Monthly Archives: outubro 2008

Racismo branco renasce com indústria cosmética na África e na Ásia

A herança pós-colonial renasce: os branqueadores de pele e as operações para arredondar traços faciais triunfam na Ásia e na África

Lali Cambra e Ana G. Rojas

A promessa é clarear a pele um ou dois ou três tons. Milhões de mulheres – e cada vez mais homens – de todo o mundo transformaram os cremes que dizem branquear a pele em um filão para a indústria cosmética. Consciente disso, esta os anuncia de forma agressiva e sem rodeios, especialmente na Índia e nos países do Sudeste Asiático, o que lhe concedeu a duvidosa honra de ser acusada de abandeirar uma nova – e multimilionária – vanguarda racista: branco é bonito; negro é vergonhoso.

Uma herança maldita, mas ainda em vigor nas sociedades pós-coloniais. Isto é, na maior parte do mundo. Como amostra, um símbolo. O anúncio de White Beauty (beleza branca), um creme da Pond’s da filial indiana da Unilever. Priyanka Chopra, uma das atrizes mais bonitas e famosas de Bollywood, sofre porque seu namorado, Saif Ali Khan, o herói indiano do momento, foi embora com a outra bonita da filmagem, Neha Dhupla. A garota abandonada vai recuperar seu amor quando conseguir ter uma pele mais pálida – graças, é claro, a White Beauty. O desenvolvimento desse famoso triângulo amoroso, anunciado em capítulos na televisão indiana, reabriu o debate sobre a grande obsessão pela pele branca nesse país, cuja maioria da população tem pele escura.

“É um escândalo, é um comercial muito racista que aumenta os preconceitos pela cor da pele”, diz Subashini Ali, presidente da Aidwa, ala feminista do Partido Comunista da Índia, promotora da campanha contra o comercial. Para Unilever da Índia, “não há intenção de discriminar de maneira alguma. Como empresa valorizamos e respeitamos a diversidade de necessidades e aspirações de nossos clientes”, diz seu porta-voz, Prasad Pradhan, que lembra que na Índia se usam tradicionalmente remédios caseiros para branquear a pele, e por isso a companhia só está trazendo um produto que o mercado demanda.

Para o professor da Escola de Administração Ross da Universidade de Michigan, estudioso da campanha da Unilever, Aneel Karnani, por sua vez, o anúncio reforça antigos preconceitos, “e não tradições inexistentes”. Karnani mostra-se preocupado também pelo sexismo da publicidade – “a mulher tem de estar bonita para satisfazer o homem” -, e lembra que a Unilever no Ocidente comercializa a marca Dove, responsável por uma campanha para “libertar a nova geração de estereótipos de beleza”.

O anúncio na Índia acionou os alarmes por se tratar de três superestrelas. Mas não é o primeiro nem o único. Os cremes branqueadores enchem as prateleiras das lojas indianas, acessíveis a todos os bolsos, começando desde o equivalente a menos de 1 euro até várias dezenas de euros por um tubo de creme. E a grande maioria tem comerciais deslumbrantes. Uma infinidade de marcas locais, mas também Nivea, L’Oreal, Procter and Gamble, The Body Shop, Avon, Clinique ou Revlon comercializam seus produtos.

É que o mercado indiano gasta em “cuidados da pele” mais de US$ 640 milhões por ano, segundo um estudo de mercado da AC Nielsen, uma cifra que não pára de crescer a passos agigantados.

Os analistas consultados por El País mostram sua preocupação pela facilidade com que esse racismo global – e seus anúncios – é aceito nos países asiáticos e do Pacífico, entre os quais se destacam China, Japão, Filipinas e Coréia. Neste último, a cirurgia estética nas pálpebras para conseguir olhos arredondados é a mais procurada. Nos EUA, essa operação é a terceira cirurgia estética mais procurada, só depois da lipoaspiração e do aumento dos seios.

“Em muitos países asiáticos, ter a pele branca era uma característica feminina, mas hoje, com campanhas agressivas e racistas, também é um sinal de modernidade aceito por toda a sociedade”, explica Amina Mire, professora do Departamento de Antropologia e Sociologia da Universidade de Carleton, Canadá. O mercado de branqueadores está, segundo Mire, perfeitamente assentado no continente asiático, o terceiro em lucros depois dos EUA e da Europa (onde são comercializados para mulheres brancas como produtos antiidade ou antimanchas).

Para Margaret Hunter, especialista em políticas raciais e de gênero da Universidade Mills da Califórnia, esse novo racismo global, originado por ideologias coloniais (as pessoas de raças mistas de compleição mais branca tinham situações privilegiadas em relação às mais escuras, por ter trabalhos protegidos dos raios de sol) e por um racismo interiorizado nas antigas colônias, e incentivado também por visões de uma nova ordem mundial. Este tem como premissa a exportação por parte dos EUA e de sua mídia da beleza branca e, ocasionalmente, a de mulheres negras de pele clara (e quanto mais clara melhor, vista a recente polêmica criada pelo suposto branqueamento, através do software Photoshop, da pele da cantora Beyoncé em um anúncio da L’Oreal).

Em todo o mundo, “na televisão, cinema, Internet ou imprensa se prefere a mulher loura e branca não mais como ideal cultural, mas como imperativo cultural”, diz Hunter. Estudos obtidos por ela indicam que nos EUA latinos e afro-americanos de pele mais clara têm maior acesso ao trabalho, status, dinheiro ou para encontrar parceiro(a). Algo que também ocorre na Índia, onde as mulheres mais morenas têm mais problemas para encontrar marido e seu dote encarece.

Nas sessões de anúncios de casamento, onde os pais buscam parceiros para seus filhos, a palavra “fair” (pele branca) sobressai em todos os anúncios. “Quero ter uma pele mais branca para ser mais aceito. Assim terei uma namorada mais bonita e meus ganhos aumentarão porque serei mais carismático”, diz um jovem visto em um mercado de Nova Déli comprando “Fair and Handsome” (branco e bonito), um dos produtos destinados ao público masculino.

Apesar de o desejo de embranquecer a pele cruzar o espectro social, é entre as classes médias e baixas que a indústria tem mais adeptos. Isso é o que mais critica também o professor Karnani: “Os produtos são vendidos para gente jovem e impressionável e para mulheres pobres, às quais vendem embalagens econômicas. É exploração. Isso não é potencializar a mulher, potencializar a mulher é fazê-la sentir-se bem do modo como nasceu, de forma que não sinta que tem de comprar esse produto. E, além disso, à diferença do comprimento do cabelo, de ser mais ou menos gorda, a cor da pele é impossível de mudar”.

Para outros, a questão não tem nada a ver com supremacia racial: “A obsessão por ser branco na Índia não tem viés racista, é só um conceito de beleza, todo mundo quer o que não pode ter”, diz uma estudiosa de comportamento do consumidor em Nova Déli, que prefere não dar seu nome.

Esse aumento no consumo de cosméticos não se limita aos subcontinente indiano e ao continente asiático. Nos EUA também se pratica, embora em menor medida, devido ao vigor do movimento pelos direitos civis entre a população negra. Segundo Amina Mire, assim como na África “onde o branqueamento foi associado à opressão colonial branca e os que o praticam são acusados de ter complexo de inferioridade, de se odiar. Por isso é praticado às escondidas”. Como branquear a pele é motivo de vergonha, os produtos são vendidos clandestinamente.

“A África é o lixo dos cremes tóxicos, portanto mais baratos”, afirma Mire, que acrescenta que como as pessoas os usam às escondidas só chegam ao médico quando os produtos tóxicos já causaram danos às vezes irreparáveis.

Tanto Mire quanto Hunter lembram que muitos países africanos proibiram o uso de determinados produtos por seu risco à saúde (em 2004 a Tanzânia proibiu 83 marcas diferentes, embora em muitos países continuem sendo encontradas sem dificuldade em mercados ou em vendedores ambulantes) e realizaram campanhas para promover a beleza estética africana, o que, segundo Hunter, é “um trabalho crucial, já que a mensagem de superioridade branca satura o mercado”.

El Pais

África sofre menos com malária

Um dos piores vilões mundiais poderá ser neutralizado se os investimentos continuarem

Jeffrey Sachs

A África – o epicentro mundial de incidência de malária — está prestes a atingir um momento histórico no desenvolvimento da saúde e da economia. Uma combinação de novas tecnologias, novos métodos de controle da doença e o aumento da conscientização popular, diminuirão as mortes por malária em 90% ou mais – se as medidas em andamento tiverem continuidade.

A forma mortal da malária é atribuída ao protozoário Plasmodium Falciparum, transmitido pelo mosquito anófeles. Por causa dos ciclos vitais do patógeno e do mosquito, para haver transmissão é necessário uma temperatura ambiente de pelo menos 18º C. Temperaturas mais altas aumentam as chances de transmissão. Por essa razão a malária é considerada uma doença tropical. O alcance da transmissão é determinado pela quantidade de mosquitos, temperatura ambiente e a tendência de certas espécies do anófeles de picar seres humanos em vez de animais. Nesses três aspectos, a ecologia da África torna a contaminação mais alta que em qualquer outra parte do mundo.

Esforços para controlar a malária nos anos 1950 e 1960 usaram sucessivamente o inseticida DDT e um remédio à base de cloroquina para eliminar a doença em muitas regiões de clima temperado e sub-tropical. Mas a malária persistiu nos trópicos e particularmente na África, onde a intensidade de transmissão é a maior do mundo por razões ecológicas. A África paga um preço altíssimo pelo problema atual da malária, não somente por ter mais de um milhão de mortes anuais, mas também pela redução significativa do crescimento econômico.

Até recentemente, a situação piorava em vez de melhorar. O parasita da malária tornou-se altamente resistente à cloroquina. Discussões sobre os cuidados na aplicação do DDT — pulverizado nas paredes internas das casas — e sua ação como inseticida em locais abertos — que é ambientalmente pouco seguro e provoca resistência – também restringiu a utilização de agentes químicos.

A longo prazo, a solução mais promissora é uma vacina, sendo que as candidatas mais prováveis estão sendo testadas clinicamente. Porém, enquanto esperamos pela vacina, uma convergência de vantagens acena com possibilidades de sucesso a curto prazo. A primeira foi a descoberta de um mosquiteiro — tratado com inseticidas persistentes — que protege as pessoas durante a noite contra picadas dentro de casa. Estes mosquiteiros duram cerca de cinco anos, ao contrário dos anteriores que precisavam passar por novas aplicações de inseticida a cada poucos meses.

Um segundo avanço, que pode salvar inúmeras vidas, está no desenvolvimento de uma nova geração de remédios altamente eficazes, baseados na artemisinina, um extrato de ervas descoberto por cientistas chineses. A artemisinina só deve ser administrada associada a fármacos mais tradicionais, para se evitar que os parasitas desenvolvam resistência ao produto.

O terceiro avanço se refere a uma nova abordagem no controle de doenças. No passado, o governo dos Estados Unidos e outras agências de financiamento facilitaram a venda de mosquiteiros oferecendo descontos. O resultado demorou a ser sentido porque a maioria dos proprietários rurais da África é muito pobre e não pode comprá-los. Além disso, os descontos eram concedidos somente para crianças e mulheres grávidas, grupos mais atingidos pela malária. Essa política direcionada ignorou um ponto fundamental: indivíduos desprotegidos agem como focos da infecção, não somente infectando-se, mas facilitando a retransmissão a grupos protegidos, pois os mosquiteiros não são 100% eficazes.

A nova estratégia baseia-se em uma distribuição maciça e gratuita de mosquiteiros, com um mosquiteiro para cada leito. Todos estarão protegidos da doença e nenhum grupo se tornará foco de transmissão. Os medicamentos à base de artemisinina serão distribuídos gratuitamente nas aldeias. Essa estratégia é muito bem vista pelos países financiadores, pois o custo de cada mosquiteiro é de apenas US$5 e cada dose de remédio custa somente US$1. Os mosquiteiros já estão sendo distribuídos gratuitamente em vários países africanos.

O controle da malária é um bom negócio atualmente. Um estudo que eu e meus colegas concluímos recentemente mostra que uma ampla distribuição de mosquiteiros, remédios e pesticidas pode ser realizada a um custo de US$3 bilhões anuais durante os próximos anos, o que equivale a somente US$3 por pessoa em países desenvolvidos. Ou, em outras palavras, o equivalente aos gastos de dois dias do Pentágono poderia salvar mais de um milhão de vidas por ano. Esses custos diminuirão ao longo dos anos, à medida que as taxas de infecção forem diminuindo. Além da preservação de vidas, os ganhos econômicos da África brevemente chegarão a dezenas de bilhões de dólares por ano, sustentados pela redução direta do custo da doença e pelo crescimento do desenvolvimento econômico.

Os recursos financeiros estão se alinhando. O Fundo Mundial de Luta contra Aids, Tuberculose e Malária é um líder e financiador natural. O Banco Mundial pode desempenhar um papel fundamental, ainda mais que o novo presidente, Robert Zoellick tem demonstrado liderança nesta área. A Administração Bush aumentou recentemente os fundos para a malária. O setor privado está preparado para intensificar a ajuda de várias maneiras, e a população já está doando dezenas de milhares de dólares para a aquisição de mosquiteiros através de organizações como “Malária Nunca Mais” (www.malarianomore.org). Estamos prestes a dar um grande passo. E a hora é essa.

Scientific American Brasil

Na Bolívia, uma guerra que teve início há muito mais tempo atrás

País, que tem história de massacres e insurreições, vive momento de inflexão no qual explorados podem pôr fim ao confronto

Ramiro Lizondo Díaz

QUEM SE interessa por história poderá se dar conta de que a da Bolívia é a dos massacres indígenas, camponeses e operários, desde a colônia. A República se sustentou, até hoje, sobre a exploração da força de trabalho indígena e à base de recursos naturais.
A espoliação e a exploração consolidou uma estrutura social e institucional vinculada à produção e à exportação de matérias-primas, consolidando, a longo prazo, uma condição de dependência que converteu a Bolívia em um dos países mais pobres do hemisfério ocidental.
Com uma organização social extremamente estratificada e um horizonte estatal frágil, o transcorrer de sua história esteve marcado pela exclusão e pelo massacre. Os povos originários nunca deixaram de manifestar seus desejos de liberdade, como provam as inumeráveis sublevações, tanto as que culminaram com o grande levantamento de 1780, como também as que se realizaram contra as haciendas, durante a República.
Algumas dessas insurreições indígenas e camponesas tiveram enorme magnitude, não só pelo esforço da mobilização e a tragédia que representou o massacre, mas também pela memória e a herança emancipadora transmitida de geração em geração.

Massacres e revoltas
As de 1874 e 1899, tanto nas terras altas como nas terras baixas do país, não deixariam de ser mobilizações que terminariam em novos massacres já no século 20, como a rebelião de Jesus de Machaca, em 1921, ou a de Chayanta, em 1928.
Os massacres operários também tinham sua marca de dramatismo, como a matança de mineradores em Uncía, em 1923; Catavi, em 1942; a guerra do Chaco (1932-1935); a revolução de 1946; a de 1952; a de 1964; a matança de San Juan, em 1967; o golpe militar de Bánzer, em 1971; o massacre de trabalhadores fabris e universitários, em novembro de 1979; a marcha pela vida, em 1986; a marcha por terra e território, em 1990; o massacre de Amayapampa e Capasirca, em 1997; as guerras da água, em 2000; a guerra do gás e o massacre de El Alto, em 2003; e, agora, o massacre de Pando, no dia 11 de setembro. Com o tempo, consolidou-se na estrutura mental dos povos indígenas e movimentos populares, tanto das terras altas como das baixas, uma cultura política insurrecional e de resistência anticolonial que foi e é uma guerra longa e intermitente contra os invasores e seus descendentes, que cruza de forma transversal toda a história boliviana.

Um novo paradigma
Agora, os movimentos populares e indígenas, sob a liderança de Evo Morales, se converteram em uma opção real de poder e construção de uma nova hegemonia política. Esta questiona o emaranhado oligárquico- clientelista e antinacional que governou o país até dois atrás. Os movimentos indígenas já não são objetos de um cartão-postal folclórico; agora são uma opção real de poder político. Essa é a dimensão desse novo paradigma.
Inclusive a esquerda tradicional, ancorada em paradigmas que já não se sustentam, como o fato de encampar o “inevitável” vanguardismo operário em todos os processos revolucionários, custa a assumir o potencial desse novo – e, ao mesmo tempo, antigo – ator social. Ator social este cuja estratégia de poder se sustenta na recuperação do Estado para as maiorias nacionais, e que este sirva não somente para assegurar a propriedade dos recursos naturais para todos os bolivianos, mas também para redistribuir a renda que se possa obter de sua exploração.

Direita radical
O conservadorismo da oligarquia boliviana, idêntico ao de toda região, viu-se obrigado a aceitar que os governasse um “índio”, que, segundo seus cálculos, cairia por seu próprio peso e condição. Mas, quando se questiona a estrutura de propriedade da terra, estão dispostos a tudo para não abandonarem o cenário da história.
A rebelião aberta da direita responde a uma estratégia, planejada e coordenada, de violência, bloqueios de estradas, ocupação de entidades estatais, controle e saque das instituições públicas, plano de assédio e ameaças, ocupação de quartéis, explosões de válvulas de gás, desabastecimentos de produtos básicos, desestabilização econômica e criação de um clima de insegurança e desgoverno.
Um plano golpista que coincide como uma luva com o que havia acontecido no Chile, no governo de Salvador Allende. No entanto, ainda fica a sensação de passividade por parte do governo boliviano.

Responsabilidade popular
Os movimentos sociais tomaram a iniciativa para deter a escalada golpista com a mobilização das bases, cuja decisão é frear a direita com a autoridade moral que lhes dá o sangue derramado, sua consciência política, sua capacidade combativa e o horizonte de visibilidade de um modelo de país distinto. Pois foram eles que carregaram sobre os ombros os vexames e a marginalização a que foram submetidos pela colônia e o Estado republicano oligárquico.
O governo popular tem a obrigação de fazer respeitar o Estado de Direito em todo o país e levar à justiça os criminosos, amotinados e paramilitares fascistas que promoveram um novo massacre. O que se pensava como o elemento que fosse acender os sentimentos regionalistas autonomistas da direita fascista gerou uma reação contrária. O crime e a barbárie de suas ações deixam isso em evidência.

Atores da repressão
Historicamente, as Forças Armadas e a Polícia Nacional vêm respondendo aos interesses da oligarquia, da qual seus principais oficiais provêm. Isso explica sua posição de “braços cruzados” e inoperância diante das ações ameaçadoras da classe social com a qual eles mesmos se identificam.
Na história dos massacres, os militares sempre foram os atores inconfundíveis da repressão e da morte. Em todos os casos, atuaram como mercenários a serviço das oligarquias. Exceto no último massacre camponês de Pando.
Isso não é sinal de nada: apenas devem cumprir a lei que a responsabilidade de ser “garantidores da unidade da pátria” lhes estipula, e obedecer a seu Capitão General, o presidente Evo Morales.
Mas não devemos cair na ingenuidade de pensar que estão de acordo com o novo projeto de país que se constrói na Bolívia.

Ponto de bifurcação
A maior debilidade do campo popular é sair da extrema diversidade e das lutas setoriais. A maior vantagem é a capacidade e tradição de luta revolucionária. Chegamos ao ponto de bifurcação, ao ponto de inflexão e ruptura. A saída “democrática” já foi esgotada com os resultados do referendo revogatório.
Os sublevadores que provocaram a violência agora devem agüentar as conseqüências da resposta popular. Na verdade, a guerra civil que muitos temem já havia começado há muito tempo, só que agora adquire uma dinâmica diferente, uma liderança distinta. O projeto emancipador que devemos apoiar é a “Revolução Democrática e Cultural”.
Evo assume, com uma fortaleza impressionante, o comando dessa nova etapa. Definindo que sua posição é ao lado desse povo que hoje decide encarar o desafio que a história lhe impõe.
A principal tarefa dos movimentos sociais e indígenas é levar a iniciativa e passar da resistência à ofensiva. O seguinte passo é aprovar a Nova Constituição Política do Estado.

Brasil de Fato

“Zonas mortas” dos oceanos crescem em ritmo preocupante

Bina Venkataraman

Muitas áreas costeiras dos oceanos do mundo estão ficando destituídas de oxigênio em um ritmo alarmante. Segundo pesquisadores, vários trechos do fundo dos mares perderam tanto oxigênio que mal conseguem sustentar a vida marinha.

Segundo os cientistas, a causa principal disso são os nutrientes ricos em nitrogênio, provenientes de fertilizantes, que, após serem carregados pelos rios, vão parar nas águas costeiras.

Um estudo que será publicado nesta sexta-feira (15/08) no periódico “Science” anuncia que o número dessas “zonas mortas” marinhas em todo o mundo dobrou a cada dez anos a partir da década de 1960. Atualmente cerca de 400 áreas costeiras têm águas de fundo perpétua ou periodicamente destituídas de oxigênio, e em muitas delas a área atingida ou a intensidade do problema estão aumentando. Somadas, essas zonas equivalem a uma área maior do que o Estado norte-americano do Oregon (que tem 254.806 quilômetros quadrados).

“Nos últimos 40 ou 50 anos a atividade humana degradou a qualidade da água”, disse em uma entrevista Robert J. Diaz, o principal responsável pelo estudo.

De acordo com Diaz, que é professor do Instituto de Ciência Marinha de Virgínia, na Faculdade William and Mary, esta tendência não pressagia nada de bom para muitas áreas de pesca. “As zonas mortas tendem a ocorrer em áreas que, historicamente, são regiões de pesca da maior qualidade”.

Embora o tamanho das zonas mortas seja relativamente pequeno quando comparado à superfície total dos oceanos, os cientistas afirmam que elas representam uma porção significativa das águas oceânicas nas quais habitam espécies de peixes e mariscos de valor comercial.

Periodicamente, os níveis reduzidos de oxigênio dizimam peixes e crustáceos em zonas mortas no fundo das águas de locais como o Golfo do México, a Baía de Chesapeake e o Mar Báltico, fazendo com que as únicas formas de vida restantes neles sejam os micróbios.

Alguns lugares nos quais as zonas mortas aumentaram nos últimos anos são a costa da China e o Mar de Kattegat, no qual a pesca de lagostas da Noruega entrou em colapso. Essas zonas também surgiram inesperadamente em trechos na costa da Carolina do Sul e do Noroeste da América do Norte.

Neste verão a zona morta no Golfo do México cobre um trecho que é quase do tamanho do Estado de Massachusetts (cuja área é de 27.337 quilômetros quadrados). A área desta zona morta mais do que dobrou nos últimos 20 anos.

“Existem grandes áreas do golfo nas quais não é possível capturar um só camarão”, diz Nancy N. Rabalais, diretora-executiva do Consócio Marinho da Universidade da Louisiana, que estuda a zona morta naquela região há mais de duas décadas. “É uma espécie de batalha perdida”.

Os cientistas afirmam que a criação das zonas mortas é provocada, em grande parte, por um processo que começa quando o nitrogênio proveniente de adubos e esgotos estimula o crescimento de plâncton fotossintético na superfície das águas costeiras. À medida que estes organismos morrem e depositam-se no fundo do mar, eles são decompostos por micróbios que consumem grandes quantidades de oxigênio. E, quando o nível de oxigênio cai, a maioria dos animais que vivem no fundo é incapaz de sobreviver.

“A resposta dos organismos das nossas áreas costeiras é migrar ou morrer”, afirma Diaz. “A adaptação à água com baixos níveis de oxigênio é uma coisa que precisa fazer parte da nossa história evolucionária. Não é algo que pode ser desenvolvido em um período de 40 ou 50 anos”.

Muitas zonas mortas são cíclicas, reaparecendo todos os anos nos meses de verão. Mas, com o passar do tempo, elas podem acabar inteiramente com espécies que nela habitam. Elas também impediram a recuperação de espécies que estão sob proteção após terem sido dizimadas pela pesca excessiva, como o bacalhau do Mar Báltico.

Os níveis reduzidos de oxigênio também matam vermes anelídeos e outras fontes de alimento para peixes e crustáceos.

“Depois que as zonas mortas surgem, é muito difícil reverter a situação”, afirma Donald F. Boesch, presidente do Centro de Ciência Ambiental da Universidade de Maryland. “Elas têm um grande impacto sobre a capacidade de renovação das populações de peixes”.

Boesch, que como Rabalais não participou do estudo, afirma que “a proliferação global” das zonas mortas, que costumavam ser um problema mais comum no mundo desenvolvido, tem sido alimentada pela industrialização, pela mudança de hábitos alimentares e pelo crescimento populacional, que implicaram em maior uso de fertilizantes e em mais lixo despejado nos cursos d’água.

“As zonas mortas representam uma séria ameaça para os ecossistemas litorâneos”, adverte James N. Galloway, professor de ciência ambiental da Universidade de Virgínia. “Mas o desafio é descobrir como gerenciar o uso de fertilizantes sem comprometer a capacidade de alimentar a população mundial”.

Robert W. Howarth, professor de ecologia e biologia ambiental da Universidade Cornell, diz que existem métodos para reduzir o despejo de material rico em nitrogênio nos cursos d’água, incluindo a plantação de centeio ou trigo de inverno, ao invés de deixar os campos abandonados após a colheita de outono. Tal plantio faria com que grande parte dos fertilizantes fosse absorvida pelas culturas de inverno, em vez de ser carregada para rios e lagos pelas chuvas da primavera.

The New York Times

Crise dificilmente rivalizará a Grande Depressão

Michael E. Kanell

Nos últimos dias, você ouviu – muito – como a atual crise financeira é a pior desde a Grande Depressão.

Pode ser. Muito menos claro é se ela se transformará em algo de fato parecido com a Depressão, quando em três anos a economia encolheu quase pela metade e o desemprego chegou a 24%.

As atuais medições econômicas ainda são muito mais animadoras que isso. Também há outras diferenças tranqüilizadoras.

Quando a Depressão começou, o país virtualmente não contava com uma rede de segurança para os necessitados e nenhuma regulação para os bancos. As autoridades do governo na época relutaram em resgatar os agentes do mercado em apuros.

Mas para alguns historiadores, o enredo atual exibe temas familiares.

“É um processo muito semelhante ao da Grande Depressão, porque o que você tem são pessoas não gastando dinheiro suficiente”, disse o historiador Bryant Simon, da Universidade Temple, diretor de estudos americanos.

Consumidores altamente endividados e bancos com problemas são tóxicos para uma economia movida pelo consumo, ele disse.

“Não é tão severo quanto daquela vez”, disse Simon. “Mas se os bancos não emprestarem dinheiro, não é possível recolocar a economia em movimento, já que as pessoas não gastarão dinheiro suficiente.”

Os Estados Unidos têm enfrentado recessões periódicas e dolorosas durante sua história.

Mas a Grande Depressão foi tão ampla e profunda que provocou ação dramática para mudar as regras do mercado.

Algumas dessas mudanças – como a garantia aos depósitos – tornam outra Depressão muito menos provável, concordam muitos especialistas.

O atual arrocho de crédito pode testar a teoria.

O falecido economista Hyman Minsky disse que os sistemas capitalistas tendem a “se alavancarem constantemente com mais dívida”, notou o ex-economista do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), Tim Yeager, que foi um dos alunos de Minsky e agora é professor de finanças na Universidade de Arkansas.

“O crédito fica mais fraco, os empréstimos ficam cada vez piores e o risco cresce”, disse Yeager. “É como um esquema de Ponzi.”

Ele ouve ecos nas manchetes financeiras atuais.

“Esta é uma boa explicação para o que aconteceu desta vez. É uma boa explicação para o que aconteceu na Grande Depressão.”

Na memória popular, o crash do mercado de ações em 1929 provocou a Depressão, apesar de muitos especialistas dizerem que o crash foi mais um sintoma do que a causa.

Novamente nas últimas semanas, o mercado tem oscilado de forma tensa.

“Isso é o que todos estão vendo agora e é onde as semelhanças terminam no momento”, disse Tom Smith, professor de finanças da Escola de Negócios Goizueta da Universidade Emory.

Mas apesar das semelhanças, o mercado de ações está longe de reproduzir o colapso da Grande Depressão. O Dow, o índice das ações das grandes empresas, perdeu cerca de 40% em um ano. Em outubro de 1929, as ações perderam 40% em um mês e perderiam quase 90% em três anos.

Os bancos eram um foco na época assim como agora, mas por motivos diferentes, disse Smith.

“Nos anos 30 foi um fracasso do sistema bancário. O que tivemos desta vez foi um fracasso das práticas bancárias.”

Estas práticas incluíram a criação de papéis inovadores que visavam diluir o risco de empréstimos ruins. Em vez disso, eles espalharam o veneno financeiro ao redor do mundo quando o mercado imobiliário estagnou, já que muitos dos papéis eram apoiados por hipotecas.

Outra diferença: durante a Depressão, a maioria dos empréstimos vinha de bancos comunitários pequenos, virtualmente não regulados. O governo não garantia os depósitos e os bancos podiam investi-los da forma que quisessem.

Assim que os Estados Unidos foram apanhados pela recessão econômica mundial, milhões de americanos viram suas rendas caírem. A aprovação da tarifa Smoot-Hawley exacerbou o problema ao reduzir o comércio. Muitos – especialmente na América rural – não conseguiam pagar suas dívidas.

A necessidade de obter dinheiro se acelerou até uma corrida frenética aos bancos, que não dispunham de dinheiro suficiente à mão para atender todos os depositantes ao mesmo tempo.

Durante os primeiros 10 meses de 1930, 744 bancos faliram, disse Roger Cominsky, um sócio sediado em Buffalo da firma Hiscock & Barclay’s Financial Institutions & Lending. Ao final da década, 9 mil tinham falido – quase um entre três.

Em comparação, os bancos comunitários do século 21 são relativamente fortes. Mas eles têm uma participação nacional menor na concessão de empréstimos. Em vez deles, a economia depende de um punhado de grandes bancos e outras instituições financeiras.

Ambas as crises ocorreram após “bolhas” econômicas que inflaram a riqueza de muitos americanos, pelo menos no papel. Nos anos 20 foram as ações, e nesta década os imóveis.

Em ambos os casos a propriedade foi impulsionada pelo crédito fácil, termos e regras fáceis que visavam encorajar os compradores a irem além de sua capacidade de pagar.

Com as ações, era uma “margem” – os investidores precisavam apenas de uma fração do preço para realizar a compra. Um corretor emitia uma “call” (opção de compra) que exigia que o comprador apresentasse mais dinheiro, mas isso era fácil se os preços subissem. Com os imóveis residenciais, foi uma combinação de política pública que encorajava o crédito fácil, juntamente com práticas de empréstimo e investimento que alimentaram a farra. Os consumidores usavam refinanciamento ou empréstimos tendo o imóvel como garantia para financiar outras grandes compras.

Tanto nas ações quanto nos imóveis, o jogo podia continuar enquanto os preços continuassem subindo.

Durante os primeiros anos da Depressão, cerca de 40% dos empréstimos bancários eram garantidos com ações, disse Brian Olasov, diretor administrativo da McKenna Long & Aldridge, que presta consultoria a bancos e já realizou pesquisa extensa sobre crises bancárias.

“Agora, cerca de seis décimos dos portfólios dos bancos são relacionados a imóveis.”

Apesar das semelhanças, a maioria dos especialistas não acha que a crise de 2008 levará a uma repetição plena da Depressão.

Mas Yeager, o ex-economista do Fed, disse que o pior ainda pode estar por vir.

“Há uma grande tempestade se formando.”

Cox Newspapers

O resgate de todos os resgates: golpe de Estado cleptocrata nos EUA

O governo dos EUA mudou radicalmente o caráter do capitalismo norte-americano. Trata-se, nem mais nem menos, de um “golpe de Estado” a favor da classe que Franklin Delano Roosevelt chamava de “bancgsters”. O que aconteceu nas últimas semanas pode alterar o curso do século que começa de maneira irreversível. Estamos diante da maior e mais desigual transferência de riqueza desde que se presentearam terras aos barões das ferrovias na era da Guerra Civil. A análise é de Michael Hudson.

Michael Hudson

Ninguém esperava que o capitalismo industrial terminasse deste modo. Mais do que isso, ninguém sequer imaginou que ele evoluiria nesta direção. Suspeito que essa cegueira seja freqüente entre os futurólogos: a tendência natural é pensar sobre a forma ótima de crescimento e desenvolvimento das economias. Mas sempre parece surgir um caminho imprevisto e então a sociedade se vai por uma tangente.

Que duas semanas! No domingo, 7 de setembro, o Tesouro assumiu o controle dos 5,3 bilhões de dólares expostos ao risco hipotecário das empresas Fannie Mae e Freddie Mac, cujos chefes já tinham sido destituídos por fraude contábil. No dia 15 de setembro, Lehman Brothers declarou-se em bancarrota quando possíveis compradores de Wall Street não conseguiram encontrar rastro algum de realidade em sua contabilidade financeira. Dois dias depois, o Federal Reserve concordou em aprovar, a um custo de pelo menos 85 bilhões de dólares, os lucros “assegurados” que a AIG devia a instituições financeiras que, por meio do comércio de valores nas bolsas, apostaram em hipotecas podres e contrataram seguros de cobertura com essa empresa seguradora, o American International Group (cujo chefe, Maurice Greenberg, havia sido destituído poucos anos antes por fraude contábil).

19 de setembro: o momento de inflexão
Mas é o dia 19 de setembro que figurará na história dos EUA como o momento de inflexão. A Casa Branca comprometeu ao menos 500 bilhões de dólares no esforço de aumentar os preços imobiliários a fim de sustentar o valor de mercado das hipotecas podres (hipotecas contratadas sem levar em conta a capacidade dos devedores para pagar e que, além disso, superestimam o preço corrente de mercado que se oferece como garantia da dívida).

Esses bilhões de dólares foram sacrificados para manter vivo um sonho: as ficções contábeis postas sobre o papel por empresas que ingressaram em um mundo irreal fundado em uma contabilidade falsa que praticamente todo o mundo financeiro sabia ser enganosa. Mas todos jogavam com as hipotecas podres porque ali é onde se ganhava dinheiro. Inclusive, no momento do colapso dos mercados, vários gestores executivos de fundos de investimentos que mantinham a lucidez foram duramente criticados por não embarcar neste jogo enquanto ele funcionava.

Tenho amigos em Wall Street que foram demitidos por não conseguir igualar os lucros que colegas seus estavam conseguindo. E os maiores retornos eram conseguidos através da comercialização dos maiores ativos financeiros da economia: a dívida hipotecária. Somente as hipotecas pertencentes ou garantidas por Fannie e Freddie já excediam o volume de toda a dívida nacional dos EUA, que é o déficit acumulado pelo Estado norte-americano desde os dias em que a nação ganhou a guerra revolucionária da independência!

Isso dá uma idéia das enormes dimensões do resgate, assim como das prioridades do Estado (ou, ao menos, dos republicanos no governo). Em vez de despertar a economia para a realidade, o governo empenhou todos os seus recursos na promoção de um sonho irreal, segundo o qual as dívidas podem ser pagas: se não pelos próprios devedores, pelo governo (ou os “contribuintes”, como se diz eufemisticamente). Diante das trevas, o Tesouro dos EUA e o Federal Reserve mudaram radicalmente a face do capitalismo norte-americano. Trata-se, nem mais nem menos, de um “golpe de Estado” a favor da classe que Franklin Delano Roosevelt chamava de “bancgsters”. O que aconteceu nas duas últimas semanas ameaça alterar o curso do século que começa, de maneira irreversível. Pois estamos diante da maior e mais desigual transferência de riqueza desde que se presentearam terras aos barões das ferrovias na era da Guerra Civil.

Socorrendo os doadores da campanha eleitoral
Ainda assim, há poucos indícios de que isso chegue sequer a pôr fim ao som dos tambores e trompetes em defesa do livre mercado executado pelos insiders financeiros que conseguiram destruir o controle público pela via de colocar reconhecidos anti-reguladores nas principais agências reguladoras, gerando assim o caos que, segundo diz agora o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ameaça os depósitos bancários e os postos de trabalho de todos os norte-americanos. Mas quem está realmente ameaçado são os maiores contribuidores financeiros da campanha eleitoral dos republicanos (e para ser justo, também os maiores contribuidores das campanhas de candidatos democratas a postos-chave nos comitês de finanças do Congresso.

Uma classe cleptocrática tomou o controle da economia, a fim de substituir o capitalismo industrial. O termo cunhado um dia por Roosevelt – “bancgsters” – diz tudo em uma palavra. A economia foi assaltada e capturada por uma potência exterior. Não pelos suspeitos habituais: não foi pelo socialismo, não pelos trabalhadores, não pelo “Estado gigante”, não pelos industriais monopolistas, nem sequer pelas grandes famílias de banqueiros. Também não o foi pela franco-maçonaria ou pelos illuminati (seria maravilhoso que existisse de verdade algum grupo que atuasse nas sombras, com séculos de sabedoria acumulada; assim, ao menos, alguém teria um plano).

Os Exterminadores do Futuro
O que ocorreu é que os “bancgsters” aliaram-se com uma potência externa: não com os comunistas, não com os russos, asiáticos ou árabes: aliaram-se com algo que sequer é humano. O grupo em questão é um feixe de máquinas. Isso pode soar ao tema do filme “Exterminador do Futuro”, mas o certo é que os computadores conseguiram assumir o controle do mundo, ao menos o mundo da Casa Branca.

Eis aqui como conseguiram. A AIG subscreveu apólices de seguros de todo tipo solicitados por gente e pelo mundo dos negócios: seguros de habitação e de propriedade, seguros agropecuários e inclusive seguros para cobrir o arrendamento aeronáutico. Esse rentabilíssimo negócio não foi o problema (por isso mesmo, provavelmente, será todo coberto para poder pagar as apostas fracassadas da companhia). A queda da AIG veio dos 450 bilhões de dólares que ficaram pendurados ao assegurar garantias a fundos hedge de investimento.

Em outras palavras: se duas partes jogavam um jogo de soma zero, apostando uma contra a outra pela alta ou queda do dólar frente à libra esterlina ou ao euro, ou se asseguravam uma carteira hipotecária ou hipotecas podres para ter garantias de que seriam cobertas, pagavam uma minúscula comissão a AIG por uma apólice que prometia pagar, se o mercado hipotecário norte-americanos de 11 trilhões de dólares chegasse a “tropeçar”, ou se os perdedores que tinham colocado bilhões de dólares em apostas em derivados do mercado internacional de divisas ou em derivados financeiros de ações ou obrigações, terminassem em uma situação parecida com a que se encontram muitos jogadores de Las Vegas, isto é, incapazes de cobrir suas dívidas em dinheiro.

A AIG colheu bilhões de dólares com essas apólices. E graças ao fato de que essas companhias seguradoras são um paraíso “friedmaniano” – não regulado pelo Federal Reserve, nem por nenhuma outra agência de alcance nacional – a subscrição dessas apólices era feita por meio de processos informáticos. A empresa recebia enormes quantidades de honorários e comissões sem sequer aportar capital. Isso é o que se chama de “auto-regulação”. E é assim que, supostamente, funciona a mão invisível do mercado.

O fato é que, inevitavelmente, algumas instituições financeiras que tinham apostado bilhões de dólares – normalmente, e para ser preciso, apostando 1 bilhão de dólares no curso de uns poucos minutos – não estavam em condições de pagar. Esses jogos se desenvolviam em micro-segundos, praticamente sem interferência humana. Neste sentido, não é tão distinto dos alienígenas tomando o controle. Mas neste caso trata-se de máquinas tipo robô: daí a analogia que tracei com os Exterminadores.

Seu repentino acesso ao poder é tão imprevisível como uma invasão procedente de Marte. A analogia que mais se aproxima é a invasão dos Chicago Boy’s, do Banco Mundial e da USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) a Rússia e a outras economias pós-soviéticas logo após a dissolução da URSS, promovendo privatizações de livre mercado a fim de criar cleptocracias nacionais. Para os estadounidenses deveria constituir um sinal de alerta que esses cleptocratas tenham se convertido nas fortunas fundadoras de seus respectivos países. Deveríamos ter presente a observação de Aristóteles, segundo a qual a democracia é o estado imediatamente anterior à oligarquia.

Comércio à velocidade da luz
As máquinas financeiras que desenvolveram o comércio que resultou na quebra da AIG estavam programadas por executivos financeiros para atuar com a velocidade da luz em operações de comércio eletrônico que costumam durar alguns segundos, e isso, milhões de vezes ao dia. Só uma máquina poderia calcular a distribuição de probabilidades matemáticas a partir da observação de ínfimas variações, para cima e para baixo, de taxas de juros, taxas de câmbio, preços de ações e obrigações, preços de hipotecas empacotadas. E esses últimos pacotes, cada vez mais, assumiram a forma de hipotecas podres, supostamente dívidas pagáveis mas, na realidade, casca vazia.

Em particular, as máquinas empregadas pelos fundos hedge deram um novo significado ao capitalismo de cassino. Há muito que se aplicava esse significado aos especuladores que jogavam no mercado de valores. Consistia em fazer apostas cruzadas, perder algo e ganhar algo, e deixar que o Estado resgatasse os não-pagadores. O giro observável na turbulência das duas últimas semanas é que os ganhadores não podem recolher os lucros de suas apostas, a menos que o governo pague as dívidas contraídas pelos perdedores, incapazes de satisfazê-las com seu próprio dinheiro.

Alguém poderia pensar que tudo isso exige algum grau de controle por parte do Estado, que provavelmente esse tipo de atividade não deveria jamais ter sido autorizada. De fato, nunca foi autorizada, tampouco regulada. Mas parecia haver uma boa razão para isso: os investidores dos fundos hedge assinaram um papel dizendo que eram suficientemente ricos para permitirem-se perder seu dinheiro neste jogo financeiro. Um jogo que não era acessível aos pobres mortais. Apesar do alto rendimento gerado por milhões de minúsculas operações comerciais, tais operações eram consideradas demasiado arriscadas para principiantes carentes de fundos confiáveis para entrar no jogo.

Um fundo hedge, ou fundo de cobertura ou de investimento livre, não ganha dinheiro produzindo bens e serviços. Não avança fundos para comprar ativos reais, nem sequer empresta dinheiro. O que faz é tomar emprestadas enormes somas para alavancar suas apostas com crédito praticamente ilimitado. Seus executivos não são engenheiros industriais, mas sim matemáticos que programam computadores para fazer apostas cruzadas ou straddles sobre como se comportarão as taxas de juros, as taxas de câmbio de moedas, os preços das ações e obrigações ou os preços das hipotecas empacotadas pelos bancos. Os empréstimos empacotados podem ter lastro ou ser puro lixo. Não importa. A única coisa que importa é ganhar dinheiro em um mercado no qual o grosso das operações comerciais dura apenas alguns segundos. O que gera lucros é a fibrilação dos preços, a volatilidade.

Jogo financeiro sem criação de riqueza
Este tipo de transações pode fazer fortunas, mas não é a “criação de riqueza” que muita gente imagina. Antes da fórmula matemática de Black-Scholes para calcular o valor das apostas destes fundos de investimento livre, esse tipo de jogo com opções de compra e venda resultava demasiado custoso, salvo para as empresas de intermediação financeira. Mas a combinação de potentes computadores com a “inovação” representada por um crédito praticamente ilimitado e o livre acesso às tabelas do jogo financeiro tornaram possível uma frenética manobra de ir e vir.

Pois bem, por que o Tesouro considerou inevitável esse esquema? Por que seria preciso salvar esses cassinos e seus apostadores, se eles tinham dinheiro bastante para perder sem que se convertessem em salas hospitalares necessitadas de assistência pública? O comércio de fundos hedge estava limitado aos muito ricos, aos bancos de investimentos e a outros investidores institucionais. Mas uma das maneiras mais fáceis de ganhar dinheiro chegou a ser emprestar fundos com juros que as pessoas tinham que devolver com o que retiravam de suas operações comerciais computadorizadas.

E, quase simultaneamente com a operação, esse dinheiro era pago em forma de comissões, remunerações e bônus anuais que traíam a memória dos EUA da Era da Ganância, nos anos que precederam a I Guerra Mundial, antes que se introduzisse o imposto sobre a renda em 1913. O notável em todo este dinheiro era que seus destinatários nem sequer tinha que pagar por ele um imposto de renda normal. O governo o chamou de “ganhos de capital”, o que significava que esse dinheiro era registrado fiscalmente somente como uma fração da taxa com a qual se taxavam os rendimentos.

Tudo isso com a pretensão, é importante dizer, de que todo esse frenético comércio estivesse criando “capital” real. Desde logo, cabe dizer que isso não ocorre, ao menos no sentido do conceito de capital dado pela economia clássica do século XIX. Esse conceito tem sido divorciado das noções de produção de bens e serviços, contratação de trabalho assalariado ou inovação financeira. Nesta novíssima acepção, “capital” passa a ser o direito de organizar uma loteria e recolher os lucros resultantes das esperanças dos perdedores. Mas, então, os cassinos de Las Vegas converteram-se em uma pujante “indústria do crescimento”, manchando a linguagem do capital, do crescimento e da própria riqueza.

Para encerrar as mesas de jogo e saldar dívidas, os perdedores têm que ser resgatados: Fannie Mae, Freddie Mac, AIG. Quem sabe quem será o seguinte? É a única maneira de resolver o seguinte problema que se apresenta às empresas que já pagaram seus executivos e acionistas, em vez de ter colocado essas somas em uma reserva: como recolher seus lucros diante de devedores insolventes e seguradoras quebradas? Estes, os perdedores, também pagaram seus executivos financeiros e seus colaboradores internos (junto com as oportunas contribuições patrióticas aos candidatos políticos em postos-chave das comissões do Congresso, encarregadas de decidir a estruturação financeira da nação).

O planejamento do caos
Sim, porque para que isso funcione, é preciso que seja orquestrado previamente. É necessário comprar políticos e oferecer-lhes um argumento plausível (ou, ao menos, um conjunto bem armado de eufemismos à prova de questionamento da opinião pública) para poder explicar aos eleitores por que era do interesse público resgatar os apostadores do cassino. É preciso ter uma boa retórica para explicar por que o governo tinha que permitir que eles entrassem em um cassino, deixar que ficassem com os lucros de suas apostas e, finalmente, usar fundos públicos para resgatar as perdas dos perdedores.

O que ocorreu nos dias 18 e 19 de setembro levou anos de preparação, escondidos por uma falsificação ideológica patrocinada por think thanks de relações públicas e emitida agora, em condições de emergência, a um Congresso e a eleitores reféns do pânico, justo antes da eleição presidencial. Poder-se-ia dizer que esta é a surpresa eleitoral que setembro reservava. Em condições de crise bem encenadas, o presidente Bush e o secretário do Tesouro Paulson convocam agora o país a uma guerra contra os proprietários de habitações, em situação de quebra técnica. Dizem que essa é a única esperança para “salvar ao sistema”. (Que sistema? Não o capitalismo industrial, nem sequer o sistema bancário tal como o conhecemos).

A maior transformação do sistema financeiro norte-americano desde a Grande Depressão aconteceu, comprimida, em duas semanas: começando com a duplicação da dívida nacional norte-americana quando, no dia 7 de setembro, ocorreu a nacionalização de Fannie Mae e Fredie Mac. (O corretor ortográfico de meu computador não concorda com a utilização do eufemismo “conservadorização” aplicado pelo senhor Paulson para referir-se ao resgate dos “fraudgsters” de Fannie Mae e Freddie Mac).

A teoria econômica poderia explicar que os lucros e o juro eram a remuneração do risco calculado. Mas em nossos dias o nome do jogo é ganhos de capital e apostas computadorizadas sobre o comportamento das taxas de juros, das moedas estrangeiras, dos preços das ações. E quando as apostas dão errado, os resgates são a remuneração econômica calculada de quem contribuiu financeiramente para a campanha eleitoral. Mas agora, supostamente, não é o momento de falar sobre tais coisas. “Temos que atuar agora para proteger a saúde econômica de nossa nação, ameaçada por graves riscos”, disse o presidente Bush no dia 19 de setembro.

O que ele queria dizer é que a Casa Branca deve responder com uma promessa de garantia ao maior grupo de doadores da campanha eleitoral do Partido Republicano – ou seja, Wall Street – resgatando suas más apostas. “Haverá muitas oportunidades para discutir as origens deste problema. A tarefa do momento é resolvê-lo”. Em outras palavras, não convertam isso em um assunto eleitoral. “Na história da nossa nação, ocorreram momentos que exigiram que andássemos unidos, deixando as divisões partidárias de lado a fim de enfrentar desafios de grande envergadura”. Justo antes das eleições! Idêntico disparate pode ser ouvido dos lábios do secretário Paulson: “Nossa saúde econômica exige que sejamos capazes de trabalhar juntos e empreender uma ação imediata bipartidária”. Os locutores disseram que nas manobras do dia estava em jogo uma cifra de meio bilhão de dólares.

Boa parte das culpas deveria recair sobre a Administração Clinton, responsável direta, em 1999, pela supressão da Lei Glass-Steagal, que permitiu aos bancos funcionarem como cassinos. Ou melhor dito, aos cassinos absorverem bancos. Isso é o que pôs em risco a economia dos norte-americanos.

Mas isso significa realmente que a única solução passa por “reinflar” o mercado imobiliário? O plano de Paulson-Bernanke é capacitar os bancos para que possam vender as casas de 5 milhões de devedores hipotecários que este ano terão que enfrentar ou a quebra ou o embargo. Os proprietários de habitações submetidos a juros hipotecários variáveis disparados perderão suas casas, mas o Federal Reserve garantirá às empresas de empréstimo hipotecário crédito suficiente para permitir que novos compradores se endividem o suficiente para conseguir resgatar as hipotecas lixo das mãos dos apostadores dos cassinos que são seus atuais possuidores. Com o que se ganha tempo para que uma nova bolha financeira acuda em resgate das instituições de empréstimo e dos empacotadores de hipotecas podres.

Nova guerra, novas ficções
Os EUA entraram em outra guerra, uma guerra para salvar os comerciantes de derivados computadorizados. Assim como a guerra do Iraque, esta nova guerra baseia-se muito em ficções e, como na guerra do Iraque, o país entra nela sob a pressão de condições de aparente emergência. Também como na guerra do Iraque, a solução proposta guarda pouca relação com a causa que provocou o problema. Esgrimindo razões de segurança financeira, o governo considerará como boas as Obrigações de Dívida Colateralizada (ODCs) que Warren Buffett chamou de “armas de destruição financeira massiva”.

Não é por acaso que esse esbanjamento de dinheiro público está sendo manejado pelo mesmo grupo que tão piamente alertou o país sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. O presidente Bush e o secretário do tesouro declararam tão ricamente que este não é o momento para desacordos partidários a respeito da deriva da política pública em favor dos credores e não dos devedores; que este não é o momento de converter em assunto eleitoral o maior resgate já registrado nos anais da história eleitoral; que não é o momento adequado para debater se é bom “reinflar” o preço dos imóveis a níveis que seguirão obrigando os novos compradores de casa a endividarem-se até o ponto de ter que gastar em habitação cerca de 40% de seus rendimentos.

Recordem a época em que o presidente Bush e Alan Greenspan informaram aos norte-americanos que não havia dinheiro para financiar a Seguridade Social, porque em algum momento futuro (dentro de 10? 20? 40 anos?) o sistema teria um déficit de 1 bilhão de dólares, distribuído ao longo de muitos anos, soma irrisória diante do resgate que está sendo promovido agora. A moral da história era que se não podemos imaginar uma forma de pagar esse sistema no longo prazo é melhor deixar cair agora mesmo o programa assistencial. O senhor Bush e o senhor Greenspan garantiram na época que tinham uma oportuna solução. O Tesouro poderia canalizar o dinheiro da Seguridade Social e dos seguros médicos para os bancos Bear Stearns, Lehman Brothers ou seus pares, para que eles o investissem a um “mágico juro composto”.

O que teria ocorrido se a Seguridade Social tivesse feito tal coisa? Talvez tivéssemos assistido nestas duas semanas à entrega aos apostadores de Wall Street de todo o dinheiro acumulado desde que a Comissão Greenspan resolveu, em 1983, deslocar a carga fiscal sobre as retenções salariais reguladas pela FICA (Lei Federal de Contribuição à Seguridade Social). Não são os aposentados que se pretende resgatar, mas sim os investidores de Wall Street que assinaram papéis dizendo que estavam em condições de enfrentar a perda do dinheiro jogado. A consigna eleitoral dos republicanos este ano deveria ser: “Seguro de jogo, não seguro de saúde”.

Em seu célebre livro “Caminho da Servidão”, Friedrich von Hayek e seus meninos de Chicago insistiam que a servidão viria da planificação e da regulação estatais. Essa visão caminhava na direção contrária a dos reformadores clássicos da Era Progressista, que concebiam a ação do Estado como a do cérebro da sociedade, como a linha diretriz para modelar os mercados e liberá-los dos especuladores rentistas, ou seja, da renda que não fosse contrapartida do desempenho de um papel necessário na produção.

A teoria da democracia fundava-se no pressuposto de que os eleitores atuariam movidos pelo próprio interesse. Os reformadores do mercado partiram de uma feliz suposição paralela, segundo a qual os consumidores, os poupadores e os investidores promoveriam o crescimento econômico atuando com pleno conhecimento e cabal compreensão das dinâmicas em ação. Mas a mão invisível terminou resultando em fraude contábil, empréstimo hipotecário podre, informação privilegiada e fracasso em controlar os crescentes gastos da dívida conforme a capacidade dos devedores para pagar. É todo este caos, aparentemente legitimado por alguns modelos de comércio eletrônico, que acaba de ser socorrido pelo Tesouro dos EUA.

Michael Hudson é ex-economista de Wall Street especializado em balanço de pagamentos e bens imobiliários no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros, entre eles “Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire”.

Carta Maior

Sobre o conceito de história

Walter Benjamin
1.
Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.

2.
“Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedido uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.

3.
O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa citation à la order du jour ─ e esse dia é justamente o do juízo final.

4.
“Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário,
e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo.”
Hegel, 1807

A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.

5.
A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido. “A verdade nunca nos escapará” ─ essa frase de Gottfried Keller caracteriza o ponto exato em que o historicismo se separa do materialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela.

6.
Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

7.
”Pensa na escuridão e no grande frio
Que reinam nesse vale, onde soam lamentos.”
Brecht, Ópera dos três vinténs

Fustes de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o do empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais. A acedia era o primeiro fundamento da tristeza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: “Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage”. A natureza dessa tristeza se tornará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o vencedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.

8.
A tradição dos oprimidos nos ensino que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.

9.
“Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse mais tempo vivo.”
Gerhard Scholem, Saudação do anjo

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

10.
Os temas que as regras do claustro impunham à meditação dos monges tinham como função desviá-los do mundo e das suas pompas. Nossas reflexões partem de uma preocupação semelhante. Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a traição à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredada por aqueles traidores. Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no “apoio das massas” e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma realidade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm que pagar quando nos associamos a uma concepção da história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos.

11.

O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas também suas idéias econômicas. É uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a classe operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente. O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política. A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festeja uma ressurreição na classe trabalhadora alemã. O Programa de Gotha já continha elementos dessa confusão. Nele, o trabalho é definido como “a fonte de toda riqueza e de toda civilização”. Pressentindo o pior, Marx replicou que o homem que não possui outra propriedade que a sua força de trabalho está condenado a ser “o escravo de outros homens, que se tornaram… proprietários”. Apesar disso, a confusão continuou a propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: “O trabalho é o Redentor dos tempos modernos… No aperfeiçoamento… do trabalho reside a riqueza, que agora pode realizar o que não foi realizado por nenhum salvador”. Esse conceito de trabalho, típico do marxismo vulgar, não examina a questão de como seus produtos podem beneficiar trabalhadores que deles não dispõem. Seu interesse se dirige apenas aos progressos na dominação da natureza, e não aos retrocessos na organização da sociedade. Já estão visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar no fascismo. Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848. O trabalho, como agora compreendido, visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do proletariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas iluminariam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a águia marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem. Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito complementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, “está ali, grátis”.

12.
“Precisamos da história, mas não como precisam dela
os ociosos que passeiam no jardim da ciência.”
Nietzche, Vantagens e desvantagens
da história para a vida

O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a social-democracia. Em três decênios ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso ela a privou das suas melhores forças. A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados.

13.
“Nossa causa está cada dia mais clara
e o povo cada dia mais esclarecido.”
Jozef Dietzgen, Filosofia social-democrata

A teoria, e mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. Segundo os social-democratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não das suas capacidades e conhecimentos. Em segundo lugar, era um processo sem limites, idéia correspondente à da perfectibilidade infinita do gênero humano. Em terceiro lugar, era um processo essencialmente automático, percorrendo, irresistível, uma trajetória em flecha ou em espiral. Cada um desses atributos é controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a crítica precisa ir além deles e concentrar-se no que lhes é comum. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia da sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.

14.
“A origem é o alvo.”
Karl Kraus, Palavras em verso

A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras”. Assim, Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de “agoras”, que ele fez explodir do continuum da história. A revolução francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado, Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx.

15.
A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A grande revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico. No fundo é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres. Uma testemunha ocular, que talvez deva à rima a sua intuição profética, escreveu:

“Qui le croirait! on dit qu`irrités contre l’heure
De nouveaux Josués, au pied de chaque tour,
Tiraient sur les cadrans pour arrêter le jour.”

16.
O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.

17.
O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contráriio, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, uma configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra , no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcedidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.

18.
“Comparados com a história da vida orgânica da Terra”, diz um biólogo contemporâneo, “os míseros 50 000 anos do Homo sapiens representam algo como dois segundos ao fim de um dia de 24 horas. Por essa escala, toda a história da humanidade civilizada preencheria um quinto do último segundo da última hora”. O “agora”, que como modelo do messiânico abrevia num resumo incomensurável a história de toda a humanidade, coincide rigorosamente com o lugar ocupado no universo pela história humana.

Apêndice

1.
O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltram estilhaços do messiânico.

2.
Certamente, os advinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os advinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.

[1940]

Estas teses, publicadas postumamente, constituem o último escrito do pensador marxista alemão Walter Benjamim (1892-1940).

Socialismo e Liberdade

O México vive sob o terror do narcotráfico

O México vive dias de chumbo e sangue. Os narcotraficantes, infiltrados na polícia e na política, responderam à pressão do Exército e dos federais com uma guerra sem quartel. Ninguém está a salvo

Pablo Ordaz

Baixa a voz, olha de soslaio para um casal que toma café numa mesa vizinha e solta a pergunta:

- Contaram para você o que aconteceu num salão de cabeleireiro de Culiacán?

O barulho de um helicóptero do Exército voando muito baixo interrompe todas as conversas na praça de Morelia, capital do Estado de Michoacán. A cidade colonial está tomada desde que, na noite de 15 de setembro, que coincidiu com a celebração do grito de independência, duas granadas lançadas contra a multidão causaram a morte de nove pessoas e feriram uma centena.

Os soldados e os policiais, alguns deles encapuzados e portando rifles R-15, cruzam com vendedores de balões e casais de adolescentes de mãos dadas. Um segundo helicóptero segue o rastro do primeiro. Ninguém mais levanta os olhos. Numa das esquinas da catedral – em frente ao Palácio de Governo – continuam acesas as velas que os moradores colocaram para honrar as vítimas do primeiro atentado narcoterrorista da história do México. A noite vai se tingindo com os brilhos azuis e vermelhos dos carros da polícia.

- Onde?

- Num salão de cabeleireiro de Culiacán, no Estado de Sinaloa…

O cabeleireiro estava atendendo uma cliente regular. Outra mulher esperava sua vez folheando uma revista. A cliente se queixava com amargura da onda de violência inusitada da qual o México padece, sobretudo nos Estados do norte. Entre eles, a cidade de Sinaloa, berço dos narcotraficantes mais famosos; um lugar onde a metade das mortes acontece por tiros e onde os jovens assassinos mortos em combate descansam em mausoléus de mármore adornados com seus retratos. Há murais de até cinco metros nos quais é possível admirá-los empunhando um chifre de cabrito (o famoso rifle AK-47) ou posando em frente ao avião Cessna que pilotavam, carregado de drogas. A mulher se queixava no salão do mesmo que todo mundo se queixa no México. “Os traficantes já não matam apenas entre si”. Em sua corrida ensandecida pelo controle dos lugares, em seus enfrentamentos quase diários com o Exército, já não importa que morram inocentes. O caso mais doloroso é o de Creel, uma cidade turística do Estado de Chihuahua. Um bebê e 12 adultos foram crivados com balas capazes de esburacar blindados. As pessoas recolheram 170 cápsulas do chão. Havia muito sangue. A polícia demorou muito tempo para chegar. Estranhamente, não havia nenhum policial nas proximidades. O crime das vítimas foi cruzar a rua principal da cidade junto com dois jovens assassinos, no mesmo momento em que um cartel rival estava atrás deles. Cento e setenta disparos.

- Já não dá mais para viver aqui – queixou-se a cliente para o cabeleireiro -, não podemos nem deixar nossos filhos brincarem na rua. E tudo por culpa do maldito narcotráfico…

Nesse momento, a segunda mulher, que havia permanecido em silêncio todo o tempo, levantou os olhos e disse uma palavra, só uma, dirigindo-se ao cabeleireiro:

- Raspe! [a cabeça dela].

O homem, assustando, tentou mediar, mas a ordem repetida era muito clara. Sobretudo porque vinha enfatizada por um revólver que a mulher acabava de tirar do bolso.

- Raspe!

Só quando se certificou de que o cabeleireiro havia começado a cumprir sua ordem, a desconhecida levantou-se e dirigiu-se à porta. Antes de ir embora, encarou a mulher e a advertiu:

- E não use peruca. Se usar, eu te mato.

O policial, sentado sob a galeria da praça de Morelia, ri da história. Diz que tem todo um repertório de casos iguais ou piores que esse. Histórias de terror que demonstram que o narcotráfico mexicano – conhecido como “el narco” no país – está deixando de ser um assunto distante, um mito refugiado nas mansões inacessíveis da terra quente de Michoacán ou nos corredores do tráfico de Los Tigres Del Norte. O narcotráfico está cada dia mais presente na vida cotidiana de muitos mexicanos. “E a razão é muito simples e muito complicada ao mesmo tempo”, explica o policial, “mas não se apresse, vou explicar”.

Sua análise coincide com a de outras fontes consultadas, e, ainda que cheia de matizes, pode ser resumida assim: os narcotraficantes mexicanos têm cada vez mais problemas para transportar a droga pelo México para introduzi-la nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, a culpa é do governo de Felipe Calderón, que está transformando a luta contra o crime organizado no eixo de sua legislatura. Empenhou-se em retirar os corruptos da polícia – tarefa nada fácil; estudos dizem que 80% dos policiais são corruptos -, e também colocou o Exército na guerra contra os cartéis. A segunda dificuldade que os narcotraficantes enfrentam – a redução do comércio com o norte – tem, por sua vez, dois motivos: os controles fronteiriços cada vez mais difíceis de driblar e uma queda bastante pronunciada da demanda de cocaína nos Estados Unidos. O resultado de tudo isso é que grandes quantidades de cocaína estão ficando no México. Para abrir mercado, os cartéis estão distribuindo-a a preços tão acessíveis que já são muitos os mexicanos – sobretudo os mais jovens – que estão se viciando. As principais organizações fragmentaram-se em outras menores e já não buscam tanto o mercado externo, mas sim o interno. Mais do que manter abertas as rotas tradicionais de tráfico, o que lhes interessa agora é conseguir o controle dos Estados e das cidades. Bairro por bairro. Praça por praça. Do narcotráfico ao narcovarejo. Para isso, necessitam controlar os políticos locais e manter os grupos rivais na linha. Para o primeiro, precisam de muito dinheiro. Para o segundo, de muito chumbo.

O casal vizinho se levanta, dá boa tarde e se vai. O policial federal – que faz parte de uma equipe de investigação – introduz um pen drive no computador portátil deste repórter.

- Quer ver como atua o narcotráfico aqui em Michoacán? Mas não vá desmaiar…

A primeira coisa que aparece na tela do computador é um título que diz: “La Familia. Informe confidencial”. La Familia é o nome do cartel mais poderoso que opera em Michoacán. Depois, uma fotografia. Nela vêem-se as cabeças cortadas de cinco homens jovens, ainda com sangue, espalhadas pelo cenário de um clube de strip tease da cidade de Uruapan. “Quer ver mais ou já é suficiente?”

Sem esperar resposta, o agente vai percorrendo com o cursor todo o informe. Há mais fotos. E uma parte muito extensa dedicada aos ‘narcorecados’. Junto a cada acerto de contas, La Familia deixa um cartaz com os motivos de seu assassinato (por delatar, por não respeitar La Familia, por não respeitar os acordos), os nomes, sobrenomes e indicações dos próximos na lista negra (policiais, políticos, jornalistas, assassinos dos cartéis rivais) e com sua assinatura inconfundível: “O ódio não é esquecido. Isso é justiça divina. Atenciosamente. La Familia de Michoacán”. Mas há outra parte do informe que impressiona ainda mais que a imagem dos executados. É a que resume o poder do grupo armado. Ele opera em 87 dos 112 municípios do Estado de Michoacán. Controla diretamente os cabarés, as máquinas de caça-níquel, o negócio milionário da pirataria, muitos dos 2.100 pontos de venda de droga que há no Estado, as madeireiras ilegais, a venda de armas… E oferece proteção obrigatória aos donos dos postos de gasolina, aos produtores de abacate, às lojas de alimentos… A tarifa é de 2.500 a 25 mil dólares. Em dinheiro. Não se admite um não.

- Há alguns meses – conta um advogado de Morelia – um espetáculo muito famoso em todo o México veio para a cidade. Desculpe mas não posso dizer o nome. O fato é que, quando estavam montando o espetáculo, uns sujeitos visitaram o empresário e ofereceram proteção. O homem, que não conhecia o cotidiano daqui, disse que muito obrigado, mas não precisavam de proteção, que ele já contava com a polícia e com a Cruz Vermelha em caso de incidentes.

Eles responderam que não era suficiente, que o espetáculo necessitava de proteção. “Mas, de quem?”, atreveu-se a perguntar o empresário. “De nós”, foi a resposta… O empresário teve de pagar 5 mil dólares. E o espetáculo, é claro, aconteceu sem incidentes.

Sabendo de tudo isso – afinal ele nasceu aqui, onde sua mãe e irmão ainda moram – o presidente Felipe Calderón colocou Michoacán na mira da Polícia Federal e do Exército. Não somente para combater o narcotráfico, mas também – ou principalmente – para tentar evitar a desaparição paulatina do Estado em favor dos cartéis. Foram feitas apreensões importantes de drogas e armas, detenções, e ainda assim o crime organizado foi capaz de seqüestrar em plena luz do dia Maribel Martínez Martínez, secretária da prefeitura de Uruapan – a 45 minutos de carro de Morelia.

Levaram-na quando ela saia de um ato na Casa de Cultura. Um acompanhante e dois policiais foram feridos gravemente. O suposto motivo da ação está em toda imprensa local: “La Familia financiou a campanha eleitoral do presidente municipal, Antonio González. Em troca queriam que a administração de Segurança Pública, a de Obras Públicas, o mercado e o palanque ficassem com homens de sua confiança. González – que pertence ao PAN, o mesmo partido do presidente da República – não cumpriu seus compromissos com a máfia e agora eles estão acertando contas”. Maribel Martínez foi seqüestrada há dois meses. Segundo fontes da polícia, ainda está viva.

Assim estavam as coisas quando, às onze da noite de 15 de setembro, duas granadas explodiram em frente ao Palácio de Governo de Morelia. O primeiro atentado narcoterrorista da história do México deixou nove mortos e mais de cem feridos. Mas, além disso, revelou as vergonhas de um país que sangra por todos os poros.

Nos dias seguintes ao atentado, foram se revelando os detalhes que passariam por fantasiosos na história mais disparatada. O governador, Leonel Godoy, sabia que os narcotraficantes haviam ameaçado atentar contra o desfile do dia 16, mas – pelo menos oficialmente – não se preocupou em reforçar a segurança na noite do dia 15. Um grupo de policiais cuja missão era mesclar-se à paisana na multidão para evitar incidentes, não se apresentou na praça. Um dos chefes recebeu um telefonema misterioso e o obedeceu. Imagens de vídeo mostram os policiais de elite alterando a cena do crime e depois lavando as mãos com uma lata de refrigerante. Um bom número de testemunhas assegura que os que jogaram a granada estavam vestidos de uniforme preto – muito parecido com o usado pelo Grupo de Operações Especiais – e que um deles se chamava El Zorro, mas nenhuma das testemunhas é da polícia. Poucas horas depois do crime – e para finalizá-lo com um surrealismo macabro – o cartel La Familia colocou cartazes por toda a cidade de Morelia condenando o atentado, assegurando que não foram eles os responsáveis, e comprometendo-se a “investigar os fatos”.

Hoje, entretanto, junto às velas acesas no lugar do atentado, há um cartaz gigante colado no chão que diz “Paz”, assinado por La Familia. Ninguém, nem de uniforme, nem à paisana, atreveu-se a retirá-lo.

- Mas, foram eles?

- Talvez. Ou talvez tenham sido Los Zetas [um grupo de assassinos em guerra aberta contra La Familia]. Ou talvez não tenham sido os narcotraficantes…

Os fantasmas andam a solta pelo país que conhece de cor a árvore genealógica de seus narcotraficantes. Duas semanas depois dos atentados, ninguém sabe ao certo quem é responsável ou por que eles aconteceram em Morelia. Há quem diga que foi um aviso para Calderón: somos capazes de cometer atentados a três quadras da casa de sua mãe.

E há quem – citando fontes fidedignas – assegura que o aviso era para Leonel Godoy, governador de Michoacán, em resposta a uma dívida obscura pendente com La Familia. Outros apostam que o aviso foi para o Exército: vejam o que podemos chegar a fazer se vocês continuarem nos pressionando. Porque o Exército – e nisso todos concordam no México – transformou-se na principal bandeira de Calderón em sua luta desigual contra o narcotráfico. Até os mais próximos – ainda que em privado – reconhecem que o presidente da República pecou por ingenuidade ou atrevimento quando anunciou a guerra aberta contra o narcotráfico. “Somos todos contra o tráfico. E sem dúvida limpar o país dos delinqüentes é vital para o nosso futuro. Mas sim, talvez ele devesse ter contado as balas que tinha antes de sacar o revólver”, comenta um dirigente do PAN – o partido do presidente -, sem dúvida alarmado com o desgaste.

Todos os dias, nos principais jornais do México, aparece um quadro com dois números. “El Universal” intitula o quadro de “Baixas do narcotráfico”. O primeiro número se refere aos mortos do dia anterior. Na quarta-feira passada 25 pessoas foram mortas em execuções ou tiroteios. O segundo número informa o total. No período de um ano, 3.337 pessoas morreram assassinadas no México. Debaixo desses dois números, há uma coluna de texto – com não mais do que 30 linhas – na qual se resume o que aconteceu no dia anterior. O texto publicado pelo El Universal na quarta-feira intitulava-se “Pepenador encontra crânio em Juárez”.

O texto dizia: “A espiral de violência em Chihuahua deixou 11 homicídios e um policial municipal seqüestrado nas últimas 24 horas. Em Ciudad Juaréz, um grupo de homens encapuzados matou a tiros Miguel Ángel Ramírez e Efraín Gallardo Ramírez, que viajavam num Cadillac. Em outro caso, Francisco Cevallos Gálvez morreu baleado na frente de sua mulher e filho. E Félix Antonio García Ramírez, de 17 anos, faleceu num hospital, para onde foi levado com ferimentos a bala. No lixão municipal de Ciudad Juárez, um catador encontrou um crânio que ainda tinha pele no rosto. O corpo não foi localizado. Enquanto isso, foram localizados cinco corpos do sexo masculino nas imediações da capital de Chihuahua…” Esse trecho é apenas 30% de uma coluna perdida no meio do jornal. Só quando o crime alcança conotações especiais vai para a primeira página. E, para desgraça dos mexicanos, o mês de setembro foi especialmente negro. Uma caminhonete cheia de homens sem cabeça. 24 jovens abandonados em La Marquesa – parque natural na entrada da Cidade do México – amarrados, torturados e com um tiro de misericórdia. Um motim em Tijuana com um número de mortos e desaparecidos ainda indeterminado…

O crime organizado e desorganizado parecem ter se juntado para transformar o país – e principalmente o Distrito Federal – num lugar pouco recomendável. As estimativas de mais de 3 mil executados se unem às vítimas de seqüestros por resgate. Segundo números oficiais, em um ano foram seqüestradas 650 pessoas, e, entre elas, 130 ainda continuam em poder dos criminosos, ninguém sabe se estão vivas ou mortas, à espera de um acordo pelo preço do resgate. Mas esse número está, com certeza, muito aquém da realidade. Todos sabem que, aqui, denunciar não adianta muito, que 85% dos delitos ficam sem resolução e que procurar a polícia é às vezes mais perigoso do que lançar-se nos braços do criminoso. De fato, alguns bancos – entre eles o Santander – recomendam a seus clientes que, caso sejam parados por uma patrulha, a primeira coisa a fazer é trancar “todas as portas do carro”.

O presidente Calderón passou a semana em Nova York. Lá, voltou a pedir a cumplicidade – e os fundos – do vizinho do norte para vencer a batalha contra o narcotráfico.

No país, enquanto isso, os membros de seu governo ligados à segurança têm sido atacados pela oposição, que – à sua maneira – também lhes pedem dinheiro ou chumbo.

Solução ou demissões. Diante da pressão, um dos homens fortes do governo, o secretário Juan Camilo Mouriño, chegou a reconhecer na tribuna da Câmara dos Deputados: “Não podemos garantir a segurança. A polícia foi infiltrada pelo crime organizado. Assim, até que isso não seja solucionado, não poderemos nem garantir a segurança, nem gozar da confiança dos cidadãos”.

Enquanto o alto representando do governo pronunciava essa declaração sincera de impotência, onde estavam os mexicanos? Escondidos debaixo da cama? Enclausurados a sete chaves em suas casas? Nada mais longe da realidade. É verdade que a preocupação cresce e que há empresários que estão tentando colocar suas vidas e propriedades fora de perigo, mas a realidade retratada pelos dados e pelos jornais não é toda a realidade.

O México continua sendo um país amável, de trânsito caótico e natureza exuberante; de uma beleza dificilmente igualável; situado numa posição fundamental para o futuro da América e, talvez, a partir de agora, mais consciente do que nunca do perigo que o narcotráfico representa para seu próprio desenvolvimento. Uma corrente, ainda tímida, de indignação começou a percorrer o país. Umas velas acesas na praça de Morelia. Uma manifestação de milhares de pessoas no Distrito Federal. Uma pressão quase unânime dos meios de comunicação para que o presidente Calderón, uma vez abertos os cofres do trono, não caia na tentação de pactuar ou claudicar diante do terror.

O narcotráfico – tão celebrado até agora em romances e baladas de pistoleiros – já não assusta só os seus iguais. O medo foi esparramado, saiu nas ruas, e os mexicanos, colocados em frente ao espelho, começam a temer a própria imagem refletida diante de si mesmos e do resto do mundo. Há uma placa na entrada de Ciudad Juárez – onde este ano foram executadas mais de mil pessoas – que explica muito bem essa preocupação, esse medo que infunde medo:

- Bem vindo a Ciudad Juárez. Não somos como dizem que somos.

El Pais

A crise e o poder global depois dela

Em que medida a crise atual afeta as relações de poder no mundo atual? A nova relação de forças vai depender das disputas sobre quem pagará os pratos quebrados e que tipo de discurso triunfará, como interpretação da crise. Apelar ao Estado, depois de 1929, foi sempre um instrumento inclusive do liberalismo, para recompor as condições de funcionamento do mercado.

Emir Sader

Vamos ao que realmente conta: em que medida a crise atual afeta as relações de poder no mundo atual?

Para isso é preciso resumir em que momento da trajetória recente do capitalismo ela se situa e qual a configuração de poder que ela encontra e altera. Vivemos um período histórico marcado por duas grandes viradas – ambas de caráter regressivo: a passagem de um mundo bipolar a outro, unipolar, sob hegemonia imperial estadunidense; a transição de um modelo regulador a outro, de caráter neoliberal, de desregulação.

A transição foi igualmente a de um período longo de caráter expansivo, iniciado no segundo pós-guerra e concluído em 1973, a um período longo de caráter recessivo – porque a desregulação levou à transferência maciça de capitais do setor produtivo ao setor especulativo e, como conseqüência, a um período de baixos índices de crescimento.

Nesse marco, a década passada foi a lua-de-mel do novo período histórico, com o fim da URSS e os EUA, à cabeça do bloco imperialista, com capacidade de impor a “pax americana”, com apoio da ONU e/ou da Otan, desenvolvendo as chamadas “guerras humanitárias” – no Iraque, na Bósnia. Ao mesmo tempo, os EUA lideraram um ciclo curto expansivo, coincidente com o governo Clinton, onde reinou a euforia de uma suposta “nova economia”, que superaria o caráter ciclo da economia capitalista. Foi o auge da hegemonia norte-americana e do modelo neoliberal.

O esgotamento desse ciclo estadunidense – acompanhado das crises nas economias brasileira e argentina, na região onde mais reinava o neoliberalismo – e a reação do governo Bush aos atentados de 2002, vieram alterar esse quadro idílico, da primeira década do novo período histórico. O segundo foi marcado pelas guerras do Iraque e do Afeganistão, pelo surgimento e coordenação de cada vez mais governos do continente em projetos autônomos de integração, assim como pela consolidação do ritmo de crescimento da China.

A crise, iniciada nos EUA e estendida à Europa, ao Japão e ao resto do mundo, se acrescenta a esses elementos para configurar a conjuntura atual. Ela acentua elementos já presentes anteriormente: o declínio econômico dos EUA, a fragilidade de um modelo centrado na acumulação financeira, o avanço de um multipolaridade econômica no mundo, o fracasso dos EUA de resolver militarmente as guerras do Iraque e do Afeganistão. A crise que se instaura, mais forte e prolongada que em outros lugares, nos EUA, enfraquecerá ainda mais essa economia. Porém os EUA utilizam sua capacidade de iniciativa política e de liderança sobre outras potencias centrais, para tentar impor sua solução à crise, exportar seus danos mais graves e buscar se recompor como potência econômica.

Apesar dessas realidades, a nova relação de forças vai depender das disputas sobre quem pagará os pratos quebrados e que tipo de discurso triunfará, como interpretação da crise. Apelar ao Estado, depois de 1929, foi sempre um instrumento inclusive do liberalismo, para recompor as condições de funcionamento do mercado.

Hoje existe uma derrota ideológica forte das ideologias de mercado, quaisquer que sejam as justificativas que se trate de dar. Porém, podem predominar soluções conservadores, mesmo com utilização do Estado, possibilidade mais provável hoje, pela composição de direita do quadro político europeu e japonês. Para as grandes potencias capitalistas se trata de salvar, a qualquer preço, a estruturas econômica-financeira existentes, com intervenções estatais e maciças injeções de dinheiro.

O quadro pós-crise e suas novas configurações de poder estão abertas. Pode se dar um refortalecimento dos EUA como potência hegemônica, conforme ele consiga exportar uma parte dos efeitos negativos da crise, compartilhando com as outras economias centrais, mas principalmente, impondo duras soluções internas para a massa da população norte-americana e, principalmente, para os países da periferia, a começar pelos emergentes.

Esta alternativa será possível será a principal variante da crise não se colocar em funcionamento, isto é, se as maiores economias emergentes e, em particular, os projetos de integração da América Latina, não criarem suas próprias políticas diante da crise e compartilharem – ativa ou passivamente – as políticas das potências centrais do capitalismo. A alternativa, que pode efetivamente mexer no quadro de poder mundial sob os efeitos da crise atual, deve vir, antes de tudo, do aprofundamento dos processos de integração latino-americanos, a começar pelo Banco do Sul – com o avanço decisivo para a criação de uma moeda única regional, de um Banco Central único, de políticas econômicas cada vez mais articuladas, de processos de regulação da circulação de capital, entre outras medidas. O que, por sua vez, implica no aceleramento da implantação e da assunção de responsabilidades por parte do Parlamento do Mercosul, da Unasul, do Conselho de Sul-americano de Defesa.

Ao mesmo tempo, requer o aprofundamento da coordenação dos países do Sul do mundo, para evitar que se exporte para essa região a crise forjada no Norte. E, paralelamente, que se desenhe e se coloque em prática uma visão e uma política de superação da crise desde os interesses do Sul do mundo, que necessariamente aponte para a superação do modelo neoliberal e dos organismos internacionais responsáveis por ela.

O mundo não será o mesmo, passada a crise atual. Abre-se, com ela, uma gigantesca disputa – de interesses e de interpretações – sobre o seu significado e sobre as lições a tirar dela. O Norte busca rearticular-se para defender-se das suas evidentes responsabilidades e tratar de impor suas soluções, exportando grande parte das suas conseqüências negativas. Resta ao Sul do mundo – e à América Latina em particular – saber defender nossos interesses, projetar nossa visão sobre o sentido dessa crise e colocar em prática políticas de superação do neoliberalismo e de criação de um mundo multipolar e pós-neoliberal.

Carta Maior

Serra Leoa e a Mama África

Andréa Paes Alberico

Pense em uma linha reta: em uma extremidade, uma guerra civil; na outra, o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo – o que significa sérios problemas nas áreas de saúde, educação, renda. No meio da linha, um lucrativo comércio de diamantes alimentando a guerra. Essa era a realidade de Serra Leoa em 1999, ano em que a guerra civil no país esteve mais violenta, e é uma imagem emblemática da realidade vivida dentro e entre muitos países. A guerra civil acabou e os diamantes não deixaram de existir, mas hoje o IDH do país ainda é o mais baixo do mundo.

Serra Leoa é um expoente, mas a África, como um todo, vem sendo palco de conflitos sangrentos. Este ano de 2008 já começou com distúrbios violentos no Quênia envolvendo grupos étnicos e políticos, com cerca de 1500 mortos só até o final de março, e cujo estopim foi a acusação de fraude nas eleições do final de 2007. Também eleições e alternância de poder foram o estopim de muita violência e mortes no Zimbábue, que em meados deste ano ocupou por muitos dias as páginas dos jornais, enquanto Darfur (região no extremo oeste do Sudão) enfrenta há anos a maior crise humanitária do mundo, em que se estima que, desde fevereiro de 2003, pelo menos 400 mil pessoas já tenham morrido devido à violência, à fome e às doenças decorrentes da falta de infra-estrutura básica.

Uma profusão de línguas, diversas etnias, mais de 50 países: segundo continente mais populoso do planeta, a África parece não ter muito peso no mundo globalizado e a mídia não presta muita atenção a ela. É como se não tivessem importância as milhares de pessoas desalojadas, refugiadas, mortas e vítimas de violência em conseqüência de conflitos políticos, e outras tantas milhares de pessoas debilitadas por fome, doenças negligenciadas ou AIDS.

É na África que estão todos os países do mundo que têm baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – índice que foi criado para oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita (que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento), e que é publicado anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O conceito de Desenvolvimento Humano que está na base do IDH supõe que o nível de desenvolvimento de uma população não é dado apenas pela dimensão econômica, mas também por características sociais, culturais e políticas que influenciam a qualidade da vida humana.

Estatísticas da Organização Mundial de Saúde e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, veiculadas no jornal African Flame (jornal lançado no Fórum Social Mundial na Índia e que circulou também no Fórum Social Mundial de 2007, em Nairóbi, Quênia), apontam que 8 milhões de africanos morrem por ano de doenças tratáveis. Na África subsaariana, há 40 milhões de pessoas infectadas pelo vírus da AIDS. Estima-se que mais de 580 mil pessoas morrem de tuberculose por ano, o que representa 35% do total mundial. A malária, doença que mais mata no continente, responde por mais de um milhão de mortes ao ano e estima-se que morram a cada doze meses 4,8 milhões de crianças com menos de cinco anos. E o jornal afirma: um outro mundo livre de doenças é possível.

A África que hoje se apresenta ao mundo é também uma herança colonial e da partilha que foi feita do continente no final do século XIX, quando as potências européias de então o dividiram entre si na Conferência de Berlim (1884/1885). Os colonizadores preocuparam-se principalmente com as zonas de grande interesse econômico para eles. Como as rivalidades internas não cessavam, as fronteiras dos países foram sofrendo algumas alterações.

Assim como os recursos naturais e os acidentes geográficos, os povos colonizados eram transferidos de soberania, freqüentemente divididos sem consideração pela sua organização sócio-cultural e pelo seu passado político. É assim que um mesmo povo podia acabar sujeito a poderes político-administrativos diferentes e povos rivais submetidos a um mesmo poder político-administrativo. A história da definição das fronteiras de Angola, por exemplo, dá conta também do colonizador firmando acordos de protetorado com chefes africanos e de bolsões de resistência que tornavam teórico o domínio português em certas áreas.

Não são poucos os desafios para mudar a situação da população no continente e um dos que se colocam aos povos africanos é conciliar a atual organização em estados nacionais à sua organização sócio-cultural ancestral.

Correio da Cidadania

Tudo o que você quer saber sobre a crise mas tem medo de não entender

O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? O pior já passou? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Qual a relação entre a política de reestruturação neoliberal, adotada para superar a crise de superprodução, e o colapso de Wall Street? Como se formam, crescem e explodem as bolhas e como se formou a atual bolha imobiliária? Walden Bello, professor de ciências políticas e sociais, oferece algumas respostas a tais questões.

Todos nós fazemos as seguintes perguntas sobre a atual crise financeira:

O pior já passou? O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? Foi a cobiça?

Foi Wall Street um caso de “alguacil endemoniado”? (1) Foi falta de regulação? Não há nada mais? Não há nada sistêmico?

O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Então, o que aconteceu?

Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução? Em que consistiu a reestruturação neoliberal?

Em que medida a globalização dos 80 e 90 foi uma resposta à crise dos 70? Por que a financeirização é tão volátil?

Como se formam, crescem e explodem as bolhas? Como se formou a presente bolha imobiliária? E como cresceu?

Como puderam as hipotecas subprime degenerarem-se num problema dessas dimensões?

E como é possível que os titãs de Wall Street desabem como um castelo de cartas? O que acontecerá agora?

Com efeito, todos nós fazemos essas perguntas. Porém poucos podem tratar de respondê-las com a insólita combinação de elegância, profundidade, claridade e a extrema sensibilidade do economista e cientista político Walden Bello. E muito menos em apenas 4000 palavras.

O desmoronamento de Wall Street não se deve somente à cobiça e à falta de regulação estatal de um setor hiperativo. Procede, também e sobretudo, da crise de sobreprodução que vem minando o capitalismo remundializado desde meados dos anos 70. É assim que Walden Bello vê esta crise de fim de época.

Muita gente em Wall Street ainda segue tentando digerir os acontecimentos das últimas semanas.

Entre 1 e 3 bilhões de dólares de ativos financeiros evaporados.

Wall Street, nacionalizado, com o Banco Central e o Departamento do Tesouro tomando todas as decisões estratégicas importantes no setor financeiro e tudo isso com um governo que, por trás do resgate da AIG, passa a dirigir a maior companhia seguradora do mundo.

O maior resgate desde a grande depressão, com 700 milhões de dólares levantados desesperadamente para salvar o sistema financeiro.

As explicações habituais já não bastam. Os acontecimentos extraordinários precisam de explicações extraordinárias. Mas, antes…

O pior já passou?
Não. Se algo ficou claro com os movimentos contraditórios dessas últimas semanas, em que, no momento em que se permitia a quebra do Lehman Brothers se nacionalizava a AIG e se programava a tomada de controle da Merril Lynch pelo Bank of America, é que não há uma estratégia para enfrentar a crise. Há, em resumo, respostas táticas, como bombeiros que pisam na mangueira, atrapalhados com a magnitude do incêndio.

O resgate de 700 milhões de dólares das obrigações hipotecárias respaldadas pelo poder dos bancos não é uma estratégia, senão basicamente um esforço desesperado para restaurar a confiança no sistema, para prevenir a erosão da fé nos bancos e em outras instituições financeiras e para evitar a afluência massiva de retirada de fundos dos bancos, como a que desencadeou a Grande Depressão de 1929.

O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? Foi a cobiça?
A velha e venerada cobiça teve sua parte. A isso se referia Klaus Shwab, o organizador do Forum Econômico Mundial, o convescote da elite global celebrado anualmente nos Alpes suíços, quando disse a sua clientela, em Davos este ano: “Temos de pagar todos os pecados do passado”.

Wall Street foi um caso de “alguazil endemoniado”?
Certamente. Os especuladores financeiros fizeram marola até se confundirem eles próprios com a criação de contratos financeiros cada vez mais complexos, como os derivados, tratando de ganhar dinheiro a partir de todos os tipos de riscos (incluídos exóticos instrumentos de riscos futuros, como os credits default swaps ou contratos de proteção de derivados creditícios, que permitiam aos investidores apostar, por exemplo, que os clientes da própria corporação bancária não seriam capazes de pagar suas dívidas! Tal é o comércio multibilionário não regulado que acabou abatendo a AIG.

Em 17 de dezembro de 2005, quando a International Financing Review (IFR) anunciou seus prêmios anuais – um dos programas de prêmios mais prestigiados do setor -, disse: “Lehman Brothers não só manteve sua presença global no mercado, como dirigiu a entrada no espaço de preferência…desenvolvendo novos produtos e desenhando transações capazes de subvencionar as necessidades dos clientes…Lehman Brothers é o mais inovador no espaço de preferência precisamente por fazer coisas que não se podem ver em nenhum outro lugar”.

Sem comentários.

Foi falta de regulação?
Sim. Todo mundo reconhece agora que a capacidade de Wall Street para inovar e imaginar instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados tem ido muito além da capacidade regulatória do Estado, e não porque o Estado não seja capaz de regular, mas porque a atitude neoliberal, de laissez-faire imperante impediu ao Estado desenhar mecanismos efetivos de regulação.

Então não há nada mais? Não há nada sistêmico?
Bem, Georges Soros, que viu a crise se aproximar, disse que o que estamos passando é a crise do sistema financeiro, a crise do “gigantesco sistema circulatório” de um sistema “capitalista global…que está passando dos limites”.

Para seguir com a tese do arquiespeculador, estamos assistindo é a uma intensificação de uma crise ou de uma contradição central do capitalismo global: a crise de superprodução, também conhecida como super-acumulação e supercapacidade.

Trata-se da tendência do capitalismo de produzir uma enorme capacidade produtiva que termina por rebaixar a capacidade de consumo da população, devido às desigualdades que limitam o poder de compra popular, o qual termina por erodir as taxas de lucro.

Mas o que a crise de superprodução tem a ver com os acontecimentos recentes?
Muitíssimo. Só que, para entender a conexão, teremos de retroceder à chamada Época Dourada do capitalismo contemporâneo, ao período compreendido entre 1945 e 1975.

Foi um período de rápido crescimento, tanto nas economias do centro como nas subdesenvolvidas; um crescimento propiciado, em parte, pela massiva reconstrução da Europa e do Leste Asiático depois da devastação da II Guerra Mundial e, em parte, pela nova configuração sócio-econômica institucionalizada sob o novo estado keynesiano. Um aspecto chave desta última foram os severos controles estatais da atividade de mercado, o uso agressivo de políticas fiscais e monetárias para minimizar a inflação e a recessão, assim como um regime de salários relativamente altos para estimular e manter a demanda.

O que aconteceu, então?
Bem, este período de elevado crescimento terminou em meados dos 70, quando as economias do centro se viram imersas na estagflação, quer dizer, na coexistência de um baixo crescimento com uma inflação alta, o que a teoria econômica neoclássica supunha impossível.

Contudo, a estagflação era um sintoma de uma causa mais profunda, a saber, a reconstrução da Alemanha e do Japão, assim como o rápido crescimento de economias em vias de industrialização, como Brasil, Taiwan e Coréia do Sul, somando-se a isso uma enorme capacidade produtiva que incrementou a competição global, enquanto a desigualdade social, dentro de cada país e entre países limitou globalmente o crescimento do poder aquisitivo e da demanda, resultando assim erodida a taxa de lucro. A drástica elevação do preço do petróleo nos anos setenta não fez senão agravar a coisa.

Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução?
O capital tentou três vias de saída do atoleiro da superprodução: a restruturação neoliberal, a globalização e a financeirização.

Em que consistiu a reestruturação neoliberal?
A reestruturação neoliberal tomou a forma do reaganismo e do thatcherismo no Norte e do ajuste estrutural no Sul. O objetivo era a revigorização da acumulação de capital, o que foi feito: 1) removendo as restrições estatais ao crescimento, ao uso e aos fluxos de capital e de riqueza; 2) redistribuindo a renda das classes pobres e médias dentre os ricos, de acordo com a teoria de que assim os ricos seriam motivados a investir e a alimentar o crescimento econômico.

O problema dessa fórmula era que, ao redistribuir a renda em favor dos ricos, estrangulava-se a renda dos pobres e das classes médias, o que provocava a restrição da demanda, sem necessariamente induzir os ricos a investir mais em produção.

De fato, a reestruturação neoliberal, que se generalizou no Norte e no Sul ao longo dos anos oitenta e noventa, teve resultados pobres em termos de crescimento: o crescimento global alcançado foi de 1,1% nos 90 e de 1,4 nos 80, enquanto a média nos 60 e nos 70, quando as políticas intervencionistas eram dominantes, foi, respectivamente, de 3,5% e de 2,54%. A reestruturação neoliberal não pôde terminar com a “estagflação”.

Em que medida a globalização foi uma resposta à crise?
A segunda via de escape global tentada pelo capital para enfrentar a estagflação foi a “acumulação extensiva” ou globalização, quer dizer, a rápida integração das zonas semi-capitalistas, não-capitalistas e pré-capitalistas à economia global de mercado. Rosa Luxemburgo, a celebrada economista e revolucionária alemã, percebeu este mecanismo há muito tempo, vendo-o nas economias metropolitanas. Como? Com o acesso de novas fontes de produtos agrícolas e de matéria-prima baratos; e criando novas áreas para investimento em infra-estrutura. A integração se produz através da liberalização do comércio, removendo obstáculos à mobilidade do capital e abolindo as fronteiras para o investimento no exterior.

Nem é o preciso lembra que a China é o caso mais destacado de uma área não-capitalista integrada na economia capitalista global nos últimos 25 anos.

Para compensar seus lucros declinantes, um considerável número de corporações empresariais situadas entre as primeiras 500 do ranking da revista Fortune deslocaram uma parte significativa de suas operações para a China, a fim de aproveitar as vantagens do chamado “preço chinês” (as vantagens de custos derivadas de um trabalho barato e aparentemente inesgotável). Em meados da primeira década do século XXI, entre 40 e 50% dos lucros das corporações estadunidenses procediam de suas operações e vendas no exterior, marcadamente na China.

Por que a globalização não pôde superar a crise?
O problema com esta via de saída do estancamento é que se exacerba o problema da superprodução, porque aumenta a capacidade produtiva. A China dos últimos 25 anos acrescentou um tremendo volume de capacidade manufatureira, o que teve por efeito deprimir os preços e os lucros. Não por acaso, os lucros das corporações estadunidenses deixaram de crescer até 1997. De acordo com um índice estatístico, as taxas de lucros das 500 maiores da Fortune passou de 7,15 em 1960-69 a 5,3 em 1980-1990, a 2,29 em 1990-99 e a 1,32 em 2000-02.

Dados os limitados ganhos obtidos para conter o impacto depressivo da superprodução, seja através da reestruturação neoliberal, seja com a globalização, a terceira via de saída tornou-se vital para manter e para elevar a rentabilidade. A terceira via é a financeirização.

No mundo ideal da teoria econômica neoclássica, o sistema financeiro é o mecanismo à mercê do qual os poupadores, ou quem se encontra na posse de fundos excedentes, juntam-se com os empresários que têm necessidade de seus fundos, para investir em produção. No mundo real, do capitalismo tardio, com o investimento na indústria e na agricultura gerando lucros magros, por causa da superprodução, grandes quantidades de fundos excedentes circulam e são investidas e re-investidas no setor financeiro. Quer dizer, o sistema financeiro gira sobre si mesmo.

O resultado é que se aumenta o hiato aberto entre uma economia financeira hiperativa e uma economia real estancada. Como bem observa um executivo financeiro: “tem havido uma crescente desconexão entre a economia real e a economia financeira nos últimos anos. A economia real cresceu, mas nada comparável à financeira…até que explodiu”.

O que este observador nos diz é que a desconexão entre a economia real e a financeira não é acidental: que a economia financeira se distanciou precisamente para fazer frente ao estancamento gerador da superprodução da economial real.

Quais foram os problemas da financeirização como via de saída?
O problema de investir em operações do setor financeiro é que equivale a exprimir valor de valor já criado. Pode criar lucro, de acordo, mas não cria valor – só a indústria, a agricultura, o comércio e os serviços criam valor novo. Visto que os lucros não se baseiam na criação de valor novo ou agregado, as operações de investimento resultam extremamente voláteis e os preços das ações, as obrigações e de outras formas de investimento podem chegar a divergir radicalmente de seu valor real: por exemplo, as ações de empresas incipientes de Internet, que se mantiveram por um tempo em alta, sustentadas principalmente por valorações financeiras em espiral, para logo arruinarem-se.

Os lucros dependem, então, do aproveitamento das vantagens por movimento de preços que divergem da alta do valor das mercadorias, para vender oportunamente antes de que a realidade force a “correção” para baixa, a fim de ajustar-se aos valores reais. A alta radical dos preços de um ativo, muito além dos valores reais, é o que se cama de formação de uma bolha.

Por que a financeirização é tão volátil?
Com a rentabilidade dependendo de golpes especulativos, não resulta surpreendente que o setor financeiro vá de bolha em bolha, ou de uma mania especulativa a outra.

Visto que está sustentando por uma mania especulativa, o capitalismo induzido financeiramente não deixou de bater recordes em matéria de crises financeiras desde que os mercados de capitais foram desregulados e liberalizados nos 80.

Antes da atual débâcle de Wall Street, as mais explosivas foram a crise financeira mexicana de 1994-95, a crise financeira asiática de 1997-98, a crise financeira russa de 1996, o colapso do mercado de valores de Wall Street de 2001 e o colapso financeiro argentino de 2002.

O antigo secretário do Tesouro, de Bill Clinton, um homem de Wall Street, Robert Rubin, previu há cinco anos que “as crises financeiras futuras serão com quase toda certeza inevitáveis e poderiam chegar a ser até piores”.

Como se formam, crescem e estouram as bolhas?
Tomemos como exemplo a crise financeira asiática de 1997-98:

Primeiro: balança de pagamentos e liberalização financeira impostas pelo FMI e pelo Departamento norte-americano do Tesouro.

Depois, entrada de fundos estrangeiros em busca de rápida e elevada rentabilidade, o que significa que entraram no mercado imobiliário e no mercado de valores.

Superinvestimento, o que levou à derrubada dos preços no mercado de valores e no mercado imobiliário e que, por sua vez, conduziu ao pânico e à conseguinte retirada de fundos em 1997; em poucas semanas, milhões de dólares abandonaram as economias do leste asiático.

Resgate dos especuladores estrangeiros por parte do FMI.

Colapso da economia real: a recessão se estende por todo o leste asiático em 1998.

Apesar da desestabilização em grande escala, todos as ações voltadas para impor regulações nacionais ou globais do sistema financeiro foram rechaçadas com razões puramente ideológicas.

Voltemos à presente bolha. Como se formou?
O atual colapso de Wall Street está enraizado na bolha tecnológica de fins dos 90, quando o preço das ações das empresas incipientes no mundo da Internet disparou, para logo desmoronar, resultando na perda de ativos no valor de 7 bilhões de dólares e na recessão de 2001-02.

As frouxas políticas monetárias do Banco Central norte-americano, na gestão de Alan Greenspan, estimularam a bolha tecnológica e, quando esta colapsou, dando origem à recessão, Greesnpan, tratando de prevenir uma recessão duradoura, rebaixou em junho de 2003 as taxas de juros a um nível sem precedentes em 45 anos (a 1%), mantendo-no nesse nível durante mais de um ano. Com isso, o que conseguiu foi estimular a formação de outra bolha: a bolha imobiliária.

Pouco tempo antes, como em 2002, economistas como Dean Baker, do Center for Economic Policy Research, alertaram sobre a formação de uma bolha imobiliária. Porém, numa data tardia como 2005 o então presidente do Conselho Econômico de assessores da Presidência da nação e atual presidente do Banco Central norte-americano, Bern Bernanke, atribuía o aumento dos preços dos imóveis a “uns fundamentos econômicos robustos”, e não à atividade especulativa. A quem pode surpreender que o estouro da crise subprime no verão de 2007 pegasse este homenzinho de moral tão baixa?

E como cresceu?
Escutemo-lo da boca de um dos próprios juizes-chave nos mercados, George Soros: “As instituições hipotecárias animaram os hipotecados a refinanciar sus hipotecas, aproveitando a revalorização experimentada, na ocasião, de suas casas. Rebaixaram seus critérios de empréstimo e introduziram novos produtos, como hipotecas a juros variáveis, hipotecas que ‘só geravam juros’ e ‘ofertas promocionais’ com tipos de juros de morrer de rir. Tudo isso animou a especular com a casa. Os preços das casas começaram a subir a um ritmo de dois dígitos. Isso serviu para retro-alimentar a especulação, e a alta dos preços imobiliários conseguiu que os proprietários de casas se sentissem ricos; o resultado foi o boom consumista que sustentou a economia nos últimos anos”.

Vendo as coisas mais de perto, vê-se que a crise hipotecária não resultou de uma oferta superior à demanda real. A “demanda” estava, quando muito, fabricada pela mania especulativa de promotores e financistas empenhados em conseguir grandes lucros a partir de seu acesso ao dinheiro estrangeiro que inundou os EUA na última década. Enormes volumes hipotecários foram agressivamente oferecidos e vendidos a milhões de pessoas que, normalmente, não teriam podido permitir-se tal coisa, oferecendo-lhes taxas de juros ridiculamente baixas, posteriormente ajustáveis, para tirar mais dinheiro dos proprietários de casas.

Mas como puderam as hipotecas subprime degenerarem-se num problema de tais dimensões?
Porque os ativos passaram, então, a ser “assegurados”: aqueles que tinham gerado as hipotecas trataram de amalgamá-las com outros ativos, em complexos produtos derivados chamados “obrigações de dívida colaterizada” (CDO, nas suas iniciais em inglês), o que resultou relativamente fácil, dado que trabalhavam com diversos tipos de intermediários que, sabedores do risco, desfaziam-se desses títulos de valores o mais rapidamente possível, passando-os a outros bancos e a outros investidores institucionais. Essas instituições, por sua vez, se desfaziam do produto, passando-o a outros bancos e a instituições financeiras estrangeiras.

Quando aumentaram os juros dos emprésticos subprime, das hipotecas variáveis e dos outros empréstimos imobiliários, o jogo chegou ao seu fim. Há cerca de 6 milhões de hipotecas subprime, das quais 40% entrarão em insolvência nos próximos dois anos, segundo estimativas de Soros.

A esses 6 milhões há que se acrescentar outros 5 milhões de insolventes nos próximos 7 anos, derivados dos tipos hipotecários variáveis e de outros “empréstimos flexíveis”. Mas os títulos, cujos valores se conta em bilhões de dólares, já se infiltraram como um vírus no sistema financeiro global. O gigantesco sistema circulatório do capitalismo foi fatalmente infectado.

E como puderam os titãs de Wall Street desmoronarem como um castelo de cartas?
O que ocorreu com Lehman Brothers, Merril Lynch, Fannie Mae, Freddie Mc e Bear Stearns foi, simplesmente, que as perdas representadas por esses títulos tóxicos rebaixaram em muito suas reservas, o que conduziu a sua queda. E cairão mais, provavelmente, quando em seus livros de contabilidade, os títulos que agora figuram como haveres, corrigirem-se para refletir o atual valor desses ativos.

E muitos outros lhes seguirão, à medida que vão sendo expostas outras operações especulativas, como as centradas nos cartões de crédito e nas diferentes variedades de seguro contra riscos. AIG caiu por causa de sua gigantesca exposição na área não-regulada dos contratos de proteção creditícia derivada (credit default swaps), um dos derivados financeiros que permitiam aos investidores apostar dinheiro na possibilidade de que as empresas não pudessem pagar os empréstimos.

Essas apostas sobre insolvências creditícias representam agora um mercado de 45 bilhões de dólares, um mercado, como se disse, que carece de qualquer regulação. A ciclópica dimensão dos ativos, que poderiam ser deteriorados no caso de a AIG colapsar foi o que motivou Washington a mudar de idéia e intervir para resgatá-lo, logo após ter deixado o Lehman Brothers cair.

O que vai acontecer agora?
Pode dizer-se sem vilania que haverá mais bancarrotas e mais nacionalizações e intervenções públicas recuperando as instituições e que os bancos estrangeiros terão um papel auxiliar ao do governo dos EUA. E que o colapso de Wall Street vai mais longe e prolongará a recessão norte-americana. E que a recessão nos EUA se comunicará a Ásia e ao resto do mundo, que também sofrerá uma recessão, senão algo pior. A razão disto é que o principal mercado exterior da China são os EUA e que a China, por sua vez, importa matérias primas e bens intermediários – que servem para suas exportações aos EUA – do Japão, da Coréia e do Sudeste asiático. A globalização tem tornado impossível o “desacoplamento”. Os EUA, a China e o Leste Asiático andam agora como três prisioneiros atados por uma mesma corrente.

Em resumo?
O desabamento de Wall Street não se deve apenas à cobiça e à falta de regulação estatal do setor hiperativo. O colapso de Wall Street tem suas raízes na crise de superprodução que foi a praga do capitalismo global desde meados dos 70.

A financeirização do investimento tem sido uma das vias de escape para sair do estancamento, sendo as outras a da reestruturação neoliberal e da globalização. Tendo resultado de pouco alívio a reestruturação neoliberal e a globalização, a financeirização pareceu atrativa como mecanismo de restauração da rentabilidade. Mas o que agora ficou demonstrado é que a financeirização é uma trilha perigosa que leva à formação de bolhas especulativas, capazes de oferecer uma efêmera prosperidade a uns quantos, mas que terminam no colapso empresarial e na recessão da economia real.

As questões-chave são estas: Quão profunda e duradoura será esta recessão? A economia dos EUA necessitará criar outra bolha especulativa para sair dessa recessão? E se isso for o caso, onde se formará a próxima bolha? Alguns dizem que a próxima surgirá no complexo militar-industrial ou no “capitalismo de desastre” sobre o qual escreve Naomi Klein. Mas isso não é farinha do mesmo saco.

Carta Maior

“O crash atual representa o acidente integral por natureza”

Há trinta anos o filósofo Paul Virilio analisa as catástrofes como a conseqüência inelutável do progresso técnico. Ele vê na crise financeira o exemplo mais acabado de sua tese, na qual as vítimas não são mais os mortos, mas os milhares de desabrigados que perdem suas casas.

Gérard Courtois e Michel Guerrin

Há trinta anos o filósofo Paul Virilio analisa as catástrofes como a conseqüência inelutável do progresso técnico. Ele vê na crise financeira o exemplo mais acabado de sua tese, na qual as vítimas não são mais os mortos, mas os milhares de desabrigados que perdem suas casas. Em entrevista ao jornal francês “Le Monde”, Virilio diz que “nossas proezas técnicas são grandes promessas catastróficas”.

(Entrevista do urbanista e filósofo francês Paul Virilio, concedida a Gérard Courtois e Michel Guerrin, e publicada no Le Monde de 18 de outubro de 2008)

Em 2002, sob o título “O que acontece”, você apresentou à Fundação Cartier uma exposição sobre o acidente na história contemporânea: Chernobyl, 11 de setembro, tsunami…Uma fórmula de Hannah Arendt guiava sua demonstração: “O progresso e a catástrofe são as duas faces de uma mesma moeda”. Com o crash das bolsas, onde estamos?

Paul Virilio: De fato, em 1979, no momento do acidente da central nuclear de Three Mile Island, nos EUA, eu evoquei um “acidente original” – desses que nós mesmos fabricamos. Eu dizia que nossas proezas técnicas são grandes promessas catastróficas. Antes, os acidentes eram locais. Com Chernobyl, passamos aos acidentes globais, às conseqüências inscritas na duração. O crash atual representa o acidente integral por excelência. Seus efeitos se difundem ao longe, e ele integra a representação dos outros acidentes.

Faz trinta anos que se produz o impasse sobre o fenômeno de aceleração da História e que essa aceleração é a fonte de multiplicação dos grandes acidentes. “A acumulação põe fim à impressão de acaso”, dizia Freud a propósito da morte. Sua palavra-chave aqui é acaso. Esses acidentes não são casuais. Nos satisfazemos neste momento em estudar o crash das bolsas sob o ângulo econômico ou político, com suas conseqüências sociais. Mas não se pode compreender o que se passa se não se põe sob investigação uma economia política da velocidade, gerada pelo progresso das técnicas, e se não a relaciona ao caráter acidental da História.

Vamos dar só um exemplo: dizemos que tempo é dinheiro. Eu acrescento que a velocidade – a Bolsa o prova -, é o poder. Nós passamos de uma aceleração da História a uma aceleração do real. É isso o progresso. O progresso é um sacrifício consentido.

Não estudamos os acidentes suficientemente?

Paul Virilio: A historiografia dominante se limita a analisar os fatos de longa duração. Eu defendo, ao contrário, uma história acidental, feita unicamente de rupturas. O historiador François Hartog fala do “presentismo” dominante. É preciso ir além. Nós vivemos no “instantaneísmo”.

Para compreender os acidentes, é preciso estudá-los, mas também os expor. O acidente é uma invenção, um trabalho criativo. Quem, melhor que os artistas, poder fazer sentir a dimensão trágica do progresso? Daí a exposição “O que acontece” – nela eu abordava o crash da bolsa -, que prefigurava um museu ou um observatório dos grandes acidentes a que chamo de meus votos. Não para causar medo, mas para enfrentar.

Como definir, para além de seu aspecto de surpresa, o acidente das bolsas?

Paul Virilio: Como para todo acontecimento contemporâneo, é preciso levar em conta uma série de sincronizações em nível mundial. Sincronizações de hábitos, de costumes, de maneiras de reagir, mas também das emoções. Passamos de um comunismo de classe a uma mundialização instantânea e simultânea dos afetos e dos medos – e não mais das opiniões. Foi o caso do World Trade Center ou com o tsunami.

Com este crash da bolsa é a mesma coisa. Depois de uma curta fase técnica – quebra de bancos, queda de preços -, passamos a um período de “histericização” exagerada das reações. Fala-se de “loucura dos mercados”, de reações “irracionais”, quase de fascinação pelo fim do mundo. Os terroristas compreenderam muito bem esse fenômeno e jogam com ele.

Você crê como certo que o capitalismo se aproxima do seu fim?

Paul Virilio: Penso antes que é o fim que se aproxima do capitalismo. Eu sou urbanista. O crash mostra que a terra é pequena demais para o progresso, para a velocidade da História. Daí a repetição dos acidentes. Nós vivemos com a convicção de que temos um passado e um futuro. Ora, o passado não passa; ele se tornou monstruoso, ao ponto em que não o tomamos mais como referência. Quanto ao futuro, ele é limitado pela questão ecológica, o fim programado dos recursos naturais, com o petróleo. Resta, portanto, o presente a habitar. Mas o escritor Octavio Paz dizia: “O instante é inabitável, como o futuro”. Nós estamos vivendo isso, inclusive os banqueiros.

É aqui e agora que isso está em jogo. Um novo aspecto se criou. Não é a finitude que é triste, é a realidade. É preciso aceitá-la. O crash nos ensina que é preciso vivê-lo na sua grandeza própria, num mundo acabado. Nós temos uma obrigação de inteligência de fazer isso.

A finança não inventou um mundo virtual?

Paul Virilio: A velocidade fazia com que se ganhasse dinheiro, a finança quis impor o valor-tempo ao valor-espaço. Mas o virtual também faz parte da realidade. E além do mais, o soi-disant mundo virtual, no qual se pode englobar paraísos fiscais, é o do exotismo, que eu assimilo ao do colonialismo; é o mito de um outro planeta habitável.

À diferença dos outros acidentes, o crash da bolsa permanece hermético à maioria do público. Isso é grave?

Paul Virilio: Não compreendemos, mas intuímos e isso é suficiente. É preciso intuir o que acontece. Evidentemente, a incompreensão reforça o medo. Mas, ao mesmo tempo, não temos mais tempo de ter medo. O mais inquietante é a aparição de uma dissuasão civil, individual, íntima, que ganha todos os domínios da vida. Somos dissuadidos de fazer tal ou tal coisa como indivíduos. Desde o 11 de Setembro fomos tomados por um medo civil, em função da industrialização do acidente. Para verificar a solidez dos automóveis, efetuamos os testes de colisão. O crash da bolsa é um teste de colisão de natureza grandiosa. Até o divórcio se industrializa. Poderia se introduzir uma cotação nos divórcios, como para medir se o casal e a família se tornaram ilusões.

Pode-se falar de moral do crash, no sentido em que ele também pune aqueles que ganham fortunas?

Paul Virilio: Eu não sou um justiceiro. Compreendo os críticos que dizem que alguns obtiveram lucros indecentes. Eu não nego os estragos da acumulação de riquezas. Mas criticar essa aceleração dos lucros e da História, essa “avareza galopante”, como dizia Eugène Sue, permanecer no quadro materialista do lucro é uma análise redutora, insuficiente.

O que está em jogo é mais sofisticado e grave. Nós passamos por algo de uma outra natureza. Essa economia da riqueza se tornou uma economia da velocidade. É de resto o problema da esquerda. Eles aplicam os velhos esquemas, proclamam a morte do capitalismo, esperando mais justiça social. Esse diagnóstico é um pouco apressado. Temos realmente um grande bebê no colo…Se o Estado não assume a medida desse futurismo do instante, poderíamos ao contrário ver chegar um capitalismo sem limites.

Você disse que “A Airbus, ao inventar um avião de 800 lugares, criou 800 mortos potenciais”. Mas o crash das bolsas não causou mortes…

Paul Virilio: Não é a peste, não há milhões de vítimas, não é tampouco o 11 de Setembro. E não é a mortalidade que conta agora, afora alguns suicídios. As vítimas são outras. De onde parte a crise atual? Dos subprimes, das casas à venda a crédito em condições impossíveis. Do solo. As vítimas são algumas centenas de milhares de pessoas que perderam suas casas. A noção de sedentariedade já está posta em causa com os imigrantes, deportados, refugiados, o deslocamento das empresas, etc. O fenômeno vai se acentuar. Até 2040, um milhão de pessoas serão forçadas a se mudarem do lugar em que vivem. Eis aí as vítimas. Nós estamos na noção do stop/eject. Paramos e ejetamos.

Você acredita no caos?

Paul Virilio: Depois do sistema financeiro haver se destabilizado, o crash ameaça desestabilizar o Estado, a última garantia de uma vida coletiva. Neste momento ele tenta tranquilizar. Mas se a Bolsa continua a cair, é o Estado que irá à falência, e porá as nações no caos. Não se trata de catastrofismo de minha parte. Eu não acredito no pior, não acredito no caos; é absurdo, é arrogância intelectual, mas não se deve se impedir de pensar. Diante do medo absoluto, eu oponho a esperança absoluta. Churchill dizia que o otimista é alguém que vê uma oportunidade em cada calamidade.

Carta Maior

Agência de alimentação da ONU questiona uso generalizado de biocombustíveis

Elisabeth Rosenthal

Na terça-feira (07), a agência de alimentação da Organização das Nações Unidas (ONU) pediu uma revisão dos subsídios e políticas relativos aos biocombustíveis, observando que eles contribuíram significativamente para a elevação dos preços dos alimentos e a fome nos países pobres.

Devido à implantação de políticas e subsídios para encorajar a produção de biocombustíveis em grande parte do mundo desenvolvido, os fazendeiros freqüentemente acham mais lucrativo cultivar culturas para a produção de combustíveis, em vez de comida. Esta mudança contribuiu para a redução global da oferta de alimentos.

“As políticas atuais devem ser revistas urgentemente para a preservação da meta de segurança alimentar global, a proteção dos agricultores pobres, a promoção de desenvolvimento rural fundamentado em bases amplas e a garantia da sustentabilidade ambiental”, adverte o relatório, que foi divulgado na terça-feira, em Roma, pelo diretor-executivo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), Jacques Diouf.

“O desafio é reduzir ou administrar os riscos, e, ao mesmo tempo, distribuir mais as oportunidades”, afirmou ele.

Com a divulgação do relatório, a ONU se junta a outros grupos ambientais e proeminentes especialistas internacionais que pedem o fim – ou pelo menos uma reformulação séria – dos subsídios aos biocombustíveis, que são combustíveis mais limpos, obtidos a partir de plantas, e que podem substituir o petróleo e o gás natural em algumas circunstâncias.

Em uma devastadora avaliação divulgada em meados deste ano, a Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCED) concluiu que o apoio governamental à produção de biocombustíveis nos países da OCED é extremamente caro e “tem um impacto limitado na redução dos gases causadores do efeito estufa e na melhoria da segurança energética”. Mas o relatório observa que este apoio “teve um impacto significativo sobre os preços mundiais dos produtos agrícolas”.

“Os governos nacionais deveriam deixar de criar novos incentivos aos biocombustíveis e procurar formas de reduzir a produção”, conclui o relatório.

Nos últimos oito anos, à medida que o preço dos petróleos subia e cresciam as preocupações quanto às emissões de carbono, vários países, incluindo os Estados Unidos e alguns integrantes da União Européia, criaram diversos subsídios e incentivos para apoiar a incipiente indústria dos biocombustíveis.

Como resultado, a produção de biocombustíveis a partir de culturas agrícolas mais do que triplicou entre 2000 e 2007, observa a FAO.

Mas estudos realizados anteriormente concluíram que a corrida aos biocombustíveis teve algumas conseqüências desastrosas e inesperadas tanto para a segurança alimentar quanto para o meio-ambiente: menos comida disponível para os países pobres, disparada dos preços globais dos grãos e perda de preciosas florestas, à medida que os agricultores desmatavam para criar novos campos de cultivo, a fim de participarem do boom no setor de biocombustíveis.

Segundo os especialistas, o pior é que muitas plantas exigem tanta energia para serem transformadas em combustível aproveitável que a quantidade total de carbono emitido acaba sendo maior do que a vinculada aos combustíveis fósseis que os biocombustíveis substituem, como o petróleo e o gás. O relatório da OCED afirma que somente duas culturas alimentícias são “mais verdes” do que o petróleo, ao se considerar todo o “ciclo de vida” de sua produção: óleo de cozinha usado e a cana-de-açúcar do Brasil.

A cana-de-açúcar é bem mais fácil de ser convertida em biocombustível do que o milho ou a canola, as lavouras geralmente cultivadas para a produção de biocombustíveis na Europa e nos Estados Unidos.

Neste ano a União Européia já recuou em relação à sua meta anterior de fazer com que os biocombustíveis representem 10% de todos os combustíveis para transporte na Europa até 2020.

No mês passado, o Parlamento Europeu sugeriu que apenas 5% dos combustíveis devem ser derivados de fontes renováveis até 2015, e que um quinto deles deve vir de novas alternativas “que não concorram com a produção de alimentos”.

Atualmente, a grande maioria dos biocombustíveis é derivada de culturas que poderiam ser usadas também para alimentação ou que são cultivadas em campos que podem ser aproveitados para a produção de alimentos.

Os combustíveis de segunda e terceira geração são feitos a partir de mato e resíduos de lavoras, e não competem com os alimentos, mas “eles ainda não estão comercialmente disponíveis”, observa o relatório da FAO.

Na terça-feira, na FAO, Diouf por pouco não sugeriu que o mundo deveria acabar com os subsídios aos biocombustíveis. Em vez disso, ele disse que estes subsídios deveriam ser revistos, de forma a beneficiar diretamente os países em desenvolvimento. Grupos como a Iniciativa Global Clinton sugeriram que países africanos pobres têm potencial para o desenvolvimento de indústrias de biocombustíveis baseadas no cultivo de culturas não alimentícias como a jatropa, uma planta selvagem.

Muitos países afirmam que os subsídios nos Estados Unidos e na Europa favorecem fortemente as culturas domésticas dos países desenvolvidos. Os críticos queixam-se de que o sistema de subsídios dos Estados Unidos, que favorece a produção de etanol a partir do milho, é injusto e prejudicial ao meio-ambiente por tornar financeiramente impossível a importação de combustível do Brasil, produzido a partir da cana-de-açúcar, que é mais barato e menos poluente.

“As oportunidades para que os países em desenvolvimento se beneficiassem da demanda por biocombustíveis aumentariam bastante com a remoção dos subsídios e barreiras comerciais aos produtos agrícolas e aos biocombustíveis. Estes subsídios e barreiras comerciais criam um mercado artificial, e atualmente beneficiam os produtores dos países da OCED em detrimento daqueles dos países em desenvolvimento”, concluiu Diouf.

Herald Tribune

Agência de alimentação da ONU questiona uso generalizado de biocombustíveis

Elisabeth Rosenthal

Na terça-feira (07), a agência de alimentação da Organização das Nações Unidas (ONU) pediu uma revisão dos subsídios e políticas relativos aos biocombustíveis, observando que eles contribuíram significativamente para a elevação dos preços dos alimentos e a fome nos países pobres.

Devido à implantação de políticas e subsídios para encorajar a produção de biocombustíveis em grande parte do mundo desenvolvido, os fazendeiros freqüentemente acham mais lucrativo cultivar culturas para a produção de combustíveis, em vez de comida. Esta mudança contribuiu para a redução global da oferta de alimentos.

“As políticas atuais devem ser revistas urgentemente para a preservação da meta de segurança alimentar global, a proteção dos agricultores pobres, a promoção de desenvolvimento rural fundamentado em bases amplas e a garantia da sustentabilidade ambiental”, adverte o relatório, que foi divulgado na terça-feira, em Roma, pelo diretor-executivo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), Jacques Diouf.

“O desafio é reduzir ou administrar os riscos, e, ao mesmo tempo, distribuir mais as oportunidades”, afirmou ele.

Com a divulgação do relatório, a ONU se junta a outros grupos ambientais e proeminentes especialistas internacionais que pedem o fim – ou pelo menos uma reformulação séria – dos subsídios aos biocombustíveis, que são combustíveis mais limpos, obtidos a partir de plantas, e que podem substituir o petróleo e o gás natural em algumas circunstâncias.

Em uma devastadora avaliação divulgada em meados deste ano, a Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCED) concluiu que o apoio governamental à produção de biocombustíveis nos países da OCED é extremamente caro e “tem um impacto limitado na redução dos gases causadores do efeito estufa e na melhoria da segurança energética”. Mas o relatório observa que este apoio “teve um impacto significativo sobre os preços mundiais dos produtos agrícolas”.

“Os governos nacionais deveriam deixar de criar novos incentivos aos biocombustíveis e procurar formas de reduzir a produção”, conclui o relatório.

Nos últimos oito anos, à medida que o preço dos petróleos subia e cresciam as preocupações quanto às emissões de carbono, vários países, incluindo os Estados Unidos e alguns integrantes da União Européia, criaram diversos subsídios e incentivos para apoiar a incipiente indústria dos biocombustíveis.

Como resultado, a produção de biocombustíveis a partir de culturas agrícolas mais do que triplicou entre 2000 e 2007, observa a FAO.

Mas estudos realizados anteriormente concluíram que a corrida aos biocombustíveis teve algumas conseqüências desastrosas e inesperadas tanto para a segurança alimentar quanto para o meio-ambiente: menos comida disponível para os países pobres, disparada dos preços globais dos grãos e perda de preciosas florestas, à medida que os agricultores desmatavam para criar novos campos de cultivo, a fim de participarem do boom no setor de biocombustíveis.

Segundo os especialistas, o pior é que muitas plantas exigem tanta energia para serem transformadas em combustível aproveitável que a quantidade total de carbono emitido acaba sendo maior do que a vinculada aos combustíveis fósseis que os biocombustíveis substituem, como o petróleo e o gás. O relatório da OCED afirma que somente duas culturas alimentícias são “mais verdes” do que o petróleo, ao se considerar todo o “ciclo de vida” de sua produção: óleo de cozinha usado e a cana-de-açúcar do Brasil.

A cana-de-açúcar é bem mais fácil de ser convertida em biocombustível do que o milho ou a canola, as lavouras geralmente cultivadas para a produção de biocombustíveis na Europa e nos Estados Unidos.

Neste ano a União Européia já recuou em relação à sua meta anterior de fazer com que os biocombustíveis representem 10% de todos os combustíveis para transporte na Europa até 2020.

No mês passado, o Parlamento Europeu sugeriu que apenas 5% dos combustíveis devem ser derivados de fontes renováveis até 2015, e que um quinto deles deve vir de novas alternativas “que não concorram com a produção de alimentos”.

Atualmente, a grande maioria dos biocombustíveis é derivada de culturas que poderiam ser usadas também para alimentação ou que são cultivadas em campos que podem ser aproveitados para a produção de alimentos.

Os combustíveis de segunda e terceira geração são feitos a partir de mato e resíduos de lavoras, e não competem com os alimentos, mas “eles ainda não estão comercialmente disponíveis”, observa o relatório da FAO.

Na terça-feira, na FAO, Diouf por pouco não sugeriu que o mundo deveria acabar com os subsídios aos biocombustíveis. Em vez disso, ele disse que estes subsídios deveriam ser revistos, de forma a beneficiar diretamente os países em desenvolvimento. Grupos como a Iniciativa Global Clinton sugeriram que países africanos pobres têm potencial para o desenvolvimento de indústrias de biocombustíveis baseadas no cultivo de culturas não alimentícias como a jatropa, uma planta selvagem.

Muitos países afirmam que os subsídios nos Estados Unidos e na Europa favorecem fortemente as culturas domésticas dos países desenvolvidos. Os críticos queixam-se de que o sistema de subsídios dos Estados Unidos, que favorece a produção de etanol a partir do milho, é injusto e prejudicial ao meio-ambiente por tornar financeiramente impossível a importação de combustível do Brasil,

Por que Obama não dispara?

Existe um ódio racial dissimulado, que sorri politicamente correto à luz do dia e balbucia cólera nas sombras

Mac Margolis

A ascensão de Barack Obama na política dos Estados Unidos é impressionante, por qualquer medida. Impressiona tanto quanto a miniindústria de tomos e teorias que brotou para decifrar a meteórica trajetória do jovem forasteiro da franja política norte-americana a protagonista no palco central do país. E mesmo se não vencer o páreo presidencial, Obama já se consagrou como oráculo global, com platéia cativa no Tiergarten. Mas, junto a sua estrela, sobe uma inquietação: será que ele vence o racismo?

A dúvida faz todo sentido. Raramente os americanos tiveram tantos motivos para votar nos democratas. A folha corrida do atual governo já é do domínio público: 70% dos americanos desaprovam a atuação da administração Bush e nove em dez acham que o país está “no caminho errado”, segundo a última sondagem CBS/Washington Post. O apoio à guerra do Iraque se evaporou e agora o caos do setor financeiro paira sobre a economia real. Resumo do libreto: com os republicanos no leme, os EUA estão à deriva. Eis a tempestade perfeita para a oposição.

No entanto, a disputa pela Casa Branca continua estranhamente acirrada; a poucos dias do pleito, apenas 7 ou 8 pontos separam o líder, Obama, de seu rival, o republicano John McCain, segundo a média das pesquisas no site Real Clear Politics. Por que, perguntam os democratas e simpatizantes, Obama não está disparado na frente? Racismo, afirmam os inquietos. “Se ele fosse branco, a eleição seria uma avalanche”, disse Harold Ickes, ex-estrategista de Jesse Jackson, famoso reverendo negro que na década de 80 disputou a presidência.

Sem dúvida, preconceito e ódio racial ainda permeiam parte da sociedade americana. Quando Obama nasceu, em 1961, o preconceito ainda andava de capuz e incendiava cruzes nos grotões do Sul. Passei minha infância nos anos 50 e 60 na Carolina do Norte e Virgínia, onde respeitadas famílias ostentavam no quintal as “barras e estrelas”, a bandeira dos confederados, o lado escravagista do país que perdeu a Guerra Civil, mas não a pose.

Ultimamente há todo um gênero de análise política que bate no mesmo tambor. Reza a cartilha racial que existe um ódio, subterrâneo e dissimulado, que sorri politicamente correto à luz do dia e balbucia cólera nas sombras. Esse racismo silencioso confunde os sociólogos e dribla até as pesquisas, como as da Gallup e da Zogby, mas segundo os analistas, está sempre à espreita, marcando hora para golpear qualquer negro que ouse levantar a cabeça. Assim, o racismo é o bicho-papão do discurso político do momento. Imensurável, vira ativo perfeito para especulação alheia. Sem lastro na estatística, cresce como um derivativo em Wall Street.

Mas como toda bolha, a do racismo carece de fundamentos. Mais ainda nestas eleições. Explico. Barack Hussein Obama, todos sabemos, já fez história como o primeiro negro com reais chances de chegar à presidência dos EUA. Mas também é um camaleão. Não é uma questão de sua cota de melanina (filho de pai negro e mãe branca) nem de sua aura de candidato “pós-racial”, mas sim da carreira, deliberadamente construída em apoios e aliados diversos e nem sempre esperados.

Aliou-se ao polêmico pastor Jeremiah Wright não por afinidade ideológica, muito menos por simpatia a seus impropérios racistas, mas porque sua igreja reunia a nata da comunidade negra de Chicago, eleitorado fundamental para seu sucesso político na cidade. E quando Wright começou a estorvar, dispensou-o com a mesma matemática. Em seu discurso na convenção do Partido Democrata, Obama fez apenas menção discreta ao padroeiro de movimento negro, Martin Luther King, e só no final de sua fala de 50 minutos.

O bom entendedor dispensa intérprete: Obama pode ser mutuário do legado da luta de King ou da congregação de Wright, mas não é cria de nenhum deles. Tanto que mereceu certa desconfiança de alguns líderes tradicionais da política negra, entre eles o conhecido militante Al Sharpton: “Me irrita quando alguns líderes negros que não vieram do movimento de direitos civis, sejam Barack Obama, Colin Powell ou Tiger Woods, se comportam como se tivessem subido sozinhos e aberto as portas por conta própria”.

Mesmo que Obama não se porte como um estandarte do movimento negro, nada garante que o eleitor americano não vá entendê-lo assim. Ele goza do apoio e de rios de dinheiro dos jovens, tanto brancos quanto negros, da classe média e classe média alta urbana. E nos cafundós da Pensilvânia ou Geórgia? E o que dizer do “efeito Bradley”? Thomas Bradley, o popularíssimo candidato negro ao governo da Califórnia em 1982, após liderar todas as pesquisas até a véspera da eleição, perdeu para um branco. Desde então virou lugar-comum falar do “efeito Bradley”, a zebra originada pelo eleitor que se declara indeciso, mas tem voto racista. Como não desconfiar de que a mesma dissimulação não esteja ocorrendo contra Obama?

Há controvérsias. Mais importante, os Estados Unidos mudaram. A derrota de Bradley aconteceu há um quarto do século, numa América bem mais conservadora e culturalmente careta. Desde então, os EUA passaram por um furacão que deixou os costumes e a política de ponta-cabeça. Abriram-se as portas para toda uma nova geração, incluindo os negros. Hoje, 81% dos negros acima dos 25 anos têm o segundo grau completo, para meros 28% em 1976. O número de negros pobres caiu de 42% em 1966 para 23% hoje. Ao mesmo tempo, o número de candidatos negros disparou, aumentando oito vezes desde 1970 – a maioria deles eleita pelos outrora redutos racistas do Mississippi, Alabama e Louisiana.

No fundo, a insistência do enredo monótono do racismo trivializa a política americana, como se não houvesse nenhum motivo para duvidar de Obama a não ser a cor de sua pele. Esqueça-se sua pouca idade e currículo político modesto (dois mandatos como deputado estadual e um incompleto no Senado nacional), ou a guinada radical, e mal explicada, que deu sobre o surge, o aumento de tropas no Iraque (primeiro radicalmente contra, depois a favor). E, no escurinho da cabine de votação, pode pesar muito menos o racismo que o ranço contra os intelectuais que ainda bate forte no peito de muitos americanos. Pode-se chamá-lo de efeito Harvard.

Virou clichê tachar os EUA de racistas, inclusive no Brasil. Pudera. Há sangue e bílis suficiente dos conflitos racistas e étnicos para manchar quase todos os capítulos da história americana. Mas os clichês também caducam. Quem sabe não é hora de mexer com a cartilha do racismo à americana. É uma boa pauta para a era Obama.

O Estado de São Paulo

A Fazenda Brasil

Henrrique Cortez

Há quem estranhe as, aparentemente, desencontradas declarações dos ministros Mangabeira e Stephanes, em relação às políticas ambientais do governo Luiz Inácio da Silva. Mas o desencontro não existe, porque apenas refletem o que o governo realmente pensa e deseja.

O ministro Roberto Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) disse que o Brasil é o país com mais “proibições ambientais” no mundo e que o conjunto de restrições em vigor precisa ser “debatido com clareza e coragem”, para que se possa “viver, produzir e preservar a Amazônia”.

Por sua vez, o ministro Reinhold Stephanes afirmou que cerca de 70% da área do território brasileiro não pode ser cultivada por algum motivo legal, seja por reservas florestais, indígenas ou legislações que impedem o plantio comercial.

A senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, demonstrou sua indignação a estas posições, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, de 11/08/2008, no qual diz “Pergunto: o problema seria o suposto excesso de leis ambientais ou a resistência do velho vício patrimonialista que mistura o público com o privado e se imagina acima do interesse coletivo?”. E afirma: “Se o ministro expressa alguma nova visão do governo federal sobre política ambiental, trata-se de enorme contradição e retrocesso”.

Na verdade, em relação ao governo, apenas as afirmações da senadora Marina Silva merecem reparos, porque os ministros não expressam alguma nova visão do governo federal sobre política ambiental, mas apenas a mesma política de sempre, inclusive a política ambiental de quando a senadora estava ministra.

O governo, este e todos os anteriores, sempre demonstrou permanente submissão aos interesses do agronegócio de exportação, principalmente os pecuaristas e sojicultores que, aliados aos grandes grupos econômicos e financeiros, apenas percebem os ativos ambientais como recursos econômicos a serem apropriados. O manejo sustentável dos recursos naturais e a agricultura familiar não estão na agenda de compromissos dos grandes interesses econômicos e, por conseqüência, também não estão na agenda do governo.

O governo mantém a opção pelo incentivo à produção e exportação de produtos primários como cláusula pétrea da economia nacional. Como em outras áreas, é a versão século XXI do modelo colonial, no qual as colônias exportavam produtos primários (com pequeno valor agregado) para beneficiamento pelas metrópoles, as quais os reexportavam (com grande valor agregado). Foi assim que as colônias financiaram o desenvolvimento dos países colonialistas e ainda é assim que o terceiro mundo financia os países que se dizem desenvolvidos.

Esta pauta colonial de exportação está na origem de tantos desencontros e ambigüidades, tal como a encontrada na produção do biodiesel, cujo programa foi lançado com o argumento de que seria a “redenção” da agricultura familiar no norte e nordeste do país. No entanto, o biodiesel é majoritariamente produzido a partir da soja (70% do total), passando ao largo da agricultura familiar. Mostrou-se como mais um projeto para beneficiar os mesmos de sempre, como sempre.

Precisamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, alumínio primário, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia.

Ou questionamos e encontramos um outro modelo de desenvolvimento ou continuaremos no modelo colonial de exportação de produtos primários. É o que fazemos desde o descobrimento (apenas mudamos de senhores ao longo do tempo) e ainda não chegamos lá.

Parafraseando o jornalista e ambientalista Washington Novaes, se devastação e exploração irracional de recursos naturais levasse ao desenvolvimento, já seríamos o mais rico e desenvolvido país do mundo.

MST

A ditadura na Roma antiga e nos dias atuais

Antonio Carlos Olivieri

O conceito de ditadura se origina Roma antiga. Em latim, a palavra era “dictatura”. Entretanto, o significado moderno do conceito é completamente diferente da instituição que ele designava na Antigüidade. De qualquer modo, uma comparação entre ditadura antiga e moderna pode ajudar a compreender melhor o sentido que o termo adquiriu nos dias de hoje.

Para começar, a ditadura romana era uma instituição de caráter extraordinário. Só era ativada em circunstâncias excepcionais, para fazer frente a situações de emergência, como uma crise interna ou uma guerra. O ditador era nomeado por um ou pelos dois cônsules – os chefes do governo romano -, de acordo com o senado e por processos definidos constitucionalmente. Da mesma maneira, também eram definidos os limites de sua atuação.

Ainda assim, os poderes do ditador eram muito amplos e seus decretos – o que ele “ditava” (e vem daí “ditadura”) – tinham o valor de lei. Apesar disso, seus poderes não eram ilimitados: o ditador não podia revogar ou mudar a Constituição, declarar guerra, criar novos impostos para os cidadãos romanos, nem exercer o papel de juiz nos casos de direito civil. Finalmente, a ditadura tinha sua duração explicitamente fixada: não podia durar mais de seis meses.

Um poder sem limites
Atualmente, a expressão ditadura serve para designar os regimes de governo não-democráticos ou antidemocráticos, isto é, aqueles onde não há participação popular, ou onde isso ocorre de maneira muito restrita. Nesse sentido, de igual à ditadura romana, ela só apresenta uma coisa: a concentração de poder nas mãos do ditador. Além disso, a ditadura moderna não é autorizada por regras constitucionais: ela se impõe de fato, pela força, subvertendo a ordem política que existia anteriormente.

Para piorar, a extensão do poder do ditador não está determinado pela Constituição nem sofre qualquer tipo de limites. Sua duração não está prevista de modo algum e pode se estender por décadas. No Brasil, por exemplo, a última ditadura foi de 1964 a 1985. Na Espanha, o general Francisco Franco tomou o governo em 1936 e só o deixou quando morreu, em 1975, numa ditadura que durou cerca de 40 anos. Em Cuba, hoje, o ditador Fidel Castro já completou 46 anos no poder.

A ditadura moderna implica, antes de mais nada, a concentração de poder. Em geral, num órgão já existente do Estado (via de regra, o poder Executivo). Estende também o poder além dos limites normais, por exemplo, suspendendo os direitos dos cidadãos. Deixa ainda o poder livre dos freios e dos controles estabelecidos pelas leis. Foi o que aconteceu no Brasil, por exemplo, a partir de 1968, quando o Ato Institucional no. 5, deu imensos poderes ao Executivo, como o de fechar o Legislativo, caso lhe fosse conveniente.

Por tudo isso, a ditadura moderna tem uma conotação inquestionavelmente negativa. Designa, como já se disse, os regimes não-democráticos ou antidemocráticos. É um contraponto à democracia, na qual o poder se encontra dividido em várias instâncias de poder, equilibrando-se Executivo, Legislativo e Judiciário. Num regime democrático, a transmissão da autoridade política é feita de baixo para cima, através da manifestação popular, via eleições. Na ditadura, além da concentração do poder numa instância exclusiva, a transmissão da autoridade política ocorre de cima para baixo, a partir da decisão do ditador ou dos ditadores.

Conservadores e revolucionários
Nos dias de hoje, quanto às finalidades com que são instaladas, podem-se distinguir dois tipos de ditadura: 1) as conservadoras, cuja finalidade é defender o satus quo dos perigos de uma mudança. Esse foi o caso das várias ditaduras militares que se estabeleceram na América Latina nos anos 1960 e 70: Argentina, Brasil, Chile, Uruguai… 2) as revolucionárias, que visam abater ou minar, de forma radical, a velha ordem político-social e introduzir uma ordem nova, como foi o governo instaurado pela Convenção Nacional francesa, em 1793, que pôs fim à monarquia, ou ainda o próprio governo cubano, depois de 1959, que instaurou o socialismo no país.

Entretanto, existem outros termos usados para denominar regimes não-democráticos. Dentre eles, os mais importantes são despotismo, absolutismo, tirania, autocracia e autoritarismo. No vocabulário comum e mesmo no vocabulário político do dia-a-dia, esses termos são freqüentemente usados como sinônimos. Na filosofia política, porém, podem-se estabelecer distinções entre eles.

Despotismo
Despotismo, num primeiro sentido, refere-se ao despotismo oriental, da Antigüidade. Tratava-se do governo monocrático (monos = um só), típico da Ásia e da África e que era oposto à democracia grega. O filósofo Aristóteles o chamava de despótico, comparando-o ao poder que o patrão (em grego, despotes) exerce sobre o escravo.

Na Idade Moderna, o pensador francês Montesquieu (1689-1755) retomou o conceito, definindo-o como o governo no qual “um, sozinho, sem leis nem freios, arrasta tudo e todos no sabor de suas vontades e de seus caprichos”. Na Europa dos séculos 17 e 18, despotismo serviu para designar os regimes de monarquia absolutista, que poderia ser considerado bom ou mal, de acordo com a maneira com que o monarca exerce o poder.

É nesse sentido que se fala em despotismo esclarecido, no século 18, quando o monarca, embora detenha o poder absoluto, é “instruído por sábios conselheiros sobre a existência das verdadeiras leis, gozando da plenitude de seus poderes para aplicá-las e promover, agindo assim, o bem estar e a felicidade de seus súditos”.

Tanto o despotismo quanto o absolutismo são conceitos que se aplicam a monarquias hereditárias, consideradas legítimas pelos súditos, que integram uma sociedade tradicional. Nela, a participação política da grande maioria da população é nula. A monarquia é vista como a única forma de governo possível, por ter as suas raízes no passado mitológico ou na origem divina.

Tirania e autocracia
Tirania era o governo de exceção na Grécia antiga. Assemelhava-se à ditadura moderna, pois nasciam das crises e da desagregação da democracia ou de algum regime político tradicional. O tirano não era um monarca legítimo, mas o chefe de alguma fração política, que impunha pela força o próprio poder a todos os outros partidos. Da mesma forma que os ditadores modernos, os tiranos exerciam um poder arbitrário e ilimitado, recorrendo às armas.

Ao contrário dos outros termos examinados, autocracia não tem uma conotação histórica precisa. É um termo abstrato que se usa com dois significados principais: um particular e um geral. No particular, ele denota um grau máximo de absolutismo. Uma autocracia é um governo absoluto que detém um poder ilimitado sobre seus súditos. Sob este ponto de vista, um monarca absoluto é um autocrata, mas ele pode não sê-lo, quando divide o poder alguns colaboradores que tenham condições de limitar sua vontade.

Em seu significado geral, o termo autocracia foi usado por alguns teóricos da política e do direito para designar todo tipo de governo antidemocrático ou não-democrático. Mas, nessa acepção, a palavra não obteve sucesso, nem na linguagem popular nem na linguagem técnica da filosofia ou da ciência política.

Autoritarismo
Autoritarismo também é um termo usado para designar todos os regimes que se contrapõem ao democrático. Por outro lado, modernamente, o significado é mais restrito e designa governos fortes que, porém, não chegam a constituir uma ditadura, pois possuem um grau relativamente moderado de mobilização popular e de participação política da sociedade. É o caso do governo de Hugo Chávez na Venezuela contemporânea, onde a oposição ao governo é severamente controlada.

Mas o autoritarismo deve ser diferenciado do totalitarismo. Este é o grau máximo de absolutismo nos regimes ditatoriais modernos, em que o Estado exerce total controle da vida dos cidadãos. Eles ocorreram em sistemas como o da Alemanha nazista, sob Hitler, e o da Rússia comunista, sob Stálin, em que a propaganda chegava a convencer o cidadão de que ele existia não para seu próprio benefício, mas para benefício do Estado. O resultado dessas duas ditaduras pode ser medido pelas cerca de 30 milhões de mortes que provocaram ao longo de aproximadamente duas décadas.

Uol Educação

A reinvenção do cinema e os jurássicos

A digitalização e a internet podem transformar todo o processo cinematográfico, democratizando a produção e multiplicando as platéias. Mas, agarrada a seu monopólio, a indústria do audiovisual quer manter as tecnologias superadas e a idéia de que arte é para quem pode pagar

Felipe Macedo

O cinema mudou pouco até o advento das tecnologias digitais. O som, a cor, melhoramentos nas películas, na projeção, entre muitos outros, foram aperfeiçoamentos numa tecnologia básica que se consolidou no finalzinho do século 19, na famosa sessão dos irmãos Lumière. O modelo básico de produção, de circulação e de exibição permaneceu o mesmo. Já a digitalização das imagens e sons mudou tudo. Criou um paradigma novo, em que todas as etapas do processo cinematográfico se transformam: a captação, montagem, finalização; a difusão, que já nem precisa ser física; e a exibição, que gera novos formatos, espaços, relações. Essas mudanças implicam também, é obvio, em novas bases e condições econômicas para todas as etapas.

Este período – e processo – de adaptação do paradigma de cinema, que estamos vivendo, tem curiosas similitudes com o que aconteceu na época do surgimento do cinema. Durante um tempo, não se sabia muito bem o que fazer com ele. É certo que aquilo podia dar dinheiro, mas não havia um modelo de negócio (como se diz hoje) estabelecido. Que formato deveria ter o espetáculo; como devia ser negociado, distribuído, exibido? Os primeiros vintes anos do cinema foram de formatação do produto, com o desenvolvimento da linguagem e o estabelecimento de uma narrativa adequada ao consumo. Foi um período de formação de platéias, que evoluíram das feiras e teatros de variedades para as salas fixas proletárias e finalmente para um público mais “respeitável”. Foram anos de uma verdadeira guerra, para que se estabelecesse um modelo de comercialização entre produtores, distribuidores e exibidores.

Hoje há interessantes analogias com aquelas situações. As novas tecnologias criam novas possibilidades, que se tornam formatos, que necessitam de novas formas de distribuição e consumo, engendrando novos mercados, que pedem novos modelos de comercialização. E quanto isto estará mexendo com a linguagem?

O fato é que essa etapa de grandes transformações está estruturada em um modelo. Um modelo que não é muito duradouro, que ainda não tem regras estáveis – apenas entendimentos comerciais mais ou menos provisórios. Uma situação que procura segurança, tão cara aos grandes negócios, mas que de momento trava batalhas complexas e violentas pela repartição dos mercados. Uma realidade que, para a quase totalidade da população e para os produtores e realizadores audiovisuais, é elitista, excludente, unilateral e concentradora.

Retratos da exclusão atual: mais de 60% dos jovens entre 15 e 29 anos nunca foram ao cinema. E 92% dos municípios não têm sequer uma sala
Há trinta anos, o Brasil tinha pouco mais da metade da população de hoje e pouco menos de 5 mil salas de cinema. O número de espectadores, por ano, andava em torno de 300 milhões. Nos anos 70 e 80, o modelo foi se transformando, de um cinema barato e popular para o figurino atual. Houve um período de crise aguda, quando o número de salas caiu para cerca de 900 e o público para quase 70 milhões anuais. Foi o fim dos cinemas na grande maioria das cidades e o desaparecimento dos cinemas de bairro.

Depois de uma “recuperação”, sob o novo modelo de consumo de elite, nos multiplexes de xópins, o número de salas chegou a 2.200. No entanto, essas salas são bem menores que as daquele tempo não tão distante (que tinham 500 lugares ou mais) e fica a dúvida de se houve efetivamente um aumento do número de assentos oferecidos. Porque o público cresceu pouco, e tem rondado em torno de 90 milhões de espectadores anuais.

O senso comum diagnostica rapidamente: “é por causa do vídeo, do DVD, da TV a cabo, da banda larga”. No entanto, nos países onde há mais acesso a todos esses recursos audiovisuais, o cinema apresenta números muito mais significativos. Nos EUA, são quase 40 mil salas de cinema. Mesmo no México, com condições mais parecidas e a metade da nossa população, o número de salas de cinema é 40% maior.

Em outras palavras, segundo dados de uma distribuidora estadunidense, mais ou menos 10% da população “vai pelo menos uma vez por ano ao cinema”. Ou seja, 90% não vão nunca. Mais de 60% dos jovens entre 15 e 29 anos, nunca foram ao cinema. Outro corte: 92% dos municípios brasileiros não têm sala de cinema. Aliás, quase a metade dos cinemas (48%) está concentrada nos estados de São Paulo e Rio. Sergipe, com 75 municípios, só tem cinemas em Aracaju; de fato, 17 estados brasileiros têm 15% das salas de cinema do País.

O cinema plural, mundial, é exibido numa rede minúscula, de menos de uma dezena de cidades brasileiras, que contam com um bom “circuito de arte”
Do lado da produção, o Brasil hoje faz quase 70 filmes de longa metragem por ano. No entanto, pelo menos 30% desses filmes simplesmente não são exibidos. Dos que conseguem chegar aos cinemas, quase todos são exibidos em situações muito precárias – de salas, datas – raramente atingindo números minimamente significativos. Explicando melhor: os filmes brasileiros ocupam cerca de 10% do mercado de exibição, ou seja, atingem em torno de 9 milhões de espectadores por ano. Desse público, uns dois terços concentra-se em dois ou três filmes (geralmente os que têm participação financeira de distribuidoras hollywoodianas, ou estão associados a empresas de comunicação), conforme o ano. E os outros 30, 40 filmes “partilham” o restante do público. Resumindo: 10% de um mercado que mal atinge 10% da população, significa que o cinema nacional se relaciona com menos de 1% dos brasileiros.

Que não se confunda esta constatação com uma forma qualquer de xenofobia. O cinema mundial — quer dizer, europeu, asiático, latino-americano, e mesmo o dos Estados Unidos, quando não é produto das corporações daquele bairro famoso de Los Angeles — enfrenta uma situação ainda pior. Na verdade é o concorrente, por excelência, do cinema brasileiro na mesma estreita faixa de 10% do mercado. O cinema plural, mundial, é geralmente exibido num circuito ainda mais limitado, de menos de uma dezena de cidades brasileiras, que contam com um bom “circuito de arte”. No ano passado, durante várias semanas, dois títulos apenas ocuparam mais de 70% de todas as salas do País. Logo em seguida esse número passou para três títulos, em cerca de 80% dos cinemas. Ou seja, mesmo com uma arquitetura multiplex, a exibição é cada vez mais simplex, concentrada. Hoje entra no Brasil um terço do número de filmes que vinha nos anos 80, inclusive norte-americanos. E 85% das bilheterias de cinema no Brasil estão concentrados em três distribuidoras de Hollywood.

As tecnologias digitais, associadas aos recursos propiciados pela internet, criam condições para uma democratização muito grande da produção. A distribuição elimina as cópias em película — que custam milhares de reais cada uma — e a própria instalação de salas e equipamentos de projeção diminuem muito de custo. Tudo aponta para a oportunidade e a necessidade de um modelo de circulação dos produtos audiovisuais em bases diferentes das atuais e, principalmente, com ingressos a preços compatíveis com o poder aquisitivo da população. É como um novo parto do cinema, na virada de outro século.

No entanto, na transição de paradigmas, a chamada indústria do audiovisual tem procurado garantir um controle exclusivo do processo, garantindo suas “margens” através da manutenção de tecnologias superadas, pela restrição do acesso e com a preservação de uma situação geral de monopólio. Desta forma, o modelo não serve para o público, não atende às necessidades dos realizadores e impede uma verdadeira integração cultural com o mundo.

Le Monde diplomatic Brasil

No Paquistão, um crime bárbaro em nome da tradição

Frédéric Bobin

Eram três irmãs, com idades de 16 a 18 anos. Hameeda, Ruqqaya e Raheena viviam em Baba Kot, uma aldeia no Baluchistão, uma província árida situada no sudoeste do Paquistão, nos confins do Irã e do Afeganistão, lá onde a terra se resume a areia, pedras e rochas buriladas pelo vento. Elas morreram enterradas vivas numa vala comum. Foram vítimas de um “crime de honra” que, pela sua selvageria inédita, vem assombrando as consciências nestas últimas semanas por todo o Paquistão, onde a população geralmente aceita sem problema esses assassinatos que são práticas costumeiras ancestrais.

Hameeda, Ruqqaya e Raheena foram assassinadas em nome da tradição. Elas cometeram o crime de querer casar-se com o homem da sua escolha, e não com os primos que a tribo – dos umrani – havia indicado para elas. O que aconteceu realmente em 14 de julho, naquele dia funesto em que o crime foi perpetrado? Uma sucessão de fatos delineou-se em função das indicações que foram publicadas pela imprensa paquistanesa. Em 13 de julho, as três jovens mulheres haviam deixado sua aldeia de Baba Kot a bordo de um táxi, acompanhadas pela sua mãe e por uma tia. O grupo dirigiu-se na direção de Usta Mohammad, um vilarejo situado a 80 km, onde Hameeda, Ruqqaya e Raheena queriam comparecer no tribunal civil local para se casarem com os homens que haviam escolhido.

A escapada revelaria ser breve e, sobretudo, fatal. Mal haviam chegado a Usta Mohammad, as cinco mulheres foram raptadas por um comando de homens da tribo umrani que as perseguiam desde a sua partida. Elas tinham vilipendiado a ordem ancestral, que sujeita as moças às estratégias matrimoniais do clã, e, portanto, elas precisavam ser castigadas. Elas foram então embarcadas á força – sob a ameaça de fuzis – dentro da van Land Cruiser dos seus seqüestradores, que as conduziram de volta para a aldeia familiar de Baba Kot. Lá, uma jirga – assembléia de notáveis – estava à sua espera, solenemente convocada para decidir sobre as sanções a serem aplicadas contra elas. Prometeram-lhes uma morte muito especial. Esta seria precedida por um pavoroso suplício que deveria servir de lição para todas as outras moças da comunidade.

No dia seguinte, conduzem as cinco condenadas até a parte central de uma área deserta. Os carrascos da tribo levaram consigo uma escavadeira. A máquina começa a cavar uma fossa. Então, o motorista que está nos comandos do buldôzer aciona a lâmina dentada. Ele a dirige sobre as mulheres que estão amarradas e alinhadas. A ferramenta funciona como uma faca gigante que tritura sua carne, seus ossos, seu crânio. Depois disso, uma rajada de tiros de fuzil as ceifa. A escavadeira empurra então os corpos martirizados para dentro da vala que se tornaria o seu túmulo. Elas sangram em abundância, mas, conforme relatarão mais tarde os jornalistas paquistaneses, elas ainda não haviam sucumbido aos seus ferimentos quando os torturadores começaram a cobri-las com areia e pedras.

Mulheres foram enterradas vivas no Baluchistão! O que saberíamos hoje a respeito deste crime bárbaro se a sociedade civil paquistanesa, ajudada pelos seus veículos de comunicação audaciosos e suas associações feministas inconformadas, não tivesse se mobilizado para evitar que as supliciadas de Baba Kot fossem enterradas uma segunda vez? A informação veio à tona em 24 de julho, graças a um corajoso jornalista local, um correspondente do diário em língua urdu “Jang”, que trabalha na sucursal de Quetta, a capital do Baluchistão. O artigo não oferece muitos detalhes e não cita nome algum, mas o seu autor não demora a receber ameaças de morte por parte da tribo umrani.

Justificativa cultural

A partir daquele momento, é na cidade de Islamabad, a capital do país, onde muitas mentes esclarecidas já se mobilizaram, que o combate jornalístico começa a ser orquestrado. O diário em inglês “The News” se destaca nessa tarefa. Ele confia para Rauf Klasra, um jornalista de investigação acostumado com os escândalos financeiros, a missão de desembaralhar o fio da meada deste “crime de honra”, que uma conspiração do silêncio parece querer abafar. A polícia do Baluchistão não toma iniciativa alguma, porque personalidades locais de peso estão envolvidas no crime. A Land Cruiser que permitiu seqüestrar as cinco mulheres tinha uma placa oficial que é reservada exclusivamente para os veículos do governo do Baluchistão.

Segundo apontaram várias testemunhas, o instigador do assassinato seria Abdul Sattar Umrani, que não é ninguém mais que o irmão de Sadiq Umrani, o ministro da habitação do governo do Baluchistão, um respeitado membro do Partido do Povo Paquistanês (PPP), o partido do clã dos Bhutto que está atualmente no poder no Paquistão. Por mais que o movimento que foi liderado durante mais de duas décadas por Benazir Bhutto (assassinada no final de 2007) se valha de um progressismo teórico em relação à questão dos direitos das mulheres, as tramóias e os conluios politiqueiros quase sempre acabam soterrando os nobres ideais. Acima de tudo, o PPP tenta evitar ofender os chefes de tribo do Baluchistão, uma província que contribuiu de maneira decisiva para a eleição, em 6 de setembro, de Asif Ali Zardari, o viúvo de Benazir, para a presidência do Estado.

Contudo, o jornalista Rauf Klasra insiste em prosseguir até o fim a tarefa que lhe foi confiada. “É uma história de enorme importância, mas eu estava com medo de que ela acabasse sendo esquecida”, explica, “isso porque os nossos dirigentes políticos fingiam não terem interesse nela”. Portanto, o investigador do “The News” mantém a pressão, e segue revelando cada novo indício que ele encontra. O seu trabalho acaba encontrando uma receptividade inesperada no Senado, em 29 de agosto, quando, respondendo a uma interpelação de uma eleita a respeito do drama de Baba Kot, Mir Israhullah Zehri, um representante de um partido nacionalista do Baluchistão, apresenta como argumento uma justificativa cultural dos “crimes de honra”. “Estas são tradições que remontam a muitos séculos”, argumenta, “e eu sempre lutarei em favor da sua manutenção”. No hemiciclo, protestos são ouvidos por todos os lados. A televisão filma esta altercação incomum e, assim fazendo, confere uma dimensão nacional para o caso.

“Tudo mudou de figura a partir do momento em que os canais de televisão transmitiram este incidente no Senado”, decifra Rauf Klasra. “Num país como o Paquistão, onde a taxa de analfabetismo é muito elevada (70%), a imprensa escrita tem pouca repercussão. Uma vez que as emissoras de TV começaram a cobrir o caso, os dirigentes políticos foram obrigados a reagirem”. O Paquistão deixou de ser verdadeiramente o mesmo desde que os canais privados floresceram, aproveitando-se da desregulamentação do setor audiovisual, uma herança paradoxal do reinado militar (1999-2008) do ex-presidente Pervez Musharraf.

Com isso, o silêncio constrangido deu lugar repentinamente para a indignação virtuosa. O Senado federal e a assembléia provincial do Sind adotaram resoluções denunciando o assassinato coletivo de Baba Kot. Nunca ninguém tinha visto coisa igual na história do Paquistão! Nunca um “crime de honra” havia provocado uma emoção tão grande, nas mais altas esferas do Estado. “Está havendo um verdadeiro processo de conscientização”, admite Rauf Klasra.

As próprias feministas reconheceram que o seu combate, que era incompreendido e laborioso cerca de quinze anos atrás, passou a ter uma repercussão crescente na classe política. “Recentemente, comecei a ser convidada para dar palestras na Escola da magistratura”, comemora Samar Minullah, uma documentarista antropóloga que se especializou nos “crimes de honra”. Daqui para frente, dois Paquistãos estão frente a frente. O dos pretórios e dos hemiciclos; e aquele das tribos. Entre os dois, abriu-se uma profunda vala comum.

Le Monde

Uma história da Europa

ERIC HOBSBAWM

É absurda a presunção de unidade quando se fala em Europa, porque é precisamente a divisão que caracteriza a história do continente

Mesmo para os europeus que levam hoje uma vida realmente transnacional, a identificação primeira ainda é nacional

Como o Deus da Bíblia no momento da criação, o cartógrafo é obrigado a dar nomes àquilo que descreve; conseqüentemente, a toponímia, construção humana, é carregada de motivações humanas. Por que classificar como “continente” o conjunto de penínsulas, montanhas e planícies situadas na extremidade ocidental do grande continente euro-asiático?
No século 18, um historiador e geógrafo russo, V.N. Tatichtchev, traçou a linha divisória entre Europa e Ásia que todos nós conhecemos: dos Urais ao mar Cáspio e ao Cáucaso. Para banir o estereótipo de uma Rússia “asiática” -logo, atrasada- era preciso destacar seu pertencimento à Europa.
Os continentes são tanto -ou mais?- construções históricas quanto entidades geográficas. A Europa cartográfica é uma construção moderna. Foi apenas no século 17 que ela saiu do limbo. A idéia atual de uma União Européia (UE) é ainda mais jovem, e os projetos práticos para sua unificação só nasceram no século 20, filhos das guerras mundiais. Países antes hostis se uniram para formar uma zona de paz, avalista dos interesses comuns.
Trata-se de uma Europa historicamente jovem. A Europa ideológica, porém, é bem mais antiga. É a Europa, terra da civilização, versus a não-Europa dos bárbaros. A Europa como metáfora de exclusão existe desde Heródoto. Sempre existiu. É uma região de dimensões variáveis, definida pela fronteira (étnica, social, cultural e geográfica) com as regiões do “Outro”, freqüentemente situadas na “Ásia”, às vezes “África”.
A etiqueta “Ásia” como sinônimo de um “outro” que reúne a ameaça e a inferioridade foi colada nas costas da Rússia desde sempre. Da política aos mitos é apenas um passo. O mito europeu por excelência é o da identidade primordial. O que temos em comum é essencial; o que nos diferencia é secundário ou insignificante. Ocorre que a presunção de unidade, em se tratando da Europa, é ainda mais absurda pelo fato de que é precisamente a divisão que caracteriza sua história. Uma história da Europa é impensável antes do fim do Império Romano Ocidental e mesmo antes da ruptura permanente entre as duas margens do Mediterrâneo, que se seguiu à conquista muçulmana do norte da África.
Os gregos da Antigüidade se situavam numa civilização tricontinental, que engloba o Oriente Médio, o Egito e um setor modesto da Europa mediterrânea oriental. Nos séculos 4º e 3º a.C., a iniciativa militar e política passou às margens do setor europeu desse espaço. Alexandre, o Grande, criou um império efêmero que se estendia do Egito ao Afeganistão. A República romana construiu um império mais durável entre a Síria e o estreito de Gibraltar.

Terra fragmentada
O Império Romano nunca conseguiu estabelecer-se solidamente além do Reno e do Danúbio. Roma foi um império pan-mediterrâneo, mais que europeu, e o que conta para o destino da Europa não é o império que triunfa, mas o império que desaparece. A história da Europa pós-romana é a história de um continente fragmentado, presa constante de invasores.
Hunos, abares, magiares, tártaros, mongóis e pequenas tribos turcas chegam do leste, os vikings, do norte, os conquistadores muçulmanos, do sul. Essa época só termina em 1683, quando os turcos são derrotados às portas de Viena. Afirmou-se que a Europa descobriu sua identidade ao longo dessa luta milenar.
É um anacronismo. Nenhuma resistência coletiva ou coordenada, mesmo em nome do cristianismo, cimentou o continente e a unidade cristã desaparecidos no meio da época das invasões. Desde então, houve uma Europa católica e outra ortodoxa. Entre a queda de Bizâncio em 1453 e o cerco de Viena de 1683, os últimos conquistadores vindos do Oriente, os turcos otomanos, ocupam todo o sudeste europeu. Mas outra parte da Europa já iniciou uma época de conquistadores.
Eles descobrem não apenas as Américas, mas a Europa, pois é em contraposição aos povos indígenas do Novo Mundo que espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses, franceses e italianos, que se precipitam sobre as Américas, vão reconhecer seu caráter europeu. Eles têm a pele branca, impossível de confundir com a dos “índios”. Nasce uma diferenciação racial que, nos séculos 19 e 20, se converterá na certeza de que os brancos detêm o monopólio da civilização. Mesmo assim, a palavra “Europa” ainda não faz parte do discurso político -para isso é preciso esperar o século 17.
O nome remete ao jogo militar e político dominado pela França, o Reino Unido, o império dos Habsburgos e a Rússia, a que vem se juntar mais tarde uma quinta “grande potência”, a Prússia -transformada em Alemanha unida. Mas foram também as transformações da paisagem política que, no século 17, tornaram possível o nascimento dessa Europa consciente dela mesma. A Paz de Westfália, que pôs fim à Guerra dos 30 Anos, trouxe duas inovações políticas. Daquele momento em diante, não houve mais Estados territoriais que não fossem soberanos, e esses Estados passaram a não reconhecer nenhuma obrigação superior a seus interesses, definidos segundo os critérios da “razão de Estado” -uma racionalidade política e laica. É o universo político que habitamos hoje.
Duas outras europas se afirmam. A primeira é a da república das letras que toma corpo a partir do século 17. Para os que compõem essa república -ou seja, as algumas centenas ou, no século 18, alguns milhares de pessoas que se comunicam em latim, depois em francês, a Europa existe.
Quanto à última Europa, trata-se da comunidade cosmopolita dotada dos valores universais da cultura do século 18, que se amplia após a Revolução Francesa. No decorrer do século 19, a Europa se torna viveiro de um conjunto de instituições educativas e culturais e de todas as ideologias do mundo contemporâneo.
Esse sobrevôo da história da identidade européia nos permite identificar o anacronismo cometido quando se procura um conjunto coerente de supostos “valores europeus”. É ilegítimo supor que os “valores” nos quais se inspiram hoje a democracia liberal e a União Européia tenham sido uma corrente subjacente à história de nosso continente. Os valores que fundaram os Estados modernos antes da era das revoluções foram os das monarquias absolutas e mono-ideológicas. Os valores que dominaram a história da Europa no século 20 -nacionalismos, fascismos, marxismos-leninismos- são de origem tão puramente européia quanto o liberalismo e o “laissez-faire”.
Inversamente, outras civilizações praticaram certos valores ditos “europeus” antes da Europa: o império chinês e o império otomano praticaram a tolerância religiosa -para a sorte dos judeus expulsos pela Espanha. Foi apenas no final do século 20 que as instituições e os valores em questão se difundiram por toda a Europa, pelo menos teoricamente.
Os “valores europeus” são uma palavra de ordem da segunda metade do século 20. De 1492 a 1914, a Europa esteve no coração da história do mundo. Primeiro por sua conquista do Hemisfério Ocidental do globo e, de maneira mais ampla, a partir de 1750, por sua superioridade militar, marítima, econômica e tecnológica. O “momento” europeu da história mundial se encerra com a Segunda Guerra, embora ainda nos beneficiemos do rico legado econômico e, em menor medida, intelectual e cultural dessa supremacia perdida.
A hegemonia dessa região levanta problemas que continuam a dividir os historiadores. Lembremos apenas que, depois da queda de Roma, a Europa não conheceu nenhum outro quadro de autoridade comum nem qualquer outro centro de gravidade permanente.

Continente das guerras
Mas essa heterogeneidade do continente oculta uma divisão de funções entre dois centros dinâmicos sucessivos e suas periferias. O primeiro foi o Mediterrâneo ocidental, lugar de contato com as civilizações do Oriente Médio e distante, lugar da civilização urbana e da sobrevivência do legado romano.
Mas, entre 1000 e 1300, uma zona cada vez mais orientada ao Atlântico foi tomando a dianteira como eixo central da evolução urbana, comercial e cultural do continente.
O grande desenvolvimento da Europa teria sido difícil sem a contribuição das “periferias” exportadoras de matérias-primas. O desnível entre essas zonas, cujas estruturas sociais divergem em razão da divisão de trabalho e de suas experiências históricas, foi profundo.
Ainda temos consciência da linha de fratura que existe, embora tenha diminuído, entre as duas europas, como entre Itália do norte e Itália do sul ou entre Catalunha e Castela. No século 19, uma elite restrita conseguiu superar essas divisões, enquanto a massa dos europeus continuava a viver no universo oral dos dialetos locais.
O progresso das línguas do Estado perpetuou essa pluralidade agrária, que perdurou com a chegada dos Estados nacionais: a partir daí, o cidadão se identifica com uma “pátria” contra outras. A Europa das nações tornou-se o continente das guerras.
E, se a Europa, hoje, não saiu totalmente dessa configuração, esses anos que se passaram não deixaram de ser uma época de convergências impressionantes, com a harmonização institucional e jurídica ou a redução das desigualdades internacionais -econômicas e sociais-, graças aos notáveis “saltos à frente” dados por países como Espanha, Irlanda ou Finlândia. As revoluções em transportes e comunicações facilitaram a homogeneização cultural, que avança com a explosão da educação secundária e da universitária e com a difusão, especialmente entre os jovens, de um modo de vida e de consumo de origem transatlântica.
No mundo da cultura, entre as classes instruídas e abastadas, é a herança européia que se globalizou. Desde o desaparecimento dos regimes autoritários e o fim dos regimes comunistas, as divisões político-ideológicas da Europa desapareceram, embora as sobrevivências da Guerra Fria ainda lancem abismos entre a Rússia e seus vizinhos. Mas um paradoxo se faz notar: apesar desse processo de homogeneização, os europeus não se identificam com seu continente. Mesmo para aqueles que levam uma vida realmente transnacional, a identificação primeira ainda é nacional.
A Europa está mais presente na vida prática dos europeus que em sua vida afetiva. Apesar de tudo, porém, ela conseguiu encontrar um lugar permanente no mundo, como coletividade -permanente, mas incompleta, enquanto a Rússia não encontrar seu lugar em seu seio.

Folha de São Paulo

Chefe da Scotland Yard renuncia após três anos na corda bamba

Esta é a primeira vez que isso ocorre em 90 anos

Walter Oppenheimer

Sir Ian Blair tornou-se, na quinta-feira, o primeiro chefe da Scotland Yard a pedir demissão em 90 anos. Blair atribuiu sua saída ao fato de não desfrutar da confiança do novo prefeito de Londres, Boris Johnson, e recebeu elogios do próprio Johnson e principalmente do governo trabalhista. Sua saída é o resultado de três anos de permanente desprestígio, marcados pelo caso Menezes, por acusações de corrupção e denúncias de racismo apresentadas por altos oficiais pertencentes a minorias étnicas.

Ainda que sua demissão não seja efetivada até 1º de dezembro, a ministra de Interior, Jacqui Smith, nomeou seu adjunto, sir Paul Stephenson, como chefe em exercício. “Não saio por falhas no meu serviço, nem pelas pressões do cargo”, disse ele numa nota que leu para a imprensa, vestido em trajes civis. “Numa reunião, o prefeito me deixou claro de maneira educada, porém firme, que desejava uma mudança de liderança na Polícia Metropolitana”, disse.

Ken Livingstone, ex-prefeito de Londres, afirmou que a saída de Blair devia-se a razões políticas e afirmou que seu sucessor deve estar ciente de que “que podem pedir que ele saia a cada mudança eleitoral”. Mas apesar de os conservadores pedirem a demissão de Blair há um ano, isso não se devia apenas à sua proximidade com o Partido Trabalhista, mas à fragilidade de sua situação depois de três anos na corda bamba.

Ian Blair chegou ao topo da Scotland Yard em fevereiro de 2005. Com uma formação sólida e gosto pela reflexão intelectual, chegou ao cargo com a fama de defender o Novo Trabalhismo e em especial o então primeiro-ministro, Tony Blair, e sem o carisma corporativo de seu antecessor, sir John Stevens, hoje lord Stevens.

Seu destino começou a ser selado em 7 de julho de 2005. Às 7h15 da manhã desse dia, o chefe da Scotland Yard se vangloriava das capacidades da polícia antiterrorista britânica. Apenas 90 minutos depois, explodiram quatro bombas no transporte público de Londres que causaram a morte de 52 passageiros e de quatro suicidas.

Duas semanas depois, a polícia matou deliberadamente Jean Charles de Menezes, um eletricista brasileiro de 27 anos que havia sido confundido com um terrorista prestes a explodir uma bomba no metrô. Blair, que não tinha os detalhes do caso, disse que Menezes não havia atendido ao policial, o que mais tarde se revelou falso uma vez que o policial não o havia chamado.

Mais tarde vieram as revelações das falhas dos policiais naquela manhã de 22 de julho de 2005, as acusações de racismo lançadas contra ele por dois altos oficiais da Scotland Yard que se consideravam discriminados, e principalmente as acusações de que havia favorecido empresas de amigos seus em licitações de contratos com a Scotland Yard. Todo isso acabou tendo mais peso do que seu elogiado trabalho na luta contra a delinqüência. Exerceu um papel muito mais de político do que de policial. E sua demissão foi mais como político do que como policial.

“Caso Menezes”

A renúncia de sir Ian Blair da chefia da Scotland Yard aconteceu enquanto se desenrola em Londres a quinta investigação sobre a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos, em 22 de julho de 2005, a quem a polícia confundiu com um terrorista e decidiu eliminá-lo para evitar riscos. A polêmica morte de Menezes aconteceu 24 horas depois que quatro suicidas fracassaram em sua tentativa de explodir mais bombas no metrô de Londres. Duas semanas antes, meia centena de passageiros havia morrido em atentados semelhantes.

Depois de uma primeira e vasta investigação, a Comissão Independente de Queixas da Polícia (IPCC em inglês) concluiu que não havia elementos suficientes para abrir uma investigação penal, mas abriu as portas para que a Scotland Yard fosse processada coletivamente por suposto descumprimento da norma de Higiene e Segurança de Trabalho.

A Scotland Yard foi condenada nesse segundo inquérito porque os oficiais não chegaram a estabelecer de maneira firme que o suspeito era a pessoa que estavam procurando.

A IPCC levou a cabo uma segunda investigação na qual concluiu que embora a Polícia Metropolitana houvesse justificado a morte de Menezes nas primeiras horas, baseada em informações que logo resultaram falsas, ela não tentou enganar o público de maneira deliberada. Uma terceira investigação da IPCC rejeitou as queixas da família do brasileiro sobre a maneira que a polícia os tratou.

Agora acontece o inquérito judicial sobre a morte de Jean Charles de Menezes. Se o júri concluir que sua morte foi ilegal, a família poderá pedir uma indenização.

El Pais

Propensa a reabilitar em parte o fascismo, a Itália reforma as cidades construídas sob o regime de Mussolini

Philippe Ridet

Todos eles concordam com o seguinte ponto: “Há dez anos ainda, a nossa iniciativa teria sido impossível”. Na sexta-feira, 26 de setembro, em Latina (na região do Lácio, no centro do país), um grupo de quinze prefeitos e de adjuntos para assuntos culturais está reunido numa pequena sala da sede da província. Eles vieram de Alghero, Aprilia, Pontinia, Sabaudia, Foggia… O que os motiva a participarem deste encontro incomum? Um protocolo de acordo que eles se preparam para assinar, por meio do qual cada um deles se compromete a “trabalhar em prol da valorização do patrimônio arquitetônico e ambiental das cidades italianas de fundação”.

O termo “cidades de fundação” designa na Itália um projeto urbano que foi implantado num território virgem, ou quase. Algumas cidades tais como Pienza (Toscana) ou Sabbioneta (Lombardia), por exemplo, surgiram durante o Renascimento. Mas aquelas que são objetos do protocolo de Latina foram fundadas ou reestruturadas por Benito Mussolini (1883-1945) durante o período do “Ventenio” fascista, ou seja, aquela vintena de anos (1922-1943) durante a qual o “Duce” reinou sobre a Itália.

Essas cidades são ao mesmo tempo o orgulho e o calvário desses eleitos, sejam eles de direita ou de esquerda. No total, existem 143 delas, segundo um levantamento realizado pelo escritor Giovanni Pennachi que lhes dedicou um livro – “Viaggio per le città del Duce” (Viagem pelas cidades do Duce), editora Laterza -. Todas elas carregam como um grande peso morto a idéia de serem a representação arquitetônica da “ordem” fascista, com as suas largas avenidas que conduzem até a sede da prefeitura, a igreja, o quartel e até uma “casa del fascio” (uma das sedes políticas do fascismo).

Contudo, as “città di fondazione” do período fascista também constituem exemplos de uma arquitetura moderna, ambiciosa e, sob muitos aspectos, utópica. Nelas, os seus planejadores tentaram construir uma ponte entre a Roma antiga e as contribuições do Bauhaus, buscando evitar as influências do Renascimento e do Barroco, períodos estes que o Duce considerava como decadentes. Para tanto, eles lançaram mão da simplificação das linhas e da gramática arquitetônica da Antiguidade, e buscaram racionalizar os deslocamentos: “A arquitetura racionalista” também foi motivada por bons sentimentos.

Implantadas, em sua maior parte, em terras que foram conquistadas sobre pântanos, os quais foram então drenados (num processo que foi chamado de “bonificação”), ou ainda, confiscadas dos latifundiários, essas cidades foram colonizadas pelos mais pobres dos habitantes da Península, muitos dos quais eram oriundos da região do Vêneto. Por meio de uma simples sobreposição do mapa das áreas que foram atingidas pela epidemia de malária durante os anos 1920 com aquele da implantação dessas cidades, é possível compreender porque as “città di fondazione” também constituíram uma resposta para um problema de saúde pública, além de uma tentativa para tirar a Itália do subdesenvolvimento.

O que fazer então com este patrimônio dotado de conotações ambíguas? Abandoná-lo aos nostálgicos das camisas pretas (usadas pelos militantes fascistas)? Enterrá-lo nos mais profundos rincões da sua má-consciência? Na opinião de Augusto di Lorenzo, um adjunto para assuntos culturais da prefeitura de Aprilia, uma cidade situada e cerca de sessenta quilômetros ao sul de Roma, trata-se de “oferecer raízes para aqueles habitantes que estejam em busca de uma identidade”. O contexto, contudo, é bastante peculiar. Isso porque um vento revisionista, instigado por uma parte da população que ainda vê com bons olhos certos aspectos do fascismo, está soprando sobre a Itália. Liderado por Gianni Alemanno, o atual prefeito de Roma, ou ainda por Ignazio La Russa, o ministro da Defesa – ambos os quais são membros do partido Aliança Nacional -, este movimento visa a reabilitar o fascismo, tentando absolvê-lo das suas realizações mais condenáveis (as leis raciais, por exemplo).

Fica difícil, nessas condições, para os promotores desta iniciativa, tentar fugir da pergunta colocada pelo historiador de arte Giorgio Pellegrini no prefácio do catálogo de uma exposição que foi realizada em Latina, em 2005: “Será ainda possível ler a arquitetura das cidades de fundação a partir de um ponto de vista renovado, sem sentir o peso das tragédias que se desenrolaram atrás das fachadas de cada um desses edifícios?”, indagava o autor, para então convidar os interessados a superarem os preconceitos “contra essas cidades, hoje consideradas como novas, onde aquela síndrome ideológica já pode ser dada como extinta”.

Os dois principais redatores da Carta de Latina (que em momento algum menciona o nome de Benito Mussolini), o adjunto para questões de urbanismo de Predappio (de esquerda), e o assessor para assuntos culturais da província de Latina (de direita), não oferecem as mesmas respostas para esses questionamentos. Na opinião do primeiro, Giorgio Frassineti, “a história condenou o fascismo. No momento atual, trata-se de promover um patrimônio arquitetônico importante, e nada mais do que disso”.

Mostrando-se mais ambíguo, o segundo, Fabio Bianchi, explica que daqui para frente “a nossa maneira de enxergar o fascismo mudou, e as condições de serenidade já estão reunidas para julgar. Este regime não vivenciou apenas momentos negros”. Por enquanto, os eleitos que integram esse movimento decidiram se unir em torna desta causa comum e já estão vislumbrando as multidões de turistas desembarcando dos ônibus para visitarem as artérias das suas cidades, e partindo à descoberta deste patrimônio um tanto constrangedor.

No que vem a ser um sinal dos tempos, nenhuma polêmica veio perturbar esta iniciativa. Bem que o diário “La Stampa” tentou promover um debate em torno da questão, abrindo suas colunas para o especialista Antonio Pennacchi, para quem “os projetos do fascismo eram melhores que aqueles de Massimiliano Fuksas”, um arquiteto famoso na Itália atual. Mas a tentativa não deu em nada. Ninguém reagiu à provocação. Entrevistado pela reportagem do “Le Monde”, Fuksas recusou-se a alimentar qualquer polêmica: “Não existe nenhum estilo fascista específico, mas sim, apenas uma arquitetura moderna. Muitos chegaram a confundir o arquiteto com o fascista. Esta mistura de historicismo e de Bauhaus era praticada por pessoas cultas”.

Le Monde

Desequilíbrios estruturais do capitalismo atual

A atual crise econômico-financeira internacional se insere no marco de um ciclo longo recessivo, do qual o capitalismo não logrou sair desde seu início

Emir Sader

A atual crise econômico-financeira internacional se insere no marco de um ciclo longo recessivo, do qual o capitalismo não logrou sair desde seu início, em meados da década de setenta do século passado. Sem essa inserção, fica difícil a apreensão do caráter dessa crise, das conseqüências que pode produzir e do cenário que deve surgir depois dela.

Os ciclos e as crises

O capitalismo vive, pela própria natureza do seu processo de reprodução, articulado por ciclos, curtos e longos. Estes coordenam os ciclos curtos, numa perspectiva expansiva, se a curva das subidas e descidas das oscilações curtas apontam para cima, recessiva, se para baixo, conforme a teoria do economista russo Kondratieff, retomada teórica e historicamente por Ernst Mandel.

No segundo pós-guerra, o capitalismo viveu sua “idade de ouro”, segundo Eric Hobsbawn, em que coincidiram virtuosamente a maior expansão concomitante das grandes economias capitalistas – Estados Unidos, Alemanha, Japão -, do chamado “campo socialista”, dirigido pela União Soviética, e por economias periféricas, como o México, a Argentina, o Brasil, com seus processos de industrialização dependente. A economia capitalista não deixou de apresentar seus ciclos curtos de crise, mas cada novo ciclo retomada a expansão e empurrava a economia para patamares cada vez mais altos.

Foi um ciclo longo expansivo comandado por grandes corporações internacionais de caráter industrial e comercial, apoiada por um sistema financeiro em expansão e por grandes transformações na produção agrícola. Um modelo hegemônico regulador – ou keynesiano ou de bem-estar, conforme se queira chamá-lo – incentivava os investimentos produtivos, tendia a fortalecer a demanda interna de consumo, promovia o fortalecimento dos Estados nacionais e a proteção de suas economias.

As crises, como é típico no capitalismo, expressavam processos de super-produção ou de sub-consumo – conforme se queira chamá-las -, refletindo o desequilíbrio estrutural desse sistema entre sua – reconhecida já por Marx no Manifesto Comunista – enorme capacidade de expansão das forças produtivas, mas que se chocam constantemente com sua incapacidade de distribuir renda na mesma medida daquela expansão.

Na sua fase final, o ciclo longo expansivo do segundo pós-guerra viu esse excedente, resultado acumulado da defasagem entre produção e consumo se transformar em capital financeiro – os chamados euro-dólares, que foi aproveitado por países como o Brasil, para reciclar seu modelo econômico, diversificando sua dependência externa e favorecendo a retomada da expansão econômica interna, ainda antes do final do ciclo longo expansivo. Este fator – o golpe militar ainda no ciclo expansivo – diferenciou o cenário econômico brasileiro do dos outros países da região, em que as ditaduras coincidiram com recessão, por já se darem no ciclo longo recessivo do capitalismo internacional.

Que características teve o final desse ciclo e o inicio do novo, de caráter recessivo? Tendo triunfado o diagnóstico de que a estagnação econômica se devia ao excesso de regulamentações, o novo modelo se centrou na desregulamentação, de que as privatizações, as aberturas para o mercado externo, as políticas de “flexibilização laboral”, de ajuste fiscal, foram expressões.

Duas conseqüências mais importantes dever ser recordadas aqui, para entendermos o caráter da crise atual e seus efeitos para os países latino-americanos. A primeira, o gigantesco processo de transferência de capitais do setor produtivo para o especulativo que a desregulamentação promoveu em escala nacional e internacional. Livre de travas, o capital migrou maciçamente para o setor financeiro e, em particular, para o setor especulativo, onde obtêm muito mais lucros, com muito maior liquidez e com menos ou nenhuma tributação para circular.

Configurou-se assim, no modelo neoliberal, a hegemonia do capital financeiro, sob a forma do capital especulativo, fazendo com que mais de 90% dos movimentos econômicos se dêem não na esfera da produção ou do comércio de bens, mas na compra e venda de papéis, nas Bolsas de Valores ou de papéis das dívidas públicas dos governos.

Promoveu-se a financeirização das economias, o que significa, em primeiro lugar, a financeirização dos Estados, cujo primeiro e maior compromisso passa a ser o pagamento das dívidas, isto é, a reserva de recursos mediante o chamado “superávit primário” e a transferência maciça e sistemática de recursos do setor produtivo para o capital financeiro. Grandes grupos econômicos têm à sua cabeça, um banco uma instituição financeira, costumam ganhar mais nos investimentos financeiros que naqueles que deram origem às empresas que os compõem. Grande quantidade de pequenas e médias empresas entraram em processos de endividamento, dos quais não conseguem sair. Outras, assim como consumidores, não se atrevem a buscar empréstimos, pelo medo ao endividamento, com as altas taxas de juros.

O capital financeiro passou a ser o sangue que corre pelas economias dos países, definindo o metabolismo que as preside. Um capital que tem na volatilidade, na sua extrema liquidez, um elemento essencial, inerente, aquele que permite deslocar-se rapidamente para onde pode ter maiores vantagens e, ao mesmo tempo, lhe atribui um grande poder de pressão, diante da fragilidade das economias que dependem estruturalmente dele.

As crises na fase neoliberal

Dessas características decorre o caráter centralmente financeiro das crises no período neoliberal, como ficou evidenciado nas crises mexicana, asiática, russa, brasileira e argentina, entre outras. O setor financeiro canaliza para si os excedentes de capital, produto da defasagem estrutural entre produção e consumo, agudizada na fase atual do capitalismo, em que a elevação da produtividade e a criatividade tecnológica seguiram se aprofundando, ao mesmo tempo que se deram processos de concentração de renda entre as classes sociais, entre países e regiões do mundo.

O poder devastador dessas crises e o potencial de contágio se revelaram da mesma dimensão do tamanho da abertura das economias ao mercado internacional e ao peso que o capital financeiro passou a desempenhar em escala nacional e mundial. O México seguiu sofrendo os impactos da crise de 1994 por muitos anos. O mesmo ocorreu com países do sudeste asiático. No Brasil, a crise de 1999 significou a passagem a anos de recessão, que só recentemente foram superados. Na Argentina a crise teve conseqüências devastadoras do ponto de vista econômico, financeiro, político e social.

São crises que se desatam a partir do elo mais frágil, mais sensível, do processo de reprodução – o setor financeiro -, mas que rapidamente se propagam pelo restante da economia, pelo papel central que esse setor passou a ter e pelos aspectos psicológicos em que se assenta. Não por acaso o segundo livro de Francis Fukuyama se chamou “Confiança”, para denotar como as expectativas, positivas ou negativas, assumem força material no jogo especulativo.

A América Latina foi assim vítima privilegiada dessas crises, que não por acaso atingiram justamente suas três economias mais fortes, que haviam sido exibidas como modelares – a mexicana, a brasileira e a argentina. Nos três casos a crise assumiu a forma de ataque especulativo, de crise financeira, que se alastra para o conjunto da economia. Os capitais especulativos se valem do peso desestabilizador que tem na economia, para fazer valer essa posição, pressionando com uma saída brusca e maciça de capitais, ações governamentais ou simplesmente o jogo do mercado, lucrando enormemente com essas operações.

As crises anteriores tinham como cenários países da periferia, com efeitos que intensificaram a tendência ao enfraquecimento dos paises globalizados e a intensificação da concentração de renda e de poder dos países globalizadores. Mesmo a crise na Rússia poderia ser caracdterizada como a de uma economia tornada periférica, especialmente em meados da década de 1990. A exceção foi a ataque do megaespeculador Georges Soros à libra esterlina inglesa, mas acabou sendo um caso pontual, que não altera a regra general de ocorrência das crises nas periferias.

No seu conjunto, como crises neoliberais, provocaram demandas de remédios neoliberais: mais abertura das economias – como passou fortemente nos países do sudeste asiático -, maior empréstimos do FMI e as correspondentes Cartas de intenção, com aumento dos ajustes fiscais. A economia mexicana recebeu um empréstimo gigante dos Estados Unidos no momento da crise de 1994, inclusive porque se dava no próprio momento em que se assinava o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e do surgimento da rebelião dos zapatistas em Chiapas. Como compromisso, o México usou esses recursos para pagar os empréstimos dos bancos norte-americanos e seguiu aprofundando o modelo neoliberal.

O governo brasileiro de FHC, frente à crise de 1999, elevou a taxa de juros a 49% e assinou a terceira Carta de intenções com o FMI, cujas conseqüências estenderam a recessão por vários anos. Na Argentina, a crise de explosão do modelo de paridade do peso com o dólar, produziu a maior regressão econômica e social que o país conheceu em toda a sua história. O governo de Fernando de la Rua tentou manter o modelo herdado de Carlos Menem e com isso caiu com poços meses do seu mandato presidencial.

A crise atual e suas conseqüências

A crise anterior da economia norte-americano se deu em 2000, quando se desvanecia a ilusão de que a “nova economia” permitiria que o capitalismo não sofresse mais suas crises cíclicas, seja porque a informática permitira prevê-las e permitir que foram evitadas, seja porque novas demandas, como as de computadores, gerariam, da mesma forma que no caso dos automóveis, o lançamento anual de novos modelos, que estenderiam cada vez mais a demanda. Naquele momento, o papel do mercado norte-americano no mundo seguia sendo determinante no mundo, transferindo os efeitos da sua recessão para o resto da economia mundial.

Desta vez a crise norte-americana se dá em um cenário internacional modificado. A continua expansão de países emergentes – entre eles sobretudo a China e a Índia, mas também países latino-americanos, que mantêm ritmos constantes de crescimento, entre os quais particularmente o Brasil e a Argentina – amortece a diminuição da demanda dos EUA e, pela primeira vez, a recessão da economia norte-americana não tem efeitos diretos e devastadores sobre a economia mundial.

Porém, como essa crise se vê agravada com o aumento dos preços dos produtos agrícolas e a continuada crise do petróleo, constituindo-se, na verdade em um triple crise, seus efeitos são mais profundos e extensos do que apenas uma crise cíclica da economia norte-americana. São afetadas então não apenas as exportações para os Estados Unidos, mas também os importadores de energia e de produtos agrícolas, lista que, em uma ou outra proporção, afeta a todos os países do mundo.

No entanto, como todo fenômeno de um sistema marcado pela extrema desigualdade de riqueza e de poder entre regiões e países e dentro de cada país, os efeitos das crises não são igualmente repartidos entre todos. Há ganhadores e perdedores, algozes e vítimas.

Como a crise está em pleno desenvolvimento, seus alcances não podem ainda ser julgados em toda sua plenitude e se dão pugnas para ver quem consegue extrair vantagens, quem trata de perder menos, ainda não é possível saber com precisão os danos em toda sua extensão e quem arcará com eles. É certo que o mundo sairá modificado desta crise até mesmo porque toca em três pontos nodais das relações econômicas e de poder atuais: dinheiro, energia e comida. No entanto, as estruturas de poder, de produção e de distribuição de riqueza reinantes, garantem resultados absolutamente diferenciados para distintas regiões e países como efeito das crises.

Na combinação entre aumento dos preços do petróleo, dos produtos agrícolas e diminuição da demanda dos EUA e da Europa, os países mais pobres, que somam a grande maioria da África, da Ásia e da América Latina, perderão claramente, com fortes pressões recessivas, déficit na balança comercial e aumento do endividamento. Os países exportadores de petróleo e de produtos agrícolas com altas mais significativas, terão suas situações minoradas, mas as pressões inflacionárias não poupam a nenhum país e, com elas, as políticas recessivas voltam a ganhar peso.

Para a América Latina, os efeitos são mais pesados e diretos para os países que seguem dependendo mais fortemente do comércio com os Estados Unidos, o México, a América Central e o Caribe, em primeiro lugar. Em segundo lugar, os países com pautas exportadoras menos valorizadas ou aqueles que tiveram seu ciclo de expansão econômica excessivamente voltada para as exportações, em particular as economias mais abertas, entre elas as que têm tratados de livre comércio com os Estados Unidos, como o Chile, o Peru, além dos já mencionados México, Costa Rica e outros países centro-americanos e caribenhos. Relativamente menos afetados devem ser os países com pautas exportadoras mais diversificadas – seja nos produtos, seja nos mercados -, como o Brasil, em parte a Argentina, e os que participam dos processos de integração regional – seja o Mercosul, seja a Alba. Para estes, as crises são uma oportunidade especial para acelerar e intensificar os processos de integração, de comércio, assim como nos planos financeiro e energético.

Seja pela combinação das crises, seja porque afeta profundamente os Estados Unidos, no momento em que, pela primeira vez, seu peso na economia mundial decresce, o mundo e a América Latina em particular, terão fisionomias distintas, seja acelerando transformações já em andamento, seja dando inicio a novas dinâmicas, passadas as crises – cujas durações e profundidades, ainda não podem ser medidas com toda precisão.

Brasil de Fato

Génese da crise

Alejandro Nadal

A Reserva Federal arrisca-se cada vez mais e agora anuncia planos para comprar dívida de curto prazo às empresas. Isso distorce cada vez mais sua função original e revela a gravidade da situação. A ferocidade da crise, é claro, obriga a uma análise mais cuidadosa sobre a sua génese e a agenda política que lhe corresponde.

Em Janeiro de 1980 o governo estado-unidense autorizou o resgate da companhia automobilística Chrysler, que se encontrava em dificuldades desde 1975 devido à recessão. Os dirigentes da companhia propuseram um plano ao governo para reestruturar a empresa, fechando fábricas, reduzindo salários e cortando benefícios. Tudo isto seria feito com a ajuda da burocracia sindical.

Nos anos seguintes a Chrysler fechou 28 fábricas nos Estados Unidos, despediu 48 mil operários (de um total de 98 mil). Outros 20 mil empregados também perderam o seu emprego. Os mais jovens e militantes foram os primeiros a ser despedidos, ao passo que a burocracia sindical era recompensada. Numa manobra apresentada como exemplo de colaboração entre trabalhadores e empresa, o secretário do sindicato converteu-se em membro do conselho de directores da companhia.

Em Agosto de 1981 o sindicato de controladores aéreos profissionais dos Estados Unidos desencadeou uma greve em busca de aumentos salariais e melhores condições de trabalho. O sindicato estava a violar uma lei que proibia empregados federais de recorrerem à greve. O então presidente Reagan decidiu que isto era uma ameaça para a segurança nacional e enviou um ultimatum: ou regressavam ao trabalho em 48 horas ou seriam despedidos. Só uma minoria obedeceu e foram despedidos mais de 11 mil controladores. O sindicato perdeu seu registo em Outubro desse ano.

Estes dois episódios marcaram o princípio de uma ofensiva profunda contra os sindicatos nos Estados Unidos. O resultado principal foi o declínio dos sindicatos nesse país: entre 1977 e 1997 a percentagem da força de trabalho empregada com filiação sindical passou de 25 por cento a 14 por cento. O grande aliado do capital foi a chamada flexibilização laboral e, em especial, a eliminação de restrições para despedir trabalhadores (o sistema ficou conhecido pela frase hire and fire, contrata e despede). Outra arma contra os sindicatos foi a ameaça de perderem empregos devido ao livre comércio. A retórica das empresas era clara: se os sindicatos não reduzem suas exigências, perderemos a batalha da competitividade, fecharemos e todos sairão perdendo. A burocracia sindical acomodou-se, abandonando a busca de melhores condições laborais para cooperar com os patrões e o governo.

Em resultado, o salário mínimo e os contratuais sofreram uma redução de quase 10 por cento durante o período de 1979 a 1997. Seguiu-se uma modesta recuperação depois de 1998, o que permitiu recuperar o nível de 1979 em 2003. Contudo, a partir desse ano os salários retomaram sua tendência descendente. Ao longo destes anos intensificou-se a precariedade do trabalho e deteriorou-se a qualidade do emprego.

Durante este período histórico verifica-se um extraordinário incremento da desigualdade nos Estados Unidos. Entre 1973 e 1990 a produtividade manteve-se estagnada, mas entre 1995 e 2005 aumentou em 30 por cento. Contudo, os benefícios desse aumento foram para os estratos mais ricos: os 20 por cento mais privilegiados da força de trabalho activa viram seus rendimentos reais aumentar 30 por cento. Ao mesmo tempo, a queda no salário real dos 20 por cento mais desfavorecidos foi de 22 por cento.

Esta perda de poder aquisitivo do salário é parte importante das origens da crise actual, porque teve de ser compensada com endividamento privado para manter níveis artificiais de procura efectiva. Toda uma geração não teve outro remédio senão endividar-se para manter seus níveis de consumo. As bolhas que atenuaram os efeitos negativos dos ciclos de negócios são apenas um aspecto deste endividamento.

O capitalismo estado-unidense reagiu contra o movimento sindical e a classe trabalhadora porque a queda na rentabilidade a partir dos anos 70 obrigou a limitar as remunerações ao trabalho. Deste modo, o sonho americano foi sacrificado no altar do capital. Há muitos dados que permitem documentar o que foi dito, mas tudo isto conduz a outra pergunta: por que caíram os níveis de rentabilidade? Os níveis de capacidade instalada nesta etapa da acumulação do capital sem dúvida estão relacionados com esta evolução da rentabilidade. Mas isto não é suficiente e este tipo de análise só desloca o problema para leva a uma última interrogação: carregará o capitalismo nas suas entranhas a semente da sua própria destruição? A agenda política que decorre desta reflexão obriga a colocar o problema das alternativas ao capitalismo, tema injustificadamente relegado a um rincão obscuro desde há 20 anos.

Resistir

Utopias e ilusões naturais

Francisco Fernández Buey

A cultura européia moderna, desde Thomas More a Ernst Bloch e desde Karl Marx a Herbert Marcuse, passando por Charles Fourier e William Morris, usou a palavra utopía em acepções tão diferentes que não resulta nada fácil a esta altura chegar a uma definição unívoca do termo.

No estudo que publicou há umas décadas sobre utopia e sociedade ideal na literatura inglesa de 1516 a 1700, J. C. Davis se colocou explicitamente o problema. E partiu com uma definição simples e vaga do conceito: sonhos humanos de um mundo melhor. Pois, efetivamente, “sonhos” ou “devaneios” [“ensoñaciones”] são palavras que foram empregadas muitas vezes ao longo da história para caracterizar o que denota ou conota o termo utopía.

Mas se, por uma parte, muitos autores habitualmente qualificados de utópicos se negaram a aceitar que suas antecipações sobre a sociedade do futuro fossem consideradas meros “sonhos” ou “devaneios”, por outra parte, também o conceito de mundo melhor, referido à sociedade em seu conjunto, é impreciso. Já esta observação obrigou a J. C. Davis (e, com ele, a outros autores) a proceder, na hora de definir utopia, por via negativa. O que leva a diferenciar a utopia propriamente dita, ou seja, a utopia que tem sua origem em More, de outros “sonhos”, anelos, desejos ou aspirações a uma comunidade melhor de indivíduos, como o foram a tradição arcádica, a noção de Cucaña na Idade Média, a República Moral Perfeita (vinculada ao rearmamento moral em distintas épocas) ou o que chamamos milenarismo. Partindo dessa diferenciação, o estudioso das utopias inglesas chega à conclusão de que os traços reiterados na visão utópica são três: totalidade, ordem e perfeição; traços que estão, ademais, inter-relacionados.

Ainda que no geral o pensamento político liberal contemporâneo esteja de acordo com a conclusão de J. C. Davis, eu não estou seguro de que estes três traços foram exclusivos do pensamento utópico, sobretudo se se contrapõem, como sói fazer-se, “totalidade”, “ordem” e “perfeição” a espírito ou procedimento científico. Ficaria por ver, em todo caso, se estes mesmos traços são também aplicáveis às utopias que vieram depois de 1700 e que Davis não estuda em seu ensaio, quer dizer, se valem também para as utopias da Ilustração européia e para as utopias do século XIX. Uma lista das utopias como a que propôs Henry W. Targowski (que tampouco é exaustiva, posto que deixa fora várias das utopias sociais do séculoo XIX) dá já uma idéia da complicação do assunto.

Basta pensar a este respeito que vários dos utopistas sociais do século XIX (começando pelo mais conhecido e louvado deles: Charles Fourier) vincularam suas propostas de sociedade futura melhor (quase sempre num sentido socialista, comunista ou libertário) não tanto ao devaneio quanto à ciência, ao que chamavam “verdadeira ciência”, contrapondo suas propostas às da ciência social realmente existente no momento em que escreviam.

Creio, pois, que não convém começar com uma definição. Assim que me limitarei, pelo momento, a uma descrição aproximada que procede de William Morris, um dos últimos grandes utópicos do século XIX. En Um sonho de John Ball, Morris faz seu protagonista dizer algo que resume muito bem o espírito utópico consciente dos limites da utopia: “Examinei todas estas cosas, e como os homens lutam e perdem a batalha, e como aquilo pelo qual lutaram se logra apesar de sua derrota, e como, quando isto chega, resulta ser diferente daquilo que se propunha, e como outros homens lutarão por aquilo que eles se propunham alcançar sob outro nome”.

Eduardo Galeano, outro defensor da utopia em sua acepção positiva, agora já no século XX, traduziu assim esta idéia:

Para que serve a Utopia? / Ela está no horizonte. /Aproximo-me dois passos e ela se distancia dois passos. / Caminho dez passos e o horizonte corre dez pasos mais para lá. /Por muito que eu caminhe nunca a alcançarei. / Para que serve a Utopia? / Para isso sirve: para caminhar.

A utopia nos ajuda a caminhar. Vamos, pois, passo a passo. Uma das idéias que queria argumentar no recorrido histórico que vai a seguir é que o moderno conceito de utopia nasceu da combinação destas três coisas: (a) a crítica moral do capitalismo incipiente (isto é, a crítica da mercantilização e privatização, nas enclosures, do que foi comum, das terras comunais); (b) o propósito de dar nova forma, uma forma moderna alternativa, ao comunitarismo municipalista tradicional, à reivindicação da propiedade comunal; e (c) uma vaga atração pela forma de vida existente no novo mundo recém descoberto (América, 1492), donde se suponha que se mantém a propiedade comunitária e os bons costumes anteriores à mercantilização e privatização das terras comunais e a cujos povoadores se atribuíam hábitos que o autor de Utopia e, em geral, os erasmistas queriam ver implantados também nas sociedades do velho mundo (na Inglaterra, nos Países Baixos, na Península Ibérica, nas cidades da Península itálica).

Há já no nascimento da utopia moderna alguns traços que se conservaram ao longo de três séculos e que se encontram também na reflexão de Bloch sobre o princípio esperança nas décadas centrais do século XX. Estes são: o recordar (mais ou menos saudosista ou melancólico) da comunidade que existiu; a crítica aberta à injustiça e à desigualdade que há no presente; e a atração pela novidade que desponta no recém descoberto ou no recém inventado, precisamente na medida em que este despontar do novo enlaça com o (quase sempre idealizado) bom tempo passado.

Por maiores que fossem as diferenças entre a utopia de More, as utopias ilustradas, a proposta falansteriana de Fourier, o projeto socialista de Marx e, por exemplo, Notícias de nenhuma parte de William Morris (para cobrir um arco de tempo que nos leva até finais do século XIX), em todos estes casos encontramos uma idéia semelhante da dialética histórica, segundo a qual a crítica do existente enlaça a recordação do bom tempo passado com a harmonia, a justiça e a igualdade que se desejam para o futuro.

Há, em troca, outro traço da utopia moreana que nem sempre conservou a orientação irônico-positiva, muito característica, ademais, do espírito e do ambiente erasmista da Europa culta das primeiras décadas do século XVI. A distância irônica com respeito à utopia em nosso mundo não é só consciência da dificuldade de sua realização nesse topos concreto que é nossa sociedade (européia), senão também, muito provavelmente, suspeita racional, fundada, de que às vezes o melhor é inimigo do bom. À diferença dos outros, este traço da primeira utopia renascentista, a ironia distanciada com respeito de sí mesma, se foi perdendo com o tempo para ser substituído, salvo em casos muito excepcionais, pelo espírito declamatório, pelo espírito da tragédia ou pelo pessimismo trágico. Conhecendo a história européia que se estende desde a morte de More através das guerras de religião, das guerras entre classes e das guerras coloniais, parece compreensível que isto fosse assim.

Ao estudar a evolução do conceito de utopia pretendo argumentar nestes ensaios três coisas mais. Uma: que, contra ele se vem dizendo recorrentemente desde 1990, a utopia não morreu. Isso se verá ao final. Dois: que o destino das grandes idéias utópicas (e em geral das antecipações do bom lugar alternativo) da humanidade, ao menos no marco da nossa cultura, parece ser, quase sempre, fazer-se templo, instituição ou realidade político-social em outro lugar, num lugar diferente àquele para o qual as utopias foram pensadas. E três: que ao final da modernidade européia, como nos seus começos, a intenção irônico-positiva é ainda chave para seguir falando de utopia a sério. Tal intenção foi tomando, já no século XX, uma orientação predominantemente paródica: primeiro tomando como objeto o que poderíamos chamar, com Marx, o comunismo basto; logo para distanciar-se do otimismo tecnocrático que deduz o progresso sócio-moral do progresso técnico-científico; e finalmente para apresentar os presumidos efeitos positivos da globalização neo-liberal como um oximoro..

Para conservar a tensão que creio ver entre reafirmação recorrente do espírito utópico e distância irônico-paródica com respeito à utopia porei estes ensaios sob a advocacia de dois poetas: Mario Benedetti e Wislawa Szymborka. Com o mesmo título, utopia, mas com intenção muito distinta, eles escreveram, já no último terço do século XX, dois poemas que nos tocam. E que podem servir para ilustrar rapidamente os extremos entre os que se tem de mover-se.

Szymborka, a poeta polaca, parodia a conversação no Templo da utopia socialista que teve sua origem em Marx, o então ainda chamado “socialismo real”. Em poucas imagens, aí está o essencial do que se pode dizer aos contemporâneos sensíveis sobre o que foi a grande ilusão. Na Polônia. E não só na Polônia:

Ilha na qual tudo se esclarece. / Aí se pode chegar a provas firmes. / No há mais caminho do que aqueles de chegada. / Las zarças se dobram pelo peso das respostas. / Cresce aí a árvore da Suposição Correta / com suas ramas eternamente desenredadas. / E deslumbrantemente reto a árvore da Compreensão /junto a uma fonte chamada Ah, Disso Se Trata. / Quanto mais denso faz-se o bosque, mais amplo aparece / o Vale da Evidência. / Se há alguma dúvida, o vento a dissipa. / O eco de nenhuma voz toma a palavra / e esclarece com entusiasmo os segredos dos mundos. / À direita, a caverna na que se encontra sentido. / À esquerda, o lago da Convicção Profunda. / Do fundo se depreende a verdade e sai sem mais à superfície. / Domina o vale da Segurança Inquebrantável. / Desde seu cimo se estende la Essência das Coisas. / Apesar de seus encantos, a ilha está deserta / e as pequenas pegadas de passos que se vêem em suas margens / se dirigen ao mar sem exceção. / Como se de aí somente se saísse / para afundar-se irremediavelmente no abismo. / Em uma vida inconcebível.

Benedetti, em troca, ironiza sobre o fim das utopias trasladando o velho assunto para o âmbito do privado para dizer-nos (talvez gracejando com Bécquer) que utopia és tú. Isso aqui, do outro lado do mundo. Ou na América Latina. Talvez também na Polônia. Neste mundo nosso, em qualquer caso:

Como vou acreditar / disse o fulano / que o mundo ficou sem utopias / como vou acreditar / que a esperança é u olvido / ou que o prazer uma tristeza / cómo vou acreditar / disse o fulano / que o universo é uma ruína / ainda que o seja / ou que a morte é o silêncio / ainda que o seja / como vou acreditar / que o horizonte é a fronteira / que o mar é ninguém / que a noite é nada / como vou acreditar / disse o fulano / que teu corpo / beltrana / não é algo mais do que o que apalpo / ou que teu amor / esse remoto amor que me destinas /não é o desnudar dos teus olhos / a parcimônia de tuas mãos / como vou acreditar / beltrana austral / que sois tão só o que olho / acaricio ou penetro / como vou acreditar / disse o fulano / que a utopia já não existe / si vós / beltrana doce / ousada / eterna /se vós/ sois minha utopia.

Esta maneira irônico-paródica de colocar o assunto da utopia enlaça bem com o paradoxo que a respeito estamos vivendo atualmente. Nos últimos anos a palavra utopia volta a suscitar muitas simpatias e cada vez se emprega mais em ambientes críticos e alternativos de nossas sociedades; mas ao mesmo tempo suscita grande desconfiança por sua assimilação com o que se supõe realização das utopias sociais imaginadas durante quatro séculos (desde o Renascimento até o século XX). Isso faz que muitas pessoas compartam o uso positivo da palavra utopia em contextos morais ou estéticos enquanto que manifestam uma persistente reserva acerca da utilização da palavra utopia num sentido positivo quando se trata de contextos políticos (ou de ética da coletividade).

Em contextos em que se fala de moralidade individual é difícil negar que a palavra utopia tem e terá um sentido positivo. Se poderia dizer que não houve nem haverá filosofia moral sem utopias, ou seja, sem a prefiguração de sociedades imaginárias mais justas, mais igualitárias, mais livres e mais habitáveis do que as que temos conhecido e conhecemos. A imaginação utópica foi, é e será o estímulo positivo de todo pensamento político-moral, como a veracidade e a bondade são e serão o aguilhão da luta em favor da emancipação humana por muito que, como sabemos, o indivíduo veraz ou bondoso se tenha dado repetidas vezes de bruços com a realidade existente.

O utópico, como o veraz e o bondoso, está indicando sempre aos outros, com seu comportamento, a direção em que seria conveniente mover-se. Pode ocorrer, e de fato ocorre ocasionalmente, que o utópico, como o veraz e o bondoso, equivoque-se de meio a meio em seu estar no mundo, neste mundo; mas inclusive quando erra sobre o presente, o utópico, como o bondoso e o veraz, obriga a torcer a olhada dos que o olham, não sobre seu rosto (porque o utópico não sói ser narcisista nem autista) senão que na direção mais conveniente para la maioria. Não digo mais conveniente para todos porque isso, no mundo social dividido em classes, tem que ser considerado como um impossível ontológico.

Se o mundo das ações político-morais foi algo assim como uma linha férrea, na qual o trem da história se deslocasse linearmente progredindo desde a bondade e veracidade dos indivíduos concretos até melhores formas de sociabilidade coletiva, então não haveria quasei nada mais que discutir acerca da palavra utopia. A maioria aceitaríamos, por razoamento, seu saudável sentido positivo, como aceitamos, em geral, o sentido positivo da bondade e da veracidade. Mas o mundo das ações político-morais não é uma via férrea nem uma autopista; é, mais bem, uma rede de trilhas de montanha que se bifurca, se multiplica e se perde no bosque das inter-relações das paixões individuais e coletivas; uma rede de caminhos de bosque da qual, para o cumolo, sempre existem vários planos concordantes mas distintos, e cujo senda principal sói perder-se, na história da humanidade, por falta de trânsito (ou melhor: porque nem levamos inscritos nos genes a recordação de seus ziguezagues nem somos capazes de transmitir de geração a geração as principais bifurcações e encruzilhadas do mesmo).

Por isso, porque o mundo do político-moral não é uma vía férrea nem uma autopista, a utopia, que é uma boa e sã palavra, indiscutível do ponto de vista da moralidade, resulta insuficiente e ambígua quando passamos ao plano histórico das idéias políticas.

A maioria das pessoas verazes e bondosas que hoje em día se declaram partidárias da utopia crêem estar defendendo de fato uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais habitável e que, ademais — e isto é importante — pode ser realmente realizável algum dia e em algum lugar, ao menos de forma aproximativa, como aproximação a um ideal. Se nos atermos à etimologia da palavra utopia, estas pessoas não são propriamente utopistas, senão que gentes com convicções morais profundas e ideais morais alternativos que lutam por uma sociedade melhor.

Em troca, a mayoría das pessoas que se declaram contrárias à utopia soem defender em nossos meios de comunicação que vivemos no menos mal dos mundos existentes ou no melhor dos mundos possíveis, e que em política não se deve ter ilusões inúteis. Por suposto, estas pessoas não soem entrar a discutir que ilusões são úteis e quais inúteis. Em geral tendem a crer que todas as ilusões coletivas são inúteis.

Uma complicação adicional recente da controvérsia histórica sobre la palabra utopia é esta, a saber: que a maioria das pessoas que hoje defendem que vivemos no menos mal dos mundos existentes, ou no melhor dos mundos possíveis, consideram, ademais, que não está mal que haja utopias e até fomentam a existência de utopistas sempre e quando estes, em seu dizer e, sobre tudo, em seu fazer, aceitem ater-se ao significado etimológico da palavra utopia (não-lugar). Deste ponto de vista, que é hoje em día o ponto de vista dominante, ser utópico está relativamente bem visto a condição de que se confesse ao mesmo tempo que a sociedade alternativa que propõe (mais justa, mais igualitária, mais habitável) não é deste mundo senão que uma sociedade tão imaginária como, por exemplo, la cidade de Babia, o país de Jauja ou a região do Limbo no Día do São Nunca.

Todo utopista que aceite este significado da palavra utopia y simultaneamente dê sinais de ter-se reconciliado com a realidade existente, ou de estar em vias de reconciliar-se com ela, receberá, por sua vez, de todos, ou quase todos, os poderosos defensores do status quo efusivos, e até carinhosos, tapinhas no ombro direito (que é o ombro do outro preferido pelos políticos de profissão para todo exercício de cinismo compassivo).

O fato de que um utópico, declarado ou nomeado como tal por outros, receba dos políticos “realistas” (e conservadores da desigualdade que há) tapinhas afetivos no ombro direito, sempre e quando dito utópico aceite que seu ideal, o ideal que propugna, é realmente uma utopia (algo que não terá lugar nunca) dá o que pensar. Pois prova indiretamente, como se pode provar nestas coisas, que o uso literal da palavra “utopia” na linguagem política se tornou problemática ou irrelevante.

Com a utopia passa em nossas sociedades, em última instância, o mesmo que com ol ateísmo, a saber: que como o significado da palavra o establecem os que mandam (no Estado, não nescessariamente na Academia da Língua), não se pode ser, nem se o propondo, o que se quee ser. Efetivamente, da mesma maneira que o ateu só pode ser agnóstico (pois, por definição dos que mandam nisto, o sem-deus é um impossível metafísico dado que o sem-deus é sempre um buscador de deus, etc. etc.), assim tambem ao utópico só o deixam ser uma destas duas coisas: ou um realista político à força, que simultaneamente crêe nas calendas gregas, ou um receptor de tapinhas no ombro direito que afirma que a utopia não é deste mundo.

Alguns filósofos amigos meus chegaram ultimamente à conclusão de que o tempo das utopias passou. Não estou de acordo. E queria argumentá-lo. De momento posso adiantar isto: esse tempo no passou para os que ainda têm um mundo que ganhar e uma esperança. Em relação com isto, e en polêmica com os dadores de tapinhas no ombro direito do outro, sugiro que há ao menos duas coisas que não se podmn deixar nas mãos dos de cima se , estando a favor dos pobres, deseedados, oprimidos e excluídos da terra, mulheres e varões, se quer que seus atos concordem com seus ditos e pretende fazer, por tanto, algo sério e prático em favor de um mundo mais justo, mais igualitário e mais habitável.

A primeira destas coisas que não se deve deixar nas mãos dos de cima é a definição das palavras. Não só no País das Maravilhas, senão que também aqui embaixo, a capacidade de nomear, de dar nome às coisas, é essencial para conhecer e para mudar o mundo. A segunda coisa que não se pode deixar em mãos dos de cima é a ciência, contrapondo esta à utopía. Renunciar à ciência para ficar com a mera utopia pode ser moralmente saníssimo (sobretudo na época do reconhecimento generalizado dos perigos da tecnociência), mas acaba sendo contraproducente do ponto de vista da ética coletiva.

O que juntei aqui é uma coleção de ensaios sobre a história duma idéia. E como o número de utopias propostas desde Thomas More até a modernidade européia é amplíssimo, parece inevitável, para não se perder, estabelecer um corte e declarar preferências. Aqui não estão, obviamente, todas as utopias européias modernas. E algumas das obras das que me ocupei, sobre tudo ao chegar ao século XX, são utopias negativas ou distopias. O título aponta para isso: inclui a palavra ilusões porque lendo várias destas obras me fui convencendo de que nem ssquer a distopia ou utopia negativa pode prescindir das ilusões, ao menos daquelas que Leopardi chamava naturais. O fio do novelo que vou puxar ao fazer a seleção será o paradoxo que historicamente acompanha a noção de utopia. Por isso, entre as várias questões possíveis que poderiam ser desenvolvidas em relação con a evolução do conceito de utopia, proponho-me a prestar atenção às seguintes.

Primeiro estudarei que foi o que soemos chamar utopia antes de que a modernidade européia cunhasse essa palavra: a utopia antes da utopia. Nesse apartado incluí dois ensaios sobre duas noções que discorriam quase juntas na segunda mitade do século XV: cidade ideal e profetismo. Tratarei de mostrar aí como em ambos os casos, ao imaginar a cidade ideal e profetizar uma nova Jerusalém, a afirmação de o que deve ser e o que habitualmente chamamos realismo não só não andavam às turras senão que saltavam à palestra juntos e, ademais, em relação intermitente com o idealismo filosófico-moral renascentista.

Depois vou entrar na análises da primeira utopia propiamente dita, a formulada por Thomas More. O ângulo do cual me proponho a oilhar essa utopia vai ser o estupor que produziu o primeiro encontro entre Europa e América. Sin dúvida há mais coisas na utopia de More, mas isto que digo parece-me essencial: imaginar o que devia ser a América recém descoberta pelos europeus para chamar a atenção sobre o que perdemos no velho continente e poderíamos talvez recuperar. O paradoxo, neste caso, é que umas décadas depois que o livro de More viesse à luz, outro europeu, Vasco de Quiroga, se propos nada menos que a realização de sua utopia em outro lugar, naquele lugar que, de certo modo, haviía inspirado a reflexão sobre o bom lugar que poderia ser a Europa.

No ensaio seguinte, ocupo-me de várias utopias que têm a ver com o trânsito do Renascimento ao Barroco e que conectam já com a época das revoluções científicas. O que queria argumentar nesta parte, para adiantar uma hipótese, é que utopia social e ciência política, simbolizados por More e Maquiavel, foram dois enfoques paralelos do pensamento europeu da modernidade, dois enfoques que nasceram com ela, com a modernidade, e que parece que a acompanharão até sua morte. Volta aí o paradoxo, ainda que o paradoxo agora é de outro tipo: a utopia que dá a boa vinda à ciência moderna, à análise e à anatomia, o faz com argumentos religiosos; e a utopia que se quer idealmente republicana se faz realmente monárquica.

Das várias coisas interessantíssimas que pode sugerir o rótulo “utopia e ilustração” me ocuparei só no comentário de alguns dos temas possíveis relacionados com as utopias que nos deixaram como herança o projeto moral da Ilustração: autocrítica, por via paródica, da presunção eurocentrista; tolerância no encontro entre culturas e religiões; abolição da pena de morte e da tortura; e paz perpétua. O fio condutor desse ensaio é a observação de algo que, desde uma noção estrita e restringida de utopia, volta a ser um paradoxo: nem a postulação da tolerância nem a reflexão sobre a paz perpétua foram apresentadas na forma de utopia, ainda que de ambas as coisas se dissesse que eram utópicas; a Beccaria, autor do opúsculo Dos delitos e das penas, chamou-se-o de utópico e ainda por cima socialista, quando não era nenhuma das duas coisas; e a melhor autocrítica da presunção eurocentrista a encontraremos numa utopia ao reverso, numa sátira, que acabou convertida em livro de aventuras para crianças.

Ao tema “utopia e socialismo” dediquei dois ensaios. Neles pretendo explicar porque a utopia ilustrada deriva para o socialismo e o comunismo no século XIX, como a utopia se foi convertendo num conceito desonrado (já antes de sua suposta realização) e até que ponto há que considerar responsável de tal desonra a aquela pretenção do socialismo que consiste em passar definitivamente da utopia à ciência. Creio que nessa passagem está a chave para entender bem o que diz Szymborska em seu poema. Mas também para entender por que a utopia socialista alcança seu auge em duas obras literárias que, sem desprezar ciencia y técnica, afastam-se da infatuação cientificista: Notícias de nenhuma parte, de William Morris, e Chevengur, de Andrei Platónov.

Os dois ensaios seguintes estão dedicados a discutir a tese, muito difundida no âmbito da história das idéias, segundo a qual a partir de Um mundo feliz e de 1984 a distopia passou a ocupar, no século XX, o lugar que durante séculos anteriores fora ocupado pela utopia. Estes dois ensaios se baseiam numa leitura bastante detalhada de algumas das principais peças representativas da ciência-ficção e da futurologia, desde Zamiatin e Huxley a Le Guin, e desde Orwell a Philip K. Dick e Stanislaw Lem. Aí tratei de mostrar que nem sequer nos piores momentos do mundo bipolar que saiu da segunda guerra mundial se perdeu o espírito utópico. A idéia que desenvolvo nestes ensaios é que não se deve ler as distopias do século XX na chave anti-socialista, senão que miss bem na chave anti-ideológica, isto é, como críticas, precisamente, do mundo bipolar e do que as duas ideologias em confronto tinham em comum. Nem se queira que nesse mundo em que se produziu as principais distopias do século XX se perdeu toda a esperança; só que a esperança restante teve muito a ver, de novo, com a renovação da ironia e da paródia num âmbito que enlaça a literatura com o filosofar.

Finalmente, e ainda que seja de forma tentativa, no ensaio que encerra este livro abordei o discutido assunto do final da utoiía. É este um tema que nos deixou como herança Herbert Marcuse em 1967-1968 e que logo, desde 1990, se colocou em numerosas ocasiões ainda que com uma orientação muito diferente já da marcusiana. Umas vezes desde a perspectiva da ingenharia social fragmentária e outras desde a consideração de que utopia social e totalitarismo são necessariamente sinônimos, se vem mantendo nos últimos tempos que o único campo que ficaria livre para a expressão da utopia no século XXI é o estético. Para mim, isso é uma meia verdade que oculta uma parte importante da verdade e choca contra fatos cada vez mais sólidos. A reflexão sobre o sentido sócio-político da utopia voltou nos começos do século XXI, sem que se a esperassem. E voltou pela mão do que hoje se chama movimento dos movimentos. De manera que talvez se possa dizer que depois dos desastres do século XX a utopia perdeu sua inocência, mas não sua vigência.

Socialismo e Liberdade

O padrão de vida do trabalhador brasileiro

Waldemar Rossi

Os meios de comunicação vêm afirmando que o padrão de vida do povo brasileiro tem melhorado nos últimos anos. E os defensores do modelo governista usam isso para defender o governo Lula dos que se opõem às suas diretrizes políticas. Seria verdadeira essa afirmação de que há melhor padrão de vida para o povo? A inclusão no mercado de trabalho de uma parcela que esteve desempregada anos atrás é um indicativo dessa melhora? Pois é isso principalmente que se afirma por aí.

Entretanto, segundo os dados fornecidos pela Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (PNDA), o salário-mínimo (SM) tem sido o teto do ganho para mais de 25 milhões de trabalhadores brasileiros, o que implica em que muitos desses 25 milhões (27,55% dos que são considerados em idade de trabalho – PEA) ganham menos que esse mínimo. Porém, em 2001 eram 18 milhões os que estavam dentro desse limite.

Portanto, muito mais trabalhadores entraram na rede dos sub-assalariados. Isso se pudéssemos considerar o atual mínimo como o salário que satisfaz as necessidades básicas de uma família padrão (casal e dois filhos menores), como estabelecido por lei.

Avançando na análise dos dados, vemos que há uma outra parcela que está um pouquinho melhor que a primeira. São os que ganham até 2 mínimos. Em 2001 eram cerca de 16,6 milhões. Hoje são praticamente 28 milhões (30,8% do PEA). Aqui também houve crescimento do número dos que entraram nesta faixa um pouco menos ruim que a primeira.

Outro dado a ser considerado é que cerca de 8% apenas têm rendimento entre 2 e 3 mínimos, isto é, até no máximo R$ 1.245,00. Há, ainda, pelo menos 9,4 milhões que declararam não ter rendimento algum.

Como contradição, a pesquisa revela que são apenas 750 mil cidadãos que têm ganho superior a 20 mínimos, portanto, acima de R$ 7.600,00 mensais.

Somando todos esses dados fornecidos, chegamos à conclusão de que mais de 72% dos trabalhadores brasileiros têm rendimentos baixos, insuficientes, portanto, para a manutenção de uma família padrão e em conformidade com os direitos básicos universalmente reconhecidos e recomendados. Para que o leitor possa ter idéia do que isso significa, devemos retomar as informações do DIEESE de que o salário mínimo, de acordo com a lei em vigor, deveria ser algo em torno de R$ 1.950,00.

Os dados da PNAD não revelam se esses que migraram de uma faixa para a outra tiveram melhoria de vida ou se seus salários foram rebaixados, jogando-os para as faixas menos favorecidas. Pelo que significam numericamente, tudo leva a crer que migraram para baixo, pois a rotatividade da mão-de-obra das últimas três décadas tem sido altíssima e, segundo todas as pesquisas, a cada novo emprego o trabalhador tem que amargar com um novo rebaixamento do seu ganho mensal.

Já dizia um “presidente” militar dos tempos da ditadura: “O Brasil vai bem. O povo vai mal.” O Brasil capitalista vem crescendo, ainda que em índices inferiores ao necessário. Mas a renda socialmente produzida não é compartilhada. Vai para as mãos dos banqueiros e demais empresários nacionais e internacionais, ou para as mãos dos latifundiários exportadores, desses que exploram seus funcionários até com trabalho escravo. O que muitos não querem ver é que o padrão de vida do povo vai sendo progressivamente nivelado por baixo, até que sejamos todos párias nessa sociedade excludente e marcada pela barbárie praticada pelos poderosos, todos comandados pelo neoliberalismo internacional.

Correio da Cidadania

Não Existe Um Povo Brasileiro

Mário Maestri*

A cultura, língua, história, tradições, etc. luso-brasileiras não podem e não devem ser tidas como as únicas do Brasil. Isso constitui desrespeito e agressão às outras nacionalidades do país, sobretudo porque, sendo essa nação “um país típico de imigração”, “não existe”, no frigir dos ovos, “um povo brasileiro”, mas um “Estado brasileiro, no qual vivem diversos povos”, descendentes de lusitanos, de alemães, de italianos, de africanos, etc. O Brasil deve “servir de pátria” para “todos os povos” de sua terra.

O Estado brasileiro não deve assegurar privilégios, mas garantir a todas os grupos étnicos que constituem a comunidade nacional, “equivalentes e equiparados” direitos de língua, cultura, escola, etc. O reconhecimento ao ensino da história singular de cada comunidade constitui elemento fundamental, “porque somente então” cada uma delas “se reconhecerá como um fator que faz história, e saberá se libertar da sua posição de inferioridade [...].”

O monopólio político do “luso-brasileiro” deve dar lugar à representação dos diversos grupos étnicos, já “que nada há, neste mundo, que não tenha sido criado pelos homens – e mesmo que no momento pareça solidamente construído – nada há que não possa ser [...] reconstruído pelos mesmos.” “Brasilidade é e somente pode ser o sentimento de profunda união com o solo [...] e a nação brasileira, [...], sem nenhuma tendência de imperialismo étnico por parte de qualquer etnia isolada”, já que o Brasil deve “servir de pátria” “para todas as raças e todos os povos representados no país” e não apenas ao luso-descendente.

Essa proposta de democratização do Brasil, através de sua racialização, ou seja, do reconhecimento dos direitos de expressão, organização e representação singular dos diversos grupos étnicos que integram a comunidade nacional, que sintetizamos, foi apresentada, em Benneckenstein, em 19-22 de março de 1937, no 3º Congresso Anual do Círculo Teuto-Brasileiro de Trabalho de Berlim, na Alemanha nazista. [1]

Destaque-se que esse programa racista procuravam interpretar direitos democráticos efetivamente desrespeitados, sobretudo das comunidades rurais teuto-brasileiras do sul do Brasil, mantidas, mais ou menos, nos cem anos anteriores, com destaque para o período imperial, em inferioridade lingüística, cultural e política, apesar de importante contribuição à sociedade nacional.

A retórica racial nazista enfatizava, corretamente, o monopólio luso-brasileiro, absolutizando as aparências raciais e desconhecendo as essências sociais. Literalmente soterrava o fato de que o monopólio era exercido prioritariamente por classe dominante com luso-ascendência, e não por aquela comunidade como um todo. Essa interpretação racial da realidade social era imprescindível à conquista nazista do direito de representação dos teuto-brasileiros, no contexto de novas instituições nacionais que mantivessem a velha ordem classista, também em relação à comunidade explorada de origem alemã.

A retórica racista encobriu sempre a militância anti-social nazi-fascista. O poder fora entregue pelo capital, na Itália, ao fascismo, em 1922, e na Alemanha, ao nazismo, em 1933, para jugularem o movimento operário que assaltava a ordem capitalista, restaurando hegemonia e dominação fraturadas. No Brasil e no mundo, as propostas de racialização almejavam substituir os interesses comuns dos explorados por identidades fantasmagóricas de etnia, consolidando e não superando a opressão de classe.

O fato de que essa proposta impugnava a construção-consolidação de Estado-nação brasileiro, mesmo sob hegemonia das classes dominantes nacionais, então em fortalecimento, explica o comportamento contraditório dessas últimas, expresso pela ditadura de Getúlio Vargas – simpatia ideológica ao nazi-fascismo e repressão à sua organização e desenvolvimento no Brasil.

O programa de racialização nazi-fascista foi combatido pela política de nacionalização autoritária do Estado Novo [1937-45] e superadas com a derrota do Eixo, em 1945. Sobretudo, foi ultrapassado pela integração das comunidades de descendentes de italiano e alemães e com o fortalecimento do Estado-nação ensejado pelo empuxe nacional-desenvolvimentista. Nos dias atuais, também no Brasil, a mundialização capitalista enseja a retomada das propostas de racialização, como meio de fragilização do movimento social e dos vínculos nacionais dos Estados periféricos.

Nova E

Prazer, sou deprimida

Recheado de expressões joviais que celebram as “delícias” da vida monitorada por medicamentos, texto apresenta depoimentos triunfantes de consumidores de antidepressivos

Maria Rita Kehl

“Muito prazer, sou uma F34.1”. Assim a jornalista Cátia Moraes, autora de Eu tomo antidepressivo, graças a Deus!, lançado pela editora Record, manifestou o alívio que sentiu ao encontrar, na lista de sintomas elaborada pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da Organização Mundial de Saúde (OMS), a descrição dos transtornos de humor que “explicavam” sua depressão.

A frase não é tão irônica quanto parece. A depressão, que muitos analistas e sociólogos consideram o sintoma mais expressivo das contradições sociais do século XXI, tornou-se, com o aval da ciência, uma prótese de identidade para os sujeitos perdidos entre as referências voláteis do mundo contemporâneo.

Por isso mesmo, é uma doença com enorme potencial de mercado. Se os deprimidos incomodam por sua inapetência para a grande festa do consumo que anima a vida social no mundo industrializado, seu apetite por novas medicações vem alavancando as vendas da indústria farmacêutica, que crescem em torno de 22% ao ano no Brasil, e movimentam anualmente US$ 320 milhões de dólares.

Do ponto de vista da psicanálise, a depressão resulta do empobrecimento da vida psíquica, sobretudo no que se refere à possibilidade de enfrentamento de conflitos. O abuso de soluções medicamentosas acaba por ser cúmplice desse encolhimento subjetivo. Daí que o avanço mercadológico dos antidepressivos não corresponda a uma diminuição dos casos de depressão. Bem ao contrário: a supressão química do sujeito do inconsciente só faz aumentar o mal-estar. A introspecção, a tristeza, o recolhimento, a contemplação – a vida do espírito, enfim – são desvios que atrapalham o rendimento de uma vida cuja qualidade se mede por critérios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.

Observa-se um estranho conluio entre a medicina e a doença: a auto-identificação do deprimido responde às novas estratégias de vendas dos laboratórios farmacêuticos. Folhetos explicativos, editados pelos laboratórios e pelo Ministério da Saúde, alertam para os perigos desse mal insidioso e orientam o leitor a detectar os primeiros sinais da doença, em listas de sintomas tão abrangentes que praticamente qualquer um pode se incluir nelas. A propaganda estimula o autodiagnóstico – a busca do medicamento é mera conseqüência.

O livro de Cátia Moraes arremeda esta estratégia. Admito, de boa-fé, que a autora não tenha escrito sob encomenda de nenhum fabricante de antidepressivos. Mas não faz diferença; o livro é uma peça publicitária. Escrito em estilo “pra cima”, recheado de expressões joviais que celebram as delícias da vida monitorada por antidepressivos, o texto alterna depoimentos triunfantes de consumidores de remédios com capítulos informativos ao estilo dos panfletos dos laboratórios farmacêuticos. A começar pela superficialidade: cinco páginas explicam o que é neurociência, dez páginas resumem o que são e como agem os antidepressivos, outras seis relatam os milagres da “eletroestimulação”, oito enumeram os “transtornos de humor ou afetivos” – as quais incluem praticamente todas as manifestações de dor psíquica –, e por aí vai.

O texto todo exala o entusiasmo dos convertidos. Os casos “clínicos” parecem inspirados nas antigas propagandas de fortificantes ou remédios para emagrecer, na base do “eu era assim/fiquei assim”. Como toda boa estratégia publicitária, a argumentação da autora não deixa de contemplar possíveis argumentos críticos. Noblesse oblige, a “psicoterapia” é recomendada como valor agregado ao tratamento medicamentoso, sem nenhuma consideração efetiva que relacione a depressão com o conflito inconsciente e o desejo. Para quê, afinal? Ao reduzir o sujeito a uma somatória de transtornos de comportamento, o desenvolvimento de medicamentos cada vez mais especializados, não só dispensou a psicanálise como tem provocado uma falência teórica no seio da própria psiquiatria, que abandonou a produção de teorias sobre as doenças mentais.

Mente Cérebro

Na Colômbia, é tempo de trocar as fichas de um jogo macabro?

ANÁLISE Uribe entra em crise com as elites que lhe sustentam. Mudar, para deixar tudo como está, pode ser o caminho da oligarquia

Simone Bruno

O GOVERNO de Álvaro Uribe faz parte de um processo que começa antes dele e não terminará com ele. A presidência atual não existiria sem três fatores: Estado paramilitarizado, um conflito e uma guerrilha. E todos não são mais que instrumentos de um projeto que os inclui e tenta controlálos e manipulá-los.

O conflito
Os confl itos armados geram refugiados, mas essa interpretação deve ser invertida no caso colombiano, no qual os deslocamentos forçados são a origem do processo. A terra dos indígenas, afrodescendentes e camponeses é a razão da guerra.
As oligarquias rurais – uma das mais reacionárias do continente – e as empresas nacionais e transnacionais, com seus aliados paramilitares e narcotraficantes, sonham em apropriar-se do generoso solo e subsolo.
Para que isso aconteça, são necessários Estado ausente e existência de um conflito. Ambas as condições sempre existiram na Colômbia.
A guerra justifica a violência, confunde agressões e resistência em uma nuvem cinzenta, transforma sindicalistas, movimentos e ativistas em subversivos e converte a repressão por meio da força em algo aceitável por uma sociedade acostumada com ela, como um mal endêmico que não se pode curar nunca.
O conflito é permanente, o inimigo, necessário: aos paramilitares, seguem os “grupos emergentes”; ao cartel de Medellín, o “escritório” de “Don Berna”; as próprias Farc podem se dissolver em uma série de pequenos exércitos regionais a serviço de narcotraficantes. Acabam-se os grupos, mas não as condições em que eles foram gerados. Assim, perpetua-se o conflito para que sempre exista um inimigo.
Todos são fichas em um jogo de guerra que legitima os abusos, a expulsão, a repressão e a reprodução da classe dominante.
Isso vem sendo denunciado por muitos dos movimentos sociais colombianos que viveram a guerra na própria carne, pagaram com mortos sua resistência ou simplesmente sua existência. Mas, agora, pela primeira vez, uma engrenagem se rompeu e as relações entre as elites rurais, os paramilitares e a esfera empresarial saíram à luz do sol.

O paramilitarismo
Em maio de 2006, a Corte Constitucional transformou a Lei de Justiça e Paz, legislação que regulamenta o processo de paz dos paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) com o governo Uribe. A sentença tornou abrigatória a confissão total dos crimes por parte dos paramilitares que quiserem ter penas máximas de oito anos. Antes, na versão presidencial da lei, a confissão era facultativa.
Por isso, os chefes se viram obrigados a contar ao mundo a história da paramilitarização colombiana. Nada novo, só que dessa vez são as bocas dos carrascos, e não os gritos das vítimas, que contam as mesmas histórias, as mesmas relações com políticos e empresários, os mesmos massacres. Paradoxalmente, os carrascos têm sido mais escutados que os massacrados; e a justiça parece acreditar mais neles.
Dessas versões livres, desencadeou o escândalo da parapolítica: 70 políticos, entre parlamentares e senadores investigados pela Corte Suprema de Justiça por compra e venda de votos e pela criação, financiamento e apoio aos paramilitares da AUC (provavelmente o grupo mais sangrento da América Latina).
Quase a metade desses representantes está presa e 10 confessaram seus crimes. A maioria dos investigados pertence a partidos que apóiam o presidente, dentre eles, o seu primo, Mario Uribe, companheiro político desde o início da sua carreira.
Das versões livres, pode-se desvelar o segredo fundador dos grupos paramilitares, sua função e, de forma geral, as dinâmicas do conflito colombiano. Os “paras” nada mais foram do que fichas nas mãos das elites, uma criação dela, um ator endógeno ao Estado, um instrumento de repressão aos protestos, principalmente sindicais, para poder expulsar os camponeses e seguir uma nunca acabada contra-reforma agrária.
Éver Veloza, o chefe paramilitar conhecido como H.H., diferentemente dos outros líderes, ainda não foi extraditado para os Estados Unidos. Suas versões livres e suas entrevistas para os diários Espectador e Washington Post são fundamentais para entender o papel dos “paras”. Ele afirma, assim como muitas organizações de vítimas e defensoras dos direitos humanos, que a extradição dos outros chefes paramilitares é uma estratégia para enterrar verdades incômodas.
H.H. fala também sobre o papel dos paramilitares no conflito colombiano, a razão do conflito e quem se beneficia com ele. “Veja como estamos. Na prisão, outros extraditados e outros estão se rearmando por falta de oportunidades.
A maioria de nós não está na guerra por vontade própria, mas sim porque não há o que fazer. A guerra virou uma bolsa de emprego. Faltaram mais compromissos do governo para oferecer condições aos rapazes que se desmobilizaram. Nas cidades, não encontraram nenhuma condição. [...] É preciso falar a verdade: dessa guerra, só se beneficiaram os ricos. Nessa guerra, perderam os pobres e nós, que estamos presos.
Nós fizemos mortos e fizemos morto ao povo. Mas os ricos se benefi ciaram. É preciso contar a verdade para que essas pessoas não continuem usando a guerra para se beneficiar economicamente”.
Se a parapolítica está levando à luz a rede de relações entre paramilitares e políticos, o capítulo das relações deles com o mundo empresarial está apenas começando. A única exceção é a transnacional Chiquita Brands, que aceitou acusação de ter financiado a AUC em um tribunal federal dos Estados Unidos.
H.H. conta como se gastava esse dinheiro e por qual razão uma empresa estrangeira pagava um grupo terrorista internacional: “Chegamos para recuperar o controle em Urabá, já que paralisações prejudiciais às empresas vinham acontecendo. Quando chegamos a Urabá, em fevereiro de 1995, não houve mais nenhuma paralisação. Isso porque eu, pessoalmente, obrigava as pessoas a trabalhar. Em benefício de quem? Dessas empresas exportadoras”.
H.H. declarou-se culpado de, pelo menos, 3 mil homicídios, mas será extraditado aos Estados Unidos, que o acusam por ter exportado e distribuído “5 ou mais quilos de cocaína”.

A guerrilha
As Farc assumiram um papel político fundamental nos últimos anos, entretanto este foi o oposto àquele que provavelmente proporiam.
Os atentados que precederam as eleições de 2002 e a ruptura das negociações com o governo de Andrés Pastrana empurraram à vitória o candidato da opção militar, Uribe. Rapidamente, cada uma das numerosas derrotas da guerrilha contribuiu para tirar o governo das suas piores crises. Além disso, reforçaram na opinião pública a concepção de que o governo ia por um bom caminho, e da necessidade da perpetuação de Uribe no poder. Essa mesma série de derrotas é a que mantém os índices de popularidade do presidente em níveis inverossímeis. Se as Farc não existissem, o governo teria que lidar com os problemas reais do país, como as altas taxas de pobreza e desemprego.
As Farc, também, atravessam um momento de incrível dificuldade, depois de ter recebido os golpes mais duros de sua história. Desacreditada frente à população, isolada internacionalmente, inclusive no campo militar, ela tem sofrido importantes derrotas. Em março, morreram três integrantes do secretariado:
Raúl Reyes, Iván Ríos e o histórico chefe Turofijo, que faleceu provavelmente de causas naturais. Além destes, caíram alguns membros médios fundamentais.
Com relação à inteligência, o Estado colombiano tem demonstrado uma superioridade abismal graças à cooperação e ao treinamento de exmilitares israelenses e estadunidenses. Histórias, como o anúncio da morte de Tirofijo pela boca do ministro da defesa, Juan Manuel Santos, demonstram o que já se sabia: as diferentes frentes estão isoladas e atualmente as comunicações estão restritas aos correios humanos.
Mas é preciso considerar que, nos últimos 40 anos, as manchetes de jornais que dão as Farc por acabadas são capazes de cobrir toda a Plaza Bolívar, no centro de Bogotá. O grupo guerrilheiro conta ainda com uma estrutura burocrática praticamente intacta, hierarquia de comando – nova, mas em pé e reconhecida – e milhares de homens armados. Se o Estado continuar dando fortes golpes militares, existe a possibilidade de divisão do grupo guerrilheiro em frentes separadas de alcances regionais, sob o comando de pessoas sem ideologia, guiadas somente pelos enormes lucros do narcotráfico e dispostas a fazer alianças com paramilitares ou cartéis de droga. Do ponto de vista de resolução do conflito, seria evidentemente melhor negociar com uma guerrilha unida e ideológica do que com uma dezena de bandos armados.
O novo comandante das Farc é Alfonso Cano, que é símbolo de uma mudança fundamental: o novo secretariado, com a exceção de “Mono Jojoy”, já não é composto por velhos camponeses que pegaram em armas para se defender na época da La Violencia, mas sim por um grupo de ex-estudantes universitários que preferem o aspecto político, uma geração urbana, com mais formação política, acadêmica e cultural. De imediato, por essa imagem que o acompanha, é possível que os primeiros atos das novas Farc sejam de tipo militar, para convencer as tendências mais militaristas da legitimidade dos novos líderes.
Com efeito, uma série de atentados recentes, aparentemente imputados às Farc, parecem comprovar essa teoria. O início de uma nova temporada de negociações a curto prazo não será automático. É mais fácil que a guerrilha se retire para as áreas onde ainda mantém maior controle territorial, metabolize as derrotas e estude novas táticas, mais efetivas, para o cenário atual.
Na organização, provavelmente debate-se se é necessária uma negociação em curto prazo para se reorganizar – o que seria útil também para o Estado aproveitar as vatagens acumuladas e provavelmente não sustentáveis a longo prazo – ou se prepara- se para um projeto de longo prazo para as próximas décadas, tendo em conta que a atual ofensiva militar fundase em dois pilares que não podem durar para sempre: o dinheiro do Plano Colômbia e um gasto militar de 8% do produto interno bruto (PIB).

Uribe e o pós-Uribe
O futuro político de Uribe depende da resitência da coalizão que o apóia. Enquanto por esses dias foram apresentadas 5 milhões de assinaturas para chamar um referendo que permitiria um terceiro mandato presidencial, Uribe ainda não se pronunciou sobre essa possibilidade.
Em meio a escândalos, o mandato de Uribe sobrevive somente graças aos altos índices de popularidade, algo que parece cada vez mais com uma bolha de popularidade. Nos últimos meses, a aprovação que os cidadãos têm do país e do governo diverge da do presidente. Os primeiros começam a mostrar uma falta de confiança no futuro e no Executivo, enquanto a provação do presidente segue subindo. Na última pesquisa trimestral do Gallup Colombia, evidencia-se como o país pede, em sua maioria, uma negociação com as Farc e se mostra preocupado por sua situação econômica mais do que com segurança. O risco para o presidente é que, cedo ou tarde, os colombianos relacionem o fato da sua vida estar piorando com quem nada faz para que melhore.
Alguns setores do uribismo, sobretudo os industriais, estão procurando um cenário pós-Uribe; ou um uribismo como uma cara apresentável frente a uma possível presidência de Barack Obama nos Estados Unidos e frente aos vizinhos latino-americanos. Os empresários não se esquecem dos custos econômicos das crises com os países vizinhos, principalmente com a Venezuela, único país que compra manufatura colombiana.
O comércio entre os dois países cresceu 40% no último ano, e uma crise teria efeitos ainda mais graves sobre a economia colombiana, a qual está entrando em uma fase de recessão. Outro tema é o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos, cuja aprovação está suspensa em um Congresso de maioria democrata, por temas relacionados ao atropelo dos direitos humanos por parte do Estado colombiano. Parece difícil uma aprovação do TLC enquanto Uribe for presidente.
Existe então um aparente contra-senso: o presidente experimenta índices de popularidade tão altos que aqueles que o levaram ao poder procuram alternativas. De um lado, as elites rechaçam as aspirações plebiscitárias do presidente, que se aproxima demais do modelo de Alberto Fujimori no Peru, um mandatário tão forte que tira a capacidade da própria elite de negociar.
Quando precisa negociar acordos, as associações preferem fazê-lo com um partido, e não apenas com um só homem, ainda menos se este é tão popular quanto Uribe. Por outro lado, essas entidades são historicamente institucionalistas e respeitosas da forma da democracia colombiana, modelo que deve parecer perfeito, se não quiserem que o conteúdo o seja. Os seguidos escândalos e as crescentes brigas do presidente com outros poderes institucionais fazem tremer essa forma da democracia colombiana. Uribe e os paramilitares eram, então, parte de um mesmo projeto oligarca. Ambos já não são mais úteis.
É tempo de mudar as fichas para manter o mesmo jogo, o jogo de uma oligarquia necrófila que vive agachada sobre os sepulcros dos camponeses e que se alimenta de seus cadáveres, dor e massacre. Grupos emergentes e Juan Manuel Santos à presidência?

Brasil de Fato

Gigantes

As maiores árvores do mundo crescem na Califórnia, perto da divisa com o Oregon

MARCELO LEITE

Galgar uma torre de pesquisa na floresta amazônica e assomar ao topo do dossel, 50 metros acima do solo, é experiência recomendável para qualquer pessoa. Não há ali espaço para ufanismo, porém, nem num 7 de Setembro: não são elas as árvores mais altas do mundo. Tinha uma vaga noção disso, depois de visitar o Parque Nacional das Sequóias, na Califórnia (Estados Unidos), e a General Sherman, com seus 84 m de altura, maior árvore do mundo em volume de madeira (quase 1.500 m3).
Mas não sabia que outras sequóias vão muito além dela. Para descobrir, foi preciso ler o livro “As Árvores Gigantes”, de Richard Preston (Editora Rocco, 336 págs., R$ 43,50). Ali se aprende que a General Sherman e suas irmãs confinadas à Serra Nevada pertencem à espécie Sequoiadendron giganteum. Verdadeiras tampinhas, perto das primas costeiras, Sequoia sempervirens. As maiores árvores do mundo em altura crescem no norte da Califórnia, perto da divisa com o Oregon. Chegam a alcançar 115 m, duas a três vezes mais que as árvores amazônicas, ou a altura de um prédio de quase 40 andares (pense no Edifício Itália, no centro de São Paulo).
Estima-se que algumas estejam vivas há mais de 3.000 anos. Seriam remanescentes de grandes extensões de florestas úmidas que cobriam toda a faixa temperada do hemisfério Norte, centenas de milhões de anos atrás -antes mesmo do surgimento dos mamíferos sobre a Terra. Por volta de 1850, a madeira das sequóias passou a ser derrubada nos 8.000 km2 que ocupavam. Em 1918 começou um movimento por sua preservação, que resultou na criação de vários parques nacionais e estaduais.
Restam hoje meros 4% dos bosques originais. Por coincidência, mais ou menos a mesma parcela de devastação sofrida pela muito mais extensa mata atlântica brasileira (cerca de 1 milhão de km2 originais).
O mais incrível, narra Preston, é que até a década de 1990 o dossel das sequóias costeiras permanecia quase inteiramente inexplorado. Só então começou a ser visitado sistematicamente por biólogos. E eles descobriram coisas intrigantes.
A copa das árvores gigantes abriga verdadeiros terraços e jardins. Tempestades de vento e raios quebram e queimam o topo das sequóias. Mas elas lançam novos ramos, às vezes vários, em direção ao céu. Nos espaços entre eles acumulam-se detritos, até formar uma espécie de solo. É o suficiente para sustentar um bocado de vida. Além de dezenas de variedades de liquens e epífitas, crescem ali arbustos, como mirtilos, e até pequenas árvores. Há salamandras, seres dependentes de água para as trocas gasosas que efetuam pela pele, que passam a vida toda nas copas. Preston não escreveu uma obra de divulgação científica, contudo.
Apesar da precisão nos detalhes, seu livro é de aventura. A base da narrativa se apóia sobre um trio excêntrico de carne e osso, os biólogos Steve Sillett e Marie Antoine e o explorador (na falta de outro nome) Michael Taylor, o fanático caçador das maiores árvores do mundo que sofre de vertigem. Sillett e Antoine se tornam escaladores de árvores. Primeiro, com métodos convencionais de montanhismo. Depois, com a incorporação de técnicas de arboristas, como o uso de cordas auxiliares que permitem o deslocamento ao estilo do Homem-Aranha, mas em velocidade consideravelmente menor.
O próprio Preston adere à atividade. Para saber no que deu seu esforço de reportagem, leia o livro.

Folha de São Paulo