Daily Archives: 10/11/2008

A verdadeira face de Sêneca

Mestre da arte da retórica, o filósofo viveu no centro do poder durante os principados de Calígula, Cláudio e Nero. Uma figura ambígua, que pregava um código de conduta bem diferente da sua prática

Violaine Vanoyeke

Nascido em Córdoba entre os anos 4 e 1 a.C., Lucius Annaeus Sêneca era a própria imagem de sua época. Segundo filho de Sêneca, o Orador, e por isso também conhecido como Sêneca, o Jovem, mudou-se cedo para Roma. Tinha um vivo interesse pela filosofia dos mestres, como o estóico Átalo, ou o pitagórico Sótio. Para eles, a moral tinha prioridade absoluta. Sêneca conseguiu se destacar em uma sociedade cuja elite valorizava um mesmo ideal: ser orador. Em torno da eloqüência organizavam-se reuniões de salão e leituras públicas. Sêneca fez parte da Corte romana, e se comprazia em uma vida requintada que não combinava com seus ensinamentos. Não se deixar corromper, não ser tentado pelo luxo e pela luxúria, levar uma vida simples e honesta: essa era a sua filosofia. Mas não sua vida. Foi mais retórico que estóico, mais trapaceiro que honesto e mais ligado ao artifício que à verdade.

Não foi sempre assim. Sêneca parece ter levado uma vida recatada durante a juventude. Em sua carreira de servidor do Império, o cursus honorum, galga algumas posições na magistratura, além de revelar-se brilhante advogado.

Calígula, cultor ele próprio da eloqüência, tinha restrições às qualidades de Sêneca. Desprezava seu estilo estudado e elaborado, acusava seus livros, os mais populares da época, de “inconsistentes” e de serem “puras tiradas teatrais”. Às vezes, preparava respostas aos discursos do orador. Só poupou Sêneca da morte por estar convencido de que ele não chegaria à velhice devido à sua saúde frágil.

Durante o principado de Cláudio e Messalina, Sêneca participava de bom grado das recepções dadas pela imperatriz. Depois, Messalina deixou de convidá-lo, alegando que ele se permitia fazer observações pouco respeitosas. Com sua eloqüência, Sêneca fascinava demais os jovens para não ser considerado perigoso. Sêneca revelou ao imperador a conduta libertina de sua esposa. Messalina se defendeu, lembrando a avareza de Sêneca e suas relações com suas serviçais do palácio, e a audácia com que ele tinha ousado insultar Calígula. Por fim, acusou-o de semear a discórdia entre ela e o imperador.

Os temores de Messalina aumentaram quando suas primas Júlia e Agripina foram trazidas por Cláudio de volta do exílio a que Calígula as condenara. Sêneca se tornou amante de Júlia – que era casada – e se pôs a aconselhar Agripina, seduzida por sua capacidade de encantar a multidão. A lei condenava ao exílio todos os homens culpados de adultério. Assim, Messalina informou Cláudio do romance com Júlia. Sêneca foi mandado para a Córsega e Júlia, para a ilha de Pandateria.

O filósofo permaneceu no exílio por oito anos. Enviou várias cartas aduladoras a Messalina, tentando fazê-la mudar de idéia. Pensando em suicídio, com a saúde abalada, ninguém acreditava que voltasse a Roma. Todavia, mesmo que por vezes sua conduta fosse condenável, os romanos ainda o respeitavam, pois tomava posições firmes diante dos problemas de sua época, não hesitando, por exemplo, em condenar os combates de gladiadores. Depois da morte de Messalina, Agripina, a Jovem (homônima de sua mãe), manobrou para se casar com seu tio Cláudio, o que se efetivou no ano 49, e desde o início de seu reinado impôs seus caprichos. Conseguiu que Sêneca fosse trazido de volta do exílio e que se tornasse pretor (ver glossário). Confiou a Sêneca a educação de seu jovem filho, Domício, o futuro Nero. Mas Agripina se deu rapidamente conta do gosto pelo poder de Sêneca e de sua habilidade de manobra. Sêneca, por sua vez, logo percebeu a crueldade de Agripina e decidiu se opor a ela, aliando-se a Sextus Afranius Burrus. Os dois homens orientavam o jovem Nero: Burrus, por seus talentos militares, e Sêneca, por seus ensinamentos de sabedoria. Aos 12 anos, Nero viu em Sêneca um substituto do pai, Domitius Athenobarbus, que tinha morrido dez anos antes.

Com a morte de Cláudio, coube a Sêneca a honra de redigir o elogio fúnebre proferido por Nero. A fim de exibir sua sabedoria e de fazer seu talento brilhar, Sêneca tinha o costume de redigir para Nero discursos cheios de clemência, favorecendo acusados pertencentes aos altos estratos sociais. Sêneca conseguiu pouco a pouco desviar para si mesmo toda a afeição que Nero sentia pela mãe.

Quando Agripina tentou se reaproximar do filho para retomar sua influência sobre ele, Sêneca se apressou a enviar uma ex-escrava, Claudia Acte, para seduzir o imperador. Na verdade, estava preocupado com o futuro de sua carreira, caso Agripina conseguisse retomar as rédeas do Estado. Em 58, o advogado Suillius acusou Sêneca de ser hostil aos amigos do antigo imperador, Cláudio. Acrescentou ainda que, acostumado à vida de estudos, Sêneca tinha inveja dos que dedicavam uma eloqüência “sadia” à defesa dos cidadãos.

Sêneca acumulava uma fortuna de 300 milhões de sestércios, que certamente não vinham de suas aulas de filosofia. Em Roma, caíam em sua rede os testamentos dos velhotes sem herdeiros. Pela usura, esgotou a Itália e as províncias. Como advogado não tinha direito de receber pagamentos pelo trabalho que fazia. Como resultado de ter enfrentado Sêneca, Suillius foi acusado de todos os crimes e mandado para as ilhas Baleares . Entretanto, se Suillius também era afeito à corrupção, seu mestre havia sido o próprio Sêneca.

Quando Nero organizou o assassinato da mãe, o filósofo limitou-se a lhe perguntar se deveria encarregar os soldados do assassinato, sem proferir uma única palavra para salvar Agripina.

SUICÍDIO Para não perder o posto, Sêneca prestou-se a todas as concessões. Quando seu príncipe decidiu se misturar aos histriões (ver glossário), ele providenciou uma cena teatral. Quando quis conduzir uma biga de corrida, mandou delimitar na colina do Vaticano uma área onde pudesse guiar seus cavalos.

A morte de Burrus em 62 afetou seu poder. Muitos foram os que tentaram afastar Nero do filósofo, denunciando as imensas riquezas que ele havia acumulado durante os anos em que vivera na Corte. Sêneca queria ultrapassar o imperador, pelos atrativos de seu jardim e pela magnificência de suas casas de campo. Seu orgulho o levou a acreditar que era o melhor orador do mundo. Quanto às diversões do príncipe, depois de tê-las facilitado, as lamentava. Sentindo-se ameaçado, se afastou da Corte.

Mesmo assim, contra sua vontade, Sêneca se viu envolvido na Conspiração de Pisão, organizada por Caio Calpúrnio Pisão para assassinar Nero. Com o fracasso do complô, Nero ordenou a condenação de Sêneca à morte. Tiberius Plautius Silvanus Aelianus, que também havia feito parte da conspiração, mas tinha o pudor de não se mostrar em público, mandou um de seus centuriões avisar Sêneca da sentença fatal. Fiel no fim ao estoicismo que havia ensinado durante toda a vida, Sêneca ditou seu testamento e instou os amigos que choravam a se manterem fortes. Sua esposa, Pompéia Paulina, disse-lhe que estava disposta a morrer com ele. Temendo que ela fosse ultrajada depois de sua morte, Sêneca não se opôs. A mesma lâmina cortou as veias de seus braços e dos dela. Sêneca mandou que lhe abrissem também as veias das pernas e da parte posterior dos joelhos, porque seu sangue escorria demasiado lentamente.

Nero, que não tinha nada contra Paulina e temia ver sua impopularidade aumentar se a deixasse morrer, ordenou que ela fosse salva. Paulina se deixou seduzir pelos encantos da vida. Por que morrer, se Nero não tinha nada contra ela? Quanto a Sêneca, que não conseguia morrer, pediu a um amigo médico que lhe trouxesse o veneno que já tinha providenciado havia tempos. Ele o tomou, mas em vão, pois seus membros já estavam frios. Entrou então em uma banheira com água quente e molhou os escravos que o cercavam, dizendo que oferecia aquela libação a Júpiter Libertador. Não sabia que, instados por Nero, seus serviçais acorriam à volta de Paulina, reanimando-a, amarrando seus braços para estancar o sangue. Pelo contrário, tomado pela dor, Sêneca achava que Paulina suportava os piores tormentos. Sentiu-se tentado a correr ao seu quarto, para lhe pedir que não consumasse tal sacrifício. Mas se lembrou da firmeza dela, e ordenou que o levassem a uma estufa, onde o vapor o sufocasse.

Depois de morto, seu corpo foi incinerado sem qualquer pompa, como havia ordenado. Após levar uma vida luxuosa e dissimulada na Corte, durante 13 anos, e ser um cortesão disposto às piores concessões políticas; depois de se envolver em duvidosas transações financeiras; depois de praticar a usura sem qualquer escrúpulo e ser um oportunista até mesmo no ensino da moral estóica, Sêneca era dono de uma imensa fortuna, ao mesmo tempo em que pregava a filosofia da medida, da sabedoria e da moderação.

Sua vida, assim como sua arte, oscilou entre um desregramento que por vezes beirou a luxúria, e um ideal de firmeza exagerado. Sêneca só foi sincero em suas convicções no início da carreira e no fim da vida.

CRONOLOGIA

4-1 a.C.
Período estimado para o nascimento de Sêneca, em Córdoba

5
O jovem Sêneca reside em Roma

37
Entra em conflito com o imperador Calígula, que o poupa de uma sentença de morte

41
É enviado para o exílio pelo imperador Cláudio por influência de Messalina

49
Agripina, a nova esposa de Cláudio, convence-o a trazer Sêneca de volta para Roma

54-62
Período em que atua como conselheiro do imperador Nero, até a morte de Burrus

65
Sêneca, sentenciado à morte por Nero, se suicida

História Viva

O fim do milagre econômico irlandês

Marc Roche

Outrora invejada pelos outros países europeus por seus índices de crescimento no estilo asiático, a República da Irlanda conhecerá a recessão em 2008 sob o efeito conjugado da crise de crédito, o desmoronamento do setor imobiliário e a queda do consumo.

Assim como o Reino Unido, esse país está hoje em uma situação pouco invejável de estagflação, mistura explosiva de crescimento lento e inflação alta. Um editorial do “Irish Times” – “A realidade da recessão” – salienta o temor que causou a publicação no último dia 24 do boletim trimestral de conjuntura do Instituto de Pesquisa Social e Econômica (IPSE), que previu uma contração de 0,4% do PIB em 2008. A rápida deterioração da economia surpreendeu esse instituto muito respeitado, obrigado a rever constantemente para baixo suas previsões desde a eclosão da crise de crédito no verão de 2007. Naquele ano o Eire havia tido um crescimento de 4,5%.

REFERÊNCIAS
REGIME O Eire – é o nome do país em gaélico – é uma república parlamentar. Mary McAleese garante sua presidência desde que venceu a eleição de outubro de 1997 na qual se apresentou como candidata do Fianna Fail, de centro-direita.
GOVERNO Esse partido também é o do ex-primeiro-ministro Bertie Ahern. Vitorioso na legislativa de 2007 – ele foi então reconduzido para um terceiro mandato -, foi obrigado a se demitir em maio passado devido a um escândalo financeiro. Brian Cowen, de centro-esquerda, o substituiu. Em 12 de junho os irlandeses rejeitaram o Tratado de Lisboa que era apoiado pelos dois.
CAPITALDublim. SUPERFÍCIE 70 mil km quadrados. POPULAÇÃO 4,4 milhões de habitantes. MOEDA euro.

O consumo deverá cair 2,6% este ano e o investimento, 14,9%. A inflação ficaria estável em 4,5%, alimentada pela alta dos preços da energia e dos gêneros alimentares. Somente as exportações resistem, apesar do euro forte.

Recessão: depois de 25 anos de crescimento ininterrupto, os irlandeses tinham quase esquecido essa palavra macabra. Segundo o IPSE, a saída da crise deverá ser lenta, com um índice de crescimento de 1,9% em 2009 (3,1% previstos anteriormente).

Duas outras previsões são alarmantes para esse país que esteve recentemente às margens do Terceiro Mundo e cujos jovens emigraram aos milhares. A Irlanda, cujo milagre econômico atraiu mais de 300 mil imigrantes poloneses e bálticos desde 2004 – a economia estava então em pleno florescimento -, está se tornando novamente uma terra de imigração, pela primeira vez desde o início dos anos 1990. O IPSE calcula um saldo migratório negativo de 20 mil pessoas em 2009. Quanto ao desemprego, que havia sido eliminado, reapareceu com um índice de 6% e deverá passar para 7,1% no próximo ano.

O golpe é duro para o primeiro-ministro irlandês, Brian Cowen, no poder desde 7 de maio. Desestabilizado pela rejeição do Tratado de Lisboa em um referendo em 12 de junho, o chefe de governo de centro-esquerda está submetido às pressões de seus homólogos europeus para organizar uma nova consulta. Mas com um déficit orçamentário previsto para 2009 de 3,9% do PIB – além do limite de 3% autorizado pelo pacto de estabilidade e crescimento da União Européia -, sua margem de manobra em Bruxelas promete ser limitada. “Todo mundo está consciente de que o déficit das finanças públicas é conseqüência do desperdício dos frutos de um boom que só poderia ser temporário”, avalia pessimista Alan Barrett, autor desse relatório que o governo preferiria esquecer.

Le Monde

“Lagos” Oceânicos

“Ruído” sísmico em dados de prospecção de petróleo pode decifrar o processo de mistura dos oceanos

Lucas Laursen

Há três décadas pesquisadores descobriram aquilo que são essencialmente enormes lagos de água salgada no oceano Atlântico. Esses “lagos”, conhecidos em inglês como meddies, são lentes aquáticas em suave rotação, com até 100 km de diâmetro e 1 km de espessura. Eles fl utuam a algumas centenas de metros sob a superfície oceânica. Esses corpos grandes e cálidos, que, descobriu-se, vêm do mar Mediterrâneo, devem ter impacto sobre as trocas de calor no oceano – e sobre o clima do planeta. Mas os esforços para estudar os meddies – o que geralmente exige o emprego de sondas que medem diretamente a temperatura, salinidade e velocidade oceânicas – se mostraram muito dispendiosos, incomuns e esparsos para revelar como os meddies dissipam calor.

Agora, pesquisadores demonstraram que uma ferramenta emprestada da indústria petrolífera é capaz de gerar instantâneos rápidos e de alta resolução dos meddies. A técnica, utilizada inicialmente para encontrar reservas de petróleo sob o assoalho oceânico, emprega reflexões sonoras. Equipamentos de prospecção em navios disparam jatos de ar logo abaixo da superfície aquática; as ondas acústicas se propagam até o fundo e são refletidas para uma rede de microfones que vai a reboque do barco. O tempo de retorno das ondas sonoras revela a densidade do material pelo qual passaram.

As regiões de fronteira entre massas aquáticas também têm uma “assinatura” sonora, muito fraca, que a indústria petrolífera costumava tratar como simples ruído. Mas, em 2003, uma equipe liderada por W. Steven Holbrook, da University of Wyoming, nos Estados Unidos, adotou a técnica e criou imagens inesperadamente nítidas das fronteiras de densidade no oceano. Mudanças na densidade da água do mar resultam de mudanças de sua temperatura e salinidade. Como essas grandezas costumam ter valores específicos para cada corrente oceânica, os pesquisadores conseguiram visualizar interações entre frentes oceânicas, da mesma maneira que os climatologistas mapeiam as fronteiras entre regiões climáticas.

Desde então cientistas analisaram dados de antigas pesquisas da indústria petrolífera e improvisaram alguns experimentos que pegaram carona em expedições oceanográficas e petrolíferas. Utilizando dados de uma pesquisa sismológica da costa sudoeste da Espanha, realizada em 1993, uma equipe liderada por Valentí Sallarès, da Unidade de Tecnologia Marítima do Conselho Nacional de Pesquisas da Espanha, em Barcelona, relatou, na edição de 14 de junho da revista Geophysical Research Letters, que conseguiu capturar imagens com detalhes nunca antes vistos de três meddies.

As imagens sismológicas de Sallarès revelam “dedos salinos” e outras características da mistura entre as águas, com dimensões de até 10 m. “A princípio é muito instigante conseguir ver coisas desse tipo”, diz Raymond Schmitt, um oceanógrafo do Instituto Oceanográfico Woods Hole, nos Estados Unidos. Mas Schmitt diz que ele e seus colaboradores ainda estão tentando entender como interpretar imagens sismológicas de meddies e outras regiões de mistura oceânica, como ondas subaquáticas e fronteiras entre correntes.

Perfis sismológicos ainda não são amplamente utilizados na comunidade oceanográfica, em parte porque ninguém publicou uma fórmula quantitativa confiável para converter medidas sísmicas em grandezas oceanográficas tradicionais. A sismologia detecta reflexões originadas em locais onde a velocidade do som se altera. Sondas oceanográficas medem as condições aquáticas diretamente. Sallarès espera unificar os dois tipos de dados: “O primeiro passo foram as imagens, mas, se não formos capazes de quantificar os processos de mistura, não teremos conseguido coisa alguma”.

Sallarès avalia que os resultados preliminares de uma recente expedição oceanográfica sismológica sugerem que os valores de temperatura e salinidade podem ser mais difíceis de estabelecer que originalmente se imaginou. Holbrook, que liderou sua própria expedição oceanográfica sismológica no litoral de Costa Rica, em abril, escreveu, do navio, que a oceanografia sismológica precisa “gerar resultados quantitativos interessantes e úteis”, de modo que os oceanógrafos possam encará-la como “um acréscimo crucial a seu arsenal de técnicas, e não uma mera curiosidade”.

Ninguém sabe exatamente em que os meddies contribuem para a mistura no Atlântico, mas Sallarès diz que os perfis sismológicos “são um claro primeiro olhar, mais preciso do que os dados oceanográficos podem nos dar”.

Um Mar Quente e Salgado
O relativo isolamento do mar Mediterrâneo e seu clima ensolarado, o tornam propenso à evaporação rápida. Como resultado disso ele é muito mais salgado que o oceano Atlântico. Águas mediterrâneas penetram no Atlântico na forma de meddies, massas aquáticas que apresentam uma suave rotação, e possuem diâmetros de até 100 km e espessuras de 1 km. Os meddies carregam seu sal e calor para o mar aberto, de modo que suas fronteiras são vistas de modo particularmente intenso em imagens sísmicas.

Scientific American Brasil

No reino do carro semiótico

Quanto mais cavalos galopando sob o capô, mais força se terá para alcançar o horizonte da fantasia

J. R. Duran

Para que serve um carro? Em princípio, imaginaria Henry Ford contemplando a linha de montagem do Ford T, um meio de locomoção para ir de um lado a outro no menor tempo possível e com o máximo de conforto. Confrontado com as estatísticas sobre os engarrafamentos de hoje, um automóvel é, definitivamente, o meio mais luxuoso, e caro, de se chegar atrasado a qualquer lugar. Anticlímax.

O filósofo francês Edgar Morin escreveu em 1969, com o subtítulo perfumado de O Espírito do Tempo, o livro que qualquer semiótico de botequim adorava ler na época: Cultura de Massas no Século XX. Um dos capítulos tem por título “A Girl and a Gun” (mesmo sendo escrito por um francês o título é em inglês, eram outros tempos aqueles). Nele o filósofo elaborava o pensamento de como os westerns hollywoodianos tinham conquistado os corações e as mentes de milhões de espectadores, ávidos por se transportar a outras existências que os deixassem escapar de suas vidas rotineiras. Morin dizia que essa dupla caracterização cinematográfica, uma garota e uma arma – o amor e o erotismo por um lado, a aventura e a transgressão pelo outro -, eram irreconciliáveis, mas ao mesmo tempo também a chave para o elixir da eterna sedução.

O mocinho (e às vezes não só ele, a vingança também) sempre chegou a cavalo. Por coincidência, e isso se acreditamos que elas possam existir, os automóveis têm a potência de seu motor calculada em… cavalos. Cavalos de força. Não é muito difícil somar dois e dois, sejam cavalos, seja o que for, para se descobrir que, quanto mais cavalos galopando sob o capô do carro, mais força se terá para alcançar o horizonte da fantasia.

A fábrica francesa Citroën lançou, depois da 2ª Guerra Mundial, o Citroën 2 cv (o popular deux chevaux, dois cavalos, o mais perto que um automóvel já chegou de uma charrete na nomenclatura e na performance), no qual, segundo disse alguém, se podia contemplar a paisagem com calma. É o modelo favorito de Hergé, o desenhista do jovem repórter Tintin, que adorava colocar o carro em suas histórias em quadrinhos. Se as armas, em teoria ao menos, com o tempo foram banidas pela lei, a potência dos carros foi aumentando. Um par de décadas depois de Hergé, o escritor Ian Fleming, criador de James Bond, o agente secreto mais conhecido na história moderna, decidiu que seu herói veria as ruas de Londres passarem em alta velocidade no volante de um imponente Aston Martin. Outros tempos, outras necessidades, outras velocidades. 007 fez a fama do carro, que o ajudou a deitar na cama muitas vezes. E, noblesse oblige, um Aston Martin DBS, hoje, tem uma potência de 510 cv.

Tem cavalos para todos. Entre os lendários cavalinhos solitários do Citroën (um verdadeiro carro do povo, se me permitem) e a cavalaria vermelha de uma Ferrari, você pode fazer sua escolha. Mas antes atente ao fato de que os carros têm sexo definido, independentemente das convicções sexuais de quem os dirige e outorgado pelo DNA invisível da denominação de origem de quem os fabrica. O que se transforma em uma forma de afeição pela máquina exibida pelo ser humano, que passa a se referir a ela com uma intimidade familiar: uma Ferrari, um Volkswagen, uma Alfa Romeo, um Audi. Outras características parecem ser decididas pela geografia. Os carros americanos, por exemplo, são verdadeiras salas de estar, que privilegiam o conforto e o espaço (adivinha de onde saiu a idéia de colocar porta-copos em um carro como acessório? E me pergunto, isso é coisa que se faça, dirigir e beber?). Me arrisco a afirmar que um apartamento popular daqui cabe perfeitamente na limusine branca que o presidente Sarney, hoje ex, utilizou em viagem oficial a Nova York. Já a fama dos carros europeus é a do design, a da elegância, como um belo terno feito sob medida. E a dos japoneses, do outro lado do mundo, é a reprodução de todas as qualidades acima, porém com o preço bem mais baixo e acessível.

Na percepção do comprador (ou será na lábia do vendedor?), com um carro você pode ser quem quiser. É conveniente para eles esquecer que o hábito não faz o monge e você pode tirar alguém da roça, mas não se tira a roça de qualquer um. É só prestar atenção aos motoristas de fim de semana com seus conversíveis espalhafatosos, recém-saídos da garagem, que conseguem disfarçar a barriga do condutor, mas teimam em deixar sua careca a descoberto. Na religião desses playboys de fim de semana, as mulheres devem acreditar nesse personagem que se esforça em aparentar uma certa elegância emprestada pelo brilho do automóvel. Senão, como se explica que a cada carro, exposto em qualquer salão de automóveis do mundo, corresponda pelo menos uma moça vestida de maneira, digamos, chamativa? E não é só isso. Um carro pode usufruir do upgrade máximo quando se transformar, também, em signo do poder. Poder oficial, transferido, obtido. Senão não existiria a designação de “carro oficial”.

Tem, também, os carros dos puristas da velocidade. Que a única coisa que conservam dos originais que circulam à paisana pelas estradas são, visivelmente para o leigo, apenas as quatro rodas. No reduzido reino da Fórmula 1 muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Mais precisamente, 22 pilotos apontados pelo dedo do destino, que depois de intrincados cálculos e volumosas negociações, passarão a se jogar em cada corrida, no instante da largada, com cega determinação. Uma decisão e uma firmeza digna da carga da Brigada Ligeira, desta vez, porém, com muito mais que 600 cavalos em jogo (When can their glory fade? O the wild charge they made!, exclamaria com razão lorde Tennyson).

Morin escreveu que “… a vida nos filmes, dos romances, do sensacionalismo é aquela em que a lei é enfrentada, dominada ou ignorada, em que o desejo logo se torna amor vitorioso, em que os instintos se tornam violência, golpes, homicídios, em que os medos se tornam suspenses, angústias. É a vida que conhece a liberdade, não a liberdade política, mas a liberdade antropológica, na qual o homem não está mais à mercê da norma social: a lei…” O caminhoneiro, no seu pára-choque, cravou: “Muitos cavalos no motor, um ás no volante”. Com o detalhe de que a penúltima e a antepenúltima palavra estão mais juntas do que seria normal. Porque, parafraseando a música, para mais da metade da população do planeta o carro é o princípio, o meio e o fim dos nossos problemas. O nada. E o homem, atrás do volante, o efeito multiplicador de tudo isso.

O Estado de São Paulo

No reino do carro semiótico

Quanto mais cavalos galopando sob o capô, mais força se terá para alcançar o horizonte da fantasia

J. R. Duran

Para que serve um carro? Em princípio, imaginaria Henry Ford contemplando a linha de montagem do Ford T, um meio de locomoção para ir de um lado a outro no menor tempo possível e com o máximo de conforto. Confrontado com as estatísticas sobre os engarrafamentos de hoje, um automóvel é, definitivamente, o meio mais luxuoso, e caro, de se chegar atrasado a qualquer lugar. Anticlímax.

O filósofo francês Edgar Morin escreveu em 1969, com o subtítulo perfumado de O Espírito do Tempo, o livro que qualquer semiótico de botequim adorava ler na época: Cultura de Massas no Século XX. Um dos capítulos tem por título “A Girl and a Gun” (mesmo sendo escrito por um francês o título é em inglês, eram outros tempos aqueles). Nele o filósofo elaborava o pensamento de como os westerns hollywoodianos tinham conquistado os corações e as mentes de milhões de espectadores, ávidos por se transportar a outras existências que os deixassem escapar de suas vidas rotineiras. Morin dizia que essa dupla caracterização cinematográfica, uma garota e uma arma – o amor e o erotismo por um lado, a aventura e a transgressão pelo outro -, eram irreconciliáveis, mas ao mesmo tempo também a chave para o elixir da eterna sedução.

O mocinho (e às vezes não só ele, a vingança também) sempre chegou a cavalo. Por coincidência, e isso se acreditamos que elas possam existir, os automóveis têm a potência de seu motor calculada em… cavalos. Cavalos de força. Não é muito difícil somar dois e dois, sejam cavalos, seja o que for, para se descobrir que, quanto mais cavalos galopando sob o capô do carro, mais força se terá para alcançar o horizonte da fantasia.

A fábrica francesa Citroën lançou, depois da 2ª Guerra Mundial, o Citroën 2 cv (o popular deux chevaux, dois cavalos, o mais perto que um automóvel já chegou de uma charrete na nomenclatura e na performance), no qual, segundo disse alguém, se podia contemplar a paisagem com calma. É o modelo favorito de Hergé, o desenhista do jovem repórter Tintin, que adorava colocar o carro em suas histórias em quadrinhos. Se as armas, em teoria ao menos, com o tempo foram banidas pela lei, a potência dos carros foi aumentando. Um par de décadas depois de Hergé, o escritor Ian Fleming, criador de James Bond, o agente secreto mais conhecido na história moderna, decidiu que seu herói veria as ruas de Londres passarem em alta velocidade no volante de um imponente Aston Martin. Outros tempos, outras necessidades, outras velocidades. 007 fez a fama do carro, que o ajudou a deitar na cama muitas vezes. E, noblesse oblige, um Aston Martin DBS, hoje, tem uma potência de 510 cv.

Tem cavalos para todos. Entre os lendários cavalinhos solitários do Citroën (um verdadeiro carro do povo, se me permitem) e a cavalaria vermelha de uma Ferrari, você pode fazer sua escolha. Mas antes atente ao fato de que os carros têm sexo definido, independentemente das convicções sexuais de quem os dirige e outorgado pelo DNA invisível da denominação de origem de quem os fabrica. O que se transforma em uma forma de afeição pela máquina exibida pelo ser humano, que passa a se referir a ela com uma intimidade familiar: uma Ferrari, um Volkswagen, uma Alfa Romeo, um Audi. Outras características parecem ser decididas pela geografia. Os carros americanos, por exemplo, são verdadeiras salas de estar, que privilegiam o conforto e o espaço (adivinha de onde saiu a idéia de colocar porta-copos em um carro como acessório? E me pergunto, isso é coisa que se faça, dirigir e beber?). Me arrisco a afirmar que um apartamento popular daqui cabe perfeitamente na limusine branca que o presidente Sarney, hoje ex, utilizou em viagem oficial a Nova York. Já a fama dos carros europeus é a do design, a da elegância, como um belo terno feito sob medida. E a dos japoneses, do outro lado do mundo, é a reprodução de todas as qualidades acima, porém com o preço bem mais baixo e acessível.

Na percepção do comprador (ou será na lábia do vendedor?), com um carro você pode ser quem quiser. É conveniente para eles esquecer que o hábito não faz o monge e você pode tirar alguém da roça, mas não se tira a roça de qualquer um. É só prestar atenção aos motoristas de fim de semana com seus conversíveis espalhafatosos, recém-saídos da garagem, que conseguem disfarçar a barriga do condutor, mas teimam em deixar sua careca a descoberto. Na religião desses playboys de fim de semana, as mulheres devem acreditar nesse personagem que se esforça em aparentar uma certa elegância emprestada pelo brilho do automóvel. Senão, como se explica que a cada carro, exposto em qualquer salão de automóveis do mundo, corresponda pelo menos uma moça vestida de maneira, digamos, chamativa? E não é só isso. Um carro pode usufruir do upgrade máximo quando se transformar, também, em signo do poder. Poder oficial, transferido, obtido. Senão não existiria a designação de “carro oficial”.

Tem, também, os carros dos puristas da velocidade. Que a única coisa que conservam dos originais que circulam à paisana pelas estradas são, visivelmente para o leigo, apenas as quatro rodas. No reduzido reino da Fórmula 1 muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Mais precisamente, 22 pilotos apontados pelo dedo do destino, que depois de intrincados cálculos e volumosas negociações, passarão a se jogar em cada corrida, no instante da largada, com cega determinação. Uma decisão e uma firmeza digna da carga da Brigada Ligeira, desta vez, porém, com muito mais que 600 cavalos em jogo (When can their glory fade? O the wild charge they made!, exclamaria com razão lorde Tennyson).

Morin escreveu que “… a vida nos filmes, dos romances, do sensacionalismo é aquela em que a lei é enfrentada, dominada ou ignorada, em que o desejo logo se torna amor vitorioso, em que os instintos se tornam violência, golpes, homicídios, em que os medos se tornam suspenses, angústias. É a vida que conhece a liberdade, não a liberdade política, mas a liberdade antropológica, na qual o homem não está mais à mercê da norma social: a lei…” O caminhoneiro, no seu pára-choque, cravou: “Muitos cavalos no motor, um ás no volante”. Com o detalhe de que a penúltima e a antepenúltima palavra estão mais juntas do que seria normal. Porque, parafraseando a música, para mais da metade da população do planeta o carro é o princípio, o meio e o fim dos nossos problemas. O nada. E o homem, atrás do volante, o efeito multiplicador de tudo isso.

O Estado de São Paulo

Crise vem pôr a nu os limites históricos do sistema capitalista

François Chesnais

A tese que vou apresentar defende que no ano passado produziu-se uma verdadeira ruptura, que deixa para trás uma longa fase de expansão da economia capitalista mundial; e que essa ruptura marca o início de um processo de crise com características que são comparáveis à crise de 1929, ainda que venha a desenvolver-se num contexto muito diferente.

A primeira coisa que é preciso recordar é que a crise de 1929 se desenvolveu como um processo: um processo que começou em 1929, mas cujo ponto culminante se deu bastante depois, em 1933, e que logo abriu caminho a uma longa fase de recessão. Digo isto para sublinhar que, na minha opinião, estamos a viver as primeiras etapas, mas realmente as primeiras, primeiríssimas etapas de um processo dessa amplitude e dessa temporalidade. E que o que nestes dias está a acontecer e tem como cenário os mercados financeiros de Nova York, de Londres e de outros grandes centros bolsistas, é somente um aspecto – e talvez não seja o aspecto mais importante – do que se deve interpretar como um processo histórico.

Estamos diante de um desses momentos em que a crise vem exprimir os limites históricos do sistema capitalista. Não se trata de alguma versão da teoria da “crise final” do capitalismo, ou algo do estilo. Do que sim se trata, na minha opinião, é de entender que estamos confrontados com uma situação em que se exprimem estes limites históricos da produção capitalista. Não quero parecer um pastor com a sua Bíblia marxista, mas quero ler-vos uma passagem de O Capital:

“A barreira efetiva da produção capitalista é o próprio capital: o capital e a sua auto-expansão se patenteiam ponto de partida e meta, móbil e fim da produção; a produção existe apenas para o capital, ao invés de os meios de produção serem apenas meios de acelerar continuamente o desenvolvimento do processo vital para a sociedade dos produtores. Os limites intransponíveis em que se podem mover a manutenção e a expansão do valor-capital – as quais se baseiam na expropriação e no empobrecimento da grande massa dos produtores – colidem constantemente com os métodos de produção que o capital tem de empregar para atingir seu objetivo e que visam ao aumento ilimitado da produção, à produção como fim em si mesma, ao desenvolvimento incondicionado das forças produtivas sociais do trabalho. O meio empregue – desenvolvimento ilimitado das forças produtivas sociais – está em permanente conflito com o objetivo limitado, a valorização do capital existente. Por conseguinte, se o modo de produção capitalista é um meio histórico para desenvolver a força produtiva social e criar o mercado mundial apropriado, é ele ao mesmo tempo a contradição permanente entre essa missão histórica e as relações sociais de produção que lhe correspondem”1

Bom, certamente que há algumas palavras que hoje já não utilizamos, como “missão histórica”… Mas creio que o que vamos ver nos próximos anos vai dar-se precisamente na base de já ter sido criado em toda a sua plenitude esse mercado mundial intuído por Marx. Quer dizer, temos um mercado e uma situação mundial diferentes da de 1929, porque nessa altura países como a China e a Índia eram ainda semi-coloniais, enquanto que agora já não têm esse carácter; são grandes países que, mais além de terem um carácter combinado que requer uma análise cuidadosa, são agora participantes de pleno direito dentro de uma economia mundial única, uma economia mundial unificada num grau desconhecido até esta etapa da história. A citação pode ajudar-nos a entender o momento actual, e a crise que se iniciou precisamente neste marco de um só mundo.

Um novo tipo de crise

Na minha opinião, nesta nova etapa, a crise vai desenvolver-se de tal modo que as primeiras e realmente brutais manifestações da crise climática mundial vão combinar-se com a crise do capital enquanto tal. Entrámos numa fase em que se coloca realmente uma crise da humanidade, dentro de complexas relações nas quais se incluem também os acontecimentos bélicos, mas o mais importante é que, mesmo excluindo a explosão de uma guerra de grande amplitude que, no presente momento, só podia ser uma guerra atómica, estamos confrontados com um novo tipo de crise, com uma combinação desta crise económica, que começou, com uma situação na qual a natureza, tratada sem a menor contemplação e atacada pelo homem no marco do capitalismo, reage agora de forma brutal. Isto é uma coisa quase excluída das nossas discussões, mas que vai impor-se como um facto central.

Por exemplo, muito recentemente, lendo o trabalho de um sociólogo francês, fiquei a saber que os glaciares andinos dos quais flui a água com que se abastecem La Paz e El Alto estão esgotados em mais de 80%, e estima-se que dentro de 15 anos La Paz e El Alto não vão ter água… e, no entanto, isto é algo que nunca foi tratado, nunca se discutiu um facto de tamanha magnitude que pode fazer com que a luta de classes na Bolívia, tal como a conhecemos, mude substancialmente – por exemplo fazendo com que a tal controversa mudança da capital para Sucre se imponha como uma coisa “natural”, porque acabou a água em La Paz.

Estamos a entrar num período desse tipo e o problema é que quase não se fala disso, enquanto que nos ambientes revolucionários continuam a discutir-se coisas que neste momento são minúcias, questões completamente mesquinhas em comparação com os desafios que temos pela frente.

Limites imanentes do capitalismo

Para continuar com a questão dos limites do capitalismo, quero chamar a atenção para uma citação de Marx, imediatamente anterior à já citada: “A produção capitalista procura sempre ultrapassar esses limites imanentes, mas ultrapassa-os apenas com meios que de novo lhe opõem esses mesmos limites, agora em escala ainda mais potente”2 Esta indicação introduz-nos a análise e a discussão dos meios a que se recorreu, durante os últimos 30 anos, para superar os limites imanentes do capital.

Esses meios foram, em primeiro lugar, todo o processo de liberalização das finanças, do comércio e do investimento, todo o processo de destruição das relações políticas surgidas na raíz da crise de 29 e dos anos 30, depois da Segunda Guerra Mundial e das guerras de libertação nacional… Todas essas relações, que exprimiam o domínio do capital mas representavam ao mesmo tempo formas de controlo parcial do mesmo capital, foram destroçadas e, por algum tempo, pareceu ao capital que com isto ficavam superados os limites postos à sua actuação.

A segunda forma que se escolheu para superar esses limites imanentes do capital foi recorrer, numa escala sem precedentes, à criação de capital fictício e de meios de crédito para ampliar uma procura insuficiente no centro do sistema.

E a terceira forma, a mais importante historicamente para o capital, foi a reincorporação, enquanto elementos plenos do sistema capitalista mundial, da União Soviética e seus “satélites”, e da China.

Só no marco das resultantes destes três processos é possível captar a amplitude e a novidade da crise que se inicia.

Liberalização, mercado mundial, competição… Comecemos por nos interrogar sobre o que significou a liberalização e a desregulação levadas a cabo à escala mundial, com a incorporação do antigo “campo” soviético e a incorporação e a modificação das relações de produção na China… O processo de liberalização e desregulação significou o desmantelamento dos poucos elementos reguladores que se tinham construído no marco internacional ao sair da Segunda Guerra Mundial, para entrar num capitalismo totalmente desregulamentado. E não só desregulamentado, como também um capitalismo que criou realmente o mercado mundial no pleno sentido do termo, convertendo em realidade o que era em Marx uma intuição ou antecipação. Pode ser útil precisar o conceito de mercado mundial e ir talvez mais além da palavra mercado. Trata-se da criação de um espaço livre de restrições para as operações do capital, para produzir e realizar mais-valias, tomando este espaço como base e processo de centralização de lucros à escala verdadeiramente internacional. Esse espaço aberto, não homogéneo mas com uma redução drástica de todos os obstáculos à mobilidade do capital, essa possibilidade para o capital de organizar à escala universal o ciclo de valorização, está acompanhado de uma situação que permite pôr em competição entre si os trabalhadores de todos os países. Quer dizer, sustenta-se no facto de o exército industrial de reserva ser realmente mundial e de ser o capital como um todo que rege os fluxos de integração ou de repulsão, nas formas estudadas por Marx.

Este é então o marco geral de um processo de “produção para a produção” em condições em que a possibilidade de a humanidade e as massas do mundo acederem a essa produção é totalmente limitada… e, portanto, torna-se cada vez mais difícil o encerramento com êxito do ciclo de valorização do capital, para o capital no seu conjunto, e para cada capital em particular. E por isso se ampliam e se fazem mais determinantes no mercado mundial “as leis cegas da competição”. Os bancos centrais e os governos podem proclamar que vão pôr-se de acordo entre si e colaborar para impedir a crise, mas não creio que se possa introduzir a cooperação no espaço mundial convertido em cenário de uma tremenda competição entre capitais. E agora, a competição entre capitais vai muito mais além das relações entre os capitais das partes mais antigas e mais desenvolvidas do sistema mundial, com os sectores menos desenvolvidos do ponto de vista capitalista. Porque sob formas particulares e inclusive muito parasitárias, no marco mundial deram-se processos de centralização do capital por fora do marco tradicional dos centros imperialistas: em relação com eles, mas em condições que também introduzem algo totalmente novo no marco mundial.

Durante os últimos 15 anos, e em particular durante a última etapa, desenvolveram-se, em determinados pontos do sistema, grupos industriais capazes de integrar-se como sócios de pleno direito nos oligopólios mundiais. Tanto na Índia como na China constituíram-se verdadeiros e fortes grupos económicos capitalistas. E, no plano financeiro, como expressão do rentismo e do parasitismo puro, os chamados Fundos Soberanos converteram-se em importantes pontos de centralização do capital sob a forma de dinheiro, que não são meros satélites dos Estados Unidos, têm estratégias e dinâmicas próprias e modificam de muitas maneiras as relações geopolíticas dos pontos-chave em que a vida do capital se faz e fará.

Por isso, outro elemento a ter em conta é que esta crise tem como outra de suas dimensões a de marcar o fim da etapa em que os Estados Unidos podiam actuar como potência mundial sem comparação… Na minha opinião, saímos do momento que analisava Mészáros no seu livro de 2001, e os Estados Unidos vão ser submetidos a uma prova: num prazo muito curto, todas as suas relações mundiais modificaram-se e terão, no melhor dos casos, de renegociar e reordenar todas as suas relações com base no facto de que têm de partilhar o poder. E isto, evidentemente, é algo que nunca aconteceu de forma pacífica na história do capital… Então, primeiro elemento: um dos métodos escolhidos pelo capital para superar os seus limites transformou-se em fonte de novas tensões, conflitos e contradições, indicando que uma nova etapa histórica vai abrir caminho através desta crise.

Criação descontrolada de capital fictício

O segundo meio utilizado para superar os limites do capital das economias centrais foi que todas elas recorreram à criação de formas totalmente artificiais de ampliação da procura efectiva, as quais, somando-se a outras formas de criação de capital fictício, geraram as condições para a crise financeira que se desenvolve hoje. No artigo que os companheiros de Herramienta tiveram a gentileza de traduzir para o castelhano e publicar3, abordei com alguma profundidade esta questão do capital fictício e as novas formas que se deram dentro do próprio processo de acumulação do capital fictício. Para Marx, o capital fictício é a acumulação de títulos que são “sombra de investimentos” já feitos mas que, como títulos de bónus e de acções, aparecem com o aspecto de capital aos seus detentores. Não o são para o sistema como um todo, para o processo de acumulação, mas são-no sim para os seus detentores e, em condições normais de fecho de processos de valorização do capital, rendem aos seus detentores dividendos e juros. Mas o seu carácter fictício revela-se em situações de crise. Quando ocorrem crises de sobreprodução, falência de empresas, etc., descobre-se que esse capital não existia… Por isso também pode ler-se às vezes nos jornais que tal ou qual quantidade de capital “desapareceu” nalgum tropeço bolsista: essas quantias nunca tinham existido como capital propriamente dito, apesar de, para os detentores dessas acções, representarem títulos que davam direito a dividendos e juros, a receber lucros…

Evidentemente, um dos grandes problemas de hoje é que, em muitíssimos países, os sistemas de aposentação estão baseados em capital fictício, com pretensões de participação nos resultados de uma produção capitalista que pode desaparecer em momentos de crise. Toda a etapa de liberalização e de globalização financeira dos anos 80 e 90 esteve baseada em acumulação de capital fictício, sobretudo em mãos de fundos de investimento, fundos de pensões, fundos financeiros… E a grande novidade desde finais ou meados dos anos 90 e a todo o largo dos anos 2000 foi, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha em particular, o impulso extraordinário que se deu à criação de capital fictício na forma de crédito. De crédito a empresas, mas também e sobretudo de créditos às famílias, crédito ao consumo e sobretudo créditos hipotecários. E isso fez dar um salto na massa de capital fictício criado, dando origem a formas ainda mais agudas de vulnerabilidade e de fragilidade, inclusive diante de choques menores, inclusive diante de episódios absolutamente previsíveis. Por exemplo, em base a tudo o estudado anteriormente, sabia-se que um boom imobiliário acaba; que inexoravelmente chega um momento em que, por processos muito bem estudados, termina; e, se pode até ser relativamente compreensível que no mercado de acções existisse a ilusão de que não havia limites para a subida no preço das acções, com base a toda a história anterior sabia-se que que isso não podia ocorrer no sector imobiliário: quando se trata de edifícios e de casas é inevitável que chegue o momento em que o boom acaba. Mas colocaram-se em tal situação de dependência, que esse acontecimento completamente normal e previsível transformou-se numa crise tremenda. Porque a tudo o que já disse, juntou-se o facto de que durante os dois últimos anos os empréstimos faziam-se a famílias que não tinham a menor possibilidade de os pagar. Além disso, tudo isso se combinou com as novas “técnicas” financeiras que tentei explicar com um grau aceitável de vulgarização no meu artigo da Herramienta, permitindo-se assim que os bancos vendessem bónus em condições tais que ninguém podia saber exactamente o que estava a comprar… até a explosão dos subprime em 2007.

Agora estão a desmontar este processo. Mas dentro dessa desmontagem, há processos de concentração do capital financeiro. Quando o Bank Of America compra o Merrill Lynch, estamos diante de um processo de concentração clássico. E vemos além disso estes processos de estatização das dívidas, que implicam na criação imediata de mais capital fictício. A Reserva Federal dos Estados Unidos cria mais capital fictício para manter a ilusão de um valor do capital que está à beira de desmoronar, com a perspectiva de ter, em algum momento dado, a possibilidade de aumentar fortemente a pressão fiscal, mas na realidade não pode fazê-lo porque isso significaria o congelamento do mercado interno e a aceleração da crise enquanto crise real. Assistimos, pois, a uma fuga em frente que não resolve nada. Dentro desse processo existe também o avanço dos Fundos Soberanos, que procuram modificar a repartição intercapitalista dos fluxos financeiros a favor dos sectores rentistas que acumularam estes fundos. E isto é um factor de perturbação ainda maior no processo.

Quero recordar, para terminar este ponto, que esse défice comercial de cinco pontos do PIB é o que confere aos Estados Unidos a particularidade desse lugar-chave para a concretização do ciclo do capital no momento da realização da mais-valia, para o processo capitalista no seu conjunto. Confrontados agora com uma quase inevitável retracção económica, coloca-se como a grande interrogação se, num curto prazo, a procura interna chinesa poderá passar a ser o lugar que garanta esse momento de realização da mais-valia que se dava nos Estados Unidos. A amplitude da intervenção do Tesouro é muito forte e conseguiu que a contracção da actividade nos EUA e a queda das importações tenha sido até agora muito limitada. O problema é saber quanto tempo se poderá ter como único método de política económica criar mais e mais liquidez… Será possível que não haja limites à criação de capital fictício sob a forma de liquidez para manter o valor do capital fictício já existente? Parece-me uma hipótese demasiado optimista, e entre os próprios economistas norte-americanos, muitos duvidam.

Sobreacumulação na China?

Para terminar, chegamos à terceira maneira pela qual o capital superou os seus limites imanentes, que é definitivamente a mais importante de todas e levanta as interrogações mais interessantes. Refiro-me à extensão, em particular para a China, de todo o sistema de relações sociais de produção do capitalismo. Algo que Marx mencionou nalgum momento como possibilidade, mas que só se fez realidade durante os últimos anos. E realizou-se em condições que multiplicam os factores de crise.

A acumulação do capital na China fez-se com base em processos internos, mas também com base em algo que está perfeitamente documentado, mas pouco comentado: a transferência de uma parte importantíssima do Sector II da economia, o sector da produção de meios de consumo, dos Estados Unidos para a China. E isto tem muito a ver com o grosso dos défices norte-americanos (o défice comercial e o fiscal), que só poderiam reverter-se por meio de uma “reindustrialização” dos Estados Unidos.

Isto significa que se estabeleceram novas relações entre os Estados Unidos e a China. Já não são as relações de uma potência imperialista com um espaço semicolonial. Os Estados Unidos criaram relações de um novo tipo, que agora têm dificuldades de reconhecer e de assumir. Com base no superavit comercial, a China acumula milhões e milhões de dólares, que logo empresta aos Estados Unidos. Uma ilustração das consequências que isto traz, temo-la com a nacionalização dessas duas entidades chamadas Fannie Mae e Freddy Mac: ao que parece, a banca da China tinha 15% dos fundos dessas duas entidades e comunicou ao governo americano que não aceitaria a sua desvalorização. São relações internacionais de tipo completamente novo.

Mas que ocorre no seio da própria China? No meu artigo na Herramienta já citado, havia uma só página sobre isto, e no final; mas de alguma maneira é a questão mais decisiva para a próxima etapa da crise. Na China deu-se internamente um processo de competição entre capitais, que se combinou com processos de competição entre sectores do aparelho político chinês, e de competição para atrair empresas estrangeiras; tudo isso resultou num processo de criação de imensas capacidades de produção, além de violentar a natureza numa escala enorme: na China concentra-se uma sobreacumulação de capital que num momento dado se tornará insustentável.

Na Europa, é evidente a tendência a uma aceleração da destruição de capacidades produtivas e de postos de trabalho, para transferir-se para o único paraíso do mundo capitalista que é a China. Considero que esta transferência de capitais para a China significou uma reversão de processos anteriores de uma alta da composição orgânica do capital. A acumulação é intensiva em meios de produção e é intensiva e muito delapidadora da outra parte do capital constante, quer dizer, das matérias primas. A maciça criação de capacidades de produção no Sector I foi acompanhada por todos os mecanismos e o impulso que caracterizam o crescimento da China, mas o mercado final para sustentar toda essa produção é o mercado mundial, e uma retracção deste porá em evidência essa sobreacumulação do capital. Alguém como Aglietta, que estudou isto especificamente, afirma que realmente há sobreacumulação, há um processo acelerado de criação produtiva na China, um processo que, no momento em que terminar – e tem de terminar – a realização de toda essa produção vai levantar problemas. Além disso, a China é realmente um lugar decisivo, porque até pequenas variações na sua economia determinam a conjuntura de muitos outros países no mundo. Foi suficiente que a procura chinesa por bens de investimento caísse um pouco, para que a Alemanha perdesse exportações e entrasse em recessão. As “pequenas oscilações” na China têm repercussões fortíssimas noutros lugares, como deveria ser evidente no caso da Argentina.

Para continuar a pensar e a discutir

E regresso ao que estava a dizer no início. Ainda que sejam comparáveis, as fases desta crise vão ser diferentes das de 29, porque naquela época a crise de superprodução dos Estados Unidos verificou-se desde os primeiros momentos. Depois aprofundou-se, mas soube-se de imediato que se estava diante de uma crise de superpodução. Agora, em contrapartida, estão a adiar esse momento com diversas políticas, mas não vão poder fazê-lo muito mais. Simultaneamente, e como ocorreu também na crise de 29 e nos anos 30, ainda que em condições e sob formas diferentes, a crise combinar-se-á com a necessidade, para o capitalismo, de uma reorganização total da expressão das suas relações de forças económicas no marco mundial, marcando o momento no qual os Estados Unidos verão que a sua superioridade militar é somente um elemento, e um elemento bastante subordinado, para renegociar as suas relações com a China e outras partes do mundo. Ou vai chegar o momento no qual dará o salto para uma aventura militar de consequência imprevisíveis.

Por tudo isto, concluo que vivemos muito mais que uma crise financeira, mesmo estando agora nessa fase, mesmo se o artigo publicado pela Herramienta teve de concentrar-se em tentar iluminar os enredos do capital fictício para entender porque a desmontagem desse capital é tão difícil; mas estamos diante de uma crise muitíssimo mais ampla. Ora bem, tenho a impressão, pelo tom das diferentes perguntas e observações que me fizeram, que muitos são da opinião que estou a pintar um cenário de tipo catastrofista, de desmoronamento do capitalismo… Na realidade, creio que estamos diante do risco de uma catástrofe, mas já não do capitalismo, e sim de uma catástrofe da humanidade. De certa forma, se tomarmos em conta a crise climática, possivelmente já existe algo assim… A minha opinião (junto com Mészáros, por exemplo, mas somos muito poucos os que damos importância a isto) é que estamos diante de um perigo iminente. O dramático é que, de momento, isto afecta directamente populações que não são levadas em conta: o que está a ocorrer no Haiti parece que não tem a menor importância histórica; o que acontece no Bangladesh não tem peso mais além da região afectada; muito menos o que acontece na Birmânia, porque o controlo da Junta militar impede que ultrapasse as suas fronteiras. E o mesmo na China: discutem-se os índices de crescimento, mas não as catástrofes ambientais, porque o aparelho repressivo controla as informações sobre as mesmas.

E o pior é que essa “opinião”, que está a ser constantemente construída pelos média, está interiorizada muito profundamente, inclusive em muitos intelectuais de esquerda. Tinha começado a trabalhar e a escrever sobre tudo isto, mas com o começo desta crise, de alguma forma tive de voltar a ocupar-me das finanças, ainda que não o faça com muito gosto, porque o essencial parece-me que se joga num plano diferente.

Para terminar: o facto de que tudo isto ocorre depois desta fase tão larga, sem paralelo na história do capitalismo, de 50 anos de acumulação ininterrupta (salvo um pequeníssima ruptura em 1974/1975), assim como também tudo o que os círculos capitalistas dirigentes, e em particular os bancos centrais, aprenderam da crise de 29, tudo isso faz com que a crise avance de maneira bastante lenta. Desde Setembro do ano passado, o discurso dos círculos dominantes vem afirmando, uma e outra vez, que “o pior já passou”, quando o certo é que, uma e outra vez, “o pior” estava por vir. Mas insisto no risco de minimizar a gravidade da situação, e sugiro que nas nossas análises e na forma de abordar as coisas deveríamos incorporar a possibilidade, no mínimo a possibilidade, de que inadvertidamente estejamos também interiorizando esse discurso de que, definitivamente, “não acontece nada”…

François Chesnais é um destacado economista marxista, faz parte do Conselho científico do ATTAC-França, é director de Carré rouge e membro do conselho assessor de Herramienta, com a qual colabora assiduamente. La finance capitaliste, último livro publicado sob a sua direcção, está a ser traduzido para o castelhano para ser publicado pelas Ediciones Herramienta.

Esta apresentação foi realizada no encontro organizado pela revista argentina Herramienta em 18 de Setembro de 2008. A transcrição e preparação para a sua publicação é de Aldo Casas.

Tradução de Luis Leiria

1 Karl Marx, ‘O Capital’, Difel, São Paulo, 1983, Livro III, Vol. IV, pág. 287-288. A tradução de Reginaldo Sant’Anna foi ligeiramente retocada pelos editores de O Comuneiro.
2 Idem, pág. 287
3 “El fin de un ciclo. Alcance y rumbo de la crisis financiera”, en Herramienta Nº 37, marzo 2008.

Esquerda Net

Jogo de xadrez geopolítico nos Bálcãs

Grupo São Paulo

O recente conflito armado entre Rússia e Geórgia revelou um labiríntico jogo de xadrez geopolítico na região do Cáucaso, onde grandes potências mediram força e lutaram pelo poder estratégico na região. O objetivo do artigo, nesse sentido, é o de apontar como as peças do xadrez estão estrategicamente sendo mexidas pelos principais protagonistas, diretos ou indiretos, dessa emaranhada e histórica disputa de interesses.

Após a derrocada da União Soviética (URSS), estadunidenses e russos disputam o controle político e financeiro sobre os Bálcãs, sobretudo em relação ao acesso dos recursos petrolíferos do Mar Cáspio. A Geórgia, nessa rede de conflitos, tornou-se um peão fundamental a ser controlado pelos reis desse explosivo tabuleiro.

A rápida resposta bélica da Rússia à repressão do governo georgiano contra os separatistas da Ossétia do Sul parece ter revelado que o anseio russo de retomar o seu posto de grande potência mundial está de volta ou nunca deixou de existir. Esse jogo, na verdade, recomeçou a ser travado a partir de 1991, logo após o desmantelamento do império soviético. Nesse período, os Estados Unidos (EUA) e a União Européia (UE) trataram logo de ocupar o vácuo geopolítico deixado pelos soviéticos, alargando a fronteira da Organização dos Tratados do Atlântico Norte (OTAN), além de comandar o avanço imediato de forças militares.

O troco russo a tal estratégia neoliberal começou a ser dado com a vitória eleitoral de Vladimir Putin em 2000. No transcorrer de seus dois sucessivos governos, Putin fortaleceu o Estado e nacionalizou recursos energéticos – além de a Rússia nunca ter desativado seu arsenal nuclear e potencial militar.

O resultado de toda essa estratégia foi a retomada do crescimento de sua economia, sobretudo em função dos preços do petróleo e das commodities, além de um boom nos setores de consumo e de investimento interno. Significa dizer que, após a derrocada da URSS, o Estado russo venceu a moratória, reconquistou o seu poder econômico e voltou a ter voz ativa internacionalmente.

A república da Geórgia, enquanto isso, tornou-se um forte aliado da política dos EUA e da União Européia. Com a queda do então presidente Edouard Chevardnadze nos anos 90, entrou em cena uma tentativa de modernização neoliberal, na qual o novo governo passou a defender a privatização dos setores da educação e da saúde, além da flexibilização das leis trabalhistas, o que liberou a demissão sumária. Resultado: a economia cresceu em detrimento ao desemprego e à crescente desigualdade social.

Para que isso ocorresse, as autoridades de Tbilisi, capital da Geórgia, começaram a se preocupar em obter o poder absoluto sobre o seu território, o que aumentou as tensões separatistas nas Repúblicas da Ossétia do Sul e da Abkhazia. Na prática, as duas já conquistaram suas independências na década de 90. A luta agora é pelo reconhecimento internacional, o que atrapalharia os planos da Geórgia em sua empreitada para merecer a confiança das grandes potências neoliberais, romper politicamente com a Rússia e conquistar assim uma cadeira na OTAN.

Nesse cabo de guerra, os EUA pretendem, a longo prazo, estabelecer uma posição chave entre a Rússia e o Oriente Médio. Sob a justificativa de que a Geórgia pode ser um exemplo de democracia liberal e burguesa na Ásia Central, os EUA defenderam a política de unificação do governo local, inclusive com treinamento militar, remessas de armas e apoio financeiro.

Revelando que o onipotente delírio norte-americano de ser a única potência militar no planeta está em xeque, os EUA não têm a menor legitimidade para acusar a Rússia de separatismo, porque reconheceram unilateralmente a independência de Kosovo, a fim de desmembrar a Sérvia. Neste caso, nem isso aconteceu, porque tanto a Ossétia do Sul como a Abkházia nunca fizeram parte realmente da Geórgia. Já eram inclusive províncias no Império Czarista.

Nesse contexto, ao enviar tropas para fortalecer a luta separatista da Ossétia do Sul, a Rússia não só buscou a retomada do controle financeiro e do poder político estratégico na região, mas mostrou ao mundo que os EUA não são a única superpotência do planeta. As peças do xadrez geopolítico não se movem apenas de um lado e têm de ser taticamente jogadas.

Guga Dorea, Andrea Paes Alberico, Elisa Helena Rocha de Carvalho, José Juliano de Carvalho Filho, Luiz Eça, Marietta Sampaio, Marilena de Almeida Eça e Thomaz Ferreira Jensen.

Correio da Cidadania
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Obama ao governo, não ao poder

O anunciado triunfo de Barack Obama desencadeou a tradicional enxurrada de notícias e conjecturas jornalísticas acerca das grandes mudanças que poderão se produzir como resultado da chegada de um novo ocupante da Casa Branca. Apesar do significado que envolve o fato de um afro-descendente chegar à presidência dos EUA, o certo é que a importância atribuída ao resultado da eleição do dia 4 foi largamente exagerada. Isso por duas razões.

Primeiro porque se ignora – ou se oculta? – que as mudanças já se produziram e que, longe de ser produto das eleições, foram conseqüência do brutal estouro da mais grave crise geral do capitalismo dos últimos 80 anos. Essa queda do ‘outro muro’ precipitou o fugaz funeral do neoliberalismo, no qual Alan Greenspan confessou que “nada será como até agora”. Em outras palavras, independentemente de quem tivesse sido eleito presidente, as mudanças em uma direção de menos mercado e mais regulação estatal ou menos liberalismo e mais intervencionismo governamental teriam ocorrido de todo modo. Porém, é muito pouco provável que tais mudanças se traduzam em uma desmilitarização da cena internacional, e por uma segunda razão, que é a seguinte: o presidente dos Estados Unidos é uma figura muito mais frágil do que aparenta.

Na realidade, seus poderes se encontram cada vez mais reduzidos pelo incessante fortalecimento do que Dwight Eisenhower chamara de “complexo militar-industrial”, cuja influência econômica, política e inclusive espiritual se estendia por tabela, até alcançar, segundo este presidente, as agências do governo federal. O potencial para um crescimento desastroso deste poder fundado na aliança entre um imenso aparato militar e uma não menos significativa indústria armamentista era uma ameaça às liberdades e à democracia nos Estados Unidos. Na época em que cunhou esta frase, janeiro de 1961, tais poderes na prática eram apenas incipientes: o orçamento militar dos EUA equivalia ao de um punhado de outras nações desenvolvidas. Na atualidade, cresceu exorbitantemente e equivale ao gasto em armamentos de todo o resto do planeta. Esse complexo se entrelaçou com outros setores da economia, em tal grau que sua gravitação conjunta, unida ao fenomenal custo das campanhas políticas, faz dos ocupantes da Casa Branca presas fáceis de seus interesses.

Seguindo os estudos pioneiros de C. Wright Mills, o cientista político mexicano John Saxe-Fernandez comprovou que quem realmente manda nos EUA é um “triângulo do poder”, composto por: a) a Casa Branca, especialmente os departamentos de Defesa, Energia, Tesouro e Estado, a NASA e o enxame de aparatos de inteligência, integrados ao gigantesco Departamento de Segurança Nacional; b) as grandes corporações, sobretudo as vinculadas à produção para a defesa, as indústrias aeroespaciais, de petróleo e gás, incluindo os grandes laboratórios, instituições de investigação, as câmaras empresariais e alguns sindicatos; c) os comitês chaves do Congresso, especialmente pelas Câmaras de Representantes e do Senado em Energia e Recursos Naturais, as Forças Armadas e diversos sub-comitês dedicados aos principais setores da vida econômica.

Nos EUA, como na América Latina, segue sendo válida essa distinção entre chegar ao governo e tomar o poder. Obama chegou ao governo, mas está a anos luz de ter conquistado o poder (no caso de que tenha se proposto). É um sócio menor de uma coalizão em que se aglutinam forças assombrosamente superiores às suas e para as quais as guerras e o saque imperialista são as fontes de seus fabulosos ganhos. Nenhum presidente conseguiu dobrar tais forças, e nada faz pensar que o resultado dessa vez possa ser diferente.

Atílio Boron é doutor em Ciência Política da Universidade de Harvard e professor titular de Teoria Política na UBA (Universidade de Buenos Aires). É autor do livro “Império e Imperialismo. Uma leitura crítica de Michael Hardt e Antonio Negri”, publicado pela editora CLACSO em 2002.

Correio da Cidadania
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Política de mentes partidas

Leonardo Boff

Não sabemos o que é pior no Rio de Janeiro: se a cidade partida entre favela e asfalto ou a política conduzida por mentes partidas entre sociedade e partidos. Mentes partidas são as dos políticos que se orientam mais pelos interesses dos partidos (partido é sempre parte) do que pelos interesses gerais da sociedade. O que assistimos nas últimas eleições para prefeito da cidade foi o predomínio soberano da mente partidária e da convicção ilusória de que os graves problemas da cidade se resolvem a partir da máquina do poder federal, estadual e local. É a velha fórmula que nunca deu certo: esperar as soluções que vêm de cima, da articulação dos poderes públicos, deixando à margem a sociedade e o poder da cidadania.

A gravidade da crise econômica, política, sanitária, educacional e de segurança da cidade que um dia foi “maravilhosa” e cheia de glamour exige uma nova forma de governar, uma alternativa de poder. Não pode ser mais do mesmo. Quer dizer, mais poder de cima para baixo, mais articulação entre os partidos, mais policia e mais repressão. A solução possível só pode vir de baixo para cima. Vale dizer, mais poder no meio do povo, mais envolvimento das comunidades e dos movimentos, mais participação dos cidadãos. O estado deve realizar radicalmente sua natureza e missão: ser a instância delegada do poder popular, o articulador das forças sociais e políticas em vista do bem de todos. O estado tem que se convencer de que não está acima nem de costas dos cidadãos. Ele é seu servidor. A impressão que temos é de que o povo, a cada quatro anos, tem o direito de escolher o seu ditador. Uma vez eleito, o cadidato faz uma política de ditador, palaciana e somente com os pares. A centralidade não é ocupada pelo povo. Geralmente se faz uma política pobre para com os pobres e rica para com os ricos. Essa é a grande partição que aprofunda o apartheid social vigente na cidade.

Assistimos nas últimas eleições o confronto de dois paradigmas politicos. Por um lado, Fernando Gabeira, vindo de larga experiênciano exterior, líder do movimento ecológico, da democracia participativa, numa palavra, representante do pensamento alternativo e da política da democracia sem fim. Inaugurou uma forma nova de fazer campanha política ao redor de promessas às quais foi sempre fiel: não sujar a cidade com outdoors de sua imagem, transparência quanto aos doadores de campanha e jamais fazer acusações ao adversário. O outro, Eduardo Paes, com a maioria dos partidos que o apoiaram, representava a visão velhista e a confiança ingênua de que com as bênçãos e os gestos de subserviência aos poderes de cima – estadual e federal – teria a chave de solução para drama político-social da cidade. Os métodos de campanha foram os mais tradicionais e reprováveis: difamação, panfletos anômicos acusatórios e golpes baixos nos debates públicos.

A miopia dos partidos-parte, muitos deles de esquerda, impediu de ver por onde passava o novo, a alternativa possível que poderia criar um exercício de poder diferente, capaz de suscitar um horizonte de esperança na população e o encaminhamento das complexas questões da cidade.

Não se há de minizar a esperteza politica do governador, própria de uma mente partida, de antecipar o feriado para segunda-feira, quando as eleições se realizariam no domingo. Ele sabe do desinteresse político de tantos que ao invés de votar, preferem sair da cidade para o lazer. Cerca de um milhão de pessoas deixou de comparecer às urnas. Aí estariam seguramente os 54 mil votos que faltaram à vitória da proposta alternativa de Gabeira. Bem comentava um taxista indignado: “fomos governados, por anos, por um garotinho, agora seremos por um rapazinho; o Rio merece destino melhor.”

Só nos resta desejar ao novo prefeito que faça uma administração que supere a partição social e devolva à cidade a visão encantada de mundo que a faz ser maravilhosa.

Leonardo Boff é teólogo. É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística.

Revista Fórum

Entrevista de Stédile ao Globo Amazônia

1.-Durante esta semana, integrantes do MST estão acampados na sede do Incra de Belém exigindo uma mudança da política de reforma agrária na Amazônia. Qual é a proposta do MST para essa mudança?

Não existe uma política de desenvolvimento agrário ou fundiário para a Amazônia. Os governos, seja estadual ou federal, estão aplicando a fórmula tão simples quanto medíocre de apenas distribuir terras públicas em projetos de colonização. Não há uma política efetiva nem planejamento. Os governos federal e estaduais optaram pela distribuição de terras publicas porque não precisam enfrentar o latifúndio e o agronegócio. Dessa forma, não têm desgaste econômico de fazer a Reforma Agrária nem político com o enfrentamento da bancada ruralista. Por outro lado, se transformam em estatísticas boas para propaganda. Ou seja, são iniciativas oportunistas do governo. Um exemplo: apenas a superintendência do Incra em Santarém teria “assentado” para efeito de propaganda mais de 50 mil famílias. Esse número é superior aos seis anos de assentamentos do Governo Lula somando todos os estados da região sul e sudeste.

É fácil prever que na região de Santarém não tem 50 mil famílias. E mesmo que tenham loteado as áreas, se trata de distribuição de terras públicas, onde deus e o diabo se inscrevem no Incra e acabam recebendo título. Não existe um projeto nem uma política de desenvolvimento para a região da Amazônia. As áreas onde há posseiros não têm estrada, luz, escola ou hospital. Uma parte das famílias mais pobres, sem apoio público e formas de gerar renda, se obriga a desmatar os 20% da área para retirar lenha ou produzir carvão para garantir a sua sobrevivência. Com isso, acabam a mercê dos madeireiros, que se aproveitam dos lotes serem legais e exploram a madeira existente em toda a área sem nenhum controle.

Os colonos desses projetos, às vezes, vendem as toras de árvores por preços ridículos; outras vezes, em troca de tábuas para construírem suas casas ou simplesmente para que o madeireiro abra uma estrada para conseguir ir até sua roça. Os colonos pobres são utilizados como massa de manobra para amansar a terra e, atrás deles, vem os madeireiros, os pecuaristas ou latifundiários da soja, que pressionam para comprar suas terras. Com isso, concentra de novo a propriedade da terra, dentro de um círculo vicioso. Está tudo errado.

2.-O MST afirma que defende um modelo de assentamento que respeite o meioambiente e ao mesmo tempo não destrua a floresta. Como funciona esse modelo?

Em primeiro lugar, o governo precisa acabar com projetos de colonização. Somos contra a distribuição de terras públicas pelo Incra e os institutos estaduais para quem quer que seja. Defendemos com os movimentos sociais da Amazônia a política do Desmatamento Zero, junto com o Greenpeace e entidades da sociedade civil. A área atual que já foi desmatada é suficiente para a produção de alimentos e para o desenvolvimento da região. Portanto, devemos fazer um grande acordo nacional para garantir nenhum desmatamento raso de qualquer área da Amazônia daqui pra frente.

Em segundo lugar, o acesso à terra às famílias de trabalhadores rurais pobres que habitam a região deve ser garantido com a desapropriação das grandes fazendas de pecuária que já foram desmatadas. Veja por exemplo o caso do Banco Opportunity: um banco concentra 600 mil hectares de terras no sul do Pará. Daria para assentar 10 mil famílias nessa área! Ou seja, precisamos usar as áreas já degradas e desmatadas para fazer projetos de assentamento, o que é diferente de projeto de colonização sobre áreas públicas.

Os projetos de assentamento precisam de um planejamento para produzir alimentos, de acordo com a vocação agrícola da região, mas também para a produção de leite e frutas e para a criação de pequenos animais. Precisamos combinar a criação do assentamento com a instalação de pequenas e médias agroindústrias cooperativadas para gerar mais renda aos assentados. Com isso, será possível dar valor agregado, industrializar e conservar os alimentos, que poderão ser transportados para regiões urbanas como Santarém, Belém, Manaus, Porto Velho, Marabá, onde se concentra o mercado consumidor da região.

Além disso, em cada projeto é preciso construir uma agrovila, melhorando as
condições de vida dos assentados, com luz elétrica, escolas, hospitais, lazer e estrada com segurança. Assim, termina a burrice do Estado brasileiro de colocar famílias de colonos no meio do mato, como se fossem bichos, inviabilizando seu desenvolvimento social e econômico e, depois de derrubada parte da mata, sem condições de gerar renda e garantir a sobrevivência, elas mudam para a cidade e deixam a terra amansada para grande fazendeiro. Precisamos acabar com esse circulo vicioso na região com uma política efetiva do Estado.

3.- O MST dá algum tipo de orientação aos assentados no sentido de evitar que desmatem?

Claro. Lutamos por um outro modelo de uso da terra e produção e (como expliquei acima) somos contra qualquer desmatamento. No entanto, infelizmente, em muitas regiões, trabalhadores rurais recebem essas terras em condições totalmente adversas, em locais afastados do mercado consumidor e sem apoio público, e compreendemos que, para não morrerem de fome, acabam desmatando.

4.-Por que o MST é contra a criação de um novo órgão para a regularização fundiária na Amazônia, como propõe o ministro Mangabeira Unger?

O desafio para a Amazônia foi apresentado pelo próprio ministro: trata-se de ter uma política de desenvolvimento e um re-ordenamento fundiário claro, que permita a todos terem os títulos da propriedade. Mas para isso, não se precisa gastar tempo e dinheiro com um novo órgão, mas ter uma decisão política, coordenar e articular as ações do Incra com os institutos de terra estaduais e com o Ibama. Desconfiamos que a criação de um novo órgão, como foi o GETAT, pode ser apenas uma política centralizadora para facilitar a liberação de latifúndios para grandes grupos econômicos de forma mais rápida, como quer grandes empresas e especuladores.

O problema não é de órgão público, mas a ausência projeto para a região a partir de uma reflexão do futuro do nosso país. Infelizmente, até agora, mesmo no governo Lula, predomina para a região amazônica apenas o modelo de dominação do grande capital nacional aliado com as transnacionais, que enxergam na Amazônia apenas uma grande reserva de acumulação de capital. Para isso, empresas nacionais e estrangeiras como a Companhia Vale e grandes bancos estão investindo bilhões em hidrelétricas, siderúrgicas e em empreendimentos de exploração de minerais e extração de madeira. Tudo isso vai enriquecer o capital internacional, enquanto o povo da região seguirá passando necessidades. Basta ver que povoados a 60 km da hidrelétrica de Tucuruí, a 2ª maior do mundo, ainda não têm luz elétrica. Isso acontece porque o objetivo dessa obra é viabilizar a produção de alumínio para exportação, não melhorar de vida do
povo local.

5.-Há uma reclamação muito forte do setor agropecuário sobre a exigência de manter 80% da mata preservada nas propriedades rurais da Amazônia. Vocês concordam com essa porcentagem?

Isso é o mínimo necessário. Os grandes grupos capitalistas brasileiros e internacionais gostariam de desmatar tudo e, infelizmente, tanto fazendeiros como empresas que atuam na Amazônia, se comportam como gigolôs da natureza. Querem a exploração máxima, não importa as gerações futuras nem e a Constituição brasileira, que determina que os recursos naturais pertencem ao povo. Por isso, para impedir esse avanço sobre a floresta, defendemos o Desmatamento Zero.

6.- Assentados do norte de Mato Grosso se queixam de terem lotes muito pequenos. Numa região como aquela, qual seria o tamanho adequado dos lotes para que se pudesse garantir a subsistência de uma família e manter a reserva legal? Que tipo de atividade os assentados deveriam desenvolver lá?

O problema não é o tamanho do lote. Se conceder 50 hectares, vão querer 100, se der 100 vão querer 200; e os latifundiários acham 5 mil ou 10 mil ainda pouco. O problema – como expliquei acima – é que precisamos de uma política de desenvolvimento, na qual os trabalhadores rurais pobres e assentados possam melhorar de vida e aumentar a renda com seu trabalho. Isso não depende exclusivamente do tamanho do lote. Quem quer mais e mais terra é porque sonha em retirar madeira e ver se tem garimpo… Uma família pode viver muito bem com 15 hectares se tiver apoio público para desenvolver atividades que geram renda, como a combinação do assentamento com uma agroindústria.

7.-No ranking das maiores autuações ambientais realizadas pelo Ibama desde 2006, publicada recentemente pelo Ministério do meio Ambiente, o Incra aparece no topo da lista. Se defendendo, o órgão disse que não é ‘razoável’ comparar assentados a grandes desmatadores. Qual a posição do MST em relação à lista divulgada pelo Ministério do meio Ambiente?

A “condenação” do Incra foi uma manipulação vergonhosa de técnicos mal intencionados do Ibama, que entregaram a lista para o Ministro sem nenhum critério. Depois, a imprensa manipulou mais ainda, apenas tentando colocar a culpa nos assentados. Vários grandes jornais, que não entendem nada de Amazônia, como o jornal O Globo do Rio Janeiro, colocaram em manchetes o MST como campeão de desmatamento, apesar de nenhum daqueles projetos serem do nosso movimento e termos esclarecido previamente isso à imprensa. Nenhuma das áreas da lista advém de projeto de reforma agrária, mas de projetos de colonização. Ou seja, dentro de uma política que beneficia latifundiário, madeireiras e grandes empresas, não uma política de reforma agrária.

A cobertura da imprensa sobre esse caso demonstra a manipulação dos grandes monopólios da informação, que usam seu poder para lutar contra a Reforma Agrária. Ninguém fez manchete sobre os 600 mil hectares do Banco Opportunity, do sr Daniel Dantas, fazendo desmatamento. Ninguém faz manchete dos desmatamentos da Vale e suas agressões do meio ambiente para retirar mineiros, enviar para a China e depois depositar o lucro na conta de acionistas no exterior. O povo brasileiro e, principalmente, os povos da Amazônia só ficam com a destruição e com o desmatamento. Isso ninguém fala. Infelizmente, o ministro do Meio Ambiente também se prestou a essa manipulação.

8. O senhor concorda com a idéia de que a reforma agrária no arco do desmatamento é uma válvula de escape para a questão fundiária em áreas do Sul/Sudeste do país? A reforma agrária na região é, de fato, viável?

O governo Lula repete a política do governo FHC e usa os projetos de colonização, a distribuição de terras públicas na Amazônia para criar estatísticas e “provar” que está fazendo Reforma Agrária. Reforma Agrária é desconcentração da propriedade da terra, com a divisão de grandes propriedades e distribuição aos pobres. Estamos assistindo à maior concentração da propriedade da terra da história, desde o último século. Ou seja, está em curso uma política real de contra-reforma agrária. Isso está acontecendo em todas as regiões agrícolas do país, em especial no centro-oeste e na Amazônia.

Globo Amazônia

AINDA POTÊNCIA

PARA O FILÓSOFO ALEMÃO JÜRGEN HABERMAS, FUTURO POLÍTICO DO PLANETA DEPENDERÁ DA POSIÇÃO QUE OS EUA ADOTAREM NOS PRÓXIMOS ANOS

O novo presidente precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street e se afastar dos reflexos de um novo protecionismo

THOMAS ASSHEUER

Um dos mais importantes filósofos vivos, o alemão Jürgen Habermas fala nesta entrevista sobre os efeitos da atual crise financeira sobre o futuro dos Estados nacionais. Para ele, as mudanças que o sistema político mundial sofrerá nos próximos anos irá depender necessariamente das posições que os EUA -e seu novo presidente- irão adotar.
Habermas defende que os EUA, mesmo enfraquecidos, ainda permanecerão como a superpotência liberal.

PERGUNTA – O sr. deve estar decepcionado com os EUA, que, em sua opinião, foram o cavalo de tração da nova ordem mundial.
JÜRGEN HABERMAS – O que nos resta a não ser apostar nesse cavalo de tração? Os Estados Unidos sairão enfraquecidos da dupla crise atual. Mas permanecerão por enquanto a superpotência liberal. A exportação mundial da própria forma de vida correspondeu ao universalismo falso, centralizado, dos velhos ricos. Em contraposição, a modernidade se alimenta do universalismo descentralizado do respeito igual por cada um. É do próprio interesse dos EUA não somente deixar de lado seu posicionamento contraproducente em relação à ONU, mas também colocar-se no topo do movimento reformista. Do ponto de vista histórico, a combinação de quatro fatores oferece uma constelação extraordinária: superpotência, mais antiga democracia na terra, a posse de um presidente liberal e visionário e uma cultura política na qual orientações normativas encontram um notável solo de ressonância. Os EUA sentem-se hoje profundamente inseguros devido ao fracasso da aventura unilateral, à autodestruição do neoliberalismo e também ao mau uso de uma consciência de excepcionalidade. Por que essa nação não poderia, como fez com tanta freqüência, recompor-se de novo e tentar integrar a tempo as grandes potências concorrentes de hoje -e potências mundiais de amanhã- em uma ordem internacional que prescinda de uma superpotência? Por que um presidente -que, saído de uma eleição decisiva, irá encontrar somente um espaço mínimo de ação- não desejaria, pelo menos na política externa, agarrar essa oportunidade razoável, essa oportunidade da razão?

PERGUNTA – Falando assim, o sr. não arrancaria mais do que um riso cansado dos chamados “realistas”…
HABERMAS – O novo presidente americano precisa se impor contra as elites dependentes de Wall Street no próprio partido; ele também deveria ser afastado dos reflexos evidentes de um novo protecionismo. E os EUA precisariam, para uma meia-volta tão radical, do impulso amigável de um aliado leal, mas autoconsciente. Só pode existir um Ocidente “bipolar”, no sentido criativo, se a União Européia aprender a falar para fora com uma só voz. Em épocas de crise, talvez seja necessária uma perspectiva que tenha um alcance mais longo do que o conselho do “mainstream” embonecado do sucesso a qualquer custo.

PERGUNTA – O sistema financeiro internacional entrou em colapso, e há a ameaça de uma crise econômica mundial. O que mais o inquieta?
HABERMAS – O que mais me inquieta é a injustiça social, que consiste no fato de que os custos socializados oriundos da pane do sistema atingem da forma mais dura os grupos sociais mais vulneráveis. Assim, solicita-se da massa composta por aqueles que, de qualquer modo, não pertencem aos que lucram com a globalização que ela de novo pague pelas conseqüências, em termos da economia real, de uma falha funcional previsível do sistema financeiro. Também em escala mundial, esse destino punitivo efetua-se nos países mais fracos economicamente. Esse é o escândalo político. Mas apontar agora bodes expiatórios, isso, sem dúvida, considero hipocrisia. Também os especuladores comportaram-se de forma conseqüente, nos limites da lei, de acordo com a lógica, aceita socialmente, da maximização dos ganhos. A política se torna ridícula quando moraliza, em vez de se apoiar no direito coativo do legislador democrático. Ela, e não o capitalismo, é responsável pela orientação voltada ao bem comum.

PERGUNTA – Para os neoliberais, o Estado é somente um parceiro no campo econômico e precisa se apequenar. Agora esse pensamento não tem mais crédito?
HABERMAS – Isso dependerá do desenrolar da crise, da capacidade de percepção, por parte dos partidos políticos, dos temas públicos.

PERGUNTA – Por que o bem-estar é hoje distribuído de forma tão desigual? O fim da ameaça comunista desinibiu o capitalismo ocidental?
HABERMAS – O capitalismo contido no âmbito dos Estados nacionais, cercado por políticas econômicas keynesianas, marcado por um bem-estar incomparável -do ponto de vista histórico-, já havia acabado logo após o abandono do câmbio fixo e do choque do petróleo. De fato, a ruína da União Soviética desencadeou um triunfalismo fatal no Ocidente. A sensação de ter razão, em termos da história mundial, tem um efeito sedutor. Neste caso, inchou uma doutrina político-econômica e a tornou uma visão de mundo que penetra em todas as esferas da vida.

PERGUNTA – De que o mundo sentiu falta depois de 1989? O capital simplesmente se tornou poderoso demais diante da política?
HABERMAS – Ficou claro para mim, ao longo dos anos 1990, que as capacidades políticas de ação precisavam crescer atrás dos mercados, no plano supranacional. À globalização econômica deveria ter seguido uma coordenação política mundial e a legitimação adicional das relações internacionais. Mas as primeiras peças adicionais já ficaram atoladas no governo de Bill Clinton. Desde o início da modernidade, o mercado e a política sempre precisaram se contrabalançar de forma que a rede de relações solidárias entre os membros de uma comunidade política não se rompesse. Uma tensão entre capitalismo e democracia sempre existe porque mercado e política repousam sobre princípios opostos.

PERGUNTA – Mas o sr. insiste no cosmopolitismo de Kant e acolhe a idéia de uma política interna mundial, introduzida por Carl Friedrich von Weizsäcker. Isso soa bastante ilusório -basta que se observe o estado atual das Nações Unidas.
HABERMAS – Mesmo uma reforma basilar das instituições centrais das Nações Unidas não seria suficiente. De fato, o Conselho de Segurança, o Secretariado, as cortes de Justiça precisariam urgentemente entrar em forma para uma imposição global dos direitos humanos e da proibição da violência -em si já uma tarefa imensa. Nesse plano transnacional, há problemas de distribuição que não podem ser decididos do mesmo modo que infrações contra os direitos humanos ou violações de segurança internacional, mas precisam ser negociados de forma política.

PERGUNTA – Mas para isso já existe uma organização experimentada, que é o G-8.
HABERMAS – Isso é um clube exclusivo, no qual algumas dessas questões são discutidas de forma descomprometida. Entre as expectativas exageradas que se ligam a essas encenações e o resultado medíocre do espetáculo midiático sem conseqüências, existe uma desproporção traiçoeira.

PERGUNTA – O discurso sobre a “política interna mundial” soa antes como os sonhos de um vidente.
HABERMAS – Ainda ontem a maioria consideraria não realista aquilo que ocorre hoje: os governos europeus e asiáticos superam-se mutuamente em sugestões de regulamentações em vista da institucionalização insuficiente dos mercados financeiros.

PERGUNTA – Mesmo que novas competências fossem atribuídas ao Fundo Monetário Internacional, isso ainda não seria uma política interna mundial.
HABERMAS – Não quero fazer previsões; em vista dos problemas atuais, o que podemos fazer, na melhor das hipóteses, são considerações construtivas. Os Estados nacionais deveriam, de forma crescente e, com efeito, em seu próprio interesse, se perceber membros da comunidade internacional. Quando hoje falamos de “política”, estamos amiúde falando da ação de governos que herdaram uma autoconcepção como atores coletivos, que decidem de forma soberana. Mas essa autoconcepção de um Leviatã, que, desde o século 17, se desenvolveu junto com o sistema de Estados europeu, hoje já não é mais vigorosa. O que chamávamos ontem de “política” muda diariamente seu estado.

PERGUNTA – Mas como isso se coaduna com o darwinismo social, que, como o sr. diz, se expande novamente na política internacional desde o 11 de Setembro?
HABERMAS – Talvez se devesse dar um passo atrás e observar uma conjuntura maior. Desde o final do século 18, o direito e a lei permearam o poder do governo, constituído politicamente, e lhe negaram, na circulação interior, o caráter substancial de um simples “poder”. Mas ele guardou para si uma quantidade suficiente dessa substância, apesar da rede de organizações internacionais e da força de coesão crescente do direito internacional. Ainda assim, o conceito de “político”, cunhado no âmbito do Estado nacional, está se liquefazendo. Na União Européia, por exemplo, os Estados-membros, no passado e no presente, guardam o monopólio da força e também transpõem, mais ou menos sem reclamações, o direito que é determinado na esfera supranacional. Essa mudança de forma do direito e da política também se relaciona a uma dinâmica capitalista que pode ser descrita como interação entre abertura forçada funcionalmente e fechamento sociointegrativo em níveis cada vez mais elevados.

PERGUNTA – O mercado arromba a sociedade, e o Estado social a fecha novamente?
HABERMAS – O Estado social é uma proeza tardia e frágil. Os mercados e as redes de comunicação sempre em expansão já tiveram uma força de arrombamento, que, para o cidadão individual, é, ao mesmo tempo, individualizante e libertadora. A isso, porém, sempre seguiu uma reorganização das velhas relações de solidariedade numa moldura institucional expandida. Esse processo iniciou-se no início da modernidade, quando os estamentos dirigentes da Alta Idade Média se tornaram, passo a passo, parlamentares -como na Inglaterra- ou foram subjugados por reis absolutistas -como na França. Essa domesticação jurídica do Leviatã e do antagonismo entre as classes não foi simples. Mas, pelas mesmas razões, a bem-sucedida constitucionalização do Estado e da sociedade aponta hoje, após um surto de globalização econômica, para uma constitucionalização do direito internacional e da esfacelada sociedade mundial.

A íntegra desta entrevista saiu no “Die Zeit”. Tradução de Erika Werner.

Jornal Folha de S. Paulo
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