Monthly Archives: setembro 2008

Dinheiro queimado

Colapso aponta para o fim dos EUA como potência mundial e o enfraquecimento do dólar como moeda de troca – e isso pode ser ruim

ROBERT KURZ

Crise -qual crise? Eis o que tonitruavam até pouco tempo atrás ideólogos liberais, de direita e também de esquerda, que acreditam na vida eterna do capitalismo. Saiu cada vez mais do foco da atenção o fato de essa espécie de sociedade não apenas ter uma história, mas ser mesmo a história de uma dinâmica cega.
Justamente nas duas últimas décadas, as pessoas queriam perceber apenas os “eventos” transitórios nas formas sociais a-históricas de uma ontologia capitalista. Isso vale para indivíduos comuns e para os pobres, assim como para as elites.
À semelhança do personagem Dorian Gray no romance homônimo do irlandês Oscar Wilde, parecia que no lugar do capitalismo só envelhecia a imagem do mundo social por ele criado, assumindo os traços da miséria, enquanto a lógica do dinheiro brilhava em falso frescor juvenil.
Agora, a “Segunda-Feira Negra” da maior quebra financeira da história [a do Lehman Brothers, 15/9] desvela num único golpe o verdadeiro rosto do Dorian Gray capitalista.
Ocorre que ninguém quer reconhecer essa natureza do novo surto de crise. A confiança atávica no capitalismo conduz apenas à busca de culpados.
“Práticas nada sérias” de especuladores e uma “política econômica anglo-saxã” são responsabilizadas pelo desastre. Tal explicação míope com ecos anti-semitas já foi mobilizada recorrentemente no passado.
Há mais de 20 anos uma onda de crises financeiras acompanha a globalização. Todas as medidas aparentemente bem-sucedidas para evitar uma “fusão nuclear” do sistema financeiro internacional só lograram reformular o problema, em vez de solucioná-lo.

Humanos obsoletos
Sua evolução atual implode todas as concepções até agora propostas. Não afetou apenas o setor dos créditos hipotecários nos EUA, mas provocou também uma reação em cadeia, cujo fim ainda é distante.
É impossível que as causas sejam a falha individual e as deficiências morais dos atores. Elas só podem residir no núcleo do sistema, referido à economia real.
O capitalismo é apenas a acumulação autotélica de dinheiro, cuja “substância” consiste no uso crescentemente ampliado da mão-de-obra humana. Ao mesmo tempo, porém, a concorrência conduz a um aumento da produtividade, que torna a mão-de-obra obsoleta, em escala também crescente.
Apesar de todas as crises, tal autocontradição parecia dissolver-se sempre em uma regeneração da absorção maciça da mão-de-obra por novas indústrias. O “milagre econômico” depois de 1945 transformou em credo essa capacidade do capitalismo, mas, desde os anos 1980, a “Terceira Revolução Industrial”, microeletrônica, ensejou uma nova qualidade da racionalização, que desvaloriza a mão-de-obra humana em medida antes desconhecida.
Sem o surgimento de novas indústrias dotadas da potência de crescimento auto-sustentado, a “substância” real da valorização do capital se derrete.
O neoliberalismo foi tão-somente a tentativa de gerir com meios repressivos a crise social daí decorrente, por um lado, e de produzir um crescimento “sem substância” do “capital fictício” mediante o inchaço irrefreado do crédito, do endividamento e das bolhas financeiras nos mercados de ações e de imóveis, por outro lado.
Mas essa abertura mundial das comportas monetárias e, sobretudo, a avalanche de dólares produzida pelo Banco Central dos EUA já foram o pecado original do assim chamado monetarismo, que postulara como cerne da doutrina neoliberal a redução forçada da quantidade de dinheiro.
Na verdade, o jorro de dinheiro, criado pelo Estado a partir do nada, subsidiou uma inflação de ativos patrimoniais fictícios. O paradoxal “socialismo do dinheiro sem substância” experimenta agora seu “Waterloo”, como antes já ocorreu com o capitalismo de Estado do Leste Europeu e a versão keynesiana do crescimento fomentado pelo Estado no Ocidente.
A estatização de fato do sistema bancário dos EUA e o plano do secretário do Tesouro dos EUA para conter a crise com recursos estatais só podem ser avaliados como atos de desespero. Da noite para o dia revelou-se o caráter de capitalismo estatal da suposta liberdade dos mercados.

Estágio final
Comentaristas irônicos já falam em “República Popular de Wall Street”. Mas isso não resolve nada.
De certa forma, estamos diante do último estágio do capitalismo de Estado, que na melhor das hipóteses pode postergar o colapso dos balanços com mais emissões inflacionárias de moeda.
À diferença de épocas anteriores, inexiste espaço para novos programas conjunturais, que precisariam alimentar-se na mesma fonte.
Com isso também chegou o fim dos EUA enquanto potência mundial. Não é mais possível financiar guerras intervencionistas com recursos próprios. O dólar se torna obsoleto enquanto moeda mundial.
Ocorre que não podemos vislumbrar no horizonte nenhum substituto para os papéis da última potência mundial e do dólar. O ressentimento contra a “dominação anglo-saxã” não é uma crítica do capitalismo e não tem credibilidade, pois os fluxos unilaterais de exportações aos EUA sustentaram a conjuntura do déficit global.
Na Ásia, na Europa e alhures, as capacidades industriais não viveram de ganhos e salários reais, mas, direta ou indiretamente, do endividamento externo dos EUA.

Déficit global
No fundo, a economia neoliberal das bolhas financeiras foi uma espécie de “keynesianismo mundial”, que agora se extingue como a anterior variante nacional do keynesianismo.
Todas as “novas potências” supostamente emergentes estão inseridas de modo economicamente dependente na circulação global do déficit.
Sua dinâmica muito admirada foi uma mera aparência, sem desenvolvimento interno próprio. Por isso não haverá em nenhum lugar o retorno a um capitalismo “sério” com empregos “reais”.
Em vez disso, devemos esperar o efeito dominó de uma repercussão da crise financeira na conjuntura mundial, ao qual nenhuma região poderá subtrair-se.
O capitalismo de Estado e o capitalismo concorrencial “livre” evidenciam ser dois lados da mesma moeda. Abala-se não um “modelo” passível de ser substituído por outro, mas o modo vigente da produção e da vida enquanto fundamento comum do mercado mundial.

ROBERT KURZ é sociólogo alemão, autor de “O Colapso da Modernização” (Paz e Terra). Tradução de Peter Naumann.

“Folha de S. Paulo”

Crise: modos de usar

A partir de agora, a aposta é saber qual discurso ganhará a disputa para explicar o que levou os EUA à beira do colapso

Terá a crise financeira sido um momento que realmente provocou reflexão sóbria, o despertar de um sonho?

SLAVOJ ZIZEK

Quando o herói de “Eles Vivem”, de John Carpenter, uma das obras-primas esquecidas da esquerda de Hollywood, colocou um par de óculos de sol estranho que encontrou numa igreja abandonada, descobriu que um outdoor colorido que convidava as pessoas a passar férias numa praia do Havaí passava a ostentar apenas palavras cinzentas sobre um pano de fundo branco -”casem e se reproduzam”-, enquanto um anúncio de uma nova TV em cores passava a dizer simplesmente “não pense, consuma!”.
Em outras palavras, os óculos funcionavam como aparelho de crítica da ideologia, possibilitando ao protagonista enxergar a mensagem real oculta sob a superfície colorida. O que veríamos, então, se observássemos a campanha presidencial republicana com a ajuda de óculos como esses?
A primeira coisa que chamaria nossa atenção seria uma longa série de contradições e incoerências já observadas por muitos comentaristas.
O chamado para passar por cima das divisões partidárias -acompanhado pela brutal guerra cultural de “nós” contra “eles”. O aviso de que a imprensa deveria se abster de comentar a vida familiar dos candidatos -enquanto a família é exibida sobre o palco.
A promessa de mudanças, acompanhada pelo mesmo velho programa de sempre (isto é, menos impostos e menos Estado, reforço das Forças Armadas, política externa mais intransigente).
A promessa de reduzir os gastos do Estado, acompanhada de elogios ao governo Reagan. Acusar o partido adversário de privilegiar o estilo em detrimento da substância -em eventos de mídia perfeitamente encenados.
O próximo passo é perceber que essas e outras incoerências não são um ponto fraco, mas uma arma-chave da força da mensagem republicana.
A estratégia republicana explora com maestria as falhas da política liberal-democrata: sua preocupação paternalista com os pobres, associada a uma indiferença mal disfarçada pelos trabalhadores de colarinho azul; seu feminismo politicamente correto, que anda de mãos dadas com uma mal disfarçada desconfiança das mulheres no poder.
Sarah Palin [candidata à Vice-Presidência na chapa republicana de John McCain] foi um sucesso nesses dois quesitos, desfilando sua feminilidade com seu marido de classe trabalhadora.
As gerações anteriores de políticas (Golda Meir, Indira Gandhi, Margaret Thatcher -mesmo Hillary Clinton, até certo ponto) eram mulheres do tipo mais comumente descrito como “fálicas”: elas agiam como “damas de ferro” que imitavam a autoridade masculina ou a exageravam, procurando ser “mais homens que os homens”.
Ao contrário, exibe sua condição feminina e materna com orgulho. Exerce um efeito “castrador” sobre seus adversários homens, não por ser mais viril que eles, mas por empregar a arma feminina máxima, ironizando sarcasticamente a autoridade masculina empolada.
Ela sabe que a autoridade masculina “fálica” é uma pose, uma ilusão a ser explorada e ironizada.
Vale recordar como ela zombou de Obama como “organizador comunitário”, explorando o fato de que existe algo de estéril em sua aparência física, com sua pele negra diluída, seus traços magros e orelhas grandes…

Bênção eleitoral
Com Palin, vimos uma feminilidade “pós-feminista”, sem complexos, unindo as características de mãe, professora correta e pudica (óculos, coque), pessoa pública e, implicitamente, objeto sexual.
A mensagem é que não falta nada a Palin -e, para torná-la ainda mais irritante, foi uma mulher republicana quem realizou esse sonho da esquerda liberal. É como se Sarah Palin simplesmente fosse aquilo que as feministas liberais de esquerda querem ser.
Não surpreende que o efeito Palin seja um efeito de falsa libertação: “Drill, baby, drill!” (“perfurar, baby, perfurar!” -alusão à perfuração de poços petrolíferos). Podemos reunir o impossível, feminismo e valores familiares, grandes empresas e trabalhadores braçais!
Assim, retornando a “Eles Vivem”, para captar a mensagem republicana verdadeira é preciso levar em conta aquilo que é dito e o que não é dito, mas que fica implícito.
Onde a mensagem que vemos é a promessa de mudanças, os óculos revelariam algo como “não se preocupem, não haverá mudanças reais. Só queremos mudar algumas coisinhas para ter a certeza de que nada vai mudar de fato.”
O discurso da mudança, de mexer nas águas paradas de Washington, é uma constante republicana.
Assim, aqui não há lugar para ingenuidade: os eleitores republicanos sabem muito bem que não haverá mudanças reais. Sabem que a substância será a mesma, com apenas algumas mudanças de estilo. Isso faz parte do acordo.
Mas e se a mensagem republicana das entrelinhas (“não tenham medo, não haverá mudanças reais…”) for a verdadeira ilusão, e não a verdade secreta? E se realmente houver uma mudança?
Felizmente, aconteceu o fato necessário -uma verdadeira bênção eleitoral disfarçada- para nos fazer lembrar do mundo em que vivemos: a realidade do capitalismo global.
O Estado adotou medidas emergenciais e prevê gastar US$ 700 bilhões com um plano de resgate financeiro, de modo a consertar as conseqüências da crise provocada pelas especulações do livre mercado. A mensagem é inequívoca: mercado e Estado não se opõem; intervenções fortes do Estado são necessárias para manter a viabilidade do mercado.
Diante da avassaladora crise financeira, a reação republicana predominante foi a de desesperadamente tentar reduzir a crise a um infortúnio de gravidade restrita, que poderia facilmente ser sanado com uma dose correta do velho remédio republicano (respeito aos mecanismos de mercado etc.).
Mas toda a encenação política de gastos menores do Estado se tornou irrelevante após essa injeção de realidade repentina: mesmo os partidários mais ferrenhos da redução do papel excessivo de Washington agora reconhecem a necessidade de uma intervenção do Estado que, em seu valor quase inimaginável, chega a ser sublime.
Diante dessa grandeza sublime, todas as bravatas foram reduzidas a um resmungar confuso. Onde foram parar a determinação de McCain e o sarcasmo de Palin?

Competição ideológica
Mas terá a crise financeira total sido um momento que realmente provocou reflexão sóbria, o despertar de um sonho? Tudo depende de como ela será simbolizada, de qual interpretação ideológica ou de qual versão irá se impor e ditar a percepção geral da crise.
Quando o curso normal dos fatos é interrompido de maneira traumática, o campo fica aberto à competição ideológica “discursiva”.
Por exemplo, na Alemanha, no final dos anos 1920, Hitler ganhou a competição pelo discurso que iria explicar aos alemães as razões da crise da República de Weimar e a saída proposta para ela (a conspiração, para ele, era a conspiração judaica); na França, em 1940, foi a narrativa do marechal Pétain que venceu a disputa por explicar as razões da derrota francesa.
Conseqüentemente, para formular a coisa em termos marxistas antiquados, a tarefa principal da ideologia dominante na crise atual é impor uma narrativa que não atribua a culpa pela crise atual ao sistema capitalista em si, mas a seus desvios secundários acidentais (regulamentação fiscal demasiado leniente, a corrupção de grandes instituições financeiras etc.).
Contra essa tendência, devemos insistir na pergunta chave: qual “falha” do sistema enquanto tal abriu a possibilidade de tais crises e colapsos?
A primeira coisa a ter em mente aqui é que a origem da crise é “benévola”: depois da explosão da bolha digital, nos primeiros anos do novo milênio, a decisão feita por ambos os partidos foi facilitar os investimentos imobiliários, para manter a economia andando e impedir a repressão.
Logo, a crise atual é o preço que está sendo pago pelo fato de os EUA terem evitado uma recessão cinco anos atrás.
Assim, o perigo é que a narrativa predominante da atual crise seja aquela que, em lugar de nos fazer despertar de um sonho, nos possibilitará continuar a sonhar.
É nesse ponto que devemos começar a nos preocupar: não apenas com as conseqüências econômicas da crise, mas com a tentação evidente de injetar ânimo novo na “guerra ao terror” e no intervencionismo dos EUA, para manter a economia funcionando a contento.

SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de “Um Mapa da Ideologia” (ed. Contraponto). Ele escreve na seção “Autores”, do Mais!. Tradução de Clara Allain.

“Folha de S. Paulo”

Mercado livre

Pacote de US$ 700 bilhões de ajuda ao mercado financeiro dos EUA é álibi para cidadãos reivindicarem mais direitos sociais, mas neoliberalismo deve sair fortalecido

NAOMI KLEIN

Seja qual for o significado dos acontecimentos das últimas semanas, ninguém deve acreditar nas declarações exageradas de que a crise do mercado assinala a morte da ideologia do “livre mercado”.
A ideologia do livre mercado sempre esteve a serviço dos interesses do capital, e sua presença avança e recua, dependendo da utilidade que tem para esses interesses.
Em épocas de crescimento, pregar o “laissez-faire” é rentável, porque um governo ausente permite o crescimento de bolhas especulativas. Quando essas bolhas estouram, a ideologia se torna um empecilho e entra em estado dormente, enquanto o grande governo parte em missão de salvamento.
Mas podemos ter a certeza de que a ideologia retornará com força total assim que os pacotes de socorro tiverem sido entregues.
As dívidas maciças que o público está acumulando para socorrer os especuladores irão, então, tornar-se parte de uma crise orçamentária global que será usada para justificar cortes profundos nos programas sociais, além de uma investida renovada para privatizar o que restou do setor público.
Também nos dirão que, infelizmente, nossas esperanças de um futuro verde são demasiado onerosas.

Reação imprevisível
O que não sabemos é como o público vai reagir. Vale lembrar que todos os que têm menos de 40 anos nos EUA cresceram ouvindo que o governo não pode intervir para melhorar nossas vidas, que o governo é o problema, não a solução, que o “laissez-faire” é a única opção.
Agora, repentinamente, nos vemos diante de um governo extremamente ativista, intensamente intervencionista, aparentemente disposto a fazer o que for preciso para salvar os investidores deles mesmos.
Esse espetáculo necessariamente levanta uma pergunta: se o Estado pode intervir para salvar grandes corporações que assumiram riscos insensatos nos mercados imobiliários habitacionais, por que não pode intervir para salvar milhões de americanos do risco iminente de perderem suas casas devido à execução de suas hipotecas?
Se US$ 85 bilhões podem ser disponibilizados instantaneamente para comprar a seguradora gigante AIG, por que um sistema de saúde pago por um fundo único -que protegeria os americanos das práticas predatórias das empresas de seguro-saúde- parece ser um sonho tão inalcançável?
E, se cada vez mais corporações precisam do dinheiro dos contribuintes para se manterem em pé, por que os contribuintes não podem fazer exigências em troca -por exemplo, a imposição de tetos aos salários dos executivos ou a adoção de garantias contra mais perdas de empregos? Agora que está claro que os governos podem, sim, intervir em tempos de crise, ficará muito mais difícil para eles alegar impossibilidade de agir no futuro.
Outra mudança potencial tem a ver com as esperanças do mercado quanto a privatizações futuras. Os bancos globais de investimentos vêm fazendo lobby com políticos há anos em favor de dois mercados novos: um que viria da privatização das pensões públicas e outro que viria de uma nova onda de privatizações totais ou parciais de rodovias, pontes e sistemas de água.

Desconfiança
Ficar mais difícil argumentar em favor desses dois sonhos: os americanos não estão com vontade de confiar uma parte maior de seus ativos individuais e coletivos aos apostadores insensatos de Wall Street, especialmente porque parece mais que provável que os contribuintes terão que recomprar seus próprios ativos quando a próxima bolha estourar.
Com o descarrilamento das conversações na Organização Mundial do Comércio, a crise atual pode também catalisar uma abordagem radicalmente alternativa à regulamentação dos mercados e sistemas financeiros mundiais.
Já está ocorrendo no mundo em desenvolvimento um movimento em favor da chamada “soberania alimentar”, como alternativa a deixar que caprichos dos negociantes de commodities ditem o acesso aos alimentos em todo o mundo. É possível que tenha chegado a hora, finalmente, de idéias como a taxação das transações financeiras, que desaceleraria o investimento especulativo, além de outros controles dos capitais globais.
E, agora que “nacionalização” deixou de ser palavrão, as empresas de petróleo e gás farão bem em se precaver: alguém precisa pagar pela mudança para um futuro mais verde, e faz muito sentido que a parte maior dos recursos venha do setor altamente rentável que é o maior responsável por nossa crise climática.
Isso com certeza faz mais sentido do que criar outra bolha perigosa no comércio de carbono.
Mas a crise à qual estamos assistindo pede mudanças ainda mais profundas. A razão pela qual se permitiu que proliferasse o crédito de risco não foi apenas que os reguladores não compreenderam o risco. É porque temos um sistema econômico que mede nossa saúde coletiva exclusivamente com base no crescimento do PIB.
Enquanto os créditos de risco estavam alimentando o crescimento econômico, nossos governos os apoiaram ativamente. Assim, o que está realmente sendo posto em xeque pela crise é o compromisso sem questionamentos com o crescimento a qualquer custo.

Pressões públicas
Esta crise deve nos conduzir a uma maneira radicalmente diferente de nossas sociedades medirem a saúde e o progresso.
Mas nada disso vai acontecer sem a imposição de pressões públicas muito fortes sobre os políticos neste período-chave.
Não estamos falando em fazer lobby de modo educado, mas na volta das pessoas às ruas e ao tipo de ação direta que trouxe o New Deal nos anos 1930.
Sem isso, haverá mudanças superficiais e o retorno ao “business as usual” o mais rapidamente possível.

NAOMI KLEIN é colunista da “The Nation” e autora de “A Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo de Desastre” (ed. Nova Fronteira). Tradução de Clara Allain.

“Folha de S. Paulo”

A Europa mestiça

Leneide Duarte-Plon

Para o historiador Serge Gruzinski, a França de Edith Piaf desapareceu, e os franceses não sabem como lidar com a sua nova cultura miscigenada

Para o historiador francês Serge Gruzinski, o discurso e as medidas antiimigratórias na Europa, promovidos por políticos populistas, ocultam as necessidades reais do capitalismo europeu de uma mão-de-obra barata, o que é propiciado pelos imigrantes de vários países que aportam ao continente.
Gruzinski é curador da exposição “Planète Métisse – To Mix or Not to Mix” (Planeta Mestiço – Misturar ou Não Misturar), em exibição no Museu do Quai Branly, em Paris. Na sua opinião, a cultura popular européia é hoje mais “mestiça” do que a brasileira ou americana.
“Os estrangeiros sempre chegaram à Europa, mas o problema agora é que esses novos mestiços não são estrangeiros. Eles são franceses como o francês branco e de olhos azuis. A tradição intelectual, política e educativa francesa, não tem nenhuma resposta para essa nova situação”, diz o historiador. “A cultura francesa clássica já não existe. A cultura de Edith Piaf já desapareceu. Hoje, a cultura popular na França já é uma cultura mestiça.”
Na exposição, os objetos contam a história de encontros de culturas que produzem uma nova cultura: mestiça. Entre os produtos culturais mestiços, o historiador escolheu a música brasileira, representada por doze diferentes manifestações musicais.
Especialista na história das Américas, autor de “História do Novo Mundo” (Edusp) e de “O Pensamento Mestiço” (Companhia das Letras), entre outros livros, Gruzinski conhece muito bem o Brasil, para onde viaja freqüentemente para participar de seminários, e fala perfeitamente o português.
Ele é também diretor de pesquisa no Centre Nacional de Recherches Scientifiques (CNRS) e diretor de estudos na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS).
Na entrevista a seguir, dada em sua sala de trabalho na EHESS, Gruzinski fala da exposição, do “pensamento mestiço” e de novas formas de mestiçagens que se dão no solo europeu e no mundo.
Para ele, a Ásia é o novo celeiro das mestiçagens. “Os antropófagos, dos quais falaram muito bem os modernistas do Brasil, nos anos 20, se deslocaram. É a Ásia que faz a antropofagia agora”, afirma.
*
O sr. é o autor de um livro intitulado “O Pensamento Mestiço”. Como se forma esse pensamento? Ele é o resultado do encontro de duas ou mais culturas, quaisquer que elas sejam elas?
Serge Gruzinski: De uma maneira um pouco paradoxal, eu diria que as culturas nunca se encontram. As culturas não existem. Só existem seres, homens e mulheres que se encontram. E as coisas que se encontram são sempre fragmentos de culturas.
A idéia de que existem a cultura francesa e a cultura brasileira e que essas culturas se encontram é uma coisa completamente alegórica, é uma fantasia, uma imaginação.
São indivíduos ou grupos que se encontram e que misturam, não o conjunto da cultura, mas elementos escolhidos ou não de ambas as culturas. Essas se encontram através de indivíduos e sempre em contextos históricos que, muitas vezes, são assimétricos, de desigualdade, de relação de colonização.
Por exemplo, a cultura francesa quando considera as culturas latino-americanas “exóticas” não impede que haja comunicação entre o mundo latino-americano e a França, mas tem uma posição hierárquica que pensa a cultura francesa como cultura universal e a outra cultura, seja mexicana seja brasileira, como uma cultura “exótica”.
Existem dois níveis bem distintos. De um lado, as práticas culturais, ou seja misturar a gastronomia, a alimentação ou até mesmo as músicas. Já o pensamento mestiço é uma coisa mais complexa, porque supõe a mistura de mecanismos intelectuais diversos.

Por exemplo?
Gruzinski: Ele é o produto de pelo menos duas maneiras de pensar o mundo com instrumentos intelectuais distintos. Ou seja, o pensamento mestiço supõe um certo grau de consciência, não só o fenômeno de misturar, mas supõe uma capacidade de eleger nas duas culturas certos elementos e combiná-los.
Isso supõe toda uma estratégia. E razões bem precisas para fazê-lo. No caso dos índios do México, que estudei, era uma maneira de resistência, de conservar elementos das culturas pré-hispânicas, integrando-as aos elementos europeus, para encontrar uma forma de integração na nova sociedade colonial sem perder e esquecer todo o patrimônio pré-hispânico.
Então, temos esse pensamento mestiço que corresponde a um tipo de estratégia voluntária, deliberada, calculada. Também a estratégia da Igreja Católica de misturar elementos católicos com elementos locais em toda a América Latina para enraizar o seu culto é uma forma de pensamento mestiço. Escolher, misturar para conseguir os sincretismos. Em certo momento, esse movimento de manipulação escapa à Igreja Católica, e os sincretismo têm vida própria.

O que é um “objeto mestiço”?
Gruzinski: A exposição é num lugar que conserva objetos, o Museu do Quai Branly. A idéia era utilizar objetos para contar, explicar e interpretar o processo da mestiçagem. Um objeto mestiço é aquele que pertence a várias civilizações ao mesmo tempo.
Por exemplo, ele é africano e europeu, americano e europeu, asiático e americano. Temos na exposição dois objetos que são turcos e da China ao mesmo tempo.
O tema da exposição são as mestiçagens planetárias, ou seja, aquelas surgidas entre América, África, Ásia e Europa. São formas de mestiçagens que correspondem atualmente à situação européia com grupos africanos ou asiáticos formando a nova civilização européia.
Por exemplo, a ópera-balé “Padmavâti”, de Albert Roussel, um autor francês do início do século XX. Essa ópera-balé estreou na Ópera de Paris em 1923. Neste ano (2008), ela foi remontada em Paris, e o diretor foi um cineasta famoso de Bollywood, da Índia. Ou seja, música francesa e direção de um cineasta indiano.
Essa é a nova cultura parisiense, mistura entre as coisas francesas e as outras culturas. “Padmavâti” é um objeto mestiço, uma obra mestiça.

O catálogo da exposição explica que a música é, por excelência, o recipiente da mestiçagem. Na exposição, o Brasil é apresentado como uma síntese da música mestiça, com todos os seus ritmos e gêneros. Por que a exposição só mostra a música brasileira, entre tantas outras músicas mestiças que o catálogo cita?
Gruzinski: Por várias razões. Primeiramente, pela enorme contribuição da música brasileira à música do século 20. E no caso do Brasil temos rapidamente a passagem da música popular à música nacional, com o samba e a “world music”, ou seja, a recuperação da música do Brasil nesse “melting pot” das mestiçagens internacionais das músicas.
Há toda essa dimensão do passado histórico africano da escravidão e da criação de uma cultura nacional e popular a partir da música brasileira, que, com Carmen Miranda e o que se seguiu a ela, acaba tornando-se um produto industrial, uma música internacional e parte da “world music”.
É óbvio que o jazz, o gospel, as músicas da Argentina e do México são também material interessante. O caso do Brasil nos interessou para podermos dar uma idéia, ainda que superficial, de uma genealogia, de um processo que começa na época colonial e de uma mestiçagem que se enriquece e muda continuamente.
No caso do Brasil, o que é extraordinário é que vemos que ele tem essa capacidade de reconstituir formas mestiças, recriar formas mestiças. Há uma recriação constante. As doze músicas mostradas no museu dão uma idéia de um processo que começou e continua, é permanente.
Também é importante recordar que, por trás dessas músicas, e também de todo o continente americano, temos o fenômeno da escravidão. A exposição pretende contribuir para desenvolver um olhar mais crítico sobre o passado, sobre a realidade cultural.
A gente deve saber que as mestiçagens do Brasil e da América espanhola tiveram um preço altíssimo, que foi a deportação sistemática dos povos africanos para o continente americano.
A idéia é levar o público a pensar os dois elementos, a riqueza das mestiçagens, mas também o contexto histórico, para evitar as ilusões que levam a pensar que a mistura das culturas significa igualdade.
Sabemos que, no caso do Brasil, a circulação entre as culturas e as misturas podem corresponder a uma situação de injustiça social total. Existe esse perigo de pensar que podemos resolver as fraturas sociais com as mestiçagens.
O governo da França gosta de utilizar esse tipo de ilusão, falando da liberdade de culturas e da mistura das culturas, para não resolver os problemas reais, que são sociais e econômicos.

As políticas antiimigração na Europa significam que os países temem a mestiçagem cultural e étnica ou são simplesmente um problema econômico e demográfico?
Gruzinski: Diria que é um tema extremamente confuso, atualmente. Existe um discurso antiimigração, mas por outro lado o capitalismo europeu, o desenvolvimento da União Européia precisa de mão-de-obra, e barata.
No discurso populista -dos políticos, da imprensa- aparece o medo. Num nível real, o capitalismo europeu tem necessidades econômicas que o levam a introduzir cada vez mais africanos, asiáticos e até ameríndios, que vêm da América Latina para a Espanha.
Há esse duplo aspecto do fenômeno. Nesse populismo não há somente um discurso político superficial. É verdade que os europeus estão entrando numa sociedade completamente distinta.
Nela, existem turcos, magrebinos (árabes do norte da África) e negros africanos que nasceram no continente europeu, o que significa que hoje a Europa é um continente muito mais mestiço do que o Brasil. O Brasil tem as mestiçagens do passado. A Europa está entrando numa fase em que grande parte da população é mestiça.
Basta ver a televisão, quem são os jovens da periferia de Paris e das grandes cidades? São magrebinos e negros. Moro no XV arrondissement (bairro parisiense) e vejo que os jovens são negros.
Parte da população européia já é africana ou asiática, e muitos têm a religião muçulmana. E isso suscita medo em muitas pessoas. A Europa não estava acostumada a conviver com a mestiçagem nascida na Europa.
Os estrangeiros sempre chegaram à Europa, mas o problema agora é que esses novos mestiços não são estrangeiros. Eles são franceses como o francês branco e de olhos azuis. Eles nasceram na República, são africanos ou asiáticos completamente mestiços, ocidentalizados, afrancesados. A tradição intelectual, política e educativa francesa, não tem nenhuma resposta para essa nova situação.

As respostas estão sendo construídas?
Gruzinski: É preciso construir, mas o problema é que muitas vezes a construção se faz através do populismo, manipulando os medos, não para encontrar novas formas de convivência, mas para captar eleitores, votos. Não para desenvolver políticas novas, mas para tentar provocar reações passageiras, para assegurar o poder de um grupo ou de outro.

O francês médio, branco tem medo da miscigenação étnica ou quer preservar a cultura francesa? Qual é o fantasma deste francês médio?
Gruzinski: A cultura francesa clássica já não existe. A cultura de Edith Piaf já desapareceu. A cultura dos Ch’tis, que os estrangeiros conhecem através dos filmes, já não existe, desapareceu há meio século.
Essa cultura francesa clássica desapareceu, os jovens não a conhecem. A idéia de preservá-la me parece algo equivocado, porque esse patrimônio não tem mais vida.
Hoje, a cultura popular na França já é uma cultura mestiça. Basta ver os discos, as músicas, ela são uma mistura franco-africana. E a maneira dos jovens se vestirem é uma cópia das culturas populares dos Estados Unidos. Esse medo é sobretudo a falta de modelos. A França não sabe como se orientar nessa nova paisagem.

A miscigenação étnica não assusta?
Gruzinski: Acho que não. Quando há uma manifestação racista no futebol, imediatamente a televisão mostra e aparece uma série de mecanismos muito fortes de reação. Basta uma palavra racista, um escândalo, para que a mídia denuncie.
As novas leis também são eficazes para limitar toda forma de racismo. No mundo dos jovens, as músicas e a maneira de vestir estão criando uma cultura mestiça.
O problema que vejo é na parte mais velha da população, que é rica, aposentada, pertence ao mundo antigo e é ali que existe uma reação. Os políticos também ainda não conseguem pensar uma sociedade francesa como uma sociedade mesclada, misturada.

Por quê?
Gruzinski: A formação intelectual deles é de uma França monolítica e branca. A França de Michel Foucault não é uma França mestiça, nem a França de Deleuze, nem a França de Baudrillard, nem a de Jean-Paul Sartre.

Aquela França tinha problemas sociais e econômicos, mas não tinha diferenças culturais. Isso quer dizer que, para nós, intelectuais, como para os políticos, os instrumentos à nossa disposição correspondem a uma sociedade que já não existe. Isso provoca medo e desorientação.
Não há na França reações violentas de guetos, mas há preocupação, porque estamos entrando num mundo para o qual não temos as chaves. O Brasil tem as chaves, o México tem as chaves.

Como seria a construção dessas chaves na França?
Gruzinski: O problema é duplo, porque é a relação com franceses que procedem de outras civilizações, sem falar do fato de que a França também já é parte da Europa.
Para mim, como historiador, um caminho seria a construção de uma memória européia aberta para o mundo. A França não vai resolver sozinha. O desafio é duplo. É a relação com homens e mulheres que chegam de outros mundos, mas também a convivência com os belgas, italianos, alemães, portugueses, espanhóis. Como criar uma memória histórica comum?

Então, o desafio é ao mesmo tempo interno e externo às fronteiras de cada país?
Gruzinski: O problema não é saber apenas como um francês branco, de origem cristã, vai conviver com o magrebino ou africano, mas também como vai conviver com o polonês, com o italiano.
O problema é que a escola também não prepara nem forma cidadãos europeus. O cidadão europeu tem que ser inventado e, para isso, temos que religar constantemente a Europa com o resto do mundo. E o Brasil é parte da história européia.

Em que sentido?
Gruzinski: Não no sentido colonial. Mas o Brasil é uma manifestação da Europa nos seus contatos com o mundo índio e o mundo africano.
Vocês são um dos espelhos, com o México e os Estados Unidos. E não podemos imaginar uma história européia desligada dos laços com a América, a África e a Ásia. Isso não quer dizer, como antes, a reivindicação de um passado civilizador. De jeito nenhum. Mas quer dizer que nós temos responsabilidades.
O Brasil não é a Europa, mas fala português. O Brasil faz parte do mundo ocidental. Um cidadão europeu tem que levar em conta as raízes americanas, africanas e asiáticas. Mas sobretudo americanas.

Como o sr. analisa o pensamento de Gilberto Freyre? Como resumiria a mestiçagem brasileira e como vê o racismo no Brasil, que insistimos em negar, mas está muito perceptível nas relações sociais?
Gruzinski: Não gosto da idéia de que um francês possa opinar sobre o Brasil e decidir se os brasileiros são racistas ou não. Tenho umas idéias mais precisas sobre o México, porque vivi lá muito tempo.
Gilberto Freyre é muito importante. A contribuição do Brasil, da América Latina, não é unicamente na experiência da mestiçagem, mas também do pensamento da mestiçagem.
Para nós, a prioridade é aprender que o Brasil produz também intelectuais, conceitos e idéias, não unicamente música. E, nesse caso, se tentamos pensar o que é a mestiçagem como processo e mistura étnica e cultural, não são muitos os pensadores no planeta.
Há pensadores no Brasil, como Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, e no México, como Gonzalo Aguirre Beltran, que nos podem ajudar numa reflexão intelectual sobre o processo.
E, para mim, antes de discutir a validade das hipóteses e das idéias de Freyre, é fundamental dizer por que nos interessa a experiência latino-americana: pelo fato de ser uma experiência de práticas e de idéias.
Então, a relação com a América Latina se inverte. Para os europeus, é a oportunidade de aproveitar esse patrimônio intelectual, de todas as reflexões sobre a mestiçagem na constituição do Brasil. Mas também toda a contribuição dos pensadores do México e do Peru.
Isso é bastante difícil explicar aos europeus: que os latino-americanos podem também pensar, ter uma contribuição teórica fundamental para hoje. Mas o único continente que tem experiência da mestiçagem planetária é a América Latina. Não aconteceu na África, tampouco na Ásia. A mistura de ameríndios, europeus, africanos e asiáticos é uma experiência do Brasil, do México, da Argentina e dos Estados Unidos.

Como o sr. vê as mestiçagens que estão se produzindo na Europa, com os muçulmanos?
Gruzinski: Os muçulmanos europeus são completamente ocidentalizados. Não praticam um islã clássico, tradicional.

Mas em algumas cidades francesas há uma reação à construção de mesquitas.
Gruzinski: É verdade. Mas devemos pensar que esses muçulmanos são europeus, nascidos na Europa e praticam um islã ocidentalizado. Não há uma islamofobia na França. Eu também me posiciono contra as mesquitas por uma questão de laicidade.
O problema não é que o islã esteja ameaçando o cristianismo. O problema é que um país como a França pensava ter solucionado a questão das religiões controlando o catolicismo e mantendo-o numa zona da vida privada, com a separação da Igreja e do Estado. Agora reaparece a questão das religiões. A oposição ao islã é que ele recoloca essa questão a um país laico.
A separação da igreja e do Estado, com a lei de 1905, foi feita por pressão dos judeus e dos protestantes, em reação à posição de hegemonia do catolicismo. Em 1905, a situação estava resolvida. Ela agora surge de novo.

Mas a construção de mesquitas não seria bom para circunscrever a prática religiosa dentro dos templos e não trazê-la para o espaço público? Não ficaria mais fácil controlar a laicidade?
Gruzinski: Não sei. Politicamente, o eleitorado de origem muçulmana é importante. Há uma vontade de controlar e uma vontade de captar. Por outro lado, podemos imaginar uma secularização do islã, que terminará como o catolicismo ou o protestantismo, ou seja, invisível na paisagem.
Acho que exageramos muito o fundamentalismo islâmico, e não vemos o islã completamente afrancesado, invisível, dos muçulmanos de tradição e que não praticam.

Durante vários séculos, as Américas foram vistas pelos olhos dos viajantes, fotógrafos e pintores europeus. Na exposição, o sr. mostra que a Ásia tem agora um novo olhar sobre a América, e a exposição exibe filmes que provam isso. Como o cinema mostra o olhar dos asiáticos sobre a América?
Gruzinski: O olhar sobre a América, em parte e cada vez mais, é asiático. Ou seja, a construção de um imaginário do que é a América, hoje não passa através da Europa e nem unicamente através dos cineastas do continente americano, mas cada vez mais por esta capacidade dos asiáticos de ver, de olhar e de criar imagens desse continente americano.
Ou seja, parto do princípio de que, hoje, a máquina das mestiçagens, o pólo mais dinâmico, e talvez ameaçador, é a Ásia. Essa riqueza incrível das mestiçagens do Brasil é um fato do passado. Essas músicas são do passado, são músicas do século XX.
Esse mundo que está construindo formas novas, imaginários novos, se deslocou para a Ásia, e nós vemos isso através dessa produção cinematográfica, que pode ser de alta qualidade, mas também muito popular.
Em Belém do Pará, os DVDs mais alugados são asiáticos. E os mangás japoneses são o que os jovens lêem hoje. Nós, intelectuais, não nos damos conta da capacidade do mundo asiático de controlar o imaginário, de formar esse imaginário.

Quer dizer que, hoje, o lugar onde se fazem as mestiçagens mais intensamente é na Ásia?
Gruzinski: Sim, é onde está o poder econômico, financeiro e industrial mais forte, na China. O “Le Monde” dizia há pouco que a China é o ateliê do mundo. Vi também recentemente um desenho do presidente chinês ao lado de Bush, pequenininho. Esse desenho queria dizer que o tempo de Bush acabou.
Acho que, no nível cultural, artístico e cinematográfico, vemos essa chegada contínua de filmes e de obras de arte que pouco a pouco aparecem capazes de reinventar todas as formas de cinema, misturando as cinematografias asiáticas, que são já velhas, com as americanas ou européias.
É uma capacidade de antropofagia. Os antropófagos, dos quais falaram muito bem os modernistas do Brasil, nos anos 20, se deslocaram. É a Ásia que faz a antropofagia agora.

E em que sentido isso seria uma ameaça?
Gruzinski: Admiro muito as cinematografias asiáticas, mas a China é um país muito perigoso. E vemos isso a cada dia. O país que tem mais peso no mundo, maior crescimento, maior riqueza, é uma ditadura totalitária. Isso é uma coisa impressionante. Talvez um dia lembremos com saudade da hegemonia norte-americana, com seu humanismo.

Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

“Trópico”

ANTROPOCENO UM NOVO NOME PARA O PRESENTE GEOLÓGICO?

Nelson Bacic Olic

Durante quase toda sua história geológica a Terra passou por violentas e profundas mudanças em decorrência de cataclismos tectônicos e climáticos de grande poder destrutivo. Mas, segundo alguns especialistas, nos dois últimos séculos as atividades antrópicas adquiriram uma tal importância e impacto que, para eles, seria preciso demarcar essa era na coluna geológica.

A geologia divide a história da Terra em eras, períodos e épocas. A mais recente das eras é a Cenozóica, dividida em dois períodos (Terciário e Quaternário), cada um deles subdividido em épocas. A mais atual delas é o Holoceno, que se iniciou há pouco mais de 11 mil anos, no final da última glaciação.

A linha divisória entre o Pleistoceno e o Holoceno, as duas épocas do Quaternário, não é tão nítida quanto outras divisões do tempo geológico. Por isso, certos especialistas afirmam que o Holoceno seria, na verdade, uma fase interglacial do Pleistoceno. Já a corrente científica principal defende a existência do Holoceno e afiançam que nesta época ocorreram vários eventos naturais como, por exemplo, avanços e recuos do nível médio dos mares e oscilações climáticas significativas. Houve também um novo período de aquecimento ao final da Idade Média, seguido de ligeiro resfriamento até mais ou menos a metade do século XIX.

Como se sabe, a partir da Revolução Industrial o planeta passou a assistir um crescimento exponencial da população. A Terra atingiu seu primeiro bilhão de habitantes por volta da metade do século XIX; pouco mais de 150 anos depois esse contingente já superava 6,5 bilhões, sem perspectivas de parar de crescer em termos absolutos. Previsões demográficas atuais apontam para um efetivo maior que 8,5 bilhões em 2050.

Nos últimos 50 anos, a rápida e contínua evolução dos meios tecnológicos postos à disposição do homem vem causando impacto inédito ao meio ambiente. Estimativas indicam que a humanidade estaria consumindo atualmente cerca de 45% além da capacidade da reposição da biosfera.

Cientistas renomados como o holandês Paul Crutzen (Prêmio Nobel de Química em1995) acreditam que o homem tenha se tornado uma “força geofísica planetária”. Foi ele que, em 2000, cunhou o termo Antropoceno para designar a nova época geológica que viria após o Holoceno. Mas, a proposta de Crutzen é contestada por muitos cientistas.

Considera-se que uma época geológica seja definida por um conjunto de evidências climáticas, estratigráficas, biológicas, químicas e físicas. As principais dessas evidências seriam o aumento das temperaturas médias globais, as mudanças nos padrões de erosão e sedimentação, a acidificação dos oceanos e os crescentes índices de extinção das espécies de forma acidental ou deliberada, causando danos irreparáveis à biodiversidade (o biólogo Edward G. Wilson afirma que atualmente uma espécie desaparece em média a cada 20 minutos e estima que em 2030, cerca de 20% das espécies atuais terão desaparecido).

É impossível acreditar que 6.5 bilhões de pessoas vivendo e explorando, quase sempre predatoriamente, cada recurso disponível não provoque enormes alterações no ecossistema global. Essas alterações ficarão contidas em nosso registro geológico e as gerações futuras poderão perceber mais claramente a herança deixada por seus antecessores.

“Revista Pangea Mundo”

Wall Street, descanse em paz: o fim de uma era

Julie Creswell e Ben White

Wall Street. Duas palavras simples que, assim como Hollywood e Washington, conjuram um mundo.

Um mundo de grandes egos. Um mundo onde pessoas adoram apostar com dinheiro emprestado. Um mundo de negócios realizados na corda-bamba, impulsionados por computadores.

Em busca de retornos cada vez maiores -e iates maiores, carros mais rápidos e coleções de arte mais caras para seus altos executivos- as firmas de Wall Street reforçaram suas mesas de negociação e contrataram gênios da física quântica para desenvolver programas à prova de falhas.

Os fundos hedge colocavam os mercadores no vermelho (a alta da coroa dinamarquesa) ou no preto (a queda do PIB da Tailândia). E firmas de private equity reuniam fundos gigantes e saíam em uma onda de compras, adquirindo empresas como se fossem uma segunda esposa comprando sapatos Jimmy Choo em liquidação.

Este mundo está em grande parte chegando ao fim.

O imenso pacote de resgate que está sendo debatido no Congresso poderá ter sucesso em estabilizar os mercados financeiros. Mas é tarde demais para ajudar firmas como Bear Stearns e Lehman Brothers, que já desapareceram. O Merrill Lynch, cujo touro de sua marca registrada simbolizava Wall Street para muitos americanos, está sendo absorvido pelo Bank of America, localizado a centenas de quilômetros de Nova York, em Charlotte, Carolina do Norte.

Para a maioria dos financistas que permanecem, com a exceção de alguns poucos superastros, os dias de dinheiro fácil e bônus gigantes são coisa do passado. O boom do crédito que levou ao crescimento explosivo de Wall Street secou. Os reguladores que ficaram de lado por muito tempo agora estão ávidos para refrear os bad boys de Wall Street e as práticas que se proliferaram nos últimos anos.

“Os dias aventureiros nos negócios das firmas de Wall Street, basicamente transformando a si mesmas em fundos hedge gigantes, acabaram. A verdade é que não eram tão bons”, disse Andrew Kessler, um ex-administrador de fundo hedge. “Você não mais verá pessoal de nível médio ganhando um número de sete dígitos ou múltiplos números de sete dígitos que ninguém conseguia entender exatamente como conseguiram aquilo.”

O início do fim é sentido mesmo nos corredores do elitista e conservador Goldman Sachs, que, entre seus pares de Wall Street, resumia e definia a cultura de alto risco, alto retorno.

O Goldman é uma firma que as outras firmas de Wall Street adoram odiar. Ele conta com alguns dos maiores fundos hedge e de private equity do mundo. Seus banqueiros de investimento são os mais inteligentes. Seus corretores, os melhores. São eles que ganham mais dinheiro em Wall Street, dando à firma o apelido de Goldmine (mina de ouro) Sachs. (Seus 30.522 funcionários ganharam em média US$ 600 mil no ano passado -uma média que inclui tanto secretárias quanto corretores.)

Apesar dos executivos de outras firmas torcerem secretamente para que o Goldman cometesse pelo menos um grande erro, ao mesmo tempo eles se esforçavam ao máximo para copiá-la.

Apesar do Goldman permanecer excelente na prestação de consultoria para fusões e na intermediação do lançamento de ações no mercado, o que ele faz melhor do que qualquer outra firma de Wall Street é negociar bens mobiliários. Isso envolve o uso de seus próprios fundos, assim como uma pilha de dinheiro emprestado, para fazer grandes apostas globais.

Outras firmas tentaram seguir seu exemplo, acumulando risco e mais risco, na tentativa de capturar uma pitada da mágica do Goldman e de seus lucros estelares trimestre após trimestre.

Ninguém chegou perto.

Enquanto a crise de crédito tomava Wall Street ao longo do ano passado, levando o Merrill, Citigroup e Lehman Brothers a sofrerem prejuízos pesados em grandes apostas em ativos ligados a hipotecas, o Goldman continuava navegando sem grandes problemas.

Em 2007, no mesmo ano em que o Citigroup e o Merrill demitiram seus presidentes-executivos, o Goldman registrou receita e lucros recordes e pagou a seu chefe, Lloyd C. Blankfein, US$ 68,7 milhões -o maior valor pago a um presidente-executivo de Wall Street.

Mas até mesmo o menino de ouro de Wall Street não conseguiu suportar a turbulência que sacudiu o sistema financeiro nas últimas semanas. Após os problemas no Lehman e no American International Group (AIG), e do Merrill ter acertado às pressas sua compra pelo Bank of America há duas semanas, as ações do Goldman sofreram um golpe.

A crise do AIG foi particularmente problemática. O Goldman era o maior parceiro de negócios do AIG, segundo várias pessoas ligadas à seguradora, que pediram anonimato por causa dos acordos de confidencialidade. O Goldman assegurou aos investidores que sua exposição ao AIG era imaterial, mas clientes e investidores nervosos abandonaram a firma, temerosos de que os bancos de investimento -mesmo um tão estimado quanto o Goldman- poderiam não sobreviver.

“O que aconteceu confirmou meu sentimento de que o Goldman Sachs, independente de quão bom fosse, não estava imune à sorte”, disse John H. Gutfreund, o ex-presidente-executivo do Salomon Brothers.

Assim, no último fim de semana, diante de poucas opções, o Goldman Sachs engoliu a pílula amarga e se transformou, entre todas as coisas, em algo simples e ordinário: um banco de depósitos.

A ação não significa que o Goldman dará, tão cedo, torradeiras como brinde pela abertura de uma conta em uma agência em Wichita. Mas a mudança é um ataque à cultura do Goldman e ao âmago de seus lucros excepcionais nos últimos anos.

Nem todos acham que a máquina de fazer dinheiro do Goldman ficará totalmente restrita. Na semana passada, o Oráculo de Omaha, Warren E. Buffett, fez um investimento de US$ 5 bilhões no banco, e o Goldman levantou outros US$ 5 bilhões em uma oferta separada de ações.

Ainda assim, dizem muitas pessoas, diante de mudanças tão amplas, o Goldman Sachs poderá perder o que o tornava tão especial. Mas, até aí, poucas coisas permanecerão as mesmas em Wall Street.

“The New York Times”

Bem-vindos ao fim da Era Petróleo

O esgotamento das reservas é muito mais rápido que se supunha. Mas o consumo não para de crescer e podem surgir, entre os grandes importadores, disputas pelas fontes que restam

Nicolas Sarkis

Durante os três últimos anos, aumentaram consideravelmente as preocupações com o esgotamento das reservas petrolíferas. Agora, elas não se restringem às importações do Oriente Médio, região de turbulências crônicas. Abrangem o conjunto mundial de produção, refino e transporte de petróleo e gás natural. O sinal de alarme é acionado cada vez mais freqüentemente, tanto pelos dirigentes políticos quanto por especialistas independentes. Em seu último relatório bienal “Perspectivas Energéticas Mundiais”, publicado em 7 de setembro de 2005 e relativo ao período de 2004 a 2030, a Agência Internacional de Energia (AIE) expressa um sentimento quase generalizado, ao afirmar que “ os riscos para a segurança energética aumentarão muito, em curto espaço de tempo”, e que “a vulnerabilidade a perturbações no nível de reservas se acentuará com o aumento do comércio global [1]”. Durante seu discurso de ano novo, no dia 5 de abril de 2006, o presidente francês Jacques Chirac, por sua vez, expressou a “necessidade de preparar-se para a era pós-petróleo” como a grande questão do século.

Considerado o principal substituto para o petróleo, o gás natural ainda suscita preocupações, sobretudo depois de o maior exportador mundial, a Rússia, suspender as entregas para a Ucrânia e a Geórgia e as reduzir para a Hungria, Áustria e Itália, por insuficiência de estoque. Essas perturbações foram consideradas sérias o bastante para que o problema da segurança energética dominasse a pauta do encontro do G-8 em fevereiro de 2006, em San Petersburgo.

No discurso sobre o estado da União de 31 de janeiro, o presidente norte-americano George W. Bush preconizou, baseado no habitual apelo à segurança, a necessidade de os Estados Unidos reduzirem sua dependência face às importações de hidrocarbonetos e de “ir além do petróleo”. A mesma opinião pode ser ouvida na Europa, onde uma reunião de especialistas em energia, realizada no dia 15 de fevereiro, em Berlim, destacou “o interesse estratégico” na diminuição da dependência européia de importações do Oriente Médio e da Rússia, e no reforço das medidas de segurança que se tornaram “cruciais”, segundo Luc Werring, alto funcionário da União Européia.

Mais guerreiros e mais dependentes
Por que todo esse desconforto, quando a águia estadunidense estende suas asas de um extremo ao outro do Oriente Médio, da Ásia Central e da África, e os países exportadores não hesitam em abrir as comportas para enfrentar a rápida aceleração da demanda e evitar uma escassez de oferta?

Esse sentimento súbito e generalizado de insegurança é o oposto do que muitos previam ou esperavam, antes da guerra contra o Iraque e da tomada, por Washington, do país que possui as maiores reservas mundiais de petróleo, depois da Arábia Saudita, Ele também contraria as certezas que prevaleciam logo após a guerra do golfo (1990-1991) e da libertação do Kwait pelos Estados Unidos e seus aliados.

Nessa época, ficou famosa uma frase James Schlesinger, ex-secretário da Defesa e diretor da CIA (governo Nixon) e ex-secretário de Energia (governo Carter). Ele afirmou, diante do 15º congresso do Conselho Mundial de Energia, (setembro de 1992, Madrid), que, na opinião de altos funcionários do governo de Bush pai, “o povo americano aprendeu com a guerra do golfo que é muito mais fácil e divertido dar um pé na bunda do pessoal do Oriente Médio que fazer sacrifícios para limitar a dependência em relação ao petróleo importado”.

Schlesinger explicitou seu raciocínio destacando que, depois da queda da União Soviética e da ameaça soviética às reservas do Oriente Médio, os temores em relação à segurança das reservas de petróleo enfraqueceram consideravelmente nos Estados Unidos. Acotação relativamente baixa do preço do produto, que contribui para um aumento do nível de importações e para a queda da produção nacional, não era mais razão de inquietações.

A última constatação é que o cenário mudou profundamente ao longo dos três últimos anos. Ao invés de viabilizar um forte aumento da produção iraquiana e uma conseqüente baixa nos preços, a invasão do Iraque, em março de 2003, foi seguida por uma série de sabotagens, tomou a dimensão de uma guerra civil e acabou provocando uma baixa na produção de petróleo — de 2,5 milhões para 1,5 milhões de barris [2] por dia, em um dos principais países exportadores.

Aliados a outros fatores, esse fenômeno levou a uma explosão das cotações. Na média calculuada pela Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), elas passaram de 24,36 dólares o barril, em 2002, US$ 50,58, em 2005.

Um mundo viciado em óleo
Ao contrário das crises de petróleo de 1973-1974 e de 1979-1980, esta alta completamente inesperada e o desconforto com relação à segurança de suprimento não são conseqüências de um embargo, de uma baixa nas exportações ou da utilização do “ouro negro” como arma por determinado país produtor. Ela encontra suas origens numa série de fatores – especialmente nos atentados e na instabilidade política no Oriente Médio, nas tensões em torno do programa nuclear iraniano, nos conflitos étnicos na Nigéria [3]], etc. Há razões ainda mais preocupantes e duradouras, já que envolvem o equilíbrio entre oferta e procura.

Vivemos uma aceleração inesperada do ritmo de aumento das demandas de consumo. Após um crescimento médio de 1,54% ao ano, durante o período 1992-2002, a demanda mundial aumentou 1,93% em 2003 e 3,7% em 2004. Atingiu um recorde de 82,1 milhões de barris por dia em 2005. Em apenas três anos, a demanda por petróleo aumentou em 5,5 milhões de barris por dia. O crescimento foi assombroso especialmente na China, com um salto de 7,6% em 2003 e 15,8% em 2004.

Este aumento da demanda levou os países produtores a extrair até o limite de sua capacidade. Eles não têm como obter mais petróleo. A esse fator adiciona-se a saturação da capacidade de transporte e refino, sobretudo nos Estados Unidos, que aumentou naturalmente a espiral ascendente dos preços.

As estimativas disponíveis, sobretudo as da Agência Internacional de Energia (AIE) e do Departamento norte-americano de Energia (DoE) prevêem um aumento de cerca de 50% no nível mundial de consumo, durante os próximos 25 anos. Isso provocaria um salto de 83,2 milhões de barris/dia, em 2005, para 115,4 milhões, em 2030, segundo a AIE (ou 131 milhões, de acordo com o DoE). Como bem diz um anuncio publicitário recente do grupo norte-americano Chevron Texaco: foram necessários 125 anos para que o mundo consumisse o primeiro trilhão de barris de petróleo, mas serão necessários apenas 30 anos para que se consuma o segundo — o que corresponde ao total das reservas comprovadas.

Como e a que custo poderíamos responder a essa rápida escalada da demanda? A resposta a essa questão depende de duas variáveis: de um lado, a confiabilidade dos números existentes sobre a estimativa das reservas; de outro, o possível aumento da capacidade de produção.

E se as reservas forem ainda menores?
Apesar de não serem novas, as suspeitas a respeito do real volume de reservas foram recentemente reforçadas por revisões para baixo anunciadas por algumas empresas petroleiras, e por novas estimativas feitas por geólogos independentes. No que se refere aos membros da OPEP, as dúvidas a respeito das estimativas oficiais remontam aos anos 80, quando os países do Golfo Pérsico realizaram, um após outro, reavaliações espetaculares de suas reservas, sem que isso jamais fosse respaldado por novas descobertas, altas de preço ou novos estudos.

Entre 1985 e 1986, os Emirados Árabes Unidos aumentaram a estimativa oficial de suas reservas de 33,9 para 97,2 bilhões de barris. A Arábia Saudita aumentou a sua estimativa de reservas em 50%, levando-a de 169,6 bilhões (1987) para 254,9 bilhões de barris (1988). O Iraque dobrou seus cálcuos, que passaram de 32 bilhões de barris (1981) para 65 bilhões (a partir de 1983), chegando depois a 115 bilhões (2001). Esse inchamento das estimativas ocorreu em uma época em que os países-membros da OPEP fixavam suas quotas nacionais de produção essencialmente em função das reservas comprovadas de cada país. Entre 1983 e 1988, o total das reservas estimadas pela OPEP aumentou em 62%, saltando de 470 para 764,4 bilhões de barris. Novas reavaliações, nos mesmos países, elevaram em seguida estas reservas para 896,6 bilhões de barris em primeiro de janeiro de 2005.

Algumas dessas revisões certamente foram conseqüência de novas descobertas, ou de progressos tecnológicos que influenciaram a capacidade de extração. Outras são objeto de desconfiança, mesmo porque a quase totalidade dessas reservas é controlada por empresas estatais, que recusam qualquer controle ou análise externa. As estimativas oficiais das reservas da OPEP ditas “comprovadas” são superiores em cerca de 400 bilhões de barris às feitas por entidades independentes, entre elas a Association for the Study of Peak Oil (ASPO). Os volumes chamados por alguns especialistas de “barris fictícios”, correspondem a 44% do total das estimativas oficiais da OPEP. Isso evidentemente não significa que os números apresentados pelos orgãos independentes sejam mais próximos da realidade que os anunciados pelos países em questão. De todo modo, a enorme diferença entre os estimativas permite ter idéia da complexidade dos critérios técnicos e econômicos utilizados, e das dúvidas que cercam os dados disponíveis.

As transnacionais também superestimam
Tais dúvidas são reforçadas pelo fato de os números publicados por certos membros da OPEP permanecerem inalterados durante períodos muito longos, como se cada barril extraído fosse miraculosamente substituído naquele instante por uma nova descoberta ou reavaliação. O Iraque, por exemplo manteve sua estimativa em 100 bilhões de barris ao longo de todo o período de 1987 a 1995, quando a elevou para 115 bilhões. Não menos surpreendente é o exemplo do Kwait, que manteve intacta, entre 1991 e 2002, a estimativa de 96,5 bilhões de barris em suas reservas comprovadas — apesar de uma extração acumulada de 8,4 bilhões de barris, no período. Baseando-se em dados que teriam sido fornecidos por altos funcionários do governo do Kwait, o semanário americano Petroleum Intelligence Weekly sustenta que as estimativas oficiais são uma mescla de reservas comprovadas, prováveis e possíveis. As reservas realmente comprovadas não passariam de 48 bilhões de barris…

O volume das reservas comprovadas da Federação Russa permanece incerto, devido tanto à falta de transparência das estatísticas do país quanto ao método de avaliação utilizado. De acordo com fontes ocidentais, o volume real das reservas seria de 30 a 40% inferior às estimativas oficiais, de 72,3 bilhões de barris.

Mesmo no que diz respeito às empresas multinacionais, com ações negociadas na bolsa e submetidas a controles contábeis e empresas de auditoria, há fortes dúvidas – sobretudo depois do caso Shell. Depois de uma forte queda na produção de suas jazidas de Yebal, em Omã, e outras perdas em todo o mundo, a companhia teve que reconhecer, em janeiro de 2004, que suas reservas haviam sido superestimadas em algo próximo de um terço. Poucos meses mais tarde, a empresa americana El Paso anunciou também uma reavaliação para baixo em cerca de 11%. Mais recentemente (janeiro de 2006) o grupo espanhol Repsol-YPF teve também que diminuir em 1,25 bilhões de barris suas supostas reservas — isto é, 25% do total do que fora estimado antes. Assim como ocorrera com a Shell, o grupo foi alvo de uma avalanche de ações judiciais por parte de seus acionistas.

Extração supera as novas descobertas
Uma outra causa de preocupação é o fato de que o volume de petróleo extraído do subsolo é, há 20 anos, superior ao volume descoberto. Algumas multinacionais, com dificuldades em manter o nível de produção, compram, quando podem, ativos de outras empresas. O episódio mais recente foi o da ChevronTexaco, que pagou alto preço para adquirir, em 2005, a empresa norte-americana Unocal, cobiçada pela estatal chinesa CNOOC. Sem esta aquisição, a taxa de renovação de reservas da ChevronTexaco não ultrapassaria os 40-45% em 2005.

Junto com a desaceleração das descobertas e com a baixa, lenta mais inexorável, da proporção reservas/extração, um outro risco pesa sobre o mercado do petróleo. Trata-se do declínio na produção, num bom número de países, e da insuficiência de investimentos voltados para desenvolver as novas tecnologias necessárias para o suprimento da demanda.

Por causa da baixa na produção e do aumento de suas necessidades nacionais, certos países, antes grandes exportadores de petróleo, tornaram-se importadores (Indonésia, Egito e Tunísia; sem esquecer, é claro, os Estados Unidos), ou estão em vias de se tornar (Gabão, Omã e Síria). No México, um estudo realizado em 2005 pela companhia nacional Pemex, alerta para o risco de um declínio na extração muito mais rápido que o previsto – principalmente no campo de Cantarell, que, com 2 bilhões de barris, representa cerca de 60% do total da produção no país. No Mar do Norte, a AIE prevê o declínio das reservas, de 6,6 bilhões de barris (2002) para 4,8 bilhões (2010) e apenas 2,2 bilhões (2030).

Este declínio poderia ser compensado a tempo por países exportadores? Não há nada mais incerto. No que diz respeito ao Oriente Médio, cuja produção deveria supostamente dobrar até 2025, para saciar a crescente demanda global, as projeções da AIE e do departamento americano de Energia parecem ser totalmente irrealistas. Somente a Arábia Saudita pôs em marcha um programa que visa o aumento de sua capacidade — dos atuais 10,8 bilhões de barris dia para 12,5 bilhões de barris dia em 2009. Nos demais países, a situação é bem menos promissora, sobretudo no Irã, Iraque e Kwait. A situação política no Iraque e as tensões envolvendo o programa nuclear iraniano comprometem a capacidade produtiva desses países. O famoso “projeto Kuwait”, que deveria dobrar a produção do país, avança lentamente há dez anos, enquanto as antigas jazidas de Burgan e de Raudhatain, que totalizam 67% da produção do país, começam a dar sinais de esgotamento.

Nesse contexto, marcado por uma demanda cada vez maior e recursos cada vez mais raros, os principais perigos que rondam a segurança do abastecimento são o desequilíbrio entre a oferta e a procura e a concorrência e risco de conflitos, entre os principais países consumidores. Essa rivalidade explica a corrida em que se lançaram os Estados Unidos, os países europeus, a China, o Japão e a Índia, para pôr os pés nos países detentores de reservas e controlar as rotas marítimas e terrestres entre os centros de produção e as grandes zonas de consumo. A guerra do Iraque, que permitiu a Washington livrar-se da presença francesa, russa e italiana naquele país; o novo oleoduto Bakou-Tbilissi-Ceyhan (BTC); e o recente acordo entre Alemanha e Rússia sobre o gasoduto norte-europeu (GNE), que será construído sob o Báltico, são exemplos de grandes manobras tendo em vista a segurança de abastecimento energético dos países envolvidos.

Depois da crise de 1973/1974, os perigos mudaram de natureza. A palavra embargo foi banida do vocabulário dos países exportadores. Por maior que seja a ironia, são os países industrializados que utilizam o petróleo como arma, contra os países exportadores. Isso se deu, por exemplo, por meio das sanções da ONU contra o Iraque (no período 1990-2003) ou de sanções norte-americanas contra Irá, Líbia — por meio do ato de sanção contra a Líbia e o Irã (ILSA) [4] — e Sudão. Ao contrário do que supõe um preconceito tão absurdo quanto perigoso, há uma verdadeira complementaridade entre os países importadores e exportadores. À legitima preocupação dos primeiros, para garantir suas importações de petróleo e gás, corresponde a não menos legítima e não menos vital preocupação dos segundos, interessados em garantir seus mercados e receitas de exportação, indispensáveis para o desenvolvimento de suas economias. Quanto às divergências sobre os preços, elas mesmas têm se atenuado. A nova tendência de alta favorece uma necessidade imperativa. Ela permite conseguir aprovação para investimentos colossais no desenvolvimento da capacidade de produção e de outras fontes de energia mais caras.

Com o petróleo destinado a se tornar cada dia mais caro e mais raro, o problema da segurança de abastecimento requer um comportamento político bem diferente daquele de trinta anos atrás. Os antagonismos e os riscos de conflitos situam-se hoje bem menos entre os países produtores e os importadores. Concentram-se entre os próprios países importadores, cujo aumento de demanda e o declínio na produção doméstica levam inevitavelmente a depender ainda mais de importações, sobretudo provenientes de países do Oriente Médio. Algumas velhas receitas para a manutenção da segurança, entre elas a diversificação das fontes de abastecimento ou o exercício da pressão sobre os países produtores a fim de se beneficiar de petróleo abundante e barato, tornaram-se ineficazes. Os novos desafios somente podem ser enfrentados mediante relações baseadas no equilíbrio de interesses entre os países soberanos.

[1] http://www.iea.org/Textbase/press/pressdetail.asp?PRESS_REL_ID=163

[2] 1 barril = 159 litros.

[3] [Ler Jean-Christophe Servant, “Caos e Ira nos campos da Nigéria”, Le Monde Diplomatique-Brasil, abril de 2006.

[4] O ILSA foi votado pelo congresso norte-americano em 1996. O projeto estabelece sanções a empresas estrangeiras que investirem mais de 40 milhões de dólares no setor energético iraniano (A Líbia teve o embargo suspenso depois do relaxamento das tensões com os Estados Unidos). Apesar de o texto nunca ter estado em vigor, conseguiu dissuadir algumas empresas de investir no Irã.

“Le Monde diplomatique”

O combate do G8 à fome, ao aumento dos preços do petróleo e à inflação

Rüdiger Falksohn e Wolfgang Reuter

Os preços de energia e alimentos parecem estar aumentando diariamente e com eles a inflação. Com um novo relatório de estratégia, a chanceler alemã Angela Merkel espera encontrar um caminho para a crise tríplice no encontro de cúpula do G8 (grupo dos países mais industrializados mais a Rússia), nesta semana no Japão.

No que se refere a bilionários, Richard Rainwater, 65 anos, do Texas, é bastante comum. Seus ativos estão avaliados em cerca de US$ 3 bilhões, o que o coloca na faixa intermediária dos americanos super-ricos.

Um matemático por formação acadêmica, Rainwater é um visionário – famoso por ser o “caubói do capitalismo dos anos 90″, porque há 11 anos ele vendeu ações lucrativas de diversas empresas e, juntamente com outros, investiu US$ 300 milhões adicionais em empresas do mercado de energia que estava em dificuldades na época. O estouro da bolha pontocom de Internet e a recente crise imobiliária pouco o afetaram, e sua empresa, a Rainwater, recentemente anunciou com satisfação um lucro de US$ 2 bilhões.

Em 1997, um barril de petróleo cru custava apenas US$ 20. De lá para cá o preço explodiu e atualmente se encontra em US$ 144 no mercado global. Mas olhando à frente, Rainwater vendeu seus interesses em petróleo quando o preço atingiu US$ 129 e a empresa está, pelo menos por ora, evitando o petróleo. Rainwater vê a atividade turbulenta nas bolsas de commodities como um observador distante e surpreendentemente até a critica. Se as coisas prosseguirem como estão, ele disse recentemente à revista “Forbes”, a sobrevivência da humanidade poderá estar em risco.

O mundo já foi abalado por três crises financeiras recentes. Como resultado do colapso imobiliário nos Estados Unidos, bancos e seguradoras de todo o mundo foram atingidos. Além disso, os preços dos bens mais importantes do mundo estão em alta – tanto para fontes de energia quanto para alimentação. E quanto mais caros ficam os commodities, mais eles aceleram o processo de inflação global.

Inevitavelmente, o Terceiro Mundo e os países emergentes estão sendo arrastados por estas crises. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) transformaram a abertura de seus mercados internos para capital e produtos ocidentais – incluindo alimentos e bens de consumo – em uma pré-condição para obtenção de empréstimos. E agora isto.

No Vietnã, apenas recentemente considerada uma economia tigre asiática, a taxa de inflação já está em 25%. Em junho, a população teve que gastar 75% mais em alimentos do que há apenas um ano. Trabalhadores estão fazendo greve por aumentos salariais em muitas partes do país.

Os preços do diesel em Bangladesh aumentaram em um terço, para cerca de US$ 0,80 por litro; o preço do gás natural aumentou dois terços. Dos 145 milhões de habitantes do país, 58 milhões precisam viver ganhando menos de US$ 1 por dia.

Na Tailândia, manifestantes bloquearam as ruas por causa da desvalorização do baht, que está dolorosamente inflacionando os preços dos importados. Crescem os temores de uma nova crise asiática.

Na Índia, os protestos estão se tornando mais freqüentes. Linhas de trem estão sendo bloqueadas. Escolas estão sendo fechadas. E, na semana passada, milhões de caminhoneiros entraram em grave após o governo em Nova Déli ter reduzido os subsídios aos combustíveis, uma nova política que afeta não apenas os preços do diesel, mas também o do óleo de cozinha.

A Índia, uma potência econômica em rápido crescimento, está enfrentando uma taxa de inflação de 11,6%. No Paquistão, o índice é de 19,3%, 20,2% no Irã, e Rússia, Sérvia e Bulgária estão registrando índices de cerca de 15%. Em 50 outros países, o índice é superior a 10%.

Se a Alemanha, por exemplo, experimentasse uma queda de 30% no poder aquisitivo como vista atualmente na Etiópia ou Venezuela, isto significaria que aqueles que recebem o mais alto benefício desemprego do país, atualmente de 378 euros (US$ 594) por mês, veriam seu poder de compra reduzido para 264 euros em um ano.

Toda a atenção agora está concentrada na ilha de Hokkaido no Japão. A partir de segunda-feira, os líderes dos países do G8 se reunirão na cidade de Toyako para discutir uma série de questões que dificilmente poderiam ser mais complicadas. Como, por exemplo, é possível reprimir o poder destrutivo potencial de uma economia globalizada? O sistema capitalista está seguindo para um colapso? E como resgatar o mundo desta crise tripla – e com que meios?

Surpreendentemente, os oito maiores países industrializados do mundo inicialmente nem queriam colocar estas questões no centro de sua agenda. O primeiro-ministro do Japão, Yasuo Fukuda, 71 anos, carecia de coragem ou talvez de poder para colocar a questão da crise tripla na agenda. Em vez disso ele se concentrou na mudança climática e na África, as mesmas questões adotadas por sua antecessora, a chanceler Angela Merkel da Alemanha, que foi a anfitriã da última conferência do G-8 em Heiligendamm, na costa do Mar Báltico, em 2007.

Mas, em abril, o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, escreveu aos japoneses e pediu para que a situação mundial dos alimentos fosse discutida no encontro. Merkel também reconheceu a necessidade de ação. Discretamente, eles convocaram um grupo de trabalho interministerial. Na última segunda-feira, eles informaram as conclusões a Fukuda, o presidente do G8, assim como aos chefes de Estado e governos dos demais países membros.

A “Spiegel” obteve uma cópia da carta de seis páginas, que trata dos problemas fundamentais com a seriedade adequada e agora guiará a discussão do G8.

O aumento dos preços terá “conseqüências sérias para a segurança e oferta de alimentos para famílias pobres e carentes, tanto nas áreas urbanas quanto rurais, dos países em desenvolvimento”, ela declara. A escassez de alimentos e conflitos em torno do controle e acesso aos recursos naturais poderia “colocar em risco a democratização, desestabilizar Estados e se transformar em problemas de segurança internacional”.

Além do “crescimento demográfico e econômico” e da “mudança dos hábitos de consumo” no Terceiro Mundo, os autores também atribuem à crescente produção agrícola destinada aos combustíveis como culpada pela explosão de preços. Finalmente, a desvalorização do dólar e a especulação no mercado de futuros também têm influência significativa sobre e nível e flutuações nos preços dos alimentos.

Os conselheiros de Merkel presumem que os preços dos grãos, arroz e sementes oleaginosas se tornarão um pouco menos caros, mas não muito. Ao mesmo tempo, eles esperam flutuações de preço ainda maiores. No relatório de orientação para o G8, eles recomendam:

- um aumento da produtividade agrícola – principalmente nos países em desenvolvimento, onde esta representa, em média, 1% do setor;

- garantias para que os mais duramente atingidos tenham acesso aos alimentos e ajuda financeira;

- que sementes, adubo e equipamentos agrícolas sejam fornecidos rapidamente (de preferência para Estados que façam “bom uso” desta ajuda e de forma responsável);

- a suspensão imediata de restrições de exportação em, por exemplo, países como a Índia.

O governo alemão acredita que os 30 países mais pobres do mundo precisam de US$ 20 bilhões adicionais para importação de alimentos para compensar a oferta insuficiente -um fato que agravaria enormemente seus déficits atuais. O governo de Merkel deseja que o FMI assegure que estes Estados permaneçam solventes. Visando lidar com a “natureza dramática” da crise, a produção global de alimentos também deve ser aumentada -especialmente nos países mais pobres do mundo. O governo alemão argumenta que seria prudente para os países ricos investir na agricultura destes países.

Apenas neste ano, anunciou Merkel, a Alemanha disponibilizará US$ 750 milhões para ajudar a garantir a oferta de alimentos a estes países. Em Toyako, ela deverá pressionar pela criação de uma força-tarefa agrícola na esfera da ONU assim como de um plano para ação adicional.

As propostas de Berlim não são novas nem revolucionárias. Todavia, elas representam as formas como os principais países industrializados estão buscando lidar com estes grandes problemas.

Assim como há um ano em Heiligendamm, a chanceler alemã Merkel também está estabelecendo o tom neste encontro do G8. Mas será que o clube será capaz de tomar as medidas apropriadas? Afinal, a fome é apenas um aspecto deste problema triplo.

A meta é desfazer o nó cego, preferivelmente sem violência. É necessária a adoção de uma posição dura em relação aos fundos hedge, que vem se enriquecendo de forma imprudente; os mercados precisam ser ajustados e regulados. Mas que regras devem ser aplicadas? E que mecanismos de supervisão podem ser justificados sem espalhar ainda mais os estragos?

O fato, por exemplo, de bilhões de chineses estarem comendo mais carne e consumindo mais gasolina do que antes e de que a demanda está crescendo é resultado de um tremendo crescimento econômico. O Império do Centro permitiu o ingresso de investidores em seu país e a qualidade de vida está aumentando – um verdadeiro exemplo para livros educativos. A milésima loja do McDonald’s na China em breve erguerá seus arcos dourados para prazer da sede da empresa americana em Illinois.

Ainda assim, o recente boom em investimento e consumo em Pequim e Xangai recentemente foi identificado como sendo uma das causas do crescente desequilíbrio global. Um motivo é a China estar se tornado uma concorrente formidável na disputa por recursos finitos como petróleo cru. O fato do país também estar diariamente eliminando terras agrícolas para abrir caminho para a indústria também é visto como sendo algo crítico, pois contribui tanto para a redução de suas próprias terras aráveis quanto das áreas agrícolas globais, de forma que a China agora precisa importar milho, soja e trigo.

De fato, a longa marcha da China de um país agrícola para a potência industrial que é atualmente está começando a mostrar seu lado sombrio. Este desenvolvimento industrial, antes tão elogiado, agora deve ser condenado?

Visando manter economias importantes nos trilhos, medidas completamente contraditórias estão sendo realizadas a curto prazo. O Federal Reserve (o banco central americano) em Washington, por exemplo, está reduzindo sua taxa de juros referencial visando estimular a economia americana. Ao fazê-lo, ele está disposto a aceitar a inflação que vem com isso. Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu faz o oposto – elevando as taxas de juros na última quinta-feira para 4,25% visando controlar a inflação (atualmente em 4% na zona do euro).

Enquanto isso, o FMI está pedindo por controles mais rigorosos do mercado financeiro, mais relatórios bancários detalhados e melhor gestão de risco nas instituições financeiras e agências de classificação. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn acredita que “a necessidade de uma intervenção pública está cada vez mais evidente”.

Por sua vez, como o mundo soube na sexta-feira, o Banco Mundial está desde abril de posse de um relatório que conclui que a agricultura de plantas usadas para biocombustíveis teve um impacto muito maior sobre os preços dos alimentos do que previamente se imaginava. Mas o relatório foi mantido em sigilo em deferência ao governo americano, que vem apontando o aumento da demanda por alimentos na China e Índia como causa do aumento dos preços, não a demanda por biocombustíveis nos postos americanos e europeus.

A grande maioria dos especialistas está, no mínimo, unida em sua crença de que os tempos de boom chegaram ao fim e que as rédeas precisam ser puxadas, especialmente entre os especuladores. Os governos terão que assumir de novo um papel mais forte no controle dos mercados. Agora cabe aos representantes do G8 a responsabilidade de chegar a conclusões razoáveis e tomar decisões razoáveis com base no relatório de Merkel e outras análises.

“Der Spiegel”

Em Bali, uma espetacular celebração funerária hindu

Seth Mydans

Pequenos fragmentos de ossos, retirados das cinzas de uma cremação real, encontraram o seu sítio final de repouso no mar no início da quarta-feira (16), sem a alma que foi libertada pelo fogo.

Essa foi a última etapa de uma elaborada cerimônia de cremação, cujos preparativos duraram três meses, no mais espetacular funeral real em Bali em pelo menos três décadas.

Sob o ruído das chamas alaranjadas, o corpo de Agung Suyasa, chefe da família real de Ubud, foi reduzido aos seus elementos terrestres na terça-feira, em um ritual de cremação coletiva que incluiu três figuras reais e 68 plebeus.

De acordo com uma tradição balinesa, os corpos dos plebeus aguardaram para se juntarem ao de Suyasa e a de dois outros membros da sua família em uma cremação real, embora as piras dos cidadãos comuns ficassem em um local separado.

Alguns deles aguardaram meses, ou mesmo anos, enterrados ou mumificados, pelos ritos espetaculares que combinam a energia, o misticismo e a criatividade desta ilha hindu.

Nas profundezas da noite, os ossos continuaram queimando, até que toda a superestrutura crematória foi demolida pelas chamas. Assim que as brasas se apagaram, os familiares retiraram fragmentos de ossos das cinzas e os prepararam para jogá-los no oceano, em um local que fica a meia hora de carro.

A cremação e a deposição dos últimos pedaços de ossos no mar fazem parte de uma jornada de purificação e renovação na qual, segundo a crença balinesa, a alma pode retornar para habitar um novo ser – geralmente um membro da mesma família – até que, mais uma vez, ela seja libertada através da cremação.

“Nenhum de nós é uma criatura nova”, diz Raka Kerthyasa, o meio-irmão mais novo de Suyasa, que agora é o guardião da antiga, mas simbólica, família real, e que supervisionou a cremação. “Somos parte do ciclo da vida”.

Esse ciclo em constante mudança pode um dia acabar com os próprios ritos de cremação, e algumas pessoas daqui afirmam que, devido a um mundo globalizado, é possível que Bali nunca mais presencie uma cerimônia de cremação como esta.

“Haverá coisas do gênero no futuro. Mas não creio que elas serão tão elaboradas e grandiosas como esta”, afirma I Nyoman Suradnya, um artista cujo irmão foi um dos plebeus cremados na terça-feira.

“As culturas surgem e desaparecem”, diz ele. “É só uma questão de tempo. Não tenham medo da mudança. Não existe nada que seja absoluto”.

No entanto, a cultura estava bem viva na terça-feira, quando milhares de voluntários usando camisetas roxas levavam emblemas enormes da cerimônia, como se fossem exércitos de formigas carregando objetos de um tamanho inacreditável.

Curvados sob uma enorme plataforma de bambu, os carregadores – que atuavam por turnos, em grupos de 200 que se revezavam a cada 100 metros – transportavam uma torre de 11 toneladas, tão alta quanto um edifício de três andares, que abrigava o caixão de Suyasa, sob uma cúpula de nove camadas.

Gritando e rindo com entusiasmo, às vezes disparando em uma corrida, os carregadores faziam com que a plataforma oscilasse loucamente da direita para a esquerda a fim de confundir os espíritos.

Ao lado da plataforma seguia um enorme e oscilante dragão, uma figura terrível com os olhos esbugalhados e os dentes afiados. Depois disso vinha um gigantesco touro de madeira negra que serviria como sarcófago na cremação.

“Por mais estranho que pareça, é nas cerimônias de cremação que os balineses encontram a maior diversão”, escreveu Miguel Covarrubias no seu trabalho clássico, “Island of Bali” (“A Ilha de Bali”), publicado em 1937.

“A cremação é uma ocasião de alegria, e não de pesar, já que ela representa o cumprimento do dever mais sagrado daquelas pessoas: libertar as almas dos mortos”, escreveu ele.

Durante a maior parte do tempo decorrido desde que ele morreu, em 28 de março, o corpo de Suyasa ficou embalsamado, como se estivesse dormindo, no seu palácio, enquanto os habitantes de Ubud vinham visitar o rei morto.

Durante uma vigília contínua, a família trouxe oferendas diárias e refeições simbólicas, e preparou café e chá ao lado dos cavaletes que sustentavam o caixão. Uma escova de cabelos, uma escova de dentes e um espelho estavam sempre à mão.

Na terça-feira, colocado entre o céu e a terra na inclinada torre funerária, o caixão branco e dourado de Suyasa chegou ao local da cremação, deslizando sobre as costas dos 200 carregadores de forma tão suave como se estivesse sobre gelo.

Os carregadores levaram o caixão até um plano inclinado branco, e a seguir deram três voltas em torno do touro, que era seguido por homens e mulheres com pirâmides de oferendas sobre as cabeças.

Na plataforma crematória, o dorso oco do touro foi aberto e o corpo foi colocado dentro dele. Um segundo touro, menor, com o corpo de Gede Raka, um outro membro da família real, ficou ao lado do touro no qual estava o corpo de Suyasa.

O sol se punha quando o dorso do touro gigante foi fechado e a área de cremação, repleta de milhares de expectadores, cintilou com os flashes das câmeras fotográficas.

Subitamente, chamas brilhantes surgiram sob a barriga do touro, tomaram conta dos seus colares dourados e subiram pela madeira. A fumaça parecia sair das narinas do touro, e labaredas escapavam dos olhos da estátua. Os seus chifres curvos e as suas orelhas estavam em chamas.

Quando o touro despencou, as barras de ferro que o sustentavam continuaram na mesma posição, e dentro da estrutura via-se o esqueleto queimando, com o crânio inclinado para baixo e o pé direito soltando labaredas.

Agindo com um desrespeito ritual para com o corpo, agora inútil, os trabalhadores o espetaram e golpearam com longas varas de bambus, a fim de atiçar o fogo, e ele oscilou ligeiramente nas chamas.

Finalmente, o corpo desintegrou-se nos seus cinco elementos terrestres: terra, vento, água, fogo e éter. A alma desapareceu no céu noturno, escoltada por uma chuva de fagulhas.

Indrayana, um dos filhos de Suraya, sentou-se no solo, usando um traje dourado ritual, e, mantendo as mãos juntas, fez uma oração para o pai. Depois disso, ele acendeu um cigarro, olhou para cima, e deu uma tragada.

“International Herald Tribune”

Batida da imigração prende centenas de operários de fábrica

Adam Nossiter

Em outra ação em grande escala em locais de trabalho pela imigração, autoridades federais realizaram uma batida em uma fábrica daqui na segunda-feira(25), detendo pelo menos 350 operários que elas disseram estar no país ilegalmente.

Vários agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) foram à fábrica pertencente à Howard Industries Inc., que fabrica transformadores elétricos entre outros produtos.

Até o final da tarde de segunda-feira, não tinha ocorrido nenhum indiciamento criminal, disse Barbara Gonzalez uma porta-voz do ICE, mas ela disse que dezenas de operários foram “identificados, tiveram suas impressões digitais colhidas, fotografados e processados para deportação dos Estados Unidos”.

A batida ocorre após uma operação semelhante realizada em maio em uma fábrica de processamento de carne em Potsville, Iowa, quando quase 400 trabalhadores foram detidos. A ação representou uma escalada significativa por parte do governo Bush, porque os detidos não foram simplesmente deportados, como em batidas anteriores, mas ficaram aprisionados por meses sob acusação criminal de uso de documentos falsos.

Essas audiências em massa ocorreram em um tribunal temporário no terreno do Congresso Nacional do Gado, em Waterloo, Iowa. Um intérprete criticou seriamente o procedimento, dizendo que os imigrantes não entendiam as acusações apresentadas contra eles.

Um grupo de direitos dos imigrantes em Jackson, a capital do Estado do Mississippi, criticou a batida de segunda-feira, dizendo que famílias com crianças estavam envolvidas.

“É horrível o que o ICE está fazendo a estas famílias e estas comunidades”, disse Shuya Ohno, um porta-voz da Aliança dos Direitos dos Imigrantes do Mississippi. “É difícil imaginar que estes sejam os Estados Unidos da América.”

Em Laurel, na tarde de segunda-feira, várias dezenas de parentes de imigrantes esperavam por notícias de seus entes queridos na Igreja Católica da Imaculada Conceição. Havia várias crianças pequenas. Um padre da igreja, que se identificou apenas como Sergio, se recusou a permitir entrevistas com as famílias ou responder quaisquer questões, dizendo apenas: “As pessoas estão com medo. Nós precisamos acalmá-las. Há mães e crianças envolvidas”.

As entradas para a vasta fábrica da Howard Industries, em um área industrial no sul da cidade, foram bloqueadas pelos agentes do ICE. Um restaurante de fast food próximo estava cheio de agentes de camisa azul, com um deles dizendo que apenas uma “pequena inspeção” estava em andamento na fábrica.

Uma mulher que entrava na igreja com quatro crianças pequenas disse que vários dos pais dos pequenos foram detidos. A mulher, Mary Troyer, disse que era tradutora para muitas das famílias. “Eu não gosto disso”, disse Troyer. “Eu não entendo. Eles vieram aqui para trabalhar. É muito triste.”

A porta-voz do ICE, Gonzalez, disse que os trabalhadores seriam levados para um centro de detenção do ICE para “aguardar o resultado de seus casos”. Ela disse que 50 seriam “devolvidos à comunidade” em vez de enviados ao centro, por “motivos humanitários”, incluindo dificuldades médicas ou a necessidade de cuidar dos filhos.

Ela disse que nenhum advogado esteve presente enquanto os trabalhadores eram interrogados. “Todos terão o devido processo segundo a lei”, disse Gonzalez.

No final da tarde de segunda-feira, trabalhadores com expressão séria, alguns deles algemados, foram colocados em fila perto de ônibus brancos e prateados sob a chuva.

Em uma declaração emitida após a batida, a Howard Industries, uma das maiores empregadoras da região, reconheceu que foi “visitada” por agentes da imigração, que tentavam determinar se seus funcionários eram cidadãos ou estavam legalmente autorizados a trabalhar no país.

“A Howard Industries realiza toda a checagem permitida para assegurar o status de imigração de todos os que candidatos a empregos”, disse a declaração. “É a política da empresa contratar apenas cidadãos americanos e imigrantes legais.”

Bill Chandler, diretor executivo do grupo de direitos dos imigrantes do Mississippi, chamou a batida em Laurel de uma violação dos direitos humanos.

“Nós estamos muito perturbados com o que aconteceu”, disse Chandler. “É uma verdadeira contradição entre nossos valores proclamados no Mississippi de trabalho árduo e família e as ações das autoridades locais e do ICE. Eu acho que é uma verdadeira afronta aos nossos valores. Eles estão criando seu próprio terrorismo ao caçar os trabalhadores.”

Após a batida em Iowa, o intérprete federal disse que muitos dos imigrantes não entenderam as acusações das quais se declararam culpados. Mas as autoridades federais disseram que os juízes nos casos acreditavam que as declarações de culpado foram feitas de forma livre e voluntária.

“The New York Times”

A urgência humanitária em Cuba faz ressurgir o debate em torno do embargo imposto por Washington

Jean-Michel Caroit

As chuvas diluvianas do ciclone Ike agravaram o desastre humanitário provocado no Haiti pela sucessão de furacões que vêm atingindo o Caribe há um mês. A primeira-ministra deste país, Michèle Pierre-Louis, lançou um apelo para que a ajuda internacional seja intensificada, e anunciou a morte de pelo menos 47 pessoas, no domingo(7), em Cabaret, ao norte da capital, Porto-Príncipe. Uma nova sucessão de chuvas dificultou o encaminhamento dos socorros rumo à cidade das Gonaïves, onde o furacão Hanna havia deixado 500 mortos no seu rastro. Estimado em 650 mil pelas Nações Unidas, o número de sinistrados continua aumentando.

Um furacão classificado na categoria 4, o Ike, devastou, no domingo, as pequenas ilhas Turks e Caicos, além da parte sul do arquipélago das Bahamas.

Mais de 700 mil pessoas, das quais 10 mil turistas estrangeiros, foram evacuadas em Cuba. Na noite de domingo, ondas de sete metros da altura foram assinaladas na extremidade oriental da ilha. Segundo José Rubiera, um responsável do serviço das previsões no centro de meteorologia cubano, o furacão, “extremamente perigoso”, apresenta o risco de devastar as áreas leste e norte de Cuba. Em 30 de agosto, o Gustav, um outro furacão de categoria 4, havia arrasado a Ilha da Juventude e a província de Pinar del Rio.

A situação de emergência humanitária em Cuba, que recebeu socorros enviados pela Rússia, a Espanha e a Venezuela, deu um novo alento ao debate em torno do embargo, imposto por Washington desde 1962. Várias personalidades da dissidência, entre as quais Marta Beatriz Roque e Vladimiro Roca, além da ONG Consenso Cubano, que representa cerca de vinte organizações de exilados nos Estados Unidos, pediram a suspensão “ao menos temporária” das restrições em relação às transferências de fundos e as viagens, de modo a facilitar a ajuda que os emigrantes enviam para as suas famílias. O candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama, informou que apoiava este pedido.

Em Washington, a administração ofereceu uma ajuda de US$ 100 mil (cerca de R$ 170 mil), com a condição de que ela seja distribuída por uma organização não-governamental. As autoridades da Havana responderam insistindo no seu pedido para que o embargo seja suspenso. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, descartou esta possibilidade, lembrando que o presidente George W. Bush exigia em troca “a libertação dos prisioneiros políticos e a implantação de um processo de eleições livres”.

“Le Monde”

ONG ecologista denuncia o impacto dos biocombustíveis sobre a América Latina

Laurence Caramel

Com a sua produção de etanol, um combustível fabricado a partir da cana-de-açúcar, uma planta da qual ele é segundo maior produtor mundial, o Brasil ofusca os seus vizinhos latino-americanos. Contudo, também nesses países a corrida em busca dos biocombustíveis vem se transformando numa realidade cada vez mais gritante. A organização não-governamental Friends of the Earth (Amigos da Terra) publicou, na quarta-feira, 10 de setembro, um relatório no qual ela apresenta um panorama detalhado desta nova situação regional.

“O combustível da destruição da América Latina”: o título deixa pouco espaço para o suspense em relação ao tom desse requisitório. Nele, os seus autores acusam os biocombustíveis de exacerbarem a concentração da propriedade da terra, além de incentivarem a explosão dos preços agrícolas e a deterioração do meio-ambiente. “Todos os países que foram objetos deste estudo aumentaram, ou planejam aumentar sua produção de biocombustíveis para níveis preocupantes. Para tanto, eles lançam mão de programas de subvenções, de exoneração de taxas… Ou seja, eles desenvolvem políticas que sempre são muito atrativas para os investidores”, aponta o relatório, que deplora as conseqüências em termos de desmatamentos e de poluição relacionada à utilização crescente de pesticidas e de adubos.

Perda de espaço das culturas alimentícias

A Argentina ainda não passa de um nanico no mercado do novo “petróleo verde”, mas ela é o segundo maior produtor mundial de soja. A ONG Friends of the Earth calculou que os projetos de investimentos que ela programou para o decorrer dos próximos três anos poderiam permitir-lhe produzir 4 milhões de toneladas de biodiesel. Para tanto, ela precisará converter ou desbravar 9 milhões de hectares, ou seja, o equivalente a 60% das superfícies atualmente cultivadas para a soja. No decorrer das duas últimas décadas, a expansão da soja acabou reduzindo as superfícies dedicadas à agricultura alimentícia e à pecuária, numa proporção de 25%. Já, as superfícies destinadas à produção de forragem foram reduzidas de 50%.

Com o objetivo de diminuírem seus gastos com derivados do petróleo, o Uruguai e a Colômbia também definiram objetivos visando a incorporar os combustíveis alternativos na gasolina tradicional. Na Colômbia, esta meta pressupõe, entre outros, multiplicarem por três, daqui até 2020, as superfícies dedicadas à cultura da palmeira-do-óleo, também conhecida como dendezeiro.

Além do mais, a explosão da demanda nos Estados Unidos e na Europa vem desempenhando um papel crescente neste processo de transformação da paisagem agrícola do subcontinente. As multinacionais do setor já começaram a ocupar posições na maior parte dos países, constata ainda o relatório, apontando a multiplicação dos conflitos com as comunidades locais em torno do uso das terras. O Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que apóiam o desenvolvimento da produção dos biocombustíveis na região, são considerados como culpados de indiferença em relação aos interesses em jogo.

Esta visão é evidentemente contestada pelos acusados. “Nenhum dos projetos que foram financiados pela nossa instituição representa qualquer espécie de concorrência em relação às culturas alimentícias”, afirma Carla Tully, que dirige o Programa de financiamento dos biocombustíveis no BID. “As reservas de terra nessa região são consideráveis, assim como as possibilidades de se obter ganhos de produtividade. Tornou-se prioritário construir uma nova estratégia energética, e os biocombustíveis ocupam uma parte importante nesse processo”, prossegue Tully.

Na terça-feira, 9 de setembro, o BID estreou no seu site na Internet uma plataforma interativa destinada a facilitar a tarefa dos governos e dos empreendedores quando estes precisam verificar detalhadamente a compatibilidade dos seus projetos de investimentos com 23 critérios ambientais e sociais diferentes. Será esta uma forma de rebater as críticas dos Amigos da Terra?

“Le Monde”

AI DOS QUE CRÊEM NO IMPÉRIO

Immanuel Wallerstein

Ainda que muito breve, a guerra entre Geórgia e Rússia revelou algo chocante para o pensamento convencional. Menos de vinte anos após vencerem a Guerra Fria, os EUA já perderam a condição de poder mundial solitário. Na verdade, deixaram até mesmo de ser superpotência…

O mundo assistiu a uma mini-guerra no Cáucaso este mês. A retórica, embora apaixonada, foi muito irrelevante. A geopolítica é uma série gigantesca de jogos de xadrez a dois, nos quais os jogadores buscam vantagens de posição. Nestes jogos, é crucial saber as regras que permitem os movimentos. Cavalos não podem mover-se em diagonal.

De 1945 a 1989, o principal jogo de xadrez era jogado entre os Estados Unidos e a União Soviética. Era conhecido como Guerra Fria, e as regras básicas eram chamadas “Yalta”. A mais importante delas dizia respeito à linha que dividia a Europa em duas zonas de influência. Foi chamada por Winston Churchill de “Cortina de Ferro” e ia de Stettin a Trieste. A regra era: não importava quanto conflito fosse provocado na Europa pelos peões, eles não deveriam provocar uma guerra real entre os Estados Unidos e a União Soviética. E ao fim de cada episódio de conflito, as peças deveriam retornar para os postos de onde haviam saído. Esta regra foi observada meticulosamente até o colapso do comunismo em 1989, episódio marcado notoriamente pela destruição do muro de Berlim.

É perfeitamente claro, como todo o mundo observou na época, que as regras de Yalta foram revogadas em 1989, e que o jogo entre os Estados Unidos e a Rússia (a partir de 1991) mudou radicalmente. O maior problema desde então é que os Estados Unidos não compreenderam bem as novas regras. Eles proclamaram a si próprios — e foram proclamados por outros — a superpotência solitária. Em termos de regras de xadrez isto foi interpretado como se os estivessem livres para mover-se pelo tabuleiro da forma que bem entendessem. E, em particular, para trazer os antigos peões soviéticos para sua esfera de influência. Sob o governo Clinton, e de forma mais espetacular sob o de George Bush, os Estados Unidos foram levando o jogo dessa forma.

Havia um único problema: os Estados Unidos não eram a superpotência solitária; e sequer, uma super-potência. O fim da Guerra Fria fez com que deixassem de ser uma das duas superpotências, para se tornarem um Estado forte, em uma redistribuição verdadeiramente multilateral de poder real, no sistema inter-estatal. Muitos países grandes são agora capazes de jogar os seus próprios jogos de xadrez sem ter de pedir licença às duas super-potências de outrora. E eles começaram a fazer isso.

Derrotada a União Soviética, Clinton age para conquistar seus peões e ampliar a OTAN. Mas o grande delírio veio com Bush, que renegou acordos, invadiu o Iraque e quis controlar a Ásia Central

Duas grandes decisões geopolíticas foram tomadas nos anos de Clinton. Primeiro, os Estados Unidos forçaram bastante, e foram relativamente bem-sucedidos, para incorporar os antigos satélites soviéticos do Leste Europeu à OTAN. Tais países estavam ansiosos por este ingresso, ainda que os Estados-chave da Europa Ocidental — Alemanha e França — relutassem de algum modo. Percebiam que a manobra norte-americana também os transformava em alvo, ao limitar a liberdade de ação geopolítica que recém haviam adquirido.

A segunda decisão estratégica norte-americana era tornar-se parte ativa nos realinhamentos de fronteiras na antiga República Federal da Iugoslávia. Isto levou-os a sancionar — e reforçar, com suas tropas — a secessão de facto do Kosovo em relação à Sérvia.

Mesmo sob Yeltsin, a Rússia sentia-se descontente com estas duas iniciativas geopolíticas norte-americanas. No entanto, a desordem politica e econômica naqueles anos era tão grande que o máximo que podiam fazer era reclamar — deve-se dizer que de um modo um tanto débil…

George W. Bush e Vladimir Putin assumiram o poder mais ou menos simultaneamente. Bush decidiu levar adiante as táticas da potência solitária (em que os Estados Unidos decidem por si mesmos como mover suas peças) com muito mais audácia do que Clinton havia feito. Em 2001, recuou do tratado anti-mísseis assinado com a União Soviética, em 1972. Depois, anunciou que os Estados Unidos não se prontificariam a ratificar os novos tratados assinados por Clinton em 1996; o Tratado de supressão dos testes nucleares [Compreensive Test Ban], e as mudanças acordadas para o tratado de desarmamento nuclear SALT II. Para completar, comunicou que Washington manteria seu projeto de militarização do espaço, conhecido como “escudo anti-mísseis”.

E, é claro, Bush invadiu o Iraque em 2003. Como parte deste envolvimento, os Estados Unidos vislumbraram e obtiveram direitos às bases militares e de sobrevôo nas repúblicas da Ásia Central — que anteriormente faziam parte da União Soviética. Além disso, promoveram a construção de óleodutos e gasodutos que procuravam tornar desnecessários os sistemas russos. E finalmente entraram em acordo com a Polônia e a República Tcheca para estabelecer pontos de defesa de mísseis, sob alegação de defesa contra o Irã. A Rússia, porém, os viu como voltados contra si.

Duas causas imediatas explicam a guerra. Diante da independência do Kosovo, a Rússia reivindicou direitos iguais. E, sem exército, Saakshvilli acreditou no conto do poder unilateral de Washington

Putin estava disposto a resistir com mais força que Yeltsin. Como jogador prudente, porém, ele se preocupou primeiro em fortalecer sua base, restabelecendo a autoridade central e revigorando o aparato militar russo. Neste período, as marés da economia mundial mudaram, e a Rússia tornou-se de repente um rica e poderosa controladora de reservas e linhas de abastecimento de petróleo e gás natural, dos quais os países ocidentais dependem fortemente.

O presidente russo começou começou a agir. Negociou acordos com. Manteve relações próximas com o Irã. Começou a pressionar os Estados Unidos para fora das bases militares na Asia Central. E se posicionou firmemente contra a extensão da OTAN em duas zonas estratégicas: Ucrânia e Geórgia.

O colapso da União Soviética deflagrou movimentos separatistas em diversas de suas antigas repúblicas, inclusive a Geórgia. Quando, em 1990, a Geórgia buscou acabar com o status de autonomia das zonas étnicas não-georgianas, estas imediatamente proclamaram-se Estados independentes. Não foram reconhecidos, mas a Rússia garantiu sua autonomia.

As causas imediatas para a mini-guerra destes dias têm dupla origem dupla. Em fevereiro, Kosovo institucionalizou sua autonomia de facto. Este movimento foi apoiado por e reconhecido pelos Estados Unidos e por boa parte dos países europeus. A Rússia alertou, na época, que a lógica deste movimento aplicava-se igualmente às secessões de facto nas antigas repúblicas soviéticas. Na Geórgia, a Rússia agiu imediatamente, pela primeira vez, reconhecendo a independência de jure da Ossétia do Sul, em resposta direta aos fstos em Kosovo, Em abril, os Estados Unidos propuseram, durante reunião da OTAN, que a Geórgia e a Ucrânia fossem recebidas, em um plano de adesão chamado Membership Action Plan. Alemanha, França, e o Reino Unido opuseram-se a isso, alegando que seria uma provocação à Rússia.

Neoliberal e fortemente pró-Washington, o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, estava agora desesperado. Ele deu-se conta de que a reafirmação da autoridade georgiana na Ossétia do sul (e na Abkházia) poderia perder-se para sempre. Aproveitou-se de um momento em que a Rússia estava supostamente desatenta (Putin, agora primeiro-ministro nas Olimpíadas; o presidente Dmitri Medvedev de férias) para invadir a Ossétia do Sul. Seu exército fracassou completamente, como era de esperar. Mas Saakashvili imaginou que estivesse forçando a mão dos EUA (aliás, da Alemanha da França também).
Como nota irônica, a Geórgia, uma das últimas aliadas dos Estados Unidos na coalizão no Iraque, retirou todos os 2 mil soldados que ainda mantinha por lá

Ao invés disso, ele teve uma resposta imediata da força militar russa, que esmagou a pequena armada georgiana. De George W. Bush, obteve retórica. Mas afinal de contas, o que Bush poderia fazer? Os Estados Unidos não são uma super-potência. Suas forças armadas estão atoladas em duas guerras sem perspectivas no Oriente Médio. E, mais importante que tudo, eles precisam muito mais da Rússia do que o contrário. O ministro de Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, frisou, num artigo publicado pelo Financial Times, que a Rússia é um “parceiro do Ocidente no Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte”.

A Rússia também controla, em essência, o abastecimento de gás da Europa Ocidental. Não por acaso, foi o presidente Sarkozy da França — e não Condolezza Rice — quem negociou a suspensão do conflito. No acordo firmado entre os dois países, a Geórgia faz duas concessões essenciais. Compromete-se em não mais utilizar a força contra a Ossétia do Sul, e aceita um documento que não faz nenhuma referência a sua integridade territorial.

A Rússia saiu, portanto, muito mais forte que antes. Saakashvili apostou tudo o que tinha e está agora geopoliticamente falido. Como nota irônica, a Geórgia, uma das últimas aliadas dos Estados Unidos na coalizão no Iraque, retirou todos os 2 mil soldados que ainda mantinha por lá. Estas tropas jogaram um papel importante nas áreas xiitas, e agora precisam ser substituídas por tropas norte-americanas, que terão que deixar outras áreas.

Quem joga o xadrez geopolítico precisa conhecer suas regras. Do contrário, corre o risco de ficar emparedado.

“Geografia Geral e do Brasil”

Lei marcial da Ossétia do Sul cria uma terra de ninguém

C.J. Chivers

Atiradores ossetianos perambulavam pela área da delegacia de polícia georgiana daqui enquanto soldados ossetianos iam e vinham em um caminhão militar georgiano capturado.

A bandeira vermelha, branca e amarela da Ossétia do Sul tremulava sobre a delegacia. Rua acima, dois postos de controle -um russo e outro ossetiano- cortavam o acesso à aldeia, que fica localizada próxima do fundo de um alto vale verdejante que se ergue até a Cordilheira do Cáucaso.

No acostamento da estrada nos limites da aldeia, um homem jovem armado estava sentado atrás de uma mesa, com meia dúzia de outros homens armados ao seu redor, perguntando aos visitantes o que pretendiam fazer estrada à frente.

A presença destes homens musculosos, bem armados, sinalizava que a lei marcial ossetiana estava em vigor em Akhalgori, uma área fora da zona de conflito na guerra entre a Geórgia e os separatistas ossetianos que agora parece destinada a se transformar em uma luta diplomática.

Akhalgori, conhecida como Leningori nos tempos soviéticos, só foi capturada após o cessar-fogo negociado na semana passada pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy. Mas o governo russo e a unidade militar sul-ossetiana disseram na quarta-feira que não partiriam.

A Rússia concordou a princípio em recuar para a Ossétia do Sul e para uma chamada zona de segurança em sua periferia. A demarcação da zona de segurança ainda está em disputa, mas um mapa que circulava na quarta-feira, de autoria do governo russo, incluía um “corredor de segurança” que parece se projetar longe o bastante para cobrir Akhalgori.

A aldeia fica em um ponto de obstrução, atravessando uma estrada de duas faixas que é a principal rota para o vale e uma série de vilas atrás dela que estão sob controle da Geórgia desde o colapso da União Soviética. Logo, apesar de apenas a área ao redor de Akhalgori estar coberta pelo corredor de segurança, a presença de soldados sul-ossetianos aqui lhes dá controle de fato sobre uma porção muito maior da Geórgia do que reconhecida pela Rússia até agora.

Shota Utiashvili, porta-voz do Ministério do Interior da Geórgia, disse que 8 mil pessoas vivem em Akhalgori e no vale atrás dela, e que quase nenhuma delas era ossetiana. Todas foram isoladas da Geórgia e o fluxo de informação que sai do vale é limitado.

O governo do presidente Mikhail Saakashvili pressionará a Rússia e a Ossétia do Sul a deixarem o vale, segundo Utiashvili e Giga Bokeria, o vice-ministro das Relações Exteriores da Geórgia. “A presença delas é simplesmente inaceitável”, disse Utiashvili.

As chances de persuadir os ossetianos a partirem parecem poucas.

Vova Algorov, um oficial da inteligência militar ossetiana que se identificou como o novo comandante da região, permitiu uma breve entrevista enquanto seus homens armados permaneciam em círculo ao seu redor. Ele não parecia interessado na opinião da Geórgia.

Ao ser perguntado por quanto tempo seus soldados pretendiam ficar, ele respondeu: “Para sempre”.

Um de seus soldados, que se identificou apenas como Ilan, sugeriu que o governo georgiano provocou a expansão ossetiana na Geórgia.

Ele tirou seu celular do bolso e usou sua tela para mostrar fotos dos soldados georgianos mortos em combate. A Geórgia atacou fortemente Tskhinvali, a capital sul-ossetiana, ele disse, após Saakashvili ter prometido um cessar-fogo em televisão nacional.

Ilan disse que seu amigo, Oleg Galavanov, foi ferido na barragem inicial da Geórgia e depois morto quando o disparo de um tanque georgiano atingiu a ambulância em que ele estava.

O soldado mostrou as fotos dos cadáveres e sugeriu que a decisão de Saakashvili arruinou qualquer chance de futura coexistência. “Como posso viver com eles?”, ele disse.

“Eu estava matando georgianos”, ele acrescentou. “Mas não sou assassino. Eu estava defendendo a minha pátria.”

“The New York Times”

Krugman: O estágio final da crise

Paul Krugman

No domingo, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, tentou traçar uma linha na areia contra novos resgates de instituições financeiras em dificuldades; quatro dias depois, diante de uma crise que saía do controle, grande parte de Washington parece ter decidido que o governo não era o problema, mas a solução. O impensável – uma compra pelo governo de grande parte da dívida podre do setor privado- se tornou inevitável.

A história até aqui: o verdadeiro choque após o governo federal não ter resgatado o Lehman Brothers não foi o despencar do índice Dow Jones, mas a reação dos mercados de crédito. Basicamente, os emprestadores entraram em greve: houve uma corrida aos títulos da dívida do governo americano, que ainda são vistos como o mais seguro de todos os investimentos – se o governo quebrar, o que valerá tudo mais? – mesmo que não pagassem quase nada, enquanto os candidatos a tomadores de empréstimo privados ficaram de mãos vazias.

Os bancos normalmente podem tomar emprestado uns dos outros a taxas apenas ligeiramente acima da taxa de juros dos títulos do Tesouro americano. Mas na manhã de quinta-feira, a taxa de juros média para empréstimo interbancário de três meses era de 3,2%, enquanto a taxa de juros dos títulos do Tesouro correspondentes era de 0,05%. Sim, é isso mesmo que você está lendo.

Esta fuga para segurança deixou muitas empresas sem crédito, incluindo empresas de peso do setor financeiro – e isso, por sua vez, abria caminho para mais grandes falências e maior pânico. Também estava deprimindo os gastos das empresas, um mau negócio à medida que se acumulam os sinais de que a desaceleração econômica está se aprofundando.

E o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que normalmente assume a liderança no combate às recessões, não pôde fazer muito dessa vez, porque as ferramentas-padrão de política monetária perderam sua força. Geralmente o Fed responde à fraqueza econômica comprando títulos do Tesouro, visando derrubar as taxas de juros. Mas a taxa de juros dos títulos do Tesouro já estão a zero, para todos os fins práticos; o que mais o Fed pode fazer?

Bem, ele pode emprestar dinheiro para o setor privado – e está fazendo isso em uma escala impressionante. Mas este empréstimo não impediu a deterioração da situação.

Há apenas um ponto positivo na imagem: as taxas de juros das hipotecas caíram acentuadamente desde que o governo federal assumiu o Fannie Mae e Freddie Mac e garantiu a dívida deles. E aqui há uma lição para aqueles dispostos a ouvir: nacionalizações podem ser a única forma de fazer o sistema financeiro funcionar de novo.

Algumas pessoas defendem essa posição há algum tempo. Mais recentemente, o ex-presidente do Fed, Paul Volcker, e dois outros veteranos de crises financeiras anteriores publicaram um artigo de opinião declarando que a única forma de evitar “a mãe de todas as contrações de crédito” é criar uma nova agência do governo para “comprar todos os papéis problemáticos” – isto é, que os contribuintes assumam toda a dívida pobre criada pelo estouro das bolhas de crédito e imobiliária. Vindo de Volcker, esta proposta tem uma séria credibilidade.

Membros influentes do Congresso, incluindo a senadora Hillary Clinton e o deputado Barney Frank, o presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, têm apresentado argumentos semelhantes. E na quinta-feira, o senador Charles Schumer, o presidente do Comitê Financeiro do Senado (e um defensor da criação de uma nova agência para resolver a crise financeira) disse aos repórteres que “o Federal Reserve e o Tesouro estão percebendo que precisamos de uma solução mais abrangente”.

Certamente, o presidente do Fed, Ben Bernanke, e Paulson se reuniram na noite de quinta-feira com líderes do Congresso para discutir uma “abordagem abrangente” para o problema.

Nós ainda não sabemos como será essa “abordagem abrangente”. Foram feitas comparações úteis com o resgate financeiro realizado pelo governo sueco no início dos anos 90, um resgate que envolveu uma nacionalização temporária de grande parte do sistema financeiro do país. Mas não se sabe se os autores de políticas em Washington estão preparados para exercer um grau comparável de controle.

E se não estiverem, isso poderia se transformar no tipo errado de socorro – um resgate dos acionistas e do mercado, na prática resgatando o setor financeiro das conseqüências de sua própria ganância.

Além disso, mesmo um resgate bem planejado custaria muito dinheiro. O governo sueco fez uso de 4% do PIB, o que em nosso caso seria US$ 600 bilhões – apesar de que o ônus final aos contribuintes suecos foi muito menor, porque o governo conseguiu vender os ativos que adquiriu, em alguns casos com bom lucro.

Mas não adiante choramingar (desculpe, senador Gramm) a respeito da perspectiva de um plano de resgate financeiro. O sistema político americano atual não vai seguir o famoso conselho de Andrew Mellon para Herbert Hoover: “Liquide o trabalho, liquide as ações, liquide os agricultores, liquide os imóveis”. O grande resgate está a caminho; a questão é apenas se será feito corretamente.

“The New York Times”

O intrincado quebra-cabeças da crise dos alimentos

Rodrigo Cunha

Periodicamente, a Organização das Nações Unidas (ONU) faz balanços e mapeamentos sobre a situação da fome no mundo, traça possibilidades de cenários futuros e estabelece metas e prazos para os países combaterem as causas do problema. Uma dessas metas é a erradicação da pobreza, e por mais paradoxal que possa parecer, a atual crise nos preços de alimentos no mercado internacional, que fez a ONU lançar mais um sinal de alerta sobre o risco da fome voltar a crescer, tem como uma de suas principais causas – dentre várias – justamente o aumento do número de pessoas que têm deixado a linha de pobreza nos países mais populosos do mundo. O crescimento vertiginoso de emergentes como a China e a Índia, e até o tímido crescimento do Brasil, têm gerado mudanças substanciais nos padrões de consumo, particularmente o de alimentos.

“Os países emergentes populosos, de um modo geral, têm aumentado sua demanda por alimentos e, concomitantemente, alterado o seu perfil de consumo, com o aumento da participação das proteínas de origem animal na dieta dessas populações”, observa Denise Viani Caser, diretora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Informações Estatísticas dos Agronegócios, do Instituto de Economia Agrícola (IEA). Segundo ela, o Brasil tem respondido adequadamente ao aumento da demanda por alimentos. De acordo com a Food and Agriculture Organization (FAO), braço da ONU para a questão dos alimentos, entre 1995 e 2004 a China e a Índia aumentaram a sua produção de alimentos praticamente na mesma proporção em que suas populações cresceram. Isso, contudo, não foi suficiente para atender a demanda gerada pelo aumento do poder de compra que chineses e indianos tiveram com o crescimento contínuo da economia desses países. Já o Brasil, embora sua economia tenha crescido em ritmo menor, teve no mesmo período um aumento na produção de alimentos 0,6% maior que o crescimento da população.

A mudança no perfil de consumo e o aumento da procura por fontes de proteína como carne e ovos têm uma relação direta com outro fator apontado como vilão das altas de preços dos alimentos: a política de redução da dependência do petróleo pela substituição gradual por biocombustíveis, particularmente o etanol produzido a partir do milho nos Estados Unidos. Além de ser alimento humano e ser usado como ração animal, o milho passou a ser destinado para a produção de combustível com o incentivo do governo. “A parcela de responsabilidade dos Estados Unidos, por deslocar grande parte do plantio de milho para a produção de etanol, é grande, uma vez que eles são os maiores produtores desta commodity”, opina José Maria Gusman Ferraz, da Embrapa Meio Ambiente. Caser, do IEA, completa: “O destino de grande volume de milho na fabricação de etanol nos Estados Unidos acarretou em diminuição drástica na oferta do produto no mercado mundial, principalmente de rações, que associada à maior demanda de países emergentes por proteína animal, fortaleceu a elevação de preço da commodity milho no mercado”.

Disputa com biocombustível

Embora a alta do milho tenha sido crescente desde 2006, e a FAO tenha registrado um aumento do produto em 53% nos últimos 12 meses, Sérgio Salles Filho, do Instituto de Geociências da Unicamp, observa que ele é apenas um dos diversos fatores envolvidos na atual crise de preços. “Sem dúvida, o emprego crescente do milho para a produção de etanol combustível contribui para a alta dos preços dos alimentos. Quanto contribui, é difícil dizer, porque embora seja um produto central na formação de preços agrícolas, como alimento humano e animal, o milho é um só dentre muitos produtos que influenciam preços”, pondera. “Acho que essa ênfase no milho para combustível é uma onda e, como tal, passageira. Em breve as tecnologias de produção de álcool a partir de celulose estarão em regime de viabilidade e serão predominantes. Seu aperfeiçoamento é questão de tempo”, acrescenta (leia reportagem sobre essas tecnologias).

Além dos Estados Unidos, maior consumidor de combustíveis fósseis do mundo, as nações ricas que compõem a Comunidade Européia também têm adotado políticas para reduzir sua dependência de petróleo, outro produto em alta no mercado internacional. Por isso, ressalta Ferraz, “os países da Europa também têm sua contribuição nesse quadro, uma vez que destinaram áreas que antes produziam alimento para produção de colza e canola para biodiesel”. A redução da área de plantio de alimentos diminuiu os excedentes que em parte os europeus tradicionalmente destinavam para doações a países pobres, influenciando, com isso, o comportamento dos preços de alimentos no mercado mundial. “A decorrente restrição dessas doações para ajudas humanitárias contribui para o crescimento da demanda mundial por alimentos e, consequentemente, para pressionar os preços internacionais”, afirma Caser, do IEA.

A priorização de terras de plantio voltado para produção de biocombustíveis, associada a adversidades climáticas decorrentes do aquecimento global, como secas e enchentes, contribuiu consideravelmente para a redução geral dos estoques reguladores. Segundo a FAO, o volume de grãos estocados em todo o mundo caiu de 640 milhões de toneladas em 2000 para 405 milhões de toneladas em 2007. Mas o alerta da ONU encontrou ecos no continente europeu, cujo parlamento já sinaliza mudanças. “A recente proposta de alteração na política agrícola comum da União Européia, de eliminação de subsídios para produção de energético e de estímulo ao aumento da produção de alimentos, se implementada, deverá contribuir para alterar o quadro atual”, aposta Caser.

A crítica feita pelo relator especial para o direito à alimentação, da ONU, Jean Ziegler, sobre a disputa de espaço entre a produção de alimentos e a de biocombustíveis, também respingou na crescente produção do etanol de cana-de-açúcar do Brasil. A cana brasileira estaria também tomando lugar da produção de alimentos, como na Europa e nos Estados Unidos, e consequentemente influenciando nos preços de grãos? De acordo com o Ministério da Agricultura, a área de plantio de cana-de-açúcar no Brasil aumentou 46% de 2000 a 2006, superando os 7 milhões de hectares. Mas segundo a União da Indústria da Cana-de-Açúcar, a cana voltada para a produção de álcool ocupa atualmente apenas 1% das terras agricultáveis do país e ainda têm muito espaço para expansão, podendo chegar a 3% do total, não devendo passar disso.

“É verdade que a cana ocupa uma área ‘pequena’ das terras agricultáveis. O problema é a sua alta concentração em algumas regiões, notadamente no estado de São Paulo, que é responsável por aproximadamente 60% da área plantada em todo o território nacional”, lembra Ferraz, da Embrapa. E expandir ainda mais a área de plantio voltada para a produção de combustível implica em mudanças na produção de alimentos. “Triplicar a área produzida da cana, sem dúvida, trará algum impacto no mercado interno”, observa Salles Filho, da Unicamp, e explica: “porque desloca culturas e criações, altera os preços relativos de insumos, produtos e terra, implicando maior pressão sobre os preços em geral. O quanto isso pode ser absorvido sem maiores impactos nos preços de alimentos e, mais que isso, no acesso aos alimentos pelas populações mais carentes, não se pode dizer nada em definitivo. Se a renda aumentar proporcionalmente, o problema se dissipa”.

Além do aumento de renda da população, a produtividade do agronegócio, melhorada com avanços científicos e tecnológicos, também pode atenuar esses impactos. Caser aponta um estudo realizado recentemente pelo IEA segundo o qual a expansão da cana-de-açúcar no estado de São Paulo – maior produtor de álcool do país – afetou pouco a produção total de alimentos, exceto para feijão e arroz, embora a redução de área das culturas alimentares em algumas regiões do estado ter sido significativa no período de 2001 a 2006. “Nos últimos sete anos, por exemplo, a área de milho decresceu 18,6%, mas a produção cresceu 2,5%, visto que a produtividade aumentou 26%. O mesmo ocorreu para outras culturas alimentares, em função de ganhos tecnológicos”, explica.

Ferraz, que tem ampla experiência na área de ecologia, faz outra associação entre a expansão da cana e o acesso das famílias brasileiras aos alimentos: “O perigo é que a cana está se expandindo não sobre áreas degradadas de pastagens, como se alardeia, mas sobre áreas férteis, ocupadas pela agricultura familiar, e por áreas de outras commodities como citrus e soja”, afirma. Segundo ele, embora as grandes produções de commodities como soja, milho e citrus sejam provenientes do agronegócio, 70% dos alimentos que compõem a mesa dos brasileiros vem da agricultura familiar. “Para que haja uma segurança alimentar em seu contexto mais amplo, são necessárias políticas públicas para a agricultura familiar”, defende.

Dependência do petróleo

Há ainda outro paradoxo que afeta indiretamente a questão dos alimentos, lembra Ferraz: o biocombustível também requer o uso de derivados do petróleo, utilizados para elaboração de adubos nitrogenados e os agrotóxicos usados nas culturas. Isso se aplica não só ao plantio de cana ou soja para produção de combustível, mas a toda a cadeia de produção e venda de alimentos. A alta do barril do petróleo afeta o custo para quem usa seus derivados em insumos, máquinas colheitadeiras e nos caminhões que transportam os alimentos aos centros consumidores e aos portos de exportação.

Segundo Denise Caser, que atua com economia agrícola, os preços de combustíveis e fertilizantes, que vêm encarecendo a produção de alimentos, devem continuar ascendentes. “Embora os atuais preços das commodities possam estimular os produtores para os próximos cultivos, há de se considerar o movimento contrário, dado pela perspectiva de maior elevação dos custos de produção, inclusive pela menor oferta no mercado mundial de fertilizantes, levando à menor adoção de tecnologia, com provável reflexo negativo, como a diminuição dos níveis de produtividade, sobre as safras vindouras em países importantes na produção de alimentos básicos”, alerta.

Se o caso dos fertilizantes é mais crítico, com o avanço das pesquisas há, pelo menos, a perspectiva de que máquinas agrícolas e caminhões também possam vir a usar o biodiesel, que já faz rodar frotas de ônibus em algumas grandes cidades. “Tanto biodiesel como álcool, embora para esse último as mudanças tecnológicas tenham que ser mais expressivas”, observa Salles Filho. Ainda assim, a dependência ao petróleo e as conseqüências das altas do barril ainda devem durar um bom tempo, o que requer outras saídas. “As decorrências da elevação do preço do petróleo sobre os custos de produção agrícola poderão ser amenizadas pela adoção de políticas que estimulem o emprego de sistemas alternativos, como o de produção orgânica, que se não apresenta os mesmos resultados em níveis de produtividade do sistema convencional, é certamente menos impactante sobre a produção final do que a provável redução no emprego de insumos químicos”, acredita Caser.

Especulação em bolsas

Como se não bastasse, além da alta do petróleo, da disputa de espaço com o biocombustível e da explosão de consumo em países emergentes e extremamente populosos, o preço dos alimentos também é afetado pela especulação em bolsas de mercado futuro, como a Chicago Board of Trade, nos Estados Unidos. “As operações especulativas no mercado futuro estão presentes sempre que os mercados dão sinais de maiores ganhos relativos, atual condição para as commodities agrícolas. O movimento nas bolsas de commodities cria uma demanda virtual que também afeta o mercado físico”, explica Caser.

Como a China ainda não dá sinais de redução significativa em seu crescimento econômico, o barril de petróleo só recua a sua cotação quando o dólar (já bastante desvalorizado) sobe um pouco, e os biocombustíveis estão apenas começando a conquistar seu mercado, os governos de cada país tentam tomar suas iniciativas para se precaver. A Argentina, para frear a inflação que atingiu 9,1% em 2007, tentou garantir o abastecimento do mercado interno tributando as exportações. O tiro saiu pela culatra e os agricultores fizeram greve até a suspensão da medida. Já o Brasil segurou a exportação apenas dos estoques de arroz que pertencem ao governo. Enquanto o Banco Mundial projeta uma alta de 52,3% para o arroz em todo o mundo em 2008, por aqui o acumulado de 12 meses está em 9,27%.

“Com Ciência”

Esquerda de cara nova

Em oposição à social-democracia e suas políticas neoliberais, o Die Linke é o partido que mais cresce na Alemanha, com filiados em todas as regiões do país. Mas, agora, terá que descobrir como conciliar a atuação ruidosa com a participação no jogo institucional

Peter Linden

Em uma das paredes de seu escritório, Klaus Lederer pendurou uma pintura a óleo levemente desbotada. O retrato é do filósofo Karl Marx (1818-1883), seu conterrâneo. Já no computador, a imagem escolhida como fundo de tela é muito mais moderna: trata-se de uma foto multicolorida de uma multidão protestando.

Para os alemães de direita, a sala do responsável berlinense pelo partido Die Linke (A Esquerda) é a síntese de tudo que eles mais repelem: o ressurgimento de Karl Marx, dado por enterrado desde a reunificação do país, e a volta das manifestações de ruas, que com o fim da República Democrática Alemã (RDA) pareciam não interessar a mais ninguém e agora despontam como tendência de época.

Temores também permeiam a ala esquerda do Die Linke, mas a natureza deles é bem diferente. Os integrantes do partido têm receio que, em breve, o marxismo e os protestos passem a existir apenas nas paredes e nos monitores dos escritórios de seus deputados. Para eles, o preço do sucesso crescente do partido pode ser o abandono dos ideais socialistas.

As preocupações de todos os lados são justificáveis. Basta analisarmos a esquerda e a direita alemãs nas últimas duas décadas. Fundado em 4 de fevereiro de 1990 sobre os escombros do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) [1], o Partido do Socialismo Democrático (PDS) consolidou rapidamente sua presença em todo o território e parecia uma força política estável. Porém, apenas 12 anos depois, nas eleições de 2002, não conseguiu mais do que 4% dos votos e foi excluído do Parlamento – é preciso atingir ao menos 5% para eleger representantes no Bundestag. Nesta ocasião, o social-democrata Gerhard Schröder recuperou seu cargo de chanceler e a direita, impulsionada pela União Democrata Cristã (CDU) e sua filial bávara, a União Cristã Social (CSU), comemorou o fim dos comunistas.

De fato, as referências à RDA comunista e à ditadura ainda pareciam contaminar a senso comum sobre as políticas da esquerda e se revelaram eleitoralmente tóxica. A confusão ideológica provocou conflitos até no âmbito do partido: alguns apontavam a ala comunista como responsável pela derrota enquanto outros acusavam os berlinenses, liderados por Klaus Lederer, de serem pragmáticos demais.

Por ironia da história, foi justamente o governo Schröder que permitiu o ressurgimento da esquerda com força total. Com sua “Agenda 2010”, o chanceler reduziu de tal forma a rede de proteção social que acabou induzindo, no primeiro semestre de 2004, a constituição de duas organizações socialistas na parte ocidental do país: a “Iniciativa Trabalho e Justiça Social” e a rede “Por uma alternativa eleitoral”. Pouco depois, estes grupos se fundiram sob o nome de “Alternativa Eleitoral – Trabalho e Justiça Social” (em alemão, WASG [2]).

Sempre contra a sua própria vontade, Gerhard Schröder contribuiu novamente para o crescimento acelerado desta nova esquerda ao convocar eleições federais antecipadas em 22 de maio de 2005, noite da fragorosa derrota sofrida por seu Partido Social-Democrata (SPD) contra o CDU nas eleições regionais da Renânia do Norte-Vestfália. Além de querer confirmar sua legitimidade no cargo em um cenário favorável à direita, Schröder tinha esperança de impedir os avanços dos novos concorrentes: o PDS parecia dogmático demais e a WASG excessivamente desorganizada para poderem ultrapassar a barreira fatídica dos 5%. Contudo, as duas agremiações, a priori tão diferentes entre si, articularam rapidamente um processo de união dentro do calendário eleitoral e conseguiram integrar o Bundestag! O recém-fundado Linkspartei, sob a direção compartilhada de Gregor Gysi e Oskar Lafontaine, obteve 8,7% dos votos e 54 deputados. E Schröder, após um acordo entre o seu partido e o CDU, teve que entregar o cargo à atual chanceler Angela Merkel.

Em junho de 2007, após tornar-se simplesmente o Die Linke, o partido ingressou sucessivamente nos Parlamentos dos Estados de Bremen, de Hesse, da Baixa Saxônia e de Hamburgo, confirmando sua implantação na parte ocidental do país.

Desde então, a preocupação dos conservadores vem crescendo. Aqui e acolá é possível ouvir pessoas citando novamente o Manifesto comunista. Um espectro ronda a Alemanha, afirmam editorialistas dos veículos de comunicação burgueses. “Este avanço da esquerda será mesmo realmente perigoso?”, indagava uma revista semanal [3], enquanto o ministro das relações exteriores Frank-Walter Steinmeier, do SPD, alertava para o perigo que constituia uma evolução desta natureza [4]. Enquanto alguns denunciaram a “infiltração comunista” [5] encampada pelo novo partido, outros lhe negaram toda competência política: “o Die Linke precisa ser colocado no seu devido lugar – e para todos os efeitos” [6]. Nesse meio tempo, após ter se tornado presidente do grupo parlamentar do partido no Bundestag, Gregor Gysi se viu na obrigação de prestar um esclarecimento: “para nós, não há retorno possível à RDA. Não existe volta à nacionalização dos meios de produção”, disse [7].

Apesar do medo evidente da direita e da mídia, os temores da ala mais à esquerda do partido certamente são mais antigos. A aliança do PDS com o SPD na administração do Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental (ex-RDA) em 1998 e, em seguida, em Berlim em 2001, levantou uma questão de princípio para os militantes mais esquerdistas: temos ou não o direito de governar?

“As pessoas temem que o nosso partido acabe tendo o mesmo destino que o do Partido Comunista Francês durante a presidência de Mitterrand”, comenta Klaus Lederer, que dirige desde 2005 o Die Linke em Berlim. “O que vocês querem que um partido faça quando, durante oito anos, ele só criticou a situação e, de um dia para o outro, se viu em posição favorável para participar do governo?”, questiona. Lederer cita então – sempre diante do retrato de Marx e da foto da manifestação – Rosa Luxemburg (1871-1919). Na visão desta grande pensadora comunista alemã, o Parlamento representava “o terreno adequado para permitir que os socialistas pudessem praticar uma resistência sistemática contra a dominação da burguesia” [8]. E é este tipo de resistência que tem sido objeto de discussões ao longo das últimas semanas. Os militantes do Die Linke se perguntam qual atitude devem adotar diante das exigências salariais e das greves na função pública. Ou ainda, como o partido, associado ao SPD na administração de Berlim, pode reagir quando o sindicato dos funcionários públicos resolve reclamar um aumento de 12%, depois de anos de renúncia.

A crise de identidade é tamanha que é comum dois comunicados de imprensa diferentes serem publicados no mesmo dia. Por exemplo: no primeiro release, o porta-voz para os assuntos sindicais na diretoria berlinense do partido exige solidariedade com os assalariados dos transportes públicos que estão em greve; no outro, o porta-voz para os assuntos econômicos do grupo parlamentar do Die Linke pede que sejam levados em conta igualmente os pontos de vista dos assalariados e o do empregador, alegando que este último, a cidade de Berlim, precisa manter a implementação do seu programa de recuperação econômica. O dilema é reconhecido com satisfação por Klaus Lederer, que avalia: “enquanto nós não estivermos mais à esquerda do que os sindicatos, sempre haverá críticas”.

Em certas ocasiões, a controvérsia adquiriu proporções tão excessivas que os dirigentes do partido tiveram de publicar uma declaração comum, na qual eles lembram à sua base os sucessos obtidos pelo governo de coalizão berlinense, tais como a implantação, apesar de inúmeras dificuldades, de um grande setor de empregos financiados por fundos públicos; o fato de a cidade só firmar contratos com empresas que pagam um salário mínimo de 7,50 euros por hora (cerca de R$ 20,00); a inserção na Constituição da realização periódica de referendos, inclusive por iniciativa popular; a gratuidade das vagas no jardim de infância; a não-privatização da Caixa de Poupança de Berlim e de toda outra instituição pública de previdência social, etc. Erguendo uma folha impressa com o pronunciamento dos seus líderes, Klaus Lederer acrescenta: “nós não estamos agindo de maneira amoral. Muito pelo contrário, estamos tentando obter tudo o que é possível nas condições presentes”.

Os debates que vêm agitando o Die Linke lembram aqueles que dividiam os Verdes (ecologistas) alemães nos primeiros anos da sua existência: uma luta sem tréguas era travada entre Realos e Fundis – pragmáticos e ideólogos. Frieder Otto Wolf, professor na faculdade de filosofia da Universidade Livre de Berlim e deputado dos Verdes no Parlamento europeu de 1984 a 1999, aponta um paralelo entre a polêmica dos ecologistas pouco depois da fundação do seu partido, em 1980, e a da nova esquerda contemporânea. De acordo com ele, “um conglomerado de movimentos sociais” desta natureza acaba sempre “se mostrando pouco à vontade” quando se trata de definir como “traduzir suas reivindicações para o espaço parlamentar”. O professor Wolf alerta: “nenhum partido pode sobreviver em longo prazo a uma polarização tão forte entre realismo e fundamentalismo. Quando um partido se mostra incapaz de lidar com essas contradições, no fim das contas ele acaba perdendo em todos os quesitos”.

Para ilustrar suas afirmações, ele enumera as diferenças. O Die Linke, explica, se mostra menos caótico do que os Verdes, mais consciente da necessidade de firmar alianças fortes para acabar com as posições puramente defensivas. Não corre tanto perigo de ver os sucessos eleitorais desgastarem sua influência junto à população: “na época, os Verdes se encarregavam de tudo, direta ou indiretamente. Hoje existem organizações como Attac e os fóruns sociais alemães, europeus, mundiais (que cumprem algumas de suas tarefas)”. O professor vangloria a clarividência da nova esquerda, que se mostra consciente de que “o braço parlamentar tem apenas um alcance limitado”. Diferentemente do que acontecera com os Verdes, obrigados a se dobrar a todas as vontades do autocrata Joschka Fischer, antigo vice-chanceler do governo Schröder, o Die Linke possui em Oskar Lafontaine e Gregor Gysi dirigentes flexíveis: “com esses dois, os ‘realistas’ e os ‘fundamentalistas’ terão dificuldades para recomeçar sua briga!”

De fato, os esforços em integrar os diferentes componentes do partido estão começando a render frutos junto à base. O processo de fusão do WASG e do PDS deixou poucos simpatizantes e militantes de lado. Diferentemente do que ocorre com os partidos estabelecidos, o Die Linke vem apresentando um crescimento do número de seus filiados, hoje em torno de 70 mil. A nova agremiação desponta como uma estrutura de acolhimento, não apenas para os sindicatos e os ex-membros de pequenas organizações comunistas, como também para os outros refratários à ordem econômica neoliberal.

Raros são os grupos que, a exemplo da Alternativa Socialista Para Frente (Sozialistische Alternative Voran, SAV), de tendência trotskista, ainda se recusam a entrar para o Die Linke. Lucy Redler, integrante da direção nacional da SAV, deplora a ausência de um programa partidário: “quando você desconhece os objetivos, acaba firmando acordos que não deveria e, sem demora, passa a não se preocupar mais com outra coisa senão impedir o pior, em vez de romper com a lógica de lucro do capitalismo”. Diferentemente do professor Wolf, ela teme um menor engajamento nas ações fora do Parlamento: “ao invés de elaborar ofertas imaturas de coalizão com o SPD, como ocorreu recentemente nas eleições de Hesse, a melhor coisa que o Die Linke poderia fazer depois do seu sucesso eleitoral seria participar dos protestos estudantis recentes”.

Os dirigentes da nova esquerda compreendem essas críticas, mas não as compartilham. Helge Meves, um militante experiente e veterano do PDS, se diz “cético em relação a um partido com pretensões ideológicas globais”. Para ele, “isso provoca debates que atrapalham a percepção sobre o que pode realmente ser feito para mudar as coisas. As questões de estratégia são mais importantes que as de programa”. O fato de o Die Linke pretender elaborar uma plataforma oficial somente depois de concluídas as próximas eleições nacionais, em 2009, não o incomoda. A perspectiva, aliás, é animadora: segundo as mais recentes pesquisas, o Die Linke pode alcançar 14% dos votos no pleito seguinte. Caso isso se confirme, este sucesso deverá muito ao envolvimento pessoal de Oskar Lafontaine, que foi primeiro-ministro da região de Sarre de 1985 a 1998, além de presidente do SPD, seu candidato oficial à chancelaria e ministro das finanças, até demitir-se do seu partido para protestar contra a política de cunho neoliberal de Gerhard Schröder.

Desde julho de 2007, o antigo líder social-democrata é um dos presidentes do Die Linke. Em tom eufórico, ele esboça um balanço sobre a evolução de sua força política: “nós havíamos prometido a nós mesmos fundar um partido capaz se arraigar de maneira duradoura na Alemanha e de mudar a política neste país”. Ele avalia que os dois objetivos foram atingidos e o Die Link progrediu “ainda mais rapidamente do que o previsto”. Lafontaine interpela com entusiasmo os contestatários que deploram a falta de um programa: “nós estamos fazendo a política do real! Isso equivale a um programa! Quando nós exigimos pisos salariais, quando nós queremos impedir a privatização dos transportes ferroviários, quando exigimos a retirada das tropas do Afeganistão, tudo isso equivale a um programa!”

Lafontaine havia apresentado o “seu programa” uma semana antes de sua eleição à presidência do Die Linke, em um artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitung intitulado “A liberdade pelo socialismo”. Nele, exigia que “setores econômicos vinculados às redes que garantem o atendimento de necessidades elementares da população permaneçam sob a responsabilidade do poder público” [9]. Ele também preconizava uma legislação reforçada sobre os cartéis, a implantação de pisos salariais, o abandono da Agenda 2010 e o direito de greve geral. E ainda citava o escritor Hermann Hesse: “na situação atual, o socialismo é mesmo a única doutrina que exerce uma crítica séria dos fundamentos da nossa falsa sociedade e [da nossa] maneira de viver” [10]. Por fim, Lafontaine evocava uma reflexão do papa Bento 16, igualmente alemão: “os déficits humanos deste sistema econômico que segue consolidando a dominação das coisas sobre os homens têm nomes: exclusão, exploração e desumanização” [11]. Aliás, para decorar o seu escritório no Bundestag, o co-presidente do Die Linke também escolheu um retrato, não de Karl Marx, mas sim do sumo pontífice, valorizado por uma bonita moldura dourada.

Para ele, da mesma forma que os Verdes no passado haviam “ecologizado” a vida política alemã, o Die Linke a “re-socializou, devolvendo para a esquerda a importância do seu papel político”. Esses avanços encontraram uma tradução na semântica pública. Os jornais não mais se referem aos “socialmente fracos” e voltaram a falar dos “pobres”. Ninguém mais se torna suspeito de ser “invejoso” ao pedir por “justiça”. “Solidariedade” não é mais um palavrão e “socialismo” deixou de ser assimilado ao “stalinismo”. Estas conquistas simbólicas serão, provavelmente, mais importantes em longo prazo do que qualquer ponto percentual obtido nas negociações salariais.

Lothar Bisky, um dos aliados de Oskar Lafontaine na diretoria do partido e novo presidente eleito da Esquerda Européia (EL), constata, com espanto, que fora da Alemanha as pessoas já começaram a se interessar pelo sucesso do Die Linke: “a Alemanha Ocidental sempre foi considerada um território onde não havia lugar para um partido à esquerda do SPD. E de repente, aqui estamos!”

[1] Nascido em 1946 da fusão dos comunistas e social-democratas da “zona de ocupação soviética”, que deu lugar, em 1949, à RDA, a antiga Alemanha Oriental.

[2] Ler Oliver Nachtwey, “Im Westen nichts Neues”, em Die Linkspartei, Wiesbaden, 2007.

[3] Die Zeit, Hamburgo, 31 de janeiro de 2008.

[4] Der Tagesspiegel, Berlim, 4 de fevereiro de 2008.

[5] Die Zeit online, 19 de fevereiro de 2008.

[6] Financial Times – Deutschland, 18 de fevereiro de 2008.

[7] Programa “Panorama”, 14 de fevereiro de 2008.

[8] Rosa Luxemburg, “A crise do socialismo na França”, em Reforma, revisionismo, oportunismo. Rio de Janeiro, Laemmert, 1970.

[9] “Freiheit durch Sozialismus”, Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), Frankfurt, 9 de julho de 2007.

[10] Hermann Hesse, citado na FAZ, 9 de julho de 2007.

[11] Citado pela FAZ, 9 de julho de 2007.

“Le Monde diplomatique”

O grande dinheiro mantém assento nas convenções dos partidos americanos

Leslie Wayne e Michael Luo

Quando o senador Barack Obama fizer seu discurso de aceitação diante de 70 mil pessoas no estádio Invesco Field, na quinta-feira em Denver, a maioria de seus simpatizantes estará sentada ao ar livre noturno. Mas um grupo de lobistas e executivos de corporações estará assistindo o evento de camarotes luxuosos, com comida sendo servida e bar aberto, a um preço de até US$ 1 milhão.

E os maiores arrecadadores de fundos e doadores para Obama estarão hospedados no Ritz-Carlton, com sua roupa de cama de 400 fios, quadra interna de basquete, piscina e um spa de 625 metros quadrados. Eles serão tratados com uma série de coquetéis e recepções em sua homenagem, incluindo um na noite de segunda-feira com Howard Dean, o presidente do partido, no Denver Performing Arts Center, uma recepção com o candidato à vice-presidência na noite de quarta-feira no Pepsi Center e uma celebração com Obama após seu discurso de aceitação da indicação, em um lounge no Invesco Field.

A retribuição aos doadores de altas somas nas convenções representa algo discordante para Obama, assim como para o senador John McCain, já que ambos criticaram fortemente a influência do dinheiro na política. Enquanto Obama atacava aqueles que “transformaram nosso governo em um jogo no qual apenas eles têm dinheiro para jogar”, o dinheiro corporativo e de outros interesses especiais será predominante como sempre na convenção democrata deste ano.

Até mesmo a importante legislação federal de ética aprovada no ano passado, para refrear os presentes que os membros do Congresso podem receber, mal arranhará os festejos ininterruptos que ocorrerão ao longo da convenção democrata da próxima semana, assim como em Minneapolis-Saint Paul, onde a convenção republicana ocorrerá uma semana depois. Brechas criativas surgiram para contornar muitas das restrições mais duras, com os organizadores do partido evitando uma proibição à realização de eventos em homenagem a um único congressista ao realizar festas em homenagem a vários ao mesmo tempo.

De fato, milhões de dólares estão sendo gastos em entretenimento e banquetes para membros específicos do Congresso, incluindo o deputado Rahm Emanuel de Illinois, o líder da bancada democrata na Câmara, e o senador Richard J. Durbin, também de Illinois. Apenas em Denver, o comitê organizador estima que haverá 1.200 festas durante os quatro dias da convenção.

Corporações, sindicatos e empresas de lobby, juntamente com indivíduos endinheirados, já doaram US$ 112 milhões aos comitês organizadores de Denver e Minneapolis-Saint Paul para ajudar a pagar pelas convenções. Diferente das doações de campanha, que possuem um teto na faixa de milhares de dólares, as doações para as convenções políticas podem chegar -e chegam- a números de sete dígitos.

Uma das decisões mais ousadas de Obama antes da convenção de seu partido foi mudar o local de seu discurso de aceitação, de uma área fechada, o Pepsi Center, para um estádio descoberto, o Invesco Field. A mudança visava simbolizar um novo espírito de abertura e permitir que a base de Obama, e não apenas os membros do partido, participasse do evento.

Mas além dos camarotes do Invesco -que são reservados aos grandes doadores para o Partido Democrata, para a campanha de Obama e para o comitê organizador de Denver- outras cadeiras especiais serão leiloadas pela campanha de Obama para os doadores. Por uma doação de US$ 1 mil ao Fundo para a Vitória de Obama no Colorado, os doadores receberão uma cadeira de “clube”, com fácil acesso aos restaurantes, bares e lounges, juntamente com um convite para uma recepção pós-discurso.

Além disso, membros do Comitê Financeiro Nacional de Obama, que atingiram sua meta de arrecadar pelo menos US$ 250 mil para a campanha, tiveram garantidas cadeiras especiais e passes para a própria convenção, mesmo não sendo delegados.

No lado republicano, McCain, em uma entrevista na última quarta-feira para o “Politico”, o site e jornal, prosseguiu em seu ataque aos lobistas, os chamando de “aves de rapina” que buscam “sua parte nos espólios”. Ele também prometeu executar a proibição ao lobby para membros de seu governo.

Mas grandes doadores de McCain e do Comitê Nacional Republicano, muitos deles lobistas, estão recebendo um Pacote de Platina especial, que fornece quartos no Grand Hotel ou no Westin em Minneapolis, jantares especiais e recepções, assim como uma festa na noite de quinta-feira com apresentação do humorista Dennis Miller. O grupo, chamado de Amigos e Parentes de McCain, tem sua agenda própria de eventos, parte do que as campanhas chamam de “manutenção de doadores”.

Camarotes no Xcel Energy Center em Saint Paul são oferecidos pelos comitês do Partido Republicano e pelo comitê organizador, disse Teresa McFarland, diretora de comunicações do comitê organizador de Minneapolis-Saint Paul, com as corporações que doaram ao comitê organizador US$ 1 milhão -uma doação do nível platina- já garantindo um camarote.

Dirk Van Dongen, presidente da Associação Nacional dos Distribuidores Atacadistas, que arrecadou mais de US$ 500 mil para a campanha de McCain, disse que não viu nenhuma contenção no entretenimento.

Por motivos pessoais, Van Dongen não irá à convenção neste ano, como fez no passado. Mas a julgar pela quantidade de convites que está recebendo, ele disse, “meu palpite é que no final do dia, se eu fosse, eu teria um cartão de dança tão cheio quanto normalmente estaria”.

Credenciais são distribuídas para os principais arrecadadores de Obama a cada manhã, com o grau de acesso e número de credenciais disponíveis dependendo de quanto arrecadaram. Lounges especiais estarão disponíveis no Pepsi Center para os grandes doadores. Alguns receberão passes especiais que permitirão que se misturem com os políticos nos bastidores. Os membros do comitê financeiro nacional também tiveram garantidos assentos especiais no Invesco Field para o discurso de Obama.

No Invesco Field, os camarotes estão sendo divididos entre o comitê organizador de Denver, o Partido Democrata e a campanha de Obama, com cada entidade decidindo quem os ocupará.

Jennifer Backus, uma porta-voz da campanha de Obama, disse que este distribuirá seus camarotes entre “funcionários da campanha, simpatizantes, parentes e amigos”. Entre aqueles que receberão camarotes estão a Quest, Comcast, Xcel Energy e Tom Golisano, o republicano de Nova York que recentemente doou US$ 1 milhão para o comitê organizador de Denver.

Nos camarotes do Invesco são servidos alimentos, há um bar aberto e grandes telas de televisão. Aquelas com acesso também ficam livres das filas de segurança gerais, já que há uma entrada separada com elevador privado para levá-los aos camarotes.

Em um exemplo de como as corporações estão contornando as regras de ética para limitar eventos em homenagem a legisladores, a AT&T e a Genworth estão entre as patrocinadoras do Blue Night in Denver, um evento no domingo em homenagem à coalizão Blue Dog, um grupo de deputados democratas conservadores em assuntos financeiros. As corporações e outros doadores estão sendo solicitados a comprarem “pacotes de patrocínio” para eventos, custando de US$ 25 mil a US$ 50 mil, e em homenagem à Coalizão Novos Democratas, um grupo de democratas moderados.

Os doadores para o evento Novos Democratas receberão ingressos VIP e acesso à área exclusiva cheia de confortos, para uma festa na Union State, um jogo de beisebol dos Rockies no Coors Field e um brunch com jazz em “uma residência incrivelmente privada” em Denver, segundo o convite.

A Visa e o US Bank também estão patrocinando uma recepção em homenagem aos congressistas em primeiro mandato.

Craig Holman, um lobista do Public Citizen, um grupo de monitoramento, deseja envergonhar os membros da Câmara para não participarem destes eventos, mesmo que estejam tecnicamente autorizados segundo a orientação do comitê de ética da Câmara.

“Eles cumpriram seu dever ao aprovarem estas regras de ética no ano passado”, disse Holman. “Eles fizeram um trabalho fenomenal ao aprovar uma das leis de ética mais fenomenais que já tivemos. E não quero que eles as pisoteiem.”

“The New York Times”

Da fogueira ao fast food

Texto Tarso Araújo

As plantas e animais que comemos existiam antes mesmo de o homeM abandonar o visual de macaco. De lá pra cá, o que mudou é como obtemos e preparamos as refeições. A história da comida evoluiu, dentada a dentada, junto com nosso poder de transformar o mundo

Antiguidade – 7 000 A.C.

Carnes – Carneiro / Há cerca de 10 mil anos, nômades desenvolveram a pecuária. E o carneiro, fonte de carne, leite e lã, era um dos animais mais úteis aos primeiros pastores da humanidade.

Cereais – Trigo / A agricultura nos deu grãos em quantidade. Para se transformarem em alimento, eram cozidos ou empapados. Também iam ao forno, de onde saíam em forma de pão.

Frutas e Legumes – Maçã / Frutas eram fontes valiosas de açúcar – e a maçã foi das primeiras a ser plantadas. Sempre ligada à sensualidade, seu gosto doce virou símbolo de pecado.

Bebidas – Cerveja / A fermentação foi descoberta ao mesmo tempo que a agricultura. Da cevada fazia-se a cerveja, mais popular que a água por não trazer riscos de contaminação.

Temperos – Sal / Antes mesmo de colocar o animal na cerca, o homem aprendeu que o sal, obtido em salmouras naturais, conservava a carne da caça.

Era clássica – Séc. 4 A.C.

Carnes – Porco / No século 3, era o item mais importante da “cesta básica” que Roma dava aos cidadãos. A gordura servia para temperar. No prato, a preferência era para as tetas e a vulva da porca.

Cereais – Macarrão / Povos do Mediterrâneo misturavam farinha e água para fazer o macco. Na Sicília, a massa passou a ser seca, cortada e cozida. Ganhou o nome de maccaruni – isso bem antes de Marco Polo existir.

Frutas e Legumes – Azeitona / Os gregos usavam o óleo para comer e tomar banho. Durante suas campanhas Alexandre, o Grande, difundiu o uso do azeite. Depois, lucrou pesado com as exportações.

Bebidas – Água / Roma inovou ao distribuí-la por chafarizes e aquedutos. Como a qualidade era duvidosa, os romanos preferiam a calda, fervida e vendida em tavernas, e a posca, desinfetada com vinagre.

Temperos – Mel / Primeiro adoçante conhecido pelo homem, era exclusividade dos banquetes reais na Mesopotâmia. Mas os gregos o fizeram parte da refeição comum, servido com queijo e pão.

Idade média – Séc. 6

Carnes – Boi / Agradeça a existência da picanha à invenção do arado de rodas. Antes dele, o boi era mais caro à agricultura do que ao prato – em Roma, o bovicídio e homicídio era punidos com a mesma pena.

Cereais – Aveia / Popularizou-se na crise demográfica da Europa, no século 13, quando o lema era aproveitar ao máximo a terra. Cultivada na entressafra do trigo, alimentava bois que depois alimentavam homens.

Frutas e Legumes – Melancia / Como a berinjela, foi apresentada ao Ocidente pelo árabes que ocuparam a Europa entre os séculos 7 e 15. Seu suco refrescante fez sucesso instantâneo.

Bebidas – Vinho / Vinhos de frutas eram feitos desde a Antiguidade. Mas bastou a versão de uva aparecer nos relatos da Santa Ceia para ela ganhar status mundial como a mais nobre entre as bebidas.

Temperos – Açafrão / A dificuldade de plantar especiarias no frio da Europa nutriu séculos de comércio com o Oriente. Rara exceção, o açafrão foi adaptado pelos árabes ao clima da península Ibérica.

Navegações – Séc. 15

Carnes – Peru / Para quem comia até garça nos castelos medievais, a descoberta dessa ave carnuda foi motivo de festa. Vindo do Novo Mundo, foi uma das últimas aves a se difundirem como alimento no planeta.

Cereais – Milho / O grão que era pilar da alimentação na América caiu no gosto de camponeses europeus com pouca terra e muitas bocas para alimentar. O segredo: rendia 10 vezes mais que o trigo.

Frutas e Legumes – Batata / Natural dos Andes, era considerada comida para porcos na Europa. Só fez sucesso no século 18, quando foi adaptada à Irlanda – que sofria para plantar legumes no clima frio.

Bebidas – Chocolate, café e chá / As grandes navegações popularizaram na Europa – e daí no resto do mundo – bebidas “exóticas”. Entre as mais populares estavam o chocolate americano, o café africano e o chá do Oriente.

Temperos – Especiarias / Como o ouro e a prata, as especiarias empurraram os europeus aos mares. A coragem foi recompensada com a maior moda de pratos com cravo e canela que já se viu na Europa.

Rev. Industrial – Séc. 19

Carnes – Peixe / Os primeiros refrigeradores foram logo adaptados para cargueiros e revolucionaram o consumo de peixe – em quantidade e variedade – fazendo-o chegar até a quem não estava perto de mares ou rios.

Cereais – Baguete / Necessidade e conseqüência da Revolução Industrial: por um lado, era preciso muito pão para alimentar os operários; por outro, só os fornos industriais inventados na época permitiam sua produção em série.

Frutas e Legumes – Tomate / Fábricas de conservas surgiram em 1804 e logo a Itália as usava para produzir extrato de tomate. Só então o fruto da América Central, ainda restrito ao Mediterrâneo, foi apresentado ao mundo .

Bebidas – Leite / Com a fabricação de geladeiras e a invenção da pasteurização, o leite podia ser levado a qualquer lugar – especialmente centros urbanos, onde sobravam operários e faltava espaço para as vacas.

Temperos – Açúcar / O comércio do açúcar de cana era dominado pelos ingleses. Para brigar com os rivais, Napoleão financiou a técnica descoberta na Áustria de extração de açúcar da beterraba, usada até hoje na Europa.

Era Moderna – Séc. 20

Carnes – Hambúrguer / No século 20, a praticidade passou a ser tão valorizada quanto os ingredientes. E o hambúrguer, servido diretamente na janela dos carros, foi o marco fundador do fast food.

Cereais – Pizza / Pães chatos com tempero eram feitos desde a Antiguidade. Mas a pizza se popularizou no século 19, para incentivar o consumo do extrato de tomate, principal produto da indústria alimentícia italiana.

Frutas e Legumes – Bananas / Até 1870, não existiam nos EUA. Então uma empresa passou a importá-las da América Central. Três décadas depois, o país consumia 16 milhões de cachos/ano. E o “boom” da banana ganhou o mundo.

Bebidas – Refrigerantes / A primeira marca surgiu em 1871, vendida como remédio. Mas logo os fabricantes notaram que esse apelo era desnecessário: sabor e praticidade garantiriam o sucesso da bebida.

Temperos – Ketchup / A receita atual é obra da Heinz. Em 1875, a empresa lançou em embalagem higiênica esse molho moderno, que dá gosto à comida sem complicar o trabalho da cozinheira.

“SUPERINTERESSANTE”

Diogo Leitão e Miriam Mainard

ANÁLISE DA MÍDIA Ou quando a Polícia Federal coloca um dos seus na cadeia

Memélia Moreira

A IMPRENSA brasileira, mais que a internacional, é uma grande usina de experimentos. Nas “cozinhas” de jornais, como chamamos a redação, receitas e mais receitas são testadas quase que diariamente.
Nem sempre as melhores chegam à mesa. Ora falta pimenta, alguns trazem açúcar demais e as iguarias se tornam cada dia mais raras. Sem contar os fenômenos que produzem as mais descosidas análises e se agrupam num pacote chamado “cientista político”.
Estes comentam desde a contusão do genial Robinho (e são capazes de jurar que a culpa é do governo), até os intrincados labirintos do poder, como se fossem oniscientes e onipresentes. E com tanta empáfia que chegam a enganar os desavisados. Na maioria das vezes, erram seus prognósticos, mas continuam despejando toneladas de palavras nos olhos e ouvidos de pessoas que querem apenas tomar conhecimento dos fatos e ver respondidas aquelas simples perguntas formuladas por Cícero, da Roma antiga: Quê?
Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?
Com a popularização da internet, cada pessoa com acesso a um computador tornou- se, potencialmente, um jornalista. Mas não é desses que vamos falar, até porque o espaço é pouco. Fiquemos com os chamados profissionais da imprensa. Mesmo que discordemos deles, devemos admitir que escrevem bem, têm fontes seguras de informação e sustento, mas se dedicam, principalmente, a desinformar, confundir e, mais que isso, dilapidar reputações, principalmente se estas não se circunscrevem ao território das diferentes elites que a cada dia são descobertas e saltam das páginas das colunas sociais, onde saltitam em ilhas paradisíacas, para as páginas policias, com ou sem algemas.
É, por exemplo, o caso de dois jornalistas muito famosos: Miriam Leitão e Diogo Mainardi. A primeira tem uma história mais surpreendente. Desertou de seus ideais de juventude, quando chegou inclusive a ter veleidades de guerrilheira durante a ditadura militar e chegou a ser presa e torturada e, depois de toda essa trajetória corajosa, assumiu uma fidelidade canina aos interesses do que há de pior no Brasil.
O caso do agora réu Daniel Dantas desnudou os últimos resquícios de jornalismo que restavam nessa que foi uma brilhante repórter.
No dia 8 de julho, quando o país acordou com a notícia e as imagens da prisão de Dantas e uma gangue de fazer inveja aos saudosos e inocentes irmãos Metralha, a brilhante jornalista não conseguiu entender o que estava acontecendo.
Chegou a gaguejar durante uma emissão na rádio CBN quando comentou o caso e confessou, “não estou entendendo…”. Até seus colegas na empresa estranharam o comportamento da brilhante repórter. Foi o caso de Carlos Alberto Sardenberg. Num momento que lembrou o triste episódio do ministro Rubens Ricúpero na campanha presidencial de 1994 (Ricúpero, sem saber que havia um canal de microfone aberto por esquecimento, numa conversa amena com um jornalista da TV Globo, confessou “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”, referindo-se a seu candidato Fernando Henrique Cardoso), Sardenberg, depois de ouvir a senhora Leitão, disse: “ela está estranha hoje”. A conversa era para se restringir ao estúdio, mas havia um canal de microfone aberto e foi captada pelos ouvintes.
Ainda insatisfeita com a prisão de Dantas, a jornalista, no dia seguinte, antes da concessão de habeas corpus brindou os ouvintes e telespectadores dizendo, “passadas mais de 24 horas das prisões, a denúncia da Polícia Federal ainda não está muito clara…”. Não está muito clara para quem, cara-pálida? Posso explicar: Dantas é o tipo de pessoa que, ao ser preso, não se surpreendeu, e que a parcela da sociedade que tem acesso à informação acha que foi quase tarde demais.
No afã de defender Dantas, a senhora Leitão moveu mundos e fundos, pesquisou com afinco e, finalmente, chegou à incrível conclusão de que o tal réu não é um banqueiro, apenas usa a marca Opportunity. Daí… deve ter concluído com seu fecho velcro, se não é banqueiro, não deve ter cometido crimes financeiros. Só faltou contar uma do papagaio…
Mas Miriam Leitão tem um concorrente de peso nesse jornalismo de sabujo. Trata-se do jornalista (?) Diogo Mainardi. De seu veículo, a revista Veja (e posso falar com precisão porque trabalhei nesse semanário) diz-se que, “por questão de higiene, é melhor não ler”.
A especialidade de Mainardi é demolir reputações, principalmente de colegas de profissão, a exemplo do jornalista Franklin Martins e pessoas de bem. Preconceituoso, já chegou a dizer que, se o convidarem para ir, por exemplo, a Cuiabá fazer uma palestra para a qual lhe pagassem R$ 10 mil, daria 15 mil do seu próprio bolso “para não ter de ir a Cuiabá”.
Defensor incansável de Dantas, seu nome consta no relatório da operação Satiagraha quando dirigida pelo delegado Protógenes Queiróz. Dele, o intimorato delegado diz que “colaborou com a organização criminosa”.
E agora que seus diletos amigos amargaram algumas horas de uma cela fria, tenta se defender dizendo que já denunciou a tal organização criminosa. Mas esses dois são apenas um pequeno exemplo de uma imprensa que prefere comentar a dieta alimentar da ministra Dilma Rousseff (como fez o próprio Mainardi), a mostrar a luta contra o trabalho escravo, a luta pela reforma agrária e a ascensão das classes D e E a uma vida menos indigna.

“Brasil De Fato”

Como as religiões vêem os grandes temas nos EUA

Cathy Lynn Grossman

Deus está nos punindo. Os anjos da guarda nos protegem. A Terra está em grave perigo.

Foi o que descobriu uma pesquisa recente da Universidade Baylor sobre as crenças e práticas religiosas dos norte-americanos. A pesquisa, que será divulgada hoje, foi baseada em entrevistas com 1.700 adultos, realizadas no outono de 2007.

Meio ambiente

Os evangélicos não se preocupam tanto com a mudança climática global. A maioria dos entrevistados na pesquisa sobre religião da Baylor concorda que “se não mudarmos as coisas de forma dramática”, a mudança climática global será “um desastre” (67%); o carvão, petróleo e gás natural irão acabar (70%) e a maior parte das plantas e da vida animal será destruída (57%).

Mas os protestantes evangélicos têm bem menos tendência (55%) do que os outros grupos religiosos a se sentirem alarmados com a mudança climática global ou com a previsão de destruição da vida se o homem não mudar (49%).

Enquanto 56% dos adultos dos EUA dizem que o governo não está gastando o suficiente para ajudar e proteger o meio ambiente, o número de evangélicos que têm a mesma opinião é menor – 41%, segundo o sociólogo F. Carson Mencken, da Universidade Baylor.

De fato, os evangélicos são pelo menos duas vezes mais propensos a dizer que o governo já está gastando muito com o meio ambiente do que qualquer outro grande grupo religioso. Entre os que tendem a dizer que os gastos são muito pequenos estão os judeus, 81%, e as pessoas sem filiação religiosa, 79%.

“É o fim do mito do movimento ambientalista evangélico”, diz Mencken. “Isso não quer dizer que os evangélicos são anti-ambientalistas, mas que seu apoio à causa ambiental não é tão forte quanto entre outras tradições religiosas.”

O ambientalismo tem sido um tema controverso entre os evangélicos. Quando a Associação Nacional de Evangélicos lançou o “Chamado para a Ação” contra a mudança climática em 2006, alguns religiosos conservadores, liderados por James Dobson da organização Foco na Família, opuseram-se com veemência.

Gênero e política

As mulheres devem participar da política? O tema divide profundamente os americanos.

A pesquisa revelou que a sociedade americana está bastante dividida em relação aos papéis da mulher na sociedade, e isso pode influenciar as eleições de novembro.

Por exemplo, 33% dos americanos dizem que “a maioria dos homens estão mais preparados emocionalmente para a política dos que a maioria das mulheres”. 44% dos protestantes evangélicos concordam com isso, mais do que outros cristãos e muito mais do que os judeus (29%), outras religiões (23%), e pessoas sem religião (14%).

Os dados da Baylor foram reunidos em 2007, quando a senadora Hillary Clinton lutava pela nomeação como candidata pelo partido Democrata, muito antes que a governadora do Alaska, Sarah Palin, fosse nomeada para a vice-presidência da candidatura republicana, chamando atenção para a questão da maternidade e de gênero. Palin é mãe de cinco filhos, incluindo uma criança com síndrome de Down.

Os dois candidatos republicanos são protestantes evangélicos (John McCain é batista e Palin não tem uma denominação específica). O candidato do Partido Democrata, Barack Obama, é protestante (Igreja Unida de Cristo), e seu vice, o senador Joe Biden, é católico apostólico romano.

A pesquisa também revelou:

- que 41% disseram que as crianças em idade pré-escolar sofrem se suas mães trabalham fora (54% dos evangélicos defendem isso, quase o dobro dos outros grupos).

- que 31% disseram que “é o desejo de Deus que as mulheres tomem contas de seus filhos” (48% de evangélicos).

Essas visões podem definir os votos? “As pessoas podem sustentar esses valores sociais, mas nem sempre isso se traduz nas urnas”, diz Lauren Winner, professora-assistente de espiritualidade cristã na Universidade Duke. “Apesar de a visão conservadora em relação aos gêneros ser uma peça fundamental da visão de mundo evangélica, ela não é o principal fator para as pessoas – como é o aborto.

“As pessoas podem relevar a contravenção de Palin em relação aos papéis tradicionais – uma mãe que pode ir para a Casa Branca – agarrando-se à sua posição clara contra o aborto”.

A tragédia e o mal

Deus causa ou permite “que grandes tragédias aconteçam, como um aviso aos pecadores”, dizem 20% dos adultos dos Estados Unidos.

Enquanto 43% dizem que o maior mal é causado pelo diabo, 47% discordam – num empate estatístico.

Mas a maioria (68%) não diria que a natureza humana é essencialmente má.
Então onde é que o mal reside – no diabo ou na espécie humana? A pesquisa Baylor, que permite respostas sobrepostas, descobriu que 36% concordam com ambas as definições.

“Aqueles que acreditam que Deus causa ou permite que coisas ruins aconteçam não disseram que as tragédias são culpa de Deus”, diz o sociólogo de Baylor Christopher Bader.

Segundo Bader, as pessoas disseram que “as tragédias são nossa culpa. Nós pecamos enquanto nação, e Deus não impediu que coisas terríveis acontecessem.”

Entre as perguntas que o reverendo Rick Warren fez para ambos os candidatos à presidência em seu Fórum Civil sobre a Presidência em Saddleback, estava: “O mal existe?”. Ambos os candidatos disseram que sim.

O senador Barack Obama disse que é “tarefa de Deus eliminar o mal do mundo”, mas que “nós podemos ser soldados nesse processo.”

O senador John McCain disse que “o mal deve ser derrotado”, e relacionou-o totalmente com o “desafio transcendente do século 21 – o extremismo radical islâmico.”

Fonte: Pesquisa Baylor de Religião, Insituto de Estudos da Religião, Universidade Baylor. Baseado em pesquisa com 1.700 adultos no outono de 2007; a margem de erro é de 4 pontos percentuais para mais ou para menos.

“USA Today”

As muitas nuvens no horizonte do PIB

josecorrea

Washington Novaes examina o caráter suicida que tem, para uma sociedade como a brasileira, deixar-se guiar pelos parâmetros de mercado e não realizar um questionamento profundo do atual modelo de civilização.

As informações sobre o crescimento do produto interno bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre do ano – 5,2%, comparado com igual período do ano passado – provocaram uma série de indagações sobre sua sustentabilidade, já que o aumento sobre o último trimestre de 2007 foi de apenas 0,7%, as importações cresceram muito (18,9% sobre o primeiro trimestre do ano passado) e as exportações caíram 2,1% (Agência Estado, 11/6). Como está ocorrendo também uma desaceleração no crescimento econômico mundial, simultaneamente a uma crise financeira que levou a perdas de quase US$ 1 trilhão, a OCDE já avançou a previsão de que o crescimento brasileiro este ano baixará para 4,8% e para 4,5% em 2009. E a Associação dos Exportadores Brasileiros acha difícil atingir o volume previsto para exportações, dadas as dificuldades de pequenas e médias empresas com a baixa remuneração em dólar.

Mesmo com o panorama mais favorável, no ano passado nossas vendas ao exterior não ultrapassaram o baixo patamar vigente há mais de 40 anos (1,17% do total mundial). E 2009 poderá ser ainda mais difícil, com a previsão de queda do superávit comercial para menos da metade (Estado, 5/6), ante novo aumento nas importações. A julgar pelos dados até agora, o balanço de transações correntes tende a piorar (já foi negativo em US$ 10,75 bilhões no primeiro trimestre) e a remessa de lucros, a crescer (US$ 17,9 bilhões em 2007, ante US$ 3,1 bilhões em 2000). Só as remessas do setor financeiro foram a US$ 8,62 bilhões.

Nesse contexto, a dívida pública interna – impulsionada também pela migração de títulos da dívida externa para a interna, dada a taxa de juros muito mais alta em vigor internamente – chegou em março a R$ 1,25 trilhão (47% do PIB) e só de juros foram pagos nesse mês R$ 12,56 bilhões (AE, 25/4). E com esse andar da carruagem a despesa com juros será, ao final de um ano, cerca de 15 vezes o maior investimento social do governo federal, o Bolsa-Família, que beneficia perto de 11 milhões de famílias.

Isso tudo visto apenas pelo ângulo econômico/financeiro. Se entram em cena outros cenários, a questão é mais preocupante ainda. Temos pelo menos uns 30% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, quase 60% dos trabalhadores na informalidade, nível de desemprego nas metrópoles pouco abaixo de 10%, quase 600 mil crianças empregadas em trabalhos domésticos. Por esses e outros índices, muitos estudiosos no mundo todo põem em questão avaliar o estado de uma nação apenas pela evolução do produto bruto. Ou a sustentabilidade dos modelos em que estamos vivendo no mundo todo, já que neste 45% da população vive abaixo do nível da pobreza, 800 milhões passam fome, dois terços das pessoas vivem sem carteira de trabalho ou registro de nascimento, 2 bilhões de pessoas no mercado informal de trabalho, e por aí adiante.

Não é acaso, assim – como registrou o economista José Eli da Veiga (Valor, 10/6) -, que o próprio presidente da França, Nicolas Sarkozy, tenha pedido a uma comissão de 25 especialistas liderada pelos “notáveis” Amartya Sen e Joseph Stiglitz uma “revisão dos limites do produto bruto como critério para medir o desempenho econômico e o bem-estar” – avaliando questões como qualidade de vida, desenvolvimento sustentável e meio ambiente, além das notórias deficiências do critério do produto bruto, que não inclui variáveis importantes.

Prospera, assim, uma linha crítica como a da economista norte-americana Hazel Henderson, que há duas décadas trabalha nessa direção. Henderson diz que “o PIB saiu de moda”, que ele “virou pó por causa da fragilidade financeira no mundo de hoje”, que já chegamos ao “princípio do fim do fundamentalismo do mercado como condutor da globalização”, que o critério da renda per capita “disfarça as desigualdades no mundo”.

As teses de Henderson encontram sólido apoio nas de Edward Wilson, especialista em biodiversidade já citado neste espaço, que faz o seguinte raciocínio: argumenta-se que a solução para o mundo é o crescimento econômico puro e simples; admitindo-se, que seja assim, pode-se partir de um crescimento anual de 3,5% no produto bruto mundial – modesto, pois se pedem 4%, 5%, 6% ou mais; levando em conta o atual produto, já acima de US$ 50 trilhões, com 3,5% ao ano se chegaria a 2050 com um produto anual de US$ 158 trilhões – mas não se chegará, porque não há base física para isso (recursos e serviços naturais); será preciso encontrar outra rota.

Peter Vitousek, da Universidade Stanford (Financial Times, 11/6), lembra que o ser humano já explorou “50% do potencial fotossintético terrestre”, usa 60% do fluxo hídrico global, sobrexplorou mais de 50% dos recursos pesqueiros do mundo, já colaborou para a extinção de quase um terço das espécies vivas. Terá de encontrar caminhos mais sustentáveis. O próprio Jeffrey Sachs, da Universidade Colúmbia, que durante décadas foi um dos “papas” do pensamento apenas financeiro, diz agora que será preciso estabilizar a população mundial em, no máximo, 8 bilhões de pessoas, reduzindo a taxa de natalidade até 2050; pôr fim à “pobreza extrema” até 2025; e criar “sistemas sustentáveis de energia, uso de terras e outros recursos”, de modo a “evitar as tendências mais perigosos das mudanças climáticas, extinção de espécies e destruição de ecossistemas”. Um dos preços a aceitar é um custo mais alto de energias renováveis e não-poluentes. No conjunto, os novos caminhos, pensa ele, custarão a cada ano uns 2% do produto bruto mundial (US$ 1 trilhão por ano).

As alternativas são quase impensáveis. Mas basta citar que revistas do porte da New Scientist já põem em discussão, entre luminares da ciência, a hipótese de colapso da nossa civilização (5/4), seja por pandemias, seja por acidentes provocados pela complexidade excessiva dos nossos modos de viver. Convém prestar atenção.

Washington Novaes é jornalista;

“Enlace”

A tecnologia não nos deixa burros. Ela liberta nossas mentes

Damon Darlin

Todo mundo está comentando um artigo da revista “The Atlantic” intitulado “Será que o Google está nos deixando burros?”. Parte desse grupo de fato leu o artigo de 4.175 palavras, escrito por Nicholas Carr.

Para poupar seu tempo, eu pensei em fazer uma versão resumida do artigo em 100 palavras. Mas há distrações demais para ler tudo aquilo. Então eis aqui a versão de 140 caracteres feita para o Twitter (Twitter é uma forma de blog de alta velocidade no qual você escreve sobre sua vida em rajadas de 140 caracteres ou menos, incluindo espaços e marcas de pontuação):

O Google torna a leitura profunda impossível. A mídia muda. Nosso cérebro também. Computadores pensam por nós, reduzindo nossa inteligência.

Se você conseguiu ler todo o parágrafo, talvez esteja pensando que o Twitter, e não o Google, seja o maior inimigo do progresso intelectual humano.

No Twitter, as pessoas se inscrevem para receber suas mensagens, ou “tweets”. Aqueles que conseguem tornar interessantes os detalhes mundanos da vida reúnem uma grande audiência. Vários serviços foram criados para competir com o Twitter. Outros surgiram para ajudar as pessoas a gerenciarem o enorme fluxo de informação enviado pelos usuários do Twitter.

Há até mesmo uma versão, o Yammer, feita para uso corporativo. Você pode acompanhar as torrentes de mensagens de certos funcionários.
(“Estou na reunião semanal. O lanche é bom. Por que todo mundo está usando bege? Todos devem mandar seus relatórios no prazo, ok?”) Como se não houvesse o suficiente para nos distrair no ambiente de trabalho além das reuniões, telefonemas, mensagens instantâneas, e-mails e pesquisas no Google.

Se as pessoas já se questionam sobre o benefício do Google, que nos livrou grandemente da perda de tempo associada à procura de informações, existe uma hostilidade ainda maior em relação a uma ferramenta que condensa nossas vidas em haikais. O co-fundador do Twitter, Jack Dorsey, entrevistado pela revista Technology Review do MIT – através de mensagens de Twitter, é claro – foi questionado por que as pessoas que não conhecem o serviço e ficam sabendo da sua existência mostram-se “incompreensivas ou irritadas”.

Sua resposta foi breve e insatisfatória: “As pessoas têm de descobrir o valor dele para si mesmas. Especialmente c/ algo tão simples & sutil como o Twitter. Ele é o que você faz dele.”

É difícil pensar em uma tecnologia que não foi temida quando foi introduzida. No artigo da revista Atlantic, Carr diz que Sócrates temeu o impacto que a escrita teria sobre a capacidade de pensar do homem. O advento da imprensa gerou medos similares. E esta não seria a última vez.

Quando a Hewlett-Packard inventou a HP-35, a primeira calculadora científica de bolso, em 1972, ela foi banida de algumas aulas de engenharia.

Os professores temiam que os engenheiros a usassem como uma muleta, que eles não mais compreendessem os benefícios que os cálculos a lápis ou a régua de cálculo de certa forma ofereciam para o pensamento científico competente.

Mas a HP-35 dificilmente ridicularizou as habilidades da engenharia.
Em vez disso, nos últimos 36 anos, os mesmos engenheiros nos trouxeram iPods, telefones celulares, TVs de alta definição e, também, o Google e o Twitter. Ela livrou os engenheiros da perda de tempo em tarefas mundanas para que eles pudessem gastar mais tempo criando.

Muitos avanços tecnológicos têm esse efeito. Veja o programa de imposto de renda, por exemplo. A tediosa tarefa de preencher uma declaração não requer mais várias noites, mas apenas algumas horas. Ela nos dá tempo para atividades mais produtivas.

Mas para todas as novas tecnologias que aumentam nossa produtividade, há outras que nos consomem mais tempo. Esta é uma das dialéticas de nossa era. Com seus mapas e acesso a internet, o iPhone nos poupa tempo; mas com seus jogos para baixar, também carregamos um passatempo em nosso bolso. A proporção de tecnologias de desperdício e economia de tempo deve apenas crescer. Numa sociedade baseada na informação e na qual a informação é livre, a atenção torna-se o bem mais valioso.

As companhias competem pelos nossos globos oculares, que foram a grande métrica durante a explosão da Internet, e brigam para criar uma mídia que seja atrativa, outro grande termo para essa época. Nós não somos pagos por nossos intervalos de atenção, mas recompensados por isso com mais distrações e demandas sobre o nosso tempo.

A crença pessimista de que as novas tecnologias irão de certa forma tornar nossas vidas piores pode ser uma questão de formação ou treinamento. O futurista Paul Saffo, diz que pode dividir o mundo da tecnologia em dois tipos de pessoas: os engenheiros e os cientistas naturais. Ele diz que o olhar do engenheiro para o mundo é por natureza otimista. Todos os problemas podem ser resolvidos desde que se tenha as ferramentas certas, tempo suficiente e as perguntas corretas.

Outras pessoas, que podem ser tão científicas quanto aquelas, vêem a ordem natural do mundo em termos de entropia, declínio e morte.

Essas pessoas não estão necessariamente erradas. Mas o ponto de vista do engenheiro deposita mais fé no melhoramento humano. Certamente houve momentos em que esse pensamento se tornou terrivelmente desvirtuado – como na música atonal ou na gastronomia molecular. Mas ao longo do curso da história humana, escrever, pintar, computar e “googlear” apenas tornaram mais fácil pensar e se comunicar.

“The New York Times”

Mitos sobre o mal de Alzheimer

Mary Brophy Marcus

Bob Blackwell pode recitar os nomes de todos os países da Europa, até mesmo as pequenas ilhas obscuras, mas com freqüência não consegue se lembrar da senha de seu computador ou do número do celular de sua esposa, Carol.

O veterano de 30 anos de CIA lembra das viagens à União Soviética no Força Aérea Um com o vice-presidente George H.W. Bush e dos encontros com os presidentes Carter e Reagan, mas ocasionalmente se esquece de qual saída tomar para chegar em casa.

Aos 65 anos, Blackwell, atualmente aposentado, está experimentando os desconcertantes sintomas iniciais do mal de Alzheimer, uma forma de demência que aflige metade dos cerca de 5,2 milhões de americanos que sofrem da doença, segundo a Associação de Alzheimer.

Ele canta em um coral, faz caminhada e anda de caiaque com Carol, toda semana toma café da manhã com amigos, constrói castelos de areia com seus netos, conta piadas ingênuas e pode lembrar detalhes de um romance de espionagem que está lendo. Mas às vezes não consegue lembrar das palavras que deseja.

“Pode ser confuso”, disse Blackwell, que tem Ph.D. em ciência política, mas atualmente deixa grande parte do controle das despesas, pagamento de contas e planejamento de viagem para Carol. Apesar dos desafios, ele descobriu que a melhor forma de lidar com a doença no momento é permanecer ativo física e mentalmente, torcer para que uma cura não esteja distante e se cercar de parentes e amigos.

Muitas pessoas que têm Alzheimer relutam em falar sobre ela publicamente, diz Darby Morhardt, do Centro para o Mal de Alzheimer da Universidade do Noroeste, em Chicago. Mas Blackwell e sua família compartilharão sua jornada, documentando o andamento da doença em relatos ocasionais no “USA Today”. Ele manterá um blog em health.usatoday.com, onde os leitores também poderão assistir vídeos dele.

Blackwell espera que compartilhar suas experiências ajude a aumentar a conscientização, afastar alguns mitos e abrir novos caminhos para tratamentos e uma cura: “Expor minhas experiências, em vez de escondê-las, ajudará outros. Eu não quero que a próxima geração tenha que lidar com isso”.

Começa com mudanças sutis

Antes de Blackwell ser diagnosticado com Alzheimer há quase dois anos, sua esposa e amigos notaram diferenças sutis em seu humor e memória.

“Cerca de um ano antes de Bob ser diagnosticado, ele parecia mais quieto do que costumava ser. Ele normalmente era mais alegre, expansivo. Ele também parecia mais ausente, e tinha dificuldade em distinguir diferentes controles remotos, coisas no computador”, disse Carol, sua esposa há 41 anos.

Blackwell fez uma série de testes, incluindo solução de problemas de memória e tomografias por ressonância magnética, para descartar tumores cerebrais e outros problemas não relacionados à demência. Mas foram necessários meses de consultas e exames médicos, porque o mal de Alzheimer pode ser difícil de ser diagnosticado cedo. Não há exame de sangue para ele, disse o neurologista Scott Turner, diretor do Programa para Desordens da Memória no Centro Médico de Georgetown. “O estágio inicial pode durar anos e durante esse período a pessoa pode permanecer bastante funcional.”

Jason Karlawish, diretor associado do Centro Penn para Memória da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia: “Os sintomas iniciais clássicos são dificuldade com memória de curto prazo. Eles realmente sabem o dia e a data, sem errar por um dígito ou dois, ou realmente estão confusos sobre qual dia da semana é? Pode haver dificuldade com cálculos, como administrar as despesas ou resolver um problema de negócios. E pode haver um afastamento de situações sociais”. Mas as mudanças comportamentais podem ser tão sutis que são ignoradas por anos, ele disse.

Pessoas com nível elevado de educação, como Blackwell, na verdade são mais fáceis de serem diagnosticadas nos primeiros estágios, porque exibem problemas funcionais mais prontamente do que alguém que não realiza tarefas complexas, disse Karlawish.

“Inicialmente o diagnóstico foi bastante devastador, porque está em sua família e era uma das coisas que ele mais temia”, disse Carol. A mãe de 94 anos de Blackwell está no último estágio de Alzheimer e não anda e nem fala. Uma tia também tem a doença.

Os Blackwells ficaram decepcionados com a falta de orientação na época do diagnóstico de Bob. Cientes de que o mal de Alzheimer pode seguir um trajeto de declínio que pode durar uma década ou mais e terminar em morte, eles esperavam por instrumentos que os ajudassem a percorrer os próximos anos. “Nós fomos embora com a sensação de que era uma sentença de morte. Os médicos podiam ter feito mais do que dizer: ‘Você tem Alzheimer, aqui está um site na Internet, vejo você em seis meses’”, disse Carol.

Após um período de depressão, os Blackwells decidiram agir. “Nós precisávamos sentir esperança”, disse Carol.

Agora todo dia, disse Bob, é uma chance de manter seu cérebro vivo e conter a doença que incapacitou sua mãe. “Eu quero vencer esta coisa”, ele disse. “Eu quero ajudar a encontrar uma cura para mim, para meus filhos e meus netos.”

Blackwell toma o Aricept, um medicamento aprovado pela Food and Drug Administration (agência americana de controle de alimentos e medicamentos) que pode ajudar a tratar o sintomas de declínio cognitivo, e participa de um teste clínico para uma droga diferente no Centro Médico de Georgetown, não distante de sua casa em Great Falls, Virgínia.

Ele também joga jogos de linguagem e matemáticos em seu computador handheld, viaja, faz aulas de relações internacionais e lê.

“O médico mandou que ele lesse em voz alta, porque exercita certas partes do cérebro, de forma que eu o ouço lendo em outra sala”, disse Carol. O casal viajou para a Nova Zelândia no ano passado e planeja viajar para a Irlanda neste ano.

“Pesquisa recente indica que permanecer física e mentalmente ativo pode ajudar a afastar a demência por mais tempo”, disse Turner.

Abundância de conceitos errados

Os filhos adultos de Blackwell, Rob e Jennifer, estão orgulhosos por seu pai estar tentando viver de forma feliz em vez de se deixar consumir pelo medo. Isso dá dignidade a uma doença cheia de estereótipos, disse Jennifer, uma advogada e mãe de dois em Ann Arbor, Michigan.

“Quando contei a alguns amigos e a resposta deles foi: ‘Ele reconhece você?’, eu sabia que precisava esclarecer algumas coisas. Muitas pessoas ainda pensam que o Alzheimer é uma desordem mental ou que a pessoas ficam debilitadas e internadas em uma clínica desde o início.”

Um relatório divulgado na semana passada pela Associação de Alzheimer, chamado “Vozes do Mal de Alzheimer”, indica que outros também desejam afastar estes conceitos errados. A compilação de comentários de mais de 300 pessoas de todas as partes dos Estados Unidos “mostra que as pessoas se mantêm bastante ativas e capazes nos primeiros estágios do Alzheimer, e tendo uma experiência diferente daquela que seus pais e avós tiveram”, disse Peter Reed, o diretor de programas da associação.

Blackwell quer ser tratado pela pessoa que é: o garoto que foi jogador de futebol no colégio, o estudante de doutorado que se apaixonou por Carol, o analista da CIA que aconselhava o presidente durante a Guerra Fria, o pai carinhoso que contava boas histórias de ninar, o avô coruja.

Ele disse que o apoio de sua família e amigos o ajuda a se manter animado, particularmente o amor infalível e o companheirismo de sua esposa. “Eu não teria chegado tão longe sem Carol.”

“USA Today”

Colômbia: Memórias de uma tragédia sem fim

Marie Delcas

Artigos de jornais já amarelados estão afixados numa parede da pequena capela de madeira. “O corpo do padre Tibério Fernandez foi encontrado degolado, desmembrado e castrado nas águas do rio Cauca”, anuncia a manchete de um deles, com data de 17 de abril de 1990. Ao lado do recorte está afixada a foto de uma jovem mulher. Esta era a sobrinha do padre, que foi estuprada e assassinada diante dele. Num livro para anotações encadernado, os paroquianos de Trujillo consignaram por meio de sua escrita desajeitada as recordações que eles mantiveram do padre e da sangrenta onda de violência que, há vinte anos, desabou sobre a sua região.

Empoleirada numa área verde da cordilheira dos Andes, no oeste da Colômbia, a municipalidade de Trujillo conta atualmente 22 mil habitantes, dos quais mais da metade vive na zona rural. Neste lugar, entre 1988 e 1994, 342 pessoas foram vítimas de torturas e assassinadas, segundo um levantamento efetuado pela associação local das famílias das vítimas. Os corpos de outras dezenas de vítimas nunca mais foram encontrados.

No decorrer desses anos sombrios, a Colômbia inteira conheceu uma explosão de violência. Em várias regiões do país, inclusive em Trujillo, o exército, a polícia e muitos eleitos locais compactuaram com os narcotraficantes para imporem o domínio do terror. Milícias locais foram constituídas, enquanto uma violência multiforme acabou se sobrepondo às rivalidades políticas tradicionais. Atualmente, militares, guerrilheiros, narcotraficantes, paramilitares e delinqüentes ainda seguem disputando entre si o controle de um território fragmentado.

Um modesto Parque da Memória, que foi profanado em inúmeras oportunidades, paira até hoje acima do grande vilarejo de Trujillo, no qual se destaca um campanário branco. Os despojos das vítimas, ou, quando estes não existem, fotos e objetos que lhes pertenceram, foram embutidos e selados dentro do muro que serpenteia ao longo do caminho. Debaixo de cada placa comemorativa, um afresco ingênuo relembra a profissão do falecido. Há camponeses, colhedores de amoras ou de café, carpinteiros, professores de curso primário, enfermeiros… Doña Consuelo, que cuida de decorar o lugar com flores e orienta os visitantes, perdeu o seu marido, que foi torturado pelo exército e morreu em conseqüência disso cinco meses mais tarde. Dois dos seus filhos desapareceram. Eles tinham 14 e 16 anos.

Por sua vez, Gloria Amparo Espinosa, a jovem prefeita da cidade, afirma ter tido mais “sorte”, uma vez que o seu pai, que foi abatido com uma bala na cabeça, não chegou a ser torturado e que ele pôde ser enterrado com dignidade. Um privilégio. “Em Trujillo, os carrascos recorreram a técnicas de tortura e deram mostras de uma crueldade sem precedente, desmembrando por meio de serras elétricas suas vítimas ainda vivas”, lembra o sociólogo Álvaro Camacho. No decorrer dos anos 1990, a serra elétrica se tornaria o símbolo dos massacres perpetrados pelos paramilitares e das “escolas da morte” que se disseminaram pelo país afora. Nelas, os jovens milicianos aprenderam como esquartejar os corpos humanos.

“Trujillo, uma tragédia que nunca acaba”. Este é o título do relatório que deverá ser apresentado oficialmente na terça-feira, 16 de setembro, pela Comissão Nacional de Reparação e Reconciliação (CNRR). Fundada em 2005, no quadro do processo de desmobilização dos paramilitares, esta comissão constituiu um grupo de trabalho cuja meta é de reconstituir a “memória histórica”. “Quando a impunidade é a regra, a memória torna-se uma forma de justiça para com as vítimas”, explica o historiador Gonzalo Sanchez. Ele dirige a equipe de universitários encarregada de recompor os fatos históricos que marcaram um conflito armado que durou meio-século.

A tarefa é demasiadamente vasta para poder ser concluída com sucesso. Foram recenseados no total 2.505 massacres – que causaram a morte de 14 mil pessoas – entre 1982 e 2007 na Colômbia. Diante disso, Gonzalo Sanchez e seus colegas optaram por concentrar seu trabalho numa série de casos emblemáticos. Entre estes, Trujillo tornou-se destaque, e foi nesta cidade que eles quiseram mostrar em primeira-mão suas pesquisas. No início de setembro, portanto, a equipe de pesquisadores viajou até a cidade para apresentar o resultado dos seus estudos – um relatório de 300 páginas – para os habitantes de Trujillo. Uma breve cerimônia foi organizada no Parque da Memória.

“Nós pensávamos que, vinte anos depois, o drama, as tensões e as paixões estariam apaziguados por aqui”, conte a cientista política Maria Emma Wills. Um trabalho de reabilitação da memória já havia sido realizado na cidade – para o qual as mulheres e a Igreja haviam desempenhado um papel determinante. Mas, uma vez que os culpados nunca foram punidos, e que os corpos de dezenas de vítimas nunca puderam ser enterrados, as feridas nunca chegaram a ser cicatrizadas. Pior ainda, as milícias a serviço dos narcotraficantes – cujos integrantes são chamados de “rastrojos” (“ervas daninhas”) e de “machos” – seguem atuando em meio à impunidade. Lucila, 79 anos, chora a morte do seu último filho, que fora abatido em julho deste ano, e do seu neto de 28 anos, que foi enterrado alguns dias atrás. Falando em voz baixa, um eleito de Trujillo afirma que, ainda na sexta-feira, 5 de setembro, um morador do vilarejo desapareceu. Assim, por essas e outras, o relatório da CNRR merece mesmo o seu título: a tragédia colombiana nunca acaba.

Fundada no início dos anos 1920 por pioneiros plantadores de café, Trujillo nunca chegou a conhecer verdadeiramente a paz. Por muito tempo, as elites políticas nela disputaram o poder entre si. Primeiro, os conservadores enfrentaram os liberais, e depois, os conservadores lutaram entre si. Revólveres e facões conheceram longos períodos de fartura nesta cidade, e isso desde os anos 1950.

Mas, a partir do final dos anos 1980, a violência evoluiu para uma dimensão superior. O pequeno Exército de Liberação Nacional (ELN), que surgira vinte anos mais cedo na esteira da revolução cubana, instalou-se nos contrafortes da montanha. Os guerrilheiros começaram então a extorquir a população, e, dependendo da oportunidade, a seqüestrar os grandes proprietários contra pagamento de resgate. Pouco depois, chegou a vez dos narcotraficantes, então em plena expansão, praticarem os mesmos crimes. Situada na foz do cânion de Garrapatas, que desemboca no oceano Pacífico, a região de Trujillo oferece uma localização estratégica e um tipo de relevo ideal para todos os tráficos ilícitos.

Da mesma forma que no restante do país, os camponeses e os trabalhadores diaristas tentaram então, na medida do possível, defender seus direitos. Preocupado com a situação crítica dos mais pobres, o padre Tibério Fernandez – que chegara à região em 1984 – organizou cooperativas e atos de protesto. A luta contra “os subversivos” – os guerrilheiros e seus supostos aliados – forneceu o pretexto para uma aliança sombria entre os narcotraficantes e os militares. Em março de 1990, onze soldados morreram numa emboscada armada pelo ELN. Naquele momento, os atos de violência contra os civis e a barbárie alcançaram seu ápice. “Os massacres aniquilaram a capacidade de reação da população”, constatam os autores do relatório. O terror destruiu todo esboço ou tentativa de organização social. Mais ainda do que o temor de sofrer represálias, a mutilação dos cadáveres, característica de uma “violência inútil”, revelou ser terrivelmente eficiente de um ponto de vista simbólico. “Nós nem sequer ousávamos descrever aquilo que estávamos sofrendo”, resume Gloria Amparo Espinosa.

Dois narcotraficantes então desconhecidos do grande público – Diego Montoya e Henry Loaiza, conhecido como o “Escorpião”, – organizaram as milícias. Foi dentro das suas propriedades que os civis foram massacrados às dezenas. Mas, os habitantes de Trujillo afirmam de maneira categórica que “o homem da serra elétrica” era mesmo Alirio Urreña, que era um major do exército na época dos fatos. “Os crimes foram perpetrados e planejados conjuntamente pelos militares e pelas estruturas criminosas organizadas pelos narcotraficantes”, afirmam os autores do relatório da CNRR. Don Diego e o “Escorpião” foram capturados apenas em função das acusações de tráfico de drogas que pesavam contra eles. E foi apenas recentemente que Alirio Urreña acabou sendo colocado em detenção preventiva, 18 anos depois dos fatos. “A impunidade também constitui uma forma de agressão contra as vítimas”, comenta Álvaro Camacho.

Em 1995, diante das pressões exercidas pela Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, o Estado colombiano reconheceu, contudo, a sua responsabilidade nos massacres de Trujillo. Era a primeira vez que um governo admitia uma culpa desta natureza em toda a história do país. Uma comissão organizada para esta finalidade foi então nomeada. Depois de um inquérito, ela apontou os culpados potenciais e pediu ao Estado para indenizar as vítimas. Contudo, 34 famílias apenas chegariam a ser indenizadas. Além disso, o plano de desenvolvimento que havia sido proposto a título de reparação coletiva permaneceria letra morta.

Yamileth Vargas, 22 anos, uma jovem mulher de 1,40 m, movida por uma determinação inquebrantável, trabalha atualmente como militante no quadro da Associação Nacional das Vítimas de Crimes de Estado. Ela tinha 4 anos quando o seu pai, um marceneiro, desapareceu. Hoje, ela exige “a verdade, justiça e reparação”, ou seja, o lema que também mobiliza as organizações de defesa dos direitos humanos. Por sua vez, Diocelina, 75 anos, mãe de um filho desaparecido, não compreende ao certo essas palavras: ela antes preferiria que o governo lhe oferecesse finalmente “uma pequena moradia”.

O diretor de uma rádio comunitária, Alfredo Marin se interroga a respeito das virtudes desse trabalho de memória: “Já que ninguém nunca pagou pelos crimes que foram cometidos, por que então continuar acenando com promessas para iludir as famílias das vítimas?”, questiona. “Aliás, tudo o que querem algumas dentre elas é esquecer, de uma vez por todas. É verdade que em Trujillo, ainda há muitos problemas. Mas, não seria melhor pensarmos agora no futuro? Nós precisamos atrair os investimentos e desenvolver o turismo. E não será erigindo monumentos dedicados à preservação da memória dos massacres que alcançaremos esses objetivos”.

Para beneficiarem das reduções de pena previstas pela lei, os chefes paramilitares, atualmente desmobilizados, fizeram questão de confessarem seus crimes. As suas confissões – mesmo que elas sejam incompletas – contribuem para alimentar a memória em fase de consolidação do conflito colombiano. “Trata-se de uma memória histórica, da qual certos traços permanecem terrivelmente presentes”, precisa o relatório da CNRR.

Após ter confessado seus crimes, um general do exército, Rito Alejo del Rio, acaba de ser preso em Bogotá. Yamileth Vargas se pergunta: “No que nos diz respeito, já faz 18 anos que nós denunciamos, sem resultado, os crimes que foram cometidos pelos militares em Trujillo. Por que, quando é feito pelos paramilitares, o relato dos eventos se torna mais crível do que quando é feito pelas vítimas?”

“Le Monde”

Astros da Era de Ouro do cinema recebiam fortunas para fumar nos filmes

Da France Presse

PARIS, 24 Set 2008 (AFP) – As grandes empresas de cigarro pagavam quantias milionárias às estrelas de Hollywood da primeira metade do século passado para que aparecessem fumando nos filmes, de acordo com pesquisadores que tiveram acesso a alguns desses contratos.

Clark Gable, Spencer Tracey, Joan Crawford, John Wayne e Bette Davis foram algumas das míticas estrelas cinematográficas usadas pela indústria do tabaco, mediante o pagamento de milhões de dólares, para dar uma imagem de “glamour” ao cigarro, denunciaram os pesquisadores.

Um equipe dirigida pelo professor Stanton Glanzt, do Centro de Pesquisa e de Educação sobre o Controle do Tabagismo da Universidade da Califórnia (EUA), teve acesso aos contratos assinados entre os produtores de cigarro e as grandes estrelas de Hollywood desde o início do cinema falado, no final da década de 1920, até a chegada da TV, nos anos 1950.

O grupo comprovou que Paramount e Warner Bros eram os estúdios com mais acordos promocionais com essas empresas, especialmente Lucky Strike (American Tobacco) e Chesterfield (Ligget & Myers).

Somente a American Tobacco pagou, no final de 1930, o equivalente hoje a US$ 3,2 milhões aos astros do cinema para relacioná-los aos cigarros Lucky Strike. Foi assim que as grandes estrelas da época ajudaram a promover a imagem da marca Lucky Strike, Old Gold, Chesterfield, ou Camel, entre outras.

Os pesquisadores destacam a sinergia entre ambas as indústrias, já que os produtores de tabaco ganham uma melhor “aceitação social” do cigarro, e os estúdios de cinema se aproveitam das estratégias comerciais desse setor.

A presença de fumantes na telona é denunciada, com freqüência, como incentivo ao tabagismo de jovens e adolescentes. Já os que se opõem a uma regulamentação sobre artistas que fumam nos filmes defendem que a representação do cigarro faz parte do patrimônio artístico do cinema americano e citam clássicos como “Casablanca” (1942).

O estudo, financiado pelo Instituto Nacional do Câncer Grant, aparece nesta quinta-feira na revista especializada britânica “Tobacco Control”.

“globo.com”

A hipermassificação e a destruição do indivíduo

O “tempo livre” é de fato assim tão livre? Esse tempo, saturado de produtos culturais, impede que cada qual se diferencie por escolhas próprias, espoliando sua energia vital. E, levando a uma perda generalizada de individuação, engendra rebanhos de seres em permanente e angustiante mal-estar – rebanhos que se aproximam cada vez mais da horda furiosa

Bernard Stiegler

Uma fábula dominou as últimas décadas e iludiu em boa parte os pensamentos políticos e as filosofias, afirmando, desde 1968, que tínhamos enfim alcançado a era do “tempo livre”, da “permissividade” e da “flexibilidade” das estruturas sociais, a sociedade do lazer e do individualismo. Esse conto de fadas, teorizado sob a denominação de “sociedade pós-industrial”, influenciou e fragilizou notadamente a filosofia “pós-moderna”. Inspirou os social-democratas, querendo fazer crer que tínhamos passado da época das massas laboriosas e consumidoras típicas da era industrial para o tempo das classes médias. O proletariado, segundo tal fabulação, estaria em vias de desaparecimento.

Esse último, porém, não apenas continua a ser numericamente significativo como ainda cresceu, com a larga proletarização dos empregados, assujeitados a um dispositivo maquínico que os priva de iniciativa e de saberes profissionais. Quanto às classes médias, estas se pauperizaram. Falar de crescimento e impulso do lazer – no sentido de um tempo liberado de qualquer coerção, o tempo da “disponibilidade absoluta”, como diz o dicionário – não é nada evidente, pois o lazer não tem mais por função liberar o tempo individual, mas melhor controlá-lo no intuito de supermassificá-lo: tornou-se o instrumento de uma nova servidão voluntária. Produzido e organizado pelas indústrias culturais e do entretenimento, o lazer forma o que Gilles Deleuze [1] chamou de as sociedades de controle. Estas desenvolvem um capitalismo cultural e de serviços que fabrica modos e estilos de vida, transforma a vida cotidiana segundo seus interesses imediatos, padroniza as existências pelo viés dos “conceitos de marketing”. Como este, por exemplo, do life-time value, que designa o valor economicamente calculável do tempo de vida de um indivíduo, cujo valor intrínseco é dessingularizado e desindividualizado.

O marketing, como o entendeu Deleuze, transformou-se no “instrumento do controle social” [2]. A sociedade pretensamente “pós-industrial” tornou-se, ao contrário, hiperindustrial [3]. Longe de se caracterizar pelo domínio do individualismo, a época mais se aproxima de um devir gregário dos comportamentos e de uma perda generalizada de individuação.

O conceito de perda de individuação introduzido por Gilbert Simondon [4] expressava aquilo que adveio ao operário submetido à máquina-ferramenta no século 19: este perdeu seus saberes técnicos e, com isso, sua individualidade, reduzido à condição de proletário. Agora, é o consumidor que é padronizado em seu comportamento pela formatação e fabricação artificial de seus desejos. Perdeu, também ele, seu “saber viver”, substituído pelas normas editadas pelas marcas.

“Racionalmente” promovidas pelo marketing, as marcas assemelham-se às “bíblias” que regem o funcionamento das franquias de fast-food, às quais os concessionários devem conformar-se ao pé da letra, sob pena de ruptura de contrato, ou mesmo de processo. Essa privação de individuação, e portanto de existência, é extremamente perigosa: Richard Durn, o assassino de oito integrantes do conselho municipal de Nanterre, escreveu em seu diário que precisou “fazer o mal para, ao menos uma vez em [sua] vida, experimentar o sentimento de existir” [5].

Freud escreveu, em 1930, que, mesmo dotado pelas tecnologias industriais dos atributos do divino, e “por mais que se assemelhe a um deus, o homem hoje não se sente feliz” [6]. É exatamente o que a sociedade hiperindustrial faz dos seres humanos: privando-os de individualidade, ela engendra rebanhos de seres em permanente e angustiante mal-estar; seres aos quais falta um vir-a-ser, seres sem porvir. Esses rebanhos desumanos terão cada vez mais tendência a se tornarem hordas em fúria. Freud, em A psicologia das massas e análise do eu, esboçava, já em 1920, a análise dessas multidões tentadas a regredir ao estágio da horda, habitadas pela pulsão de morte descoberta em Além do princípio do prazer e que O mal-estar na civilização retomou dez anos depois, quando o anti-semitismo, o totalitarismo e o nazismo se alastravam pela Europa.

Ainda que tenha se referido à fotografia, ao gramofone e ao telefone, Freud não evocou o rádio nem – ainda mais estranho – o cinema, utilizado por Mussolini, Hitler e Stálin, esse cinema acerca do qual um senador americano dizia, já em 1912, que “trade follows films” (o mercado acompanha os filmes) [7]. Tampouco imaginou a televisão, cuja emissão pública os nazistas ensaiaram em abril de 1935. No mesmo momento, Walter Benjamin [8] analisava aquilo que denominou o “narcisismo da massa”: o controle dessas mídias pelos poderes totalitários. Mas ele não pareceu aquilatar melhor que Freud a dimensão funcional – em todos os países, incluídos os democráticos – das indústrias culturais nascentes.

Edward Bernays, ao contrário, duplo sobrinho de Freud, teorizou-as. Explorou as imensas possibilidades de controle daquilo que seu tio chamara de “economia libidinal”. E desenvolveu as “relações públicas”, técnicas de persuasão inspiradas pelas teorias do inconsciente, que pôs a serviço do fabricante de cigarros Philip Morris por volta de 1930 – no momento em que Freud percebia, na Europa, a ascensão da pulsão de morte contra a civilização.

Freud não se interessava pelo que se passava então nos Estados Unidos. Salvo por uma estranha observação. Ele se diz, primeiro, obrigado a “vislumbrar também o perigo suscitado por um estado particular que se pode chamar de ‘a miséria psicológica de massa’, e que é criada principalmente pela identificação dos membros de uma sociedade uns com os outros, enquanto certas personalidades com temperamento de chefe não conseguem [...] desempenhar esse importante papel que deve lhes caber na formação de uma massa”. E afirma, em seguida: “O estado atual da América forneceria uma boa ocasião para estudar esse temível prejuízo levado à civilização. Resisto à tentação de lançar-me na crítica à civilização americana, não desejando dar a impressão de querer, eu mesmo, usar métodos americanos” [9].

Foi preciso esperar que Theodor Adorno e Max Horkheimer [10] denunciassem o “modo de vida americano” para que a função das indústrias culturais fosse verdadeiramente analisada, além da crítica dos meios de comunicação surgida desde os anos 1910 com Karl Kraus [11].

Embora suas análises permaneçam insuficientes [12], esses autores compreenderam que as indústrias culturais formam um sistema conjunto com as indústrias em geral – sistema cuja função consiste em fabricar os comportamentos de consumo, massificando os modos de vida. Trata-se de garantir o escoamento dos produtos sempre novos engendrados pela atividade econômica, cuja necessidade não é espontaneamente sentida pelos consumidores. Essa reticência dos consumidores provoca um risco endêmico de superprodução, e portanto de crise econômica, que só é possível combater – a não ser que haja um questionamento geral do sistema – com o avanço daquilo que constituía, aos olhos de Adorno e de Horkheimer, a própria barbárie.

Depois da Segunda Guerra mundial, a frente da teoria das relações públicas foi ocupada pela “pesquisa motivacional”, destinada a promover a absorção do excedente de produção quando do retorno à paz – avaliado em 40%. Uma agência de publicidade assim escrevia em 1955: o que faz a grandeza da América do Norte “é a criação de necessidades e de desejos, a criação do desgosto por tudo que é antigo e ultrapassado”. Promover o gosto supõe de fato provocar o desgosto, o que termina por afetar o próprio gosto. Apelava-se ao “subconsciente” para ultrapassar as dificuldades encontradas pelos industriais quando se tratava de levar os americanos a comprarem o que suas fábricas podiam produzir [13].

Na França, desde o século 19, vários órgãos se empenhavam em facilitar a adoção dos produtos industriais, que transformavam por completo os modos de vida, lutando contra as resistências suscitadas por tais transformações: assim se deu a criação do “reclame” por Emile de Girardin. Mas foi preciso esperar o surgimento das indústrias culturais (do cinema e do disco) e principalmente dos programas e emissões (do rádio e da televisão) para que se desenvolvessem os objetos temporais industriais. Estes permitem um controle íntimo dos comportamentos individuais, transformando-os em comportamentos de massa – embora o espectador, isolado diante de seu aparelho de TV, conserve a ilusão de um lazer solitário.

É também o caso da atividade dita “de tempo livre”, que, na era hiperindustrial, estende a todas as ações humanas o comportamento mimético e compulsivo do consumidor: tudo deve tornar-se consumível, desde o sabão em pó e o chiclete até a saúde, a educação e a cultura. Mas a ilusão que é preciso oferecer para chegar a isso só pode provocar frustrações, descréditos e instintos de destruição. Sozinho diante de meu televisor, posso sempre pensar que me comporto individualmente; mas a realidade é que eu faço como fazem milhões de telespectadores que assistem ao mesmo programa no mesmo instante.

As atividades industriais, tornadas planetárias, pretendem realizar gigantescas economias de escala e, por meio de tecnologias apropriadas, controlar e homogeneizar os comportamentos: as indústrias de programas ocupam-se disso, por meio dos objetos temporais que compram e difundem a fim de captar o tempo das consciências que formam suas audiências, e que elas vendem aos anunciantes.

Um objeto temporal – melodia, filme ou emissão de rádio ou televisão – é constituído pelo tempo de seu desenrolar, aquilo que Edmund Husserl [14] nomeou como “fluxo”. É um objeto que passa. Como as consciências que ele unifica, esse objeto é constituído pelo fato de desaparecer à medida que aparece. Com o nascimento da rádio civil (1920) e mais tarde dos primeiros programas de televisão (1947), as indústrias de programas passaram a produzir objetos temporais que coincidem no tempo de seu desenrolar com o desenrolar do tempo das consciências das quais são objetos. Tal coincidência permite à consciência adotar o tempo desses objetos temporais. As indústrias culturais contemporâneas podem, assim, fazer as massas de espectadores adotar o tempo do consumo do dentifrício, do refrigerante, do automóvel. É quase exclusivamente desse modo que a indústria cultural se financia.

Ora, uma consciência é essencialmente uma consciência de si: uma singularidade. Só posso dizer “eu” porque dou a mim mesmo meu próprio tempo. Enormes dispositivos de sincronização, as indústrias culturais, em particular a televisão, são máquinas de liquidar esse “si mesmo”. Quando dezenas ou centenas de milhões de telespectadores assistem simultaneamente ao mesmo programa ao vivo, essas consciências do mundo inteiro interiorizam os mesmos objetos temporais. E se, todos os dias, elas repetem, na mesma hora e regularmente, o mesmo comportamento de consumo audiovisual, porque tudo as leva a isso, tais “consciências” terminam por tornar-se a consciência da mesma pessoa – isto é, de ninguém. A inconsciência do rebanho libera um fundo pulsional que não se liga mais ao desejo – pois este supõe a singularidade. Durante a década de 1940, a indústria americana pôs em ação técnicas de marketing que não cessaram depois de se intensificar, produzindo uma miséria simbólica, libidinal e afetiva. Essa última conduz à perda daquilo que eu próprio chamei o narcisismo primordial [15].

A fábula pós-industrial não compreende que a força do capitalismo contemporâneo repousa sobre o controle simultâneo da produção e do consumo, regulando as atividades das massas. Ela propaga a falsa idéia de que o indivíduo é aquilo que se opõe ao grupo. Simondon demonstrou, ao contrário, que o indivíduo é um processo. E que se transforma ininterruptamente naquilo que ele é. Ora, só nos individualizamos coletivamente. O que torna possível essa individuação intrinsecamente coletiva é o fato de que a individuação de uns e de outros resulta da apropriação, por cada singularidade, daquilo que Simondon chamou de fundo pré-individual comum a todas as singularidades.

Herança oriunda da experiência acumulada das gerações, o fundo pré-individual sobrevive apenas na medida em que é apropriado singularmente e assim transformado pela participação dos indivíduos psíquicos que o compartilham. Mas só é compartilhado aquilo que é, a cada vez, individuado. E só é individuado na medida em que for singularizado. O grupo social se constitui como composição de uma sincronia, na medida em que se reconhece em uma herança comum, e de uma diacronia, na medida em que torna possível e legítima a apropriação singular por cada membro do grupo desse fundo pré-individual [16].

As indústrias de programas tendem, ao contrário, a opor sincronia e diacronia, visando produzir uma hipersincronização que torna tendencialmente impossível a apropriação singular do fundo pré-individual constituído pelos programas. A grade desses programas substitui o que André Leroi-Gourhan denominou de programas socio-étnicos: ela é concebida para que o meu passado se torne igual ao passado dos meus vizinhos, e para que nossos comportamentos se gregarizem.

Um eu é uma consciência consistindo em um fluxo temporal do que Husserl chamou de “retenções primárias”, isto é, aquilo que a consciência retém, no agora, do fluxo em que ela consiste. Assim a nota que ressoa em uma nota se apresenta à minha consciência como o ponto de passagem de uma melodia: a nota precedente continua presente, mantida no e pelo agora; e constitui a nota que a sucede, formando com ela uma relação, o intervalo. Como fenômenos que eu recebo e que eu produzo (uma melodia que executo ou ouço, uma frase que pronuncio ou escuto, um gesto que executo ou sofro etc.), minha vida consciente consiste essencialmente de tais retenções.

Ora, essas últimas são seleções: não retenho tudo o que pode ser retido [17]. No fluxo daquilo que aparece, a consciência opera seleções que são propriamente as retenções: se eu ouço duas vezes em seguida a mesma melodia, minha consciência do objeto muda. E tais seleções se fazem através dos filtros em que consistem as retenções secundárias, isto é, as reminiscências de retenções primárias anteriores, que a memória conserva e que constituem a experiência.

A vida da consciência consiste nesses agenciamentos de retenções primárias, filtradas por retenções secundárias, enquanto as relações das retenções primárias e secundárias são sobredeterminadas pelas retenções terciárias: os objetos-suportes da memória e as mnemotécnicas, que permitem registrar sinais – notadamente os fotogramas, fonogramas, cinematogramas, videogramas e tecnologias digitais, que formam a infra-estrutura tecnológica das sociedades de controle na época hiperindustrial.

As retenções terciárias são o que, tal qual o alfabeto, sustentam o acesso aos fundos pré-individuais de toda individuação psíquica e coletiva. Existem em todas as sociedades humanas. Condicionam a individuação como partilha simbólica, que torna possível a exteriorização da experiência individual por meio de sinais. Quando se tornam industriais, as retenções terciárias constituem tecnologias de controle que alteram fundamentalmente a troca simbólica: repousando sobre a oposição entre produtores e consumidores, elas permitem a hipersincronização dos tempos das consciências.

Estas tornam-se cada vez mais tramadas pelas mesmas retenções secundárias e tendem a selecionar cada vez mais as mesmas retenções primárias: percebem então que não têm muita coisa a dizer umas às outras e se encontram cada vez menos. Ei-las remetidas à sua solidão, diante das telas nas quais consagram cada vez menos seu tempo ao lazer – isto é, a um tempo liberado de qualquer coerção.

Tamanha miséria simbólica conduz à ruína do narcisismo e à debandada econômica e política. Antes de ser uma patologia, o narcisismo condiciona a psique, o desejo e a singularidade [18]. Ora, se, com o marketing, não se trata mais apenas de garantir a reprodução do produtor, mas de controlar a fabricação, a reprodução, a diversificação e a segmentação das necessidades do consumidor, são então as energias existenciais que garantem o funcionamento do sistema, como frutos do desejo dos produtores, de um lado, e dos consumidores, do outro – o trabalho, como o consumo, representando a libido captada e canalizada. O trabalho em geral é sublimação e princípio de realidade. Mas o trabalho industrialmente dividido traz cada vez menos satisfação sublimatória e narcísica, e o consumidor cuja libido é captada encontra cada vez menos prazer em consumir: ele debanda, então, trespassado pela compulsão da repetição.

Nas sociedades de modulação que são as sociedades de controle, trata-se de condicionar, por meio das tecnologias audiovisuais e digitais da aisthesis [19], os tempos de consciência e o inconsciente dos corpos e das mentes. Na era hiperindustrial, a estética – como dimensão do simbólico transformada a um só tempo em arma e teatro da guerra econômica – substitui a experiência sensível dos indivíduos psíquicos e sociais pelo condicionamento das hipermassas. A hipersincronização conduz à perda da individuação pela homogeneização dos passados individuais, arruinando o narcisismo primordial e o processo de individuação psíquica e coletiva, que permitia a distinção entre o eu e o nós, doravante confundidos na enfermidade simbólica de um amorfo e indefinido “alguém”. Nem todos são igualmente expostos ao controle. Vivemos quanto a isso uma fratura estética, como se o nós se dividisse em dois. Mas nós todos, e nossos filhos mais ainda, estamos fadados a esse sombrio destino – se nada for feito para sobrepujá-lo.

O século 20 levou ao extremo as condições e a articulação da produção e do consumo, com as tecnologias do cálculo e da informação para o controle da produção e do investimento e com as tecnologias da comunicação para o controle do consumo e dos comportamentos sociais, incluídos os comportamentos políticos. Agora, essas duas esferas integraram-se. A grande ilusão não é mais, desta vez, a “sociedade do lazer”, mas a “personalização” das necessidades individuais. Félix Guattari [20] falava de produção de “dividuais”, isto é, de particularização das singularidades pela submissão às tecnologias cognitivas.

Essas últimas permitem – por meio da identificação dos usuários (users profiling) e outros novos métodos de controle – um uso sutil do condicionamento, mobilizando tanto Pavlov quanto Freud. Assim funcionam os serviços que incitam os leitores de um livro a lerem outros livros lidos por outros leitores desse mesmo livro. Ou os mecanismos de busca que valorizam as referências mais consultadas, reforçando a consulta dessas mesmas referências.

Doravante, as mesmas máquinas digitais pilotam, pelas mesmas normas e padrões, os processos de produção das máquinas programáveis das oficinas virtuais teleguiadas pelo controle remoto, posto que a robótica industrial transformou-se essencialmente em uma mnemotecnologia de produção. Postas a serviço do marketing, elas organizam também o consumo. Ao contrário do que pensava Benjamin, não se trata do desenvolvimento de um narcisismo de massa, mas, ao inverso, da destruição massiva do narcisismo individual e coletivo pela constituição das hipermassas. Em outras palavras, trata-se da liquidação da exceção, isto é, da gregarização generalizada, induzida pela eliminação do narcisismo primordial.

Os objetos temporais industriais substituem as histórias individuais e os imaginários coletivos, tramados no interior do processo de individuação psíquica e coletiva, por padrões estandardizados de massa, que tendem a reduzir a singularidade das práticas individuais e suas características de exceções. Ora, a exceção é a regra, mas uma regra jamais formulável. Ela só é vivida na ocorrência de uma irregularidade. Não é formalizável nem calculável por um aparelho de descrição regular aplicável a todos os casos que constituem as diferentes ocorrências à revelia dessa regra. Por isso, durante muito tempo, ela foi remetida a Deus, que constituía o irregular absoluto como regra de incomparabilidade das singularidades. O marketing torna estas últimas comparáveis e categorizáveis, transformando-as em particularidades vazias, reguláveis pela captação ao mesmo tempo hipermassificada e hipersegmentada das energias libidinais.

Trata-se de uma economia antilibidinal: só é desejável aquilo que é singular e sob esse aspecto excepcional. Só desejo o que me parece excepcional. Não há desejo da banalidade, mas uma compulsão de repetição que tende à banalidade.

A psique é constituída por Eros e por Tanatos, duas tendências que se compõem incessantemente. A indústria cultural e o marketing visam impulsionar o desejo do consumo, mas, de fato, reforçam a pulsão de morte, por provocar e explorar o fenômeno compulsivo da repetição. Contrariam assim a pulsão de vida: quanto a isso, e porque o desejo é essencial ao consumo, esse processo é autodestruidor ou, como diria Jacques Derrida, auto-imunizador.

Só posso desejar a singularidade de algo na medida em que esse algo é o espelho da singularidade que eu sou, mas que ainda ignoro, e que este algo me revela. Porém, na medida em que o capital precisa hipermassificar os comportamentos, precisa também hipermassificar os desejos e gregarizar os indivíduos. A partir daí, a exceção é aquilo que deve ser combatido – o que Nietzsche antecipara afirmando que a democracia industrial só podia engendrar uma sociedade-rebanho. Eis uma verdadeira aporia da economia política industrial. Pois o controle das telas de projeção do desejo de exceção induz a tendência dominante tanatológica, isto é, entrópica. Tanatos é a submissão da ordem à desordem. Tanatos tende à equalização de tudo: é a tendência à negação de qualquer exceção.

O problema não se limita àquilo que se chama comumente “cultura”: a existência cotidiana, sob todos os seus aspectos, é submetida ao condicionamento hiperindustrial dos modos de vida. Trata-se do mais inquietante problema de ecologia industrial: as capacidades mentais, intelectuais, afetivas e estéticas da humanidade estão massivamente ameaçadas, e no momento mesmo em que os grupos humanos dispõem de meios de destruição sem precedentes.

A debandada que a ruína da libido provoca é também política. Na medida em que os responsáveis políticos adotam técnicas de marketing para se transformarem, eles próprios, em produtos, os eleitores sentem o mesmo desgosto por eles que sentem por todos os demais produtos.

Já é tempo de os cidadãos e seus representantes despertarem: a questão da singularidade tornou-se crucial e não haverá política futura que não seja uma política das singularidades – sem o que, florescerão os nacionalismos mais extremos e os fundamentalismos de toda espécie.

[1] Gilles Deleuze (1925-1965), filósofo.

[2] Pourparlers, Editions de Minuit, Paris, 2003.

[3] cf. De la misère symbolique. 1. L’époque hyperindustrielle. Galilée, Paris, 2004.

[4] Gilbert Simondon (1924-1989), filósofo.

[5] Le Monde, 10 de abril de 2002. Cf. também Aimer, s’aimer, nous aimer. Du 11 septembre au 21 avril. Galilée, Paris, 2003.

[6] Sigmund Freud, O mal-estar na civilização, Rio de Janeiro, Imago, 1997.

[7] Jean-Michel Frodon, La Projection nationale. Cinéma et nation. Paris, Odile Jacob, 1998.

[8] Walter Benjamin (1892-1940), filósofo alemão.

[9] Sigmund Freud, op. cit.

[10] Thedor W. Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), filósofos alemães, fundadores da escola de Frankfurt.

[11] Karl Kraus (1874-1936), escritor austríaco e crítico dos meios de comunicação.

[12] Tentei, em La technique et le temps. 1. Le temps du cinéma et la question du mal-être (Galilée, 2001, capítulo primeiro), demonstrar por que essa análise permanece insuficiente: os autores retomam favoravelmente o pensamento kantiano do esquematismo, sem se darem conta que as indústrias culturais requerem justamente a crítica do kantismo.

[13] Vance Packard, La Persuasion clandestine. Paris, Calmann-Lévy, 1958.

[14] Edmund Husserl (1859-1938), filósofo alemão, pai da fenomenologia.

[15] Aimer, s’aimer…, op. Cit.

[16] A sincronia designa aqui o estado da cultura em seu conjunto em um momento dado e a diacronia, as mudanças, os saltos, as evoluções que nela introduzem os indivíduos.

[17] As retenções primárias formam relações. Em uma melodia, por exemplo, as notas em arpejo que compõem intervalos e acordes ou, em uma frase, os elos semânticos e sintáticos.

[18] Esse termo se aplica “à descoberta do fato de que o eu, também ele, é investido de libido. Ele seria mesmo seu local de origem e, em certa medida, permaneceria o quartel general” (Freud, O mal-estar na civilização, op.cit.).

[19] Vocábulo grego, do qual provém a palavra “estética”, que significa “faculdade de sentir”.

[20] Félix Guattari (1930-1992), psicanalista, pioneiro da antipsiquiatria.

“Le Monde diplomatique”

Além da condescendência

Passado o esforço pelo politicamente correto, chega a era de uma solidariedade natural com os atletas paraolímpicos

Hans Ulrich Gumbrecht*

Uma pessoa de classe média, de nível de instrução razoável em qualquer país do mundo, que goste ou não de esportes, saberá instintivamente como se relacionar com o esporte paraolímpico e como falar dele. Ou, para ser mais exato: saberá instintivamente que palavras e que atitudes evitar para não ter problemas, se o assunto vier à tona. Ela dirá que apóia de todo o coração (e não “apaixonadamente”) o esporte praticado por portadores de deficiência e os eventos em torno dele (bem como o dinheiro gasto com isso); dirá que admira muito o que esses atletas fazem; pode ser até que fale deles de um modo radicalmente “igualitário”, dizendo se tratar de pessoas com “habilidades diferentes”, e não de “deficientes”. Ninguém irá contrariá-la. Por outro lado, ninguém jamais acreditará que ela está dizendo realmente o que pensa (muito menos prestará atenção ao que diz). É possível, nesse caso, que não falte certo sarcasmo na forma como o portador de deficiência encara essa pessoa.

O comportamento politicamente correto é a maneira adequada de “se safar” quando alguém, “do nada”, faz um comentário sobre a Paraolimpíada numa conversa e você não sabe o que dizer. No entanto, o politicamente correto se esgota aí. Talvez você queira tentar o próximo nível de sofisticação dizendo que, não, você não acompanha os jogos porque acha que, em uma cultura como a nossa, que nutre tão visivelmente uma obsessão pela perfeição física, a exibição e a admiração de corpos cuja identidade (e, em alguns casos, cuja singularidade) repousa na falta e na distância intransponível da perfeição, acaba sendo obscena, chocante e verdadeiro ato de discriminação para com os que se encontram em situação bastante desvantajosa por sua condição física. Você talvez tenha visto alguns momentos da Paraolimpíada na TV, portanto sabe como às vezes a coisa é grotesca e como pode ser difícil sufocar a tentação de rir que o faz sentir vergonha de si mesmo. Sem dúvida, esse segundo nível de correção apresenta uma atitude menos repulsiva e hipócrita do que o primeiro, com seu discurso igualitário asséptico e quase compulsório que todos conhecem, mas em que não acreditam.

Tenho, porém, a impressão (ainda muito vaga) de que alguma coisa sem precedentes aconteceu na cobertura que os meios de comunicação fizeram neste ano dos esportes disputados por portadores de deficiência, algo que talvez supere o “segundo nível de atitude” que, por enquanto, tem sido a reação menos desprezível possível. No cômputo diário, foi maior o volume de informações dado pela mídia sobre cada atleta e seus diferentes handicaps, bem como sobre os eventos dos quais participaram. Um número surpreendente de fãs do esporte sentiu-se orgulhoso, pela primeira vez, de “seus” atletas paraolímpicos (isto é, “dos atletas do seu país”). Oscar Pistorius, o velocista sul-africano que desde a infância se desloca com duas próteses acopladas ao corpo, tornou-se ícone mundial, alguém cujas realizações suscitaram admiração praticamente unânime, e cujos direitos e possibilidades provocaram debates acalorados. Alguma coisa mudou realmente, e de um modo muito profundo. O tom é diferente, sem dúvida, e muitos de nós – de repente – passamos a nos sentir solidários com os atletas portadores de deficiência, mas uma solidariedade que não temos de pôr para funcionar, como um motor velho e teimoso, à base de argumentos tediosos e de condescendência moral. Oscar Pistorius, o protagonista global, é um sujeito “cool”, tão “cool” que quase foi parar em um pôster quando minha universidade organizou recentemente um colóquio internacional cujo tema era “O futuro dos esportes” – embora, no fim (espero que pela última vez) a política do politicamente correto tenha prevalecido, já que os organizadores escolheram a imagem de uma bela jovem para figurar no pôster.

Contudo, embora ninguém duvide de que alguma coisa mudou, e o que mudou pode ser sintetizado em uma nova atitude em relação aos corpos dos atletas paraolímpicos, não se sabe de modo algum por que essa mudança ocorreu. Em alguns casos, os para-atletas parecem ter conquistado a admiração de um número considerável de espectadores. Bom exemplo disso é o basquete em cadeira de rodas. Basta ver o jogo para se dar conta de que há ali uma arte que vai além do concebível, como no basquete da NBA. Você sente que a disputa é acirrada e até fisicamente feroz, como no hóquei sobre o gelo no Canadá ou na Rússia. Percebe-se também o tempo todo uma qualidade que o futebol só exibe de vez em quando: uma enorme velocidade. Às vezes, penso que seria interessante, e também um bom desafio para qualquer atleta, jogar basquete em cadeira de rodas. Será que esse tipo de identificação seria uma “atitude correta”? Gostaria de pôr de lado aqui toda e qualquer forma de superioridade moral, mas talvez haja uma coisa que pudesse ser aceitável no futuro: fazer com que atletas não deficientes participem de pelo menos alguns dos eventos que ainda associamos exclusivamente aos atletas portadores de deficiência. O basquete de cadeira de rodas seria um bom candidato. Afinal, sempre houve esportes cujos movimentos e exigências, como os requeridos pelo basquete de cadeira de rodas, nunca foram totalmente “naturais”. É o caso da marcha atlética, por exemplo, ou de todos aqueles movimentos “naturais” vedados aos atletas nas lutas ou no vôlei. Por que não admitir que você tem vontade de arremessar uma bola na direção da cesta sem tocar o pé no chão – embora ele estivesse em perfeitas condições para isso.

A possibilidade de imaginar um futuro desses talvez seja uma razão para mudarmos de atitude em relação ao esporte para portadores de deficiência – e vejo como essa possibilidade tem crescido espontaneamente nos meus quatro filhos (com idades entre 17 e 30 anos), como em muitos dos meus alunos. Além disso, o fascínio pelos corpos híbridos começa a tomar conta de nós. O estilo de corrida de Oscar Pistorius, em razão de suas próteses – e não apesar delas -, tem uma elegância peculiar e encantadora. Uma elegância que talvez não esteja muito distante do piloto de Fórmula 1, cujo corpo se une ao corpo do carro – ou da forma dos pilotos das primeiras décadas da aviação, que pareciam ter sido gerados juntamente com suas máquinas, espécie de centauro da mitologia greco-romana. Se não for esse o futuro para o qual estamos rumando, é pelo menos uma idéia utópica que podemos e devemos cultivar.

Afinal de contas, quantos de nós hoje, indivíduos da classe média globalizada, vivemos sem pelo menos uma parte artificial em nossos corpos? As próteses de Pistorius são apenas mais visíveis – e muito mais bonitas – do que a coroa que trazemos no dente.

*Hans Ulrich Gumbrecht é professor de literatura na Universidade de Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Cia. das Letras)

“Estado de S. Paulo”

Na Europa cresce a postura anti-semita e anti-muçulmana

Brian Knowlton

Segundo uma nova pesquisa de âmbito internacional, a postura anti-semita e anti-muçulmana tem crescido quase que simultaneamente em diversos países europeus, o que, aparentemente, é um reflexo das preocupações quanto à imigração, à globalização e aos problemas econômicos.

Os sentimentos anti-semitas são particularmente fortes na Espanha, na Polônia e na Rússia. Nestes países tais sentimentos aumentaram significativamente desde 2006, de acordo com a pesquisa realizada pelo Pew Research Center. A postura anti-muçulmana também é forte nesses três países, bem como na Alemanha e na França.

“Existe um vínculo claro entre as atitudes anti-semitas e as anti-muçulmanas”, diz o relatório do Pew Research Center, que foi divulgado na quarta-feira (17). “Segmentos da população que têm uma opinião desfavorável em relação aos judeus tendem também a ver os muçulmanos de forma negativa”.

A imagem negativa dos muçulmanos também é forte em vários países asiáticos: pelo menos a metade dos japoneses, indianos, chineses e sul-coreanos entrevistados afirmou ter uma impressão negativa quanto aos muçulmanos.

Nestes países, a visão negativa em relação aos judeus é um pouco menos intensa, variando de 32% na Índia a 55% na China, sendo que no Japão e na Coréia do Sul foram registrados valores intermediários.

A pesquisa também detectou a preocupação crescente em diversos países predominantemente muçulmanos, incluindo a Indonésia, em relação a uma luta pela supremacia entre os fundamentalistas islâmicos e os indivíduos favoráveis à modernização.

Na Europa, as opiniões negativas em relação a judeus e muçulmanos foram mais intensas entre as pessoas mais velhas, as com menor grau de instrução e aquelas que fazem parte da direita política.

Em alguns países, incluindo a Alemanha, tanto os sentimentos negativos quanto os positivos em relação aos judeus aumentaram – há menos indecisos quanto a essa questão. Além do mais, a postura positiva em relação aos judeus superou a visão negativa em todo país europeu pesquisado, com a exceção da Espanha.

Mesmo assim, 46% dos espanhóis manifestaram opiniões negativas quanto aos judeus, assim como 36% dos poloneses e 34% dos russos. Em média, o sentimento negativo registrado nesses países aumentou seis pontos percentuais em relação a 2006.

“Pode haver alguma preconceito contra os grupos minoritários na Europa como conseqüência da expansão e da globalização da União Européia”, afirma Andrew Kohut, diretor do Pew Research Center. “Quanto aos espanhóis, acho que eles estão no ponto mais crítico da globalização, possuindo um grande número de imigrantes muçulmanos”.

Contrastando com os outros países, 77% dos norte-americanos manifestaram uma visão favorável quanto aos judeus, e apenas 7% exibiram uma postura desfavorável. O Reino Unido destacou-se entre os europeus, com 73% das pessoas manifestando uma opinião favorável em relação aos judeus, e somente 9% exibindo uma visão desfavorável.

A postura em relação aos muçulmanos tende a ser mais negativa do que em relação aos judeus.

Metade dos espanhóis e dos alemães ouvidos manifestou opiniões desfavoráveis em relação aos muçulmanos, da mesma forma que quase a metade dos poloneses e 32% dos russos. Um em cada quatro britânicos e norte-americanos entrevistados vê os muçulmanos de forma negativa.

Nas sociedades com visão mais negativa parece haver uma correlação maior com a imigração e a situação econômica do que com o tamanho das populações judaicas e muçulmanas. A Alemanha e a França possuem as maiores populações muçulmanas, enquanto a Polônia tem a menor. A Espanha tem a menor população judaica.

“Parte desse etnocentrismo está obviamente relacionado às atitudes em relação à imigração, que é uma questão importante”, explica Kohut.

Nos países predominantemente muçulmanos, a visão negativa em relação aos judeus é especialmente elevada: 96% na Jordânia e 97% no Líbano.

Uma grande quantidade de muçulmanos – incluindo maiorias na Turquia e na Tanzânia, e quase a metade dos indonésios – disse que os fundamentalistas islâmicos e os modernizadores estão engajados em uma luta pela supremacia nos seus países.

O apoio ao terrorismo manteve uma tendência de queda que dura seis anos, especialmente nos países que sofreram ataques terroristas. No Líbano, a idéia de que os ataques suicidas à bomba são sempre ou às vezes justificados despencou de 74% em 2002 para os atuais 32%. Mas minorias significantes ainda endossam tais táticas no Líbano, na Jordânia e na Nigéria.

O ceticismo quanto aos motivos dos Estados Unidos é forte no Paquistão, onde as tensões são intensas devido à pressão norte-americana para que se reprima os militantes da Al Qaeda e do Taleban, e na Turquia, que tem atritos contínuos com os Estados Unidos devido à questão do Iraque.

A pesquisa foi realizada em março e abril em 24 países, com uma média de mil entrevistados em cada um deles. A margem estatística de erro varia de dois a quatro pontos percentuais para mais ou para menos.

“International Herald Tribune”

O Afeganistão naufraga no caos

O elevado número de vítimas civis das forças internacionais e a falta de desenvolvimento do país dificultam o combate aos taleban

Ángeles Espinosa

Talvez nunca saibamos o que aconteceu em Azizabad na madrugada do último 22 de agosto. Mas o bombardeio dessa aldeia na província de Herat está prestes a se transformar no ponto de inflexão nas relações entre o governo do Afeganistão e a comunidade internacional. Nesse dia, uma patrulha conjunta de forças americanas e afegãs seguia a pista de um suposto colaborador da Al Qaeda. Antes do amanhecer chegaram a Azizabad. Os militares insistem que dispararam contra eles primeiro e afirmam que além de cerca de 30 taleban morreram entre cinco e sete civis; mas as autoridades afegãs afirmam que o ataque foi um erro e que deixou 96 civis mortos, incluindo 60 crianças e 15 mulheres. A ONU apóia a versão das autoridades afegãs.

Foi a gota que fez transbordar o copo. Depois de meses de queixas pelo elevado número de vítimas civis causadas pelas tropas estrangeiras na luta contra o terrorismo, o governo de Hamid Karzai anunciou uma revisão dos acordos pelos quais essas forças operam no Afeganistão. “A presença da comunidade internacional no Afeganistão deveria ser regulamentada com base em tratados bilaterais”, disse um comunicado do Conselho de Ministros afegão. Ele também pede que se estabeleçam limites para as forças militares e “parem imediatamente os ataques aéreos contra alvos civis, as revistas unilaterais de residências e as detenções ilegais”.

Em julho outro bombardeio americano atingiu um casamento e causou 47 mortes, entre elas a da noiva. Não foi a primeira vez que as bombas interromperam um casamento. Depois do desmentido inicial, os militares pediram desculpas. Mas o incidente em Azizabad, caso se confirmem as 96 mortes de civis, seria o mais grave desde a derrubada do regime taleban em 2001.

“Temos de chegar ao fundo do assunto”, afirma o representante do secretário-geral da ONU para o Afeganistão, Kai Eide. “Não sobre quantos mortos houve, mas sobre como algo assim pôde ocorrer e o que faremos agora”, adverte esse curtido diplomata norueguês que ordenou imediatamente sua própria investigação. A rapidez e firmeza do relatório, que basicamente corrobora a versão do governo afegão ao falar em “provas verossímeis” da morte de até 90 civis, abalou as chancelarias dos países ocidentais em Cabul.

“Foi uma aposta arriscada de Eide”, comenta um embaixador europeu. “Caso se confirme, vai nos obrigar a redefinir uma estratégia para a qual não temos soldados suficientes nem estamos dispostos a sofrer baixas; mas se não for assim sua credibilidade vai se ressentir”, acrescenta a fonte. Eide assume o risco. “Se não tivesse agido com rapidez diante de um incidente desse calibre, teria sido criticado. Creio que foi a decisão adequada”, afirma, sem esconder que se encontra sob a pressão tanto de Karzai como dos EUA.

“Quando morrem civis inocentes as pessoas perguntam ao governo por que, e precisamos fazer a mesma pergunta a nossos amigos”, indica o ministro sem pasta Hedayat Amin Arsala. “Não só cria tensões entre nós e a comunidade internacional, como também com nossa opinião pública; além disso, torna a luta contra o terrorismo muito mais difícil, porque dá argumentos aos elementos contra os quais estamos lutando.” Por isso defende a necessidade de “alcançar um acerto que permita lutar contra o terrorismo e a insurgência, minimizando as baixas civis”.

“O presidente Karzai tem todo o direito a melhores acordos e conta com meu pleno apoio”, reconhece o representante da ONU, depois de lembrar que, apesar da fragilidade comparativa do Afeganistão diante do peso da comunidade internacional, “estamos falando de um país soberano”. Entrar nesse debate é abrir a caixa de Pandora da imunidade das tropas estrangeiras e do destino dos presos que os EUA mantêm no limbo jurídico em Bagram, assuntos em que Washington, o principal apoio do presidente afegão, preferia não tocar.

Sem dúvida, a ordem de Karzai tem muito a ver com as eleições do ano que vem. O apoio dos afegãos à presença das forças internacionais está se erodindo devido aos ataques aos civis, além da infiltração e propaganda dos rebeldes. Toda noite, desde o incidente de Azizabad, a televisão nacional colhe depoimentos de antiamericanismo. Ao mesmo tempo, está surgindo um consenso internacional sobre a conveniência de introduzir mais coordenação e transparência na forma como essas forças operam.

“Este e outros casos anteriores mostram que devemos seguir nessa direção”, admite Eide, convencido de que “alguns deles poderiam ter sido evitados com maior coordenação e transparência entre forças militares ou grupos de segurança”. Ele sabe do que fala, porque durante seis anos foi embaixador de seu país na Otan. “Há tantas forças em campo… e com a delicadeza de muitas dessas operações ainda me surpreende que operemos sem o nível de coordenação de que precisaríamos. É surpreendente e tem de ser solucionado”, afirma, dando especial ênfase à última palavra, que pronuncia sílaba por sílaba.

No Afeganistão se desenvolvem duas operações militares simultâneas e independentes, embora às vezes difíceis de diferenciar. De um lado, a Força Internacional de Assistência à Segurança (mais conhecida por sua sigla em inglês, Isaf), estabelecida nos Acordos de Bonn de dezembro de 2001 e ao amparo de várias resoluções da ONU, foi ampliando sua área de operações por todo o país a partir de Cabul. Desde 2003 encontra-se sob o comando da Otan, embora conte com tropas de 40 países, incluindo os EUA. Por outro lado, a operação Liberdade Duradoura, que os EUA iniciaram em outubro de 2001 contra a Al Qaeda e seus protetores taleban, continuou em campo na colaboração com as forças de segurança afegãs e a participação simbólica de outros países. Esta última, por sua natureza de combate, é que causa mais vítimas civis e sofre mais baixas.

Fala-se na necessidade de unificar o comando das duas operações, mas vários países se mostram reticentes. “É verdade que a Isaf é uma loucura de comandos e restrições, mas a Liberdade Duradoura também é; junto com a operação antiterrorista propriamente dita, intervêm a CIA e os grupos de Operações Especiais que agem por sua conta”, justifica-se o embaixador europeu acima citado. “Além disso, quem se encarregaria de Bagram?”

“Para os afegãos não há diferença entre a Isaf e a Liberdade Duradoura”, constata o príncipe Mustafá. “Todos os soldados usam uniforme e parecem europeus, por isso quando ocorrem erros são culpados em conjunto.” Para o neto do falecido rei Zaher, que nos últimos meses entrou na arena política, o acontecimento parece intolerável.

A crise revelou as crescentes diferenças do governo afegão com seus aliados ocidentais. Tanto no que percebe como uma falta de objetivos políticos destes como pelo desencanto de sua própria opinião pública. “A comunidade internacional se concentrou na intervenção militar e no governo, e não na sociedade civil, o que contribui para que a brecha entre os afegãos e seus governantes aumente todos os dias”, analisa Aziz Rafiee, diretor do Fórum para a Sociedade Civil Afegã.

Algumas vozes inclusive vão além e pedem abertamente a retirada das tropas. “Os soldados estrangeiros são vítimas das políticas errôneas de seus países. Devem deixar o Afeganistão”, manifesta a deputada Joya Malalai, indiferente aos que temem que isso leve a uma guerra civil. “A situação atual não pode ser pior. A comunidade internacional não nos trouxe nem segurança nem liberdade”, afirma. A opinião de Malalai – uma mulher expulsa do Parlamento por ter insultado seus colegas – ainda é minoritária, mas está crescendo, especialmente nas áreas rurais do sul do país, que mal se beneficiaram com as mudanças.

“Talvez tenhamos cometido alguns erros desde o início”, admite o ministro Arsala. “A decisão [americana] de antepor a luta contra o terrorismo ao desenvolvimento do país assentou as bases para a situação que vivemos hoje.” Na opinião dele, “a ênfase deveria ter sido contrária: o Afeganistão primeiro”. O ministro mostra-se convencido de que se o Estado tivesse sido mais forte os taleban não teriam emergido outra vez ou teriam se transformado em um problema menor. “Não estão ganhando. Só estão tornando as coisas mais difíceis para nós”, conclui.

Em todo caso, há unanimidade sobre a urgência de uma mudança de rumo. Shah Masoud, o conhecido livreiro de Cabul, expressa isso de forma muito gráfica: “Quando um computador trava, é preciso desligá-lo e reiniciá-lo. Do mesmo modo, a comunidade internacional no Afeganistão tem de recomeçar sobre novas bases, porque as atuais falharam.”

“El País”