Daily Archives: 14/11/2008

Sistema alimentar

Saiba mais sobre o aumento global no preço dos produtos alimentícios

Ricardo Abramovay

Em 16 de outubro, a celebração do Dia Mundial da Alimentação se realizou num ambiente em que os preços agrícolas conhecem não só aumentos espetaculares, mas uma volatilidade que põe a insegurança alimentar no centro da agenda internacional.

Desde 2000, as cotações internacionais do trigo, da manteiga e do leite triplicaram. As do milho dobraram. Arroz, carne, mandioca, óleos vegetais também passam por elevações extraordinárias. Josette Sheeran, diretora do Programa Alimentar Mundial, mostra, em artigo também publicado pelo IFPRI, que de 2002 a 2007 os custos de aquisição de seu programa aumentaram 50%. De 2007 para cá subiram outros 50%. Os estoques mundiais de trigo estão em seu nível mais baixo desde 1978. Ao final da safra 2008/2009, as reservas de milho devem ficar aquém do que eram em 1996.

Nos últimos oito anos, houve sete em que o consumo de grãos superou a produção. Entre janeiro de 2007 e junho de 2008 nada menos que 50 países já conheceram protestos públicos motivados pela disparada dos preços alimentares. E agora, com as repercussões da crise financeira na economia global, há o forte risco de os agricultores venderem suas próximas safras com preços deprimidos. Não é apenas um novo patamar de preços, mas uma situação de imensa instabilidade.

Há dois elementos básicos que auxiliam a entender o que vai além das oscilações conjunturais na atual crise alimentar. O primeiro refere-se ao papel do mercado, das organizações privadas e do Estado na construção da segurança alimentar. No início dos anos 1980 a OCDE previa rápida ampliação das capacidades produtivas e apostava que, em pouco tempo, mais de trinta países abasteceriam o mercado mundial. Hoje as nações exportadoras não chegam a dez. As reformas das políticas agrícolas dos países desenvolvidos reduziram drasticamente seus estoques.

É verdade que estes estoques contribuíam para desestabilizar os mercados mundiais. Prejudicavam países mais pobres e representavam altos custos para os contribuintes. O que a atual crise mostra, no entanto, é que os mecanismos de mercado são nitidamente insuficientes para garantir estabilidade na oferta. Jean-Marc Boussard, ex-presidente da Sociedade Francesa de Economia Rural, tem uma hipótese ousada para explicar o fenômeno. Diante de uma demanda rígida e de uma oferta pulverizada, os preços agrícolas, ao sabor dos mercados, apresentam comportamento necessariamente caótico.

Sem regulação estabilizadora é o próprio abastecimento da sociedade que se encontra sob risco. Não se trata de preconizar a volta aos mecanismos que marcaram as políticas agrícolas do século XX (preços de garantia, formação de imensos estoques governamentais, exportações subsidiadas, etc.). Mas nada indica que a liberalização dos mercados agrícolas coloque a população ao abrigo da instabilidade caótica nos preços.

O segundo elemento de natureza estrutural na crise alimentar refere-se à forma como as sociedades contemporâneas usam os recursos naturais para a produção agropecuária. Tudo indica que foram extintas as condições que permitiram o fornecimento da energia barata que marcou a expansão das safras no século XX. Os preços internacionais médios de fertilizantes fosfatados subiram de U$ 250 em 2007 para U$ 1.230 em julho de 2008. Os adubos à base de potássio aumentaram de U$ 172 para U$ 500 a tonelada no mesmo período. E a tonelada dos nitrogenados foi de U$ 277 a U$ 450.

Quanto à água, a agricultura responde por 70% de seu consumo mundial. Hoje há 500 milhões de pessoas vivendo em regiões de escassez crônica de água: em 2050 serão 4 bilhões. O próprio solo encontra-se ameaçado com 16% da superfície agrícola útil da Terra em estado de degradação.

Em abril deste ano foi realizado o International Assessment of Agricultural Knowledge, Science and Technology for Development (IAAKSTD). É um documento que resultou de ampla consulta, envolvendo 400 especialistas, com relatórios submetidos a rigoroso sistema de avaliação pelos pares (peer review), patrocinado por entidades como FAO, Banco Mundial, Unesco, Pnud e OMS, entre outros e assinado por 60 governos.

Os inegáveis progressos da produtividade agrícola que marcaram o século XX, diz o IAAKSTD, beneficiaram de maneira desigual o conjunto da população do planeta. Além disso, este aumento de produtividade teve um custo ambiental – em termos de solo, água, biodiversidade e mudança climática – incompatível com o crescimento populacional previsto até 2050. Até lá, as necessidades alimentares vão praticamente dobrar, sobretudo nos países em desenvolvimento.

A principal proposta para enfrentar este desafio crucial está no termo intensificação ecológica. O aumento dos rendimentos terá que ser compatível com a preservação dos ecossistemas. Mais que isso: não poderá apoiar-se na energia fóssil que acompanhou a produção de sementes de alta potencialidade durante a revolução verde. Interromper imediatamente a perda de biodiversidade a que conduziu o crescimento agrícola até aqui é indispensável.

A maneira de levar isso adiante, na prática não poderia ser mais polêmica. De um lado estão os que enxergam no uso de sementes transgênicas a única forma consistente de elevar os rendimentos do solo, sobretudo quando se trata de fazê-lo em ambientes ecologicamente frágeis. Daniel Nahom no recém lançado “L´épuisement de la terre, l´enjeu du XXIème Siècle” defende este ponto de vista.

Por outro, há os que acreditam que a intensificação ecológica passa pela diversificação crescente dos sistemas produtivos e pelo esforço crescente de melhorar a produção por meio da capacidade de imitar o que faz a própria natureza. Ainda é cedo para saber os caminhos pelos quais serão corrigidas as falhas de longo prazo no sistema alimentar mundial.

Revista de História da Biblioteca Nacional

Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington

Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Num ponto isso é fácil de responder. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural e dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa.

George Monbiot

Como se permitiu que se chegasse a esse ponto? Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Foi a caridade que permitiu que um parente mais próximo do homem chegasse a gastar dois mandatos como presidente? Como foi possível que Sarah Palin, Dan Quayle e outros estúpidos do gênero chegassem aonde chegaram? Como foi possível que os comícios republicanos em 2008 fossem tomados por gritarias ignorantes insistindo que Barack Obama era um muçulmano e terrorista?

Como muitos deste lado do Atlântico, eu fui por muitos anos encantado com a política americana. Os EUA têm as melhores universidades do mundo e atrai as mentes mais brilhantes. Domina descobertas na ciência e na medicina. Sua riqueza e seu poder dependem da aplicação do conhecimento. Ainda assim, de maneira única dentre as muitas nações desenvolvidas (com a exceção possível da Austrália), o conhecimento é uma desvantagem política grave nos EUA.

Houve exceções ao longo do século passado – Franklin Roosevelt, JF Kennedy e Bill Clinton temperaram seu intelectualismo com um toque de senso comum e sobreviveram -, mas Adlai Stevenson, Al Gore e John Kerry foram respectivamente fulminados por seus oponentes por serem membros de uma elite cerebral (como se isso não fosse uma qualificação para a presidência). Talvez o momento decisivo no colapso da política inteligente tenha sido a resposta de Ronald Reagan a Jimmy Carter, no debate presidencial de 1980. Carter – tropeçando um pouco, usando longas palavras – cuidadosamente enumera os benefícios do sistema nacional de saúde. Reagan sorri e diz: “Lá vem você de novo”. Seu próprio programa de saúde teria apavorado muitos americanos, caso tivesse sido explicado tão cuidadosamente como o fez Carter, mas ele tinha encontrado a fórmula para se prevenir de questões políticas sérias ao fazer com que seus oponentes parecessem intelectuais “engomados” que não mereciam confiança.

Não foi sempre assim. Os pais fundadores da República – Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, James Madison, John Adams, Alexander Hamilton e outros – estavam entre os maiores pensadores de sua época. Eles não sentiam necessidade de tornar isso um segredo. Como o projeto por eles construído degenerou-se em George W. Bush e Sarah Palin?

Num ponto isso é fácil de responder. Políticos ignorantes são eleitos por povos ignorantes. A educação norte-americana, assim como seu sistema de saúde, é notória por seus fracassos. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural; dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa, dois terços dos votantes norte-americanos não são capazes de nomear três organizações governamentais; a competência matemática dos adolescentes de 15 anos nos Estados Unidos está em vigésimo quarto dos vinte e nove países da OECD.

Mas isso só aumenta o mistério: como tantos cidadãos norte-americanos tornaram-se tão estúpidos, e desconfiados da inteligência? Até onde li, o livro de Susan Jacoby, The Age of America Unreason [algo como A Era da des-Razão Americana], fornece uma explicação completa. Ela mostra que a degradação da política norte-americana resulta de uma série de tragédias interligadas.

Um tema é muito familiar e claro: religião – particularmente religião fundamentalista – torna você estúpido. Os EUA é o único país rico em que o fundamentalismo cristão é vasto e crescente.

Jacoby mostra que já houve uma certa lógica nesse anti-racionalismo. Durante as algumas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, por exemplo, os americanos tinham boas razões para rejeitar a teoria da seleção natural e para tratar os intelectuais públicos com suspeita. Desde o começo, a teoria de Darwin foi misturada, nos EUA, com a filosofia brutal – agora conhecida como darwinismo social – do escritor britânico Herbert Spencer. A doutrina de Spencer, promovida na imprensa popular com o financiamento de Andrew Carnegie, John D. Rockefeller e Thomas Edison, sugeria que os milionários estavam no topo da escala estabelecida pela evolução. Ao impedir os desajustados de serem eliminados, a intervenção governamental enfraquecia a nação. A maioria das desigualdades econômicas eram tanto justificáveis como necessárias.

O darwinismo, em outras palavras, tornou-se indistinguível da forma mais bestial do laissez-faire econômico. Muitos cristãos responderam a isso com náusea. É profundamente irônico que a doutrina rejeitada um século atrás por proeminentes fundamentalistas como William Jennings Bryan seja agora determinante para o pensamento da direita cristã. Fundamentalistas modernos rejeitam a ciência darwinista da evolução e aceitam a pseudociência do darwinismo social.

Mas há outras razões, mais poderosas, que explicam o isolamento intelectual dos fundamentalistas. Os EUA são peculiares ao delegarem o controle da educação a autoridades locais. Ensinar nos estados do sul era ser dominado por uma elite aristocrática e ignorante de donos de terras, e um grande abismo educacional foi aberto. “No sul”, escreve Jacoby, “só o que pode ser descrito é que um bloqueio intelectual foi imposto para manter do lado de fora idéias que pudessem ameaçar a ordem social”.

A Convenção Batista do Sul, agora a maior congregação religiosa dos EUA, era para a escravidão e a segregação o que a Igreja Reformada Holandesa (Dutch Reformed Church) era para o apartheid na África do Sul. Ela fez mais do que qualquer força política para manter o sul estúpido. Nos anos 60 tentou disseminar a desagregação estabelecendo um sistema privado de escolas e universidades cristãs. Hoje, um estudante pode ir do jardim da infância até o mais alto grau de estudos sem qualquer exposição ao ensino secular. As crenças batistas do sul também passam imunes ao sistema de escola pública. Uma enquete feita por pesquisadores na Universidade do Texas em 1998 revelou que um em cada quatro professores de biologia das escolas do estado acreditavam que humanos e dinossauros viveram na Terra ao mesmo tempo.

Essa tragédia vem sendo assistida pela fetichização americana da auto-educação. Apesar de seu lamento por sua falta de educação formal, a carreira de Abraham Lincoln é repetidamente citada como evidência de que a boa educação fornecida pelo estado não é necessária: tudo de que se precisa para ter sucesso é determinação e individualismo vigoroso. Isso pode ter servido bem para as pessoas quando os genuínos movimentos de auto-educação, como o que se construiu em torno dos Little Blue Books na primeira metade do século XX estiveram em voga. Na era do info-entreternimento (1), esse tipo de coisa é receita para a confusão.

Além da religião fundamentalista, talvez a razão mais potente para o combate dos intelectuais na eleição seja que o intelectualismo tem sido equiparado à subversão. O breve flerte de alguns pensadores com o comunismo há muito tempo atrás tem sido usado para criar uma impressão na mente do público de que todos os intelectuais são comunistas. Quase todo dia homens como Rush Limbaugh e Bill O’Reilly vociferam contra as “elites liberais” que estão destruindo a América.

O espectro das grandes cabeças alienígenas subversivas foi crucial para a eleição de Reagan e de Bush. Uma elite intelectual genuína – como os neocons (alguns deles ex-comunistas) em torno de Bush – deu o tom dos conflitos políticos como uma batalha entre americanos comuns e bem sucedidos e super-educados pinkos (2). Qualquer tentativa de desafiar as idéias da elite intelectual da direita tem sido atacada, com sucesso, como sendo elitismo.

Obama tem muito a oferecer aos EUA, mas nada disso vai parar se ele vencer. Até que os grandes problemas do sistema educacional sejam revertidos ou que o fundamentalismo religioso perca sua força, haverá oportunidade política para que gente como Bush e Palin ostentem sua ignorância.

Carta Maior

“A democracia em que vivemos é hipocrisia”

João Pedro Stédile, um dos principais líderes do MST conta como iniciou sua militância, explica por que vê a reforma agrária bloqueada, fala sobre comunicação, esquerda e socialismo e sustenta: “os atuais modelos de representação exilam o povo da política”

Marcela Rocha

O que o levou a participar do processo de criação e construção do MST?

João Pedro Stédile: Pelas circunstâncias da vida. Sou filho de pequenos agricultores do Sul. Fiquei até o segundo grau no interior e sempre me mantive vinculado aos temas camponeses. Comecei minha militância ajudando a conscientizar os produtores de uva da região de minha família e atuando com os sindicatos dos produtores na região de Bento Gonçalves. Nos anos duros da ditadura militar, vinculei-me ao trabalho da CPT [Comissão Pastoral da Terra]. Foi quando aconteceu um conflito de terras no Rio Grande do Sul, em que os Kaingang [povo indígena do sul do país] expulsaram de suas terras mais de 700 famílias de posseiros pobres, sem terra. Então, a CPT me pediu para ir até lá para trabalhar com esses posseiros.

Esse episódio resultou numa ocupação de terra em duas fazendas, a Macali e a Brilhante, em 1979. Esse processo, não premeditado, desembocou, alguns anos depois, na formação do MST.

Dentro dos moldes de governabilidade e representatividade que temos no Brasil, em que medida é possível uma reforma agrária significativa?

Stédile: Há muitos tipos de reforma agrária. No Brasil, todas as forças progressistas, ao longo do século 20, sempre trabalharam com a perspectiva de realizar a do tipo clássico. Ou seja, uma reforma agrária que representasse, para os camponeses, a democratização do acesso à terra, sua vinculação ao mercado interno e um processo de combate à pobreza no campo. Um instrumento de distribuição de renda e de estímulo ao mercado interno e industrial. Todos os países hoje desenvolvidos fizeram reformas agrárias clássicas — ou seja, nos marcos do capitalismo, mas como um processo republicano de democratização do acesso aos bens da natureza.

No Brasil, perdeu-se a oportunidade de fazer esse tipo de reforma agrária, quando terminou a escravidão, em 1888. Os Estados Unidos, por exemplo, a fizeram nessa conjuntura. Depois, perdeu-se a segunda oportunidade na Revolução de 30, quando iniciamos nosso processo de industrialização. Perdemos a terceira oportunidade durante a crise desse modelo, na década de 60, quando o então ministro Celso Furtado convenceu o governo Goulart de que a saída seria uma reforma agrária. A resposta da direita foi um golpe militar.

Perdemos a oportunidade na redemocratização formal em 1985, quando Tancredo havia convidado o saudoso José Gomes da Silva para fazer o primeiro PNRA (Plano Nacional de Reforma Agrária). Ele entregou o plano que previa assentar 1,4 milhões de famílias no dia 4 de outubro e caiu em 13 de outubro.

A chance que teríamos de fazer uma reforma agrária clássica seria se o governo Lula combatesse o modelo neoliberal, articulando forças sociais e políticas do país para um projeto de desenvolvimento nacional e industrial, com distribuição de renda e combate à desigualdade. Como o governo Lula manteve uma política e um modelo econômico que subordina a nossa economia ao capital financeiro e às grandes empresas transnacionais, a reforma agrária está bloqueada. Só haverá chance se derrotarmos o neoliberalismo.

“Estamos perdendo, no governo Lula, a sexta oportunidade de fazer reforma agrária. O que está havendo é mais concentração fundiária”
Como o MST avalia o governo Lula quanto ao processo de reforma agrária?

Stédile: De certa forma, já comentei na pergunta anterior. Num sentido mais amplo, a reforma agrária, como parte de um projeto de desenvolvimento nacional, de distribuição de renda e de estímulo à industrialização do interior do País está bloqueada pelo atual modelo econômico.

Do ponto de vista administrativo, acho que a área do governo Lula mais incompetente são os ministérios que têm relação com reforma agrária. Nada funciona. Tudo é demorado e incompetente. E, para não ser injusto, os únicos programas que beneficiaram as áreas dos sem-terra foram o “Luz para todos” — que é um processo de eletrificação do meio rural — e um programa de compra de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ambos são complementares e não afetam a reforma agrária.

Sabemos que os números reais de famílias assentadas foram maquiados pelo governo FHC e, ao que parece, a ficção foi mantida pelo governo Lula. Quais são os números corretos, na avaliação do MST? O movimento mantém diálogo com os representantes do governo sobre isso? Como é feito esse diálogo?

Stédile: Primeiro, o processo de reforma agrária não é um problema estatístico. É um problema político, em que o governo deveria enfrentar o latifúndio e o agronegócio para democratizar a propriedade da terra. E isso não está acontecendo. As famílias que estão sendo assentadas são majoritariamente colocadas em projetos de colonização na Amazônia legal. Um grande percentual delas representa ou as que não conseguem nem morar no lote, ou as famílias colocadas em lotes abandonados de antigos projetos.

Nós sempre mantivemos diálogo com todos os governos, tanto o federal quanto estadual e municipal, independentemente do ano ou partido. Os movimentos sociais precisam negociar, dialogar e interagir com as autoridades constituídas. Faz parte de nosso trabalho, mas mantendo autonomia no cumprimento dessa missão. Autonomia dos partidos, dos governos e do Estado: é isso que o MST procura fazer.

“Procuramos construir uma unidade popular. Infelizmente, os movimentos ainda são muito direcionados por correntes ideológicas”
Como se sustenta o diálogo do MST com os demais movimentos sociais, incluindo os urbanos? Por que essa busca é necessária?

Stédile: No caso da relação com os demais movimentos sociais, não é dialogo. Trata-se de construir uma unidade popular. Nós procuramos nos articular em diferentes espaços para ir construindo essa unidade necessária. Infelizmente, as frentes de massa no Brasil ainda são muito direcionadas por correntes ideológicas, o que é legítimo, mas muitas vezes atrapalha a construção da unidade em função de objetivos partidários ou eleitorais.

O MST participa da Via Campesina Brasil como uma forma de construir a unidade no campo. Participa também do Fórum Nacional de Reforma Agrária e da Coordenação Nacional de Movimentos Sociais. Mas priorizamos a construção das Assembléias Populares, por serem um espaço mais amplo de unidade popular entre todas as forças. Foi com esse espírito que atuamos no plebiscito pela reestatização da Vale, impulsionado pela Assembléia Popular.

O MST, junto com outros movimentos sociais, lançou o jornal Brasil de Fato. Que outras iniciativas o movimento tem em relação ao setor de comunicação?

Stédile: Nós defendemos a tese de que a classe trabalhadora e todas as suas formas de organização devem construir seus próprios meios de comunicação de massa. Não podemos depender da chamada grande mídia, ela é a voz da classe dominante para formar a sua opinião entre o povo. Lamentavelmente, a esquerda brasileira ainda não entendeu isso e muitas forças ainda se iludem em ficar ocupando pequenos espaços na grande imprensa.

Temos de fazer muito mais esforço para termos nossas rádios, nossos jornais, nossos boletins, ocupar espaço na internet e termos nossos programas de televisão. E, para tudo isso, é preciso ter diretriz política, construir esses meios e priorizá-los. Espero que os movimentos e a esquerda aprendam isso, o quanto antes.

Em que se fundamenta a preocupação com comunicação no MST?

Stédile: Nós precisamos difundir as notícias, as informações e nossa visão de mundo, tanto à nossa base quanto à classe trabalhadora e população em geral. Para alcançarmos esses objetivos, é preciso termos os meios de comunicação necessários, os mais distintos possíveis, porque são complementares.

“Queremos reformas políticas que garantam ao povo mecanismos de decisão. Hoje, o povo é mero espectador do que a classe dominante faz”
Com freqüência, a chamada “grande mídia” ataca o MST, além de criminalizar os outros movimentos sociais. Como o senhor explica isso?

Stédile: A grande mídia faz o papel dela. Defender sempre os interesses econômicos, políticos e ideológicos da classe dominante. Assim, todo movimento social, todo sindicato e partido que resolvam lutar contra os interesses da classe dominante serão atacados por ela.

Quando Veja, Estadão e Rede Globo falam mal de nós, fazem seu papel e nós não nos preocupamos com isso, mas sim com o fato de que a sociedade brasileira tenha meios de comunicação de massa − em especial rádio e televisão − que a representem. Esperamos que a nova TV pública consiga mudar um pouco esse quadro.

O senhor chegou a mover um processo contra a revista Veja. Quais foram as razões para isso, e o que resultou do processo?

Stédile: Movemos um processo penal, pedindo indenização e direito à resposta porque a matéria de Veja foi ofensiva e mentirosa do ponto de vista pessoal. Me compararam ao James Bond e me atribuíram uma função criminosa.

O senhor acredita que exista liberdade de imprensa no Brasil? Em termos mais amplos: há realmente democracia em nosso País?

Stédile: Não existe nenhuma liberdade de imprensa se considerado o acesso do povo à informação. Ele as recebe repassadas pelas rádios e televisões, grandes jornais e revistas. São filtradas pelo viés ideológico de interesses privados. E isso não é democracia, no que concerne a direitos e oportunidades iguais. Isso, ao contrário, se chama luta de classes. Uma classe, a que tem dinheiro, controla os meios de comunicação e os usa de acordo com seus interesses, visando ao lucro e controle ideológico na sociedade.

Nós ainda estamos distantes de uma democracia formal, burguesa. Esperamos que haja, ao menos, um processo de mobilização, num futuro próximo, para promover reformas políticas que garantam ao povo mecanismos de decisão, de poder político, porque hoje o povo é mero espectador do que a classe dominante faz. Um amigo meu disse, esses tempos: “o povo, no Brasil, está exilado da política”.

A democracia em que vivemos é uma hipocrisia.O povo sabe disso. As instituições de menor credibilidade são o Congresso e os políticos
Como o senhor se posicionou quando o presidente Hugo Chávez suspendeu a licença da RCTV venezuelana? Seria favorável à adoção de procedimentos semelhantes no Brasil?

Stédile: A decisão foi dentro dos parâmetros legais da Constituição venezuelana, e mais do que necessária. A RCTV era um canal que pregava mentiras o tempo inteiro, distorcendo a opinião pública. E cometeu um grave erro: organizou, estimulou e fez apologia ao golpe de Estado em abril de 2002. O normal teria sido a televisão ter sido cassada naquela época. Mas o presidente preferiu seguir os trâmites normais e esperou vencer a concessão. Como disse Noam Chomski, se o crime da RCTV, de 2002, tivesse acontecido nos Estados Unidos, pelas leis norte-americanas seus proprietários teriam pegado cadeira elétrica.

No Brasil, é preciso fazer uma ampla reforma no processo de concessão da radiodifusão para termos democracia. E mais, garantir que todos os setores e grupos sociais tenham seus próprios veículos e se comuniquem com a sociedade. Hoje, vivemos numa ditadura do monopólio de sete grupos econômicos, que controlam, obtêm lucros e manipulam o que quiserem.

Como o senhor avalia a política de comunicação do governo Lula, nos três sentidos: sua relação com a “grande mídia”; sua relação com as mídias dos movimentos sociais e de grupos independentes; e na questão da comunicação pública?

Stédile: Não sou “expert” no assunto e tenho acompanhado pouco a política institucional do governo Lula para a comunicação. Mas vejo os resultados. O monopólio da classe dominante continua aumentando. Acho que, além de termos uma televisão pública, deveríamos ter uma política de ampla liberdade para as rádios e televisões comunitárias com sinal aberto. As verbas de publicidade deveriam ser dirigidas para os veículos pertencentes às entidades sociais e sem fins lucrativos. E deveríamos, ainda, ter uma política clara de proibição de campanhas publicitárias responsáveis por problemas sociais, como propagandas de cigarros, bebidas alcoólicas, remédios e agrotóxicos.

O sistema vigente em Cuba é o que pratica mais democracia popular. Mas as experiências socialistas estiveram muito aquém do que se idealizava
Vez ou outra, surge alguém na “grande mídia” para acusar o MST de pretender criar um partido socialista para liderar uma revolução no Brasil. O movimento pretende mesmo criar um partido? E qual a sua posição sobre o socialismo?

Stédile: Isso é uma besteira de certos colunistas de plantão, que ficam imaginando coisas. O MST é um movimento social autônomo. Não tem vocação, não será e nem quer ser partido. Se algum dia o MST pretendesse virar partido, acabaria. Talvez seja por isso que eles ficam com essa tese.

O socialismo tem várias formas de ser analisado e compreendido. Como modo de produção, será um estágio mais avançado da civilização humana, porque vai organizar a propriedade social dos meios de produção e combater a exploração do trabalho. Como regime político, as experiências socialistas que já tivemos estiveram muito aquém do que idealizavam os clássicos.

Acho que o socialismo deveria ser um estágio superior de democracia popular, em que as pessoas, os grupos sociais e a classe trabalhadora tivessem, de fato, poder sobre o Estado. E as leis e decisões contassem com a maior participação possível da população, de forma direta.

Há mais um aspecto do qual uma sociedade socialista depende: a elevação do nível cultural e a consciência das amplas camadas da população, para que seja uma sociedade fundada nos princípios da prática da solidariedade, justiça social e igualdade, cotidianamente.

Existe democracia em Cuba?

Stédile: Nenhum processo ou regime político será perfeito. Muitos fatores influem nas condições para que o povo e os setores organizados da população exerçam poder de decisão. Acho que o que há em Cuba está longe de ser um regime amplamente democrático.

Tenho viajado e lido muito sobre as experiências dos mais diferentes regimes políticos adotados. Estou convencido de que o sistema vigente em Cuba é, ainda, o que pratica mais democracia popular. Isso não se mede pelo exercício do voto ou escolha dos representantes. Devemos medir a democracia cubana pelo real direito de oportunidades que todos têm; pelo acesso à educação, em todos os níveis; ao conhecimento, à informação, ao trabalho e à cultura. Hoje, o povo cubano, em sua amplitude, é um dos povos mais cultos de nosso planeta.

Também devemos medir a democracia pelo poder real das pessoas ao se organizarem em grupo para controlar seus bairros, suas cidades. Ou seja, exercendo um poder real.

Etanol e óleos vegetais poderiam ser sustentáveis e socialmente mais justos. Mas tudo depende da forma como serão produzidos
Qual é sua avaliação sobre o enaltecimento do etanol, atualmente feito pela “grande mídia” e pelo governo Lula?

Stédile: Isso é uma vergonha. A fonte de energia proveniente do petróleo está acabando. Então, as petroleiras, empresas automobilísticas e as transnacionais do agronegócio se uniram para produzir uma nova fonte de energia sob seus controles.

O etanol e os óleos vegetais, que podem substituir o petróleo, são fontes que poderiam ser sustentáveis do ponto de vista ambiental, além de socialmente mais justas. Mas tudo depende da forma como serão produzidos e quem as controlará.

No caso brasileiro, o governo aceitou entregar a produção para o regime do agronegócio. Ele é agressor do meio-ambiente, porque produz cana ou soja, por exemplo, na forma de monocultivo e usa intensivamente máquinas e agrotóxicos.

Nós poderíamos ter um amplo programa de produção de agrocombustíveis, controlado por uma empresa estatal e voltado para uma política de soberania energética — ou seja, um programa onde cada município produziria sua própria energia. Por isso, nós defendemos que os agrocombustíveis somente seriam viáveis se fossem produzidos em policultura, em apenas 20% da área de cada fazenda, para não afetar a produção de alimentos. Seria uma produção voltada para a distribuição de renda, somada à soberania alimentar e energética. Para isso, propomos a fundação de uma empresa brasileira de agroenergia. Uma empresa estatal e pública, sob controle da sociedade, para desenvolver essa política. A Petrobrás, além de ser uma empresa que se preocupa, em primeiro lugar, com o lucro de seus acionistas (40% já são do exterior), nunca terá uma política de soberania energética e muito menos de distribuição de renda.

A ocupação de um laboratório da Aracruz por mulheres do MST causou grande impacto nacional. O movimento foi acusado de promover a desordem, de ser inimigo da ciência e do desenvolvimento tecnológico e de apostar no atraso brasileiro. Como o Sr. se posiciona? Por que o MST é contra a exploração de culturas transgênicas?

Stédile: Isso é um exemplo claro de manipulação da opinião pública pelo monopólio da mídia a serviço dos interesses do capital. A Aracruz é uma das empresas que mais agridem o meio ambiente, destruindo a cobertura vegetal original, como a Mata Atlântica, e agora os pampas. Em seu lugar, cultiva plantações homogêneas de eucalipto, que acabam com toda biodiversidade e agridem o meio-ambiente, contribuindo para o aquecimento do clima. Tudo é exportado. Os lucros ficam com as transnacionas. E nós ficamos com o passivo ambiental e social.

A Aracruz roubou, na década de 1970, 14 mil hectares de terras indígenas e outros 24 mil hectares de terras quilombolas. Nós entramos num viveiro da Aracruz para destruir mudas e impedir a expansão da monocultura do eucalipto.

Pois bem, a imprensa transformou as mulheres da via campesina, que fizeram a manifestação, em bárbaras, prostitutas, contra a ciência… Pura manipulação.

Lá, não havia nenhum laboratório de pesquisa. Podem pesquisar nas páginas do MCT [Ministério da Ciência & Tecnologia] ou da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] e verão. A senhora que analisava se as mudas tinham fungo tem apenas o segundo grau. A imprensa a transformou em cientista!

Agora, o ministério da Justiça baixou a portaria mandando a Aracruz devolver os 14 mil hectares de terras roubadas dos povos tupiniquim e guarani. Nenhuma palavra no Jornal Nacional. Isso foi uma grande vitória daquela manifestação. Seguiremos lutando; agora, para que eles devolvam o que roubaram das comunidades negras.

Nós somos contra as sementes transgênicas por muitas razões. Primeiro, porque são apenas uma forma das empresas transnacionais combinarem o uso de sementes com seus agrotóxicos. Segundo, porque as sementes transgênicas destroem a biodiversidade. Só sobrevive aquela determinada planta. Terceiro, porque eles usam essas sementes para poder patenteá-las como propriedade privada e cobrar royalties dos agricultores. E por último, porque não há nenhuma comprovação de que essas sementes não fazem mal à saúde das pessoas. Ao contrário, temos já diversas provas de que algumas delas fazem mal às pessoas e aos animais que se alimentam delas. Por isso, defendemos a idéia de seguir pesquisando, mas sem fins comerciais. Queremos usar a transgenia apenas para fins terapêuticos — ou seja, produzir plantas que possam ter uso medicinal.

O senhor ambiciona ser, algum dia, presidente deste país?

Stédile: Não sei de onde vocês tiraram essa bobagem. O Brasil precisa que o povo se conscientize, organize e lute por seus direitos. Somente assim poderemos enfrentar os atuais problemas econômicos e sociais a fim de construirmos uma sociedade mais justa, com que todos sonhamos.

Le Monde diplomatic

Quem não fez a lição?

O problema do aprendizado não está no descompasso entre os pais e a escola, mas no contrário

José de Souza Martins

Promovida pela Fundação Itaú Social, uma revisão da literatura sobre o desempenho escolar no Brasil constatou que 70% do desempenho de um estudante depende da família e só 30% da escola. Esses 70% tanto se referem a desempenho positivo quanto a desempenho negativo. Segundo uma especialista do MEC, são fatores principais do desempenho do aluno o nível de escolaridade do pai e da mãe, a renda familiar, o tipo de moradia e o acesso aos bens culturais. O aluno já chega à escola com vantagem ou desvantagem desde o início do ensino fundamental se sua família for ou não feliz beneficiária de índices econômicos, sociais, educacionais e culturais que correspondam às conveniências de uma educação que está muito longe do país que quer educar. O que quer dizer que imensa proporção das famílias brasileiras não está preparada para satisfazer os pré-requisitos da escola. Ora, se a escola existe justamente para suprir carências educativas e culturais, que escola é essa que reclama da família dos alunos, quando seria o caso de as famílias reclamarem da escola que está muito aquém dos requisitos e carências de uma sociedade de transição, bloqueada pelo atraso e pela pobreza?

Esse quadro deveria nos encher de preocupações quanto à persistência histórica de graves defeitos na educação brasileira e quanto à ideologia que, insistentemente, a preside. Neste país a educação foi implantada como recurso de catequização não só dos imaturos, mas também, por seu intermédio, dos nativos, seus próprios pais. Uma educação para demolir a cultura nativa e destruir os fundamentos das sociedades primitivas que os portugueses aqui encontraram na descoberta do território. Parece que até hoje não nos libertamos desse pressuposto. O advento posterior do ensino fundamental público, gratuito e sobretudo laico, apesar de seus propósitos republicanos, não superou a concepção da educação como instrumento de guerra civilizadora, que fora inicialmente da Igreja e passava a ser agora do Estado, contra a barbárie. Ou seja, contra os grupos sociais de pertencimento dos comuns e neles, particularmente, a família, para submetê-los aos valores da ordem e aos propósitos do Estado. É verdade que durante largo tempo não existiram propriamente alternativas para o que se pode chamar de invenção do Brasil e criação do que viria a ser a sociedade brasileira. Os religiosos, especialmente os jesuítas, discrepando da ideologia predatória da coroa portuguesa, tentaram inventar uma sociedade tropical, com língua própria, nutrida pelos valores sisudos da Contra-Reforma, mas também os do teatro, da poesia e da música. O Estado, no entanto, os enquadraria no devido tempo.

Laicizada, nossa escola se manteve atrelada aos pressupostos da guerra cultural e pedagógica contra as famílias atrasadas, supostos redutos da ignorância, redutos de uma cultura rústica e pré-moderna que perturbaria a inclusão das novas gerações no mundo presumivelmente mais desenvolvido da razão, da ciência e da tecnologia.

O quadro diante do qual a notícia dessa revisão da literatura sobre desempenho escolar nos coloca é o de que família boa é a que não perturba os propósitos da escola e a que antecipa a disposição para aderir a uma educação que pressupõe o conflito cultural com as famílias que as circunstâncias sociais e históricas condenaram à demora nos limites do rústico e tradicional. Ou então às insuficiências de meios de compreensão desse estranhíssimo mundo da pós-modernidade em nome do qual a escola geralmente atua.

Ora, uma educação pensada nesses termos é uma educação que aprofunda o conflito de gerações e difunde estados de anomia, ao tornar secundários valores de referência da tradição familiar. Uma escola obsessivamente voltada para sua própria razão e no geral incapaz de dialogar com as famílias que o desenvolvimento desigual da sociedade e da economia brasileiras deixou confinadas no atraso e nas decorrentes insuficiências econômicas, sociais e culturais. Em boa parte, se a escola brasileira tem clareza quanto a suas funções como agência de educação das novas gerações, tem também imensas dificuldades para compreender sua inevitável função como simultânea agência de ressocialização de crianças e jovens cuja inserção familiar os obriga a viver em tempos sociais descompassados e conflitantes. Se as famílias, cuja organização e cuja cultura as distancia dos requisitos da escola na prévia preparação de seus filhos, estão enviando à escola crianças e adolescentes distantes dos requisitos culturais pela escola definidos, por outro lado a escola se fechou como agência de socialização e nesse sentido também ela está significativamente atrasada em relação ao que é um direito da família.

O atraso que essa concepção de escola teme e combate não é a ignorância suposta pelos letrados, mas é antes e sobretudo o rico patrimônio cultural que permanece quase intacto como floresta que por milagre escapou da sanha do devastador. As bondades de famílias positivamente orientadas para os valores da escola e da escolarização são, na verdade, as bondades da própria escola. Nesse sentido, o que as indicações preliminares desse levantamento nos dão é que o problema do desempenho escolar não é o da família em descompasso com a escola, mas a escola em descompasso com a família. A escola brasileira sempre teve dificuldade para abrir uma positiva via de diálogo e troca de conhecimentos com as famílias de seus alunos, aquelas cujas referências sociais são as dos costumes, da tradição e do vivido. O que os arraigados preconceitos sociais de amplos setores da sociedade brasileira reduzem ao injusto e descabido rótulo de “ignorância”. Quando, na verdade, na rica diversidade brasileira, são eles um capital cultural, referência possível para uma renovação socialmente enraizada da educação brasileira que poderia nos libertar das dificuldades que resultam na transformação da escola num corpo estranho em uma sociedade que é bem diversa do que a escola supõe.

O Estado de São Paulo

A PRIVATIZAÇÃO DO MUNDO

Robert Kurz

É de supor que a natureza já existia antes da economia moderna. Daí que a natureza é em si grátis, sem preço. Isso distingue os objetos naturais sem elaboração humana dos resultados da produção social, que já não representam a natureza “em si”, mas a natureza transformada pela atividade humana. Esses “produtos”, diferentemente dos objetos naturais puros, nunca foram de livre acesso; desde sempre estavam sujeitos, segundo determinados critérios, a um modo de distribuição socialmente organizado. Na modernidade, é a forma da produção de mercadorias que regula essa distribuição no modo do mercado, segundo os critérios de dinheiro, preço e procura (solvente). Mas é um problema antigo que a organização da sociedade tenda a obstruir também o livre acesso a um número crescente de recursos pré-humanos da natureza. Essa ocupação traz, das mais diversas formas, o mesmo nome que os produtos da atividade social, a chamada “propriedade”. Ou seja, acontece um quiproquó: outrora livres, os objetos naturais não elaborados pelo ser humano são tratados exatamente como se fossem os resultados da forma de organização social, e daí submetidos às mesmas restrições.

A mais antiga ocupação dessa espécie é a da terra. A terra em si não é naturalmente o resultado da atividade produtiva humana. Por isso também teria de ser, em si, de livre acesso. Quando muito, a terra já transformada, lavrada e “cultivada” poderia estar submetida aos mecanismos sociais; e, nesse caso, teria de se tornar propriedade daqueles indivíduos que a cultivaram. Mas, como se sabe, não é exatamente esse o caso. Justamente a terra ainda de todo inculta é usurpada com violência. Já na Bíblia há a disputa entre lavradores e criadores de gado por território (Caim e Abel) e, entre os pastores nômades, por “pastos mais férteis”. A usurpação do solo “virgem” é o pecado original e hereditário da “dominação do homem sobre o homem” (Marx). As aristocracias de todas as altas culturas agrárias repressivas se formaram na origem por essa apropriação violenta da terra, literalmente à clava e dardo. Contudo a propriedade nas culturas agrárias pré-modernas nem de longe se parecia com a propriedade privada no sentido atual. Isso significava, antes de tudo, que a propriedade não era exclusiva ou total. A terra podia ser utilizada e cultivada também por outros, que em troca pagavam certos tributos (a renda feudal na forma de víveres ou serviços) aos proprietários, estes originariamente violentos. Mas havia ainda possibilidades de uso gratuito. Por exemplo, em muitos lugares, os camponeses tinham a permissão de conduzir seus porcos até as terras incultas do senhor feudal, segar ali forragens crescendo livremente ou recolher outras matérias naturais. Diferentes possibilidades de uso livre nunca deixaram de ser controversas, como o direito à caça e à pesca. Quando os senhores feudais tentavam estabelecer proibições nesse sentido, estas quase nunca eram obedecidas. Assim, o caçador e o pescador ilegais passaram a figurar entre os heróis da cultura popular pré-moderna.

A propriedade privada moderna reforçou monstruosamente a submissão da natureza “livre” à forma da organização social, obstruindo assim o acesso aos recursos naturais com um rigor nunca visto. Essa intensificação da tendência usurpadora tem sua razão no fato de a ocupação ser efetuada agora não mais pelo ato pessoal e imediato de violência, mas pelo imperativo econômico moderno, representando uma violência “coisificada” de segunda ordem. A violência armada imediata manifesta-se ainda hoje na ocupação dos recursos naturais, mas ela é já coisificada de forma institucional na própria figura da polícia e do Exército. A violência que sai dos canos das espingardas modernas já não fala por si mesma; ela tornou-se mero beleguim do fim em si mesmo econômico. Esse deus secularizado da modernidade, o capital como “valor que se autovaloriza” incessantemente (Marx), não aparece, porém, apenas na figura de uma coisificação irracional; ele é ainda muito mais ciumento que todos os outros deuses antes dele. Por outras palavras: a economia moderna é totalitária. Ela levanta uma pretensão total sobre o mundo natural e social. Por isso tudo o que não está submetido e assimilado à sua lógica própria é para ele fundamentalmente uma espinha na garganta. E, como sua lógica consiste única e exclusivamente na valorização permanente do dinheiro, ela tem de odiar tudo o que não assume a forma de um preço monetário. Não deve haver nada mais sob o céu que seja gratuito e exista por natureza. A propriedade privada moderna representa somente a forma jurídica secundária dessa lógica totalitária. Ela é, por isso, tão totalitária quanto esta: o uso deve ser um uso exclusivo. Isso vale particularmente para os recursos naturais primários da terra. Sob a ditadura da propriedade privada moderna, não é mais tolerado nenhum uso gratuito para a satisfação das necessidades humanas, além das oficiais: os recursos têm de servir à valorização ou ficar em pousio. Dada a forma da propriedade privada, mesmo a parte da terra que o próprio capital não pode de modo nenhum usar deve ser excluída de qualquer outro uso. Essa imposição descabida suscitou repetidas vezes o protesto social. Na época anterior a 1848, uma experiência crucial para o jovem Marx, amiúde enfatizada na sua biografia, foi a discussão em torno da “lei prussiana contra o roubo de lenha”, que queria proibir os pobres de recolher gratuitamente a lenha nas florestas. O conflito sobre o uso livre de bens naturais, sobretudo da terra, jamais cessou em toda a história do capitalismo. Mesmo hoje, em muitos países do Terceiro Mundo, há movimentos sociais de “ocupantes da terra” que colocam em questão a ditadura totalitária da propriedade privada moderna sobre o uso do solo.

No desenvolvimento do moderno sistema produtor de mercadorias, o problema primário do acesso a recursos naturais gratuitos foi sobrepujado pelo problema secundário do acesso a recursos “públicos”, diretamente relacionados ao todo da sociedade: as chamadas infra-estruturas. Com a industrialização capitalista e a inerente aglomeração de massas gigantescas de seres humanos (urbanização), surgiram carências sociais, tornando necessárias medidas que não podiam ser definidas pela lei do mercado, mas somente pela administração social direta. Por um lado, trata-se agora de sectores inteiramente novos, resultantes do processo de industrialização, como o serviço público de saúde, as instituições públicas de ensino (escolas, universidades etc.), as telecomunicações públicas (correio, telefone), o abastecimento de energia e os transportes públicos (caminho de ferro, metropolitano, etc.). Por outro lado, também os recursos naturais antes livremente acessíveis sem nenhuma organização social e os processos vitais humanos que se efetuam por si mesmos tiveram de ser socialmente organizados e colocados sob a administração pública: é o caso do abastecimento público de água potável, da recolha pública de lixo, dos esgotos públicos etc., chegando aos sanitários públicos nas grandes cidades. Sob as condições do moderno sistema produtor de mercadorias, a “administração de coisas” pública e coletiva não pode assumir senão a forma distorcida de um aparelho burocrático estatal. Pois a forma moderna “Estado” representa somente o reverso, a condição estrutural e a garantia do “privado” capitalista; o Estado não pode, por natureza, assumir a forma de uma “associação livre”. A administração pública de coisas permanece assim nacionalmente limitada, burocraticamente repressiva, autoritária e ligada às leis fetichistas da produção de mercadorias. Por isso os serviços públicos assumem a mesma forma-dinheiro que a produção de mercadorias para o mercado. Ainda assim não se trata de preços de mercado, mas somente de tarifas; algumas infra-estruturas até são oferecidas gratuitamente. O Estado financia esses serviços e agregados de coisas somente para uma pequena parte, por meio de tarifas cobradas dos cidadãos; no essencial, eles são subvencionados com a taxação dos rendimentos capitalistas (salários e lucros). Desse modo, a administração pública de coisas permanece ligada ao processo de valorização do capital.

Por um período de mais de cem anos, os sectores do serviço público e da infra-estrutura social foram reconhecidos em toda parte como o necessário suporte, amortecimento e superação de crises do processo do mercado. Nas últimas duas décadas, porém, impôs-se no mundo inteiro uma política que, exatamente às avessas, resulta na privatização de todos os recursos administrados pelo Estado e dos serviços públicos. De modo algum essa política de privatização é defendida apenas por partidos e governos explicitamente neoliberais; há muito ela prepondera em todos os partidos. Isso indica que não se trata aqui só de ideologia, mas dum problema de crise real. Seguramente, desempenha um papel nisso o fato de a arrecadação pública de impostos retroceder com rapidez por conta da globalização do capital. Os Estados, as Províncias e as comunas superendividadas em todo o mundo tornaram-se fatores de crise econômica, ao invés de poder ser ativos como fatores de superação da crise. Uma vez dilapidadas as “pratas” dos sistemas socialmente administrados, as “mãos públicas” acabam assemelhando-se fatalmente às massas de vítimas da velhice indigente, que nas regiões críticas do globo vendem nos mercados de segunda mão a mobília e até a roupa para poderem sobreviver. Porém o problema reside ainda mais fundo. No âmago, trata-se de uma crise do próprio capital, que, sob as condições da terceira revolução industrial, esbarra nos limites absolutos do processo real de valorização. Embora ele deva expandir-se eternamente, pela sua própria lógica, ele encontra cada vez menos em condições para tal, nas suas próprias bases. Daí resulta um duplo ato de desespero, uma fuga para a frente: por um lado, surge uma pressão assustadora para ocupar ainda os últimos recursos gratuitos da natureza, de fazer até mesmo da “natureza interna” do ser humano, de sua alma, de sua sexualidade, de seu sono o terreno direto da valorização do capital e, com isso, da propriedade privada. Por outro, as infra-estruturas públicas administradas pelo Estado devem ser administradas, também no vai ou racha, por sectores do capitalismo privado.

Mas essa privatização total do mundo mostra definitivamente o absurdo da modernidade; a sociedade capitalista torna-se autocanibalística. A base natural da sociedade é destruída com velocidade crescente; a política de diminuição dos custos e a terceirização a todo o preço arruinam a base material das infra-estruturas, o conjunto organizador e, com isso, o valor de uso necessário. Há tempos é conhecido o caso desastroso da ferrovia e, de modo geral, dos meios de transporte, outrora públicos: quanto mais privados, tanto mais deteriorados e mais perigosos para a comunidade. O mesmo quadro se constata nas telecomunicações, nos correios etc. Quem hoje precisa, com a mudança de casa, mandar instalar um telefone novo passa por estouro de prazos, confusão de competências entre as instâncias “terceirizadas” e técnicos pseudo-autónomos e praguejantes. O correio alemão, que se transformou num consórcio e “global player” ansioso por sua capitalização nas Bolsas, em breve distribuirá cartas na Califórnia ou na China; em troca, o serviço mais simples de entrega mal continua funcionando em casa. Que prodígio atividades inteiras serem ajustadas a salários módicos, as regiões de entrega de poucos carteiros dobradas e triplicadas, e as filiais, extremamente desguarnecidas! As estações de correio ou de caminho de ferro transformam-se em milhas cintilantes de lojas estranhas à sua alçada, enquanto o serviço próprio sofre. Quanto mais estilizados os escritórios, tanto mais miserável o serviço. Apesar de todas as promessas, a privatização significa cedo ou tarde não só a piora mas também o aumento drástico de preços. Porque és pobre, tens de morrer mais cedo: com a privatização crescente dos serviços de saúde, essa velha sabedoria popular recebe novas honras mesmo nos países industriais mais ricos. A política de privatização não dá trégua nem sequer às necessidades humanas mais elementares. Na Alemanha, os toaletes de estações de combóio passaram a ser recentemente controladas por uma empresa transnacional de nome “McClean”, que cobra pela utilização de um mictório tanto como por uma hora de estacionamento no centro da cidade. Portanto agora já se diz: porque és pobre, tens de mijar nas calças ou aliviar-te ilegalmente!

A privatização do abastecimento de água na cidade boliviana de Cochabamba, que, por determinação do Banco Mundial, foi vendida a uma “empresa de água” norte-americana, mostra o que ainda nos espera. Em poucas semanas, os preços foram elevados a tal ponto que muitas famílias tiveram de pagar até um terço dos seus rendimentos pela água diária. Juntar água da chuva para beber foi declarado ilegal, e ao protesto respondeu-se com o envio de tropas. Logo também o sol não brilhará de graça. E quando virá a privatização do ar que se respira? O resultado é previsível: nada funcionará mais, e ninguém poderá pagar. Nesse caso, o capitalismo terá de fechar tanto a natureza como a sociedade humana por “escassez de rentabilidade” e abrir uma outra.

Geografia para todos

Cortázar: o Che Guevara da literatura

Túmulo do escritor argentino em Paris, morto há 20 anos, é palco de discreta peregrinação que homenageia o lúdico e engajado defensor da ligação não dogmática entre literatura e revolução

José Manuel Fajardo

Há cerca de vinte anos, Paris é o palco de uma discreta peregrinação que pode passar desapercebida em meio à efervescência turística. Ocorre no cemitério Montparnasse diante de um túmulo: o do escritor argentino Julio Cortázar, falecido em 12 de fevereiro de 1984. Sobre a sepultura, os peregrinos depositam algumas linhas escritas às pressas num pedaço de papel, convencidos de que o sono eterno do escritor não os impede de entrar em comunicação com ele. São leitores provenientes de todos os cantos do mundo, freqüentemente escritores.

Cada um deles tenta, a seu modo, dialogar com Cortázar. O romancista chileno Luis Sepúlveda e o mexicano Antonio Sarabia introduzem na fresta da pedra sepulcral um cigarro aceso que deixam que se consuma lentamente. Os jovens escritores cubanos Amir Valle, Karla Suárez e Raúl Aguiar instituíram o rito de se aproximarem do túmulo – para os que podem fazer a viagem a Paris – e de levar para Cuba fotos e livros destinados a passar de mão em mão. É uma homenagem a um escritor que se engajou com paixão a favor de revolução cubana, enquanto esta, atualmente, atravessa momentos bem tristes.

Encontro fantástico
Foi no universo do fantástico que sua literatura se desenvolveu, mas um fantástico que se imiscui na realidade, no discurso cotidiano e o transforma
Uma narrativa de Raúl Aguiar1 serve de ponto de partida para traçar a história do escritor argentino que encarnou (com Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes) a renovação do romance latino-americano e o espírito rebelde das décadas de 60 e 70. Muito cortazariano, Aguiar relata o encontro fantástico em Havana de uma jovem e Cortázar. Ela está vivendo em 2003. Ele, em janeiro de 1967. A sutileza está na melancolia que a narrativa instila no leitor. Este conhece previamente as respostas dolorosas que aguardam Cortázar, quando interroga a jovem sobre o futuro: “Tenho mil perguntas. O homem foi a Marte? E a guerra do Vietnã? O que aconteceu em Cuba durante todo esse tempo? Fidel ainda está vivo? E o Che? E o socialismo acabou vencendo? Você sabe alguma coisa sobre a Argentina?” Um catálogo inteiro de frustrações.

É necessário saber que Julio Cortázar, o real, levou um certo tempo para sentir semelhante interesse apaixonado pelo mundo. Confessou: “Eu tinha muito pouca curiosidade pelo gênero humano antes de escrever El Perseguidor2 ”, um de seus melhores contos. Tinha 45 anos.

O fantástico na realidade
Cortázar foi um leitor dos textos surrealistas. Considerava que a poesia faz parte de uma realidade superior que integra tanto o racional, quanto o irracional
Filho de argentinos, Cortázar nasceu em Bruxelas em 1914. Conservou, dizia ele, “uma maneira de pronunciar os ‘r’ que nunca mais me deixou”. Era uma de suas particularidades físicas. Era também muito alto e de uma extrema magreza. Sem pelos durante a maior parte da vida, seu rosto conferia-lhe um aspecto de eterno adolescente. Os olhos gigantescos, muito separados, davam a seu olhar um ar sombrio e felino. Além disso, tinha do gato o caráter individualista e enigmático.

Foi no universo do fantástico que sua literatura se desenvolveu, mas um fantástico que se imiscui na realidade, no discurso cotidiano e o transforma. Uma casa assombrada por uma presença que nunca se identifica, em Casa tomada. Um fotógrafo que surpreende uma cena entre um adolescente e uma mulher e que, quando revela o clichê, está preso em sua própria fotografia, em Las babas del diablo3 .

Cortázar foi um leitor dos textos surrealistas. Considerava que a poesia faz parte de uma realidade superior que integra tanto o racional, quanto o irracional. E pensava que os encontros fortuitos não são casuais; que o amour fou4 e o acaso são mecanismos enigmáticos com os quais os homens fabricam seu destino.

Abalo existencial
Para ele, os encontros fortuitos não são casuais; o amour fou e o acaso são mecanismos enigmáticos com os quais os homens fabricam seu destino
Um duplo encontro, com Paris e com Sibila (a “Maga”), foi a origem de uma reviravolta radical em sua vida e em sua obra. Em 1950, Julio Cortázar fez uma viagem a Paris e, durante a travessia de navio, teve um desses encontros extraordinários que marcaram sua vida. A bordo, viajava uma jovem alemã de origem judia, Edith Aron. Tinha cabelo preto e olhos verdes. Cortázar não demorou em notá-la. Sua silhueta esguia e seu rosto de criança grande também não escaparam à curiosidade de Edith. No entanto, mal trocaram algumas palavras. Chegando ao Havre, separaram-se sem mesmo deixar endereço e, alguns dias mais tarde, o que alguns chamariam de coincidência, fez com que de novo se encontrassem numa livraria. Separaram-se uma vez mais sem marcar novo encontro e, pouco tempo depois, a força estranha que os aproximava fez com que ficassem cara a cara. O sinal era claro.

Cortázar descobriu que essa jovem de sorriso feiticeiro era “viva, complicada, irônica e entusiasmada”. Em outras palavras, irresistível. E quando, em 1951, voltou a Paris para aí se instalar, não se limitou a revê-la e a manter com ela uma ligação que, apesar das rupturas e reconciliações (e uma multiplicidade de intermédios femininos), durou a vida toda, mas acabou por fazer dela uma heroína de sua obra prima, o romance Rayuela5 , inspirando-se nela para a personagem de Sibila. Publicado em 1963, Rayuela descreve o encontro de Cortázar com Paris. “Paris foi para mim o maior abalo existencial”, dizia ele.

Engajamento apaixonado
Sua literatura harmonizava-se com o movimento revolucionário que se propagava então pelo continente e cujo centro de divulgação era a revolução cubana
“Diríamos que nasci para não aceitar as coisas como elas me são apresentadas”. Essa rebelião iria acompanhá-lo a vida inteira. Sua literatura harmonizava-se com o movimento revolucionário que se propagava então pelo continente e cujo centro de divulgação era a revolução cubana. Nada mais lógico, portanto, do que o fascínio precoce de Cortázar por Cuba. Manteve com essa revolução uma relação fiel, mas também crítica. Defendeu suas idéias (como fica demonstrado por sua admiração por Lezama Lima, mesmo durante os anos dogmáticos da década de 70), prestando atenção para que suas críticas não pudessem ser utilizadas pelos inimigos da revolução, o que lhe valeu longos períodos de solidão, incompreendido pelos adversários do castrismo, bem como pelas autoridades cubanas.

A partir de Rayuela, a obra de Cortázar procura conhecer uma outra realidade possível. Viveu o maio de 1968 francês. Depois publicou o romance El libro de Manuel (1973) 6 , reflexão sobre os novos guerrilheiros latino-americanos. Partilhava de suas opiniões, sem chegar a identificar-se com sua ação. Recebeu o prêmio Médicis, e destinou o montante à resistência chilena. Seus textos tornaram-se mais livres. Participou da constituição do Tribunal Russell para denunciar as violações dos direitos humanos. E apoiou a revolução sandinista da Nicarágua. Esse engajamento apaixonado deu origem a livros que misturam ensaios, comentários e narrativas, como Ultimo round (1969) 7 , ou romances de estrutura complexa, como 62 modelos para armar (1968) 8 . O próprio Cortázar reivindicou essa ligação não dogmática entre literatura e revolução ao afirmar: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Amor, revolução e literatura compuseram então o triângulo da aventura cortaziana.

Arte lúdica e anticonvencional
“Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”
Terminou seus dias em Paris, exilado pela ditadura argentina e declarado cidadão francês pelo presidente Mitterrand. Segundo seu biógrafo, Mario Goloboff, sua maior qualidade, sem dúvida, foi ser “sempre lúdico e sempre, apesar de tudo, anticonvencional”. O humor e o prazer são características que se encontram em sua obra e, por vezes, como em Historias de Cronopios y de Famas (1962) 9 , em seus personagens principais. Talvez por isso, quando encontramos Cortázar nesse espaço fora do tempo que são as páginas de um livro por ele escrito, estabelecemos ligações com um otimismo que pode parecer incongruente para nossa época em que a esperança deu lugar ao fatalismo.

Talvez seja por isso, também, que as perguntas que o Cortázar da narrativa de Raúl Aguiar faz à jovem cubana nos encham de melancolia. Elas nos remetem ao esboço de um outro mundo alojado no interior do nosso, mas que não sabemos desvendar. Porque perdemos essa arte do encontro de que Cortázar era mestre. É provavelmente também por isso que os leitores que vêm todos os dias se concentrar diante de seu túmulo parisiense não são simples turistas. Mas seus cúmplices.

Le Monde diplomatic

As torres da opressão

Cada vez mais presentes nas grandes metrópoles, os hiper-arranha-céus tornaram-se simbolos do capitalismo pós-moderno. Concentradores e poluentes, eles são expressão de um sistema que despreza o ambiente e precisa demonstrar, também na arquitetura, poder e desigualdade

Thierry Paquot

Nascida no final do século 19, a torre é um objeto arquitetônico que resulta da combinação de uma técnica construtiva (a estrutura metálica), de equipamentos como o elevador e o telefone, e, principalmente, da inacreditável riqueza de algumas empresas, que construíram para si prédios emblemáticos, despertando todos os ciúmes. O primeiro imóvel de grande altura (40 metros) foi erguido em Nova York, em 1868; o segundo, em Minneapolis; e o terceiro em Chicago. Este, o célebre Home Insurance Building, de 42 metros, projetado por William Le Baron Jenney, teve suas obras concluídas em 1885. A torre tornou-se a expressão por excelência do capitalismo.

Isso significa dizer que se trata de uma obra necessariamente datada: uma empresa é sempre ultrapassada por outra mais prodigiosa, que marca sua supremacia construindo uma torre maior. Ao insaciável “cada vez mais” dos dirigentes da indústria ou das altas finanças corresponde o “cada vez mais alto”, símbolo, a seus olhos, do poder. Sua torre, ao mesmo tempo sede social, insígnia e marca. Há qualquer coisa de infantil nessa competição ascensional, a não ser por um punhado de arquitetos, convencidos de que a torre exprime o futuro… de um século passado!

O verdadeiro desafio que temos pela frente consiste em inventar uma forma arquitetônica que possa responder às expectativas contrastantes de cidadãos em busca de um conforto real, que respeite o meio ambiente, e que acompanhe as mutações urbanas em curso. Os sem-teto esperam por condições de sobrevivência, primeiro passo em direção a uma moradia decente. Os mal-instalados desejam habitações mais confortáveis e adaptadas ao tamanho de sua família ou ao seu universo sensorial. Os ocupantes de moradias sociais [1] reclamam novas normas e inserções mais urbanas. Em suma, as apostas são altas e necessitam de experimentações audaciosas, seja no modo de financiamento, seja no sistema de atribuição, seja na arquitetura desses habitats. E – por que não? – na participação dos futuros locatários em sua construção.

A torre não é a alternativa de moradia para a maioria: é cara (seus condomínios representam um segundo aluguel) e, na maioria das vezes, não disponibiliza aos moradores nenhum espaço comunitário (toda a vida é centrada no elevador, na entrega em domicílio, no isolamento em relação à cidade real). Ela é um impasse em altura, como a definiu o filósofo Paul Virilio.

Quanto aos escritórios, mal nos damos conta das doenças provocadas pelo enclausuramento em um universo dominado pela luz artificial e o ar condicionado, mas multiplicam-se as histórias sobre anginas, distúrbios respiratórios e outras enfermidades. Os empregados das empresas antes instaladas no World Trade Center, que após o atentado de 11 de setembro foram deslocados para pequenos imóveis espalhados em meio à natureza em Nova Jersey, manifestam sua satisfação, lamentando às vezes apenas a falta do ambiente de Manhattan [2].

Projetam-se grandes arranha-céus em Moscou (448 metros), Nova York (541m.), Dubai (próximo de 800m.), Paris e Londres (300m.)
No entanto, alguns arquitetos-estrelas, estimulados por todo um lobby imobiliário, afirmam, sem qualquer prova, que a torre resolve a questão fundiária (o que é verdade, em parte), aumenta a densidade (o que não está demonstrado), economiza energia (os dados ainda permanecem contraditórios), e faz parte do espírito da cidade (o que nem sempre é evidente).

No Mercado Internacional dos Profissionais de Imóveis (o Mipim), realizado em Cannes em 2007, os visitantes puderam admirar as maquetes dos futuros arranha-céus de Moscou (a Torre da Federação, de 448 metros, que ficará pronta em 2010), Varsóvia (a Zlota 44, de 54 andares), Nova York (a Torre da Liberdade, de 541 metros, e a do New York Times, de 228 metros), Dubai (certamente próximo de 800 metros), Paris (Granite, da Nexity, por Christian de Portzamparc; Generali, por Valode e Pistre; Unibail, por Tom Mayne, que deverá ser entregue em 2012) e Londres (Renzo Piano e a London Tower Bridge, de 300 metros). Um verdadeiro frenesi construtivo, à imagem da arrogância das firmas.

Já em 1936, em suas conferências no Rio de Janeiro, Le Corbusier reclamava uma torre de 2.000 metros para Paris. Mas, até agora, somente os japoneses trabalharam nos projetos de uma torre de 4 quilômetros de altura ou de uma pirâmide de 2.004 metros (chamada TRY 2004), podendo receber 700 mil residentes permanentes e 800 mil trabalhadores.

Desde 1930, o arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright denunciava a supertorre: “Os arranha-céus não têm vida própria, não têm vida a oferecer e não recebem nenhuma da natureza da construção (…) Bárbaros, eles são erguidos sem nenhuma consideração particular pelos arredores nem uns pelos outros (…) A aparência dos arranha-céus não tem moral, não tem beleza, não tem permanência (…) Os arranha-céus não têm um ideal unitário mais elevado que o sucesso comercial” [3]. Com certeza, ele não previa a vitória dos shoppings centers e dos cenários que os acompanhariam, pelo menos em certas megalópoles.

Esse simulacro de cidade se satisfaz com uma imagem na qual a torre assume o papel principal. Guy Debord, na revista Potlatch, denunciava os “mais policialescos que a média” (e apontava para Le Corbusier), que têm a ambição de “suprimir a rua” e encerrar a população em torres. Para ele, ao contrário, era preciso valorizar “os jogos e os conhecimentos que estamos no direito de esperar de uma arquitetura verdadeiramente perturbadora” (Potlatch n° 5, 20 de julho de 1954). Debord desenvolveu, a seguir, a psicogeografia, o urbanismo unitário e a deriva, criticando sem trégua a fria geometria dos grandes conjuntos, essas linhas insensíveis à vagabundagem lúdica.

Em vez de torres, imaginar eco-bairros, adaptados à qualidade ambiental e existencial, zelosas pelas pessoas, lugares e urbanismo
O urbanista chinês Zhuo Jian, que enumerou 7 mil imóveis de grande altura em Xangai (duas dezenas ultrapassam os 200 metros), constatou que o solo afunda muitos centímetros a cada ano [4]. Os especialistas explicam que uma torre é uma devoradora de energia na sua fabricação (os aços e os vidros, cada vez mais sofisticados, exigem um grande gasto de energia para serem produzidos) e na sua manutenção (ar condicionado, iluminação, elevadores etc.), ainda que se tenham em vista novos procedimentos (como a engenhosa torre Hypergreen, de Jacques Ferrier). Eles insistem ainda a respeito da limitada vida útil, cerca de duas décadas, desse produto oneroso e pouco adaptável a usos diversos. Crer que nele seria fácil abrigar uma universidade, uma biblioteca, apartamentos de luxo, um hotel 5 estrelas, com horários e clientes tão diferentes é nada menos que um desafio.

E em Paris? O Front de Seine, os Olympiades, o Quartier Italie, Flandres e a torre Montparnasse (209 metros) não encorajam em nada a construção de outras torres e condenam o urbanismo do concreto. Em 1977, o Conselho de Paris fixou em 37 metros a altura máxima das construções. Em 2003, uma consulta aos parisienses registrou 63% de oposição às construções de grande altura.

No entanto, em junho de 2006, arquitetos localizaram 17 lugares que poderiam abrigar torres de 100 a 150 metros e prédios residenciais de 50 metros (17 andares). A maior parte dos projetos conserva uma monofuncionalidade vertical, não leva em conta os efeitos relativos à insolação do bairro e à aceleração dos ventos, o tratamento dos impactos e o custo energético das construções. Quanto à estética, o debate está apenas começando.

É absurdo ser tolamente a “favor” ou “contra”: existem torres esplêndidas, que honram a paisagem da cidade que ajudam a embelezar (quem pode ficar insensível à beleza de algumas cidades “verticais”, como Nova York ou Chicago?). No entanto, é uma aberração construir uma torre solitária sem se preocupar com o urbanismo — ou seja, com a ocupação do solo, a rua, os transportes coletivos, as relações de escalas frente às demais das construções, o jogo de proporções entre as fachadas, as praças, os jardins.

Se, em vez de construir torres associadas a um modo de vida opressor, alguns daqueles que concebem a cidade concentrassem sua inteligência para imaginar eco-bairros, não apenas conformes às atuais normas de qualidade ambiental, mas também às de alta qualidade existencial, zelando pelas pessoas, pelos lugares e pelas “coisas da cidade” (por exemplo, uma iluminação suave e tranqüilizadora), então a urbanidade seria menos seletiva e a alteridade menos discriminadora.

A torre não permite o encontro. De resto, nem a literatura, nem o cinema fizeram dela um lugar mágico. Ao contrário, ela alimenta cenários catastróficos. Desconfiemos das modas, por natureza passageiras. Mais vale a diversidade das paisagens urbanas, das formas contrastantes, dos materiais e das cores de paletas variadas!

Le Monde diplomatic brasil

Terceirização freia aplicação de medidas de segurança

A edição de março de 2007 do jornal “Contato”, da usina Nova América, divulgou suas operações na lavoura, por meio da Nova América Agrícola: “Hoje 100% do plantio manual, incluindo os terceiros, já conta com o cinto de segurança”. No mesmo mês, uma blitz do Grupo Móvel de Fiscalização Rural visitou uma fazenda em Maracaí (SP). Flagrou funcionários da Nova América em cima de um caminhão, a mais de 2 metros de altura, jogando cana para ser plantada por quem seguia no chão.
O pessoal sobre o veículo não usava cinto. A empresa comprometeu-se a assegurar equipamento a todos.
A realidade da roça nem sempre corresponde 100% à propaganda das usinas de etanol. No mês passado, o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, Marcos Jank, participou da Mesa de Diálogo com governo e sindicalistas para tratar do trabalho na cana.
Jank afirmou, segundo a Agência Brasil: “Já 100% das usinas não estão terceirizando o corte da cana, mas ainda há problemas nos fornecedores de cana em São Paulo”. Três semanas depois, o procurador do Trabalho Silvio Beltramelli Neto acusou a usina Santo Antônio de terceirizar ilegalmente a produção de cana.
A Justiça determinou em liminar que a usina “abstenha-se de contratar terceiros”. A Santo Antônio diz “não ter trabalhadores terceirizados”.
A Cooperativa dos Plantadores de Cana da Zona de Guariba promoveu campanha com seus funcionários para prevenir câncer. No canavial, quase 100% dos cortadores não recebem protetor solar para evitar o câncer de pele.

Folha de São Paulo

Estoicismo

Indiferença, renúncia e apatia estóica

Antonio Carlos Olivieri

A frase que dá título a este artigo é de Sêneca (c. 2 a.C.-65 d.C.), um dos grandes expoentes da escola filosófica do estoicismo. Ela sintetiza com bastante precisão a proposta fundamental dos estóicos como se verá a seguir.

Em decorrência direta das conquistas de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), que difundiram a cultura grega por todo o chamado mundo civilizado de sua época, a filosofia deixou de ser grega e tornou-se internacional. Nesse momento, surgiu uma escola filosófica que iria permanecer como uma linha organizada de pensamento durante nada menos que cinco séculos: o estoicismo.

A escola estóica recebe esse nome do local onde foi fundada, a porta pintada (“Stoa Poikile”), em Atenas, por Zenão de Cício, por volta de 300 a.C.. Zenão era fenício, como grande parte de seus colegas e discípulos. Se estes constituíram os primeiros estóicos, os últimos foram os romanos. Entre estes merece destaque especial Sêneca, não pela originalidade de suas idéias mas pela sua capacidade de expressá-las, que o tornou um dos grande nomes não só da filosofia, mas também da literatura latina.

Bem viver
Além de internacional, o estoicismo pregava o cosmopolitismo, considerando que o homem devia ser um cidadão do mundo. Da mesma maneira, atingia todas as classes sociais. Entre os grandes estóicos de Roma encontram-se o escravo Epicteto (55-135 d.C) e o imperador Marco Aurélio (121-180 d.C.).

Mas em que consiste a filosofia estóica e por que ela conseguiu vigorar durante tanto tempo? Em primeiro lugar, por que o estoicismo considerava que a ética e as questões morais, ou seja “a arte de bem viver”, eram mais importantes do que as questões teóricas. Nesse sentido, era uma filosofia prática e os textos dos autores estóicos – guardadas as devidas proporções – se assemelham aos textos de auto-ajuda contemporâneos, na medida em que propunham maneiras de se atingir esse “bem viver”.

Tudo tem um motivo
No entanto, esse “bem viver” dos estóicos está longe de ser uma busca insaciável de prazer, como é o ideal das sociedades de consumo contemporâneas. Para o estóico, enquanto o animal é guiado pelo instinto; o homem é guiado pela razão. O mundo que a razão apresenta ao homem é a Natureza e não existe nada superior a ela. Deus, portanto, não está fora do Natureza mas impregnado nela.

Uma vez que a Natureza é governada pela razão divina, tudo tem um motivo para ser e nós não podemos mudar isso. Por conseguinte, nossa atitude diante das adversidades e da própria morte deve ser de serena resignação. Assim, o ideal do estoicismo é atingir a ataraxia ou apatia, ou seja, a indiferença em relação a todas as emoções, o que se alcança pela prática da virtude.

Os estóicos suportavam as adversidades com calma e dignidade, mas também acreditavam que as circunstâncias da vida de um homem podia se degradar a tal ponto (seja devido a uma tragédia pessoal, à ruína e a subseqüente miséria, seja devido a uma doença dolorosa e terminal), que um suicídio indolor se tornava a coisa mais racional a fazer.

Estoicismo e suicídio
De fato, muitos estóicos se suicidaram, entre eles o próprio Sêneca. É dele o trecho que transcrevemos a seguir, Trata-se do fim da carta “Sobre a Providência Divina”, em que ele dá voz a um deus que se dirige aos seres humanos, ensinando-os e aconselhando-os:

Mas acontecem muitos sobressaltos tristes, horríveis, duros de se agüentar.
Como não podia afastar-vos deles, armei vossos espíritos contra todos: suportai bravamente. Nisto vós estais à frente de um deus: ele está à margem do sofrimento dos males, vós, acima do sofrimento.

Desprezai a pobreza: ninguém vive tão pobre quanto nasceu. Desprezai a dor: ou ela terá um fim ou vos dará um. Desprezai a morte: a qual vos finda ou vos transfere. Desprezai o destino: não dei a ele nenhuma lança com que ferisse o espírito.

Antes de tudo, tomei precauções para que ninguém vos retivesse contra a vontade; a porta está aberta: se não quiserdes lutar, é lícito fugir. Por isso, de todas as coisas que desejei que fossem inevitáveis para vós, nenhuma fiz mais fácil do que morrer.

Coloquei a vida num declive: basta um empurrãozinho. Prestai um pouco de atenção e vereis como é breve e ligeiro o caminho que leva à liberdade.

A isso que se chama morrer, esse instante em que a alma se separa do corpo é breve demais para que se possa perceber tão grande velocidade: ou o nó apertou a garganta, ou a água impediu a respiração, ou a dureza do chão arrebentou os que caíram de cabeça, ou a sucção de fogo interrompeu o respirar; seja o que for, voa. Por acaso enrubesceis?

Passa rápido o que temestes tanto tempo!”

Não no que se refere ao suicídio, é claro, mas no resignar-se a suportar as adversidades da vida, o estoicismo influenciou diretamente a filosofia do cristianismo que floresceria na Idade Média, com o fim do Império romano. Segundo o filósofo contemporâneo italiano Nicola Abbagnano, “ao lado do aristotelismo, o estoicismo foi a doutrina que maior influência exerceu na história do pensamento ocidental. Muitos dos fundamentos enunciados ainda integram doutrinas modernas e contemporâneas.

Uol Educação