Daily Archives: 03/10/2008

Conferência anti-islã: populistas de direita reúnem-se na Cidade dos Imigrantes

Lenz Jacobsen

Os populistas de direta querem montar uma frente unida para combater o que eles chamam de crescente islamização do continente, em uma conferência em Colônia neste final de semana. Sem poder para impedir o evento, autoridades locais antecipam a chegada de milhares de manifestantes.

A praça Heumarkt, na parte antiga de Colônia, é mais conhecida por ser local de convergência de milhares e milhares de foliões fantasiados no dia 11 de novembro, às 11h da manhã, celebrando a chegada do mais famoso festival ao longo do Rio Reno, o carnaval. Neste sábado, contudo, a Heumarkt vai se tornar o ponto focal para um evento totalmente diferente e decididamente menos alegre. Em vez das músicas animadas incansáveis de carnaval, a praça estará cheia de lemas da direita radical e provocações anti-muçulmanas.

O grupo Pró-Colônia (Pro Köln), que ganhou proeminência política nesta cidade de 1 milhão de habitantes com sua campanha vociferante contra a construção de uma enorme mesquita – e até conquistou assentos na Câmara dos Vereadores no caminho – deve fazer uma conferência para deter o que descreve como crescente “islamização” da Europa. Seria difícil encontrar outra cidade alemã onde o debate sobre a integração e o papel do islã tem sido tão concreto quanto aqui. E em nenhuma outra parte foi mais fácil observar o dano colateral que pode ocorrer quando políticos tentam lidar com os temores que muitas pessoas têm sobre a chamada islamização.

Há semanas, o Pró-Colônia promete tornar o ponto histórico em um palco para populistas europeus de direita, com 100 participantes e centenas de simpatizantes reunindo-se na “Conferência Anti-Islamização”. Mais de 40 mil contra-manifestantes também são esperados na cidade, e a polícia está descrevendo a tarefa como uma das “mais difíceis” de todos os tempos. Colônia, afinal, abriga 330 mil pessoas com origem estrangeira -entre elas, 64 mil com passaporte turco. Três mil policiais de todo o Estado da Renânia do Norte-Vestfália serão enviados à cidade.

Em um esforço para atrair grandes multidões ao evento, o Pró-Colônia recentemente revelou uma lista de palestrantes incluindo os mais famosos na cena populista de direita européia. Entre os principais, listou Jean-Marie Le Pen da Frente Nacional francesa (“acredito na desigualdade de raças”) e Heinz-Christian Strache, candidato a chanceler pelo Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) – um homem que teve contato com o grupo extremista de direita banido Juventude Viking e quer fazer uma emenda na constituição austríaca para proibir a construção de mesquitas. O grupo também disse que esperava Mario Gorghezio da Liga Norte da Itália e Filip Dewinter, do Vlaams Belang da Bélgica, grupo de direita flamengo que conquistou 12% dos votos nas últimas eleições. Seu objetivo é formar uma aliança contra a islamização da Europa.

Pervertendo a verdade

Entretanto, a poucos dias do evento, correram boatos que os organizadores da conferência talvez tivessem manipulado a verdade sobre os participantes famosos.

Quando contatados pelo Spiegel Online nesta semana, um porta-voz de Le Pen alegou que o político francês nunca concordara em discursar ou participar e acusou o Pró-Colônia de usar seu nome “para fazer propaganda”. No início desta semana, Strache, da Áustria, cancelou sua participação. Em seu lugar irá o secretário-geral do FPÖ, Harald Vilimsky.

Tanto Le Pen quanto Strache ainda estão listados como principais palestrantes no site da conferência. Entretanto, em vez de remover seus nomes, o Pró-Colônia está reclamando de uma “campanha de desinformação”. Sem as duas estrelas políticas da extrema direita, a lista de participantes está começando a parecer muito menos impressionante. A conferência, ainda assim deve prosseguir.

O Pró-Colônia tem como assunto predileto a questão da “islamização” da Europa. Recentemente, o grupo beneficiou-se quando partidos políticos estabelecidos favoreceram a construção do que foi descrito como “mega-mesquita” na cidade. No dia 28 de agosto, membros da prefeitura deram sua aprovação final para a construção da casa de adoração muçulmana, que terá minaretes de 55 m de altura. Liderados por Markus Beisicht, ex-membro do Partido Republicano de extrema direita da Alemanha, o movimento contra a construção da mesquita pelo Pró-Colônia promoveu o grupo nas eleições locais recentes, nas quais os populistas de direita obtiveram 4,7% dos votos totais.

O Pró-Colônia diferencia-se do pouco palatável Partido Nacional Democrático (NPD), de extrema direita, descrevendo-se como conservador moderado para os que se opõem ao que descreve como islamização da sociedade alemã. Para sua primeira conferência, convidou pessoas que pensam da mesma forma em toda a Europa.

Do ponto de vista dos participantes, a conferência terá lugar em território neutro. “A direita na Alemanha ainda é muito fraca”, explicou o separatista flamengo Dewinter. “Então, haverá menos brigas internas aqui”. Dewinter e os outros dizem que estão tentando organizar uma lista de candidatos para as eleições de 2009 para o Parlamento Europeu. O líder belga até sonha em criar um “Internacional de Nacionalistas”, um jogo de palavras com a organização internacional comunista.

Essa perspectiva já está deixando alguns países do Oriente Médio nervosos. Há duas semanas, o Irã pediu aos franceses – que atualmente detêm a presidência rotativa da União Européia – que proibissem a conferência. Os políticos e as autoridades em colônia vêm procurando fazer isso há mais de um mês. Entretanto, segundo informou um advogado especialista à polícia, seria improvável que a justiça concordasse em proibir a reunião. A polícia teve sucesso, entretanto, em impedir que os ativistas da extrema direita se reunissem na frente da mundialmente famosa Catedral de Colônia.

“Uma enorme dor de barriga”

“É uma enorme dor de barriga”, diz o prefeito de Colônia Fritz Schramma, cuja prefeitura será forçada a deixar seus próprios escritórios disponíveis aos nacionalistas na sexta-feira. As autoridades tiveram pouca escolha. Os políticos do Pró-Colônia, membros do governo da cidade, estão meramente exercitando seu direito legal de anunciar uma “conferência ampla do partido”, na prefeitura, junto com seus convidados. O líder do Pró-Colônia, Beisicht, disse que o grupo provavelmente se reunirá “em torno de Colônia e nos arredores da cidade”. Também estava no programa uma viagem para Ehrenfeld, bairro onde a construção da enorme mesquita deve começar em breve.

Às vésperas do início da conferência, ainda não está clara a agenda exata. Uma coisa é certa, contudo: uma batalha de três dias entre a direita e esquerda alemã é esperada quando a conferência tiver início. Os dois grupos devem convergir de toda a Alemanha para participar de protestos em torno do evento. Na cena da esquerda, alguns já vêm treinando técnicas de barricadas para tentar paralisar a conferência neste final de semana.

Markus Beisicht, entretanto, parece estar mais ansioso com outros grupos do que com o Black Bloc de esquerda. De fato, está preocupado com o apoio não desejado de certas partes.

“Realmente, seria ruim se os neonazistas atraíssem atenção para nós”, diz advogado.

Essa avaliação é compartilhada por altas autoridades do Escritório de Proteção da Constituição, agência de inteligência alemã estabelecida depois da Segunda Guerra mundial para impedir a atividade neonazista. “Isso destruiria a imagem pública conservadora de centro que o Pró-Colônia tentou construir com tanto cuidado”, disse o vice-presidente da agência, Burkhard Freier.

Enquanto isso, a cidade de Colônia encontrou sua própria forma de dar leveza à situação. Neste final de semana, planeja empregar duas das armas mais valiosas de seu arsenal do carnaval. Os grupos populares locais de carnaval Die Höhner e Brings devem tocar músicas críticas da direita européia.

“Der Spiegel”

O suicídio de Maiakovsky

Leon Trotsky

Blok [1N] reconhecera enorme talento em Maiakovsky. Pode-se dizer, sem exagero, que havia em Maiakovsky reflexos de gênio. Não era, entretanto, um talento harmonioso. Onde se poderia, aliás, encontrar harmonia artística neste decênio de catástrofes, no limite não-cicatrizado de duas épocas? Na obra de Maiakovsky, os cumes despontam ao lado dos abismos, manifestações de gênio explodem ao lado de estrofes banais, às vezes mesmo de uma vulgaridade gritante.

Maiakovsky quis, sinceramente, ser revolucionário, antes mesmo de ser poeta. Na realidade, ele era acima de tudo um poeta, um artista, que se afastou do velho mundo sem romper com ele. Somente depois de Outubro, procurou e, em certa medida, encontrou um ponto de apoio na Revolução. Até o fim, porém, não se confundiu com ela, porque não se lhe achegou no duro período dos anos de preparação clandestina. Maiakovsky, geralmente, não era só o cantor, mas também a vítima de uma época de crise, que, preparando os elementos de nova cultura com uma força até então desconhecida, passa mais lentamente do que se precisaria para assegurar a evolução harmoniosa de um poeta, de uma geração de poetas, que se entregam à Revolução. Deve-se observar ai a ausência de harmonia interior, que se manifestava no estilo do poeta, a insuficiente disciplina do seu verbo e o excesso de suas imagens: a quente lava do patético e a incapacidade de ligar-se à época, à classe, o gracejo de mau gosto, pelo qual procura – ao que parece – proteger-se contra todo golpe do mundo exterior. Supunha-se, às vezes, que se tratava de hipocrisia artística e também psicológica. Não! As cartas escritas, antes de sua morte, repetem o mesmo som: que significa a fórmula lapidar “o incidente está encerrado” pela qual o poeta risca o último traço?

O lirismo e a ironia serviam ao romântico retardatário Henri Heine como o patético e a vulgaridade servem ao futurista retardatário Maiakovsky: a vulgaridade opõe-se ao patético, da mesma forma que o lirismo à ironia, para defendê-lo .

O aviso oficial, colocado pelo Secretariado [1*] numa linguagem de protocolo jurídico, apressa-se a informar que esse suicídio “não tem nenhuma relação com as atividades sociais e literárias do poeta”. O que vale dizer que a morte voluntária de Maiakovsky não se relaciona com a sua vida ou, ainda, que a sua vida nada tinha em comum com a sua criação revolucionária e poética. É transformar a sua morte num fato fortuito. Isso não é verdadeiro nem necessário nem… inteligente! “A barca do amor partiu-se na vida corrente”, escreveu Maiakovsky, nos seus últimos versos. Em outras palavras, “suas atividades sociais e literárias” cessaram de elevá-lo acima das confusões da vida quotidiana, para colocá-lo ao abrigo de golpes insuportáveis que o atingiam. Como escrever então “não tem nenhuma relação”?

A doutrina oficial, que hoje encontramos sobre literatura proletária, no campo literário, é a mesma que existe no terreno econômico: baseia-se numa total incompreensão dos ritmos e dos prazos da maturação cultural. A luta pela cultura proletária – alguma coisa como a coletivização total de todas as conquistas da humanidade no quadro do plano qüinqüenal – apresentava, nos primórdios da Revolução de Outubro, um caráter de idealismo utópico. E eis precisamente por que Lênin a ela se opôs, da mesma forma que o autor destas linhas. Ela, porém, se tornou nestes últimos anos simplesmente um sistema de comando burocrático – e de destruição da arte. Proclamaram-se clássicos da literatura pseudoproletária os fracassos da literatura burguesa do gênero de Serafimovitch, Gladkov [2N] & Cia. Batizou-se uma flexível nulidade do tipo de Averbach [3N] como o Belinsky [4N]… da literatura proletária(!). A alta direção do beletrismo encontra-se nas mãos de Molotov, negação de todo espírito criador da natureza humana, que se fez artista (o adjunto de Molotov é Gussev [5N] ) em vários campos, exceto na arte. Essa escolha dá toda a imagem da degenerescência burocrática das esferas oficiais da Revolução. Molotov e Gussev elevaram à categoria de beletrismo uma literatura desfigurada, pornográfica, de cortesãos revolucionários, obra de um coletivo anônimo.

Os melhores representantes da juventude proletária, cuja vocação é preparar as bases de nova literatura e de nova cultura, caíram sob as ordens de pessoas que converteram em critério da realidade a sua própria falta de cultura.

Sim, Maiakovsky é o mais viril e o mais corajoso de todos os que, pertencendo à última geração da velha literatura russa e ainda por ela não-reconhecidos, procuraram criar laços com a Revolução. Sim, ele desenvolveu laços infinitamente mais complexos que todos os outros escritores. Um dilaceramento profundo nele permanecia. Às contradições, que a Revolução comporta, sempre mais penosa para arte, na busca de formas acabadas, somou-se, nos últimos anos, o sentimento do declínio a que o conduziram esses burocratas. Maiakovsky, pronto para servir à sua época, pelos mais modestos trabalhos quotidianos, não podia aceitar uma rotina pseudo-revolucionária. Era incapaz de ter plena consciência disso, no plano teórico, e, por conseguinte, de encontrar o caminho para superá-la. Sobre si mesmo, disse que “não está à venda”. Por muito tempo e vigorosamente, ele se recusou a entrar no kolkhoz administrativo da pretensa literatura proletária de Averbach. Tentou fundar, sob a bandeira do LEF [6N], a ordem dos ardentes cruzados da revolução proletária para servir à causa com toda a consciência e não sob ameaças. O LEF, naturalmente, não tinha força para impor o seu ritmo aos 150.000.000: a dinâmica dos fluxos e refluxos da Revolução era muito pesada, muito profunda. No mês de janeiro deste ano, Maiakovsky, vencido pela lógica da situação, fez grande esforço para aderir, finalmente, à Associação Soviética dos Poetas Operários (VAPP), dois ou três meses antes de matar-se. Essa adesão não lhe trouxe nada. Retirou-lhe, pelo contrário, alguma coisa. Quando êle liquidou suas contas, tanto no plano pessoal quanto no político, e movimentou seu barco, os representantes da literatura burocrática, aqueles que estão à venda, exclamaram: “inconcebível, incompreensível”. Demonstravam, assim, que não compreendiam tanto o grande poeta Maiakovsky como as contradições da época.

A Associação dos Poetas Operários (VAPP), criada a partir dos progroms contra núcleos literários autenticamente revolucionários e vivos, e submetida à sujeição burocrática, caiu ideologicamente no abandono e aparentemente não conseguiu unidade moral: na partida do maior poeta da Rússia soviética, só houve como resposta o embaraço oficial: isso “não tem nenhuma relação. . . ” É pouco, realmente pouco, para quem quis edificar nova cultura dentro do mais curto prazo.

Maiakovsky não se tornou nem podia tornar,se o fundador da literatura proletária pela mesma razão que não se pode edificar o socialismo num só país (2*). Nos combates do período de transição, ele era o mais corajoso combatente do verbo, e tornou-se um dos mais indiscutíveis precursores da literatura que se dará à nova sociedade.

Notas:

[1N] Alexander Blok (Александр Александрович Блок), (16 de novembro de 1880 – 7 de agosto de 1921), foi provavelmente o mais talentoso poeta lírico que a Rússia produziu após Alexander Pushkin. Trotsky em sua obra “Literatura e Revolução” afirmou que: “Na verdade, Blok não é um dos nossos, mas ele caminhou em nossa direção. E, ao fazer isso, ele falhou. Mas, o resultado desse seu impulso produziu a obra mais significativa de nossa época. Seu poema “Os Doze” permanecerá para sempre.

[1*] Trata-se do Secretário-Geral do Partido, isto é, de Stalin.

[2*] Trotsky, opondo-se a Stalin, sustentava que, sendo o socialismo uma ordem econômica internacional, o destino da República Soviética dependeria do curso da revolução na Europa, nos países mais adiantados. Essa idéia dominava os bolcheviques até o início da década de 20, a enfermidade e a morte de Lênin. O próprio Lênin (A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky) acentuava que a Rússia não podia fazer mais do que fez: o seu desenvolvimento ulterior dependeria do curso da revolução mundial. Trotsky apresentaria a degenerescência burocrática da União Soviética – que se exprimia no stalinismo – com a comprovação do seu argumento. A revolução, na Rússia, apenas plantava os alicerces para a construção do socialismo. O stalinismo resulta, precisamente, do cerco imperialista, que isolava o primeiro Estado operário, num país atrasado.

[2N] Gladkov, Feodor Vasilyevich (1883 1958): autor russo.

[3N] Leopold Averbach (1903-193?): crítico literário, foi uma figura destacada da Associação Russa de Escritores Proletários (AREP) até 1932, quando se denunciou o averbachismo e a AREP foi substituída pela União de Escritores Soviéticos. Ironicamente, foi vítima dos expurgos, acusado de trotskista.

[4N ] Belinsky, Vissarion (1811-1848): Crítico literário russo.

[5N] Gussev, S.I. (1874-1933): Militante a partir de 1899, bolchevique e revolucionário profissional. Secretário do Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado e com responsabilidades políticas no Exército Vermelho.

[6N] LEF: abreviatura de Levy Front Iskustv (Frente Esquerdista das Artes), título de uma revista futurista que apareceu em Petrogrado em 1923 e da tendência artística que se reuniu em torno dela. Foi dirigida de 1923 a 1925 por Maiakovsky.

[Boletim da Oposição Russa, maio de 1930]

Leon Trotsky (1879-1940), inicialmente próximo dos mencheviques e em seguida bolchevique, foi um destacado teórico e dirigente político da Revolução Russa de 1917; como Comissário do Povo para a Guerra conduziu o Exército Vermelho à vitória na guerra civil russa e na luta armada contra a invasão imperialista da Rússia Soviética; ajudou a criar e dirigiu a Oposição de Esquerda a Stalin; desenvolveu a teoria da Revolução Permanente e fundou a 4ª Internacional.

“www.socialismo.org.br”

Maio de 68 não foi só revolta estudantil

Leneide Duarte-Plon

Para o filósofo Bertrand Ogilvie, data marca também o maior movimento operário do século XX na França

De Maio de 68 há quem tenha na memória apenas imagens emblemáticas do Quartier Latin sem paralelepípedos, arrancados pelos estudantes para atacar os policiais, dos carros queimados, das barricadas perto da Sorbonne.
Mas a rebelião começou, na realidade, em 22 de março, em Nanterre (França). Naquele dia, os estudantes fizeram um movimento pedindo a libertação de militantes do Comitê Vietnã, que estavam em prisão domiciliar. Um jovem estudante de sociologia de 22 anos, de cabelos ruivos, propôs a ocupação de um dos prédios da universidade por toda a noite. Esse militante anarquista se chamava Daniel Cohn-Bendit e, naquele dia, outros estudantes se juntaram a ele. Estava lançado o “Movimento 22 de março”.
Com as reivindicações e conquistas da esquerda operária e estudantil, o movimento ainda incomoda a direita, mesmo 40 anos depois. O presidente francês Nicolas Sarkozy propôs acabar de vez com “a herança de Maio de 68”. O filósofo e ex-ministro Luc Ferry, autor de um livro sobre o período, tentou reduzir as revoltas dos estudantes e dos trabalhadores a uma revolta por liberdade individual e casamento por amor.
Nanterre, uma cidade tradicionalmente comunista a oeste de Paris, era um centro importante de estudantes anarquistas, como Cohn-Bendit, que pertencia ao grupo Preto e Vermelho, de militantes trotskistas, como Daniel Bensaïd, ou de jovens da Juventude Estudante Cristã.
O diretor da faculdade de Letras não era outro senão o filósofo Paul Ricoeur. Com a radicalização do movimento estudantil, Cohn-Bendit, que tinha adotado a nacionalidade alemã de seu pai para fugir ao serviço militar, foi expulso da França em 22 de maio.
Em Nanterre, hoje transformada em uma universidade majoritariamente de direita, um grupo de 20% de irredutíveis ainda vota à esquerda. São principalmente estudantes dos cursos de filosofia, sociologia, artes do espetáculo e linguística.
Os filósofos Etienne Balibar e Bertrand Ogilvie são um pouco responsáveis por esses resistentes ao liberalismo. E, assim como o filósofo Alain Badiou, tanto Balibar quanto Ogilvie estão engajados na defesa dos direitos dos “sans-papiers”, os estrangeiros ilegais, os novos párias da sociedade francesa e européia.
A França mudou profundamente graças a Maio de 68. Houve grandes conquistas trabalhistas, fruto da greve geral. Houve também uma revolução de costumes e mentalidades. Somente depois dessa época foram implantadas em todo o país as classes mistas no ensino público. Até então, em toda a França, meninos e meninas estudavam em escolas republicanas onde se podia ler “École de filles” ou “École de garçons”. Até para abrir uma conta bancária, as mulheres francesas tinham que pedir autorização aos maridos.
Ogilvie, 55 anos, é professor de filosofia em Nanterre, É também psicanalista, autor de “Lacan – La Formation du Concept de Sujet (Lacan – A Formação do Conceito de Sujeito, ed. PUF), um livre célebre sobre o psicanalista, traduzido em várias línguas, inclusive japonês e português. Desde 2002, ele co-organiza o seminário mensal do Centro Internacional de Estudo sobre a filosofia francesa contemporânea, da École Normale Supérieure-Ulm.
Na entrevista a seguir, Ogilvie diz que a direita caricatura Maio de 68 e enfatiza: “Esquecem de dizer que Maio de 68 foi, antes de tudo, um movimento operário enorme, o maior que a França teve no século XX”. Para o filósofo, Maio de 68 foi “a penúltima vez em que a burguesia teve medo na França”.
*

O que resta hoje de Maio de 68 em Nanterre?
Bertrand Ogilvie: Nada.

Não há então na Universidade de Nanterre uma herança de Maio de 68?
Ogilvie: Não.

Os estudantes de Nanterre se interessam por Maio de 68, prepararam debates e conferências para comemorar os 40 anos da revolta e das greves?
Ogilvie: Há três tipos de estudantes em Nanterre hoje. Primeiramente, os que fazem direito, ciências econômicas e mesmo história, que não se interessam nem um pouco por esse período e são contra Maio de 68. Eles são de direita e são muito numerosos.
Depois, há um grande número de estudantes que são o efeito da massificação do ensino universitário francês, que vêm de horizontes muito variados, que estudam psicologia, literatura e línguas, que não são nem um pouco politizados, não se interessam por Maio de 68, mas não são contra, simplesmente ficam de fora do debate político, como na greve do fim do ano passado.
E, finalmente, há uma minoria de estudantes de filosofia, sociologia, artes do espetáculo e linguística que se interessam e se manifestam fazendo greves e debates. Estes são uns 20%.
Quanto a Maio de 68, mesmo os estudantes de filosofia, que são muitíssimo engajados nos movimentos de greve atuais, jamais reivindicam qualquer herança dessa data em seus atos e lutas. É uma página da história estudantil e do movimento operário que não lhes interessa.

Por que o movimento caiu no esquecimento exatamente em Nanterre?
Ogilvie: Não é de estranhar. A referência a Maio de 68, ou a Nanterre como a origem do movimento, não existe mais na universidade, há muito tempo. Todos os professores que participaram do movimento de Maio de 68 estão aposentados ou prestes a se aposentar.

Como o sr. define Maio de 68? Para a direita, foi uma revolta de estudantes anarquistas, para a esquerda é um movimento de emancipação política, de importantes lutas dos trabalhadores.
Ogilvie: Foi a penúltima vez em que a burguesia teve medo na França. A última foi em 1981, com a vitória de François Mitterrand (para a Presidência do país), quando muitos foram para a Suiça, temendo o pior para o capitalismo francês.
A direita caricatura Maio de 68 como um movimento de idéias, como uma história de mentalidades, algo de puramente ideológico, que tem a ver com a vida pessoal, as sensibilidades etc. Evidentemente, ela condena Maio de 68. A esquerda o caricatura no sentido da aprovação, para celebrar a data.
Esquecem de dizer que Maio de 68 foi, antes de tudo, um movimento operário enorme, o maior que a França teve no século XX. Foi um movimento de greve geral. Ele começou com os estudantes, mas os resultados da greve geral em todos os setores foi importantíssimo: os acordos de Grenelle, o aumento do salário mínimo, muitos acordos de proteção ao trabalho… Depois, isso foi sendo esquecido, anulado.
A revolta estudantil foi muito importante, mas Maio de 68 foi um movimento operário e universitário. A greve dos estudantes foi um protesto contra o privilégio de estudar, contra a escola como um lugar de segregação social, mas também psicológica, mental, como um lugar de eleitos.
Logo, isso também dizia respeito ao mundo operário. Foi por isso que eles aderiram maciçamente ao movimento estudantil, porque viram que os estudantes defendiam algo que dizia respeito à vida deles, de seus filhos. A escola e a fábrica são dois aspectos fundamentais, interligados no espírito dos manifestantes da época.

O movimento feminista também foi impulsionado por Maio de 68. Até então, uma francesa precisava da autorização do marido para abrir uma conta num banco…
Ogilvie: Sim, houve avanços consideráveis, muitos cadeados morais e mentais foram destruídos.

O que significa dar aulas em Nanterre? A legenda de Maio de 68 ligada à universidade é importante para quem não viveu a revolta dos estudantes de Nanterre?
Ogilvie: Quando eu era estudante em Paris, nos anos 70, na Sorbonne, havia um centro importante de pensamento crítico quase ortodoxo, os althusserianos dominavam. Depois, tinha Nanterre, que era já considerada pelos estudantes como um lugar onde um pensamento marxista oficial estava morrendo lentamente, já era um lugar de esclerose.
Havia grandes nomes do pensamento marxista próximos ao Partido Comunista ou que eram do Partido Comunista que ocupavam o terreno em Nanterre. E havia a verdadeira alternativa para nós, que era a Sorbonne-rue d’Ulm (com a Escola Normal Superior), onde reinava um althusserismo maoísta, ou ainda a Universidade de Vincennes, rebatizada de Saint-Denis, com Deleuze, Jacques Rancière e Alain Badiou, que representavam um outro estado de espírito, muito mais próximo de Maio de 68, isto é, muito mais libertário, anarquizante, muito mais rock’n’roll e sexy.
Era a rue d’Ulm contre Vincennes, e Vincennes contra a rue d’Ulm. As pessoas que inventaram o pensamento crítico mais avançado naqueles anos na Sorbonne-rue d’Ulm não entenderam Maio de 68, perderam o trem. Maio de 68 não lhes interessava. Ao contrário, incomodou a todos eles.

Era visto como um movimento marginal, não tinha um suporte intelectual?
Ogilvie: Era um movimento organizado em torno de categorias sensíveis, de certa forma, que falava da sensibilidade, que utilizava imagens. E isso não interessava. Só interessava àqueles intelectuais os conceitos e o discurso científico.

Como o sr. analisa o percurso de Daniel Cohn-Bendit de Maio 68 até hoje, como deputado europeu do Partido Verde alemão?
Ogilvie: Não sei, ele é representativo de uma geração que fez uma longa marcha programada em direção à direita.

O sr. acha que o combate dos ecologistas é mais de direita que de esquerda? Cohn-Bendit se define como liberal-libertário.
Ogilvie: Na França, é um combate de centro-direita. Não é a mesma coisa na Itália, na Alemanha. Não é um combate de pessoas muito interessantes, de envergadura intelectual, por isso nunca deu em nada.

Ele é mais próximo de pessoas que fizeram esse percurso em direção à direita, como Bernard-Henri Lévy, Bernard Kouchner?
Ogilvie: É a mesma coisa.

Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

“Trópico”

O domo de poluição em São Paulo

Aziz Nacib Ab`Sáber

Existe necessidade de se compreender melhor o contorno e a funcionalidade do chamado “domo de poluição”. Entende-se por este termo o aparelho natural formado pela emissão de gases e particulados que ascendem para a troposfera, em certo nível de altura. Eles produzem uma ampla abóbada que se esgarça do centro para setores da periferia. Em São Paulo, as emissões ascensionais produzidas pelo mundo urba-industrial se iniciam pela pluma do distrito petroquímico de Cubatão, entram pelo planalto adentro, envergadamente, somando-se aos fluxos de emissões do ABC e, mais adiante, ajuntando-se à imensa massa de gases do centro expandido da cidade de São Paulo. O conjunto todo indo de encontro às encostas florestadas da Serra da Cantareira.

Os ventos assimétricos provenientes do mar – Leste e Sudeste – são os responsáveis principais pela penetração de umidade e envergamento do domo de poluição paulistano. Mas, por outro lado, no verão chuvoso – em janeiro e fevereiro — através de nuvens carregadas de umidade e geradoras de grandes “chuvadas” – as grandes pancadas de chuva que afetam principalmente as zonas Sul, Norte Leste e Nordeste da cidade, ainda que comportando fortes variações espaciais – ocorre o assentamento e a limpeza dos gases e particulados do domo de poluição.

Essas grandes precipitações, acompanhadas de vibrantes trovoadas, distribuem-se em pontos nodais variáveis – sob a forma de nuvens negras e “bigornas” ocasionais – ocasionam grandes problemas de inundações e impactos na funcionalidade da cidade.

Mas, em compensação, são capazes de desmanchar temporariamente o domo de poluição regional que se adensou entre os períodos de maior chuva. No conjunto do planalto algumas massas de nuvens negras em forma de “bigorna” acontecem de forma semi-pontual – anunciando os grandes “torós”, conforme expressão popular dos paulistanos – enquanto o domo de poluição é de uma amplitude regional mais extensa.

Na região de São Luis do Paraitinga – Alto Vale do Paraíba – o povo designava os processos de múltiplas bigornas como responsáveis por “chuvadas” ou “torós” pelo nome de “tromba d’água”: algumas delas lembradas pelas conseqüências desastrosas em relação ao sítio e corpo urbano de pequenas cidades regionais.

Os estudos de clima urbano iniciado com Carlos Augusto Monteiro e ampliados nas pesquisas de Magda Lombardi, através de imagens de satélites, têm interesse particular para orientar projetos de arborização e multiplicação de praças e pracinhas minimizadoras do calor e mais que isso: para facilitar a previsão de impactos sub-regionais na Grande São Paulo e conjunto do Planalto Paulistano. Para atender as condicionantes climáticas naturais da região de São Paulo o trabalho mais importante já publicado é o Atlas da Dinâmica Climática do Estado de São Paulo, elaborado por Carlos Augusto Monteiro, em Rio Claro (Unesp) e publicado na íntegra pelo Instituto de Geografia da USP.

A percepção do autor sobre a periodicidade climática, em termos de variações anuais do sistema pluviométrico, abriu caminho efetivo para um verdadeiro entendimento de uma climatologia dinâmica regional. De tal maneira que os técnicos e pesquisadores generalistas, que falam em conseqüências alarmantes do aquecimento global, deveriam levar em conta a problemática da periodicidade e as perturbações que ocorrem sistematicamente por todas as regiões da América e do mundo. Compreender o jogo das massas de ar, em suas variações periódicas, é parte do conhecimento necessário para um planejamento múltiplo sobre a racionalidade da cidade e do seu entorno e, também, para evitar interpretações radicais sobre os processos de mudanças climáticas na visão do cotidiano.

A questão do aquecimento do corpo urbano metropolitano pelo tamponamento dos solos e construtivismo exagerado merece, certamente, também tratamento mais detalhado e interdisciplinar. É verdadeiro que a porção central da cidade de São Paulo tenha sofrido um aumento de temperatura bastante significativo em um século: de 18,6º, no início do século 20 – Belfort de Matos – atingiu uma média de 20,4º ou pouco mais no início do terceiro milênio. Um século, portanto, de aquecimento em uma área de uma gigantesca cidade, como é o caso da grande São Paulo.

Para minimizar os efeitos do calor mais forte, nos meses de transição primavera- verão, e meses de janeiro-fevereiro, deveria existir sempre um conjunto de projeto de arborização urbana e gestão de bosques remanescentes de antigas matas: no caso de São Paulo, e uma proteção integrada das florestas das serranias envolventes do planalto paulistano onde quer que eles existam. Seja em Cotia-Embu; São Migual-Suzano, Itapevi-Barueri, Santana de Parnaíba-Araçariguana, ou Paralheiros-Guarapiranga, Itapecirica da Serra-Ibiúna, além de pequenos espaços públicos sujeitos a invasões, se não forem bem cuidados. Nesses quintais esquecidos podem ser feita uma combinação de jardinagem com reintrodução, ainda que parcial, de espécies nativas.

Aziz Nacib Ab`Sáber é professor emérito da FFLCH/USP e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados/USP.

“Scientific American Brasil”

Karl Marx manda lembranças

Amarildo – A Gazeta (ES)

Hostilidades da ignorância

Antiintelectualismo prospera e contamina a política americana: em vez de idéias, buscam-se slogans

Lúcia Guimarães*

Não é todo dia que me encontro presa num engarrafamento com um juiz da High Court britânica. Para agravar a tensão, enfrentamos o tráfego por causa da minha desorientação geográfica. Se você se meter numa trapalhada semelhante, é melhor estar em companhia de alguém cuja condição e condicionamento social o impeçam de ter um ataque de nervos. Comentários sobre a meteorologia, enfim, small talk sobre amenidades são úteis para enfrentar o fato de que passaremos mais duas horas no carro pequeno, com minha cadela nada aristocrática pulando no banco de trás.

Mas, como não tomei banho frio no inverno em Eton, a tradicional escola freqüentada pelos Windsors, não fui estoicamente iniciada nos rituais de abnegação e cresci numa barulhenta família de brasileiros + italianos, vou torturar com minhas paixões o passageiro infeliz que cometeu o desatino de me pedir carona. Conversamos sobre a cobertura da campanha americana e desfilo exemplos da polarização ideológica indiferente aos fatos.

“Ah, a ignorância hostil”, ele suspirou, com suas vogais tão redondas que tive que me controlar para não sair cantarolando a trilha de My Fair Lady. A ignorância hostil resume muito do que se vende por cultura nos Estados Unidos dos últimos sete anos e meio. Slogans substituem construções sintáticas coerentes sobre a realidade.

Num artigo sobre Bernard-Henry Levy na resenha de livros do New York Times, o irrequieto e copioso Christopher Hitchens (Deus não É Grande) notou a ironia de Nicolas Sarkozy ter telefonado diretamente para o intelectual francês reclamando apoio a sua candidatura. Hitchens diz que seria bom morar num país onde um candidato presidencial telefona para um intelectual cobrando coerência e citando “as pérfidas reações a um de seus livros”. Suspeito que Hitchens prefira morar aqui mesmo, onde a tortuosa defesa da invasão do Iraque, que ele faz, ao menos não destruiu sua vida social.

Pois bem, participei de uma conversa com jornalistas sobre a segurança de ter gente como Robert Rubin, Lawrence Summers e Laura Tyson assessorando a campanha de Obama. Em seguida, notei que essas estrelas econômicas não estavam desfilando para a mídia. Não seria natural despachá-los para os talk shows e reassegurar o público de que há uma reserva expressiva de massa cinzenta na campanha democrata? Não, não, o desfile de profissionais sofisticados, com experiência em administração das finanças públicas, poderia afugentar eleitores.

A tradição antiintelectualista americana vem da fundação do país, mas foi exacerbada como nunca nas últimas duas décadas pela emergência política dos “valores de família”, um sarapatel preparado pela direita cristã para associar ao pensamento científico e racional, em especial à teoria da evolução, a decadência cultural dos liberais.

O próprio erudito e onipresente Christopher Hitchens, que, desconfio, deveria empregar um(a) assistente para mantê-lo atualizado em suas posturas intelectuais, atacara o candidato democrata dias antes na revista Slate por falhar na transmissão de sua narrativa (“É Obama um outro Dukakis?”). A comparação com Michael Dukakis, o ex-governador de Massachusetts e candidato a presidente em 88, é no mínimo perversa.

Sim, porque não basta Obama ser filho de uma mãe solteira branca, abandonada pelo imigrante queniano, ter sobrevivido com auxílio público para alimentação, ter vencido obstáculos para adquirir educação superior, ter diploma de Colúmbia e Harvard, como não basta ter esnobado uma carreira com lucrativas firmas de advocacia para trabalhar como organizador de comunidades carentes em Chicago. Sua extraordinária biografia, publicada em prosa elegante, hoje só pode ser legitimada com recursos histriônicos ao estilo de Abelardo Chacrinha Barbosa. É preciso diluir a narrativa antes de empacotá-la para obter este ou aquele efeito.

“Obama é atacado por falar bem demais”, diz Susan Jacoby, autora do sombrio The Age of American Unreason. É como se comando e clareza de raciocínio fossem falhas graves. O livro de Jacoby, que vai ser atualizado e relançado logo após a eleição de novembro, é uma longa diatribe contra o emburrecimento da maior potência ocidental.

O intelectual público, essa ave emplumada, frágil e protegida pelos Ibamas do mundo afora, é aqui uma espécie mais desvalorizada que o dólar. Os americanos reconhecem, embora não necessariamente acatem, os talking heads. Susan Jacoby lembra gente com os autores Doris Kearns Goodwin e Douglas Brinkley, que “põem sua cultura histórica a favor de certos conceitos políticos”. Mas, quando tomam a palavra, os pensadores de plantão são convocados apenas a explicar como o noticiário corrente pode ser analisado à luz da tradição histórica. E devemos reservar compaixão por um respeitável acadêmico obrigado a situar Sarah Palin nesse contexto. Os intelectuais públicos não são, de maneira geral, alistados para contribuir com novas idéias para os dilemas do país. “Nosso caso de amor com a inovação tecnológica”, diz Susan Jacoby, “nos iludiu de que há soluções tecnológicas para problemas não tecnológicos.” As crianças não lêem mais? Desliguem a TV.

Pergunto a Susan por que os imigrantes, como o inglês Hitchens, o indiano Fareed Zakharia, o holandês Ian Buruma e, mais recentemente, o visitante francês Bernard-Henry Levy parecem preencher um vazio de autocrítica no país que construiu sua história sobre a hospitalidade à inovação. Ela me responde com uma anedota reveladora: “Eles se sentem mais livres, não são restritos pela desconfiança atávica da elite pensante”. E faz uma revelação: “Já perdi a conta de quantas vezes meus editores me advertiram: cuidado para não soar esnobe”.

Susan lembra que uma grande vitória da direita foi colar o rótulo de elitismo nos intelectuais liberais, enquanto os intelectuais conservadores deslizam silenciosamente entre think tanks, fornecendo planos e munição para “grandes” iniciativas como a guerra no Iraque, mas sempre dissociando as ações de idéias.

Arrisco sugerir se, diante do terremoto econômico, o público pode se tornar mais receptivo para ouvir idéias e não slogans. Susan Jacoby joga água fria no meu otimismo. “Temo que os americanos misturem no mesmo saco os intelectuais, os especialistas e os que enriqueceram”, diz ela. O palhaço de Shakespeare em A Décima-segunda Noite, que declarou não haver ignorância e sim escuridão, deve estar pesquisando fontes de energia alternativa.

*lgsamambaias@gmail.com

“Estado de S. Paulo”

A GLOBALIZAÇÃO DA POBREZA E A NOVA ORDEM MUNDIAL

A globalização da pobreza está a processar-se durante um período de rápidos avanços tecnológicos e científicos. Enquanto estes últimos contribuem para o incremento substancial da capacidade potencial do sistema econômico de produzir os bens e serviços necessários, os níveis acrescentados de produtividade não se traduzem numa correspondente redução dos níveis de pobreza global.

Michel Chossudovsky, diretor do Centre for Research on Globalization.

INTRODUÇÃO

No período do pós-guerra-fria, a humanidade atravessa uma crise econômica e social de escala sem precedentes que está a conduzir ao rápido empobrecimento de vastos setores da população mundial. Assiste-se ao colapso de economias nacionais e a um aumento alarmante do desemprego. Na África subsaariana, no Sul da Ásia e em partes da América Latina, têm-se verificado surtos de fomes a nível local. Esta «globalização da pobreza» — que, em grande medida, fez retroceder as realizações alcançadas com a descolonização do pós-guerra — teve o seu início num Terceiro Mundo marcado pela crise da dívida no princípio dos anos 80 e a conseqüente imposição de reformas econômicas nefastas pelo Fundo Monetário Internacional.

A Nova Ordem Mundial é sustentada pela pobreza humana e a destruição do ambiente. Dá origem ao apartheid social, promove o racismo e os conflitos étnicos, mina os direitos das mulheres e, freqüentemente, precipita os países para confrontos destrutivos entre nacionalidades. Desde os anos 90, tem vindo a estender o seu domínio a todas as principais regiões do Mundo, incluindo a América do Norte, a Europa Ocidental, os países do antigo bloco soviético e os «Novos Países Industrializados» (NPI) do Sudeste Asiático e do Extremo Oriente.

Esta crise a nível mundial é mais devastadora do que a Grande Depressão dos anos 30. Tem conseqüências geopolíticas de grande alcance; a perturbação econômica faz-se acompanhar pelo desencadear de guerras regionais, a fratura de sociedades nacionais e, nalguns casos, a total destruição de países inteiros. Esta é, indubitavelmente, a crise econômica mais grave da História Moderna.

A RECESSÃO DO PERÍODO DO PÓS-GUERRA-FRIA

Na ex-União Soviética, como conseqüência direta do «tratamento econômico» nefasto do FMI iniciado em 1992, o declínio econômico ultrapassou a queda na produção verificada no auge da Segunda Guerra Mundial, após a ocupação alemã da Bielorrússia e de partes da Ucrânia em 1941 e o intenso bombardeamento da infra-estrutura industrial soviética. De uma situação de emprego total e relativa estabilidade de preços nos anos 70 e 80 passou-se para um quadro de subida em flecha da inflação, queda vertical dos salários reais e da taxa de emprego e abandono dos programas de saúde. A cólera e a tuberculose alastram a uma velocidade alarmante numa vasta área da ex-União Soviética.

O modelo da ex-União Soviética repete-se na Europa de Leste e nos Bálcãs. Umas após outras, as economias nacionais desmoronam-se. Nos estados bálticos (Lituânia, Letônia e Estónia), bem como nas repúblicas caucasianas da Armênia e do Azerbaijão, verifica-se um declínio da produção industrial que atinge os 65%. Na Bulgária, as pensões de reforma tinham descido para dois dólares por mês em 1997. O Banco Mundial admitiu que 90% dos búlgaros vivem abaixo do limiar da pobreza, fixado por aquela instituição em 4 dólares por mês. Sem meios para pagarem luz, água e transportes, grupos populacionais por toda a Europa de Leste e os Bálcãs vêem-se brutalmente arredados da era moderna.

O FIM DOS «TIGRES ASIÁTICOS»

No leste da Ásia, a crise financeira de 1997 — marcada por ataques especulativos contra divisas nacionais — contribuiu em grande medida para o fim dos chamados «tigres asiáticos» (Indonésia, Tailândia e Coréia). Os acordos de assistência do FMI, impostos logo após o colapso financeiro, tiveram como conseqüência imediata o declínio abrupto do nível de vida das populações. Na Coréia, na seqüência da «mediação» do FMI — decidida após consultas a alto nível com os maiores bancos comerciais e financeiros do mundo — «uma média de mais de 200 companhias por dia fecharam as suas portas [...] Por dia, cerca de 4000 trabalhadores ficavam desempregados». Entretanto, na Indonésia, num cenário de violentos confrontos nas ruas, os salários praticados pelas fábricas ilegais nas zonas de exportação, que empregavam mão-de-obra barata, desceram de 40 para 20 dólares por mês; e o FMI insistiu na desindexação dos salários como forma de mitigar as pressões inflacionárias.

Na China, com a privatização ou falência obrigatória de milhares de empresas estatais, 35 milhões de trabalhadores estão sob a ameaça de desemprego. Segundo uma estimativa recente, existem cerca de 130 milhões de trabalhadores excedentes nas zonas rurais da China. Por ironia, o Banco Mundial tinha previsto que, com a adoção de reformas do «mercado livre», a pobreza na China desceria para 2,7% no ano 2000.

POBREZA E PERTURBAÇÃO ECONÓMICA NO OCIDENTE

Já durante o período Reagan-Thatcher, as duras medidas de austeridade implementadas tinham resultado na gradual desintegração do Estado social. As medidas de «estabilização econômica» (em princípio adotadas para «atenuar os males da inflação») contribuíram para a queda do vencimento dos trabalhadores e para o enfraquecimento do papel do Estado. Desde os anos 90, a terapia econômica aplicada nos países desenvolvidos contém muitos dos ingredientes essenciais dos programas de ajustamento estrutural impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial ao Terceiro Mundo e à Europa de Leste.

No entanto, em contraste com os países em vias de desenvolvimento, as medidas políticas de reforma na Europa e na América do Norte são impostas sem a mediação do FMI. A acumulação de grandes dívidas públicas nos países ocidentais tem proporcionado às elites financeiras uma alavanca política, bem como o poder de ditar as políticas econômicas e sociais aos governos. Sob a capa do neoliberalismo, as despesas públicas são reduzidas e os programas de assistência social abandonados. As políticas estatais promovem a desregulamentação do mercado de trabalho: desindexação dos salários, emprego a tempo parcial, reforma antecipada e imposição de cortes salariais «voluntários».

Por sua vez, a prática de desgaste — que transfere o fardo social do desemprego para os grupos etários mais jovens — contribuiu para impedir a entrada no mercado de trabalho a toda uma geração. As regras da gestão de recursos humanos nos Estados Unidos são: «’dar cabo’ dos sindicatos, voltar os trabalhadores mais velhos contra os mais novos, chamar os fura-greves, baixar os salários e acabar com o seguro médico pago pelas empresas».

Desde os anos 80, uma grande parte da mão-de-obra nos Estados Unidos tem vindo a ser desviada de postos de trabalho bem remunerados e sindicalizados para empregos de salário mínimo. «Terceiro-mundismo» de cidades ocidentais: a pobreza nos guetos e zonas desfavorecidas da América é a vários títulos comparável com a verificada no Terceiro Mundo. Embora a taxa de desemprego «oficial» dos Estados Unidos tenha descido nos anos 90, o número de pessoas com empregos a tempo parcial e mal remunerados subiu em flecha. Em conseqüência do declínio nos postos de trabalho com salário mínimo, grandes setores da população vêem-se completamente afastados do mercado de trabalho: «O gume verdadeiramente selvagem da recessão fere o âmago das comunidades e dos novos imigrantes em Los Angeles, onde as taxas de desemprego triplicaram e não existe uma rede de segurança social. As pessoas estão em queda livre e as suas vidas desintegram-se, com o desaparecimento de empregos de salário mínimo».

Por outro lado, a reestruturação econômica criou divisões profundas entre classes sociais e grupos étnicos. O ambiente das grandes zonas metropolitanas caracteriza-se pelo «apartheid social» : a paisagem urbana encontra-se compartimentada segundo linhas sociais e étnicas. O Estado, por sua vez, é cada vez mais repressivo na forma como gere os conflitos sociais e procura controlar as manifestações de descontentamento da sociedade civil.

Com a onda de fusões corporativas, downsizing e encerramento de fábricas, todas as categorias da força de trabalho são afetadas. A recessão atinge a classe média e os escalões superiores da força trabalho. Os orçamentos destinados à investigação são reduzidos, cientistas, engenheiros e outros profissionais vão para o desemprego e funcionários públicos superiores e gestores são forçados a pedir a reforma antecipada…

Entretanto, as realizações do período inicial do pós-guerra têm vindo a ser anuladas através da suspensão dos planos de seguro de desemprego e da privatização dos fundos de pensões. Escolas e hospitais fecham as suas portas, criando-se assim as condições necessárias para a privatização total dos serviços sociais.

UMA ECONOMIA CRIMINOSA FLORESCENTE

As reformas do «mercado livre» favorecem o desenvolvimento de atividades ilícitas, bem como a concomitante «internacionalização» de uma economia criminosa. Na América Latina e na Europa de Leste, as organizações criminosas têm vindo a investir na aquisição de bens do Estado ao abrigo dos programas de privatização apoiados pelo FMI-Banco Mundial. Segundo as Nações Unidas, a receita total a nível mundial das «organizações criminosas transnacionais» (OCT) é da ordem de um milhão de bilhões de dólares, representando um montante equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto) do grupo de países com baixo rendimento com uma população de cerca de 3 mil milhões de pessoas. Esta estimativa das Nações Unidas abrange tráfico de narcóticos, vendas de armamento, contrabando de materiais nucleares, etc, assim como as receitas derivadas da economia de serviços controlados pela máfia (prostituição, jogo, câmbios ilícitos, etc). O que estes dados não transmitem adequadamente é a magnitude dos investimentos de rotina em negócios «legítimos» por parte de organizações criminosas, assim como o controlo significativo que estas exercem sobre os recursos produtivos em muitas áreas da economia legal.

Os grupos criminosos colaboram rotineiramente com empreendimentos legais através de investimentos numa série de atividades «legítimas», as quais não somente lhes proporcionam uma fachada para o branqueamento de dinheiro como também providenciam um processo adequado para a acumulação de riqueza fora do âmbito da economia criminosa. Segundo um observador, «os grupos de crime organizado têm um melhor desempenho do que a maioria das empresas do índice Fortune 500 [...] com organizações que se assemelham mais à General Motors do que à tradicional máfia siciliana». Segundo um depoimento prestado a um subcomitê do Congresso dos Estados Unidos por Jim Moody, o diretor do FBI, as organizações criminosas na Rússia estão «a cooperar com outros grupos criminosos estrangeiros, incluindo os sediados em Itália e na Colômbia [...] a transição para o capitalismo [na ex-União Soviética] proporcionou novas oportunidades rapidamente exploradas pelas organizações criminosas».

BANQUEIROS DE WALL STREET NOS BASTIDORES

Tem vindo a desenvolver-se um « consenso político »; por todo o mundo, os governos adotaram inequivocamente objetivos de face neoliberal. As mesmas medidas econômicas são aplicadas a nível mundial. Sob a jurisdição do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial de Comércio, as reformas criam um «ambiente propício» para as atividades de bancos globais e empresas multinacionais. Não se trata, todavia, de um sistema de mercado «livre»: embora assente numa retórica neoliberal, o chamado « programa de ajustamento estrutural » apoiado pelo acordo de Bretton Woods constitui um novo enquadramento intervencionista.

No entanto, o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio constituem meros órgãos burocráticos. São organismos reguladores que operam sob uma capa intergovernamental e se encontram comandados por poderosos interesses econômicos e financeiros. Os banqueiros de Wall Street e os líderes do maior conglomerado de empresas estão por detrás destas instituições globais. Reúnem regularmente à porta fechada com o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio, bem como em inúmeros pontos de encontro internacionais. Nestas reuniões e sessões de consulta participam igualmente os representantes de poderosos grupos de pressão de empresas globais, tais como a Câmara Internacional de Comércio (CIC) (International Chamber of Commerce — ICC), o Diálogo de Negócios Transatlântico (DNT) (Trans Atlantic Business Dialogue — TABD) (que reúne nos seus encontros anuais os líderes do maior conglomerado de empresas do Ocidente com políticos e funcionários da Organização Mundial de Comércio), o Conselho de Comércio Internacional dos Estados Unidos (United States Council for International Business — USCIB), o Fórum Econômico Mundial de Davos, o Instituto Internacional de Finanças (IIF) sediado em Washington e que representa os maiores bancos e instituições financeiras do mundo, etc. Outras organizações «semi-secretas» — que desempenham um papel importante na definição das instituições da Nova Ordem Mundial — incluem a Comissão Trilateral, o grupo Bildeberg e o Conselho para as Relações Estrangeiras.

A ECONOMIA DA MÃO-DE-OBRA BARATA

A globalização da pobreza está a processar-se durante um período de rápidos avanços tecnológicos e científicos. Enquanto estes últimos contribuem para o incremento substancial da capacidade potencial do sistema Econômico de produzir os bens e serviços necessários, os níveis acrescentados de produtividade não se traduzem numa correspondente redução dos níveis de pobreza global. No início de um novo milênio, este declínio global do nível de vida das populações não resulta de uma escassez de recursos produtivos.

Pelo contrário, o downsizing, a reestruturação corporativa e a transferência da produção para locais de mão-de-obra barata no Terceiro Mundo têm vindo a conduzir ao aumento do desemprego e à redução dos salários dos trabalhadores urbanos e rurais. Esta nova ordem econômica sustenta-se com a pobreza humana e com a mão-de-obra barata : os altos níveis de desemprego nacional, tanto em países desenvolvidos como em países em vias de desenvolvimento, contribuíram para fazer baixar os salários reais. O desemprego foi internacionalizado, com o capital migrando de um país para outro numa busca contínua de fontes de mão-de-obra mais barata. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o desemprego afeta mil milhões de pessoas a nível mundial, ou seja, cerca de um terço da força de trabalho global. Os mercados de trabalho nacionais deixaram de ser segregados: os trabalhadores de diferentes países encontram-se em clara concorrência uns com os outros. Com a desregulamentação dos mercados de trabalho, os direitos dos trabalhadores são anulados.

O desemprego global funciona como uma alavanca reguladora dos custos trabalhistas a nível mundial: a abundância de mão-de-obra barata no Terceiro Mundo e no ex-Bloco de Leste contribui para o abaixamento dos salários nos países desenvolvidos. Praticamente todas as categorias da força de trabalho (sem excluir os trabalhadores altamente qualificados, os profissionais liberais e os cientistas) são afetadas; simultaneamente, a concorrência pelos postos de trabalho fomenta divisões sociais baseadas em classe social, grupo étnico, sexo e idade.

MICROEFICIÊNCIA, MACROINSUFICIÊNCIA

As empresas globais minimizam os custos do trabalho a nível mundial. Os salários reais no Terceiro Mundo e na Europa de Leste chegam a ser setenta vezes inferiores aos dos EUA, da Europa Ocidental ou do Japão: as possibilidades de produção são praticamente inesgotáveis, dada a grande quantidade de trabalhadores pobres em todo o mundo.

Enquanto as teorias econômicas vigentes acentuam a «distribuição eficaz» dos «escassos recursos» da sociedade, as duras realidades sociais põem em questão as conseqüências destes meios de distribuição. Assiste-se ao encerramento de fábricas, pequenas e médias empresas são empurradas para a falência, trabalhadores qualificados e funcionários públicos são despedidos e o capital humano e material é desperdiçado em nome da «eficiência». O impulso para a utilização «eficaz» dos recursos da sociedade ao nível microeconômico conduz a uma situação diametralmente oposta ao nível macroeconômico. Quando existem grandes quantidades de capacidade industrial desaproveitada e milhões de trabalhadores desempregados, os recursos não estão sendo utilizados eficientemente. O capitalismo moderno parece totalmente incapaz de mobilizar estes recursos humanos e materiais desaproveitados.

ACUMULAÇÃO DE RIQUEZA, DISTORÇÃO DA PRODUÇÃO

Esta reestruturação econômica global promove a estagnação no fornecimento dos bens e serviços necessários e simultaneamente desvia os recursos existentes para investimentos lucrativos na economia dos bens de luxo. Ao mesmo tempo, com o esgotamento da criação de capital em atividades produtivas, o lucro é cada vez mais freqüentemente procurado em transações especulativas e fraudulentas, o que, por sua vez, contribui para a ocorrência de perturbações nos principais mercados financeiros mundiais.

Uma minoria social privilegiada tem vindo a acumular vastas fortunas à custa da grande maioria da população. O número de bilionários nos EUA subiu de 13 em 1982 para 149 em 1996 e ultrapassou os 300 em 2000. O «Clube Global de Bilionários» (com cerca de 450 sócios) é detentor de uma riqueza total que excede em muito a soma dos produtos internos brutos do grupo de países de baixo rendimento, com 59% da população mundial (ver quadro 1.1). A riqueza pessoal da família Walton, do noroeste do Arkansas, proprietários da cadeia de lojas Wal-Mart (85 mil milhões de dólares) — a herdeira, Alice Walton, os seus irmãos Robson, John e Jim e a mãe, Helen — atinge mais do dobro do PIB do Bangladesh (33,4 mil milhões de dólares), com uma população de 127 milhões de pessoas e um rendimento anual per capita de 260 dólares.

A acrescentar a este quadro, o processo de acumulação de riqueza desenrola-se cada vez mais freqüentemente à margem da economia real, divorciado de atividades produtivas e comerciais fidedignas. «O sucesso no mercado de ações de Wall Street [ou seja, das transações especulativas] foi responsável pela maior parte dos bilionários no ano passado [1996]». Por sua vez, os milhares de milhões de dólares adquiridos através destas transações especulativas são desviados para contas confidenciais em mais de 50 paraísos fiscais offshore em todo o mundo. Segundo uma estimativa do banco de investimentos americano Merrill Lynch, os depósitos individuais geridos através de bancos privados em paraísos fiscais offshore totalizam cerca de 3,3 mil bilhões de dólares. O FMI calcula que os bens offshore de empresas e de indivíduos atinjam os 5,5 mil bilhões de dólares, um valor equivalente a 25% do rendimento total mundial. Nos anos 90, as fortunas das elites do Terceiro Mundo, depositadas em contas secretas e, em grande medida, obtidas por meios ilícitos, foram calculadas em cerca de 600 mil milhões de dólares, estando um terço desta quantia depositado na Suíça.

PRODUÇÃO EXCEDENTE: AUMENTO DA OFERTA, DIMINUIÇÃO DA PROCURA

O aumento da produção no sistema do capitalismo global resulta da «minimização do emprego» e do arrocho dos salários dos trabalhadores. Este processo, por sua vez, afeta os níveis de procura por parte do consumidor de bens e serviços necessários: capacidade ilimitada de produção, capacidade limitada de consumo. Numa economia global de mão-de-obra barata, o processo de aumento da produção (através de downsizing, dispensas coletivas e abaixamento de salários) contribui para reduzir a capacidade de consumo da sociedade.

Por conseguinte, a tendência é para a produção excedente a uma escala jamais vista. Por outras palavras, a expansão corporativa neste sistema só pode verificar-se através da concomitante eliminação da capacidade produtiva inativa, nomeadamente através da falência e da liquidação de «empresas excedentes». Estas últimas são preteridas em favor da produção mecanizada mais avançada: a totalidade de certas áreas da indústria encontra-se inativa, a economia de vastas regiões é afetada, e só está a ser utilizada uma parte do potencial agrícola mundial.

Esta oferta global excessiva de bens de consumo é uma conseqüência direta do declínio no poder de compra e do aumento dos níveis de pobreza. Este último resulta também da minimização dos custos de trabalho e do emprego a nível mundial sob o impacto das reformas do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial de Comércio.

Por sua vez, o excesso de oferta contribui para acentuar o abaixamento das receitas dos produtores diretos, através da desativação da capacidade excedente de produção. Contrariamente à «Lei de Say», arvorada pela corrente neoliberal, a oferta não cria a sua própria procura. Desde o início dos anos 80, o excesso de produção de bens de consumo, com a conseqüente queda dos preços (reais) destes bens, tem sido causa de grandes perturbações, especialmente entre os produtores primários do Terceiro Mundo, mas também na área da manufatura.

INTEGRAÇÃO GLOBAL, DESINTEGRAÇÃO LOCAL

Nos países em vias de desenvolvimento, a totalidade de algumas áreas da indústria fornecedora do mercado interno é empurrada para a falência, em cumprimento de ordens do Banco Mundial e do FMI. O sector urbano informal — que, tradicionalmente, desempenha um papel importante na criação de emprego — foi minado, em conseqüência da desvalorização de divisas, da liberalização das importações e da política de dumping. Na África subsaariana, por exemplo, o sector informal da indústria do pronto-a-vestir foi completamente destruído e substituído pelo mercado de roupas em segunda mão (importadas do Ocidente a 80 dólares a tonelada).

Contra este pano de fundo de estagnação econômica (com taxas negativas de crescimento registradas na Europa de Leste, na ex-União Soviética e na África subsaariana), as maiores empresas mundiais beneficiam de um crescimento sem precedentes e da expansão do seu quinhão do mercado global. No entanto, este processo desenrolou-se em grande medida através do afastamento dos sistemas produtivos preexistentes — ou seja, à custa dos produtores locais, regionais e nacionais. A expansão e o «lucro» das maiores empresas mundiais assentam numa contração global do poder de compra e no empobrecimento de vastos setores da população mundial. Por sua vez, as reformas do «mercado livre» contribuíram de forma brutal para a abertura de novas fronteiras econômicas, simultaneamente garantindo o «lucro» através da imposição de salários baixíssimos e da desregulamentação do mercado de trabalho. Neste processo, a pobreza é um fator positivo da oferta. A gama de reformas do FMI–Banco Mundial-Organização Mundial de Comércio imposta ao nível mundial desempenha um papel decisivo na regulamentação dos custos do trabalho em nome do capital corporativo.

Trata-se da lei da sobrevivência do mais forte: as empresas com as tecnologias mais avançadas, ou as que podem impor salários mais baixos, sobrevivem numa economia mundial marcada pela produção excedente. Embora o espírito do liberalismo anglo-saxônico se empenhe na «promoção da concorrência», na prática as medidas políticas macroeconômicas do G-7 (através de controles fiscais e monetários apertados) têm promovido uma onda de fusões corporativas e de aquisições, assim como a falência de pequenas e médias empresas.

A DESTRUIÇÃO DA ECONOMIA LOCAL

Ao nível local, as pequenas e médias empresas são empurradas para a falência ou obrigadas a produzir para um distribuidor global. Por sua vez, as grandes multinacionais apoderaram-se dos mercados ao nível local através do sistema de franchising corporativo. Este processo permite ao grande capital corporativo (o franchiser ) obter o controlo dos recursos humanos, da mão-de-obra barata e da capacidade empresarial. Uma grande parte dos ganhos das pequenas empresas locais e/ou dos retalhistas é assim retida pela sociedade global, enquanto a maior parte dos custos do investimento cabe ao produtor independente (o franchisee ).

Observa-se um processo paralelo na Europa Ocidental. Com o tratado de Maastricht, o processo de reestruturação política na União Européia tem cada vez mais em consideração interesses financeiros dominantes, à custa da unidade das sociedades européias. Neste sistema, o poder estatal tem deliberadamente vindo a sancionar o desenvolvimento de monopólios privados: o grande capital destrói o pequeno capital em todas as formas de que este se reveste. Com a tendência para a formação de blocos econômicos tanto na Europa como na América do Norte, assiste-se à eliminação do empresário ao nível regional ou local, a vida nas cidades sofre transformações e a propriedade privada a pequena escala desaparece completamente. O «comércio livre» e a integração econômica proporcionam uma maior mobilidade às empresas globais enquanto, simultaneamente, impedem (através de barreiras institucionais e não tarifárias) o movimento do pequeno capital a nível local. Embora aparente unidade política, a «integração econômica» (sob o domínio da empresa global) promove com freqüência fações e lutas sociais entre sociedades nacionais e no seio destas.

GUERRA E GLOBALIZAÇÃO

A imposição de reformas macroeconômicas e de transações comerciais sob a supervisão do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial de Comércio (OMC) destina-se a recolonizar certos países de forma «pacífica» através da manipulação deliberada das forças de mercado. Embora não requeira explicitamente o uso de força, a aplicação brutal de reformas econômicas constitui, no entanto, uma forma de guerra. Os perigos da guerra, a um nível mais geral, devem ser compreendidos. A guerra e a globalização não são questões estanques.

O que acontece aos países que se recusam a «abrir-se» aos bancos ocidentais e às empresas multinacionais em cumprimento das ordens da Organização Mundial de Comércio? Os serviços de informação das potências militares ocidentais e dos seus vários órgãos burocráticos têm contactos rotineiros com o poder financeiro instituído. O FMI, o Banco Mundial e a OMC — que policiam as reformas econômicas ao nível de país — colaboram igualmente com a NATO nas suas várias missões de «manutenção de paz», já para não referir o financiamento de reconstrução «pós-conflito» sob os auspícios das instituições de Bretton Woods.

No início do terceiro milênio, a guerra e o «mercado livre» andam de mãos dadas. A guerra não necessita da OMC ou de um tratado de investimento multilateral (ou seja, um MAI — Multilateral Investment Treaty) entrincheirado no direito internacional. A guerra é o «MAI» de último recurso. A guerra destrói fisicamente o que não foi desmantelado através da desregulamentação, da privatização e da imposição de reformas do «mercado livre». A total colonização através da guerra e a instalação de protetorados ocidentais equivalem à concessão de «tratamento nacional» aos bancos ocidentais e às empresas multinacionais (como estipulado pela OMC) em todos os setores de atividade. A «diplomacia dos mísseis» é uma réplica da «diplomacia dos canhões» utilizada para implementar o «comércio livre» no século XIX. A Missão Cushing dos EUA à China em 1844 (na seqüência das Guerras do Ópio) foi um aviso ao governo imperial chinês de que «a recusa em ceder às exigências americanas poderia considerar-se uma declaração de guerra».

O DESARMAMENTO DA NOVA ORDEM MUNDIAL

A ideologia do mercado «livre» defende uma forma nova e brutal de intervencionismo do Estado, assente na interferência deliberada nas forças de mercado. Suprimindo os direitos dos cidadãos, o «comércio livre», sob a égide da Organização Mundial de Comércio (OMC) concede «direitos inalienáveis» aos maiores bancos do mundo e às empresas globais. O processo de implementação de acordos internacionais, conduzido pela Organização Mundial de Comércio ao nível nacional e internacional, passa invariavelmente ao lado do processo democrático. Por outras palavras, ao conceder poderes alargados ao poder financeiro instituído, os artigos da OMC ameaçam conduzir ao enfraquecimento de sociedades nacionais (ver capítulo 1).

A Nova Ordem Mundial baseia-se no «falso consenso» de Washington e de Wall Street, que impõe o «sistema de mercado livre» como a única opção possível na senda ditada pelo avanço da «prosperidade global». Todos os partidos políticos, sem exceção, os Verdes, os Sociais-Democratas e os partidos ex-Comunistas, aceitam agora este consenso.

As ligações insidiosas existentes entre políticos e funcionários internacionais e poderosos interesses financeiros devem ser expostas. Para se alcançarem mudanças significativas, as instituições estatais e as organizações intergovernamentais têm de ser libertas das garras do poder financeiro instituído. É igualmente necessário democratizar o sistema Econômico e as suas estruturas de gestão e propriedade, por resolutamente em questão a concentração óbvia da propriedade e das fortunas privadas, desarmar os mercados financeiros, suspender os negócios especulativos, por fim ao branqueamento de dinheiro, desmantelar o sistema bancário offshore , redistribuir os rendimentos e a riqueza, restaurar os direitos dos produtores diretos e reconstruir o sistema de segurança social do Estado.

No entanto, é necessário ter em conta que as estruturas militares e de segurança ocidentais caucionam e apóiam os interesses econômicos e financeiros dominantes — ou seja, tanto a constituição como o exercício da força militar se destinam a impor o «comércio livre». O Pentágono é uma sucursal de Wall Street; a NATO coordena as suas operações militares com o Banco Mundial e as medidas de intervenção do FMI, e vice-versa. De forma consistente, os organismos de segurança e defesa da aliança militar ocidental, em colaboração com os vários governos e órgãos burocráticos intergovernamentais (tais como o FMI, o Banco Mundial e a OMC) partilham um entendimento comum, um consenso ideológico e igual empenho na Nova Ordem Mundial. Por outras palavras, a campanha internacional contra a «globalização» deve ser integrada numa coligação mais alargada de forças sociais empenhadas no desmantelamento do complexo militar-industrial, da NATO e das instituições da defesa, nas quais se incluem os serviços policiais, de informação e de segurança.

Os meios de comunicação globais fabricam as notícias e distorcem abertamente o curso dos acontecimentos mundiais. Esta «falsa consciência» que se infiltra na nossa sociedade impede o debate crítico e mascara a verdade. Em última análise, nega o acesso a um entendimento coletivo dos mecanismos de um sistema Econômico que está a destruir a vida das pessoas. A única promessa do «mercado livre» é um mundo de agricultores sem terra, fábricas fechadas, trabalhadores sem emprego e programas sociais destruídos, com o «amargo remédio Econômico» da OMC e do FMI a constituírem a única receita. Temos a obrigação de restaurar a verdade, denunciar os meios de comunicação de massas controlados pelas empresas, devolver a soberania aos nossos países e aos povos dos nossos países e desarmar e abolir o capitalismo global.

Esta luta deve ter uma ampla base democrática de sustentação que abranja todos os setores da sociedade a todos os níveis, em todos os países, unindo num só ímpeto trabalhadores, agricultores, produtores independentes, pequenos negociantes, profissionais liberais, artistas, funcionários públicos, membros do clero, estudantes e intelectuais. Os elementos de setores diversos devem unir-se, os grupos com uma causa específica devem dar-se as mãos num entendimento comum e coletivo do poder destrutivo e empobrecedor deste sistema Econômico. A globalização desta luta é fundamental e requer um grau de solidariedade e internacionalismo sem precedentes na História mundial. Este sistema Econômico global é alimentado pela divisão social entre países e no seio destes. A unidade de objetivos e a coordenação ao nível mundial entre os diversos grupos são cruciais. É necessário um ímpeto de grande magnitude que congregue os movimentos sociais nas principais partes do Mundo num objetivo comum e no empenhamento para a eliminação da pobreza e a obtenção de uma paz mundial duradoura.

“Geografia Geral e do Brasil”

Josué de Castro: um mundo sem fome

Wilson Aparecido Lopes

Josué de Castro foi e continua em nosso meio como um profeta. Seu trabalho minucioso de investigação, acerca de um dos problemas mais gritantes de toda a história da humanidade, permanece atual até hoje. Quando parte da humanidade se rendia ao vislumbre das grandes descobertas e da revolução industrial, Josué de Castro teve a coragem e a ousadia de trazer à tona a fome. Revelando que todo este vislumbre estava calcado sobre os fundamentos do mais terrível de todos os flagelos humanos. Sua vontade férrea de extirpar a fome que grassava milhões de vidas humanas mundo afora consumiu todas as suas energias, o que, com certeza, Josué de Castro doou de muita boa vontade.

Chegado o momento de deixar a presidência do Conselho da FAO, em 1955, Josué de Castro nos legou estas proféticas palavras: “Longe de mim menosprezar a obra realizada pela FAO mas desejo dizer, com toda a sinceridade – e peço que me perdoem por falar com uma sinceridade um tanto brutal – que me sinto decepcionado diante da obra que realizamos. Decepcionado pelo que fizemos porque, a meu ver, não elaboramos até hoje uma política de alimentação realista que ponha em linha de conta, ao mesmo tempo, as desesperadas necessidades do mundo e nossos objetivos. Não fomos suficientemente ousados, não tivemos a coragem suficiente para encarar, de frente, o problema e buscar as suas soluções. Apenas afloramos a sua superfície, sem penetrar em sua essência, sem querer, na verdade, resolvê-lo, por falta de coragem de desagradar a alguns. Precisamos, a meu ver, ter a coragem de discordar de certas opiniões para aceitarmos a imposição das circunstâncias, resolvendo o problema no interesse da humanidade. Para servi-la em conjunto é que foi criada sob a inspiração do grande Presidente Roosevelt, a Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas”.

Cinco décadas depois, ao término da Cúpula sobre Segurança Alimentar – em Roma, a 5 de junho passado -, foi esta também a decepção de Jacques Diouf, diretor-geral da FAO. A esperança que ele manifestou na abertura dos trabalhos, afirmando que “passara o tempo das palavras e era hora da ação”, se esvaiu, dois dias depois, como areia fina por entre os dedos. O encontro da Cúpula terminava sem ação alguma e quase sem palavras, com um comunicado final tão aguado que o chanceler italiano, Franco Frattini, reconheceu como “decepcionante”, asseverando que: “Se os líderes mundiais não conseguem pôr-se de acordo ao menos para evitar os danos de uma situação dramática de emergência alimentar, isso me preocupa”.

Os frutos amargos desta tímida decisão o mundo todo está colhendo. Quando os interesses dos governantes são outros que não saciar a fome de seu povo, é possível se ouvir o grito que surge do fundo das panelas dos mais pobres. É lá que podemos ver refletido o “lucro” acima da “vida”, num sistema neoliberal genocida e sua produção de milhões de mortos. Infelizmente, parece que os líderes mundiais presentes na fracassada Cúpula de Segurança Alimentar não se deram conta de que por trás da Revolução Francesa, da Revolução Chinesa, da Revolução Russa e das duas Guerras Mundiais estava a fome.

Em meio a este jogo de interesses, onde a vida é o que menos vale, Josué de Castro foi “grande”, profeta de seu e de nosso tempo. Quando muitos intelectuais escolheram ficar do lado dos conquistadores e dos colonizadores, Josué de Castro foi atrás da verdade, escolhendo ficar do lado dos povos-famintos e denunciando a fome universal como uma praga fabricada pelo homem e não como um fenômeno natural. Assim foi que ele pôde nos relatar, com ousadia e coragem, situações de fome onde ninguém sequer suspeitaria que existisse, como na Europa onde “em 1586, a maior epidemia de fome de toda a história sacudiu a Inglaterra; e na França de 1662 os camponeses de Blois pastavam como gado, roendo os cardos e as raízes encontradas no campo”. Sua constatação também revelou que durante vários anos de fome, no século XVII, “foram encontrados, caídos às margens dos caminhos da Europa, homens e mulheres, mortos com as bocas cheias de capim, e crianças, no cemitério, chupando as ossadas dos mortos”.

Enquanto as multinacionais continuarem especulando financeiramente com a produção mundial de alimentos, a reforma agrária continuar engavetada, o agronegócio e o agrocombustível detiverem o privilégio em detrimento da agricultura familiar, a produção inescrupulosa dos transgênicos e a racionalidade empresarial maximizarem os lucros – iludindo os consumidores e acarretando não apenas uma fome em massa, mas degradando a qualidade dos alimentos a níveis incrivelmente baixos -, o mundo continuará presenciando cenas estarrecedoras como as do século XVII.

Josué de Castro foi laureado com inúmeros títulos, agraciado com vários reconhecimentos e tido como tendo feito, no campo da alimentação, uma revolução comparada a de Copérnico, no campo da astronomia. Contudo, na comemoração de 100 anos de seu nascimento não é difícil antever que o maior de todos os prêmios que a humanidade poderia conceder a este ser humano singular seria um mundo sem fome.

Wilson Aparecido Lopes é assessor da Pastoral do Povo de Rua (Osasco-SP).

“Correio da Cidadania”

O fim da diferença

Vladimir Safatle

É hora de a esquerda, outra vez, erguer a bandeira da igualdade radical e da universalidade em suas lutas

This is the way the world ends/ Not with a bang/ but a whimper
T.S. Eliot
Observar o esgotamento de processos históricos é um exercício que leva confrontação com a dança vertiginosa das inversões. Valores e normas que antes pareciam ter a força de garantir a efetivação de expectativas de liberdade, auto-realização e justiça começam simplesmente a funcionar de maneira contrária.
Nestas horas vemos um cenário político macabro composto de tolerantes intolerantes, democratas autoritários, pacifistas belicistas e cosmopolitas comunitaristas. Isto, quando não somos assombrados pelo retorno de pensamentos edulcorados de crítica da modernidade, pregando a necessidade de uma refundação conservadora de nossos vínculos sociais.
No fundo, todas essas figuras indicam como a substância normativa das nossas sociedades ocidentais não têm mais força alguma para orientar a crítica social.
Diante deste quadro, é de se esperar a sensação de falta de norte. Pois estamos em uma fase em que a política não pode ser guiada por exigência de realização de ideais normativos de justiça e consenso que já estariam presentes em alguma dimensão da vida social.
Deixar-se guiar por tais exigências nos impede de desenvolver uma crítica mais profunda que nos permita questionar a gênese de nossos próprios ideais de justiça e consenso. Ou seja, a crítica não pode mais ser apenas a comparação entre situações concretas determinadas e normas socialmente partilhadas.
Esta é, no fundo, uma crítica de juizado de pequenas causas que se contenta em comparar normas e caso. Antes, a verdade crítica tem a força de se voltar contra nossos próprios critérios de justiça e consenso democrático, já que ela se pergunta se nossa forma de vida não é mutilada a ponto de se orientar por valores resultantes de distorções patológicas.
Neste contexto, não é de se estranhar que vários pensadores de esquerda se voltem para tópicos que pareciam arremessados à lata de lixo da história como, por exemplo, a crítica da democracia parlamentar, a reflexão sobre a legitimidade da violência política e a elevação da “igualdade radical” e da “indiferença” (ao invés da “diferença pura”) como valor político maior para a esquerda. Movimento desenvolvido de maneira mais clara e sistemática por pensadores como Alain Badiou e Slavoj Zizek.
É provável que esses tópicos, de uma maneira ou outra, se transformem em peça importante da agenda de debates da esquerda mundial. Eles indicam como, diante de uma realidade histórica extrema, o pensamento capaz de abrir portas para o futuro é aquele que não teme deslocar-se para os limites.
Um exemplo maior dessas inversões é o que aconteceu com a diferença enquanto valor maior para a ação política.
Durante certo tempo, embalada pelos ares libertários de Maio de 68, a esquerda viu na “diferença’’ o valor supremo de toda crítica social e ação política. Assim, os anos 70 e 80 foram palco da constituição de políticas que visavam, em alguns casos, construir a estrutura institucional daqueles que exigiam o reconhecimento da diferença no campo do sexual, do gênero, da raça etc.
Uma política das defesas das minorias funcionou como motor importante do alargamento das possibilidades sociais de reconhecimento. Essa política gerou, no seu bojo, as exigências de tolerância multicultural, que pareciam animar o mundo principalmente a partir de 1989, com a queda do Muro de Berlin.
Sabemos como multiculturalismo diz respeito, inicialmente, a uma lógica de ação política baseada no reconhecimento institucionalizado da diversidade cultural própria às sociedades multi-raciais ou às sociedades compostas por comunidades lingüísticas distintas. Isto implica em transformar o problema da tolerância à diversidade cultural, ou seja, o problema do reconhecimento de identidades culturais, no problema político fundamental.
Dessa forma, abriu-se as portas para uma certa secundarização de questões marxistas tradicionais vinculadas à centralidade de processos de redistribuição e de conflito de classe na determinação da ação política. No limite, os conflitos fundamentais no interior do universo social foram compreendidos como conflitos culturais. Talvez tenha sido por isto que a agenda sobre o multiculturalismo tenha sido gerada exatamente no interior dos “cultural studies” anglo-saxões.
No entanto, podemos dizer que esta transformação de conflitos sociais em conflitos culturais foi talvez um dos motores maiores de uma equação usada atualmente à exaustão pela direita mundial, em especial na Europa. Ela consiste em aproveitar-se do fato de as classes pobres européias serem compostas majoritariamente por imigrantes árabes e africanos e, assim, patrocinar uma política brutal de estigmatização e exclusão política travestida de choque de civilizações.
Ou seja, há uma linha reta que vai da tolerância multicultural à perpetuação racista da exclusão daqueles para quem nossos valores nunca deram prova de inclusão modernizadora. Afinal, trata-se de dizer que o único lugar onde a diferença pode florescer em sua liberdade é em nosso Ocidente defendido por megaaparatos securitários contra terroristas.
Um belo exemplo da retidão dessa linha foi dado pelo atual consultor do J.P. Morgan e fiel escudeiro de George W. Bush, Tony Blair. Lembremos de sua declaração a respeito do “dever de integração” que cai sobre os ombros de todo muçulmano que resolveu emigrar para a Grã-Bretanha, discussão sobre a integração motivada pela eterna querela a respeito do porte de véus em lugares públicos. “Nossa tolerância”, dirá Blair, “é parte do que faz da Grã-Bretanha, Grã-Bretanha. Conforme-se a isto, ou não venha para cá. Nós não queremos os ‘hate-mongers’ independentemente de sua raça, religião ou credo”1.
“Conforme-se a isto, ou não venha para cá” é, de fato e como todos podem ver, um exemplo muito ilustrativo de tolerância. No fundo, essa é uma prova clara de que nossos valores liberais não servem mais para coisa alguma.
Por outro lado, é bem provável que esta estratégia de esvaziamento de conflitos sociais através da cultura seja responsável também pela inacreditável onda de nacionalismo requentado que invade a Europa. Desde a criação do “Ministério da imigração e da identidade nacional” pelo marido de Carla Bruni até o recente apoio europeu à declaração da independência do Kosovo e o recrudescimento do separatismo na Bélgica, vemos o mesmo tipo de regressão política que consiste em identificar Estado, nação e povo.
A esse respeito, lembremos que uma das maiores invenções políticas da modernidade foi o imperativo de que nem a nação, enquanto construção imaginária, nem o Estado, enquanto aparato jurídico-institucional, podem estar relacionados ao povo como identidade. Pois isso significa colonizar a política com uma lógica que bloqueia o que há de determinação universal em todo e qualquer sujeito.
Nação e Estado devem ser, assim, absolutamente indiferentes às diferenças, isto no sentido de aceitá-las todas e esvaziar a afirmação da diferença de qualquer conteúdo político. Pois o espaço do político não deve ser marcado pela afirmação da diferença, mas pela indiferença absoluta em relação a qualquer exigência identitária. No limite, isto nos leva a criticar a existência de uma nação e um Estado francês, kosovar, judeu, flamengo, inglês etc. Condição maior para discutir a possibilidade de construção de Estados pós-nacionais.
Para termos uma idéia de quão explosivo pode ser este dispositivo, lembremos das conseqüências possíveis da vinda de mais um ator de peso neste cenário de conflito cultural: Ratzinger e sua igreja. Desde suas primeiras declarações racistas contra a violência inerente ao Islã, o jogo estava claro.
Descontando a ironia em ouvir o papa -que beatificou padres que apoiaram o regime fascista e assassino de Franco- criticar a violência religiosa, não havia dúvidas que a operação consistia em insistir na posição central do catolicismo para a configuração da “idéia espiritual do Ocidente”. Com isto, abriam-se as portas para o pior de todos os amálgamas: a constituição de uma fortaleza identitária patrocinada pela tradição judaico-cristã.
Para tanto, Ratzinger não teme sequer cometer o impropério de citar Adorno e Horkheimer em suas bulas, como se a crítica frankfurtiana aos processos de interversão na modernidade levassem diretamente às suas pregações por abstinência sexual fora do casamento, à excomunhão dos que abortam, dos que defendem famílias homossexuais e outras pérolas do biopoder e da culpabilização.
A única coisa que se pode dizer a este respeito é que, se Ratzinger interessa-se pela Escola de Frankfurt, talvez ele poderia começar lendo “Tabus Sexuais Hoje”, de Adorno, ou, quem sabe, “Eros e Civilização” de Marcuse. Construir aliados através de falsos amálgamas é uma antiga estratégia para fazer proposições intoleráveis parecerem aceitáveis.
Contra aqueles que não vêem relação alguma entre fortalecimento dos comunitarismos, o retorno da ala mais reacionária do catolicismo e a política multicultural das diferenças, valeria a pena fazer aqui algumas considerações.
Não podemos perder de vista como trata-se, no fundo, de impor uma escolha forçada. Ou um modo de experiência social da diferença que se realiza na multiplicação de modos de ser coerente com os imperativos da modernidade capitalista ou a procura pela reconstituição social de vínculos substanciais patrocinada pela polícia e pelas estruturas disciplinares de sempre (igreja, nação, família etc.).
Diante dessa situação, devemos lembrar que a verdadeira mola do poder não é a imposição de uma norma de conduta, mas a organização das possibilidades de escolha. Trata-se de operar uma redução da escolha que transforma o movimento no circuito limitado de um pêndulo que vai necessariamente de um pólo a outro. E, como todo pêndulo, o mover-se é apenas uma forma de conservar o mesmo centro. Ir de um pólo a outro é apenas uma maneira mais complicada de não andar.
Nossas formas hegemônicas de vida podem muito bem conviver ao mesmo tempo com a geografia mental da liberalização e da restrição. Afinal, não há dificuldade alguma em desejar a plasticidade infinita da “viagem aleatória da libido” e amar ouvir de vez em quando a voz firme do Ministro da Justiça.
Por fim, podemos dizer que esse contexto talvez deixe clara a urgência de a esquerda colocar novamente suas lutas sob a bandeira da igualdade radical e da universalidade, abandonando qualquer tipo de veleidade comunitarista ou de entificação da diferença.
Devemos compreender de uma vez por todas que a igualdade não implica imposição da identidade, mas indiferença em relação a toda e qualquer diferença. Indiferença que permite retirar a diferença do espaço da política para que ela possa ser vivenciada de maneira não dramática e para que a política possa confrontar-se com o seu real. Para a esquerda, isto não significa outra coisa que lembrar de onde ela veio.

Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e professor-visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII. É também autor de “A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética” (Unesp, 2006) e “Cinismo e Falência da Crítica” (no prelo), entre outros.

1 – “The Guardian”, 9/12/2006.

“Trópico”

A Filosofia Como Uma Arma Revolucionária

Fevereiro de 1968

Louis Althusser

Primeira Edição: Entrevista concedida a Maria Antonietta Macciocchi e publicada em L’Unità, Fevereiro de 1968.
Fonte: Tradução para o inglês publicada na New Left Review em 1971.
Tradução: Gabriel Zerbetto Vera, Maio 2007, a partir do texto em inglês existente no Marxists Internet Archive.
HTML: Fernando A. S. Araújo, Maio 2007.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

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1 Você poderia nos contar um pouco sobre sua história pessoal? O que o trouxe à filosofia marxista?

Em 1948, quando eu tinha 30 anos, me tornei professor de filosofia e me filiei ao PCF [Partido Comunista Francês]. A filosofia era um interesse, eu buscava fazer dela minha profissão. A política era uma paixão, eu almejava ser um militante comunista.

Meu interesse pela filosofia foi motivado pelo materialismo e sua função crítica: o conhecimento científico, contra todas as mistificações do “conhecimento” ideológico. Contra o mero denuncismo moral de mitos e mentiras, por suas críticas racionais e rigorosas. Minha paixão pela política foi inspirada pelo instinto revolucionário, inteligência, coragem e heroísmo da classe operária em sua luta pelo socialismo. A Guerra e os longos anos em cativeiro me propiciaram um vívido contato com operários e camponeses e fui apresentado aos militantes comunistas.

Foi a política que decidiu tudo. Não a política em geral: a política marxista-leninista.

Primeiro tive que encontrá-las e entendê-las. Isso é sempre dificílimo para um intelectual. E foi difícil assim nos anos 50 e 60, pelos motivos que você sabe bem: as conseqüências do “culto”, o Vigésimo Congresso, depois a crise do movimento comunista internacional. Acima de tudo, não foi fácil resistir à propagação da ideologia “humanista” contemporânea e aos outros ataques da ideologia burguesa ao marxismo.

Uma vez que atingi um melhor entendimento da política marxista-leninista, comecei a me apaixonar pela filosofia também, e conseqüentemente passei a entender a grande idéia de Marx, Lênin e Gramsci: a de que a filosofia é fundamentalmente política.

Tudo que escrevi – primeiro sozinho, depois em companhia de camaradas e amigos mais jovens – gira, apesar da “abstração” de nossos ensaios, em torno dessas questões bastante concretas.

2 Você poderia ser mais preciso: por que em geral é tão difícil ser um comunista na filosofia?

Ser um comunista na filosofia é tornar-se partidário e perito na filosofia marxista-leninista, a do materialismo dialético.

Não é fácil ser um filósofo marxista-leninista. Como todo “intelectual”, o professor de filosofia é um pequeno burguês. Quando ele abre a boca, sua ideologia pequeno-burguesa fala: seus truques e espertezas são infinitos.

Você sabe o que Lênin diz dos “intelectuais”. Individualmente, alguns deles poderiam (politicamente) ser considerados revolucionários e corajosos. Mas no conjunto eles permanecem sendo pequeno-burgueses “incorrigíveis” na ideologia. O próprio Gorki era, para Lênin (que admirava seus talentos), um revolucionário pequeno-burguês. Para se tornarem “ideólogos da classe operária” (Lênin), “intelectuais orgânicos” do proletariado (Gramsci), os intelectuais devem atingir uma revolução radical em suas idéias: uma longa, dolorosa e difícil re-educação. Uma interminável luta exterior e interior.

Os proletários têm um “instinto de classe” que os ajuda a alcançar “posições de classe” proletárias. Os intelectuais, por outro lado, têm um instinto de classe pequeno-burguês que se opõe ferozmente a essa transição.

Uma posição de classe proletária é mais do que um mero “instinto de classe” proletário. É a consciência e a prática que estão de acordo com a realidade objetiva da luta de classe proletária. O instinto de classe é subjetivo e espontâneo. A posição de classe é objetiva e racional. Para atingir as posturas de classe proletárias, o instinto de classe dos proletários necessita apenas ser educado; o instinto de classe dos pequeno-burgueses (e, logo, dos intelectuais) necessita, por outro lado, ser revolucionado. Essa educação e essa revolução são, em última análise, determinadas pela luta de classe proletária conduzida desde a base pelos princípios da teoria marxista-leninista.

Como diz o Manifesto Comunista, o conhecimento dessa teoria pode ajudar certos intelectuais a atingirem posições da classe operária.

A teoria marxista-leninista abrange uma ciência (o materialismo histórico) e uma filosofia (o materialismo dialético).

A filosofia marxista-leninista é, portanto, uma das duas armas teóricas indispensáveis para a luta de classe do proletariado. Os militantes comunistas devem assimilar e aplicar os princípios da teoria: ciência e filosofia. A revolução proletária precisa de militantes que são tanto cientistas (materialistas históricos) quanto filósofos (materialistas dialéticos) para auxiliar na defesa e no desenvolvimento da teoria.

A formação desses filósofos vai de encontro a duas grandes dificuldades.

Primeiro, a dificuldade política. O filósofo profissional que se junte ao Partido continua sendo, ideologicamente, um pequeno burguês. Ele deve revolucionar seu pensamento de forma a ocupar uma posição de classe proletária na filosofia.

Essa dificuldade política é “determinante em último caso”.

A segunda é a dificuldade teórica. Nós sabemos com que direcionamento e com quais princípios devemos trabalhar a fim de definir essa posição de classe na filosofia. Mas devemos desenvolver a filosofia marxista: é teórica e politicamente urgente fazer isso. Agora, esse trabalho é vasto e difícil. Dentro da teoria marxista, a filosofia ficou para trás da ciência da história.

Atualmente, em nossos países, essa é a dificuldade “dominante”.

3 Então você distingue uma ciência e uma filosofia dentro da teoria marxista? Como você sabe, essa distinção é bastante contestada atualmente.

Eu sei. Mas essa “contestação” é uma velha história.

Para ser extremamente esquemático, pode-se dizer que, na história do movimento marxista, a supressão dessa distinção expressou um desvio tanto direitista quanto esquerdista. O desvio direitista suprime a filosofia: resta apenas a ciência (positivismo). O desvio esquerdista suprime a ciência: resta apenas a filosofia (subjetivismo). Existem exceções a isso (casos de “inversão”), mas elas “confirmam” a regra.

Os grandes líderes do movimento operário marxista, de Marx e Engels até hoje, sempre disseram que esses desvios são resultado da influência e dominação da ideologia burguesa sobre o marxismo. Da parte deles, eles sempre defenderam a distinção (ciência, filosofia), não apenas por razões teóricas, mas por razões vitais políticas também. Pense no Lênin em Marxismo e Empírio-criticismo ou em Esquerdismo – Doença Infantil do Comunismo. Suas razões são claramente óbvias.

4 Como você justifica essa distinção entre ciência e filosofia na teoria marxista?

Responderei a essa pergunta formulando algumas questões provisórias e esquemáticas.

1. A fusão da teoria marxista com o movimento operário é o evento mais importante de toda a história da luta de classes, ou seja, de praticamente toda a história da humanidade (os primeiros efeitos foram as revoluções socialistas).

2. A teoria marxista (ciência e filosofia) representa uma revolução sem precedentes na história do conhecimento humano.

3. Marx fundou uma nova ciência: a ciência da história. Vou ilustrar isso. As ciências com as quais somos familiares têm seus alicerces em alguns “continentes”. Antes de Marx, dois desses continentes haviam sido abertos ao conhecimento científico: o continente da matemática e o continente da física. O primeiro pelos gregos (Tales), o segundo por Galileu. Marx abriu um terceiro continente ao conhecimento científico: o continente da história.

4. A abertura desse novo continente levou a uma revolução na filosofia. Essa é uma regra: a filosofia está sempre ligada às ciências.

A filosofia nasceu (com Platão) quando o continente da matemática foi aberto. Ela foi transformada (com Descartes) pela abertura do continente da física. Hoje em dia, ela está sendo revolucionada com a abertura do continente da história por Marx. Essa revolução é chamada materialismo dialético.

As transformações da filosofia são sempre reverberações de grandes descobertas científicas. Portanto, em essência, elas nascem após esses eventos. É por isso que a filosofia ficou para trás da ciência na teoria marxista. Existem outras razões que todos nós conhecemos, mas hoje essa é a dominante.

5. Como conjunto, apenas os militantes proletários reconheceram o âmbito revolucionário da descoberta científica de Marx. Sua prática política foi transformada por ela.

E aqui chegamos ao maior escândalo teórico da história contemporânea.

Como conjunto, os intelectuais, por outro lado — mesmo os que têm um interesse “profissional” no assunto (especialistas em ciências humanas, filósofos) —, não reconheceram ou se recusam a reconhecer o âmbito sem precedentes da descoberta científica de Marx, esta que eles condenam e desprezam e que eles distorcem quando discutem a seu respeito.

Com poucas exceções, eles ainda estão “engatinhando” na economia política, sociologia, etnologia, “antropologia”, “psicologia social”, etc., etc. Mesmo hoje, cem anos após o Capital , assim como os físicos aristotélicos estavam “engatinhando” na física, cinqüenta anos depois de Galileu. Suas “teorias” são anacronismos ideológicos, rejuvenescidos por uma grande dose de sutilezas intelectuais e técnicas matemáticas ultramodernas.

Mas esse escândalo teórico não é um de todo um escândalo. É um efeito da luta de classe ideológica: pois é a ideologia burguesa, a “cultura” burguesa que está no poder, que exerce uma “hegemonia”. Como conjunto, os intelectuais, incluindo muitos intelectuais comunistas e marxistas, são – com exceções – dominados em suas teorias pela ideologia burguesa. Com exceções, o mesmo acontece nas ciências “humanas”.

6. A mesma situação escandalosa aparece na filosofia. Quem compreendeu a incrível revolução filosófica provocada pela descoberta de Marx? Apenas os líderes e militantes proletários. Por outro lado, os filósofos profissionais, como conjunto, nem sequer se deram conta dela. Quando eles mencionam Marx, isso sempre ocorre (com raríssimas exceções) com o intuito de atacá-lo, condená-lo, “absorvê-lo”, explorá-lo e revisá-lo.

Aqueles que defenderam a dialética materialista, como Engels e Lênin, são tratados como filosoficamente insignificantes. O verdadeiro escândalo é que certos filósofos marxistas sucumbiram ante a mesma infecção, em nome do “anti-dogmatismo”. Mas aqui também a razão é a mesma: o efeito da luta de classe ideológica. Pois é a ideologia burguesa, a “cultura” burguesa, que está no poder.

7. As tarefas cruciais do movimento comunista, em teoria:

- Identificar e conhecer o âmbito teórico revolucionário da ciência e da filosofia marxista-leninista;

— Lutar contra a visão de mundo burguesa e pequeno-burguesa que sempre ameaçou a teoria marxista e que a permeia profundamente hoje em dia. A forma geral dessa visão de mundo é o economismo (hoje “tecnocracia”), e seu “complemento espiritual”, o idealismo ético (hoje “humanismo”). O economismo e o idealismo ético formaram a base opositora na visão de mundo burguesa desde as origens da burguesia. A atual forma filosófica dessa visão de mundo é o neo-positivismo e seu “complemento espiritual”, o subjetivismo existencialista-fenomenológico. A variante peculiar às Ciências Humanas é a ideologia chamada “estruturalismo”;

— Conquistar para a ciência a maioria das Ciências Humanas, acima de tudo as Ciências Sociais, que, com exceções, têm ocupado como impostoras o continente da história, o continente legado por Marx a nós;

— Desenvolver a nova ciência e filosofia com todo rigor e ousadia necessários, vinculando ambas aos requisitos e inventos da prática da luta de classe revolucionária.

Em teoria, a ligação decisiva na atualidade: a filosofia marxista-leninista.

5 Você disse duas coisas que são aparentemente contraditórias ou diferentes: primeiro, a filosofia é basicamente política; segundo, a filosofia está ligada às ciências. Como você explica essa dupla relação?

Aqui também terei de responder por meio de questões esquemáticas e provisórias.

1. As posições de classe em confronto na luta de classes são “representadas” no domínio das ideologias práticas (ideologias religiosas, éticas, legais, políticas, estéticas) por visões de mundo de tendências antagônicas: idealistas (burguesas) e materialistas (proletárias). Todos desenvolvem espontaneamente uma visão de mundo.

2. As visões de mundo são representadas no domínio da teoria (ciência + as ideologias “teóricas” que envolvem a ciência e os cientistas) pela filosofia. A filosofia representa a luta de classes na teoria. É por isso que a filosofia é uma luta (Kampf, como disse Kant) e fundamentalmente uma luta política: uma luta de classes. Ninguém é um filósofo por natureza, mas todos podem ser filósofos.

3. A filosofia surge logo que o domínio teórico aparece, logo que uma ciência (num sentido estrito) nasce. Sem a ciência não há filosofia, apenas visões de mundo. A aposta na batalha e o campo de batalha devem ser distinguidos. A aposta definitiva da luta filosófica é a luta pela hegemonia entre as duas grandes tendências de visão de mundo (materialista e idealista). O principal campo de batalha dessa luta é o conhecimento científico: contra ou a favor dele. Deste modo, a batalha filosófica mais importante ocorre na fronteira entre o conhecimento científico e o ideológico. Lá, as filosofias idealistas que depredam a ciência lutam contra as filosofias materialistas que servem às ciências. A luta filosófica é uma esfera da luta de classes existente entre visões de mundo. No passado, o materialismo sempre foi dominado pelo idealismo.

4. A ciência fundada por Marx mudou toda a conjuntura do domínio teórico. É uma ciência nova: a ciência da história. Dessa forma, isso nos possibilitou conhecer, pela primeira vez, as visões de mundo que a filosofia representa na teoria; isso no permitiu entender a filosofia. Isso nos fornece recursos para mudar as visões de mundo (a luta de classe revolucionária guiada pelos princípios da teoria marxista). A filosofia é assim duplamente revolucionada. O materialismo mecanicista, “idealista historicamente”, se torna o materialismo dialético. O equilíbrio das forças é invertido: agora o materialismo pode dominar o idealismo na filosofia e, se as condições políticas estiverem concretizadas, pode também conduzir a luta de classe pela hegemonia entre as visões de mundo.

A filosofia marxista-leninista, ou o materialismo dialético, representa a luta de classe proletária na teoria. Com a união da teoria marxista e do movimento operário (a união definitiva entre teoria e prática) a filosofia é interrompida, como disse Marx, para “interpretar o mundo”. Torna-se uma arma para “mudá-lo”: a revolução.

6 São essas as razões que levaram você a dizer que é essencial ler o Capital hoje em dia?

Sim. É essencial ler e estudar o Capital.

— Para realmente entender, em todo seu âmbito e conseqüências científicas e filosóficas, o que o os militantes proletários há muito entendem na prática: o caráter revolucionário da teoria marxista.

— Para defender essa teoria de todas as interpretações burguesas e pequeno-burguesas, ou seja, revisões que ameaçam-na seriamente hoje, principalmente a oposição economismo/humanismo.

— Para desenvolver a teoria marxista e prover os conceitos científicos indispensáveis à análise da luta de classes contemporânea, em nossos países e mundo afora.

É essencial ler e estudar o Capital. Devo acrescentar que é necessário e essencial ler e estudar Lênin e todos os grandes textos, novos ou antigos, aos quais se devem a experiência da luta de classe do movimento operário internacional. É essencial estudar os textos práticos do movimento operário revolucionário em sua realidade, seus problemas e contradições: seu passado e, acima de tudo, sua história presente.

Atualmente, existem grandes recursos em nossos países para a luta de classe revolucionária. Mas eles devem ser buscados em suas fontes: as massas oprimidas. Eles não serão “descobertos” sem um vínculo direto com as massas e sem as armas da teoria marxista-leninista. As noções ideológicas burguesas de “sociedade industrial”, “neocapitalismo”, “nova classe trabalhadora”, “sociedade afluente”, “alienação” e tutti quanti são anti-científicas e antimarxistas: criadas para fazer frente aos revolucionários.

Finalmente, devo acrescentar um comentário, o mais importante de todos.

Para que alguém realmente entenda o que “lê” e estuda nessas obras teóricas, políticas e históricas deve-se vivenciar diretamente as duas realidades que de fato as determinam: a realidade da prática teórica (ciência, filosofia) em sua vida concreta e, também nesta, a realidade da prática da luta de classe revolucionária, em contato próximo às massas. Pois é a teoria que nos permite compreender as leis da história: não são os intelectuais nem os teóricos, mas as massas que fazem a história. É essencial aprender com a teoria – mas ao mesmo tempo é crucial aprender com as massas.

7 Você atribui uma grande importância ao rigor, inclusive a um vocabulário rigoroso. O que isso significa?

Uma simples expressão resume a função maior da prática filosófica: “traçar uma linha divisória” entre as idéias verdadeiras e as falsas, como disse Lênin.

Mas a mesma expressão resume uma das operações fundamentais que norteiam a prática da luta de classe: “traçar uma linha divisória” entre as classes antagônicas. Entre nossos amigos de classe e nossos inimigos de classe.

É a mesma expressão. A linha divisória teórica entre as idéias verdadeiras e as falsas. A linha divisória política entre o povo (o proletariado e seus aliados) e os inimigos do povo.

A filosofia representa a luta de classes na teoria. Em contrapartida, ela ajuda o povo a distinguir na teoria e em todas as outras idéias (políticas, éticas, estéticas, etc.) quais idéias são corretas e quais são erradas. A princípio, as idéias verdadeiras sempre servem ao povo; as idéias falsas sempre servem aos inimigos do povo.

Por que a filosofia batalha pelas palavras? As realidades da luta de classes são “representadas” pelas “idéias”, que são “representadas” pelas palavras. Na argumentação científica e filosófica, as palavras (conceitos, categorias) são “instrumentos” do conhecimento. Mas na luta política, ideológica e filosófica, as palavras são armas, explosivos ou tranqüilizantes e venenos. Às vezes, toda a luta de classe pode ser resumida a um confronto entre palavras. Certas palavras lutam entre si como inimigas. Outras palavras são raízes de uma ambigüidade: são a aposta em uma batalha decisiva, porém não resolvida.

Por exemplo: a luta comunista pela supressão das classes e por uma sociedade comunista, onde, um dia, todos os homens serão livres e irmãos. Entretanto, toda a tradição marxista clássica se recusou a considerar o marxismo como um humanismo. Por quê? Por a palavra humanismo ser, na prática (isso é, com base nos fatos), explorada por uma ideologia que a usa para brigar, ou seja, para obliterar aquela outra expressão verdadeira, vital ao proletariado: a luta de classes.

Outro exemplo: os revolucionários sabem que, em último caso, tudo dependerá, não das técnicas, armas, etc., mas dos militantes, com sua consciência de classe, sua devoção e sua coragem. Contudo, toda a tradição marxista se nega a dizer que é o “homem” que faz a história. Por quê? Por esta expressão ser na prática (com base nos fatos) explorada pela ideologia burguesa, que a utiliza para brigar, ou seja, para extinguir outra idéia legítima, vital ao proletariado: que são as massas que fazem a história.

Ao mesmo tempo, a filosofia — mesmo nos longos trabalhos onde ela se mostra abstrata e difícil — batalha pelas palavras: contra as palavras mentirosas, contra as palavras ambíguas, a favor das palavras corretas. Ela luta pelas “marcas de opinião”.

Lênin disse: “Apenas as pessoas incautas consideram as disputas factuais e a rígida diferenciação entre as marcas de opinião como inoportunas ou supérfluas. O destino da social-democracia russa nos muitos anos que hão de vir poderá depender do fortalecimento de uma ou outra “marca” (in Que fazer?).

A batalha filosófica pelas palavras é uma parte da luta política. A filosofia marxista-leninista só poderá concluir sua obra teórica abstrata, rigorosa e sistemática se ela lutar tanto pelas expressões fortemente “acadêmicas” (conceito, teoria, dialética, alienação, etc.) quanto pelas mais triviais (homem, massas, povo, luta de classe).

“Althusser”