Monthly Archives: novembro 2008

Fidelidade está na compreensão da liberdade

Levada ao cinema, prosa libertária do escritor funcionou melhor na mão de diretores dispostos a trair, por respeito, o autor

Luiz Zanin Oricchio

Não resta dúvida de que a adaptação mais conhecida de um relato de Julio Cortázar para o cinema seja Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni. Mas o filme – uma das obras-primas do mestre italiano, deve ser considerada não uma versão literal, ou mesmo muito aproximada, do relato do argentino – é, antes, uma adaptação muito livre, que se inspira mais no espírito do texto em que em sua “letra”. O conto é Las Babas del Diablo (do livro As Armas Secretas) e o filme que dele Antonioni tira guarda o que poderíamos chamar da intriga central. Um crime é cometido e, ao aproximar-se do local do assassinato, uma testemunha descobre o delito. Mas nada sabe do criminoso.

Toda a arte de Cortázar, em seu texto, será mostrar como a realidade é, por assim dizer, decupada em camadas, das quais percebemos, em geral, apenas a mais superficial. No entanto, existe algo que insiste, e que nos tira do torpor cotidiano, como um sintoma. Algo como a insistência de um “real”, por baixo da realidade mais habitual, para usar termos da psicanálise de inspiração lacaniana. E é disso mesmo que trata Blow Up, expressão que, convém lembrar, designa o processo de ampliação da revelação fotográfica. O fotógrafo (David Hemmings) irá progressivamente ampliando as fotos que fez de uma mulher (Vanessa Redgrave) num parque londrino, até perceber o que parece ser um corpo inerte por detrás de uma cerca. Mas essa descoberta é apenas o começo do mistério e não a sua solução. Há que escavar constantemente nesse real que é dado, mas que também se esconde, em busca de uma essência bastante hipotética. É claro que Cortázar, através de um relato ficcional, discutia um dos antigos problemas da filosofia, que é o do acesso perfeito ao conhecimento, às coisas em si. Ter captado essa idéia central, e a incorporado à sua própria poética transformando-a num estudo também sobre as imagens, é prova do gênio de Antonioni e sua capacidade de atualizar um problema, retrabalhando-o em linguagem nova.

Afora esse caso mais famoso, Cortázar foi adaptado para o cinema, em seu próprio país, numa série de longas-metragens rodados por seu conterrâneo Manuel Antin. São filmes como La Cifra Ímpar, Circe e Intimidad de los Parques, que passaram no Brasil numa mostra promovida pelo Sesc anos atrás. Nunca entraram numa sala comercial, salvo engano. Desses filmes, La Cifra Ímpar é, provavelmente, o mais bem-sucedido. É baseado no conto As Cartas de Mamãe, de As Armas Secretas, e trabalha com tempos alternados na história dos irmãos que se apaixonam pela mesma mulher. É curioso assistir a esse filme porque sua realização lembra muito a de Alain Resnais em O Ano Passado em Marienbad, embora o diretor negue a influência. Mas a referência de Resnais é sempre muito forte em trabalhos que usem o tempo como matéria-prima. Em todo caso, de maneira nacionalista, Antin diz que foram argentinos como Borges, e o próprio Cortázar, que influenciaram os franceses, e não o contrário.

Já Circe, do conto homônimo, expressa o temor do homem em relação ao universo feminino – e também uma certa obsessão alimentar de Cortázar, que ele, à maneira psicanalítica, procurava exorcizar expressando-a; isto é, escrevendo. Em A Intimidade dos Parques, a ação, originalmente passada na Grécia antiga, é trazida para o Peru, para o santuário de Machu Picchu. São trabalhos interessantes, os de Antin, mesmo porque trabalham sobre um material de ficção de primeira linha. Nem sempre, no entanto, ele consegue dar a esse material uma transposição imagética à sua altura. Fascinado pelo texto de Cortázar, é muitas vezes excessivamente respeitoso, quando sabemos que, nas adaptações, o melhor mesmo é ter disposição de trair, por respeito ao autor. E não o contrário.

Por fim, é preciso lembrar da adaptação brasileira de um texto de Cortázar, A Hora Mágica, feita por Guilherme de Almeida Prado a partir do conto Cambio de Luces, do livro Alguién que Anda por Aí. No original, Cortázar estuda como a simples mudança da posição de um abajur pode alterar completamente a percepção – inclusive psicológica, que se tem de alguém. Guilherme muda a situação, e altera bastante o conto. No caso, faz do seu personagem (Raul Gazzola) um dublador de rádio, alguém que é conhecido do público (e por uma mulher que por ele se apaixona) apenas pela voz, sem que seu rosto seja visto. Aqui, a mesma idéia, esse trabalho ficcional com o enigma humano da percepção. Nunca dominamos por completo a percepção; nunca vemos as seis faces de um cubo. Tudo é parcial, tudo é relativo e confuso. Por isso, essa abertura para a surpresa – e para o fantástico, que era a melhor característica dessa prosa estruturalmente libertária que é a de Julio Cortázar. Os que mais bem o adaptaram foram os que compreenderam essa ânsia de liberdade contida no texto.

O Estado de São Paulo

Os desafios de um autor iconoclasta

Livros de Cortázar provocam academia com humor e releituras escandalosas

Antonio Gonçalves Filho

Aragon é, sem dúvida, o grande inspirador de A Volta ao Dia em 80 Mundos, de Cortázar – e isso não só pela epígrafe inicial que cita Le Roman Inachavé (1956), a autobiografia do poeta surrealista escrita em versos, aos 59 anos. Como no livro de Aragon, esse ensaio autobiográfico pós-cubista de Cortázar é um patchwork bordado com a sensação de fiasco, a soma dos fragmentos de uma vida marcada por contradições e escancarada pelas dúvidas de um escritor cético, que, em 1967, parece ter perdido a esperança no caráter de seus pares, a ponto de escrever que o mais grave problema dos argentinos não é a ditadura, mas a falta de humor. Lá pelo meio do primeiro tomo do livro, parafraseando um verso de Ricardo Molinari, Cortázar pergunta: “Quem nos salvará da seriedade?”

Essa pergunta, evidentemente, era uma resposta a uma certa parcela da crítica que, na época, ensaiava chutá-lo para um “cantinho de bufões”, exatamente como o engajado Mauriac relegou à cozinha o “alienado” Cocteau. O humor de Cortázar incomodava os “sérios”. Para ele, assim como para Man Ray, era preciso expulsar do dicionário a palavra sério. Repetindo uma frase da peça de Albee, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, Cortázar lembra que “nenhum monólito jamais foi capaz de aceitar uma brincadeira”, citando os nomes de seu ídolo Macedônio Fernandez, do primeiro Borges, do primeiro Nalé e de Leopoldo Marechal como “outsiders escandalosos em nosso hipódromo literário”.

Chovem citações em A Volta ao Dia em 80 Mundos, a partir mesmo do título, que inverte o da saga planetária de Jules Verne, em que o rico Phileas Fogg aposta com seus companheiros de clube (a Maçonaria?) ser capaz de dar a volta o mundo em 80 dias. Aqueles que acusam Cortázar de ter escrito romances em que sempre se põe em dúvida o que afirma o autor têm motivos de sobra para largar o livro logo na primeira página, pois, antes de tudo, cada relato seu é “um testemunho de estranhamento”. Antecipando em 40 anos a estética dos blogs na internet, Cortázar mistura anúncios publicitários com fotos de escritores e seus personagens, cantores populares, insetos e reproduções de obras artísticas transformadas em collages, repetindo o que faziam seus mentores surrealistas, cuja principal tarefa – a de arrancar a linguagem do sistema repressivo e fazer dela um instrumento de gozo, como queria o tcheco Karel Teige -, foi assumida com prazer por Cortázar. Seu negócio, evidentemente, era seduzir o leitor.

A mulher de Cortázar, quando o marido escrevia o livro, do qual só tinha clareza o título, temia que a arteriosclerose já tivesse arruinado sua cabeça, tamanha era a anárquica confusão de nomes e temas sobre as folhas de papel. De birutas notáveis como Raymond Queneau a cronópios como John Keats – ele chegou a escrever 600 páginas sobre o poeta -, passando pelo estripador Jack, Cortázar faz um inventário de suas obsessões, tentando encontrar em cada uma delas traços de uma “medula universal que rege as exceções”. Isso explica a extrema dedicação à análise do amor homossexual de Foción por Fronesis no Paradiso de Lezama Lima, porque também a diversidade sexual interessava ao autor de Bestiário (Cortázar era bissexual e suas reflexões sobre os prazeres do sexo anal teriam influenciado Bertolucci a filmar a mais escandalosa cena de O Último Tango em Paris).

Modestamente, Cortázar diz que esse estudo sobre o romance de Lezama Lima (leia trecho sobre ele nesta página), publicado em Cuba em 1966 e hoje considerado uma obra-prima, não é propriamente um ensaio, porque isso exigiria uma análise rigorosa à luz de Bachelard e Eliade. Mesmo assim, é o mais revelador texto de A Volta ao Dia em 80 Mundos, a ponto de Cortázar ter sido praticamente o único a descobrir a referência concreta que o escritor cubano faz a Jules Verne num episódio erótico de Paradiso, em que o remador Leregas, “de priápicas dispensas”, recebe a visita do insuspeito atleta Baena Abornoz numa academia de ginástica de Havana, onde a “presa de javali” do último faz o primeiro “morder a borda da cama num êxtase de delícias”. A propósito, a referência a Verne está na lembrança de Leregas da cratera Yocul de Viagem ao Centro da Terra, sendo que essa montanha do cabo Portland, Yocul, evoca a palavra culo (bunda, ânus) em castelhano.

Para contrabalançar esse entusiasmo, Cortázar começa Último Round – espécie de conclusão de A Volta ao Dia em 80 Mundos – com a descrição bem viril de uma luta de boxe do pugilista cordovês Juan Yepes, que saiu do ringue carregado, após um prolongado afastamento. Passando pela descrição do prazer gastronômico do artista Julio Silva, que estava hospedado em sua casa à época do livro, e pela explicação de um parágrafo erótico em glíglico, língua isolante que perturba a comunicação em O Jogo da Amarelinha, Cortázar radicaliza a experiência do primeiro livro, disposto a mostrar que só os latinos podem explorar o novo, ser iconoclastas, pois aos franceses – ele passou grande parte da vida na França – lhes custa inventar. Ele assume que a literatura anglo-saxônica foi determinante para ele, em especial o uso do humor como arma literária. A exemplo do personagem Horácio Oliveira, de O Jogo da Amarelinha, ele expõe sem pudor, em Último Round, todas as suas dúvidas, concluindo seu jogo em 1967, antes que os catedráticos agredissem o livro com palavras como profundidade, seriedade e responsabilidade.

Trecho

Se falo da Argentina é porque a conheço um pouco, mas quando estive em Cuba também encontrei jovens intelectuais que sorriam ironicamente ao lembrar como Lezama costuma pronunciar caprichosamente o nome de algum poeta estrangeiro; a diferença começava na hora em que esses jovens, instados a dizer algo sobre o poeta em questão, ficavam só na boa fonética enquanto Lezama, em cinco minutos de falar sobre ele, deixava-os todos de queixo caído. Um dos indícios do subdesenvolvimento é essa nossa exigência exagerada em relação a tudo o que tem a ver com a casca cultural, as aparências e placa na porta da cultura. Sabemos que Dylan se diz Dilan e não Dáilan como dissemos da primeira vez ( e nos olharam com ironia ou nos corrigiram ou desconfiamos que alguma coisa não ia bem); sabemos exatamente como deve pronunciar-se Caen e Laon e Sean O’Casey e Gloucester. Isso é muito bom, da mesma maneira que manter as unhas limpas e usar desodorantes.

AUTOR UNE-SE A SUPER-HERÓI CONTRA DITADURA

FANTOMAS: É um curioso texto, este escrito por Julio Cortázar em meados de 1975, por ocasião da segunda sessão do Tribunal Russell, consagrada à repressão militar na América Latina. Fantomas Contre les Vampires des Multionationales (Seuil, 1991) é expressão do Cortázar mais político, que apoiava o governo da Nicarágua e de Cuba e dizia claramente de que lado estava num momento de polarização ideológica. A pequena história de Fantomas, o herói das HQ, foi escrita para comentar exatamente essa situação política do Cone Sul (a maioria dos países vivia sob ditadura) e era importante que os crimes cometidos em nome da “segurança nacional” fossem denunciados internacionalmente. Um grupo de intelectuais usava seu prestígio para divulgar esses abusos à opinião pública internacional. Cortázar escreveu seu pequeno livro e doou os direitos ao Tribunal Russell.

Nem pelo fato de ser essencialmente política, a história de Fantomas perde uma das características principais da poética cortazariana – seu aspecto lúdico. O volume é um mix de informações factuais sobre a história daquele momento na América Latina, mesclando texto e histórias em quadrinhos. Realidade com ficção, desenho e palavras. O narrador é o próprio Cortázar. E ele, e seus colegas reais, como o mexicano Octávio Paz, o italiano Alberto Moravia e o uruguaio Eduardo Galeano se empenham em deter um terrorista que promove o seqüestro total dos livros do universo. Um atentado à inteligência – que era uma das marcas das ditaduras latino-americanas, ao lado do desprezo pelos direitos humanos. Os escritores conseguem a cooperação de Fantomas para resolver o caso.

Talvez Fantomas Contra os Vampiros das Multinacionais não seja o Cortázar mais inspirado. Mas não deixa de ser divertido, ao mesmo tempo em que se preocupa em intervir numa situação política que, àquela altura, parecia sem saída e sem esperança. Esse espírito lúdico, a maneira como o escritor busca no jogo e no improviso a maneira de enfrentar mesmo as situações trágicas é algo que permeia sua obra praticamente toda. É (também) brincando que se enfrenta o opressor. Hoje podemos rir com facilidade daquele tempo; na época, era mais difícil e Cortázar nos ajudou a fazê-lo. Se esse Fantomas ainda não foi traduzido em português, deveria ser. L.Z.O.

O Estado de São Paulo

Duplo Cortázar

De uma só vez são lançados dois livros fundamentais do escritor argentino, morto em 1984: A Volta ao Dia em 80 Mundos, que deve o título à saga planetária de Jules Verne, e Último Round, ambos inéditos no Brasil e da época em que Antonioni adaptou para o cinema um de seus contos

Antonio Gonçalves Filho

O mundo literário tem falado muito – e com justiça – da obra do alemão W.G. Sebald (1944- 2001), o autor de Austerlitz, mas poucos lembram de sua dívida com dois grandes escritores argentinos, Jorge Luis Borges (1899-1986) e Julio Cortázar (1914-1984). Do último herdou, por exemplo, o hábito de inserir fotografias em meio aos textos, não como ilustração, mas provocação, amplificando o caráter enigmático e perturbador das imagens. Dois exemplos desse pioneirismo formal são lançados em setembro pela editora Civilização Brasileira, do grupo Record, os livros A Volta ao Dia em 80 Mundos e Último Round, ambos traduzidos por Ari Roitman e Paulina Wacht, inéditos no Brasil e escritos por Cortázar, respectivamente, em 1967 e 1969, muito antes, portanto, de Sebald “inventar” sua nova e híbrida forma literária, cruzamento de novela com autobiografia e diário de viagem. Em ambos os casos, experiências pessoais dos autores são compartilhadas com o leitor, que abandona, assim, sua atitude passiva, tornando-se cúmplice do escritor.

Cortázar foi um autor de seu tempo, os anos 1960, uma época em que o novo cinema dialogava sem complexos com a literatura, o jazz abolia as fronteiras entre erudito e popular, as feministas queimavam sutiãs, o Vietnã incendiava e o núcleo familiar ameaçava implodir, dando origem a formas alternativas de organização social. Fanático por jazz, libertário, gênio precoce, aos 9 anos escreveu seu primeiro livro e deixou a família preocupada com o garoto asmático, que vivia num mundo suspenso entre o real e o imaginário. Ainda que tenha surgido, como escritor, justamente durante o boom latino-americano do realismo fantástico, Cortázar pouco tem a ver com García Márquez. Com Borges, sim, em termos. Foi, aliás, o autor de O Aleph quem publicou pela primeira vez, numa revista literária, um de seus mais conhecidos contos, A Casa Tomada, em 1946, um ano antes de sua incorporação ao livro Bestiário.

Borges e Cortázar tinham em comum a paixão pela literatura fantástica do século 19 e a admiração pelos franceses da geração de Gide. Contudo, suas posições políticas divergem. Borges, de certo modo, foi um conformista. Cortázar dizia não ter nascido para aceitar as coisas como essas se apresentam. Simpatizante da revolução castrista em Cuba, deu suporte aos sandinistas da Nicarágua, apoiou Salvador Allende e chegou até mesmo a escrever um romance, O Livro de Manuel (1973), para louvar a ação de guerrilheiros contra as ditaduras latino-americanas, morrendo – de complicações advindas da aids, segundo a amiga Christina Peri Rossi, ou leucemia, segundo a versão oficial – como um dos que batalharam para que o Tribunal Russell denunciasse as violações dos direitos humanos abaixo do Equador.

Ainda hoje visto como herói literário, seu túmulo, no cemitério de Montparnasse, em Paris, é, como a sepultura do ídolo pop Jim Morrison, um ponto de encontro de peregrinos, escritores inéditos que nele vão depositar pequenos textos na esperança de que sejam avaliados do além por Cortázar e até romancistas consagrados, como o chileno Luis Sepúlveda ou o mexicano Antonio Sarabia que, dizem, costuma levar cigarros para o morto. Necrofilia à parte, o fato é que Cortázar está mais vivo que nunca. Prova disso é o interesse de um grande grupo editorial por sua obra, investindo três anos de pesquisas para publicar os dois livros citados como foram originalmente concebidos. Até mesmo as edições estrangeiras, segundo a editora Andrea Amaral, estão incompletas, especialmente a francesa, que a Civilização Brasileira tentou comprar após constatar a falta de ilustrações originais na edição da mexicana Siglo XXI.

“Tínhamos de conseguir as ilustrações originais, pois ambos os livros foram pensados página a página por Cortázar em parceria com o artista Julio Silva e as edições estrangeiras que tínhamos em mãos estavam incompletas”, conta Andrea, que conseguiu, finalmente, localizar os filmes com as colagens do artista e recuperá-las para a edição brasileira. Segundo informa a editora, o artista Julio Silva virá ao Brasil em outubro, quando deverá estar em andamento a reedição de outros livros de Cortázar pela Civilização Brasileira.

Tanto A Volta ao Dia em 80 Mundos como Último Round são frutos da experiência radical que representa o livro mais conhecido de Cortázar, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), publicado em 1963. Nessa obra experimental, que convida o leitor a reconstruir sua estrutura e imaginar seu final, o escritor argentino (casualmente nascido em Bruxelas, onde seu pai era diplomata) retoma alguns procedimentos do romance seminal do irlandês Laurence Sterne, A Vida e Opiniões de Tristram Shandy (1759). Resumidamente, seria a história de um escritor chamado Horácio Oliveira, que interage com os membros de uma sociedade secreta, um clube parisiense capitaneado pela figura enigmática de La Maga. De Paris para Buenos Aires, sem escalas, Cortázar e o leitor viajam sem passaporte para encontrar Oliveira confinado num asilo, após sua – talvez – fracassada busca pelo “kibbutz do desejo”. Nesse jogo de amarelinha literário, em que Cortázar obriga o leitor a decifrá-lo, um dos personagens, Morelli, traduz sua filosofia e assume seu débito com os surrealistas, especialmente Breton, ao condenar antecipadamente o leitor por querer reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, trocando seus sentimentos pelo desejo irrefreável de análise.

Em A Volta ao Dia em 80 Mundos, a inspiração de Cortázar não é Sterne, mas o surrealista Aragon. Ele subverte Jules Verne e viaja por vários universos num único dia, concluindo a viagem em Último Round. Tudo num ritmo vertiginoso, antecipando a rapidez e a miscelânea temática dos blogs atuais.

Folha de São Paulo

Vestígios arcaicos

Cor da pele, vocabulário e analfabetismo remetem cortadores de cana de São Paulo aos tempos do escravismo

O cenário verdejante que pigmenta as fotografias e colore o horizonte não passa de ilusão -o tom do canavial é outro. A fuligem das queimadas ensombrece as varas de cana-de-açúcar e torna rubro-negra a terra roxa em que outrora se fincavam cafezais. Fragmentos da palha incinerada se amalgamam com o suor dos rostos e desenham máscaras escuras. A cor predominante dos canavieiros, de banho tomado, não muda.
São negros -a soma de “pretos” e “pardos”- 63,7% dos trabalhadores no cultivo da cana no país. A proporção supera os 43,4% de negros na PEA (população economicamente ativa) e os 55% na PEA rural.
A característica se repete em São Paulo, onde a presença negra na labuta da cana beira os 49%, o equivalente a 76% mais que na PEA geral do Estado e 54% mais que na sua fração do campo -conforme o Censo de 2000, em dados colecionados pelo economista Marcelo Paixão (UFRJ).
Os números frios ganham vida nas plantações. De perto, o canavial é mesmo negro.
Como eram os escravos que no Brasil moviam as moendas de cana, como documentou aquarela de Jean-Baptiste Debret em 1822. Ou, em gravura de William Clark de meses depois, os cativos que decepavam com facão a cana em Antígua.
Traços raciais e instrumentos de ofício se mantêm, mas o anacronismo vai além da semelhança de personagens dos retratos atuais com os das pinceladas do século retrasado.
É como se estatuto e cultura escravistas teimassem em permanecer, assim como um pé de cana se agarra ao solo e por vezes rende dez safras.
“Já conversei com o meu feitor”, diz um canavieiro, sobre a autorização para que ele fosse fotografado para a reportagem (pedido negado). “O meu feitor é bom comigo”, concede outro.
Inexiste conteúdo pejorativo, na boca dos cortadores, ao pronunciar a palavra. No Houaiss, uma acepção de feitor: “Diacronismo: antigo. Diz-se de encarregado dos trabalhadores escravos”.
É arcaico -ou velhaco-, porém os chefes de turma assim são chamados na roça. Imprimiu-se a expressão “feitor” em ação civil pública e em decisão judicial recentes.
Em meio ao canavial, o cortador cuida do seu “eito”. “Não paro até acabar o meu eito”, conta um. O dicionário define eito como “plantação em que os escravos trabalhavam”.

Analfabetismo
Assim como na escravidão africanos e descendentes cantavam, a cantoria hoje desafia o silêncio nas fazendas. Não são tristes os canaviais.
Em Serra Azul, um peão embala os golpes de podão com refrão da dupla sertaneja Gino e Geno: “Não é bebendo que você vai esquecer de mim; não é fugindo que o nosso amor vai chegar ao fim”.
Cortadores de cana apegam-se ao copo, reconhecem muitos deles. A convivência longe da roça confirma.
A caninha não era tabu pré-Abolição. Na década de 1820, Carlos Augusto Taunay recomendava aos senhores, no “Manual do Agricultor Brasileiro”, distribuir cachaça aos escravos após o jantar (reedição da Companhia das Letras, 2001, organização do historiador da USP Rafael de Bivar Marquese).
Naquele tempo, confinava-se a escravaria no analfabetismo. Na Revolta dos Malês, levante negro na Bahia de 1835, os líderes se distinguiram pelo domínio, raro, da leitura e da escrita.
Colhe-se o semeado. Com base em estatísticas de 2006, os pesquisadores Rodolfo Hoffmann (Unicamp) e Fabíola C.R. de Oliveira (USP) constataram que a escolaridade média dos trabalhadores da cana é de 3,7 anos. Na classificação de educadores, isso os reduz à condição de analfabetos funcionais.
No país, a média de estudo é de 6,9 anos. Na indústria do álcool, de 8,6.
Acumulam-se contratos em que a impressão digital do funcionário substitui a assinatura. “Não vou mentir, nunca fui à escola”, conforma-se uma lavradora. Ela não pode ler os relatórios do Ministério do Trabalho e da Organização Internacional do Trabalho que descrevem cortadores de cana “resgatados” e “libertados”.
Em maio, a Justiça Federal do Maranhão condenou um fazendeiro por reduzir seres humanos a condição análoga à de escravo. Ele foi acusado de torturar um funcionário com ferro de marcar gado.
Também por trabalho escravo, em 2005 a Justiça Federal de Piracicaba sentenciou à prisão um aliciador de paraibanos para o corte da cana em Nova Odessa (SP).
Cabem recursos.

Escravidão
Como interpretou Gilberto Freyre em “Casa Grande & Senzala”, a cana “trouxe em conseqüência uma sociedade e um gênero de vida de tendências mais ou menos aristocráticas e escravocratas”.
No canavial, o “mais ou menos” deu lugar ao paroxismo.
No livro clássico de 1933, o sociólogo pernambucano anotou que, nos idos de 1850, anúncios apregoavam preferência por negros com todos os dentes da frente. Nas plantações contemporâneas, multiplicam-se banguelas.
No finzinho do século 17, o jesuíta Jorge Benci pregava que os escravos não dessem duro aos domingos, como cita Bivar Marquese no livro “Feitores do Corpo, Missionários da Mente” (Companhia das Letras, 2004).
Hoje o Ministério Público do Trabalho combate o regime de cinco dias por um, adotado em muitos canaviais, no qual poucas folgas caem nos domingos e feriados.
A escala impede os oriundos de Minas Gerais e do Nordeste de celebrar datas que lhe são caras em virtude da religião.
No passado, batia o aperto, corria-se ao matinho. Segue assim: muitas empresas não instalam banheiros móveis obrigatórios ou, por inibição, os lavradores os evitam.
Se antes os filhos da casa grande se iniciavam nos dengos da cama com as moradoras mais formosas da senzala, agora se protocolam denúncias de assédio sexual de feitores contra as cortadoras.
Nas famílias canavieiras, mulheres vivem de outra profissão herdeira do Brasil colonial: são empregadas domésticas. Nessa atividade, elas têm mais tempo pela frente.
A socióloga Maria Aparecida Moraes Silva (Unesp) estima que a vida útil dos cortadores seja de 15 a 20 anos. É menos que a dos escravos nas décadas derradeiras do cativeiro no país. É como se os lavradores “estivessem em uma galé”, escreveram os professores Francisco Alves (UFSCar) e Marcelo Paixão.
Em 13 de maio de 1888, a princesa imperial firmou a lei nº 3.353, com dois artigos: “É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário”.
No interior paulista, evoca-se a história. Em Dois Córregos, um migrante pernambucano sobrevive em uma espécie de cortiço na rua 13 de Maio. Em Guariba, uma habitação degradada de cortadores maranhenses fica na avenida Princesa Isabel.
Em Piracicaba, uma blitz oficial parte de outra rua 13 de Maio. Vai para a roça, onde aves de rapina perseguem os roedores que as queimadas expulsaram das tocas.
Sem dar pelota ao duelo entre ratos e urubus, homens e mulheres cortam cana.

Folha de São Paulo

Ética

História
Antonio Carlos Olivieri

Todo mundo quer ser feliz. Isso é ponto pacífico. No entanto, o que é a felicidade? A resposta a essa questão é certamente matéria de muita discussão e controvérsia. Para uns a felicidade está na buscar do prazer. Para outros, o prazer tem como conseqüência a instabilidade, a dor e o sofrimento. Por isso, o ideal seria não dar asas às paixões e controlá-las.

Também há quem pense que a perfeita felicidade só se encontra numa vida futura, que deve existir após deixarmos este “vale de lágrimas”. Para outros, ainda, não é a felicidade que conta, o que importa é agir conforme o dever, ainda que isso exija muito desgosto.

Essas questões – que qualquer pessoa sempre acaba se colocando algumas vezes, de um modo ou de outro – também têm sido preocupação de muitos filósofos, através dos tempos. Ao tratarmos dos valores, vimos que geralmente nos referimos às regras de conduta aceitas por um grupo ou uma pessoa, quando falamos em moral.

O bem e o mal
Ora, ao se comportar moralmente, uma das preocupações do homem é saber distinguir o bem do mal, já que agir moralmente é atuar de acordo com o bem. Portanto, ao perguntar como deve agir em determinada situação, o indivíduo ou sujeito moral não está somente se colocando uma dúvida prática, mas também se aproximando de outras questões de caráter teórico e abstrato, tais como:

em que consiste o bem?

qual é o fundamento da ação moral?

qual é a natureza do dever?

A colocação dessas questões é o ponto de partida da ética, entendida como a teoria que realiza uma reflexão crítica sobre a experiência moral, com a finalidade de discutir as noções e princípios que fundamentam a conduta moral.

Antigüidade grega
A reflexão ética do mundo ocidental se iniciou na Grécia antiga, no século 5 a.C., quando as interpretações mitológicas do mundo e da realidade foram sendo desacreditadas e substituídas por teorias que privilegiavam as explicações naturais.

Sábios e retóricos gregos do século 5 a.C, que vendiam seus ensinamentos filosóficos, atuando como professores, os sofistas rejeitaram o fundamento religioso da moral, considerando que os princípios morais são resultado das convenções sociais. Nessa mesma época, o famoso filósofo Sócrates se contrapôs à posição dos sofistas, buscando os fundamentos da moral não nas convenções, mas na própria natureza humana.

As idéias do filósofo grego Sócrates (470-399 a.C) nos chegaram através dos textos de um de seus discípulos, o filósofo Platão (427-347 a.C), que, no diálogo chamado “Eutífron”, mostra Sócrates questionando as ações do homem ímpio ou santo, em sua conformidade com a ordem constituída, para então perguntar em que consiste a impiedade e a santidade em si, independentemente dos casos concretos.

Para o filósofo que os sucedeu, Aristóteles (384-322 a.C), todas as atividades humanas aspiram a algum bem, dentre os quais o maior é a felicidade. Segundo esse filósofo, entretanto, a felicidade não consiste em prazeres ou riquezas. Aristóteles considerava que o pensar é aquilo que mais caracteriza o homem, concluindo daí que a felicidade consiste numa atividade da alma que esteja de acordo com a razão.

A filosofia do prazer
Já os adeptos do hedonismo (do grego “hedoné” = “prazer”), acreditavam que o bem se encontra no prazer. No entanto, convém esclarecer que o principal representante do hedonismo grego, no século 3 a.C., o filósofo Epicuro, considerava que os prazeres do corpo são causa de ansiedade e sofrimento. Segundo ele, para a alma permanecer imperturbável, é preciso desprezar os prazeres materiais privilegiando-se os prazeres espirituais.

Genericamente, pode-se dizer que a nossa civilização contemporânea é hedonista, pois identifica a felicidade com o prazer, obtido principalmente pela aquisição de bens de consumo: ter uma bela casa, carro, boas roupas, boa comida, múltiplas experiências sexuais sem compromisso, etc. E, também, na dificuldade de suportar qualquer desconforto: doenças, problemas nos relacionamentos pessoais, o fato de a morte ser inevitável, etc.

Estoicismo
Na mesma época dos hedonistas, Zenão de Cício fundava o pensamento estóico, desprezando os prazeres em geral, por considerar que deles decorrem muitos males. Segundo ele, deve-se buscar eliminar as paixões, que só produzem sofrimento. O homem sábio vive de acordo com a natureza e a razão. Desse modo, deve aceitar com resignação a adversidade e o sofrimento. “Suporta e abstém-te”, era a sua máxima.

O estoicismo foi uma corrente filosófica que vigorou por cinco séculos, encontrando seu apogeu na Roma imperial. Seu conteúdo seduzia tanto escravos, como Epitecto (50-127 d.C), quanto imperadores, como Marco Aurélio (121-180 d.C). Um de seus maiores expoentes foi Sêneca, que, entre outras coisas, foi o tutor do imperador Nero. O objetivo de sua moral é chegar à ataraxia, a ausência total de perturbação do espírito.

O ideal estóico originou a noção de ascese que consiste no aperfeiçoamento da vida espiritual por meio de práticas de mortificação do corpo, como jejum, abstinência e flagelação. O ideal ascético foi muito bem aceito pelo cristianismo medieval, que via no sofrimento uma forma de aproximação com Cristo.

Educação

Software livre, pós-capitalismo e… negócios

Encontro da comunidade brasileira ligada ao GNU/Linux reúne público recorde, confirma papel destacado do país na luta pela liberdade de conhecimento e revela: é possível ganhar a vida, criar e empreender praticando uma lógica oposta à da propriedade privada e do interesse egoísta

Débora Pinheiro

De 17 a 19 de abril, em Porto Alegre, o 9º Fórum Internacional Software Livre – FISL 9.0 – reuniu mais de 7,4 mil participantes de 21 países no Centro de Eventos da PUCRS. Desavisados encarariam o evento como um encontro de nerds e fissurados por jogos, acessórios tecnológicos e programas de computador que quase ninguém usa. Ledo engano: no FISL, o maior encontro da área de tecnologia da informação na América Latina, a escolha pelo código aberto revela-se muito mais estratégica do que meramente técnica.

Ao confirmar o Brasil na posição de líder latino-americano no uso, no desenvolvimento e na disseminação do software livre, o 9º FISL mostrou que o código aberto é um potente denominador comum entre hackers, gestores do governo, pesquisadores, empresários e militantes de esquerda no País e no cenário internacional. O clima descontraído do evento, em que os hackers fizeram a festa, crianças circulavam com seus XO, representantes de movimentos sociais se manifestavam e um mestre de cerimônias vestido de pingüim fazia pose para todas as câmeras deu a muitos jornalistas a impressão de que o público se compunha maciçamente de estudantes. Mais um engano: os números consolidados do FISL 9.0 mostram que profissionais e empresários foram o público principal do evento, representando 73% dos participantes.

“Encontro da comunidade brasileira ligada ao GNU/Linux reúne público recorde”
Para além da possibilidade de ter acesso ao código do programa que se usa, o lema da comunidade do software livre é compartilhar conhecimento e informação. Esse é o ponto de partida que fez o FISL deslanchar desde 2000, e atingir público recorde em 2008. Atraindo atores importantes entre os que constroem e os que decidem sobre o uso do software livre, a nona edição do FISL acaba de confirmar que no Brasil a opção pelo código aberto consolidou-se em setores que se complementam: governo, comunidades da área de desenvolvimento de softwares e mercado. Por paradoxal que pareça, o evento impressionou pela presença de pesos pesados da indústria da informática e da tecnologia da informação, associados em sua maioria ao software proprietário. UOL, Terra, Telefônica, Google, Globo.com, Intel, Sun Microsystems e Yahoo Brasil foram algumas das empresas que participaram do evento, comprovando que o software livre provocou transformações importantes no mercado.

Não há nenhuma contradição em usar o software livre para fazer dinheiro, dizem os empresários que circularam pelos stands do FISL 9.0. Esse é também o ponto de vista do diretor sênior de estratégias para governo da Sun Microsystems nas Américas, Luiz Fernando Maluf. Para ele, a opção pelos sistemas abertos é um modelo de negócios. “Posso provar matematicamente que funciona”, diz, dando como exemplo o programa aberto Java, criado pela Sun e que conta hoje com cerca de 30 milhões de desenvolvedores espalhados pelo mundo. A seu ver, a Sun não atingiria o patamar atual – a companhia conquistou o terceiro lugar no mercado global de servidores – se tivesse optado por obter lucro em cima de registro de patentes. Ele explica que o envolvimento de tanta gente com o programa reduz o custo do desenvolvimento e acelera a chegada de cada novo produto ao mercado. O diretor sênior de estratégias para governo da Sun Microsystems nas Américas considera que o modelo de negócios baseado no registro de propriedade intelectual está com os dias contados.

Alternativa à propriedade intelectual: é possível ganhar dinheiro com software livre. Mas o conhecimento é livre. O que cada um desenvolve, a todos pertence
O novo modelo, baseado em serviços e não mais em patentes explica o trabalho de sedução feito por grandes empresas, que aproveitaram o FISL para prospectar talentos da comunidade do software livre. “Desenvolvedores de software livre trabalham por paixão”, descreve a administradora de sistema Unix Fernanda Weiden, 26 anos, que, ao fazer uma palestra sobre software livre na Alemanha, em 2005, recebeu uma proposta da Google, onde ainda trabalha. Nos stands das empresas, anunciam-se vagas dentro e fora do país. Graduação e familiaridade com interoperabilidade Windows/Unix são pré-requisitos incontornáveis, mas muitos desenvolvedores são contratados sem ter terminado o curso universitário. Ao que as empresas consultadas no evento indicam, os salários para desenvolvedores oriundos do software livre são mais interessantes. Um jovem profissional em início de carreira pode começar ganhando R$ 4 mil.

Usuários de programas livres, com código aberto, têm a possibilidade de entender como funciona o programa e de alterar a área em que estão registradas as informações que fazem o programa funcionar — o chamado código-fonte. Empresas públicas e privadas podem ter, assim, controle sobre a tecnologia que usam, adaptando os softwares às suas necessidades específicas. Dessa forma, auditorias podem ser feitas com transparência e sem a intermediação de companhias que detêm as informações sobre o programa usado, e cobram caro pela licença para usar seus programas. A General Public License (GPL), que em português significa Licença Pública de Uso Geral, é a licença mais popular para software livre. Permite que qualquer um copie, distribua, modifique e estude um programa. A GPL também determina que nenhum usuário pode se apropriar das modificações que faz no programa. Melhorias são de uso comum e já não pertencem a ninguém. Dessa forma, a lógica do software livre faz a prestação de serviço valer mais do que o produto estanque.

“Vou contar para vocês por que o software livre vai vencer. Não se trata de saber se vai vencer, mas quando”, avisa o presidente da Linux International, Jon “Maddog” Hall. Para ele, a queda dos preços dos computadores destoa do alto custo de softwares, que se tornam rapidamente obsoletos e cuja produção baseada no código fechado não consegue competir com os softwares construídos a partir de um modelo colaborativo. Hall percebe o desempenho do Brasil no desenvolvimento e na disseminação de programas em código aberto como fruto de um encontro feliz entre governo, indústria e a comunidade do software livre. Para ele, o Brasil é exemplar em se tratando de desenvolver soluções em larga escala com softwares de código aberto. Ele considera a Caixa Econômica Federal como um dos exemplos mais emblemáticos em se tratando de uso do software livre em larga escala na América Latina.

No Brasil, programas em código aberto vêm sendo adotados tanto em iniciativas públicas quanto no setor privado, afetando a vida até mesmo de quem não usa computador. Quem paga as contas ou vai fazer uma aposta usando terminais instalados nas Casas Lotéricas da Caixa Econômica Federal (CEF) está usando o sistema operacional o Linux, com a distribuição Debian. Saber isso não faz muita diferença, opina o gerente de tecnologia da informação Júlio Schneiders Neto, da Caixa. Para ele, o importante para o usuário é perceber que o uso do código aberto deixou os terminais mais ágeis e aumentou a qualidade das transações nos momentos de pico. “Antes de migraramos para o código aberto, uma transação durava em média 8 a 10 segundos. Agora, a média fica entre 3 e 4 segundos. Essa diferença representou, no ano passado, um incremento de 17% na quantidade de transações em todos os nossos terminais lotéricos”, conta Júlio Schneiders Neto.

Órgãos públcios, grandes empresas privadas e estatais, entram na dança. A Caixa economizou 10 milhões e tornou-se muito mais rápida. E o software livre chega às urnas eletrônicas
Em 2006, a CEF livrou-se do monopólio da multinacional Gtech, prestadora de serviços que dominava o sistema de processamento de dados de nove mil loterias espalhadas pelo Brasil. A Caixa migrou todos os seus cerca de 25 mil terminais financeiros lotéricos — que executam também diversas operações bancárias — para o sistema operacional Linux. “Só com licenças coorporativas, que deveriam ser pagas pelo uso de softwares proprietários, economizamos cerca de 10 milhões de reais desde então”, calcula o gerente de tecnologia da informação da Caixa Econômica Federal.

A partir das próximas eleições municipais, quem vota também estará usando software livre, já que a Justiça Eleitoral está migrando todas as 430 mil urnas eletrônicas do Brasil para uma distribuição Linux. Técnicos estão desenvolvendo uma distribuição Linux própria para uso nas eleições brasileiras, de forma a fazer com que o sistema fique mais seguro e possa ser controlado exclusivamente pela Justiça Eleitoral. A decisão de migrar para uma distribuição Linux visa atender a legislação brasileira, que determina o uso de tecnologia não proprietária em áreas estratégicas. Optar pelo código aberto também vai otimizar gastos para o Erário: o TSE estima que só nas eleições deste ano serão economizados R$ 4 milhões em licenças de software e contratos de suporte.

“O mal não está nos sistemas proprietários em si e sim no monopólio deles”, ressalta o governador do Paraná, Roberto Requião. Ele anunciou durante o FISL que, dentro de um mês, a telefonia privada do Estado será substituída por um sistema que utiliza voz sobre IP e software livre por meio da infra-estrutura de infovias da Copel, empresa estadual de energia. O novo sistema de telefonia foi desenvolvido pela empresa de tecnologia do Estado, a Celepar, que promete uma velocidade cinco vezes maior na rede e um custo de manutenção cinco vezes menor. Com a medida, Requião estima uma economia de 100 milhões de reais por ano para o Estado do Paraná. Valendo-se de uma lei estadual que estabelece preferência por softwares livres nas compras do governo, Requião comemora o fato de 80% dos contratos do governo do Paraná envolverem software livre. Calcula que, no Paraná, 200 milhões de reais deixaram de ser gastos desde 2003 por causa da implantação de sistemas de software livre.

Paraná e Rio Grande do Sul são Estados pioneiros em se tratando da preferência pelos programas em código aberto, tendência na qual o governo federal está apostando, ao definir novas regras para contratar serviços no setor de tecnologia da informação. Uma instrução normativa em processo de consulta pública privilegia soluções livres, sua publicação e seu compartilhamento por meio do portal do software público. Enquanto isso, o governo não apenas usa, mas também disponibiliza soluções que envolvem programas em código aberto. Para o gerente de Inovações Tecnológicas do Ministério do Planejamento, Corinto Meffe, o governo brasileiro está atendendo a demandas reprimidas da sociedade, ao oferecer soluções e prestação de serviços com ferramentas do software livre no Mercado Público Virtual, inaugurado durante o FISL 9.0. No site, órgãos de governo, universidades, pessoas físicas e jurídicas poderão oferecer e adquirir softwares e serviços de treinamento. A intenção é oferecer um catálogo de prestadores de serviço para as 16 soluções livres disponíveis no Portal do Software Público.

Meffe menciona o sucesso do software livre Cacic, o Configurador Automático de Informações Computacionais, um programa que supervisiona e realiza auditoria nas máquinas do serviço público. “Trata-se da primeira ferramenta disponível no portal do Software Público Brasileiro e o primeiro GPL do governo”, lembra. A ferramenta foi desenvolvida pela Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (Dataprev) e oferecida como um software público à sociedade pela secretaria de Logística e Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério do Planejamento. Com a versão GPL, ficou assegurado que a Dataprev é a mantenedora-raiz do software, tendo portanto direito de receber de volta todas as inovações que forem introduzidas pelos usuários. O Cacic tem agora mais de nove mil pessoas cadastradas e reúne mais de 730 prestadores de serviço, além de ter a participação de oito países e algumas prefeituras latino-americanas, como Montevidéu e Assunção.

Le Monde diplomatic

Na Dinamarca, a guerra das gangues alimenta o discurso antiimigrantes

Olivier Truc

Após um curto período de trégua, os tiroteios entre bandos rivais recomeçaram nos últimos tempos pelas ruas de Copenhague. Foram cinco ocorrências no espaço de quatro dias. O mais recente desses confrontos, que foi registrado na segunda-feira, 20 de outubro, aconteceu em pleno dia, na frente de uma escola. Ninguém foi ferido, mas a tensão e a preocupação não param de crescer.

Vários especialistas se dizem preocupados diante desta escalada da violência de tipo americano, na qual os motoqueiros dos Hell’s Angels (Anjos do Inferno), que vêm dominando a criminalidade organizada dinamarquesa desde os anos 1980, estão enfrentando bandos de jovens delinqüentes de origem imigrante que querem tomar o seu lugar e foram ganhando força ao longo dos últimos anos. A onda de violência atual teve início em meados de agosto com a morte de Osman Nuri Dogan, um jovem de 19 anos de origem turca que foi baleado na frente de uma pizzaria de Copenhague. Um membro do AK81, um clube que apóia os Hell’s Angels, foi preso, suspeito de ser o autor do assassinato, mas teve de ser libertado por falta de provas.

Desde então, a guerra das gangues deixou vários feridos no seu rastro. Cerca de trinta tiroteios ou confrontos com disparos de armas foram recenseados nas três principais cidades do país, Copenhague, Arhus e Odense. “Nenhum morador chegou a ser atingido, isso criou um ambiente de medo nas ruas”, constata o delegado Kim Kliver, chefe do Centro Nacional de Investigação, responsável da luta contra a criminalidade organizada.

“São conflitos locais que apresentam dois aspectos”, declarou o policial em entrevista ao “Le Monde”. “O controle do mercado das drogas e uma concepção estúpida da honra segundo a qual quando um lado atira, o outro deve necessariamente replicar”. Na maioria dos casos, esses conflitos colocam em confronto bandos de motoqueiros com gangues de jovens de origem imigrante, “mas, há também situações em que gangues de jovens de origem imigrante se enfrentam entre si”. Em todos os casos, os conflitos têm como origem o controle do tráfico de entorpecentes.

Esses bandos constituem a principal preocupação da polícia dinamarquesa. Segundo ela, os Hell’s Angels e seus bandos afiliados são compostos por cerca de trezentas pessoas. Do outro lado, cerca de duzentas pessoas de origem imigrante constituem as tropas de uma dezena de grupos, entre os quais o Black Cobra e o Den Internationale Klub. Estes últimos começaram a desafiar os motoqueiros a partir de 2005. Os Hell’s Angels tinham ficado enfraquecidos pela guerra que eles haviam travado entre 1994 e 1997 com outro bando de motoqueiros, chamado de Bandidos, em diversos países nórdicos, um conflito que havia provocado a morte de onze pessoas e deixado dezenas de feridos. Desde então, a polícia multiplicou as operações de grande vulto contra esses bandos, que com elas acabaram ficando enfraquecidos. Diante disso, as outras gangues aproveitaram a oportunidade para entrarem em ação.

No decorrer das últimas semanas, o conflito adquiriu uma nova dimensão. Retomando a retórica da extrema-direita dinamarquesa, também praticada por certas lideranças políticas que enxergam no crescimento dos bandos de origem imigrante o fracasso da política de integração implantada pelo governo, um dos mais conhecidos dentre os Hell’s Angels dinamarqueses, Jorgen Nielsen, mais conhecido como Jonke, declarou ao diário “Politiken” que ele e seus amigos iriam “cuidar do problema dos imigrantes”. “Já faz algum tempo, a Dinamarca vem sendo tiranizada por esse tipo de pessoas que me agrediram”, acrescentou Jonke, referindo-se a um ataque do qual ele foi vítima no ano passado.

Os Hell’s Angels, posicionando-se como os defensores dos dinamarqueses? “Os confrontos nada têm a ver com um conflito étnico, ao contrário do que os Hell’s Angels gostariam que acreditássemos”, rebate o delegado Kliver. “Mas, argumentos desse tipo lhes permitem, entre outros, recrutar com maior facilidade”.

Ao se posicionarem como vítimas, os Hell’s Angels esperam conquistar simpatizantes. Desta forma, eles podem manipular de modo mais eficiente, aqueles que o delegado Kliver chama de “idiotas úteis”. Esses bandos se mostram tanto mais propensos a investirem no argumento étnico que este alimenta diretamente sua ideologia: por ocasião de certas operações de busca efetuadas ao longo dos anos, os policiais escandinavos encontraram material de propaganda nazista.

Os Hell’s Angels também desenvolvem suas atividades num terreno propício, num país onde a extrema-direita se banalizou, desde que o Partido do Povo Dinamarquês passou a atuar como força de apóio parlamentar complementar para o governo minoritário liberal-conservador de Anders Fogh Rasmussen. A agressividade do discurso com os jovens imigrantes mal integrados vem sendo compartilhada pela maioria dos partidos, de todos os credos políticos.

Para debelar esta guerra aberta entre bandos, a polícia reforçou as patrulhas ostensivas e passou a contar com uma autorização especial que lhe permite intensificar suas operações de busca em determinadas áreas de riscos. Desde o mês de agosto, 200 armas foram apreendidas e 40 pessoas foram colocadas em regime de detenção provisória.

Le Monde

Alimentos coloridos protegem o cérebro

Uma dieta saudável é, por definição, uma dieta variada que ofereça ao organismo os diversos nutrientes de que precisa. Mas, da mesma forma que há alimentos cardioprotetores, também há os neuro-saudáveis. Esses produtos geralmente têm cores vivas e propriedades que protegem especificamente o cérebro

Ester Riu

Da mesma maneira que falamos de alimentos cardio-saudáveis, podemos falar de alimentos que são bons para nosso cérebro e que podem ajudar os neurônios a manter as conexões entre si e a retardar a deterioração das funções cognitivas associadas ao envelhecimento. Poderíamos chamá-los de alimentos neuro-saudáveis. Não se trata de uma dieta mágica nem de alimentar falsas promessas de manter o cérebro em perfeito estado, mas de identificar certos nutrientes que podem ter um efeito favorável em nossa matéria cinzenta.

O estudo da relação entre a alimentação e o cérebro é relativamente novo, mas há cada vez mais publicações científicas que demonstram que o que comemos afeta a saúde cognitiva, tanto negativa como positivamente, e que para manter o cérebro em bom estado, além de fazer “sudoku” e jogar Brain Trainer, podemos começar a prestar atenção em algo tão corriqueiro quanto a lista de compras.

“A comida é como uma substância farmacêutica que afeta diretamente o cérebro, e o fato de que pode alterar nossa saúde mental é muito animador, pois significa que as mudanças alimentares podem chegar a ser uma estratégia viável para proteger o cérebro, melhorar a capacidade cognitiva e deter os efeitos do envelhecimento”, afirma Fernando Gómez-Pinilla, neurocientista da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que publicou em julho um estudo na “Nature Reviews Neuroscience” no qual analisou mais de 160 trabalhos sobre essa questão.

Essa análise traz informações que podem ser muito valiosas na hora de decidir o que comprar para comer. Em produtos tão comuns quanto morangos, nozes, salmão e espinafre podemos encontrar uma fonte poderosa de alimentação para os neurônios.

Frutas silvestres
A cientista catalã Gemma Casadesús, que pesquisa a perda cognitiva e o envelhecimento no departamento de neurociências da Universidade Case Western Reserve, em Cleveland (Ohio, EUA), afirma que dá todos os dias a seus filhos morangos, framboesas e oxicocos [arando, uva-do-monte, "cranberry"]. Por que essas frutas, exatamente? A pesquisadora é muito consciente do poder antioxidante das frutas silvestres, depois que demonstrou em sua tese de doutorado, há quatro anos, que ratos que tinham sido alimentados com oxicocos eram capazes de produzir novos neurônios – processo conhecido como neurogênese – no hipocampo, a região do cérebro associada à memória.

Casadesús realizou sua tese sob a supervisão de James Joseph, chefe do Laboratório de Neurociência do Jean Mayer USDA Centro de Pesquisa de Nutrição Humana e Envelhecimento na Universidade Tufts, em Boston, e um dos primeiros a descobrir o efeito protetor dos antioxidantes no cérebro.

Joseph publicou um estudo em 1999 no “Journal of Neuroscience”, segundo o qual ratos de 19 meses – equivalentes a humanos de 65 ou 70 anos – que foram alimentados com extratos de nutrientes ricos em antioxidantes haviam demonstrado melhora na memória em curto prazo. Mais especificamente, os que haviam tomado extrato de oxicocos melhoraram nas tarefas de equilíbrio e coordenação. Desde então Joseph toma todas as manhãs um punhado de oxicocos com o café da manhã.

Nos últimos dez anos Joseph estudou as propriedades dos antioxidantes de frutas e verduras para tentar entender como podem ter esse efeito tão benéfico no cérebro. “Por trás das doenças cardiovasculares, da diabetes, do câncer, do Parkinson e do Alzheimer estão a inflamação e o estresse oxidante, e observamos que os arándanos têm a capacidade de apagar esses sinais inflamatórios e oxidantes e acender outros positivos que os bloqueiam”, explica.

Origens do Alzheimer
Tanto Joseph quanto Casadesús estão muito interessados em estudar o Alzheimer, e seu objetivo é se concentrar nos primeiros estágios da doença para ver se, tentando conter os primeiros sinais de perda de função cognitiva, se pode chegar a retardar o aparecimento dos efeitos mais devastadores dessa patologia neurodegenerativa. “É claro que não se pode curar o Alzheimer com a comida, mas o que nós gostaríamos é que cada pessoa possa reduzir sua probabilidade de desenvolver a doença e inclusive consiga preveni-la se souber que certos hábitos podem ajudá-la”, afirma Joseph.

Ele e Casadesús tomam certa distância em relação às pesquisas atuais de Alzheimer, concentradas na formação de placas amilóides, porque crêem que a doença começa muito antes de que se acumule a proteína beta-amilóide e que os processos inflamatórios e oxidantes poderiam ter muito a ver com isso. Casadesús sabe que esses processos não são os únicos causadores, mas sua intenção é estudá-los antes que a proteína amilóide comece a se acumular, para poder entendê-los melhor e ver qual é seu papel.

“Acreditamos que a amilóide é produzida como compensação para combater um forte estresse oxidante, e o que queremos é estudar cronologicamente um modelo específico de ratos transgênicos que sofrem uma deterioração cognitiva semelhante ao Alzheimer – o SAMP8 – para ver que efeitos têm os antioxidantes”, explica Casadesús.

A pesquisadora prevê utilizar resveratrol, o benéfico componente do vinho tinto, para conter a ação dos radicais livres. Esse trabalho está sendo feito em colaboração com uma equipe da Universidade de Barcelona e em parte com financiamento de La Marató da TV-3.

Apesar de o oxicoco consumido na Espanha ser diferente da “blueberry” americana (mirtilo) em que se baseiam esses estudos, o dr. Joseph afirma que os espanhóis podem se beneficiar dos antioxidantes consumindo morangos e nozes e bebendo vinho tinto. O pesquisador foi um dos primeiros a indicar as vantagens dos alimentos coloridos, como as frutas silvestres, espinafres ou brócolis. Casadesús insiste na importância da cor e acrescenta que outros estudos também demonstraram os benefícios dos fitoquímicos presentes nas maçãs, uvas pretas e romãs.

Outro nutriente importante para o cérebro são os ácidos graxos ômega-3, que se encontram em alimentos como o salmão, as nozes ou o kiwi. Segundo Gómez-Pinilla, eles atuam diretamente nas sinapses do cérebro, processo que é fundamental para o aprendizado e a memória. Um dos ômegas-3 mais importantes é o DHA, muito presente no salmão. “O DHA é um componente das membranas dos neurônios, mas tanto o cérebro como o corpo humano são deficientes na hora de produzi-lo, por isso temos de obtê-lo diretamente na alimentação”, indica o pesquisador de origem chilena.

Exemplo de Okinawa
Há estudos que demonstraram a relação entre uma dieta deficiente em ômega-3 e o aumento do risco de doenças. Nesse sentido, é interessante observar o que acontece em Okinawa, uma ilha japonesa onde se consome muito peixe (mais que a média japonesa) e as pessoas fazem exercícios regularmente. Os habitantes da ilha têm uma das expectativas de vida mais altas do planeta, e o índice de distúrbios mentais é muito baixo.

Continuando na Ásia, também devemos prestar atenção à cúrcuma, uma especiaria procedente da Índia e um dos componentes do molho curry. Essa especiaria, que às vezes é chamada de “aspirina da Ásia”, está sendo alvo de muitos estudos por seu valor como antiinflamatório e antioxidante. Na UCLA, uma equipe dirigida por Greg Cole pesquisa seus efeitos em doentes de Alzheimer e os resultados observados até agora são promissores: além de ser um poderoso antiinflamatório, a cúrcuma também parece reduzir o acúmulo de amilóide e a perda de marcadores sinápticos. Os especialistas indicam que a baixa prevalência de Alzheimer na Índia poderia ter a ver com o alto consumo de cúrcuma. O estudo de Gómez-Pinilla também salienta os benefícios para o cérebro dos alimentos ricos em ácido fólico (espinafre, suco de laranja, levedo) e de outros nutrientes, como os flavonóides (cacau, chá verde, frutas secas).

Esses três pesquisadores concordam em que é muito melhor comer diretamente o alimento do que tomá-lo em forma de suplemento. “Os diversos componentes de frutas como o oxicoco atuam no conjunto e em sinergia”, afirma Casadesús. Da mesma forma, nos beneficiamos muito mais do ômega-3 do salmão silvestre do que do de criadouro.

El Pais

Japão, da espada à indústria

O Japão para os ocidentais, por séculos, parecia ficar lá para os lados do fim do mundo onde tudo se acabava. Era a misteriosa e longínqua ilha de Cipango, citada por Marco Pólo, que fora descoberta pelo navegador português Mendes Pinto, em 1542.
Para os nipônicos, ao revés, o seu arquipélago situava-se no princípio de tudo, o começo de onde se vê por primeiro a notável bola incandescente que emerge do Oceano Pacífico, acreditando assim descender da celestial Amaterasu Omikami, a deusa do Sol.

Um mundo ao revés

Segundo o visitador jesuíta Alexandro Valignano (1539-1606), num relatório enviado aos seus superiores intitulado “Sumário das coisas do Japão”, de 1583, os japoneses eram diferentes em quase tudo. Polidos, asseados, gentis, fossem eles nobres ou gente do povo, não tinham a ignorância nem a rusticidade do camponês europeu.

Percebeu-os, mesmo as crianças, extremamente dotados para o estudo e para o rápido aprendizado geral: da escrita latina à ciência. Todavia, acrescentou, os nativos tinham gosto totalmente ao contrário. A cor preta, por exemplo, lhes parecia algo alegre, enquanto que o branco lembrava tristeza.

Além disso, frente aos estranhos, tiravam os calçados e se sentavam, costume bem oposto ao ocidental, que era o dede se colocar de pé e retirar o chapéu. Os sons que embalavam suas músicas são um tormento para um ocidental; para eles, por sua volta, um acorde europeu deixa-os tontos ou com os tímpanos dilacerados.

Inclusive a maneira de curar os doentes era totalmente diferente: o que um europeu recomenda como dieta para alguém acamado é inteiramente distinto da receita japonesa. Sem esquecer de mencionar que montavam no cavalo pelo outro lado.

Suas refeições são modestas e higiênicas, sempre acompanhadas por uma bebida quente, inclusive em pleno verão. Comem com faxies, com dois pauzinhos, desprezando o garfo ou a colher.

Enquanto nas travessas do ocidental reina um assado, de rês, frango ou porco, na mesa do lar japonês impera soberano o peixe cru acompanhado de sushi, o apreciado quitute de arroz. Para um é o grelhado, para o outro é o fervido. O hábito de se sentar sobre os calcanhares ou com as pernas cruzadas, para eles é um descanso, para o ocidental um suplício.

No tocante às relações pessoais ou funcionais, o japonês que se preza jamais se queixa frente a uma pessoa, especialmente seu superior. Considera isso de extremo mau gosto, uma descortesia. Quando encontram alguém é uma ocasião para manifestar satisfação e alegria e não para desfiar lamúrias ou lágrimas.(*)

Entendeu, o padre Valignano, que o Japão, ainda que inconscientemente, havia adotado uma infinidade de costumes com o firme propósito de ser diferente de todo o mundo. E, de fato, o era.

A perplexidade para com o comportamento japonês prosseguiu por séculos a diante. Nos estertores da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos solicitou à antropóloga Ruth Benedict que produzisse um texto para ajudar, de alguma forma, a entender os nipônicos, visto que os combates, ainda que intensos e mortíferos, estavam aproximando-se do desenlace final e os norte-americanos nada sabiam do país que, em breve, iriam ocupar.

Foi assim que nasceu um dos clássicos das ciências sociais, intitulado O Crisântemo e a Espada, 1945, e que veio a ser uma das melhores introduções ao entendimento da sociedade japonesa da nossa época.

(*) Significativo deste interdito que recomenda que um vassalo não apresente queixa, é a história de Sogoro Kiuchi, senhor de Kozumaru, hoje Narita, ocorrida em 1652, que se apresentou ao xogum Tokugawa Ietsuna para dizer-lhe que a população local, devastada pela fome e reduzida à pobreza extrema, estava impedida de pagar as taxas. O xogum acolheu a demanda, mas ordenou que Sogoro e sua família fossem executados, o que ocorreu em 3 de agosto, de 1653.

O Feito do Japão

Composto por uma conjunção geológica formada por mais de três mil ilhas que se estendem ao largo da costa oriental do Oceano Pacífico, vizinha da Rússia, da China e da Coréia, o Japão, banhado pelo Mar do Okhurt e pelo Mar do Japão, apesar das suas modestas extensões geográficas e condições econômicas, foi o único país do mundo e o primeiro da Ásia a enfrentar econômica e militarmente, em diversas ocasiões, os maiores poderes existentes na terra.

Primeira potência econômica e militar que se projetara no Oriente, na busca do seu lugar na constelação dos poderes universais, entre os anos de 1931 a 1945, chegou a conquistar um território de 5.441.600 km², povoado por mais de 450 milhões de indivíduos.

Como isso foi possível? Como um arquipélago montanhoso, que conta com 188 vulcões, atormentado por furacões e terremotos, pobre em minerais, petróleo ou ouro, circulando numa órbita própria tal como se fora um outro planeta, conseguiu tal poder e projeção internacional em tão curto espaço de tempo, desconhecida entre os demais habitantes da Ásia?

A mais plausível das explicações encontra-se na peculiar conjugação de elementos que atuaram sincronicamente naquela direção ao longo dos últimos dois séculos e história. Entre os quais, em primeiro lugar, identifica-se a determinação inquebrantável da genro, a elite imperial japonesa, em dotar o seu país de um poderio sem igual naquelas paragens. Em segundo lugar, tamanho feito deveu-se às históricas qualidades de disciplina coletiva da sua população, combinadas com a sua excepcional capacidade de trabalho.

E, em terceiro, a ausência entre eles de uma mentalidade subdesenvolvida. Nota-se, nos japoneses, a inexistência de um complexo de inferioridade em relação ao colonialismo europeu. Complexo esse muito comum entre os povos asiáticos que os levou a assumir, por vezes, uma psicologia paralisante e a prestar uma “servidão voluntária” ao homem branco recém chegado por lá.

Divisão Geográfica e Histórica

Situadas no Mar do Japão, as ilhas que compõem o país estendem-se do norte ao sul: da península de Kamchatka, no mar de Okhotsk, até aproximarem-se da península da Coréia, das quais se acham separadas pelo estreito de Tsushima e o da Coréia, de apenas 170 km de extensão.

Quatro delas, devido a suas dimensões e densidades demográficas, são as mais importantes: as ilhas de Hokaido, Honshu, Shikoku e Kyushu, que, somadas às demais, alcançam a extensão de 372 mil km², com uma população que, em 2000, ultrapassava os 127 milhões de habitantes.

Recorrendo a uma imagem figurada, poderíamos dizer que a cabeça do arquipélago nipônico encontra-se banhada pelas águas glaciais do mar de Okhotsk, enquanto seus pés, fixados na ilha de Okinawa, a 2.700 quilômetros mais abaixo, estão envoltos pelas águas quentes da bacia do mar das Filipinas.

A origem dos seus primeiros povoadores seguramente veio da China continental, ao redor dos anos 5 mil a.C., ou mais, de onde importaram a religião confucionista e a budista, como também a escrita ideográfica.

Os historiadores subdividiram a história do Japão em diversos períodos cujas denominações são: Jomon-Yayoi (300 a .C. – 300 d.C.); Kofun (300-538); Asuka (538-710); Nara (710-784); Heian (794-1185); Kamekura (1192-1333); Muromachi (1338-1573) Azuchi-Momoyama (1573-1603); Edo (1603-1867), Meiji (1868-1912); Taisho (1912-1926); Showa (1926-1989) e a Heisen (desde 1989), cobrindo assim 2.300 anos de história, desde os tempos míticos até o presente.

Todavia, apenas os últimos 300 e poucos anos serão objeto da exposição que se segue, basicamente concentrada nos períodos Edo e Meiji, que cobrem o tempo em torno do ano de 1600 às proximidades de 1914, e que se encaixam nas fases kindai e gendai, isto é, moderna e contemporânea, da história nipônica. Séculos fundamentais esses, pois registraram a transformação da sociedade japonesa – de uma estrutura marcadamente feudal, numa outra, crescentemente moderna e capitalista – sem que o culto e o respeito às tradições fosse, com isso, abandonado ou esquecido.

Educa Terra

A sexta extinção das espécies ainda pode ser evitada

Christiane Galus

A espécie humana, que já conta 6,7 bilhões de indivíduos, modificou de tal maneira seu meio ambiente que, nesta fase atual da sua história, ela já começou a atingir gravemente a biodiversidade das espécies terrestres e marinhas, e, no médio prazo, já está ameaçando a sua própria sobrevivência. A tal ponto que um número cada vez maior de cientistas não hesita a falar de uma sexta extinção, que será provocada pelas importantes alterações introduzidas pelo ser humano na natureza e no meio ambiente. Esta nova extinção deverá se suceder às cinco precedentes, que estabeleceram o ritmo da vida na Terra.

O FIM DO MUNDO?
Os primórdios da vida remontam a 3,7 bilhões de anos. Mas foi preciso esperar até a explosão do período cambriano, há 500 milhões de anos (Ma), para que apareçam os primeiros organismos marinhos complexos. A partir dessa data, cinco grandes extinções ocorreram.
A PRIMEIRA, HÁ 440 MA, fez desaparecerem 65% das espécies, todas elas marinhas. Glaciações importantes, seguidas por um forte aquecimento teriam provocado grandes flutuações dos níveis marinhos.
A SEGUNDA, HÁ 380 MA, provocou a morte de 72% das espécies, em sua maior parte espécies marinhas. A catástrofe teria ocorrido devido a um esfriamento global que se sucedeu à queda de vários meteoritos.
A TERCEIRA, HÁ 250 MA, foi tão importante que a vida por pouco não conseguiu renascer. Segundo estimativas, 90% de todas as espécies (marinhas e terrestres) desapareceram. As causas dessa catástrofe até hoje vêm sendo debatidas, mas, acredita-se que imensas massas de lava em fusão que arrebentaram na Sibéria, possivelmente provocadas pela queda de um asteróide, alteraram profundamente o clima e diminuíram o oxigênio, o qual se dissolveu na água dos mares.
A QUARTA, HÁ 200 MA, é associada à abertura do oceano Atlântico e ao surgimento de importantes massas de lava em fusão que aqueceram o clima. 65% das espécies desapareceram.
A QUINTA, HÁ 65 MA, é a mais conhecida, uma vez que ela é associada ao desaparecimento dos dinossauros e de 62% das espécies. Entre as causas apresentadas estão a queda de um asteróide no golfo do México e o surgimento de importantes massas de lava em fusão na Índia.
MAIS PERTO DA NOSSA ÉPOCA, NO DECORRER DE UM PERÍODO QUE VAI DE 50.000 A 3.000 ANOS, antes dos nossos dias, a metade das espécies dos grandes mamíferos que pesavam mais de 44 kg desapareceu. Alguns pesquisadores incriminam principalmente o homem e consideram que a sexta extinção, aquela que é provocada pela ação do Homo sapiens, já começou.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), com sede na Suíça, que desenvolve estudos sobre 41.415 espécies (de um total de cerca de 1,75 milhão conhecidas) para elaborar sua lista vermelha anual, avalia que 16.306 dentre elas estão ameaçadas. Ou seja, um mamífero em cada quatro, uma ave em cada oito, um terço de todos os anfíbios e 70% de todas as plantas estudadas estão correndo perigo, segundo a UICN.

Será ainda possível frear esse declínio das espécies, que corre o risco de ampliar-se quando o nosso planeta atingir 9,3 bilhões de humanos em 2050? Os biólogos americanos Paul Ehrlich e Robert Pringle (da universidade Stanford, na Califórnia) acreditam que isso seja possível, com a condição de que diversas medidas radicais sejam tomadas no plano mundial. Eles apresentam essas medidas num relatório publicado em 12 de agosto na revista especializada americana “Proceedings of The National Academy Of Sciences” (PNAS – Minutas da Academia Nacional de Ciências), numa edição que dedica um dossiê especial à sexta extinção.

Em preâmbulo, os dois pesquisadores não hesitam a declarar que “o futuro da biodiversidade no decorrer dos próximos 10 milhões de anos será certamente determinado pelo que acontecerá nos próximos 50 a 100 anos que estão por vir, em função da atividade de uma única espécie, o Homo sapiens, que tem apenas 200.000 anos de existência”. Se considerarmos que as espécies de mamíferos – às quais nós pertencemos – têm uma vida útil de um milhão de anos em média, isso coloca o Homo sapiens em meados da sua adolescência. Este “adolescente” mal-criado, “um narcisista que pressupõe a sua própria imortalidade, andou maltratando o ecossistema que o criou e o mantém em vida, sem preocupar-se com as conseqüências dos seus atos”, acrescentam severamente Paul Ehrlich e Robert Pringle.

Consumo excessivo
Segundo os dois cientistas, é preciso insuflar uma mudança de mentalidade profunda, de maneira que a humanidade enxergue a natureza com outros olhos. Isso porque “a idéia segundo a qual o crescimento econômico é independente da saúde do meio ambiente e que a humanidade pode expandir indefinidamente sua economia é uma perigosa ilusão”, afirmam Ehrlich e Pringle. Para enfrentar esta perda de rumo, é preciso começar controlando o ritmo da expansão demográfica e diminuindo nosso consumo excessivo dos recursos naturais, dos quais uma boa parte serve para saciar gostos supérfluos e não para as necessidades fundamentais. Por exemplo, a piscicultura e a avicultura são atividades menos onerosas em termos de transportes e de consumo de combustível, do que a criação dos porcos e dos bois, dois animais reunidos no sacrossanto cheeseburger com bacon…

Os autores do estudo propõem um outro ângulo de ataque: os serviços oferecidos pela biosfera são numerosos e gratuitos. Ela fornece as matérias-primas; os sistemas naturais de filtração das águas; a estocagem do carbono pelas florestas; a prevenção da erosão e das inundações pela vegetação, além da polinização das plantas por vários tipos de insetos e de pássaros. Por si só, esta última atividade movimenta cerca de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 2,4 bilhões) nos Estados Unidos. Com isso, seria extremamente necessário avaliar os custos dos serviços oferecidos pela natureza e incluí-los nos cálculos econômicos, de tal modo que se possa garantir sua proteção.

Para financiar o desenvolvimento das áreas protegidas, cujo número é insuficiente e que são excessivamente parceladas, Paul Ehrlich e Robert Pringle propõem que se recorra a fundações privadas dedicadas à conservação. Esta solução apresenta a vantagem de ser menos custosa para os contribuintes e permite gerar quantias importantes. Na Costa Rica, um fundo desse tipo, o Paz Con La Naturaleza, arrecadou US$ 500 milhões (cerca de R$ 800 milhões), quantia esta que servirá para financiar o sistema de conservação do país. É possível igualmente associar de maneira mais estreita pastores e agricultores nas tarefas de preservação da biodiversidade, evitando impor-lhes decisões em relação às quais eles não têm nenhum poder de controle, e com a condição de que a sua fonte de renda seja preservada. Esse processo deve ser viabilizado por meio de explicações e de uma melhor educação neste campo. Contudo, nada impede que esforços também sejam empenhados na restauração das áreas onde o habitat foi deteriorado.

Entretanto, os dois pesquisadores se dizem preocupados diante do divórcio crescente, nos países industrializados, entre a população e a natureza, divórcio esse gerado pela utilização intensiva da multimídia. Eles constatam que, “nos Estados Unidos, a expansão das mídias eletrônicas coincidiu com uma diminuição importante das visitas nos parques nacionais, depois de um crescimento ininterrupto que durou cinqüenta anos”. Além disso, ao que tudo indica, fenômenos similares andaram ocorrendo em outros países desenvolvidos. Diante dessa tendência, mostrando com isso que eles também têm um senso inegável do que é oportuno, Paul Ehrlich e Robert Pringle propõem que se acrescente uma dimensão ecológica aos universos virtuais mais conhecidos, tais como o Second Life.

Le Monde

A “segunda chance” dos Estados Unidos

Sylvie Kauffmann

O povo dos Estados Unidos expressou sua vontade e, na terça-feira, 4 de novembro, “a nova alvorada da liderança americana” amanheceu sobre o mundo, se acreditarmos na promessa feita por Barack Obama em seu primeiro discurso de presidente eleito.

Já não era sem tempo. A onda de entusiasmo que está arrebentando por todo o território dos Estados Unidos, e fora dele, tem um tamanho proporcional ao ressentimento que foi provocado pelos dois mandatos de George W. Bush; um ressentimento que predominava tanto entre os inimigos dos Estados Unidos quanto entre seus amigos, e tanto mais intenso entre estes últimos que uma primeira onda de simpatia vinda do mundo inteiro no momento dos atentados de 11 de setembro de 2001, havia sido amplamente ignorada pelos americanos. Uma das características do famoso sonho americano, do qual o presidente democrata é considerado como uma nova encarnação é “a segunda chance”. No contexto da cultura americana, um fracasso nunca é definitivo. Quando uma pessoa fracassa, ela levanta, junta os pedaços quebrados e recomeça, dando a volta por cima.

É esta segunda chance que proporciona a eleição de Barack Obama à Casa Branca, no contexto da relação do seu país com o resto do mundo, isso porque, enquanto os Estados Unidos continuam despontando como a maior potência militar e econômica mundial, a “liderança americana” encontra-se seriamente abalada. A liderança não é um dado estatístico. Ele não se mede nem em bilhões de dólares de PIB, nem em quantidade de mísseis nucleares. A liderança mundial é constituída obviamente pela potência econômica e militar, mas é também composta pela legitimidade política, a autoridade moral, a irradiação do brilho intelectual, e a capacidade de inovação. Ela é formada por uma sofisticada combinação de “hard power” e de “soft power”. Pela capacidade de projetar a luz. Pelo poder das idéias.

Desde a sua fundação, os Estados Unidos fundamentaram todas as suas ações na idéia democrática, que eles colocaram acima de tudo. Em relação a esta idéia, o presidente eleito Obama situa-se na mesmíssima linha dos seus predecessores. “Esta noite, nós provamos mais uma vez que a verdadeira força da nossa nação não provém da potência das nossas armas nem do tamanho das nossas riquezas, mas sim do poder das nossas idéias: a democracia, a liberdade, as mesmas chances para todos e a esperança inabalável”, declarou Obama em 4 de novembro em Chicago. “Lá está a verdadeira genialidade da América: a América é capaz de mudar”.

E a mudança nunca foi tão urgente. Porque tudo o que aconteceu no decorrer dos últimos oito anos nos Estados Unidos – e até mesmo nos últimos dez anos, segundo afirmam certos comentaristas que fazem remontar o começo desta “década negra” à gestão desastrosa do escândalo Lewinsky, em 1998, ainda durante o mandato de Bill Clinton – não foi o fruto de uma sucessão de calamidades naturais. George W. Bush foi eleito uma primeira vez em 2000, em decorrência de um pleito que foi muito contestado, antes que os atentados de 11 de setembro alterassem de vez a configuração do país, mas ele foi reeleito democraticamente e por um povo que tinha pleno conhecimento de causa, em 2004.

Em novembro de 2004, o fiasco da operação iraquiana já era evidente; o campo de Guantánamo já estava lotado de “inquilinos”; a infâmia de Abu Ghraib já havia dado a volta ao mundo; o quarto poder (os meios de comunicação) estava desacreditado; os aliados europeus eram apontados como indesejáveis e a democratização do Oriente Médio, um projeto “dos sonhos” acalentado pelos neoconservadores, era considerada como uma panacéia. Considerados do lado de fora do território americano, e, em particular, por países aos quais os seus expoentes pretendiam ensiná-los, os mecanismos da democracia estavam em pane.

Quatro anos mais tarde, o duelo das primárias democratas entre dois pioneiros, uma mulher e um negro; a impressionante disciplina que caracterizou a campanha de Obama; a amplidão da sua vitória final; a taxa de participação sem precedente desde 1908; a elegância mostrada por John McCain na derrota e a escolha que os americanos fizeram muito além dos preconceitos étnicos, tudo isso faz com que os americanos possam legitimar novamente a sua democracia aos olhos do resto do mundo e permite ao presidente eleito saudar “a verdadeira genialidade da América”.

Mas será tudo isso suficiente? Quais serão mesmo as reais características desta “nova alvorada da liderança” a respeito da qual Barack Obama garante que ela esta daqui para frente “ao alcance da mão”? O mundo que o presidente encontrará ao instalar-se na Casa Branca em 20 de janeiro de 2009 é muito diferente daquele com o qual se deparara George W. Bush, e ainda mais diferente daquele que existia imediatamente depois da Guerra Fria, que havia sido deixado como herança para Bill Clinton em 1993. O mundo de Obama não está mais lidando apenas com a única dicotomia entre a democracia e o totalitarismo, e nem se acomoda mais com a grade de leitura simplista da “guerra mundial contra o terror”. No mundo de Obama existem outros atores, outras potências que são reagrupadas pudicamente sob a expressão de “emergentes”.

A Ásia em busca de um modelo alternativo
Existem, na China e também na Índia, centenas de milhões de pessoas das classes médias que, da mesma forma que no Ocidente, consomem, estudam e pensam, só que não necessariamente da mesma maneira. Uma idéia está ganhando força, principalmente na Ásia, segundo a qual é preferível pegar emprestado do Ocidente tudo o que é eficiente, como a economia de mercado, e deixar de lado tudo aquilo que ainda se encontra em estado de rascunho e revela-se complicado, como a democracia. Esta idéia originou-se na Ásia, foi implementada em grande escala pela China, e vem seduzindo um número crescente de países do Oriente Médio. Na Ásia, não faltam os intelectuais que estão convencidos de que com ela nasceu um verdadeiro modelo alternativo.

Em plena efervescência econômica, a Ásia está à procura de idéias novas. Ao revitalizar a democracia americana por meio da diversidade, Barack Obama, o primeiro presidente pós-étnico do país do “melting pot”, oferece um modelo positivo para os países multi-étnicos da Ásia do Sul e do Sudeste, assim como para os países de população muçulmana como a Indonésia, onde ele passou uma parte da sua infância. Isso tudo já é considerável, sendo muito mais do que aquilo que oferecem a Europa ou a Austrália.

Contudo, se deixarmos de lado a mudança de imagem e o provável advento de um estado de graça, nada permite afirmar com precisão de qual maneira a “revolução Obama” relançará a liderança americana. A eleição de Barack Obama se limitaria a uma rejeição maciça de oito anos desastrosos ou terá ela a dimensão de um mandato claro e sem ressalvas em favor de um grande movimento político progressista e inovador? Quais soluções a administração Obama irá propor para a reforma do sistema financeiro internacional? Qual será o espaço que ela oferecerá às potências emergentes? Será que o custo econômico da crise que é suportado pelos eleitores americanos, para os quais esta constitui a preocupação essencial, lhe permitirá evitar as medidas protecionistas que a Ásia tanto teme?

O último governador britânico de Hong Kong, Chris Patten, está convencido de que os Estados Unidos irão superar “a humilhação” da crise de Wall Street, que eles se recuperarão mais rapidamente do que os outros e que eles permanecerão como a única superpotência. Para tanto, e para provar que a idéia democrática continua sendo a melhor, Barack Obama deverá ser o presidente “transformacional” que a sua campanha promoveu.

Le Monde

Vacina e rebelião

Revolta da vacina: um protesto contra a indiferença

Tiago Eloy Zaidan

O Brasil do alvorecer do século XX estava infestado de moléstias e epidemias. A miséria e a total falta de higiene apresentavam-se como uma bomba preste a explodir nos cortiços improvisados onde residentes da classe baixa empilhavam-se. Ninguém escapava às mortíferas “senhoras”: peste bubônica, varíola e a febre amarela. Nem mesmo o filho do então presidente Rodrigues Alves. Então o pai resolveu contra-atacar. Dentre as medidas, realce para a vacinação obrigatória contra a varíola. A população, por sua vez, reagiu com veemência nas ruas do Rio de Janeiro. A primeira vista tudo parecia surreal. Por que o povo protestaria contra algo que visa à erradicação de uma perigosa enfermidade?
Em 1902 a capital federal, Rio de Janeiro, representava um país atrasado e um estado com vista turva quando o assunto era política social. À imensa população desamparada, somavam-se numerosas levas de imigrantes, incentivados a vir ao Brasil para servirem de mão de obra – em condições sofríveis – nas plantações paulistas de café. Nas ruas acanhadas do Rio de Janeiro as epidemias fluíam assustando os navios, que preferiam seguir direto para Buenos Aires. Tal situação incomodava os cafeicultores e mesmo os líderes políticos da época, sedentos por atraírem mais imigrantes e, consequentemente, mais mão de obra prosaica. As elites – demasiadamente consideradas pelo poder público nas primeiras décadas do século XX – por sua vez, não escondiam o constrangimento de viverem num ambiente tão diferente das avenidas européias, especialmente as francesas.
É nessa capital – de beleza natural lendária – que o paulista Rodrigues Alves, assume a Presidência da República. Como era de se supor, Alves era um rico cafeicultor. Já havia “passeado” pelo Ministério da Fazenda nos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Moraes e também foi gestor de São Paulo, onde ensaiou sua obsessão por reurbanização, abrindo avenidas e construindo redes de esgotos. Agora era a sua vez de ser alçado ao palácio pelos conchavos entre mineiros e paulistas. Junto à Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro, Alves deu início à revolução urbana da cidade maravilhosa, mas não sem antes estreitar a dependência do Brasil com a Inglaterra, após contrair um empréstimo de oito milhões de libras.

A pressa foi uma das marcas da reconstrução da cidade. A outra foi à insensibilidade com os moradores humildes da região. Completamente indiferente às classes baixas, o projeto tinha como principal meta a construção da “afrancesada” Avenida Central (posteriormente rebatizada de Avenida Rio Branco), iniciada em 29 de fevereiro de 1904. Sem nenhuma reparação, uma considerável leva de residentes miseráveis foi varrida do centro do “novo” Rio de Janeiro, que começava a surgir numa área limitada. Os novos imóveis, que margeariam a moderna avenida, deveriam antes passar pelo crivo de uma bancada de “ilustres” da sociedade de então. Dentro de meses a classe alta da capital poderia passear orgulhosa no belo bulevar tropical. Além da Avenida Central, fora reformada a rua do Ouvidor e construída a avenida Beira-Mar.
Dentro da meta de “civilizar” o centro administrativo do país, proposto por Rodrigues Alves, faltava o combate às enfermidades imundas e impertinentes que fustigavam a urbe. Aqui que entrou em cena o então desconhecido Oswaldo Cruz, com sua obstinação permeada por lances autoritários, visando alcançar os seus objetivos. Nascido em 1872, na pequena São Luís do Paraitinga (SP), formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1896. No Instituto Pasteur em Paris, tornou-se discípulo do sanitarista Émile Roux, que o indicou para o governo brasileiro. Em 1902, de volta ao Rio, assumiu a direção do Instituto Soroterápico Federal, que mais tarde receberia o seu nome. No ano de 1903 é nomeado Diretor de Saúde Pública com “liberdade de ação”. Pela frente, a peste e a febre amarela, com seus ratos e mosquitos, respectivamente. Foram criados batalhões mata-mosquitos com a intenção de pulverizarem locais de risco. Foi o suficiente para a imagem de Cruz tornar-se freqüente nas ilustrações de caricaturistas da época.
Contudo, foi no combate a varíola que os achincalhamentos evoluíram. Com a medida rígida de se vacinar maciçamente a população, por meio da obrigatoriedade – aprovada pelo congresso no fim de outubro de 1904 – foram estipuladas multas e restrições aos infratores, causando maiores reações. O Atestado de Vacinação passou a ser exigido trivialmente, desde a obtenção de um emprego público ao casamento. A falta de habilidade do governo no tratamento da rejeição popular à medida defendida por Oswaldo Cruz agravou a situação. Para se ter idéia da repressão oficial basta citar o episódio do dia 10 e novembro, quando um orador foi preso no palanque por pregar contra a vacina. Após uma série incontável de medidas arbitrárias da república “Café com Leite” (modo como foi apelidada a era das administrações oligárquicas de 1894 a 1930), tornou-se mais fácil enxergar o estado com desconfiança. Entre os dias 11 e 14 de novembro a massa enfurecida saiu às ruas do artificializado centro do Rio de Janeiro deixando um rastro de “postes envergados (…), vidros fragmentados (…), paralelepípedos revolvidos (…), destroços de bondes quebrados e incendiados (…)” e “vestígios de barricadas feitas pela multidão agitada”, proclamou em tom assustado o Jornal do Commercio de 15 de novembro de 1904.
O mesmo jornal relatou casos de mortes durante a revolta. “(…) Um robusto homem de cor, que vestia calça e camisas pretas, achava-se do alto, numa pequena janela, atirando. Ali o alcançou uma bala de carabina que lhe varou o crânio, prostrando-o instantaneamente morto”. É também relatada a história de um menino de 12 anos que, “(…) chegou à janela na ocasião do conflito e logo foi morto por um tiro que lhe varou a carótida”. A vacinação foi suspensa.

Diante das manifestações descontroladas, Tânia Maria Fernandes em seu livro Vacina Antivariólica: ciência, técnica e o poder dos homens – 1808 – 1920, faz saber, “Oswaldo Cruz tinha como característica não se pronunciar publicamente e assim se manteve mesmo diante de todas as críticas sobre sua conduta frente à higiene. Sua resposta ao episódio da revolta da vacina foi colocar o cargo à disposição do Ministro do Interior J. J. Seabra (…)”.
No dia 15 de novembro, quando se deveria comemorar o aniversário da proclamação da República brasileira, cadetes positivistas da Escola Militar de Praia Vermelha aderiram oportunamente ao movimento popular. Desejavam reassumir o controle da nação, perdido para os cafeicultores desde 1894. Todavia, essa rebelião, especificamente, foi debelada e Lauro Sodré – Tenente coronel que seria agraciado com o cargo presidencial – terminou ferido e preso; sorte menos infeliz que as dos 200 cadetes mortos no levante.
O que ocorreu a seguir foi a decretação de estado de sítio de um mês, adicionado às invasões bestiais de tropas governamentais a favelas e cortiços miseráveis, onde foram presos, praticamente à revelia, diversos indivíduos. Muitos desses foram exilados no longínquo Acre, então recém-anexado ao Brasil. A vacinação foi restaurada e, dentro de meses, a varíola foi erradicada da capital federal. Oswaldo Cruz consagrou-se. Convidado a atuar em outras localidades, entrou para a história da ciência em solo tupiniquim. Rodrigues Alves concluiu o mandato, assumiu novamente o posto de governador de São Paulo em 1912 e tornou a eleger-se presidente da república. Alves, entretanto, não chegou a tomar posse. Ironicamente acabou vítima de uma nova e assombrosa epidemia, a gripe espanhola. Morreu em 16 de janeiro de 1919, no Rio de Janeiro “devidamente” urbanizado, porém, indevidamente humanizado.

História Net

ALTENATIVAS LATINO-AMERICANA

Em meio às dificuldades da ALCA, projeto estratégico de Washington, avançam o Mercosul expandido e a ALBA (Alternativa Bolivariana para a América) – possíveis embriões de um comércio internacional de novo tipo.

Configurou-se um enfrentamento entre a integração latino-americano e a ALCA, na verdade ferramenta para consolidação da hegemonia norte-americana.

Entre as regiões do mundo vítimas das políticas neoliberais, a América Latina ocupa um lugar de destaque. Nenhum dos projetos de integração regional escapou de seus efeitos destrutivos. As medidas de liberalização comercial e financeira aceleraram o controle do mercado interno de cada país pelas multinacionais norte-americanas e européias. Estas medidas também acentuaram a dependência das economias regionais em relação aos mercados externos.

No entanto, ao mesmo tempo em que os países da Europa e da América do Norte perseguiam seu processo de integração, projetos similares se desenvolviam, particularmente na América do Sul. Eles procuravam proteger, ainda que de maneira mínima, as economias da região das conseqüências negativas da globalização. Nas décadas de 1980 e 90, sugiram dois projetos antagônicos: o Mercosul, integrado inicialmente pelo Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai; e o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que reuniu EUA, Canadá e México.

Washington tinha a ambição de estender o Nafta ao resto do continente. Quase no momento em que o bloco foi formalizado, e em que o Chile foi apresentado como o primeiro candidato a se integrar a ele, a crise mexicana de 1994 levou o Congresso dos EUA a não oferecer à Casa Branca o chamado “fast track” (“via rápida). Ela dá ao Executivo o direito de negociar acordos comerciais com outras nações, limitando os poderes do Legistivo a aceitar ou rejeitar, em bloco, eventuais tratados

Com o ingresso da Venezuela e Bolívia no Mercosul, começa a se dissipar a dualidade entre este bloco e a Comunidade Sul-americana de Nações ·.

Nascimento e declínio da ALCA

O governo norte-americano teve, então que apelar para um projeto que havia ficado na gaveta: a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Configurou-se assim um campo de enfrentamento entre um projeto de integração latino-americano e outro do conjunto do continente, em que a diferença – substancial – era a participação dos EUA nesta última. Representando 70% do PIB do total dos países, eles transformavam a ALCA em ferramenta de consolidação de sua hegemonia, jamais em processo de integração.

Eram tempos de extensão quase que ilimitada dos modelos neoliberais, dos quais a ALCA seria o complemento funcional. Essa tendência foi fortalecida com a crise brasileira de 1999, em que a brusca e grande desvalorização da moeda brasileira afetou diretamente a balança comercial com a Argentina, golpeando diretamente os graus de integração logrados no Mercosul.

No entanto, paralelamente foi se intensificando uma tendência nova: a vitória e evolução ideológica de Hugo Chavez na Venezuela, a chegada ao poder de Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, de Nestor Kirchner, em Buenos Aires, e, mais tarde, de Tabaré Vázquez, em Montevidéu

A Venezuela, especialmente depois da vitória de Chávez sobre a oposição, no referendo revogatório de 15 de agosto de 2004, conquistou um espaço importante e se aproveitou para oxigenar o processo de integração. Este se deu, por um lado, através da constituição de uma espécie de coordenação da integração, entre os presidentes do Brasil, da Argentina e da Venezuela – as três principais economias da América do Sul. Esta coordenação promoveu reuniões setoriais entre ministros do setor energético, do de políticas sociais e da área econômica. Diversos acordos form firmados, sobre temas de comécio, energia e defesa. Para ficar apenas num exemplo, Chávez anunciou, em 2004, que a Venezuela, que importa, para sua indústria petroleira, 5 bilhões de dólares de bens e serviços nos Estados Unidos, realizaria, a partir de então, 25% destas compras no Brasil e Argentina. Ao fazê-lo, conquistou aliados de circunstância nestes dois países, ainda que as opções destes difiram sensivelmente de sua perspectiva radical.

A ALBA baseia-se na montagem de mecanismos para criar vantagens cooperativas – ao invés das supostas “vantagens competitivas”, paradigma das teorias neoliberais

Mercosul ampliado e Comunidade Sul-americana
Ao final de 2005, a Venezuela ingressou como membro pleno do Mercosul. Após a vitória eleitoral de Evo Morales em La Paz, o coordenador geral do bloco, o argentino Chacho Alvarez, anunciou que proporia o ingresso da Bolívia, na mesma condição. Começava assim a se dissipar a dualidade entre o Mercosul e a Comunidade Sul-americana de Nações. Nascida por iniciativa do Brasil, em 8 de dezembro de 2004, em Cuzco (Peru), esta era vista com reservas pelo governo de Kirchner, que se inclina pela expansão do Mercosul como prioridade. Foi em Cuzco, durante o encontro, que Chávez, em seu linguajar cheio de imagens, sugeriu uma consigna: “A política como locomotiva, o social como bandeira, o econômico como trilho e a cultura como combustível”
Ao mesmo tempo, o governo venezuelano multiplicou iniciativas setoriais – como a Petrosul, a TVSul, a PetroCaribe, entre outros – e desenvolveu uma iniciativa estratégica de alianças com Cuba – a chamada Aliança Bolivariana para as Américas. Em documento assinado em abril de 2005, em Havana, os governos de Cuba e da Venezuela lançam uma modalidade superior de integração, entre economias que podem partir de um nível superior de identificação, sobretudo a partir do momento – em janeiro de 2005, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em que Hugo Chavez anunciou a adesão de seu governo ao que chama de “socialismo do século XXI”.

A ALBA é uma proposta de integração que se fundamenta na montagem de mecanismos para criar vantagens cooperativas – no lugar das supostas “vantagens competitivas”, paradigma das teorias neoliberais de comércio internacional. Já as vantagens cooperativas procuram reduzir as assimetrias existentes entre os países do continente. Elas apóiam-se em mecanismos de compensação, a fim de corrigir as disparidades de níveis de desenvolvimento entre os países da região. Têm na Venezuela e em Cuba seus grandes motores: a primeira com os recursos do petróleo, a segunda principalmente com os recursos de educação, saúde e esportes.

ada país oferece o que pode produzir em boas condições, e recebe, em contrapartida, aquilo que precisa, independentemente dos preços no mercado mundial

ALBA, contraponto ao “livre” comércio

A ALBA pretende ser o contraponto da ALCA. Pretende integrar economias dissímiles desde baixo, envolvendo a todos os atores econômicos e sociais – como cooperativas, pequenas empresas, empresas públicas, empresas privadas grandes, médias e pequenas -, priorizando o atendimento de problemas essenciais para a massa da população, como alimentação, moradia, indústria e meio ambiente. Enquanto que a ALCA não diferencia entre países grandes e pequenos, entre países com grandes recursos naturais, financeiros, energéticos e os outros, acentuando mecanismos em que ganham os mais fortes – neste caso, os EUA. Além disso, a ALCA pretende impor aos paises critérios de segurança jurídica que favorecem as grandes corporações multinacionais, não se dispondo a atender aos paises mais fracos.

A ALBA não subsidia, mas fomenta créditos, máquinas e tecnologias para empresas recuperadas, fábricas abandonadas em mãos dos seus trabalhadores, cooperativas, comunidades de pequenos produtores – industriais, de comércio ou de servicios -, empresas públicas. A ALBA recebe o apoio dos Estados em créditos, assistência técnica e jurídica, marketing e comércio internacional, enquanto a ALCA deixa tudo entregue às forças que dominam o mercado e as possibilidades financeiras dos grandes agentes econômicos.

Em abril de 2005, dezenas de acordos foram firmados entre Caracas e Havana. Neste momento, decidiu-se criar, na Venezuela, 600 centros de diagnóstico integral de saúde, 600 creches e 35 centros de alta tecnologia, para assegurar ao conjunto da população o acesso gratuito à medicina e saúde. Também se decidiu a formação, por Cuba, de 40 mil médicos e 5 mil especialistas em tecnologias da saúde latino-americanos – além de 10 mil médicos e enfermeiros venezuelanos. Prosseguiu a operação “Milagre”, que já permitiu a milhares de venezuelanos recuperar plenamente a visão, graças a uma intervenção cirúrgica (operação de catarata) realizada em Cuba. Ampliada para toda América latina, esta operação poderia ter até 100 mil beneficiários – 800 uruguaios foram os primeiros.

Pela primeira vez, um chefe de Estado chileno foi convidado à posse de um presidente boliviano – e aceitou comparecer ·.

Uma seqüência de acordos latino-americanos
De sua parte, a Venezuela decidiu abrir em Havana uma agência da empresa petroleira nacional (PDVSA) e uma sucursal do Banco Industrial da Venezuela. Os dois governos concederam preferências aduaneiras recíprocas para suas trocas comerciais. Cuba decidiu adquirir 412 milhões de dólares em produtos venezuelanos, o que poderia suscitar a criação de dezenas de milhares de empregos no país parceiro.
Se o “eixo estratégico” Caracas-Havana é alvo de críticas entre setores conservadores, inconformados por ver Cuba sair de seu isolamento, o desenvolvimento destas políticas de saúde é acompanhado com grande interesse pelo conjunto dos movimentos sociais do continente. Estas trocas constituem bons exemplos de comércio “justo”: cada país oferece o que está pode produzir em boas condições, e recebe, em contrapartida, aquilo que precisa, independentemente dos preços no mercado mundial.
Trata-se de uma visão radicalmente diferente da que prevalece nos acordos bilaterais firmados por Washington com os países do continente – América Central, Chile, Uruguai, Peru e, em breve, Colômbia -, cujo resultado é acentuar as desigualdades, e graças aos quais os EUA, por seu peso determinante, consolidam posições que já lhes são estruturalmente favoráveis.

Antes mesmo de sua posse em La Paz, no último 22 de janeiro, o novo presidente da Bolívia, Evo Morales, começou por Havana e Caracas uma viagem ao exterior que poderia abrir caminha a uma integração da Bolívia à ALBA. Algum tempo antes, havia sido criada a Petrocaribe, empresa destinada a oferecer a onze países da região petróleo a preços reduzidos e com facilidades de pagamento. Esta iniciativa do governo de Chávez procurava permitir aos países da região precaver-se contra a volatilidade e a escalada de preços do petróleo no mercado internacional, livrando-os parcialmente da pressão exercida por Washington para impor acordos bilaterais.

Ainda em estado embrionário, e sem prejulgar seu sucesso, a ALBA é uma tentativa ambiciosa de integração regional que escapa às lógicas de mercado. Não faltarão dificuldades, porque o objetivo é envolver países como Argentina, Brasil e Uruguai; provavelmente o México e talvez o Peru. As economias destes países são dominadas por empresas multinacionais, muito mais interessadas em manter sua fatia no mercado norte-americano e europeu que em um tipo de integração que pode privá-las deste privilégio.
Os presidentes destas nações já enfrentam grandes dificuldades para avançar nos marcos bem menos ambiciosos do Mercosul. São prova os conflitos entre setores patronais do Brasil e Argentina, que sabotam o processo de integração. Na verdade, a ALBA só pode se realizar entre governos decididos a desenvolver um projeto estratégico de grandes transformações estruturais internas, de maneira que as decisões que tomam envolvam efetivamente a economia de seus países.

Reconciliar “irmãos inimigos”?

Ainda assim, algumas iniciativas emergem, preliminares de uma aliança entre países do continente. Como exemplos (não exaustivos), Chávez confirmou o investimento de 600 milhões de dólares da PDVSA no Uruguai, onde a empresa petroleira venezuelana trabalhará com sua homóloga, ANCAP, especializada em refino de óleo. Um acordo entre Caracas e Brasília permitirá a construção de uma importante refinaria no Nordeste brasileiro. Reunidos em 18 de janeiro, os presidentes Kirchner e Lula examinaram o projeto de construção de um oleoduto que, partindo da Venezuela, chegaria até a Argentina, passando pelo território brasileiro. A criação de uma grande companhia petroleira sul-americana, Petrosul, talvez não seja apenas um sonho

A Telesur já funciona. Tendo como acionistas Argentina, Cuba, Uruguai e Venezuela, esta cadeia de televisão procura fornecer informação lationo-americana fora dos padrões das TVs privadas e da influência midiática vinda do Norte.

Quem sabe se esta esquerda, em sua multiplicidade e diferenças, não é capaz de conciliar “irmãos inimigos”? Brasília tem excelentes relações com Santiago, mas também com Caracas – cujo presidente, Chávez, mantém laços estreitos com Evo Morales. Nos últimos dias de seu mandato, o presidente do Chile, Ricardo Lagos, aceitou participar da posse de Morales, em 22 de janeiro. Os dois países são protagonistas de uma das mais antigas disputas territoriais da América do Sul. Foi a primeira vez em que um chefe de Estado chileno foi convidado à posse de um presidente boliviano.

Geografia Geral do Brasil

As duas Bolívias que se enfrentam

Ainda titubeantes, as maiorias indígenas ensaiam um projeto nacional e capaz de superar as relações de predação, privilégios e servidão. Para a oligarquia, não se trata de integrar uma nação — mas de usufruir dela como se fosse sua hacienda, e já sem apego à própria retórica da democracia

Ricardo Cavalcanti-Schiel

Em 1867, o presidente boliviano Mariano Melgarejo, um militar que passou toda sua vida ocupado em conspirações, e que se tornara uma espécie de testa-de-ferro dos novos setores liberais da oligarquia, cedeu de bom-grado ao Brasil 150 mil Km² de terras ao longo do Rio Madeira e outro tanto no que é hoje a porção do Mato Grosso do Sul a oeste do Rio Paraguai. Despachando numa penada parte do território inexplorado do seu país, o tal presidente teria se referido a essa última região mencionada como “uns pântanos inservíveis”; pântanos que viriam a ser uma boa parte do que é hoje conhecido como o Pantanal Matogrossense, onde se situa, por exemplo, a importante jazida de ferro e manganês de Urucum.

Um ano antes, Melgarejo, satisfazendo o apetite mercantil da oligarquia liberal a quem servia, havia determinado a venda, pelo Estado, de todas as terras indígenas “de comunidade” (ou seja, coletivas; um absurdo jurídico que não poderia continuar existindo sob a ordem liberal), uma medida que acendeu o estopim da revolta no campo e que serviu de ponto de partida para uma permanente mobilização aimara que já dura quase 150 anos. Por essa mesma época, o tal presidente facilitou também a penetração de interesses econômicos anglo-chilenos na região de Atacama, coisa que viria a ser o prelúdio da cobiça desses interesses pelo rico território da porção litorânea boliviana do Pacífico. Com efeito, em 1879, com tropas armadas e treinadas no genocídio perpetrado contra os índios Mapuche no sul do país, o Chile invadiu os portos bolivianos e deu início à Guerra do Pacífico, que resultaria na espoliação dos territórios bolivianos e peruanos ricos em salitre e cobre; riqueza que patrocinou o ostentoso festim da oligarquia chilena na transição do século 19 para o século 20.

Em 1904, num acordo entre as oligarquias dos dois países, a Bolívia cede todo seu litoral ao Chile. Um ano antes, as elites haviam entregado o Acre ao Brasil, depois de tentarem ofertá-lo a um truste norte-americano
Apesar do pacto de 1884, que firmava uma trégua indefinida entre Bolívia e Chile, aqueles territórios invadidos eram passíveis de uma reclamação jurídica internacional, caso a Bolívia não reconhecesse, através de um documento de direito internacional, a cessão definitiva dos mesmos. Em 1904, num acordo costurado entre os setores oligárquicos dos dois países, a Bolívia finalmente firma o tratado em que cede todo seu litoral ao Chile, e sela seu próprio destino para o século que se inicia. Como avalia o historiador boliviano Rodolfo Becerra de la Roca: “fechava-se definitivamente a saída livre da Bolívia para o resto do mundo, colocava-se o país à margem das correntes migratórias, econômicas, sociais, culturais e científicas dos países mais avançados, fato que o situaria como um país inválido e entre os povos mais atrasados da Terra” (2002, El Tratado de 1904, la gran estafa, p. 155).

Apenas um ano antes desse fatídico tratado, o governo da oligarquia liberal assinou outro, o Tratado de Petrópolis, em que entregava o Acre ao Brasil. De forma similar ao caso do outro extremo pouco explorado do seu território, o litoral do Pacífico, o antecedente imediato que deflagrou a “questão do Acre” foi a cessão (ou, ao menos, a tentativa de cessão), pelo governo boliviano, em 1901, da exploração econômica da região a uma holding norte-americana, a The Bolivian Syndicate, armada na tentativa de estabelecer o negócio de carrear o patronato do governo norte-americano à precária soberania boliviana na região, a troco da entrega não apenas do seu potencial econômico, mas do seu efetivo controle militar.

De fato, a região vinha sendo objeto de uma invasão maciça de seringueiros brasileiros, e a Bolívia parecia querer escolher o caminho mais cômodo para lidar com ela: “terceirizá-la”. Tal como os contratos de exploração dos recursos energéticos (hidrocarbonetos) firmados durante o período neoliberal quase cem anos depois, assim como toda a história da exploração mineral do país no século 20, restariam à oligarquia boliviana os trocados fáceis das comissões e propinas dos grandes negócios transnacionais, em contrapartida à garantia que sempre ofereceu de uma permanentemente irrisória tributação desses ricos negócios, o que, por sua vez, jamais permitiu uma capitalização interna do país, e manteve o Estado sob uma baixíssima capacidade de promoção da infra-estrutura econômica. A consumar-se o contrato de 1901 com a Bolivian Syndicate, entretanto, o Acre se tornaria, de fato, um protetorado norte-americano na Amazônia. Numa das suas poucas lúcidas iniciativas geopolíticas contra o então nascente novo império, o Brasil declarou o Acre em litígio e, combinando presença militar com ação diplomática, abocanhou definitivamente o território dois anos depois.

Os fatos retratam o projeto da oligarquia que conduziu o país até Evo. Não se trata de construir uma nação: apenas usufruir do país, da maneira que for possível, como se fosse sua hacienda por privilégio de casta
Esses fatos históricos bolivianos, ainda que pareçam distantes, não são mera ilustração inócua. Eles retratam o caráter do secular projeto nacional dessa oligarquia criolla: não está em questão integrar, territorial, social e economicamente uma nação; trata-se apenas de usufruir, da maneira que for possível, do país, como se fosse sua hacienda, seu latifúndio presumido por direito e privilégio, de casta e de nascença. O que assim não o for pode ser descartado, como coisa “inservível”, como dizia o presidente Melgarejo a respeito do pantanal mato-grossense. O projeto nacional histórico da oligarquia boliviana jamais foi um projeto de integração, mas apenas um projeto de usufruto. E esse foi o projeto que conduziu o país até o momento.

Os últimos anos têm sinalizado de forma um tanto contundente o que poderíamos reconhecer como o esgotamento da viabilidade política (e social) desse projeto. Várias são as causas, que vão do adensamento dos projetos estratégicos alternativos de Estado, gestados por setores não-oligárquicos (ou francamente anti-oligárquicos), e politicamente respaldados pelo movimento popular de base indígena, até a generalização social (ou o reconhecimento de legitimidade) da dramática percepção de que as atuais reservas extrativas disponíveis (mais especificamente, os hidrocarbonetos) são a última alternativa, o último recurso patrimonial rapidamente conversível para tentar promover a capitalização interna e algum processo de desenvolvimento que não seja baseado na predação, na concentração e no privilégio, que caracterizaram historicamente a economia e a conformação social bolivianas (e tantas outras latino-americanas mais, que talvez apenas não tenham se defrontado ainda com o drama simbólico da escassez iminente). Em suma, trata-se da emergência de uma outra racionalidade, que propugna, ainda que de forma tateante, uma outra possível forma de regulação social; um projeto que, no que diz respeito ao horizonte do Estado e da nação, mal ensaia seus primeiros passos, com a hesitação e os tropeços característicos das experiências históricas concretas.

Isso não quer dizer, no entanto, que a lógica do projeto oligárquico tenha deixado de funcionar; não apenas porque haja pesadíssimos interesses predispostos a subsidiar sua aplicação até o paroxismo do esgotamento, até “roer o osso” dos recursos do país, mas porque trata-se de uma lógica cultural que quer reconhecer o mundo como “naturalmente” organizado segundo a sua perspectiva. Não é nenhum exagero dizer que os dias que passam na Bolívia são o cenário do enfrentamento frontal de duas visões de mundo distintas, que lutam por fazer valer a sua legitimidade; uma fundada sobre um sólido aparato institucional e regulatório, construído ao longo de muito tempo no espaço do Estado; outra ainda tão carente de mecanismos concretos nesse mesmo domínio político que seria mais justo, aí, ao invés de chamá-la de “visão de mundo”, reconhecê-la, mais que tudo, como um “vislumbre”.

Esperar que se transforme, em um estalo de dedos, um país condicionado ao abuso da injustiça e do privilégio num paraíso alternativo não é apenas um equívoco; ou é uma expectativa cega, ou é construída para cegar
Antes que algum simplista se disponha apressadamente a beatificar o governo do Presidente Evo Morales, é preciso dizer que, como qualquer experiência concreta, sobretudo em ambiente adverso em uma série de dimensões — regulatória, econômica e administrativa (flagrantemente caracterizada pela carência de quadros —, seus equívocos podem assumir proporções melancólicas: condução errática do planejamento econômico, incorporação de quadros políticos consideravelmente espúrios, concessões ao oportunismo administrativo em lugar da institucionalização dos mecanismos decisórios etc. Entretanto, não se deve cometer a irresponsabilidade (a não ser que movida pelo puro cinismo ideológico) de se abstrair as contingências e a inapelável constatação de que “tudo está para ser feito”, na expectativa ilusória (ou na cínica suposição) de um “paraíso” rápido e automático. Isso seria negar toda a política e cair no mero messianismo.

Desde o clássico Buscando un Inca, do peruano Alberto Flores Galindo, os analistas das sociedades andinas têm sublinhado a recorrência histórico-cultural, “para o bem ou para o mal”, do messianismo das grandes transformações súbitas, a reviravolta de mundos, o pachakuti da cosmologia indígena (termo que, por casualidade, dá nome a um partido político indianista no Equador…). O messianismo é, ao mesmo tempo, o alimento de grandes esperanças e das mais profundas frustrações. Não seria exagero dizer que uma certa “melancolia histórica”, presente nos países andinos, seja também (ou sobretudo) fruto dessa marca cultural. E não é difícil imaginar o quão difícil seja o trabalho da política dos Andes, sob as tenazes desse atavismo messiânico. Não se devem desprezar, portanto, os recursos passionais através dos quais a velha oligarquia possa fazer uso do espírito messiânico para, paradoxalmente, deslegitimar, de forma marota, qualquer projeto de transformação social que se pretenda mais sistemático, e que, assim, lhe seja estranho, indócil e não domesticado. Esperar que se transforme, em um estalo de dedos, um país estruturalmente condicionado ao abuso da injustiça e do privilégio arbitrário num paraíso alternativo não é apenas uma expectativa equivocada; ou é uma expectativa cega ou é uma expectativa construída para cegar.

Olhar para a política boliviana hoje exige como precaução elementar o reconhecimento de que, em larguíssima medida, a negação da política, implícita na atitude messiânica, é a ração popular que a velha oligarquia se esforça por servir às pratarradas, para empanturrar os espíritos atabalhoados. Por uma parte, pretende-se condenar o presidente Morales por não ter trazido à terra o paraíso, e, por outra, constrói-se um outro salvacionismo messiânico, lastreado no chauvinismo regionalista, pelo qual só o separatismo, sob a forma marota de “autonomias regionais”, pode subsidiar o “aperfeiçoamento da democracia”. Dessa cortina de fumaça, que não deixa de ser um ardiloso golpe político, se tratará logo adiante.

A aposta do governo Evo é a dífícil construção de novos mecanismos institucionais de regulação social, que deslocam os próprios critérios de “eficiência” para outros marcos. É exatamente nesse ponto que nasce o pânico da oligarquia
Feito esse parêntesis, não é difícil compreender que, apesar de um irremediavelmente árduo (senão até mesmo escasso) sucesso no quesito “eficiência” (econômica, financeira e administrativa), a aposta de um governo como o de Evo Morales é outra: é a do difícil trabalho político de construção de novos mecanismos institucionais de regulação social, através dos quais os próprios critérios de “eficiência” se deslocam para outros marcos que não os de uma certa (ou, antes, duvidosa) “estabilidade”, que mantém intacta uma estrutura de reprodução da exclusão. Nesse sentido, a aposta do governo Morales é, em essência, o avesso daquela dos governos Lula, por exemplo. E é exatamente nesse ponto que nasce o pânico da oligarquia.

Desde o final do século 16, a tradição jurídica espanhola e a interpretação da Conquista feita pelo Padre Bartolomé de las Casas consagraram para a América Hispânica o reconhecimento de dois conjuntos sociopolíticos objeto de distintos tratamentos: a “república dos espanhóis” e a “república dos índios”. Enquanto a primeira dispôs-se a ver a segunda de acordo com o marco social medieval (em sua versão ibérica) da vassalagem, a segunda esperava da primeira, nos Andes, o cumprimento dos tratos políticos firmados segundo a lógica local da reciprocidade. Durante muito tempo, os índios andinos demandaram dos espanhóis o reconhecimento das suas autoridades locais e dos seus territórios, enquanto lhes prestavam serviços, como já estavam acostumados a fazer desde tempos pré-hispânicos. Para a nascente sociedade hispânica do Novo Mundo, o serviço dos índios era o meio imprescindível e cobiçável para acumular riquezas, fossem retiradas das minas, fossem retiradas da agricultura ou de qualquer forma de “indústria” que os índios pudessem prover. A mão-de-obra indígena era permanentemente repartida sob a forma de mercês legais, dentro da estrutura de uma sociedade regida por privilégios de casta. Ainda que essa sociedade tenha historicamente se modificado em uma série de aspectos, o princípio lógico das mercês e o da naturalidade do privilégio serviram de base para a racionalidade oligárquica do usufruto.

A exploração do trabalho logo se tornaria brutal; e a segregação social, um recurso de legitimação da exploração. Até meados do século 20, na Bolívia, a servidão indígena era regulamentada por lei. A Revolução Nacionalista de 1952 foi um ensaio, ainda que tímido, de mudança, logo diluído, fazendo com que a estrutura de uma sociedade segmentada em estamentos de privilégio continuasse funcionando e, com ela, a lógica do acesso à riqueza e aos recursos do país. A recente chegada de um “índio” à Presidência da República, com todo o movimento social que lhe serviu de base, não é mero exotismo étnico. E também não é um sinal natural do “avanço da democracia”, como, certa feita, supuseram os partidos oligárquicos, ao levar, como vice-presidente do neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada, o intelectual indígena Victor Hugo Cárdenas. Ao chegar à Presidência, embalado pela maré dos movimentos sociais, Evo Morales representou uma afronta à ordem social dos privilégios de casta.

O que o ensaio político boliviano reitera, particularmente na América Latina, é que a integração social de uma nação implica uma tarefa regulatória que vai bem além da estrita territorialidade e da institucionalidade formal do Estado
E a afronta não parou nisso. A agenda política gestada por aqueles movimentos, além de consumar-se na indignada mobilização popular que enxotou da Presidência e fez fugir do país o timoneiro das reformas neoliberais, consagrou também a necessidade de uma nova ordem constitucional. Ao convocar novas eleições, o governo de transição não apenas convocou o pleito que elegeu Morales, mas também o que elegeu a nova Assembléia Constituinte. Seus trabalhos encerraram-se no último mês de dezembro, com a elaboração de um novo marco legal regulatório para a sociedade boliviana, inovador na instituição de autonomias indígenas relativas, que implicam na equiparação dos seus sistemas normativos tradicionais com os demais da sociedade, na instituição de direitos coletivos e novas formas de gestão social dos recursos naturais e ambientais, na criminalização da discriminação e na ampliação, em diversidade, dos direitos individuais. Ou seja, o ensaio de um projeto nacional integrador baseado na expansão da cidadania.

O que esse ensaio político reitera, particularmente para o caso latino-americano, é que a integração social de uma nação implica numa tarefa regulatória que vai bem mais além da estrita territorialidade e da mera institucionalidade formal do Estado. Ademais, o projeto constitucional não será promulgado, mas sim submetido a plebiscito popular. Por tudo isso, pretende-se que a Bolívia comece a se defrontar com um imperativo mais exigente de legitimação democrática que o velho hábito da opacidade dos negócios até então estabelecidos no clube do poder, o que faz com que um pânico vociferante e violento se apodere da velha oligarquia, que se vê, de pronto, no risco iminente de perder anéis e dedos para um ameaçador ensaio de controle social. Esta mesma oligarquia, que tanto inflou a retórica da democracia enquanto gozava do condomínio dos privilégios durante os governos neoliberais, dá agora mostras cabais de que, para ela, a democracia é apenas uma retórica de conveniência, ou, antes, de que não é exatamente na democracia que ela está interessada.

A confrontação política era óbvia. Agora, ela se torna dramática. A razão do drama é que, como se disse antes, a lógica oligárquica não deixou de funcionar.

Acantonados na região de Santa Cruz de la Sierra, sob o abrigo do agro-business monocultor e exportador de soja, montado sobre a apropriação latifundiária ilegal e extorsiva (sobretudo frente às pequenas comunidades indígenas) — ação sustentada, por sua vez, pela pistolagem (que implica no assassinato sistemático de líderes das associações comunais e na intimidação social generalizada), pela corrupção judicial e pela indústria da apropriação pura e simples de créditos agrícolas —, os novos negócios da oligarquia estabeleceram uma rede de relações promíscuas na sociedade civil em geral e com os demais departamentos (as sub-unidades administrativas ao interior do país) do oriente boliviano, onde a corrupção é a norma, a pistolagem é a base da autoridade e a autonomia do Judiciário, mera ficção. Ao sul dessa região encontram-se as maiores reservas de gás do país; ao norte, os ainda insuspeitos e incalculáveis recursos da Amazônia; e, ao longo de toda ela, as terras mais férteis de toda Bolívia. A nova regulamentação constitucional, redigida pelos representantes do povo, democrática e livremente eleitos, é reconhecida pela reconfiguração oligárquica assentada nessa região como uma ameaça; uma ameaça não tão simplesmente aos interesses dos seus negócios, mas à lógica pela qual essa oligarquia crê que o mundo deva ser regido.

Recusando peremptoriamente o projeto constitucional, ainda que pretendendo valer-se do espírito geral reformista, o poder oligárquico, senhor de homens e de almas na região da assim chamada “Meia-Lua” (apodo que se deve à sua forma geográfica), pretende impor, na marra e contra toda a ordem legal, autonomias regionais separatistas que preservem seus feudos de poder e de exploração da riqueza, através de um projeto de completa independência administrativa, tributária e de gerência dos recursos naturais locais. Tal como sempre o fez historicamente, a oligarquia se basta em descartar aquilo que não obedece imediatamente às suas ordens. Agora, é o resto do país, com toda sua indiada, sua plebe rebelde e suas veleidades democráticas que lhe é… inservível.

Le Monde diplomatic

COMO EVITAR A RECESSÃO

A crise e a regulação do sistema financeiro

A confiança – ingrediente essencial de qualquer sistema financeiro – foi por água abaixo nos terremotos registrados nas últimas semanas. Desse ponto de vista não há alternativa para fazê-lo funcionar a não ser com garantias públicas. Propor que essas garantias tenham caráter muito limitado ou circunstancial, como ocorreu no caso americano, constitui uma miopia ancorada na ideologia e nos interesses das finanças, o que poderá levar a economia a uma recessão ainda mais profunda. A análise é de Ricardo Carneiro.

Ricardo Carneiro

Em vários momentos nas últimas semanas a ideologia neoliberal foi posta de pernas para o ar. Intervenções nos mercados financeiros foram ganhando extensão e profundidade culminando com a virtual estatização dos bancos em vários países da Europa e a aceitação pelo establishment de um grau inusitado de ingerência do governo, nas finanças privadas nos EUA. No Brasil, as intervenções foram variadas e intensas com liberação do compulsório, indução a compra de carteiras de crédito de pequenos bancos pelo Banco Central e intervenção pesada no mercado de divisas.

Em todas as partes, as justificativas para tal ação baseiam-se na idéia de evitar o mal maior. Uma tese correta, mas tão geral que esconde o essencial: a natureza da ação. A atuação do Estado tem assumido feições distintas segundo países e regiões. Veja-se, por exemplo, a clara distinção entre o que fizeram os governos europeus e o americano. Nos primeiros, por meio da participação direta do estado na propriedade das instituições financeiras, e por garantias públicas ao mercado interbancário, o sistema adquiriu uma característica semi-pública. Já nos EUA, essa forma de intervenção demorou a ser admitida pelos interesses dominantes – que antes advogavam apenas a compra de títulos podres com recursos do Tesouro – e quando o foi, privilegiou a menor e a pretendida circunstancial interferência do Estado.

O que está em jogo exatamente nos dois casos? Desde logo, a capacidade de influenciar de imediato os rumos que tomará o sistema financeiro na arbitragem das perdas mas, também, no futuro imediato, a sua capacidade de retomar novos financiamentos à atividade econômica. O essencial aqui é que dado os terremotos ocorridos recentemente, a confiança – ingrediente essencial de qualquer sistema financeiro – foi por água abaixo. Desse ponto de vista não há alternativa para fazê-lo funcionar a não ser com garantias públicas. Propor que essas garantias tenham caráter muito limitado ou circunstancial como no caso americano constitui uma miopia ancorada na ideologia e interesses das finanças e que poderá levar essa economia a uma recessão mais profunda.

As duas formas de intervenção sugerem que o sistema europeu poderá voltar a funcionar da forma normal num espaço de tempo menor. Mas, ainda estamos no plano das ações emergenciais. A medida em que o sistema se recuperar será necessário pensar também numa nova regulação das finanças para evitar a repetição dos episódios recentes. Qual a direção ou filosofia dessa nova regulação? Um bom caminho seria impedir o envolvimento do sistema bancário no financiamento de atividades especulativas, entendidas essas últimas como a aquisição de ativos financeiros nos mercados secundários, evitando, portanto a formação das bolhas de preços de ativos. Outra medida essencial seria a regulação severa do mercado de derivativos limitando a sua alavancagem.

As recentes medidas do Banco Central brasileiro como resposta aos efeitos domésticos da crise, merecem reparos. Do ponto de vista emergencial, as medidas de redução do compulsório foram importantes, mas insuficientes. Por não conterem uma tentativa de direcionamento desses recursos para a o financiamento de outros bancos ou a sustentação do circuito do crédito as medidas evitaram o mal maior, ou seja, a crise de liquidez generalizada. Porém, parte do dinheiro injetado no sistema virou aplicações de curto-prazo em títulos públicos. Ou seja, o Banco Central não enfrentou convenientemente a questão da forte contração do crédito ocorrida nas últimas semanas e a imperiosa urgência da sua retomada.

No mercado de divisas a ação do Banco Central foi também relevante, mas limitada. Fornecer divisas com cláusula de recompra para contornar a escassez temporária de dólares – oriunda do sumiço do crédito externo – é essencial para manter o comércio exterior fluindo. Se necessário for, como anunciado, parte das reservas poderão serão usadas para financiar os bancos e os exportadores brasileiros, o que também é correto. Já realizar vendas à vista de dólares e fornecer proteção cambial aos agentes privados por meio da venda de swaps parece inadequado à luz da institucionalidade do mercado de câmbio brasileiro.

A ação do Banco Central, nesse caso, é de natureza distinta e visa controlar a taxa de câmbio evitando bruscas desvalorizações, e não resolver problemas de liquidez. A dificuldade reside, todavia, na influência decisiva que o mercado de derivativos tem na formação da primeira. Ou seja, vender reservas ou proteção pode ter pouca influência no controle da taxa de câmbio, constituindo um desperdício. A ação mais correta, nesse caso, seria promover, em parceria com o órgão responsável, uma regulação do mercado de derivativos desestimulando a formação de posições especulativas. Se isto não ocorrer, a ação do BC na defesa da moeda nacional pode se revelar inócua. Em resumo, tanto aqui como alhures, a despeito das ações emergenciais, a regulação do sistema financeiro volta a ser um tema crucial.

Carta Maior

IDEALISMO – JOHANN FRIEDRICH HERBART

O organizador da pedagogia como ciência

O filósofo alemão do século 19 inaugurou a análise sistemática da educação e mostrou a importância da psicologia na teorização do ensino

Com o filósofo alemão Johann Friedrich Herbart (1776-1841), a pedagogia foi formulada pela primeira vez como uma ciência, sobriamente organizada, abrangente e sistemática, com fins claros e meios definidos. A estrutura teórica construída por Herbart se baseia numa filosofia do funcionamento da mente, o que a torna duplamente pioneira: não só por seu caráter científico mas também por adotar a psicologia aplicada como eixo central da educação. Desde então, e até os dias de hoje, o pensamento pedagógico se vincula fortemente às teorias de aprendizagem e à psicologia do desenvolvimento – um exemplo é a obra do suíço Jean Piaget (1896-1980).

Para Herbart, a mente funciona com base em representações – que podem ser imagens, idéias ou qualquer outro tipo de manifestação psíquica isolada. O filósofo negava a existência de faculdades inatas. A dinâmica da mente estaria nas relações entre essas representações, que nem sempre são conscientes. Elas podem se combinar e produzir resultados manifestos ou entrar em conflito entre si e permanecer, em forma latente, numa espécie de domínio do inconsciente. A descrição desse processo viria, muitos anos depois, a influenciar a teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856-1939).

Uma das contribuições mais duradouras de Herbart para a educação é o princípio de que a doutrina pedagógica, para ser realmente científica, precisa comprovar-se experimentalmente – uma idéia do filósofo Immanuel Kant (1724-1804) que ele desenvolveu. Surgiram daí as escolas de aplicação, que conhecemos até hoje. Elas respondem à necessidade de alimentar a teoria com a prática e vice-versa, num processo de atualização e aperfeiçoamento constantes. “Herbart fez um trabalho de grande influência porque aprofundou suas concepções até as últimas conseqüências”, diz Maria Nazaré Amaral, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Biografia
Johann Friedrich Herbart nasceu em Oldenburg, na Alemanha, em 1776, e conheceu alguns dos mais importantes intelectuais de seu tempo. Aos 18 anos, já era aluno do filósofo Johann Fichte (1762-1814) na Universidade de Iena. Logo em seguida, trabalhou durante quatro anos como professor particular em Interlaken, na Suíça, período em que ficou amigo do educador Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827). Tornou-se professor na Universidade de Göttingen em 1802. Seis anos depois, assumiu a cátedra deixada vaga por Immanuel Kant em Königsberg, onde lecionou até 1833, quando reassumiu o posto de professor de filosofia em Göttingen. Em Königsberg, fundou um seminário pedagógico com uma escola de aplicação e um internato. Os estudos mais importantes de Herbart foram no campo da filosofia da mente, à qual subordinou suas obras pedagógicas (entre elas, Pedagogia Geral e Esboço de um Curso de Pedagogia). A influência de sua teoria se estendeu a uma legião de pensadores, dando origem a várias interpretações, até entrar em declínio no início do século 20.

Moral como objetivo
Na teoria herbartiana, memória, sentimentos e desejos são apenas modificações das representações mentais. Agir sobre elas, portanto, significa influenciar em todas as esferas da vida de uma pessoa. Desse modo, Herbart criou uma teoria da educação que pretende interferir diretamente nos processos mentais do estudante como meio de orientar sua formação.

GÊNIOS EM PROFUSÃO NA ALEMANHA

Herbart viveu numa época em que a Alemanha produziu, década após década, alguns dos mais importantes intelectuais da história da humanidade. Alguns deles redefiniram seus campos de atuação, como Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) na literatura e Kant na filosofia. Curiosamente, o país naquele período era constituído por dezenas de minúsculos principados, virtualmente independentes, mas subservientes aos grandes centros de poder, como Paris e Londres. No entanto, uma cultura sólida se desenvolvia nas universidades alemãs. A influência protestante e a tendência dos governantes alemães de se cercarem de funcionários cultos também ajudaram a criar um contexto em que os intelectuais costumavam ser chamados a contribuir para o bem comum, mesmo que o sistema político estivesse longe de ser democrático. Nas universidades, os professores de filosofia tinham de ocupar também cátedras de pedagogia. Várias gerações de intelectuais – agrupados sob as correntes idealista, romântica e realista – deixaram, assim, contribuições fundamentais para a educação.

Embora profundamente intelectualista, a pedagogia herbartiana tem como objetivo maior nem tanto o acúmulo de informações, mas a formação moral do estudante. Por considerar a criança um ser moldado intelectualmente e psiquicamente por forças externas, Herbart dá ênfase primordial ao conceito de instrução. Ela é o instrumento pelo qual se alcançam os objetivos da educação. “Para Herbart, só o ignorante comete erros”, diz a pedagoga Maria Nazaré.

A instrução é o elemento central dos três procedimentos que, para Herbart, constituem a ação pedagógica. O primeiro é o que chamou de governo, ou seja, a manutenção da ordem pelo controle do comportamento da criança, uma atribuição inicialmente dos pais e depois dos professores. Trata-se de um conjunto de regras imposto de fora, com o objetivo de manter a criança ocupada. O segundo procedimento é a instrução educativa propriamente dita e seu motor é o interesse, que deve ser múltiplo, variado e harmonicamente repartido. O terceiro é a disciplina, que tem a função de preservar a vontade no caminho da virtude. Nessa etapa se fortalece a autodeterminação como pré-requisito da formação do caráter. Ao contrário do governo, consiste em um processo interno do aluno.

Muitas das contribuições de Herbart para a psicologia e a pedagogia continuam valiosas, mas seu pensamento e a prática que dele se originou no século 19 se tornaram ultrapassados, sobretudo com o aparecimento do movimento da escola ativa. Seu principal representante, o norte-americano John Dewey (1859-1952), fez duras críticas à doutrina herbartiana. A pedagogia contemporânea tornou o o aluno sujeito do ensino e substituiu o individualismo do século 18 por uma visão mais complexa dos fatores envolvidos no trabalho de ensinar. “Hoje, admite-se no plano teórico que a mente humana é originalmente ativa, enquanto na prática, no Brasil, ainda se costuma despejar conhecimento sobre o aluno, como queria Herbart”, critica Maria Nazaré.

UM PADRÃO ESCOLAR PARA O SÉCULO 19

A obra pedagógica de Herbart teve enorme influência em todo o mundo ocidental (e também no Japão) na segunda metade do século 19. Por se basear no princípio de que a mente humana apenas apreende novos conhecimentos e só participa do aprendizado passivamente, o herbartianismo resultou num ensino que hoje qualificamos de tradicional. “As escolas herbartianas transmitiam um ensino totalmente receptivo, sem diálogo entre professor e aluno e com aulas que obedeciam a esquemas rígidos e preestabelecidos”, diz a educadora Maria Nazaré. Herbart previa cinco etapas para o ato de ensinar. A primeira, preparação, é o processo de relacionar o novo conteúdo a conhecimentos ou lembranças que o aluno já possua, para que ele adquira interesse na matéria. Em seguida vem a apresentação ou demonstração do conteúdo. A terceira fase é a associação, na qual a assimilação do assunto se completa por meio de comparações minuciosas com conteúdos prévios. A generalização, quarto passo do processo, parte do conteúdo recém-aprendido para a formulação de regras globais; é especialmente importante para desenvolver a mente além da percepção imediata. A quinta etapa é a da aplicação, que tem como objetivo mostrar utilidade para o que se aprendeu.

Para pensar
John Dewey criticou a teoria herbartiana dizendo que ela previa um “mestre todo-poderoso”, encarregado de manipular os processos mentais do aluno por meio da instrução. Para Dewey e a maioria dos pedagogos do século 20, o pensamento de Herbart subestima e até ignora a ação do próprio aluno e sua capacidade de auto-educar-se. Mas não se pode negar que Herbart foi um dos pensadores que mais se interessaram pela psicologia do educando e o modo como ela influi em seu aprendizado. Você considera satisfatório seu conhecimento dos processos psíquicos das crianças em geral e de seus alunos em particular? Se acha que sim, de que modo pode utilizá-lo para aprimorar suas aulas?

Revista Escola

CRISE FINANCEIRA GLOBAL

Ficção e realidade na crise bancária

César Fonseca

Os repórteres e analistas em geral estão insistindo, catolicamente, em separar a economia real da economia irreal, a ficção, da realidade.

Primeiro, a economia real, diziam, estava imune à economia irreal, que está implodindo na crise bancária americana e européia. Agora, também, ela, a real, entrou na dança. Se entrou é porque está ligada à outra. Seria possível uma sem a outra?

Essa é uma discussão que não foi feita ainda, com profundidade, pela imprensa brasileira, simplesmente porque a interatividade dialética entre ambas, realidade e ficção, paira além da visão mecanicista que freqüenta as redações.

A colônia, escravizada pelos juros, copia a metrópole. Não pensa com sua própria cabeça. Fica no idealismo imaginado nos laboratórios dos neoliberais e suas caixas de ferramentas salvacionistas.

Como diz Mário Juruna, no filme de Armando Lacerda Jururã, o espírito da floresta, “brasileiro pensa pequeno com cabeça de estrangeiro”.

Insuficiência de consumo

A economia capitalista, no século 20, continuou sendo interpretada pelos neoliberais, juristas da periferia capitalista, com a cabeça do século 19. Chega-se, agora, ao século 21 sequer com a cabeça do século passado, mas do retrasado.

O pensamento econômico crítico não freqüenta as redações. Prevalece dentro delas, o pensamento marginalista, equilibrista, do tempo do padrão-ouro, neoclássico, quando a moeda era ainda, como Ricardo denominava, valorímetro, meio de troca, falsamente, neutra, como se pairasse, incólume, acima das classes sociais.

Ou seja, produto da imaginação esquizofrênica.

Marx, professor indispensável para entender o capitalismo, como destaca Delfim Netto, já tinha mostrado que a realidade iria derrotar o capitalismo e a ficção seria chamada em seu socorro.

A totalidade do valor recebido pelos trabalhadores em forma de salário, disse, não consegue comprar a totalidade do valor correspondente às mercadorias produzidas. Há uma disparidade entre o valor-capital que se acumula e o valor-salário que se desvaloriza.

Pinta uma crônica insuficiência de consumo global. É o preço cobrado pelo investidor capitalista, que visa ao lucro, e não à satisfação do consumidor, como prioridade fundamental.

A ficção da moeda estatal

O real não suporta as suas próprias dores. Precisa do irreal. A insuficiência consumista produz um estoque crônico cuja lógica reduz os preços e destrói o capital e os salários, na deflação.

O que fazer com o estoque?

Imaginaram os neoliberais que a saída seria o comércio internacional. Se não há mercado interno, massacrado pelo subconsumismo, exportar é a solução.

Mas, se todo mundo exporta… a contradição final do sistema explode, disse, no mercado mundial interligado, globalizado.

Marx detonou o pensamento neoliberal do século 19. Analisou que o capitalismo, nesse período, se baseia em dois setores: o departamento I (D1), produtor de bens de produção, bens de capital, e o departamento II (D2), produtor de bens de consumo.

Concluiu que a contradição entre ambos, entre produção e consumo, D1 e D2, isto é, entre mercadoria e dinheiro, levaria o sistema à crônica insuficiência de demanda global, dado seu caráter intrínseco de marchar, dialeticamente, para a sobreacumulação.

De um lado, sobreacumulação; de outro, subconsumismo. Resultado: sobreacumulação e crise sob a moeda falsamente neutra.

D1 + D2 se autoanulariam, no limite da contradição, o que exigiria sua superação em D3, departamento III, que representaria o Estado, conforme prevê o autor de O Capital.

O que é D3? A ficção que surge para ressuscitar o real, D1+D2, com a moeda estatal. A moeda-ouro, no padrão-ouro, transformara-se, dessa forma, como reconheceu Keynes, em relíquia bárbara.

Fator exterior à realidade

Essa formulação de Marx em O Capital repetiu o que Malthus já havia dito nos anos de 1850. A eficiência do capitalismo, impulsionado pela ciência e tecnologia, gera oferta maior que demanda, cujo resultado é queda de preços.

É necessário, frisou, que nasça o oposto da eficiência, isto é, a ineficiência. Se o setor privado é eficiente e produz tanto que leva o sistema à crise, se o Estado repetir tal eficiência, igualando-a ou superando-a, para gerar, como o mercado privado, insuficiência de demanda global, para que o Estado? Agravaria a situação em vez de resolvê-la.

Malthus falou a verdade e, por isso, foi excomungado.

A ineficiência estatal, que assusta tanto os analistas econômicos, como se estivessem frente ao próprio diabo, é a solução, já que o capitalismo não suporta o desenvolvimento das forças produtivas em sua potência máxima deixada ao livre jogo dos mercados. Olha o caos aí, no mercado imobiliário. Precisa mais prova?

Apenas reduzir salários, para elevar a lucratividade na exploração da mais-valia, não asseguraria a sobrevivência do capital. Seria necessária, disse, uma demanda suplementar. Qual? O Estado, D3.

Os liberais e os neoliberais desdenham a formulação macroeconômica malthusiana-keynesiana, analisada criticamente por Marx, porque vêem a moeda como fator que fica no exterior da realidade, como fator neutro, acima das classes sociais antagônicas, no processo de acumulação capitalista.

Contradições do livre mercado

A demanda complementar proporcionada pelo Estado, com moeda estatal sem lastro, expressão maior de D3, não encaixa na formulação neoliberal porque os neoliberais não entendem ser válido que a moeda, sob o comando do Estado, constitua um fator econômico decisivo, já que, essencialmente, pela visão neoliberalizante, parcial, é apenas meio de troca.

Essa fase dezenovecentista da cabeça neoliberal separou o Estado da produção privada, quando a produção privada, no século 20, somente conseguiu sobreviver, depois da crise de 1929, mediante intermediação da moeda estatal. Esta entra em cena na circulação para dinamizar os setores que haviam perdido gás na grande crise.

Essa visão neoliberal do Estado de que os gastos do governo criam desajustes no setor privado de modo que é preciso que haja enxugamento forte da demanda estatal para que a economia capitalista seja sustentavelmente suficiente e eficiente, é, tão somente, sonho de noite de verão. Completamente anti-histórico.

A moeda estatal que Marx previu, mas não viveu para ver em ação, é a expressão de D3, sua representação essencial em forma de moeda estatal sem lastro, fictícia. O valor da moeda passa a ser o que dissera Hegel, sopro do Estado num pedaço de papel.

Ao contrário da moeda que ainda vigora no imaginário da cobertura econômica, com seu caráter de neutralidade, pairando acima das classes sociais antagônicas, como se o século 21 estivesse no século 19, a nova moeda, no século 20, não tem nada de neutra.

O Estado, entidade política, emite sua moeda política, para tentar organizar e dinamizar aquilo que tinha sido paralisado pelas contradições do livre mercado.

Dinamização do capitalismo na guerra

O cenário da crise bancária atual é comprovação histórica desse caráter básico da economia monetária, fetiche monetário, predominante no século passado que entra em colapso.

A ficção movimenta o real, que havia sido destruído pela crise de 1929. O irreal nasce para ressuscitar o real. Não há, do ponto de vista macroeconômico marxista, no seu processo de análise das contradições, divisão entre o real e o irreal.

O autor de O Capital disse que o sistema, contraditoriamente, desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver as forças destrutivas, na guerra.

O prêmio Nobel de economia Josef Stglitz reconhece que a guerra do Iraque, com custo superior a 2 trilhões de dólares, é a própria dinamização do capitalismo americano, na guerra.

Uma ciência lúgubre

Com a moeda estatal, não-moeda sem lastro, o governo não compra a mercadoria que dinamizava o capitalismo anterior a 1929. A mercadoria que passa a adquirir é o oposto, uma não-mercadoria, conceito desenvolvido por Lauro Campos, em A crise da ideologia keynesiana (Campus, 1980).

Vale dizer, a economia capitalista pós-29 é dinamizada pela não-moeda que viabiliza a não-mercadoria consumida pelo governo, que vai tirar da crise a economia das mercadorias de consumo social que havia explodia no crash.

O capitalismo bi-setorial, D1+D2, rígido, mecânico, apoiado no padrão-ouro dezenovecentista, fora superado pelo capitalismo tri-setorial, D1+D2+D3.

O Estado, D3, com a não-moeda compra a não-mercadoria que destrói, para gerar renda e consumo de bens duráveis que deixaram, depois do crash, de ser o carro-chefe da reprodução capitalista, dando lugar ao novo carro-chefe, D3, os gastos do governo.

Para a cabeça mecanicista é difícil entender que a não-moeda surge, dialeticamente, para aumentar o consumo sem aumentar a oferta.

Separar os gastos do governo dos gastos do setor privado que busca reprodução lucrativa é querer tirar a corcunda do sujeito porque ela o deformou. Mata o caboclo.

Somente o Estado pode consumir não mercadorias – produtos bélicos e espaciais, gastos acima da receita, desperdícios necessários, para dar via à ciência econômica capitalista, segundo Malthus, uma ciência lúgubre, dado seu caráter auto-destrutivo.

O espírito crítico da grande mídia, dominado pelo pensamento bi-setorial, rígido, mecânico, nada orgânico, evoluiu muito pouco. Teria evoluído bastante, se essa visão da moeda, no conceito de Marx, de Malthus, Keynes, tivesse sido mais debatida, sem preconceitos, criticamente.

Neutralidade monetária

A não percepção clara sobre a gênese da moeda capitalista no século 20 ficou ainda mais obscura e acrítica no plano da cobertura econômica, depois da crise monetária dos anos de 1980, provocada por excessiva oferta mundial de dólares, que levou o governo americano a aumentar brutalmente os juros. Imperou, desde então, escuridão, o mecanicismo total, vestido de princípio único detonador do fim da história.

D3, gastos do governo que movimentam a economia capitalista, foi eleito alvo preferencial a ser combatido porque interferiria negativamente na vida privada. Se o governo gasta mais do que arrecadada…

Visão mecanicista, que deseja demonstrar que o ideal de um governo é aquele expresso pela dona de casa: não gastar além da renda familiar.

O que é válido, do ponto de vista da parte, não o é do ponto de vista do todo. Destruir o Estado passa a ser o objetivo do poder midiático alienado.

Na base da ignorância, os neoliberais – e seus oráculos na grande mídia – na periferia passaram a pregar, nada mais, nada menos, que a destruição do próprio capital nacional, por desconhecerem, ou abafarem, o caráter não-neutro da moeda capitalista na fase pós-29 em que o Estado vira capital.

A neutralidade monetária era conveniente para os interesses dos bancos, cuja preocupação maior, depois da crise, foi a de receber, em dia, o pagamento dos juros.

Dois lados de uma moeda

Foi tão cega a visão acrítica que a grande mídia passou completamente batida na discussão do artigo 166, parágrafo terceiro, II, letra b, da Constituição, que confere, no âmbito do orçamento, causa pétrea ao pagamento dos serviços da dívida. Os banqueiros ficaram imunes, constitucionalmente, a qualquer contingenciamento possível ou imaginável.

Já os gastos com saúde, educação, investimentos em infra-estrutura etc., esses podiam ser amplamente contingenciados. Ao mesmo tempo, cerraram fileiras os neoliberais para destruírem, também, o art. 192, que fixava limite de 12% para a taxa de juro no país.

A Constituição, que acaba de fazer 20 anos, representa o domínio da bancocracia (Lauro Campos).

Resultado: sucateamento do Estado e, claro, também, da iniciativa privada. Afinal, sob a economia monetária, o Estado, abstração, o irreal, e a iniciativa privada, o real, são dois lados de uma só moeda, unha e carne, mediados pela moeda estatal sem lastro, durante todo o século 20.

O calote como solução

O fato novo, agora, com a crise americana, não é a derrocada neoliberal, mas a keynesiana, expressa nos déficits americanos que desvalorizam o dólar e jogam a economia global, com a implosão do setor imobiliário, seguido de bancarrota financeira, no empoçamento geral do crédito.

O lubrificante, a moeda dominante, está deixando de lubrificar as peças do sistema.

Keynes destacou que o sistema precisa fingir para si mesmo que o útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade. Máxima ideológica utilitarista inglesa cínica, que cobra preço alto ao próprio Keynes. Ele mesmo, com sua solução, está, na grande crise do governo keynesiano americano, indo para o buraco.

Novo Keynes, como clamam muitos, pode pintar, isto é, nova ficção, novo D3? Seria americano ou mundial?

O grande economista inglês pregou, em Bretton Woods, em 1944, a moeda mundial, o bankor, que representaria caixa de conversão geral, para equilibrar os desequilíbrios decorrentes do domínio dos ricos sobre os pobres por intermédio da moeda, via deterioração nos termos de troca, impondo senhoriagem.

Sua proposta não venceu, porque os americanos saíram da guerra com a força total, impondo o dólar como moeda mundial.

Tio Sam, agora, na primeira grande crise monetária do século 21, parece estar entre tomar uma dose monstra de viagra, para ver se recupera a potência, para continuar dominando unilateralmente o cenário global, correndo risco de ter um infarto, ou partir para o conselho, não mais de Keynes, mas de Adam Smith.

Em A riqueza das nações, Smtih não deixa dúvidas: a dívida pública, os déficits, existem para não serem pagos, mas rolados, indefinidamente.

A ficção que entra na moeda com um sopro do Estado pode se desmanchar, igualmente, com outro sopro, para salvar o real?

O calote emergiria como solução. Seria engraçado ver a grande mídia bater palma para o calote global, logo ela, que, religiosamente, condenou os calotinhos brasileiro e argentino depois do massacre neoliberal dos países ricos sobre os pobres, coordenado pelo Consenso de Washington e aplicado pelo capitão do mato, FMI.

Observatório

O Brasil engarrafado

A cachaça foi fundamental para a economia do Brasil colônia e teve grande influência nos rumos da nossa história. Do canavial ao boteco, saiba como essa bebida ajudou a moldar a identidade nacional do brasileiro

Mariana Lacerda

Em 13 de setembro de 1649, uma carta assinada pelo então rei de Portugal, dom João 4º, proibia a fabricação da cachaça no Brasil. Motivo: desde aquela época, a aguardente de cana-de-açúcar estava se tornando, em detrimento do vinho português, a bebida predileta da colônia – e da costa oeste da África também. E a Companhia de Comércio de Portugal, descontente, recorreu à Coroa para que providências fossem tomadas. Não queria perder mercado, mesmo que fosse para fregueses pouco abonados, escravos e mestiços que só tinham mesmo condições de consumir a cachaça. O destilado, que já era produzido nestas terras, tinha preço muito mais acessível que o vinho, trazido de navio do outro lado do oceano Atlântico.

Só que ninguém deu bola para essa lei seca no Brasil. Não que o país fosse território de cachaceiros ou alcoólatras incuráveis. Havia outra questão por trás: a economia de Portugal – e era isso que decidia o destino de sua colônia mais lucrativa, o Brasil – dependia consideravelmente da produção e do consumo da aguardente.

A Coroa precisava vender açúcar. A produção de açúcar nos engenhos da colônia, por sua vez, dependia de muito trabalho pesado: aí entravam os escravos, uma vez que “a civilização do açúcar não teria sido feita” sem o negro, como escreveu Gilberto Freyre em seu livro Nordeste. E o valor desses escravos muitas vezes era mensurado em cachaça. Sim, pois a pinga produzida no Brasil passou a servir, junto com o tabaco, de moeda de troca por escravos na costa africana.

A moeda cachaça

A produção de aguardente de cana-de-açúcar surgiu como uma conseqüência das lavouras açucareiras. A cachaça teria sido resultado da produção do melaço, uma das etapas da fabricação do açúcar. No processo, a borra adocicada que se concentrava sobre a garapa borbulhante era removida com uma espumadeira e jogada numa tábua – daí o termo português “cachaça” que, derivado do espanhol cachaza, era o nome da espuma do caldo. Ali, a borra açucarada fermentava, transformando o que é doce em álcool. Rapidamente, a tecnologia portuguesa de produção de bagaceira adaptou-se aos engenhos, e daí surgiram os alambiques para destilar a bebida. E pronto, eis a cachaça: “A revelação gostosa e catastrófica para negros africanos e amerabas brasileiros. Dissolvente dinástico, dispersador étnico, perturbador cultural”, escreveu o folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu livro O Prelúdio da Cachaça.

Antes dela, tanto os negros como os índios desconheciam bebida tão poderosa. Sabe-se que os índios produziam um tipo de bebida fermentada a partir da mandioca mastigada e cuspida. Chamava-se cauim. Os africanos também bebiam um vinho obtido do caldo de palma. Mas, segundo Câmara Cascudo, nada chegava aos 18 ou 22 graus alcoólicos da cachaça produzida na época (as caninhas modernas chegam a superar os 50% de álcool). Na África, aos poucos, o consumo do vinho de palma foi sendo substituído pela cachaça. Isso não se deu por acaso: os colonizadores deliberadamente trabalharam para criar um mercado consumidor dos destilados produzidos na Europa e na América. “À medida que a substituição se processou, foi criado o mercado onde a aguardente foi utilizada como ‘moe­­da’ no tráfico de escravos”, afirma o pesquisador Carlos Magno Guimarães, historiador da UFMG. A cachaça, assim, passou a ser um “cheque descontável do Daomé à Angola, do delta do Níger à foz de Cunene”, escreveu Luís da Câmara Cascudo.

Daí a explicação de por que de nada adiantou a proibição real de 1649. Tampouco uma outra, dessa vez assinada por dom Pedro 2º (o rei português que sucedeu João 4º, não o imperador brasileiro), que também proibia o envio de cachaça para Angola. Proibindo a produção, o consumo e a venda da cachaça, o que se tinha, segundo Câmara Cascudo, era o contrabando “inevitável e prolífero”. E muito lucrativo, pois todos os riscos que a operação envolvia – e mais um pouco – eram embutidos no preço ao comprador. Calcula-se que, em média, 310 mil litros de cachaça foram enviados por ano para Angola, o que correspondia a quase 80% das bebidas alcoólicas que chegaram àquela colônia (as demais eram vinho e bagaceira, de Portugal). Aproximadamente 25% dos escravos trazidos para o Brasil – entre 1710 e 1830, ao menos – foram trocados por cachaça. “Se acrescentarmos também o tabaco da Bahia, chega-se à cifra de quase a metade dos cerca de 2 milhões de escravos trazidos no século 17 tendo sido trocada pela cachaça e pelo tabaco”, diz o historiador Henrique Carneiro, em seu livro Pequena Enciclopédia das Drogas e Bebidas.

O contrabando de drogas, aliás, já naquela época, não era apenas coisa nossa, não. O tráfico de álcool já era comum no mundo quando o Brasil aderiu à moda. “Há milênios existe o tráfico de álcool, especialmente do vinho, no mundo mediterrâneo. A partir do século 16, ele se expandiu e se ampliou enormemente com a emergência dos destilados”, diz Carneiro. Segundo ele, outros ciclos comerciais também se fincaram na história em torno das drogas, além do comércio de aguardente que marcou a economia colonial americana no século 17. As bebidas quentes e estimulantes, desde aquela época, aprofundaram o desequilíbrio da balança comercial inglesa com a Ásia, por causa da crescente compra de chá. Isso foi o estopim de duas guerras da Inglaterra contra a China, no século 19, as chamadas Guerras do Ópio. Os britânicos queriam forçar os chineses a aceitar ópio, e não prata, como pagamento pela quantidade monstruosa de chá que compravam.

Anestesia

Além de ser moeda de troca para a compra de escravos, havia ainda outro motivo que tornava a cachaça imprescindível para o Brasil colonial: para os negros africanos, ela funcionava como amortecedor tanto da fome quanto da tristeza que embalavam a longa viagem de travessia do Atlântico. Na dieta diária dos escravos, vinha ainda da cana o consolo e a anestesia para suportar as agruras do regime escravocrata. “Confirmando desde então a tese sempre atual de que a humanidade, em todas as épocas históricas, sempre teve um pendor por buscar substâncias químicas que aliviem suas dores”, diz Henrique Carneiro.

E o Brasil Colônia dispunha de matéria-prima suficiente para produzir alívio para uma multidão de sofredores cativos. A pinga era o combustível do trabalho forçado. A tal ponto que a viajante inglesa Maria Graham, visitando o Recife em 1821, chegou a anotar sobre os escravos que a cachaça era o “incentivo pelo qual fazem qualquer coisa”. Com o eixo da economia se deslocando para Minas Gerais e seu ouro, os negros transferiram do Nordeste para lá o hábito e a tecnologia da produção de aguardente (e deram início ao que hoje é uma das marcas mais sagradas de Minas, a cachaça artesanal).

Por essas e outras é que, insustentável, a proibição real à aguardente caiu em 1661. Governos da capitania de Minas Gerais ainda tentaram, pontualmente, inibir a proliferação dos alambiques porque – claro, é de sua natureza – a danada também fazia lá seus estragos. Em terras mineiras, não combinava com os poços profundos, nos quais, não raro, os escravos tinham que adentrar para buscar ouro. Além disso, também se temia que a cachaça estimulasse a rebeldia dos negros. Mas essas proibições dos governos das capitanias também caíam rapidinho. De modo que nenhuma outra restrição apareceu, segundo Câmara Cascudo, após 1759 (salvo hoje, em dia de eleição) ao direito de embriagar-se de cachaça até entortar a língua e cair duro com a cara no chão.

Rebeldia

E, se a cachaça foi importante para a manutenção da economia açucareira e, depois, para o ciclo do ouro, ela também teve seu papel na resistência e na luta contra a escravidão. “Na realidade colonial, a aguardente evidenciava o seu caráter contraditório”, escreveu o historiador mineiro Carlos Magno Guimarães, em artigo na coletânea Álcool e Drogas na História do Brasil. “Ao mesmo tempo em que contribuía para a manutenção da ordem escravista, era combatida como ameaça a essa mesma ordem.” Que a aguardente esteve associada a eventos de rebeldia, isso é inegável. “Mas que ela tenha sido a causa da revolta é, no mínimo, questionável”, diz Carlos Magno. Obviamente, pois a verdadeira causa de rebeliões de escravos era a própria situação lastimável da escravidão.

Os negros dominaram rapidamente as técnicas de destilação da pinga, e a aguardente de cana passou a ser produzida e consumida nos quilombos – inclusive no quilombo dos Palmares, entre Pernambuco e Alagoas, que era o maior de todos e acabou destruído em 1710. Tanto nas senzalas quanto nos quilombos, a marvada já era elemento de rituais e danças negras. E, como afirma Carlos Magno, que pesquisou o papel da cachaça nos quilombos de Minas Gerais (segundo ele, de 1733 a 1748, pelo menos 49 núcleos de negros fugidos foram descobertos e destruídos pelas autoridades da capitania), ela cumpriu um papel importante para a manutenção dessas comunidades.

Isso porque, para os quilombolas, a cachaça também era, sim, dinheiro. Até eles, que eram fugitivos do governo, conseguiam trocar a bebida por alimentos, no comércio ilegal feito nas vendas, que eram o equivalente ao que hoje conhecemos como botecos, mercearias – diferença é que, naqueles tempos, eram clandestinas e, como tal, faziam um comércio ilícito. Como o de trocar alimentos pela cachaça dos negros fugidos – e, assim, ajudá-los a viabilizar os quilombos.

Cachaça é coisa nossa

Se a cachaça está presente na história do Brasil desde o começo, a ponto de ter sido um tanto responsável por sua trajetória, nada mais lógico que ela seja a bebida alcoólica nacional por excelência. Há tempos que a pinga tem sido mencionada como o trago favorito destas bandas. Entre os anos de 1816 e 1822, o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire já anotava ser “a cachaça a aguardente do país”.

Hoje, estima-se que existam de 40 mil a 50 mil produtores espalhados pelo país. “Muito embora, pela natureza da fabricação, seja muito difícil quantificar”, diz o químico Douglas Wagner Franco, do Laboratório para o Desenvolvimento da Química da Aguardente, da USP em São Carlos – o cientista se refere aos numerosos alambiques de fundo de quintal que podem passar em branco nas estatísticas. Mais de 500 apelidos para a dita cuja, de branquinha a dengosa, assovio-de-cobra e meu-consolo, já foram catalogados em tentativas de se formar um léxico de como a cachaça é falada na boca do povo, de norte a sul do país.

Fabricada inicialmente pelos negros, passou a ser consumida por todos – até pelo presidente do Brasil. E foi usada como símbolo de nacionalidade desde que o Brasil Colônia brigava para se livrar de Portugal e ser Brasil somente. Na Revolução Pernambucana de 1817, o vinho foi substituído por cachaça em algumas missas. Era uma forma de protesto e de afirmação em prol da República. Na Confederação do Equador, em 1824, que foi uma reação contra o absolutismo de dom Pedro 1º, a mesma coisa: líderes revolucionários brindavam vitórias com cachaça. E até na guerra contra o Paraguai, quando entre 1864 e 1870 cerca de 300 mil paraguaios morreram, os soldados brasileiros (ao todo eram aproximadamente 160 mil homens) se abasteciam de cachaça. Embora presente na história social, política e econômica desde o começo do Brasil, tecendo laços, tampando dores, dando alegria e coragem, apenas em 2001 um decreto presidencial instituiu a bebida mais democrática do país como a bebida nacional. Demorou!

Super

Manual antiquado

Máquinas já colhem 50% da safra em SP; a cada 1% de área mecanizada, 2.700 pessoas perdem emprego

Moradores de cidades litorâneas praguejam contra o estrago que a maresia faz nos eletrodomésticos. Mas não têm idéia do inferno que é, para a limpeza de casa, a sujeira nos municípios onde se cultiva cana.
Limpa-se de manhã, e, à noite, a fuligem das queimadas encobre tudo de novo. A imundície vai acabar, bem como o fogo e os cogumelos de fumaça que lançam gás carbônico e outros poluentes que conspiram para o aquecimento global.
Protocolo ambiental do governo do Estado com as usinas prevê para 2014 o fim das queimadas em áreas passíveis de colheita mecanizada de cana e, para 2017, nas não mecanizáveis (acima de 12 graus de declive). Conforme a Unica, estas representam em torno de 7%.
Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da entidade, afirma que o prazo será antecipado: “2014 será quase o fim”. A produtividade dos cortadores é maior em lavouras submetidas antes à queima. O fogo preserva as varas, e o corte manual fica mais simples.
E menos perigoso -as queimadas eliminam animais peçonhentos. Na cana crua, a colheitadeira é ainda mais rentável que o homem.
A safra deste ano (denominada 2008/2009), de abril a novembro, é a primeira em que pelo menos metade da cana será colhida mecanicamente, anuncia a Unica. O custo da operação da colheita mecanizada é 20% menor.
As máquina substitui cerca de 80 homens. O conjunto de equipamentos que inclui a colheitadeira sai em média por R$ 1,2 milhão, calcula a Unica. Há 1.650 em ação em SP.
Em 2006, o Estado produziu 299 milhões de toneladas de cana e empregou 189,6 mil pessoas no corte manual. No total, contando a colheita mecânica e a indústria de etanol e açúcar, havia 260,4 mil empregados.
Em 2015, dizem os usineiros, será zero o emprego em colheita manual. Na cadeia produtiva, haverá 127,8 mil funcionários, mesmo colhendo 457 milhões de toneladas.
Os cortadores são 135 mil em São Paulo em 2008, estimam os empresários. No Brasil, ao todo seriam 335 mil. A Unica adota estatísticas de um estudo que, baseado no IBGE, quantificou em 566 mil os trabalhadores no cultivo da cana no país em 2006. No Nordeste, os cortadores serão mantidos por mais tempo que em SP.
No centro-sul, que concentra o setor sucroalcooleiro e inclui o Sudeste, a colheita na safra é 11,57% maior que em 2007 no mesmo período. A produção de açúcar caiu 2,51%, mas a de álcool se expandiu 15,61%.
Destina-se ao etanol 60% da cana. O Instituto de Economia Agrícola, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de SP, avalia que, a cada 1% de área mecanizada, desempregam-se 2.700 pessoas.

Folha de São Paulo

Os hispânicos são um assunto da Espanha?

A Espanha carece de uma política de Estado para os mais de 45 milhões de hispânicos dos EUA, uma comunidade chave nas próximas eleições e no futuro desse país. Uma relação mais estreita seria mutuamente vantajosa

Javier Valenzuela

Poucos compatriotas de Obama e McCain sabem que o primeiro europeu que pisou o solo do que hoje conhecemos como EUA foi um espanhol: Juan Ponce de León, em 1513, nas costas da Flórida. Ou que a cidade americana mais antiga é San Agustin, na Flórida, fundada em 1565. Ou que o nascimento de Santa Fe (Novo México) foi anterior à chegada a Massachusetts, em 1620, do navio inglês Mayflower com seus peregrinos. Escritos a partir do anglocentrismo, os manuais americanos ignoram a história de um terço desse país. Mas quantos conhecem esses fatos na própria Espanha? Poucos, muito poucos.

O espanhol não é nenhuma novidade nos EUA, embora a maioria de seus habitantes, educados em uma mitologia estritamente branca, anglo-saxã e protestante (wasp), o desconheça. Os ancestrais de muitos hispânicos do Novo México, Texas ou Califórnia viviam ali muito antes da independência americana (1776). Como dizem achando graça, não é que eles atravessaram a fronteira, foi a fronteira que os atravessou quando em 1847 os jovens Estados Unidos anglos arrebataram ao México a metade setentrional de seu território.

Há pouco tempo soubemos que a valenciana Noelia Zanón tinha sido contratada para cantar os temas em castelhano da campanha de Obama.

Aqui houve alguns risos a respeito (quem é Noelia Zanón?) e nenhuma reflexão sobre o fundo do assunto: por que o Partido Democrata escolhe uma espanhola para se dirigir aos eleitores latinos? E, sobretudo, a Espanha pode desempenhar um papel no universo das comunidades hispânicas ao norte do rio Bravo?

Calcula-se que em 4 de novembro cerca de 10 milhões de latinos irão às urnas. A maioria deles, 3 em cada 5, parece inclinada por Obama; é o presidente poeta, como o chamou Ariel Dorfman. Mas essa é só a ponta de um grande iceberg. Os hispânicos, 45 milhões de pessoas no mínimo, já são a primeira minoria dos EUA, 15,1% da população, segundo o centro de pesquisas Pew. E o castelhano, usado por Obama e McCain para divulgar mensagens eleitorais, não é só a segunda língua dos EUA como esse país é o segundo de fala hispânica no mundo, depois do México e à frente da Espanha e da Colômbia.

É verdade que os hispânicos constituem um mosaico. Suas divisões são inúmeras: em função das cerca de 20 origens nacionais diferentes; da data de sua chegada aos EUA e de suas motivações (políticas para os exilados cubanos, econômicas para os mexicanos e quase todos os demais). Mas embora a grande maioria ganhe a vida em inglês já não existe como em tempos distantes a vontade de esquecer a língua de Cervantes e as raízes hispânicas. Perderam o complexo, acaba de indicar Eduardo Lago, diretor do Instituto Cervantes em Nova York, na apresentação da Enciclopédia do Espanhol nos EUA. E acima da diversidade de suas procedências surge a consciência de uma identidade comum. Além disso, já não são só trabalhadores braçais – sua transformação em classe média é galopante.

O interesse do fenômeno para a Espanha deveria ser evidente. Para começar, os hispânicos (cerca de US$ 60 mil de renda média anual) são um mercado natural para produtos editoriais e culturais espanhóis, assim como uma via de entrada para outro tipo de bens e serviços no mercado americano em geral. Podem, é claro, desempenhar o papel de ponte política, econômica e cultural entre a Espanha e os EUA, sem esquecer as possibilidades de “triangulação” com a América Latina.

A maioria dos latinos dos EUA desconhece a Espanha; mal a localiza no mapa, e quando o faz não lhe dá mais importância que à Itália ou o Reino Unido. No entanto, uma estratégia espanhola de penetração e influência nesse mundo, da qual participassem os poderes públicos, empresas privadas e meios de comunicação, poderia lhes oferecer um pacote interessante:

1. Um elemento simbólico unificador das diferentes comunidades hispânicas. O que todas têm em comum – idioma, tradições, forma de vida, elementos culturais… – não se explica sem a Espanha. É o que disseram o rei Juan Carlos em Nova York (1997) e Washington (2001) e o príncipe de Astúrias em Washington (2003).

2. Uma raiz na própria história americana. O reino da Espanha teve uma ampla presença ao norte do rio Bravo tanto no tempo (1513-1822) como no espaço (do Caribe ao Pacífico). Os hispânicos não são recém-chegados aos EUA, estão em casa. Não tanto quanto os indígenas, mas tanto ou mais que os anglos.

3. Prestígio. A Espanha é um país europeu tão antigo ou mais que a Inglaterra e hoje constitui uma sociedade democrática, aberta, tolerante, com um nível razoável de proteção social e uma cultura atraente (Pedro Almodóvar, Antonio Banderas, Javier Bardem…), onde vivem amplas comunidades procedentes do outro lado do Atlântico e que renovou seus vínculos com a América Latina. Diante da superioridade política, econômica e cultural dos wasp, os hispânicos têm uma grande necessidade do que eles mesmos chamam de “respeito”, e a Espanha pode lhes oferecer uma imagem de qualidade, suscetível de ser um patrimônio próprio.

4. Porta da Europa, o maior mercado do mundo. Como escreveu neste jornal Vicente Palacio, a Espanha deve se apresentar aos hispânicos dos EUA como “um parceiro europeu confiável, dinâmico e que vai ao encontro em seu mesmo idioma”.

5. Educação e financiamento. Em um congresso de empresários hispânicos e espanhóis realizado em 2004, na Casa América, os primeiros contaram que as duas grandes demandas de sua comunidade são educação e capital. Em relação à educação, salientaram que a contribuição espanhola poderia consistir na concessão de bolsas para universitários e uma maior presença editorial e cultural. Em relação ao segundo, convidaram as entidades bancárias espanholas a se implantar em localidades com alta presença latina, coisa que o BBVA e o Santander Central Hispano já começaram a fazer.

6. Indústrias de ponta. Jaime Malet e Paul Isbell lembraram aqui mesmo que a Espanha é vanguardista no setor de energias renováveis e que isso é muito atraente para os EUA, que já não podem continuar funcionando com o consumo ilimitado de petróleo barato. O setor espanhol das grandes infra-estruturas tem muitas possibilidades nesse país.

Na segunda metade dos anos 1990, coincidindo com o crescente peso latino nos EUA de Clinton – a moda Macarena – e com a maré de investimentos espanhóis na América Latina, começou-se a falar na Espanha sobre os hispânicos como um possível assunto de Estado. “Os espanhóis temos a obrigação de definir que papel podemos ter em uma nova dinâmica social que pode mudar os próprios EUA”, disse Antonio Garrigues Walker na qualidade de presidente da Fundação Conselho Espanha-Estados Unidos. De fato, as primeiras análises sobre o fenômeno procederam dessa entidade, que definiu os hispânicos como um potencial aliado estratégico da Espanha.

Deve-se reconhecer que Aznar incorporou os hispânicos às prioridades de sua política externa, a ponto de ele mesmo ter feito várias viagens aos EUA destinadas exclusivamente a esse universo; em 2003 dirigiu-se em Austin (Texas) à assembléia anual do Conselho Nacional La Raza.

Lamentavelmente, tudo ficou na retórica, o apoio a Bush na guerra do Iraque e a um Aznar falando com um grotesco sotaque “tex-mex”. Cabe igualmente lamentar que nem Zapatero nem Moratinos tenham evidenciado a menor preocupação por esse tema.

E se algum destinatário evidente tem o projeto de uma marca Espanha que vários organismos públicos e privados tentam promover, é essa comunidade de comunidades que são os hispânicos dos EUA. Segundo especialistas, seria preciso forjar uma política de Estado da qual participassem não só os governos, mas também as empresas e a sociedade civil. Seus primeiros destinatários teriam de ser os líderes e as organizações do mundo latino-americano, em particular os que transcendem suas origens nacionais e defendem o pan-hispanismo. E não se trata de que a Espanha pretenda substituir países como México, Cuba ou Brasil. A estratégia espanhola deve se inserir no âmbito ibero-americano.

Esperando Obama, há aqui o que María Jesús Criado, do Real Instituto Elcano, definiu uma vez como uma “relação por construir”.

El Pais

Um em cada dez medicamentos é falso

A maioria é fabricada na China, vendida na Internet e enviada pelo correio

Carmen Girona

Dois laboratórios desmantelados, 1,8 milhão de doses de anabolizantes e hormônios de crescimento confiscados e 18 presos em sete províncias são o resultado da Operação Universo, uma das mais importantes da Guarda Civil espanhola em 2007. Estes são os dados mais recentes em relação ao tráfico de medicamentos falsificados, com graves conseqüências para a saúde. Em 1998, 89 crianças morreram no Haiti por conta de um xarope adulterado, e na Nigéria, 2.500 pessoas morreram pela inoculação de vacinas falsas de meningite. A falsificação de medicamentos é um negócio em alta, que representa 10% do volume mundial de medicamentos – menos de 1% nos países desenvolvidos, e mais de 40% nos menos desenvolvidos – e que movimenta cerca de 45 milhões de euros.

Nos países desenvolvidos, os medicamentos mais vendidos são os relacionados ao bem-estar, obesidade, alopecia e disfunção erétil, anabolizantes hormonais e produtos milagrosos; nos menos desenvolvidos, os mais falsificados são os tratamentos contra enfermidades como a malária, o câncer e as doenças infecciosas. A maioria é produzida na China, comprada pela Internet e enviada por correio ou serviços de entrega, o que dificulta sua apreensão.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), um medicamento falsificado é aquele etiquetado indevidamente, de forma deliberada ou fraudulenta, no que diz respeito à sua identidade ou fonte. Pode ser de marca ou genérico, e pode ter sua composição alterada ou até mesmo não conter nenhum princípio ativo, como foi o caso de cápsulas de oseltamivir (Tamiflu), confiscadas no início de 2006 na Holanda.

Na Espanha é ilegal comprar medicamentos pela Internet, mas a rede permite que os compradores mantenham o anonimato, e que os falsificadores obtenham lucros astronômicos, divulguem seus produtos e escapem da lei em muitas ocasiões. José Rodríguez Fuentes, inspetor-chefe do Grupo Antipirataria da Brigada de Investigação Tecnológica do Comissariado Geral de Polícia Judicial, explica que “as páginas mais comuns são as que vendem medicamentos originais de forma ilícita ou medicamentos com outra finalidade terapêutica. Outras dizem que vendem medicamentos, mas o que fazem na realidade é intermediar a compra. Servem como fachada para as farmácias online”. Um estudo de 2008 da Aliança Européia para o Acesso a Medicamentos Seguros revela que mais de 95% das farmácias virtuais investigadas operam de forma ilegal, e que 94% não contam com um farmacêutico responsável.

Na Espanha, o Código Penal pune a falsificação de medicamentos com três meses a quatro anos e meio de prisão, e uma multa máxima de 220 mil euros. Por via administrativa, a Lei de Uso Racional do Medicamento, de julho de 2006, penaliza a falsificação com 600 mil a um milhão de euros, o quíntuplo do valor requerido [pelo Código Penal]. Para Ricardo Rodríguez, juiz da Sala Penal da Audiência Nacional, não tem sentido que a via penal seja mais benéfica para o falsificador que a administrativa: “Seria interessante que a pena por falsificação de medicamentos se equiparasse a das drogas pesadas e que se agravasse para os nove anos”.

Na União Européia, é raro encontrar medicamentos falsos no canal legal de distribuição, e na Espanha, o Conselho Geral de Colégios Oficiais de Farmacêuticos não conhece nenhum. “Nosso Sistema Nacional de Saúde é bastante eficiente e eficaz para que a falsificação seja praticamente impossível. Desde a produção até a comercialização, tudo está seguro, e o resto é frivolidade”, diz o seu presidente, Pedro Capilla.

Os próximos meses serão fundamentais para harmonizar alguns dos pontos que hoje são necessários. No final de outubro, na Nigéria, acontecerá a reunião do grupo de trabalho de Infra-estrutura Reguladora e Legislativa da Agrupação Médica Internacional de Medicamentos Falsificados (IMPACT, em inglês; www.who.int/impact/en), entidade da OMS criada em 2006 para fomentar a coordenação entre os países com o objetivo de frear a produção, o comércio e a venda de medicamentos falsos.

Em torno dessas datas, a Comissão Européia apresentará um pacote de propostas legislativas sobre o mercado farmacêutico e a fármaco-vigilância, que incluirão, entre outras, a Estratégia de medicamentos falsos e de informação para os pacientes. Por sua vez, a Espanha trabalha desde outubro de 2007 na Estratégia Nacional contra os Medicamentos Falsificados.

Anfetamina em vez de Viagra

David Shore, diretor-adjunto e responsável pela Segurança Global para a Europa, Oriente Próximo e África da indústria farmacêutica Pfizer, conhece muito bem os truques e habilidades dos falsificadores de medicamentos. Ele trabalha na companhia há três anos, mas nos 20 anos anteriores esteve na Scotland Yard, onde trabalhou em departamentos diferentes contra o crime organizado.

Agora tem sob sua responsabilidade evitar, entre outras coisas, a falsificação de um dos fármacos mais copiados e lucrativos: o sildenafil, ou Viagra, indicado para a disfunção erétil em pacientes com diabetes, enfermidades cardiovasculares ou paralisia.

Segundo seus dados, para cada comprimido original há um falsificado. “O objetivo no departamento é prevenir, detectar e investigar as possíveis falsificações. Nosso trabalho se baseia, em parte, em ações pró-ativas. A partir da observação, da vigilância de páginas da internet, entramos em contato com as câmaras de comércio, com a polícia ou com a alfândega, e uma vez que dispomos dos dados, apresentamo-los à autoridade correspondente, se procedem. Também atuamos de forma reativa, a partir da demanda”, explica.

Shore lembra entre as apreensões mais chamativas, uma de sildenafil na qual os comprimidos tinham uma dose três vezes superior à normal, e outros que continham anfetaminas ou ecstasy. Em outro caso, desta vez envolvendo a droga atorvastatina (um medicamento para o colesterol), foram apreendidas 19,4 toneladas de comprimidos no aeroporto de Heathrow, em Londres. Havia oito produtos de cinco companhias diferentes, sete deles falsos e um verdadeiro. “A falsificação de medicamentos não é só um problema da Pfizer, mas que afeta a todas as companhias farmacêuticas, os governos e outras entidades, e é uma ameaça para a vida humana”, afirmou.

El Pais

Existe uma ‘democracia islâmica’? – Parte 2

Daniel Steinvorth e Bernhard Zand

O grande salto à frente da Turquia

A situação turco-otomana continuou a ser uma exceção no mundo islâmico. As reformas introduzidas pelos sultões, inspiradas pelos desenvolvimentos na Europa, foram longe demais para muitos membros do velho establishment, particularmente nas províncias de língua árabe do Norte da África e do Oriente Médio. Os árabes logo passaram a ver seus irmãos turcos como muçulmanos que perderam a fé.

Mustafa Kemal Pasha, mais conhecido por nós como Atatürk, o fundador da Turquia moderna, cortou temporariamente os laços da Turquia com a herança política compartilhada do Islã. O que ele pensava da religião que determinava cada aspecto da vida no Império Otomano, ele expressou em palavras que alguém mais provavelmente atribuiria a Voltaire do que a um general turco altamente condecorado: “Por mais de 500 anos, as leis formuladas por um velho xeque árabe (uma referência a Maomé) e as interpretações de difícil compreensão de gerações de pregadores ignorantes na Turquia moldaram nossas leis civis e penais. O Islã, esta teologia absurda criada por um beduíno imoral, é um cadáver em decomposição que está envenenando nossas vidas”. Ele rotulou qualquer político que precisa da religião para governar de “imbecil”.

Refazendo a Turquia à imagem da França

Atatürk lançou uma revolução cultural de um tipo nunca antes visto no mundo islâmico. Ele acabou com o sultanato. Ele aboliu o califado que existiu por 1.300 anos. Ele substituiu a lei sharia pelas leis civis e penais européias e o calendário islâmico pelo calendário gregoriano. Ele proibiu o uso do alfabeto árabe assim como o uso da túnica religiosa e do barrete fez, que ele considerava símbolos de atraso. Ele ordenou que os turcos aceitassem o alfabeto latino, o domingo como dia de descanso e igualdade para as mulheres.

“Há diferentes culturas, mas apenas uma civilização”, disse Atatürk, deixando claro que não se referia à civilização islâmica: “Nós turcos sempre nos inclinamos para o ocidente”.

O escritor alemão Emil Ludwig o chamou cara a cara de ditador em um encontro em 1929. Mas não era essa a imagem que Atatürk queria para si mesmo. Ele também detestava Mussolini e posteriormente Hitler. Em 1930, ele ordenou a criação de um partido de oposição para estimular uma discussão livre de pontos de vista no Parlamento. Na análise final, ele estava buscando reformar a Turquia em um país que apresentasse semelhanças com a França e o Reino Unido.

A experiência de Atatürk com a oposição durou apenas três meses. Mas após a Segunda Guerra Mundial, seu sucessor, Ismet Inönü, deu continuidade ao trabalho iniciado pelo fundador da República da Turquia e fez o que nenhum chefe de governo árabe tinha feito antes. Ele permitiu a formação de uma oposição política, convocou uma eleição, perdeu e deixou o cargo.

Sessenta anos depois, a luta entre democracia e autoritarismo ainda não foi decidida na Turquia. Os militares deram três golpes e por três vezes os generais devolveram o poder aos civis. Neste ano, o establishment secular empregou meios judiciais em uma tentativa de remover do governo os radicais islâmicos eleitos democraticamente. E no início deste ano, o tribunal constitucional em Ancara decidiu a favor dos tradicionalistas seculares e a proibição às mulheres vestirem lenço de cabeça nas universidades voltou a vigorar.

Independentemente de como esta luta de poder termine, a Turquia deu um grande salto à frente após uma longa história de ligação profunda com o Islã. Se o moderado Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) islâmico do primeiro-ministro Tayyip Erdogan perder em uma eleição, ele deixará o poder e assumirá um papel de oposição.

O presidente da Tunísia desconfia de seu povo

O modelo turco conta com vários simpatizantes no mundo islâmico. Eles incluem o ex-presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, que viveu na Turquia e é um admirador de Atatürk, assim como membros da elite em Damasco (o filósofo Sadiq al-Asm), Amã (Basma Bint Talal, uma tia do atual rei) e Túnis.

Habib Bourguiba, o primeiro presidente da Tunísia e um ardoroso secularista, era tão fascinado por Atatürk que também copiou sua postura crítica em relação ao Islã. Em 1964, durante o mês do jejum do Ramadã, ele bebeu um copo de suco de laranja diante das câmeras de televisão e disse a seus conterrâneos confusos que o jejum drenava desnecessariamente a energia das pessoas, e que essa energia seria melhor utilizada ajudando a desenvolver a sociedade. O “Maghrebin Atatürk”, como Bourguiba era chamado, criou o mais secular de todos os países árabes, aboliu os casamentos à força e a poligamia, permitiu o aborto e disse às mulheres que não precisavam vestir lenço de cabeça.

Seria possível repetir a experiência turca nesta parte do Norte da África. Mas se existe um exemplo de como impedir um país com uma população inclinada para a democracia de se tornar uma democracia, esse é a Tunísia, um paraíso turístico e uma meca da vigilância, um pequeno país com 140 mil policiais, um para cada 75 habitantes.

Diferentemente de seus vizinhos, a Tunísia é pobre em recursos naturais. Ela não conta com um fluxo constante de receita em moeda estrangeira das vendas de petróleo e gás. Dessa forma, os tunisianos começaram desde cedo a investir no desenvolvimento de um setor industrial. Dado que não se sentem ameaçados militarmente por ninguém, eles preferem gastar seu dinheiro no desenvolvimento de seu sistema educacional, em vez de comprar armas. Com as pessoas vivendo em média 75 anos, a Tunísia tem a mais longa expectativa de vida e a segunda maior renda per capita na África, atrás apenas da Líbia. Ela exibe crescimento econômico constante e tem uma ampla classe média. A única coisa que falta aqui é democracia.

O presidente Zine al-Abidine Ben Ali, o sucessor de Bourguiba, não faz distinção entre terroristas e membros de uma oposição crítica. Ele desconfia de sua população e, acima de tudo, desconfia do proibido Partido Nahda. Ele é um dos movimentos islâmicos mais moderados do mundo, que conseguiu se conciliar com a democracia e quer ser um partido conservador com valores religiosos, assim como o AKP da Turquia. Mas no entender do presidente tunisiano, ele não é nada mais que um cúmplice do terrorismo internacional.

‘Um gulag para a mente’

O relatório de direitos humanos de 2007 do governo alemão diz a respeito da Tunísia: “Uma grande parte da população aparentemente está disposta a aceitar restrições aos direitos humanos como sendo um preço pela estabilidade e prosperidade econômica”. Mas pode uma classe média educada ser impedida a longo prazo de ter voz no governo? E que riscos existem no modelo de desenvolvimento de ditadura, que o intelectual tunisiano Mohammed Talbi chamou de “gulag para a mente”? O autoritarismo não é um fator que provoca o surgimento de movimentos radicais, militantes?

Exemplos no Marrocos e na Argélia mostram que alguns islamitas radicais se tornam pragmáticos ao serem integrados no sistema político. Membros do Partido da Justiça e Desenvolvimento (PJD) com cadeiras no Parlamento em Rabat, e do Movimento Social para a Paz (MSP), no Parlamento em Argel, muçulmanos conservadores, muitos deles advogados, médicos e professores, não estão interessados em desafiar o sistema. “Não somos extremistas, nós defendemos um Islã democrático”, disse o presidente do PJD, Saad Eddine al-Othmani, um psiquiatra. Sua posição a respeito da democracia e da soberania nacional difere muito pouco daquela de um cristão conservador, uma pessoa que pode se queixar do declínio dos valores morais, mas ainda assim estar longe de pedir por uma revolução.

Pode ser dito que a situação no Marrocos é boa para a democracia?

Apesar de o Marrocos ser formalmente uma monarquia parlamentar, o poder político aqui está totalmente nas mãos do rei Mohammed 6º. Um pretenso “amir al-muminin” (comandante dos fiéis), ele alega ser um descendente direto do Profeta Maomé, uma ligação familiar que lhe permite se apresentar não apenas como um governante mundano, mas também como um protetor do Islã.

Após assumir o trono em 1999, Mohammed 6º iniciou brilhantemente sua carreira ao introduzir um novo estilo de monarquia. Ele forneceu indenização financeira às vítimas de violações de direitos humanos, reabilitou oponentes políticos, dissolveu o harém de seu pai e reformou o sistema arcaico de lei familiar do país. Ao mesmo tempo, ele não fez nada para mudar as velhas estruturas de poder.

O governo e o Parlamento daqui são vistos como fracos e ineficientes. Sua legitimidade sofre com o fato de que quase ninguém aqui vota nas eleições. O primo do rei, o príncipe Moulay Hicham Ben Abdallah El Alaoui, critica o sistema marroquino como sendo, quanto muito, um “regime híbrido”, uma coexistência de autocracia e democracia que encoraja o desinteresse político na população em geral.

Na Jordânia, o rei decide tudo

A situação política neste reino do Atlântico é de muitas formas semelhante à de outra monarquia, a cerca de 4 mil quilômetros ao leste. A Jordânia, governada pelo rei Abdullah 2º, vê a si mesma como uma democracia pluralista e um modelo para outros países na região. Cercada por vizinhos difíceis (Iraque, Síria e Israel), ela não possui nem petróleo para vender nem lugares religiosos para servirem de base para o turismo, e freqüentemente se vê diante da tarefa de absorver afluxos de refugiados. A Jordânia sempre teve que lutar para sobreviver. “Nós somos dependentes de cooperação para não afundarmos”, disse Sausan Saida, editor chefe de uma emissora de rádio alternativa em Amã. “Nós não temos escolha.”

Zaki Bani al-Rashid, o secretário geral da Frente de Ação Islâmica (FAI), vê da mesma forma. Ele aprendeu a conviver com as regras semidemocráticas que são prescritas pelo regime. Mas a aceitação do status quo tem seu preço. Seu partido se saiu mal na eleição parlamentar do ano passado, conquistando apenas 6 de 110 cadeiras, e isso apesar da FAI ter feito campanha como a mais forte defensora dos interesses dos grupos de baixa renda.

Na sede do partido, uma casa bem cuidada, pintada de branco, no centro de Amã, um barbado Rashid não se preocupou em medir palavras para explicar o resultado. “Perder? Nós não perdemos”, ele disse. “Essa suposição seria correta se tivesse ocorrido uma eleição real. Mas o que aconteceu foi algo manejado. O governo em nosso país não é uma expressão da vontade do povo.”

O fato é que fora o islâmico FAI, nenhum outro partido político conseguiu uma cadeira no Parlamento. Foram apenas candidatos independentes, beduínos provinciais leais ao rei e ricos empresários, que conseguiram cadeiras na câmara dos deputados, graças às suas ligações tribais ou seu dinheiro. Segundo Michael Bröning, um representante do escritório em Amã da Fundação Friedrich Ebert alemã, que está alinhada com os social-democratas de centro-esquerda: “Muitos votos são simplesmente comprados”.

Graças aos distritos eleitorais serem divididos de forma desigual visando dar vantagem ao leste e partes do oeste pouco habitadas do país, os representantes das tribos beduínas, que representam a base de poder do rei, permanecem na maioria. Um candidato concorrendo ao Parlamento em Amã precisa de cerca de 90 mil votos para ser eleito, enquanto no distrito de Mafraq, uma região de deserto, 2 mil votos são suficientes.

Os jordanianos criticam os americanos

Como no Marrocos, é o rei quem decide tudo aqui. O palácio precisa aprovar até mesmo os menores detalhes. O ministério atua de acordo com a vontade do rei e, dessa forma, é basicamente reduzido a servir como um pára-raios. O monarca gosta de fazer reprimendas públicas quando erros são cometidos. Mas pelo bem da estabilidade futura em seu reino do deserto, ele tem que perguntar a si mesmo quanta oposição ele pode permitir e quanta liberdade de ação pode dar aos islamitas.

O especialista em Oriente Médio, Renate Dieterich, acredita que uma abertura política do país revelaria quantos jordanianos são extremamente críticos em relação aos Estados Unidos. Isso, por sua vez, poderia ter um efeito negativo no fluxo de ajuda financeira do Ocidente. Os Estados Unidos fornecem centenas de milhões de dólares em ajuda militar e de desenvolvimento à Jordânia por ano, como recompensa por sua posição pró-Ocidente. Ao mesmo tempo, a repressão por parte do governo à oposição islâmica inevitavelmente aumentará o risco de radicalização.

Esse mesmo dilema está sendo enfrentado nos países do Magreb, na Síria e significativamente no Egito. Por muitos anos os ativistas da Irmandade Muçulmana eram presos em grande número pelo regime autocrático de Hosni Mubarak, particularmente no Cairo. Isso dá aos herdeiros de Hassan al-Banna (fundador da Irmandade Muçulmana) mais motivação para criticar o clientelismo e a corrupção da classe política. A popularidade da Irmandade Muçulmana continua crescendo no país.

Os países do Golfo chegam às decisões por meio de acordo

Uma convicção manifestada repetidas vezes por cientistas políticos e especialistas em Oriente Médio é que a democracia precisa se enraizar e crescer dentro dessas sociedades, e que mecanismos institucionais precisam ser colocados em vigor para que possam ajudar a se chegar a uma acomodação equilibrada de interesses. O que isso pode significar na prática pode ser visto em lugares onde a democracia, no sentido ocidental do termo, mais se desenvolveu.

Países como Qatar, Omã e os Emirados Árabes Unidos parecem ser governados por xeques e emires que nem mesmo fingem se importar com o que seus súditos pensam. Pelo menos essa é a reputação que eles têm. Mas isso não é verdade. Nenhuma das decisões emitidas pelos palácios em Doha, Mascate ou Abu Dhabi é algo que os governantes determinaram isoladamente do restante da sociedade. Todos eles navegam as águas turbulentas da tomada de decisão política com a ajuda de um mecanismo complexo, que evoluiu ao longo de séculos e provou ser surpreendentemente eficaz, mesmo na era da globalização: os “majlis”, um conselho informal que pode debater por noites, semanas ou até mesmo meses, e que no final pode não resolver todas as questões discutidas, mas, de forma geral, chega a um meio-termo com o qual todas as partes envolvidas podem conviver.

Paternalismo e igualitarismo islâmico

A riqueza do petróleo e a hegemonia étnica e religiosa dos países do Golfo sem dúvida facilitam o trabalho de governá-los, mas ao mesmo tempo não há falta de riscos e conflitos potenciais. Um vizinho dominante, a Arábia Saudita, está sob a influência do wahabismo, uma forma ultraconservadora de Islã sunita. Do outro lado do Golfo Pérsico eles enfrentam o Irã, um país governado pelos xiitas, que não escondem suas ambições hegemônicas. A produção de petróleo criou riqueza imensurável para algumas áreas e tribos. Sem seu apoio, outros ainda estariam ordenhando camelos e mergulhando atrás de pérolas para ganhar a vida. O desenvolvimento rápido e em grande escala atrai milhões de estrangeiros, tornando as populações nativas minorias em seus próprios países.

Esses países sempre se viram diante de decisões fundamentais. Quem fica com quanto da receita do petróleo? Qual é a posição dos países do Golfo no conflito entre Washington, da qual são dependentes de proteção, e de Teerã, da qual necessitam como parceira comercial? Quão longe estão dispostos a ir na abertura de suas sociedades? Tão longe quanto Dubai, que atrai milhões de turistas ocidentais? Ou Charjah, onde o consumo de álcool é proibido?

Nenhuma dessas decisões é tomada sem consulta prévia. Como isso é feito é determinado em parte pelo paternalismo da sociedade tribal e em parte pelo igualitarismo islâmico. Alguém com um problema que deseja ser resolvido procura pessoalmente os majlis ou pede para que um primo mais velho e mais influente fale em nome dele ali. Apesar dos esforços no sentido contrário feitos pelos regimes seculares no Iraque, Síria e Egito, as conexões tribais e familiares continuam sendo uma cola social muito mais forte nas sociedades árabes do que os partidos políticos e sindicatos. A natureza informal dessas reuniões – dezenas de homens, todos trajando kanduras (o traje típico local), petiscando tâmaras e nozes e bebericando chá – claramente reflete quão horizontais são as hierarquias daqui.

Seria ingenuidade presumir que o discurso democrático que é conduzido entre tribos e famílias no mundo árabe pode se aproximar do obtido por partidos, parlamentos e sindicatos no Ocidente. O status de “boa governança” que organizações internacionais atribuem a alguns monarcas do Golfo é comparativamente fácil de ser obtido em uma situação (como é atualmente o caso) onde eles têm tanto dinheiro que mal sabem o que fazer com ele. Mas o que acontece quando os recursos são limitados, o equilíbrio de interesses sociais é destruído por décadas de ditadura e o conflito doméstico se espalha pelas ruas? Uma democracia parlamentar, no modelo que se estabeleceu na Europa e em partes da Ásia, não seria uma melhor opção?

Muitos concluíram que a lição aprendida com Bagdá é que a democracia não funciona no mundo islâmico, particularmente se uma tentativa for feita de impô-la de fora. Na verdade, esta conclusão pode ser tão errada quanto a ilusão de que o Oriente Médio seria tão fácil de ser democratizado quanto a Alemanha e o Japão foram após 1945.

A esperança de um Oriente Médio democrático continua, apesar das políticas adotadas pelo governo Bush terem tornado muito difícil para que estas esperanças se sustentem. Também não quer dizer que dar voz aos povos do mundo islâmico para que moldem seus próprios destinos ajudará a tornar suas vidas mais fáceis, tornará a região mais previsível e o Ocidente mais seguro. E até que ponto seriam necessários partidos políticos, regras peculiares de representação proporcional, discursos anuais dos monarcas ao Parlamento, a existência de superdelegados ou qualquer outro fenômeno manifestado nas democracias ocidentais, é algo que seria melhor decidido caso a caso, país a país.

Der Spiegel

Existe uma democracia islâmica? – Parte 1

Daniel Steinvorth e Bernhard Zand

Por 1.300 anos, os muçulmanos estão à procura de uma forma de governo que seja certa para eles. Há parlamentos e às vezes até mesmo grupos de oposição política em muitos países muçulmanos, mas de modo geral as decisões políticas são baseadas em acordos acertados entre grupos tribais e famílias.

Se a democracia já teve amigos nos países de língua árabe, foi entre os monarcas do Kuait. Em 1752, quando a era do absolutismo esclarecido estava apenas começando na Europa, um homem de nome Sabah bin Jaber se tornou o emir de uma população beduína conhecida como al-Utoob.

Ele não foi levado ao poder por assassinato, revolução ou guerra. Ele foi eleito. Seus descendentes, os Al Sabah, continuam governando o Kuait até hoje e preservaram a tendência digna de nota de deixar sua população votar.

O país elegeu sua primeira assembléia legislativa em 1938. Após a independência em 1961, ele elegeu um conselho constituinte. Após ser libertado da ocupação iraquiana em 1991, os kuaitianos elegeram uma nova assembléia nacional. Há dois anos, as mulheres pela primeira vez tiveram direito de votar. Os membros da assembléia nacional às vezes não ficam no cargo por muito tempo. Mas não por motivo de incompetência. Com freqüência é porque o governo executivo os considera competentes demais: a única responsabilidade da assembléia nacional do Kuait é aprovar legislação. Ela determina quanto é pago ao emir. E ela tem o direito de questionar e demitir ministros, um privilégio do qual faz amplo uso.

O Kuait é o país mais democrático no mundo árabe.

Em 17 de maio deste ano, o emir convocou uma eleição, necessária por ele ter dissolvido a assembléia nacional em março, após uma obstrução política que durou meses. Uma agitada campanha eleitoral se seguiu. Os distritos eleitorais foram redesenhados para dificultar que líderes tribais estreitamente relacionados influenciassem o comportamento dos eleitores ou promovessem fraude. A televisão e os jornais cobriram os candidatos que concorreriam às cadeiras, incluindo 27 mulheres, algo ainda inconcebível na vizinha Arábia Saudita, de cujas regiões desérticas vieram os ancestrais beduínos dos atuais kuaitianos. No parecer dos observadores internacionais, a eleição foi livre, justa e transcorreu sem problemas.

Mas quem ganhou? Como na maioria das eleições realizadas nos últimos anos entre o Cairo e Riad, os territórios palestinos e Bahrein, foram os radicais islâmicos que venceram – neste caso os salafistas, defensores particularmente radicais do Islã político na região do Golfo. Entre eles estão homens como Hassan Jowhar, um representante da assembléia nacional que notou com satisfação, na sessão de abertura, que nove membros de seu grupo deixaram o recinto por uma porta porque duas ministras entraram por outra porta sem usar o lenço de cabeça. “Alguns de nós têm suas reservas”, ele disse. “O governo deve aceitar isso.”

Nathan Brown, um cientista político do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, em Washington, prevê que a nova assembléia nacional “provavelmente será mais confrontadora do que a que está de saída. O resultado será um aprofundamento do impasse político entre o governo e o parlamento na ordem política mais democrática do Golfo. (…) A longa crise política não violenta no Kuait há muito é ofuscada por conflitos mais dramáticos e sangrentos. Mas a ameaça a uma das experiências mais importantes da região é real”.

Por décadas, o Kuait foi o mais atraente dos Estados do Golfo, um destino para banqueiros e engenheiros assim como para trabalhadores convidados do Egito, Indonésia e Paquistão. O Kuait perdeu terreno política e economicamente e não são poucos os que acham que a democracia é a grande culpada por isso.

O empresário Yassin al-Shammari, 57 anos, é um dos que vêem dessa forma. Ele passou de carro pela assembléia nacional em Al Kuait com olhar de desprezo em seu rosto, sua reação a um dos prédios parlamentares mais belos do mundo, construído nos anos 70 pelo arquiteto dinamarquês Jørn Utzon, que também projetou a Ópera de Sydney. “Um lugar de discussão inútil”, resmungou Al-Shammari. Como muitos de seus conterrâneos, ele olha com inveja para Dubai, Doha e Abu Dhabi, onde o governo dos xeques não precisa se preocupar com parlamentos ou oposição política.

Momento difícil para a democracia kuaitiana

O Kuait continua sendo um país rico e seria uma atenuação descrever sua classe média como bem desenvolvida. A renda média per capita de cerca de 1,2 milhão de kuaitianos fica entre a da Suíça e a da Alemanha. O país não é ameaçado por divisões étnicas ou religiosas como as encontradas no Iraque e no Líbano. Os kuaitianos continuam profundamente gratos pelo fato de há 17 anos os Estados Unidos terem libertado o país da ocupação militar de Saddam Hussein.

Se a democracia está enfrentando dificuldades em país amplamente abençoado com prosperidade, estabilidade e tolerância política como o Kuait, o que se pode esperar de outras partes do mundo islâmico? Que futuro terá no Irã, cujo Parlamento é cenário de debates animados, mas que não decide nada; na Indonésia, onde existe uma forma moderada do Islã em um sistema relativamente democrático; na Região do Golfo e no Norte da África, onde tribos e famílias governam em vez de partidos e sindicatos trabalhistas?

Os Estados Unidos, que pregam as maravilhas da democracia no Oriente Médio desde os ataques de 11 de setembro de 2001, não está facilitando as coisas para os defensores desse modelo político aqui e nas regiões vizinhas. “Desde a queda do Iraque, a própria palavra ‘democracia’ passou a ter um gosto radioativo”, disse o ativista de direitos humanos saudita, Ibrahim Mukaitib. Ele disse que os sauditas instruídos vêm até ele e perguntam por que a democracia parlamentar é supostamente melhor do que os outros sistemas, quando governos democráticos dos Estados Unidos e do Reino Unido cometeram o erro colossal de ocupar o Iraque?

Não é preciso dizer, a guerra contra o terrorismo e a percepção disseminada no Ocidente de que Islã e terrorismo são a mesma coisa e não ajudam a promover a reputação da democracia no mundo islâmico. Por menos que a classe média da Turquia, as elites nos países do Golfo ou os estudantes no Irã tenham em comum com os jihadistas da Al Qaeda, uma tradição religiosa de 1.400 anos de Islã é uma força unificadora que vai além de suas diferenças.

Eles também compartilham um senso de amargura pelo fato da conversa de “democratização do Oriente Médio” ter cessado em conseqüência de o lado errado estar vencendo as eleições. Este foi o caso no início de 2006, quando o Hamas venceu nos territórios palestinos e, pouco depois, quando a Irmandade Muçulmana conseguiu quadruplicar o número de cadeiras que tinha no Parlamento egípcio. Nos foi recordado que a democracia às vezes leva ao poder pessoas que não são democratas, um dilema não desconhecido na história européia. A euforia provocada no Ocidente pela Revolução do Cedro no Líbano, e o forte comparecimento dos eleitores na primeira eleição pós-guerra realizada no Iraque, em 2005, rapidamente murchou.

Isso levou a um apoio renovado ao governo autocrático do tipo praticado pelo presidente do Egito, Hosni Mubarak, pelo presidente da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, e pelo rei da Jordânia, Abdullah 2º. A democracia, dizem esses governantes, certamente é uma coisa boa. Mas a democracia também traz caos e o caos deve ser evitado. Essa é a lição que foi aprendida com o Iraque e, para eles, a estabilidade tem prioridade em relação à democracia.

Por que nenhum dos 22 países árabes é realmente democrático e por que a maior dificuldade para encontrar democratas genuínos na Turquia, Paquistão e Bangladesh do que em outros lugares? Os suspeitos habituais são os culpados -uma fraca classe média, um sistema de educação ruim, uma falta de tradição de debater as diferenças políticas? Ou o Islã e a democracia são fundamentalmente incompatíveis?

Os muçulmanos querem democracia com valores religiosos

Resultados surpreendentes foram obtidos por uma pesquisa Gallup, para a qual foram conduzidas entrevistas entre mais de 50 mil muçulmanos em 35 países por um período de seis meses. Não é a democracia em si que é o problema. Esta é uma forma de governo que 93% de todos os iranianos e 94% de todos os egípcios desejam para si mesmos. Onde há grandes diferenças é em relação ao tipo de democracia que é considerado aceitável.

Segundo John Esposito, co-autor de “Quem Fala pelo Islã?”, um estudo baseado na pesquisa Gallup, o que a maioria dos muçulmanos quer é democracia com valores religiosos. Eles não querem perder sua cultura tradicional. Como a maioria dos paquistaneses, por exemplo, eles querem tanto mais democracia quanto mais Islã. Será que poderia ser dito que o que os muçulmanos querem não é uma democracia ocidental, mas sim um tipo de “democracia islâmica”?

Os muçulmanos lidam com a questão da melhor forma de governo e da legitimidade da liderança há mais de 1.300 anos. Os problemas começaram com a morte do Profeta Maomé, em 632. Durante sua vida, este mensageiro de Deus na Terra revelou um sistema de crenças abrangente aos seus seguidores, conquistou territórios, uniu tribos e formou alianças. Mas algo importante que Maomé deixou de fazer foi nomear um sucessor.

O falecimento do profeta, cujo nome significa “digno de louvor”, deixou um enorme vácuo e a comunidade muçulmana se viu sem um líder. Quem na comunidade teria autoridade suficiente para ser um guia espiritual dos fiéis e ao mesmo tempo governante de um império que, no século 7, já tinha se expandido para muito além dos limites da Península Árabe?

Sem necessidade de democracia

Para um grupo de fiéis, os xiitas, o primo de Maomé, Ali, era o único herdeiro legítimo. Posteriormente os “shi’at Ali”, os seguidores de Ali, se separaram da maioria muçulmana. Outro grupo, os kharijitas, acreditavam que qualquer fiel devoto e capaz poderia liderar os muçulmanos. Um terceiro grupo, a maioria sunita, entendia que o líder da comunidade, o califa, deveria ser da tribo do profeta, mas eleito por uma “shura”, um conselho de homens respeitáveis.

Foi assim que uma forma autocrática de governo surgiu, uma que tinha a aparência de legitimidade democrática. O califa se submetia à lei islâmica (“sharia”) da mesma forma que todos os outros fiéis. Os muçulmanos citavam versos pertinentes do Alcorão que elevavam a negociação de um meio-termo ao nível de um dever religioso: “E os consulte sobre a decisão. E se decidires algo, então confie em Deus” (Sura 3, verso 159). Dizia-se que se o califa fizesse uso indevido de seu cargo, então a shura poderia depô-lo, apesar disso nunca ter ocorrido.

Egon Flaig, professor de história antiga da Universidade de Rostock, no norte da Alemanha, escreveu que o Islã sunita oferecia “a forma mais bem-sucedida de teocracia na história registrada”. Enquanto o representante de Deus na Terra defendesse a verdadeira fé e os sábios islâmicos tivessem a palavra final, não havia necessidade de conselhos, assembléias, eleições ou Constituições. No século 19, Alexis de Tocqueville escreveu que o “maometismo fundiu os poderes religiosos e políticos tão completamente que quase toda atividade na vida civil e política pode ser regulada pela lei religiosa”.

Perto do final do século 18, a comunidade muçulmana começou a notar que havia algo errado com o califado. Após séculos de glória islâmica, a campanha triunfante de Napoleão no Egito forneceu uma prova devastadora da superioridade tecnológica do Ocidente. O Império Otomano reconheceu a seriedade da situação e daí em diante começou a enviar seus candidatos a oficiais para a Europa. O treinamento militar que receberam em Paris, Londres, Viena e Berlim seria usado para reformar suas próprias forças armadas. O período subseqüente de reforma governamental e social é tratado na história do Império Muçulmano como Tanzimat.

O primeiro monarca constitucional a existir em um país muçulmano foi criado pelo sultão Abdülhamid 2º, em 1876. A existência de um Parlamento otomano foi abreviada pela declaração de guerra da Rússia contra o “doente do Bósforo” apenas um ano depois. Temendo pela sobrevivência de seu governo, o sultão suspendeu a Constituição e ela não voltou a entrar em vigor durante seu reinado. Uma nova experiência com a democracia era considerada arriscada demais para a estabilidade.

Der Spiegel

Rússia promove reforma radical das forças armadas

O plano pretende agilizar e modernizar uma aparelho maciço mas obsoleto

Rodrigo Fernández

Os militares russos estão consternados. O governo decidiu realizar em passo acelerado uma reforma que tem como objetivo reduzir as forças armadas a um milhão de efetivos até 2012 e transformar seu exército em estruturas móveis e ágeis, dotadas de armas modernas. Motivo da pressa?

A guerra com a Geórgia deixou claro que o exército atual é um aparelho atrofiado, lento, e suas armas estão velhas não só no plano moral, mas também físico. A reforma anunciada pelo ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, é, segundo especialistas, a mais radical que houve na história russa desde a empreendida por Nikita Kruschev e prevê uma drástica diminuição da quantidade de oficiais, dos atuais 350 mil para 150 mil nos próximos quatro anos.

A guerra dos Cinco Dias, como chamam na Rússia o conflito armado com a Geórgia, mostrou que o sistema de direção do exército está completamente obsoleto e levou o Kremlin a abandonar o sistema de quatro escalões tradicional da época soviética – distrito militar, exército, divisão, regimento – e substituí-lo por um de três, mais moderno: distrito militar, comando operacional, brigada.

Tanto o armamento como a preparação estão no nível dos anos 1960, segundo o primeiro vice-ministro da Defesa, Alexandr Komakov. O mais novo que se pode encontrar no exército data dos anos 1980. E há uma quantidade excessiva de generais e coronéis, mas poucos tenentes. Durante o recente conflito, os militares não tinham meios de comunicação modernos e os que possuíam eram inúteis contra os georgianos, que demonstraram uma excelente guerra radioeletrônica.

O jornal “Komsomolsakaya Pravda” conta que um correspondente teve de emprestar ao comandante do 58º Exército, quando este avançava para Tskhinvali, seu telefone via satélite porque o general não podia se comunicar com a artilharia e precisava que esta disparasse contra as colinas dominadas pelos georgianos. Os russos também careciam de meios de comunicação individuais, de dispositivos para enxergar à noite e muitos outros equipamentos. O sistema russo Glonass – equivalente ao GPS americano – não funciona porque não há quantidade suficiente de satélites no espaço.

As unidades do distrito militar do Cáucaso do Norte “combateram como fazia o exército soviético há 20, 30 e até 50 anos”, resume a situação o presidente do Instituto de Avaliações Estratégicas, Alexandr Konovalov.

Os planos de modernização das forças armadas russas prevêem até 2020 não só solucionar essas deficiências como também investir grandes somas na construção de novos porta-aviões, submarinos, aviões de quinta geração e no desenvolvimento da defesa aeroespacial. Para cumprir esses planos serão necessários no mínimo US$ 15 bilhões, segundo cálculos de Konovalov, o que exigirá aumentar substancialmente o orçamento destinado aos encargos estatais de armamento. Por enquanto, o orçamento militar aumentará no próximo ano 26%, chegando a cerca de US$ 47 bilhões (37 bilhões de euros): será o mais alto desde a queda da União Soviética, mas ainda menos de 3% do PIB e muito inferior ao dos EUA.

Especialistas independentes, como Pavel Felgengauer, afirmam que dar essas quantias ao complexo da indústria militar (CIM) russo é simplesmente gastar mal o dinheiro, e o que se deve fazer é comprar armamento moderno no estrangeiro, o que se fazia na época czarista e inclusive na soviética e hoje é proibido. O principal problema é que o CIM não tem mais capacidades que as atuais, e por isso simplesmente não pode produzir mais, por mais dinheiro que se injete.

Como injetar, em tempos de crise econômica, as enormes somas de que o exército precisa é algo que cada vez mais especialistas se perguntam. Mas, deixando de lado o problema do financiamento, os planos anunciados pelo presidente Dimitri Medvedev continuam difíceis de cumprir. Por exemplo, a Rússia não tem onde construir os porta-aviões. Na época soviética faziam isso em Nikolayevsk, hoje Ucrânia. Para cumprir os planos declarados seria preciso construir estaleiros especiais em outro lugar, e sem experiência nesse campo. Além disso, os construídos em Nikolayevsk não eram muito bons, segundo Felgengauer.

Não menos grave é o problema humano: a resistência que, segundo especialistas, haverá contra a reforma, sobretudo de parte dos oficiais que ficarão na rua. A verdade é que estes serão menos que a simples diferença entre 350 mil e 150 mil, já que há dezenas de milhares de postos que estão vagos, mas em todo caso serão mais de 100 mil homens.

El Pais

Morcegos são vítimas de usinas de vento

A rápida rotação das hélices de turbinas de vento cria diferenças de pressão suficientes para provocar a rápida expansão dos pulmões e vasos sangüíneos de morcegos, levando-os à morte

David Biello

Assassinos de morcegos: A zona de baixa pressão que se forma atrás das hélices de uma turbina de vento parece ser responsável pela morte de morcegos migratórios ─ embora ainda não esteja claro o que realmente atrai os morcegos para as turbinas.

Já é do conhecimento dos cientistas desde 2004, que usinas de vento matam morcegos, da mesma forma como matam pássaros, mesmo que os mamíferos voadores possam evitá-las. Biólogos pensavam que os morcegos poderiam ser vitimas da hélice de turbinas girando em alta velocidade. Mas um exame de 188 morcegos prateados mortos numa usina de vento ao sul de Alberta, no Canadá entre julho e setembro de 2007 mostrou que praticamente metade dos animais não tinha ferimentos externos ─ como seria esperado se hélices gigantescas tivessem esmagado os mamíferos voadores contra o solo.

Em vez disso, os cientistas constataram que 90% dos 75 morcegos dissecados tinham morrido devido ao rompimento de vasos sangüíneos dos pulmões, de acordo com resultados apresentados na Current Biology ─ sugerindo que a diferença na pressão do ar criada pela rotação das turbinas de vento seria a causa das mortes, e não o contato com as hélices.

Quando o vento passa pelas turbinas, a pressão do ar atrás das hélices cai de cinco a 10 kilopascals (pascal é uma unidade de pressão). Os pulmões e vasos sangüíneos de morcegos que inadvertidamente penetrem nessa zona de baixa pressão ─ não detectada por seu sistema de radar ─ sofrem rápida expansão, rompendo-se e provocando hemorragia interna.

“À medida que as turbinas ficam mais altas, a morte de morcegos aumenta exponencialmente,” lembra o ecólogo Erin Baerwald da University of Calgary em Alberta, e pesquisador principal sobre mortes de morcegos que integra um projeto mais amplo. “Encontramos muitos casos de morte por hemorragia interna”.

A Summerview ─ usina de vento estudada por Baerwald ─ mata centenas de morcegos todos os anos, principalmente no período de migração que ocorre no outono. Mas os morcegos, que voam através de um sistema semelhante ao sonar, não deveriam ter problemas em detectar objetos que se movem rapidamente como as longas hélices de 60 metros que giram a uma velocidade de 255 km/h em turbinas com 90 metros de altura. Antes da instalação dessas turbinas mais altas as mortes de morcegos era praticamente zero.

Quedas de pressão a valores tão baixos (de aproximadamente 4,4 kilopascals) matam ratos comuns de laboratório e todos os morcegos autopsiados mostraram ferimentos internos e sangramento consistente com esse tipo de morte, conhecido como barotrauma. “Se, ao voar pela região com forte variação da pressão, os pulmões dos morcegos estiverem cheios, não haverá mais para onde o ar escapar,” explica Baerwald. “Os finos vasos sangüíneos dos pulmões se rompem e estes se enchem de sangue.”

Embora alguns pássaros morram em usinas de vento, esse fato pode explicar por que na maioria dos casos as vítimas são morcegos. De acordo com Baerwald, os pulmões dos pássaros são muito mais rígidos e seus capilares mais fortes, permitindo que suportem variações extremas de pressão. Pássaros que morrem nessas condições normalmente apresentam ferimentos típicos de choque com as hélices das turbinas. “Isso explica porque os morcegos, que se aproximam dessas turbinas, acabam sendo mortos,” acrescenta o biólogo Paul Cryan, do U.S. Geological Survey, que estudou assunto, mas não está envolvido nessa pesquisa. “Não temos uma explicação satisfatória para essa alta mortalidade de morcegos. Parece que eles são atraídos pelas turbinas.”

Proprietários de usinas de vento estão cientes do problema ─ e do potencial golpe à sua credibilidade ambiental. Os proprietários da Summerview, TransAlta Wind, juntamente com a ENMAX, Suncor Energy, Alberta Wind Energy e até a Shell Canadá se associaram em Austin, Texas, para criar a Preservação Internacional de Morcegos para subsidiar essa pesquisa liderada por Baerwald. A TransAlta não quis comentar o assunto, nem respondeu os telefonemas de Baerwald.

Não está claro, que medidas podem ser tomadas para eliminar o problema da pressão, que não seja a paralisação das turbinas durante períodos de vento mais fraco, à noite, quando os morcegos tendem a ser mais ativos. Obviamente isso reduziria a produção de eletricidade: Um teste realizado em agosto de 2007, em que 19 turbinas da Summerview foram desligadas quando a velocidade do vento era inferior a 5,5 m/s, deu à TransAlta um prejuízo de pelo menos US$ 50.000 na produção de eletricidade.

Ambientalistas preocupados com a preservação de morcegos sugerem que, no futuro, as usinas de vento sejam construídas fora das rotas migratórias de morcegos conhecidas. O problema é que nosso conhecimento sobre os movimentos migratórios de morcegos é incipiente. “Ainda não sabemos se eles seguem rotas migratórias,” comenta Baerwald, apesar de já ter começado a procurá-las.

“Não sabemos dizer exatamente que locais são adequados ou não para a instalação de usinas de vento, tendo em vista a preservação de morcegos,” acrescenta Cryan. “Ainda não estamos em condições de propor soluções.”

O impacto total dessas zonas de baixa pressão que matam morcegos não se restringe às usinas de vento. Morcegos migram desde o Canadá até o México, comendo, pelo caminho, milhares de insetos incluindo pragas que atacam lavouras, como mariposas e besouros. “Eles são os únicos animais devoradores de insetos que voam à noite,” observa Baerwald. Não se trata apenas de uma questão local. Seus efeitos se estendem por ecossistemas inteiros.”

Scientific American Brasil

Estados Unidos da América: o país onde o fracasso é recompensado

Na atual crise financeira, o modelo de capitalismo dos Estados Unidos implodiu com um grande estrondo. Mas o governo Bush está tentando extinguir as chamas com mais combustível, em vez de água, e quer que os apostadores de Wall Street sejam recompensados pelo fracasso

Gabor Steingart

Mais de cem anos atrás, o sociólogo alemão Georg Simmel criticou os bancos por ficarem cada vez maiores e mais poderosos do que as igrejas. A sua principal queixa – a de que o dinheiro é o novo deus dos nossos tempos – ainda é ouvida nos dias de hoje. Se Simmel estava certo, e há indicações de que de fato estava, a declaração teria que ser modificada para coadunar-se com as circunstâncias atuais: nem todo mundo reza para o mesmo deus.

Entre o grupo de adoradores de dinheiro, existem pelo menos três fés. A primeira é a dos Puritanos, que carregam pacientemente o dinheiro deles para as novas igrejas, esperando que ele se multiplique. O chinês típico, por exemplo, deposita 40% dos seus rendimentos em bancos. Que disciplina louvável! E há também os Pragmáticos. Estes poupam e emprestam, mas somente nesta ordem; a poupança é o fator que limita a ousadia deles. Esta linha é especialmente comum nos países germânicos, nos quais o banco de poupança é o templo religioso.

Finalmente, temos a comunidade religiosa dos Desinibidos, que é especialmente popular nos Estados Unidos. Os seus seguidores não se acanham em admitir a falta de cautela, o desperdício extravagante e a cobiça onipresente.

Eles chamam isto de “American way of life” (“estilo de vida americano”). Os seus membros vivem no aqui e no agora, sem fazer perguntas sobre o amanhã. Um empresta dinheiro ao outro, mesmo que o dinheiro não lhes pertença. Em vez disso, eles tomam quantias emprestadas com uma terceira pessoa, que prometeu conseguir o dinheiro com um quarto indivíduo – e assim por diante.

Southampton: o início do rastro de evidências

Esta comunidade religiosa é a mais fervorosa de todas. Há algum tempo, ela adotou a prática de tratar dinheiro antecipado como dinheiro real e de entender desejo como realidade. Atualmente ela não conta mais com nenhum fragmento de inibição.

Como todos sabiam que havia mais desejos do que dólares, o resultado inevitável foi uma certa lacuna de financiamento, ou déficit. Capitalismo sem capital – o núcleo audacioso desta inovação – não poderia funcionar. Não há salvação terrena – pelo menos esta foi uma conclusão quanto à qual o antigo Deus, aquele que carregou a cruz, e o novo deus, o que traz cifrões nos olhos, poderiam concordar.

E, assim, o inevitável ocorreu: o big bang. Três entre cada cinco bancos de investimento dos Estados Unidos perderam a independência, e os outros dois ainda estão afundando. Dois bancos de hipotecas e uma companhia de seguros encontram-se agora sob administração governamental.

O sistema financeiro global foi abalado, horrorizando os membros das outras duas fés. Pode haver três religiões, mas só há um céu. Se este cair, todos morrem.

Uma busca por evidências a fim de identificar os responsáveis deveria provavelmente começar em Southampton, um reduto da elite endinheirada. Nesta cidade, na parte leste de Long Island, perto da cidade de Nova York, é possível presenciar o quanto a cobiça pode ser atraente.

Trata-se de um lugar no qual as opções de ações foram transformadas às centenas em castelos de contos de fadas à beira-mar. Aproveitando-se das brechas tarifárias, os gurus financeiros de Wall Street conseguiram retirar os seus bônus da cidade mais ou menos intactos. Segundo a legislação tributária dos Estados Unidos, a compensação na forma de ações e garantias é taxada em menos da metade do índice mais elevado de impostos. Como resultado, a taxa tributária que incide sobre os rendimentos de muitos banqueiros é inferior àquela a que estão sujeitos os salários das suas secretárias.

Como menos transformou-se em mais

Os donos destas mansões à beira-mar não estão lá neste momento, de forma que uma investigação mais profunda requer uma viagem de trem até Nova York. No arranha-céu de Midtown que abriga os escritórios do Lehman Brothers, que está em processo de encerramento da sua história, há muito o que descobrir a respeito da seqüência de eventos. Bilhões de dólares foram emprestados a pessoas que não tinham crédito para que elas adquirissem condomínios e casas de pouco valor. No jargão alegre e cínico dos banqueiros, esse tipo de empréstimo foi batizado de “NINA”, acrônimo de “No Income, No Asset” (“Sem renda, sem bens”).

Mas mesmo assim as coisas andavam bem no mundo dos financiadores. O aumento miraculoso da oferta de dinheiro contribuiu para que o preço de imóveis subisse mais de 70% entre 2000 e 2006. A indústria conseguiu obter lucros aumentando o risco. Pelo menos na folha de balanço, o menos se transformou em mais.

Em tempos melhores, alguém poderia ter chamado os banqueiros de empreendedores; atualmente, eles são chamados de irresponsáveis. Antes mesmo do surgimento da expressão banco de investimentos, Karl Marx sabia como as duas coisas estavam vinculadas: “O capital tem tanto horror à ausência de lucro ou de um lucro muito pequeno quanto a natureza tem horror ao vácuo. Com um lucro apropriado, o capital é despertado; com 10% de lucro, ele pode ser usado em qualquer lugar; com 20%, torna-se vivaz; com 50%, fica positivamente ousado; com 100%, ele esmagará com os pés todas as leis humanas; e com 300%, não existe crime que ele não se disponha a cometer, ainda que se arrisque a ir para a cadeia”.

A fé de Paulson

Agora o rastro conduz de Nova York a Washington, onde o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, tem o seu gabinete na Avenida Pensilvânia. O seu ministério é tão importante que há um portão ligando o subsolo do Departamento do Tesouro ao da Casa Branca. A atitude adotada por Paulson em relação aos bancos foi a de deixá-los atuar livremente, e ele agora pretende assumir os prejuízos dessas instituições. Para os altos círculos financeiros, ele tornou-se algo como uma garantia extra. O objetivo dele é eliminar a ameaça de cadeia – mas não a cobiça.

Paulson já foi um banqueiro de Wall Street. Ele é um homem de boas maneiras e princípios firmes. Em tempos normais, ele tem fé no mercado, em Deus e em George W. Bush. Mas em tempos como estes, ele prefere depositar a sua fé no governo, no contribuinte e em Bush.

Ao contrário do que muito se anunciou, Paulson não pretende utilizar as rendas obtidas com impostos para financiar o pacote de socorro aos bancos. Em vez disso, a intenção dele é tomar novos empréstimos de bilhões de dólares em nome do Tesouro dos Estados Unidos. “Detesto o fato de termos que fazer tal coisa, mas isto é a melhor do que a única outra alternativa”, disse ele na semana passada. O presidente já deu o seu sinal de aprovação.

É isso o que acontece com as comunidades religiosas quando sofrem pressões: elas tornam-se ainda mais fervorosas. A idéia é que o mesmo tipo de pensamento de curto prazo que provocou o desastre vá agora pôr um fim a esta situação calamitosa. O governo está tentando extinguir o fogo com combustível, e não com água. Na verdade, este é exatamente o mesmo combustível que deu início ao incêndio em Wall Street: dinheiro emprestado.

A única diferença é que os novos empréstimos não virão do sexto, do sétimo ou do oitavo membro da comunidade religiosa. Eles serão coletados de todos os contribuintes. Isso significaria o fim da separação entre igreja e Estado, sendo que Wall Street se tornaria a religião nacional.

Os pontos em comum com as outras duas comunidades religiosas já estão desaparecendo. Coisas que na época da tradicionalmente honrada economia de mercado eram consideradas inseparáveis – como valor e consideração, salário e desempenho, risco e responsabilidade – estão sendo agora rasgadas em nome do governo. O capitalismo atualmente exibido pelos Estados Unidos é uma versão rota e degradada daquilo que costumava ser.

As ações dos políticos estão amplificando, em vez de mitigar, os efeitos do fracasso econômico. O capitalismo no estilo norte-americano ainda não morreu, mas está simplesmente preparando o seu próprio falecimento. A história destes dias é a história de uma morte que já foi anunciada. O que nos leva a Miss Marple.

Começou um jogo perigoso com o tempo

A detetive amadora imaginada por Agatha Christie, baseada na avó da escritora, era equipada com algo mais do que apenas um senso de humor e uma compreensão da natureza humana. Ela também tinha experiência em relação a coisas óbvias que ninguém acredita serem possíveis – até que elas aconteçam. No seu romance de 1950, “A Murder is Announced” (“Convite para um Homicídio”), Christie olhou para o futuro de maneira cômica.

A história transcorre mais ou menos assim: certa manhã, os cidadãos leram a seguinte mensagem nos classificados de um jornal local: “Um assassinato foi anunciado e ocorrerá na sexta-feira, 29 de outubro, em Little Paddocks, às 18h30. Amigos, por favor aceitem isto, a única intimação”. Na hora designada, metade da vila reuniu-se na casa onde o assassinato supostamente aconteceria. A advertência é tratada como uma piada frívola, que ninguém desejaria rejeitar. Serve-se sherry aos presentes. O grupo é tomado por um pânico coletivo. Exatamente às 18h30, as luzes apagam-se.

“Não é maravilhoso?”, diz uma voz feminina. “Estou trêmula”.

Quando as luzes voltam a acender-se – para a surpresa de todos – um crime foi cometido. E agora nós, assim como os presentes na sala em Little Paddocks, estamos de pé, sussurrando, tomados pelo medo coletivo, aguardando para ver o que acontecerá a seguir. E ninguém acredita seriamente que um crime de verdade está prestes a ocorrer.

“Todos estavam em silêncio e ninguém se movia. Todos olharam para o relógio… Quando a última nota terminou, todas as luzes apagaram-se. Murmúrios de alegria e gritinhos femininos de satisfação foram ouvidos no escuro. ‘Está começando’, gritou a senhora Harmon, extasiada”.

Um futuro vendido

Quem quer que espere receber um alerta antecipado deveria simplesmente expandir o seu campo de visão enquanto as luzes permanecerem acesas.

As companhias de cartão de crédito dos Estados Unidos não estão em uma situação significativamente melhor do que os bancos. Elas também venderam o futuro e até mesmo uma parcela do período posterior a ele.

A indústria automobilística norte-americana também se encontra seriamente combalida e tem dificuldades para estender as suas linhas de crédito no mercado aberto. A indústria perdeu mais de 300 mil empregos desde 1999. Mas qual é o benefício disto se são os gerentes – e não os trabalhadores – os culpados pela crise? A enorme conta dos Estados Unidos com a compra de petróleo – cerca de US$ 500 bilhões (? 345 bilhões) – é atualmente paga com dinheiro emprestado pela China. A cada dia útil, a dívida externa dos Estados Unidos aumenta em quase US$ 1 bilhão (? 690 milhões).

Provavelmente a pílula mais amarga de engolir nos Estados Unidos de hoje é o fato de os lares privados não estarem administrando as suas finanças de maneira melhor do que os executivos de corporações. Estes lares vêem o reflexo de suas imagens nos banqueiros de Wall Street, e não uma espécie de figura destorcida de si próprios. “De fato, não conheço nenhum país no qual o amor pelo dinheiro tenha se estabelecido tão fortemente no sentimento dos homens”, observou Alexis de Tocqueville 170 anos atrás.

A conversa há muito necessária entre o governo e os governados ainda não se materializou. Essa teria que ser uma conversa a respeito da relação entre a economia e os valores, sobre a recuperação daquilo que se perdeu, em vez de sobre expansão. A palavra frugalidade – que desapareceu do vocabulário dos Desinibidos – deveria ser reintroduzida.

Mas não há sinal de que nada disso esteja acontecendo. Os Estados Unidos de hoje são muito estadunidenses para sobreviverem na sua forma atual. Mas os Estados Unidos atuais são também muito orgulhosos para perceberem isto. Os fiéis dificilmente permitiriam que alguém os convertesse.

Assim, a nossa compreensão dos acontecimentos continua ficando cada vez menos clara. Teve início um jogo perigoso com o tempo.

“O ruído de duas balas sacudiu a complacência da sala. Subitamente, o jogo não era mais um jogo. Alguém gritou… ‘Luzes’. ‘Não consegue encontrar um isqueiro?’…’Oh, Archie, quero sair daqui’”.

Der Spiegel

A Revolução Russa noventa anos depois

Os apoios exaltados e os ataques furiosos que a experiência soviética suscitou contribuíram para mascarar sua verdadeira realidade. O fracasso desse processo é rico em lições sobre os sistemas, suas transformações, seu envelhecimento e suas crises

Moshe Lewin

A Revolução de Outubro de 1917 [1] marcou a história do século 20. Suscitou inúmeras polêmicas, apoios exaltados e ataques furiosos, otimismos simplistas e condenações sumárias. A perpetuação dessas representações contribuiu para mascarar a realidade no espírito de muitos. De fato, em 1917, o que predominava era o tumulto em todas as instituições (Estado, exército, polícia, partidos, imprensa, meios econômicos) e um caos que pesaria profundamente na escolha dos bolcheviques.

Por diversas vezes, o que se desenrola no palco soviético não guarda relação com o cenário e os discursos, o que propicia uma história cheia de surpresas, pois sua moldura é um espaço portador de crises, onde os fatores de decomposição agem com particular violência e os fatores de recomposição assumem formas surpreendentes.

Todo sistema, passado ou presente, deve ser analisado do ponto de vista de suas forças vivas, da capacidade ou não de se reformar, e, portanto, de encontrar nova vitalidade ao abandonar uma orientação perigosa. As ideologias são com freqüência cegantes, pois praticam a autocelebração: elas levam os seres humanos a esquecer que o regime em que vivem, e que exaltam como o mais desejável, começou a funcionar segundo outras regras. Uma situação como essa pode ser comparada à de um teatro onde o cenário e a ação não combinam. O cenário é tirado de uma outra peça, pertence a outra época; enquanto a ação que se desenrola conduz a um lugar totalmente diferente.

Outubro de 1917
As crises e as fases de decomposição são parte integrante do curso da história. Em geral, assinalam o fim de uma era, o fim de um sistema. Em alguns casos, se determinadas forças (interiores ou exteriores) existem, abre-se uma nova página, às vezes chamada “revolução”. Inúmeros autores falam da revolução “realizada” pelos bolcheviques, donde subentende-se que esses seriam os “culpados” por ela.

Tal leitura dos eventos é simplesmente lamentável. Traduz uma total ignorância do que se passou em setembro e outubro de 1917, quando nada mais funcionava na Rússia, a paralisia do poder era total e o país inteiro caminhava rumo aos levantes camponeses em grande escala, à guerra civil e ao caos generalizado. A revolução não foi senão uma resposta a esse caos crescente e à perspectiva do desaparecimento puro e simples da Rússia como Estado nacional.

Em poucas palavras, não foi a revolução que desencadeou a crise: uma crise muito profunda é que foi resolvida pela revolução conduzida pelos bolcheviques, depois que outras forças, que tentaram desesperadamente conduzir a situação, não fizeram senão aprofundá-la. Contrariamente a certas idéias preconcebidas, nesse momento, o regime político oficial, simbolizado pelo Governo Provisório instaurado após a queda do czarismo em fevereiro de 1917, não passava de um cenário — nele nada acontecia. Estava exaurido, acabado. Não existia mais poder de Estado, apenas um semblante.

A idéia de que os bolcheviques “tomaram o poder” (de alguém) revela completa ignorância da realidade: ninguém detinha qualquer poder do qual pudesse ser afastado. Não somente os bolcheviques não tomaram o poder de ninguém, como ainda precisaram criá-lo. Conforme Vladimir Ilich Ulianov Lenin escreveu em seguida, no início os bolcheviques nada tinham, exceto slogans como “socialismo”, “revolução”, “abolição de privilégios”. O elemento-chave de seu sucesso foi o apelo dirigido aos camponeses para se apropriarem da terra que cultivavam. Uma medida como essa, caso adotada, teria salvo, talvez, o Governo Provisório. Mas esse movia-se a reboque dos representantes dos proprietários.

O Governo Provisório estava convencido de que o socialismo era impossível. E, sem dúvida, o socialismo era impossível. Porém, o que os dirigentes do Governo Provisório se recusavam a compreender é que uma revolução democrático-burguesa também o era. Eis aqui o drama dos partidos políticos engajados nas coalizões entre fevereiro e novembro de 1917: o caos se espalhava e eles não conseguiam controlá-lo, nem sequer compreendê-lo.

Os bolcheviques vão então levar a melhor. Mas, de início, o partido vitorioso não conquista o poder senão nominalmente, como uma simples tabuleta na fachada. Ele não era capaz de resistir ao calor dos acontecimentos, em face do afluxo maciço de novos integrantes e sob a enorme pressão das tarefas a cumprir, para as quais nem sua experiência anterior nem sua natureza haviam-no preparado. Pois o partido efetivamente existiu com uma democracia interna real, só que essa não sobreviveu à tormenta – não por causa da guerra civil, na qual os bolcheviques saíram vencedores, mas em função da pressão exercida pelas inumeráveis tarefas administrativas e de construção do Estado. Em 1921, pouco antes de lançar a Nova Política Econômica (NPE), um período de descanso após o “comunismo de guerra”, Lenin compreende que é preciso construir um novo partido: o bolchevismo, que também pôs à prova sua capacidade de ação durante a guerra civil, não passa de um fantasma.

Stalin e o bolchevismo
Ao fim da guerra civil (1921), a ação muda, ainda que o cenário permaneça. Os bolcheviques se instalam no poder, mas inúmeros livros consagrados ao assunto deixam de perceber que seguir falando de “bolcheviques” significa voltar a evocar um fantasma. A peça que se desenrola, e este poderia ser seu título, é a transformação de um partido revolucionário em uma classe de governantes.

Mais precisamente, dois elementos cenográficos confrontam- se nesse cenário. Definir o espírito do regime nascido com a revolução, eis o que está em jogo. Como mostrei em Le siècle soviétique, a oposição entre Lenin e Stalin é um choque entre duas facções no seio do mesmo partido. Se tivermos em mente o desaparecimento do bolchevismo autêntico, o embate opõe um Lenin engajado na tentativa de definir o programa para um novo campo político, adaptado à situação inteiramente nova surgida da guerra civil, e um Stalin em pleno processo de formular sua concepção própria do que deve ser o Estado, encabeçado por ele. Esse funda-se sobre premissas que não têm nada a ver com o bolchevismo e que exprimem principalmente sua visão de um poder pessoal tido como fim em si mesmo, alimentado por sua percepção da história russa: seja lá o que for que isso significou no passado e implique no presente. Os programas que se chocam de frente em 1922-1923, em primeiro lugar com o debate sobre a formação da União Soviética [2], excluem-se mutuamente e não fazem questão de dissimular sua natureza antagônica. Esse embate se encerra com a doença e em seguida a morte de Lenin, em janeiro de 1924.

O stalinismo: um sistema irreformável?
O stalinismo [3] constitui um bom exemplo do que pode significar o envelhecimento de um sistema e coloca de fato a questão de saber se, nesse caso, sua longevidade não foi “geneticamente predeterminada”, devido à incapacidade de se reformar. O stalinismo não podia ser outra coisa além do que foi e do que estava condenado a continuar sendo: um sistema altamente policial, construído por e em torno de um autocrata, e, neste aspecto, irreformável. Foi essa também a razão pela qual o stalinismo, em função do impacto das mudanças produzidas na sociedade pela política de Estado, só podia mesmo cavar a própria cova.

Quando estudamos Stalin, compreendemos que sua luta permanente contra o passado revolucionário advinha do fato de que esse passado não lhe oferecia qualquer segurança — ele não seguira seus ensinamentos, era-lhe inclusive hostil, como deixou claro sua luta em prol de uma União Soviética chauvinista grã-russa. Desse modo, sua busca de um passado que mais lhe conviesse não surpreende, muito menos o fato de que ele tenha convocado a herança da autocracia para definir as grandes linhas disso que devia ser a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Só o czarismo lhe daria a legitimidade que buscava, pois o poder sob o czar era exercido sem intermediários, tirado e recebido diretamente de Deus.

Mais espantoso, por outro lado, foi seu empréstimo sistemático das estruturas ideológicas da Rússia czarista durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra. Isso revela que Stalin menosprezava o fato, embora mais do que consumado, de que esse regime esgotara todas as possibilidades por ocasião da Primeira Guerra Mundial. O senhor do Kremlin parece ignorar que o modelo que desejava adotar era portador de crises e estava morto — para não falar de seu protótipo preferido, Ivã, o Terrível [4], que mergulhara o país num turbulento período de trevas.

O regime stalinista vai conhecer um destino comparável bem na hora em que, paradoxalmente, parece atravessar, para o mundo todo, o auge da glória, logo após a aniquilação dos nazistas. O sistema pára então de funcionar e entra em uma fase de declínio, no momento em que seu líder, dirigente de uma superpotência vitoriosa, se beneficia do prestígio máximo. Mas era uma superpotência com pés de barro, e todos os camaradas de Stalin o sabiam.

Esse ponto merece que nele nos detenhamos. O regime czarista não contava com um redentor, com nenhum herdeiro legítimo e capaz. Já o regime stalinista, sim, contava, entre o grupo de companheiros próximos a Stalin, que aguardavam impacientemente a hora de pôr mãos à obra e revitalizar um regime com problemas aberrantes de mal funcionamento. No momento em que estes denunciam os “cosmopolitas” que se “prostram diante do Ocidente”; em que os altos funcionários devem vestir um uniforme e seus títulos provêm diretamente da “Tabela de Hierarquias” estabelecida por Pedro, o Grande; em que os intelectuais judeus são eliminados; em que os altos responsáveis são assassinados (o episódio de Leningrado [5]); e em que é aberto o processo dos médicos [6], era difícil prever que a URSS ainda tinha diante de si um período de desenvolvimento espetacular.

De fato, parte dos companheiros próximos a Stalin, que deveriam ser a tropa de choque do stalinismo (e alguns sem dúvida o eram!), arregaça as mangas para eliminar as trapalhadas do líder. Eles agem rapidamente após sua morte, em março de 1953, e de forma radical, promovendo uma série de reformas importantes que serão concretizadas no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956.

Em repetidas ocasiões, várias pessoas, cujo ódio à União Soviética corresponde a uma necessidade psicológica que acho difícil de entender, ficaram chocadas quando afirmei que a supressão do gulag foi uma das primeiras medidas adotadas pela administração pós-stalinista. Parece-me com efeito fundamental distinguir o gulag sob Stalin, enquanto complexo econômico-industrial do Ministério do Interior russo (o MVD), do sistema dos campos, profundamente reformado, que subsiste no período subseqüente à morte de Stalin [7].

A esse propósito, é de se perguntar sobre a fixação do Ocidente em relação ao gulag, sobre os motivos pelos quais aceitou sem a menor reserva o discurso que põe um sinal de igualdade entre o gulag e o regime soviético, identificado com o mal absoluto. Ele saudou o portador dessa tese, Alexandre Soljenitsin, como um profeta. Ora, este defendia uma ideologia passadista. O escritor odiava os social-democratas agrupados em torno da revista Novyj Mir, bem como seu redator Alexandre Tvardovski. Era inimigo jurado da democracia ocidental. Será que esse pregador de uma ortodoxia medieval era necessário para preencher o vazio ideológico da guerra fria?

O fim do sistema soviético
O sistema soviético conheceu ainda um outro ciclo de declínio com o período dito de “estagnação”, que teve início no fim dos anos 60. Esse período introduz uma nova questão: a das orientações contraditórias no seio do sistema, produzidas pelo surgimento de vetores essenciais de mudança. A urbanização, a modernização em larga escala do país haviam-se tornado fenômenos incontestáveis. Mesmo que parte da população vivendo no campo continuasse a ter importância, dali em diante a maioria dos cidadãos passou a morar nas cidades, recebendo educação e estando familiarizada com as novas tecnologias. O status das mulheres conheceu igualmente avanços importantes. Essas transformações consideráveis da sociedade tiveram efeitos indiretos sobre a população rural, que, sem se deslocar para as cidades, assumiu no entanto suas principais características.

O movimento rapidamente fez nascer uma sociedade urbana relativamente nova. Essa urbanização era “jovem”, enquanto o Estado burocratizado, aparentemente sob o sistema czarista, era “velho”. A despeito da relativa juventude, o sistema entronizado depois de 1917 envelhecera prematuramente.

Isso nos remete à questão dos sinais de vitalidade. O Estado soviético estava totalmente burocratizado, praticando um centralismo rigoroso com o controle a partir de cima. No entanto, o poder no topo tornara-se totalmente dependente da máquina burocrática, principalmente a dos ministérios, que conseguira obrigar o alto escalão a negociar com ela. Cada vez mais, ela agia de modo a que essa negociação se virasse a seu favor e, no fim, chegou a deixar de responder a qualquer comando. Essa máquina burocrática transformou-se em um monstro movido por sua própria lógica e conduziu o sistema rumo ao abismo.

O ponto fundamental é que o centro perdeu o poder e sua capacidade de controlar os eventos. Ele se mostrou incapaz de fazer isso que os sistemas devem fazer se não pretendem desaparecer: ou seja, reformar-se, adaptar-se à mudança, mudar de estratégia e orientação política, ganhar novos aliados e se engajar na batalha contra os principais obstáculos. O sistema havia-se despolitizado e não podia impor o que quer que fosse a quem quer que fosse. Simbolicamente, o país era dirigido por Leonid Brejnev, um secretário-geral agonizante, quando não morto.

A despolitização, no sentido de perda de toda capacidade de fazer política, não é apenas um sintoma: ela significa que se chegou ao ponto sem retorno. Ela confirma a idéia de que não existia nenhum “partido dirigente”, no sentido de uma organização capaz de desenvolver atividade política conseqüente. Um partido assim teria evitado a dependência deplorável com relação à massa de altos responsáveis pelas administrações mais diversas, zelosos unicamente de seus próprios interesses e controlando um exército gigantesco de dirigentes ocupados em “privatizar” as empresas que deveriam administrar.

Analistas, planejadores, escritores publicavam, punham de sobreaviso, prediziam a catástrofe, mas o alto escalão estava paralisado. Nessa época (fim dos anos 60 até os anos 80), todo movimento, fosse na direção que fosse, era considerado inevitável. O mito, largamente difundido, segundo o qual a União Soviética desmoronou por causa das despesas insuportáveis causadas pela guerra fria e a corrida armamentista nada mais é que, para dizer as coisas com moderação, um erro de diagnóstico. O interlúdio de Yuri Andropov (secretário-geral do Partido entre 1982 e 1984) é bastante interessante, mas foi breve demais para ser convincente. Seu curto período apresentou elementos que poderiam ter contribuído para a repolitização do sistema e mobilizá-lo para as reformas urgentes no plano econômico e político. As condições para o sucesso estavam presentes.

O fracasso do sistema soviético é rico em lições sobre os sistemas, suas transformações, suas presunções, seu envelhecimento, suas crises. Falar de envelhecimento significa reafirmar que um sistema passa por diferentes etapas, ao longo das quais dá mostras de um dinamismo considerável, para em seguida conhecer períodos de estagnação e declínio, seguidos de novas fases dinâmicas. Esses diferentes momentos podem ser vistos como os elos de uma mesma corrente, na medida em que o sistema em questão possa ainda ser identificado como tal e não se revele irremediável.

Esses fenômenos e sua pertinência serão melhor compreendidos se compararmos a URSS e a China. Incontestavelmente, podemos estabelecer um certo paralelismo entre os dois regimes: tanto o de Mao Tse-tung como o de Stalin conheceram “grandes saltos adiante”, seguidos, em cada um dos países, de períodos de estagnação e declínio, depois pela retomada, de algum tipo. No entanto, os dois regimes evoluíram de forma muito diferente.

O sistema soviético, embora mais desenvolvido, sucumbiu a uma fase de estagnação e se revelou incapaz de empreender reformas significativas, conquanto indispensáveis, e para as quais o país estava pronto. O sistema chinês soube introduzir reformas espetaculares, mesmo quando não era muito diferente do regime de Stalin (ele era de longe mais repressivo e controlava a sociedade com mais severidade que o regime soviético na mesma época). Isso mostra que o problema não é dos tão denegridos “regimes comunistas”, mas que compete às capacidades das direções, em determinadas etapas, se transformar ou não.

E o socialismo?
Sobre o caráter socialista, ou em todo caso emancipador, da Revolução de Outubro não paira dúvida alguma. Mas podemos falar em um Estado soviético socialista? É difícil sustentar uma tese dessas. O fato de haver-se autodesignado como “socialista”, tendo um partido “comunista”, não tem outra relevância que não a dos slogans e cartazes oficiais. O socialismo é uma forma de democracia que ultrapassa todas as formas possíveis dentro do mundo capitalista. Isso nada nos diz acerca do tipo de sistema econômico que uma tal democracia poderia aspirar pôr em prática. É a simples afirmação de que esse sistema deve estar nas mãos da sociedade, sem capitalistas nem burocratas.

Refletir sobre esse Estado, que se proclamava em alto e bom som como socialista, e era dirigido por um partido comunista, pode permitir esmiuçar um pouco mais a resposta. Essas proclamações (a exemplo dos mitos que outros Estados tentam propalar no mundo) eram indispensáveis para legitimar o sistema diante de seu próprio povo e diante da opinião pública internacional. Mas essas declarações não resistiam ao crivo da realidade, não apenas fora da Rússia, como também dentro de suas próprias fronteiras. A sociedade pós-stalinista, urbana, desenvolvida, educada, com um numeroso corpo de administradores gabaritados em todos os domínios e cientes do que significa a gestão dos negócios públicos, não podia confundir o discurso sobre o “socialismo” com a realidade.

O drama é que o peso da história não havia sido, nem podia ser, eliminado. A fauna burocrática profundamente arraigada que medrava na Rússia czarista talvez tenha desaparecido no que tange aos indivíduos, mas o fenômeno simplesmente voltou a florescer de modos adaptados às realidades soviéticas.

De nada adianta se lamentar. O Estado soviético pede um estudo histórico sério. Uma coisa está clara, em todo caso: socialista ele não era. Por outro lado, os responsáveis por Outubro, estes sim. As idéias nas quais acreditavam, e que puseram em prática, continuam atualmente tão vitais quanto eram na época, na medida em que se engajaram bem no cerne das fissuras de um país e de uma nação em vias de esfacelamento e restituíram à Rússia seu papel atuante dentro da história.

Le Monde diplomatic

A fratura exposta da democracia

A recente rejeição dos irlandeses ao Tratado de Lisboa não passa de um sintoma visível de um mal muito mais profundo: o distanciamento da União Européia dos cidadãos europeus. É por isso que, na maioria das vezes, os parlamentos nacionais afastaram a população das decisões, excluindo a possibilidade de referendos

Bernard Cassen

Parece que a aprovação dos tratados europeus é regida por um teorema: quanto menos se conhece o conteúdo deles, mais se vota a seu favor, principalmente entre os parlamentares. E quanto mais eles são lidos e analisados, menos são aceitos. Os eleitores irlandeses acabam de demonstrar isso ao rejeitarem o Tratado de Lisboa, em 12 de junho, por uma maioria de 53,4%. O mesmo fenômeno ocorreu na França em 2005, durante a campanha do referendo de ratificação da Constituição Européia. Neste caso, os diversos artigos haviam sido debatidos e esmiuçados como nunca pelos franceses e o “não” ganhou com 55% dos votos. Inversamente, o parlamento nacional, cuja maioria dos membros – a julgar por suas intervenções públicas – tinha apenas uma idéia muito vaga do teor desse texto, pronunciava-se maciçamente pelo “sim”.

Esta polêmica em torno da ratificação do Tratado de Lisboa não passa de um sintoma visível de um mal muito mais profundo: a falta de legitimidade democrática da União Européia (UE). Mal este que é evocado apenas de maneira ocasional pelos responsáveis políticos dos partidos governistas, de todos os contornos e de todos os países, como se eles temessem que a exposição da menor rachadura pudesse provocar o desabamento do edifício no qual investiram tanto. Assim como um ouriço que põe para fora todos os seus espinhos para se defender, a recente declaração de princípios do Partido Socialista Francês conjura qualquer dissidência por antecipação, como se fosse uma força demoníaca: “O Partido Socialista é um partido europeu, que funciona na união Européia, a qual ele não apenas desejou, mas, em parte, concebeu e fundou”. Alguns raros dirigentes têm a língua mais solta, como Jean-Claude Juncker, Primeiro-Ministro de Luxemburgo e presidente do Eurogrupo, que declarou, em junho de 2006: “A Europa não passa por uma pane entre os dirigentes, mas entre os povos”.

Essa confissão surpreendente, mas lúcida, significa tamanha ruptura com o discurso estabelecido, que os colegas de juncker julgaram contraproducente comentá-la publicamente. Felizmente, os trabalhos de certos universitários e pesquisadores, incluindo alguns que são mais favoráveis ao projeto europeu existente, não compactuam com esse tipo de lei do silêncio. É difícil haver uma entidade mais pró UE que a Fundação Robert Schuman e, mesmo assim, ela foi responsável pela edição do livro L’État de l’Union [O Estado da União], onde encontramos proposições que confirmam as de Juncker: “Nascida nos anos 1950, a construção européia é produto de uma proposta funcionalista, traduzida por um sistema político que deixa pouco espaço para o debate democrático. A convicção de agir para o bem dos povos não foi acompanhada por sua associação aos processos de decisão”. A afirmação é de Thierry Chopin, autor da obra e professor no Colégio da Europa, em Bruges. Para ele, é como se os cidadãos tivessem visto o trem blindado das elites européias passar sem serem convidados a subir a bordo, e até mesmo sem terem tido vontade de fazê-lo.

A partir de um golpe de força que não suscitou qualquer reação, a Corte de Justiça da União Européia atribuiu-se poderes desmensurados no funcionamento do bloco
Mas as proposições de Chopin – identificação de “quem faz o quê” na União Européia; transparência e publicidade das reuniões do Conselho de Ministros; extensão dos domínios da co-decisão Parlamento-Conselho; divisão da iniciativa legislativa entre a Comissão, o Parlamento e os governos dos Estados-membrosa [1] – não têm nada de particularmente radical. Não estão à altura dos desafios apontados na própria obra. E mesmo se elas fossem postas em ação, serviriam, na melhor das hipóteses, de calmante provisório para uma patologia cuja gravidade ultrapassa muito o perímetro do “triângulo institucional” Comissão-Conselho-Parlamento que compõe a UE.

E, falando das instituições, ainda há uma quarta para a qual é imperativo pensar uma constituição mais democrática: a Corte de Justiça das Comunidades Européias (CJCE), rebatizada de Corte de Justiça da União Européia (CJUE) pelo Tratado de Lisboa. Em uma brilhante contribuição à reflexão coletiva, Une Europe des élites? Réflexions sur la fracture démocratique de l’Union européenne [Uma Europa das elites? Reflexões sobre a fratura democrática da União Européia], Antoine Vauchez, do Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS), explica como esse alto órgão jurisdicional atribuiu-se poderes desmensurados no funcionamento da UE a partir de um golpe de força que não suscitou qualquer reação na época.

Tudo remonta a dois decretos – Van Gend & Loos, de 5 fevereiro de 1963, e Costa/ ENEL, de 15 de julho de 1964 – nos quais a Corte instaurou o “triângulo mágico” que seria o verdadeiro motor da integração européia: a primazia do direito procedente dos tratados sobre direitos dos Estados membros; o efeito direto das decisões; e o processo prejudicial [2]. A partir destes decretos, comenta Vauchez, desenvolve-se “Uma verdadeira teoria judiciária da integração, que faz do direito e do juiz comunitário as ossaturas da própria política européia”. E que aparece, desde então, “Como portadora de um verdadeiro ‘modelo político’ que liga estreitamente direito e política européia, juiz e integração”. Isso em total conivência da Comissão e do Parlamento Europeu.

A Corte utiliza essas armas duvidosas para ditar o direito em geral e o direito social em particular. Assim, em dezembro de 2007, e em nome da liberdade de estabelecimento, ela deu razão à empresa finlandesa de embarcações Viking Line, que queria se deslocar para a Estônia para pagar salários estonianos, e não finlandeses. Da mesma forma, deu ganho de causa à queixa da sociedade letã Laval, que durante a construção de uma escola na Suécia pretendia pagar salários letões e não suecos. Enfim, em abril de 2008, com o decreto Rüffert, ela invalidou uma lei do estado alemão da Baixa Saxônia que obrigava empresas de serviços públicos a aplicar a convenção coletiva desse setor na outorga de mercados igualmente públicos.

Com a jurisprudência que criou, a Corte de Luxemburgo se comportou, portanto, como legisladora do dumping social dentro da UE, desprezando o direito trabalhista em cada Estado-membro. Temos de convir que não se trata de um papel político desprezível. um dos méritos desses três decretos é o de lembrar que o conteúdo das decisões da comunidade européia não pode ser dissociado dos procedimentos utilizados para tomá-las. Observa-se, no entanto, que o “modelo político” europeu é fundado em uma estreita articulação, para não dizer integração, entre as disposições dos tratados [3]. E o conteúdo dos instrumentos jurídicos (decisões, normas e regulamentos) que os concretizam, assim como as instituições que os adotam.

Desse ponto de visa, a Corte é uma peça central do dispositivo da comunidade, já que permite tapar os eventuais “buracos” legislativos e aumentar seus próprios territórios de intervenção, como sistematicamente fez a Comissão Européia, utilizando em todas as direções a arma da concorrência. Seus decretos vão quase sempre no mesmo sentido: o da assimilação do “interesse europeu” às sacrossantas “liberdades fundamentais” de circulação dos capitais, das mercadorias, dos serviços e das pessoas – as únicas que merece esse qualificativo. Se, no lugar de produzir continuamente políticas neoliberais, uma outra forma de construção européia tivesse, por exemplo, tomado medidas de harmonização social ou fiscal, colocado as finanças a serviço do emprego e não o contrário, nada demonstra que ela sofreria com a mesma intensidade a “fratura democrática” que caracteriza sua atual configuração. um outro “funcionalismo”, uma “Europa dos resultados”, mas com outros resultados, poderiam talvez conferir-lhe a legitimidade que lhe falta.

No desencanto com a UE misturam-se aspirações sociais frustradas ou ridicularizadas e o sentimento de confisco do poder de deliberação democrática. Uma das contribuições eruditas do livro L’Europe telle qu’elle se fait (A Europa tal como ela se faz) é particularmente esclarecedora a esse respeito. Ela trata do caso dos caçadores do pântano de Grande Brière Mottière, no litoral atlântico da França. O autor, julian Mischi, membro do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra), mostra que os habitantes da Brière são, em sua maioria, assalariados das indústrias de Saint-Nazaire, e para os quais a caça, “Indicador de solidariedade através das trocas é, em geral, praticada com um sentido mais recreativo que de consumo, e permite a continuidade de uma tradição de subsistência”.

Para os habitantes de Grande Brière Mottière, essa liberdade de ação conquistada desde a Revolução Francesa está diretamente ameaçada pelas normas européias sobre as datas de abertura da temporada de caça, decididas sem consultá-los, enquanto eles cuidaram do pântano “como bons pais de família”. Além disso, “Os habitantes da área, sentindo que a Brière poderia ser chique demais para trabalhadores e que deveriam ir para os subúrbios proletarizados de Saint-Nazaire, temem ser despejados de seu território”.

O combate contra o front comum formado pela UE e os ecologistas urbanos oriundos da classe média e integrantes da Liga de Proteção dos Pássaros empresta um registro de classe: “Lutar contra as normas européias é não somente opor a nação nascida da Revolução à Europa anglo-saxônica, mas também o povo francês à elite bruxelense, a caça popular à Europa dos cleros.” o autor não trata os caçadores como “broncos” sedentos de sangue. Ele considera que, “relacionando o protesto anti-europeu às suas condições sociais e políticas que o provocam, trata-se de dar sentido à rejeição popular da construção européia, muito freqüentemente estigmatizada sob a etiqueta de ‘populismo’”.

Específico, o caso da Brière – onde nenhum funcionário de Bruxelas pôs os pés, a não ser em férias – é o emblema de um descolamento entre os lugares de poder europeus e os espaços afetados por suas decisões. “Se essa tendência se confirmar”, escrevem olivier Costa e Paul Magnette em sua introdução a Une Europe des élites?, “A idéia de que a UE faz políticas públicas (policies), mas não política (politics), enquanto os Estados fazem política, mas cada vez menos políticas públicas estará corroborada”. Retomando essa dualidade policies/politics, o grande desafio da construção européia é injetar política, portanto conflito, na escala supranacional, e, simultaneamente, dar de volta poder à escala nacional.

Uma tarefa duplamente árdua, se não impossível no quadro dos tratados em vigor. Por um lado, porque as instituições já colocadas fora do alcance da intervenção direta ou indireta dos cidadãos (Comissão Européia, Corte de Luxemburgo e Banco Central Europeu) não são adeptas da teoria dos vasos comunicantes, não têm qualquer intenção de retroceder em sua parcela do poder e são apoiadas pela grande maioria dos países-membros.

O dilema democrático se resume assim: ou o necessário conflito político se instala nas instâncias da UE e tudo vai pelos ares, ou ele fica confinado ao nível dos Estados Unidos
Por outro, porque o poder europeu não se reivindica como “político” no sentido dado a este termo nas questões internas dos Estados. Entre estes últimos subsiste a noção de alternância fundada na clivagem tradicional entre a esquerda e a direita, mesmo se as políticas empreendidas por uma ou por outra forem muito próximas. A Comissão Européia é composta por pessoas advindas dos partidos social-democratas, liberais, democratacristãos e conservadores, e veste suas decisões colegiadas com uma roupagem “técnica”, em que o liberalismo econômico não é considerado como uma opção política, mas como um dado da natureza.

Se recordarmos que o Parlamento Europeu é co-gerido por suas duas formações dominantes – o Partido Socialista Europeu (PSE) e o Partido Popular Europeu (PPE), reunindo as diversas sensibilidades de direita – e que o Conselho Europeu toma suas decisões por unanimidade, fica difícil enxergar um modo de reencontrar, nesse nível institucional, as marcas nacionais. Ora, para Costa e Magnette, “Nenhum espaço público pode, ao que parece, ser construído economizando o confronto e as crises que ele engendra. Nossas democracias nacionais não seriam formadas sem os grandes conflitos que opuseram os construtores do Estado central aos defensores das periferias, os guardiões da ordem moral aos promotores das liberdades públicas, os interesses das classes dominantes aos dos trabalhadores… Ainda hoje, nossas democracias vivem largamente da perpetuação desses conflitos estruturantes”. Mas poderíamos vislumbrar tais “conflitos estruturantes” na UE?

Na ausência de um espaço público europeu – cujo horizonte está cada vez mais recuado em função dos sucessivos alargamentos para novos países –, esses conflitos tomariam inevitavelmente a forma de confrontos entre Estados. Quem pode pensar que, com o que lhes resta de soberania, governos “de esquerda” minoritários – e ainda mais seus cidadãos – aceitariam ser colocados sob a autoridade de um executivo comunitário “de direita”? Ou o inverso. O que é aceito como espaço público nacional não é transportável para o nível supra-estatal, pelo menos em um prazo historicamente previsível. A despolitização induzida pela aparelhagem institucional é apenas aparente, já que ela camufla escolhas liberais. Mas ela serve de justificativa implícita aos consensos de fato, enquanto as reuniões solenes das cúpulas européias parecem selar compromissos entre Estados.

O dilema democrático acaba se resumindo assim: ou o necessário conflito político se instala nas instâncias da UE e ela vai pelos ares, ou ele fica confinado ao nível dos Estados e, na falta de elementos em seu benefício, transforma-se progressivamente em contestação ao bloco. Existe, teoricamente, uma terceira via, que Costa e Magnette apenas deixam registrada e que teria o apoio das elites por simplesmente reproduzir o status quo: “Que a UE invente um modo de regulação perfeitamente apolítico, repousando inteiramente na deliberação de especialistas, juristas e representantes de interesses, sem suscitar a resistência dos lugares políticos historicamente construídos”.

Em uma obra cujo título flerta com Karl Marx e Friedrich Engels, L’Idéologie européenne (A Ideologia Européia), Benjamin Landais, Aymeric Monville e Pierre Yaghlekdjian fazem o retrato destes “especialistas” que antecipam o “fim da história” no Velho Continente e a chegada de um “homem europeu” sem solo e sem classe: “Andando na corda bamba entre o falso e o nada, dramática homenagem do medíocre ao vício, o expert, o especialista, emerge de um monte de estatísticas, como de um mar onde o público jamais mergulhou e onde apenas ele terá ido recolher os corais inestimáveis, que justificam que se persiga a ordem das coisas. Porque a política ‘européia’ (euro forte, livre-comércio mundial, redução do poder dos Estados) quer ser defendida por especialistas, mas jamais julgada sobre seus resultados”. Os autores, que destacam sua filiação ao Partido Comunista, respondem ao dilema democrático reabilitando o Estado-nação como o instrumento pertinente para a intervenção dos cidadãos.

Tomando um exemplo preciso, eles criticam a reivindicação de “serviços públicos europeus” proposta por um arco de forças que vai do Partido Socialista aos movimentos altermundialistas: “Decretou-se, desde o princípio, que a mobilização social na França tem legitimidade reduzida, dependente do lugar de nosso país na UE e de uma expansão incerta desta luta para algum país membro”. Para os autores de L’Idéologie européenne, o foco da esquerda deve ser outro: a constituição de uma Europa fundada na soberania de cada povo e na luta de classes, do trabalho versus capital.

Le Monde diplomatic

Uma frágil divisão entre Jerusalém Oriental e Ocidental

Isabel Kershner

Em uma recente noite de outono, sob uma lua cheia, um monumento à tolerância foi revelado em uma colina bem acima desta cidade contestada e reverenciada, sagrada para muçulmanos, cristãos e judeus. Consistindo em uma grande coluna de bronze, dividida ao meio, com uma oliveira fina e adornada passando pela divisão, o monumento parece encarnar ao mesmo tempo as promessas e a fragilidade da paz em uma cidade que está cada vez mais no limite da tensão.

O monumento, presente de um bilionário polonês, foi erigido na fronteira invisível entre um dos bairros árabes de Jerusalém Oriental e a predominante judaica zona oeste. Durante a cerimônia houve momentos etéreos, que sugeriam uma grande harmonia, enquanto os acordes de uma orquestra misturavam-se à chamada para a oração muçulmana em incontáveis minaretes.

Mas este tem sido também um local de tremenda discórdia, um lembrete concreto de como esta cidade está de fato fraturada.

Abaixo da colina fica Jebel Mukaber, um bairro palestino de Jerusalém Oriental que Israel capturou dos jordanianos em 1967. Em março, um homem armado saiu daqui e dirigiu-se para o seminário judeu Mercaz Harav, na parte oeste da cidade. Ele abriu fogo com a sua arma automática contra um grupo de pessoas composto na sua maioria de estudantes adolescentes, matando oito, antes de se suicidar. Foi o pior ato de terrorismo perpetrado na cidade em quatro anos.

A seguir, a estrada em frente ao monumento foi o cenário de uma furiosa manifestação por parte de nacionalistas religiosos, que exigiram a demolição da casa da família do atirador.

Nos meses que se seguiram, dois palestinos dirigindo grandes máquinas de construção e um terceiro ao volante de uma BMW atingiram veículos e pedestres em Jerusalém Ocidental, matando três israelenses e ferindo muitos outros, deliberadamente, segundo a polícia. Todos os três motoristas, que foram mortos no local dos incidentes, eram moradores de Jerusalém Oriental, incluindo o bairro de Jebel Mukaber. Nenhum deles era conhecido por ter qualquer filiação política forte.

“Nós vivemos com medo”, afirma Mazal Tzabah, 64, uma mulher israelense, em um ponto de ônibus em Armon Hanatziv, o bairro judeu contíguo a Jebel Mukaber. “Não sabemos quem é bom e quem é ruim”.

Cerca de 250 mil palestinos, em sua maioria muçulmanos, vivem nos bairros tipicamente mais pobres e menos desenvolvidos de Jerusalém Oriental. Eles representam um terço da população da cidade. Quase 200 mil judeus vivem ao lado deles em uma faixa composta de novos bairros, como Armon Hanatziv, que foi construído sobre as fronteiras de 1967, em um território que os palestinos reivindicam como a capital do seu futuro Estado.

Para aumentar a confusão, vários projetos imobiliários judeus surgiram como se fossem mini-assentamentos nos bairros árabes existentes, incluindo Nof Zion, um luxuoso complexo de apartamentos que são vendidos a judeus religiosos, e que fica na entrada de Jebel Mukaber. Enquanto isso, um número cada vez maior de famílias árabes muda-se discretamente para áreas judaicas dos dois lados da linha de 1967.

A polícia anuncia um aumento drástico da quantidade de residentes de Jerusalém Oriental presos por envolvimento com a violência ou por planejarem ataques no ano passado. Embora a cidade já tenha experimentado ondas piores de violência, como os mortíferos atentados a bombas contra ônibus e cafés em anos anteriores, a maioria daquelas ações foi realizada por palestinos oriundos da Cisjordânia.

Como Israel considera toda Jerusalém como a sua capital soberana e unida, não existem barreiras permanentes no coração da cidade. Os seus moradores palestinos, ao contrário dos habitantes da Cisjordânia, têm acesso livre a todas as partes.

Em meio a esse arranjo tenso, os limites da tolerância são testados com freqüência. Quando a rebelião sectária irrompeu em 8 de outubro entre judeus e árabes na cidade etnicamente misturada de Acre, no norte de Israel, a política imediatamente entrou em estado de alerta em Jerusalém Oriental, por temer que a violência pudesse se espalhar.

Muitos moradores judeus afirmam que vivem com medo. Os moradores árabes queixam-se de que, em vez de tentar encontrar uma solução política para a cidade, Israel está tentando transformar a zona oriental em uma região judaica. Segundo eles, Israel procura expulsar os palestinos.
Interações sociais significativas entre os dois grupos são raras. Mas mesmo em meio ao crescente antagonismo, algumas pessoas estão tentando superar essa divisão psicológica.

Em 21 de setembro, jovens músicos judeus e palestinos juntaram-se para fazer um concerto de rock promovido pelo Consulado dos Estados Unidos, no histórico prédio da YMCA na Rua Rei Davi – local em que ocorreu um dos ataques com veículos de construção em julho -, sob o slogan “o microfone é mais poderoso do que a arma”.

Um dos músicos, Muhammad Mughrabi, 21, um rapper do campo de refugiados de Shuafat, em Jerusalém Oriental, afirma que os seus amigos de lá acham estranho o fato de ele ter se apresentado com israelenses.
“Até os 15 anos de idade, todos os israelenses que conheci eram soldados, e eu tinha muito medo”, diz ele.

Existem outros exemplos de coexistência. Grupos de mulheres israelenses e palestinas reúnem-se para discutir questões importantes. A aproximação entre os dois grupos foi promovida por uma cineasta israelense que fundou o projeto em 2006, e que fez um documentário chamado “A Slim Peace” (“Uma Paz Precária”).

O Ir Amim, um grupo israelense favorável a uma solução política justa para Jerusalém, está oferecendo passeios a Jerusalém Oriental para mostrar aos israelenses como é a vida do lado palestino.
Além disso, o Conselho de Coordenação Interreligiosa em Israel vem organizando há anos modestos intercâmbios individuais entre Jerusalém Oriental e Ocidental.

“Jerusalém é uma cidade muito esquisita”, afirma Ron Kronish, o diretor do conselho. “A vida segue em frente, mas a intensidade da separação entre os dois grupos é impressionante. A questão é determinar como as pessoas reais vivem em meio ao conflito, e qual a melhor forma de mitigar o problema, o que significa ter um pouco menos de ódio”.

Mas as tensões persistem. Na noite seguinte ao concerto no prédio da YMCA, que terminou com um caloroso, mas caótico, improviso de “No More Trouble”, de Bob Marley, um jovem de 19 anos, morador de Jebel Mukaber, pegou a BMW do irmão e atropelou propositalmente um grupo de civis e soldados que estavam de folga, ferindo vários deles, em frente à Cidade Velha, em um ponto de encontro das zonas leste e oeste.

As pessoas de luto que reuniram-se na espaçosa casa da família do rapaz estavam convencidos de que ele, um motorista inexperiente e sem carteira de habilitação, envolveu-se em um simples acidente de trânsito, tendo sido desnecessariamente morto por um dos soldados.
“Tudo o que ele queria, até onde sei, era ter um carro bonito e ouvir música”, afirma Omar Baidun, 45, empresário e amigo da família.
Mas no bairro judeu de Armon Hanatziv não há dúvidas quanto às intenções do motorista.

Dalia bem Shitreet, 47, uma cabeleireira israelense que mora na região limítrofe do bairro, a apenas uma rua de distância de Jebel Mukaber, afirma que defende a “coexistência” e que alguns dos seus clientes e moradores do seu prédio são árabes muçulmanos.

Mas ela acrescenta que tem medo de caminhar fora de casa à noite. Shitreet diz que Jebel Mukaber é um bairro “hostil”. “O bairro deveria ser demolido até as bases, embora eu me envergonhe de afirmar isto”.

The New York Times

Robert Kurz

ENTREVISTA À REVISTA ON-LINE “TELEPOLIS”

Hannover

Sr. Kurz, o senhor já tinha dado uma entrevista à “TELEPOLIS” em 2002, após o colapso da new economy. O que é que mudou desde então?

Então rebentou a bolha financeira especial do sector das dot-com, que estava astronomicamente sobrevalorizado. O respectivo sector do “novo mercado” na bolsa foi liquidado, o que levou a um crash geral das acções. Com o corte desta veia diminuiu correspondentemente a reciclagem do dinheiro das bolhas financeiras na chamada economia real (investimentos, construção, consumo), ocorrendo uma curta fase de recessão ou estagnação da conjuntura mundial. Fez-se face a esta crise parcial com uma corrida dos bancos centrais à redução dos juros, sobretudo através da oferta excedentária de dólares, sob a égide de Alan Greenspan. Deste modo começou uma nova e muito maior bolha financeira, a célebre bolha do imobiliário, nos EUA e em partes da Europa e da Ásia. Uma vez que subiram extraordinariamente os preços de todo o tipo de imóveis, foi possível hipotecar vivendas e apartamentos para obter empréstimos, que animaram o consumo e o investimento numa amplitude muito maior do que no caso das bolhas financeiras anteriores. Assim se alimentou uma conjuntura de deficit global, que expandiu fortemente o circuito do deficit do Pacífico, de exportação asiática (como parte da estratégia transnacional dos conglomerados empresariais) de sentido único para os EUA, e que esteve na base do “milagre do crescimento” da China e da Índia. A partir da 2005 também a conjuntura de exportação europeia beneficiou, não em último lugar o sector de construção de máquinas alemão. Os índices de acções rapidamente subiram de novo por todo o mundo até aos altos níveis anteriores. Para um pensamento positivista, que se atém aos “factos”, abstraindo do contexto, já parecia que se abria uma nova era de prosperidade pelo século XXI adentro. Agora, ao contrário de 2002, não rebentou uma simples bolha especial. A crise das hipotecas estendeu-se a todo o sistema bancário e creditício, e colocou fundamentalmente em questão o posterior refinanciamento das montanhas de dívidas globais acumuladas nas últimas décadas. Isto é muito mais dramático do que o anterior colapso do segmento da new economy. Por isso também as suas repercussões cairão drasticamente sobre a conjuntura mundial e não se poderá tão facilmente reverter a queda das cotações das acções num novo movimento ascendente de longo prazo.

Faz-se muitas vezes a acusação de que alguns maus gestores, com a sua avidez e frequente falta de carácter, seriam os culpados da crise mundial dos mercados financeiros. Outros entendem que a crise tem causas estruturais, ligadas à crescente dificuldade de valorização do capital. Pode dar-nos a sua opinião sobre a presente crise financeira?

A busca de culpados subjectivos é o modo predilecto de a razão capitalista reagir à crise objectiva, porque o sistema de fim em si mesmo da “valorização do valor” e as condições de vida por ela determinadas constituem o fundamento histórico desta razão e surgem-lhe como “dados naturais”. As contradições são empurradas para a “ética” individual. É aqui que se agarram as tradições ideológicas, por exemplo o anti-americanismo e o anti-semitismo. A crise é então reduzida a supostas qualidades negativas de “culturas” ou sujeitos colectivos. Mas mesmo os que falam de “causas estruturais” frequentemente não se desprendem deste modo de ver. Pois em regra, quando se fala de “estrutura” e de “sistema”, não se refere o capitalismo como tal, mas apenas um determinado “modelo”, um determinado modo de moderação e regulação do contexto da forma capitalista cegamente pressuposto. É assim que presentemente se responsabiliza o “modelo anglo-saxónico” pela crise. Mas não se trata aqui de um “modelo”, que pudesse ser substituído por outro sobre as mesmas bases, mas da própria lógica da valorização, seja qual for o modo de regulação ou a “política económica”. Segundo Marx, a “substância” do valor e da valorização (mais-valia) é o dispêndio de energia humana abstracta nesta forma social. A força de trabalho, porém, só pode ser utilizada ao nível do standard de produtividade em cada caso posto pela concorrência. Daí decorre uma auto-contradição sistémica, que se vai manifestando numa escala histórica crescente. Quanto maior se torna a força produtiva com a cientificização, tanto menor é a substância de valor em cada mercadoria e maiores os custos prévios de produção. O movimento desta contradição leva a que os mercados tenham de crescer ininterruptamente e a valorização se torne cada vez mais fortemente dependente do crédito, como antecipação de mais-valia futura. Esta contradição culmina na Terceira Revolução Industrial da microelectrónica. O crescimento já só prossegue através dum endividamento crescente a todos os níveis, ou seja, através de uma cada vez maior antecipação de mais-valia futura, que realmente nunca mais se poderá realizar, porque o crescimento da produtividade esvazia a substância do valor. A “super-estrutura financeira” começou já nos anos 80 a desacoplar-se da produção real de mais-valia. Desemprego em massa, subemprego e precarização, por um lado, e expansão do “capital fictício”, por outro, constituíram as duas faces da mesma moeda. Desde os anos 90 começou o processo de reciclagem do capital das bolhas financeiras na economia real. A produção e o consumo passaram a ser suportados cada vez menos por lucros e salários reais, e cada vez mais por rendimentos das subidas fictícias de valor no plano da circulação (compra e venda de títulos financeiros). Isso provocou a ilusão óptica do crescimento conjuntural, que em todo o caso ia de par com o insuflar das bolhas financeiras. A cisão social entre crescente “riqueza abstracta” aparentemente sem limites e pobreza em massa precarizada ocorreu perante este pano de fundo. A compacta cadeia de crises financeiras desde o fim dos anos 80 era uma indicação do carácter capitalistamente improdutivo deste desenvolvimento. Com a actual nova qualidade da crise financeira também nesta perspectiva se atingiu o ponto culminante. A “fusão nuclear” em curso no sistema de crédito dificulta o insuflar de novas bolhas financeiras, ou torna-as mesmo impossíveis. O novo excesso de moeda dos bancos centrais já não alimenta indirectamente a conjuntura, mas limita-se a administrar a massa falida da economia das bolhas financeiras.

O rebentar da bolha do imobiliário foi uma crise já há muito tempo prevista por alguns economistas. A política, depois de durante anos ter ignorado as reflexões contra o negócio da especulação, mostra-se agora surpreendida. É ingenuidade ou há aqui uma estratégia escondida?

Os economistas da “fracção Cassandra”, de que agora se fala, chamaram de facto a atenção para o potencial de crise da bolha financeira, mas viram aí apenas um “desenvolvimento errado”, ou um “excesso”, sem reconhecerem a conexão interna com a falta de base de valorização real e com a conjuntura do deficit. Por isso eles partiam do princípio de que o rebentar desta bolha levaria apenas a uma mossa passageira na conjuntura mundial, que em breve se ergueria de novo. Nas últimas décadas a classe política, por todo o mundo e independentemente dos partidos, passou-se de armas e bagagens para o neoliberalismo e seu postulado de desregulamentação, precisamente porque assim se podia aparentemente iludir os limites da valorização do capital, que já estavam à vista. A actual viragem, com os traços bizarros de uma mudança milagrosa de liberais hard core para capitalistas de Estado, deve ser antes de mais considerada como um acto de desespero. Tal como já a viragem neoliberal fora uma cega fuga em frente, por maioria de razão o é esta inversão. Isto não tem nada a ver com ingenuidade, nem com grande estratégia, mas com o beco sem saída em que estão as instituições capitalistas, que no entanto se apresentam às elites económicas e políticas como a única forma de socialidade possível.

Peer Steinbrück apresentou um chamado plano de 8 pontos para a remoção dos produtos tóxicos dos bancos. Como avalia estas propostas?

Este plano, assim designado com optimismo, é um insustentável programa de disparates, e como tal poucos dias depois já é lixo. Ele não passava de exigências, tão banais como baratas, de “mais transparência” nos negócios bancários, reflexões completamente indefinidas sobre a re-regulação e um virar de casaca populista, no sentido da fúria popular contra “os altos rendimentos dos gestores”, como mera manobra de diversão. O que Steinbrück referia apenas envergonhadamente parece agora ter-se tornado claro na cimeira do G-7: garantias estatais generalizadas, amplas estatizações de bancos e passagem à “contabilidade criativa” (modificação das regras do balanço). Trata-se da mesma farsa que no caso da modificação “criativa” das estatísticas do desemprego e do cálculo da inflação. Mas a massa dos créditos malparados não se pode escamotear tão facilmente como as estatísticas sociais.

O Estado, apesar de se mostrar avaro no rendimento mínimo para os beneficiários do [programa anti-social] Hartz-IV, tem agora de repente uma soma de milhares de milhões a mais par aguentar os bancos. Donde vem ela?

Não tem nada essa soma a mais. Só que não está disposto a recorrer a estes métodos de financiamento aventureiros para acudir à existência de seres humanos, “supérfluos” segundo os critérios capitalistas, mas sim para a conservação do sistema financeiro. Estas somas nunca vistas (biliões e não milhares de milhões) têm de ser conseguidas – esta a única possibilidade – no mercado financeiro global, através de empréstimos adicionais, o que no entanto se deve ter tornado difícil nas novas condições. O Estado teria de pagar juros mais altos, o que faria subir o nível geral dos juros, contrariando a política de redução de juros dos bancos centrais, ou então teria de subir drasticamente os impostos. Qualquer das hipóteses mandaria de vez abaixo a conjuntura à beira da queda. A outra hipótese consiste em os bancos centrais transferirem simplesmente para o Estado dinheiro criado do nada, sem contra-garantias; e possivelmente também para os cambaleantes conglomerados empresariais, para adiar a crise económica mundial. Isso significaria portanto liquidar os limites institucionais à criação de dinheiro e recorrer directamente à impressão de notas, como na economia de guerra da Primeira Guerra Mundial. O que mais não seria que usar de novo, desenfreadamente e numa nova dimensão, o mesmo meio que agora é lamentado como a causa da crise financeira. O resultado seria a inflação galopante que agora já se faz notar num nível baixo. Se um café custar, digamos, 30 euros, um crescimento assim induzido reduzir-se-ia ao absurdo, enquanto simultaneamente seriam desvalorizadas todas as poupanças em dinheiro. As garantias estatais vendidas de momento como “medidas geradoras de confiança” podem transformar-se rapidamente no seu contrário, se as modalidades de questionar o financiamento se concretizarem. Ironicamente o terror da financiabilidade, até aqui vigente na administração de crise anti-social, vira-se agora contra o próprio sistema capitalista.

Fica-se com a impressão que, depois de décadas em que os lucros obtidos na especulação foram parar aos bolsos privados, os prejuízos são agora socializados, e talvez mesmo, com os pacotes de ajuda estatal, de novo imensas somas de dinheiro lançadas nas goelas dos que causaram a crise e se abotoaram com os lucros (Paulsen)?

No capitalismo os lucros são sempre privatizados e as perdas socializadas na crise, isso é inerente ao sistema, não é nada de novo. E desde logo a especulação não é a causa da crise, mas sim a consequência da falta de possibilidades de valorização real, que finalmente se manifesta na crise. O ressentimento popular contra os tubarões da finança não tem nada a ver com crítica emancipatória, mas resulta da ilusória confiança atávica no capitalismo “são”, que é precisamente o que provoca a crise. “Respeitável” nesta sociedade é pura e simplesmente abotoar-se com os lucros; qualquer titular de pequena ou média empresa é um aproveitador dos lucros profundamente decente, para já não falar dos empresários dos pequenos estabelecimentos com salários de miséria. Este apropriar-se dos lucros não é sequer uma relação de vontade subjectiva, mas uma necessidade objectiva do sistema; os gestores são apenas funcionários deste. Quando o preconceito popular geral face à crise financeira denuncia como apropriadores de lucros apenas os banqueiros, de quem é de desconfiar, tem de ser ele próprio denunciado como mentalidade de solícito animal de trabalho, que a si mesmo se vê como apropriador de lucros “normal” e “sério”. De resto o apropriador de lucros “da economia real”, aparentemente “regulares”, da conjuntura de exportação e serviços baseada no deficit já viveu nos últimos anos precisamente do “deficit spending” da economia das bolhas financeiras. Os amantes do capitalismo “decente” deveriam verdadeiramente estar agradecidos pelo facto de a especulação lhes ter oferecido um tempo de vida suplementar, pois de outro modo a “mãe de todas as crises” teria chegado muito mais cedo. Em todo caso esta crise assumiu tal dimensão que a própria socialização das perdas se torna precária. Se o Estado assume o comando, então os banqueiros tornam-se de facto seus empregados, e as somas imensas não são despejadas nas goelas de Ackermann e Cª, mas no buraco negro da administração da falência global.

Na sua opinião há algum político, a nível nacional ou mundial, que proponha medidas acertadas?

Agora é para eu dizer “Obama”? Ele provavelmente vai ter de pagar as favas pela confusão nos EUA, e tem chance de uma carreira de bode expiatório “negro”, pois a sua campanha de “change”, bastante pobre de conteúdo e apenas mediaticamente eficaz, vai ter de se revelar como completamente vazia. Aqui já não há carisma que ajude. A chamada política é simplesmente a forma de administração do sistema e dos seres humanos, enquanto a outra face da relação de capital. Quem entra na política já bateu a bota, com a “configuração” nos critérios sistémicos, na matrix fetichista da valorização do valor. É por isso que também a esquerda política chega sempre de novo “a”o capitalismo. A política apenas pode administrar as gritantes contradições e tapar buracos para voltar a abri-los. O azar é que, sob determinadas circunstâncias, o ouvido da política no pulsar das sondagens não ouve nenhuma chance, a não ser a surda ameaça da exaltação populista de uma consciência de massas que procura vítimas, quando as condições de vida capitalistas são retiradas aos complacentes normalzinhos.

Diz-se hoje que a coligação SPD-Verdes teria no seu tempo colocado as bases para que a crise financeira atingisse a Alemanha. Há aqui algo de verdade? Se então o ministro das finanças Oskar Lafontaine tivesse podido aplicar a sua política com êxito estaria a Alemanha melhor?

Há uma continuidade sem ruptura na viragem neoliberal, desde a administração Kohl, passando pela verde vermelha sob Schröder, até à actual grande coligação de Merkel. Tons intermédios são aqui apenas espasmos; as modificações cosméticas, por causa das diferentes colorações ideológicas, não foram essenciais. Evidentemente que os verdes vermelhos fizeram a agulha para o desenvolvimento que haveria de levar à presente crise, por exemplo através das bonificações fiscais para a “grande farra” da batalha das fusões e aquisições. Isso foi apenas o reverso do [programa anti-social] Hartz-IV. Os verdes vermelhos neste caso seguiram não apenas o mainstream neoliberal, mas também a dinâmica objectiva do processo de crise capitalista. Após o fim da prosperidade fordista e o desabar da regulação keynesiana no desenvolvimento inflacionista do começo dos anos 80, o crescimento posterior só podia ser simulado através da expansão do “capital fictício”, o que foi executado pela desregulação neoliberal. O governo verde vermelho era um governo capitalista, que fazer? Como tal ele só pôde fazer jus, no quadro da globalização, às condições de valorização tornadas sem base. Lafontaine e os seus seguidores não são críticos do capitalismo, mas nostálgicos do keynesianismo nacional que há muito tempo deixou de funcionar. Como política de governo isso teria já então fracassado. A invocação da “Alemanha modelo”, que se poderia desacoplar do capital mundial, é não apenas uma ilusão, mas na essência nacionalista e reaccionária. Tais entoações fazem-se agora ouvir também da parte de Merkel e de Steinbrück, que procedem com se o mal tivesse vindo dos EUA invadir a inocente e sólida Alemanha, mas que na realidade desde o princípio se envolveram fortemente, até mesmo com os “ávidos” pequenos especuladores comuns, que agora mais do que nunca fazem o papel de enganados. O programa de Lafontaine só tem eficácia para as sondagens e “para o voto”, na medida em que ele na prática nunca deverá tornar-se política de governo. Onde o Partido da Esquerda participa no governo do Land (Berlim) apoia as restrições sociais como “coerções objectivas”. Por isso há entre eles, como antes entre os Verdes, uma fracção de realos que gostaria de conter Lafontaine, para conseguirem tornar-se capazes de governar. O que não é assim tão improvável, em caso de posterior agravamento da crise. Os realos poderiam cavalgar na onda do capitalismo de Estado “pragmático”, trazido de volta mais que de repente, pois os realos rapidamente serão aceites junto do poder, se fornecerem a legitimação da co-gestão da crise como bons alunos.

A ATTAC é publicamente considerada como o Forum para a mais aguda crítica do capitalismo financeiro neoliberal. Que pensa disso, em termos analíticos e práticos?

A crítica da ATTAC não é aguda, mas obtusa, e foi desde sempre, à semelhança das ideias de Lafontaine, marcada pela nostalgia keynesiana. Uma crítica isolada do neoliberalismo não serve de nada, porque não analisa a conexão interna da viragem neoliberal com os limites da valorização real do capital, mas considera esta doutrina apenas como política económica “errónea”, supostamente imposta através duma espécie de putsch. Se agora as elites capitalistas lançam pela borda fora o neoliberalismo, tão nervosamente como outrora se desfizeram do keynesianismo, isso só mostra que o capitalismo não coincide com um determinado modo de regulação. Por maioria de razão uma crítica isolada do capitalismo financeiro não serve para nada, porque põe de pernas para o ar a relação entre a economia real e a superstrutura financeira, e porque responsabiliza a especulação por uma crise que tem a sua origem precisamente na própria lógica da valorização. Também a ATTAC não queria mais nada que um “bom” capitalismo dos postos de trabalho. Há muito que vem sendo criticado que esta espécie de “crítica do capitalismo” é reaccionária e, consciente ou inconscientemente, querendo ou não querendo, contém um “anti-semitismo estrutural”, porque não ataca os fundamentos do capitalismo, mas obedece apenas ao preconceito popular do “capital rapinante”, que é responsabilizado por todos os males sociais e já desde há 200 anos é ligado aos judeus. A defesa da ATTAC contra esta acusação foi sempre, na melhor das hipóteses, titubeante e duvidosa. Por isso houve e há no círculo nada transparente da ATTAC simpatias pelo devorador de judeus Ahmadinejad, que é estilizado como luminosa figura “anti-imperialista” e também declarou publicamente como causa da crise financeira uma “ameaça judaica mundial”. Actualmente a ATTAC parece estar ocupada em sentir, em vez de imaginar, que fantasmas foram acordados pela crítica isolada da especulação. Quando a ATTAC agora, com a grande crise financeira, com o fim do neoliberalismo e com a passagem à re-regulação e à estatização dos bancos, vê amadurecer os seus sonhos de florescência, e espera, com o ministro do trabalho Scholz, o regresso do Estado social keynesiano, ela só pode vir a envergonhar-se desta opção a muito curto prazo. Na realidade, o capitalismo vai ser reduzido às suas reais condições de valorização. Em consequência, está à vista uma depressão global e não o regresso ao crescimento “real” após os “desvios”. O novo capitalismo de Estado vai mostrar uma face horrorosa a agravar dramaticamente a administração de crises repressiva. Talvez que mesmo [o programa anti-social] Hartz-IV venha a parecer em retrospectiva relativamente acolhedor. E depois? Terá a ATTAC de acabar por reivindicar o regresso da economia das bolhas financeiras, porque é incapaz de pôr em causa as condições de vida capitalistas enquanto tais? Ou uma pessoa desfaz-se no turbilhão das ideologias de massas que confirma os piores receios? Ou já só nos resta rezar, uma vez que ainda assim nos tornámos Papa?

O que se segue a esta crise aniquiladora?

Falar de uma crise “aniquiladora” coloca numa certa inadequação a pergunta sobre o que vem “depois”. A crença congénita da esquerda na capacidade de regeneração do capitalismo corresponde tão-somente aos comentários na imprensa económica, que também falam de “após o capitalismo”, enquanto a verdadeira dimensão da crise apenas começa a revelar-se. Naturalmente que vai haver reacções técnicas das bolsas em movimento ascendente, talvez alimentadas pelas esperanças de curto prazo na eficácia do pacote de medidas estatais. Mas a dinâmica do processo de crise já não vai voltar ao nível anterior, se não surgirem novos potenciais de valorização real, que não estão à vista em lado nenhum. Cada estabilização temporária só pode preparar o próximo surto de crise tanto mais violento. Seria necessário um contra-movimento social autónomo, para lá do espaço nacional, que não permitisse aos administradores de crises contrariarem os interesses vitais, e que negasse qualquer exclusão social, sexual, étnica ou “rácica”. Movimento que, no entanto, está tão-pouco à vista como os novos potenciais de valorização. Portanto, o que se pode dizer é que a desintegração social vai prosseguir, numa dimensão até aqui nunca vista, também nos centros do capitalismo, incluindo na “inocente” RFA.

O Beco