Daily Archives: 21/11/2008

O fim da mentira piedosa

Os negros diziam aos filhos que poderiam ser o que quisessem, até presidente. Já podem parar de mentir

Michael Eric Dyson

SÃO PAULO – Há mais de meio século, Langston Hughes captou a divisão debilitante dos destinos de crianças negras e brancas em seu poema Children Rhymes (Versos infantis): By what sends/the white kids/I ain?t sent: I know I can?t be President (numa tradução livre: Aonde as crianças brancas vão, eu não vou. Sei então que não posso ser presidente).

Quarenta e seis anos depois de Hughes, o rapper Tupac ecoava: “And though it seems heaven sent/We ain?t ready to have a black president” (tradução livre: Embora pareça que o céu tenha mandado um/ Não estamos prontos para ter um presidente negro).

Hoje, pouco mais de uma década depois desse lamento de Tupac, estamos prontos para um presidente negro, e a aflição causada por esses sonhos desalentadores foi dissipada.

Sob todos os aspectos, foi um dia monumental na história de nosso país. Afro-americanos têm toda razão de se orgulhar. Os eventos brutais que marcaram a existência dos negros – escravidão, segregação, atrofiamento da ambição social e política – haviam anulado as esperanças em um progresso negro. A eleição de Barack Obama simboliza a ressurreição da esperança e a restauração da fé num país que muitas vezes deixou de tratar seus cidadãos negros como alguém da família. Para milhões de negros abandonados à negligência social e ao isolamento cultural, as palavras e a visão de Obama criaram uma ponte de volta para o seio da família americana.

A histórica vitória de Obama é o fecho triunfal de um círculo de possibilidades que começou quando ex-escravos corajosamente imaginaram que um de seus descendentes um dia lideraria a nação que escravizou seus ancestrais.

Em 1968, o reverendo Martin Luther King Jr. foi assassinado pela resistência a seu sonho de igualdade; 40 anos depois, os americanos foram às urnas para fazer de Obama presidente. A distância entre o assassinato de Luther King e a eleição de Obama é um salto no progresso racial cuja amplitude nem os céticos nem os incentivadores conseguiram prever.

A vitória é um ponto de referência que ajuda a satisfazer – e salvar – a reputação democrática da América. O Salão Oval é o símbolo máximo do acesso nacional ao poder. Se as alavancas da influência forem movidas com preconceitos e privilégios injustos, elas dificultam a promessa de democracia, que é o maior legado da América. Hoje, americanos de todas classes podem se orgulhar de que os ideais dos fundadores deste país, apesar de agredidos através dos séculos por casos gravíssimos de racismo e sexismo, finalmente vieram a nosso encontro.

Obama, que tem alguma coisa de pai refundador da nação, ascende ao panteão dos homens brancos que iluminaram ou projetaram uma sombra negativa na paisagem política da nação. Sua interpretação dos ideais e do destino dos Estados Unidos revigora os princípios que moldaram a auto-imagem do país.

Contrariando muitos críticos, sua eleição não prenuncia – e nem deve – um futuro pós-racial. Mas pode ajudar a introduzir um futuro pós-racista. Na perspectiva pós-racial o que se procura é apagar elementos cruciais da nossa identidade; numa visão pós-racista, o que se deseja apagar é a opressão que se baseia no ódio e no medo, que explora a vulnerabilidade cultural e política.

Obama não precisa deixar de ser um homem negro para governar com eficiência, mas o país precisa superar seu brutal passado racista para permitir que o talento dele, e o de outros negros, se destaque.

Nossa fé em Obama tem que ser contagiante; tem que se propagar e se transformar na fé em outros negros postos em quarentena no estereótipo racial. A visão de Obama como um negro excepcional – quando, na verdade, ele é um americano excepcional – é um obstáculo ao desejo de nosso país de abrir caminho na direção do sucesso para outros iguais a ele. Obama não é o primeiro americano negro com capacidade para ser presidente: é o primeiro americano negro que teve chance de provar isso.

Não devemos nos seduzir pela idéia de que a presidência de Obama sinalize o fim do racismo, do movimento pelos direitos civis, da luta pela igualdade entre negros e brancos, ou da carreira de Jesse Jackson e Al Sharpton. Um presidente Obama não existiria sem os esforços pioneiros de Shirley Chisholm e especialmente Jesse Jackson. Obama consegue ser sereno e calmo porque líderes como Sharpton, pelo menos no passado, mostraram sua cólera.

Da mesma forma, Obama é beneficiário da eloqüência e sentido de luta de Frederick Douglass, a autoconfiança animadora de Booker T. Washington, a esplêndida coragem de W.E.B. Du Bois de desmascarar a hierarquia social, o desejo incessante de educação de Mary McLeod Bethune, a energia estratégica e tática de Ella Baker, o desejo de reinvenção literária de Malcom X e a oratória elevada e o sacrifício extremo de Martin Luther King.

Obama é o último elo na cadeia de progresso que todos eles forjaram na luta para melhorar os Estados Unidos melhorando as condições da população negra. Obama irá na direção exatamente oposta: como presidente, vai melhorar as condições de vida do povo negro porque vai melhorar o país. Este é o significado de seu apelo como líder nacional e não um líder negro. Ora, da maneira adjetivada como medimos o progresso racial, Obama não é um presidente negro, mas um presidente que é negro.

Como negro, sinto exaltação e orgulho de ser americano neste dia. No passado, o povo negro contou a seus filhos uma mentira, que era útil naquele momento: que eles podiam ser qualquer coisa que suas mentes e talentos permitissem que fossem, até mesmo presidente. Agora, podemos parar de mentir e começar a trabalhar para garantir que Obama seja somente o primeiro de muitos outros – presidentes, astronautas, governadores, senadores, físicos teóricos, o diretor máximo da maior liga de beisebol do país, participantes da corrida Nascar, nadadores olímpicos ou qualquer outra atividade que ousemos imaginar.

Um dos grandes efeitos de Obama presidente é o incalculável estímulo psíquico que dá para os jovens negros que vão se formar olhando as telas de TV que projetam seu rosto e suas palavras em todo o globo.

Mas o real milagre pode estar no fato de a presidência de Obama persuadir os americanos a reconhecer que uma pessoa negra talentosa, se acreditarmos nela, pode fazer muita coisa boa para o país. Mesmo antes de prestar juramento, Obama já serviu à nação heroicamente.

Estadão

Generosidade às montadoras

Paulo Passarinho

No último final de semana, o chamado G-20 financeiro (que não deve ser confundido com o G-20 das rodadas de negociação da OMC) realizou reunião em São Paulo, com a participação de ministros de Estado e presidentes de bancos centrais dos países que compõem esse fórum. Foi uma reunião preparatória do encontro a ser realizado no dia 15 de novembro, em Washington, que reunirá os presidentes e chefes de governo deste grupo de países, composto pelas nações mais ricas do mundo – o G-7 –, acrescido pelos países considerados em desenvolvimento, dentre os quais se inclui o Brasil.

O tema em discussão é a crise financeira e econômica global, que cada vez mais se manifesta não apenas nos circuitos financeiros, atingindo também de forma grave a economia produtiva, com reais perspectivas de redução do ritmo de atividade econômica, concordatas e falências de empresas e desemprego em massa. O FMI já prevê que em 2009 iremos experimentar a primeira recessão global desde o fim da segunda guerra mundial.

Além de generalidades que me parecem inócuas, como o clamor por reformas urgentes no FMI, no Banco Mundial e nas bases do sistema financeiro mundial – que são defendidas pela maior parte dos países, mas que não sensibilizam aos Estados Unidos, o principal beneficiário do status quo –, a principal sinalização desse encontro foi a sugestão apontada para os países reduzirem as suas taxas de juros e aumentarem os seus gastos públicos.

O ministro da Fazenda do Brasil, que inclusive presidia o encontro, logo esclareceu que “por enquanto (aqui no nosso país) nada muda em relação à questão fiscal. Mas, se necessário, se houver motivo, nós podemos usar mais o fiscal, fazendo mais investimentos no setor público”. Por sua vez, o verdadeiro ministro da economia, o presidente do Banco Central Henrique Meirelles, destacou posteriormente que essa conclusão sobre o encontro era equivocada. Respaldado por uma reunião promovida pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), um dia após o enceramento da reunião do G-20, Meireles lembrou a importância de “políticas monetárias saudáveis” – um eufemismo para as políticas de arrocho – e voltou a acenar com o fantasma da inflação, citando que nas economias que enfrentam depreciação de suas moedas, como é o caso do Brasil, as pressões inflacionárias podem ser mais persistentes. O presidente do Banco Central, assim, vocalizou o que já havia sido divulgado pela ata da última reunião do Comitê de Política Monetária, quando a taxa básica de juros foi mantida em estratosféricos 13,75% ao ano, no mesmo dia em que o banco central americano reduzia a sua taxa de 1,5% para 1% ao ano.

O que constatamos é que, apesar da reconhecida sorte do presidente Lula, parece que agora ele está menosprezando os caprichos da história que, na prática, estão lhe concedendo uma nova oportunidade. A partir do compromisso assumido por Lula em 2002, com a Carta aos Brasileiros, ele, o PT e os demais partidos de esquerda – que até então sustentavam as principais bandeiras de luta contra a ditadura dos bancos e transnacionais sobre a condução da economia no país – mudaram totalmente de posição e passaram a defender o que antes combatiam.

Lula procurou construir, desse modo, um tipo de governabilidade que aliou a manutenção dos privilégios dos setores dominantes com políticas de redistribuição de rendas para os mais pobres, para aqueles que ganham até três salários-mínimos. A exuberante conjuntura internacional garantiu o sucesso da sua opção, especialmente em termos eleitorais.

O custo desta opção foi por demais caro ao país. Congelamos as promessas de uma reforma agrária; elevamos o agronegócio como o principal modelo de ocupação do campo brasileiro; mantivemos o processo de desnacionalização do parque produtivo do país; demos seqüência aos leilões de petróleo; acomodamos os interesses privados, e caríssimos, no setor elétrico; não somente não realizamos uma revisão das criminosas privatizações de FHC, como demos continuidade às mesmas, inclusive em áreas vitais de serviços públicos, como é o caso das estradas de rodagem. Acima de tudo, não aproveitamos a conjuntura política que na América Latina se abriu, com a emergência de países em francos processos de transformação social, impulsionados pelas derrotas dos projetos neoliberais até então em curso.

Agora, a crise internacional daria a Lula a oportunidade de um reencontro com suas antigas posições. O país encontra-se vulnerável aos especuladores e empresas estrangeiras. As remessas de lucros nesse ano, até o mês de setembro, atingiram a cifra de US$ 27,5 bilhões, representando um acréscimo de 84% em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar da propalada “blindagem” de mais de US$ 200 bilhões das reservas externas, sabe-se que em decorrência do elevado passivo externo de curto-prazo esse montante de recursos será insuficiente para segurar a fuga de capitais, já em curso. O generoso cheque especial do FED norte-americano, de US$ 30 bilhões, apenas sinaliza que é chegada a hora de se encerrar a temporada de jogatinas arriscadas, mas rentáveis até agora. Os dados referentes aos resultados das transações correntes do país mostram que o país volta a depender de recursos especulativos, ou mais desnacionalizações, para continuarmos a respirar.

A rigor, os compromissos de Lula, a partir da Carta aos Brasileiros, parecem irreversíveis. O presidente, depois de procurar garantir liquidez ao sistema financeiro e ao agronegócio, no momento mais agudo da crise se volta a seu berço operário, procurando garantir crédito às montadoras de automóveis. Depois de ter concedido uma linha de crédito especial de R$ 4 bilhões para o setor, através do Banco do Brasil, agora assiste ao governador de São Paulo “cooperar com o governo federal” – as palavras foram de José Serra – e, com a presença de Guido Mantega, vê-lo anunciar a liberação de nova linha de crédito para o setor, no valor também de R$ 4 bilhões, com recursos da Nossa Caixa.

Trata-se de uma generosidade do governador de São Paulo que possivelmente acabará sob responsabilidade do governo federal, pois se encontram em andamento as negociações para a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. Não restam dúvidas que uma crise de desemprego neste setor agravaria a dimensão social dos problemas que certamente enfrentaremos. Entretanto, a preocupação maior do governo parece ser a manutenção de condições para as montadoras continuarem a enviar recursos às suas matrizes, como forma de compensação dos prejuízos que essas empresas sofrem em seus países de origem.

Não é possível desconhecer que este setor automobilístico é o que mais envia remessas de lucros para o exterior, seguido pelos setores metalúrgico e financeiro. Somente de janeiro a setembro deste ano, foram remetidos para as matrizes das filiais aqui instaladas US$ 4,8 bilhões, representando um aumento de 180% em relação ao mesmo período do ano passado.

Para uma ajuda desta natureza, o mínimo que deveria ser exigido é que essas remessas de lucros para o exterior viessem a ser interrompidas. Para falar o mínimo, pois a própria natureza predominante da produção das montadoras, carros de passeio, é hoje um fator de grave desequilíbrio das condições de vida de nossas grandes cidades, inundadas por veículos particulares, em meio à crise estrutural dos transportes públicos.

Com medidas desse tipo, mantemos a vulnerabilidade de nossa economia e ampliamos a possibilidade de erosão de nossas reservas internacionais, variável que deveria ser protegida ao máximo, como fator essencial para a adoção de mudanças macroeconômicas que nos coloque em um outro rumo.

Correio da Cidadania

A face da nova geração

Na pessoa de Obama, os recém-chegados à história e os que estavam cansados de esperar encontraram sua identidade

José de Souza Martins

SÃO PAULO – A significativa vitória do Partido Democrata, apoiada no desempenho eleitoral de Barack Obama, repõe no cenário político americano e no cenário político internacional a mística das grandes mudanças inspiradas no novo e difuso humanismo desta era pós-Guerra Fria, pós-socialista, a era das dissoluções de velhas linhas demarcatórias herdadas do mal resolvido século 20. Ainda não sabemos se a popularidade eleitoral de Obama se traduzirá em carisma que o tornará o que os historiadores de outro tempo definiam como epônimos, homens que dão nome a uma época. Sua circunstância o leva nessa direção.

Essa vitória repõe a questão das funções históricas da revolução cíclica das gerações, porque não resultou de mera peleja entre democratas e republicanos. Hillary Clinton representava a alternativa pendular. Na pessoa de Obama, as novas gerações, os recém-chegados à cena da história, os que estão cansados de esperar, encontraram sua identidade e a alternativa. A cada tanto tempo, uma geração já não compreende a língua, a mentalidade, os propósitos e os desacertos da geração anterior. Ousa, tenta mudanças, abre caminhos, inventa saídas, dá cor ao mundo cinzento do repetitivo.

Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, a América e o mundo vêm tentando escapar das armadilhas políticas criadas no século 19, na difícil realização dos valores e direitos proclamados pela Revolução Francesa, ainda mal resolvidos nas primeiras décadas do século 20. Armadilhas condensadas na polarização perversa que se expressou na Guerra Fria. Prisioneiro dessa polarização, o mundo ocidental vem dando passos para libertar-se desse passado, criando um mundo novo em que os ideais de justiça social, democracia e liberdade se tornem realidades. Senhores e patrões de conflito esquizofrênico, Estados Unidos e União Soviética patinaram ao longo das décadas, negando nos conflitos que promoviam a visão de mundo que proclamavam. Barack Obama, na América, está sendo chamado a personificar a esperança da superação histórica, a esperança de uma nova era, em que o mundo se torne o que poderia ser e tem condições de ser e não tem sido.

Barack Obama representa uma outra América, a América que em silêncio, na corajosa obstinação da não-violência e dos movimentos sociais, teceu o belo rendilhado da esperança dos banidos do poder e dos privados dos direitos civis. A América que acompanhou com paciência o envelhecimento de uma concepção arrogante do homem, da vida e do mundo e construiu uma alternativa moral para a injusta prepotência própria do demasiado e indevido poder.

Obama e sua esposa Michelle vêm da experiência social e política da militância no trabalho voluntário com os pobres e injustiçados. Foram socializados na cultura dos movimentos sociais, pela qual as novas gerações nos Estados Unidos, na Europa e em outras regiões e países educaram-se nos valores da generosidade, da partilha e da paz. Nesse sistema de valores puderam compreender o imenso abismo que nos separa das promessas das grandes revoluções que criaram o mundo moderno. Novas gerações que compreenderam a fraude política das dominações que anularam o século 20.

O século 19 demorou-se na maquiagem das conflitividades que herdou. Envelheceu sem transformar, diluiu-se em conflitos pendentes, não raro gerados pela própria expansão capitalista, como o conflito racial e o conflito religioso. As doutrinas sociais e políticas revelaram-se pobres em face de uma realidade social pluralista, regida por outras dinâmicas, resistente a binarismos simplistas como o do capitalismo contra o feudalismo, das colônias contra as metrópoles, do proletariado contra a burguesia. Em cada uma dessas polarizações havia e há muito mais do que os rótulos podem dizer.

É nesse grande cenário de mudanças que se pode compreender o que vem ocorrendo na América desde a libertação dos escravos e desde a Guerra Civil. A abertura do oeste americano à livre ocupação de colonos, com o Homestead Act, de 1862, a reforma agrária americana, com Lincoln no poder e a Secessão já em andamento, não produziu todos os seus efeitos modernizadores e emancipadores devido à resistência do escravismo sulista. A derrota do sul desencadeou mecanismos cruéis de recriação de desigualdades sociais com fundamento na raça, no limite a violência dos linchamentos, que se disseminaram e alcançaram não só negros, mas também judeus e imigrantes, sobretudo italianos. Foram as mulheres brancas das igrejas protestantes do sul que nos anos 1920 desencadearam o movimento social anti-racista, combatendo dentro de casa e denunciando publicamente o pretexto do estupro de mulheres brancas por homens negros para pendurar em árvores a estranha fruta de corpos negros balançando na brisa, da canção anti-racista escrita e musicada, em 1937, por Abel Meeropol, um professor judeu. Strange Fruit foi consagrada pela cantora negra Billie Holyday e se tornou um hino martelando a consciência dos americanos.

A cultura em que foram educados Barack e Michelle Obama nasceu e se difundiu nas igrejas protestantes da América. Durante a campanha eleitoral, na visita altamente simbólica que Barack Obama fez à Igreja Batista Ebenezer, de Atlanta, em que Martin Luther King Jr. foi pastor, o candidato democrata proferiu um discurso pautado pela mística da esperança, a dos humilhados e ofendidos. A fala de Obama tem sido e o foi novamente no discurso da vitória na madrugada do dia 5 de novembro, um extraordinário e competente retorno da política ao filtro da oratória protestante, de fundo bíblico. Nas manifestações de regozijo por sua vitória, aliás, foi possível ver inúmeras manifestações mais religiosas do que partidárias.

De certo modo, a revolta das gerações já havia eleito Kennedy, que, porém, foi capturado pela poderosa máquina de um Estado governado mais pelo mercado do que pelo povo, mais pela guerra do que pela paz. Resta saber se Obama, no poder, terá como personificar as esperanças que reavivou e o sonho que sonhou.

Estadão

Corações que batem depois de mortos

A demanda por órgãos reabre o debate sobre vida e morte

Milagros Pérez Oliva

O coração de uma pessoa que foi declarada morta por falência cardiocirculatória pode voltar a bater em outra? Uma equipe do Hospital Infantil de Denver (EUA) fez isso, mas os métodos utilizados provocaram uma intensa controvérsia na comunidade científica.

Durante milhares de anos viver foi sinônimo de respirar, e uma forma de certificar a morte era aproximar um espelho da boca do doente e observar se ficava embaçado ou não. Mas desde que os avanços na medicina permitiram prolongar de forma artificial o funcionamento de órgãos vitais como o coração ou o pulmão, a morte tornou-se mais complexa: morrer já não é deixar de respirar, ou que o coração pare de bater, mas perder a capacidade de fazê-lo de forma autônoma. Uma pessoa pode continuar respirando e mantendo as funções básicas de seu corpo, e no entanto estar morta: é um cadáver latente.

A morte clínica está plenamente aceita, tanto do ponto de vista legal como científico, e constitui a base do extraordinário desenvolvimento dos transplantes, pois permite manter durante algum tempo os órgãos de uma pessoa já falecida para extraí-los em condições de serem implantados em outra.

Até hoje, a maior parte das doações procedia de pacientes com morte cerebral, que é declarada quando se acredita na perda irreversível das funções cerebrais. Mas nos últimos tempos os programas de transplantes acrescentaram a possibilidade de obter órgãos de pacientes em morte cardíaca ou circulatória, que ocorre quando o coração entra em assistolia irreversível e é incapaz de bombear sangue por seus próprios meios.

Esse tipo de morte é a que foi agora abalada pela polêmica: em 14 de agosto passado, a revista “The New England Journal of Medicine” publicou um artigo da equipe de transplantes do Hospital Infantil de Denver, chefiada pelo dr. Mark Boucek, no qual informava sobre o êxito de três transplantes de coração que foram extraídos de bebês com poucos dias de vida, depois de declarada sua morte por parada cardíaca irreversível.

Até hoje, nas doações procedentes de pacientes em morte cardiocirculatória, eram extraídos diferentes órgãos (principalmente rins, fígado, pulmão), mas nunca o coração. Entendia-se que um coração que falhou em uma pessoa dificilmente poderá funcionar em outra. Em Denver, porém, o conseguiram, dando lugar à situação no mínimo paradoxal de que, depois de ter declarado a morte do doador por falha irreversível do coração, esse mesmo coração agora bate e vive em outra criança.

Os três bebês estavam destinados a uma morte certeira, e a extração de seus corações foi feita com pleno consentimento dos pais e do comitê de bioética do hospital, mas a publicação do trabalho, qualificado de experimental, abriu uma intensa discussão sobre que condições devem ocorrer para se poder declarar a morte cardíaca ou circulatória. Porque para extrair o coração em condições de ser transplantado a equipe de Denver teve de reduzir ao mínimo – 75 segundos – o tempo de assistolia necessário para declarar irreversível a falência cardíaca, o que contraria os protocolos até agora em vigor, que recomendam esperar cinco minutos, seja a pessoa falecida doadora de órgãos ou não.

Consciente da repercussão desse trabalho, a própria revista pediu opiniões a eminentes especialistas. “Há acordo substancial sobre quando as funções cerebrais se perdem de forma irreversível”, afirma James L. Bernat, professor de neurologia da Faculdade de Medicina de Dartmouth (EUA). “Mas no caso da morte cardíaca até agora se considerava que podiam se obter todo tipo de órgão, exceto o coração. Supunha-se que se alguém tinha sido declarado morto por falência cardíaca a função cardíaca não poderia ser restaurada em outra pessoa.”

Na mesma linha, Robert M. Veatch, professor de ética médica do Instituto Kennedy da Universidade de Georgetown (EUA), considera que “se o coração é reiniciado, significa que a pessoa da qual procede não poderia ser declarada morta de acordo com o critério de morte cardíaca. Extrair órgãos de pacientes cujo coração não só pode ser reiniciado como até reiniciado em outro corpo significa extinguir uma vida com a extração”. Veatch é taxativo: “Pelos critérios legais atuais, não é possível obter corações para o transplante de um doador que tenha sido declarado morto com base em uma parada cardíaca irreversível”.

Por que a equipe de Denver decidiu dar esse passo polêmico? “A mortalidade na lista de espera infantil é de uma ordem de magnitude muito superior à dos adultos; os doadores por causas cardiocirculatórias oferecem uma oportunidade de reduzir essa mortalidade”, argumenta Boucek.

A falta de doadores e o número crescente de pacientes em lista de espera levaram as equipes médicas de todo o mundo a otimizar a possibilidade de obter órgãos, e por isso nos últimos anos foram implantados em vários países programas de doação em morte cardíaca, chamada de doação em assistolia. E também na Espanha, onde o êxito das medidas para reduzir os acidentes de tráfego fez diminuir o número de possíveis doadores. Apesar de ostentar a invejável situação de ser o país com os mais altos índices de doações – continuam aumentando 3% ao ano -, os 1.550 doadores que houve em 2007 permitiram realizar cerca de 3.500 transplantes, mas esses números estão longe de cobrir as necessidades. Há mais de 5 mil pacientes na lista de espera e entre 8% e 10% deles morrem enquanto aguardam um doador compatível.

“A doação em assistolia ou de coração parado é uma das vias que temos para aumentar as doações. Hoje temos vários programas ligados a grandes hospitais como o 12 de Outubro ou o Clínico de Barcelona, e nossa intenção é habilitar uma equipe em todas as cidades de mais de 500 mil habitantes. Mas aplicamos protocolos tão rigorosos quanto os da morte cerebral, e é claro que não extraímos corações, mas outros órgãos”, explica Rafael Matesanz, coordenador nacional de transplantes.

Os programas de doação em assistolia se aplicam a casos de morte súbita ou infarto agudo do miocárdio, e seu sucesso depende da rapidez de atuação da equipe médica de reanimação. Roser Deulofeu, responsável pelo Programa de Transplantes da Catalunha, explica como funciona: a equipe de reanimação que atende o paciente deve aplicar manobras de ressuscitação durante pelo menos 30 minutos. Se nesse tempo não houver uma resposta, entende-se que o paciente é irrecuperável. Aplica-se então o protocolo de possível doador de órgãos, que inclui realizar manobras e técnicas de cardiocompressão destinadas a prolongar o batimento cardíaco o máximo possível, até poder chegar ao hospital.

Uma vez lá, são retirados do paciente todos os suportes artificiais de estimulação cardíaca. Espera-se cinco minutos. Transcorrido esse tempo, se o coração não reagir espontaneamente, declara-se a morte. O coração já está parado, mas para evitar que os órgãos se deteriorem conecta-se o falecido a uma máquina de circulação extracorpórea, que mantém a irrigação sanguínea o tempo necessário para tramitar a autorização judicial e localizar a família. Se esta concordar em doar os órgãos, eles são extraídos, e se não também se retira a circulação extracorpórea.

“Em caso algum extraímos o coração”, explica Matesanz. “O que a equipe de Denver fez vai além do admissível. Essas crianças não estavam mortas, ou pelo menos é um conceito de morte muito discutível”. “A equipe de Denver levou o conceito de morte cardíaca a extremos inaceitáveis”, corrobora Roser Deulofeu.

Como já ocorreu com a morte cerebral, realizaram-se várias conferências científicas de consenso para estabelecer em que momento se pode declarar a morte cardíaca. Quando se pode dizer que o coração perdeu totalmente a função cardíaca? Quando se encontra em situação de assistolia irreversível, isto é, quando é incapaz de bombear o sangue, e isso se verifica pela ausência completa de atividade elétrica no miocárdio.

Como a ausência de circulação sanguínea deteriora rapidamente os órgãos que serão extraídos, depois se discutiu outra questão: quanto tempo um paciente deve permanecer em parada assistólica para se poder certificar que morreu? “Como não se podem extrair os órgãos antes da declaração de morte, os cirurgiões se esforçam para reduzir o tempo entre a assistolia e a declaração de morte”, explica Robert M. Veatch. Mas quanto é razoável?

Em 1993 foi publicado o protocolo de Pittsburgh para transplante em adultos. Estabelecia que se devia assegurar a assistolia de pelo menos 120 segundos, amparando-se em que depois desse período nunca havia ocorrido uma auto-ressurreição. No entanto, como fisiologicamente a função cardíaca pode ser restaurada no próprio paciente mediante estímulos externos, afinal se teve o consenso de esperar cinco minutos a partir do momento em que se induz a assistolia. Esse é o tempo consensual para ter certeza de que o ritmo cardíaco necessário para gerar pulso não se retoma espontaneamente. “Entende-se que não se pode dizer que a parada cardíaca é irreversível se depois pode ser reinstaurada”, mesmo que seja por meios mecânicos, afirma James Bernat.

E estávamos nesse ponto, quando a equipe de Denver decidiu reduzir ao mínimo imprescindível esse tempo para poder obter também corações. O programa gerou mais rejeição que aceitação, mas também teve seus defensores. Robert D. Troug, professor de ética médica e anestesia da Universidade de Harvard, e Franklin G. Miller, membro do comitê de bioética dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, afirmam que o relevante, do ponto de vista ético, não é o tempo necessário para poder declarar a morte, uma questão que foi submetida em sua opinião a “desnecessárias e insuportáveis revisões”, mas se existe ou não consentimento informado do paciente ou seus representantes para doar os órgãos. Porque, nos casos de pessoas que não estão em morte cerebral mas se encontram “em situação neurológica devastadora” e morrerão de forma inevitável quando forem retirados os suportes vitais, se constar o desejo explícito de doar seus órgãos o principal imperativo ético deveria ser fazer o possível para que esses órgãos sejam transplantados.

A própria revista mantém uma posição bastante eclética. Em seu editorial, “The New England Journal of Medicine” declara que espera que o caso possa estimular um debate sobre as doações infantis para o transplante e conduzir a um consenso que não só leve em conta as altas exigências éticas que essa matéria requer como também a grande escassez de doadores de órgãos.

A revista argumenta que o transplante cardíaco é a única opção para as crianças que nascem com uma doença congênita ou uma cardiomiopatia avançada. Lembra que nos EUA são praticados por anos cerca de 400 transplantes de coração infantis, uma centena deles em crianças de menos de 1 ano, e que o índice de sobrevivência é de mais de 15 anos na metade das crianças transplantadas e mais de 5 anos em 80%.

No entanto, cerca de 50 crianças morrem por ano na lista de espera porque é muito difícil encontrar doadores, especialmente para os menores de 1 ano. De fato, as crianças na lista de espera têm dez vezes mais possibilidades de morrer que os adultos. A revista considera que “o desenvolvimento de critérios normativos aceitáveis para a doação pediátrica é um objetivo vital”. E conclui: “No relatório de Boucek uma conclusão é clara: o resultado desse protocolo experimental é que três crianças estão vivas hoje. Caso não tivesse realizado esses procedimentos, as seis estariam mortas”.

Isso é verdade. Mas também, segundo Rafael Matesanz, que o êxito das políticas de doação se baseiam na confiança, não só confiança em que não haverá comércio nem preço nas doações, mas também que a decisão de declarar uma morte, seja cerebral ou cardíaca, não será condicionada nem contaminada por considerações alheias ao interesse do doador. E a confiança é uma flor muito delicada.

El Pais

Gilmar Mendes, quem são os terroristas?

Ao afirmar que “terrorismo também é crime imprescritível”, em alusão aos que participaram da luta armada contra o regime de 64, o ministro demonstrou que segue a semântica da ditadura militar. Um olhar menos indulgente sobre a ditadura lhe permitiria ver um regime que tinha como metodologia o terrorismo de Estado.

Gilson Caroni Filho

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, tem se notabilizado por um sentimento de urgência no que julga ser seu principal papel como magistrado: dar sustentação jurídica às teses da oposição parlamentar e seu braço midiático no combate ao governo Lula. Mas o faz de forma tão atabalhoada que constrange até mesmo os “bons companheiros”.

Mendes tem sido alvo de crítica até de contumazes articulistas da grande imprensa, uma vez que o primarismo de suas manifestações desnuda, e expõe ao ridículo, uma estratégia traçada para se manter ativa até 2010. Não foi por outro motivo que o jornalista Elio Gaspari, conhecido pelo antipetismo raivoso, escreveu em sua coluna, na Folha de São Paulo, do último domingo:

“O ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, precisa decidir qual é seu lugar no estádio. Ele pode ficar na tribuna de honra, de toga, lendo votos capazes de servir de lição. Pode também vestir as camisas dos times de sua preferência, indo disputar a bola no gramado. Não pode fazer as duas coisas”.

O alerta de Gaspari se respalda na experiência de quem conhece o jogo e tem noção mais acurada do “timing” exigido. Sabe que um juiz que emite prejulgamentos sobre processo em que terá que se manifestar oficialmente se expõe à perda de legitimidade. A judicialização da política guarda similitudes profundas com o noticiário editorializado. E a afinidade de dois campos distintos, quando se torna muito evidente, produz estragos consideráveis para os objetivos das forças conservadoras.

Ao afirmar que “terrorismo também é crime imprescritível”, em alusão aos que participaram da luta armada contra o regime de 64, o ministro demonstrou que segue a semântica da ditadura militar que recomendou aos jornais da grande imprensa a classificação de “terroristas” a todas as ações armadas praticadas por guerrilheiros. Em questão, além da isenção do presidente do Supremo, está seu embasamento conceitual sobre terrorismo.

Diante da confusão, é preciso discutir o que se entende como terror. Afinal, a resistência armada contra a opressão é admitida até pela Carta de Direitos Humanos da ONU. Qual a diferença disso em relação a atos terroristas tal como são definidos pelo direito internacional?

Como indagou o jornalista Cid Benjamim, em artigo publicado em 2001, no Jornal do Brasil, ”teria sido Marighella um terrorista, tal como os autores dos atentados nos Estados Unidos? Teria sido Lamarca um terrorista? E os sandinistas, que derrubaram a ditadura de Somoza? Estadistas hoje respeitados, que lideraram revoluções armadas – como Fidel Castro, por exemplo – foram também terroristas? E os combatentes da Resistência Francesa, também eram eles terroristas?”

Seria interessante o presidente da mais alta corte do país ser apresentado aos protocolos das convenções de Genebra, onde não se confunde terrorismo com direito à resistência, pois neste “não se verifica a intenção de intimidação da sociedade, mesmo porque o que se pretende com o exercício de tal prerrogativa é exatamente o maior apoio possível da maioria da sociedade em favor da causa patrocinada”.

Um olhar menos indulgente sobre a ditadura de 1964 lhe permitiria ver um regime que tinha como metodologia o terrorismo de Estado. Altos comandantes militares fortaleciam e protegiam da vista da opinião pública e da precária justiça existente – com represálias e censuras – os centros de torturas e seus protagonistas mais conhecidos, como o falecido delegado Sérgio Fleury.

Com o governo Médici, o aparato repressivo chegou ao auge com a criação da Operação Bandeirantes. Ler sobre o caso Parasar, capitaneado pelo brigadeiro João Paulo Burnier, para que o serviço de salvamento da FAB entrasse na repressão política, matando ou jogando no alto-mar os corpos dos opositores políticos, talvez servisse como bom exercício de reflexão para Gilmar Mendes. Quem sabe contextualizando a tortura, o ministro não se dê conta de que anistiar quem a praticou seja defender o real terrorismo? É isso que a sociedade espera do judiciário brasileiro? Que se torne uma instituição típica de países conhecidos pela violação de direitos humanos?

Talvez seja o caso de recomendar ao ministro a leitura de “Eros e Civilização”. Nele, Herbert Marcuse afirma categoricamente:

“Esquecer é também perdoar o que não seria perdoado se a justiça e a liberdade prevalecessem. Esse perdão reproduz as condições que reproduzem injustiça e escravidão: esquecer o sofrimento passado é perdoar as forças que o causaram – sem derrotar essas forças”.

É disso que se trata. Ou acertamos nossas contas com o passado – e desse acerto reunimos condições para avançar – ou ficamos refém de um simulacro de democracia.

Carta Maior

A radicalidade de Pierre Bourdieu

Selecionados por Franck Poupeau e Thierry Discepolo, artigos de Pierre Bourdieu revelam, nas suas intervenções públicas, a coerência do engajamento sociológico e político de um “intelectual específico”

Henri Maler

Bourdieu manteve engajamento de “intelectual específico”: hostil aos ensaístas especializados em ocupar a mídia, preocupado em colocar um conhecimento rigoroso a serviço da transformação
Publicado pela editora Agone, que acaba de reeditá-lo após o incêndio que destruiu todo o seu estoque, esse livro de Pierre Bourdieu, “esquecido” pelos grandes meios de comunicação, reconstitui um percurso de quarenta anos de intervenções públicas e permite avaliar a constância, a diversidade e a coerência de um engajamento.

Um engajamento que, apesar de não agradar aos que preferem ignorá-lo, não tem a idade de sua visibilidade nos meios de comunicação: desde a época dos primeiros trabalhos do sociólogo (contra o colonialismo) na Argélia, nunca deixou de ser contemporâneo. Sem dúvida, passou por mudanças significativas, mas, mesmo em suas versões oficiais e institucionais – as propostas de reforma do ensino superior, por exemplo –, jamais se aproximou de uma visão estatal da sociedade e da política. Sua radicalidade, democrática e quase sempre libertária, não data de 1995, quando todos os professores metidos a moralistas que reinavam nos meios de comunicação começaram a se aliar para deplorar uma radicalização que avaliavam à luz de suas abdicações.

O “militantismo sociológico”
É preciso conhecer as inércias sociais que se opõem à transformação da sociedade, se realmente quisermos mudá-la
Os artigos escolhidos por Frank Poupeau e Thierry Discepolo evidenciam que, ao contrário do que se imagina comumente, a lista das intervenções do sociólogo Pierre Bourdieu corresponde quase àquela das obras de sua bibliografia. Portanto, apesar da multiplicação dos alvos, o engajamento público de Pierre Bourdieu continuou a ser sempre fundamentalmente o de um “intelectual específico”, da maneira como Michel Foucault o entendia: hostil aos ensaístas especializados em ocupar os meios de comunicação dominantes e aos especialistas na racionalização da dominação; preocupado em colocar um conhecimento rigoroso a serviço de transformações sociais concretas.

Portanto, é possível constatar a coerência desse engajamento específico, não para imediatamente lhe fornecer um certificado de validade, mas para usufruir de suas contribuições. O fato de toda sua sociologia estar longe daquela funesta ilusão não significa que o “militantismo sociológico” de Pierre Bourdieu tenha a ver com qualquer cientificismo doutrinário que dê à ciência o poder exorbitante de transformar a sociedade submetendo-a a decretos. Ao contrário, Pierre Bourdieu ensina que é preciso conhecer as inércias sociais que se opõem à transformação da sociedade (e ao papel que o conhecimento científico possa ter e desempenhar nesse caso), se realmente quisermos transformá-la e ver esse conhecimento tomar o lugar modesto, mas às vezes decisivo, que pode ter nessa transformação.

Engajamento na ciência e no cotidiano
Um defensor ardente da transgressão dos limites da etiqueta acadêmica. Um partidário da reconstituição do intelectual coletivo, apto a as opor ao individualismo narcisista
Por isso Bourdieu foi ao mesmo tempo um defensor veemente da autonomia do campo intelectual e, mais tarde, como ele próprio reconhecia, um defensor ardente da transgressão dos limites da etiqueta acadêmica, que pretende preservar a pureza do conhecimento confinando seus atores na redoma do Saber. Por isso, em nome da mesma exigência, apesar ou principalmente devido à sua notoriedade, Bourdieu conclamava à constituição de um intelectual coletivo apto a se opor ao individualismo narcisista dos intelectuais que se dedicam prioritariamente aos meios de comunicação que os consagram.

Mas como incentivar a circulação entre os conhecimentos militantes e as contribuições eruditas, se – como sabia muito bem Pierre Bourdieu – os primeiros trazem, na ação e por meio dela, conhecimentos que não são simples crenças preconcebidas? Que relações estabelecer entre o investimento na pesquisa, e até o engajamento militante do pesquisador na qualidade de pesquisador, e o engajamento militante nos combates cotidianos, se o militantismo científico bem fundamentado não se confunde com o carreirismo acadêmico? Essas questões continuam abertas porque levam a tensões que não podem ser totalmente absorvidas. Ao se esforçar para contribuir para a existência de um movimento social europeu, Pierre Bourdieu optou por enfrentá-las sem renegar exigências que os artigos aqui reunidos reconstituem totalmente.

Le Monde diplomatic

Um país baixo busca terras mais altas

John Tagliabue

Nesse minúsculo país abaixo do nível do mar, onde a maior parte das terras foram retiradas do oceano, as pessoas gostam de dizer que enquanto Deus pode ter criado o resto do mundo, foram os holandeses que criaram a Holanda.

Considere por exemplo essa cidade à beira-mar, de casas de tijolos amontoadas atrás de altos diques. Nos anos 60, Lelystad era constituída principalmente pelos barracos dos trabalhadores que construíram os diques e drenaram a água para abrir espaço à agricultura, indústria e residências. Desde então, Lelystad cresceu rapidamente, para os 73 mil habitantes – e continua crescendo.

Hoje, assim como aconteceu durante séculos, os holandeses precisam de mais espaço para abrigar sua população em expansão. Eles também têm de enfrentar uma nova ameaça contra suas terras, quase dois terços delas abaixo do nível do mar: o fantasma da elevação do volume de água marinha associado ao aquecimento global.

Assim, uma comissão do governo propôs recentemente estender o litoral da Holanda em resposta ao desafio da elevação do nível do oceano; outra propôs a construção de ilhas na costa holandesa, como se fossem recifes de corais no Mar do Norte.

Inspirada pelo exemplo de Dubai, que construiu várias ilhas em forma de palmeiras gigantes em sua costa como parte de um grande plano de desenvolvimento urbano, uma dessas comissões sugeriu caprichosamente que as ilhas holandesas deveriam ter forma de plantas, especificamente de tulipas. Um blog humorístico sugeriu que, em vez disso, as ilhas lembrassem folhas de cannabis, em alusão à tradicional tolerância holandesa à maconha.

“Foi uma brincadeira, uma metáfora”, disse Hans de Boer, membro da comissão, sobre o desenho de tulipa proposto para as ilhas. “Nós aparecemos com uma metáfora, e todos quiseram tomar parte na discussão.”

A idéia, continuou Boer, não seria apenas ganhar terra e proteger a costa, mas também demonstrar as habilidades de engenharia dos holandeses. Ao mesmo tempo, as ilhas poderiam funcionar como casas de força, sendo construídas em forma de anel para criar a chamada energia azul usando o contraste entre a água doce e a salgada para gerar eletricidade, ou então o encher e esvaziar das marés. Turbinas de vento também poderiam produzir mais energia, diz ele.

É claro, há céticos, especialmente entre os que têm mais experiência em construir ilhas. “Formas engraçadas como tulipas, tamancos e moinhos de vento são uma boa maneira de começar o debate, mas não deveria ser considerada realista”, disse à Reuters o gerente de marketing Bert Groothuizen, que trabalha na Van Oord, a maior empreiteira de drenagem holandesa, que participa da construção das palmeiras de Dubai.

“As ilhas oferecem proteção contra ondas, no lado que fica abrigado do vento”, explicou Groothuizen numa entrevista por telefone de seu escritório em Roterdã. Mas, diferentemente de Dubai, elas teriam que ser posicionadas a muitos quilômetros de distância da costa. “É muito mais caro”, diz ele.

Esse trabalho deve custar bilhões de dólares – ninguém estimou ainda o valor – e levar décadas. Ainda assim as comissões do governo insistem na seriedade de suas propostas para a criação de ilhas ou expansão da costa, e os prósperos contribuintes não protestam.

A estação de bombeamento de Lelystad é uma das maiores na paisagem recuperada, e fornece um exemplo de como os holandeses aprenderam a viver abaixo do nível do mar.

“Faltaram alimentos na Primeiro Guerra Mundial, e a Holanda queria se sustentar de forma independente”, disse Evert van der Horst, engenheiro-chefe da estação próxima a Lelystad que drena a terra recuperada.

Então os holandeses construíram um dique que separava do oceano um corpo d’água chamado Zuiderzee. Eles chamaram o corpo de água formado pelo dique de Ijsselmeer, por causa de um rio próximo, disse van der Horst, e drenaram a parte ocidental para cultivar a terra e morar. Ele estava entre os milhares de holandeses do interior que ali se estabeleceram.

Durante todo o inverno, as quatro bombas de diesel da estação de bombeamento, que foram convertidas para uma eletricidade mais eficiente, trabalham alternadamente.

Mas “no verão, cada árvore chupa 300 litros de água por dia”, tornando o bombeamento desnecessário, explicou van der Horst, 64. “Dá pra sentir no cheiro das árvores”, disse.

Uma das piores crises de Lelystad aconteceu recentemente, em 1994.

“Tivemos muita chuva antes do Natal, então ativamos as bombas”, disse ele. Depois de meses de bombeamento contínuo, acrescentou, só “terminamos em abril”.

As companhias holandesas ganharam renome nos últimos anos ao ajudar outros países a recuperarem terras do mar. Além das ilhas de Dubai, a ilha artificial do novo aeroporto de Hong Kong foi construída pela companhia de drenagem Van Oord. Então, o governo holandês está pedindo que seus engenheiros e construtores voltem para casa e lutem contra o mar.

O crescimento de cidades como Lelystad não pára, lotando um país já abarrotado de gente. Com uma população de 16,5 milhões, a Holanda tem uma área equivalente a quase um terço do Estado de Nova York, sua antiga colônia, com cerca de 1.270 habitantes por milha quadrada, comparados aos 409 de Nova York. Conforme novas subdivisões florescem nas antigas cidades holandesas e novas rodovias as conectam, o crescimento engole as florestas e terras cultiváveis.

“O número de fazendas, cerca de 80 mil, está diminuindo, enquanto a produção está aumentando. Mas se quisermos aumentar a produção e manter o crescimento, precisamos de mais terras”, diz Joop Atsma, membro local do parlamento envolvido com o planejamento.

Se a Holanda deve construir ilhas ou estender o litoral, ele não sabe dizer. Já Groothuizen da Van Oord não tem dúvidas.

“É melhor e mais barato estender a costa em um quilômetro em direção ao mar e fortalecer as dunas ao longo do litoral jogando bastante areia”, disse.

“Antigamente”, ele filosofa, “os diques eram rígidos, de concreto, mas agora preferimos um litoral mais suave, em harmonia com a natureza. É uma volta ao século 17.”

Acima do dique que protege Lelystad, há um restaurante, ‘t Dijkhuysje, ou Casa do Dique, um dos muitos que antigamente guardavam suprimentos para ajudar os supervisores do dique a lidarem com emergências. “Não temos problema com a água”, diz Rob Sengers, 24, que trabalhou na cozinha do restaurante por oito anos. Se ele está preocupado com a possibilidade do nível do mar aumentar com a mudança climática?

“Talvez isso aconteça mais cedo ou mais tarde”, diz ele. “Talvez meus filhos vejam isso acontecer.”

The New York Times

Cientistas pedem medidas de proteção dos mares e mais pesquisa

Jaime Prats

Todos os dados apontam “com arrasadora evidência” que os oceanos estão sofrendo, especialmente nos últimos cinco anos, uma degradação acelerada que os está levando à “beira do colapso”, nas palavras de Carlos M. Duarte, um dos biólogos mais conhecidos em ecossistemas marinhos e co-diretor do Primeiro Congresso Mundial de Biodiversidade Marinha, que reúne desde terça-feira em Valência (leste da Espanha) mais de 500 pesquisadores. Duarte não poupou adjetivos para salientar que as agressões sofridas pelo meio marinho levam a uma erosão global de sua biodiversidade, “que pode encontrar na mudança climática o golpe de graça que cause uma deterioração catastrófica”.

Estamos novamente diante do clássico discurso apocalíptico do ecologismo mais militante? Para Duarte, não. Para justificar, esse pesquisador do Instituto Mediterrâneo de Estudos Avançados do CSIC recorre à história econômica mais recente. “Há vários meses importantes economistas advertiram que enfrentávamos uma crise financeira sem precedentes. Foram chamados de agourentos e catastróficos, de transmitir um estado de pessimismo social generalizado, e vejam como estamos agora.”

Tanto Duarte como a maioria dos pesquisadores que apresentam suas propostas na Cidade das Artes e das Ciências de Valência afirmam que as amostras de deterioração oceânica são tão importantes que “banalizá-las é um exercício de irresponsabilidade”. E reclamam, como o holandês Carlo Heip, co-presidente do congresso, a implementação de medidas coordenadas de proteção.

De um lado está a superexploração pesqueira e o progressivo esgotamento dos grandes pesqueiros. Os dados indicam que as reservas atuais representam 10% das que existiam no início do século 20, e o ritmo de extração só se mantém graças ao crescente investimento em meios e tecnologia. Além disso, há a mudança climática e o aumento da temperatura da água, cujos efeitos já são observáveis. A Associação de Biologia Marinha do Reino Unido constatou em espécies invasoras de microalgas marinhas um percurso de 50 quilômetros por década para ambientes que antes lhes eram hostis.

A interferência da atividade humana também é responsável pelo aumento das chamadas zonas mortas, os bolsões de água com níveis de oxigênio tão baixos – menos de 4 mg por litro – que tornam impossível a existência de vida. Encontram-se, sobretudo, nas faixas oceânicas costeiras e estão crescendo a um ritmo de 5% ao ano. Esse aumento está relacionado aos despejos de nitrogênio – em boa medida devido aos fertilizantes -, matéria orgânica – dejetos humanos – e sedimentos, que provocam a proliferação de algas e a queda vertiginosa da concentração de oxigênio. Também influem nesse decréscimo o aumento de CO2 ambiental, que interage com a água, reduz o pH oceânico (aumenta a acidificação marinha) e compromete as espécies que têm esqueletos baseados em carbonatos, como os bivalves ou corais.

As feridas abertas por todos esses fatores já são uma realidade no ecossistema ártico, nos arrecifes de coral tropicais ou nas pradarias submarinas, entre as quais se destacam por sua riqueza as mediterrâneas.

Também são apresentadas no congresso as novas descobertas de espécies ligadas aos diferentes programas (Censo da Vida Marinha, Deep Sea, entre outros) que trabalham em ambiciosos projetos de inventário. A exposição Mais Profundo que a Luz mostra algumas das fascinantes descobertas na dorsal mesoatlântica.

Nos dois grandes reservatórios existentes – o Sudeste Asiático e o oceano profundo – estão as maiores esperanças de encontrar compostos de utilidade para aplicações farmacológicas, médicas ou para biocombustíveis. Como exemplo do que resta por descobrir, estima-se que existam cerca de um bilhão de tipos de bactérias marinhas e atualmente há apenas 6 mil registradas. Além disso, no ritmo atual – 2 mil novas espécies por ano – seriam necessários 700 anos para contar com um censo completo dos oceanos. “Isso é impossível, é preciso potencializar a pesquisa”, afirmam Duarte e Heip.

El Pais

Grandes expectativas: o que é possível esperar de Obama?

O significado histórico da eleição de Obama não deve ser subestimado. Basta lembrar que ocorreu em um país onde a Ku-Klux-Klan chegou a ter milhões de membros capazes de executar uma campanha de terror e morte contra cidadãos negros com o apoio de um sistema jurídico discriminatório. É um momento horroroso para ser eleito presidente, mas também é um desafio. Que tipo de mudanças podemos esperar com Obama que assume um país em processo de desindustrialização e fortemente dependente das finanças globais?

Tariq Ali

A vitória de Barack Obama supõe uma mudança geracional e sociológica decisiva na política dos Estados Unidos. É difícil, nestes momentos, predizer seu impacto, mas as expectativas suscitadas entre a gente jovem que impulsionou Obama seguem sendo grandes. Talvez não tenha sido uma vitória arrasadora, mas foi suficientemente ampla para permitir que os democratas ficassem com mais de 50% do eleitorado (62,4 milhões de votantes) e colocassem uma família negra na Casa Branca.

O significado histórico deste fato não deveria ser subestimado. Basta lembrar o que ocorreu no país em que a Ku-Klux-Klan chegou a ter milhões de membros capazes de executar uma campanha de terror e morte contra cidadãos negros com o apoio de um sistema jurídico discriminatório. Como esquecer aquelas fotos de afroamericanos linchados diante do olhar complacente de famílias brancas que desfrutavam seus piqueniques enquanto contemplavam – para dizê-lo na voz memorável de Billie Holliday – “corpos negros balançando-se com a brisa do sul, um fruto estanho pendurado nos álamos”?

Mais tarde, as lutas dos anos 60 pelos direitos civis forçaram a reversão da segregação e impulsionaram as campanhas a favor do voto negro, mas também conduziram ao assassinato de Martin Luther King e de Malcom X ( justo quando este começava a insistir na unidade dos brancos e negros contra um sistema que oprimia a ambos). Tornou-se um lugar comum assinalar que Obama não faz parte desta lista. Não é assim, contudo, como mostram os 96% de afroamericanos que saíram de casa para votar nele. Pode ser que se desiludam, mas por enquanto celebram a vitória e ninguém pode culpá-los por isso.

Há apenas duas décadas, Bill Clinton advertia seu rival, o progressista governador de Nova York, Mario Cuomo, que os Estados Unidos não estavam preparados para eleger a um presidente cujo nome acabasse em “o” ou em “i”. Há apenas alguns meses, os Clinton cediam abertamente ao racismo insistindo que os votantes da classe trabalhadora rechaçariam a Obama, lembrando aos democratas que Jesse Jackson também tinha ido bem nas primárias. Uma nova geração de eleitores demonstrou que eles estavam equivocados: cerca de 66% dos que tinham entre 18 e 29 anos, ou seja, 18% do eleitorado, votou por Obama; 52% dos que tinham entre 30 e 44 – uns 37% do eleitorado – fez o mesmo.

A crise do capitalismo desregulado e de livre mercado fez disparar os apoios a Obama em estados até então considerados território republicano ou de democratas brancos, acelerando o processo que derrotaria a dupla Bush/Cheney e seu bando de neo-cons. No entanto, o fato de que a dupla McCain/Palin obteve, apesar de tudo, 55 milhões de votos, é uma lembrança da força que a direita estadunidense ainda conserva. Os Clinton, Joe Biden, Nancy Pelosi e muitos outros pesos pesados do Partido Democrata utilizaram este dado para pressionar Obama a fim de que ele permanecesse fiel ao roteiro que lhe permitiu ganhar a eleição. Não obstante, os slogans bem-intencionados e anódinos não serão suficientes para garantir um segundo mandato. A crise avançou demasiado e as questões que preocupam aos cidadãos estadunidenses (como pude comprovar estando lá, há algumas semanas) têm a ver com o emprego, a saúde (40 milhões de cidadãos sem seguro de saúde) e a habitação.

Só com retórica não é possível enfrentar a queda da economia: as dívidas do setor financeiro superam a casa de um trilhão de dólares e ainda ameaçam gigantes bancários; o declínio da indústria automobilística gerará desemprego em uma escala mais ampla e seguirão os efeitos do salto ao vazio ao qual Wall Street hipotecou as futuras gerações de norte-americanos. As medidas adotadas, em meio ao pânico, pela administração Bush, medidas desenhadas e adotados pelo amigo dos banqueiros e secretário do Tesouro Paulson, privilegiaram uns poucos bancos e foram subsidiadas com fundos públicos.

Os democratas e Obama apoiaram os acordos e será difícil para eles desdizer-se e mover-se em outra direção. O aprofundamento da crise, no entanto, pode forçá-los a fazê-lo. As medidas de austeridade sempre atingem aos menos privilegiados, e a maneira como o novo presidente e sua equipe enfrentarão o novo cenário será determinante para seu futuro.

É um momento horroroso para ser eleito presidente, mas também é um desafio. Franklin Roosevelt aceitou esse desafio nos anos 30 e impôs um regime social-democrata de regulação da economia, baseado em empregos públicos e em um apelo imaginativo à cultura popular. A existência de um forte movimento operário e a esquerda estadunidense contribuíram decisivamente para o surgimento do New Deal. E a existência dos Reagan-Clinto-Bush para liquidar seu legado. O que há agora, portanto,é uma economia nova, um país desindustrializado e fortemente dependente das finanças globais.

Terá Obama a visão ou a força para voltar ao tempo e avançar ao mesmo tempo? Em matéria de política externa, a posição de Obama/Biden não diferiu muito da de Bush ou Mc Cain. Um New Deal para o resto do mundo exigiria uma saída rápida do Iraque e Afeganistão e um ponto final a estas aventuras em qualquer outra região do planeta. Biden, praticamente, se comprometeu com a balcanização do Iraque. Mas esta alternativa resulta cada vez mais improvável: o resto do país, o Irã e a Turquia se opõem, se bem que por razões diferentes, à criação de um protetorado norte-americano-israelense no norte do Iraque com bases permanentes dos EUA. Na verdade, alguém deveria aconselhar Obama a anunciar uma retirada rápida e completa. Sobretudo levando em conta que, com a crise, os custos de permanecer no Iraque tornaram-se proibitivos.

O mesmo se pode dizer de um eventual deslocamento de tropas do Iraque para o Afeganistão: só recriaria o mesmo problema em outro lugar. Como numerosos especialistas em inteligência, militares e diplomatas britânicos advertiram, a guerra no sul da Ásia está perdida. Sem dúvida, Washington está consciente disso. Daí as negociações, propiciadas pelo medo, com os neo-talibãs. Só resta esperar que os conselheiros de Obama em matéria de política externa forcem uma retirada também nesta frente.

E o que dizer da América do Sul? Seguramente Obama deveria imitar a viagem de Nixon a Beijing, voar a Havana e acabar com o bloqueio diplomático e econômico a Cuba. Inclusive Colin Powell deu-se conta de que o regime havia feito muito por sua gente. Será difícil para Obama predicar as virtudes do livre mercado, mas, em troca, os cubanos poderiam ajudá-lo a estabelecer um sistema de saúde decente nos EUA. Essa é uma mudança que a maioria dos estadunidenses desejaria. Outros países da América do Sul que previram a crise do capitalismo neoliberal e começaram a reconstruir suas economias há uma década também poderiam oferecer algumas lições.

Se a mudança acabar em nenhuma mudança, então poderá ocorrer que, passados alguns anos, quem apoiou Obama para a Casa Branca decida que a criação de um partido progressista nos Estados Unidos tornou-se uma necessidade.

Carta Maior