Daily Archives: 11/11/2008

DEBATE ABERTO

Reflexões de outubro

Pode-se dizer, com razoável grau de segurança, que os problemas sistêmicos provocados pela crise financeira, deverão vir de outro lado, e eles já estavam se anunciando, nos últimos dias de outubro. Todos organismos internacionais estão prevendo quedas acentuadas da produção, dos preços e das exportações.

José Luís Fiori

“Nós decidimos tomar medidas decisivas e utilizar todos os instrumentos à nossa disposição para sustentar as instituições financeiras que tenham importância sistêmica e impedir que elas possam falir.”
Plano de Ação do G7, Washington, 10/10/2008

Na segunda-feira, dia 13 de outubro de 2008, o mundo amanheceu em silêncio e ficou em suspense, durante quase todo o dia, à espera do que seria uma espécie de “duelo final”, entre o poder político e os mercados, que estaria se travando nos principais centros financeiros do mundo. No final do dia, entretanto, os primeiros sinais já indicavam que não houve duelo e que o poder político havia imposto sua autoridade sobre os “mercados financeiros”. Depois de uma semana de pânico, entre os dias 5 e 12 de outubro, em poucas horas os governos das principais economias do mundo conseguiram formular um ”plano comum” de intervenção massiva e estatização parcial dos seus sistemas financeiros, que cumpriu com o seu objetivo imediato de estancamento de “sangria” e estabilização do cambio.

Quem quis, pode ver e aprender, naqueles dias, que existe uma relação essencial e expansiva entre o poder político e o capital financeiro, e que apesar de tudo o que foi dito e repetido nestes últimos anos, o poder político tem uma precedência hierárquica e dinâmica, com relação aos mercados e ao capital financeiro. Ou seja: o poder e a riqueza capitalista se expandem juntos, mas o poder político é uma condição essencial, permanente e dinâmica dos mercados e do capital financeiro. Neste sentido, é interessante observar que o plano de nacionalização dos principais sistemas financeiros do mundo, tenha sido formulado pela Inglaterra, com base na experiência da Holanda, e antes de ser aceito pelos EUA e pela EU. Logo a Inglaterra e a Holanda, as duas potências marítimas e econômicas que teriam estado na origem do “capitalismo liberal”, e na defesa permanente do laisez-faire.

Nas semanas seguintes, depois do dia 13 de outubro, a própria evolução da crise foi dando maior transparência à uma outra relação que costuma embaralhar a análise dos economistas: entre a moeda estatal e as infinitas moedas privadas e financeiras que coexistem dentro de um mesmo sistema econômico nacional e internacional. Permitindo separar a crise do “mercado financeiro do mundo”, que se estabeleceu nos EUA depois de 1980, de uma crise eventual do dólar e da hegemonia monetária dos EUA que ainda não aconteceu. E foi esta a estratégia que o governo americano adotou no campo internacional buscando sustentar a confiança e a centralidade mundial do dólar.

Durante todo o mês de outubro, os EUA mantiveram uma comunicação e uma coordenação com os governos e os bancos centrais do Japão e da China, os maiores detentores mundiais de obrigações do estado americano, Sendo que no caso da China, em particular, estabeleceu-se uma verdadeira parceira estratégica com o Tesouro americano, na defesa do dólar, e dos interesses financeiros comuns dos dois países. Na mesma linha de atuação, depois do dia 13 de outubro, o banco central americano, FED, tomou a iniciativa e fechou acordos para garantir liquidez em dólares dos BCs da Austrália, Canadá, Dinamarca, Inglaterra, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça, e com o próprio Banco Central Europeu, E logo depois, no dia 29 de outubro, o FED ofereceu as mesmas facilidades e condições, e mais uma linha de 30 bilhões de dólares, para cada um dos BCs, do Brasil, México, Coréia do sul e Singapura.

No mesmo dia em que o FMI anunciou, em acordo com o governo americano, a criação de uma nova linha de crédito sem condicionalidades, para países em desenvolvimento que estejam sofrendo os efeitos da crise e que mantenham políticas econômicas “sadias”. Ao lado dos programas tradicionais de ajuda do FMI que vem sendo negociados neste momento, com os governos de quase todos os países da Europa Central, além da Islândia, Turquia, Paquistão e outros prováveis candidatos do sudeste asiático. Ou seja: em poucas semanas, depois do dia 13 de outubro, o Tesouro americano e o FED, junto com o FMI, tomaram a iniciativa dentro e fora dos EUA e passaram a atuar de forma agressiva, coordenada e global, para sustentar a estabilidade e a centralidade do dólar, e não há sinais de que os EUA estejam perdendo seu poder e sua capacidade de coordenação monetário- financeira, dentro da economia mundial.

Por isto se pode dizer – com razoável grau de segurança – que os problemas sistêmicos provocados pela crise financeira, deverão vir de outro lado, e eles já estavam se anunciando, nos últimos dias do mês de outubro. Até então, a intervenção das grandes potencias manteve em funcionamento as funções básicas do sistema ( como se fosse cérebro, coração e pulmão) , mas não teve como impedir o efeito contágio da crise, que já passou das finanças para o crédito, e deve atingir a produção, o emprego e as exportações de todo mundo, e de forma muito mais grave, no caso dos países menos desenvolvidos e com menor capacidade autônoma de socorrer seus próprios bancos e produtores.

Todos organismos internacionais estão prevendo quedas acentuadas da produção, dos preços e das exportações. E a OIT está prevendo um aumento imediato de 10% do desemprego mundial, mais concentrado nas regiões mais pobres do mundo. Nestas regiões, deve se prever um processo complicado de desintegração social e política, e o mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em “zonas de fratura” ou de disputas e conflitos geopolíticos crônicos. Isto poderá ocorrer em vários pontos da Europa do Leste, e em alguns países da Ásia Central, e poderá assumir uma forma dramática no continente africano, sobretudo se esta regressão econômica e social coincidir com uma nova corrida imperialista, sobre a África, que pode ser uma prolongação muito provável da crise atual.

Carta Maior

A recuperação da memória histórica na Espanha

Juiz Garzón atribui a Franco um plano de extermínio sistemático

José Yoldi

O juiz Baltasar Garzón entrou para a história nesta quinta-feira como o primeiro magistrado espanhol que atribuiu ao ditador Francisco Franco e a outros 34 chefes militares que dirigiram a rebelião contra o regime legalmente constituído da Segunda República Espanhola a implementação de um plano de extermínio sistemático de seus adversários políticos e de uma repressão que acabou com pelo menos 114.266 pessoas desaparecidas das quais não se explica o paradeiro e que, na opinião dele, constitui um contexto de crimes contra a humanidade. O juiz se declarou competente para investigar as denúncias apresentadas pelas Associações da Memória Histórica e ordenou que se iniciem as exumações dos cadáveres de 19 fossas comuns, entre as quais está a que supostamente contém os restos do poeta Federico García Lorca, assassinado em Granada.

Em uma resolução no mínimo original, Garzón assumiu a investigação da causa por considerar que os seqüestros com desaparecimento de pessoas são delitos permanentes até que se dê conta do paradeiro dos seqüestrados, o que determina que não são afetados pela prescrição nem podem ser amparados por uma lei de anistia. Mas a competência da Audiência Nacional (Ministério Público) não é determinada pela investigação desses delitos, que considera em um contexto de crimes contra a humanidade por existir um plano sistemático de extermínio, mas porque Franco encabeçou um golpe de Estado contra o governo legítimo, democraticamente eleito, e os delitos contra a forma de governo e os altos organismos da nação, sim, estão atribuídos à Audiência Nacional. Esse delito está relacionado aos desaparecimentos e o juiz considera Franco outros 34 generais e ministros responsáveis pelos mesmos.

O processo menciona expressamente: “A ação desferida pelas pessoas sublevadas e que contribuíram para a insurreição armada de 18 de julho de 1936 esteve fora de toda legalidade e atentou contra a forma de governo (delitos contra a Constituição, do Título II do Código Penal de 1932, vigente quando ocorreu a sublevação), de forma coordenada e consciente, determinados a acabar pelas vias de fato com a República mediante a derrubada do governo legítimo da Espanha, e dar lugar com isso a um plano preconcebido que incluía o uso da violência como instrumento básico para sua execução”. No entanto, o magistrado está consciente de que Franco e todos os integrantes da relação de golpistas que inclui no auto já morreram. Por isso solicitou aos registros civis que lhe enviem no prazo de dez dias os certificados de óbito de todos eles, com a finalidade de declarar extinta sua responsabilidade criminosa por esse delito.

Sem a possibilidade de investigar o delito, a Audiência Nacional não seria mais competente no caso e Garzón deverá remeter as autuações aos juizados territoriais correspondentes dos lugares onde foram cometidos os desaparecimentos forçosos. Isso quer dizer que no prazo de um mês, no máximo dois, Garzón não poderá mais seguir com o caso.

Enquanto isso, Garzón se diverte em lembrar no auto os bandos dos generais Mola e Queipo de Llano, os quais ordenavam passar pelas armas todos os que se opusessem ao levante, os comunistas, marxistas, etc., e as declarações de Franco ao jornal “Chicago Herald Tribune” em 27 de junho de 1936, nas quais assumia que teria de matar meia Espanha. Para estabelecer a existência do plano de desaparecimento e extermínio, cita vários historiadores e conclui com o corolário de Secundido Serrano: “Não foi só uma guerra civil, mas também um programa de extermínio”, acompanhado do ocultamento sistemático dos corpos, de forma que os familiares não pudessem encontrar o local do enterro. O magistrado lembra que esses crimes atrozes nunca foram investigados penalmente na Espanha, e que “até o dia de hoje a impunidade foi a regra diante de acontecimentos que poderiam ter a qualificação jurídica de crime contra a humanidade”.

Também afirma que não pretende fazer uma causa geral, nem uma revisão da Guerra Civil em foro judicial, mas explica que os vencedores, seguindo instruções do promotor geral do Estado, recém-acabada a guerra, abriram uma causa geral contra as chamadas vítimas do “terror vermelho”. Apesar de Gallardón e outros governantes terem enviado ao juiz listas de mortos de ambos os lados, a investigação de Garzón se refere unicamente a um deles. Isso fica claro quando o auto indica: “Os vencedores da Guerra Civil aplicaram seu direito aos vencidos e mobilizaram toda a ação do Estado para a localização, identificação e reparação das vítimas caídas da parte vencedora. Não aconteceu o mesmo em relação aos vencidos, que além disso foram perseguidos, encarcerados, desaparecidos e torturados por aqueles que haviam quebrantado a legalidade vigente ao levantar-se em armas contra o Estado, chegando a aplicar-lhes retroativamente leis (…) tanto durante a contenda como depois, nos anos do pós-guerra, até 1952″.

A promotoria da Audiência Nacional já anunciou a apresentação de um recurso de apelação contra a decisão do juiz Garzón, que previsivelmente será decidida pelo plenário da Sala Penal.

El Pais

Falar o árabe

A retórica e a eloqüência da tradição literária árabe remontam a mais de mil e duzentos anos. Foram escritores de Bagdá, como Al-Jahiz e Al-Jurjani, que elaboraram, então, sistemas inacreditavelmente inteligentes e modernos. Seu trabalho baseou-se no texto do Corão, que se tornou o modelo de tudo o que veio depois dele em matéria lingüística

Edward W. Said
Como falar e escrever o árabe? A questão é particularmente intrincada por depender de fatores ideológicos que não têm nada a ver com a vivência mesma da língua pelos locutores autóctones. Não sei de onde vem a concepção de que o árabe exprimiria uma violência aterradora e incompreensível, mas é evidente que todos aqueles malfeitores de turbante das telas de Hollywood dos anos 1940 e 1950, falando com sádico prazer a suas vítimas, em um tom rude e agressivo, têm algo a ver com isso. Mais recentemente, veio se somar a contribuição trazida pela verdadeira fixação da mídia norte-americana no terrorismo, que parece resumir tudo o que diz respeito aos árabes.

E, no entanto, a retórica e a eloqüência na tradição literária árabe remontam a mais de mil e duzentos anos: foram os escritores de Bagdá, como Al-Jahiz e Al-Jurjani, que elaboraram sistemas inacreditavelmente complexos e modernos de compreensão da retórica, da eloqüência e das figuras de linguagem. Mas seu trabalho baseia-se no árabe clássico escrito, e não naquele cotidianamente falado. Pois o primeiro é dominado pelo Corão, que é, ao mesmo tempo, origem e modelo de tudo o que vem depois dele em matéria lingüística.

Expliquemos este aspecto, pouco familiar aos usuários das línguas européias modernas, nas quais as versões faladas e literárias coincidem e a Sagrada Escritura perdeu inteiramente sua autoridade verbal.

Todos os árabes utilizam um dialeto falado que varia de maneira considerável de uma região a outra. Eu cresci em uma família cuja língua era uma mistura do que era comumente falado na Palestina, no Líbano e na Síria: esses três dialetos apresentavam diferenças suficientes para que se pudesse distinguir, por exemplo, um habitante de Jerusalém de outro de Beirute ou de Damasco, mas todos os três podiam se comunicar sem maiores dificuldades.

Como freqüentei a escola no Cairo, onde passei a maior parte de minha juventude, eu também falava fluentemente o dialeto egípcio – muito mais rápido e elegante do que aquele aprendido em família. Além disso, o egípcio era mais conhecido: quase todos os filmes árabes, os dramas transmitidos pelo rádio e, mais tarde, as novelas de televisão eram produzidos no Egito. Assim, a língua egípcia tornou-se familiar aos habitantes de todo o mundo árabe.

Durante os anos 1970 e 1980, o boom do petróleo acarretou a produção de novelas televisionadas em outros países, desta vez em árabe clássico. Tais novelas, pomposas e pesadas, com os personagens vestidos a caráter, deveriam supostamente se adequar melhor ao gosto dos muçulmanos (e dos cristãos antiquados, em geral mais puritanos), que poderiam se chocar com os filmes cairotas cheios de verve. Para nós, eram terrivelmente chatas! A musalsal (novela) egípcia, toda improvisada, nos divertia mil vezes mais do que o melhor dos dramas feitos sob medida em língua clássica.

De qualquer forma, de todos os dialetos, só o egípcio teve tal divulgação. Eu teria a maior dificuldade do mundo para compreender um argelino, tamanha é a diferença entre os dialetos do Machrek e do Magreb [1]. E teria a mesma dificuldade frente a um iraquiano ou a alguém que falasse com o forte sotaque do Golfo. É por isso que as informações divulgadas por rádio ou televisão recorrem a uma versão modificada e modernizada da língua clássica, que pode ser compreendida pelo conjunto do mundo árabe, do Golfo ao Marrocos.

A exemplo do que ocorreu com o latim em relação aos dialetos europeus falados até um século atrás, o árabe clássico permaneceu vivo e presente enquanto língua comum da escrita, apesar dos imensos recursos de dialetos que, com exceção do caso egípcio, nunca foram difundidos além do país em que são usados.

Mesmo os escritores ditos “regionais” tendem a utilizar a língua clássica moderna e só recorrem ao árabe dialetal ocasionalmente. Na prática, uma pessoa culta exercita, de fato, dois usos lingüísticos muito distintos. A tal ponto que, se estiver conversando informalmente em dialetal com um repórter de jornal ou televisão, quando a gravação começar de fato você passará para a língua clássica, mais formal e elaborada.

Existe, evidentemente, um elo entre os dois idiomas: as letras são idênticas e a ordem das palavras também. Mas os termos e a pronúncia diferem à medida que o árabe clássico, norma culta da língua, perde qualquer marca de dialeto local ou regional e emerge como um instrumento sonoro, cuidadosamente modulado, extraordinariamente flexível, cujas fórmulas permitem uma grande eloqüência. Corretamente utilizado, o árabe clássico é incomparável, no que diz respeito à precisão da expressão e à surpreendente maneira pela qual as variações das letras individuais em uma palavra (particularmente as terminações) permitem expressar coisas muito diferentes.

É também uma língua que funciona como ponto de convergência único relativamente à cultura árabe. Assim escreveu Jaroslav Stekevych, autor da melhor obra moderna [2] sobre o assunto: “como Vênus, ela nasceu em um estado de beleza perfeita, e conservou essa beleza a despeito das peripécias da história e das forças do tempo”. Para o estudante ocidental, “o árabe sugere uma idéia de atração quase matemática. O sistema perfeito das três consoantes radicais, as formas aumentativas dos verbos com seus significados básicos, a formação precisa do substantivo verbal, dos particípios. Tudo é clareza, lógica, sistema e abstração”. O árabe, em sua forma escrita, é também um belo objeto de contemplação. De onde o papel central e duradouro da caligrafia, arte combinatória da mais alta complexidade, mais próxima do ornamento do que da explicitação discursiva.

Durante os primeiros dias da guerra no Afeganistão, na emissora árabe de televisão Al-Jazira, eram apresentadas discussões e reportagens impossíveis de serem vistas na mídia norte-americana. O surpreendente, deixando de lado o conteúdo desses programas, era, apesar da complexidade das questões abordadas, o alto nível de eloqüência que caracterizava os participantes, mesmo os mais repulsivos, inclusive Osama bin Laden. Este falava com uma voz doce, sem hesitar nem cometer o menor lapso, o que certamente contribuiu para que adquirisse sua influência. Era também o caso, em menor grau, de não-árabes, como os afegãos Burhanuddin Rabbani e Gulbuddin Hekmatyar, que recorreram com extraordinária facilidade à língua clássica, por não dominarem o árabe dialetal.

Evidentemente, aquilo que hoje em dia é chamado de árabe padrão moderno (ou clássico) não é bem a língua em que foi escrito o Corão, há quatorze séculos. Apesar de o livro sagrado continuar sendo um texto muito estudado, sua língua parece antiga e até enfática e, portanto, não utilizável na vida diária. Comparada à prosa moderna, ela tem ares de poesia sonora.

O árabe clássico moderno é resultado do processo de modernização iniciado durante as últimas décadas do século 19 – o período da Nahda, ou Renascimento. Esse trabalho foi mérito, principalmente, de um grupo de homens da Síria, do Líbano, da Palestina e do Egito – dentre os quais, um número surpreendente de cristãos. Eles se dedicaram coletivamente à transformação da língua árabe, modificando e simplificando um pouco a sintaxe original do século 17 e promovendo uma arabização (isti’rab). Tratava-se de introduzir palavras como “trem”, “companhia”, “democracia” ou “socialismo”, que evidentemente não existiam durante o período clássico. Como? Utilizando os enormes recursos da língua, graças ao procedimento gramatical da al-qiyas, a analogia. Tais pioneiros impuseram todo um novo vocabulário, que representa atualmente cerca de 60% da língua clássica padrão. Desta forma, a Nahda levou a uma libertação em relação aos textos religiosos, introduzindo sub-repticiamente um novo secularismo.

Por sua lógica, a gramática árabe é tão sofisticada e sedutora que um aluno mais velho a estuda com grande facilidade, pois pode apreciar as sutilezas de seu raciocínio. Ironicamente, é nos institutos lingüísticos do Egito, Tunísia, Síria, Líbano e Vermont que o melhor ensino do árabe é ministrado a não-árabes.

Quando a guerra árabe-israelense de 1967 me levou ao engajamento político à distância, uma coisa me impressionou, mais do que tudo: a política não era feita em ‘ameya, ou língua do grande público, como é chamado o árabe dialetal, mas, na maioria das vezes, em rigoroso e formal fosha, a língua clássica. Compreendi rapidamente que as análises políticas eram apresentadas nas manifestações e reuniões de modo a parecerem mais profundas do que realmente eram. Para minha grande decepção, descobri que isso era particularmente verdadeiro no que dizia respeito às abordagens dos marxistas e dos movimentos de libertação da época: as descrições de classes, de interesses materiais, do capital e do movimento operário eram arabizadas e dirigidas, em longos monólogos, não ao povo, mas a outros militantes sofisticados.

Políticos populares como Yasser Arafat e Gamal Abdel Nasser, com quem tive contato, utilizavam muito melhor o dialetal do que os marxistas, que eram mais cultos do que os líderes palestino e egípcio. Nasser, principalmente, falava às massas em dialeto egípcio, ao qual acrescentava as frases sonoras do fosha. Quanto a Arafat, dado que a eloqüência árabe depende muito da entonação, tinha a fama de orador abaixo da média: seus erros de pronúncia, suas hesitações e seus circunlóquios inábeis pareciam, para o ouvido educado, um elefante em uma loja de porcelana.

A Universidade Al-Azhar, do Cairo, é uma das mais antigas instituições de ensino superior do mundo. Constitui também a sede da ortodoxia islâmica, pois seu reitor é a mais alta autoridade religiosa do Egito sunita. Mais ainda: Al-Azhar ensina – essencial, mas não exclusivamente – o saber islâmico, centrado no Corão e em tudo o que o acompanha em matéria de interpretação, jurisprudência, hadiths [3], língua e gramática.

O domínio do árabe clássico encontra-se, portanto, no próprio cerne do ensino islâmico de Al-Azhar. Pois os muçulmanos consideram o Corão como o Verbo de Deus, não criado, mas “descido” (munzal) à Terra por meio de uma série de revelações feitas a Muhammad (Maomé). Conseqüentemente, a língua do Corão é sagrada: ela contém regras e paradigmas obrigatórios para aqueles que a utilizam, apesar de, paradoxalmente, estes não poderem imitá-la, por razões doutrinárias (ijaz).

Há sessenta anos, as pessoas escutavam os oradores e comentavam incansavelmente tanto o que eles diziam quanto a correção de sua linguagem. Quando fiz meu primeiro discurso em árabe, no Cairo, há vinte anos, um de meus jovens parentes se aproximou de mim, depois que acabei, para me dizer o quanto ele estava decepcionado. “Mas você entendeu o que eu disse?”, perguntei a ele em tom de queixume – minha principal preocupação era ser compreendido em relação a alguns pontos delicados de filosofia e política. “Ah sim, é claro!”, ele respondeu em tom de desdém, “mas você não foi suficientemente eloqüente”.

Essa recriminação ainda me persegue quando falo em público. Sou incapaz de me transformar em um orador eloqüente. Misturo os idiomas dialetal e clássico de modo pragmático, com resultados sofríveis. Como alguém observou delicadamente certa vez, pareço uma pessoa que tem um Rolls Royce, mas prefere utilizar o Volkswagen.

Somente ao longo dos últimos dez ou quinze anos é que descobri isto: a melhor, a mais depurada, a mais incisiva expressão árabe que já li ou ouvi não foi escrita por críticos, mas por romancistas, como Elias Khury ou Gamal Al-Ghitany. Ou por nossos dois maiores poetas vivos, Adonis e Mahmud Darwish: cada um deles atinge, em suas odes, alturas rapsódicas tão elevadas que arrebatam enormes auditórios, em frenesi de encantamento entusiasta.

Para eles, a prosa é um instrumento aristotélico afiado como uma navalha. Seu conhecimento da linguagem é tão imenso e natural, seus dons tão poderosos, que eles podem ser, ao mesmo tempo, eloqüentes e claros, sem precisar de palavras que alongam o texto e nada acrescentam a ele, de verbosidade cansativa ou de exibição vã. Ao passo que eu, que não me formei pelo sistema escolar nacional árabe (por oposição ao sistema colonial), preciso me esforçar para pôr correta e claramente em ordem uma frase em árabe clássico – com resultados nem sempre convincentes em termos de elegância, devo admitir.

Le Monde diplomatic

Filhos não reconhecem os pais

Cerca de 40% dos trabalhadores na colheita de cana-de-açúcar em SP são migrantes provisórios

H ouve um dia em que Raimundo Francisco foi contar a história da sua vida aos seis companheiros com quem divide uma casa no interior de São Paulo. Nenhum ficou até o fim. “Para não chorar”, diz. Todos são do Maranhão. Seis vieram de Codó, um de Timbiras, municípios cujos índices sociais fazem dos bairros pobres de SP o melhor lugar do mundo.
Reginaldo trabalhava na roça própria. Fora da época da colheita, “o pior do dia era chegar em casa e não ter o que comer”. No fim do ano, ele reencontrava os amigos que desde abril estavam para os lados do sul colhendo cana. Apareciam com “uma motinho, um som”. “Eu queria ter também.”
Como os outros maranhenses que se apertam em dois cômodos. O mais novo tem 22 anos. O mais velho, 46. São casados, com quatro filhos na média. Dois são alfabetizados.
Dizem ganhar de R$ 700 a R$ 900 mensais brutos, mantêm contratos de safristas com usinas -em novembro rumam para o Maranhão. Sustentam-se longe de suas terras, mandam ajuda e persistem no sonho de não retornar de mãos vazias. Falam dos filhos que não os reconhecem na volta. Dois garotos de Raimundo choraram e fugiram ao vê-lo.
A União da Indústria da Cana-de-Açúcar estima que pelo menos 54 mil cortadores de cana do Estado (40% da mão-de-obra) sejam migrantes provisórios. Deve haver mais, porque muitos já são inscritos com seus endereços paulistas. Milhares desembarcam em ônibus alugados por eles ou por “gatos”, os intermediários da contratação para o corte.
Na leseira da folga semanal, os colegas inventariam estragos. Edizon cortou um dedo amolando o facão. Com dor na coluna, Manoel não comparece à lavoura há dois dias.
Pedem que não se diga em que cidade moram, mas permitem a gravação da entrevista. Sabem de quem arruma outra família, “local”. E de conhecidos que voltaram oito meses depois e deram com a mulher recém-barriguda. As moças paulistas da vizinhança não estão nem aí para os cortadores. Amigos lastimam que, no prostíbulo, a rameira menos cotada cobre o equivalente a um dia e meio de salário do trabalhador

Folha de São Paulo

Introdução crítica à Introdução ao Marxismo

A Introdução ao Marxismo de Ernest Mandel foi e continua sendo, para muit@s militantes, um livro de referência. Trinta anos depois, Daniel Bensaïd reavalia uma das obras mais lidas de Mandel.

A primeira edição pela Fundação Léon Lesoil desta Introdução ao Marxismo data de 1974. A data não é sem importância. Depois do “choque do petróleo” de 1973, Ernest Mandel foi, sem dúvida, um dos primeiros a diagnosticar o esgotamento dos “trinta gloriosos”[1] e a prognosticar a inversão da onda longa de crescimento consecutiva à guerra mundial[2]. Os debates no seio da esquerda e do movimento operário europeus continuavam marcados pela ilusão de um progresso ilimitado garantido por um compromisso keynesiano e um “Estado de Bem-Estar”. Esta visão otimista do desenvolvimento histórico nutria na esquerda parlamentar e nos aparelhos sindicais a esperança de um socialismo a passo de tartaruga, respeitador das instituições existentes enquanto esperava que a maioria política terminasse por se juntar à maioria social, em países onde — como a maior greve geral da história tinha ilustrado em maio de 1969 — o trabalho assalariado representava, pela primeira vez, mais de dois terços da população ativa.

A Introdução de Mandel não é, portanto, um texto fora do tempo. Se ela tem valor, ainda hoje, por suas qualidades pedagógicas na apresentação da gênese do capitalismo, do funcionamento da economia, das crises cíclicas, do desenvolvimento desigual e combinado, etc., ela não deixa de ter uma dimensão polêmica, da qual algumas idéias essenciais foram amplamente confirmadas pelos trinta anos decorridos desde sua redação:

· A lógica do capitalismo não tende a uma redução progressiva das desigualdades, ou mesmo à sua extinção. Se estas desigualdades pareceram declinar no período do pós-guerra, não foi pela generosidade de um capitalismo com compaixão, mas em razão das correlações de forças sociais nascidas da guerra e da resistência, da vaga de revoluções coloniais, do grande medo que tiveram as classes dirigentes nos anos 30 e no momento da Libertação[3]. Desde o começo, nos anos 80, da contra-reforma liberal, o Programa das nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) tem registrado, ano após ano, o aumento das desigualdades, não apenas entre os países ditos do Sul e do Norte, mas também entre os mais ricos e os mais pobres nos próprios países desenvolvidos, e entre os sexos, apesar das conquistas das mulheres. Não apenas o “Estado Social” e a “Economia Mista” não eram eternos, não apenas não eram a solução enfim encontrada às contradições e às crises do capitalismo, mas também, contrariamente às ilusões reformistas, nada é definitivamente conquistado pelos trabalhadores, enquanto os possuidores detiverem a propriedade dos grandes meios de produção e as alavancas do poder. Thatcher e Reagan não tardariam a demonstrá-lo. E G. W. Bush confirma, à sua maneira, que ainda estamos na época das guerras e revoluções.

· A propriedade privada dos meios de produção, de troca, de comunicação, longe de se diluir na propriedade popular das ações, sofre uma concentração sem precedentes, e exerce o poder efetivo que lhe corresponde, não apenas na esfera econômica, mas na também nas esferas política e midiática. Para qualquer um que não tenha renunciado à necessidade urgente de “mudar o mundo”, a transformação radical das relações de propriedade no sentido da apropriação social permanece tão decisiva quanto na época do Manifesto Comunista. E isto é ainda mais verdadeiro na hora da globalização, quando o capital transforma tudo em mercadoria, quando a privatização do mundo se estende à educação, à saúde, à vida, ao saber, ao espaço.

· Se o Estado não é apenas o “bando de homens armados” ou o “Estado Guarda Noturno”, se ele cumpre, cada vez mais, funções sofisticadas e complexas na reprodução social, e uma “função ideológica”, como sublinha Mandel, ele não é por isso apenas uma relação de poder entre outras (doméstica, cultural, simbólica). Ele permanece integralmente o garantidor e o ferrolho das relações de poderes, a “boa constrictor”[4] que enlaça a sociedade com seus múltiplos anéis. A questão posta continua a ser, então, a de quebrá-lo para abrir o caminho para seu desaparecimento como aparelho especializado separado da sociedade. Todas as revoluções do século XX, tanto nas vitórias quanto nas derrotas, confirmaram esta lição maior da Comuna de Paris.

Apesar desta pertinência verificada, a Introdução ao Marxismo de Mandel chama a atenção por alguns silêncios. Nos anos 70 houve um novo ascenso planetário dos movimentos de emancipação das mulheres. A IV Internacional iria adotar sobre esta questão um importante documento programático no seu XI Congresso Mundial, em 1979. Ora, as relações de gênero ocupam neste texto no máximo um lugar marginal[5]. Do mesmo modo, enquanto as preocupações ecológicas cresciam, a partir especialmente dos movimentos contra as centrais nucleares ou da catástrofe de Three Miles Island, elas estão praticamente ausentes da primeira edição desta Introdução. Isto pode provavelmente se explicar — mas não se justificar — pelo otimismo humanista e prometéico[6] que coabita então em Mandel com uma lucidez indiscutível quanto às ambivalências do progresso técnico e às ameaças da barbárie.

Esta incoerência — ou esta contradição — é confirmada pelo papel que ele atribui, quando se trata de responder aos desafios da transição a uma sociedade socialista, ao que eu chamo de “o coringa da abundância”: “Uma sociedade igualitária fundada na abundância, eis o objetivo do socialismo”. Esta marcha à abundância implica um crescimento das forças produtivas e da produtividade do trabalho que permitam uma redução massiva do tempo de trabalho. Se isto é verdade em termos gerais, não deixa de ser necessário, sob pena de queda no produtivismo cego e na despreocupação ecológica, submeter estas forças produtivas mesmas a um exame crítico. Levando tudo isto em conta, a noção de abundância é muito problemática. A suposição de uma abundância absoluta e de uma saturação das necessidades materiais aparece, de fato, como uma escapatória diante da necessidade de definir prioridades e de fazer escolhas na alocação de recursos limitados: quanto atribuir à saúde, à educação, à habitação, aos transportes, como decidir a localização destes investimentos, etc.? Existe um limite natural às necessidades em matéria de saúde ou de educação. Como a abundância, as necessidades são históricas e socais e, logo, relativas. Pode-se considerar com razão que a lógica do consumo mercantil suscita e alimenta necessidades artificiais, suntuárias, não necessárias, de que uma sociedade socialista poderia muito bem se livrar. Mas daí a pregar a austeridade e a frugalidade aos pobres, há um passo que alguns ideólogos do decrescimento não hesitam a dar. Quem está habilitado a discriminar as verdadeiras e as falsas necessidades, as boas e as más? Certamente não um areópago[7] de especialistas, mas a arbitragem democrática dos produtores e usuários associados.

Ora, o recurso ao coringa da abundância permite não apenas escamotear, ou ao menos simplificar, a questão das prioridades sociais em um ecossistema submetido a limites e a limiares, mas permite também deixar vaga a questão das instituições democráticas de uma sociedade em transição ao socialismo. Não se trata, é claro, de reclamar uma utopia democrática constituída por planos pré-concebidos de uma cidade perfeita, mas de sublinhar a importância decisiva das formas democráticas numa sociedade em que o desaparecimento do Estado não é de forma alguma o sinônimo de um desaparecimento da política na simples “administração das coisas” (como pôde sugerir uma fórmula mal advertidamente tomada de empréstimo — especialmente por Engels[8] — a Saint-Simon).

Não poderíamos reprovar Mandel por esta subestimação, uma vez que ele foi o principal redator da resolução “Democracia Socialista e Ditadura do Proletariado”, adotada em 1979 pelo XI Congresso Mundial da IV Internacional. Mas o fato é que sua insistência no tema da abundância tende a relativizar o papel da política em favor de uma gestão técnica da distribuição sem limites: “Ao salariado deve se substituir a retribuição do trabalho pelo livre acesso a todos os bens necessários à satisfação das necessidades dos produtores. É somente em uma sociedade que assegure ao homem tal abundância de bens que pode nascer uma nova consciência social”. É com razão que esta questão da gratuidade — do “livre acesso” — não apenas de certos serviços sanitários os escolares, mas de produtos de consumo alimentares e de vestimenta de primeira necessidade importava tanto para ele. Decorre, com efeito, da desmercatilização do mundo e de uma verdadeira revolução das mentalidades, pondo pela primeira vez um termo à maldição bíblica que obriga o ser humano a ganhar o pão “com o suor do seu rosto”. Assim, Mandel insistia: “Tal abundância de bens não é de nenhuma maneira utópica, com a condição de ser introduzida gradualmente, e de partir de uma racionalização progressiva das necessidades dos homens, emancipados das imposições da concorrência, da caça ao enriquecimento privado e da manipulação por uma publicidade interessada em criar nos indivíduos um estado de insatisfação permanente. Assim, os progressos do nível de vida já criaram uma situação de saturação do consumo de pão, batatas, legumes, algumas frutas, ou até de produtos lácteos, gorduras e carne de porco, na parte menos pobre da população dos países imperialistas. Uma tendência análoga se manifesta em relação à vestimenta, aos calçados, aos móveis básicos, etc. Todos estes produtos poderiam ser progressivamente distribuídos gratuitamente, sem a intervenção do dinheiro, e sem que isto provoque aumentos importantes das despesas coletivas”.

Esta lógica da gratuidade como condição do desaparecimento parcial das relações monetárias continua atual. A ênfase posta nas condições de “saturação do consumo” pela parte menos pobre da população nos países mais ricos deixa na sombra, entretanto, o peso das desigualdades planetárias e a relação entre a produção e a evolução demográfica. A noção de “racionalização progressiva das necessidades humanas”, por mais pertinente que seja para a crítica do modo de vida induzido pela concorrência capitalista, não deve ser confundida com a da abundância, exceto uma abundância relativa num dado estado de desenvolvimento social, que não dispensa em nada critérios e prioridades no uso e na distribuição das riquezas. A política — e, logo, a “democracia socialista”, e não a “administração das coisas” — continua, então, necessária para a validação das necessidades e da maneira de satisfazê-las.

A parte mais datada da Introdução ao Marxismo de 1974, a que sofreu pior a prova dos anos e dos acontecimentos do último quarto de século, é incontestavelmente a que diz respeito ao stalinismo e sua crise. Mandel retoma aí o essencial da análise da Oposição de Esquerda e de Trotski da contra-revolução burocrática na URSS e de suas razões: “O reaparecimento de uma desigualdade social acentuada na URSS de hoje se explica fundamentalmente pela pobreza da Rússia após a revolução, pela insuficiência do nível de desenvolvimento das forças produtivas, pelo isolamento e o fracasso da revolução na Europa no período de 1918-1923”. Esta abordagem tem o mérito de enfatizar as condições sociais e históricas da gangrena burocrática, contrariamente à hagiografia reacionária hoje na moda — entre outras, a dos autores do Livro Negro do Comunismo — para quem os grandes dramas históricos não seriam senão o resultado mecânico do que germinou nos cérebros férteis de Marx ou de Lênin, quando não simplesmente a “culpa de Rousseau”. As pesquisas contemporâneas sérias baseadas na abertura dos arquivos soviéticos (as de Moshé Lewin especialmente) confirmam, numa larga medida, o método de Mandel, e esclarecem as diversas etapas da reação burocrática na União Soviética.

Mandel retoma a análise clássica da burocracia na tradição da Oposição de Esquerda ao stalinismo: a burocracia não é uma “nova classe dominante”; ela não “desempenha nenhum papel indispensável no processo de produção”; é “uma camada privilegiada que usurpou o exercício das funções de gestão no Estado e na economia soviéticos e que se outorga, com base neste monopólio de poder, vantagens copiosas no domínio do consumo”. Ainda que discutível (a definição das classes — no sentido amplo e histórico, ou no sentido mais específico às sociedades modernas — não está claramente estabelecida nem no próprio Marx), a distinção entre classes fundamentais e casta burocrática se esforçava em pensar a singularidade de um fenômeno inédito. Permitia evitar as simplificações que faziam da União Soviética ou da China “pátrias do socialismo” que requeriam uma fidelidade incondicional ou, inversamente, identificá-las pura e simplesmente com uma versão oriental dos imperialismos ocidentais.

Mas Mandel vai mais longe. A burocracia não é senão “uma camada privilegiada do proletariado”. Enquanto tal, “ela continua adversária do restabelecimento do capitalismo na URSS, o que destruiria os próprios fundamentos de seus privilégios”. A União Soviética permanece, então, “como logo depois da revolução de Outubro, uma sociedade de transição entre o capitalismo e o socialismo; o capitalismo pode ser restaurado, mas ao preço de uma contra-revolução social; o poder dos trabalhadores pode ser restaurado, mas ao preço de uma revolução política que quebre o monopólio do exercício do poder nas mãos da burocracia”. Entretanto, nos anos 70, demasiada água havia corrido sob as pontes da história, e demasiados crimes haviam sido cometidos, para que pudéssemos reivindicar tal continuidade entre a sociedade soviética de Brejnev e “os dias seguintes da revolução de Outubro”. Quanto à burocracia no poder, ela não demoraria a demonstrar que não era, enquanto tal, um “adversário” determinado do restabelecimento do capitalismo.

Mesmo levando em conta a intenção didática, esta passagem da Introdução não resiste à prova dos fatos. De um lado, reduzindo a burocracia a uma excrescência funcional do proletariado, Mandel exclui a hipótese de sua transformação completa em classe dominante. A desintegração da União Soviética e as revoluções de veludo na Europa do Leste mostraram, ao contrário, que uma fração substancial da burocracia podia, sobre a base de uma “acumulação burocrática primitiva”, tornar-se uma burguesia mafiosa. Por outro lado, a concepção pouco dialética da burocracia como “excrescência parasitária do proletariado” funda uma alternativa duplamente discutível entre contra-revolução social e revolução política. A hipótese de uma restauração do capitalismo como “contra-revolução social” evoca, com efeito, uma simetria de acontecimentos entre a revolução de outubro e esta contra-revolução. Ora, e é este o interesse da noção analógica de Termidor, uma contra-revolução não é uma revolução em sentido contrário (uma revolução invertida), mas o contrário de uma revolução; não um evento simétrico ao evento revolucionário, mas um processo. Neste sentido, a contra-revolução burocrática na União Soviética começou de fato nos anos 20, e a queda da União Soviética não foi senão seu último episódio.

Se é necessário, à luz dos últimos vinte anos, submeter a chave de leitura de Mandel ao crivo da crítica, isto não impede, por outro lado, de reconhecer também sua utilidade para a orientação nos tumultos do século. Mas é preciso reconhecer, além, disso, que ela levou a erros de apreciação, especialmente quanto ao sentido da perestroika sob Gorbachev ou ao sentido da queda do muro de Berlim. Tendo identificado no “declínio da revolução internacional depois de 1923” e no atraso da economia soviética “os dois pilares principais do poder da burocracia”, Mandel deduziu logicamente que, com o desenvolvimento da economia soviética (simbolizado pelo lançamento do Sputnik) e a retomada da revolução mundial (nos países coloniais, mas também na Europa depois de maio de 1968), a hora da revolução política iria soar na URSS e na Europa do Leste. Assim, a superestimação das “conquistas socialistas” que, ele supunha, facilitariam uma revolução política que democratizaria relações sociais já constituídas, o levaria em seu livro Onde vai a URSS de Gobartchev? (1989)[9] a superestimar a dinâmica de revolução política e subestimar as forças da restauração capitalista. Da mesma maneira, seu entusiasmo compreensível diante da derrubada do Muro de Berlim o levou a interpretar o evento como um retorno à tradição de Rosa Luxemburgo e dos conselhos operários, pondo fim a um longo parêntese de reação, e a subestimar a lógica restauracionista inscrita nas correlações de forças internacionais. Da sua parte, não se tratou apenas de uma demonstração do otimismo da vontade, mas também, claramente, de um erro de avaliação que remetia, em parte, a raízes teóricas.

Sua visão se apoiava na concepção, compartilhada no interior da IV Internacional desde seu congresso de 1963, de uma convergência dos “três setores da revolução mundial”: a revolução democrática nos países coloniais, a revolução social nas metrópoles imperialistas, a revolução política anti-burocrática nos países capitalistas desenvolvidos. Nos anos sessenta, não faltavam a esta perspectiva indicadores factuais: onda de choque da revolução chinesa, vitória da revolução cubana e das lutas de libertação na Argélia, na Indochina e nas colônias portuguesas; insurreição anti-burocrática de Budapeste em 1956, Primavera de Praga em 1968, lutas anti-burocráticas na Polônia; retomada das lutas sociais e dos grandes movimentos grevistas na França, na Itália, na Grã-Bretanha, nos anos 60; enfraquecimento das ditaduras franquista e salazarista. No meio dos anos 70, com o golpe de interrupção da revolução portuguesa em 1975, com a transição monárquica na Espanha, com a guerra entre o Vietnã e o Camboja, com o giro em direção à austeridade das esquerdas européias, com a normalização na Tchecoslováquia, e depois com o golpe na Polônia, os ventos tinham começado a mudar de direção, e os “três setores”, longe de convergirem harmoniosamente, começaram a divergir. Forças centrífugas passavam a dominar. As lutas anti-burocráticas no Leste não se faziam mais em nome dos conselhos operários ou da autogestão (“devolvam nossas fábricas!”), como foi o caso em 1980 no congresso de Solidarnosc, mas se alimentavam das miragens da sociedade de consumo ocidental. O refluxo desigual das revoluções sociais já anunciava a onda contrária das “revoluções de veludo” e de “revoluções sagradas”, de que Foucault foi um dos primeiros a perceber importância, a partir da revolução Iraniana de 1979.

Partindo de uma fórmula famosa de Trotski no Programa de Transição, segundo a qual “a crise da humanidade” se reduz à crise de sua direção revolucionária, Mandel recorreu freqüentemente, para dar conta de um curso imprevisto dos acontecimentos, à noção de atraso. As condições objetivas da revolução estariam quase sempre maduras, ou até começavam a apodrecer. Faltaria apenas o “fator subjetivo” que falhava, ou, pelo menos, se atrasava consideravelmente em relação à hora certa da história. Se as idéias antigas continuavam a dominar o movimento operário, era “devido à força de inércia da consciência que se atrasa sempre em relação à realidade material”. Esta idéia de um atraso imputável à “força de inércia da consciência” é estranha. É verdade que o pássaro da sabedoria tem a reputação de só levantar vôo no crepúsculo[10], mas as dificuldades da consciência de classe diziam respeito bem mais aos efeitos da alienação do trabalho e do fetichismo da mercadoria do que a um tempo de latência, apesar de tudo, tranqüilizador, pois ele sugeriria que a consciência virá talvez mais tarde, mas que ela necessariamente virá… A menos que ela venha tarde demais?

A noção de “atraso”, assim como a de “desvio” tão freqüentemente usada por Mandel, pressupõe uma concepção normativa discutível do desenvolvimento histórico. Ela introduz, além disso, uma relação problemática entre as “condições objetivas” e as “condições subjetivas” da ação revolucionária. Como explicar, se as condições objetivas são tão propícias quanto é afirmado, que o fator subjetivo seja tão infiel à maior parte dos seus encontros? Tal divórcio entre os dois traz o risco de levar a uma paranóia da traição: se o fator subjetivo não é o que deveria ser, não é em função de alguns limites relativos da situação e de correlações efetivas, mas porque ele é incessantemente traído de seu interior. As capitulações, ou mesmo as traições bem reais das direções burocráticas do movimento operário certamente custaram muito caro à humanidade no século passado (e lhe custarão ainda), mas fazer delas o fator explicativo principal ou exclusivo das desilusões e derrotas do século XX leva quase inevitavelmente a uma visão policial de história à qual as organizações trotskistas nem sempre escaparam.

Mandel é felizmente muito mais nuançado. Assim, ele enriquece sua noção de “condições objetivas”, “independentes do nível de consciência dos proletários e dos revolucionários”, incluindo nelas “as condições materiais e sociais” (a força do proletariado) e “as condições políticas”, isto é, a incapacidade das classes dominantes para governar e a recusa das classes dominadas a se deixar governar. Assim revisitadas, as “condições objetivas” incluem uma forte dose de subjetividade. Só sobram, assim, às condições ditas subjetivas, o nível de consciência de classe do proletariado e o nível de força de seu partido revolucionário. Elas tendem, assim, a se reduzirem à existência, à força, à consciência, à maturidade de sua vanguarda, separadas das mediações complexas da luta das classes e das instituições. É o caminho aberto a um voluntarismo exacerbado, que está para a vontade revolucionária como o individualismo está para a individualidade livre.

O risco de reduzir o problema das revoluções modernas apenas à vontade de sua vanguarda é compensado em Mandel por uma confiança sociológica na extensão, na homogeneidade e na maturidade crescentes do proletariado no seu conjunto. Ainda que ele chegue a conceder que “a classe operária não é completamente homogênea do ponto de vista de suas condições sociais de existência”, a tendência à homogeneidade ganha de longe a seus olhos. Ele supõe que ela supere quase espontaneamente as divisões internas e os efeitos da concorrência no mercado de trabalho: “Contrariamente a uma lenda amplamente difundida, esta massa proletária, se bem que fortemente estratificada, vê seu grau de homogeneidade crescer amplamente, e não decrescer. Entre um trabalhador manual, um empregado de banco, e um pequeno funcionário público, a distância é menor hoje do que foi há meio século ou há um século, em relação ao padrão de vida, à tendência à sindicalização e a fazer greves, e ao acesso potencial à consciência anticapitalista”. Relendo esta passagem, convém, também aqui, ter em mente o contexto social e os objetivos polêmicos. Face às mutações da divisão e da organização do trabalho que acompanharam a onda longa de crescimento, colocava-se a questão de saber se se tratava da formação de uma nova classe operária ou de uma extensão do proletariado ou, ao contrário, do aparecimento massivo de uma nova pequena burguesia. As alianças de classe e de formação de um novo bloco histórico colocavam questões estratégicas novas, como defendiam então alguns textos de Poulantzas, de Baudelot e Establet, ou algumas correntes maoístas empenhadas em encontrar um equivalente europeu ao “bloco das quatro classes” caro ao presidente Mao.

Mandel sustentava que a situação dos empregados ditos do terciário se aproximava da condição operária, do ponto de vista da forma (salário) e do montante médio de renda, de seu lugar subalterno na divisão de trabalho, de sua exclusão do acesso à propriedade. Esta aproximação material era confirmada por uma aproximação cultural, e verificada pelo comportamento das novas camadas assalariadas nas lutas de 1968 na França ou do maio rampante italiano: o antigo antagonismo surdo entre os colarinhos azuis e os colarinhos brancos, entre a fábrica e o escritório, se apagava diante das solidariedades nas lutas comuns contra a exploração e a alienação.

Se o argumento de Mandel se justificava sociológica e estrategicamente (o problema principal era unificação dos próprios trabalhadores, e não a busca de uma aliança de classe ou de uma nova versão da frente popular diante do “capitalismo monopolista de Estado”), ele transformava em tendência histórica irreversível a situação particular criada pelo capitalismo industrial do pós-guerra e seu modo específico de regulação. Retomava, assim, por sua conta, a aposta sociológica de Marx, para quem as dificuldades estratégicas da revolução social acabariam por se resolver graças ao desenvolvimento da grande indústria e à concentração crescente do proletariado em grandes unidades de produção, ela mesma propícia a um ascenso do movimento sindical, a um reforço das solidariedades, e a uma elevação da consciência política. Se isto parecia bem ser a tendência dos anos 60 e do começo dos anos 70, o contragolpe do capital logo veio com a ofensiva liberal. Longe de ser irreversível, a homogeneização tendencial foi minada pelas políticas de desconcentração das unidades de trabalho, de intensificação da concorrência no mercado de trabalho mundializado, de individualização dos salários e do tempo de trabalho, de privatização dos lazeres e do modo de vida, de demolição metódica das solidariedades e das proteções sociais. Em outras palavras, longe de ser uma conseqüência mecânica do desenvolvimento capitalista, a unificação das forças de resistência e de subversão da ordem estabelecida pelo capital é uma tarefa constantemente reiniciada nas lutas diárias, e cujos resultados nunca são definitivos.

Assim como ele sublinhava desde seu prefácio, Mandel dava uma importância maior aos capítulos metodológicos sobre a dialética materialista e a teoria do materialismo histórico. Este tipo de exposição geral tem suas virtudes pedagógicas. Os famosos Princípios Elementares de Filosofia de Georges Politzer contribuíram, assim, para iniciar, no mundo inteiro, dezenas ou centenas de milhares de militantes, que não eram intelectuais de formação, em questões teóricas fundamentais. Mas, para Mandel como para Politzer, a vulgarização pedagógica tem seu preço. Ela dá à apresentação de uma teoria uma forma de manual, um tanto doutrinária, e tende a apresentar leis universais abstratas — “a dialética como lógica universal do movimento e da contradição”, escreve Mandel — indo além de seus os campos de validade específicos. Assim, se é abstratamente correto dizer que “negar a causalidade é, em última análise, negar a possibilidade do conhecimento”, uma afirmação tão geral não diz nada sobre as numerosas questões que a própria noção de causalidade coloca e sobre as diversas modalidades de causalidade, irredutíveis a uma única causalidade mecânica inspirada pela física clássica. Assim, também, definir a dialética como “a lógica do movimento” e das formas de passagem de um estado a outro tende a fazer dela uma lógica formal, separada dos conteúdos, um sistema de leis gerais que regem as singularidades em ação no mundo real.

Há aí, certamente, matéria para uma discussão que ultrapassaria de longe os limites desta introdução crítica à Introdução ao Marxismo. Não é, entretanto, supérfluo assinalar que suas implicações estão longe de serem desprezíveis. O capítulo de Mandel sobre a dialética se conclui com a idéia de que “a vitória da revolução socialista mundial, o advento de uma sociedade sem classes, confirmarão na prática a validade da teoria marxista revolucionária”. A fórmula é, pelo menos, aventureira. Se a vitória deve confirmar a validade de uma teoria, a acumulação de derrotas deve, simetricamente, invalidá-la? Mas o que é vencer historicamente? Em qual escala de tempo? Quem é o juiz? De acordo com quais critérios? As questões se encadeiam e se transformam, remetendo em última instância à idéia que se faz de ciência e de verdade científica, ou da relação entre verdade e eficácia[11]. Esta é outra e — muito — longa história.

A Introdução ao Marxismo de Mandel, as interrogações e as críticas que ela pode suscitar trinta anos depois de sua primeira publicação, são reveladoras de uma época e das relações de um revolucionário com seu tempo. Roland Barthes pôde escrever de Voltaire que ele foi “o último escritor feliz”, na medida em que ele pôde expressar a visão do mundo de uma burguesia em plena ascensão, ainda capaz de acreditar, com toda boa consciência, representar o futuro de uma humanidade esclarecida e iluminada. Da mesma maneira poderíamos dizer de Ernest Mandel que ele foi um dos últimos revolucionários felizes. A fórmula poderia surpreender ou chocar, tratando-se de um militante que sofreu as provas da guerra e do cárcere, que foi testemunha das tragédias do século dos extremos, que teve de lutar toda a sua vida à contracorrente dos ventos dominantes. Ele foi, apesar disso, um revolucionário feliz na medida em que, apesar das derrotas e das desilusões, ele conservava intacta a confiança dos pioneiros do socialismo no futuro da humanidade, e o otimismo que foi deles, no umbral de um século XXI que anunciava o fim das guerras e da exploração do homem pelo homem. Para Ernest, humanista clássico e homem das Luzes, as desilusões do século XX tinham sido apenas um longo desvio, ou um desagradável atraso, que não colocaria em questão a lógica do progresso histórico. Esta convicção obstinada faz, ao mesmo tempo, sua grandeza e sua fraqueza.

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As peregrinações radioativas de botões de elevadores

Hervé Morin

Na terça-feira, 7 de outubro, mais de duzentos empregados da companhia francesa Mafelec, em Chimilin (Isère, no centro-leste) foram evacuados do recinto desta empresa que fabrica, entre outros, componentes para elevadores. O motivo desta operação foi a descoberta, numa das oficinas, de pacotes que emitiam radiações ionizantes.

Na quarta-feira, uma equipe do Instituto de Proteção contra a Radioatividade e de Segurança Nuclear (cuja sigla em francês é IRSN) confirmou que remessas enviadas em paletas provenientes da Índia, algumas das quais já se encontravam no local desde julho, engendravam efetivamente emissões de doses significativas de radioatividade. Num determinado posto de trabalho, a quantidade emitida que foi medida alcançou valores quinhentas vezes superiores aos do ruído de fundo da radioatividade natural.

As medições apontaram que a radiação tinha como origem, componentes de botões de elevadores, os quais contêm cobalto 60. Trata-se de cobalto* produzido na Índia que foi detectado em meio a componentes e peças montadas na França com destino aos Estados Unidos. Aquilo que não passava de uma viagem banal para a indústria globalizada transformou-se num risco potencial para os assalariados daquela companhia: os resultados de uma medição das doses que foram recebidas pelos empregados, conforme os postos que ocupavam, deveriam ser encaminhados, na sexta-feira, 10 de outubro, para a Autoridade de segurança nuclear. Esta deverá então lavrar um auto de infração por infrações ao código da saúde pública.

Alerta dos serviços da alfândega

Gilles Heinrich, o diretor-geral da Mafelec, está decidido a esclarecer todos os aspectos deste “caso muito importante, em relação ao qual uma empresa como a nossa não tem controle algum sobre o processo como um todo”. Ele sublinha que a agência nuclear indiana foi alertada e que três fornecedores poderiam estar envolvidos. Estes últimos têm também entre os seus clientes as filiais indianas de importantes montadoras de sistemas elétricos e ainda fornecem equipamentos para uma companhia belga.

A cronologia deste caso, que foi relatada por Gilles Heinrich, merece ser narrada detalhadamente. Em 17 de setembro, a Mafelec, que está instalada na região de Grenoble, foi alertada para o fato de que no aeroporto de Roissy (região parisiense), remessas acondicionadas em pacotes que lhe eram destinadas apresentavam quantidades de radiação incomuns, que foram detectadas pelos pórticos de medição de radioatividade. Ainda assim, a firma transportadora autorizou e procedeu ao seu encaminhamento.

Em 3 de outubro, a Otis, o seu cliente americano, alertou a Mafelec para o fato de que remessas que lhe eram destinadas foram retidas na alfândega por este mesmo motivo. Finalmente, as remessas acabaram chegando até o seu destinatário, nos Estados Unidos. Mas, em 7 de outubro, a Mafelec tomou a decisão de alertar as autoridades francesas. Os serviços da alfândega americana acabavam de informar-lhe de que os seus homólogos mexicanos haviam bloqueado por sua vez caminhões que transportariam as tais remessas.

Gilles Heinrich, que pediu à Agência Nacional de Gestão dos Resíduos Radioativos (Andra) para se encarregar das peças contaminadas, quer cooperar com os poderes públicos “para compreender de que maneira esse material conseguiu atravessar as nossas fronteiras sem que o alarme fosse disparado mais cedo, pelas mais altas instâncias”.

Por enquanto, a origem deste cobalto 60, um metal formado a partir dos materiais provenientes dos reatores nucleares, e que é utilizado também no campo da radioterapia, permanece misteriosa. A Autoridade francesa de segurança nuclear, junto com as suas homólogas americana e indiana, se prepara para uma investigação que deverá abranger este processo industrial como um todo. Da Índia até os Estados Unidos, passando pelo departamento francês da Isère.

* Nota do tradutor: a palavra cobalto é derivada do alemão “kobalt”, ou “kobold”, do nome de um espírito maléfico que assombrava as minas, conforme uma crença tradicional germânica. O metal teria sido batizado com este nome ainda no século 19 pelos trabalhadores das minas porque ele revelou ser tóxico e provocava problemas de saúde, atingindo principalmente o sistema respiratório. Além de tudo, ele poluía o meio-ambiente e deteriorava os outros elementos extraídos na mineração, tais como o níquel. A sua toxicidade se deve tanto aos seus componentes químicos quanto às suas propriedades radioativas

Le Monde

Deslocados de ontem e de hoje

Ana Paula Conde

Políticas antiimigratórias não são uma particularidade da Europa nem desta época

Trabalhadores jovens e desqualificados deixam seus povoados, não raro, sem água encanada e luz, em direção a um país estrangeiro.
Quando chegam ao destino, são submetidos a exames médicos, uma forma de evitar que transmitam doenças. Desconhecem a língua e vivem em barracões coletivos em áreas próximas às fábricas.
São considerados sujos, mal educados e a presença deles não é bem vista em ambientes freqüentados pelos locais. Em razão disso, passam a se reunir somente em estações de trem e ônibus. Ali, encontram os compatriotas, lêem cartas para os analfabetos e são procurados por empresários em busca de homens e mulheres dispostos a trabalhar sem contrato.
Após muitas horas-extras e nenhum momento de lazer, conseguem dividir com outras famílias apartamentos em péssimas condições em áreas degradadas.
Vivem preocupados com o futuro próximo, pois o visto de residência está ligado ao visto de trabalho, e o dinheiro que enviam para casa é fundamental para o orçamento familiar.
Apesar do preconceito e dos problemas de adaptação, conseguem ir levando a vida. Tudo muda, no entanto, com a chegada de uma grave crise econômica.
O alto índice de desemprego os transforma em alvo dos partidos de direita, que passam a acusá-los de culpados pelo problema. Agora, além de um perigo social, eles representam um risco econômico.
O clima de xenofobia aumenta e aqueles que chegaram buscando uma vida melhor, mas que também ajudaram o país de destino a crescer em um momento de carência de mão-de-obra, não encontram melhor alternativa que retornar para suas casas.
No momento em que a imigração está no centro das atenções na Europa e é alvo de intensa polêmica, principalmente após a aprovação, em junho, da Diretiva de Retorno pelo Parlamento Europeu, é fundamental relembrar e refletir sobre fatos de um passado nada distante.
A realidade acima descrita não é parte do cotidiano atual de imigrantes argelinos, sul-americanos, subsaarianos ou romenos.
É um retrato da vida de espanhóis que foram para Nuremberg (Alemanha), em 1961. Eles ocupavam postos que não interessavam aos alemães até a década de 70, quando a crise do petróleo provocou alta queda no nível de emprego. A partir daquele momento, o que era visto como solução, ainda que longe da ideal, passa a ser encarado como problema.
As memórias desse grupo, apenas uma gota quando o tema é a emigração espanhola, estão reunidas em “El Tren de la Memória”, rodado em 2004 por Marta Arribas y Ana Pérez com o objetivo de evitar o esquecimento desse episódio.
O filme caiu em minhas mãos no momento em que chegavam da Itália notícias sobre um incêndio criminoso em um acampamento de ciganos romenos em Nápoles.
O ataque racista, que mereceu pouca atenção das autoridades, ocorreu em meio à discussão sobre a lei que levaria ao endurecimento das regras relativas à imigração naquele país.
Na Itália de Silvio Berlusconi e de seus companheiros da Liga do Norte, um ilegal pode ser preso por até quatro anos, as penas aumentam em um terço quando o réu encontra-se em situação irregular no país, quem aluga um imóvel a um “sem papéis” corre o risco de vê-lo confiscado e mesmo cidadãos comunitários que desejem viver em solo italiano precisam comprovar ter recursos suficientes.
A Diretiva de Retorno, rebatizada pelas organizações não-governamentais como Diretiva da Vergonha, segue a mesma linha. Pela nova lei, que busca harmonizar os procedimentos dos países europeus para a repatriação de irregulares, pessoas sem documentação poderão ser detidas por até 18 meses. E os expulsos não poderão voltar à Europa por cinco anos.
A necessidade de tomar medidas para reverter o quadro atual é clara. É preciso regularizar os trabalhadores, desarticular as máfias e punir as empresas que exploram os ilegais.
A Diretiva de Retorno, no entanto, está longe de ser a solução ideal. É mediática e criminaliza quem está do lado mais fraco da corda: o imigrante.
Na opinião do escritor espanhol Javier Marías, durante anos se fez vista grossa sobre o tema dos imigrantes ilegais, explorados como mão-de-obra barata, quase gratuita, e ocupando postos de trabalho que os europeus se negavam a preencher.
“Dávamos a eles algum dinheiro e assunto liquidado. Agora, no entanto, estamos muito preocupados com essa quantia porque há crise”, diz o autor, no ácido artigo “Con Nuestros Votos Imbéciles” (“El País Semanal”, 6/7/2008). Marías é autor, entre outros livros, de “O Homem Sentimental” e “Quando Fui Mortal” (ambos pela Companhia das Letras).
Para Javier de Lucas, catedrático de filosofia do direito e filosofia política e diretor do Colégio de Espanha em Paris, a decisão produz estigmas, traz prejuízo ao Estado de Direito e riscos para os direitos humanos, pois cria uma categoria de sujeitos para os quais vale outra lógica jurídica.
“A diretiva permite sustentar uma visão simplificadora e parcial do fenômeno migratório, posto que contribui para a identificação dos conceitos de imigrante e delinqüente”, afirma o acadêmico no artigo “La Inmigración y la Lógica de Estado de Sitio. Contra la Directiva de Retorno” (na edição espanhola do “Le Monde Diplomatique”, agosto/2008).

Problemas econômicos
A Diretiva de Retorno foi apresentada pela Comissão Européia em setembro de 2005, mas a aprovação ocorreu somente agora, em um momento de grave crise econômica.
De acordo com a Eurostat, agência de estatística européia, no segundo trimestre deste ano o PIB (Produto Interno Bruto) retrocedeu na Alemanha (-0,5%), França e Itália (-0,3%) e não variou na Suécia e Holanda.
Quando se considera os países em geral, a queda foi de 0,2% na Eurozona e de 0,1% no conjunto da União Européia. O serviço de estudos do BBVA (Banco Bilbao Viscaya)1 informou no último número de “Situación España” que a economia espanhola crescerá 1,5% em 2008 e 0,5% no próximo ano.
O mesmo informe crê que o nível de desemprego em 2009 poderá chegar a 14%. Em razão disso, o Ministério do Trabalho espanhol lançou no fim de junho um sistema de retorno voluntário de imigrantes legais desempregados.
A Comissão Européia estima que residam no bloco cerca de oito milhões de imigrantes ilegais. E a realidade é que, apesar de todo o estardalhaço, pressões e uso político do tema, os países europeus, com baixo índice de natalidade e alta esperança de vida, precisam da mão-de-obra estrangeira: seja ela legal ou ilegal.
Não é um favor que fazem aos imigrantes, é uma necessidade de manter o crescimento, garantir que determinados serviços sejam realizados e equilibrar as contas dos sistemas de pensão.
Segundo a publicação catalã “Periodico.com”, os quase quatro milhões de imigrantes regulares na Itália representam uma força fiscal de 2,3 milhões de declarações anuais à Fazenda.
Na Espanha, de acordo com um informe sobre demografia e crescimento da Caixa Catalunya, a economia cresceu a um ritmo médio anual de 3,6% entre 1995 e 2005 devido aos imigrantes. Sem eles, de acordo com o texto, o PIB poderia ter caído a um ritmo superior a 1% anual.
Quando o tema são os ilegais, a situação não é muito distinta. Na Itália, cerca de 10% dos clandestinos trabalham na construção. Sem a produção desses homens, que hoje correm risco de expulsão, o setor estaria paralisado.
A maior parte da colheita de legumes do sul da Espanha é realizada por ilegais. Eles esperam horas para serem recolhidos por agricultores da região. Quem reivindica melhores condições de trabalho não encontra vaga no dia seguinte.
A lucratividade da imigração ilegal é retratada com primazia por Ken Loach em “It´s a Free World”, produção de 2007, ganhadora do prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza.
O filme, ainda não exibido comercialmente no Brasil, é centrado na história de Angie (Kierston Wareing), ao mesmo tempo vítima e carrasco do sistema. A jovem mulher trabalha em uma empresa de recursos humanos que percorre países do Leste europeu em busca de mão-de-obra. Demitida, após reagir a uma situação machista, e cansada de trabalhos precários, ela decide criar seu próprio negócio.
Inicialmente, contrata somente trabalhadores com papéis para realizar serviços para terceiros. Após visitar uma empresa que funciona somente com ilegais (a possibilidade de exploração é infinitamente maior), ela passa a preferir esse tipo de trabalhador. E deixa claro para todos: ninguém a conhece se tiver algum problema com a justiça. É um contrato de risco que atrai quem tem pouco a perder e sonha com uma vida melhor.

Da Europa às Américas
E não foi com a esperança de uma vida melhor que milhões de emigrantes deixaram a Europa em direção às Américas entre o fim do século 19 e boa parte do 20?
Os processos migratórios estão entranhados na realidade européia. Com exigências muito frouxas, ou facilmente burláveis, estima-se que entre 1800 e 1930, 40 milhões de europeus deixaram seus países.
Os motivos que os levaram a essa atitude não diferem dos que agora atingem quem busca um porto seguro na Europa: conflitos, problemas políticos e sociais, pouca perspectiva de crescimento econômico e fome.
Muitos desses milhões aportaram no Brasil, que os recebeu com reservas. Os discursos inflamados sobre o tema e a preocupação com as características raciais e culturais dos imigrantes não é um traço exclusivo da Europa de hoje. Abrir ou não as portas é conseqüência da necessidade dos países receptores e não da realidade de quem necessita partir.
O Brasil buscava a todo o momento controlar o processo, escolhendo quem deveria entrar ou não no país. Alemães, japoneses e judeus não eram bem vistos por muitos setores do governo, que preferiam os imigrantes de Portugal, Espanha e Itália, pelo fato de terem uma cultura parecida com a nacional.
Também não foram poucos os casos de expulsão de estrangeiros do país. Pobres, sem qualificação profissional e sem conhecerem ninguém no Rio de Janeiro, cidade onde muitos buscavam trabalho, eles acabavam cometendo delitos, ou simplesmente, sem outra alternativa, passavam a dormir nas ruas, sendo acusados de vagabundagem.
A imprensa das primeiras décadas do século 20 registra inúmeros casos de imigrantes vivendo ao relento e envolvidos em arruaças. Lená Medeiros de Menezes mostra no artigo “Bastidores – Um Outro Olhar Sobre a Imigração no Rio de Janeiro”2 que havia registros de detenção por jogo, porte de arma, mendicância, embriaguez e prostituição, mas em alguns casos a expulsão era um ato arbitrário e até inconstitucional. Nada muito diferente da Diretiva de Retorno.
Sobre os imigrantes expulsos, a autora escreve: “Na maioria dos casos, haviam cruzado os mares embalados pelo sonho de uma vida melhor, suportando com resignação as dificuldades da travessia oceânica. Muito diferente era a viagem de volta, sem utopias, ou sonhos para o futuro, embarcados para países que já não podiam considerar como pátrias, sem a certeza sequer de que poderiam desembarcar do outro lado do Atlântico”.
Como afirma Pierre Bourdieu, “os imigrantes são pessoas deslocadas, privadas de um lugar apropriado no espaço social”3. E isso em todos os momentos e em todas as regiões.
No mesmo período em que ocorriam as discussões mais acirradas sobre a Diretiva de Retorno, acontecia na África do Sul uma terrível onda de xenofobia. Os mais atingidos foram os trabalhadores moçambicanos. Os atos violentos provocaram cerca de 50 mortes e milhares de refugiados. As acusações contra os imigrantes foram as mesmas repetidas mundo afora: roubam trabalho e aumentam a criminalidade.
Apesar de toda a crise em torno do tema dos imigrantes na Europa, dos racismos e da dificuldade de integração, notoriamente existentes, é preciso matizar a questão.
De acordo com o sociólogo Gérard Chaliand, francês filho de pais armênios, autor de “Mitos Revolucionários do Terceiro Mundo” (Francisco Alves, 1977) e de “Guérillas – Du Vietnam à l’Irak” (Hachette Littératures/Pluriel, 2008), para além dos problemas e polêmicas é importante ressaltar: “Seja quais forem as críticas endereçadas aos países ocidentais, só eles permitiram até hoje a integração maciça dos estrangeiros como cidadãos”4.

Trópico

Não temos nenhuma pressa para entrar para a UE”, diz presidente turco Abdullah Gül

Gerhard Spörl e Daniel Steinvorth

Em entrevista à Spiegel, o presidente turco Abdullah Gül, 57, discutiu o convite para Ankara se tornar parte da EU, o progresso turco em direção à modernização e deu um conselho para os turcos que vivem na Alemanha.

Spiegel: Presidente, por que o debate sobre o uso do lenço de cabeça islâmico em seu país é tão violento?

Abdullah Gül: No meu governo atual, não tenho mais permissão de seguir políticas partidárias. Mas tenho orgulho de ter sido um membro do governo e ter deixado minha contribuição para a reforma. O debate sobre o lenço de cabeça também diz respeito ao processo de democratização da Turquia, que também inclui os direitos e liberdades básicas, inclusive o direito à religião. Meu país é um Estado secular e democrático. Se uma mulher usa lenço de cabeça ou não, é uma escolha pessoal. A propósito, isso não é um grande problema na esfera familiar. O assunto se torna mais emocional quando os políticos se concentram nele e o transformam num fenômeno cultural.

Spiegel: Mas muitos turcos vêem o lenço de cabeça como uma prova de que o governo está procurando islamizar o país.

Gül: Não é assim que eu vejo o conflito. No que diz respeito à questão do lenço de cabeça, nós estamos aderindo exatamente ao critério europeu em relação à liberdade de expressão e liberdade de religião.

Spiegel: O governo retirou o boicote aos lenços de cabeça nas universidades e a Corte Constitucional reverteu essa decisão. Durante o verão, a Justiça em exercício e o partido de Desenvolvimento (AKP), do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, foram quase banidos. Isso não é uma disputa de poder entre a antiga elite kemalista e a nova elite conservadora reunida sob a bandeira do AKP?

Gül: A Turquia está atualmente passando por um importante processo de mudança. O objetivo é modernizar e democratizar nosso país. Durante esse processo, estamos apenas introduzindo os padrões da União Européia. Para alguns turcos, isso pode ser muito doloroso; mas ainda vejo como um desenvolvimento positivo.

Spiegel: O governo turco está modernizando a economia. Ao mesmo tempo, entretanto, ele é socialmente conservador, como se percebe pelo debate sobre o lenço de cabeça.

Gül: O partido do governo não faz segredo em relação ao fato de que é um partido conservador e democrático. Mas também temos partidos social-democratas e nacionalistas. O que é importante é o fato de que nossa economia cresceu bem rápido nos últimos anos. Estamos prosperando e avançando. Ao mesmo tempo, a Turquia não negligencia usar sua influência para defender a democracia, os direitos humanos e os princípios de uma economia de mercado. O governo está modernizando uma sociedade predominantemente muçulmana – e isso torna a Turquia um país único antes de mais nada.

Spiegel: A crise econômica global vai destruir todo esse progresso econômico?

Gül: A Turquia está entre os países que serão menos afetados. Em 2001, nós passamos por uma crise extremamente similar. Na época, tivemos que investir 25% do nosso produto interno bruto – cerca de US$ 45 bilhões – no setor bancário. Isso recompensou, principalmente quando olhamos para a situação sob a perspectiva atual. Graças a isso, e à nossa agência independente de supervisão bancária, o mercado financeiro turco tornou-se extremamente sólido.

Spiegel: Mas, é claro que o comércio sofrerá, especialmente uma vez que outros países europeus que importam bens da Turquia não se livraram [da crise] com tanta facilidade.

Gül: É muito provável que nossas exportações caiam no ano que vem uma vez que também negociamos com países que foram afetados diretamente pela crise. Durante os últimos seis anos, gozamos de uma média de crescimento de 7%, e este ano ainda estimamos que ela será de 4%.
Também estamos entre os países da Europa com o menor déficit orçamentário. Diferentemente de muitos outros países europeus, nós de fato preenchemos as exigências de Maastricht.

“Esperamos que os europeus cumpram o acordo”

Spiegel: No início de novembro, a UE divulgará seu último relatório sobre o progresso da Turquia. Mais uma vez, espera-se que ele contenha muitas notas baixas para seu país, especialmente por conta do ritmo lento das reformas.

Gül: Isso pode aparecer no relatório, e pode bem ser verdade devido ao fato de que, em 2008, estivemos extremamente ocupados com questões políticas internas. É bem provável que tenhamos ficado aquém dos nossos objetivos, mas estou confiante de que em 2009 vamos recuperar o terreno perdido.

Spiegel: Na sua opinião, quando é que a Turquia se tornará um membro da UE?

Gül: Não estamos com pressa. Mas há uma coisa que você precisa saber:
a Turquia é um lugar bem diferente do que era em 2003 e, daqui a cinco anos, o país também será bem diferente do que é hoje. Meu país passará por enormes mudanças. Além disso, estamos atualmente envolvidos nas negociações de admissão, e a UE irá monitorar nosso progresso bem de perto. Quando este processo for concluído com sucesso, a Turquia terá que tomar uma decisão política em relação a entrar para a UE. Nesse ponto, também esperamos que todos os países mantenham suas assinaturas. Esperamos que os europeus honrem o acordo.

Spiegel: A forma com que o senhor lida com a política internacional recebeu muitos elogios dos europeus. No passado, seu país estava cercado por inimigos; mas, hoje, com a exceção do Chipre, vocês mantêm boas relações com todos os vizinhos. Como isso aconteceu?

Güll: Nossa política internacional tem sido aplicada com um olhar em busca de soluções. Acreditamos que podemos resolver não apenas os nossos problemas, mas também os da região como um todo. A Turquia pode contribuir para a paz e estabilidade no Oriente Médio.

Spiegel: Por exemplo, Ankara está servindo como mediadora do diálogo entre a Síria e Israel. Como as coisas estão progredindo lá?

Gül: O fato de termos ganhado a confiança de ambos os países ajuda. É por isso que temos um papel especial no processo de paz entre Síria e Israel. Tornamos mais fácil o diálogo entre as duas partes envolvidas no conflito. E ambos os lados estão trabalhando de forma bastante aberta e séria para chegar a um acordo.

Spiegel: Essa mesma abordagem voltada para soluções que vocês adotam na política internacional pode funcionar no conflito com o PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão? Por que a questão curda continua sendo uma ferida inflamada?

Gül: É preciso separar a questão curda muito claramente do problema com o PKK. De acordo com a nossa constituição, qualquer um que tenha cidadania turca tem os mesmos direitos. Eles podem ocupar qualquer posto independente de sua etnia. No passado, não há como negar que tínhamos problemas: muitos curdos eram discriminados por conta de sua origem, e eles não tinham direito de falar ou escrever em curdo. Isso mudou; os direitos culturais dos curdos melhoraram.

Spiegel: E as relações com o PKK?

Gül: O PKK é uma organização terrorista. Ele realiza ataques assassinos no coração das grandes cidades. Já matou um grande número de mulheres e crianças. Muitos desses terroristas cruzaram a fronteira do Iraque para a Turquia. Devemos olhar para o fato de que o PKK está empreendendo uma campanha cruel e impiedosa. Temos de lutar contra eles.

Spiegel: Na Irlanda do Norte, o IRA também fez ataques a bomba durante décadas e foi responsável por grandes derramamentos de sangue, até mesmo no coração de Londres. Mesmo assim, o então primeiro-ministro Tony Blair retirou o boicote que impedia o diálogo com o IRA e – de forma lenta, porém determinada – alcançou a paz depois de anos de guerra civil. Isso não pode servir como modelo para a Turquia?

Gül: É claro, há inúmeras maneiras de lidar com o terrorismo. Tenho certeza de que nossos especialistas estudaram e analisaram a abordagem britânica na Irlanda do Norte.

Spiegel: Durante sua visita à Alemanha, o senhor falou com representantes de grupos e associações de turcos durante a Feira de Livros de Frankfurt. Que conselho o senhor daria para os turcos que vivem na Alemanha?

Gül: Eu os aconselharia a serem realistas. Eles vivem aqui (na Alemanha); isso é um fato. Se eles querem ser verdadeiramente felizes na Alemanha e se tornarem membros produtivos da sociedade, acima de tudo, eles deveriam adquirir um domínio excelente da língua alemã e aproveitar ao máximo as oportunidades oferecidas pelo sistema educacional alemão. Eles deveriam ser cidadãos entusiasmados e envolvidos. Eles deveriam investir aqui e filiarem-se a um partido político. Não faz sentido em viver fisicamente na Alemanha e mentalmente na Turquia. Eles devem se tornar parte da sociedade. Essas pessoas servem melhor a ambos os países quando constroem uma ponte entre a Turquia e a Alemanha.

Der Spiegel