ORIENTE MÉDIO Bush tem repetido que até deixar a Casa Branca, em 20 de janeiro de 2009, pretende fazer tudo o que achar necessário para mudar a conjuntura da região; um ataque ao Irã não está descartado, nem mesmo se o próximo eleito for Obama ou McCain
Achille Lollo
Nos últimos três meses, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, endureceu o tom das ameaças contra a República Islâmica do Irã, enquanto em Israel, vários ministros manifestavam a necessidade de uma “ação preventiva” para desativar o programa nuclear de enriquecimento de urânio que o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, voltou a priorizar para fins pacíficos. É bom lembrar que o presidente anterior, Khatami, havia congelado o programa nuclear iraniano na esperança de promover uma ampla negociação com os EUA, que, em resposta, ofereceu um pacote mínimo, mantendo todas as suas exigências imperiais e as prerrogativas geoestratégicas na conturbada região do Oriente Médio.
Segundo Ahmadinejad, em janeiro deste ano, Bush manteve uma reunião de trabalho com os generais do Pentágono para avaliar as reais possibilidades de se promover uma “guerra de civilização para derrubar o regime iraniano”. A resposta dos generais foi constrangedora para Bush, visto que o recrudescimento dos combates no Iraque e no Afeganistão não permitem transferir as divisões que ocupam aqueles países para uma prolongada campanha militar contra o Irã.
Por outro lado, os especialistas em planejamento estratégico alertaram o presidente de que, para implementar no Irã um novo processo institucional – como foi tentado no Iraque –, seria necessário, antes de tudo, derrotar o Exército iraniano; eliminar fisicamente os 50 mil guardas da Revolução (para evitar a formação de guerrilhas) e, portanto, ocupar todo o Irã (que é três vez maior do que o Iraque) com um corpo de armada estimado em 350 mil homens.
Bombardeio cirúrgico
Excluindo o quadro de uma guerra clássica e a repetição de uma ocupação territorial, os estrategistas apontaram para o mandatário da Casa Branca a hipótese de um “bombardeio cirúrgico” dos quatro centros nucleares iranianos e de alguns terminais petrolíferos, antes das eleições presidenciais iranianas, em 2009.
Segundo os estrategistas estadunidenses, um ataque deste tipo poderia desqualifi car definitivamente a retórica beligerante de Ahmadinejad, inviabilizando sua reeleição e, conseqüentemente, promovendo uma mudança no Otavo Majlis (Parlamento), com uma vitória eleitoral dos conservadores reformistas liderados por Larajani e o prefeito de Teerã, Ghalibaf.
Em Israel, os grupos do poder sionista apóiam a idéia do “bombardeio cirúrgico”. Por isso, a reconstrução do ataque aéreo contra a central nuclear iraquiana de Tamuz, em 1981, foi um argumento que abrilhantou a estadia de George W. Bush em Jerusalém, em 15 de maio. Porém, para os estrategistas estadunidenses, o grande problema é ter a certeza de que, ao bombardear os quatros centros de pesquisa nuclear, não haverá vítimas entre os civis e, sobretudo, não haverá explosões no local em que está armazenado o material radioativo.
De fato, o professor Hushang Amir-Ahmadi, diretor do American-Iranian Council e professor na Rutgers University de New Jersey, alerta que a principal instalação nuclear iraniana está muito perto dos subúrbios da capital Teerã e que sua estrutura – diferentemente da central iraquiana de Tamuz – é subterrânea e, portanto, preparada para suportar ataques aéreos. Isto implica bombardeios prolongados e esmagadores que podem abrir um ciclo de guerra destruidor por toda a região.
Sem controle
“Os próximos sete ou oito meses serão cruciais para o relacionamento entre o Irã e os EUA, e serão bastante dramáticos, visto que neste período não haverá construção política. Serão meses nos quais vão acontecer fatos, uma vez que não será a política que vai estabelecer o que acontecerá entre os dois países. Pelo contrário, serão os fatos, ou seja, os acidentes não controláveis, que poderão provocar ações militares de grande envergadura contra o Irã”, realça o professor.
Por exemplo, o enfrentamento que se deu no Líbano, na primeira quinzena de maio, entre o governo pró-ocidental e o Hezbollah foi um “acidente não controlável” que a Liga Árabe conseguiu concertar pouco antes de Israel intervir. Neste contexto, o diretor do American-Iranian Council admite que “o governo iraniano está preocupado com os ditos acidentes não controláveis”. De fato, o governo iraniano considera “crítica” a situação em três regiões do Irã, nomeadamente: a) o Beluchistão, que faz fronteira com o Paquistão e onde a CIA e o ISI (serviço secreto paquistanense) alimentam grupos independentistas; b) o Turcomenistão iraniano, agitado por grupos que pretendem a unificação com a República do Turcomenistão, monitorado pelo Mossad israelense; e c) o Curdistão iraniano – onde vivem refugiadas as populações do Curdistão turco ligadas ao PKK – pode ser objeto de ataques vindos da Turquia ou do Curdistão iraquiano, em retaliação às emboscadas realizadas pelos guerrilheiros do PKK.
Se isso acontecer, certamente toda a região fronteiriça entre Irã, Iraque e Turquia vai ficar instável. Para o professor, “um acidente não controlável desse pode justificar o início dos ‘bombardeios cirúrgicos’ e, assim, abrir um novo ciclo de guerra com poucas perspectivas de sucessos imediatos”.
“Vítima”
Nos últimos meses, Bush tem repetido em várias ocasiões que até 20 de janeiro de 2009 – isto é, quando sair da Casa Branca – pretende fazer tudo o que achar necessário para mudar a conjuntura do Oriente Médio.
Uma declaração que apresenta que os EUA estã0 prontos para um novo conflito no Oriente Médio, região na qual Israel é o único aliado com que podem contar 100%. Para explicar a teimosia imperial de Bush e dos generais do Pentágono, Marcus Raskin, fundador do Institute for Policy Studies e professor na George Washington University, declarou a um jornalista do jornal italiano Il Manifesto: “Os EUA estão prontos para um novo conflito porque entendem a guerra como parte da tradição estadunidense de um Estado guerreiro.
Por outro lado, o 11 de setembro de 2001, com seus ataques terroristas contra Nova York e Washington, permitiu ao governo Bush utilizar o conceito de ‘vítima’ e, portanto, justificar todo tipo de ‘contra-ataques preventivos’ em qualquer parte do mundo. Assim, se Israel decidir bombardear o Irã, terá o apoio militar do Pentágono e a sustentação política no Congresso pela maioria dos republicanos e dos democratas. Isto significa que Bush pode deixar ao novo presidente dos EUA a herança de uma situação terrível, com uma guerra que ameaça se espalhar a qualquer momento”.
Guerra civilizadora
Barack Obama e John Mc- Cain apóiam cegamente Israel. Para eles, quem ameaça o regime de Tel Aviv é inimigo dos EUA. Em suas campanhas, propuseram aumentar a presença militar no Afeganistão por quatro motivos:
a) por ocupar um vasto território em uma região cada vez mais estratégica, de onde os EUA não se podem retirar;
b) por controlar os oleodutos que atravessam aquele país;
c) pela ocupação territorial contribuir para o aumento das encomendas às indústrias militares, que são os principais patrocinadores das campanhas eleitorais;
d) pela guerra no Afeganistão ser apresentada aos eleitores como uma guerra civilizadora, na qual os EUA e seus parceiros europeus têm a possibilidade de “educar” uma parte do mundo islâmico. Isso sem falar que, com a ocupação do Afeganistão, voltaram as plantações de papoula que alimentam a produção de heroína e a lavagem de lucros bilionários nos bancos dos EUA – algo que os dois candidatos silenciaram com muito oportunismo. No caso das derrotas políticas e militares no Iraque, democratas e republicanos disfarçam, dizendo que se trata de “uma guerra preventiva” que alguns congressistas julgam imoral, outros acham que não é mais necessária, porém ninguém propõe a efetiva retirada, sobretudo agora que o Irã, além de exercer uma grande liderança no mundo islâmico, pode se tornar uma potência militar que domina o processo de fixação nuclear.
Por isso, um possível conflito com o Irã é apresentado pela mídia estadunidense e européia como uma guerra civilizadora. Para isso, a voz de Henry Kissinger voltou a ocupar espaço na mídia ao dizer “se o regime de Teerã quer ser readmitido no circuito econômico internacional e ter reconhecido seu papel de potência regional, deve renunciar ao seu arsenal atômico e decidir se é uma nação ou uma causa, se entende atuar como Estado ou como a vanguarda da revolução islâmica mundial”.
O governo
O objetivo principal do presidente iraniano é sua reeleição em maio de 2009. É neste âmbito que afastou o ministro do Interior, Pur-Mohammadi, e rompeu publicamente com os conservadores radicais, liderados por Hussein Shariatmadari (diretor do jornal Keyhan) e Ghazi Mortazavi (juiz do Tribunal Islâmico). Uma operação que reforçou sua ligação política com o guia espiritual da Revolução Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei, inclusive porque seus ataques verbais contra Israel e as ameaças, de Bush e Israel, de bombardear as centrais nucleares iranianas fortaleceram a imagem de Ahmadinejad, sobretudo entre os dois principais grupos étnicos, os Padaran e os Basiji.
Em um contexto geopolítico exprimido pelas sanções econômicas – que EUA e União Européia conseguiram impor por meio de uma ONU cada vez mais ao reboque da estratégia imperial – e ameaçado de ser atacado a partir do Iraque, Afeganistão, Turquia, Omã e Turcomenistão, o governo iraniano não cede.
Aliás, mais o Irã sofre ameaças, maior é a vontade de reafirmar sua autonomia política, transformando o conflito regional em uma guerra planetária entre o agressor ocidental (cristã-judaico) e o mundo islâmico. De fato, em abril, o aiatolá Khamenei, em uma intervenção em Yazd, afirmou: “Não podemos ser eternamente inimigos dos Estados Unidos, mas ainda não chegou a hora da reconciliação”.
O que, na prática, significa que o Irã está disposto a negociar um amplo plano com o novo presidente dos EUA, somente em 2009, isto é, depois da reeleição de Ahmadinejad. Mas, até lá tudo pode acontecer.
Achille Lollo, jornalista italiano, é diretor do documentário América Latina: Desenvolvimento ou Mercado; disponível em DVD no www.portalpopular.org.br
“Brasil De Fato”