Daily Archives: 02/11/2008

Capitalismo: com ou sem cafeína?

PONTO POR PONTO – Slavoj Zizek, filósofo, psicanalista, sociólogo e crítico cultural; nosso hedonismo castrado não entende crises como a que hoje abala o mundo financeiro

Laura Greenhalgh

Para que serve um filósofo hoje? Slavoj Zizek é rápido no gatilho, prezados leitores. Saca do coldre e dispara: “Nada”. Desligue-se o gravador e paremos por aqui. Mas então vem a saraivada: “Pensam que os filósofos têm respostas para tudo. Eu não tenho. O que faço é propor indagações. Nosso problema não é buscar respostas verdadeiras, mas livrarmo-nos das falsas perguntas”. A explicação é feita aos pulos, entremeada de exclamações e rompantes de bom humor. Nascido em 1949 na cidade de Liubliana, hoje capital da Esvolênia (na ex-Iugoslávia), Zizek é festejado como a grande novidade da filosofia européia das últimas décadas, fama que tem a ver com os cursos que ministra em universidades americanas como Colúmbia e Princeton. Filósofo, psicanalista, sociólogo, crítico cultural e cinéfilo de longa estrada (um perito em Hitchcock), ele chegou a se candidatar à presidência da Eslovênia, mas as urnas foram sábias ao mandá-lo de volta para casa, ao encontro dos livros. Escreve muito. Tão apaixonadamente como fala.

Na semana passada, Zizek passou pelo Brasil para lançar o livro Visão em Paralaxe (ed. Boitempo). É trabalho relativamente recente, numa obra já com dezenas de títulos. Na agenda do lançamento, deu uma palestra no câmpus da UFRJ, com auditório superlotado e ouvintes ilustres, entre eles o compositor Caetano Veloso. Depois, em São Paulo, gravou um Roda Viva na TV Cultura, onde, entre afirmações de impacto, explicou por que “detesta” o carnaval brasileiro, a onda neobudista e o que há de subliminar na imagem de herói de guerra do republicano John McCain. Na véspera do programa, concedeu esta entrevista exclusiva ao caderno Aliás.

Bicho político, define-se como um “comunista pessimista”, rindo às pampas do cruzamento. “Sabe, pintou aquela crise na intelectualidade européia de, na velhice, voltar às origens. Gilles Deleuze morreu escrevendo sobre Marx. Gianni Vattimo até parou de falar em religião para revisitar o passado comunista. Eu, para dizer a verdade, voltei a ser hegeliano. Profundamente hegeliano.” Isso tem a ver com a “análise paraláctica da realidade”, que propõe no livro, correndo o risco de afugentar os leitores mais assíduos. Inclusive Caetano. Mas o que Zizek desenvolve é um método de interpretação: trata-se de chegar a ponto de vista sempre mutável, localizado entre dois outros pontos que se confrontam, sem mediação possível. Difícil? Aviso aos leitores de primeira viagem: as formulações do filósofo espantam, mas os exemplos são diretos, simples e bem divertidos.

FALANDO EM PARALAXE

“As pessoas perguntam por que dei esse nome ao livro e a pista está no título da introdução: “O materialismo dialético bate à porta”. Hoje nosso grande problema filosófico chama-se Hegel. Interpretações clássicas de seu pensamento já não funcionam, contudo preciso voltar a ele: a análise por paralaxe não enxerga a sociedade como um bloco unitário, mas como algo fraturado. Ela nos coloca diante do fato de que toda verdade é parcial. Sendo parcial, não podemos ser neutros. E, não sendo neutros, precisamos nos engajar. Volto a antigas questões do hegelianismo, avançando por outros campos de estudo, como o cognitivismo, ainda esnobado pelos psicanalistas.

CÉREBRO, CÉREBRO…

“Quando falo de cognitivismo, falo de estudos do cérebro e genética. Cientistas hoje podem conectar seu cérebro a um computador. A máquina não vai ler pensamento, mas já pode registrar ordens cerebrais básicas, como ‘senta’, ‘levanta’, ‘vire’. Investiga-se também a possibilidade de videogames mais simples serem acionados pelo cérebro. Isso mexe com nossa identidade, porque começaremos a nos sentir divinos. Até hoje admitimos que apenas um ser, Deus, pode pensar algo e fazer acontecer. Começa a não ser bem assim… Imagine quanto as ciências do cérebro poderão servir a projetos militares? Já pensou nisso? Pois bem, estudo o cognitivismo – e me baseio nos primeiros cognitivistas, não em best-sellers como (o filósofo americano)Daniel Dannett – para saber em que ponto exato esse campo científico vai precisar da psicanálise. Procuro o momento em que o efeito revela a causa.

FUKUYAMA E O FIM DE TUDO

“Muito intelectual diz que Francis Fukuyama (filósofo e economista) é um idiota por ter previsto o fim da história. E depois sai por aí se comportando como um ‘fukuyamista’, não entendo. No passado, quando éramos jovens e esquerdistas, procurávamos o socialismo com face humana. Hoje procuramos o capitalismo liberal de face humana: queremos bem-estar, trabalho, educação, saúde, previdência, sem questionar o edifício do capitalismo liberal. Então, por que atacar Fukuyama? Anunciar o ‘fim das coisas’ é um comportamento que se repete na história, embora também seja uma idéia característica da pós-modernidade: Marx, no seu tempo, vislumbrou o fim do capitalismo. Há cem anos Lenin disse que o imperialismo dava o último suspiro. Mao, 50 anos atrás, previu a decomposição do capitalismo no prazo de uma década. E o capitalismo está aí. Com problemas, mas com capacidade de se reinventar. O grande enigma do sistema, hoje, é o que vai acontecer com a China. Até quando ela vai se manter dentro do modelo autoritário? Nietzsche dizia que quanto mais dinâmico for o capitalismo, mais ele necessitará de democracia. Então concluo que a democracia chinesa chegará em dez anos. Isso terá um impacto tremendo no mundo.

FABRICAÇÃO DE BOLHAS

“Ah, não estou abalado com o tremor dos mercados. Eles que se ajeitem. O que me interessa é pensar noutra dimensão. A crise financeira atual talvez seja eco da crise de 2001, aquela da bolha da internet. Lá atrás assistimos à queda violenta das ações do setor digital. E o que fez o governo americano? Em vez de cuidar para que a economia voltasse a funcionar com equilíbrio, direcionou recursos para turbinar o setor imobiliário. Gestou outra bolha. Estamos recebendo mais uma dura lição de que a economia não pode ficar solta, ao sabor dos mercados. Mais do que nunca, a economia precisa da política. Veja no que se transformou Bill Gates no espaço de alguns anos. Virou o maior proprietário privado no domínio intelectual. Hackers me dizem que outros sistemas operacionais são bem melhores que o Microsoft, mas Gates conseguiu impor seu modelo, garantiu a propriedade de algo que não foi feito por ele, mas por muitos, vende para o mundo todo e tornou-se o homem mais rico do planeta. Dominou o mercado global e até subjugou o governo americano, que tentou conter sua escalada. Casos assim precisam ser estudados.

CHAMEM FREUD, LACAN…

“Só se fala em ‘crise de confiança’ dos mercados e não há nada de estranho nisso. Ao mesmo tempo em que o capitalismo é materialista, é também profundamente idealista. Materialista no sentido de dinheiro, da competição, do lucro. E idealista no sentido de que as relações ainda se dão na base da confiança e credulidade. O problema é mais profundo: na sociedade liberal, você precisa seguir formas de polidez, convivência, regras do que fazer e do que não fazer, ou você é expelido. Não existe a liberdade 100% individual, de fazer o que quiser, como e quando quiser, mas a liberdade individual com substância social. O problema nos Estados Unidos é que se achou por bem tornar essas regras explícitas nos códigos do politicamente correto, quando há regras sociais que até precisam ficar implícitas. Só que os mercados nada têm de politicamente corretos. Essa ‘crise de confiança’ precisaria ser analisada por gente da psicanálise. Economistas não darão conta.

TOLERÂNCIA, O ENGODO

“Quer outro paradoxo? Vivemos nessa grande sociedade livre, no mundo ocidental, mas nunca erguemos tantas barreiras como agora: destruímos o Muro de Berlim, entretanto erguemos outro para separar os palestinos, outro para impedir a entrada de mexicanos nos EUA, sem falar nos muros invisíveis que cercam imigrantes na Europa. Em termos ideológicos, a sociedade não está me pedindo nada e ainda me diz que eu posso tentar uma espiritualização ao estilo dalai-lama. Quer ver outra mistificação? O conceito de tolerância. Cai bem: seja tolerante com este ou aquele. Ridículo! Há uma brutalidade intrínseca no conceito de tolerância, que significa: ‘Não se aproxime de mim, fique onde está e tudo bem’.

FELICIDADE ‘FAT FREE’

“Com o que você sonha? Produtos. Muitos. Eles garantem seu prazer, mas também liberam substâncias perigosas. Você vai ter que optar: sorvete com açúcar ou sem açúcar? Cerveja com álcool ou sem álcool? Chocolate com gordura ou sem gordura? São variações desse hedonismo castrado a que estamos submetidos. Você quer o prazer, mas vai pagar um preço por ele. Seguindo essa linha de raciocínio, penso que estamos na era da política descafeinada. Há uma enormidade de problemas sociais a enfrentar, mas daí convocamos nosso multiculturalismo liberal que parece tudo resolver. Eu tolero o Outro, deste que seja um Outro descafeinado também, desprovido de tudo aquilo que possa me incomodar. Não é à toa que, tanto nos Estados Unidos quanto em países europeus, multiplicam-se os cutters, pessoas que se automutilam, cortam a própria pele com facas e navalhas. Não é protesto, nem seita, mas a tentativa de restabelecer a conexão consigo mesmo. Não concordo em tudo com Giorgio Agamben (filósofo italiano), mas esse ‘invisível social’ do qual queremos distância, e até negamos a existência, é uma tendência perigosa da globalização mundial.

CRISE VIRTUAL, EFEITO REAL

“Dinheiro para acumular, comprar, gozar. Agora, dinheiro para acalmar os mercados, talvez amanhã para nos livrar do fim do mundo. Certo, mas alguma coisa mudou nesse jogo. Um aspecto que precisamos considerar é a virtualização do dinheiro. Não que se tenha parado de imprimir cédulas, mas virou coisa virtual. Tente imaginar o que seriam, em termos espaciais, US$ 700 bilhões, a ajuda do Tesouro americano aos bancos. Impossível. Mas você acredita que esse dinheiro existe, não? Vivemos dias em que operações financeiras virtualizadas são disparadas para nos poupar de tragédias reais. O dinheiro vai sumir em seu aspecto físico. Vai perder força simbólica e, por isso mesmo, sistemas financeiros tenderão a ficar mais vulneráveis. Lembra do tal bug do milênio? Foi a primeira crise global da pós-modernidade. Disseram que os sistemas tecnológicos, todos, iriam desaparecer. Isso foi um fiasco, mas a crise existiu. Naquela passagem de ano eu estava em Nova York e fiquei ligado no ano-novo que rompia em países do outro lado do mundo. Ok, gente, parece que o ano virou bem na Austrália. Virou bem no Japão… Rudolph Giulianni, que era prefeito de lá, fez um comunicado à população dizendo que estava preparado para qualquer emergência. Depois foi se esconder num abrigo nuclear nas redondezas. Não é o máximo? Precisamos nos habituar a catástrofes em que o real não acontece, mas somos afetados.

FALSAS URGÊNCIAS

“Interpretamos a realidade com categorias antigas – liberalismo, marxismo, niilismo, que hoje em dia se diz que está crescendo… Bobagem, nunca fomos tão dispostos a acreditar em alguma coisa. Minha recomendação é: na crise, volte-se para dentro. Volte às teorias. É tempo de pensar. Rejeito as urgências que nos impingem: ‘Oh, meu Deus, tem gente passando fome, estão ameaçando a saúde do planeta, os bancos vão derreter, há um novo vírus….’ Chega! É evidente que preciso me preocupar com a pobreza, mas deixe-me pensar sobre o que fazer. Não me imponham o discurso da caridade, que muitas vezes significa ‘faça, mas não pense’. É a situação que se criou agora: despejam bilhões em instituições financeiras, sem nem ao menos entender o problema.

DAS COISAS DE DEUS

“Difícil ser ateu hoje, basta ver como as religiões mobilizam mais do que a política. Por isso eu, ateísta confesso, defendo o legado do cristianismo. A principal função de uma religião é dar sentido à experiência humana. Nesse sentido, é completamente original a idéia do Deus que morre, depois se transforma em Espírito Santo e sobrevive na comunidade dos fiéis. Aquela comunidade de cristãos dos tempos de Cristo foi o primeiro partido revolucionário de que se tem notícia. O poeta Paul Claudel, grande conservador francês, disse: ‘Deus nada pode sem nós’. Isso me fascina, não à toa escrevi três livros sobre cristianismo. Ouviu falar em neuroteologia? É um campo de pesquisa em que, pela manipulação de neurônios, tenta-se despertar no cérebro sensações da experiência religiosa. Neuroteólogos acham que, dentro de anos, teremos a experiência mais transcendental de Deus. Vamos ver.

DARWINISMO

“Sou a favor. Mas do darwinismo autêntico, não dessas versões que circulam por aí. Autêntico como o de Stephen Jay Gould, que parte do princípio de que a natureza é o grande caos, então você pode vencer por ser mais forte, não por ser melhor. Até porque o meio pode mudar. E, mudando, aquilo que era a minha força, poderá se converter em fraqueza. Questiono esse falatório dos materialistas agressivos, muito na moda nos Estados Unidos, como Richard Dawkins, Daniel Dannett, Christopher Hitchens, Sam Harris. Porque ficou ‘fashion’ matar Deus. Só que esse materialismo nem sequer reflete o que anda pensando a maioria dos americanos – infelizmente, a maioria continua enlouquecida, acreditando que Deus criou o mundo com hora marcada. Assim como tem a turma do materialismo radical e do criacionismo louco, tem a turma que surfa num orientalismo difuso. Então eu olho para o legado do cristianismo. Que, na sua origem, era ateu.”

EFEITO REAL
“Precisamos nos preparar para as panes virtuais que de fato
nos afetam”

QUE TEMPOS…
“A economia hoje precisa da política, que, por sua vez, mobiliza menos que a religião”

O Estado de São Paulo

O idealizador da revelação divina

Sábio cristão afirmava que o homem só tem acesso ao conhecimento quando iluminado por Deus

Embora tenha vivido nos últimos anos da Idade Antiga – que se encerrou com a queda do Império Romano, no ano de 476 –, Santo Agostinho (354-430) foi o mais influente pensador ocidental dos primeiros séculos da Idade Média (476-1453). A ele se deveu a criação de uma filosofia que, pela primeira vez, deu suporte racional ao cristianismo. Com o pensamento de Santo Agostinho, a crença ganhou substância doutrinária para orientar a educação, numa época em que a cultura helenística (baseada no pensamento grego) havia entrado em decadência e a nova religião conquistava cada vez mais seguidores, mesmo se fundamentando quase que exclusivamente na fé e na difusão espontânea.

Outros pensadores já haviam se dedicado à revisão da cultura clássica (greco-romana) para adaptá-la aos novos tempos. Havia nisso algo de estratégico, já que o paganismo ainda continuava vivo na Europa e em regiões vizinhas. Era uma forma de mostrar aos indecisos que a conversão ao cristianismo não seria incompatível com maneiras de viver e de pensar a que estavam acostumados. Entre os pensadores gregos, o que mais se prestava à construção de uma filosofia cristã era Platão (427-347 a.C.), e a escola de pensamento hegemônica nos primeiros séculos da Idade Média ficou conhecida como neoplatonismo.

Biografia
Aurelius Augustinus, que passaria para a história como Santo Agostinho, nasceu em 354, em Tagaste (hoje na Argélia), sob o domínio romano. Embora sua mãe fosse cristã, Agostinho não se interessou por religião quando jovem. Sentia-se atraído pela filosofia romana. Antes dos 20 anos já tinha um filho, de uma relação não formalizada. Em pouco tempo, abriu uma escola na sua cidade natal. Tornou-se professor de retórica, lecionando depois em Cartago, Roma e Milão. Nesta cidade, tomou contato com o neoplatonismo e, aos 32 anos, converteu-se ao cristianismo. De volta a Tagaste, decidido a observar a castidade e a austeridade, vendeu as propriedades que herdara dos pais e fundou uma comunidade monástica, onde pretendia se isolar. Mas, sem que planejasse, foi nomeado sacerdote da igreja de Hipona, função que manteve até a morte, em 430. Suas obras principais são Confissões, Cidade de Deus e Da Trindade.

Ensino e catequese
À medida que a Igreja se tornava a instituição mais poderosa do Ocidente, a filosofia de Santo Agostinho definia a cultura de seu tempo. Educação e catequese praticamente se equivaliam – as escolas eram orientadas para a formação de membros do clero, ficando em segundo plano a transmissão dos conteúdos tradicionais. O conhecimento tinha lugar central na filosofia de Santo Agostinho, mas ele se confundia com a fé. Diante disso, a educação daquela época – conhecida como patrística, em referência aos padres que a ministravam – estimulava acima de tudo a obediência aos mestres, a resignação e a humildade diante do desconhecido. O objetivo era treinar o controle das paixões para merecer a salvação numa suposta vida após a morte.

O INÍCIO DA ERA CRISTÃ

Santo Agostinho presenciou a decadência do Império Romano. No ano de 312, pouco mais de quatro décadas antes de seu nascimento, o imperador Constantino havia oficializado o cristianismo em toda a região sob seu domínio – que sofria ataques contínuos dos povos bárbaros. Um ano antes da morte de Agostinho, em 430, os vândalos haviam invadido sua região natal, na África. A queda do império romano aconteceria 36 anos depois da morte do filósofo, com a deposição do último monarca pelos germânicos. Os quase mil anos seguintes seriam englobados pelos historiadores no período da Idade Média, que tem entre suas características principais o domínio da Igreja Católica sobre quase todas as atividades humanas. A filosofia de Santo Agostinho domina a primeira fase da Idade Média (mais ou menos até o século 11), marcada por guerras constantes, decadência das cidades, pulverização do poder político e internacionalização da cultura por meio da Igreja. É uma época em que a educação é eminentemente religiosa e a ciência avança pouco e se difunde menos ainda.

Não é por acaso que a obra principal de Santo Agostinho seja Confissões, em que narra a própria conversão ao cristianismo depois de uma vida em pecado. Trata-se de uma trajetória de redefinição de si mesmo à luz de Deus, culminando com a redenção. O livro descreve a busca da salvação, ao mesmo tempo psicológica e filosófica. Tal procura se transformaria numa espécie de paradigma da vida terrena para os cristãos e vigoraria durante séculos como princípio confessional.

Toda a reflexão de Santo Agostinho parte da indagação sobre o conhecimento, introduzindo a razão, o pensamento e os sentidos humanos no debate teológico. Segundo o filósofo, os sentidos nunca se enganam e, portanto, o que eles captam é, para o ser humano, a verdade. Dizer que essa verdade constitui a verdade do mundo, no entanto, pode ser um erro.

Acesso ao eterno
O pensamento não se confunde com o mundo material – ele é simultaneamente a essência do ser humano e a fonte dos erros que podem afastá-lo da verdade. O conhecimento seria a capacidade de concluir verdades imutáveis por meio dos processos mentais. Um exemplo de verdade imutável seriam as regras matemáticas. Como o homem é inconstante e sujeito ao erro, uma verdade imutável não pode provir dele mesmo, mas de Deus, que é a própria perfeição. Assim, o ser humano tem pensamento autônomo e acesso à verdade eterna, mas depende, para isso, de iluminação divina.

ESCOLA COM DISCIPLINA MILITAR

Se Santo Agostinho foi a primeira grande força intelectual de uma era em que a Igreja de Roma exerceu o poder cultural máximo, a ordem dos jesuítas pode ser considerada a última. A Companhia de Jesus surgiu no início do século 16 na Espanha, criada por um militar, Inácio de Loyola (1491-1556), depois Santo Inácio. Representou, na educação, a linha de frente na guerra da Igreja contra a reforma protestante do alemão Martinho Lutero. Como os agostinianistas, os jesuítas valorizavam a disciplina e a obediência e promoviam o sacrifício da liberdade de pensamento em benefício do temor a Deus. Diferentemente de Santo Agostinho, porém, os jesuítas favoreciam a erudição e o elitismo. Integravam um movimento conservador, derrotado a partir do século 17, com a ascensão do racionalismo, na filosofia, e as revoltas contra o absolutismo, na política. Os jesuítas – criadores de métodos de ensino tradicionalistas mas muito eficientes – têm grande importância na história das colônias européias da América, entre elas o Brasil, porque construíram as primeiras estruturas educativas do continente.

Se o bem vem de Deus, o mal se origina da ausência do bem e só pode ser atribuído ao homem, por conduzir erroneamente as próprias vontades. Se o fizesse de modo correto, chegaria à iluminação. A ausência do bem se deve também a uma quase irresistível inclinação do ser humano para o pecado ao fazer prevalecer os impulsos do corpo, e não a alma.

Santo Agostinho tratou o tema da educação mais de perto em duas obras, De Doctrina Christiana e De Magistro, na qual apresenta a doutrina do mestre interior. A idéia é que o professor não ensina sozinho, mas depende também do aluno e, sobretudo, de uma verdade comum aos dois. Simplificando, o professor mostra o caminho e o aluno o adota; assim, o saber brota de seu interior. “A pessoa que ensina não transmite, mas desperta”, diz Eliane Marta Teixeira Lopes, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. “Para Santo Agostinho, é desse modo que se conquista a paz da alma, e esse é o objetivo final da educação.”

Para pensar
A filosofia de Santo Agostinho está condicionada à fé religiosa e, especificamente, à ética cristã. A educação moderna, no entanto, é laica, mesmo nas escolas administradas por organizações religiosas, porque a cultura ocidental evoluiu para a separação clara entre razão e fé. Mesmo assim, o pensamento agostiniano permite um diálogo interessante com concepções pedagógicas contemporâneas. Você já deve ter ouvido críticas às concepções de ensino segundo as quais o professor apenas transmite conhecimentos para um aluno passivo. Que semelhanças e diferenças percebe entre as correntes atuais que fazem essas críticas e o princípio agostiniano de que o mestre indica o caminho, mas só o aluno constrói (ou não) a informação?

Revista Escola

Crianças do Haiti, as mais pobres do mundo

Marc Lacey

Milhares de mulheres desesperadas se empurravam e acotovelavam para conseguir abrir caminho até os alimentos que eram distribuídos na semana passada nos subúrbio da cidade inundada. Um pouco mais afastados, estavam os restaveks, os verdadeiramente desesperados.

Conforme uma mulher após a outra pegava um saco de arroz, uma sacola de feijão e uma lata de óleo de cozinha, os restaveks, um termo em creole usado para descrever os trabalhadores infantis do Haiti, ajoelhavam-se para pegar os grãos que caiam na terra sem querer.

A seqüência de furacões e tempestades tropicais que no mês passado atingiu a metade ocidental de Hispaniola, ilha onde ficam o Haiti e a República Dominicana, desnudou a pobreza e as profundas divisões sociais do Haiti, onde há ricos, pobres e os absolutamente desprovidos. Ninguém ilustra esse último grupo melhor do que os restaveks, milhares de crianças pequenas haitianas dadas por seus pais pobres para famílias numa situação melhor de vida, mas que na maioria também enfrentam dificuldades.

O termo restaveks significa literalmente “ficar com”. É o que as crianças fazem com seus anfitriões, trabalhando como empregados domésticos em troca de um teto sobre suas cabeças, algumas sobras de comida e, em tese, a chance de ir para a escola. Na prática, entretanto, os restaveks são uma presa fácil para a exploração. Os defensores dos direitos humanos dizem que eles são espancados, abusados sexualmente e freqüentemente privados do acesso à educação, já que muitas famílias anfitriãs acreditam que a escola os fará menos obedientes.

A Unicef estima que 300 mil crianças haitianas foram afetadas pelas recentes tempestadas, e muitas delas foram forçadas a se mudar para abrigos ou telhados de casas.

Mas os jovens haitianos sofriam significativamente mesmo antes de os céus escurecerem com os furacões Fay, Gustav, Hanna e Ike, quando mais de 300 perderam a vida. O país tem a taxa de mortalidade mais alta do hemisfério ocidental entre crianças abaixo dos cinco anos, assim como a maior taxa de mortalidade entre recém-nascidos e mulheres em trabalho de parto. Apenas um pouco mais da metade das crianças em idade escolar estão de fato matriculadas. A presença de restaveks nas escolas, é claro, é muito menor do que isso.

“Muitos deles são tratados como animais”, disse uma oficial da ONU que pediu para permanecer anônima por não ter autoridade para falar sobre o delicado tema. “Eles são cidadãos de segunda classe, pequenos escravos. Basta dar um pouco de comida e eles limpam sua casa por nada.”

Gonaives, que fica no noroeste do Haiti, não era uma cidade em expansão quando foi atingida pelas tempestades. Havia sido devastada por um furacão em 2004, do qual ainda estava se recuperando. No entanto, isso não impediu que muitas famílias pobres adotassem os restaveks, filhos dos mais pobres entre os pobres. “Quase todas as famílias têm um”, disse uma das mulheres furando a fila de alimentos.

São crianças como Widna e Widnise, gêmeas de 12 anos de idade que estão na mesma casa em Gonaives há dois anos.

Elas acordam cedo para pegar água, coletar madeira, cozinhar, limpar o chão e a casa. Elas observam quando os dois filhos de sua família anfitriã, que têm quase a mesma idade, tomam café da manhã e saem para a escola. As gêmeas não comem nada de manhã e ficam em casa trabalhando.

As meninas estão numa situação melhor do que a maioria, dizem. Elas recebem palmadas nas mãos se desobedecem, mas não apanham na cabeça, como contam que acontece com muitos restaveks das casas vizinhas. À noite, elas comem junto com as duas outras crianças e dormem em esteiras no chão, assim como as outras. Elas tinham sapatos, diferentemente de muitos de seus colegas. Perderam os calçados na inundação.

As meninas, porém, falam que não gostam de sua situação. As outras crianças as importunam, dizendo todo o tempo que elas não vão crescer, que elas serão sempre serviçais. E elas sentem falta da mãe, que trabalha no interior do país como empregada doméstica e visita as garotas quando pode. Ela diz às meninas que as levará para casa assim que conseguir sustentá-las.

“Nossa mãe é muito pobre para tomar conta de nós”, diz Widna, a mais falante das duas, acrescentando enfaticamente: “nós não queremos ser restaveks.”

O que elas mais queriam de imediato na terça-feira à tarde era comida. A família anfitriã havia saído da casa inundada, deixando as garotas sozinhas. Chegaram na escola no bairro de Praville, onde os alimentos da ONU estavam sendo distribuídos, mas foram avisadas de que apenas as mulheres poderiam entrar na fila.

As meninas, pequenas para sua idade, sentaram-se próximas à multidão, até que perceberam que um pouco de arroz e feijão erra derrubado em meio à confusão. Entreolharam-se e entraram em ação junto com alguns outros restaveks, catando os grãos do chão, um a um.

The New York Times

Para compreender a crise financeira

Mercados internacionais de crédito entraram em colapso e há risco real de uma corrida devastadora aos bancos. Por que o pacote de 700 bilhões de dólares, nos EUA, chegou tarde e é inadequado. Quais as causas da crise, e sua relação com o capitalismo financeirizado e as desigualdades. Há alternativas?

Antonio Martins

Depois de terem vivido uma segunda-feira de pânico, os mercados financeiros operam, hoje, em meio a muito nervosismo. A bolsa de valores de Tóquio caiu mais 3%, apesar de o Banco do Japão injetar mais 10 bilhões de dólares no sistema bancário. Na Europa, há pequena recuperação das bolsas, diante de rumores sobre uma redução coordenada das taxas de juros, pelos bancos centrais. Em contrapartida, anunciou-se que a situação do Royal Bank os Scotland (RBJ) pode ser crítica — e que outros bancos estariam sob forte pressão.

A crise iniciada há pouco mais de um ano, no setor de empréstimos hipotecários dos Estados Unidos, viveu dois repiques, nos últimos dias. Entre 15 e 16 de setembro, a falência de grandes instituições financeiras norte-americanas [1] deixou claro que a devastação não iria ficar restrita ao setor imobiliário. No início de outubro, começou a disseminar-se a sensação de que o pacote de 700 bilhões de dólares montado pela Casa Branca para tentar o resgate produziria efeitos muito limitados. Concebido segundo a lógica dos próprios mercados (o secretário do Tesouro, Henry Paulson, é um ex-executivo-chefe do banco de investimentos Goldman Sachs), o conjunto de medidas socorre com dinheiro público as instituições financeiras mais afetadas, mas não assegura que os recursos irriguem a economia, muito menos protege as famílias endividadas.

Deu-se então um colapso nos mercados bancários, que perdura até o momento. Apavoradas com a onda de falências, as instituições financeiras bloquearam a concessão de empréstimos – inclusive entre si mesmas. Este movimento, por sua vez, multiplicou a sensação de insegurança, corroendo o próprio sentido da palavra crédito, base de todo o sistema. A crise alastrou-se dos Estados Unidos para a Europa. Em dois dias, cinco importantes bancos do Velho Continente naufragaram [2].

Muito rapidamente, o terremoto financeiro começou a atingir também a chamada “economia real”. Por falta de financiamento, as vendas de veículos caíram 27% (comparadas com o ano anterior) em setembro, recuando para o nível mais baixo nos últimos 15 anos. Em 3 de outubro, a General Motors brasileira colocou em férias compulsórias os trabalhadores de duas de suas fábricas (que produzem para exportação), num sinal dos enormes riscos de contágio internacional. Diante do risco de recessão profunda, até os preços do petróleo cederam, caindo neste 6/10 a 90 dólares por barril – uma baixa de 10% em apenas uma semana. A tempestade afeta também o setor público. Ao longo da semana, os governantes de diversos condados norte-americanos mostraram-se intranqüilos diante da falta de caixa. O governador da poderosa Califórnia, Arnold Schwazenegger, anunciou em 2 de outubro que não poderia fazer frente ao pagamento de policiais e bombeiros se não obtivesse, do governo federal, um empréstimo imediato de ao menos 7 bilhões de dólares.

Desconfiados da solidez dos bancos, os correntistas podem sacar seus depósitos, o que provocaria nova onda de quebras e devastaria a confiança na própria moeda. Em tempos de globalização, seria “a mãe de todas as corridas contra os bancos”
Nos últimos dias, alastrou-se o pavor de algo nunca visto, desde 1929: desconfiados da solidez dos bancos, os correntistas poderiam sacar seus depósitos, o que provocaria nova onda de quebras e devastaria a confiança na própria moeda. Em tempos de globalização, seria “a mãe de todas as corridas contra os bancos”, segundo a descreveu o economista Nouriel Roubini, que se tornou conhecido por prever há meses, com notável precisão, todos os desdobramentos da crise atual.

Os primeiros sinais deste enorme desastre já estão visíveis. Em 2 de outubro, o Banco Central (BC) da Irlanda sentiu-se forçado a tranqüilizar o público, anunciando aumento no seguro estatal sobre 100% dos depósitos confiados a seis bancos. Na noite de domingo, foi a vez de o governo alemão tomar atitude semelhante. Mas as medidas foram tomadas de modo descoordenado, porque terminou sem resultados concretos, no fim-de-semana, uma reunião dos “quatro grandes” europeus [3], convocada pelo presidente francês, para buscar ações comuns contra a crise. Teme-se, por isso, que as iniciativas da Irlanda e Alemanha provoquem pressão contra os bancos dos demais países europeus, onde não há a mesma garantia. Além disso, suspeita-se que as autoridades estejam passando um cheque sem fundos. Na Irlanda, o valor total do seguro oferecido pelo BC equivale a mais do dobro do PIB do país…

Também neste caso, os riscos de contágio internacional são enormes. Roubini chama atenção, em especial, para as linhas de crédito no valor de quase 1 trilhão de dólares entre os bancos norte-americanos e instituições de outros países. É por meio deste canal, hoje bloqueado, que o risco de quebradeira bancária se espalha pelo mundo. Mesmo em países menos próximos do epicentro da crise, como o Brasil, as conseqüências já são sentidas. Na semana passada, o Banco Central viu-se obrigado a estimular os grandes bancos, por meio de duas resoluções sucessivas, a comprar as carteiras de crédito dos médios e pequenos – que já enfrentam dificuldades para captar recursos.

Em conseqüência de tantas tensões, as bolsas de valores da Ásia e Europa estão viveram, na segunda-feira (6/10) um dia de quedas abruptas. Na primeira sessão após a aprovação do pacote de resgate norte-americano, Tóquio perdeu 4,2% e Hong Kong, 3,4%. Quedas entre 7% e 9% ocorreram também em Londres, Paris e Frankfurt. Em Moscou, a bolsa despencou 19%. Em todos estes casos, as quedas foram puxadas pelo desabamento das ações de bancos importantes. Em São Paulo, os negócios foram interrompidos duas vezes, quando quedas drásticas acionaram as regras que mandam suspender os negócios em caso de instabilidade extrema. Apesar da intervenção do Banco Central, o dólar chegou a R$ 2,20.

Até o momento, tem prevalecido, entre os governos, uma postura um tanto curiosa: eles abandonam às pressas o discurso da excelência dos mercados, apenas para… desviar rios de dinheiro público às instituições dominantes destes mesmos mercados
A esta altura, todas as análises sérias coincidem em que não é possível prever nem a duração, nem a profundidade, nem as conseqüências da crise. Nos próximos meses, vai se abrir um período de fortes turbulências: econômicas, sociais e políticas. As montanhas de dinheiro despejadas pelos bancos centrais sepultaram, em poucas semanas, um dogma cultuado pelos teóricos neoliberais durante três décadas. Como argumentar, agora, que os mercados são capazes de se auto-regular, e que toda intervenção estatal sobre eles é contra-producente?

Mas, há uma imensa distância entre a queda do dogma e a construção de políticas de sentido inverso. Até o momento, tem prevalecido, entre os governos, uma postura um tanto curiosa: eles abandonam às pressas o discurso da excelência dos mercados, apenas para… desviar rios de dinheiro público às instituições dominantes destes mesmos mercados.

O pacote de 700 bilhões de dólares costurado pela Casa Branca é o exemplo mais acabado deste viés. Nouriel Roubini considerou-o não apenas “injusto”, mas também “ineficaz e ineficiente”. Injusto porque socializa prejuízos, oferecendo dinheiro às instituições financeiras (ao permitir que o Estado assuma seus “títulos podres”) sem assumir, em troca, parte de seu capital. Ineficaz porque, ao não oferecer ajuda às famílias endividadas — e ameaçadas de perder seus imóveis —, deixa intocada a causa do problema (o empobrecimento e perda de capacidade aquisitiva da população), atuando apenas sobre seus efeitos superficiais. Ineficiente porque nada assegura (como estão demonstrando os fatos dos últimos dias) que os bancos, recapitalizados em meio à crise, disponham-se a reabrir as torneiras de crédito que poderiam irrigar a economia. Num artigo para o Financial Times (reproduzido pela Folha de São Paulo), até mesmo o mega-investidor George Soros defendeu ponto-de-vista muito semelhantes, e chegou a desenhar as bases de um plano alternativo.

Outras análises vão além. Num texto publicado há alguns meses no Le Monde Diplomatique, o economista francês François Chesnais chama atenção para algo mais profundo por trás da financeirização e do culto à auto-suficiência dos mercados. Ele mostra que as décadas neoliberais foram marcadas por um enorme aumento na acumulação capitalista e nas desigualdades internacionais. Fenômenos como a automação, a deslocalização das empresas (para países e regiões onde os salários e direitos sociais são mais deprimidos) e a emergência da China e Índia como grandes centros produtivos rebaixaram o poder relativo de compra dos salários. O movimento aprofundou-se quando o mundo empresarial passou a ser regido pela chamada “ditadura dos acionistas”, que leva os administradores a perseguir taxas de lucros cada vez mais altas. O resultado é um enorme abismo entre a a capacidade de produção da economia e o poder de compra das sociedades. Na base da crise financeira estaria, portanto, uma crise de superprodução semelhante às que foram estudadas por Marx, no século retrasado. Ao liquidar os mecanismos de regulação dos mercados e redistribuição de renda introduzidos após a crise de 1929, o capitalismo neoliberal teria reinvocado o fantasma.

Wallerstein vê nos sistemas públicos de Saúde, Educação e Previdência algo que pode ser multiplicado, e que gera relações sociais anti-sistêmicas. Se todos tivermos direito a uma vida digna, quem se preocupará em acumular dinheiro?
Marx via nas crises financeiras os momentos dramáticos em que o proletariado reuniria forças para conquistar o poder e iniciar a construção do socialismo. Tal perspectiva parece distante, 125 anos após sua morte. A China, que se converteu na grande fábrica do mundo, é governada por um partido comunista. Mas, longe de ameaçarem o capitalismo, tanto os dirigentes quanto o proletariado chinês empenham-se em conquistar um lugar ao sol, na luta por poder e riqueza que a lógica do sistema estimula permanentemente.

Ao invés de disputar poder e riqueza com os capitalistas, não será possível desafiar sua lógica? O sociólogo Immanuel Wallerstein, uma espécie de profeta do declínio norte-americano, defendeu esta hipótese corajosamente no Fórum Social Mundial de 2003 – quando George Bush preparava-se para invadir o Iraque e muitos acreditavam na perenidade do poder imperial dos EUA. Em outro artigo, publicado recentemente no Le Monde Diplomatique Brasil, Wallerstein sugere que a crise tornará o futuro imediato turbulento e perigoso. Mas destaca que certas conquistas sociais das últimas décadas criaram uma perspectiva de democracia ampliada, algo que pode servir de inspiração para caminhar politicamente em meio às tempestades. Refere-se à noção segundo a qual os direitos sociais são um valor mais importante que os lucros e a acumulação privada de riquezas. Vê nos sistemas públicos (e, em muitos países, igualitários) de Saúde, Educação e Previdência algo que pode ser multiplicado, e que gera relações sociais anti-sistêmicas. Se a lógica da garantia universal a uma vida digna puder ser ampliada incessantemente; se todos tivermos direito, por exemplo, a viajar pelo mundo, a sermos produtores culturais independentes e a terapias (anti-)psicanalíticas, quem se preocupará em acumular dinheiro?

O neoliberalismo foi possível porque, no pós-II Guerra, certos pensadores atreveram-se a desafiar os paradigmas reinantes e a pensar uma contra-utopia. Num tempo em que o capitalismo, sob ameaça, estava disposto a fazer grandes concessões, intelectuais como o austríaco Friederich Hayek articularam, na chamada Sociedade Mont Pelerin, a reafirmação dos valores do sistema [4]. Seus objetivos parecem hoje desprezíveis, mas sua coragem foi admirável. Eles demonstraram que há espaço, em todas as épocas, para enfrentar as certezas em vigor e pensar futuros alternativos. Não será o momento de construir um novo pós-capitalismo?

[1] Em 12/9, o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou, depois que as autoridades monetárias recusaram-se a resgatá-lo. No mesmo dia, o Merrill Lynch anunciou sua venda para o Bank of America. Em 15/9, a mega-seguradora AIG (a maior do mundo, até há alguns meses) anunciou que estava insolvente, sendo nacionalizada no dia seguinte com aporte estatal de US$ 85 bilhões

[2] O Fortis foi semi-nacionalizado pelos governos da Holanda, Bélgica e Luxemburgo. O Dexia recebeu uma injeção de 6,4 bilhões de euros, patrocinada pelos governos da França e Bélgica. O Reino Unido nacionalizou o Bradford & Bingley (especialista em hipotecas), vendendo parte de seus ativos para o espanhol Santander. O Hypo Real Estate segundo maior banco hipotecário alemão entrou numa operação de resgate cujo custo podia chegar a 50 bilhões de euros, mas cujo sucesso ainda não estava assegurado, em 5/9. A Islândia nacionalizou o Glitnir, seu terceiro maior banco

[3] Alemanha, França, Reino Unido e Itália, os membros europeus do G-8

[4] Sobre a contra-utopia hayekiana, ler, no Le Monde Diplomatique, “Pensando o Impensável” , de Serge Halimi

Le Monde diplomatic

Etanol causa prejuízos bilionários a investidores dos Estados Unidos

Kevin Allison
Stephanie Kirchgaessner

Investidores, como Bill Gates, da Microsoft, amargaram prejuízos de bilhões de dólares após apostarem na indústria do etanol produzido a partir de milho, uma fórmula que George W. Bush adotou como a resposta aos problemas energéticos dos Estados Unidos.

Segundo uma análise do “Financial Times”, seis dos maiores produtores de etanol que fizeram ofertas públicas de ações nos Estados Unidos perderam mais de US$ 8,7 bilhões em valor de mercado no período entre o apogeu do setor, em meados de 2006, e o início deste mês. O boom no setor de etanol ocorreu após uma lei de 2005 que exigiu que as refinarias misturassem bilhões de litros de biocombustível aos combustíveis derivados de petróleo.

Os investidores que compraram e mantiveram, devido às expectativas de lucros, ações de empresas como a Avetine Renewables, VeraSun Energy e outras produtoras de etanol que fizeram ofertas públicas de ações após 2005, viram o valor desses papéis desabar até 90% em relação ao preço inicial, apesar dos bilhões de dólares desembolsados pelo governo norte-americano para apoiar o setor.

Entre os perdedores desta onda frenética de investimentos no etanol, que alguns compararam à mania “pontocom” do final da década de 1990, estão nomes famosos, como Bill Gates, o fundador da Microsoft. A sua firma privada de investimentos perdeu milhões de dólares com a aposta feita em 2005 em uma companhia chamada Pacific Ethanol. A firma de Bill Gates, a Cascade Investments, não retornou a ligação da reportagem para fazer comentários.

Outras firmas de equities privadas e fundos de hedge que investiram na indústria do etanol nos anos prósperos de 2005 e 2006 tiveram um desempenho misto. Aqueles que compraram ações de empresas de etanol e as venderam nos estágios iniciais tiveram lucros substanciais. A Metalmark, o ex-braço do banco norte-americano do setor de equities privadas Morgan Stanley, embolsou dez vezes o valor pago em 2003 pela Aventine, quando fez ofertas públicas das ações da empresa em 2006.

Já o Thomas H. Lee Partners, um grupo de equities privadas de Boston, foi obrigado a recuar quanto aos seus planos em relação à Hawkeye Renewables, uma produtora de etanol comprada pelo grupo no ápice da bonança do etanol. Um indivíduo próximo ao Thomas H. Lee defendeu o investimento feito pelo grupo, argumentando que a Hawkeye gerou um vigoroso fluxo de caixa, apesar do ambiente empresarial difícil que derrubou os preços das ações de oferta pública das rivais.

Nem a Metalmark nem o Thomas H. Lee Partners quiseram tecer comentários sobre o assunto.

Os prejuízos dos investidores ocorrem no momento em que os contribuintes pagam bilhões de dólares para apoiar a indústria do etanol. Mais de US$ 11,2 bilhões foram gastos desde 2005 em isenções fiscais para companhias que misturam etanol aos combustíveis derivados de petróleo. E outros bilhões foram usados para o pagamento de subsídios estatais e federais diretos à produção de etanol dos Estados Unidos.

“O que estamos vendo é uma indústria que custou US$ 80 bilhões para chegar a este ponto”, afirma Bob Starkey, analista do setor de combustíveis do Jim Jordan & Associates, um grupo de pesquisas em Houston.

No entanto, o etanol desapontou muita gente que via nele um produto maravilhoso que poderia reduzir a dependência norte-americana do petróleo estrangeiro e, ao mesmo tempo, diminuir a poluição. E o pior é que um número cada vez maior de críticos influentes afirma agora que o etanol contribuiu para a elevação dos preços dos alimentos.

Os defensores da indústria ainda defendem o etanol. Bob Dinneen, presidente da Associação de Combustíveis Renováveis, o principal grupo de lobby da indústria em Washington, afirma: “O etanol representa uma oportunidade para que os norte-americanos invistam aqui em casa, em vez de dar continuidade à hemorragia monetária para o Oriente Médio. Eu o desafio a encontrar atualmente qualquer fonte de energia que não dependa do apoio governamental. Se quisermos ter energia produzida domesticamente, então parte desses subsídios será necessária”.

Financial Times

TABUS ACERCA DO MAGISTÉRIO

Theodor Wiesengrung Adorno

O que irei expor constitui apenas a apresentação de um problema; nem é uma teoria constituída, para o que não tenho legitimidade por não ser pedagogo, nem tampouco o relato de resultados de investigações empíricas. Seria necessário acrescentar pesquisas ao que apresento, sobretudo estudos de casos individuais, principalmente em termos psicanalíticos. Minhas considerações prestam-se no máximo a tornar visíveis algumas dimensões da aversão em relação à profissão de professor, que representam um papel não muito explícito na conhecida crise de renovação do magistério, mas que, talvez até por isto mesmo, são bastante importantes. Ao fazê-lo, tocarei simultaneamente, ao menos por alto, numa série de problemas que se relacionam com o próprio magistério e sua problemática, na medida em que as duas coisas dificilmente podem ser separadas.

Permitam-me começar pela exposição da experiência inicial: justamente entre os universitários formados mais talentosos que concluíram o exame oficial, constatei uma forte repulsa frente aquilo a que são qualificados pelo exame oficial, e em relação ao que se espera deles após este exame. Eles sentem seu futuro como professores como uma imposição, a que se curvam apenas por falta de alternativas. É importante ressaltar que tenho a oportunidade de acompanhar um contingente não desprezível de tais formados, com motivos para supor que não se trata de uma seleção negativa.

Muitos dos motivos de tal aversão são racionais e tão conhecidos que não preciso me deter neles, O principal é a antipatia em relação ao que se encontra regulamentado, ao que se encontra disposto por meio do desenvolvimento definido por meu amigo Hellmut Becker como dirigido à escola administrada. Existem também motivações materiais: a imagem do magistério como profissão de fome aparentemente é mais duradoura do que corresponde à própria realidade na Alemanha. A desproporção que registro por esta via parece-me, já me adiantando, típica para todo o conjunto em questão, caracterizado pelas motivações subjetivas da aversão contra o magistério, em especial as que são inconscientes. Tabus significam, a meu ver, representações inconscientes ou pré-conscientes dos eventuais candidatos ao magistério, mas também de outros, principalmente das próprias crianças, que vinculam esta profissão como que a urna interdição psíquica que a submete a dificuldades raramente esclarecidas. Portanto utilizo o conceito de tabu de um modo relativamente rigoroso, no sentido da sedimentação coletiva de representações que, de um modo semelhante àquelas referentes à economia, já mencionadas, em grande parte perderam sua base real, mais duradouramente até do que as econômicas, conservando-se porém com muita tenacidade como preconceitos psicológicos e sociais, que por sua vez retroagem sobre a realidade convertendo-se em forças reais.

Permitam fundamentar-me em alguns testemunhos triviais. A leitura de anúncios matrimoniais nos jornais — bastante elucidativa —— revela que em seus anúncios professores ou professoras destacam que não são tipos professorais, que não são mestres de escola. Praticamente nenhum anúncio matrimonial proveniente de professor ou professora deixa de conter ressalvas atenuantes. —- Outro exemplo: além do alemão, também outras línguas apresentam uma série de expressões degradantes para o magistério; o mais conhecido em alemão é Pauker (quem ensina com a palmatória como quem treina soldados a marchar pelas batidas nos tambores); mais vulgar e também relacionado em alemão a instrumentos musicais é Steisstrommler (quem malha o traseiro); em inglês, utiliza-se schoolmarm para professoras solteironas, secas, mal-humoradas e ressentidas. De uma maneira inequívoca, quando comparado com outras profissões acadêmicas como advogado ou médico, pelo prisma social o magistério transmite um clima de falta de seriedade. Além disso, a sociologia acadêmica e da educação pouco atentaram para a distinção que a população estabelece entre disciplinas com prestígio e desprestigiadas: entre as prestigiadas listam-se a Jurisprudência e a Medicina, e sem dúvida não consta o estudo da Filologia; nas faculdades de filosofia, a exceção visível é a altamente prestigiosa História da Arte. Se estou bem informado -— o que escapa ao meu controle por não ter acesso direto aos ambientes em questão —, num dos círculos hoje mais exclusivos, alegadamente o mais exclusivo de todos, os filólogos simplesmente são recusados. Nesta medida, conforme a percepção vigente, o professor, embora sendo um acadêmico, não seria socialmente capaz; quase poderíamos dizer: trata-se de alguém que não é considerado um “senhor”, nos termos em que este termo é usado no novo jargão alemão, aparentemente relacionado à alegada igualdade de oportunidades educacionais. Numa complementariedade peculiar parece encontrar-se o inabalado prestígio do professor universitário, apoiado inclusive em estatísticas. De um lado, o professor universitário como a profissão de maior prestígio; de outro, o silencioso ódio em relação ao magistério de primeiro e segundo graus; uma ambivalência como esta remete a algo mais profundo. Na mesma ordem de questões situa-se a proibição do título de “professor”, negado na Alemanha pelos docentes universitários aos docentes do segundo grau (hoje chamados de Studienräte, algo como “conselheiro de estudos”). Em outros países, como a França, não existe essa diferenciação rigorosa dividindo um sistema, o que possibilita uma ascensão continua. Não tenho condições de avaliar se isto influencia o próprio prestigio do magistério e os aspectos psicológicos a que me refiro.

Os que são mais diretamente afetados pela questão deveriam acrescentar a esses sintomas outros mais impositivos. Mas os mencionados até aqui deveriam bastar para possibilitar algumas especulações. Afirmei que na Alemanha a pobreza do professor é uma imagem do passado. Contudo, permanece inquestionavelmente a discrepância entre a posição material do docente e a sua exigência de status e poder, que deveriam lhe corresponder ao menos conforme prega a ideologia vigente. Esta discrepância não deixa de afetar o espírito. Schopenhauer atentou para essa situação no que se refere aos docentes universitários. Acreditava que o comportamento subalterno que constatava neles há mais de cem anos relacionava-se a seus péssimos salários. É preciso acrescentar que na Alemanha essa exigência de poder e status do espírito é em si problemática e nunca foi satisfeita. Haveria nisso a influência do tardio desenvolvimento burguês, da longa sobrevida do feudalismo alemão que não era propriamente afeito ao espírito, e que gerou a figura do mestre de escola como sendo um serviçal. A este respeito gostaria de relatar uma história que me parece característica. Aconteceu em Frankfurt. Num encontro social elegante e burguês a conversa chegou a Hölderlin e sua relação com Diotima. Entre os presentes havia uma descendente direta da família Gontard, muito idosa e inteiramente surda; ninguém a considerava capaz de participar desta conversa. Repentinamente, ela tomou a palavra e disse uma única frase em bom dialeto de Frankfurt: “Sim, sim, sempre há uma má vontade em relação aos preceptores”. Num tempo não muito distante, há poucas décadas, ela acompanhara a referida história de amor literalmente nos mesmos termos com que outrora o senhor Von Gontard havia se manifestado frente a Hölderlin: sob o prisma do patriciado burguês, para o qual um preceptor era nada mais do que um lacaio um pouco diferenciado.

Conforme o sentido dessas imagens, o professor é um herdeiro do scriba, do escrivão. Como já assinalei, o menosprezo de que é alvo tem raízes feudais e precisa ser fundamentado a partir da Idade Média e do início do Renascimento; como, por exemplo, na “Canção dos Nibelungos”, onde se expressa o desprezo de Hagen, que considera o capelão um débil, justamente aquele capelão que a seguir escaparia com vida. Cavaleiros feudais cuja educação passou pelos livros constituíram exceções; caso contrário o nobre Hartmann von der Aue não teria se vangloriado tanto de sua capacidade de leitura. Além disso, há que se acrescentar a influência de antigas referências de professores como escravos. 1 O intelecto encontrava-se separado da força física. É certo que sempre detinha uma determinada função na condução da sociedade, mas tornava-se suspeito em qualquer lugar onde as prerrogativas da força física sobreviveram à divisão do trabalho. Este passado distante na história ressurge permanentemente. O menosprezo pelos professores que certamente existe na Alemanha, e talvez inclusive nos países anglo-saxônicos, ao menos na Inglaterra, poderia ser caracterizado como o ressentimento do guerreiro que acaba se impondo ao conjunto da população pela via de um mecanismo interminável de identificações. Todas as crianças revelam afinal uma forte tendência a se identificar com “coisas de soldados”, como se diz tão bem hoje em dia; lembro apenas o prazer com que os meninos se fantasiam de cowboys, e a satisfação com que correm “armados” por aí. Ao que tudo indica, eles reproduzem de novo, ontogeneticamente, o processo filogenético, que gradualmente libertou os homens da violência física. Todo o complexo da violência física, bastante dotado de ambivalência e de forte conteúdo afetivo em um mundo em que ela é exercida somente nas situações-limite por demais conhecidas, desempenha aqui seu papel decisivo. Numa anedota famosa o condottiere Georg von Frundsberg bate nos ombros de Lutero na Dieta de Worms dizendo: “Padrezinho, padrezinho, agora segues um caminho perigoso”. Uma atitude em que se misturam o respeito pela independência do espírito e um desprezo. ainda que tênue, por quem, não portando armas, logo pode se tornar vitima de esbirros. Movidos por rancor, os analfabetos consideram corno sendo inferiores todas as pessoas estudadas que se apresentam dotadas de alguma autoridade, desde que não sejam providas de alta posição social ou do exercício de poder, como acontece no caso do alto clero, O professor é o herdeiro do monge; depois que este perde a maior parte de suas funções, o ódio ou a ambigüidade que caracterizava o oficio do monge é transferido para o professor.

A ambivalência frente aos homens estudados é arcaica. É verdadeiramente mítico o impressionante conto em que Kafka narra o assassinato do médico do interior rural que atendia a um chamado noturno que se revelaria falso; a etnologia sabe que o curandeiro ou o cacique tanto pode usufruir de honrarias quanto pode ser sacrificado em determinadas situações. Pode-se perguntar por que o tabu arcaico, a ambivalência arcaica foram transferidos justamente aos professores, enquanto outras profissões intelectuais ficaram livres deles. Explicar por que algo não ocorreu sempre implica grandes dificuldades do ponto de vista da teoria do conhecimento. Limitar-me-ei a urna consideração baseada no senso comum. Os juristas e os médicos não se subordinam àquele tabu e são igualmente profissões intelectuais. Mas estas constituem o que se chama hoje de profissões livres. Subordinam-se à disputa concorrencial; são providas de melhores oportunidades materiais, mas não são contidas e garantidas por urna hierarquia de servidor público, e por causa dessa liberdade gozam de maior prestigio. Aqui se anuncia um conflito social possivelmente dotado de alcance maior. Uma ruptura no próprio plano da burguesia, ao menos na pequena burguesia, entre os que são livres e ganham mais, embora sua renda não seja garantida, e que gozam de um certo ar de nobreza e ousadia, e, por outro lado, os funcionários permanentes e com pensão assegurada, invejados por causa de sua segurança, mas desprezados enquanto se assemelham a verdadeiros animais de carga em escritórios e repartições, com horários fixos e vida regrada pelo relógio de ponto. Por sua vez, os juizes e funcionários administrativos têm algum poder real delegado, enquanto a opinião pública não leva a sério o poder dos professores, por ser um poder sobre sujeitos civis não totalmente plenos, as crianças. O poder do professor é execrado porque só parodia o poder verdadeiro, que é admirado. Expressões como “tirano de escola” lembram que o tipo de professor que querem marcar é tão irracionalmente despótico como só poderia sê-lo a caricatura do despotismo, na medida em que não consegue exercer mais poder do que reter por uma tarde as suas vitimas, algumas pobres crianças quaisquer.

O reverso dessa ambivalência é a adoração mágica dispensada aos professores em alguns países, como outrora na China, e em alguns grupos, como entre os judeus devotos. O aspecto mágico da relação com os professores parece se fortalecer em todos os lugares onde o magistério é vinculado à autoridade religiosa, enquanto a imagem negativa cresce com a dissolução dessa autoridade. É digno de nota que os professores que gozam do maior prestigio na Alemanha, ou seja, justamente os acadêmicos universitários, na prática muito raramente desempenham funções disciplinares, e, ao menos de modo ideal e para a opinião pública, são pesquisadores produtivos que não se fixam no plano pedagógico aparentemente ilusório e secundário de acordo com a exposição anterior. O problema da inverdade imanente da pedagogia estaria em que o objeto do trabalho é adequado aos seus destinatários, não constituindo um trabalho objetivo motivado objetivamente. Em vez disso, este seria pedagogizado. Só isto já bastaria para dar às crianças inconscientemente a impressão de estarem sendo iludidas. Os professores não reproduzem simplesmente de um modo receptivo algo já estabelecido, mas a sua função de mediadores, um pouco socialmente suspeita como todas as atividades da circulação, atrai para si uma parte da aversão geral. Max Scheler disse certa feita que só atuou pedagogicamente porque nunca tratou seus estudantes de maneira pedagógica. Se me permitem a observação pessoal, a minha própria experiência confirma inteiramente este ponto de vista. Ao que tudo indica, o êxito como docente acadêmico deve-se à ausência de qualquer estratégia para influenciar, à recusa em convencer.

Com a transformação objetiva que se anuncia no magistério, a situação tende a se alterar. Nota-se também uma certa mudança estrutural na relação com o docente universitário. Tal como há muito ocorre nos Estados Unidos, onde processos como este acontecem de modo mais drástico do que na Alemanha, o professor se converte lenta, mas inexoravelmente, em vendedor de conhecimentos, despertando até compaixão por não conseguir aproveitar melhor seus conhecimentos em beneficio de sua situação material. Não resta dúvida que há nisto um grande avanço de esclarecimento, em comparação à imagem do professor como um deus, tal como era considerado ainda nos Buddenbrook.s; ao mesmo tempo, porém, uma racionalidade estratégica nesses termos reduz o intelecto a mero valor de troca, o que é tão problemático como o é qualquer progresso no seio do existente.

Mencionei a função disciplinar. Se não me engano, com ela toco na questão central, embora seja necessário repetir que não se trata de conclusões de pesquisa. Por trás da imagem negativa do professor encontra-se o homem que castiga, figura que também ocorre no Processo de Kafka. Mesmo após a proibição dos castigos corporais, continuo considerando este contexto determinante no que se refere aos tabus acerca do magistério. Esta imagem representa o professor como sendo aquele que é fisicamente mais forte e castiga o mais fraco. Nesta função, que continua a ser atribuída ao professor mesmo depois que oficialmente deixou de existir, e em alguns Outros lugares parece constituir-se em valor permanente e compromisso autêntico, o docente infringe um antigo código de honra legado inconscientemente e com certeza conservado por crianças burguesas. Pode-se dizer que este não é um jogo honesto, limpo, não é um fair play. Esta unfairness (desonestidade) — e qualquer docente o percebe. inclusive o universitário — também afeta a vantagem do saber do professor frente ao saber de seus alunos, que ele utiliza sem ter direito para tanto, uma vez que a vantagem é indissociável de sua função, ao mesmo tempo em que sempre lhe confere uma autoridade de que dificilmente consegue abrir mão. Esta unfairness existe na ontologia do professor, na medida em que excepcionalmente posso usar o termo ontologia neste contexto. É só pensar como o professor universitário pode dispor da cátedra em longas exposições sem qualquer contestação, para se compartilhar este resultado. Quando a seguir o professor oferece aos estudantes a oportunidade de perguntar, procurando aproximar a aula expositiva de um seminário, ironicamente há muito pouca reciprocidade por parte dos alunos. Estes hoje em dia parecem preferir aulas como preleçoes expositivas dogmáticas. Mas de um certo modo não é somente a profissão do magistério que impele o professor à unfairness: o fato de saber mais, ter a vantagem e não poder negá-la. Ele também é impelido nessa direção pela sociedade, e isto me parece mais profundo. A sociedade permanece baseada na força física, conseguindo impor suas determinações quando é necessário somente mediante a violência física, por mais remota que seja esta possibilidade na pretensa vida normal. Da mesma maneira as disposições da chamada integração civilizatória que, conforme a concepção geral, deveriam ser providenciadas pela educação, podem ser realizadas nas condições vigentes ainda hoje apenas com o suporte do potencial da violência física. Esta violência física é delegada pela sociedade e ao mesmo tempo é negada nos delegados. Os executantes são bodes expiatórios para os mandantes. O modelo originário negativo — refiro-me a um imaginário de representações inconscientemente efetivas, e não a uma realidade, a não ser que esta seja referida de modo apenas rudimentar — é constituído pelo carcereiro ou, melhor ainda, o suboficial. Não sei até que ponto é procedente a afirmação de que nos séculos XVII e XVIII soldados veteranos eram aproveitados como professores nas escolas primárias. Mas certamente esta crença popular é bastante característica para a imagem do professor. A expressão “quem malha o traseiro”. acima referida, tem conotação militar; inconscientemente os professores talvez sejam imaginados como veteranos, como uma espécie de mutilados, como pessoas que no âmbito da vida propriamente dita do processo real de reprodução da sociedade não têm nenhuma função, contribuindo apenas de um modo pouco transparente e pela via de uma graça especial à continuidade do conjunto e de sua própria vida. Mas, em decorrência dessa imagem, quem se opõe ao castigo físico defende o interesse do professor ao menos tanto quanto o interesse do aluno. Só é possível esperar alguma mudança neste complexo a que me refiro quando até o último resquício de punição tiver desaparecido da memória escolar, como parece ser o caso na maior parte dos Estados Unidos.

Uma parte constitutiva essencial deste complexo parece estar em que a sociedade que se apresenta como liberal-burguesa em hipótese nenhuma reconhece a necessidade da força física para uma formação social baseada na dominação. Isto ocasiona tanto a delegação da violência — um senhor jamais castiga — quanto o desprezo pelo professor que se encarrega de executar o que é necessário para tudo funcionar, sabidamente um mal que é duplamente rejeitado pelas pessoas, na medida em que elas próprias estão por trás da execução, e ao mesmo tempo se julgam boas demais para executá-la pelas próprias mãos. A minha hipótese é que a imagem de “responsável por castigos” determina a imagem do professor muito além das práticas dos castigos físicos escolares. Se eu tivesse que orientar investigações empíricas acerca do conjunto complexo do professor. então esta seria a primeira a me interessar. Ainda que em termos bastante brandos, repete-se na imagem do professor algo da imagem tão afetivamente carregada do carrasco.

Que este imaginário é exitoso em firmar a crença de que o professor não é um senhor, mas um fraco que castiga ou um monge sem cargo, isto pode ser comprovado de maneira drástica no plano erótico. Por um lado, ele não tem função erótica; por outro, desempenha um grande papel erótico, para adolescentes deslumbrados, por exemplo. Mas na maioria dos casos apenas como objeto inatingível; basta que se observem nele leves traços de simpatia, para difamá-lo como injusto. A característica de ser inatingível associa-se à imagem de um ser tendencialmente excluído da esfera erótica. Numa perspectiva psicanalítica, esse imaginário do professor relaciona-se à castração. Um professor que, como aconteceu em minha infância com um docente bastante humano, se veste de maneira elegante porque tem posses ou que, movido por orgulho acadêmico, ostenta comportamento que chama a atenção, imediatamente é ridicularizado. É difícil distinguir até que ponto tais tabus específicos são efetivamente apenas psicológicos ou até que ponto a práxis, a idéia do docente com a vida inquestionável enquanto modelo para os imaturos o obriga a uma ascese erótica maior do que ocorre em muitos outras profissões, como, por exemplo, a do representante, para nomear apenas uma. Nos romances e nas peças de crítica à escola de inícios do século, os professores com frequência aparecem como particularmente repressivos de um ponto de vista erótico, como em Wedekind, por exemplo; como seres inclusive sexualmente mutilados. Esta imagem do quase castrado, da pessoa neutralizada ao menos eroticamente, não livremente desenvolvida, esta imagem de pessoas descartadas na concorrência erótica, corresponde à infantilidade real ou imaginária do professor. Remeto ao grande romance Professor Unrat, de Heinrich Mann, conhecido da maioria provavelmente apenas na versão kitsch do filme O anjo azul. O tirano da escola, cuja decadência forma o conteúdo da obra, não tem a imagem transfigurada pela fachada de humor, como ocorre no filme. Ele de fato se relaciona com a prostituta, respeitosamente tratada por ele como uma artista chamada Fröhlich, exatamente como o fazem seus alunos secundaristas. Identifica-se com eles, como Heinrich Mann destaca explicitamente no texto. Ele o faz com todo seu horizonte intelectual e todas as suas formas de reação: ele mesmo é efetivamente uma criança. Nessa medida acrescenta-se ao desprezo pelo professor um aspecto suplementar: por mover-se num ambiente infantil que é o seu ou ao qual se adapta, ele não é considerado inteiramente como adulto, ao mesmo tempo em que de fato é um adulto que deriva suas exigências desta sua existência como tal. Sua dignidade desajeitada continua a ser experimentada como uma compensação insuficiente dessa discrepância.

Tudo isto é apenas a configuração especifica, relativa ao professor, de um fenômeno que em sua generalidade é conhecido na sociologia pelo nome de déformation professionelle. Contudo, na imagem do professor a déforrmation professionelle toma-se praticamente a própria definição da profissão. Em minha juventude contaram-me a anedota de um professor de colégio de Praga que teria dito: “Para tomarmos um exemplo da vida cotidiana: o general conquista a cidade”. Com “um exemplo da vida cotidiana” pretendia-se falar do cotidiano escolar, continuamente povoado nas aulas de Latim por frases exemplares, paradigmas, do tipo do anunciado: o general toma a cidade. Aquilo que é relativo à escola, que justamente agora merece de novo tanta atenção, se impõe no lugar da realidade, que é mantida meticulosamente à distância por intermédio de dispositivos organizatórios. A infantilidade do professor apresenta-se pela sua atitude de substituir a realidade pelo mundo ilusório intramuros, pelo microcosmo da escola, que é isolado em maior ou menor medida da sociedade dos adultos — reuniões de pais e similares são modos desesperados de romper este isolamento. Este é um forte motivo pelo qual a escola defende tão encarniçadamente suas muralhas.

Com frequência os professores são vistos conforme as mesmas categorias com que se focaliza o infeliz herói de uma tragicomédia do naturalismo; em respeito a eles poderíamos falar de um complexo de devaneius. Eles encontram-se em permanente suspeição de estarem fora da realidade. Ao que tudo indica, não estão mais longe da realidade do que, por exemplo, os juizes, para quem o distanciamento da realidade seria uma característica fundamental, conforme as análises de Karl Kraus a partir dos processos judiciais no plano dos costumes. No estereótipo do “estar fora da realidade” fundem-se os traços infantis de alguns professores com os traços infantis de muitos estudantes. O que é infantil é o realismo supervalorizado dos mesmos. Na medida em que se adaptam de modo mais exitoso ao principio da realidade do que pode fazer o professor, que continuamente precisa anunciar e dar corpo a ideais de superego, acreditam compensar aquilo que acreditam ser o que lhes falta, isto é, não constituírem ainda sujeitos independentes. Talvez seja por isto que professores que jogam futebol ou são bons de copo sejam tão populares com os alunos, na medida em que correspondem à imagem de mundanalidade deles; em meus tempos de colégio eram particularmente populares os professores que correta ou incorretamente eram considerados como tendo pertencido às corporações acadêmicas. Reina uma espécie de antinomia: o professor e os alunos praticam injustiças uns em relação aos outros: aquele quando divaga sobre valores eternos, que na verdade não o são, e os alunos quando em resposta se decidem pela idolatria debilóide aos Beatles.

Nexos como esses podem revelar a função das peculiariedades dos professores que em tão ampla dimensão constituem alvo do rancor dos estudantes. O processo civilizatório de que os professores são agentes orienta-se para um nivelamento. Ele pretende eliminar nos alunos aquela natureza disforme que retoma como natureza oprimida nas idiossincrasias, nos maneirismos da linguagem, nos sintomas de estarrecimento, nos constrangimentos e nas inabilidades dos mestres. Triunfarão aqueles alunos que percebem no professor aquilo contra o que, de acordo com seu instinto, se dirige todo o sofrido processo educacional. Há nisto evidentemente uma crítica ao próprio processo educacional, que até hoje em geral fracassou em nossa cultura. Este fracasso é atestado também pela dupla hierarquia observável no âmbito da escola: a hierarquia oficial, conforme o intelecto, o desempenho, as notas, e a hierarquia não-oficial, em que a força física, o “ser homem” e todo um conjunto de aptidões prático-físicas não honradas pela hierarquia oficial desempenham um papel. O nazismo explorou esta dupla hierarquia inclusive fora da escola, na medida em que incitou a segunda contra a primeira, tal como incitaria o partido contra o Estado na macropolítica. A pesquisa pedagógica deveria dedicar especial atenção à hierarquia latente na escola.

As resistências das crianças e dos jovens, igualmente institucionalizadas na segunda hierarquia, foram em parte certamente transmitidas pelos pais. Muitas baseiam-se em estereótipos herdados; muitas, porém, como procurei mostrar, baseiam-se na situação objetiva do professor. A isto acrescenta-se algo essencial, bem conhecido da psicanálise. Na elaboração do complexo de Édipo, a separação do pai e a interiorização da figura paterna, as crianças notam que os próprios pais não correspondem ao ego ideal que lhes transmitem. Na relação com os professores este ego ideal se reapresenta pela segunda vez, possivelmente com mais clareza, e eles têm a expectativa de poder se identificar com os mesmos. Mas por muitas razões novamente isto se torna impossível para eles, sobretudo porque particularmente os próprios mestres constituem produtos da imposição da adequação, contra a qual se dirige o ego ideal da criança ainda não preparada para vínculos de compromisso. O magistério também é uma profissão burguesa; apenas o idealismo hipócrita poderia negá-lo. O professor não é aquela pessoa íntegra que forma a expectativa das crianças, por mais vaga que seja, mas alguém que no plano de todo um conjunto de outras oportunidades e tipos profissionais concentrou-se inevitavelmente como profissional na sua própria profissão, sendo propriamente já a priori o contrário daquilo que o inconsciente aguarda dele: que precisamente ele não seja um profissional, quando justamente ele precisa sê-lo. A sensibilidade idiossincrática das crianças em relação às particularidades dos professores, que possivelmente ultrapassa tudo que se possa imaginar como adulto, provém da constatação de que a existência particular renega o ideal de uma pessoa normal e verdadeira no sentido enfático com que as crianças vêem primariamente os professores, mesmo que já tenham passado por alguma experiência em que se exige astúcia ou algum estereótipo que imponha dureza. Soma-se um momento social que condiciona tensões praticamente inevitáveis. A criança é retirada da primary community (comunidade primária) de relações imediatas, protetoras e cheias de calor, frequentemente já no jardim-de-infancia, e na escola experimenta pela primeira vez de um modo chocante e ríspido, a alienação; para o desenvolvimento individual dos homens a escola constitui quase o protótipo da própria alienação social. O costume que os professores tinham antigamente de distribuir biscoitos entre os alunos no primeiro dia de aula revelaria um pressentimento: serviria para amainar o choque. O agente dessa alienação é a autoridade do professor, e a resposta a ela é a apreensão negativa da imagem do professor. A civilização que ele lhes proporciona, as privações que lhes impõe, mobilizam automaticamente nas crianças as imagens do professor que se acumularam no curso da história e que, como todas as sobras remanescentes no inconsciente, podem ser despertadas conforme as necessidades da economia psíquica. Os professores têm tanta dificuldade em acertar justamente porque sua profissão lhes nega a separação entre seu trabalho objetivo — e seu trabalho em seres humanos vivos é tão objetivo quanto o do médico, nisto inteiramente análogo — e o plano afetivo pessoal, separação possível na maioria das outras profissões. Pois seu trabalho realiza-se sob a forma de uma relação imediata, um dar e receber, para a qual, porém, este trabalho nunca pode ser inteiramente apropriado sob o jugo de seus objetivos altamente mediatos. Por principio, o que acontece na escola permanece muito aquém do passionalmente esperado. Nesta medida, o próprio oficio do professor permaneceu arcaicamente muito aquém da civilização que ele representa; talvez as máquinas educativas o dispensem de uma demanda humana que se encontra impedido de realizar. Um tal arcaismo correspondente à profissão do professor como tal não apenas promove os simbolos arcaicos dos professores, mas também desperta os arcaismos no próprio comportamento destes, quando ralham, repreendem, discutem etc.; atitudes tanto próximas da violência física quanto reveladoras de momentos de fraqueza e insegurança. Mas, se o professor não reagisse subjetivamente, se ele realmente fosse tão objetivo a ponto de nunca possibilitar reações incorretas, então pareceria aos alunos ser ainda mais desumano e frio, sendo possivelmente ainda mais rejeitado por eles. Assim pode-se notar que não exagerei ao me referir a uma antinomia. A solução, se posso dizer assim, pode provir apenas de uma mudança no comportamento dos professores. Eles não devem sufocar suas reações afetivas, para acabar revelando-as em forma racionalizada, mas deveriam conceder essas reações afetivas a si próprios e aos outros, desarmando desta forma os alunos. Provavelmente um professor que diz: “sim, eu sou injusto, eu sou uma pessoa como vocês, a quem algo agrada e algo desagrada” será mais convincente do que um outro apoiado ideologicamente na justiça, mas que acaba inevitavelmente cometendo injustiças reprimidas. Diga-se de passagem que tais reflexões implicam imediatamente a necessidade de conscientização e de aprendizado psicanalítico para o magistério.

Por fim coloca-se a questão inevitável do “que fazer?”, para a qual neste caso, como em geral, considero-me extremamente desautorizado. Muitas vezes esta questão sabota o desenvolvimento consequente do conhecimento, necessário para possibilitar qualquer transformação. Nas discussões acerca dos problemas aqui aventados já se automatizou a atitude do “é um belo discurso, mas a situação se coloca de modo diferente para quem trabalha em meio à questão”. De qualquer modo posso enumerar alguns aspectos sem qualquer pretensão sistemática ou de resultados maiores. Em primeiro lugar, impõe-se um esclarecimento acerca do complexo em seu conjunto, nos termos em que foi aqui abordado, esclarecimento dos próprios professores, dos pais e, tanto quanto possível, também dos alunos, com quem os professores deveriam conversar sobre as questões cheias de tabus. Não evito a hipótese de que em geral é possível conversar com muito mais seriedade e maturidade com as crianças do que os adultos querem reconhecer para assegurar-se, por esta via, de sua própria maturidade. Mas não se deve superestimar a possibilidade de um tal esclarecimento. As motivações em causa, como assinalei, são muitas vezes inconscientes, e a mera nomeação de situações inconscientes, como se sabe, é inútil, de modo que aqueles em que essas situações se localizam não são esclarecidos espontaneamente em sua própria experiência; nesses termos, o esclarecimento só se verifica a partir do exterior. Com base nessa constatação, uma trivialidade psicanalítica, não se deve esperar muito do esclarecimento meramente intelectual, embora se deva iniciar por seu intermédio; um esclarecimento um pouco insuficiente e apenas parcialmente eficiente ainda é melhor do que nenhum. Além disto seria necessário eliminar quaisquer limitações e obstáculos ainda existentes na realidade que dão suporte aos tabus com que se cercou o magistério. Sobretudo é necessário tratar aqueles pontos nevrálgicos ainda na fase de formação dos professores, em vez de orientar a sua formação pelos tabus vigentes. Em nenhuma hipótese a vida privada dos docentes pode ser submetida a qualquer controle que não o das disposições do direito penal. Seria preciso contrapor-se à ideologia da escola, teoricamente de difícil apreensão, e que também seria renegada, mas que perpassa com tenacidade a prática escolar conforme as minhas observações. A escola possui uma tendência imanente a se estabelecer como esfera da própria vida e dotada de legislação própria. É difícil decidir até que ponto isto é necessário para que ela realize a sua tarefa; certamente não se trata só de ideologia. Uma escola aberta ao exterior sem qualquer restrição provavelmente também abriria mão dos aspectos de formação e de amparo. Não me envergonho de ser considerado reacionário na medida em que penso ser mais importante às crianças aprenderem na escola um bom latim, de preferência a estilística latina, do que fazerem tolas viagens a Roma que, via de regra, resultam apenas em desarranjos intestinais sem qualquer aprendizado essencial acerca de Roma. Certamente, na medida em que as pessoas da escola não permitem interferências, o fechamento da escola sempre tende a se enrijecer, sobretudo face à crítica. Tucholsky exemplificaria com aquela malvada diretora de escola rural, que justifica quaisquer horrores cometidos contra seus alunos frente ao protesto do simpático casal de namorados com a explicação: “aqui as coisas são feitas assim”. Não interessa saber quanto deste “isto é feito assim”‘ continua dominando a prática escolar. Esta postura é corrente. Seria necessário explicar que a escola não constitui um fim em si mesma, que o fato de ser fechada constitui uma necessidade e não uma virtude como a consideram inclusive determinadas formas do movimento da juventude, por exemplo a fórmula imbecil da cultura jovem como sendo uma cultura própria, atualmente festejada no plano da ideologia da juventude como subcultura.

Por enquanto, embora em grande medida desapareça sua base social, a deformação psicológica de muitos professores perdura, se minhas observações nos exames oficiais de seleção não me enganam. Se abstrairmos da supressão dos controles ainda remanescentes, essa deformação deveria ser corrigida sobretudo mediante a formação profissional. No caso de colegas mais antigos, haveria que se apelar simplesmente —- mediante perspectivas problematizadoras — a que Condutas autoritárias prejudicam o objetivo educacional que também eles defendem racionalmente. Sempre ouvimos, e me restrinjo ao registro sem qualquer intenção de juízo, que se rompem acordos de estudos no que se refere ao tempo de formação, sem levar em conta se deste modo se elimina seu élan, seu conteúdo mais importante. Mudanças de fundo exigem pesquisas acerca do processo da formação profissional Seria preciso atentar especialmente até que ponto o conceito de “necessidade da escola” oprime a liberdade intelectual e a formação do espírito. Isto se revela na hostilidade em relação ao espírito desenvolvido por parte de muitas administrações escolares, que sistematicamente impedem o trabalho científico dos professores, permanentemente mantendo-os down to earth (com os pés no chão), desconfiados em relação àqueles que, como afirmam, pretendem ir mais além ou a outra parte. Uma tal hostilidade, dirigida aos próprios professores, facilmente prossegue na relação da escola com os alunos.

Referi-me aos tabus acerca do magistério, e não à realidade da docência e nem à constituição efetiva dos docentes; mas ambos os planos não são inteiramente independentes entre si. De qualquer modo podem ser observados sintomas que justificam a esperança de que tudo isto se transforme quando a democracia tomar a sério sua chance, desenvolvendo-se na Alemanha. Esta é uma dessas parcelas limitadas da realidade para a qual a reflexão e a ação individual podem contribuir. Não é por acaso que o livro que considero politicamente mais importante publicado na Alemanha dos últimos vinte anos, seja o de um professor: Sobre a Alemanha, de Richard Matthias Müller. Mas não se deve esquecer que a chave da transformação decisiva reside na sociedade e em sua relação com a escola. Contudo, neste plano, a escola não é apenas objeto. A minha geração vivenciou o retrocesso da humanidade à barbárie, em seu sentido literal, indescritível e verdadeiro. Esta é uma situação em que se revela o fracasso de todas aquelas configurações para as quais vale a escola. Enquanto a sociedade gerar a barbárie a partir de si mesma, a escola tem apenas condições mínimas de resistir a isto. Mas se

a barbárie, a terrível sombra sobre a nossa existência, é justamente o contrário da formação cultural, então a desbarbarização das pessoas individualmente é muito importante. A desbarbarização da humanidade é o pressuposto imediato da sobrevivência. Este deve ser o objetivo da escola, por mais restritos que sejam seu alcance e suas possibilidades. E para isto ela precisa libertar-se dos tabus, sob cuja pressão se reproduz a barbárie. O pathos da escola hoje, a sua seriedade moral, está em que, no âmbito do existente, somente ela pode apontar para a desbarbarização da humanidade, na medida em que se conscientiza disto. Com barbárie não me refiro aos Beatles, embora o culto aos mesmos faça parte dela, mas sim ao extremismo: o preconceito delirante, a opressão, o genocídio e a tortura; não deve haver dúvidas quanto a isto. Na situação mundial vigente, em que ao menos por hora não se vislumbram outras possibilidades mais abrangentes, é preciso contrapor-se à barbárie principalmente na escola. Por isto, apesar de todos os argumentos em contrário no plano das teorias sociais, é tão importante do ponto de vista da sociedade que a escola cumpra sua função, ajudando, que se conscientize do pesado legado de representações que carrega consigo.

Educação Online

Políticos alemães divididos em torno do anti-semitismo

O Parlamento alemão queria aprovar por unanimidade uma resolução contra o anti-semitismo para coincidir com o 70º aniversário da Noite dos Vidros Quebrados. Mas o esforço se tornou uma vítima de brigas políticas.

Charles Hawley

Em 29 de setembro, foi a vez de Berlim. Apenas uma semana após o cemitério judeu no distrito central de Mitte da cidade ter sido reaberto após reformas, uma placa informativa foi manchada com slogans anti-semitas. Uma investigação teve início imediatamente para encontrar e punir os perpetradores, mas pouco progresso foi conseguido.

É a mesma história por todo o país. Em média, segundo estatísticas citadas por membros do Parlamento federal, um cemitério judeu por semana é vandalizado na Alemanha. Na semana passada em Potsdam, um pequeno monumento a uma família deportada durante o Holocausto foi pichada com suásticas. Duas semanas atrás na cidade alemã oriental de Jena, cantos anti-semitas foram cantados em uma partida de futebol. A lista prossegue.

Potencialmente mais danoso, entretanto, é o fato de que o anti-semitismo no país parece estar crescendo. Vários estudos nos últimos anos chegaram à conclusão de que o anti-semitismo não é apenas um problema marginal na Alemanha. Um estudo de setembro, divulgado pelo Centro Pew de Pesquisa em Washington, D.C., chegou à conclusão de que 25% dos alemães vêem os judeus de forma desfavorável. Apesar de ser bem menos do que os resultados de 46% na Espanha ou de 36% na Polônia, ele representa um aumento em comparação ao resultado de 20% encontrado na Alemanha em 2004.

Os políticos alemães estão atentos. De fato, desde o início do ano, um grupo de trabalho formado por todos os partidos no Parlamento alemão, o Bundestag, está ocupado formulando uma resolução condenando o anti-semitismo na Alemanha. A idéia era que estivesse pronta para o 70º aniversário do ataque nazista de 9 de novembro de 1938, conhecido como Noite dos Vidros Quebrados. Mas disputas políticas internas adiaram o projeto -e agora ameaçam torpedeá-lo totalmente.

‘Um fiasco político’
“Eu ainda tenho esperança de que conseguiremos encontrar uma linguagem comum para a resolução, mas infelizmente só será após o 70º aniversário”, disse Gert Weisskirchen, um parlamentar social-democrata que ajudou a iniciar o projeto, para a “Spiegel Online”. “Este terrível desdobramento (do aumento do anti-semitismo) exige que o tratemos com a dignidade apropriada. Nós não podemos permitir que se transforme em um fiasco político.”

Por ora, entretanto, todos os sinais apontam que é exatamente isso o que está acontecendo. A iniciativa começou no início deste ano, e Weisskirchen disse que até recentemente, os partidos envolvidos – o Partido Social-Democrata (SPD), a União Democrata Cristã (CDU) e seu par, a União Social Cristã (CSU, e conhecidos coletivamente como União), os Democratas Livres, o Partido Verde (PV) e o Partido de Esquerda – estavam todos falando a mesma língua.

Mas não mais. A União submeteu um texto para ser incluído na resolução se referindo ao anti-semitismo na Alemanha Oriental pré-reunificação. A passagem diz que “é preciso lembrar que Israel nunca foi reconhecido pela Alemanha Oriental, que empresários judeus tiveram seus bens tomados pelo governo alemão-oriental e tiveram que fugir, e que a Alemanha Oriental violou a lei internacional ao fornecer armas para a Síria anti-israelense em 1973.

O problema, entretanto, é que nem todos estão dispostos a aceitar essa passagem. Petra Pau, a vice-presidente do Bundestag pelo Partido de Esquerda de extrema esquerda, suspeita que o União esteja tentando pressionar seu partido a abandonar a resolução. “Nós não temos nenhum problema com uma formulação que fale do anti-semitismo na Alemanha Oriental após o término da Segunda Guerra Mundial”, ela disse à “Spiegel Online”. “Mas não na forma submetida pela CDU/CSU. É especialmente lamentável que, no final, o consenso do Bundestag contra o anti-semitismo tenha sido partido.”

O partido de Pau é controverso no cenário político alemão. O antecessor do Partido de Esquerda, o Partido do Socialismo Democrático (PDS), foi o sucessor democrático do partido comunista da Alemanha Oriental, o SED. Pau foi membro do SED antes de se tornar uma alta funcionária do PDS.

Mas ela não é a única que considera problemática a passagem recém apresentada. Weisskirchen aponta que o texto faz parecer que as pessoas tiveram bens confiscados na Alemanha Oriental por serem judias, o que, segundo ele, não é verdade. Muitos na Alemanha Oriental perderam suas propriedades e não foi um fenômeno limitado às pessoas que seguiam o judaísmo. Além disso, ele mencionou, a Alemanha Oriental aprovou uma resolução no final de sua existência expressando arrependimento pelas inclinações anti-semitas do Estado, um fato completamente ignorado pelo texto da CDU/CSU.

Removendo os obstáculos
Um comunicado de imprensa da CDU/CSU divulgado na quarta-feira deixa claro que os conservadores mantêm sua posição – e que visam associar o Partido de Esquerda ao anti-semitismo alemão oriental. “É verdade que queremos uma resolução sem a participação do Partido de Esquerda”, diz o comunicado. “Quando este partido, sob o nome de SED, controlava a Alemanha Oriental, ele negou a Israel o direito de existência e nunca reconheceu o Estado judeu. Nós achamos que é hipocrisia o Partido de Esquerda agora agir como se estivesse comandando a luta contra o anti-semitismo.”

O debate em torno da resolução ameaça ofuscar o aniversário de uma data importante na história nazista na Alemanha que levou aos assassinatos em massa do Holocausto. A Noite dos Vidros Quebrados, que se estendeu até 10 de novembro de 1938, viu Hitler soltar seus criminosos nazistas contra a população judia do país. Milhares de lojas judias foram destruídas naquela noite e centenas de sinagogas foram incendiadas. Os nazistas também mataram centenas de judeus e outros milhares foram detidos e enviados para campos de concentração.

Weisskirchen permanece esperançoso de que uma resolução possa ser aprovada até o final do ano, e talvez até mesmo até o final de novembro, ele disse. “Em setembro, nossas posições eram muito próximas; nós estamos trabalhando neste texto desde o início do ano. Agora, estes obstáculos foram colocados em nosso caminho. Eu espero que possamos removê-los.”

Der Spíegel

Mianmar padece nas mãos de sua junta

Yangun

Há um ano, a polícia e os militares de Mianmar tomaram as ruas desta cidade antiquada, em ruínas, e deram início a uma repressão mortal a milhares de monges budistas que protestavam contra os aumentos de preços dos alimentos e combustíveis.

Agora os generais que governam o país estão se preparando para uma reprise.

À medida que se aproxima o aniversário, a polícia ergueu barreiras nos arredores de Yangun e tem realizado revistas noturnas de casa em casa, logo após a meia-noite, à procura de dissidentes ou críticos do regime – qualquer um que possa querer comemorar os protestos.

Após uma explosão na quinta-feira, perto de Pagode Sule e da prefeitura, o centro das manifestações no ano passado, policiais armados isolaram a área e homens em uniformes verdes patrulhavam as ruas carregando pés-de-cabra. Um lojista local disse que quatro pessoas ficaram feridas na explosão.

O domínio dos generais em Mianmar, ex-Birmânia, tem sido testado repetidas vezes ao longo das duas últimas décadas – pelos monges em setembro passado, por Aung San Suu Kyi, a líder democrática sob prisão domiciliar, e por um poderoso ciclone neste ano, que colocou os generais em confronto com o mundo exterior, confuso com a resistência deles em aceitar ajuda.

Mas hoje, com seus principais rivais colocados de lado, exilados ou presos, os generais parecem estar no ápice de seu poder.

“Não é um regime em fuga ou prestes a cair”, disse Charles Petrie, que até o ano passado coordenava as operações da ONU aqui. Os generais podem parecer desatentos ao mundo exterior ou fora de contato com as dificuldades econômicas da população daqui, disse Petrie. “Mas em termos militares e de segurança”, ele acrescentou, “eles definitivamente sabem o que está acontecendo”.

Grupos de dissidentes birmaneses mantêm a esperança de que uma mudança de regime promoverá uma maior prosperidade para uma população empobrecida que vive em meio a terras incrivelmente férteis, madeiras tropicais abundantes, amplas reservas de gás natural e muitas outras riquezas.

Mas a única mudança em vista é muito menos grandiosa: Than Shwe, o general que está no comando desde 1992, atualmente está com mais de 70 anos. As perguntas sobre quem ou o que o sucederá levam a intensa e interminável especulação aqui.

A Ásia já teve sua cota de ditadores militares nas últimas décadas, mas poucos foram tão sigilosos e poderosos quanto o general Than Shwe. Quando o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, tentou contatá-lo em maio para discutir a ajuda às vítimas do ciclone Nargis, o general nem atendeu e nem retornou suas ligações. (Após repetidas tentativas ao longo de vários dias, Ban desistiu e passou a enviar cartas.)

Than Shwe tem sido chave para a resistência do governo militar, por meio de seu controle magistral, mas maquiavélico, de outros oficiais militares. De muitas formas, Than Shwe – individualmente – é o governo.

“É uma das coisas mais estranhas”, disse Priscilla A. Clapp, a chefe de missão da embaixada americana de 1999 a 2002. “Quando eu conversava com altos generais que estavam no alto escalão, eles diziam: ‘Até mesmo pessoas no topo não sabem o que está acontecendo’. Ninguém tem conhecimento de tudo o que Than Shwe está fazendo, exceto o próprio Than Shwe.”

Esta centralização total – que lembra o status do líder norte-coreano, Kim Jong-il – leva a uma grande incerteza sobre que tipo de líder ou sistema político Than Shwe deixará para trás.

Entre seus poderes mais importantes está o controle de bilhões de dólares das vendas de gás natural para a Tailândia, disse Clapp. A quantia totalizará pelo menos US$ 3,5 bilhões neste ano, segundo dados do banco central da Tailândia, e não há supervisão deste dinheiro exceto a dele próprio.

A linha que divide serviço público e negócios pessoais também freqüentemente é indistinta. As famílias dos altos generais estão envolvidas em muitas das maiores empresas do país. Na mesma linha, o ministro da Saúde de Mianmar, Kyaw Myint, é também o médico pessoal de Than Shwe.

O general conseguiu se manter no topo por meio de uma série de expurgos e aposentadorias forçadas, incluindo exonerações drásticas em 2004, que afastaram Khin Nyunt, um primeiro-ministro de mentalidade relativamente liberal, e cerca de 1.000 a 2.000 oficiais da inteligência militar sob comando do primeiro-ministro.

Os expurgos eliminaram muitos dos possíveis sucessores e criaram um vácuo intelectual nos altos escalões do governo. Paulo Sérgio Pinheiro, o emissário especial de direitos humanos da ONU para Mianmar de 2000 até o ano passado, disse que há uma óbvia falta de experiência internacional nos altos escalões.

“É uma das elites mais despreparadas, em termos de ditaduras, que se pode encontrar no mundo”, disse Pinheiro. “Ela é isolada demais.”

Até os anos 90, quando o presidente Clinton aplicou duras sanções contra Mianmar, os oficiais militares treinavam ou participavam de programas de intercâmbio com o Pentágono. Hoje, grande parte da liderança está barrada de entrar nos Estados Unidos, Europa e Austrália por causa das sanções.

Em uma era em que a informação básica sobre a maioria dos líderes mundiais está a apenas uma busca no Google de distância, o governo de Mianmar não oferece qualquer informação pessoal sobre Than Shwe. Não há biografias – oficiais ou não – nas livrarias daqui, e o general nunca dá entrevistas para jornalistas, locais ou estrangeiros. Diferentemente da dinastia Kim na Coréia do Norte, Than Shwe não é celebrado em um culto da personalidade.

Talvez a informação mais detalhada sobre ele foi publicada há 27 anos, quando as forças armadas de Mianmar eram ligeiramente mais acessíveis. Ela cabe em uma folha de papel com metade do tamanho de uma folha de papel de fotocopiadora, e é o curriculum vitae mais completo do governante de Mianmar: Than Shwe nasceu perto de Mandalay, em 1933, no coração rural daquela que na época era a Birmânia colonial, administrada pelos britânicos. Ele concluiu o ensino médio, mas nunca foi para a faculdade. Ele trabalhava como carteiro antes de ingressar no exército, onde foi treinado em guerra psicológica e travou vários combates contra os rebeldes.

Mais do que qualquer outra coisa, os anos como comandante de campo parecem ter forjado sua imagem de si mesmo.

“Ele acredita ser um verdadeiro nacionalista”, disse Razali Ismail, o emissário especial da ONU de 2000 a 2004. “Na primeira vez que nos encontramos, ele disse: ‘As pessoas acham que estamos fazendo isso pelo poder. Não, isso é pelo bem da nação. Eu lutei pelo país. Eu tenho cicatrizes no meu corpo’ – ele apontou para si mesmo – ‘ferimentos de bala’.”

Por décadas após sua independência do Reino Unido, em 1948, Mianmar foi duramente dividida segundo linhas étnicas. As forças armadas enfrentaram os rebeldes comunistas apoiados pela China, que, a certa altura, controlavam grandes áreas do país. Alguns grupos étnicos permanecem armados até hoje, mas acordos de cessar-fogo e a retirada do apoio da China e Tailândia aos rebeldes levaram a um período de relativa segurança.

Analistas políticos daqui dizem que Than Shwe vê a si mesmo na tradição dos antigos reis da Birmânia, que unificaram o país pela força e então construíram represas, estradas e pontes.

“Você sente que Than Shwe acredita que entrará para a história como um dos grandes líderes do país”, disse Petrie.

Em cada um dos últimos oito anos, o governo alega que a economia cresceu mais de 12%, mais que a China ou qualquer outro país na região. Mas sua população é tão pobre que o Programa Mundial de Alimentos estima que 5 milhões de pessoas carecem de alimento.

Nos últimos meses, a cooperação entre os generais e o mundo exterior melhorou um pouco. O ciclone em maio, que inicialmente causou grande tensão entre Mianmar e os governos ocidentais que ofereceram ajuda, pode ter criado uma pequena abertura para uma melhor cooperação, disse Mark Canning, o embaixador britânico em Mianmar.

“A esperança é de que isto se mantenha e leve a um maior benefício”, disse Canning.

Mesmo o referendo constitucional que foi promovido pela junta e amplamente condenado como uma farsa – o governo prendia as pessoas que faziam campanha pela rejeição – pode forçar os generais a adotarem uma nova configuração de poder.

Se 1933 for realmente o ano do nascimento do general Than Shwe, ele terá 77 anos quando a Constituição entrar em vigor em 2010. Analistas políticos se perguntam se ele abrirá mão dos assuntos cotidianos da administração do país.

Também não se sabe que papel seu segundo em comando, o vice alto general Maung Aye, terá, ou se o general Thura Shwe Mann, o chefe do Estado-Maior, que freqüentemente é descrito como potencial sucessor de Than Shwe, realmente será.

A única coisa que parece certa é a sobrevivência do exército, disse Clapp, a ex-diplomata americana aqui.

“Os militares não serão derrubados no futuro próximo”, ela disse. “Eles são poderosos demais, coesos demais. Independentemente das rivalidades que possam existir internamente, eles se manterão unidos no final.”

The New York Times

Crise financeira global tem um beneficiário: o dólar

David Jolly

O grande cataclismo no mercado em 2008 reduziu em 45% o valor das ações em todo mundo, levou os empréstimos bancários a quase secarem e fez os preços dos commodities despencarem de altas estratosféricas. E agora, paradoxalmente, está ajudando a valorizar o dólar que há muito vinha sofrendo.

A moeda americana está ultimamente em uma alta desenfreada, ganhando 15,5% contra uma cesta de moedas desde 1º de agosto. Enquanto o mercado de ações afundava de novo na quarta-feira, o dólar se valorizou novamente frente seus pares europeus, com a libra britânica caindo para US$ 1,6242, seu valor mais baixo em cinco anos, e o euro caindo para US$ 1,2843, seu valor mais baixo em dois anos. Apenas o iene, em uma exibição de energia própria, está mais forte.

Os líderes mundiais, que se reunirão em 15 de novembro em Washington para um encontro de cúpula para tratar da crise, podem ser perdoados por verem certa ironia no fato da moeda do país onde a crise global teve início ser considerada como um refúgio.

Há apenas seis meses, em 22 de abril, o euro passou de US$ 1,60 pela primeira vez, enquanto a libra era negociada a US$ 2. Mas depois que ficou evidente em agosto que a combinação de arrocho de crédito e choque de preços dos commodities estava afetando a economia real, o dólar repentinamente decolou, disse Kathleen Stephansen, chefe de pesquisa econômica global para o Credit Suisse, em Nova York.

A alta do dólar “é um sinal de pânico real e aversão ao risco”, ela disse, com os investidores liquidando os investimentos comprados em um momento em que as taxas de juros favoreciam muito os ativos europeus. Investidores institucionais, diante das perdas sofridas em investimentos americanos, também estão liquidando ativos no exterior para atender os “margin calls” (pedidos de cobertura), ela disse. Isso ajuda a fortalecer o dólar ao mesmo tempo que as moedas estrangeiras são vendidas para compra de dólares.

Derek Halpenny, economista sênior de câmbio em Londres do Bank of Tokyo-Mitsubishi UFJ, concordou. Os retornos “não são mais a motivação” dos investidores, ele disse. “Agora se trata de proteção do capital.”

Bancos centrais de toda parte buscaram enfatizar o apoio ao crescimento econômico em vez de preocupação com a inflação. Como resultado, os investidores esperam mais reduções de juros na Europa, deixando as taxas mais próximas das americanas e japonesas, o que deixaria menos atraente o investimento de curto prazo em ativos europeus. Após as reduções coordenadas das taxas de juros em 8 de outubro, a taxa referencial do overnight do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) está em 1,5%, enquanto a do Banco Central Europeu está em 3,75%. A taxa principal do Banco da Inglaterra está em 4,5%.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, disse na quarta-feira que o Reino Unido e outras importantes economias provavelmente entrarão em recessão, seguindo comentários semelhantes de Mervyn King, presidente do Banco da Inglaterra.

King mencionou na noite de terça-feira outro problema que estava prejudicando a libra, um que poderia ter conseqüências para os Estados Unidos e outros países que são devedores líquidos: a questão sobre quem pagará pelos imensos resgates aos bancos anunciados neste mês.

O ingresso de capital estrangeiro no Reino Unido caiu acentuadamente, disse King, e se não for substituído por outras formas de financiamento externo, o Reino Unido terá que reduzir rapidamente suas importações e a libra terá que se desvalorizar para compensar a diferença.

A grande exceção a esta força do dólar é o iene. Valendo 98,22 ienes, o dólar não está muito acima dos níveis vistos pela última vez em 1995. O iene está se beneficiando da compra do próprio iene por segurança, disseram os economistas, apesar da principal taxa de juros do Banco do Japão, a 0,5%, ser a mais baixa dentre as grandes economias.

Mas apesar da desvalorização das moedas européias poderem aumentar a sorte dos exportadores europeus, o iene está em um nível capaz de causar dor intensa aos fabricantes japoneses.

“Com estas taxas de câmbio e com a desaceleração da economia mundial, o Japão poderia caminhar para uma depressão, não apenas uma recessão, já que é completamente dependente das exportações para o crescimento”, disse Norbert Walter, economista chefe do Deutsche Bank, em Frankfurt. Mas Walter também está cético de que o iene e o dólar manterão seu terreno recém-conquistado, pelo menos a longo prazo.

“Eu não acho que seja certo interpretar estes movimentos nas taxas de câmbio como mudanças de tendência”, disse Walter. “Eu não acredito que durará.”

Stephensen, do Crédit Suisse, disse: “O processo de realinhamento na economia global será árduo. Então provavelmente veremos mais volatilidade tanto nos dados econômicos quanto nos mercados”.

A carnificina nas ações prosseguiu na quarta-feira, com o índice Dow Jones caindo 4,1% em Wall Street, e o índice de ações Standard & Poor’s 500 caindo 4,5%. Na Europa, o Euro Stoxx 50, um medidor das ações blue chips da zona do euro, caiu 5,4%, enquanto o FTSE 100, em Londres, caiu 4,5%. O CAC 40 em Paris caiu 5,1%, enquanto o DAX, em Frankfurt, caiu 4,5%.

As melhorias nos mercados de crédito -incluindo o terceiro dia consecutivo de queda nas taxas de empréstimos interbancários- fez pouco para aplacar os investidores em ações que começaram a se concentrar nas conseqüências corporativas daquela que pode vir a ser uma forte desaceleração. Os relatórios de lucros foram fracos nesta semana, e muitas empresas alertaram sobre vendas mais baixas e um panorama pessimista para o restante do ano.

Em Tóquio, o Nikkei 225 caiu 6,8% após três dias de ganhos enquanto o iene se valorizava. Em Sydney, o S&P/ASX 200 fechou 3,4% mais baixo. O índice Hang Seng, em Hong Kong, caiu 5,1%, com as ações da Citic Pacific caindo quase 25%. A empresa previu nesta semana uma perda de até US$ 2 bilhões causada pelo que disse ser operações não autorizadas no mercado de câmbio.

Os declínios nas ações ofuscaram um marco encorajador para os preços do petróleo, cujo barril caiu abaixo de US$ 68 -o valor mais baixo no ano. O preço do barril de óleo cru para entrega em dezembro caiu US$ 4,98, fechando US$ 67,20 o barril, nos negócios de quarta-feira em Nova York.

Herald Tribune