Daily Archives: 02/10/2008

O ataque contra o Irã será antes ou depois das eleições nos EUA?

ORIENTE MÉDIO Bush tem repetido que até deixar a Casa Branca, em 20 de janeiro de 2009, pretende fazer tudo o que achar necessário para mudar a conjuntura da região; um ataque ao Irã não está descartado, nem mesmo se o próximo eleito for Obama ou McCain

Achille Lollo

Nos últimos três meses, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, endureceu o tom das ameaças contra a República Islâmica do Irã, enquanto em Israel, vários ministros manifestavam a necessidade de uma “ação preventiva” para desativar o programa nuclear de enriquecimento de urânio que o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, voltou a priorizar para fins pacíficos. É bom lembrar que o presidente anterior, Khatami, havia congelado o programa nuclear iraniano na esperança de promover uma ampla negociação com os EUA, que, em resposta, ofereceu um pacote mínimo, mantendo todas as suas exigências imperiais e as prerrogativas geoestratégicas na conturbada região do Oriente Médio.
Segundo Ahmadinejad, em janeiro deste ano, Bush manteve uma reunião de trabalho com os generais do Pentágono para avaliar as reais possibilidades de se promover uma “guerra de civilização para derrubar o regime iraniano”. A resposta dos generais foi constrangedora para Bush, visto que o recrudescimento dos combates no Iraque e no Afeganistão não permitem transferir as divisões que ocupam aqueles países para uma prolongada campanha militar contra o Irã.
Por outro lado, os especialistas em planejamento estratégico alertaram o presidente de que, para implementar no Irã um novo processo institucional – como foi tentado no Iraque –, seria necessário, antes de tudo, derrotar o Exército iraniano; eliminar fisicamente os 50 mil guardas da Revolução (para evitar a formação de guerrilhas) e, portanto, ocupar todo o Irã (que é três vez maior do que o Iraque) com um corpo de armada estimado em 350 mil homens.

Bombardeio cirúrgico
Excluindo o quadro de uma guerra clássica e a repetição de uma ocupação territorial, os estrategistas apontaram para o mandatário da Casa Branca a hipótese de um “bombardeio cirúrgico” dos quatro centros nucleares iranianos e de alguns terminais petrolíferos, antes das eleições presidenciais iranianas, em 2009.
Segundo os estrategistas estadunidenses, um ataque deste tipo poderia desqualifi car definitivamente a retórica beligerante de Ahmadinejad, inviabilizando sua reeleição e, conseqüentemente, promovendo uma mudança no Otavo Majlis (Parlamento), com uma vitória eleitoral dos conservadores reformistas liderados por Larajani e o prefeito de Teerã, Ghalibaf.
Em Israel, os grupos do poder sionista apóiam a idéia do “bombardeio cirúrgico”. Por isso, a reconstrução do ataque aéreo contra a central nuclear iraquiana de Tamuz, em 1981, foi um argumento que abrilhantou a estadia de George W. Bush em Jerusalém, em 15 de maio. Porém, para os estrategistas estadunidenses, o grande problema é ter a certeza de que, ao bombardear os quatros centros de pesquisa nuclear, não haverá vítimas entre os civis e, sobretudo, não haverá explosões no local em que está armazenado o material radioativo.
De fato, o professor Hushang Amir-Ahmadi, diretor do American-Iranian Council e professor na Rutgers University de New Jersey, alerta que a principal instalação nuclear iraniana está muito perto dos subúrbios da capital Teerã e que sua estrutura – diferentemente da central iraquiana de Tamuz – é subterrânea e, portanto, preparada para suportar ataques aéreos. Isto implica bombardeios prolongados e esmagadores que podem abrir um ciclo de guerra destruidor por toda a região.

Sem controle
“Os próximos sete ou oito meses serão cruciais para o relacionamento entre o Irã e os EUA, e serão bastante dramáticos, visto que neste período não haverá construção política. Serão meses nos quais vão acontecer fatos, uma vez que não será a política que vai estabelecer o que acontecerá entre os dois países. Pelo contrário, serão os fatos, ou seja, os acidentes não controláveis, que poderão provocar ações militares de grande envergadura contra o Irã”, realça o professor.
Por exemplo, o enfrentamento que se deu no Líbano, na primeira quinzena de maio, entre o governo pró-ocidental e o Hezbollah foi um “acidente não controlável” que a Liga Árabe conseguiu concertar pouco antes de Israel intervir. Neste contexto, o diretor do American-Iranian Council admite que “o governo iraniano está preocupado com os ditos acidentes não controláveis”. De fato, o governo iraniano considera “crítica” a situação em três regiões do Irã, nomeadamente: a) o Beluchistão, que faz fronteira com o Paquistão e onde a CIA e o ISI (serviço secreto paquistanense) alimentam grupos independentistas; b) o Turcomenistão iraniano, agitado por grupos que pretendem a unificação com a República do Turcomenistão, monitorado pelo Mossad israelense; e c) o Curdistão iraniano – onde vivem refugiadas as populações do Curdistão turco ligadas ao PKK – pode ser objeto de ataques vindos da Turquia ou do Curdistão iraquiano, em retaliação às emboscadas realizadas pelos guerrilheiros do PKK.
Se isso acontecer, certamente toda a região fronteiriça entre Irã, Iraque e Turquia vai ficar instável. Para o professor, “um acidente não controlável desse pode justificar o início dos ‘bombardeios cirúrgicos’ e, assim, abrir um novo ciclo de guerra com poucas perspectivas de sucessos imediatos”.

“Vítima”
Nos últimos meses, Bush tem repetido em várias ocasiões que até 20 de janeiro de 2009 – isto é, quando sair da Casa Branca – pretende fazer tudo o que achar necessário para mudar a conjuntura do Oriente Médio.
Uma declaração que apresenta que os EUA estã0 prontos para um novo conflito no Oriente Médio, região na qual Israel é o único aliado com que podem contar 100%. Para explicar a teimosia imperial de Bush e dos generais do Pentágono, Marcus Raskin, fundador do Institute for Policy Studies e professor na George Washington University, declarou a um jornalista do jornal italiano Il Manifesto: “Os EUA estão prontos para um novo conflito porque entendem a guerra como parte da tradição estadunidense de um Estado guerreiro.
Por outro lado, o 11 de setembro de 2001, com seus ataques terroristas contra Nova York e Washington, permitiu ao governo Bush utilizar o conceito de ‘vítima’ e, portanto, justificar todo tipo de ‘contra-ataques preventivos’ em qualquer parte do mundo. Assim, se Israel decidir bombardear o Irã, terá o apoio militar do Pentágono e a sustentação política no Congresso pela maioria dos republicanos e dos democratas. Isto significa que Bush pode deixar ao novo presidente dos EUA a herança de uma situação terrível, com uma guerra que ameaça se espalhar a qualquer momento”.

Guerra civilizadora
Barack Obama e John Mc- Cain apóiam cegamente Israel. Para eles, quem ameaça o regime de Tel Aviv é inimigo dos EUA. Em suas campanhas, propuseram aumentar a presença militar no Afeganistão por quatro motivos:
a) por ocupar um vasto território em uma região cada vez mais estratégica, de onde os EUA não se podem retirar;
b) por controlar os oleodutos que atravessam aquele país;
c) pela ocupação territorial contribuir para o aumento das encomendas às indústrias militares, que são os principais patrocinadores das campanhas eleitorais;
d) pela guerra no Afeganistão ser apresentada aos eleitores como uma guerra civilizadora, na qual os EUA e seus parceiros europeus têm a possibilidade de “educar” uma parte do mundo islâmico. Isso sem falar que, com a ocupação do Afeganistão, voltaram as plantações de papoula que alimentam a produção de heroína e a lavagem de lucros bilionários nos bancos dos EUA – algo que os dois candidatos silenciaram com muito oportunismo. No caso das derrotas políticas e militares no Iraque, democratas e republicanos disfarçam, dizendo que se trata de “uma guerra preventiva” que alguns congressistas julgam imoral, outros acham que não é mais necessária, porém ninguém propõe a efetiva retirada, sobretudo agora que o Irã, além de exercer uma grande liderança no mundo islâmico, pode se tornar uma potência militar que domina o processo de fixação nuclear.
Por isso, um possível conflito com o Irã é apresentado pela mídia estadunidense e européia como uma guerra civilizadora. Para isso, a voz de Henry Kissinger voltou a ocupar espaço na mídia ao dizer “se o regime de Teerã quer ser readmitido no circuito econômico internacional e ter reconhecido seu papel de potência regional, deve renunciar ao seu arsenal atômico e decidir se é uma nação ou uma causa, se entende atuar como Estado ou como a vanguarda da revolução islâmica mundial”.

O governo
O objetivo principal do presidente iraniano é sua reeleição em maio de 2009. É neste âmbito que afastou o ministro do Interior, Pur-Mohammadi, e rompeu publicamente com os conservadores radicais, liderados por Hussein Shariatmadari (diretor do jornal Keyhan) e Ghazi Mortazavi (juiz do Tribunal Islâmico). Uma operação que reforçou sua ligação política com o guia espiritual da Revolução Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei, inclusive porque seus ataques verbais contra Israel e as ameaças, de Bush e Israel, de bombardear as centrais nucleares iranianas fortaleceram a imagem de Ahmadinejad, sobretudo entre os dois principais grupos étnicos, os Padaran e os Basiji.
Em um contexto geopolítico exprimido pelas sanções econômicas – que EUA e União Européia conseguiram impor por meio de uma ONU cada vez mais ao reboque da estratégia imperial – e ameaçado de ser atacado a partir do Iraque, Afeganistão, Turquia, Omã e Turcomenistão, o governo iraniano não cede.
Aliás, mais o Irã sofre ameaças, maior é a vontade de reafirmar sua autonomia política, transformando o conflito regional em uma guerra planetária entre o agressor ocidental (cristã-judaico) e o mundo islâmico. De fato, em abril, o aiatolá Khamenei, em uma intervenção em Yazd, afirmou: “Não podemos ser eternamente inimigos dos Estados Unidos, mas ainda não chegou a hora da reconciliação”.
O que, na prática, significa que o Irã está disposto a negociar um amplo plano com o novo presidente dos EUA, somente em 2009, isto é, depois da reeleição de Ahmadinejad. Mas, até lá tudo pode acontecer.

Achille Lollo, jornalista italiano, é diretor do documentário América Latina: Desenvolvimento ou Mercado; disponível em DVD no www.portalpopular.org.br

“Brasil De Fato”

Agora, regulação é apontada como única saída

O ex-presidente Ronald Reagan (na foto com a ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher) eliminou os controles governamentais sobre uma ampla gama de instituições e instrumentos financeiros, em consonância com sua fé no livre mercado. Reagan gostava de ilustrar sua política desreguladora com a frase: “o governo não é a solução, mas sim o problema”. Em 1999, a Lei de Modernização de Serviços Financeiros eliminou controles financeiros impostos desde os tempos de Franklin Delano Roosevelt. As conseqüências estão aí.

Alison Raphael (IPS)

WASHINGTON – A sangria financeira que, de Wall Street, espalhou-se pelos Estados Unidos e pela economia internacional, levantou o clamor por uma regulação mais estrita dos grandes atores da economia norte-americana. Na quinta-feira (18), a primeira preocupação foi a saúde dos bancos de investimentos de grande porte que sobreviveram à débâcle do início da semana, Goldman Sachs e Morgan Stanley, assim como a da empresa Washington Mutual, com sede na capital dos EUA.

Ao meio-dia, circulavam rumores que o Morgan Stanley poderia ser adquirido pela Wachovia Corporation, da Carolina do Norte, quarta maior cadeia bancária dos EUA, com presença em 21 estados e em seis países latino-americanos. Todas as sirenes de alarme dirigiram-se depois ao Federal Reserve (equivalente ao Banco Central) e ao Departamento do Tesouro (equivalente ao Ministério da Fazenda).

Após intensas reuniões e conversas telefônicas, o Federal Reserve injetou 55 bilhões de dólares nos bancos dos EUA e outros 180 bilhões nos bancos centrais de todo o mundo, com o objetivo de estabilizar os mercados financeiros. Essa ajuda e mais aquela dirigida ao American Insurance Group e às companhias hipotecárias Freddie Mac e Fannie Mae serão suficientes para conter a crise?

Os especialistas duvidam e insistem que a única solução a longo prazo é uma regulação mais estrita dos mercados financeiros. Essa é a posição, por exemplo, dos jornalistas especializados em economia da revista Time e do jornal The Washington Post, dois dos meios de imprensa mais influentes do país. “O temor se generalizou agora por que os mercados financeiros e muitas instituições de crédito não mostraram, durante anos, nenhum temor. Waal Street não tinha porque se preocupar com o tema das regulações”, escreveram Andy Server e Allan Sloan, da Time.

O The Washington Post acusou o governo de não controlar as maquinações das companhias Fannie Mae e Freddie Mac, cuja eminente quebra desatou a crise na semana passada. O resgate pelo Estado custou aos contribuintes bilhões de dólares. O Centro para o Progresso dos Estados Unidos, instituição acadêmica com sede em Washington, também atribuiu boa parte da responsabilidade à falta de regulações.

A “política de não-intervenção” do presidente George W. Bush “foi o que impulsionou a crise atual”, criticou a entidade. “Após sete anos e meio no cargo, os reguladores do governo Bush não reconheceram como a débâcle atual poderia ter sido evitada com um controle mais efetivo dos mercados financeiros, nem entendem que a resolução desta crise começa com os proprietários de habitações individuais”, escreveu Andrew Jakabovjcs no site do centro.

Ondas de finanças predadoras
O professor de economia, James K. Galbraith, da Universidade do Texas, explicou que “a desregulação tem sido parte do credo do público e do setor cidadão” desde a presidência de Ronald Reagan (1981-1989). Durante o governo Bush, o hoje ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, lançou “ondas de finanças predadoras” no mercado imobiliário, no que foi acompanhado do principal assessor econômico do candidato presidencial republicano John McCain, Phil Gramm, “e pelos autodenominados reguladores que sistematicamente subverteram o interesse público”, acrescentou Galbraith.

Reagan gostava de ilustrar sua política desreguladora com a frase “o governo não é a solução, mas sim o problema”. O ex-presidente, falecido em 2004, eliminou os controles governamentais sobre uma ampla gama de instituições e instrumentos financeiros, em consonância com sua fé no livre mercado, compartilhada pela maioria de seus correligionários no Partido Republicano.

A aprovação, em 1999, da Lei de Modernização de Serviços Financeiros, proposta pelos legisladores republicanos Phil Gramm e Jim Leach, eliminou controles financeiros impostos desde os tempos de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), o presidente que pôs fim à crise de 1929. Roosevelt proibiu a fusão entre empresas do setor bancário, de intermediação financeira e de seguros. O Serviço de Investigações do Congresso legislativo desaprovou os projetos desreguladores. Apesar disso, a maioria republicana conseguiu impô-los em 1999. Menos de dez anos depois, as conseqüências estão aí. A maioria dos analistas resiste em fazer prognósticos para o futuro, mas concordam que a turbulência e as tragédias familiares continuarão no médio prazo.

A especialista Nomi Prins, que trabalhou em empresas financeiras como Bear Sterns, Lehman Brothers e Goldman Sachs, reclama reformas urgentes. “Só se poderá consertar o que está torto com medidas radicais e com uma regulação decisiva”, sentenciou. A complexidade das instituições criadas pelas fusões à raiz da reforma de 1999 impede o controle por parte do Estado, advertiu. O Federal Reserve, por exemplo, não tem entre suas funções a supervisão do mercado de seguros.

Nas medidas tomadas por Washington na última semana não há diálogo nem estratégia, disse Prins a IPS. “Façam o que façam os políticos, nossa sociedade será mais pobre do que antes, porque o crédito será mais difícil de obter e os estadunidenses deverão aprender a viver com seus salários”, observaram Server e Sloan, na Time. “Durante um ano, o Federal Reserve e o Departamento do Tesouro acreditaram nos mercados com a esperança de que o sistema se recuperasse por si mesmo. Isso não aconteceu e o colapso do Lehman Brothers deve marcar o fim desse enfoque”, concluíram.

“Carta Maior”

Empresa dos EUA controla petróleo do Brasil, garantem engenheiros da Petrobras

ENERGIA Halliburton administraria banco de dados da Agência Nacional do Petróleo; assessoria de imprensa do órgão nega

Luís Brasilino

A TRANSNACIONAL estadunidense Halliburton controla o Banco de Dados de Exploração e Produção (BDEP) e os leilões realizados pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). A denúncia vem sendo sustentada, desde o final de julho, pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet). Segundo seu diretor de comunicação, Fernando Siqueira, a Landmark Digital and Consulting Solutions – subsidiária da megaempresa estadunidense que já foi presidida pelo vice de George W.
Bush, Dick Cheney, e é apontada como uma das principais responsáveis pela invasão do Iraque – administra há 10 anos o BDEP, sem ter passado por licitação. O fato foi questionado, em 2004, por parecer da Procuradoria Geral da República que exigiu que os serviços prestados ao banco de dados passassem por concorrência. Tais informações foram transmitidas a Siqueira por fontes que ele prefere não revelar.
Mas a denúncia da Aepet contra a ANP se completa em torno de um fato que é público. De acordo com currículo publicado no site da Agência, o diretor Nelson Narciso possui experiência de “24 anos em cargos de direção e gerência na Indústria de Petróleo”, sendo que o último ano antes de assumir seu atual cargo foi na Halliburton, entre maio de 2005 e junho de 2006. Narciso é o responsável pelas superintendências de Gestão e Obtenção de Dados Técnicos, de Promoção de Licitações, de Comercialização e Movimentação de Petróleo, seus Derivados e Gás Natural e de Definição de Blocos. Segundo nota emitida pela Aepet, “a raposa está no galinheiro”, uma vez que as informações do BDEP podem ser acessadas pela Halliburton que, além disso, está ligada ao diretor responsável pela definição dos blocos que vão a leilão.
A assessoria de imprensa da ANP contesta as acusações. Ela lembra que Narciso foi nomeado pelo presidente da República, sabatinado e aprovado pelo Senado. Com relação ao banco de dados, a assessoria garante que ele é administrado pela própria Agência.
De acordo com ela, a Petrobras transferiu as informações e o software do BDEP para a ANP por determinação da Lei do Petróleo (9.478/1997). Anos depois, a Halliburton adquiriu a fabricante do programa de computador que hospeda os dados e, desde então, presta serviços de assistência. A assessoria garante que a transnacional não acessa as informações.

Privatização
Paulo Metri, engenheiro mecânico e conselheiro do Clube de Engenharia, informa que o BDEP contém dados sobre levantamentos sísmicos, análises e resultados de perfurações realizadas em diversas áreas do território brasileiro. “Essas informações são estratégicas, pois, a partir delas, é possível estimar, com maior chance de sucesso, a possibilidade de ocorrência de petróleo”, completa.
Mas, para analistas, na prática, não faz muita diferença se os dados são controlados pela Halliburton ou pela ANP. O sociólogo Ivan Pinheiro, secretáriogeral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), acredita que a idéia central das agências reguladoras, como a ANP, é permitir que “o mercado regulamente atividades estatais, acima do Estado”. Ou seja, como foram criadas para aprofundar a privatização, já defendem interesses particulares.

Dois modelos
Sendo assim, de que modo os dados a que teria acesso a Halliburton podem ser utilizados em prejuízo do país? Para Metri, não se pode responder a essa pergunta sem analisar os modelos de produção e exploração de petróleo.
Ele avalia que, desde o governo Fernando Henrique Cardoso, o sistema brasileiro se baseia na competição entre petrolíferas estrangeiras e a Petrobras – “para campos pequenos e de menor importância, entram os empresários privados nacionais”, acrescenta.
Nesse modelo, áreas são leiloadas, o petróleo que for descoberto é produzido rapidamente e, se o descobridor, portanto seu proprietário, for estrangeiro, irá exportá-lo, “pouco restando para a sociedade brasileira”. Além disso, o país não tem petróleo para desempenhar um papel geopolítico e recebe impostos e taxas mínimos.

Soberania
“Contudo, se existisse um outro modelo, o inverso do atual, a informação sobre onde há exatamente petróleo no Brasil deveria ser preservada”, avisa Metri. O engenheiro lembra o campo de Júpiter, na Bacia de Santos, que está a mais de 200 milhas (350 quilômetros) da costa, além da zona econômica exclusiva nacional.
“Apesar de o Brasil já ter requerido à ONU a expansão da zona de exploração econômica, teoricamente os Estados Unidos, por exemplo, poderiam começar a furar nessa região sem conflitar nenhum acordo internacional. Será que a Quarta Frota não foi recriada exatamente para dar o respaldo militar necessário para essa ação? Com o nosso subsolo sendo divulgado para todo mundo, a usurpação fica até mais fácil de ser realizada”, alerta.
Metri lembra que, nos seus dez anos de existência, a ANP aplicou “de forma impecável” o modelo inaugurado por Fernando Henrique. “O conjunt de dados mais recentes de uma área é vendido pela ANP a todas as empresas que se inscrevem no leilão do respectivo bloco”, ressalta. Sendo assim, mais cedo ou mais tarde, todos os dados são divulgados. Para o engenheiro, a novidade na denúncia da Aepet “é que a transferência de informações está ocorrendo, se tudo se confirmar, mais cedo do que iria ocorrer e só para uma empresa, a Halliburton”.< /div>

“Brasil De Fato”

Obama: apenas uma ilusão americana

Luiz Eça

Barack Obama surgiu como uma esperança não apenas para os americanos, mas também para o mundo. Suas posições liberais e sua coragem lhe deram maior visibilidade quando foi dos raros senadores que ousou enfrentar a opinião pública votando contra a invasão do Iraque.

Assim, a pré-candidatura de Obama a presidente conseguiu algo de inusitado: entusiasmar pelas eleições amplos setores da população, particularmente a juventude, desencantados com os cínicos políticos de plantão, que trocam de posição conforme suas conveniências.

Ao garantir que retiraria as tropas americanas do Iraque em 16 meses, deu maior credibilidade à sua bandeira de “mudança” no governo do país, assumida como artigo de fé por democratas e independentes.

O problema é que quem começou a mudar foi ele. No melhor estilo do “establishment” político, por ele condenado, levou seu apoio a Israel a extremos tais como considerar o extinto Sharon como “absolutamente construtivo para o processo de paz”; apoiou a invasão do Líbano e o bombardeio de Gaza; sustentou que o programa nuclear do Irã tinha de ser detido, senão pela diplomacia, que fosse pela força; defendeu a manutenção de uma presença militar no Iraque, ainda que limitada, para garantir a democracia e o petróleo.

Para os setores mais esclarecidos, tudo isso foi decepcionante. Obama parecia estar pegando a doença do oportunismo que assola a política americana. Estariam pesando fatos tais como: o voto judeu representa muito nas prévias de Nova York e Flórida; a eficiente campanha de propaganda do governo Bush seduzira a opinião pública contra o Irã; não convinha antagonizar-se com a poderosa indústria petrolífera, renunciando às reservas iraquianas ao retirar-se. Mas a massa do eleitorado de Obama mostrou-se tolerante, ainda que receosa, afinal, McCain seria muito pior…

Depois de consagrado candidato do partido, Obama passou a ser mais cauteloso. Temeu ser marcado como muito liberal pelo eleitorado americano, tradicionalmente conservador. Num curto espaço de tempo, aplaudiu a decisão da Suprema Corte, vetando a proibição de armas de fogo no Distrito de Columbia, apoiou uma lei de maior liberação das escutas telefônicas, à qual ele havia prometido se opor, falou a favor da pena de morte para estupradores de crianças e, mais importante, deixou dúvidas sobre a retirada do Iraque em 16 meses.

Não deu certo. Obama esqueceu-se de que, depois de oito anos de péssimo governo republicano, o conservadorismo do povo americano estaria abalado. Subestimou a juventude e os independentes que ele tinha inflamado com sua imagem de político sincero e de visão aberta, capaz de mudar o país.

A realidade foi dura. Se em 25 de junho (pesquisa Priceton Survey-Newsweek), Obama tinha 15% a mais do que o adversário, um mês depois (Rassmussem Report) estava empatado.

Obama sentiu o golpe e assegurou que ele foi mal entendido. Não havia alterado suas grandes propostas liberais. E garantiu: “Acabarei com a guerra do Iraque quando eu for presidente”.

Porém, chega a convenção democrata e nova escorregada. Obama escolhe o senador Joe Biden para seu candidato a vice. A razão: McCain vinha insistindo na falta de experiência de Obama em política internacional. Biden tem de sobra – desde 1972 pertence à Comissão de Relações Internacionais do Senado, várias vezes como presidente.

Mas será que experiência vale mais do que competência e lucidez? Vamos aos fatos. Desde 1998, Biden defendia a invasão do Iraque. Antes da decisão favorável do Senado, na sua privilegiada posição de presidente da Comissão de Relações Exteriores, ele promoveu uma campanha pra vender a idéia da guerra aos senadores ainda céticos. Recusou-se a admitir que autoridades no Oriente Médio, inclusive membros do Pentágono e Scott Ritter, inspetor da ONU no Iraque, depusessem nas audiências públicas para discutir as armas de destruição em massa, presumivelmente, de posse de Saddam Hussein. Exatamente porque esse pessoal contestava a acusação.

Em compensação, convocou indivíduos de dúbias credenciais que acusaram Saddam de dispor de um verdadeiro arsenal biológico e atômico. Foi certamente o senador que mais ajudou Bush na sua tarefa de conquistar os votos dos congressistas e o apoio do povo para a guerra.

Recentemente, quando a opinião pública voltou-se contra a invasão, Biden mudou de idéia. Declarou-se arrependido. No entanto, suas críticas dirigiam-se contra o modo com que Bush conduziu a guerra e a ocupação, não contra sua legitimidade.

Embora os democratas tivessem votos suficientes para acabar com a ocupação simplesmente negando os fundos requeridos por Bush, Biden sempre se opôs: “Enquanto existir uma simples tropa no Iraque, eu não posso e nem votarei contra a concessão de recursos para eles”.

O Iraque continuou na mira de Biden quando defendeu a idéia de dividi-lo em três países – xiita, sunita e curdo –, o que, certamente, liquidaria seu projeto de Estado desenvolvido. E deixou os iraquianos indignados.

Enquanto Obama defende a paz e a diplomacia para resolver os conflitos internacionais, o “experiente” Biden vai por outros caminhos. Tem sido um dos líderes no Congresso da militarização do Oriente Médio e do Leste Europeu, de severas sanções econômicas contra Cuba e de apoio às políticas de ocupação de Israel, inclusive a de derrubar as casas de parentes de terroristas. Ele diz ser um “sionista genético” e que a questão do Oriente Médio só terá progressos quando os árabes se convencerem de que “nada separa os Estados Unidos e Israel”.

Em 1995, foi co-autor de uma proposta congressual que tornava Jerusalém capital de Israel e indivisível. Obama repetiu esta mesma tese. Mas, posteriormente, se desdisse, afirmando que os povos da região é que deveriam resolver esta questão.

A escolha de Biden é mais uma prova de oportunismo do candidato da “mudança”. Suas apregoadas qualidades de sinceridade, coragem e abertura parecem estar mais no reino da ilusão.

A dúvida que fica é até onde vai esse oportunismo. Chegando à presidência ele voltará a ser o Obama de antigamente? Ou, para evitar problemas com o complexo industrial-militar, a indústria petrolífera, a burocracia do partido e o lobby israelense, continuará a política imperial de George Bush? Provavelmente de forma diplomática, moderada, inteligente, respeitando o multilateralismo e as normas do Direito Internacional.

Até os interesses do “establishment” americano se sentirem ameaçados, é claro.

Luiz Eça é jornalista.

“Correio da Cidadania”

Avanço verde-amarelo

Aquisição da Estácio no Paraguai mostra o caminho que grupos educacionais brasileiros começam a traçar: chegar ao mercado internacional

Rodolfo C. Bonventti

O anúncio de aquisição da Universidad de la Integración de las Americas (Unida), no Paraguai, pela Estácio Participações no final de julho pode ser o prenúncio de um movimento até então inimaginável para o setor educacional brasileiro. Animados pela recente entrada de investidores estrangeiros e pela abertura de capital na Bolsa de Valores, grupos educacionais se preparam para expandir suas operações para além das fronteiras brasileiras. A Estácio já definiu a aquisição de mais uma instituição no Uruguai. A Anhanguera Educacional e a Kroton pretendem expandir suas operações para o mercado internacional nos próximos anos e o grupo Unopar planeja atuar no exterior por meio da sua rede de ensino a distância.

A aquisição da Unida é a confirmação de projeto iniciado com a abertura de capital da Estácio Participações na Bolsa de Valores, em 2007. Naquela época, a família controladora do grupo iniciava a implementação da Unida, no Paraguai, e da Escuela de Informática SRC, no Uruguai. Ficou acertado que as duas instituições seriam absorvidas pelo grupo até abril de 2009. A primeira venda se confirmou em julho último, com a aquisição da Unida. A Escuela de Informática SRC, instituição uruguaia voltada para o ensino tecnológico, deve ser absorvida antes mesmo da data acertada entre a companhia e os acionistas.

Segundo comunicado ao mercado divulgado pela Estácio em 28 de julho, a Unida, localizada na cidade de Assunção, oferece cursos de graduação nas áreas de administração, marketing, direito, educação, informática, educação física, medicina e enfermagem, entre outros. A instituição contava com 2.176 alunos matriculados ao final do primeiro semestre de 2008. A Escuela de Informática SRC, localizada em Montevidéu, é menor: possui um campus com dois cursos de graduação e sete cursos técnicos. Ao final de 2007 contava com menos de 700 alunos.

Analistas de mercado dizem que a Estácio Participações, que tem como sócio investidor desde o início deste ano a GP Investimentos, tem interesse ainda no mercado da Argentina. No Brasil, a empresa carioca é dona da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e da UniRadial, em São Paulo. Tem operações ainda em Pernambuco, no Pará, Ceará e Bahia.

Enquanto a Estácio finaliza os procedimentos para a aquisição no Paraguai e planeja novas aquisições, outros grupos brasileiros estudam o mercado externo, principalmente paí­ses da América Latina, mas também Ásia e África. A Anhanguera Educacional, primeira empresa educacional brasileira a abrir capital na Bolsa de Valores, não esconde os planos grandiosos para o futuro. “Trabalhamos para ser o maior grupo educacional do mundo e para isso focamos, até 2012, o crescimento orgânico com novas unidades no Brasil, bem como novas aquisições. A partir daí, e se a oportunidade de negócio aparecer no exterior, vamos apostar as nossas fichas sim, provavelmente por meio de uma joint venture com grupos locais”, explica o presidente do grupo, professor Antonio Carbonari Netto.

O maior grupo educacional do mundo atualmente é o Apollo Group, que já teve operações no Brasil e possui atual­mente 380 mil alunos, seguido pela Laureate Education, detentora de 51% da Universidade Anhembi Morumbi e 315 mil alunos em todo o mundo. “Eu não vejo a menor dificuldade em ultrapassá-los nos próximos três ou quatro anos, afinal temos registrado um crescimento de 100% ao ano no número de alunos matriculados”, prevê Carbonari, que congrega 170 mil alunos sob a marca Anhanguera.

Enquanto isso, a Kroton Educacional, que nasceu Pitágoras em 1966 com atuação no ensino básico e está no ensino superior desde 2001, planeja atuar no exterior a médio prazo. “Não é para já, talvez para os próximos cinco ou dez anos, mas o mercado internacional está na nossa mira. Em um universo cada vez mais globalizado, não podemos deixar de pensar em ter condições de competir também em nível internacional”, diz Walter Luiz Diniz Braga, presidente da Kroton Educacional S/A.

Com atuais 605 escolas associadas em todo o Brasil e 25 campi em seis Estados, a meta do grupo é fechar 2008 com 16 novos campi. A Kroton já possui uma associação no Uruguai e seis unidades de ensino básico no Japão para atender filhos de brasileiros e de japoneses que queiram aprender o português. Para Walter Braga, a experiência com o Apollo Group, que teve participação nas Faculdades Pitágoras e revendeu para os antigos donos em 2006, proporcionou um diferencial para os planos da Kroton. “Durante o período em que o Apollo Group manteve sua participação no Pitágoras, nós tivemos a oportunidade de estreitar o relacionamento com grupos internacionais e entender melhor o que eles pensam e desejam. Uma parceria desse tipo, tanto internamente como para atuar lá fora, permite não só oferecer ensino superior com mais qualidade como uma estrutura gerencial muito mais forte e eficiente”, define.

Entre os países sob estudo dos grupos nacionais estão Chile, Argentina, México, Uruguai e Colômbia. O interesse dos brasileiros pelos países latino-americanos é justificado. Atualmente, a taxa de matrículas no ensino superior em países da América Latina gira em torno de 28%, sendo que em 2002 a taxa era de 26%. Na Europa o índice é de 60% e na América do Norte atinge cerca de 80%, incluídos os comunity colleges.

Um caminho ainda mais rápido para chegar ao exterior pode ser o ensino a distância. Uma das maiores universidades de ensino a distância do Brasil e da América Latina, a Universidade Norte do Paraná (Unopar), com três campi no Paraná, 425 pólos de apoio presenciais em todos os Estados brasileiros e 135 mil alunos matriculados, está pronta para aportar em outros países, se a oportunidade surgir. “No momento nosso foco está totalmente voltado para o mercado interno e não possuímos ainda pólos instalados fora do Brasil, mas temos projetos sim e já estamos tecnicamente preparados para atender a todos os países da América do Sul”, explica a professora Wilma Jandre Melo, reitora em exercício da Unopar.

Os países africanos de língua portuguesa também estão na zona de interesse da Universidade, embora questões operacionais ainda precisem ser equacionadas. “A implantação de cursos a distância nesses países está intimamente ligada a projetos dos governos dessas nações e de financiamentos de organismos internacionais, o que apesar da disponibilidade e do interesse de ambas as partes, sempre acarreta negociações mais demoradas”, lembra Wilma Melo.

Segundo os consultores educacionais, mirar o exterior a médio ou longo prazo não deve ser uma tendência para todo o setor de ensino superior brasileiro, mas um movimento restrito aos principais grupos. “Abertura de capital e investimento em unidades no exterior é para muito poucos, ou seja, um pequeno grupo supercapitalizado e que já desenvolveu um gerenciamento baseado em resultados, que é uma novidade para o setor”, acredita Carlos Antonio Monteiro, presidente da CM Consultoria.

Já Walter Braga, da Kroton, acredita no atual momento do setor educacional brasileiro, terceiro segmento no país em que mais ocorreram fusões e aquisições no último ano, com movimentação de quase R$ 250 milhões só neste primeiro semestre. “O ensino superior no Brasil está com a auto-estima bem resolvida e as principais instituições de ensino superior têm dado respostas muito positivas aos desafios que têm surgido. Isso, evidentemente, facilita que as portas se abram para nós no exterior ou mesmo para recebermos investimentos externos.”

Para Sérgio Werther Duque Estrada, sócio-diretor da Valormax, empresa especializada em reestruturação, fusão e aquisição de companhias e grandes grupos, o setor de ensino superior brasileiro ainda precisa amadurecer. “Nossas instituições ainda são muito empreendedoras, mas pouco empresariais e esse é um aspecto que precisa ser muito bem trabalhado se elas pretendem se consolidar internamente para depois pensarem no exterior. Não há como crescer e oferecer ensino de qualidade sem equilibrar a visão educacional com a empresarial. Essa é a competência necessária para uma instituição privada de ensino superior ter sucesso.”

De qualquer forma, os grandes grupos educacionais brasileiros parecem viver um bom momento. Dados da consultoria KPMG mostram que, só no primeiro semestre de 2008, o setor de ensino superior registrou 30 aquisições, sendo o terceiro segmento no país em que mais ocorreram fusões e aquisições no último ano, perdendo apenas para os segmentos de tecnologia da informação e de alimentos e bebidas.

Detentor do único grupo brasileiro que, segundo analistas, reúne atualmente musculatura financeira capaz de romper as fronteiras brasileiras, Carbonari mostra que ainda há muito espaço para investir no Brasil. “A educação no Brasil está em expansão, já que possuímos atualmente apenas 12% da faixa de 18 a 24 anos da população brasileira nas escolas superiores, um índice ainda muito baixo perto dos 70% a 80% registrados nos países desenvolvidos, ou mesmo em relação aos nossos vizinhos. A Bolívia, por exemplo, para surpresa de muitos, inclusive do mercado internacional, tem registrado um crescimento no número de alunos matriculados no ensino superior bem maior que o nosso.”

Os planos internos da Anhanguera, que captou R$ 868 milhões em apenas duas ofertas públicas de ações, realizadas uma no ano passado e outra nesse ano, é chegar a 2012 com 120 campi e mais de 400 mil alunos. A empresa educacional adquiriu no início de julho a 48ª unidade, o Centro de Ensino Superior de Rondonópolis, mantenedor da Faculdade do Sul de Mato Grosso (Facsul).

Na Kroton, o objetivo é investir em pequenas e médias instituições de ensino que possuam de mil a quatro mil alunos em cidades que apresentam grande potencial de crescimento e conseqüente aumento do poder aquisitivo da população, tendo o Centro-Oeste como prioridade. Além das universidades Pitágoras e Faculdades de Tecnologia Ined, a Kroton adquiriu recentemente a Faculdade de Tecnologia de Londrina e a Uniminas, localizada em Uberlândia. “Temos um expertise de trabalhar em escala e de possuir bons processos de avaliação de aprendizagem. Essas são duas características que chamam a atenção principalmente dos grandes investidores e de grupos americanos”, diz Walter Braga.

Há algum tempo os grupos internacionais começaram a olhar para o setor de educação superior brasileiro. O movimento começou por volta de 2001, quando a Laureate International Universities, uma das maiores redes mundiais de instituições privadas de ensino superior, chegou ao país interessada em investir no segmento. Foram três anos de estudos e de um namoro que se consolidou com a compra de 51% da Universidade Anhembi Morumbi, em 2005, e posteriormente da Universidade Potiguar do Rio Grande do Norte; da Business School São Paulo; da Escola Superior de Administração, Direito e Economia de Porto Alegre e do Centro Universitário do Norte (UniNorte), localizado no Amazonas.

Outros grupos estrangeiros também aportaram no Brasil, como a Whitney International, que controla 50% das Faculdades Jorge Amado de Salvador, e o Apollo Group, que teve participação nas Faculdades Pitágoras e agora ensaia a volta tentando adquirir o Grupo Objetivo. A DeVry University, universidade norte-americana de capital aberto, estuda a melhor forma de entrar no país.

Com toda essa movimentação recente do mercado, a possibilidade de internacionalização do setor é um assunto que está apenas começando a ser analisado, mas que deve dominar o planejamento dos grandes grupos educacionais brasileiros nos próximos anos.

Capital aberto para expandir
Outro comportamento recente das instituições de ensino superior brasileiras, e que as capitalizou o suficiente para começar a pensar no mercado internacional, é a abertura de capital. Além da Anhanguera, da Kroton e da Estácio Participações, também tem ações na Bolsa de Valores o SEB (Sistema Educacional Brasileiro), surgido há mais de 40 anos em Ribeirão Preto, mais conhecido pela marca Sistema COC de Ensino e que já adquiriu a Faculdade Metropolitana de Belo Horizonte e mais recentemente o Grupo Dom Bosco. Outros grupos aguardam ou estudam o momento mais conveniente para abrir o seu capital enquanto investem na compra de outras instituições. São eles o Grupo Iuni Educacional, de Mato Grosso, o oitavo maior do país segundo o ranking da Hoper Consultoria, que além de dominar o Centro-Oeste vem abrindo frentes no Norte e no Nordeste; a Veris Educacional, que além da marca Ibmec tem em sua rede a Metrocamp de Campinas e as faculdades Evandro Lins e Silva, Inea e Uirapuru; o Grupo Anima, formado pela UNA e a Unimonte; o Grupo Unicsul, que possui quatro campi em São Paulo e comprou a UniDF, em Brasília, e o Grupo Universitário Maurício de Nassau, de Pernambuco.

“Revista Ensino Superior”

Crise alimentar é o resultado do livre mercado e do abandono da política agrária

Questões Agrárias

Valéria Nader (colaborou Gabriel Brito)

Em face de mais uma crise mundial que parece explosiva, com a fome e a inflação de alimentos se tornando noticiário nos vários cantos do planeta, conversamos com o professor do departamento de Geografia da USP Ariovaldo Umbelino.

Para Umbelino, a atual situação não deixa a menor margem para diagnósticos ilusionistas: a crise alimentar resultou da total incapacidade do mercado para conduzir à segurança e à soberania alimentar. No Brasil, a ausência de reforma agrária foi também determinante, e a situação é tendencialmente explosiva em função da escalada dos biocombustíveis.

Confira abaixo entrevista exclusiva.

Correio da Cidadania: A que se pode atribuir, pensando globalmente, o atual problema da fome: à formação especulativa de estoques, à queda de safras, à tomada de terras para os cultivos agroindustriais, todos eles comprometendo a produção de alimentos?

Ariovaldo Umbelino: Em primeiro lugar, há de se levar em conta que a falta da produção de alimentos na atual conjuntura tem uma série de motivos, que vou tentar enumerar.

Primeiro, o que está em jogo é uma crise estrutural no interior do sistema produtivo que o capitalismo adotou no neoliberalismo, com a mudança da sistemática de controle da produção de alimentos, antes baseada no sistema de estoques e hoje baseada no livre comércio, ou seja, na disponibilidade dos estoques no mercado. Essa mudança está revelando agora suas conseqüências. Portanto, essa é uma primeira razão, e ela é estrutural.

Podemos também lembrar que há uma redução dos estoques em função da ‘subprime’, qual seja, dos problemas no mercado financeiro norte-americano. Uma parte dos fundos se dirigiu à compra de commodities (mercado de futuro), o que acelerou o processo especulativo em função da queda dos estoques e da possibilidade de oferta de alimentos no mercado futuro. Essas são questões estruturais e estão associadas.

A segunda razão é de natureza conjuntural, e deriva do aumento do preço do petróleo. Toda a produção do agronegócio pós-revolução verde, e agora, nesse período do neoliberalismo, está assentada no setor agroquímico, e evidentemente que este é comandado pela lógica do preço do petróleo. Se sobe o preço deste, o custo da agropecuária também sobe e, consequentemente, deriva daí parte da responsabilidade pelo aumento dos preços dos alimentos.

O terceiro motivo, nem por isso de menor importância, pois todos esses são processos simultâneos, está no aumento do consumo devido a uma certa melhoria das condições de algumas populações, sobretudo da China e da Índia, que têm ampliado a importação de alimentos. Mas não é essa a principal razão, como se quer fazer crer no Brasil.

CC: Nesse sentido, fazendo um parêntese para o Brasil, o presidente Lula chegou a declarar que a inflação de alimentos é decorrente de os pobres estarem consumindo mais, e não uma conseqüência da expansão do cultivo do biocombustível. Ao mesmo tempo, aparentemente corroborando a versão presidencial, sabemos que o motor do crescimento nos últimos meses tem sido realmente o aquecimento do mercado interno, em face da deterioração da balança comercial (exportações menos importações). Como você avalia essa situação?

AU: Isso é uma grande bobagem. É evidente que o aumento do consumo é parte da questão, mas não é nem a razão principal, muito menos a única, conforme disse.

CC: Mas voltando, então, aos determinantes da crise alimentar em escala global, você citaria algum outro fator, como, por exemplo, a produção dos biocombustíveis?

AU: Outra causa também conjuntural, que pode vir a se tornar estrutural, é a opção norte-americana pela produção do etanol a partir do milho, bem como o caminho tomado pelos países da União Européia de produzir o etanol a partir de grãos. É claro que essa opção dos EUA, hoje o maior produtor mundial de etanol, fez com que uma parte do milho destinado à alimentação humana e animal fosse destinada à produção de etanol, o que por sua vez gerou os mecanismos especulativos na queda dos estoques de milho. Essa queda, por sua vez, puxou pra cima os preços dos demais grãos: soja, trigo, arroz.

Volto a insistir, essa razão é conjuntural, mas pode vir a se tornar estrutural, porque os EUA não têm mais terras disponíveis à agricultura para ampliar sua produção de milho e continuar mantendo sua produção de trigo e soja. Essas três culturas competem entre si. Portanto, se aumenta a área de uma, diminui a de outra. Além do mais, ampliar a área de cultivo nos EUA sai muito caro, os preços dos alimentos não compensariam. E a essa questão interna dos EUA se soma o aumento do custo de produção, pelo efeito do petróleo.

Esse é, assim, o quadro que se apresenta no plano mundial.

CC: E como esse quadro rebate nos países emergentes, especificamente?

AU: Poderíamos dizer que os primeiros países onde esse rebatimento se deu de forma rápida foram os da Ásia, com a elevação dos preços do arroz, e também os países importadores de trigo. Nesses, o efeito foi imediato, pois, com a elevação do preço do trigo nos EUA, e consequentemente do trigo exportado para outras partes do mundo, os países importadores sentiram imediatamente a alta.

Quanto ao arroz, a elevação de seu preço fez com que os países produtores de arroz do sudeste asiático começassem a bloquear as exportações do produto, assim como agiu a Argentina com relação ao trigo.

Evidentemente que o lado cruel desse processo todo rebaterá na África, cujos povos precisam do trigo para sua alimentação básica, em função do grau de miséria que a região sofre. E aí entra o grito da ONU, pois ela tem seus recursos destinados a fornecer alimento a essa população que sofre com a fome e percebeu que não teria como comprar esses produtos em razão da elevação dos preços.

Mas não só a África sofre, como também a América, como se viu no Haiti.

CC: E o Brasil, como fica nessa conjuntura?

AU: No Brasil, o primeiro efeito aparece no trigo, já que, com o bloqueio das exportações da Argentina, precisamos comprar no mercado mundial, ou seja, nos EUA e Canadá, onde há trigo disponível para exportação. Sendo assim, os preços se elevaram. Não só os preços, pois agora há também o frete, que não existia quando se trazia trigo da Argentina.

Pois bem, o Brasil tem um consumo anual de 10 milhões de toneladas de trigo e produz três milhões, o que nos torna o maior importador mundial de trigo hoje. Sendo assim, inevitavelmente o efeito do trigo terá suas conseqüências no Brasil, não só no pão, mas em todos os produtos nos quais se utiliza trigo.

Somos o único país do mundo em que se prega essa tese maluca do neoliberalismo, de que comida tem de ser oferecida no mercado a quem puder pagar mais, como propõem os economistas neoliberais. Claro que isso tira do país a possibilidade de obter uma mínima segurança alimentar, nem digo soberania.

A lógica do neoliberalismo é essa: manda-se comida a quem paga mais, não a quem tem fome. Nem para o próprio povo do país. A lógica neoliberal não está assentada na segurança, quanto menos na soberania alimentar.

Como parte desse mecanismo, agravando-o ainda mais, vêm os possíveis desdobramentos futuros. O Brasil, com seus três milhões de toneladas produzidas de trigo, vai fazer o quê se a demanda do mercado mundial for superior? Os produtores de trigo vão exportar, como fizeram no ano passado.

Pensando, por exemplo, no feijão, por que chegou a faltar esse produto em nosso mercado, se o Brasil é um grande produtor mundial? Esse foi o reflexo indireto de outros fatores. O aumento, já desde o ano passado, do preço do milho e da soja, assim como o efeito da subida dos preços desses produtos no mercado interno, fez com que as terras destinadas à produção do feijão não o fossem mais. Os capitalistas converteram a área de produção de feijão em terra para cultivo do milho, que tinha preços mais vantajosos no mercado mundial, em função da escalada provocada pelo etanol americano. Escalada que atingiu também a soja, que, na falta do milho, o substitui na ração animal – não na alimentação humana.

É bem provável que nesse começo de ano, com a entrada da principal safra de feijão, não haja falta, mas a perspectiva é que, no final do ano, o produto venha a faltar. Se os preços do milho e da soja continuarem mais vantajosos, é óbvio que os capitalistas continuarão privilegiando a sua produção.

No caso do arroz, os estoques de que o Brasil dispõe, que são baixíssimos, mais a perspectiva de safra, já praticamente colhida, momentaneamente não sinalizam para uma situação de falta do produto. Porém, se os preços do mercado internacional estourarem, será iniciado um processo de se destinar parte da produção do mercado interno ao externo.

Temos, portanto, o ‘deus mercado’ determinando todos esses mecanismos nefastos associados a produtos essenciais à nossa segurança alimentar.

CC: Confirmando esses mecanismos, na atual polêmica relativa ao desabastecimento do arroz, onde se discute taxar ou não as exportações de produtores privados, o ministro da Agricultura Reinold Stephanes chegou a negar a medida.

AU: Veja, é por isso que comecei pela causa estrutural. O mercado de alimento não pode sobreviver ao mercado livre. Seguir essa trilha é colocar em risco a possibilidade de sobrevivência da humanidade. O mercado não é capaz de regular nada, exceto as vantagens dos capitalistas. E o problema da fome está aí, para demonstrar essa incapacidade.

No plano do mercado interno brasileiro, desde 1992, o país não aumenta nem a produção de feijão, nem a de arroz e nem a de mandioca, que são os três alimentos básicos da população brasileira. Pode-se pôr o milho aí, mas este não serve só para a alimentação humana, tem também o componente de matéria-prima para a ração.

CC: Ou seja, estamos pensando em produzir etanol sem sequer termos assegurado nossa segurança alimentar.

AU: E como o Brasil tem resolvido, em face da adoção da política neoliberal, o mercado de arroz e feijão? Quando há falta, importa. Então, o país usa a disponibilidade do produto no mercado mundial como instrumento de controle da sua segurança alimentar. Mas, à medida que os países bloqueiam a exportação, não existe mais essa possibilidade, ou seja, o Brasil não teria a chance de buscar no mercado mundial o arroz necessário para manter seus preços elevados no mercado interno.

Esse é o quadro mais crítico do mercado interno. Bom, pode-se questionar por que não se aumenta a produção de arroz, feijão e mandioca. A resposta é que a política agrícola voltada ao alimento básico no Brasil não permite aos agricultores reporem os custos de produção. Quem produz esses alimentos são, em grande maioria, os pequenos agricultores, e eles não têm como resolver o problema da produção, voltando sua atenção a outros produtos. Se pegamos Paraná, Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul, todos produtores de feijão, vemos que a tendência é plantar milho, pois possui preços mais vantajosos.

Portanto, o efeito na alimentação brasileira é direto e indireto no que se refere ao mercado dos alimentos básicos. Poder-se-ia colocar nesse bolo a carne. O Brasil está se tornando o maior exportador mundial de tudo quanto é tipo de carne. Conseqüentemente, é claro que, se a produção for destinada ao mercado externo, o interno passa a ser regulado pela disputa de preços. Ou o mercado interno paga preços compatíveis ao mundial, ou se investe em produzir para o mercado mundial.

Pensando ainda no etanol no Brasil: a cana é responsável direta pelo aumento no custo do alimento? Claro que não, mas de forma indireta, sim. Ainda que uma parte da expansão da cultura da cana seja feita em cima de área de pastagem.

CC: Nesse quesito, o físico José Goldemberg chegou a mencionar recentemente que os biocombustíveis estão envoltos em algumas noções falaciosas, já que as lavouras de cana ocupariam apenas 2% dos quase 3 milhões de Km2 utilizados pelo setor agropecuário e, ademais, seriam cultivadas pela conversão de pastagens – e o espaço ocupado por pastos estaria em decréscimo. O que você responderia a isso?

AU: Veja bem. Se tomarmos a área de crescimento da cana neste ano, da penúltima safra para a última, vê-se que, na maioria, não se invadiu a área da produção de alimentos. Mesmo assim, há locais em que isso ocorreu, o que é reconhecido por órgãos do próprio setor sucro-alcooleiro.

A cana, portanto, cresce sim sobre parte das terras que eram destinadas à produção de outros alimentos. E o principal efeito da expansão da cana, esse é o ponto primordial, é o sucessivo. Não se trata necessariamente de um efeito que irá se sentir de forma direta, entre um ano e outro. É um efeito que ao longo dos anos vai se somando. Se compararmos os dados do IBGE da produção agropecuária de 1990 a 2006, considerando-se somente os municípios que tiveram aumento na área plantada de cana e tomando como referência os municípios que cresceram em mais de 500 hectares essa área, o que encontramos? Uma redução de 261 mil hectares de área de feijão. E uma redução de 340 mil hectares de área plantada de arroz.

Desta forma, como a expansão da cana não afeta? Não só o arroz e feijão são afetados, mas também a agropecuária, pois nesses municípios houve uma redução de 460 milhões de litros na produção de leite, por ano. E também uma redução de 4,5 milhões de cabeças de gado bovino.

E aí aparece ainda o efeito perverso do desmatamento: a cana está deslocando a pecuária – assim como a soja no Mato Grosso também a desloca – para o Pará, onde existe hoje o terceiro maior rebanho do país.

CC: No estado de São Paulo, a paisagem se transformou de maneira incrível, só se vêem plantações de cana em longos trechos de suas rodovias.

AU: E para completar, naqueles 261 mil hectares que deixaram de ser plantados com feijão, seria possível produzir 400 mil toneladas do produto, ou seja, 12% da produção nacional. Pode-se dizer que o país não diminuiu essa produção, apenas plantou em outras regiões. É verdade, mas não houve incremento de produção. Seria possível plantar em outras regiões e fazer crescer a produção de feijão no país, mas isso não aconteceu. Quanto ao arroz, nos 340 mil hectares não plantados, poder-se-ia produzir 1 milhão de toneladas do produto, o equivalente a 9% do total do Brasil.

Este é um estudo que estamos ampliando para os demais produtos para mostrar exatamente que não estamos diante de um efeito momentâneo, e sim de uma tendência. Quanto mais se expandir a produção de uma cultura que disputa espaço com outras, naturalmente haverá reflexos nessa produção concorrente.

CC: Ou seja, a se permanecer esse modelo agrícola, as conseqüências podem ser catastróficas.

AU: Só não são catastróficas porque a política agrícola brasileira jogava com o mercado externo e até por isso o governo brasileiro bate forte com essa história dos subsídios da Europa e dos EUA. Querem, a todo custo, que o mundo continue com a política neoliberal. Europa, EUA e Japão estão abandonando a política neoliberal – há vários estudos que mostram esse fato- e o Brasil fica defendendo essa bandeira em nome do agronegócio.

Por outro lado, o que é cruel, não se fez avançar a reforma agrária, sendo que onde ela existe sempre se prioriza a produção de alimentos. Quer dizer, não se estimula a reforma agrária e fica-se nesse impasse da crise que o modelo neoliberal gera.

CC: Portanto, a reforma agrária seria uma das soluções a longo prazo?

AU: É uma solução a curto, médio e longo prazo. O pequeno agricultor produz primeiramente o alimento que precisa para consumo próprio e, automaticamente, ele gera excedentes. Se o Brasil tivesse assentado sua política de produção de alimentos na reforma agrária, hoje o país não estaria vivendo essa situação.

CC: Mas parece que essa possibilidade não se inscreve mais politicamente nesse governo, não?

AU: Não, pelo contrário. O que o governo, parte da mídia e intelectuais passaram a dizer? Que a reforma agrária não era necessária.

CC: Toda a extensa fundamentação que você fez aqui retrata uma crise profundamente estrutural. Mas o estouro dessa crise alimentar agora, em meio à crise hipotecária americana, não seria uma curiosa coincidência?

AU: Eu penso que a crise norte-americana é estrutural. Trata-se de uma crise do setor financeiro e este é o coração do capitalismo na etapa na qual vivemos. É também inegável que uma parte dos fundos investiu em commodities. Não se trata, portanto, de uma ação somente ideológica, onde uma crise vem para encobrir a outra, penso que não é esse o caminho. Há, isto sim, o efeito da crise nessa mudança dos fundos para as commodities.

CC: Mas uma bolha de commodities é então inegável?

AU: Exatamente.

CC: Em meio a toda essa discussão, às vezes surgem declarações como a do governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, para quem, em face da crise alimentar, seria necessário ampliar o desmatamento legal. Como você encara uma declaração dessas?

AU: Enxergar no desmatamento a alternativa, num país que tem 120 milhões de hectares de terras comprovadamente improdutivas, registradas no cadastro do Incra, que não faz a reforma agrária porque o governo não quer, somente pode ser encarado como uma loucura do modelo do agronegócio.

Na realidade, há dois centros na produção de grãos. Um é o histórico, no sul. O outro é o Centro-Oeste, a nova área do agronegócio e onde ficam os defensores do desmatamento.

Esse setor do agronegócio situado no Centro-Oeste, que tem no governador Maggi seu representante maior, está acenando com essa alternativa porque, obviamente, na conjuntura atual, o preço da carne também está em alta no mercado mundial. Não compensa fazer a reversão de área de pastagem para a produção de grãos, como em anos anteriores. Então, na verdade, os atuais produtores de grãos estão espremidos entre cumprir a legislação ambiental e expandir sua área de produção. E eu só posso classificar isso como um ato de loucura.

CC: Seria também um ‘ato de loucura’ a declaração do presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, ao dizer que o avanço da pecuária na Amazônia e a derrubada da madeira são conseqüências do baixíssimo valor econômico da floresta? Enquanto isso, ativistas do Greenpeace defendem ‘compensações econômicas pelo não desmatamento’. Há uma relação de causalidade entre esses dois enfoques?

AU: Penso que são dois pontos que devem ser colocados de maneira bem cuidadosa. Em primeiro lugar, a maior parte das terras da Amazônia com floresta está grilada, não pertence a quem quer derrubar ou está derrubando a floresta. Uma parte expressiva dessas terras é propriedade do Incra. Para se ter uma idéia mais exata, são 60 milhões de hectares, que deveriam ser destinados à reforma agrária e não o são porque estão grilados.

Assim, o primeiro ponto que deve ser levantado é o de questionar se essas terras pertencem a quem as cercou. Não pertencem! E o que fez o governo Lula? Baixou a MP 422 para regularizar a grilagem da terra na Amazônia! E isso vai permitir que o grilão, que está lá ocupando a terra, compre até 1500 hectares. Assim sendo, que historia é essa de baixo valor econômico?

Quanto ao Greenpeace, em algumas áreas, as pessoas têm o título de propriedade. Nesse caso, qual é a posição do Greenpeace, e de certo modo a do ministério do Meio Ambiente? Explorar economicamente a floresta, de forma sustentável. Isso é só para quem acredita em papai Noel e que o agronegócio brasileiro, sobretudo esse que grila terra na Amazônia, é capaz de respeitar alguma lei. O Estado na Amazônia está invertido. Quem ocupa o poder nos municípios da região é exatamente quem não cumpre a lei.

“www.socialismo.org.br”

A matar pelo bem do Brasil

Estréia em Portugal de Tropa de elite

Mário Maestri [*]

Em “Tropa de Elite”, o singular não é o filme em si, mas o estrondoso sucesso antes mesmo do seu lançamento. Como película, a obra de José Padilha repete em geral as receitas inovadoras de “Cidade de Deus”, sem o brilho do célebre longa-metragem de Fernando Meirelles: a criminalidade urbana como tema; o narrador como condutor da trama; os quadros dinâmicos em uma sucessão de clips. Uma espécie de plágio doce devido parcialmente ao fato de Bráulio Mantovani assinar os roteiros das duas películas.

Na essência, os filmes são opostos. Em “Cidade de Deus”, através da história da comunidade homônima, Fernando Meirelles relata a construção social do criminoso, para propor superação individual pela arte e pelo trabalho (fotografia) do destino do jovem favelado ao crime. Mantendo-se nos marcos da leitura da favela pela cidade, a câmara de Meirelles procura dar a voz aos protagonistas. No fundo, é leitura social otimista, ainda que ingênua.

Não há meias cores em “Tropa de Elite”, apesar do sinistro claro-escuro em que o filme se move. Os protagonistas e antagonistas são feitos de uma só peça: corruptos ou honestos às vísceras. Os únicos heróis são os policiais do BOPE, a sinistra tropa de elite carioca que, no filme, tortura, mata e morre em desesperada e incompreendida última defesa da civilização contra a barbárie, da cidade contra o morro. Ao iniciar a película, o narrador traça o quadro geral maniqueísta: “Se o Rio dependesse só da polícia tradicional, os traficantes já teriam tomado a cidade [...]“.

“Tropa de Elite” não cria muito. Limita-se a encenar sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime, corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão sem piedade. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa parcela da população que materializa, no sentimento de insegurança, o stress permanente produzido pelas incertezas e insatisfações da vida quotidiana.

O que não significa que o filme não possua soluções imaginosas, como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao apresentar a execução do horrível traficante “Baiano”, branco, pelo honestíssimo Matias, policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador dos assassinatos e homem sensível à espera do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende, à custa de permanente descida ao inferno.

O deputado quer apenas saber o “quanto” vai ganhar, ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes discutem as causas e as soluções da marginalização social mas, no frigir dos ovos, são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de criminosos. Nesse mundo em degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que entregam a vida se necessário no cumprimento de suas missões. Tudo pelo bem do Brasil.

José Padilha apenas dramatiza a apologia das execuções de populares pelas forças policiais, sob as ordens e cumplicidade das autoridades e os aplausos dos meios de comunicação. “Carandiru”, de Hector Babenco, denunciou sem maior sucesso o mega-massacre da polícia militar paulista. Invertendo o sinal, “Tropa de Elite” glamouriza mortandades como as do Complexo do Alemão, em junho de 2007.

Através da escusa da encenação do real, “Tropa de Elite” radicaliza as propostas de “Tolerância Zero” com a criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações de séries como “Lei & Ordem” sobre a legitimidade da execução e da tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.

Em fins dos anos 1980, o sucesso da subliteratura de tema esotérico de Paulo Coelho registrou a crise geral da confiança nas soluções sociais racionalistas, devido à vitória mundial da maré neoliberal. No mundo fantástico do segundo governo Lula da Silva, enquanto cresce a dilaceração dos laços sociais e nacionais, os ricos tornam-se mais ricos e as classes médias viajam ao exterior despreocupadas com a inevitável ressaca do dia seguinte do real-maravilha.

O sucesso de “Tropa de Elite” registra o conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças populares tradicionais na corrupção. É enorme vitória dos poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da insegurança nacional, distribuindo a morte entre os pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”. E, se não te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo!

[*] Professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo. Email: maestri@via-rs.net

“http://resistir.info/”

Mídia, cultura e comunicação

Everardo Rocha

O fenômeno do consumo na cultura contemporânea define um campo de investigação fundamental. A cultura é o centro da reflexão antropológica e o consumo é a experiência capaz de nomear o mundo no qual vivemos – a sociedade de consumo. Não é por outra razão que a articulação entre ambas indica uma área de reflexão acadêmica na qual caberia uma imensidão de idéias, teorias e pesquisas e que pode se revelar uma das mais promissoras para o projeto de compreender melhor a vida que levamos.

Na vida social cotidiana – reuniões com amigos, festas familiares, encontros, programas, jantares, saídas na nite, entre tantas outras – podemos constatar que certos tópicos de conversa são usuais e recorrentes. Entre os temas mais comuns estão as aventuras (por vezes desventuras também) vividas no trabalho, nos estágios, nos estudos, na chamada vida produtiva de cada um. Sempre que alguém tem algo para dizer sobre trabalho, os outros parecem prontos para ouvir, comentar e participar do assunto seja desenvolvendo o conteúdo, complementando a idéia, seja discordando. Projetos profissionais, carreiras, estudos, estágios, propostas, problemas, práticas, planos, ações, salários, resultados, conquistas, sucessos e dificuldades do mundo dos negócios são bons tópicos para criar ou manter uma conversa. A vida relacionada à esfera da produção é sempre assunto – legítimo, privilegiado, recorrente, interessante – nas múltiplas situações sociais que freqüentamos.

Mas, se falamos muito dos assuntos relacionados ao que se pode chamar de vida produtiva, falamos muito também (quem sabe até mais) de assuntos relacionados à outra ponta da questão – o consumo. De fato, falamos muito exatamente aquilo que gastamos ou queremos gastar por termos produzido. Essa é também uma conversa que rende muito na vida social. Às vezes as pessoas passam das questões da produção às do consumo, passam do ganho ao gasto, no mesmo diálogo. Entre os sofisticados, o chamado consumo cultural – livro, teatro, filme, atividade intelectual e sensível fruída, de preferência, em viagem muito especial ao exterior. E isso sem falar nos vinhos, recurso recente como parte do repertório dos signos de distinção e status. Entre as crianças, os brinquedos – os muitos bonecos dos complexos mundos habitados por Pokemons, Barbies, Digimons, Pollys, Dragonballs, Power Rangers ou cards de Yugiohs – alternam com as novas fitas de Wii, Playstation 3, Xbox 360, Nintendo DS ou Game Cube. Tudo isto e mais a Disney – essa inevitável peregrinação ao consumo sem a qual nossas crianças das camadas médias e altas não conseguem cumprir os sagrados requisitos da sociabilidade. Entre os adolescentes, pequenas viagens de fim de semana, roupas da moda, computadores, as festas pagas e boates, e até mesmo, para desespero dos pais, o carro. Os ricos falam das grifes caras, viagens sofisticadas, casas fora, carros importados, jantares. Os que têm menos dinheiro falam da casa própria, dos eletrodomésticos, celulares ou roupas novas. Enfim, no cotidiano da sociedade em que vivemos aquilo que se tem ou se quer, as razões das necessidades e desejos de produtos e serviços são temas que povoam as conversas e a imaginação.

É interessante observar que esstes tópicos, tanto ligados à produção, quanto ligados ao consumo perpassam – mudando devidamente os conteúdos – os diferentes grupos e classes socioeconômicas. Esses tópicos são como textos de um repertório essencial na cultura contemporânea, que dá livre acesso ao discurso sobre compras, trabalhos, gastos e ganhos, tornando amplamente disponível o imaginário destas experiências centrais da vida social do nosso tempo. Tudo isso indica que produção e consumo são (entre outras coisas, evidentemente) como códigos através dos quais um imenso conjunto de representações e práticas ganha sentido em nossas vidas.

Mas, ainda que produção e consumo sejam legítimos e largamente empregados como assunto, é interessante ver que eles geram diferenças significativas se aplicados ao comportamento das pessoas. Basta dizer que alguém é bom trabalhador ou que veste a camisa, que é comprometido com a empresa para que diferentes visões da produção e do consumo comecem a aparecer, pois nesse caso estamos atribuindo à pessoa uma identidade positiva. O inverso acontece quando classificamos alguém como consumista ou gastador, pois isto significa atribuir uma identidade negativa. Esta idéia nos fala de forma simples, porém eloqüente, de certa superioridade moral que a produção e os seus temas – trabalhos, empresas, profissões – possui quando comparada ao consumo e seus temas – marcas, compras, gastos. É como se a produção possuísse algo de nobre e valoroso, representando o mundo sério e verdadeiro e o consumo, no pólo oposto, tivesse algo de superficial e fútil, representando o mundo mais falso e inconseqüente. A visão do consumo como superficialidade, vício compulsivo, problema, coisa de fúteis, emergentes, dondocas – essa inferioridade moral em face da produção – tem grande apelo ideológico. É comum que essa idéia apareça em artigos de jornal, reportagens de revistas ou debates televisivos e nesses fóruns, geralmente, o consumo é julgado e condenado como responsável por boa parte das mazelas do mundo. Ele é um dos réus favoritos, sempre um culpado disponível, e sua condenação uma boa forma de alicerçar a superioridade moral da produção.

Em certo sentido, podemos afirmar que essa superioridade moral da produção sobre o consumo se traduz também na pouca atenção que ele recebe no âmbito de estudos das ciências humanas. Isso é revelador: o fenômeno que identifica nosso mundo é, paradoxalmente, ainda pouco estudado e conhecido. Para falar da idéia de produção e suas conseqüências sociais existe uma pesada tradição que atravessa várias disciplinas, inclusive uma delas, a economia, elaborada especificamente para pensar a produção. Isso, evidentemente, contrasta com a idéia de consumo em torno da qual ainda muito pouco se produz de forma sistemática. Entretanto, a pesquisa do consumo é fundamental, pois coloca em jogo um diversificado conjunto de atividades sociais, envolve todo um universo de pessoas, um imenso investimento de tempo e recursos, um amplo repertório de significados culturais e, por causa dele, estabelece-se uma formidável movimentação social que não se limita a uma sociedade específica, mas se espalha quase a nível planetário.

Na cultura contemporânea, cada singularidade cultural deve se encaixar no curso daquilo que chamamos globalização que elabora um imaginário amplamente difundido em um processo constante de mundialização da cultura. É, sobretudo, através do sistema de consumo e da narrativa midiática que se dá o compartilhamento de valores que caracteriza o processo de mundialização ou planetarização da cultura. Pesquisar o consumo é, portanto, um projeto decisivo para entender experiências e representações coletivas, tanto locais quanto globais, na sociedade contemporânea. A narrativa midiática é um dos principais suportes desse processo de planetarização da cultura e, através dela, é construída uma espécie de senso comum, expandindo formas sociais e valores do Ocidente nos mais diversos lugares da terra, naturalizando o imaginário capitalista em qualquer cultura, em todas as culturas. O consumo e a mídia falam incessantemente no sentido do estabelecimento do mercado consumidor como figura determinante, como passagem crucial na direção do capitalismo, atingindo, inapelavelmente, o tecido social e a cultura. A narrativa midiática – publicidade em especial – produz sentido para os bens de consumo e, nesse processo, prescreve valores e modela práticas sociais. O consumo, portanto, através de um complexo sistema de representações, define capitais sociais, expressa identidades, diferenças, subjetividades, projetos, comportamentos, relações e oferece um mapa classificatório que regula várias esferas da experiência social na cultura contemporânea.

O fato de que o consumo é parte importante de nossa vida é uma obviedade. Todos sabem disso. Portanto, não pesquisá-lo sistematicamente é negligenciar a oportunidade de, através dele, conhecer uma das formas mais importantes de expressão da nossa cultura. O estudo do consumo se impõe como uma chave fundamental para a compreensão da sociedade contemporânea. Coisas como Internet, moda, design, mídia, objetos, publicidade são marcas indeléveis no espírito do tempo e, cada uma à sua maneira, dá ampla visibilidade ao consumo na nossa vida cotidiana.

Por isso, é importante indicar alguns pontos que podem ser bons para pensar o consumo como um fenômeno central na cultura contemporânea. O primeiro é que o consumo é um sistema de significação e a principal necessidade que supre é uma necessidade simbólica. O segundo é que o consumo é como um código, através Do qual são traduzidas muitas das nossas relações sociais. O terceiro é que este código, ao traduzir relações sociais, permite a classificação de coisas e pessoas, produtos e serviços, indivíduos e grupos. O consumo é um sistema de classificação do mundo que nos cerca a partir de si mesmo e, como é próprio dos códigos, pode ser sempre inclusivo. E inclusivo em dois sentidos: de um lado, inclusivo de produtos e serviços que a ele se agregam e são por ele articulados aos demais, de outro, inclusivo de identidades e relações sociais que são definidas, em larga medida na nossa vida, a partir dele. Finalmente, o quarto ponto é que esse código possui uma instância que o viabiliza, ao comunicá-lo à sociedade. Essa é uma das funções essenciais da narrativa midiática e da cultura de massa no mundo moderno, industrial e capitalista. O sistema da mídia é o grande operador da dimensão pública desse código, fazendo com que nos socializemos para o consumo de forma semelhante. É a narrativa midiática que inscreve – a partir das micro-histórias que conta, dos pequenos mundos que elabora dentro de suas produções (como nos anúncios ou novelas, por exemplo) – o consumo em nossa vida social. Ao fazer essa reprodução dos modos de vida, das sociabilidades, das experiências sensíveis e do cotidiano, ela também define publicamente produtos e serviços como necessidades ; explica cada um deles como modos de uso ; confecciona o desejo como classificação social. A mídia, o marketing, a publicidade, o design interpretam a produção, socializam para o consumo e nos oferecem um sistema classificatório que permite ligar um produto a cada outro e todos juntos às nossas experiências de vida.

Este é precisamente o centro do edifício de representações da vida social que é reproduzido dentro da narrativa midiática: classificar a produção, criando e mantendo um processo permanente de socialização para o consumo. Assim, penso que uma especificidade da cultura moderno-contemporânea, sua singularidade histórica, reside em construir um sistema de integração simbólica da diferença entre produção e consumo, pela distribuição de significados a partir da esfera da produção, realizando o destino de produtos e serviços na direção de mercados e consumidores. É nesse jogo poderoso que envolve fantasias, desejos, magias, mitos e rituais, que acontece o consumo, lugar privilegiado para o exercício permanente de classificação que, ao estilo dos sistemas totêmicos, fornece valores e categorias com as quais concebemos semelhanças e diferenças entre objetos e seres humanos.

Assim, é essencial entender a natureza das relações entre cultura e consumo. Para tanto é preciso estudar os processos de criação do significado na esfera da produção; os sistemas de classificação que ligam, de um lado, produtos e serviços e, de outro, grupos sociais e identidades, e, finalmente; as formas pelas quais a mídia socializa para o consumo, através de um discurso que fala tanto na direção da cultura global quanto para as várias culturas locais. Toda esta complexidade indica que o consumo deve ser objeto de estudos sistemáticos para que possamos identificar o seu papel na cultura contemporânea, o espaço que ocupa no imaginário coletivo e seu lugar nos desejos humanos. É aí também que se inscreve o desafio de um estudo antropológico do consumo como campo de experimentação e de troca intelectual.

Everardo Rocha é professor-associado do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. Doutor e mestre em antropologia social pelo Museu Nacional da UFRJ. Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação da UFRJ. Autor, entre outros, dos livros de Magia e capitalismo, A sociedade do sonho, Representações do consumo, O que é etnocentrismo, Jogo de espelhos e O que é mito.

“Com Ciência”

A mídia e a vida dos ricos

Os bilionários eclipsaram os milionários. E a imprensa passou a esmiuçar suas vidas com crescente avidez. No curso da eleição presidencial francesa, as corporações midiáticas enfatizaram o paralelo entre o estilo dos cantores de rap e o de Nicolas Sarkozy: óculos Ray-Ban, corrente de ouro e cronômetro Breitling de pulso

Mathias Roux

Ao apresentar “A saga dos fazedores de fortuna”, em 26 de maio de 1983, o programa Antena 2 lançava a moda dos retratos de empresários “descomplexados”. Bernard Tapie, um quarentão comprador de empresas em dificuldades, era a estrela. A mudança das regras havia começado. Para as fortunas acumuladas rapidamente, o clima se amenizava. Com algumas semanas de intervalo, um filme estrelado por Claude Brasseur e uma canção de Johnny Hallyday saíam com o mesmo título: “Sinais exteriores de riqueza”. “Foram também sinais do verdadeiro poder, diante do qual, bom e mau gosto desaparecem”, observou o escritor Guy Hocquenghem ao descrever Serge July, então diretor do jornal Libération, como um “provinciano feliz por estar finalmente sentado à mesa dos poderosos, fascinado com as estrelas de cinema e com os aristocratas. Sua aparência de novo-rico, terno 1950 azul-petróleo, brilhantina no cabelo e charutos, cultivada cuidadosamente” [1].

Assim, os bilionários eclipsaram os milionários. E a imprensa passou a detalhar sua existência com crescente avidez. Três dias antes do segundo turno da eleição presidencial de 2007, Le Point fazia um paralelo entre o estilo de alguns cantores de rap e o de Nicolas Sarkozy: “óculos Ray-Ban, corrente de ouro, cronômetro Breitling de pulso. Como eles, o candidato da União para um Movimento Popular (UMP) adora as marcas, o luxo e tudo que brilha, o que na mitologia hip-hop é chamado de ‘bling-bling’”. O escrutínio presidencial marcou o momento em que a classe dirigente francesa teria rompido com seus entraves culturais para se livrar de uma exagerada discrição virtuosa. Fim de uma neurose francesa: ser rico não é mais tabu. “Ricos e orgulhosos de sê-lo: geração bling-bling”, anunciava o Le Nouvel Observateur de 25 de outubro de 2007.

Os banquetes organizados em 17 de setembro de 2007 para os sessenta anos da maison Dior por Bernard Arnault, ofereceram à revista Point de vue a oportunidade de anunciar o advento de uma era monarchic, celebrando a “nova aliança” entre “políticos, estrelas e bilionários” [2]. Na capa, a ministra da Justiça Rachida Dati, vestindo Dior, ao lado do costureiro John Galliano. Nas páginas internas, o primeiro ministro François Fillon posa na companhia de Juliette Binoche, Christine Ockrent e Hélène Arnault, todas as três também em Dior.

O reino “sem complexo do sucesso e do dinheiro” teria chegado? Comprada em novembro de 2005 pelo grupo de imprensa Roularta, Point de vue, a revista semanal da aristocracia, só recentemente trocou a atualidade principesca pela do luxo e do “mundo da fama” – mas com o entusiasmo do neófito. Em 2005 e 2006, apenas uma de suas capas foi reservada a celebridades não pertencentes à aristocracia. De janeiro a julho de 2007, a realeza apareceria ainda cerca de 26 vezes à frente da cena. Já entre julho e dezembro, a ordem protocolar se inverteu: 16 capas (em 23) foram consagradas aos políticos e aos “famosos”, entre os quais Nicolas Sarkozy (quatro vezes), Carla Bruni (duas vezes) e Cécilia Sarkozy (três vezes).

A partir de janeiro de 2008 o novo casal presidencial foi cinco vezes capa. Ao mesmo tempo, pela primeira vez em seis décadas de existência a tão chique Point de vue anunciou um dossiê intitulado “Quanto eles ganham?” com os presidentes Sarkozy e George W. Bush na foto principal. Na semana seguinte apareceu um número “Especial luxo” [3]. Um dos mais antigos títulos de publicações francesas reuniu, dessa forma, uma oferta editorial que se aproveitou da intimidade dos governantes, dos impulsos de consumo dos muito ricos e da atualidade do luxo escandaloso – esta última incontestavelmente bem explorada.

Mesmo fora dos períodos de festas, os artigos sobre moda e tendências fervilham de produtos totalmente fora do alcance dos bolsos médios. Há vários anos um suplemento mensal do Financial Times, sobriamente intitulado “How to spend it”, explicava a seus leitores como gastar todo o dinheiro ganho com os conselhos econômicos do jornal. Le Point sempre incentivou seus clientes a se ofertarem “o luxo da semana” ao apresentarem uma matéria dedicada a marcas famosas de relógios, roupas, calçados e perfumes.

Somam-se aí reportagens sobre o modo de vida dos ricos e a maneira como gastam seu dinheiro. Esse tipo de matéria, em si, não tem nada de original: as excentricidades dos príncipes do petróleo ou as fotografias das vilas de veraneio das vedetes em Beverly Hills são objetos de investigações exaustivas há décadas. O que é recente é a presença semanal nas manchetes. Os jornais não se limitam mais ao relato dos excessos invernais das oligarquias russas em Courchevel, à crônica das excentricidades estivais dos jet-setters de Saint-Tropez, ou ainda à publicação anual da classificação da Forbes com os mais ricos do mundo – e sua versão nacional da Challenges.

Como sugeriu uma longa reportagem do Paris Match de 15 de novembro de 2007 sobre os requintados refúgios de caça na região de Sologne, freqüentados por empresários das quarenta maiores companhias cotadas na Bolsa francesa (CAC 40), a atualidade dos mais ricos não conhece mais estação: ela ganhou o status de editoria. Entre 2000 e 2003, as revistas semanais Le Point, L’Express e Nouvel Observateur totalizaram uma dezena de artigos sobre os ricos, além de 25 longos textos e dossiês especiais entre 2004 e 2007.

O enfoque editorial também mudou. No início dos anos 2000, o assunto era abordado de maneira indireta, através de subterfúgios fiscais, de entrevistas com sociólogos ou pela boa e velha classificação comparativa. A partir de 2004, a riqueza se tornou o mote dos dossiês: “Ricos: como é ser?”, “Como eles ficaram ricos?”, “O que fazem com o dinheiro?”, “Como vivem os super-ricos?”, “O planeta dos ultra-ricos”, “As loucuras dos ultra-ricos” [4].

Desse modo, Point de vue mostrou, na edição de 14 de novembro de 2007, as rendas anuais de políticos misturadas às de reis, artistas e grandes empresários. Comparados ao salário de Bernard Arnault, presidente-diretor geral do grupo de bens de luxo LVMH, os 60 mil euros declarados por Vladimir Putin parecem quase insignificantes. No fundo, eles têm apenas um ponto em comum: permitem às mídias que falem de dinheiro. Quando a Challenges publicou, em julho de 2006, a classificação anual das maiores fortunas profissionais francesas, a capa exibia: “Assim vivem os ricos: casamento, casa, piscina e lazeres”.

Contudo, o número consagrou dois artigos a como enriquecer graças aos fundos de investimento privados e ao LBO (leverage buy-out). No ano seguinte, esse tipo de artigo desapareceu. Apenas as reportagens sobre gastos excêntricos permaneceram. Em 19 de julho de 2007, a Challenges justifica esse tratamento anedótico da economia: “na França de 2007, a ética puritana do capitalismo, feita de austeridade e discrição, é um valor que está em baixa. ‘Para vivermos felizes, vivemos expostos’, parece dizer um número crescente de executivos. A mistura dos gêneros ‘dinheiro, glória e beleza’ nos dá medo”.

As festas organizadas pelas marcas para lançar um novo produto, os casamentos ou aniversários, cedem espaço para a cobertura assídua e muitas vezes centrada nas questões financeiras. Certamente, os ecos mundanos das noites parisienses ou das festas beneficentes em Mônaco habitam há muito tempo as colunas da revista Paris Match. Porém, ao consagrar vinte páginas ao casamento da filha de Arnault – até então desconhecida do grande público, assim como seu noivo –, a revista marcou uma virada importante em 22 de setembro de 2005.

O fausto, a prodigalidade, a despesa e a incomensurabilidade dos fatos são amplamente descritos. No centro, o pai da noiva. À sua volta, vedetes do espetáculo, grandes empresários e personalidades políticas, não menos que seis ministros em exercício, entre os quais Nicolas Sarkozy. Depois disso, houve a festa de 17 de setembro de 2007, “muito privada” e muito midiática na Avenida Montaigne, em Paris, para comemorar os sessenta anos de Dior, descrita acima. Do número de maîtres à safra dos vinhos, Point de vue não deixou escapar nenhum detalhe da magnificência ao leitor.

A visibilidade da fortuna caminha junto com a exibição das relações entre empresários e políticos. Para a recepção dada na noite de sua vitória, na mansão parisiense de um amigo, Nicolas Sarkozy convidou Arnault, Bolloré, Dassault, Decaux, Bouygues, Desseigne (Barrière), Bernheim (Generali), Desmarais (Power Corporation), Kron (Alstom), Frère (Suez), Proglio (Veolia) [5]… “Eu não tive a intenção de me esconder”, respondeu àqueles que criticaram suas férias no iate de Bolloré. Antes da prudência anunciada após as eleições municipais de março de 2008, tanto os representantes políticos da direita como os da esquerda se preocuparam em aparecer nas festas mundanas [6], incluindo François Fillon.

Intitulada “Bem-vindo entre os poderosos” [7], a série publicada no Le Monde em agosto de 2007 apresenta uma reportagem sobre as aparências do poder. Infelizmente, a falsidade foi o tema mais exposto: despesas suntuosas, manifestações mundanas e formas de sociabilidade das elites. Um exemplo, entre tantos outros, dá o tom desta série: “um Airbus havia sido fretado especialmente para levar de Paris dezenas de personalidades do cinema, da arte, do teatro e da literatura. Quando a festa se prolongou mais que o previsto, Philippine [de Rothschild] conseguiu, a um alto custo, que o aeroporto de Bordeaux-Mérignac fosse aberto à noite para que o Airbus e seus prestigiosos passageiros pudessem retornar à capital”.

A proposta da imprensa se uniformiza com uma glorificação do dinheiro. Duas hipóteses correntes explicam este alinhamento. De acordo com a primeira, a oferta midiática responderia a uma demanda. Em Luxury Fever [8], o economista Robert H. Frank garante que, nos Estados Unidos, o desejo de consumir produtos de luxo não conhece fronteiras sociais, pois os objetos possuem a faculdade de preencher simbolicamente as diferenças de renda bem reais. Na França, o presidente-diretor geral das Publicações Condé Nast, Xavier Romanet, declarou: “seja Vogue, Glamour ou AD, nosso leitor mostra uma cultura e um desejo de luxo reais. E não é nem uma questão de idade, nem de renda. Podemos, a partir de agora, amar o luxo qualquer que seja nossa história familiar e cultural”. Sem dúvida, isso explica a estratégia de desenvolvimento dos produtos das grandes marcas de luxo [9]. O fato de que a pesquisa entre os leitores que gerou esta afirmação foi baseada em uma amostra extraída “da metade superior da população, em termos de renda”, tempera o entusiasmo de Romanet. “O luxo, hoje, não é mais destinado a uma elite, mas à parte elitista que existe em cada um de nós”, precisa a presidente do Comitê Colbert (Grupo de interesse de marcas de luxo), Elisabeth Ponsolle des Portes [10]. No entanto, se acreditarmos em uma sondagem publicada pela Challenges em 13 de julho de 2006, convém relativizarmos a amplitude do entusiasmo pelo luxo e pelo dinheiro. À pergunta “quais sentimentos você nutre pelos ricos?”, 71% das pessoas entrevistadas responderam “indiferença”, resultado praticamente idêntico ao de 1998.

Mas não importa. Para Le Point, o dinheiro não apenas “faz sonhar” como “na falta dele, nos surpreendemos observando os outros gastarem”. O suposto interesse dos leitores pelo luxo excita os anunciantes, que, por sua vez, estimulam esse tipo de matéria. Pressionado por um acionista (Roularta) que desejava dobrar a margem operacional de seu grupo, o diretor do L’Express, Christophe Barbier, estimava, em novembro de 2006, que “as oportunidades de crescimento estão no universo da moda, da beleza, do luxo e dos automóveis” [11]. Um lugar comum aos olhos de Laurent Joffrin. Desde 2001, o diretor editorial do Nouvel Observateur admitia: “é verdade, fazemos uma espécie de recepção para ricos” [12]. E isso era só o começo. Entre 2004 e 2007, a revista publicou três vezes mais artigos sobre o luxo que no decorrer dos quatro anos precedentes.

A segunda hipótese para justificar o interesse da imprensa nos ricos defende que isso não se deve à demanda do público, mas sim à necessidade de informar. Como observou o editorialista americano Roger Cohen, o sonho dos capitalistas de fazer dinheiro unicamente com dinheiro, sem nada produzir diretamente, tornou-se realidade [13]. A multiplicação de fortunas rapidamente acumuladas justificaria a recorrência do tratamento midiático. Cronista da rubrica “Wealth” (“Riqueza”) do Wall Steet Journal, Robert H. Frank reuniu suas observações no livro Richistan [14]. O autor explica como a febre de gastar dos ricos criou novos padrões para a classe média e as de rendas mais baixas. Segundo Frank, os “seguidores de Richistan” mergulham a América no endividamento com este patamar de gastos.

Se confirmado o crescimento do número de bilionários, esses fenômenos comportam uma dimensão conexa que os dossiês sobre “As loucuras dos super-ricos” ou “As loucuras dos ultra-ricos” [15] procuram abordar com muito cuidado: o cruzamento das desigualdades de rendas, patrimônios e perspectivas mais reduzidas de promoção social, entre outros. Raros são os artigos que, como aquele da Newsweek de 12 de novembro de 2007, fazem uma relação entre o enriquecimento de alguns, principalmente nos países emergentes, e a precariedade da maioria, com a supressão das proteções coletivas e a ausência de direitos dos assalariados [16]. “Eles são 94.970 no planeta e têm fome… Fome de objetos faraônicos, únicos, extravagantes”, afirma uma matéria do Le Monde 2, de 15 de dezembro de 2007.

No fundo, por que se informar sobre as contrapartidas sociais dessas extravagâncias sendo que, em breve, o luxo estará ao alcance do bolso de todos? Porque amanhã seremos todos bilionários!

[1] Guy Hocquenghem, Lettre ouverte à ceux qui sont passés du col Mao au Rotary, Marselha, Agone, 2003.

[2] Poin de vue, Paris, 26 de setembro de 2007.

[3] Ibid., novembro de 2007.

[4] Le Point, 28 de julho de 2005; L’Express, 25 de janeiro de 2007; Le Point, 22 de julho de 2007; L’Express, 20 de julho de 2006; Le Nouvel Observateur, 20 de dezembro de 2007; Le Monde 2, 15 de dezembro de 2007.

[5] Ariane Chemin e Judith Perrignon, La Nuit du Fouquet’s, Paris, Fayard, 2007.

[6] Ler, por exemplo, o relato do casamento de Henri Weber, ex-dirigente trotskista que se tornou senador do governo Laurent Fabius: “La gauche à la noce”, Le Monde, Paris, 2 de outubro de 2007.

[7] Le Monde, de 21 a 26 de agosto de 2007. Cf. igualmente “Bienvenue chez les puissant: c’est Le Monde qui se charge de l’accueil”, disponível no site.

[8] Robert H. Frank, Luxury fever: money and happiness image of excess, Princeton University Press, 1999.

[9] “Les français et le luxe: je t’aime moi non plus”, Les Echos, 13 de dezembro de 2007.

[10] “Le luxe est mort, vive le luxe”, Le Nouvel Economiste, 19 de dezembro de 2007.

[11] Le Figaro, Paris, 22 de novembro de 2006.

[12] Citado em François Ruffin, Les Petits soldats du journalisme, Paris, Les Arènes, 2003.

[13] “The filthy rich are different from you and me”, International Herald Tribune, Paris, 2 de fevereiro de 2007.

[14] Richistan, A journey through the American wealth boom and the lives of the new richs, Nova York, Crown Publishers, 2007.

[15] Le Figaro, 19 de maio de 2001, e Le Monde 2, 15 de dezembro de 2007.

[16] Ler Renaud Lambert, “Como o homem mais rico juntou seus tostões”, Le Monde Diplomatique Brasil, abril de 2008.

“Le Monde diplomatique”