Daily Archives: 19/11/2008

A obra de Maurício Tragtenberg – in memoriam

Antonio Ozaí da Silva

“Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
– Tantos gestos, palavras, silêncios –
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já não nos soa como os outros”.

Manuel Bandeira

Maurício Tragtenberg (1929-1998) nos legou uma vasta obra que trata de temas históricos, sociológicos, políticos, educacionais, etc. São livros e artigos publicados em jornais de circulação nacional e revistas especializadas.[1] É uma obra que expressa um compromisso militante e uma perspectiva política crítica à sociedade capitalista e às concepções autoritárias sobre o socialismo. Escritos em linguagem simples, são textos de denúncia que estabelecem o diálogo com os operários e os excluídos do sistema de ensino formal, em especial a universidade.[2] Representam uma contribuição importante à crítica da pedagogia burocrática e à afirmação de uma alternativa pedagógica inspirada em pensadores libertários.[3]

Como escreve Tragtenberg, alguém que influenciou a “mudança de paradigmas numa área” e fecundou “uma obra como a de Fernando Prestes Motta, José Henrique Faria, na teoria administrativa, Fernando Coutinho Garcia da UFMG, conseguiu seus objetivos. Isto porque, segundo os clássicos chineses, influenciar é ter poder” (TRAGTENBERG, Memorial, p.20).[4]

Analisar a extensão e influência da sua obra é, portanto, tarefa das mais difíceis – ainda mais se considerarmos os limites inerentes ao perfil de um texto como este. Neste artigo nos limitaremos a apresentar alguns aspectos. O objetivo não é esgotar a análise, mas estimular a leitura dos seus textos.

A primeira obra

O livro Planificação: desafio do século XX, publicado em 1967, resulta da monografia apresentada por Maurício Tragtenberg na Universidade de S. Paulo, a qual lhe deu o direito de prestar o vestibular. Nesta obra, Tragtenberg analisa as diversas concepções sobre o homem: a judaico-cristã, o homem da polis grega, a naturalista – o homo faber. Ele se apóia em autores que constituem um campo amplo e variado: de filósofos como Nietzsche e Kant aos clássicos da literatura (Dostoievski e Franz Kafka), passando por Max Weber e os clássicos do marxismo (Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo). Seu estudo abrange as condições de surgimento do capitalismo ocidental, a evolução da sociedade russa e as origens ao stalinismo. O livro expressa o conjunto das leituras realizadas, de forma autodidata, por vários anos. Por outro lado, demonstra a abertura de espírito à absorção do conhecimento em suas diversas fontes.

O “testemunho de um amigo de muitos anos e algumas vicissitudes comuns”, Antonio Candido, enfatiza o caráter heterodoxo deste trabalho:

O livro que se vai ler foi escrito com profundo empenho vital e intelectual, por um homem que vive em profundidade os problemas da sociedade e do espírito. O leitor verá a tentativa bem conduzida de caracterizar momentos importantes na evolução do capitalismo e do espírito burguês e, depois, nos embates que estes sofreram dos grandes movimentos revolucionários do nosso tempo. Simultaneamente, verá o esforço de reconhecer, na diversidade dos tempos e dos caminhos da história, algumas constantes que permitem localizar o processo desfechado na idéia e na prática da planificação econômica. Com honestidade e heterodoxia, longe de dogmas e preconceitos, o autor circula entre fatos históricos, sociais e econômicos com uma formosa liberdade, manifestando a cada instante uma equação pessoal que não se quer omitir e atua como presença fecundante. Apesar de alguma obscuridade ocasional de expressão, saímos da leitura mais capazes de compreender os temas abordados (TRAGTENBERG, 1967, grifos nosso).

Este depoimento, a título de apresentação da obra, proporciona a síntese dos temas tratados. Em Planificação: desafio do século XX, Maurício analisa o processo revolucionário russo, expondo as contradições e vicissitudes. Sua crítica à burocratização da Revolução Russa incorpora as análises de Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo, mas também Max Weber e o pensamento libertário.

Ele não apresenta novidade ao analisar a revolução russa sob este prisma crítico. Não obstante, sua posição poderia ser outra: trotskista, stalinista, liberal ou direitista. Talvez seja apressado defini-lo como libertário a partir deste texto – e talvez nem seja o caso de procurar enquadrá-lo numa definição. Vemos, contudo, que sua análise é profundamente simpática aos anarquistas. Isto fica evidente na defesa dos marinheiros de Kronstadt, contra a posição oficial do governo bolchevique. Ele manterá essa postura até a morte.[5]

Burocracia, ideologia e poder
A crítica à burocracia e ao poder burocrático constituem aspectos fundamentais da obra de Maurício Tragtenberg. Isto é evidente a partir da elaboração e publicação de Burocracia e Ideologia (1974), que, sem dúvida, constitui um marco na sua produção intelectual. Este trabalho é o resultado do seu doutoramento. Apoiando-se em clássicos como Hegel, Karl Marx, além de Max Weber, ele efetiva uma análise histórico-crítica das formas de dominação burocráticas presentes tanto no modo de produção asiático quanto na sociedade capitalista moderna e no estatismo soviético. Desta maneira, Maurício dá continuidade às análises já presentes em Planificação: desafios para o século XX, particularmente a crítica à burocratização da Revolução Russa.

Em Burocracia e Ideologia, Tragtenberg relata como as teorias administrativas assumem um aspecto ideológico, possibilitando aos incautos tomá-las como se fossem meras teorias explicativas da administração e da organização racional dos processos produtivos. Destarte, elas são despidas de sua natureza ideológica, enquanto expressão da dominação de classe. Negadoras dos conflitos entre as classes sociais, e portanto da necessidade de estabelecer formas de controle social nas unidades produtivas e nas relações de assalariamento em geral, as teorias administrativas, de Saint-Simon a Elton Mayo, são apresentadas como harmonias administrativas. Assim, tais teorias se constituem herdeiras do positivismo durkheimiano.

Tragtenberg desmistifica esta concepção. O desvendamento das teorias administrativas enquanto ideologias de harmonias, seja pela imposição hierárquica monocrática e/ou por estratégias de manipulação, marca sua preocupação intelectual e política em esmiuçar os mecanismos do poder e da opressão de classe. A burocracia é despida do seu manto ideológico e surge em sua realidade concreta, enquanto ideologia e poder de dominação

A crítica da co-gestão
Em Burocracia e Ideologia, Tragtenberg analisa a emergência das teorias administrativas e sua natureza intrinsecamente ideológica. Administração significa controle burocrático do trabalho vivo. Este processo adquire formas diferenciadas em contextos históricos diversos: despotismo explícito, formas despóticas esclarecidas e participativas. É esta última que Tragtenberg examina em Administração, Poder e Ideologia.

Nesta obra Tragtenberg retoma a análise da ideologia administrativa, enfatizando as grandes corporações capitalistas. Após expor criticamente as teorias sobre as corporações, ele passa a examinar “Alice no país das maravilhas”, uma ironia insinuante às teorias participativas e de co-gestão. Ele desvenda o mistério de Alice mostrando que o participacionismo é uma sofisticada estratégia de manipulação e controle. Para tanto, ele retoma o modelo administrativo das “relações humanas”, cuja linguagem psicologizante e polida oculta os verdadeiros objetivos.

No centro da análise de Tragtenberg está a preocupação em desvendar as relações de poder. Em que medida as práticas de co-gestão modificam estas relações? Qual o poder real conferido aos trabalhadores? Tragtenberg argumenta que a co-gestão, a exemplo da Escola de Relações Humanas, “é entendida oficialmente como equilíbrio de poderes, tendo em vista o bom funcionamento da empresa” (TRAGTENBERG, 1989a, p.42). A co-gestão equivale essencialmente à participação nos lucros e pressupõe a cooperação.

Tragtenberg conclui que, a exemplo das demais teorias administrativas, o objetivo da co-gestão é garantir a ordem e paz social, constituindo-se, portanto, em mais uma manifestação das tentativas de alcançar a harmonia administrativa no âmbito privado e estatal.

Atitude e pensar heterodoxos
Maurício Tragtenberg, em Burocracia e Ideologia, explicita tanto um método de estudo e pesquisa quanto uma postura metodológica. Podemos percebê-los no tratamento das fontes, nas notas de referência e na diversidade dos autores, normalmente adotados isoladamente nas Ciências Humanas.

O proceder metodológico não dogmático, respeitoso e fundado na liberdade do intelecto, permite a Tragtenberg reunir teorias conflitantes sem aprisioná-las nas grades da ortodoxia, sem tratá-las como cânones acima da crítica. Desta maneira, Tragtenberg afirma a formosa liberdade e a heterodoxia como fundamento da sua atitude intelectual. Como Max Weber, Maurício Tragtenberg recusa-se a fazer o sacrifício do intelecto.

Eis o método de Maurício Tragtenberg: não se deixar prender nas algemas visíveis e invisíveis das escolas de pensamento. Ele se mantém aberto aos conhecimentos e se vale dos meios que as Ciências põem à disposição. Sua obra não se presta a maniqueísmos e dogmatismos. Tragtenberg é um daqueles indivíduos difíceis de enquadrar em rótulos: os ismos que comumente ouvimos e falamos no ambiente acadêmico e político não permitem compreendê-lo.

Tragtenberg incorpora as contribuições de Max Weber, superando-o; lê Marx, sem adotá-lo de maneira canônica; apresenta-nos Bakunin sem transformá-lo em ícone. Revela os limites do modelo sociológico weberiano, na medida em que se fundamenta e tem como referência a conduta individual, mas reconhece sua contribuição para a compreensão da burocracia e, especialmente, dos fatores referentes à superestrutura da formação social capitalista (a explicação da influência da ética protestante, a sociologia da religião, etc.). Em Karl Marx, ele enfatiza a análise do funcionamento da sociedade capitalista, dos aspectos que constituem a estrutura econômica, as relações de produção.

Eis a atitude intelectual de Tragtenberg: admitir a influência de um pensador para superá-lo. Só os espíritos livres, os que se recusam a fazer o sacrifício do intelecto, são capazes de dialogar e superar.[6] Uma das condições essenciais para garantir este procedimento é a irrestrita liberdade intelectual de crítica, sem a qual não é possível a Ciência.

Marxismo heterodoxo

A heterodoxia evidencia-se, ainda, na maneira específica como Tragtenberg se posiciona em relação ao marxismo e ao anarquismo enquanto ideologias e movimentos políticos. Ele os analisa criticamente, particularmente quanto à prática político-ideológica que se auto-intitula marxista.

No início dos anos 80, Maurício organizou uma coletânea de textos cujos autores, desconhecidos para a maioria do público acadêmico e não-acadêmico brasileiro, vinculam-se ao marxismo heterodoxo.

Tragtenberg recorre a Marx e Lenin contra a leitura hegemônica que os auto-intitulados marxismos, do stalinismo ao trotskismo, fazem do partido enquanto vanguarda do proletariado e da ditadura do proletariado. Por intermédio dos pensadores “heréticos” ele promove o resgate de uma concepção político-ideológica crítica ao socialismo burocrático, recolocando em pauta a possibilidade de um projeto socialista fundado na auto-organização dos trabalhadores e na liberdade enquanto valores intrínsecos do socialismo libertário.

Há um fio condutor entre a posição política que Tragtenberg enfatiza em Marxismo Heterodoxo e os seus primeiros textos. Seu pressuposto é a crítica ao socialismo autoritário. Tragtenberg examina este processo histórico nos livros Reflexões Sobre o Socialismo (1986) e A Revolução Russa (1988a). São obras escritas num palavreado simples e apresentadas didaticamente para facilitar a leitura aos neófitos, em especial aos militantes.[7]

Em Reflexões Sobre o Socialismo ele salienta os temas críticos à Revolução Russa: a autogestão, a rebelião de Kronstadt, a revolução makhnovista, a luta pela autogestão no Leste Europeu, a experiência autogestionária espanhola.

Em A Revolução Russa (1988a), também em estilo didático, Tragtenberg retoma a crítica à burocracia e a defesa da autogestão. Ele resgata as origens da Rússia imperial, enfatizando os aspectos críticos e os movimentos de contestação que surgiram. Esta obra expõe uma interpretação da Revolução Russa crítica às leituras oficiais, numa perspectiva político-ideológica à esquerda.

Ele reafirma a defesa dos marinheiros de Kronstadt, do movimento liderado por Makhno e da Oposição Operária. Observando a pluralidade de partidos que se autodenominavam representantes dos trabalhadores, isto nos primeiros anos da Revolução Russa, Tragtenberg assinala que, “por simples dedução lógica”, fica demonstrado “que não existe nenhum partido da classe trabalhadora”. Na verdade, “todos os partidos carismáticos (que cultivam o liderismo) desconfiam profundamente da classe operária” (TRAGTENBERG, 1988a, p.118).

Tragtenberg reafirma a posição política de Rosa Luxemburgo. Ele relembra que esta revolucionária, em plena Revolução Russa, criticou tanto o governo Lenin/Trotsky quanto Kautsky.[8] Para Luxemburgo, o socialismo não pode ser outorgado ou introduzido por um decreto, nem poderá ser obra exclusiva de um partido.[9]

Marxismo e anarquismo
Maurício Tragtenberg resgata as obras e conceitos de Karl Marx que permitem afirmar um pensamento socialista não-autoritário. Isto significa tratar os textos de modo não-canônico e assimilar sua contribuição, sem fazer o sacrifício do exercício da dúvida e do pensar livre. Aliás, como sugere a leitura da obra de Karl Marx. Paralelamente à crítica aos “marxismos”, ele vislumbra a construção de uma alternativa teórica e ideológica que resgate os aspectos libertários da obra de Karl Marx.

Em Marx/Bakunin (1983a) Tragtenberg faz uma análise comparativa nada ortodoxa da obra destes autores. Ele sublinha a necessidade de separar a produção intelectual de Marx em relação às interpretações dos seus seguidores. Recorda que o próprio Marx recusou a alcunha de “marxista”: “Tudo que sei é que eu não sou marxista”. O termo “marxismo” surge no calor da polêmica com Bakunin.[10]

Nestes artigos, Tragtenberg alerta para o fato de o debate entre “autoritários” e “libertários” tender

“a tornar-se meramente filológico e paroquial, na medida em que está descolado do movimento real do proletariado, onde se dá o processo de união via associação, que procura vencer não simplesmente o “autoritarismo” dominante, mas a divisão social do trabalho, fonte do chamado “autoritarismo”. Discuti-lo como categoria em si mesmo, é uma inutilidade, pois ela é expressão de uma relação social” (TRAGTENBERG, 1983a., p. 294).

Ele também chama a atenção para a necessidade de romper o círculo vicioso próprio do discípulo acrítico: a adesão fanática a um dos lados, identificando o outro como “o inimigo”. A leitura crítica impõe a identificação dos limites inerentes às escolas de pensamento. Maurício se propõe a desmistificar as fáceis interpretações e as verdades tidas como inquestionáveis, tanto dos anarquistas em relação a Marx quanto dos marxistas em relação a autores como Bakunin.

Na análise das complexas relações entre Marx/Bakunin, marxismo/anarquismo, distinguem-se as características que marcam a obra de Tragtenberg: o espírito livre e heterodoxo e a preocupação em analisar os eventos históricos inseridos em seus próprios contextos e como possibilidade de contribuir para atuar diante dos dilemas atuais. Vemos, novamente, que ele consegue amalgamar diversas fontes, tratando-as com liberdade e heterodoxia. Em outras palavras, Tragtenberg está longe de ser um anarquista ortodoxo; sua análise do anarquismo busca apreender a atualidade das suas formulações no sentido de contribuir para a práxis militante contemporânea. Não é uma simples afirmação de princípios ou uma adesão acrítica.

Maurício Tragtenberg contribuiu decisivamente para a difusão do pensamento anarquista. Ele dirigiu, organizou e escreveu as introduções de textos clássicos do anarquismo publicados na Coleção Pensamento e Ação.[11] Um aspecto a observar é o próprio nome da coleção. Com efeito, Maurício procura vincular a teoria à prática, pensar e agir. Os autores que ele divulga têm esta característica.

A iniciativa de Maurício Tragtenberg em facilitar o acesso dos leitores brasileiros a estas obras revela simpatias libertárias e também uma forma de militância. Ele apresenta autores como Bakunin e Malatesta, sem concessões e apologismo. Não obstante, observamos a ênfase em determinados aspectos, insights que confirmam uma concepção libertária do socialismo.

Da leitura das introduções, notas e apresentações dos autores publicados na coleção Pensamento e Ação, ressalta-se a defesa da liberdade. Qualquer libertação que se apóie na opressão dos “poucos” sobre os “muitos”, chame-se Revolução Francesa ou Socialismo de Estado, não é libertação real, mas opressão. O formalismo liberal restringe a liberdade aos direitos formais do indivíduo cindido (cidadão/burguês); o Socialismo de Estado universaliza a liberdade fazendo-a prisioneira da razão de Estado e do partido, que, em tese, representaria os interesses do conjunto da sociedade.

A maneira como Tragtenberg apresenta estes autores ilustra a preocupação de atualizar o pensamento libertário. Atualizá-lo, porém, não no sentido de sacralizar, isto é, de dispor para as novas gerações textos sacramentados pela tradição. O atual para Maurício Tragtenberg significa que estas obras, escritas em contextos sociais completamente diferentes, podem contribuir para a compreensão e superação de dilemas que enfrentamos em nosso tempo. Não porque seus autores sejam profetas e suas palavras representem a doutrina válida para quaisquer circunstâncias históricas, mas porque, simplesmente, os problemas daquela época persistem, ainda que assumam outros aspectos.

Aos desavisados poderia parecer que o dispêndio de energias para resgatar e difundir textos e autores do passado teria apenas uma função propagandista e ideológica. Pelo contrário, Tragtenberg esforça-se para publicá-los porque acredita que esta é uma forma de contribuir com a ação sobre a realidade social e política vigente.

Estes escritos, portanto, oferecem a possibilidade de os militantes refletirem sobre a burocratização e institucionalização do movimento operário, quando a organização meio transforma-se em fim, e o discurso revolucionário de ontem é anulado pelo apego à preservação dos privilégios. Tragtenberg possibilita às novas gerações a oportunidade de aprenderem com a História e a não se iludirem com os novos e falsos profetas.

Concluindo…
A obra de Maurício Tragtenberg apresenta uma característica fundamental: não se volta prioritariamente para a academia, para aquilo que Freire e Schor (1986, p.131) chamam de “balé de conceitos”, isto é, o academicismo da discussão infindável em torno de abstrações desvinculadas do mundo real. Tragtenberg emprega a palavra no sentido sartreano, isto é, sua palavra é comprometida, engajada.[12] Por meio da escrita ele assume um compromisso social e também uma posição política diante dos temas históricos do passado e do presente.

Há uma linha de continuidade na obra de Maurício Tragtenberg evidenciada na crítica permanente aos processos de burocratização dos movimentos e organizações de cunho operário, na crítica ao vanguardismo e, concomitantemente, na defesa dos valores que reforçam a solidariedade entre os trabalhadores e a auto-organização nas experiências autogestionárias. Nesta perspectiva, ele enfatiza os movimentos que colocam a burocracia do partido e do Estado em xeque, ainda que esse partido se autoproclame representante do proletariado e o Estado se autodefina como socialista.

A influência política da obra de Maurício Tragtenberg reside na reafirmação de uma concepção de socialismo libertário. Maurício transporta as teorias para o âmbito da prática, fundando a análise no movimento real dos trabalhadores e inserida numa perspectiva de engajamento político.

Sua obra é um convite à reflexão crítica sobre a trajetória recente do movimento operário brasileiro, aos caminhos e descaminhos tomados pelos projetos político-partidários identificados como de esquerda. Ela contribui para compreendermos as ilusões e desilusões neste processo histórico. Fica o convite à leitura – até porque esta é a minha leitura e interpretação. Que os leitores tirem as suas próprias conclusões…

Revista Espaço Acadêmico

Espanha será a Flórida da Europa

Carmen Morán

A Espanha é um país terapêutico, como atestam os milhares de aposentados que todo ano viajam em busca do sol por diversos períodos de tempo. Essa espécie de turismo continuará, com permissão da mudança climática, sempre que esses cidadãos europeus encontrarem nesse retiro as condições para atender suas necessidades sócio-sanitárias. Na Espanha residem 163 mil pessoas com mais de 65 anos vindas da Europa dos 27. No sindicato Comissões Operárias (CCOO) calculam que mais de 25 mil precisam de ajuda para desempenhar alguma atividade, ou seja, entraram em situação de dependência. O sindicato considera que é uma boa oportunidade para o empresariado espanhol, que poderia construir centros geriátricos ou desenvolver serviços para atender a essa população, que também tem dinheiro para pagá-los.

Não é absolutamente descabido, como provam as residências já levantadas na costa por alemães e noruegueses, por exemplo, com capital público e privado. E seu interesse pela compra de terrenos continua. Diante da nova lei de dependência, que vai aos arrancos na Espanha, os empresários do setor conhecem de sobra a necessidade de profissionais e centros especializados, mas as negociações com o governo não os convenceu a investir com força. “Com o tempo se tomará esse caminho, mas a demanda ainda não é urgente. As residências geriátricas do Levante são as que mais apresentam desocupação, e o empresário não pode tê-las vazias metade do ano. Acabamos enchendo-as com espanhóis”, afirma o presidente da Federação Empresarial de Assistência à Dependência (FED), José Alberto Echevarría. “Não é porque não encontrem aqui o que procuram, eles têm e sai barato; é que ainda não chegou o desembarque que se espera. Há aposentados, sim, mas não entraram em situação de dependência”, afirma.

A Sanyres é uma das poucas empresas espanholas que já exploram esse mercado. Há mais de três anos trabalha na costa de Málaga com estrangeiros, mas começaram com a ajuda de uma consultoria alemã e são sócios de outra empresa desse país. Javier Romero é o diretor e também está convencido de que esse negócio será rentável e abundante com o tempo. “A Espanha será a Flórida da Europa”, afirma, mas diz que ainda há receios com a gestão espanhola. “Pusemos um anúncio nos jornais alemães editados na costa e não houve procura, até que se divulgou pela consultoria alemã; então sim, confiaram”, diz.

Os idosos com que trabalham vêm para estadias temporárias, terapêuticas, e em seus três anos de trabalho passaram pelo centro de Marbella cerca de 800 idosos alemães. Tudo deve estar ao gosto deles. Os horários são adaptados, parte do pessoal fala seu idioma e há salsichas por toda parte. Queriam carpete, colocou-se carpete. Até a decoração, sim, tudo deve ser adaptado”.

Romero disse que assim como apreciam o sistema de saúde espanhol ainda mostram receios com a gestão desses outros serviços. Mas ele não desanima, tem outros dois projetos em andamento para estrangeiros: britânicos, alemães e holandeses. Começaram com estadias temporárias e agora mais de 50% dos idosos se hospedam de forma permanente. O grande inconveniente, ele reconhece, é a escassez de pessoal de saúde. “Isso não é fácil de solucionar, porque gerocultores são formados em alguns anos em cursos de formação profissional, mas ter médicos não será tão fácil”.

Em certas temporadas eles tiveram de recorrer a profissionais estrangeiros contratados em seus países. Só no último verão trouxeram 35. Os cuidados dessas pessoas podem gerar cerca de 18.500 postos de trabalho diretos e mobilizar 522 milhões de euros anuais, segundo a secretária de Políticas Sociais do CCOO, Pura García. Os países mais envolvidos, Reino Unido e Alemanha, já têm escritórios na Espanha onde assessoram seus idosos. A maioria dos alemães não se assenta na Espanha por medo de perder vantagens econômicas, mas os que estão se instalando e atingiram uma idade notam “um déficit de cuidados ambulantes”, e nem todos têm uma boa situação econômica.

A embaixada faz um apelo ao governo para que também receba essas pessoas que um dia trabalharam na Espanha e “contribuíram para o bem-estar do país”, explica Rainer Fuchs, conselheiro trabalhista e social da embaixada alemã em Madri. Mas as residências não os apaixonam; eles preferem os cuidados em casa, que gozam de ampla aceitação na Alemanha. Javier Benavente, presidente da Alares, uma empresa especializada em assistência a domicílio, está consciente do potencial que a Espanha tem nesse setor, mas opina que é preciso levar muito a sério “a formação de pessoal”. “Se aproveitarmos isso, não teremos rival no setor”.

El Pais

O “merchandising social” da TV Globo e os desertos verdes

Gustavo Barreto

FOI O professor Arlindo Machado, pelo que me lembro, que conceituou de forma brilhante a importância de analisarmos a televisão não como um meio em si – tal como Adorno ou McLuhan, para se odiar ou venerar a tevê –, mas pelo conteúdo dos seus programas.
Os brasileiros preocupados com os rumos democráticos da nossa nação precisam ficar atentos ao conteúdo específico de cada programa de grande repercussão e rediscuti-los urgentemente, a julgar pelo que se passou na novela A Favorita, da TV Globo, no sábado (4/10).
Entrou em pauta neste dia o tema da celulose e o respeito ao meio ambiente, de forma explícita, na fala entre a personagem Donatela (interpretada por Claudia Raia) e Augusto César (interpretado por José Mayer). Contextualizando: Donatela é uma mulher que está atualmente do lado do “bem” no imaginário simbólico dos telespectadores (que “torcem” por ela), buscando justiça contra sua adversária Flora (Patrícia Pillar), uma criminosa da pior estirpe (capaz de seqüestrar a própria filha por dinheiro).
Donatela vive atualmente escondida de todos, ao lado de Augusto César, “um homem bonito, atraente, romântico e delirante”, segundo a descrição no site oficial da novela. Segue um breve relato sobre Augusto: “É ufólogo atuante e realiza encontros para meditação.
Ganhou fama de doido quando resolveu largar o rock para se tornar um eremita à espera de um disco voador. Acredita que a mulher Rosana Costa foi abduzida por alienígenas há 13 anos e ainda vai retornar ao planeta para viver junto dele e do meio-filho, Shiva Lênin.” Atualmente, ele efetivamente pensa – fruto de seu delírio – que Donatela é a tal esposa abduzida.

O “debate”
Esse lunático tentou convencer sua “esposa” de que não deveria vender seu lote de terra para a exploração de eucalipto, em benefício de uma grande empresa comandada por Gonçalo Fontini (Mauro Mendonça).
Gonçalo, este grande empresário, é estrategicamente posicionado no roteiro: “É um homem inteligente, culto, íntegro e dedicado à família. Sua autoridade é imposta naturalmente. Quando jovem, Gonçalo tinha idéias comunistas, mas, ao longo da vida, traiu seus ideais e tornou- se um homem riquíssimo.
Apesar disso, é discreto e não gosta de ostentação nem de bajuladores. Gonçalo é muito apegado à neta Lara e sofre com o assassinato de seu fi lho único Marcelo.” Sendo inteligente e culto, na percepção dos autores, faz algum sentido que – de acordo com a ideologia da emissora – tenha “traído” seus ideais e se tornado “riquíssimo”.
Voltando à cena em questão, Donatela argumenta com Augusto (o “delirante”) que ele deveria vender suas terras. Augusto se defende com dois argumentos: construiu sua vida ali, naquela terra, ao lado da esposa (a que foi “abduzida”, que ele pensa ser a Donatela) e acredita que “esse pessoal só pensa em lucrar”.
Donatela (a justiceira, do “bem”), por sua vez, deu outros dois argumentos: “Que que tem? Todo mundo precisa de papel” e “Pelo que sei, é tudo 100% reflorestado”.
É curioso que a TV Globo faça uma campanha semelhante – para não dizer igual – às campanhas, por exemplo, das empresas Aracruz Celulose e Stora Enso, líderes no mercado da indústria de celulose.
Teria sido mais um exemplo do “merchandising social” – uma espécie de inserção de temas sociais para debate público no conteúdo de mídia – ou uma propaganda política?

Desinformação
Os telespectadores não conhecem, pelas mãos da mesma emissora e do seu departamento de jornalismo, o gigantesco conflito político que, aos olhos dos autores da novela, soa como um agradável bate papo para discutir se precisamos ou não de papel.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, cinco organizações ambientais se uniram no mês passado em uma ação judicial contra a presidente da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Ana Maria Pellini, a quem acusam de praticar assédio moral ao pressionar seus funcionários em processos de interesse do setor papeleiro. A denúncia, segundo reportagem da agência internacional de notícias IPS, se refere a ameaças e transferências injustificadas de técnicos que se negaram a modificar critérios de Zoneamento Ambiental da Silvicultura, na licença para construção de represas e para ampliação que quadruplicará a fábrica de celulose Aracruz, maior empresa brasileira do setor, controlada pelos grupos familiares Lorentzen, de origem norueguesa, e Safra, do Líbano.
As ações judiciais neste Estado se encaminham principalmente por irregularidades em licenças ambientais e acordos para que sejam feitos estudos e informes de impacto ambiental. “Exigimos mais restrições, porque o Zoneamento Ambiental, recentemente aprovado, oferece baixa proteção”, explicou Annelise Steigleder, fiscal de meio ambiente de Porto Alegre.
Em outro Estado, o quadro é parecido, ainda de acordo com o relato da IPS: “Na Bahia, a promotoria estadual pediu à justiça que anule licenças ambientais para plantio de eucalipto, obtidas pela empresa Veracel, criada por uma associação (Joint venture) entre Aracruz e a suecofinlandesa Stora Enso. A firma “usou meios ilícitos, desde corrupção de funcionários de órgãos vinculados às licenças até subornos de prefeitos e vereadores”, disse João da Silva Neto, coordenador da Promotoria em Eunápolis, município do sul baiano. “Também foram obtidos de forma irregular certificados de qualidade para garantir exportações”, acrescentou.”
O que as personagens Donatela e Augusto “esqueceram” de falar é que, em junho deste ano, a Justiça Federal brasileira condenou a Veracel (Aracruz e Stora Enso) a restaurar, com vegetação nativa, todas suas áreas compreendidas nas licenças de plantio de eucalipto que foram liberadas entre 1993 e 1996 neste mesmo município. Significa que uma área de 96 mil hectares, coberta por eucaliptais da empresa, deverá ser reflorestada por árvores da mata atlântica, um dos biomas mais diversos do planeta e, ao mesmo tempo, mais ameaçados.
A empresa também foi condenada a pagar uma multa de R$ 20 milhões (12,5 milhões de dólares) pelo desmatamento da Mata Atlântica, com tratores e correntão, ocorrido nos seus primeiros anos de funcionamento (1991-1993). Este é o tipo de reflorestamento – à força, via Justiça federal – que as empresas de eucalipto promovem. Depois de muita destruição.
No Espírito Santo, a Aracruz invadiu terras indígenas – reconhecidas legalmente pelo governo federal como de posse permanente das comunidades originárias – e devastou boa parte do Estado.
Em quatro Estados (RJ, MG, BA e ES), os problemas são acompanhados de perto pela Rede Alerta contra o Deserto Verde, uma ampla rede da sociedade civil composta por mais de 100 entidades, movimentos, comunidades locais, sindicatos, igrejas e cidadãos preocupados com a contínua expansão das plantações de eucalipto na sua região, assim como a venda de “créditos de carbono”.
Basicamente, a rede chama atenção para o desastre socioambiental causado nos últimos 35 anos pela monocultura de eucalipto e pinus, integrado aos complexos siderúrgico e de celulose, atingindo diversos ecossistemas e populações do território brasileiro, empobrecendo nossa diversidade biológica, social e cultural, e causando expropriação, desemprego, êxodo rural e fome.
Mas também tenta mostrar a viabilidade de modelos alternativos de desenvolvimento que têm sido implementados localmente por vários movimentos e comunidades que participam da rede.

Grito abafado
Didaticamente: estes 100 movimentos sociais gritam e reivindicam que monoculturas não são florestas. Portanto, não podem ser destruídas e depois “reflorestadas”, pelo sem-número de conseqüências que trazem para o meio ambiente e para as comunidades locais.
De que adianta o clamor da sociedade civil? A justiceira da novela fala para milhões, argumentando com um homem delirante que, “pelo que sei, é tudo 100% reflorestado” e que “todo mundo precisa de papel”. O homem delirante é “ufólogo” (com todo o respeito à categoria).
O empresário responsável pela monocultura criminosa é “inteligente, culto e íntegro” e sugeriu a um negociador, ainda durante a novela de hoje, que dobre o preço pela terra, “que é muito importante”. Com estas referências – a julgar pelo conteúdo desta novela da TV Globo, as únicas referências que milhões de pessoas receberão –, de que “lado” você ficaria?

Brasil de Fato

‘Ele não será um presidente da paz’

Para analista político americano, Barack Obama terá de praticar uma diplomacia assertiva, especialmente no Paquistão

Flávia Tavares

– “Mudança” e “esperança”, eis as promessas de campanha de Barack Obama. Inspiradoras, sem dúvida. Mas, uma vez presidente dos EUA, fica a pergunta de como transformar idealismo em pragmatismo. O país enfrenta sérias crises, tanto financeiras quanto diplomáticas. Não bastassem duas guerras em andamento, George W. Bush e sua política beligerante provocaram um antiamericanismo talvez sem precedentes. Guantánamo acentuou a rejeição mundial e, pelo menos nesse ponto, Obama reiterou nessa semana que pretende transferir os presos da base naval em Cuba para julgamento em solo americano. Ratificação de discurso ou vício de campanha do futuro inquilino da Casa Branca?

Para John Brenkman, analista político, professor da City University of New York, Obama precisará de ações firmes nos primeiros cem dias de governo para mostrar que suas palavras não eram balela. “O pragmatismo será uma forma de diluir o fervor ideológico que se criou no Partido Republicano”, explica o autor de The Cultural Contradictions of Democracy: Political Thought since September 11. O livro, não traduzido no Brasil, disseca a retórica de Bush e seu combate ao terrorismo desde os ataques às torres gêmeas. “O governo Bush destruiu os conceitos de democracia e liberdade para justificar uma guerra desnecessária”, lamenta o professor. Ele acredita que Obama terá postura diferente: “Não será um presidente da paz. Mas sua diplomacia será constante e assertiva.”

TEMPO DE TRANSIÇÃO

“Uma das maiores conquistas da democracia é a transferência pacífica de poder. E a transição entre Bush e Obama é uma das mais significativas na história recente. Bush tem taxas de reprovação batendo nos 74%. As verdadeiras respostas à crise financeira global e às guerras do Iraque e do Afeganistão virão de Obama, mas Bush permanecerá no poder por mais 65 dias. Enquanto isso, a Al-Qaeda tem o histórico de atacar países democráticos em processo de transição. Publicamente, o governo Bush está facilitando essa transição. Nos bastidores, há notícia de que existe tensão e certas manobras políticas. É essencial que Obama tenha coragem para demonstrar claramente suas posições e intenções. Isso freará qualquer tendência de a equipe de Bush agir contra o que o povo expressou nas urnas.

AS PALAVRAS-CHAVE

“A retórica de Bush destruiu os conceitos liberdade e democracia. Em muitos lugares, usar esses termos para justificar medidas drásticas gera suspeita e hostilidade. Isso é triste, porque a idéia de levar democracia ao mundo e defender liberdades é nobre. Já Obama usou como palavras-chave ?mudança? e ?esperança?. O significado dado à primeira é de que talvez seja possível mudar o ethos da política americana. Ele se considera capaz de ser uma ponte entre a esquerda e a direita, entre as metrópoles e as pequenas cidades. Já a esperança, bem, sua biografia personifica o que os americanos entendem por isso. A questão é como ele transformará esses lemas na Casa Branca. Certamente um novo slogan será cunhado para seu governo, como Kennedy fez (Nova Fronteira) e Lyndon Johnson também (A Grande Sociedade). Republicanos não costumam ter esses lemas, mas Bush acabou transformando sua Guerra ao Terrorismo em um.

PRAGMÁTICOS & IDEALISTAS

“Pragmatismo fará bem a Obama. Será uma forma de diluir o fervor ideológico que se criou no Partido Republicano. Mas é importante lembrar que nós, americanos, somos, ao mesmo tempo, extremamente pragmáticos e idealistas. O idealismo nos inspira a seguir um caminho pragmático. Só que esse idealismo muitas vezes torna os americanos incapazes de ver questões importantes, que precisam de soluções. Foi o que ocorreu com o furacão Katrina. A idéia é: o problema não deve ser tão sério, porque nosso país não tem problemas sérios. Para reconhecer sua dimensão, seria preciso abrir mão dessa auto-imagem.

LÁ FORA

“Obama nunca foi o ?candidato da paz?, não era essa sua propaganda. Foi apenas o único candidato que se opôs à guerra do Iraque quando ela começou. Usou esse dado para se diferenciar dos demais e conquistar o apoio da esquerda do Partido Democrata. Acredito que, agora, concentrará as energias em derrotar a Al-Qaeda. Seu maior desafio externo, no entanto, será o Paquistão. É um paradoxo: os EUA supostamente tiveram boas relações com o Paquistão enquanto o país era governado por um general. Uma vez sob a democracia paquistanesa, as relações são péssimas. Essa será uma arena em que Obama terá de inovar. Não será um presidente da paz, e sim um presidente cuja diplomacia será constante e assertiva.

LÁ DENTRO

“Já internamente, peguemos como exemplo a controversa indicação de Rahm Emmanuel para chefe-de-gabinete. Conhecido como duro operador nas negociações partidárias, não seria ele o oposto do que Obama dizia sobre consenso e reconciliação? De forma alguma! A maior qualidade de Emmanuel é que será capaz de manter os congressistas democratas na linha, deixando Obama livre para buscar soluções não convencionais para os problemas. Obama é maquiavélico, mas ele transcende o maquiavelismo.

REVERBERANDO A CRISE

“A maior divisão na questão econômica sempre foi a intervenção ou não do governo no mercado. Com a crise, pelo menos por enquanto, a defesa da auto-regulação desapareceu. Obama não enfrentará uma batalha ideológica nesse campo. No Senado e no Congresso, os democratas se deram bem; no entanto, os republicanos eleitos são muito conservadores. A primeira votação para o Congresso depois da presidencial é fundamental, e os EUA terão uma em 2010. Se os republicanos retomarem o Congresso, bloquearão tudo. Foi essa retomada em 1994 que restaurou a guerra ideológica, com posições fortes da direita sobre casamento gay, pesquisas científicas, aborto.

NEGRITUDE

“Não acho que ele tenha evitado falar nisso como estratégia política. Sua ascensão nunca foi baseada no movimento negro. Por outro lado, a chegada à Casa Branca deve mudar o tratamento sobre esse assunto nos EUA. Um dos momentos mais importantes da campanha foi o discurso sobre raça que ele fez após o episódio com o Reverendo Wright. Depois disso, a questão racial perdeu relevância. Não sei prever como essa questão aparecerá nos próximos anos.

POÇO DE EXPECTATIVAS

“Agora, se Obama não atender às expectativas em torno dele, a conseqüência política será o rompimento no Partido Democrata. Os democratas não se ergueram por si próprios nos últimos oito anos. Estão fortalecidos porque o governo Bush foi muito decepcionante. Um fracasso de Obama provaria que há desorientação completa no partido. Culturalmente, por conta do valor simbólico dessa vitória, se ele falhar haverá uma crise quase espiritual, internamente e no exterior. É o grande perigo de tentar personificar o discurso da esperança.”

Estadão

Lições da história

A II Guerra não somente abalou a geopolítica internacional como a própria mentalidade das pessoas. Mas os atuais representantes de seus vencedores parecem ter esquecido suas lições

Ignacio Ramonet

Os grandes meios de comunicação reconstroem, de acordo com os modismos, um passado muitas vezes determinado, corrigido, retificado… pelo presente
Há sessenta anos, no dia 8 de maio de 1945, a II Guerra Mundial chegava ao fim na Europa, com o colapso do III Reich alemão. Ainda prosseguiria na Ásia até o dia 2 de setembro, quando, aturdidos pelas primeiras bombas atômicas, os representantes do Japão assinaram a rendição de seu país no convés do encouraçado norte-americano Missouri.

Seria necessário ainda voltar a falar desse conflito, num momento em que, tal como um grande coral, os meios de comunicação nos impõem, por ocasião das múltiplas cerimônias de comemoração1 – o desembarque na Normandia, a libertação de Paris, dos campos de concentração de Auschwitz e, em seguida, de Buchenwald, a queda de Berlim –, uma superabundância de imagens e comentários intermináveis sobre os principais episódios da guerra? A resposta é sim. Por um motivo muito simples: a própria pompa das comemorações enterra e abafa o sentido do acontecimento. O paradoxo é o seguinte: os meios de comunicação lembram… para melhor fazerem esquecer.

O historiador Eric Hobsbawm advertiu: “Atualmente”, afirmou, “a história é revisada mais do que nunca, e até inventada por pessoas que não desejam conhecer o verdadeiro passado, mas apenas um passado que esteja conforme a seus interesses. Nossa época é a da grande mitologia histórica2.”

Distorção da História
A II Guerra Mundial foi o momento crucial do século XX. Um dos acontecimentos mais violentos e mais marcantes da história da humanidade
À medida que o tempo nos afasta dos fatos, desaparecem as testemunhas diretas; e as lições, aprendidas no calor da hora, vão perdendo a nitidez e se misturando. E os grandes meios de comunicação – que não possuem o rigor dos historiadores – reconstroem, de acordo com os modismos, um passado muitas vezes determinado, corrigido, retificado… pelo presente. Um passado expurgado, depurado, lavado de tudo o que não seja conforme com as normas dos dias de hoje. Em relação a isso – outro paradoxo – são poucas as diferenças entre essa nova “história oficial” e a censura exercida pelo Estado em países não-democráticos. Em ambos os casos, é um passado revisado que é repassado às novas gerações. E é contra tal distorção da história que devemos nos insurgir.

A II Guerra Mundial foi o momento crucial do século XX. Um dos acontecimentos mais violentos e mais marcantes da história da humanidade. Em primeiro lugar devido às suas proporções, de uma amplitude jamais igualada. Com a propagação e a progressiva intensificação do conflito, o campo de batalha se espalhou por todo o planeta, envolvendo todos os continentes, com exceção da Antártida. Em 1945, praticamente todos os países independentes estavam envolvidos na guerra. As grandes potências imperiais arrastaram para a guerra, voluntariamente ou pela força, suas colônias da África e da Ásia. E todos os países da América Latina aderiram à causa dos aliados3 – o Brasil chegou a constituir uma força expedicionária que lutou na Itália. No momento em que ruiu o Reich de Hitler, somente nove países do mundo (o Afeganistão, a Dinamarca, a Espanha, a Irlanda, a Mongólia, o Nepal, Portugal, a Suécia e a Suíça) permaneciam oficialmente neutros.

O número de soldados mobilizados superou tudo o que jamais se conhecera. Enquanto, na Ásia, os japoneses travavam uma guerra sem fim para se tornarem senhores da China, a Alemanha mobilizou, em 1939, 3 milhões de soldados de seu exército (a Wehrmacht) para ocupar a Polônia. Pouco depois, mobilizaria 6 milhões de homens para desfechar uma “guerra preventiva” contra a União Soviética, a qual, por sua vez, teve que a enfrentar convocando mais de 11,5 milhões de homens… E quando os Estados Unidos entraram na guerra – após também terem sido vítimas de um “ataque preventivo” dos japoneses a Pearl Harbour no dia 7 de dezembro de 1941 – mobilizaram 12 milhões de soldados…

Guerra total
Pela primeira vez numa guerra, o número de civis foi muito superior ao de militares mortos em combate
Essa guerra planetária foi também uma “guerra total”, que se caracterizou pela expansão da “zona mortífera” para muito além do campo de batalha propriamente dito. As populações civis de toda a Europa, da Rússia ocidental e da Ásia oriental foram vítimas de operações militares, bem como da proximidade das diversas frentes de luta – batidas, repressão e bombardeios sistemáticos. Sem falar da perseguição e dos massacres – por motivos ideológicos ou devido a políticas raciais – de que foram vítimas milhões de civis (principalmente os judeus europeus, os ciganos, os chineses e os coreanos) por parte dos países do Eixo, especificamente na Europa oriental e na China.

O custo em vidas humanas foi o mais alto da história. Calcula-se o número total de mortos em 50 milhões. Na Europa morreu mais gente do que na Ásia – e muito mais na Europa oriental do que na ocidental. Somente o exército soviético – o Exército Vermelho – perdeu cerca de 14 milhões de homens: 11 milhões nos campos de batalha (dois milhões dos quais nas frentes do Extremo-Oriente) e três milhões em campos de prisioneiros alemães. Algumas das principais batalhas, como a de Stalingrado (de setembro de 1942 a fevereiro de 1943), o desembarque na Normandia (junho de 1944) ou a tomada de Berlim (20 de abril-8 de maio de 1945), revelaram-se mais mortíferas do que os piores embates durante a I Guerra Mundial.

Entre os aliados, o total de mortos em combate foi de 300 mil norte-americanos, 250 mil ingleses e 200 mil franceses. O Japão perdeu 1,5 milhão de soldados. Mas uma das principais causas da perda de vidas humanas foi o combate, na frente oriental européia, entre a Wehrmacht e o Exército Vermelho e que terminou com a morte de mais de 11 milhões de soldados de ambos os lados e mais de 25 milhões de feridos…

Mais civis mortos
Ao contrário da Alemanha, o Japão nunca reconheceu de maneira convincente seus abomináveis crimes de guerra contra civis chineses e coreanos
Pela primeira vez numa guerra, o número de civis foi muito superior ao de militares mortos em combate. Além do que os civis foram, muitas vezes, vítimas de atrocidades cometidas para aterrorizar o adversário. Na Ásia, por exemplo, o Japão – que invadira o Norte da China e ocupava Pequim desde 1937 – lançou seu exército sobre Nanquim, onde funcionava, na época, a sede do governo chinês, que decidiu resistir. Após a tomada de Nanquim, o exército japonês cometeu um verdadeiro massacre. Os mais de 200 mil chineses que ainda se encontravam na cidade foram todos executados em condições atrozes. As mulheres foram brutalmente violentadas, homens e crianças foram enterrados vivos, ou torturados, segundo orientações precisas. A cidade foi saqueada e, em seguida, queimada de ponta a ponta.

O príncipe Asakasa, principal responsável por essa carnificina, jamais foi denunciado após o fim da guerra. Até hoje, alguns livros escolares japoneses minimizam esse crime. O que, com razão, enfurece chineses e coreanos, como se pôde ver no mês de abril, em Pequim, por ocasião das grandes manifestações anti-japonesas. Ao contrário da Alemanha, o Japão nunca reconheceu de maneira convincente seus abomináveis crimes de guerra contra civis chineses e coreanos.

Dimensão apocalíptica
Tal como o conhecemos nos dias de hoje, o mundo continua, em grande parte, moldado pelo traumatismo causado por essa guerra
A fome dizimava populações sitiadas por toda parte. Em Leningrado (atual São Petersburgo), por exemplo, mais de 500 mil civis morreram de inanição entre novembro de 1941 e janeiro de 1944. Também ocorreram saques maciços das cidades. As tropas beligerantes deixaram de lado quaisquer escrúpulos em relação às grandes cidades indefesas. A começar pelas forças de Hitler, as quais, de 10 de setembro de 1940 até 15 de maio de 1941, multiplicaram os raids aéreos contra as cidades inglesas (entre as quais, Coventry), matando mais de 50 mil civis. Assim como muitas outras cidades, Varsóvia foi destruída de ponta a ponta, de novembro a dezembro de 1944, pelas tropas alemãs que batiam em retirada. Os aliados retrucaram, no dia 13 de fevereiro de 1945, com a destruição de Dresden, provocando dezenas de milhares de vítimas civis e inúmeros refugiados. Mais tarde, nos dias 8 e 11 de agosto de 1945, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki foram riscadas do mapa com as primeiras bombas atômicas da história.

Também houve os êxodos e marchas forçadas que fizeram incontáveis vítimas entre os prisioneiros de guerra, os deportados e as populações refugiadas; somente no ano de 1945, por exemplo, mais de 2 milhões de alemães morreram quando fugiam a pé, em direção ao ocidente, diante do avanço das tropas soviéticas. E, acima de tudo, houve o crime dos crimes: o extermínio sistemático, pelos nazistas, motivado pelo ódio anti-semita, de seis dos doze milhões de judeus europeus.

Por suas dimensões apocalípticas e pelos furacões de violência, crueldade e morte que espalhou pelo mundo, a II Guerra Mundial não somente abalou a geopolítica internacional como a própria mentalidade das pessoas. Para as gerações que viveram aquela guerra e sobreviveram à sua violência, nada jamais poderia ser como antes. Durante o conflito, o homem mergulhara numa espécie de abismo do mal, chegando, de certa maneira, a se desumanizar. Especialmente em Auschwitz. E, uma vez terminada a guerra, era necessário buscar uma regeneração, uma reconstrução do espírito humano. Uma re-humanização do homem.

Traidores dos ideais de 1945
Uma das lições da II Guerra foi de que deve ser evitado a qualquer custo um conflito do mesmo tipo: por isso a comunidade internacional criou a ONU
Tal como o conhecemos nos dias de hoje, o mundo continua, em grande parte, moldado pelo traumatismo causado por essa guerra. Algumas lições foram tiradas, principalmente as seguintes. Em primeiro lugar, que deve ser evitado a qualquer custo um conflito do mesmo tipo. Essa certeza levou a comunidade internacional a criar, em 1945, um instrumento inédito: a Organização das Nações Unidas (ONU), cujo principal objetivo continua sendo o de impedir as guerras. Em segundo lugar, que as teorias fascista e nacional-socialista, assim como o militarismo imperial japonês, continuam sendo culpados por terem lançado o mundo ao abismo de uma guerra tão abominável. Que os regimes políticos que se baseiam no anti-semitismo, no ódio racial e na discriminação constituem perigos não somente para seus próprios povos, mas para toda a humanidade. Foi por isto, aliás – e de forma muito natural –, que à II Guerra Mundial seguiu-se o nascimento do Estado de Israel e o grande despertar dos povos colonizados da África e da Ásia.

Mas os próprios vencedores parecem ter esquecido as lições daquela guerra. A Rússia do presidente Vladimir Putin, por exemplo, se desonra de forma ignominiosa com sua repressão cega e abuso de força na Tchetchênia. E, nos Estados Unidos, o governo do presidente George W. Bush serve-se dos odiosos atentados de 11 de setembro como pretexto para questionar o Estado de Direito. Washington restabeleceu o princípio da “guerra preventiva” para invadir o Iraque, criou “campos de detenção” para prisioneiros privados de quaisquer direitos e tolera a prática da tortura.

Essas gravíssimas infrações não impediram, de forma alguma, que Putin e Bush ocupassem o lugar central das cerimônias que celebrarão a derrota do III Reich, no dia 8 e maio. Poucos serão os meios de comunicação que ousarão lembrar-lhes que eles usurpam aquele lugar por terem traído os grandes ideais da vitória de 1945.

Le Monde diplomatic

A lenda de Xiaogang

Pequim espera usar a reforma agrária para ajudar os fazendeiros a se beneficiarem com o boom econômico da China – e para evitar que eles se mudem para as cidades grandes

Wieland Wagner

Hoje em dia não é incomum que o criador de porcos Yan Jinchang coloque sua forquilha de lado e vista uma camisa branca limpa. Isso acontece porque seu vilarejo, Xiaogang, a cinco horas de carro do nordeste de Xangai, tornou-se o centro das atenções da mídia e do público. Mais uma vez, a República Popular tem grandes planos para o lugar, e os jornalistas estão correndo para ver qual é o motivo de tanto entusiasmo. E, mais uma vez, todos esperam aprender com Xiaogang.

Até Hu Jintao esteve lá recentemente. O presidente e líder do Partido Comunista que tem a mesma idade do criador de porcos, 65 anos, encontrou-se com Yan e outros fazendeiros. Hu, que também usava uma camisa branca, sentou-se num banquinho do lado de fora e pediu aos moradores do vilarejo de Xiaogang que contassem de novo como eles fizeram para colocar o capitalismo chinês em marcha neste lugar, há 30 anos.

É claro, o líder do partido não estava lá para falar do passado, mas para determinar o tom do futuro. Logo depois de sua visita, ele e seus camaradas do Comitê Central do Partido Comunista se encontraram para discutir uma nova política de reforma agrária. Se o presidente do partido, Hu, conseguir que as coisas aconteçam como ele quer, poderá reconstruir o país inteiro e transformar a China da mesma forma que os antigos acontecimentos fizeram com Xiaogang.

Xiaogang é uma lenda. Todo chinês em idade escolar aprendeu sobre o vilarejo e sua história. Há 30 anos, o fazendeiro Yan e outros 17 chefes de família assinaram um documento – um acordo segundo o qual os 18 membros pediam para cultivar as terras da comuna que existia na época de forma independente, cada um por si.

O experimento capitalista, que aconteceu imediatamente depois da Revolução Cultural, era ilegal. “Mas nós éramos pobres e não tínhamos escolha”, diz Yan. Os fazendeiros prometeram cuidar dos filhos uns dos outros, caso fossem presos. Longe de serem jogados na prisão, os homens se tornaram heróis nacionais. Pouco tempo depois de assinarem o acordo, o lendário reformista Deng Xiaoping lançou suas medidas de longo alcance.

Xiaogang, onde os fazendeiros tiveram tanto sucesso que dobraram suas safras no primeiro ano, tornou-se um modelo. E agora as autoridades querem convocar o espírito local para inspirar a próxima reforma. O partido quer permitir que os fazendeiros transfiram o direito de uso de suas terras, que ainda pertence ao Estado, para terceiros – num movimento que as autoridades acreditam irá estimular as economias locais.

Um passo à frente

Mais uma vez, Xiaogang está um passo à frente do resto do país. Yan Jingchang e vários outros fazendeiros já arrendaram suas terras por 20 anos para uma grande empresa de Xangai. Yan, que agora é empregado da companhia, ainda cuida dos porcos. A companhia investiu em sua fazenda, permitindo que ela crescesse e se modernizasse. Segundo Yan, isso beneficia a todos.

Há tempos os comunistas vêm desenvolvendo planos para uma reforma agrária, sabendo que no fim das contas será prejudicial para a China se ela continuar apenas fabricando tênis, TVs ou navios de carga e apostando que o resto do mundo vai comprar seus produtos. Mas agora que a crise financeira está se transformando numa crise econômica global e guardar dinheiro é a nova palavra de ordem no Ocidente, a fábrica do mundo precisa procurar novos consumidores – em seu próprio país.

A China precisa transformar seus quase 800 milhões de agricultores em consumidores. O partido quer ver a renda da população rural dobrar até 2020, o que representaria uma mudança radical. Isso poderia explicar porque Pequim anunciou apenas uma descrição vaga da reforma. Os especialistas chineses especulam que o atraso foi resultado de uma resistência substancial e, em alguns casos, inesperada, do Partido Comunista. Até agora, os estrategistas oficiais vinham tratando a população rural principalmente como um enorme exército reserva de trabalhadores baratos.

Os fazendeiros de Xiaogang não estavam numa situação muito melhor, apesar do mito de ser a terra natal das reformas de Deng tê-los protegido do pior. Em outras regiões, oficiais corruptos do partido confiscaram campos e terras aráveis de forma ilegal para construir prédios de apartamentos e fábricas, numa jogada altamente lucrativa.

Em Xiaogang, entretanto, os moradores receberam subsídios do governo para construir um prédio de administração atrativo, uma enorme praça pavimentada e um museu para celebrar a paixão reformista.

Mas para poder desfrutar do “pouco de prosperidade” que o partido prometeu aos seus súditos, os moradores do vilarejo eram freqüentemente forçados a enviar seus filhos e filhas para trabalharem nas fábricas das cidades grandes. Quanto mais rápido a economia da China cresce, maior se torna a divisão entre os fazendeiros do interior e a classe média emergente de cidades que avançam rapidamente, como Xangai e Shenzhen.

Wang Shaodian, 44, e sua mulher cultivam um campo de trigo nos arredores de Xiaogang. Seu trator tem 24 anos de idade, mas Wang precisará dele por muitos anos mais, não apenas nos campos, mas também como meio de transporte. Ele poderia comprar um carro, diz, segurando na mão esquerda a alavanca que ele usa para dar partida no veículo enferrujado. Mas não tem seguro de aposentadoria, e guarda quase todo yuan que sobra para sua velhice. Muitos de seus colegas chineses estão na mesma posição, guardando em média quatro vezes mais dinheiro do que os alemães.

Vida simples é melhor

Essa não é a imagem que se espera de alguém prestes a tomar o lugar dos europeus e americanos no consumo doméstico dos produtos chineses. No entanto, diz Wang, ele já viu melhoras consideráveis na vida cotidiana no interior do país. A mudança mais importante aconteceu quando o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao aboliram a taxa sobre as terras agrícolas, que havia mantido os fazendeiros chineses na pobreza durante séculos.

Raramente se passa um mês sem que o primeiro-ministro Wen visite algum vilarejo na China. Como se fosse o assistente social mais qualificado do país, ele pergunta sobre as dificuldades que as pessoas enfrentam, assim como fez há alguns meses, depois do terremoto na província de Sichuan. Mas os fazendeiros não estão interessados em esmolas do governo. Em vez disso, eles querem mais liberdade. Isso, pelo menos, foi o que o fazendeiro Yan disse ao poderoso camarada Hu quando o líder perguntou a ele recentemente, em voz amigável: “Bem, por que você não diz alguma coisa?!”

Os fazendeiros de Xiaogang querem usar a terra de forma mais eficiente, disse Yan ao camarada do alto-escalão. “Queremos fazer negócios que sejam lucrativos e criar empregos, aqui em nosso vilarejo.”

A forma mais rápida de dar início ao enorme mercado doméstico chinês seria permitir aos fazendeiros a propriedade das terras e a possibilidade de vendê-las. O que, para os comunistas chineses, ainda se parece muito com o capitalismo puro e, portanto, é tabu. É uma barreira de inibição ideológica da qual eles continuam fugindo. As campanhas quase sempre brutais do passado contra os grandes proprietários de terra ainda estão frescas em suas memórias. E eles têm muito medo de que “o socialismo com características chinesas” possa se transformar de vez em nada mais do que um slogan de propaganda.

Todavia, o presidente do partido, Hu, inspirou grandes esperanças com o anúncio de uma reforma agrária iminente. Mas agora suas palavras precisam ser seguidas por ações, ou ele poderá perder a credibilidade – inclusive aos olhos do criador de porcos Yan. O herói de Xiaogang continua a lembrar de algo que Hu disse aos fazendeiros: “todos vocês terão mais dinheiro em seus bolsos no futuro.”

Der Spiegel

A agonia do gigante

Em 7 de novembro, a General Motors admitiu que poderá suspender operações por insuficiência de caixa até o fim do ano, se não for socorrida pelo Estado. Em 13 de novembro, seu valor de mercado era de 1,7 bilhão de dólares – menos de 10% do que valia em novembro de 2007 e menos, em termos reais, de seu valor nos anos 40. A linha de crédito para as financeiras das montadoras brasileiras (nota abaixo) vale o dobro.

A GM precisa de 10 bilhões apenas para manter seus sinais vitais em 2009 e outros 15 bilhões para fechar linhas de produção e indenizar demitidos. Em média, as vendas do setor em outubro caíram 32% em relação ao mesmo mês de 2007. A retração da Toyota foi 23%, da Honda, 25%, da Ford, 29%, da Nissan, 33%, da Chrysler, 35% – e a GM caiu 45%.

Ford e Chrysler, também em má forma, podem esperar mais alguns meses pelo resgate. A GM exacerbou seus problemas ao ignorar o aquecimento global, o terceiro choque do petróleo e o risco de crise financeira. Em vez de aproveitar as economias proporcionadas pelas concessões dos sindicatos para modernizar-se e melhorar a eficiência energética e ambiental de seus produtos, seguiu a tradição de veículos ostentosos e de alto consumo com a qual superou Henry Ford, pagou salários multimilionários a seus executivos e chegou a deter tanto poder que, em 1953, seu presidente afirmava, confiante: “O que é bom para o país é bom para a GM e vice-versa”.

Não é mais assim: apesar da pressão de Obama e dos democratas, Bush júnior reluta em resgatar a empresa. Mas as montadoras de Detroit geram 1,2 milhão de empregos diretos e indiretos. Deixá-las quebrar pode sair ainda mais caro, ao elevar brutalmente o desemprego e jogar mais de 600 mil aposentados nos braços da previdência pública. Por outro lado, investir no atual sistema de gestão dessas empresas parece ser jogar dinheiro fora.

Grandes jornais, Wall Street Journal e The New York Times, entre outros, sugerem que o governo deixe a empresa falir, resgate seus ativos e venda-os a outro grupo, que retomará a operação em menor escala, com menores salários e sem precisar honrar os compromissos da GM com sindicatos, fornecedores e revendedores. Algo como o que se fez com a Varig no Brasil. Se assim for, mais uma vez a causa da falência será atribuída ao que a empresa tinha de melhor, as boas condições que oferecia a seus operários, e não aos erros de seus acionistas e executivos – pelos quais, também mais uma vez, pagarão empregados e contribuintes.

Carta Capital

Dez outros candidatos “independentes” disputam, sem nenhuma esperança, a corrida à Casa Branca

Sylvain Cypel

Além dos dois grandes rivais, o democrata e o republicano, dez outros candidatos disputam a eleição presidencial americana. Apenas dois dentre estes são creditados, nas pesquisas, de um resultado significativo: o independente Ralph Nader obteria 2,5% dos votos; e o “libertariano” Bob Barr, 1,3%.

Ao longo da história americana recente, nenhum candidato “independente” nunca conseguiu levar vantagem. Contudo, alguns deles chegaram a influenciar o resultado. Em 1992, o bilionário texano Ross Perot havia conquistado mais de 18% dos votos. Um adversário decidido da dívida interna e externa do país, ele havia acusado o presidente republicano em final de mandato, George Bush, o pai, de tê-la aumentado excessivamente. Este último havia então perdido muitos votos republicanos que se bandearam para a candidatura de Perot, e o democrata Bill Clinton acabara triunfando com uma vantagem de cinco pontos.

Ralph Nader, por sua vez, também contribuiu para “definir” a eleição em 2000. Apresentando-se como o candidato dos ecologistas, ele havia obtido 2,74% dos sufrágios. O democrata Al Gore havia vencido por meio-ponto (48,5% contra 48%), mas fora derrotado por George W. Bush na votação do colégio dos grandes eleitores, designados no nível dos Estados. Ora, na Flórida, onde o resultado, muito contestado, havia sido favorável a Bush, os votos conquistados por Ralph Nader haviam superado amplamente o número daqueles que haviam faltado para Al Gore vencer.

Ralph Nader, pela quinta vez

Um defensor histórico dos consumidores, um militante ecologista e um pacifista, Ralph Nader, aos 74 anos, é candidato pela quinta vez. Ele enxerga em Barack Obama um homem “cujos melhores instintos foram censurados” desde que ele se declarou candidato, e que “conduzirá uma política favorável aos grandes patrões”. Nader atrairá, sobretudo, os votos do eleitorado de esquerda, daqueles eleitores que consideram o candidato democrata demasiadamente moderado em relação às questões do meio-ambiente ou do Oriente Médio.

Este é também o caso da candidata ecologista, Cynthia McKinney, 53 anos. Ela que foi a primeira representante negra da Geórgia, eleita, em 1995, como candidata do Partido democrata, adotou em várias oportunidades posições que foram muito criticadas. Entre outras, ela sugeriu que a atitude da administração Bush em relação aos atentados de 11 de setembro de 2001 não era “clara”. McKinney foi suspeitada de “anti-semitismo” em 2002 pela organização judaica Anti-Defamation League.

Em contrapartida, o candidato do Partido libertariano, Robert Barr, 60 anos, um antigo eleito republicano da Geórgia, poderia tirar um bom número de votos de John McCain. Os “libertarianos”, que lutam contra todo entrave inútil à atividade humana, recusam todas as formas de intervenção pública na economia, inclusive contra toda restrição ao porte de armas. Pelos mesmos motivos, eles contestam a legitimidade do Patriot Act (a lei antiterrorista), que reduz as liberdades civis, ou ainda a proibição do haxixe. Além disso, eles sempre foram adversários ferozes da guerra no Iraque.

O mais célebre dentre os “libertarianos” é Ron Paul, um representante republicano do Texas e um candidato à designação do seu partido que obteve certo sucesso nos Estados do Sul. Contudo, ele recusou-se a abandonar suas funções para se apresentar como candidato à presidência. Muito menos conhecido, Robert Barr foi um dos representantes mais conservadores que já atuaram na Câmara, de 1995 a 2003.

Le Monde

O pré-ministério de Wall Street

FRANCISCO DE OLIVEIRA

Há uma contradição entre a mensagem de mudança de Obama e a nomeação de figurões de Wall Street para a equipe de transição

NA CONTRACORRENTE da euforia e do otimismo generalizados com a eleição de Barack Obama, cumpre pensar em algumas contradições entre o “sonho” e a realidade; peço antecipadas desculpas pela saturação da “obamania”.
Na cultura política norte-americana, forjada por uma simbiose do protestantismo calvinista com “afinidades eletivas” -Goethe “apud” Weber- com o êxito capitalista, no chão de uma nação de imigrantes, ser rico não é uma falta, mas até um sinal de salvação. Entre nós, como bem o sabia Sergio Buarque de Holanda, mesmo um catolicismo complacente não encontra muitas afinidades entre a salvação eterna e o desfrute das riquezas do mundo.
Assim, talvez o anúncio da equipe de transição de Obama não ofenda seus milhões de eleitores. Mas há uma contradição flagrante entre sua mensagem de mudança e a nomeação de figurões de Wall Street para fazer a transição entre o (des)governo Bush e a esperança obamista. Até porque a periferia, ainda que a contragosto, -Lula: o problema não é só do Bush- terá parte nas soluções que o eleito presidente dos EUA vier a concretizar para resolver a crise -ou prolongá-la.
Deve-se desconfiar dos ricos, que não podem morder o próprio rabo nem operar contra seus interesses? Isso é luta de classes de botequim, que os leitores desta Folha não merecem. A menos que exista entre os nomeados algum Keynes escondido -e a folha corrida deles não deixa a ver nenhuma ponta desse iceberg- e que Obama seja, de fato, uma reinvenção de Franklin Roosevelt, o aristocrata novaiorquino que enfrentou sua própria classe social para reerguer os EUA atolados na mais funda depressão da história do capitalismo e de sua própria história nacional; mas a lista divulgada promete mais do mesmo, pelos breves currículos publicados por esta Folha em 7/11.
Dos 17 citados, 11 são diretamente ligados a grupos financeiros da linha de frente de Wall Street. Não estavam eles entre os barões ladrões que inflaram as bolhas até o recente estouro?
Fica patente também que o Partido Democrata preparou-se para uma outra administração Clinton, sob a presidência da chata da Hillary; Obama foi um cavalo azarão. A tão propalada preparação do senador por Illinois pode ter sido um blefe: ele está inteiramente nas mãos dos clintonianos. Capacidade de ouvir não é capacidade de governar. Lembra o folclórico governador Valadares, de Minas, que dizia com bom humor ficar “rouco de tanto ouvir”.
O keynesianismo civil sozinho não conseguiu reerguer os EUA. Foi preciso o “keynesianismo de guerra”, na forma das pesadas encomendas do governo rooseveltiano às indústrias bélicas, para a economia norte-americana levantar vôo e manter-se no ar durante os chamados “30 anos gloriosos” até os anos 70.
Obama não dispõe de nada disso: ao contrário, o keynesianismo não funciona numa economia globalizada, porque o poder nacional, mesmo o dos EUA, é limitado pelos constrangimentos da globalização, tanto que os esforços agora são para uma concertação geral de políticas, sobretudo a monetária, entre os principais países capitalistas; e os EUA não estão saindo de uma guerra vitoriosa. Muito ao contrário, estão quase como no Vietnã: de rabo entre as pernas.
E do brevíssimo período, uns dez anos se tanto, da arrogância unilateral da única potência que restou da Guerra Fria, caminhou-se para uma multipolaridade -a aposta de Togliatti, o velho líder comunista italiano- na qual emerge, com destaque, uma nova potência como a China. Para uma crise global, só uma saída global: mesmo o delírio de Bush e asseclas não conseguiu criar uma guerra global, que era na verdade seu projeto, o Armagedon, e ficou só na destruição do Iraque -então uma próspera economia- e na rematada destruição do já combalido -a ex-URSS havia feito sua parte- Afeganistão.
Ninguém deseja uma guerra para resolver uma crise do capitalismo: o último clone de Hitler está saindo de cena. Melhor seria que o sistema se esvaísse sem a necessidade de um trauma global, mas nem Papai Noel sonha com isso. Assim, é preferível que Obama cumpra suas promessas, o que já seria um otimismo cauteloso ou um pessimismo melhorado (fórmula parecida com o “silêncio obsequioso” da mais que dialética Igreja Católica), que é o desejo quase geral do establishment para o futuro governo de Obama.
A ausência de uma teoria sobre o capitalismo globalizado dá lugar apenas a tímidas perspectivas que não vão além de uma semana. Já vimos esse filme, muito recentemente: o de uma esperança que venceu o medo para depois entregar-se a ele. E, embora os atores possam ser competentes, os resultados das histórias, não dos filmes, que são ótimos, podem ser desastrosos: entre a abertura respeitosa, mas sem esperanças, de um “Linha de Passe” e a tragédia anunciada de “Última Parada 174″.

Folha de São Paulo