem segurando muito caixa e muitíssimo pouco débito; um exemplo recente do Herald Tribune Internacional torna claras as normas que têm dominado a política econômica anglo-americana e global ao longo das últimas três décadas:

“O país tem 14 trilhões de poupanças familiares…Esta bênção também tem sido uma maldição para os investidores…A riqueza do Japão é protegida das pressões para encontrar padrões globais standards de crescimento econômico e lucratividade corporativa. É isso o que permite ao país aceitar um crescimento próximo a zero desde os anos 90 e o que permite a sobrevivência das práticas corporativas japonesas, como valorizar empregados e clientes, antes dos acionistas.” (9)

Já a China é outra história. Desde 1980 vem experimentando muitos booms seguidos de depressões agudas; a despeito do crescimento fenomenal na sua performance econômica na última década, uma depressão futura é bastante possível. Uma potencial fonte de problema é a acumulação de preços de vastas quantias de ativos segurados cujo valor tem caído precipitadamente; em junho de 2007, dados do tesouro norte-americano estimavam o valor desses ativos em 217 bilhões de dólares.

Outro é a alta proporção de empréstimos não-pagos nos bancos chineses –mais de 6% no último trimestre de 2007, de acordo com dados oficiais. Uma terceira é a alta inflação, especialmente no preço dos alimentos. Outros investidores do leste e sudeste asiático também estão pensando em segurar grandes quantidades de títulos tóxicos. Isso sugere que pode haver, cedo ou tarde, consequências inesperadas do leste asiático para os EUA e a Europa, gerando outro desvio para baixo.

Causas da quebra

Se as guerras no Iraque, Kosovo e Afeganistão foram uma expressão do triunfalismo da América pós-guerra fria, a finança globalizada, lançada na administração Clinton, foi outra. A grande imprensa gabou-se de que o sistema financeiro norte-americano tinha quebrado a barreira do som e agora operava numa nova dimensão, como se estivesse empreendendo mais e mais apostas impressionantes. Eles estavam certos ao enfatizar a novidade do modo no qual a finança operava nos anos 2000, e no sentido de que não havia limites. As causas profundas, contudo, repousam nos desenvolvimentos econômicos. Na maior parte do mundo ocidental a taxa de lucro das corporações não-financeiras caiu exorbitantemente entre 1950-73 e 2000-06 nos EUA, em quase um quarto. Em resposta, empresas “investiram” fortemente na especulação financeira e o governo dos EUA ajudou a compensar os resultados deficitários dos investimentos privados não-residenciais, ao estimular o gasto militar (ocorreu de o orçamento anual do Pentágono ser aproximadamente o mesmo do recente plano de resgate do Tesouro).

Além do mais, os mercados de câmbio externo têm, desde 2000 persistentemente dirigido a taxa de câmbio na direção errada, fazendo com que muitas economias mantenham grandes déficits externos para experimentar valorização monetária, e outras façam superávits para experimentar depreciação ou não variação. Déficits externos e superávits cresceram, aumentando a fragilidade da economia global. Contudo, comentaristas que insistem em que o tumulto atual é simplesmente o mais recente na longa trajetória da dinâmica das bolhas não entenderam o problema que, desta vez, a bolha de ativos propagou-se pelo mundo através da tecnologia de securitização e do modelo bancário “originar e distribuir”, que só chegou à fruição nos anos 2000. O modelo incentivou altas alavancagens, instrumentos financeiros complexos e mercados opacos; tudo isso dá a essa crise uma gravidade própria.

Houve muito estresse especialmente com a bolha imobiliária, como se ela fosse condição necessária e suficiente para a crise. Isto é apenas uma parte de um aumento muito rápido de endividamento. A tabela 1 mostra a razão da dívida para o PIB na economia norte-americana como um todo, e nos dois maiores setores de endividamento – economias familiares e finança – de 1980 a 2007. A razão total mais do que duplicou e no setor financeiro aumentou mais do que cinco vezes.

A combinação tóxica de dívida, bolha de ativos e tecnologia de securitização era por si mesma capaz de flexibilizar a regulação. O locus da explosão não foi o dos fundos hedge, mas os bancos supostamente regulados. Até recentemente era aceitável, sob os olhos das autoridades, bancos de investimentos operarem com uma dívida sobre o lucro líquido na razão de 30-35, para 1. Não é exagero dizer que a crise deriva da maior falência regulatória da história moderna. Muitos políticos e comentaristas não param de dizer “todos somos responsáveis” – a economia internacional, banqueiros, investidores, agências de classificação, consumidores. Mas isso apenas desvia a atenção daqueles cujo trabalho era regular: os reguladores e as autoridades políticas que os autorizaram.

O papel do Reino Unido na crise merece destaque, porque, contrariamente à sabedoria tradicional, o coração da dinâmica começou lá. O governo Thatcher começou a atrair negócios financeiros de Nova York, anunciando Londres como um lugar em que as firmas poderiam escapar da onerosa regulação doméstica. O governo de Tony Blair e do Chanceler Gordon Brown deu continuidade a essa estratégia, levando Brown a gabar-se de que o Reino Unido tinha “não apenas uma leve, mas uma limitada regulação”. Em resposta, o impulso político cresce nos EUA para além do que ocorreu nos anos 90, para anular a era do ato Glass-Steagall (10), que separou os bancos comerciais dos de investimento. Essa anulação, em 1999, produziu de fato uma liberalização financeira, ao facilitar um crescimento irrestrito do sistema shadow-banking (11), dos fundos hedge, private equity funds, corretores de hipotecas e coisas do gênero. Esse sistema shadow-banking, então, realiza operações financeiras ligadas a bancos, e foi isso que eventualmente levou-os à quebradeira.

O que é notável a respeito da autoridade de serviços financeiros do Reino Unido é que ela levou a uma fanfarra de Brown em 1997, ao mesmo tempo em que ele concedeu ao Bank of England [BC britânico] uma semi-autonomia na política monetária; isso abrangeu a jurisdição do setor financeiro britânico – em contraste com o sistema norte-americano de múltiplos e fragmentados reguladores. Ainda que se tenha regulado timidamente, e que evidentemente se tenha pretendido pouco mais que uma medida cosmética. Howard Davies, o presidente da FSA [Financial Services Authority], descreveu esse princípio regulador com notável candura: “A filosofia quando eu o lancei tem sido dizer: ‘Pessoas adultas lidando entre si? Isso é problema delas, na verdade” (12). Assim, a FSA, na sua bem sucedida e opaca oferta para atração de companhias norte-americanas a Londres, permitu que bancos e seguradoras operassem desde a City com muito menos capital do que seria necessário a suas similares, em Nova York. Seu compromisso com uma leve e limitada regulação significava que lidar com mercados financeiros britânicos de um terço do tamanho dos mercados nos EUA tinha tido onze vezes menos menos agentes de custódia do que a Securities and Exchange Commission (SEC) – 98 comparado com 1.111. (13)

É irônico que a crise possa terminar salvando Brown de ter de renunciar do cargo. Já está claro, agora, que sua aversão à regulação financeira, e sua falta de cuidado com respeito à bolha imobiliária – a qual, desde que o partido trabalhista chegou ao poder fez com que a performance da economia do Reino Unido parecesse muito melhor do que qualquer outro poderia ter feito – estão profundamente implicados na construção da crise. Por uma década, os acordos do mercado imobiliário e do setor financeiro recompensaram o cachorro da economia britânica, enquanto nos EUA o consumo cresceu mais rápido que o PIB, financiado pela contratação de dívidas graças ao boom dos preços das casas. Um eleitorado muito agradecido reconduziu os trabalhistas ao governo duas vezes seguidas.

Com o endividamento crescente e com o clima econômico piorando, muitas empresas na economia real devem ser levadas à bancarrota.

A queda em espiral de contração de crédito está sendo conduzida por um colapso penetrante de confiança no todo da estrutura das intermediações financeiras que sustentam as economias capitalistas. Com índices de endividamento chegando aos níveis mais elevados e com o clima econômico piorando, muitas empresas na economia real devem ser levadas à bancarrota; então, credores e compradores de hipotecas (14) serão postos fora do mercado. Os governos portanto devem se mover para estabilizar os mercados de crédito adotando medidas para incentivar os compradores a se reintegrarem no mercado de títulos – mais especialmente o Tesouro norte-americano, com 700 bilhões de de dólares no esquema de resgate. Muitos estados europeus se moveram para fortalecer o setor bancário, com a Islândia, a Grécia, a Alemanha, a Áustria e a Dinamarca garantindo os depósitos até o início de outubro de 2008. As regras de competitividade foram deixadas de lado, com a adoção de mega-fusões. No Reino Unido, as fusões recentes do HBO [Halifax Bank of Scotland] e do Lloyds criaram um banco com 30% das ações do mercado de varejo.

O poder absoluto do monopólio desses conglomerados está provavelmente instigando uma resposta regulatória mais forte. Outra área-chave para observar, em termos de grau de robustez da resposta governamental é o mercado de balcão dos contratos de derivativos – os quais Warren Buffet na famosa afirmação, em 2003, descreveu como “armas financeiras de destruição em massa”. Buffet chegou a dizer que, enquanto o sistema Federal Reserve, foi criado em parte para impedir o contágio financeiro, “não há banco central com a competência de impedir o efeito dominó da quebra de seguros e derivativos”. No caso de ser implementada mais regulação no mercado de balcão – mesmo na forma mais elementar de exigir o uso de um contrato em formato standard e o registro dos detalhes de cada contrato com um corpo regulatório – Brooksley Born terá alguma satisfação. Ela foi a cabeça da Comissão da Bolsa de Mercadorias Futuras de Chicago no fim dos anos 90, e propôs num discutido artigo que o mercado de balcão deveria operar sob alguma forma de regulação. Alan Greenspan, o presidente Arthur Levitt e o secretário do tesouro Robert Rubin ficaram tão bravos por ela ter levantado uma idéia dessas que pediram a permissão de Clinton para demiti-la; em janeiro de 1999 ela se demitiu alegando “razões familiares”.

Para além dessas respostas imediatas, a crise também voltou a atenção para a questão da estabilidade do sistema como um todo – e especificamente para o impacto do modelo financeiro internacional nos sistemas nacionais. Um debate furioso tem sido travado nos últimos anos com respeito a padrões de contabilidade. Tanto a iniciativa de listar companhias ao redor do mundo – o norte-americano Generally Accepted Accounting Principles e a International Financial Reporting Standards (também conhecida como IAS) – exigiram companhias listadas “de mercado para mercado”, quer dizer, frequentemente reavaliar suas ações nos preços da moeda de mercado ou, se as ações são ilíquidas, e não têm preço de mercado, reavaliá-las de acordo com o custo das suas garantias. Defensores desse método – principalmente investidores – tendem a chamá-lo de “fair value standard” [padrão de valor justo] (quem poderia opor-se a um “valor justo”?), argumentando que sua adoção é crucial para manter os investidores confiantes nas contabilidades públicas das firmas (15).

Críticos, incluindo o International Institute of Finance [IIF] – o mais importante grupo de lobby dos banqueiros – afirmaram que esse tipo de regulação ampliava o aumento de booms e de explosões. Em fases de tendência de queda do “valor justo” a contabilidade obriga os bancos a gravar uma queda no valor dos ativos que poderia ser justificada por “fundamentos” econômicos. Para manter sua solvência elas são assim obrigadas a levantar novo capital a alto custo ou reduzir os empréstimos. As fases de tendência de alta, por outro lado, permitem aos bancos estimularem seus balanços além de níveis justificados pelos “fundamentos”. Mas os métodos alternativos de “marcação a mercado”, ou “mark to model”, no qual cada firma usa seu próprio modelo para avaliar os preços-sombra [shadow prices] são, por sua vez, abertos ao ataque. Warren Buffet observou que o modelo de marcação a mercado tende a degenerar em “marcação à fantasia”, enquanto Goldman Sachs, em junho de 2008, renunciou à condição de membro do IIF num movimento de protesto que se chamou “contabilidade Alice no país das maravilhas”.

Os críticos da marcação a mercado tendem a tratar juntas a importante distinção entre modelos de contabilidade e padrões prudentes. Os primeiros estão consternados com a informação fornecida aos acionistas e aos outros quanto à “integridade” do mercado; sua função é assegurar informações contínuas e acuradas sobre a situação das companhias como base para decisões de investimento. Padrões prudentes, por outro lado, enfatizam a estabilidade financeira e a prevenção de que os agentes financeiros se comportem de modo que ponha a estabilidade em risco. Manter essa distinção e revisitar alguns padrões de prudência é importante no atual contexto.

Crédito e Credibilidade

Um tipo de padrão prudente é oportuno para revisar a adequação de capital dos bancos. O modelo Basel II (16) de adequação de capital, que vigorou com força no início de 2007, após uns nove anos de negociação, marcou uma mudança da regulação externa do Basel I para a auto-regulação – tornando-a um convite para o comportamento descuidado e de “moral arriscada” num tempo em que os grandes bancos estão mais confiáveis do que nunca de que serão resgatados pelo estado. Basel II exige que os bancos usem agências de classificação e seus próprios modelos internos de ações de risco – ambos os quais têm se mostrado pró-cíclicos e fracassaram espetacularmente no desenrolar da crise atual – ao tempo em que requer elevar padrões de capital em períodos de iliquidez, precisamente quando bancos são menos capazes de encontrá-los. Mais ainda, a experiência do Basel I e a simulação dos efeitos do Basel II sugerem que ambos os conjuntos de regras inclinam o fluxo de capital dos bancos dos países desenvolvidos para o mundo em desenvolvimento, em favor de bancos de crédito de curto prazo, o tipo mais perigoso (17). Basel II também aumenta o custo financeiro para os bancos no Sul, em relação ao dos países desenvolvidos, cimentando a vantagem competitiva dos últimos. Acréscimos ao Basel II não estão endereçados a quaisquer dessas questões; para isso, é preciso uma renegociação total.

Dentre as muitas vítimas da crise, então, está o modelo global dominante da arquitetura financeira das últimas duas décadas, cuja credibilidade vem sendo seriamente danificada. Todos os seus três pilares funcionaram mal nesta crise. Primeiramente, os serviços regulatórios financeiros deveriam proteger os depositantes dos bancos e os consumidores do comportamento doente de firmas individuais, como segurar reservas inadequadas; como vimos, contudo, a regulação era frouxa ao extremo.

Segundo, os mercados financeiros visam a, independentemente, alocar capital de investimento e consumir crédito entre indivíduos, firmas e estados, com pouca influência do governo; mas a opacidade criada pelos alavancamentos e engenharias financeiras complexas resultaram no derretimento do mercado e num eventual resgate do estatal.

O terceiro pilar é a manutenção da estabilidade monetária – definida como mantendo a inflação sob rédea curta – pelo banco central. Ao focar na indexação de preços no varejo, os bancos centrais optaram por manter taxas de juros muito baixas e permitir o rápido crescimento do crédito, ninado pelo baixo preço da inflação devido ao barateamento das importações da China. O rápido crescimento do crédito explodiu bolhas de ativos, especialmente nas economias familiares – as quais muitos bancos centrais ignoraram, à medida que seu mandato estava confinado ao consumidor de preços. Na verdade, eles e os políticos por trás deles aplaudiram o boom imobiliário porque isso espalhou crescimentos agudos no PIB. O novo regime que emerge da crise atual, então, consiste provavelmente em incluir tentativas de revisar o papel do terceiro pilar ao ampliar o mandato dos bancos centrais, e assegurar que eles dêem mais peso aos preços dos ativos. À medida que a taxa de juro é um instrumento muito duro, os dirigentes dos bancos centrais e reguladores terão de apostar na expansão de um conjunto de medidas prudenciais. Exemplos incluiriam uma exigência para novos produtos financeiros obterem aprovação regulatória, a fim de assegurar que seu risco característico possa ser prontamente determinado por uma terceira parte; que qualquer organização que possa esperar um sistema público de segurança – e especialmente segurança pública dos depósitos – deveria submeter ao controle seu portfolio de empréstimos, para reduzir o crédito de setores “superaquecidos”. (18)

O consenso da globalização pós-Guerra Fria enfraqueceu notavelmente sobre bases empíricas.

As economias neoliberais têm poderosos anticorpos contra evidências contrárias ao seu modo de ver as coisas. Contudo, a crise atual pode ser suficientemente grave para acordar os economistas do “sono profundo da opinião irreversível”, e torná-los mais receptivos a provar que o consenso da globalização pós-Guerra Fria enfraqueceu notavelmente sobre bases empíricas. De acordo com uma perspectiva convencional, nas décadas após 1945, os governos “intervinham” rotineiramente na economia, especialmente nos países em desenvolvimento, onde a industrialização para substituição de importações (ISI) era a norma. Enquanto o mundo desenvolvido era liberalizado, o sul global era mantido para a ISI e, conseqüentemente, sua performance econômica relativa restava defasada. Mas, em torno de 1980, sob o incentivo do Banco Mundial, FMI e os governos norte-americano e inglês, os países em desenvolvimento progressivamente adotaram as prescrições do consenso da globalização e mudaram para uma estratégia de simpatia ao mercado, crescimento das exportações e desenvolvimento de políticas monetárias e fiscais austeras (supply-side). Como resultado, sua performance relativa melhorou não apenas em comparação com o passado mas também com os países desenvolvidos; eles finalmente começaram a alcançá-los. Essa evidência empírica, por sua vez, validou a pressão do Banco Mundial e do FMI sobre os seus devedores para adotarem políticas neoliberais.

As políticas aplicadas por Pequim estão longe de serem idênticas aquelas endossadas pelo Consenso de Whashington.

A idéia de que a globalização gera crescimento econômico, então, resta principalmente no alto crescimento da China. Ainda que as políticas aplicadas por Pequim estejam longe de serem idênticas aquelas endossadas pelo Consenso de Whashington; ela seguiu os preceitos de Friedrich List e das políticas de mercado norte-americanas do século XIX, durante o salto de desenvolvimento, mais do que aquelas de Adam Smith ou do neoliberalismo dos dias que correm. O estado tem sido um promotor integral do desenvolvimento, e tem adotado como objetivo medidas de proteção como parte de uma grande estratégia para promover novas indústrias e tecnologias; está agora investindo pesadamente em sistemas de informação para ajudar as empresas de engenharia chinesas em torno de patentes no ocidente.

A American Economic Association (20) fez uma pesquisa de opinião com seus membros em 1980, 1990 e 2000 (21). Os resultados indicam um vasto consenso quanto às proposições relativas aos efeitos desejáveis da abertura e aos efeitos prejudiciais do controle de preços. Por exemplo, em todas as três pesquisas a proposição de que “tarifas e controle de importações diminuem o bem-estar econômico” obteve um grau muito alto de concordância; em 1980, 79% dos economistas norte-americanos disseram concordar com a afirmação, no lugar de “concordo com qualificações” ou “discordo”. (Economistas em quatro países continentais europeus também pesquisaram em 1980; só 27% dos economistas franceses disseram que concordavam com a mesma proposição.) Parece uma boa aposta a de que em 2010 a enquete registrará significativamente menos acordo sobre a desejabilidade para o comércio livre, a livre circulação de capitais e outras formas de abertura econômica – fornecendo uma evidência concreta do enfraquecimento do consenso da globalização entre economistas e, em seguida, dando apoio à conjectura de que devemos adotar um novo regime.

Repensando o modelo

Em tempos de crise, argumentos que antes estavam nas margens podem, de novo, ganhar grandes correntes. Se o desaparecimento de três ou cinco grandes bancos de investimento indica a gravidade do abalo presente, também oferece uma oportunidade para ampliar a extensão de possibilidades para uma revisão do modo como a finança global opera; a queda nos fundos de pensão e o declínio do preço das casas também deveriam aumentar os votos para uma reforma maior. Hoje, estudiosos enfrentam o desafio de repensar alguns dos modelos intelectuais básicos que têm legitimado a política ao longo das últimas três décadas. O desmanche dos complexos produtos financeiros opacos pode persuadir muitos dos benefícios da substancialidade do setor financeiro menor em relação ao real, e talvez de uma “economia mista” na finança, em que algumas firmas combinariam interesses públicos e privados – operando mais como utilidade do que maximização de lucros.

Porém, mais fundamentalmente, o próprio modelo de globalização precisa ser repensado. Ele ultra-enfatizou a acumulação de capital ou o ajuste fiscal (supply-side) na economia, em detrimento do fortalecimento da demanda (à medida que a pressão sobre o crescimento da exportação implicou fosse a demanda ilimitada) (22). O fracasso em alcançar o crescimento, visto nas figuras 1 e 2, deve-se em parte à falta de atenção do neoliberalismo com a demanda interna, refletindo o domínio da economia neoclássica e a marginalização das abordagens keynesianas. A demanda pelo desenvolvimento nacional e regional envolveria grandes esforços voltados para alcançar igualdade na distribuição de renda – e então um papel maior dos padrões do trabalho e dos sindicatos, do salário mínimo e de sistemas de proteção social.

Também seria necessária a administração estratégica do comércio, seja para frear os os efeitos da guerra fiscal e do crescimento de exportações direcionadas, e estimular a indústria doméstica e os serviços que poderiam oferecer melhores condições de vida e de renda para as classes média e trabalhadora. Controle do fluxo de capital, como para evitar surtos especulativos, seria outro instrumento-chave para uma demanda orientada pelo processo de desenvolvimento, à medida que daria uma maior autonomia aos governos, no que concerne à taxa de câmbio e ao cenário das taxas de juros.

O fortalecimento recente dos processos de integração regional, por sua vez, deveria dirigir sua atenção para longe dos padrões globais de arranjos que, por causa do seu objetivo maior, são, na melhor das hipóteses, necessariamente áridos. Os acordos de comércio regional entre países em desenvolvimento têm vantagens distintas sobre os arranjos multilaterais, cujos termos frequentemente servem para quebrar economias abertas do Sul, enquanto preservam intactas as proteções para a indústria e a agricultura, no Norte. As moedas regionais – como as da Unidade Monetária Asiática, que vêm sendo discutidas por estados do leste asiático, com base no peso das medidas das moedas locais – poderiam agir como uma referência independente do dólar americano, reduzindo a vulnerabilidade do mercado às turbulências em Wall Street. (23)

Os regimes da economia global devem, acima de tudo, ser repensados a fim de permitir a diversidade das regras e dos padrões, em vez de impor mais uniformidade. No lugar de buscar, nos termos de Martin Wolf, fazer todo mundo alcançar os mesmos índices de integração econômica encontrados no interior das estruturas dos EUA, de modo que cada estado-nação tenha não mais influência sobre as suas fronteiras do que os EUA tem sobre as transações domésticas (24), deveríamos buscar inspiração numa analogia com o “middleware” (25). Designado para capacitar diferentes tipos de software para comunicarem-se entre si, middleware oferece a muitas organizações uma alternativa para fazer com que um programa atravesse sua estrutura inteira; isso permite mais objetivos para a escolha de programas descentralizados. Se a segunda perna do atual “duplo movimento” se tornar um período do qual o consenso estará fortemente ausente, também será possível fornecer-se um espaço para uma ordem mais ampla de padrões e instituições – alternativas econômicas e financeiras para o sistema de amplas prescrições do neoliberalismo. Isso pode dar ao novo regime que emerge da atual reviravolta mais estabilidade do que o seu predecessor. Se isso vai oferecer as bases para um mundo mais igualitário, contudo, permanece uma questão aberta – e um desafio urgente – para algum tempo por vir.

Carta Maior